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“Com as pedras que me atiram farei meu castelo”

Alceu A. Sperança

“Com as pedras que me atiram farei meu castelo” Alceu A. Sperança Traçado da BR-163 Maurício

Traçado da BR-163

Maurício Theodoro

O vice-prefeito de Cascavel, Maurício Theodoro (PSDB), sobre quem se diz privar de ligação pessoal com o governador Carlos Alberto Richa, talvez justamente por isso esteja sob forte pressão. É acusado de “roubar” pedras de um trecho da BR-163 tido como desativado para colocá-las na pavimentação do Aeroporto Coronel Adalberto Mendes da Silva. Em reparos, como geralmente aquele aeroporto está, a pista precisava ser urgentemente completada para ter condições de receber a visita da sra. Dilma Rousseff, que viria a Cascavel para prestigiar os ruralistas da região, a casta dominante do lugar. Na ânsia de preparar a visita da mandatária, após retirar o material do trecho abandonado da rodovia (abandono, aliás, muito comum neste País), Theodoro foi alvejado por uma tremenda saraivada de pedras. A lapidação deu numa CPI, manjada iguaria do tipo pizza que oposição e situação, muito parecidas entre si, comem até se fartar. Bem melhor que a lapidação de Santo Estêvão, morto ante os olhos complacentes do futuro São Paulo. Em Cascavel, esse tipo de “roubo” tem precedentes históricos. Na cidade outrora conhecida como terra de pistoleiros e hoje mundialmente conhecida pela excelência de sua produção agropecuária, as autoridades locais na década de 1950 foram acusadas de “roubar” uma usina elétrica inteira, com postes, fiação e transformadores.

Na região, um “roubo” de patrimônio público federal a pretexto de urgência se deu no fim

Na região, um “roubo” de patrimônio público federal a pretexto de urgência se deu no fim da década de 1960. Em plena ditadura, os técnicos que traçaram a última forma da BR-277 garfaram alguns metros do Parque Nacional do Iguaçu. Para poupar a área do PNI seria preciso fazer no traçado um “calombo” ainda maior a Noroeste. O Ministério da Agricultura não permitia que o PNI fosse tocado. Assim, a rodovia foi asfaltada trecho a trecho, mas aquele nó, localizado em Céu Azul, continuou de lado, à espera de se resolverem as pendências entre os ministérios dos transportes e da agricultura. Evitou-se essa volta enorme promovendo um corte larápio por dentro do Parque Nacional, segundo testemunho do pioneiro oestino Dionísio Campana ao jornalista Juvêncio Mazzarollo. Campana não ouviu dizer: ele estava lá, participando da construção do trecho. Havia pressa em asfaltar, declarou, “porque a data de inauguração da estrada estava marcada, com a presença do presidente Costa e Silva”.

Sto. Estêvão, morto por lapidação Protesto contra a barragem de Belo Monte Como no caso das

Sto. Estêvão, morto por lapidação

Protesto contra a barragem de Belo Monte

Como no caso das pedras, outra vez a urgência criada pela proximidade de uma visita presidencial. A certa altura, completou Campana, “veio de Ponta Grossa o coronel comandante, que aproveitou um sábado e um domingo para colocar os tratores no mato e abrir a estrada”. Mesmo sob protestos do Ministério da Agricultura, o mato foi posto abaixo e os tratores rasgaram a via mais curta. Depois de revisitar os “roubos” do passado e o “roubo” das pedras de que o vice-prefeito de Cascavel é acusado, conclui-se: quem está no poder, seja nas ditaduras sangrentas do passado ou na democradura olímpico-futebolística da atualidade, faz o que quer. Alegam não haver tempo de mudar as leis para que elas se enquadrem em seus desígnios ou simplesmente as atropelam, teimando sempre em fazer apenas aquilo que lhes dá na telha. Por se tratar de urgência – e fica urgente por ter sido deixado a mofar – não cumprem as leis ambientais e as normas administrativas. Assim, como em Belo Monte, podem danar o meio ambiente, a moralidade, as gentes e o patrimônio público à vontade. Como a calma se transforma em pressa, empurra m goela abaixo da população a vontade do rei. Claro que isso não é democracia, nem aqui, nem na China.

.... O autor é escritor

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