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A QUEM BENEFICIA A SADC?

O Papel das Potências Hegemónicas na Integração


Regional - O caso da África do Sul na SADC

Por Domingos Bihale, bihale.mngoni@gmail.com

Palavras Chave: Potências Hegemónicas, Integração Regional, Regionalismo.

Resumo: O presente artigo debruça-se sobre o Papel das Potências Hegemónicas na


Integração Regional - O Caso da África do Sul na Comunidade para o Desenvolvimento
da África Austral ( SADC). Este tema é analisado desde 1994, ano que marca a entrada
da África do Sul na SADC, até à actualidade.

Por outro lado, a análise olha para o contexto da globalização e do novo regionalismo.
A globalização constitui um fenómeno mais saliente nas relações internacionais
contemporâneas. Esse fenómeno verifica-se tanto nas esferas política e política, quanto
nas esferas social e cultural. A globalização para além de acelerar o processo de
liberalização do comércio, no âmbito da Organização Mundial do Comércio, incentiva a
formação de blocos ou agrupamentos regionais. Um exemplo de tais blocos é a SADC
na África Austral. Um facto curioso é que, da análise feita sobre as características desse
tipo de agrupamentos, se verifica que geralmente se fundam em torno de uma potência
hegemónica da região onde o agrupamento ou o bloco se forma. No caso específico da
África Austral, a potência hegemónica livre de contestação é a África do Sul.

Por estas razões, o presente artigo procura entender o motivo do tal fenómeno, analisar
o papel que uma potência hegemónica desempenha na integração regional e, por último
formular as implicações que isso pode trazer para os países que se fundam em seu
redor.

1. Introdução

Para fazer a leitura do Papel das Potências Hegemónicas na Integração Regional e o


caso específico do Papel da África do Sul na SADC, é preciso recorrer à teoria Neo-
Realista das Relações Internacionais.

A teoria neo-realista tem Keneth Waltz (1979) como o seu expoente máximo. O neo-
realismo na sua essência partilha os mesmos pressupostos com a teoria realista clássica.

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Assim, o neo-realismo, paralelamente ao realismo clássico, olha para o Estados como
actores mais importantes, unitários e racionais do sistema internacional e que o sistema
internacional é anárquico, onde os Estados se norteiam com base em interesses. Os
assuntos mais relevantes na perspectiva desta teoria são os relacionados com a defesa e
segurança nacionais (high politics), em detrimento de outros assuntos: económicos,
sociais, culturais, ambientais, etc ( low politics).

Apesar do realismo clássico e o neo-realismo partilharem os mesmos pressupostos,


divergem-se quanto a unidade de análise. Enquanto o realismo clássico se centra no
estado como unidade de análise, o neo-realismo tem como unidade de análise o sistema
bem estruturado. Contudo, ambos comungam a ideia de que o sistema internacional é
anárquico e que a segurança só pode ser alcançada através do sistema de balanço de
poder ( the balance of power system). Para além disso, o interesse nacional, definido em
termos de poder continua a ser o motor das acções dos Estados no Sistema Internacional
( Dougherty & Pfaltzgrff, 2003:79).

Por isso, para analisar o papel das potências hegemónicas na integração regional a luz
da teoria neo-realista compreendeu-se a região como um sistema bem estruturado.
Nesse sistema os Estados foram vistos como actores mais importantes. Analisou-se
também as motivações dos actores envolvidos na integração regional. Neste caso, a
integração foi vista como um instrumento para as potências garantirem os seus
interesses nacionais. Outros aspectos analisados forma as consequências das assimetrias
do poder regional, desequilíbrios e o papel das instituições, tendo que estas, a luz do
neo-realismo, têm uma influência marginal nas acções dos Estados e nas relações entre e
inter – estatais. Finalmente, tentou-se olhar para as formas de integração esperadas em
termos de segurança futura e de poder equacionado em termos de ganhos relativos, à
luz de outras teorias ( Soderbaum, 2001:20).

Para o desenvolvimento deste artigo usou-se o método de constelação do sistema de


pesquisa integrado. O método de constelação do sistema de pesquisa integrado está
intrinsecamente ligado à teoria neo-realista. Este método permite que o poder seja visto
como abrangência de variedade de fenómenos em cada um dos níveis, que se estendem
do impacto de factos domésticos sobre a política externa às implicações da estrutura do
sistema regional e internacional nos padrões de interacção entre os Estados. A este
método se juntaram o método histórico e a técnica documental, para melhor atingir os
objectivos e perseguir devidamente as hipóteses que nortearam a elaboração do artigo.

O presente artigo tem como objectivos: compreender o papel das potências


hegemónicas na integração regional e perceber as razões levam a um grupo de países a
se agruparem em torno de uma potência hegemónica regional. Em adição, pretende-se
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analisar a influência da África do Sul como potência hegemónica na SADC, bem como
reflectir sobre as implicações da hegemonia sul-africana para os restantes Estados da
SADC.

Esta análise parte do princípio que as potências hegemónicas regionais podem


funcionar como dinamizadoras de desenvolvimento das suas regiões, bem como podem
constituir factores de estabilidade e instabilidade das suas regiões. Outro ponto de
partida é o de que os Estados se juntam em em torno de uma potência hegemónica
regional para garantir a sua sobrevivência e estabilidade. Outras suposições que
nortearam a pesquisa são as seguintes: a sobrevivência e a estabilidade dos Estados da
África Austral dependem grandemente da África do Sul e, como resultado de tal
dependência, estabelece-se uma relação de tipo dominação ( África do
Sul)/subordinação ( restantes Estados da SADC)

Este artigo revela-se importante, tanto para o mundo académico quanto para a
sociedade em geral, pois permite compreender o impacto positivo e/ou negativo do
processo integração, não apenas a nível global, como também e em particular na SADC,
numa altura em que veicula a liberalização do comércio na região.

2. Potência Hegemónica: uma abordagem conceptual

De modo geral, uma potência hegemónica será um país que disponha de todos os
elementos necessários para, na medida do possível, assegurar a vitória no caso de
ocorrer um confronto na região. De acordo com Michelena (1977:17-19), um país para
ser considerado uma potência regional deve satisfazer as seguintes condições:

a) População e extensão territorial suficientes, considerada concretamente a sua


posição geopolítica;
b) A força económica, destacando-se especialmente o nível de desenvolvimento das
forças produtivas, em particular, suja capacidade industrial, agrícola e financeira.
Outro aspecto de relevo é a capacidade científica e tecnológica, que se manifesta
no avanço industrial, desenvolvimento nuclear, balístico e da pesquisa e
exploração espaciais;
c) O poderio militar que, em certo sentido, abrange a população, a extensão
territorial, força económica e a posição geopolítica;
d) Consenso interno ou paz interna, isto é, um equilíbrio positivo em favor de
classes e de grupos sociais hegemónicos;

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e) Uma posição ideológica historicamente determinada que permita ao governo do
país manter interna e externamente (com seus aliados) um certo nível de coesão;

A nível político, o país deve expressar a sua conduta através de:

a) Impressão, através de uma direcção autónoma efectiva, às actividades do estado,


quer a nível interno quer a nível externo;
b) Tornar-se cabeça e guia de alianças e de fazer pactos formais de um bloco de
poder;
c) Exercer a pressão política necessária para fazer com os aliados honrem os pactos.
Isso implica a manutenção de um equilíbrio de poder a seu favor;
d) Influenciar os Estados que fiquem fora da sua área de influência.

Todas essas condições e capacidades farão com que um país seja considerado uma
potência hegemónica. A hegemonia tem pelo menos cinco dimensões: militar,
tecnológica, económica, política e institucional. Neste caso, uma potência hegemónica
será um país que for mais forte em termos militares, tecnológicos, políticos e
institucionais, do que seus aliados da região. Essas dimensões da hegemonia criarão
uma estrutura regional em que a potência hegemónica vai servir de centro e os países
em seu redor servirão de zonas de influência ou periferia. Enquanto no centro figuara
uma potência hegemónica, na periferia afigura um conjunto de Estados
economicamente dependentes ou subordinadas, militarmente débeis, politicamente
pouco autónomos e internacionalmente menos influentes.

O conjunto composto de potência hegemónica e seus satélites ( Estados da periferia)


forma um sistema regional. As relações que surgem deste sistema serão hierárquicas,
isto é, será sempre a potência hegemónica a ditar as directrizes políticas gerais e
estabelecer relações económicas assimétricas a seu favor, com os restantes países do
bloco.

Esta configuração de relações permite à potência hegemónica jogar um papel


preponderante no Bloco onde ela é líder.

3. O Papel das Potências Hegemónicas no Regionalismo (Integração Regional)

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Deve-se entender regionalismo como uma doutrina que cria regiões, isto é, um conjunto
de ideias, valores, metas concretas que direccionam o processo de criação, manutenção
e modificação da provisão de riqueza dentro de uma organização de uma região.

Neste processo verifica-se que as potências hegemónicas desempenham um papel


preponderante. Numa visão neo-realista, em conjugação com a visão do realismo
clássico, as potências jogam um papel de manutenção de estabilidade e ordem no
sistema regional. A hegemonia ipis verbis é um poder benigno no sistema regional. E
porque a hegemonia beneficia o já existente sistema mundial, as potências hegemónicas
regionais assumem o papel de pivot na conservação dos mecanismos de funcionamento
de um sistema. No âmbito do poder militar preservam a paz, desencorajando os países
que possam desafiar o sistema e a ordem regionais. No âmbito económico as potências
hegemónicas são o motor que move crescimento e desenvolvimento. Para preservar as
motivações que norteiam ou nortearam a integração regional, as potências hegemónicas
funcionam como diplomatas que moderam disputas entre países da sua periferia e
outras regiões, evitando desta forma que as tais disputas se transformem em conflitos
de grande escala.

As potências hegemónicas regionais procuram ligar outros Estados à ordem regional


estabelecida (e eventualmente a ordem internacional) e, desta sorte, jogar um papel
importante no desenvolvimento de instituições regionais e globais de segurança e de
relações económicas. O exemplo disso são os Estados Unidos da América (EUA), uma
potência hegemónica regional da Área de Comércio Livre da América do Norte
(NAFTA) e mundial, na liderança do processo da globalização
( htt//www.dflorig.com/Hegemony.htm).

Este papel é papel é benéfico, sobretudo na manutenção da paz, condição sine quanon
para o desenvolvimento de qualquer economia. Contudo, é preciso saber que as
potências hegemónicas desempenham este papel em consonância com os seus próprios
interesses nacionais. De acordo com Michelena (1977: 23), “o fenómeno de integração
serve de mecanismo protector das disparidades [económicas, políticas e militares] de
que a potência hegemónica é beneficiária dentro do sistema regional. Serve também de
máscara política e de justificação para manter tais disparidades’’. Ainda de acordo com
este autor, as potências hegemónicas têm como objectivo político geral: manter e
ampliar a sua zona de influência. A este objectivo juntam-se outros específicos,
nomeadamente:

1. Assegurar para si matérias -primas, mediante a apropriação e controlo das


fontes;
2. Garantir o fluxo das mercadorias manufacturadas para o mercado regional;
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3. Assegurar o fluxo de capital;
4. Manter o mercado regional de capitais através de múltiplas vias de intervenção,
inclusive o investimento directo estrangeiro;
5. Controlo financeiro regional;

Como se referiu anteriormente, as potências hegemónicas regionais têm o seu lado


negativo nas regiões onde operam. As potências hegemónicas podem usarem o seu
poderio para destruir o sistema regional estabelecido. Podem usar o seu poder militar
para impor a sua vontade a nível da região, aumentando o nível de violência, associado
aos conflitos políticos regionais. A economia de uma potência hegemónica pode sacar
os recursos das economias menos desenvolvidas e torcer o desenvolvimento regional,
de modo a satisfazer os seus apetites insaciáveis de recursos, mais do que beneficiar os
seus parceiros da região. Isto a acontecer pode incitar forças e movimentos anti-
hegemónicas. Assim a eclosão de um conflito regional será inevitável.

As potências hegemónicas representam estritamente os seus interesses nacionais em


detrimento dos interesses da sociedade regional. As instituições ocupam um papel
marginal. Muitas vezes, são postas ao serviço da expansão do poder e da riqueza das
potências hegemónicas. Radicalmente dir-se-ia que, como ditador de uma nação, as
potências hegemónico auto – proclamam-se protectoras da ordem regional e força
motriz da prosperidade regional. Porém, na verdade, expandem a desordem, a
repressão e a exploração.

4. Potências Hegemónicas Regionais, um Chamariz para a Integração?

- As razões da integração regional

Depois de se ter compreendido o papel das potências hegemónicas regionais no


regionalismo (integração regional), é imperioso perceber as razões que levam a um
grupo de países a agruparem-se em torno dessas potências hegemónicas regionais.

Note-se que, por mera coincidência ou naturalidade, pode-se arriscar, afirmando que
todas as organizações regionais formam-se em torno de uma grande potência
hegemónica regional na respectiva região. Tal é o exemplo da NAFTA em volta dos
EUA; Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) em torno do Brasil; da Comunidade
Económica para o Desenvolvimento da África Ocidental (CEDEAO) em torno da
Nigéria; da União Europeia em volta da Alemanha; da Ásia do Este em torno do Japão e

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da Ásia do Sudeste em torno da China e; o caso da Comunidade para o
Desenvolvimento da África Austral (SADC) em torno da África do Sul, entre outras.

A integração como um “processo através do qual os actores políticos, a partir de


diversos enquadramentos nacionais, são persuadidos a transferir as suas lealdades,
expectativas e actividades políticas, para um novo centro, cujas instituições detêm ou
relamam juridisção sobre os Estados nacionais consolidados” ( Haas, 1958, citado por
Dougherty & Pfaltzgrff, 2003:648[2]), ou como um “ processo através do qual dois ou
mais países se juntam numa relação económica mais estreita do que cada um deles tem
com o resto do mundo” (Namburete, 2002:117), tem vária motivações. Numa
perspectiva neo-realista pode-se afirmar que os países formam agrupamentos regionais
como resposta a desafios externos, nomeadamente a segurança e o poder ( Soderbaum,
2001:5), já que para os neo-realistas, os regionalismos (integrações) são interpretados
como instrumentos através dos quais se movem os interesses nacionais. Ainda nessa
óptica, a cooperação com a potência hegemónica pode servir para erguer um sistema
colectivo de bens, tais como o comércio livre, infra-estruturas, estabilidade económica,
etc. Buzan (1991, citado por Soderbaum, bid[3]) galvaniza esta visão, dizendo que um
grupo de Estados fracos formavam um regime de segurança por acreditar que tal
fortificaria a legitimidade doméstica dos seus regimes, visto que um conflito entre eles
exorbitaria divisões dentro de suas estruturas domésticas fracas.

A criação da SADCC em 1980 na África Austral foi grandemente motivada pela


necessidade de segurança em relação a África do Sul ( Namburete, 2002:132; Goldstein,
2002:8; van Nieuwkerk, 2001:5; Zacarias, 1991:23-25).

Por outro lado e numa visão neo-liberal, a integração pode ter motivações económicas,
sobretudo o desenvolvimento, a partir do pressuposto de que as incompatibilidades
derivadas das estruturas de produção e os padrões de consumo subdesenvolvidos
tornam impossível promover a integração regional, através de políticas do género
laissez-faire(Namburete, ibid: 118). Nesta perspectiva, as potências hegemónicas
funcionam como motoras de desenvolvimento.

Para além das motivações económicas e geoestratégicas, as estratégias políticas


sobrepõem-se a quaisquer outras motivações. Conforme se refere o preâmbulo do
Protocolo da SADC sobre Cooperação nas Áreas da Política, Defesa e Segurança “ a paz,
a segurança e fortes relações políticas são elementos cruciais na criação de um ambiente
conducente à cooperação e integração regionais’’ ( SADC, 2003:55). Olhemos por
exemplo para a União Europeia. Para lá da integração económica, a UE “ visa também
um objectivo político: união incessantemente mais estgreita entre os Estado membros
(...)[e] acabar com a descofiança histórica para com Alemanha, inserindo a reunificação
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num projecto colectivo mais vasto e ligando aquele país aos parceiros europeus”
( Boniface, 1997:129-130). Portanto, esta constitui uma justificação política da UE.

Na região da África Austral, por exemplo, a cooperação e integração regionais tiveram


como motivação primária a libertação política da região, tanto do jugo colonial quanto
da dominação sul-africana ( SADC, s.d.:2).

Em suma, pode-se afirmar que “os Estados juntam-se em torno de uma potência
hegemónica regional para garantir a sua sobrevivência”[4] e estabilidade, quer seja de
índole político e geoestratégico, quer sejam de âmbito económico e socio-cultural
(identidade nacional).

5. SADC: Um Olhar da sua Trajectória

A actual Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral ( SADC) é resultado


da transformação da Coferência Coordenadora para o Desenvolvimento da África
Austral (SADCC), criada em 1980, por Angola, Botswana, Lesotho, Malawi,
Swazilândia, Tanzânia, Zâmbia e Zimbabwe. A SADCC tinha como objectivos a
promoção de estratégias de resistência contra a hegemonia sul-africana na região e de
estratégias conducentes aos projectos de desenvolvimento de benefício mútuo entre os
seus membros.

A SADCC funcionou como instrumento para a redução de dependência em relação a


África do Sul e mais para um integração regional equitativa para o desenvolvimento, no
contexto da emancipação da região ( Goldstein, 2002:8-9; Namburete, 2002:132-133;
Zacarias, 1991:23-25; Adam, Davies &Dlamini, 1981:65-72; SADC, s.d.:2).

A SADCC surgiu como resposta à Constelação dos Estados de África Austral


(CONSAS). CONSAS surgiu como uma parte da Estratégia Total que era resposta do
regime do apartheid à intensificação da luta das massas da África do Sul e ao
desenvolvimento da luta pela libertação do subcontinente(...) [O seu objectivo era]
garantir a sobrevivência do sistema do apartheid por meio de repressão interna das
massas e de uma política externa agressiva, assim como uma campanha psicológica que
[visava] aliciar certos elementos nacionais e dividir as massas e seus aliados da região
(Adam, Davies &Dlamini, 1981: 65:66).

A mudança da conjuntura internacional e a transformação da SADCC

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Se o fim da Guerra Fria e o desmoronamento do sistema internacional bipolar a ele
inerente (velho regionalismo) teve como sinal marcante a queda do Muro de Berlim na
Europa, em África e na África Austral em particular, o sinal marcante foi o
desmoronamento do Apartheid na África do Sul. Outros acontecimentos, tais como a
independência da Namíbia e o fim do conflito armado em Moçambique constituem
sinais subsequentes. Era uma mudança conjuntural quer ao nível regional quer ao nível
internacional. Tal mudança colocou assento tónico na globalização e na aceleração da
integração económica no mundo.

Na África Austral, esse processo caracterizou-se pela transformação da SADCC para


SADC, em 1992. Essa transformação tinha em vista, dentre outros objectivos, permitir a
entrada da África do Sul na Organização. Isto facilitaria a integração económica
regional em várias dimensões. Efectivamente, a África do Sul veio a ser membro da
SADC em 1994 (Goldstein, 2002:9; Nieuwkerke, 2001:4; Namburete, 2002:133).

6. África do Sul: uma potência hegemónica regional e o seu papel na SADC

A África do sul é incontestavelmente uma potência hegemónica regional. Ao nível


militar a África do Sul tem um exército bem preparado e modernizado, e que tem a seu
dispor o mais moderno e sofisticado equipamento ( Devies, 1991:160). A economia sul-
africana não é tecnologicamente mais avançada e institucionalmente mais organizada
da SADC ( SADC, 2003: 281-290), mas também “ é três vezesmais poderosa que a dos
restantes Estados membros [ da SADC] juntos’’( Namburete, ibid: 137).

Esses poderes económico e militar permitem que a África do Sul tenha aliados extra
regionais ( Formação do Grupo Índia, Brasil e África do Sul) ou G-3 e disso servir como
instrumento de pressão política internacional ( Marcondes & Kury, 2004:3). Para
Namburete, ( 2002:135) “ as trocas com a África do Sul comprovam inequivocamente a
hegemonia deste país no contexto económico regional”. E ainda de acordo com este
autor, “ o volume das trocas comerciais com a África do Sul em 1993foi mais de 2.3
vezes ao somatório das trocas comerciais entre os restantes países da região da SADC”.
Esta posição de Namburete é secundada por Zacarias (1991: 23-25) e Cardoso (citado
por Abrahamsson, 1994:191[5]). Estes autores admitem que a economia sul – africana
tem caracteristicas dominantes e, por conseguinte, um papel dominante na região, não

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só por ter uma elevada produção, como também porque o país tem uma extensão
territorial enorme e ser em larga escala o país mais industrializado da região.

Maasdorp ( 1989, citado por Zacarias, ibid[6]) descreve uma África do Sul com
instituições financeiras, mercados de capital sofisticados, infra-estruturas industriais e
matérias –primas, características que não se encontram em outras regiões do continente
africano. Portanto, a África do Sul joga um papel de motor para o crescimento e
desenvolvimento da África Austral, em particular, e da África Sub-sahariana, em geral.

7. Implicações da hegemonia Sul-Africana sobre os Países da SADC

A hegemonia sul-africana na SADC acarreta implicações em diversos níveis. Numa


abordagem globalista pode-se dizer que entre a África do Sul e os restantes países da
SADCexiste uma relação de dominação/subordinação ou centro/periferia. Enquanto a
África do Sul, na divisão regional do trabalho, especializa-se em produtos agrícolas e
industriais, compra mão-de-obra e utiliza certas infra-estruturas existentes nos países
dela dependentes, sobretudo transportes ferroviários e marítimos. Os países periféricos
( restantes países da SADC) são fornecedores da mão- de –obra barata e são mercados
de produtos sul-africanos. Como consequência da subordinação destes países à África
do Sul, a dependência no domínio das importações torna-se crónica ( Adam, Davies e
Dlamini, 1981:73).

As relações económicas regionais que se desenvolvem entre a África do Sul (o centro) e


a periferia (os restantes países da SADC) são do tipo de desenvolvimento económico
que beneficia mais ao centro do que a periferia. Os países da periferia correm o risco de
se tornarem satélites económicos, pois, “ o problema do desenvolvimento tende a
gravitar a volta de um núcleo de países com infra - estruturas superiores, habilitações
técnicas e administrativas e um largo mercado com sistema de distribuição sofisticados
(Zacarias, 1991: 243-244).

Mesmo na conjuntura actual, excelentemente dominada pela teoria pluralista ou


interdependência no contexto da globalização e do regionalismo crescente, as mudanças
regionais e internacionais que daí possam ocorrer abrirão novas possibilidades para
Pretória conseguir alcançar importantes objectivos através de uma acção económica e
diplomática. Assegurar maior acesso de produtos sul-africanos aos mercados regionais
e garantir a participação do capital sul-africano em projectos regionais seleccionados,
bem como ser pivot na formulação de uma plano de desenvolvimento realístico para a

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África Austral constituem principais objectivos ( ibid: 168-170). Recorde-se da aliança G-
3 e da Indian Ocean Rim Association for Regional Co-operation (IOR-ARC) ( Marcondes &
Kury, 2004:3; Ahwireng-Obeng, 1998:22).

Embora a África do Sul, por um lado, pareça estar a liderar moderadamente os seus
vizinhos no caminho para a economia liberal mundial, na sua qualidade de potência,
por outro lado, parece estar a promover apenas o seu desenvolvimento económico. Em
adição, a África do Sul continua a avançar o seu programa económico neo-liberal a nível
doméstico à espessa dos seus parceiros da SADC ( Goldstein, 2002:13; Poku, 2001a: 164,
2001b:166).

Numa perspectiva neo-realista, da África do sul, como potência hegemónica, dependem


a estabilidade e a instabilidade da região. O fundamento da manutenção da estabilidade
é as intervenções que esta potência liderou há anos não muito longínquos. Em 1994 a
África do Sul, junto com alguns países da Linha da Frente, ameaçaram usar a força
contra o Lesotho para conter para conter o conflito que eclodiria naquela monarquia;
em 1996 a África do Sul impôs a ordem constitucional ao Rei Letsie ainda no Lesotho;
em 1994 Thabo Mbeki, actual presidente da África do Sul, veio a Moçambique para
pressionar Afonso Dhlakama, o líder da Resistência Nacional de Moçambique
( RENAMO), para aceitar os resultados das eleições; em 1996 a Swazilândia sofreu
intervenção política sul – africana ( Soderbaum,2002:8). Neste ano (2008) assistimos uma
África do Sul no Conselho de segurança a votar contra o reforço de sanções e o embargo
internacional contra o Zimbabwe, para além do protagonismo que está assumir nas
negociações entre a União Nacional Africana do Zimbabwe –Frente Patriótica (ZANU-
PF) e o Movimento para a Mudança Democrática ( MDC), para resolver a crise no
Zimbabwe.

Os casos de desestabilização ainda na memória dos países da SADC, nomeadamente em


Moçambique e em Angola, são exemplos de instabilidade que a África do Sul pode
causar, pois de acordo com uma corrente de pensamento a “ posição dominante da
África do Sul acentua as assimetrias já existente na região (Ahwireng-Obeng &
McGowan, 1998, citados por Soderbaum, 2003:11 [7]). Estes autores defendem que as
forças do mercado e capital privado estão agora a criar economicamente o que o antigo
regime do apartheid não conseguiu fazer politicamente há algumas décadas passadas,
que é, a Constelação das Economias da Austral (CONSAE), em vez da antiga proposta
da Costelação dos Estados da África Austral (CONSAS). “Do ponto de vista regional é
importante reconhecer que a estratégia mais extensa da constelação não está de nenhum
modo morta’’ ( Adam, Davies e Dlamini, 1981:72). E do ponto de vista neo-realista, a
SADC pode ser vista como a continuação da CONSAS por outros meios.

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Conclusão

Qualquer que seja um projecto de integração regional requer um paralelismo


aproximado entre os países integrantes. O contrário coloca alguns países (potências
hegemónicas) no comando, isto é, em vantagem em relação aos outros (países satélites).
Para que a desigualdade abismal entre as vantagens da integração é preciso que as
economias relativamente débeis sejam potenciadas para conseguirem competir com a
potência hegemónica.

No caso vertente da SADC nota-se que a África do Sul, melhor do que nenhum outro
país da Região, está em vantagens absolutas em termos de tirar ganhos da integração
regional. A África do Sul tem um parque industrial muito forte e consolidado, uma
agricultura desenvolvida e mecanizada e infra-estruturas rodoviárias, ferroviárias e
aéreas invejáveis. Estas características colocam a África do Sul na posição de produtor e
os outros países da SADC na posição de puros consumidores.

Este cenário leva-nos a pensar que a SADC constitui continuação de CONSAS por
outros meios, se olharmos para o domínio da África do Sul na Organização.

Para que tal seja minimizado, os outros países devem recuperar rapidamente as suas
economias. Mas, para tal, é preciso desenvolver uma série de infra-estruturas em todas
áreas económico – sociais e tornar a política mais transparente e fiável (garantir a paz e
estabilidade políticas e combater a corrupção).

Em 2008 entrou em vigor a Zona de Comércio Livre na SADC. Tirando todas as


vantagens que essa abertura do mercado traz, há que ter atenção com os aspectos acima
referidos. Qualquer comodismo por partes dos Estados, isto é, se os outros Estados da
SADC tiverem esta abertura como um fim e não como um meio de impulsionar o
desenvolvimento dos seus países, cairá na malha do servilismo inocente e fatal. Como
resultado, estes países inundar-se-ão de produtos Made in South Africa.

Portanto, a industrialização, a mecanização da agricultura, a reabilitação e abertura de


vias de acesso melhoras, a construção de pontes e aquedutos, a construção de diversas
infra-estruturas e o fomento e/ou a implementação da bastante apregoada boa
governação, constituem condições sine qua non para uma integração verdadeiramente
regional.

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Notas

[2] HAAS, Ernest ( 1958), The Uniting of Europe, Stanford University Press

[3] BUZAN, Burry ( 1991), Peoples, States and Fear, London, Lynne Publication

[4] Matusse, professor assistente da cadeira de Cooperação Económica Regional, no


Instituto Superior de Relações Internacionais (ISRI), Maputo, aula conferencista do dia 9
de Março de 2005, sobre o Velho e Novo Regionalismo.

[5] CARDOSO, Fernando ( 1992), SADCC e a Interdependência da África Austral –


Realidades e Perspectivas, in Estudos moçambicanos, CEA, n° 10, Maputo.

[6] MAASDORP ( 1989), South and Southern Africa in 21st Century, Conferência realizada
em Maputo, em Dezembro de 1989.

[7] AHWIRENG-OBENG, F & MCGOWAN, P. (1998), Partner or Hegemony? South Africa


in Africa: Part One, Journal of Contemporary African Studies.

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