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Gramática do

Português Falado
Volume VII: Novos Estudos

1
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Humanitas FFLCH/USP dezembro/1999


Maria Helena de Moura Neves
(Org.)

Gramática do
Português Falado
Volume VII: Novos Estudos

Ç
FFLCH/USP
PUBLICAÇÕES

1999
Copyright 1999 da
Humanitas FFLCH/USP e da Editora da Unicamp

É proibida a reprodução parcial ou integral,


sem autorização prévia dos detentores do copyright

Serviço de Biblioteca e Documentação da FFLCH/USP


Ficha catalográfica: Márcia Elisa Garcia de Grandi CRB 3608

G 771 Gramática do português falado / organizado por Maria Helena de Moura


Neves. – São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP; Campinas: Editora da
Unicamp, 1999.
v. 1 -

Conteúdo: v. 7. Novos Estudos

ISBN 85-86087-45-9 / 85-268-0497-9

1. Português (Gramática) 2. Português (Língua) 3. Fonologia 4. Mor-


fologia 5. Sintaxe I. Neves, Maria Helena de Moura II. Título: Novos
Estudos

CDD 469.5

HUMANITAS FFLCH/USP
e-mail: editflch@edu.usp.br
Tel.: 818-4593

Editor Responsável
Prof. Dr. Milton Meira do Nascimento

Coordenação editorial
M. Helena G. Rodrigues

Diagramação
Selma Mª. Consoli Jacintho

Capa
Adilton Clayton Santos

Revisão
Autores / Simone Zaccarias
In Memorian
Giselle Machline de Oliveira e Silva
SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO
Maria Helena de Moura Neves ................................................................. 9

PARTE I – GRUPO ORGANIZAÇÃO TEXTUAL-INTERATIVA

Segmentação: uma estratégia de construção do texto falado


(Ingedore G. V. Koch) ............................................................................ 29

A correção do texto falado: tipos, funções e marcas (Leonor Lopes


Fávero, Maria Lúcia C. V. O Andrade e Zilda Gaspar O. Aquino) ........ 5 3

O relevo no português falado: tipos e estratégias, processos e recursos


(Luiz Carlos Travaglia) ........................................................................... 7 7

Funções textuais-interativas dos parênteses (Clélia Cândida Abreu


Spinardi Jubran) .................................................................................... 131

A hesitação (Luiz Antônio Marcuschi) ................................................. 159

Aspectos basicamente interacionais dos marcadores discursivos


(Hudinilson Urbano) ............................................................................. 195

Aspectos textuais-interativos dos marcadores discursivos de abertura


bom, bem, olha, ah, no português culto falado (Mercedes Sanfelice
Risso) .................................................................................................... 259
Anatomia e fisiologia dos marcadores discursivos não-prototípicos
(Giselle Machline de O. e Silva) ........................................................... 297

PARTE II – GRUPO SINTAXE I

Estruturas coordenadas aditivas (Roberto Gomes Camacho) ............... 351

Estruturas coordenadas alternativas (Erotilde Goreti Pezatti) .............. 407

Os enunciados de tempo no português falado no Brasil (Maria Luiza


Braga) .................................................................................................... 443

As construções causais (Maria Helena de Moura Neves) .................... 461

As construções condicionais (Maria Helena de Moura Neves) ............ 497

As construções concessivas (Maria Helena de Moura Neves) ............. 545

PARTE III – GRUPO SINTAXE II

Elementos nulos pós-verbais no português brasileiro oral contempo-


râneo (Sonia Maria L. Cyrino) .............................................................. 595

PARTE IV – GRUPO DE MORFOLOGIA DERIVACIONAL

Adjetivos denominais no português falado (Margarida Basilio e Léa


Gamarski) .............................................................................................. 629

PARTE V – GRUPO DE MORFOLOGIA FLEXIONAL

Correlação modo-temporal nas construções complexas: concessivas


(Ângela C. S. Rodrigues, Odette G. L. A. S. Campos e Paulo T.
Galembeck) ........................................................................................... 653

O uso do futuro do pretérito no português falado (Luiz Carlos


Travaglia) .............................................................................................. 673

PARTE VI – GRUPO DE FONÉTICA E FONOLOGIA

A sílaba e seus constituintes (Leda Bisol) ............................................ 701

8
APRESENTAÇÃO

9
Este é o Volume VII da série Gramática do Português Falado, que tem
trazido a público os textos discutidos nos seminários de pesquisa realizados
anualmente pelos pesquisadores do grupo, a partir do final de 1988. A equipe,
que abriga pesquisadores de todo o país, sob a coordenação do Prof. Ataliba
Teixeira de Castilho, vem estudando o material do Projeto NURC (Norma
Urbana Culta), desde essa época, com vistas a elaborar uma gramática de refe-
rência do português culto falado no Brasil.

1. O significado do empreendimento
Os seminários anuais têm constituído a instância maior no processo de
produção dos textos que vêm sendo publicados na série Gramática do Por-
tuguês Falado, uma vez que é nesses seminários que os estudos preparados
pelos diversos pesquisadores sofrem discussão, uma discussão extremamente
rica, em primeiro lugar pela diversidade de formação dos componentes do
grupo, mas, especialmente, pelo modo particular de interação que esse grupo
desenvolveu, dispondo-se todos a ouvir todos, e, assim, a relativizar pontos de
vista, a temperar a rigidez de convicções assumidas, e, afinal, a reconhecer
erros ou inadequações, sem melindres.
A sensação da apresentadora e organizadora deste volume – que deve
ser a de todos os outros componentes do projeto – é que poucas vezes se terá
conseguido viver uma experiência como a que se viveu no interior do grupo,
durante esses anos. Todos entraram no projeto achando que tinham sido convi-
dados porque “sabiam” alguma coisa, e, no entanto, todos fizeram dele uma
escola, sentando, estudando, falando, ouvindo, perguntando, respondendo,
pensando e remoendo, e, enfim, aprendendo como nunca. Quanto monstro
sagrado se viu, nas atividades do projeto, desvestindo máscaras de altar, dando
a face e abrindo o peito, expondo-se para ensinar, mas também para incorporar
lições, com sabedoria, e principalmente com humildade – afinal, com a sabe-
doria da humildade, e seguindo, aliás, a postura do comandante, Prof. Ataliba.
Todos disseram o que quiseram e ouviram o que lhes era dito, como se aquilo
que ouviam fosse sempre o que queriam ouvir. Toda fala foi troca, e a troca foi
saber, foi experiência, foi vida. Ninguém, com certeza, saiu o mesmo dessa
aventura. E, com certeza, muito dificilmente se terá outra oportunidade igual.

2. Um pouco de história
A história do funcionamento deste projeto está primorosamente traça-
da no prefácio de Mary Kato ao volume V da série, prefácio que compõe um
“livro do Gênese” do projeto: vai do caos (uma barafunda de “gregos e troia-
nos”) ao cosmos ( inspiração para o título desse volume V: “Convergências”).
Isso significa que há pelo menos três anos a equipe se considera capaz
de produzir uma obra em que as grandes diferenças – inevitáveis e benéficas –
encontram um ponto de convergência, embora (e felizmente) sem fazer redu-
ção da riqueza de posições e de formação do grupo.

3. A natureza dos trabalhos


A diversidade de posições teóricas não impede, por exemplo, que se
proponham fundamentos teóricos e metodológicos que possam encabeçar con-
fortavelmente a gramática a ser produzida: afinal com suas diferenças, todos
os grupos envolvidos pretendem, a partir do tratamento dos dados da Norma
Urbana Culta (NURC) em análise, não só determinar regularidades como tam-
bém especificar o funcionamento dos subsistemas envolvidos na produção
dos enunciados, considerada, na base, a competência comunicativa dos falan-
tes. A partir dos pressupostos teóricos assentados dentro de cada grupo de
trabalho, e também a partir dos trabalhos produzidos dentro desses grupos, o
assessor acadêmico do projeto, Prof. Mílton do Nascimento, vem preparando
o capítulo da gramática de referência que explicitará tais pressupostos. Em
discussões que ocupam sempre um período de cada reunião anual da grande
equipe, esse texto vem sendo ferrenhamente discutido e rearranjado, para que
possa constituir o real registro dos objetivos, das perspectivas e das propostas
da obra que será produzida.
12
4. Os princípios
No ponto atual de sua elaboração, o texto do Prof. Mílton assim regis-
tra a série de pressupostos adotados na construção do ponto de vista teórico-
metodológico que circunscreveu o objeto de estudo dos pesquisadores:
1) uma concepção de linguagem como uma atividade, uma forma de
ação, a verbal, que não pode ser estudada sem se considerar suas principais
condições de efetivação;
2) a pressuposição de que, na contingência da efetivação da atividade
lingüística do falante/ouvinte [na produção e recepção de textos] tem-se a
manifestação de sua “competência comunicativa”, caracterizável a partir de
regularidades que evidenciam um sistema de desempenho lingüístico consti-
tuído de vários subsistemas;
3) a pressuposição de que cada um dos subsistemas constituintes desse
sistema de desempenho é caracterizável em termos de “regularidades” obser-
váveis no texto e nas operações envolvidas em sua produção, “lugares” onde é
possível identificar os indícios do modo de funcionamento do sistema de de-
sempenho lingüístico dos falantes;
4) a pressuposição de que, sendo a linguagem uma atividade, uma “ma-
nifestação dinâmica da mente humana”, para descrevê-la e explicá-la precisa-
mos de um processo analítico que disponha de categorias processuais.

5. Os grupos de trabalho
Como é do conhecimento do público, são seis os grupos de trabalho
que vêm preparando os textos de base para a produção da gramática do por-
tuguês falado culto do Brasil, cada um deles investigando dentro de uma subárea:
Fonética e Fonologia; Sintaxe I; Sintaxe II; Morfologia Derivacional; Morfo-
logia Flexional; Organização Textual-Interativa. Esses grupos estão organiza-
dos desde o início do projeto e trabalham, em seu campo e em sua linha, no
cumprimento do programa maior estabelecido para toda a equipe e no cumpri-
mento das metas traçadas.
No ponto em que se encontram atualmente os trabalhos, cada um dos
grupos também tem seu plano preliminarmente assentado para a gramática de
referência que é o fim último do projeto.
O Grupo Organização Textual-Interativa prevê uma introdução que ex-
plicite a proposta teórica, a que devem seguir-se quatro capítulos: o primeiro,
13
sobre a natureza da língua falada: a especificidade de sua produção, as ativida-
des de formulação textual, os fenômenos intrínsecos da oralidade (hesitação e
interrupção); o segundo, sobre a organização tópica: o conceito e as proprieda-
des do tópico discursivo, o desenvolvimento tópico da conversação, o par per-
gunta / resposta na construção tópica, o relevo no processamento da informa-
ção; o terceiro, sobre as estratégias de construção textual: repetição, correção,
paráfrase, inserção, segmentação, referenciação e progressão referencial; o quarto,
sobre marcadores discursivos: traços definidores e funções textuais-interativas.
O Grupo Sintaxe I, sob o tema geral “A palavra: classes, processos e
funções”, projeta uma introdução que dará a perspectiva teórica, e uma série
de oito capítulos, referentes às classes de palavras: nome, artigo, verbo, adjeti-
vo, advérbio, pronomes, conjunções e preposições.
O Grupo Sintaxe II também projeta uma introdução teórica sobre a ques-
tão da construção da sentença, seguindo-se quatro capítulos: sobre adjunção,
sobre padrões de predicação, sobre complementação e sobre construções-Q.
Os dois grupos de Morfologia devem analisar a construção morfológi-
ca da palavra.
O Grupo Morfologia Derivacional prevê um texto em três capítulos que
tratará dos seguintes temas: condições de produtividade e condições de pro-
dução; condições de produção de processos lexicais específicos: formações pre-
fixadas, formações compostas, gradação e pejorativos, conversão de adjetivos e
marcadores conversacionais; condições de produtividade e produção de pro-
cessos lexicais categorialmente definidos: a nominalização de verbos e de adje-
tivos, adjetivos deverbais e adjetivos denominais, verbos denominais e verbos
deajetivais.
O Grupo Morfologia Flexional abriga em seu plano os seguintes estu-
dos: da natureza e realização da flexão do português; da expressão das catego-
rias gramaticais; da estrutura do vocábulo flexionado; da flexão como proces-
so de expressão (as relações e os valores); da relação entre flexão e sintaxe
(concordância nominal e concordância verbal); dos valores das formas verbais
flexionadas (na palavra, na frase e no texto); da relação entre flexão e discurso.
O Grupo Fonética e Fonologia resume sob o título “Construção
fonológica da palavra” uma série de seis capítulos: sobre o acento; sobre a
sílaba; sobre vocalismo; sobre consonantismo; sobre a entoação, na variação
regional; sobre a visão diatópica dos fenômenos. Esses capítulos também se-
rão introduzidos pelo texto que assenta as perspectivas teóricas, prevendo-se,
no final deles, a apresentação de um glossário.
14
6. O conteúdo deste volume
Os textos que neste volume VII se apresentam foram discutidos na
reunião de pesquisa realizada em dezembro de 1995, tendo sido reformulados
e definitivamente redigidos durante o ano de 1996. Eles quase completam a
agenda firmada de cada um dos grupos, chegando praticamente ao fim o cum-
primento do programa estabelecido para essa fase básica de produção dos es-
tudos sobre os quais se vai consolidar a Gramática do Português Falado do
Brasil, que se fará a seguir. Entretanto, verificadas algumas lacunas em deter-
minados subcampos da investigação necessária a essa consolidação, o trabalho
da equipe mantém-se em curso, prevendo-se, pois, dentro de um ano, a publi-
cação do volume VIII, que será o último da série.
O Grupo Organização Textual-Interativa apresenta oito textos. Cinco
deles contemplam especialmente estratégias de construção do texto falado: a
segmentação, a correção, o relevo, os parênteses, e a hesitação. Três outros se
centram no estudo dos marcadores discursivos, num aprofundamento da aná-
lise já apresentada no volume VI da série. O último contempla um dos fenô-
menos intrínsecos da oralidade: a hesitação.
A segmentação como estratégia de construção do texto falado é tratada
no texto de Ingedore G. V. Koch, que objetiva examinar, com base no corpus
partilhado do PGPF, as diferentes formas de articulação tema-rema emprega-
das pelos falantes da norma culta do português brasileiro, bem como descrever
os matizes de sentido que cada uma delas, quando posta em ação, viabiliza. A
ênfase especial vai para aquelas formas em que, em virtude de deslocamentos
de constituintes, ocorre algum grau de segmentação sintática do enunciado,
casos em que o falante opta pela utilização de estratégias de tematização e de
rematização. O estudo mostra que, em termos da articulação tema-rema, parti-
cularmente em se tratando da língua falada, existe, ao lado de casos de plena
integração sintática (construções não-marcadas, em que o rema, portador de
informação nova, sucede naturalmente ao tema, que veicula a informação dada),
uma série de padrões expressivos em que se pode falar de segmentação e/ou de
deslocamento de constituintes. A segmentação é, então, entendida com qual-
quer tipo de alteração da ordem não-marcada, devida à extração, ou mise-en-
relief, de um constituinte do enunciado, dando origem a construções de tema
ou rema marcados. A partir da noção já corrente de que a ordem dos constitu-
intes que seria de esperar por razões de ordem sintática é freqüentemente in-
fringida por motivações de ordem funcional, o trabalho focaliza, dentre a mul-
tiplicidade de funções possíveis, aquelas que se afiguram mais relevantes.
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O texto que estuda a correção como estratégia de construção do texto
falado é de autoria de Leonor Lopes Fávero, Maria Lúcia C. V. O. Andrade e
Zilda Gaspar O. Aquino. Operando com a noção de texto “como produto que
congrega e sinaliza o processo de produção e interação”, o trabalho investiga a
correção como estratégia de construção textual. Definida como procedimento
empregado pelos interlocutores para suprir dificuldades e inadequações emer-
gentes durante o processamento discursivo, a correção é examinada não só a
partir da dinâmica interacional que se reflete diretamente nos aspectos lingüís-
ticos e enunciativos, mas também quanto a sua operacionalização, os princi-
pais tipos de marcas prosódicas e/ou verbais encontradas para indicar a refor-
mulação e as funções estabelecidas. No artigo discutem-se, ainda, os possíveis
limites entre correção, paráfrase, repetição e hesitação, procedimentos revela-
dores do caráter criativo da atividade conversacional, que exige, constante-
mente, ajustes e reajustes por parte dos interlocutores na busca de cooperação
e intercompreensão.
O texto de Luiz Carlos Travaglia estuda o processo de estabelecimento
de relevância no texto falado, buscando determinar os tipos, estratégias e re-
cursos desse processo, além de suas funções. “Relevo” é considerado o fenô-
meno de o falante dar destaque a determinados elementos do texto quando o
constrói e formula. Considera-se que o relevo: a) pode incidir sobre elementos
unitários do texto, ou sobre um conjunto deles, ou sobre um tipo de elemento;
b) pode ser positivo (os elementos são colocados em um plano de destaque) ou
negativo (há uma espécie de “ocultamento” dos elementos), o que afeta a per-
cepção do interlocutor. Esse fenômeno inclui fatos que têm sido tratados como
contraste entre figura e fundo, ou primeiro e segundo planos, organização das
informações em essenciais e secundárias, relevância pragmática de uma situa-
ção ou de algo no texto para a situação presente ou para um ponto de referên-
cia, fatos de focalização.
Estudam-se os seguintes recursos de estabelecimento de relevo: a) os
recursos fônicos: entonação, altura da voz, silabação, velocidade da fala, alon-
gamento, “música de fundo”; b) os recursos léxicos: o uso de itens lexicais que
funcionam como expletivos ou cujo semantema implica destaque de elemen-
tos do texto; c) os recursos morfológicos e categoriais: o aspecto, o tempo; d)
os recursos sintáticos: topicalização, repetição, uso de orações principais cujo
sentido implica destaque do que lhes está subordinado, uso de orações reduzi-
das ou desenvolvidas, uso de orações adjetivas; e) o uso de parênteses no texto;
f) o uso de marcadores conversacionais; g) a mudança de código (dialetos e
registros); h) os recursos estruturais, como a posição dos elementos dentro dos
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segmentos textuais. Quanto às funções do relevo, observa-se que a básica é dar
proeminência, derivando daí várias outras funções: enfatizar, intensificar, marcar
um sentido especial, estabelecer contraste, reforçar argumentos, marcar im-
portância dentro da estrutura ideacional do texto e marcar foco informacional.
As funções textuais-interativas dos parênteses são tratadas por Clélia
Cândida Abreu Spinardi Jubran, que apresenta uma classificação das funções
textuais-interativas dos parênteses, com base nos critérios de desvio tópico e
de introjeção dos processos formulativo e interacional no texto. O trabalho
mostra que, ao longo de um contínuo, que leva em conta graus variáveis do
desvio da centração tópica e da presença de dados da situação enunciativa nas
inserções parentéticas, são estabelecidas quatro classes de parênteses, de acor-
do com o elemento focalizado predominantemente por eles: (a) elaboração
tópica do texto; (b) locutor; (c) interlocutor; (d) ato comunicativo.
O estudo da hesitação, de autoria de Luiz Antonio Marcuschi, tem como
objetivo mostrar que os estudos formais da língua são redutores quando idea-
lizam os materiais analisados, eliminando, por uma suposta irrelevância, as-
pectos tipicamente discursivos tais como a hesitação. Ele se baseia na idéia de
que, embora típica da fala, a hesitação não é irrelevante como fenômeno lin-
güístico. De tal modo, dizer que a hesitação faz parte apenas do “uso” e não do
“sistema formal” da língua é tomar a língua como uma entidade que existe
“em si e por si”. Contudo, não se pode isolar, de um lado, um objeto típico da
língua, “a frase”, e de outro, um objeto do uso da língua, “o discurso”: ambos
estão interligados e se codeterminam funcionalmente. A hesitação é vista como
parte da competência comunicativa em contextos interativos de natureza oral,
e não como uma disfunção do falante. Defende-se que ela desempenha papéis
importantes na fala (papéis formais, cognitivos e interacionais) e que é uma
atividade textual-discursiva que atua no plano da formulação textual. Também
se defende que a hesitação não se acha aleatoriamente distribuída, mas obede-
ce a alguns princípios gerais de distribuição e serve como indicação de organi-
zação sintagmática da língua. Ela constitui uma amostra de que, se o princípio
da linearidade é fundamental no uso da língua, ele não pode ser entendido
como simples seqüenciação ininterrupta de enunciados da esquerda para a di-
reita. Produzida tanto no nível suprassegmental (pela prosódia) como no nível
segmental (com elementos formais da língua), a hesitação é a presença de
atividades discursivas na materialidade lingüística, evidenciada numa trans-
crição fiel da fala.
Hudinilson Urbano estuda aspectos basicamente interacionais dos mar-
cadores discursivos com o objetivo específico de observar suas subfunções,
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propriedades e comportamentos interativos salientes. O estudo se apóia em
pesquisa maior sobre os marcadores e se centra nos marcadores que, em pes-
quisa anterior (publicada no volume VI da série), foram classificados funcio-
nalmente como “basicamente orientadores da interação”.
Os aspectos textuais-interativos dos principais marcadores discursivos
de abertura no português culto falado são estudados por Mercedes Sanfelice
Risso. O trabalho parte de um assentamento de traços definidores dos marca-
dores discursivos, em geral, a título de suporte para a investigação do padrão
de prototipicidade dos quatro marcadores de abertura (bom, bem, olha e ah)
em questão, examinados preliminarmente sob a ótica dos traços categoriais
estabelecidos. A parte central do estudo é ocupada pela caracterização da fun-
ção de abertura promovida por esses marcadores na articulação interna do par
adjacente pergunta-resposta e em outras instâncias de organização tópica do
texto falado. Aspectos funcionais básicos diferenciadores de seu foco na estru-
tura (inter)pessoal e ideacional do discurso são examinados à luz das relações
com as respectivas fontes lexicais homônimas, sem estatuto de marcador. Des-
dobramentos e deslocamentos dessas diferenças são depreendidos na dinâmi-
ca da tessitura textual-discursiva. A natureza e a distribuição dos aspectos ge-
rais apurados oferecem elementos que auxiliam na diferenciação tipológica
entre as modalidades dos inquéritos analisados.
Valendo-se dos critérios propostos em Risso, Silva e Urbano (1995)
Giselle Machline de Oliveira estuda, como marcadores não-protípicos, as for-
mas: etc... e tal, (comparadas a formas similares, possíveis alternantes tais
como e tal e coisa, e tudo (o) mais); por exemplo, (comparada a como por
exemplo, e um exemplo); digamos (vamos dizer (assim) digamos assim), as-
sim.
Os resultados são compatíveis com o modelo da teoria dos conjuntos
subjacente ao trabalho. O elemento encabeçado por por exemplo (o exemplifi-
cante) é prototípico: concreto, objetivo, real e disponível. Pelo contrário, os
marcadores de procura de elementos como digamos, como assim, não são
prototípicos e coocorrem com elementos abstratos, subjetivos e novos. Coo-
correm também com hesitações, evidenciando dificuldades de processamento
do elemento e indicando uma função de preenchimento de espaço vazio na
conversa durante esse processamento.
As partículas de expansão etc. e tal (e as outras alternantes), tendem a
fechar enumerações de elementos concretos e objetivos. Descartou-se a hipó-
tese de que sejam majoritariamente um produto de esquecimento momentâ-
18
neo dos elementos da enumeração, em favor da hipótese alternativa de que a
partícula de expansão serve como coringa para enumerações de pouca rele-
vância.
Assim e digamos se assemelham, mas enquanto o digamos acumula
outras funções além da principal, o assim, que é de procura de um elemento,
exerce apenas essa função. Malgrado essa diferença, parece haver certa distri-
buição complementar entre esses dois MDs, em relação a regiões do país estu-
dadas e aos dois sexos. Se for tomado o verbo como medula espinhal do enun-
ciado, os marcadores assim e digamos são encontrados quase que exclusiva-
mente à direita. Além desse forte condicionamento estrutural, os fatores dis-
cursivos examinados justificam a posição à direita, que é própria dos segmen-
tos novos (qualidade que caracteriza esses dois MDs). Já o exemplificante,
que anuncia elemento disponível, está situado preferencialmente na fronteira
anterior ao sujeito.
Confirma-se a pouca importância discursiva do sujeito. O fato de a
informação do complemento tender a ser nova e a do sujeito ser velha não
basta para explicar essa propriedade: a variável status informacional não atuou
com tanta força que desse conta dessa quase impossibilidade da presença de
tais MDs nos sujeitos.
A tendência de os MDs estudados não se aglutinarem a outros não
mostrou relação com a não-prototipicidade. Outro resultado foi que a demar-
cação prosódica dos não-prototípicos foi menor do que a dos MDs tomados
globalmente (68,9%), fato que se pode creditar à tendência que esses MDs têm
de não serem tão marginais. O exame incipiente da fronteira entre MDs e
alguns elementos não-MDs fez encontrar algumas diferenças dignas de estu-
dos posteriores, como a especialização de função do digamos que, diferente de
seu alelo digamos, mas não evidenciou nenhuma fronteira drástica.
O Grupo Sintaxe I, que investiga o uso dos diversos itens da língua,
partindo de sua organização tradicional em classes, reúne, neste volume, seus
estudos sobre as diversas subclasses de conjunções, em número de seis.
As tradicionalmente denominadas conjunções coordenativas são estu-
dadas por Roberto Gomes Camacho e Erotilde Goreti Pezatti.
Roberto Camacho estuda as estruturas coordenadas aditivas, com o
propósito de fornecer uma classificação tipológica dos usos da relação de con-
junção, a partir de um exame empreendido nos diferentes níveis da gramática
do português falado. Na investigação dos usos diversos do juntivo e, o estudo
assumiu um compromisso teórico com o enfoque funcional-cognitivo, que os
19
trata como casos de ambigüidade pragmática. O universo da investigação é
constituído por uma amostragem do corpus mínimo do Projeto de Gramática
do Português Falado, que sofreu tratamento quantitativo, mediante o uso de
alguns programas do pacote Varbrul. O texto se organiza em duas partes. Na
primeira, examina-se a coordenação de termos, em sua manifestação prototípica,
estrutural, e em sua manifestação discursiva. Na segunda parte, examina-se a
coordenação de orações em estruturas simétricas e assimétricas, descrevendo-
se os processos de junção que envolvem também procedimentos discursivos
de natureza pragmática. Observou-se que a necessidade de identidade semân-
tica perpassa o juntivo e nos níveis sintático, textual e pragmático em que atua,
incluindo-se os níveis da coordenação de termos e de orações. Se é extrema-
mente visível no nível da junção simples de conteúdo, por outro lado no nível
epistêmico e no ilocucionário a visibilidade da identidade semântica se enfra-
quece, mantendo-se, porém, como inferências e deduções a partir de esquemas
referenciais e cognitivos. A principal direção para a qual apontam os resulta-
dos é a confirmação de que o juntivo e atua: no nível do conteúdo, como um
mero coordenador de idéias independentes; no nível semântico, como um
mecanismo para a construção do texto; no nível pragmático como um meca-
nismo interacional, seja com valor epistêmico seja com valor ilocucionário.
Em razão disso, reconheceu-se a pertinência do conceito de ambigüidade prag-
mática para um mapeamento adequado dos usos do juntivo e numa gramática
unificada, mas de condicionamentos multifuncionais.
O estudo de Erotilde Pezatti fornece uma descrição do comportamento
sintático-semântico das conjunções coordenativas alternativas no português fa-
lado, ou, mais especificamente, da relação de disjunção, tradicionalmente deno-
minada de alternância. O fundamento teórico da análise das conjunções é o fun-
cional, particularmente a Gramática Funcional de Dik. O texto se organiza em
cinco partes. Na primeira discute-se a questão da disjunção, de uma perspectiva
lógica e de uma perspectiva lingüística, procurando-se mostrar que o processo
na linguagem natural nem sempre coincide com o que se prevê na linguagem
formal. Como um reflexo da primeira, na segunda parte discutem-se os dois
tipos semânticos de disjunção, a inclusiva e a exclusiva, e as condições possíveis
para sua manifestação nos enunciados do corpus. Devido ao fato de a disjunção
se dar em diferentes níveis, examina-se, na terceira parte, a coordenação de ter-
mos e a coordenação de orações separadamente. Na quarta seção, afinal, exami-
nam-se os usos pragmáticos adicionais das ocorrências da conjunção ou.
As tradicionalmente denominadas “conjunções subordinativas” são
estudadas por Maria Luiza Braga e Maria Helena de Moura Neves.
20
Maria Luiza Braga trata as orações de tempo (na sua grande maioria
introduzidas por quando), cotejando, inicialmente, o tratamento concedido pela
abordagem gramatical tradicional e pela vertente funcionalista desenvolvida
por Sandra Thompson. Consideram-se os dois argumentos apresentados por
essa vertente para classificar as orações de tempo como hipotáticas, como não
propriamente subordinadas. Examinam-se algumas propriedades formais des-
sas orações: realização do sujeito, ordem e correlação entre tempo e modo.
Quanto à realização do sujeito, leva-se em consideração a posição, da oração e
a correferência entre o sujeito da núcleo e o da hipotática. Após todos os cruza-
mentos, conclui-se que as orações de tempo tendem a explicitar foneticamente
o sujeito, comprovando-se, portanto, a hipótese de Haiman de que a explicita-
ção constitui um traço das chamadas adverbiais. Quanto à posição, mostra-se
que a ordem não marcada é a anteposição, um dos critérios – além do tipo de
conectivos – que distingue as orações de tempo nos registros falado e escrito.
Quando nessa posição, as orações de tempo criam moldura temporal para os
eventos que são codificados pela núcleo. Outras funções podem agregar-se a
essa, tais como a sinalização de início de ‘parágrafo’ (novo episódio) e a codi-
ficação de tópico. As orações pospostas – posição marcada – são principal-
mente aquelas que funcionam como adendos, alguns dos quais exibem uma
função metalingüística, isto é, parafraseiam um termo mencionado previamente.
Verifica-se que muitas ocorrências, quando descontextualizadas, admitem a
alteração da ordem. Uma vez, porém, que se considere o contexto maior, a
alteração da ordem ou se vê totalmente bloqueada (casos de tópicos e adendos)
ou é, no mínimo, problemática. Por fim, quanto à correlação tempo-modo,
conclui-se que as orações de tempo tendem a exibir um leque mais ou menos
variado de combinações possíveis.
Maria Helena de Moura Neves apresenta o estudo de três tipos de cons-
truções adverbiais: as causais, as condicionais e as concessivas. Nos três casos,
examinam-se construções do corpus selecionado do NURC, buscando-se dis-
cutir a noção de condicionalidade lato sensu e de causalidade lato sensu, em
relação ao complexo de domínios envolvidos na produção dos enunciados.
Assim, ao lado da reflexão sobre os esquemas lógico-semânticos implicados
nas relações causal, condicional e concessiva, busca-se uma definição prag-
mática dos enunciados que se constroem sobre essas relações, envolvendo-se
especialmente a questão da distribuição da informação, à qual se vincula a
questão da ordem. O estudo das construções complexas considera, afinal, os
diferentes domínios de interpretação semântica, conduzindo-se dentro da pro-
posta funcionalista de organização dos enunciados em camadas, e abrigando-
se, ainda, no modelo mais amplo que estabelece as metafunções da linguagem.
21
No estudo das relações stricto sensu causais, verificou-se que as cons-
truções causais com a oração causal anteposta (representativamente as com
como) e as construções causais com a oração causal posposta (representativa-
mente as com porque) constituem diferentes organizações das relações cau-
sais, do ponto de vista informativo: as primeiras trazem a causa em função
temática, representando basicamente informação compartilhada, enquanto as
outras trazem a causa em função remática, representando basicamente infor-
mação nova. Considerando-se as diferentes camadas de constituição da frase
(Dik, 1989) das construções causais, separam-se dois grandes grupos, o das
causais de enunciado (em que se relacionam predicações ou proposições) e o
das causais de enunciação (em que se relacionam atos de fala). Verifica-se,
ainda, que as construções causais encontradas no NURC apresentam predomi-
nantemente predicações não-télicas (86%) e não-dinâmicas (70%). Predomi-
na o tempo presente, especialmente nas predicações de estado (mais de 80%,
tanto nas orações nucleares como nas orações adverbiais), o que tem relação
com o caráter não-télico das predicações.
No estudo das relações stricto sensu condicionais, parte-se do esquema
condicional básico se x, y, em que se estabelece um possível mundo x, que será
verdade apenas no caso em que y for verdadeiro nesse mundo x. Nessa defini-
ção se enquadram todos os esquemas condicionais, tanto os eventuais como os
factuais e os contrafactuais. Considera-se que os esquemas eventuais constitu-
em os hipotéticos prototípicos, porque neles é que se está em dúvida sobre o
mundo A, estando, pois, a oração condicional se x fazendo uma adição hipoté-
tica e provisória ao estoque de conhecimento partilhado entre falante e ouvin-
te. Essas construções por excelência hipotéticas são as mais utilizadas pelos
falantes do corpus do NURC (66,66%). É evidente que, quando o falante lança
uma predicação condicionante para uma outra predicação, é de se esperar que
mais freqüentemente esteja servindo ela como hipótese a ser verificada, já que,
para condições resolvidas (que implicam causalidade, seja afirmada, como no
caso das factuais, seja negada, como no caso das contrafactuais), a língua dis-
põe de outros recursos mais efetivos, como a própria expressão de relações
causais.
No estudo das construções concessivas, considera-se que, no seu es-
quema básico (embora p, q), a relação lógico-semântica que se estabelece é a
de frustração da implicação pressuposta, que pode ser uma implicação causal
ou uma implicação condicional: em uma construção concessiva, a causalidade
pressuposta na oração concessiva (p) é negada na oração núcleo (q), e a condi-
ção pressuposta em (p), por sua vez, não é suficiente para evitar (q), ou seja, é

22
ineficaz para evitar o cumprimento de (q). A frustração da implicação causal /
condicional pressuposta está diretamente relacionada aos esquemas envolvi-
dos no jogo de polaridade em que (q) positivo frustra a pressuposição negati-
va, e (q) negativo frustra a pressuposição afirmativa. Além disso, verifica-se
que, se, por um lado, são noções de natureza lógico-semântica que relacionam
as construções concessivas à causalidade e à condicionalidade, por outro lado,
é a sua natureza essencialmente argumentativa que as aproxima das constru-
ções adversativas. Tanto as construções concessivas quanto as adversativas
são essencialmente dialógicas, ou seja, envolvem a presença de dois locutores,
e o jogo argumentativo entre falante e ouvinte implica, em muitos casos, um
misto concessivo-adversativo. É justamente essa natureza argumentativa e di-
alógica das construções concessivas que explica o fato de tais construções
codificarem com maior freqüência a oposição no domínio epistêmico e no
domínio conversacional, com baixa freqüência no domínio do conteúdo.
Dentro do Grupo Sintaxe II, que produz estudos de sintaxe formal, este
volume apresenta o trabalho de Sonia Maria L. Cyrino sobre os elementos
nulos pós-verbais no português brasileiro oral contemporâneo. O estudo parte
das conclusões sobre os padrões de complementação do português falado en-
contradas em Dillinger et alii (1996), que levam os autores a propor que have-
ria um “fundo” sintático para a frase do português, que é S-V-O. Continuando
a análise, o estudo focaliza o não-preenchimento pós-verbal, mostrando que o
complemento nulo não é homogêneo. Desse modo, as ocorrências do comple-
mento nulo são classificadas em elipse de VP, objeto direto nulo e objeto indi-
reto nulo. Os dados utilizados são os mesmos já codificados em Dillinger et
alii (1996), com algumas alterações na escolha dos grupos de fatores e com
ampliação do corpus a fim de abranger todas as capitais.
O Grupo de Morfologia Derivacional estudou os adjetivos denominais
no português falado. O trabalho apresentado, de autoria de Margarida Basílio
e Léa Gamarski, investiga, em duas subsecções, a formação e as característi-
cas de adjetivos denominais no português falado. Na primeira parte, focali-
zam-se questões gerais relacionadas à formação e às funções de adjetivos de-
nominais, determinando-se algumas condições gerais de produtividade e de
produção de adjetivos denominais no português falado. Na segunda parte, fo-
calizam-se análises numéricas específicas, e cotejam-se resultados relativos a
adjetivos denominais, com resultados prévios obtidos para adjetivos deverbais
no que tange às ocorrências de adjetivo em posição adnominal ou predicativa
nos diferentes tipos de inquérito do corpus pesquisado. Foram objeto de análi-
se apenas as formações consideradas regulares, isto é, as formações fonológica
23
e semanticamente transparentes. Dentre os resultados obtidos, destaca-se o
que faz concluir que a formação de adjetivos denominais apresenta função
primária denotativa, sendo a predicativa uma função de caráter secundário e
circunscrita a processos particulares correspondentes a especificações de cará-
ter semântico, ao contrário do que ocorre na formação e no uso dos adjetivos
deverbais, que apresentam sobretudo função predicativa.
No Grupo de Morfologia Flexional, produziram-se dois textos, ambos
sobre tempos verbais.
Ângela C. S. Rodrigues, Odette G. L. A. S. Campos e Paulo T. Galem-
beck estudaram a correlação modo-temporal nas construções complexas con-
cessivas. Investiga-se a manifestação formal das relações que se estabelecem
entre as orações do complexo concessivo, um dos complexos subordinativos
que não incluem estruturas encaixadas. A análise dos dados coletados nos in-
quéritos do corpus baseia-se em duas hipóteses fundamentais: 1. Existe corre-
lação entre o valor das construções concessivas e o esquema modo-temporal
empregado para expressão desse valor. 2. Existe correlação entre os conecto-
res e o jogo modo-temporal que se estabelece nas construções concessivas.
Luiz Carlos Travaglia investigou o uso do futuro do pretérito no por-
tuguês falado. Nesse estudo, a partir da observação do corpus, propõe-se um
valor básico para o futuro do pretérito, que é o de posterioridade, do qual deri-
vam os demais valores, sejam de natureza temporal, sejam de natureza modal.
O valor temporal se subdivide em dois, cronológico e polifônico, e o valor
nocional se subdivide em quatro, que são condição, possibilidade, polidez e
desejo. Quantificando-se o uso da forma com estes valores em inquéritos do
projeto NURC, verifica-se que os falantes a utilizam muito mais com valores
nocionais do que com valores propriamente temporais. Dos valores nocionais,
entre os quais estão os usos tradicionalmente chamados de modais, a maior
freqüência é para condição, seguindo-se possibilidade, polidez e desejo. Dos
valores temporais, apenas o cronológico apareceu no corpus, não havendo
nenhuma ocorrência do polifônico. O estudo revela que descrever o futuro do
pretérito como uma forma verbal que marca futuro em relação a um momento
do passado, entendendo-se esse valor temporal separado dos chamados valo-
res modais, não é uma descrição que encontre uma generalização para todos os
valores da forma. Parece mais conveniente descrevê-lo como uma forma verbal
cuja função fundamental no funcionamento textual dentro da língua é marcar
posterioridade, derivando daí todos os valores propostos no estudo ou tradi-
cionalmente levantados. Portanto, essa forma seria, antes de tudo, um seqüen-
24
ciador de situações dentro do texto, com uso também relacionado à tipologia
textual.
O Grupo de Fonética e Fonologia apresenta o estudo de Leda Bisol
sobre os constituintes prosódicos da sílaba, que discute, inicialmente, os prin-
cípios de composição da sílaba básica, apresentados em forma de árvore, dos
quais se depreende o padrão silábico do português. Segue-se o desenvolvimento
da idéia de que o mapeamento da sílaba tem como ponto inicial a identificação
dos núcleos, e, por ordem, o mapeamento do onset e, finalmente, da coda.
Certas operações como apagamento do elemento não-silabado e epêntese, con-
sideradas como processos de legitimação de consoantes extraviadas, merecem
especial atenção, em virtude de a aplicação de uma ou outra propiciar varia-
ções silábicas. Admitindo-se que a silabação é um processo contínuo, disponí-
vel em qualquer etapa da derivação, a análise, fundamentada nos princípios
gerais da teoria, busca dar conta tanto das sílabas que se encaixam no padrão
canônico como das formas variantes.

7. A outra face desta publicação


Este volume traz o resultado dessa série de pesquisas que acima se
resumiram, constituindo o repositório de dois anos de investigação das diver-
sas equipes, mas ele tem, ainda, um significado muito especial dentro da histó-
ria da vivência do grande grupo. Dedicados a suas investigações, como se de
cada um dependesse a gramática referencial do português falado culto do Bra-
sil, no entanto todos os colegas de trabalho do Projeto GPF desenvolveram um
notável espírito de união, enriquecendo a interação pessoal e criando uma co-
munidade de fortes sentimentos. Isso não apenas se deveu à amizade que,
naturalmente, cada vez mais foi unindo a todos, indiscriminadamente, mas se
deveu, muito especialmente, ao papel de alguns elementos dotados de especial
força de aglutinação e brilho pessoal, que funcionaram como pólos intensifi-
cadores de relações positivas.
Falo, especialmente, de Giselle Machline de Oliveira, que transitava
como preferida, tanto para simples papos como para atuação em pesquisa,
dentro de todos os grupos. Todos sempre achavam que tinham o que aprender
com ela, e esperavam dela, inclusive, lições de vida, distribuídas, sem
negaceamento, a cada frase, a cada palavra, a cada gesto e atitude. É de sua
grande amiga Yonne Leite, que tão bem a conhecia, um depoimento em que a
curiosidade científica e o espírito de grande mestra que Giselle possuía bem se
evidenciam: bióloga que ela era, não teve dúvidas em, lá pelos anos 70, provi-
25
denciar uma laringe de boi – ou de vaca? – para que o seu grupo de estudos de
fonética, dirigido pela Yonne, pudesse observar o funcionamento das cordas
vocais. Nesse mesmo depoimento, outra notável característica de nossa Giselle
– sua grande capacidade de liderança – também encontra comprovação: Yonne,
recém-chegada dos Estados Unidos, queria converter todos ao gerativismo,
mas, sob a liderança da Giselle, tudo terminou num grupo de sociolingüística,
que, instigado por ela, ouvia antropólogos, sociólogos, demógrafos, abrindo-
se sempre a novas indagações.
De Giselle, um outro amigo, Hudinilson Urbano, diz que “tinha sensi-
bilidade e carinho à flor da pele”. E isso foi o que, mais que tudo, nos marcou.
Foi ela que simbolizou a dor da perda que o grupo teve com o passamento do
colega Fernando Tarallo, em 1994: a força de sua dor era bem a amostra do
quanto ela era o próprio grupo. Agora estamos nós editando este volume VII
da Gramática do Português Falado em homenagem a Giselle Machline de
Oliveira, “extraordinária cientista, colega, amiga, mulher e mãe” (como lhe
chama o Hudinilson), falecida em 2 de abril de 1996. Faz parte do livro o
último trabalho que ela produziu e apresentou dentro do grupo, trabalho que
tive o privilégio de debater, no nosso seminário de 1995, em Campos de Jordão.
Preparado para publicação por sua grande amiga Maria Luiza Braga, ele está
aqui enriquecendo este volume VII, e adiando para o próximo volume a grande
lacuna que agora se instalará no âmbito das produções do grupo.
Na própria homenagem que aqui lhe fazemos, com toda a nossa força
de amigos e admiradores cativos, vai notar-se que ficará faltando aquela fibra
que só uma homenagem que ela própria – Giselle – encabeçasse conseguiria
ter. Afinal, na amizade não se herda, e não somos mais que pálidos discípulos,
que, acima de tudo, a ela agradecemos as inesquecíveis lições de caráter e de
vida que nos deu.

Maria Helena de Moura Neves

26
PARTE I

GRUPO ORGANIZAÇÃO TEXTUAL-INTERATIVA


SEGMENTAÇÃO: UMA ESTRATÉGIA
DE CONSTRUÇÃO DO TEXTO FALADO

Ingedore G. V. Koch
(UNICAMP)

Introdução
O presente trabalho insere-se no temário previsto no Projeto “Organi-
zação textual-interativa no português falado no Brasil”, a saber, no item 3.1 –
“Estratégias de construção”. Essas estratégias fazem parte do subsistema de
desempenho textual, pedra angular do sistema de desempenho lingüístico (cf.
Nascimento, 1993).
É sabido que cada língua apresenta uma variedade de formas de ex-
pressão, abrindo-se, desta maneira, para o falante um amplo espaço de formu-
lação, isto é, a possibilidade de escolha entre um leque de opções possíveis.
Assim, a construção dos sentidos no texto depende, em grande parte, das esco-
lhas que ele realiza.
As várias possibilidades de efetivar, nos textos, a articulação tema-
rema constituem um desses leques de escolhas significativas. Este estudo ob-
jetiva, portanto, examinar as diferentes possibilidades de articulação tema-
rema, com ênfase especial naquelas em que, em virtude de deslocamentos de
constituintes, ocorre algum grau de segmentação sintática do enunciado – ca-
sos em que o falante opta pela utilização de estratégias de tematização e de
rematização (ou seja, de deslocamento do tema ou do rema) –, bem como
descrever as nuances de sentido que cada uma delas, quando posta em ação,
viabiliza.
Os conceitos de tema e rema em questão são aqueles postulados pelos
autores da Escola Funcionalista de Praga (Daneš, Firbas, Sgall, entre outros),
ou seja: do ponto de vista funcional, cada enunciado divide-se em (pelo me-
nos) duas partes – tema e rema –, a primeira das quais consiste no segmento
sobre o qual recai a predicação trazida pela segunda. Isto é, tem-se um seg-
mento comunicativamente estático – o tema – oposto a outro segmento
comunicativamente dinâmico – o rema, núcleo ou comentário. Não se trata
aqui apenas de um critério posicional (posição defendida, como se sabe, por
muitos lingüistas), mas de um critério funcional, fortemente relacionado à pro-
sódia do enunciado (portanto, verificável especialmente na fala) e, sob muitos
aspectos, associado às noções de dado e novo.
No dizer de Ilari (1992: 25), “a Escola Funcionalista de Praga “ desen-
volve em suma uma lingüística da fala (...) e insiste no fato de que se podem
encontrar regularidades, que autorizam tentativas de organização e descrição,
mesmo no nível da oração realizada (utterance). Ora, ao analisar orações efe-
tivamente realizadas, e não apenas orações que sirvam de exemplo de boa
formação sintática, constata-se que, enquanto unidade comunicativa, a oração
serve aos locutores para realizar uma dupla função: a de estabelecer um elo
com a situação de fala, ou com o texto lingüístico que a precedeu, e a de veicu-
lar informações novas”. Assumindo tal posição, tomaremos como unidade
básica de análise o enunciado ou a unidade comunicativa (Marcuschi, 1986:
62)1, embora, como será ressaltado mais adiante, uma construção com tema
marcado tenha, em muitos casos, a função de delimitar segmentos tópicos ou
indiciar a introdução ou a mudança de tópicos discursivos.
Em termos da articulação tema-rema, particularmente em se tratando
da língua falada, tem-se, como mostram Koch & Oesterreicher (1991), ao lado
de casos de integração sintática plena (construções não-marcadas, em que o
rema, portador de informação nova, sucede naturalmente ao tema, que veicula
a informação dada), uma série de padrões expressivos em que se pode falar de
segmentação e/ou de deslocamento de constituintes. A segmentação será
aqui entendida como qualquer tipo de alteração da ordem não-marcada, devi-
da a uma cisão ou modificação na ordem não-marcada dos constituintes, com
vistas à extração ou mise-en-relief de um constituinte do enunciado, dando
origem a construções de tema ou rema marcados. Daneš (1967) já afirmava
que a ordem dos constituintes que seria de se esperar por razões de ordem
sintática é freqüentemente infringida por razões de ordem funcional.
Existem, assim, duas grandes modalidades de seqüenciação tema-rema:

1. seqüências em que ocorre plena integração sintática entre elementos temáti-


cos e remáticos, sem qualquer tipo de segmentação (construções não marcadas),
que constituem o padrão, sendo comuns à oralidade e escrita;
30
2. construções com tema ou rema marcados (em conseqüência do emprego de
estratégias de tematização e de rematização), com graus mais reduzidos de
integração sintática, devidos à ocorrência de segmentação, nos termos acima
definidos.

Objetivamos, neste trabalho, aprofundar o estudo da segunda modali-


dade. Serão examinados casos de deslocamento (anteposição e posposição) de
elementos temáticos e remáticos. Em se tratando de tematização, serão exami-
nados especialmente os exemplares de temas marcados representados por SNs.
Não se tratará, portanto, de todos os casos de anteposição de constituintes,
como, por exemplo, a anteposição dos diversos tipos de construções adverbi-
ais, a não ser que estas venham a assumir a forma de sintagmas nominais não-
preposicionados (SPs sem cabeça, na terminologia de Kato, 1989) ou a confi-
gurar o tipo específico de tematização marcada derivada da anteposição do
que, nas gramáticas tradicionais, se costuma denominar adjunto adverbial de
assunto (cf. item 1.1, caso 1).
Levar-se-ão em conta, na análise, os seguintes critérios: a. grau de inte-
gração sintática do enunciado, nos moldes postulados por Koch & Oesterreicher,
1991; b. procedimentos lingüísticos utilizados para realizar a tematização ou a
rematização (marcas); c. funções discursivas das construções resultantes de
segmentação.
Esta pesquisa situa-se, pois, na interface sintaxe-discurso.

1. Seqüências tema-rema
O papel das construções segmentadas é, em se tratando de construções
com tema marcado, destacar um elemento do enunciado, colocando-o em po-
sição inicial, com o objetivo de indicar para o interlocutor, desde o início,
aquilo de que se vai tratar, ou em posição final, para fornecer um esclareci-
mento a mais, uma complementação, um adendo. O emprego destas constru-
ções permite, assim, operar um tipo de hierarquização das unidades lingüísti-
cas utilizadas, trazendo uma contribuição importante para a coerência discur-
siva, da mesma forma que a anteposição do rema ao tema desempenha fun-
ções discursivas e interacionais relevantes, conforme será visto a seguir.
Passaremos, pois, a examinar as seqüências tema-rema de acordo com
os critérios acima explicitados.

31
1.1 No que diz respeito aos graus de integração sintática, na acepção de
Koch & Oesterreicher (1991), podemos destacar os seguintes casos:

1. construções com tematização marcada, introduzidas por expressões do tipo


quanto a..., no tocante a..., no que diz respeito a..., com referência a.... etc., que
são comuns às modalidades oral e escrita, sendo mais freqüentes na comunica-
ção relativamente formal. Além do enunciado que introduz o presente item,
vejam-se, por exemplo:

(1) “Em relação às bancadas, os quercistas sentem maiores dificuldades no


Senado. Um grupo de senadores chegou a convidar o governador Luiz Antonio
Fleury Filho (SP) para uma conversa anteontem, em Brasília.”(FSP, 19/3/93,
1-9).

(2) ... e nós temos boas orquestras também ( )... inclusive na Tupi temos boas
orquestras e temos... e no que tange a nossa música popular eu acho que::
agora a televisão está abrindo as portas... para a nossa música popuLAR
coisa que o rádio não faz...
(NURC/SP – D2 333: 335-339)

(3) então... sobre o problema do primário... essa reforma do primário e ginásio


eu não estou muito a par não, né?
(NURC/SSA – DID 231:17-19)

Ilari (1992: 58) acrescenta a esse tipo de construção enunciados intro-


duzidos mediante expressões como “por falar em...”, “a propósito de...”, “já
que você tocou em “ / “já que estamos tocando em...” e outras, bastante co-
muns na interação informal face-a-face.

2. construções com tema marcado, em que ocorre a anteposição de um ele-


mento do enunciado com função sintática bem definida, que é depois confir-
mada pela presença de um elemento de retomada no interior do comentário.

Segundo Lambrecht (1981), “a coocorrência de um nome e de um pro-


nome anaforizado nas construções deslocadas é a manifestação formal de um
princípio funcional: a codificação de uma relação tema-propósito na estrutura
de superfície do enunciado”.
32
Riegel, Pellat & Rioul (1994) afirmam que “a informação veiculada
pela frase analisa-se em uma parte conhecida, o tema e uma parte nova, o
comentário (...). Um constituinte destacado em início de frase e retomado por
um pronome desempenha o papel de tema. Fala-se, então, em tematização”.
Blasco (1995), por sua vez, acusando de reducionistas as análises pura-
mente temáticas ou discursivas, procura mostrar a importância de se levarem
em conta as propriedades morfossintáticas dos elementos que entram nessas
construções e, em especial, de se distinguir entre deslocamentos para diante do
verbo e deslocamentos para depois do verbo, já que, para ela, tanto a posição
como a forma morfológica e a função sintática do elemento deslocado são
indissociáveis de seu valor informacional. Tais questões serão retomadas mais
adiante. Limitamo-nos, por ora, a apresentar alguns exemplos do caso em tela:

(4) ... ele vai ao jogo de futebol com o tio... porque o Nélson.... fins de semana
ele estuda então:: quase não sai com a gente...
(NURC/SP – D2 360: 1356-1358)

(5) então o Japão... ele... desde o seu início...((interferência de locutor aciden-


tal)) desde o seu início... ele tinha... ele contava como força fundamental das
suas cidades-colônias... os dois fatores ...
(NURC/RJ – EF 379: 53-56)

(6) esses Bicudos ... parece-me que um deles foi para:: região de Itu ... e o outro
entrou... para o vale do Paraíba...
(NURC/SP – DID 208: 551-553)

(7) como assim? não entendi a sua dúvida por exemplo o::... lemingue toda vez
que tem superpopulação eles vão para o mar e:: se matam aos montes...
(NURC/SP – D2 343: 1466-1468)

(8) esse problema de puxar pela criança --- “Ah, não deve puxar pela criança”
-- eu acho que isso não funciona muito
(NURC/SSA – DID 231: 93-95)

Cabe observar que, quando o elemento de retomada é, como no exem-


plo (8), um pronome demonstrativo ou indefinido como isto, isso, aquilo, tudo,
etc., ele remete, freqüentemente, a seqüências significativas expressas ou su-
33
bentendidas no contexto precedente, que nem sempre são fáceis de delimitar
com precisão.

3. construções com tema marcado, sem retomadas pronominais, isto é, com


elipses (categorias vazias), mas em que a função sintática, no enunciado, do
elemento tematizado é, em geral, bem definida:

(9) bebida alcoólica... eu gosto muito (0) ... sabe?


(NURC/RJ – DID 328: 773)

(10) mas eu:: ahn merenda escolar eu tenho pouca noção (0)...
(NURC/RJ – DID 328: 510-511)

(11) ... eu não viajo nem num outro carro acima de oitenta ou noventa... de velo-
cidade... a Kombi dá pra fazer isso (0) de modo que eu vou tranqüilo
(NURC/SSA – D2 98)

(12) Olinda ninguém mora (0)... ninguém diz é lá que eu moro... não... diz é lá
que eu pernoito
(NURC/REC – D2 05: 1094-1096)

(13) as comidas baianas eu gostei muito (0) sabe?


(NURC/RJ – DID 328: 167-168)

(14) ...então a menopausa... é::... nós vamos notar uma diminuição considerável
d/dos hormônios... dessas glândulas mamárias (0) ...
(NURC/SSA – EF 049: 62-64)

Casos dos tipos 2 e 3 são extremamente comuns em nosso corpus, nos


três tipos de inquéritos, com o elemento tematizado exercendo as mais varia-
das funções sintáticas no enunciado. Há exemplos em que os dois tipos estão
co-presentes, como em:

(15) ... mas o campo deles eu acho que (0) está muito mais saturado do que o
nosso... tanto é que:: ... eu conheço ...em:: advogados que eles estão traba-
lhando como ...auxiliares na nossa própria empresa entende?...
(NURC/SP – D2 62: 1199-1203)
34
Em outros casos, temos a coexistência dos tipos 3 e 1, como se pode
verificar no exemplo (3) acima.

4. construções com tema livre (“tema pendens”, “hanging topic”), anteceden-


do uma seqüência oracional, sem explicitação do nexo sintático e/ou lógico-
semântico:

(16) agora H. ah:: filme... água-com-açúcar -- digamos assim -- para a gente ver
certas coisas que a gente vê:: americanas principalmente... antes A Moreni-
nha né?
(NURC/SP – D2 333: 779-781)

(17) ... o direito... o fenômeno jurídico... você olha... o fenômeno jurídico ... atra-
vés de uma perspectiva...
(NURC/REC – EF 33)

Em (17), acumulam-se dois segmentos tematizados, o primeiro – o


direito – um “hanging topic” e o segundo – o fenômeno jurídico – do tipo 2,
com as peculiaridades que serão apontadas no item 1.2.

5. construções com deslocamento para o final de um elemento do enun-


ciado que, no interior deste, é introduzido apenas por meio de um pronome ou
de uma categoria vazia. Trata-se de um procedimento bastante produtivo, em
que o SN deslocado convalida, precisando-o melhor, ou chamando a atenção
sobre, o referente da forma pronominal ou da categoria vazia, desambigüizando
a mensagem e facilitando a compreensão. Lambrecht (1981) chama a atenção
para a importância, no francês não-standard, dessas construções, que denomi-
na antitópicos, exemplificadas, entre muitas outras, pelo grito de guerra de
Astérix: “Ils sont fous, ces romains”. Vejam-se os seguintes exemplos, extraí-
dos do nosso corpus:

(18) L1 e... depois volto para casa mas chego já apronto o outro para ir para a
escola... o menorzinho... e fico naquelas lides domésticas...
(NURC/SP – D2 360: 157-159)

(19) ... então os ingleses estão importando os filas naciona/brasileiros... Para...


amansarem – isso2 que é lindo a contribuição do Brasil para a paz ((risos) --
35
não digo entre os povos mas pelo menos entre os cães -- para amansar os cães
de guarda... ingleses que eram muito ferozes...
(NURC/SP – D2 333: 1057-1062)

Na terminologia de Blasco (1995), temos aqui o deslocamento para


depois do verbo. Segundo a autora, nesses casos, o elemento lexical deslocado
para depois do verbo é sempre uma espécie de lembrete (“rappel”) lexical,
referencial e sintático. Para ela, o referente do sintagma deslocado não pode
ser pressuposto: será sempre um referente conhecido e dado pelo contexto
anterior. Acontece, porém, que, em muitos casos, o referente, mesmo tendo
sido mencionado ou indiciado, de alguma forma, no contexto anterior, é difícil
de determinar, de modo que o uso desse tipo de construção tem por fim, justa-
mente, deixar claro para o interlocutor, precisando-o melhor, o referente de
que se trata, como é o caso em (18).

6. construções em que se justapõem os dois blocos de informação, sem qual-


quer ligação sintática. Por exemplo:

(20) “e os amigos... nada...” (embora se trate de um exemplo criado, são constru-


ções extremamente comuns na fala espontânea)

(21) porque a telenovela... como é feita aqui é um gênero ... que o estrangeiro... o
estrangeiro... de bom nível intelec/intelectual que chega ao Brasil... se ena-
mora das boas novelas bem entendido então Gabriela ... conversei com um
professor francês que disse que jamais isso veria nada parecido em Paris...
que achava a televisão que se fazia lá... do ponto de vista ficcional... era...
infinitamente pior... porque... eles não tem:: eles/ eh em matéria de ficção são
os velhos filmes não é?
(NURC/SP – D2 333: 385-394)

Poder-se-ia, assim, definir os seis tipos aqui apresentados por meio da


combinação dos seguintes parâmetros:3

36
QUADRO 1
CASO direção do desloc. ligação sintática pres. de pron.sombra
caso 1 esquerda explícita ou inexistente sim/não
caso 2 esquerda explícita sim
caso 3 esquerda não explícita-intuível não
caso 4 esquerda não há não
caso 5 direita explicíta ou intuível sim/não
caso 6 sem deslocamento não há não

1.2 Quanto aos procedimentos lingüísticos utilizados, podem-se, pois, arro-


lar os seguintes:

1.2.1 deslocamento à direita do SN extraído


a. com presença de uma forma pronominal no lugar do elemento extraído;
b. sem a presença de qualquer forma pronominal marcando o lugar do elemen-
to extraposto (categoria vazia).

1.2.2. deslocamento à esquerda:


a. com o uso de expressões tematizadoras (exs. 1 a 3);
b. com retomada do elemento tematizado no interior do enunciado (exs. 4 a 8);
c. sem retomada do elemento tematizado no interior do enunciado (exs. 9
a 14);
d. através de mera justaposição, acompanhada de entonação específica (exs.
20 e 21).

Nos casos de deslocamento com retomada do elemento tematizado, é


interessante examinar a natureza do elemento deslocado (função sintática e
categoria sintagmática), bem como a do elemento utilizado como repetidor
e, ainda, as diferenças que ocorrem conforme os vários casos.

1. Quanto à função sintática do elemento deslocado (co-indexado):


a. sujeito:
(22) ... a glândula mamária... como vocês estão vendo... ela representa a
forma de uma semiesfera... de uma semiesfera...
(NURC/SSA – EF 049: 41-42)
37
(23) então a minha de onze anos... ela supervisiona o trabalho dos cinco...
(NURC/SP – D2 360: 61)

b. sujeito da subordinada:
(24) medicina você sabe que (0) é prática
(NURC/SSA – DID 231: 145)

(25) ... a Air France a gente só ouve falar que (0) dá prejuízo...
(NURC/RJ – D2 355: 1203-1204)

c. complemento:
(26) inclusive o tal pato no tucupi eu achei (0) muito ruim ((rindo)) sabe...
(NURC/RJ – DID 328: 140-141)

(27) mas eu... ahn... merenda escolar eu tenho pouca noção (0)
(NURC/RJ – DID 328: 512)

(28) doce em calda ... eu não vi (0) não...


(NURC/RJ – DID 328: 287-288)

d. complemento da subordinada:
(29) essas outras peças que eu tenho assistido eu não acho que o público se
manifestasse assim aplaudindo (0)
(NURC/SP – DID 234: 116)

e. adjunto (indexado à posição não-V-argumental), dando origem a “SPs sem


cabeça”:
(30) Paris eu não pago hotel... Paris... eu fico na casa de um amigo... aparta-
mento de um amigo...
(NURC/RJ- D2 335: 83)

(31) Drama já basta a vida


(NURC/SP – DID 234: 155)
38
(32) o Amazonas é impressionante o número de frutas
(NURC/RJ – DID 328: 85)

2. quanto à categoria sintagmática do elemento deslocado:


a. SN – simples ou complexo: veja-se, por exemplo, (27), (28), (29), (30)
b. pronome – pessoal ou dêitico:

(33) eles também eles comem muitas coisas...


(NURC/RJ – DID 328: 171)

(34) Olhe isso eu repito (0)...


(NURC/REC – EF 337: 140)

(35) é... isso eu já estou sabendo a causa (0)


(NURC/SP – D2 343: 625)

Caso interessante é o seguinte, que parece “ir contra” as regras de ana-


forização, já que o pronome vem antes de seu referente, ou seja, age catafori-
camente:

(36) L. ... inclusive o pato no tucupi eu achei muito ruim... sabe... eu não gos-
tei realmente... achei ruim demais... não... não sei se é por que não
é... eles acham aquilo maravilhoso... né... mas pro meu gosto [Doc.
como é... você sabe? ]
L. é o pato é assim... ele vem o pato cozido feito uma espécie de canja...
(NURC/RJ – DID 328: 140-147).

Talvez se pudesse classificá-lo como um deslocamento à direita, mas


não me parece ser este o caso. Seria algo como: “Nesse prato (pato no tucupi)
o pato vem cozido...” ou “Ele (o pato) vem cozido”.

c. SP:
(37) De primeira classe hoje em dia aqui nós temos poucas 0
(NURC/SSA – D2 98: 194)
39
d. SP sem cabeça:
(38) ... o Amazonas é impressionante o número de frutas...
(NURC/RJ – DID 328: 90-91)

3. Quanto à categoria sintagmática do elemento co-indexado interno ao enun-


ciado: embora se costume dizer que o caso mais comum é a retomada através
de um pronome-cópia ou pronome-sombra (pessoal, demonstrativo, partitivo),
são mais freqüentes em nosso corpus as retomadas através da repetição in-
tegral ou parcial do próprio elemento lexical anteposto, como foi também cons-
tatado por Koch (1992) e Callou, Moraes, Leite, Kato et al.(1993) e se pode
ver nos exemplos abaixo:

(39) ... então a salada pro... pro pessoal de Buenos Aires a salada se resume a
alface e tomate...
(NURC/RJ – DID 328: 231-232)

(40) Doc. a que se deve esse hiato que o senhor mencionou?


Inf. o quê?
Doc. esse hiato
Inf. esse hia::to olha é um pouco difícil de se estabelecer assim:: a ...
causa desse hiato porque ... o...essa... (é) o Orfeu do Carnaval se eu
não::estou bem lembrada da data... mas me parece que foi num
momento...
(NURC/SP – D2 333: 698-704)

(41) não... tu vês... por exemplo... o peixe ... peixe aqui no Rio Grande eu
tenho impressão que se come peixe exclusivamente na Semana Santa...
(NURC/POA – D2 291: 25-26)

(42) um arquiteto que se forma, o salário inicial de arquiteto (es)tá em torno


de quatro mil e quinhentos cruzeiros...
(NURC/RJ – D2 335: 265-267)

Questão interessante, que já tem sido objeto de estudos na área da sin-


taxe (cf. por exemplo, Kato, 1989) e na interface sintaxe/discurso (cf. Pontes,
40
1987), é a do SP sem cabeça: em sendo o elemento tematizado um adjunto
adverbial introduzido por preposição, ao operar-se o deslocamento para a es-
querda, a preposição é, com grande freqüência, omitida na fala. Isto me leva a
discordar de Ilari (1992: 56), quando afirma haver “uma compulsão para
preposicionar o tópico quando falta um pronome-sombra no comentário”(o
que explicaria, inclusive, o uso do objeto direto preposicionado), mesmo por-
que tal uso fica praticamente limitado à linguagem escrita ou à fala altamente
formal.
Relevante é lembrar, como o faz também Blasco (1995: 53), que os
elementos lexicais deslocados para diante do verbo, mesmo que já tenham
sido mencionados no contexto precedente, nem sempre correspondem a enti-
dades dadas, no sentido de informação velha, de modo que se faz preciso
distinguir entre retomada lexical e retomada referencial.
Há casos, por exemplo, em que se antepõe ao verbo um SN genérico,
que é depois retomado no interior do enunciado por um pronome ou um SN
definido, que refere membros da classe, sendo, pois, ao mesmo tempo, novo e
previsível, devido à relação semântica que mantém com o SN já mencionado,
como em (43):

(43) como assim? não entendi a sua dúvida por exemplo o::... lemingue toda
vez que tem superpopulação eles vão para o mar e:: se matam aos montes
(NURC/SP – D2 343: 1466-1468)

Outras vezes, o SN anteposto é retomado apenas parcialmente (cf.


ex.42); ou, então, expande-se, por ocasião da tematização, um SN presente no
contexto imediatamente anterior (em exemplos como “O motor é novo; um
motor novo, ele necessita de um tempo de amaciamento”). Pode ocorrer, tam-
bém, a tematização de um elemento lexical que designa um domínio de refe-
rência (frame), sendo o elemento de retomada um dos elementos desse domí-
nio (em exemplos do tipo O ônibus, o pneu estava furado.), isto é, o elemento
de retomada pode remeter a algum conhecimento pressuposto pelo SN
tematizado. Também aqui, o elemento deslocado é, ao mesmo tempo, novo e
previsível, em função do nexo semântico que mantém com um elemento pre-
cedente4.
Há, ainda, casos como o do ex. (17), em que o “hanging topic” – o
direito – é, em seguida, especificado por outro elemento tematizado – o fenô-
meno jurídico –, sendo este retomado no interior do enunciado.
41
Interessante é também o exemplo (44) abaixo, em que o SN complexo
tematizado é retomado por outro elemento também tematizado, no caso, o
demonstrativo aquilo:

(44) aquelas matérias todas que publicam ali aquilo até eu coleciono (0)
(NURC/SP – D2 255: 1176-1177)

Outro caso em que o elemento tematizado não veicula necessariamen-


te informação dada é aquele em que dois enunciados são ligados por conecti-
vos semânticos. Reinhart (1980) defende a posição de que, ao relacionarem
dois enunciados, os conectivos semânticos abrem a possibilidade de se intro-
duzir, no tema (marcado) do segundo, informação nova. Seria o caso de:

(46) L1 agora eu vou por isso só... porque eu tenho que fazer esse negócio e
vou aproveitar pra uma coisa que há muito tempo desejava ver...
que é o
Maquiné...
L2 Maquiné...
L1 ... tem uma visita à gruta do Maquiné... porque Ouro Preto eu já
conheço já tive lá... Congonhas também... de modo que minha pre-
tensão agora é essa...
(NURC/SSA – D2 98: 110-117)

Contudo, a informação aqui introduzida é nova apenas com relação ao


contexto imediatamente precedente: levando-se em conta que o tópico desse
segmento é viagens e que o locutor está falando de Maquiné, local turístico do
Estado de Minas, Ouro Preto e Congonhas fazem parte do mesmo frame ou
domínio de referência.

1.3 Quanto às funções da tematização:


Vimos acima que, ao lado das seqüências em que há integração plena
entre elementos temáticos e remáticos, sem segmentações ou retomadas prono-
minais – as construções não-marcadas, que constituem um padrão neutro em
relação a oralidade/escrita – têm-se os procedimentos de tematização marcada,
alguns também comuns aos textos falado e escrito (em geral aqueles em que se
42
verifica maior integração sintática!), outros típicos apenas da modalidade oral.
Pode-se dizer que, de modo geral, ao recorrer às construções com tema marcado,
o falante seleciona um elemento (estado de coisas, propriedade, relação, coorde-
nada espacial ou temporal, indivíduo ou grupo de indivíduos etc.) que deseja
ativar ou reativar na memória do interlocutor e sobre o qual seu enunciado deve-
rá lançar nova luz, para apresentar a seguir algo que considera desconhecido por
este, que deseja enfatizar ou com o qual pretende estabelecer algum tipo de
contraste. É por esta razão que o elemento tematizado desempenha papel rele-
vante no processamento pragmático-cognitivo do sentido, na medida em que
esta forma de organização é determinada quer por questões ligadas à continuida-
de ou mudança de tópico, quer por fatores como facilitação do processamento do
texto, interesse, relevância, expressividade, necessidade de ganhar tempo para o
planejamento da parte restante do enunciado, entre outros.
Vejamos um exemplo em que, através da tematização, se introduz um
novo segmento tópico:

(46) Doc. agora aquela zona ali do Paraná... eu tenho parentes lá... as sobre-
mesas deles você teve oportunidade de...
L. ah... sobremesas... não... nós não ficamos muito tempo em Curitiba
nós... fomos a/ viemos.... quando nós voltamos da Argentina nós
fizemos pernoite só em Curitiba e viemos...entende?
(NURC/RJ – DID 328: 252-258)

Em (47), por sua vez, a tematização do SN bebida alcoólica na respos-


ta do informante assinala a mudança de tópico induzida pela pergunta do doc.

(47) Doc.e bebida alcoólica?


L. bebida alcoólica... eu gosto muito... sabe... e domingo também eu
às vezes me dou ao luxo... eh...às vezes a gente põe assim um
vinhozinho ... então a gente toma vinho de acordo também com o
tipo de comida... se é carne... aqueles hábitos que a gente tem... se é
carne é vinho tinto... se é peixe a gente usa vinho branco...
(NURC/RJ – DID 328: 772-778)

O exemplo(4), aqui retomado como (48), é um exemplo em que, atra-


vés da tematização, ocorre a retomada de um tópico anterior (Nelson, marido
da locutora, havia constituído o tópico de um segmento anterior do diálogo):
43
(48) ... ele vai ao jogo de futebol com o tio... porque o Nélson... fins de sema-
na ele estuda então:: quase não sai com a gente
(NURC/SP – D2 360: 1356-1358)

Em (49), temos um caso semelhante: o documentador apresenta um


quadro tópico – derivados do leite – cujos diversos itens a locutora passa a
desenvolver para, no final, através de um “aposto resumitivo”, reiterar o tópi-
co que lhe foi oferecido, sob forma de um antitópico:

(49) Doc. há um derivado da:: do leite... que (assenta) bem em regimes...


dependendo do tipo né?...
L. é o queijo de Minas... eu o uso:: de manhã às vezes eu como um
pedaço de queijo Minas... e quando eu éh quando eu sinto que vou
passar (um) período do dia... fora de casa que eu não vou chegar a
tempo pra comer meio-dia... eu então levo um pedaço de queijo de
Minas... é o que eu uso e/ uso também muita ricota...
Doc. ah tá...
L . ... gosto muito de ricota... sa/ iogurte às vezes eu em vez de tomar
café com leite... eu tomo iogurte ou coalhada também... que eu
gosto... sabe?... eu gosto muito de coalhada... iogurte esses produ-
tos derivados do leite eu... mas só... queijos brancos... eu só como
queijos brancos
(NURC/RJ – DID 328: 610-623)

Outra função que costuma ser atribuída à tematização é de estabelecer


contraste entre a informação veiculada pelo elemento tematizado e alguma
informação apresentada anteriormente ou à qual a primeira se opõe. Veja-se,
por exemplo:

(50) L2 ... os outros mesmos não se incumbem de colocá-la no lugar dela?


L1 bom... com uns TApas... às vezes ela se coloca
L2 ahn
L1 [mas com palavras ela não se coloca porque ela
L2 [ ahn
L1 aumenta a voz com os irmãos... não é? ...
(NURC/SP – D2 360: 258-234)
44
Função interessante é aquela apontada por Blasco (1995: 52). Segundo
ela, o deslocamento do SN para diante do verbo funciona como um dispositivo
que permite retomar, em posição associada ao sujeito, um elemento lexical
com todo o seu peso referencial. Assim, de uma parte, o elemento lexical se
desloca no interior do discurso de uma posição construída pelo verbo regente
(argumental) a uma posição não construída (não-argumental); de outra parte,
esse deslocamento permite “retomar” o elemento já citado no contexto ante-
rior em posição associada ao sujeito, podendo-se, assim, dizer que se trata de
uma articulação sintática que organiza a repetição.
A par de tudo o que foi discutido acima, pode-se afirmar, de conformi-
dade com Van Dijk (1982, 1983) que, ao estabelecer o quadro geral de referên-
cia no interior do qual o conteúdo proposicional do enunciado se verifica, a
estratégia da tematização desempenha papel de relevo na construção da coe-
rência, tanto no nível local, quanto no nível global do texto.

2. Seqüências rema-tema
Ao lado das estratégias de tematização acima descritas, existem, tam-
bém, as estratégias de rematização, responsáveis pela marcação do elemento
focal, freqüentemente com a anteposição do rema ao tema.

2.1 Também aqui podem-se observar diferentes graus de integração sintáti-


ca, nos termos de Koch & Oesterreicher(1991):

1. casos em que se verifica um alto grau de integração sintática é o de algumas


das orações, comuns à fala e à escrita, denominadas cindidas por Ilari (1992:
43), nas quais ocorrem “partículas de realce” ou construções gramaticais utili-
zando orações relativas que “desdobram” a oração em duas partes. Tais ora-
ções são também denominadas na literatura de clivadas (cf., por exemplo,
Kato et al. 1995; Braga,1991), podendo apresentar configurações sintáticas
bastante diferentes.

Em (51), que é clivada, bem como em (52), que constitui clivada com
inversão (cf. Kato et al., 1995), antepõe-se o elemento focal, ocorrendo, por-
tanto, a rematização:
45
(51) é o tal problema que a gente sente
(NURC/SP – D2 62: 325-326)

(52) ... é isso que eu acho entende?


(NURC/SP – D2 62: 436 – D2 343: 1571-1573)

Já (53) consiste em exemplo do que se tem denominado pseudo-clivada


em que ocorre rematização:

(53) o que me revolta profundamente é o programa Cinderela (idem).


(NURC/SP – D2 333: 1117)

2. construções com rema anteposto, marcado apenas prosodicamente, especí-


ficas da modalidade oral. Segundo Ilari (1992: 43-44), a expressão do rema
está sempre associada a algum tipo de proeminência entoacional. Assim, ao
papel de rema estaria ligado um invariante fonológico que permite o seu reco-
nhecimento nas diferentes posições da oração em que possa ocorrer5. Vejam-
se alguns dos exemplos extraídos de nosso corpus:

(54) ..passei ali em frente à:: Faculdade de Direito... então estava lembran-
do... que eu ia muito lá quando tinha sete nove onze... (com) a titia sabe?...
e:: está muito pior a cidade... está... o aspecto dos prédios assim é bem
mais sujo... tudo acinzentado né?
(NURC/SP – D2 343: 20-24)

(55) L1 ... e toda segunda à noite eu passo ali do lado da faculdade certo?
L2 quando você vai pra:: para Aliança né?
[
L1 é quando eu pego o carro... e:: também é horrí-
vel o aspecto... (parece) assim montoeira de concreto... sem ne-
nhum aspecto humano certo?
(NURC/SP – D2 343: 28-33)

(56) ... Lins por exemplo não é assim né? você tem... tem um aspecto de::... de
acho que parece bairro a cidade né?
(NURC/SP – D2 343: 58-59)
46
(57) Doc. vocês acham então que o noticiário em TV tem melhorado
bastante
[
tem pode melhorar mais nesse ponto o o:: telejornal nosso...
pode aprimorar bastante... eu acho... bastante
(NURC/SP – D2 333: 988-902)

Interessante é notar que, no exemplo acima, tem-se um caso de “double-


bind” sintático (cf. Frank, 1986): o tema o o:: telejornal nosso, posposto ao
rema, torna-se, por sua vez, o tema (não marcado) do rema seguinte pode
aprimorar bastante .

(58) então o cara aí ... analogia né? o cara está no carro mas... o que querem?... é
tribal a coisa né?
(NURC/SP – D2 343: 701-702)

(59) e o pato é assim... ele vem o pato cozido feito uma espécie de canja... só
que o caldo é justamente é uma água misturada com uma farinha eu acho
que é... é ta/ tacacá se não me engano o nome da farinha que eles usam...
(NURC/RJ – DID 328: 133-136)

3. seqüências formadas dos dois blocos – rema-tema – sem verbo, apenas jus-
tapostos sem vínculo sintático, em que ocorre um aumento da expressividade,
a par de um menor esforço de planejamento6:

(60) ...eu gostei é um filme de amor... umas cenas maravilhosas... lindo o


filme... eu assisti faz tempo já...
(NURC/SP – DID 234: 335-337)

4. seqüências em que se antepõe um elemento remático que é repetido imediata-


mente na seqüência (cf. Castro, 1994). Trata-se de repetição que incide quase
sempre sobre um substantivo, adjetivo, advérbio ou verbo, tendo, como uma das
principais funções, enfatizar o significado essencial do termo ou, muitas vezes,
questionar a adequação de seu emprego naquela situação Por exemplo, “almo-
çar, não almocei ainda; só comi um sanduíche na cantina”; “bom bom, só achei
47
o último capítulo”) Todavia, no exemplo (61), extraído do nosso corpus, não me
parece ser esta a função, mas algo como “você me pergunta se evoluiu, e eu me
apresso a responder” ou, então, “é preciso reconhecer que evoluiu”:

(61) Doc. você acha que o teatro evolui::u? como é que está?
Inf. evoluir evoluiu... evoluiu muito o teatro principalmente no Brasil...
(NURC/SP – DID 161: 625-627)

2.2 Quanto aos procedimentos lingüísticos utilizados, tem-se, basicamente,


o deslocamento à esquerda . Este pode ocorrer acompanhado apenas de mar-
cas prosódicas (casos 2 e 3), ou com a utilização de determinadas marcas sin-
táticas que caracterizam as orações cindidas (caso 1), a saber:

a. expressão é que(foi que) delimitando o rema anteposto


b. expressão é que(foi(o) que/ que) seguindo o rema anteposto
c. construções gramaticais usando orações adjetivas, como o que(me) ... é/foi,
podendo o pronome relativo vir elidido .

2.3 Quanto às funções que desempenham as construções com anteposição do


rema, verifica-se que estão diretamente ligadas à expressividade e ao
envolvimento do falante com o assunto e com o interlocutor, sendo, por isso,
mais freqüentes na fala do que na escrita, especialmente em situações de inte-
ração menos formais.

A anteposição do rema ao tema constitui expressão de alto envolvimento.


Na perspectiva do falante, permite-lhe antecipar na formulação aquilo que cons-
titui a meta de sua comunicação; do ponto de vista do interlocutor, tal seqüência,
normalmente acompanhada de acentuação entonacional do rema, é sentida como
marcada relativamente à seqüência tema-rema e, portanto, veiculadora de algum
tipo de informação discursiva adicional, o que, sem dúvida, compensa o seu
duplo custo operacional: o rema fora de sua posição sintática normal e de sua
posição em termos da estrutura informacional dado/novo.
Assim, no caso das orações cindidas, em que comumente a parte focal
representa informação nova e a parte pressuposicional, informação dada, a
função é enfatizar o rema anteposto. Desta forma, um importante fator
determinante do uso das cindidas seria o propósito do falante de assinalar uma
48
sutil oposição ou contraste. Segundo Hupet & Costermans (1982: 280), ao
usar uma estrutura cindida, a intenção do falante é contrastar sua mensagem
com qualquer outra proposição que poderia invalidá-la. Os autores acabam
por concluir que, em termos dos componentes pragmáticos determinantes des-
se uso, as cindidas podem ser vistas como motivadas pela discordância que o
falante supõe existir entre a sua posição e aquela que ele se sente autorizado a
atribuir ao seu interlocutor. É importante essa ressalva: não se trata da real
posição do interlocutor, mas daquela que o falante lhe atribui, isto é, das cren-
ças que, correta ou incorretamente, o falante atribui ao seu parceiro.
Hupet & Costermans ressaltam, ainda, que há casos em que a oração
cindida enfatiza não um elemento que poderia ser visto como não partilhado
pelo interlocutor, mas um elemento sobre o qual o próprio falante não tinha
total certeza até alguns minutos atrás. Aqui seria como se o falante “falasse
com seus botões”, corrigindo seu ponto de vista anterior.
Ao contrário das estratégias de tematização, que têm sido objeto de
ampla gama de investigações, as estratégias de rematização, excetuando-se o
caso das orações clivadas e pseudo-clivadas, constituem um domínio ainda
pouco explorado, pelo menos no que diz respeito ao português (ressalve-se,
contudo, o trabalho de Ilari, 1987/1992).

Considerações finais
O grupo de estratégias que estamos estudando sob o rótulo de segmen-
tação tem interferência direta na produção do sentido e exerce, portanto, papel
relevante na construção do texto e da coerência textual.
As marcas de redundância implicadas na formação das construções
segmentadas, conforme ressalta Lèbre (1987: 129), constituem, para o locutor,
um meio de remediar os inconvenientes da linearidade da fala, já que nesta
qualquer retorno é impossível, bem como acrescentar ao seu enunciado índi-
ces que, sem elas, não lhe seria possível inserir.
Freqüentemente, as construções segmentadas, por vezes precedidas ou
seguidas de hesitações ou de marcadores discursivos como enfim, quer dizer,
bom, bem, entre outros, são resultantes de estratégias de reformulação ou cor-
reção do texto falado.
Além disso, como bem mostra Lèbre, a segmentação permite ao locu-
tor proceder a uma espécie de hierarquização das unidades lingüísticas utiliza-
49
das, e apresentar um ponto de vista pessoal, modalizando destarte seu enuncia-
do. Desta forma, tais construções constituem marcas da inscrição do enunciador
no discurso.
Ao destacar um elemento do enunciado, estabelece-se uma oposição
entre ele e outros elementos, que pode ser explícita ou implícita. As oposições
implícitas, que são apenas sugeridas pelo elemento destacado, revelam a pre-
sença de um não-dito: “Faire d’un objet quelconque un thème marqué, l’isole
et par là même le définit comme quelque chose dont le commentaire ne peut
s’appliquer qu’à lui. Il y a une exclusion implicite dans toute topicalisation, et
dans tout thème marqué, il y a toujours, implicite, un autre”. (Laparra, 1982:
222, apud Lèbre, 1987).
Além disso, salienta Lèbre, as construções segmentadas desvelam um
não-dito de certa forma inerente à elaboração de toda e qualquer produção de
linguagem, já que permitem distinguir entre o que é posto e o que é pressupos-
to e estabelecem as próprias condições de existência do discurso.
Assim, para o interlocutor, as construções segmentadas são também o
índice de uma confrontação ou de uma aproximação não explicitamente marcada
entre os propósitos explicitamente apresentados e outras produções discursi-
vas, o que vem comprovar a afirmação de Bakhtin (1929: 113) de que “toda
comunicação verbal, toda interação verbal, desenrola-se sob a forma de um
intercâmbio de enunciados, isto é, sob a forma de um diálogo”.
São as aproximações implícitas que permitem relacionar a expressão
destacada, isolada do enunciado, à temática global de um discurso, estabele-
cendo um liame entre seus diferentes segmentos. Isto explica por que, muitas
vezes, o emprego de construções segmentadas coincide com a passagem de
um segmento tópico a outro, isto é, marca uma mudança ou um deslocamento
do tópico discursivo.
Outra função importante das construções segmentadas em que se des-
loca para a direita o elemento extraído é, como foi dito, a de desambigüizar o
enunciado e facilitar a compreensão: a redundância assegurada pela retomada
contribui para a melhor interpretação do texto e para a construção de sua coe-
rência.
Por todas estas razões – a par de outras que não puderam ser aqui des-
tacadas – é que se pode afirmar que as estratégias de segmentação desempe-
nham papel de relevância na construção e na compreensão do texto falado.
Embora muitas delas já tenham merecido bastante atenção da parte de
muitos sintaticistas e semanticistas, as abordagens textuais-discursivas são ainda
50
pouco numerosas em nosso país, especialmente em se tratando das estratégias
de rematização, embora, evidentemente,se deva ressalvar, a par de outros, os
autores citados neste trabalho.

NOTAS
1
“A expressão unidade comunicativa é aqui tomada (cf. Rath, 1979) como substituto
conversacional para ‘frase’, ou seja, é a expressão de um conteúdo que pode dar-se,
mas não necessariamente, numa unidade sintática tipo frase.” (Marcuschi, 1986: 61/
62).
2
Observe-se que isso, neste exemplo, parece funcionar, simultaneamente, como anafórico
e catafórico, isto é, remete tanto ao que o precede, como ao que vem na seqüência.
3
Este quadro me foi sugerido por Rodolfo Ilari, mas, infelizmente, acho que não conse-
gui dar-lhe o aspecto sintetizador por ele proposto.
4
Tais entidades entram na categoria das inferíveis, na classificação proposta por Prince
(1981).
5
Muitos autores tratam tais exemplos como casos de deslocamento à direita. Ilari, por
exemplo (comunicação pessoal) os enquadraria como antitópicos; Kato (1989) os con-
sidera como exemplos de deslocamento à direita do tópico, que supõem um sujeito
nulo. Prefiro, contudo, sustentar a tese da rematização e acredito que uma análise pro-
sódica mais acurada que pretendo empreender com o auxílio de um fonólogo deverá vir
a reforçar esta posição.
6
É o que Kato (1989) denomina “free small clauses”.

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52
A CORREÇÃO NO TEXTO FALADO:
TIPOS, FUNÇÕES E MARCAS

Leonor Lopes Fávero


Maria Lúcia da Cunha Victório de Oliveira Andrade
Zilda Gaspar Oliveira de Aquino
(Universidade de São Paulo)

1. Objeto da Pesquisa e Corpus


O presente trabalho integra o projeto maior da Gramática do Português
Falado que se propõe a elaborar uma gramática referencial da língua falada no
Brasil. Nesse sentido, investigar-se-á um dos processos de formulação do texto
falado – a correção, como contribuição para que se possam explicitar quais os
mecanismos de construção desse tipo de texto.
O corpus restringe-se, predominantemente, ao material do Projeto Nor-
ma Urbana Culta (NURC), englobando as três modalidades de inquérito: Diá-
logo entre dois informantes (D2), Diálogo entre informante e documentador
(DID) e Elocução formal (EF), não excluindo o exame de conversações es-
pontâneas, coletadas em situações e contextos variados. As gravações espon-
tâneas não utilizaram video-tape (da mesma forma que o material do Projeto
NURC), já que não se considerou a configuração não-verbal (gestos, mímica e
outros).
A escolha das três modalidades deveu-se ao fato de que se julgava
possível encontrar uma freqüência significativa de casos de correção nos in-
quéritos em que há maior convergência de situação menos formal e maior
troca de turnos. De fato, esses dados repercutem na formulação do texto: quan-
to maior a troca de turnos, isto é, a dialogicidade, menor a formalidade e maior
o número de correções encontrado, revelando, claramente, nas marcas deixa- 53
das no texto, o processo de co-autoria. É preciso salientar que o tipo de inqué-
rito e não o tempo de gravação parece ser fator determinante quanto à localiza-
ção das correções.
Considerando-se a relação dialogicidade/ formalidade numa escala
decrescente/crescente, foram analisados:

– Diálogos entre dois informantes (D2)


São Paulo inquérito 360
São Paulo inquérito 396
Recife inquérito 05

– Diálogo entre informante e documentador (DID)


São Paulo inquérito 234
Recife inquérito 131
Rio de Janeiro inquérito 328

– Elocuções formais (EF)


São Paulo inquérito 405
São Paulo inquérito 377
Rio de Janeiro inquérito 379

Neles foram localizadas 75 correções (o que mostra ser a correção um


dos mecanismos mais utilizados na língua falada), assim distribuídas:

D2 32

DID 28

EF 15

Como o trabalho está voltado para a elaboração de uma gramática refe-


rencial da língua falada, “é necessário identificar regularidades na construção
do texto falado, regularidades dadas pela recorrência em contextos definidos,
pelas marcas formais que os caracterizam e pelo preenchimento de funções

54
que lhes são específicas” (Proposta Teórica), já que somente a junção desses
dados permite chegar-se à sistematicidade do processo.

2. Bases Teóricas
Como já foi dito, esta pesquisa integra o Projeto Gramática do Por-
tuguês Falado, subgrupo “Organização Textual-Interativa” cuja proposta teó-
rica (Koch et alii, 1994), assentada na Pragmática, na Lingüística Textual e na
Análise da Conversação, vê a linguagem como atividade de interação social,
isto é, como manifestação de uma competência comunicativa, definível como
“capacidade de manter a interação social mediante a produção e entendimento
de textos que funcionam comunicativamente” (id. ibid.).
Essa competência comunicativa não exclui a competência lingüística
(conhecimento de um sistema de regras interiorizado pelos falantes e que lhes
permite produzir e interpretar orações) nem a ela se adiciona, mas, pelo contrá-
rio, a requer para a formulação e compreensão textual.
O texto, unidade global de análise, “um subproduto que congrega e
sinaliza o processo de produção e interação, é visto como lugar privilegiado
para a identificação de pistas que marcam as regularidades e caracterizam o
sistema de desempenho lingüístico, constituído dos subsistemas fonológico,
morfossintático e textual” (Nascimento, 1993).

3. A Correção Enquanto Atividade de Formulação

3.1 Conceituação e Propriedades Identificadoras


Segundo Antos (1982: 92), o locutor que produz um enunciado não
efetua somente uma seqüência, mas realiza uma atividade intencional: formu-
lar é efetivar atividades que estruturam e organizam os enunciados de um texto.
“Formular um texto não é só planejá-lo, mas também realizá-lo” (id. ibid.) e o
esforço que o locutor faz para produzir um enunciado se manifesta, como já
foi dito, por traços que ele deixa em seu discurso, isto é, formular um texto não
significa simplesmente deixar ao interlocutor a “tarefa” da compreensão, mas
significa deixar, através das marcas, pistas para que ele, interlocutor, se esforce
por compreendê-lo; isso faz com que a produção do texto falado seja ação e
interação. “A compreensão nunca se realiza na perspectiva de um dos interlo-
55
cutores. É preciso que a ação de ambos convirja para que ela ocorra” (Hilgert,
1989: 147).
Partindo-se dessa concepção, é possível observar as atividades de for-
mulação em ocorrências nas quais não há evidência de “problemas” de proces-
samento e linearização e um outro tipo em que há evidência de “problemas” de
formulação e é preciso resolvê-los.
As situações que desencadeiam essas atividades de formulação aqui
denominadas “problemas”, segundo Antos (id.), recebem diferentes denomi-
nações: trouble-source (Schegloff, Jefferson e Sacks, 1977: 363), störungen
(Gulich e Kotschi, 1987: 233), turbulências (Marcuschi, 1986: 30). São cons-
tituídas por:
– hesitações, quando o “problema” é captado durante sua formulação/
linearização, isto é, on line, caracterizando-se por seu aspecto prospectivo, já
que tem como escopo algo que vem depois;
– correções e alguns tipos de paráfrases e repetições1 (denominados
por Gulich e Kotschi (id.) de refrasagens: repetição de uma estrutura léxico-
gramatical), quando o “problema” é captado após sua formulação, isto é, ele é
textualmente manifestado e dá-se, então, uma reformulação (re + formulare =
formular de novo). Estas reformulações apresentam um aspecto retrospectivo,
tendo como escopo um elemento anterior.
Vejam-se os exemplos:

(1) L1 ... não tem ainda assim muita::...


éh uma... um objetivo a atingir sabe?
(SP-D2 360: 1290-92, p.169)

(2) L2 depois disso ainda ti/tive problemas


de...saúde problemas de tiróide não sei que::
(SP-D2 360: 75-76, p.138)

(3) L1 a irmã dela eu conheço que é jornalista né? é uma moça jornalista...
L2 poetisa
L1 poetisa...
(SP-D2 333: 622-625, p.249)

56
Em (1), L1, seguindo o curso normal da formulação depara-se com um
problema de formulação/ linearização: encontrar a palavra adequada para dar
seqüência ao turno: após uma... hesita e acha a palavra adequada: um objetivo.
Em (2), a locutora julga importante explicitar problema de saúde, re-
duzindo a abrangência do enunciado-fonte: problema de tiróide, criando uma
paráfrase.
Em (3), L2 corrige L1 – jornalista X poetisa – que no terceiro turno
acata a fala de L2, instaurando uma correção.
A correção, objeto de estudo deste trabalho, desempenha papel consi-
derável entre os processos de construção do texto, como demonstra o número
elevado de correções encontradas nos inquéritos analisados. Corrigir é produ-
zir um enunciado lingüístico (enunciado reformulador – ER) que reformula
um anterior (enunciado fonte – EF), considerado “errado” aos olhos de um dos
interlocutores; a correção é, assim, um claro processo de formulação retros-
pectiva:

problema de formulação EF reformulação

retrospectiva correção ER

Veja-se o exemplo a seguir em que L1 percebe um problema de formu-


lação no enunciado de L2 (meu genro), sugere uma reformulação (seu genro
não seu cunhado) e L2, aceitando , processa a correção:

(4) L2 a filha do Osvaldo... nesse tempo


meu genro era...
L1 ( )
L2 vereador parece

L1 seu genro não seu cunhado


[
L2 meu meu
cunhado que já morreu que foi vereador
(SP-D2 396: 1510-1514, p.218-219)

57
O enunciado X (meu genro) é reformulado pelo enunciado Y(seu
cunhado) com a finalidade de garantir a intercompreensão, podendo-se
depreender o seguinte esquema:

X Y= x R y (R = relação semântica)
R

É necessário salientar que a paráfrase e a refrasagem (= quase repeti-


ção) têm também a função de assegurar a intercompreensão, porém “elas se
diferenciam pela natureza da relação semântica (R) que liga o enunciado
reformulador (Y) ao enunciado fonte (X) e pelos marcadores de reformula-
ção” (Gulich e Kotschi, 1987: 43).
Na paráfrase há uma relação de equivalência semântica, na refrasagem,
de sinonímia denotativa e na correção, de contraste, entendendo-se essas rela-
ções no sentido que lhes dá a semântica estrutural (Greimas, 1966; Lyons,
1977).

(5) temos o caso por exemplo aqui do nosso sindicato...que recentemente


construiu... uma sede...um edifício de quatro pavimentos... edifício
moderno
(RE-DID 131: 65-68, p.2)

(6) L2 (...) depois o café::


em casa o café é muito demorado... muito complicado
(SP-D2 360: 311-312, p.144)

(7) L1 agora tem sempre...


L2 um já ajuda o outro
L1 numa família grande há sempre um com tarefa de supervisor...
por instinto não é por obrigação...
(SP-D2 360: 188-191, p.141)

Em (5) a fala de L2 mantém a mesma dimensão semântica da fala de


L1, instaurando-se uma paráfrase.
58
Em (6) há uma relação de sinonímia, efetivando uma refrasagem. Esse
tipo de reformulação pode ser incluído na categoria das repetições, conforme o
fez Gaulmyn (1987) para quem se torna problemático o limite entre as repeti-
ções e as paráfrases. Esse autor inclui entre as repetições os casos em que as
mesmas palavras reaparecem, mas podendo aí ocorrer redução, expansão,
reordenação, já, nas paráfrases, delimita os casos que apresentam uma substi-
tuição sinonímica, uma explicação ou uma ilustração.
Em (7), L1 emprega o verbo ter no sentido de haver e, após o turno de
L2, reformula seu enunciado com o verbo haver, efetuando uma correção.
Neste inquérito observa-se uma preocupação de L1 em empregar a norma
culta, visto estar ciente de quem é seu interlocutor (falante culto). O enfoque,
então, é interacional, já que, ao reformular seu enunciado, L1 preserva sua
imagem diante de L2.
Por apresentarem traços comuns, a reformulação de ter por haver não
ocorreria se a conversação fosse efetivada por falantes que se utilizassem de
outras variantes da língua. Para eles, não haveria contraste semântico, mas
sim, uma espécie de neutralização entre os dois termos.
Como se pôde observar no corpus, muitas vezes são tênues os limites
entre paráfrase e correção e certos casos podem ser considerados – como já
assinalou Barros (1993) – tanto paráfrases como correções, ocorrendo uma
neutralização entre as oposições.
O que se pode observar é que na paráfrase é maior o ponto de contato
em relação à questão da equivalência semântica, enquanto na correção este
ponto de contato é menor.
Além disso, merece ser incluído o aspecto pragmático-interacional, pois
em muitos casos ele se coloca como elemento norteador para que se efetive a
reformulação, como se observou em (7).
Gulich e Kotschi também consideram difícil a delimitação entre pará-
frase e correção porque na correção o “erro” não é necessariamente erro, mas
assim é considerado e, como tal, substituído por um outro termo. Daí resulta
para a correção a mesma estrutura básica da paráfrase:

EF ER

Após o exame dos limites entre paráfrase e correção, torna-se necessá-


rio observar as diferenças entre correção e hesitação, já que esta última consti-
tui também uma atividade de formulação.
59
Observem-se os fragmentos:

(8) L2 é...es/essas esses progressos...houve isso houve muito progresso


(SP-D2 333: 379-380, p.243)

(9) ...tendo em vista os elevados custos... que


nós...habitualmente verificamos...quando se
trata por exemplo de uma...de um pro/quer dizer de um
problema de internação... hospitalar por exemplo
(RE-DID 131: 15-17, p.1)

Exemplos como esses revelam o que já foi apontado por Koch e


Osterreicher (1990: 60) de que “em todas as línguas existem procedimentos e
elementos que permitem introduzir no interior do discurso o próprio processo
de formulação tão logo surgem dificuldades de formulação na ‘prospectiva’ o
que dá tempo e facilita a compreensão”.
Nos dois casos há uma retomada da construção para reelaborar os enuncia-
dos. Como observa Marcuschi (1993: 92), “a hesitação deve ser vista como uma
evidência de planejamento e verbalização simultâneos (...). A hesitação diz res-
peito (Petrie, 1987) ao como se está falando e não ao que se fala...”.
Chafe (1985:18) também afirma que a hesitação constitui uma “evi-
dência de que a fala não é matéria de regurgitação de materiais já estocados na
mente em forma lingüística, mas é um ato criativo, relacionando dois meios,
pensamento e linguagem, que não são isomórficos, mas que requerem ajustes
e reajustes mútuos”.
A hesitação difere da correção porque esta, como já dissemos, repre-
senta uma solução a um dado problema de formulação retrospectiva, enquanto
a hesitação é produzida na prospectiva.

Problema de formulação

hesitação prospectiva

Um critério de distinção entre hesitação e correção é o que diz respeito


ao estágio de desenvolvimento da formulação/reformulação textual. Nos ca-
60
sos de ocorrência de hesitação, detecta-se uma interrupção no fluxo informa-
cional, devido a uma má seleção futura de um ou mais termos do enunciado,
resultando um enunciado ainda não concluído do ponto de vista da organiza-
ção sintagmática. Por outro lado, instaura-se uma correção num ponto em que
uma má seleção já se efetivou, o enunciado já poderia ser considerado como
concluído do ponto de vista sintagmático, mas é necessário reformulá-lo, por
motivos já expostos neste trabalho.
Desse modo, casos como os dos exemplos (8) e (9) são aqui considera-
dos hesitações e não correções como o fazem alguns lingüistas.
Comumente se considera a correção um mecanismo que repara infra-
ções a regras conversacionais (Sacks, Schegloff e Jefferson, 1974), porém a
visão aqui proposta é mais ampla, já que se considera o papel da correção na
construção do sentido do texto.

3.2 Tipos
O exame do corpus confirmou a existência de dois tipos de correção: a
infirmação (do latim infirmare = anular, revogar, invalidar) e a retificação
(do latim rectificare = que segue sempre a mesma direção)2 .
Consideremos os exemplos:

(10) L1 ela vive dançando a Laura a:: Estela a Laura não se


definiu tenho a impressão de que ela vai ser PROmotora...
(SP-D2 360: 1374-1376, p.171)

(11) L1 então eu tenho impressão de que quando o menor... já::


estiver assim... pela quarta série terceira quarta série...
ele já estará mais independente e::
(SP-D2 360: 1225-1228, p.167)

No exemplo (10), o enunciador L1 anula a Laura, substitui por Estela


e volta a anunciar explicitamente: a Laura não se definiu; há, portanto, uma
anulação do enunciado-fonte (a Laura), que é substituído por a Estela e este,
por sua vez, é reformulado por a Laura.
61
Já no exemplo (11), L1 corrige parcialmente o enunciado-fonte, alar-
gando-o: terceira quarta série.
O mesmo tem-se em:

(12) Inf. ..então como eu ia explicando... no início do século vinte ou melhor no


século dezenove... só existiam... a Europa e a... Ásia... bom... forma-
das... por culturas diferentes... atravessando situações históricas de feu-
dalismo diferentes...
(RJ-EF 379: 45-47, p.76)

– em que a locutora, professora, explica em aula sobre geografia eco-


nômica como se deu a industrialização japonesa, quando afirma que no século
vinte só existiam a Europa e a Ásia, mas imediatamente anula no século vinte,
corrigindo-o para século dezenove. Trata-se de uma infirmação.
Já em:

(13) L2 (então a firma) não pode tirar das pessoas... dos seus próprios clientes
(SP-D2 360: 1106-1107, p.164)

ou

(14) L1 então ele quer ser cientista... arqueólogo


(SP-D2 360: 1455, p.173)

em que temos uma retificação.

O mesmo ocorre nas conversações espontâneas a seguir:

(15) L1 você mora em São Paulo, hein?


L2 em São Paulo não... na periferia

(16) L1 você mora agora em São Paulo, hein?


L2 Finalmente... na periferia

62
Supondo-se um contexto em que o status de morar ou não na periferia
seja decisivo, observa-se que em (15) q substitui p (infirmação) e em (16) não há
anulação “da verdade” do enunciado-fonte (retificação); trata-se de uma refor-
mulação a mais, podendo-se, inclusive, introduzir um sim (Charolles, id. ibid.):

(16a) L2 sim... finalmente... na periferia

Rath (1979:181) também participa desta posição dizendo que, por meio
do enunciado-reformulado, o locutor anula total ou parcialmente a formulação
do enunciado-fonte.
Considerando-se esses dois tipos de correção, cabe-nos agora exami-
nar os aspectos linguístico e enunciativo encontrados nos inquéritos analisa-
dos, lembramos que tal divisão ocorreu somente por uma questão metodológi-
ca, já que esses aspectos estão integrados na construção textual.

I – Lingüísticos:
a) fonético-fonológico: em que se observa uma correção de pronúncia ou de
articulação.

(17) evidentemente que a democracia para a democracia plana plena... esta


nunca existiu
(RE-DID 131: 494-495, p.14)

Esse foi o caso menos freqüente no corpus; a bem da verdade, há so-


mente 9 ocorrências. Explica-se pelo fato de ser o corpus do Projeto NURC
constituído de gravações de norma urbana culta em que os falantes têm nível
universitário e conhecem a “boa pronúncia”, pouco “errando”; assim, os casos
encontrados são relativos à correção da articulação.
Muitas vezes, não se trata de uma correção, mas sim, de uma hesitação,
já que o falante pode, antes de terminar um vocábulo, interromper e ele mesmo
efetivar a elaboração adequada, como ocorre em:

(18) L2 mas a gente está esperan::do::... não sai nada


L1 é da pe/ da prefeitura... e ... para procurador do Estado...
(SP-D2 360: 504-505, p.149)
63
b) lexical: em que a seleção léxica não era a pretendida e há uma substituição:

(19) Inf. e do outro lado três potências também capitalistas FORTES...


Alemanha e Fra/ e a Itália principalmente... perdão Alemanha e o
Japão principalmente e a Itália... que também a gente vai dar um pou-
co mais de atenção a ela e à Alemanha dentro da Europa
(RJ EF 379: 136-139, p.79)

(20) L2 de eu poder trazer para casa porque aí eu fico trabalhando em casa mas
tomando conta toda hora preciso interromper no meio de um negócio
para::...levar um ao banheiro para dar uma comida para outro::...e as
coisas de casa que a gente aten/tem que atender
normalmente com crianças BRIgas que a gente tem que
repartir
[
L1 apartar
L2 tem que apartar:: isso toda hora...mas:: aí
(SP-D2 360: 486-494, p.148)

(21) L2 vovó tinha um:: um sírio um turco... que ele vinha trazer
em casa para ela (a sacola) ( )
(SP-D2 396: 757-759, p.199)

c) morfossintático: quando a concordância, a regência, etc. são mal formula-


das (má formação da frase).

(22) L2 ele já ia à escola da manhã que eu comecei quando eu


comecei a trabalhar... comecei a trabalhar a dois anos
(SP-D2 360: 1374-1375, p.145)

(23) Inf. eu acho que eles têm mais... éh mais preparo mais... sei lá:: eles...
devem... deve ser outro tipo de de de trabalho né?
(SP-DID 234: 240-241, p.109)

64
(24) Inf. porque é através desse sistema democrático que nós podemos...
obter como já disse anteriormente e repito... toda... uma série eNORme
de reivindicações... reivindicação essa essas que são evidentemente as
maisimportantes
(RE-DID 131: 525-30, p.15)

II – Enunciativos:
A formulação não é a que se pretendia, então reformula-se, ao mesmo
tempo em que se imprime ao enunciado um caráter de maior subjetividade.
Embora não tenhamos conduzido a pesquisa sob esta perspectiva, observa-se
que a subjetividade pode ser tratada quanto ao nível ilocutório, efetivando-se
por modalizações epistêmicas, como se verifica em:

(25) L1 mas são muito acomodadas... ainda não começaram assim...


aquela fase... chamada de... mais difícil de crítica
[
L2 (chamada mais difícil)
L1 né?
L2 ahn anh
L1 ainda não... felizmente ainda não começaram agora eu acho
que:: eu...
(SP-D2 360: 43-51, p.137)

(26) Inf. ...aquelas comidas assim muito típicas lá da...da Bahia... e


são... eu achei gostosas
(RJ-DID 328: 191-192, p.140)

4. Operacionalização
Nas correções devemos considerar quem tem a iniciativa e quem a
processa, permitindo visualizar:

65
– autocorreções auto-iniciadas;
– autocorreções hetero-iniciadas;
– heterocorreções auto-iniciadas.

A autocorreção auto-iniciada é a processada pelo próprio falante e pode


ocorrer no mesmo turno ou em turno diferente. O mais comum é que ocorra no
mesmo turno e geralmente na mesma frase porque o falante tem pressa em cor-
rigir-se, já que pode perder o turno e a oportunidade de reformular seu enuncia-
do. (Schegloff, 1979: 267-268). “Talvez, diz Marcuschi (op.cit., 32) seja este um
dos motivos de muitas sentenças na conversação serem truncadas, já que se
prefere sacrificá-las a perder a oportunidade de reparar um equívoco”.
O exemplo (27) mostra o falante se auto-corrigindo sob o aspecto lin-
güístico (fonético-fonológico). Já o exemplo (28) mostra claramente a
autocorreção hetero-iniciada3 :

(27) Inf. uma OUtra forma de:: de (se) estudar a inteligência...seria mais uma frase
de... de:: evolução da inteligência... FA::ses da inteligência...
(SP-EF 377: 333-35, p.30)

(28) L1 aquela sua amiga a:: Andréa que está estuda::ndo medicina
L2 não não é medicina...
L1 ah é...é enfermagem...então ela estava me dizendo que...a
profissão exige mu::ita dedicação
(Conversação espontânea)

Na heterocorreção auto-iniciada, o falante corrente inicia a correção


que é efetivada pelo interlocutor. De modo geral, esta correção pode ser confir-
mada no terceiro turno, quando o falante que produziu a inadequação retoma a
palavra, aceitando a reformulação feita pelo interlocutor:

(29) L1 ah...a professora mandou ler os contos de Rubem Braga...


não::o não é Rubem Braga este é cronista é...é...
L2 Fonseca... Rubem Fonseca... o autor de “A Grande Arte”
L1 esse mesmo Rubem Fonseca... você tem razão
(Conversação espontânea)
66
5. A Questão das Marcas
Gulich e Kotschi (op.cit.) dizem que os diferentes tipos de reformula-
ção não se distinguem unicamente pela relação semântica existente entre o
enunciado-fonte e o enunciado-reformulador, mas também pelo tipo de mar-
cador empregado para indicar esta relação: “...é freqüentemente com a ajuda
do marcador que o locutor cria uma relação de reformulação entre dois enun-
ciados diferentes. Uma relação semântica – por exemplo, a da equivalência –
não é dada simplesmente (pela estrutura proposicional do enunciado-fonte e
do enunciado-reformulador), mas é estabelecida pelo locutor. O marcador é
um traço deixado no discurso pelo trabalho conversacional do locutor”(p.44).
Muitas vezes, torna-se visível a presença dos três elementos:

Enunciado Fonte (EF)


Marcador (MC)
Enunciado Reformulador (ER)

Observando-se o diálogo a seguir:

(30) Doc. que tipo de carreira...fora essa...seriam digamos conveniente...


L2 eu acho que isso seria qual/qualquer uma( ) quer dizer::oo::
lado...de ciências mais human/ah de o lado humano o ou de::...
ciências exatas como chamava-se no MEU tem::po (riso)
(SP-D2 360: 648-54, p.152)

– vemos que, na resposta de L2 ao Documentador, há claramente a


presença de três elementos: enunciado-fonte, marcador de reformulação e enun-
ciado-reformulador:

qualquer uma (EF)


quer dizer:: (MC)
oo::lado...de ciências mais human/ah de (ER)
o lado humano o ou de::...ciências exatas

67
O exame do corpus mostrou que a correção é sempre acompanhada de
um sinal explícito que marca seu caráter reformulador (Gulich e Kotschi, op.cit.).
Isto não significa que deva haver sempre um marcador verbal em todas as
ocorrências; muitas vezes, ele não foi encontrado, mas, sim, certas marcas
prosódicas que vão exercer essa função, como, por exemplo, a ênfase dada ao
elemento corretor, a mudança na curva entonacional. Assim, é possível distin-
guir-se dois tipos de marcas: prosódicas e verbais e, embora tenhamos feito
apenas um levantamento preliminar, notamos que as primeiras predominam.

5.1 Prosódicas
As principais marcas prosódicas encontradas são:

pausa 60%
mudança na curva entonacional 30%
velocidade da elocução 24%
alongamento 19%
intensidade de voz 19%

“Essas manifestações são, porém, muito disseminadas no texto,


têm natureza multi-funcional, o que torna a análise muito difícil e se
articulam freqüentemente com instâncias extra-lingüísticas” (Hilgert,
1989:194).

Constituem instâncias extra-lingüísticas marcas não verbais, como os


gestos, o riso, o olhar, entre outras, não tratadas neste trabalho. É muito fre-
qüente a combinação de duas ou mais marcas: mudança na curva entonacional
e velocidade da elocução, mudança na curva entonacional e marcador verbal
geralmente com intensidade de voz, etc. Cabe apontar que os fenômenos estão
sendo considerados sem que se levem em conta as fronteiras de ocorrência.
No exemplo (31), a linha entonacional do enunciado-reformulador é
mais baixa do que a do enunciado-fonte, além de haver uma maior velocidade
da elocução:
68
(31) Inf. ...geralmente eu almoço em volta de/por volta de meio dia e janto
por volta das sete horas... sete e meia...
(RJ-DID 328: 597-99, p.151)

e no (32) há uma ruptura na curva entonacional e o marcador NEM é acentuado:

(32) L2 a paralisação de transportes coletivos transformou a cidade


num verdadeiro caos também TODOS os funcionários
aderiam à greve
L1 é verdade... demorei quase duas horas para chegar na empresa
L2 quer dizer... NEM todos... a maiori::a dos funcionários porque
havia alguns ônibus circu::lando...
(Conversação espontânea)

5.2 Verbais

Os marcadores verbais constituem uma classe bastante heterogênea. O


exame do corpus mostrou a existência de:

5.2.1 expressões estereotipadas:

quer dizer ou melhor


em outras palavras não é bem assim
em termos perdão
digamos desculpe
digamos assim

69
5.2.2 morfemas diversificados (advérbios, conjunções, interjeições)
como:

não bom ah bom


ah aliás então
ahn ahn ou logo
hein nada finalmente

Entre essas marcas, algumas parecem ser diferentes: não é tipicamente


de infirmação e enfim, finalmente, quer dizer, de retificação, embora este últi-
mo seja típico de paráfrase (é necessário fazer-se um estudo mais aprofundado
desses marcadores)4. Isto fez Gulich e Kotschi dividirem os marcadores em for-
tes e fracos: fracos quando a relação semântica entre os dois termos da reformu-
lação é claramente reconhecível; então um marcador fraco é suficiente para marcar
a atividade reformuladora; fortes quando a relação semântica entre os dois ter-
mos da reformulação é fraca e um marcador forte pode compensá-la.
Afirmam ainda que os diferentes tipos de reformulação se distinguem,
em princípio, pelo emprego de marcadores diferentes, isto é, quer dizer seria
um marcador típico de paráfrase, não, de correção etc. Este fato nem sempre
se confirmou em nossas análises, pois encontramos no corpus quer dizer para
correção (ex.33); no caso do não este fato parece confirmar-se (ex. 34), porque
ele indica explicitamente que é preciso anular o elemento precedente.

(33) Inf. ... a mão de obra ainda é a RIQUEZA do Japão...claro...população


de cento e tanto milhões...TODA ELA integrada à produção...
TODA quer dizer...pelo menos na sua grande parte...
(RJ-EF 379: 280-283, p.83)

(34) Inf. ...eu acho que é... é tá... tacacá... se não me engano... o nome da farinha que eles
usam... é uma farinha tirada de uma folha de árvore... uma
coisa assim... que eles depois fazem uma farinha... eu realmente não me
detive muito
Doc.não é tacacá...não... é uma outra erva...
(RJ-DID 328: 148-154, p.139)

70
Justifica-se, desse modo, a classificação em marcadores fortes e fracos,
já que há marcadores que, apenas por sua significação lexical, não distinguem
o tipo de reformulação.
Sabemos, também, que o tipo de análise aqui realizado apresenta um
problema já detectado por Charolles (op.cit.): a observação de um corpus, por
mais rico que ele seja, não permitirá o exame de todos os contextos em que
esses marcadores podem ocorrer e, conseqüentemente, das restrições estrutu-
rais e semânticas que recaem sobre eles.
É preciso salientar que os marcadores de correção constituem-se numa
subcategoria dos marcadores conversacionais e não são exclusivos deste pro-
cedimento de reformulação.

6. As Funções da Correção
As correções apresentam a função geral de caráter interacional, no
que diz respeito à busca de cooperação, intercompreensão e ao estabelecimen-
to de relações de envolvimento entre os interlocutores, como ocorre no exem-
plo a seguir:

(35) L2 (...)às vezes a dificuldade que se encontra porque tem muito::s...


executivos...de idade...mais ou menos razoável dentro do que eles que-
rem porque...
L1 a mínima...
[
L2 funciona realmente aquele negócio de...
[
L1 requerida...
L2 aquele negócio de limite de idade funciona (muito)...
[
L1 quarenta anos...
L2 não normalmente é no máximo
[
L1 no máximo
71
L2 né?
L1 no máximo
L2 é:: no máximo...existe para alguns
(SP-D2 360: 975-88, p.160-61)

(36) L2 escrever PAra a faculdade...pedindo os melho/os nomes


dos melhores alunos... dos últimos anos...para poder eh poder
procurar
[
L1 localizar
L2 para poder localizar
(SP-D2 360: 942-46, p.160)

Nos exemplos citados anteriormente, verifica-se que, ao corrigir seu


interlocutor, o falante encontra uma possibilidade de participar da conversa-
ção, cooperando para o seu desenvolvimento; já que a correção apresenta um
caráter de retomada, evidenciando não só envolvimento entre os interlocutores,
mas também atenção, interesse pela fala do outro, mesmo que haja discordância.
Queremos ressaltar que a função interacional pode, por exemplo, ori-
entar o foco de atenção para elementos específicos; sobre:

a) o tópico: esclarece o interlocutor sobre o conteúdo objetivo da mensagem.

(37 ) Inf. (...) eu ia dizendo é o seguinte – ...que não é à toa que a atual indústria
naval japonesa... atual e já no início do século vinte... ela havia
tido uma das maiores motivações... quais sejam...
(RJ-EF 379: 67-69, p.77)

Quando o locutor faz uma pausa e reformula seu enunciado, tem por
objetivo a adequação do conteúdo tópico, visando à precisão referencial, já que
não se trata da atual indústria naval, mas sim, da indústria naval do início do
século até a atualidade. Nesse exemplo, o locutor busca levar seus interlo-
cutores, já que se trata de uma aula, a compreender com exatidão suas informa-
ções.
72
b) os interlocutores e as relações entre eles: esta função relaciona-se à compre-
ensão da posição social – devido à adequação às normas lingüísticas e
sociolingüísticas (ex. 38), ou à preservação da auto-imagem pública (ex.
39). Podem ocorrer casos em que as correções se efetivam para evidenciar
as opiniões dos interlocutores (cf.exs. 25 e 26).

(38) Inf. ao secretário evidentemente...levar: ao senhor presidente...todas


aquelas questões...que diz que dizem respeito... aos associados
(RE-DID 131: l.229-31, p.6)

Nesse exemplo, o falante busca, pela correção, evidenciar sua posição


social, adequando sua fala ao registro sociolingüístico do “bem falar”.

(39) L2 (...) toda a parte eh praticamente toda a parte jurídica do Estado


é feita... não espera aí ((risos)) já estou exagerando não é toda a
parte jurídica...do Estado...mas todos::... mas a grande parte
jurídica do Estado... como a de... to/todo o ser/ todo serviço de
advocacia do Estado... é feita por procuradores do Estado
(SP-D2 360: 806-11, p.156)

Nesse caso, registra-se uma ocorrência de manutenção da face. L2


autocorrige-se, buscando adequar a informação referente à parte jurídica do
Estado, já que sua interlocutora tem condições de averiguar a exatidão dessa
informação por ser casada com um procurador do Estado, podendo – inclusive
– invalidar a informação dada por L2, pondo em risco sua face.
No corpus não são freqüentes correções que se relacionam à posição
social do falante, dada a natureza desse mesmo corpus.

Conclusão
A correção desempenha papel considerável entre os processos de cons-
trução do texto falado como mostra o número de correções encontradas nos
nove inquéritos analisados e baseia-se, como já dissemos, na relação de con-
traste. Esse trabalho procurou conceituá-la como uma estratégia de reformula-
73
ção textual, quando o falante encontra “problemas” e deve resolvê-los. Foram
examinados os tipos de correção, sua operacionalização, funções e marcas.
No que concerne à possibilidade de ocorrência de correções na conver-
sação, observou-se que há uma forte tendência a que os falantes reciclem o que
disseram e se expressem de um modo diferente, o que revela a existência de
uma norma conversacional.
Pode-se dizer que há uma ordem de reelaboração e ela não é ocasional
ou aleatória. Isto aponta para um possível local relevante para a ocorrência de
correção, o que leva a reafirmar5 que as ocorrências de composição do texto
conversacional são produto de uma organização local, específica da oralidade,
já que o falante tem a possibilidade de usar uma palavra ou estrutura que aca-
bou de produzir ou, ainda, procurar uma nova e/ou mais satisfatória que per-
mita a intercompreensão.
Assim é possível afirmar que as correções correspondem a um proces-
so altamente interativo e colaborativo. Quando usadas apropriadamente, colo-
cam-se como um dispositivo dinâmico, em potencial da língua falada; entre-
tanto, é possível deixar passar um evento sem que se corrija o interlocutor. As
razões da não efetivação dessas reformulações podem ser várias, entre elas
destaca-se a tentativa de preservação da face do outro. Caso ocorram, o grau
de monitoração da correção varia de acordo com a situação comunicativa e
com fatores pessoais.
Ainda no que se refere à questão da manutenção das faces, pode-se
dizer que a auto-correção se realiza com o intuito de preservar a auto-imagem
pública. Certamente, é esta a razão de terem sido encontrados um número
maior de ocorrências desta no corpus.

NOTAS
1
A paráfrase, a repetição e a hesitação estão sendo objeto de estudo de outros pesquisa-
dores do grupo.
2
Esta é a terminologia adotada por Charolles (1987).
3
Não consideramos correção quando há sobreposição de vozes, porque o intelocutor
fala simultaneamente com o falante, tornando impossível dizer-se que houve uma cor-
reção.
4
Os marcadores conversacionais estão sendo estudados por outros pesquisadores do
grupo.
5
Conforme proposta teórica do subgrupo “Organização Textual-Interativa”.

74
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76
O RELEVO NO PORTUGUÊS FALADO:
TIPOS E ESTRATÉGIAS, PROCESSOS E RECURSOS

Luiz Carlos Travaglia


(Universidade Federal de Uberlândia)

1. Introdução
Chamamos de relevo ao fenômeno de o falante, ao falar, formulando,
construindo, constituindo seu texto:
a) dar destaque a determinados elementos1 dentro desse mesmo texto,
colocando-os em proeminência em relação a outros ou
b) fazer um rebaixamento, “ocultamento” de determinados elementos
em relação a outros.

No primeiro caso, temos um relevo positivo, pelo qual, dentro do de-


senvolvimento do tópico discursivo, os falantes fazem relevo de determinados
conteúdos ou aspectos do que dizem (partes da seqüência lingüística), dando
um destaque especial a certas entidades e informações ou a um conjunto de
elementos do texto ou a um tipo de elemento dentro do texto, que ficam então,
de alguma forma, em um plano mais elevado que os demais elementos do
mesmo texto. No segundo caso, temos um relevo negativo, pelo qual, por al-
guma razão, o falante quer que determinado(s) elemento(s) do texto passem
despercebidos ou não tenham a atenção do interlocutor, não porque sejam sem
importância, mas quase sempre por questões de argumentação ou questões
ligadas às relações entre ele e o interlocutor2. Apenas para efeito de distinção
podemos chamar o relevo positivo de proeminência e o relevo negativo, de
rebaixamento. Assim com relação ao relevo podemos propor que os elemen-
tos do texto teriam um “status” proeminente, normal ou rebaixado.
O relevo pode ser local, quando se aplica a elementos pontuais isolados
do texto, mas pode ser mais abrangente quando atinge um determinado tipo de
elemento do texto em relação aos outros.
Parece que o falante dá relevo a elementos dentro do desenvol-
vimento do tópico discursivo por razões diversas, sobretudo por razões
ideacionais/cognitivas, argumentativas e emocionais, com diferentes fun-
ções. O relevo, assim, estaria ligado à estrutura ideacional e interacional
do texto.
Entre as funções do relevo positivo a básica é exatamente dar destaque/
proeminência, que pode ter funções derivadas tais como: a) enfatizar; b) inten-
sificar; c) marcar um valor especial, indicando que o elemento em relevo deve
ser tomado num sentido diverso do habitual, muitas vezes contrário; d) estabe-
lecer contraste; e) reforçar um argumento; f) marcar importância para a estru-
tura ideacional/informacional; g) marcar o foco informacional etc. Nada pode-
mos dizer quanto às funções do relevo negativo, já que não encontramos ocor-
rências do mesmo no “corpus” analisado.
Sem dúvida, marcar relevo é um recurso de organização do texto, so-
bretudo no que diz respeito aos elementos ideacionais do mesmo, marcando
avaliações que o produtor do texto faz basicamente sobre o conteúdo do texto,
mas também sobre alguns elementos da interação. A própria apresentação que
o produtor do texto faz para o receptor dessas avaliações representa já um
aspecto interacional, pois na verdade o produtor com tal relevo está propondo
ao seu interlocutor uma direção e não outra dentro da interação a que o uso do
texto está servindo. Esse direcionamento representa uma dimensão argumen-
tativa (em sentido amplo) do relevo. O relevo parece marcar como o produtor
do texto representa os elementos constitutivos do texto, como ele propõe que o
ouvinte represente o texto.
O objetivo básico deste trabalho é estudar a atividade de se produzir
relevo na constituição de um texto (no desenvolvimento do tópico discursivo e
em alguns aspectos interacionais), procurando:
a) levantar os tipos de relevo que podem ser encontrados na língua
falada;
b) elencar os recursos lingüísticos de diferentes tipos ou ordens que os
falantes usam na Língua Portuguesa falada para marcar a proemi-
nência ou o rebaixamento, configurando o fenômeno da língua que

78
estamos chamando de relevo e observar particularidades de seu fun-
cionamento;
c) identificar funções que o relevo pode ter no funcionamento do texto
em uma dada situação de interação.

Para este fim trabalhamos com os seguintes inquéritos do NURC3:


D2 DID EF
1º grupo
POA 291 (80 min.) RJ 328 (40 min.) REC 337 (60 min.) SP 59 (grav. secr.-20 min.)
2º grupo
SP 360 (66 min.) SP 234 (40 min.) SP 405 (35 min.) SSA 231 (46 min.)

2. Tipos de relevo
Como já vimos na introdução, quanto à direção do relevo, este pode ser
positivo (proeminência) ou negativo (rebaixamento).
Quanto à natureza o relevo pode ser de diferentes tipos4:
1) O estabelecimento de contraste entre figura e fundo, entre primeiro
e segundo planos no texto. O objetivo aqui é buscar os mecanismos e recur-
sos (formas, categorias, etc.) envolvidos neste contraste que está ligado à rele-
vância temática, que, segundo Fuchs (1987) seria a relação de uma predicação
com um quadro temático compartilhado pelos interlocutores

Na literatura lingüística sobre o assunto, a maioria dos autores afirma


que o estabelecimento de figura e fundo é função do aspecto verbal (Cf. Hopper,
1982 para o Malaio; Li, Thompson e Thompson, 1982 para o Mandarim;
Rafferty, 1982 para o Indonésio e Travaglia, 1991 para o Português). Outros
autores colocam o estabelecimento de figura e fundo como função dos tempos
verbais (Weinrich, 1968), ou de modos verbais (Kalmár, 1982). Parece, por-
tanto, que o contraste figura/fundo seria sempre função das formas e categori-
as verbais. Estes estudos referem-se sobretudo à língua escrita e foram feitos
em sua maioria com relação à narração.
2) Organização das informações em termos de informações essen-
ciais e secundárias. O falante marca de alguma forma informações que consi-
79
dera essenciais, importantes e outras que considera menos importantes dentro
do tópico que está desenvolvendo, servindo mais à constituição do quadro
temático a que Fuchs se refere.
Alguns autores, como Kalmár, 19825 e Travaglia, 19916, realizaram
estudos em que o verbo aparece como organizador das informações em essen-
ciais e secundárias, mas temos evidências de que não é só o verbo (suas formas
e categorias) que exerce esta função. Temos outros recursos tais como: entona-
ção, elementos lexicais, tipos de oração. Alguns desses recursos marcam cer-
tas informações como importantes para o falante dentro do que ele está colo-
cando no desenvolvimento do tópico e, portanto, como algo que ele vê como
essencial.

3) Indicação de relevância pragmática de uma situação, de algo no


texto (acontecimento, estado, comentário) para a situação presente (o aqui e
o agora) ou para um ponto de referência7.
4) Os fatos de focalização em que se observa o destaque, a proeminên-
cia que se dá a um tipo de elemento do texto. Os tipos de elementos que podem
ser focalizados parecem variar de acordo com o tipo de texto. Como hipótese,
pode-se propor algumas possibilidades teóricas de focalizações diferentes (cf.
Travaglia, 1991), algumas já constatadas, tais como:
a) na narração: foco no participante e seus estados, nos acontecimen-
tos, no falante (narrador)8;
b) na descrição: foco em características de tipos diferentes: psicológi-
cas/físicas, transitórias/permanentes, elementos/atributos, etc.;
c) na dissertação: foco em conceitos e relações, em argumentos ou não
argumentos;
d) na injunção: foco na ação a executar, no executante, no ato de deter-
minar a realização de algo, na justificativa.

Independentemente do tipo de texto, o Português faz focalização de


diferentes elementos (como a informação nova), utilizando recursos diversos:
entonação, velocidade de fala, recursos sintáticos (topicalização, expletivos) e
lexicais (uso de expressões como “importa notar /observar/ registrar, etc.”; “é
importante”; note-se que”, etc.)
Quanto aos planos em que o relevo se instancia e que se caracterizam
pela razão do relevo, temos pelo menos três tipos:
80
1) Fatos de relevo emocional, em que o falante dá destaque a determi-
nados elementos e/ou passagens do texto, em conseqüência de seu envolvi-
mento emocional com o que diz, do impacto emocional que as idéias ou fatos
têm sobre o falante.
2) Relevo argumentativo, quando o falante destaca uma informação
ou argumento que ele julga fundamental dentro do que ele diz, para se chegar
à conclusão que ele deseja;
3) Relevo ideacional/cognitivo, quando o falante aponta determina-
dos elementos como importantes para as idéias que estão sendo colocadas;

Parece-nos que esses tipos não são excludentes e podem aparecer em


conjunção, sobretudo os tipos ligados aos planos de instanciação do relevo.
Assim, por exemplo, é comum termos um relevo ao mesmo tempo emocional/
argumentativo ou ideacional/argumentativo. E toda informação que recebe um
destaque por ser importante para o falante, evidentemente será para ele uma
informação essencial dentro do desenvolvimento de seu tópico. O que ele co-
loca em primeiro plano normalmente é visto como mais importante no desen-
volvimento do tópico do que o que coloca em segundo plano, pelo menos no
sentido de que o tópico não ficaria devidamente desenvolvido se estas infor-
mações fossem eliminadas ou não fossem processadas levando em conta o
destaque que se dá a elas.

3. Recursos marcadores de relevo


Pudemos observar que o relevo é estabelecido por recursos de dife-
rentes naturezas quer quanto ao plano da língua a que pertencem (fônico, lexical,
morfológico, sintático) quer quanto a sua função na constituição do texto (mar-
cadores conversacionais, parênteses, recursos expletivos, etc.).
Na análise dos dados pudemos observar a atuação no estabelecimen-
to de relevo, dos recursos abaixo especificados e que por vezes atuam em
conjunto.

81
3.1 Recursos fônicos
3.1.1 Entonação
Em alguns momentos o falante dá a um determinado trecho um contor-
no entonacional bastante particular destacando-o dos demais trechos. Fica di-
fícil descrever este contorno entonacional sem reproduzi-lo graficamente por
aparelhos apropriados. Seria interessante que especialistas da área de fonética
e fonologia determinassem com exatidão o que há de especial em trechos onde
se percebe a “ouvido nu” algo de particular que dá proeminência a determina-
do trecho.

(1) .... você falando sobre como o ca/ como é o café... isso me ocorreu... é
assim usar frutas... né... de manhã no café... normalmente quando você
vai pra fora...eles servem um... um café bem mais... eh... abundante... né?
você tem frutas... você tem frios... eles servem suco... depois então ainda
servem o café com leite... mas realmente se você tomar isso tudo... me...
onze meia que é a hora que eu almoço... normalmente... eu não tenho
vontade de almoçar... e aí ... já sabe... a minha TAXA de... a gordura
vai aumentar sensivelmente porque come um tanto de coisa ( )
...............
(NURC/RJ DID 328 l. 312-321)

Falando sobre alimentação, nesta passagem a falante, que diz sempre


ter uma preocupação com não engordar, dá um destaque todo especial ao que
emocional e racionalmente seria a razão para ela não fazer um café da manhã
como o que descreve. O relevo aqui tem uma natureza entre emocional e ide-
acional e é argumentativo, mas o que parece provocar a entonação especial
(inclusive num tom meio jocoso, como que rindo) parece ser o componente
emocional que a falante agrega a este elemento.

(2) I1- ........ eu tenho um co nhecido, aliás, um amigo comum nosso que ele
é especialista em comida internacional então vai faze(r) uma comida
chinesa, indiana, qualque(r) coisa até incenso ele queima, bah, só falta
música ambiental, só falta eu me vesti(r) a rigor.
(NURC/POA D2 291 l. 125-129)

O modo como o falante diz dando um destaque é que nos pareceu ter
um caráter emocional, marcando o quanto o fato impressiona o falante, o quão
especial ele acha o modo como o amigo serve.
82
(3) I2- ....... eu acho que é errado que compre inclusive um melhoral sem re-
ceita médica. .. eu acho isso uma monstruosidade, entretanto muito
mais do que o melhoral até mesmo, antibióticos se compra sem receita
médica.
(NURC/POA D2 291 l. 642-643)

Em (3) o falante dá um contorno à pronúncia de “monstruosidade” que


evidencia o quanto, em sua opinião, este fato é errado: a palavra é falada num
ritmo mais lento, quase recortando as sílabas, com um tom mais alto na pri-
meira sílaba que é alongada, abaixando a seguir e voltando a subir na sílaba
tônica. A motivação parece ser um pouco ideacional/cognitiva, mas essencial-
mente emocional e resulta em intensificação da vertente emocional da opinião
do falante.

3.1.2 Altura da voz


3.1.2.1 O recurso
A altura da voz é o tom que o falante usa ao falar determinados elemen-
tos: normalmente sílabas ou palavras e mais raramente trechos maiores do
texto. Existe a altura normal de fala e o falante pode enunciar alguns elementos
em tom mais alto ou mais baixo. Dessa forma a altura, normalmente, pode ser
usada basicamente com dois fins:
a) para destacar (tom alto), por exemplo, informação nova ou informa-
ção considerada fundamental pelo falante para a compreensão do
que ele diz;
b) para apagar, obscurecer, “camuflar” (tom baixo). Neste caso o fa-
lante diz, mas, por qualquer razão, não quer que o interlocutor per-
ceba, preste atenção ou mesmo registre o que ele disse e então usa
uma altura (bem) mais baixa do que a normal de sua fala.

Não encontramos exemplos do segundo caso, talvez, porque quando


isto ocorre normalmente, pelo menos nos inquéritos observados, a fala ficou
ininteligível nas gravações. Os exemplos do uso de uma altura maior para
destacar são bastante freqüentes. Na verdade talvez o recurso fônico mais uti-
lizado em todos os tipos de inquéritos. Vejamos alguns exemplos.
83
No exemplo (1) a falante dá proeminência a “taxa”, usando a altura da
voz, além do relevo já atribuído pelo modo particular de dizer o trecho. Isto
ocorre porque é muito importante para ela não engordar e a taxa de gordura é
fundamental na constituição de sua forma de alimentar-se.

(4) “esses saberes fundamentais sobre o jurídico ... são ciências”... esses
três saberes... não é? são ciências no sentido de que ... representam um
conjunto or-de-na-do de definições... CLASSIFICAÇÕES e proposi-
ções... sobre relações... pertinentes ao direito...”
(NURC/REC EF-337 l. 290-294)

No exemplo (4) a professora em sua aula sobre direito destaca os


elementos que julga fundamentais para o subtópico que desenvolve no mo-
mento de que a sociologia do direito, a filosofia do direito e a dogmática
jurídica são perspectivas de abordagem do direito que mantêm entre si uma
complementariedade e têm caráter científico. É um relevo de natureza idea-
cional/ cognitiva.

(5) a- .......você tá entendendo João agora a diferença?... não é que o estudo


não seja sério... é sério também como eu falei antes... HÁ sistematiza-
ção EXISTE sistematização... existe análise também... eu diria que existe
até mes:mo... um olhar assim um tanto voltado à realidade...
(NURC/REC EF-337 l. 355-360)

b- outra pergunta foi a seguinte... existe diferença ... entre... ciência do


normativo e... uma ciência normativa?........................................................
.......................................... expliquem com suas próprias palavras o que
foi que vocês encontraram? existe diferença? HÁ diferença? ou não? ...
talvez seja a pergunta mais difícil de todo o capítulo...
(NURC/REC EF-337 l. 470-487)

Nas duas passagens era fundamental para a professora a existência dos


elementos: no primeiro a existência de sistematização, no segundo caso a exis-
tência ou não de diferença. Assim, por razões ideacionais/cognitivas, a falante
dá relevo ao fato de estes elementos existirem. No exemplo b pode-se também

84
pensar que a falante está fazendo uma correção de uma forma menos culta
para uma forma mais culta e dá destaque ao elemento corrigido9. Esta hipótese
é plausível em primeiro lugar porque várias vezes a falante alterna as formas
“há” e “existe” (além das passagens de 5, veja também no exemplo 6 as formas
em itálico) e em segundo lugar porque em alguns momentos a falante se mos-
tra preocupada com as pesquisadoras da área de Letras dentro da sala de aula,
o que poderia levá-la a uma preocupação maior com a forma de sua fala.

(6) ...... são as três:... num é? perspectivas... elas são:... complementa:res ou


não: Eduardo? há um sentido de complementariedade ou não ou são assim...
cada uma que se vire e: que não olhe a outra... você diria ((intervenção de
locutor acidental)) é... uhum... Arnaldo não é? faz uma... complementação
NO TEXTO ou PELO TEXTO há existe complementariedade... bem
nós VA:MOS não é? admitir... aqui... em aula... que: existe uma: comple-
mentaridade entre esses três saberes... ou três conhecimentos...
(NURC/REC EF-337 l. 133-140)

A professora dá relevo a “no texto” e “pelo texto” para marcar que a


idéia que está colocando é do texto, embora ela também participe dessa idéia
de que há complementariedade entre as três abordagens do direito em discus-
são. O relevo de “vamos” parece ter sido usado para marcar que a seguir vem
algo importante para a aula: a posição que a professora quer que seja assumida.

(7) ..... porque a sociologia do direito por exemplo ela não estuda somente ...
ela estuda a lei mas NÃO somente a lei TAMBÉM a lei... em relação: ou
em adequação com a própria realidade... social... então João ...se... não é?
na próxima avaliação... eu pergunto... ou eu AFIRMO... eu posso afir-
mar também... sociologia do direito é igual a sociologia... jurídica...
corre:to... ou errado... justifique sua resposta vamos supor...
(NURC/REC EF-337 l. 170-177)

Nesta passagem a professora estabelece relevo em “não” e “também”


para marcar que a lei é apenas uma das coisas estudadas pela sociologia do
direito. Temos um relevo de natureza ideacional/ cognitiva. Já a proeminência
dada a “afirmo” tem uma natureza mais difícil de determinar. Ela parece estar
querendo marcar a alternativa de questão que lhe parece melhor elaboração
85
para uma questão sobre o assunto em foco, ou seja, a proeminência apontaria
a forma preferida para a questão, indicando aos alunos o que mais provavel-
mente ocorrerá.

(8) I2- Mas exótico, exótico mesmo, foi na casa do cônsul japonês aqui em
Porto Alegre... há uns três anos atrás mais ou menos eu fui convidado
prum almoço assim muito íntimo e a senhora... ela que preparou... eram
olhos de peixe... a sopa.
(NURC/POA D2 291 l. 272-275)

Em (8) a altura da voz deu proeminência à idéia de exotismo, porque


antes o falante contara sobre outras comidas exóticas, mas quis colocar a que
vinha a seguir como a mais exótica de todas. Além do relevo à idéia de exotismo
a altura da voz serviu também à manutenção do turno, uma vez que o outro
falante (I1) começou a entrar e I2 não tinha terminado. Parece que só a manu-
tenção do turno justifica a manutenção da voz em uma altura maior no trecho
em negrito a partir de “foi”. Neste caso, além da altura da voz, atuam na atri-
buição de relevo a repetição de “exótico” (cf. item 3.4.3) e o uso do item
lexical “mesmo” (cf. item 3.2.2).

(9) I2- .......por exemplo, pitanga, tem uma vizinha ali que tem um de pitanga
que é uma SEN-SA-CIO-NAL, o tamanho das pitanga(s), puxa! Aqui-
lo é uma beleza....
(NURC/POA D2 291 l. 552-554)

Aqui o relevo dado pela altura da voz e pelo recorte silábico serve para
o falante reafirmar o quanto ele acha as pitangas boas, grandes, bonitas.

(10) I2- ..... Com a, a, a, olha aqui, alguém duvida, por exemplo, eu, já, falando
sobre o aspecto de comida de novo... mas alguém duvida da, da qualida-
de da sardinha brasileira. Alguém duvida? Pois eu, eu jogo o que quiser,
pode abri(r) quantas latas de sardinha estrangeiras quiser... pode abrir
quantas latas de sardinhas nacionais quiser das diversas marcas, eu ga-
ranto que não fica devendo nada, pra nenhuma sardinha portuguesa, fran-
cesa, italiana ou seja lá o que for ou espanhola... é de ALTA qualidade a
nossa sardinha... entretanto...

86
I1- O Gomes da Costa!
I2- Entretanto o Gomes da Costa, o Coqueiro, e, e aquela outra, como é
belga como é...
I1- Não sei.
I2- Bom, enfim,
I1- Sardinhas é contigo!
I2- São SEN-SA-CIO-NAIS, entretanto, muita gente acha que o produto
estrangeiro... e se o que se importa de sardinha neste país é uma loucura
(NURC/POA D2 291 l. 1290-1308)

Aqui o falante, defendendo a qualidade do que é nacional de uma ma-


neira geral, dentro do exemplo das sardinhas, pronuncia a palavra “alta” num
tom muito mais alto que o restante do trecho, dando relevo ao fato de que a
qualidade é alta, quer que o ouvinte, perceba, registre, marque bem esse grau
de qualidade, que vem confirmado depois pelo altura da voz em “sen-sa-cio-
nais”, onde se tem também o recorte silábico.

3.1.2.2 Alguns aspectos do funcionamento do recurso


Observando os elementos que são enfatizados levantamos a hipótese
de que alguns tipos de elementos lingüísticos pareciam ser mais colocados em
relevo pela altura da voz do que outros. Assim nos pareceu que “intensificado-
res” eram mais enfatizados por esse recurso do que outros tipos de elementos.
Observamos também que normalmente o relevo se fazia pelo aumento da altu-
ra da voz apenas em parte de uma palavra (sílaba) e levantamos a hipótese de
que o relevo pela altura da voz se fazia essencialmente pela elevação da altura
da sílaba tônica. Fizemos então algumas quantificações que apresentamos e
comentamos a seguir.

87
QUADRO 1

D2 DID EF TOTAL

Quantificador 2/73 13/109 7/97 22/279


2,74% 11,93% 7,22% 7,88%

Intensificador 13/73 31,51% 18/10 34,86% 9/97 31,96% 40/279 32,97%


17,81% 16,51% 9,28% 14,34%

Advérbio 8/73 7/109 15/97 30/279


10,96% 6,42% 15,46% 10,75%

Verbo 5/73 14/109 13/97 32/279


6,85% 12,85% 13,40% 11,47%

Substantivo 5/73 35,62% 20/109 52,3% 26/97 49,49% 51/279 48,02%


6,85% 18,35% 26,81% 18,28%

Adjetivo 14/73 19/109 9/97 42/279


19,18% 17,43% 9,28% 15,05%

Sintagma 2/73 4/109 3/97 9/279


2,74% 3,67% 3,09% 3,22%

Numeral 3/73 — — 3/279


4,11% — — 1,08%

Pronome 8/73 15,07% — 0,92% 6/97 6,19% 14/279 7,18%


10,96% — 6,19% 5,02%

Artigo — 1/109 — 1/279


— 0,92% — 0,36%

Interjeição 1/73 1,37% 2/109 1,83% — — 3/279 1,08%


1,37% 1,83% — 1,08%

Preposição 10/73 2/109 1/97 13/279


13,69% 1,83% 1,03% 4,66%

Conjunção 2/73 16,43% 7/109 10,09% 4/97 9,27% 13/279 11,47%


2,74% 6,43% 4,12% 4,66%

Conector — 2/109 2/97 4/279


(marcador) — 1,83% 2,06% 1,43%

Operador — — 2/97 2/279


— — 2,06% 0,72%

TOTAL 73/279 109/279 97/279 279/279


26,16% 39,07% 34,77% 100%

88
QUADRO 2

D2 DID EF TOTAL

1) Sílaba

1.1 – Tônica 44/73 62/109 43/97 149/279


60,27% 56,88% 44,33% 53,41%

1.2 – Tônica e seguintes 2/73 3/109 — 5/279


2,74% 2,75% - 1,79%

1.3 – Átona
1.3.1 – Tônica do 1/73 — 4/97 5/279
primitivo 1,37% — 4,12% 1,79%

1.3.2 – Sílaba inicial 3/73 4/79 5/97 12/279


ou outra 4,11% 3,67% 5,15% 4,30%

2) Palavra toda

2.1 – Monossílabo 15/73 21/109 21/97 57/279


tônico 20,55% 19,27% 21,65% 20,43%

2.2 – Dissílaba 1/73 12/109 14/97 27/279


paroxítona 1,37% 11,01% 14,43% 9,68%

2.3 – Trissílaba 1/73 — — 1/279


proparoxítona 1,37% — — 0,36%

2.4 – Outras 4/73 3/109 7/97 14/279


5,48% 2,75% 7,22% 5,02%

3) Sintagma 2/73 4/109 3/97 14/279


2,74% 3,67% 3,09% 3,22%

TOTAL 73/279 109/279 97/279 279/279


26,16% 39,07% 34,77% 100%

Como se pode ver tivemos 279 ocorrências de relevo pela altura da voz
assim distribuídas:
89
D2 DID EF

SP 360 : 65 SSA 231 : 47 REC 337 : 18


POA 291 : 8 SP 234 : 62 SP 405 : 79

TOTAL 73 109 97

No D2 tivemos uma quantidade menor porque no inquérito D2-POA


291 os falantes fizeram apenas 08 relevos com a altura da voz. Nas EF as
poucas ocorrências em EF-REC 337 foram contrabalançadas pela alta ocor-
rência em EF-SP 405. O número de inquéritos analisados não permite uma
generalização segura, por causa do que parece ser característica idiossincrática
dos falantes de alguns inquéritos de fazer mais ou menos relevos, usando a
altura da voz, mas de qualquer modo parece haver uma tendência para o equi-
líbrio entre os três tipos de inquéritos no que diz respeito à quantidade de
ocorrências de relevo feito por este recurso.
No que diz respeito à classe do elemento enfatizado encontramos as
seguintes classes com pelo menos um (01) elemento em relevo pela altura da
voz:

1) quantificadores: pouco(s), tudo, todo(a)(os)(as), tanto(a), muito(as)


nada, mais, tão, bem (veja exemplos 13 e 57);
2) intensificadores: demais, muito (v. ex. 21, 23), muitíssimo, mais,
bem, tão, meramente (veja exemplos 53, 57);
3) advérbios: sozinha, fora, realmente, dentro, não, nunca, única(mente),
lá, hoje, antigamente, sempre, agora, só, basicamente, exatamente, como; (veja
exemplos 7, 9, 10, 12, 15, 55, 56);
4) verbos (veja exemplos 5, 6, 7, 53);
5) substantivos (veja exemplos 1, 4, 12, 18, 54, 55, 57);
6) adjetivos (veja exemplos 9, 10, 12, 13, 14, 19a);
7) sintagmas: no texto, pelo texto, para alguns, é a sala de aula, muito
importante, eu fiz, preCISA TER IGUAL, TEM AUla, BEM LIMpos)(veja
exemplos 6, 11 e 17);

90
8) numerais: nove, um, dois; (veja exemplos 12b, 55)
9) pronomes: outro, mesmo, meu, tudo, tal, algo, neste, o que, certas,
aquilo (veja exemplo 12a);
10) artigo: uma (veja exemplo 13);
11) interjeições: droga!, nossa! (veja exemplo 14);
12) preposições: d(o)(a), para, a(o)(à), n(o)(a)(os) (ele), desde (veja
exemplos 15 e 54);
13) conjunções: mas, ou, onde, quando, como (veja exemplo 16 e 17);
14) conector (marcador): agora (veja exemplo 57), aí, bom (veja exem-
plo 18), bem;
15) operador (argumentativo): também, ainda (veja exemplo 7: tam-
bém)

(11) L2- ...................................................


................................................... depois o café:: em casa o café é muito
demorado... muito complicado quer dizer então até eles comerem todas
as coisas que fazem... parte do café eles demo::ram um briga com o
outro a divisão tem que ser ABsolutamente exata... porque se um tiver
mais do que o outro sai um monte de briga na realidade não acabam
tomando tudo não comendo que tem
L1- (e eles tem)
L2- mas preCISA TER IGUAL
L1- ( )
[
L2- basta ser igual... pode sobrar tudo mas a divisão tem que ser igual. (NURC/
SP D2 360 l. 311-323)

(12) a-Inf. ............quanto à coleta se eles dependiam... da colheita ... de... frutos...
raízes... que eles NÃO plantavam... que estava à disposição deles na
natuREza... eles também tinham que obedecer o ciclo::... vegetativo...
então existe uma época para ter uma maçã outra época para ter laranja
outra época para ter banana... existem CERtas regiões onde há determi-
nados frutos OUtras regiões... com OUtros frutos... então eles tinham
que acompanhar este movimento também:: e por isso eram nômades e

91
não se fixavam... a lugar nenhum... então numa vida deste tipo ... a pre-
ocupação PRINcipal está centrada
na sobrevivência.............
................................................................................................................................................................
............. e que o estilo e que a arte SEMpre vão refletir uma determinada
ma-NEI-ra... de considerar o mundo e a natureza... ora a maneira do
homem pré-histórico era... BAsicamente eu preciso comer... e eu preci-
so::... me defender dos animais e eu preciso me esquentar na medida do
possível... certo? então a arte pré-histórica só vai poder refletir::... então
a arte vai nascer:: em função dessa NEcessidade... de se manter vivo...
(NURC/SP EF 405 l. 76-115).

b-Inf. .................. e finalmente... a terceira perspectiva... a filosófica... ou


como nós colocamos... filosofia do direito... o que estuda?... estuda
o fenômeno jurídico... a-pro-fundan: do... a partir... dos conheci-
mentos... científicos... ou da própria dogmática... do direito... esse
fenômeno/... então novamente... a filosofia do direito... é nada mais
do que... um tipo de estudo... um conhecimento... que aprofun:da
mais: aqueles outros DOIS... seja um conhecimento num é socioló-
gico... ou conhecimento... normativo... lógico-normativo... vamos
dizer que o conhecimento... da filosofia do direito num é? sobre o
fenômeno jurídico... ele transcen:de... à pesquisa... isso significa...
daí não haver o rigor no estudo... ele vai além: de... ele diz como o
comportamento deve ser... independente do que ele é.. como ele
deveria ser... vocês realmente estão percebendo gente? tão compre-
endendo mesmo?
(NURC/REC EF 337 l. 434- 450)

(13) a-Inf. ................................................ quando chegou o balê russo aqui


em São Paulo ele pediram que as alunas do do do da Prefeitura
que éramos nós... aquele grupo TOdo fosse fazer cena num num
num dos números que eles apresentam era Pássaro de Fogo me
parece... eu achei aquilo horroroso viu? me chocou tremendamen-
te porque... éh por detrás dos bastidores é Uma coisa horrível né?...
é tudo tão::... parece tão tão mascarado sei lá e quando aparece em
cena o público vê uma coisa totalmente bonita né?... aquelas lu-
zes... quer dizer aquilo me chocou era tão criança eu me lembro

92
que eu... já achava... diferente o Municipal era LINdo maravi-
LHOso visto do lado de cá né?
(NURC/SP DID 234 l. 259-270)

b- Doc. qual é digamos assim o esporte que você:: aconselharia (ao) tipo de
crianças conforme... os primeiros anos do curso primário criança
do curso secundário
L1- ah bom qualquer tipo de esporte é válido... viu? agora o esporte...
que melhor pro organismo... por causa de todos os músculos e (tu/)
é a natação... então É difícil nas escola... as criança praticarem nata-
ção porque não tem escola com piscina... raras são as escolas que
têm piscina ... né?... aqui pelo menos (é o) Instituto Normal... tem
piscina quando eu estudei eu já ia às aula agora... acho que só ele
porque::... nem os outros não tem
[
Doc. eles não têm condições ( )
L1- não tem piscina... seria A natação o melhor exercício para a crian-
ça... ainda mais criança que tem problema respiratórios...
(NURC/SSA DID 231 p. 10)

(14) Doc. se fosse passar um filme para crianças que tipo de filme a senhora
acha que deveria ser passado?
Inf. um:: tipo de filme como O Mágico de Oz que todo mundo achou
MAravilhoso parece que está voltando agora... ah::... que::... qual
outro filme que... o público infantil achou e gostou... aquelo filme
dos cachorrinhos com é o nome?... dos dois cachorrinhos... NOssa
criançada adorou aquele filme... eu tenho uma memória... sei lá eu
acho que filme desenhos animados... é que a criançada assiste tanto
desenho na televisão né?

(15) a- L2- .......................chega a ponto de até às vezes ele éh éh ele:: escrever


PAra a faculdade... pedindo... os melho/ ah os nomes dos melhores
alunos ... dos últimos anos... para poder eh poder
procurar
[

93
L1- localizar
L2- para poder localizar... porque REalmente a dificuldade é grande
(NURC/SP D2 360 l. 941-947)

(16) Inf. ........................ nesse estágio ele não::... assiste aula... apenas ele faz... o::...
a parate corriqueira do ambulatório... ele atende os doentes... medica... é
supervisionado sempre por um professor ou por um médico no caso...
e::... depois ele vai fazer... o seu::... relatório... dos doentes que ele atendeu
quais os diagnósticos tratamento que ele fez por esse relatório então nós
fazemos o::... vamos dizer o gabarito do::... do estudante se ele foi bom
estudante se ele teve... uma:: uma freqüência boa ou se ele foi aceito ou se
ele foi um estudante relapso... (agora) QUANdo eles são estudante d/...
nos primeiros anos que eles não ainda têm contacto com o doente... eles
apenas assistem aulas...tanto teórica como prática... alguns fazem pesqui-
sas que gostam... então eles entram mais na área da pesquisa... outros ape-
nas... ficam somente na parte clínica... do tratamento pro doente né?
(NURC/SSA DID 231 p.14)

(17) Inf. pro estudante... ter o seu recreio ter a sua hora de descanso... ahn?...
prática de esporte... então nós (precisamos) de ter:: as (pérgulas) com
todos os tipos de esportes prá ser praticado... piscina prá natação que é
muito importante prá:: saúde.. biblioteca né?... ahn e setor médico tam-
bém e odontológico que precisa numa escola né?... fora a parte de:::
diretoria né? salas de diretores... secretárias né?... vice-diretores... de es-
cola... isso é um setor a parte na escola
[
Doc. (essa parte de...)
Inf. MAS o importante É SALA DE AULA eu acho que o importante é sala
de aula e:: esporte né?
(NURC/SSA DID 231 p. 9)

(18) Doc.é isso o que mais chama atenção por exemplo quando a senhora olha
para o filme assim a não ser as cenas e o conteÚ:: do o que mais impres-
siona a senhora?...
Inf. não sei o que te responder o que mais me impressiona?... ah nem sei...
BOM eu acho que para mulher o que mais chama atenção são as cenas
94
lindas os locais que que passam o mais a roupa né?... eu acho que mais é
a roupa maquiagem cabelo... as artistas... parecem umas bonecas né?
quando trabalham em filme ((risos))... fala
(NURC/SP DID 234 l. 349-357)

Pode-se observar no quadro 1 que a classe dos intensificadores real-


mente é uma classe bastante colocada em relevo pela altura da voz sobretudo
em D2 (17,81%) e DID (16,51%), com uma média geral de 14,34% só inferior
à dos substantivos (18,28%) e à dos adjetivos (15,05%). Portanto a hipótese ao
ser testada revelou outros fatos como a observação de que verbos, substanti-
vos, adjetivos apresentam sempre uma porcentagem também significativa de
relevo pela altura da voz.
Isoladamente as quinze classes encontradas não permitiram a percep-
ção de nenhum princípio interessante no que diz respeito ao relevo feito pela
altura da voz, exceto o fato de que o número de substantivos em relevo nas EFs
é significativamente alto e se lembrarmos que isto pode ser explicado pelo fato
de os inquéritos serem dissertações tipo aula em que são importantes os con-
ceitos ativados por esta classe e a explicação dos mesmos. Por outro lado ob-
serva-se o quanto os adjetivos foram enfatizados nos D2, o que parece interes-
sante sobretudo se observarmos que a maioria desses adjetivos têm um uso
avaliativo e não descritivo (bárbara, boa, incrível, sensacional, importantíssi-
mo, ótima, horroroso, maravilhoso, medonho, bom, tremenda) e nesse caso o
relevo chamaria a atenção para a avaliação do produtor do texto ou o relevo
serve para intensificar certos atributos das entidades (enorme, aconchegante,
lindo, cansada, grande, inteiro, exótico). O mesmo pode ser observado nos
DIDs e EFs. Chama também a atenção a porcentagem bastante alta de prepo-
sições em relevo pela altura da voz nos D2 (13,69%). Não pudemos levantar
nenhuma hipótese comprovável sobre a razão desse número: podemos ter como
explicações possíveis ou uma idiossincrasia dos falantes ou talvez o fato de a
preposição ser a cabeça de sintagmas preposicionais, considerando que os ele-
mentos iniciais de sintagmas tenderiam a ser colocados em relevo. Todavia
permanece o fato de que o mesmo não acontece nos DIDs e nas EFs.
Todavia, se fizermos alguns agrupamentos, levando em conta certas afi-
nidades, pode-se tirar algumas conclusões interessantes. Assim, se reunirmos
num grupo substantivos, adjetivos, verbos e sintagmas, considerando este gru-
po como o dos ativadores de conceitos e modelos cognitivos globais (frames,
esquemas, planos, scripts) observamos que, no conjunto, estes respondem por
48,02% das ocorrências de relevo pela altura da voz, o que nos permite dizer

95
que dada a importância de tais conceitos e modelos cognitivos o produtor do
texto falado dá relevo sobretudo a estes para marcar bem a estrutura ideacional
desejada. Um segundo grupo reúne os quantificadores, intensificadores e ad-
vérbios que têm natureza aproximada tanto que a distinção entre quantificadores
e intensificadores nem sempre é fácil e se faz mais pelo fato de se aplicarem a
entidades contáveis ou a atributos graduáveis. Por outro lado os intensificado-
res têm tradicionalmente sido encarados como advérbios de intensidade. Obser-
va-se que esse grupo responde por 32,97% das ocorrências de relevo pela altura
da voz. Talvez sua elevada taxa de relevo pela altura da voz possa ser explicada
pelo fato de eles serem responsáveis pela apresentação da maneira como o pro-
dutor do texto quer que seu interlocutor considere os conceitos e modelos cog-
nitivos ativados pelos elementos do primeiro grupo. Isto, sem dúvida, tem uma
dimensão interacional. O terceiro grupo é o que congrega preposições, conjun-
ções, conectores (marcadores) e operadores argumentativos que são responsá-
veis em conjunto pela coesão seqüencial por conexão (cf. Koch,1989), marcan-
do relações entre elementos e partes do texto, o que significa que, quando estes
elementos são colocados em relevo pelo produtor do texto, este está pretenden-
do marcar tais relações como importantes ou merecedoras de atenção especial
dentro da estrutura ideacional que ele pretende para o seu texto. Este terceiro
grupo é responsável por 11,47% das ocorrências de relevo pela altura da voz, o
que significa que estes três grupos em conjunto representam 92,46% do relevo
pela altura da voz. O grupo dos determinantes (numeral, pronome e artigo) com
destaque para os pronomes (5,02%) é responsável por 7,18% dos relevos pela
altura da voz. Constituímos este grupo como o dos determinantes porque os
numerais e pronomes que foram colocados em relevo estavam todos acompa-
nhando substantivos. As interjeições foram responsáveis por apenas 1,08% e os
três casos que ocorreram tinham motivações emocionais como era de esperar.
O quadro 2 contém as quantificações relativas à extensão do segmen-
to em que a altura da voz era elevada: uma sílaba, mais de uma sílaba, palavra
inteira, sintagma. Como a tonicidade parecia ter um papel importante este foi
também um parâmetro que utilizamos no estabelecimento das variáveis e o
levantamento feito nos levou ao que está registrado no quadro 2.
Como se pode observar a sílaba tônica realmente tem importância ca-
pital no estabelecimento do relevo pela altura da voz. Observa-se que no geral
53,41% das ocorrências de relevo pela altura da voz acontece na sílaba tônica.
Se juntarmos aí os monossílabos tônicos teremos 73,84% dos relevos pela
altura da voz na sílaba tônica, o que parece confirmar a hipótese levantada.

96
Cremos que não há problema em juntar os monossílabos tônicos porque, na
verdade, embora seja a palavra toda que está em relevo é sua única sílaba, que
é tônica, que foi usada para o relevo e neste caso parece não haver nenhuma
razão para não juntar os dois casos como ocorrências do mesmo fato. O segun-
do caso ligado à questão da tônica é do relevo feito na sílaba tônica e nas que
lhe são posteriores (1,79%) (casos como: muiTÍSSIMO-2, liDERA, perDIDA,
antigaMENTE). Neste caso pode-se incluir o relevo na palavra toda quando
temos dissílabas paroxítonas (9,68%) (casos como: ALTA,......... ) e trissílabas
proparoxítonas (0,36%) (a única ocorrência foi ÚNICA). Teríamos então
11,83% de ocorrências em que o relevo não é exclusivamente na sílaba tônica
mas está relacionado com ela. Isto perfaria um total de 84,83% de casos em
que o relevo pela altura da voz é feito na sílaba tônica ou parece depender dela.
Depois disso teríamos dois grupos de ocorrência:

1) o grupo do relevo feito pela altura da voz na sílaba átona com um


total de 6,09% das ocorrências e que se subdivide em dois subgrupos:

a) o das palavras derivadas em que o relevo pela altura da voz foi feito
na sílaba que era a tônica do primitivo (1,79%) (casos como: imporTANtíssimo,
eXAtamente, BAsicamente);
b) o grupo das palavras em que o relevo pela altura da voz foi feito na
sílaba inicial ou outra qualquer não tônica (4,30%) (casos como: REalmente,
PROmotora, MAravilha, MAravilhoso(as), QUAlidade, NEcessidade,
PRINcipal). Como se pode ver só ocorreram casos com a sílaba inicial;

2) o grupo do relevo feito pela altura da voz na palavra toda e no sintagma


(8,24% das ocorrências) e que não pode ser explicado pela tônica e seguintes e
que também se divide em dois subgrupos:

a) o grupo em que o relevo foi feito na palavra toda inclusive em síla-


bas átonas anteriores à tônica (5,02%) (casos como: SOZINHA, SENSACIO-
NAL, EXÓTICO, PRECISA TER, ROTINA, BANGUE BANGUE, MERA-
MENTE, AFIRMO, EXISTE, CLASSIFICAÇÕES, TAMBÉM CRIAR);

b) o grupo dos sintagmas (3,22%) (casos como: É SALA DE AULA,


MUITO IMPORTANTE, EU FIZ, NO TEXTO, PELO TEXTO, PARA AL-
GUNS, preCISA TER IGUAL, TEM AUla);
97
No subgrupo 1a parece ser natural tal ocorrência, pois se estaria dando
relevo à base que contém o lexema/semantema fundamental para a estrutura
ideacional e não ao sufixo que contém a tônica. Todavia seria preciso explicar
casos em que o relevo se dá no sufixo que no entanto parecem ser muito raros.
No subgrupo 1b, com o relevo pela altura na sílaba átona inicial, parece que se
explica pelo fato de o produtor querer marcar logo de saída a importância do
elemento em questão. Mas resta explicar por que isto acontece em alguns ca-
sos que não são tão poucos já que no corpus analisado representaram 4,30%
das ocorrências.
Os casos do subgrupo 2 parecem se explicar por uma necessidade maior
de relevo, ou seja, quando o relevo é feito na palavra toda ou num sintagma,
temos um grau mais alto de relevo, pois é este o efeito que se observa em
comparação com aqueles casos em que apenas uma sílaba ou parte da palavra
é posta em relevo pela altura da voz. Isto valeria também para o caso das
palavras inteiras em relevo e que incluímos na influência da tônica por serem
dissílabas paroxítonas ou trissílabas proparoxítonas e o relevo se faria após a
tônica. Considerando que haveria um grau maior de relevo nas palavras que só
tiveram relevo na sílaba tônica e seguintes, pode-se propor uma gradação cres-
cente de relevo na seguinte ordem:

relevo na sílaba tônica > relevo na sílaba tônica e seguintes > relevo na palavra
toda ou no sintagma.

Isto significa que o relevo feito na palavra toda ou no sintagma é mais


forte que aquele feito apenas na sílaba tônica ou na tônica e seguintes.

3.1.3 Recorte silábico ou silabação


O recorte silábico é representado pela pronúncia das palavras separan-
do-se suas sílabas ou algumas delas. A separação das sílabas leva também ao
aparecimento de um ritmo diferenciado de fala (mais lento) que contribui para
a proeminência que o falante atribui a determinado elemento. Geralmente essa
forma de relevo tem uma motivação ideacional/cognitiva, sendo usada para
destacar elemento importante para o falante dentro do conteúdo em questão,
normalmente visto como importante para a compreensão do que se diz, ou
para ressaltar que é o que se diz e não outra coisa qualquer.
98
Temos esse recurso de relevo nos exemplos (4), (9) e (10). Em (4) o
termo “or-de-na-do” aparece com recorte silábico porque a professora acha
fundamental esta idéia para que se entenda e perceba que as três abordagens do
direito que ela está discutindo com os alunos são científicas, têm caráter cien-
tífico. Em (9) e (10) o falante além de aumentar a altura da voz faz o recorte
silábico do termo “sen-sa-cio-nal” em (9) para marcar bem o caráter excepcio-
nal das frutas de que fala e em (10) para destacar a qualidade da sardinha
nacional que ele está defendendo e é importante para ele. O falante ainda usa o
mesmo recurso em duas outras passagens como se pode ver nos exemplos de
(19). Em (19a) com o mesmo fim de (9): ressaltar a qualidade de algo (no caso
do restaurante de que ele está falando) e em (19b) para ressaltar que é aquilo
mesmo que o interlocutor ouviu e não outra coisa.

(19) a- I2- ............. ali na, na, na subida da da, da, na Doutor Timóteo, tu
conhece(s) ali, o Bruno? O Bruno é SEN-sa-cio-nal, o Bruno faz
um rim que é assim demais é,........
(NURC/POA D2 291 l. 375-377)

b- I2- Negócio sério. É, eu, eu, eu, eu tive assim uma, algumas coisas,
exóticas, macaco, uma ocasião.
I1- Como é macaco?!
I2- Ma-ca-co, na Amazônia tem um tipo de macaco lá que se prepara e
aí, eu confesso, toda serenidade, provei e achei bom, não é ruim não
((risos))
(NURC/POA D2 291 l. 250-255)

3.1.4 Velocidade da fala (ou ritmo)


A fala tem um ritmo normal, que embora tenha uma média esperada
pode variar dentro de um certo padrão de falante para falante. Se o falante foge
ao seu ritmo normal de fala, acelerando-o ou tornando-o mais lento, pode cha-
mar a atenção para determinados elementos do texto. Como já vimos, quando
há o recorte silábico há um ritmo especial da fala que contribui para a proemi-
nência que temos ali. A proeminência marcada por este recurso parece ter,
muito freqüentemente, uma motivação emocional, com preferências do fa-
lante ou sua perspectiva emocional sobre algo.
99
Este recurso aparece no exemplo (3) onde o produtor do texto falando
bem lento ajuda a destacar o quanto ele vê como errado a compra de remédio
sem receita médica.
Nos exemplos com recorte silábico (4, 9, 10 e 19) vimos que o ritmo
mais lento sempre contribui para a proeminência que se estabelece. Em (19a)
o ritmo é bem mais lento corroborando a proeminência dado ao caráter de
especial do restaurante de que ele está falando, à boa qualidade deste.
Esse recurso de um ritmo mais lento de fala é muito usado pela falante
do DID 328 NURC/RJ, como se pode ver nos exemplos de (1) e (20) a (22).
Em (1) o ritmo mais lento se concentra no termo “sensivelmente” e há
quase um recorte silábico, porque para a falante é importante o quanto sobe sua
taxa de gordura: daí o destaque a “sensivelmente” que aqui indica esse quanto.

(20) Doc.- ele é feito de que... você sabe?


[
Loc.- o acarajé? eu acho que de feijão... não é? feijão... eles fazem boli-
nho de feijão e aí depois fazem vários molhos... você pode esco-
lher...
(NURC/RJ DID 328 l. 177-182)

Em (20) os termos em negrito foram falados num ritmo bem lento,


dando a impressão que a palavra se alonga e parece que o tom é ligeiramente
mais alto. A motivação aqui é informacional: a falante dá destaque à informa-
ção nova que foi solicitada na pergunta.

(21) Loc.- ....... Recife nós comemos coisas assim muito gostosas ... também
muito ligada a peixe... eles também... eles comem muita coisa... a
lagosta de lá é uma delícia a lagosta de Recife...
(NURC/RJ DID 328 l. 192-195)

Em (21) o ritmo lento se acentua nos termos em negrito que parecem se


alongar e ter um tom ligeiramente mais alto. Na primeira ocorrência a falante
quer destacar o quão gostosas as comidas são em Recife e na segunda ocorrên-
cia, o quanto se usa peixe nas comidas de lá. Talvez ela dê este relevo ao
quanto se usa peixe porque isto contrasta com sua preferência que é por carne
100
e que já fora bastante marcada anteriormente: então chamou sua atenção o
usar-se muito peixe em Recife e no Nordeste em geral.

(22) Doc.- mas vocês comem sempre carne de boi?


Loc.- ah... é... não... não... a titia... aqui a gente varia... a gente come carne
de boi... pode comer... a gente come galinha também... come peixe...
ela procura fazer um... uma coisa assim de cada... eh... em cada dia da
semana a gente procura variar... mas a base mesmo é a carne...
(NURC/RJ DID 328 l.448-453)

No termo “peixe” a falante usa um ritmo mais lento fazendo como que
um alongamento, criando uma proeminência para contrastar com a colocação
da documentadora em sua pergunta.

3.1.5 Outros recursos fônicos


Além dos recursos já comentados encontramos nos inquéritos analisa-
dos dois outros recursos fônicos para estabelecer relevo de elementos do texto.
O primeiro foi o alongamento como se pode observar no exemplo
(23), onde o falante alonga bastante a vogal [u] da palavra “muito” para ressal-
tar o quão bem feito era o coelho que comeu. Marcuschi (1995: 4), tratando
das hesitações, também observou essa função dos alongamentos dizendo “....
nem todo alongamento da vogal é uma hesitação. Há alongamentos que fun-
cionam como coesão rítmica, freqüentes sobretudo na formação de listas.
Outros alongamentos operam como ênfase.”

(23) I2- ...... Como é o nome daquele ali em cima do Floresta Negra, acima, ah,
tu entras na Galeria, Floresta Negra fica aqui à esquerda tu tens uma
escada, tem um restaurante ali em cima, eu comi ali foi um coelho, uma
ocasião, mu:::ito bem feito, mu:ito bem feito...
(NURC/POA D2 291 l. 361-365)

O segundo recurso tem uma natureza onomatopaica imitando uma


música de fundo que marcaria algo como importante, como num filme. Trata-
se da seqüência “tcham tcham tcham” no exemplo (24) que é comum na fala,
101
quando as pessoas vão introduzir algo que consideram importante dentro da
situação para si ou para o ouvinte. Parece ter uma motivação sobretudo emo-
cional10.

(24) .......... não tem po:vo que não ten:da a se organizar... e o direi:to... aí
vem assim né? como diria Jo João... tcham tcham tcham num é? para o
direito... ((intervenção de locutor acidental)) meu Deus! e o dire... eu ...
eu esqueci... e o direito num é? ((risos)) nada mais é: num é? que esta
organização mesma... então o direito nada mais é é a fra:se... que eu
saliento dessa... desse trecho de Duckheim da citação de DUckheim... “e
o direito nada mais é do que essa organização”
(NURC/EF REC 337 l. 685-693)

3.2 Recursos léxicos


3.2.1 Uso de itens lexicais
Muitos itens lexicais apresentam traços em seu significado ou têm pa-
péis (funções) dentro do texto que permitem utilizá-los para fazer relevo de
elementos de um dado texto. Estão neste caso verbos como “insistir”, “subli-
nhar”, “destacar”, “importar”, “notar”, “destacar(-se)”, “salientar”, etc. e ope-
radores argumentativos como “mesmo” e “até”.
Nos exemplos (8) e (27) vemos que o uso de “mesmo” reforça o relevo
já dado pela altura da voz e também pela repetição (em 8) e pelo expletivo (em
27). “No exemplo (24) (cf. o trecho repetido abaixo) a palavra “saliento” dá
destaque a uma parte da citação que a falante julga importante no desenvol-
vimento do seu argumento.

(24) “então o direito nada mais é é a fra:se... que eu saliento dessa... desse
trecho de Duckheim da citação de DUckheim... “e o direito nada mais é
do que essa organização”
(NURC/EF REC 337 l. 690-693)

No exemplo (25) abaixo é interessante observar que o falante dá um


destaque especial à sua preferência por comer usando a expressão “em pri-
meiro lugar”. Ele dá uma proeminência ao ato de comer, quando está falando
do prazer que tem nisso ao responder à pergunta da documentadora sobre o
que seria comer bem.

102
(25) I2- Opa, melhor ainda. O comer, sempre quando eu falo em comer, por
exemplo, é um negócio que, que me atinge diretamente, porque em pri-
meiro lugar, eu gosto de come(r), e mais do que isso eu gosto de
prepara(r), tenho prazer de faze(r) determinados pratos, gosto, me sinto
bem, talvez um hoby, né?
(NURC/POA D2 291 l.95-99)

O exemplo (26) é uma fala em que, no contexto de uma discussão


sobre o que é estar bem vestido (em que o falante vinha argumentando que isto
depende da ocasião e das regras e exigências sociais), usando o verbo “notar”
o falante chama a atenção do interlocutor para um exemplo que comprovaria
sua colocação de que não adianta exigir uso de terno e gravata se a pessoa (por
exemplo, um gerente de banco) fica com o colarinho aberto e a gravata afrou-
xada. Neste caso também não se estaria vestido adequadamente.

(26) I2- Agora, podem ve(r) notem isso, eu pelo menos não vi, se vir, será esse
verão, agora, a partir de dezembro, não demora começa o verão, nós
(es)tamos vivendo o problema já do calor, mas certamente, o gerente de
banco, por estrutura da própria.
I1- Depois é um dogma, e era obrigado.
[
I2- Da direção do banco.

Em exemplos como os de (24) e (27), pode-se considerar que temos o


uso de parênteses para fazer o relevo (cf. item 3.4.2). Todavia o relevo dado
pelos parênteses se deve particularmente ao valor semântico dos itens lexicais
aqui destacados.

3.2.2 O uso de expletivos


3.2.2.1 Ser11......que, ser11 que
Temos aqui um recurso de clivagem e ficamos em dúvida sobre elencá-
lo entre os recursos lexicais ou entre os recursos sintáticos.
Em (27) temos “é que” dando proeminência ao tipo de biscoito que a
falante come preferencialmente no café da manhã. Aqui o relevo vem ratifica-
do pelo uso de “mesmo”. Em (28) “foi que” dá destaque ao elemento da per-
103
gunta que representará a informação nova que o falante solicita do ouvinte.
Esse uso de expletivo na interrogativa é comum na língua falada em que os
falantes usam sobretudo o “que” sozinho ou “é que” em seqüências como as
de (29). Não encontramos muitas ocorrências deste recurso no corpus (cf. 29
e,f), embora este tipo de ocorrência seja freqüente no Português falado. Pode-
se propor a hipótese de que, talvez, este tipo de recurso seja mais típico de uma
variedade não culta do Português. Em (30) “era...que” dá relevo a “ela”, a avó
que era o centro da narrativa.

(27) ...... às vezes como biscoito... geralmente biscoito... assim... esses bis-
coito tipo integral... é que eu como mais mesmo de manhã... de manhã...
(NURC/RJ DID 328 l. 299-301)

(28) outra pergunta foi a seguinte... existe diferença ... entre... ciência do
normativo e... uma ciência normativa?...................................................
........................................ expliquem com suas próprias palavras o que
foi que vocês encontraram? existe diferença? HÁ diferença? ou não? ...
talvez seja a pergunta mais difícil de todo o capítulo...
(NURC/REC EF 337 l. 470-487)

(29) a- (O) Que que você quer de presente?


b- Quem (foi) que trouxe estas flores?
c- Onde (é) que vai ser a festa?
d- Quanto (é) que custa este CD (compact disc)?
e- Doc. agora... por exemplo assim nas escolas onde há::... éh::... uma parte
assim artística com a (aula) de cultura qual que seria o material? ... que
levaria ahn?
(NURC/SSA DID 231 p. 12)
f- Inf.- ...... para mostrar: que... não é propriamente uma ciência que se cha-
ma ciência normativa... o que é que vocês diriam sobre isso? quem encon-
trou: uma resposta... que encontre como satisfatória... para os demais...
(NURC/REC EF 337 l. 474-478).

(30) ........ela então veio com a notícia que aquele Ketchup que estava sendo
servido era ela que tinha feito..........
(NURC/POA D2 291 l. 214-216)
104
3.2.2.2 Uso de verbos gramaticais de relevo12
Alguns verbos dentro do funcionamento textual têm a função (nem sem-
pre exclusiva) de dar proeminência a elementos do texto. O verbo “ser” quando
funciona como expletivo tem essencialmente esta função (cf. exemplo 23 – tre-
cho reproduzido abaixo e exemplo 31). Outros verbos funcionam também como
verbos de relevo, mas esta não parece ser sua função exclusiva (cf. o item 3.4.5).

(31) ...........no sul eu me... eu me prendi mais foi justamente às frutas... né?
(NURC/RJ DID 328 l. 291-292)

(23) I2- ...... Como é o nome daquele ali em cima do Floresta Negra, acima, ah,
tu entras na Galeria, Floresta Negra fica aqui à esquerda tu tens uma
escada, tem um restaurante ali em cima, eu comi ali foi um coelho, uma
ocasião, mu:::ito bem feito, mu:ito bem feito...
(NURC/POA D2 291 l. 361-365)

Aqui também se pode pensar, pelo menos para alguns exemplos, em


uma falsa clivagem e levantar o mesmo tipo de questão posta em 3.2.2.1, mas
mesmo que consideremos como um recurso sintático o relevo é feito pelo uso
de elementos lexicais, tanto no caso anterior como aqui.

3.2.2.3 Outros expletivos


Alguns recursos expletivos usados no escrito poderiam aparecer tam-
bém na língua falada. Estariam neste caso, por exemplo, a partícula de realce
“se” e alguns casos de objeto direto preposicionado em que a preposição seria
um recurso expletivo, como por exemplo os que temos em seqüências como
“João pegou do chicote, para castigar o filho” e “Ele ama às artes mais do que
os filhos”. No corpus analisado não encontramos exemplos que confirmem
esta hipótese.

3.3 Recursos morfológicos/categoriais


3.3.1 Aspecto
O aspecto atua sobretudo no estabelecimento do relevo do tipo fundo e
figura e, pelo que pudemos verificar no corpus analisado, isto acontece em

105
textos narrativos. Neste caso os trechos com aspecto perfectivo aparecem em
primeiro plano como figura e os trechos com aspecto imperfectivo aparecem
em segundo plano como fundo, constituindo um quadro em que a ação carac-
terística da narrativa se desenvolve. Assim, considerando a superestrutura dos
textos narrativos, os trechos de fundo aparecem essencialmente nas partes cha-
madas de orientação (normalmente onde se descrevem principalmente cená-
rios e participantes da ação ou se monta um quadro de acontecimentos com o
qual a ação da narrativa coincide temporalmente) e avaliação (onde normal-
mente o falante registra suas impressões sobre a ação avaliando-a ou justifi-
cando em textos de natureza quase sempre dissertativa). Esta constatação faz
ver que neste particular o falado não se diferencia do escrito (cf. o que diz
Travaglia, 1991). Vejamos alguns exemplos.
Legenda a ser considerada nos exemplos (32) a (34):

itálico – fundo (orientação)


sublinhado – fundo (avaliação)
negrito – figura
[ – início do trecho a ser considerado.
letra normal – trechos de fala, marcadores e outros.

(32) I1- Olha eu me limito a faze(r) um bom, bom! Um churrasco (superposição)


churrasco. Mas eu posso fala(r) da, da experiência engraçado, tem pes-
soas que tem um, um, um, em termos gastronômicos um, um, uma, um
talento uma habilidade, impressionante,[ a minha avó era assim, ela
qualque(r) prato, podia se(r) o mais complexo, de gosto mais estranho
ou exótico possível, ela detectava tempero por tempero e depois repro-
duzia fazia eu sei que, ãh, quando chegô, praticamente os primeiros
vidros de Ketchup que chegaram dos Estados Unidos era material
importado, meu tio trouxe pra casa a prova daquilo, isso em mil no-
vecentos e vinte ou qualque(r) coisa assim e a velhinha (ininteligível)
todo mundo elogiou o vidrinho tal e coisa, ela ficou quieta, no dia
seguinte, o Ketchup estava na mesa, hum, também provou, etecétera,
etecétera e ela então veio com a notícia que aquele Ketchup que esta-
va sendo servido era ela que tinha feito, o outro, ela tirou, botou o
dela e serviu. Aí o pessoal, não é possível, foram provar era o mesmo.
I2- Sensacional, né?

106
I1- Impressionante,é... ela fazia isso, ela tinha, pegava o negócio assim,
mas analisava o negócio inteirinho, sabe que é uma coisa assim muito
rara. É incrível! Eu digo talvez os temperos não fossem os mesmos, mas
ela conseguia, ia provando, ia botando mais um pouquinho e pá, e en-
contrava, o mesmo gosto e a mesma aparência, isso também.
(NURC/POA D2 291 l. 201-224)

(33) I2- ............ Ontem, eu não me lembro, eu acho, não [ ontem eu estava es-
porte, ontem eu estava de camisa, manga de camisa, hoje tinha uma
série de, de compromissos, achei na obrigação de coloca(r) calça e...
como é? casaco e, paletó enfim, terno, terno................
(NURC/POA D2 291 l. 895-899)

(34) L- Ma(s) num tinha um qui chegava i para... Intão, a genti tava paradu im
frenti à casa da Fátima i eli subiu, mais eu... sabi qui eu tava... assim
convandu c’u Bona i eu nem prestei atenção purqui eu tava tão cansa-
da... Tava meia ainda... purque imagini! Uma noiti di sonu prá quem
dormi novi horas pur dia, deiz horas... já viu, né?
(NURC/SP DID 59 p. 4).

Nos exemplos (35) e (36) do item 3.3.2 a seguir também se pode obser-
var este contraste entre fundo e figura, aqui antecipamos os exemplos marcan-
do os trechos de fundo e figura de acordo com a legenda acima.

(35) L- “... i cumu eu vô sempri na casa da Teresa, eu peçu carona prá eli,
purque é na rua deli mesmu, né. Intão, eli desci, mi de(i)xa lá, né. De-
pois eu voltei da casa... Eu sempri veju eli depois... eli vem... sei lá...
intão, cumu eli num tava passan(d)u, né, eu peguei i fui...fui à pé mesmu.
I quan(d)u tô passan(d)u im frenti à casa deli, eli tá lá cum duas minina”
(NURC/SP DID 059 – grav. secr. p.2)

(36) L- ... i u Vanderlei adora fazê aqueli balãozinhu na toda, né? Eli sempri
passava pu ali. Intão, eu já fiquei meiu assim, né... que eu lembrei i...
sempri... eli adora... pu(rque) num tem uma veiz achu qui eli num sai na
rua, qui eli num vai fazê aqueli balão lá...
107
E- Sei.
L- ... eli adora... na hora qui eli... i a genti tá descendu i eli tá subindu.
E- Ham!
L- Cu’a minina!
E- Cum ela!?
(NURC/SP DID 059 – grav. secr. p.5)

3.3.2 Tempo
Encontramos basicamente dois casos em que o tempo atua no estabele-
cimento de relevo.
No primeiro caso temos o presente do indicativo alternando com o
pretérito perfeito para marcar relevo emocional em narrativas no passado. Este
é um caso em que o relevo é de natureza inteiramente emocional, pois o falante
destaca aquele(s) acontecimento(s) dentro da seqüência de acontecimentos da
narrativa que o marcou (marcaram) emocionalmente por qualquer razão. Em
(35) e (36) a falante coloca no presente momentos em que ela flagra o namora-
do com outra dentro da narrativa em que ela vinha contando à interlocutora o
problema que houve entre ela e o namorado: este é sem dúvida o momento
mais emocionalmente dramático para a falante. Em (37) a mesma falante enfa-
tiza emocionalmente a chegada da amiga com quem ela sai, o que resulta no
encontro com o namorado após o desentendimento, o que, sem dúvida, tem
para ela uma carga emocional especial.

(35) trecho inserido numa narração em pret. perf. do ind. Relata o momento
em que a falante flagrou o namorado com outras moças.
L- “... i cumu eu vô sempri na casa da Teresa, eu peçu carona prá eli, purque
é na rua deli mesmu, né. Intão, eli desci, mi de(i)xa lá, né. Depois eu
voltei da casa... Eu sempri veju eli depois... eli vem... sei lá... intão,
cumu eli num tava passan(d)u, né, eu peguei i fui...fui à pé mesmu. I
quan(d)u tô passan(d)u im frenti à casa deli, eli tá lá cum duas minina”
(NURC/SP DID 059 – grav. secr. p.2)

(36) L- ... i u Vanderlei adora fazê aqueli balãozinhu na toda, né? Eli sempri
passava pu ali. Intão, eu já fiquei meiu assim, né... que eu lembrei i...

108
sempri... eli adora... pu(rque) num tem uma veiz achu qui eli num sai na
rua, qui eli num vai fazê aqueli balão lá...
E- Sei.
L- ... eli adora... na hora qui eli... i a genti tá descendu i eli tá subindu.
E- Ham!
L- Cu’a minina!
E- Cum ela!?
(NURC/SP DID 059 – grav. secr. p.5)

(37) L- .................Falô qui tinha idu prá floricultura né. Falei assim é: “Flori-
cultura, hein! Velhu truqui, hein, essa floricultura né”mais... ma(s) prá
mim a... sei lá... era seti i meia, né?
E- Ham.
L- Aí, daqui a poucu... chega a Beti... i eu desci pru Pirituba. Qué dizê que
eu num... num sabia mais, né?
E- Sei
L- ... i, aí eu desci né, fiquei lá conversan(d)u...
(NURC/SP DID 059 – grav. secr. p.5)

No segundo caso, temos um relevo do tipo 3, especificado no item 2:


indicação de relevância pragmática de uma situação, de algo no texto (acon-
tecimento, estado, comentário) para a situação presente (o aqui e o agora) ou
para um ponto de referência. Encontramos em estudo anterior com textos
escritos (cf. Travaglia,1991) que este tipo de relevo no Português é marcado
por formas perifrásticas que seriam basicamente:

a) ter (presente do indicativo) + infinitivo. Esta perífrase, sendo a for-


ma de expressão do tempo “passado até o presente”, marca a relevância prag-
mática de uma situação para o presente (cf. exemplo 38);
b) vir + gerúndio. Com o verbo “vir” no presente do indicativo esta
perífrase marca a relevância pragmática de uma situação para o presente (cf.
exemplo 39a) e com o verbo em formas de passado marca este mesmo tipo de
relevância para um ponto de referência, especificado no texto (cf. exemplo
39b);

109
c) ir + gerúndio. Esta perífrase indica sempre a relevância pragmática
de uma situação para um ponto de referência. Com o verbo “ir” em formas de
passado a relevância para um ponto de referência anterior ao momento da fala
(passado) (cf. exemplo 40a) e com o verbo “ir” no presente do indicativo ou
em formas de futuro, para um ponto de relevância futuro (cf. exemplos 40b,c).

Os exemplos (38) a (40) devem ser considerados como fazendo parte


de um texto constituído pela discussão de interlocutores sobre a possibilidade
de estabilizar a economia do Brasil. Não encontramos ocorrências no corpus
analisado.

(38) O Presidente tem insistido no fato de que sem a reforma econômica e


fiscal não será possível estabilizar a economia.

(39) a- O Congresso porque não quer, pois o Presidente vem insistindo na ne-
cessidade dessas reformas para a estabilização econômica.
b- O Presidente veio insistindo na necessidade das reformas econômica e
fiscal para a estabilização da economia, até que o Congresso se conven-
ceu disso e votou as reformas propostas pelo Executivo.

(40) a- O Presidente foi insistindo na necessidade das reformas econômica e


fiscal para a estabilização da economia, até que o Congresso se conven-
ceu disso e votou as reformas propostas pelo Executivo.

b- O Presidente vai insistindo na necessidade das reformas econômica e


fiscal para a estabilização da economia, até que o Congresso se conven-
ça disso e vote as reformas propostas pelo Executivo.

c- O Presidente irá insistindo na necessidade das reformas econômica e


fiscal para a estabilização da economia, até que o Congresso se conven-
ça disso e vote as reformas propostas pelo Executivo.

3.4 Recursos sintáticos


3.4.1 Topicalização
A topicalização é um recurso lingüístico bastante estudado e por isto
não nos estenderemos aqui em sua caracterização. O que importa registrar
110
neste momento é que, sem dúvida alguma, a topicalização é um recurso usado
para dar proeminência a elementos do texto, parecendo ser esta sua motivação
textual fundamental. A seguir alguns exemplos.

(19b)I2- Negócio sério. É, eu, eu, eu, eu tive assim uma, algumas coisas, exóti-
cas, macaco, uma ocasião.
I1- Como é macaco?!
I2- Ma-ca-co, na Amazônia tem um tipo de macaco lá que se prepara e aí,
eu confesso, toda serenidade, provei e achei bom, não é ruim não ((ri-
sos)) ................
(NURC/POA D2 291 l. 250-255)

(25) I2- Opa, melhor ainda. O comer, sempre quando eu falo em comer, por
exemplo, é um negócio que, que me atinge diretamente, por que em
primeiro lugar, eu gosto de come(r), e mais do que isso eu gosto de
prepara(r), tenho prazer de faze(r) determinados pratos, gosto, me sinto
bem, talvez um hoby (óbi), né?
(NURC/POA D2 291 l. 95-99)

(41) ....... mas a base mesmo é a carne... porque eu acho que sai mais barato...
peixe por exemplo... se você compra... a gente compra só em dia de
feira... porque é o peixe mais fresco... o peixe na peixaria geralmente é
muito caro e na feira é mais fresquinho e é mais em conta... sabe?
(NURC/RJ DID 328 l. 454-457)

(42) I2- Não, tu vês, por exemplo, o peixe, peixe aqui no Rio Grande eu tenho
impressão que se come peixe, exclusivamente na Semana Santa, porque
é um, é um dogma, o padre mandou, seja lá o que for né? (ruído de
microfone) na Semana Santa, mas não é hábito gaúcho come(r), come(r)
peixe. No norte, por exemplo, é o, o contrário, nós aqui, eu acho que a
gente fica mais vinculado ao aspecto da carne, por exemplo, a minha
mulher, a minha mulher é uma pe/, é uma criatura que vive mais na
carne, (es)tá, gosta da carne, eu tenho um cunhado meu, irmão dela.
(NURC/POA D2 291 l. 25-29)

111
3.4.2 Uso de parênteses
Com freqüência o falante usa certas frases que dão proeminência a
determinados elementos, quase sempre a passagens do texto, que acabaram
de ser ditas ou que serão ditas a seguir, mas às vezes também que estão sendo
ditas como no exemplo (44). Estas frases quase sempre funcionam como
parênteses (Cf. Jubran, 1995) e normalmente têm formas tais como: “aten-
ção aqui”, “notem agora”, “prestem atenção em....”, “quero que vocês pres-
tem atenção em.....”, “aqui vocês devem prestar atenção”, “não esqueçam
(isso, o que acabamos de dizer, este conceito, etc.).....”, “isto é importante/
fundamental/essencial/central para que estamos demonstrando (querendo
provar, explicando, etc.)”. Estas frases parentéticas têm sempre em seu sig-
nificado traços comuns de chamar a atenção para algo ou de marcar sua
importância para o tópico/subtópico em desenvolvimento. Interessante ano-
tar que os dois exemplos que encontramos (cf. 43 e 44 abaixo) estavam em
uma EF (Elocução Formal).

(43) ........ porque eu encontrei... uma definição... não é? lendo agora um


trabalho bem recente... uma definição... na qual... mostra realmente/
não está no livro porque é recentíssima é uma é uma definição... não
é? ligando as três perspectivas... de um artigo de mil novecentos e
oitenta e seis... então atenua um pouco... a hostilida:de que existe
entre a tre três perspectivas... que é a seguinte... eu vou lê João de-
pois... falamos... talvez até coloque para vocês... isso é uma maneira
também de pedir... que prestem atenção... não é? esse... trechinho
ou essa citação... de um artigo... diz assim aspas mesmo podem colo-
car... não quer dizer não escrevam não eu digo colocar nas cabeças de
vocês... ou à medida que vão usu que vão ouvindo...........
(NURC/REC EF 337 l. 277-290)

(44) ................ existe análise também... eu diria que existe até mes:mo...
um olhar assim um tanto voltado à realidade... mas... fazer uma aná-
lise... um estudo sistemático... somen:te... aí é que está a diferença...
somente... vamos grifar... somente levando em consideração a reali-
dade social... em adequação.. à lei por exemplo... ao direito... vigen-
te...
(NURC/REC EF 337 l. 358-364)

112
3.4.3 Repetição
A repetição tem inúmeros papéis e funções na constituição de um texto13.
Um deles é fazer relevo dando proeminência a determinados elementos do
texto. Evidentemente nem toda repetição marca relevo. Não se trata aqui de
intensidade, mas a repetição para intensificar seria uma espécie, uma forma de
proeminência como a repetição de “fininho” por I2, no exemplo (45), em que
o falante I1 repete o termo “polvo” para destacar algo que lembrou. No exem-
plo (11) a repetição de “igual” com diferentes modalizações (precisa ter igual,
basta ser igual, tem que ser igual) dá relevo, marcando a importância da igual-
dade na distribuição das coisas no café da manhã para as duas crianças, refor-
çando o relevo com a mesma função que já tinha sido feito pela altura da voz
na primeira ocorrência (preCISA TER IGUAL). No exemplo (8) a repetição
do termo “exótico” ajuda a marcar o relevo que o falante dá ao exotismo da
sopa de olhos de peixe. No exemplo (23) a repetição de “muito bem feito” em
conjunto com o alongamento e a velocidade dá relevo ao quanto o falante
considera o prato bem feito. Veja também os exemplos (46 a,b). Pareceu-nos
que a entonação é importante na identificação de repetições com a função de
atribuir proeminência. Veja também as repetições de “precisa” em (47).

(45) I1- A comida japonesa, basicamente é peixes crus


I2- Quando comem peixe, comem cru.
I1- É
I2- E bem fininho.
I1- Polvo, polvo.
I2- Fininho, fininho, fininho
(NURC/POA D2 291 l. 320-325)

(46) a- I1- O poncho, a pala, essas coisas, regional é nosso aqui, então, em ter-
mos de funcionalidade é uma beleza, no entanto era uma coisa que
poderia se(r) uniforme do gaúcho, do, do homem na cidade, usa(r)
aquele negócio, claro com outro tipo de corte, com outro tipo de fa-
zenda, enfim seria o sobretudo europeu, francês inglês... (es)tá enten-
dendo, poderia se(r) perfeitamente, vestiria muito bem, e poderiam
usa(r) normalmente uma, uma peça dessas mas por que? Jamais, o
cara que sai(r) é o grosso entendeu? Agora, digamos, invertamos a, a

113
situação, digamos que, que esse tipo de roupa seja usado na Inglater-
ra, ah! bom! Trouxe um poncho inglês? Olha só! (Es)tá usando. Cla-
ro, não é? e já se vê moda, digamos, o, o como disse, invertamos o
sobretudo fosse uma coisa de gaúcho, ficaria coisa de grosso, de
grosso, seria o termo e o poncho seria, (es)tá entendendo, é por isso e
sempre a influência do meio industrialmente desenvolvido, mas...
(NURC/POA D2 291 l. 1010-1024)

b- Doc.-e quando vocês quiseram... escolher uma carreira... o que as levou


escolher a carreira?
L2- a minha eu acho.. eu não tenho certeza para julgar mas eu acho que
foi incutida... meu pai... foi o um::... era militar:: mas a vocação
dele era ter sido... advogado então ele vivia dizendo isso... e eu
tenho a impressão eu não posso dizer porque é difícil... para a gente
dizer porque de jeito nenhum ele falou “focê vai fazer isso”... nun-
ca... mas eu acho que ele falava tanto tanto tanto e eu o admirava
muito... eu tenho a impressão que foi... por causa disto embora mi-
nha meta fosse Itamarati eu sempre...
Doc.-Diplomacia
L2- pensei em fazer Diplomacia sempre sempre sempre... mas depois..
por uma série de circunstâncias... não foi possível.................
(NURC/SP D2 360 l. 1511-1526)

c- L2- ......a gente vive de motorista o dia inTEIRO, mas o dia inTEIro...
(NURC/SP D2 360 l. 93-94)

Um caso interessante de relevo pela repetição é quando esta é mediada


por uma conjunção “mas”. Nestes casos observa-se que o relevo feito pela
repetição parece ser reforçado pela presença do “mas” (cf. exemplo 46 c).

3.4.5 Orações principais


Outro recurso usado para marcar relevo é usar orações principais que
no todo do período funcionam como “predicados”. Estas orações principais
dão proeminência devido ao seu valor semântico que “diz” da importância
para o falante do conteúdo de uma oração que lhe é subordinada (normalmente
uma subjetiva simples ou de uma subjetiva + uma objetiva) chamando a aten-

114
ção do interlocutor para tal conteúdo. Basicamente temos dois tipos de oração
principal que desempenham este papel:

a) aquelas constituídas por seqüências (expressões) tais como “é im-


portante”, “é urgente”, “é notório”, “vale a pena”, “é fundamental”, “é impres-
cindível”, “é significativo”, “é interessante”, “vale a pena” e que vêm acompa-
nhadas de uma oração reduzida de infinitivo subordinada substantiva subjeti-
va cujo conteúdo recebe um destaque de natureza ideacional/cognitiva,
modalizando-o de diferentes maneiras de acordo com a expressão usada, que
dirige a atenção do ouvinte para o que se diz a seguir (veja no exemplo 17 o
uso de “o importante é”). No exemplo (47) abaixo tem-se a ocorrência de duas
dessas orações mas com sujeito representado por SN, mais a repetição dando
relevo a “esporte” e criando uma espécie de gradação.

(47) L1- é... então :: ele se vê no ápice da glória como jogador de futebol
sempre... ele joga bem sabe?... mas ele se vê sempre como o Pelé::...
não é?... e:: então::... a gente... está pensando... como encaminhá-lo
no colegial mas também sem... lutar
muito contra esse gosto dele
[
L2- ahn ahn
L1- precisa praticar esporte precisa... é necessário é fun::/é funda-
mental o esporte né? ainda mais nessa fase de adolescência...
(NURC/SP D2 360 l. 1338-1346)

b) aquelas constituídas por verbos cujo significado contém traços ca-


pazes de fazer o relevo tais como “cumpre/urge/importa/etc.” e que vêm acom-
panhadas de uma oração reduzida de infinitivo subordinada substantiva subje-
tiva normalmente seguida de uma oração subordinada substantiva objetiva
(importa + notar/observar/registrar/salientar/etc. + que.........). O relevo nor-
malmente é para o conteúdo da oração objetiva, que pode ser ainda mais mar-
cado se a subjetiva é um verbo como salientar/insistir/etc. Alguns exemplos
seriam como os de (48).

(48) a- Importa determinar se o direito é ou não uma ciência.


b- Cumpre registrar que minha opinião sobre a questão difere da sua.
115
Este recurso de relevo é muito comum no escrito. Embora teoricamen-
te ele também apareça no oral, não encontramos, no corpus analisado, exem-
plos do mesmo. Somente uma ampliação do corpus permitiria verificar se tal
recurso realmente é pouco usado na língua falada ou se o fato de não termos
encontrado exemplos é apenas uma característica dos inquéritos analisados.

3.4.4 Orações reduzidas e orações adjetivas


As orações reduzidas e as orações adjetivas normalmente veiculam
informação que o falante vê como secundária ou que, por alguma razão, quer
apresentar como tal ao seu interlocutor. Este é o caso em diferentes tipos de
texto, conforme já verificamos em estudos anteriores14. Não encontramos no
corpus analisado (ou nos passou despercebido pela baixa freqüência de ocor-
rência) exemplos que nos permitissem confirmar ou não tal fato para a língua
falada. Dessa forma o que pudemos fazer até o momento foi levantar a hipóte-
se de que aparentemente as orações reduzidas e adjetivas têm uma freqüência
baixa de ocorrência na língua falada (a confirmação dessa hipótese, todavia,
exige um estudo quantitativo cuidadoso que ainda não pudemos fazer).
O único exemplo que levantamos deste tipo de recurso foi uma oração
adjetiva no exemplo (32) destacada no trecho deste exemplo que reproduzi-
mos abaixo. Evidentemente um único exemplo não dá condições para confir-
mação ou falseamento da hipótese levantada, mas pode-se perceber que a in-
formação aparece aí como secundária.

(32) ..........o Ketchup estava na mesa, hum, também provou, etecétera,


etecétera e ela então veio com a notícia que aquele Ketchup que estava
sendo servido era ela que tinha feito, o outro, ela tirou, botou o dela e
serviu. Aí o pessoal, não é possível, foram provar era o mesmo
(NURC/POA D2 291 l. 213-217).

3.5 Marcadores conversacionais


Levantamos a hipótese de que alguns marcadores conversacionais te-
riam a função de marcar relevo. Isto seria feito sobretudo por aqueles que
objetivam chamar a atenção do falante para determinados elementos e idéias
116
dentro do texto a exemplo de “olhe”, “olha!”, “ó!”, “óia!”, “veja!”, “veja bem!”.
Estes marcadores sinalizariam uma opinião do falante, destacando-a. Essa hi-
pótese parece se confirmar, conforme se pode ver no trecho do exemplo (10)
que reproduzimos abaixo, em que o falante chama a atenção para o argumento
que vai propor a seguir; no exemplo (24) (cf. “olha”) em que o falante dá
relevo ao que ele sabe fazer e também nos exemplos (49) a (51) a seguir.

(10) I2- ..... Com a, a, a, olha aqui, alguém duvida, por exemplo, eu, já, falando
sobre o aspecto de comida de novo... mas alguém duvida da, da qualida-
de da sardinha brasileira. Alguém duvida?

(24) I1- Olha eu me limito a faze(r) um bom, bom! Um churrasco (superposi-


ção) churrasco. Mas eu posso fala(r)............
(NURC/POA D2 291 l. 201-202)

(49) L- ... i que era hora di eli vim aqui, intão eu saí c’a minha mãe. Intão, olha
só, mais óia, achu qui issu é... gozadu até purque é au contráriu, né, as
coisas...
(NURC/SP DID 59 l. 17-19)

Neste exemplo a falante dá relevo ao fato de que os acontecimentos são


ao contrário do esperado e o uso do marcador “olha” é que faz isto chamando
a atenção do interlocutor para o que o falante vai dizer. Já em (50) o marcador
(interjeição?) “ó” dá relevo ao espanto que o fato causou na falante.

(50) L- ....................... Ela derrubô ácidu sulfúrico na calça..... (inaudível).


E- Sei.
L- ...feiz uma bola!... i a professora: “Passa sabão na... na peli, logu”, né,
purqui pegô i ficô tudo vermelhu. Intão, ela, ela pidiu prá mim qui tava
ma(is), nossa! Purque, né... A otra, intão, pe... num sei a mistura errada
qui ela feiz, começô a saí uma fumaça... azul! Ela começô a tussi... a
minina ficô tão mal!
E- Nossa!
L- Achu qui já tava cum tossi... ela feiz a mistura errada.
E- Sei.
117
L- ... começô a saí... ó... mais, sabi, pare(cia)... Si filmasse aquilu lá... Nos-
sa Sinhora!... intão né... aí.
(NURC/SP DID 59 l. 7-19)

(51) .......... exa:to que é a ética do dever ser do ou do que deveria ser ainda
mais entendeu? ((intervenção de locutor acidental)) olhe antes que eu
esqueça um parêntese... na realidade social talvez eu esqueça isso de
futuro... por isso vou dizendo loga agora... o ser e o deve ser na realidade
social... eles se: ãh!... complementam andam juntos
(NURC/REC EF 337 l. 580-587)

Em (51) a falante dá relevo ao que vai dizer chamando a atenção atra-


vés do marcador “olhe” e do anúncio do parênteses.

3.6 A mudança de código (“code switching”)


A mudança de código, ou seja, a passagem de um tipo de dialeto ou
registro para o outro no decorrer de um mesmo texto é um recurso que os
falantes utilizam para marcar a importância ou respeito que atribuem ao
interlocutor ou ao conteúdo, à entidade que constitui o tópico discursivo
(por exemplo ao falar de coisas sagradas, da mãe, etc.). Este tipo de recur-
so pode ser observado na fala, mas não detectamos a ocorrência do mesmo
no corpus analisado.
Efetivamente o recurso opera, pois, inclusive quando um falante
entende que seu interlocutor não está dando o devido respeito a algo, cos-
tuma cobrar isto do outro. É o que acontece em seqüências como a de (52)
abaixo.

(52) – E aí? Aquela velha chata, encheu muito seu saco ontem?
– Dobra a língua meu. Quando eu te dei liberdade para falar assim da
minha mãe?
– Desculpe. Sua mãe ficou muito brava ontem, por você chegar tarde?

Talvez o aumento do corpus permita encontrar exemplos deste recurso


no corpus mínimo do PGPF.
118
3.7 Recursos estruturais
3.7.1 Posição nos segmentos textuais
Giora (1983) diz que a posição final de segmentos textuais (frases,
parágrafos, capítulos, versos, estrofes, etc.) dá à informacão (entidade, ele-
mento temático) aí colocado um status de “foreground”, um status de informa-
ção semanticamente dominante enquanto o que é colocado em posição inicial
tem um status de informação “background” dentro da estrutura informacional
do texto. No nível da frase isto está diretamente relacionado à questão do tema/
tópico – rema/comentário e dado/novo, mas em outros segmentos, inclusive
nos maiores (verso, parágrafos, estrofe, capítulos, etc.) o status informacional
é o mesmo. A autora não observa conversações e não considera segmentos
próprios de textos orais tais como os turnos conversacionais. É uma hipótese a
verificar se esta forma de relevo ocorre para segmentos próprios dos textos
falados tais como os turnos e os segmentos tópicos (cf. Jubran et alii, 1991).

4. Focalização
4.1 Focalização no produtor do texto
No que se refere aos fatos de focalização o que pudemos observar é
que, nos inquéritos analisados, o foco predominante é no falante: suas idéias,
suas opiniões, suas experiências, de modo que as narrativas são predominante-
mente na primeira pessoa e os modalizadores nos trechos dissertativos vêm
sempre na primeira pessoa (eu acho, eu achei, eu penso, eu gostei, etc.). Este
fato observado merece um estudo mais detalhado, para registrar efetivamente
como isto acontece. Além do mais não nos parece que se possa afirmar este
foco como uma característica fundamental da língua falada, sobretudo se lem-
brarmos que nos inquéritos do NURC, que constituem o corpus básico do
Projeto de Gramática do Português Falado, sempre se solicitava ao falante que
falasse de suas vivências e opiniões sobre os temas propostos.

4.2 Focalização de partes do texto


Koch (1994), falando de coesão por remissão, coloca que ela teria duas
funções: a reativação de referentes e a sinalização textual. A sinalização textu-
al tem segundo a autora (cf. p. 3) uma “função básica de organizar o texto
119
fornecendo ao interlocutor ‘apoios’ para o processamento textual, através de
‘orientações’ ou indicações para cima, para baixo, para a frente e para trás, ou
estabelecendo uma ordenação entre segmentos textuais ou partes do texto”.
Essa sinalização é feita por recursos tais como “abaixo, a seguir, acima, res-
pectivamente, seguinte, a seguir, que segue, mais adiante, anterior, posterior,
etc.” em expressões como: nos exemplos abaixo/a seguir, no capítulo seguin-
te/ anterior; no próximo capítulo/parágrafo; etc.
Koch (1984:3,4), adotando proposta de Ehlich (1981), acha que nestes
casos seria mais adequado falar de “dêixis textual”, porque o que se tem em
verdade é uma “mostração” dêitica. KOCH registra ainda que para EHLICH
“as expressões dêiticas permitem ao falante obter uma organização da atenção
comum dos interlocutores com referência ao conteúdo da mensagem. Para
consegui-lo, o produtor do texto tem necessidade de focalizar (grifo nosso) a
atenção do parceiro sobre objetos, entidades e dimensões de que se serve em
sua atividade lingüística”. Isto seria feito através do procedimento dêitico. Ora,
este fato configura um recurso de relevo em que o falante dá destaque a algo
provocando a concentração da atenção de seu interlocutor em determinado
elemento do texto: entidade, item tópico, segmento, etc. Interessa aqui particu-
larmente a dêixis textual como recurso de relevo.
O caso do uso de marcadores registrado no item 3.5 acima parece-
nos ser um caso de relevo por dêixis textual em que o produtor do texto
como que diz ao seu interlocutor “ó/olha/veja preste atenção no que vou
dizer agora”. Veja, em (59) abaixo, exemplo de ocorrência deste tipo de re-
curso de relevo.

(59) a) .............. a segunda pergunta diz assim o que significa dizer que as re-
gras de... conduta social são imposições? foi a segunda pergunta... tem
uma parte que complica um pouquinho essa resposta... complica pelo
seguinte porque diz... que são... imposições... e tem algo ligado com
imposições de conhecimento... aí vou explicar né? a vocês o que signifi-
ca isso... eu já expliquei: eu me lembro porque algumas pessoas tive-
ram dificuldade... mas agora para todos... toda sociedade... à medida
que socializa o indivíduo... vai fazendo através do elemento... do com-
posto... sentimento idéia... e vantagem do elemento idéia... .................
(NURC/REC EF 337 l. 52-62)

b) ....... isso eu expliquei... eu a acho que na segunda ou terceira aula...


mais do que as religio:sas mais do que: as regras morais etecetera... eu
120
acho que expliquei isso... então vamos passar... por cima disso... ainda
um outro ponto... não é? a segunda resposta vocês têm de uma maneira...
um pouco rápida porque leram... eu volto somente se alguém tiver
alguma pergunta...
(NURC/REC EF 337 l. 80-86)

c) há três perspectivas que vocês leram de novo... isso aí para vocês duas
mais do que para eles... elas apenas como reforço didático porque inclu-
sive... já... leram e tiveram um pouco o que significa isso? há três
perspectivas... em olhar num é? o direito... o fenômeno jurídico
(NURC/REC EF 337 l. 117-122)

d) isso a gente nós já explicamos em classe...


(NURC/REC EF 337 l. 230)

e) isso eu disse não é? na aula passada...


(NURC/REC EF 337 l. 248-249)

Pode-se observar neste exemplos que a falante busca de diversas ma-


neiras focalizar a atenção do interlocutores (alunos) para coisas que já disse
anteriormente (inclusive em outras aulas) no texto que o curso representa, que
vai dizer, ou para o tratamento que vai dar a algo em sua fala. Como se pode
observar, pelo menos nestes exemplos, a dêixis textual no oral nem sempre é
tão direta e precisa como no escrito, mesmo porque o falante parece não ter
uma consciência muito clara dos segmentos do texto oral quanto tem dos seg-
mentos do texto escrito (parágrafos, seções, capítulos, etc.) e por isso refere-se
mais a blocos do tipo

“eu falei/expliquei/perguntei/propus (ontem/na aula passada /antes, há


pouco, etc); “como no exemplo que vou dar agora/a seguir”; “na análise que
fiz/farei”;”então agora posso concluir”; “os casos que vou elencar a partir de
agora mostram.....”.

É bem verdade que estes recursos muitas vezes parecem ordenadores


dos elementos no texto, e são, mas também focalizam a atenção para elemen-
tos do texto que já foram ou vão ser ditos. É interessante observar ainda que no
121
oral os recursos de dêixis textual que resultam em relevo de focalização são
basicamente expressões de natureza temporal (tempos verbais, sobretudo pas-
sado e futuro, e expressões do tipo “antes, agora, na aula passada, ontem”, etc.)
ou de classificação de elementos utilizados no desenvolvimento do tópico acom-
panhados de algum elemento ordenador (os exemplos que darei a seguir, a
análise que fiz/que farei a seguir, podemos agora tirar uma conclusão, etc.).

5. Algumas observações sobre as funções do relevo


Como dissemos na introdução a função básica do relevo positivo é
exatamente dar destaque, proeminência, e dessa “derivariam” funções tais como
enfatizar; intensificar; marcar um valor especial, indicando que o elemento em
relevo deve ser tomado num sentido diverso do habitual, muitas vezes contrá-
rio; estabelecer contraste; reforçar um argumento; marcar importância para a
estrutura ideacional/informacional do texto, etc.
Vamos agora dar alguns exemplos de ocorrência dessas funções, den-
tro do corpus analisado.
A função de enfatizar ocorre, entre outros, nos exemplos (19b), (25),
(41), (42) (todos de relevo feito por topicalização); (23), (27), (28), (29), (30) e
(31) (todos de relevo feito por expletivos) e (45) (repetição de “polvo”) e (46)
(repetição de “grosso”). Evidentemente a ênfase pode ter razões ideacionais e
interacionais como o destacar que é uma entidade que deve ser levada em
conta e não outra.
A função de intensificar aparece nos exemplos (3) com a entonação
particular de “monstruosidade”, (23) com o alongamento de “muito” e (45)
com a repetição de “fininho” e em praticamente todas as ocorrências em que o
intensificador muito está em relevo.
A função de marcar sentido especial pode ser observada abaixo no
exemplo (53) (relevo de “diSSEram” pela altura da voz) em que a falante quer
que se considere o “dizer” como duvidoso apesar do uso do pretérito perfeito
do indicativo que implicaria certeza e no exemplo (54) (relevo de “enGAnos”
pela altura da voz) em que a falante sugere pelo contexto que na verdade não
eram enganos, mas algum tipo de desonestidade.

(53) L2- eu estou em casa... estou super/supervisionando o que pessoal está fa-
zendo... não é?... então (né?) fica mais fácil... e:: o que não dá para fazer

122
durante o dia eu faço à noite... mas realmente nós estamos precisando de
bastante gente... (está precisando deMAIS lá)
L1- mas vai ser logo...
L2- eles dizem que vai ser logo
[
L1- eu acho
L2- mas a gente está esperan::do::... não sai nada
L1- é da pe/da prefeitura... e... para procurador do Estado...
L2- ahn ahn
L1- meu marido supõe que::... no primeiro semestre do ano que vem ...
L2- já saia?
[
L1- seja marcado...
L2- ah é?
L1- é
L2- porque diSSEram não sei se é mesmo... que enquanto existe um projeto
nosso... e:::
provavelmente ele deve ter falado com você
L1- enquanto houver concursados::
L2- não
L1- vão sendo chamados
[
L2- enquanto nã/ não for ser resolvido esse projeto não o projeto que tem...
sabe? para os procuradores uma lei... nossa uma regulamentação nossa
(NURC/SP D2 360 l. 496-521)

(54) L2- houve uma série de irre/éh:: de irregularidades... nas lis/na apresentação
da lista de classificação irregularidade foi engano... no no no fazer... na
confecção da lista... de de aprovados hou/houv/ começaram a haver al-
guns enganos... então o pessoal que mand/entrava com mandado de se-
gurança... dizendo que foi contado pontos errados... enGAnos simples
comuns eh aritmética (às vezes) de somar o número de pontos... então
eles entraram com mandado de segurança... anulando aquela lista de
classificação... e então havia publicação de outras... e assim foi indo e:: e
123
a::... de acordo com o edital a validade é dois anos DA publicação... dos
resultados... da lista de aprovados... então com a:: com esta... com este
recurso de mandado de segurança... não foi propriamente o recurso fo-
ram coisas que realmente aconteceram...
(NURC/SP D2 360 l. 589-604)

A função de marcar contraste pode ser observada no exemplo (7)


com o relevo de “AFIRMO” para contrastar com “pergunto”. No exemplo
(17) o relevo dado à conjunção “mas” por si marcadora de oposição, con-
traste, reforça o contraste que a falante faz entre tudo o que acabou de citar
e o que acha realmente importante na escola. No exemplo (55) abaixo o
relevo dado pela altura da voz a “HOmens” estabelece um contraste com
a idéia de que uma vez que os homens fazem tantas restrições à carreira de
procurador era de se esperar que eles não se candidatassem tanto. No mes-
mo exemplo o relevo pela altura da voz dado ao numeral “UM” estabelece
um contraste entre o número de advogados e o número de engenheiros
solicitados pelas empresas para contratação, enfatizando ao mesmo tempo
a diferença. No exemplo (56) o relevo do advérbio “aGOra” marca o con-
traste entre antigamente e a situação atual. No exemplo (57) o relevo de
“priMÁrio” e “giNÁsio” estabelece um contraste entre estes níveis de en-
sino e o nível superior (medicina).

(55) L2- é...( ) depois éh depois passou a carreira para ser procuradores do esta-
do... e aí ( ) e e apesar de todas essas restrições feitas... pelos homens...
é inCRÍvel o número de candidatos para prestar concurso... o numero
de HOmens que se candidatam ... e por aí a gente vê por FOra... como a
coisa está difícil( ) por isso eu vejo pelo meu marido... como eu falei
para vocês ele faz seleção de pessoal né?... então... ele diz que
para..........................................................................
.......................................................................................
que para cada cem engenheiros que são pedidos... é pedido UM advoga-
do... quer dizer a desproporção é inCRÍvel...

(56) Inf. certo eu acho que o o o antigamente os cinemas... o ambiente era outro...
a gente ia ao cinema tinha em São Paulo tinha uns cinemas ótimos eu
acho que aGOra o:: o pessoa::l sei lá eles vão de qualquer jeito ao cine-

124
ma do jeito que estão::... eles emendam saem do trabalho vão ao cinema
saem da escola vão ao cinema.....................
(NURC/SP DID 234 l. 542-547)

(57) Doc.sei e (o ensino?)


Inf. aGOra o ensino... eu acho naquele tempo o ensino melhor do que... hoje
né? porque eu acho hoje um pouquinho::... (vamos dizer) confuso pra o::
o estudante
Doc.em todos os níveis ou ... cê acha que
[
Inf. não... no nível superior medicina não eu acho que (ao menos)
medicina... bom as deficiências que tem agora os estudantes... falam nós
também tínhamos naquela época não bradávamos tanto quanto eles bra-
dam é questão só de... falar de reclamar né?... então nós tínhamos tam-
bém no ensino superior não agora no priMÁrio e no giNÁsio eu acho...
diferença... antigamente achava be/bem melhor o ensino (sabe?)... ape-
sar de os estudantes hoje terem muito mais facilidade do que nós no ( )
antigamente né... então nós tínhamos MUIto mais dificuldade... porque
não tinha MUItos meio de comunicação como o estudante tem
hoje.............................. ...............................................
(NURC/SSA DID 231 p. 2)

A função de constraste pode apresentar subfunções tais como marcar


algo como ou oposto ou simplesmente diferente de algo que veio antes; mar-
car, na correção, a forma correta em relação à errada anterior (cf. exemplo 5b).
A função de reforço de argumento pode ser observada no exemplo
(7) com o relevo dado ao operador argumentativo também em “TAMBÉM a
lei”.
A função de marcar importância para a estrutura ideacional/in-
formacional (cognitiva) aparece em quase todos os exemplos com relevo
dado a substantivos como no exemplo (4), em que temos o relevo de “or-de-
na-do” (pela silabação) e de “CLASSIFICAÇÕES” dados como importantes
para o conteúdo da idéia defendida pela professora, e no exemplo (1) em que o
relevo dado ao adjetivo “ALTA” pela altura da voz marca a importância deste
fator na justificativa para não fazer o café da manhã tal como descrito, o que
certamente implica em reforço de argumento.
125
O relevo pela altura da voz pode ter a função de marcar o foco infor-
macional15, indicando a informação que é vista como inteiramente nova, mui-
tas vezes constrastando com uma informação que se pretende corrigir. Isto
pode ser observado em uma seqüência como a de (58).

(58) A- Seu irmão chegou hoje, não foi?


B- Não, ele veio ONTEM.

Embora o relevo possa acontecer por razões emocionais (raiva, irritação,


entusiasmo, surpresa) não parece que se possa dizer que o relevo tem a função
de marcar emoções.
Nem sempre é fácil fixar a função que tem um dado relevo feito pelo
produtor do texto porque na verdade ele pode ter várias funções em planos dife-
rentes muitas vezes derivadas umas das outras. Assim por exemplo uma ênfase
pode ter implicações ideacionais ou argumentativas ou no estabelecimento de
contraste, este por sua vez pode reforçar um argumento e assim por diante.
Evidentemente o capítulo das funções ou papéis que o relevo tem no
funcionamento do texto em uma situação concreta de interação merece um
estudo particular e aprofundado que certamente não fizemos. Além do mais a
teorização sobre as funções exige que outras questões sobre como o relevo
ocorre estejam devidamente descritas, embora alguns fatos ou princípios já
possam ser levantados com base no já estudado. As funções acima arroladas
certamente dizem respeito a certos tipos de relevo como o feito por meios
fonológicos, lexicais, alguns sintáticos tais como a topicalização e a repetição.
Já os relevos de figura e fundo feitos pelo aspecto e pelo tempo, a apresentação
de informações como principais e secundárias podem ter funções de organiza-
ção de informações que parece não seriam próprias de algumas formas de
relevo. Assim a teoria das funções exigiria primeiro o estabelecimento de cada
tipo de relevo e de como ele feito, em seguida o estudo das funções que cada
tipo de relevo pode exercer e finalmente um cotejo que levantaria quais fun-
ções seriam comuns a todas ou a algumas formas de relevo e se alguma forma
de relevo teria funções que lhe seriam próprias e particulares.

6. Considerações finais
Constatada a existência do fenômeno do relevo e que ele se estabelece
através de vários e diferentes recursos da língua, algumas questões começam a
126
se delinear. Assumindo que o falante dá instruções ao ouvinte durante o ato
comunicativo por meio de elementos lingüísticos que tipo de instrução repre-
senta o relevo?
Parece que várias respostas são possíveis, mas de maneira geral a ins-
trução é algo que poder-se-ia verbalizar como:

a) ”dê importância maior a tal elemento e não a outro ou


b) dê importância ao que vou dizer agora, ou
c) o que disse, estou dizendo ou vou dizer, por alguma razão, é impor-
tante para mim ou considero-o importante:
– para as idéias que estou apresentando e/ou
– para a conclusão a que quero que você chegue e/ou
– para a interação que está ocorrendo entre nós
e) por isso, você deve levar isto em conta”
d) ou, no caso do relevo negativo, não dê importância a este elemento
ou ao que estou dizendo agora.

As conseqüências disto nos efeitos de sentido que são produzidos entre


os interlocutores nas situações concretas de comunicação são muitas e varia-
das e abrem também um novo veio de questões a serem resolvidas.
O relevo é de que nível: sintático, semântico, pragmático? Parece que
independente do tipo de recurso utilizado ele é sempre de caráter pragmático e
tem uma origem e um resultado na interação entre os falantes numa dada situ-
ação de comunicação em que o relevo adquire um determinado valor e não
outro em decorrência de sua função específica dentro de um texto específico
usado como meio de interação em uma situação específica.
Em vários momentos pudemos constatar que os recursos utilizados para
dar relevo podem atuar em conjunto e em alguns exemplos anotamos tal ação
conjunta. O estudo de como essa ação conjunta se dá, de quais recursos podem
ou não agir conjuntamente no estabelecimento de relevo é, sem dúvida, um
estudo a realizar.
Finalmente é preciso registrar que o relevo é um fenômeno da consti-
tuição dos textos que realmente tem um papel importante na construção e or-
ganização dos mesmos, tanto que perpassa vários outros fatos da língua em
vários planos e níveis, uma vez que se faz com recursos fonológicos, morfoló-

127
gicos, lexicais, sintáticos, semânticos e da estrutura do texto, atingindo ele-
mentos isolados ou tipos de elementos. Essa abrangência do fenômeno reco-
menda que ele deve ser melhor estudado enquanto um dos organizadores do
texto e da interação a que este serve.
Como se vê este estudo revela que temos aqui outro campo para pes-
quisas lingüísticas e que há muitos fatos a serem descritos e muitos problemas
a serem resolvidos.

NOTAS
1
Os elementos que se colocam em relevo seriam “partes” do conteúdo ou certos tipos de
conteúdo (como, por exemplo, ações que constituem os episódios de uma narrativa que
aparecem em partes da narrativa como a complicação e a resolução em relação ao pano
de fundo que aparece em partes da narrativa como orientação e avaliação) dentro do
desenvolvimento do tópico discursivo ou se dá relevo a certas entidades, relações, mu-
danças de tópico, etc. Assim podem ser colocados em relevo: a) episódios de uma
narrativa em relação ao cenário, descrições de personagens, ações de pano de fundo; b)
ações em relação a outras por razões emotivas; c) determinados conceitos; d) um argu-
mento em relação a outros; e) a introdução de um novo subtópico ou a volta a um
subtópico; f) determinadas relações entre proposições; g) uma forma de dizer em rela-
ção a outra que talvez o falante considere menos apropriada, etc.
2
No relevo negativo, o falante procura fazer com que algo passe despercebido, prova-
velmente algo que não pode deixar de dizer, mas a que não quer o interlocutor dê muita
atenção. Um recurso para este fim seria falar rápido e baixo. Não encontramos exem-
plos deste fato no corpus analisado, talvez porque os mesmos ocorram exatamente nos
pontos dos inquéritos em que a fala fica ininteligível.
3
Os inquéritos do segundo grupo só foram utilizados na análise que resultou nos qua-
dros 1 e 2.
4
As formas de relevo aqui elencadas foram basicamente levantadas em Travaglia (1991).
5
Kalmár (1982) afirma que nas narrativas da língua esquimó Inuktitut o modo verbal
organiza as informações em essenciais e secundárias.
6
Travaglia (1991) registra para o Português que em todos os tipos de textos (descrição,
dissertação, narração e injunção) as formas nominais (em orações reduzidas) sempre
veiculam informações secundárias.
7
Li, Thompson e Thompson (1982) dizem que no Mandarim este relevo, na narração,
seria marcado por uma espécie de sufixo, a partícula “-LE”.
8
Entrariam aqui questões como o que a teoria literária estudou com o nome de foco
narrativo: no falante: 1ª pessoa, nos participantes: 3ª pessoa.
9
(5b) permite levantar a hipótese de que há correções em que o falante dá relevo à forma
correta para marcá-la. É preciso verificar se este caso ocorre mais vezes, ampliando o
corpus e levantando mais casos de correção com relevo da forma correta.

128
10
As lingüistas Maria Luiza Braga e Margarida Basílio levantaram a hipótese de que este
recurso é lexical e não fônico. A meu ver a hipótese procede, se considerarmos “tcham,
tcham, tcham” como uma palavra da língua e não uma espécie de música de fundo.
11
O verbo ser aparece usado em diferentes tempos e pessoas.
12
Este tipo de verbo foi proposto por Travaglia (1991: 67).
13
Veja, por exemplo, Travaglia (1989) (1989a) e Marcuschi (1992).
14
Veja Travaglia (1991).
15
Isto já foi observado por outros autores, como por exemplo Halliday (1967) apud Braga
e Oliveira e Silva (1984).

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129
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Madrid, Gredos.

130
FUNÇÕES TEXTUAIS-INTERATIVAS
DOS PARÊNTESES

Clélia Cândida Abreu Spinardi Jubran


(UNESP/Assis – CNPq)

I. Introdução
Pretendemos apresentar, neste artigo, uma tipologia das funções textu-
ais-interativas exercidas por parênteses em textos falados, do Projeto NURC.
A análise baseia-se na Proposta Teórica elaborada pelo Grupo de Organização
Textual-Interativa do PGPF (Koch et alii, mimeo), bem como nos princípios e
critérios para uma classificação das funções pragmático-textuais das inserções
parentéticas, expostos em Jubran (1966 b), a seguir sintetizados.
No contexto de uma perspectiva textual-interativa para descrição de
corpus falado, apoiamo-nos nas postulações teóricas de que o interacional é
inerente ao lingüístico e de que a interação verbal resulta do exercício de uma
competência comunicativa, que se concretiza por meio de textos. Dado o im-
bricamento entre o interacional e o lingüístico, os dados pragmático-situacionais
se introjetam no texto, deixando marcas do processo formulativo-interacional
na sua superfície (Koch et alii, mimeo).
Em consonância com tais colocações teóricas, os parênteses são vistos
como um dos recursos pelos quais os interlocutores articulam o texto falado,
manifestando, na sua materialidade lingüística, as posições que assumem na
situação de enunciação e o correlativo envolvimento com o ato de fala que
executam. Através de procedimentos parentéticos, são explicitadas avaliações
que os interlocutores fazem do quadro sócio-comunicativo no qual interagem,
pondo à mostra, assim, o processamento discursivo.
Incidindo sobre o modo de formulação do que se diz, sobre o foco
enunciativo e o conseqüente estabelecimento de uma direção interpretativa do
que se diz, ou ainda sobre qualificações que os interlocutores se atribuem no
intercâmbio comunicativo, e que repercutem no que se diz, os parênteses operam
desvios momentâneos do quadro de relevância tópica de um segmento textual.
Tais desvios são assinalados por marcas formais típicas de elemento inserido,
que permitem precisar a sua identificação e delimitação (Jubran, 1996 a e Te-
nani, mimeo).
Os desvios parentéticos do tópico discursivo em proeminência em de-
terminado segmento do texto falado manifestam-se em graus variáveis, desde
um afastamento tópico mais tênue até um mais pronunciado. Correlacionando
essa gradiência de desvio tópico com a propriedade, acima referida, de os pa-
rênteses conjugarem o interativo com o textual, observa-se que:

a) de um lado, os parênteses são mais desviantes do tópico quando


apresentam uma tendência mais acentuada para focalizarem o pro-
cesso de enunciação, sem que, com isso, sejam anuladas as suas
implicações no desenvolvimento do texto. Equivale a dizer que,
quando quebram o fluxo temático para, no limite, incidirem domi-
nantemente sobre o ato enunciativo, os parênteses mesmo assim re-
percutem no texto, por estarem perspectivando as condições enun-
ciativas necessárias à própria existência do texto;
b) por outro lado, os parênteses são menos desviantes do tópico quan-
do pendem mais para o “conteúdo” dos enunciados de relevância
tópica, esclarecendo-os, exemplificando-os, sem deixarem de indiciar
demandas pragmáticas para a sua ocorrência. Isto significa que, nos
casos de uma orientação mais pronunciada dos parênteses para o
tópico em proeminência no texto, decresce a manifestação explícita
das circunstâncias situacionais da interlocução (Jubran, 1996 b).

A partir das constatações acima, pretendemos estabelecer uma tipologia


de funções textuais-interativas de parênteses, instituindo classes dispostas ao
longo de um contínuo, que vai desde uma proximidade maior dos parênteses à
construção tópica do segmento textual contextualizador da inserção parentética,
até uma maior aproximação dos parênteses à situação enunciativa em si.
Como está em causa uma classificação de parênteses assentada em um
contínuo que se estende desde um pendor dos parênteses para a construção
132
tópica do texto até um pendor para o espaço discursivo gerador do texto, julga-
mos ser pertinente, para os nossos propósitos de pesquisa, considerar o ele-
mento focalizado predominantemente pelos parênteses. Nesse sentido, adota-
mos, como princípio primeiro de sistematização dos dados, o foco sobre o qual
incide a inserção parentética.
Chegamos, assim, a quatro grandes classes de parênteses, que envol-
vem fatores discursivos implicados pela perspectiva textual-interativa aqui
assumida, e que enfocam: (a) a construção tópica do texto, (b) o locutor, (c) o
interlocutor e (d) o ato comunicativo. A disposição das classes nessa ordem
reflete os graus sucessivos de maior proximidade ao tópico discursivo e menor
explicitação verbal do pragmático no texto (classe a), passando por classes
intermediárias (b e c), em que se acentua, na materialidade lingüística do texto,
a presença dos interlocutores, provocando um desvio para a instância de enuncia-
ção, até chegar ao afastamento tópico máximo e à aproximação maior do ato
interacional em si (classe d).
Convém enfatizar que a demarcação dessas classes será sempre feita
de acordo com a dominância do que é promovido como foco, pois os fatores
nelas envolvidos muitas vezes se interrelacionam. O princípio classificatório
será funcional, no sentido de que a descrição dos vários tipos de parênteses
ressaltará de seu uso e funcionamento em situações de interação verbal.

II. Tipologia de Parênteses


1. Classe a – Elaboração tópica do texto
Esta primeira classe particulariza-se pelo fato de ser constituída por
parênteses relevantes para a elaboração dos tópicos discursivos desenvolvidos
em um texto falado, (a) seja no sentido de manterem alguma conexão de “con-
teúdo” com os mesmos, (b) seja no sentido de sua formulação lingüística, (c)
seja ainda no sentido de sua construção textual. Compreende, portanto, três
subclasses.

1.1 Parênteses correlacionados com o conteúdo tópico


Os casos de parentetização englobados neste tipo estão na situação-
limite de reconhecimento de um segmento textual como parentético ou não.
Isto porque atenuam a propriedade de desvio tópico, particularizadora de
133
parentetização, na medida em que são concernentes com os enunciados de
relevância tópica, por manterem conexões de conteúdo com eles. São esclare-
cimentos, analogias, exemplificações, justificativas, correções, ressalvas, re-
toques, reiteração ou desdobramento de informações tópicas. Poderiam ser
considerados equivalentes, na classificação de digressões feita por Dascal e
Katriel (1982), às “quase-digressões”, integrantes do tipo de digressões basea-
das no enunciado, segundo colocação dos autores citados.
Pelo fato de esses parênteses guardarem proximidade ao tópico discur-
sivo em desenvolvimento, o critério do desvio tópico torna-se menos operante
para a sua identificação. A natureza típica de segmento inserido é dada, então,
pelas propriedades formais de parentetização. É através das marcas formais do
processo parentético que podemos discernir quando esclarecimentos,
exemplificações e analogias, em princípio concernentes com os enunciados
que elucidam e, portanto, menos desviantes do tópico, adquirem ou não estatu-
to de parênteses. Além dos indícios formais de parentetização, que ocorrem
nas fronteiras inicial e final das inserções parentéticas (como pausas, possibi-
lidade de interrupção sintática do enunciado em que se encaixam e posterior
retomada do mesmo, marcadores de suspensão e de retorno do tópico), sobres-
saem, como critério de identificação e delimitação dessa modalidade de parên-
teses, as marcas prosódicas de alteração de tessitura e aceleração do ritmo de
elocução.
Conforme dissemos na Introdução, em virtude de o foco de parênteses
dessa natureza recair preponderantemente sobre o tópico discursivo, diminui a
expressão do processo interativo na materialidade lingüística do texto. Na grande
maioria das ocorrências, os dados pragmáticos são perceptíveis pelo fato de
que o caráter elucidativo dos enunciados topicamente relevantes, que eles as-
sumem, indicia objetivos interacionais de criar mecanismos facilitadores da
compreensão das proposições tópicas. Sob esse aspecto, eles asseguram a
inteligibilidade e aceitabilidade do texto, preenchendo condições discursivas
importantes para a eficácia do ato comunicativo.
Um dos recursos de elucidação do conteúdo das proposições tópicas é
o da exemplificação, pela qual se introduzem, no texto, dados fatuais
comprovadores do que está sendo dito. A função de exemplificação, conforme
se verifica em (1), aponta o envolvimento do locutor com o assunto, revelando
sua atitude em relação ao conhecimento do que comunica: a de que este se
baseia na evidencialidade dos exemplos. Essa atitude gera a confiabilidade no
conhecimento (Chafe, 1985), levando, interativamente, à aceitação do que é
dito e à esperada adesão do interlocutor.
134
(1) Inf. cooperativas também são... entidades... realmente bastante...
significativas...dentro de uma conjuntura... ou dentro da conjuntura...
nacional por exemplo para citar especificamente o caso... do nosso
país... sabemos por exemplo que países altamente evoluídos e avança-
dos... [como é o caso por exemplo da Suécia... que é um país que
pratica na opinião de alguns... um socialismo considerado como de-
mocrático]... têm nas cooperativas uma espécie de suporte ou de tri-
pé... para o seu desenvolvimento...
(DID REC-131)

Com função de esclarecimento interpõem-se no texto parênteses que


detalham dados expostos nos enunciados topicamente relevantes, atendendo à
regra de “clareza”, que faz parte do acordo contratual estabelecido entre os
participantes da ação discursiva (Betten, 1976). É o que se observa em (2), em
que o parêntese, pela menção ao nazismo e fascismo, introduz uma particulari-
zação da informação precedente, de que a Segunda Guerra se deu em função
de antagonismos ideológicos.

(2) Inf. e muitas vezes a gente tende... a simplesmente explicar uma segunda
grande guerra como tendo sido uma guerra ... claro ... não uma guerra
de ocupação como foi a primeira... mas uma guerra ... principalmente
em função de .. antagonismos ideológicos ... [no caso o nazismo e o
fascismo tá? (as) raízes do eixo] ... economia basicamente social e a
guerra é o mais social possível ...
(EF RJ-379)

Ressalvas, retoques e correções de informações que constróem a cen-


tração de um segmento discursivo são três outras funções freqüentes da moda-
lidade de parênteses em questão. Pela ressalva, insere-se uma observação so-
bre a extensão do significado de uma proposição, que pode ser ampliado ou
reduzido, tendo em vista um ajuste do âmbito significativo dessa proposição.
Em (3), o parêntese opera uma redução da informação anterior, pela qual a
qualidade de raciocínio lógico e abstrato parecia genérica e indistintamente
atribuída a todos os membros da classe dos juristas:

(3) Inf. a linguagem ... o raciocínio ló:gico ... abstrato ... do jurista ... [bem
claro que não é de TODO ... deveria ser de todo] ... é bonito ... é algo
bem pró:prio dele ...
(EF REC-337)
135
O parêntese-retoque, como em (4), reformula uma informação prece-
dente, precisando-a por meio da repetição de um elemento nela contido e o
acréscimo de elementos diferentes. Já o parêntese-correção, como em (5),
embora compartilhe com o retoque a propriedade da reformulação textual,
dele se distingue porque anula, retrospectivamente, a informação sobre a qual
recai o processo corretor.

(4) L1 e logicamente indo ao banco levando essa proposta eles me trouxeram


... eles me deram de volta uma série de duplicatas para que eu assinasse
e ... [eu e o fiador] ... e isso então foi entregue de volta
(D2 RJ-355)

(5) L1 de um modo geral na Europa eu não gasto dinheiro com hotel ... o ano
passado eu: ... em dois meses ... paguei dois dias de hotel em Madri ...
foi só ... [não ... dois dias eh não ... foi um não um dia em Madri e um
dia em Munique] ... quer dizer ... em dois meses eu paguei dois dias de
hotel ...
(D2 RJ-355)

As funções de inserções parentéticas ressaltadas até o momento, com o


objetivo de exemplificar a subclasse dos parênteses correlacionados com o
conteúdo tópico, associam-se à construção da referencialidade textual, que se
dá de forma momentânea e dinâmica, no desenrolar do ato comunicativo. O
encaixe na linha discursiva de exemplos, esclarecimentos, ressalvas, retoques
e correções das informações em curso denuncia essa especificidade de moni-
toração local e contínua no processamento do texto falado, com vistas à pro-
dução de um texto capaz de funcionar comunicativamente.

1.2 Parênteses relacionados com a formulação lingüística do tópico


Os parênteses atinentes à formulação lingüística do tópico são frag-
mentos discursivos que se desviam da centração tópica, colocando em foco o
sistema verbal que está sendo utilizado pelos interlocutores. Nesse sentido,
eles realizam uma função metalingüística, por terem a particularidade de se-
rem enunciados lingüisticos que, reflexivamente, focalizam a própria lingua-
gem.
136
O conceito de metalinguagem pode ser entendido, neste caso, no senti-
do restrito de exploração do próprio sistema de signos lingüísticos, uma vez
que os parênteses metalingüísticos fazem sempre referência ao código do dis-
curso, estabelecendo relações entre signos. No entanto, para uma necessária
adequação desse conceito à ótica textual-interativa de nossa pesquisa, é preci-
so não só levar em conta as relações de signo para signo, instituídas pela
metalinguagem, como também as relações entre usuários e signos. Nessa li-
nha, a metalinguagem será vista no seu funcionamento em situação de comu-
nicação, englobando, portanto, fatores do processo de enunciação: locutor di-
rigindo-se a um interlocutor, e utilizando-se de enunciados metalingüísticos
com propósitos interacionais.
Sob esse ângulo, recupera-se, como bem o demonstra Borillo (1985), o
sentido que Jakobson conferiu à função metalingüística. Jakobson (1969) de-
fine metalinguagem como discurso centrado sobre o código, acrescentando a
essa definição uma observação relativa a condições enunciativas para a ocor-
rência de enunciados metalingüísticos: a de que eles decorrem da necessidade
de o destinador e/ou destinatário verificarem se estão utilizando o mesmo có-
digo, a fim de promoverem a intercomunicação.
Essa concepção de metalinguagem, que aqui adotamos, aproxima-se
da de metadiscurso, já que, como nas situações de metadiscursividade, é rela-
cionada com o ato de enunciação que dá origem às formulações metalingüísticas
(Borillo, 1985).
Partindo, então, dessa visão mais ampla, agrupamos, nesta classe de
parênteses voltados para a formulação lingüística do tópico, não só as inser-
ções parentéticas que deixam patentes operações metalingüísticas, no sentido
restrito de tradução intra-língua, como também as que pontualizam o texto
falado com procedimentos de busca de denominações e de confirmação ou
rejeição de opções lexicais. Tendo em vista que esta pesquisa tem enfoque
interacional, são também englobados, nesta classe, os parênteses pelos quais o
locutor, suspendendo momentaneamente o tópico discursivo, declara ao inter-
locutor que está processando opções lexicais, ou dele solicita colaboração para
a escolha de denominações.
A título de ilustração, apresentaremos algumas das funções de parênte-
ses que enfocam o processamento lingüístico dos tópicos discursivos.
A primeira, de explicitação do significado de palavras, pode ser evi-
denciada pelo primeiro parêntese assinalado em (6). Ela se manifesta freqüen-
temente por meio de procedimentos metalingüísticos, em que um termo em-
137
pregado no texto (no caso, bisonte) torna-se objeto de um comentário sobre o
seu significado e/ou referência. O segundo parêntese destacado no mesmo
trecho, ao focalizar o significado de veado, já tem uma função mais específica,
que é a de explicação do valor de uma palavra no contexto.

(6) Inf. aqui nós vamos ... fazer uma leitura em nível PRÉ-iconográfico nós
vamos reconhecer as formas ... então que tipo de formas que nós va-
mos reconhecer? ... nós vamos reconhecer bisontes ... ((vozes)) ...
[bisonte é o bisavô... do touro ... tem o touro o búfalo:: e o bisonte
MAIS lá em cima ainda] ... nós vamos reconhecer ahn:: cavalos ... nós
vamos reconhecer veados ... [sem qualquer (em nível) conotativo aí]
...e algumas vezes MUIto poucas ... alguma figura humana ...
(EF SP-405)

Observando a questão da elaboração lingüística do texto falado, cons-


tatamos casos de suspensão momentânea do fluxo informacional motivada
pelo encarte, no texto, de segmentos parentéticos reveladores do processa-
mento formulativo:

(7) Inf. uma vez ... ele era tesoureiro ... outra vez vice-presidente ... outra ago-
ra ele é ... eu disse vice-presidente ainda agora ... né? ... mas não ...
vice-presidente é o outro ... ele foi no ano passado ... ele é ... [como é
que se diz a pessoa que cuida do clube ... que toma ... [não ... não é
ecônomo] ... é o que toma conta assim da ... dessa parte ... que ele tem
que cuidar dessas obras tudo ... diretor de patrimônio... é isso ... né?]
... então a gente ... quando tem também esses encontros ...
(DID POA-45)

O parêntese acima projeta, no desenvolvimento sintagmático do texto


um processo semasiológico de estabelecimento do significado do que se quer
comunicar (a pessoa que cuida do clube, que toma conta, que tem que cuidar
das obras, de tudo), na direção de um processo de designação e, portanto, de
seleção onomasiológica, explicitado pelo encarte de outro parêntese (não ...
não é ecônomo). O término desse processo de designação se dá com o encon-
tro do termo buscado (diretor de patrimônio).
Este parêntese é bastante elucidativo do processo de formulação lin-
güística do tópico, porque põe à mostra a operação de seleção paradigmática

138
de lexias, para a combinatória semântico-sintática de elaboração dos enuncia-
dos, evidenciando a “mise-en-scène” do código. É elucidativo também do pro-
cesso interacional, porque materializa lingüisticamente a interação com o in-
terlocutor, chamando-o a colaborar na seleção onomasiológica, através da per-
gunta como é que se diz, introdutora do parêntese, e a confirmar a adequação
da denominação encontrada, por meio de outra pergunta é isso ... né?, finaliza-
dora do parêntese.
A verbalização do processamento lingüístico do texto promove a fun-
ção parentética de busca de denominações, que pode vir indicada por vários
recursos:

a) por expressões como mais precisamente, sobretudo, isto é, quer di-


zer, que, acompanhadas de uma opção lexical, constituem parênte-
ses que retificam ou corrigem uma outra opção lexical anterior aos
parênteses. Mediando as duas opções, tais expressões indicam que a
segunda é mais apropriada que a primeira. Em vez das expressões
acima citadas, pode ocorrer a alternativa ou introduzindo o parênte-
se, como em (8), em que a inserção ou precisão provoca um retorno,
no eixo sintagmático, ao núcleo do SN precedente (exatidão), subs-
tituindo-o, enquanto alternativa de opção lexical mais adequada ao
contexto (desenho).

(8) Inf. bom ... outra coisa que nós vamos ver ... nos slides na na aula que
vem ... é a extrema precisão do desenho ... eles conseguem chegar a
uma fidelidade linear ... da natureza ... à extrema exatidão do dese-
nho ... [ou precisão] ... e eles conseguem chegar ... a é óbvio uma
evolução certo?
(EF SP-405)

b) por justaposição ou alternância de sinônimos, no interior de um pa-


rêntese, que ou podem se excluir, de modo que o último será mais
apropriado às necessidades comunicativas, ou podem se reforçar
uns aos outros e, por acumulação, transmitir o significado desejado.
Esta segunda possibilidade ocorre em (9), em que o parêntese con-
tém uma lista de sinônimos (ou três perspectivas ou três linhas ou
três maneiras), que acabam por clarear o significado do SN prece-
dente os três saberes. Observe-se que as alternativas de denomina-
139
ção poderiam ocupar o mesmo lugar sintático do referido SN, o que
demonstra a projeção da escolha paradigmática no eixo sintagmático
(Blanche-Benveniste, 1984).

(9) Inf. mos:tra ... num é? nesse trechozinho ... ou nessa citação ... que os três
... saberes ... [ou três perspectivas ou três linhas ou três maneiras] ...
de se olhar o direito ... mostra que ... todas três ... na realidade ... defi-
nem ... classificam ... e têm ... proposições ... sobre as relações ... perti-
nentes ao direito ...
(EF REC-337)

c) por frases que registram um procedimento metalingüístico pela pre-


sença de termos da linguagem-objeto e da metalinguagem, confor-
me se verifica em (10). O parêntese comporta um termo-objeto (tê-
nis de praia) e um comentário metalingüístico que focaliza esse ter-
mo-objeto enquanto expressão (que se chama) e conteúdo (aquilo
com raquete).

(10) Inf. bom ... o que eu vejo lá na ... na ... praia o pessoal joga muito aquelas
raquetes assim ... jogam vôlei ... [ tênis de praia que se chama aquilo
com raquete] ... é tênis de praia ... vôlei ... isso que eu vejo na praia ...
né?
(DID POA-45)

d) por comentários parentéticos do locutor a respeito de uma opção


lexical, como em (11), em que o parêntese (a palavra neutralizar
não sei se se aplica bem) encerra uma observação sobre a adequa-
ção ou não da escolha do verbo neutralizar para descrever a atitude
dos países vencedores da Segunda Grande Guerra de ajudarem eco-
nomicamente o Japão, país vencido.

(11) Inf. elas (as economias industriais aliadas que ganharam a Segunda Guer-
ra) resolveram ... trazer ... a economia japonesa para seu lado ... tá
claro? ... quer dizer ... [a palavra neutralizar ... não sei se se aplica
bem] ... mas resolveram mostrar ao Japão que não eram os inimigos

140
que eles estavam do mesmo lado ... que todos podiam em termos in-
dustriais ... se desenvolver ...
(EF RJ-379)

e) por expressões como digamos assim, podemos dizer assim, por as-
sim dizer, vamos dizer assim, que precedem ou sucedem uma deter-
minada opção lexical, indicando que a denominação escolhida apro-
xima-se do que se pretende comunicar, não sendo, necessariamente,
o termo mais pertinente. Por meio dessas expressões, o locutor sina-
liza, para o interlocutor, uma certa imprecisão na formulação lin-
güística dos enunciados que produz, antecipando-lhe uma possível
“falha” de funcionamento do código, no uso que dele faz. Tais ex-
pressões têm, assim, esse intuito interacional e revestem-se de um
teor metalingüístico, exatamente porque testam as possibilidades co-
municativas dos signos previstos no código. Em (12), o emprego do
adjetivo novos é questionado pela expressão digamos assim, tanto
que, na seqüência do parêntese, o locutor justifica tal emprego, defi-
nindo o espaço de tempo recoberto pelo adjetivo:

(12) L2 e agora saíram uns ... uns temperos mais ... mais novos [digamos as-
sim ... porque têm dois anos mais ou menos] ... que é esse puro purê ...
(D2 POA-291)

Ainda dentro dessa função de indiciar, por meio da parentetização, o


processo de seleção lexical, há casos bastante interessantes para a perspectiva
interacional que adotamos, porque destacam a co-participação dos interlocutores
na construção do texto. São casos em que o locutor interrompe por momentos
o desenvolvimento do tópico discursivo, a fim de, entre parênteses, chamar o
interlocutor para dentro do texto, com o intuito de pedir-lhe ajuda para encon-
trar uma denominação, como em (13), ou delegar-lhe a escolha de um lexema,
entre alternativas que lhe são colocadas, como em (14).

(13) L1 o governo acha ... o governo acha que a solução do ... do chamado ...
[como é o nome?
L2 é a UPC ou ...
L1 é UPC e ...

141
L2 índice de ...
L1 índice de correção monetária] ... é a solução para ... éh ... corrigir a
inflação
(D2 RJ-355)

(14) Inf. o ser e o dever ser na realidade social... eles se: éh: ... complementam
andam juntos ... o ser e o dever ser ou seja o mundo real e o mundo
ideal ... ou irreal [eu num num ... como vocês queiram chamar] ...
esses dois vi:vem ... lado a lado na realidade social ...
(EF REC-337)

1.3 Parênteses relacionados com a construção textual


Assim como os parênteses vistos no item anterior, os relacionados com
a construção textual são igualmente metadiscursivos, porque põem em evi-
dência, no texto, a sua própria estrutura.
Para a análise desse tipo de parênteses, procedemos a uma adaptação
do estudo que Borillo (1985) faz sobre expressões e enunciados metadiscursi-
vos indicadores da construção do discurso. Essa adaptação consistiu, em pri-
meiro lugar, em considerar tais expressões e enunciados apenas quando apre-
sentam as propriedades da parentetização, adquirindo, portanto, estatuto de
inserção parentética. Em segundo lugar, consistiu em averiguar até que ponto
as funções, por ele apontadas, eram igualmente realizadas por parênteses.
Pela pertinência que tem para a nossa abordagem textual-interativa dos
parênteses, retivemos, de Borillo, a observação de que a função textual de
assinalar a estruturação do texto, que esses fragmentos metadiscursivos preen-
chem, tem a sua contrapartida interacional: esclarecendo a organização do dis-
curso, tais fragmentos facilitam o trabalho de formulação e apresentação do
texto falado e, conseqüentemente, de recepção do mesmo
De acordo com Borillo, os marcadores de estruturação textual operam
em três planos “ligeiramente diferentes”: a progressão lógica, a composição
ou disposição e a argumentação.
Quanto à progressão lógica, destaca enunciados metadiscursivos que
asseguram a progressão seqüencial do discurso, estabelecendo relações
anafóricas entre enunciados sucessivos, e assegurando, assim, a coesão e coe-
142
rência textuais. Pela sua denominação, são marcadores de seqüencialidade,
como expressões do tipo: a isto se acrescenta ..., a seguir, em primeiro lugar, a
partir daí ..., para completar ..., o que conduz a ... São também marcadores de
seqüencialidade os verbos de movimento que indicam progressão no eixo
espácio-temporal que cria o discurso à medida que este se constrói: continuar,
seguir, chegar a, passar a, levar a.
Quanto ao esquema de composição, refere-se a enunciados metadis-
cursivos que mencionam o lugar e o estatuto de um fragmento de discurso
relativamente a uma composição, tomada no seu conjunto. Podem assinalar as
diferentes fases de estruturação textual, como introdução, desenvolvimento,
conclusão (via expressões do tipo de para introduzir, para concluir, a título de
introdução ou de conclusão), ou mesmo conferir, a uma seqüência discursiva,
o papel que ela assume no texto, como resumo (em síntese, resumindo, em
resumo), ênfase (insisto, sublinho, destaco), informação paralela (entre parên-
teses), e outros. Em síntese, trata-se de expressões ou enunciados que partici-
pam da elaboração discursiva, operando como fatores de integração e organi-
zação textuais.
No que diz respeito ao esquema argumentativo, Borillo salienta deter-
minados enunciados que têm natureza metadiscursiva por fornecerem indica-
ções sobre como funciona o discurso, em relação a objetivos do locutor de
demonstrar movimentos de raciocínio na produção do texto: objeções, concor-
dâncias, suposições, demonstrações, ilustrações (contesto, objeto que, admito,
a partir de... concluo que..., confirmo, suponho, contradigo, à guisa de de-
monstração ou de ilustração, etc.). Levam a um desenvolvimento controlado
do discurso, governando a sua elaboração e melhor assegurando a sua com-
preensão.
Partindo dessas colocações de Borillo, analisamos os parênteses do
corpus que focalizam a construção textual e chegamos à constatação de que
esses três planos, principalmente os dois primeiros, muitas vezes se justapõem:
informações parentéticas sobre o esquema de composição do texto podem si-
multaneamente assinalar progressão lógica de tópico, fazendo remissões a frag-
mentos discursivos e articulando-os tanto no interior de um tópico, por rela-
ções intra-tópicas, quanto na globalidade do texto, por relações inter-tópicas.
No quadro das relações intra-tópicas detectamos duas funções parenté-
ticas: a de marcação de subdivisões de um tópico discursivo e a de marcação
de retomadas do tópico, no interior do mesmo segmento discursivo. A primei-
ra ocorre em tópicos desenvolvidos por partes ou abordados sob vários aspec-
tos ou perspectivas. Pode ser constatada no exemplo (15), em que o Informan-
143
te discorre sobre o tópico discursivo proposto pelo Documentador (assuntos
geralmente debatidos em assembléias sindicais), subdividindo-o de acordo
com a enumeração de itens de pauta das assembléias. O parêntese como já
disse fecha o primeiro item referido (vantagens salariais) para introdução do
segundo (questão do horário), apontando para o interlocutor a organização
interna do tópico com base em uma progressão em etapas. Nesse caso, mes-
clam-se as funções metadiscursivas de indicação de progressão textual e de
esquema de composição, colocadas por Borillo.

(15) Doc. Nessas assembléias que assuntos em gerais são debatidos?


Inf. bom estas assembléias ... habitualmente elas tratam dos assuntos ...
que dizem diretamente ... / que diz respeito ... de assuntos que dizem
respeito ... aos: associados ... como por exemplo ... a questão do: au-
mento ou do piso salarial ... sabemos que a inflação ... reduz o poder ...
aquisitivo do nosso povo ... então anualmente o governo ... estabelece
... os chamados ... reajustes ... salariais o governo por exemplo paga
aos seus funcionários normalmente um reajuste salarial ... no mês de
março ... onde ele estabelece critérios ... onde ele estabelece índices
salariais ... baseados em cálculos que são feitos ... se não me engano
pela fundação Getúlio Vargas ... que é um órgão ... que po / que é um
órgão técnico ... que: normalmente ou habitualmente fornece subsídios
... a todas as entidades ... que a ela que a ele recorrem ou que a ela
recorre ... a fim de poder com isto levar adiante suas reivindicações ...
junto à justiça do trabalho então habitualmente nessas assembléias os
associados tratam ... realmente [como já disse] ... das vantagens ...
salariais como também ... os associados ... tratam também a respeito de
da questão ... do horário
(DID REC-131)

A segunda função atrás mencionada, de marcação de retomadas intra-


tópicas, manifesta-se em parênteses encaixados em segmentos cujo tópico é
suspenso por uma digressão e é posteriormente reintroduzido. O segmento
abaixo apresenta essa estrutura, visto que o tópico (no início do século a África
e a América Latina eram quase que ilustres desconhecidos) é interrompido
por uma digressão, a respeito do total de população nesses continentes, e reto-
mado após o parêntese (então como eu ia explicando). Parênteses dessa natu-
reza promovem uma remissão retroativa, anafórica, a algo já dito, estabelecen-
do coesão entre as partes tópicas cindidas.
144
(16) Inf. no início do século ((ruído)) ... a África e a América Latina ... eram
quase que ilustres desconhecidos ... (vo)cês viram ( ) aqui que o total
de população ... que o total de população ... no início do século ... na
África ... e na América Latina ... era um total ... bastante pequeno ... e
que foi a grande taxa ... maior que a da ... na América e na África que
fizeram com que hoje ... realmente apesar de uma taxa muito alta ..
ainda em termos totais ... tanto a África como a América Latina ...
teriam uma população RElativamente pequena em comparação ... à
Europa e à Ásia ... [então como eu ia explicando] ... no início do
século vinte ou melhor no século dezenove ... só existiam ... a Europa
e a ... Ásia ... bom ... formadas ... por ... culturas diferentes ... atraves-
sando situações históricas de feudalismos diferentes ... mas ... tanto a
Ásia como a Europa ... já ... passavam por passados ... o que não acon-
tecia com América e com África ... tá? ...
(EF RJ-379)

Essa mesma função de retomada tópica aparece também na estrutura


global do texto, conectando tópicos distanciados entre si. Assim, informações
contidas em fragmentos discursivos de tópicos diferentes são repisadas e os
parênteses, que marcam essas retomadas, estabelecem coesivamente articula-
ções na montagem do texto no seu conjunto.
Uma terceira função dos parênteses em estudo é a de marcação de
fases de estruturação do texto, como introdução, desenvolvimento e conclu-
são. No exemplo (17), o parêntese (finalizando mesmo) demarca a etapa de
conclusão do texto, anunciando a proximidade do seu término. Inserções pa-
rentéticas desse tipo põem à mostra o esquema de composição textual, sinali-
zando suas etapas.

(17) Inf. para ele: Durkheim ... primeiramente vem o direito ... o até mesmo os
mo:res ... que vocês estudaram ... vem:... de maneira secundária ... o
principal já no tempo né? de Durkhein era o direito ... como máximo ...
num é? para impor normas ... e ... [finalizando mes:mo] o direito re-
produz ... todas as formas essenciais ... e é apenas ... estas que precisa-
mos conhecer
(EF RC-337)

A quarta e última função dos parênteses focalizadores da montagem


textual é a de marcação do estatuto discursivo de um fragmento no texto. É o
145
caso de (18), em que o primeiro fato de parentetização (olhe antes que eu
esqueça ... um parêntese) confere estatuto de parênteses, de segmento encartado
em outro, ao trecho que contém a informação de que, na realidade social, o ser
e o dever ser se complementam. A natureza parentética desse trecho, no con-
texto do tópico relativo à ética do dever ser, é reiterada pela justificativa da
ocorrência de uma inserção neste ponto do texto, contida no segundo parênte-
se (talvez eu esqueça isso de futuro ... por isso vou dizendo logo agora).

(18) Inf. a ética do dever ser do ou do que deveria ser ainda mais entendeu?
((I.L.A.)) ... [olhe antes que eu esqueça ... um parêntese] ... na reali-
dade social [talvez eu esqueça isso de futuro ... por isso vou dizendo
logo agora] ... o ser e o dever ser na realidade social ... eles se: éh: ...
complementam andam juntos
(EF REC-337)

2. Classe b – Parênteses com foco no locutor


Integram esta classe as inserções parentéticas pelas quais o falante se
introjeta no texto que produz, focalizando representações suas a respeito de
seu papel discursivo de locutor-instanciador do discurso, bem como caracteri-
zando o foco enunciativo a partir do qual são persperctivados os tópicos abor-
dados no texto. Essa introjeção provoca desvios do tópico em curso para ele-
mentos do espaço discursivo gerador do texto, que repercutem no que é dito.
Isto porque os dados enunciativos revelados entre parênteses têm papéis im-
portantes no estabelecimento da significação proposicional, de base informa-
cional, que constrói a centração tópica. Desse modo, os parênteses desta clas-
se, desviando-se de seu contexto, com ele se articulam, por atuarem sobre o
conteúdo das proposições criadoras desse contexto (Jubran, 1996 a e b).
A introdução do locutor no texto é lingüisticamente expressa por recur-
sos como os estudados por Chafe (1985) para as situações de ego-envolvimento
(principalmente uso de pronomes de primeira pessoa) e de envolvimento do
falante com o assunto (lexias que manifestam o grau de interesse ou conheci-
mento do assunto enfocado).
A demarcação de uma classe de parênteses centrados no locutor não
invalida a perspectiva interacional de nossa pesquisa, visto que parênteses de
envolvimento do locutor com sua função enunciativa e/ou com o assunto que

146
aborda resultam, no jogo de intercâmbio verbal, de representações recíprocas
dos papéis discursivos e sociais dos participantes do ato comunicativo. Quali-
ficações que o locutor se atribui ou referências sobre suas relações com o que
diz permitem ao interlocutor a contextualização das condições sob as quais se
produzem sentidos – daí a dimensão interativa da parentetização com foco no
locutor.
Dentre as funções parentéticas observadas no interior dessa classe, des-
tacamos as abaixo arroladas.

a) Auto-qualificação ou auto-desqualificação do locutor para discorrer sobre o


assunto.
A auto-qualificação pode ser vista em (19), em que o parêntese atesta
a vivência sindical do falante para dizer das deficiências de um sindicato sem
sede.

(19) Inf. sabemos por exemplo ... [nós que entramos aqui nesse sindicato no
ano de mil novecentos e setenta e quatro] ... das carências ... e das
deficiências que o sindicato apresentava por não ... possuir uma sede ...
adequada ...
(DID REC-131)

A auto-desqualificação é registrada em (20), exemplo que põe em des-


taque a interferência das relações interativas na representação recíproca dos
interlocutores. Face a uma pergunta do Documentador sobre as marcações nas
estradas da Bahia, L1 sugere que tal pergunta seja dirigida a L2, que é técnico
na área. Com essa atitude, traz para o texto uma informação sobre a atividade
profissional do interlocutor e se situa, em relação a esse dado, reconhecendo-
se como desqualificado para abordar o tema (eu sou apenas ... um: usuário um
usuário das marcações).

(20) Doc. como é que são as marcações no estado?


L1 como é que são as marcações no estado ... [bom você devia perguntar
isso ao técnico e não a mim eu sou eu sou apenas ... um: um usuário
das marcações] eu acho que aqui nós já temos certas estradas relativa-
mente bem sinalizadas ...
(D2 SSA-98)
147
b)Manifestação de interesse ou desinteresse pelo assunto
Em (21), o parêntese introduz no texto um comentário sobre o alto grau
de envolvimento, de afinidade, do locutor com o tema. Já em (22), a inserção
parentética atesta desinteresse do Informante em desenvolver o tópico propos-
to pelo Documentador.

(21) Inf. sabemos por exemplo ... que o sindicato ... dos comerciários [para
falar de um assunto que nos toca ... parti / particularmente] ... possui
uma granja na cidade de Carpina ... e que proporciona ... àquela imensa
... leva ... de associados ... um lazer realmente magnífico ...
(DID REC-131)

(22) Doc. Dona 1. além da participação do artista ... no filme quais os outros
elementos importantes na sua opinião para que o filme seja bem suce-
dido bem aceito pelo público?
Inf. fundo musical né? ... eu acho que influi bastante ... eu já falei para
vocês cenários né?
Doc. uhn uhn ...
Inf. [sei lá mais o que] cenário fundo musical ... o tema do filme né?
(DID SP-234)

c) Desconhecimento do assunto proposto pelo interlocutor


No exemplo (23), o parêntese se encaixa entre a introdução tópica,
feita pelo Documentador através de pergunta, e o desenvolvimento do tópico
pelo Informante. Assim, antes de responder à questão, o Informante declara ao
interlocutor a sua falta de conhecimento sobre o tema, antecipando-lhe a pos-
sibilidade de uma resposta precária.

(23) Doc. e como é que a senhora acha que é elaborada uma peça de teatro antes
dela ser apresentada?
Inf. [ah aí você pegou porque eu não sei não] como é elaborada? ... deve
ser como na televisão eles preparam o o o::... o a peça ... e:: devem
dividir o o os... o o as partes para os artistas deve ter um ensaio meDOnho
(DID SP-234)
148
Nesta função estão também enquadrados os casos em que o desconhe-
cimento atinge detalhes do assunto, sendo expresso por referências à falta de
lembrança de algum dado integrante do tópico discursivo em desenvolvimento,
como em (24).

(24) L2 o que está acontecendo é o seguinte ... é que o meu ah ... isso ... há um
decréscimo em cada prestação ... por exemplo ... eu pago ... [agora
não lembro assim de cor ... mas é um determinado número] ... não sei
quantas UPCs ... vírgula zero ... zero não sei o quê ...
(D2 RJ-355)

d) Manifestações atitudinais do locutor em relação ao assunto


Por meio da parentetização, pode-se manifestar a modalidade, ou seja,
“a relação que se estabelece entre o sujeito da enunciação e seu enunciado”
(Maingueneau, 1990). Nesse caso, as inserções parentéticas exprimem o modo
pelo qual o significado dos enunciados tópicos é qualificado, de forma a refle-
tir o julgamento do falante sobre a probabilidade de serem verdadeiras as pro-
posições expressas por eles. Revela-se, assim, o valor epistêmico que o locutor
atribui às proposições tópicas adjacentes aos parênteses, conforme se pode
verificar no exemplo (25), em que o parêntese (acredito eu) mostra que o locu-
tor relativiza o teor de certeza e veracidade do conteúdo do enunciado no qual
esse parêntese está inserido (normalmente existe um colegiado).

(25) Doc. o senhor falou que o presidente pode estabelecer regras ... normas ...
de: em torno do sindicato que ele: preside ... essas normas ele decidiria
só? sozinho ele decidiria eu quero que seja feito isso isso isso e isso?
Inf. normalmente existe ... [acredito eu] ... um colegiado ... é graças a este
colegiado ... que o senhor presidente vai evidentemente pautar: suas
decisões ...
e) Indicação da fonte enunciadora do discurso
Foram detectadas três situações referentes a essa função parentética:
– intromissão do locutor no texto, circunscrevendo como foco enunciativo a sua
própria perspectiva:

(26) L2 uma das coisas fundamentais de qualquer prato ... [eu pelo menos pen-
so assim ... quer dizer ... é a minha opinião] ... é que as pessoas ... ao

149
... ao ... ao ... comerem ou ao saborearem um prato fiquem sempre
perguntando como é ... como foi feito ... sem que se distinga ... ou
possa se distinguir o tempero ...
(D2 POA-291)

– atribuição da perspectiva sobre o assunto a uma outra fonte de enunciação


identificada no texto:

(27) Inf. então nós estamos ... numa faixa diferente ... não é mais a faixa da
ciência DO normativo ... mas ciência normativa ... que é a ética [ou
como disse João] ... a própria domi/dogmática jurídica ...
(EF REC-337)

– atribuição de pontos de vista sobre o assunto a fontes não identificadas, promo-


vendo polifonia de enunciadores, mediante a qual o locutor se exime da respon-
sabilidade do que é dito ou fundamenta o que diz por meio de evidências basea-
das no “ouvir dizer” (Chafe, 1985):

(28) Inf.... e ficar em casa tomando seu cafezinho comendo seu sanduíche e e ...
((risos)) e assistindo filme ... eu acho que o que mais prende o pessoal
[que a gente ouve e eu vejo o o o os come/ e e eu ouço os comentários]
eu acho que são os filmes que passam principalmente nos fins de se-
mana ... agora novelas também né?
(DID SP-234)

3. Classe c – Parênteses com foco no interlocutor


Nesta classe estão os parênteses que materializam a presença do inter-
locutor no texto falado e fazem referência a condições enunciativas do discur-
so que garantem a possibilidade de intercâmbio. Preenchem uma função fática
e são, sob esse aspecto, acentuadamente interacionais. Apresentam, assim, um
grau maior de manifestação do processo interativo na superfície textual, rela-
tivamente aos parênteses da classe anterior, sem, contudo, deixarem de ter
implicações no que se diz sobre os tópicos discursivos. Ao explicitarem rela-
ções de contato entre locutor e interlocutor, tais parênteses evidenciam uma
“interação centrada” (Goffman, 1976), de envolvimento conjunto dos partici-
150
pantes do ato comunicativo na abordagem de temas sobre os quais concentram
sua atenção. Eles co-participam da produção de sentidos do texto, dentro de
determinadas contingências de interlocução, que podem aflorar no texto sob
forma de parênteses.
A particularidade dos fatos de parentetização desta classe está em pro-
vocar uma suspensão momentânea do tópico discursivo, para, nesse intervalo,
colocar em proeminência informações sobre o papel discursivo do interlocu-
tor, seus atributos para exercê-lo e seu envolvimento com o(s) outro(s)
participante(s) do ato verbal e com os assuntos abordados.
A função fática, comum a todos os parênteses centrados no interlocu-
tor, realiza-se nas subfunções abaixo.

a) Estabelecer a inteligibilidade do texto


Neste caso, geralmente ocorrem seqüências parentéticas esclarecedoras
das proposições tópicas, com em (29): entre a questão formulada pelo Docu-
mentador, introdutora de tópico discursivo, e a resposta do Informante, insere-
se um par adjacente pergunta/resposta, pelo qual se esclarece o tópico coloca-
do na pergunta inicial. O desenvolvimento desse tópico só tem início após essa
“negociação” de inteligibilidade do segmento discursivo em questão.

(29) Doc. qual a manifestação que a senhora nota ... ah::: por parte do público ...
depois de uma representação teatral? ...
Inf. [como qual a manifestação você pergunta?
Doc. como é que o público se manifesta ou depois de terminado um ato no
intervalo ou depois da peça? ... no que diz respeito à peça em si?]
Inf. eu não a:: não acho assim que eles ... aplaudem::
(DID SP-234)

b) Evocar conhecimento partilhado do tópico


O conhecimento do tópico ou de detalhes do tópico sobre o qual se fala,
por parte dos envolvidos no ato comunicativo, pode ser dado como consensual.
Neste caso, o consenso é demonstrado ou pelo emprego de primeira pessoa do
plural, unindo locutor e interlocutor (ex. 30), ou ainda pelo uso de frases decla-
rativas, que atestam que o interlocutor, representado no texto por você, domina
aquele conhecimento (ex. 31).
151
(30) Inf. então habitualmente nessas assembléias os associados tratam ... real-
mente como já disse ... das vantagens ... salariais como também ... os
associados ... tratam também a respeito de da questão ... do horário
porque [como nós sabemos] a classe comerciária por exemplo ... tem
um horário estipulado ... pela lei das conso / pela lei clt ... em torno de:
oito horas ... diárias ... quatro horas pela manhã quatro horas ... pela
tarde ...
(DID REC-131)

(31) Inf. não é tão raro o caso de:: polimastia ... poli ... [como vocês sabem] ... é
um número além daquele normal ... ou seja mais de duas ....
(EF SSA-49)

Em outros casos, o domínio do conhecimento sobre o tópico, da parte


do interlocutor, não é afirmado, como acima, e sim requerido do interlocutor,
através de perguntas diretas ou indiretas, formuladas pelo locutor, que levam à
concessão de turno para o interlocutor:

(32) Inf. o grupo que trabalha em Hair é enorme né? ... [você não assistiu?
você assistiu né?
Doc. uhn uhn
Doc.2 assisti]
Inf. tenho impressão que ali levou tanto tempo de ensaio ...
(DID SP-234)

c) Testar a compreensão do interlocutor


Esta função aparece sempre sob forma de perguntas, muitas vezes este-
reotipadas, como entendeu? está claro?, que permeiam o desenrolar do tópico
discursivo. Há, entretanto, parênteses que fogem a essa estereotipia, expressos
por perguntas que incorporam o elemento do tópico discursivo cujo entendi-
mento se quer averiguar:

(33) Inf. ele está se referindo exatamente a essa essência tradicional da econo-
mia japonesa tá? Quer dizer uma uma situação ... eu vou repetir ...
muito diferente do início da economia americana ... [tá dando pra situ-

152
ar a diferença?] Uma americana nascendo linearmente ... etc etc e a
outra BRIGANDO pra poder nascer ...
(EF RJ-379)

d) Instaurar conivência com o interlocutor


Por meio de parênteses com esta função, o locutor procura envolver o
interlocutor em comentários, avaliações e opiniões suas a respeito do assunto:

(34) Inf. mas eu acho que o teatro hoje em dia está:: está indo para um caminho
eh tão TANto palavrão tanta ... ((risos)) ... [é um negócio né? fala a
verdade] ((risos)) eu tenho assistido umas PEças
(DID SP-234)

e) Chamar a atenção do interlocutor para um elemento do tópico


O parêntese (35) é inserido em uma citação de Durkheim, feita por
uma professora em sala de aula. Essa inserção destaca a necessidade de conta-
to entre professora e alunos, para a devida apreensão de um dado que, prova-
velmente, é tido como importante naquela situação comunicativa.

(35) Inf. “as pessoas que ... [prestem bem atenção] ... a pessoa que no restau-
rante ... tendo começado pela sopa ... termina pela sobremesa ... e que
não deixará em seguida de pedir a conta ... isso é o mais normal ...
(EF REC-337)

f) Atribuir qualificações ao interlocutor para a abordagem de um tópico


Em (36), L2 dirige uma pergunta a L1 e nela interpõe um parêntese
sobre a condição de técnico, de L1, na área de conhecimento envolvida pela
pergunta. Com esse parêntese, L2 focaliza o interlocutor no seu papel profissi-
onal, que o qualifica para o desempenho de seu papel discursivo: a pergunta é
claramente dirigida ao técnico.

(36) L2 então porque ( ) ... [você que é técnico nisso] ... essas estradas são
bitoladas a sete metros?
L1 (é uma coisa ... veio) da convenção internacional que (dois) metros e
meio dá prá passar um carro ou caminhão ...
(D2 SSA-98)

153
Concluindo esta parte, convém ressaltar que, embora haja uma gra-
diência crescente de incursão de dados pragmáticos no texto e decrescente de
relações com o conteúdo tópico, da classe b (foco no locutor) para a c (foco no
interlocutor), ambas as classes provocam um desvio do tópico para os agentes
instanciadores da interação verbal, mas, como vimos, atuam sobre as proposi-
ções tópicas, porque as ancoram no espaço discursivo que lhes dá origem. Por
isso são consideradas em um grau intermediário do contínuo do menor ao
maior desvio tópico e da menor à maior manifestação do interacional no texto
falado.
Cumpre também observar que, no limite entre essas duas classes, há
parênteses que as interseccionam, porque deixam transparecer simultaneamente
a perspectiva do locutor e a que este pressupõe ser a do interlocutor. Trata-se
de parênteses constituídos por negações polêmicas (Ducrot, 1987), que criam
uma polifonia enunciativa, fazendo ecoarem duas vozes contrapostas em um
mesmo enunciado:

(37) L1 seria muito importante para o Brasil que o nordeste crescesse porque::
... [não é bairrismo não] ... aqui no nordeste está o que há de mais
autêntico da brasilidade em termos mundiais ...
(D2 REC-05)

O segmento acima traz, para dentro do texto, a informação implícita de


que o falante é nordestino, e a de que ele assume uma atitude enunciativa de
neutralidade ao falar sobre o Nordeste.
Entrecruzam-se, nesse parêntese, dois pontos de vista antagônicos: um
positivo, a do enunciador E1, pressuposto como voz do alocutário (é bairrismo
declarar P) e outro negativo, a do enunciador E2, assimilada ao locutor, e que
se apresenta como recusa da primeira (não é bairrismo declarar P). (Jubran,
1996 b).
Há, nesse caso, uma antecipação, pela qual o locutor marca a sua atitu-
de em relação ao seu interlocutor: o locutor atribui ao destinatário um discurso
“normal”, um conjunto de opiniões estabelecidas (representação do outro) e,
partindo da idéia de que o outro o representaria pelo já sedimentado sócio-
historicamente, previne-se e responde a isso, antecipadamente (Orlandi, 1983).
O parêntese aponta, portanto, para o jogo de representações recíprocas que os
interlocutores acionam na interação verbal.
154
4. Classe d – Parênteses que focalizam o ato comunicativo em
si
Parênteses dessa categoria promovem um desvio tópico em grau máxi-
mo, visto que provocam uma mudança de planos da centração sobre um tópico
discursivo para o ato de interagir verbalmente. Os dados introduzidos pelo
segmento parentético não são nem relevantes nem concernentes com as pro-
posições tópicas precedentes e seqüentes ao parêntese.
Perspectivando dominantemente o ato de comunicação, quebram o fluxo
temático para, no interior do texto falado, focalizarem contingências necessá-
rias para a própria existência do ato em si, como: presença de interlocutores,
predisposição e envolvimento dos mesmos na situação comunicativa, negoci-
ação de turnos, afastamento de ruídos ou quaisquer outros fatos que possam
vir a perturbar o canal físico ou o contato entre os locutores, na produção do
texto falado. A função textual-interativa dessa modalidade de parênteses resi-
de, então, na garantia da existência da interação verbal e, conseqüentemente,
do texto, produto dessa interação.
Os parênteses enquadrados nesta classe podem registar as situações
abaixo.

a) Quebra de condições enunciativas


A interferência de ruídos (perceptíveis na gravação) ou fatos (não recu-
peráveis, por ter sido o corpus coletado apenas por gravação) pode acarretar
uma ruptura na formulação do texto falado. Quando há, no texto, referência a
esses ruídos ou fatos, ela assume uma forma parentética, suspendendo por
momentos o desenvolvimento do tópico, que é retomado após o afastamento
desses dados externos. No segmento (38) há um exemplo dessa natureza, em
que o parêntese é precedido por risos, provocados por algum fato interferente
no contexto de uma aula.

(38) Inf. naquela época ... o que existia eram os bisontes e os mamutes tam-
bém ... alguns mamutes ... mamute ... vem a ser ... o bisavô ... do
elefante ... ((risos)) ... [Betina ... ((vozes))) ... já resolveu? tudo bem]
... bom ... então primeiro em nível de tema ... a seguir ... qual seRIA
... o motivo pelo qual ... eles:: ... começaram ... a pintar ou a esculpir
... estas formas ...
(EF SP-405)
155
b) Estabelecimento da modalidade do ato comunicativo
Em (39), uma professora interrompe o desenvolvimento do tópico, para
estabelecer a participação dos interlocutores e esclarecer a natureza dialógica
que quer imprimir à interação em sala de aula. Observa-se que, nessa situação
ritualizada de aula, a professora, enquanto locutora que tem ascendência sobre
os interlocutores-alunos, determina, além do tipo de interação, o ato de fala
permitido aos alunos: perguntas sobre o que diz. Trata-se, portanto, de um
parêntese que evidencia condições interativas em uma situação específica.

(39) Inf. o povo japonês ... e a população do Japão ... extremamente GRANde
pra sua área e extremamente laboriosa no sentido de que ... SABIA que
pra conseguir sobreviver ... tá? ... PREcisava AMPLIAR a sua área de
atuação ... tá claro isso? [ a aula é gravada mas as perguntas podem
ser feitas e devem ... senão fica parecendo monólogo] nenhuma dúvi-
da então? ... quer dizer ... situando ... o Japão ... que a gente conhece e
ouve falar de unidade japonesa
(EF RJ-379)

O parêntese acima é margeado por dois outros (tá claro isso? e nenhu-
ma dúvida então?), que não estão aqui destacados, por pertencerem a uma
outra classe, a dos parênteses com foco no interlocutor, com função de testar-
lhe a compreensão.

c) Estabelecimento de condições para a realização ou prosseguimento do ato co-


municativo
Em (40), sucedem-se três parênteses, em situação de aula. Os dois pri-
meiros cortam o desenvolvimento temático da aula, e voltam-se para atos co-
muns nessa situação (copiar as anotações da lousa), que provocam intervalos
na exposição tópica. Nesse contexto, os parênteses em questão funcionam no
sentido de averiguação de condições para o prosseguimento da explanação
feita pela professora. Já o terceiro parêntese (giz não tem giz) refere-se à veri-
ficação de condições materiais para a realização de uma aula, e, portanto, para
a eficácia do ato comunicativo que ela encerra.
A professora está enumerando os itens da aula sobre região mamária,
provavelmente registrados na lousa, e, antes de iniciar a abordagem deles,
realiza os parênteses em destaque.

156
(40) Inf. oitavo ... nós temos os vasos ... e nervos ... nono ... é ... e as veias ...
[quem ... copiaram? ... vou colocar aqui para lhes passar alguma
coisa] ... bom ... então vamos ... [já copiaram tudo?] ... [giz não tem
giz] ... bom ... vamos começar ... região mamária:: ... ora nós definimos
como sendo região mamária ... a região ocultada pela glândula mamá-
ria
(EF SSA-49)

d) Negociação de turnos
Parênteses com função de negociação de turnos focalizam uma propri-
edade fundamental do ato interativo, que é a do jogo pela posse do turno con-
versacional. O parêntese (41) encaixa-se em texto de aula expositiva. A pro-
fessora procura manter o seu turno e, evidentemente, o seu papel de domínio,
inclusive verbal, da interação em sala de aula.

(41) Inf. então vocês notam como o fenômeno jurídico ... é o mais importante ...
é a própria organização ... o direito ... no seu caráter então
complementando [gente Arnaldo pera aí Arnaldo eu sei que é sobre
... a matéria mas eu tô querendo ... terminar tá certo?] no seu caráter
mais estável e preciso ...
(EF REC-337)

III. Conclusão
Ainda que apresentando apenas as funções parentéticas mais proemi-
nentes e uma amostragem reduzida dos casos estudados, procuramos, neste
artigo, demonstrar uma classificação de parênteses, de acordo com as fun-
ções textuais-interativas que eles assumem em textos falados. Pudemos com-
provar que as inserções parentéticas têm papéis importantes na formulação
textual, não podendo, portanto, serem vistas como segmentos isolados. A
projeção, operada pelos parênteses, do processo formulativo-interacional na
materialidade lingüística do texto leva à contextualização do que é dito na
situação de dizer, circunscrevendo os sentidos do texto e orientando sua com-
preensão.

157
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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ORLANDI, E. (1983) Destruição e Construção do Sentido. Campinas, UNICAMP.
TENANI, L. E. (1995) Marcas prosódicas de inserções parentéticas. Disserta-
ção de Mestrado. Campinas, Instituto de Estudos da Linguagem, UNICAMP.

158
A HESITAÇÃO

Luiz Antônio Marcuschi


(UFPE)

1. Apresentação
O presente estudo faz da hesitação um tema de investigação, baseando-
se na idéia de que, embora típica da fala, a hesitação não é irrelevante como
fenômeno lingüístico. Dizer que a hesitação faz parte apenas do “uso” e não do
“sistema formal” da língua é tomar a língua como uma entidade que existe
“em si e por si”. Contudo, não se pode isolar, de um lado, um objeto típico da
língua, “a frase”, e de outro, um objeto do uso da língua, “o discurso”. Ambos
estão interligados e se codeterminam funcionalmente.
Partindo do pressuposto de que analisar a língua é analisar também
usos, adota-se aqui a posição de que a hesitação é parte da competência comu-
nicativa em contextos interativos de natureza oral e não uma disfunção do
falante. Embora não se possa defender que a hesitação tenha funções tais como
outras unidades da língua, pode-se dizer que ela desempenha papéis importan-
tes na fala: papéis formais, cognitivos e interacionais. É uma atividade textual-
discursiva que atua no plano da formulação textual. Por outro lado, também se
defende a tese de que a hesitação não se acha aleatoriamente distribuída, mas
obedece a alguns princípios gerais de distribuição e serve como indicação de
organização sintagmática da língua.
O estudo da hesitação mostra que se o princípio da linearidade é funda-
mental no uso da língua, ele não pode ser entendido como simples seqüencia-
ção ininterrupta de enunciados da esquerda para a direita, mas um processo
multiorganizado. Produzida tanto no nível suprassegmental (pela prosódia)
como nível segmental (com elementos formais da língua), a hesitação é a pre-
sença de atividades discursivas na materialidade lingüística, evidenciada numa
transcrição fiel da fala.

2. Características da hesitação
Blanche-Benveniste (1990) analisa a hesitação no contexto da “deno-
minação”, isto é, das operações de referenciação léxica, que são perceptíveis
nos momentos de “repetição, erros, hesitações e buscas da palavra certa” (p.109).
A autora restringe-se ao caso da hesitação por repetição, observando-a sob os
aspectos da linearidade, referência e denominção. Uma transcrição da fala na
forma de grade (num eixo biaxial) deixa claro como o texto “avança” e permi-
te observar que “a repetição de hesitação não concerne à própria sintaxe, mas
ao preenchimento lexical das posições sintáticas” (p.113). Assim no caso de:

il y a toujours des
des
des relations interperso
entre personnes
relations de domination

Nota-se que:

(a) des: anuncia um sintagma nominal, sem léxico


(b) des relations interperso: uma realização lexical pelo nome e pelo elemen-
to de tipo adjetival
(c) entre personnes: uma realização lexical pelo elemento adjetivo
(d) relations de domination: realização lexical dum nome e novo léxico pelo
tipo adjetival.
Hesitações deste tipo são uma espécie de “patinação” que permite uma
análise de processos sintáticos (como a coordenação e a aposição), processos
semânticos (problema da referência) e estratégias lexicais (escolha de elemen-
tos). Blanche-Benveniste (1990) sugere que a repetição hesitativa, por exem-
plo, é um fato fundamental na língua falada e diz respeito à “construção da
denominação”. Isto a leva a admitir que “os referentes dos quais o discurso
160
fala não são dados adiantadamente, mas construídos por aproximações su-
cessivas no discurso”. Assim, a enunciação se dá numa constante interação
com o conteúdo do enunciado, o que impede “isolar, de um lado, o objeto
produzido pela atividade da língua (o enunciado) e, de outro lado, a atividade
produtora dessa língua; ambos acham-se intimamente ligados”. A repetição
de hesitação afeta sobretudo as realizações lexicais e não chega a comprome-
ter a sintaxe.
Em outro momento, Blanche-Benveniste (1990) postula que a língua
falada, por se apresentar como um “borrão” do texto pretendido, do qual nada
se apaga, pode ser vista como um laboratório especial da sintaxe. O borrão
envolve vários fenômenos de “titubeio” (“bafouillage”), como as hesitações,
os retoques, as repetições, as perplexidades lexicais, os comentários e outros.
A autora sustenta que tais fenômenos não devem ser eliminados da análise
sintática, pois não são aleatórios e sim “regulados pela gramática”, ou seja, são
sintaticamente explicáveis.
Não obstante isso, surgem muitas questões relevantes ainda não de todo
esclarecidas, pois temos que distinguir entre identidade e diferença de referen-
tes a fim de saber se estamos diante de um ou mais de um complemento de um
dado verbo em casos de coordenações como o seguinte (1987: 126):

Je pense à lui, à lui, à lui.

O verbo “penser” tem, em princípio, apenas um complemento e não


vários, mas é possível imaginar que nos três casos de lui não se trata de uma
identidade referencial. É perfeitamente possível supor a seguinte interpretação:

Je pense à lui Paul, à lui Pierre, à lui Jean.

As realizações concretas da língua falada, quando contém tais listas, nem


sempre supõem identidades referenciais, o que acarreta conseqüências diretas
para a análise sintática. Resumo dessa posição da autora é a afirmação de que “le
‘dit’ et le ‘dire’ étaient moulés dans les mêmes moules syntaxiques”(p.150), ou
seja, toda a formulação lingüística na fala se dá ao longo de um eixo paradigmático
que considera a construção sintática em andamento.
James (1972 e 1973) analisa as interjeições e as hesitações mostrando
que existem relações sistemáticas entre tais fenômenos e os ambientes em que
161
se realizam. Em Inglês, as interjeições sofrem certas restrições, não podendo
referir uma oração ou um elemento externo à sua “ilha de realização”. James,
adotando uma posição muito próxima à de Blanche-Benveniste (1990), sugere
que a hesitação tem um referente. Além disso, defende que as hesitações são
úteis para testar a estrutura de constituintes.Tome-se este caso:

That Kay is thinking of a boutique in.. ah .. San


Francisco is considered likely by Bob.

Aquele “ah” indica que o falante esqueceu e trata de lembrar algo e


o mais razoável é que ele tenha esquecido o nome “San Francisco” e não
todo o enunciado que produziu a partir daquele ponto. Neste sentido, o
referente de “ah” é aquele nome, ou seja, um constituinte. Para James,
existe uma diferença notável entre as hesitações e as interjeições que operam
nesta perspectiva e outros elementos que não são hesitações e podem refe-
rir anaforicamente ou com escopos maiores do que o sintagma da constru-
ção adjacente. A tese mais curiosa e polêmica de James é a de que “inter-
jeições e hesitações são uma parte da competência e obedecem a regras
gramaticais” (1973: 250).
Taylor & Cameron (1987: 125) observam que os diversos modelos de
Análise Conversacional deram por certo que existe uma relação particular en-
tre o desempenho conversacional e a estrutura lingüística. Em outros termos, o
pressuposto é o de que “todo enunciado conversacional é tomado como uma
ocorrência (token) de um tipo (type) de unidade particular e os traços estrutu-
rais dessa unidade são definidos pelas regras gramaticais da língua”. Contudo,
a relação tipo versus ocorrência implicada nessa formulação não tem sido es-
tudada. Os gramáticos, quando analisam materiais transcritos da fala natural,
tendem a editorá-los com sensíveis eliminações de elementos, sob pena de não
poderem analisar as frases que têm pela frente. Para Hockett (1958), isto seria
um pré-requisito para a análise gramatical.
As regras de editoração são as regras usadas pelos gramáticos para
idealizar os dados orais, depurando-os de todos os elementos inanalisáveis. Na
verdade, observam Taylor/Cameron (1987: 129), os ouvintes em geral tam-
bém procedem a editorações constantes ao eliminarem, para compreensão,
todas as hesitações, autocorreções, autorrepetições, elipses e disfluências do
falante. Essas produções representam descontinuidades e são eliminadas pelo
ouvinte ou então supridas com inferências locais, como no caso das elipses.
162
Uma hipótese geral percorre todas essas observações de lingüistas das
mais diversas procedências e dentro dos mais diveros modelos teóricos, isto é:
a hesitação parece ser um fenômeno sistemático na organização sintag-
mática, mas não faz parte da estrutura dessa organização. Diante dessas
posições, nosso interesse é saber em que lugares esse “intruso” se situa e por-
que ele se coloca precisamente ali. Esta resposta só será possível se conside-
rarmos os fatores textuais-discursivos que comandam os processos e as estra-
tégias de formulação textual.
A hesitação tem como característica básica o fato de constituir eviden-
tes rupturas da fala, na linearidade material, em pontos não previstos por
fatores sintáticos ou prosódicos, mas que também não são aleatórios. Portanto,
a hesitação pode ter motivações discursivas, preservando a fluência, já que
a fala, mesmo com hesitações, pode continuar fluente. Assim, fluência dis-
cursiva e descontinuidade sintática não formam uma dicotomia, já que di-
zem respeito a níveis de observação diversos. É provável que, do ponto de
vista teórico, esta confusão tenha sido a responsável pela eliminação da obser-
vação do fenômeno por parte dos lingüistas que consideraram a hesitação como
uma simples disfunção.
A hesitação só é detectável no decurso das atividades comunicativas e
se caracteriza como a presença de atividades discursivas na superfície lin-
güística. Idéia semelhante foi defendida também por Koch & Österreicher
(1990: 60) ao sugerirem que a hesitação é um mecanismo presente em todas as
línguas, que permite introduzir no próprio discurso o processo de formulação
“prospectiva”. Parece perfeitamente possível observar a relação da hesitação
com o status informacional dos elementos lingüísticos em cujos contextos ou
fronteiras ela ocorre. Tem um papel pragmático considerável e não passa des-
percebida pelos falantes.
A hesitação revela as estratégias adotadas pelos falantes para resolve-
rem os problemas que surgem devido ao processamento on line de formas e
conteúdos. Isto quer dizer que a hesitação não é uma propriedade ou caracte-
rística do falante como tal, nem da língua em si, mas um fenômeno de pro-
cessamento.

3. Aspectos formais
As hesitações incidem em determinados fenômenos tais como os se-
guintes:
163
I. fenômenos prosódicos: pausas, geralmente prolongadas e alonga-
mentos vocálicos;
II. expressões hesitativas: “éh”, “ah”, “ahn” “mm”;
III. itens funcionais: artigos, preposições, conjunções, pronomes, ver-
bos de ligação;
IV. itens lexicais: substantivos, advérbios, adjetivos,verbos;
V. marcadores conversacionais acumulados: “sei lá”; “quer dizer
sabe”, “então né áh”, etc.;
VI. fragmentos lexicais: palavras iniciadas e não concluídas.

Esses fenômenos não formam uma tipologia das hesitações. São ape-
nas as diversas marcas empíricas de sua manifestação. Vejamos agora algu-
mas observações sobre cada um desses conjuntos.

(I) fenômenos prosódicos:


(a) pausas – Nem todos os silêncios são pausas, nem todas as pausas são
hesitações. Assim, os silêncios inter-turno (também conhecidos como
switching pauses) em geral não são pausas, mas uma manifestação discur-
siva que pode constituir até mesmo um turno (no caso de um falante per-
manecer em silêncio na sua vez de fala). Os silêncios intra-turno, com uma
certa duração e um padrão entoacional característico são prováveis hesita-
ções, sobretudo se vierem em contextos sintáticos ou junções fonêmicas
em que não é prevista a pausa. Neste caso contrastam com as chamadas
pausas de juntura que aparecem entre grupos fonêmicos ou nas fronteiras
sintáticas entoacionalmente marcadas e não formam hesitações.

Parece que a posição da pausa é relevante para determinar se sua ocorrên-


cia deve-se a uma atividade de planejamento sintático ou de busca de um
item lexical (pela baixa predizibilidade do item procurado). Tomemos o
exemplo a seguir, do Projeto NURC:

(1) NURC-SP – 234: 1.132-43:


1 Doc: e o que a senhora considera uma boa peça teatral? (1.60)
2 e o que
3 Inf: eu ach/
4 Doc: que ela precisa conter?
164
5 Inf: (2.5) conter? ... eu acho que o o o (2.8) como é que eu vou dizer?
6 o que: : (2,5) sei lá (2.8) o que mais a peça nos chama a atenção é o
7 o o: : (1.0) o enredo da peça (0.5) ah ahn os artistas bons porque às
8 vezes né (0.6) eu tenho gostado mas (1.6) eu acho que assisti: : (2.2)
9 você sabe que não guardo nome mas eu assis/ eu
10 Doc: não o nome da peça não importa

Neste segmento, que tem a duração de 39 segundos, temos precisamente


18.1 segundos (46.4%) de silêncios acumulados com hesitações que tam-
bém servem para preencher pausas. Nota-se a dificuldade que a informan-
te (INF) tem de expressar sua opinião. Na linha 1, a DOC entrega o turno à
INF que por sua vez demora 1.6 segundos para tomar a palavra levando
assim a DOC a apreciar isto como dificuldade. Daí sua tentativa de ir em
socorro com mais explicitude na linha 4. Mesmo assim, a INF demorou
2.5 segundos para tomar seu turno na linha 5 e prosseguiu cheia de hesita-
ções ao longo de todo o turno. Observe-se que a DOC lançara um novo
tópico difícil para a INF, levando-a a indecisões para localizar o foco de
sua abordagem. Trata-se de uma dificuldade de planejamento cognitivo
refletida na execução lingüística. Ilustrativa é aqui a sequência das linhas 5
e 6 com várias hesitações, sendo uma delas com um marcador
metacomunicativo que expressa sua dificuldade “como é que eu vou dizer
o que: : (2.5) sei lá (2.8)”.

(b) alongamentos vocálicos: Quanto ao alongamento vocálico, temos algu-


mas questões bastante complexas. Em primeiro lugar, é bom lembrar que
nem todo o alongamento da vogal é uma hesitação. Há alongamentos que
funcionam como coesão rítmica, freqüentes sobretudo na formação de lis-
tas. Outros alongamentos (geralmente acompanhados de elevação do tom)
operam como ênfase. Os alongamentos de vogais com característica
hesitativa vêm sobretudo em final de palavra, principalmente as palavras
monossilábicas ou em sílabas finais átonas. Em geral, quando no interior
de uma palavra, os alongamentos são coesivos ou enfáticos e recaem em
sílabas tônicas.

(II) expressões hesitativas:


Em geral, estas são as de maior freqüência como formas de hesitação e
se constituem de sons que não realizam palavras lexicalizadas. Entre elas estão
165
os áh, éh, ahn, mm quase sempre alongados e preenchendo pausas. Eles são a
matéria-prima das pausas preenchidas. Esses marcadores parecem representar
sons de alta freqüência no Português e certamente são especializados como
hesitativos. Outras línguas também têm seus sons preferenciais e é comum
identificarmos um alemão, um americano ou um francês por suas hesitações
quando falam Português, mesmo que com grande perfeição.

(III) itens funcionais:


A noção de itens funcionais cobre todos os elementos lingüísticos que
não têm significação referencial, tal como os artigos, as preposições, as con-
junções, os pronomes. Os diversos levantamentos estatísticos realizados mos-
tram que em mais de 50% das hesitações encontramos itens funcionais. Por
um lado, estes elementos são em sua grande maioria monossilábicos e se pres-
tam para este papel, já que as hesitações realizam-se com palavras curtas, em
geral não mais do que duas ou três sílabas, que permitem um alongamento de
vogal no final; por outro lado, situam-se em posições sintáticas preferenciais
para o surgimento das hesitações, ou seja, no momento de construir um sintagma,
como é o caso das preposições e dos artigos.

(IV) itens lexicais:


Os itens lexicais são menos freqüentes que os formais como
constituidores de hesitação. Aparecem os verbos de uma ou duas sílabas em
grande parte. Quanto aos advérbios, adjetivos e substativos, eles ocorrem em
número bastante limitado.

(V) marcadores conversacionais acumulados:


Estes fenômenos são os mais problemáticos. Trata-se de marcadores
que formam conjuntos que se acumulam num certo momento e realizam-se
com marcas prosódicas típicas. Por exemplo; “ah; ontem eu tava lá assim
sabe… sei lá…meio cansado”

(VI) fragmentos morfológicos:


Também aqui a decisão é difícil e parece que não temos condições de
distinguir com clareza entre hesitações e correções. Muitos fragmentos de pa-
lavras constituem momentos de autocorreção. Por isso a fronteira entre corre-
ções e hesitações é, neste caso, muito tênue. Vejam-se estes exemplos:
166
– essa ul/ a última eu não lembro não
– dep/ antes de Hair eu assisti um outro uma outra peça
– prefiro ficar assi/ a a aqui assistindo televisão sabe?
Este tipo de hesitação opera como o prenúncio de uma correção e
não como correção, já que esta só pode ser de algo que já veio. A
correção é, portanto, uma solução a um dado problema de formulação
de caráter “retrospectivo”, em oposição à hesitação que é produzida
na “prospectiva”. Da mesma forma que no caso da repetição, toda a
correção que visa a reformular um item devido a uma má seleção futu-
ra ou na prospectiva, temos um caso de hesitação.
A classificação acima tem vários problemas. Alguns parecem casos de
busca (caso dos alongamentos e dos fragmentos) e outros seriam estratégias
(caso dos marcadores) e alguns podem ser problemas de seleção (caso dos
itens formais e lexicais). Na realidade, todos são fenômenos do processamen-
to. Além dessa dificuldade, há ainda outras como as apontadas por Crystal
(1969), para quem a hesitação deve ser considerada entre os fenômenos para-
lingüísticos situados no nível da prosódia. Ao descrever os tipos de sons ou
preenchimentos de pausa com suas características acústicas, Crystal julga dis-
cutível incluir a pausa preenchida entre os traços prosódicos, já que do ponto
de vista fonético elas não o são, pois não fazem parte dos suprassegmentos
como no caso do silêncio. “É melhor ver nas pausas preenchidas um dos pon-
tos em que o sistema prosódico do Inglês inicia sua imersão no não prosódico”,
conclui Crystal, pois esses sons estão a um passo de todo tipo de vocalização e
a vocalização está a um passo do léxico inteiro. De resto, Crystal observa que:
(i) a distinção entre pausa de juntura e pausa de hesitação é questionável
por se basear em noções gramaticais não bem definidas. De igual modo, a
distinção entre itens lexicais e itens de função é questionável.
(ii) a distinção entre pausa silenciosa e pausa preenchida foi recebida
de forma não-crítica, já que existem gradações entre ambas. Também não foi
notada a relação dessas pausas com outros fenômenos prosódicos como o tem-
po e o ritmo.
(iii) qualquer afirmação razoável sobre o aspecto idiossincrático no
uso da hesitação deve ser reportada tanto à distribuição relativa quanto à abso-
luta. Dois indivíduos podem ter o mesmo número total de pausas hesitativas,
mas uma distribuição completamente diversa. Será necessário definir medidas
e critérios gramaticais para determinar o que é idiossincrático ou não.
167
4. Classificação das hesitações
A tipologia das hesitações aqui sugerida segue a praxe usual na litera-
tura a esse respeito1 . Considerando os recursos acima apontados, proponho a
seguinte classificação:

i. pausas não preenchidas (PNP)


ii. pausas preenchidas (PP)
iii. gaguejamentos (GA)
iv. repetições hesitativas RH)
v. falsos inícios (FI)

Como se observa, dá-se aqui uma redução de tipos em relação a outras


classificações por mim feitas. Em outras oportunidades, eu distinguia mais
dois tipos: (a) marcadores conversacionais hesitativos (tipo que foi incluído
no conjunto das pausas preenchidas, já que têm um funcionamento semelhan-
te) e (b) cortes oracionais (agora incluídos nos falsos inícios, já que se aproxi-
mam dessa classe). Os tipos aqui identificados podem ser assim caracteriza-
dos:

i. pausas não preenchidas (PNP): silêncios prolongados que se dão como


rupturas em lugares não previstos pela sintaxe (cortes de estruturas
sintagmáticas) e pelo fluxo da fala
– não gosto muito de: filme (0.5) muito triste
– tem um restaurante com o nome (3.0) também não lembro

ii. pausas preenchidas (PP): ocorrências de marcadores de hesitação do tipo


“éh”, “mm”, “ah”; alongamentos vocálicos com características hesitativas e
marcadores conversacionais acumulados
– e um professor de São: : SÃO Caetano do Sul ...éh: : ele
dá aula: : ... no serviço social
– o que me chama muito atenção? ...ah... é roupas éh: : ... cenários
– o papel que ele está desempenhando ...ah... que eles éh éh
a gente perceba
– tem um grupinho que nós... éh... um grupo assim: : da minha idade
168
– que realmente está trabalhando: bem: : sei lá: : não
sei: : tem tantos artistas bons

iii. gaguejamentos (GA): repetições de unidades inferiores a um item lexical


e pedaços de palavras iniciadas
– o cenário de Hair é uma ma/ MAravilha
– aquela artista f/ famosa

iv. repetições hesitativas (RH): as repetições julgadas não significativas se-


manticamente, geralmente repetição de itens formais
– o que a senhora o que a senhora mais gosta
– olha nem sei viu?... o que o que falar
– de acordo com o que ele tá... tá fazendo
– a última peça foi com aquelas aquela aquela artista
– a as minhas amigas vão vão sempre a teatro quase ...quase sempre

v. falsos inícios (FI): todos os inícios de unidades sintáticas oracionais, que


são iniciados com algum problema e refeitos ou retomados, o que distingue
este tipo dos cortes oracionais que são construções abandonadas.
– agora eu tenho u/ a as minhas amigas vão vão
– dep/ antes de Hair eu assisti um outro uma outra peça
– essa úl/ a última eu não lembro
– eu acho que uma: : ... a última peça
– eu acho que o teatro tá... tá tão/ não sei eu vou

5. Freqüências das hesitações


Uma análise de 11 textos do NURC (selecionados 21 minutos de cada
um para estudo, com o objetivo de homogeneizar o volume de fala, já que os
eventos são desiguais em tempo, nas coletas originais) deu os resultados gerais
apontados na Tabela 1 que registra as quantidades de hesitações encontradas,
excluindo-se as pausas não preenchidas (PNP) pela dificuldade de identificá-
las com segurança sem instrumentos de medidas acústicas.
169
Tabela 1: Ocorrências de hesitações no corpus

Textos Quantid. Hesitações


de textos

NURC-D2 6 408

NURC-DID 2 178

NURC-EF 3 101

11 687

É relevante observar que uma hesitação pode dar-se com vários ele-
mentos lingüísticos (repetidos), sendo que neste caso teremos mais ocorrên-
cias de material lingüístico do que hesitações. No geral, temos dois elementos
concorrendo para a construção de uma hesitação. Por exemplo: uma preposi-
ção alongada e repetida como neste caso

– comentário de: de: de

Temos aqui 1 hesitação mas 4 ocorrências de fenômenos, ou seja,


dois alongamentos e uma preposição duplicada. Este é um problema para a
estatística, pois não se trata de quantidade de elementos produzidos e sim de
fenômenos hesitativos.
Em outros casos, quando a hesitação se dá como presença de um dado
fenômeno, por exemplo, um artigo ou uma preposição, a preposição ou o pro-
nome conta apenas uma vez, sendo que uma das entradas é sua presença ne-
cessária e regular. Veja-se este caso:

– cê vai...cê vê em Londres cê cê olha um mapinha

Apesar de ocorrerem dois “ce” só contabilizamos um deles para hesi-


tação, pois um deve permanecer como regular na estrutura.
Uma vez feita essa observação, verificamos que para as 687 ocorrên-
cias de hesitações, temos a ocorrência de 1.283 fenômenos formalmente
identificáveis na estrutura de superfície. Um dado interessante neste contexo é
a presença de itens funcionais nas hesitações com um total de 529 itens (529/
170
1283 = 41.2%), ao passo que itens lexicais perfazem um total de 151 formas
(151/1.283 = 11.7%).
O percentual de itens funcionais é revelador e sugere que as hesitações
são de fato momentos de planejamento on line que interferem no processa-
mento. A Tabela 2 traz os totais para cada um dos fenômenos identificados.
Note-se que estes números não correspondem à quantidade de hesitações e
sim de elementos que entram na sua composição. Assim, os 1.283 fenômenos
aqui contabilizados distribuem-se nas 687 ocorrências de hesitações.

Tabela 2: Freqüência das formas em cada classe

CATEGORIAS NURC-D2 NURC-DID NURC-EF TOTAIS

I. Manifestões prosódicas
– alongamentos vocálicos 217 92 54 363
II. Marcadores hesitativos
– eh (repetidos ou não) 58 14 13 85
– ah 28 7 1 36
– ahn 7 – 3 10
III. Palavras funcionais
– artigos 103 47 17 167
– preposições 95 35 9 139
– conjunções 66 16 9 91
– pronomes 51 27 10 88
– verbos de ligação 34 7 3 44
IV. Palavras lexicais
– substantivos 12 14 9 35
– verbos 40 15 8 63
– adjetivos 4 – 5 9
– advérbios 21 19 4 44
V. Mcs acumulados 29 6 1 36

VI. Fragmentos lexicais 50 11 11 72

Considerando os quatro gêneros de texto trabalhados, observa-se uma


notável consistência quanto à freqüência de fenômenos. Dois fatos saltam à
vista de imediato.
1 – O marcador hesitativo por excelência da língua portuguesa falada é
o eh ou éh, que aparece com o maior percentual em todos os textos e níveis de
formalidade enquanto tipo.

171
2 – A classe de palavras menos usada e menos presente em todos os
gêneros de texto e graus de formalidade textual é o adjetivo que em muitos
casos sequer ocorre. Aliás, convém observar que os adjetivos de um modo
geral são uma categoria muito pouco presente na fala (a escrita tem cerca de 4
vezes mais adjetivos que a fala).

Retirando-se o total de 363 alongamentos de vogais, já que neste caso


não se tratava de um tipo de palavra e sim de palavras já contabilizadas em
algum outro momento, as freqüências foram, em percentuais arredondados:
1 – artigos 18 %
2 – preposições 15 %
3 – marc. de hes. 14 %
4 – pronomes 10 %
5 – conjunções 10 %
6 – fragm. lexicais 8%
7 – verbos plenos 7%
8 – advérbios 5%
9 – verbos de ligação 5%
10 – substantivos 4%
11 – MCs acumulados 3%
12 – adjetivos 1%

Notável é o fato de que mais da metade das formas são constituídas por
artigos, preposições, conjunções e pronomes, o que revela que esses ele-
mentos representam os momentos críticos na construção sintagmática. Por
outro lado, convém ressaltar que os fragmentos lexicais, os MC acumulados e
os marcadores de hesitação não constituem categorias gramaticais, o que po-
deria acentuar ainda mais os percentuais acima.
É interessante considerar os vários elementos lingüísticos nas catego-
rias. Vejamos mais de perto este fato:
– Os artigos mais freqüentes são o/os (97) e a/as (64).
– Os artigos indefinidos um/uns (31) e uma/umas (25).

172
É importante não perder de vista que muitas hesitações são constituí-
das de vários artigos repetidos, inclusive de artigos masculinos, femininos e
indefinidos numa mesma hesitação. Por isso mesmo, esse número tão alto de
artigos constitui cerca de 40% de casos de hesitações como tal, ou seja, os
aproximadamente 200 artigos só contabilizam uns 80 casos de hesitação, pois
eles se acumulam.
– No caso das preposições temos a freqüência maior para de/do/da/
dos (135)
– e em seguida vêm em/no/na/num/numa (35).
– as demais preposições foram: com, pra, até, a, entre, sem, sobre
Também aqui temos algo similar ao que ocorre com os artigos, sendo
no entanto a relação de ocorrências de hesitações constituídas por preposições
levemente superior ao caso dos artigos, isto é, em torno de 50%. Isto sugere
que é mais fácil encontrar a preposição certa (em caso de dúvida) do que o
artigo, já que encontrar o artigo significa ter decidido que nome foi escolhido.
Isto pode sugerir que as hesitações têm diretamente a ver com o problema da
construção da referência, tal como frisava Blanche-Benveniste (1990).
– As conjunções mais freqüentes foram e (41), que (30),
– seguindo-se, mas, ou, como, daí, já, então, se.
O número de hesitações constituídas por conjunções apresenta em tor-
no de 30% das ocorrências de hesitações.
– Finalmente, para os pronomes dá-se que o mais freqüente foi eu
(36)
– seguido de ele, você, tu e então outros como os demonstrativos
isso, esse,
– aquela e alguns possessivos como minha, meu, sua.

A relação entre ocorrência de formas pronominais e casos efetivos de


hesitação foi aqui um pouco inferior a 50%, ou seja, a cada dois pronomes em
contextos hesitativos, um constituía aproximadamente uma hesitação.
Seguindo esta linha de análise vemos que no caso dos nomes, verbos e
advérbios a situação fica ainda mais rarefeita, estando eles com uma relação
aproximadamente em torno de 25%. Somente no caso de fragmentos lexicais é
que se dá uma relação de aproximadamente 100% de fenômenos, ou seja, cada
vez que aparece um fragmento lexical temos efetivamente uma hesitação.
173
Como os alongamentos de vogal contribuíram com cerca de 20% das
marcas de hesitação, podemos distribuir equitativamente esse percentual entre
as categorias, com um peso um pouco maior para as palavras funcionais, já
que são em geral as mais curtas, quase nunca recebem tonicidade na entoação
e são as mais freqüentes.
Algumas conclusões básicas ressaltam neste momento:

1 – as palavras funcionais são as formas lingüísticas mais freqüentes


como material lingüístico para constituir as hesitações;
2 – há um som característico em língua portuguesa para se hesitar;
3 – ao contrário do que estamos acostumados a pensar, as hesitações
são menos freqüentes do que outros fenômenos característicos da
fala, tais como as repetições e os marcadores conversacionais;
4 – por fim, vale ressaltar que o predomínio das palavras funcionais na
construção de hesitações sugere que as hesitações são um indicador
de planejamento sintático e cognitivo e não uma estratégia de for-
mulação textual.

6. Distribuição das hesitações


No item anterior, foi observada a distribuição da hesitação sob o ponto
de vista das formas. Interessa agora situar a hesitação na estrutura lingüística e
investigar se há alguma regularidade sob o ponto de vista estrutural em termos
de posições preferenciais ou canônicas da hesitação. A maioria dos estudos
sobre as hesitações sugere que elas ocupam posições bastante regulares dentro
da estrutura lingüística. A análise dos materiais do Projeto NURC evidencia-
ram algumas posições como as mais freqüentes.
Antes de mais nada, parece muito oportuna uma observação de caráter
geral quanto às posições da hesitação na estrutura sintática, pois é bastante
problemática a análise de fenômenos lingüísticos da fala tendo por base unida-
des como a frase ou outras similares. Neste caso, há uma justificativa bastante
clara que permite utilizar a frase como unidade básica para a distribuição da
hesitação na estrutura lingüística. Os argumentos são os seguintes:
(a) a unidade sintática chamada frase é bem conhecida em sua estrutura e
dispõe de uma metodologia de análise passível de operacionalização

174
(b) a fala, embora tenha unidades funcionais que não podem ser identificadas
com a frase em sentido estrito, como mostraram muitos estudos, não pode
superar a condição geral a que estão submetidos todos os usos da língua,
que é a sua organização em enunciados estruturados em frases
(c) como mostrou Chafe (1982 e 1985) em suas análises a respeito da relação
entre fala e escrita, os enunciados da fala e as frases analisadas pela sintaxe
do sistema abstrato da língua têm um alto índice de coincidência.

Esses argumentos permitem que usemos, mesmo que com cautela, a


noção de frase para analisar a distribuição das hesitações na estrutura frasal. A
hipótese é de que haja uma certa regularidade nesta distribuição. À primeira
vista, há cinco posições típicas para as hesitações, considerando-se a organiza-
ção da frase. O interessante é que em todos esses casos não se prevê rupturas,
seja por pausa ou outra marca qualquer.

(a) entre o sujeito e o verbo


(b) entre o verbo e o complemento
(c) entre o complemento e os adjuntos
(d) entre um determinante e seus membros constituintes
(e) entre uma oração e outra

Uma análise detalhada mostrará que, efetivamente, a maioria das hesi-


tações distribui-se nesses lugares, tendo algumas preferências, mas também
algumas inibições bastante sistemáticas, como já foi notado em outros estudos
para o Português. Pode-se dizer que as hesitações não correm com a mesma
intensidade em todos esses pontos. Também há uma diversidade em se consi-
derando as categorias gramaticais. Vejam-se, por exemplo, essas brevíssimas
considerações preliminares, levando em conta apenas a questão da pausa na
sua relação com alguns fatores:

(i) em geral, pode-se dizer que uma pausa entre S e V numa frase,
seria uma hesitação, mas sabemos que nem sempre é assim. Por outro lado, as
pausas ditas silenciosas e preenchidas parecem não se equivalerem funcional-
mente. Há autores (cf. Beattie e Butterworth, 1979) que postulam uma com-
plementaridade entre pausas hesitativas silenciosas e preenchidas, observando
que as silenciosas vão progressivamente diminuindo caso tragam conseqüên-
175
cias negativas para o falante, como por exemplo a perda da palavra com maior
freqüência.
(ii) também parece que há uma relação entre certas construções sintáti-
cas e a presença maior de pausas, tendo-se observado, por exemplo, que cons-
truções com relativas têm menos pausas do que construções de grupos nomi-
nais ou construções de orações substantivas.
(iii) um aspecto interessante também já observado por Mollica (1984:
145) é o de que que os pronomes pessoais inibem a presença de pausa. Por
outro lado, os determinantes e os itens de função como preposição e conjunção
favorecem o surgimento da pausa. Caso haja hesitações no sujeito pronome,
isso se dá preferencialmente como alongamento de vogal ou repetição do item.
(iv) parece que a posição da pausa é relevante para determinar se sua
ocorrência deve-se a uma atividade de processamento sintático ou de busca de
um item lexical (devida à baixa predizibilidade do item procurado). Tomemos
o exemplo a seguir, do Projeto NURC, já utilizado no início deste trabaho:

NURC/SP, INq. 234: 1.132-43:


1 Doc: e o que a senhora considera uma boa peça teatral? (1.60)
2 e o que
3 Inf: eu ach/
4 Doc: que ela precisa conter?
5 Inf: (2.5) conter? ... eu acho que o o o (2.8) como é que eu vou dizer?
6 o que: : (2,5) sei lá (2.8) o que mais a peça nos chama a atenção é o
7 o o: : (1.0) o enredo da peça (0.5) ah ahn os artistas bons porque às
8 vezes né (0.6) eu tenho gostado mas (1.6) eu acho que assisti: : (2.2)
9 você sabe que não guardo nome mas eu assis/ eu
10 Doc: não o nome da peça não importa

Neste segmento de 39 segundos de duração temos 18 segundos (46%)


de silêncios acumulados com hesitações para preencher pausas. Trata-se de
uma dificuldade de natureza cognitiva (falta de memória) refletida na dificul-
dade de execução lingüística. Parece que a busca em grupos nominais é um
problema sério para os desmemoriados.

176
O exemplo acima é importante porque ele levanta a hipótese de que
não é só na estrutura sintática que se deve buscar as hesitações, mas também
no aspecto cognitivo e no processamento lingüístico que tem a ver com a sele-
ção lexical.
Uma observação geral é a de que a posição mais freqüente da hesitação
se acha sempre na construção de sintagmas. É pouco freqüente que as hesita-
ções se situem em fronteiras externas aos sintagmas ou entre um sintagma e
outro. Isto permite sugerir que a hesitação é um fenômeno que indica a dificul-
dade de construção de constituintes oracionais. Por vir no início de estruturas,
parece que a hesitação de fato se relaciona com o planejamento lingüístico e
como mostrou James (1972) ela é um orientador para a aferição da estrutura
sintagmática da língua.
Na perspectiva da organização textual-discursiva, estes dados são de
extrema importância por sugerirem que os falantes, ao estarem muito atentos
aos aspectos relativos à própria interação, se voltam menos para os processos
formulativos do conteúdo. As hesitações, ao contrário das repetições, por exem-
plo, não são estratégias de formulação textual e sim indícios ou sintomas de
dificuldades de processamento cognitivo/verbal localizado na estrutura sin-
tagmática. Além disso, como já lembrado, estas características estruturais fa-
zem com que a hesitação se distinga de modo bastante claro dos marcadores
conversacionais, cuja posição canônica é outra, ou seja, no exterior de frontei-
ras sintagmáticas e desligados das estruturas como tal, e por isso com funções
discursivas muito nítidas.
Vejamos aqui alguns do pontos em que as hesitações aparecem:

i. na construção de grupos nominais


(a) { artigo } nome
– numa faixa média a a: a comunicação pode
– temos certeza de que o o o homem precisa
(b) nome { preposição } nome

Este caso é de alta freqüência e surge em sintagmas nominais em geral


de caráter explicativo. Vejam-se estes casos:
– como conseqüência de uma de de uma comunicação
– em termos de de de uma crise moral
– tentativa (mundial) de de de de arquivamento
177
– problema do do do retrato
– é parecido com a bola de de de bilhar

ii. na junção do grupo nominal sujeito com o verbo


SN { hesitação } verbo
– porque se uma emissora ah: : .. for transmitir éh: : Hamlet
ou então quando se põe o sujeito após o verbo como em:
– e o que é que diz o o o Rotary?

iii. nas construções verbais transitivas


Podem ser construções tanto com objeto indireto (preposicionadas) ou
com objeto direto (com artigos entre o V e o Comp.):
V { prep./art. } N/V inf.
– estamos nesse nesse nese século
– foram obrigados a a a importar
– falando éh éh éh com problemas
– chegar áh áh áh então à conclusão
– estamos falando agora aí de de de Gabriel Garcia Marques
– tiveram a: : éh: áh uma crise de cultura
– for transmitir éh: : qualquer coisa
– você deve éh: : fiscalizar
– ter éh éh éh preocupações
– você liga sua sua sua seu aparelho de TV
– tá criando uma uma cul um uma criança
– transmitir éh éh áh Hamlet
ou alguma variação deste mesmo tipo em que o V tem um circunstancial (de
lugar ou de tempo) antes do objeto direto, como em:
– ele estuda em Paris o os os o número

iv. na construção de sintagmas adjetivais ou adverbiais


(a) N {...} adj
– até onde existe uma uma: : realidade éh éh áh objetiva?
178
(b) Adv {...} N
– em virtude do de da do fato
– junto da: junto da: junto da janela
– há cerca de: ... de de um ano
– em torno do da da doença

v. na junção de orações subordinadas


Um caso dos mais comuns é o da junção de subordinadas integrantes
com que ou qualquer tipo de subordinação (no momento de selecionar a con-
junção).
V + {que/conj} V
– eu acho que tá tá tá em tempo de fazer
– você vais achar que que que vai melhorar
– sempre digo que que que precisa fazer
– agora... eu acho que: : ... eu... espero: : ... não ter problemas
– para ver se: : ... se começa a falar mais rapidamente
– e o governo se advirta de que: : .. educar o adulto é bom
– homens cultos porque: : .. éh: se eles não tinham analfabetos

vi. na junção de orações coordenadas


Tanto faz se aparece ou não o conectivo unindo as orações:
oração 1 {...} oração 2
– falsificando a cultura éh éh a e prostituindo a arte
– nós paramos no sexto filho e: : ... estamos muito contentes

vii. na construção de negações e disjunções


(a) no uso da negação:
– você não não não não tá dialogando
– mas não não não é um grande livro
– eu não não não absorvi
179
(b) em disjunções:
– aceite Hamlet ou: : ... ou cultura evidentemente satisfatória
– falsa cultura o o a a a ou ou cultura medíocre

Quanto à relação entre as posições sintáticas e os tipos de hesitação, a


questão é bastante complexa, pois depende de uma definição muito clara tanto
dos tipos como das posições. Como isto é bastante problemático, já que a
hesitação aparece em muitas posições, mas sempre na formação de algum
sintagma, aqui são dadas algumas observações genéricas.

(i) As PNP situam-se em três lugares característicos:


(a) no interior de um sintagma
(b) no final de uma unidade ideacional
(c) na troca de turno.
(ii) As PP são freqüentes no encadeamento de elementos de uma listagem, na
seqüência de orações e na formação de séries em geral.
(iii) As RH aparecem no início de sintagmas que formam o sujeito, na pro-
dução de predicados, na realizacão de complementos preposicionados, nos
verbos de ligação e na seleção de artigos, pronomes e preposições. Tal como
em outros estudos, também aqui notou-se uma parcela mínima de repetições
hesitativas de mais de uma palavra. Além disso, é de notar que quase todos os
elementos repetidos têm entre uma e 3 sílabas, sendo raros os casos com mais
de três sílabas. A preferência absoluta é por itens de função. Em termos de
quantidade, as RH são o tipo de maior freqüência e por isso mesmo os mais
espalhados em todos os momentos da organização sintática.
(iv) As FI são construções incompletas, geralmente não retomadas e soltas ou
retomadas com outro rumo. As FI precedem uma outra construção e funcio-
nam como um aviso das dificuldades de engate.
(v) As GA são pouco comuns e surgem com nomes, adjetivos e verbos dando
a impressão de serem correções entoacionais, seja do ritmo da unidade inicia-
da ou da produção do item realizado. São de baixa freqüência. Às vezes apare-
cem como indicadores de dificuldade de identificação da classe do item lexical
selecionado.

Uma observação comum a todas as análises sobre a hesitação é que


elas situam-se de preferência na cabeça das construções sintagmáticas, em
180
geral à esquerda do núcleo de qualquer constuinte em construção. São menos
freqüentes as hesitações em posições marginais de constituintes ou à esquerda
e direita de constituintes completos. Já no caso dos marcadores conversacio-
nais dá-se quase o inverso.
Os exemplos trazidos acima mostram que é pouco comum as hesita-
ções romperem sintagmas, pois elas são atividades construtivas. Elas são uma
espécie de “titubeio” que sinaliza uma reorientação sintagmática, mas rara-
mente uma ruptura ou um abandono de sintagmas, até mesmo naqueles casos
dos FI. Assim, do ponto de vista da orientação, as hesitações operam na
prospectiva, ou seja, referem ou indiciam e sinalizam constituintes futuros,
numa atividade para-catafórica.

7. Papéis da hesitação
Uma análise dos resultados até aqui obtidos a respeito das formas e
posições da hesitação sugere que ela interfere particularmente na enunciação
discursiva (refletindo condicionamentos pragmáticos) e nas atividades
cognitivas (refletindo-se no processamento da compreensão).1 No geral, ela
não chega a comprometer a gramaticalidade dos enunciados. Isto chega a ser
surpreendente, mas se tirarmos as hesitações, veremos que elas não tinham
papel sintático algum. Mesmo seus papéis pragmáticos e discursivos são se-
cundários em relação ao discurso, mas não irrelevantes.
A tese central aqui defendida é que a hesitação, ao contrário de outras
características da fala, tais como a repetição, a paráfrase, a correção, as
parentetizações e os marcadores conversacionais, não tem funções sistemáti-
cas no plano da formulação textual. Isto não significa, porém, que a hesitação
é vista como uma simples disfunção da fala. Significa que seu papel é muito
mais o de sugerir os sintomas de um processamento em curso do que o de
propor alternativas de formulação textual-discursiva. Portanto, é fundamental
ter presente que a hesitação é aqui vista como um índice problemático da for-
mulação e não como uma atividade formulativa.
Macklay/Osgood (1959) observam que quando o falante tem pouco
controle do seu turno, ele produz pausas silenciosas maiores, mas quando quer
manter o controle do turno as pausas silenciosas diminuem na quantidade e na
duração, entrando aí as pausas preenchidas, pois o silêncio pode levar à perda
do turno. Assim, falantes menos fluentes têm dificuldade de manter o turno.
Segundo Rochester (1973: 75), isto teria algumas conseqüências interessan-
tes, tais como:
181
(a) essa correlação vale mais para os diálogos e menos para monólogos;
(b) os silêncios aumentam em final de turno e em final de tópico;
(c) há maior equilíbrio desses fenômenos quando o número de falantes é cons-
tante, aumentando o preenchimento no caso de variação de falantes poten-
ciais;
(d) acentuam-se os preenchimentos quando o falante carece de meios visuais
para controle de seu turno, como no telefonema. Isto parece comprovar a
interferência das variáveis de caráter interacional.

Para o caso (d), Rochester (1973: 76) postula dois tipos de variáveis
que entram em ação: (i) variáveis mediadoras: tais como mudanças na situa-
ção da audiência e predisposição para responder aos ouvintes; (ii) variáveis de
controle: número de falantes, desejo individual de tomar a palavra. As variá-
veis de (ii) tendem a reduzir o tempo e o número de pausas silenciosas, sendo
as de (i) indiferentes a isso. Assim, torna-se interessante investigar a influência
do tipo de falante e do tipo de participação do falante na relação com o tipo de
texto produzido.
Ao analisar as impressões que as hesitações das testemunhas causam
nos advogados em depoimentos na Justiça, Walker (1985) defende a tese de
que “em situações nas quais questões de verdade são importantes, o silêncio é
uma faca de dois gumes por natureza; uma face representa a necessidade cog-
nitiva do falante de organizar o pensamento e a outra a necessidade do ouvinte
de atribuir motivos para uma quebra no fluxo da fala”. Esta cabeça de Janus
da hesitação e do silêncio torna-os significativos e funcionais sob o ponto de
vista da interpretação.2
Chafe (1985), postula que a hesitação só pode ser analisada em situa-
ções concretas de uso da língua e por isso não foi tratada nos estudos lingüís-
ticos dominantes, já que estes se ocupam com “falantes ideais”. Ao se investi-
gar a fala, a hesitação se torna uma espécie de medida para verificar processos
cognitivos e estratégias lingüísticas que se dão na textualização em tempo real.
Chafe observa que na fala as idéias são produzidas em blocos não necessaria-
mente longos nem completos do ponto de vista gramatical. As hesitações se-
riam uma espécie de indicador desta atividade, seja de suas facilidades ou
dificuldades.
A tese de Chafe (1985: 79) é a de que o falante produz hesitações para
busca do foco. Observa, por exemplo, que quando alguém inicia uma narrati-
182
va, ele hesita até encontrar o foco. O mesmo poderíamos dizer numa correla-
ção com a introdução do tópico. Pode-se hesitar na hora de determinar o foco
do novo tópico e isto com maior freqüência quando o tópico é mais dificil,
como observou Rochester (1973). Esta tese de Chafe é de interesse aqui por-
que guarda uma correlação muito estreita com os nossos achados anteriores.
Explica-se, assim, por um outro caminho, porque as hesitações acumulam-se
no início de produções discursivas, sejam elas no plano formal das estruturas
sintáticas ou no plano discursivo-textual da formulação enunciativa. As difi-
culdades acumulam-se nos primeiros passos e não nos finais.
É um fato que as hesitações ocupam sempre posições iniciais, seja no
contexto da formulação dos tópicos, seja no contexto da construção sintagmá-
tica ou planejamento sintático em geral. A idéia de foco proposta por Chafe
também se coaduna com a tese da denominação de Blanche-Benveniste (1990).
Pois a hesitação tem um escopo geralmente muito imediato. Neste caso, diver-
ge das estratégias de formulação tais como os marcadores e as repetições ou
correções cujo escopo é mais do que o simples contexto imediato das relações
formais ou discursivas do item envolvido.
Aparentemente, a hesitação instiga a colocar o princípio funcionalista
da iconicidade das formas sob novo enfoque, já que as hesitações não são
formas funcionais e sim disfuncionais, se as observarmos sob o ponto de vista
de sua contribuição discursiva. Nós podemos inferir várias coisas no contexto
de um falante hesitativo, mas todas essas inferências partem muito mais de
nossa avaliação do que de evidências trazidas pela hesitação como tal. Por
isso, a hesitação é uma oportunidade de refletir sobre as relações entre forma e
função. O falante hesita para decidir o quê falar ou porque está decidindo
como falar. Mas não porque está querendo dizer algo com a hesitação.
Chafe (1985: 82) sugere que os focos em geral se organizam em unida-
des sintáticas ou então em unidades entoacionais. Neste caso é explicável que
haja mais hesitações entre os focos que dentro de um foco, ou seja, no interior
de uma unidade. De igual modo as transições dentro de um mesmo tópico (ou
episódio) conteriam menos hesitações do que as transições entre tópicos dife-
rentes. Lembra ainda a mesma tese de Walker (1985) que a verbalização de
informações não verídicas pode levar a um maior número de hesitações que as
verídicas. Esta via psicologizante de entender e explicar o fenômeno não é
boa, mas é a mais comum entre os psicólogos que vêem na hesitação um sin-
toma de insegurança, ansiedade ou medo. Esse não é o caminho seguido neste
ensaio.
183
Em resumo, pode-se afirmar que há uma relação entre a hesitação e
tópico, conhecimento de mundo, capacidade de codificação e conhecimento
lingüístico. Por outro lado, teríamos os fatores representados por: falante-
ouvinte (estrutura da participação), organização dos turnos de fala (es-
trutura de produção) etc. Tendo em vista que o texto dialogado é produzido
coautoralmente e em turnos sucessivos, há sempre a necessidade de uma pro-
gressão sob o risco de perda da palavra. Neste caso, é importante produzir sons
ao invés de ficar em silêncio. Tanto isso é verdade que às vezes um ouvinte
entende a posição hesitativa do falante como pedido de socorro e lhe dá um
auxílio na formulação avançando o que o outro iria dizer, tornando o texto
mais colaborativo e a interação envolvente.
Embora opere como descontinuadora da fala em sua materialidade, a
hesitação é ao mesmo tempo a garantia da continuidade discursiva, servindo
como estratégia para manutenção do turno em momentos críticos. Estes mo-
mentos críticos ocorrem na falta de memória, embaraço no conteúdo, proble-
ma de planejamento sintático etc. Considerando estas duas perspectivas de
análise, pode-se observar o funcionamento da hesitação em duas linhas:
(a) na perspectiva da formulação textual
(b) na perspectiva da interação e da discursividade

Em (a) ela pode ser observada na sua condição de descontinuadora na


ordem sintática, sendo que em (b) ela seria observada em sua condição de
continuadora no nível da enunciação, ou seja, das relações interpessoais dos
interlocutores e na condução dos tópicos. Tudo indica que neste segundo caso
pode-se mais propriamente falar em funções, enquanto que em (a) não se trata
propriamente de funções, mas de papéis ou sintomas.
Considerando a perspectiva (b), é comum que a hesitação, sobretudo
na forma de um alongamento de vogal, seja utilizada como estratégia de entre-
ga de turno, num momento em que começa a ficar difícil manter a palavra.
Trata-se, pois, de uma entrega de turno disfarçada. Esta estratégia joga com a
expectativa da manutenção da palavra e a possibilidade da perda.
Outro papel de continuadora discursiva é o da hesitação com alonga-
mento de vogal usada como forma de pedir socorro ao interlocutor em mo-
mentos de esquecimento.
No geral, quando se fala em papel da hesitação na perspectiva (a) acima,
ou seja, da descontinuidade material, tem-se em mente a questão do processa-
mento lingüístico. Neste caso, parece mais adequado dizer que as hesitações
184
não teriam funções, mas operariam como indicadores ou sintomas de ativi-
dade de planejamento lingüístico. Resumidamente, proporia o seguinte qua-
dro geral para explicitar este fato:

(a) perspectiva da descontinuidade sintagmática


oracional
(b) perspectiva da continuidade: textual
discursiva
interacional
cognitiva

No geral, diz-se que a hesitação com papel de descontinuadora indica


atividade de planejamento lingüístico, ou seja, indica intervenção na constru-
ção de estruturas sintagmáticas. Assim, nesse contexto parece exercer papéis
como testagens do falante para escolha de formas de uma palavra adequada ou
organização de uma construção de maneira mais compreensível. Nesses casos
teríamos atividades voltadas para o falante, situando-se tanto na fase do plane-
jamento como da formulação, o que mostra que a hesitação diria respeito ao
processamento lingüístico como um todo.
Um argumento bastante razoável para identificar a hesitação como
reveladora de atividade de planejamento lingüístico é o fato de ela ocorrer na
primeira metade da unidade em que intervém. É pouco comum hesitar após a
segunda metade de uma estrutura realizada. Já no caso das atividades reveladoras
de funções discursivas ou conversacionais, as pausas e os alongamentos, por
exemplo, estão em geral no final das unidades. Parece que completude sintáti-
ca e completude discursiva não são isomorfas.
Cabe aqui indagar se existem hesitações que exercem predominante-
mente papéis na perspectiva da formulação textual e hesitações que operam
mais na perspectiva discursiva. Esta é a indagação que se fazem Beattie &
Beattie & Butterworth (1979), quando indagam se as hesitações são funcional-
mente diversas. Esses autores notaram que se os falantes fossem “penaliza-
dos” por pausas além de uma certa duração, perdendo o turno, por exempo,
essas pausas baixavam significativamente, subindo o número de repetições ou
pausas preenchidas. Concluem com isso que “as pausas não preenchidas e os
tempos de repetições hesitativas parecem ser intercambiáveis” (p. 342). Isso
sugere que tenham funções parecidas, pelo menos parcialmente.
185
Um fato notado no decorrer das análises foi o que diz ao escopo da
hesitação. Ela parece voltar-se para elementos em suas imediações. Além dis-
so, volta-se para atos futuros, ou seja, sua orientação é prospectiva, diferindo,
neste particular, da repetição e da correção que são sempre retrospectivas,
até mesmo porque só se repete algo já dito e só se corrige algo que se formulou
de forma tida como inconveniente por alguma razão qualquer.3
O ponto essencial da distinção entre hesitação e todos os demais fenô-
menos discursivos característicos da fala reside não tanto nas formas (já que
ela tem aparências de repetição, correção, marcadores etc.), mas no seu papel
no processo de formulação textual-discursiva. A hesitação, ao contrário da
repetição, por exemplo, não faz parte das atividades de formulação e sim dos
sintomas que evidenciam rupturas na formulação. A hesitação não pode ser
tida como proposta de solução para algum problema de formulação mas sim
como indício de atividade de busca de solução. Por isso, não é uma atividade
formulativa.
Quando usamos repetições para construir o texto, as repetições com a
função de fator coesivo são identificadas como uma estratégia de coesão. Mas
a hesitação nunca é identificada como alguma estratégia similar a essa no pla-
no da formulação. Mais do que uma estratégia de solução é um indício de
problema, revestindo-se, por isso, de interesse enquanto fator de “ralentamento
do texto”. A hesitação é indício de trabalho por parte do falante; ela conduz o
analista ao laboratório do falante.
Ao lado dos papéis textuais e interacionais há ainda o papel cognitivo.
Quanto a isto, a hesitação revela os segredos da própria atividade cognitiva do
falante, na medida em que vem associada a outros processos, tais como o fluxo
informacional dos referentes. Notei que em várias ocasiões as hesitações pre-
cedem a introdução de elementos novos, sendo menos freqüente na reintrodução
de elementos já conhecidos. Parece, pois, relevante analisar as hesitações na
relação com seu status informacional. Este aspecto é frisado também por
Silva (em preparação).
A expressão “indivíduo hesitante” tem a ver, no geral, com uma avali-
ação cognitiva e não textual-discursiva. Hesitante é uma pessoa que não conhece
ou que não tem segurança do que está dizendo ou fazendo. Este parece ser o
senso comum. Mas este é apenas um dos aspectos pelos quais se poderia ob-
servar a hesitação.
Goldman-Eisler (1968) considera como um de seus maiores achados
nos estudos sobre a hesitação o fato de que “os índices de pausa eram signifi-
186
cantemente mais altos durante as interpretações do que durante as narrações”.
Isto sugere que há uma relação entre a hesitação e a atividade discursiva. Essa
correlação/diferença ainda não foi feita. As observações feitas no corpus ana-
lisado permitem a sugestão de que quanto mais espontânea a situação, tanto
menores vão sendo as pausas silenciosas. Quanto a outras correlações, não há
resultados relevantes.4
Com base nestas análises, a tentativa aqui feita de sistematizar os pa-
péis das hesitações distribui esses papéis em três grandes classes gerais:
(A) papéis formais
(B) papéis cognitivos
(C) papéis interacionais

Não há um rigor muito grande neste momento quanto a essa distribui-


ção e ela ainda deveria ser objeto de uma análise mais aprofundada.

(A) papéis formais


Até hoje continua controversa a idéia de que estruturas de fala de maior
complexidade exigiriam maior tempo de planejamento, dando origem a mais
hesitações. Goldman-Eisler (1968) informava que não havia encontrado uma
relação clara neste sentido. Na verdade, nota-se um grande número de hesita-
ções em estruturas bastante simples, mas fica por definir o que é uma “estrutu-
ra simples” ou uma “estrutura complexa”. Segundo Beattie & Butterworth
(1979: 347-350) os estudos a este respeito são contraditórios.

De um modo geral, podemos dizer que as hesitações exercem dois gran-


des papéis formais:
(a) indicação de orientação/reorientação de seleções sintagmáticas
(b) atividade de busca/confirmação de seleções lexicais

Quanto a (a), trata-se de uma atividade muito comum, devida ao pro-


cessamento lingüístico on line. É um indício de atividade de planejamento.
Trata-se de um indicador da busca de um item lexical com a antecipação de um
elemento que lhe convém formalmente. Nós dominamos as regras gramaticais
e sabemos que nomes masculinos têm artigos no masculino, um nome no plu-
187
ral tem artigo no plural e assim por diante. A competência lingüística enquanto
domínio de uma regra formal não é garantia de uso da regra, pois isso depen-
derá também de outras seleções, ou seja, um item lexical determina por anteci-
pação seleções específicas de outros itens.
O problema aqui é distinguir se temos, na hesitação um caso de corre-
ção especializada, ou seja, uma correção por antecipação, ou se temos um caso
em que ainda não encontramos o item que buscávamos. Nesta segunda hipóte-
se trata-se de uma tentativa de preenchimento. Ocorre, porém, que na fala
quase sempre executamos construções curtas, seqüenciadas e com alto índice
de pré-fabricação. Por isso não hesitamos tanto como seria de esperar.
Quanto a (b), é fundamental ter presente que neste caso não se trata da
tese clássica de que a presença de uma hesitação diante de um nome revelaria
dificuldade de encontrar aquele nome ou então uma “baixa predizibilidade”
do item lexical. Goldman-Eisler “notara que a escolha de uma palavra pelo
falante em qualquer ponto dependeria ‘da freqüência do uso do símbolo na
língua como tal, mas as restrições eram derivadas do contexto e da estrutura da
língua’ ”. Isso envolvia aspectos de freqüência, bem como aspectos semânti-
cos, sintáticos e pragmáticos. A questão está em como distingui-los. Por isso
é preferível formular a função acima como busca de elementos adequados,
seja de natureza sintática ou lexical. As razões podem ser múltiplas e não uma
só.
Entre as razões que levam a hesitar nos casos (a e b) devem-se a ativi-
dades de:
(i) construção de estruturas
(ii) identificação de referentes

(B) Papéis cognitivos


A expressão papéis cognitivos tem aqui um sentido um tanto amplo e
diz respeito a todos os fenômenos relacionados à compreensão, intenção e
organização tópica. Isso significa que quando produzimos a fala estamos sub-
metidos a condições de produção em que a forma e o conteúdo são realizados
simultaneamente. Tanto é necessário planejar o conteúdo como a forma. Mas
isso tem sinalizações diversas. O problema está em como identificar a diferen-
ça dessas operações.
No caso do planejamento cognitivo, nota-se a presença de silêncios,
diminuição do ritmo e pausas preenchidas. Os planejamentos verbais são mar-
188
cados por mudanças de estruturas ou nas rupturas sintagmáticas (sobretudo
nas cabeças dos sintagmas).
Entre os papéis cognitivos mais comuns das hesitações, poderíamos
identificar:
(a) sinalização de saturação de tópico
(b) sinalização de atividade de compreensão
(c) indicação de organização tópica
(d) indicação de atividade de planejamento

(C) Papéis interacionais


Um dos princípios mais gerais da produção discursiva oral é o
envolvimento interpessoal. Esse princípio comanda uma série de processos
que se traduzem em estratégias que organizam atividades formulativas tais
como o sistema de polidez, o sistema de atenção para com o ouvinte (com
todos os seus marcadores) e assim por diante. É neste caso que se pode imagi-
nar papéis identificados como:
(a) sinalização de manutenção de turno
(b) sinalização de finalização de turno (entrega “disfarçada”)
(c) sinalização de atenuação de afirmações
Sobretudo as hesitações do tipo PP, que parecem indicar uma preven-
ção contra a “perda” do turno. Às vezes a hesitação pode operar como uma
forma de chamar atenção do outro em momentos de distração, o que é uma
forma de “suspender” momentaneamente o fluxo da fala.

Também se aponta como papel interacional, em alguns casos, o fato de


a hesitação operar como:
(d) sinalizador de superioridade, segurança e tranqüilidade
De fato, já se notou que muitos conferencistas tarimbados e bem con-
ceituados hesitam muito mais do que conferencistas estreantes. Talvez para
sugerir segurança e até mesmo descontração e familiaridade com o tema.

8. Considerações Finais
Nestas considerações finais cabe retomar alguns aspectos centrais tra-
tados em vários momentos do trabalho, mas inconclusivos. Quando tratei do
189
problema das funções das hesitações, preferi adotar o termo papel da hesita-
ção, pois um dos problemas ainda aberto é o seguinte:
– qual o grau de consciência do falante quando age com a lingua-
gem? Será que no caso específico da hesitação pode-se falar em
intenção? Tudo indica que não, pois isso conduziria a uma inten-
cionalidade permanente, o que, ao meu ver, é um caso insolúvel e
sobretudo incontrolável.

Assim, a pergunta que ainda fica, neste caso, é a seguinte:


– como tratar o problema da intenção na relação com a hesitação?

Ao lado da questão acima, há outra também complexa. Trata-se do


fenômeno do monitoramento na língua. A indagação que aqui permanece
aberta é a seguinte:
– será que os falantes se monitoram o tempo todo? Isto recoloca, sob
uma nova roupagem, o problema anterior da consciência do uso da
linguagem.
Não temos uma resposta a esta questão e a psicolingüística parece não
estar voltada para ela.

Uma questão levantada logo na abertura do trabalho era a seguinte:


– a hesitação é uma propriedade da língua ou do falante? Talvez essa
questão não esteja sequer bem posta, mas ela aponta para a neces-
sidade de distinguir entre o que poderíamos chamar de idiossincrasia
e fatos lingüísticos.

Outra questão tratada, mas não decidida, foi a que diz respeito à hesita-
ção em seu aspecto de fluência e continuidade discursiva e textual. A pergunta,
neste caso, é a seguinte:
– será possível distinguir entre a linearização material do texto e a
continuidade discursiva? Suponhamos que sim. Neste caso, a hesi-
tação seria um aspecto descontinuador da materialidade textual, mas
não do discurso, ou seja, da produção de sentidos como tal.
Na realidade, não é pacífica a idéia de que a hesitação é uma simples
descontinuadora da fala. A rigor, o texto, em sua materialidade, pode ser visto
como uma pista relevante para a observação das estratégias de sua formulação.
190
NOTAS
1
No estudo de Scliar-Cabral et alii (1981: 128) são formuladas duas hipóteses para
analisar a pausa e a hesitação, afirmando que ambas estariam em “distribuição comple-
mentar”. As hipóteses foram: “(1) função de codificação e (2) integrante dos traços
conversacionais”. A posição adotada no estudo de Scliar-Cabral et alii considera como
hesitação um conjunto de fenômenos, tais como o “sabe”, “né”, “entende”, “bom,
“lógico”, “digamos”, por exemplo”e outros nessa mesma linha. No caso das hesita-
ções na função (1) apontada, suas posições e sub-funções coincidem com as aqui tam-
bém sugeridas. As funções apontadas em (2) são praticamente as que se atribui aos
MCs. Gostaria de frisar o caráter pioneiro, entre nós, desse estudo de Scliar-Cabral et
alii, que a meu ver deveria ter merecido mais atenção e recebido continuidade.
2
E interessante observar que no estudo de Walker (1985) as pausas silenciosas intra e
inter-turno foram as mais críticas, sendo que as pausas preenchidas não foram avaliadas
negativamente. Também são mais críticas as pausas atribuídas ao respondedor, sendo
menos preocupantes as pausas atribuídas ao perguntador.
3
Em Marcuschi (1992) tentei mostrar as funções da repetição e, naquele momento,
distinguia entre repetição e hesitação, mostrando que uma era prospectiva e a outra
retrospectiva. Tanto assim, que eliminei do rol das repetições todas a hesitações que se
davam por repetição de elementos lingüísticos. Isto porque as repetições hesitativas
pouco têm a ver com as repetições stricto sensu.
4
Lembro que a própria Goldman-Eisler em estudos posteriores chegou à conclusão que
não havia distinção relevante entre as duas situações discursivas em relação às pausas
hesitativas.

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194
ASPECTOS BASICAMENTE INTERACIONAIS DOS
MARCADORES DISCURSIVOS

Hudinilson Urbano
(Universidade de São Paulo)

Resumo: O trabalho, que se apóia em pesquisa maior, apresenta resul-


tados de outra mais profunda sobre os marcadores classificados funcional-
mente como marcadores “basicamente orientadores da interação”. Esses mar-
cadores são agora analisados e estudados com o objetivo específico de obser-
var suas subfunções, propriedades e comportamentos interativos salientes.

1. Considerações preliminares
A presente pesquisa está condicionada à pesquisa maior anterior
intitulada Marcadores Discursivos: Traços Definidores, realizada por Merce-
des Sanfelice Risso, Giselle M. O. Silva e Hudinilson Urbano para o PGPF1 .
Aquela referia-se aos marcadores discursivos de um modo geral; distinguindo
fundamentalmente marcadores “seqüenciadores de tópico” e marcadores “orien-
tadores da interação”, com implicações recíprocas; esta trata de um subconjunto
dos marcadores, que desempenham, exclusiva ou inclusivamente, a função de
marcadores “basicamente orientadores da interação”. Esses marcadores serão
analisados sob esse aspecto, com abstração feita à eventual função concomi-
tante de “seqüenciadores de tópico”.
Naquela pesquisa, buscamos o “estabelecimento de traços identifica-
dores do estatuto dos Marcadores Discursivos, capazes de conduzir a uma
definição mais precisa e operacionalmente viável de sua natureza”. Para tanto,
fizemos, no corpus mínimo do PGPF, um “levantamento denso das unidades
que têm sido, consensualmente ou não, apontadas como marcadores”, obser-
vando as suas peculiaridades na integração textual e depreendendo as regulari-
dades ou constantes, capazes de formar um fundo comum das ocorrências,
com base nas quais pudemos configurar “matrizes básicas” de traços e um
“núcleo-piloto” definidor dos marcadores discursivos.
Cada ocorrência foi investigada e analisada em relação a cada uma das
dezesseis variáveis, subcodificadas em traços, devidamente descritos e comen-
tados, a seguir relacionados:

VARIÁVEIS / TRAÇOS
01 Padrão de recorrência 09 Autonomia comunicativa
1 – de 1 a 3 vezes 1 – comunicativamente autônomo
2 – de 4 a 9 vezes 0 – comunicativamente não autônomo
3 – de 10 vezes em diante 10 Massa fônica
02 Articulação de segmentos do discurso 1 – até três sílabas tônicas
1 – seqüenciador tópico 2 – além de três sílabas tônicas
2 – seqüenciador frasal 11 Tipo de ocorrência (contigüidade/combinabi-
0 – não-seqüenciador lidade)
03 Orientação da interação 1 – contíguos combinados
1 – secundariamente orientador 2 – contíguos não combinados
2 – basicamente orientador 3 – contíguos repetidos
0 – fragilmente orientador 0 – não contíguos
04 Relação com o conteúdo pro-posicional 12 Base gramatical (fonte)
1 – exterior ao conteúdo 1 – substantivo 6 – pronome
0 – não exterior ao conteúdo 2 – adjetivo 7 – interjeição
2 – não se aplica 3 – advérbio 8 – preposição
05 Transparência semântica 4 – verbo 9 – formação mista
2 – totalmente transparente 5 – conjunção 10 – não se aplica
1 – parcialmente transparente 13 Sexo dos informantes
0 – opaco 1 – mulher
3 – não se aplica 2 – homem
06 Apresentação formal 14 Local do inquérito
1 – forma única 1 – Recife 4 – São Paulo
2 – forma variante 2 – Salvador 5 – Porto Alegre
07 Relação com a estrutura oracional 3 – Rio de Janeiro
1 – sintaticamente independente 15 Tipo de inquérito
0 – sintaticamente dependente 1 – DID
08 Demarcação prosódica 2 – D2
1 – com pauta demarcativa 3 – EF
0 – sem pauta demarcativa 16 Posição
1 – inicial
2 – medial
3 – final

196
As “matrizes básicas” representam combinatórias de oscilações flexí-
veis, mas bastante fortes, quer por sua natureza, quer por sua freqüência. Essas
matrizes foram submetidas a novos testes, tendo sido observada certa instabi-
lidade (embora contrabalanceada) em algumas variáveis. As consideradas es-
táveis (Variáveis 02, 03, 04, 07 e 09) permitiram então a detecção de um “nú-
cleo-piloto”, definidor dos marcadores discursivos prototípicos.

2. A presente pesquisa
Na presente pesquisa, objetivamos apurar subfunções, propriedades e
comportamentos textuais interativos específicos dos marcadores listados na
pesquisa anterior como “basicamente orientadores” (traço 2 da Variável 03).
Em razão dos objetivos específicos, com tônica na perspectiva interacional,
em termos de procedimentos metodológicos, repensamos e recodificamos a Va-
riável 16, cuja análise não fora concluída na pesquisa anterior, e acrescentamos
novas variáveis, expostas na seqüência, do que resultou um conjunto comple-
mentar de variáveis, codificadas com as letras A, B, C, D, E, F, G.2
Por outro lado, adotando critério da pesquisa anterior, esclarecemos que,
na listagem (Anexo I), os três últimos números da configuração (Variáveis 13,
14, 15) codificam o sexo, o local e o tipo de inquérito, correspondendo efetiva-
mente essa codificação combinada aos seguintes inquéritos do Projeto NURC/
BR:

3 últ. nºs: Inquérito/NURC/BR: 3 últ. nºs: Inquérito/NURC/BR:


113 EF/RE -337 212 D2/RE-005
121 DID/SA -231 222 D2/SA-098
131 DID/RJ- 328 223 EF/SA-049
142 D2/SP- 360 232 D2/RJ-355
143 EF/SP- 405 233 EF/RJ-379
151 DID/POA- 045 241 DID/SP-234
153 EF/POA- 278 252 D2/POA-291
211 DID/RE -131

A – Funções textual-interativas
Esta variável, de fundamental significação e importância no presente
estudo, representa o levantamento de funções discursivas interacionais desem-
197
penhadas apenas pelas formas sob análise. Dificilmente uma forma desempe-
nha uma única função; é comum a coocorrência ou sobreposição de funções.
Nessa hipótese, optamos, numa análise inicial, pela função que nos pareceu
proeminente, passando, às vezes, depois, a considerações periféricas.
As funções previstas nos traços desta variável representam alguns pos-
síveis “desdobramentos” do traço 2 da Variável 03 da pesquisa anterior e di-
zem respeito a “funções” (ou subfunções) que as “formas” sob análise subten-
dem e desempenham.
O conceito de interação tem uma abrangência considerável, não se re-
ferindo apenas ao processo de relação interpessoal bem caracterizado
(envolvimento do falante com o ouvinte ou vice-versa), mas também ao pro-
cesso de manifestação pessoal, quando, por exemplo, o falante verbaliza ava-
liações subjetivas a propósito das significações proposicionais, envolvendo-
se, pois, com o conteúdo (como acho), ou compromete, retoricamente, seu
interlocutor (como digamos). A presente pesquisa, entretanto, como já frisa-
mos, se restringe ao traço 2 dessa função (marcadores basicamente orientado-
res), ressalvados ainda os critérios complementares alinhavados adiante.
Esta variável abre-se teoricamente em vários subgrupos, cada um com-
preendendo um conjunto de funções interligadas, quase num continuum, sob
determinada tônica. Esses conjuntos distribuem-se em vários graus de envol-
vimento dos parceiros, indo do maior envolvimento do falante consigo mesmo
e menor com o interlocutor (maior grau de “subjetividade”) até a uma situação
oposta (maior grau de “intersubjetividade”).
Observemos os exemplos abaixo:
a) “já ouviu falar, conhece de nome taxionomia, só de nos, bem...Eh:: essa
palavra taxionomia quer, refere-se mais ou menos a uma classificação (...)
(EF POA 278/153 1. 27)3
b) Doc. quanto tempo... essa refeição ?
L2 ah essa refeição... normalmente leva meia hora (...)
(D2 SP 360/142 1. 324/325)

c) L2 (...) já é alguma coisa que


eles fazem porque...
L1 ah ajuda demais né ?
(D2 SP 360/142 1. 183/185)
198
d) L1 (...) agora em dois dias da semana ... eu levo à faculdade
também... não é ?
L2 ahn ahn
L1 e:: depois volto para casa (...)
(D2 SP 360/142 1. 153/157)

Em a) o falante formula uma pergunta (retórica) que ele mesmo res-


ponde na seqüência. Nesse sentido, na estratégia de ele perguntar e ele mesmo
responder, o bem inicia a auto resposta, caracterizando o referido grau de sub-
jetividade, isto é, o falante modalizando sua atitude no próprio texto.
Em b) a situação é semelhante. Todavia a Doc. endereça ao interlocutor
uma pergunta direta que ele (L2) passa a responder, iniciando, porém, a resposta
com o marcador ah. Nesse caso o ouvinte, tornado falante, foi provocado direta-
mente e o ah teve igualmente a propriedade de facilitar a tomada de turno.
Em c) L2 vem fazendo comentários a respeito das atividades dos fi-
lhos, sendo interrompido por L1 com um comentário paralelo iniciado com o
marcador ah, que favorece a interrupção da fala de L2 e a concomitante toma-
da de turno, procedimentos que sinalizam o grau de envolvimento interpessoal
dos parceiros conversacionais.
Em d) o falante está narrando/descrevendo seu dia de tarefas. A certa
altura faz uma declaração que termina com o marcador não é ? como reforço
de sua asserção, em tom interrogativo, tipificando claramente a interação face
a face. Por outro lado, o ouvinte (L2) manifesta claramente, em sobreposição
de voz, ainda antes do término do turno do falante, o grau de sua interação com
ele, por meio do marcador ahn ahn.
Para ampliar o panorama teórico sobre o conceito de interação, cabe
referir ainda a ocorrência do marcador ah, de natureza exclamativa, em início
de fala citada, como no exemplo abaixo:

“eu não leio muito negócio de esporte, eu sempre viro a folha(s) né...
meu marido “ah, onde é que se viu, tu não lê esporte ?”
(DID POA 045/151 l.190/192)

O ah foi produzido pelo falante corrente, mas o foi com o objetivo de


introduzir fala produzida por um terceiro interlocutor fora do evento conversa-
cional em andamento.
199
Trata-se de hipótese complexa ou ambígua quanto às funções de subje-
tividade/intersubjetividade, uma vez que, sendo a fala produzida originaria-
mente por um terceiro falante (às vezes pelo próprio falante), em situação de
fala alheia à situação do evento conversacional em curso, nem sempre se tem
conhecimento suficiente das circunstâncias em que teria sido produzida. Sua
classificação fica, pois, questionável, mas se trata sem dúvida de um mecanis-
mo de orientação interacional.
Há quem atribua a muitos marcadores funções que, no nosso entender,
muitas vezes dizem respeito mais a propriedades do que propriamente a “fun-
ções”. Assim, as chamadas funções de a) assalto/tomada de turno, iniciador do
turno; b) manutenção de turno; c) entrega/passagem de turno são muitas vezes
mais precisamente propriedades que alguns deles têm, associadas a certas fun-
ções propriamente ditas. Por exemplo, um ah que funciona como iniciador de
R. problemática, naturalmente se confunde com uma tomada de turno, mas ele
mesmo não tem a função conversacional de iniciar o turno; ele funciona, quan-
do muito, como uma espécie de “engate”. Quando um marcador é sempre
empregado numa posição fixa, esse uso sistemático leva a confundir proprie-
dade com função. Não ficando claramente identificada outra função interacional,
seu desenpenho costuma ser expresso como “iniciador de turno”.
Estão previstos para esta Variável A, em princípio, seis traços.
Traço 1 – fático de natureza imperativa e entonação exclamativa. São
formas produzidas pelo falante corrente, mas orientadas diretamente para o
ouvinte: Olha!, Veja!
Traço 2 – fático de natureza ou entonação interrogativa, produzido
após enunciado declarativo. São formas produzidas pelo falante após uma de-
claração também produzida por ele, como né?, certo?
Traço 3 – fático de natureza e entonação interrogativa, produzido após
enunciado interrogativo. São formas produzidas pelo falante após uma per-
gunta (retórica ou não) também produzida por ele, como hein?
Traço 4 – feed back (FB). São formas produzidas pelo ouvinte, como
hétero-monitoramentos, como uhn uhn, certo.
Traço 5 – início de respostas formais (R) ou de comentários (C)4. São
formas produzidas pelo ouvinte tornado falante seguinte, ao tomar o turno, em
respostas, ou como comentário a perguntas ou a comentário do falante ante-
rior, como um Ah, de natureza exclamativa. Esta função comporta muitas va-
riantes, onde marcadores ocorrem por motivações variadas.
200
Traço 6 – início de fala citada. São formas produzidas pelo falante,
citando, entretanto, fala de interlocutor fora do evento conversacional em cur-
so (fala cuja autoria pode ser até do próprio falante corrente), como um Ah, de
natureza exclamativa.

B – Posição na frase oral


A frase oral é aqui considerada uma unidade comunicativa entonacio-
nalmente delimitada e segmentada conforme os propósitos do falante e/ou as
condições discursivas da produção coletiva do texto. Freqüentemente tem fei-
ção oracional, ainda que muitas vezes sem a estrutura e a completude gramati-
cal canônicas. Baseada nessa concepção, a decisão do recorte, contudo, é to-
mada pontualmente.
Traço 1 – Inicial. Trata-se de formas localizadas no início de frases.
Incluem-se aqui os casos de início de fala citada e os feed backs seguidos de
fala tomando/aceitando o turno, em que, portanto, o ouvinte assume o papel de
falante.
Traço 2 – Medial. Formas localizadas no interior de frases; inclusive
no meio de sintagmas.
Traço 3 – Final. Formas localizadas no final de frases.
Traço 4 – Não se aplica. Formas que ocorrem solitariamente, isto é,
como constituintes únicos de interação, como é o caso dos feed back.

C – Posição no turno
Traço 1 – Inicial. Formas localizadas em início de turnos. Incluem-se
aqui os casos de início de fala citada e os feed back seguidos de fala tomando/
aceitando o turno.
Traço 2 – Medial. Formas localizadas no interior dos turnos, podendo
ocorrer em início e meio de frases; inclusive no meio de sintagmas.
Traço 3 – Final. Formas localizadas no final dos turnos.
Traço 4 – Não se aplica. Formas que ocorrem solitariamente, isto é,
como constituintes únicos de interação, como no casos dos feed back.
As observações em relação à posição na frase (variável B) e no turno
(variável C), além de, por si sós, poderem revelar uma tendência posicional
particular de certos marcadores, poderão ainda sugerir pesquisas complemen-
tares mais específicas, como por exemplo no caso dos marcadores enquadra-
201
dos no traço 4-não se aplica. Com efeito, os traços 1, 2 e 3 referem-se aos
marcadores produzidos pelo falante, em cujas frases ou turnos ocorrem esses
marcadores; já em relação ao traço 4, o “não se aplica” se explica pelo fato de
que o marcador é produzido por um interlocutor (que não o falante) no início,
no interior ou no fim da frase ou do turno do falante. Por esse motivo, faremos,
em relação a essas Variáveis B/C, observações complementares, atendendo às
seguintes hipóteses:
a – posição inter turnos bem delimitados do falante
b – posição intra turno mas inter frases, do falante
c – posição intra turno e intra frase, do falante (portanto, entre consti-
tuintes)
d – posição após turno (completo ou interrompido) do falante corrente
e antes do turno do ouvinte produtor do feed back tornado falante
e – nenhuma das hipóteses anteriores.

Em relação aos traços 2 ou 3, em se tratando de Inquéritos EF ou DID,


embora normalmente analisemos como 2 (medial), porque, ou não havia pro-
priamente turno (EF) ou os turnos eram por demais longos (DID), pode-se
pensar em segmentações de turnos “virtuais”. De qualquer forma, contudo,
sem a intervenção de parceiros, a análise e interpretações ficam prejudicadas.

D – Sobreposição de vozes
Esta variável considera a hipótese da ocorrência ou não de sobreposição
de vozes entre as formas em questão e os demais segmentos textuais, fenôme-
no que certamente se constituirá numa tendência em relação a certas formas e
certas subfunções.
Traço 0 – não ocorrência de sobreposição
Traço 1 – ocorrência de sobreposição.

E – Coocorrência de pausa
Esta variável visa a permitir observar a ocorrência de pausa antes e/ou
depois, que parece ser um fenômeno bastante recorrente em relação a certas
unidades em estudo, capaz de auxiliar na caracterização das funções discursi-
vas, que tais unidades desempenham.

202
Numa segunda etapa talvez seja de interesse observar não só a
coocorrência da pausa mas também sua duração.
Traço 0 – sem coocorrência (inclui casos de marcador inicial ou final
de turno, em relação aos quais a interpretação é de silêncio de transição e não
propriamente de pausa, entendida esta como “suspensão motivada” de voz;
inclui, em conseqüência, também casos de FB não iniciais de turno).
Traço 1 – ocorrência só antes, no interior de turno.
Traço 2 – ocorrência só depois, no interior de turno.
Traço 3 – ocorrência antes e depois, no interior de turno.

F – Coocorrência de outro marcador


Traço 0 – sem coocorrência
Traço 1 – ocorrência antes
Traço 2 – ocorrência depois
Traço 3 – ocorrência antes e depois
Traço 4 – ocorrência em sobreposição
O “outro marcador” pode ter sido produzido por quem produziu o pri-
meiro, mas também pode ser de produção do parceiro, como no caso dos FB.
A apuração das hipóteses sugeridas poderão permitir, numa pesquisa
complementar, a verificação do tipo, funções e eventual correlação entre mar-
cadores. Assim, se a forma sob análise for né ? e ocorrer uma forma uhn uhn
em turno imediatamente posterior, é possível que haja alguma correlação de
relevância condicional entre ambas.

G – Natureza dos enunciados anterior (para os casos das funções 2, 3, 4) ou


posterior (para os casos das funções 1 e 5)
Traço 0 – ausência de enunciado escopado5 (por exemplo, casos de
enunciados interrompidos)
Traço 1 – declarativo objetivo
Traço 2 – declarativo subjetivo
Traço 3 – interrogativo
Traço 4 – imperativo
Traço 5 – optativo
Traço 6 – emotivo
203
Esta variável sugere que os marcadores sob análise possam ter uma
função correlacionada com a natureza dos enunciados a que eventualmente se
refiram, ou escopam.
Há algumas dificuldades na observação dessa variável:
a) o caráter freqüentemente bidirecional dos marcadores, seja em rela-
ção ao texto seja em relação aos interlocutores. Em princípio, nos casos de
marcadores como né?, sabe?, uhn uhn, o enunciado escopado é o anterior,
porém no caso de mas, será o posterior ou o anterior e posterior;
b) quando o marcador for medial de frase, caso em que, em princípio,
consideramos o enunciado todo, no interior do qual ocorre o marcador;
c) a hipótese, bastante plausível, de que o escopo do marcador seja uma
palavra ou constituinte apenas e não um enunciado todo.
Em todos esses casos – e em outros – a análise localizada dessa variá-
vel fará com que a questão seja rediscutida. Assim, no caso do traço 3, apura-
mos se se trata de (a) pergunta fechada ou (b) pergunta aberta.

Uma vez definidas as novas variáveis, passamos a uma análise com-


plementar das formas já levantadas na pesquisa fundamental anterior, dentro
de novos critérios dos novos objetivos, no termos sucintamente estabelecidos
na seqüência:
1 – como já foi frisado inicialmente, todas as formas a serem analisadas
registram o traço 2 (“basicamente orientadoras”) na Variável 03, podendo pro-
vocar as combinações 0 – 2 ou 1 – 2 nas Variáveis 02 e 03. Ressalte-se então
que serão objeto da presente pesquisa apenas marcadores classificados como
“basicamente orientadores”, independentemente de serem, concomitantemente,
“seqüenciadores tópicos”. Excluímos também na presente instância as formas
digamos, digamos assim, vamos dizer, vamos dizer assim, embora registrem a
combinatória 02.
2 – quanto às outras Variáveis (04, 07, 09) do núcleo-piloto, permane-
cem igualmente os traços 1, 1, 0 respectivamente.
Feitas essas considerações, analisaremos, pois, as formas que apresen-
tam os seguintes padrões dentro das Variáveis do “núcleo-piloto” da pesquisa
anterior:

Padrões Variáveis e traços


01 02 03 04 05 06 07 08 09 10
a) – 0 2 1 – – 1 – 0 –
b) – 1 2 1 – – 1 – 0 –

204
3 – além das variáveis do “núcleo-piloto”, foram recuperadas algumas
variáveis e traços (Variáveis 05, 08, 10) considerados particularmente fortes e
estáveis, registrados nas “matrizes básicas” apuradas na pesquisa anterior, con-
forme exposto abaixo:
a) quanto à Variável 05 – “transparência semântica”, foram considera-
das apenas as formas naturalmente vazias (como é inclusive o caso das formas
não lexicais; traço 3 anterior) e as com perda semântica total ou parcial (traços
0 e 1), excluindo-se, portanto, as formas com traço 2 – “totalmente transparen-
tes”, tanto quanto apurado no conjunto das “matrizes básicas”. Nessas condi-
ções, foram excluídas formas como eu pergunto a você, na sua opinião, tá
claro isso? e vamos ajudando.
b) quanto à Variável 08 – “demarcação prosódica”, a hipótese é anali-
sar apenas as formas prosodicamente demarcadas (traço 1), como sugerido em
todas as “matrizes básicas”, ainda que dentro de um critério de demarcação
“virtual” do fenômeno, isto é, demarcação reconhecidamente possível, embo-
ra não esteja objetiva e claramente constatada ou realizada na fronteira sob
observação. Com essa restrição ficam excluídas as formas eu quero saber e eu
vou explicar a vocês.
c) quanto à Variável 10 – “massa fônica”, serão analisadas as formas
até 3 sílabas tônicas, (traço 1), como também apurado em todas as “matrizes
básicas”. Essa orientação determina a exclusão de formas como como eu disse
a vocês, como vocês estão vendo, eu já disse a você.
Dessa forma, consideradas as Variáveis 02, 03, 04, 07 e 09 do “núcleo-
piloto” e recuperadas as citadas Variáveis 05, 08 e 10 apreciadas nas “matrizes
básicas”, as formas a serem estudadas se enquadram em um dos seguintes
padrões da listagem de marcadores apurada na pesquisa original (Anexo 2
daquela pesquisa):

Padrões Variáveis e traços


01 02 03 04 05 06 07 08 09 10
a) – 0 2 1 0/1/3 – 1 1 0 1
b) – 1 2 1 0/1/3 – 1 1 0 1

A todas essas 8 Variáveis se somam as 7 variáveis específicas desta


pesquisa (A, B, C, D, E, F e G). Cada ocorrência, levando-se em conta a aná-
lise anterior, estará sendo analisada, portanto, em relação a 15 variáveis, acres-
cidas ainda de estudos complementares para as Variáveis B/C e G.

205
Dentro dessas condições e princípios, foram arroladas 345 ocorrências
constantes do Anexo I, extraídas do Anexo 2 da pesquisa original.6

2.1 Análise particularizada das formas


Nesta parte foram seguidos os seguintes passos:
1) Análise preliminar individualizada de todas as ocorrências com
amostragens nos Quadros 1 a 8, ao final do texto.
2) Relação das funções e das configurações analíticas por formas (com
respectivas quantidades e porcentagens). (Quadros 1-A a 7-A, ao final do texto)
3) Estudo particularizado das formas segundo as análises e levanta-
mentos, principalmente em relação às ocorrências mais freqüentes e às variá-
veis que apresentam grande regularidade, freqüência e/ou motivação especial
nos seus traços.

2.1.1 Formas ah, ahn, ahn ahn, hem?, uhn, uhn uhn, uhn?
a) variantes gráficas e fonéticas
Em relação a ah, ahn e ahn ahn, uma mesma forma fonética, indepen-
dentemente das funções discursivas, tem sido transcrita por mais de uma for-
ma gráfica; assim ah e há; ahn, hã e ã. Por outro lado, nem sempre fica clara
a percepção acústica dessas produções. Por isso e ainda (a) porque tais diferen-
ças gráficas e/ou fonéticas normalmente não afetam a análise e (b) para econo-
mia da própria análise, utilizamos as formas ah, (para ah ou há); ahn (para
ahn, hã, ã); hem, quando com pouca discriminação, submentendo-as a uma
análise conjunta. Uma vez ou outra poderá ser feita referência especial.
Analisamos 51 ocorrências (contando a de nº 36-a, não incluída na
pesquisa anterior) conforme exemplificação no Quadro 1, ao final do texto.
b) funções
As 51 formas distribuem-se em 5 funções, conforme se demonstra ca-
balmente no Quadro 1-A, ao final do texto.
Traço 2 – Fático de natureza ou entonação interrogativa, produzido
após enunciado declarativo
Na realidade, além da ocorrência nº 35 (da linha 253) – única listada na
pesquisa base – deve-se considerar outra, antes e muito próxima, no mesmo
turno. Observe-se o contexto todo, onde ocorrem as duas formas:
206
L1 (...) agora num ambiente fora da ... da sala de aula ... que é que nós
(precisamos) de ter? ... um ambiente bem gostoso bem::... gostoso pro
doente pro:: doente ahn? ((risadas))
Doc ( ) ((risadas))7
L1 pro estudante... ter o seu recreio ter a sua hora de descanso...
ahn...prática de esporte (..)
([35] 8 DID SA-231 121 l. 250-253)

Ambas as formas ahn? parecem exercer aqui uma função de Busca de


Aprovação Discursiva (BAD), semelhante ao né? (v. adiante), pois são subse-
qüentes a enunciados declarativos e não a enunciados interrogativos. (v. fun-
ção 3 abaixo). Embora apareça na 1ª linha uma pergunta [que é que nós (preci-
samos) de ter?], na realidade ela é apenas uma pergunta retórica, pois o pró-
prio L1 responde: um ambiente gostoso bem::... gostoso pro doente por:: do-
ente; pro estudante... ter o seu recreio ter a sua hora de descanso... Os marca-
dores ahn escopam respostas, portanto, declarações.
Traço 3 – Fático de natureza e entonação interrogativa, produzido após
enunciado interrogativo
As formas ahn? (nº 36) e uhn? (nº 330) (ambas do DID/SA-231) ocor-
reram após perguntas abertas entonacionalmente formais (enunciado
interrogativo). Em certas situações, parece tratar-se de pergunta apenas retórica.

Doc (...) qual é o tipo de:: de móveis que nós vamos encontrar na biblioteca
ahn? (...)
([36] DID SA-231/121 l. 302)

Doc (...) vamos dizer... de que se compõe a universidade... administrativa-


mente ela se estrutura como uhn?
L1 aí você me apertou porque...
([330] DID SA-231/121 l. 167)

Na verdade, o ahn? e o uhn? sinalizam um reforço à pergunta anterior.


Na ocorrência 36a registra-se, com a mesma função, a forma hem?,
que nos parece ser a forma mais corrente, com essa função.
Entre a função 2 e 3 o traço caracterizador e diferenciador é o fato de
que na 2 o marcador ocorre após enunciado declarativo e na 3, após enuncia-
207
do interrogativo (Variável G, traços 1 e 3), mas nem sempre fica clara a
oposição.
Traço 4 – feed-back
Como se observa, é alta a freqüência das formas sob análise como feed
back (34 = 66,67%), isto é, como partículas retroalimentadoras, como hétero-
monitoramentos, em que o ouvinte demonstra estar acompanhando e enten-
dendo as colocações do falante. Como veremos ainda, há muitas outras for-
mas, lexicais ou não, que também desempenham esta função.
Quanto às Variáveis B/C, a observação complementar permite
quantificar as seguintes situações:
a – posição inter turnos bem delimitados, do falante [25,27,
317, 319, 320, 324, 327] 7
b – posição intra turno mas inter frases, do falante [15, 19, 20,
21, 33, 316, 323, 326, 328] 9
c – posição intra turno e intra frase, do falante (portanto
entre constitutintes) [1, 16, 17, 18, 26, 30, 31, 32, 34, 320] 10
d – posição após turno (completo ou interrompido) do falante
corrente e antes do turno do ouvinte produtor do FB tornado falante
[29, 318, 321, 322, 325, 329] 6
e – nenhuma das hipóteses anteriores [22, 23] 2

Quanto à Variável D – Sobreposição de vozes, esta registra uma por-


centagem relativamente grande de formas sobrepostas (24%, ou 8 em 34),
fenômeno bastante natural, de vez que o marcador, destinado a apenas monitorar
o falante – e não interferir – vai sendo produzido bastante mecanicamente nas
proximidades dos limites dos turnos ou das frases, ou ainda intra frase do
falante.
Quanto à distribuição de ahn, ahn ahn e uhn, uhn uhn, registra-se
uma elevada porcentagem para o uso de ahn ahn e uhn uhn (76% ou 26 em
34) em relação ao ahn e uhn. Essa elevada porcentagem sugere para o futuro
um aprofundamento relacionado à eventual responsabilidade da massa sonora
em prol da função fática dos marcadores.
Quanto à Variável F – Coocorrência de outro(s) marcador(es), o levan-
tamento revela que há 17 marcadores coocorrentes nas 51 formas analisadas.

208
Desses 17, 13 referem-se aos FB, o que pode não representar grande destaque,
uma vez que os FB já representavam 66,67% das formas analisadas. Mas,
como em termos absolutos há um número considerável de FB, uma análise em
relação a essa coocorrência revela observações interessantes:
a) há 6 marcadores em posição anterior às formas sob análise, a saber
sabe? (2 vezes), não é? e tudo mais, e 5 em posição posterior, isto é:, não?, (2
vezes), né (2 vezes), bom, sei e não é verdade?
b) dos 13 marcadores coocorrentes, 8 [sabe? (2 vezes), não é? (2 ve-
zes), né? (2 vezes) não? e não é verdade?] desempenham funções iguais ou
semelhantes entre si, sendo, por ora, denominados BAD (Busca de Aprovação
Discursiva). Isto faz supor uma estreita relação dos FB com os BAD ou com
os enunciados finalizados por BAD;
c) dos 8 BAD, 5 ocorrem antes do FB e 3, depois, o que significa, no
segundo caso, que não é o BAD que provoca necessariamente o FB, mas sim
o “enunciado” finalizado pelo BAD ou ainda outro fator a ser apurado.
Quanto à Variável G (natureza do enunciado escopado), observa-se o
seguinte quadro:
Traços Nº de ocorrências Qtd.
0 22, 23 2
1 1, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 24, 25, 26, 27, 30, 31,
32, 33, 34, 316, 317, 318, 319, 320, 321, 322,
323, 324, 325, 326, 327, 328, 329 30
2 15, 19 2

As ocorrências classificadas com o traço 0 devem na verdade ser en-


tendidas como traço 1, pois só aparentemente essas formas não estão escopando
algum enunciado. Com efeito, observe-se:

L1 quando sai... aquela folia assim de um correr atrás dela então


ela... se cala um pouco
|
n. 22 L2 ahn
L1 mas
n. 23 L2 ahn
L1 não se dobra [22 e 23]

209
A ocorrência n. 22, cuja forma se realiza depois do “então ela... “, na
verdade refere-se ao enunciado “quando sai... aquela folia assim de um correr
atrás dela” e não ao início do novo enunciado temporariamente suspenso por
pausa: “então ela...”. O mesmo acontece na ocorrência nº 23 onde aparente-
mente o ahn se posiciona após o “mas”, mas na realidade refere-se a “se cala
um pouco” imediatamente anterior.
Feita a correção e para ficar apenas na análise dos FB – cujo número de
ocorrência é mais significativo – verifica-se que eles escoparam basicamente
enunciados declarativos (de caráter objetivo, 88% ). Tal constatação, porém,
por ora, diz pouco, porque os enunciados declarativos representam 71% de
todos os enunciados.
Traço 5 – Início de R ou comentário
As formas em questão ocorrem, como é natural, normalmente em iní-
cio de turno e de frase oral. (v. Variáveis B e C), quando o falante se propõe a
responder alguma pergunta, principalmente de conteúdo problemático. Outras
vezes não se trata de resposta a perguntas, mas de réplicas ou comentários a
comentários anteriores. Em ambos os casos, podem revelar também um indí-
cio de hesitação ou de dúvida, ganhando tempo o falante para iniciar as respos-
tas. Trata-se, pois, às vezes de uma função retardadora. Dizer que eles iniciam
respostas ou comentários significa admitir que eles contribuem para a pro-
dução desse tipo de ato, sinalizando-o tipicamente.
Esta função mescla o caráter de “subjetividade”, ao menos parcial, no
sentido de auto-envolvimento (mistura de hesitação, surpresa, preocupação),
com intersubjetividade plena, na medida em que se trata de início de resposta
ou comentário de um interlocutor a outro interlocutor anterior; às vezes, inclu-
sive, em correlação com um marcador de Busca de Aprovação Discursiva,
como acontece no ocorrência 6 abaixo, onde L2, concordando com L1, reforça
essa concordância auto-exemplificando-se:

L1 (...) eu não conheço um professor que ensine em apenas um lugar, já


começa por aí certo?
L2 Ah eu ensino em dois lugares(...)
([6] D2/RJ 355/232 l. 12)

A análise com base na Variável G – natureza do enunciado escopado,


permite considerar dados interessantes. Das 11 ocorrências, 5 iniciam R a per-
210
guntas (3, 5, 8, 9 e 15), e 6 (6, 10, 11, 12, 14 e 28) desencadeiam comentários
sobre comentários. Admitindo que P normalmente põem em risco à face dos
interlocutores e trazem tensão ao perguntado (cf. exemplo típico na ocorrência
3)9, sobretudo nas P abertas (que são a maioria: 3, 8, 9 e 15), a produção desses
marcadores, nesses casos, parece permitir ao destinatário uma tomada de ar
para oxigenação da R. Daí, a natureza exclamativa do marcador.
Quanto aos 6 marcadores que iniciam comentários, há que se notar que
5 deles introduzem comentários de concordância com os comentários do fa-
lante anterior; apenas um encabeça discordância. Nesses casos, o ah favorece
uma estratégia de alinhamento dos parceiros, de caráter, antes de tudo, fático.
Note-se, inclusive, a recuperação sistemática, nos comentários do falante se-
guinte, de vocábulos referenciais do falante anterior.
Entre as formas, ah, ahn, ahn ahn, o levantamento revela, para esta
função de iniciar R ou comentário, o uso generalizado da forma ah.
Freqüentemente formas como ah, ahn (também éh, eh) preenchem
pausas de diversa natureza. Com essa função, tais formas são localizadas no
interior de frases e turnos, às vezes produzidas com alongamento e numa ento-
nação hesitante.

2.1.2 Formas certo, certo?, claro, exato


Incluímos nesta parte as formas certo, certo?, claro e exato, porque
elas mantêm características comuns significativas, entre as quais:
a) possuem todas como fonte a classe gramatical do adjetivo (traço 2
da Variável 12 da pesquisa anterior);
b) distribuem-se apenas entre as funções 2 e 4, previstas na Variável A.
As análises particularizadas de cada marcador encontram-se exempli-
ficadas no Quadro 2, ao final do texto.
O agrupamento desses marcadores nas 2 funções referidas e nas confi-
gurações analíticas idênticas, considerados apenas os números das ocorrên-
cias, estão demonstrados no Quadro 2 A, ao final do texto.
Ao todo são 20 ocorrências ( nºs 37 a 50, 99) que se distribuem apenas
entre as funções 2 e 4:
2 – Fático de natureza ou entonação interrogativa, produzido após enun-
ciado declarativo.
211
Nesta função o corpus revelou apenas a forma certo?, mas também as
formas claro e exato (para falar só das formas contempladas na presente pes-
quisa) podem desempenhar esse papel. Basta testar, nas ocorrências com cer-
to? analisadas, a comutação deste por claro? ou exato? Entretanto a ocorrên-
cia de 100% de certo? em oposição a 0% de claro ou exato não deixa dúvida
quanto a alguma motivação especial, possivelmente em relação às proprieda-
des semânticas do primeiro em relação aos outros dois.
4 – feed back
Nesta função, a observação comparativa entre certo, claro e exato re-
vela a freqüência certo: 7 vezes (= 53,84%), claro: 5 vezes (= 38,46%) e exa-
to: 1 vez (= 7,69%).
Se considerarmos a observação de Margarida Basilio (1992:86) de que
certo e claro, enquanto marcadores de assentimento (aqui enquadrados sob a
denominação de feed back), atribuem lógica transparente em comparação à
atribuição de correção, exercida por exato, e sem entabularmos considerações
de mérito, verificamos que FB de atribuição de lógica transparente são muitas
vezes mais freqüentes do que os de atribuição de correção. Essa freqüência,
que ratifica a observada na função 2 acima, grosso modo, foi constatada igual-
mente por Margarida Basílio nos inquéritos D2 SP 360 e D2 SP 62 comple-
tos e sugere estudos específicos da semântica dos próprios enunciados escopados
e dos respectivos inquéritos. Mas não é tarefa para o presente trabalho.
A observação complementar sobre a posição especial destes FB dentro
das Variáveis B/C acusa as seguintes freqüências:
a – posição inter turnos bem delimitados, do falante 0
b – posição intra turno mas inter frases, do falante [38, 39, 52,
99] 4
c – posição intra turno e intra frase, do falante (portanto
entre constituintes) [41, 42] 2
d – posição após turno (completo ou interrompido),
do falante corrente e antes do tunro do ouvinte
produtor do FB tornado falante [37, 40, 55, 43, 51, 54] 6
e – nenhuma das hipóteses anteriores [53] 1

Chamam a atenção, se comparadas com o quadro igual referente aos


ahn, ahn ahn, as hipóteses (b) e (d) – sobretudo (d) – que revelam comporta-
mentos bem diversos entre os dois conjuntos de marcadores. Como esse qua-
212
dro será repetido em relação a outros marcadores, faremos uma análise mais
profunda oportunamente.

2.1.3 Formas é, é claro, é verdade


Como fizemos em 2.3.2, aqui também reunimos três formas para uma
análise conjunta. Nos três marcadores ocorre a forma do verbo ser (é), e prati-
camente todas as formas desempenham uma única e mesma função, a função
de feed back.
Exemplos de análises da forma é e as únicas duas ocorrências de é
claro e é verdade figuram no Quadro 3, ao final do texto, e a reunião das
configurações analíticas idênticas dessas formas, considerados apenas os nú-
meros das ocorrências, consta do Quadro 3-A, também ao final do texto.
Foram analisadas 32 ocorrências (nºs 56 a 89). Apenas uma (é? –
nº 89) desempenha a função 3 e será estudada adiante, juntamente com o mar-
cador né? As demais cumprem a função 4.
4 – feed back
As 31 formas com esta função são representadas por 29 ocorrências
com é (93,54%), 1 com é claro (3,23%) e 1 com é verdade (3,23%). A altíssima
freqüência de é parece explicar-se pela sua simplicidade estrutural perante as
outras duas, as quais, concorrendo com a primeira, não parecem, porém, ter
nenhum matiz interativo especial em relação a ela.
Cremos que é é uma forma evoluída ora de uma (é claro), ora de outra
(é verdade) expressão de estrutura oracional mais explícita do que o é. A redu-
ção formal revela mais uma vez, ao menos teoricamente, o continuum dos
fenômenos discursivos, aqui também, mais uma vez, em relação a um esvazia-
mento semântico progressivo. Em termos discursivos, porém, é muito difícil a
tentativa de distinguir o uso das 3 formas entre si.
Os feed back em geral (não apenas referentes às formas sob análise no
momento) são usados normalmente em duas situações: a) solitariamente,
retroalimentando o falante e mantendo-o no seu papel conversacional; b) no
início do turno do ouvinte, possibilitando a este assumir o papel de falante:

a) L1 coitado, cinco anos e já... colocado assim (...)


L2 é
([86] D2/SP 360/142 1.355)
213
b) Doc reformaram também os departamentos (nem)
aumentaram ou reduziram de forma que
Inf é porque eles fizeram exatamente isso (...)
([56] DID/SA 231/121 1.179)

É significativa a freqüência do caso (b) sobre (a) (2410 = 77,41% x 711 =


22,58%), situação bem ao contrário do marcador ahn, ahn ahn na mesma
função (1 = 5,00% x 19 = 95,00%). Ao final serão analisadas, nesse sentido,
todas as formas na função de FB.

2.1.4 Formas entende?, entendeu?, sabe?, tá?, viu?


As formas entende?, entendeu?, sabe?, tá? e viu? serão analisadas em
conjunto, dadas as características comuns que possuem: fonte gramatical verbal
e função única. Ao todo são 53 ocorrências, a saber: entende? 2 (nºs 90, 91),
entendeu? 7 (nºs 92 a 98), sabe? 24 (nºs 274 a 297), tá? 11 (nºs 305 a 315) e
viu? 9 (nºs 337 a 345).
As análises particularizadas de cada marcador estão exemplificadas no
Quadro 4, ao final do texto, e todas as configurações analíticas, considerados
apenas ou números das ocorrências, são reproduzidas nos Quadro 4-A, tam-
bém ao final do texto.
Todas as 53 formas desempenham a mesma função 2 (fáticos de natu-
reza interrogativa) e têm como fonte gramatical a classe verbal (traço 4 da
Variável 12 da pesquisa original). Três são primitivamente vocábulos lexicais
(entende? / entendeu?, sabe? e viu?), um é relacional (tá). O tá?, contendo
apenas significação interna, sugere tratar-se de oração elíptica, cujo percurso
já foi desenhado na pesquisa original por meio da seguinte seqüência: Está
claro isso até aqui? – Está claro até aqui? – Está claro? – Claro? / Tá?. Com
efeito, na pesquisa anterior, foi analisada no corpus Está claro até aqui?, como
unidade limítrofe, e, nesta pesquisa, já analisamos claro? (2.3.2.) e a expres-
são, paralela a está claro?, isto é, é claro. (2.3.3.) Tá? pode ser considerada,
pois, redução da Está claro isso?, o que explica tratar-se de vocábulo apenas
relacional. Outra observação interessante é que a redução fonética de está
para tá não deve ter ocorrido da forma solitária está mas sim de está claro?
para tá claro?. O uso proclítico do está justifica a aférese. Com efeito, não se
encontra no corpus nenhuma ocorrência com a forma está isoladamente na
função de marcador.
214
Nessa linha de considerações, cabe observar que uma característica
dos marcadores é não estarem eles sujeitos à flexão número-gênero-modo-
temporal, como já observou, entre outros, Margarida Basílio (p.86). No caso
dos marcadores aqui sob estudo, cabe constatar nesse sentido que:
a) entender apresenta as variantes entende? e entendeu? com uso bem
mais freqüente de entendeu? sobre entende? (77,77%):
b) sabe? e tá? ocorrem só na forma do presente do indicativo. Fora do
corpus, observa-se um uso moderno de sabia?, principalmente na linguagem
jovem, mas parece que já acusa declínio;
c) viu?, ao contrário, ocorre somente no pretérito perfeito12.
Embora não objetivemos, nesta pesquisa, fazer análises quanto ao
uso dos marcadores por regiões, inclusive porque entendemos que o corpus
seja muito restrito para tal finalidade, os presentes marcadores sugerem ob-
servações comparativas que por si sós parecem adiantar hipóteses a serem
perseguidas em trabalhos mais exaustivos. Para tanto, elaboramos a seguinte
tabela:

Marcadores Recife Salvador Rio de Janeiro São Paulo Porto Alegre Totais
a) entende? – – 2 – – 2
b) entendeu? 2 5 – – – 7
c) sabe? – 2 15 5 2 24
d) tá? – – 11 – – 11
e) viu? 2 2 – 5 – 9
Totais 4 9 28 10 2 53

Pode-se facilmente constatar que:


– nenhum dos marcadores tem uso generalizado em todas as regiões;
– todas as regiões empregam algum tipo de marcador;
– o marcador de maior distribuição é sabe? (foi observado em 4 das 5
regiões). Não só é o marcador de maior freqüência em termos absolutos, como
também é o de maior concentração: 15 vezes no Rio de Janeiro (62,50%),
sendo que 14 vezes por um único falante.
– tá? só ocorre no Rio de Janeiro e ainda assim de uso de um único
falante.
215
2.1.5 Forma mas
Este marcador é um dos mais férteis em termos de matizes funcionais e
deverá no futuro merecer uma análise mais ampla e profunda. Aqui vamos nos
ater, dentro dos propósitos e possibilidades do presente trabalho, a aspectos
mais salientemente interacionais. Mas temos que reconhecer a dificuldade dessa
limitação. Já na pesquisa anterior, à semelhança de ah, o par das Variáveis 02
(articulação de segmentos do discurso) e 03 (Orientação da interação) acusou
as combinações de traços: 1-2, 1-113, jamais 0-2, o que significa que, mesmo
na combinação 1-2, o mas não deixa de funcionar como “seqüenciador tópi-
co” (traço 1), merecendo, portanto, uma análise especial nesse sentido. Ao
combinar seu traço de “seqüenciador” com o de “basicamente orientador” (traço
2 da Variável 03), ficam desde já ressaltados, não só a dupla função mas tam-
bém:
a) seu caráter bidirecional, retrospectivo e prospectivo;
b) seu caráter de operador argumentativo de diversos níveis: reforço de
alinhamento / desalinhamento direto / indireto, baseado em enunciado explíci-
to ou em enunciado / contexto pressupostos;
c) seu caráter de forte orientador interacional na administração dos tur-
nos.
A propriedade de operador argumentativo, a par da implicação com a
gestão do tópico, não deixa de implicar também aspectos interacionais, na
medida em que representam propostas de argumentos ou de (re)direcionamentos
argumentativos (num sentido amplo), ou visam a levar o interlocutor a uma
certa linha de idéias ou delas a afastá-lo, ou, ainda, no mínimo, apontam para a
necessidade de considerar sua possibilidade de ligação diretamente com a
enunciação.
Nesta pesquisa, como ficou dito, são 19 ocorrências que apresentaram
o traço 2 (“basicamente orientador”) na Variável 03 (“Orientação da intera-
ção”) da pesquisa anterior e o traço 5 na Variável A desta pesquisa: início de
repostas formais ou de comentários.
As análises individualizadas das 19 ocorrências encontram-se por amos-
tragem no Quadro 5, ao final do texto, e todas as configurações analíticas,
porém apenas pelos números de ocorrências, estão no Quadro 5-A, também ao
final do texto.
Pelos motivos recém-expostos, vamos nos limitar a apenas duas refle-
xões, de natureza mais tipicamente interacional:
216
a) como mecanismo estratégico (ainda que frustado no caso) para apoiar
a tomada de turno. Tomemos a seqüência abaixo

L1 (...) você tá criando uma cul uma criança inculta pra quando ela cres-
cer e ficar velha você educar no mobral
L2 mas CLAro... mas CLAro... lógico... você também
não pode
|
L1 então é im-por-tan-tís-si-mo... cultivar a plantinha desde pequena
L2 mas claro mesmo porque se você tem
|
L1 torná-la culta enquanto ela é jovem
baratear o lucro
|
L2 se você tem filhos ... ô Ed. se você tem filhos cultos você tem a cultura
dentro de casa... (...)
([115, 116, 117] D2/RE 005/212 1. 396-406)

Trata-se de momento em que L1 expõe uma argumentação problemáti-


ca, provocativa e até de certa maneira agressiva sobre a qual L2 procura se
manifestar mas não consegue tomar o turno disciplinadamente, apesar de ten-
tar de maneira firme e estratégica por duas vezes com mas amparados ainda
por CLAro (também 2 vezes e intensificados na sílaba inicial) e com lógico.
Em seguida, L2 tenta mais uma vez e com a mesma estratégia (mas
claro), perdendo, entretanto, novamente o turno, na base da sobreposição de
voz de L1. Finalmente, no derradeiro turno da transcrição, utilizando estraté-
gia diferente (repetição), consegue completar seu turno e sua contra-argumen-
tação.
b) como engate para digressão opinativa, e até de natureza emotiva.
Observemos as seguintes seqüências:

1) Inf (...) nós fomos a um restaurante há::... numa região de mas é uma
região muito típica italiana (...)
([106] DID/RJ 328/131 1. 656-657)
2) Inf (...) éh:: um grupo assim:: da minha idade (...) são é uma assistente
social MAS ela é formidável sabe?
([107] DID/SP 234/241 1. 8-10)

217
3) Inf (...) não tinha nem onde sentar viu? eu disse “meus Deus” foi domin-
go à tarde MAS uma molecada... sei lá eu (...)
([108] DID/SP 234/241 1. 137-139)

Nas três ocorrências, os falantes introduzem, por meio do mas, uma


reorientação discursiva, dentro do seu próprio turno, mas de maneira a im-
pregnar, às vezes explicitamente, os novos segmentos reorientados com um
colorido emotivo.
Com efeito, em (1), o falante desvia o procedimento discursivo narrati-
vo para um comentário descritivo com um matiz subjetivo (muito típica); em
2 e 3, os falantes passam de comentários descritivos ou narrativos para comen-
tários emotivos, sinalizados não só pelo próprio conteúdo como também pela
entonação expressiva sobre o MAS.

2.1.6 Formas não é verdade?, não é? / num é?, né?


As formas em questão serão objeto de estudo conjunto porque: a)
98,48% desempenham a mesma função básica (função 2); b) têm a mesma
estrutura de origem (oração com verbo ser); c) contêm a mesma forma negati-
va (com não) e d) podem merecer em conjunto uma análise comparativa com
as chamadas “tag questions”.
Todas as formas, na verdade, parecem provir da matriz isso não é ver-
dade? e ter feito o seguinte percurso: Isso não é verdade? – Não é verdade ?–
Não é? / Num é? – Né?. Pode-se levantar inclusive a hipótese se o é?, a ser
comentado mais adiante, não seria o subseqüente e derradeiro passo.
Trata-se do grupo mais numeroso de marcadores, se bem que com des-
vio acentuado para o marcador né? que, com 102 ocorrências representa 75,00%
de todas as 136 ocorrências14 desses marcadores em conjunto. Os menos usa-
dos são não é verdade? (uma ocorrência, nº 120) e não? (4 ocorrências, nº
146, 147, 148 e 149).
Por estar incluído o marcador né? (que não deixa de ser apenas uma
variante dos demais), com mais de uma centena de ocorrência, parece de inte-
resse apresentar a tabela abaixo, onde se constata a distribuição de uso desses
marcadores por regiões:

218
Marcadores Recife Salvador Rio de Janeiro São Paulo Porto Alegre Totais
não? – – – 4 – 4
não é? / num é? 11 1 7 7 3 29
né? 3 36 20 26 17 102
não é verdade? – – – 1 – 1
Totais 14 37 27 38 20 136
Sem entrar em considerações mais profundas, observa-se facilmente o
uso generalizado e muito freqüente do né? em todas as regiões pesquisadas,
nesse uso incorporando-se também o não é? / num é? como suas mais diretas
variantes. O uso menos freqüente é do não? (muito elíptico oracionalmente) e
do não é verdade? (muito elaborado e muito longo para automatismos). É
interessante observar que o né? não só ocorre em todas as regiões, como tam-
bém ocorre em praticamente todos os inquéritos do corpus mínimo e mesmo
na boca praticamente de todos os informantes, sendo de destacar ainda a grande
freqüência de uso pelo informante do DID/SA-231 (24 vezes em 102 = 23,52%),
pelo informante do DID/SP-234 (17 vezes em 102 = 16,66%) e pelo informan-
te do DID/POA-045 (16 vezes em 102 = 15,68%). Se considerarmos que fo-
ram tomados para análise cerca de 10 minutos de gravação por inquérito, o
falante de Salvador produziu em média 2,4 né? por minuto, o que pode sugerir
um uso idiossincrático.
As análises das ocorrências apresentam exemplificação por amostra-
gem no Quadro 6, ao final do texto, e a relação de todas as configurações,
desconsiderados os contextos, figuram no Quadro 6-A, também ao final do
texto.
a) Variantes gráficas e fonéticas
Como aconteceu em 2.3.1. com as formas ah, ahn, aqui também nem
sempre ficam perceptíveis acusticamente as formas não é? e num é?, sendo
em conseqüência às vezes transcritas uma pela outra. Parece que em Recife há
uma ligeira preferência de uso por num é?, mas os dados são muito reduzidos
e a percepção auditiva não foi necessariamente acurada para conclusões nesse
sentido. Por essas razões foram as duas formas, ao final, incluídas num só
grupo. O próprio né? às vezes se confunde acusticamente com o num é?.
Observamos esporadicamente os mesmos trechos transcritos por transcritores
diferentes, ou até pelo mesmo transcritor em momentos diferentes, onde apa-
recem as formas gráficas não é?, num é? ou né?. Em termos de uso, funções
e análises, essas possíveis confusões são totalmente irrelevantes.
219
b) funções
A freqüência tão desproporcional desses marcadores aparentemente
não se explica por alguma motivação discursiva especial. Uma das razões tal-
vez seja porque o né? represente a forma semântica e foneticamente mais
esvaziada de todas.
Em termos funcionais, grosso modo, 98,48% delas se equivalem, po-
dendo ser perfeita e completamente permutáveis entre si. Só um estudo mais
profundo das ocorrências dentro dos seus contextos, em termos de correlação
com os enunciados e tipos de fala escopados, num sentido amplo (em relação
inclusive a propriedades de ordem argumentativa e não apenas em termos da
Variável G já investigada) poderá talvez determinar a observação de nuances
funcionais ou alguma particulariedade secundária.
Os marcadores sob análise parecem equivaler às chamadas “tag
questions”, como já observamos em trabalho específico (Urbano, 1994).
Para considerações ligeiras nessa linha, começamos arrolando alguns
exemplos de apoio:

1. [120] L2 (...) lá em casa é tudo em função de horário... não é verdade?


2. [138] L2 bom porque fome é mundial não é?
3. [135] Inf (...) as estradas melhores são de tráfego mais... pesado não é?
4. [137] L1 (...) estamos falando de professores não é?
5. [140] Inf (...) drama já basta a vida ((risos)) não é?
6. [146] Doc eu acho que foi Casa de Boneca não?
7. [222] L2 (...) então deu quarenta e, quarenta e poucos por cento né?
8. [232] Inf (...) porque em qualquer lugar a gente pode fazer uma escola né?
9. [242] Inf (...) o pessoal deixou de ir a teatro né?

Se admitirmos, com Mira Mateus et al. (1983:372), que “Uma


interrogativa ‘tag’ (...) é constituída pelo V. da frase declarativa que a precede
e uma partícula de negação” ou que “sempre que a seguir a uma declarativa se
encontre:
( V da frase declarativa)
..................................., não (é (verdade ) ?
(assim
220
ou seja:
a) frase declarativa + não + mesmo v da declarativa + ?
b) frase declarativa + não + é + verdade + ?
c) frase declarativa + não + é + assim?
d) frase declarativa + não + é + ?
e) frase declarativa + não + ?
Podemos assumir que em alguns dos exemplos arrolados estamos pe-
rante interrogativas, tags nos termos das autoras, desde que se entenda por V
qualquer verbo, inclusive o verbo ser, que normalmente compõe a própria
expressão interrogativa.
Comecemos reproduzindo os exemplos de Mira Mateus et al. para os
diversos casos do seu esquema:
a) Vocês lembram-se, não se lembram?
b) Vocês lembram-se, não é verdade?
c) Vocês lembram-se, não é assim?
d) Vocês lembram-se, não é?
e) Vocês lembram-se, não?
Parecem que se enquadram nas descrições das autoras os nossos exem-
plos 2 (= letra a), 1 (= letra b), 5 (= letra d). Não constatamos exemplos exata-
mente iguais às letras (c) e (e). O exemplo 2 corresponde à letra (a) d Mira
Mateus et al, com o pormenor de que o verbo da declarativa, repetido na per-
gunta, é o verbo ser.
Embora as autoras não condicionem expressamente que o tempo verbal
da interrogativa seja o mesmo da declarativa, parece, todavia, que essa idéia
está contida na sua exemplificação. Já Quirk e Greenbaum (1973:194) e Quirk
et al (1975)15 expressamente dizem que o tempo da interrogativa depende ou é
determinado pelo verbo da declarativa, o que significa que os nossos exemplos
6, 7 e 9 não satisfaçam perfeitamente o esquema. Considerada a diferença
estrutural do inglês (que omite o verbo lexical, mas expressa sistematicamente
o pronome), para termos uma idéia da questão, o enunciado 9 poderia, por
exemplo, contemplar as seguintes hipóteses:
a) o pessoal deixa de ir a teatro não é?
b) o pessoal deixou de ir a teatro não foi?
a) o pessoal deixou de ir a teatro não deixou?
Por outro lado Quirk et al. esclarecem que o pronome – e portanto o
verbo também – repete ou volta-se para o sujeito da asserção, isto é, o pronome
221
– no caso do português, o verbo – da interrogativa deve estar na mesma pessoa e
número da pessoa e número do verbo da declarativa, o que, como se observa nos
exemplos 3, 4, 6, 7 e 9 não acontece. Nos nossos não é verdade?, não é / num é?
e né?, há uma completa autonomia desses marcadores em relação aos verbos das
declarativas, o que mais claramente tipifica esses marcadores como tais.
As ocorrências abaixo foram classificadas como função 3, isto é, fáticos
de natureza e entonação interrogativa após enunciados também interrogativos:

Doc (...) como é que você descreveria uma:: uma...


[229] um estabelecimento de ensino né? ... agora vamos
entrar (...) o que é que a gente tem numa escola
[230] né? das coisas menores (...)

Com efeito, os marcadores posicionam-se no final de perguntas abertas


introduzidas pelos pronomes interrogativos característicos, enfatizados por é
que (como é que, o que é que). Como veremos na retomada final – quando
comentaremos mais demoradamente a função 3, esta função, isto é, marcador
após pergunta, não é muito freqüente.
Na situação semelhante à sob comentário, foi registrada também a for-
ma é? na ocorrência abaixo:

[89] L2 (...) se puder acabo pedindo transferência pra


Universidade Federal do Paraná...
L1 (Vo)cê gostou assim é?

onde a pergunta “Você gostou assim”, por ser fechada, não fica muito bem
caracterizada. Parece um misto de pergunta e comentário subjetivo.

2.1.7 Formas olha/olhe, vamos ver, veja, vem cá


Reunimos mais uma vez um grupo de formas que facilitam um estudo
conjunto mais consistente, favorecido pelas suas propriedades comuns:
a) todas formas são de origem verbal;
b) todas são de natureza imperativa;
c) 95,00% são classificadas na função 1.
222
Ao todo são 20 formas, a saber: olhe / olha: 13, vamos ver: 2, veja:
1 e vem cá: 3.

Marcadores Recife Salvador Rio de Janeiro São Paulo Porto Alegre Totais
olhe/olha 5 – – 5 4 14
vamos ver – – – – 2 2
veja 1 – – – – 1
vem cá 3 – – – – 3
Totais 9 – – 5 6 20

As análises individualizadas por marcador são exemplificadas por


amostragem no Quadro 7, ao final do texto, e a relação de todas as configura-
ções analíticas apenas pelos nºs de ocorrências compõe o Quadro 7-A, tam-
bém ao final do texto.
A distribuição por regiões permite levantar a seguinte tabela:
As observações – embora de caráter precário (por causa do número redu-
zido de ocorrências pesquisadas) mas importantes como sugestão de pesquisas
mais amplas e profundas – chamam a atenção ao menos para dois pontos:
a) a concentração desses marcadores nos inquéritos de Recife (9 ocor-
rências; 45%) distribuídos pelos 3 tipos de inquéritos;
b) o uso por um único falante (L1, do Inq. D2/005) de 5 deles (55,55%):
1 olhe, 1 veja e 3 vem cá. O marcador vem cá e o marcador veja são privativos
desse falante.
Rastreando de propósito o inquérito todo à busca de sanção, observa-
mos que foram produzidos mais 2 vem cá (1. 591 e 852) e 1 veja (1. 526) e
os 3 o foram pelo mesmo L1. Aliás, entre os locutores, L1 foi quem produziu
desproporcionalmente o maior número de marcadores “basicamente intera-
cionais”. Vê-se pela amostragem abaixo que ele produziu 84,31% dos marca-
dores contra apenas 15,59% de L2:

né? não é? viu? entendeu? compreende? certo? olhe olha veja vem cá

L1 7 1 3 1 12 1 4 3 2 5

L2 1 1 2 2 – – 1 1 – –

223
escute claro exato Totais %
L1 1 2 1 43 84,31
L2 – – – 8 15,69
Total 51

Mesmo com essa quantidade, aparentemente muito grande, de marca-


dores, afigura-se-nos reduzido seu volume para um D2 tão dinâmico e interativo
quanto esse inquérito, o que, ao menos numa apreciação ligeira, faz crer que
haja muitos outros tipos de estratégias de interação além dos marcadores. Uma
pesquisa dirigida nesse sentido seria por certo bastante proveitosa. Por ora,
reproduzimos um trecho da transcrição do citado inquérito:

L2 mas por quê... por que você não leva a cultura ao povo primeiro?
L1 não porque:: eu acho que ( )
|
L2 porque se você não tiver outra
opção não tiver Chacrinha não tiver Flávio Cavalcanti
|
L1 eu eu continuo achando
L2 não tiver Sílvio Santos o povo
|
L1 eu continuo achando
L2 o povo vai ligar pra tv universitária
|
L1 não eu continuo achando viu?
L2 pra tom Jobim pra Chico Buarque Holanda
Caetano ora se vai
|
|
L1 não veja eu continuo achando viu? E. eu
continuo achando que o Brasil só tem três problemas
graves: educação educação e educação (...)
(D2/RE 005 1. 307-321)

Em 15 linhas os dois parceiros se empenham em negociar uma simples


exposição argumentativa, que em síntese é a seguinte:

L1 se o povo não tiver opção, ligará para tv universitária


L2 o Brasil só tem uma solução: educação

224
Para tanto, os interlocutores tentaram produzir 5 turnos cada um, quase
sempre em sobreposição de vozes, sendo que L1 foi quem mais lutou pela
tomada definitiva do turno, tendo tentado nada menos que 6 vezes, sempre
com eu acho que ou variantes: 1. 309: “eu acho que”, 1. 312: “eu continuo
achando”, 1. 314: “eu continuo achando”, 1. 316 “eu continuo achando
viu?”, 1. 319: “veja eu continuo achando viu? E. eu continuo achando que”.
Note-se que na penúltima vez L1 reforçou, finalizando o segmento com o
marcador viu? e na última iniciou e terminou com marcadores: o primeiro,
sinalizando pedido de atenção (veja) e o segundo com o mesmo viu?, que
chamamos de “busca de aprovação discursiva” (BAD).
Reunimos num só subgrupo olhe/olha não só porque o uso de um ou
outro não parece ter qualquer motivação a não ser um uso acidental, como
também nem sempre é perceptível a identificação auditiva de um ou outro. De
resto, não prejudica a análise. De qualquer forma, fica observado que o uso
mais generalizado é de olha. Com efeito, o emprego de olha é 2,5 vezes maior
do que de olhe.
Quanto às funções, a natureza imperativa de todos esses marcadores
favorece a sua caracterização como pedido de atenção ou como proposta de
uma atitude atenciosa.
Olhe/olha são perfeitamente intercambiáveis; vem cá nos parece mais
do estilo de L1 (do D2/RE), possivelmente de caráter regional, e mais enfático
em termos de pedido de atenção ou de cooperação para a interação.
Quanto a vamos ver, na forma do plural retórico, representa uma ex-
pressão menos informal e mais polida e envolvente, aliás típica do discurso
didático. Com efeito, a locutora, professora, utiliza durante a aula toda fre-
qüentemente a fórmula vamos (imperativo) mais verbo principal (no infinitivo
ou gerúndio), às vezes complementado pelo respectivo argumento (O.D.) (1.
039, 144, 247, 249, 254, 370, 373). Menos freqüentemente alterna essa fórmu-
la com “vejam”.
Como se observa nos Quadros ilustrativos atrás, o marcador olha apa-
rece abrindo uma citação de fala em discurso direto (Função 6 = início de fala
citada). Trata-se da seguinte ocorrência:

Inf (...) então... não é uma história ligadinha que a gente possa dizer “olha... se
desenvolveu NESte sentido...”muitas vezes a gente supõe que as coisas te-
nham ocorrido assim...
([265] EF/SP 405/143 1.036)

225
Na verdade, não se trata exatamente de uma fala real reproduzida: a
falante professora utiliza a estratégia didática da dramatização, colocando na
sua própria boca (embora usando o indefinido “a gente”, uma fala idealizada
“olha... se desenvolveu NESte sentido...” O olha não é simples abertura de
frase; tem realmente uma significação pragmática de solicitação de atenção,
sem evidentemente qualquer valor semântico que a forma verbal de fonte lexical
pareça embutir.

2.1.8 Formas pois é, sei, sim


Reunimos em um só grupo pois é, sei e sim por motivos totalmente
diversos dos motivos que justificaram os demais agrupamentos. Trata-se aqui
de formas com muito poucas ocorrências. O número reduzido delas não só não
compensa estudos mais demorados particularizados, como também não ofere-
ce segurança para isso.
São ao todo 10 ocorrências, cujas análises, por amostragem, vão
reproduzidas no Quadro 8 (ao final do texto).

2.2 Análises complementares dos marcadores por funções


Nesta parte faremos breves considerações analíticas complementares
sobre os marcadores aqui tratados, a partir de sua classificação pelas 6 funções
previstas na Variável A.
Ressaltamos inicialmente mais uma vez o caráter não definitivo dessa
classificação e catalogação que objetivam, na metodologia aqui adotada, nortear
e tornar operacional a pesquisa, com vistas à facilitação computacional (não
computadorizada porém) das ocorrências. Fica para reexames em pesquisas
futuras, a serem projetadas com outros propósitos, a possibilidade de reformu-
lação, desde denominações e nomenclaturas funcionais até interpretações mais
aprimoradas e finais das ocorrências. No corpo do presente trabalho, uma vez
ou outra foi feita algum aprofundamento interpretativo nesse sentido. Mas só
em estudos exaustivos de cada marcador ou conjunto de marcadores poderão
ser identificadas conclusivamente funções mais específicas e precisas deles,
dentro do contexto real de suas ocorrências.

2.2.1 Fáticos de natureza imperativa e entonação exclamativa (Traço 1)


Como se trata de apenas um grupo com essa função e ela já foi estuda-
da em 2.1.7, acrescentamos poucas observações aqui.

226
Os marcadores que desempenham esta função possuem todos a mesma
fonte gramatical verbal (traço 4 da Variável 12 da pesquisa anterior), natural-
mente na forma imperativa, com endereçamento direto ou indireto ao interlo-
cutor. São três verbos que aparecem nas 17 ocorrências: dois perceptivos (olhar
e ver) e um de movimento (vir). Apenas neste último caso, a forma verbal se
associa, de maneira indissolúvel, a um vocábulo de origem adverbial (cá).

2.2.2 Fáticos de natureza ou entonação interrogativa pós asserção


(Traço 2)
Trata-se do grupo mais numeroso, funcionalmente falando, em termos
de número de ocorrências (191 ocorrências), e um dos maiores em número de
formas individuais, a saber: ahn? (1), certo? (7), entende? (2), entendeu? (7),
não é verdade? (1), não é? / num é? (25), não? (4), né? (100), sabe? (24), tá
(11), viu? (9). (Ver 2.1.1, 2.1.2, 2.1.4 e 2.1.6). A predominância é de formas
simples (ahn?, certo? etc.). Há duas formas compostas [não é?, não é verda-
de?. não é? / num é? e uma contracta (né?)]. Preponderam marcadores de
origem verbal ou combinados com verbo (entende? / entendeu?, sabe?, (es)tá?,
viu?, não é verdade?, não é?). As demais fontes gramaticais representadas
são: 1 adjetivo (certo?), 1 advérbio simples (não?) ou combinado (não é? /
num é?, não é verdade?, né?).
Caracterizamos esses marcadores como de natureza interrogativa, no
sentido de que eles têm uma (estrutura) entonação ora mais marcada ora me-
nos marcadamente interrogativa. Não se deve confundir estrutura interrogativa
com força ilocucionária de pergunta ou pedido, embora esse tipo de força
ilocucionária parece sempre estar presente, mesmo em grau mínimo, o que
levou Settekorn (1977) a classificar esse tipo de marcador como de “busca de
aprovação discursiva”, abreviado por nós por BAD. Discussão sobre essa ati-
tude de busca já apresentamos em comunicação no GEL (1995). Aqui faremos
alguma recuperação, ao comentar a função 4 – fático de retroalimentação.

2.2.3 Fáticos de natureza e entonação interrogativa, pós interro-


gação (Traço 3)
Foram observadas 6 formas diferentes em apenas 7 ocorrências: ahn?,
hem?, é?, não é?, né? (2 vezes), uhn?
227
Na verdade, esta função é uma variante da anterior: na anterior, o mar-
cador ocorre após enunciado declarativo; nesta, após enunciado interrogativo.
Todavia, essa aparente pequena diferença embute uma diferença significativa.
Se considerarmos, com Settekorn, que o marcador possui “uma força ilocucional
de natureza argumentativa, na medida em que frisa a proposição asseverada”,
o enunciado frisado só pode ser um enunciado declarativo e não interrogativo
como acontece aqui, ao menos claramente na maioria dos casos.
Por outro lado, se considerarmos ainda que na idéia de “busca” estão
implícitas não só a busca de aprovação do “argumento”mas também a busca
de aprovação do “papel conversacional” de falante (nas reflexões de Settekorn),
o marcador, mesmo após enunciado interrogativo – ou até principalmente por
isso – sinaliza esta função especial 3.

2.2.4 Fáticos retroalimentadores [feed back (FB)] (Traço 4)


Trata-se do segundo maior grupo em ocorrência (87 ocorrências), mas
do primeiro em número de formas diferentes, a saber: ah (1), ahn (13), ahn
ahn (6), certo (7), claro (5), é (29), é claro (1), é verdade (1), exato (1), pois é
(1), sei (4), sim (4), uhn (2), uhn uhn (12).
É o único conjunto de marcadores que é produzido pelo ouvinte, o
qual, ao produzi-los desacompanhados de qualquer seqüência, não só
retroalimenta a própria produção do falante, como também o mantém no seu
papel conversacional de falante, conseqüentemente mantendo-se como ouvin-
te. Este tipo de FB solitário acontece em 54,12% das ocorrências (46/85)16.
Por outro lado, freqüentemente também, como evidenciam esses da-
dos, observa-se uma propriedade complementar dos FB de servirem como
“engate” para que o ouvinte assuma o turno, tornando-se então falante, o que
acontece numa significativa porcentagem de 45,88% (39/85). É de notar nesse
particular que, entre os marcadores de natureza não lexical e os de natureza
lexical, o segundo tipo, em relação ao primeiro, é que mais parece favorecer a
tomada de turno. Com efeito, enquanto 66,66% (34/51) dos marcadores lexi-
cais iniciam turno, apenas 14,70% (5/34) dos não lexicais o fazem, manifes-
tando simples função de contato. Supõe-se, pois, que dado o valor semântico
totalmente vazio dos marcadores não lexicais, estes são naturalmente os mais
adequados para essa função fática.
A condição de “engate”, que tão freqüentemente os FB realizam no
corpus analisado, revela o sintonizado envolvimento dos parceiros, que até
228
certo ponto se explica em função da metodologia adotada nas gravações do
Projeto NURC.
O aspecto retroalimentador caracterizado pela função sob comentário
e a freqüente referência da literatura a respeito levam-nos a refletir sobre a
relação desses marcadores com os marcadores que têm sido denominados de
“busca de aprovação discursiva” (BAD). A hipótese é que, se os BAD repre-
sentam uma atitude de “busca”, os FB deveriam, ao menos em teoria, se
correlacionar com aqueles, satisfazendo essa condição de busca, isto é, forne-
cendo o assentimento buscado. Todavia, os dados parecem não revelar a cons-
ciência dessa busca, nem por parte do falante nem por parte do ouvinte. Vamos
inicialmente aos dados:
a) a pesquisa arrolou 191 ocorrências de BAD e 87 de FB;
b) o contexto das 191 revelou que nas proximidades de 166 delas
(86,91%) não ocorreu qualquer marcador com a função de FB (nem antes,
nem depois, nem em sobreposição);
c) apenas 25 FB se localizam nas proximidades dos BAD, ocorrendo
21 vezes depois do BAD, 3 vezes antes e 1 vez em sobreposição.
d) ocorrem apenas 26 BAD em finais de turno, sendo 13 nos D2, 11 nos
DID e 2 nas EF, em oposição a 165 mediais, a saber: 32 nos D2, 93 nos DID e
40 nas EF.
O próprio criador da expressão “busca de aprovação discursiva”,
Wolfgang Settekorn, considera que os BAD exercem uma força ilocutória de
natureza argumentativa, na medida em que “frisam” a proposição asseverada.
Explicitamente, apresenta a seguinte descrição e interpretação:17
1) o falante afirma uma proposição (asserção);
2) o falante indica que a asserção é considerada como exata/indiscutí-
vel/conhecida/ certa (caracterização da exigência de verdade);
3) o falante indica que ele leva em conta a caracterização da exigência
de validade (caracterização da posição do falante em face da proposição);
4) o falante indica que ele parte do fato de que o ouvinte participa da
posição dele, falante, em face da proposição (caracterização da posição espe-
rada da parte do ouvinte);
5) o falante indica que ele parte do fato de que o ouvinte está disposto a
aprovar a afirmação e sua própria posição em face da proposição (caracteriza-
ção do ato de esperar da parte do ouvinte).
229
Settekorn resume depois essas características dizendo que: “Sendo dado
que se considera P como exata/indiscutível/conhecida/certa, eu estou no direi-
to de esperar de você que você se junte a minha posição em relação a P e que
você traduza esse acordo por um ato de aprovação”.
Na concepção de “busca de aprovação discursiva” estão implícitas bus-
cas de dois tipos de aprovação: a busca de aprovação do argumento e a busca
de aprovação do papel de falante.
Em conseqüência, marcadores BAD são formas de argumentação que
podem servir para relacionar segmentos argumentativos em si e implicam ain-
da sempre outros dois aspectos: um ato do falante, isto é, a busca de aprovação,
e um ato do ouvinte, isto é, a concessão de aprovação ou a recusa expressa. Na
realidade, espera-se sempre uma aprovação e não uma recusa.
Settekorn lembra ainda, de acordo com a situação que descreve no seu
resumo, que, retoricamente, é de se aceitar que o falante, dada a exigência de
validade por ele considerada, está no direito de avaliar conseqüentemente a
aprovação do ouvinte como certa, independentemente de sua manifestação
explícita.
A partir das observações de Settekorn e dos dados acima constatados e
relacionados, perguntamo-nos até que ponto elas valem para o português fala-
do do Brasil, ou seja:
a) em que medida se pode dizer que o falante realmente “busca” a
aprovação do ouvinte?
b) em que medida ele, falante, “espera”, realmente, a manifestação do
ouvinte por meio de um ato de aprovação, no caso, por meio de um FB?
c) em que medida realmente o ouvinte se manifesta em relação ao fa-
lante e a sua asserção?
A letra (d) dos dados relacionados revela que ocorreram inúmeros BAD
no interior dos turnos e pouquíssimos nos seus finais, mesmo nos D2 (nos
DID, e sobretuto nas EF, a pretendida busca já seria naturalmente inusitada).
Isso sinaliza que o falante normalmente produziu os BAD de forma mecânica,
automática e despretensiosa, em posição desfavorável para que o ouvinte pu-
desse produzir mecanismos de aprovação. Na verdade, o BAD no interior do
turno, principalmente sem pausa posterior, sugere neutralização da “busca”,
uma vez que o falante, produzindo o BAD e ao mesmo tempo permanecendo
sem interrupção no turno, estaria cometendo duas intenções aparentemente
contrárias: busca de aprovação e abstração de qualquer aprovação.

230
Por outro lado, os dados da letra (b) revelam que os BAD e os FB não
se correlacionam em 86,91% das ocorrências; logo não se implicam, como a
noção de busca faria supor. Apenas 25 FB (13,09%) letra (c) aparecem em
posições próximas dos BAD, ainda assim 3 deles ocorrem “antes” do próprio
BAD (da própria busca). Da perspectiva do ouvinte, portanto, a baixa freqüên-
cia de FB parece revelar que o ouvinte simplesmente faz igualmente abstração
dos BAD. Como ocorreram 87 FB e apenas 25 nas suas proximidades, ao
menos nos outros 62 casos (71,26%), o FB foi produzido não em atenção a
qualquer BAD mas sim eventualmente ao enunciado anterior ao BAD ou a
qualquer outro fator motivador.
Do exposto, parece poder-se concluir que: a) esses BAD não são, de
maneira generalizada, formas de busca de aprovação discursiva; b) o ouvinte
não reconhece, de maneira generalizada, essa função; c) caso o reconheça, não
manifesta, de maneira generalizada, esse reconhecimento por meio de FB verbal.
Feitas as presentes considerações, mas assumindo, por princípio, a alta
recorrência (que o próprio corpus comprova) dos mecanismos reatroalimenta-
dores e que eles caracterizam os próprios textos conversacionais, é de se supor
que, na verdade, por ocasião das gravações (e em qualquer evento conversa-
cional) tenham ocorrido abundantemente FB “não verbais”, através de gestos
corporais e traços fisionômicos, que, infelizmente – e obviamente – não são
registrados nas gravações. Essa suposição, feita a bem do rigor científico, pode
restringir a força das argumentações anteriores, mas não as desqualifica, antes
as complementa.
Por outro lado, as conversas telefônicas constituiriam o campo fértil,
seguro e controlável para se constatar e analisar a efetiva relação em termos
puramente verbais entre os BAD e os FB, pois o único recurso de interação e
contato é a voz.

2.2.5 Fáticos de início de R ou C (Traço 5)


Arrolamos no corpus 31 ocorrências com marcadores classificados com
a função 5. Em relação a formas, computamos 11 ah, 19 mas e 1 pois é, as
quais, entretanto, apresentaram nuances próprias de uso.
A forma pois é, apesar de única, revela uma aceitação pacífica de
turno explicitamente transferido pelo falante anterior (Doc) ao interlocutor,
ao qual solicita que lhe conte a história de um financiamento para o seu
apartamento:
231
Doc Conta um pouco a história desse financiamento
L2 Pois é, é, esse, esse apartamento é um problema todo de, de, de
compra de apartamento (...)
([272] D2/RJ-355/232 l. 018)

Embora a aceitação do turno se tenha dado de maneira pacífica e o


informante tenha assumido o seu papel conversacional de falante, a execução
efetiva do pedido não foi tão tranqüila (observem-se os gaguejamentos); mas
este é um fenômeno de outra natureza, que não cabe aqui considerar.
Uma comparação deste marcador com seu homônimo na ocorrência
273 revela a diferença de função entre ambos:

Inf (...) praticaram... a natação... também é bom pra saúde


quanto pra defesa né?
|
Doc pois é... claro
Inf aprender a se defender né?
([273] DID/SA-231/121 l. 297)

onde o pois é (no meio no turno do falante) é mecanismo retroalimentador,


reforçado por marcador com igual função (claro).
Quanto às outras 2 formas, ah e mas, embora as tenhamos classificado
dentro da mesma função (fático iniciador de turno responsivo ou de comentá-
rio), manifestam atitudes um pouco diversas, sobre as quais uma análise
contrastiva talvez deite luzes.
O ah é uma forma não lexical, enquanto mas é uma forma de natureza
lexical, cuja fonte é a conjunção mas, dela conservando algumas proprieda-
des, como bem salientou Moraes (1987), residindo nesse aspecto a principal
diferença com ah.
Por outro lado, ambos têm caráter bidirecional, mas de feições dife-
rentes, decorrentes do fato de terem eles sido classificados, na pesquisa ante-
rior, dentro da Variável 05 – transparência semântica, de maneira diferente: o
ah com o traço 3 – não se aplica (sem conteúdo, nem inerente nem de origem)
e o mas com o traço 0 – opaco ou traço 1 – parcialmente transparente.
Enquanto iniciadores de turno, o mas, talvez por causa de seu traço
sêmico básico de constraste e pela inseparável orientação argumentativa, pare-
232
ce intensamente mais interacional que o ah, caracterizando maior dinamismo
no diálogo.
De resto, ambos assimilam, com freqüência, uma entonação expressi-
va, que colabora para a espontaneidade e dinâmica conversacionais. Todavia,
pelas observações acima, não se pode também deixar de reconhecer que o ah
e o mas revelam uma carga fática diferente.

2.2.6 Fáticos de início de fala citada (Traço 6)


A pesquisa revela apenas 3 ocorrências com 2 marcadores: ah (2 ve-
zes) e olha (1 vez). Ao descrever a Variável A, já comentamos uma das ocor-
rências com ah (ocorrência nº 007). A outra vai transcrita abaixo:

Inf eles lá indicaram: “ah, vai na fuLA:na que a fulana serve (...)
(DID/RJ-328/131 1. 353)

Quanto a olha, trata-se da seguinte ocorrência:

Inf (...) então... é uma história ligadinha que a gente possa


dizer “olha... se desenvolveu NESte sentido...”(...)
(EF/SP-405/143 1. 036)

O reduzido número de ocorrências não fornece elementos para refle-


xões demoradas e conclusivas. No entanto, a reprodução de uma fala dentro de
outra com o uso de dois marcadores diferentes, um não lexical, outro de fonte
lexical verbal, que o corpus revela, sugere algumas perguntas:
a) o marcador pertence realmente ao texto da fala reproduzida, isto é, o
falante personagem, cuja fala se reproduz, teria realmente iniciado sua fala
com um ah ou olha?
b) o marcador é um mecanismo geral para introduzir reprodução de
fala?
c) em caso positivo, há marcador(es) específico(s) para essa função
como regularidade da linguagem conversacional?
d) o marcador usado nessas aberturas pertence ao estilo do falante cor-
rente narrador ou é típico do falante citado?
233
Esses questionamentos abrem várias hipóteses que, entretanto, só uma
investigação de ocorrências em número representativo poderá responder.

3. Considerações finais
A pesquisa ateve-se ao propósito de ser um passo adiante em relação à
pesquisa Marcadores Discursivos: Traços Definidores, numa das direções pro-
jetadas naquele trabalho: a dos aspectos interacionais dos marcadores defini-
dos como tais.
Procuramos ser fiéis aos resultados daquela pesquisa, sem deixar, po-
rém, de buscar novos caminhos, seja em aspectos teóricos específicos, seja,
sobretudo, na metodologia. Apesar de se tratar de pesquisa estreitamente vin-
culada à anterior, tentamos dar-lhes certa autonomia de leitura. Nesse sentido,
recuperamos daquele trabalho coletivo o mínimo necessário, porém, suficien-
te, para a compreensão e acompanhamento deste, o que foi feito, entre outros
passos, por meio da reprodução da relação das Variáveis e Traços e da inserção
de informações fundamentais sobre “matrizes-básicas” e “núcleo – piloto”,
pontos basilares daquele texto. No aspecto metodológico, embora reconheça-
mos a avaliação que se faz sobre as descrições e interpretações qualitativas,
tivemos sempre em mente, ao lado delas, um percurso também quantitativo,
que parece melhor satisfazer nossa preocupação com o rigor científico.
Embora extensa, reconhecemos que os limites impostos à pesquisa
permitiram certas lacunas. Algumas são secundárias, outras, porém, mereceri-
am alguma atenção, mas ficarão para projetos futuros. Assim é que foram
tratadas superficialmente – ou até deixaram de ser tratadas – questões de rele-
vância maior ou menor para a boa compreensão dos marcadores basicamente
orientadores, como a bi-direcionalidade anafórico-catafórica de certos marca-
dores, os aspectos prosódicos, sobretuto entonacionais dos marcadores em si,
a questão da invariabilidade dos elementos de origem gramatical, sobretudo
verbos (apesar de entende? / entendeu?, olha / olhe etc.), a eventual distribui-
ção complementar no uso deles, o caráter continuum revelado em muitos
níveis de descrição e análise dos marcadores, etc.
Não foi possível, por outro lado, uma revisão na literatura específica,
principalmente para rediscutir, entre outros aspectos, a vasta lista de denomina-
ções desses elementos discursivos, com implicações no seu próprio conceito.
Não foi feita – e também estava fora dos limites do trabalho – uma
análise sistemática das variáveis tradicionais, como sexo dos informantes, ti-
pos de inquéritos, regiões de uso, etc.
234
Muitas observações sobre problemas muito fluidos não chegaram a ser
aprofundadas ou foram feitas com bastante cautela, em virtude do reduzido
número de ocorrências para instruírem essas questões. Privilegiamos normal-
mente, em cada caso, os aspectos comprovados por ocorrências mais freqüentes.
De qualquer forma, a intensa pesquisa e reflexão sobre cada uma das
cerca de 350 ocorrências permitiu a depreensão e análise de funções, proprie-
dades e uso dos marcadores arrolados, consolidando um elenco bastante grande
desses mecanismos basicamente orientadores da interação. Sobretudo salien-
tou a regularidade de muitos aspectos em relação a cerca de três dezenas de
formas. O inventário e as análises configurados nos Anexos II permitem não
só comprovar as muitas reflexões que foram feitas, como também asseguram
muitas outras observações e a construção de hipóteses a serem aprofundadas,
bem como sugestões de temas a serem explorados. Todavia, graças às
amonstragens inseridas no texto principal, o citados Anexos II dispensam con-
sulta obrigatória.
Ao largo da análise principal, pode-se perceber que muitas formas de-
sempenham uma mesma função, dependendo naturalmente de aspectos con-
textuais convergentes ou determinados, como a entoação, posição e articula-
ção com os enunciados que escopam ou que lhes são adjacentes. Assim, exer-
cem a mesma função, por exemplo, certo?, entendeu?, sabe?, viu? etc. ou
certo, é, é verdade etc. Por outro lado, porém menos freqüentemente, a mesma
forma pode exercer funções diferentes, como nos casos de certo, ah, uhn,
como demonstram os Quadros A das diversas análises. A relação forma / fun-
ção é, em princípio, o dado identificador de marcadores diferentes. Assim, o
mesma forma ah pode ser classificada como dois marcadores diferentes, se-
gundo desempenhe funções diferentes. Percebe-se também que muitos marca-
dores se combinam seqüencialmente num mesmo turno ou em turnos dife-
rentes (v. ocorrências nºs 6, 10, 25, 29, 33, 50, 289 etc.), outros articulam-se
entre si, inciando ou finalizando um mesmo enunciado (v. ocorrências nºs 5,
12, 74, 81, 257, 261, 333, 339 etc.) e outros, ainda, se contrapõem a seus
homônimos gramaticais. (Observe-se a ocorrência 290: É só o que eu sei sabe?)
Verifica-se, ainda, o uso aparentemente idiossincrático de alguns marcadores
(como o né?) por alguns falantes. (Já tínhamos constatado que o falante do
DID/SA-231 produzira em média 2,4 né? por minuto. Mais pontualmente
observamos as linhas 242-261 com 9 né? em 20 linhas ou as linhas 205-240
com 11 né?)
Repisamos que a linha central e orientadora da pesquisa são as funções
descritas e arroladas na Variável A, o que não deve levar a pensar, entretanto,

235
que se trata de funções claramente identificáveis e exaustivamente enumera-
das. Na realidade, são portas de acesso para o exame de diversos outros aspec-
tos como poderão ser percebidos e estudados os marcadores. O refinamento
das análises vai cada vez mais permitir observar e reconhecer certos usos,
valores e traços funcionais desconhecidos e inusitados. A função norteadora
para a depreensão dos traços funcionais apontados na Variável A em questão é
a função fática, que, diferentemente matizada, se reproduz nos 6 traços.
A seção 2.3, sob o título “Análises complementares dos marcadores
por funções”, já pode ser interpretada como parte integrante destas CONSI-
DERAÇÕES, uma vez que retoma, de maneira sintetizada, complementar e
inferencial, aspectos do fulcro e das idéias centrais do trabalho.
Das 7 novas Variáveis (A-G) rastreadas analiticamente nem todas pro-
duziram igualmente resultados relevantes e definitivos em relação ao aspecto
interacional aqui perseguido, podendo, todavia, serem eventualmente revisitadas
ante novas hipóteses de análise.
Apesar dos limites necessariamente atribuídos à pesquisa e à análise,
das lacunas inevitáveis e das reflexões nem sempre confortavelmente conclu-
sivas, estamos convencidos de que o levantamento e a análise da forma como
foram realizados se constituem em sólidos subsídios para colaborar na descri-
ção de elementos tão típicos da língua falada do Brasil e na observação da sua
regularidade de uso.

NOTAS
1
Para a compreensão e acompanhamento deste estudo, aconselha-se a leitura do tra-
balho em questão.
2
Codificamos com letras as Variáveis específicas desta pesquisa para diferenciá-las das
Variáveis da pesquisa anterior, codificadas com números.
3
Na seqüência EF POA 278/153 l. 27, os três primeiros algarismos (278) indicam o nº
original do inquérito nos arquivos do Projeto NURC/BR e os três números subseqüen-
tes (153), a codificação atribuída ao inquérito pela pesquisa básica.
4
Usamos “comentário” no sentido comum de “observação”, “apreciação”, “esclareci-
mento”, “ponderação”.
5
Usamos “escopar” no sentido de “referir-se a”, “ter como alvo” ou ainda “pontuar”,
“predicar”.
6
Nessa nova listagem (Anexo I) incluímos uma coluna para nº de ordem e excluímos as
colunas correspondentes às Variáveis 11 – Tipo de ocorrência e 12 – Base gramatical,
que já haviam sido desconsideradas na pesquisa anterior, durante a análise dos dados e

236
apuração das “matrizes básicas”. Como ficou esclarecido anteriormente, mantivemos
os números dos inquéritos atribuídos pela pesquisa básica, mas recuperamos, numa
coluna paralela, os dados originais do Projeto NURC/BR.
7
As ((risadas)) se explicam em virtude do comentário falho deL1: “em ambiente bem
gostoso bem::... gostoso pro doente pro:: doente”, corrigido na seqüência: “pro estu-
dante”.
8
O número entre colchetes refere-se ao nº de ordem, conforme explicado na Nota 3.
9
Doc e como é que a senhora Acha que é elaborada uma peça de teatro antes
dela ser
apresentada?
Inf ah aí você me pegou porque (...) ([3] DID/SP 234/241 l.164)
10
ocorrências n. 56, 57, 61, 63, 64, 65, 66, 67, 68, 69, 71, 72, 73, 74, 75, 76, 77, 79, 81,
83, 84, 85, 87 e 89
11
ocorrências n. 58, 59, 60, 78, 80, 82 e 86.
12
remetemos os interessados para as observações feitas na pesquisa anterior sobre a ocor-
rência das variantes olha ~ olhe ou entende? ~ entendeu? e não ocorrência de olhem,
olhemos ou entendes?, entendia?, por exemplo. Mas esse tipo de reflexão precisa ser
retomado.
13
A pesquisa básica anterior arrola 53 ocorrências, todas com o traço 1 na Variável 02 e,
destas, apenas 19 com o traço 2 na Variável 03, o que significa que 34 apresentam a
combinação 1-1.
14
Na realidade, foram analisados 132 ocorrências.
15
O grupo de Quirk constata as hipóteses de declarativa positiva mais interrogativa nega-
tiva e vice versa, mas aqui só nos interessa o primeiro caso, isto é, da declarativa posi-
tiva mais interrogativa negativa.
16
A diferença de 2 ocorrências (de 85 para 87) deve-se a que essas 2 ocorrências estão
indefinidas quanto ao aspecto ora investigado.
17
Reproduzimos em seguida parte das reflexões que, nessa linha, fizemos na já citada
comunicação publicada nos Anais do GEL (1995:660-665), em que, com base em parte
desta mesma pesquisa, levantáramos algumas hipóteses, que vêm a se confirmar agora
com dados mais completos.

4. REFEFÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BASILIO, Margarida. (1992) Flutuação categorial de base adjetiva no Português
Falado. In: ILARI, Rodolfo (org.) Gramática do Português Falado VII. Cam-
pinas, Ed.UNICAMP.
MORAES, Lygia C. Dias. (1987) Nexos de coordenação na fala culta de São
Paulo. (tese de doutorado)
RISSO, Mercedes Sanfelice; SILVA, Giselle Machline de O. e URBANO, Hudinilson.
(no prelo) Marcadores Discursivos: Traços Definidores.
237
SETTEKORN, Wolfgang. (1977) Pragmatique et Rhéthorique Discoursive. Journal
of Pragmatics 1, North-Holland Publishing, Co., p.195-210.
URBANO, Hudinilson. (1995) Marcadores conversacionais: um novo aspecto
do né? XXIV Anais do GEL, São Paulo, p.660-665.

5. ANEXO I
Listagem extraída do Anexo 2 de Marcadores Discursivos: Traços De-
finidores

6. QUADROS
Anexo I
Listagem extraída do Anexo 2 de Marcadores Discursivos:
Traços Definidores

Nº de Configurações Inq. Dados linha/ 025 3021321101 142 246


Ord. Variáveis cf. pesq. NURC token
de 01 a 10 básica 026 3021321101 142 275
(Forma ah) 027 3021321101 142 348
001 3021321101 241 DID/SP-234 134 028 3021321101 142 381
002 3021321101 241 136 (Forma ahn ahn)
003 3021321001 241 164 029 3021321101 121 DID/SA-231 234
004 3121321101 131 DID/RJ-328 353 030 3021321101 142 D2/SP-360 156
005 3121321101 131 501 031 3021321101 142 217
006 3121321101 132 D2/RJ-355 012 032 3021321101 142 224
007 3121321101 151 DID/POA-045 191 033 3021321101 142 278
008 3121321101 151 219 034 3021321101 142 289
009 3121321101 151 188 3021321101 121 DID/SA-231 234
010 3121321101 232 D2/RJ-355 006 (Forma ahn ahn?)
011 3121321111 232 014 035 3021321101 121 253
012 3121321101 142 D2/SP-360 185
013 3121321101 142 325 036 3021321101 121 302
014 3121321101 212 D2/RE-005 301 (Forma hem?)
(Forma ahn) 036a 151 DID/POA-045 268
015 3021321101 241 DID/SP-234 011 (Forma certo)
016 3021321101 142 D2/SP-360 143 037 3021121101 241 DID/SP-234 225
017 3021321101 142 145 038 3021121101 241 245
018 3021321101 142 170 039 3021121101 153 EP/POA-278 041
019 3021321101 142 231 040 3021121101 153 042
020 3021321101 142 233 041 3021121101 142 D2/SP-360 168
021 3021321101 142 235 042 3021121101 142 178
022 3021321101 142 237 043 3021121101 142 371
023 3021321101 142 240 (Forma certo?)
024 3021321101 142 244 044 3021121101 212 DE/RE-005 277

238
045 3021121101 143 EF/SP-405 113 085 3021121101 142 347
046 3021121101 143 024 086 3021121101 142 355
047 3021121101 143 119 087 3021121101 142 368
048 3021121101 143 046 088 3021121101 142 372
049 3021121101 232 D2/RJ-355 006 (Forma é?)

050 3021121101 232 011 089 3021121101 232 D2/RJ-355 014


(Forma claro) (Forma entende?)

051 3021121101 212 D2/RE-005 288 090 2021121101 131 DID/RJ-328 552

052 3021121101 121 DID/SA-231 298 091 2021121101 131 647


053 3121011101 212 D2/RE-005 398 (Forma entendeu?)

054 3121011101 212 398 092 2021121101 222 D2/SA-098 E515

055 3121011101 212 402 093 2021121101 222 E580


094 2021121101 222 E655
(Forma é)
095 2021121101 212 D2/RE-005 281
056 3021121101 121 DID/SA-231 179
096 2021121101 212 439
057‘ 3021121101 121 186
097 2021121101 223 EF/SA-049 094
058 3021121101 121 210
098 2021121101 121 DID/SA-231 193
059 3021121101 121 214
(Forma exato)
060 3021121101 121 236
099 1021121101 113 EF/RE-337 280
061 3021121101 252 D2/PO-291 H530
100 1021121101 113 191
062 3021121101 113 EF/RE-337 207
(Forma mas)
063 3021121101 222 D2/SA-098 M425
101 3121011101 121 DID/SA-231 300
064 3021121101 222 E146
102 3121111001 212 D2/RE-005 262
065 3021121101 222 E417
103 3121111001 212 268
066 3021121101 131 DID/RJ-328 309
104 3121111001 212 288
067 3021121101 131 443
105 3121011101 131 DID/RJ-328 651
068 3021121101 131 626
106 3121111101 131 656
069 3021121101 232 D2/RJ-355 006
107 3121011101 241 DID/SP-234 010
070 3021121101 232 020
108 3121011001 241 139
071 3021121101 232 003
109 3121111001 212 D2/RE-005 248
(Forma é claro)
110 3121011001 212 286
072 3021121101 121 DID/SA-231 300
111 3121111001 212 307
(Forma é verdade)
112 3121111001 212 349
073 3021121101 241 DID/SP-234 017
113 3121111001 212 351
(Forma é, é)
114 3121111001 212 367
074 3021121101 232 D2/RJ-355 005
115 3121011001 212 398
(Forma é, é, é)
117 3121011001 212 402
075 3021121101 232 004
(Forma .é...) 116 3121011001 212 398

076 3021121101 142 D2/SP-360 118 3121011001 241 DID/SP-234 046

077 3021121101 142 133 119 3121111001 232 D2/RJ-355 007

078 3021121101 142 137 (Forma não é verdade)

079 3021121101 142 D2/SP-360 176 120 3021121101 142 D2/SP-360 290

080 3021121101 142 196 (Forma não é?)

081 3021121101 142 254 121 3021121101 151 DID/POA-045 194


082 3021121101 142 262 122 3021121101 151 228
083 3021121101 142 263 123 3021121101 151 291
084 3021121101 142 272 124 3021121101 143 EF/SP-405 005

239
125 3021121101 233 EF/RJ-379 005 170 3021121101 121 201
126 3021121101 233 025 171 3021121101 121 242
127 3021121101 233 029 172 3021121101 121 244
128 3021121101 233 088 173 3021121101 121 247
129 3021221101 233 119 174 3021121101 121 248
130 3021121101 113 EF/RE-337 119 175 3021121101 121 256
131 3021121101 113 207 176 3021121101 121 257
132 3021121101 113 219 177 3021121101 121 261
133 3021121101 113 233
178 3021121101 121 296
134 3021121101 113 293
179 3021121101 121 299
135 3021121101 113 307 180 3021121101 121 268
136 3021121101 222 D2/SA-098 E570 181 3021121101 121 269
137 3021121101 232 D2/RJ-355 010 182 3021121101 121 275
138 3021121101 212 D2/RE-005 322 184 3021121101 121 292
139 3021221101 131 DID/RJ-328 070 183 3021121101 121 276
140 3021121101 241 DID/SP-234 157 185 3021121101 121 284
141 3021121101 142 D2/SP-360 155 186 3021121101 233 EF/RJ-379 014
142 3021121101 142 165 187 3021121101 233 025
143 3021121101 142 171 188 3021121101 233 104
144 3021121101 142 218 189 3021121101 233 144
145 3021121101 142 234 190 3021121101 233 151
(Forma não ?) 191 3021121101 113 EF/RE-337 101
146 2021121001 241 DID/SP-234 085 192 3021121101 113 127
147 2021121101 142 D2/SP-360 200 193 3021121101 222 D2/SA-098 E146
148 2021121101 142 336 194 3021121101 222 E299
149 2021121101 142 356 195 3021121101 222 E535
(Forma né) 196 3021121101 222 E580
150 3021121001 223 EF/SA-049 091 197 3021121101 131 DID/RJ-328 071
151 3021121101 151 DID/POA-045 157 198 3021121101 131 261
152 3021121101 151 189 199 3021121101 131 367
153 3021121101 151 191 200 3021121101 131 397
154 3021121101 151 197 201 3021121101 131 501
155 3021121101 151 178 202 3021121101 131 515
156 3021121101 151 185 203 3021121101 131 527
157 3021121101 151 230 204 30211/1101 131 537
158 3021121101 151 202 205 3021121101 131 660
159 3021121101 151 206 206 3021121101 131 043
160 3021121101 151 207 207 3021121101 131 139
161 3021121101 151 212 208 3021121001 241 DID/SP-234 171
162 3021121101 151 217 209 3021121001 241 175
163 3021121101 151 245 210 3021121001 241 184
164 3021121001 151 255 211 3021121001 241 195
165 3021121001 151 258 212 3021121001 241 196
166 3021121001 151 262 213 3021121001 241 208
167 3021121101 121 DID/SA-231 166 214 3021121001 241 209
168 3021121101 121 169 215 3021121001 241 219
169 3021121101 121 187 216 3021121001 241 222

240
217 3021121001 241 225 262 3021121101 241 025
218 3021121001 241 235 263 3021121101 241 159
219 3021121001 241 242 264 3021121101 142 D2/SP-360 286
220 3021121101 211 DID/RE-131 009 265 3021121101 143 EF/SP-405 036
221 3021121101 153 EF/POA-278 049 266 3021121101 151 DID/POA-045 289
222 3021121101 232 D2/RJ-355 010 (Forma olhe)
224 3021121101 121 DID/SA-231 206 267 3021121101 212 D2/RE-005 415
225 3021121101 121 207 268 3021121101 113 EF/RE-337 042
226 3021121101 121 209 269 3021221101 113 224
227 3021121101 121 213 270 3021121101 211 DI/RE-131 001
228 3021121101 121 228 (Forma pois é)
229 3021121101 121 230 271 2121121101 222 D2/SA-098 E456
230 3021121101 121 232 272 2121121101 232 D2/RJ-355 018
231 3021121101 121 235 273 2121121111 121 DID/SA-231 297
232 3021121101 121 237 (Forma sabe?)
233 3021121101 121 240 274 3021111101 233 EF/RJ-379 139
234 3021121101 232 D2/RJ-355 001 275 3021111101 252 D2/POA-291 G505
235 3021121101 232 005 276 3021111101 131 DID/RJ-328 170
236 3021121101 232 011 277 3021111101 131 178
237 3021121101 232 020 278 3021111101 131 063
223 3021121101 121 DID/SA-231 205 279 3021111101 131 213
238 3021121001 241 DID/SP-234 016 280 3021111101 131 213
239 3021121001 241 039 281 3021111101 131 217
240 3021121001 241 048 282 3021111101 131 229
241 3021121001 241 074 283 3021111101 131 246
242 3021121001 241 143 284 3021111101 131 325
243 3021121101 142 D2/SP-360 175 285 3021111101 131 349
244 3021121101 142 179 286 3021111101 131 414
245 3021121101 142 185 287 3021111101 131 455
246 3021121101 142 310 288 3021111101 131 630
247 3021121101 142 367 290 3021111101 151 159
248 3021121101 142 380 289 3021111101 131 027
249 3021121101 223 EF/SA-049 031 291 3021111101 241 DID/SP-234 010
250 3021121101 142 D2/SP-360 301 292 3021111101 241 120
251 3021121101 142 303 293 3021111101 121 DID/SA-231 188
252 3021121101 142 116 294 121 136
(Forma num é) 295 3021111101 142 D2/SP-360 221
253 3021121101 113 EF/RE-337 037 296 3021111101 142 245
254 3021121101 113 078 297 3021111101 142 213
255 3021121101 113 131 (Forma sei)
256 3021121101 113 196 298 1021111101 232 D2/RJ-355 017
(Forma olha) 299 1021111101 142 D2/SP-360 278
257 3021121101 151 DID/POA-045 157 300 131 DID/RJ-328 063
258 3021121101 151 159 301 131 067
259 3021121101 252 D2/POA-291 G325 (Forma sim)
260 3021221101 113 EF/RE-337 280 302 2021111101 212 D2/RE-005 237
261 3021121101 241 DID/SP-234 020 303 2021111101 212 359

241
304 2120121111 142 D2/SP-360 381 327 3021321101 142 D2/SP-360 147
304A 121 DID/SA-231 245 328 3021321101 142 151
(Forma tá?) 329 3021321101 142 164
305 3021121101 233 EF/RJ-379 033 (Forma uhn::)
306 3021121101 233 055 330 1121311101 241 DID/SP-234 058
307 3021121101 233 065 (Forma uhn?)
308 3021121101 233 065 1021321101 121 167
309 3021121101 233 070 (Forma vamos ver)
310 3021121101 233 075 331 1021111101 153 EF/POA-278 039
311 3021121101 233 080 332 1021111101 153 144
312 3021121101 233 096 (Forma veja)
313 3021121101 233 096 333 1021111101 212 D2/RE-005 319
314 3021121101 233 113
(Forma vem cá)
315 3021121101 233 139
334 2021111001 212 378
(Forma uhn)
335 2021111001 212 426
316 3021321101 142 D2/SP-360 386
336 2021111001 212 430
(Forma uhn uhn)
(Forma viu)
317 3021321101 241 DID/SP-241 030
337 2021111101 212 316
318 3021321101 241 073
338 2021111101 212 319
319 3021321101 241 094
339 2021111101 241 DID/SP-234 020
321 3021321101 241 103
340 2021111101 241 057
322 3021321101 241 147 341 2021111101 241 089
323 3021321101 241 199 342 2021111101 241 138
324 3021321101 241 221 343 2021111101 241 070
325 3021321101 241 243 344 2021111101 121 DID/SA-231 265
326 3021321101 241 210 345 2021111101 121 281

242
Quadro 1
ANÁLISE Variáveis:
A Funções
Formas: ah, ahn, hem?, ahn ahn, uhn, B Posição/frase D Sobreposição F Outro marcador B/C Pesquisa Complementar
uhn uhn, uhn? C Posição/turno E Pausa G Natureza enunc. escopado G Pesquisa Complementar
Nº de Nº Inq. Dados do Nº de Loc/ Ocorrências e contexto Variáveis Pesquisa
Ordem Pesq. Projeto Linha / Doc/ Complementar
Básica NURC Token Inf.
A B C D E F G B/C G
ah, ahn, hem?, ahn ahn
Doc e como a senhora a cha (...)?
003 241 DID/SP-234 164 Inf Inf ah aí você pegou 5 1 1 0 0 0 3 b
L1 (...) eu não conheço um professor que ensine
em apenas um lugar, já começa por aí certo?
006 232 D2/RJ-355 012 L2 L2 Ah eu ensino em dois lugares (...) 5 1 1 0 0 1 1
L1 quando sai... aquela folia assim de um correr atrás dela
então ela... se cala um pouco
|
022 142 D2/SP-360 237 L2 ahn 4 4 4 1 0 0 0 e
L1 mas
023 240 L2 ahn 4 4 4 0 0 0 0 e
Inf (precisamos ter um ambiente bem gostoso) pro estudante...
035 121 DID/SA-231 253 Inf ter o seu recreio ter a sua hora de descanso... ahn?... 2 3 2 0 3 0 1
prática de esporte...
Doc qual é o tipo de:: de móveis que nós vamos encontrar
036 302 Doc na biblioteca ahn? como é (...) 3 3 2 0 0 0 3 b
Inf Aí depois com o professor... que é, hem?... 3 3 2 0 2 0 3 b
036a 151 DID/PO-045 268 Inf (Obs.: incluído nesta pesquisa)
uhn, uhn uhn, uhn?
Inf (...) não vou muito a cinema prefiro o teatro
318 073 Doc Doc uhn uhn e o que a senhora a senhora falou (...) 4 1 1 0 0 2 1 d
Inf (...) mas a peça valeu viu? também palavrões...
329 241 DID/SP-360 058 Doc Doc uhn:: eu já sei 4 1 1 0 0 0 1 d
Doc Doc (...) vamos dizer... de que se compõe a universidade ...
330 121 DID/SA-231 167 administrativamente ela se estrutura como uhn? 3 3 3 0 0 0 3 b
L1 aí você me apertou porque...

243
Quadro 1-A
Funções Outras/variáveis Pesquisa Compl. Nº das Ocorrências Subt. Total %
A B C D E F G B/C G
ah, ahn, ahn ahn, hem?
4 4 4 0 0 0 1 c 1, 16, 17, 18, 24, 26
4 4 0 0 1 2 b 15
4 4 1 0 0 1 b 19, 20
4 4 1 0 1 1 b 21
4 4 1 0 0 0 e 22
4 4 0 0 0 0 e 23
4 4 0 0 1 1 a 25
4 4 0 0 0 1 a 27
1 1 1 2 2 2 d 29
4 4 1 0 2 1 c 30
4 4 0 0 3 1 c 31
4 4 1 0 0 1 c 32
4 4 0 0 2 1 b 33
4 4 0 0 2 1 c 34 20 55,55

5 1 1 0 0 0 3 b 3, 8, 9, 13
1 1 1 0 0 1 12
1 1 0 0 1 1 6
1 1 1 0 0 3 a 5
1 1 0 0 0 1 11, 14
1 1 0 0 3 1 10
1 1 0 0 2 2 28 11 30,55

6 1 1 0 0 0 4 4
1 1 0 0 0 3 7 2 5,55

2 3 2 0 3 0 1 35 1 2,80

3 3 2 0 0 0 3 b 36
3 2 0 2 0 3 b 36a 5,55
2 (faltam dados) 1
Total 37
Total analisado 36 100,00
uhn, uhn uhn, uhn?
3 3 3 0 0 0 3 b 330 1 6,66

4 4 4 0 0 0 1 b 316, 323, 326


4 4 0 0 0 1 a 317, 319, 327
1 1 0 0 2 1 d 318, 321, 322
4 4 0 0 0 1 c 320
4 4 0 0 3 1 a 324
1 1 0 2 3 1 d 325
4 4 1 0 2 1 b 328
1 1 0 0 0 1 d 329 14 93,34
Total 15 100,00

244
Quadro 2

ANÁLISE Variáveis:
A Funções
Formas: certo, certo?, claro, exato B Posição/frase D Sobreposição F Outro marcador B/C Pesquisa Complementar
C Posição/turno E Pausa G Natureza enunc. escopado G Pesquisa Complementar

Nº de Nº Inq. Dados do Nº de Loc/ Ocorrências e contexto Variáveis Pesquisa


Ordem Pesq. Projeto Linha / Doc/ Complementar
Básica NURC Token Inf.
A B C D E F G B/C G
certo, certo?
37 241 DID/SP-234 225 Doc Inf eu acho que (...) que::... deve ser um
tipo assim de trabalho mais ou menos oo
pessoal de tel/ de de de te/ de televisão né?...
Doc certo... ((em tom baixo)) e a senhora
nota alguma diferença... (...) 4 1 1 0 2 3 2 d
38 245 Doc Inf tenho impressão não sei
Doc certo
Inf como Hair você já imaginou (...) 4 4 4 0 0 1 2 b
44 212 D2/RE-005 277 L2 L2 esporte é cultura / você não vai me negar
isso aí certo?... eu pratico esporte desde menino 2 3 2 0 2 0 2
53 212 D2/RE-005 398 L2 L1 (...) você tá criando uma cul uma criança
inculta pra quando ela crescer (...) você
educar no mobral
L2 mas CLAro...) 4 1 1 0 2 3 6 e
exato
99 113 EF/RE-337 280 Inf I.L.A. (...) eu fico com:: com quem diz que:... é igual...
|
Inf fica em dúvida?
I.L.A. é igual
|
Inf são iguais exato... olha... é mais
fácil... pensar:... que (...) 4 1 1 0 2 2 1 b

245
Quadro 2 A
Funções Outras/variáveis Pesquisa Compl. Nº das Ocorrências Subt. Total %
A B C D E F G B/C G
certo?
2 3 2 0 2 0 2 44
3 2 0 3 2 1 45, 46
3 2 0 1 0 1 47
3 2 0 1 2 1 48
3 2 0 0 0 1 49
3 3 0 0 2 1 50 7 50,00
certo
4 1 1 0 0 3 2 d 37
4 4 0 0 1 2 b 38
1 2 0 0 0 1 d 39, 40
4 4 1 0 0 1 c 41, 42
4 4 0 0 0 1 d 43 7 50,00

Total 14 100,00
claro
4 1 1 1 0 2 0 d 51
4 4 0 1 1 1 b 52
1 1 0 2 3 1 e 53
1 1 0 0 0 1 d 55
1 2 0 2 3 1 d 54 5 100,00
exato
4 1 1 0 2 2 1 b 99 1 100,00

246
Quadro 3

ANÁLISE Variáveis:
A Funções
Formas: é, é claro, é verdade B Posição/frase D Sobreposição F Outro marcador B/C Pesquisa Complementar
C Posição/turno E Pausa G Natureza enunc. escopado G Pesquisa Complementar

Nº de Nº Inq. Dados do Nº de Loc/ Ocorrências e contexto Variáveis Pesquisa


Ordem Pesq. Projeto Linha / Doc/ Complementar
Básica NURC Token Inf.
A B C D E F G B/C G
é
56 121 DID/SA-231 179 Inf Doc reformaram também os departamentos (nem)
aumentaram ou reduziram de forma que
Inf é porque eles fizeram exatamente isso (...) 4 1 1 0 0 0 0 d
59 214 Doc Inf ainda é faculdade né? porque tem o (...)
|
Doc é 4 4 4 1 0 4 1 b
63 222 D2/SA-098 M425 L2 L1 (...) é a conhecida Vitória – Minas
L2 é mas isso também é uma puxada danada... 4 1 1 0 0 0 1 d
66 131 DID/RJ-328 309 Inf Doc tem um gosto diferente...
Inf é tem um gosto bastante diferente(...) 4 1 1 0 0 0 1 d
86 355 L2 L1 coitado, cinco anos e já... colocado assim (...)
|
L2 é 4 4 4 1 0 0 6 c
é claro
72 121 DID/SA-231 300 Doc L1 aprender a se defender né?
Doc é claro... mas voltando ainda (...) 4 1 1 0 2 3 1 d
é verdade
73 241 DID/SP-234 017 Doc Inf (...) prefiro ir a teatro do que a cinema ...
quando o filme não é bom né?
Doc é verdade e que tipo de peça (...) 4 1 1 0 0 3 1 d

247
Quadro 3-A
Funções Outras/variáveis Pesquisa Compl. Nº das Ocorrências Subt. Total %
A B C D E F G B/C G
é
3 3 3 0 0 0 3 a 89 1 3,33

4 1 1 0 0 0 0 d 56
1 1 1 0 0 1 d 57
4 4 1 0 1 1 b 58
4 4 1 0 4 1 b 59
4 4 0 0 1 2 b 60
1 2 0 0 0 6 b 61
1 1 0 0 0 1 d 63, 64, 66, 69, 71
1 1 1 2 0 1 d 65
1 1 0 0 0 3 d a 67
1 1 0 2 0 1 a 68
1 1 0 0 2 0 d 74, 75
1 1 0 2 0 1 c/d 76
1 1 0 2 0 1 d 77, 78
4 4 0 0 1 1 c 78
1 1 0 0 1 1 d 79
4 4 1 0 0 1 c 80
1 1 1 2 0 1 c/d 81
é, é?
4 4 0 0 2 1 b 82
1 1 0 0 1 0 d 83
1 1 1 2 0 1 c/d 84
1 1 0 0 0 6 d 85
4 4 1 0 0 6 c 86
1 1 1 2 2 1 d 87 29 96,67
62,70 faltam dados
é claro
4 1 1 0 2 3 1 d 72 1 100,00
é verdade
4 1 1 0 0 3 1 d 73 1 100,00

248
Quadro 4

ANÁLISE Variáveis:
A Funções
Formas: entende?, entendeu?, sabe?, B Posição/frase D Sobreposição F Outro marcador B/C Pesquisa Complementar
tá?, viu? C Posição/turno E Pausa G Natureza enunc. escopado G Pesquisa Complementar

Nº de Nº Inq. Dados do Nº de Loc/ Ocorrências e contexto Variáveis Pesquisa


Ordem Pesq. Projeto Linha / Doc/ Complementar
Básica NURC Token Inf.
A B C D E F G B/C G
entende?, entendeu?

90 131 DID/RJ-328 552 Inf Inf (...) eu falo muito em verduras porque
justamente é a base da minha
alimentação entende?... então a (...) 2 3 2 0 2 2 1
96 439 L1 L1 (...) as pessoas cultas dizem que
|
L2 mas ele é bom Ed
L1 Roberto Carlos é bom... entendeu?
|
L2 é bom 2 3 3 0 1 0 1
sabe?
277 131 DID/RJ-328 178 Inf Inf porque eu acho que a base é mais a carne
sabe? ... lá em cima não eles têm (...) 2 3 2 0 2 0 2
288 630 Inf Inf (...) nós não vimos nada sabe?
Doc agora aquela... (...) 2 3 3 0 0 0 1
tá?
305 233 EF/RJ-379 033 Inf Inf (...) a a população do Japão... (...) SABIA que pra conseguir
sobreviver... tá? ... PREcisava AMPLIAR
a sua área (...) 2 2 2 0 3 0 1
viu?
341 241 DID/SP-234 089 Inf Inf (...) não lembro o nome dela viu?
Doc e o que mais chamou a atenção (...) 2 3 3 0 0 2 1
343 070 Inf Inf (...) mas foi bom também viu? sei lá eu acho que (...) 2 3 2 0 0 2 1

249
Quadro 4-A
Funções Outras/variáveis Pesquisa Compl. Nº das Ocorrências Subt. Total %
A B C D E F G B/C G
entende?, entendeu
2 3 2 0 2 2 1 90,91
3 2 0 1 0 1 92, 94, 95
2 2 0 3 0 1 93
3 3 0 1 0 1 96
3 2 0 3 2 1 97
2 2 0 2 2 1 98
Total 9 100,00
sabe?
2 3 2 0 0 0 1 274, 275, 279, 280, 281,
282, 284, 285, 290, 292
3 3 1 0 0 1 276
3 2 0 2 0 2 277
3 2 0 2 0 1 278, 283, 287
3 2 0 1 0 1 286, 297
3 3 0 0 0 1 288
3 2 0 0 1 1 289
3 2 0 0 2 6 291
2 2 0 1 0 1 293
2 2 0 3 0 1 294
3 2 0 0 2 1 295
3 3 0 0 2 1 296
Total 24 100,00
tá?
2 2 2 0 3 0 1 305, 309, 313
2 2 0 1 0 1 306
2 2 0 0 0 1 307, 312, 314
3 2 0 0 1 1 308
3 2 0 3 0 1 310, 315
3 2 0 1 0 1 311
Total 11 100,00
viu?
2 3 3 0 0 0 1 337
3 2 0 0 0 1 338, 340, 342
2 2 0 0 0 1 339
3 3 0 0 2 1 341
3 2 0 0 2 1 345
3 2 0 3 0 1 346
3 2 0 1 2 1 347
Total 9 100,00

250
Quadro 5
ANÁLISE Variáveis:
A Funções
Formas: mas B Posição/frase D Sobreposição F Outro marcador B/C Pesquisa Complementar
C Posição/turno E Pausa G Natureza enunc. escopado G Pesquisa Complementar
Nº de Nº Inq. Dados do Nº de Loc/ Ocorrências e contexto Variáveis Pesquisa
Ordem Pesq. Projeto Linha / Doc/ Complementar
Básica NURC Token Inf.
A B C D E F G B/C G

101 121 DID/SA-231 300 Doc L1 aprender a se defender né?


Doc é claro... ma(i)s voltando ainda aos
móveis é... a:: a estrutura física (...) 5 1 1 0 1 3 1
106 131 DID/RJ-328 656 Inf Inf passamos uma noite nós fomos a um
restaurante há:: ... numa região de mas
é uma região muito típica italiana (...) 5 1 2 0 0 0 1
107 241 DID/SP-234 10 Inf Inf (...) éh:: um grupo assim:: da minha idade
(...) são é uma assistente social MAS ela é
formidável sabe? 5 1 2 0 0 0 6
108 139 Inf Inf (...) não tinha nem onde sentar viu? eu
disse “meus Deus” foi domingo à tarde
MAS uma molicada... sei lá eu (...) 5 1 2 0 0 0 6
L1 (...) você tá criando uma cul uma criança
inculta pra quando ela crescer (...) você
educar no mobral
115 398 L2 L2 mas CLAro... 5 1 1 0 0 2 6
116 398 L2 L2 mas CLAro... lógico... mas você também
não pode 5 1 1 0 0 2 6
|
L1 então é im-por-tan-tís-simo... cultivar
... a plantinha desde pequena
117 402 L2 L2 mas claro mesmo porque (...) 5 1 1 0 0 2 0

251
Quadro 5-A
Funções Outras/variáveis Pesquisa Compl. Nº das Ocorrências Subt. Total %
A B C D E F G B/C G
5 1 1 0 1 3 1 101
1 1 0 0 0 3 b 102,111
1 1 0 0 0 6 103
1 1 1 0 2 1 104
1 2 0 1 1 1 105
1 2 0 0 0 1 106
1 2 0 0 0 6 107, 108
1 1 1 0 0 1 109, 112
1 1 1 0 0 6 110
1 1 0 0 0 1 113, 114
1 1 0 0 2 6 115
1 2 0 0 2 6 116
1 1 0 0 2 0 117
1 1 0 0 0 2 118
1 1 0 0 2 1 119 19 100,00

252
Quadro 6
ANÁLISE Variáveis:
A Funções
Formas: não é verdade?, B Posição/frase D Sobreposição F Outro marcador B/C Pesquisa Complementar
não é? / num é?, né? C Posição/turno E Pausa G Natureza enunc. escopado G Pesquisa Complementar
Nº de Nº Inq. Dados do Nº de Loc/ Ocorrências e contexto Variáveis Pesquisa
Ordem Pesq. Projeto Linha / Doc/ Complementar
Básica NURC Token Inf.
A B C D E F G B/C G

não é verdade?
120 142 D2/SP-360 290 L2 L2 (...) lá lá em casa é tudo em função de horário...
Doc ahn ahn
L2 ... não é verdade? então eles são (...) 2 3 2 0 1 1 1
não é
132 113 EF/RE-337 219 Inf Inf (...) bem nós VA:MOS não é admitir... aqui... em
aula... que: existe (...) 2 2 2 0 0 0 1
134 293 Inf Inf (...) nós poderíamos sim distinguir esses ... a legal... não é?
e a sociologia do direito (...) 2 2 2 0 1 0 1
136 222 D2/SA-098 E570 L1 L1 (...) Porque geralmente as estradas melhores
são de tráfego mais... pesado não é?
L2 Bom, mas você.. você viu (...) 2 3 3 0 0 2 1
não?
146 241 DID/SP-234 085 Doc Doc eu acho que foi Casa de Bonecas não?
Inf foi... com quem foi Casa de Bonecas? 2 3 3 0 0 0 2
147 142 D2/SP-360 200 L1 L1 (...) é supervisora nata é assim... ah... toma
conta... precocemente não? das:: atividades
dos irmãos (...) 2 2 2 0 0 0 1
num é?
256 113 EF/RE-337 196 Inf Inf (...) então ... essas... são as três.. num é?
perspectivas ... elas são (...) 2 2 2 0 0 0 1
né?
222 232 D2/RJ-355 010 L2 L2 (...) então deu quarenta e, quarenta e poucos
por cento né? não tenho bem idéia mas (...) 2 3 2 0 0 0 1

253
Quadro 6-A
Funções Outras/variáveis Pesquisa Compl. Nº das Ocorrências Subt. Total %
A B C D E F G B/C G
não é verdade?
2 3 2 0 1 1 1 120 V. é verdade (FB)
não?
2 3 3 0 0 0 2 146
2 2 0 0 0 1 147
3 3 1 0 0 1 148, 149 4 100,00
não é?, num é?
2 3 2 0 3 0 1 121
3 2 0 0 0 1 122, 125, 137, 255
3 2 0 2 0 1 123
3 2 0 3 1 0 124
2 2 0 0 0 0 126
3 2 0 0 2 1 127
2 2 0 0 0 3 128
3 2 0 0 3 1 129
2 2 0 0 0 1 130, 132, 254, 256
2 2 0 1 0 1 133, 134, 135
3 3 0 0 2 1 136
3 2 0 1 0 1 140
3 2 0 1 1 1 141
3 2 0 3 2 1 142
3 3 1 2 0 1 143
3 2 0 3 3 1 144
3 2 0 1 2 1 145 26 100,00
(131, 139, 253) não analisados
né?
2 3 3 0 0 0 1 150, 162, 172, 233
3 2 0 0 0 1 151, 152, 155, 156, 158,
159, 165, 168, 170, 174,
188, 189, 190, 191, 200,
202, 203, 204, 205, 206,
207, 209, 211, 213, 220,
221, 222, 223, 224, 234,
236, 237
3 2 0 2 0 1 153, 160, 161, 163, 164,
169, 182, 195, 197, 212,
232
3 3 0 0 2 1 154, 171, 179, 194, 208,
214, 235, 238, 243
2 2 0 2 0 1 157, 176
2 2 0 0 0 1 166, 186, 187, 201, 239
2 2 0 2 0 0 167
3 2 0 0 0 2 173, 216, 217, 218, 242
3 2 0 2 2 1 175, 196, 215, 228
3 3 0 0 0 2 177
3 2 2 0 2 1 178

254
(Continuação do Quadro 6-A)
2 2 0 3 0 0 180
3 2 0 3 0 2 181
3 2 0 3 0 1 183, 185
2 2 0 1 0 0 184
3 2 0 0 2 1 192, 198, 226, 231, 246
3 3 1 0 2 1 193
2 2 0 0 0 2 210
3 3 0 0 2 2 219
3 2 1 0 0 1 225, 244, 247
3 2 1 0 4 1 227
3 2 0 0 0 6 240
2 2 0 0 2 1 241
3 3 1 0 0 1 145, 250
2 2 1 ‘0 0 1 248
2 2 0 3 0 1 249
2 2 0 0 0 1 251
3 2 0 1 2 1 252, 100 98,03

3 3 2 0 2 0 3 b 229, 230 2 1,97

255
Quadro 6
ANÁLISE Variáveis:
A Funções
Formas: olha, olhe,vamos ver, veja, vem cá B Posição/frase D Sobreposição F Outro marcador B/C Pesquisa Complementar
C Posição/turno E Pausa G Natureza enunc. escopado G Pesquisa Complementar
Nº de Nº Inq. Dados do Nº de Loc/ Ocorrências e contexto Variáveis Pesquisa
Ordem Pesq. Projeto Linha / Doc/ Complementar
Básica NURC Token Inf.
A B C D E F G B/C G
olha
257 151 DID/POA-045 157 Inf Doc Não gosta de jogo?
Inf Olha, eu gostode jogo de carta né? 1 1 1 0 0 0 3 a
... mas
Doc Que tipo de jogo?
258 159 Inf Olha, só sei jogar buraco (...) 1 1 1 0 0 0 3 b
265 143 EF/SP-405 036 Inf Inf (...) então... não é uma história ligadinha
que a gente possa dizer “olha ... se o
desenvolveu NESTe sentido...“ (...) 6 1 1 0 2 0 1
vamos ver
331 153 EF/POA-278 039 Inf Inf (..) simplesmente eu classifiquei mas eu isso
não acontece quando se faz uma taxionomia
então, vamos ver, vamos ajudando texionomia
é uma classificação mas é mais do que (...) 1 2 2 0 0 2 1
veja
333 212 D2/RE-005 319 L1 L2 (..) o povo vai ligar (...) pra Chico Buarque de Holanda
Caetano ora se vai
|
L1 não veja eu continuo achando viu? 1 2 2 1 0 0 1
vem cá
334 212 D2/RE-005 378 L1 L2 (...) eu não ligo ((TV)) porque ( )
|
L1 na minha opinião
é o teatro vem cá eu eu impugno... acho (...) 1 2 2 0 0 0 1
335 426 L1 L2 não é ruim não eu acho que não
|
L1 vem cá ... não adianta se dizer (...) 1 1 1 1 2 0 1
336 430 L1 L2 pois eu gosto dele

256
|
L1 vem cá vou dizer mais uma coisa a você... 1 1 1 1 0 0 1
Quadro 7-A
Funções Outras/variáveis Pesquisa Compl. Nº das Ocorrências Subt. Total %
A B C D E F G B/C G
olha, olhe
1 1 1 0 0 0 3 a 257, 259, 264
1 1 0 0 0 3 b 258
1 2 0 3 1 1 260
1 2 0 0 2 3 b 261
1 2 0 0 0 1 262, 263, 266
1 2 0 0 0 3 b 267
1 2 0 0 0 0 268
1 2 0 1 0 1 269
1 1 0 0 0 0 270 13 92,86
6 1 1 0 2 0 1 265 1 7,14
Total 14 100,00
vamos ver
1 2 2 0 0 2 1 331
2 2 0 0 0 1 332
Total 2 100,00
veja
1 2 2 1 0 0 1 333
Total 1 100,00
vem cá
1 2 2 0 0 0 1 334
1 1 1 2 0 1 335
1 1 1 0 0 1 336
Total 3 100,00

257
Quadro 8
ANÁLISE Variáveis:
A Funções
Formas: pois é, sei, sim B Posição/frase D Sobreposição F Outro marcador B/C Pesquisa Complementar
C Posição/turno E Pausa G Natureza enunc. escopado G Pesquisa Complementar
Nº de Nº Inq. Dados do Nº de Loc/ Ocorrências e contexto Variáveis Pesquisa
Ordem Pesq. Projeto Linha / Doc/ Complementar
Básica NURC Token Inf.
A B C D E F G B/C G
pois é
271 222 D2/SA-098 E 456 L1 L1 (...) chamam até de Vitória-Minas. Pois é
(superp.) é uma viagem de ida muito interessante
(obs.: faltam dados para a análise)
273 121 DID/SA-231 297 Doc Inf (...) praticarem... a natação... tanto é bom pra
saúde quanto pra defesa né?
|
Doc pois é .... claro
Inf aprender a se defender né? 4 1 1 1 2 2 1 b
sei
298 232 D2/RJ-355 017 L1 L2 (...) então ontem já começou a
|
L1 sei ah é? ah apareceu um negócio 4 1 1 1 0 2 0 d
300 131 DID/RJ-328 027 Doc Inf (...) eu geralmente levo maçã...
Doc sei
Inf sabe? eu gosto muito de maçã 4 4 4 0 0 2 1 c
sim
302 212 D2/RE-005 237 L1 L2 (...) eu tenho assistido ou ouvido coisas notáveis
de Dom Helder no programa das seis horas da manhã
| |
L1 é óbvio sim que é
que tem isso?
L2 verdadeiras lições de vida 4 1 1 1 0 0 1 d
303 359 L1 L2 (...) porque a televisão é tempo caro depende de ...
patrocionador
L1 sim e que tem isso?
L2 ora então até para patrocinador (...) 4 1 1 0 0 2 1 d
304 142 D2/SP-360 381 L2 L1 (tempo) suficiente (né?) de repouso
L2 ah sim sete sete e meia que sois e meia da manhã (...) 4 1 1 0 0 1 1 d

258
ASPECTOS TEXTUAIS-INTERATIVOS DOS
MARCADORES DISCURSIVOS DE ABERTURA BOM, BEM,
OLHA, AH, NO PORTUGUÊS CULTO FALADO

Mercedes Sanfelice Risso


(UNESP/Assis – CNPq)

Apresentação
O acompanhamento dos inquéritos do Projeto NURC (Br.), que fa-
zem parte do corpus mínimo compartilhado estabelecido para a elaboração
de uma gramática referencial do português culto falado, permite atestar a
presença de procedimentos diversificados de abertura de unidades textuais,
de dimensão e natureza variadas. Trata-se de procedimentos em geral
polivalentes que, embora comumente associados à função de abertura, nem
sempre a exercem em caráter permanente e exclusivo. Entre eles, constam,
por exemplo:

– recursos variados de tematização, aplicados à apresentação de um


quadro de referências para o que vai ser dito a seguir (“... depois o café :: em
casa o café é muito demorado ... muito complicado (...)” – SP-360, l. 311-312);

– advérbios modalizadores, com forte propensão, dentro de sua va-


riabilidade posicional, para aparecerem à margem esquerda dos enunciados,
traduzindo a avaliação do locutor sobre o fato asseverado (realmente, certa-
mente, naturalmente, logicamente...);

– enunciados oracionais mais ou menos formulaicos, configurado-


res do ponto de vista dentro do qual um conteúdo subseqüente é abordado (eu
tenho a impressão de que, eu penso que, eu acho que...);

– formulações metadiscursivas, referidas à atividade verbal que fun-


damenta o desenvolvimento do tópico ou segmento de tópico dado a seguir
259
(pergunto a você o seguinte, uma última coisa que eu gostaria de dizer é ...,
vamos agora entrar com a parte bem prática);

– marcadores discursivos (bom, bem, olha, ah, agora, é o seguinte,


quanto a, para começar, primeira coisa, primeiro ponto, e tem mais ...), que
encerram em si uma espécie de ato preparatório de uma declaração seqüente.

Considerando-se o plano específico dos marcadores (doravante de-


signados como M. ou M.D.), serão objeto de exame neste trabalho as quatro
primeiras unidades citadas: bom, bem, olha, ah. Essas unidades destacam-
se conjuntamente em relação às demais, por apresentarem em comum a pro-
priedade reiterante de iniciarem turnos de resposta, em estruturas de pares
conversacionais adjacentes, nos textos analisados e, portanto, por serem veí-
culos de uma seqüencialização dependente do contrato de interlocução que
propiciam.
Estabelece-se, assim, o primeiro contexto de ocorrência dos referidos
M., participantes de uma estrutura seqüencial interativa, em que os turnos de
pergunta e resposta, reciprocamente interdependentes e atados por uma rela-
ção de relevância condicional (Schegloff, 1972), denunciam o envolvimen-
to mútuo dos locutores, no evento discursivo. A articulação das duas partes
constitui um esquema bastante reincidente: no turno da pergunta, observa-se
com freqüência, mas não invariavelmente, o M. e, a abrir a proposição de um
novo tópico que o locutor, geralmente documentador, pretende ver abordado
pelo parceiro na seqüência discursiva. No início do turno resposta, ora o M.
bom, ora bem, ah ou olha, a definirem a reação imediata ao esquema
enunciativo envolvido no turno precedente e, portanto, a “atitude responsiva
ativa” (Bakhtin, 1992) do interlocutor, para o atendimento do que lhe foi
solicitado1:

(1)
317 Doc - E como passavam o dia?
318 Inf - Olha eu era tão pequena sabe que eu já não me lembro disto...
319 O que é que a gente fazia? A gente andava pra... por aqui,
320 por ali ... mas o que a gente fazia mesmo eu não ... posso dizer.
(DID-POA-045)

260
(2)
162 Doc - e como é que a senhora Acha que é elaborada uma peça de
163 teatro antes dela ser apresentada?
164 Inf - ah aí você pegou porque eu não sei como é
165 elaborada? ... deve ser como na televisão eles preparam
166 o o o::... o a peça ... e:: devem dividir o o os ... o o as
167 partes para os artistas deve ter um ensaio meDOnho aquilo
168 deve ser cansativo horroROso (...)
(DID-SP-234)

(3)
11 L2 - Qual é o pior ... horário ... dessa saída da cidade ... de manhã?
12 L1 - Bom ... o pior horário ... de saída ... da cidade de manhã ...
13 L2 - fica mais ou menos entre seis e oito horas né?
14 L1 - não de seis ainda sai bem ... mas entre sete ... até umas:
15 oito e meia ... é a pior ... hora de saída ...
(D2-SA-098)

(4)
221 I.L.A. - daí é que vem minha
222 pergunta porque que: o experimento em laboratório... é
223 mais válido do que experimento “in loco?”
224 Inf. - bem... o de laboratório é mais válido João... sempre
225 que você pode fazer porque normalmente é difícil você
226 fazer o experimento de laboratório... é mais válido...
227 porque você... tem o homem como se o homem estivesse...
228 despido... de ideologia... de sua cultu:ra... de seu:
229 sentido... de religiosidade... tanto quanto possível
230 é claro...
(EF-Rec.-337)
261
Esse traço básico de intersecção entre os quatro M. carreia também
uma conseqüente identidade entre eles, pelo vínculo comum que apresentam
com a dialogicidade, em sentido restrito, ou seja, com a interlocução ativa
relacionada à dinâmica de alternância de turnos, na interação face a face.
A aplicação dos referidos M. às aberturas de turnos na segunda parte de
pares adjacentes e as particularidades interacionais e articulatórias carreadas
nesse processo constituem, assim, a motivação inicial do presente estudo e,
portanto, um dos pontos de abordagem neste trabalho.
A exploração do corpus revelou, entretanto, que a atuação dos M. em
questão não fica restrita a esse esquema estrutural de intermediação do par
pergunta/resposta. Estende-se também a outros enquadramentos, podendo-se
verificar seu emprego em processos de abertura, de um modo mais geral: aber-
tura de tópicos, coincidentes ou não com o início de turnos; abertura de seg-
mentos intratópicos, delimitando a introdução de pequenos passos na evolu-
ção da informação, dentro de um mesmo ponto global de centração tópica.
Assim, uns mais, outros menos, encabeçam, no decorrer do tópico, operações
de exemplificação, de citações, de reintrodução de uma seqüência expositiva
temporariamente suspensa, de movimentos argumentativos de ressalvas, con-
cessões, entre outros aspectos.
Ao mobilizarem essas diferentes instâncias de abertura no plano da
informação, a posição ocupada pelos M., relativamente às unidades do tópico
e do turno, define-se, pois, como inicial ou intermediária. É, entretanto, inva-
riavelmente inicial a posição que ocupam relativamente às unidades frásicas
que dão corpo às operações a que acabamos de nos referir. Esta constatação
permite, pois, assegurar o teor de abertura atribuído aos M., mesmo quando
ocorrentes em posição intratópica ou intraturno, casos em que a abertura será
compreendida relativamente a aspectos novos de uma informação já parcial-
mente desencadeada.
As circunstâncias acima referidas apontam para a questão da unidade
de análise a ser tomada como base para a observação dos aspectos funcionais
variados das ocorrências.
Dada a incidência de todos os aspectos no tecido informativo do texto,
o tópico discursivo, conforme definido em Jubran, Urbano et alii (1992), des-
taca-se naturalmente como coordenada central de observação, suficientemen-
te abrangente para viabilizar o exame das diferentes aplicações dos quatro M.
O recorte dessa unidade global de análise não exclui a tomada de unidades de
diferente natureza, atinentes a outras formas de organização mais local do texto
262
falado, como o turno, os pares adjacentes, ou a própria frase, a serem vistas
sempre na sua relação com a estruturação tópica.
O corpus que serve de base para a investigação do comportamento das
formas selecionadas envolve, como modalidades de inquérito, elocuções for-
mais (EF), diálogos entre informante e documentador (DID) e diálogos entre
dois informantes (D2), do Projeto NURC-Br, assim codificados:
EF DID D2
Salvador (Sa) 049 231 098
Porto Alegre (Poa) 278 045 291
Recife (Rec.) 337 131 05
Rio de Janeiro (RJ) 379 328 355
São Paulo (SP) 405 234 360

Investigam-se quinze minutos de cada gravação, perfazendo um total


de 225 minutos.
A linha textual-interativa é assumida, como expressão da adoção de
uma concepção de texto nitidamente firmada na perspectiva sócio-comunica-
tiva, que aponta não só para os aspectos cognitivo-informativos contidos no
produto lingüístico e nas partes de sua estrutura, mas também para a com-
preensão desse produto como algo que congrega e sinaliza os interlocutores, o
processo de produção e interação (Koch et alii, 1993). O tratamento dos M.
bom, bem, olha, ah permitirá, com especial evidência, revelar essa inscrição
do processo formulativo e interacional na materialidade lingüística do texto,
uma vez que se firmam claramente como sinalizadores pragmáticos do moni-
toramento local do texto falado e das relações interlocutivas responsáveis por
sua co-produção dinâmica e emergencial. Na sua condição de M., estabele-
cem-se como embreadores dos enunciados com as condições da enunciação,
apontando, portanto, para as instâncias produtoras do discurso e definindo a
relação dessas instâncias com a estruturação textual-interativa.
Na busca de aspectos sintagmáticos da organização particular do texto
falado, assim compreendido como algo simultaneamente estruturado e emer-
gente, a análise procurará examinar as regularidades de ocorrência dos M., a
partir da observação de sua recorrência em contextos definidos e da qualidade
do preenchimento conjunto de funções interacionais e articuladoras que se vão
manifestando ao longo da construção textual.
263
O trabalho está dividido em três partes. Uma primeira, introdutória,
tem uma tônica teórico-conceitual, ao centrar-se na delimitação da natureza da
classe dos M. Nela são registrados, na pista de pesquisa anteriormente desen-
volvida (Risso, Silva e Urbano, 1996), os traços básicos definidores dos M.D.,
de modo geral (1.1), como suporte para o enquadramento subseqüente de bom,
bem, olha e ah, relativamente aos traços categoriais apurados (1.2). A segun-
da parte detém-se na análise qualitativa das funções textuais dos quatro M.,
com centração nos aspectos da orientação interacional e da articulação de seg-
mentos do texto, detectados no tratamento do corpus. Após estabelecimento
de um dado de análise preliminar (2.1), parte-se para a apreensão de caracterís-
ticas relacionadas à atuação desses M. em estruturas de pares adjacentes com
pergunta/resposta (2.2), que correspondem a 42,18% das ocorrências levanta-
das. Posteriormente (2.3), estende-se o campo de observação para outros con-
textos, dissociados da correlação pergunta/resposta, os quais perfazem, no cor-
pus examinado, um conjunto de 57,82%. Em forma de considerações finais
(3), é feita uma rápida síntese retrospectiva de alguns aspectos examinados
(3.1), e são apuradas diferenças gerais, de ordem tipológica, entre as classes de
inquéritos investigados, no tocante a tendências básicas observadas no uso dos
quatro M. (3.2).

1. Introdução
1.1 Marcadores Discursivos: Assentamento de Traços Definidores
O assentamento de traços definidores dos M.D., tendo em vista a deli-
mitação de seu estatuto face a outros elementos discursivos que deles se avizi-
nham, constituiu objeto de consideração pormenorizada em trabalho conjunto
anterior (Risso, Silva e Urbano, 1996).
Uma das constatações feitas no processo de investigação das proprie-
dades gerais dos M.D. foi a de que estes se definem por matrizes de traços
mais ou menos constantes a eles aplicáveis. A apuração das matrizes básicas
de traços decorreu, na referida pesquisa, da consideração de diferentes variá-
veis, e do exame das formas de enquadramento das ocorrências no elenco de
alternativas previstas no interior de cada variável2. As freqüências obtidas,
reveladoras das regularidades ou tendências de enquadramento dos exempla-
res, forneceram indicações sobre aqueles que podem ser considerados como
traços fortes na compreensão do que venham a ser os M. Os elementos apura-
dos apontam para uma concepção básica de M. como elementos:
264
a) altamente recorrentes no espaço textual (na variável 1, referente ao
padrão de recorrência dos M., a maior freqüência recaiu sobre o traço 3
(recorrência alta)).
b) atuantes no plano da organização textual-interativa, com tônica fun-
cional na articulação entre segmentos textuais (variável 2 (função articuladora)
= traço 1 (articulador tópico)), ou na sinalização das relações interpessoais (va-
riável 3 (orientação para a interação) = traço 2 (basicamente orientado para a
interação)). A projeção da função articuladora é quase regularmente equilibrada
com o menor peso do fator interacional. E, em contrapartida, o estabelecimento
focal da interação corresponde, quase sempre, a uma diluição do papel articula-
dor.
Essa constatação permite apurar, no que diz respeito às variáveis 2 e 3,
as seguintes associações de traços complementares contrabalanceados:

Var. 2 (articulação de Var. 3 (orientação para a


segmentos do discurso) interação)

1 (articulador tópico) 0 (fragilmente interacional)


T
ex.: então
R
1 (articulador tópico) 1 (secundariamente interacional)
A
ex.: agora
Ç
0 (não seqüenciador) 2 (basicamente interacional)
O
ex.: certo? né?
S

A possibilidade prevista pela combinação cumulativa 1 (articulador


tópico) + 2 (basicamente interacional) é atestada em ocorrências esporádicas
de M.
c) exteriores ao conteúdo informativo dos tópicos ou segmentos de
tópicos (variável 4 (relação com o conteúdo proposicional ou tópico) = traço 1
265
(exterior ao conteúdo)). Entretanto, asseguram a ancoragem pragmática desse
conteúdo, ao definirem, entre outros pontos, a força ilocutória com que ele
pode ser tomado, as atitudes assumidas em relação a ele, a checagem de aten-
ção do ouvinte para a mensagem transmitida, a orientação que o falante impri-
me à natureza do elo seqüencial entre as unidades textuais. Codificam, portan-
to, no dizer de Fraser (1990), uma informação pragmática;
d) não totalmente transparentes do ponto de vista semântico-referen-
cial, em decorrência de uma espécie de cristalização de semas e acomodações
de significados à sinalização de relações no espaço discursivo (variável 5 (trans-
parência semântica) = traço 1 (transparência parcial)).
e) de pouca ou nenhuma variação fonológica, flexional ou sintática: a
ausência ou a reduzida proporção das variações e/ou elaborações, observadas
em poucas formas variantes, (Ex.: né ~ não é; olha ~ olhe; entende ~ enten-
deu), atesta para os M. a sua condição de fórmulas mais ou menos fixas, já
prontas para serem automaticamente usadas no discurso (variável 6 (apresen-
tação formal) = traço 1 (forma única) ou 2 (forma variante)).
f) independentes do ponto de vista sintático, isto é, sem integração sin-
tática na estrutura oracional em que se alocam (variável 7 (relação sintática
com a estrutura oracional) = traço 1 (sintaticamente independente)).
g) realizados, na maior parte das vezes, com o acompanhamento de
uma pauta prosódica demarcativa, ora bem definida – em ocorrências delimi-
tadas por nítida curva entonacional, com rebaixamento de tom no final da
unidade –, ora bastante sutil (variável 8 (demarcação prosódica) = traço 1 (com
pauta demarcativa)).
h) insuficientes para constituirem enunciados completos por si pró-
prios: na condição de sinalizadores de aspectos da estruturação textual-interativa,
os M. são, do ponto de vista comunicativo, unidades não-autônomas, diferen-
ciando-se, nesse ponto, mas não somente nele, das interjeições, dos vocativos,
das palavras-frase (variável 9 (autonomia comunicativa) = traço 0 (comunica-
tivamente não-autônomos)).
i) reduzidos, em sua massa fônica total, a um limite de até três sílabas
tônicas (variável 10 (massa fônica) = traço 1 ( até 3 sílabas tônicas)), o que, do
ponto de vista da constituição léxica, significa uma extensão reduzida a 1, 2
ou, no máximo, 3 palavras. O envolvimento de maior número de unidades
léxicas ou de sílabas tônicas, na constituição de um possível MD, implicaria,
normalmente, um grau maior de elaboração sintática e de transparência se-
mântico-referencial, que parece pouco compatível com o caráter mais
formulaico característico de sua composição.
266
Da soma de traços fortes (mais freqüentes) assim estabelecidos dentro
das variáveis investigadas, decorrem combinatórias básicas que permitem ava-
liar o padrão de prototipicidade dos MD, conforme sua amoldagem parcial ou
total às seguintes configurações:

Variáveis → 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

3 1 0 1 1 1|2 1 1 0 1
Traços 3 1 1 1 1 1|2 1 1 0 1
3 0 2 1 1 1|2 1 1 0 1

A aplicação dessas matrizes, longe de ocorrer de forma monolítica e


absoluta, realiza-se numa margem relativamente flexível de oscilações, dentro
da qual é possível situar a classe dos M.D. Em razão, pois, de sua própria
condição de mecanismos discursivos, os M., mesmo que admitam traços mais
ou menos regulares, que definem o seu estatuto, não chegam a constituir uma
classe discreta e absolutamente homogênea.
A possibilidade de desvios em um ou outro ponto das combinatórias
apuradas não acarreta, necessariamente, a eliminação de ocorrências, com pe-
quenos traços desviantes, da classe dos M.D. A afirmação não se aplica, po-
rém, às variáveis 4, 7 e 9, cujos traços 1, 1 e 0 – que definem, respectivamente,
a exterioridade dos MD em relação ao conteúdo proposicional e tópico, a
independência sintática e a falta de auto-suficiência comunicativa – estabele-
cem-se como configuração “sine qua non” da condição de M. Esses traços são
sempre estáveis e formam, juntamente com a já referida distribuição de fun-
ções entre os aspectos da articulação tópica e da orientação da interação, das
variáveis 2 e 3, um núcleo piloto essencial para um reconhecimento inicial do
estatuto de marcador, mas nem sempre suficiente para a sua segura delimita-
ção relativamente a outros mecanismos discursivos que lhe são limítrofes.
Constitui um importante complemento, na configuração geral da classe dos
M., a forma de preenchimento de traços, nas demais variáveis (mencionadas
em a, d, e, g e i), dentro de limites de flexibilidade mais ou menos previsíveis
e descritíveis.
A aplicação da rubrica de MD a formas que não preenchem uniforme-
mente toda a seqüência de traços fortes detectados e que, portanto, não apre-
sentam em bloco todas as propriedades das matrizes-padrão, manifesta a con-
cepção de uma classe gradiente, própria de configurações discursivas. Tería-
267
mos, segundo essa concepção, um continuum, característico de uma série em
movimento, com elementos mais típicos e mais modelares – que incorporam
de modo uniforme e integral os referidos traços de uma das matrizes-padrão–
e elementos menos típicos e modelares – que manifestam esses traços de modo
mais ou menos parcial e diversificado. Essa diversificação se dá dentro de uma
margem relativamente controlável quanto ao(s) ponto(s) de sua incidência e
quanto à proporção da manifestação desviante, a qual, de modo geral, não
ultrapassa dois pontos de uma das matrizes.

1.2 Posição dos Marcadores em Estudo no “Continuum” de Tra-


ços Definidores de Marcadores Discursivos
O exame do subgrupo das unidades em estudo, à luz do assentamento
de traços-padrão definidores da classe dos MD, permite atribuir com seguran-
ça a todas elas a condição de marcador. Permite também situá-las no referido
continuum que vai dos M. mais prototípicos aos M. menos prototípicos, con-
forme a configuração das matrizes de traços apuradas no enquadramento tex-
tual das ocorrências.
A análise empreendida em cada uma das 64 ocorrências das formas em
3
estudo define para estas a constituição das seguintes combinatórias de traços
mais freqüentes:

Variáveis 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
BOM
BEM Traços 3 1 1 1 1 1 1 1 0 1
AH

OLHA Variáveis 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
(OLHE, Ó) Traços 3 1 2 1 1 2 1 1 0 1

As duas matrizes acima acusam a estável preservação dos referidos


traços básicos do núcleo piloto, invariavelmente assumidos por toda e qual-
quer unidade com formato de M. Estamos, com efeito, diante de unidades
exteriores a conteúdos proposicionais ou tópicos, sintaticamente independen-

268
tes e insuficientes para constituirem enunciados completos por si próprios (cf.
a regularidade dos traços 1, 1 e 0, na variáveis 4, 7 e 9). Além disso, observam-
se as formas especificadas de preenchimento das funções textuais, que se defi-
nem pela expressão da seqüencialização tópica e/ou manifestação das relações
interacionais, igualmente típica da categoria dos M.D. (cf. traços especifica-
dos, nas variáveis 2 e 3).
Essas constatações, somadas à observação da qualidade de preenchimento
das demais variáveis complementares (1, 5, 6, 8 e 10), permitem concluir, em
confluência com o assentamento feito no item 1.1 deste trabalho, que:

a) bom, bem e ah enquadram-se perfeitamente no conjunto de M. pro-


totípicos, ou seja, no rol de M. que assumem integralmente traços-padrão iden-
tificadores da prototipicidade da classe. Como tal, definem-se e identificam-se
entre si, na seqüência das variáveis, por um padrão alto de recorrência, pela
condição de seqüenciadores tópicos, em princípio não orientados, de forma
dominante, para a interação, exteriores aos conteúdos tópicos ou proposicionais,
parcialmente transparentes em relação ao adjetivo, advérbio e interjeição ho-
mônimos, sistematicamente representados por suas respectivas formas únicas
e invariáveis, sintaticamente independentes, prosodicamente demarcados, sem
autonomia comunicativa e de massa fônica reduzida. O componente
interacional, inerente às funções textuais de todos os M., e dos mecanismos
discursivos em geral, é visto como um fenômeno graduável no evento discur-
sivo e a sua dimensão não se estabelece de forma estanque e absoluta. A even-
tual projeção de um aspecto interpessoal de confronto de opiniões e pontos de
vista, na dinâmica das relações textuais, pode envolver os três M., em princí-
pio não definidos por um grau denso de evocação do quadro interacional, na
expressão mais direta do movimento interlocutivo – o que acaba conferindo a
eles, em algumas de suas ocorrências, o feitio característico de unidades mais
fortemente interativas.
b) olha: incorpora características de quase prototipicidade, afastando-
se apenas das configurações do modelo-padrão e mais freqüente de M., pela
projeção cumulativa da função seqüenciadora com a de unidade basicamente
mobilizada para a interação, ou seja, para a explícita remissão do falante ao
ouvinte. Essa cumulação, que na verdade é expressão do forte valor funcional
desta forma, não integra a matriz prototípica da classe dos M., por ter sido
encontrada em ocorrências esporádicas. Também diferentemente de bom, bem
e ah, este M. submete-se a uma pequena variação formal, prevista entre os

269
traços-padrão, concretamente realizada no corpus em estudo como: olha ~
olhe ~ ó (cf. traço 2, na variável 6).

2. Desenvolvimento (funções textuais-interativas)


2.1 Dado Preliminar
Reconhecidas, em linhas gerais, a condição de M.D. prototípicos ou
bastante próximos da prototipicidade das formas em pauta, cabe examinar de
perto as particularidades articulatório-interacionais que assumem no interior
do texto, ao sinalizarem diferentes instâncias de abertura na tessitura textual da
informação.
O destaque dessas particularidades permitirá mostrar, paralelamente às
identidades entre as quatro formas, no desempenho da função geral de sinali-
zação do processo de abertura, na estrutura do fluxo informacional, alguns
pontos de especificidade quanto aos seus contextos de preferência, suas di-
mensões argumentativas, seus direcionamentos interacionais.
No tocante a essas especificidades, o dado preliminar que o contato
com os fatos permite levantar é o de que os M. em questão deixam transpare-
cer traços sêmicos e funcionais diferenciados, como manifestação sutil de seu
vínculo igualmente diferenciado com os correspondentes itens lexicais, sem
estatuto de M., que lhes servem de base, ou seja, com as expressões homôni-
mas em formato categorial de adjetivo (bom), advérbio (bem), verbo (olha) e
interjeição (ah)4. Neste particular, destacam-se, no funcionamento textual-
interativo de cada um dos M. em estudo, nuanças individuais do fenômeno
geral de acomodação de traços sêmicos para a sinalização de relações dentro
do espaço discursivo. Assim, por exemplo, as passagens (1), (2), (3) e (4),
dadas no início deste trabalho, permitem qualificar de antemão essa diferença:
No caso de olha, visível em (1), o conteúdo do turno-resposta é dirigi-
do diretamente para o interlocutor, cuja participação é requerida, o que confere
ao M. o referido teor de unidade basicamente orientada para a interação (Cf.
atrás, análise feita em 1.2). A tendência para a cristalização semântica, comum
nos M., define aí um apagamento da referência literal à atividade de fitar a
vista em algo, típica do verbo. No estatuto discursivo do M. em questão, essa
referência à ação visual aparece remanejada para a expressão de uma outra
espécie de envolvimento sensorial-cognitivo, proposto ao ouvinte em forma
de um chamado de sua atenção para a declaração superveniente, no citado
fragmento. Decorre daí o forte estatuto interacional desse M., como uma pre-

270
servação do foco na segunda pessoa, típico da modalidade deôntica da forma
verbal de origem. A presença do M. sabe, co-ocorrente na referida passagem
transcrita, é uma confirmação a mais da orientação da fala ao interlocutor.
Ah, em (2), aparece no início da fala da informante, sinalizando a aber-
tura do canal comunicativo e o comprometimento com a resposta, embora o
rumo desta seja ainda ignorado quanto a o que dizer e como dizer, conforme
atestam os preâmbulos subseqüentes e as modalizações das afirmações aí ins-
critas. Diferentemente de olha, este M. deixa de apontar diretamente para o
parceiro do diálogo, manifestando, por isso, um grau interacional mais brando.
O seu foco específico incide preponderantemente, e mais freqüentemente, no
próprio locutor, definindo sua reação pessoal ao teor da pergunta ou afirmação
precedente, numa sensível adaptação, à expressão das relações textuais, do
extrato semântico-discursivo da interjeição homônima.
Bem e Bom, em (3) e (4), têm sua orientação direcionada fundamental-
mente para a informação a ser provida pelo locutor, o que define seu compro-
misso básico com a “estrutura ideacional” do discurso (Halliday, 1976), sem
prejuízo de sua participação na conformação do quadro interlocutivo que en-
volve os participantes. Deixando transparecer parcialmente os semas de atri-
buição qualitativa própria dos respectivos predicadores homônimos, em esta-
tuto de advérbio e adjetivo, os dois M. assumem, no âmbito textual, a proprie-
dade geral de traduzirem a predicação em formato de uma avaliação positiva
que o locutor faz do momento interlocutivo como adequado para o
desencadeamento do tópico ou de um aspecto informacional em seu interior.
A abertura desse tópico vem, geralmente, em feitio de um ato discursivo pre-
liminar, destinado a definir o novo passo, a corrigir alguma direção da pergun-
ta ou da declaração do parceiro e, assim, compor um quadro de referência
dentro do qual o que segue tem validade.
Em síntese, a idéia básica decorrente dos elos referenciais com as ins-
tâncias homônimas, assim estabelecidos, é a de que os quatro M., nas abertu-
ras que promovem, recortam diferentemente o campo textual-interativo, apon-
tando o seu foco predominantemente para a primeira pessoa (ah), para a se-
gunda (olha), ou para o plano de uma “não-pessoa” (Benveniste, 1976), cor-
respondente ao próprio assunto ou tópico em centração (bom, bem).
Evidentemente, pressões contextuais, nascidas do próprio andamento
das relações discursivas, podem interferir nesses valores sêmicos básicos,
modificando e neutralizando as diferenças assim estabelecidas. As expressões
e deslocamentos desses traços gerais serão objeto de consideração a seguir, na

271
descrição funcional das quatro unidades, em seus particulares enquadramentos
estruturais.

2.2A Abertura de Turnos em Pares Adjacentes de Pergunta e


Resposta
A presença dos M. em estruturas de pares adjacentes define sua partici-
pação em um aspecto de organização local do texto falado, com implicações
simultaneamente seqüenciais e interacionais, dignas de nota.
Do ponto de vista da estrutura seqüencial, atuam como pistas da articu-
lação de dois turnos interdependentes e, portanto, como sinalizadores do de-
senvolvimento iminente, no segundo turno, do ponto tópico relevante anteci-
pado no primeiro, constituindo-se, no conjunto, uma parcela de construção
coesa e coerente do texto falado. Do ponto de vista interacional, são marcas
concretas da dialogicidade entre locutores, indiciadoras da predisposição ime-
diata daquele que responde apara o atendimento da expectativa daquele que
pergunta, cumprindo-se, na soma de ações coordenadas, uma interação verbal
centrada. Confirma-se, nessa simultaneidade de campos de atuação, a
multifuncionalidade destacada por Marcuschi (1989) como uma das caracte-
rísticas dos M., de modo geral.
Mas a atitude responsiva sinalizada pelos M., logo na abertura do se-
gundo turno, nem sempre implica o desenvolvimento imediato do tópico que o
primeiro turno propõe. O exame da constituição do par conversacional per-
gunta/resposta, em corpus do Projeto NURC, revela que os locutores, com
alguma freqüência, reagem a questões que lhes são dirigidas recorrendo a res-
postas prefaciadas, que adiam o atendimento imediato do ponto relevante da
informação suscitada pelas perguntas dos interlocutores.
A investigação desse aspecto e do acionamento constante dos quatro
M. na abertura dos segmentos preambulares envolve três questões básicas a
serem elucidadas, atinentes:
a) ao tipo da pergunta que favorece o aparecimento dos M. abrindo
respostas prefaciadas, em contrapartida ao que os desfavorece;
b) aos aspectos textuais-interativos dos M., na intermediação do par
pergunta/resposta e a sua repercussão na identidade funcional dos preâmbu-
los;
c) às constantes formais tipificadoras dos segmentos prefaciadores.

272
O exame do corpus revelou o elo dos M. não propriamente com as
interrogações globais que, centradas na relação de predicação, afetam todo o
enunciado e suscitam em geral respostas mais breves, de teor afirmativo ou
negativo. O vínculo maior apurado foi com as interrogações parciais ou de
instanciação, geralmente encabeçadas por pronomes e advérbios interrogativos
(o que?, quais?, como?, quando?, por que?, quanto?), marcadores de tematização
(e quanto a ...? e em relação a ...? ...), ou expressões solicitadoras de opinião (o
que acha de?, na sua opinião...?, no seu ponto de vista ...?) que, em princípio,
propiciam, como resposta, desenvolvimentos tópicos e posicionamentos que
vão além de respostas lacônicas, ou de simples afirmação ou negação.
Com efeito, do total de 27 pares de pergunta-resposta mediados pelo
conjunto dos M. em estudo, 21 (77,78%) envolveram as interrogações parciais,
instanciadoras de tópicos ou circunstâncias diversificadas, a respeito dos quais o
depoimento do informante é solicitado5, e apenas 6 (22,22%) corresponderam às
interrogações globais, observando-se, em relação a esses números, uma distri-
buição mais ou menos equilibrada de cada um dos quatro M.
Também os dados do inglês revelaram a Schiffrin (1987), em seu estu-
do sobre a forma Well, que o uso desse M. em respostas é influenciado pela
natureza da pergunta, ocorrendo mais freqüentemente a sua presença sempre
que um conjunto mais amplo de opções de resposta está potencialmente pre-
visto pelo teor da questão.
O eventual desencadeamento dos M. em início de resposta a questões
centradas no verbo, que normalmente poderiam ser respondidas de forma de-
limitada pela afirmação ou negação, acusa, em geral, aspectos argumentativos
dignos de nota. Um deles é destacado por Lakoff (1973, apud Owen, 1981), a
respeito da forma well em contextos que, no português, corresponderiam a:

A - Você matou sua esposa?


B - Bem, matei.

Assim usado como prefaciador do que seria uma resposta direta, bem
permite inferir que a informação está incompleta e que circunstâncias múlti-
plas associadas à morte da esposa deixam de ser mencionadas (op. cit, p. 107).
Embora essa ocorrência seja detectável no português falado, o corpus
pesquisado não acusou exemplos reveladores dessa sugestão de incompletude
informacional sugestiva de uma admissão forçada de um ato, na resposta pre-
faciada por bem. Mas a abertura de resposta a perguntas que escapam ao pa-

273
drão mais geral das perguntas de opinião ou de instanciação de circunstâncias
é aí realizada com outras implicações, por algumas ocorrências de M.
Nesses contextos especiais de ocorrência, os M. aparecem geralmente
neutralizando os extremos de uma resposta sim / não, ao desencadearem uma
alternativa intermediária e/ou uma informação mais expandida, adequada a
explicações e auto-posicionamentos perante o assunto. Bastam-nos duas amos-
tras:

(5)
228 L2 os outros mesmo não se incumbem de colocá-la no
229 lugar dela?
230 L1 bom... com uns TApas... às vezes ela se coloca
231 L2 ahn
[
232 L1 mas com palavras ela não se coloca porque ela
[
233 L2 ahn
234 L1 aumenta a voz com os irmãos... não é?...
(D2-SP-360)

(6)
185 Doc - [o senhor nunca cozinhou nada?]
186 I1 - Olha, eu me limito a faze(r) um bom, bom! Um churrasco
187 (superposição) churrasco. Mas eu posso fala(r) da, da experiência
188 engraçado, tem pessoas que tem um, um, um, em termos
189 gastronômicos um, um, uma, uma, um talento, uma habilidade,
190 impressionante, a minha avó era assim, ela qualque(r) prato,
191 podia se(r) o mais complexo, de gosto mais estranho ou exótico
192 possível, ela detectava tempero por tempero e depois reproduzia (...)
(D2-POA-291)

Em (10), a simples presença do M. bom, abrindo a resposta, antecipa


que esta não será dada em termos absolutamente positivos ou negativos (se

274
incumbem / não se incumbem), mas relativizados por explicações sobre as
diferentes atitudes da filha autoritária (se coloca (no lugar dela) / não se colo-
ca), em conformidade com as diferentes formas de reação dos irmãos (com
tapas / com palavras).
O mesmo aspecto geral da expansão de dados manifesta-se, com algu-
ma particularidade, a partir de olha, na passagem (11). A pergunta do docu-
mentador, que potencialmente seria respondível em termos monossilábicos, é
aí, concretamente, a deixa para que um dos informantes entre em cena e come-
ce a falar em substituição ao outro que anteriormente ocupara boa parte do
tempo dando explicações detalhadas sobre a receita de um prato. Assim enten-
dida, a pergunta suscita, como resposta, uma longa manifestação, apenas par-
cialmente transcrita no recorte acima, a qual vai muito além da especificidade
aparente do tópico proposto pelo documentador.
O conhecimento de que suas falas estão sendo gravadas e, portanto, a
consciência por parte dos informantes da necessidade de que sejam receptivos
ao menor estímulo dos entrevistadores ou dos parceiros do diálogo, parece expli-
car os 22,22% de respostas expandidas e, com elas, os preâmbulos e a incidência
dos M. de abertura de turno, em contextos onde normalmente não seriam espera-
dos. A situação especial de entrevista permite, pois, ao documentador dar às
vezes às suas perguntas o formato de interrogação global, sem correr o risco de
obter estritamente respostas monossilábicas, centradas na simples confirmação
ou não da predicação expressa pelo verbo da frase interrogativa.
Assim identificado o tipo de pergunta mais favorável às respostas pre-
faciadas encabeçadas pelos M., resta uma segunda questão a ser examinada,
quanto a diferenças semântico-funcionais que os individualizam, na
intermediação do quadro seqüencial-dialógico em que atuam, com conseqüente
diferenciação na qualidade dos segmentos de prólogo da resposta.
As instruções textuais codificadas pelos M. permitem ver, na retenção
do fluxo tópico carreada por esses segmentos preambulares, ora um espaço
predominantemente informacional e argumentativo, para expressão de ressal-
vas e acertos de enfoques, pontos de vista e opiniões sobre o assunto colocado
em pauta, ora um espaço sobretudo técnico e fático, para a manipulação da
pergunta, na busca simultânea da manutenção de contato e de tempo para o
planejamento e a formulação.
Na sinalização de motivos de ordem mais claramente referencial e ar-
gumentativa, atuam com maior freqüência os M. bem e bom. Assim se dá, por
exemplo, nas passagens (4) e (7), abaixo transcritas:
275
(4)
221 I.L.A. -daí é que vem minha
222 pergunta porque que: o experimento em laboratório... é
223 mais válido do que experimento “in loco?”
224 Inf. - bem... o de laboratório é mais válido João... sempre
225 que você pode fazer porque normalmente é difícil você
226 fazer o experimento de laboratório... é mais válido...
227 porque você... tem o homem como se o homem estivesse...
228 despido... de ideologia... de sua cultu:ra... de seu:
229 sentido... de religiosidade... tanto quanto possível
230 é claro...
(EF-Rec.-337)

(7)
279 Doc. qual é digamos assim o esporte que você:: aconselharia (ao) tipo de
criança
280 conforme... os primeiros anos do curso primário criança do curso
secundário
281 L1 bom qualquer tipo de esporte é válido... viu? agora o esporte... que me-
282 lhor pro organismo... por causa de todos os músculos e (tu/) é a
natação...
(DID-Sa-231)

Observa-se que, em (4), a pergunta focaliza a causa da maior validade


do experimento em laboratório e que a explicitação dessa causa só vem na
resposta, a certa altura (l. 227 a 230), após um esclarecimento prévio que a
professora julga necessário passar ao aluno (l. 224-226). Esse esclarecimento
preliminar tem aí o teor de uma advertência ou ponderação contra a idéia,
inferida na pergunta do aluno, de que o experimento laboratorial é facilmente
operacionalizável em qualquer situação. O M. bem, logo na abertura do seg-
mento-prólogo, ao mesmo tempo que sinaliza a atitude responsiva da profes-
sora perante ao aluno, antecipa um certo tom de reparo ou restrição confirma-
do pelo enunciado que precede a resposta propriamente dita.
276
A reparação da direção argumentativa manifesta-se em (7) com uma
espécie de ressalva ao limite estabelecido pela pergunta do documentador, de
indicação do esporte que seria aconselhado às crianças. Reagindo à pergunta,
L1 primeiro generaliza (“bom qualquer tipo de esporte é válido ... viu?”), para
somente depois entrar no ponto específico solicitado, e ater-se à consideração
de apenas uma modalidade desportiva – a natação. A passagem põe à mostra o
emprego de marcadores diferentes, na definição de direções argumentativas
assim situadas: fazendo balanço com bom, que indica a intenção de ressalva
com relação ao ponto de vista restrito da pergunta e que, portanto, prepara o
terreno para a observação generalizadora do informante, entra, na segunda
parte da resposta, o M. agora (l. 281), intermediando a volta para a operação
delimitadora, num movimento de reajuste ao ponto específico de relevância
tópica proposto no primeiro turno da seqüência.
Exemplos como (4) e (7) revelam o envolvimento de bem e bom com
um modo de a informante registrar seu ponto de vista sem ser contundente.
Segundo Vicher e Sankoff (1989), essa peculiaridade de indiciar um ato de
consentimento ou admissão de uma questão, sob certas restrições, faz de bem
(diríamos também de bom) “uma partícula prototipicamente concessiva, que
contém em si a insinuação de um desacordo dentro da expressão de um acordo
básico”. (p. 92). A simultaneidade de pontos de vista, assim reunidos nesse ato
enunciativo, torna ambos os M. essencialmente polissêmicos e argumentativos,
na expressão verbal do jogo de representações e intenções estabelecido entre
os interlocutores, e no confronto de opiniões sobre um detalhe do tópico em
centração.
A motivação de natureza predominantemente fática e formulativa, sus-
tentando o adiamento da resposta, envolve, mais amiúde os M. de instanciação
pragmática de primeira e segunda pessoas – respectivamente ah e olha – e,
mais esporadicamente, bom. Desenvolve-se nessas circunstâncias, e a partir
desses M., verdadeiros enchimentos verbais que funcionam fundamentalmen-
te para manter o canal de interlocução em aberto, enquanto se procura o rumo
da formulação a ser dada ao tópico. O esquema é recorrente nas entrevistas
(DID), o que parece natural pelo relacionamento assimétrico dos participan-
tes, no qual o documentador dirige o diálogo pela contínua solicitação de novo
depoimento do informante, nem sempre preparado para um pronto atendimen-
to de cada nova questão.
Bastam-nos aqui dois exemplos, além das passagens (1) e (2) do início,
igualmente ilustrativas do fato:
277
(8)
187 Doc - em alguma em alguma parte do nordeste você
188 que gosta de carne ... você não experimentou uma
189 carne ( )?
|_
190 L - Ah, a tal carne seca né? que eles faze/... tá falando? ...
191 Doc - [ é ...

192 L - aquela carne seca ao sol ...


193 Doc - isto

194 L - não nós não tivemos ... nós não tivemos a oportunidade de

195 comer não ...


(DID-RJ-328)

(9)
17 Doc - é verdade e que tipo de peça a senhora gosta e o que
18 chama mais atenção da senhora quando a senhora vai ao
19 teatro?
20 Inf - peças? olha nem sei viu? o que falar agora sobre
21 peças Todas as peças que eu tenho assistido eu tenho
22 gostado ... agora::... o que me chama muito atenção ... ah
23 é roupas eh::... cenários eu acho acho que uma::última peça
24 que eu assisti foi da::... foi lá defronte o SESC... no
25 teatro do SESC foi a da::... olha não lembro qual foi a
26 peça agora... uma peça muito comentada...
(DID-SP-234)

A análise de preâmbulos como esses, que estampam, na superfície do


texto, o processo de planejamento e construção da resposta, oferece uma amos-
tragem de algumas constantes formais tipificadoras dos segmentos prefacia-
278
dores. Além da presença dos M., desenvolvem-se, com freqüência, seqüências
inseridas entre a primeira pergunta e a resposta final, como as duas assinaladas
em (8), desencadeadas sob pretexto de elucidação de aspectos da indagação do
documentador. A essas características, soma-se freqüentemente a repetição de
parte ou da totalidade das perguntas (l. 190 e 192, em (8) e l. 20 e 22, em (9));
a menção de condições cognitivas pessoais pouco favoráveis à resposta (cf.
em (9): “nem sei viu? o que falar .......; cf. também em (1) e (2): “eu era tão
pequena sabe que eu já não me lembro disto” .... “eu não posso dizer”, “aí você
pegou porque eu não sei não...”), entre outras particularidades.
A incidência desses traços nos preâmbulos fáticos, que asseguram o
contato entre os interlocutores e trazem simultaneamente para dentro do dis-
curso o monitoramento pessoal do processo de planejamento e formulação da
resposta, é pouco observada nos casos em que os segmentos prefaciadores
apresentam sua ênfase no conteúdo informacional, envolvendo o ajuste de
alguma idéia expressa na proposição do tópico, via pergunta. Essa constata-
ção, atinente ao plano formal, reflete a diversificação entre os dois tipos de
atos ilocutórios prefaciadores, além de confirmar a diferença de foco dos M.
sobre a estrutura (inter)pessoal ou ideacional do discurso.

2.3 Outras Instâncias de Abertura


Fora das estruturas correlativas de pergunta-resposta, o papel textual-
interativo dos M. manifesta-se em outras instâncias de organização do texto
falado, a serem aqui especificadas, indiciando movimentos de abertura de as-
pectos variados da estruturação tópica, com maior ou menor grau de envolvi-
mento na estrutura interpessoal do discurso.
Os quatro M. entram, porém, com diferente peso na expressão dos aspec-
tos a serem mencionados, nos novos enquadramentos, ficando por conta de bom
e bem a cobertura do maior número de contextos e particularidades textuais dife-
renciadas. Já a atuação funcional de olha é bastante restrita, esgotando-se pratica-
mente na sinalização do contato interlocutivo, pelo qual o falante busca a atenção
do ouvinte, a quem a informação em curso é diretamente orientada:

(10)
285 Inf - (.......) me lembro
286 de ter escorregado, caí ... dentro d’água e (es)tava me
287 afogando, vim ... vim pra cima assim e o rapaz esse,
279
288 estava ali do lado ... eu nunca me esqueço do jeito dele
289 de pergunta(r) “quer sair?” olha, eu (es)tava me afogando
290 e ele perguntou se eu queria sai(r) da água, eu nem ...
291 nem pude fala(r), não é ... Ai ... eu nunca me esqueço disso.
(DID-POA-045)

A presença de olha e variantes é, por isso mesmo, típica dos inquéritos


dialogados (D2 e DID), onde a remissão ao interlocutor costuma ser mais
explícita. Seu desencadeamento esporádico fora desses inquéritos exige sem-
pre um processo de relação interpessoal bem caracterizada, como o atestado
no exemplo a seguir, tomado de uma elocução formal (EF), em momento par-
ticular em que a professora interrompe temporiamente o desenvolvimento da
matéria para dirigir-se explicitamente a seus alunos. A abertura desse intervalo
interacional explícito, em meio à aula, é definida pelo M.:

(11)
138 bem nós VA:MOS não é admitir... aqui... em aula... que: exista
139 uma: complementariedade entre esses três saberes... ou três
140 conhecimentos... olha isso eu repi:to... porque... geralmente
141 naquela primeira avaliação:... eu co:bro um pouco... esse
142 aspecto... eu acho importante bem importante mesmo... essa
143 complementariedade
(EF-Rec-337)

Quanto ao M. ah, aparece, em um de seus usos, dividindo terreno com


bom, na abertura de falas citadas pelo locutor durante a conversação, para
representar uma outra situação dialógica já transcorrida ou simulada.
Posicionados no início da fala apresentada em formato de citação em discurso
direto, os dois M. criam efeitos de espontaneidade, pela evocação de um traço
comum da oralidade6:

(12)
01 L- (...) eu adorei o tal do acarajé porque quando
02 me serviram aqui, uma vez eu vi e não gostei...
03 sabe? mas vi feito por uma baiana de lá
280
04 indicaram... [ah ::... vai na fuLAna que a
05 fuLAna serve muito bem o acarajé...] nós fomos
06 eu gostei muito eu gosto muito de coisa mistu-
07 rada.
(DID-RJ-328)

(13)
189 (...) Eu
190 não... eu não leio muito negócio de esporte, eu sempre
191 viro as folha(s) né... meu marido [“ah, onde é que se
192 viu, tu não lê esporte?”] que os outros gostam... mas eu
193 de esporte eu não... não... não me preocupo muito assim
194 ... não é... (...)
(DID-POA-045)

(14)
09 (...) aí tenho que
10 complementar o meu salário com o dinheiro dum, dum cargo à noite e que
11 se... conforme for eu acabo deixando, aperto o, o cinto e aí problema
12 de, de, aí que entra o problema de dinheiro, porque justamente eu não
13 posso deixar a, ainda, nesse momento, dizer, [bom, agora vocês vão fa-
14 zer isso, eu largo,] eu vou ter que pensar, fazer contas porque eu es-
15 tou com financiamento de compra de apartamento (...)
(D2-RJ-355; p. 6)

Um segundo uso do M. ah é visível em passagens de diálogos nas


quais costuma indiciar formas de reação espontânea do locutor perante seu
parceiro, no enfoque do tópico em discussão. Manifestando um crescendo na
revelação das ligações interpessoais, o referido M. entra no delineamento de
convergências ou divergências de pontos de vista entre os interlocutores, fa-
zendo parte do jogo argumentativo movido na relação entre os turnos.
Nos exemplos apresentados a seguir, confluindo com o teor de concor-
dância ou discordância aberto pelo M e ajudando a defini-lo, pode-se-ver, do
ponto de vista lingüístico-discursivo, a sua combinação seja com a partícula de
assentimento (sim), como em (15), seja, por outro lado, com o M. de contrapo-

281
sição argumentativa (mas), como em (16), ou com o enunciado de forte peso
assertivo também contraposto ao anterior, como em (17). Ressalte-se que em
(15) o próprio feitio próximo de interrogativa-tag do turno anterior (l. 6: “mas
ele teria outros gastos, né?”) leva o informante a preferir a direção de confir-
mação, em seu turno (l. 7: “Ah, sim”):

(15)
0 Inf.1 - (...) ele já teria que sair da Zona Sul, pensar
1 em termos de Zona Norte ou, ou talvez...
2 Inf.2 - Mas não faz muita diferença não
3 Inf.1 - Talvez a diferença não seja...
4 Doc. - Mas alguma diferença ( )
5 Inf.1 - É, é
6 Doc. - mas ele teria outros gastos, né?
7 Inf.1 - Ah, sim
8 Inf.2 - É, teria outros gastos.
(D2-RJ-355, p.2-3)

(16)
8 Inf.1 - Mas acontece o seguinte, que aqui você tem outras pers-
9 pectivas, você tem outras chances que lá você não tem, já que estamos
10 falando de professores, não é, nenhum de nós... eu não conheço pro-
11 fessor que ensine em apenas um lugar, já começa por aí, certo?
12 Inf.2 - Ah, mas eu ensino em dois lugares por quê? o dinheiro que eu
13 ganho num só não dá, mas eu por mim estaria só na escola (...)
(D2-RJ-355, p.4)

(17)
298 L1 - (...) mas acontece que eu
299 não acredito de maneira nenhuma que através dos meios de
300 comunicação que você dispõe você possa trazer o povo à cultura
301 L2 - ah pode e eu vou lhe mostrar como
(D2-Rec-05)
282
O fato de um mesmo M. como ah, nos exemplos dados, poder encabe-
çar enunciados assim confirmadores da opinião do parceiro (15), ou
estabelecedores da discordância (16 e 17), faz pressupor a hipótese da realiza-
ção prosódica como possível indício antecipador do teor da manifestação pes-
soal explicitada no enunciado subseqüente. Uma tentativa de confirmação da
hipótese dessa diferença de realização foi, entretanto, dificultada pela interfe-
rência de variáveis relacionadas às diversificações de informantes e/ou de re-
giões de sua procedência, nos exemplos encontrados no corpus, ilustrativos
das duas direções argumentativas aqui consideradas.
Pistas mais fortes das relações argumentativas assentadas no confronto
de pontos de vista entre os interlocutores são dadas pelos M. bom e bem, na
atividade conversacional. Sua presença está fortemente vinculada a diálogos
que reúnem pronunciamentos dos interlocutores, sobre temas gerais de sua
experiência comum.
Os dois recortes abaixo permitem ilustrar a natureza das instruções
antecipadas pelos dois M. para a decodificação da opinião do interlocutor so-
bre o depoimento do parceiro, e para situar a seqüência do discurso relativa-
mente ao argumento anteriormente exposto:

(18)
236 L1 foram dimensionadas as estradas para um tráfego muito mais leve
237 do que elas estão suportando... então vem aquele negócio
238 da lei da balança
[
239 L2 bem ainda tem uma coisa também aqui é que sempre
240 quando chega no fim... na hora de botar a última camada de as-
241 falto
[
242 L1 hum
243 L2 ou seja (de fazer) a CApa asfáltica sempre não tem dinheiro
244 ... então... acaba (risos) sempre assim ( )
245 L1 [ houve uma
246 tentativa de se limitar a carga por roda quer dizer de e-
247 vitar que carros muito pesados com cargas muito pesadas

283
248 ... trafeguem... acima quer dizer acima do peso para o que
249 ela foi construída...
(D2-Sa-98)

(19)
319 L1 viu E eu
320 continuo achando que o Brasil só tem três problemas
321 graves: educação educação e educação agora...
322 L2 bom porque fome é mundial não é? a gente não vai falar
323 nisso
(D2-Rec-05)

Discorrendo sobre as condições das rodovias brasileiras, L1 focaliza,


em (18), a inadequação das estradas, como decorrência do excesso das cargas
que passam a suportar no tráfego, em contraposição ao previsto. L2 acrescenta
um dado a mais para o enfoque da inadequação, destacando, diferentemente, o
aspecto contingencial da falta de dinheiro na etapa de conclusão das obras.
Sem levar adiante o aspecto específico destacado por L2, L1 prossegue na
complementação de seu próprio argumento anterior, centrado no problema do
tráfego (l. 245-249). O M. bem, que aparece abrindo a fala de L2, apresenta-se
bi-direcionado, apontando simultaneamente para trás – ao definir a sintonia
com o outro locutor quanto ao ponto básico ( o de que as estradas não são boas)
– e para frente –, ao antecipar que um ângulo diferente vai ser expresso, quanto
às causas do problema.
Igualmente, em (19), L2 antecipa, pelo M. bom, a admissão do ponto
de vista de L1 quanto à questão da educação no Brasil, mas insinua também
que essa admissão é relativa (há outros problemas mais graves, como a fome)
e se dá sob certa condição: o de aceitar-se que se está falando de problemas
específicos do Brasil e não de problemas comuns entre o Brasil e outros países
do mundo.
Em síntese, em ambos os exemplos, os M. indiciam, concomitante-
mente à avaliação positiva do conteúdo exposto pelo interlocutor, uma espécie
de apreciação negativa implícita, dada em termos de discordância ou de restri-
ção a uma aceitação total do fato declarado. Imprimem, portanto, no discurso,
pistas de abertura de um lance típico de conciliação, concessão, ou de consen-
timento entre os interlocutores.
284
Observa-se, aqui, um ponto de confluência com as constatações feitas
por Schiffrin (1987) para o inglês, a respeito do M. well. Segundo a Autora, os
desacordos, as recusas, as respostas desfavoráveis são muito mais comumente
marcados por Well, do que propriamente a concordância (p. 114-116).
Para além desse dado, a confluência da perspectiva de concordância
com a de discordância, reunidas numa só expressão, permite confirmar o esta-
tuto de “partícula prototipicamente concessiva”, destacado por Vicher e Sankoff
(1989) em relação a bem, que parece igualmente extensivo, no português, a
bom, quando em enquadramentos similares ao observado em (19).
O uso dos M. em contextos interacionais de posicionamento em rela-
ção ao argumento anteriormente expresso pode contemplar, retrospectivamente
e simultaneamente, o conteúdo de duas falas: a do próprio locutor, em cujo
interior o M. aparece, e a do parceiro, como acontece no exemplo (20) abaixo,
com a forma bom:

(20)
120 L1 nós tamos até fazendo uma estrada agora próximo às grutas
121 de Ituaçu... lá pro lado de Contendas ( )... é um fim de
122 mundo ali (vozes)
123 L2 não não é fim... bom... fim de mundo atualmente é (vozes)
124 porque você não tem onde ficar tem Ituaçu que é uma cida-
125 dezinha lá que inclusive me ofereceu hospedagem... mas me
126 disseram que é uma miséria que não tem nada que preste
127 lugar muito ruim...
(D2-Sa-98)

Observa-se aqui, por parte de L2, uma reação imediata de desacordo


(não não é fim) com a afirmação final de L1 (é um fim de mundo ali). Logo a
seguir, entra o M. bom (l.123), sinalizando o cancelamento do desacordo, ou
seja, revelando a intenção de reconsideração da discordância e, conseqüente-
mente, de concessão relutante ao ponto de vista do interlocutor. A re-orienta-
ção assim indiciada vem confirmada, de forma plena, no enunciado subse-
qüente ao M. (fim de mundo atualmente é).
Empregos como esse inscrevem o M. bom entre os mecanismos
sinalizadores da correção, aproximando-o do valor de unidades como ou me-
285
lhor, ou seja, isto é, quer dizer, etc, que atuam nesta outra esfera funcional,
sem entretanto apresentarem a expressividade da sugestão polifônica de uma
concessão ou consentimento do falante à opinião do interlocutor, traduzida por
bom.
Uma outra particularidade funcional bastante freqüente dos M. bom e
bem diz respeito ao seu vínculo com a organização global da informação em
tópicos discursivos e com a estruturação interna dos tópicos, envolvendo par-
ticularizações do assunto, dentro de seu campo de concernência.
No que se refere ao primeiro aspecto, é visível a recorrência com que
os dois marcadores aparecem, nas elocuções formais, abrindo operações
metadiscursivas associadas à revelação do plano geral da tessitura do texto e,
pois, à apresentação das grandes partes que entram em sua composição.
O inquérito EF-SP-405, por exemplo, possibilita alguns recortes
ilustrativos:

(21)
54 BEM... então vamos tentar
55 reconstruir a maneira de vida desse Povo para depois
56 poder entender como surgiu a arte... e... porque
57 surgiu um determinado estilo de arte...

(22)
150 ...bom... então primeiro em nível de tema...
151 a seguir... qual seRIA... o motivo pelo qual... eles::
152 ...começaram... a pintar ou a esculpir... estas
153 formas...

(23)
384 (...) BOM... então chegamos aqui eles vão criar
385 uma arte... naturalista realista... em:: virtude da
386 função pragmática desempenhada por essa mesma
387 arte dentro da sociedade... ou dentro do grupo...
388 em que eles vivem...

(24)
388 bom... outra coisa que nós
389 vamos ver... nos slides na na aula que vem... é a...
286
390 extrema precisão do desenho... eles conseguem
391 chegar a uma fidelidade linear... da natureza...
392 a extrema exatidão do desenho... ou precisão...

(25)
400 ...bem... uma última coisa que eu gostaria
401 de dizer é o fato de que nessa época ainda não
402 existe preocupação com composição... o que a gente
403 encontra são desenhos... individuais...

A regularidade desse aspecto estrutural, detectável em maior ou menor


escala em outras elocuções formais, permite associar essa modalidade de in-
quérito com um maior índice de planejamento prévio e uma maior centração
na estrutura ideacional do discurso. O anúncio de cada passo novo no trata-
mento do assunto, sempre introduzido, nas passagens destacadas, pelos M.
bom e bem, alternantes nessa função, são uma revelação a mais da consciência
dos falantes de que a tessitura da informação não se dá de forma aleatória, mas
obedece a uma estruturação em tópicos que se ordenam e se interrelacionam
hierarquicamente. O destaque dessa organização aos interlocutores costuma
fazer parte dos procedimentos didáticos das aulas e denuncia a preocupação
com a clareza da exposição, em termos globais.
O uso do M. como apoio para instanciar o avanço linear dos tópicos, no
tratamento da matéria, acaba por torná-lo um mecanismo delimitador de par-
tes que se iniciam subseqüentemente a outras que se fecham, no desenvol-
vimento seqüencial do texto. Como destaca Stammerjohann (1977), “todo si-
nal de abertura de alguma coisa de novo implica o fechamento daquilo que
precede; sinais de abertura ou sinais de fechamento são, pois, sempre, sinais de
delimitação.” (p. 118)
Reconhecer o papel delimitador dos M. é reconhecer, simultaneamen-
te, a sua bi-direcionalidade, como um pontuador discursivo anaforicamente
incidente no fechamento da seqüência anterior, para cataforicamente viabilizar
a progressão para a seqüência superveniente.
Essa bi-direcionalidade inerente aos mecanismos mediadores da rela-
ção seqüencial das partes do discurso é concretamente assinalada, por exem-
plo, na passagem (22). Nela, a formalização do fecho do tópico precedente,

287
sobre os temas da arte no período paleolítico (“então primeiro em nível de
tema”) e a apresentação do tópico seguinte (“a seguir... qual seRIA... o motivo
pelo qual... eles:: ... começaram... a pintar ou a esculpir... estas formas...”) po-
dem ser vistas como a explicitação discursiva da dupla orientação indiciada
pela informação pragmática que bom codifica: a de que o locutor avalia o
momento como adequado e favorável à introdução de algo novo no fluxo in-
formacional, subseqüentemente a algo anteriormente dado.
Essas duas formas de definir as relações estruturadoras do texto – por
pistas indicativas fornecidas pelos M. bom e bem e por formulações com maior
grau de transparência referencial, estabelecidas por outros tipos de M. ou ex-
pressões em geral – complementam-se quase sempre nessa ordem, na apresen-
tação dos tópicos. A título ilustrativo dessa complementaridade, observem-se
as duas passagens abaixo, extraídas de uma outra elocução formal:

(26)
01 LOC. Então é como eu tinha dito a você...quarto ítem...é a forma...quinto...
02 dimensões...infância...puberdade...etc...sexto ítem...nós temos a::...explora-
03 ção...exploração aqui vale a dizer é exame...sétimo...nós temos os planos
04 cons::titutivos...sexto...exploração...exploração é o exame...feito na glân-
05 dula...nos planos constitutivos...nós temos a pele...temos o tecido subcutâ-
06 neo...e a camada...retro...mamária...com a sua definição...ligamento... (espe-
07 cial) da mama...oitavo...nós temos os vasos...e nervos...nono...é...e a veias
08 ...quem...copiaram? ...vou lhe passar alguma coisa...bom...então vamos...já
09 copiaram o que escreveu...bom...vamos começar...região mamária:: ...ora nós
10 definimos como sendo região mamária...a região ocupada pela glândula mamária
11 ...como vocês aqui estão vendo...
(EF-Sa-049)

(27)
29 a partir da pu-
30 berdade... é que essas glândulas por ações hormonais... então na mulher... por a-
31 ção dos/ ...de hormônios femininos... né? ...pode incluir a progesterona... essas
32 glândulas... então... se desenvolvem... ao passo que no menino... por ação tam-
33 bém hormonal... pela produção da ( ) hormônio masculino... elabo-
34 rado pelos tecidos... então essas glândulas... elas não se desenvolvem... porque
35 esse hormônio tem uma ação cremadora... sobre essas glândulas... bem... além en-
36 tão em relação também quanto ao número... há casos de::–muito raros– de::
37 amastia... quer dizer... a ausência de mamas... mas é muito raro... entretanto...

288
38 não é tão raro o caso de::polimastia... poli. .como cês sabem... é um número a-
39 lém daquele normal... ou seja ou mais de dois... então a polimastia é mais co-
40 mum... a amastia... não é tanto assim... visto... não é tanto assim encontrado...
(EF-Sa-049)

O trecho citado em (26) corresponde à parte inicial de uma aula de


biologia que começa por uma súmula de itens classificatórios, repassados pelo
professor, a título de recordação de assunto já abordado (l. 1-7). Após essa
introdução, observa-se um primeiro sinal do locutor para o início do tratamen-
to do tópico recortado para a aula ( l. 8: “bom ... então vamos”). Esse início é
ligeiramente protelado pela interposição de uma pergunta à classe, feita pela
professora como um ato indireto de fala para solicitar a atenção dos ouvintes
para o seu discurso ( l. 8-9: “já copiaram o que escreveu...”). A re-abertura do
tópico é destacada por nova incidência do M. bom, conjugada à de outro M. (l.
9: “bom ... vamos começar) e ao recurso de tematização ( l. 9: “região mamá-
ria...”), num tríplice processo de abertura enfática da exposição a ser iniciada,
como matéria central da aula. A entrada propriamente na exposição se dá,
imediatamente depois, pelo padrão de uma formulação tipicamente definidora
(l. 9-10: “... ora nós definimos como sendo região mamária ... a região ocupada
pela glândula mamária”).
Aspecto bastante próximo se dá também na passagem (27), desta feita
com o M. bem (l. 35), que igualmente atesta a decisão do professor para deslo-
car o ponto de centração do aspecto do desenvolvimento diferenciado das glân-
dulas mamárias no homem e na mulher (l. 29-35), para a questão do número de
glândulas e das anomalias de formação no que diz respeito a esse aspecto (l.
35-40). Uma vez mais é visível a compatibilidade do M. bem com os M. de
progressão e de tematização (bem ... além então em relação também quanto ao
número).
Outra instância de abertura promovida pelos M. na estrutura tópica diz
respeito à sua ocorrência no interior de um tópico, dando entrada a porções
menores de informação, integradas no conjunto de referentes que o constituem.
Destaca-se, nessa instância, a operação exemplificadora, visível no se-
guinte fragmento:

(28)
27 (...) É, essa palavra
28 taxionomia quer, refere-se mais ou menos a uma classificação,

289
29 digo mais ou menos porque nós vamos ver qual é a diferença que
30 existe entre uma taxionomia e uma classificação, eu poderia, por
31 exemplo, dividir esta aula em os alunos homen(s) e as mulheres, eu
32 estaria, fazendo uma classificação sem, no entanto, dizer qual é o
33 mais importante, sem, no entanto dizer, qual dos dois é mais completo
34 talvez, os homens dissessem o mais importante não sei, mas mais
35 complexas são as mulheres, bem, eu poderia, dividir a, uma coleção
36 de livros em livros didáticos e não-didáticos, sem, no entanto,
37 dizer que, quais seriam os mais importantes, simplesmente, eu
38 classifiquei, mas eu, isso não acontece quando se faz uma taxionomia
39 então, vamos ver, vamos ajudando, taxionomia é uma classificação
40 mas é mais do que uma classificação.
(EP-POA-278)

A informação focal nesse momento da mensagem é a do estabeleci-


mento do sentido de taxionomia, por oposição ao de classificação. A
exemplificação entra como recurso concretizador da diferença que se busca
estabelecer, e é dada em dois lances: o primeiro (l. 30-35), mediado pelo M.
prototípico da operação exemplificadora ( l. 30-31 –“por exemplo”); o segun-
do (l. 35-40), mediado pelo M. bem, que não define explicitamente a
exemplificação, mas a indicia, delimitando-a simultaneamente como um se-
gundo passo em relação ao segmento anterior.
Ainda na instância intratópica, a atuação funcional dos M. estende-se
às operações de retomada de um ponto de relevância temporariamente suspen-
so, em razão da interposição de informações subsidiárias incidentes na infor-
mação básica que vinha em curso. Essa atuação pode ser vista em passagens
como a seguinte:

(29)
163 Inf.2 - (...) aí está ao lado um pirex todo forrado com queijo
164 fatias mais ou menos de um centímetro, põe aquele refogado ali
165 dentro e tapa, vai ao forno.
166 Inf.1 - Também com queijo.
167 Inf.2 - Hein?
290
168 Inf.1 - Cobre com queijo.
169 Inf.2 - Tapa, é claro, com queijo. Bem, aí vai ao forno / e junto vai
170 também já preparado o arroz que foi feito à parte (...)
(D2-POA-291)

Observa-se no exemplo acima, como segmento inserido, uma seqüência


lateral (Jefferson, 1972): o registro de procedimentos que vinha sendo feito em
cadeia, em consonância com a ordem das ações referenciadas (l. 163-165), sofre
uma suspensão, motivada por um pedido de esclarecimento do interlocutor (l.
166); seguem-se trocas de turnos (l. 166-169), centradas no problema incidental
e, após a solução da questão secundária, o ponto de relevância tópica tempora-
riamente suspenso é retomado, juntamente com o tom encadeado da formulação
(l. 169-170). A coesão anafórica com a instância anterior do discurso é firmada
concomitantemente pelo M. bem, pelo típico M. da sucessividade narrativa aí –
responsável por reestabelecer o feitio de seriação de procedimentos –, e pela
repetição da mesma frase final do segmento suspenso (“vai ao forno”). Instalado
no ponto em que se acha, bem aí se destaca como elemento multifuncional,
atuante a um só tempo como: pontuador do fim da seqüência desviante; sinaliza-
dor do começo da operação de retomada; delimitador de planos diferentes de
relevância informacional, no interior do quadro de referências estabelecido; e
articulador das porções descontínuas da informação focal do tópico.

3. Considerações finais
3.1 – A análise das formas bom, bem, olha e ah, aqui empreendida, pôde reve-
lar a sua condição de M. prototípicos ou bastante próximos da prototipicidade,
atestada pelos traços apurados no conjunto de suas ocorrências. Pôde revelar
também, em concomitância com o preenchimento comum da função geral de
abertura de unidades textuais, aspectos de especificidade entre eles, no tocante à
natureza ou proporção de sua participação na estrutura correlativa pergunta/
resposta, e em outras instâncias de organização do texto falado.
De modo geral, as particularidades identificadas nos diferentes âmbi-
tos remetem ao dado preliminar, visto em 2.1, de que os quatro M. deixam
transparecer traços sêmicos e funcionais diferenciados, como manifestação do
vínculo que sutilmente preservam com as correspontes fontes lexicais homô-
nimas, em formato categorial de adjetivo (bom), advérbio (bem), verbo (olha)
291
e interjeição (ah). Destacam-se, assim, no funcionamento textual-interativo
dos M., nuanças particulares do fenômeno geral de acomodação de traços
sêmicos para a sinalização de relações dentro do espaço discursivo.
Os valores básicos depreendidos nessa ótica revelam que os M., nas
instâncias de abertura em que atuam, recortam diferentemente dados do campo
textual-interativo, ao apontarem seu foco predominantemente para a primeira
pessoa (ah), para a segunda (olha), ou para o plano de uma “não-pessoa”, cor-
respondente aos dados referenciáveis do tópico em centração (bom, bem).
A proeminência dessas direções explica, por exemplo, em respostas
prefaciadas, a natureza predominantemente fática e de auto-monitoramento
formulativo dos preâmbulos abertos por olha e ah – os quais funcionam fun-
damentalmente para manter aberto o canal de interlocução, enquanto se procu-
ra o feitio da resposta propriamente dita –, em contraposição à tônica argu-
mentativo-referencial dos prefácios desencadeados por bom e bem – que cos-
tumam exprimir formas de acerto ou ressalva sobre algum aspecto do tópico
introduzido pela pergunta.
O envolvimento com a “estrutura ideacional” do discurso dá conta tam-
bém do fato de bom e bem monopolizarem, em relação aos demais M., o
campo de atuação na macro-estruturação do texto, demarcando as grandes
partes de uma exposição ou, em plano mais pontualizado, abrindo lances me-
nores de informações integradas na constituição interna de um determinado
tópico. A função seqüenciadora dos M., proeminente nesses contextos, convi-
ve com uma tênue expressão da relação dialógica assentada na consideração
do interlocutor, a quem se destina a sinalização de cada passo da evolução da
informação que vai sendo tecida.
O adensamento do quadro interlocutivo, definido na dinâmica das situ-
ações discursivas, dá conta de momentos de assimilação de ah, e mais espe-
cialmente de bom e bem, a estruturas de forte acento interpessoal, onde se
confrontam as opiniões dos interlocutores sobre um fato em consideração.
Essa estruturas fazem ressaltar, em algumas instâncias, o estatuto
prototipicamente concessivo assumido por bom e bem, na mediação de lances
típicos de consentimentos ou admissões parciais de pontos de vista. Neles, a
sinalização de uma concordância aparente antecipada pelos M., em início de
enunciados, deixa automaticamente implícito um ponto de discordância com o
argumento do parceiro. Essa propriedade confere aos dois M., de abertura,
assim atuantes, a condição de unidades polifônicas, indiciadoras de diferentes
vozes enunciativas reunidas na manifestação verbal do locutor.
292
3.2 – As particularidades textuais-interativas apuradas, se associadas à forma
de distribuição dos quatro M. pelos inquéritos examinados, ganham importân-
cia na revelação de diferenças tipológicas dos textos, segundo o caráter mais
dialógico ou menos dialógico de sua configuração. Vale lembrar, a esse propó-
sito, que, no corpus do Projeto NURC, os inquéritos se dispõem numa escala
decrescente de dialogicidade – aqui tomada restritamente em termos de co-
produção verbal ativa – indo dos inquéritos de diálogo entre dois informantes
(D2), passando pelos de diálogo entre informante e documentador (DID) e
chagando aos de elocução formal (EF).
A qualidade das referidas funções atestadas pelos M. e a distribuição
das mesmas, segundo o tipo de inquérito, sugere um recorte preliminar nessa
escala, que leva a formar um primeiro conjunto com D2 e DID, reunidos por
características comuns que os distinguem de EF.
Assim, D2 e DID se aproximam entre si pela incidência considerável
dos M. mediando estruturas de pares adjacentes pergunta-resposta, que só ex-
cepcionalmente acontecem em EF, quando esta se abre para uma relação dia-
lógica, em intervalos esporádicos de interação explícita implicando trocas de
turnos. Do total de 27 exemplos encontrados, 24 (88,89%) ocorrem em con-
textos de interlocução de D2 e DID e apenas 3 (11,11%) em EF. Sugerindo um
sub-recorte, essa incidência é nitidamente maior em DID (16= 59,26%) do
que em D2 (8= 29,63%), o que se explica não propriamente pela maior inten-
sidade dialógica daquele tipo de inquérito em relação a este, mas, antes, pelo
maior índice da atuação inquiridora do documentador em DID, cujo papel
principal é realimentar constantemente a fala do informante, fazendo pergun-
tas a serem respondidas por ele.
D2 e DID reúnem também o maior número de M. com orientação ar-
gumentativa direcionada à fala do interlocutor: 12 (92,30%), em confronto
com 1 (7,70%) de EF. Neste particular, entre D2 e DID, a incidência já é bem
mais acentuada em D2 (8= 61,54%) do que em DID (4= 30,76%), o que prati-
camente vincula o movimento de concordâncias, de discordâncias parciais ou
totais e de ressalvas, a situações de crescimento da dialogicidade explícita,
mais presente em D2.
Em contrapartida, os textos de EF, que estampam o decréscimo da
interlocução ativa, paralelamente a uma maior concentração no assunto e con-
trole do andamento do fluxo informacional, carreiam uma outra especializa-
ção funcional dos M. Em EF se concentra, assim, a totalidade (13) das ocor-
rências de M. com foco na organização global da informação em tópicos dis-
293
cursivos; esse foco se manifesta pelas indicações relativas ao plano de tessitu-
ra do texto e à abertura formal de tópicos, nas circunstâncias em que esta é feita
fora do contexto pergunta-resposta. Não se incluem nessa totalidade os vários
empregos referidos à estruturação interna do tópico, envolvendo particulariza-
ções do assunto implicadas em seu desenvolvimento, os quais se distribuem
mais ou menos uniformemente pelas três modalidades de inquérito analisadas.

NOTAS
1
As citações dos inquéritos de São Paulo são feitas conforme transcrições publicadas
em Castilho e Preti (1986 e 1987) e Preti e Urbano (1988). As demais seguem transcri-
ções apresentadas em mimeo.
2
Para maiores dados elucidativos sobre as variáveis selecionadas e sobre o elenco de
alternativas dispostas em seu interior, v. Risso, Silva e Urbano (1996).
3
Esse total de ocorrências apresenta-se assim distribuído pelas quatro formas: 24 bom,
11 bem, 15 olha, 14 ah.
4
A preocupação em detalhar esses vínculos reveladores de uma espécie de fundo co-
mum entre as duas instâncias (MD / não-MD), já revelada em outros estudos sobre
marcadores, do Projeto Gramática do Português Falado (Risso, Silva e Urbano, 1996;
Risso, 1993 e 1996), sugere a possibilidade de uma abordagem integrada das formas,
pela qual a descrição gramatical das classes de palavras talvez devesse estender-se às
propriedades textuais atestadas pelos M. Um passo nesse sentido é dado no tratamento
do advérbio, em âmbito inferior, igual e superior à sentença, por Ilari et alii (1990).
5
As passagens de 1 a 4, transcritas no início deste trabalho, oferecem uma primeira
ilustração desse contexto peculiar da ocorrência dos M. em respostas prefaciadas.
6
Não obstante esse torneio imitativo apoiado nos M., por meio do qual os locutores
citantes bucam uma forma de representação do caráter espontâneo do oral, a citação de
falas na interação verbal prossegue geralmente em formato idealizado e acusa a edição
de particularidades de formulação inerentes à oralidade (hesitações, interrupções, entre
outras). (V. dados a esse respeito em Marcuschi, 1992).

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296
ANATOMIA E FISIOLOGIA DOS MARCADORES
DISCURSIVOS NÃO-PROTOTÍPICOS

Giselle Machline de O. e Silva

Equipe auxiliar:
Vasti Rodrigues e Silva
Ana Lúcia Braga Resende
Simone Assafim

Introdução
Ao estudarem os chamados marcadores discursivos (daqui em diante
M.Ds.), Risso, Silva e Urbano (1995) propuseram traços1 a partir dos quais
foram examinados todos os candidatos a M.Ds., isto é, todas as formas que os
autores, seja por experiência, seja por conhecimento bibliográfico, suspeita-
vam serem M.Ds. Esses traços, ao mesmo tempo que os separam de outras
formas, caracterizam-nos como M.Ds. e situam-nos ao longo de um continuum.
A representação gráfica abaixo mostra que os itens estudados distribuem-se
em dois grupos, conforme classifiquem-se ou não como marcadores. O espaço
à esquerda é ocupado pelos marcadores discursivos que incluem tanto os
prototípicos quanto os não-prototípicos. Uma linha vertical pontilhada sepa-
ra-os dos discursivos não marcadores: limítrofes e totalmente rejeitados,
elementos eliminados por não exibirem aqueles traços ou combinações de tra-
ços julgados requisitos indispensáveis.

CANDIDATOS A MARCADORES DISCURSIVOS


MARCADORES DISCURSIVOS NÃO MARCADORES
totalmente rejeitados
M.Ds. prototípicos M.Ds. não-prototípicos Limítrofes
assim (adv)
Né? então assim, etc... por exemplo, digamos que
digamos
O subconjunto denominado M.Ds. prototípicos, assim chamados por
se caracterizarem por traços ou combinações de traços estatisticamente rele-
vantes, inclui aqueles elementos fortemente seqüenciadores e fortemente inte-
rativos. Os primeiros, geralmente situados no início do enunciado, foram ana-
lisados neste volume por Mercedes Risso; os interativos, geralmente no final
do enunciado, foram pesquisados por Hudinilson Urbano. Tratarei aqui de
alguns que não foram considerados M.Ds. típicos, daqui para frente referidos
como não-prototípicos.
O modelo acima é simplificado, já que, por sua vez, as variáveis a que
nos referimos, em sua maioria, são não-discretas. Um melhor modelo seria
talvez uma cadeia, com superposição entre os vários estágios, ou ainda me-
lhor, uma representação como a da propagação ondular.
Este trabalho tratará dos M.Ds. por exemplo, digamos, etc... e assim.
Além de terem sido considerados não-prototípicos, têm uma característica em
comum: todos fazem referência implícita a um conjunto de elementos, como
veremos na parte 3.
Nosso objetivo é determinar quais desses M.Ds. estão correlacionados
à teoria dos conjuntos, que correlações lingüísticas e externas fazem prever a
escolha, por parte de um falante, de um dos elementos desse conjunto em
detrimento dos outros, enfim qual o grau de tipicidade e uso dos mesmos.
Também observaremos atentamente a demarcação entre os M.Ds. não-prototí-
picos, situados de um lado da fronteira, e os limítrofes, situados do outro lado,
com o intuito de, futuramente, desvendar se há e, em havendo, como se dá a
passagem de um lado a outro. Para isso, sempre que possível, cotejaremos os
M.Ds. com as formas limítrofes que parecem exercer as mesmas funções dis-
cursivas. Assim, serão analisadas paralelamente as duas formas: M.D. diga-
mos e limítrofe digamos que; (todas) essas coisas versus (tal) e coisa, etc...
Essa comparação permitirá uma caracterização mais profunda do continuum e
poderá trazer luzes quanto à origem dos M.Ds. Por fim, vale lembrar que a
forma assim, que se distingue das listadas acima, por não dispor de uma con-
trapartida limítrofe e por abrigar estatutos categoriais e funções distintas –
uma enquanto M.D. e outra enquanto advérbio – também será investigada
criteriosamente
Finalmente, investigaremos a colocação sintática dos M.Ds. aqui anali-
sados dada a relevância desta variável, vislumbrada em Tarallo e Kato (1992),
Kato e Tarallo (1993) e detalhada por Silva, Tarallo e Braga. Enquanto os dois
primeiros trabalhos mostravam que os elementos discursivos, de modo geral,

298
ocupavam as fronteiras de constituintes das margens esquerda e direita, o último
sustentava que os diferentes M.Ds. ocupavam um “nicho” preferencial, seja à
direita seja à esquerda. Assim, porém, distinguia-se deles por ocupar outras fron-
teiras de constituintes e também por se colocar fora delas. Seriam justamente os
menos prototípicos os que ocupariam essas posições não marginais?
O corpus utilizado inclui 18 entrevistas completas e, para melhor equi-
librar o tipo de entrevista quanto ao sexo/gênero do falante, acrescentaram-se
ao corpus compartilhado as entrevistas DID, SA no100; EF, RJ no 364 e D2, SP
no333.

1. Não prototipicidade
Nesta parte resumiremos as razões pelas quais a maioria dos M.Ds. a
serem tratados aqui foram considerados não-prototípicos em Risso, Silva e
Urbano.
Dissemos acima que alguns traços (agrupados em variáveis), ou me-
lhor ainda, combinações de traços, foram julgados mais relevantes do que ou-
tros e que uma das variáveis mais pertinentes foi o tipo de articulação com os
segmentos do discurso. Essa variável (variável 2) compreendia três traços: O
traço 0 caracterizava os não-seqüenciadores, isto é, aqueles M.Ds. que pouco
ou nada têm a ver com a articulação dos segmentos do discurso (né?, enten-
de?, etc...): 47,0% de todos os elementos discursivos que foram, num primeiro
momento, candidatos a M.Ds. incluíram-se nessa rubrica. O traço 1 foi atribu-
ído àqueles candidatos a M.Ds. que promoviam a organização tópica do dis-
curso (como agora e então): 47,8% foram inseridos nesse grupo. Em 2, foram
agrupados os candidatos a M.Ds. que tinham, nesse particular, certa semelhan-
ça com advérbios e conjunções, ajudando na organização da estrutura frásica.
A esse grupo pertenceram apenas 5,1% de todos os candidatos. Observa-se,
portanto, que este último traço abriga poucos M.Ds. O M.D. assim, quanto a
essa variável, recebeu o traço 0, insuficiente, por si só, para descaracterizá-lo
como M.D. prototípico, pois, como dissemos, são as combinações de traços, e
não os traços de per si, que serviram de critério para eliminar certas formas. Os
demais M.Ds. a serem considerados aqui, como: por exemplo, etc..., e diga-
mos receberam o traço 1.
Outra variável bastante importante para a ordenação dos M.Ds. ao lon-
go do continuum foi a orientação (modo e grau) da interação. Receberam o
traço 0 (então, primeiro) os fragilmente orientadores, isto é, aqueles que sina-

299
lizam fraco envolvimento dos interlocutores, funcionando o enunciado em que
ocorrem como os enunciados sem-M.D. (desnecessário recordar que num evento
conversacional não teria sentido, por definição, existir orientação interacional
realmente nula). Apenas 17,9% dos candidatos a M.Ds. classificaram-se como
tal. O traço 1, secundariamente orientador, foi atribuído às formas através das
quais o falante tenta envolver, embora indiretamente, seu interlocutor ou ava-
liar subjetivamente significações proposicionais (agora – quando claramente
sinaliza haver uma guinada em seu discurso –, bom – quando sinaliza haver
aparente concordância inicial, seguida de pontos polêmicos, etc...). Dos candi-
datos a M.Ds., 44,7% foram considerados como secundariamente orientado-
res. Finalmente foram codificados com o traço 2 os basicamente orientadores,
aqueles que marcam um processo de relação interpessoal explícito, como nos
requisitos de apoio discursivo (né, entende? etc...) ou naquelas formas de 4a
pessoa (digamos) (37,5%).
Nota-se, entre as duas variáveis mencionadas até agora, certa distribui-
ção complementar: as formas altamente pontuadas quanto à articulação serão
baixamente pontuadas quanto a envolvimento. O M.D. menos típico é aquele
classificado com o traço 0 quanto à interação. Serão examinados, à luz dessa
variável, os que supomos de início fracamente M.Ds.: dos tratados aqui, so-
mente a etc... foi atribuído o traço 0; assim e por exemplo foram codificados
como sendo 1; digamos e vamos dizer como 2, já que tentam, com a 4a pessoa,
envolver o interlocutor. Da interrelação dessas duas variáveis formam-se as
combinações abaixo (com as respectivas freqüências):

ARTICULAÇÃO
INTERAÇÃO não-seq. 0 seq. tópico 1 seq. frasal 2 totais linha
frágil 3/1169= 0,26% 208/1169=17,79% 339/1169=29,00% 550/1169=
0 etc... 0% 47,05%
secund. 205/1169=17,54% 257/1169=21,98% 97/1169=8,30% 559/1169=
1 por exemplo assim 47,82%
básica 1/1169= 0,09% 57/1169= 4,88% 2/1169=0,17% 60/1169=
2 digamos 5,13%

Pelo critério da ação combinatória, vê-se que os M.Ds. digamos e assim


já se situam numa combinação de freqüência baixa (0,09% e 8,30%, respectiva-
mente), atípica portanto. Os demais continuam na sua luta pela sobrevivência
entre os M.Ds. Algumas variáveis só serviram para separar os M.Ds. dos não-

300
M.Ds., sem distribuir típicos e não típicos pelo continuum. Entre elas, está a
variável 01, que diz respeito à freqüência do M.D., seu padrão de recorrência.
Todos os M.Ds., mesmo os supostamente não-prototípicos constantes deste pre-
sente trabalho, têm o traço 3 correspondente ao mais alto padrão de recorrência.
A quarta variável – relação do M.D. com o conteúdo proposicional,
isto é sua relação com a informação conteudística do enunciado – tampouco
serviu para distinguir M.Ds. de não M.Ds. ou para diferenciar a os M.Ds. em
pauta dos demais, os mais típicos. Com relação a esta variável, todos os M.Ds.,
ou pelo menos 91,8% deles, típicos ou não, se comportam do mesmo modo,
isto é, são exteriores ao conteúdo, ao contrário de formas como eu conside-
ro..., faz isso, faz não sei que, eliminadas do rol dos M.Ds.
Outra variável imprópria para distinguir os não-típicos é a transparên-
cia semântica que tenta verificar o grau de afastamento do M.D. da forma que
provavelmente lhe deu origem. Haviam sido considerados quatro graus: se-
manticamente opacas (traço 0), isto é, formas que não deixam transparecer seu
sentido gramatical, previsto pelas gramáticas, ou lexical, previsto pelos dicio-
nários. Os graus 1 e 2 (respectivamente parcial e totalmente transparentes) se
afastam progressivamente desse grau 0. Entre os postulantes a M.Ds., 53,4%
receberam o traço 1, transparência parcial e 36,0% receberam traço 2, transpa-
rência total. Os M.Ds. mais típicos se caracterizariam pela transparência par-
cial. Ora, analisando à luz desta variável os M.Ds. que estamos tratando aqui,
vemos que assim se comporta adequadamente, mas digamos, etc... e por exem-
plo são mais transparentes do que se esperaria de típicos M.Ds.
A variável seguinte (06) trata da apresentação formal, isto é, da varia-
bilidade das formas. Com efeito, espera-se que um M.D. esteja sob forma
estereotipada e que, por conseguinte, seja pouco ou não variável. Foram atri-
buídos os traços 1 para forma única e 2 para forma variante. Os resultados
apontaram para uma distribuição aproximada de 50% entre as duas freqüên-
cias2, não nos servindo agora, portanto, como traço distintivo. Das formas aqui
analisadas, assim foi classificado como uma forma única e os demais como
tendo formas variantes digamos (digamos assim); etc... (etc... e tal), por exem-
plo (como por exemplo).
Quanto à relação com a estrutura sintática da oração (variável 07), os
M.Ds. são considerados, particularmente por Schiffrin (1989),3 como sendo
sintaticamente independentes (traço 1). Nossos resultados ratificam esta hipó-
tese: 86,9% dos candidatos a M.Ds. ao qual essa variável se aplicava4 foram
codificados como tal, evidenciando a força desse traço.

301
A demarcação prosódica é variável para cada forma e cada realização
pode exibir ou não uma demarcação. A tendência é de que os M.Ds. sejam
demarcados (68,9%). Veremos o comportamento dessa variável quanto a nos-
sos M.Ds. não-prototípicos quando da sua análise individual.
A autonomia comunicativa indica a possibilidade das formas poderem
(traço 1) ou não (traço 0) constituir enunciados proposicionais em si próprios.
Os resultados mostram que apenas 3,8% das formas então analisadas eram
autônomas. Estes 3,8% não incluíam os marcadores objeto da análise em pauta.
A quantidade de massa fônica foi incluída como variável na crença de
que os M.Ds. tendem a perder essa massa que, conseqüentemente, se tornaria
parca. Com efeito, é freqüente a redução desde a fonte até o M.D., haja visto
não é? e né?. Receberam o traço 1 os candidatos com até três sílabas tonaicas
e o traço 2 aqueles com mais de três. Os resultados evidenciaram o acerto
dessa hipótese: a 96,7% dos candidatos foi atribuído o traço 1 e os M.Ds. que
nos propusemos a estudar passaram garbosamente por essa variável.
Em resumo, examinando a possibilidade das diferentes combinações
suscitadas pela alternância entre os traços 0 e 1 na variável 02 (articulação de
segmentos do discurso), 0, 1 e 2 na variável 03 (orientação da interação) e 1 e
2 na variável 06 (apresentação formal) formam-se matrizes, teoricamente pos-
síveis, de combinações fortes. Essas combinações serão examinadas agora e
eventualmente atribuídas aos nossos M.Ds. para que, finalmente, decidamos
se são prototípicos ou não. No quadro abaixo, as matrizes estão dispostas em
combinações de a a l. Nossos M.Ds. estão dispostos na parte de baixo da com-
binação mais aproximada, com a(s) codificação(ões) discrepantes. Observa-
se, nesse quadro, que os M.Ds. examinados sofreram pequenos deslizes em
alguns traços, situando-se, pois, no continuum entre os típicos e os limítrofes,
mas ainda no campo dos M.Ds., como foi sugerido no gráfico da p.1, que
representa o continuum.

302
VARIÁVEIS
01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 M.D.

COMBINAÇÕES 3 1 1 1 1 1 1 1 0 1
FORTES e 2 assim
seus deslizes

a)

b) 3 1 2 1 1 1 1 1 0 1

c) 3 1 0 1 1 1 1 1 0 1

d) 3 1 1 1 1 2 1 1 0 1

2 por
exemplo

e) 3 1 2 1 1 2 1 1 0 1

f) 3 1 0 1 1 2 1 1 0 1
2 etc...

g) 3 0 1 1 1 1 1 1 0 1

h) 3 0 2 1 1 1 1 1 0 1

i) 3 0 0 1 1 1 1 1 0 1

j) 3 0 0 1 1 2 1 1 0 1

k) 3 0 1 1 1 2 1 1 0 1

l) 3 0 2 1 1 2 1 1 0 1
25 2 digamos

2. Variáveis comuns a dois ou mais M.Ds. – Descrição


Consideramos nesta parte algumas das variáveis compartilhadas pelos
M.Ds. aqui abordados. Os resultados correspondentes a elas serão apresenta-
dos na parte dedicada a cada um. Mais do que meramente querer descrever os
M.Ds. menos prototípicos, interessa-nos compará-los entre si.

303
Para verificar se os M.Ds. aqui analisados estão ligados a dificuldades
de processamento e se os elementos a que se referem são ou não prototípicos,
investigamos-se três variáveis: a subjetividade e a concretitude do trecho ante-
rior e/ou posterior e a coocorrência de descontinuidades nas proximidade.

2.1 A variável objetividade do assunto visava a verificar se:


i – Estaria o assim e o digamos precedendo enunciados subjetivos?
Uma resposta afirmativa constituiria uma evidência de que estes M.Ds. exer-
ceriam a função de pausa preenchida, facultando ao falante um certo tempo
para processar um enunciado mais laborioso, e argumentaria a favor da não
prototipicidade dos elementos regidos por eles.
ii – Tentaria o falante objetivar mais sua argumentação subjetiva citan-
do exemplos mais objetivos? A hipótese subjacente era a de que um enunciado
mais “difícil” de ser formulado deveria suscitar mais reformulações e hesita-
ções, e de que um enunciado subjetivo é mais “difícil” de formular do que um
objetivo. Como a “dificuldade” de um enunciado é inescrutável, foram usados
subterfúgios para tentar alcançá-la. É difícil traçar o limite entre objetividade e
subjetividade e, até onde se saiba, o uso desse conceito como aqui concebido
não é usual em trabalhos lingüísticos. Foi, entretanto, utilizado com sucesso
em Silva e Macedo (1989) a propósito do assim, demonstrando que de acordo
com a hipótese, esse M.D. tendia a sinalizar contextos posteriores subjetivos.
Para aferir a “objetividade” valemo-nos dos seguintes critérios:
a) Foi julgado objetivo um enunciado descritivo ou de procedimento
que, além de ter sido apresentado de forma fria e técnica, não acrescentava
nenhuma opinião, nem comentário pessoal, enfim um enunciado que se referia
ao mundo físico, exterior ao falante. Considerou-se ainda como enunciado
objetivo aquele que não apresentava elementos anteriores nem posteriores que
viessem a indicar algum grau de subjetividade, tais como verbos modais, ex-
pressões como “em termos de”, “uma espécie de” etc...):

(2.1) Eu gosto muito de coisa misturada assim com azeite de dendê


(DID, RJ-328, token 366)

b) Foi considerado como subjetivo o enunciado em que o falante expri-


mia suas opiniões, sentimentos e anseios, ou aquele em que o conceito era
expresso por meio de adjetivos que remetem a quantidades imprecisas, depen-
304
dentes de avaliação pessoal (grande, pequeno) ou de qualidades (bom, gosto-
so) – que, de certo modo, são também opiniões –, enfim aquele enunciado que
se referia ao mundo interno do falante. No exemplo seguinte, o que é “aromá-
tico” e agradável para uns, pode ser horrível para outro:

(2.2) Então fica assim aromático [5]


(D2-PoA-291, t. H140)

Para verificar se realmente existia uma correlação entre o maior uso de


M.Ds. e a subjetividade do enunciado, optamos por examinar previamente a
distribuição de peças de informação subjetiva e objetiva ao longo do texto, em
enunciados sem marcadores. Para tal, estudamos uma amostra constituída por
uma página de 4 entrevistas DID (aproximadamente 20 enunciados em cada
uma). O levantamento do grau de subjetividade/objetividade do segmento
após o verbo, posição usual dos nossos M.Ds., mostrou um predomínio de 48
enunciados objetivos (48/78 e 30=38,5%).
2.2 – Ainda com o mesmo espírito de aferir a prototipicidade do(s)
elemento(s) referido(s) pelo M.D. (quando substantivos, acompanhados ou
não de adjetivos), mediu-se a concretitude desse(s) elemento(s). Foram con-
siderados concretos aqueles que, segundo Mira Mateus et alii (1989), desig-
nam “objeto físico, animado, localizado (ou pelo menos localizável) espacio-
temporalmente, com propriedades perceptuais directamente observáveis” (ex.
2.1). O rótulo abstrato foi aplicado àqueles que, ao contrário, são não-palpá-
veis, àqueles que se mantêm no nível das idéias (2.3).
2.3 – Ainda para tentar circunscrever o grau de dificuldade experimen-
tado pelo falante na sua enunciação, foi medida a presença de outras possíveis6
marcas formais de dificuldade, coocorrendo na proximidade do M.D., tais como
hesitações, gagueiras e repetições não estilísticas. O que foi considerado “pro-
ximidade” variou para cada M.D. e dependia de suas peculiaridades.
Quantificaram-se as descontinuidades anteriores e posteriores ao elemento.
Parecia-nos que as dificuldades no processamento, por exemplo a dificuldade
em encontrar de imediato um termo necessário à codificação de uma peça de
informação, deixariam seus vestígios no texto. As descontinuidades só teriam
razão de ser durante o processamento do termo procurado, portanto antes de
sua enunciação. Há, entretanto, que se comparar esses vestígios anteriores com
os posteriores, posto que descontinuidades existem no texto todo, em maior ou
menor profusão.

305
(2.3) Agora:: eh nos assim na na nossa minha faixa de idade eu tenho impressão
que o pessoal ainda é pelos filmes mais... que antigamente:: existiam mais os
filmes bons.
(DID-SP, l.008)

2.4 – Para a maioria dos M.Ds., a intuição e os estudos anteriores suge-


riam a existência de uma correlação entre o tipo de M.D. e o status informacio-
nal da seqüência em que ele está articulado. Esse status tem sido analisado a
partir das categorias de Prince (1992) ou de Chafe (1994) A tipologia da pri-
meira é basicamente textual e compreende três tipos de entidades: novas, enti-
dades que ainda não ocorreram no texto; evocadas, entidades já mencionadas
previamente; e inferíveis, entidades que se depreende facilmente de outras
presentes no texto prévio (2.4). Já Chafe tem uma fundamentação cognitiva e
refere-se a referentes dados, novos e acessíveis. Para um estudo quantitativo,
consideramos a proposta de Prince mais operacional, daí nossa opção pela
mesma. Com relação a este grupo de fatores, nossa hipótese era a de que, em
um enunciado sobre tópicos não totalmente dominados pelo falantes, haveria
mais possibilidade de hesitação, daí o maior uso assim e digamos, por exem-
plo. Investigamos ainda se a informação precedia o M.D. (expansores), se-
guia-o (assim, digamos) ou circundava-o (por exemplo).

(2.4) Eles fazem um molho com pimenta muito gostoso, se bem que é muito
forte, né? A gente sente assim aquele gosto muito picante.
(DID RJ-328, token 403)

Nesse enunciado, o gosto picante já estava implícito por ser inerente à


pimenta e a muito forte.
Como foi verificado posteriormente que as informações inferíveis e as
evocadas se comportavam analogamente, foram amalgamadas em um só fator.
2.5 – Conforme já foi dito, o estudo do lugar onde se situa o M.D. é um
dos objetivos desta fase da análise. Pioneiros no estudo dos M.Ds., Castilho
(1986) e Marcuschi (1989) chamaram a atenção para a preferência dessas par-
tículas pelas margens direita e esquerda. Silva (1990), por outro lado, nota que
o M.D. assim, longe de ser marginal, situa-se sistematicamente diante de com-
plemento, nunca entre sujeito e verbo, sofrendo, portanto, séria restrição sintá-
tica. Tratando-se aqui de um trabalho de cunho discursivo, cabe justificar por-
que não utilizamos as unidades discursivas como unidades de segmentação,
306
como as preconizadas por numerosos autores, como Castilho (1986), entre
outros. Como os M.Ds. têm freqüentemente contorno entoacional peculiar,
podem servir de marco para a segmentação de tais unidades, chegando até a
poder constituir uma unidade de per si. Parece-nos circular dizer serem os
M.Ds. marginais, se eles próprios servem de delimitação para as margens. A
partir da proposta de Tarallo (1991) e Tarallo e Kato (1992), referida acima,
passamos a utilizá-la em Silva, Tarallo e Braga (1994) com enorme ganho, já
que, utilizando apenas um critério sintático, não há perigo de alegar ser circu-
lar e viciosa a análise da localização dos M.Ds. Nesse último trabalho, os
autores sugerem que cada M.D. pode ter uma fronteira preferencial. Consta-
tam, também, ser possível a presença de alguns M.Ds. fora de fronteira de
constituinte. Verificar-se-á aqui que os M.Ds. em tela ocorrem preferencial-
mente numa fronteira (em qual delas) e, caso contrário, qual a outra localiza-
ção preferencial.7 Por se tratar de M.Ds. não ligados às tomadas de turno, foi
totalmente desnecessário verificar sua localização relativamente ao turno.
Como muitas instâncias não estavam na fronteira, foram previstos para
esses codificações agrupadas em duas variáveis: uma que previa qual a posi-
ção geral ocupada pelo M.D., se tópico, sujeito, complemento (qual) ou adjun-
to; e outra que discriminava mais finamente a posição: entre dois adjuntos
adnominais, entre adjunto adnominal e nome, etc...
2.6 – Com o objetivo de detalhar a entoação dos M.Ds. verificando-se
seu destaque, a pauta entoacional foi subdividida em diversas variáveis: pausa
anterior, pausa posterior, estabilidade da altura, comprimento da última sílaba,
intensidade auditiva, (des)aceleração do ritmo.
Foi também utilizado, numa subamostra de 20 dados de cada M.D., o
programa CECIL, sistema de análise fonética que permite refinar a análise
acústica dos traços suprasegmentais.
A – A pausa, medida de acordo com a metodologia descrita em Silva
(199?), foi considerada relativamente à velocidade média da entrevista.
B – Quanto à altura do(s) último(s) segmento(s) do M.D. relativamente
aos primeiro(s), os padrões encontrados foram:

a) estável, quando não havia percepção de subida nem descida;


b) ascendente contínuo, quando havia uma subida desde o início;
c) descendente quando, pelo contrário, identificava-se uma descida de altura;.
d) ascendente/ estável:

307
como o gráfico indica, esse padrão consistiu em uma subida de altura inicial,
seguida de uma estagnação.
C – A variável relativa ao comprimento da última sílaba é binária, ten-
do sido considerada como alongada apenas a sílaba que oferecesse um alonga-
mento perceptível.
D – A variável intensidade também compreendia dois fatores, que vi-
savam a identificar se o M.D. tinha sido emitido com intensidade inferior à do
resto do enunciado ou não. (Não houve ocorrências de M.D. positivamente
proeminente)
E – A aceleração ou desaceleração do ritmo em que vinha sendo em-
pregado pelo ouvinte foi registrada naqueles M.Ds. em que esse fenômeno era
claramente perceptível em relação às últimas palavras anteriores e às primei-
ras posteriores ao M.D. O M.D. por exemplo foi, no entanto, codificado de
maneira um pouco diversa já que seu padrão consiste em uma aceleração ante-
rior a ele que se prolonga pelo exemplificante.
2.7 – É sabido que alguns M.Ds. tendem a se aglutinar a outros. São
amalgamações comuns aí então, mas então, ah bom, etc... Mencionaremos
como cada M.D. aqui estudado se comporta quanto a essa propriedade.
2.8 – As freqüências gerais foram corrigidas (v.c) de acordo com a
duração de cada entrevista e foi, também, acrescentado o conceito de reparti-
ção. Com efeito, uma freqüência alta poderia refletir uma idiossincrasia do
falante. Já a repartição indica em quantas entrevistas aparece o M.D. Um nú-
mero pequeno confirmaria a idiossincrasia ou, dependendo da variável região,
um regionalismo. Essa variável foi cotada de 1 a 18 (número de entrevistas
analisadas).
Considerando que a linguagem desabrocha durante a interação social,
não poderiam faltar no elenco dos grupos de fatores comuns à análise de todos
os M.Ds. as variáveis sociais sexo e região do informante e ainda o tipo de
entrevista (EF, DID e D2) todas suficientemente conhecidas para dispensar
descrição.

3. Teoria dos conjuntos


Trataremos agora da relação dos M.Ds. etc..., por exemplo, digamos e
assim com a teoria dos conjuntos, pois reivindicamos que todos se referem

308
implicitamente a um ou mais elementos dentro de um conjunto de elementos.
O M.D. por exemplo ilustra tal uso:

(3.1) Em lojas comerciais de artigos diversos,... por exemplo eletrodoméstico, nós


temos o Correia Ribeiro.
(DID, SA l.701)

O falante refere-se a um conjunto de lojas que acha desnecessário ou


difícil identificar por meio de um enunciado explicativo. Certamente, qual-
quer outro estabelecimento comercial (de roupas, sapatos) que não vendesse
produtos alimentícios (já descartados anteriormente no texto), serviria para o
propósito do falante.
No outro exemplo abaixo, da mesma forma, a falante se refere a dife-
renças observadas em peças teatrais.

(3.2) eu tenho notado diferença por exemplo aquele teatro que tem lá na rua dos
Ingleses que passou essa peça essa comédia que nós comentamos eu tenho a
impressão que ela é mais assim ah não tem tanto preparo, tanto eh...
(DID-SP 2 l.230)

Ao invés de dissertar sobre vários tipos de diferença, escolhe, como


ilustração, no conjunto de peças, um dos elementos, uma peça daquele teatro
citado.
Vemos abaixo também um exemplo mais explícito de como o falante
se vale simultaneamente da teoria de conjuntos (e aqui conscientemente) e
desse grupo de M.Ds.

(3.3) então uma firma x precisa de um determinado elemento y por exemplo então
ela diz os::os elementos que eu gostaria... normalmente são dos concorrentes
é de tal tal tal empresa
(D2, SP l.1029)

Em outro enunciado, não encontrando explicitamente um elemento


perfeitamente prototípico que sirva de escala para comparar com “as mais
amplas”, serve-se de vários elementos (as religiosas, as morais) para que seus
alunos expandam o conjunto de elementos éticos, fazendo-se uma idéia do que
ela quer lhes transmitir.
309
(3.4) São as mais abrangentes, as mais amplas, mais do que por exemplo? Isso eu
expliquei... eu acho que na segunda ou terceira aula. Mais do que as religio-
sas, mais do que:: as regras morais etc...
(T-062b/EF, RE)

O M.D. assim também se relaciona à teoria dos conjuntos, sendo usado


enquanto o falante, ao processar seu enunciado, procura, entre os termos de
um campo semântico, o mais adequado elemento de um conjunto aberto pelo
sub-tópico. Esse conjunto se aproxima também ao frame de Minsky (apud
Brown & Fillmore,1983).

(3.5) mas são muitas frutas silves...assim selvagens [1] que eles tiram assim mes-
mo da, da mata.
(DID, RJ 051 31)

(3.6) e, são frutas [2] assim, muito, assim, duras, sabe?


(DID, RJ 063 31)

No exemplo 3.5, a falante abre um campo semântico, no caso um


subconjunto de frutas cultivadas ou não e procura o elemento que melhor con-
venha aos seus propósitos, a descrição das frutas em pauta. Há até um indício
dessa procura já que tinha, provavelmente, iniciado o elemento silvestre, que
foi abandonado:

FRUTAS
selvagens não cultivadas
silvestres

Em 3.6, ela visivelmente procura um elemento adequado entre os


congêneres de dura. Ela certamente teria preferido, dentre os do mesmo cam-
po semântico, um adjetivo que intensificasse melhor a dureza da fruta. Não o
encontrando, enuncia mesmo o dura e ainda pede, com o sabe?, a compreen-
são do ouvinte já que o termo escolhido não lhe parece o melhor.

310
Os dois M.Ds. aparentados digamos e vamos dizer assim também se
referem a elementos de um conjunto no sentido de sinalizarem ao ouvinte a
existência de um conjunto de elementos possíveis, apontar para um, avisando
o seu interlocutor que qualquer um dos elementos próximos a ele teria igual-
mente servido ao seu propósito comunicativo, não havendo, portanto, nenhum
compromisso de sua parte com esse elemento mais do que com outro. Ancora-
do na 4a pessoa, persiste, no uso enquanto M.D., uma referência ao interlocu-
tor, buscando torná-lo cúmplice e acentuando seu não comprometimento.
O M.D. etcétera também se refere a elementos de um conjunto. O fa-
lante cita alguns deles esperando que o ouvinte entenda e generalize o conjun-
to desejado. Com esse M.D. e valendo-se de apenas uma palavra, o falante
leva o interlocutor a fazer uma síntese do resto dos demais elementos. Devido
a esse aspecto é algumas vezes chamado de sintetizador. Funciona à seme-
lhança de expressões explícitas que podem finalizar uma enumeração, como a
do final de (3.7), em que o falante se refere ao conjunto após já ter citado seus
elementos:

(3.7) há possibilidade dependendo...do grau de conhecimento... de um juiz... de


um advogado...de um promotor... enfim de um profissional de direito.
(EF, SA l. 112)

Por outro lado, indica também que o conjunto se expande além dos
poucos elementos citados. Por esse motivo, será aqui tratado como expansor.

4. Os M.Ds. Expansores
Nesta seção analisaremos o M.D. etc..., sua outra possibilidade de rea-
lização etc... e tal e ainda as formas e tal e coisa, e tudo (o) mais, e numerosas
outras, quando também consideradas M.Ds.8. Paralelamente, serão estudadas
formas que desempenham a mesma função mas que foram consideradas como
limítrofes.
Vimos, na parte 1, que algumas propriedades do etc... (e das similares)
o caracterizavam como M.D. não-prototípico. No decorrer desta segunda eta-
pa, consideraremos a variável 07 – relação sintática com a estrutura oracio-
nal –, que distribui os elementos em pauta em dois subgrupos, conforme sejam
sintaticamente dependentes ou não. Os primeiros situam-se ao lado dos

311
limítrofes, já que a dependência sintática pesou fortemente, por ser um traço
eliminatório.
Esse estudo sobre os expansores se calca nas hipóteses iniciais de que:
i) nas enumerações, a maior dificuldade do falante em arrolar os mem-
bros que constituem um conjunto pode propiciar a ocorrência de expansores;
ii) independentemente da dificuldade, o falante não utilizaria expansores
se o tópico ilustrado pela enumeração fosse considerado relevante.
A análise se baseará, portanto, primordialmente em variáveis que tenta-
rão abeirar-se tanto do grau de dificuldade, quanto da relevância do tópico em
que está inserida a enumeração. Dissemos: “tentar abeirar-se” pois temos total
consciência da impossibilidade de aferir, exata e objetivamente, o grau de difi-
culdade quando de enumeração e hierarquização dos elementos de uma lista.
Verificou-se, após a primeira análise desses M.Ds., que não bastava a
análise do expansor propriamente dito, mas que se tornava necessário certa
análise dos elementos que o precedem. Algumas das variáveis dizem, pois,
respeito ao tipo de enumeração dos elementos do conjunto. Dada a definição
de enumeração, pensávamos haver pelo menos dois elementos antes de um
possível expansor. Deparamo-nos, no entanto, com formas de expansores após
a citação de apenas um elemento (4.1)

(4.1) o sexo na Suécia todo mundo fala normalmente...não tem problema... discu-
te-se em casa... das... das filhas... da atividade sexual...coisa e tal... de meni-
nas de 12... 15 anos não tem problema
(D2-RJ l.768)

Considerou-se, então, que a enumeração seria a estrutura indispensá-


vel para a ocorrência de um expansor, mesmo que ela se reduzisse a um só
elemento. O inverso nem sempre ocorre: uma enumeração pode conter ou não
um expansor (cf. 4.2).

(4.2) Doc. E o que que se cultivava na fazenda?


Inf. Bom...ahn::até hoje se cultiva apenas eu hoje eu estou afastado do::...do
habitat...(riu) mas::cultivava milho... cana de açúcar...e:: culturas que::
quer dizer não eram constantes culturas anuais... que se renovavam...
por exemplo algodão... e::... depois plantava-se também às vezes
eucaliptos...
(DID-SP l.38)

312
Priorizou-se entretanto o estudo das enumerações em que ocorreu um
expansor, já que a ênfase dada a essa pesquisa se concentra nos M.Ds.
Tendo identificado a enumeração e o M.D. (ou o limítrofe) que a encer-
ra, ainda há, em alguns casos, uma outra dificuldade, principalmente em enu-
merações curtas: a delimitação do escopo do M.D. Nem sempre há pistas ca-
bais. As mais comuns são curvas entoacionais peculiares e paralelas para to-
dos os elementos. Por vezes, a utilização da mesma estrutura formal quando da
listagem de cada membro (o que é aqui chamado de paralelismo (Hilgert, 1989)),
pode, eventualmente, fornecer pistas. No exemplo a seguir, aponta-se para
duas possibilidades de interpretação (a e b):

(4.3) Aí, pronto, tem as lanchonetes,


esses bares de
esses barzinhos da orla marítima
e tem os cinemas (est) não é?
tem os clubes sociais, que nós podemos
pode-se...geralmente
há reuniões entre os amigos,
a) etc. e tal
b) etc. e tal
E durante a noite, não se fala, né?
(DID, SA l.789)

Na interpretação a), o conjunto inclui os tipos de lazer: clubes sociais,


cinemas, barzinhos de reuniões. Em b), o conjunto seria do tipo de reuniões:
entre amigos, colegas, parentes. Nem a entoação, nem o paralelismo elucidam
bem a questão. A incidência desse M.D. parecer constituir dificuldade para o
analista; não, porém, para o ouvinte: nunca foi encontrado nenhum pedido de
esclarecimento por parte do último. É bem verdade que a maioria das enume-
rações com expansor, e justamente aquelas com expansor de âmbito duvidoso,
foi classificada como irrelevante.
Esse âmbito do expansor foi de suma importância, já que, freqüente-
mente, do escopo dependeu toda a codificação, até mesmo a decisão de ser
sintaticamente independente ou não, isto é, em última análise, a decisão de ser
M.D. ou limítrofe. Veja-se por exemplo:

313
(4.4) ele passava a incorporação
saia vendendo cotas de terreno
a) isso tudo
b) isso tudo
c) isso tudo
(D2-RJ l.551)

Em a), o “isso tudo” remeteria à oração “saía vendendo cotas de terre-


no”; em b), a “de terreno” (cotas de clube...); em c), ao verbo “saia” (anuncia-
va...). Se não fosse, no caso b), haveria provavelmente uma preposição (disso
tudo) paralelamente repetida, e no caso c), um verbo.
Os aspectos considerados a seguir avaliarão a motivação que leva ao
uso ou não de um expansor9. Como já foi dito, numerosos expansores e formas
limítrofes podem desempenhar a mesma função. Listam-se abaixo as formas
encontradas, agrupadas em núcleos em volta de TUDO (cf.4.4), COISA (4.1),
TAL (4.13), SEI e, naturalmente, o próprio ETC... (4.8):

M.Ds LIMÍTROFES
N. % N. %
a) etc...
etc. e tal
etc.etc..
Total 22/62 35,5 0

b) isso tudo
tudo
tudo (o) mais
tudo isso
todo esse negócio
esse negócio todo
Total 15/62 24,1 1/8 12,5

c) e tal e coisa
tal
Total 6/62 14,5 0

d) não sei (o) que (tatata)


mais não sei (o) que
Total 7/62 11,3 3/8 37,5

314
e) essas coisas
outras coisas interessantes
uma coisa e outra
por aí e coisa
coisa e tal
qualquer coisa assim
umas coisas assim
Total 6/62 9,7 3/8 37,5

f) e por aí vai afora


nada disso
tatata
Total 3/62 4,8 1/8 12,5

A grande diferença entre as porcentagens apresentadas pelos diversos


M.Ds. e pelos diversos limítrofes, além do pequeno número destes últimos,
deve-se ao fato do etc... nunca exercer nenhuma função sintática, não poden-
do, portanto, ser classificado como limítrofe. Como esse foi o critério para a
separação de M.Ds. e limítrofes, criou-se um desequilíbrio quantitativo entre
os dois lados.
Com o objetivo de aquilatar sua inserção no enunciado (Dubois, 1992),
inserção essa curiosa para um M.D., foi analisada a presença (4.5) ou ausência
(4.1) de conjunções imediatamente anteriores ao expansor. A forma etc... foi
considerada sem conjunção, malgrado sua fonte, exceto se aparecesse explici-
tamente com ela como em:

(4.5) o dia que você der autonomia financeira aos colégios... aos diretores e etc...
(D2-RJ l.1271)

A grande proporção de expansores sem conjunção (39/62=62,9%) deve-


se, em parte, à grande quantidade de etc. Mas, mesmo que fossem retiradas as
22 formas cujo núcleo é etc..., ainda haveria 16 ocorrências sem conjunção.
Das formas limítrofes 4/8=50% vêm sem conjunção. Não há pois diferença
relevante. Dubois (1992) encontrou um número mais baixo sem conjuntores
no Québec (42%), o que se deve provavelmente ao menor número de etc...
O paralelismo, como observamos previamente, ajudava a delimitar o
âmbito do expansor. Para avaliar sua atuação, propusemos uma variável com
três fatores: sem paralelismo, paralelo e misto. O rótulo do primeiro fator é

315
auto-explicativo, dispensando, conseqüentemente, maiores comentários. O
segundo identificava aquelas enumerações em que havia repetição de estrutu-
ras, independentemente das alterações que pudessem sofrer no decorrer do ato
de fala. O terceiro remetia ou à repetição de um item muito pequeno ou a uma
lista com poucos elementos paralelos.10
Os resultados estão expostos na tabela seguinte, mas sua interpretação,
correlacionando o paralelismo ao maior ou menor uso de expansores, deman-
dou a comparação de paralelismo em uma amostra de enumerações sem essas
partículas. Vê-se, na tabela abaixo, que há menos paralelismo naquelas enu-
merações com M.Ds. e limítrofes. Sabendo-se que as enumerações sem
expansores são, via de regra, mais relevantes para o tópico em que estão inseridas
(o que será visto adiante), cruzaram-se as variáveis relevância e paralelismo.
Os resultados mostram que as enumerações relevantes tendem a ser mais para-
lelas (7/11=63,6%). Os índices percentuais para as não paralelas ou fracamen-
te paralelas, no que diz respeito à relevância, são bem mais inferiores
(15/35=42,8%).

M.D. Limítrofes Enumer. sem M.D. nem


limítrofe.
Nenhum paralelismo 25/42=59,5% 3/4=75,0% 20/54=37,0%
pouco ou paral. misto 7/42=16,7% 12/54=22,2%
paralelismo 10/42=23,8% 1/4=25,0% 22/54=40,7%

Para analisar a relevância da enumeração, face à seqüência tópica em


que estava inserida, valemo-nos dos seguintes fatores:
a) Relevante – Consideraram-se relevantes as enumerações a serviço
de tópicos que o falante julga essenciais, a ponto de prosseguirem no decorrer
da entrevista, ou seja, tópicos retomados, explorados, expandidos. Ou que res-
pondem diretamente à pergunta do documentador (4.2). Este conceito corres-
ponderia aproximadamente ao de figura, nas narrativas. Nas EFs, quando a
enumeração é justamente o tema da aula, relevante portanto mesmo que seja
inferível ou velha, mesmo que óbvia, o professor, por motivos didáticos, se
acha obrigado a ser redundante, enumerando todos os elementos, como em
4.6, em que não poderia haver outras paredes, nem menos do que essas.

(4.6) ... tendo essa região, portanto, a forma também quadrilátera, apresentando a
mesma...as mesmas paredes que o mediastino anterior, ou sejam seis pare-

316
des: anterior, posterior, superior e inferior e as duas laterais, a lateral direita e
a lateral esquerda.

b) Não Relevante – Foi considerada não relevante uma enumeração


introduzida em forma de exemplo, para ilustrar o assunto predominante, po-
dendo claramente ser omitida sem muito prejuízo para a compreensão, como
no exemplo abaixo onde o acidente possível entrou fortuitamente no discurso.
Corresponderia aproximadamente ao conceito de fundo, nas narrativas.

(4.7) É a rede de... de eletricidade, esses fios de alta tensão, que ficam suspensos;
quer dizer, é arriscado, não é, (rindo) a ter um... como de vez em quando
acontece, tem acidentes, né, um fio daquele parte por aí e coisa.
(L.551/DID masSA)

A hipótese subjacente a essa variável é que quanto mais relevante a


enumeração menos partícula de expansão haveria, pois os elementos adquiri-
riam importância de per si, excluindo o uso do elemento coringa. Veja-se o
exemplo 4.8, mais abaixo: não teria cabimento o falante fornecer o primeiro
elemento “os colonos” e sintetizar com e tal sonegando a informação pedida.
Observem-se os resultados abaixo:

M.Ds. Limítrofes Enumer. sem M.D. nem


limítrofe.
não relevantes 32/62=51,6% 4/8=50,0% 10/54=19,0%
relevantes 30/62=48,4% 4/8=50,0% 44/54=81,0%

A tabela acima mostra que os M.Ds. e os limítrofes exibem a mesma


percentagem e que as enumerações com expansores tendem a ser menos rele-
vantes. A enumeração, se relevante, tenderá a dispensar os expansores.
A disposição dos elementos que caracterizam uma enumeração (ento-
nação, pausa, presença de um quantificador ou de uma conjunção entre os
elementos) levou à classificação da mesma em aberta ou fechada. A inclusão
desta variável partiu da hipótese de que as enumerações abertas deveriam ter
menos partículas de extensão, já que o fechamento faz prever que já foram
enumerados todos os elementos do conjunto, não havendo motivos para citar
mais algum nem expandir o conjunto com expansor:
317
a) Aberta – Consideraram-se enumerações abertas aquelas cujos ele-
mentos não são limitados nem por conjunção (e/ou/também) nem por qual-
quer outro elemento delimitador ou quantificador. Não é de conhecimento ge-
ral que seja fechada, como no exemplo (4.9, abaixo).
b) Fechada – Considerou-se fechada toda enumeração limitada por con-
junção (e/ou/também) e/ou por elemento quantificador (como em (4.8)) ou
ainda que seja de conhecimento geral que seja fechada, como seria o caso da
enumeração dos planetas ou dos continentes.

(4.8) Doc. Essas pessoas que trabalham... em fazenda têm um nome especial?
Inf. Não eram chamá/ eram de dois tipos...de acordo com o trabalho... ha-
viam os colonos... e os camaradas
(DID-SP inf.23 l.56)

M.Ds. Limítrofes Enumer. sem M.D. nem


limítrofe.
aberta 25/29=86,2% 4/4=100% 19/50=38%
fechada 4/29=13,8% 0/4=0% 31/50=62%

Nota-se que efetivamente há maior quantidade de enumerações abertas


do que fechadas com expansores (M.Ds. ou limítrofes) ao contrário das enu-
merações sem partículas.
Quanto ao número de elementos da enumeração, foram consideradas
as seguintes possibilidades: conjunto de um só elemento (4.1); de dois (4.8);
de três (4.9); de mais de três (4.10).

(4.9) fui recebido pela empregada... eu... Lina... as garotas e tal


(D2-RJ l.586)

(4.10) parece que o Brasil tem 15 ou 18 impostos... você tem os impostos fede-
rais... estaduais... municipais impostos relativos a impostos ( ) impostos de
mercadorias em relação à produção de circulação...o IPM... o ICM e por aí
vai afora.
(D2-RJ l.719)

318
Esperava-se que o número de partículas de expansão aumentasse à
medida que aumentasse o número de elementos e que tendesse a se estabilizar,
já que, a partir de um certo número de elementos, já estaria definido o conjun-
to, tornando-se então desnecessário continuar. (Confessamos até, que por uma
crença supersticiosa e cultural, achávamos que esse número seria três). Por
outro lado, a limitação de memória poderia tornar difícil uma enumeração
após a citação de alguns elementos. Vê-se pelos resultados abaixo que tal su-
posição não foi referendada pelos resultados estatísticos.

M.Ds. Limítrofes Enumer. sem M.D.


nem limítrofe.
1 elemento 33/62=53,2% 4/8=50,0% ———
2 elementos 19/62=30,6% 3/8=37,5% 5/50=10%
3 elementos 5/62= 8,1% 0/8=0% 20/50=40%
mais de 3 el. 5/62==8,1% 1/8=12,5% 25/50=50%

Ao contrário do esperado, a falsa enumeração, a de um elemento, é a


mais freqüente; o número de partículas de expansão, seja M.D. ou limítrofe,
decai à medida que aumenta o número de elementos, estabilizando-se a partir
de três. Esse resultado torna difícil sustentar a hipótese geral de que a falta de
memória, a dificuldade de processamento, é que fomentaria o uso de expansores,
que se tornaria então um tipo de coringa, cuja função primordial seria a de
substituir elementos esquecidos. É difícil sustentar que a memória comece a
falhar logo após o primeiro elemento: até mesmo os afásicos com anomia
(dificuldade de enunciar nomes, comuns ou próprios) nomeiam alguns, quan-
do se lhes pede que elaborem uma lista de elementos conhecidos como de
animais, flores etc... (Souza, comunicação pessoal).11 O número de elementos
em enumerações sem expansores evidencia que os falantes do NURC não são
tão desprovidos de memória. Mesmo que não se lembrem de todos os elemen-
tos, se a enunciação for relevante, os interlocutores procurarão citar o máximo
de elementos do conjunto, como evidencia o exemplo abaixo em que o falante,
embora sofra estoicamente e confesse várias vezes não lembrar, cita 11 ele-
mentos sem sintetizá-los, frisando que não fechou a enumeração.

(4.11)Doc. De que instrumentos se compõe uma orquestra?


Inf. Bom, tem o piano quando é solista ou também pode ser o primeiro
violino, segundo violino, tem fagote, saxo... saxofone acho que tem

319
também, né? Saxofone, aquele como é que se chama que tocam assim,
xilo... não é xilofone? Ou tem outro nome agora? É uma espécie de
marimba assim, que que mais? Ah! Harpa, tem a harpa, tem aqueles
não sei se é címbalos que se chamam aqueles tambores grandes, como
é que se chamam? Bombo? Não. Eu não sei o nome daqueles... eu vejo
na orquestra, mas eu não sei o nome de todos os instrumentos...fagote,
trombone, não...ah! violoncelo também, viola, tudo isso e alguns... que,
às vezes, eu não me lembro de todos também, né? Deve ter muito mais
(DID-PoA l.441)
A dificuldade que o falante poderia ter tido ao procurar esses elementos
foi correlacionada com o número de descontinuidades antes e entre os elementos
da enumeração, comparando-o com os encontrados após essa enumeração, am-
biente julgado neutro. Não foi constatado resultado significativo: para os M.Ds.
foram encontrados 24/62=38,7% antes + durante a enumeração vs. 20/62=32,2%
após. Para os limítrofes 3/8=37,5% antes + durante e 4/8=50% após. Esses resul-
tados apontam novamente para a inexistência de dificuldade.
Tudo leva, pois, a crer que a relevância ou não da enumeração é mais
fundamental para a presença ou ausência do expansor de que fatores ligados à
memória.
Sempre preocupados com a maior ou menor prototipicidade dos elemen-
tos do conjunto envolvido com o M.D., medimos tanto sua objetividade quanto
sua concretitude. Esperávamos que os elementos de uma enumeração terminada
por um expansor fossem bastante prototípicos, embora não tanto quanto um
exemplo: se o falante usa vários elementos, usa-os porque, provavelmente, não
lhe ocorreu nenhum excelente, totalmente prototípico, que definisse o conjunto.
Daí ter usado outra estratégia que não a exemplificação. A objetividade dos
elementos com expansores (43/62=69,3%) ficou a meio caminho entre, por um
lado, a dos regidos por assim (41,9%) e por digamos (30,2%) (cujos elementos,
veremos, são totalmente não-prototípicos) e, por outro lado, a dos exemplificantes
(94,6%), totalmente prototípicos. A dos expansores limítrofes foi de 6/8=75%.
Da mesma forma, a concretitude foi de 50/62%=80,6%, enquanto a dos elemen-
tos envolvidos com assim foi de 31,3% e com digamos de 39,4%; no outro
extremo, a dos exemplificantes foi de 86,4%.
Acreditávamos que o status informacional dos elementos da enumera-
ção terminada por expansores não exibiria nenhuma correlação significativa, já
que este contexto encontra-se a meio caminho entre a prototipicidade do exem-
plificante, facilmente acessível, e a difícil procura de um elemento novo regido
320
por assim ou digamos. Assim mesmo, aferimos esse status para efeito de com-
paração com os demais M.Ds. O resultado (32/62=51,6) é neutro em relação aos
demais M.Ds.
Quanto à curva entoacional, nem os M.Ds. expansores nem os limítrofes
apresentam características que os façam, de forma sensível, sobressair
entoacionalmente do resto do enunciado, exceto quanto à tendência à curva
entoacional ser descendente (37/95=38,9% dos M.Ds. e 15/32= 46,8% dos
limítrofes). O comprimento da última sílaba é normal, assim como a rapidez e a
força das partículas; o número de pausas anteriores é insignificante. O número
de pausas posteriores é visto no quadro abaixo onde se nota haver menos pausas
posteriores do que se suporia.

M.Ds. Limítrofes
nenhuma 76/95=80,0% 22/32=68,8%
curta 6/95= 6,3% 10/32=31,2%
média 10/95=10,5%
longa 4/95= 4,2%

Com respeito à associação com outros M.Ds., os resultados mostram


que etcétera, os demais M.Ds. expansores e os expansores limítrofes tendem a
se aglutinar entre si, sendo preterida a combinação com outros M.Ds., como foi
visto na extensa lista apresentada.
Todos os expansores, exceto dois situados dentro do complemento, se
encontram em alguma fronteira e são marginais quanto à sua localização, isto
é, ocorrem nas fronteira da margem, à direita (após complemento ou após um
verbo sem complemento). Observe-se a pouca dispersão dos resultados.
90%
80%
70%
60%
50%
40%
30%
20%
10%
0%

f a e d o x

321
As partículas expansoras, mesmo que medidas globalmente, exibiram
freqüência e repartição pequena: respectivamente 62 e 9. É extremamente cu-
rioso e inexplicável o fato de essas partículas terem tantas formas, ao contrário
dos demais M.Ds. Vale ressaltar, todavia, que o número de M.Ds., neste cor-
pus, é inferior ao de outros (cf. nota 8). Seu âmbito de dispersão foi de 0 a 22.
As ocorrências são derrisórias em DIDs (0,7 por hora), sobem em flecha em
D2 (7,0 p.h.) e ocupam posição intermediária nos EFs (2,0 p.h.). A explicação
pode ter a ver com uma idiossincrasia aliada a um regionalismo de duas entre-
vistas D2 (RJ e SP), que sozinhas perfazem 42/62=67,7% de todos esses M.Ds.
Descartamos uma explicação que recorra apenas à idiossincrasia, porque os
dois falantes de cada uma dessas duas entrevistas usaram com equilíbrio, res-
pectivamente, (incluindo os limítrofes):14, 10, 13 e 10 instâncias. Não há cor-
relações significativas com o gênero (3,8 p.h. para os homens e 4,0 p.h. para as
mulheres). Damos a seguir a curva relativa às regiões, onde se observa haver
um hipocentro na região sudeste:
8

0
Re Sa RJ SP PoA

Resumindo, notamos que o uso da partícula de expansão está intrinse-


camente ligado às características da enumeração à qual está atrelada. As listas
com elementos discretos, abertos e reais tendem a fomentar seu uso. A correla-
ção do uso dos expansores com possível dificuldade de processamento é fraca.
Mais pertinente é a correlação com a relevância do rol para a continuidade do
tópico. Quanto mais relevante a enumeração, menos expansor e mais estratégi-
as outras, como o paralelismo dos elementos. Não houve diferença apreciável
entre o comportamento dos M.Ds. e o dos limítrofes.

5. Por exemplo
O M.D. por exemplo compartilha com etc... o fato de ser também uti-
lizado na língua escrita (5.15). Defendemos que um bom exemplo deve ser o
322
elemento conhecido e prototípico de um conjunto. No trecho 5.1, querendo
demonstrar e argumentar que as imagens pré-históricas não teriam um propó-
sito artístico mas sim ritual, a falante usa um objeto atual, comum, conhecido
por todos, prototípico portanto: a igreja.

(5.1) por ser no escuro demonstra que a imagem não foi feita para decorar a caver-
na ou para ser vista por outras pessoas certo? por exemplo numa igreja hoje
você tem imagens que representam uma idéia religiosa uma série de coisas
mas que estão lá para ser vistas também.
(EF-SP l.255)

Nota-se que este enunciado, à primeira vista, não ilustraria a hipótese


que estamos defendendo: a de que o M.D. por exemplo integra o rol dos
M.Ds. que encontram sua explicação na teoria de conjuntos: a falante precisa-
va, para apoiar sua argumentação, de um elemento que, de forma simultânea,
remetesse a um lugar claro para abrigar a exposição de obras de arte (até aqui
poderia ser o elemento museu, galeria de arte, igreja) e que servisse também a
propósitos religiosos, afastando assim os dois primeiros candidatos.

LUGAR DE ARTE LUGAR RELIGIOSO

museu sinagoga

galeria igreja templo

A análise do trecho em tela reforça, pois, a hipótese que busca a expli-


cação para os M.Ds. em tela na teoria dos conjuntos: há (e muitos) conjuntos
unitários, principalmente em subconjuntos advindos de intersecção, como é
aqui o caso.
Análises quantitativas privilegiam regularidades, ressaltam tendências.
É interessante notar, entretanto, que esses M.Ds., por vezes, se afastam da
regularidade, desempenhando um papel comum, de modo geral, aos M.Ds.: o
de preencher espaços vazios. É o caso de 5.2, que, por se referir a um conjunto
unitário, apenas define, sem exemplificar. Parece apenas manter o turno en-
quanto o falante processa o que vai dizer, como aliás confirmam as hesitações
subseqüentes.

323
(5.2) Agora a ginecomastia secundária. É aquela em que, por exemplo, a... eh...
atinge o homem em qualquer fase
(EF-SA l.105)

As ocorrências de como por exemplo, e um único caso do M.D. um


exemplo serão consideradas como variantes de por exemplo, que não apresen-
taram formas limítrofes com a mesma função.

(5.3) ele... pra morar... se ele quisesse..., um exemplo, na zona Sul...um aparta-
mento de CR$1000,00 é apartamento de que?
(D2-RJ l.274)
(5.4) Sabemos também que os sindicatos também devem levar adiante toda e
qualquer reivindicação dos seus associados como por exemplo a questão
relacionada diretamente com as vantagens ou os aumentos salariais
(DID-RE l.47)

Cumpre ressaltar que, à semelhança de Vincent (1992), que pesquisou


esses M.Ds. no francês do Québec, e à semelhança dos demais M.Ds. aqui
tratados, o critério que permitiu a identificação do objeto da análise não foi o
contexto exemplificatório, mas a presença formal de um marcador, já que se
privilegiou a forma sobre a função. Funcionariam, todavia, como indícios de
processo exemplificante as enumerações e os expansores, embora o apareci-
mento deste tipo de marcador, a princípio, devesse anular a possibilidade de
ocorrência de um exemplificador. Com efeito, ambos, o etc... e o por exemplo,
se valem dos recursos da teoria dos conjuntos, porém de modo distinto e, até
certo ponto, contraditório, como exemplifica o trecho 5.5, no qual um marca-
dor de exemplificação parece estar lado a lado com uma partícula expansora,
dificultando a compreensão.

(5.5) L1- ......o caso de uma alimentação


L2- uma ração isso balanceada
L1- balanceada
L2- mas eu vejo aqui por exemplo, de vez em quando tem uma verdurinha
etc e tal, por exemplo.
(D2-PA fl.02)

324
Por exemplo refere-se a verdurinha como elemento prototípico de
“ração balanceada”, parecendo avisar, todavia, que há outros elementos nesse
conjunto (talvez legumes, saladas). A dificuldade de interpretação parece de-
correr, justamente, do excesso de estratégias simultâneas, o que violaria a má-
xima da informação (Grice, 1982: 95), segundo a qual o falante não deve fazer
“uma contribuição mais informativa do que é requerido”.
Vê-se bem como funciona o mecanismo dos conjuntos pelo discrepan-
te exemplo abaixo, onde o por exemplo era desnecessário, uma vez que o
falante vai citar todos os elementos do subconjunto como explicita o fecho
“até aí...”:

(5.6) Não, eu não sou mecânico nenhum [abre um conjunto de coisas que um
mecânico deve saber] eu sei fazer certas coisas no carro [abre um subconjunto
de coisas que ele sabe fazer] por exemplo, trocar pneu, examinar se está
passando corrente ou não, examinar se está passando gasolina ou não, até aí
vão meus conhecimentos de carro.
(D2-SA l.657)

Se o processo exemplificante é uma das diversas estratégias argumen-


tativas que o falante usa para atrair seu interlocutor, induzindo-o a aderir à sua
tese, o conhecimento do exemplo escolhido para tal fim deve ser compartilha-
do pelo interlocutor. A extensão do exemplo pode variar de uma simples pala-
vra a uma pequena narrativa. Esta última possibilidade, também mencionada
por Vincent (1992) a propósito do francês do Canadá, é pouco explorada pelos
entrevistados do NURC12.
Vimos na parte 1 os motivos que levaram à consideração desta partícu-
la como M.D., embora não plenamente prototípica. Foram aplicadas agora
algumas outras variáveis à análise desse M.D. As variáveis lugar do marcador
em relação ao exemplificante, âmbito do exemplo, caráter de realidade do
exemplificante e ordem dos constituintes foram adaptadas de Vincent (1992),
no intuito de se compararem os resultados. As variáveis incluídas aqui têm por
objetivo principal comprovar que usualmente o exemplo é um elemento proto-
típico, tendendo, portanto, a ser concreto, objetivo, específico e conhecido do
falante.
Foi observado o grau de concretitude tanto do exemplificante quanto
do exemplificado, na hipótese de que o primeiro seja mais concreto do que o
segundo. O falante busca objetivar e concretizar seus exemplos mesmo quan-
325
do são conceitos, orações etc... Veja-se o exemplo abaixo em que o entrevista-
do, por três vezes, tenta topicalizar um substantivo concreto do exemplifican-
te, que é um pequeno episódio iterativo.

(5.7) acho que é difícil mesmo a gente consertar isso. Por exemplo eu... minha
casa, a porta de minha garagem... eh...de vez em quando, quando eu saio,
quando eu volto, eu encontro sempre um carro estacionado na porta da mi-
nha garagem

Os resultados para concretitude do exemplificante (89/103=86,4%) e


do exemplificado (39/81=48,1%) evidenciam que os primeiros tendem, real-
mente, a serem mais concretos do que os segundos.
Ainda visando a aferir a concretitude, mediu-se a objetividade do exem-
plificante em relação ao exemplificado (cf. item 2.1). No exemplo (5.7) o exem-
plificante é objetivo enquanto (5.8) é subjetivo:

(5.8) os sindicatos também devem levar... adiante... toda e qualquer reivindicação


de seus associados como por exemplo a que... entende? A questão relacio-
nada diretamente com as vantagens ou: ou aumentos salariais... que
anualmente são levados em conta...
(DID-RE l.50)

Os resultados encontrados (175/185=94,6% de exemplificantes objeti-


vos e 95/184=47,3% dos exemplificados objetivos) mostram a tendência dos
exemplificantes a serem mais objetivos do que os exemplificados.
Ainda ligado à prototipicidade do exemplificante, foi quantificada a
especificação do exemplo: se a hipótese se confirmar, o exemplificante deve
tender a especificar o exemplificado. Tem-se abaixo um caso de especificação,
consciente por parte do falante:

(5.9) as cooperativas também são entidades realmente bastante significativas dentro


de uma conjuntura... nacional por exemplo, para citar especificamente o
caso de nosso país.
(DID-RE l.106)

Nota-se a estratégia argumentativa cada vez mais particularizante no


trecho abaixo, em que o falante, que discorria sobre o processo evolutivo dos
326
sindicatos em geral, passa por “determinados” sindicatos e finalmente particu-
lariza com “nosso” sindicato, especificando suas deficiências.

(5.10)Nós verificamos por exemplo que determinados sindicatos realmente to-


mam um passo adiante no que se refere ao conforto... temos o caso por exem-
plo aqui do nosso sindicato... sabemos por exemplo... das carências e das
deficiências que o sindicato apresentava por não possuir uma sede adequada.
(DID-RE l.63)

Vincent (1992) tomou como premissa, e não como hipótese, o fato


de o exemplificante ser mais particular do que o exemplificado. Preferi-
mos, aqui, testar empiricamente esse fato pois, caso não se confirmasse,
ruiria estrondosamente a hipótese de o exemplificante ser um elemento de
um conjunto mais amplo, o exemplificado. Para efeito de codificação, o
exemplificante poderia ser mais específico, menos específico ainda equi-
valente ao exemplificado. Os resultados mostram que apenas um exempli-
ficante (1/185) era mais geral do que o exemplificado. Nas demais ocor-
rências, ou exemplificante e exemplificado eram equivalentes (18/
185=9,7%) ou os exemplificantes eram mais específicos (166/185=89,7%).
O único caso em que o exemplo em si (o brasileiro) é mais geral do que o
exemplificado (a pergunta: brasileiro “do norte” ou brasileiro “do sul?”)
merece ser transcrito por sua estranheza que atribuímos justamente a essa
característica. Observe a tentativa de emenda por parte do falante que, pro-
vavelmente, deve ter-se dado conta da estranheza:

(5.11)Doc- Depende, que área, brasileiro do norte ou brasileiro do sul?


F- Por exemplo, que o brasileiro pra, eu acho que de um modo geral, nem
o do sul que eu acho que tu come bem na tua casa
(D2-PoA l.3)

Ainda para verificar o maior peso, a maior dificuldade, do exemplificado


relativamente ao exemplificante, mediram-se possíveis marcas formais de di-
ficuldades tanto do exemplificado quanto do exemplificante. Foram encontra-
das 100/206=48,5% marcas nos exemplificados e 42/206=20,4% nos
exemplificantes.
Para a análise do status da informação, privilegiamos, de modo geral, a
proposta de Prince (1981), distribuindo as ocorrências em dois graus: novo e

327
não-novo (este último, produto da amalgamação de evocado e inferível após
constatarmos que os resultados para duas dessas categorias eram semelhan-
tes). Os exemplificados não foram codificados por serem todos evocados, quase
que por definição: constituem o tópico, introduzido já há algum tempo, antes
de receberem um exemplificante. Quanto a esses últimos, observou-se que são
citados pela primeira vez (171/184=92,9), tão abruptamente (vimos que com
freqüência parenteticamente), que a surpresa, o não esperado, parece ser até
típico de um bom exemplo. O fato de um exemplo ser novo, desconhecido do
ouvinte, pareceu-nos estranho e era contra a hipótese da prototipicidade. Face
a esse resultado, decidimos utilizar, também, para a análise do exemplificante,
a categoria mais mental de Chafe (1994). Codificou-se, portanto, também a
disponibilidade do exemplificante, o que poderia constituir-se numa dificulda-
de: como saber-se o que é disponível para o ouvinte? Para contornar tal difi-
culdade, sempre que o elemento era conhecido por nós, consideramo-lo a fortiori
conhecido pelo ouvinte. Em 5.12, por exemplo, Camaari não foi considerado
disponível, porque nós não conhecemos esse lugar, embora seja provável que
o ouvinte o conheça. A partir de tal procedimento, inverteu-se totalmente a
proporção, passando os exemplos a serem quase totalmente disponíveis (178/
184=96,7%).
O marcador por exemplo possui grande mobilidade no contexto
exemplificatório. Ele pode estar antes do exemplificante (5.8) ou depois (5.9).
Há casos ainda em que o marcador aparece no meio do exemplo em si (5.12).

(5.12)O que acontece é o seguinte: hoje em dia para você ir como nós vamos, por
exemplo todo dia a Camaari, já é hoje em dia uma viagem...
(D2-SA l.48)

O marcador tende a aparecer antes do exemplo em si (117/179=63,4),


como já se esperava pelos resultados de Vincent. Entretanto, é considerável o
número de marcadores nas outras posições: 34/179=20% após e 28/179=15,6%
no corpo do exemplificante, afirmando a sua grande mobilidade. Os dados de
Montréal são quase análogos quanto a posição inicial (61%), diferindo quanto
à posição intrasegmental (34%) e final (4%).
Segundo Vincent (1992), a função exemplificadora mudará respecti-
vamente de ilustradora para construtora do argumento de acordo com a ordem
dos constituintes do exemplo, isto é, a ordem do exemplificado em relação ao
exemplificante que pode ser essa (5.8), ou o inverso (5.9). A ordem mais fre-
328
qüente é a primeira, uma vez que o falante tende a ir do geral para o particular.
Em nossa investigação, em 207 casos analisados, apenas 7 (3,4%) não se apre-
sentaram na ordem esperada.
Ainda segundo Vincent, quanto ao âmbito, à abrangência, o exemplifi-
cante pode ser único ou extensível. O exemplificante é categorizado como
único quando se percebe claramente que ele se basta a si mesmo. Geralmente
é uma só palavra, uma só expressão, um só assunto (5.10). O exemplificante
será classificado como extensível quando aparecem indícios de expansão co-
dificados por etcétera e outros expansores, ou quando o falante se vale de
várias expressões juntas para exemplificar um mesmo assunto como em (5.13),
no qual poderia ter havido um expansor após “arroz”.

(5.13)e tendo que almoçar... justamente... eu... eu como eu gosto por exemplo
muito de feijão... muito de arroz...que são coisas que engordam.
(DID-RJ l.328)

Nosso interesse por essa variável foi motivado pela hipótese de o exem-
plificante ser um elemento prototípico, não se justificando, portanto, nem a
citação de vários elementos, nem sua extensão por meio de um expansor, como
já se viu no exemplo 5.5, acima. A proporção de incidência de exemplificantes
com âmbito único é muito grande em nosso corpus: 149/185=80,5%, maior do
que em Montréal (65%), embora tal discrepância possa ter decorrido de trata-
mentos metodológicos distintos.
Quanto ao caráter de realidade do exemplificante, o exemplo pode ser de
caráter real (ex.5.11) ou irreal, fictício, hipotético (5.14). Se o exemplificante
tem de fato o caráter prototípico, é de se esperar que apresente o traço [+real].

(5.14) eu digo mais ou menos porque nós vamos ver qual é a diferença que existe
entre uma taxionomia e uma classificação, eu poderia, por exemplo, divi-
dir esta aula em os alunos homens e as mulheres, eu estaria, fazendo uma
classificação sem, no entanto, dizer qual é o mais importante.
(EF-PoA 278 l.31)

Sendo o assunto da aula justamente a classificação, a mestra poderia


ter escolhido uma classificação real, a classificação zoológica, por exemplo,
ou até ter escolhido esse mesmo exemplo, apresentando-o, todavia, de um
modo real: “a divisão entre sexos é uma classificação”. Os nossos resultados e
329
os de Vincent mostram que a incidência de exemplificantes reais é muito grande:
(156/185=84,3% no NURC e 86% em Montréal), confirmando cada vez mais
seu caráter prototípico.
A pauta entoacional do por exemplo caracteriza-se principalmente pela
tendência à maior rapidez (67/169=39,6) e menor força (25/169=14,8) que
atinge não só o M.D. mas o exemplificante todo. Essa maior rapidez leva, em
muitos casos, ao ensurdecimento ou perda da vogal posterior e do segmento
final, reduzindo-se o M.D. a aproximadamente a [prexEmp]. A maior parte
desse M.D. (70,4% ) tem o contorno entoacional estável mas há ocorrências de
entonação descendente, ascendente ou até ascendente/estável. A pausa ante-
rior é rara (10%) embora as posteriores são mais freqüentes (18,3%) e mais
longas (Silva e Rodrigues e Silva, 1995). Essa pauta entoativa faz com o exem-
plificante possa ser sentido como uma parênteses, como o demonstra o exem-
plo (5.15), extraído do Jornal do Brasil de 10/11/95, p.6, numa reportagem
sobre esquizofrenia:

(5.15) Mostrando que o cérebro pode criar sua própria realidade (por exemplo,
ouvindo vozes que não existem), este trabalho nos ajuda a entender a distin-
ção entre mente e cérebro...

Tal parentetização provavelmente decorre do fato de o exemplo ser


informação nova inserida bruscamente em um tópico que já vinha sendo vei-
culado e abandonada logo que seu objetivo foi alcançado.
Esse M.D. não tende a se aglutinar a nenhuma outra forma, ressalvan-
do os seis casos de como por exemplo, tratados como variante.
A fronteira preferencial do por exemplo é a da margem esquerda, isto
é, antes de sujeito ou antes de tópico, quando presente.
45,00%
40,00%
35,00%
30,00%
25,00%
20,00%
15,00%
10,00%
5,00%
0,00%

f a e d o x

330
O gráfico acima revela, entretanto, maior dispersão, não parecendo
haver restrições à presença de por exemplo em nenhuma fronteira (o que
destoa do geral), exceto a fronteira o, a mais próxima à da direita, entre
complementos. A fronteira d, entre verbo e complemento, que costuma ter
poucos preenchedores, mormente discursivos (cf. Tarallo, Kato et al, 1992 e
Silva, Tarallo e Braga 199?) alcança 31,8%. É alta a proporção de por exem-
plo situado fora das fronteiras (30,4%), majoritariamente (78%) dentro do
complemento.
O M.D. por exemplo teve uma alta freqüência de 207, mas uma repar-
tição de 16. Sua dispersão foi de 0 a 48 (abrangência altíssima). Não houve
diferenças significativas entre os tipos de entrevistas (EFs 14,9 por hora; DIDs
17,1 p.h. e D2 14,5 p.h.).Quanto à distribuição segundo o gênero do falante,
vale ressaltar que os homens privilegiaram muito esse M.D., o que confirma
os dados de Vincent. O resultado relativo a regiões mostrou-se irregular.
Concluímos, por enquanto, a análise do marcador por exemplo (vere-
mos outras propriedades em 10) ressaltando que sua principal característica é
anunciar um exemplificante que tende a ser: a) concreto, objetivo, real, especí-
fico e de âmbito único; b) de localização variável dentro do contexto
exemplificador e tendendo a anunciar um ilustrador do argumento c) de fre-
qüente destaque entoacional.

6. Digamos
Com base em Vincent (1992), que analisou, no francês do Québec,
uma partícula análoga (mettons), levantamos a hipótese de que digamos apre-
sentava características de exemplificador. De fato, em alguns enunciados, como
6.1, esse M.D. parece exercer essa função:

(6.1) Mas acho horrível o gosto puro da cebola em si então, digamos um refoga-
do de camarão aonde vai a cebola, vai o alho, vai a pimenta [...] o gosto da
pimenta, quer dizer, dependendo do tipo de pimenta...
(D2-PoA,l.137)

Nesse exemplo, poderíamos classificar “um refogado de camarão” como


sendo um exemplificante de caráter real e de âmbito único, e a parte
exemplificada como um trecho argumentativo sobre pratos tradicionais. O fa-
lante assume que esse exemplo é “bom” para seu propósito.
331
Caruru refogado de camarão

vatapá conjunto de comidas com cebola

Verificamos, entretanto, que, no corpus do NURC, raramente esses


M.Ds. se comportavam de modo análogo. O pseudo-exemplificante anuncia-
do pelo M.D. digamos parecia não exibir as características de um exemplo. O
falante parece usar, na maioria das vezes, esse M.D. porque não lhe ocorre
nenhum “bom” exemplo, nenhum elemento prototípico do conjunto que tem
em mente, elemento que seja objetivo, concreto, de conhecimento comparti-
lhado e porque não deseja assumir sozinho a responsabilidade por escolher um
elemento ruim. Sinaliza, pois, ao seu interlocutor que o elemento escolhido
poderia ser um outro elemento daquele conjunto e que ele o torna cúmplice
dessa imprecisão. Freqüentemente, o conjunto corresponde ao campo semân-
tico do elemento procurado.

(6.2) Então uma digamos assim perspectiva, ou linha, ou maneira de olhar o fenô-
meno jurídico ou o direito.
(EF-RE t.191)
No exemplo acima, a professora de direito visivelmente não consegue
se decidir pelo melhor elemento do conjunto de palavras que integram o cam-
po semântico que abriu. Decide citar várias paráfrases, dando a alternativa ao
aluno. Essa procura pode traduzir-se, também, por mais descontinuidades no
texto do que no resto do enunciado.

(6.3) Uma constituição... poderá já atualmente... ter... muitos de seus parágrafos


(pausa de 3 seg.) digamos assim (pausa de 3 seg.) num estado...de caduquice
(DID-RE l.504)

Em 6.4, o M.D. ainda exerce uma terceira função, a de sinalizar a im-


precisão da exemplificação (já que a precisão do ano, 1918, é até excessiva
para sua afirmação). Mas afirmar que é exatamente a década de 20, tornar-se-
ia também preciso, já que a década de 20 engloba, para o fim de salário em
questão, parte da década de 1910 (se é que também não se superpõe a de 30).
Toda essa imprecisão é assinalada pelo M.D.

332
(6.4) Ele deve ter sido formado em odontologia por volta de 1917, 18 que ele se
formou... então nessa época, vamos dizer, na década de 20, a relação salário-
profissional de nível superior ao aluguel seria a quarta parte.
(D2-RJ l. 260)

Ainda foi encontrada uma quarta função, a de introduzir premissas,


papel mais característico, entretanto, das formas limítrofes irmãs digamos que
e vamos dizer que, (6.5) função que Vincent (1993) atribui a alguns
exemplificadores, mas que aqui só foram desempenhadas pelas formas men-
cionadas e por uma única ocorrência de digamos.

(6.5) vamos dizer que agora nessa época do an/ da da vida eu não pudesse pagar
doze mil cruzeiros agora.
(D2-RJ l.479)

Dessas quatro funções básicas, uma delas, a procura de um melhor


elemento, assinalando ao interlocutor essa imprecisão e tornando-o cúmplice,
é bem mais freqüente do que as demais: das 68 instâncias, 79,4% preencheram
essa função enquanto apenas 13,3% encabeçaram exemplos, 5,9% aproxima-
ções e apenas 1,2% apresentaram uma premissa. Em contraposição, os quatro
limítrofes encontrados desempenharam, todos eles, essa última função. Parece
haver aqui uma especialização dos limítrofes.
A hipótese adiantada para os exemplificadores era a de que um exem-
plo tenderia a ser um elemento concreto, objetivo, conhecido e real. Como se
comportam a esse respeito os 9 digamos exemplificadores? E os de função de
procura? Seria o elemento procurado tão prototípico quanto o exemplificante?
A análise do modo realis ou irrealis ficou prejudicada, pois o próprio M.D.
induz à interpretação do elemento posterior como irrealis. Na função de pro-
cura, esses M.Ds. anunciam apenas 19/54=35,2% de enunciados objetivos,
enquanto que aqueles com função exemplificadora chegam a anunciar 9/
9=100% , mais até do que os anunciados por por exemplo. Também é diferen-
te a concretitude: enquanto os de procura anunciam poucos elementos concre-
tos (13/33=39,4%), os que exercem outras funções anunciam maioria de con-
cretos (7/11=63,6%).
Com respeito ao status informacional, a hipótese relativa ao digamos
com função de procura é que o elemento procurado seria novo, uma vez que é
apresentado, até timidamente, com restrições, por meio do M.D. Com efeito, o
333
elemento regido por digamos com função de procura tende a ser mais novo
(33/50=66,0%), percentagem mais elevada do que a apresentada pela mesma
forma com outras funções (9/17=52,9%). Esta característica, provavelmente,
explica a pequena quantidade desse M.D. em EFs, situação de fala caracteriza-
da pelo planejamento prévio.
No afã de encontrar um termo adequado, o falante deixa transparecer
essa procura, abandonando o rastro das tentativas sob a forma de paráfrases.
Uma evidência de que essas paráfrases estão ligadas a essa função de procura
de elemento é sua coocorrência: de 54 digamos exercendo essa função, 22,2%
apresentam duas tentativas e uma três (ex. 6.2). Dos 14 digamos exercendo as
outras funções, nenhum apresentou esse tipo de repetições.
Foi dito em 2.3 que se ocorressem dificuldades no processamento e se
o falante não encontrasse de imediato o elemento de que necessitava, ficariam
provavelmente vestígios dessa procura, além das paráfrases mencionadas acima.
Esses vestígios se manifestam por descontinuidades diversas, anteriores ao
elemento finalmente encontrado. De fato, antes daqueles digamos que exer-
cem função de procura foram encontradas 23/53=43,4% de descontinuidades,
enquanto naqueles que exercem outra função há apenas 2/14=14,3%. No am-
biente posterior ao elemento precedido por digamos, ambiente presumivelmente
sem dificuldade, foram encontrados 12/53=22,6% de descontinuidades.
A pauta entoacional de digamos caracteriza-se por uma tendência à
maior rapidez em 23,2% dos casos e menor força em 12,5% . O contorno da
entoação é estável em 70% dos casos. Pausas posteriores (23,2%) são mais
freqüentes e mais longas do que as anteriores (32,1%). Todas essas caracterís-
ticas se assemelham acusticamente a uma parentética13. Ao contrário do por
exemplo, é apenas o M.D., e não todo o ambiente liderado por ele, que exibe
essa característica (Silva e Rodrigues e Silva, 1995).
Esse M.D. não tende a se associar com nenhuma outra forma. Vale
lembrar que consideramos digamos assim, vamos dizer assim como formas
variante de digamos e/ou vamos dizer e não como duas formas agregadas.
Digamos (assim) e vamos dizer (assim), diferentemente dos expansores
e de por exemplo, tendem a aparecer naquela fronteira que costuma abrigar
poucos preenchedores, a fronteira central de regência entre verbo e comple-
mento. Outra discrepância é que 57%, a maioria, situa-se fora de fronteira,
mas desses, perto de 70% continuam a se aninhar no complemento, como os
demais M.Ds. fora de fronteira.
334
50%
45%
40%
35%
30%
25%
20%
15%
10%
5%
0%

f a e d o x

Digamos (incluindo suas formas variantes) teve freqüência de 67 e


repartição de 10, com âmbito desde 0 até 21. Raro em EFs (1,6 por hora),
situação caracterizada por um preparo prévio do discurso, aumenta a freqüên-
cia em D2 (4,3 p.h.) e principalmente em DIDs (6,7 p.h.). Curiosamente, são
mais empregados por homens, confirmando os dados de Vincent para mettons,
exemplificador utilizado principalmente por homens (71%).
Os valores por região, apresentados abaixo, mostram, nitidamente, que
o Rio é um hipocentro ao contrário.
10
9
8
7
6
5
4
3
2
1
0
Re Sa RJ SP PoA

Resumindo, digamos raramente atua como exemplificador; ao contrá-


rio, tende a funcionar como o anunciador de um elemento, usualmente, abstra-
to, subjetivo e novo. Nas suas imediações, por vezes, encontram-se elementos
que podem ser interpretados como indícios da dificuldade, por parte do falan-
335
te, em se encontrar um elemento adequado. Não muito comum, principalmen-
te na região Sudeste, na amostra analisada, foi mais usado por homens. O
cotejo entre esse M.D. e os limítrofes, não aprofundada em conseqüência da
baixa freqüência dos últimos, sugere que as funções codificadas por cada tipo
são diferenciadas, podendo-se falar, pois, em uma especialização funcional.

7. Assim
As propriedades intrigantes do M.D. assim manifestaram-se desde a
primeira análise, em Macedo e Silva (1990).
As gramáticas tradicionais enquadram o assim na classe dos advérbios
de modo, dados os critérios morfológico (palavra invariável), sintático (pala-
vra relacionada ao verbo, ao adjetivo ou a outro advérbio) e nocional (palavra
que indica circunstância). No entanto, tais parâmetros podem se tornar inade-
quados quando se trata da língua em uso. A classificação de assim, na moda-
lidade discursiva, como advérbio (um de seus usos mais comum está
exemplificado em (7.1)), é problemática. Provavelmente há um continuum
(outro!) entre o uso como advérbio de modo, um dêitico de baixa freqüência e
difícil identificação no texto, que se refere ao mundo biofísico, e que seria
como (7.1'), modificação do exemplo real (7.1), anafórico, e o uso como M.D.,
ilustrado em (7.3).

(7.1) ...tem pessoas que têm... um talento... impressionante... minha avó era as-
sim
(D2-PoA, t.330)
(7.1') minha avó era baixinha, chegava assim ó em mim
(7.2) Às vezes quando elas têm tempo assim elas pegam uma turminha
(DID-PoA, t.325)
(7.3) Como por exemplo no Norte eles têm assim uma variedade de frutas imen-
sa.
(DID-RJ, t.49)

Complicando ainda a noção de continuum e a metodologia para a aná-


lise desse M.D., muitas instâncias têm duas interpretações, o que lhes confere
um status mais de ambigüidade do que propriamente de etapa intermediária. A
336
diferença sutil, mas relevante, manifesta-se quando do estudo da distribuição
por fronteira. As ocorrências que permitem duas leituras, prováveis etapas de
transição entre um dêitico e um M.D., com idas e vindas (gramaticalização e
desgramaticalização) (Martelotta et al, 1995), serão analisadas à parte e, even-
tualmente, comparadas com aquelas classificadas como M.Ds. Essa imbricação
dos diferentes estágios faz com que o modelo da p. 1 se complique e mais
pareça uma “metamorfose” do pintor Escher.

Algumas peculiaridades deste M.D. já foram comprovadas em pesqui-


sas anteriores:
1 – Silva e Macedo (1990) observaram, em corpus de falantes menos
escolarizados, que este marcador ocorre, majoritariamente, entre um elemento
(verbo ou nome) e seu complemento sintático ou semântico, tendo sido, por
isso, chamado então de “anunciador de complemento”. Ressalte-se aqui que
Ilari (1990) classificou-o de “flag”, atribuindo-lhe a faculdade de adquirir os
traços gramaticais do elemento que ele anuncia.
2 – Silva e Assafin (1994) compararam o comportamento desse marca-
dor com as hesitações e analisaram sua co-ocorrência com palavras menos
freqüentes, com o intuito de investigar seu possível papel hesitativo. A inves-
tigação da correlação entre o uso deste M.D. e dificuldades de processamento
já fora iniciada por Silva e Macedo (1990), que já haviam identificado tal
função quando da análise da distribuição do assim em contextos que deixavam
transparecer dificuldades de ordem social.
3 – Na parte 1, referimo-nos aos traços que Risso, Silva e Urbano (1994)
atribuíram a assim. Consideraremos aqui, então, a variável que diz respeito à
relação sintática com a estrutura oracional e que compreendia dois fatores: 0 –
sintaticamente dependente – e 1 – sintaticamente independente. A maioria foi
considerada 1, embora a nove instâncias (16%) tenha sido atribuído o grau 0.
Essas instâncias, na sua maioria, foram consideradas ambíguas. No exemplo
abaixo, a primeira ocorrência foi codificada como ambígua, a segunda foi re-
tirada do corpus por ser um advérbio e somente a terceira, que recebeu a cota-
ção 1 nesse quesito, foi considerada M.D.

(7.4) Quer dizer assim1 para o Brasil eh para nós falarmos assim2 se nós tivermos
de falar de alimentação brasileira realmente não não teria assim3 muita rela-
ção, né?
(DID-RJ l.260)

337
1 – Ambíguo 2 – advérbio 3 – M.D.
O objetivo central do atual estudo é o de investigar o porquê do empre-
go deste marcador como lubrificante do discurso, correlacionando seu o uso
com dificuldades com as quais o falante se depara durante o processamento
lingüístico do elemento seguinte. A hipótese é que, à semelhança de digamos
com função de procura, o assim se coloque antes de um elemento não-prototí-
pico, que tende a ser abstrato, subjetivo, novo e mais difícil de ser processado.
O caráter abstrato da seqüência precedida por assim, mormente quan-
do esta inclui um substantivo, é um dos indícios de não prototipicidade desse
elemento. Para aferirmos a proporção de abstratos num texto, investigamos,
nas entrevistas do NURC, a fronteira V...Co (a preferida por esse marcador)
que dispensou este marcador, obtendo uma média de 19 complementos ver-
bais por entrevista. Nessa amostra neutra, encontramos 46,5% abstratos. Em
presença de assim, a abstração foi bem mais alta: 68,7% entre os assim M.Ds.
e 75,5% entre os ambíguos. Já com relação ao advérbio, este índice desceu
para 33,3%. Segundo os funcionalistas, há um aumento de abstraticização à
medida que o segmento se gramaticaliza. Note-se, entretanto, que não foi me-
dida aqui, propriamente, a abstração do assim mas sim do seu ambiente.
Quanto ao traço objetividade, fizemos o mesmo levantamento em am-
bientes neutros, isto é, sem assim, obtendo 38% de subjetivos. Já na presença
de um assim, sobe a subjetividade quando para 133/229=58,1% quando M.
D.; desce para 30/66=45,5% quando ambíguo e ainda para 21,2% quando ad-
vérbio.
Uma vez que a localização preferencial deste M.D. é a fronteira V...Co,
investigamos o tipo de verbo que o antecede. Nosso objetivo era verificar se
havia ou não uma correlação entre o tipo de verbos e o uso do assim. A escala
usada para os tipos de verbo foi adaptada de Mira Mateus et al.(1889). Os
resultados da tabela seguinte mostram que os verbos de opinião e os experi-
mentais (que exprimem cognição, percepção, ou estados afetivos) favorecem
as formas ambíguas e marcadores; diferindo, pois, radicalmente, dos de senti-
do identificacional (verbo ser), e dos verbos discendi. A freqüência mais ele-
vada de assim, enquanto marcador ou ambíguo, com verbos de opinião e ex-
perimentais, é mais um argumento a favor da hipótese que explica o uso do
M.D. assim como resultado de dificuldades de processamento.

338
M.D. AMBÍGUO ADVÉRBIO
N % N % N %
ação 64 26,7 21 26,6 19 23,4
experimentais 24 10,0 10 12,6 3 3,7
posse 25 10,4 1 1,3 6 7,4
sentido 23 9,6 3 3,8 1 1,2
identificacional
estado 32 13,3 18 22,8 14 17,3
opinião 29 12,1 4 5,1 1 1,2
modal 5 2,1 1 1,3 4 4,9
locativo 1 0,4 0 ---- 0 ----
discendi 0 ---- 0 ---- 13 16,4
outros 37 15,4 18 22,7 19 23,4

Ainda para verificar a possível correlação entre emprego de assim o


grau de dificuldade engendrada pela não prototipicidade do(s) elemento(s)
regido(s) por ele, foram medidas as descontinuidades anteriores e posteriores
à seqüência em pauta. O resultado apresentado assemelha-se ao obtido para
digamos: 125/242=51,6% anteriores e 80/242=33,1% posteriores. Ao contrá-
rio de digamos, assim não fomentou paráfrases durante a procura do elemento.
Quanto ao status informacional, os resultados mostram que o elemento
encabeçado por assim tende a ser novo: 134/232=57,7% quando M.D. e 40/
68=58,8% quando ambíguo. A ausência deste M.D. nas EFs (como será visto
adiante) reforça nossa hipótese: quando o assunto é bem conhecido, como em
aulas, preparadas de antemão, desaparecem as causas que fomentam sua utili-
zação.
À curva entoacional desse marcador foi concedida uma especial aten-
ção por acreditarmos que, por intermédio deste fator, poderíamos distinguir os
diferentes usos dessa forma, particularmente enquanto M.Ds. e não M.Ds. Essa
hipótese havia sido sugerida pelos resultados de um experimento desenvolvi-
do anteriormente por nós e que consistia na leitura de um enunciado que con-
tinha um marcador assim. De 20 dos nossos leitores, 14 alongaram a última
sílaba. Verificamos, todavia, que esse alongamento não passa de um estereóti-
po que, audivelmente, só ocorreu em 12/197=6,0% dos dados produzidos fora
da situação de teste. Essa baixa freqüência foi confirmada pelo CECIL. A
339
curva entoacional do M.D. é sempre estável, enquanto a dos advérbios é variá-
vel, visto que também pode ser descendente (30/63=47,6%) ou ascendente
(18/63=28,6%). Essa distribuição possibilita, então, as seguintes estratégias:
i – um alongamento constituirá um indício, para o ouvinte, de que não
se trata de advérbio;
ii – um não-alongamento não permitirá nenhuma decisão;
iii – uma ascendência ou descendência eliminará a possibilidade de ser
M.D.;
iv – uma curva estável não resolverá a ambigüidade. (Silva e Assafim,
1995).
Não foi encontrado nenhum tipo de aglutinação com M.D. assim. Por
sua vez, há muitas ocorrências de assim-advérbio contíguas ao M.D. digamos
e a sua variante vamos dizer.
Quanto à localização de assim e de seus ambíguos correspondentes, à
semelhança do observado para digamos, tendem a ocorrer não na fronteira de
constituinte, mas sim fora dela (143/242=59,1% para o M.D. e 41/79=51,8%
para os ambíguos). Os M.Ds. que ocupam uma fronteira caracterizam-se por
pouca dispersão. Vale ressaltar que na fronteira da extrema esquerda, antes do
sujeito ou do tópico, há uma maior proporção de ambíguos. Curioso é o apare-
cimento desse M.D. (6 casos) antes de sujeito, pois no corpus CENSO do Rio
de Janeiro, de 64 falantes com menos escolarização, não havia sido encontra-
do nenhum nesta fronteira, parecendo haver séria restrição. Nota-se também a
predominância da fronteira central de regência, confirmando sua função de
“anunciador de complemento”. Um cotejo entre os vários assim quanto a esse
quesito, para efeito de comparação, mostrou que os mesmos tendem a migrar
para a fronteira d, entre V...Co e a sair da fronteira f, antes de sujeito, à medida
que se tornam M.Ds. Quase todos os situados na x funcionam como advérbios
e são os regidos por verbo discendi, distribuição não exibida pelos M.Ds. e
ambíguos. 80% 70%
70% 60%
60% 50%
50%
40%
40%
30%
30%
20%
20%
10% 10%

0% 0%

f a e d o x f a e d o x

AMBÍGUO ASSIM
340
35,00%
30,00%
25,00%
20,00%
15,00%
10,00%
5,00%
0,00%

f a e d o x

ADVÉRBIO

Quanto aos 51,1% fora da fronteira, a maioria, tanto de M.Ds. (88,8%)


quanto de ambíguos (95,2%) e de advérbios (22/23=95,7), está localizada num
complemento, como os demais M.Ds. já analisados.
O assim teve a mais alta freqüência dos M.Ds. aqui abordados (241, o
triplo dos 81 advérbios). A repartição foi apenas de 16 (em um DID e uma EF,
ambas de Salvador, não ocorreram). Sua abrangência também foi a maior, de 0
a 72 . Sua ocorrência é de 2,5 p.h. em EFs, discursos mais elaborados e prepa-
rados de antemão; 32,1p.h. nos DIDs e 25,1 p.h. nos D2s.
É muito usado por mulheres, o que corrobora os resultados encontra-
dos no corpus CENSO, de falantes menos escolarizados, em que a probabili-
dade de as mulheres usarem esse M.D. subiu a .64 (Silva e Macedo, 1992).
Quanto ao uso por região, medido por hora, configura-se da maneira mostrada
abaixo:
30

25

20

15

10

0
Re SA RJ SP PoA

Há uma analogia com digamos, exceto quanto a PoA, cuja freqüência


sobe em vez de descer.
Resumindo-se o que se viu, fica comprovada a estreita ligação do M.D.
com dificuldades de processamento do elemento seguinte. A bem maior sub-

341
jetividade dos ambientes que aparecem após o assim, a abstração do elemento
bem como o maior número de enunciados novos após assim, confirmam a
hipótese de que este marcador anuncia segmentos não-prototípicos e mais “di-
fíceis”. Chama a atenção a semelhança entre o comportamento de digamos,
com função de procura, e o de assim. Mais do que semelhança, a distribuição
complementar por sexo e quase por região pode ser indício do uso alternativo
de um ou outro.
O comportamento dos ambíguos não permitiu caminhar muito na com-
provação de uma possível migração dos advérbios para o M.D.

8. Conclusões
Os resultados sobre os fatos investigados são compatíveis com o mo-
delo da teoria dos conjuntos que subjazeu a este trabalho. O elemento encabe-
çado por por exemplo (os exemplificantes) é de fato prototípico: concreto,
objetivo, real e disponível. Ademais, o exemplificante tende a especificar o
enunciado do qual está a serviço, o exemplificado. Pelo contrário, os elemen-
tos encabeçados pelos marcadores caracterizados como de procura de elemen-
tos, como digamos, como assim, não são prototípicos e tendem a ser abstratos,
subjetivos e novos. As hesitações que coocorrem com esse marcador eviden-
ciam dificuldades de processamento e sugerem que o mesmo está funcionando
como um preenchedor de espaço vazio na conversa durante o processamento.
As partículas de expansão tendem a fechar enumerações de elementos
concretos e objetivos. Descartamos a hipótese que as via como um produto de
esquecimento momentâneo dos elementos da enumeração em favor da hipóte-
se alternativa que as vê como um coringa para enumerações de pouca relevân-
cia. Quanto maior a relevância, menor a quantidade de partículas de expansão,
o que força um maior paralelismo na estrutura da enumeração.
Assim e digamos, semelhantes quanto a várias propriedades, distin-
guem-se pelo fato de o segundo acumular outras funções além da principal, a
de procura de um elemento, possibilidade vedada ao primeiro que só exerce
essa. Malgrado essa diferença, os dois M.Ds. parecem encontrar-se em distri-
buição complementar, hipótese levantada após o cotejo da distribuição por
região e sexo.
Assumindo o verbo como medula espinhal do enunciado, conseqüen-
temente, como o ponto de referência a partir do qual caracterizar a distribuição
342
dos marcadores, veremos que assim e digamos tendem a ocorrer quase que
exclusivamente à direita, principalmente entre verbo e complemento ou nome
e complemento. Os fatores discursivos examinados justificam essa posição: é
à direita que estão os segmentos novos que são enunciados a respeito do tópico
discursivo representado geralmente pelo sujeito. Já os exemplificantes, que
anunciam elemento disponível, estão situados preferencialmente na fronteira
anterior ao sujeito. Essas duas características de digamos e de assim – não
marginalidade e grande quantidade de ocorrência fora de fronteira – (dife-
rentes das exibidas por por exemplo e pelos expansores) devem ser compara-
das às dos M.Ds. prototípicos para verificar se se trata de propriedade compar-
tilhada também pelos últimos.
Ainda quanto à distribuição, os M.Ds. que estão fora de fronteira en-
contram-se quase totalmente dentro de um complemento, ignorando o sujeito:
no total, menos de 1% estão dentro do sujeito. O fato de a informação do
complemento tender a ser nova enquanto a do sujeito a ser velha não basta para
explicar essa propriedade: a força da variável status informacional é incapaz
de dar conta dessa quase impossibilidade da presença desses M.Ds. nos sujei-
tos.
A não coocorrência dos M.Ds. estudados com outros M.Ds. independe
de sua não prototipicidade. Essa propriedade, algumas vezes referida como
aglutinadora por nós, parece própria apenas dos iniciadores de tópicos.
A demarcação prosódica dos não-prototípicos parece ter sido mais dé-
bil do que a dos M.Ds. tomados globalmente (68,9%). Creditamos tal fato à
tendência a esses M.Ds. não serem tão marginais.
O exame incipiente da fronteira ocupada pelos M.Ds. e por alguns ele-
mentos não M.Ds. detectou diferenças dignas de estudos posteriores, tais como
a especialização de função do digamos que, diferente da de seu alelo digamos,
sem evidenciar, todavia, fronteiras drásticas. Tudo se passa como se houvesse
um limite, a relação sintática com a estrutura oracional, limite esse necessário,
mas de cunho político, como o arroio Chuí. Não foi avistado nenhuma serra de
Caparaó, o que confirmou a idéia do continuum esquematizado na p. 1.

NOTAS
1
Não descreveremos sistematicamente os traços, só o fazendo esporadicamente em re-
lação aos M.Ds. tratados neste trabalho. Sugerimos que Risso, Silva e Urbano (1995)
seja lido anteriormente a este.

343
2
Os AA. julgaram que isso em nada retirava o caráter formulaico das unidades, pois as
alterações de forma dos M.Ds., quando existem, são bem restritas, não atingindo flexões.
3
“Although markers often precede sentences, i.e. syntatic configurations of an independent
clause plus all clauses dependent on it, they are independent of sentencial structure”.
(p.32)
4
A algumas unidades essa variável não se aplicava, posto que já eram sintaticamente
autônomas por si só (como interjeições, feed backs...).
5
Um dos AA não codificou todos os digamos da amostra por ter tido dúvidas quanto à
sua identidade marcadora; daí não ter sido gratificado com o grau máximo de freqüên-
cia ao qual faria jus.
6
Nem sempre essas marcas indicam dificuld