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eTEORIA GERAL DO PROCESSO - TGP

DEFINIÇÃO DE TEORIA GERAL DO PROCESSO

1) TEORIA: corpo de conceitos sistematizados que nos permite conhecer um dado


domínio da realidade.

2) CONCEITO: é a representação das propriedades essenciais e comuns a um grupo de


objetos. É a síntese das características comuns a um grande número de objetos.

3) SISTEMATIZAÇÃO: Sistematizar significa imprimir uma ordem na exposição de um


conjunto de conhecimentos de forma a torná-lo coerente. Assim, de acordo com essa
noção, um corpo de conceitos só forma uma teoria quando esses conceitos estão
dispostos em uma ordem (método), ou seja, articulados de maneira a constituir um todo
unitário e coerente.

4) TEORIA GERAL DO PROCESSO (TGP): um conjunto de conceitos sistematizados que


serve aos juristas como instrumento para conhecer os diferentes ramos do Direito
Processual.

5) OBJETO DE ESTUDO DA TGP: São os conceitos que a compõem. São os conceitos


mais gerais do direito processual.

6) FUNÇÃO DA TEORIA GERAL DO PROCESSO NOS CURSOS JURÍDICOS: serve


para preparar os alunos para o estudo dos diversos ramos do direito processual mediante
o estudo de seus conceitos mais gerais.

7) MÉTODO DE ELABORAÇÃO DA TGP: existem duas correntes de opinião. A primeira


corrente sustenta a tese de que os conceitos são elaborados a partir da própria realidade.
É observando a realidade que o ser humano constrói os conceitos. No caso da TGP, isto
significa que os seus conceitos são elaborados a partir da observação dos diferentes
direitos processuais. Estudamos o conteúdo das normas dos diferentes direitos
processuais e, a partir desse conteúdo, com base na semelhança, formamos conceitos
sempre mais gerais, até chegarmos aos conceitos generalíssimos, que permitem unificar
todo o material jurídico-processual. Podemos chamar a TGP elaborada por este método,
de teoria empírica, justamente por basear-se na experiência jurídica (direito positivo). A
segunda corrente: a origem do conhecimento é a razão ou o pensamento. Daí podermos
chamá-la de teoria racionalista, por basear-se na razão. Assim, na ótica da corrente
racionalista, ou idealista, como podemos também chamá-la, o conhecimento da realidade
não depende dos fatos, ou seja, não está fundado nos fatos, mas na razão, ou nas idéias
básicas. Ou seja, a distinção entre as duas correntes está em que a empirista entende
alcançar o conhecimento da realidade pela observação da própria realidade, que seria,
por isto, seu fundamento; enquanto a outra entende que o fundamento do conhecimento é
a razão, a qual independe dos fatos. As doutrinas empiristas e idealistas pecam por
unilateralismos. Com efeito, o conhecimento resulta da conjunção da experiência com a
razão. A reunião desses dois elementos é, pois, condição necessária e suficiente para a
produção do conhecimento. De modo que a TGP, decorre da inter-relação, ou da dialética
desses dois elementos, a razão e a realidade.

8) CONTEÚDO DA TGP - CRÍTICA À DOUTRINA TRADICIONAL: Uma teoria geral do


processo, no sentido preciso do termo, deve abranger o estudo dos conceitos
fundamentais não só do direito processual jurisdicional, mas, igualmente, do direito
processual legislativo, administrativo e até negocial. No entanto, por uma questão de
tradição, o direito processual continua sendo entendido no sentido restrito,

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compreendendo apenas o estudo dos diferentes ramos do direito processual jurisdicional,
ou seja, o processo civil, penal e trabalhista.

SOCIEDADE, DIREITO E ESTADO.

O homem vive na sociedade. (palavra derivada do latim socius, o que acompanha)


porque sua índole, gerada por sua necessidade, é associar-se. Ele, então, se agrupa: a
tribo, o clã, a horda, os povoamentos das minúsculas aldeias às frementes metrópoles,
revelam a irreprimível tendência humana à agregação. A convivência, em qualquer plano,
impõe sacrifícios e restrições. A convivência gera os conflitos sociais. Para ordenar a
convivência houve também a necessidade de se criarem normas de convivência (Direito).

O sistema jurídico é um subconjunto do grande sistema social. No entanto, nem


toda norma social é jurídica. O direito traduz as determinações sociais. O direito exercita
uma ação de retorno sobre o social, dessa maneira, entre o sistema social e o subsistema
jurídico existe uma causalidade circular.

Um dos acontecimentos que mais contribuíram para a transformação da sociedade


foi, indiscutivelmente, o surgimento da propriedade privada dos meios de produção.
Nesse novo tipo de sociedade as antigas normas sociais, que regulavam todos os
aspectos da conduta, perderam a eficácia por não consultarem o interesse da nova
classe, vez que previam a participação no trabalho como condição de aquisição da
riqueza. Por outro lado, a nova ordem social não atende aos interesses dos não-
proprietários, já que distribui a riqueza com base na propriedade privada dos meios de
produção e não no trabalho. Ora, esta contradição de interesses cria antagonismo entre
as classes sociais e os próprios indivíduos. Na medida em que esses antagonismos se
aprofundam, ameaçando a paz social, agora fundada na propriedade privada dos meios
de produção, surge a necessidade de organização de um poder para manter essa ordem
social fundada na propriedade privada dos meios de produção. Este poder é, justamente,
o que dominamos de Estado. Com o advento do Estado, as normas de conduta passaram
a ser criadas, em sua quase-totalidade, por órgãos específicos do Estado, através das leis
e outros atos semelhantes. Surge pois o direito das sociedades classistas, caracterizado
justamente por ser estabelecido pelo Estado e estar respaldado, em última instância, no
aparelho coativo do próprio Estado.

1. Finalidade do Direito: O equilíbrio, a harmonia, a paz social, em suma, o bem comum.

Nota: As duas funções mais necessárias e universais do direito são:


a) Função de direção das condutas: consiste na capacidade do direito de fazer com que o
grupo social aceite os modelos de conduta prescritos por suas normas como pauta de
comportamento.
b) Função de tratamento dos conflitos sociais: Esta função caracteriza-se por consistir em
uma intervenção do direito posterior ao conflito, enquanto na função de direção das
condutas sua intervenção é a anterior ao conflito. Na função de tratamento dos conflitos o
direito oferece não só as regras que servem de critério para dirimir o conflito como,
também, as chamadas regras processuais.

Direito Objetivo: É o conjunto de normas que o Estado mantém em vigor. É o


ordenamento jurídico e está fora do sujeito de direitos. O direito objetivo, através de
normas, determina a conduta que os membros da sociedade devem observar nas
relações sociais. O direito objetivo provém de um órgão estatal competente (legislativo).
Como exemplos: Constituição, Emenda Constitucional, Lei Ordinária, etc...Direito objetivo
como os romanos chamavam, é a norma agendi (norma de agir).

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Direito Subjetivo: é a possibilidade de agir na conformidade das normas jurídicas. É a
facultas agendi (faculdade de agir).

Direito Substantivo/Substancial (direito material): é o direito principal, em que


assentam os direitos subjetivos (Constituição, Emenda Constitucional, Código Civil,
Código Penal, etc...). São normas abstratas, estão nos códigos e só faremos uso se
precisarmos.

Direito Adjetivo (direito formal): É o direito acessório que dá os meios de garantir os


direitos subjetivos (Código de Processo Civil, Código de Processo Penal).

O direito substancial é um conjunto de normas que disciplinam as condutas


necessárias à manutenção das relações sociais dominantes em uma sociedade. Sua
aplicação é garantida, em última instância, pelo mecanismo coativo do estado.

O direito processual é o conjunto das normas jurídicas que dispõe sobre a


constituição dos órgãos jurisdicionais e sua competência, disciplinando o processo, e que
consiste numa série coordenada de atos tendentes à produção de um efeito jurídico final,
que, no caso do processo jurisdicional, é a decisão e sua eventual execução. O direito
processual é instrumental em face do direito dito substancial, posto que constitui,
precisamente, o instrumento para a tutela do direito substancial nas hipóteses em que sua
observância não se verifique espontaneamente.

• NORMA AGENDI - DIREITO OBJETIVO (PRECEITO, REGRA)


• FACULTAS AGENDI - DIREITO SUBJETIVO (FACULDADE, PODER)

3. A Concepção Tridimensional do Direito (Miguel Reale) - FATO, VALOR, NORMA.


Consiste em um fato relevante, de alto valor social, que cria uma norma (lei).

4. Ciência do Direito Processual e Direito Processual


A ciência é o conhecimento qualificado, e o objeto é a coisa sobre a qual versa esse
conhecimento qualificado, que é a ciência. A ciência do direito processual não se
confunde com seu objeto, que é o direito processual. Se tomarmos um Código de
Processo Civil e um livro de comentários sobre esse código, verificamos de imediato que
são realidades diferentes. Enquanto o Código consiste num conjunto de normas de
conduta, o livro de comentários procura explicar o sentido e o alcance das normas do
Código. Daí ser fácil compreender que o Código é o objeto de estudo do livro de
comentários. Por outras palavras, o livro de comentários é um conjunto de proposições
sobre as normas do código. A ciência do direito processual cumpre uma função explicativa
das normas processuais, enquanto o direito processual objeto tem uma função normativa
ou prescritiva.

5. Posição do Direito Processual no quadro das Ciências Jurídicas, demais ramos


do direito
Trata-se de uma disciplina que estuda um direito que, por sua própria natureza,
está intimamente ligado aos demais, justamente por servir de instrumento para a
realização deles, nas hipóteses em que não são observados espontaneamente. Portanto,
a divisão do direito processual em diferentes domínios, com suas correspondentes
disciplinas, só existe no plano do conhecimento, tendo em vista facilitar sua compreensão.
Por isso, essas disciplinas não devem ser entendidas como ciências independentes,
senão como partes de um todo científico único, que é a ciência do direito sem
adjetivações.

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6. Posição do Direito Processual no quadro das outras Ciências Sociais (Sociologia,
Política, Economia, História, etc...) - A interdisciplinaridade
Verificamos o isolamento em que vivem hoje os juristas, enquanto cientistas do
direito, praticamente de costas para tudo o que se passa no campo das outras ciências
sociais. Estamos quase certos de que essa atitude de distanciamento dos juristas em
geral das demais ciências sociais decorre do modelo de ciência que adotamos, a
chamada dogmática jurídica. Ela nos leva a operar apenas com as normas jurídicas,
desprezando a realidade histórico-social e os valores, que são os dois outros elementos
integrantes do direito.

7. Divisão e conteúdo do Direito Processual


O Direito Processual forma uma unidade, justamente por ter como objeto uma
mesma realidade que é o processo. Apesar dessa unidade (art. 22, I da CF), o Direito
Processual se divide em vários ramos em razão da matéria sobre que versa. Esta divisão,
entretanto, diz respeito a aspectos secundários, não afetando sua unidade essencial.
Matéria Penal - Direito Proc. Penal - Matéria não Penal - Direito Proc. Civil, abrangendo a
parte Trabalhista (Penal, Civil e Trabalhista). Os principais ramos do direito processual
são esses a que acabamos de nos referir, ou seja, o penal, o civil e o trabalhista. Nada
impede que outros ramos sejam criados.

8. Conteúdo das normas de Direito Processual


a) Normas de Organização - estabelecem a estrutura organizacional do Poder Judiciário
que é o aparelho ou organização, órgão - poder destinado a realizar a função jurisdicional
do Estado. Dispõem sobre a constituição dos órgãos judiciários, sua composição, as
ligações entre eles, o recrutamento e a posição dos seu agentes e auxiliares.
b) Normas de Competência - são as que operam a divisão do trabalho entre os diversos
órgãos judiciários segundo os critérios que estabelecem.
c) Normas de Processo - compreendem as normas disciplinadoras das situações jurídicas
dos sujeitos do processo, ou seja, seus poderes, deveres, ônus e faculdades, bem como
as normas procedimentares, que disciplinam o exercício desses poderes, deveres, ônus e
faculdades, quanto à seqüência dos atos, sua forma, tempo, e lugar do seu exercício.

FONTES DO DIREITO PROCESSUAL

A) FONTES DO DIREITO – Fontes reais e fontes formais.

- Fonte real ou material da norma: São as causas ou fatores econômicos, políticos e


sociais que determinam o conteúdo histórico da norma. Exemplo: por quê o legislador
instituiu o divórcio? A resposta a essa pergunta nos dá as fontes materiais das normas
que instituíram o divórcio.

- Fontes formais: São as formas através das quais se manifestam as regras. Podem ser
entendidas também em dois sentidos: como os processos de criação do direito e como as
formas de manifestação do direito.

- Como os processos de criação do direito: Com este significado dizemos que as fontes
formais são os processos de criação do direito, porque é através de uma sucessão de
atos (processos) que o direito é produzido. A fonte é o fenômeno criador do direito, a sua
origem, enquanto a lei é o produzido, o produto da criação.

- Como as formas de manifestação do direito: a lei é apenas a forma através da qual o


direito se manifesta. Neste entendimento, as fontes formais do direito são as diferentes
espécies normativas, porque é através delas que o direito aparece ou se manifesta aos
nossos olhos.

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FONTES FORMAIS DO DIREITO PROCESSUAL

São as diferentes espécies normativas que o ordenamento jurídico brasileiro


considera como formas válidas de expressão do direito, que são a lei, a analogia, o
costume e os princípios gerais do direito.

1) Fonte Principal: A Lei – Sentido amplo – CF – as espécies normativas do art. 59


da CF– leis complementares como a LOM – entre as leis ordinárias, as que tratam
especificamente de matérias auxiliares da Justiça.

Nota: a Constituição Federal como estatuto da sociedade estatal é o fundamento de


validade de todo o ordenamento jurídico e por conseqüência do direito processual.

2) Fontes Subsidiárias: Analogia, Costumes, Princípios gerais do direito, Súmulas dos


/tribunais, Jurisprudência e Doutrina.

a) Analogia: a analogia recorre a uma norma reguladora de um caso semelhante da qual


deduzimos a norma aplicável a caso não previsto. Trata-se de um método de integração
do ordenamento jurídico, de preenchimento das lacunas do ordenamento.

b) Costumes: O costume não é legislado, ou seja, não é produzido por um legislador


histórico. Os autores declaram ser uma regra jurídica não escrita, proveniente de usos
populares e aceita como necessária pelo próprio povo. Se refletirmos sobre o processo de
produção dos costumes comerciais, por exemplo, verificaremos que não são provenientes
dos usos populares, mas de uma categoria profissional, os comerciantes, que
desenvolvem esses usos para atender a necessidades ditadas por seus interesses e não
em benefício do povo. Diante disto, as conclusões a que chegamos é de que a formação
do costume varia em função do setor do direito considerado, nunca sendo, porém, o
produto das aspirações e dos ideais de todo povo, como fez crer a doutrina. Embora o
costume continue tendo relevância em outros setores do direito, principalmente no
comercial, no entanto sua importância no direito processual é muito discutível. É que o
exercício da função jurisdicional do Estado está minuciosamente disciplinado pela norma
escrita, circunstância que reduz ou praticamente elimina o espaço para a atuação das
regras costumeiras.

c) Princípios Gerais do Direito: Há controvérsia na doutrina, quanto os princípios gerais do


direito serem do direito natural ou do direito positivo. De acordo com José de
Albuquerque, os chamados princípios gerais do direito são as normas que estabelecem
as proposições fundamentais do ordenamento jurídico. Constituem aquilo que a doutrina e
a jurisprudência chamam de “espírito do sistema”, no sentido de princípios que inspiram
todo o sistema do direito. São, pois, princípios gerais do direito positivo.

d) As Súmulas dos Tribunais: Desde que tenham conteúdo processual, são fontes formais
do direito processual, já que, segundo o ordenamento jurídico brasileiro, são uma das
formas de expressão do direito. São juridicamente obrigatórias para os tribunais que as
elaboram nos casos de que tratem, até que sejam modificadas ou revogadas pelo mesmo
procedimento seguido na sua constituição. A obrigatoriedade das súmulas STF resulta
dos arts. 95/99 do seu regimento interno, que por sua vez, se se funda na CF. A
obrigatoriedade das súmulas dos demais tribunais se funda nos arts. 476 e 479 do CPC.

e) Jurisprudência: Devemos entender ser um conjunto de decisões concordantes sobre


uma mesma questão jurídica, das quais se extrai a norma jurídica aplicável às questões
análogas, que se suscitarem no futuro. Não está enumerada entre as fontes formais do
direito no sistema jurídico brasileiro. Embora a jurisprudência não seja, juridicamente,
vinculante, com exceção das súmulas, como vimos, contudo, do ponto de vista
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sociológico, é fonte do direito, porque é uma instância a que acorrem normalmente os
usuários do direito para encontrar a norma jurídica.

f) Doutrina: Também não está catalogada entre as fontes formais do direito no sistema
jurídico brasileiro. O fato é que a doutrina exerce um importante papel na aceitação das
normas por parte dos juristas práticos, cuja ideologia normativa é formada a partir de suas
considerações teóricas.

CONCLUSÕES SOBRE AS FONTES FORMAIS DO DIREITO

Caberia indagar por quê a lei ocupa o lugar preponderante no sistema das fontes
formais do direito. Para consolidar o poder conquistado nos fins do século XVIII, a
emergente classe capitalista necessitava estender as novas relações sociais a toda a
sociedade, até então sujeita ao direito costumeiro feudal, variável de feudo para feudo. A
técnica da lei com suas características de generalidade e abstração, foi justamente o
instrumento ideal para a burguesia alcançar seus objetivos.
Assim, foi a necessidade de unificar as relações sociais sob a mesma égide do
capitalismo, com a conseqüente liquidação dos costumes feudais, que determinou a
necessidade de adotar a lei como forma predominante de manifestação do direito.

INTERPRETAÇÃO DO DIREITO PROCESSUAL

Interpretar é determinar o sentido de um conteúdo singular. Interpretação jurídica é


a atividade mental orientada para o esclarecimento do conteúdo da norma jurídica. A
interpretação do direito é uma espécie derivada do gênero que é a Hermenêutica.
Interpretação quanto aos elementos: gramatical, lógica, sistemática e histórico evolutiva.
Interpretação quanto aos resultados: restritiva e extensiva.
Interpretação quanto ao sujeito: legislativa (ou autônoma), judicial e doutrinária.

• INTERPRETAÇÃO QUANTO AOS ELEMENTOS

1) Interpretação Gramatical: Procura determinar o sentido da norma a partir da


significação das suas palavras e da relação entre elas, apoiando-se nos elementos
lingüísticos do texto normativo.

2) Interpretação Lógica: O processo lógico procura reconstituir o pensamento e a vontade


do legislador como meio de procurar a mens legis, a occassio legis e a ratio legis.
Mens legis: o espírito da lei, o pensamento que conduziu à feitura da lei;
Occasio legis: conjunto de circunstâncias que determinam a criação da lei, o oportunidade
da lei.
Ratio legis: razão da lei.

3) Interpretação Histórico Evolutiva: consiste basicamente em considerar o conhecimento


evolutivo (e, portanto, histórico) da linguagem utilizada na redação do texto legal para se
chegar à essência do dispositivo normativo, buscando verdadeiro significado da lei. É
preciso conhecer as realidades sócio-econômicas que determinaram a produção da
norma para poder adapta-la às mudanças e transformações dessa realidade. Permite
portanto adequar as normas às mutações sociais que não poderiam ser conhecidas nem
previstas por aqueles que criaram as normas.
4) Interpretação Sistemática: procura esclarecer o conteúdo das normas por via de sua
comparação com outras normas sobre a mesma questão e assim sucessivamente, até
chegar, se preciso, ao conhecimento do próprio sistema. O importante é ter consciência
de que não há norma jurídica isolada, mas sim um conjunto de normas entrelaçadas. Não
é possível o conhecimento das coisas isoladas. Conhecer é descobrir a relação entre as
coisas.
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• INTERPRETAÇÃO QUANTO AOS RESULTADOS

Essas interpretações, restritiva e extensiva, são excepcionais, porque a regra é o


conteúdo da norma corresponder ao significado do texto. Em algumas situações porém, a
norma necessita de ser interpretada de maneira mais estrita do que a que decorre do
sentido literal do texto, dizemos que esta interpretação da norma é restrita. Ao contrário,
quando a norma necessita de ser interpretada de maneira mais ampla do que a que
resulta do sentido literal do texto, dizemos que esta interpretação é extensiva.
Brocardos: Lex plus voluit quam dixit (extensiva); Lex minus voluit quam dixit (restritiva).

• INTERPRETAÇÃO QUANTO AOS SUJEITOS

1) Legislativa: é a que se faz por ato do legislador, dizendo-se também autêntica, porque
feita pelo próprio órgão que produz a norma. Tem um âmbito de validade geral, vale para
um número indeterminado de pessoas e casos.

2) Judicial: è a realizada pelos juízes, no exercício da atividade jurisdicional. Exposta em


sentenças ou acórdãos, é sempre obrigatória para as partes do litígio. Tem um âmbito de
validade casuístico e individual. Vale apenas para o caso a que diz respeito e em relação
às pessoas entre as quais foi dada. Exceto as Súmulas, que tem validade material geral.

3) Doutrinária: Escritos em tratados, compêndios, manuais, monografias, teses ou


comentários à legislação. Elaborada pelos chamados juristas teóricos. Vale apenas como
um esclarecimento ou explicação sobre o conteúdo da norma. Não tem força jurídica, e o
seu valor está na força lógica ou persuasiva dos argumentos, ou na autoridade moral ou
intelectual do intérprete.

• INTERPRETAÇÃO TELEOLÓGICA (está no livro, mas Bravo não citou na apostila)

A interpretação teleologia procura articular o direito com as finalidades a que a


norma se destina. O intérprete, sobretudo o juiz, não pode ignorar a função social do
direito no sentido de que a lei é editada para alcançar um objetivo social determinado.
Disso decorre a necessidade de o intérprete pesquisar o fim social da lei, para adequar
sua interpretação ao mesmo.
A interpretação teleológica muda o modo tradicional de raciocinar do juiz, que deixa
de preocupar-se só com o passado para preocupar-se sobretudo com o futuro, ou seja,
com as conseqüências da decisão na realidade social.
No Brasil, o método teleológico é exigência constitucional imposta pelo art. 3° e
seus incisos, da CF.

A LEI PROCESSUAL NO TEMPO – CONFLITO DAS LEIS NO TEMPO

As normas jurídicas têm por conteúdo uma conduta humana que deve realizar-se
em determinado tempo e espaço. Daí a necessidade de considerar a vigência das normas
a partir de quatro âmbitos: PESSOAL (relaciona-se aos sujeitos cujas condutas são
reguladas pelas normas); MATERIAL (diferentes aspectos das condutas que são
regulamentadas); ESPACIAL (refere-se ao território dentro do qual a norma vige); e
TEMPORAL (relaciona-se ao espaço de tempo dentro do qual a norma tem vigência).

As normas processuais vigem durante um determinado espaço de tempo. Às vezes


ocorre que duas ou mais normas processuais sucessivas regulam um mesmo fato,
surgindo a questão de saber qual delas deve ser aplicada. A este fenômeno a doutrina
denomina conflito de leis processuais no tempo. Este conflito é regulado por um conjunto

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de normas chamado direito transitório, sendo objeto de estudo de parte da ciência do
direito denominada Direito Intertemporal.

PRINCÍPIOS GERAIS: dois princípios regulam a aplicação da lei no tempo: NÃO


RETROATIVIDADE ou IRRETROATIVIDADE DA LEI E O DA APLICAÇÃO IMEDIATA DA
LEI NOVA. O princípio da não-retroatividade visa a tutelar a certeza e a segurança das
situações jurídicas passadas. O princípio da aplicação imediata da lei nova visa a garantir
a imediata eficácia da lei posterior, que se presume melhor do que a anterior.

NOTA: PRINCÍPIO TEMPUS REGIT ACTUM = A LEI DO TEMPO DO ATO REGE O ATO.

CONTEÚDO DO DIREITO PROCESSUAL E NATUREZA DAS SUAS NORMAS: o


conteúdo do direito processual compõe-se basicamente de três tipos de normas: normas
de organização judiciária, de competência e de processo propriamente ditas. Por sua
finalidade, estas normas são de direito público, portanto de natureza imperativas, salvo
raras exceções, não podendo sua aplicação ser afastada pela vontade das partes. Assim
a regra geral é que a lei processual deve ter aplicação imediata, mas não devendo
retroagir, ou seja, não deve alcançar as atos praticados na vigência da lei velha, nem os
seus efeitos futuros.

PROCESSOS PENDENTES: Aplica-se imediatamente a lei nova aos processos


pendentes. A lei nova atinge o processo em curso no ponto em que este se achar no
momento em que ela entrar em vigor, sendo resguardada a inteira eficácia dos atos
processuais até então praticados. A lei nova só alcança os atos futuros, deixando válido
os atos realizados segundo a lei revogada.

NULIDADE DOS ATOS PROCESSUAIS: São reguladas pela lei do tempo em que são
praticados esses atos. A validade dos atos praticados sob o regime da lei antiga mantém-
se, mesmo que à luz da lei nova, estes atos sejam considerados nulos; A nulidade dos
atos praticados no regime da lei antiga mantém-se, mesmo que à luz da lei nova, estes
atos sejam considerados válidos.

PRAZOS PROCESSUAIS EM CURSO: prazo processual é o espaço de tempo dentro do


qual os atos processuais devem ser realizados. A lei nova não deve incidir sobre o prazo
já em curso, quer o aumente, quer o diminua em relação à lei antiga.

PROVAS: Quando se trata de regras respeitantes ao direito afirmado em juízo, a lei


aplicável deve ser a do dia em que o ato a provar foi praticado. Quanto à admissibilidade
e ao ônus da prova, prevalece a lei do dia em que o ato a provar se realizou. Quando se
trata de regras relativas ao procedimento a ser observado na produção das provas em
juízo, a lei aplicável deve ser a do dia da produção da prova em juízo.

AÇÃO: É o meio de realização prática do direito através da função jurisdicional do Estado.


A lei sobre a admissibilidade da ação deve ser a do dia do surgimento do direito a que a
ação visa defender e não a do dia do seu ingresso em juízo.

RECURSOS: O recurso visa obter a reforma de uma decisão ou sentença. A lei sobre a
admissibilidade dos recursos e seus efeitos deve ser a do dia em que nasce o poder (ou o
direito) de recorrer, e este nasce exatamente no dia da publicação da decisão ou
sentença e não no dia da interposição do recurso.

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PROPEDÊUTICA PROCESSUAL

ANÁLISE DOS CONCEITOS BÁSICOS: NECESSIDADE, BEM, UTILIDADE,


INTERESSE, CONFLITO DE INTERESSES, PRETENSÃO, RESISTÊNCIA E LIDE.

Nota: após lermos essa parte de propedêutica processual, podemos concluir que há uma
cadeia causal até se chegar à lide, ou seja: o homem vive num agrupamento social e
senti necessidade, sendo o bem o ente capaz de satisfazer esta necessidade, caso em
que este bem se torna útil e desperta interesse. Quando há o conflito de interesse, há em
conseqüência a pretensão e a resistência, ocorrendo a lide. Após explicar a cadeia causal
até se chegar a uma lide, o autor Carreira Alvim, passa a explicar as formas de resolução
dos conflitos: autodefesa, autocomposição e processo.

O ser humano possui uma vocação inseparável de viver em grupos, associado a


outros seres da mesma espécie. Um agrupamento social, ainda que rudimentar, somente
pode ser entendido com um mínimo de organização, pois comunidade sem organização é
algo inadmissível, como também não se conhece organização sem direito. Quem
contempla o panorama de um agrupamento social verifica que ele revela aos olhos do
observador os homens com as suas necessidades, os seus interesses, as suas
pretensões e os seus conflitos.

NECESSIDADE: Traduz-se numa situação de carência ou desequilíbrio biológico ou


psíquico. Etimologicamente deriva de nec esse, que significa não ser, não existir. Em
outras palavras, traduz a falta de alguma coisa. O homem experimenta necessidades as
mais diversas, sob variados aspectos, e tende a proceder de forma a que sejam
satisfeitas; que desapareça a carência, ou se restabeleça o equilíbrio perdido.

CARNELUTTI: Definição: A necessidade é uma relação de dependência do homem para


com algum elemento. A tendência para a combinação de um ente vivo (homem) com um
ente complementar (bem), constitui uma necessidade. A necessidade é satisfeita com a
combinação.

UGO ROCCO: Definição: A necessidade é uma lei natural do homem, que procede do
instinto, e tem uma sanção natural na emoção do prazer por sua satisfação e de dor por
sua insatisfação. O prazer e a dor são os dois grandes móveis da atividade humana, que
impulsionam o homem para a satisfação das suas necessidades, isto é, a procurar para si
o que é conforme à condição de existência da vida humana e a rechaçar o que é contrário
a tais condições.

BEM

CARNELUTTI: Bem é o ente capaz de satisfazer a uma necessidade do homem; bonum


quo beat, porque faz bem.

UGO ROCCO: doutrina no mesmo sentido, para quem bem é tudo o que é apto para
satisfazer ou que satisfaz a uma necessidade.

UTILIDADE

CARNELUTTI: Definição: Utilidade nada mais é do que a capacidade ou a aptidão de um


bem para satisfazer a uma necessidade.

UGO ROCCO: Definiu a utilidade como sendo a idoneidade de uma coisa (bem) para
satisfazer a uma necessidade. De um lado temos o homem com as suas necessidades,
de outro lado, os bens com a sua utilidade.
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INTERESSE: A necessidade e a utilidade despertam o interesse do homem pelo gozo dos
bens da vida. Isto não significa que sempre que haja utilidade em um bem, ocorra um
interesse relativamente a ele. É preciso que à utilidade se alie a necessidade presente ou
de previsão futura.

CARNELUTTI: Definição: O interesse não é um juízo, mas uma posição do homem,


precisamente a “posição favorável à satisfação de uma necessidade”, e, portanto, uma
relação entre o ente (homem) que experimenta a necessidade e o ente (bem) apto a
satisfazê-la.

CARNELUTTI: Se o interesse é a posição ou a situação do homem, favorável à satisfação


de uma necessidade, esta posição ou situação se verifica em relação a um bem. Homem
e bem são os dois termos dessa relação que se chama interesse: sujeito do interesse é o
homem ou “o ente dotado de personalidade jurídica”; objeto dele é o bem. Se o homem
tem fome e tem o alimento à sua disposição para satisfaze-la, está numa posição de
interesse (ou seja, está entre uma necessidade e um bem apto a satisfazê-la); se, porém,
tem fome, mas não tem o alimento à sua disposição, não estará numa posição de
interesse.

UGO ROCCO: Definição: O interesse é um juízo formulado por um sujeito acerca de uma
necessidade, sobre a utilidade ou sobre o valor de um bem, enquanto meio para a
satisfação dessa necessidade, É, por conseguinte, um ato da inteligência, que é dado
pela representação de um objeto (bem), pela representação de uma necessidade e pela
representação da aptidão do objeto (bem) para satisfazer a própria necessidade.

• ESPÉCIES DE INTERESSE

INTERESSE IMEDIATO: Quando uma situação se presta diretamente à satisfação de


uma necessidade. Ex: a situação de quem possui o alimento presta-se diretamente à
satisfação de alimentar-se.
INTERESSE MEDIATO: quando a situação apenas indiretamente presta-se à satisfação
de uma necessidade, enquanto dela pode derivar uma outra situação (intermediária), que
consegue a satisfação da necessidade. Ex: Quem possui dinheiro para adquirir alimento,
apenas indiretamente (mediatamente) presta-se à satisfação da necessidade de
alimentar-se.

INTERESSE INDIVIDUAL: Quando a situação favorável à satisfação de uma necessidade


pode determinar-se em relação a um indivíduo, isoladamente. Assim, o uso de uma casa
é um interesse individual, porque cada um pode ter uma casa para si. Aqui, a razão está
entre o bem e o homem, conforme suas necessidades.
INTERESSE COLETIVO: Quando a situação favorável à satisfação de uma necessidade
não pode determinar-se senão em relação a vários indivíduos, em conjunto. Assim, o uso
de uma grande via de comunicação é um interesse coletivo, porque esta não pode ser
construída para a satisfação isolada das necessidades de um só homem, mas somente
para a satisfação das necessidades de muitos homens. Aqui, a razão está entre o bem e
o homem, mas apreciadas as suas necessidades em relação a necessidades idênticas do
grupo social. A existência dos interesses coletivos explica a formação dos grupos sociais.
Exemplos de interesses coletivos: os da família, da sociedade civil e comercial, da
corporação, do sindicato e do Estado.
INTERESSE DE PRIMEIRO GRAU OU PRIMÁRIO: Quando o juízo de utilidade ou de
valor considera o bem em si mesmo como apto diretamente para satisfazer uma
necessidade.

10
INTERESSE DE SEGUNDO GRAU OU SECUNDÁRIO: Quando o juízo de utilidade ou de
valor considera o bem como meio para a consecução de outro bem que satisfaça a
necessidade.

CONFLITOS DE INTERESSES: surgem porque as necessidades são ilimitadas, mas os


bens são limitados. Logo, relativamente a determinados bens, surge entre os homens,
choques de forças, que caracterizam o conflito de interesses e que são inevitáveis no
meio social.

CARNELUTTI: Ocorre o conflito entre dois interesses, quando a situação favorável à


satisfação de uma necessidade exclui, ou limita, a situação favorável à satisfação de outra
necessidade.

• CARNELUTTI:

CONFLITO SUBJETIVO DE INTERESSES (Intra Subjetivo): É o conflito entre dois


interesses de um mesmo homem. As necessidades do homem aumentam com maior
rapidez do que aumentam os bens, e a limitação dos bens, em relação às necessidades
explica que, com freqüência, o homem se encontre frente ao dilema, ante duas
necessidades, sobre qual deva satisfazer e qual deva sacrificar. Ex: alguém que tenha
necessidade de se alimentar e se vestir, mas só possui dinheiro para satisfazer a uma das
duas necessidades. O conflito se resolve com o sacrifício do interesse menor em favor do
interesse maior.
CONFLITO INTERSUBJETIVO DE INTERESSES: Um conflito entre interesses de duas
pessoas. Podem ocorrer entre interesses individuais (Tício e Caio têm necessidade de
alimentar-se, mas não existe alimento senão para um deles); entre interesse individual e
coletivo (o interesse de Tício à segurança pessoal e o interesse coletivo à defesa do
território, que reclama a sua exposição aos perigos da guerra); entre dois interesses
coletivos (o conflito entre o interesse à instrução pública e o interesse à defesa pública,
quando os meios à disposição do Estado forem limitados, de forma que não possam ser
satisfeitas, contemporaneamente, e completamente, as exigências do equilíbrio da
instrução com o equilíbrio da guerra).

PRETENSÃO: O conflito intersubjetivo de interesses tende a diluir-se no meio social,


mas, se isso não acontece, levando os contendores a disputar, efetivamente, determinado
bem da vida, para a satisfação de suas necessidades, delineia-se aí uma pretensão.

CARNELUTTI: A pretensão ocorre quando o conflito dá lugar a uma atitude da vontade de


um dos sujeitos. Carnelutti definiu a Pretensão como sendo a “exigência de subordinação
do interesse de outrem ao interesse próprio”.

CARNELUTTI: A pretensão é separada do direito e da razão. É separada do direito


porquê pode haver uma pretensão infundada e é separada da razão (ragione), porquê
pode haver uma pretensão desarrazoada. A razão (ratio pretendi) é precisamente o que
vincula a pretensão ao direito. A pretensão é um ato, não um poder; algo que alguém faz,
não que alguém tem; uma manifestação, não uma superioridade da vontade. Como pode
haver pretensão sem direito, assim também pode haver direito sem pretensão; ao lado da
pretensão infundada temos, como fenômeno inverso, o direito inerte.

RESISTÊNCIA: Ocorre quando aquele, cujo interesse deveria ser subordinado, não
concorda com essa subordinação, ele opõe, então, resistência à pretensão.

CARNELUTTI: Definição: Resistência é a “não adaptação à (situação de) subordinação


do interesse próprio ao interesse alheio”, ou sinteticamente, a “oposição a uma
pretensão”.
11
CARNELUTTI: A resistência pode consistir em que, sem lesar o interesse, o adversário
contesta a pretensão ou, pelo contrário, sem contestar a pretensão, lesa o interesse (ex:
não paga o que deve); pode ocorrer, também, que a resistência se estenda a uma e outra,
(contesta e lesa o interesse). Ex: fato = homicídio, lesão = tirar a vida; fato = lesão
corporal, lesão = lesa a saúde (esses atos já são de resistência e foram esses atos de
resistência que criaram a pretensão da vítima, porquê a vítima é quem virá a pretender e
quem gerou o fato, o autor, é que irá resistir à pretensão da vítima). Tanto a contestação
como a lesão do interesse, do mesmo modo que a pretensão, são dois atos jurídicos, mas
de espécie diversa: a contestação, como a pretensão, é uma declaração; a lesão, pelo
contrário, uma operação jurídica (ato jurídico de evento físico). Assim se distinguem, em
razão da qualidade da resistência, a lide de pretensão contestada (discutida) e a lide de
pretensão insatisfeita, que é aquela que não se tem muito o que discutir, ou seja, é um
direito líquido e certo que apenas naquele dado momento está insatisfeito. Ex: cobrar
judicialmente o cumprimento de um título de crédito que obedeça totalmente aos
princípios da cartularidade e da literalidade, ou seja, é uma lide de pretensão insatisfeita.

LIDE:

CARNELUTTI: Diante da pretensão de um dos sujeitos, se o titular do interesse oposto


decidir pela subordinação, a pretensão basta para determinar a solução pacífica do
conflito. Quando porém à pretensão do titular de um dos interesses em conflito opõe o
outro resistência, o conflito assume feições de uma verdadeira lide (ou litígio).

CARNELUTTI: Definiu assim o termo Lide: “O conflito de interesses, qualificado pela


“o
pretensão de um dos interessados e pela resistência do outro”. Ou, resumidamente,
conflito de interesses, qualificado por uma pretensão
resistida (discutida) ou insatisfeita”.
CARNELUTTI: A lide tem um elemento material, que é o conflito de interesses, e um
elemento formal, que são, a um só tempo, a pretensão e a resistência (ou oposição).

Nota: Pode haver lide sem processo.

FORMAS DE RESOLUÇÃO DOS CONFLITOS: AUTODEFESA, AUTOCOMPOSIÇÃO E


PROCESSO

Nota: Se deve a Niceto Alcalá-Zamora y Castillo a primeira formulação sistemática das


idéias de processo, autodefesa e autocomposição. Carnelutti analisa formas diversas de
composição dos conflitos, como a econômica e a ética, além da resolução pelos meios
jurisdicionais (processo).

Quando o conflito é resolvido por obra dos próprios litigantes, ocorre uma solução
parcial do conflito, por ato das próprias partes; temos assim a autodefesa e a
autocomposição. Quando o conflito é resolvido mediante a decisão imperativa de um
terceiro, temos uma solução imparcial do conflito, quer dizer, por ato de um terceiro,
alheio ao litígio; temos assim o processo.

AUTODEFESA: Formada do prefixo auto (próprio) e do substantivo defesa, equivale a


"defesa própria" ou "defesa por si mesmo". Esta forma de resolução dos conflitos é
apontada como a mais primitiva, quando ainda não existia, acima dos indivíduos, uma

12
autoridade capaz de decidir e impor a sua decisão aos contendores, pelo que o único
meio de defesa do indivíduo (ou do grupo) era o emprego da força material ou força bruta
contra o adversário, para vencer a sua resistência. Imperava a lei do mais forte. Nessa
época, não se tinha ainda uma noção clara da individualidade da culpa, de modo que o
ataque a um membro de determinada tribo era considerado uma agressão à tribo inteira,
e vice-versa. Por isso, provocava uma reação em massa da tribo agredida.

Notas essenciais da autodefesa: a ausência de um juiz, distinto das partes litigantes, e a


imposição da decisão por uma das partes à outra.

Nota: como até hoje falta um poder supra-estatal capaz de impor, pela força, as próprias
decisões aos Estados, a extrema ratio para resolver os conflitos entre os países é a
guerra, isto é, o recurso à violência armada. Acontece como nos agrupamentos primitivos,
quando o único meio de defesa do indivíduo (ou do grupo) era o emprego da força
material contra o competidor, para vencê-lo, ou seja, a auto defesa ou defesa privada,
que transforma todo conflito numa rixa aberta.

Os Estados modernos, reconhecendo que, em determinadas circunstâncias, não


podem evitar que se consume uma lesão de direito, permitem que o próprio indivíduo
defenda seus interesses, mesmo com o emprego, se necessário, da força material, nos
limites traçados à atividade individual. Exemplos típicos de autodefesa podem ser citados
no direito moderno: a legítima defesa, no âmbito penal; o desforço incontinente (a força
que é utilizada para que alguém se mantenha ou seja integrado na posse, de que é
turbado (fato injusto ou ato abusivo) ou foi esbulhado (tirar da pessoa a coisa ou bem, por
meio de fraude ou violência) ) e o penhor legal, no âmbito civil; o direito de greve, no
âmbito trabalhista.

À medida que os homens foram compreendendo que os bens, pela sua importância
e limitação, e pela sua quantidade e qualidade, não justificavam uma disputa, com riscos
de perder tudo, o bom senso e razão passaram a ocupar o lugar da força bruta, ocorrendo
uma evolução para aquela forma de resolução dos conflitos denominada
"autocomposição".

AUTOCOMPOSIÇÃO: Na linguagem Carnelutiana equivale a solução, resolução ou


decisão do litígio por obra dos próprios litigantes.

A autocomposição, ao contrário da autodefesa, aparece como uma expressão


altruísta (filantrópica), pois traduz atitudes de renúncia ou reconhecimento a favor do
adversário. "A" desiste de reclamar o pagamento de seu crédito, ou "B" acede em
satisfazer a dívida; a vítima de um delito contra a honra perdoa seu ofensor, ou o acusado
concorda com a pena pedida contra ele, como admitem os códigos criminais de alguns
países. Sendo uma forma altruísta de composição dos conflitos, poderia parecer a mais
recomendável, mas não o é, porque, além das razões apontadas, oculta ou dissimula atos
de autodefesa em que o litigante mais fraco, não podendo resistir, prefere renunciar.

Como exemplos de formas autocompositivas podem ser citados: a transação (a


convenção em que, mediante concessões recíprocas, duas ou mais pessoas ajustam
certas cláusulas e condições para que previnam litígio, ou ponham fim a litígio já
suscitado), no âmbito civil; o perdão do ofendido, no âmbito penal e a conciliação (acordo
amigável), nos âmbitos trabalhista e civil. A autocomposição pode ocorrer antes, durante e
depois do processo, ao contrário da autodefesa, que acontece sempre antes.

Três formas autocompositivas:


a) renúncia (ou desistência): a atitude altruísta procede do atacante, de quem deduz a
pretensão. É unilateral.
13
b) submissão (ou reconhecimento): a atitude altruísta emana do atacado, de quem se
opõe à pretensão. É unilateral.
c) transação: A atitude altruísta emana de ambos. É bilateral.

ARBITRAGEM: Com o evoluir dos tempos, os homens compreenderam a excelência de


um outro método, segundo o qual a solução dos conflitos era entregue a terceira pessoa,
desinteressada do objeto da disputa entre os contendores, surgindo, então, a arbitragem
facultativa, em tudo superior aos métodos anteriores. Primeiramente, a arbitragem foi
exercida pelos sacerdotes, pois acreditava-se, devido à formação místico- religiosa
desses povos, que eles tinham ligações com os deuses e a sua decisão era a
manifestação viva da vontade divina; depois, a solução dos conflitos passou a ser
entregue aos membros mais idosos do grupo social (anciãos), na crença de que,
conhecendo eles os costumes de seus antepassados, estavam em melhores condições
de decidir o conflito.

PROCESSO: De facultativa, a arbitragem, pelas vantagens que oferece, torna-se


obrigatória, e, com o arbitramento obrigatório, surge o processo, como última etapa na
evolução dos métodos compositivos do litígio. O processo se apresenta como meio que
maiores probabilidades oferece de uma resolução justa e pacífica dos litígios, porque o
conflito é resolvido por um terceiro sujeito, a ele estranho, segundo determinadas regras.
É preciso, contudo, que esse terceiro imparcial que decide o conflito seja mais forte do
que as partes litigantes, para que possa impor a sua vontade, coativamente, frente a
qualquer intuito de desobediência ou descumprimento por parte dos contendores.
Compreende-se, pois, que este terceiro seja o Estado. O processo é o instrumento de que
se serve o Estado para, no exercício da função jurisdicional, resolver os conflitos de
interesses, solucionando-os. É o instrumento previsto como norma pelo Estado para a
solução de toda classe de conflitos jurídicos. No processo, a lide é resolvida por um
terceiro sujeito, que é o juiz, o qual dele participa na qualidade de órgão estatal, investido
de jurisdição, imparcial e eqüidistante dos interesses das partes. O juiz não possui
nenhum interesse naquilo que constitui objeto da disputa judicial; o seu interesse, como
órgão estatal, é secundário, em contraposição ao interesse das partes, que é primário. No
processo, a lide é resolvida, não segundo critérios de exclusiva conveniência do juiz, mas
mediante a aplicação da lei.

CARNELUTTI: Define o processo como sendo "o conjunto de atos destinados à formação
ou à atuação de comandos jurídicos, cujo caráter consiste na colaboração, para tal fim, de
pessoas interessadas (partes), com uma ou mais pessoas desinteressadas (juízes)". A
grosso modo, o processo é uma "operação, mediante a qual se obtém a composição da
lide".

O processo não se compõe de um único ato, mas de um conjunto de atos


coordenados e ligados pelo fim perseguido, que é o de obter a justa composição da lide (a
noção de processo é essencialmente teleológica, porque o processo só se explica pelo
seu fim (Couture). Os atos processuais são praticados pelo juiz, figura proeminente no
processo, e pelas partes (através de seus advogados), pelos auxiliares da justiça, pelos
colaboradores eventuais (peritos, intérpretes).

PROCESSO E ATUAÇÃO DO DIREITO OBJETIVO:

Ensina Bueno de Souza que existe relação entre o processo e o direito objetivo sob
um duplo aspecto:
1°) Se trata de resolver a lide mediante o processo, o juiz deverá dirigir o processo na
forma da lei e não na forma de sua preferência.

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2°) Na medida em que o processo proporciona uma sentença; na medida em que o
processo é um "conjunto de atos destinados à formação de imperativos jurídicos", ele
contribui para criar o direito objetivo. O produto do processo (a sentença) integra-se na lei.

As relações entre o processo e o direito objetivo são de dois tipos: o processo é um


método de atuação do direito objetivo e também é um método de complementação do
direito objetivo, porquê o enriquece, acrescentando algo que antes dele não existia, a
saber, a sentença que o processo proporcionou.

CHIOVENDA (TEORIA DUALISTA): O ordenamento jurídico dividi-se em direito material e


direito processual. O direito material dita as regras abstratas, que se tornam concretas no
momento em que ocorre o fato que se enquadra na previsão legal, automaticamente, sem
qualquer participação do juiz. O processo visa apenas à atuação do direito objetivo, não
contribuindo em nada para a formação de normas concretas. O direito subjetivo e
obrigação preexistem ao processo. O processo é um método de atuação do direito
objetivo.

CARNELUTTI (TEORIA UNITÁRIA): O direito objetivo não tem condições para disciplinar
sempre todos os conflitos de interesse, sendo necessário, muitas vezes, o processo, para
a complementação dos comandos da lei. O comando contido na lei é incompleto e será
completado pela sentença. O processo participa da criação de direitos subjetivos e
obrigações, os quais só nascem efetivamente quando existe uma sentença a respeito. O
processo tem, assim, escopo (alvo, intenção, objetivo) de compor a lide, ou seja,
discipliná-la, ditando a regra que a soluciona. O processo é um método de
complementação do direito objetivo.

O processo apresenta-se como o único método capaz de assegurar, pacificamente,


a estabilidade da ordem jurídica, e o mais satisfatório e adequado para preservar ou
restabelecer a razão do que tem razão. O processo se realiza para que a lide seja
resolvida de forma justa, ou seja, mediante a aplicação da lei, que é a mais expressiva
caracterização do direito objetivo.

ESCOPO DO PROCESSO

ALFREDO ROCCO: Para ele o processo como "conjunto de atividades, subordinadas a


determinadas condições e ligadas a determinados termos", não tem, por si mesmo, um
escopo. Quando se fala de um escopo, refere-se, sempre, a um sujeito que se proponha a
alcançá-lo, e como, no processo, são sujeitos o Estado (Juiz) e as partes, é natural que
cada um deles se proponha aos escopos. Na realidade, não há escopo do processo, mas
escopo dos sujeitos processuais.

• POSIÇÃO DE OUTROS DOUTRINADORES:

O ESCOPO DO PROCESSO É A TUTELA DOS DIREITOS SUBJETIVOS (HELLWIG,


JELLINEK, WEISMANN): Para essa corrente, o processo funciona como instrumento de
defesa do direito subjetivo, violado ou ameaçado de violação. Adverte Alfredo Rocco que
se o direito subjetivo é “um interesse juridicamente protegido”, o conceito de tutela é (já)
um elemento constitutivo do direito subjetivo, pelo que falar-se de “tutela de um direito”
reduz-se a uma pura e simples repetição de conceito. A tutela de uma tutela, conclui, é
uma superfetação (redundância, coisa que se acrescenta inutilmente a outra) lógica e
prática.
A atividade jurisdicional, como toda atividade do Estado, é desenvolvida no
interesse comum de todos os consociados, sendo esse interesse comum o de que os
objetivos garantidos pelo direito sejam efetivamente alcançados. A satisfação dos
interesses privados é o resultado e não o escopo (alvo, intenção, objetivo) daquela
15
atividade. A fórmula tutela dos direitos subjetivos confunde o escopo da ação com o
escopo do processo.

O ESCOPO DO PROCESSO É A ATUAÇÃO DO DIREITO OBJETIVO (BÜLLOW,


SCHÖNKE, CHIOVENDA): Chiovenda, situando o objetivo do processo na atuação da
vontade da lei, exclui que se possa localizá-lo na defesa do direito subjetivo; tal defesa
constituirá escopo todo individual e subjetivo a que se proporá a parte autora. O processo
visa ao escopo geral e objetivo de fazer atuar a lei, e o escopo do autor e do processo só
coincidirão no caso de ser fundada a demanda. A sentença, porém, é sempre atuação da
lei, seja a demanda fundada ou infundada, pois, admitindo-a ou rejeitando-a, afirma o juiz
uma vontade positiva ou negativa de lei. Destarte (deste modo), não serve o processo a
uma ou a outra das partes; serve à parte que, segundo o juiz, está com a razão.
Nota: O primeiro interessado a pedir a atuação da lei é o indivíduo, mas isso não obsta
(não serve de obstáculo) a que aquilo que ele peça seja a atuação da lei.

Assevera (afirma com certeza) Alfredo Rocco que a concepção puramente objetiva
do escopo do processo tem o defeito fundamental de ser excessivamente abstrata e
formalista e de não tomar em consideração a função essencial e o conteúdo substancial
da norma jurídica. O direito objetivo não é um fim em si mesmo; é a garantia de escopos
ou tutela de interesses. Por isso, uma atuação pura e simples do direito objetivo não é
nem concebível.

O ESCOPO DO PROCESSO É A ATUAÇÃO DO DIREITO OBJETIVO-SUBJETIVO


(BETTI, COUTURE): A corrente objetivista-subjetivista assinala que, entre as duas
formulações, não subsiste, no fundo, um real contraste de substância. Os direitos
subjetivos e, mais genericamente, as posições jurídicas, não são algo que se possa
separar e contrapor ao direito objetivo, mas produto de valorações jurídicas expressas
pelo próprio direito objetivo e, neste sentido, identificam-se com ele. O direito objetivo não
pode ser atuado senão como regra concreta e específica de uma determinada relação
jurídica, ou estado jurídico, que, se existente de fato, confere ao interessado um direito
subjetivo, ou “uma posição de superioridade, em confronto com outros”. Não obstante
isto, a fórmula “atuação da lei”, ou seja, do direito objetivo, é preferível à outra, defesa de
direitos subjetivos, pelo equívoco em que esta última pode fazer incidir, de acreditar-se
que o processo funciona no interesse das partes em conflito. O escopo de cada uma das
partes é ter razão; a finalidade do processo, ao invés, é dar razão a quem tem. Ora, dar
razão a quem tem não é um interesse privado das partes, mas um interesse público de
toda a sociedade.

CONCLUSÃO

A concepção objetivista considera somente o escopo do Estado e, por isso,


assinala como escopo do processo a atuação do direito objetivo, ou seja, da lei, que é
justamente a vontade do Estado; a concepção subjetivista, em troca, considera somente o
escopo de uma das partes, precisamente do autor, e considera, por isso, como escopo do
processo, a tutela dos direitos subjetivos.

Posto que a atividade jurisdicional é atividade essencial do Estado, e a intervenção


das partes no processo não é senão condição ou pressuposto e delimitação dos confins
daquela atividade, Alfredo Rocco considera como preponderante e absorvente, no
processo, o escopo do Estado (finalidade pública).

O Estado tem um interesse próprio na realização dos interesses privados tutelados


pelo direito objetivo e é à realização deste escopo que ele se propõe, mediante a sua
atividade jurisdicional. Isto explica como o escopo de cada uma das partes (autor e réu)
pode coincidir, mas pode, eventualmente, não coincidir com o escopo do Estado. Só
16
quando esta coincidência se verifica, o escopo da parte identifica-se com o escopo do
Estado, o qual faz próprio e o realiza com a força da sua soberania.

JURISDIÇÃO

“Uma das funções do Estado, através de cujo exercício este se substitui à atividade dos
titulares dos interesses em conflito, para imparcialmente buscar a atuação da vontade
concreta do direito objetivo”. (Manoel Gonçalves Ferreira Filho).

“Uma das funções do Estado mediante a qual este se substitui aos titulares dos
interesses em conflito para imparcialmente buscar a pacificação do conflito que os
envolve, com justiça.” (Ada Pellegrini Grinover).

- Forma de substituir as partes para resolver o conflito.

A análise das funções do Estado moderno está estreitamente vinculada à célebre


doutrina de Montesquieu, sobre a separação dos poderes, exposta e desenvolvida na
clássica obra “O Espírito das Leis”. A separação dos poderes consiste basicamente em
distinguir três funções básicas do estado: a legislativa, a administrativa (ou executiva) e a
jurisdicional. O poder é fundamentalmente uno, pelo qual a tradicional separação dos
poderes deve ser entendida no sentido de divisão funcional do poder. Ao Poder
Legislativo corresponde a função de ditar as normas reguladoras das atividades dos
cidadãos e dos órgãos públicos, a função de criar o direito, de elaborar a norma geral e
abstrata, reguladora da vida em sociedade. As normas gerais e abstratas ditadas pelo
Poder Legislativo compõem o ordenamento jurídico do Estado ou o direito objetivo; ao
Poder Executivo incumbe a função administrativa (ou executiva), provendo as
necessidades gerais e realizando o bem comum; ao Poder Judiciário cabe a função
jurisdicional, no exercício da qual atua a lei (o direito objetivo) na composição dos conflitos
de interesses. À função jurisdicional corresponde “atuar as normas reguladoras da
atividade dos cidadãos e dos órgãos públicos”.

A palavra jurisdição vem do latim ius (direito) e dicere (dizer), querendo significar a
“dicção do direito”. A jurisdição é uma função do Estado.

Além do método estatal de resolução das lides, através do processo, existem


outras possíveis desembocaduras do litígio, dentre os quais a autocomposição (renúncia,
reconhecimento, transação), a conciliação e a arbitragem. Algumas dessas formas de
composição das lides, podem ter lugar por ocasião do processo (intraprocessuais),
quando adquirem colorido jurisdicional, que lhes é passado pela sentença de
homologação. É o caso da transação e da conciliação. Outras são, verdadeiramente,
extraprocessuais, afastando, em princípio, o processo. É o caso da arbitragem brasileira
que, depois da Lei nº 9.307/96, dispensa a homologação da sentença arbitral, dando-lhe
força própria.

“Equivalentes jurisdicionais” são os meios mediante os quais se pode atingir a


composição da lide, por obra dos próprios litigantes (contendores) ou de um particular
desprovido de poder jurisdicional.
Características da jurisdição em confronto com a legislação:

Legislar é ditar o direito em tese, como norma de conduta que se dirige a todos em
geral e a ninguém em particular. Exercer a jurisdição é dizer o direito no caso concreto. A
sentença, que é o mais expressivo produto da atividade jurisdicional, dirige-se apenas às
partes envolvidas no conflito deduzido perante o juiz. Enquanto a legislação reveste-se de
generalização, a jurisdição de particularização.

17
Legislar é dizer o direito na lei; exercer a jurisdição é atuar a lei. A jurisdição
pressupõe, pois, a legislação. A jurisdição é uma atividade complementar da legislativa. A
legislação é uma atividade que o Estado exerce independente da provocação. A
jurisdição, ao contrário, é uma atividade “dependente de provocação” e só se movimenta
por iniciativa do interessado. As hipóteses de jurisdição sem ação são particularidades do
ordenamento jurídico, contra as quais clama uníssona a doutrina. No âmbito da Justiça do
Trabalho, o juiz pode ex officio determinar a execução da sentença (favorável ao
reclamante) e no processo civil, em que o juiz pode converter pedido de concordata em
falência.

- Critério de distinção entre jurisdição e administração:

O critério predominante, aceito, entre outros, por Alfredo Rocco e Calamandrei é o


formulado por Chiovenda, segundo o qual a atividade jurisdicional é uma atividade de
substituição, o que não acontece com a atividade administrativa: O estado, tendo proibido
a autodefesa, reservou para si a tarefa de resolver os conflitos de interesses, o que
realiza através da função jurisdicional, ou seja, ocorre a substituição, por uma atividade
pública, da atividade alheia. O juiz substitui por uma atividade sua, de órgão público, a
atividade das partes envolvidas no conflito.

Essa substituição opera-se de dois modos, correspondentes aos dois estágios do


processo: o de conhecimento e o de execução. No processo de conhecimento, a
jurisdição consiste na substituição definitiva e obrigatória da atividade intelectiva das
partes pela atividade intelectiva do juiz, ao afirmar existente ou inexistente uma vontade
concreta da lei. Na execução da sentença, ocorre também a substituição da atividade das
partes pela do órgão jurisdicional.

Administrar é uma atividade imposta direta e imediatamente pela lei aos órgãos
públicos. A administração pública, nos limites do seu poder, age por conta própria e não
no lugar de outrem. O juiz age atuando a lei, a administração age de conformidade com a
lei: o juiz considera a lei em si mesma, o administrador considera a lei como norma de sua
própria conduta; a administração é uma atividade primária (originária), a jurisdição é uma
atividade secundária. Quando a administração julga, julga sobre sua própria atividade,
enquanto a jurisdição julga sobre uma atividade alheia e sobre uma vontade de lei
concernente a outro. Na administração predomina o juízo sobre a própria atividade,
enquanto, na jurisdição, predomina o juízo sobre a atividade alheia. Esse critério é o
seguido pela maioria dos doutrinadores brasileiros. A jurisdição consiste portanto “na
atuação da lei mediante a substituição, pela atividade de órgãos públicos, da atividade
alheia, seja afirmando a existência de uma vontade de lei, seja pondo-a posteriormente
em prática”.

Adolf Merkl acentua que o único meio de caracterizar a função administrativa, é


proceder por exclusão. A administração compreenderia todas as atividades do Estado que
não fossem judiciárias ou legislativas.

- A jurisdição é função, poder e atividade:

Função - tem a função de dizer o direito (jurisdictio), ao lado da administrativa e


legislativa. Função precípua do Poder Judiciário, que pressupõe a Legislativa. Expressa o
encargo que tem os órgãos estatais de promoverem a pacificação dos conflitos
interindividuais, mediante a realização do direito justo e através do processo.

Poder - porque é o Estado, através da pessoa do juiz, que, investido de autoridade, diz o
direito aplicável ao caso concreto. Tal poder é manifestação da soberania estatal,
conferindo ao juiz os poderes derivados, tais como de direção do processo, disciplina,
18
decisão etc. implicando, em contrapartida, em submissão das partes às decisões
jurisdicionais (sentenças e acórdãos).

Atividade – é o complexo de atos do juiz no processo, exercendo o poder e cumprindo a


função que a lei lhe confere. Uma vez provocada a jurisdição, tanto as partes como o juiz
desenvolvem uma série de atividades, dando uma característica de dinamicidade ao
processo, até chegar à sentença.
Couture distingue três elementos próprios do ato jurisdicional: a forma, o conteúdo
e a função: função, definido acima; por forma (ou elementos externos), entende-se a
presença de partes, de juiz e de procedimentos estabelecidos na lei; por conteúdo,
considera-se a existência de um conflito com relevância jurídica, que deve ser dirimido
pelos órgãos da jurisdição, mediante uma decisão que adquira a autoridade de coisa
julgada.

Adverte Lopes da Costa que o conceito de jurisdição prende-se, estreitamente, ao


conceito de ação, de processo e de coisa julgada. Para funcionar na causa, o juiz deve
ser imparcial, nela não pode ser interessado. Age supra partes. A autoridade
administrativa, quando julga, age inter partes. Outra nota é que o juiz, somente quando
provocado, pode agir. Assim, toda vez que encontramos um procedimento iniciado
oficiosamente, podemos, com segurança, dizer que não é jurisdicional. Conclui o
processualista por resumir assim as notas características da função jurisdicional: atuação
supra partes; em processo; sob provocação do interessado; substituindo, no processo de
conhecimento, a inteligência das partes, e, no processo de execução, a vontade delas;
em decisão com efeito de coisa julgada; declarando a existência de direitos e realizando-
os, se necessário.

CRITÉRIOS DE CLASSIFICAÇÃO

1 - Critério funcional ou subjetivo - quanto aos órgãos do Poder Judiciário, que estão
previstos no art. 92 da CF.

2 - Critério teleológico - a jurisdição visa a atuação da vontade concreta da lei


(Chiovenda).

3 - Critério formal - a jurisdição exerce-se pela substituição da atividade dos particulares


ou do Estado-Administração pela atividade imparcial do órgão jurisdicional (Chiovenda e
Frederico Marques). Há a presença de partes, de juiz e de procedimentos estabelecidos
em lei.

4 - Critério contenutístico - a jurisdição tem como conteúdo a lide (conflito de interesses


qualificado por uma pretensão resistida – discutida - ou insatisfeita) (Carnelutti).

• Para o exercício da jurisdição é necessário:


- a existência de lide;
- provocação da parte – diz respeito ao princípio da inércia. O juiz não procede ex
oficio, mas somente quando provocado pela parte, através da ação (nos casos e formas
legais);
- casos concretos e particulares – é sempre uma insatisfação que motiva a
instauração do processo. O judiciário não é um órgão de consulta, mas só age tendo em
vista um caso concreto, exceto nos casos de ADIN, Ação Direta de Constitucionalidade e
em certos casos junto à Justiça Eleitoral.

SISTEMA JURISDICIONAL

19
1 - Uno – adotado no Brasil; aqui se discute no âmbito da administração e do legislativo e,
se alguém se sentir prejudicado, busca o Judiciário. Só este decide definitivamente.

2 - Dual – adotado na França, onde o contencioso administrativo não vai ao Judiciário.

CARACTERÍSTICAS DA JURISDIÇÃO

1 - Caráter substitutivo - o Estado substitui a atividade particular dos litigantes pela


atividade pública do Juiz na solução dos conflitos de interesses. O juiz não é parte no
conflito, pois o que caracteriza sua atividade é a imparcialidade na aplicação da lei
(Chiovenda).
A única atividade admitida pela lei quando surge o conflito é a do Estado que
substitui a das partes. Esta proposição, que no processo civil encontra algumas exceções
(casos raros de autotutela, casos de autocomposição), é de validade absoluta no penal:
nunca pode o direito de punir ser exercido independentemente do processo e não pode o
acusado submeter-se voluntariamente à aplicação da pena. (Ada Pellegrini - pg 130).

2 - Atuação do direito - a atividade jurisdicional pressupõe a existência de um conjunto


de normas jurídicas (direito objetivo), que confere aos indivíduos direitos e deveres. A
finalidade da função jurisdicional é justamente a realização, a efetivação deste conjunto
de normas, tendo em vista um caso concreto (Chiovenda).
Esta teoria de Chiovenda corresponde à idéia de que a norma concreta nasce
antes e independentemente do processo. Outra posição digna de nota é a de Carnelutti:
só existiria um comando completo, com referência a determinado caso concreto (lide), no
momento em que é dada a sentença a respeito: o escopo do processo seria, então, a
justa composição da lide, ou seja, o estabelecimento da norma de direito material que
disciplina o caso, dando razão a uma das partes. (Ada Pellegrini - pg. 131).

3 - Lide - a existência de uma pretensão e de resistência a esta pretensão é essencial


para que se caracterize a necessidade de intervenção para a solução do conflito de
interesses. A lide é o conflito de interesses qualificado por uma pretensão resistida
(discutida) ou insatisfeita (Carnelutti).
Quando se trata de lide envolvendo o Estado-administração, o Estado-juiz substitui
com atividades suas as atividades dos sujeitos da lide - inclusive a do administrador. Essa
idéia também encontra aplicação no processo penal. Quem admitir que existe a lide penal
(de resto, negada por setores significativos da doutrina) dirá que ela se estabelece entre a
pretensão punitiva e o direito à liberdade; no curso do processo penal pode vir a cessar a
situação litigiosa, como quando o órgão da acusação pede absolvição ou recorre em
benefício do acusado - mas o processo penal continua até a decisão judicial, embora lide
não exista mais. Em vez de “lide penal” é preferível falar em “controvérsia penal”. (Ada
Pellegrini - pg. 132).

4 - Inércia - um dos objetivos da função jurisdicional é a pacificação social, com a solução


dos conflitos de interesses; por isso mesmo, aguarda o Estado que a parte interessada
provoque seu funcionamento através do exercício do direito de ação. A partir do momento
da provocação, dinamiza-se a jurisdição e seu instrumento de composição de conflito de
interesses. O processo se desenrola através de atos que obedecem a prazos prefixados
justamente com a finalidade de agilizá-lo. Tal inércia se explica pelo fato de que “o
exercício espontâneo da atividade jurisdicional acabaria sendo contraproducente, pois a
finalidade que informa toda a atividade jurídica do Estado é a pacificação social e isso
viria em muitos casos a fomentar lides e discórdias, lançando desavenças onde elas não
existiam antes”. (Ada Pellegrini Grinover/ Carnelutti).

5 - Definitividade - Relaciona-se a res judicata - coisa julgada - diz-se que há coisa


julgada quando a decisão judicial se torna definitiva, porque não é mais possível modifica-
20
la, seja por vontade das partes ou da própria lei (os juízes não podem voltar a decidir a
respeito). De todas as formas de composição da lide, a jurisdição é a que decide
definitivamente o litígio, pondo-lhe um ponto final. A mutabilidade da coisa julgada só é
admitida excepcionalmente, tanto no cível, quanto no criminal (arts. 485 a 495 CPC e 621
CPP - Ação rescisória e revisão criminal).

ELEMENTOS DA JURISDIÇÃO

Segundo a doutrina clássica, nossas autoridades judiciárias têm a jurisdição dos


romanos e o imperium, o que tudo compreende: o direito de conhecer, ordenar, julgar,
punir e constranger à execução. Segundo a concepção clássica, a jurisdição compreende,
então, cinco elementos:

1 – Notio – faculdade de conhecer de certa causa, de ser regularmente investido da


faculdade de decidir uma controvérsia.

2 – Vocatio – vocativo – É o poder de chamamento; a faculdade de fazer comparecer em


juízo todos aqueles cuja presença seja útil à justiça e ao conhecimento da verdade.

3 – Coercio (ou coertitio) – é o direito de se fazer respeitar e reprimir as ofensas feitas


ao magistrado no exercício de suas funções: “jurisdictio sine coertitio nulla est”.

4 – Iudicium – idéia de processo; direito de julgar e de pronunciar a sentença.

5 – Executio – fazer valer a sentença. Direito de, em nome do poder soberano, tornar
obrigatória e coativa a obediência às decisões judiciais. O judiciário não somente resolve
o caso, mas também faz valer a sentença.

PODERES DA JURISDIÇÃO

Segundo a moderna doutrina, porém, são três os poderes jurisdicionais:

1 – Poder de decisão – poder de julgar a causa, de dizer a última palavra sobre o que é
ou não direito, que é típico da atividade jurisdicional. O juiz decide o mérito da questão,
excluindo-o da apreciação de qualquer outro órgão pertencente aos demais poderes do
Estado.

2 – Coerção – este poder manifesta-se com mais intensidade no processo de execução,


embora esteja também presente no processo de conhecimento. Em virtude de tal poder o
juiz determina a remoção de obstáculos opostos ao exercício de suas funções. Ex.:
citação ou intimação (quando o destinatário se recusa a recebe-las, considera-se
entregue).

3 – Poder de documentação – resulta da necessidade de documentar o que ocorre


perante os órgãos judiciais (termos de assentada, de audiência, de provas, certidões de
notificação, de citação etc.)

PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DA JURISDIÇÃO

1 - Princípio da Investidura – significa que a jurisdição só será exercida por quem tenha
dela investido por autoridade competente do Estado e em conformidade com as normas
legais. Somente após sua investidura poderá o Juiz realizar validamente atos
jurisdicionais. Caso contrário, além de sofrer as penas previstas no art. 324 do CP
(exercício funcional ilegalmente antecipado ou prolongado) todos os atos por ele
prestados serão nulos de pleno direito. Os juízes aposentados e os magistrados em
21
disponibilidade não têm investidura. Também os conciliadores dos juizados especiais não
possuem tal investidura.

2 - Princípio da indelegabilidade – é expresso através do princípio constitucional


segundo o qual é vedado a qualquer dos poderes delegar atribuições. Além disso, no
âmbito do próprio Poder Judiciário não pode juiz algum, segundo seu próprio critério e
talvez atendendo à sua própria conveniência, delegar funções a outro órgão. A não ser em
casos excepcionais previstos em lei, e mesmo assim em atendimento ao princípio da
economia processual, o juiz não pode delegar a outrem o exercício da função
jurisdicional, devendo exerce-la pessoalmente.
- Exemplo de casos excepcionais:
- Art. 201, CPC - expedir-se-á carta de ordem se o juiz for subordinado ao tribunal de que
ela emanar; carta rogatória, quando dirigida à autoridade judiciária estrangeira; e carta
precatória, nos demais casos.
- Art. 492, CPC - Se os fatos alegados pelas partes dependerem de prova, o relator
delegará a competência ao juiz de direito da comarca onde deva ser produzida, fixando
prazo de quarenta e cinco a noventa dias para a devolução dos autos (este artigo refere-
se a ação rescisória).
- Art. 102, I, m, CF - Compete ao STF processar e julgar, originariamente a execução de
sentença nas causas de sua competência originária, facultada a delegação de atribuições
para a prática de atos processuais.

A regra de indelegabilidade dentro do âmbito do próprio poder não tem assento


constitucional expresso. Resulta de construção doutrinária a partir de princípios de
aceitação geral, sofrendo algumas exceções, como a do art. 102, I, m da CF (delegação,
pelo Supremo, de atribuições para a prática de atos processuais em casos de execução
de sentença), e a dos arts. 201 e 492 do CPC (cartas de ordem). A través das cartas
precatórias não se dá delegação alguma. O que acontece é que, impossibilitado de
realizar ato processual fora dos limites da comarca (limitação territorial de poder), o juiz
pede a cooperação do órgão jurisdicional competente: seria um contra-senso dizer que o
juiz deprecante delega (ou seja, transfere) um poder que ele próprio não tem, por ser
incompetente. (Ada Pelligrini Grinover - pg. 137).

3 - Princípio da aderência da jurisdição ao território – estabelece limitações territoriais


à atividade do juiz. A jurisdição é una, mas distribuída entre os órgãos do Poder Judiciário
para uma melhor administração da Justiça. Tais órgãos a exercem nos limites da lei
(competência) e dentro de determinados espaços territoriais (foros) traçados pelas leis de
organização judiciárias estaduais ou pela própria CF.

No princípio da aderência ao território manifesta-se, em primeiro lugar, a limitação


da própria soberania nacional ao território do país: assim como os órgãos do Poder
Executivo ou do Legislativo, também os magistrados só têm autoridade nos limites
territoriais do Estado. Além disso, como os juízes são muitos no mesmo país, distribuídos
em comarcas (Justiças Estaduais) ou seções judiciárias (Justiça Federal), também se
infere daí que cada juiz só exerce a sua autoridade nos limites do território sujeito por lei à
sua jurisdição (Ada Pelligrini - pg. 136).

O Supremo Tribunal Federal e os Tribunais superiores têm jurisdição sobre o


território do País; os Tribunais de Justiça (e os de Alçada) têm-na sobre o território do
Estado Federado; os Tribunais Regionais sobre determinada região, compreendendo um
ou mais Estados; os juizes de direito sobre a respectiva comarca, que pode abranger um
ou mais municípios ou distritos; as Juntas de conciliação e Julgamento sobre os limites
territoriais que lhe são traçados por lei.

22
As exceções a este princípio são os casos de conexão, continência e
desaforamento.

- Foro - território da comarca onde o juiz exerce a jurisdição.

4 - Princípio da indeclinabilidade - O Estado-Juiz não pode deixar de apreciar as lides


que lhe são submetidas, desde que o pedido inicial observe as exigências legais. Tal
princípio decorre do próprio monopólio da função jurisdicional, pelo qual somente ao
Estado compete dizer o direito. Carreira Alvim liga este princípio ao previsto no art. 5º,
XXXV da CF, combinando-o com o art. 126 do CPC.
Ada Pellegrini não enumera este princípio, mas chama de princípio da
inafastabilidade o previsto no art. 5º, XXXV da CF: “a lei não excluirá da apreciação do
Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito” (tutela jurisdicional), combinando-o com o
previsto no art. 126 do CPC: “não pode o juiz, a pretexto de lacuna obscuridade da lei,
escusar-se de proferir decisão”.

Dois pontos devem ser considerados distintamente, segundo se deduz do


entendimento do professor: primeiramente o contido no art. da CF citado acima. Depois
disso o fato de que, sendo a lide submetida ao juiz, não poderá ele declinar de resolve-la.

5 - Princípio da inevitabilidade - quer o particular provoque o exercício da função


jurisdicional, como acontece no processo civil, quer se submeta a ela forçosamente pela
provocação do titular do direito de punir (processo penal), em ambos os casos deverão
tanto autor como réu se submeter à decisão proferida pelo Juiz, cuja inevitabilidade
independe de manifestação de vontade das partes, pois é manifestação objetiva da
própria soberania estatal. A decisão judicial é inevitável. As partes não podem evitar o
cumprimento da decisão. A força do Estado se coloca a serviço do cumprimento da
decisão judicial.

6 - Princípio do juiz natural – é o que tem a competência firmada pelas normas legais,
no momento em que ocorre o fato a ser apreciado e julgado. Tal principio significa que
todos têm, em igualdade de condições, direito de julgamento por um juiz independente e
imparcial, segundo as normas legais. A CF dispõe sobre ele no art. 5º, XXXVII e LIII,
estabelecendo que não haverá juízo ou tribunal de exceção e que ninguém será
processado nem sentenciado senão pela autoridade competente. A jurisdição deve ser
anterior ao fato a ser julgado. Distingue-se tribunal de exceção de Justiças especiais
(como a Militar, a Eleitoral e a Trabalhista); estas são instituídas pela Constituição com
anterioridade à prática dos fatos a serem apreciados e não constituem ultraje ao princípio
do juiz natural (Ada Pellegrini - pg. 138).

7 - Princípio da inércia - somente pela provocação da parte se dinamiza a jurisdição (art.


2º, CPC). Nenhum juiz prestará a tutela jurisdicional senão quando a parte ou o
interessado a requerer nos casos e formas legais. É também chamado de princípio da
demanda. A inércia é rompida através do exercício do direito de ação; a partir daí o
processo será movimentado por impulso das partes e do juiz.
- ne procedat judex ex-officio et nemo judex sine actore - o juiz não age de ofício e não há
processo sem ação.
- Exceções:
- No processo penal, o habbeas corpus pode ser decretado de ofício.
- No processo civil há o caso da herança jacente.
- Na justiça trabalhista há o caso da execução de sentença.

8 - Nulla poena sine iudicio – não há pena sem processo. Princípio exclusivo da
jurisdição penal, significando que nenhuma sanção penal pode ser imposta sem a
intervenção do juiz, através do processo competente. O infrator, mesmo concordando,
23
não pode sujeitar-se voluntariamente à sanção. Com o advento da Lei dos Juizados
Especiais, passou-se a admitir transação em processo penal, exclusivamente para
infrações de menor gravidade.

ESPÉCIES DE JURISDIÇÃO E LIMITES

A jurisdição é manifestação da soberania estatal, sendo a soberania única, una


também é a jurisdição. A diversidade da lide não determina diversidade de função
jurisdicional. Classifica-se a jurisdição em espécies, segundo vários critérios, apenas por
motivo de mera divisão do trabalho, é somente para efeito didático, pois a jurisdição é
uma e indivisível.

1 - Espécies de jurisdição quanto ao objeto (ou matéria):


- jurisdição penal - lides penais – há conflito de interesses entre o ius puniendi do Estado
e o direito à liberdade do indivíduo.
- jurisdição civil - lides cíveis; abrange todas as causas não penais:
- em sentido amplo
- em sentido estrito (excluídas as trabalhistas e eleitorais)

- Há autores que afirmam não existir a lide penal.

2 - Quanto aos órgãos:


- jurisdição comum - todas as justiças, com exceção das chamadas especiais.
- jurisdição especial - justiças especiais (militar, eleitoral e do trabalho).

A justiça comum (Justiça Federal e Justiça Estadual) conhece de qualquer matéria


não contida na competência especialmente reservada às justiças especiais.

No que tange à jurisdição dos juízes federais, prevalece o entendimento de que se


trata de jurisdição comum (ou ordinária), porque conhecem de qualquer lide, não
compreendida na competência especialmente reservada às justiças especiais. Assim, ao
lado de uma justiça comum federal, existe uma justiça comum estadual.

Há circunstâncias em que os atos processuais realizados perante uma Justiça são


aproveitados em outra. Isso acontece, por exemplo, na hipótese prevista no art. 109, I da
CF: intervindo a União, autarquia federal ou empresa pública federal em processo já
pendente perante outra Justiça, a competência desloca-se para a Justiça Federal, sendo
então os autos remetidos a esta, onde o feito prossegue a partir do ponto em que se
encontra. Acontece, também, quando, em algum processo, o juiz entende que a
competência é de outra Justiça e não daquela perante a qual vinha fluindo: os autos serão
remetidos à Justiça competente, só se prejudicando os atos decisórios, mas
permanecendo a eficácia de tudo mais que se haja feito no processo (art. 113, § 2º, CPC).
(Ada Pellegrini - pg. 146).

3 - Quanto à hierarquia (Ada Pellegrini - pg. 146 e 147), ou quanto à graduação:


- jurisdição inferior e jurisdição superior - juízes monocráticos e tribunais - aplicação do
duplo grau de jurisdição, possibilitando a revisão das decisões.

Chama-se jurisdição inferior aquela exercida pelos juízes que ordinariamente


conhecem do processo desde o seu início (competência originária): trata-se, na Justiça
Estadual, dos juízes de direito das comarcas distribuídas por todo o Estado, inclusive da
comarca da Capital.

Chama-se jurisdição superior a exercida pelos órgãos a quem cabem os recursos


contra as decisões proferidas pelos juízes inferiores. São os Tribunais de Justiça e
24
Tribunais de Alçada (onde houver). O órgão máximo, na organização judiciária brasileira,
e que exerce a jurisdição em nível superior ao de todos os outros juízes e tribunais, é o
STF.

Em alguns casos, a lei entende que o processo deva ter início já perante os órgãos
jurisdicionais superiores, em razão de determinadas circunstâncias, como a qualidade das
pessoas, a natureza do processo etc. (competência originária dos tribunais).
- instância - grau de jurisdição
- entrância - grau administrativo das comarcas e da carreira dos juízes estaduais e
membros do MP.

4 - Quanto à fonte de direito em que se fundamenta a decisão, ou quanto à origem


ou proveniência:
- jurisdição de direito - a jurisdição legal nasce da investidura do juiz no cargo com as
atribuições próprias de seu ofício, de dizer ou declarar o direito.

- jurisdição de equidade - decidir por equidade significa decidir sem as limitações


impostas pela precisa regulamentação legal. A permissão para o juiz decidir por equidade
se encontra no art. 127 do CPC.

Exemplos de casos em que se aplica a decisão por equidade:


- Art. 1109, CPC - feitos especiais de jurisdição voluntária.
- Art. 237, CC - filhos menores do casal separado.
- Art. 400, CC - fixação de pensão alimentícia.

Na arbitragem das pequenas causas, o julgamento por equidade é sempre


admissível, independentemente de autorização das partes. A doutrina moderna considera
que a executoriedade do laudo arbitral depende de homologação do juiz de direito.

No direito penal, atendendo ao princípio da individualização da pena, a jurisdição


de equidade é a regra, pois, ao aplicar as penas cabe ao juiz dosa-las, tendo em vista as
circunstâncias do crime, atenuantes, agravantes, motivos do crime etc. (art. 59, CP).

Notas:
{Lide de pretensão contestada - ação de conhecimento.
{ Lide de pretensão insatisfeita - ação de execução.
- A lesão origina a pretensão. O autor age e o réu reage. O direito “lato sensu” é que
reconhece o direito subjetivo. Sem lesão de interesse não haverá pretensão, obviamente
não haverá lide.

5 – Quanto à forma: jurisdição contenciosa e jurisdição voluntária: a primeira é exercida


em face de litígio, quando há controvérsia inter nolentes, e a segunda, quando a função
do juiz se limita a homologar a vontade dos interessados, ou quando o juiz decide, mas
em face de interesses não-litigiosos inter volentes.

CRITÉRIOS DE DISTINÇÃO ENTRE JURISDIÇÃO CONTENCIOSA E JURISDIÇÃO


VOLUNTÁRIA

A jurisdição voluntária é uma forma especial de atividade do Estado, exercida, em


parte pelos órgãos judiciários, em parte pelos órgãos administrativos, e pertencente à
função administrativa, embora distinta da massa dos atos administrativos, por certos
caracteres particulares. A distinção entre a jurisdição contenciosa e a voluntária tem
grande importância prática, porque apenas a contenciosa produz coisa julgada e não a

25
voluntária, podendo o ato ser revisto, a qualquer tempo, respeitados, evidentemente, os
direitos adquiridos.

Chiovenda sustenta que a diferença entre as duas jurisdições está no escopo


constitutivo da jurisdição voluntária. Os atos de jurisdição voluntária tendem sempre à
constituição de estados jurídicos novos ou cooperam no desenvolvimento de relações
jurídicas existentes. A jurisdição contenciosa, ao contrário, visa à atuação de relações
existentes. Segundo Chiovenda, o caráter da jurisdição voluntária não é a ausência de
contraditório (pois pode haver processo, jurisdição contenciosa, sem contraditório. Ex:
REVELIA, que é a rebeldia de alguém que deixa intencionalmente de comparecer ao
curso de um processo, para que foi citado ou intimado), mas é a ausência de duas partes.
Na jurisdição contenciosa haverá sempre duas partes e na jurisdição voluntária não há
partes, há requerentes. Em resumo:
- Jurisdição contenciosa: atividade jurisdicional (substitutiva); escopo de atuar a
vontade da lei; existência de partes; coisa julgada.
- Jurisdição voluntária: atividade administrativa (não-substitutiva); escopo constitutivo;
existência de requerentes ou interessados (ausência de partes); não há coisa julgada.

NA AULA: Bravo deixou claro que se trata de jurisdição (contenciosa ou voluntária)


somente quando exercida dentro do Poder Judiciário. Dar entrada num processo
administrativo no poder executivo municipal, por exemplo, não é jurisdição nenhuma. Na
voluntária não há processo, na contenciosa há. Não há processo na voluntária porque
não há lide, que é o objeto do processo (o bem é o objeto da lide). Na contenciosa há
partes materiais (a pessoa que pretende e a pessoa que resiste à pretensão) e partes
processuais.

TESE REVISIONISTA SOBRE O CONCEITO DE JURISDIÇÃO VOLUNTÁRIA

Os adeptos desta tese, opõem-se à doutrina tradicional que afirma a natureza


administrativa da jurisdição voluntária. Esses adeptos vêem nela o exercício da jurisdição,
falando de processo contencioso e processo voluntário. Assim, os atos do processo
voluntário também são considerados jurisdicionais, afirmando-se que na jurisdição
voluntária também se aplica direito privado e tanto quanto na jurisdição contenciosa,
tende à atuação do direito objetivo, na tutela de interesses privados. Concordam somente
com a doutrina tradicional, em que não há litígio ou controvérsia no processo voluntário;
se surgir conflito entre os interesses privados (como, por exemplo, na nomeação de um
tutor), transforma-se em contencioso.

Afirmam também esses juristas que não há contraparte, mas formulam uma
indagação: quem promove a atuação da jurisdição voluntária não é parte? E respondem:
considerando parte aquele que pede em seu próprio nome (ou em cujo nome é pedida) a
atuação da lei, quem pede autorização para vender bens de menores, ou quem reclama
tutela, é parte; o que não existe é contraparte. Não há demanda, no sentido de que não
há um demandado direto.
Em resumo, no processo voluntário não há contraparte nem, em conseqüência,
controvérsia, como no contencioso, mas essas diferenças formais carecem de valor
suficiente para se negar caráter jurisdicional ao processo voluntário. Assim, continua de
pé o fundamento de que, tanto no processo contencioso quanto no voluntário, trata-se de
tutela dos mesmos direitos; apenas num, controvertido e noutro, não.

LIMITES DA JURISDIÇÃO

- internacionais
- internos

26
Em princípio, cada Estado tem poder jurisdicional nos limites de seu território.
Motivos:
- existência de outros Estados soberanos;
- respeito a convenções internacionais;
- razões de interesse do próprio Estado.

Os limites internacionais são territoriais e de caráter pessoal. Os arts. 88/89 do


CPC dizem quando a autoridade brasileira é competente em matéria cível:
a) se o réu tiver domicílio no Brasil;
b) versar a pretensão do autor sobre obrigação a ser cumprida no Brasil;
c) originar-se a pretensão de fato ocorrido no Brasil;
d) ser objeto da pretensão um imóvel situado no Brasil, hipótese de competência
exclusiva da justiça brasileira;
e) situarem-se no Brasil os bens que constituam objeto de inventário (competência
também exclusiva). Se o sujeito morre e tinha bens no Brasil em outro país, haverá mais
de um inventário.
Nota: letras D e E, a competência da autoridade brasileira é exclusiva, sendo de total
inutilidade propor a demanda em outro país que também se declare competente.

Sendo o direito penal regido estritamente pelo princípio da territorialidade,


conforme previsto nos arts. 5º, 6º e 7º do CP, e as sanções penais aplicáveis somente
mediante processo, a jurisdição penal segue também as limitações daquele princípio. O
mesmo se aplica ao direito trabalhista.

Limites internacionais de caráter pessoal:

- São imunes à jurisdição de um país:


a) os Estados estrangeiros;
b) os chefes de Estado estrangeiros (a imunidade de pessoas físicas refere-se tanto à
jurisdição civil quanto à penal);
c) os agentes diplomáticos;
d) os órgãos internacionais (ONU, OEA, OTAN etc.)

Limites internos

Internamente a jurisdição se rege pelos princípios que lhe são próprios, como já
vistos anteriormente. Em princípio a função jurisdicional cobre toda a área dos direitos
substanciais (art. 5º, XXXV,CF e art. 75, CC), devendo-se considerar, porém, as seguintes
ressalvas:
a) conveniência dos atos administrativos - o Poder Judiciário não pode aprecia-los quanto
à conveniência e oportunidade, somente quanto à legalidade;
b) dívidas de jogo - art. 1477 do CC - são chamadas de obrigações naturais, em que há
direito mas não há ação. Não podem fundamentar pedido ao órgão judiciário, porque a
causa de pedir é imoral.

ARBITRAGEM: Forma privada de exercício da função jurisdicional. O meio de resolver


litígios civis, atuais ou futuros, sobre direitos patrimoniais disponíveis, através de árbitros
privados, escolhidos pelas partes, cujas decisões produzem os mesmos efeitos jurídicos
produzidos pelas sentenças proferidas pelos órgãos do Poder Judiciário. Ela é regulada
pela Lei 9.307, de 23.09.1996 e está limitada à faculdade de pessoas capazes de
contratarem a arbitragem para dirimir litígios relativos a direitos patrimoniais disponíveis,
que são aqueles avaliáveis economicamente, e cujo exercício depende da vontade do
titular, ou seja, aqueles de que o titular pode dispor, segundo suas conveniências e
interesses. Ora, se o titular do direito patrimonial disponível é livre para dispor dele, nada
o impede de escolher a arbitragem para solucionar os litígios que o tenha como objeto.
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Pode ser árbitro qualquer pessoa capaz. São requisitos portanto: ser pessoa física e ser
capaz. A arbitragem disciplinada pela Lei 9.307/96 atribui eficácia própria à sentença
arbitral, garantindo-lhe os mesmos efeitos da sentença proferida pelos órgãos do Poder
Judiciário, e, sendo condenatória, força de título executivo.

Nota: Quanto à origem, Carreira Alvim (de forma diferente de Bravo), classifica a
jurisdição em legal (ou permanente) e convencional (ou momentânea).

Legal: nasce da investidura do juiz no cargo com as atribuições próprias de seu ofício, de
dizer ou declarar o direito.
Convencional: é a exercida pelos árbitros e por força de compromisso assumido pelas
partes. A doutrina moderna não reconhece, contudo, jurisdição aos árbitros, considerando
a arbitragem como um “equivalente jurisdicional” (Carnelutti). A arbitragem tem sido
prestigiada no Brasil, tendo pela Lei 9.307, força (eficácia) própria à sentença arbitral,
independentemente de homologação.

COMPETÊNCIA

1 - Conceito e Critérios determinativos (conforme Chiovenda):

Competência é a delimitação da atuação dos órgãos do Poder Judiciário. É o poder


de exercer a jurisdição nos limites estabelecidos pela lei. É o âmbito dentro do qual o juiz
pode exercer a jurisdição. Competência é o limite da jurisdição. A competência é a divisão
do trabalho na Justiça. Limita o campo de atuação do juiz.

Todos os juízes dizem o direito (jurisdição), mas dentro de sua competência.


Todos os juízes têm jurisdição, mas nem sempre têm competência.
A competência limita o campo de atuação do juiz (jurisdição).

2 - Fatores que se impõem na divisão da competência dos órgãos do Poder


Judiciário:
- extensão territorial;
- o volume das lides;
- a natureza das lides.

Para Chiovenda a repartição da jurisdição entre os vários órgãos judiciários pode


ser feita ora abrangendo aspectos externos da lide, ora levando em consideração o
elemento territorial ou, conforme o caso, a função de cada juiz no processo.

São três os critérios:

1 - Critério objetivo - determina-se a competência levando-se em conta elementos


externos da lide, tais como a natureza da causa, o valor e a condição das pessoas em
lide.

Considerando-se a natureza da causa, o Estado atribui competência aos órgãos


judiciários, tendo em vista a matéria penal ou civil, sobre a qual versa a lide. Trata-se de
competência em razão da matéria (ratione materiae). É o que ocorre quando atribui as
lides de natureza trabalhista à Justiça do Trabalho ou as de conteúdo eleitoral à Justiça
Eleitoral.

As condições das pessoas em lide (ou sujeitos) não são, entre nós, elementos
comumente usados para a repartição da jurisdição. Isto ocorre excepcionalmente, e leva-
se em consideração o interesse público, quando se fixa para determinadas pessoas, em

28
razão da função por elas exercidas ou do interesse que representam, um foro especial. É
a competência em razão das pessoas (ratione personae).
Ex: CF, art. 102, I, “b” e “c”: Compete ao STF, processar e julgar originariamente: b) nas
infrações penais comuns, o Presidente da república, o Vice-Presidente, os membros do
congresso Nacional, seus próprios Ministros e o Procurador-Geral da República; c) nas
infrações penais comuns e nos crimes de responsabilidade, os Ministros de Estado e os
Comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, ressalvado o disposto no art.
52,I, os membros dos Tribunais superiores, os do tribunal de Contas da União e os chefes
de missão diplomática de caráter permanente. CF, art. 105, I, também é outro exemplo.

Em razão do valor da causa, que se afere pela avaliação pecuniária do bem


pretendido, pode ser também atribuída competência. O art. 91 do CPC estabelece que
“regem a competência em razão do valor e da matéria as normas de organização
judiciária...” O art. 98, I da CF se refere a questões de menor complexidade a serem
julgadas pelos Juizados Especiais, cujo critério de classificação, na maioria das vezes, é o
valor. No art. 24, X a CF faz referência aos mesmos juizados, chamando-os de “Pequenas
Causas”. As causas referentes ao Estado e à capacidade das pessoas, como anulação de
casamento, as quais não pode ser atribuído um valor, serão julgadas por qualquer dos
juízes.

2 - Critério Territorial - o território é elemento importante na fixação da competência pela


lei, pois tendo em vista a posição territorial dos juízes ou das partes, ou das relações que
o objeto da lide ou fatos a ela ligados tenham com o território, determina-se a
competência de foro (ratione loci).
Exemplos:
- no Processo Civil, a regra é que a competência se fixe pelo domicílio do réu (art. 94,
CPC), com as exceções previstas pelo próprio Código;
- no Processo Penal, a regra é que a competência seja estabelecida com base no foro da
consumação do delito (art. 70, CPP);
- no Processo Trabalhista, o foro da prestação de serviço ao empregador é competente
para o ajuizamento da reclamação (art. 651, CLT).

3 - Critério Funcional - valendo-se do critério objetivo e do territorial, a lei fixa a


competência originária dos órgãos jurisdicionais, ou seja, qual o juiz competente para
tomar conhecimento da ação a ser proposta. Porém, em um mesmo processo, enquanto
não definitivamente julgado, podem vários juízes nele funcionar, exercendo atividades
jurisdicionais que são também delimitadas. Trata-se da competência funcional.
Ex.: no crime de homicídio: denúncia e pronúncia (1ª Vara); do libelo à execução (2ª
Vara).

ESPÉCIES DE COMPETÊNCIA

1 - Competência internacional - o Estado sofre a delimitação de sua jurisdição, em face


de outros Estados. Estes limites são denominados de competência externa, internacional
ou geral e seus princípios são firmados pelo próprio direito positivo de cada país. Estão
previstos no art. 12 da LICC c/c arts. 88 a 90 do CPC. A competência internacional é de
duas ordens: pessoal e territorial, conforme comentado no item referente a limites
internacionais da jurisdição.

2 - Competência interna ou especial - tem suas linhas gerais traçadas pela C.F. quando
discrimina as competências dos vários órgãos do Poder Judiciário (art. 92 e seguintes);
também as leis de organização judiciária dos estados federados discriminam o assunto.

OUTRAS ESPÉCIES DE COMPETÊNCIA

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1 - Competência de Jurisdição - refere-se às várias “justiças” que compõem o Poder
Judiciário. Ex.: eleitoral, penal, civil etc. (PREVALECE O INTERESSE PÚBLICO, na
distribuição dessa competência). É distribuída na forma dos arts. 109, 114, 121, 124, 125,
§§ 3º e 4º da CF.

2 - Competência hierárquica - trata-se da distinção entre jurisdição inferior e jurisdição


superior, que compreende a competência originária e recursal. (PREVALECE O
INTERESSE PÚBLICO, na distribuição dessa competência). A competência originária é
em regra dos órgãos inferiores (órgãos judiciários de primeiro grau de jurisdição, ou de
primeira instância), só excepcionalmente ela pertence ao STF (art. 102, II, CF), ao STJ
(art. 105, II, CF), ou aos órgãos de jurisdição superior de cada uma das Justiças. A
competência recursal pertence, em regra, aos tribunais e não aos juízes de primeiro grau:
a parte vencida, inconformada, pede manifestação do órgão jurisdicional mais elevado (e
aí reside o funcionamento do princípio do duplo grau de jurisdição). Competência recursal
é competência para os recursos.

3 - Competência de juízo - Resulta da distribuição dos processos entre órgãos judiciários


do mesmo foro. Juízo é sinônimo de órgão judiciário e, em primeiro grau de jurisdição,
corresponde às varas. Em um só foro há, freqüentemente, mais de um juízo, ou vara. A
competência de juízo é determinada precipuamente: a) pela natureza da lide (varas
criminais e as cíveis; varas de acidentes do trabalho, da família e sucessões, de registros
públicos, etc...); b) pela condição das pessoas (varas privativas da fazenda pública). A
distribuição entre juízos igualmente competentes se dá por alternância (art. 252, CPC) ou
sorteio na secretaria do Tribunal (art. 548, CPC). (PREVALECE O INTERESSE PÚBLICO,
na distribuição dessa competência).

4 - Competência funcional - também chamada de competência interna do juízo, implica


que em um mesmo processo vários juízes podem exercer atividades diversas, com limites
estabelecidos quer pelo CPC, pela Lei de Organização Judiciária ou pelo Regimento
Interno dos Tribunais. Tal possibilidade está prevista nos arts. 549 e 551 do CPC, que se
referem à tramitação de recursos nos Tribunais. (PREVALECE O INTERESSE PÚBLICO,
na distribuição dessa competência).

A competência interna dos órgãos judiciários é problema decorrente da existência


de mais de um juiz (pessoa física) no mesmo juízo, ou de várias câmaras, grupos de
câmaras, turmas ou seções no mesmo tribunal. A Constituição estabelece que, havendo
questão de constitucionalidade a decidir em um processo em trâmite perante algum
tribunal, essa questão será decidida necessariamente pelo plenário ou pelo órgão
especial (arts. 93, XI, e 97), ainda que o julgamento da causa ou recurso esteja afeto a
uma câmara ou turma (o dado relevante reside então na natureza do fundamento da
demanda). Além disso (só em processo civil), havendo dois juízes em exercício na mesma
comarca ou vara, aquele que tiver iniciado a instrução oral em audiência prosseguirá no
processo até o fim, dando sentença: só se afasta do processo se transferindo, promovido
ou aposentado (CPC, art. 132). A competência das câmaras, grupos de câmaras, seções,
turmas e plenário dos tribunais é ditada pela Lei Orgânica da Magistratura Nacional, pelas
Constituições estaduais, leis de organização judiciária e regimentos internos.

5 - Competência territorial ou de foro - decorre do previsto em lei a respeito da relação


que as partes, o objeto da lide ou mesmo fatos ligados à lide mantenham com o território
onde o juiz exerce a jurisdição. Foro é o limite dentro dos quais o juiz exerce a jurisdição.
Nas Justiças dos Estados o foro de cada juiz de primeiro grau é o que se chama comarca;
na Justiça Federal é a seção judiciária. O foro do Tribunal de Justiça de um Estado é todo
o Estado; o dos Tribunais Regionais Federais é a sua região, ou seja, o conjunto das
unidades da Federação sobre as quais cada um deles exerce jurisdição; o do supremo
Tribunal Federal, do Superior Tribunal de Justiça e de todos os demais tribunais
30
superiores é todo o território nacional. (PREVALECE O INTERESSE DAS PARTES na
distribuição dessa competência).

Desprezando os casos excepcionais (foros especiais), podemos indicar as regras


básicas, ou seja, aquelas que constituem o chamado foro comum:
- No processo civil – prevalece o foro do domicílio do réu (art. 94, CPC);
- No processo trabalhista – o foro da prestação dos serviços ao empregador (art. 651,
CLT);
- No processo penal – o foro lugar da consumação do delito (art. 70, CPP).

Considera-se foro comum aquele que corresponde a uma regra geral, que só não
vale nos casos em que a própria lei fixar algum foro especial (ex: a residência da mulher,
nas ações de anulação de casamento, separação ou divórcio – CPC, art. 100, I). Há
também casos em que a lei fixa foros concorrentes, à escolha exclusiva do autor (local do
fato ou domicílio do autor, na ação para indenização de danos causados em acidentes de
veículos – CPC, art. 100, par. ún.). Quando não for possível determinar a competência
pelos critérios primários fornecidos pela lei, em muitos casos há o foro subsidiário (o
domicílio ou residência do acusado, se não for conhecido o local da consumação da
infração – CPP, art. 72).

COMPETÊNCIA ABSOLUTA E RELATIVA

A distribuição da jurisdição atende ao interesse público ou ao interesse e


comodidade das partes. Atendendo ao interesse público, determina-se a competência
segundo o critério objetivo e funcional.; atendendo ao interesse das partes, determina-se
a competência pelo critério territorial.
No processo penal essa distinção é sem importância. Quer seja relativa ou
absoluta, o juiz deve ex officio declarar-se incompetente quando o for. No processo civil e
trabalhista quando trata-se de competência absoluta o juiz deve dar-se por incompetente
de ofício e remeter os autos ao juiz competente. Se se tratar de competência relativa, esta
pode ser prorrogada.

- competência absoluta - é aquela em que prevalece o interesse público na sua divisão


pela lei; é improrrogável.
São competências absolutas:
- de jurisdição;
- hierárquica;
- de juízo;
- funcional.
- competência relativa - prevalece o interesse ou comodidade das partes, daí
decorrendo a possibilidade de sua alteração (ubi faccinus perpetravit ibi poena reddita).
Pode ser modificada por determinação legal (prorrogação legal ou necessária) ou por
vontade das partes (prorrogação voluntária). São competências relativas:
- territorial (no processo civil, já que no processo penal a competência territorial é
absoluta, prevalecendo o interesse público na elucidação do ato criminoso);
- em razão do valor da causa.

José de Albuquerque: Absoluta diz-se a competência que não pode ser modificada.
Relativa, pelo contrário, diz-se a competência modificável. No processo civil, apenas a
competência determinada em razão do território e do valor é modificável (CPC, art. 102 e
111). Por exclusão, não se modifica a competência determinada em razão da matéria, da
função e das pessoas.

Ada Pellegrini: Nos casos de competência determinada segundo o interesse público


(competência de jurisdição, hierárquica, de juízo, interna), em princípio o sistema jurídico-
31
processual não tolera modificações nos critérios estabelecidos, e muito menos em virtude
da vontade das partes em conflito. Trata-se, aí, da competência absoluta, isto é,
competência que não pode jamais ser modificada. Iniciado o processo perante o juiz
incompetente, este pronunciará a incompetência ainda que nada aleguem as partes
(CPC, art. 113; CPP, art. 109), enviando os autos ao juiz competente; e todos os atos
decisórios serão nulos pelo vício de incompetência, salvando-se os demais atos do
processo, que serão aproveitados pelo juiz competente (CPC, art. 113, § 2º; CPP, art.
567).

A CF, art. 50, LIII, determina que “ninguém será processado nem sentenciado
senão pela autoridade competente”; desse modo, o princípio do juiz constitucionalmente
competente vem integrar as garantias do devido processo legal, podendo considerar-se
inexistente o processo conduzido pelo juiz desprovido de competência constitucional.

No processo civil a coisa julgada sana (relativamente) o vício decorrente de


incompetência absoluta, mas, dentro do prazo de dois anos a contar do trânsito em
julgado, pode a sentença ser anulada, através da ação rescisória.

No processo penal, a anulação virá através da revisão criminal ou do habeas


corpus, a qualquer tempo, mas somente quando se tratar de sentença condenatória (CPP,
arts. 621 e 648). No processo penal, se o acusado já tiver sido absolvido, não poderá ser
submetido a novo processo em face dos princípios gerais que impedem que alguém seja
processado duas vezes pelo mesmo fato.

Tratando-se de competência de foro, o legislador pensa preponderantemente no


interesse de uma das partes em defender-se melhor (no processo civil, interesse do rúe;
no trabalhista, do economicamente fraco – CPC, art. 94 e CLT, art. 651. Assim sendo, a
intercorrência de certos fatores (entre os quais, a vontade das partes) pode modificar as
regras ordinárias de competência territorial. A competência, nesses casos, é então
relativa. Também relativa é, no processo civil, a competência determinada pelo critério do
valor, esta relatividade não atinge os processos das pequenas causas.

No processo penal, o foro comum é o da consumação do delito. Mesmo no


processo civil é meramente aproximativa a regra contida nos enunciados acima
(competência territorial, é relativa; demais competências, são absolutas). Há exceções a
ela no próprio direito positivo (Lei das Falências, art. 7º; do CPC, art. 95), sendo que
jurisprudência e doutrina restringem a prorrogabilidade da competência territorial nos
casos dos foros especiais.

Diante do exposto e abstraídas as aplicações particularizadas das regras sobre


improrrogabilidade, absoluta é a competência improrrogável (que não comporta
modificação alguma); relativa é a prorrogável (que, dentro de certos limites, pode ser
modificada). E a locução prorrogação da competência, de uso comum na doutrina e na lei,
dá a idéia da ampliação da esfera de competência de um órgão judiciário, o qual recebe
um processo para o qual não seria normalmente competente.

PRORROGAÇÃO DA COMPETÊNCIA

Prorrogação da competência é a ampliação da esfera de competência de um


órgão judiciário em virtude de disposição de lei (prorrogação legal ou necessária) ou em
decorrência da vontade expressa das partes (prorrogação voluntária).

1 - Prorrogação legal ou necessária - ocorre sempre que entre duas ou mais ações
houver conexão ou continência, conforme previsto no art. 102 do CPC e 76 e 77 do CPP.
É quando se dá por disposição legal a ampliação da esfera de competência do juiz.
32
Ocorre sempre que entre duas ou mais ações existirem nexos, isto é, sempre que
apresentarem elementos comuns.

A ampliação legal ou necessária decorre da necessidade de se impedir que sobre


lides que apresentem entre si nexos quanto ao objeto ou quanto à causa de pedir sejam
proferidas decisões contraditórias.

Seja conexão ou continência, a semelhança das causas apresentadas ao Estado-


juiz (mesmos fatos a provar; mesmo bem como objeto de dois conflitos de interesses)
aconselha que, a propósito de ambas, forme o juiz uma única convicção, de modo a evitar
decisões contraditórias em dois processos distintos e, em qualquer hipótese, atendendo
ao princípio da economia processual.

Considerando-se os três elementos da ação (partes, objeto e causa de pedir),


temos as definições de conexão e continência:

- Conexão - há conexão entre duas ou mais ações quando um ou dois elementos (objeto
ou causa de pedir) lhes são comuns, devendo ser apreciadas por um juiz, para evitar
duplicidade de decisões. “Reputam-se conexas duas ou mais ações, quando lhes for
comum, o objeto ou a causa de pedir” (art. 103, CPC). O elemento “parte” não chega a
estabelecer conexão.
- Continência - é uma espécie do gênero conexão. Ocorre nos casos em que entre duas
ou mais ações haja identidade quanto às partes e a causa de pedir, mas o objeto de uma
por ser mais amplo, abrange o das outras (art. 104, CPC). Ex.: cobrança de juros e
cobrança do principal de uma dívida.

Quanto aos efeitos, tanto a conexão quanto a continência implicam na reunião dos
processos, podendo se feita de ofício pelo juiz ou a requerimento de qualquer das partes,
para fim de decisão simultânea, conforme art. 105 do CPC.

Em conseqüência de um desses fatores, se uma das causas conexas ou ligadas


por nexo de continência for da competência territorial de um órgão e outra delas for da
competência de outro, prorroga-se a competência de ambos: dá-se o que se chama
prevenção e qualquer um deles fica sendo competente e o que conhecer de uma dessas
causas em primeiro lugar conhecerá também da outra (os processos, além disso, são
reunidos em um só).

- Art. 492, § 2º, CPP: “se for desclassificada a ação para outra atribuída à competência do
juiz singular, ao presidente do tribunal caberá proferir em seguida a sentença”.

2 - Prorrogação voluntária - a ampliação ou prorrogação voluntária da competência


(territorial ou de valor), pode decorrer de expressa manifestação de vontade, quando as
partes escolhem no contrato qual será o foro competente quanto às pendências nele
fundamentadas (foro de eleição contratual ou convencional – admitida apenas no
processo civil, CPC art. 111) (chama a doutrina neste caso “prorrogação voluntária
expressa”). Pode ser tácita, naqueles casos em que a ação é proposta em foro
incompetente e o réu não alega a incompetência no prazo legal. A eleição de foro só é
possível no processo civil, sendo vedada no processo trabalhista. (Quando a ação é
proposta em foro incompetente e o réu não alega a incompetência no prazo de 15 dias
através da exceção de incompetência – CPC, art. 305 – costuma dizer a doutrina que se
tem a “prorrogação voluntária tácita”.

- Art. 111, CPC: A competência em razão da matéria e da hierarquia é indelegável por


convenção das partes, mas estas podem modificar a competência em razão do valor e do
território, elegendo foro onde serão propostas as ações oriundas de direitos e obrigações.
33
§ 1º O acordo, porém, só produz efeito, quando constar de contrato escrito e aludir
expressamente a determinado negócio jurídico.
§ 2º O foro contratual obriga os herdeiros e sucessores das partes.

3 - Formas de argüição da incompetência - a competência absoluta pode e deve ser


declarada de ofício pelo juiz, podendo a parte peticiona-la em qualquer tempo e grau de
jurisdição. Argüida a nulidade, no caso de prorrogação absoluta, os atos anteriores
decisórios serão nulos. A princípio, não há prazo para a argüição de competência
absoluta, mas entende-se que, após o trânsito em julgado da sentença, mesmo tendo
sido esta proferida por juiz incompetente, e passado o prazo para ação rescisória, não
pode a decisão ser modificada, tendo em vista a segurança e confiabilidade das decisões
judiciais.

A competência relativa não pode ser declarada de ofício pelo juiz, devendo a parte
faze-lo através da exceção de incompetência e no prazo legal (opportuno tempore et
forma legis). Se ninguém argüi incompetência, o juiz torna-se competente para julgar.

Obs.: a competência territorial é, em princípio, improrrogável no processo penal, mas há


uma exceção a este princípio no art. 424 do CPP, que trata do desaforamento. Este pode
ser autorizado pelo tribunal de apelação, a requerimento de qualquer das partes ou
mediante representação do juiz, tendo por base o interesse da ordem pública ou dúvida
dobre a imparcialidade do júri ou sobre a segurança pessoal do réu.

Em processo civil a jurisprudência entende que se prorroga a competência do juiz


do foro do domicílio do demandado, independentemente ou ainda contra a sua vontade,
quando ali é proposta alguma demanda que seria da competência de outro (foro
especial). Essa regra é explícita na Lei das Pequenas Causas (lei 7.244, de 7.11.84, art.
12, par. ún.).

No processo penal, em que o foro comum não é determinado predominantemente


no interesse do réu (mas em atenção ao princípio da verdade real, como foi dito), se o réu
não opõe a exceção de incompetência no prazo de três dias, mesmo assim o juiz pode a
qualquer tempo dar-se por incompetente.

Outro caso de prorrogação de competência (às vezes legal; às vezes voluntária) é


representado pelo desaforamento (renúncia ao foro do domicílio ou do privilégio) de
processos afetos ao julgamento pelo júri, o qual é determinado pelo tribunal superior a
requerimento do acusado ou do promotor público, ou mesmo mediante representação
oficiosa do juiz, nos seguintes casos: a) interesse da ordem pública; b) dúvida sobre a
imparcialidade do júri; c) risco à segurança pessoal do acusado.

4 - Prevenção (prae-venire = vir antes) – é o fenômeno segundo o qual o juiz que


primeiro tomar conhecimento da causa tem sobre ela firmada a sua competência,
excluindo-se todos os demais. Juiz prevento é o que primeiro tomou conhecimento da
lide. Deve-se ressalvar que a prevenção apenas firma a competência de um juiz que já
era competente, segundo as regras gerais de competência. Por isto a prevenção não se
inclui entre os critérios de determinação da competência, sendo apenas uma forma para
sua fixação. Trata-se de hipótese de dois juízes igualmente competentes, firmando-se a
competência naquele que primeiro tomar conhecimento da causa ou outros
procedimentos a ela relativos.

5 - Perpetuatio jurisdicionis - traduz o fenômeno segundo o qual, firmada a competência


de um juiz, ela perdura até a decisão e execução da sentença (art. 87, CPC). Assim, a
mudança do domicílio do réu, de cidadania das partes ou do valor do objeto em nada
altera a competência.
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Exceções: supressão do órgão ou mudança da competência hierárquica.
Exemplos:
- supressão do órgão judiciário - extinguindo-se a comarca de Vargem Alta, os processos
seriam transferidos para uma outra comarca.
- mudança de competência - em razão da matéria ou da hierarquia (competência
absoluta): a partir da C.F. de 88, os prefeitos, que antes eram julgados pelos juízes de
primeiro grau, passaram a ser julgados pelos Tribunais de Justiça.

AÇÃO

HISTÓRICO: A história de Roma se divide em três etapas (monarquia, república e


império), correspondentes a três épocas distintas, em que o procedimento romano tomou
o nome de cada sistema que nelas estiveram em vigor: sistema das ações da lei (legis
actiones), sistema formulário (per formulas) e sistema extraordinário (cognitio
extraordinária). No decurso dos três sistemas a palavra ação (actio) foi adquirindo um
conteúdo diferente.
No primeiro período, chamado ações da lei, o procedimento se caracterizou por um
ritualismo próximo da religiosidade, consistente em declarações solenes, gestos, etc...,
sendo que o mais insignificante erro conduzia à perda do litígio. Fundamentaram-se as
ações da lei na Lei das XII Tábuas.

No segundo período, sistema formulário, substituem a recitação oral e as palavras


rituais, por fórmulas que o magistrado redigia e entregava aos litigantes, de acordo com a
ação que se pretendia instaurar, correspondendo a cada direito violado uma ação e uma
fórmula diferente. Ao domínio, correspondia uma ação reivindicatória; à posse, uma ação
possessória, etc.

Tanto o procedimento das ações da lei quanto o formulário, compreendiam duas


fases: in iure, perante o magistrado, para escolher a fórmula e que terminava com a
litiscontestatio; e in iudicio, perante o juiz ou árbitro, que terminava com a sentença.

O terceiro período, cognitio extraordinária (sistema extraordinário), que começa no


século III da Era Cristã, caracterizou-se pela fusão das duas fases do procedimento numa
só instância, e os litigantes compareciam perante o magistrado, que conhecia diretamente
da demanda, proferindo sentença. Esta última etapa, termina com as publicações
ordenadas pelo Imperador Justiniano (529 a 534), que tornaram conhecida a definição de
ação, elaborada séculos antes, primeiro por Celso e reproduzida depois, quase
textualmente, por Ulpiano: actio autem nihil aliud est quam ius persequendi in iudicio quod
sibi debetur.

TEORIA IMANENTISTA: (Clássica ou Civilista)

A definição de Celso viria, séculos mais tarde, a constituir a base de uma doutrina,
que, tendo entre seus maiores expoentes Savigny, teve a adesão dos juristas até meados
do século passado. Identificando a ação com o direito subjetivo material, que através dela
se fazia valer em juízo, ficou conhecida com a denominação de doutrina clássica,
civilista ou imanentista da ação. Imanentista, porque a ação era algo imanente (algo
que existe num dado objeto e é inseparável dele) ao próprio direito material, que não
possuía vida própria. Daí a clássica proposição: “NÃO HÁ AÇÃO SEM DIREITO, NÃO HÁ
DIREITO SEM AÇÃO, A AÇÃO SEGUE A NATUREZA DO DIREITO”. Estas são as tr~es
conseqüências inevitáveis da teoria imanentista. Foi a teoria de Savigny.

Segundo a definição de Celso, a ação seria o direito de pedir em juízo o que nos é
devido (ius quod sibi debeatur in iudicio persequendi). Assim, não se distinguiu ação do
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direito subjetivo material e, durante muitos séculos, pela predominância da teoria
imanentista (clássica ou civilista), a ação seria uma qualidade de todo direito ou o próprio
direito reagindo a uma violação. Ou seja, a ação seria o próprio direito subjetivo material a
reagir contra a ameaça ou violação. A ação, nessa teoria, se caracteriza por se prender
indissoluvelmente ao direito que por ela se tutela.

Esta identificação da ação com o direito subjetivo material determinou que ela
constituísse uma parte do estudo do direito civil. A Escola Histórica do Direito, com
Savigny à frente, criou ambiente para que outros investigadores alemães, na segunda
metade do século XIX, colocassem os fundamentos da nova ciência do direito processual.
De grande importância, pelos reflexos que provocou, foi a polêmica que, nos anos
de 1856 e 1857, travaram Windscheid e Muther, o primeiro, professor da Universidade de
Greifswald e o segundo, da Universidade de Königsberg.

A POLÊMICA WINDSCHEID – MUTHER

Em sua monografia, procurou Windscheid demonstrar que o conceito romano de


ação não coincidia em absoluto com o conceito de ação do moderno direito germânico. A
concepção dominante que teve em Savigny o expoente que lhe dera sua forma mais
significativa, entende por direito de acionar o direito à tutela judicial, nascido da lesão de
um direito, no qual se transforma um direito ao ser lesado. Atribui-se a ação à pessoa que
foi lesada em um direito que lhe compete, mas não somente a esta. Se se diz que o
comprador tem a “ação da coisa comprada” e pode exigir, mercê dela, isto ou aquilo, tal
afirmação se baseia na idéia de que não se valerá dela, senão quando se lhe negue o
que pode pretender (entendo, por exemplo, quando não recebe a coisa comprada), mas a
possibilidade de que essa ação não lhe competia, também antes de produzida dita
negativa (ou seja, antes de não recebê-la), escapara ao entendimento de um romano. Em
Roma, a actio passava a ocupar o lugar do direito. No magistrado romano, o juiz está
acima do direito e sua missão não se limita a realizar as situações que este lhe ordena.
Para os romanos, o importante não era o que dizia o direito, mas sim, o que dizia o
tribunal, ou seja, a ação ocupava o lugar do direito.

Ação é o termo empregado para designar o que se pode exigir de outrem. Actio é o
vocábulo para designar a pretensão. A actio está pois em lugar da pretensão. Dizer que
alguém tem uma ação, significa dizer que alguém tem uma pretensão juridicamente
reconhecível ou, simplesmente, tem uma pretensão.

Em 1857, Theodor Muther publicou, em revide a Windscheid, uma obra procurando


demonstrar que havia uma perfeita coincidência entre a actio romana e a Klage (ação)
germânica. Actio era um ato bilateral com que se iniciava o processo. Actio é pois a
fórmula da ação, que deve observar-se e cumprir-se. Agere e actio subsistiram para
significar o ato pelo qual o demandante iniciava o processo. A actio passou então a ser a
fórmula da ação. A actio é, pois, a pretensão do titular frente ao pretor, a fim de que este
lhe confira uma fórmula, para o caso de seu direito ser lesado.

O conceito romano de direito de acionar deve ser entendido de maneira um pouco


distinta do que sucede atualmente. Também em nossos dias, quem foi lesado em seu
direito tem direito à assistência estatal (direito de acionar), e- como para os romanos – os
pressupostos desse direito são outro direito e a lesão deste último. O direito (material) e o
direito de acionar não são hoje em dia idênticos, se pensarmos que há um obrigado no
direito material e outro obrigado distinto no direito de acionar, e, também, porque, hoje,
pode haver pretensões sem direito de acionar, a menos que se queira negar a
possibilidade das obrigações naturais. Quem tem, por exemplo, um direito de propriedade
tem uma pretensão contra todos os demais, a que, de fato, reconheçam seu
incondicionado senhorio sobre essa coisa. A isto é que se chama ordenamento jurídico. A
36
ele se agrega o ordenamento das ações. Se essa pretensão não é respeitada, o lesado
pode solicitar a assistência estatal, que será, sem embargo, distinta, segundo o modo
como se haja lesado o direito.

Concluindo, Muther combatendo algumas idéias de Windscheid, distinguiu


nitidamente DIREITO LESADO E AÇÃO. Da ação nascem dois direitos, ambos de
natureza pública: o direito do ofendido à tutela jurídica do Estado (dirigido contra o
Estado) e o direito do Estado à eliminação da lesão, contra aquele que a praticou.
Segundo a concepção de Muther, ação consiste no direito à tutela do Estado, e que
compete a quem seja ofendido no seu direito. Ação é um direito contra o Estado para
invocar a sua tutela jurisdicional. É, pois, um direito público subjetivo, distinto do direito
cuja tutela se pede, mas tendo por pressupostos necessários este direito e sua violação.
Distinguia-se assim o direito subjetivo material, a ser tutelado, do direito de ação, que era
direito subjetivo público. Apesar de replicar com veemência, Windscheid acabou por
aceitar algumas idéias do adversário, admitindo um direito de agir, exercível contra o
Estado e contra o devedor.
CONCEITO DE AÇÃO

Vedada em princípio a autodefesa e limitadas a autocomposição e a arbitragem, o


Estado moderno reservou para si o exercício da função jurisdicional, como uma de suas
tarefas fundamentais. Mas a jurisdição é inerte e não pode ativar-se sem provocação, de
modo que cabe ao titular da pretensão resistida invocar a função jurisdicional. Assim
fazendo, o sujeito de interesse estará exercendo um direito ou um poder, que é a ação.

AÇÃO: É o direito (ou o poder) de invocar o exercício da atividade jurisdicional. Esse


direito subjetivo, de caráter público, pois diz respeito ao exercício de uma função pública e
tem por sujeito passivo o próprio Estado, é o direito de ação. Ao direito de ação
corresponde o dever da prestação jurisdicional por parte do Estado. Mediante o exercício
da ação provoca-se a jurisdição, que por sua vez se exerce através daquele complexo de
atos que é o processo. Constitui conquista definitiva da ciência processual o
reconhecimento DA AUTONOMIA DO DIREITO DE AÇÃO, a qual se dresprende por
completo do direito subjetivo material.

A ação é um direito abstrato, porque exercível por quem tenha ou não razão, o que
será apurado tão somente na sentença, e, além do mais, genérico, pois não varia, é
sempre o mesmo, por mais diversos sejam os interesses que, em cada caso, possam os
seus titulares aspirar.

Ação, jurisdição, processo, eis o trinômio que enfeixa o fenômeno da resolução dos
conflitos de interesses: a ação provoca a jurisdição, que se exerce através de um
complexo de atos, que é o processo.

Distinguindo a autonomia do direito de ação, do direito subjetivo material a ser


tutelado e reconhecendo em princípio seu caráter de direito público subjetivo, duas
correntes principais disputam a explicação da natureza do direito de ação: a teoria do
direito concreto à tutela jurídica e a teoria do direito abstrato de agir.

NATUREZA JURÍDICA DA AÇÃO: Entre os direitos públicos subjetivos, caracteriza-se


mais especificamente como direito cívico, por ter como objeto uma prestação positiva por
parte do Estado. A ação tem inegável natureza constitucional. Trata-se de direito ao
provimento jurisdicional, qualquer que seja a natureza deste – favorável ou desfavorável,
justo ou injusto – e, portanto, direito de natureza abstrata.

A doutrina dominante distingue, porém, a ação como direito ou poder constitucional


(garantido a todos e de caráter extremamente genérico e abstrato), do direito de ação de
37
natureza processual (o único a ter relevância no processo). O direito de ação de natureza
constitucional seria o fundamento do direito de ação de natureza processual.

TEORIA DO DIREITO CONCRETO À TUTELA JURÍDICA (ou, ação como direito


autônomo e concreto)

A autonomia do direito de ação foi definitivamente proclamado quando Adolf Wach ,


na Alemanha, demonstrou categoricamente que podem existir ações (as meramente
declaratórias) pelas quais se pleiteia o recolhimento judicial, conforme o caso, da
inexistência de um direito subjetivo material (ex: as ações negatórias de paternidade, em
que alguém pretende seja declarada a inexistência de paternidade em relação a outrem).
Ou seja, são ações em que o autor pode pretender uma simples declaração de
inexistência de uma relação jurídica. Tal posição veio destruir a afirmação dos
tradicionalistas de que não há ação sem direito. Salientou Wach ser a ação um direito
subjetivo público contra o Estado, sendo esse o titular da prestação jurisdicional, ou seja,
ao qual corresponde a obrigação de prestá-la, e contra o demandado, que está obrigado a
suportar os seus efeitos. Entretanto, como a existência de tutela jurisdicional só pode ser
satisfeita através da proteção concreta, o direito de ação só existiria quando a sentença
fosse favorável. Conseqüentemente, a ação seria um direito público e concreto (ou seja,
um direito existente nos casos concretos em que existisse direito subjetivo). Sua teoria
sofreu duras críticas na parte em que subordina a existência do direito de ação à
sentença favorável, ou seja, defendia ser a ação um direito que só compete a quem tem
razão. A teoria da ação como direito concreto à tutela jurídica é inaceitável; para refutá-la,
basta pensar nas ações julgadas improcedentes, onde, pela teoria concreta, não seria
possível explicar satisfatoriamente os atos processuais praticados até a sentença.
TEORIA DA AÇÃO COMO DIREITO POTESTATIVO

Ainda à teoria concreta filia-se Chiovenda, que, em 1903, formula a construção da


ação como direito potestativo. Ou seja, a ação configura um direito autônomo, diverso do
direito material que se pretende fazer valer em juízo; mas o direito de ação não é um
direito subjetivo – porque não lhe corresponde a obrigação do Estado – e muito menos de
natureza pública. Segundo Chiovenda, a ação não se dirige contra o Estado, mas sim
dirige-se contra o adversário, correspondendo-lhe a sujeição. Em última análise, a teoria
de Chiovenda configura a ação como um direito – um direito de poder – que pertence a
quem tem razão contra quem não a tem. Visando à atuação da vontade concreta da lei, é
condicionada por tal existência, tendo assim um caráter concreto. Segundo sua teoria, a
ação é o poder de criar a condição para a atuação da vontade da lei. Integra portanto a
ação a categoria dos chamados direitos potestativos (revestido de poder). Para
Chiovenda, a ação, por sua natureza, não pressupõe necessariamente um direito
subjetivo (material), mas só existe direito da ação quando a sentença é favorável ao autor,
pelo que sua teoria pertence ao grupo dos concretistas. A ação é o poder jurídico de
realizar a condição necessária para a atuação da vontade da lei. O direito de ação,
conforme a teoria chiovendiana, tem caráter privado ou público, segundo a lei, cuja
atuação produz, seja de natureza privada ou pública.

TEORIA DA AÇÃO SEGUNDO BÜLOW

Adotou muitas das idéias de Muther, reafirmando a tese de que “a ação como
direito subjetivo anterior ao juízo não existe; só com a demanda judicial nasce o direito de
obter uma sentença justa”.

TEORIA DO DIREITO ABSTRATO DE AGIR (ou, ação como direito autônomo e


abstrato)

38
Degenkolb criara na Alemanha, em 1877, a teoria da ação como direito abstrato de
agir.Quase ao mesmo tempo, Plósz formulava doutrina idêntica na Hungria.

A existência do direito de ação não depende de uma sentença favorável, pois que
não deixa de haver ação quando uma sentença justa nega o direito invocado pelo autor,
como também a sentença conceda o direito a quem o não tenha realmente. Isto quer
dizer que o direito de ação independe da existência efetiva do direito material invocado.
Sendo a ação dirigida ao Estado, é este o sujeito passivo de tal direito. Se ao final, na
sentença, declara o Estado que não há direito a ser protegido, mesmo assim o direito de
ação foi plenamente exercido. Seria assim, direito abstrato de agir. Degenkolb foi o
primeiro autor a definir a ação como direito subjetivo público, correspondente a todo
aquele que de boa-fé creia ter razão, para ser ouvido em juízo e obrigar o adversário a
apresentar-se (1877). Anos depois, Degenkolb abandonou sua tese exigindo do
demandante para que tivesse ação, acreditasse ele sinceramente estar assistido de
direito.

ALFREDO ROCCO - Devemos distinguir dois interesses distintos: o interesse tutelado


pelo direito e o interesse na tutela daquele (do direito) pelo Estado. Toda pessoa que é
titular de interesse tutelado pelo direito tem interesse em que o Estado intervenha para
satisfação de seus interesses, sempre que normalmente não atue a norma que os tutela.
Os interesses principais formam o conteúdo dos vários direitos subjetivos pertencentes a
determinada pessoa. Ao interesse principal corresponde um interesse secundário,
consistente na eliminação de certos obstáculos que se opõem à direta realização da
utilidade principal. O interesse secundário que é o interesse de agir a fim de remover os
óbices opostos ao interesse principal, por sua vez, é tutelado pelo Estado através das
normas processuais e, pois, também é um direito subjetivo. Este direito subjetivo que tem
por conteúdo aquele interesse secundário, é o direito de ação. O que quer dizer que o
direito de ação é um direito subjetivo autônomo, é um direito público subjetivo do indivíduo
contra o Estado, diverso dos direitos subjetivos materiais. Conseqüentemente, direito de
ação é um direito abstrato e geral, que não se condiciona necessariamente à existência
efetiva de um direito subjetivo material. Basta que o sujeito do direito de ação, para
exercê-lo, se refira a um interesse primário juridicamente protegido.

UGO ROCCO – Direito de ação é o direito do indivíduo de pretender do Estado o


exercício de sua atividade para satisfação dos interesses tutelados pelo direito. É direito
público subjetivo e está incluído entre os direitos cívicos, por isso que tem por objeto uma
prestação positiva por parte do Estado e se assinala pela característica de ser um direito
abstrato, por não estar necessariamente condicionado à existência de um direito material.
Trata-se por isso de um direito contra o Estado e não contra o adversário.

BETTI – Sua teoria conjuga dois fenômenos jurídicos: pretensão e ação. Pretensão não é
outra coisa que afirmação de uma concreta situação de direito abstratamente idônea, feita
pela parte que inicia o processo, destinada a justificar a providência jurisdicional
solicitada. A ação é o poder de dar início ao processo. Como a ação serve para realizar
uma pretensão, a ação, como direito, pode ser definida como “o poder jurídico de
provocar a atuação jurisdicional da lei com referência à determinada pretensão”. A ação
não passa de um direito de natureza processual, conferido pela lei processual, em face de
uma pretensão somente afirmada. Diferencia-se da teoria de degenkolb, porque Betti diz
que a ação é um direito processual em face do adversário, não contra ou em face do
Estado.

CARNELUTTI – Está incluso sua teoria entre os seguidores da teoria da ação no sentido
abstrato, porque ele não condiciona a ação à existência efetiva do direito material
invocado. A teoria que elaborou difere radicalmente das anteriores apreciadas.
Fundamental aqui é a distinção entre lide e processo.
39
Dado um conflito de interesse qualificado pela pretensão de um interessado a que
se opõe outro interessado, ocorre a lide. Compreende na lide quatro elementos: a) as
partes, sujeitos ativo e passivo do direito; b) o objeto do interesse, um bem; c) uma
pretensão, que é a exigência de subordinação de outrem ao interesse próprio; d) uma
resistência à pretensão.

O direito, o ordenamento jurídico institui o processo para compor o conflito de


interesse e preservar a paz social. Então processo consiste na operação mediante a qual
se obtém a composição da lide, é o método para a atuação do direito. Ação é exatamente
o direito de obter uma sentença sobre a lide deduzida no processo.

Carnelutti define ação como sendo o direito subjetivo processual das partes. Ele
afirma que o sujeito passivo da ação é o juiz ou, em geral, o membro do ofício, a quem
corresponde prover sobre a demanda proposta pela parte (principal crítica à teoria de
Carnelutti, pois, não é lógico que haja uma total separação entre o funcionário judicial e o
Estado, pois este se manifesta e atua através de seus órgãos, e é sabido que os
funcionários são os órgãos do Estado).

O direito subjetivo material tem por conteúdo a prevalência do interesse em lide, ou


seja, o objeto em lide, e, por sujeito passivo, a outra parte; o direito subjetivo processual
tem por conteúdo a prevalência do interesse na composição da lide, e, por sujeito
passivo, o juiz ou, em geral, o membro do ofício, a quem corresponde prover sobre a
demanda proposta pela parte. Carnelutti coloca como elemento material da ação, não o
interesse em lide, mas sim o interesse na composição da lide (interesse estatal em que os
litígios se dirimam mediante o exercício da ação, e não através da autotutela ou
autodefesa). A ação não é um poder de obter uma sentença favorável, senão unicamente
o poder de obter a decisão. A obrigação do juiz não é dar razão a quem peça, senão
unicamente a quem o tenha. A legitimação não é um requisito do sujeito da ação,
necessário para que esta possa ter conseqüências jurídicas, senão um pressuposto dos
atos processuais e, como tal, requisito da pretensão.

OUTRAS TEORIAS:

COUTURE – Para ele a ação é “o poder jurídico que tem todo sujeito de direito de
recorrer aos órgãos jurisdicionais, para reclamar deles a satisfação de uma pretensão”.
Enquanto o indivíduo vê na ação a tutela de seu direito material, de caráter privado, a
comunidade a vê como de caráter público, para o cumprimento de um de seus mais altos
fins, ou seja, a realização das garantias de justiça, de paz, de segurança, de ordem, de
liberdade, consignados na Constituição. Couture aproxima a ação do direito constitucional
de representação, para concebê-la como expressão típica do direito de petição.

PEKELIS – Acentua o direito subjetivo que se contém na ação, que não é o direito de agir,
mas direito de fazer agir, para concluir que o direito de ação é “o único direito subjetivo do
indivíduo”, decorrente da concepção geral que “reconhece a essência da ordenação
jurídica não no imperativo mas tão somente na sanção e na coação”.

MORTARA – Situa a ação na relação processual e a define como “relação de direito


público que, originada do contraste entre particulares concernente à matéria de direito
subjetivo, se desenvolve no processo mediante a aplicação da norma jurídica por obra e
autoridade do juiz”.

KÖHLER – Teoria da ação como emanação dos direitos da personalidade – Köhler, jurista
alemão, afirmava que ação não é uma emanação da pretensão procedente, pois, se esta
é ou não fundada, há de resolver-se na sentença. Tampouco, é a expressão de um direito
40
público geral de acionar; é, sobretudo, emanação dos direitos da personalidade, mas só
na medida em que o são os demais atos jurídicos; o acionar é um direito individual, como
o de andar, de comerciar, etc.
Segundo Carlos Arcilla, a ação como emanação da personalidade, na forma
concebida por Köhler, está muito longe do que se deva entender por cção processual,
pois seu sentido corresponderia melhor ao de uma faculdade, ou simples manifestação,
de maior utilidade para a psicologia do que para o direito.

TEORIA DAS CONDIÇÕES DA AÇÃO – A DOUTRINA DE LIEBMAN

Para Liebman, a ação é o direito de provocar o exercício da função jurisdicional. A


ação dirige-se contra o Estado, na sua qualidade de titular do Poder Jurisdicional, mas o
Estado não é obrigado a coisa alguma para com o autor, pois essa função se desenvolve
para satisfazer o interesse público, consistente no cumprimento das normas que a
disciplinam. Ação é um direito abstrato que independe da existência ou inexistência do
direito substancial (material) que se pretende, através da ação, ver reconhecido ou
satisfeito. Por isso, a ação é um direito de caráter instrumental, porque é “direito a um
provimento jurisdicional”. Liebman define a ação como direito subjetivo instrumental – e,
mais do que um direito, um poder. A ação não é genérica, em caráter absoluto, mas, ao
contrário, refere-se a um caso concreto (fattispecie), determinado e individualizado,
idôneo para tornar-se objeto da atividade jurisdicional.

A ação depende, por isso, para existir, de alguns requisitos constitutivos, chamados
condições da ação, que são: o interesse de agir, a legitimação e a possibilidade jurídica.
São estes os requisitos de existência da ação, e, portanto, preliminares ao exame do
mérito.A ausência de uma dessas condições importa carência de ação e pode ser
declarada de ofício pelo juiz em qualquer fase do processo. Por outro lado, é suficiente
que, acaso ausentes no momento da proposição da demanda, sobrevenham no curso do
processo e estejam presentes no momento da decisão da causa (da prolação da
sentença).

No processo de conhecimento são condições de um juízo sobre o mérito: o


interesse de agir, a legitimação para agir e a possibilidade jurídica do pedido.
Afirma também que o direito de ação de natureza constitucional (emanação do
status civitatis), em sua extrema abstração e generalidade, não pode ter nenhuma
relevância para o processo, constituindo o simples fundamento ou pressuposto sobre o
qual se baseia a ação em sentido processual. Por último, dá por exercida a função
jurisdicional somente quando o juiz pronuncie uma sentença sobre o mérito, favorável ou
desfavorável que seja.

Essa doutrina desfruta de notável interesse no Brasil. Liebman foi um


processualista italiano que permaneceu entre nós durante o período da 2ª Guerra mundial
e influenciou profundamente a evolução da ciência brasileira.

APRECIAÇÃO CRÍTICA DAS VÁRIAS TEORIAS

As várias teorias repercutem as tendências políticas da época e traduzem a


equação das relações entre o homem e o Estado, vistas do campo do direito processual e
reproduzidas do ângulo em que se opõe o jurista que as formula. Em conseqüência todas
as teorias encontram justificação, por se filiarem a inclinações, por vezes predominantes,
da realidade histórica, o que levou Calamandrei a proclamar não caber pergunta sobre
qual a teoria preferível e encontrar razão na que inquire qual seja a que melhor
corresponde à concepção política, em que se funda o Estado, num dado momento
histórico.

41
Desse trabalho de investigação muita coisa ficou a que se deixa haver
cientificamente como verdade:
a) Uma destas verdades reside na distinção entre a ação e o direito subjetivo material por
ela invocado. Desde Bülow e Each, salvo poucas exceções, essa orientação é dominante,
demonstrada a autonomia da ação.
b) Também que ação não está necessariamente condicionada ao direito subjetivo, ao
contrário do que se constituía o alicerce da teoria da ação no sentido concreto.
c) A orientação tradicionalista, de conferir a ação contra o adversário, nem mesmo Wach
e Bülow a acompanharam, sem embargo de haverem o direito subjetivo por pressuposto
necessário de ação. Ressalta do fenômeno da ação que esta constitui o direito à
prestação jurisdicional do Estado, para tutela de um interesse em abstrato, juridicamente
protegido, e que por outro modo não poderia sê-lo, uma vez que o Estado reservou para
si a função jurisdicional. De conseguinte, o sujeito passivo do direito de ação é o Estado,
não o juiz, que é mero delegado do Estado no exercício daquela função.

CONCLUSÃO: NATUREZA JURÍDICA DA AÇÃO

- DIREITO PÚBLICO SUBJETIVO: é um direito que decorre da própria condição de


cidadania (uti civis – ius civitatis), consistindo na provocação da função jurisdicional,
sendo reconhecido por todas as modernas constituições (art. 5º XXXV da CF).
- ABSTRATO: existe de forma abstrata a possibilidade de recurso ao Poder Judiciário,
sempre que alguém se sinta lesado em algum interesse protegido em abstrato pela lei,
independentemente de fundamento para o pedido endereçado no caso concreto ao poder
Judiciário.
- AUTÔNOMO: o direito de ação não depende da efetiva existência do direito material
invocado, haja vista o caso das ações infundadas ou improcedentes, em que se exerce o
direito de ação da petição à sentença.
- INSTRUMENTAL: o direito de ação é meio (instrumento) para efetivação das pretensões
de direito material (Liebman).
- SUJEITO A CONDIÇÕES: são chamadas condições genéricas da ação, para o
provimento de mérito ou satisfativo (Liebman).

CONDIÇÕES DA AÇÃO

Possibilidade jurídica, interesse de agir e legitimação ad causam. Para uma


corrente, as condições da ação são condições de existência da própria ação; para outra,
condições para o seu exercício.

Nota: Do mesmo modo que a ação civil, a penal está sujeita a condições. Em princípio,
trata-se das mesmas acima; mas a doutrina costuma acrescentar, às genéricas, outras
condições que considera específicas para o processo penal e que denomina condições
específicas de procedibilidade (exemplo: representação e requisição do Ministério da
justiça, na ação penal pública condicionada).

- Possibilidade jurídica do pedido – às vezes, determinado pedido não tem a menor


condição de ser apreciado pelo poder Judiciário, porque já excluído a priori pelo
ordenamento jurídico sem qualquer consideração das peculiaridades do caso concreto.
Nos países em que não há divórcio, por exemplo, um pedido nesse sentido será
juridicamente impossível.Outro exemplo é o das dívidas de jogo, que o art. 1.477 do
Código Civil exclui da apreciação judiciária. No processo penal, o exemplo de
impossibilidade jurídica do pedido é, na doutrina dominante, a ausência de tipicidade, haja
visto que a peça introdutória da demanda (denúncia ou queixa), deverá fundar-se,
necessariamente, num fato delituoso (típico e antijurídico), expressamente previsto no
direito positivo material penal, princípio da reserva legal. É impossível, por exemplo,
denunciar-se alguém por incesto, que não é crime previsto na lei penal brasileira.
42
Conclui-se então que por possibilidade jurídica da ação, entende-se que a
pretensão do autor seja em abstrato amparada pelo ordenamento jurídico.

- Interesse de agir – entende-se a necessidade da tutela jurisdicional para evitar ameaça


ou lesão do direito; ou a necessidade de invocar a prestação jurisdicional, num caso
concreto. Repousa a necessidade da tutela jurisdicional na impossibilidade de obter a
satisfação do alegado direito sem a intervenção do Estado. Ainda, o provimento
jurisdicional solicitado pelo autor, deve ser o adequado a corrigir o mal de que ele se
queixa, sob pena de não ter razão de ser. Quem alegar, por exemplo, o adultério do
cônjuge, não poderá pedir anulação do casamento, mas o divórcio, porque aquela
(anulação do casamento) exige a existência de vícios que inquinem (manchem, sujem) o
vínculo matrimonial logo na sua formação, sendo irrelevantes fatos posteriores (o
adultério em questão). O mandado de segurança, ainda como exemplo, não é medida
hábil para a cobrança de créditos pecuniários. (no processo penal, o exemplo da falta de
interesse de agir, na doutrina dominante brasileira, é dado pela ausência de “justa causa”,
ou seja, de aparência do direito alegado – fumus boni iuris).

- Legitimidade das partes (legitimatio ad causam) – é titular da ação apenas a própria


pessoa que se diz titular do direito subjetivo material cuja tutela pede (legitimidade ativa),
podendo ser demandado apenas aquele que seja titular da obrigação correspondente
(legitimidade passiva). Por exemplo, ao filho faltaria legitimação para cobrar judicialmente
uma dívida do pai; ao marido, para executar um crédito de sua esposa. LEGITIMAÇÃO
EXTRAORDINÁRIA OU SUBSTITUIÇÃO PROCESSUAL = São casos excepcionais
previstos no final do art. 6º do Código de Processo Civil (art. 6º: “ninguém poderá pleitear,
em nome próprio, direito alheio, salvo quando autorizado por lei”). Há certas situações em
que o direito permite a uma pessoa o ingresso em juízo, em nome próprio (e, portanto,
não como mero representante, pois este – o mero representante - age em nome do
representado, na defesa de direito alheio). É o caso, por exemplo, da ação popular, em
que o cidadão, em nome próprio, defende o interesse da Administração Pública; ou da
ação penal privada, em que o ofendido pode postular a condenação criminal do agente
criminoso, ou seja, pode postular o reconhecimento de um ius punitionis que não é seu,
mas do Estado.

Vocabulário Jurídico: Substituição Processual = Indica as circunstâncias legais em que


determinada pessoa poderá litigar em nome próprio, ainda que defendendo direito alheio,
como por exemplo, se ocorrer a morte de qualquer das partes, hipótese na qual habilitar-
se-á para substituí-lo o espólio ou os sucessores (CPC, art. 43), ou na defesa dos direitos
e interesses coletivos ou individuais de categoria profissional pelo sindicato (CF, art. 8º, III;
CLT, art. 513).

CARÊNCIA DE AÇÃO

Quando faltar uma só que seja das condições da ação, diz-se que o autor é
carecedor desta. Doutrinariamente há quem diga que, nessa situação ele não tem o
direito de ação (ação inexistente); e quem sustente que lhe falta o direito ao exercício
desta. A conseqüência é que o juiz, exercendo embora o poder jurisdicional, não chegará
a apreciar o mérito, ou seja, o pedido do autor (em outras palavras, não chegará a
declarar a ação procedente, nem improcedente).

Se a inexistência das condições da ação, todavia, for aferida só a final, diante da


prova produzida (e não há preclusão nesta matéria, podendo o juiz rever sua interior
manifestação), duas posições podem ser adotadas: para a primeira (teoria da
apresentação), mesmo que venha a final, a decisão será de carência da ação; para a
segunda (teoria da prospecção), a sentença nesse caso será de mérito. A primeira teoria
prevalece na doutrina brasileira.
43
Se não preenche o autor as condições para exercitar o direito de ação, deve ser
julgado carecedor dela, sem prejuízo de que, uma vez satisfeitas, exercite nova ação para
a tutela do seu pretendido direito. Essa afirmação não é absoluta à luz do disposto no art.
268 do CPC, havendo casos em que a sentença de carência de ação interdita,
definitivamente, ao autor, o acesso às vias judiciais (casos de perempção, litispendência e
coisa julgada), vedando-lhe o exercício de nova ação.

QUESTÕES SOBRE O EXERCÍCIO DA AÇÃO

Questão, no sentido técnico-jurídico, designa uma controvérsia sobre um ponto de


fato ou de direito. Se o réu alega, na sua defesa, a ausência de pressupostos processuais
ou de condições da ação, está suscitando questões. Da mesma forma, se ataca ponto
relacionado com a pretensão deduzida pelo autor, está levantando uma questão. Todas
estas questões devem ser solucionadas pelo juiz no curso do processo e da decisão
delas dependerá a decisão do mérito da causa.

Segundo Hélio Tornaghi, as questões se classificam em três categorias:


a) Questões preliminares (ou prévias), que são relativas aos pressupostos processuais.
É a questão referente à relação processual. Apenas incidem nas normas processuais e
tramitação processual. São de não mérito, não autônomas e direito processual. Ou seja,
não incidem no direito material pretendido.
b) Questões intermédias, que são relativas às condições da ação. São as que se
colocam entre o exame dos pressupostos processuais e o mérito da causa. São aquelas
concernentes ao exercício do direito de ação, quais sejam: possibilidade jurídica do
pedido, interesse de agir e legitimidade das partes. Sempre que o réu alegar a falta de
alguma dessas condições, ou o juiz ex officio puser em dúvida a sua existência,
estaremos diante de uma questão sobre o exercício da ação. O exame destas questões
prescinde de alegação das partes, cumprindo ao juiz examinar de ofício se estão
presentes no processo. Isto, em qualquer fase do procedimento, ainda que,
anteriormente, tenha dado o feito por saneado. Ausentes quaisquer dessas condições,
deve o juiz extinguir o processo sem julgamento do mérito, pondo fim à relação
processual. Essas questões podem surgir tanto no processo civil quanto no trabalhista ou
penal, pois o exercício do direito de ação, qualquer que seja o conteúdo da lide a que se
refira, está sujeito ao preenchimento das precitadas condições.
c) Questões finais, que são referentes à pretensão deduzida em juízo, ou seja, ao mérito
da causa.

ELEMENTOS DA AÇÃO

São eles as PARTES, CAUSA DE PEDIR e o PEDIDO. A lei exige a clara indicação
dos elementos identificadores logo na peça inicial de qualquer processo, ou seja: na
petição inicial cível ou trabalhista e na denúncia ou queixa-crime. A falta dessas
indicações acarretará o indeferimento liminar da petição inicial, por inépcia (falta absoluta
de aptidão).

- Partes (personae) = São os titulares das posições ativa (autor) e passiva (réu) na
demanda judicial, ou seja, aquele que age e aquele que reage em juízo. No processo
penal, partes são o Ministério Público ou o querelente (no lado ativo) e o acusado, ou
querelado (no lado passivo). O conceito de parte não interfere com o de parte legítima. A
parte pode ser legítima ou ilegítima, nem por isso perdendo sua condição de parte.

- Causa de pedir (causa petendi) = é o fundamento do pedido, a razão ou o motivo pelo


qual se exercita a ação.

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O fato que o autor alega, seja no crime ou no cível, recebe da lei determinada
qualificação jurídica. Por exemplo, o matar alguém capitula-se como crime de homicídio;
forçar alguém, mediante violência física ou ameaça, a celebrar um contrato configura
coação. Mas o que constitui a causa petendi é apenas a exposição dos fatos, não a sua
qualificação jurídica. Por isso é que, se a qualificação jurídica estiver errada, mas mesmo
assim o pedido formulado tiver relação com os fatos narrados, o juiz não negará o
provimento jurisdicional. O direito brasileiro adota, quanto à causa de pedir, a chamada
doutrina da substanciação, que difere da individualização, para a qual o que conta para
identificar a ação proposta é a espécie jurídica invocada (coação, crime de homicídio,
etc...), não as meras “circunstâncias de fato” que o autor alega.

A petição inicial indicará o fato (causa remota) e os fundamentos jurídicos do


pedido (causa próxima). Adotou, assim, o Código a teoria da substanciação (dos códigos
alemão e austríaco), em oposição à teoria da individualização, que exige apenas a
exposição da causa próxima.

Na ação de anulação de contrato, deverá o autor expor o contrato (causa remota) e


o vício que o macula, dando lugar à sua anulação (causa próxima). O autor poderá propor
anulação do contrato com fundamento em erro e, não tendo tido êxito na ação, propor
outra, com fundamento em outro vício. Isto porque a primeira ação se embasou no erro e
a segunda na fraude, e, apesar de o fato (contrato) ter sido o mesmo, os fundamentos
jurídicos seriam diferentes. Logo, não se trataria da mesma ação, dada a diversidade da
causa de pedir.

- Pedido (petitum), ou objeto = é aquilo que se pede em juízo e que constitui o núcleo
da pretensão. O pedido se divide em:

a) Pedido imediato (objeto imediato) – aquilo que imediatamente se pede, e que é a


atuação da lei, consistente numa providência jurisdicional (declaratória, condenatória,
constitutiva, de execução ou cautelar).
O autor pede do órgão jurisdicional uma medida ou provimento. Esse provimento
terá:
Natureza cognitiva (processo de conhecimento), quando caracterizar o julgamento da
própria pretensão que o autor deduz em juízo; tratar-se-á, então, de uma sentença de
mérito (meramente declaratória, constitutiva ou condenatória).
Natureza executiva (satisfativo), quando se tratar de medida através da qual o juiz
realiza, na prática, os resultados determinados através da vontade do direito (no processo
de execução).
Provimento cautelar (acautelatório), que visa a resguardar eventual direito da parte
contra possíveis desgastes ou ultrajes propiciados pelo decurso do tempo.

b) Pedido mediato (objeto mediato) – o bem ou interesse que se quer ver assegurado
pela providência jurisdicional invocada material ou imaterial, econômico ou moral. É o
bem da vida pretendido ou o objeto a cuja consecução se coordena a atuação da lei.
Assim, o autor pede que o réu seja condenado (sentença condenatória) (objeto imediato)
a restituir-lhe o imóvel (objeto mediato, que nada mais é do que o objeto do seu alegado
direito material).

Nota: Duas ações são idênticas quando os elementos constitutivos de ambos são os
mesmos, ou seja, identidade de sujeitos (partes), de pedido (objeto) e de causa de pedir
(essa é a chamada teoria do tres eadem). Se algum, ou alguns, desses elementos são os
mesmos e, outros, são diversos, ocorrerá a conexão das causas. (CONEXÃO = há
conexão entre duas ou mais ações quando um ou dois elementos (objeto ou causa de
pedir) lhes são comuns, devendo ser apreciadas por um juiz, para evitar duplicidade de
decisões). (Continência = é uma espécie do gênero conexão. Ocorre nos casos em que
45
entre duas ou mais ações haja identidade quanto às partes e a causa de pedir, mas o
objeto de uma por ser mais amplo, abrange o das outras. Ex: cobrança de juros e
cobrança do principal de uma dívida).

A identificação das ações é de extrema utilidade em direito processual, seja para


delimitar a extensão do julgamento a ser proferido, seja para caracterizar a coisa julgada
ou a litispendência.

CLASSIFICAÇÃO DAS AÇÕES

A antiga teoria imanentista classificava as ações segundo a pretensão do direito


material invocado, da seguinte forma:
- em relação à natureza do direito que protegem: prejudiciais, pessoais (prescrevem em
20 anos) e reais (prescrevem em 10 anos, entre presentes e entre ausentes, em 15 anos,
contados da data em que poderiam ter sido propostas).
- com relação ao fim que procuram atingir: reipersecutórias, penais e mistas.
- com relação ao objeto: móveis e imóveis.
- quanto ao processo: ordinárias, sumárias propriamente ditas, sumaríssimas, especiais e
executórias.
- petitórias ou possessórias, segundo se pede unicamente o domínio ou a posse;
principais e acessórias, preparatórias ou preventivas, conexas ou incidentes, conforme as
denominações o indicam.

Nota: o estudo da classificação acima pertence ao direito processual civil. O processo


penal não admite a classificação das ações segundo a pretensão, não se podendo falar
em ação de furto, de roubo, etc..., pois a pretensão é sempre a mesma, a punição do
infrator.

No entanto, a classificação verdadeiramente processual das ações se assenta na


própria tutela jurisdicional invocada, no provimento que se pede ao Estado-Juiz e que são:
a) Provimento cognitivo – Ação de conhecimento – processo de conhecimento, sendo
que se dividem em ações declaratórias (negativas ou positivas); ações condenatórias;
ações constitutivas.
- Ações de conhecimento = reclamam um processo regular de conhecimento, pelo qual o
juiz tenha pleno conhecimento do conflito de interesses, a fim de que possa proferir uma
decisão de mérito, extraindo da lei a regra concreta aplicável à espécie. Visam ao
provimento de mérito (julgamento da causa).
- Ações meramente declaratórias = visam à simples declaração de existência ou
inexistência de uma relação jurídica, ou de autenticidade ou falsidade de um documento.
CPC, Art. 4o O interesse do autor pode limitar-se à declaração: I - da existência ou da
inexistência de relação jurídica; II - da autenticidade ou falsidade de documento.
Parágrafo único. É admissível a ação declaratória, ainda que tenha ocorrido a violação do
direito.

CPC, Art. 5o Se, no curso do processo, se tornar litigiosa relação jurídica de cuja
existência ou inexistência depender o julgamento da lide, qualquer das partes
poderá requerer que o juiz a declare por sentença. (Redação dada pela Lei nº 5.925,
de 1.10.1973)

- Ações condenatórias = visam à condenação do réu a uma pretensão (dar, fazer, não
fazer). São caracterizadas por impor uma sanção ao réu.
- Ações constitutivas = visam à criação, modificação ou extinção de uma relação jurídica
ou situação jurídica.
Nota: - apenas a sentença condenatória (e não a meramente declaratória ou a
constitutiva) é que servirá de título para a execução forçada.
46
- O CPC proíbe o Juiz de conceder ao autor sentença de natureza diversa da
pedida.

b) Provimento executório – Ação executória – processo executório, dando lugar às


ações executórias; ações executivas em sentido estrito e ações executivo-fiscais.
- As ações de execução são aquelas que provocam providências jurisdicionais de
execução, tendo por pressuposto um título executivo judicial ou extrajudicial. Visam ao
provimento satisfativo.

c) Provimento acautelatório – ação cautelar – processo cautelar, tendo em vista a


natureza cautelar (garantia) da ação.
- As ações cautelares são as que visam providências urgentes e provisórias, tendentes a
assegurar os efeitos de uma providência principal, em perigo por eventual demora.
Em resumo:
- Provimento cognitivo: ação de conhecimento, sendo que se dividem em: ações
declaratórias, negativas ou positivas; ações condenatórias; ações constitutivas.
- Provimento executório: ação executória.
- Provimento acautelatório: ação cautelar.

As ações trabalhistas classificam-se em:


Ações (dissídios) individuais e coletivos.
- Individuais: declaratórias, constitutivas, condenatórias, de execução e cautelares.
- Coletivas: constitutivas e declaratórias.

As ações (dissídios) individuais são aquelas cujos titulares são pessoas


singularmente consideradas e destinam-se à obtenção de um pronunciamento judicial
sobre interesses concretos e individualizados.

As ações (dissídios) coletivos são exercidas em conseqüência de um direito que é


reconhecido aos grupos, isto é, às categorias profissionais, representadas, no processo,
pelos sindicatos. Titular do direito (material) é a própria categoria, mas representada pelo
sindicato, que tem legitimidade para figurar no processo. Assim, ação coletiva é o direito,
assegurado às categorias profissionais, de ingressar com ações perante a Justiça do
Trabalho. As ações coletivas podem ser constitutivas ou declaratórias.

São constitutivas no caso dos dissídios coletivos primários, onde as ações tendem
a sentenças destinadas a regular, em caráter obrigatório, as atividades profissionais, de
acordo com o sistema legal de correspondência de grupos e categorias. Após a sentença
coletiva primária, há necessidade de novo processo de conhecimento para reclamar o seu
cumprimento, pois sendo a sentença constitutiva e não condenatória, não comporta
execução.

São declaratórias, no caso de dissídios coletivos secundários, que se subdividem


em ação de extensão (exercidas em relação aos empregados da mesma empresa ou à
totalidade dos trabalhadores da mesma categoria profissional) e ação de revisão (são
utilizadas para efeito da incidência da cláusula rebus sic stantibus - o contrato só se
cumpre se as coisas se conservarem no mesmo estado quando do ajuste).

As ações penais podem ser classificadas conforme o sujeito que as promove


(elemento subjetivo), ou seja, o titular do direito de ação. É a classificação
subjetiva, que pode ser:
- Ação penal pública: incondicionada e condicionada.
- Ação penal privada: exclusivamente privada, subsidiária da ação pública e privada
personalíssima.

47
Ação penal pública incondicionada é aquela cujo exercício compete ao Ministério
Público, sem que haja manifestação de vontade de quem quer que seja.

Ação penal pública condicionada é aquela promovida pelo Ministério Público, mas
condicionada a uma manifestação de vontade de outrem, através da representação (do
ofendido ou de quem o represente legalmente) ou de requisição do Ministério da Justiça
(manifestação de vontade ministerial), pois em certos casos a persecução penal está
subordinada à conveniência política. No entanto, uma vez apresentada a representação
ou a requisição e oferecida a denúncia, o Ministério Público assume em toda sua
plenitude a posição de dominus litis, sendo irrelevante, a essa altura, uma vontade
contrária do ofendido ou da Administração, ou seja, não aceita o perdão do ofendido. (o
contrário tem lugar em caso de ação penal de iniciativa privada, em que o perdão do
ofendido põe fim ao processo).

Ação penal exclusivamente privada é aquela cujo exercício compete ao ofendido


ou a quem legalmente o represente. Entende-se que a publicidade do delito afeta tão
profundamente a esfera íntima e secreta do indivíduo, que é preferível relegar a segundo
plano a pretensão punitiva do Estado.

Ação penal privada subsidiária da ação penal pública é aquela que se intenta nos
crimes de ação penal pública, seja condicionada ou incondicionada, se o órgão do
Ministério Público não oferecer a denúncia no prazo legal. Uma vez intentada, o Ministério
Público, além de intervir obrigatoriamente em todos os atos do processo, poderá retomar
a ação como parte principal em caso de negligência do querelante. Também poderá aditar
à queixa ou oferecer denúncia substitutiva, enquanto não ocorrer qualquer das causas
que extinguem a punibilidade. Apesar de iniciada a ação por queixa do ofendido ou de seu
representante legal, não poderá ser concedido o perdão, pois esta hipótese só é admitida
nos crimes que se procede exclusivamente mediante queixa. Pela mesma razão, não
poderá ocorrer perempção (extinção de um direito que ocorre sempre dentro do processo
– nisso difere de decadência e prescrição – quando no prazo assinado não se praticou o
ato, ou, dentro de um certo prazo, não se fez o que era para fazer.
Ação penal privada personalíssima é aquela cujo exercício compete, única e
exclusivamente, ao ofendido.

Nota: a terminologia, de iniciativa privada, não modifica o caráter da ação, que é sempre
pública porque toda ação tem como sujeito passivo o Estado e em um de seus pólos
existe atividade de direito público.

EXCEÇÃO: A DEFESA DO RÉU

Bilateralidade da ação e do processo

No estudo da ação, viu-se que ela é dirigida ao Estado e apenas a ele, mas com a
ressalva de que, uma vez acolhida, a sentença a ser dada terá efeitos desfavoráveis na
esfera jurídica de uma outra pessoa. Essa outra pessoa é o réu. A demanda inicial
apresenta-se, pois, como o pedido que uma pessoa faz ao órgão jurisdicional de um
provimento destinado a operar na esfera jurídica de outra pessoa. Dá-se a esse fenômeno
o nome de bilateralidade da ação, que tem por conseqüência a bilateralidade do
processo.

Em virtude da direção contrária dos interesses dos litigantes, a bilateralidade da


ação e do processo desenvolve-se como contradição recíproca. O réu também tem uma
pretensão em face dos órgãos jurisdicionais (a pretensão a que o pedido do autor seja
rejeitado), a qual assume uma forma antitética à pretensão do autor. É nisso que reside o
fundamento lógico do contraditório, entendido como ciência bilateral dos atos e termos do
48
processo, com a possibilidade de contrariá-los; e seu fundamento constitucional é a ampla
garantia do direito ao processo e do acesso à justiça.

Exceção

Diante da ação do autor, fala-se da exceção do réu, no sentido de contradizer.


Exceção, em sentido amplo, é o poder jurídico de que se acha investido o réu e que lhe
possibilita opor-se à ação que lhe foi movida. Por isso, dentro de uma concepção
sistemática do processo, o tema da exceção é virtualmente paralelo ao da ação.

A ação, como direito de pedir a tutela jurisdicional para determinada pretensão


fundada em direito material, tem, assim, uma espécie de réplica na exceção, como direito
de pedir que a tutela jurisdicional requerida pelo autor seja denegada por não se
conformar com o direito objetivo. O autor, através do exercício da ação, pede justiça
reclamando algo contra o réu; este, através da exceção, pede justiça, solicitando a
rejeição do pedido. Tanto como o direito de ação, a defesa é um direito público subjetivo
(ou poder), constitucionalmente garantido como corolário (conseqüência) do devido
processo legal e dos postulados em que se alicerça o sistema contraditório do processo.
Tanto o autor, mediante a ação, como o réu, mediante a exceção, têm um direito ao
processo.

É importante assinalar, porém, que o que se atribui ao réu é a eventualidade da


defesa. Isso se nota sobretudo no processo civil, pois no processo penal ao réu revel é
necessariamente dado um defensor.

Natureza jurídica da exceção

O modo de entender a ação influi, sem dúvida, sobre o modo de conceituar a


exceção. Na concepção da ação como direito ao provimento jurisdicional, de larga
preferência na doutrina contemporânea, a exceção não pode ser o direito ao provimento
de rejeição do pedido do autor, mas apenas o direito a que no julgamento também se
levem em conta as razões do réu. Tanto o direito de ação como o de defesa
compreendem uma série de poderes, faculdades e ônus, que visam à preparação da
prestação jurisdicional.
Não é correto falar em ação do réu, porque não há ação sem interesse de agir; e
se a defesa é bastante para cobrir o interesse do réu, este só se defende e não ataca.
Mesmo quando o réu, ao defender-se, amplia a matéria que deverá formar o
convencimento do juiz (aduzindo fatos extintivos ou impeditivos), não está ampliando o
thema decidendum. Na verdade, os direitos processuais do réu têm origem no seu
chamamento a juízo e conseqüente inserção no processo, de estrutura bilateral e
dialética.

Classificação das exceções

Até aqui, falou-se em exceção em sentido amplo, como sinônimo de defesa. Mas a
defesa pode dirigir-se contra o processo e contra a admissibilidade da ação, ou pode ser
de mérito. Contra o processo, fala-se em exceção processual. Quanto ao mérito, fala-se
em exceção substancial, podendo ser dividida em defesa direta (atacando a própria
pretensão do autor, o fundamento do seu pedido) e indireta (opondo fatos impeditivos,
modificativos ou extintivos do direito alegado pelo autor, sem elidir propriamente a
pretensão deduzida, ex: prescrição, compensação, novação).

Nota: Alguns preferem reservar o nome exceção substancial apenas à defesa indireta de
mérito, usando o vocábulo contestação para a defesa direta de mérito; outros ainda. Em

49
vez de exceção substancial nesse sentido mais estrito, falam em preliminar de mérito.
Essa classificação é feita em vista da natureza das questões deduzidas na defesa.

Em outra classificação, que se baseia nos efeitos das exceções, denominam-se


elas dilatórias (quando buscam distender, procrastinar o curso do processo: exceção de
suspeição, de incompetência) ou peremptórias (visando extinguir a relação processual:
exceção de coisa julgada, de litispendência).

Na sistemática do CPC usa-se o nome exceção para indicar algumas exceções


processuais, cuja argüição obedece a determinado rito (CPC, art. 304; CPC, art. 95; CLT,
art. 799). Chama-se contestação, no processo civil, toda e qualquer outra defesa, de rito
ou de mérito, direta ou indireta, contendo também preliminares (CPC, arts. 300 e 301).

CPP, art. 95 = AS EXCEÇÕES

Art. 95. Poderão ser opostas as exceções de: I - suspeição; II - incompetência de juízo;
III -litispendência; IV -ilegitimidade de parte; V - coisa julgada.

Suspeição = Imputação de certa qualidade, de que se geram desconfiança ou


suposições capazes de autorizarem justas prevenções contra o suspeito.

Litispendência = Propositura de duas ações tidas como idênticas, de modo que se


venham formar duas discussões a respeito da mesma relação jurídica, contra a mesma
pessoa e pela mesma causa. Identidade de causas ou ações e litispendência exprimem
sentidos diferentes. Litispendência é a existência de causa não julgada, ainda em
andamento, em processo regular. Identidade de causas ou de ações quer significar a
existência de causas, que se identificam, que se mostram uma só e a mesma coisa,
embora aparentemente de aspecto ou feição diferente. A litispendência, pois, decorre
sempre da ação proposta, após ser cumprida a preliminar de citação. Desde esse
momento, a causa é pendente. A identidade de causa, justificativa da exceção de
litispendência, é conseqüente da existência de duas ou mais litispendências, isto é, de
duas causas idênticas, igualmente pendentes. Induzida a litispendência, se causa idêntica
é proposta, pode a segunda ser excepcionada pela litispendência. Alega-se a existência,
já, de causa pendente e se pede a exclusão da que se quer repetir. Não se provando a
identidade ou reprodução da demanda, idêntica à que já é pendente, a exceção não
procede.

C.P.C.:

Seção II
Da Contestação

Art. 300. Compete ao réu alegar, na contestação, toda a matéria de defesa, expondo as
razões de fato e de direito, com que impugna o pedido do autor e especificando as provas
que pretende produzir.

Art. 301. Compete-lhe, porém, antes de discutir o mérito, alegar:

I - inexistência ou nulidade da citação; (nulidade = ineficácia de um ato jurídico, em


virtude de haver sido executado com transgressão à regra legal, de que possa
resultar a ausência de condição ou de requisito de fundo ou de forma,
indispensável à sua validade).

II - incompetência absoluta;

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III - inépcia da petição inicial; (inépcia = quando faltam os requisitos essenciais ou
que não tenham sido formulado segundo a regra ou o estilo. Além da inépcia pela
falha nos requisitos formais, também assim se revela a petição quando não se
mostra fundada na razão e se apresenta confusa, ou inconcludente, ou
contraditória, ou desconexa, ou absurda).

IV - perempção; (o aniquilamento ou a extinção, relativamente ao direito para


praticar um ato processual ou continuar o processo, quando, dentro de um prazo
definido e definitivo, não se exercita o direito de agir ou não se pratica o ato. Ocorre
sempre dentro do processo, quando no prazo assinado não se praticou o ato, ou,
dentro de um certo prazo, não se fez o que era para fazer).

V - litispendência;

Vl - coisa julgada;

VII - conexão;

Vlll - incapacidade da parte, defeito de representação ou falta de autorização;

IX - convenção de arbitragem; (Entrega da solução dos conflitos a uma terceira


pessoa, que não o processo jurisdicional. Amparada pela Lei 9.307/96, é forma de
composição extrajudicial do litígio, cuja adoção exclui a causa do âmbito do
processo jurisdicional. Instituiu-se um procedimento judicial para forçar a
implementação do compromisso arbitral, se uma das partes se recusa a cumprir a
cláusula compromissória, quando o contrato, que a contém, se torna objeto de
litígio entre seus signatários. A sentença arbitral tem plena eficácia,
independentemente de sua homologação pela autoridade judiciária).

X - carência de ação;

Xl - falta de caução ou de outra prestação, que a lei exige como preliminar.

§ 1o Verifica-se a litispendência ou a coisa julgada, quando se reproduz ação


anteriormente ajuizada.

§ 2o Uma ação é idêntica à outra quando tem as mesmas partes, a mesma causa de
pedir e o mesmo pedido.

§ 3o Há litispendência, quando se repete ação, que está em curso; há coisa julgada,


quando se repete ação que já foi decidida por sentença, de que não caiba recurso.

§ 4o Com exceção do compromisso arbitral, o juiz conhecerá de ofício da matéria


enumerada neste artigo.

Art. 302. Cabe também ao réu manifestar-se precisamente sobre os fatos narrados na
petição inicial. Presumem-se verdadeiros os fatos não impugnados, salvo:

I - se não for admissível, a seu respeito, a confissão;

II - se a petição inicial não estiver acompanhada do instrumento público que a lei


considerar da substância do ato;

III - se estiverem em contradição com a defesa, considerada em seu conjunto.

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Parágrafo único. Esta regra, quanto ao ônus da impugnação especificada dos fatos, não
se aplica ao advogado dativo, ao curador especial e ao órgão do Ministério Público.

Art. 303. Depois da contestação, só é lícito deduzir novas alegações quando:

I - relativas a direito superveniente;

II - competir ao juiz conhecer delas de ofício;

III - por expressa autorização legal, puderem ser formuladas em qualquer tempo e juízo.

Seção III
Das Exceções

Art. 304. É lícito a qualquer das partes argüir, por meio de exceção, a incompetência (art.
112), o impedimento (art. 134) ou a suspeição (art. 135).

Art. 305. Este direito pode ser exercido em qualquer tempo, ou grau de jurisdição,
cabendo à parte oferecer exceção, no prazo de 15 (quinze) dias, contado do fato que
ocasionou a incompetência, o impedimento ou a suspeição.

Art. 306. Recebida a exceção, o processo ficará suspenso (art. 265, III), até que seja
definitivamente julgada.

PROCESSO E PROCEDIMENTO

Desde 1868, com a obra de Bülow, “Teoria dos pressupostos processuais e das
exceções dilatórias”, apercebeu-se a doutrina de que há, no processo, uma força que
motiva e justifica a prática dos atos do procedimento, interligando os sujeitos processuais.
O procedimento é, nesse quadro, apenas o meio extrínseco (é exterior, não pertence à
essência do processo) pelo qual se instaura, desenvolve-se e termina o processo. A
noção de processo é essencialmente teleológica (aquilo que relaciona um fato com sua
causa final), porque ele se caracteriza por sua finalidade de exercício do poder (no caso,
jurisdicional). A noção de procedimento é puramente formal, não passando da
coordenação de atos que se sucedem. Conclui-se, portanto, que o procedimento (aspecto
formal do processo) é o meio pelo qual a lei estampa os atos e fórmulas da ordem legal
do processo.

O processo é o instrumento através do qual a jurisdição opera, é o instrumento


para a positivação do poder. Procedimento é o mero aspecto formal do processo, não se
confundindo conceitualmente com este; autos, por sua vez, são a materialidade dos
documentos em que se corporificam os atos do procedimento. Assim, não se deve falar,
por exemplo, em fase de processo, mas do procedimento; nem em “consultar o processo”
mas os autos.

PROCESSO – É o instrumento que o Poder Judiciário usa para eliminar conflitos e fazer
justiça mediante a atuação da vontade concreta da lei. A noção de processo é
essencialmente teleológica, porque ele se caracteriza por sua finalidade de exercício do
poder (no caso jurisdicional).

PROCEDIMENTO – É a forma pela qual os autos do processo se formam e se


desenvolvem. Isto é, o meio extrínseco pelo qual se instaura, desenvolve-se e termina o
processo, a sua realidade fenomenológica perceptível. É a exteriorização material do
processo. Rito, caminho, modus operandi

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AUTOS – São a materialidade dos documentos em que se corporificam os atos do
procedimento.

AUTO – É um documento específico dos autos do procedimento do processo. Ex. Auto de


penhora

TIPOS DE PROCESSO

PROCESSO DE CONHECIMENTO – É o instrumento pelo qual o Juiz toma conhecimento


da pretensão das partes por meio de pedido e respostas das provas produzidas e, com
bases nesses elementos, decide a causa proferindo uma sentença que constitui, modifica
ou extingue uma relação jurídica, podendo ser: Declaratórias, positivas ou negativas,
visando uma simples declaração; Condenatórias, visam à condenação do réu a uma
pretensão de dar, fazer e não fazer; Constitutivas, visam a criar ou extinguir direitos.
Sendo regulado por procedimento comum (ordinário e sumário) e especial.

PROCESSO DE EXCUÇÃO – É o instrumento pelo qual o Juiz toma conhecimento da


pretensão das partes para a realização prática de uma vontade concreta da lei
previamente consagrada num título, podendo ser fruto de uma ação executória
(proveniente da ação de conhecimento com condenação, títulos judiciais), Ação executiva
(títulos de créditos extrajudiciais, art. 585 CPC), e ação executiva fiscal (dívidas ativa da
União, Estado e Município).

PROCESSO CAUTELAR – É o instrumento pelo qual o Juiz toma conhecimento da


pretensão das partes, destinada a assegurar e garantir o eficaz desenvolvimento e
resultado das ações de conhecimento e executivas, por existir o periculum in mora (perigo
da demora), que consiste na ameaça de lesão grave e de difícil reparação em virtude da
demora, e o fumus bonis iuris (a fumaça do bom direito), isto é, a probabilidade de êxito
da pretensão ou aparência do bom direito, que é pedida por antecipação. Pode se dar
como preparatório de uma ação principal, ou no curso do processo principal.

PRINCIPAIS TEORIAS SOBRE A NATUREZA JURÍDICA DO PROCESSO

- PRIVATISTAS: Contrato e Quase-Contrato.


- PUBLICISTAS: Processo como serviço público (Gaston Jese e outros); Processo como
instituição (Jaime Guasp e Eduardo Couture); Processo como situação jurídica (Jaime
Goldschmit); Processo como relação jurídica (Bülow).

PRIVATISTAS:
- Processo como contrato: A relação que interliga autor e réu no processo, é em tudo
idêntica à que une as partes contratantes. No contrato, existe um acordo de vontades, um
titular do interesse subordinante e outro titular do interesse subordinado. O primeiro tem o
direito de exigir do segundo que satisfaça uma prestação, que lhe é assegurada por lei.
No processo, as partes estariam ligadas pelo mesmo nexo que liga as partes no contrato.
A fonte de inspiração desta teoria foi um texto de Ulpiano, que, traduzido resulta: “em
juízo se contrai obrigações, da mesma forma que nas estipulações”. Este contrato
judiciário se originava da chamada litiscontestatio, quando ficava perfeito e acabado. À
partir da litiscontestatio, o autor renunciava à prestação que afirmava devida pelo réu, em
troca do direito à condenação deste. O réu, por sua vez, ficava liberado da prestação
devida ao autor, em troca da submissão àquilo que fossa decidido pelo juiz. Não haveria
então relação de direito material entre as partes, mas sim os seus direitos e obrigações
seriam aqueles que a sentença declarasse. Esta teoria tem hoje mero sabor histórico,
pois ninguém considera mais o processo como sendo um contrato.

53
- Processo como quase-contrato: O texto de inspiração foi um fragmento romano “De
Pecúlio”: in iudicium quase contrahimus. O processo não era um contrato, que pressupõe
vontade livre, sendo algo semelhante a um contrato, algo como se fosse um contrato,
embora contrato não fosse.

Falar-se em consenso presuntivo de vontades, como querem os quase-


contratualistas, seria falar-se em contrato e não em quase-contrato. Estas teorias são
contratualistas (contrato e quase-contrato), porque o processo resultaria de um contrato
ou de algo semelhante a um contrato, e, pois, de um acordo de vontades. Mas que acordo
de vontades seria esse que, se o réu não comparecesse, o autor poderia fazê-lo
comparecer à força?

PUBLICISTAS:
- Processo como serviço público: É a teoria dos cultores do direito constitucional e do
direito administrativo. Para ela, não existe qualquer relação jurídica no processo, sendo a
jurisdição mero serviço público, e as normas processuais simples prescrições para se
conseguir o máximo de resultado com o mínimo de dispêndio. Esses autores negavam a
existência da relação de direito e procuravam ver no processo uma relação de fato
apenas.

- Processo como instituição: É uma concepção de caráter nitidamente ibero-americana ou


hispânica. Guasp foi buscar, fora da ciência do direito, a explicação para a natureza
jurídica do processo.

O que é uma instituição?


Os costumes tornam-se tão importantes para a sociedade, que esta não pode
prescindir deles, transformando-se numa instituição. As instituições são formas
padronizadas de comportamento relativamente a alguma necessidade. São modos de
agir, sentir e pensar do homem em sociedade e que esta reputa tão importantes que
qualquer procedimento contrário a eles resulta numa sanção específica.

O processo é uma instituição?


Desde o momento em que o Estado proibiu a autotutela ou autodefesa dos próprios
interesses, teria que dar algo em troca. Então, assumiu a tarefa de resolver os conflitos de
interesses. Quando os interesses se conflitam, o cidadão deve adotar aquela forma de
comportamento, dirigindo-se ao juiz. A sociedade reputa o processo tão importante e
decisivo que não abre mão dele para a garantia e estabilidade da paz jurídica, e do
próprio ordenamento jurídico, a fim de que a tranqüilidade social ou a tranqüilidade
pública não sejam perturbados. Então, o processo seria uma instituição. A instituição é
todo elemento da sociedade, cuja duração não depende da vontade subjetiva de sujeitos
determinados. Assim, são instituições: a família, o Estado, etc... Por mais que certas
pessoas (certos legisladores) tentem destruir a instituição, ela viverá, e o propósito
destruidor resultará impotente.

O defeito desta teoria, está no impreciso conceito de instituição, pois tudo pode ser
reduzido ao esquema institucional, uma vez tão elástico e impreciso é o significado de
instituição: e diante de circunstância desta ordem, razão não há para substituir-se a noção
de relação processual por aquela de instituição.

- Processo como situação jurídica: Pressupõe o conhecimento da concepção do direito


judicial material, que constitui o ponto central da doutrina. Sempre que um direito privado
impõe ao particular um dever jurídico (uma obrigação), está implicitamente dirigida ao juiz
um preceito para, quando lhe for pedido, decidir de conformidade com a obrigação de
direito privado. Assim, quando o possuidor da coisa alheia está obrigado a entregá-la, o
juiz está, do mesmo modo, obrigado a condenar o possuidor, quando demandado, a
54
efetuar a entrega da coisa. Nesse sentido, deve ser entendido o direito judicial material,
através do qual “as regras de direito substancial se transformam em normas para o juiz”.
Para Goldschmidt, o juiz atua por dever funcional, de caráter administrativo, e as partes
simplesmente estão sujeitas à autoridade do órgão jurisdicional.

Aquilo que, numa visão estática, era um direito subjetivo, agora se degrada em
meras possibilidades (de praticar atos para que o direito seja reconhecido), expectativas
(de obter esse reconhecimento), perspectivas (de uma sentença desfavorável) e ônus
(encargo de praticar certos atos, cedendo a imperativos ou impulsos do próprio interesse,
para evitar sentença desfavorável). A crítica mais envolvente a essa teoria, foi a que
observou que toda aquela situação de incerteza expressa nos ônus, perspectivas,
expectativas, possibilidades, refere-se à res in judicium deducta, não ao judicium em si
mesmo; o que está posto em dúvida, e talvez exista ou talvez não, é o direito subjetivo
material, não o processo. Ou seja, para esta teoria a pessoa não tem direito algum, pois
pode, dependendo da forma como se desincumbe dos encargos, sair vitoriosa, e aquela
que tem direito pode ser derrotada, porque não se aproveitou de uma oportunidade.
Chegaríamos à conclusão de que, para o seu autor, o processo, em vez de ser um meio
de atuar o direito, é também o meio de fazer valer aquilo que não é o direito.

- Processo como relação jurídica: Em 1868, Oskar Von Bülow publica na Alemanha uma
obra intitulada “A teoria das Exceções Processuais e os Pressupostos processuais”. O
grande mérito de Bülow foi justamente a sistematização da relação processual. Enquanto
alguns procuravam fora do direito a explicação para a natureza jurídica do processo,
Bülow buscou dentro da própria ciência do direito esta explicação, utilizando-se de um
conceito já bastante consolidado nesse campo, que foi o conceito de relação jurídica.
Afirmou o escritor alemão que o direito processual civil não havia ainda alcançado um
estágio de evolução, se comparado com o direito civil ou com o direito penal, e o motivo
deste atraso devia-se ao fato de que a doutrina sequer conseguiria distinguir o processo
do procedimento. O processo é coisa distinta do procedimento. Tal distinção era
importante para a determinação da natureza jurídica do processo. Dispôs-se então a
demonstrar que uma coisa era o processo e outra, o procedimento. O processo é uma
relação jurídica pública (vincula o Estado) que avança gradualmente e se desenvolve
passo a passo. No processo são praticados tantos atos processuais quantos necessários
ao atingimento do seu escopo, ou à natureza da lide a ser composta através do processo.
Assim, fala-se em procedimento ordinário, procedimento sumário, procedimento especial,
etc...E, no âmbito penal, em procedimento comum, procedimento sumário, etc...

Já se comparou o processo e o procedimento a um tiro. O tiro seria o processo,


aquela força interior que, para alcançar o alvo, passa por uma determinada trajetória. Esta
pode variar, se o tiro é de revólver ou de espingarda. A trajetória seria o procedimento, o
caminho que a bala percorre. Desde o momento em que o Estado vedou ao particular a
autotutela ou autodefesa dos próprios interesses, permitindo-a apenas em algumas
hipóteses restritas, assumiu para si a obrigação de solucionar os conflitos de interesses
entre duas ou mais pessoas, ou entre pessoas físicas e jurídicas (inclusive o próprio
Estado). Portanto, o Estado, através de um de seus poderes, assumiu com exclusividade
a jurisdição, garantindo-se o monopólio dela. Reservando-se a tarefa de fornecer a tutela
jurisdicional, o Estado-juiz não age de ofício; aguarda sempre a provocação de quem se
julga com direito a uma prestação por parte de outrem (dar, fazer, não-fazer). Por isso é
que se afirma que a jurisdição é inerte, dependente de provocação. Esta provocação se
dá pelos meios adequados, ou pelo exercício da ação. A ação é o direito subjetivo público
à tutela jurisdicional do Estado, em face de uma lide. O autor exerceu o direito de ação,
pedindo ao juiz a tutela jurisdicional, que este irá outorgar ou não. Mas o juiz não pode
decidir sem ouvir o réu. Ao direito de ação do autor, corresponde o direito do réu de
defender-se. Dando conhecimento ao réu de que foi ajuizada uma ação contra ele,
também o réu passa a ser interligado aos demais sujeitos processuais (autor e juiz). O juiz
55
não pede ao réu para comparecer em juízo e nem o obriga a contestar o pedido do autor;
o juiz, no exercício do seu poder jurisdicional, determina a citação do réu com as
conseqüências da lei. Assim, ao mesmo tempo em que exerce um poder, cumpre o juiz
um dever. O juiz não possui somente obrigações. Ele é dotado de poderes para o
exercício das funções jurisdicionais. No uso desses poderes é que ele determina o
comparecimento da testemunha, gerando para esta o dever de comparecer.

As partes não possuem somente direitos, dispondo também de faculdades, como a


de reinquirir testemunhas na audiência de instrução e julgamento. Têm também
obrigações, de lealdade processual, não apenas entre si, mas para com o órgão
jurisdicional, e de pagar as custas processuais. Suportam ainda o ônus, devendo praticar
determinados atos para evitar um prejuízo.

O processo põe em confronto os sujeitos que dele participam – autor, juiz e réu –
atribuindo-lhes direitos, poderes, faculdades e os correspondentes deveres, obrigações,
sujeições e ônus. O juiz tem obrigações, mas tem igualmente poderes, direitos e
obrigações. Quando postos em confronto estes sujeitos, nasce entre eles um vínculo, um
liame, uma relação, que não é vista a olho nu, mas que os interliga no processo. E a
relação da qual decorrem direitos e obrigações, chama-se relação jurídica ou relação
jurídica processual, porque relativa ao processo.

Bülow demonstrou assim que o processo visto sob o seu aspecto interior, é uma
relação jurídica processual; o procedimento é a exteriorização desta relação jurídica; é a
forma que ela adota em cada caso concreto, tendo em vista a natureza da lide e o escopo
perseguido pelo próprio processo.

A relação jurídica processual tem um objeto, que é a prestação jurisdicional devida


pelo Estado, e pela qual este se obrigou. A relação jurídica material regula a conduta das
pessoas em face de determinado bem da vida, quer dizer, um bem material ou imaterial; a
relação jurídica processual regula a conduta dos sujeitos, quando posto a lide em juízo.

Outra distinção pode ser encontrada nos seus pressupostos. Os pressupostos da


relação jurídica material são: agente capaz, objeto lícito e forma prescrita ou não defesa
em lei; os pressupostos da relação jurídica processual são os chamados pressupostos de
existência e de validade do processo, objetivos e subjetivos.

RELAÇÃO JURÍDICA PROCESSUAL

CARACTERÍSTICAS:
A doutrina, de um modo geral, ressalta algumas características da relação jurídica
processual, que podem ser assim resumidas: autonomia, caráter público, progressividade
(dinamicidade), complexidade, unicidade (ou unidade), triangularidade (caráter tríplice).

- Autonomia: A relação jurídica processual é autônoma, quer dizer, distinta da relação de


direito material, não se confundindo com esta. Existem normas próprias a regular uma e
outra. As que disciplinam a relação jurídica processual são as normas processuais ou
normas instrumentais. A relação jurídica material é regulada por normas substanciais, de
direito substantivo.
- Caráter público: A relação de direito material pode ser pública ou privada. Pública,
quando regulada pelo direito público e privada, quando regulada pelo direito privado. A
relação jurídica processual é essencialmente pública, não podendo nunca assumir o
caráter de relação privada, porque dela participa o Estado na sua condição de ente
soberano.
- Progressividade (dinamicidade): Ela nasce a partir do primeiro ato que lhe dá vida (a
denúncia, a petição inicial) e os demais atos não fazem senão desdobrar essa relação
56
processual. Ela se realiza em atos sucessivos. Por isto se diz que ela se reveste da
característica de progressividade. É uma relação em constante movimento.
- Complexidade: a relação jurídica processual é uma relação jurídica complexa, porque
uma vez instaurada, não resulta para as partes apenas um único direito ou uma única
obrigação. Nela se contém um complexo de direitos, deveres, poderes, faculdades,
sujeições e ônus, que vão surgindo desde o momento em que ela nasce, ou em que ela
se forma, até o instante em que se extingue. À medida que ela vai se desenvolvendo, um
ato gera outro e assim sucessivamente.
- Unicidade (unidade): Chiovenda já afirmava que o processo é uma unidade jurídica. A
relação jurídica processual é sempre a mesma em que pese a modificação subjetiva ou
objetiva por que possa passar no curso do seu desenvolvimento.
Suponha-se que uma pessoa mova uma ação reivindicatória de imóvel contra outra. No
curso do processo, o réu vem a falecer, vindo seus herdeiros a ocupar o seu lugar na
relação processual. Houve aí uma modificação subjetiva da lide, mas a relação
processual não se alterou. Suponha-se que o juiz venha a aposentar-se; outro virá ocupar
o seu lugar na condição de órgão jurisdicional investido de jurisdição, mas a relação
processual continua a mesma.
- Triangularidade (caráter tríplice): A relação jurídica processual é uma relação entre
três sujeitos, pelo menos: juiz, autor e réu (iudicium est actum trium personarum: iudicis,
actoris et rei). Nisto reside o seu caráter tríplice.

CARACTERIZAÇÃO DA RELAÇÃO PROCESSUAL

Três teorias surgiram para caracterizar a relação processual, sendo uma delas (a
linear), hoje, praticamente abandonada. Entendia Köhler que havia uma relação jurídica,
distinta da relação de direito material que se pretendia fazer valer em juízo, mas que
interligava apenas o autor e o réu, não abrangendo o juiz. Seria uma relação jurídica
linear. Assim: Autor ↔ Réu

Para Hellwig, ao contrário, a relação jurídica que interliga os sujeitos no processo é


uma relação angular. Ela se forma entre autor e juiz e entre o juiz e o réu, não havendo,
porém, nenhuma relação entre o autor e o réu. Por isto, esta concepção passou a ser
conhecida como angular, assim representada:

Juiz
↕ ↕
Autor Réu

A teoria triangular da relação processual, concebida por Bülow e seguida por Wach,
é a que segundo a qual a relação jurídica processual abrange o autor e o juiz, o juiz e o
réu, e o réu e o autor. Inicialmente a relação seria linear, quando o autor se dirige ao juiz,
pedindo a tutela jurisdicional para o seu direito. Ela se forma, de início, entre o autor e o
juiz. Posteriormente, ela se angulariza e, ato contínuo, se triangulariza, quando o réu é
chamado para integrar o processo, o que se dá com a citação, formando-se, então, um
vínculo entre o réu e o juiz e, conseqüentemente, entre o autor e o réu. É a chamada
concepção triangular processual, assim representada:
Juiz
↕ ↕
Autor↔Réu

Muitos têm sido os argumentos contrários à angularidade da relação jurídica


processual e favoráveis à tese triangular. Assim, dizem os triangularistas: as partes têm o
dever de lealdade processual recíproca; estão as partes sujeitas, ainda, ao pagamento
das custas processuais; as partes podem convencionar a suspensão do processo e
também podem transigir, quando a lide versa sobre interesses disponíveis.
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A estes argumentos, respondem os angularistas que não existe nenhuma relação
entre o autor e o réu, pois tudo no processo se passa por intermédio do juiz.
PRESSUPOSTOS PROCESSUAIS

A ação suscita o processo e, pois, a relação processual. Destarte, esta se constitui


por iniciativa de quem provoca a jurisdição – nemo judex sine actore. A relação processual
se esboça com a apresentação pelo autor da petição inicial ao juiz para despacho e se
completa no momento em que o réu toma conhecimento desta. A relação processual se
constitui:
1- Por iniciativa do autor, por meio de petição inicial;
2- Despacho do juiz. A petição será dirigida ao juiz, que deverá despachá-la, deferindo-a
ou indeferindo-a; da relação já participam dois sujeitos: autor e juiz, podendo ocorrer que
não se complete por sua extinção no nascedouro, o que se dará com o indeferimento da
inicial;
3- Citação do réu. Citação é o ato pelo qual se dá ao réu conhecimento da ação que lhe
foi proposta. Seja na ação de execução, de conhecimento ou cautelar, o réu toma
conhecimento dela através da citação, complementando-se assim a relação processual.
Dela participam seus sujeitos: juiz, autor e réu (triangulariza-se a relação processual).

Constituída a relação processual, ela passará a desenvolver-se, realizando os


sujeitos da relação processual as atividades tendentes à obtenção da prestação
jurisdicional a que visa como instrumento da jurisdição, o processo, e assim a relação
processual em que se traduz. Para própria garantia do mais perfeito exercício da função
jurisdicional, deverá desenvolver-se na conformidade dos princípios e normas legais que
o regem. O juiz somente poderá conhecer da lide e com segurança decidir da pretensão,
se o instrumento de que se vale for regular e válido.

A relação jurídica é vínculo regulado por lei, entre dois ou mais sujeitos, titulares de
direitos e obrigações. Se tais direitos e obrigações surgem como decorrência de uma
providência jurisdicional invocada, ou em virtude de atividade do autor, do réu e do juiz,
estaremos diante de uma relação jurídica processual. Esta relação processual nasce,
desenvolve-se e extingue-se não ao arbítrio das partes ou do órgão julgador, mas de
acordo com a lei que a regula e disciplina.
As normas reguladoras do processo são chamadas “normas jurídicas processuais”
e estão consubstanciadas nos Códigos de Processo Civil e Penal, na CLT, etc...Essa
relação não se exterioriza na esfera processual penal, da mesma forma que na
processual civil ou na trabalhista. Daí, a diversidade de procedimentos. No penal, o
Ministério Público apresenta a denúncia que, recebida pelo juiz, determina a citação do
réu para ser interrogado. Após o interrogatório, lhe é concedido prazo para a defesa
prévia, quando arrolará as testemunhas, etc...Os procedimentos é que divergem, por isto
é que se afirma que o processo não se modifica porque a lide a ser composta pela
providência jurisdicional seja penal ou extrapenal (Couture).

Os pressupostos processuais se apresentam sob dois aspectos, uns como


requisitos subjetivos, outros como requisitos objetivos. Os requisitos subjetivos dizem
respeito aos sujeitos principais da relação processual (juiz e partes), os objetivos se
referem à lide.

- Pressupostos processuais subjetivos:


a) Referentes ao juiz:
1- Órgão estatal investido de jurisdição (princípio da investidura);
2- Que o juiz seja competente (competência originária ou adquirida);
3- Que o juiz seja imparcial (imparcialidade).

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Nota: o CPC, art. 134, prescreve ser defeso ao juiz exercer as suas funções no processo
contencioso ou voluntário: de que for parte; em que interveio como mandatário da parte,
oficiou como perito, funcionou como órgão do Ministério público, ou prestou depoimento
como testemunha; que conheceu em primeiro grau de jurisdição, tendo-lhe proferido
sentença ou decisão; quando nele tiver postulado como advogado da parte, ou seu
cônjuge ou qualquer parente seu, consangüíneo ou afim, em linha reta ou colateral até
terceiro grau; quando cônjuge, parente, consangüíneo ou afim, de alguma das partes, em
linha reta ou na colateral, até terceiro grau; quando for órgão de direção ou de
administração de pessoa jurídica, parte na causa.

Ainda, no art. 135, alinha o CPC vários casos de suspeição, reputando-se fundada
a suspeição de parcialidade do juiz quando: amigo íntimo ou inimigo capital de qualquer
das partes; alguma das partes for credora ou devedora do juiz, de seu cônjuge ou de
parentes destes, em linha reta ou na colateral até o terceiro grau; herdeiro presuntivo,
donatário ou empregador de alguma das partes; receber dádivas antes ou depois de
iniciado o processo; aconselhar alguma das partes acerca do objeto da causa, ou
subministrar meios para atender às despesas do litígio; interessado no julgamento da
causa em favor de uma das partes. O parágrafo único do art. 135 do CPC prescreve
ainda que o juiz pode declarar-se suspeito por motivo do foro íntimo.

b) Referentes às partes:
1- Que tenham capacidade de ser parte: corresponde, no direito civil, à capacidade de ser
titular de direito. Todas as pessoas, físicas ou jurídicas, são sujeitos de direito e,
conseqüentemente, possuem capacidade de ser parte em juízo. Assim, os relativamente
incapazes, os absolutamente incapazes (loucos de todo gênero, menores impúberes,
etc...), reconhecendo a lei capacidade até mesmo a certos entes formais, como a massa
falida, o espólio, etc... até o nascituro pode ser sujeito de direito; aliás, a lei põe a salvo,
desde a concepção, os seus direitos. Portanto, todo sujeito de direito possui também a
capacidade de ser parte.

2- Que tenham capacidade processual (capacidade de estar em juízo): Aquele que possui
capacidade civil plena pode exercer, por si mesmo, o seu próprio direito, pois apenas
estes possuem capacidade processual plena. Os relativamente incapazes, nos termos da
lei civil, podem praticar atos processuais válidos, desde que assistidos por seus
representantes legais. A lei exige assim uma complementação de sua capacidade, o que
se dá através do instituto da assistência (capacidade integrada – assistência). Os
absolutamente incapazes, como tal qualificados pela lei civil, não possuem capacidade
para estar em juízo, somente podendo fazê-lo por intermédio dos seus representantes
legais. A capacidade in casu é suprida pelo instituto da representação (capacidade
suprida – representação). Exemplificando: o maior de 16 anos e menor de 21 anos pode
praticar atos processuais, desde que o faça com a presença do seu representante legal,
que o assistirá em todos os atos que praticar; já o menor de 16 anos deverá ser
representado por seu pai, mãe, tutor, etc...

3- Que tenham capacidade de postular em juízo (capacidade postulatória): Para postular


em juízo, as partes necessitam ser representadas por advogado regularmente inscrito na
Ordem dos Advogados do Brasil.

- Pressupostos processuais objetivos (referentes à lide): são extrínsecos e


intrínsecos.
a) Extrínsecos: dizem respeito à inexistência de atos impeditivos, como os abaixo
exemplificados:
- Litispendência – o que se verifica a existência de ação em curso, idêntica à ação que
suscita a nova relação processual. A declaração do impedimento da relação processual,
no direito pátrio, deverá ser provocada pelo réu por meio de exceção de litispendência;
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- Compromisso arbitral (art. 1.037 CPC);
- Falta de tentativa prévia de conciliação nas ações de separação;
- Coisa julgada.
- Falta de pagamento de despesas feitas pelo réu, quando o autor for condenado por
alguma nulidade processual.

b) Intrínsecos: são os que dizem respeito à subordinação do procedimento às normas


legais:
- A petição inicial, com os requisitos exigidos pela lei (art. 282 CPC);
- Citação que é o ato pelo qual se dá conhecimento ao réu da ação que lhe foi proposta
devendo ser regularmente feita. Entretanto a falta ou irregularidade da citação podem ser
supridas se o réu comparece para defender-se já que o seu comparecimento prova haver
tomado conhecimento da ação proposta.
- Instrumento de mandato conferido ao advogado do autor.

SUJEITOS DA RELAÇÃO PROCESSUAL – Admitida a concepção trilateral ou triangular


da relação processual, os sujeitos dessa relação são três. O Juiz e as partes (autor e réu),
numa evidente redução, já que outras várias pessoas exercem atividades no processo.
Assim classificamos os sujeitos do processo como: Principais, Especiais e Secundários.

a) SUJEITOS PRINCIPAIS – O Juiz e as partes, sendo o juiz a coluna vertebral da relação


processual, como órgão da função jurisdicional do Estado.
b) SUJEITOS ESPECIAIS – Também atuam os Advogados e o Ministério Público dentro
do processo, ocupando uma posição de destaque., peculiar sui generis. Os advogados
como patrono das partes, procuradores legalmente habilitados, e o Ministério Público que
ocupa diversas posições na relação processual: 1- Como parte, autor ou réu, como órgão
do Estado, na tutela dos interesses indisponíveis, propondo ação de nulidade de
casamento, suspensão do pátrio poder, interdição, etc.. 2- Como substituto processual,
quando funciona como curador à lide, quando o incapaz não tem representante legal, ou o
interesse do representante conflita-se com o do representado. 3- Como fiscal da lei,
quando intervém para que se respeite a lei, nos processos em que incapazes são os
interessados, no cumprimento de testamento, no direito de família, nos processos
referente a registros públicos, etc.
c) SUJEITOS SECUNDÁRIOS – São aquelas pessoas que exercem atividades dentro do
processo, tais como, auxiliares da justiça e terceiros – testemunhas e outras.

PLURALIDADES DE PARTES

LITISCONSÓRCIO – É a pluralidade de partes no processo, na qualidade de autores ou


réus, é o laço que prende dois ou mais litigantes, no processo na qualidade de autores ou
de réus, podendo ser classificado em:
Quanto a Pluralidades das Partes ou Composição (Ativo – Dois ou mais autores, que
demandam contra um réu, Passivo – Um autor, que demanda contra dois ou mais réus,
Misto (recíproco) – Dois ou mais autores, que demandam contra dois ou mais réus).
Quanto a Formação ou Origem (Inicial – Quando é originado na petição inicial, Ulterior –
Quando se origina em momento posterior ao pedido inicial do autor, isto é, durante o
transcorrer do processo).
Quanto a Natureza do Vínculo (Necessário – O que não pode ser dispensado, mesmo
com o acordo dos litigantes, pois há uma determinação legal, Facultativo – O que se
estabelece por vontade das partes e que subdivide em : Impróprio ou Irrecusável (Quando
requerido pelos autores não pode ser recusado pelo(s) réu(s) ), Próprio ou recusável
(Admite a rejeição pelos demandados).
Quanto a Uniformidade da Decisão (Unitário – Quando a decisão da causa deva ser
uniforme, igual, em relação a todos os litisconsortes, ex: ação de anulação de casamento
contra ambos os cônjuges, proposta pelo MP), Simples - Quando a decisão, embora
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proferida no mesmo processo, pode ser diferente para cada um dos litisconsorte, ex: ação
de usucapião).

OBS.: De acordo com o artigo 46 do CPC, para haver listisconsorte, isto é, duas ou mais
pessoas litigar, no mesmo processo em conjunto, ativa e passivamente, é necessário
haver entre elas comunhão de direitos ou de obrigações relativamente à lide (ex: ação
proposta por vários condôminos pleiteando de terceiros a coisa comum); os direitos ou as
obrigações derivarem do mesmo fundamento de fato ou de direito (ex: ação proposta
pelas mesmas vítimas de um acidente contra o causador); entre as causas houver
conexão pelo objeto ou pela causa de pedir (ex: ação proposta pelo credor contra o
devedor e o respectivo fiador); ocorrer afinidade de questões por um ponto comum de
fato ou de direito (ex: agricultor contra vários donos de animais que danificaram sua
plantação).

INTERVENÇÃO DE TERCEIROS

CONCEITO – Ocorre o fenômeno processual chamado intervenção de terceiro, quando


alguém ingressa, como parte ou coadjuvante da parte, em processo pendente entre
outras partes. É sempre voluntária, sendo injurídico pensar que a lei possa obrigar o
estranho a ingressar no processo. O que ocorre é a provocação de uma das partes do
processo pendente paras que o terceiro venha integrar a relação processual. É sempre
facultativa para o terceiro.

CLASSIFICAÇÃO DA INTERVENÇÃO – Dois são os critérios:

- Conforme o terceiro vise AMPLIAR ou MODIFICAR subjetivamente a relação


processual, a intervenção pode ser: 1- AD Coadjuvandum (Quando o terceiro procura
prestar cooperação a uma das partes primitivas, como na ASSISTÊNCIA), 2- AD
EXCLUDENDUM (quando o terceiro procura excluir uma ou ambas as partes primitivas,
como na OPOSIÇÃO e na NOMEAÇÃO À AUTORIA).
- Conforme a iniciativa da medida, a intervenção pode ser: 1- ESPONTÂNEA (Quando a
iniciativa é do terceiro, como geralmente ocorre na OPOSIÇÃO e na ASSISTÊNCIA), 2-
PROVOCADA (Quando foi ela procedida por citação promovida pela parte primitiva
NOMEAÇÃO À AUTORIA, DENUNCIAÇÃO DA LIDE e CHAMAMENTO AO PROCESSO).

CASOS DE INTERVENÇÃO

1 - ASSISTÊNCIA – AD COADJUVANDUM, ESPONTÂNEA.. É o fenômeno que se dá


quando um terceiro ingressa no processo para auxiliar uma das partes, podendo ser:
Simples (Quando o direito do terceiro não está sendo discutido, mas pode ser afetado
com a sentença, há interesse jurídico. Ex. Locador x Locatário - terceiro sublocatário ou
fiador, defende interesse próprio indiretamente), ou Litisconsorcial (Quando o direito o que
está sendo objeto da discussão, também pertence ao terceiro, e sentença poderá influir
na relação jurídica). Ex. Condômino de coisa comum - herdeiros do espólio, defendem
direito próprio diretamente e interesse próprio indiretamente).

2 - OPOSIÇÃO – AD EXCLUDENDUM, ESPOTÂNEA. É a intervenção de um terceiro no


processo, que se apresenta como legítimo titular do direito discutido, entre o autor e o réu,
sem ser integrante da lide. Ex.: Finalidade: Evitar decisões contraditórias e Economia
processual.

3 - NOMEAÇÃO À AUTORIA – AD EXCLUDENDUM, PROVOCADA. Modo pelo qual o


possuidor direto (usufrutuário ou locatário) traz para o processo que lhe esteja sendo
movido, o proprietário ou possuidor indireto da coisa objeto do litígio. Ex.: Finalidade:
Economia processual e Correção da legitimação passiva.
61
4 - DENUNCIAÇÃO A LIDE – PROVOCADA. Destina-se a trazer para o processo, a
pessoa de quem a coisa ou direito foram havidos para que se prevaleça a evicção. Direito
de regresso, no mesmo processo, ampliando objetiva e subjetivamente a relação
processual. Ex.: Finalidade. Economia processual e evitar sentenças contraditórias.

5 - CHAMAMENTO AO PROCESSO – PROVOCADO. É o ato com o qual o devedor,


quando citado como réu, pede a citação também de outro coobrigado, a fim de que
decida, no processo, a responsabilidade de todos. Ex.: Finalidade. Economia processual e
evitar sentenças contraditórias.

OBS.: No código Penal só existe a assistência simples e ao MP, nunca ao réu. Não existe
assistência litisconsorcial por causa do princípio da indivisibilidade da ação penal.
Existindo mais de um réu, a ação tem que ser proposta contra todos desde o seu início.
Não existe oposição porque o MP não pode ser substituído, e ninguém quer ocupar o
lugar do réu.

PRINCIPIOS FUNDAMENTAIS DO PROCEDIMENTO

IMEDIAÇÃO OU IMEDIATIDADE – Exige o contato direto do juiz com as partes e as


provas para melhor formar o seu convencimento.
IDENTIDADE FISICA DO JUIZ – O juiz que tenha iniciado a instrução fique vinculado ao
julgamento e obrigado a dar sentença, salvo se for transferido, promovido ou aposentado,
casos em que passará ao seu sucessor.
CONCENTRAÇÃO – Consiste em apertar o feito num período breve de tempo, reduzindo
a uma audiência ou a poucas audiências a curto intervalos. Não no trabalhista e nem no
penal e Sim no Tribunal do juri.
IRRECORRIBILIDADE DOS INTERLOCUTÓRIOS – Objetiva imprimir andamento rápido
ao processo, tornando irrecorríveis os despachos ou decisões interlocutórias, sem
prejuízo da sua apreciação pelos Tribunais. Relativa nos processos civil e penal e
Absoluto no Trabalhista

SISTEMAS DAS FORMAS PROCEDIMENTAIS

LIBERDADE DAS FORMAS – Significa a ausência de formas preordenadas para a


realização do processo.
LEGALIDADE – Regulamentação legal, certas e determinadas de acordo com o CPC.
JUDICIAL – Formas determinadas pelo juiz.

O Brasil adotou o sistema da legalidade, em princípio, já que em alguns casos


prevalece o poder de controle do juiz e em outros a regulamentação por acordo das
partes.

QUANTO A EXIGÊNCIAS DAS FORMAS DOS ATOS PROCESSUAIS

LUGAR DOS ATOS PROCESSUAIS – São cumpridos normalmente na sede do juízo,


salvo quando devam ser efetuados em outro lugar.
TEMPO DOS ATOS PROCESSUAIS – O tempo deve ser levado em conta pelo legislador
sob dois aspectos:
1) Determinando a época em que devem ser exercidos os atos processuais;
2) Estabelecendo o prazo para sua execução.
MODO DO PROCEDIMENTO E SEUS ATOS – Quanto ao modo, o procedimento pode
ser analisado relativamente à linguagem (língua portuguesa, podendo ser oral, escrito ou
misto), à atividade que o move de fase em fase (o impulso pode ser atribuído às partes,
configurando-se o princípio do impulso das partes, ou ao juiz, neste caso, trata-se do
62
princípio do impulso oficial), e ao rito (é a própria índole do processo que o determina, em
vista de várias circunstâncias que devem ser levadas em consideração para que atinja
seus escopos com a maior brevidade e segurança possíveis).

PRAZOS PROCESSUAIS

Termos ou prazos são a distância temporal entre os atos do processo.


QUANTO À ORIGEM - a) Legais b) Judiciais e c) Convencionais.

QUANTO ÀS CONSEQUÊNCIAS - 1) Peremptórios 2) Ordinatórios e 3) Dilatórios.


Qualquer deles, quando vencido, acarretam a preclusão temporal (perda, pelo decurso do
tempo, da faculdade de praticar determinado ato processual).

QUANTO A PRECLUSÃO - a) Temporal (quando não foi exercida a faculdade, poder ou


direito processual no prazo determinado), b) Lógica (quando decorre da incompatibilidade
da prática de um ato processual com relação a outro já praticado) e c) Consumativa
(quando consiste em fato extintivo, caracterizado pela circunstância de que a faculdade
processual já foi validamente exercida). Nota: a preclusão só ocorre quando se trata de
prazos próprios; são impróprios os prazos não preclusivos, conferidos ao juiz, aos
auxiliares da Justiça, e, em princípio, ao Ministério Público no processo civil. Não havendo
a preclusão, nem por isso deixam essas pessoas de ficar sujeitas a sanções de outra
ordem, no caso de inobservância do prazo impróprio.

Prazo (fração ou delimitação de tempo dentro do qual deve ser praticado o ato
processual). Sua contagem se faz continuamente, computando-se também os dias
feriados. O dia inicial (dies a quo) exclui-se da contagem, contando-se porém o dia do
vencimento (dies ad quem). Se este cair em feriado ou em dia de expediente anormal, o
vencimento será prorrogado até o primeiro dia útil subseqüente.

A superveniência de férias, o obstáculo criado pela parte e outros fatos


suspensivos do processo acarretam a suspensão do decurso do prazo, que recomeça a
ser contado após a cessação do impedimento pelo período faltante.

Termo (são os marcos (limites) que determinam a fração chamada prazo). Termo a quo
(início) e Termo ad quem (fim).

CLASSIFICAÇÃO DOS PRAZOS

DILATÓRIO – É o prazo dentro do qual não é permitida a prática do ato processual, que
só pode ser realizado depois de ultimado o termo final. O ato praticado antecipadamente
é nulo. Ex: o prazo para comparecer em juízo.
PEREMPTÓRIO – É o prazo dentro do qual o ato processual deve ser praticado, sob
pena de, não o sendo, não poder sê-lo mais (Decadência). Em regra, são os prazos
decorrente de lei e que não podem ser prorrogados.
LEGAL – Quando estipulado por lei.
JUDICIAL – Quando os limites do prazo ficam a critério do juiz ou Tribunal.
CONVENCIONAL – É aquele convencionados pelas partes.
COMUM – É o que transcorre para ambas as partes, concomitantemente. Corre em
Cartório ou Secretaria.
INDIVIDUAL – É o que transcorre apenas para uma das partes.
PRÓPRIO – É o assinalado às partes, com as consequências que defluem do seu
cumprimento ou descumprimento
IMPRÓPRIO – É o assinalado ao Juiz e aos auxiliares da justiça, gerando apenas medida
de ordem disciplinar, o seu descumprimento.

63
REVELIA E PRECLUSÃO

REVELIA – É a situação em que se encontra o réu que deixou passar em branco o prazo
para a defesa. Réu revel.
PRECLUSÃO – Objetivamente, consiste num fato impeditivo, destinado a garantir o
avanço gradual do processo, evitando recuo a fases anteriores. Subjetivamente
representa a perda de um direito ou faculdade, por não ter sido exercido dentro do prazo
ou por se haver esgotado pelo seu exercício.

MODO DO PROCEDIMENTO E SEUS ATOS

A LINGUAGEM NO PROCEDIMENTO – A língua portuguesa, que pode ser falada ou


escrita, dando origem ao procedimento oral, escrito ou misto.

A ATIVIDADE – O impulso processual pode ser atribuído às partes ou ao juiz,


configurando-se os princípios do impulso das partes e do impulso oficial.

O RITO – Ë a própria índole do processo que o determina, em vista de várias


circunstâncias que devem ser levadas em conta para que atinja seus escopos com maior
brevidade e segurança.

No processo civil temos vários procedimentos, podendo ser divididos em: Processo de
Conhecimento Comum e Especial. Comum (ordinário e sumário) e Especial de jurisdição
contenciosa e voluntária. Processo de Execução (para entrega de coisa certa ou incerta,
execução das obrigações de fazer e não fazer, execução de quantia certa contra devedor
solvente e execução por quantia certa contra devedor insolvente) Processo Cautelar (há o
processo cautelar genérico e os procedimentos cautelares específicos), Nas Pequenas
Causas (criou um procedimento especial em cumprimento ao mandamento
constitucional).

No Campo Penal procedimento Comum (ordinários, crimes com pena de reclusão) e


sumários (contravenções e crimes com pena de detenção, é um procedimento mais
simplificado, adota estritamente o princípio da oralidade, com defesa oferecida em
audiência, conciliação e prova oral) e procedimentos Especiais (são os de competência
do júri). Além desses procedimentos especiais, a CF determinou aos Estados e ao Distrito
Federal a criação de juizados especiais para infrações penais “de menor potencial
ofensivo”, mediante processo de rito sumaríssimo.

No Campo Trabalhista há os procedimentos Ordinário (dissídio individual) e especial


(reclamações com valor até dois salários mínimos, onde o rito é sumário) e diversos
outros, inclusive alguns procedimentos do processo civil comum que tem aplicabilidade na
Justiça do Trabalho. Admitidas em tese medidas cautelares no processo trabalhista,
também os procedimentos cautelares do CPC têm relativa aplicabilidade.

ATOS PROCESSUAIS

O processo é a resultante de dois componentes que se combinam e completam, e


que são a relação processual e o procedimento. A relação processual é complexa,
compondo-se de inúmeras posições jurídicas ativas e passivas que se sucedem do início
ao fim do processo. A passagem de uma para outra dessas posições jurídicas é
ocasionada sempre por eventos que têm, perante o direito, a eficácia de constituir,
modificar ou extinguir situações jurídicas processuais. Esses eventos recebem o nome
genérico de fatos processuais. Fato jurídico é o acontecimento ao qual se segue uma
conseqüência jurídica, ou seja, através do qual se opera modificação em alguma situação

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de direito (nascimento, contrato, crime). E, fato jurídico processual, como se depreende
do texto, é uma espécie do gênero fato jurídico.

Como ocorre com os fatos em geral, também os fatos processuais podem ser ou
não ser efeito da vontade de uma pessoa: sendo, temos o ato processual (oferecimento
de uma denúncia ou de uma petição inicial, um interrogatório, uma sentença), e, não
sendo, temos o fato strictu sensu (decurso de prazo que gera a preclusão, a morte da
parte ou do procurador, a transferência, promoção ou aposentadoria do juiz, os
acontecimento que caracterizaram a força maior). Ato processual é, portanto, toda
conduta dos sujeitos do processo que tenha por efeito a criação, modificação ou extinção
de situações jurídicas processuais.

Há duas classificações dos atos processuais, a objetiva (Guasp) e a subjetiva. O


CPC adotou a classificação subjetiva, sendo os atos divididos em: I – Atos das partes; II –
atos do juiz; III – Atos do escrivão ou do chefe de secretaria.

I – ATOS DAS PARTES – Consideram-se atos das partes, os praticados pelo autor ou réu,
pelos terceiros intervenientes ou pelo Ministério Público, no exercício de direitos ou
poderes processuais, ou para cumprimento de ônus, obrigações ou deveres decorrentes
da relação processual. Couture os classifica em ATOS DE OBTENÇÃO (procuram obter
do órgão jurisdicional a satisfação de uma pretensão manifestada nos autos e
compreendem: atos de petição, atos de afirmação e atos instrutórios) e ATOS
DISPOSITIVOS (têm por objetivo criar, modificar ou extinguir situações processuais e se
subdividem em atos de submissão, de desistência e de transação).

Atos de Obtenção:
a) Atos de petição: (denúncia, petição inicial, contestação, recurso). Também
denominados atos postulatórios, consistem nos pedidos ou requerimentos em que a parte
postula uma providência ou um ato processual específico. Compreende o pedido do autor,
com que se manifesta o direito de ação, e a resposta do réu, bem como outras
postulações incidentais em que as partes formulam seus diversos requerimentos,
inclusive o de produzir documentos e outras provas.
b) Atos de afirmação: Também denominados atos reais, são os que a parte não postula e
sim age materialmente, criando situações concretas como a da exibição de um
documento em seu poder, o pagamento das custas, a prestação da caução, o
comparecimento físico às audiências, submeter-se a exames, prestar depoimento. Enfim,
são as condutas materiais das partes no processo.
c) Atos de prova ou atos de instrução: São aqueles destinados a convencer o juiz, ou
seja, instruí-lo. São os meios de demonstrar ao juiz a verdade dos fatos alegados na ação
ou na defesa.

Atos Dispositivos: Também denominado de ato de causação, são aqueles através dos
quais se abre mão, em prejuízo próprio, de determinada posição jurídica processual ativa,
ou mesmo da própria tutela jurisdicional.
a) Atos de submissão: Quando a parte se submete expressa ou implicitamente ao que
deseja o outro litigante. Há submissão expressa à pretensão do autor, quando o réu
reconhece a procedência do pedido. Há submissão implícita quando o demandado, em
ato omissivo, deixa de contestar a ação, e permite que a revelia produza o efeito de tornar
verídicos, para o processo, os fatos alegados na inicial.
b) Atos de desistência: quando há desistência do processo ou renúncia do direito nele
postulado, quer da parte do autor, quer do réu. Podem se referir a questões de direito
material e de direito processual. São unilaterais.
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c) Atos de transação: Representam atos bilaterais realizados pelas partes sob a forma de
avenças ou acordos processuais. Podem se referir ao mérito da causa, como se
apresentam como forma de auto-composição da lide, como na conciliação e na transação.
Podem ainda relacionar-se com questões meramente processuais, como na convenção
para adiar a audiência ou para abreviar ou aumentar prazos.

II – ATOS DO JUÍZ – No comando do processo, o juiz está dotado de duas espécies de


poderes: o de dar solução à lide e o de conduzir o feito segundo o procedimento legal,
resolvendo todos os incidentes que surgirem até o momento adequado à prestação
jurisdicional. Durante a marcha processual e no exercício de seus poderes de agente da
jurisdição, o juiz pratica atos processuais de duas naturezas: a) decisórios, em que há
sempre um conteúdo de deliberação ou de comando, e, b) não decisórios, em que há
apenas função administrativa, ou de polícia judicial.
Atos Decisórios – Conforme a natureza do processo (de cognição ou de execução), os
atos do juiz podem ser divididos em: a) atos decisórios propriamente ditos (visa-se a
preparar ou obter a declaração da vontade concreta da lei frente ao caso sub judice); b)
atos executivos (procura-se a realização efetiva da mesma vontade, através de
providências concretas sobre o patrimônio do devedor, para satisfação do direito do
credor (atos que ordenam a penhora, a arrematação, a adjudicação, etc...).

A enumeração dos atos decisórios do juiz está feita pelo próprio código que no art.
162 os classifica em:
a) Sentença: é o ato pelo qual o juiz põe termo ao processo, põe fim ao processo,
decidindo ou não o mérito da causa. São classificadas em: sentenças terminativas, põem
fim ao processo, sem lhe resolverem, entretanto, o mérito (caso de extinção do processo
sem julgamento do mérito), após ela subsiste ainda o direito de ação, isto é, o direito de
instaurar outro processo sobre a mesma lide, já que esta não chegou a ser apreciada; e,
sentenças definitivas, que são as que decidem o mérito da causa, no todo ou em parte e,
por isso, extinguem o próprio direito de ação.
b) Decisão interlocutória: é o ato pelo qual o juiz, no curso do processo, resolve questão
incidente, sem por fim ao processo.
c) Despachos: são todos os demais atos do juiz praticados no processo, de ofício ou a
requerimento da parte, a cujo respeito a lei não estabelece outra forma.

Nota: nos tribunais, as decisões ou julgamentos recebem o nome de acórdão.

Atos Não-decisórios – São também ditos de atos materiais, que não têm qualquer
caráter de resolução ou determinação. São instrutórios (realizar inspeções em pessoas ou
coisas, ouvir alegações dos procuradores das partes, etc...), ou , de documentação
(rubricar folhas dos autos, referentes a ato em que haja intervindo, assinar a folha final).

Nota: Mérito (definição do Vocabulário Jurídico, De Plácido e Silva): Mérito, na acepção


que é tido na terminologia do direito processual, mérito quer exprimir e designar a
matéria, em que se funda ou se baseia, principalmente a questão. Quer então distinguir o
ponto dominante da pendência, sobre o qual deve versar a decisão. Nele é que se funda
o pedido do autor. A designação de mérito, pois, mostra a relevância do assunto,
porquanto representa ou se mostra aquele que deve ser decidido, visto ser ele o próprio
motivo ou a razão de ser da demanda. Assim, tecnicamente, resolver o mérito é dar
solução à relação jurídica, que se trouxe à discussão, como matéria principal e
fundamental da contenda. Falar sobre o mérito é discutir ou apresentar as razões em que
se calca o direito dos litigantes. Nesta razão é que se diz que o feito terminou sem
solução do mérito, quando é a causa paralisada sem que se decida sobre o ponto ou
questão principal da demanda.

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III – ATOS DO ESCRIVÃO OU DO CHEFE DE SECRETARIA – A cooperação de
auxiliares de justiça no processo faz-se através de atos de movimentação, documentação,
comunicação e execução. A movimentação e a documentação fazem-se precipuamente
através do escrivão e seus funcionários (escreventes). São atos de movimentação
processual: a conclusão dos autos do juiz, a vista às partes, a remessa ao contador, a
expedição de mandados e ofícios. São atos de documentação: a lavratura dos termos
referentes à movimentação (conclusão, vista, etc...), a feitura do termo de audiência, o
lançamento de certidões, etc.

A execução é ordinariamente encargo do oficial de justiça: trata-se de atos


realizados fora dos auditórios e cartórios, em cumprimento a mandado judicial (penhora,
prisão, busca e apreensão, etc...)
A comunicação processual, consiste em citações ou intimações, é realizada pelo
escrivão, com o auxílio dos Correios, ou pelo oficial de justiça, em cumprimento a
mandados judiciais.
DA SENTENÇA

Natureza da sentença definitiva: Ato de inteligência e ato de vontade. Parte da


doutrina sustenta que a sentença é um simples ato de inteligência do juiz. Segundo esta
opinião, não existe na sentença nenhuma declaração de vontade do juiz, cujo trabalho se
reduz a um puro juízo lógico, sobre a aplicação da norma legal ao caso concreto: na
sentença, a vontade declarada é aquela da lei. Outra parte da doutrina sustenta que a
sentença contém não só um juízo lógico, mas também um ato de vontade do juiz, como
órgão do Estado. É por ser um ato de vontade de um órgão do Estado que se concretiza
num comando que a sentença do juiz se distingue do juízo de um simples particular.
Para Chiovenda, a lei possui uma vontade, uma ordem, um imperativo. Essa
vontade que se contém em abstrato na lei, é posta pelo juiz em situação de ser aplicada
ao caso concreto. Aplicando a lei ao caso concreto, o juiz, como órgão do Estado, emite
um preceito, ordem, comando, que qualifica a sentença como ato de vontade do juiz,
como órgão do Estado, em face daquilo que a lei exprime. Na sentença há um elemento
lógico e um elemento volitivo. Não pode haver sentença que não seja, ao mesmo tempo,
ato da razão e da vontade. Sem o elemento vontade, ela não teria força obrigatória; sem o
elemento razão, seria fruto do puro arbítrio, que é a negação do direito.

Resumindo a concepção doutrinária que congrega a maioria dos processualistas,


pode-se dizer que a sentença “é um ato de inteligência, cujo epílogo é um ato de
vontade”, ou “é um ato de inteligência, que termina por um ato de vontade”.

Função da sentença definitiva: resolver a lide.


Função da sentença terminativa: por fim ao processo (à relação processual), sem resolver
a questão posta em juízo.
Requisitos formais da sentença: Relatório, fundamentação (ou motivação), e, dispositivo
(ou decisão).

- Relatório: São identificadas as partes, resumidas as pretensões de cada uma delas (o


pedido do autor e a defesa do réu), ressaltando o juiz aí os incidentes surgidos no curso
do procedimento. Exterioriza uma verdadeira radiografia do processo.

- Fundamentação (ou motivação): segue-se ao relatório. É a parte da sentença onde o juiz


examina e conhece da pretensão das partes litigantes; exterioriza as razões que o
convenceram do acerto ou desacerto das teses sustentadas pelas partes. Aí o juiz dá os
fundamentos de fato e de direito que lhe formaram a convicção.

- Dispositivo (ou decisão): é a parte final da sentença. Aí o juiz decidirá pela procedência
ou improcedência do pedido.
67
Classificação das sentenças: sentenças condenatórias, declaratórias e constitutivas.

- Sentenças condenatórias: são aquelas que, além do elemento declaratório (comum a


todos os tipos de sentença), impõem ao réu o cumprimento de uma obrigação (dar, fazer,
não fazer), ou seja, condenam o réu a uma prestação. Impõem ao réu uma sanção que,
no âmbito civil e trabalhista, é sujeitá-lo à execução forçada. O inadimplemento sujeita o
réu à execução. Somente as sentenças condenatórias são passíveis de execução.

- Sentenças constitutivas: além do elemento declaratório, criam modificam ou extinguem


uma relação jurídica ou situação jurídica. Exemplos dessa modalidade de sentença são,
no processo civil, a sentença que anula o casamento; no processo trabalhista, a sentença
proferida em dissídios coletivos; no processo penal, a sentença de reabilitação, e, a que
impõe interdição de direitos, etc...

- Sentenças declaratórias: declaram simplesmente a existência ou inexistência de uma


relação jurídica ou situação jurídica ou a autenticidade ou falsidade de um documento.
Exemplos dessa modalidade de sentença são, no processo civil, a sentença que declara a
inexistência de uma relação de débito e crédito; no processo trabalhista, a sentença que
declara a existência de vínculo empregatício; no processo penal, a sentença que julga
extinta a punibilidade em qualquer dos casos enumerados no art. 107 CP. Tem também
natureza declaratória toda sentença que julga improcedente a demanda (declaratória
negativa); e, no âmbito penal, as que absolvem o réu, pois declaram a inexistência do
direito de punir do Estado.

EFEITOS DA SENTENÇA

1-Entrega da prestação jurisdicional.


2-Hipoteca judiciária.
Outros efeitos secundários: dissolução da comunhão de bens; perda do direito de
usar o nome do marido; perempção do direito de demandar, quando o autor der causa a
três extinções do processo por abandono da causa; havendo condenação do devedor a
emitir declaração de vontade, a sentença substitui a declaração não emitida.

Efeitos ex nunc, quando a sentença só produz efeitos jurídicos para o futuro, ou, ex
tunc, quando a sentença tem efeito retroativo ao passado: a regra geral é que as
sentenças condenatórias e declaratórias produzem efeitos ex tunc, enquanto a
constitutiva só produz efeitos para o futuro. Excepcionalmente porém, a sentença
condenatória pode produzir efeitos ex nunc (como na ação de despejo, cuja sentença não
projeta efeitos pretéritos) e, ainda excepcionalmente, algumas constitutivas têm efeitos
reportados à data da propositura (ação para a rescisão de contrato por inadimplência).

Prescreve o art. 1.525, primeira parte, do código civil que “a responsabilidade civil é
independente da criminal”, ressaltando assim a independência das ações civil e penal e
das duas jurisdições. A segunda parte desse mesmo dispositivo prescreve que “...não se
poderá, porém, questionar mais sobre a existência do fato, ou quem seja o seu ator,
quando estas questões se acharem decididas no crime”.

Como se vê, o Código Civil dá prevalência à jurisdição penal sobre a civil, em que a
sentença penal tem eficácia no cível. Contudo, se o réu foi absolvido no juízo criminal, a
ação civil poderá ser proposta, quando não tiver sido categoricamente reconhecida a
inexistência material de fato. É o que prescreve o art. 66 do CPP. Observa Lopes da
Costa que há uma diferença entre a sentença absolutória que reconhece categoricamente
a inexistência material do fato e a absolutória que reconhece não estar provada a
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existência do fato. A primeira tem eficácia no cível e impede o ajuizamento da ação; a
segunda, não. Este é outro caso de interferência das jurisdições.

Prescreve o art. 91, I, do CP, que a sentença condenatória criminal torna certa a
obrigação de reparar o dano causado pelo crime e o art. 63 do CPP dispõe que,
“transitada em julgado a sentença condenatória, poderão promover-lhe a execução no
cível para efeito de reparação do dano, o ofendido, seu representante legal ou seus
sucessores”. Aí se vê, claramente, a eficácia da sentença condenatória, produzindo
efeitos no cível.

Se a sentença absolutória se assenta numa das causas previstas no art. 23 do CP,


prescreve o art. 65 do C.P.P.: “Faz coisa julgada no cível a sentença penal que reconhecer
ter sido o ato praticado em estado de necessidade, em legítima defesa, em estrito
cumprimento do dever legal ou no exercício regular de direito”. A legítima defesa e o
estado de necessidade, entretanto, vinculam o juiz, no cível, que não poderá apreciá-los,
mas, em certas hipóteses, não impede a reparação do dano. Basta que o dono da coisa
destruída (no estado de necessidade) não tenha sido o responsável pelo perigo, para ter
direito à indenização contra o réu, no cível; ou, no caso de legítima defesa, quando ocorre
a hipótese de aberratio ictus, em que o lesado ou seus sucessores (filhos menores) têm
direito à reparação do dano, no cível.

Finalizando, sobre a interferência da sentença penal no juízo trabalhista, temos: a)


se o réu for condenado por crime, haverá justa causa pelos mesmos fatos, ainda que
tenha havido suspensão da execução da pena; b) se houver absolvição por ter sido
reconhecido que o empregado não foi autor do fato, ou se fundamentou-se na inexistência
dos fatos, não haverá justa causa; c) também não haverá justa causa, se o empregado
praticou o ato nas circunstâncias do art. 23 do CP, reconhecidas essas circunstâncias no
crime.

COISA JULGADA – RES JUDICATA

Para o art. 467 do CPC, denomina-se coisa julgada material, a eficácia que torna
IMUTÁVEL e INDISCUTÍVEL a sentença não mais sujeita a recurso ordinário ou
extraordinário.

LIEBMAN – Qualidade: A doutrina tradicional via na coisa julgada um dos efeitos da


sentença, até que Liebman veio provocar verdadeira revolução nesse conceito, ao
sustentar que os efeitos da sentença eram aqueles tradicionalmente reconhecidos pela
moderna doutrina (declaratórios, condenatórios e constitutivos), e que a coisa julgada era
somente uma qualidade especial daqueles efeitos. Na sua obra publicada em 1935,
“Eficácia e autoridade da sentença”, Liebman dá os novos contornos do instituto e os
fundamentos em que se alicerça.
Praticamente assim se desenvolve a teoria da qualificação dos efeitos da sentença
(Enrico Tullio Liebman): Com o objetivo de pôr fim à lide e dar certeza aos direitos, o
legislador fixou um momento a partir do qual é vedado qualquer julgamento sobre o que já
foi julgado. A partir daí, não só a sentença não é mais impugnável, mas a decisão é
vinculante para as partes e para o ordenamento jurídico e nenhum juiz pode, novamente,
julgar o mesmo objeto em face das mesmas partes (salvo os casos de ação rescisória ou
revisão criminal). A sentença, então, passa em julgado, ou seja, torna-se imutável (coisa
julgada formal) e, ao mesmo tempo, imutável se torna também a deliberação que nela se
contém, com todos os efeitos que emanam dela (coisa julgada material). Com a preclusão
dos prazos para recurso, a sentença torna-se imutável (coisa julgada formal) e, em
consequência, dá-se a coisa julgada material ou autoridade de coisa julgada, que se pode
definir como a “imutabilidade do comando emergente de uma sentença”. A eficácia natural
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da sentença, com a aquisição dessa ulterior qualidade, acha-se, portanto, intensificada,
porque se afirma como única e imutável formulação da vontade do Estado, ao regular
concretamente a espécie decidida.

Proferida uma sentença de mérito, a parte interessada na sua reforma pode


impugná-la por meio de recurso. Enquanto pendente o prazo para recorrer, a sentença
poderá ser modificada. Mas “chegará um momento em que não mais são admissíveis
quaisquer recursos, ou porque não foram utilizados nos respectivos prazos ou porque não
caibam ou não hajam mais recursos a serem interpostos”. A sentença, não podendo ser
impugnada, porque não podem mais ser interpostos recursos, transita em julgado, quer
dizer, torna-se imutável, como ato processual, dentro do mesmo processo em que foi
proferida.

A esse fenômeno, que imprime imutabilidade à sentença em decorrência da


preclusão do prazo para recurso, dá-se o nome de coisa julgada formal.

Imutável a sentença como ato processual (por força da coisa julgada formal),
ocorre, em conseqüência, a imutabilidade do conteúdo do ato, cujo comando, nele
inserido, torna-se estável, definitivo, inatacável, projetando-se além do processo em que
foi praticado, não podendo ser desconhecido fora dele. Quer dizer, os efeitos da sentença
(declaratórios, condenatórios e constitutivos) tornam-se também imutáveis e a sentença
será a lei reguladora da espécie decidida.
A esse fenômeno denomina-se coisa julgada material (ou substancial), que
consiste no “fenômeno pelo qual a imperatividade do comando emergente da sentença
adquire força de lei entre as partes”.

A coisa julgada formal é pressuposto da coisa julgada material. A coisa julgada


formal representa a preclusão máxima, ou seja, a extinção do direito ao processo. Ou
seja, a sentença, como ato daquele processo, não poderá ser reexaminada. Enquanto a
coisa julgada formal torna imutável dentro do processo o ato processual sentença, a coisa
julgada material torna imutáveis os efeitos produzidos por ela (sentença) e lançados fora
do processo. Só as sentenças de mérito, que decidem a causa acolhendo ou rejeitando a
pretensão do autor, produzem a coisa julgada material. Não têm essa autoridade (embora
se tornem imutáveis pela preclusão) as sentenças que não representam a solução do
conflito de interesses deduzido em juízo – ou seja, as que põem fim à relação processual
sem julgamento de mérito, as proferidas em procedimento de jurisdição voluntária, as
medidas cautelares – assim como certas decisões interlocutórias.

Quanto às sentenças determinativas ou instáveis, que decidem relações


continuativas, não há exceção à autoridade da coisa julgada e sim acolhimento do
princípio rebus sic stantibus (o contrato se cumpre desde que as coisas se conservem no
estado preexistente, sem sofrerem modificações essências). O juiz, na nova decisão, não
altera o julgado anterior, mas, exatamente para atender a ele, adapta-o ao estado de fato
superveniente.

Por último, uma breve referência específica à coisa julgada no processo penal.
Autores há que negam a mesma natureza à coisa julgada civil e à penal. Outros
distinguem esta em coisa soberanamente julgada (própria da sentença absolutória) e
mera coisa julgada (própria da sentença condenatória). Isto porque não haveria exceções
à coisa soberanamente julgada, mas apenas à coisa julgada (CPP, arts. 621ss), podendo
a revisão criminal ser requerida somente pelo réu (contra sentença condenatória,
naturalmente) e pelo acusador, não.

- Por não importarem solução da lide, não produzem coisa julgada material: despachos de
expediente e decisões interlocutórias; sentenças em procedimento de jurisdição
70
voluntária; sentenças proferidas em processos cautelares, porque revogáveis ou
modificáveis a qualquer tempo.

- Fundamentos da coisa julgada: Filiando-se ao entendimento de Liebman, o novo Código


não considera a res judicata como um efeito da sentença. Qualifica-a como uma
qualidade especial da sentença que reforça sua eficácia através da imutabilidade e
indiscutibilidade da sentença.

SUMÁRIO

COISA JULGADA FORMAL: só opera no processo em que foi proferida a sentença;


qualifica a sentença de mérito e de não mérito; não impede a repropositura da ação.

COISA JULGADA MATERIAL: opera em relação a qualquer processo; só qualifica a


sentença de mérito; impede a repropositura da ação.

LIMITES OBJETIVOS DA COISA JULGADA

A sentença se compõe de relatório, fundamentação (ou motivação) e dispositivo


(ou decisão). Resulta do texto do art. 469 do CPC que apenas o dispositivo da sentença é
apto a revestir-se da autoridade da coisa julgada material. Excluem-se os motivos, ou
seja, a solução dada às questões lógicas ou prejudiciais necessariamente enfrentadas
para chegar à definição do resultado da causa. Por sua vez o art. 470 do CPC acrescenta
fazer coisa julgada material a resolução da questão prejudicial, se qualquer das partes o
requerer, o juiz for competente em razão da matéria e constituir pressuposto necessário
para o julgamento da lide. No penal, não fazem coisa julgada as prejudiciais que o juiz
deva enfrentar, por exemplo, num processo por receptação, em que se alegue a
inexistência do furto. Mas, se a prejudicial for decidida como questão principal em outro
processo, civil ou penal, naturalmente a sentença que sobre ela verse ficará coberta pela
coisa julgada material. É o caso, por exemplo, da questão sobre a validade do primeiro
casamento, suscitada no processo penal por bigamia, a ser necessariamente julgada pelo
juiz civil. No entanto, o art. 386 do CPP considera incluída na parte dispositiva da
sentença absolutória a causa da absolvição, que assim se reveste da autoridade de coisa
julgada material.

O que individualiza a lide, objetivamente, são o pedido e a causa de pedir (petitum


et causa pedendi). Isto é, o pedido e o fato que fundamenta a pretensão. Logo, a
sentença faz coisa julgada sobre o pedido e só se circunscreve aos limites da lide e das
questões decididas. Assim, se o herdeiro legítimo também contemplado em testamento
reivindica a herança apenas invocando a disposição testamentária (uma questão) e perde
a demanda, não estará inibido pela res judicata de propor outra ação baseada na vocação
hereditária legítima (outra questão ainda não decidida).

LIMITES SUBJETIVOS DA COISA JULGADA

A sentença faz coisa julgada às partes entre as quais é dada, não beneficiando,
nem prejudicando terceiros. A imutabilidade e a indiscutibilidade da sentença não podem
prejudicar, nem beneficiar, estranhos ao processo em que foi proferida a decisão
transitada em julgado. No entanto, determinado credor, embora estranho à lide, não pode
pretender ignorar a sentença em favor de outrem que condenou seu devedor, desfalcando
o patrimônio que lhe servia de garantia comum. Ou seja, como todo ato jurídico
relativamente às partes entre as quais intervém, a sentença existe e vale com respeito a
todos. Dentro dessa ordem de idéias, esclarece Liebman: a) a eficácia natural vale para
todos (como ocorre com qualquer ato jurídico); mas, b) a autoridade da coisa julgada atua
apenas para as partes. Assim, um estranho pode rebelar-se contra aquilo que já foi
71
julgado entre as partes e que se acha sob a autoridade de coisa julgada, em outro
processo, desde que tenha sofrido prejuízo jurídico. Exemplo do Estado contra o servidor,
em ação de regresso. O funcionário pode no novo processo impugnar a conclusão da
sentença, para provar que não teve culpa no evento, exonerando-se da obrigação de
repor aos cofres públicos o valor da indenização. A sentença era válida para todos. Mas
aquele estranho que teve direitos diretamente atingidos, pode reabrir a discussão em
torno da decisão, sem ser tolhido pela eficácia da coisa julgada.

Notas:
- Nas causas relativas ao estado das pessoas, se houverem sido citados no processo, em
litisconsórcio necessário, todos os interessados, a sentença produz coisa julgada em
relação a terceiros.
- Relações jurídicas continuativas e outros casos de rejulgamento: art. 471 CPC: Nenhum
juiz decidirá novamente as questões já decididas, relativas à mesma lide, salvo: I) se,
tratando-se de relação jurídica continuativa, sobreveio modificação no estado de fato ou
de direito; caso em que poderá a parte pedir revisão do que foi estatuído na sentença; II)
nos demais casos prescritos em lei. (Entre estes casos podem ser arrolados a correção
de inexatidões materiais ou erros de cálculos; os embargos declaratórios; e o agravo de
instrumento).

PRINCÍPIOS QUE INFORMAM A NULIDADE DOS ATOS PROCESSUAIS

Princípios da causalidade, da instrumentalidade das formas, do interesse, e, da


economia processual.
PRINCÍPIO DA CAUSALIDADE: A nulidade de um ato do procedimento, contamina os
posteriores que dele sejam dependentes, com a conseqüência de dever-se anular todo o
processo.

PRINCÍPIO DA INSTRUMENTALIDADE DAS FORMAS: Só são anulados os atos


imperfeitos, se o objetivo não tiver sido atingido ( o que interessa afinal é o objetivo do
ato, não o ato em si mesmo).

PRINCÍPIO DO INTERESSE: A própria parte que tiver dado causa à irregularidade não
será legitimada a pleitear a anulação do ato. (só tem aplicação nas hipóteses de nulidade
relativa).

PRINCÍPIO DA ECONOMIA PROCESSUAL: Tem diversas aplicações na teoria da


nulidade. Está presente no princípio da instrumentalidade das formas, está presente na
determinação de que os atos posteriores ao ato nulo não se contaminam se não
dependentes deste, presente está também no aproveitamento dos atos do processo
inadequados à ação exercida, ou dos atos não-decisórios do processo celebrado perante
autoridade absolutamente incompetente.

1 - Conceito: nulidade é a inaptidão do ato para produzir efeitos jurídicos processuais.

2 - Espécies de vícios processuais:


a) Atos inexistentes: é o ato que não reúne os mínimos requisitos de fato para a sua
existência como ato jurídico. Não se pode falar de ato jurídico viciado, pois o que há é um
simples fato. O ato inexistente jamais se poderá convalidar e nem tampouco precisa ser
invalidado.
b) ato absolutamente nulo: Já dispõe da categoria de ato processual, não mero fato como
o inexistente, mas sua condição jurídica mostra-se gravemente afetada por defeito
localizado em seus requisitos essenciais. É vício insanável. O ato deve ser invalidado por
iniciativa do próprio juiz, independente de provocação da parte interessada. Ex: citação
sem as prescrições legais.
72
c) Ato relativamente nulo: O ato embora viciado em sua forma, mostra-se capaz de
produzir seus efeitos processuais, se a parte prejudicada não requerer sua invalidação. É
ratificável, expressa ou tacitamente e se a parte não postula sua anulação, é apto a
produzir toda eficácia a que se destina.
d) Ato Irregular: Pequenos defeitos ou incorreções do ato que não produzem a sua
nulidade. É o que acontece com a irregularidade de representação das partes. Corrigido o
defeito, tudo está regularizado. Não corrigido, porém, leva à nulidade processual.

3 - Critério para identificar a nulidade: é o da inidoneidade do ato. O ato processual é nulo


por falta de requisitos formais, quando seja inidôneo a alcançar o fim a que se destina.

4 - Quem pode pronunciar a nulidade? Só o juiz.

5 – Efeitos da pronúncia judicial da nulidade:


a) Quanto aos atos que se aplicam (âmbito de extensão da nulidade): Uma das principais
características do fenômeno processual é a interdependência dos seus atos, segundo a
qual cada ato tem como pressuposto o seu antecedente, sendo, por sua vez, pressuposto
dos conseqüentes. Ora, se os atos posteriores são dependentes dos anteriores, então,
anulado um ato, a conseqüência lógica é que todos dele derivados sejam igualmente
nulos. Se o ato posterior não é dependente do ato nulo, não é afetado pela nulidade.
b) Quanto ao momento a partir do qual começa a operar: A decisão do juiz sobre a
nulidade do ato processual opera ex tunc, ou seja, anula o ato desde a sua prática, como
se ele nunca tivesse tido eficácia.

6 – Iniciativa quanto à pronúncia judicial de nulidade:


a) Nulidade absoluta: É a que pode ser pronunciada de ofício pelo juiz. Pode ser
declarada a qualquer tempo e em qualquer grau de jurisdição.
b) Nulidade relativa: É a que só pode ser pronunciada a requerimento da parte. Só pode
requerer a sua pronúncia, a parte legítima, isto é, aquela a quem aproveita a declaração
de nulidade.

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Bibliografia:

- Elementos de Teoria Geral do Processo,


José Eduardo Carreira Alvim

- Teoria Geral do Processo,


Ada Pellegrini Grinove e outros

- Teoria Geral do Processo,


José de Albuquerque Rocha

- A Defesa no Processo Civil,


Cleanto Guimarães Siqueira

- Aulas ministradas durante o ano letivo de 2005.


Nome do Aluno – Formando 2007 - Noturno

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