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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LIME

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESENTAQÁO
DA EDipÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
■* •-■ visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenca católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.
Eis o que neste site Pergunte e
Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
_ vista cristáo a fim de que as dúvidas se
. dissipem e a vivencia católica se fortalega
'*■ no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar. este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacáo.
A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaga
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
responderemos
(A

SUMARIO
"Ó Morte, Serei a Tua Morte!

Ainda a data (50?) do Evangelho de Marcos

"O Martelo das Feiticeiras"

"Existe salda? Para urna Pastoral dos Divorciados"' por B. Haring

"New Age": Que é?


<

Ui Do Angiicanismo ao Catolicismo

ta
o •
ce
o.

ANO XXXII NOVEMBRO 1 991 354


PERGUNIE E RESPONDEREMOS
Publicado mensa) NOVEMBRO -1991
N?354

Diretor-Responsável:
SUMARIO
Estéváo Bettencourt OSB
Autor e Redalor de toda a materia "Ó Morte, Sorel a Tua Mortel. . . 481
publicada neste periódico
Importante Descoberta:
Üiretor-Administrador: Aínda a data (SO?) do
0. Hildebrando P. lUartins OSB Evangelho de Marcos 482
Manual de Inquisidores:
Administracáo e distribuicáo:
"O Martelo das Feiticeiras".... 495
Edicóes Lumen Christi
Dom Gerardo, 40 - 5 : andar, s/501 Fidelidade em Xeque:
Tel.: (021)291-7122 "Existe safda? Para urna
Pastoral dos Divorciados"
Caixa Postal 2666
por B. Háring 509
?00ni - Rio de Janeiro - RJ
Nova Era:
"New Age": Que é? 518
Impressjo e Encatíe-nacio
Depoimentos
Do Anglicanismo
ao Catolicismo 527

"MARQUESSARAJ\'A"
GRÁFICOS E EDITORES S.A.
Tels, {02IB73-9498 - 173-944?

NO PRÓXIMO NÚMERO:

"Sacramento" ñas páginas bíblicas. - O quinto Centenario da Deseo-


berta da América. - "Quem pode ser participante da Ceia do Senhor?"
Durante Dezesseis Anos fui Testemunha de Jeová". - Projedologia-
que é? - Depoimento de Boris leltsin. - Medjugor/e:?

COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA

ASSINATURA ANUAL (12 números»: CrS 5j090.00 -Número avulso ou atrasado: Cr$ 500.00

Pagamento (á escolha)
1. VALE POSTAL á agencia central dos Correios do Rio de Janeiro em nome de
Edicoes "Lumen Christi" Caixa Postal 2666 - 20001 - Rio de Janeiro - RJ
2. CHEQUE NOMINAL CRUZADO, a favor de Edicoes "Lumen Christi" (endereco
ácima).
3. ORDEM DE PAGAMENTO, no BANCO DO BRASIL, conta N? 31.304-1 em nome
do MOSTEIRO DE SAO BENTO. pagável na AGENCIA PRACA MAUÁ/RJ
n? 0435-9. (Enviar xeróx da guia de depósito á nossa administracao, para efeito de
identificacao do pagamento).
"O Morte, Serei a Tua Morte!"
(Os 13,14)

O mes de novembro lembra aos homens em ge ral o inexorável fato


da morte, que a muitos causa apreensáo. Ora ñas Escrituras encontram-
se palavras que reconfortam enormemente o cristáo:
"Urna vez que os filhos tém em comum sangue e carne, por isso
também o Filho participou da mesma condicáo, a fim de destruir pela
morte o dominador da morte, isto é, o diabo, e libertar os que passa-
ram toda a vida em estado de servidlo, pelo temor da morte" (Hb
2.14s).
Este texto recorda, em primeiro lugar, que "Deus nao fez a morte
nem se compraz com a morte dos viventes" (Sb 1,13); "a morte entrou
no mundo por ¡nveja do diabo" (Sb 2,23).
Com efeito; diz-nos a fé que a morte, violenta como é, decorre do
primeiro pecado, que Satanás instigou (cf. Gn 2,3; Jo 8,44).
A morte, em conseaüéncia, suscita nos homens o medo ou o hor
ror, medo de que falavam freqüentemente os filósofos antigos. Escrevia,
por exemplo. Séneca a um amigo: "Livra-te, antes do mais, do medo da
morte; ela nos impóe o primeiro de todos os jugos" (Ep. LXXX 5).
Eis, porém, que o próprio Oeus quis redimir os homens do jugo e
do temor da morte... E o fez de maneira muito sabia: sim, houve por bem
matar a morte mediante a morte ou matar a morte do género humano
mediante a de Cristo; cumpriu assim a profecia de Oséias: "Ó morte, se
rei a tua morte!" (Os 13,14).
E como se deu isto? -O Filho de Deus assumiu a natureza mortal e
quis sofrer a morte, embora fosse inocente. A morte o abocanhou, a Ele
que nada Ihe devia; assim derrotou a morte, ressuscitando para a Vida.
Após Jesús Cristo todos os homens sao chamados a vencé-la, passando
para a plenitude da vida através do vale da morte.
Por isto Cristo é chamado pelos medievais Mors Monis, a Morte
da Morte. É Ele quem possui as chaves da morte e da regiáo dos mortos
{cf. Ap 1,18) e tem o poder de arrebatar da morte os homens que ela aín
da tenta devorar.
Estas verdades, pertencentes ao bé-a-bá da fé crista, renovam
o ánimo do cristáo; este, sendo criatura frágil, pode sentir o arrepio da .
morte. Todavía Cristo quis santificar ou transfigurar a morte, fazendo
déla urna passagem para a Vida definitiva. Em conseqüéncia, o grande
mal já nao é a morte, mas, sim, o pecado, pois so este pode afastar do
Senhor da Vida o homem, devotando-o a perda do único bem que nao
passa, ou seja, da comunháo com Deus.
"Onde está, ó morte, a tua Vitoria? Onde está o teu aguilháo?" (Os

13'141- E.B.
481
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS"

Ano XXXII - N? 354 -Novembro de 1991

Importante descoberta:

Aínda a Data (50?) do


Evangelho de Marcos

Em sfntese: Já em PR 154/1972, pp. 454-460 e 288/1986, pp. 194-200


foram publicados artigos referentes á descoberta de pequeño papiro em Qum-
ran, a N.O. do Mar Morto, papiro que parece apresentar um trecho do Evan
gelho segundo S. Marcos e que é anterior ao ano de 50. O descubridor de tal
precioso documento ó o Pe. O'Callaghan SJ., professordo Pontificio Instituto
Bíblico de Roma, que encontrou apoio para suas conctusóes em muitos estu
diosos do assunto. Se é verídica a tese de O'Callaghan, será preciso revera
data dé origem dos Evangelhos sinóticos, que deveréo ter sido escritos em
época aínda más próxima de Jesús do que se temjulgado até hoje. Tal recuo
da redacSo dos Evangelhos sinótícos removería aínda mais eloqüentemente a
tese racionalista segundo a qual os Evangelhos carecem de valor histórico.

Todavía a pequenez do papiro e a conseqüente laconicidade da sua


mensagem suscitam hesitagóes da parte de pensadores, que desefariam ter
razóos mais imperiosas para concordar com O'Callaghan e fazera respectiva
revisño da cronología do Novo Testamento. - Ñas páginas subseqüentes é
reapresentado o assunto enriquecido por novos depoimentos de dentistas bf-
bícos.

Em PR 154/1972, pp. 454-460 e 288/1986, pp. 194-200 foram publi


cadas noticias de importante descoberta de papiro que parece apresentar
fragmentariamente o texto de Me 6,52-53 e que deve ser anterior ao ano
de 50 (ver reprodugáo fotográfica a seguir):

482
DATA (50?) DO EVANGELHO DE MARCOS

O assunto continua a ser debatido


pelos estudiosos: há indicios de real anti-
güidade desse pequeño documento. Se
ele data do quarto decenio, faz-se neces-
sária urna revisáo-revolugáo na cronolo
gía dos Evangelhos sinótcos; a redagáo
escrita destes se aproxima notavelmente
de Jesús, contra todas as hipó teses da
crítica racionalista. Todavia nem todos os
estudiosos estáo convictos da autentici-
dade das conclusóes de O'Callaghan...

A fím de atualizar o assunto, transcreveremos, a seguir, o artigo de


PR 288/1986, pp. 194-200 e I he acrescentaremos depoimentos de estudio
sos que díscutem a teseem foco.

I. AS PESQUISAS E SEU RESULTADO

Até meados do século presente o maís antígo fragmento manus


crito dos Evangelhos que se conhecia, era o Papiro 52 (p"), também dito
John Rylands 457 (pois está guardado na John Ryland's Library de Man-
chester, Inglaterra). Apresenta os dizeres de Jo 18,31 -33.37-38; deve ter
sido escrito no Egito (pois lá foi encontrado) por volta de 125. Tal papiro
foi publicado pela primeira vez em 1935 por C. H. Roberts. Em conse-
qüéncía, os estudiosos puderam, e podem, afirmar com certeza que a re
dacto do Evangelho segundo S. Joio se deu no.fim do século I; se redi-
gido em Éfeso (Asia Menor), como de fato foi, admita-se o intervalo de
25 anos, a fim de que pudesse passar da Asia Menor para o Egito.

C.H. Roberts verificou ainda que o Papiro 52 <p") era um segmento


de folha escrita em frente e verso; apresentava sete linhas, de caracteres
assaz nítidos. Tentando reconstituir a ¡magem de urna folha inteira, con-
cluiu que cada lado da folha devia a presentar dezoito íinhas, cada qual
com trinta ou trínta e cinco letras; conseqüentemente, o código assím
formado teria compreendido 130 páginas, cada qual do formato de 21,5 x
20 cm.

Esta descoberta arqueológica foi de enorme importancia, pois dis-


sipou as teorías daqueles que datavam o quarto Evangelho do século II,
como se fosse obra de um discípulo dos Apostólos, imbuido de filosofía
grega mais do que de cultura judeo-cristá. - Em nossos dias há quem

483
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 354/1991

situé a redacáo do quarto Evangelho ainda em época mais recuada, ou


seja, por volta de 70 - o que é menos provável.

Todavia na década de 1960 veio á baila urna noticia ainda mais sur-
preendente para os exegetas bíblicos: terá sido descoberto um fragmento
do Evangelho de S. Marcos redigido por volta do ano de 50. As conse-
qüéncias desta nova descoberta eram de grande alcance, como se depre-
enderá da exposicáo abaixo.- Esta terá caráter de certa erudicáo; nao o
evitaremos para que os leitores habilitados possam aferir o peso das res-
pectivas conclusóes.

1. O Achado

t. Em 1S62 tres arqueólogos publicaram a noticia de suas pesquisas


realizadas em pequeñas grutas do deserto de Qumran, a N. O. do Mar
Morto. Chamava-lhes a atencáo especialmente a gruta n- 7 (7Q), situada
a parte das demais, na extremidade da plataforma que se estende aosul
de Khirbet; continha táo-somente manuscritos gregos, sem mésela de
fragmentos hebraicos. Todos eram de papiro, ao passo que ñas demais
grutas se achavam pergaminhos. Esses papiros eram portadores de texto
sobre urna só de suas faces - o que significa que pertencíam a rolos.1
Eram'estes os manuscritos encontrados em 7Q:

7Q1, que os estudiosos sem grandes dificuldades identificaram com


Ex 28,4-6;

7Q2, que com probabilídade foi identificado com Baruque 6 (carta


de Jeremías), versículos 43b-44.

Havía outros dezesseis manuscritos, que ficaram nao identificados,


até que em 1972 o papirólogo espanhol José O'Callaghan propós as se-
guintes conclusóes de seus estudos:2

7Q4 = 1Timóteo3,16;4,1-3;
7Q5 = Marcos 6,52-53;
7Q61 = Marcos 4,28;
7Q62 = Atos dos Apostólos 27,38;
70.7 = Marcos 12,17

1 Cf. M. BaiSeVJ. T. Milik/R. de Vaux, Discoveríes In tha Judean Desert of


Jordán III: Les Petttes Grottes de Qumran. Oxford 1962.

2 J. O'Callaghan, Papiros neotestamentarios en la cueva 7 de.


Qumran?em "Bíblica" 53 (1972) pp. 91-100.

484
DATA (50?) DO EVANGELHO DE MARCOS

7Q8 = Tiago 1,23-24;


7Q9 = Romanos 5,11-12;
7Q10 = 2 Pedro 1,15;
7011 = Marcos 6,48.

Ora é certo que em 68 d.C. tais grutas foram fechadas e abandona


das pelos monges hebreus (essénios) moradores da regiáo; fugiram en
táo dos invasores romanos. Há quem julgue que durante a segunda re-
volta judaica, ou seja, entre 132 e 135 as grutas foram reabertas; esta ni-
pótese é muito discutida pelos estudiosos, que geralmente aceitam a se-
guinte sentenca: as grutas de Khirbet Qumran podem ter sido utilizadas
entre 132 e 135, mas a ocupacáo das mesmas e o depósito de manuscri
tos em seu bojo sao anteriores a 68 d.C.

Ora as propostas papirológicas de O'Callaghan eram surpreenden-


tes e, se aceitas pela crítica, levariam a urna revisáo total das datas até
entáo assinaladas para a redacáo dos escritos do Novo Testamento.

2. Os pesquisadores, interpelados pelo enorme alcance das teses de


O'Callaghan, puseram-se a estudá-las com senso crítico. As opinióes se
foram dividindo a partir de 1972. Acontece, porém, que nos últimos anos
há consenso significativo, se nao unánime, sobre a identidade de 7Q5:
seria fragmento dos versículos de Me 6, 52-53. Esta afirma?áo só pode ser
Cümprovada se se leva em conta o original grego de Me e a maneira co
mo os antigos escreviam - o que ultrapassa a finalidade das páginas
desta revista. Como quer que seja, tentaremos es bogar o raciocinio dos
críticos, usando caracteres latinos.

Tratava-se de cinco linhas, com letras ora mais, ora menos legíveis.
Após muito conjeturar, O'Callaghan e sua equipe admitem a seguinte
configurado para o papiro 5 da gruta 7 (7Q5):

ytone
e kaidi
nnes

thesa

Ora o texto assim reconstituido sugere algumas ponderacóes:

a) Trata-se de um texto de escrita continua (sem separacao entre


as palavras). Nao obstante, na terceira linha há um hiato entre e e kaidi, o
que parece estranho, Todavia explica-se bem pelo fato de que o e termi-

485
6 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 354/1991

na urna narracáo (a do caminhar de Jesús sobre as aguas) e o kai dá ini


cio a outra seccáo (a da cura de doentes em Genesaré).

b) A palavra kai da terceira linha corresponde em grego á nossa


cópula e. Nao é a preposicáo habitual para ligar as frases em grego clás-
sico; contudo ficou sendo muito usual ñas línguas semitas (no hebraico e
no aramaico, por exemplo). Sao Marcos, que redige a catequese pregada
por Sao Pedro em aramaico, conservou freqüentemente no texto grego
do seu Evangelho a parataxe do linguajar semita ou a justaposicáo de
frases mediante a cópula kai (e).

c) Na quarta linha há o estranho bloco nnes. Procuraram alguns


identificar al a forma verbal egénnesen (gerou), e concluiram que o frag
mento partencia a urna tabela genealógica, como seria a de Mt 1,1-14.
O'Callaghan, porém, observou que tal bloco bem poderia ser parte do
nome Gennesaret, o que foi aceito por outros críticos. Assim é que as cin
co linhas se apresentam como fragmento dos versos 52 e 53 de Me 6.
Este fragmento supóe um conjunto de versos mais ampio ou mesmo
urna parte conspicua do Evangelho, se nao o livro inteiro de Marcos. O
texto completo do papiro 5 da gruta 7 de Qumran seria, em caracteres la
tinos, o seguinte:

synekan e pitoisartois
aliena ytone kardiapeporo
men e kaidi aperasantes
elthoneise nnes aretkai
prosormis thesa nkaiexel

Os críticos perguntam qual seria a probabilidade de que o conjunto


de letras de 70.5 possa ocorrer em outro texto (de significado inteligível)
que nao Me 6,52-53. E respondem que a improbabilidade de que tal
aconteca é da ordem de 2,25 x 106515. E ao mesmo resultado que os estu
diosos chegam quando perguntam: com que probabilidade um macaco,
utilizando urna máquina datilográfica, escreveria as obras de Goethe?...
ou urna explosSo ocorrente numa tipografía imprimiría as tragedias de
Shakespeare? A probabilidade de que tais coisas acontegam é pratica-
mente nula.

3. O fragmento de 7Q5 foi redigido, como dito atrás, em escrita


continua, designada técnicamente como Zierstil (estilo decorativo, orna
mental). Ora a época de uso de tal escrita, como indica a paleografía, sao
os decenios que váo de 50 a.C. a 50 d.C. Isto quer dizer que 7Q5 nao é do
ano de 68 (ano em que a respectiva gruta foi fechada e abandonada), mas
é de 50 d.C. ou de data anterior. Com efeito; é de crer que o manuscrito

486
DATA (50?) DO EVANGELHO DE MARCOS

nao tenha sido confeccionado em Qumran, mas que tenha vindo do Oci-
dente. Para corroborar esta suposigáo, observa-se o seguinte:

Na gruta 7 encontraram-se também fragmentos de um jarro, cuja


parte superior trazia duas vezes a inscrigáo hebraica r w m (o que se lé
Ruma). Em 1962 os pesquisadores admitiram que se tratasse de um no-
me próprio nabateno1, o qual indicaría o proprietário ou o remetentedo
jarro. Outros estudiosos mais tarde pensaram na aldeia Ruma, que Flávio
José menciona na obra "Sobre a Guerra Judaica" 3,7:21. O arqueólogo
J. A. Fritzmeyr, perito em estudos de Qumran, pro pos que r w m seria a
designacáo da cidade de Roma, capital do Imperio. Todavía os professo-
res Y. Yadin e D. Flusser, da Universidade de Jerusalém, replicaram que
inscrígóes em jarros nao costumam significar iugares ou cidades, mas ou
sao no mes de pessoas ou indicam o conteúdo do respectivo jarro.- Esta
última observagáo seria fecunda no caso de 7Q5: poderia significar que a
comunidade crista de Roma, enviando esse jarro com os manuscritos
(talvez mesmo como involucro de um manuscrito), quería lembrar que
os cristáos de Roma eram os doadores e remetentes de tais manuscritos.
Esta suposígaose torna especialmente plausível se levamos em conta que
o Evangelho de Marcos foi originariamente redigido em Roma (a T radi
co refere que Marcos reproduziu, segundo o seu estilo, a catequese pre
gada por Sao Pedro em Roma).

2. Conclusáo

Depois de muito debater a questáo, verifica-se que os críticos em


nossos dias sao mais e mais favoráveis a tese de O'Callaghan. Varias
tentativas foram feitas no sentido de propor outras interpretagóes para
7Q5 (excluida a hipótesedese tratar de Me 6,52-53); os estudiosos, usan
do computadores, procuraram na tradugáo grega do Antigo Testamento
(dita dos LXX) urna passagem que ilumine o conjunto de letras ocorrente
em 70.5. Assim pensaram em Ex 36,10-11; 2Rs 5,13-14; 2Sm 4,12-5,1,
como também pensaram em Mt 1,2-3. Todavía nenhuma destas possí-
veis explicagóes se revelou suficiente, porque exigiríam alteragóes poucu
verosslmeis ou muito forgadas no texto de 7Q5 para poder adapta-lo á
respectiva passagem do Antigo ou do Novo Testamento; de modo espe
cial, o parágrafo ou o hiato da linha 3 dificulta a adaptagáo a outra secgáo
que nao Me 6,52-53. Em conseqüéncia, um dos últimos estudiosos do as-
sunto, Carsten Peter Thiede, concluiu a pos longas consideracóes: "Wer

1 Nabatenos eram habitantes do deserto, que se lortaleceram e, nos lempos


de Cristo, constituiram um reino localizado na regiáo de Petra, ou seja, na vi-
zinhanca da Palestina.

487
8 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 354/1991

von 7Q5 = Mk 6,52-53 ais aeltestem erhaltenen Fragment eines neutes-


tamentlichen Textes sprechen will, darf das ruhlgen Gewissens tun. -
Quem quer considerar 7Q5 = Me 6,52-53 como o rnais antígo fragmento
até hoje conservado do texto do Novo Testamento, pode fazé-lo com a
consciéncia tranquila."1

Tal conclusáo deverá ter enorme repercussáo em toda a pesquisa


referente á origem dos Evangelhos, e exigirá urna revisüo das datas até
agora assinaladas. A critica do século passado, movida por preconceitos
racionalistas, tendia a distanciar da pregacáo de Jesús (anos de 27-30 ou
30-33) a redacáo dos Evangelhos; esta era atribuida ao século II (até o
ano de 180). TSo longo intervalo de tempo, segundo tais críticos, terá si
do propicio á criacáo de mitos ou de falsas imagens de Jesús elaboradas
paulatinamente pela fantasía popular e finalmente no século II consigna
das pelos evangelistas em seus escritos! Aos poucos, porém, tal suposi-
cáo preconceituosa foi sendo desfeita pela evidencia dos manuscritos en
contrados, entre os quais o p" mencionado no inicio desta comunicado.

Com o progresso dos estudos verifica-se que mais aínda se devem


aproximar entre si a redacáo dos Evangelhos e a pregacio de Jesús. Isto
contribuí para evidenciar que a fé crista nao está baseada em fiecóes
imaginosas da mente ignorante dos antigos, mas na veraddade dos di-
zeres do próprio Cristo. O Evangelho faz eco muito próximo e fiel a
quanto disse Jesús.

Todavia alguém poderá indagar: o fragmento de 7Q5 supóe o


Evangelho de Marcos já em sua forma definitiva ou pertence a urna das
etapas da redacáo desse livro sagrado? - Bons exegetas, entre os quais
Kurt Aland, rejeítam esta última h¡pótese. Todavia a questáo permanece
aberta; qualquer que sej'a a resposta dada, fica sendo inegável que entre
as palavras de Jesús e as do evangelista Marcos há continuidade; o Jesús
descrito por Marcos nao é um "outro" Jesús, mas é o próprio Jesús que
caminhava e pregava pela Palestina.

Bibliografía:

CasíerPeter Thiede, Eín Markus-Fragment ca. 50 n. Ch. geschrie-


ben. Sensationeller Befund mit weitreichenden Folgen, em: "Theologis-
ches" n* 188, dezember 1985. cois. 6769-6774.
ídem. 7Q. Eine Rückkehr zu den neutestamenllichen Papyrusfrag-
menten in der siebten Hóhle von Qumran, em 'Bíblica" 65 (1984), pp.
538-559.

1 Ver bibliografía, artigo de C.P. Th. em Bíblica 65 (1984), p. 557.

488
DATA (50?) DO EVANGELHO DE MARCOS

José O'Callaghan, Papiros neotestamentarios en la cueva 7 de Qu-


mran? em "Bíblica" 53 (1972). pp. 91-100.
M. Baillet/J. Miíik/R. de Vaux, Discoveries in the Judean Desert of
Jordán III: Les Petites Grottes de Qumran, Oxford 1962. pp. 27-31 e 143s.
A revista "Bíblica" de 1972e 1973 aprésenla varios artigos e comunica-
góes relativos ao assunto.
Revista 30 DÍAS, ano VI. n*6, junho de 1991 pp. 8-19.
Revista IISABATO, ano XIV, ns22. 1*/06/91.pp. 10-12.

II. DEPOIMENTOS

Seguem-se os testemunhos de notáveis personalidades do mundo


bíblico:

1) Pe. Albert Vanhoye S.J., Secretario da Pontificia Comissáo


Bíblica

"Acompanhei o debate nao como especialista em papirologia. Os


argumentos de O'Callaghan parecem-me muito plausíveis... S. Ireneu
(t 220)aproximadamente)escreve,entreoutrasco¡sas, que Marcos este ve
em contato com Pedro em Roma e que há probabilidade de que o texto
de Marcos tenha sido escrito em Roma mesmo... Mas, como sempre
acontece, todas as vezes que nos aproximamos das fontes que provam
históricamente as verdades da fé, há quem proclame o escándalo, e,
sempre que as pesquisas parecem dizer o contrario da fé, sao acolhidas
com grande simpatía. As críticas que O'Callaghan teve que sofrer, foram
tremendas. As suas descobertas muito aborreceram os biblistas; tinha-se
por certo que, desde a morte de Cristo até a redagáo do Evangelho de
Marcos, decorreram quarenta anos. Ora descobrir que menos de vinte
anos apenas decorreram, mandava para os ares toda a exegese do Novo
Testamento. Como quer que seja, é muito importante que a questáo seja
de novo levantada. Principalmente... que seja discutida na Igreja".

2) Giuseppe Guiberti, Presidente da Associacáo Bíblica Italiana

"O meu julzo sobre a argumentado do Pe. O'Callaghan é positivo.


Há tempos escrevi urna recensáo favorável ao livro de Carsten Peter
Thiede, que confirmava as teses do jesuíta.

Impressionaram-me as críticas ferozes que choveram sobre tais


pesquisas: injustamente objetava m a O'Callaghan ter trabalhado sobre
a fotografía do manuscrito e nao sobre o original. As razóes de tanta
agitacáo eram outras: a datacáo em torno de 50 mandava aos ares o mo-

489
10 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS"354/1991

do de entender o Novo Testamento. Por ¡sto era extremamente incómo


do dar razSo a O'Callaghan. Estou certo de que, dentro de alguns anos,
quando a febre da contestado se tiver acalmado, será posslvel discutir
tranquilamente e as teses do pesquisador jesuíta poderlo ser retomadas
em consideracáo".

3) Pe. Ignace de la Potterie S. J, Professor Emérito do Pontifi


cio Instituto Bíblico

"Estou contente por ver que se coloca de novo a questio do frag


mento estudado pelo Pe. O'Callaghan». As conseqúéncias sao de tal vulto
que valia a pena trazer de novo á tona o assunto. O iluminista (raciona
lista) Lessing.dizia: 'Entre as origens do Cristianismo e nos há um abismo
insuperável'. A nova datacáo de Marcos, se forcomprovada, preencherá,
em parte ao menos, esse abismo. A distincáo, da exegese moderna, entre
o Cristo da fé e o Cristo da historia entraría em crise. Levemos aínda em
conta que o Evangelho de Marcos é o que mais exalta a Divindade de
Cristo, com o seu poder milagroso. A exegese moderna tendía a separar
o fato histórico do seu significado. Os fatos se tornaram cada vez mais in
significantes, quase mitológicos; ficaria apenas o sentido espiritual dos
Evangelhos: Mas fatos e significado sao inseparáveis uns dos outros no
Cristianismo.1

1 Na terminología dos etílicos, Jesús da historia é Jesús tal como foi visto e
viveu realmente na Palestina. Jesús da fé sería Jesús tal como Ele foi con
cebido pela fé dos primeiros cristáos ou, por exempto. tal como Sao Pauto o
apresenta (seria o Kyrios, a Cabega do Corpo da Igreja, Aquele que pelo
sangue da sua Cruz recondliou as criaturas visfveis e invisfveis...). Está claro
que o Jesús dafééo próprio Jesús da historia auténticamente aprofundado e
reconhecido pelos primeiros cristáos. Estes, iluminados pelo Espirito de Pen
tecostés, repensaram os ditos e feitos de Jesús e foram percebendo toda a
profundidade do respectivo significado; o fato da ressurreicáo projetou novo
clareo sobre a vida terrestre de Jesús ou sobre o Jesús da historia, permitindo
á fé ir mais longe do que os sentidos.

Os racionalistas, porém, julgam que o Jesús da fé aproximase de figura


mitológica; é projegáo criada pela imaginagño dos primeiros cristáos no decor-
rer dos decenios do secuto I. Ora o achado de 7QS, encurtando o intervalo
entre o Jesús da historia e a redagáo do Evangelho de Marcos (que tanto
exalta a Divindade de Jesús), apaga o fundamento pressuposto pela critica
racionaSsta; o relato de Marcos nao seria fruto de paulatina especuiacáo mís
tica dos discípulos no decurso de decenios, mas seria a crónica quase feita
ao vivo da pregagáo e dos feitos de Jesvs. Nisto está a grande importancia da
tese de O'Callaghan.

490
DATA (50?) DO EVANGELHO DE MARCOS 11

4) Divo Barsptti, autor de numerosos comentarios da £. Escritura

"A distancia entre os fatos e a narracáo de Marcos foi táo diminuida


que as teorías mitologizantes já nao se sustentam. O Evangelho de Mar
cos seria urna crónica escrita quase em cima dos fatos. Se a ciencia con
firmar definitivamente as pesquisas do Pe. O'Callaghan, estaremos
diante de um dos eventos mais importantes para a Igreja dos últimos de
cenios".

5) O Papa Paulo VI

Refere-se que, quando o Papa Paulo VI teve noticia das conclusóes


de O'Callaghan, solenemente publicadas em 1972, acolheu os dados com
entusiasmo. Parece que ele mesmo quería fazer a proclamacáo oficial dos
resultados através da televisáo. Mas os professores do Pontificio Instituto
Bíblico o dissuadiram de o fazer por julgarem a temática ainda sujeita a
discussáo por falta de argumentos dirimentes. O Pe. Carlos Martini S. J.,
hoje Cardeal-arcebispo de Miláo, em 1972 Reitor do Instituto Bíblico de
Roma, escreveu:

"Levando em conta as pesquisas, devenios dizer que é difícil, neste


momento, aduzir provas decisivas contrarias ás conclusóes de O'Callaghan.
Mas o estado fragmentario dos textos impede também de afirmar que estamos
diante de argumentos positivamente seguros em favor da tese. Por ora trata
se de urna hipótese apoiada sobre consideracóes serias e dignas de grande
atengéo; deverá ser ulteriormente estudada do ponto de vista paleográfico.
papirológico e arqueológico; destinase a reavivar o interesse por tal género
deestudos".

Após tio significativos depoimentos, passamos a transcrever urna


entrevista sobre a mesma temática.

III. ENTREVISTANDO UM PERITO...

O Prof. Mons. En rico Galbiati ensinou Filología Bíblica na Universi-


dade Católica de Miláo até 1975 e foi docente de S. Escritura no Semina
rio de Venegono entre 1941 e 1974. Acompanhou de perto as pesquisas
do Pe. O'Callaghan, cujos pormenores ele bem conhece. Foi entrevistado
pela repórter Andrea Costanzi, da revista II SABATO, que publicou os di-
zeres do mestre em sua edicao de 15/06/1991, pp. 79s. - É dessa entre
vista que destacamos os seguíntes tópicos:

Andrea Costanzi: "O Sr. eré na autenícidade das conclusóes do Pe.


O'Callaghan com referencia ao papiro 7Q5?"

491
12 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS"354/1991

En rico Galbiati: "O'Catlaghan tem razio. Peto cálculo das probabili


dades. Com efeito; aquele papiro nao ¿presenta nenhuma palavra compreen-
sfvel, mas urna serie de letras que se seguem em certa ordem, tais como se
encontram no Evangelho de Marcos. É altamente ¡mprovável que as mesmas
letras se possam encontrar em tal ordem por mero acaso".

A.C.: "Porque entáo há quem negué o vatordessa descoberta?"

E.G.: "O'Callaghan procedeu de maneira científica, nao há dúvida. Mas


existe um preconceito, da parte de certos estudiosos, que julgam tenha havido
um longo intervalo entre os latos e a redagáo escrita do Evangelho, intervalo
durante o qual as comunidades dos prímeiros cristáos exerceram grande ali-
vidade.

Tal preconceito explica a agressividade para com a descoberta de


O'Callaghan. Os estudiosos que professam tal convicgáo, sentiram-se atingi
dos num ponto do qual fazem questáo absoluta e que é a sua maneira de en
tender os Evangelhos. Para efes, de antemáo a tese de O'Callaghan nao pode
ser valida, porque julgam que o Evangelho foi escrito muito mais tarde e que
esta demora implica urna diminuigáo do valor histórico dos Evangelhos; é
certo que nao chegam a negar todo o valor histórico dos mesmos, como pro
pugna Bultmann.

Pergunto, porém: se se contesta a ñdelidade histórica dos Evangelhos,


de que fonte provém o Cristianismo como é apresentado pelos Atos dos
Apostólos? Se nos diminuimos a figura histórica de Jesús, teremos que expli
car de onde se originou o Cristianismo".

A.C- "E que há por tras dos preconceitos de tais estudiosos?"

E.G j "Tais preconceitos se devem ao fato de que nos Evangelhos se


narram curas e feitos milagrosos, que o pensamento moderno repudia e, por
isto, atribuíá imaginagSo dasprimeirascomunidades cristas. Altemos urna
especie de modernismo bíblico, exegético: deveriamos interessar-nos apenas
por aquilo que Jesús nos quis dizer, as narrativas de episodios seriam apenas
um veículo para fazer chegar a nos certas kJéias; por isto nao deveriamos in
sistir sobré a realidade histórica de tais episodios.

Há aínda em nossos días aqueles que roem os Evangelhos como o ca-


runcho, negando que Jesús tenha podido dizer certas coisas. Mas nao se dáo
conta de que, se Jesús nSo as disse, ninguém as lera dito. Com efeito; qual
falsario teña tido interesse em colocar nos labios de Jesús exclamagóes co
mo: 'Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?' (Me 15,34) ou 'Nin
guém sabe a data do jufzo final, nem os anjos, nem o Filho, mas somente c

492
DATA (50?) DO EVANGELHO DE MARCOS 13

Paf (Me 13,32)? Em escritos espurios nunca tena sido atribuida a Jesús tal
'ignorancia'. Os ipsissima verba (mesmíssimaspalavras)' deJesús sao urna
prova da veracidade dos Evangelhos. Como, alias, explicar a coeréncia da fi
gura de Jesús, táo unitaria nos Sinóticos e no Evangelho segundo Joáo?

E, se quiséssemos mesmo destruir o valor dos Evangelhos, esbarra


ríamos aínda com outra dificuldade: por que ter¿o sido atribuidos a persona-
gens de pouco relevo, como é o caso de Marcos, quando os Evangelhos apó
crifos foram atribuidos a Pedro e Tiago?"

A.C.: "Há razóes plausiveis para adiar as datas de redagáodos Evan


gelhos?"

E.G.: "Nao se pode afirmar que os Evangelhos nao sejam livros histó
ricos. Mas nao sao livros escritos para cultivara historiografía, esimpara co
municara boa-nova da salvagáo, que tem base em fatos históricos...

Pedemos com seguranga datar as cartas de S. Paulo aos Romanos,


aos Coríntios, aos Gálatas; sao anteriores aos Evangelhos, mas a teología
que elas proclamam é certamente mais evoluida que a dos Evangelhos Sinóti
cos.1 Por conseguinte, nao se pode sustentara sentenga segundo a qual fo
ram necessários muitos decenios para se produzir um desenvolvimento teoló
gico da imagem de Jesús. Ñas cartas de Sao Paulo já está explanada a teolo
gía da Redengáo, que nos Evangelhos é apenas esbogada; com efeito, o valor

1 Numa atenta pesquisa ñlológica, podem-se detectar no Evangelho sentencas


que parecen) ser o eco direto das palavras de Cristo; foram consignadas tais
como sairam dos labios de Jesús. Tenham-se em vista os dizeres: 'Tu és
Kepha, e sobre este Kephaedificareia minha Igreja... Nao foram a carne e o
sangue que to revelaram... Tudo o que ligares sobre a térra, será ligado nos
céus... Tudo o que desligares sobre a térra, será desligado nos céus" (Mt
16,16-19). - Os semitismos e o frescor da lingua aramaica, talada por Jesús,
sao evidentes nestas e em outras passagens, que por isto sao ditas ipsissi
ma verba Christi.

2 £ G. quer dizer o seguinte: as cartas de S. Paulo foram reégidas entre 51 e


67, ao passo que a redagáo dos Evangelhos Sinóticos vai de 50 a 80 aproxi
madamente. Ora o testemunho das cartas paulinas (de alto padrao teológico)
dá a ver que, logo nos pnmeiros decenios da pregagáo crista, os Apostólos e
(Sscípulos penetraram a fundo no misterio de Cristo; nao foi necessário longo
intervalo de tempo para que concebessem ou imaginassem o Jesús Kyrios,
Senhorda vida e da morte, Cabega da Igreja (Corpo de Cristo...); esta imagem,
para eles, estava implicada nos ditos e fatos do Jesús histórico ou do Jesús
que cornos discípulos convivera na térra. (continua na p. 494)

493
14 "PERGUNTEE RESPONDEREMOS"354/1991

redentor'da morte de Cristo, nos Evangelhos Sinóticos, é expresso numa


passagem de Mateus: 'O Filho do Homem veio nao para ser servido, mas pa
ra servir e dará vida para a redencáo de muitos' (Mt 20,28; Me 10.45) e ñas
fórmulas de tnstituigáo da Eucaristía (cf. Mt 26,26-29: Me 14.22-25; Le
22,15-20; 1Cor 11,23-25)".

A.C.: "Há aínda muítos seguidores de Bultmann entre os biblistas?"

E.G.: "Bultmann dizia que as parábolas, as sentencas, os milagres e


outras coisas dos Evangelhos eram produto da criatividade das comunidades
cristas primitivas; nao nos poderiam oferecer a imagem auténtica e histórica
de Jesús. Por conseguíate, dizia Bultmann, mediante um Jesús, do qual nada
sabemos, Deus susdtou em nos a fé na misericordia divina. Bultmann nao
quis eliminar a fé, mas privou-a de todo fundamento histórico.

Ao contrario, dizemos nos, a fé crista nao é mero sistema filosófíco,


mas baseia-se sobre a intervencáo de Deus na historia mediante Jesús.
Atualmente estamos numa fase pós-bultmanniana; os bultmannianos sáopou-
eos; até os protestantes deixaram Bultmann de lado e hoje tém urna fé mais
iluminada, que os leva a aceitar como histórico um conjunto crescente de da
dos do Novo Testamento. Também o Conselho Ecuménico das Igrejas* vé em
Jesús o Senhor e Salvador... Hoje a crítica do texto do Novo Testamento che-
gou a conclusóes de valor definitivo em favor do texto; protestantes e católi
cos usam os mesmos manuais".

Eis como um conjunto de bons autores vé atualmente o caso do


papiro 7Q5. Há grande probabilidade de ser fragmento do Evangelho de
Marcos escrito antes do ano 50; todavia a pequenez do documento e a
conseqüente laconicidade da sua mensagem suscitam hesitacóes da parte
de pensadores que desejariam razóes mais imperiosas para aceitar a des-
coberta com todas as suas conseqüéncias revolucionarias.

Fica, pois, a criterio de cada leitor ponderar os argumentos e con


cluir como julgue mais sabio. Como quer que seja, a grande verossimi-
Ihanca da tese de O'Callaghan merece a seria estima e ponderacáo de to
dos.

(continuagáo da p. 493)
Leve-se em conta que, enquanto a tradicáo sinótica apregoava o Jesús visto
como viandante na Palestina, a pregac&o de S. Pauta, S. Pedro, S. Tiago, S.
Joáo e S. Judas apresentava o Jesús glorificado ou o Jesús da fé (os aspec
tos transcendentais do Jesús da historia).

1 Organizacao nao católica, mas protestante e ortodoxa.

494
Manual de Inquisidores:

"O Martelo Das FeiticSífas"

Em síntese: O presente artigo lenciona colocar o livro "O Martelo das


Feiticeiras " no seu genuino contexto, (omecendo ao leitor aspectos da historia
da Inquisicáo que possibititam mais objetiva compreensáo do fenómeno. A
objetividade do historiador nao pode consistir em negar falhas a erros, mas
exige que estes sejam considerados dentro dos parámetros da época em que
foram cometidos.

A Editora "Rosa dos Tempos" publicou em 1991 um Manual de In


quisidores, redigido em 1484 pelos Inquisidores Heinrich Kramer e Ja
mes Sprenger, com o título "Malleus Maleficarum" (0 Martelo das Feiti
ceiras).1 - 0 livro tem suscitado certa celeuma, pois descreve, com muito
realismo, o modo como os Inquisidores procediam quando se viam diante
de um caso tido como diabólico. Contribuem para impressionar o leitor
também a Introdugáo Histórica e o Prefacio da obra, devidos a dois au
tores contemporáneos, que encaram a temática do ponto de vista do fe
minismo e da psicanálise. Eis por que as páginas seguintes seráo dedica
das a um comentario da obra.

1. O livro

O livro é o que o título diz: o Martelo ou o modo de punirás feiti


ceiras ou bruxas do fim da Idade Media.

Por "feiticeira" ou "bruxa" entendia-se, naquela época, urna mu-


Iher manipulada em seu corpo (sexualmente) pelo demonio. Admitia-se
que o Maligno pudesse ter consorcio sexual com mulheres: se fosse de
monio masculino, sería chamado íncubo (de noite copulava com mu
lheres, perturbando-lhes o sonó e causando-lhes pesadelos, como se Ji-
zia). Se fosse demonio feminino, era dito súcubo, aquele que s- deita
por baixo, copulando com um homem e causando-Ihe pesadelos. Deste
contato carnal nasceriam filhos... filhos enfeiticados e malvados sobre
aterra!

1 Introducáo histórica de Rose Mane Muraro e Prefacio de Carlos Byington.


Tradugáo de Paulo Froes. - Ed. Rosa dos Ventos, Rio de Janeiro, 1991.

495
16 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 354/1991

Os medievais acreditavam na existencia de tais seres e tais fenóme


nos - o que, na verdade, é totalmente imposslvel, pois o demonio (anjo
mau) nao tem sexo nem corpbreidade. Movidos portal crenca, os defen
sores da boa Ética, na fdade Media, nao podiam deixar de se insurgir
com veeméncia contra tal procedimento; era, para eles, um dever de
consciéncia, ao qual nao se podiam furtar sem que a consciéncia osacu-
sasse gravemente.

O modo como procediam na repressáo á bruxaria ou á infestacáo


do demonio, era o que a Idade Media conhecia: muito estranho para os
cidadáos do século XX (embora ainda hoje haja tortura e bárbaros tratos
ñas prisóes e nos campos de concentracáo). O procedimento dos Inquisi
dores é descrito muito minuciosamente, tocando profundamente o leitor.

Nao menos impressionantes sao as páginas 5-41 de Rose Marie


Mu raro e Carlos Byington, que analisam o fenómeno das bruxas em cha
ve sociológica e psicológica, transmitindo ao público de hoje hediondas
imagens da Idade Media.

Que dizer a propósito?

2. Comentando...

Abordaremos a problemática em tres etapas.

2.1. Bruxaria e mentalidade medieval

Evidentemente em nossos dias nenhum teólogo afirma que o de


monio tem corpo e pode efetuar cópula sexual. É espirito, independente
de qualquer constituicáo somática. Os antigos, porém, tiveram dificulda-
de de conceber um espirito puro, isento de corporeidade (ainda que eté
rea ou sutil}. Os estoicos ¡maginavam o pneuma divino como algo de
corpóreo a penetrar o mundo material. Os judeus iam mais longe: admi-
tiam que os anjos tivessem pecado sexualmente com mulheres, dando
ocasiáo ao diluvio narrado em Gn 6-9; cf. Gn 6,1 s (e a interpretado dada
pela traducáo grega dos LXX). Na Tradicáo crista, tal concepcáo esteve
presente até o fim da Idade Media, como se vé; nunca foi dogma de fé,
mas apenas tese comum.

Compreende-se que quem abracasse tal pressuposto e admitisse a


existencia de íncubos e súcubos, reagisse enérgicamente contra táo
grande mal. Os medievais o faziam de boa fé, dentro das categorías de
pensamento que Ihes eram familiares e de cuja validade nao duvidavam.
Os historiadores que hoje consideram esse passado, tendem a julgá-lo

496
"O MARTELO DAS FEITICEIRAS" 17

através das categorías de pensamento modernas, exigindo dos antigos o


que eles nao sabiam nem podiam dar; nao levam em conta os textos que
exprimem o ardente amor pela verdade, pela Justina e pelo bem que ani-
mava os Inquisidores de modo geral. Eis, por exemplo, o espelho do In
quisidor redigido por Bernardo de Gui, um dos mais famosos Inquisido
res no século XIV (1303-1328):

"O Inquisidor deve ser diligente e fervoroso no seu zelo pela verdade
religiosa, pela salvacáo das almas e pela extirpacáo das heresias. Em meio
ás difículdades permanecerá calmo, nunca cederá á cólera nem á indignacáo.
Deve ser intrépido, enfrentar o perigo até a morte; todavía nao precipite as si-
tuacóes por causa de audacia irrefletida. Deve ser insensivel aos rogos e ás
propostas daqueles que o querem aticiar; mas também nao deve endurecer o
seu coracáo a ponto de recusar adiamentos e abrandamentos das penas
conforme as circunstancias. Nos casos duvidosos, seja circunspecto, nao dé
fácil crédito ao que parece provável e muitas vezes nao é verdade: também
nao rejeite obstinadamente a opiniáo contraria, pois o que parece improvável,
freqüentemente acaba por ser comprovado como verdade... O amor da ver
dade e a piedade, que devem residir no coracáo de umjuiz, brithem nos seus
olhos, a fim de que suas decisóes jamáis possam parecer ditadas pela cupi-
dez e a crueldade" (Prática VI p... ed. Douis 232s).

Algo de semelhante se encontra sob a pena de outro célebre Inqui


sidor: Nicolau Eymeric O.P. - em seu Directoríum (Parte III, questáo
1a., De conditione ¡nquisitoris).

Escreve Jean Guiraud em seu artigo Inquisition, publicado no


Dictionnaire Apologétique de la Foi Catholique, vol. II, coluna 866:

"Ao lado de juízes violentos ou cruéis, havia grande número que, tendo
incessantemente Deus ante os olhos, habentes Deum prae oculis, como
diziam certas sentencas, eram plenamente conscientes da gravidade e das
pesadas responsabilidades do seu ministerio. Sacerdotes e monges trabalha-
vam para a gloria de Deus e a defesa da verdade, movidos por razóes de
ordem sobrenatural; detestaram a heresia, mas eram cheios de misericordia
para com os indignados. Condenar um inocente parecia-lhes uma monstruosi-
dade, e, como Ihes recomendavam os Papas, só pronunciavam uma sentenca
condenatoria quando a culpabilidade nao Ihes deixava nenhuma dúvida. Re-
conduzir a ortodoxia um herege era, para eles. uma grande alegría e, em vez
de o entregar ao braco secular e á morte. que tírava toda esperanca de con-
versáo, eles preferíam recorrer ás penitencias canónicas e a penalidades
temporarias, possibilitando ao culpado o emendarse. Tais sentimentos sao
muitas vezes expressos nos Manuais dos Inquisidores e nos possibilitam

497
18 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 354/1991

apreciar a boa fé. a consciéncia, a retidáo e mesmo a caridade de muitos


dentreeles".

Para preservar e garantir tais predicados dos Inquisidores, a autori-


dade eclesiástica promulgava certas normas, acompanhando os proce-
dímentos da Inquisicáo:

- garantios de idade: o Papa Clemente V, no Concilio de Vierta


{1311), seguindo preceitos de seus antecessores, dispós que ninguém pu-
desse exercer as funcóes de Inquisidor antes dos 40 anos;

- garantías de honestidade: Alexandre IV (1255), Urbano IV


(1262), Clemente IV (1265), Gregorio X (1273), Nicolau IV (1290) insisti-
ram ñas qualidades moráis, na honestidade e na pureza de costumes a
ser exigidas dos Inquisidores;

- garantías de saber: também se declarava indispensável ao In


quisidor um bom conhecimento de Teología e Oíreito Canónico.

A maneira como procediam os juízes era continuamente acompa-


nhada e controlada, na medida em que isto era possfvel na Idade Media.
Mais de urna vez, a Santa Sé interveio para moderar o zelo e punir os ex-
cessos dos Inquisidores. É de notar, por exemplo, que o Papa Clemente
V, no Concilio de Viena (1311), determinou fosse excomungado o Inqui
sidor que se aproveitasse das suas fungóes para fazer lucros ilícitos ou
extorquir dos acusados quantias de dinheiro; para ser absolvido de tal
pena, o Inquisidor deveria reparar os danos causados. Todo Inquisidor
que abusasse comprovadamente do seu ministerio, era sem demora de-
posto do cargo, fosse pelos Superiores de sua Ordem, fosse pelos lega
dos papáis, fosse diretamente pela Santa Sé. Os bispos eram obrigados,
em consciéncia, a comunicar ao Papa todos os desmandos cometidos
pelos Inquisidores; o mesmo dever tocava aos notarios e demais oficiáis
de justíca que acompanhavam o Inquisidor.

Vé-se, poís, que, se, de um lado, o procedimento da Inquisicáo é


algo que hoje ninguém na Igreja ousaría repetir, de outro lado foi algo
que procedía da boa fé e do zelo religioso dos pastores medievaís; para
eles, era dever de justíga corrigir os hereges, pois solapavam os benses-
pirituais, que, para os medievais, tinham aínda mais valor do que os bens
materiais. A depredado da fé os indignava, como hoje a depredado de
um patrimonio material exaspera seu proprietárío.

Detenhamo-nos agora sobre alguns tópicos das páginas ¡ntrodutó-


rias de Rose Marie Muraro e Carlos Byington.

498
"O MARTELO DAS FE ITICEI RAS" 19

2.2. As páginas ¡ntrodutórias

Rose Marie Murara comenta o número de vltimas da Inquisicáo nos


seguintes termos:

"Deidre English e Barbara Ehrenreich, em seu livro Witches, Nurses


and Midwives (The Feminist Press, 1973). nos dáo estatísticas aterradoras
do que fot a queima de muiheres feiticeiras em fogueiras durante esses quatro
séculos. 'A extensáo da caga ás bruxas é espantosa. No fím do sáculo XV e
no comeco do secuto XVI, houve milhares e milhares de execugóes - usual-
mente eram queimadas vivas na fogueira - na Alemanha, na Italia e em outros
países. A partir de meados do secuto XVI, o terror se espalhou por toda a Eu
ropa, comegando pela Franga e a Inglaterra. Um escritor estímou o número de
execugóes em seiscentas por ano para certas cidades, urna media de duas
por dia, exceto aos domingos. Novecentas bruxas foram executadas num
único ano na área de Wertzberg, e cerca de mil na diocese de Como. Em
Toulouse, quatrocentas foram assassinadas num único dia; no arcebispado
de Trier, em 1585, duas aldeias foram deixadas apenas com duas muiheres
moradoras cada urna. Muitos escritores estimaram que o número total de mu
iheres executadas subía á casa dos milhóes e as muiheres constituiam 85%
de todos os bruxos e bruxas que foram executados'.

Outros cálculos levantados por Marilyn French, em seu já citado livro,


mostram que o número mínimo de muiheres queimadas vivas é de cem mil"
(P-13).

A propósito observamos:

1. A historia é o terreno mais palmilhado pelas ideologías. O histo


riador tende a narrar os fatos de acordó com os seus parámetros e obje
tivos; os que desejam denigrir a Inquisicáo, sao propensos a exagerar
suas dimensóes, sem atenta consulta ás respectivas fontes. No tocante ás
penas infligidas a hereges e bruxas, nao existe a documentado desejável,
pois o registro de fatos outrora se fazia mais difícilmente do que hoje.
Como quer que seja, temos ao nosso alcance alguns espécimens dos sé-
culos XIII e XIV; assim, por exemplo:

De 1249 e 1258 em Carcassonne (Franca) a Inquisicáo proferiu 278


sentencas; a pena de prisáo é relativamente rara; a mais freqüente é a
que manda prestar servico na Térra Santa.

De 1308 a 1328 Bernardo de Gui em Tolosa exerceu com severidade


as suas funcóes: em dezoito Sermones Generales proferiu 929 senten
cas assim distribuidas:

499
20 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 354/1991

Imposicáo da cruz: 132 vezes


Peregrinado: 9 vezes
Servido na Térra Santa: 143 vezes
Encarceramento: 307 vezes
Encarceramento platónico pronunciado sobre defunto: 17 vezes
Entrega ao braco secular (pena de morte): 42 vezes
Absolvicáo de defuntos: 3 vezes
Exumacáo: 9 vezes
Sentencas contra contumazes: 40 vezes
Exposicáo no pelourinho: 2 vezes
Degradacáo: 2 vezes
Exilio: 1 vez
Destruicáo de casa: 22 vezes *
Queima do Talmud: 1 vez
AbsolvicSo de prisioneiro: 139 vezes

Esta lista mostra que a entrega ao braco secular ou a pena de morte


era relativamente rara.

De 1318 a 1324 em Pamiers {Franca), a Inquisigáo julgou 98 acusa


dos: 5 foram entregues ao braco secular; 35 condenados ao cárcere; 2 ab-
solvidos; a respeito dos demais nada consta; teráo sido absolvidos?...
exilados? ... enviados para a Térra Santa? Como quer que sefa, de 98
consta que apenas cinco sofreram a condenacáo capital.

2. É de notar aínda que muitos dos réus sentenciados podiam gozar


de indulto, que os dispensava total ou parcialmente da sua pena. Podiam-
também usufruir de licenca para sair do cárcere e ir tirar ferias em casa;,
em Carcassonne, por exemplo, aos 13 de setembo de 1250, o bispo deu a
urna mulher chamada Alazais Sicrela permissáo para sair do cárcere e ir
aonde quísesse até a festa de Todos os Santos (1? de novembro), ou seja,
durante sete semanas. Licen?a semelhante foi dada por cinco semanas a
um certo Guilherme Sabatier, de Capendu, na ocasiáo de Pentecostés
(9/05/1251). Raimundo Volguier de Villar-en-Val obteve urna licenca que
expirava no dia 20/05/1251, mas que Ihe foi prorrogada até o día 27. Ou-
tro caso é o de Pagane, viúva de Pons Arnaud de Preixan, que, encarce-
rada, obteve licenca para ferias de 15/06 a 15/08 de 1251.

Os prisioneros tinham o direito de se afastar do cárcere para tra-


tamento de saúde por quanto tempo fosse necessárío. Sao numerosos os
casos de que se tem noticia: assim aos 16/04/1250, Bernar.d Raymond, de
Conques, obteve a autorizacáo para deixar a sua cela propter infirmi-
tatem. Aos 9/08 seguintes, a.mesma permissáo era dada a Bernard
Mourgues de Villarzel-en-Razés, com a condicáo de que voltasse oitó

500
"O MARTELO DAS FEITICEIRAS" 21

dias após obter a cura. A 14/05 a mesma concessáo era feita a Armand
Brunet de Couffoulens; e a 15/08 a Arnaud Miraud de Caunes. A
13/03/1253 Bernard Borrel foi posto em liberdade propter infirmita-
tem, devendo voltar ao cárcere quinze dias após a cura. A 17/08 seguinte,
Raine, filha de Adalbert de Couffoulens, foi autorizada a permanecer fora
do cárcere quousque convaluerit de aegritudine sua (até que ficasse
boa da sua doenga)... A repeticáo de tais casos a intervalos breves, e ás
vezes no mesmo dia, mostra que nao se tratava de excecóes, mas de urna
rotina bem definida.

3. Também havia autorizacáo aos presos para ir cuidar de seus fa


miliares em casa. Ás vezes os problemas de familia levavam os Inquisi
dores a comutar a pena de prisáo por outra que permitisse atendimento á
familia. Até mesmo os mais severos praticavam tal gesto; sabe-se, por
exemplo, que o rigoroso juiz Bernard de Caux em 1246 condenou á pri
sáo perpetua um herege relapso, chamado Bernard Sabatier, mas, na
própria sentenca condenatoria, observava que, o pai do réu sendo um
bom católico, anciáo e doente, o filho poderia ficar junto do pai enquanto
este vivesse, afim de Ihe dispensar tratamento.

4. Acontece também que as penas infligidas aos réus eram abran-


dadas ou mesmo supressas: a 3/09/1252 P. Brice de Montréal obteve a
troca da prisáo por urna peregrinacáo á Térra Santa. Aos 27/06/1256 um
réu que devia peregrinar á Térra Santa, recebeu em troca outra pena: pa
garía 50 sóidos de multa, pois nao podia viajar propter senectutem
(por causa da idade anciá). Sao conhecidos também os casos de indulto
total: o Inquisidor Bernard Gui, em seu Manual apresenta a fórmula que
se aplicava para agraciar plenamente o réu. O mesmo Bernard Gui rea-
bilitou um condenado para que pudesse exercer funches públicas; a um
filho de condenado que cumprira a pena, reconheceu o direito de ocupar
o consulado e exercer funcóes públicas.

5. A historia também registra o fato de que os Inquisidores estavam


atentos a distinguir falsas e verdadeiras acusacóes. Conta-se, por exem
plo, o caso, ocurrido em Pamiers (1324), de Pierre Peyre e Guilhaume
Gautíer: ambos colaboraram com Pierre de Gaillac, tabeliáo de Tarscon,
numa campanha contra Guillem Trom; este também era tabeliáo e atraia
a si a clientela, de modo que Pierre de Gaillac, querendo livrar-se dele,
acusou-o de heresia perante a Inquisicáo, apoiado no falso testemunho
de Pierre Peyre e Guillaume Gautier; estes dois cidadáos, comprovacía
mente tidos como falsarios, foram condenados, e Guillem Trom reconhe-
cido como inocente.

6. E certo, porém, que nem todos os Inquisidores tiveram a mesma


elevacáo de espirito e a mesma retidáo de consciéncia. Alguns se mos-

501
22 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 354/1991

traram obcecados na repressáo á heresia, procedendo cruelmente. Os


historiadores registram tais abusos, mas nao costumam registrar as cen
suras que a Santa Sé infligiu aos oficiáis ¡moderados ou indignos, sempre
que ela teve noticia dos fatos; alias, nao somente ela, mas também os le
gados papáis e os bispos se insurgiram contra os excessos dos Inquisi
dores; nao eram raras as admoestacóes á prudencia e á brandura ema
nadas das autoridades eclesiásticas para a orientacáo dos Inquisidores;
estes deviam proceder com pureza de intencáo (superando paixóes, pres-
sóes e preconceitos) e com a virtude da discricáo.

Consta também que os Papas mais de urna vez deram ordens aos
Inquisidores para que usassem de brandura em casos precisos: Inocencio
IV, por exemplo, mandou aos Inquisidores Guillaume Durand e Pierre
Raymond que absolvessem Guillaume Fort, cidadáo de Pamiers; aos
24/12/1248 mandou soltar os hereges cuja punicáo Ihe parecía suficiente;
aos 5/08/1249, encarregou o bispo de Albi de restituir á comunháo da
Igreja Jean Fenassa de Albi e sua esposa Arsinde, condenados pelo In
quisidor Ferrier.

Em 1305 o Inquisidor de Carcassone provocou, por seus rigores,


a revolta da opiniáo pública: os habitantes de Carcassonne, Albi e Cordes
dirigiram-se á Santa Sé. As suas queixas foram acolhidas pelo Papa Cle
mente V, que aos 13/03/1306 nomeou os Cardeais Pierre Taillefer de la
Chapelle e Béranger Frédol para fazer um inquérito do que ocorria na re-
giáo; enquanto este seprocessava e as prisóes eram inspecionadas, esta-
a suspensa toda perquisicáo de hereges. Os dois prelados iniciaram a vi
sita aos cárceres de Carcassonne nos últimos dias de abril; encontraram
af quarenta prisioneiros que se queixavam dos carcereiros; estes foram
logo substituidos por o u tros mais humanitarios; aos deti dos foram assi-
naladas celas recém-reformadas e foi permitido passear per carreñas
muri largí ou em espago mais ampio; os guardas receberam a ordem de
entregar aos prisioneiros tudo o que fosse enviado pelo rei ou por seus
amigos para a sua manutencáo. Os dois Cardeais visitaram outrossim os
cárceres de Albi aos 4/05/1306; mandaram retirar as correntes que pren-
diam os encarcerados, designaram outros guardas, mandaram melhorar
as condicóes sanitarias das prisóes, abrindo janelas para a penetracáo da
luze doar.

Refere-se também que o Papa Honorio IV (1285-87) aboliu, na Tos-

502
"O MARTELO DAS FEITICEIRAS" 23

cana, as terrfveis Constituicóes que o Imperador Frederico li havia edita


do contra as heresias.1

Bonifacio VIII, tido como um Papa austero, mandou rever varios


processos de condenacáo de hereges; com efeito, tres meses após assu-
mir o pontificado, aos 29/03/1295, mandou revisar o processo do francis
cano Paganus de Pietrasanta; aos 13/02/1297 anulou a condenacáo, por
heresia, de Rainero Gatti de Viterbo e seus dois filhos, porque fora profe
rida na base de um testemunho manchado por perjurio. Em 1298 o
mesmo Papa mandou restituir aos filhos de um he rege os bens confisca
dos pela Inquisigáo. Intimou também ao Inquisidor da provincia de Ro
ma, Adáo de Coma, que deixasse de perseguir um cidadáo de Orvieto jé
absolvido por dois Inquisidores.

Estes dados históricos e outros que se poderiam acrescentar, nao


costumam ser citados pelos comentadores da Inquisicáo. Apresentam
geralmente aspectos negativos da mesma, sem levar em conta a mentali-
dade dos medievais e o que os próprios Inquisidores (assim como as
autoridades superiores) faziam para evitar injusticas e corregir abusos.
Ora um juízo objetivo e imparcial sobre o passado exige que, ao lado das
fainas, se apontem também os elementos atenuantes ou mesmo as justi
ficativas subjetivas daqueles que as cometiam.

2.3. O apreco da mulher

Tanto Rose Marie Muraro como Carlos Byington analisam o fenó


meno da condenagáo das bruxas como sendo um episodio do antifemi
nismo que, segundo eles, tem expressáo já na primeira página da Biblia;
esta apresenta a mulher como seduzida pela serpente e sedutora do ho-
mem (cf. Gn 3,1-7).

1 É de notar que a Inquisicáo nunca foi um tribunal meramente eclesiástico;


sempre teve a participagáo (e participagáo de vulto crescente) do poder regio,
pois os assuntos religiosos eram, na antígüidade e na Idade Méáa, assuntos
de interesse do Estado; a repressáo das heresias (especialmente dos cata
ros, que pilhavam e saqueavam as fazendas) era praticada também pelo bra
co secular, que muilas vezes abusou da sua autoridade. Quanto mais o tempo
passava, mais o poder regio se ingería no tribunal da Inquisicáo, servindo-se
da religiáo para fins políticos.

503
24 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 354/1991

Em resposta dir-se-á:

2.3.1. A Biblia e a muiher

Sem dúvida, o Amigo Testamento se aprésenla no estilo literario


de homens que viveram antes de Cristo e no Oriente. Nao obstante, de-
ve-se reconhecer que a Biblia dignifica a muiher como nenhum livro an-
tigo; basta lembrar algumas grandes figuras femininas que concorrem
para tecer a historia do Antigo Testamento: Rute, a moabita (livro de
Rute); Débora, a profetisa que desperta o senso nacional religioso dos
homens do seu tempo (Jz 4,1-5,31); Ana, máe de Samuel, autora de fa
moso cántico (1Sm 2,1-10); Judite, a heroína que salva sua gente em
Betúlia (livro de Judite); Ester, que intercede pelo seu povo e o preserva
do exterminio (livro de Ester); a máe dos ¡rmáos macabeus, que os inci-
tou corajosamente ao martirio (2Mc 7,20-23).

No Novo Testamento, María Ssma. é a grande figura feminina que


se torna a nova Eva ou a Máe dos viventes por excelencia, além da qual
outras mulheres aparecem associadas ao ministerio de Jesús (cf. Le
8,1-3;Mt27,55s).

Em sua Carta Apostólica sobre a Dignidade da Muiher, o Papa Joáo


Paulo II quis lembrar que a própria muiher em Gn 3 é apresentada como
Máe do Salvador e da linhagem dos que lutam contra a serpente e o pe
cado:

" 'Porei inimizade entre ti e a muiher, e entre a tua descéncia e a déla;


esta te esmagará a cabeca enguanto tu te tancas contra o seu calcanhar' (Gn
3,15). É significativo que o anuncio do Redentor, do Salvador do mundo, con-
tido nestas palavras, se refíra á muiher. Esta énomeada emprimeiro lugarno
Proto-Evangelho como progenitura daquele que será o Redentor do homem.
E, se a Redencáo deve realizarse mediante a ¡uta contra o mal, por meto da
inimizade contra a estirpe da muiher e a estirpe daquele que, como pai da
mentira, é o prímeiro autor do pecado na historia do homem, esta será também
a inimizade entre ele e a muiher" (n911).

Mais adiante diz o Papa:

"Em cada época e em cada país encontramos numerosas mulheres


perfeitas (cf. Pr 31,10), que - nao obstante perseguicóes, difículdades e dis-
criminacóes - participaram na missáo da Igreja. Basta mencionar aquí Moni-
ca, máe de Agostinho, Macrina, Olga de Kiev, Matilde de Toscana, Edviges da
Silesia e Edviges de Cracovia, Elisabeth da Turingia, Brígida da Suécia, Joana
¿'Are, Rosa de Lima, Elisabeth Seaton e Mary Ward.

504
"O MARTELO DAS FEITICEIRAS" 25

O testemunho e as obras de muiheres cristas tiveram um influxo signifi


cativo na vida da tgreja. como também na da sociedade. Mesmo diante de
graves discriminacóes sociais. as muiheres santas agiram de modo livre, for
talecidas pela sua uniáo com Cristo. Semelhante uniáo e liberdade enraizadas
em Deus explicam. por exemplo, a grande obra de Santa Catarina de Sena na
vida da Igreja e de Santa Teresa de Jesús na vida monástica"{n? 27).

Seria preconceituoso ignorar quanto o Cristianismo se empenhou


pela dignifica?,áo da mulher; esta tem em María SSma. o modelo da
grandeza que Deus atribuía mulher chamada a ser Máe... Máedo próprío
homem, que depende da mulher nos seus primeiros anos em grau sin
gular!

2.3.2. A Idade Media e a mulher

Urna grande historiadora contemporánea - Régíne Pernoud - tem-


se dedicado ao estudo da Idade Media, procurando dissipar os precon-
ceitos que contra tal fase da historia mu ¡tas vezes sao formulados gratui
tamente. Escreveu urna obra ¡nteira sobre a mulher medieval, com o tí
tulo "A Mulher no Tempo das Catedraís" (Gradíva, Lisboa); além do qué,
é autora dos lívros "Luz sobrea Idade Media" (Publícacoes Europa-Amé
rica, Mem Martins, Portugal), "0 Mito da Idade Media" (ibidem) e "Idade
Media: o que nao nos ensinaram" (Ed. Agir, Rio de Janeiro 1979; cf. PR
240/1979, pp. 520-534). A autora se esmera por mostrar como sao repeti
dos certos chavóes sobre a Idade Media, sem que as pessoas usem de
sadio senso crítico, antes mesmo movidas porconcepcóes predefinidas.

Eis alguns fatos mencionados por Régine Pernoud sobre a mulher


medieval, aptos a desfazer imagens erróneas:

Nos tempos feudais a rainha era coroada como o rei, geralmente


em Reims ou, por vezes, em outras catedrais. A coroapáo da rainha era
táo prestigiada quanto a do Reí. A última rainha a ser coroada foí Maria
de Mediéis em 1610, na cidade de Paris. Algumas rainhas medíevais de-
sempenharam ampias funcóes, dominando a sua época; tais foram Leo
nor de Aquitánia (+ 1204) e Branca de Castela (+ 1252); no caso da au
sencia, da doenca ou da morte do rei, exerciam poder incontestado, ten-
do a sua chancelaría, as suas armas e o seu campo de ativídade pessoal.

Verdade é que a jovem era dada em casamento pelos pais sem que
tivesse livre escolha do seu futuro consorte. Todavía observe-se que
também o rapaz era assim tratado; por conseguínte, homens e muiheres
eram sujeitos ao mesmo regime.

505
26 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS"354/1991

A Igreja lutou contra essa ¡mposicáo de casamentos; exigiu e exige


que os nubentes déem llvre consentimento á sua uniáo matrimonial e
formulou impedimentos diversos que, opondo-se á grandeza e á santi-
dade do casamento, o tornam nulo. De passagem observe-se que nem
mesmo em nossos dias a legislacáo mucu Imana garante á mulher a li-
berdade de escolha do seu marido.

Precisamente por causa da valorizado prestada pela Igreja á mu


lher, varias figuras femininas desempenharam notável papel na Igreja
medieval. Certas abadessas, por exemplo, eram auténticos senhores feu-
dais, cujas funcóes eram respeitadas como as dos outros senhores; ad-
ministravam vastos territorios com aldeias, paróquias; algumas usavam
báculo, como o bispo... Seja mencionada, entre outras, a abadessa Heloi
sa, do mosteiro do Paráclito, em meados do século XII: recebida o dízimo
de urna vinha, tinha direito a foros sobre feno ou trigo, explorava urna
granja...

As monjas da época eram pessoas instruidas e cultas dentro dos


padroes do seu tempo (século XII). A própria abadessa Heloisa ensinava
ás suas monjas o grego e o hebraico. A abadessa Hrotsvitha de Gan-
dersheim exerceu grande influencia literaria sobre os pafses germánicos;
atribuem-se-lhe seis comedias em prosa e rima, que imitam o estilo de
Teréncio (+159 a.CJ, comediógrafo latino. Alias, muitos mosteiros de
monges e monjas ministravam a instrucáo ás enancas da sua regiáo,
formando o que se chamava "escolas monasteriais".

É surpreendente aínda notar que a enciclopedia mais conhecida do


século XII se deve a urna mulher, ou seja, á abadessa Herradede Lands-
berg. Tem o titulo "Hortus Deliciarum" (Jardim de Delicias) e forneceas
¡nformacóes mais seguras sobre as técnicas do seu tempo. Algo de se-
melhante seencontra ñas obras de S. Hildegardis de Bingen.

Todavía o espécimen mais típico do papel que urna mulher podía


desempenhar na Idade Media, pode ser encontrado em Fontevrault
(Franca), no inicio do século XII. O pregador Roberto d'Arbrissel, tendo
conseguido a conversáo de numerosos homens e mulheres, resolveu
fundar dois mosteiros: um para os homens, e outro para as mulheres.
Entre eles erguia-se a igreja, que era o único lugar onde monges e mon
jas se podíam encontrar. Ora esse mosteiro foi colocado sob a autoridade
nao de um abade, mas de urna abadessa; esta, por vontade do fundador,
devia ser viúVa, tendo, pois, a experiencia do casamento.

Notemos ainda a figura de Joana d'Arc (1412-1431): a audiencia


que conseguiu da parte do re i da Franca e dos seus córteseos para de-

506
"O MARTELO DAS FEITICEIRAS" 27

sempenhar as suas fagan has heroicas, é realmente algo de extraordina


rio.

Mesmo as muiheres que nao eram altas damas, nem abadessas


nem monjas, mas camponesas ou profissionais de alguma arte da época,
exerciam sua influencia na vida pública. Com efeito; nos arquivos medie-
vais lé-se mais de uma vez o caso de uma muiher casada que agia por
conta própria, abrindo, por exemplo, uma loja comercial, sem precisar,
para isto, da autorizacáo do marido. Os registros de París datados do sé-
culo XIII a presenta m muiheres médicas, professoras, boticarias, tintu-
reiras, copistas, miniaturistas, encadernadoras. Tem-se hotfcia, cá ou lá,
das queixas de uma cabeleireira, de uma vendedora de sal, da viúva de
um lavrador, de uma cortesa...

É conhecido também o caso da camponesa Galhardina de Fréchou,


que, diante de uma proposta de arrendamento feita pelo abade de Sao
Salvino aos habitantes de Cauterets (Pirineus), foi a única a votar nao,
enquanto toda a populacáo votou sim. Alias, as muiheres votavam como
os homens, ñas assembléias rurais e ñas urbanas.

Foi somente no fim do secuto XVI, por um decreto do Parlamento


Francés de 1593, que a muiher foi explícitamente afastada das funcóes
públicas naquele país. E isto, por influencia do Direito Romano, que mais
e mais ia sendo adotado pelas legislares pós-medievais; foi entáo confi
nada áquílo que outrora e sempre foi o seu domfnio privilegiado: o lar e a
eriucacáo dos filhos.

Estes fatos tém significado em nossos dias, quando movimentos


feministas reivindicam os direitos da muiher na sodedade atual. Vemos
que tencionam precisamente superar um obscurecimento da figura femi-
nina que é pos-medieval. A Idade Media, no caso, bem poderia servir de
modelo á muiher contemporánea. Esta, porém, no afá de assumir seu lu
gar junto ao homem, parece ás vezes esquecer-se da sua própria identi-
dade e originalidade; é o que oberva muito a propósito Régine Pernoud:

"Tudo acontece como se a muiher. deslumbrada de saüsfacéo a idéia


de ter penetrado no mundo masculino, fícasse incapaz do estoico de ¡magma-
cao suplementar que Ihe seria preciso, para trazera esse mundo a sua pró
pria marca, aqueta precisamente que falta á nossa sociedade. Basta-lhe imitar
o homem. ser considerada capaz de exercer as mesmas proüssóes. de ado
tar os comportamentos, e ató os hábitos, em retaceo ao vestuario do seu par-
ceiro, sem mesmo por a si mesma a questáo do que ó em si contestável e do
que deveria ser contestado. É de perguntar se ela nao será movida por uma
admiragSo inconsciente, que se pode considerar excessiva. dum mundo mas-

507
28 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 354/1991

cuino que e/a acredita necessário e que basta copiar com tanta exatidáo
quanto for possivel, mesmo que seja á custa da perda da sua própria identida-
de e negando antecipadamente a sua originalidade" (p. 103).

Com estas ponderales tencionamos recolocar o livro "O Martelo


das Feiticeiras" no seu genuino contexto, fornecendo ao leitor aspectos
da historia da Inquisicáo que possibilitam mais objetiva compreensáo do
fenómeno. A objetividade do historiador nao pode consistir em negar
falhas e erros, mas exige que falhas e erros sejam considerados dentro
dos parámetros da época em que foram cometidos.

Ver a propósito:
PR 220/1978. pp. 150-163 (Igreja, Direitos Humanos e Inquisicáo)
PR 297/1987, pp. 82-94 (Inquisigáo Espanhola)
PR 300/1987, pp. 225-234 (Inquisigáo e Cristáos Novos)
Curso de Historia da Igreja por Correspondencia, Caixa postal 1362,
20001 Rio (RJ).

(continuacáo dap. 517)

"Exorto vivamente os pastores e a inteira comunidade dos fiéis a ajudar


os divorciados, promovendo com caridade solicita que etes nao se conside-
rem separados da Igreja, podendo, e melhor devendo, enquanto balizados,
participar da sua vida. Sejam exortados a ouvir a Palavra de Deus. a fre-
qüentaro Sacrificio da Missa, a perseverar na oragáo, a incrementaras obras
de caridade e as iniciativas da comunidade em favor da justiga, a educaros
filhos na fé crista,1 a cultivar o espirito e as obras de penitencia para assim
implorarem, dia a dia, a graga de Deus. Reze por eles a Igreja, encoraje-os,
mostre-se máe misericordiosa e susténteos na fé e na esperanga" (n9 84).

É para desejar que tais normas mais e mais reconfortem os fiéis


cuja vida conjugal fracassou ecuja fidelidade a Cristo e á Igreja permane
ce inabalável.

1 Precisamente esta norma implica que os país nao casados na Igreja pegam
o Batismo para seus filhos e significa outrossim que os clérigos nao devem
recusar o Batismo desses pequeninos, desde que haja certeza moral ou es
peranga fundamentada de que receberáo instrugáo religiosa. O que importa,
no caso, neo é o tipo de vida dos país, mas a formagáo religiosa dos filhos.
(NotadoRedator)

508
Fideüdade em xeque:

"Existe Saída? Para Urna


Pastoral dos Divorciados"
por Bernhard Háring

Em sintese: O Pe. Háring deseja acudir aos casáis infelizes em seu


matrimonio, facititando-lhes segundas nupcias. Para tanto, apela para o princi
pio da oikonomia ou da dispensacáo misericordiosa da graga divina vigente
entre os cristáos orientáis. Conforme o autor, a Igreja, seguindo o exemplo
dos ortodoxos, deveria conceder novo casamento aos cónjuges que tivessem
a convicgáo de que o seu casamento foi nulo, embora isto nao possa ser pro
vado objetivamente ou no foro externo e jurídico; os pastores de almas esta-
riam habilitados a abencoar sacramenta/mente essas novas nupcias, mesmo
á revelia da legislagáo oficial da Igreja.

Ora tal tese é inaceitável, porque o Senhor Jesús afirma que novas
nupcias de pessoas validamente casadas sao adulterio; cf. Me 10,11s; Le 16,
18: Mt 5,32; 19,9 e também 1Cor 7,11. E, para que conste que um casamento
contraído na Igreja nao foi válido, é preciso que baja pro vas evidentes e objeti
vas; nao basta a conviccáo subjetiva dos interessados, que fácilmente sepo-
dem engañar. Quem admite nova uniáo conjugal sem ter certeza de que a
primeira foi nula, admite a possibilidade de se cometer adulterio. Ora praticar
um ato cuja identidade nao é clara e que pode ser pecaminoso, já é acáo pe
caminosa. Com outras palavras: admitir um matrimonio que possa ser adulte
rio, é aceitar o adulterio hipotético; da mesma forma, ministrar a um enfermo
um remedio que possa ser contra-indicado, é ato culposo, pois quem o faz
admite a possibilidade de estar tesando a saúde ou a vida do próximo.

O livro do Pe. Háring pode ter sido inspirado por ótima intengáo, mas in
cita á desordem, ao subjetivismo e á burla de leis, sem as quais o bem comum
já nao é possivel.

A Igreja dedica especial atengáo aos divorciados, como bem demonstra


a Exortagáo Apostólica Familiaris Consortia se contrafram novas nupcias,
nao podem receber os sacramentos, mas freqüentem a S. Missa e rezem por
si e petos seus, pois o Senhor nao os abandona.

509
30 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 354/1991

O Pe. Bernhard Háring, famoso moralista, publicou um livro re-


centemente traduzido para o portugués com o título "Existe Saída? Para
urna Pastoral dos Divorciados".' Propóe idéias ¡novadoras, que "fazem
parte de sua preparado ¡mediata para a morte, com a firme confianca na
promessa do Senhor'Bem-aventurados os misericordiosos porque alean-
carao misericordia' (Mt 5,7)".

O livro tem chamado a atencao do público em geral, pois trata de


assunto delicado e candente. Eis por que exporemos o seu conteúdo, ao
qual se seguiráo alguns comentarios.

1. O livro e sua tese

O Pe. Háring está impressionado com o grande número de casáis


infelizes em nossos días. Nao podendo levar vida conjugal, separam-se e
desejam contrair novas nupcias. Esbarram, porém, com a legislagáo da
Igreja, que nao reconhece divorcio e direito a novo casamento, se o pri-
meiro matrimonio foi contraído validamente e consumado. Desojando
atender a tais situaedes, o Pe. Háring apoia-se no principio de que Deus é
misericordioso para com os infelizes. A luz desta premissa, propóe a se-
guinte tese:

Estamos na época do ecumenismo. É, portanto, oportuno que os


católicos considerem a mentalidade e a prática pastoral dos cristáos nao
católicos, para aprender deles o que seja conveniente; cf. pp. 38-40.54...2
Ora os orientáis ortodoxos ¡nstituem sua praxe pastoral sobre a base da
oikonomfa, palavra grega que em Teología significa "dispensario mi
sericordiosa da grapa divina". Eis como Háring define a oikonomfa pro-
fessada pelos cristáos orientáis:

"Óikonomfa significa todo o projeto salvifíco de Deus, como bom paide


familia que é, e designa urna espiritualidade que se caracteriza pelo louvorao

1 Traducáo de Gabriel Galache SJ. e Marcos Marcionilo. - Ed. Loyola, Sao


Paulo 1990,140x210mm, 100 pp.

2 "Nesses tempos de ecumenismo, a Igreja ocidental pode aprender, nesses


problemas e em outros similares, com o exempto da espiritualidade e da pra
xis das Igrejas ortodoxas, o que melhor serve a sua missño pastoral no mun
do de boje ou em ampios setores da Igreja Calórica, para mostrarse leal ao
Pai de familia que, tirando do seu tesouro divino de sabedoría, quer combinar
as coisas antigás com as novas" (p. 45).

510
"PASTORAL DOS DIVORCIADOS" 31

'administrador*' misericordiosi'ssimo da Igreja; 6 caracterizada tambémpela fé


no Bom Pastor, que conhece e chama pelo nome cada urna das suas ovelhas
e, quando necessário, abandona no redil as 99 que estáo a salvo e se póe a
caminho para ir, solícito e amoroso, atrás da ovelha perdida" (pp. 42s).

Quem adota o principio da oikonomía, prestará á Igreja urna obe


diencia nao inerme, mas criativa (cf. p. 57).

Essa criatividade compreende, entre outras coisas, o conceito de


epiquéia. Este conceito, de origem grega e jurídica, utilizado pela teolo
gía oriental, é propugnado por Bernhard Háring, que o entende do se-
guinte modo:

"A epiquéia é urna dimensáo eminente da virtude da prudencia para to


mar urna decisáo, quando há coliseo entre valores, leis e deveres... Santo
Afonso de Ligório, patrono dos moralistas, ensina de maneira inequívoca:

'Epiquéia significa a excecáo de um caso, quando numa situagáo dada


se pode jutgar com seguranca, ou ao menos com grande probabilidade, que
o legislador nao teve a intengáo de o incluir na lei'" (p. 78).

Com outras palavras: quando urna lei se torna muito onerosa para
determinada pessoa, a autoridade responsável pode declarar tal súdito
dispensado de cumprir a lei. Aplicando isto á doutrina do matrimonio, diz
8. Háring: quando um casamento "morreu" por falta de amor dos cónju-
ges ou de um deles e a vida una se torna muito penosa para os ¡nteressa-
dos, é-thes lícito contrair segundas nupcias desde que possam criar em si
a conviccáo subjetiva de que a primeira uniáo nupcial nao foi válida. O
segundo casamento será nao somente civil, mas poderá sertambém reli
gioso, diz Háring.

Em conseqüéncia, continua o autor, a Igreja tem que abrir máo da


sua prudencia tuciorísta. Tuciorismo2 vem a ser o sistema que opta sem-
pre pelas sentencas de moral mais seguras ou menos sujeitas a engaño
ou erro. Assim, por exemplo, o tuciorismo nao declara nulo um casa-

1 Oikonomia, em grego, quer dizer administragáo da casa ou simplesmente


administracáo. Donde se segué que o oikónomos é o administrador. Confor
me esta imagem, toda a historia da satvacáo é comparada á administracáo
dos dons de Deus, que vem a ser o administrador da graga.

2 A palavra vem de tutus, seguro, certo; donde se faz o comparativo tutíor(s


mais seguro); o sistema respectivo é o tuciorismo.

511
32 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 354/1991

mentó enquanto nSo haja plena evidencia de que foi nulo. Com outras
palavras: enquanto há razóos que permitem su por, a legitimidade de um
casamento, este é tido como legftimo; é preciso provar que tais razóes
tenues sao inconsistentes. Ora Háring critica o tucionismo na praxe ma-.
trimonial da Igreja:

"Por tras desse tuciorismo - deste querer proceder com seguranca ab


soluta - esconde-se o medo de um possñ/el pecado contra a sacramentalida-
de do matrimonio ao tolerar um segundo casamento. E assim se chega á apli-
cacao de um tuciorismo legalista precisamente num terreno táo sensívet e
doloroso. Neste caso se está esquecendo o axioma - incontroversivel - de
que 'os sacramentos sao para o homem'. E se esquece do mesmo modo o
principio fundamental, mais claro aínda, de que as leis sao para o homem e
neo o homem para determinadas leis de obrigatoriedade muito duvidosa"
(p.65).

Aínda em outros termos: para que a Igreja reconheca a nulidade de


um casamento, basta a certeza subjetiva dos cónjuges (ou, ao menos, um
juizo altamente provável) de que o matrimonio foi inválido; basta, pois,
urna apreciacáo pessoal, sem necessidade de pravas objetivas (testemu-
nhos fidedignos, documentos escritos, exames médicos...}:

"A questáo da epiquéia se póe antes de ludo quando os interessados,


depois de adequada reflexáo do pastor, estáo convictos de que o primeiro
matrimonio era inválido desde o comeco. Neste caso, por torga da virtude da
epiquéia, os interessados estáo autorizados, em principio, a contrair um se
gundo matrimonio. E, em minha opiniáo, também o pastor pode proceder dis
cretamente á cerimónia matrimonial" (p. 82).

Chega-se assim ao ponto culminante da tese de Háring: quando


dois cónjuges juigam com elevada probabilidade que nao estáo valida
mente casados, estáo habilitados a contrair cada qual nova uniáo matri
monial; o sacerdote poderá dar-lhe valor de sacramento, como fazem os
cristáos orientáis ortodoxos ou cismáticos. Assim se reproduziria entre os
católicos latinos o que se dá entre os orientáis separados, que tém um
ritual oficial para ministrar o sacramento do matrimonio aos divorciados.
Todavía a esta altura da sua explanacáo pergunta Háring:

"É preciso inscrevé-los no livro de registros de casamentas ou basta


consignar a cerimónia no forum internum (no foro interno da consciéncia)?"
(p. 82).

512
"PASTORAL DOS DIVORCIADOS" 33

E responde:

"Nos casos em que o ordinario do lugar nao quer proceder á apticacáo


da epiquéia e tampouco está inclinado a toleradla, há tres possíveis modos de
agir a respeito:

Primeiro: o pastor do lugar assume um ceño risco, disposto tanto a dar


coritas do assunto como a suportar castamente as conseqüéncias desagra-
dáveis que possam advir.

Segundo: ele informa aos parceiros que querem se casar de que em tal
situacáo podem proceder de acordó com a forma canónica da béncáo nupcial
para casos de necessidade, ou seja, empresenga de duas testemunhas, por
que simplesmente nao se dispóe de um sacerdote autorizado.

Terceiro: o casal, depois de se aconselhar com o confessoreo orienta


dor espiritual, celebre seu matrimonio civil como forma substitutiva da béngáo
nupcial para os casos de necessidade em que nao se dispóe de um sacerdote
autorizado para a celebragáo do matrimonio canónico, confiando em que, com
a graga de Deus, poderáo viver o seu segundo matrimonio de maneira a se
aproximarem o mais possíveldo ideal do matrimonio cristáo.

Concordando com a opiniáo de neo poucos moralistas, aou do parecer


de que se pode aplicar um desses tres modelos segundo as circunstancias,
quando a decisáo do tribunal eclesiástico é adiada durante anos, já foi adiada
ou, com toda probabilidade, se fará esperar; sempre supondo que os interes-
sados estejam convictos da invalidado de seu primeiro matrimonio ('com alta
probabilidadeT (pp. 82s).

Como se vé, a tese de Háring, embora procure guardar fidelidade á


Igreja e á Tradigáo, burla por completo a autoridade da Igreja e redunda
em subjetivismo total; solapa as normas objetivas da Igreja e dá ocasiáo a
que cada cristáo fa?a o seu Cristianismo de acordó com o seu modo de
ver pessoal, apoiado numa concepcáo flexível e bonachá de "misericordia
divina".

Eis aínda urna passagem significativa do pensamento de Háring:

"No caso do acompanhamento psicoterapéutíco dos divorciados que


voltaram a casar ou que estáo pensando em contrairum segundo matrimonio,
ater-nos-emos a urna idéia fundamental de Viktor Frankl e de outros psicote-
rapeutas: em vez de impor ás pessoas, sem mais nem menos, urna norma,
como por exemplo a norma que responde á nossa consciéncia ou que é sim
plesmente urna norma geral da Igreja, auscultaremos pacientemente como

513
34 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 354/1991

nosso interlocutor busca por si o caminho para o mais íntimo de sua cons-
tíéncia e quais sao os seus motivos e razóes.

Quando escutamos com urna consciénda despeña (conscientia como


conhecimento existencia! de experiencia em uniáo com outros) e examinamos
cuidadosamente todas as possibitidades, ajudamos nosso interlocutor em sua
busca honrada e sincera de mais luz. Nossa 'palavra'. nossos gestos, nosso
rosto tém de comunicar atento e nao expressarnenhum tipo de reprovag&o ou
desgosto. A nossa tem de ser sempre urna palavra daquele amor que é sin>
plesmentea verdade"(p. 60).

B. Háring considera, no final do seu livro, o caso de dois cónjuges


que vivam sob o mesmo teto (pois talvez precisem um do outro como
amigos), mas nao tém relagóes conjugáis. - A Santa Sé permite que re
ce bam os sacramentos, caso se conservem "como irmáo e irmá" e fre-
qüentem urna'¡greja em que nao sejam conhecidos. Ora Háring tenta
convencer o leitor de que a I greja nao faz mais caso da cláusula "viver
como irmáo e irmá", mas aceita que vivam conjugalmente e recebam os
sacramentos; cf. pp. 88-90. É, porém, evidente que tal cláusula subsiste
como é expressa na Exortacáo Apostólica Familiaris Consortio n- 84:

"A Igreja reafirma a sua praxis, fundada na Sagrada Escritura, de nao


admitir á comunháo eucarística os divorciados que contrairam nova uniáo.
Nao podem ser admitidos, do momento em que o seu estado e as suas condi-
cóes de vida contradizem objetivamente aqueta uniáo de amor entre Cristo e a
Igreja, significada e realizada na Eucaristía. Há, além disso, outro peculiar mo
tivo pastoral: se se admitissem essas pessoas á Eucaristía, os fiéis seriam
indúzidos em erro e confusáo acerca da doutrina da Igreja sobre a indissolubi-
lidade do matrimonio.

A reconciliagáo pelo sacramento da penitencia - que abriría o caminho


ao sacramento eucaristico - pode ser concedida aqueles que, arrependidos
de ter violado o sinal da Alianca e da fídelidade a Cristo, estáo sinceramente
dispostos a urna forma de vida nao mais em contradigáo com a indissotubili-
dade do matrimonio, teto tem como conseqüéncia, concretamente, que, quan
do o homem e a mulher, por motivos serios - quais, porexemplo, a educagáo
dos ñlhos - nao se podem separar, assumem a obrigacáo de viver em plena
continencia, isto é, de abster-se dos atospróprios dos cónjuges".

Em suma, o livro reflete o ánimo de quem senté profundamente o


problema dos casáis infelizes e os quer ajudar, baseando-se na miseri
cordia divina. Todavia cede ao subjetivismo, que menospreza nao so-
mente leis objetivas da Igreja, mas também as normas do Evangelho,
como se verá sob o subtítulo seguinte.

514
"PASTORAL DOS DIVORCIADOS" 35

2. Observacoes

0 livro do Pe. Háring nao pode deixar de sugerir algumas pondera-


?óes, pois toca em pontos-chaves da vida crista.

1) Antes do mais, notemos que o autor tem boa intencáo, procu


rando, de um lado, manter-se fiel á Igreja e, de outro lado, atender aos
casos de matrimonios infelizes: "Aqueles que buscam conselho e aquele
ou aqueles que o dáo, buscam a maior fidelidade possível ao manda-
mentó final do matrimonio indissolúvel, mas completamente dentro do
mandamento final aínda mais ampio: 'Sede misericordiosos como vosso
Pai do céu' " (p. 55).

Todavía a maneira como o Pe. Háring concebe essa fidelidade ao


preceito do matrimonio indissolúvel, anula propriamente a fidelidade,
como se verá a seguir.

2) Em nome da misericordia, Háring chega a legitimar a dissolucáo


de qualquer matrimonio fracassado. Basta que os esposos divorciados
tenham a convicgáo pessoal de que "o seu primeiro matrimonio era invá
lido de antemáo e estava condenado ao fracasso; deveriam entáo ter a fa-
culdade de voltar a se casar no Senhor" (p. 66).

A esta afirmacáo podem-se fazer duas ponderacóes:

- a misericordia nunca deve ser tal que permita ou legitime urna


infragáo da leí de Deus; ora a indissolubilidade do matrimonio decorre da
lei de Deus; cf. Me 10,11:

"Todo aquele que repudiar a sua mulher e desposar oulra, comete


adulterio contra a prímei/a; e, se essa repudiar o seu mando e desposar outro,
comete adulterio".

Ver outrossim Le 16, 18; Mt 5,32; 19,9; 1Cor 7,11;

- a nulidade do matrimonio, devidamente avallada ou comprovada,


permite, sim, a separacáo dos cónjuges com novas nupcias. Mas essa nu
lidade há de ser objetiva e lealmente demonstrada, para que nao venha a
acontecer que um adulterio (o segundo enlace) passe por legítimo casa
mento. O tuciorismo, no caso, tem plena razáo de ser, porque se trata do
dilema "Virtude ou Pecado?"; nao é lícito, em hipótese nenhuma, aceitar
o risco de cometer um pecado; quem aceita tal risco, já está pecando.
Com outras palavras: quem quer legitimar um novo casamento sem ter
certeza de que o primeiro foi nulo, está aceitando legitimar talvez um

515
36 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS"354/1991

adulterio; ora nunca me é lícito praticar um ato cuja identidade ignoro ou


que possa ser um pecado grave. Paralelamente nunca me é lícito dar a
um enfermo um remedio que possa ser contra-indicado; nao basta a
probabilidade nem a certeza subjetiva de que nao é contra-indica do; de-
vo chegar a certeza de que o remedio aplicado é o remedio certo, pois
está em risco a saúde ou a vida de um ser humano.

3) Para o Pe. Háñng, como dizlamos, a conviccáo subjetiva dos ¡n-


teressados sem o apoio de provas objetivas, é suficiente para se contrai-
rem novas nupcias. Tal subjetivismo é apto a esvaziar e burlar toda e
qualquer lei. É principio que torna ¡mpossível a vida dos homens em so-
dédade, pois a vida social requer normas objetivas, que todos possam
compreender, avalia r, e ás quais todos possam igualmente referir-se. Se
falta urna legislagáo social objetiva, a sociedade se torna caótica, e disto
sao responsáveis aqueles que, por "condescendencia misericordiosa",
solapam o bem comum.

Mesmo que alguém esteja sinceramente convicto de que seu ma


trimonio foi nulo, ainda nao se pode dizer que de fato ele foi inválido,
pois a realidade das coisas nao depende da sinceridade das convienes.
Alguém pode estar sinceramente convicto de algo que nSo seja verdade.

Notemos outrossim que a epiquéia é urna virtude que julga se, em


tais ou tais circunstancias particulares, a norma objetiva obriga ou nao
obriga a pessoa. Ora o juízo sobre a validade de um casamento nao é um
julzo de epiquéia; nao é um juízo sobre a apl¡ca?áo ou nao de determina
da lei. É, antes, a verificacáo de um fato: a uniáo entre tal homem e tal
muiher foi realmente um casamento ou teve apenas a aparéncia de ca
samento? Doutro lado, a epiquéia (a dispensa da lei) nao pode ser aplica
da quando a lei em foco nao admite exce?áo, como é a lei que proibe o
adulterio.

4) O Pe. Haring insiste em distinguir entre urna Moral legalista


(como seria a da Igreja) e urna Moral evangélica, que se inspira princi
palmente no amor e na misericordia de Deus (pp. 63-65). - A propósito
observamos: "legalismo" é aplicagáo cega de leis que ignora que a lei é
para o homem e nao o homem para a lei; isto nao é cristáo. A Igreja nao
é legalista, pois ela conhece a dispensa e a epiquéia; todavia ela insiste na
observancia de leis, mesmo quando penosas, desde que redundem no
bem do próprio homem; nem tudo o que é oneroso, deve ser rejeitado; o
bem particular e o bem comum pedem a fidelidade a deveres que pos
sam exigir algum sacrificio.

5) O Pe. Háring afirma: "Hoje o direito ao matrimonio e a formar

516
"PASTORAL DOS DIVORCIADOS" 37

urna familia é considerado e sentido como um dos dircitos humanos


mais fundamentáis" (p. 66). Dal se seguiría que segundas nupcias consti-
tuem um direito impreterivel (ou quase) para toda pessoa infeliz em seu
primeiro casamento.

- Respondemos: a perspectiva do Senhor no Evangelho é outra.


Com efeito, em Mt 19,12 diz Jesús:

"Há eunucos que nascem tais desde o ventre materno. E há eunucos


que foram leitos eunucos pelos homens. E há eunucos que se fizeram eunu
cos por causa do Reino dos céus".

Os eunucos que se fizeram tais por causa do Reino dos Céus, nao
sao os que voluntariamente abracam o celibato. Na verdade, os antece
dentes do texto falam da indissolubilidade do matrimonio... indissolubili-
dade que espanta os Apostólos a ponto de exclamarem que, nessas con-
dicóes, é melhor nao se casar. Jesús nao Ihes respondeu positivamente,
mas insistiu na sua proposicáo: deu a entender que urna pessoa infeliz
em seu casamento deve passar a viver como eunuco por causa do Reino
dos Céus. 0 terceiro tipo de eunuco, portanto, é o daqueles que, nao con-
seguindo viver seu matrimonio, sao chamados á vida una-por amor do
Reino dos Céus! A tal ponto chega a radicalidade do Evangelho, que
certamente nao é bonacháo!

6) O ecumenismo ou a aproximagáo dos cristáos separados nao há


de ser cultivado mediante derrogacáo á verdade revelada por Jesús
Cristo. A genuína caridade nao pisoteia a verdade, mas, ao contrario, res-
peita-a, como diz Sao Paulo: "Seguiréis a verdade em amor" (Ef 4,15).
Háring insiste em que os católicos tém que aprender dos demais cris
táos... Nao há dúvida, mas isto nao há de ser feito indistintamente; além
do qué, a recíproca também é verdadeira.

7) O recurso á autoridade de S. Afonso María de Ligório (+ 1787),


freqüente no livro em foco, toma características incompatíveis com a
Moral católica. S. Afonso nao abonaría o pensamento do Pe. Háring,
muito marcado pelo subjetivismo e a crítica á autoridade da Igreja.

Eis por que lamentamos a publicacáo de tal obra nao somente em


sua língua original alema, mas em diversas traducóes, propensas a dis
seminar incertezas e desordem (ou mesmo subversáo) na praxe pastoral
da Igreja. Aos divorciados a Igreja dedica especial solicitude expressa ñas
palavras da Exortacáo Apostólica Familiaris Consortio:

(continua na p. 508)

517
Nova Era:

"New Age": Que é?

Em sfntese: New Age (Nova Era) é urna corréate de espiritualidade


que tem suas origens remotas principalmente no pensamento "místico" de
Emanuel Swedenbog (+ 1722), no dos Transcendentalistas norte-americanos
do comego do sáculo XIX e no da Teosofía fundada por Helena Blavatsky em
1875. New Age vem a ser urna réplica ao racionalismo dos sécutos XVIII/XIX
e ao materialismo do secuto XX; pretende fundir numa só corrente elementos
do judaismo, do Cristianismo, das religióes orientáis (especialmente do hin-
duismo), além de principios do ocultismo, da magia, da terapia espiritual...

A "Nova Era", como ela hoje se aprésenla, carece de um sistema de


doutrinas claras e sólidas, pois abriga em seu seio conceitos e atitudes hete
rogéneos e incoerentes. Pode-se dizerque o inicio do New Age contemporá
neo ocorreu na década de 1960; com efeito, em 1968 a cancáo Aquariusdo
conjunto musical Hair divulgou amplamente as concepgóes que hoje fazem
parte da mensagem da "Nova Era".

Tais concepgóes sao: a de totalidade (o que lembra o holismo), em opo-


sigáo aó esfacelaménto do saber que as ciencias especializadas de nossos
éas impóem ao pesquisador; o de transformagáo do homem e do mundo me
diante a criacáo de urna consciéncia única e universal; nessa transformagáo
exercerá importante papel Jesús Cristo, tido como portador da síntese de to
das as tradigóes religiosas. Jesús continua sua missáoaté hoje, encarnándo
se em cada mestre de espiritualidade; ele será o "Salvador" da humanidade,
consumando a evolugáo. Esta se faz mediante reencarnagóes sucessivas,
que dáo ao individuo a ocasiáo de se aperfeigoar cada vez mais. A "Nova
Era", em vez de talar de Deus Pai, prefere referirse á Deus-Máe, que é a Tér
ra, Gata (nome derivado do grego), a qual exige dos homens respeito á natu-
reza ou o cultivo da ecología.

Como se vé, New Age é urna expressáo do incoercivel senso religioso


existente no homem de todos os tempos. Compreende-se a expectativa, de
New Age, de urna nova era, em substítuigáo á presente era, achatada pelo
materialismo; mas deve-se observar que tal expectativa, como é formulada

518
'NEW AGE": QUE É? 39

por New Age. é lalha por ceder exclusivamente aos sentimentos e ás emo-
cóes, desligada da bússola e das luzes da razSo. Tal atitude redunda em mero
jogo de palavras, que pode ter um caráter festivo e aprazivel, mas é de todo
inconsistente.

Entre as novas correntes religiosas que atraem o público de nossos


días, destaca-se a "Nova Era" (New Age). As suas características nao
sao rígidas nem muito claras para quem ouve ou lé algo a respeito; tor
na-se assim difícil definir a proposta de espiritualidade que apresenta.

Procuraremos, pois, tragar um esbogo das origens e das concep-


cóes que perfazem a mensagem da "Nova Era".

1. Origem

Pode-se dizer que "Nova Era" é urna corrente eclética, na qual se


fundem elementos do judeo-cristianismo, da.gnose antiga,' do-ocultis
mo, da magia e das religióes orientáis.

A origem de tal corrente na Idade Moderna deve-se, em parte, a


Emanuel Swedenborg (1688-1772), "místico" sueco. Este defendía a tese
de que Deus se vai revelando progressivamente no decurso da historia;
Swedenborg filia va-se á tradicáo de pensadores medievais, como Joa-
quim de Fiore2 e seus discípulos "espirituais" assim como ao pensa-

' A Gnose ou o Gnosticismo é um sistema depensamento eclético resultante


da fusáo de correntes ñbsófícas e religiosas gregas e orientáis pré-cristás
com elementos da Biblia e do Cristianismo dos secutas II/IV. Añrmava que a
salvagáo vem de conhecimentos secretos (Gnose) reservados a iniciados; a
materia, como tal, seria má; o espirito seria bom - o que corresponde á teoría
do dualismo.

2 Joaquim de Fiore (+ 1202) esperava para o ano de 1260 a imipgáo de nova


era dita "do Espirito Santo", na qual se daría urna interpretagáo nova, "mais
profunda" ao Evangelho: a estrutura jurídica da Igreja cedería aos carísmas
dos monges e dos cristáos "espirituais"!

519
40 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 354/1991

mentó de Paracelso (1493-1541),' Jakob Boehme2... e d¡zia-se receptor


de revelacóes provenientes do mundo superior ou divino. Imaginava que
com o tempo so haveria uma "Igreja espiritual", baseada na experiencia
Intima dos devotos; nao se deveria esperar uma nova vinda de Cristo
para consumara historia (Cristo já viera em 1757), mas sedeveriam admi
tir migracóes das almas pelas esferas do astral.

Contemporáneo de Swedenborg era Franz Friedrich Antón Mesmer


(1732-1815), o descobridor do "magnetismo animal", que lutou em prol
do espiritualismo contra o pensamento racionalista e as tendencias ma
terialistas do século XVIII.

Swedenborg exerceu influencia sobre a corrente dos "Transcen-


dentalistas" norte-americanos. Entre estes, teve relevo R.W. Emerson,
que combinou entre si elementos de mística na turista,3 religiosidade
oriental (haurida na leitura do Bhagavad Gita) e filosofía norte-americana
(como individualismo e desenvolvimento). Os Transcendentalistas afir-
mavam o primado da intuicáo sobre a razáo; opunham-se tanto ao ma
terialismo e ao utilitarismo quanto ao tradicionalismo. R.W. Emerson,
H.D. Thoreau e outros fundaram o Transcendental Club em 1863 na
cidade de Bostón.

Na Europa as idéias místicas ou espiritualistas encontraram boa


acolhida na corrente romántica, que fazia antítese ao racionalismo e ao
materialismo; valorizava a intuicáo, a imaginacáo e o individualismo. Em

1 Paracelso é o nome pelo qualse tomou conhecido Phitippus Aureolus Theo-


phrastus Bombastus von Hohenheim, alquimista suíco. Preconizou uma nova
terapéutica das doencas, baseada no principio de que o corpo humano é
constituido de elementos básicos - como o sal, o mercurio, o enxofre - cujo
desequilibrio provocaría todas as doencas. Introduziu o ferro, o chumbo, o en
xofre e o arsénio na química farmacéutica, abrindo o caminhopara a modema
quimioterapia.

2 Jakob Boehme (1575-1624) professou uma mística singular, precursora do


hegelianismo: concebida Deus como um ser que gera a si mesmo e se de-
senvolve em etapas sucessivas, segundo a dialética do Sim e do Nao,
Boehme sofreu influencia da filosofía renascentista, que muito se afastava do
dássico pensamento cristáo.

3 A contemplagáo dos astros, dos mares, das florestas e das demais criaturas
estaría na base da Mística naturista.

520
•NEWAGE":QUEÉ? 41

conseqüéncia dessa receptividade, pode ser publicada em 1929 a primeira


Enciclopedia do Pensamento da Nova Era.1

Ainda como fruto da Mística eclética, foi fundada a comunidade


Monte Veritá perto de Ascona (Suíca). Já no fim do século XIX existia
nesse local urna Escola Esotérica, devida a diversas corren tes de pensa
mento (socialistas, anarquistas, literatos, artistas, ecologistas, psicólo
gos...); tal Escola mantinha intenso contato com grupos ocultistas de Ber-
lim, Londres, Roma e outros centros urbanos. Em última' análise, tratava-
se de urna especie de mosteiro, cujos membros (leigos) tentavam viver. o
sonho de urna existencia sem controle de autoridade e individualista, em
lugar da existencia burocrática da sociedade industrial de fins do século
passado; queriam fazer a experiencia dos valores da natureza em oposi-
cáo á religiosidade convencional das aglomeracóes urbanas. Foi lá que o
romancista Hermann Hesse adquiriu a sua estima pelo pensamento in
diano; foi lá também que, a partir de 1933, se encontraram, para deba
tes, varios dos pensadores que inspiraram a "Nova Era" de nossos dias:
Cari Gustav Jung, H. Zimmer, G. Scholem, Mircea Eliade, D. T. Suzuki; a
leitura dos anais de Monte Veritá póe em relevo a tendencia, lá exis
tente, a fundir as tradicóes secretas da humanidade numa "religiáo gnós-
tica universal". O grupo de Ascona exerceu notável influencia sobre o
pensamento religioso de varios mestres da "Nova Era" contemporánea.

Outra matriz de New Age é a Teosofía fundada por Helena Pe-


trovna Blavatsky (1831-1891) em 1875 na cidade de Nova lorque. A fun
dadora amalganiavaem sua mensagemconcepcdes espiritualistas do Oci-
dente e tradicóes esotéricas do Oriente, especialmente da India; tinha por
meta criar urna religiáo universal, que congregasse todos os homens em
fra temida de. A discfpula teosofista Alice Bailey deixou escritos que for
mula vam programas de pensamento e vida fecundos em inspiracóes
para a "Nova Era" contemporánea.

Em conclusáo, verificarse que as premissas da corrente moderna


dita New Age se encontram na cultura do fim do século XIX como rea-
cáo contra o materialismo da época, que alguns pensadores queriam
substituir por urna religiáo e urna cultura de ámbito universal. Nao é fácil
assinalar com precisáo o ano em que nasceu o movimento New Age
contemporáneo, visto que muitas das suas concepcóes estavam em voga
desde o século XVIII. Mas pode-se dizer que na década de 1960 se ex-
pandiu decisivamente o conjunto de idéias que hoje constituem a mensa-

1M. Mueller - Senftenberg, Die Erfüllung des Neuen Weltalters (O cüm-


primento da Nova Era). Leipzig 1929.

521
42 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS"354/1991

gem da "Nova Era"; para tanto, muito contribuiu a cangáo Aquariusdi-


vulgada amplamente pelo conjunto musical Haira partir de 1968.

Examinemos agora os principáis traeos doutrinários de New Age.

2. New Age: as grandes linhas da mensagem

2.1. Notas gerais

A corrente "Nova Era" nao é propriamente um sisteme concatena


do de pensamento, mas é antes a expressáo livre, flexível e um tanto va
ga de uma consciéncia religiosa infensa ao materialismo e voltada para o
esplritualismo. Pode haver mais de uma orientacáo (diversas linhas mís
ticas misturadas com práticas terapéuticas e mágicas) dentro da corrente
New Age, pois se trata de um sentimento religioso um tanto genérico;
algo de certo, porém, é que New Age tende a destruir os valores religio
sos e a cosmovisáo tradicionais; opóe-se ao otimismo dos cientificistas,
que julgavam poder propiciar ao género humano respostas e felicidade
mediante o constante progresso da ciencia e da técnica; o perigo da
bomba atómica e de uma catástrofe mundial assim como a miseria do
Terceiro Mundo dissiparam as expectativas sonhadoras das últimas gera-
cóes. Mais recentemente aínda, o desmoronamento dos regimes mate
rialistas do Leste Europeu, que prometiam o paraíso através das con
quistas científicas do mundo, concorreram para amortecer a euforia de
muitos cidadáos contemporáneos; entregando-se ás emopóes, estes pro-
curam na "mística" a resposta para as suas aspiracóes, movidos mais
pelos sentimentos cegos ou irracionais do que pela lógica de serio racio
cinio. É o que explica tres notas típicas de New Age:

1) a existencia de uma corrente terapéutica, mágica e pragmática,


ao lado de uma ala mais religiosa e mística;

2} a existencia de tradicóes ocultas, reservadas aos gnósticos (co-


nhecedores iniciados); admitem fo reas cósmicas misteriosas a exercer in
fluencia sobre os homens, como alias ocorria (e ocorre) ñas religióes
primitivas, dadas á fantasía, e á emocao mais do que á lógica e á fé. É o
que esclarece a terceira nota de New Age:

3) caráter eclético e sincretista: elementos diversos, tradigóes nem


sempre conciliáveis entre si, como a judia, a crista, a hinduísta, a mono
teísta, a panteista..., encontram-se presentes em New Age.

522
"NEWAGE":QUEÉ? 43

2.2. Traeos singulares

Podem-se apontar seis notas específicas da "Nova Era":

2.2.1. Totalidade

O movimento New Age pretende apresentar urna yisáo globali-


zante do mundo e do homem, emopojigáqj fragmentac áojtos_cQnhfiA
cimentosquéXespecializapló3efltífiJMhoje impóe aos pesquisadores^1 O
género humano e o mundo nao sao considerados comourria grande má
quina, cujo interesse é produzir e cujas pecas podem desprender-se
urnas das outras, mas, sim, como um organismo vivo e urna rede harmo-
niosa de relacóes dinámicas. As ciencias naturais e a mística devem dar
se as máos nesse contexto: a Física, a Química, a Biología, a Economía, a
Política... se ¡ntegrariam num so todo com concepcóes espiritualistas
(panteístas).

2.2.2. Transformacáo

Os adeptos de New Age imaginam que, para criar urna consciéncia


planetaria, é preciso que todas as atividades dos homens convirjam, co
mo se fossem as células de um cerebro global, colaborando entre si. Isto
deverá transformar as consdéncias individuáis ou o modo de pensar de
cada individuo. Tal transformacáo acarretará a salvacáo de cada um e de
todos. Desprender-se-áo as energías espirituais de cada individuo, das
quais resultará um mundo espiritual. Verda de é que as ¡nstituiedes clássi-
cas do mundo presente resistiráo a tal transformacáo; mas a nova ordem
de coisas acabará por impor-se.

2.2.3. Ecología

Os atuais problemas ecológicos nao sao o único obstáculo para


urna revalorizacáo da natureza. "Gaia", a máe-deusa Térra2 é um orga
nismo vivo, de dimensóes planetarias, cujo órgao executivo é o género
humano. Vé-se que, no lugar de Deus Pai transcendente, é estabelecida a
deusa-máe imánente, cuja energía tudo penetra. A "Nova Era" vale-se

1 Tal tese da "Nova Era" lembra a do Hotismo, que pretende unir numa viseo
totalizante ou gbbafízante todos os conhecimentos e ritos da humanidade. Ver
a propósito PR 328/1989. pp. 425-431.

2 Em grego ge quer dizer "tena". Gaia é nome mitológico derivado de ge, de


signando a deusa-máe Térra.

523
44 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 354/1991

do conceito pagáo para explicar melhor sua perspectiva: pagSo vem de


paganus, e paganusvemde pagus,aldeia;porconsegu¡nte,dizem, pa
gáo é o aldeáo. Quando o Cristianismo comecou a se propagar, entrou
primeiramente ñas cidades (cf. os Atos dos Apostólos), deixando as al-
deiasou as regióes interioranas para uma segunda fase de evangelizado;
por isto paganus, aldeáo, passou a designar o "náo-cristáo" ou o cultor
dos deuses; era geralmente dedicado á agricultura ou ao trabalho cam
pestre. Pois bem; New Age apregoa o retorno ao paganismo, ou seja,
a religiosidade nao crista, naturista, devotada ao cuidado da natureza (e-
cologia) e dos campos. Paganismo, lembrando a rejeicáo do Cristianis
mo (tido como religiáo das cidades e do Imperio Romano antigo) e o de-
votamento á natureza e ao seu cultivo, vem a ser um ideal de New Age.

2.2.4. Reencarnado

A reencarnado é tida como uma escola ou uma pedagogía através


da qual cada individuo chega á perfeicáo espiritual. É também um con
ceito central da "Nova Era", ao qual se agregam outras concepcóes. A
reencarnacáo, porém, para a "Nova Era", tem sentido um pouco diverso
do que tem ñas religióes orientáis; estas entendem a reencarnacáo como
castigo imposto pela lei do karma, em conseqüéncia da qual o individuo
tende a escapar do samsara ou do ciclo das reencarnagóes. Ao contrario,
na "Nova Era" a reencarnacáo é vista com otimismo, como caminho de
evolugáo espiritual: o homem nao precisa da misericordia de Deus para
atingir a perfeicáo do espirito, mas basta que procure desenvolver suas
virtualidades latentes através das sucessivas encarnacóes.

2.2.5. Jesús Cristo

A "Nova Era" fala freqüentemente de Cristo como figura impor


tante no processo de desenvolvimento da humanidade e do mundo. Ele
possui a auténtica consciéncía e dá parte em si a todos os seus seguido
res. Todavia, quando New Ágese refere ao Logos solar, nao entende o
Jesús da Bfblia, mas a personificacáo de um Mestre universal, que se re
encarna em cada mestre espiritual e que consumará a evolugáo do gé
nero humano como Salvador.

Segundo a "Nova Era", Jesús esteve na india dos doze aos trinta
anos; a sabedoria que Jesús lá aprendeu, é a súmula de todas as tradi-
cóes de espiritualidade e mística. Em conseqüéncia a Biblia há de ser lida
á luz dos elementos religiosos do budismo e do hindulsmo, sem os quais
o Novo Testamento nao pode ser devidamente compreendido.1.

1A tese de que Jesús esteve na india, já foi exposta e refutada em PR


321/1989, pp. 82-95.

524
'NEWAGE":QUEÉ? 45

2.3. A organizado

A "Nova Era" se organiza de maneira um tanto frouxa. Ela admite:

- ouvintes, que se reúnem em torno de algum ponto de interesse


comum: urna revista, como seria Esotera; livros de um(a) autor(a), como
Shirley Maclaine, M. Ferguson; programas de televisáo, como "E.T."
(Extra-terrestre) ou objetos de índole misteriosa ou quase religiosa (dis
cos voadores)... Tais pessoas sao membros pouco comprometidos da
"Nova Era", fazendo da religiáo um fugaz artigo de consumo e elitismo;

- estudiosos de magia, astrologia, terapéutica espiritual (o


que se aproxima do curandeirismo).Taispessoaspretendem efetuar
urna ressacralizacáo dos diversos ambientes da vida mediante práticas
religiosas ou para-religiosas,' extraídas, sem criterio nem discernimento,
das mais diversas tradicóes religiosas. Esses muitos elementos heterogé
neos (idéias, doutrinas, práticas de magia, de culto...) devem, segundo os
mestres da "Nova Era", criar urna nova consciéncia na humanidade, de
acordó com o slogan "Pensa globalmente, age globalmente", slogan
que legitima a fusáo de conceitos e comportamentos de todo tipo.

3. Conclusáo

A "Nova Era" se aprésenla como urna impetuosa corrente de pen-


samento e vida, que pretende restaurar em nossos días o senso religioso
achatado ou sufocado pelo materialismo. Ela é síntoma eloqüente do va-
zio interior e da sede de espiritualidade do homem contemporáneo. Este
sabe, no seu íntimo, que existe algo maior do que os valores visíveis e
materiais; sabe que existe o "Santo", e procura-o sentimental e emocio-
nalmente, mas desligando-se das luzes do raciocinio, que é a luz indis-
pensável para a reta caminhada do género humano.

Compreende-se que os cidadáos de hoje, cansados pelo desgaste


da vida absorvente e agitada que levam, procurem urna "Nova Era". O
título é atraente, mas a proposta da corrente que o utiliza, é ilusoria; os
elementos que constituem fundamentalmente a mensagem da "Nova
Era", encontram-se cabalmente no Cristianismo: este professa um apelo
de Deus ao homem para que se encaminhe em demanda da perfeicáo
mediante a comunháo com Jesús Cristo. O Senhor veio precisamente
reunir todos os homens numa so familia, em que nao deve haver barrei-

1 Para-religioso é o que fica ao lado (para) da Religiáo. Éoque se assemelha


á Religiáo, embora nao o seja explícitamente.

525
46 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 354/1991

ras de rac.a, sexo, condicjio social; nessa familia cada qual encontra a sua
plena auto-realizacjto, iluminado pela verdade, e nao apenas pelas emo-
cóés.

O Cristianismo, que teve a for?a necessária para fazer do mundo


greco-romano decrépito um novo mundo e urna nova era, é hoje o
mesmo que outrora. Possui ainda e sempre a mesma eficacia de fer
mento capaz de transformar a humanidade e seu mundo em novas cria
turas, iniciando urna auténtica Nova Era.

Possam os cristáos ter consciéncia da forca do Evangelho que pro-


fessam (cf. Rm 1,17) e pó-la em prática, proclamando-a e implantando-a
em todos os seus ambientes de vida! E New Age deixará de ser um so-
nho para tornar-se urna realidade!

PRESENTE DE NATAL

CARO(A) LEITOR(A), SE ESTA REVISTA LHE AGRADOU,


PROCURE DIFUNDI-LA ENTRE OS SEUS AMIGOS.

DANDO COMO PRESENTE DE NATAL UMA ASSINATURA


ANUAL DE PR, VOCÉ SE FARÁ PRESENTE AOS SEUS AMIGOS
DOZE VEZES POR ANO.

NO TURBILHÁO DE IDÉIAS E PROPOSTAS QUE HOJE AGI-


TAM OS HOMENS, TEM PLENO LUGAR UMA REFLEXÁO SOBRE A
VIDA E SEUS ACONTECIMENTOS TECIDA A LUZ DO EVANGE
LHO E DA SANTA IGREJA DE CRISTO.

O AMOR AO PRÓXIMO CONSISTE TAMBÉM EM AJUDÁ-LO A


DESCOBRIR O SEU CAMINHO NESTE MUNDO, CAMINHO QUE O
LEVE Á RESPOSTA DEFINITIVA DEVIDA ÁS SUAS MAIS PRO
FUNDAS ASPIRACÓES.

526
Depoimentos:

Do Anglicanismo ao
Catolicismo
Em sfntese: As páginas seguintes dáo noticias de problemas ocorren-
les na Comunháo Anglicana em conseqüéncia de inovagóes ousadas. Publi
camos tais noticias sem querer compartilhar seu pessimismo, mas única-
mente porque poderao servir de referencia! a fiéis católicos desejosos de 1a-
zer experiencias semelhantes ás que ocorrem no Anglicanismo. O amor ao
patrimonio da té e da disciplina da Igreja poderá ajudá-tos a ponderar as pos-
sfveis conseqüéncias de ousadas inovagóes na Igreja Católica.

A Comunháo Anglicana, separada de Roma desde 1534 por obra do


rei Henrique VIII, desejoso de obter divorcio, tem vivido momentos im
portantes. Entre outros fatores, a ordenac.áo de muiheres vem suscitando
mal-estar entre membros do Anglicanismo, visto que tal praxe rompe
uma tradigáo de quase vinte sáculos. 0 Boletim Liaisons Latino-Amé-
ricaines n- 83 (julho-agosto de 1991) P. 7 pública a respeito.algumas
noticias, das quais abaixo segué a traducáo portuguesa:

"O Reverendo David Curry, Vigário anglicano até recente data,


apresentuu seu pedido de demissáo da paróquia de Castleford (Leeds)
para ser recebido na Igreja Católica; tal pedido foi formulado apenas tres
semanas depois de comegar a exercer as suas funcóes.

O Reverendo David Curry, 31 anos, declarou que tomou esta deci-


sáo após longa reflexáo. O seu bispo anglicano julgou a atitude desse
neo-convertido ao Catolicismo, surpreendente e difícil de ser compreen-
dida, visto ter passado táo pouco tempo na sua paróquia. David Curry é
celibatário e foi ordenado diácono há quatro anos.

Outra conversáo a o Catolicismo, ainda mais significativa, foi a do


Dr. William Oddie, ministro anglicano de 51 anos de idade. É personali-
dade muito conhecida por sua atitude critica frente á recente evolucáo da
Comunháo Anglicana.

O Dr. Oddie - que foi recebido na Igreja Católica por ocasiáo da


Páscoa, juntamente com a sua famflia - declarou que a Igreja da Ingla
terra se tornara uma seita protestante liberal. Afirmou outrossim que a
ordenacáo de muiheres destruiría toda esperanca de uma reuniáo com
Roma. Para ele, essa decisáo é claro síntoma da decadencia do Anglica
nismo, cuja causa é o empalidecimento da doutrina: "Atualmente, expli-

527
48 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS"354/1991

oou, alguém pode tornar-se ministro anglicano sem que sejam averigua
das as suas convienes profundas".

Os anglo-católicos

Em recente número da revista Ecclesía, que pertenceao ramoan-


glo-católico do Anglicanismo, afirma um editorial que, se a Igreja da In
glaterra admitir decisivamente a ordenacáo de mulheres, haverá plena
justificativa para abandonar a Comunháo Anglicana e pedir admissáo na
Igreja Católica.

O editorialista considera a ordenacáo das mulheres como urna ca


tástrofe. Acrescenta que muitos anglicanos ainda estáo longe da Igreja
Católica por seu modo de pensar e discordam da Literatura Católica, mas
nao questionam a validade dos sacramentos católicos. Reconhecem ou-
trossim o prestigio do Papa Joáo Paulo II, de tal sorte que muitos sao os
anglicanos dispostos a seguir o caminho tracado por Roma e a abando
nar o que elesconsideram a Igreja apóstata da Inglaterra.

O mesmo editorial considera que é plenamente aceitável, para os


ang lo -cató lieos (setor conservador da Comunháo Angticana), unir-se a
urna das Comunidades Ortodoxas ou criar um novo ramo anglicano ¡n-
dependente da Igreja da Inglaterra.

Ainda na mesma linha de idéias, o boletim Ecumenismo-lnfor-


macóes escreve, sob a responsabilidade de Margaret Mayne: 'Entre os
ministros (presbíteros anglicanos) a corren te próxima da tradicáo católica
receia a questáo da ordenado das mulheres, que poderia ocorrer em
1995. Alguns pessimistas prevéem a defécelo de cerca de mil ministros
após aquela data, ou mesmo o desmoronamento da Comunháo Anglica
na inteira'.
'Alguns observadores véem os problemas com olhar menos pessi-
mista. Durante quatro sáculos, dizem, a Comunháo Anglicana tendeu a
aperfeicoar a arte de viver nao por urna vía media perfeita, mas por um
estado de tensáo interna permanente e vivificante'.
'Certamente o Dr. Carey (arcebispo anglicano de Cantuária) nao fa
vorecerá rup.turas, mas... o futuro pertence a Deus' ".
• • #

Nao há dúvida, o presente noticiario é pungente. Será exagerada


mente pessimista? - Sem poder responder a esta pergunta, afirmamos
nosso pleno respeito á Comunháo Anglicana; contudo julgamos oportu
no publicar as observares atrás porque poderáo servir de referencia! a
fiéis católicos desejosos de fazer experiencias semelhantes ás que ocor-
rem na Comunháo Anglicana. O amor ao patrimonio da fé e da disciplina
da Igreja poderá ajudá-los a ponderar as posslveis conseqüéncias de ou-
sadas inovacóes na Igreja de Cristo. Estéváo Bettencourt O.S.B.

528
NA FESTA DE TODOS OS SANTOS (1/11)

"OS SANTOS DA IGREJA SAO O COMENTARIO MAIS IM


PORTANTE DO EVANGELHO, PORQUE SAO A INTERPRETA-
CAO ENCARNADA DA PALAVRA ENCARNADA DE DEUS E,
PORTANTO, SAO REALMENTE UMA VÍA DE ACESSO A JE
SÚS".

Hans Urs von Balthasar, teólogo católico

"JUNTOS BUSCAMOS A FORMA DA VIDA CRISTA E DA


COMUNIDADE CRISTA NESTE TEMPO DE REVOLUCÁO. A Sh
TUACÁO TORNOU-SE DE TAL FORMA SERIA QUE TODOS TE
MOS NECESSIDADE DA AJUDA DE TESTEMUNHOS DO PAS-
SADO, QUALQUER QUE SEJA A CONFISSÁO Á QUAL PER-
TENCAMOS".

Jürgen Moltmann, teólogo protestante

RIQUEZAS NA MENSAGEM CRISTA {2? ed). por Dom Cirilo Folch Go


mes O.S.B. (falecido a 2/12/83). Teólogo conceituado, autor de um tratado
completo de Teología Dogmática, comentando o Credo do Povo de Deus,
promulgado pelo Papa Paulo VI. Um alentado votume de 700 p., best seller
de nossas Edicoes Cr$ 7.150 00

3? Edicao de:
DIÁLOGO ECUMÉNICO, Temas controvertidos.
Sen Autor, D. Estéváo Bettencourt, considera os principáis pontos da clássi-
ca controversia entre Católicos e Protestantes, procurando mostrar que a dis-
cussao no plano teológico perdeu milito de sua razao, de ser, pois, nao raro,
versa mais sobre palavras do que sobre conceitos ou proposicoes «• 380 pági
nas. SUMARIO: 1. O catálogo bíblico: livros canónicos e livros apócrifos -
2. Somente a Escritura? - 3. Somente a fé? Nao as obras? - 4. A SS. Trin-
dade. Fórmula paga? - 5. O primado de Pedro - 6. Eucaristía: Sacrificio e
Sacramento - 7. A Confissao dos pecados. - 8. O Purgatorio — 9. As indul
gencias - 10. María, Virgem e Mae - 11. Jesús teve irmaos? - 12. O Culto
aos Santos - 13. E as imagens sagradas? - 14. Alterado o Decálogo - 15. Sá
bado ou Domingo? - 16. 666 (Ap. 13.18) — 17. Vocé sabe quando? -
18. Seita e Espirito sectario - 19. Apfindice geral. - 304 págs
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