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Nacionalismo e indianismo em Iracema

Este trabalho motivou-se pela passagem do centésimo trigésimo aniversário de morte de José de Alencar. A pesquisa
consistiu numa leitura crítica do romance Iracema, de José de Alencar, sob os enfoques literário e lexical. Fez-se um
levantamento representativo do léxico do romance que enaltece ou apenas diz respeito aos costumes e ao ambiente dos
índios brasileiros. Objetivou-se confrontar o conjunto lexical do romance com a trama da obra, para se caracterizar o tipo
de nacionalismo e de indianismo apresentados nessa obra-prima da genialidade alencarina. Concluiu-se que os temas
tratados nessa obra, em vez de um ponto de vista realmente indianista ou nacionalista, favorável às “coisas” do Brasil,
apresentam uma visão “européia”, uma ideologia do homem “branco”, em oposição ao elemento nativo. Essa metodologia
de seleção vocabular em “obras temáticas” da literatura brasileira confrontada com a ideologia da obra via de regra
propicia ao aluno fazer uma leitura crítica ou uma releitura;...

1 INTRODUÇÃO

Há cento e trinta anos da morte de José de Alencar, ainda que muito se tenha refletido sobre sua obra, em artigos, em
dissertações de mestrado, em teses de doutorado, em livros ou onde mais se possa homenagear esse mestre brasileiro das letras,
cremos que seja justo e louvável mais uma reflexão sobre uma de suas mais brilhantes obras: Iracema. Quantas pessoas são
lembradas por suas ações tanto tempo depois de sua morte? Somente aquelas que se incluem na categoria dos gênios de uma
sociedade.

A partir da análise dessa genial obra literária, pretendemos estudar o nacionalismo e o indianismo, numa tentativa laboriosa de
mostrar uma reflexão crítica a respeito do ponto de vista de José de Alencar em relação ao “branco português” e ao “índio nativo”
das terras brasileiras. Não pretendemos, no entanto, fazer um exaustivo levantamento das situações que podem servir para
identificarmos os aspectos nacionalistas e indianistas nesse romance alencarino; antes, limitar-nos-emos à abordagem dos aspectos
lexicais que constituem a atmosfera de exaltação do indianismo brasileiro no referido romance.

Trata-se de uma leitura crítica comparativa entre o léxico e a trama do romance. Esse tipo de leitura é mais uma contribuição para
tornar o aluno, especialmente, ao do nível médio, ainda pouco maduro no campo da leitura, um leitor “ativo” da literatura
brasileira. Nesse confronto, o aluno facilmente perceberá que a trama do romance apresenta um descompasso em relação ao
conjunto lexical dessa obra alencarina.

2 NATIVISMO E NACIONALISMO BRASILEIROS

Ambos os termos apresentam significação semelhante: correspondem a um sentimento de valorização das “coisas” do
Brasil, em detrimento de tudo aquilo que, estando no país, dissesse respeito ao estrangeiro – principalmente se dissesse respeito a
Portugal. A diferença entre ambos, no entanto, aparece com o advento da Independência.

O nativismo diz respeito a uma valorização de nossa terra, possivelmente, um sentimento de amor ao Brasil frustrado pelo fato de
ser o Brasil, até certo período, uma colônia portuguesa, daí o sentimento de aversão às pessoas e às “coisas” de Portugal. O
nacionalismo corresponde a uma valorização de nossa terra, igualmente ao nativismo, mas, agora, com a euforia e consciência de
nação livre e, com isso, surge o orgulho patriótico. Trata-se de um sentimento pleno de valorização do Brasil a partir da
Independência; o nativismo corresponde a essa valorização, mas antes de 1822.

3 O INDIANISMO BRASILEIRO A temática indianista na literatura brasileira ocorre ainda antes de nosso Romantismo,
nas obras, por exemplo, de Basílio da Gama, O Uruguai, e de Santa Rita Durão, Caramuru. No entanto, segundo Galvão (1979, p.
40), nessas obras, “[...] o índio não figura como personagem literária propriamente. Ambos os poemas pretendem defender outra
causa que não a dos índios”. Para Sodré (1976, p. 264), “[...] existe, entretanto, uma diferença essencial entre o modo como
trataram aquele tema (o índio) e o modo como os indianistas pretenderam fazer do índio mais do que um assunto, um herói”.
Em nosso Romantismo, o índio aparece como um tema privilegiado, não simplesmente como conseqüência do espírito nativista e
nacionalista formado no povo brasileiro em razão do advento da Independência, nem como forma de suprir nossa “deficiência de
Idade Média”, mas por causas mais profundas, como reação à hegemonia literária portuguesa.
Em suma, era o índio aquilo que, sendo genuinamente brasileiro, iria servir como alvo de exaltação, de orgulho e de excepcional,
em detrimento daquilo que havia, em nosso país, de estrangeiro, sobretudo de origem portuguesa.
Assim, apenas o índio poderia ser tematizado em nosso Romantismo, uma vez que – além de ser o elemento nativo e pretexto para
externar a aversão à hegemonia literária portuguesa – ele representava uma íntima afinidade com a classe dominante.
Com isso, não é difícil compreender o tratamento que o Romantismo brasileiro deu ao elemento indígena: o índio como
personagem literária; o que não aconteceu antes do movimento Romântico, embora seja “[...] usualmente uma personagem
literária branca, e não índia, exceto, talvez nos casos menores em que faz papel de vilão” (GALVÃO, 1979, p. 43). Essa falsidade
com que o índio é apresentado na literatura brasileira pode ser constatada na maioria dos romances indianistas, segundo os quais
“[...] todos os índios são cavalheiros, exceto o vilão” (GALVÃO, 1979, p. 45).
Na Semana de Arte Moderna, em 1922, essa falsidade da literatura sobre a tematização do indianismo vai ser combatida pelo
Manifesto Antropófago, que propõe uma destruição, em linhas gerais, de todos os bens da cultura européia, bem diferente da
postura indianista adotada por Alencar, especialmente em Iracema, o corpus deste trabalho.

4 O INDIANISMO EM IRACEMA Em Iracema, a figura do índio aparece como herói romântico. Em nome do amor,
Iracema abandona sua tribo: “– A filha dos tabajaras já deixou os campos de seus pais.” (Cap. 17); por isso, vai assumir pesado
ônus; e mais: Iracema vai morrer, como conseqüência última de seus atos, em razão de seu amor por Martim, conforme se vê no
seguinte trecho: “– Iracema não se ergueu mais da rede onde a pousaram os aflitos braços de Martim. O terno esposo, em que o
amor renascera com júbilo paterno, a cercou de carícias que encheram sua alma de alegria, mas não a puderam tornar à vida: o
estame da flor se rompera.” (Cap. 32).

Iracema representa, simbolicamente, a América, cuja história se inicia pela exploração de suas riquezas pelos colonizadores
ocidentais, os quais são representados no romance por Martim. Esse simbolismo já denota o cunho ideológico do romance, em que
o explorador europeu vai suplantar o povo nativo da América.

O termo Iracema significa “lábios de mel” e expressa a sutileza e o cuidado com que Alencar o escolheu. Nele, existe toda uma
conotação de pureza, de submissão, de meiguice e de formosura, o que vai se coadunar com o pensamento de exaltação do índio.
Iracema é descrita com a máxima beleza romântica, como na seguinte passagem: “Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha
os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira” (p. 20). E noutro trecho do mesma página:
“[...] o favo da jati não era doce como seu sorriso [...]”.

Acrescentem-se à beleza conotativa dos termos referentes à personagem as comparações, as sinestesias e as metáforas, figuras de
linguagem que Alencar tão magnificamente empregou para retratar Iracema. E, ainda, outra característica da virgem dos lábios de
mel diz respeito a sua altivez. Iracema é apresentada também como muito ativa, cheia de vitalidade, de energia, como no trecho:
“[...] ela era mais rápida que a ema selvagem [...]” (Cap. 2). Também essa característica positiva de Iracema reforça o objetivo do
texto alencarino: o de exaltar o índio brasileiro.

A virgem dos lábios de mel é a pureza natural da terra brasileira que vai ser contaminada pela presença do branco colonizador,
Martim. É ela que dispensará a Martim maior atenção, gentileza, cuidado, hospitalidade. Toda essa generosidade tem por causa o
amor da virgem pelo forasteiro. Tal sentimento conduzirá Iracema à fuga dos campos tabajaras e à morte. O amor romântico da
civilização européia contaminou Iracema e a subordinou de tal forma que ela pagou com a própria vida a sua experiência amorosa.
Então, a trama do romance parece trair o “cenário lexical” da obra: enquanto o léxico aponta para uma ambientação de beleza e de
exaltação dos costumes indígenas, as ações dos personagens parece desfazerem o propósito alencarino de embelezamento e de
exaltação das “coisas” do índio brasileiro.

Outra personagem que demonstra a perspicácia de Alencar é Irapuã. Também aqui aparece o cuidado de Alencar na escolha dos
nomes de suas personagens. Irapuã significa Ira, mel, e apuam, redondo. Trata-se do tipo de uma abelha virulenta e brava, cuja
colméia tem a forma arredondada. Por corrupção, reduziu-se esse nome a arapuá. Mel Redondo é o célebre guerreiro, chefe dos
tabajaras da serra Ibiapaba; foi encarniçado inimigo dos portugueses e amigo dos franceses. Sendo inimigo dos portugueses, esse
índio guerreiro e destemido é a personagem por excelência que deve ser exaltada, como forma de consubstanciar o objetivo da
temática indianista. Irapuã é o maior chefe da nação tabajara; é apresentado como selvagem típico: valente e destemido; é ele
quem “[...] leva a guerra no punho de seu tacape. O terror que ele inspira voa como o rouco som do boré” (Cap. 5).

Entretanto, o lado ideológico de Alencar o trai, e o que deveria ser exaltação torna-se seu contrário. O guerreiro da tribo, Irapuã,
ainda que valente e destemido, no confronto direto com Martim, não o suplantará em combate. Alencar poderia ter realizado a
catarse do povo americano, fazendo o índio Irapuã derrotar o europeu invasor.

5 O NACIONALISMO EM IRACEMA
A propósito da valorização de elementos indígenas como pretexto para enaltecer o nacionalismo brasileiro, destaquem-
se as palavras de Alencar (2000, p. 77): “O conhecimento da língua indígena é o melhor critério para a nacionalidade da literatura
[...]”. O romancista acrescenta sobre a importância de se conhecer a língua dos primeiros habitantes do Brasil: Ele nos dá não só o
verdadeiro estilo, como as imagens poéticas do selvagem, os modos do seu pensamento, as tendências de seu espírito, e até as
menores particularidades de sua vida. É nessa fonte que deve beber o poeta brasileiro; é dela que há de sair o verdadeiro poema
nacional, tal como eu imagino. (ALENCAR, 2000, p. 77). Do ponto de vista dos personagens, é notória a presença de
comparações que o autor faz entre elementos da natureza brasileira e os personagens, tais como

“Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de
palmeira” (p. 20);

“O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado” (p. 20).

O romance é repleto de comparações entre a natureza e algumas características físicas e/ou atitude de personagens. Tais
comparações demonstram a tentativa de Alencar de valorizar os caracteres físicos da terra brasileira, numa tentativa de expressar o
nacionalismo.
O aspecto de maior destaque no romance está no nível da linguagem. Alencar usou termos peculiares à língua dos índios, tornando
a linguagem da obra mais próxima da dos índios, reforçando o desejo de valorização das “coisas” do Brasil. Sejam destacados
alguns termos, como o da saudação usual de hospitalidade dos índios: “– Vieste?” (p. 22); como o uso do nome próprio de quem
fala em vez do uso do pronome de primeira pessoa ou o uso do pronome de terceira pessoa em vez do uso em primeira:
“Estrangeiro, Iracema não pode ser tua serva. É ela que guarda o segredo da jurema e o mistério do sonho. Sua mão fabrica para o
Pajé a bebida de Tupã” (p. 23).

Entretanto, toda essa caracterização elogiosa do personagem indígena brasileiro apresenta-se no romance como pano de fundo
para exaltar a figura do branco europeu. Considere-se que, apesar de o índio ser apresentado como um ser bravo e corajoso, por
exemplo, ele não consegue vencer Martim, o branco europeu. Martim é quem vence a disputa contra Irapuã e, de certa forma, sai
vitorioso em sua relação amorosa com Iracema.

Martim foi encontrado na floresta por Iracema, recebeu uma flechada da índia, mas não sofreu graves ferimentos. Isso demonstra
que a ponta da flecha não estava envenenada, o que é espantoso, pois os índios costumavam usar veneno nas pontas de suas
flechas. Se, eventualmente, a flecha não foi preparada com veneno, então a sorte estava do lado do branco europeu, como sempre
acompanha os heróis.

Em outra passagem do romance, o estrangeiro Martim vai seduzir a Virgem dos Lábios de Mel, roubando-lhe a virgindade. Mas o
texto alencarino vai inocentar Martim do “crime de sedução”. Foi Iracema quem deu o licor inebriante a Martim, fazendo-o ficar
fora de si. Assim, é Iracema quem seduz Martim. Ele pratica o ato sexual em transe, sem culpas. O resultado desse ato sexual é o
nascimento de um filho e, depois, a morte de Iracema, ficando Martim com a guarda do filho.

Outro acontecimento importante é a cerimônia do “cotiabo”. Trata-se de um ritual sem importância para Martim. Ele será o
mesmo de sempre. Tal cerimônia “[...] é puramente epidérmica e superficial, pois não há uma mudança básica seja nos gestos ,
seja nos costumes de Martim, seja ainda na sua maneira de pensar” (SANTIAGO, 1978, p. 46). Por outro lado, a cerimônia de
batismo do índio Poti modifica-o, seja quanto à personalidade, seja quanto ao nome desse guerreiro indígena. Assim, distinguem-
se os pontos de vista de Alencar em relação ao índio e ao branco europeu.

Parece-nos que está evidente, no romance Iracema, a afinidade de Alencar muito mais próxima da etnia européia do que com a
indígena, apesar de apresentar-se inclinado a defender o pensamento de valorização dos primeiros habitantes do Brasil. Como
aceitar a idéia de que o índio brasileiro, sendo a verdadeira fonte de expressão da literatura brasileira, deveria ser exaltado em
todos os sentidos, e ser personificado como um guerreiro – como é o caso de Irapuã – que perde a luta para um branco, como um
índio – como é o caso do índio Poti – que recebe o batismo cristão, como uma heroína – como é o caso de Iracema – que
abandona sua gente para ficar perto do amado (um homem branco), que sofre e não tem “o final feliz”, morrendo e deixando seu
filho para o esposo Martim?

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste trabalho, tentamos abordar o nacionalismo e o indianismo tematizado por José
Alencar no romance Iracema. Procedemos a uma leitura crítica dessa obra para caracterizarmos o tipo de nacionalismo e de
indianismo apresentados na referida obra alencarina. Conforme pudemos esboçar nestas poucas páginas, Alencar manteve-se
coerente com sua intenção de mostrar em um romance as tradições dos indígenas brasileiros. Ele consegue externar a propalada
valorização da nacionalidade brasileira por intermédio das espetaculares comparações, das expressões indígenas, apresentando
uma configuração bastante próxima daquilo que ele pretendeu: fazer uma literatura que expressasse a valorização do índio
brasileiro e das “coisas” do Brasil.

Entretanto, o nacionalismo e o indianismo de Alencar, brilhantemente caracterizados pelas imagens lexicais do cenário e da
personagem Iracema principalmente, não conseguem ultrapassar essa fronteira lexical. Esses temas são apresentados sob o crivo
de uma ideologia européia. No nível da trama, os personagens indígenas sofreram revezes quando em confronto com (ou sofrendo
de amor) pelos personagens europeus, inclusive a heroína Iracema, que morre no penúltimo capítulo do romance.

Esta leitura crítica não questiona o valor literário do romance nem a genialidade de Alencar, mas, tão-somente, questiona a
legitimidade do nacionalismo e do indianismo apresentados no romance. Presta-se tal leitura ao exercício reflexivo do processo
ensino-aprendizagem, especialmente, no nível intermediário escolar. Serve como mais uma estratégia de leitura ou releitura de
obras de nossa literatura. Favorece ao aluno tornar-se mais do que um codificador de palavras, de frases, de parágrafos,
possibilita-o tornar-se um leitor perspicaz da literatura brasileira.