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“O Leitor” e a Culpa Alemã

Por Joana Maltez,

3º ano Fotografia TCAV


Este  trabalho  procura  incidir  numa  breve  análise  sobre  a  culpa  alemã  gerada  após  o 
Holocausto, em consequência dos actos perpetuados, tendo como ponto de partida o filme “O 
Leitor”.

Em 1995, Michael Berg (Ralph Fiennes) é um advogado em Berlim, um homem auto‐
condenado  a  uma  vida  solitária.  Em  1958,  com  15  anos,  Michael  (David  Kross)  adoece  no 
caminho  para  casa  e  é  ajudado  por  Hanna  (Kate  Winslet),  uma  brusca  mulher  de  36  anos. 
Quando,  passado  uns  meses,  Michael  recupera  a  sua  saúde,  ele  volta  a  casa  dela  para  lhe 
agradecer. Esse é o início de uma atracção incontornável e de uma relação incorrecta. Depois 
da escola de Michael e depois do trabalho de Hanna como revisora no eléctrico de Berlim, eles 
encontram‐se  na  casa  dela,  onde  rapidamente  o  sexo  é  complementado  com  um  pedido 
curioso por parte de Hanna: que Michael leia para ela os vários livros que ele vai estudando na 
escola. A relação de ambos compreende um sinuoso jogo de poder, que Hanna manipula. No 
final  desses  breves  meses  de  Verão,  Hanna  desaparece,  deixando  o  apartamento  vazio.  Oito 
anos  mais  tarde,  como  estudante  de  direito  na  Universidade  de  Heidelberg,  Michael 
reencontra  Hanna,  acusada  de  homicídio  num  julgamento  que  incrimina  várias  guardas 
prisionais nazis.  

A relação amorosa entre Michael e Hanna é muito mais do que uma primeira leitura 
pode  suscitar.  Na  realidade,  esta  relação  serve  como  simbolismo  dos  conflitos  entre  duas 
gerações  distintas:  a  geração  que  viveu  activamente  durante  o  regime  Nazi  e  a  geração  que 
nasceu após o fim da segunda guerra mundial.  

Michael  debate‐se  com  um  dilema  interior  quando  vê  a  pessoa  que  ama  ser  julgada 
por  crimes  atrozes,  sendo  que  este  dilema  se  pode  traduzir  como  uma  discordância  entre  o 
amor que sente e a  determinação em  condenar os  actos do passado de Hanna, a mulher da 
sua vida. 

Esta  contradição  de  sentimentos  vivenciada  por  Michael  é  um  espelho  simbólico  da 
delicada e periclitante relação entre pais e filhos alemães, com os últimos a verem‐se a braços 
com  a  culpa  herdada  pelos  actos  dos  seus  pais.  A  incapacidade  de  Michael  condenar 
totalmente Hanna foi um drama vivenciado por muitos que não sabiam como lidar com uma 
culpa  que  não  era  sua,  uma  culpa  suscitado  por  aqueles  que  mais  amavam  e  contudo  não 
podiam deixar de moralmente castigar. 

Levanta‐se  então  uma  pergunta  importante:  como  pode  a  geração  nascida  após  a 
guerra lidar com uma vergonha e culpa que não lhe pertence directamente e, no entanto, se 
encontra permanentemente ensombrada por este estigma? 

É uma corda fina a que se estende entre a compreensão e a condenação. 

É  impossível  a  estes  filhos,  a  toda  esta  geração  distanciar‐se  o  suficiente  para  poder 
julgar  plenamente  os  actos  cometidos  pelos  seus  antecessores.  Não  podem  restar  ilusões 
neste aspecto.  

A  História  mostra‐nos  que  após  o  fim  da  guerra,  houve  um  consenso  por  parte  dos 
Aliados  na  decisão  relativa  a  que  toda  a  nação  alemã  fosse  sentenciada  como  culpada  e 
inteiramente  responsável  pelas  atrocidades  nazis.  Esta  tomada  de  decisão  levou  a  que  os 
alemães  procurassem  evidenciar  desde  o  fim  do  Holocausto,  e  mesmo  ao  longo  das  últimas 
décadas,  que  o  nazismo  é  uma  ideologia  absolutamente  repudiada  no  seu  país,  procedendo 
então  a  um  processo  a  que  poderemos  chamar  de  “des‐nazificação”.  
Contudo,  este  mesmo  processo  –  embora  eficaz  na  criação  da  consciência  de  que  os  actos 
levados  a  cabo  pelo  partido  nazi  eram  totalmente  reprováveis  –  não  se  dedicou  a  procurar 
resolver a culpa e vergonha que se levantou após  a aceitação da sua responsabilidade  nesta 
guerra. 

Este  estigma  não  resolvido  permaneceu  para  todas  as  gerações  seguintes,  embora 
tenha sido mais marcadamente incisivo na geração como a de Michael, devido obviamente à 
proximidade  temporal  dos  acontecimentos  relatados. 
Esta  mancha  negra  na  história  da  nação  germânica  gerou  diversas  reacções:  desde  a  aberta 
aceitação da culpa, tornando‐se quase como que uma porta de estandarte da nova Alemanha 
a aqueles que se quedaram perdidos, jovens como o personagem principal do filme, que não 
conseguiam separar os factos das emoções, que embora sabendo que o que tinham feito era 
errado,  não  podiam  julgar  completamente  à  luz  de  um  novo  tempo,  de  diferentes 
circunstâncias e de outras figuras de poder. 

Figuras  como  a  de  Hanna  Schmitz  existiram  e  não  as  podemos  perspectivar  sobre‐
humanas  ao  ponto  de  as  considerarmos  como  meros  monstros  feitos  de  mal  puro.  Ao 
olharmos  desta  forma  para  personagens  como  Hannah  ou  para  políticos  como  Adolf  Hitler, 
estamos a constituir um perigo para nós mesmos; Estas foram pessoas reais, como qualquer 
um de nós, capazes de fazer tanto bem quanto mal, não sendo mais do que seres humanos.  
Não  quero  com  isto  relativizar  a  condenação  dos  seus  actos,  justificá‐los  minimamente  ou 
considerá‐las vítimas das circunstâncias, mas precisamos de ter presente a consciência de que 
estas foram pessoas como nós e que, consequentemente, os eventos ocorridos em meados do 
século XX poderão novamente ocorrer nos dias de hoje.  

É imperativo conceber um retrato realista da época.  

Ao  mistificarmos  os  tiranos  a  níveis  de  os  desumanizar,  estamos  a  afastar‐nos  da 
realidade e a não reconhecermos em nós próprios o nosso lado mais negro, capaz de todo o 
género de actos reprováveis.  

Termos consciência clara de que os acontecimentos do século passado estão longe de 
serem  irrepetíveis  ou  meramente  fruto  de  uma  dada  geração  e  atmosfera,  é  a  forma  mais 
honesta de se dignificar a memória do Holocausto.