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O rumor dos sulcos

JOSÉ FERNANDO GUIMARÃES


José Fernando Guimarães

O rumor dos sulcos

1
1.

- «Não há paisagem, apenas rumor».

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2.

Uma voz chama – e desconheço o apelo. Sei, apenas, que a voz chama. Como
quem diz: - «Era uma vez». Mas, ninguém pode narrar uma história para
sempre perdida. Ninguém pode dizer, agora: - «Era uma vez». São palavras
incapazes de sulcar o poema – iniciá-lo sequer. Porque o poema é vidro,
poalha de vidro. Perdição. Um gesto, quem sabe. Talvez um segredo.

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3.

A pedra é insuspeita
– fundação, abrigo,
recolhimento, mesmo. E,
sendo-o, é
água, musgo, folhas
caídas no desamparo
onde excesso é vertigem,
rudeza. Rudeza de seiva,
a da pedra.

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4.

Como definir de Deus

a tristeza? Uma leve

cintilação da alma? Das mãos

sei o percurso, mesmo quando chegam

ao rosto, estremecendo

o sono. Da alma

nada sei. Nem mesmo o rasgão

que a possa anunciar:

água sulcando a geometria

dos campos,

pedra?

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II

Mesmo assim, a morte foi-lhe dolorosa

presa. Indecifrável

caminho. Que, fechados em si,

os altares pontuam. Em luto,

que é modo de memória. Mais tarde,

muito mais tarde, fulgor

da terra há-de ser. Se possível.

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5.

São tristes, as aves. E


estão-no. Nem sequer
do voo, a curva
podem delinear. Paradas,
são sombra,
peso, o da tristeza
que as corrompe.

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6.

Passa-se na passagem
que é caminho,
sulco na terra. E,
ao passar-se,
guarda-se a casa,
o vínculo. Sustido
nalgum nome
iluminado?

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7.

Alinhados estão. E nesse alinhamento


que os obriga,
a madeira é tão-só abrigo,
sulco aberto pelo conceito
implicado. Lá fora,
a batalha aguarda,
guardando-se junto à terra. E, guardando-se,
é apenas contenção,
estudo, olhar
olhando-se. Perdição?

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8.

Da terra estabelece apenas a geometria

que a pedra há-de cumprir. É alguém

intranquilo, ele. Inclinado sobre si,

é da aridez a descoberta

que a poeira, deslumbrando, cega.

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II

Concentra os músculos, o ar

que o movimento concita. Ave

ou barco, podia ser. Não assim,

ele. Abstracção,

a sua contenção é apenas gesto

suspenso que o exercício

há-de rasgar. A vertigem

ilumina-o, então,

encandeando-o. Recolhe-se. Na pista,

restam os sulcos, o ardor

impossível de configurar.

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9.

Como desviar a atenção da luz


a ponto de ser apenas interior
como um espelho que acaba
de se desembaciar? De Deus,
o rosto é só penumbra. Sombra,
na sombra que o habita. Como
iluminá-lo? Como trazê-lo
à luz que nos cerca,
escurecendo-a? Rasgando o dia
até que a ferida seja a essência
de Deus? E a luz
o caminho da sua ausência?

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10.

A cal, o giz. Esse apego


sem nome que a caligrafia
obscurece. Na noite,
uma voz chama. O apelo é tardio,
inconsequente. Como fechar
um livro, desenhar a humidade
do vidro. É tarde. E
tarda. Um nome
acorda, entretanto. Cal? Giz?

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11.

Quando a mão pousa na mão,

aturdida, revela-se incapaz de suster

a caligrafia que começa

a escurecer, alastrando-se,

para fora da página, à mesa,

à casa. É a hora de fechar

as portadas. Hesitantes,

os bichos são quase

atenção, a penumbra

de que as mãos ainda são capazes.

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12.

A casa é assombrosa

desolação. Os tectos

caem. As escadas

não conduzem a lado

algum. Nem sequer a clarabóia

ilumina. Apenas

as pombas persistem

no seu desígnio: o desenho

da casa. Onde nada há

para desenhar. Nem no desenho

do estuque. Ou nas fendas

das tábuas, onde o caminho

se nega. Este é o círculo

da desolação, aí onde os olhos se deixam

cegar pela poeira

e as mãos ficam

aturdidas. Será possível

o regresso? Da infância,

sabe-se que não. E da vida?

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13.

No inverno, a água corta


os pulsos, inquieta
o coração. É certo
que o sangue ferve,
atribulado. E
a alma é apenas
assombramento,
exíguo lugar
de luz. Que o inverno
declina sobre a pedra,
água sendo.

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14.

Junto à campa, a campa – lugar, destino. Pode-se discutir o perfil desse


destino. Mas, isso não interessa. Junto à campa, a campa. Rasa – sinal de
rasura. Que não de esquecimento. Porque a rasura da campa é, apenas, um
estar rés à terra. Como que diz: - «A terra é o lugar». Nada mais. Sol, vento,
chuva são o que nos habita. Também o mar, os campos. Mas, destes, os
mortos já não se lembram. Lembram-se, sim, do sol, do vento, da chuva. E da
erosão dos sentidos. Do fulgor dos dedos, agora adormecidos. Tão
adormecidos quanto eles. Por isso, ave alguma diz o seu olhar. E, as que o
dizem, restam paradas, suspensas no movimento das asas. Ei-la, a morte.

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15.

- «E acabaram por morrer». De facto,


é assim que o nó se desata, num gesto
nem sempre tranquilo. Ou que as mãos
se desenlaçam, deixando apenas a humildade
do gesto, o seu calor brando. Que, uma vez
o nó desatado, não é bem calor,
antes renúncia.

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16.

É um veio de sangue

que cicatriz alguma

pode conter. Nesse tumulto,

a respiração é transparência

do corpo que se entrega. Murmúrio

de águas, as mais profundas,

vida. Que se há-de cumprir,

e cumprindo, ser

fenda, até

que nas suas sombras

o peso seja só

aturdimento.

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17.

Apegam-se geada, frio

às mãos, ao olhar

enevoado como os montes, apesar

do fulgor das árvores, dos regatos

que, gelados, se debruçam em si, procurando

o centro, o vidro que os circunscreva

na medida exacta que os passos

não conseguem. O caminho

da floresta é ambíguo. E dele, em rigor,

somos incapazes de regresso. Daí o peso

que turva. Chegar, então, neve ao rosto

não ilumina, rasga.

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II

Na sombra da sombra,

a sombra, o incêndio

do olhar, incapaz de arar

a terra, a que se oculta,

para que o espanto

das mãos não seja delírio

extremo. Por isso, as mãos

sobem ao olhar,

apaziguando-o. – «Na cegueira

há o indizível. O veludo

escuro. Um fio de água».

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18.

Sem mácula, silencia-se a noite, rumor


da terra, arfar de bichos. E, em tal silêncio,
os contornos das coisas centram-se
na intimidade que as habita, penumbra, rasto
impreciso, a própria definição de noite.

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19.

E se acaso morresse
em novembro? Íntimo,
suspende-se no ar o cheiro
das colheitas, do que resta
de arar a terra. O frio
não trespassa as mãos
ainda, nem embacia
o olhar. Por isso,
quando os camponeses
se abeiram da lareira,
enunciam este desígnio: - «Ali,
sobre a madeira, o linho,
o alimento. Mais perto de nós,
a morte». E descobrem-se.

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20.

Este é o leitor, aquele que lê


o poema, tingindo os dedos. Negra
é a tinta e o poema que se insinua
queimando as veias, o coração,
destrançando o sangue,
o vermelho do sangue, subitamente
negro, tão negro que a atenção
é sombra e o poema,
esse destroço irremediável,
apenas mancha que a folha absorve,
circunscrevendo-a. No seu perímetro,
outro poema se insinua,
outro destroço. Assim, o leitor, aquele que lê.

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21.

Interpela os veios
da água, o silêncio
do silêncio, onde qualquer gesto
é um sulco
que a terra há-de conter.

25
II

Dentro da terra, a água,


a que ilumina a pedra
em silêncio, recolhida
no gesto que a cintilação
da vara há-de rasgar.

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22.

O chão alucina

os pássaros, que o mais ligeiro rumor

afasta. Nem que seja da mão

colhendo o pão. Recolhida,

aguarda um tumulto,

que canto algum há-de revelar.

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23.

Apenas um rumor, no início – pássaros ou árvores, alguma abelha tardia. Que


fixam a paisagem. Depois, um crescendo – canto, chama. E cinzas, como se
fossem ninhos abandonados para sempre. É, esta, a altura das colheitas. De
escrever o poema, como quem se despede. – «Até amanhã», diz alguém na
vindima, na debulha do milho. – «Boa noite», responde alguém dentro do
poema. Na terra seca, a poeira sobe, abstracta. Tão abstracta como fechar
uma janela, dizer adeus.

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24.

Ia morrer um dia. O corpo indicava-o,

apesar das roupas de verão. E no verão

ninguém morre. Nem estuda

atentamente. Os animais sustêm

os músculos, esperam

as colheitas, a melancolia

que as perpassa. E as sombras

são a concentração

do olhar. Um modo de dizer

até amanhã, que se anuncia

nas coisas. Nas suas margens, o calor

do vento. De facto, só o vento destrança

a superfície das coisas. Ou as mãos

que as dizem efémeras, para um dia,

mais tarde.

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25.

Silencia-se o silêncio
no que é caminho, água
que se entranha,
descortinando. Pedra? Raiz?
Ou apenas frio?

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26.

Na linha de água, difusa

a luz. Breve

indício, mínimo

pulsar dos dias que a paisagem

não sustenta, nem os gestos,

cansados de orvalho.

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27.

E não é que, anos mais tarde,

voltei a pisar uns passos atravessados

por mansa senilidade, sem que eu o suspeitasse

sequer? O corredor

é o mesmo, só que mais velho, ainda,

como eu. Que, aliás, não sei

se sou o mesmo. O corredor,

esse, é o mesmo. A mesma alcatifa

puída, a mesma cor

nas paredes. Ou, então,

não é assim. E eu é que o vejo assim,

neste modo de ver,

como me vejo a mim enquanto o mesmo

que não sou.

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28.

Tristes são os biógrafos e guardam-se

num estranho recato, que não é paz sequer,

antes convulsão. Que ouvido os levará

a um coração de sombras, um ido pulsar

de vida, um jardim tardio

onde flor alguma se há-de erguer

para o sol? Nem mesmo as rosas. Meticulosos,

desfolham-nas, quando ainda é verão

e a terra um sulco

arável, e guardam-nas, secas, nos livros

dos mortos, que das rosas aguardavam

uma gota de orvalho, a incandescência

das pétalas, o cheiro a terra

lavada pelo vento que a noite

solta. Da terra, pelo fim da tarde,

agora que é inverno,

sobem os castanhos adormecidos

das videiras, das árvores, e tudo se recolhe

na paisagem, mesmo os animais,

mesmo os mortos

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a biografar, ocultos nos seus segredos,

que mão alguma desvendará

um dia. E aguardam

a primavera, o rasgar

da terra, uma fenda. Aí são felizes. Nas raízes

circulam até ao mais alto do alto. E, se acaso Deus

lhes é aparição, cerram as pálpebras, que ardem

de desespero. As mãos, também. Por isso,

livro algum podem soletrar ou percorrer, pesados

de terra e cinzas. E esperam. Esperam a água

e o sol, o dia e a noite, o orvalho

e o vento que os há-de incendiar

ou pacificar. Sabem que nada lhes resta

ou lhes resta tudo, nessa ausência corroída pelo sangue

do tempo. E, apesar disso,

esperam. Nem que seja uma rosa,

uma uva, o seu fulgor. Que é deles,

também. E, por momentos, adormecem,

incapazes de sonhar, que as nuvens são velozes

e a trovoada tarda. E Deus é uma sombra

que não os atormenta

sequer. Muito menos os biógrafos.

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29.

Os adolescentes morrem agora, agora

mesmo, por dentro do olhar

alucinado. É uma morte trágica,

heróica. Especialmente agora. Estudam

as falácias e morrem no inverno, quando o sexo

se esconde um pouco mais. Talvez mães

e avós não compreendam

a herança, o peso

da alucinação. Nem eles, ocultos

pela noite. A noite protege-os

na ronda do escuro,

do breu. Não assim mães

e avós: incendeiam-lhes as mãos

com as suas mãos, até que o quarto seja um rasto

de esplendor. E guardam-lhes os olhos

e o coração. E eles não vêem nem sentem. Possuídos,

são tentados. E ignoram que a tentação é um degrau para o mais alto

do alto, onde encontram a amada,

que se lhes nega, por enquanto. Por enquanto

arfam como os animais, presas inconsequentes

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do destino. E estão sós. Tão sós

como a paisagem. Tão sós como a melancolia

que os alucina. Mão alguma lhes pode valer,

então. Procuram um lábio, a palavra

radical e indizível, a que transporta

o tempo, esse coágulo

da perdição. E sofrem. Até que o olhar

do outro os resgata. E, súbito, compreendem

o peso das colheitas, a essência

do olhar. Estão, agora, desprevenidos. Mãos

tocam mãos, diferentes das de mães e avós. E

os lábios procuram vezes sem conta

a palavra perdida para sempre. É, então, a hora

da revelação. E da morte que os aconchega, como outrora

as mães, as avós.

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30.

[a propósito de

Jovem mulher nua diante de um espelho,

de Giovanni Bellini, 1515]

Está nua, ou quase, de costas viradas para a paisagem. Não é, pois, o exterior
que a concentra. Antes qualquer coisa ao nível do olhar – um olhar
perdidamente triste, desprevenido. Está nua entre dois espelhos. No leito, uma
mensagem aberta, abandonada. Diante de si, no mais fundo de si, que a
pintura não consegue revelar, um espelho remete para outro espelho, um braço
remete para outro braço. E o rosto declina-se numa espera, que o diadema no
cabelo acentua. Há algo que dialoga, contudo. O lenço no cabelo e as nuvens.
O tecido que lhe esconde o sexo e o leito. Como quem diz: - «É algo de fora
que condiciona algo de dentro». E, entre esse fora e esse dentro, o perfume
marca a suspensão do gesto. Como se fosse o olhar do amado que a há-de
surpreender.

37
31.

- «Em ti, dentro de ti, no mais fundo de ti, és nascimento e morte. Eis o peso
que te é hóspede. E que te é essência».

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