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A Loucura, a Extravagância, a Insensatez e a Imprudência num

Único Tronco Humano

Por Edson Nunes

Há um certo tempo, quando a sanidade deixou de existir na minha mente,

me dediquei a um projeto: escrever um livro. Este acúmulo de devaneios em

páginas tinha que sair daquele estereótipo do alter-ego enraizado no personagem

principal, descontextualizar essa observação impregnada pelos críticos literários.

Não queria mais participar desse cotidiano de cidade grande e, com esse

intuito azucrinando meus pensamentos, resolvi mudar a minha confortável

realidade: pedi demissão no banco no qual trabalhava – isso foi um alívio imediato;

vendi meu possante pela metade do preço – isso foi um desespero absurdo; vendi

minha casa para o filho da puta de um professor de história - isso foi uma baita dor

de cabeça; cancelei todas as assinaturas de serviços em meu nome – isso foi uma

novela global protagonizada pelo mocinho indefeso, que sou eu, e pelos vilões sem

compaixão, que são os atendentes de telemarketing; dei meu melhor amigo para a

minha mãe – isso foi uma escapatória de grandes porções de cocô, porém com a

garantia de pagar a ração do animal todo mês; me desvencilhei de todos os

aparelhos de tecnologia – isso foi loucura, mas pelo menos o notebook sobreviveu a

esses desapegos, o aparelho eletrônico me pareceu conveniente naquele momento,

afinal, iria escrever um livro, seria mais prático utilizá-lo.

Com todas as pendências resolvidas, segui meu pretensioso destino: viajar

para Pribearandi. Ainda não sabia ao certo, em qual cidade iria morar

definitivamente, mas procurava um lugar calmo e sem grandes movimentações.

Minhas primeiras caminhadas pela cidade não revelaram absolutamente

nada sobre aquelas poucas pessoas denominadas como caipiras da gema. Toda

cidade pequena tem uma legitima Igreja Matriz, certo? Pois bem, corri para a praça

onde ficava a tal igreja, assim, poderia analisar o comportamento dos caipiras
pribearandianos, e saber se aquela cidade era ideal para desenvolver meu nobre

projeto.

Em poucos minutos, cheguei no local, e me deparei com a seguinte situação:

uma praça muito arborizada e repleta de pombas cagonas; cinco bancos com

espaço para quatro pessoas e todos devidamente ocupados por casaizinhos de

idosos; dois pipoqueiros disputando o território aos berros; quatro pintores dando

um tapa na fachada da igreja; e um bando de crianças correndo de um lado para o

outro.

Realmente, essa foi uma visão típica de cidade do interior. No primeiro

momento senti uma apreensão muito forte, jamais passei muito tempo numa

terrinha daquelas, o peso da consciência apareceu ferozmente, e uma insegura

pergunta veio a calhar: Como seria a porra do meu dia-a-dia naquele lugar? Só

vivendo pra saber.

O cartão do hotel no qual pretendia me hospedar, indicava um endereço

próximo à praça da terceira idade, sendo assim, despachei o táxi, e caminhei até o

local tranquilamente.

Na recepção do estabelecimento, apenas uma jovem mulher se encontrava

que, sem pestanejar, fez a questão de iniciar um diálogo pouco acolhedor, afinal,

turistas naquela desprezível cidade eram extremamente raros, e o que mantinha

aquele hotelzinho fajuto eram os fazendeiros e suas amantes, que utilizavam o

lugar como celeiro de atividades sexuais.

- Só temos disponível o quarto 405, no 4° andar, de frente pra praça? A

diária é 60,00 reais, por semana fazemos 360,00, e mês cheio fica 1380,00. Vai

querer, senhor?

Sem o mínimo tempo pra refletir as promoções de cada pacote, resolvi

escolher o semanal, parecia ser o mais conveniente para minhas pretensões

naquele momento. Ao adentrar no quarto, fiquei bastante surpreso com o que vi:

móveis simples, mas em ótimo estado de conservação e limpeza. Definitivamente,

o ambiente era muito aconchegante.


Prontamente estabelecido, me faltava conhecer o restante da pequena

cidade, todos os recintos alternativos que poderiam ajudar um novato escritor em

seu processo de criação intenso.

Teria eu escolhido a cidade certa?

II

As minhas ambições naquela época eram extremamente desvairadas, sem

propósito algum. Conseguir um digno agente literário era uma tarefa quase

irrealizável. Quem em sã consciência iria se sujeitar a produzir um calouro, por

mais esplêndido que fosse seu texto, a dificuldade de encontrar uma editora ou um

grande selo disposto a publicar a obra era algo fatigante.

Dentre os passeios por Pribearandi, descobri o Café da Leonora, que ficava

na avenida Amazonas, paralela com a Goiás, no bairro Canadá – eu sempre me

questionava como duas avenidas com nomes de Estados brasileiros poderiam

pertencer ao um bairro com nome de um país localizado na América do Norte.

No Café conheci a Paloma, uma professora de Português totalmente

diferente do que encontrei ao longo da vida, ainda mais por possuir um descolado

piercing no lado esquerdo do nariz e uma tatuagem inexpressável no braço direito.

Assim que pedi meu primeiro café debruçado no velho balcão engordurado, a

educadora fez questão de se apresentar e interromper o meu muito obrigado à

garçonete.

– Você deve ser o escritor que está hospedado no Sant Etiene Brasil,

acertei?

– Nossa, sou tão esquisito assim para ser reconhecido como um não cidadão

de Pribearandi? – debati num tom de discordância.


– Óbvio que sim! Olha para todas as pessoas desse lugar! Você tem alguma

semelhança com eles?

– Ok, não tenho, mas...

– Então, você não é daqui, afinal, olhe pra mim, eu também não pertenço a

esta cidade, mas...

– Mas...? – indaguei sem querer deixar o assunto morrer.

– Mas estou aqui, fazer o quê. Meu nome é Paloma, muito prazer!

Após o bate-papo inicial, eu precisava descobrir como ela sabia todas

aquelas informações sobre a minha curta existência em Pribearandi, um certo

complexo de perseguição já começava a brotar nas raízes do meu cérebro.

Nosso diálogo durou cerca de 30 minutos e, um pouco antes de acabar, a

professora disse que tinha que seguir seu rumo para a escola onde lecionava,

sendo assim, tomei a coragem necessária para perguntar como ela sabia cada

detalhe da minha estadia naquela pequenina cidade.

– Só mais uma coisa: Como você adquiriu todas essas referências sobre o

cidadão aqui?

– Faz assim: Amanhã, você me espera na frente do Sant Etiene, às 9h00.

Tomamos um café na padaria da esquina e eu te conto como uma ex-funcionária do

True Bank angariou essas informações, beleza? Ah, outra coisa, eu conheço um

agente literário que trabalha com a editora Transposição, posso te apresentar, se

você quiser, é claro!

Que filha da puta! Essa professora toda descolada trabalhou naquela merda

de banco onde fui escravo por 12 anos. Talvez, ela sabia muito mais do que eu

pudesse imaginar, ou quem sabe, ela já foi minha companheira em algum dos

setores que trabalhei, ou pior ainda, ela pode ser uma das 22 pessoas que mandei

embora antes do Natal de 2003, quando eu era o Superintendente da área

Comercial!
Mas, dane-se tudo isso! Ela conhecia um agente literário que trabalhava

para uma das maiores editoras do país, se eu tivesse – ou não - cometido alguma

falha com ela, o momento era de cultivação da amizade recém estabelecida.

– Porra, tô fudido agora, mina! – disse para a garçonete que recolhia

calmamente a minha xícara de café.

– Ahn? O que o senhor disse? – respondeu a pobre garçonete sem entender

absolutamente nada.

III

Sempre me gabei da minha pontualidade nos encontros – seja profissional,

amoroso ou simplesmente casual –, mas naquele dia algo estava errado com o meu

organismo. Uma baita dor de cabeça me fez passar a noite em claro, revirando de

um lado para o outro na cama e resmungando sem parar com o meu próprio eu.

Quando finalmente o sono veio à tona, o relógio indicava 7h42, mesmo

assim, decidi tirar um breve cochilo que, na verdade, se estendeu até às 16h45,

quando o telefone do hotel tocou, e a antipática recepcionista avisou que a Paloma

– a mulher do encontro na frente do Sant Etiene, às 9h00 – aguardava a minha

autorização para subir.

Mal abri a porta, e a Paloma já descarregou sua metralhadora oral:

– Já me deu um bolo no primeiro encontro? Acho que você não merece um

renomado agente literário, merece?

– Talvez não, mas no próximo encontro – se tiver, é claro – você exija à

minha enxaqueca que ela não apareça na noite anterior, e que me deixe dormir

tranquilamente, assim eu posso comparecer em todo e qualquer encontro com a

senhorita. Combinado? – ironizei.


– Nesta súbita vida, ouvi muitas desculpas, mas essa com certeza foi a

melhor! – respondeu Pamela com o mesmo nível de ironia.

– Ok, se não acredita, tá tudo certo! – afirmei meio atordoado, ainda com a

cabeça girando, devido à noite mal dormida.

Com um olhar fixo e desacreditado, Paloma disse que o meu encontro com o

agente literário seria no próximo fim de semana, e que seria bom eu preparar um

bom rascunho sobre o que livro iria abordar, um currículo profissional e acadêmico.

– Nossa, preciso levar também RG, CPF, comprovante de residência, ou

quem sabe, o meu tipo sanguíneo?

– Como já te falei anteriormente e você parece não ter escutado: o rapaz é

super renomado no meio. Ele é exigente, só isso!

Eu ainda estava de cueca, com o cabelo eriçado, e sem escovar os dentes,

quando a explicação sobre os conhecimentos referente à minha pessoa foram

revelados.

– Eu trabalhei no True Bank por seis meses, fui assistente na época que

você era Superintendente da área Comercial. Meu tio é dono do Sant Etiene Brasil,

e me disse que um rapaz – possivelmente escritor – tinha se hospedado no hotel,

seu nome era Nico Gomes. Como eu sou professora de Português, logo me

interessei, e alguma coisa me dizia que esse nome não era estranho . Quando eu te

vi no Café da Leonora, na hora me recordei do meu queridíssimo chefe!

– Caramba! A senhorita associa os fatos muitíssimo bem, não?

– Pois é, pra você ver!

Terminada a explicação, pedi um tempo para ir ao banheiro me arrumar,

antes de tomarmos o café que, naquele instante, seria o da tarde. Após tomar um

banho, escovar os dentes, pentear o cabelo e colocar o roupão, abri a porta do

banheiro, para a minha surpresa não vi a Paloma sobre a cama ou sentada na

cadeira próxima à janela.


Antes mesmo de colocar a minha cueca, a porta de entrada abriu

violentamente, e um carrinho com alguns lanches, cervejas e uma garrafa de

champanhe surgiu na minha direção.

– Opa, opa! Pensei que você estava com fome, que dizer, na verdade está,

mas fome de outra coisa, né? – perguntou Paloma com uma voz tremula ao me ver

com a cueca na mão e a parte íntima à vista.

– Calma, não tenho culpa que você não bate na porta e não me deixa

colocar a roupa em paz.

Rapidamente coloquei a cueca e a bermuda, e começamos a comer e beber

aquela fartura. Com a mesma rapidez que coloquei a roupa, fiquei bêbado com

tanta cerveja e champanhe. O mesmo aconteceu com Paloma – pelo menos era o

que eu achava.

Antes de qualquer atitude ou pensamento em aproveitar sexualmente da

professorinha, o meu corpo se entregou inteiramente ao sono profundo. Ao

acordar, tudo parecia estar no seu devido lugar, porém não estava.

Minha carteira foi extremamente esvaziada, meu notebook não estava no

armário, meus sapatos e tênis não estavam na mala, muita coisa havia sido

roubada, quase tudo, pra falar a verdade.

Quando fui dar queixa na delegacia, constatei que não existia nenhuma

professora de Português chamada Paloma na cidade, o dono do Sant Etiene Brasil,

na verdade, era dona, uma senhora de 78 anos. Porém, até hoje não descobri

como a Paloma – ou quem sabe Joana, Alessandra, Camila, ou qualquer outro

nome que aquela senhorita possuía – sabia que eu era um ex-funcionário do True

Bank, um aspirante a escritor e o mais instigante: o meu pobre nome Nico Gomes.

No final das contas, após este incidente, voltei a morar com a minha mãe

por um tempo, arrumei um emprego em outro banco, conheci a Luzia e me casei

com ela, tive duas filhas lindas, Carol e Lara. Depois de outro tempo, me separei de

Luiza, passei a ver as minhas filhas a cada 15 dias e, novamente, voltei a morar

com a minha mãe. E, o desvairado sonho de escrever um livro foi ficando de lado,
até que, mais uma vez, eu realizei a mesma loucura de largar tudo, com mais

cautela e malícia, óbvio.

Hoje, faz três anos que o livro foi publicado, por uma editora pequena do

interior. Não é nenhum best-seller da atualidade, muito menos consigo viver de

direitos autorais sobre ele, mas depois de muita persistência e determinação, a

minha animada epopéia literária foi concluída.

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