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Dica nº 1

Estilística – Pronomes (pessoais, possessivos), artigos (definidos e indefinidos) e


“que” – Use só o estritamente necessário. Assim, sua escrita ficará mais enxuta e
elegante.

Como fazer isso? Observe as substituições abaixo:·

• Eu gosto de massas. ® Gosto de massas.


•Tu sabes o que aconteceu? ® Sabes o que aconteceu?
•O garoto chegou acompanhado de sua mãe, que o trouxe bem arrumadinho. ® O
garoto chegou acompanhado da mãe, que o trouxe bem arrumadinho.
•Tenho pelo menos uma idéia na minha cabeça. ® Tenho pelo menos uma idéia na
cabeça. (“Uma” aí não é artigo indefinido, mas numeral.)
•Quero ouvir uma opinião sua. ® Quero ouvir sua opinião.
•Preparei um relatório circunstanciado sobre o assunto. ® Preparei relatório
circunstanciado sobre o assunto.
•Isto é para a sua apreciação. ® Isto é para sua apreciação.
•O meu nariz ardeu ontem. ® Meu nariz ardeu ontem.
•Ele disse que estava pronto para vir. ® Ele disse estar pronto para vir. (Substitui-
se a conjunção integrante “que” e o verbo na forma modal pelo verbo na forma
infinitiva.)
•O secretário-adjunto, que foi nomeado secretário titular, ainda não foi empossado
no novo cargo. ® O secretário-adjunto, nomeado secretário titular, ainda não foi
empossado no novo cargo.

Não há erro gramatical nas frases acima, mas elas ficam mais bem apresentadas
depois de efetuadas as substituições. A frase “Tenho pelo menos uma idéia na
minha cabeça” é pleonástica, isto é, redundante, pois alguém só pode ter idéias na
própria cabeça, não é?
Lembre-se de que as construções pleonásticas viciosas constituem defeito de estilo.
No geral, essas recomendações não necessitam ser seguidas rigidamente, já que há
situações nas quais quem escreve “sente” que com a colocação do artigo indefinido,
por exemplo, o texto fica melhor. Há outras situações em que a interposição do
artigo definido evita cacofonia (sonoridade desagradável), como neste exemplo:
“Enriqueça seu texto”, onde surge o encontro cacofônico “sasseu”. Isto pode ser
evitado desta forma: “Enriqueça o seu texto”.

Dica nº 2

Sintaxe - Crase

– Em princípio, crase é a fusão de duas vogais iguais. Mas quando isso acontece?
Nos textos que você lê ou escreve, a crase ocorre na fusão da preposição “a” com:

• o artigo feminino “a” ® a + a: “Entreguei o documento à diretora”;


• o pronome “a” (equivalente a “aquela”) ® a + a: “Prefiro esta fita à que vimos
ontem”.
• a primeira vogal dos pronomes demonstrativos aquele, aqueles, aquela, aquelas,
aquilo ® àquele (s), àquela (s), àquilo: “Somente entregarei a bola àquele
garoto”.
Essa fusão não fica aparente na pronúncia, mas, sim, na escrita, pois se assinala a
crase com acento grave (`), como se vê nos exemplos acima. Portanto, a + a = à.
Lembre-se: do fenômeno da crase participam, na maior parte do casos, uma
preposição e um artigo ou pronome feminino. Isso traz algumas conseqüências,
como:

1. Só ocorre crase diante de nomes femininos: “Dei o lápis à Joaninha” ou


“Refiro-me à carta de ontem”. (Única exceção: a + aquele = àquele, porque neste
caso não houve fusão da preposição com artigo, mas com a primeira vogal de
pronome demonstrativo.)
2. Só ocorre crase diante de nomes de Estados se eles costumam ser usados
com artigo: “Viajarei à Bahia” ou “Vamos à Paraíba nas férias” , porque dizemos :
“A Bahia fica na região Nordeste” e “A Paraíba tem lindas praias”. Mas não
dizemos: “Viajaremos Santa Catarina” nem “Vamos Rondônia nas férias”, porque
esses nomes são usados sem artigo: “Santa Catarina é Estado sulista” e “Rondônia
é bastante quente”.
3. Só ocorre crase diante de nomes de cidades se eles forem precedidos por
qualificativos, como bela, vibrante, pitoresca, etc.: “Refiro-me à bela Londrina”,
mas “Refiro-me a Londrina”; “Viajou à vibrante São Paulo”, mas “Viajou a São
Paulo”. Observe que este “a” é preposição = para. Aí surge uma questão: por que
houve crase em “Viajou à vibrante São Paulo”, se a crase é a fusão da preposição
“a” com o artigo feminino “a” e São Paulo é nome masculino? Por quê, hem?
Elementar, meu caro internauta: porque aí está subentendida a palavra cidade. É
por isso que poderíamos, sem problema algum, dizer: “Vamos à bela São Paulo”,
“Dirigimo-nos à linda Lençóis”, etc.
4. Não ocorre crase diante de pronomes pessoais (retos ou oblíquos): “Dê a ela
este livro”, não “Dê ela este livro”; “Dê a mim o que me cabe”, mas não “Dê mim
o que me cabe”, porque esses pronomes não são usados acompanhados de artigo.
Você já viu que para haver crase tem de haver preposição mais artigo. Se a palavra
não é usada acompanhada de artigo, nada de crase.
5. Não ocorre crase diante de numerais: “Ponte a 50 metros”, mas não “Ponte
50 metros”; “Daqui a 20 anos”, mas não “Daqui vinte anos”. Isto pela mesma
razão do caso 4, ou seja, os numerais não são acompanhados de artigo, já que não
se diz “o dois”, “os 50”. Se alguém disser, estará subentendendo alguma palavra,
como “o dois (o número dois)” e “os 50 (os anos 50)”. Nesses casos, o artigo
estará acompanhando aqueles nomes (número, anos) e não os numerais.

Dica nº 3

Semântica – Paronímia
– Paronímia é o fenômeno lingüístico pelo qual palavras de significados diferentes
apresentam estrutura fonética – digamos, sonoridade – e grafia semelhantes. A
rigor, os parônimos não deveriam ser estudados em Semântica, disciplina que se
ocupa do estudo do significado de elementos da língua. Entretanto, isso acontece
porque os significados dessas palavras são muitas vezes confundidos e toma-se
equivocadamente um no lugar do outro. Exemplos de parônimos: instrumentar
(dotar alguém de instrumento, de meio de fazer algo) e instrumentalizar (fazer de
instrumento alguém, um grupo de pessoas, uma organização; manipular,
manobrar). Assim, “vamos instrumentar os recém-formados para poderem sair logo
em campo” e “o que ele pretende é instrumentalizar a associação em benefício
próprio”. Instrumentar não está no dicionário com esse significado e
instrumentalizar ainda não está dicionarizada. Como se vê, os dicionários estão
sempre atrasados com relação à realidade viva da língua... Não é porque a palavra
não está no dicionário que ela não existe.

Veja outros exemplos: mandato (delegação que se concede a alguém para fazer
algo em nosso nome) e mandado (ordem escrita expedida por autoridade judicial).
Dessa maneira, os deputados recebem mandato do povo para representá-lo e
agirem no interesse popular, pelo menos é o que se espera que façam. Já o
mandado foi assinado pelo juiz para autorizar busca e apreensão de algo na casa
de alguém.
Mais um: felina (adjetivo feminino relativo a uma classe de animais, os felinos) e
ferina (adjetivo feminino relativo a fera). Dizemos, pois, “pegada felina” e “crítica
ferina”.

Dica nº 4

Por que, por quê, porque, porquê

Esses quatro aí complicam muita gente, menos pela complexidade dos conceitos e
mais por falta de “pegar-se o touro a unha” e aprender. A grafia desses vocábulos
varia conforme o significado que apresentam e a posição na frase. Vamos a eles:

1. Por que

Uso 1 – Grafa-se separadamente e sem acento quando a expressão puder ser


substituída por pelo qual, pela qual e seus plurais. Assim, em “Aquele é o portão
por que devo entrar”, posso substituir o “por que” por pelo qual. Em “Essas são as
razões por que não permaneci no cargo”, posso substituir o “por que” por pelas
quais.
Classe de palavra – Preposição por + pronome relativo que.

Uso 2 – Grafa-se da mesma maneira quando “por que” puder ser substituída por
por qual motivo, por qual razão. Exemplos: “Por que você faltou?” e “Não sei por
que a semente não germinou”.
Classe de palavra – Preposição por + pronome interrogativo que.

2. Por quê
É o mesmo caso do “uso 2”, acima, mas aqui o pronome interrogativo termina a
frase e depois dele, portanto, vem algum sinal de pontuação: “Afinal, a Marina não
veio, por quê?” e “Não me pergunte por quê, já lhe disse.” Como vimos, grafa-se
separadamente e com acento circunflexo no “e”.

3. Porque

Uma só palavra, sem acento gráfico. Introduz noção de causa ou alguma


explicação.
-Classe de palavra
Conjunção subordinativa causal: “O Brasil é país injusto porque sua elite é egoísta”.
A causa de o Brasil ser país injusto é sua elite ser egoísta. (Equivale a uma vez
que.)

Conjunção coordenativa explicativa: “Precisei afastar-me porque alguém se


aproximou”. A aproximação de alguém explica meu afastamento. (Equivale a pois.)

4. Porquê

Uma só palavra, acentuada.


Classe de palavra – Substantivo. É empregada antecedida de artigo, adjetivo,
pronome, numeral, enfim, de vocábulos que normalmente acompanham um
substantivo.

Exemplos: “Gostaria de saber o porquê disso tudo”. “Quer saber por quê? Tenho
pelo menos dois porquês.” Significa razão, motivo

Dica nº 5

Fonética/Fonologia - Se alguém lhe perguntar quais são as vogais portuguesas,


você rapidamente vai responder: a, e, i, o, u, não é mesmo? Foi assim que todos
aprendemos e é assim que milhares de professores continuam ensinando...errado.
Não se espante, é isso mesmo. E por quê? Porque quando se ensina assim está-se
confundindo fonema com letra e, antes de ser letra, a vogal (e a consoante
também) é fonema. Vejamos como as coisas se passam.

Sabemos que algumas letras representam graficamente mais de um fonema. É o


caso do "x", que representa os fonemas /z/ (exame), / s / (experiência), / š /
(faixa), / ks / (fixo). Isso também acontece com as vogais. Dessa maneira, temos
as seguintes vogais orais:

/a/ (par, cano)


/e/ (mel, café)
/e/ (vez, você)
/i/ (giz, ali)
// (sol, avó)
/o/ (pôs, coco)
/u/ (luz, azul)

Todas essas vogais são fonemas distintos, porque sua troca pode acarretar
mudança de significado. Por exemplo, se em "selo"(estampilha), trocarmos /e/ por
/e/, teremos "selo" (flexão do verbo selar, eu selo); se em "nós" (pronome reto ou
plural de "nó") trocarmos o // por /o/, teremos "nos", pronome oblíquo da primeira
pessoa do plural, e assim por diante.

Então, na verdade, temos sete vogais orais, representadas por cinco letras, a
saber:Fonema vogal
/a/
/e/
/e/
/i/
//
/o/
/u/ Letra correspondente
a
e
e
i
o
o
u.

Você vai dizer agora que está tudo explicado e acabado, não é? Ainda não. Faltam
as vogais nasais. São elas:

/ã/ (maçã, ampola, antes)


/ẽ/ (sempre, pente)
/ ĩ / (fim, cinto)
/õ/ (compra, ponto)
/ű/ (um, fundo).

Temos a seguinte correspondência entre vogais nasais e letras: Fonema vogal


Letras correspondentes

/ã/ ã, am, an
/ẽ/ em, en
/ĩ/ im, in
/õ/ õ, om, on
/ű/ um, un

Em resumo, temos, em português, 12 vogais, das quais sete são orais e cinco,
nasais, ou seja:
/a/, /e/, /e/, /i/, //, /o/, /u/, /ã/, /ẽ/, / ĩ /, /õ/, /ű/.
Dica nº 6

Morfologia - Verbo

Faz ou fazem vinte anos?

Quando o verbo fazer é empregado no sentido de decorrer tempo, é impessoal, isto


é, não tem sujeito e, conseqüentemente, permanece invariável na terceira pessoa
do singular. Dessa forma, diz-se: "Faz um mês que Francisca chegou" e "Faz vinte
anos que moro aqui". Se, nesse caso, "fazer" estiver acompanhado de verbo
auxiliar, este também ficará invariável: "Vai fazer cinco meses que não chove na
região" e "Deve fazer 95 anos que meus avós chegaram da Espanha".
Entretanto, na expressão fazer anos, ou seja, aniversariar, o verbo "fazer" tem
sujeito e, portanto, flexiona-se normalmente. Exemplos: "Gabriel faz cinco anos no
dia 17", "As gêmeas fazem 15 anos em setembro" e "Fazem 30 anos aqueles fatos
narrados". (Neste exemplo, "aqueles fatos narrados" é sujeito de "fazem 30 anos".)

Dica nº 7

Fui eu que fiz, fui eu quem fez ou fui eu quem fiz?

Quer saber mesmo? Pois todas estão corretas. Vejamos:

Fui eu que fiz - Justificativa - O verbo que tem como sujeito o pronome relativo que
concorda em número e pessoa com o antecedente, a palavra que precede esse
pronome. Exemplos: "Foi ele que te nomeou", "Sou eu que vou agora", "Fomos nós
que escrevemos a carta" e "Serão os pais dele que receberão a herança".

Fui eu quem fez - Justificativa - Se o sujeito é o pronome relativo quem, o verbo,


geralmente, permanece na terceira pessoa do singular. Exemplos: "Foi ele quem te
nomeou", "Sou eu quem vai agora", "Fomos nós quem escreveu a carta" e "Serão
os pais dele quem receberá a herança".

Fui eu quem fiz - Justificativa - Se o sujeito é o pronome relativo quem, o verbo


pode ser influenciado pelo sujeito da oração anterior, com o qual acaba
concordando. Exemplos: "Sou eu quem vou agora", "Fomos nós quem escrevemos
a carta" e "Serão os pais dele quem receberão a herança".

Dica nº 8

Ao invés de ou em vez de?

As duas formas estão corretas, cada uma com seu sentido.


"Ao invés de" significa "ao contrário de" e usa-se quando se colocam em oposição
idéias contrárias. Exemplos: "Ao invés de economizar, Gilda gastou todo o dinheiro"
e "Teria sido melhor se Mário, ao invés de falar, ficasse quieto".

"Em vez de" quer dizer "no lugar de" e usa-se tanto no primeiro caso como quando
as idéias não são contrárias, por exemplo: "Manifeste-se, em vez de se omitir",
"Em vez de crase, estude regência nominal agora" e "Por que você não usa a blusa
amarela, em vez dessa (de + essa) feiosa aí?".

Assim, é incorreto dizer-se "Ao invés de ir à padaria, foi ao supermercado", pois


padaria não encerra idéia contrária à de supermercado.

Dica nº 9

EUA ou E.U.A.? VASP ou Vasp?

É dúvida comum essa, a de como grafar as siglas. Estas são formas abreviadas,
geralmente compostas das letras iniciais dos nomes de organizações, empresas e
até de pessoas. A propósito, políticos costumam ser conhecidos pelas iniciais de
seus nomes, que formam siglas. Por exemplo, o ex-presidente Juscelino Kubitschek
era e é conhecido por JK. Jânio Quadros também foi muito citado na imprensa
como JQ. Outros personagens menos exemplares também são conhecidos por
siglas, como PC e EJ. O nome "Estados Unidos da América" pode ser convertido na
sigla EUA ou E.U.A. A Viação Aérea São Paulo S. A. corresponde a VASP ou Vasp.
Mas, afinal, como se deve escrever as siglas? Sigla - Tipo especial de abreviação
formada pelas letras iniciais de nomes de organizações (por ex., partidos políticos),
empresas, órgãos públicos, etc.

Exemplos:

PPB - Partido Progressista Brasileiro


PT - Partido dos Trabalhadores
OAB - Ordem dos Advogados do Brasil
ONU - Organização das Nações Unidas
Banespa - Banco do Estado de São Paulo S. A.
Varig - Viação Aérea Rio-Grandense S. A.
FNDE - Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação
IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
SHIN - Setor Habitacional Individual Norte.

As siglas, uma vez popularizadas, comportam-se como verdadeiros substantivos e,


como tais, estão sujeitas aos fatos próprios dessa classe de palavras, como flexão
de número e o acréscimo de prefixos e sufixos. Através deste recurso, a sigla é
sentida como palavra primitiva, podendo produzir derivadas. Assim: pró-OAB,
petismo, pepebista.

Particularidades das siglas:


· Plural - As siglas podem admitir marca de plural, um "s" minúsculo, sem
apóstrofo: CEPs, QSLs, PPAs. Mas também podem permanecer na forma singular e
o plural é marcado pelo vocábulo que as acompanha: os QSO.

· Pontos no interior da sigla - A norma oficial prevê o uso de pontos para marcar
essa forma reduzida, mas o próprio Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua
Portuguesa (PVOLP) apresenta exemplos com e sem pontos. A tendência
generalizada é a da supressão dos pontos. Assim, E. U. A. ou EUA.

· Maiúsculas ou minúsculas - O PVOLP admite a sigla escrita com todas as iniciais


maiúsculas ou somente a primeira. Dessa forma, podemos grafar VASP ou Vasp.

Dica nº 10

Daqui a 50 km ou daqui há 50 km?

Freqüentemente, confunde-se "a" com "há", mas não há razão para isso - embora
sejam homônimas (têm a mesma pronúncia) -, pois são palavras com uso bem
distinto.

Neste contexto, "a" é preposição e indica distância a percorrer a contar de


determinado ponto. Portanto, o cabível é "Daqui a 50 km", que equivale a
"cinqüenta quilômetros a contar daqui". Outro exemplo: "Daqui a 10 km, você
encontrará um posto de gasolina".

Quando se quer expressar noção de tempo futuro, recorre-se novamente à


preposição "a". Assim, "Daqui a cinco anos, Vanessa estará uma bela moça",
"Como estará São Paulo daqui a 100 anos?" e "Estávamos a 15 minutos do começo
da sessão quando o presidente anunciou seu cancelamento". (Neste caso, "a" indica
tempo futuro a partir de certo momento ocorrido no passado.)

"Há" é flexão do verbo haver e usa-se para expressar noção de tempo passado.
Assim, dizemos: "Há dois anos que moro aqui" ou "Saíram de Goiânia há 23 anos".
Nestes casos, "há" pode ser substituída por "faz": "Faz dois anos que moro aqui" e
"Saíram de Goiânia faz 23 anos".

"Há" também é usada para indicar distância percorrida: "A entrada para Caldas
Novas ficou há 20 km".

Em resumo
· Há - Tempo passado e distância percorrida: "Há 30 anos = Faz 30 anos" e "Há 30
km".
· A - Tempo futuro e distância a percorrer: "Daqui a 30 anos" e "Daqui a 30 km".
Dica nº 11

O mesmo

"João foi promovido ontem. O mesmo será homenageado na próxima semana."

É comum ler-se construções desse tipo, onde o vocábulo "mesmo" é empregado


dessa forma inadequada. E por que se deve evitar esse tipo de uso? Porque
demonstrativos como tal, mesmo, próprio servem para identificar alguma coisa, ou
seja, para indicar que se trata de alguém ou algo de quem ou do que já se falou ou
já se sabe distinguindo-o de outro alguém ou outra coisa: "Li XYZ. Não me agradou
tal livro", "Essa é a mesma salada de ontem" e "Dá na mesma (coisa)". No primeiro
caso, tal indica que o livro é aquele e não, outro. No segundo, mesma evidencia
tratar-se de determinada salada em oposição a outras e, no terceiro, que se está
falando de certa coisa e não, de outras. Portanto, é incorreto dizer-se: "João foi
promovido ontem. O será homenageado na próxima semana", pois neste caso não
se está distinguindo João de nenhum outro João. Essa construção pode ser refeita,
de maneira mais acertada, assim: "João foi promovido ontem. Ele será
homenageado..." ou "João foi promovido ontem e será homenageado..." ou ainda:
"João, que foi promovido ontem, será homenageado...". Há muitos recursos para se
fugir da incorreção ou da pobreza no uso da linguagem.

Mesmo e mesma, próprio e própria e seus plurais são ainda empregados para
reforço de expressão, no que mantêm o princípio que norteia o uso descrito acima.
Assim, "eu mesma fiz o bolo" (eu e ninguém mais), "nós mesmos preferimos vir
para receber o prêmio" (nós, não outros) e "o próprio chefe redigiu o memorando"
(deveria ser outra pessoa, mas foi ele).

Pronome - Palavra gramatical que substitui ou pode substituir um nome


(substantivo) ou a ele se refere: eu, lhe, isto, meu, etc. Exemplos: "Eu sou a
força!", "Dê-lhe o recado", "Isto é seu", "Esse crachá é o meu". O pronome pode
classificar-se em:

· apassivador - É a função que a partícula "se" exerce na formação da voz passiva


sintética ou pronominal. Neste caso, o sujeito é inanimado - incapaz de praticar a
ação verbal - ou apenas paciente da ação: "Plantaram-se várias árvores no canteiro
central", "Alugam-se quartos" e "Quero que se me devolva o dinheiro". [Note neste
último exemplo que aparece um objeto indireto (me).] A função apassivadora do
"se" é constatada ao converter-se a voz passiva sintética na analítica: "Várias
árvores foram plantadas no canteiro central", "Quartos são alugados" e "Quero que
o dinheiro seja devolvido para mim".

· demonstrativo - Refere-se à posição (no tempo ou no espaço) de alguma coisa


situada em relação a uma das pessoas gramaticais (a que fala, com quem se fala e
de quem se fala) ou à identidade de alguma coisa ou então indica a distância de
algo que aparece no texto. Os demonstrativos são: este esta isto
esse essa isso
aquele aquela aquilo
..Este, esta e isto usam-se para indicar proximidade da primeira pessoa, a que fala:
"Coloque a mesa neste (em + este) espaço", "Esta taça fica aqui", "Este ano
promete muitas surpresas" (ano em que se está) e "Isto está atrapalhando a
passagem".
Esse, essa e isso são usados para indicar proximidade da segunda pessoa, a com
quem se fala ("Esse carro é importado?", "Onde você comprou essa blusa?), ou da
primeira e da segunda simultaneamente ("Está vendo esse menino aí? É filho da
Márcia" e "Cuidado com a cabeça, que essa porta é baixa."). Com relação ao
tempo, expressam proximidade passada ou futura: "Junho foi bem produtivo; nesse
mês, trabalhei muito" e "Agosto vem aí. Esse mês promete ser bastante seco".
Aquele, aquela e aquilo expressam distanciamento, no espaço ou no tempo, de
alguma coisa em relação à primeira e à segunda pessoas simultaneamente: "Aquela
menina é minha prima" e "Aquilo aconteceu há muito tempo".
No texto, usam-se os demonstrativos para indicar o ser ou coisa de que se falou:
"Paulo, Afonso e Wagner seguiram carreiras diferentes. Aquele tornou-se bancário e
este, advogado" (Aquele = Paulo e este = Wagner). Assim, aquele se refere ao
termo mais distante e este, ao último citado. Demonstrativos como tal, mesmo,
próprio servem para identificar alguma coisa: "Li XYZ. Não me agradou tal livro" e
"Dá na mesma (coisa)". Usa-se mesmo/mesma para indicar que se trata de alguém
ou algo de que já se falou ou já se sabe, distinguindo-o de outro alguém ou outra
coisa: "Essa é a mesma salada de ontem". É inadequado dizer-se: "João foi
promovido. O mesmo vai ser homenageado", pois neste caso não se está
distinguindo João de ninguém mais. topo

· indefinido - Tem justamente essa função, a de "indefinir", ou porque não se sabe


a identidade de algo ou por não se querer identificar. Designa a terceira pessoa
gramatical de forma vaga, indeterminada. São pronomes indefinidos: alguém, algo,
ninguém, qualquer, tudo, cada qual, quem quer que, etc. Exemplos: "Alguém está
interessado em você", "Tenho algo para te mostrar", "Ninguém chegou na hora",
"Qualquer pessoa faz isso facilmente", "Tudo ajudou", "Cada qual com seu igual" e
"Quem quer que chegue atrasado não vai entrar". topo

· interrogativo - É usado para se fazer questionamento, interrogação: quem (qual


pessoa?), que (qual coisa? qual motivo?), qual (pessoa ou coisa dentre outras),
onde (em que lugar?), quando (em que tempo?), quanto (que quantidade? de seres
ou coisas). Exemplos: "Quem está aí?"; "Que há com você?", "Por que ela não
veio?"; "Qual (ou quem) de nós vai primeiro?"; "Qual das janelas está quebrada?";
"Onde está o microfone?"; "Quando Luciana viaja?"; "Quanto custa?"; "Quantos já
embarcaram?". topo

· pessoal - Substitui um nome e ao mesmo tempo indica sua pessoa gramatical (a


que fala, com quem se fala ou de quem se fala). Pode ser reto (eu, nós), oblíquo
(me, nos) e de tratamento (você, a gente, vossa excelência, o senhor, fulano).
Exemplos: "Nós é que somos os heróis", "Siga-me", "Você poderia passar-me o
jornal?".

- oblíquo: é o que exerce, na frase, a função de complemento do verbo: me, o, lhe,


se, nos, etc., como em "Beije-me mais uma vez", "Comprei-o num antiquário",
"Não lhe responda", "Os dois se abraçaram fraternalmente", "Francisco nunca nos
visitou". Como o pronome oblíquo exerce função complementar, orações como
"Deixe para mim fazer" são incorretas de acordo com a norma culta, pois ele aí
está desempenhando a função de sujeito. Neste caso, deve-se substituí-lo pelo
pronome reto eu: "Deixe para eu fazer". topo

· possessivo - Expressa noção de posse de uma das pessoas gramaticais


(possuidor) em relação à coisa possuída: meu, teu, seu e os correspondentes
plurais. Exemplos: "Meu filho chegou", "Teu cabelo está desalinhado" e "Seu ônibus
já passou". Pelos exemplos, vê-se o grau de relatividade da "coisa possuída", pois
nem sempre o possessivo exprime a noção de propriedade. Os pronomes oblíquos
também podem desempenhar papel possessivo, como nestes exemplos:
"Roubaram-lhe a carteira = roubaram a sua carteira" e "Conquistou-me a confiança
= conquistou a minha confiança". topo

· recíproco - É o que expressa reciprocidade da ação verbal. Isto significa que os


agentes da ação praticam-na e ao mesmo tempo a recebem. Assim, em “Jonas e
Alves abraçaram-se” e “Nós nos entendemos”, os verbos e os pronomes se e nos
são recíprocos. Estes funcionam aqui como objetos diretos, mas, empregados com
outros verbos, poderão classificar-se como objetos indiretos. Conforme a
construção, tal pronome pode causar ambigüidade, razão por que, se queremos
exprimir reciprocidade de ação, devemos utilizar as expressões um ao outro, uns
aos outros, mutuamente e reciprocamente em benefício da clareza. Dessa forma,
na oração “Oscar e Gouveia feriram-se”, não se sabe se ambos foram feridos por
alguma causa externa, se cada um feriu-se individualmente ou se um feriu o outro.
No primeiro caso, o “se” é pronome apassivador; no segundo, pronome reflexivo e
no terceiro, pronome recíproco. Neste caso, para evitar a imprecisão, construímos:
“Oscar e Gouveia feriram-se um ao outro” (ou “mutuamente” ou “reciprocamente”).
É possível ainda empregarmos forma verbal na qual se integra o prefixo entre- para
indicar claramente a reciprocidade, como em “Carlos e Daniela entreolharam-se”,
isto é, ele olhou para ela e ela fez o mesmo em relação a ele.topo

· reflexivo - Pronome pessoal oblíquo que, embora funcione como objeto direto ou
indireto, refere-se ao sujeito da oração: me, te, se, si, nos, etc. O pronome
reflexivo apresenta três formas próprias na terceira pessoa, do singular e plural: se,
si e consigo. "Guilherme já se preparou", "Ela deu a si um presente" e "Antônio
conversou consigo mesmo". Nas outras pessoas, os reflexivos assumem as mesmas
formas dos demais oblíquos não-reflexivos: me, mim, te, ti, nos, vos: "Eu não me
vanglorio disso", "Olhei para mim no espelho e não gostei do que vi", "Assim tu te
prejudicas", "Conhece a ti mesmo", "Lavamo-nos no rio", "Vós vos beneficiastes
com a Boa Nova". topo

· relativo - É a palavra que, numa oração, refere-se a um termo de outra, o


antecedente (que vem antes): que, o qual, quem, cujo. Exemplos: "Este é o
disquete que eu trouxe" (que ® disquete); "Tal o caráter herdado dos pais, o qual
era preciso manter" (o qual ® caráter; se fosse empregado "que", o sentido ficaria
ambíguo, pois não se saberia o que era preciso manter); "Foi ele a quem me dirigi"
(quem ® ele); "Estou falando da parede cuja pintura está manchada" (cuja ® da
qual a). O pronome relativo que distingue-se de outros “ques” por poder ser
substituído por o qual, a qual, os quais, as quais. É preciso cuidado no emprego do
que quando houver mais de um antecedente, para garantia da clareza. Veja este
período: “Joaquim é o pai do Renato, que nasceu em Alagoas”. Quem nasceu em
Alagoas? Igual cuidado merecem outros relativos. Assim, em “Visitamos Itaporã e
Icatu, onde se localiza a Escola de Belas-Artes”, não se sabe em qual cidade se
situa a escola. topo

· de tratamento - Palavra ou expressão que vale por pronome pessoal. São eles: a
gente, beltrano, fulano, sicrano, sua majestade, sua senhoria (e outros similares),
você, Vossa Alteza, Vossa Excelência (e outros similares). Os pronomes de
tratamento, apesar de serem da segunda pessoa gramatical (referem-se à pessoa
com quem se fala), são considerados de terceira pessoa. Assim, levam o verbo e
outros pronomes (oblíquos e possessivos) para a terceira pessoa, como em “Vossa
Excelência esqueceu-se do compromisso”, “Sua agenda permite a Vossa
Reverendíssima encontrar-se com o prefeito e “Você foi lá?”.

Dica nº 12

Etc.

Quantas vezes você já usou "etc.", não é mesmo? Vamos, porém, comentar algo
sobre isso.

Etc. é abreviatura da expressão latina et cetera e significa "e outras coisas", "e
outros (da mesma espécie)", "e assim por diante". Originalmente, era empregada
apenas com referência a coisas, mas atualmente também se vê (e pode-se usar)
relacionada a animais e mesmo pessoas que poderiam ser mencionados, mas são
subentendidos em um texto. Assim: "lâmpadas, soquetes, conectores, plugues,
etc.", "cavalos, mulas, jumentos, etc.", "Zezé di Camargo e Luciano, Chitãozinho e
Xororó, Leonardo, Daniel, etc.".

Com o passar do tempo, ficou obscurecido, para o falante comum, o significado


original dessa abreviatura, especialmente o fato de ela conter o elemento de
ligação "e". Dessa forma, etc. passou a ser vista como mais um elemento em uma
enumeração, razão por que, conforme se deduz, o Pequeno Vocabulário Ortográfico
da Língua Portuguesa (PVOLP) apresenta-a precedida de pontuação. Esta, contudo,
deve ser a mesma ao separar-se os elementos da seqüência, como nestes
exemplos:

· "Carros, peças, acessórios, etc."

· "Estava tudo assim agrupado: cenoura, chuchu, beterraba; banana, laranja,


melancia; feijão, soja e outros grãos; etc."

· "Fiscalizar. Reivindicar. Protestar. Etc. Tudo isso faz parte da prática da


democracia."
Entretanto, alguns puristas da língua relutam em aceitar pontuação antes do etc.,
apesar de esse uso ser respaldado pelo PVOLP e ser ratificado por respeitados
gramáticos brasileiros, como Celso Cunha e Celso Luft.
Agora, vamos acrescentar mais um ponto polêmico na nossa discussão. Se, na
origem, ficava evidente a presença do elemento de ligação "e" (et cetera), que já
não é mais percebido, e se, conseqüentemente, "etc." é vista apenas como mais
um elemento em uma enumeração, por que nos repugnaria o uso do "e" antes de
"etc."? Portanto: "galinhas, perus, patos e etc.". Vejamos o caso do pronome
comigo, formado de "com + migo". Mas o que é esse "migo"? "Migo" é resultado da
transformação fonética do latim "mecum" (que significava exatamente "comigo"),
onde já estava embutida a preposição "com" (cum, em latim). O que acontece com
o "etc." aconteceu também aqui: com o passar do tempo, os falantes não
"sentiram" mais a presença do "com" em mecum e acrescentaram mais um "com"
(cum + mecum > cummecum > comigo). Daí o vocábulo "comigo", em rigor,
conter dois "com". Da mesma forma, "e etc." conteria dois "e". Coisas da evolução
da língua. Contudo, é preciso ficar claro que essa é, por enquanto, apenas opinião
pessoal do prof. Paulo Hernandes. O uso de "e" antes de etc. ainda não é admitido
nas mais conhecidas gramáticas disponíveis no Brasil. Para finalizar: vocês se
lembram de um famoso jogador de futebol, que, apesar de não muito bom
entendedor do processo etimológico, disse em entrevista: "Comigo ou sem migo, o
time ganha."?

Dica nº 13

Coloquei mais um link no meu site.

O que acha dessa frase? Possivelmente, você dirá que está tudo certo com ela, tal é
sua familiaridade com essa enxurrada de palavras estrangeiras que pipocam nos
textos da nossa imprensa - especializada ou não -, não é mesmo?

Pois é, mas vamos aos fatos. Em primeiro lugar, a grafia das palavras no Brasil é
regulamentada por lei (Decreto-Lei n.º 2623, de 21.10.55), simplificada pela Lei n.º
5765, de 18.12.71. Dessa forma, o respeito à norma ortográfica oficial é respeito à
lei. Em segundo lugar, essa mesma norma disciplina a escrita de nomes
estrangeiros - os estrangeirismos ou barbarismos (em sentido estrito) - que, se não
forem aportuguesados, ou seja, se não se adequarem à nossa ortografia, devem
ser escritos entre aspas ou então sublinhados. Devem, enfim, ser postos em
destaque de alguma forma (tipos itálicos, por exemplo). Excetuam-se os já
consagrados, como box, watt, show, shopping, etc. (aqui em destaque apenas
para melhor visualização). A propósito, box, com significado de "compartimento",
permaneceu na grafia original, mas empregada no sentido de "luta com punhos" foi
aportuguesada para "boxe" e tem ainda sinônimo vernáculo: pugilismo. Assim, o
correto é escrever-se "link", software, upgrade.

O ideal seria que os meios de comunicação - TV, rádio, revistas, jornais e agora a
Internet - adotassem postura de defesa da nossa cultura, aí incluída a língua
portuguesa. Para isso, procurariam traduzir para o português, quando possível, os
nomes estrangeiros que através deles ingressassem em nosso meio. Caso não
fosse possível, que pelo menos adaptassem à nossa ortografia essa torrente de
palavras estrangeiras, especialmente inglesas.
Não se entende, a não ser em razão de mentalidade colonizada, que a maioria dos
estrangeirismos não possa ser traduzida. Para ficar apenas no contexto da Internet:
link não poderia ser "ligação" ou mesmo "porta"? Home page não poderia ser
traduzida por "página principal" ou "página de abertura"? Browser, não poderia ser
"navegador" ou "programa de navegação"? Em vez de download, bem que
poderíamos utilizar "baixamento", "descarregamento" ou "descarga". Se alguém
objetar que "baixamento" não está no dicionário, pois que se crie essa palavra e se
a coloque nele! Banner não poderia ser "faixa" ou "faixinha"? E o que dizer de hit,
no contexto da rede? Poderia perfeitamente ser traduzida por "visita" ou "acesso".
Lembremo-nos de que file, desde o início da expansão da Informática no Brasil, foi
apropriadamente traduzida por "arquivo". Em vez de mandar "e-mail" (abreviação
de electronic mail = correio eletrônico), eu bem que poderia mandar uma
mensagem ou até, abreviadamente, "msg.", já que é para encurtar... Este trecho,
de três linhas, foi retirado de uma revista especializada em Internet: "Às vezes,
troca-se links simplesmente, em vez de banners. Por exemplo: você tem um
site...". Total desrespeito à norma ortográfica. Que pelo menos se aportuguesem
tais palavras. Assim, vocábulos como link viram "linque"; site vira "saite"; browser,
"bráuser" e assim por diante. Já não aportuguesamos diskette? E "leiaute", já não
foi layout? Quem resiste a isso, deveria continuar a escrever football, goal, penalty,
bouquet e carnet, por exemplo.

Não se trata de xenofobia (aversão a tudo que é estrangeiro). Trata-se apenas de


defender nossa cultura e conseqüentemente nossa língua dessa invasão
desenfreada, que aqui despeja centenas de palavras sem a menor cerimônia, como
se o Brasil fosse a "casa-da-mãe-joana". (Na opinião de quem assim procede e com
isso concorda, é.) Vamos receber esses empréstimos lingüísticos quando
necessário, quando vierem suprir lacunas do idioma e mesmo assim adaptando-os
à nossa ortografia. Caso contrário, que fiquemos com as palavras da nossa língua,
a qual muito mais autenticamente expressa a cultura brasileira. O Brasil proclamou
sua independência política em 1822, mas, na mentalidade de muita gente, ainda
somos colônia

Dica nº 14

Pirassununga ou Piraçununga? Cotegipe ou Cotejipe?

Pela norma ortográfica brasileira, devem ser escritos com "ç" e "j" os nomes
provenientes de outras línguas – das indígenas, inclusive – os quais contenham,
respectivamente, os fonemas
· /s/ (som de "s") no meio da palavra, como araçá, Açu, Araçoiaba da Serra,
Guaçuí, Igaraçu, Moçoró, muçurana, Piraçununga, etc.;
· /ž/ (som de "j") no início ou no meio do vocábulo, como em Cotejipe,
jenipapo, Mojimirim, Potenji, Seriji. "Sergipe", pela regra, deveria ser Serjipe,
mas...
Dica nº 15

Minha mulher é do signo de Leão e minha mãe, de Libra. Tenho um irmão de Áries
e meus filhos são de Aquário.

Tudo muito natural, não é? Pode até ser, mas que há certa "salada" lingüística aí,
com certeza, há. E por quê? Porque se está misturando português com latim. Você
pode dizer como quiser - não há erro nisso -, mas, por questão de coerência,
deveria utilizar todos os nomes em português ou todos em latim. Aqui vão os
nomes dos signos do Zodíaco, nas duas línguas:

Dica nº 16

Maiores informações

É muito comum lermos na imprensa ou ouvirmos no rádio e TV, especialmente em


anúncios ou avisos, essa expressão, que seria apenas esquisita se não fosse
incorreta. Sim, porque maior é comparativo de superioridade de "grande". Assim,
dizemos "Meu texto ficou maior que o seu" ou "Sua alegria é grande, mas a minha
é maior (do que a sua)". Portanto, maior encerra duas idéias: de comparação e de
superioridade na grandeza. Ora, se "vale o que está escrito", ao dizermos "maiores
informações", estamos querendo dizer que tais informações são de tamanho maior
que alguma outra, que já é grande. Repare que estamos comparando idéia de
"tamanho". Na verdade, quem assim diz não está querendo se referir de forma
alguma a tamanho, mas à "suficiência" ou ao "detalhismo" da informação. Por isso,
se você quiser acertar, diga “mais informações” ou “informações mais detalhadas
ou pormenorizadas". Note ainda que "grande", elevado ao grau mais alto, ou seja,
ao superlativo, torna-se máximo ou o maior (ou máxima ou a maior): "Envie isso
com a máxima urgência" e "Larissa é a maior! (dentre outros)".

Dica nº 17

Dígrafo
Vez por outra, deparamos com esse termo da Gramática, que expressa fenômeno
lingüístico interessante em português. Mas afinal, o que é dígrafo?

Dígrafo - do grego di, dois, e grafo, escrever - é dupla de letras que representa um
só fonema, como "an" (em santo), que representa o fonema /ã/; "ss" (em passo),
que representa /s/; "nh" (em pinho), que representa /ñ/; e outros. Portanto, nos
dígrafos, as letras não formam encontro consonantal, já que não são pronunciadas
as duas consoantes, pois se trata de um único fonema. Na verdade, a existência
dos dígrafos revela deficiência do nosso alfabeto, pois o ideal seria que cada
fonema fosse representado por uma única letra. Os dígrafos no português brasileiro
são os seguintes:
dígrafo fonema representado palavra-exemplo

am /ã/ ambos
an /ã/ antigo
ch /š/ chuva
em /ẽ/ sempre
en /ẽ/ entrada
gu /g/ guelra, guia (neste caso, usa-se "gu" somente antes de "e" e "i" e o "u"
não é pronunciado.)
ha /a/ há
he /e/ hemisfério
he, hé / e / hera, hélice
hi /i/ hipismo
ho /o/ hoje
ho, hó // homem, hóspede
hu /u/ humano
im /ĩ/ impedir
in /ĩ/ indicador
lh /l / galho
nh /ñ/ ninho
om /õ/ ombro
on /õ/ onde
qu /k/ queijo, quilo (neste caso, usa-se "qu" somente antes de "e" e "i" e o "u"
não é pronunciado.)
rr // terra
sc /s/ nascer
sç /s/ cresço
ss /s/ esse
um /ű/ umbigo
un /ű/ mundo
xc /s/ exceção
xs /s/ exsurgir

Observe ainda que:


1. Quando as duas letras são pronunciadas, não se trata de dígrafo: quase,
freqüente, eqüidade, lingüiça, escada, exclamação, etc. O trema é colocado sobre o
"u" exatamente para indicar que ele deve ser pronunciado.

2. No final de palavras como cantam, armazém e correm, "am" e "em" não são
dígrafos, pois representam os ditongos nasais /ãw/ e /ẽy/, respectivamente, ou
seja, dois fonemas.

3. Na divisão silábica, apenas seis desses dígrafos são separáveis na escrita: rr,
ss, sc, sç, xc, xs. Assim, temos: car-ro, pas-so, des-ci-da, des-ça, ex-ce-to, ex-su-
da-çao.

Dica nº 18

150 g ou 150 g.? 100 ha ou 100 ha.?

Em português, as abreviaturas são normatizadas, ou seja, são definidas por norma


legal. Ao usá-las a nosso bel-prazer, podemos incorrer em erro. Dessa forma, por
exemplo, os símbolos científicos são escritos sem ponto, como g (grama), ha
(hectare), kg (quilograma ou quilo), m (metro ou minuto), m² (metro quadrado),
min (minuto), etc. Repare que, em orações como "Depois da dieta, ela pesa agora
50 kg.", o ponto ao lado de kg nada tem a ver com a abreviatura, mas funciona
apenas como ponto final do período.

Símbolos técnicos desacompanhados de ponto abreviador (há símbolos técnicos


pontuados, como ger. = gerúndio) não recebem "s" como marca de plural: 200 kg,
2h 10 m, 1.500 m, etc. Portanto, esta forma de notação tanto se refere ao singular
como ao plural dos nomes representados. Observe, num dos exemplos acima, a
forma correta de grafar horários: 3 h ou 3 h 00 m, 8h 30 m, 15 h 40 m, etc.
Grafias como 05:30 h ou 17h:35 estão em desacordo com a norma ortográfica
brasileira.

Muitas outras abreviaturas são usadas com ponto, como alm. (almirante), cap.
(capitão), gen. (general), adv. (advérbio), prof. (professor), etc. Não encontram
amparo legal abreviaturas do tipo "gal." (general) ou "alte." (almirante).
Abreviaturas acompanhadas de ponto podem receber "s" como marca de plural:
págs. (páginas), Pes . (padres). Página também pode ser abreviada p. e páginas,
pp.

Dica nº 19

Infinitivo flexionado

Este tema não é dos mais simples entre os fatos gramaticais da língua portuguesa.
O infinitivo é forma nominal do verbo e pode apresentar-se nas modalidades
flexionada e não-flexionada. (Veja o verbete "Infinitivo" no Glossário Gramatical.)
Alguns autores adotam, para essas formas, a nomenclatura de infinitivo pessoal e
impessoal. O prof. Hermínio de Campos Mello contesta esse uso alegando que tanto
o infinitivo flexionado como o não-flexionado são pessoais, ou seja, referem-se a
alguma pessoa gramatical. O mestre parece ter razão quando se empregam flexões
como "Vou caminhar amanhã", "Ela vai caminhar amanhã" ou "Todos vão caminhar
amanhã". Nestes exemplos, embora em sua forma não-flexionada, ou seja,
"impessoal", o infinitivo relaciona-se sempre a uma das pessoas gramaticais.

O infinitivo flexionado é idiomatismo da língua portuguesa, ou seja, é fenômeno


característico, típico de nossa língua, embora não seja exclusivo dela. Tudo indica
que se originou do imperfeito do subjuntivo latino (hipótese de José Maria
Rodrigues) e já aparece no primeiro documento conhecido escrito em língua
portuguesa, a "Cantiga da Ribeirinha" (veja a pág. Você sabia? n.º 13), como se
pode ver abaixo:

"e vos, filha de don Paay


Moniz, e ben vus semelha
d'aver eu por vos guarvaya".

O infinitivo pode, pois, flexionar-se em todas as pessoas gramaticais: amar (eu),


amares (tu), amar (ele), amarmos (nós), amardes (vós), amarem (eles).
Morficamente, o infinitivo flexionado é idêntico ao futuro simples do subjuntivo nas
conjugações verbais regulares. Distingue-se deste por encerrar significado
declarativo (afirmativo ou negativo: "Quero que os alunos tenham mais aulas de
Português para entenderem o infinitivo flexionado"), ao passo que o futuro do
subjuntivo expressa hipótese condicional (se eles entenderem) ou temporal
(quando eles entenderem). Outros exemplos de orações com o infinitivo flexionado:
"Ao se aproximarem os professores, os alunos levantaram-se", "As andorinhas
vinham chegando em revoada até pousarem todas sobre a figueira" e "Lembrou
existirem emendas na ata da assembléia anterior".
Dois autores estabeleceram regras para o infinitivo flexionado: Jerônimo Soares
Barbosa e Frederico Diez (pronuncie Dits). Vejamos o que consta de cada uma:·
Regra de Soares Barbosa - Em um período composto, se o sujeito do verbo
no infinitivo for diferente do sujeito do verbo da outra oração, o infinitivo será
flexionado. Ex.: "(Eu) Creio (nós) termos sido enganados". Por outro lado, se os
sujeitos do verbo no infinitivo e do verbo da outra oração forem os mesmos, o
infinitivo não se flexionará. Ex.: "(Nós) Viajamos juntos para (nós) discutir o
assunto em profundidade". O autor lusitano apresenta ainda outros casos de flexão
do infinitivo.
· Regra de Frederico Diez - Somente se usa o infinitivo flexionado quando ele
pode ser substituído por uma forma modal. Neste caso, é indiferente se ele tem ou
não seu próprio sujeito. Ex.: "(Eu) Peço-lhes não recomeçarem (vocês) a
discussão" ® sujeitos diferentes. Essa oração equivale a outra em que os dois
verbos estão na forma modal: "(Eu) Peço-lhes que (vocês) não recomecem a
discussão". Exemplo em que os sujeitos são os mesmos: "(Eles) Estão
comemorando por (eles) terem passado no vestibular", que equivale a "(Eles) Estão
comemorando porque (eles) passaram no vestibular". Esta regra de Diez é ótimo
guia para se apurar o estilo e evitar-se "que e porque" na medida do possível.
Quando cabível, suprimam-se esses elementos de ligação e converta-se o verbo da
forma modal na forma infinitiva. Dessa maneira, em vez de "Ele disse que é
possível que entremos", use "Ele disse ser possível entrarmos". (Veja também a
Dica n.º 1, Estilística.)

Leia agora algumas observações sobre o infinitivo baseadas em escritos do prof.


Campos Mello (CURSO, s. d.).

1. O infinitivo será ou não flexionado quando a clareza assim o exigir. Ex.:


"Infanta, no exílio amargo, só o existirdes me consola" (Tasso da Silveira). "D.
Amélia sofria com aquela animosidade dentro de casa. Uma vez falou com o marido
para sair, para procurar um lugar para morarem em casa que fosse deles" (José
Lins do Rego). Se o infinitivo não se flexionasse, os sujeitos dos verbos assinalados
seriam diferentes dos expressos nesses exemplos.

2. Certa ênfase de estilo pode justificar o emprego do infinitivo flexionado, como


no exemplo: "As mulheres cochilando nos quartos, os homens a caçoar e a rir na
sonolência, a se espreguiçarem do bom almoço pelas redes e cadeiras" (Dinah
Silveira de Queiroz).

3. Cumpre não confundir o infinitivo flexionado com o futuro do subjuntivo.


Assim, em "Se algum dia caírem estas linhas sob os olhos de alguém, rirão..." (Ciro
dos Anjos), tem-se flexão do futuro do subjuntivo e não, do infinitivo.

A flexão do infinitivo, quando correta, propicia clareza, elegância e concisão à


escrita. Para conhecimento mais amplo, consulte a bibliografia recomendada.

Dica nº 20

Onde e aonde

"Onde" significa em que lugar. "Aonde" equivale a para qual lugar e emprega-se
sempre com verbos que dão idéia de movimento, como ir e levar. Exemplos:
"Aonde Viviane vai?". Com os verbos que não encerram idéia de movimento, usa-se
"onde": "Onde você mora?" e "A casa onde nasci não existe mais". Onde e aonde
são advérbios e, quanto à função, podem ser classificados como interrogativos e
relativos. Serão interrogativos se integrarem oração interrogativa, tanto direta
como indireta: "Onde está meu casaco?" e "Diga-me aonde Neusa foi". Serão
relativos se se referirem a antecedente expresso ou implícito: "Esta é a piscina
onde fui campeão" (onde = em que, na qual ® relativo) e "Vou aonde você vai".
(Aonde = ao lugar para o qual ® o qual é relativo.) Esta oração equivale a "Vou ao
lugar para o qual você vai". Observe ainda que:
1. Onde se refere a lugar e não, a tempo. É incorreto, pois, dizer-se "É esse o
momento onde entro", pois se está falando de tempo. O correto é "É esse o
momento quando (ou em que) entro".
2. O prof. Celso Cunha ressalta que a distinção de emprego entre onde e aonde
é anulada por muitos escritores de renome e para isso cita alguns exemplos de
obras de autores como Machado de Assis e Fagundes Varela. (Veja CUNHA, 2000,
pp.342-343.)

Dica nº 21

Ambigüidade

Ambigüidade é vício de linguagem pelo qual uma frase é construída,


involuntariamente, com mais de uma interpretação. (Leia também o verbete
Ambigüidade do Glossário Gramatical.) Dizemos involuntariamente porque, em um
texto literário, o autor pode deliberadamente possibilitar mais de uma leitura a
determinada frase, o que deixa de ser vício. Veja este trecho, duplamente ambíguo,
inspirado em artigo de jornal:
"Diretora da Branofol demite filho de Rubens Galicanto, amigo do senador Carlos
Antônio, cuja ex-mulher o acusa de enriquecimento ilícito".
Desconhecemos quem é amigo do senador: o filho ou Rubens. Ficamos também
sem saber quem a tal senhora acusa: o filho, Rubens ou o senador. Por outro lado,
a múltipla ambigüidade só não atinge a "diretora", pois supõe-se ela não ter "ex-
mulher". Se fosse diretor, teríamos mais um elemento vicioso, em conexão com
"cuja ex-mulher". Resolvemos o problema conforme o que queiramos dizer:

É preciso estarmos atentos à construção de orações para evitar ambigüidades. Há


certas palavras perigosas, com as quais devemos tomar bastante cuidado para não
incorrermos nesse vício, especialmente possessivos (seu, sua). Em "Celsinho, a
Letícia veio com seu pai", não sabemos de qual dos dois é o pai. Resolvemos
facilmente o problema dizendo "Celsinho, a Letícia veio com o pai dela" ou
"Celsinho, seu pai veio com a Letícia", conforme o que pretendemos dizer. Também
merecem cuidado os relativos (que, cujo), como em "Visitamos a igreja do Carmo,
a mais bonita da cidade, que data de 1735". O pronome relativo que se refere
sempre a um antecedente. Acontece que aqui temos dois antecedentes expressos:
"igreja do Carmo" e "cidade". Por isso, devemos evitar colocar mais de um
antecedente diante de um relativo (pronome ou advérbio). Desfazemos a
ambigüidade da frase invertendo a ordem das orações e mesmo dispensando o
pronome: "Visitamos a igreja do Carmo - datada de 1735 -, a mais bonita da
cidade" ou "Na cidade - datada de 1735 -, visitamos a igreja do Carmo, a mais
bonita". A homonímia e a polissemia também podem causar ambigüidade: em
"Talvez eu não amasse Cláudia", não fica claro se a forma assinalada refere-se a
flexão do verbo amar ou amassar. Se a frase "As mudas chegaram" não estiver
contextualizada, não sabermos se se trata de plantas ou de mulheres que não
conseguem falar. (Ambos, casos de homonímia.) Em "Acadêmicos viram
monólitos", caso de polissemia, há dúvida se a forma verbal é flexão do verbo ver
ou virar. A substituição vocabular ou mudança na estrutura frasal resolverá o
problema. O pronome possessivo seu - e suas variações - tem vários significados,
ou seja, é polissêmico também. A ambigüidade, juntamente com a obscuridade,
são inimigas da clareza, uma das virtudes da boa linguagem e necessidade no
processo da comunicação.

Dica nº 22

Por ora ou por hora?

As duas, cada uma com seu sentido. Por ora equivale a "por agora" ou "por
enquanto". Por hora significa "em uma hora", "a cada sessenta minutos". Desse
modo, digo "Por ora, não vou mexer com isso = Por enquanto, não vou mexer com
isso" e "O carro chega a correr 300 km por hora = O carro chega a correr 300 km
em uma hora". Ora, nesse contexto, é advérbio e significa "agora, atualmente" e
hora é substantivo e quer dizer "fração do dia".

Dicas nº 23

Os gêneros em português - Em português, os nomes podem pertencer ao gênero


feminino e ao masculino. Uma palavra do gênero feminino designa especificamente
ser vivo do sexo feminino ou coisa que passa idéia feminina, por razões
etimológicas ou psicológicas. Já o gênero masculino, além de designar seres do
sexo masculino ou coisas que passam idéia masculina, abrange também palavras
de significado mais geral - por exemplo, o homem, referindo-se ao gênero humano
- ou vocábulos no plural que compreendem seres ou coisas considerados
masculinos e femininos. Assim, se dizemos o menino chegou ou a menina chegou,
sabemos que a referência é a um garoto ou a uma garota. Entretanto, se dizemos
os meninos chegaram, não sabemos se são todos do sexo masculino ou se há
garotos e garotas no grupo. É por isso que dizemos que o masculino é gênero
geral, "não-marcado" e o feminino é "marcado", pois este designa especificamente
seres femininos. Dessa maneira, o feminino é considerado variação morfológica do
masculino, tomado como base. Outras línguas, como o grego e o latim, possuem o
gênero neutro. As palavras a ele pertencentes não são nem femininas nem
masculinas. O português, apesar de não possuir o neutro, guarda alguns vestígios
dele - herança latina -, como os pronomes invariáveis isto (masc. este e fem. esta),
isso (masc. esse e fem. essa), aquilo (masc. aquele e fem. aquela), algo, tudo,
nada, etc.
A referência ao gênero é feita através de artigos (o/a, como em o boi / a vaca),
pronomes (ele/ela, meu/minha, este/esta, como em ele veio, ela veio; meu
dentista, minha dentista; este garfo, esta colher), pela distinção mediante
morfemas de gênero (-o/-a, como em gato/gata; -ês/esa, como em
freguês/freguesa; ão/ona, como em chorão/chorona).

Modernamente, temos visto na imprensa o emprego da palavra "gênero" em


contexto biológico, o que representa inovação, já que gênero é conceito
eminentemente gramatical.

Dica nº 24

Este, esse, aquele

Este, esse e aquele são pronomes demonstrativos e indicam a posição (no tempo
ou no espaço) de alguma coisa situada em relação a uma das pessoas gramaticais
(primeira-a que fala, segunda-com quem se fala e terceira-de quem se fala) ou
localiza algo que aparece no texto. Este, esse e aquele variam em gênero e
número, ao passo que as formas isto, isso e aquilo, vestígios do gênero neutro
latino, são invariáveis. Veja:

este esta isto


esse essa isso
aquele aquela aquilo

Este, esta e isto indicam a proximidade de alguém ou de alguma coisa em relação à


primeira pessoa, a que fala: "Coloque a mesa neste (em + este) espaço", "Esta
taça fica aqui" e "Isto está atrapalhando a passagem". Também podem indicar o
tempo presente: "Este ano promete muitas surpresas" (ano em que se está).
Esse, essa e isso são usados para indicar a proximidade de alguma coisa da
segunda pessoa, a com quem se fala ("Esse carro é importado?", "Onde você
comprou essa blusa?") ou da primeira e da segunda simultaneamente ("Está vendo
esse menino aí? É filho da Márcia" e "Tenhamos cuidado com a cabeça, que essa
porta é baixa"). Com relação a tempo, expressam proximidade passada ou futura:
"Junho foi bem produtivo; nesse mês, trabalhei muito" e "Agosto vem aí. Esse mês
deverá ser bastante seco".
Aquele, aquela e aquilo expressam distanciamento, no espaço e no tempo, de
alguma coisa em relação à primeira e à segunda pessoas conjuntamente, portanto,
indicam proximidade da terceira pessoa, a de quem se fala: "Aquela menina é
minha prima", e "Aquilo aconteceu há muito tempo".

No texto, usam-se os demonstrativos para indicar o ser ou coisa de quem ou de


que já se falou: "Paulo, Afonso e Wagner seguiram carreiras diferentes. Aquele se
tornou bancário e este, advogado" (Aquele = Paulo, este = Wagner). Assim, aquele
se refere ao termo mais distante e este, ao último citado.
O pronome o (e suas variações) pode equivaler a isto, isso, aquilo e a aquele e suas
variações: "Não compreendo o que você está dizendo" e "Os que estiverem de
acordo venham comigo". É preciso distinguir o artigo definido do pronome
demonstrativo, como neste exemplo: "Nem sempre as pessoas que chegam na
frente são as primeiramente atendidas". O primeiro "as" é artigo definido e
acompanha "pessoas", ao passo que o segundo é pronome demonstrativo e
substitui "as pessoas" ou "aquelas".

Alguns advérbios de lugar ajudam ou reforçam a localização espacial: aqui


(proximidade da primeira pessoa), aí (segunda) e ali, lá ou acolá (terceira): "Está
vendo este botão aqui?", "Pegue esse livro aí" e "Olhe aqueles garotos reunidos lá
na esquina".

Tais vocábulos, designativos da posição que seres ou coisas ocupam no espaço em


relação às pessoas do discurso, denominam-se tecnicamente "dêiticos".

Dica nº 25

A nível (de), em nível (de)

As expressões "a nível" ou "em nível", acompanhadas ou não da preposição "de",


com equivalência a "de âmbito" ou "com status de" são muito criticadas pelos
gramáticos, que as consideram sem sentido e, portanto, as condenam. Apesar de o
povo ser o senhor da língua e ele dar o significado que quer a palavras e
expressões já existentes ou até criar palavras novas, as formas citadas são mesmo
insossas. Até que elas se consolidem e sejam reconhecidas, é preferível, para evitar
críticas, usar formas cujo significado seja incontestável e que sejam pacificamente
aceitas. Desse modo, em vez de "A campanha será feita a (ou em) nível mundial",
prefira-se "A campanha será mundial", "A campanha terá abrangência mundial", "O
âmbito da campanha será mundial" ou ainda "A abrangência da campanha será
mundial", se se tratar de abrangência. Se a intenção for expressar status, no lugar
de "As mudanças no Governo serão feitas em nível ministerial", use "As mudanças
no Governo serão feitas no ministério", forma até mais objetiva. Na verdade, não
há "princípio lingüístico" que justifique a repulsa a tais expressões, apenas sua
inconsistência semântica. Finalmente, observe-se que é correto o emprego de "ao
nível de" quando se quiser dizer que algo está na mesma altura em relação a outra
coisa, quer em sentido próprio (denotado) ou figurado (conotado): "Ubatuba está
ao nível do mar" (na mesma altura em que o mar está) e "Dizer que criminosos de
colarinho branco estão ao nível de batedores de carteira é ofender estes últimos".

Dica nº 26

Quero falar consigo.


O uso dos pronomes reflexivos, especialmente o si e o consigo, pode suscitar
dúvidas. Se digo "Joana gosta de falar de si", quero dizer que Joana ama falar a
respeito dela mesma. Em "Ele falou consigo", estou querendo dizer que alguém
falou com si próprio. Aliás, às vezes, encontramos essas frases acrescidas dos
vocábulos próprio/própria e mesmo/mesma para reforçar ainda mais a
reflexividade: "Joana gosta de falar de si própria" e "Ele falou consigo mesmo".
Repare que esses pronomes se referem ao sujeito do verbo. Por isso, é incorreto
usar-se si e consigo de forma não-reflexiva, de modo a não se referirem ao sujeito
da oração, como em "Este bilhete é para si" ou "Queremos falar consigo".

Já comigo, contigo, conosco, convosco são pronomes não-reflexivos, como nestes


exemplos: "Venha comigo", "Quero dançar contigo", "Almoce conosco" e "O Senhor
esteja convosco". Comigo e contigo podem ser completados ou reforçados com
mesmo/mesma e próprio/própria, como em "Isso é comigo mesmo/mesma" e "É
contigo mesmo/mesma que quero falar". Entretanto, por questão de eufonia, isto é,
de sonoridade agradável, tal não ocorre com conosco e convosco. Nestes casos,
usamos os pronomes retos, como em "É com nós mesmos que ele deve tratar" e
"Tal assunto sempre esteve na alçada de vós próprios". O mesmo vale para
construções como "Isso é com nós professores", em vez de "Isso é conosco
professores". (Leia a respeito em ALMEIDA, 1979, § 319, Nota.)

Dica nº 27

Ao encontro, de encontro

Ir ao encontro, que se une ao substantivo mediante a preposição de (Ir ao encontro


de), significa, em sentido próprio ou denotado, sair em direção a ou ir encontrar-se
com alguém, como em "Fomos ao encontro da comitiva que chegava". Em sentido
figurado ou conotado, quer dizer corresponder, atender, satisfazer: "Minha
proposta vai ao encontro dos seus interesses".
Ir de encontro, que se une ao substantivo mediante a preposição a (Ir de encontro
a), significa, em sentido próprio ou denotado, colidir, chocar-se com, ir em direção
oposta a alguma coisa: "O caminhão foi de encontro ao muro". Em sentido figurado
ou conotado, quer dizer estar em desacordo, contrariar: "A mudança de nome da
Petrobrás vai de encontro aos interesses do Brasil".
O verbo utilizado nos exemplos foi "ir", mas bem poderia ser "vir": "Seu pedido
vem de encontro aos meus princípios".

Dica nº 28

Negação lexical

A negação lexical faz-se em português através do "morfema de negação". Este se


materializa na fala através dos alomorfes a-, des-, i-, in- e não-. Vejamos cada um
deles:
a- De origem grega, "a-" entra na composição de vocábulos como acrítico (a +
crítico), atípico (a + típico), atóxico (a + tóxico). Por questão de eufonia, diante de
vogal, assume a forma "an-", como em anaeróbico (an + aeróbico) e anovulação
(an + ovulação), embora tenhamos aético (a + ético). O prefixo de origem grega
"a-" não deve ser confundido com outro, de origem latina, com significado de
afastamento, separação, como em apartar.
des- Trata-se de prefixo vernáculo, que integra muitos vocábulos portugueses, tais
como desacerto (des + acerto), desonesto (des + honesto), desaconselhável (des
+ aconselhável). O prefixo "des-" pode também significar "ação contrária", como
em desfazer e desconsiderar, que não é o caso de que tratamos aqui.

i- Prefixo de origem latina, alguns gramáticos consideram-no variante do "in-".


Aparece em vocábulos como ilógico (i + lógico), iliquidez (i + liquidez), imerecido (i
+ merecido), imoral (i + moral). Diante de palavras iniciadas com / /, muda, na
escrita, para "ir-" a fim de manter o caráter forte daquele fonema: irreal (ir + real),
irrecorrível (ir + recorrível), irreconhecível (ir + reconhecível).

in- Este também é prefixo de origem latina, que entra na composição de muitas
palavras, como inapto (in + apto), inviável (in + viável), insatisfeito (in +
satisfeito). Diante de palavras iniciadas com /b/ e /p/,ocorre certa acomodação na
escrita: in- transforma-se em im-, já que "b", "p" e "m" são letras que
representam, todas, fonemas bilabiais, isto é, emitidos mediante a junção dos
lábios. Assim, temos imbatível (im + batível), impatriótico (im + patriótico),
improcedente (im + procedente). É preciso não confundir este prefixo com outro
"in-", que significa "movimento para dentro", às vezes transformado em "em-" e
"en-", como em embarcar e enterrar.

não- Embora tenha caráter negativo, este prefixo não deve ser confundido com o
advérbio de negação "não". Aqui ele entra na composição de palavras como não-
alinhado (não + alinhado), não-contradição (não + contradição), não-intervenção
(não + intervenção).

Grande número de exemplos que as gramáticas oferecem de prefixos é formado


por palavras que vieram do latim ou do grego já com esses morfemas
incorporados, o que não nos interessa em nosso estudo, o de composições
ocorridas no português. Assim, átono e impróprio já chegaram ao português com os
prefixos "a-" e "in-". A propósito, são oportunas estas palavras de Celso Luft: "Para
que exista prefixo reconhecível, é preciso que o radical corresponda a um vocábulo
autônomo ou forma livre: contradizer = contra + dizer; inverdade = in + verdade",
o qual cita ainda mais dois outros requisitos. Continua ele: "Assim, não há prefixo,
sob o ponto de vista descritivo, atual, em palavras como comer, esquecer, para as
quais entretanto uma análise histórica depreende os prefixos com- (cum-) e es-
(ex-)". Vamos mais além e entendemos que não há prefixos, pelo menos em
português, nos citados exemplos átono e impróprio e em todos os que a prefixação
não ocorreu em nosso idioma.

Dica nº 29
O convite foi aceitado ou foi aceito?

Antes da resposta a essa questão, é conveniente abordarmos o tema em que ela se


insere, o dos verbos com duplo particípio, os chamados verbos abundantes. Esses
verbos possuem duas formas no particípio: uma regular, com terminação em -ado
na primeira conjugação e em -ido na segunda e terceira, e outra irregular, com
terminação variável. A forma regular é normalmente mais longa e a irregular, mais
curta. Assim, o verbo "fixar", no particípio, apresenta-se como fixado e fixo.

O critério geral de emprego desses particípios é bastante simples:

· Particípio regular (longo) - É usado na voz ativa, acompanhado dos verbos


auxiliares "ter" e "haver", como em "Você tem secado as roupas na máquina?" e
"Já havíamos limpado o piso pela manhã".

· Particípio irregular (curto) - Usa-se na voz passiva, com os verbos auxiliares


"ser", "estar", "ficar", "andar" e outros. Exemplos: "A roupa já está seca" e "O
quarto foi limpo pela Cátia".

Observações:

1. Usadas com auxiliares como "ser", "estar", "ficar" e outros, as formas do


particípio variam em gênero e número. Assim, "O acordo foi firmado, os acordos
foram firmados; a proposta foi apresentada, as propostas foram apresentadas". Já
com "ter" e "haver", o particípio fica invariável: "Temos escrito muitos textos para o
saite". Se disser "Temos escritos muitos textos para o saite", o significado da frase
muda e passa a querer dizer que "temos prontos muitos textos para o saite".

2. Há particípios regulares que podem ser usados também na voz passiva.


Assim, poderemos ler na imprensa: "O ministro foi fritado por longo tempo" e "A
conta foi ocultada rapidamente da fiscalização". Lembre-se de que o particípio
irregular desses verbos é frito e oculto.

3. Em alguns verbos que admitem ambos os particípios na voz passiva, uma


forma é mais usual que outra conforme o auxiliar utilizado: "O reservatório está
cheio", mas "O reservatório é enchido até a metade diariamente" e "A montanha
está envolta em nuvens", mas "A montanha foi envolvida por forte neblina". Em
outros contextos, o mesmo particípio acaba sendo empregado indiferentemente
com um ou outro auxiliar: "O secretário presidencial esteve envolvido em
escândalos" e "O secretário presidencial foi envolvido em escândalos".

Nas orações reduzidas de particípio ou participiais, usa-se apenas a forma irregular:


"Aceso o lampião, os rostos apareceram" (e não "acendido o lampião") e "Findo o
recesso, os deputados continuaram em campanha eleitoral" (e não "findado o
recesso").
Na linguagem atual, a forma regular de três verbos já caiu em desuso: ganhado
(ganhar), gastado (gastar) e pagado (pagar). Curiosamente, todas relacionadas
com dinheiro.
Ah, faltou a resposta à questão-título! Pelo que você aprendeu acima, a forma a se
empregar seria apenas "aceito" não é mesmo? Acontece que o verbo "aceitar" é
uma das exceções à regra, de modo que o particípio aceitado também pode ser
usado na voz passiva: "O convite foi aceito" ou "O convite foi aceitado".

Dica nº 30

É necessário paciência.

Em expressões formadas pelo verbo "ser" + adjetivo (empregado


substantivamente), este último não varia: É necessário calma, Ginástica é bom
para a saúde, É feio falta de respeito e É proibido cigarros nesta empresa.
Explicação para o fenômeno é subentender-se um verbo nessas construções: "É
necessário (ter) calma", "(Fazer) Ginástica é bom para a saúde", "É feio (agir com)
falta de respeito" e "É proibido (portar ou usar) cigarros nesta empresa". Quando
se acrescenta ao substantivo palavra que o determina, como artigo ou pronome, a
concordância torna-se obrigatória: "A calma é necessária", "Aquela ginástica é boa
para a saúde". "É feia a falta de respeito" e "Os cigarros são proibidos nesta
empresa". Em construções como "É necessário (fazer) muitos pontos para se
ganhar o jogo", em que o substantivo está no plural, a concordância é facultativa:
"São necessários muitos pontos para se ganhar o jogo".

Sintaticamente, a invariabilidade do predicativo explica-se por ser o sujeito da


oração expresso de forma genérica. Em "Vitamina é bom para prevenir doenças"
(vitamina, conceito genérico) e "É necessário exercícios para você recuperar-se"
(exercícios em geral), está-se referindo a "vitamina" e "exercícios" de modo geral,
sem determiná-los. Caso haja essa determinação mediante artigo ou outro
qualificativo, a concordância faz-se normalmente: "As vitaminas são boas para
prevenir doenças" e "Aqueles exercícios indicados pelo fisioterapeuta são
necessários para você recuperar-se".

Dica nº 31
A noção de isotopia

Em Lingüística, "isotopia" (do grego isos, igual, semelhante, e topos, plano, lugar)
significa plano de sentido, leitura que se faz de uma frase ou texto. Se, por
exemplo, uma frase permite apenas uma leitura, é dita monoisotópica; diisotópica
se permite duas; triisotópica, se três; etc. Dessa forma, em "Ganhei esta caneta do
meu pai" e "Nas últimas férias, descansei bastante" temos duas frases
monoisotópicas, isto é, cada uma com apenas um significado. Em "Há muito
televisor que precisa melhorar a imagem" e "Ronan, a Márcia chegou com seu pai",
cada frase admite duas leituras. No primeiro exemplo, imagem = representação
televisionada de pessoas e coisas e também conceito. No segundo, seu = de Ronan
ou de Márcia. Já em "Empresas negam oferecimento de propina", temos frase
triisotópica, em que, negam oferecimento = recusam oferecer; desmentem ter
oferecido e desmentem ter recebido oferecimento. O mesmo ocorre em
"Acadêmicos viram monólitos", em que viram = flexão do verbo ver, de virar
-1 (transformar-se) e de virar
-2 (mudar de posição). A multiplicidade de planos de sentido é geralmente
produzida por homonímia ou polissemia.

É importante notar que o conceito de isotopia pertence à Lingüística -


particularmente à Semântica, um ramo seu -, ciência que descreve os fatos da
língua sem impor normas nem se preocupar com certo e errado. Assim, para a
Semântica, é indiferente se a pluralidade de significados de uma frase ou texto é
produzida intencionalmente ou não. Entretanto, para a Gramática, normativa que é,
a duplicidade de sentido será encarada como recurso de estilo se for produzida
intencionalmente com objetivos estéticos ou expressivos. Em caso contrário, será
considerada ambigüidade, vício sintático, que deve ser evitado.

Um texto também pode permitir - parcial ou totalmente - mais de uma leitura, isto
é, pode ser mono ou diisotópico, no todo ou em parte. O texto abaixo é bom
exemplo disso:

"Em determinado país, onde, em certa época, houve carência de mão-de-obra, o


Governo baixou decreto mediante o qual os casais eram estimulados a ter filhos.
Tal decreto também previa a hipótese de pessoas se casarem e não conseguirem
proliferar. Neste caso, marido e mulher seriam "auxiliados" por agente destacado
pelo diretor do Programa de Incentivo à Natalidade ao completarem cinco anos de
vida conjugal sem filhos. Exatamente nessa situação encontrava-se o casal que
travou o seguinte diálogo:

Mulher - Querido, hoje completamos o quinto aniversário de casamento.


Marido - É... e infelizmente ainda não tivemos um herdeiro.
- Será que eles vão enviar o tal agente?
- Não sei...
- E se ele vier?
- Bem, nada tenho a fazer.
- Eu, menos ainda.
- Já vou sair, pois estou atrasado para o trabalho.
Logo após a saída do marido, alguém bate à porta. A mulher atende e encontra um
homem à sua frente. Era um fotógrafo que se enganara de endereço.

Homem - Bom dia! Eu sou...


Mulher - Ah, já sei. Pode entrar.
- Seu marido está em casa?
- Não, foi trabalhar.
- Presumo que ele esteja a par...
- Sim, está a par e também concorda.
- Ótimo! Então vamos começar?
- Mas...já? Assim tão rápido?
- Preciso ser breve, pois ainda tenho dezesseis casais para visitar.
- Puxa! O senhor agüenta?
- Agüento sim, pois gosto do meu trabalho. Ele me dá muito prazer.
- Então, como vamos fazer?
- Permita-se sugerir uma no quarto, duas no tapete, duas no sofá, uma no
corredor, duas na cozinha e a última no banheiro.
- Nossa! Não é muito?
- Nem sempre se acerta na primeira tentativa.
- O senhor já visitou alguma casa neste bairro?
- Não, mas tenho comigo algumas amostras dos meus últimos trabalhos. (Mostra
fotos de crianças.) Não são belos?
- Como são lindos esses bebês! O senhor os fez?
- Sim. Este aqui (mostra uma das fotos) foi conseguido na porta do supermercado.
- Nossa! Não lhe parece um tanto público?
- Sim, mas a mãe era artista de cinema e queria publicidade.
- Que horror!
- Foi um dos trabalhos mais duros que fiz.
- Imagino...
- Esta foi feita num parque de diversões, em pleno inverno.
- Credo! Como o senhor conseguiu?
- Não foi fácil. Como se não bastasse a neve caindo, havia uma multidão em cima
de nós. Quase não consigo acabar.
- Ainda bem que sou discreta e não quero que ninguém nos veja.
- Ótimo, eu também prefiro assim. Agora, se me der licença, vou armar o tripé.
- Tripé???!!! Para quê???!!!
- Bem, minha senhora, é necessário. Meu aparelho, além de pesado, depois de
pronto para funcionar, mede um metro.

A mulher desmaiou."

Engraçado, não? Pois é... Mas voltemos ao assunto sério. Neste texto, a diisotopia
manifesta-se para o leitor, mas para cada personagem as falas são monoisotópicas.
E essa monoisotopia, principalmente para a mulher, é reforçada por afirmações do
homem como "Ele (o trabalho) me dá muito prazer" e "Sim". (Ao responder à
pergunta se tinha sido ele quem tinha feito os bebês.) Presumo que você tenha
percebido onde a diisotopia começa: a partir da fala da mulher "Ah, já sei. Pode
entrar".
O estudo do significado das frases pertence à Semântica Frástica e o dos textos, à
Semântica Transfrástica ou Textual.
Dica nº 32

60% da população não aprovam ou não aprova o Presidente?

Vejamos a seguir casos de concordância relacionados a porcentagem. "Quando o


número percentual é antecedido ou seguido de adjunto no plural, é melhor o plural:
'Esses 5% da boiada morreram' e '90% dos homens viajaram'". (ALMEIDA, 1979, §
769, 2, Nota, "a") Se esse número é seguido de substantivo ou pronome no plural
(expressões partitivas) e a estes, por sua vez, seguem-se verbo de ligação e seu
complemento (predicativo), o verbo e o predicativo influenciam-se pelo número e
gênero do partitivo.

Exemplos:

"60% dos produtos importados são supérfluos", "10% das funcionárias estarão
licenciadas nos próximos seis meses" e "3% dos alunos ficaram na sala para o
reforço". O mesmo acontece se o predicado é constituído de locução verbal passiva:
o verbo e o particípio também são influenciados, como em "25% das
administrações estão sendo investigadas" e "Somente 30% dos recursos deverão
ser utilizados na área social".

No restante dos casos, prevalece o singular: "Apenas 5% da bancada compareceu à


sessão", "50% da arrecadação mensal é destinada ao pagamento de juros" e, é
claro, 60% da população não aprova o Presidente".

Quando está implícita a idéia de quantidade, o verbo fica no singular: "Quanto é


45% de R$2.000,00?" e "2% de 200 é 4".

Dica nº 33

A maior parte dos eleitores é ingênua ou são ingênuos?

Se o sujeito é constituído por expressão partitiva (parte de um todo) e substantivo


ou pronome no plural, o verbo pode ficar no singular ou ir para o plural: "Metade
das casas foi construída ou foram construídas em regime de mutirão", "A maior
parte dos aviões foi destruída ou foram destruídos no solo" e "A maioria dos genes
já foi identificada ou foram identificados". "A cada uma dessas possibilidades
corresponde um novo matiz da expressão. Deixamos o verbo no singular quando
queremos destacar o conjunto como uma unidade. Levamos o verbo ao plural para
evidenciarmos os vários elementos que compõem o todo" (CUNHA, 2000: 488).
Dessa forma, o verbo no singular ressalta a concordância gramatical - a "normal" -,
enquanto que no plural obedece à concordância siléptica ou ideológica - "especial".
Se o substantivo ou o pronome estão no singular, o verbo permanece no singular:
"A maior parte da população está desassistida" e "Somente um terço do dinheiro foi
aplicado". O verbo ficará ainda no singular se a ação expressa por ele referir-se ao
todo e não a cada indivíduo ou coisa separadamente: "Um pelotão de sapadores
ficou aguardando ordens" e "Este lote de moedas será leiloado".

Agora está fácil responder à pergunta inicial, não é? Em ambas as hipóteses, a


resposta é afirmativa.

Dica nº 34

Norma culta - Padrão formal vs. coloquial

Norma culta nada mais é do que a modalidade lingüística escolhida pela elite de
uma sociedade como modelo de comunicação verbal. É a língua das pessoas
escolarizadas. Ela comporta dois padrões: o formal e o coloquial:
· Padrão formal - É o modelo culto utilizado na escrita, que segue rigidamente
as regras gramaticais. Essa linguagem é mais elaborada, tanto porque o falante
tem mais tempo para se pronunciar de forma refletida como porque a escrita é
supervalorizada na nossa cultura. É a história do "vale o que está escrito".

· Padrão coloquial - É a versão oral da língua culta e, por ser mais livre e
espontânea, tem um pouco mais de liberdade e está menos presa à rigidez das
regras gramaticais. Entretanto, a margem de afastamento dessas regras é estreita
e, embora exista, a permissividade com relação às "transgressões" é pequena.

Assim, na linguagem coloquial, admitem-se, sem grandes traumas, construções


como "Ainda não vi ele", "Me passe o arroz" e "Não te falei que você iria
conseguir?", inadmissíveis na língua escrita. O falante culto, de modo geral, tem
consciência dessa distinção e ao mesmo tempo em que usa naturalmente as
construções acima na comunicação oral, evita-as na escrita. Contudo, como se
disse, não são muitos os desvios admitidos, e muitas formas peculiares da norma
popular são condenadas mesmo na linguagem oral. Construções como "Nóis foi na
fazenda" (o "na" ainda seria tolerado) e "Ele pagou dois milhão pelos boi" são
impensáveis na boca de um falante culto em ambiente culto, pois passam a quem
ouve a impressão de total falta de escolaridade de parte de seu autor. Já em
ambiente inculto seriam apropriadas: é a história de "Em Roma, como (fazem) os
romanos". (Veja também a pág. Você sabia? n.º 25.) Por outro lado, usos próprios
do padrão formal empregados na língua oral costumam parecer forçados ou
artificiais no falar despreocupado do dia-a-dia e configuram o que se chama de
preciosismo. É o caso de, num bate-papo, ouvirem-se certos empregos do pronome
oblíquo - "Ainda não o vimos por aqui" -, flexões do mais-que-perfeito do indicativo
- "Eu ainda não entrara no Banco quando aquilo aconteceu - e, o que é pior, o uso
da mesóclise, como em "Você ver-se-ia em maus lençóis se continuasse a insistir
naquilo". Moral da história: assim como se usa traje apropriado para cada situação
social, também se use o padrão lingüístico adequado para as diferentes situações
de comunicação social.
Dica nº 35

Uniformidade de tratamento

A comunicação oral ou escrita no âmbito da norma culta requer uniformidade de


tratamento e concordância verbal em função da pessoa do discurso considerada.
Assim, se a pessoa escolhida for a segunda do singular, os pronomes e o verbo
devem estar igualmente nela.

Exemplo:

"Tu nunca te esqueces de visitar tua terra natal, não é?". Se a pessoa for a
terceira, é preciso converter os termos para ela: "Você nunca se esquece de visitar
sua terra natal, não é?". Observe que "você", embora se refira à pessoa com quem
se fala (segunda), é pronome de tratamento e, como tal, pertence à terceira pessoa
gramatical e para ela leva o verbo.
No caso da primeira do plural, a mesma coisa: "Nós nunca nos esquecemos de
visitar nossa terra natal, não é?". Nestes exemplos, o possessivo foi intercambiado
apenas para servir de mais um elemento de concordância, pois a "terra natal"
poderia ser a de quem quer que fosse. Entretanto, a primeira frase, por exemplo,
não poderia ser construída como "Tu nunca te esqueces de visitar sua terra natal,
não é?", se "terra natal" fosse a do interlocutor. Lembre-se de que pronomes de
tratamento como Vossa Senhoria, Vossa Excelência e outros, apesar do "vossa",
situam-se na terceira pessoa gramatical e, conseqüentemente, para ela levam o
verbo: "V. Ex.ª é muito previdente". É preciso estar atento para a concordância
para não se cometerem erros como "Não te falei que você iria conseguir?" e "Foi
nesse momento que eu caí em si". A primeira frase ainda é tolerável na linguagem
coloquial, mas a segunda é imperdoável se quem a pronuncia passou pela escola.

Dica nº 36

Capítulo dez ou capítulo décimo?

Capítulo décimo. Sempre que o numeral vier depois do substantivo, emprega-se a


forma ordinal até décimo. Daí em diante, usa-se a forma cardinal. Assim:

· Pedro I (primeiro)
· Paulo VI (sexto)
· Capítulo X (décimo)
· Luís XIV (catorze)
· Tomo XXI (vinte e um)

Se o numeral anteceder o substantivo, usa-se a forma ordinal:

· Oitava parte
· Décimo capítulo
· Décimo quarto tomo
· Vigésimo primeiro século
· 35.º Distrito Policial (trigésimo quinto)

Dica nº 37

Figuras de pensamento - Antítese e paradoxo

As figuras de pensamento são, antes de qualquer coisa, figuras de linguagem.


Resultam do desacordo entre a verdadeira intenção de comunicar e o ato de fala.
Dito em outras palavras, consistem em "desvios" que funcionam como véus a
ocultar um estado de consciência. Há vários tipos de figuras de pensamento, como
o eufemismo, a ironia, a litote, a prosopopéia, a antítese e o paradoxo. Vamos
tratar destas duas últimas.

A antítese consiste na exposição, no texto, de idéias contrárias. Essa oposição pode


ocorrer entre palavras, frases ou orações. Assim, temos antítese em "Ele não odeia,
ama; não chora, ri.". A página Com Jesus ,de Emmanuel, contém várias antíteses,
como "Não te omitas. Ajuda./Não condenes. Ampara./Não te ofendas.
Esquece./Não te queixes. Caminha./Não depredes. Constrói./Não critiques.
Instrui./Não pares. Serve sempre./". A antítese foi recurso característico da
literatura barroca. Este trecho de Vieira, extraído do Sermão da Sexagésima, dá-
nos idéia de sua utilização: "... mas esse espírito tinha impulsos para os levar, não
tinha regresso para os trazer; porque sair para tornar melhor é não sair". Na
antítese, o contraste confere às palavras opostas ênfase que não teriam se
apresentadas isoladamente.

O paradoxo é figura em que há contradição de idéias. Em outras palavras, o


paradoxo apresenta opinião contrária ao senso comum, mas que pode conter
verdade: "Dor - tu és um prazer! (Castro Alves). Neste magnífico soneto de
Camões, sucedem-se os paradoxos:

"Amor é fogo que arde sem se ver,


é ferida que dói e não se sente;
é um contentamento descontente;
é dor que desatina sem doer.

É um querer mais que bem-querer;


é solitário andar por entre a gente;
é um não contentar-se de contente;
é cuidar que se ganha em se perder.

É um estar-se preso por vontade,


é servir quem vence o vencedor,
é ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode o seu favor


nos mortais corações conformidade,
sendo a si tão contrário o mesmo Amor?".

Lindo, não? E cheio de paradoxos. Como podemos ver, na antítese, apresentam-se


idéias contrárias em oposição. No paradoxo, as idéias aparentam ser contraditórias,
mas podem ter explicação que transcende os limites da expressão verbal.

Dica nº 38

Lapizinho ou lapisinho?

A segunda. Entre as dezenas de sufixos indicadores do grau diminutivo existentes


em português, o falante tem a sua disposição -inho (e suas variações: -inhos, -
inha, -inhas, -zinho, -zinhos, -zinha, -zinhas).

A grafia de palavras com o sufixo -inho depende da forma normal. Assim, o


vocábulo no diminutivo será escrito com "s" ou com "z" de acordo com a grafia da
forma normal, "s" ou "z":
· lápis ® lápis + inho ® lapisinho
· mesa ® mes(a) + inha ® mesinha
· vaso ® vas(o) + inho ® vasinho
· rapaz ® rapaz + inho ® rapazinho
· raiz ® raiz + inha ® raizinha
· reza ® rez(a) + inha ® rezinha

Já o sufixo -zinho nada mais é do que -inho acrescido da consoante de ligação "z".
Dito em outras palavras, -zinho é variante alomórfica de -inho. Sempre que o
sufixo -zinho for juntado à forma normal, a grafia será evidentemente com "z",
assim:

· Irmã ® irmã + zinha ® irmãzinha


· Amor ® amor + zinho ® amorzinho
· Romã ® romã + zinha ® romãzinha
· Papel ® papel + zinho ® papelzinho

Com os vocábulos oxítonos terminados em vogal - oral ou nasal - e a maior parte


dos proparoxítonos também se usa -zinho:

· pé ® pé + zinho ® pezinho
· vovô ® vovô + zinho ® vovozinho
· mamão ® mamão + zinho ® mamãozinho
· cátedra ® cátedra + zinha ® catedrazinha
· árvore ® árvore + zinha ® arvorezinha
· óculos ® óculo(s) + zinhos ® oculozinhos

Na linguagem coloquial, algumas dessas formas simplificam-se, como arvorezinha


> arvinha e oculozinhos > oclinhos. Entretanto, saiba que na linguagem culta
formal (escrita) essas criações não são aceitas e prevalecem as grafias apontadas
acima.

Dica nº 39

Obedeceu-se ao regulamento x O regulamento foi obedecido.

Ué, mas não se diz que não se pode apassivar construção de que faça parte verbo
transitivo indireto? Acontece que temos aí duas situações distintas, já que o verbo
obedecer pode ser usado na regência direta - obedecer alguém - ou indireta -
obedecer a alguém. (A propósito, veja LUFT, 1987-Verbete "Obedecer".) As duas
situações são:

1. Regência direta (Obedecer alguém) - Neste caso, o verbo é transitivo direto e


conseqüentemente o "se" é pronome apassivador: "Obedeceu-se o regulamento",
"O regulamento foi obedecido" e "Obedeceram-se os regulamentos", "Os
regulamentos foram obedecidos". Sujeito: o regulamento, no primeiro exemplo, e
os regulamentos, no segundo.

2. Regência indireta (Obedecer a alguém) - Aqui não pode haver apassivação, já


que o verbo é transitivo indireto. Logo, o "se" é índice ou partícula de
indeterminação do sujeito: "Obedeceu-se ao regulamento", "Obedeceu-se aos
regulamentos". Sujeito indeterminado.

Há controvérsia entre os gramáticos se, com os verbos transitivos diretos, o "se"


também poderia ser considerado partícula de indeterminação do sujeito. Nesta
hipótese, poderiam ser aceitas construções como "Vende-se casas" e "Aluga-se
canoas", em que o sujeito seria indeterminado. Essa posição, porém, ainda
encontra resistência junto à maior parte dos especialistas.

Dica nº 40

Curso a distância ou curso à distância?

Na verdade, o que está em discussão é: ocorre ou não crase nas locuções


adverbiais? O tema é bastante controverso e não há acordo entre os autores.
Assim, quem escreve deve apoiar-se nos argumentos de algum especialista
renomado, quer opte por uma ou outra posição.

Duas correntes posicionam-se:

· a que admite crase nas locuções adverbiais somente se, de acordo com a
regra geral da crase, houver emprego do artigo definido "a" ou se houver risco de
ambigüidade. Assim, em "Mantenha-se à distância de 30 metros", "Ele passa às
vezes por aqui" e "A irregularidade está à vista dos consumidores", percebemos o
emprego do artigo "a" e a crase é justificada. Em "Recebeu a bala" e "Já estudei a
distância", a clareza está comprometida, pois ficamos sem saber, apenas por essas
duas frases ambíguas, se a bala e a distância são objetos diretos ou adjuntos
adverbiais, razão por que, neste último caso, deve haver acento grave no "a"
dessas locuções - à bala e à distância - para precisar o significado. Entretanto, em
"Temos curso a distância nesta escola", "Os policiais foram recebidos a bala" e
"Faça a prova a tinta", as locuções assinaladas não recebem acento grave porque aí
não há crase, pois o artigo definido feminino não está sendo utilizado. Tanto isso é
verdade que se tentarmos substituir os substantivos femininos por outros
masculinos não teremos a contração "ao", mas o "a" se manterá, prova de que é
simples preposição. Teremos, por exemplo, "Os policiais foram recebidos a pau (e
não, ao pau)" e "Faça a prova a lápis (e não, ao lápis)". Além do mais, naqueles
dois exemplos, inexiste o risco de ambigüidade.

· a que entende dever haver sistematicamente crase nas locuções adverbiais


formadas de palavras femininas sob o argumento da tradição, ainda que
tecnicamente não haja razão para tal. Assim, devemos construir "Quase não se
escreve mais à máquina", "Você pode emitir o recibo à mão", "Paguei o lote à
vista", "Rico ri à toa", etc.

Considero inconsistente o argumento da "tradição". Só isso não constitui


justificativa suficiente. O entendimento da primeira corrente mencionada tem mais
embasamento lógico e, conseqüentemente, é o adotado por mim. Finalmente, é
preciso esclarecer não ser adverbial, mas adjetiva a locução presente no título
desta página, pois ela modifica substantivo (curso). Entretanto, as considerações
aqui tecidas valem também para ela.

Dica nº 41

Enviamo-lhes ou enviamos-lhes?

Tanto faz. A ênclise em construções como "Envio-lhe", "Envio-lhes" ou "Enviamos-


lhe" não costuma suscitar muita dúvida. A questão surge quando se emprega o
verbo e o pronome oblíquo no plural. "Gramaticalmente, não se pode dizer errada a
forma queixamos-nos. Se outro, no entanto, é o uso geral, explica-o a facilidade,
ou melhor o hábito da pronúncia, o qual regula a omissão ou não do s final nos
diferentes casos." (ALMEIDA, 1979, § 825, 4, Notas, 2.ª) A supressão do "s" do
verbo pode ocorrer com qualquer oblíquo, até mesmo com o verbo no plural e o
pronome no singular: enviamo-lhe.

Outros autores, como Celso Cunha (2000, p. 400, Observações, 1.ª), registram que
em casos como esses "o -s final da desinência -mos é omitido (em virtude de uma
antiga assimilação à nasal inicial do pronome seguinte)". Ele refere-se a
construções como "lavemo-nos", em que o pronome oblíquo principia com a
consoante nasal "n". Não comenta a respeito de outras formas verbais associadas a
outros pronomes oblíquos, como em "lavamos-lhes as roupas". Assim, o fator que
regula tal uso é tão-somente a eufonia ou então a facilidade de pronúncia.
Podemos, pois, construir como abaixo:

· Lavamo-nos ou lavamos-nos todos os dias.


· Louvamo-vos ou louvamos-vos sempre, meu Deus.
· Enviamo-lhe ou enviamos-lhe anexo o memorando n.º 565.
· Avisamo-los ou avisamos-los de que a encomenda chegou ontem.
· Informamo-lhes ou informamos-lhes que o depósito já foi efetuado.

Dica nº 42

Desmistificar ou desmitificar?

As duas, cada uma com seu sentido. Vejamos:

· Desmistificar = Retirar ou desfazer a mistificação de alguma coisa,


desmascarar. Mistificação é o ato de mistificar, que significa enganar, iludir, burlar,
fazer algo passar pelo que não é: "Regina desmistificou a encenação de José
Roberto".

· Desmitificar = Desfazer mito, mostrar a coisa como ela realmente é em sua


simplicidade e concretude: "Os professores modernos procuram desmitificar a
Matemática e fazê-la deixar de ser o 'bicho-papão' que sempre foi".

Os dois vocábulos são algo mais que parônimos, pois, além da sonoridade quase
idêntica, seus significados são também muito próximos. Daí a freqüente confusão
que causam.

Dica nº 43

Escolas-modelo ou escolas-modelos?

Embora ambas possam ser consideradas corretas, a tendência gramatical moderna


prefere a segunda. A regra de formação do plural dos substantivos compostos (os
formados por mais de um elemento) é clara: variam os componentes se ambos são
variáveis e estão separados por hífen. Desse modo, temos:

Alguns autores, como Celso Cunha e Domingos Cegalla, ensinam que se o segundo
elemento funciona como determinante específico ou transmite idéia de finalidade
ele permanece invariável: pombo-correio/pombos-correio e manga-
espada/mangas-espada. Entretanto, Napoleão Mendes de Almeida (ALMEIDA, 1979,
§ 227, Notas, 1.ª) garante que "é falso afirmar que não varia o segundo elemento
quando este encerra idéia de finalidade". E mais adiante continua: "A extravagância
vai mais longe quando recorrem para justificar o erro ao argumento da
semelhança; porque o peixe nos lembra o boi iremos dizer peixes-boi? Vamos
então dizer couves-flor?". Cegalla, apesar da opinião acima expressa, ressalva
(CEGALLA, 2000, p. 144, item 3, Observações) que "a tendência moderna, porém,
é a de pluralizar (...) os dois elementos: pombos-correios, peixes-bois, frutas-pães,
homens-rãs...".

Por isso, sigamos a "tendência moderna" e empreguemos fichas-resumos, navios-


escolas, cidades-satélites, escolas-modelos, navios-tanques e assim por diante.

Dica nº 44

Se não x senão

Em se não, duas palavras, o "se" pode ser:

· Conjunção subordinativa condicional e o "não", advérbio de negação.


Exemplos: "Espero que ele venha, mas, se não vier, pouco poderei fazer" e "Se não
gostar, pode devolver o produto". Há sempre a idéia de condição. Tal conjunção
pode ser substituída por "caso": "Caso não venha, pouco poderei fazer" e "Caso não
goste, pode devolver o produto". Há ainda uma terceira possibilidade de
substituição, com emprego do gerúndio: "Espero que ele venha, mas, não vindo,
pouco poderei fazer" e "Não gostando, pode devolver o produto".

· Conjunção subordinativa integrante e o "não" continua advérbio de negação.


Exemplos: "Perguntei-lhe se não gostaria de sair" (nesta oração, o "não" pode ser
suprimido e o sentido geral da frase não se altera. Leia mais, a esse respeito, em
Você sabia? n.º 26) e "Diga se não é verdade o que falei" (aqui, o "se" pode ser
substituído por "que").

Senão pode ter vários sentidos, como abaixo:

· De outro modo, do contrário, caso contrário - "Vá logo, senão me arrependo"


e "Estude bastante, senão você não terá sucesso". (conjunção)

· Mas, mas sim, porém - "Silvinha não é garota de ficar em diversões, senão de
levar a sério os estudos" e "Eu não quis criticar, senão ajudá-lo". (conjunção)

· A não ser, mais do que, além de - "Ele não o comprará, senão por bom
preço" e "Não há senão 20 passageiros a bordo". (preposição)
· Mas também (em correlação com "não só" ou "não apenas") - "Alguns são
não só cínicos, senão desonestos" e "Os aliados tentaram não apenas cooptar mais
parlamentares, senão os chantagear". (conjunção)

· Defeito, mancha - "Li todo o texto e só encontrei um senão" e "Não há


nenhum senão em sua vida pública". Neste caso, é substantivo e vem precedido de
artigo, pronome, numeral, etc.

Dica nº 45

Complemento nominal x adjunto adnominal

Não é difícil compreender-se a distinção de emprego entre esses dois termos da


oração. A diferença básica entre eles é a essencialidade de um (complemento
nominal) e acidentalidade do outro (adjunto adnominal). Vejamos:

· Complemento nominal - É imprescindível para o sentido da oração estar


completo. Ex.: "João ficou à disposição". A pergunta inevitável é: de quem? A
resposta (da empresa, da Justiça, da família, etc.) é um complemento nominal,
porque completa o sentido de um nome (à disposição). Outros exemplos: "Faz
tempo que não tenho notícia de Joaquim" e "Sou favorável à sua promoção". Os
termos assinalados completam o sentido de nomes (notícia - substantivo - e
favorável - adjetivo). O complemento nominal pode ser até uma oração,
classificada como "subordinada substantiva completiva nominal", que completa o
sentido de um substantivo, adjetivo ou advérbio da oração subordinante: "Tenho
esperança de que ele venha". A oração subordinada completa o sentido do
substantivo esperança. Repare que esse tipo de oração é sempre introduzido por
uma preposição, clara ou subentendida (no exemplo, a preposição "de").
· Adjunto adnominal - É termo acessório e determina ou qualifica nome
substantivo. Pode ser retirado sem prejuízo do sentido geral do texto: "O pai de
João viajou". Se retirarmos os adjuntos, a oração reduzir-se-á a "Pai viajou", que,
de certa forma, ainda mantém o sentido geral da frase. Outros exemplos: "A Divina
Comédia é um livro notável", "Comprei dois copos" e "Abri o grande portão de
madeira". Uma oração inteira também pode funcionar como adjunto adnominal: "O
Ronan, que trabalha aqui, não se encontra no prédio" (oração subordinada adjetiva
explicativa) e "O Ronan que trabalha aqui não se encontra no prédio" (oração
subordinada adjetiva restritiva).

Dica nº 46

Ciúmes e saudades

É de estranhar e mesmo tende-se a considerar incorreto o uso no plural de nomes


como os acima, já que ambos expressam conceitos abstratos, sentimentos, que,
como tais, são considerados "incontáveis". Como contar o ciúme e a saudade para
pluralizá-los: dois ciúmes, três saudades? Lemos, nos comentários do mestre
Napoleão Mendes de Almeida, que "Os substantivos que exprimem noções
abstratas, vícios e virtudes empregam-se no singular: a prudência, a preguiça, a
caridade, a ociosidade, a fortaleza" (ALMEIDA, 1981: 286). Mais adiante, porém,
ele acrescenta:

"Tratando-se de virtudes, vícios, de certas disposições, sentimentos e paixões,


muito é para notado que, em alguns casos, a mesma palavra, empregada no
singular ou plural, não designa de todo o ponto a mesma noção, mas dois aspectos
diferentes por ela indicados nos dois números, como tão ao claro no-lo dão a ver os
modelos do bom falar: 'Deixando as armas e as armaduras, a liberdade e as
liberdades da vida, se vestiu de um hábito religioso' (Vieira)".

Daí verifica-se que certos nomes abstratos, quando empregados no plural,


adquirem sentido algo diferente. Assim, tem-se liberdade, há pouco citado, como
vocábulo designativo de conceito bem amplo e geral. No plural, designaria as várias
liberdades, isto é, direitos a que tem o indivíduo: liberdade de ir e vir, de
pensamento, de expressão, de credo religioso, etc., mas também intimidades
sensuais, como em "Ei, não te dei essas liberdades!". Da mesma forma, tome-se a
palavra amor, conceito geral e abstrato. Contudo, no plural - amores -, já se tem
sentido diferente, pessoas a quem se dedica amor: "Zequinha e seus dois amores".
O ato de lembrar é lembrança: "Tenho vaga lembrança desse fato". No plural, além
de recordações, também pode significar cumprimentos, recomendações: "Dê
lembranças minhas a sua família".

Se o plural de substantivos desse tipo não acarretar mudança de sentido, é


indiferente usá-los no singular ou no plural: o ciúme ou os ciúmes, muita saudade
ou muitas saudades, apesar do que foi dito no primeiro parágrafo. E por que isso?
Porque a tendência é para o plural mesmo. Recorremos novamente ao prof.
Napoleão, que testemunha:

"É disso confirmação o fato de outras palavras, designativas de disposições e


sentimentos de espírito, quando nenhuma diferença de sentido implica sua flexão
numérica, serem a pouco e pouco substituídas pelo plural. Tal se deu com
parabém, com pêsame, com felicitação, nomes que, dantes empregados no singular
('Vossa senhoria me dá o pêsame dos achados com que vivo, e juntamente o
parabém da enfermidade com que hei de morrer' - Vieira), são hoje usados no
plural. Saudade vai sofrendo idêntica adaptação; já não dizemos que um dia só o
plural se venha usar, mas por ora nada há que opor ao emprego da flexão
numérica". (Idem, ibidem)

E por que essa tendência ao plural de nomes abstratos, "não-contáveis", portanto?


Possivelmente, porque na mente dos falantes o plural expresse as reiteradas
situações em que o sentimento ou a emoção ocorrem: ciúmes e saudades - vários
momentos de ciúme ou de saudade. Pode ser também que, com o plural, se
reforcem aquelas idéias ou se lhes acentue a intensidade: muito ciúme ou saudade.

Já outros nomes concretos, porém, como chope, clipe e videoclipe (a propósito, os


três, estrangeirismos aportuguesados), são usados no singular ou no plural
conforme designem, respectivamente, uma ou mais unidades: um chope, dois
chopes; um clipe, dois clipes, um videoclipe, dois videoclipes.
Para concluir, podemos admitir a pluralização de nomes abstratos designativos de
sentimentos e emoções, com o cuidado de verificar se não mudam de sentido nessa
condição. Há autores que discordam desse ponto de vista, como Luiz Antonio
Sacconi. Entretanto, preferimos acompanhar o posicionamento do prof. Napoleão e
assim não remar contra a correnteza.

Dica nº 47

Terapias

Terapia é palavra de origem grega (therapeía) e significa "método de tratar


doenças e distúrbios da saúde, tratamento de saúde". Há diversos tipos de terapia,
que utilizam variados procedimentos, substâncias e ambientes. A maior parte dos
seus nomes são oriundos do grego e pertencem à área médica, mas muitos são
popularizados através dos meios de comunicação, como jornais e revistas não-
especializadas. Alguns vão listados abaixo com seus significados:· Actinoterapia
(Do grego aktis, raio) - Terapia em que se empregam raios ultravioleta ou então
irradiação actínica, que exerce ação química sobre algumas substâncias.

· Aromaterapia (Do grego árōma, pelo latim aroma: odor, fragrância) -


Emprego de extratos de plantas aromáticas e de óleos essenciais em fricções e
massagens.

· Cinesioterapia (Do grego kinesis, movimento) - Modalidade fisioterápica na


qual o paciente é orientado a produzir movimentos ativos ou passivos e que usa
diversos recursos, como ginástica e massagens. O mesmo que cinesiatria.

· Crioterapia (Do grego krýios, gelo) - Técnica terapêutica que utiliza baixas
temperaturas no tratamento de doenças, especialmente da área ortopédica,
mediante banhos, bolsas de gelo e outros meios. O mesmo que crimoterapia e
psicroterapia.

· Cromoterapia (Do grego chroma, cor, pigmento) - Tratamento de problemas


da área psicológica que se vale das cores, especialmente de luzes coloridas.

· Eletroterapia (Do grego elektron, âmbar amarelo) - Técnica também chamada


"eletrochoque", utilizada no tratamento de distúrbios mentais, que consiste na
aplicação no encéfalo do paciente de corrente elétrica de curta duração.

· Ergoterapia (Do grego érgon, trabalho, esforço) - Terapia em que se emprega


o trabalho físico na recuperação de pacientes.

· Fisioterapia (Do grego phýsis, natureza) - Tratamento de doenças mediante


massagens, exercícios físicos, aplicações de luz, calor, eletricidade e utilização de
aparelhos mecânicos, elétricos e eletrônicos.
· Fitoterapia (Do grego phytón, planta) - Terapia que utiliza remédios
produzidos com substâncias extraídas de vegetais.

· Fototerapia (Do grego photós, da luz) - Técnica terapêutica que utiliza a luz.

· Hidroterapia (Do grego hydro, água) - Tratamento de doenças com utilização


da água, interna e externamente. Internamente, ingere-se águas minerais do tipo
ferruginosa, alcalina, sulfurosa, etc. Externamente, faz-se uso de duchas e banhos
de imersão. A água pode também ser utilizada nos estados sólido ou de vapor. Esta
terapia ajuda a eliminação de impurezas, é poderoso auxiliar no processo de
desintoxicação e produz relaxamento estimulando a circulação sangüínea.

· Hipnoterapia (Do grego hýpnos, sono) - Técnica psicoterápica que utiliza a


hipnose na busca da causa de problemas da psique.

· Laborterapia (Do latim labor, fadiga resultante da execução de trabalho) -


Tratamento de enfermidades nervosas e mentais em que se procura aproveitar o
interesse do paciente por algum tipo de trabalho ou ocupação. O mesmo que
terapia ocupacional e praxiterapia.

· Musicoterapia (Do latim musica, arte das musas) - Musicoterapia é processo


sistemático de intervenção em que o terapeuta ajuda o cliente e/ou paciente a
promover a saúde utilizando experiências musicais e as relações que se
desenvolvem através delas como força dinâmica de mudança. A musicoterapia
implica ao paciente e ao terapeuta grande gama de experiências musicais. As
principais são: improvisação, execução, composição, verbalização e a escuta
musical.

· Peloterapia (Do grego pelos, lodo, lama, argila) - Tratamento de doenças -


como da pele, por exemplo - em que se usa terra ou lama medicinais.

· Psicoterapia (Do grego psychē, alma, sopro de vida) - Conjunto das técnicas
empregadas na busca do equilíbrio psíquico do paciente através da pesquisa, na
sua mente, de causas de comportamentos patológicos e da adoção de novos
padrões comportamentais.

· Quimioterapia (Do latim médico chimia, de alchimia) - Tratamento de


doenças mediante a utilização de agentes químicos.

· Radioterapia (Do latim radiu, raio) - Técnica terapêutica, utilizada no


tratamento de vários tipos de doenças, que faz uso dos raios X ou de outras formas
de energia radiante.

· Sonoterapia (Do latim somnus, sono) - Técnica utilizada pela Psiquiatria no


tratamento de distúrbios mentais que consiste em produzir e manter sono artificial
controlado em um paciente mediante o uso de drogas. O mesmo que narcoterapia.

· Soroterapia (Possivelmente do latim *sorum, de serum, soro do leite, líquido


seroso) - Tratamento que utiliza soro sangüíneo obtido de animais imunizados, nos
quais se inocularam bactérias e toxinas. O mesmo que orroterapia e seroterapia.
Dica nº 48

Adjetivos de relação

Adjetivos de relação são nomes qualificadores oriundos de substantivos.


Restringem a extensão do significado de unidades desta classe de palavras e
normalmente não admitem flexão de grau. Por exemplo, ígneo = de fogo e férreo =
de ferro. Seguem abaixo mais alguns exemplos:
Boa parte desses adjetivos apresenta forma bem diversa da do substantivo de
origem em virtude de o étimo verdadeiro (vocábulo que constitui a origem de
outro) ser palavra latina. Assim, alguns adjetivos relacionados a fogo, como ígneo e
ignescente derivam do latim ignis, fogo. Da mesma forma, sulfídrico, sulfúreo,
sulfuroso e sulfúrico provêm do latim sulfur, enxofre. Por essa mesma razão, o
símbolo químico do enxofre é "S".
__________

1 Há vários outros adjetivos relacionados a água em que aparece o elemento de


composição de origem grega hidro, como em hídrico e hidráulico.

2 Vários outros adjetivos referentes a olho contêm o elemento grego oftalmo:


oftalmológico e oftálmico.
3 Existem adjetivos relacionados a osso constituídos pelo elemento grego ósteo:
osteológico e osteométrico, por exemplo.
4 Há outros adjetivos referentes a ouvido em cuja composição entra o elemento
grego oto, como otológico e otopático.

5 O elemento de origem grega lito entra na constituição de vários adjetivos


relacionados a pedra, como litográfico e litolátrico.

6 Vários adjetivos que remetem a rim são compostos do elemento de origem grega
nefro, como nefrolítico e nefrológico.

7 Há também adjetivos referentes ao planeta Terra em cuja composição entra o


elemento de origem grega geo: geográfico e geopolítico, por exemplo.

Dica nº 49

Flexão gradual de substantivos "não-contáveis" ou "contínuos".

Comentaremos agora aspecto particular da flexão de grau de certa classe de


substantivos, os "não-contáveis" ou "contínuos", sobre o qual se omitem as mais
conhecidas gramáticas disponíveis no Brasil. Segundo essas obras, o grau
aumentativo e o diminutivo expressam tamanho - grande (chinelão, orelhona) e
pequeno (chinelinho, orelhinha) em relação à forma normal: chinelo e orelha - ou
então certa intenção pejorativa (bocarra, cabeçorra/jornaleco, velhote) ou
valorativa/afetiva (carrão, mãezona/filhinho, vovozinho). Esses substantivos,
porém, enquadram-se na categoria dos "contáveis" ou "descontínuos", isto é,
expressam unidades que podem ser contadas. Dessa forma, podemos facilmente
contar um chinelo, dois chinelos; uma orelha, duas orelhas; um velho, dois velhos;
uma mãe, duas mães; etc. O caso muda de figura quando se trata de substantivos
não-contáveis, como água, ar, fogo, terra, cachaça, chope, frio, calor e assim por
diante. Admitiriam eles flexão de grau, já que não lhes podemos avaliar o
tamanho? Como saber se o ar, o fogo, a terra, a cachaça, o chope, o frio e o calor
são grandes ou pequenos? Isto porque - com relação à cachaça ou ao chope, por
exemplo - uma coisa é o líquido e outra é o copo que o contém; este, sim, pode ser
grande ou pequeno. Mesmo assim, por metonímia, formas como cafezinho são
explicáveis, já que a bebida "café" é servida em pequenas xícaras. Mas o que dizer
de agüinha e chopinho? Entretanto, vemos em nosso linguajar corriqueiro
expressões como "Vou tomar uma agüinha", "Está bom o arzinho lá fora", "O Chico
também é da terrinha", "Quero experimentar aquela sua cachacinha", "Vamos
tomar um chopinho?", "Aqui está um friozinho gostoso". Observamos, pois, que o
diminutivo de nomes contínuos, no geral, não expressa tamanho, mas desejo de
exprimir intenção afetiva, carinhosa ou amistosa. Já o aumentativo parece ora
exprimir afetividade (verdão e azulão, referindo-nos a times de futebol, e Castelão,
Bezerrão, nomes de estádios) ora revelar grande quantidade mesmo, mas com
auxílio da metonímia, como em: "Que calorão, hem?" e "Deparei com fogaréu
assustador". Repare que o calor não pode ser grande, pois é sensação ou qualidade
de quente. O que é grande, ou melhor, elevada é a temperatura, medida em graus.
Não obstante, no lugar de temperatura elevada, dizemos calor grande ou calorão.
Em outras palavras, por metonímia, em vez do fenômeno físico, mensurável
(temperatura), referimo-nos a seu efeito (a sensação: calor). Da mesma forma,
recorremos a outra figura de linguagem para dizer fogaréu, aumentativo de fogo.
Este não pode ser grande ou pequeno, mas sim, sua fonte. Assim, o fogo é parte
da fogueira (monte de lenha em chamas), a qual pode, sim, ser grande ou
pequena: fogueirona ou fogueirinha. Como utilizamos parte da fogueira (o fogo) no
aumentativo - fogaréu -, valemo-nos agora da sinédoque para produzir flexão de
grau em algo que não pode ter o tamanho medido. Neste caso, tomamos a parte
(fogo) no lugar do todo (fogueira). Podemos ainda considerar grandes ou pequenas
as chamas, mas não o fogo em si, o fenômeno da combustão. Agora, recorremos
novamente à metonímia, pois tomamos o abstrato (fogo) no lugar do concreto
(chama). Em resumo: podemos flexionar, quanto ao grau, substantivos não-
contáveis ou contínuos para exprimir afetividade, pejoratividade ou para expressar
tamanho grande mesmo. Neste caso, valemo-nos de figuras de linguagem como a
metonímia e a sinédoque.

Dica nº 50

Pronome oblíquo como sujeito de oração

Todas as gramáticas afirmam categoricamente que, dos pronomes pessoais,


somente os retos podem ser sujeito de verbo. É por isso que é incorreto construir-
se “Isto é para mim fazer”, pois o pronome oblíquo mim está sendo empregado
como sujeito do verbo fazer. O que dizer, porém, de orações como “Deixe-os
passar”? Temos aí dois verbos, portanto, duas orações. O sujeito de “deixe” é de
terceira pessoa, por exemplo, você. E o sujeito de “passar”? Só pode ser os. Mas
“os”, no contexto, é pronome oblíquo e como tal – ainda de acordo com as
gramáticas – não pode ser sujeito de verbo. Será? Nas construções em que entram
os verbos deixar, fazer, mandar, ouvir, sentir e ver cujos objetos são verbos no
infinitivo (o complemento de “deixe” é o infinitivo passar), o pronome oblíquo
funciona como sujeito. Neste caso, o verbo no infinitivo permanece na forma não-
flexionada ou impessoal – apesar das regras de Soares Barbosa (sujeitos diferentes
dos dois verbos) e da de Frederico Diez (possibilidade de substituição do infinitivo
por verbo na forma modal).

No exemplo citado – Deixe-os passar –, como já vimos, o complemento de “deixe”


é o infinitivo “passar”, cujo sujeito é o pronome oblíquo “os”. A oração subordinada
“os passar” equivale a outra em que o verbo se apresenta na forma modal “que
eles passem”, classificada como subordinada substantiva objetiva direta,
introduzida pela conjunção integrante que. Constatamos, pois, que casos como
esse revelam certas dificuldades lógicas da descrição gramatical que obrigam à
prática de contorcionismos explicáveis pelas tradicionais “exceções”.

Dica nº 51

Ascendência e descendência
Se quisermos nos referir a nossos pais, avós e demais antepassados, o vocábulo
correto será ascendência, que se relaciona com os ascendentes, os que vieram
antes. Assim, digo que “Minha ascendência é espanhola”, pois meus avós, bisavós e
os anteriores a eles eram espanhóis. Se eu quiser falar a respeito dos que vieram e
virão depois de mim, isto é, meus descendentes, utilizarei descendência: “Minha
descendência é brasileira”. Caso eu diga “Minha descendência é espanhola”,
quererei dizer que meus filhos e netos são espanhóis. Por outro lado, posso
corretamente dizer “Sou descendente de espanhóis”, o que significa eu provir de
família originária desse povo.

Dica nº 52

Em epígrafe ou à epígrafe?

A construção portuguesa é em epígrafe ou então na epígrafe, se se preferir usar o


artigo feminino "a". Quando se utiliza "em epígrafe", não se está empregando
artigo: "Refiro-me ao memorando em epígrafe para informar-lhe que...". Aí, a
citada expressão significa "em destaque", "em evidência". Se se utilizar o artigo, a
expressão ficará "na epígrafe", pois a preposição "em" combinar-se-á com o artigo
"a" (em + a = na): "Refiro-me ao memorando indicado na epígrafe para informar-
lhe que...". Com efeito, a preposição “em” é a mais indicada para expressar
localização: “Isso foi mencionado na página 35”, “A palavra em questão encontra-
se na linha 28” e “O pagamento foi citado em carta anterior”. Em LUFT, 1999,
verifica-se que a preposição “a” é empregada, juntamente com particípios com
função adjetiva, com sentido de “para”: “Algo mencionado a alguém = para
alguém” e “Caso ou fato referido à autoridade policial = para a autoridade policial”.
Em outras construções, ela igualmente tem esse sentido: “Dei parabéns ao chefe =
para o chefe” e “Diga a Pedro (para Pedro) que já voltei”. O emprego da preposição
“a” para indicar localização revela influência francesa e é por isso que o uso da
expressão à epígrafe deve ser evitado, por ser considerado galicismo ou
francesismo.

Dica nº 53

Verbo com função de sujeito?

Aprendemos que sujeito é o ser sobre o qual se declara alguma coisa e que essa
declaração é expressa pelo predicado, do qual o verbo é o elemento mais
importante. Assim, nas orações “Bruno é estudioso” e “Tiago mora em Maceió”, os
sujeitos respectivos são “Bruno” e “Tiago”. Sabemos também que o sujeito pode
ser constituído por uma oração inteira, classificada como subordinada substantiva
subjetiva, como nestas orações assinaladas: “Se ele fará o melhor possível ainda
não sabemos” e “É conveniente que você estude bastante”. Tudo bem até aí, não
é? Mas e quando o sujeito é expresso por um verbo? Esquisito? Pode ser, mas o
fato é que é possível, através de formas nominais como o gerúndio e o infinitivo.
Exemplos: “Não comparecendo é a forma de ele protestar” e “Rir é o melhor
remédio”. Não comparecendo é o sujeito de “é a forma de ele protestar” e Rir, o de
“é o melhor remédio”. Comprovam-se facilmente essas afirmativas ao se fazer a
pergunta ao verbo: “Qual é a forma de ele protestar?” e “Qual é o melhor
remédio?”. Não deixam de ser curiosas essas construções, nas quais o verbo
expressa ação ou estado relativos a um sujeito constituído por outro verbo, ainda
que este esteja em sua forma nominal.

Dica nº 54

O vocativo e a pontuação

Denomina-se vocativo o termo acessório da oração que expressa apelo, invocação,


chamamento: "Mercedes, onde está a Luciana?" e "Candidatos com ficha de
inscrição vermelha, dirijam-se à sala de provas". Esse termo, que não se subordina
a nenhum outro, é usado sem artigo e pode vir acompanhado da interjeição "ó": "Ó
minha Nossa Senhora, valei-me!". Modernamente, observa-se no português
brasileiro, em sua modalidade oral, o emprego da interjeição "o" (ô fechado), que
não se confunde com o artigo "o": "O João, que é isso?". Característica marcante
do vocativo é a de vir sempre acompanhado de vírgula. Uma vez que se pode
antepor ou pospor à frase ou estar intercalado nela, o vocativo pode vir seguido ou
precedido de vírgula ou ainda estar entre vírgulas, assim: "Guardas, corram atrás
dele!", "Corram atrás dele, guardas!" ou "Corram, guardas, atrás dele!". Lembre-se
de que a vírgula é obrigatória no emprego do vocativo. Na correspondência
comercial, esse termo aparece constantemente, como "Sr. Gerente,", "Prezado
Senhor," e "Ex.mo Sr. Ministro,".

Dica nº 55

A sigla como recurso eufemístico

Já tratamos neste saite da sigla e suas particularidades, no Glossário Gramatical,


verbete Sigla”. Vamos abordar agora aspecto ali não contemplado: o do uso da
sigla como recurso eufemístico. Sabemos que eufemismo é a figura de linguagem
que consiste no emprego de palavras, expressões ou circunlóquios (rodeios de
palavras) em lugar de formas lingüísticas cujo significado é considerado indecoroso,
desagradável ou ameaçador. Assim, usa-se doente dos pulmões no lugar de
“tuberculoso”; mal de Hansen, em vez de “lepra”; deficiente visual, em lugar de
“cego”; etc. Para "câncer", há várias expressões, como moléstia pertinaz, mal cruel
e prolongado, doença ruim, aquela doença e outras. Com o passar do tempo, os
falantes perceberam que, em vez de empregar formas eufemísticas, poderiam
utilizar, com menos esforço e o mesmo resultado, siglas formadas pelos fonemas
iniciais das palavras ou expressões inconvenientes ou dos próprios eufemismos. Tal
uso começou a generalizar-se modernamente, tanto na linguagem escrita como na
falada. Assim, temos, entre outros exemplos:
Pelos exemplos acima, vemos que algumas siglas poderiam classificar-se como
“eufemismos de segundo grau”, já que as palavras ou expressões que representam
são, por seu turno, igualmente eufemismos. É preciso ressalvar, porém, que o
exposto acima resulta de constatação empírica, que eventualmente poderá ser
objeto de comprovação em bases científicas.

Dica nº 56

Plural de nomes e expressões estrangeiros

De modo geral, os vocábulos e expressões estrangeiros devem, sempre que


possível, ser aportuguesados. Isto feito, será fácil flexioná-los no plural de acordo
com as regras portuguesas. Assim, temos abdome/abdomes, buquê/buquês,
carnê/carnês, chique/chiques, chope/chopes, clipe/clipes, clube/clubes,
disquete/disquetes, germe/germes, hambúrguer/hambúrgueres, jipe/jipes,
mantô/mantôs, saite/saites, etc.

Formas existem, entretanto, que permanecem na grafia original ou foram


ligeiramente adaptadas. Nesse caso, ao passá-las para o plural, se não for possível
aplicar as regras do português, devemos acrescentar-lhes um “s”, a não ser que
terminem em “s” ou “z”. Exemplos: álbum/álbuns, ampère/ampères,
déficit/déficits, fórum/fóruns, iceberg/icebergs, paella/paellas, post-scriptum/post-
scriptuns, superávit/superávits, te-déum/te-déuns, ultimatum/ultimatuns,
volt/volts, watt/watts, etc. Mas o ex-libris/os ex-libris, o fizz/os fizz, o jazz/os jazz.
Em mapa-múndi, só o primeiro elemento flexiona-se: mapas-múndi.

Há vocábulos estrangeiros cuja grafia se mostra difícil de adaptar ao português e


por isso devem ser pluralizados na língua de origem, isto se o falante conhecer tal
idioma. Em caso contrário, é mais sensato procurar alguma forma portuguesa
correspondente. Desse modo, temos: lady/ladies, bijou/bijoux, bambino/bambini,
etc.

Por fim, dois casos particulares:

· Gol (do inglês goal), fica gols, no plural. Essa flexão, estranha ao português,
deveria ser gois ou goles (ambos com o “o” pronunciado fechado), mas o plural
estrangeiro prevaleceu no Brasil.

· Álcool (do árabe al kohol) faz o plural alcoóis.


Dica nº 57

Adjetivo com função adverbial

A função usual do adjetivo é modificar, acrescentar atributo ao substantivo, como


em:

“O bom ® homem sorriu-lhe ” e “ Trata-se de notícia ¬ importante”. Entretanto,


quando modifica verbos, o adjetivo exerce função adverbial: “Vá direto para casa”,
“Fale claro agora” e “Letícia mergulhou rápido na piscina”. Nestes exemplos,
“direto” corresponde a diretamente; “claro”, a claramente e “rápido”, a
rapidamente. Enquanto o adjetivo assume geralmente a forma feminina para
compor advérbios de modo (claramente, puramente), para funcionar como
advérbio – igualmente de modo –, o faz na forma masculina ou, para sermos mais
preciso, na forma “neutra”. Esse uso não é novidade, pois escritores latinos já
empregavam o adjetivo com função adverbial. Ao dizermos “O barco encostou
garbosamente no cais de madeira”, vemos que no predicado verbal “encostou
garbosamente no cais de madeira” o advérbio garbosamente, invariável, modifica
de maneira clara o verbo “encostou”. Contudo, se empregamos o adjetivo garboso
com função adverbial – “O barco encostou garboso no cais de madeira” –,
constatamos ser verbo-nominal o predicado. Isto porque, ao mesmo tempo que
“garboso” modifica “encostou”, também se refere ao sujeito (o barco), com o qual
concorda. Assim, se substituíssemos “o barco” por “a lancha”, “os barcos” ou “as
lanchas”, teríamos a flexão daquele adjetivo em garbosa (A lancha encostou
garbosa), garbosos (Os barcos encostaram garbosos) e garbosas (As lanchas
encostaram garbosas). Concluímos assim que o adjetivo empregado com função
adverbial deve ser considerado estritamente advérbio quando integra predicado
verbal e nesta condição permanece invariável na forma aparentemente masculina,
na verdade, neutra. Caso integre predicado verbo-nominal, a par da função
adverbial, exercerá também função adjetiva, pois que modificará um substantivo,
com o qual concordará em gênero e número.

Dica nº 58

Dentre e entre

Não confunda dentre com entre. O vocábulo “dentre”, constituído por de + entre, é
empregado quando os dois elementos que o compõem são exigidos. Em caso
contrário, prevalece "entre". Exemplos do emprego de "entre": "Carlos era
extrovertido apenas entre seus amigos" (no meio dos seus amigos) e "Isso é entre
mim e ele" (diz respeito a nós dois). Exemplos de "dentre": "O vencedor foi tirado
dentre os dez melhores" (de + entre os dez melhores) e "Escolha a mais bonita
dentre elas" (de + entre elas, a mais bonita delas). Nestes dois últimos exemplos,
aparece o uso da preposição "de".

Dica nº 59

Plural de modéstia

Este é caso de concordância irregular ou ideológica, tecnicamente denominado


silepse de número”, onde, em vez do pronome eu, emprega-se nós. Entretanto,
não se está referindo a mais de uma pessoa, senão a uma só. O verbo flexiona-se
na primeira pessoa do plural e assim concorda com o sujeito formalmente plural.
Como, porém, a idéia é a de um só agente, o predicativo – particularmente o
adjetivo e o particípio – permanece no singular e sua concordância processa-se não
formalmente, mas ideologicamente, como se “eu” estivesse explícito. É utilizado
geralmente por escritores e oradores – principalmente por políticos – para evitar
tom muito personalista no discurso e fazer parecer que falam não de modo
individualista, mas como expressão da fala coletiva. Exemplos: “Nós estamos
satisfeito com o resultado”, “Sempre fomos exigente com o bom uso do dinheiro
público” e “Prometemos nunca estar envolvido em nenhum escândalo”.
Antigamente, reis e altos dignitários eclesiásticos também usavam esse recurso,
conhecido por plural majestático. É importante ressaltar que, uma vez feita a
escolha do plural de modéstia, não se pode usar o pronome “eu” e que os
pronomes pessoais oblíquos e os possessivos devem ser os da primeira pessoa do
plural: nos, conosco, nosso. Assim: “Estamos confiante em nossa capacidade de
atender à expectativa da população, à qual nos dirigiremos permanentemente para
auscultar-lhe a vontade, blá, blá, blá...”.

Dica nº 60

A partícula se: pronome apassivador e pronome reflexivo.

Entre as várias funções do se, estão a de pronome apassivador e pronome


reflexivo. No primeiro caso, ela aparece em “Dá-se terra = Terra é dada”, “Viu-se
um avião sobrevoando a base = Um avião foi visto sobrevoando a base” e
“Consertam-se telefones = Telefones são consertados”. Nestes exemplos, os
sujeitos são terra, um avião e telefones, respectivamente, e temos caso de voz
passiva sintética ou pronominal. Exemplos do “se” na condição de pronome
reflexivo: “Brisa olha-se embevecida no espelho”, “Wagner questionou-se sobre sua
atitude” e “Gabriel pintou-se para a festa na escola”. Aqui, devemos perguntar:
quem Brisa olha embevecida no espelho? A resposta é: a si própria; quem Wagner
questionou sobre sua atitude? Resposta: a si mesmo; quem Gabriel pintou para a
festa na escola? A resposta: a si próprio. A ação praticada pelo sujeito reflete-se
sobre ele mesmo. Há casos, porém, em que não fica muito clara a função do “se”,
pois tanto a ação verbal mostra-se reflexiva como a construção encontra
equivalente na voz passiva. Vejamos: “Ademir feriu-se na perna”. Temos situação
ambígua, pois não se sabe se Ademir feriu a si próprio ou se alguém o fez. Isso fica
ainda mais evidente quando se converte a construção sintética na analítica:
“Ademir foi ferido na perna”. Outro exemplo: “Felipe colocou-se no centro da sala”.
Tal enunciado faz parecer que o “se” exerce função reflexiva, mas também pode
ser entendido como construção passiva, especialmente se o verbo anteceder o
sujeito: “Colocou-se Felipe no centro da sala”. Esta oração pode também equivaler
a “Felipe foi colocado no centro da sala”, situação em que parece claro haver sido a
ação praticada por terceiros. A ambigüidade, nesses casos, pode ser desfeita da
mesma forma que em construções nas quais se deseja distinguir o pronome
reflexivo do recíproco: acrescentando-se expressões como “a si mesmo” ou “a si
próprio” e suas flexões, se a voz verbal for reflexiva. Dessa forma, temos: “Ademir
feriu-se a si mesmo na perna” e “Felipe colocou-se a si próprio no centro da sala”.
Se a voz for a passiva, deve-se, em benefício da clareza, empregar a forma
analítica: “Ademir foi ferido na perna” e “Felipe foi colocado no centro da sala”.

Dica nº 61

Uso da vírgula – Orações explicativas e restritivas

Um dos vários usos da vírgula é demarcar orações subordinadas adjetivas


explicativas. Assim, a oposição presença vs. ausência da vírgula é crucial para
determinar se a oração subordinada adjetiva é explicativa ou restritiva.
Recordemos que as orações adjetivas funcionam como qualificativos da oração
principal ou, tecnicamente, como adjuntos adnominais. Se apenas acrescentam
algum esclarecimento ao sujeito, denominam-se explicativas. Entretanto, se o
distinguem de outro do mesmo tipo ou espécie, aí recebem o nome de restritivas. E
é aí que a vírgula exerce função das mais importantes. Vejamos alguns exemplos:
(1) “O secretário-adjunto, que foi nomeado titular, ainda não foi empossado” e (2)
“O Renato, que trabalha aqui, não se encontra no prédio”. O que nesses casos é
pronome relativo. Observe que as vírgulas delimitam a oração adjetiva,
determinam-lhe o caráter explicativo e correspondem às pausas que se verificam
na expressão oral. Retornemos aos exemplos anteriores para ver que com as
vírgulas fica explícito que em (1) há um só secretário-adjunto e ele foi nomeado
titular; em (2), que só há um Renato e ele trabalha aqui. Retiremos as vírgulas das
orações anteriores e veremos que a situação se altera totalmente: (3) “O
secretário-adjunto que foi nomeado titular ainda não foi empossado” e (4) “O
Renato que trabalha aqui não se encontra no prédio. Em (3) e (4), as orações
adjetivas são restritivas, pois distinguem o "secretário-adjunto" de outros que não
foram nomeados e o “Renato que trabalha aqui” de outro que não trabalha. Por
isso, muita atenção às vírgulas quando estamos diante de orações subordinadas
adjetivas, as introduzidas por pronome relativo ou advérbio relativo.

Dica nº 62
“Hoje é 28” ou “Hoje são 28”?

As duas formas são corretas. No primeiro caso, está subentendida a expressão o


dia, e o numeral cardinal substitui o ordinal, assim: “Hoje é (o dia) 28 de
setembro”, oração que equivale a “Hoje é o 28.º dia do mês de setembro”. No
segundo, a oração também corresponde a outra mais desenvolvida: "Hoje são
(passados) 28 (dias do mês) de setembro". Se o vocábulo dia aparecer expresso no
texto, o verbo obviamente concordará com ele e ficará no singular: “Hoje é dia 28”.
A questão de fundo, na verdade, omitida por quase todos os autores que tratam do
tema, é a concordância do verbo ser, que, como podemos observar nas gramáticas,
está longe de ter regras precisas e rígidas. Assim, lemos em CUNHA, 2000: 494
que “em alguns casos o verbo ser concorda com o predicativo” e no quarto item
aprendemos que tal ocorre nas orações impessoais. Exemplos ali fornecidos: “São
duas horas da noite” e “Eram quase oito horas”. Se o verbo ser pode concordar
com o predicativo, no caso da informação sobre dias tudo depende do número
(singular ou plural) do predicativo. Dessa forma, se o numeral indicador do dia
expressa quantidade acima de um, é considerado plural e para ele leva o verbo,
além do argumento de subentendermos tantos dias passados do mês tal, como
mencionado acima: “Hoje são 28”. Entretanto, podemos legitimamente admitir
subentendida a palavra dia (por que não?), caso em que o predicativo estará no
singular e o verbo, ao concordar com ele, ficará também no singular, mesmo que o
dia referido for 2, 10 ou 28.

Dica nº 63

Haviam ou havia muitas crianças na creche?

A segunda. Empregado no sentido de “existir”, o verbo haver é impessoal, isto é,


não tem sujeito e permanece invariável na terceira pessoa do singular, como em
“Não houve um único aluno ausente”, “Havia policiais disfarçados no salão” e
“Haverá muitas pessoas que reclamarão”. Ao integrar conjugação composta – a
formada por verbo principal e auxiliar –, o verbo haver, no caso de que se trata,
torna impessoal também o auxiliar: “Devia haver irregularidades ali” e “Apesar dos
prejuízos que possa ter havido, a loja continuou aberta”. Se “haver” for substituído
por existir, a concordância processar-se-á normalmente: “Existem vários casos de
falha mecânica”

Dica nº 64

Estadia ou estada?
Tradicionalmente, estadia significava apenas “tempo de permanência de um navio
no porto sem acréscimo da taxa paga para tal” ou simplesmente “tempo de
permanência de um navio no porto”: “Durante sua estadia no porto de Santos, o
‘Paratii’ foi inspecionado por Amyr Klink”.Estada significa “permanência”, “ato de
estar em um lugar”: “Minha estada em Águas de Lindóia foi muito agradável” e “A
estada do elefante em Brasília foi curta”. Entretanto, o uso acabou ampliando o
significado de estadia, que atualmente também quer dizer “permanência de
pessoas ou mesmo de animais” em algum lugar: “A estadia do Carlinhos em Porto
Alegre foi paga pela empresa”. Os autores mais tradicionalistas resistem em aceitar
a evolução do idioma e condenam este último emprego de “estadia”. Entretanto, os
usuários é que são os senhores da língua, tanto é que dois ótimos dicionários aqui
disponíveis (Aurélio e Brasileiro) já registram, além da acepção tradicional,o
simples fato de estar-se em algum lugar igualmente como significado de “estadia”.
Por isso, não se pode corrigir tal uso em nenhuma redação na qual apareça. Fiquem
atentos, colegas!

Dica nº 65

América ou Estados Unidos?

Os habitantes dos Estados Unidos utilizam o vocábulo America, entre outras


denominações, para nomear seu país. Possivelmente, “America” seja, para eles,
forma reduzida de “United States of America”. Deve ser por isso que se popularizou
entre nós o adjetivo pátrio americano, em lugar de “estadunidense” ou “ianque”, já
que, em rigor, americano é o habitante da América ou algo relativo a ela,
continente onde se localiza o Brasil. “Norte-americano” é adjetivo referente à
América do Norte, que compreende também outros países, e deve ser evitado como
designativo de alguém ou algo dos EUA. Assim, em português, empregue-se a
palavra América para designar nosso continente e não, um país, diferentemente do
que se tem visto na imprensa e na televisão. Não é de admirar que essa atitude
servil tenha também propiciado o ingresso desnecessário aqui de uma enxurrada de
vocábulos estrangeiros sem, pelo menos, tradução ou aportuguesamento. É a velha
mentalidade colonizada que campeia por aí. E não se acuse a posição aqui
registrada de resistência à evolução da língua, pois o nome América designa a terra
de todos os americanos – do Norte, do centro e do Sul – e não somente a dos
residentes entre o Canadá e o México.

Dica nº 66

Rádio amador vs. radioamador

Há muita confusão quanto ao sentido dessas palavras, mesmo entre os


radioamadores. Assim, esclareça-se:
Rádio amador – Esta expressão, composta das palavras rádio e amador, denomina
o esporte ou “hobby” em que se emitem e recebem ondas hertzianas com vistas à
comunicação sem objetivos comerciais e equivale a “radioamadorismo”: “O rádio
amador é atividade útil ao País”. Pode também designar, pela figura denominada
metonímia, o equipamento utilizado nas transmissões, como em “Este não é um
rádio amador (ou rádio de amador)”. “Rádio amador” opõe-se, pelo sentido, a
“rádio comercial”, tipo de comunicação que utiliza ondas de rádio de que se valem
muitas empresas. O rádio amador e o rádio comercial obedecem, cada um, a
legislação própria e ocupam faixas diferentes no espectro eletromagnético.

Radioamador – Significa “operador de estação de rádio amador”, isto é, a pessoa


devidamente habilitada que transmite e recebe mensagens por intermédio de ondas
de rádio a fim de se comunicar com outrem para seu próprio deleite ou em ações
de auxílio, sem interesses pecuniários: “Um radioamador da Califórnia captou
mensagens transmitidas em Nova Iorque”. A palavra radioamador opõe-se pelo
sentido à expressão operador da faixa do cidadão, o popular “px”. Não se confunda
“radioamador” com rádio ou equipamento. Radioamador é pessoa e não, aparelho.

Nos dois casos, amador está em contraste com comercial ou profissional.

Dica nº 67

Verbos vicários

Verbo vicário é o que fica no lugar de outro, que substitui um verbo para não se o
repetir. Isto é possível porque, em determinado contexto, o verbo vicário é
sinônimo daquele do qual faz as vezes. Os que mais se empregam com essa
finalidade são fazer e ser: “Renato vinha muito aqui, mas há meses que não o faz”
(o faz = vem aqui), “Ela não canta mais como fazia antigamente” (fazia =
cantava), “O concerto realizou-se, mas não foi como se esperava” (foi = realizou-
se) e “Se você não vai é porque tem medo” (é = não vai). A repetição vocabular é
defeito de estilo e revela falta de recursos ou descuido na produção do texto. Um
dos meios de evitá-la é o emprego dos verbos vicários.

Dica nº 68

Sistema, norma e fala

Esses termos da Lingüística representam realidades distintas, mas


interdependentes. Vejamos:

Sistema – Conjunto formado pelas unidades da língua – em uso e ainda possíveis


de serem usadas –, que se relacionam segundo regras determinadas. Essas regras
são estabelecidas tacitamente pelos próprios usuários e não, pelos gramáticos, que
simplesmente as descrevem. Só se verificam alterações no sistema quando há
adesão coletiva. É por isso que algumas inovações ficam restritas a um único
falante, como o vocábulo “ceguez”, da obra de Guimarães Rosa. O sistema
corresponde à língua ou código lingüístico e consiste no conjunto de possibilidades
verbais, muitas das quais (ainda) inexploradas pelos falantes. Assim, em
português, enquanto há inúmeras unidades lexicais, como “casa”, “um”,
“pertinente” e “profligar” (todas com seus vários significados), há muitas
seqüências de fonemas ainda não utilizadas, à espera de os falantes associarem a
elas algum significado, como “*brina”, “*lagipa” e “*torrigo”. (Os asteriscos
indicam formas hipotéticas.) A língua é entidade social, comum aos usuários de
todo um grupo falante. Para poder se comunicar com usuário de outro sistema, o
locutor (emissor) precisa utilizar código lingüístico de conhecimento pelo menos
parcial do seu interlocutor (receptor). Em lugar dos termos “sistema”, “língua” ou
“código lingüístico” alguns autores preferem esquema.

Norma – Conceito introduzido pelo lingüista romeno E. Coseriu, que consiste nos
padrões de uso, na maneira como os usuários utilizam o sistema ou código
lingüístico. Assim, em razão da norma, os falantes valem-se de algumas
possibilidades e descartam ou ainda não utilizam outras. É também em função da
norma que existem lacunas na língua. Por exemplo, em português, não há nomes
coletivos específicos para designar reunião de baleias ou de ostras. É também
devido à norma que diferentes regiões de um território utilizam diferentes formas
lingüísticas. Assim, os falantes nordestinos designam determinada raiz comestível
por “macaxeira”, enquanto os do Centro-Sul a chamam de “mandioca” e “aipim”.
(Veja também a pág. Você sabia? n.º 25.) As crianças muito pequenas e outras
pessoas com pouca ou nenhuma escolaridade costumam brindar-nos com “pérolas”
que achamos engraçadas e revelam como a norma determina quais formas o grupo
deve usar. Por exemplo, assim como diz “corri” e “comi”, a criança acaba dizendo
“fazi”. Nada impediria que fosse assim, mas a norma aceita pelo grupo prescreve
“fiz”. Há também frases atribuídas a famosos jogadores de futebol, como esta: “Eu
desconcordo com o que você disse”. Sintaticamente, a frase é gramatical e o
vocábulo “desconcordo” está construído conforme as regras portuguesas.
Entretanto, os falantes sempre preferiram discordo em seu lugar. Coisas da norma.

Fala – É a concretização – tecnicamente, realização – do sistema. É o uso individual


da língua por parte dos falantes e é pela fala que ela exerce seu papel de código,
de instrumento de comunicação. Assim, quando você emite a seqüência /’agwa/,
que se associa ao significado H2O para constituir o lexema ou palavra água, está
produzindo fala. Esta se compõe de infinitos atos comunicativos praticados pelos
usuários para poderem transmitir pensamentos, sentimentos e exteriorizar seus
desejos e necessidades.
Em resumo, a língua ou sistema é entidade abstrata, coletiva e geral, memorizada
na mente de todos os falantes de um grupo lingüístico; a norma é padrão grupal de
uso, é o modo como os usuários se valem da língua preferindo certas formas e
preterindo outras; fala é a concretização individual do código lingüístico pelos
participantes de um ato comunicativo.

Dica nº 69

À toa e à-toa
Essas expressões diferem na grafia, no significado e na classe de palavras.
Vejamos:
À toa – Grafada sem hífen, essa locução adverbial significa “a esmo, sem objetivo
definido, sem proveito”: “Ficou andando à toa por aí”, “Está lá, escrevendo à toa” e
“Cansei-me à toa”.
À-toa – Com hífen, é locução adjetiva e significa “desprezível, sem importância,
inútil”: “Aquele é sujeito à-toa mesmo”, “É besteirinha, coisa à-toa” e “Não adianta,
é ajuda à-toa”. Apesar de funcionar como adjetivo, não varia: “São papéis à-toa”.

As duas têm pronúncia idêntica e, por isso, são consideradas, tecnicamente,


homônimas homófonas. Embora o Aurélio registre como étimo (palavra de origem)
o inglês tow, lê-se em ALMEIDA, 1981: 5 (verbete “A toa”) que “toa” é vocábulo
que se origina do árabe tuha, que, por sua vez, provém do verbo taha, “andar de
forma errante, vagando, sem rumo”. Trata-se de termo da linguagem náutica que
quer dizer “cabo utilizado para um navio rebocar outro que não tem propulsão
própria”. Dessa forma, a “toa”, ao rebocar o barco, impede que ele flutue sem
rumo. Da língua especializada, a expressão passou para a língua geral.
O Aurélio registra essas locuções com “à”, embora autores renomados dispensem a
crase, conforme se vê em ALMEIDA, 1999, §§ 534 e 535. Assim, ainda que “à
toa/à-toa” e “a toa/a-toa” sejam formas corretas, recomenda-se aqui a observação
do emprego da crase nessas locuções conforme o exposto na Dica n.º 40.

Dica nº 70

Plural dos nomes terminados em -ão

Por razões etimológicas, os nomes terminados em -ão passam para o plural de três
maneiras em português: com final em -ãos, -ães e -ões. Os substantivos e
adjetivos com a terminação "-ão" no singular podem apresentar, no plural, uma
daquelas formas, duas ou ainda as três. Vejamos alguns exemplos dessas
ocorrências:·

É oportuno ressaltar que a tendência dos falantes é a preferência pelo plural em "-
ões". Essas considerações valem para os nomes em que a terminação "-ão" situa-
se na sílaba tônica, caso de todos os exemplos acima. Contudo, o plural dos nomes
em que ela se localiza na sílaba átona efetua-se de acordo com a regra geral da
flexão de número dos substantivos e adjetivos: com acréscimo do morfema -s.
Assim: acórdão/acórdãos, sótão/sótãos, bênção/bênçãos. Enfim, não existe regra
completa para orientar o usuário comum da língua no emprego do plural correto.
Além das formas consagradas e de fácil memorização, o esclarecimento acerca das
que suscitam dúvida deve ser buscado nas obras especializadas: gramáticas e
dicionários.

Dica nº 71

Perda ou perca?

As duas, cada uma com seu sentido. Elas são palavras parônimas e costumam ser
indevidamente empregadas uma pela outra. Entretanto, se estivermos atentos para
seus significados, não há razão para as confundirmos. Vejamos: ·

Perda - Substantivo que significa "privação de alguém ou de alguma coisa que


se possuía", como em "Houve perda de receita no último ano" e "Júlio entristeceu-
se com a perda do amigo".
· Perca - Flexão do verbo "perder" na primeira e terceira pessoas do singular
do presente do subjuntivo e primeira e terceira pessoas do singular do imperativo:
"Você quer que eu perca a partida, não é?" e "Não perca a esperança".
Obs.: Há autores que, na descrição das conjugações, omitem a primeira pessoa do
singular do imperativo.

São, pois, incorretas frases como "Não desejo que ele perda a fortuna" ® (correto:
perca) e "Isso é perca de tempo" ® (correto: perda).

Dica nº 72

Mal e mau

Essas duas são palavras parônimas, as vezes homônimas – dependendo da


pronúncia –, e por isso têm sido confundidas e tomadas uma pela outra.
Entretanto, é muito fácil distingui-las se conhecemos suas funções, como veremos
a seguir:·

Mal (escrito com “l”) – Classifica-se como advérbio de modo e como


conjunção subordinativa temporal. Como advérbio, opõe-se a bem e modifica
adjetivos (Parece-me pessoa mal-intencionada) e verbos (Mais uma vez, Odilon
trabalhou mal). Como conjunção, liga orações e equivale a “tão logo, nem bem”:
“Mal tomou posse, começaram as cobranças”. Quando antecedido de artigo ou
pronome, expresso ou subentendido, “mal” converte-se em substantivo. Nessa
condição, também se opõe a bem e ainda pode flexionar-se: “Devemos combater o
mal” (as coisas más) e “Nossos males (nossos problemas) advêm basicamente da
falta da noção de cidadania”.
· Mau (escrito com “u”) – É adjetivo masculino e assim pode flexionar-se em
gênero (má) e número (maus, más). Acompanha substantivos: “Evite dar mau
exemplo”, “Estevão e Fernando são sujeitos maus”, “Não é má idéia” e “Fuja das
más companhias, porque o resultado a gente já conhece”. “Mau” também pode
substantivar-se e, nessa condição, flexionar-se normalmente: “O mau precisa ser
mantido sob controle” (neste exemplo, tanto cabem mal como mau, depende do
contexto), “Os bons serão recompensados e os maus, punidos”, “No final da
história, a boa foi feliz para sempre e a má morreu” e “As frutas boas foram
separadas das más”. “Mau” opõe-se a bom.

Em resumo:

· Mal – Classifica-se como advérbio e conjunção. Antecedido de artigo ou


pronome, torna-se substantivo. Como advérbio e substantivo, opõe-se a bem.

· Mau – Classifica-se como adjetivo e, antecedido de artigo ou pronome,


substantiva-se. Opõe-se a bom.

Na dúvida, substitua “mal” por “bem” e “mau” por “bom”. Se fizer sentido, é
porque o emprego foi acertado.

Dica nº 73

Estamos alerta ou estamos alertas?

A segunda. Quando funciona como adjetivo, "alerta" significa atento, vigilante.


Nessa condição, relaciona-se com substantivos e pronomes, com os quais concorda
em número: "O vigia está alerta na guarita" e "Nós estamos sempre alertas".
Repare que nos exemplos o verbo é de ligação. Quando modifica verbo, é advérbio
(significa atentamente) e nesse caso não varia: "Estavam olhando alerta os
arredores" e "Continuem caminhando alerta".

Dica nº 74

Somente Paulo venceu a corrida.

Ué, mas “somente” não é advérbio e as gramáticas não ensinam que o advérbio é
palavra que modifica apenas adjetivos, verbos e os próprios advérbios? Sim, é isso
mesmo. Então, como, na frase-título, o advérbio “somente” está se relacionando
com o substantivo Paulo? Na realidade, os gramáticos têm dificuldade em classificar
certas palavras e a própria Nomenclatura Gramatical Brasileira, ao reconhecer isso,
criou a classe extraordinária das “palavras que denotam” ou “denotativas”. E
denotam o quê? Denotam, isto é, expressam noções de inclusão, exclusão,
designação, realce, retificação, situação, explanação, etc. Essas palavras – e
também locuções (grupos de palavras) – são muitas vezes consideradas advérbios,
o que não é apropriado, já que não se referem a adjetivos, verbos ou a outros
advérbios. Na verdade, em certos contextos, não se enquadram em nenhuma das
dez classes de palavras admitidas e são forçosamente incluídas na classe
extraordinária acima referida. Na análise morfológica, devem ser consideradas,
portanto, “palavras que denotam inclusão, exclusão ou designação, etc.”. Vejamos
essas categorias, uma a uma:

Em outros contextos, a maior parte dessas palavras e expressões pode ser


encaixada em uma das classes de palavras previstas na nomenclatura gramatical.
Assim, até é nitidamente preposição em “Fomos até a praça.”. Cá é claramente
advérbio em “Venha cá.”. Mesmo ou mesma é sem dúvida pronome adjetivo
demonstrativo em “Esta é a mesma salada de ontem.”.

Uma palavra sobre o emprego do advérbio na condição de modificador de


substantivo: isto ocorre quando o substantivo assume praticamente função
adjetiva, em casos em que integra predicativo, como "Ele já é quase rapaz". Repare
que neste exemplo “rapaz”, embora substantivo, está empregado em função
adjetiva, pois se relaciona diretamente com o pronome “ele”. Nessa condição, ou
seja, como adjetivo, pode ter vínculo com o advérbio. Por fim, ressalve-se que
essas considerações todas têm relação com a taxionomia, isto é, com a
classificação das palavras, área que interessa mais de perto aos especialistas:
lingüistas, gramáticos e professores de Língua Portuguesa.

Dica nº 75

Plural dos verbos na locução verbal

Locução verbal é a reunião de vocábulos em que aparece mais de um verbo


(flexionado + forma nominal) para constituir um todo morfológico. Nas locuções
verbais, há um verbo que concentra em si o sentido mais relevante da ação
praticada ou recebida pelo sujeito, denominado principal, e outro que o
acompanha, chamado auxiliar, que encerra idéia acessória. Embora haja outros
verbos que podem comportar-se como tal, os auxiliares são quatro: ter, haver, ser
e estar. Em “Eu tinha feito a mesma proposta”, o núcleo do predicado verbal não é
“tinha” nem “feito”, mas tinha feito. A conjugação aí é composta – tinha feito –,
cujo sujeito é “eu”. Outros exemplos: “Já havíamos saído quando você chegou”,
“Vou liberar as páginas hoje mesmo”, “Você deveria ter sido promovido no ano
passado”, “Carlos está estudando agora”, “Elisete vem a ser minha prima em
segundo grau”. Agora, atenção:

• Nos tempos compostos integrados pelos auxiliares “ter” e “haver”, o verbo


principal no particípio permanece no masculino singular: “Paulo e Norma têm
viajado muito” e “As irmãs haviam feito o possível para ajudá-lo”. Repare na
diferença entre “Tenho escrito cartas” e “Tenho cartas escritas”.

· Com os auxiliares “ser” e “estar”, o particípio, que assume função adjetiva,


concorda em gênero e número com o vocábulo a que se refere: “Os deputados são
pagos para trabalhar” e “Minhas filhas estão matriculadas em bom colégio”.

· Se o verbo principal é forma infinitiva, permanece invariável: “Alberto e João


Carlos continuam a faltar às aulas” e “Devíamos estar bêbados para fazer aquela
algazarra”. É, pois, incorreta e descabida a flexão do infinitivo em construções
como “continuam a faltarem” ou “devíamos estarmos”. Isto porque aí o infinitivo
agrega-se ao verbo de que depende, em outras palavras, tem-se, na prática, um só
verbo. Por isso, apenas o auxiliar se flexiona.

· Quando o verbo principal é impessoal, o auxiliar também se impessoaliza e


permanece invariável na terceira pessoa do singular: “Poderia haver mais pessoas
lá dentro” e “Apesar dos prejuízos que possa ter havido, a loja continuou aberta”.

Dica nº 76

Pontuação em números

A representação gráfica dos números pode, conforme o caso, requerer ou não


sinais de pontuação, como o ponto e a vírgula, para separação das casas decimais.
Vejamos em que situações isso ocorre:

Ponto – Na representação de

· quantidades – 2.450 caixas, 5.500 m3, 1.500 anos de história.


datas abreviadas – 14.04.63, 16.06.96, 04.01.2002.

Vírgula – Na grafia de

· números fracionários – 2,333333; 2,5 kg; 0,50 m.


quantias – R$0,70; R$15,00; R$9,50.

Ponto + vírgula – Na escrita de

· números fracionários – 1.450,5 kg; 3.550,50 m; 4.770,8 l.


quantias – R$5.450,50; R$10.777,30; R$1.999,99.

Não se usa ponto:


· Em números de ordem: “Você é o candidato n.º 5500”, “Sua inscrição é a de
número 2468”, “O número da minha senha é 1453”.

· Em datas ou anos do calendário: “12 de agosto de 1945”, “25 de julho de 1967”.


“Viajei para a Europa em 1982 e 1983”, “Em janeiro de 1978, choveu muito em
Brasília”.

· Na notação de números fracionários ou centavos de real: R$5,50 e não, R$5.50.


4,6 m e não, 4.6 m.

Dica nº 77

Darmos e dar-mos

Percebe-se em redações, com freqüência, equívoco que se deduz decorrente do


desconhecimento do modo de construção das palavras: o uso incorreto de -mos.
Essa partícula, mais apropriadamente morfema, embora pouco usada, resulta da
combinação do pronome oblíquo me (= para mim) com o artigo masculino plural
os: me + os = mos.

Assim, se alguém me diz: “Aqui estão os livros.”, posso responder: “Você poderia
dar-mos?”, que equivale a “Você poderia dar-me os livros?”. Evidentemente, na
língua oral, seria pouco provável depararmos com esse uso, mas ele é legítimo. O
equívoco referido decorre da confusão entre a combinação que se acabou de
descrever e o morfema verbal -mos, que aparece na flexão dos verbos na primeira
pessoa do plural do infinitivo pessoal ou flexionado. Ao conjugar o verbo “dar”
nessa forma nominal e nessa pessoa, tem-se “darmos”, como em “É preciso
darmos atenção aos questionamentos dos alunos”. Neste caso, seria descabida a
separação “dar-mos”, pois a partícula “-mos” faz parte do vocábulo, é parte
integrante dele. O inverso acontece com outros pronomes oblíquos, como -nos (=
para nós). Como não integram a forma verbal, devem ser escritos com o hífen
separador: “Torçamos para o instituto dar-nos (dar a nós) a oportunidade que
almejamos”.

Em resumo, em dar-mos, temos duas palavras: o verbo “dar” acompanhado da


combinação “-mos” (o pronome oblíquo me + o artigo masculino plural os). Em
darmos, temos uma só palavra, o verbo “dar”, flexionado na primeira pessoa do
plural do infinitivo pessoal. O estudo dos pronomes oblíquos e de sua combinação
com artigos contribuirá em muito para o esclarecimento desta questão.

Dica nº 78

Sujeito a multa ou sujeito à multa?


Depende. A expressão é sujeito a, onde aparece claramente a preposição "a". Se a
palavra que se seguir for empregada em sentido genérico, isto é, não for
determinada por artigo nem pelos demonstrativos “aquele”, “aquela” ou “aquilo” e
seus plurais, não haverá como ocorrer crase. É o caso de “sujeito a multa” – onde
não se faz referência à multa de que se trata –, de “sujeito a tudo de ruim”
(expressão genérica), de “sujeito a qualquer ataque especulativo” (expressão
também genérica). A crase somente ocorrerá se a palavra que se seguir for:

1. Substantivo feminino antecedido do artigo definido, no singular (a) ou no


plural (as). Ex.: "Seu carro está sujeito à multa prevista em Lei" (sujeito a + a
multa = sujeito à multa) ou "O infrator estará sujeito às penalidades constantes do
artigo X do Código Penal" (sujeito a + as penalidades = sujeito às penalidades).

2. Substantivo feminino antecedido de artigo definido e adjetivo (ambos no


singular ou no plural). Ex.: "Pela quebra do sigilo, ele ficou sujeito à natural
execração dos seus pares" (sujeito a + a natural execração = sujeito à natural
execração) e "Agindo assim, ele estará sujeito às duras sanções legais que o
comportamento enseja" (sujeito a + as duras sanções legais = sujeito às duras
sanções legais).

3. Pronome demonstrativo do tipo "aquele/aqueles", "aquela/aquelas" e


"aquilo". Ex.: "João ficou sujeito àquele risco (ou àqueles riscos) de que falamos
antes" (sujeito a + aquele/aqueles = sujeito àquele/àqueles); "A atitude da
diretoria fez com que a empresa ficasse sujeita àquela multa (ou àquelas multas)
da qual (das quais) fomos avisados" (sujeita a + aquela/aquelas = sujeita
àquela/àquelas); "Você estará sujeito àquilo sempre que for lá" (sujeito a + aquilo
= sujeito àquilo). Repare que a palavra que segue o demonstrativo sempre é
qualificada por uma expressão ou mesmo frase. Se o vocábulo que segue o
demonstrativo não é acompanhado de qualificativo ou se aquilo não for seguido de
palavra alguma que o determine, trata-se de algo de que já se sabe, de que já se
falou antes: “Sua intransigência fez com que ficasse sujeito àquela represália”
(represália da qual já se falou antes ou da qual se sabe) e “Os alunos ficaram
sujeitos àquilo durante todo o ano”. (Aquilo = aquela coisa de que já se sabe
previamente.)

O mesmo vale para outros casos, como direito a, onde também se destaca a
preposição “a”. Em direito a pensão, o substantivo que se segue está empregado
em sentido genérico, pois não se determina de que pensão se trata nem de quanto
ela é. Entretanto, se a palavra seguinte for determinada nas condições acima, aí
ocorre crase: “Direito à pensão estipulada pelo juiz” (direito a + a pensão
estipulada pelo juiz), “Direito à elevada pensão prevista no estatuto” (direito a + a
elevada pensão...) e “Direito àquela pensão que ela reivindicava” (direito a +
aquela pensão...).

Dica nº 79

Particularidades de regência
A regência, quer verbal, quer nominal, pode apresentar casos particulares, como o
que abordaremos agora. Trata-se da possibilidade de se omitir complemento
nominal ou verbal para evitar repetição. Tudo depende da regência dos nomes ou
verbos que participam da construção oracional. Por exemplo, na expressão "amor e
obediência aos pais", a omissão do complemento aos pais após "amor" foi operada
para evitar-se a construção repetitiva "amor aos pais e obediência aos pais". Ela foi
possível porque os substantivos amor e obediência têm a mesma regência, isto é,
seus complementos nominais têm de vir antecedidos de preposição e da mesma
preposição: "a". Em outras palavras, tais vocábulos apresentam-se como amor a e
obediência a. Se o complemento for do gênero feminino, haverá crase: "respeito e
obediência às leis". (Veja, a respeito, a Dica n.º 2.) Outros exemplos: "Apego e
carinho pelos livros" e "Atenção e deferência para com os visitantes".

O mesmo vale para complementos verbais. Em "Comprei e encapei o livro", omite-


se uma vez "o livro" para evitar-se a repetição: "Comprei o livro e encapei o livro".
(A alternativa é usar-se o pronome oblíquo: "Comprei o livro e encapei-o".) A
omissão do complemento foi possível por possuírem os verbos "comprar" e
"encapar" a mesma regência - direta -, ou seja, seus complementos ou objetos
ligam-se a eles sem o auxílio de preposição. Mais exemplos: "Maria descascou e
chupou as laranjas" e "Gosto muito e por isso não me desfaço destas fitas".

Na hipótese de os nomes ou verbos terem regências diferentes, não é possível a


omissão pura e simples do complemento; por isso, um pronome terá de ser
utilizado se se quiser evitar a repetição do objeto. Assim, em "interessado e
desejoso de aprender", a construção está incorreta, pois o adjetivo "interessado",
antes de verbo no infinitivo, é acompanhado da preposição em (interessado em
aprender), ao passo que "desejoso" se usa com a preposição de (desejoso de
aprender). Como resolver o problema? Simples: no caso, o sentido do primeiro
adjetivo é completado pelo complemento nominal com auxílio da devida preposição
e o do segundo adjetivo, por sua preposição mais um pronome. A construção
correta fica assim: "interessado em aprender e desejoso disso (de + isso)".

Com verbos é a mesma coisa: a construção "Desviei-me e depois removi a pedra"


está incorreta, já que o verbo "desviar-se", no contexto, é transitivo indireto (é
acompanhado de preposição, no caso, "de": desviar-se de algo) e "remover" é
transitivo direto (é desacompanhado de qualquer preposição: remover algo). Por
isso, para evitar a repetição "Desviei-me da pedra e depois removi a pedra",
recorremos a um pronome: "Desviei-me da pedra e depois a removi". Assim
procedendo, ficamos absolutamente em paz com as regras gramaticais da norma
culta.

Veja ainda os casos abaixo:

"Gostei do livro e deliciei-me com ele" e não "Gostei e deliciei-me com o livro".

"Encontrei-me com Alberto, mas afastei-me logo dele" e não "Encontrei-me mas
afastei-me logo de Alberto".
Dica nº 80

Gaviões da Fiel comemora o titulo ou Gaviões da Fiel comemoram o titulo?

Ambas corretas. Aparentemente, há erro de concordância na primeira frase, já que


o sujeito de "Gaviões da Fiel comemora o titulo" é plural (Gaviões). Entretanto, a
concordância do verbo aí não é formal, ou seja, não se processa com a forma plural
do sujeito. Ela faz-se com a idéia que a expressão "Gaviões da Fiel" encerra, isto é,
a de escola de samba, substantivo singular. É construção mais elegante, modo
original de reescrever a mesma frase em sua forma "normal": "A escola de samba
Gaviões da Fiel comemora o titulo". Tal concordância foi possível por ter sido
empregada a figura de linguagem - mais precisamente, figura de sintaxe -
denominada silepse. É o mesmo caso de "Barreiras localiza-se no oeste baiano". A
forma singular do verbo justifica-se por se tratar não de "barreiras", substantivo
comum plural, mas de nome próprio singular, que se refere a uma cidade. A
concordância realiza-se, portanto, com a idéia de cidade e não com a de "mais de
uma barreira".

A segunda frase também está correta em razão de o verbo concordar com a forma
plural "Gaviões da Fiel", referência aos participantes da citada escola de samba.
Eles são também integrantes, em geral, da torcida homônima do clube de futebol
S. C. Corinthians Paulista, aliás, a mais famosa delas. E por que "Fiel"? Porque a
torcida corintiana é considerada, muito justamente, a "Fiel Torcida".

Dica nº 81

Uso do dicionário

É dever do professor de língua materna orientar o estudante, especialmente o das


séries iniciais, a respeito do uso do dicionário. Há vários "macetes" nesse particular,
que, se não forem observados, dificultarão a localização do que se quer encontrar.
Comentemos inicialmente a respeito da oposição masculino vs. feminino. Com
exceção de alguns nomes mais usuais, como menina, professora, gata, vaca e
muitos outros, os demais são consignados no dicionário geralmente pela forma
masculina, especialmente os adjetivos. Se procurarmos os verbetes senadora,
bombeira, carteira (feminino de carteiro), completa, perfeita, portuguesa, não os
vamos encontrar, apenas "senador", "bombeiro", "carteiro", "completo", "perfeito",
"português". Há, porém, exceções: o Aurélio registra alemã como feminino de
alemão. Já francesa, inglesa e mexicana são apresentados com outros significados
que não o simples feminino dos correspondentes masculinos. Geralmente, quando,
no verbete da forma masculina, há indicação da feminina, trata-se do interesse em
precisar sua pronúncia.

Os substantivos que possuem, na língua portuguesa, formas do masculino e do


feminino bem distintas (como homem/mulher, bode/cabra) são comumente
encontrados assim nos dicionários. Contudo, dos nomes cuja distinção de gênero é
operada mediante o uso de desinências (garoto/garota, dicionarizados) nem
sempre se encontra a flexão feminina, como é o caso de búfalo. O Aurélio somente
registra o masculino, sem mencionar seu feminino, mas o dicionário de língua
portuguesa da Encyclopaedia Britannica (3 vols.) consigna "búfalo" e, no verbete,
informa que o feminino é "búfala". A ausência de certas informações lexicográficas
dá a medida da completude de um dicionário.

Outro aspecto do que falamos aqui se refere à oposição singular vs. plural. A forma
geral registrada é a singular, o que mostra considerarem os lexicógrafos
(dicionaristas) ser a palavra no plural apenas variação da forma singular e não,
outra palavra. Entretanto, as formas do singular e do plural dos vocábulos
portugueses de origem latina (a maioria) tiveram evolução paralela e autônoma.
Mesmo assim, a busca de verbetes deve, pois, ser feita pela forma singular.

Nomes compostos muitas vezes não são consignados e deve-se procurar por um de
seus elementos constituintes. Por exemplo, não se encontra ponto de vista.
Entretanto, no verbete ponto, ao final de suas acepções, há menção a "ponto de
vista" e a outros subverbetes em que aparece o elemento "ponto". O mesmo ocorre
com relação a livro de ouro, encontrado no verbete "livro" e a Semana Santa, que
aparece no verbete semana.

Quanto aos advérbios, de modo geral, é inútil procurar os terminados em -mente,


salvo algumas exceções, como friamente, que o Aurélio registra. Esses advérbios
de modo são derivados de adjetivos na forma feminina, como claramente (de
clara); prontamente (de pronta); seguramente (de segura). Assim, se quisermos
saber o sentido de peremptoriamente, será preciso buscar o adjetivo que lhe dá
origem, ou seja, peremptória, que também não aparece. O que está lá é o
masculino peremptório.

Por fim, enfocamos as formas verbais, que devem ser procuradas no dicionário pelo
infinitivo. De nada adianta tentar localizar cantava, comia, saía e punha, que não
serão encontradas. O apropriado é buscar cantar, comer, sair e pôr. Contudo, o
particípio sempre aparece, pois é levada em consideração sua função adjetiva.
Ainda assim, a forma feminina nem sempre é contemplada e mesmo quando ela é
substantivada às vezes não figura. Assim, o Aurélio consigna estimado, mas não,
estimada; cansado, mas não, cansada; registra amado, mas não, amada, embora
esta possa também significar a mulher que alguém ama; querido, mas não,
querida, que, como substantivo, é algo ou alguém que se quer muito.

Dica nº 82

Ofício

O ofício é tipo de correspondência externa muito usado, especialmente quando o


destinatário é órgão público. Ele serve para "informar, encaminhar documentos
importantes, solicitar providências ou informações, propor convênios, ajustes,
acordos, etc., convidar alguém com distinção para a participação em certos
eventos, enfim, tratar o destinatário com especial fineza e consideração" (CAMPOS
MELLO, 1978: 122). Modelo moderno de estruturação de ofício é:
1. Timbre (se houver)
2. Três espaços duplos
3. (À esquerda) Número do ofício. (Na mesma linha, na posição centro-direita)
Local e data
4. Um espaço duplo
5. Epígrafe
6. Dois espaços duplos
7. Vocativo (Prezados Senhores, Excelentíssimo Senhor Ministro,)
8. Três espaços duplos
9. Corpo do texto
10. Dois espaços duplos
11. Fecho
12. Três espaços duplos
13. Assinatura acima do nome, abaixo do qual aparece o cargo ou função
14. (Mais abaixo, à esquerda) Endereçamento: nome e cargo ou apenas o cargo do
destinatário, endereço postal completo
15. Iniciais de quem redigiu e as de quem datilografou/digitou, separadas por barra
(/).

Observações:

1. O timbre existe quando o papel utilizado pertence a repartição oficial ou a


empresa. Em se tratando de pessoa física, geralmente, não aparece.

2. Da mesma forma, o ofício é numerado quando o remetente é pessoa jurídica.


Normalmente, pessoas físicas não costumam numerar correspondência. O número
é de ordem e geralmente recomeça do 1 a cada ano civil.

3. O vocativo é sempre seguido de vírgula. Veja, a propósito, a Dica n.º 54.

4. A epígrafe é palavra ou expressão que resume o assunto de que o texto trata.


Sua existência não é obrigatória, mas conveniente, pois constando agiliza a
tramitação do documento no ambiente de destino: o recebedor, ao ver a epígrafe,
poderá encaminhar de imediato o ofício ao setor competente. Ela costuma ser
colocada à esquerda, entre a data e o vocativo.

5. Os parágrafos do corpo do texto podem ser numerados. Neste caso, o primeiro


parágrafo e o fecho não recebem número.

6. Modernamente, o fecho é menos formal e mais conciso. Fechos como "Enviamos-


lhe protestos de alta estima e distinta consideração" são hoje considerados muito
formais e tendem ao desuso.

7. As iniciais dos elaboradores do ofício são diferenciadas: normalmente, as do


redator são grafadas em primeiro lugar e em maiúsculas e as do
datilógrafo/digitador aparecem depois da barra, em letras minúsculas.

8. Se houver anexos, será indicado seu número (Anexo: 1, Anexos: 3) entre a


assinatura e o endereçamento. Às vezes, o anexo é volume composto de diversas
folhas, o que é indicado pelo número de volumes e o total de folhas de que se
compõem: Anexos: 1/10, 2/15.

9. Se for utilizada mais de uma folha na redação do ofício, o endereço será indicado
na primeira.

Exemplo de ofício:
Dica nº 83

Adjetivos não-flexionáveis quanto ao número

Simples ou compostos, há adjetivos que, independentemente do número do


substantivo que modificam, permanecem no singular. É o caso dos substantivos em
função adjetiva que se referem a cores. Assim, temos vestidos rosa, blusas marfim,
saias cinza, ternos grafite, carros prata, raios ultravioleta. Você pode estar-se
perguntando: ué, mas por que "raios ultravioleta", se dizemos "raios
infravermelhos"? Acontece que em "ultravioleta" está presente o substantivo
violeta, ao passo que em "infravermelho" aparece o adjetivo vermelho. Este
flexiona-se, pois, normalmente. Os adjetivos compostos dos quais um dos
elementos é substantivo também ficam numericamente invariáveis: toalhas azul-
turquesa, sombrinhas azul-piscina, maiôs rosa-choque, capas verde-garrafa,
biquínis verde-abacate, calças cinza-chumbo, tecidos amarelo-ouro. O mesmo vale
caso apareçam as locuções "de cor", "cor de", "da cor do" ou "da cor de": fitas de
cor vermelha, meias de cor azul-escuro, vestidos cor-de-rosa, roupas cor-de-burro-
quando-foge, olhos cor de turmalina, toalhas da cor do mar, lençóis da cor de
morango.

Dica nº 84

Acentuação gráfica de vocábulos terminados em ditongo crescente

Esta matéria pode suscitar dúvida, já que a norma ortográfica é nebulosa. Ela prevê
acentuação gráfica sempre que um vocábulo for proparoxítono, como em âmago,
básico, lâmpada e médico. Até aí, tudo claro. Acontece que há palavras paroxítonas
terminadas em ditongo crescente, como água (á-gua), ânsia (ân-sia), contínuo
(con-tí-nuo), glória (gló-ria), lírio (lí-rio), série (sé-rie), tênue (tê-nue) e outras,
que são acentuadas graficamente, pois também podem ser pronunciadas como
proparoxítonas. Neste caso, o encontro vocálico em ditongo converte-se em hiato e
agora a sílaba que era una divide-se em duas, de forma que as palavras se tornam
proparoxítonas: "á-gu-a", "ân-si-a", "con-tí-nu-o", "gló-ri-a", "lí-ri-o", "sé-ri-e", "tê-
nu-e". Você deve estar-se perguntando: ué, mas não há nada de novo, pois temos
proparoxítonos em ambas as situações. Entretanto, a regra silencia se o vocábulo
for pronunciado como paroxítono: gló-ria. Nesta situação, ele não deveria ser
acentuado graficamente, já que na regra de acentuação dos paroxítonos não estão
incluídas as palavras terminadas em ditongo crescente. Mesmo assim, elas são
acentuadas. O que ocorre é que a regra prevê tais formas poderem vir a ser
pronunciadas como proparoxítonos - são os proparoxítonos eventuais - e, pelo sim,
pelo não, inclui-as também no rol das palavras que apresentam o acento tônico na
antepenúltima sílaba. Eis o que dizem as "Instruções da Academia Brasileira de
Letras", de 12.08.1943, no capítulo XII - Acentuação gráfica, item 43, alínea 2.ª,
observação : "Incluem-se neste preceito [acentuação obrigatória dos
proparoxítonos] os vocábulos terminados em encontros vocálicos que podem ser
pronunciados como ditongos crescentes: área, espontâneo, ignorância, imundície,
lírio, mágoa, régua, tênue, vácuo, etc.". Ora, se o encontro vocálico final é ditongo,
isso significa que a palavra não é proparoxítona e sim, paroxítona. Contudo,
repetimos, não há previsão normativa, no que toca aos paroxítonos, de acentuação
dos vocábulos terminados em ditongo crescente. A norma é, pois incompleta, já
que deveria prever expressamente a acentuação desses vocábulos tanto na
condição de proparoxítonos como na de paroxítonos, uma vez que ambas as
pronúncias ocorrem nos domínios da língua.

Essa é, porém, discussão acadêmica. O que interessa para seu uso é que vocábulos
paroxítonos terminados em ditongo crescente recebem acento gráfico na vogal
tônica, já que esse ditongo pode converter-se em hiato, o que faz com que tais
palavras sejam pronunciadas como proparoxítonas: cá-rie ® cá-ri-e, gló-ria ® gló-
ri-a, ré-gua ® ré-gu-a, etc.

Dica nº 85

Palavras e expressões latinas de uso corrente em português

Além dos milhares de vocábulos portugueses de origem latina, são muitas vezes
empregadas palavras e expressões na forma original. Encontramo-las às centenas
tanto na linguagem técnica como na que utilizamos no dia-a-dia. Vejamos algumas,
seu significado e exemplo de emprego:

Ad hoc (para isso, para determinado fim) – Diz-se de pessoa (ou grupo de
pessoas) que, em certa situação, é designada para exercer função que
habitualmente não é a sua: “Na assembléia, José foi escolhido secretário ad hoc”.
Ad infinitum (até o infinito) – Indefinidamente: “Na dízima periódica, um ou mais
algarismos repetem-se ad infinitum”.
Ad referendum (para ser trazido de volta) – Para exame e aprovação posterior de
outrem. Uma decisão “ad referendum” é tomada por alguém e depois submetida à
aprovação de outras pessoas a quem esse alguém deve satisfações: “O presidente
nomeou o embaixador ad referendum do Congresso”.
Alter ego (outro eu) – Pessoa em quem se pode confiar como em si mesmo;
aquele que substitui perfeitamente o outro (Aurélio): “Por suas ações, Valmir era o
alter ego do subgerente”.
Caput (cabeça, extremidade) – Parte superior de um artigo ou parágrafo: “A
convocação da assembléia está amparada pelo estatuto social em seu artigo 12,
caput”.
Corpus Christi (corpo de Cristo) – Tradicional festa móvel católica em honra do
corpo de Deus: “As ruas de Matão enfeitam-se para a procissão de Corpus Christi”.
Curriculum vitæ (carreira da vida) – Documento que contém dados pessoais e
outras informações relacionadas à formação escolar e profissional e às atividades já
realizadas por alguém com vistas a candidatura a algum cargo ou emprego: “Os
candidatos à vaga devem apresentar o curriculum vitæ no departamento de
Recursos Humanos da empresa”.
De cujus (aquele de cuja) – Palavras existentes na expressão jurídica de cujus
successione agitur = aquele de cuja sucessão se trata. Emprega-se com
referência a alguém falecido que deixou bens de herança.
e. g. (abreviatura de exempli gratia) – Significa “por exemplo”: “O padre aparece
ali só em festas religiosas e.g. no domingo de Páscoa”.
Errata (plural de erratum = erro) – Erros, coisas erradas: “Errata – Na pág. 5,
onde se lê ‘viraram’, leia-se ‘viraram-se’. Na pág. 17, onde se lê ‘mandato’, leia-se
‘mandado’”. E assim por diante.
Et alii (e outros) – Expressão usada em notações bibliográficas para indicar a
existência de mais de um autor: “HERNANDES, Paulo et alii.”.
Ex voto [de (um) voto] – Empregada já na forma aportuguesada (ex-voto).
Objeto – fotografia, quadro ou reprodução em cera ou madeira de parte do corpo
humano – deixado em igreja para pagamento de voto ou promessa em retribuição
de graça recebida: “Na sacristia, vêem-se centenas de ex-votos”.
Ex officio (de ofício, de obrigação) – Em função do cargo ou em virtude de
obrigação do cargo: “O procurador representou ex officio ao presidente do
tribunal”.
Habeas corpus (tenhas teu corpo) – Garantia outorgada pela Constituição a
alguém que está sofrendo ou pode sofrer restrições na locomoção por parte de
autoridade: “O defensor do acusado já requereu habeas corpus preventivo”.
Habeas data (tenhas os dados) – Dispositivo introduzido na constituição brasileira
de 1988 pelo qual um cidadão pode requerer do poder público informações sobre os
dados que sobre ele existam em arquivos de órgãos governamentais e
eventualmente as retificar.
Honoris causa (para a honra) – Título conferido por universidades a pessoas, a
título de homenagem, sem que o agraciado tenha passado por qualquer exame: “O
autor recebeu da Universidade de Brasília o título de doutor honoris causa”.
Ibidem (no mesmo lugar) – Vocábulo que também aparece na forma abreviada
ibid. Em Bibliografia, termo que equivale a “no mesmo lugar, mesmo capítulo ou
mesma página”. Veja exemplo no verbete "Loc. cit.", adiante.
Idem (o mesmo) – A mesma coisa ou, em Bibliografia, o mesmo autor: “Ata da
reunião de 10.09.98. Idem, de 12.08.99”.
In loco (no lugar) – No lugar, no próprio local: “O delegado verificou in loco a
situação do prédio atingido”.
In fine (no fim) – É usada para indicar a localização de algo no final de um texto
ou de parte dele: “Veja o parágrafo 11, alínea ‘a’, in fine”.
In natura (na Natureza) – Em estado natural, tal qual: “Em vez de comercializar o
leite in natura, as empresas preferem transformá-lo em laticínios”.
In totum (no todo) – Totalmente, integralmente: “Para a computação, os dados da
pesquisa foram considerados in totum, em vez das totalizações parciais”.
Ipsis litteris (com as mesmas letras) – Literalmente, textualmente, nos mesmos
termos: “Transcrevi ipsis litteris o que ele escreveu”.
Ipso facto (mesmo fato) – Por esse mesmo fato, por isso mesmo: “O diretor da
Receita é, ipso facto, a pessoa mais abalizada para opinar a respeito de
arrecadação”.
Lato sensu (em sentido amplo) – Em sentido amplo, geral; de forma geral: “O
curso é de pós-graduação lato sensu em Língua Portuguesa”. Os cursos “lato
sensu” são geralmente os de especialização, feitos depois da graduação
universitária.
Loc. cit (abreviatura de loco citato, lugar citado) – Expressão usada em Bibliografia
com sentido de “no mesmo lugar, no mesmo livro”. Entretanto, é mais empregada
como equivalente a “na mesma página”, para não se repetir o número da tal
página: “LUFT, 1979, p. 35. Idem, ibidem, loc. cit.”. Aí, “idem” refere-se ao autor,
“ibidem” à obra – identificada pelo ano da edição, certamente constante da
bibliografia – e “loc. cit.” indica que a página é a mesma já mencionada há pouco.
Mea culpa (minha culpa) – Reconhecimento do próprio erro ou falha: “Depois do
que ocorreu, todos esperavam que ele fizesse o mea culpa ali mesmo”.
Modus operandi (modo de operar) – Maneira de agir: “A polícia já tem as
informações sobre o modus operandi da quadrilha que agiu nas privatizações”.
Mutatis mutandis (mudado o que deve ser mudado) – Fazendo-se as alterações
ou adaptações necessárias: “Empregados têm deveres com os patrões; mutatis
mutandis, têm os patrões deveres com os empregados”.
Nihil (nada) – Emprega-se para indicar ausência de dados ou informações:
“Consultas realizadas – Janeiro: 10; fevereiro; 8; março: nihil; abril: 2”.
Pro forma (pela forma, pela aparência) – Por mera formalidade: “Não há
necessidade da assembléia, mas ela será realizada apenas pro forma”.
Pro labore (pelo trabalho) – Expressão já aportuguesada como “pró-labore”.
Remuneração paga pelo exercício de certo cargo ou função ou pela execução de
determinada tarefa: “Além do pró-labore, os diretores têm outras regalias”.
Pro rata (de pro rata parte = para a parte fixada, calculada) – Em proporção, de
forma proporcional (segundo a parte contada a cada um): “A taxa foi calculada pro
rata de acordo com a despesa mensal”.
Sine die (sem dia) – Sem data marcada: “O simpósio foi adiado sine die”.
Sine qua non (de conditio sine qua non = condição sem a qual não) –
Indispensável: “A conclusão de curso superior é condição sine qua non para a
inscrição no concurso”.
Stricto sensu (em sentido estrito) – Em sentido restrito: “Estão abertas as
matrículas dos cursos de pós-graduação stricto sensu”. Tais cursos são geralmente
os de mestrado e doutorado.
Status quo (de in statu quo = no estado que) – Situação em que algo se
encontrava ou se encontra: “Nosso movimento político contraria o status quo
vigente”.
Sub judice (sob julgamento) – Sob apreciação judicial: “Não vou me manifestar, já
que a questão ainda está sub judice”.
Sui generis (de seu próprio gênero) – Peculiar, original, diferente: “Trata-se de
linha de investigação sui generis”.
v. g. (abreviatura de verbi gratia) – Significa “por exemplo”: “A Semiótica estuda
todos os sistemas de signos, v. g., a linguagem gestual”.
vs. (abreviação de versus = contra) – “No dia 3 de junho, teremos o jogo Brasil vs.
Turquia”.
Dica nº 86

A princípio ou em princípio?

Ambas são locuções (ou sintagmas) adverbiais que se parecem na forma e por isso
são freqüentemente confundidas, mas têm empregos diferentes. A princípio
equivale a "no começo", "inicialmente": "A princípio, o time estava meio preso, mas
depois se soltou e surgiram os gols", "A princípio, a seleção turca respeitou o Brasil,
mas depois começou a gostar do jogo" e "A princípio, Edmilson estava meio
nervoso, mas acabou firmando-se na partida".

Em princípio significa "em tese", "preliminarmente", "de modo geral", como em "Em
princípio, concordo com o esquema tático da seleção brasileira", "Em princípio, a
Seleção era favorita no jogo de estréia" e "Em princípio, quase todas as equipes
têm chance".

Dica nº 87

Pontuação

Todos sabemos da importância da pontuação para a correta e precisa expressão do


pensamento, principalmente na língua escrita. O seguinte texto revela isso de modo
eloqüente:

"Um homem rico estava muito mal de saúde. Pediu caneta e papel e escreveu
assim:

'Deixo meus bens à minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do
alfaiate nada aos pobres'.

Morreu antes de fazer a pontuação. Afinal, a quem ele deixou a fortuna? Eram
quatro concorrentes: a irmã, o sobrinho, o alfaiate e os pobres. O escrito chegou às
mãos deles e cada um fez a pontuação que lhe conveio, como veremos a seguir:

O sobrinho fez a seguinte pontuação: 'Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu
sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres'.

A irmã chegou em seguida. Pontuou assim: 'Deixo meus bens à minha irmã. Não a
meu sobrinho. Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres'.

O alfaiate pediu cópia do original. Puxou a brasa para a sua sardinha: 'Deixo meus
bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do alfaiate.
Nada aos pobres'.
Aí, chegaram os descamisados da cidade. Um deles, sabido, fez esta leitura: 'Deixo
meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do
alfaiate? Nada! Aos pobres'.

Assim é a vida. Nós é que colocamos os pontos. E isso faz a diferença."

Os vestibulandos e candidatos a vagas em concursos, principalmente, sabem disso.

Veja agora este outro texto:

“O valor da vírgula

Leia o texto abaixo e ponha nele apenas uma vírgula. Quase sempre, os homens
colocam-na em um lugar e as mulheres, em outro. Tente descobrir onde isso
ocorre.

‘Se o homem soubesse o valor que tem a mulher andaria ansiosamente à sua
procura.’

Se você é mulher, certamente pôs a vírgula depois de ‘mulher’. Entretanto, se é


homem, com certeza a colocou depois de ‘tem’”.

Viu como a vírgula é importante?

Dica nº 88

Letras maiúsculas em vocábulos em que há hífen

Nas palavras compostas cujos elementos são separados por hífen, é o seguinte o
emprego das letras maiúsculas:

1. Se o nome é próprio, é escrito com inicial maiúscula por força de outras


disposições da regra ortográfica ou faz parte de título em que os componentes
estão grafados com esse tipo de letra, ambos os elementos do composto recebem
iniciais maiúsculas: "O prof. Jean-Claude Boulanger viajou da Grã-Bretanha para o
Brasil a fim de proferir palestra na Escola Pós-Graduada de Ciências Sociais",
"Simpósio sobre Ações de Contra-Informação".

2. Nos demais casos, só se utiliza a maiúscula como inicial do primeiro elemento e


mesmo assim quando o composto iniciar frase ou título: "Homens-rãs iniciam
treinamento" e "Fichas-resumos - Arquivo geral".

Tal ocorre porque "os elementos hifenizados têm autonomia fonética, mórfica e
gráfica. Mantêm portanto as maiúsculas respectivas" (LUFT, 1979: 76).

Dica nº 89
Cerca de, acerca de, há cerca de

Essas três formas costumam produzir confusão pela semelhança, mas têm emprego
preciso, como veremos a seguir:

· Cerca de - Sintagma ou locução adverbial que significa "aproximadamente", "mais


ou menos": "O atirador está a cerca de 30 metros do alvo", "Discursei para cerca
de 200 pessoas" e "A estrada tem cerca de 15 km de extensão".

· Acerca de - Locução prepositiva com significado de "a respeito de", "sobre",


"relativo a": "Falamos acerca de negócios", "Carlos é capaz de discutir acerca de
qualquer assunto" e "Trata-se de tópicos acerca de Contabilidade Bancária".

· Há cerca de - Expressão formada pelo verbo "haver" e a locução "cerca de".


Conforme o contexto, pode ter dois sentidos:

1. Tempo aproximado decorrido - "Chegamos a Brasília há cerca de 25 anos" e


"Renato partiu há cerca de 15 minutos".

2. Quantidade aproximada existente - "Há cerca de 100 cabeças no pasto" e


"Segundo Mariana, há cerca de 30 alunos na sala".

Dica nº 90

Feminino de ídolo

Às vezes, as pessoas têm dúvida ao empregar a palavra ídolo com referência a


nome feminino. Dizer "Chico Xavier é meu ídolo" é fácil, já que "ídolo" é do gênero
masculino. O problema surge quando tal vocábulo se relaciona com nome feminino,
como "Chiquinha Gonzaga". Como ficaria a construção? "Chiquinha Gonzaga" é
minha ídola"? Não é nada disso. Na verdade, o substantivo "ídolo" pertence a um
só gênero, o masculino. Assim, como não tem forma feminina, você dirá: "Milton
Nascimento é meu ídolo" ou "Sandy é meu ídolo". Esse fato não é de surpreender,
pois vários substantivos existem que, como "ídolo", só são empregados em um
gênero e podem relacionar-se indistintamente a nomes masculinos e femininos. A
Nomenclatura Gramatical Brasileira chama-os "sobrecomuns", dos quais são
exemplos os masculinos alvo, animal, cônjuge, indivíduo e os femininos criança,
pessoa, testemunha, vítima e vários outros, como nos exemplos abaixo:

· O conferencista e sua esposa foram alvo de todas as atenções.


· Esta leoa é o único animal do zoológico que ainda não foi vacinado.
· Meu cônjuge chama-se Norma.
· As mulheres são os mais sensíveis indivíduos da espécie humana.
· Celsinho é criança muito esperta.
· João é pessoa imensamente estimada.
· Euclides, a testemunha, já chegou para depor.
· O nome da vítima é Raimundo.

Em conseqüência da evolução do grupo social, substantivos sobrecomuns podem


vir a apresentar o outro gênero. Assim, em razão do incremento da presença
feminina em cargos de chefia, o vocábulo chefe, que tradicionalmente possuía
apenas uma forma (comum de dois gêneros: o chefe, a chefe), passou a admitir
também a feminina morfologicamente explicitada – chefa. O mesmo ocorreu com
presidente, parente e sujeito, cujas formas do feminino já estão dicionarizadas. Em
breve, isso poderá suceder com gerente, é esperar para ver...

Dica nº 91

Leitura de números fracionários

Eventualmente, a leitura de números fracionários pode suscitar dúvidas,


principalmente se o numerador (número colocado acima do traço divisório) é 1 ou
se o denominador (número colocado abaixo do traço) expressa grandes
quantidades. Vejamos como isso se processa: o numerador é sempre lido como
numeral cardinal: um, cinco, nove, etc. O denominador lê-se meio quando for dois
e terço quando três. Exemplos: meio (1/2), um terço (1/3), dois terços (2/3), etc.
De quatro até dez, lê-se o denominador como número ordinal: quarto, quinto,
sexto, sétimo, oitavo, nono, décimo. Exemplos: um quarto (1/4), três oitavos
(3/8), sete décimos (7/10). A partir daí, o denominador é lido como cardinal,
acrescido da palavra avos, no plural, mesmo quando o numerador da fração é 1.
Assim, um onze avos (1/11), cinco trinta avos (5/30), doze quatrocentos avos
(12/400), sete dois mil avos (7/2000), vinte cinco mil e nove avos (20/5009), etc.
As exceções ocorrem quando o denominador é múltiplo de 10. Nestes casos, em
vez de "avos", usam-se centésimo, milésimo, milionésimo e seus compostos: um
centésimo (1/100), dois milésimos (2/1000), dez milionésimos (10/1000000), cinco
décimos milésimos (5/10000), trinta centésimos milésimos (30/100000), etc.

A palavra que representa o número fracionário chama-se numeral fracionário.


Acredita-se que o vocábulo avo, usado normalmente no plural, origina-se da
terminação de oitavo.
Resumo - Leitura do:
· Numerador - Na forma de numeral cardinal: um, cinco, vinte.
· Denominador - Meio (2), terço (3); de 4 até 10, na forma ordinal; de 11 em
diante, na forma cardinal, acrescido de avos, com exceção dos múltiplos de 10.
Estes são lidos na forma ordinal.

Dica nº 92

Evolução de regências verbais


Todos sabemos que a língua é sistema em contínua evolução, isto é, transforma-se
constantemente. Cabe aos gramáticos estarem atentos às mudanças sob pena de
se distanciarem cada vez mais da língua viva.

Esse preâmbulo serve para introduzir o assunto que se segue: a evolução de


algumas regências verbais no português brasileiro. Vejamo-las:

Aspirar - Tradicionalmente, este verbo tem duas regências. Como transitivo


direto, significa inspirar, inalar, entre outros sentidos: "Ficando aqui, você vai
aspirar muito pó" e "Aspire o perfume por alguns segundos". Como transitivo
indireto, tem o significado de desejar, ambicionar: "De há muito, João Carlos
aspirava ao cargo" e "Ao entrar no templo, o neófito aspirava pela luz".
Novidade - Atualmente, gramáticos e autores respeitados também admitem a
regência direta com o sentido de "desejar": "O que aspiro é muito mais do que
isso" e "Setores oligárquicos da política aspiram continuar no poder". Autores
renomados em que se encontra esta prática: José Lins do Rego, Darcy Ribeiro,
Gilberto Amado, Viana Moog e Plínio Salgado.

· Assistir - A regência direta e a indireta implicam diferença de sentido. A


direta atribui ao verbo o sentido de prestar assistência, assessorar: "Jorge ficou
encarregado de assistir os estagiários" e "Augusto assistiu o presidente na viagem,
não sem algum interesse". A regência indireta tem o sentido de ver, presenciar:
"Assisti a um Vasco x Botafogo no Maracanã" e "É preciso pagar para assistir ao
filme".
Novidade - Gramáticos e autores conhecidos já admitem a regência direta com o
sentido de "ver": "A última partida do Corinthians que assisti em estádio foi contra
o Brasiliense" e "Não quero assistir espetáculo de violência". Celso Cunha
reconhece a evolução sintática, e a construção passiva comprova a transitividade
direta: "O jogo foi assistido por cem mil torcedores" e "O filme foi assistido por
milhões de espectadores em todo o mundo".

· Visar - Como os anteriores, este verbo tem também duas regências: a


direta e a indireta. Ao empregar-se com regência direta, tem, entre outros
significados, o de pôr visto, autenticar: "Preciso que você vise este cheque" e "Pedi
para visarem o documento". Como transitivo indireto, significa ter como objetivo,
pretender: "Com isso, eles visavam à desestabilização do Governo" e "Tais medidas
não visam a melhorar o funcionamento do modelo".
Novidade - Modernamente, gramáticos e autores de renome admitem a regência
direta também com o sentido de "objetivar", "pretender", como em "A assembléia
visa alterar o estatuto" e "As providências visam o fim do conflito". Autores que
abonam essa prática: Antenor Nascentes, Rocha Lima, Celso Cunha, Paschoal
Cegalla, Evanildo Bechara e outros.

Nota: para evitar problemas com especialistas conservadores, especialmente em


provas e concursos, é prudente empregarem-se as regências tradicionais.
Dica nº 93

Haja vista ou haja visto?

A primeira. "Haja vista" é expressão verbal perifrástica, isto é, desenvolvida, que


equivale à forma sintética veja. O elemento "haja" é flexão do verbo haver na
terceira pessoa do imperativo afirmativo e "vista" não pode ser substituído por
"visto", pois se refere a vista mesmo, com o sentido de "olho". Tal expressão deve,
portanto, ser empregada de forma invariável e tem como objeto direto as palavras
que a seguem. Assim, temos "O povo brasileiro cansou-se do atual modelo
econômico, haja vista o resultado das eleições de 2002" e "A inflação não está sob
total controle, haja vista as contínuas elevações dos preços dos alimentos". Em
alguns autores, encontra-se a flexão do verbo: "hajam vista", como em "Hajam
vista os acontecimentos em Foz do Iguaçu". Para outros, a expressão é seguida de
preposição, "haja vista a", como em: "Haja vista às tão importantes decisões".
Entretanto, estas práticas não encontram o respaldo da maioria dos autores
renomados e por isso devem ser desconsideradas.

Dica nº 94

Qual seja

É correto o emprego dessa expressão? Sim, pois se trata de pronome relativo tanto
quanto "que" e exerce a função de sujeito da oração que introduz. A frase "O autor
tem grave dever, qual seja o da lealdade processual" equivale a "O autor tem grave
dever, o qual é o da lealdade processual". Se o antecedente está no plural,
empregamos então "quais sejam": "Antônio possui algumas propriedades, quais
sejam uma casa, um apartamento e uma chácara".

Dica nº 95

Concordância verbal – Sujeito composto posposto

Nos casos em que o sujeito composto antecede o verbo, este vai naturalmente para
o plural por serem mais de um os praticantes da ação. Por exemplo, “Carlos e
Marina são pessoas íntegras” e “Vanessa e Gabriel viajaram para Alagoas”.

Entretanto, quando o sujeito composto está posposto, isto é, quando está posto
depois do verbo, este pode permanecer no singular, como faz Manuel Bandeira em
“Rua da União, onde todas as tardes passava a preta das bananas com o xale
vistoso de pano da Costa e o vendedor de roletes de cana” (CUNHA, 2000: 498).
Assim também “Chegou o novo televisor de 30 polegadas e o revolucionário DVD” e
“Apareceu a ilha Redonda e a Siriba”.

Observe o que diz Napoleão Mendes de Almeida: “Preste atenção o aluno aos
dizeres da regra: ‘...poderá o verbo...’ – Não há obrigação de ficar no singular o
verbo; preferem muitos pô-lo no plural, talvez por temor de críticas de ignorantes
em assuntos gramaticais. Segundo Cândido de Figueiredo, o verbo anteposto aos
sujeitos deve ficar sempre no singular, mesmo nos casos em que os últimos
elementos do sujeito estejam no plural (“Morreu Pedro e todos os que lá estavam”),
porque assim exige a índole da língua e a prática dos melhores mestres” (ALMEIDA,
1999: 449, § 727, Notas, 1.ª).

Ficará também o verbo no singular se for antecedido de expressões como é


necessário ou é preciso: “É necessário paciência e perseverança para se atingir a
meta” e “É preciso atenção e perspicácia para descobrir onde está Wally”.

Se o sujeito composto formar-se de nomes próprios, será melhor a concordância no


plural, como em “Foram aprovados Adilan, Ronan e Luiz Eduardo” e “Discursarão
Lula e José Alencar”. Se o verbo for “ser” seguido de substantivo flexionado no
plural, deverá ir para o plural: “Foram prefeitos de Barretos Benedito Realindo
Corrêa e João Batista da Rocha” e “São meus primos o Adirlei e a Avani”.

Irá também o verbo para o plural se encerrar idéia de reciprocidade, como em


“Após a cerimônia, beijaram-se Gustavo e Simone” e “Consta que lutaram a noite
inteira Jacó e o anjo”.

Dica nº 96

A vírgula e a conjunção “e”

De modo geral, não cabe o emprego da vírgula juntamente com a conjunção aditiva
“e”, pois nesse caso ambos os elementos estarão funcionando como conetivos no
mesmo lugar. Contudo, há casos em que é possível a presença da vírgula
juntamente com o “e” e em outros ela não só é possível como necessária. Vejamos
alguns deles:

• A vírgula indica que a palavra ou expressão que a segue, depois do "e", é


sujeito de outra oração, distinto do da oração anterior – Exemplo: “Geralmente, já
foram fixados os preços, e as tabelas não podem ser alteradas”. Repare que “os
preços” e “as tabelas” são sujeitos de predicados diferentes (foram fixados e não
podem ser alteradas). Sem a vírgula, na leitura rápida, pode parecer que se trata
de sujeito composto (já foram fixados os preços e as tabelas). Outro exemplo: “Os
executivos usam carros da empresa, e microônibus levam os demais empregados
ao trabalho”. Neste caso, a ausência da vírgula propiciaria leitura tal que faria com
que “microônibus”, sujeito de “levam”, fosse entendido como complemento de
“usam”, juntamente com “carros da empresa”. Vírgula obrigatória.

• Há intenção de se enfatizarem componentes de série coordenada – Exemplo:


“Houve muitos episódios notáveis na Guerra do Paraguai, como Humaitá, e Itororó,
e Avaí, e Itá-Ibaté, e Angostura, e outros tão ou mais importantes”. Assim
encadeada a série, ressalta-se cada elemento em particular. Vírgula facultativa, na
dependência de se querer ou não produzir a ênfase mencionada.

• Destaque de oração ou expressão intercalada – Exemplos: “Esse eixo


semântico, e trata-se exatamente disso, possui grande generalidade”, “O padre
repreendeu, e era perfeitamente o caso, o comportamento impróprio de alguns
paroquianos” e “O aluno foi chamado e, aparentando tranqüilidade, apresentou-se
ao diretor”. Pode-se retirar a oração ou a expressão encaixadas sem prejuízo do
sentido da oração principal. Observe que, como se trata de intercalação, há duas
vírgulas, uma antes e outra depois do elemento intercalado. Vírgula facultativa.

• Separação de aposto do “e” – Este caso é semelhante ao anterior, mas a


particularidade é que se trata de aposto, que nem sempre precisa estar entre
vírgulas, como em “Nosso primeiro imperador foi D. Pedro I, o “Defensor Perpétuo
do Brasil”. Na hipótese de o aposto ser “interno”, ou seja, não ser seguido por
ponto, deve ser ladeado por vírgulas, mesmo que à segunda se siga a conjunção
“e”. Exemplos: “Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente eleito, e sua equipe reúnem-
se hoje” e “Karl Marx, autor de O Capital, e Friedrich Engels são ideólogos do
marxismo”. Vírgula obrigatória.

• Vírgula antes do “e” quando a coordenação que o antecede é muito longa –


Essa vírgula indica pausa respiratória. Exemplos: “Eliane, Afonso e Wagner fizeram
longa viagem até Brasília, e decidiram descansar lá por uns dias” e “Vila Bela da
Santíssima Trindade é município localizado no oeste de Mato Grosso, e é ponto de
partida para muitas expedições de pesca”. Vírgula facultativa.

Como informação de caráter prático, saiba que se coloca vírgula depois do “e”
somente se há intercalação depois dele. Evidentemente, se se trata de intercalação,
temos aí duas vírgulas: uma antes e outra depois do elemento ou oração
intercalada. Exemplo: “Norma chegou e, exultante, logo foi contando as
novidades”. Se também houver intercalação antes do “e”, este ficará entre vírgulas,
como em “Renato pediu informações, muito aflito, e, em seguida, dirigiu-se à
Prefeitura”.

Dica nº 97

Eis

Afinal de contas, o que significa essa palavra? “Eis” origina-se do latim ecce e como
outras que há não se enquadra em nenhuma classe de palavras de acordo com a
Nomenclatura Gramatical Brasileira. Por isso, esta a inclui na categoria dos
vocábulos “que denotam alguma idéia”, no caso, a de “designação”. “Eis” tem força
de verbo e é por esse motivo que pode ser empregada com pronome oblíquo, à
guisa de complemento: “Ei-lo”, “Eis-nos”. Tal complemento é objeto direto: “Eis o
aluno”. Equivale a “aqui está”: “Eis o homem = Aqui está o homem”. Repare que
depois de “eis” o pronome oblíquo “o” (e “a”, “os”, “as”) transforma-se em “lo” (e
em “la”, “los”, “las”) porque se pospõe a forma terminada em “s”.

Dica nº 98

Virtudes da linguagem verbal


Nos dias atuais, a comunicação humana precisa ser eficiente e rápida,
especialmente a linguagem verbal. Não tenha dúvidas: além da aparência pessoal,
muitas vezes o sucesso de suas pretensões depende da maneira como você se
comunica. Assim, esteja atento para as virtudes de estilo ou qualidades da boa
linguagem. Veja a seguir os fatores que influem positivamente no processo da
comunicação verbal:

• Correção – É a conformidade com a norma dita culta, padrão lingüístico


definido pela elite como seu. Quem quiser ascender socialmente, deve dominá-lo,
caso contrário, estará “excluído”, ressalvadas as exceções que só confirmam a
regra. O emprego da norma culta é requerido na escola, nas repartições e
empresas públicas, na imprensa e nas manifestações lingüísticas escritas em geral.
A correção ortográfica e gramatical atua na formação de imagem favorável junto
aos receptores das mensagens. Por exemplo: na redação do seu currículo, procure
caprichar o mais possível, pois do outro lado poderá estar alguém muito exigente
quanto a este item. A correção gramatical obtém-se com muita leitura dos
chamados “bons autores”, não necessariamente clássicos, e com muito treino sob
assistência de professor. Repare que a norma culta comporta dois padrões: o
formal (escrito) e o coloquial (oral), que apresentam diferenças. A respeito, leia a
Dica n.º 034.

• Concisão – É a objetividade na expressão de forma a transmitir-se o máximo


de idéias com o mínimo de palavras. Evite a “enrolação” e seja direto. Muitas
vezes, o leitor do seu texto tem pouco tempo e quase nenhuma paciência
disponível. A linguagem direta, sem rebuscamentos e excesso de adjetivações,
comunica melhor. O contrário da concisão é a prolixidade. O jornalista Elio Gaspari,
que escreve nas edições de domingo do jornal Folha de S. Paulo, ironiza a
prolixidade na seção “Curso Madame Natasha de Piano e Português”, como neste
trecho: “Natasha concedeu mais uma de suas bolsas de estudo a Sérgio Fausto,
assessor da Secretaria Executiva do Ministério da Fazenda. Ele informou que muitos
brasileiros ‘sofrem de carência alimentar’. Madame acha que ele podia ter dito
‘fome’”.
• Clareza – Trata-se de virtude essencial da comunicação e seu oposto é a
ambigüidade – também chamada anfibologia – e a obscuridade. A clareza permite a
perfeita transmissão do pensamento e a indubitável expressão da vontade e dos
desejos. É obtida com auxílio da concisão e da simplicidade, o que equivale a dizer:
predomínio do uso de vocábulos de alta freqüência (palavras mais acessíveis ao
receptor comum), períodos curtos e ordem direta. Há certas categorias
profissionais que se esmeram na linguagem rebuscada, quase incompreensível, na
vã ilusão de que com isso impressionam. Ledo engano. Não perca de vista a
adequação do nível de linguagem ao público a quem se dirige: conforme os
destinatários, você precisará empregar a norma popular em vez da culta, pois esta
poderá não ser compreendida. O ideal é o falante ser “poliglota na sua própria
língua”. A respeito, leia BECHARA, 1989.

• Precisão – Na construção do texto (oral ou escrito), procure colocar a palavra


certa no lugar certo. A expressão precisa é importante para você atingir o objetivo
de comunicar exatamente o que pretende e evitar mal-entendidos. A prática
constante da leitura e da escrita e exercícios com sinônimos ajudam a desenvolver
a precisão. O contrário é a imprecisão ou mesmo a obscuridade, muitas vezes
causadas pela inadequação vocabular.

• Naturalidade – É a fluência da comunicação verbal sem preocupação


exagerada com a correção. Para alcançar-se a naturalidade, deve-se evitar a
linguagem rebuscada – o chamado preciosismo, o emprego, por exemplo, de
excesso de vocábulos de baixa freqüência (palavras de significado desconhecido da
maioria das pessoas) –, o abuso da ordem inversa e, na expressão oral, o linguajar
próprio do padrão formal (língua escrita). Imagine, por exemplo, em bate-papo
num barzinho, alguém dizer “você ver-se-á em maus lençóis se continuar a insistir
naquilo". A respeito, leia a Dica n.º 034.

• Originalidade – Procure ser original ou, como se costuma dizer, “ser você
mesmo”. É claro que o que é bom pode ser utilizado, mas de forma moderada, sem
cair na imitação servil. A originalidade na expressão revela o estilo de cada um e,
como já dizia Buffon, “o estilo é o próprio homem”. Com o tempo, seu estilo vai-se
definir mediante certas preferências vocabulares e de construção frasal e isso vai
evidenciar sua marca e mostrar visão própria do mundo.

• Nobreza – É atributo da linguagem, especialmente escrita, livre de palavras e


expressões vulgares e mesmo obscenas. O texto nobre é aquele que qualquer
pessoa pode ler “sem censura”. A gíria, salvo situações particulares e justificadas,
deve ser evitada na linguagem escrita. Observe que neste tópico aplica-se
perfeitamente a distinção entre padrão formal e coloquial. Assim como não cabe o
primeiro na comunicação oral, o segundo não se compatibiliza com o texto escrito.

• Harmonia – A prosa harmônica prima pela adequada escolha e disposição dos


vocábulos, pelos períodos não muito longos e pela ausência de cacofonias,
especialmente o eco. É o texto cuja leitura dá prazer.

• Colorido e elegância – Atributos que valorizam sobremaneira a expressão


verbal pela adequada seleção vocabular e, entre outros fatores, pelo emprego
comedido e adequado das figuras de linguagem. A contínua leitura e a prática
constante da escrita possibilitam adquirirem-se estas virtudes. Portanto, você já
sabe: muita leitura e muito treino.

Para aperfeiçoar seu texto, evite as cacofonias, a repetição vocabular (por isso, a
importância dos exercícios com sinônimos e do uso do dicionário) e faça economia
do “que”, dos pronomes possessivos e dos artigos indefinidos. Leia mais sobre isso
na Dica n.º 01. Texto com palavras repetidas muito proximamente demonstra
desleixo na escrita ou pobreza de recursos vocabulares.

Dica nº 99

Tópico frasal

Expressão utilizada por Othon M. Garcia (GARCIA, 1988: 206) como tradução do
inglês topic sentence, “tópico frasal” designa um ou dois períodos curtos iniciais que
contêm a idéia-núcleo do parágrafo em texto dissertativo, descritivo ou narrativo. O
tópico frasal é eficiente e prática maneira de estruturar o parágrafo, pois já de
início expõe a idéia que se quer passar, a qual é comprovada e reforçada pelos
períodos subseqüentes. O autor diz que, embora haja outras formas de se construir
parágrafo, a maioria (mais de 60%) é assim estruturada, de acordo com suas
pesquisas.

Acha Othon Garcia que a montagem do parágrafo dessa forma provavelmente


tenha origem no raciocínio categórico-dedutivo, herança greco-latina, pois o tópico
frasal constitui generalização, especificado pelos períodos seguintes. Expondo-se de
saída a idéia-núcleo, a coerência e a unidade do parágrafo ficam asseguradas e
dessa forma se evitam considerações desnecessárias. Em suma, fica mais fácil
garantir a coesão textual do parágrafo, o que implica produzir coerência semântica
e lógica nos períodos que o constituem, característica importante em texto
dissertativo. Tome-se o seguinte parágrafo:

“Em 1986, os veículos a álcool chegaram a representar 98% da linha de produção.


Os veículos a gasolina só eram disponíveis por encomenda. Devido a medidas na
área financeira, a produção de carros a álcool hoje mal chega a 1% da frota nova.
Os que restam a álcool estarão em uso por curto tempo. O programa foi
exterminado”.
(BAUTISTA VIDAL, J. W. Brasil, civilização suicida. Brasília, Nação do Sol, 2000, p.
16.)

Observa-se que a idéia central do parágrafo é apresentada logo no princípio


mediante o tópico frasal (assinalado em negrito). Este é seguido de outro período
que demonstra a validade daquela idéia . Os períodos seguintes estabelecem
contraste com a idéia-núcleo e corroboram afirmativa constante de parágrafo
anterior.

Ainda segundo Othon Garcia, aprendemos que o tópico frasal pode-se apresentar
sob diferentes formas, quais sejam:

Declaração inicial – Afirma-se ou nega-se algo de início para em seguida justificar-


se e comprovar-se a assertiva com exemplos, comparações, testemunhos de
autores, etc. Assim:

“Essa variedade de flores não finalizava a decoração do jardim. No centro das


rosas, uma única, uma única dama da noite, responsável por completar o toque de
classe de toda aquela beleza. Essa árvore transformava as noites com seu aroma
profundamente sensual e invadia as casas e toda a praça, o que fazia com que os
amantes ficassem mais apaixonados”.
(HERNANDES, Christina. O amigo que não perdi. Campos do Jordão, Vertente,
1997, p. 12.)

Note que no exemplo acima a declaração inicial aparece sob forma negativa,
justificada pelo período seguinte. A seguir, acrescentam-se mais informações a
essa fundamentação: “Essa árvore...”.
Definição – Muitas vezes, o tópico frasal apresenta-se sob a forma de definição, o
que lhe confere característica didática:

“Agê-Chálugá, Ajá e Ochanbin são deuses da medicina e muito estimados pelos


nagôs. Creio que a Ochanbin se devem referir as informações que colhi sobre os
orixás contrários a Xaponã. Os negros falam muito em Iabahim, mãe da bexiga ou
varíola, e eu supus uma divinização recente da vacina. Todavia, esta interpretação
tem contra si a repugnância e relutância dos negros a se fazerem vacinar”.
(NINA RODRIGUES, Raimundo. Os africanos no Brasil. 5. ed. São Paulo, Nacional,
1977, p. 230.)

À definição constante do tópico frasal acrescenta-se informação presente no


período seguinte. Os períodos posteriores mantêm-se circunscritos ao tema do
tópico.

Divisão – A divisão é método eminentemente didático, pelo qual o tópico frasal


apresenta-se na forma de seqüência de elementos ou de itens, que serão
desenvolvidos no mesmo parágrafo ou em parágrafos distintos. Muitas vezes, a
divisão é antecedida de uma definição. Exemplo:

(D’ADAMO, Peter J. e WHITNEY, Catherine. A dieta do tipo sangüíneo; saúde, vida


longa e peso ideal de acordo com seu tipo de sangue. 8. ed. Rio de Janeiro,
Campus, 1998, p. 127.)

Existem outros modos de iniciar parágrafo na dependência de vários fatores, como


a ordem das idéias, a ênfase que o escritor quer dar a determinado aspecto de sua
exposição, a intenção do autor de prender a atenção do leitor, questionamentos
que aquele pretende lançar, etc. Essas outras técnicas são igualmente válidas, mas
sua apresentação aqui foge ao propósito desta página.

Dica nº 100

Infinitivo e pronome oblíquo

Podemos ser tentados a colocar o pronome oblíquo em orações em que aparece o


infinitivo não-flexionado, como em “Esta receita é muito fácil de se fazer”. Isto
porque o “se” poderia aí ser classificado como pronome apassivador, já que a
oração equivale à construção passiva analítica “Esta receita é muito fácil de ser
feita”. Realmente, essa equivalência existe, mas na verdade o emprego do
pronome, além de desnecessário, é de fato incorreto. Tal se passa porque alguns
verbos ativos adquirem força passiva quando, no infinitivo, são antecedidos das
preposições a, de, para e por, principalmente quando funcionam como
complemento de certos adjetivos. Como exemplos, temos “Há diversas contas a
pagar (a serem pagas)”, “Esta parede foi acabada de pintar (de ser pintada)”, “Ele
é duro de agüentar (de ser agüentado)”, “João é osso duro de roer (de ser roído)”,
“O xarope é difícil de engolir (de ser engolido)”, “A regra é fácil de aprender (de ser
aprendida)”, “É exemplo para imitar (para ser imitado)”, “Estas bolsas são para
vender (para serem vendidas)”, “Todos estes textos estão por revisar” (por serem
revisados)”, “O trabalho ainda está por terminar (por ser terminado)”, etc. Observe
que em “duro de agüentar”, “difícil de engolir” e “fácil de aprender”, por exemplo,
de agüentar, de engolir e de aprender funcionam como complementos nominais dos
adjetivos “duro”, “difícil” e “fácil”.

Entretanto, há quem discorde da passividade da construção alegando que o


infinitivo, ao complementar o sentido de certos adjetivos, tem emprego “geral” e
não, passivo, caso em que a voz ativa ou passiva neutralizam-se, conforme se pode
ler em CUNHA, 2000 (veja abaixo).

De uma forma ou de outra, o uso do pronome oblíquo nessas construções não é


autorizado por nenhum autor.

Dica nº101

Anexo ou em anexo?

Na correspondência, usa-se anexo para indicar que algo está junto do texto em que
se escreve. Nesse contexto, “anexo” é adjetivo, que concorda com o substantivo
que acompanha. Assim, “Segue cópia anexa”, “Envio documento anexo”, “As
faturas vão anexas”.

É comum, porém, ver-se o uso de em anexo. Ao empregar essa expressão, na


verdade, o que se está dizendo é que algo está em um anexo, ou seja, com ou
dentro de algum anexo (por exemplo, um envelope) que se encontre agregado à
carta. Se esse é o caso, como tal anexo é conhecido e determinado, deve-se usar o
artigo definido “o”. Portanto, a expressão adequada é no anexo. Se digo que “Os
bilhetes seguem no anexo”, posso, pois, estar querendo dizer que eles seguem
dentro de um envelope que está anexo à carta ou memorando.

Por tudo isso, se algo vai simplesmente junto com a carta, ele vai anexo e não, “em
anexo”.

Dica nº 102
Meio

Tratamos aqui de “meio” enquanto advérbio ou numeral. Como advérbio, não varia
e modifica adjetivos. Assim, temos “Leonardo estava meio preocupado” e “Lourdes
bebeu e ficou meio tonta”. Nestes exemplos, meio significa “um pouco”, “mais ou
menos”. Meio pode também funcionar como numeral – significa “metade de um” –
e nesse caso concorda com o substantivo que acompanha. Exemplos: “Rosário
tomou meio litro de chope” e “Joabel comprou 12 meias garrafas de cerveja”.
Fiquemos atentos para esses empregos em expressões do tipo “meio acabada/meia
acabada”, “meio terminada/meia terminada” e “meio aberta/meia aberta”. Se digo
que o pedreiro entregou a parede meio terminada (meio = advérbio), quero dizer
que a entregou ainda por terminar. Se, porém, digo que ele entregou a parede
meia terminada (meio = numeral), isso significa que ela está construída pela
metade. O mesmo vale para “porta meio aberta”, ou seja, porta entreaberta. Se
digo porta meia aberta, quero dizer que está aberta pela metade. Caso curioso é o
de “meio” ao acompanhar meio-dia. Por princípio lógico, devemos dizer “meio-dia e
meia”, pois estamos querendo dizer que se trata de metade do dia mais meia hora,
substantivo aí subentendido. Entretanto, por influência do gênero masculino de
“meio-dia”, é comum ouvirmos “meio-dia e meio”. Contudo, isso significará,
literalmente, “meio-dia mais metade de um dia”. Essa contaminação de gênero
também é freqüente em exemplos como “Depois da cerveja, Leo ficou meia
alegrinha”, quando na verdade não se quer dizer que ela ficou “alegre” pela
metade, mas um pouco, mais ou menos. Estes últimos exemplos indicam evolução
lingüística e são admitidos na linguagem coloquial, mas se quisermos ficar em paz
com a prescrição da Gramática, especialmente na língua escrita, devemos atentar
para o real sentido que os vocábulos tradicionalmente têm.

Dica nº 103

O mais possível

O uso dessa expressão costuma confundir as pessoas, principalmente quando


acompanhada de nomes no plural. Vamos esclarecer, pois. Seja a oração “Tais
títulos são os mais rentáveis possíveis”. Se nela está inserida aquela expressão – o
mais possível = o mais que é possível – algo está errado, não é? E está mesmo
porque se trata da locução adverbial “o mais possível”, que, por sua natureza, é
invariável. Assim, devemos reescrever a oração como “Tais títulos são o mais
rentáveis possível” ou então “Tais títulos são rentáveis o mais (que é) possível”.
Repare que a nossa locução modifica o adjetivo “rentáveis” e não, o substantivo
“títulos”. Por ser adverbial, o “o” e o “possível” não se flexionam e é por isso que
não se pode construir, como acima, “Tais títulos são os mais rentáveis possíveis”.
Nada disso. Em qualquer construção em que essa locução entre, ela fica invariável:
o mais possível. Outros exemplos:

• “Apresentaram desculpas o mais esfarrapadas possível” ou “Apresentaram


desculpas esfarrapadas o mais possível”;
• “As reações ao medicamento foram o mais variadas possível” ou “As reações ao
medicamento foram variadas o mais possível”;

• “Ofereceram objeções o mais estapafúrdias possível” ou “Ofereceram objeções


estapafúrdias o mais possível”.

Há alternativas a essas construções, como “Apresentaram desculpas o mais


possível esfarrapadas” ou “Apresentaram desculpas quanto possível esfarrapadas”
ou ainda “Apresentaram desculpas esfarrapadas quanto possível”.

Essa é a posição defendida por Napoleão Mendes de Almeida. Há autores, porém,


que dela divergem, como Luiz A. Sacconi e José De Nicola & Ernani Terra, os quais
é conveniente também consultar. (Veja abaixo.) Conhecendo diferentes
concepções, o estudante definirá sua preferência, que, qualquer que seja, estará
respaldada por autor de renome.

Dica nº 104

Está na hora do Brasil fazer reformas.

Que lhe parece? Os gramáticos tradicionais torcem o nariz para essa construção e a
condenam. Por quê? Porque com a combinação da preposição de com o artigo o o
sujeito do infinitivo (Brasil) acaba dependendo do substantivo “hora”, que o
antecede, o que dá origem ao sintagma hora do Brasil. O sujeito ficaria
indevidamente regido de preposição. E não se tem isso aí. Na verdade, o que há é
a expressão “está na hora”, completada por infinitivo, no caso, “fazer”. Assim, o
que queremos dizer é que “está na hora de fazer reformas”. Quem? O Brasil.
Reconstruindo a frase, podemos dizer “Está na hora de fazer reformas o Brasil” ou,
em outra ordem, “Está na hora de o Brasil fazer reformas”. Lembremo-nos pois
que, em casos como esse, a expressão “está na hora” deve ser seguida da
preposição de e de um verbo no infinitivo: “está na hora de sair”, “está na hora de
almoçar”, “está na hora de voltar”, etc. O sujeito desse infinitivo pode posicionar-se
antes ou depois do verbo: “Está na hora de levar a sério o estudo o aluno” ou “Está
na hora de o aluno levar o estudo a sério”.

Entretanto... Ah, existe um entretanto aí. Gramáticos de renome admitem a


combinação. Evanildo Bechara, em sua Moderna gramática portuguesa (BECHARA,
1977: 311-312), ensina que a combinação aí ocorre como fato natural da língua,
pelo contato da preposição com o artigo. “Na realidade não se trata de regência
preposicional do sujeito, mas do contato de dois vocábulos que, por hábito e por
eufonia, costumaram vir incorporados na pronúncia.” (Idem) Bechara cita vários
autores consagrados que adotaram tal prática em seus escritos, como Alexandre
Herculano, Rui Barbosa, Epifânio Dias e outros e dá como exemplo a famosa frase
“Está na hora da onça beber água”.

E aí, como ficamos? Bem, qualquer que seja a opção escolhida, você estará
respaldado. Contudo, a prudência recomenda, especialmente em provas escolares
ou concursos, o emprego da construção tradicional, isto é, sem a combinação:
“Está na hora de a onça beber água”. Se você insistir na combinação e seu texto for
corrigido, haverá possibilidade de recurso e sua posição deverá prevalecer, pois
conta com respaldo de gramático respeitado. É preciso, porém, nessa atitude,
pesar a relação custo/benefício.

Dica nº 105

Verbos causativos

Categoria curiosa é a dos verbos chamados “causativos”. E o que vem a ser verbo
causativo? Também chamado “factitivo”, é o verbo transitivo direto (o que se liga
ao complemento sem auxílio de preposição) cujo objeto se constitui de um ser que
age por força do sujeito. Em outras palavras, o sujeito faz com que o objeto faça ou
torne-se alguma coisa. Exemplos: "João afugentou os cães" (pela ação de João, os
cães fugiram), "Roma civilizou a Pensínsula Ibérica" (pela ação de Roma, a
Península tornou-se civilizada), "Os portugueses cristianizaram a Terra de Santa
Cruz" (pela ação dos portugueses, a Terra de Santa Cruz tornou-se cristã),
"Notifiquei-o do atraso" (pela minha ação, ele tomou conhecimento do atraso).

Repare que os auxiliares causativos não formam locução verbal com o infinitivo.
Assim, cada verbo tem seu sujeito, e o verbo no infinitivo pode ser substituído por
forma modal: “Fiz com que Leo estudasse”, “Mandei que os alunos ficassem” e
“Deixei que o copo caísse”. (Leia também, a respeito do infinitivo, a Dica n.º 19.)

Dica nº 106

Orações interrogativas

As orações interrogativas traduzem o desejo do falante de obter informação ou de


formular questionamento, como em "Quem está aí?", "Isso é trabalho que se
apresente?" e "Quero saber quem sujou o chão.". A interrogação em português
classifica-se em direta e indireta:
· Direta – Na expressão oral, a interrogação direta caracteriza-se pela entoação
ascendente no final da frase – "Os convites já foram respondidos?" – ou no início,
se começada por pronome ou advérbio interrogativo – "Como você soube disso?".
Na escrita, a interrogação direta é assinalada pelo ponto de interrogação: "Tânia e
Celsinho viajaram?" e "Quanto custa?".
·
Indireta – A interrogação indireta realiza-se mediante período composto, onde a
questão está contida na oração subordinada e o verbo da principal expressa
desconhecimento ou desejo de informação: "Diga-me com quem você conversou."
e "Gostaria de saber a que horas o secretário chegará.". Esse tipo de oração
termina quase sempre em ponto final.

Às vezes, nos diálogos, acrescentamos informação após interrogação direta. Neste


caso, a frase informativa principia com letra minúscula, como em "– Como se
atreve a sujar minha água? indagou o lobo ao cordeiro.".

É preciso ficarmos atentos para não deixarmos de colocar o indispensável ponto de


interrogação no final das interrogações diretas, caso contrário, elas permanecerão
como afirmações. Vejamos esta oração interrogativa: "Você pode executar o
trabalho?". Se, em vez do sinal apropriado, colocarmos ponto final, a frase tornar-
se-á afirmativa: "Você pode executar o trabalho.". Em certos casos, essa troca
inadvertida e indevida pode causar ruído na comunicação e, eventualmente,
problemas.

Dica nº 107

Algumas dicas de redação

Para redigir com acerto e qualidade, é preciso muita leitura e constante treino. É
útil fazer curso específico, quer para reforçar os conhecimentos adquiridos na
escola regular, quer para suprir deficiências desse aprendizado. Aqui vão algumas
recomendações e comentários, que poderão ajudar na tarefa:

1. Observe com atenção o tema proposto, que deve ser religiosamente seguido.
De modo geral, nos concursos, a fuga ao tema é pecado capital, pago com a
retirada da redação do certame sem sequer ser totalmente corrigida. Há redações
ótimas reprovadas porque o autor escreveu sobre tudo, menos acerca do que foi
pedido.
2.
Mesmo que você respeite o tema, evite fazer circunlóquios e circunvoluções em
torno dele. Isso, na área de correção de provas, tem nome: “encheção de lingüiça”,
pecado também penalizado. Em outras palavras, seja objetivo sem jamais perder o
tema de vista.

3. Se você não tem noção clara do que vai escrever, anote em rascunho, na
forma de tópicos, as idéias a medida que forem surgindo, o chamado brain storm
(tempestade cerebral). Esses itens poderão constituir os tópicos frasais da redação,
que serão desenvolvidos, um a um, para constituir o texto. Veja, a propósito, a
Dica n.º 99.
4. Depois, releia os tópicos e examine a conveniência de manter todos. É hora
de ordená-los para concatenar as idéias. Dito de outro modo: trata-se de encadear
os conteúdos de forma lógica. Se, ao final da redação, você escrever “Portanto, etc,
etc, etc.”, o que vier a seguir tem de ter tudo a ver com o que foi dito antes. É o
princípio da coerência.
5. Nas provas e concursos, costuma-se determinar o número total ou mínimo de
linhas a serem escritas. É conveniente respeitar esses parâmetros. Não recorra ao
estratagema infantil – ao mesmo tempo inútil – de aumentar o tamanho da letra
para conseguir volume de texto. O prof. Paulo Hernandes é do ramo e sabe que
esse expediente geralmente não funciona.
6. Se a redação for do tipo dissertativo e a prova permitir consulta ou você
lembrar-se, reforce seus argumentos com as idéias de algum autor, inclusive
mediante citação textual. Neste caso, o trecho citado deve estar entre aspas e o
nome do autor, consignado. Se você puder mencionar a obra de onde a citação foi
extraída, melhor ainda.
7. Para dar qualidade ao texto, procure relê-lo, oportunidade em que poderá
eliminar os equívocos, as repetições vocabulares e demais defeitos. Evite os vícios
e dê atenção especial às qualidades da boa linguagem. Veja a este respeito a Dica
n.º 98.

Dica nº 108

A vírgula e o adjunto adverbial

A ordem direta das sentenças em português prescreve a seqüência sujeito –


predicado – complemento. O verbo é o constituinte central do predicado, e seu
sentido pode ser modificado por advérbios ou locuções adverbiais, entre outros.
Sintaticamente, essas palavras exercem a função de adjuntos adverbiais. Assim,
temos “Célio e Jonas chegaram mais tarde” e “Concordo em princípio com o
adiamento da reunião”. As vezes, desejamos dar ênfase a esses modificadores. Um
dos recursos de que nos valemos para isso é a antecipação de tais adjuntos
colocando-os no início da frase, como em “Mais tarde, Célio e Jonas chegaram” e
“Em princípio, concordo com o adiamento da reunião”. Aliás, o próprio período há
pouco escrito “As vezes, desejamos dar ênfase a esses modificadores” é mais um
exemplo dessa construção. Repare que em todos esses exemplos o adjunto foi
seguido de vírgula. Ela é necessária para assinalar a antecipação do adjunto
adverbial, além de indicar pausa. Contudo, se o adjunto é constituído de advérbio
de curta extensão, a vírgula é facultativa. Colocamo-la se queremos realmente
enfatizar a idéia expressa por ele: "Aqui não vemos essas coisas" e "Ontem saímos
mais cedo".

Há casos, porém, em que esse adjunto, embora antecipado, não se situa


exatamente no início do período e sua colocação pode ensejar leitura incorreta.
Dessa forma, em “Isso feito, com certeza, sua habilidade de expressão escrita terá
galgado alguns degraus”, a colocação da vírgula logo após o adjunto com certeza
faz com que o associemos a “Isso feito”, quando na verdade nossa intenção é fazer
com que funcione como modificador de terá galgado. Veja como o período fica na
ordem direta: “Isso feito, sua habilidade de expressão escrita terá galgado com
certeza alguns degraus”.

Para evitar a leitura incorreta, preconizamos a não-colocação da vírgula após o


adjunto adverbial nas situações em que, antecipado, não inicia sentença.
Repitamos o exemplo dado e acrescentemos alguns outros:
• “Isso feito, com certeza sua habilidade de expressão escrita terá galgado alguns
degraus”.
• “Realizado o trabalho, sem dúvida alguma o relatório será entregue no prazo
previsto”.
• “Terminado o jogo, rapidamente o trio de arbitragem deixou o campo”.
• “Findo o dia, de forma discreta os pássaros vão-se recolhendo aos ninhos”.
• “Anunciado o lanche, com muita alegria os estudantes saíram das salas”.

Pelos exemplos, reparamos que tal acontece especialmente quando orações


reduzidas de particípio iniciam o período.

Se o período está construído na ordem direta, não há necessidade da vírgula após o


adjunto, como em “Os contratos estão sendo honrados de modo geral”, embora ela
possa ser colocada se quisermos enfatizar a circunstância por ele expressa. Em
outros casos, ela é conveniente em benefício da clareza: “Limpamos o piso, e o
aspirador de pó é passado nos tapetes, semanalmente”. Vemos que o adjunto se
posiciona em seu lugar natural na ordem direta. Normalmente, não seria necessária
a colocação dessa vírgula com os termos na ordem direta. Entretanto, como são
descritas duas ações (limpar o piso e passar o aspirador), é conveniente a presença
da vírgula, mesmo com o adjunto no final do período, para, com a pausa que ela
propicia, ficar caracterizado que ambas as ações são semanais. Se ela não for
colocada, poderemos ser levados a entender que apenas o aspirador de pó é
passado semanalmente.

Dica nº 109

Onomatopéias

Muito pouco espaço as gramáticas dedicam a esse tipo de palavra. As


onomatopéias são vocábulos imitativos, isto é, imitam ou tentam reproduzir sons
ou ruídos que se ouvem à nossa volta, na Natureza. Sua sonoridade já expressa o
sentido. Geralmente, as onomatopéias classificam-se como substantivos, verbos ou
interjeições. Veja alguns exemplos abaixo:

• Substantivos – Muitos substantivos que são onomatopéias provêm de verbos


imitativos de vozes de animais: miado, piado, silvo, zumbido, de “miar”, “piar”,
“silvar”, “zumbir”. Outros são obtidos pela substantivação de verbos desse tipo: o
coaxar, o rosnar, um cricrilar. Outros ainda são simples aproximação de sons: bem-
te-vi, reco-reco, tique-taque, xique-xique.

• Verbos – Muitos verbos que reproduzem vozes de animais têm origem


onomatopaica: chiar (insetos), cricrilar (grilos), coaxar (sapos), miar (gatos), piar
(pássaros), silvar (cobras), trissar (pássaros, morcegos), uivar (cães, lobos),
zumbir e zunir (insetos).

• Interjeições – Buf!, bum!, craque!, pá!, paf!, tchibum!, toque-toque, tsss!,


zás-trás.
Apesar de as onomatopéias não poderem ser consideradas a fonte original e
corriqueira das palavras, é inegável que há, nas línguas, preferência onomatopaica
na criação lexical para designar ou descrever muitos seres, objetos e fenômenos
naturais. Fato lingüístico comum é a chamada “reduplicação”, possivelmente
originária da linguagem infantil (confira au-au, mamãe, papai, titio, vovô), que
consiste na repetição de sílabas ou apenas de consoantes para indicar atos
repetitivos ou contínuos: assim, para ficar só no português, temos cacarejar,
chuchurrear, ciciar, cochichar, murmurar, pipiar, titilar, etc., além dos já citados
reco-reco, tique-taque e xique-xique. Percebemos assim que a reduplicação de
base onomatopaica reproduz aproximadamente sons do ambiente natural e tem
função morfológica. A especificação (reduplicação de base onomatopaica) faz-se
necessária porque há reduplicações que não têm essa base, embora também
exerçam função morfológica, como as existentes em certas línguas indígenas
brasileiras – para indicar número plural –, africanas e outras

Dica nº 110

Objeto direto preposicionado

Sabemos que objeto direto é o complemento que se liga ao verbo diretamente, isto
é, sem auxílio de preposição. Assim, em “Devemos amar nossos semelhantes”,
nossos semelhantes é objeto direto do verbo amar porque se liga a ele sem a
presença de preposição.

Entretanto, às vezes, o objeto direto pode aparecer precedido de preposição –


geralmente, “a” – sem que isso o transforme em objeto indireto (complemento
ligado ao verbo mediante preposição). Neste caso, temos o objeto direto
preposicionado, como em “Devemos amar a Deus sobre todas as coisas”. “Amar”,
no contexto, é transitivo direto (amar quem? resposta: Deus), mas mesmo assim
apareceu a preposição “a” (amar a Deus). Há contextos em que podemos exercer a
faculdade de empregar preposição com verbos transitivos diretos, e outros em que
tal uso é obrigatório. Vejamos como isso se passa:

Uso facultativo

• Com verbos que exprimem sentimentos: “O homem amava aos que o


rodeavam” e “Detesto a Sujismundo e à sua gentalha”.

• Nas antecipações do objeto, comuns em provérbios: "A quinta roda ao carro


não faz senão embaraçar" e “Ao boi, (pega-se) pelo corno e ao homem, (pega-se)
pela palavra".

• Com certos pronomes: “Ele beneficiava a todos a sua volta” e "Gato a quem
mordeu a cobra tem medo à corda".
• Nos casos de objeto direto constituído de pronome oblíquo seguido de aposto:
“Os maus ofendem-nos, aos bons, porque estes os incomodam” e “Seguiu-o, ao
prático, sem o perder de vista”.
• Como reforço à clareza: “Cumprimentei-o e aos que com ele estavam” e
“Expulsou-o e aos asseclas”. Sem a preposição, podemos imaginar ser o segundo
elemento do objeto direto sujeito de algum verbo, que na realidade não existe.

Uso obrigatório

• Para evitar ambigüidade, mais precisamente, para não haver confusão entre
o sujeito e o objeto: “A Felipe Marina contratou” e “A onça ao caçador
surpreendeu”. Sem a preposição, teríamos as construções ambíguas “Felipe Marina
contratou” e “A onça o caçador surpreendeu”. Nelas, não se sabe quem contratou
quem nem quem surpreendeu quem. É claro que a ordem direta resolve muito bem
a dificuldade – “Marina contratou Felipe” e “A onça surpreendeu o caçador” –, mas
se o escritor quiser manter a ordem inversa a preposição é indispensável para a
clareza da frase.

• Quando o objeto direto é constituído de formas pronominais: “Viu-me e a si


própria refletidos nas águas da lagoa” e “Escolheu a eles seus conselheiros”. Note
que a preposição possibilita o pronome reto figurar como objeto direto, situação
normalmente vetada pela norma culta escrita. Sem a preposição, impõe-se o
pronome oblíquo: “Escolheu-os seus conselheiros”. Veja ainda que as formas a
mim, a si, a nós, etc. podem, pleonasticamente, reforçar os objetos representados
pelos pronomes me, te, se, nos e vos, como em “Concluí que me feri a mim
mesmo” e “Prejudicou-se a si próprio com o ato”. Como se vê, é também possível
reforço adicional mediante o auxílio dos demonstrativos mesmo e próprio com
propósito enfático.

Há casos que provocam divergência entre autores sobre a ocorrência de objeto


indireto ou direto preposicionado em construções como “Sacaram das espadas” e
“Puxou do revólver”. Uma vez que nesses empregos os verbos sacar e puxar
costumam ser transitivos diretos, alguns pensam, em virtude do uso da preposição,
termos exemplo de objeto direto preposicionado. Contudo, autores renomados
como Celso Luft e Napoleão Mendes de Almeida entendem tratar-se de objeto
indireto mesmo.

Outra particularidade é a que se refere a verbos como comer e beber. Em “Maria


Luísa comeu o bolo” e “Helena bebeu o vinho”, esses verbos são claramente
transitivos diretos e consideramos que os sujeitos consumaram a ação, ou seja,
comeram e beberam tudo. O que dizer, porém, de “Beatriz comeu do bolo” e
“Salete bebeu do vinho”? O uso do partitivo altera o sentido do complemento, de
sorte que entendemos haverem os sujeitos praticado a ação de comer e de beber
não o todo alvo da ação, mas parte dele. Gramáticos de renome, como Celso Luft,
consideram transitivos diretos os verbos dos primeiros exemplos e indiretos, os dos
últimos, em que há a presença de preposição.

Finalmente, verbos como provar também protagonizam situações particulares. Em


contextos como “Provei do pavê” e “Prove da feijoada”, o verbo em questão é
transitivo indireto. Ainda segundo Celso Luft (LUFT, 1987), trata-se de objeto direto
cujo núcleo foi omitido e assim “a preposição introduz o complemento partitivo de
um quantificador zero ou indeterminado – provar (um pouco) de algo –, que é o
núcleo do objeto direto”. Situação semelhante à de “Comer ou beber (um pouco) de
alguma coisa”. Tanto assim é que em “Provei um pouco do suflê” o verbo é
transitivo direto. Repare que dissemos ser a situação semelhante, mas não igual:
não há alteração de sentido em “Provar o vinho” e “Provar do vinho”, ao passo que
o sentido muda de “Beber o vinho” para “Beber do vinho”.

Dica nº 111

Expressões de cortesia

Aprendemos – em casa ou então, de forma dolorosa, com a vida, nas relações


interpessoais – que as pessoas gostam de ser tratadas com amabilidade. Tudo fica
mais fácil se somos afáveis com os outros, especialmente quando precisamos deles.
Entretanto, a urbanidade deve ser nossa norma de conduta, quer quando
necessitamos de alguém, quer quando somos solicitados.

Desde cedo, percebemos que as palavras mágicas obrigado e por favor abrem as
portas com mais rapidez. Assim, frases como “Muito obrigado por avisar-me”,
“Fico-lhe grato pela indicação”, “Ficaremos agradecidos por sua presença”, “Por
favor, preencha este formulário”, “Entre, por obséquio”, “Tenha a bondade de me
acompanhar”, “Faça-me a gentileza de recebê-lo” e “É possível o senhor me ensinar
o caminho?” tornam suave e agradável o trato com as pessoas e as predispõem a
cooperarem conosco. Na escrita, as expressões por favor, por gentileza, por
obséquio são seguidas ou precedidas de vírgula e, se queremos enfatizar a
expressão polida, ficam entre vírgulas: “Por favor, venha aqui”, “Entre, por
gentileza” e “Peço-lhe, por obséquio, não comentar nada disso”.

Formas verbais também podem ser usadas para denotar delicadeza. As mais
comuns são o futuro do pretérito e o presente do subjuntivo.

O futuro do pretérito pode ser empregado para expressar desejo de forma


educada: “Gostaríamos de vê-la novamente amanhã” e “O delegado preferiria ouvi-
lo na próxima semana”. Esse tempo verbal também pode suavizar pedido, que, de
outro modo, poderia parecer ordem ou imposição. Assim, em vez de “Diga-me seu
nome” e “Venha aqui”, temos a opção – mais simpática – de valer-nos de “Poderia
dizer-me seu nome?” e “Pediria para você vir aqui”.

O presente do subjuntivo do verbo querer também converte ordem em pedido. A


flexão queira seguida de infinitivo reflete amabilidade e tem o sentido de “tenha a
bondade”, “faça o favor de”, como em “Queira sentar-se” e “Queiram aceitar
nossas desculpas”.

Se você não tem o hábito de utilizar tais expressões, experimente fazê-lo e verá a
diferença.

Dica nº 112
Pós-graduação lato sensu ou stricto sensu?

As duas formas são usuais, cada uma com seu sentido. Pós-graduação é todo o
estudo realizado depois da graduação, isto é, depois de curso concluído em alguma
faculdade. Esses cursos podem ser:

• lato sensu – Expressão latina que significa “em sentido lato, amplo, extenso”.
Exemplo: “A política, lato sensu, é a arte de governar”. A denominação lato sensu é
também aplicada a cursos de pós-graduação, geralmente aos de especialização, os
mais elementares na escala daqueles cursos. Exemplo disso é o curso de
especialização em Língua Portuguesa, destinado aos alunos que concluíram o curso
de Letras.

• stricto sensu – Expressão igualmente latina que quer dizer “em sentido
restrito, palavra que se refere a algo no sentido mais restrito”, como em “Nos dias
de hoje, ‘tráfico’ stricto sensu acabou-se referindo ao comércio de drogas ilícitas”.
Relativamente aos cursos de pós-graduação, a expressão stricto sensu aplica-se
aos de mestrado, doutorado e pós-doutorado. São cursos de maior profundidade
que os de especialização e geralmente mais longos. Exemplo é o mestrado em
Lingüística.

Dicas nº 113

Implantar ou implementar?

Os dois, cada um com seus vários sentidos. Entre as acepções possíveis,


selecionamos algumas, as mais correntes em distintos contextos, extraídas de três
dos mais prestigiados dicionários brasileiros de língua portuguesa:

Note-se que na área da Informática implementar tem sentido específico, próprio.

Dica nº 114
Ter que ou ter de?

Os gramáticos tradicionais resistem, com base na função sintática dos termos da


oração, a aceitar as duas construções como equivalentes, ainda que esse uso seja
mais do que generalizado, pelo menos no Brasil. Vejamos o que diz a Gramática
tradicional:

Ter que – O verbo ter pode integrar a locução verbal ter (flexionado ou não) que +
infinitivo quando, além da idéia de obrigatoriedade que o conjunto encerra, o que
assume a função de pronome relativo. Neste caso, há a óbvia necessidade da
existência de antecedente do tal pronome. Assim, temos: “Meu advogado tem caso
importante que estudar”, “Tenho muito que fazer no sábado” e “Amanhã, Joana vai
ter coisa mais urgente que tratar”. Nas três orações, que é pronome relativo e seus
antecedentes são “caso importante”. “muito” e “coisa mais urgente”,
respectivamente. Repare que ele é objeto direto de “estudar”, “fazer” e “tratar”.

Ter de – A construção ter (flexionado ou não) de + infinitivo também passa a idéia


de obrigatoriedade e a preposição rege a forma nominal que a segue. Portanto, de
nada tem a ver com antecedentes. Por isso, se o que não tem antecedente com o
qual se relacionar, é indevido e deve ser substituído pela preposição de. Dessa
forma, temos: “Os funcionários tiveram de sair mais cedo”, “Tenho de efetuar
vários pagamentos hoje” e “Meu pai vai ter de estar em Marília no dia 30”.

Na maior parte das construções em que aparece a dupla ter + infinitivo, cabe,
segundo os gramáticos, a preposição de em vez de que. Este, como vimos, só deve
ser empregado se se referir a algum antecedente. A relutância dos especialistas
deve-se à dificuldade de atribuir função sintática ao que sem antecedente em
contextos daquele tipo. Então, a opinião dominante entre eles é a de condenar o
uso, mesmo que amplamente disseminado, por impossibilidade meramente
taxionômica, ou seja, de classificação. Não vemos problema em aceitar tal uso, pois
a própria Gramática admite a existência de palavras “inclassificáveis”, chamadas
então de palavras “que denotam algo”, como, por exemplo, somente, em “Somente
João poderia ter feito isso” (denotação de exclusão), e aliás, em “Não escrevi nada,
aliás, só uma página” (denotação de retificação). É verdade que estamos falando de
coisas diferentes: sintaxe, no assunto desta página, e morfologia, nestes últimos
casos apresentados. Entretanto, se em um tópico admitimos haver formas que não
se enquadram em nenhuma categoria, por que não admitir também o emprego do
que sem função definida?

De qualquer modo, recomendamos – especialmente em provas escolares,


vestibulares e concursos – o seguimento da prescrição tradicional. Agindo assim, o
aluno ou candidato não terá problemas com quem estiver corrigindo sua prova,
notadamente se este seguir fielmente as determinações tradicionais.

Dica nº 115

Redundâncias locativas
Com alguma freqüência, deparamos com certas expressões que visam, de forma
desnecessariamente redundante, explicitar localização, mormente em textos
institucionais e comerciais. Por exemplo: “A fazenda mencionada é a São Jorge,
localizada neste município de Barretos”. Outras vezes, nas organizações, quer-se
referir a determinada diretoria, departamento, divisão ou setor e pratica-se
também a redundância citada: “Referimo-nos a sua carta de 04.05.04, endereçada
a este SECOM (Setor de Comunicações), a qual trata da manutenção de aparelhos
telefônicos”.

De que se constitui a redundância indevida? Como podemos notar, do uso de


pronomes demonstrativos que, se empregados adequadamente, teriam caráter
distintivo, ou seja, serviriam para distinguir uma coisa de outra. Assim, se o redator
situa-se em Barretos e não há notícia de haver cidade homônima, não há por que
utilizar simultaneamente o demonstrativo neste e a expressão município de
Barretos. Então, ou se diz “A fazenda mencionada é a São Jorge, localizada neste
município” – no caso de o redator situar-se nessa cidade – ou “A fazenda
mencionada é a São Jorge, localizada no município de Barretos”. Do mesmo modo,
“Referimo-nos a sua carta de 04.05.04, endereçada ao SECOM, a qual trata da
manutenção de aparelhos telefônicos” ou “Referimo-nos a sua carta de 04.05.04,
endereçada a este setor, a qual trata da manutenção de aparelhos telefônicos”.

Caso houvesse setores ou cidades homônimos, aí caberia a distinção: “O suspeito


foi detido nesta Itabaiana”, já que existem a Itabaiana paraibana e a sergipana. De
maneira análoga, “O memorando foi expedido por este SECOM”, desde que existam
dois (ou mais), como o pertencente à diretoria de Telecomunicações e o da
diretoria de Relações Corporativas, por exemplo.

Dica nº 116

Verbos abundantes

Na dica n.º 29, tratamos dos verbos com duplo particípio, enquadrados na
categoria dos verbos abundantes. Estes compreendem também verbos que
apresentam mais de uma forma em alguma pessoa de alguns modos e tempos.

É preciso atenção para não considerarmos incorretas flexões legítimas. Os guias de


conjugação de verbos esclarecem eventuais dúvidas. Vejamos as flexões verbais –
excetuados, pois, os particípios – que apresentam mais de uma forma:
As formas admitidas relacionadas podem ser empregadas normalmente. Algumas,
como i e is (verbo ir) são raras, mas válidas. O verbo aprazer é mais usado nas
terceiras pessoas, embora como pronominal seja corrente em todas elas. A seguir,
exemplificamos alguns desses usos:

É natural querermos empregar as formas mais usuais. O importante é não


incorrermos na lamentável prática da hipercorreção (correção do que está correto).

Dica nº 117

“Cuidado com veículos vindo da esquerda." ou "Cuidado com veículos vindos da


esquerda."?

As duas estão corretas, pois o verbo "vir" e seus compostos (advir, convir, provir,
revir, sobrevir, etc.) são os únicos, na língua portuguesa, que têm a mesma forma
para o gerúndio e o particípio: vindo, advindo, convindo, provindo, revindo,
sobrevindo. Assim, se considerarmos que o verbo está no gerúndio, empregaremos
"vindo" de forma invariável, no singular, quer se refira a veículo ou veículos, a
automóvel ou a motocicleta. Neste caso, na oração "Cuidado com veículos vindo da
esquerda", está subentendido o segmento que estão: "Cuidado com veículos que
estão vindo da esquerda". Por outro lado, se considerarmos o verbo no particípio,
ele estará em forma nominal e aí exercerá função adjetiva: "Cuidado com veículos
vindos da esquerda". É como se disséssemos: "Cuidado com veículos que vieram da
esquerda" ou "Cuidado com veículos surgidos da esquerda". Neste caso, o particípio
concorda em gênero e número com o substantivo que modifica e integra a locução
adjetiva vindos da esquerda. Sintaticamente, essa expressão classifica-se como
adjunto adnominal. Poderemos assim ter as seguintes opções:
1. "Cuidado com veículo vindo da esquerda".
2. "Cuidado com veículos vindos da esquerda".
3. "Cuidado com moto vinda da esquerda".
4. "Cuidado com motos vindas da esquerda".

Notemos que os sentidos das duas formas são algo diferentes. Pelo primeiro
(gerúndio) – veículos vindo –, entendemos que os veículos estão vindo, a ação está
acontecendo. Pelo segundo (particípio) – veículos vindos –, depreendemos que eles
já vieram, surgiram da esquerda; a ação de vir já aconteceu.

Dica nº 118

À medida que e na medida em que

As duas expressões são locuções conjuntivas, com empregos distintos.

À medida que pertence ao grupo das conjunções subordinativas proporcionais, que


passam idéia de proporcionalidade. Elas conferem à oração subordinada que
introduzem idéia de eqüidade, aumento ou diminuição, comparativamente à oração
principal. Essa locução (ou sintagma) equivale a à proporção que, como em "Ele
progredia à medida que intensificava as leituras", “À medida que a secura
aumentar, eleve o nível de ingestão de líquidos” e “João foi ficando mais tranqüilo à
medida que a situação financeira foi melhorando”.

Na medida em que se encaixa no grupamento das conjunções subordinativas


causais. Estas introduzem orações subordinadas que expressam idéia de causa, ao
passo que a oração principal encerra noção de efeito ou de conseqüência. Essa
locução equivale a “uma vez que”, “já que” e "tendo em vista que". Exemplos:
"Sheila seria nomeada de qualquer maneira na medida em que foi indicada pelo
diretor", “O relatório precisa ser revisado na medida em que passará pelo crivo do
Conselho Fiscal” e “Os candidatos precisam preparar-se na medida em que serão
questionados pelos jornalistas credenciados”.

Dica nº 119

Das 9 h 30 m às 11 h 30 m ou de 9 h 30 m a 11 h 30 m?

Quando nos referimos a algum horário, é usual empregarmos o artigo definido,


como em “Estarei lá às 20 h (a + as)”, “A consulta está marcada para as 10 h 30
m”, “Espere-me na porta da agência ao meio-dia (a + o)”, “Aguardarei os alunos
das 9 h 30 m às 11 h 30 m” (de + as, a + as). Repare que sempre aparece uma
preposição: a, de ou para, tanto é que a pergunta correspondente também inclui
preposição: “A que horas você estará lá?”, “Para que horas está marcada a
consulta?”, “A que horas devo esperá-lo?” e “De que horas a que horas você
aguardará os alunos?”.
Já se a referência é à quantidade de horas que algo dura, o uso é sem artigo, como
em “A viagem de carro dura de sete a oito horas”, “A caixa d’água gasta de duas a
três horas para ficar cheia”, “O farmacêutico precisa de quatro a cinco horas para
preparar todos os remédios” e “O cozimento pode durar de 30 m a 1 h 30 m”.
Neste caso, foram utilizadas as preposições de e a sem combinação com artigo.
Contudo, se nos referirmos a horários determinados – hora de início e término de
alguma coisa –, aí o caso se enquadrará no parágrafo anterior, ou seja, com
emprego do artigo: “O reservatório costuma encher das 15 h às 16 h (de + as, a +
as)” e “O trem viaja das sete às oito horas (de + as, a + as)”.

Observe também a forma como foram grafadas as horas, rigorosamente de acordo


com a norma ortográfica. (Dica nº18).

Dica nº 120

Emprego alternativo de modos e tempos verbais

Uma das demonstrações da versatilidade que os falantes vêem na língua


portuguesa é a possibilidade de empregar estilisticamente um modo ou tempo
verbal em lugar de outro com o mesmo sentido ou sentido aproximado. Vejamos as
substituições que são normalmente efetuadas:
Dica nº 121

Ratificar ou retificar?

Essas duas são palavras parônimas e por isso mesmo confundem muita gente.
Vamos, pois, precisar o sentido de cada uma:

• Ratificar – Significa confirmar, comprovar, corroborar, reafirmar, validar,


como em: “O tratado foi ratificado pelos dois presidentes”, “Ratifico tudo o que
afirmei antes” e “Os fatos ratificaram o que já prevíamos”.

• Retificar – Tem variados sentidos, conforme o contexto. O mais comum, que


faz esse vocábulo opor-se a “ratificar”, é corrigir, emendar, como em “Vou retificar
o endereço”, “O contrato foi retificado para serem expurgadas as incorreções” e “É
preciso ser retificada a segunda linha do documento”.

Mandado ou mandato? Estas outras também são exemplo de paronímia e


costumam confundir os incautos. Vejamos o sentido de cada uma delas:

• Mandado – Entre outros sentidos, tem o de “ordem escrita expedida por


autoridade judicial”, como em “O juiz já expediu o mandado”, “O acusado requereu
mandado de segurança” e “Já temos o mandado de busca e apreensão”.

• Mandato – Procuração, delegação, incumbência. Segundo o Aurélio, é a


“autorização que alguém confere a outrem para praticar em seu nome certos atos”.

Assim, temos: “Estou pronto para praticar todos os atos que este mandato me
permite”, “O prefeito garantiu cumprir o mandato até o fim” e “O Presidente já está
no meio do mandato”.

Dca nº 122

Omissão do particípio em construções passivas

É freqüente vermos construções passivas analíticas em que o particípio é


subentendido e o verbo ser acaba concentrando o sentido do conjunto. Tal
fenômeno ocorre em casos como “O segundo turno paulistano será entre a atual
prefeita e o candidato tucano”, “A reunião foi na sede do clube” e “O baile de
formatura vai ser na AABB”. Devemos notar a falta do particípio nessas estruturas,
simplificadas pela lei do menor esforço. As orações completas são: “O segundo
turno paulistano será decidido entre a atual prefeita e o candidato tucano”, “A
reunião foi feita na sede do clube” e “O baile de formatura vai ser realizado na
AABB”. Repare que a forma passiva sintética dessas orações é: “O segundo turno
paulistano decidir-se-á entre a atual prefeita e o candidato tucano”, “A reunião fez-
se na sede do clube” e “O baile de formatura vai-se realizar na AABB”.

Na comunicação coloquial, tais formas reduzidas são corriqueiras e até aceitáveis.


Entretanto, devemos empregar as estruturas plenas na língua escrita, modalidade
mais elaborada, em que caprichamos e expressamos nosso conhecimento da norma
gramatical culta.

Aquelas construções não devem ser confundidas com outras em que o verbo “ser” é
empregado eruditamente com o sentido de existir: “Aqui foi (existiu) Vila Bela do
Espírito Santo”, “Nesta mina, o ouro era (existia) em grande quantidade” e “Essa
cachaça é (existe) para tomarmos”. Nestes exemplos, podemos introduzir
explicitamente particípios (foi erguida, era encontrado ou extraído, é produzida),
mas se o verbo “ser” for utilizado sozinho aquelas formas nominais não estarão
subentendidas, como no caso anterior, e tal verbo equivalerá a existir.

Dica nº 123

Estarei providenciando isso amanhã.

O que acha dessa construção, que muitas vezes ouvimos nos dias que correm? Ela
na verdade é mais um exemplo de gerundismo, o uso abusivo e inadequado do
gerúndio, certamente inspirada em modelo alienígena.

Se o que pretendemos é expressar a realização de ação futura, a língua portuguesa


possui dois instrumentos eficientes: o futuro simples do indicativo e a locução
verbal constituída do verbo “ir” no presente do indicativo + verbo principal no
infinitivo não-flexionado ou impessoal. Assim, podemos dizer “Providenciarei isso
amanhã”, se queremos afirmar categoricamente, ou “Vou providenciar isso
amanhã”, se desejamos apenas manifestar intenção. No caso de querermos
enunciar ação futura a ser realizada antes de algum fato também futuro, temos a
disposição o futuro do presente composto: “Eu já terei providenciado isso (ação
futura ocorrida antes) quando você passar no escritório”.

É preciso esclarecer que o gerúndio tem empregos específicos, um dos quais – e o


mais freqüente – é expressar ação em processo que acontece no momento
presente ou que já aconteceu, como em “Estou-te ouvindo bem” (algo que
acontece neste momento), “Estamos trabalhando nesse projeto desde janeiro”
(ação continuada e que permanece ocorrendo), “Só sei que Torres estava pescando
hoje de manhã” e “Essas irregularidades já se vinham verificando havia meses”
(ação em processo ocorrida no passado). Mais raramente, encontramos a locução
com o verbo auxiliar no pretérito perfeito do indicativo: “Andei buscando esse dia”
(Cecília Meireles). Reparamos então que a impropriedade do emprego do gerúndio
na forma verbal contida no título verifica-se por nos referirmos a ação futura.

Não se trata aqui de pretender frear a marcha evolutiva da língua, de resto


tentativa inútil quando a maioria dos falantes quer criar ou mudar alguma coisa na
comunicação. Devemos, porém, atentar para a adequação da nossa expressão
verbal e escolher entre as formas vernáculas consagradas pelo uso. A língua
portuguesa oferece ao usuário variadas possibilidades para a expressão do
pensamento. Se, mesmo assim, queremos “inventar”, podemos fazê-lo, mas por
nossa conta e risco e dependeremos da adesão de todo o grupo falante.
PARA VOCÊ ESTAR PASSANDO ADIANTE

Ricardo Freire*

Este artigo foi feito especialmente para que você possa estar recortando e possa
estar deixando discretamente sobre a mesa de alguém que não consiga estar
falando sem estar espalhando essa praga terrível da comunicação moderna, o
gerundismo.

Você pode também estar passando por fax, estar mandando pelo correio ou estar
enviando pela Internet. O importante é estar garantindo que a pessoa em questão
vá estar recebendo esta mensagem, de modo que ela possa estar lendo e, quem
sabe, consiga até mesmo estar-se dando conta da maneira como tudo o que ela
costuma estar falando deve estar soando nos ouvidos de quem precisa estar
escutando.

Sinta-se livre para estar fazendo tantas cópias quantas você vá estar achando
necessárias, de modo a estar atingindo o maior número de pessoas infectadas por
esta epidemia de transmissão oral.

Mais do que estar repreendendo ou estar caçoando, o objetivo deste movimento é


estar fazendo com que esteja caindo a ficha nas pessoas que costumam estar
falando desse jeito sem estar percebendo.

Nós temos que estar nos unindo para estar mostrando a nossos interlocutores que,
sim!, pode estar existindo uma maneira de estar aprendendo a estar parando de
estar falando desse jeito. Até porque, caso contrário, todos nós vamos estar sendo
obrigados a estar emigrando para algum lugar onde não vão estar nos obrigando a
estar ouvindo frases assim o dia inteirinho.

Sinceramente: nossa paciência está estando a ponto de estar estourando. O


próximo "Eu vou estar transferindo a sua ligação" que eu vá estar ouvindo pode
estar provocando alguma reação violenta da minha parte. Eu não vou estar me
responsabilizando pelos meus atos.

As pessoas precisam estar entendendo a maneira como esse vício maldito


conseguiu estar entrando na linguagem do dia-a-dia. Tudo começou a estar
acontecendo quando alguém precisou estar traduzindo manuais de atendimento
para telemarketing. Daí a estar pensando que "We'll be sending it tomorrow" possa
estar tendo o mesmo significado que "Nós vamos estar mandando isso amanhã"
acabou por estar sendo só um passo. Pouco a pouco a coisa deixou de estar
acontecendo apenas no âmbito dos atendentes de telemarketing para estar
ganhando os escritórios. Todo mundo passou a estar marcando reuniões, a estar
considerando pedidos e a estar retornando ligações.

A gravidade da situação só começou a estar se evidenciando quando o diálogo mais


coloquial demonstrou estar sendo invadido inapelavelmente pelo gerundismo. A
primeira pessoa que inventou de estar falando "Eu vou tá pensando no seu caso"
sem querer acabou por estar escancarando uma porta para essa infelicidade
lingüística estar se instalando nas ruas e estar entrando em nossas vidas.
Você certamente já deve ter estado estando a estar ouvindo coisas como "O que cê
vai tá fazendo domingo?", ou "Quando que cê vai tá viajando pra praia?", ou "Me
espera, que eu vou tá te ligando assim que eu chegar em casa". Deus! O que a
gente pode tá fazendo pra que as pessoas tejam entendendo o que esse negócio
pode tá provocando no cérebro das novas gerações? A única solução vai estar
sendo submeter o gerundismo à mesma campanha de desmoralização à qual
precisaram estar sendo expostos seus coleguinhas contagiosos, como o "a nível
de", o "enquanto", o "no sentido de" o "pra se ter uma idéia" e outros menos
votados. A nível de linguagem, enquanto pessoa, no sentido de falar corretamente,
o que você acha de tá insistindo em tá falando desse jeito?

_______________________

Ricardo Freire é publicitário e colunista do Jornal da Tarde e prometeu


solenemente que não vai mais estar escrevendo textos desse tipo.

Dica nº 124

No sentido de

“Lula entrou nas articulações no sentido de garantir a eleição do candidato petista à


presidência da Câmara”. Que lhe parece a redação do texto? Aparentemente, está
tudo normal, não é? Seria assim se não tivesse sido empregada a expressão no
sentido de, que aí não tem sentido nenhum. Trata-se na verdade de mais um
modismo insosso e impreciso, ao qual a língua portuguesa oferece várias
alternativas mais consistentes, como para, com vistas a, com a finalidade de, com
o objetivo de, com o escopo de, com o intuito de, etc.

Em outros contextos, porém, tal expressão é legítima quando se refere mesmo a


sentido, ou seja, a inserção de significado na cadeia da fala. Assim, podemos
tranqüilamente dizer “Empreguei o vocábulo crescente no sentido de (ou “com o
sentido de") ‘algo que cresce’” ou “No texto, a palavra extremo foi utilizada no
sentido de ‘último, derradeiro’”. Repare que, neste uso, a citada expressão não é
seguida de verbo no infinitivo, como no caso anterior.

Nada contra os neologismos, que são bem-vindos desde que signifiquem realmente
alguma coisa.

Dica nº 125

Respostas a agradecimentos

Quando recebemos algum agradecimento, do tipo “obrigado” ou “obrigada” – que


significa “fico obrigado/obrigada (devendo obrigação) a você –, duas situações
podem ocorrer:
1. Achamos devida tal manifestação, mas, por modéstia, respondemos de forma a
fazer o interlocutor sentir-se desobrigado.

2. Reconhecemos ser nossa – e não do outro – a dívida de gratidão.

Esses dois casos acarretam respostas diferentes ao agradecimento – as chamadas


“respostas obrigadas” –, no geral, formas reduzidas da expressão completa.
Vejamos quais são elas:

Situação 1 – As respostas geralmente são de nada, por nada, não há de quê. O que
elas significam? Respectivamente, “Você não fica obrigado de nada”; “Você não fica
obrigado por nada”; “Não há nada de que você fique obrigado”.

Situação 2 – Normalmente, dizemos obrigado eu, eu que agradeço e obrigado a


você, formas reduzidas, respectivamente, de “Obrigado digo eu”, “Eu é que
agradeço a você” e “Eu é que fico obrigado em relação a você”.

Existem ainda expressões “neutras”, como disponha (dos meus préstimos) e


(estou) às (suas) ordens.

Relembremos que as frases que dão margem às respostas obrigadas flexionam-se


em gênero (masculino/feminino) e número (singular/plural) conforme quem as
pronuncia: homem (obrigado, muito obrigado), mulher (obrigada, muito obrigada),
homens ou homens e mulheres (obrigados, muito obrigados) e somente mulheres
(obrigadas, muito obrigadas).

Dica nº 126

Emprego de artigo junto a topônimos

É freqüente haver dúvida a respeito do emprego do artigo definido (o, a) junto de


topônimos. Não existe regra que discipline esse uso, cujo critério não se conhece.

Os nomes de cidades são, na maioria, femininos e utilizados sem artigo: Barretos,


Brasília, Campinas, Lençóis, Santa Cruz do Sul, etc. Assim, “Carlos nasceu em
Barretos”, “Marina veio ao mundo em Campinas”, “Moro em Brasília”, “Visitamos
Lençóis”, “Marlene reside em Santa Cruz do Sul”. Quando adjetivados, usa-se o
artigo: “Estive na bela Pirenópolis”, “Joaquim mora na atraente Maceió” e “Wagner
mudou-se para a dinâmica São José dos Campos”. É por isso que, em estruturas
como estas, haverá crase se o verbo requerer a preposição “a”: “Dirigiu-se à
progressista Ribeirão Preto” (dirigiu-se a + a progressista).

Entretanto, os próprios moradores costumam fazer os nomes de algumas


comunidades serem masculinos e acompanhados de artigo, como “o Recife”, “o
Amparo”, “o Rio de Janeiro” (cidade do Rio), o Porto (Portugal), etc. Esse uso é
localizado e em alguns casos, como Recife e Amparo, é indiferente a utilização ou
não do artigo. Podemos então dizer “estou em Recife” ou “estou no Recife”. No caso
da capital fluminense, já se arraigou e disseminou de tal forma o emprego do artigo
que todo o mundo diz “Moro no Rio” e “Vou passar o Carnaval no Rio”.

Com relação aos nomes de estados brasileiros, também prevalece o uso. A maior
parte deles acompanha-se de artigo; outros, não. Vejamos:

Às vezes, deparamos com “as Alagoas”, referência nostálgica à forma antiga do


nome do estado de Alagoas, com uso do artigo definido. Situação parecida é a de
Minas Gerais.

Quanto a Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, não é raro encontrarmos textos em
que esses nomes estão empregados com o artigo, embora na maioria das vezes o
uso seja sem ele.
Os nomes de países seguem a mesma linha: o Brasil, os Estados Unidos, a França,
a Itália, a Espanha, mas Portugal, Moçambique, Uganda, Israel, Bangladesh.

Os nomes dos continentes são modernamente utilizados com artigo: a África, a


América, a Ásia, a Europa, a Oceania, a Antártica. (“Antártida” denota influência
hispânica e não se sustenta diante de análise etimológica.)

Dica nº 127

Xeque ou cheque?

As cinco, cada uma com seu sentido. As cinco???!!! Calma, veremos já.
É oportuno observar que “xeque-1” e “xeque-2” configuram caso de polissemia,
pois houve derivação de sentido. Já “xeque-3” com relação às outras duas é
exemplo de homonímia, uma vez que houve coincidência de formas importadas ao
entrarem no léxico português.

“Cheque-1” e “cheque-2” são também caso de homonímia, porque se originam de


formas estrangeiras distintas que coincidiram ao se aportuguesarem.

Por fim, "cheque" e "xeque" são, uma em relação à outra, homônimas homófonas
por provirem de formas importadas que se tornaram idênticas, fonicamente, no
português.

Cada “xeque” (1, 2 e 3) ou “cheque” (1 e 2), como visto acima, constitui palavra
distinta, pois tem seu próprio sentido conforme o contexto.

Dica nº 128

Evitar a silabada

Silabada é vício fonético – mais precisamente, vício prosódico –, pelo qual


deslocamos indevidamente o acento tônico de algum vocábulo. De modo geral,
esse acento provém da língua de origem da palavra e deve ser respeitado, não
porque os gramáticos assim querem, mas por dever ser seguido o uso geral. Caso
contrário, nós é que estaremos com o “passo errado”. Além do mais, em certos
casos, se mudamos o acento tônico, corremos o risco de estar emitindo outra
palavra diferente da que pretendíamos. Como exemplo, atentemos para estes
pares: contínuo/continúo, dúvida/duvída, édito/edíto, jáca/jacá, sentái/senta aí,
végeto/vegéto e outros (*). Estas diferenças ocorrem porque em português o
acento tônico é traço distintivo, ou seja, é elemento diferenciador do significado
vocabular.

Entretanto, há vocábulos com mais de uma pronúncia – em razão da vontade


popular – sem alteração do sentido. Por isso, mesmo na língua culta, há casos de
flutuação, como Antióquia e Antioquía, aríete e ariête, autópsia e autopsía, clítoris e
clitóris, necrópsia e necropsía, projétil e projetíl, Tessalônica e Tessaloníca, uréter e
uretér, etc. (*) Essa oscilação prosódica tende a desfazer-se com o tempo pela
fixação de uma das formas e abandono da outra. Há muitas palavras de
procedência grega que tiveram a pronúncia modificada no latim, de onde tiramos o
acento em português. É o caso de:
Em Oceania, a pronúncia corrente no Brasil, paroxítona, resulta de influência
espanhola, já que deveria ser “Oceânia”.

Abaixo, segue lista da pronúncia adequada e da inadequada, segundo a norma


culta, de alguns vocábulos:

______________
(*) Vários acentos gráficos, inexistentes na escrita normal, foram colocados apenas
para localização do acento tônico.

Dica nº 129

Junto, junto a, junto de

O emprego dessas formas às vezes causa dúvida. Vejamos como devem ser
utilizadas conforme a norma culta:

Junto – É particípio irregular do verbo “juntar”, ao lado de juntado. (O critério para


usar um e não o outro você encontra na dica n.º 29.) Assim, “Tenho juntado
centenas de selos nos últimos cinco anos”, mas “Vocês permanecerão juntos”.
Repare que na condição de particípio tal vocábulo pode exercer função adjetiva.
Neste caso, flexiona-se e concorda com o sujeito: “Envio a planilha junta = anexa”,
“Os cavalos estão juntos”. Podemos também inverter os termos: “Brincamos juntos
na avenida 7” ou “Juntos brincamos na avenida 7”, “Elas permanecerão juntas” ou
“Juntas elas permanecerão”. Observe que em construções como “As duas empresas
cresceram juntas, com a cidade”, “junto” continua a ser adjetivo. Deve, pois,
flexionar-se, já que não forma locução prepositiva com a preposição “com”. Prova
disso é a possibilidade de mudança da ordem dos termos: “Juntas, as duas
empresas cresceram com a cidade”. Em resumo: na condição de adjetivo, junto
vincula-se ao sujeito e com ele deve concordar em gênero (masculino/feminino) e
número (singular/plural).
Em outros contextos, junto pode ser classificado como advérbio, quando significa
“juntamente”, “ao mesmo tempo”. Neste caso, vincula-se ao verbo e mantém-se
invariável, como em: “Mando junto (= juntamente) os recibos solicitados”, “Junto
(= juntamente) seguem os relatórios das perícias” e “Junto (= juntamente) com o
relatório, remeto os comprovantes das despesas". Nestes exemplos, junto modifica
as formas verbais “mando”, “seguem” e “remeto”. Função adverbial, portanto.
Tanto é assim que se perguntamos ao verbo: de que forma mando os recibos, de
que forma seguem os relatórios, de que forma remeto os comprovantes? A
resposta é uma só: junto ou juntamente.

Junto pode também integrar locução prepositiva com “a” e “de” e assim se manter
igualmente invariável, pois tal sintagma também se vincula ao verbo: “O ex-
presidente foi nomeado embaixador junto ao (= adido ao) governo italiano”, “Jorge
comprou chácara junto à minha (junto a + a = do lado da)”, “Construíram duas
casas junto ao lago”, “Esperei o socorro junto do carro” e “Quero trabalhar junto
dela”. Sabemos que tal locução liga-se ao verbo porque podemos perguntar a este:
“Para trabalhar onde o embaixador foi nomeado, onde Jorge comprou a chácara,
onde construíram as casas, onde esperei o socorro e onde quero trabalhar”? As
respostas são adjuntos adverbiais, ou seja, elementos que modificam o verbo.

Deve-se evitar empregar a locução junto a como equivalente de “com”, “de”, “em”
e “para”, a exemplo de “Os deputados trataram das reivindicações de suas
comunidades junto ao diretor” (melhor, “trataram com o diretor”); “Conseguimos
autorização junto à Agência Nacional de Telecomunicações” (melhor, “conseguimos
autorização da Agência”); “Pleiteamos empréstimo junto ao Banco do Brasil”
(melhor, “pleiteamos empréstimo no Banco do Brasil); “O vereador levará a notícia
junto à associação de bairro” (melhor, “levará a notícia para a associação”).

Dica nº 130

Duas particularidades ortográficas

Há dois casos de ortografia que costumam produzir muita dúvida nos que
pretendem escrever com acerto. Trata-se do emprego de letras maiúsculas ou
minúsculas nas seguintes situações:

1. Depois de ponto de interrogação ou de exclamação – Usa-se letra minúscula


depois de ponto de interrogação ou de exclamação, no mesmo período, na
primeira palavra que aparecer depois daqueles sinais, como em “Por que você
demorou? perguntou a mãe aflita.” e “Que paisagem mais linda! exclamou
Paulo.”. Repare que os períodos só terminam em “aflita” e “Paulo”,
respectivamente. Vemos, pois, que o ponto de interrogação e o de
exclamação não equivalem a ponto final quando não indicam fim de período.
Situação diferente é a de “Por que você demorou?” e “Que paisagem mais
linda!”. Nestes casos, os sinais de pontuação marcam fim de período. A
primeira palavra de outro que vier depois terá, obviamente, a inicial
maiúscula: “Onde está o porteiro? Pensei que estivesse aqui.”.

2. Maiúsculas e minúsculas dentro de parênteses


• Se o trecho entre parênteses constitui frase ou oração inserida no
interior do período, ele principia geralmente com inicial minúscula.
Nesta hipótese, não há ponto final dentro, mas pode ser utilizado ponto
de interrogação ou de exclamação, conforme o caso. Exemplos: “A
diretoria só examinará o pedido em setembro (ela reúne-se
mensalmente), mas é possível aguardar a decisão”; “O parlamentar
(quem diria?) arvorou-se em defensor da moralidade”; “As
irregularidades foram tantas (que horror!) que a comissão pediu mais
um mês de prazo para concluir o relatório final”.
• Se o trecho entre parênteses constitui frase ou oração a parte, colocada
depois do fim do período, inicia-se com inicial maiúscula e o sinal de
pontuação (ponto final, ponto de interrogação ou de exclamação) é
colocado dentro dos parênteses e não, fora. Exemplos: “A data da
reunião foi marcada propositalmente para o dia 30. (O prédio está vazio
nos sábados.)”; “Sob o comando de Luxemburgo, a equipe mineira fez
campanha fantástica. (Alguém se surpreende?)”; “A previsão do tempo
para este fim de semana é de céu claro, sem chuva. (Que beleza!)”.

Dica nº 131

Anacoluto irritante

Entre os modismos lingüísticos de mau gosto que assolam o Brasil de nossos dias
encontra-se desnecessário e irritante anacoluto, que consiste na colocação
redundante de pronome pessoal reto como segundo sujeito de verbo. É o caso de
“Nossa empresa, ela encontra-se em franca expansão”, “O povo brasileiro, ele
precisa escolher melhor seus representantes” e “Meu cachorrinho, ele não pára de
morder meu pé”.

A crítica a esse uso decorre da inutilidade do emprego pleonástico do pronome reto,


uma vez que, como acabamos de ver nos exemplos acima, os verbos já têm o
respectivo sujeito: “nossa empresa”, sujeito de encontra-se; “o povo brasileiro”,
sujeito de precisa escolher; “meu cachorrinho”, sujeito de não pára. Em razão de
tal anomalia, a estrutura sintática é quebrada de forma não-intencional, despida,
portanto, de qualquer propósito estético.

É verdade que truncamentos sintáticos ocorrem com freqüência na linguagem oral


e, de forma elegante, na escrita. Mas neste caso falamos de quem sabe o que faz e
dá “show” nisso. O que agora abordamos, porém, está-se transformando em praga
sem proveito. Poderíamos chamá-la de “anacoluto vicioso”. Fiquemos, pois, atentos
para a boa e correta expressão verbal.

Para resumir: o anacoluto de que tratamos neste texto é, no máximo, tolerável na


linguagem oral, mas não deve ser utilizado na escrita.

Dica nº 132
Semana retrasada

É comum ouvirmos essa expressão com sentido de “semana anterior à passada”.


Trata-se de equívoco resultante do desconhecimento do real sentido das palavras.

A semana que acabou de terminar é a passada. A anterior a ela é a atrasada. A


anterior à atrasada, essa, sim, é a semana retrasada.

Assim, temos:
• última semana antes da atual – passada;
• semana anterior à passada – atrasada;
• semana anterior à atrasada – retrasada.

Outra controvérsia existente a propósito de semanas é a que gira em torno do dia


em que elas principiam. Uns alegam que é a segunda-feira, outros garantem ser o
domingo. Os que defendem esta posição argumentam que a segunda-feira, por ser
“segunda”, é o segundo dia da semana. Logo, ela começaria no domingo.

Isso decorre de confusão com a etimologia dos nomes dos dias da semana, que
têm relação com feiras que ocorriam em festejos religiosos do passado. Na
verdade, a semana começa mesmo é na segunda. Prova disso é a expressão fim de
semana. Que você entende por “fim de semana”? Se entender que é a reunião do
sábado e do domingo, considerará que estes dias finalizam a semana. Se o
domingo é o último dia semanal, ela começa de fato na segunda-feira.

Dica nº 133

Sendo que

Essa expressão, indevidamente utilizada, torna-se insossa e incorreta quando


costuma aparecer em frases como “O agricultor fez empréstimo no valor de
R$100.000,00, sendo que R$30.000,00 destinou para benfeitorias na propriedade”.
E por que é insossa e incorreta?

Insossa porque não tem sentido, uma vez que não encerra idéia circunstancial de
causa nem de concessão. Na verdade, idéia nenhuma. No exemplo dado, o numeral
que representa aquela soma não está “sendo” nada.

Incorreta porque:

1. Está empregada com valor de relativo, como se seu antecedente fosse


“R$100.000,00”.

2. Configura gerundismo: “sendo” é gerúndio do verbo “ser”, mas na construção


acima não ocorre nenhuma condição para o emprego dessa forma nominal.
Leia mais sobre esse vício clicando aqui e aqui.
Como então reescrever aquela frase de forma correta e lógica? Há várias soluções,
entre as quais:

1. Colocar em lugar do indevido “sendo que” o elemento apropriado (dos quais,


de que), como em “O agricultor fez empréstimo no valor de R$100.000,00,
dos quais R$30.000,00 destinou para benfeitorias na propriedade”.

2. Simplesmente eliminar o tal de “sendo que”, truncar o período em


“R$100.000,00” e iniciar nova frase a partir daí, como em “O agricultor fez
empréstimo no valor de R$100.000,00. Destinou R$30.000,00 para
benfeitorias na propriedade”.

Fiquemos atentos e expressemos adequadamente o pensamento evitando formas


incorretas, sem lógica e sem sentido.

Dissemos lá no início que sendo que é insossa e incorreta quando indevidamente


utilizada. Isto significa que pode ser devidamente empregada. Quando isso ocorre?
De acordo com os gramáticos, quando tem o valor de conjunção causal, isto é,
quando expressa causa. Nesse caso, equivale a “uma vez que”, “desde que”, “visto
que”, “porquanto”. Tal conjunção – na verdade, locução conjuntiva – aparece em
períodos compostos por subordinação em que a oração subordinada encerra idéia
de causa e a principal, de conseqüência. Exemplos: “Sendo que ele não me pagou,
não posso também o pagar” e “Sendo que o palestrante ainda não chegou, o início
da sessão sofrerá atraso“.

Apesar do respaldo dado por gramáticos do porte do prof. Napoleão Mendes de


Almeida a este último uso, achamo-lo também insosso. Recomendamos, portanto,
sendo que ser evitado em qualquer circunstância.

Dica nº 134

Entre mim e ele

Freqüentemente, pessoas têm dúvida com relação ao emprego dos pronomes


pessoais em construções em que aparece a preposição entre.

É preciso, de início, lembrarmo-nos de que, em princípio, os pronomes pessoais


retos só podem ser sujeitos de oração e não, complementos. Assim, em frases
como “Isso fica entre mim e ele”, não caberia eu no lugar de “mim”, pois esse
pronome figuraria no predicativo “entre eu e ele”. Em outras palavras, um pronome
reto (eu) estaria exercendo a função de complemento.

Nesta altura, você pode justamente questionar: “Ué, mas ele também não é
pronome pessoal reto? Como pode figurar como complemento e eu não pode?”. É
verdade, mas isso depende do uso que os falantes cultos fazem e eles querem
assim.

Dessa forma, os pronomes pessoais eu e tu quando aparecem regidos pela


preposição "entre" devem figurar na forma oblíqua – como em "Não há dificuldade
entre mim e ti" – e não, na reta, como em "Não há dificuldade entre . Os
demais pronomes são empregados na forma reta, apesar de figurarem como
complementos: "Isto fica entre mim e ele" e "Está tudo bem entre nós e eles". Por
questão de eufonia, é preferível o mim ser utilizado em primeiro lugar.

O mesmo vale quando temos pronomes de tratamento: "Esse assunto fica entre
mim e o senhor", “Diga que aquilo se passou entre mim e você” e “Isso fica entre
nós e Vossa Excelência”.

Dica nº 135

Erros e defeitos em textos

Para comunicar de forma perfeita e com bom estilo, um texto deve estar livre de
incorreções e defeitos. Saiba que isso é possível, embora exija muita leitura e
prática da escrita. Como, porém, distinguir erros de defeitos? Vamos lá:

• Erros – São os chamados “barbarismos em sentido lato ou amplo”, ou seja,


infrações à norma ortográfica (as cacografias) e gramatical. Estas são
atentados contra a construção de palavras, contra a Sintaxe (ou
“solecismos”) e contra a Semântica (as inadequações vocabulares).

Assim, erra quem escreve pondo acento gráfico onde não há, como em “côco”, e
não pondo onde deveria, como em “chama-lo”. Quem escreve (e diz)
“bicabornato” em vez de bicarbonato), pois essa palavra é formada de “bi +
carbonato”. Quem escreve “Consta do relatório três denúncias” (em vez de
“constam”); "Desviei-me e depois removi a pedra", em lugar da construção
correta "Desviei-me da pedra e depois a removi" (leia mais clicando aqui); “Se
diz que haverá aumento”, em vez de “Diz-se que haverá aumento”. Quem
escreve “mandato de segurança” em lugar de “mandado de segurança”.

Esses desvios são erros mesmo e devem a todo custo ser evitados, não só por
prejudicarem a expressão verbal como por afetarem a imagem de quem os
produz. Além disso, em certas situações, como em provas de exames
vestibulares e concursos, costumam ser fatais.

Como não incorrer nesses erros? Já dissemos antes: muita leitura de bons
autores, prática constante da escrita sob supervisão de professor e estudo nas
gramáticas. Agora, você também conta com a internet, a exemplo deste saite
mesmo.

• Defeitos – Não chegam a constituir infrações à norma ortográfica e


gramatical, mas enfeiam o texto e prejudicam-lhe a qualidade. São as
cacofonias, a repetição próxima de palavras – que passa idéia de pobreza de
recursos vocabulares ou desleixo na produção escrita (por isso, a importância
dos exercícios com sinônimos e do uso do dicionário) –, o excesso de “que”,
dos pronomes possessivos e dos artigos, especialmente indefinidos.
Texto defeituoso não costuma ter conseqüências trágicas nos exames referidos,
mas produz má impressão em quem conhece as regras da escrita culta. Se você
tem de redigir algo e está concorrendo com outras pessoas – vaga em emprego,
por exemplo –, saiba que quem escreve corretamente sem ou com poucos
defeitos tem mais chance de conseguir o que deseja do que quem escreve com
correção, mas com muitos defeitos. Fique de olho!

Dica nº 136

Ponto de exclamação juntamente com ponto de interrogação

Pessoas costumam ter dúvida quanto à possibilidade do uso do ponto de


exclamação juntamente com o ponto de interrogação ou a respeito da ordem em
que devem ser utilizados em conjunto.

Quando a frase é interrogativa e ao mesmo tempo expressa admiração, usa-se


na escrita o ponto de interrogação seguido do de exclamação e não, o inverso.
Assim, temos "Ué, você por aqui?!". Isto porque a primeira noção que se passa é
a de interrogação e em seguida a de admiração ou espanto.

Nesse mesmo caso, na expressão oral, a entonação é característica, mais


acentuada. No exemplo acima, na fala, a sílaba qui, de “aqui”, é emitida de
maneira prolongada, mais longa do que se fosse em simples pergunta.

Outros exemplos: “Quê?!”, “Já chegou?!” e “Ela quer que eu vá embora?!”.

Dica nº 137

Emprego de pronomes de tratamento

Freqüentemente, o uso de pronomes de tratamento é motivo de dúvidas e


incorreções. Vamos a alguns esclarecimentos:

As fórmulas de tratamento tornam-se pronomes quando antecedidas de sua ou


vossa. Assim, as fórmulas excelência e reverendíssima convertem-se em
pronomes de tratamento uma vez precedidas daqueles possessivos, como em
“sua excelência” e “Vossa Reverendíssima”.

Note que quando nos estamos referindo a pessoa empregamos a expressão


formada por sua. Quando nos dirigimos a ela, utilizamos vossa. Exemplos: “Já
levei a reivindicação a sua excelência” (falamos dele) e “Vossa Excelência
precisa ler os jornais de hoje” (falamos com ele).

Às vezes, para demonstrar a máxima consideração e respeito, utilizamos forma


indireta de tratamento e empregamos pronomes acompanhados de sua em vez
do apropriado vossa, com em “Sua excelência poderia receber o embaixador?” e
“Sua excelência, o senhor ministro, concorda com a divulgação?”, no lugar de
“Vossa Excelência poderia...” e “Vossa excelência concorda...”. Esta situação é
parecida com certas falas do tipo “O papai quer que você vá dormir agora”, em
lugar de “Eu quero que você vá dormir agora”.

Não se esqueça de que os pronomes de tratamento, apesar de serem da


segunda pessoa gramatical (referem-se à pessoa com quem se fala), são
considerados de terceira pessoa. Por isso, levam o verbo e outros pronomes
(oblíquos e possessivos) para a terceira pessoa, como em “Vossa Excelência
esqueceu-se do compromisso”, “Sua agenda permite a Vossa Reverendíssima
encontrar-se com o prefeito” e “Você foi lá?”.

O professor Napoleão Mendes de Almeida escreve os pronomes de tratamento


em que usamos sua com iniciais minúsculas (exceto, é claro, se “sua” iniciar
frase, caso em que terá inicial maiúscula) e os em que aparece vossa, com as
duas maiúsculas, como se pode ver nos exemplos acima. Já Celso Cunha grafa
tanto uma como a outra forma com as duas maiúsculas.

Quase todos os pronomes de tratamento possuem abreviaturas, isto é, formas


reduzidas previstas na norma ortográfica. Exemplos são V. S.ª (Vossa Senhoria),
V. Ex.ª (Vossa Excelência), V. Rev. (Vossa Reverendíssima), etc. Repare nos
elementos sobrescritos.

Por fim, lembramos que na correspondência a invocação a pessoas que recebem


esse tipo de tratamento é quase sempre iniciada por adjetivos no superlativo,
como “excelentíssimo”, “ilustríssimo” ou “reverendíssimo”, a exemplo de
“Excelentíssimo Senhor (Ex. Sr. ) Prefeito”, “Ilustríssimo Senhor (Il. Sr.)
Coronel” e “Reverendíssimo Senhor (Rev. Sr.) Cônego”.

Dica nº 138

Esta e está

Atualmente, esse par vem suscitando muitas dúvidas entre as pessoas,


estudantes, inclusive. Vamos esclarecer o sentido de um e de outro:

Esta é pronome demonstrativo feminino (pronome substantivo ou adjetivo,


conforme o contexto) e serve para designar algo no espaço ou no texto. Assim,
temos: “Esta cadeira está quebrada”, “Esta última não existe no Brasil” (num
texto, depois de enumeração de vários nomes de frutas, por exemplo) e “Sua
mesa é esta”. Repare que não há qualquer acento gráfico em “esta”. Ela é
paroxítona, isto é, o acento tônico recai na penúltima sílaba e o “e” é aberto;
(és-ta).

Está é flexão do verbo “estar” na terceira pessoa do singular do presente do


indicativo e na segunda pessoa do imperativo afirmativo. Como esta
possibilidade é de ocorrência rara, vamo-nos ater à flexão do indicativo, como
em “Paulo está melhor de saúde agora”, “Quem está aí?” e “Carlos está viajando
pela Europa”. Portanto, está é forma verbal, que indica estado. Note que nessa
palavra há o acento gráfico no “á”, o que mostra ser ela oxítona, ou seja, a
maior força da emissão de voz recai na última sílaba (es-tá).
Então, não nos esqueçamos: esta se refere a alguma coisa: pessoa, objeto,
idéia, trecho de texto: “esta menina”, “esta panela”, “esta proposta”. Está é
forma verbal e pode ter sujeito (Norma está bordando) ou não (Está frio lá fora).

Dica nº 139

Caso particular de uso das letras maiúsculas

De acordo com a norma ortográfica brasileira, os nomes das ciências e das


disciplinas escolares ou acadêmicas devem ser escritos com iniciais maiúsculas.
Assim, Filosofia, Fonética, Geografia, História, Linguagem, Lingüística,
Matemática, Psicologia, Semântica.

Evidentemente, quando apresentam sentido genérico, sem referência a área do


conhecimento, tais nomes são escritos com inicial minúscula, como em “Qual é a
filosofia do grupo?”, “Nunca ouvi essa história”, “O livro é escrito em linguagem
rebuscada”, “É preciso ter psicologia para lidar com a situação”.

Quando funcionam como adjetivos, as iniciais também são minúsculas: “análise


fonética”, “teoria lingüística”, “fórmula matemática”, “questão semântica”, etc.

Língua Portuguesa e Português são escritos com iniciais maiúsculas quando se


referem a disciplinas, como em “Lázaro é professor de Língua Portuguesa” e
“Vanessa precisa melhorar as notas de Português”. Quando designam idioma,
são grafados com iniciais minúsculas. Desse modo, “Rosilma é estudiosa da
língua portuguesa” e “Ken já entende bem o português”. Português pode ainda
se classificar como adjetivo, situação em que igualmente se escreve com inicial
minúscula, exceto se iniciar frase: “O vinho português que tomamos é de ótima
qualidade” e “Português é o azeite que uso”.

Dica nº 140

Mas e mais

• Mas é primariamente conjunção adversativa. Isto significa que essa palavra


gramatical liga orações de forma a estabelecer contraste ou idéia de
oposição: "João correu muito, mas não conseguiu chegar a tempo ao local de
prova" e "Pedro não se mata de estudar, mas sempre consegue aprovação no
final". Em outros contextos, pode funcionar como palavra expletiva, como em
“Naquela noite, Norma voltou para casa feliz, mas muito feliz”, ou como
substantivo, a exemplo de “Esse ‘mas’ é que te complica”.

• Mais é advérbio de quantidade e como tal se vincula a adjetivos, verbos ou


outros advérbios, como em "Paulo é mais alto do que José", "Cláudio
trabalhou mais do que eu hoje" e "A mensagem pode ser enviada mais
rapidamente". “Mais” pode-se também classificar como pronome adjetivo
indefinido quando modifica substantivos, como em “Comprei mais comida” e
“Estou aqui há mais tempo”.

A dúvida que muitas pessoas têm com relação ao emprego dessas duas palavras
decorre da tendência de os falantes, na língua oral, ditongarem, ou seja,
produzirem ditongo em vocábulos terminados em /as/ (rapais = rapaz), /es/
(meis = mês), /os/ (pois = pôs) e /us/ (luis = luz). Assim, tanto “mas” como
“mais” acabam tendo a mesma sonoridade (mais). Na escrita, porém, devemos
evitar tal uso em benefício da correção e da clareza.

Dica nº 141

E/ou

Às vezes, deparamos com essa combinação de conjunções ligadas por barra,


que indica a simultaneidade dos elementos que a antecedem e sucedem ou sua
alternância. O caso mais comum é o dos nomes de correntistas bancários em
contas correntes conjuntas de titulares solidários, ou seja, as contas em que um
dos titulares aceita e valida a movimentação que o outro faz, como em “José dos
Anzóis Pereira e/ou Maria Farinha Pereira”. Neste exemplo, o “e” indica que os
titulares da conta são, conjuntamente, José e Maria e o “ou” expressa a
possibilidade de operação da conta por um ou outro isoladamente.

Outros exemplos:

1. “Há situações em que o chefe de culto, através do jogo de búzios e/ou tarô
conclui que o mal que aflige a pessoa é puramente orgânico” – Considera-
se que pode ser praticado o jogo de búzios juntamente com o de tarô ou
um deles somente.

2. “Sobremesa: fruta ácida e/ou suco de fruta ácida” – Entende-se que


podem ser servidos, como sobremesa, a fruta e o suco ou um deles
apenas.

3. “Os jornais pertencem a correligionários e/ou estimados amigos da


família” – Há três situações possíveis: existem jornais pertencentes a
correligionários que também são amigos ou então a correligionários
apenas ou a amigos não-correligionários.

4. “A superstição pode consistir em apego exagerado e/ou infundado a


qualquer coisa” – Entende-se que o apego pode ser simultaneamente
exagerado e infundado ou somente exagerado ou apenas infundado.

5. “Poderá ser indicado produto complementar e/ou desenvolvimento das


características do sistema” – Há três soluções possíveis: aquisição de
produto e desenvolvimento de características ou então, isoladamente,
aquisição de produto ou desenvolvimento de características.
O que não cabe é usar-se a fórmula e/ou em contextos em que bastaria a
alternância ou nos quais a referência é feita a ambos os elementos
conjuntamente. Assim, são inadequadas frases como (6) “São sócios honorários
os que se tenham distinguido pela doação de bens patrimoniais e/ou financeiros
de relevância” e (7) “A multa decorre de atraso nos tempos previstos de vôos
nacionais e/ou internacionais”.

Em (6), basta a pessoa haver doado isoladamente bens patrimoniais ou


financeiros para ser considerada sócia honorária. Desse modo, ela não necessita
doar os dois tipos de bem para conseguir a honraria. O emprego de “ou”,
portanto, é suficiente. Em (7), se a multa se aplica a ambas as situações, utilize-
se apenas “e”. Se a penalidade se aplicasse somente a um dos casos, o outro
não deveria sequer ser mencionado: “A multa decorre de atraso nos tempos
previstos de vôos nacionais” ou “A multa decorre de atraso nos tempos previstos
de vôos internacionais”.

O emprego da fórmula e/ou requer alguma cautela para garantir-se coerência.


Tem a ver em alguma medida com o raciocínio lógico.

Dica nº 142

Até e Até a

Quando liga dois termos oracionais, "até" classifica-se como preposição, como
em (1) “Correu até o poste”. Nessa condição, pode ser usada sozinha, como
nesse exemplo, ou acompanhada da preposição "a". Assim, (2) "Vou até o
boteco/Vou até ao boteco" e (3) "Caminharei até a praça/Caminharei até à
praça".

Na hipótese de usar-se a locução “até a”, cuide-se para verificar se o nome que
a segue é feminino e se está sendo usado com o artigo “a”. Neste caso, haverá
crase, como acabamos de ver em (3). As coisas ocorrem assim: “Vou até a + a
praça ® Vou até à praça”. Da mesma forma, (4) “Chegamos até à vila de São
João” e (5) “Caminhamos até às ruínas de Tiahuanaco”.

“Até” pode-se classificar também como advérbio e dessa maneira equivale a


“ainda”, “mesmo”: (6) “Podemos até vender a chácara”. Note que esse emprego
é expletivo: se retiramos a palavra assinalada, o sentido básico da oração não se
altera, mas ela perde algo de sua força expressiva: (7): “Podemos vender a
chácara”.

Dica nº 143

Níveis hierárquicos da linguagem verbal


No estudo de uma língua natural – por exemplo, o português –, convém ter em
mente a existência de níveis hierárquicos, que lhe possibilitam a descrição de
forma científica. Isso é especialmente importante para o professor, mais do que
para o aluno. Vamos explorar esse tema, tratado com bastante propriedade pelo
saudoso semanticista A. J. Greimas, que tanto contribuiu para a Lingüística,
especialmente para a Semântica.

Partamos da língua que será objeto de nosso estudo, doravante chamada


“língua-objeto”. Como é o português que aqui nos interessa, nossos exemplos
nele se situarão. A oração “Laurinha pegou o copo” encontra-se no nível da dita
língua-objeto. Isso porque as unidades lexicais, isto é, os vocábulos que a
constituem descrevem a realidade em que estamos inseridos, o universo
extralingüístico, o que nos rodeia. Dessa forma, “Laurinha” refere-se a uma
pessoa do sexo feminino, “pegou” expressa ação que ela praticou em
determinado momento e “o copo” traduz aquilo que Laurinha pegou, o objeto
dessa ação. Essas unidades localizam-se no nível primário, o nível lingüístico.

Vimos que no parágrafo anterior emitimos mensagens para explicar o sentido


que os vocábulos constantes da oração exemplificada nela apresentam: o que é
“Laurinha”, “pegou” e “o copo”. Dissemos que a palavra “Laurinha” representa
uma pessoa do sexo feminino e que a palavra “pegou” expressa ação que ela
praticou. Trata-se, dessa forma, de linguagem falando de linguagem ou, para
sermos mais precisos, de metalinguagem. Mas essa metalinguagem é natural,
emprega palavras da própria língua-objeto, como “ação” e “praticou”. Na
descrição científica de uma língua natural, os especialistas – os gramáticos –
utilizam outra linguagem, construída e o mais possível distante do vocabulário
comum da língua-objeto. Estamos falando da metalinguagem científica. A
metalinguagem situa-se em nível hierárquico superior, nível secundário, o nível
metalingüístico.

No nível metalingüístico, as mensagens não se referem ao universo que nos


rodeia (descrito pela língua-objeto), mas à própria língua-objeto. É, como já
dissemos, a linguagem falando da linguagem. R. Jakobson percebeu isso muito
bem ao elaborar seu modelo de comunicação e estabelecer as funções da
linguagem, uma das quais é a função metalingüística. Ela centra-se na própria
língua. (Leia também no Glossário Gramatical o verbete “Função da
linguagem”.)

É por isso que os gramáticos utilizam termos – é exatamente disso de que se


trata, de terminologia – estranhos, como interjeição, fonema e adjunto
adnominal. Eles constituem linguagem técnica, específica e o ideal é que sejam
unívocos, quer dizer, tenham somente um significado. Infelizmente, as coisas
não se passam exatamente assim muitas vezes, a exemplo de sujeito e
predicado, que em outros contextos têm sentidos distintos do gramatical. Na
terminologia lingüística, morfema tem diferentes significados, conforme a escola
de pensamento que o utiliza: “unidade do nível morfológico” (neste caso,
equivale, grosso modo, a “palavra”), “segmento da palavra que se refere à
realidade extralingüística ou intralingüística” (neste sentido, pode-se classificar
como morfema lexical – menin- – ou gramatical – -o, -a) ou ainda “segmento da
palavra que possui função estritamente gramatical (-o, -a, psico-, -inho)”. O
termo morfema não apresenta, portanto, a univocidade que seria desejável.

Muito bem. Então, termos como interjeição, fonema e adjunto adnominal


pertencem à linguagem utilizada na descrição da nossa língua-objeto (nível
metalingüístico) e precisam de definição. Assim, podemos, em princípio, dizer
que interjeição é “palavra que exprime emoções, estados d’alma, manifestações
do nosso íntimo”; fonema é “som da língua” e adjunto adnominal é “termo
acessório da oração que caracteriza ou determina o substantivo”. Estamos agora
usando outra linguagem para falar, para explicar, traduzir a metalinguagem.
Esta nova linguagem situa-se em nível hierárquico mais acima. Trata-se da
meta-metalinguagem, que explica a metalinguagem.

Voltemos à oração “Laurinha pegou o copo”. A Gramática ensina que nela


“Laurinha” é seu sujeito. Mas o que significa “sujeito”? Napoleão Mendes de
Almeida afirma ser sujeito “a pessoa ou coisa sobre a qual se faz alguma
declaração” (ALMEIDA, 1999, § 650). Celso Cunha diz que “o sujeito é o ser
sobre o qual se faz uma declaração” (CUNHA, 2000, p. 119). Já Domingos P.
Cegalla informa que “sujeito é o ser do qual se diz alguma coisa” (CEGALLA,
2000, p. 297). Essas definições, que traduzem o sentido de termo
metalingüístico, situam-se, portanto, no nível terciário, no nível meta-
metalínguístico.

Mas o especialista não considera qualquer afirmação como “científica” se ela não
for comprovadamente verificável e coerente. É preciso checar a validade das
definições. Isso só pode ser feito em outra instância, isto é, em nível hierárquico
superior, no nível epistemológico.

Acabamos de ver que tanto Celso Cunha como Cegalla declaram que o sujeito é
um “ser”. É mesmo? No período “Saudade é sentimento gostoso e ao mesmo
tempo faz doer”, consideremos a oração “Saudade é sentimento gostoso”. Sem
dúvida, seu sujeito é “saudade”. Saudade é “ser”? O Aurélio consigna que “ser”
é “o que existe ou supomos existir”, “aquilo que é real” ou “o que se põe como
existente”. O Houaiss diz que “ser” é “aquilo que realmente existe” ou “aquilo
que possui realidade”. Se a saudade é algo real ou que tem existência, ela pode
ser considerada “ser”. Neste caso, aqueles gramáticos estão dizendo algo
coerente, que pode ser considerado válido. Entretanto, teríamos ainda, para
realizar procedimento completo, de verificar também a consistência das
definições da palavra “ser” conforme registrada pelos lexicógrafos (dicionaristas)
mencionados.

Lá atrás, afirmou-se que “fonema é som da língua”. Será? A teoria lingüística


declara que o som é realidade física, extralingüística, algo concreto, que pode
ser medido e registrado. O fonema é função, conceito abstrato. Portanto, quem
define fonema como “som” não pode ser questionado?

Vimos assim que a discussão onde se questiona a validade das definições situa-
se em nível quaternário, no nível epistemológico. Evidentemente, o aprendiz da
norma culta da língua não necessita enveredar por esses meandros da Filosofia
– filosofia da comunicação e da linguagem –, mas é bom o professor ter clareza
sobre essas distinções para executar seu trabalho com segurança e proficiência,
com “pé no chão”.

Por fim, é oportuno esclarecer que as proposições teóricas em que este texto se
baseou, de autoria do eminente semanticista A. J. Greimas, focaram
especificamente a formulação de descrição semântica verdadeiramente
científica. Contudo, consideramos perfeitamente possível extrapolar seu
arcabouço para outros níveis gramaticais.

Dica nº 144

Mais alguns parônimos

Os parônimos são traiçoeiros para as pessoas desavisadas. Conhecendo-lhes os


sentidos, não erraremos. Vejamos:

Contatar e constatar – “Contatar” (ou “contactar”) significa estabelecer


contato, como em “Vou contatar o vendedor” (vou fazer contato com o
vendedor) e “Contatamos a agência ainda ontem” (estabelecemos contato com a
agência ainda ontem). “Constatar” quer dizer verificar, chegar a conclusão,
como por exemplo “Você irá constatar que tudo está em ordem” (você irá
verificar que tudo está em ordem) e “A comissão constatou haver
irregularidades” (a comissão chegou à conclusão de haver irregularidades).

Tapar e tampar – “Tapar” significa fechar, vedar, como em “Quero que vocês
tapem este buraco” (quero que vocês fechem este buraco) e “Tape os ouvidos”
(feche os ouvidos). “Tampar” quer dizer pôr tampa, como por exemplo “Vou
tampar a panela” (vou pôr tampa na panela) e “Já tampei o latão” (já coloquei
tampa no latão). O Aurélio, o Houaiss e o Dicionário Barsa endossam a confusão
que muitas pessoas fazem entre “tapar” e “tampar” e consignam no verbete
“tapar”, como primeira acepção, cobrir com tampa. Se quisermos ser exatos,
demos a cada palavra o sentido que lhe cabe.

Vultoso e vultuoso – “Vultoso” significa de vulto, volumoso, considerável,


como em “Serão destinados vultosos recursos para a educação” (serão
destinados recursos consideráveis para a educação) e “A instituição recebeu
vultosa soma em dinheiro” (a instituição recebeu volumosa soma em dinheiro).
“Vultuoso” quer dizer inchado e vermelho, com relação ao rosto e lábios, a
exemplo de “O rosto do Joaquim está vultuoso” (o rosto do Joaquim está
inchado e vermelho) e “As faces daquelas pessoas estavam vultuosas” (as faces
daquelas pessoas estavam inchadas e vermelhas). O Houaiss rende-se à
confusão e registra no verbete “vultuoso” também os sentidos que “vultoso”
tem. Mesmo assim, prefiramos não confundir as coisas, a exemplo do Aurélio e
do Dicionário Barsa.

Ainda que os dicionários mencionados registrem os sentidos estendidos de


“tapar” e “vultuoso”, recomendamos, com relação aos parônimos acima, o uso
tradicional em benefício da clareza.
Dica nº 145

“Boa tarde” e “boa-tarde”

O vocábulo “boa-tarde" só é escrito com hífen quando é substantivo composto.


Nesse caso, ele pode ser acompanhado de artigo (definido ou indefinido) ou de
pronome (possessivo ou demonstrativo), como em "O boa-tarde que lhe dei foi
cordial”, "Esse boa-tarde está muito fraco" e "Meu boa-tarde foi caloroso". Repare
que há silepse aí: embora sejam nomes femininos, “boa” e “tarde” estão
acompanhados de palavras masculinas. Isso ocorre porque a concordância é
irregular, pois se faz com a idéia (de cumprimento) e não, com a forma, feminina.

A expressão reduzida “boa tarde” é oração dita “semiótica” ou simplificada, em que


se subentendem outros termos. A construção desenvolvida é: “Desejo-lhe que a
tarde seja boa”. Aqui não há o hífen, como também não existe em "Boa tarde,
disse-me o homem" e "Boa tarde, posso falar com o senhor?".

Isso tudo, obviamente, vale também para outros cumprimentos, como “bom dia” e
“boa noite”:

“Bom dia, amor” e “Gostou do meu bom-dia?”.


“Boa noite, como vai?” e “Já lhe dei meu boa-noite”.
“Bom dia, para quem é de bom-dia, e boa noite, para quem é de boa-noite”.

Dica nº 146

Acentuação objetiva

Você acredita que as regras de acentuação gráfica que conhecemos podem-se


resumir a uma só? O professor Francisco Dequi (IPUC, Canoas - RS) garante que
sim. Vamos conhecer sua proposta?

A “acentuação objetiva” considera apenas a vogal tônica e não, a sílaba tônica. Tal
sistema leva em conta também as vogais realmente pronunciadas e numera-as da
direita para a esquerda, como abaixo:

Recordamos que em todas as palavras estruturadas com mais de uma vogal há


uma pronunciada com mais força, a tônica. Observe-se ainda que a semivogal é, de
fato, vogal.

Primeira parte – Tonicidade regular ou natural. Roteiros da tonicidade das palavras


sem acento gráfico
A tonicidade regular das palavras sem acento gráfico flui da direita para a esquerda
e 100% de sua localização segue os seguintes roteiros:

1. Se a terminação for das fracas ou átonas (a, e, o, am, em, ens), a tonicidade
estará na vogal 2. Exemplos: datilografo, datilografas, datilografam,
datilografe, datilografem, item, itens, publico, publicas, coco, cocos, celebre,
domino, irmão, corações, porem, amaras, camelo.

2. Se a terminação for do rol das demais (as não incluídas nos casos acima), ela
será forte e a tonicidade fixar-se-á na vogal 1. Exemplos: abacaxi, urubu,
urubus, barril, lençol, jasmim, jasmins, motor, audaz, feliz, revolver, algum,
alguns, animal, semitom, semitons, sutil, sutis, repetir, anu, maçã, irmãos,
veloz, talvez.

3. Apesar dos dois roteiros anteriores, “i” e “u” quando antecedidos de vogal
“encostada” (em ditongos ou hiatos) e não tendo apoio seu no lado direito
(nasalização ou consoante sua) cedem a tonicidade para a vogal anterior – 2
ou 3 – encostada. Exemplos: flauta, leite, eu, ai, douto, doidos, ainda,
sairdes, constituinte, transeunte, ruim, ruir, ruis, Raul, maus, saindo, Romeu,
possui, possuis, maio, caiam.
Nota: no processo de acentuação, o “s” final não influi.

Observação nossa: sublinhamos, por nossa conta, as vogais e consoantes que


constituem dígrafos representantes de vogais nasais. Assim, por exemplo, “om” é
grafia da vogal nasal /õ/.

Segunda parte – Tonicidade irregular ou deslocada

O acento gráfico, em 99,6% dos casos, anula a tonicidade natural verificada nos
itens acima e tonifica outra vogal. Dito de outro modo: torna tônica a vogal que,
sem o sinal, seria átona. Exemplos: sabia ® sabiá, sábia; camelo ® camelô; maio
® maiô; dai ® daí; fluido ® fluído; magoa ® mágoa; duvida ® dúvida; exercito ®
exército; vicio ® vício; seria ® séria; doido ® doído; caiamos ® caíamos; cara ®
cará; copia ® cópia.

Observação nossa: na verdade, o acento gráfico não “tonifica” a vogal, mas


representa graficamente tonicidade que já existe. Ele não produz tonicidade, mas
apenas indica algo que está lá. Mas vamos em frente.

Terceira parte – Sinais diferenciadores (0,4%) ou sinais não-deslocadores de


tonicidade

1. “É” e “ó” abertos em palavras monovocálicas e nos encontros (ditongos)


abertos “éi”, “éu” e “ói” são sempre acentuados. Exemplos: pé, pó, nó, fé,
ré, é, dó, nós, vós, só; seu/céu, apoio/apóio, reis/réis. Função desses sinais:
apenas marcar timbre aberto. Não deslocam a tonicidade, pois ela já estava
na vogal assinalada.
2. Diferenciadores sintáticos, marcadores de plural: ele tem/eles têm, ele
vem/eles vêm. O mesmo ocorre com verbos derivados: ele detém/eles
detêm, ele provém/eles provêm.

3. Diferenciadores morfológicos necessários: pode/pôde, por/pôr, de/dê, se/sê.

Quarta parte – Sinais inúteis

Em nossa ortografia oficial, há sinais inúteis, pois não têm qualquer objetivo na
tonificação. Fora do contexto, sem acento, as palavras que os recebem teriam
exatamente a mesma pronúncia. Exemplos: os vocábulos monovocálicos lá, vá, cá,
má, lê, vê; flexões e substantivos derivados de verbos terminados em “oar”:
magôo, vôo, enjôo, abotôo. E as quatro formas verbais crêem, dêem, lêem, vêem e
seus compostos (descrêem, relêem, prevêem, etc.).

E aí? O que achou da acentuação objetiva? Experimente testá-la aplicando os


roteiros descritos a outras palavras para ver se as afirmativas confirmam-se.

Dica nº 147

Resenha

Resenha é o relato pormenorizado de textos, como livros, artigos em periódicos,


letras de músicas, etc. O aluno pode, em diferentes níveis de seus estudos, ser
solicitado a preparar alguma resenha desse tipo. Como fazer isso? Auxiliar na
execução dessa tarefa é justamente o propósito desta página.

Consideramos haver dois tipos de resenha: a que chamamos “resumida” e a


“completa”. A resumida consiste na enumeração dos dados bibliográficos da obra e
de comentários a seu respeito. É a que vemos freqüentemente na seção “Livros” de
jornais e revistas. A completa tem utilização notadamente escolar ou acadêmica e
fornece detalhadamente informações sobre o texto. Além dos dados bibliográficos,
contém extrato do escrito resenhado, análise crítica, indicação do público ao qual a
obra deve interessar, etc.

Oferecemos-lhe os dois modelos de resenha:

Modelo resumido

• Título da obra
• Autoria
• Cidade onde foi publicada, editora, ano de publicação, número de páginas, preço
(se possível)
• Credenciais da autoria (quem é o autor)
• Comentários sobre a obra. Indicação do tipo de leitor a quem o resenhista
recomenda a leitura.
Normalmente, esses tópicos não aparecem explicitados, mas apenas os dados a
que eles se referem.

Modelo completo

I – OBRA1. Resenhista (Nome de quem elabora a resenha):

2. Autoria (Autor do texto resenhado):

3. Título (Nome da obra. Se se trata de parte dela, mencionar o nome da parte


– título de artigo, capítulo de livro – e da obra completa):

4. Edição (Qual edição está sendo resenhada. Os livros geralmente não


mencionam o número da edição se se trata da primeira.):

5. Cidade de publicação:

6. Editora: 7. Ano de edição: 8. Número de páginas: 9.Formato


(Medidas: 30 x 20 cm, por exemplo):

10. Preço (Se possível):

II – CREDENCIAIS DA AUTORIA11. (Quem é o autor, títulos, outras obras


publicadas, informações biográficas.)

III – CONCLUSÕES DA AUTORIA12. (Aqui, o resenhista expõe, em linguagem


direta, as conclusões a que o autor chega no trabalho analisado. Não se trata de
dizer “O autor acha que...”, mas descrever suas conclusões como se ele estivesse
falando.)

IV – DIGESTO13. [É o resumo “resumido” da obra, que consiste na seleção


dos trechos mais relevantes, que melhor representam o texto. Nesta parte, vale
também a observação registrada no item anterior: não use suas palavras (O autor
diz que...), mas as do próprio autor tais como aparecem na obra.]

V – METODOLOGIA DA AUTORIA14. (Se você conseguir identificar a


metodologia utilizada pelo autor, ótimo. Registre essa informação aqui: método
categórico-dedutivo, empírico-indutivo, metafísico-especulativo, etc.)
VI – QUADRO DE REFERÊNCIA DA AUTORIA15. (O resenhista menciona a
escola de pensamento a que está filiado o autor ou se ele é iniciador de nova
escola.)

VII – CRÍTICA DO RESENHISTA16. (Agora, o resenhista usa suas próprias


palavras e alude à obra. Comenta o texto e avalia-lhe os pontos positivos e
negativos no que se refere à forma, ao conteúdo e mesmo ao aspecto físico da
obra, se for o caso.)

VIII – INDICAÇÕES DO RESENHISTA17. (A quem o resenhista considera seja


útil a leitura da obra resenhada. Informações para uso da clientela potencial e dos
bibliotecários.)

IX – APRESENTAÇÃO DA RESENHA
(Se a resenha for apresentada em ambiente escolar ou acadêmico, os dados a
seguir serão pertinentes.)

18. Data e hora:

19. Disciplina:

20. Centro de interesse (Nome do tema de pesquisa, no caso de pós-graduação):

Neste modelo, os tópicos são explicitados. Ele foi confeccionado pelo saudoso
professor Antonio Rubbo Müller (São Paulo-SP) e simplificado e adaptado pelo
professor Paulo Hernandes.

Dica nº 148

Grafia de nomes próprios como parte de substantivos comuns

Às vezes, surgem dúvidas com relação à grafia de nomes próprios como parte de
substantivos comuns. Sabemos que os nomes próprios devem ser escritos sempre
com inicial maiúscula, como Carlos, Marina, Barretos, Brasília, Paraná, etc.
Entretanto, não raro acontece de palavras como essas comporem nomes comuns.
Neste caso, de acordo com a norma ortográfica brasileira, são escritos com as
iniciais minúsculas, exceto, é claro, se iniciarem período.

Assim, temos “Brasil”, mas “pau-brasil”; “João”, mas “joão-bobo”, “joão-de-barro”,


“joão-ninguém”; “Maria”, mas “maria-chiquinha”, “maria-fumaça”, “maria-vai-com-
as-outras”; “Deus”, mas “louva-a-deus”, “deus-dará”, “deus-nos-acuda”, “pão-por-
deus”.
Se iniciam período, a inicial do primeiro elemento é maiúscula: “’João-de-barro’ é
nome de pássaro brasileiro” e “Maria-fumaça, que saudade dos tempos de
infância!”.

Dica nº 149

Quem é doutor?

No Brasil, onde muitas vezes deparamos com mentes estreitas, de um lado, e


atitudes subservientes, de outro, todo mundo é doutor: profissionais liberais, de
modo geral, e pessoas que ocupam cargos de alguma importância no setor público
ou privado. Até homens simplesmente por trajarem paletó e gravata são assim
chamados.

Para colocar as coisas em seus devidos lugares, vamos esclarecer o assunto sob a
ótica do bom senso. Quem é de fato doutor?

Em rigor, doutor é alguém que concluiu com aproveitamento curso de pós-


graduação em nível de doutorado e defendeu tese, aprovada por banca
examinadora. Esse é o verdadeiro doutor.

Por tradição, originário do inglês “doctor”, é também cabível o título de “doutor”


aplicado a médicos. Então o médico também é doutor.

E só. O restante é invenção, que não deve ser levada a sério.

Dica nº 150

Substantivação

Substantivação é recurso de que se valem os falantes da língua para formar novas


palavras pelo processo denominado pelos gramáticos de “derivação imprópria”. Por
ele, unidades lexicais mudam de sentido – isto é, de emprego no texto – quando,
diferentemente do usual, passam a ser determinadas por artigo, numeral,
possessivo, etc.

Trata-se de nova palavra porque a forma fônica (seqüência de fonemas), apesar de


mantida, associa-se a outro significado. Há também mudança de classe de
palavras: o que era adjetivo ou verbo, por exemplo, torna-se substantivo. Nesta
condição, o vocábulo substantivado pode, de modo geral, flexionar-se
normalmente.

Em princípio, palavra de qualquer classe pode assumir a função substantiva, ou


seja, pode-se substantivar e a maneira mais comum de isso ocorrer é a junção a
ela do artigo definido “o”. Vejamos alguns exemplos de substantivação de:

• Adjetivo – “Belo”, “estudioso” e “rico” são adjetivos em “belo espetáculo”,


“aluno estudioso” e “homem rico”. Acompanhados de artigo, porém,
transformam-se em substantivos, como em “A estética estuda o belo”, “Os
estudiosos não tiveram do que reclamar” e “Os ricos moram ali”. Note que no
grau superlativo relativo também aparece o artigo definido, mas isso não
configura substantivação. É simplesmente o modo de construção dessa
estrutura comparativa: “Carlos foi o melhor do grupo”.

• Pronome – Ao juntarem-se artigos e numerais a pronomes, como “eu” e


“nosso”, estes se convertem em substantivos ou exercem função substantiva:
“A Psicologia interessa-se pelo estudo do eu” e “Esse barco é o nosso”.

• Verbo – É muito comum a substantivação de verbos. Veja que em “Quero


andar mais depressa”, “Vamos falar francamente” e “Não se trata de ser bom
ou ter qualidades” “andar”, “falar”, “ser” e “ter” são nitidamente verbos.
Entretanto, tais palavras mudam de sentido ao tornarem-se substantivos em
“O andar dele é característico”, “São vários os falares regionais brasileiros” e
“Segue o ensinamento cristão quem se preocupa mais com o ser do que com
o ter”.

• Numeral – “Dois”, “sete”, “duplo”, etc. podem-se substantivar mediante o


acréscimo de artigo, possessivo e mesmo de numeral: “O sete é número
mágico”, “Já lhe dei meu dois de copas” e “A ginasta executou dois duplos
arriscados”.

• Advérbio – Da mesma forma, é corriqueira a substantivação de advérbios,


como “bem”, “mal”, “não”, etc.: “Devemos sempre fazer o bem”, “Dos males,
o menor” e “Péricles recebeu um não como resposta”.

• Preposição – Vêem-se também preposições substantivadas, tais como “de” e


“contra”: “Retoque o (vocábulo) de, que ficou apagado” e “É preciso pesar os
prós e os contras”.

• Conjunção – “O ou não ficou bem colocado aí” e “Só quero saber o porquê”.
Como se sabe, “porque”, na função substantiva, é graficamente acentuado.
Leia mais sobre isso clicando aqui.

• Interjeição – Até as interjeições podem-se transformar em substantivos ao


serem acompanhadas de artigos, numerais ou pronomes, a exemplo de
“Depois dos vivas, ele apareceu”, “Dois psius ouviram-se durante a prova” e
“Ninguém escutava meus ais”.

É necessário levar em conta as seguintes observações em se tratando do processo


de substantivação:

1. Palavras normalmente invariáveis passam a flexionar-se uma vez


substantivadas, como “Quantos noves você tem?” e “Alberto levou vários
foras”. Observe, porém, que os numerais “dois”, “três”, “seis” e “dez”,
mesmo em função substantiva, não se flexionam: “Retire todos os dez do
baralho” e “Esses três ficam aqui”.
2. Uma vez substantivados, muitos vocábulos átonos tornam-se tônicos, isto é,
ganham autonomia fonética ao não se necessitarem apoiar em palavras
sonoramente mais fortes: “Ela tem um quê de mistério” e “Se não fosse o
se...”.

3. Não se confunda palavra substantivada com substantivos que normalmente


são acompanhados de artigo. Desse modo, em “O tigre é felino poderoso”, o
artigo não está substantivando nada, já que “tigre” é naturalmente
substantivo e assim atua no contexto.

4. A palavra substantivada pode assumir qualquer função sintática reservada ao


substantivo, como sujeito e complemento. Exemplos: “Seu olhar (sujeito) é
magnético” e “Quero ouvir um sim (objeto direto)”.

Dica nº 151

Frase nominal

Tradicionalmente, aprendemos que o termo “frase” significa grupo de vocábulos


que expressa uma idéia, sem nada afirmar ou negar: "Tudo em paz?", "Os Sertões"
e “Antes tarde que nunca” seriam frases. Desse modo, uma vez que a frase passe a
afirmar, negar ou questionar algo, converte-se em oração e isso acontece com a
presença do verbo.

Assim, podemos ser tentados a considerar como frases nominais as em que o verbo
não está explícito, mas ele de fato existe. Está apenas subentendido ou, como diz o
prof. Francisco Dequi, “mentalizado”. É por isso que aquela declaração inicial deve,
na verdade, ser acompanhada do advérbio “aparentemente”: “a frase expressa
idéia sem aparentemente nada afirmar ou negar”.

Há inúmeras frases com verbo mentalizado ou elíptico e nem por isso deixam de
ser autênticas orações, como podemos ver a seguir nos seguintes provérbios:

• “Cada macaco, no seu galho.” = “(Que) cada macaco (fique) no seu galho.”.
• “Por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento.” = "Por fora, (nós vemos)
bela viola; (o que existe) por dentro (é na verdade) pão bolorento.".
• “Vox populi, vox Dei.” = “Voz do povo, voz de Deus.” = “(A) voz do povo (é
a) voz de Deus.”.
• “Lágrimas de herdeiros, risos secretos.” = “Lágrimas de herdeiros
(escondem) risos secretos.”.
• “Filho criado, trabalho dobrado.” = “Filho criado (representa) trabalho
dobrado.”.

Observe que não por acaso aparece a vírgula em todas essas frases. Ela marca
justamente a elipse do verbo.

Outros exemplos:

• “Que coisa!” = “Que coisa (chata você está fazendo)!”.


• “Você por aqui?!” = “(Olhe,) Você (está) por aqui?!”.
• “Tudo bem contigo?” = “Tudo (está) bem contigo?”.
• “Que raiva!” = “Que raiva (eu sinto)!”.
• “Que beleza!” = (Olhe) Que beleza (é isso)!”.

Nas orações ditas “semióticas”, parece que temos frase nominal, mas sem dúvida o
verbo está subentendido e este variará conforme a situação:

• “Socorro!” = “(Eu peço) Socorro!”.


• “Fogo!” = “(Façam) Fogo!” ou “(Vejam o) Fogo!”.
• “Cuidado!” = “(Tome) Cuidado!”.
• “Silêncio!” = “(Façam) Silêncio!”.
• “Ladrão!” = “(Peguem o) Ladrão!”. No campo de futebol: “Ladrão!” = “(Esse
juiz é) Ladrão!”.

Os títulos de obras quase sempre apresentam o verbo mentalizado:

• “Literatura luso-brasileira” = “(Este livro contém) ‘Literatura luso-brasileira’.”.


• “Dom Casmurro” = “(Este livro apresenta o romance) Dom Casmurro.”.
• “Semântica lexical” = “(Esta obra trata de) Semântica lexical.”.

Placas e letreiros com as denominações de empresas, organizações, edifícios


encerram verbo subentendido:

• “Banco do Brasil” = “(Aqui funciona o) Banco do Brasil.”.


• “ANVISA” = “(Aqui funciona a) ANVISA (Agência Nacional de Vigilância
Sanitária).”.
• “Marina Tower” = “(Este é o edifício) Marina Tower.”.
• “D” = “(Este é o bloco) D (denominação de um dos milhares de prédios de
apartamentos existentes no Distrito Federal).”.
• “Universidade de Brasília” = “(Este é o campus da) Universidade de Brasília.”.

As respostas a perguntas são, com muita freqüência, frases aparentemente


nominais:

• “Você já votou? Ainda não.” = “(Eu) Ainda não (votei).”.


• “Vocês já leram ‘Sintagramática’? Já.” = “(Nós) Já (lemos ‘Sintagramática’).”.
• “Por onde eles foram? Por ali.” = “(Eles foram) Por ali.”.
• “Que houve depois da palestra? Nada.” = (Não houve) Nada (depois da
palestra).”.
• “Laurinha, quem fez isso? A Cátia.” = “(Quem fez isso foi) A Cátia.”.

Em muitos períodos, aparecem frases em que o verbo fica claramente subentendido


por já haver sido expresso anteriormente. O verbo existe, mas é omitido em
virtude da figura de sintaxe chamada “zeugma”, que também pode abranger outros
termos:

• “Carlos gosta de jazz e Paulo, de rock.” = “Carlos gosta de jazz e Paulo


(gosta) de rock.”.
• “Sou tão inteligente quanto você.” = “(Eu) Sou tão inteligente quanto você (é
inteligente).”.
• “Ele chama-se Celso e ela, Tânia.” = “Ele chama-se Celso e ela (chama-se)
Tânia.”.
• “O inimigo foi vencido e os prisioneiros, soltos.” = “O inimigo foi vencido e os
prisioneiros (foram) soltos.”.
• “Sou o que sou e não, o que dizem.” = “(Eu) Sou o que (eu) sou e (eu) não
(sou) o que (eles) dizem.”.

Vimos então, por todos esses exemplos, que não existe frase propriamente
“nominal”, mas verdadeira oração em que o verbo está subentendido, oculto ou
mentalizado. Essa omissão dá-se geralmente devido à lei do menor esforço: se o
termo é claramente entendido, embora não explícito, deixa de ser enunciado e o
sentido não se prejudica.

A proposta teórica focalizada nesta página, de autoria do professor Francisco Dequi,


consiste em uma das teses apresentadas na obra mencionada logo abaixo, da qual
foram retirados alguns dos exemplos de frases aqui registrados. Contatos com o
mestre podem ser estabelecidos através do saite
http://www.ipuc.com.br/portugues/ .

Dica nº 152

Vemos com freqüência essa expressão inadequada ser empregada por pessoas
desatentas, inclusive por locutores e apresentadores de televisão. E por que é
indevida? Vejamos: segundo o Aurélio, um dos sentidos de “caro” é: que custa
preço alto ou elevado. Portanto, “caro” já significa preço alto, ou seja, seu
significado já contém a idéia de preço. Se, na expressão “preço caro”, substituirmos
“caro” por seu equivalente (“preço alto”), teremos a redundância “preço preço
alto”. Não faz sentido, não é? O mesmo vale para “barato”.
Em conseqüência, utilizemos frases, expressões e palavras coerentes, que tenham
sentido. No caso, “preço alto, elevado”, “preço baixo, reduzido” ou simplesmente
digamos que tal ou qual produto, serviço ou atitude são ou estão caros ou baratos:
“O ingresso tem preço alto”, “Esse casaco está barato”, “Ela vai pagar caro (preço
alto) pelo erro”, “As verduras na banca do Cícero não são baratas”, etc.

Repare ainda o seguinte:

1. “Caro” ou “barato” são adjetivos quando se vinculam a substantivos, com os


quais concordam em gênero e número: “Este livro é caro”, “A alface está
barata, “Nossos produtos são baratos”, “As casas da imobiliária Xis são
caras”.

2. Quando modificam verbos, “caro” e “barato” são adjetivos em função


adverbial e não se flexionam, ou seja, ficam invariáveis, na forma masculina.
Nesta hipótese, equivalem a “caramente” e “baratamente”: “Gisele vai pagar
caro (caramente, de modo caro) pela atitude desleal”, “Muitas vezes, o barato
sai caro (de modo caro)”, “Não vou deixar barato (baratamente, de modo
barato) essa injustiça” e “Vendemos barato (baratamente, de modo barato) o
carro”.

Dica nº 153

Sobre o "não"

A palavra “não” classifica-se normalmente como advérbio (de negação) e dessa


forma, na estrutura da frase, é considerada adjunto adverbial – pois se vincula ao
verbo –, como em “Não ® pise no tapete”, “Pensei que Leo não ® viesse hoje” e
“Os paulistas não ® gostamos de coentro”.

Pode acontecer também de esse vocábulo negativo compor substantivos. Nesta


hipótese, funciona como elemento de composição, mais precisamente como
morfema de negação, e é escrito sempre com hífen. Exemplos: “Gandhi pregava a
não-violência”, “O Brasil apóia a política da não-intervenção em outros países” e
“Esse conceito obedece o princípio da não-contradição”.

Repare ainda que às vezes o “não” pode aparecer em contextos similares aos do
parágrafo precedente e você pode ser tentado a colocar o hífen depois dele. Fique
atento a isso, pois, na verdade, trata-se de outro caso, o de verbo subentendido,
como em “Tânia é pessoa não submissa” e “Não satisfeito, ele ainda rompeu
relações com o vizinho”. Explicitado o verbo, as construções oracionais ficam:
“Tânia é pessoa que não é submissa” e “Não tendo ficado satisfeito, ele ainda
rompeu relações com o vizinho”. Naquelas condições, não cabe, pois, o hífen.

Lembramos ainda que o “não” pode ser classificado como substantivo (e nesse caso
pode-se flexionar) se antecedido de artigo – definido ou indefinido –, adjetivo ou
numeral, como em “O (artigo definido) não que você proferiu foi vigoroso, hem?”,
“Recebi um (artigo indefinido) não como resposta”, “Rodrigues distribuiu vários
(adjetivo) nãos aos subordinados” e “Eu não disse dois, foi apenas um (numeral)
não”.

Finalmente, observamos haver contextos em que o “não” funciona apenas como


partícula expletiva, como nestes exemplos: “Imagine o que ele não faria se fosse
rico” = “Imagine o que ele faria se fosse rico”; “Veja a que nível de baixaria essas
pessoas não chegaram” = “Veja a que nível de baixaria essas pessoas chegaram” e
“Ah, que sucesso eu não faria se tivesse a cara do Brad Pitt!” = “Ah, que sucesso
eu faria se tivesse a cara do Brad Pitt!”. Nestes contextos, o emprego do “não” é
estilístico. Isso implica ele poder ser retirado sem alteração do sentido geral do
texto, mas se isso ocorrer a frase perderá um pouco de sua força expressiva.

Dica nº 154

Grafia de topônimos estrangeiros

A grafia dos topônimos (nomes de lugares) estrangeiros compreende três tipos:


1. Nomes que possuem tradução em português – Se o topônimo estrangeiro
tem nome equivalente em nossa língua, este deve ser utilizado. Assim,
Londres em vez de London; Estocolmo em lugar de Stockholm; Copenhague
em vez de København; Viena e não, Wien; Moscou e não, MOCKBA.

2. Nomes que não possuem tradução em português, mas podem ser


aportuguesados – Deve-se sempre aportuguesar a forma original do
topônimo estrangeiro não traduzido, se isso for possível: Tóquio e não,
Tokyo; Xangai e não, Shangai; Nova Iorque em vez de Nova York,
Banguecoque em lugar de Bangkok; Helsinque e não, Helsinki.

3. Nomes que não possuem tradução em português nem são usualmente


aportuguesados – Estes se escrevem na forma original, se a língua é escrita
em caracteres latinos, ou de forma transliterada, caso o idioma utilize outro
tipo de caracteres. É o caso de Los Angeles (EUA), Karachi (Paquistão),
Kampala (Uganda), Tashkent (Usbequistão). Outros topônimos, como Osaka
(Japão) e Curuzu (Paraguai), deveriam ter sido aportuguesados há muito
tempo como Oçaca e Curuçu, o que teria evitado a pronúncia incorreta de
“Ozaca” e “Curuzu” (com “z”), pois, na prática, a sonoridade original desses
nomes é na realidade “s” e não, “z”.

Dica nº 155

Esperto vs. experto

Esse par de homônimos pode eventualmente levar-nos a pensar haver erro onde
não há. Ambos podem ser adjetivos e substantivos. Vejamos os sentidos dessas
palavras na condição de substantivos em diferentes contextos:

• Esperto – Indivíduo astuto e malicioso. Espertalhão. Exemplos: “O mundo é


dos espertos” e “Não quero esperto como sócio”.

• Experto – Pessoa dotada de grande habilidade ou conhecimento. Especialista.


Nesta última acepção, equivale a “perito”. Exemplos: “Procure ouvir a opinião
de algum experto” e “O experto sabe distinguir os diferentes tipos de ouro”.

Muitas vezes, deparamos com o emprego, em textos em português ou mesmo na


conversação, da forma inglesa “expert”. Evidentemente, trata-se de
desconhecimento ou, o que é pior, de comportamento colonizado, já que possuímos
a forma vernácula a disposição. O curioso é que aquela palavra, tal qual a
portuguesa, provém da mesma fonte: o latim “expertu”.

Dica nº 156

Dia a dia/dia-a-dia

A escolha dessas duas causa freqüentes dúvidas. Vamos esclarecer:


A locução adverbial “dia a dia” (sem hífen) significa todos os dias, cada dia e exerce
a função sintática de adjunto adverbial, como em "Ela trabalhou dia a dia (dia após
dia) com muita dificuldade" e “Antigamente, o custo de vida subia dia a dia”.
Observe que esse sintagma não vem determinado por artigo ou pronome.

Já a forma com hífen é substantivo composto e quer dizer diário, cotidiano e pode
exercer várias funções sintáticas. Em "Esta roupa é destinada ao uso no dia-a-dia",
"dia-a-dia" é adjunto adnominal; em "O dia-a-dia do trabalhador das minas é muito
árduo", o composto integra o sujeito "O dia-a-dia do trabalhador das minas"; em
“Considero que o dia-a-dia daqueles estudantes é equilibrado”, a função é a de
objeto direto; em “Não é raro isso ocorrer no dia-a-dia das pessoas”, adjunto
adverbial; e assim por diante.

Então, para fixar:

• Dia a dia (sem hífen) – Locução adverbial. Funciona como adjunto adverbial e
assim vincula-se geralmente a verbos. Não é precedida por artigo ou
pronome e significa todos os dias, cada dia.

• Dia-a-dia (com hífen) – Substantivo composto. Funciona como sujeito,


complemento, adjunto adnominal ou adverbial. Geralmente, é antecedido por
artigo ou pronome e quer dizer diário, cotidiano.

Dica nº 157

Através de

O emprego dessa locução prepositiva costuma suscitar dúvidas e controvérsias,


além de muitas vezes ela ser utilizada de forma incorreta. Vejamos como a norma
culta prescreve seu uso.

Em primeiro lugar, não nos esqueçamos de esse grupo vocabular ser escrito com
“s” final. Em segundo lugar, deve ficar claro que, para atender-se ao que
recomenda a Gramática, não é possível a utilização de “através” sem a necessária
preposição “de”: “através de”. Por isso, são incorretas frases como “Ouvi a notícia
através o rádio”.

Depois, desfaçamos aqui equívoco em que incorre muita gente desavisada, que não
se aprofunda no estudo e “chuta” opiniões sem base: dão vazão ao mito segundo o
qual a locução “através de” só pode ser empregada com o sentido de de um lado
para o outro, ou seja, com idéia física de movimento de lado a lado. Essas pessoas
ignoram que a língua evolui e que o sentido das palavras e expressões altera-se
conforme a vontade do grupo falante. Além do mais, “através de”, com a
equivalência de “por meio de”, “mediante” é abonada por escritores consagrados. E
ainda: entre os gramáticos eméritos brasileiros, um dos mais conservadores e
intransigentes foi o mestre Napoleão Mendes de Almeida. Pois bem, em seu
“Dicionário de questões vernáculas”, ele escreve sobre o assunto:
“Se constitui erro empregar através de para indicar o agente da passiva (O
gol foi feito através do jogador Tal), não se deve por outro lado cair no
exagero oposto de julgar que a locução só é possível quando significa ‘de um
lado para o outro’, ‘de lado a lado’ (Passou através da multidão – Passou a
espada através do corpo). Não vemos erro em: ‘A palavra veio-nos do latim
através do francês’”.

Portanto, podemos escrever com acerto: “Conheci Denise através de apresentação


do Cláudio”, “Os vocábulos oriundos do latim vulgar sofreram muitas alterações
através das mudanças fonéticas” e “As instruções vieram-nos através dos canais
hierárquicos”.

Finalmente, os puristas condenam o emprego dessa locução no agente da passiva.


Segundo eles, devemos evitar construções do tipo “Esses nomes foram
popularizados através dos meios de comunicação” e “A orientação foi transmitida
através do gabinete pessoal”, em que “meios de comunicação” e “gabinete pessoal”
são agentes da passiva. Na estruturas sucedâneas, pode ser utilizada a preposição
“por”: “Esses nomes foram popularizados pelos meios de comunicação” e “A
orientação foi transmitida pelo gabinete pessoal”.

Dica nº 158

Grafia e flexão de adjetivos pátrios de origem estrangeira

Há quem queira sobrepor-se às regras ortográficas e gramaticais e criar escritas


peculiares e normas próprias de flexão – ou não-flexão – dos adjetivos pátrios de
origem estrangeira, mormente indígenas e africanos. Incorrem em equívoco os que
assim procedem, como se ramos acadêmicos, em especial os influenciados por
outras línguas, tivessem autoridade para divergir da norma ortográfica – decorrente
de lei aprovada pelo Congresso Nacional – e criar padrões de funcionamento da
língua.

Em primeiro lugar, lembremo-nos da regra ortográfica pela qual o fone [s] em


posição medial e o [ž] (som de “j”) em posição inicial e medial grafam-se “ç” e “j”,
respectivamente. (Para ler mais, clique aqui.) É o caso de “açaí”, “jibóia” e “Seriji”.
Lembremo-nos também de que o alfabeto brasileiro não contém as letras “k”, “w” e
“y”, salvo se a próxima e prometida reforma ortográfica as restaurar. Por isso, não
cabe grafar “kadiweu” ou “yanomami”. Nem o argumento de assim ter de se
escrever porque assim se escreve nos idiomas originais procede, uma vez que as
línguas faladas por essas etnias são ágrafas, isto é, tradicionalmente não têm
escrita. Outro argumento, que não se sustenta, é o de que as grafias com aquelas
letras vão facilitar a leitura em outros países. Tenham a paciência! Os autores de
livros, revistas e jornais dessas plagas que assim façam, mas não nos submetamos
servilmente a usos alienígenas.

O fato de lingüistas estrangeiros terem elaborado gramáticas de línguas indígenas


brasileiras não nos obriga a acatar as grafias de seus idiomas de origem,
particularmente o inglês. Estamos no Brasil (alguém se esqueceu?), cuja língua
oficial é o português, que tem norma ortográfica própria, a ser respeitada. Ela
prescreve que, sempre que possível, devem-se adaptar ao padrão ortográfico
brasileiro as palavras estrangeiras, inclusive as indígenas, que, embora faladas por
indivíduos nativos, residentes no território brasileiro, são consideradas estrangeiras
em relação ao português. Por isso, não tem a menor importância o fato de parte de
alguns povos indígenas fixar-se em território nacional, parte em terras de países
vizinhos nem de ora estarem aqui, ora lá. Então, escrevamos “cadiuéu”, “caiouá”,
“macuxi” e “ianomâmi”, como escrevemos, de há muito, “asteca” (e não, “azteca”),
“maia” (e não, “maya”), “carajá”, “maué” e “iorubá” (e não, “yoruba”).

Há ainda a questão da letra – maiúscula ou minúscula – com que se escrevam


esses nomes. Pessoas há que querem, seguindo a moda inglesa, que eles sejam
iniciados com letra maiúscula. O argumento, equivocado, é o de que o nome com
inicial maiúscula designaria o conjunto da coletividade. Isso não procede. Se um
povo indígena habitasse território autônomo (como devem querer interesses
estrangeiros), este receberia nome que seus habitantes ou quem quer que fosse
daria, como por exemplo “Taurepânguia” (terra dos taurepangues). A verdade é
que o uso da inicial maiúscula nos nomes designativos desses povos obedece o
modelo inglês.

Outro ponto de discórdia refere-se à flexão de número dessas palavras. Seguindo


costumes alienígenas, muitos querem que esses nomes não se flexionem e que se
diga “os xavante”, “os bororo”. Não há alegação racional que sustente essa prática.
A assim proceder, deveríamos, por coerência, dizer “os francês”, “os russo” e “os
mexicano”, aliás, como fazem os falantes incultos aqui em nossa terra.

Os adjetivos pátrios – inclusive os substantivados – flexionam-se segundo as regras


a que se submetem os demais adjetivos. O mestre Napoleão Mendes de Almeida
afirma com propriedade que “as palavras estrangeiras, usadas em nossa língua,
devem adaptar-se, o quanto possível e o permitir o uso, à forma gráfica
portuguesa; uma vez consolidado o aportuguesamento gráfico do estrangeirismo,
fácil será flexionar-se numericamente” (ALMEIDA, 1999, 234, 3-5).

Nomes ameríndios, brasileiros ou não, africanos ou de outras procedências devem,


portanto, flexionar-se no plural sempre que possível. Se pluralizamos “asteca”
(pirâmides astecas, os astecas), “maia” (cidades maias, os maias), “inca”
(caminhos incas, os incas, ainda que se questione o uso dessa palavra para
denominar aquele povo), “iorubá” (deuses iorubás, os iorubás), “hindu” (templos
hindus, os hindus), por que não fazer o mesmo com “guarani”, ”xavante”, “carajá”,
“bororo”, “ianomâmi”, “macuxi”? Se por acaso o nome de alguma etnia indígena
terminar com “s”, não há problema. Fica assim mesmo também no plural, como
acontece com nomes portugueses, como “lápis”, por exemplo.

O fato é que, em última análise, os argumentos assestados para justificar usos


injustificáveis acabam disfarçando aquilo que quem é do ramo facilmente percebe:
a sujeição – que repudiamos – a práticas ortográficas e gramaticais estrangeiras
(leia-se inglesas) em detrimento do vernáculo.

Os venerandos acadêmicos da Academia Brasileira de Letras deveriam, além do


deleite do chá das cinco, ficar mais atentos ao que se passa com nossa língua e
tomar as providências que não tomam.
Dica nº 159

Distinção entre “um” numeral e “um” artigo

Na prática, descobre-se que "um" é numeral cardinal quando admite o acréscimo


de "só", "apenas", "único", como em "Um só homem é suficiente para erguer isso"
ou "Apenas um homem é suficiente...". Veja também que o “um” numeral pode ser
substituído por “dois”, “três”, “quatro”, etc. Assim, “Tomei um banho terapêutico
ontem e mais um hoje. Portanto, tomei dois banhos”.

Quando se trata de artigo indefinido, “um” tem por plural “uns” e sua contraparte é
o adjetivo “outro”: “Fiquei conhecendo um advogado de que há muito ouvia falar” e
“Fiquei conhecendo uns advogados de que há muito ouvia falar”. E mais: “Vou
tomar um banho hoje/Vou tomar uns (alguns) banhos hoje”. E ainda: "Um quer
vinho; outro, cerveja". Neste último exemplo, “um” significa alguém, uma pessoa.

No geral, o artigo indefinido pode ser suprimido sem prejuízo para a clareza, como
em “Estamos preparando um relatório para o diretor” e “Tenho uma coisa para
contar-lhe”. Sem o artigo, as orações ficam: “Estamos preparando relatório para o
diretor” e “Tenho coisa para contar-lhe”. Com a supressão do indefinido, não só o
sentido do texto mantém-se preservado como se verifica melhora na qualidade da
escrita. (Leia também sobre isso clicando aqui.)

Quando alguém me diz que vai tomar "um banho", pergunto brincando: "Um ou
dois?". Aí ocorre trocadilho com "um", artigo e numeral.

Devemos reconhecer que às vezes não se torna fácil a distinção de que tratamos.
Assim, em “Vi um homem na estrada”, o “um” tanto pode ser considerado numeral
(vi apenas um homem) como indefinido (vi um homem = vi certo homem). O
mesmo se passa com “Peguei um CD na estante, está bem?”. O contexto ampliado
ajudará a precisão do sentido textual.
Dica nº 160

Divisão dos textos de leis, estatutos e regulamentos

Às vezes, as pessoas têm dúvidas sobre a ordem que deve nortear a divisão dos
textos de leis, estatutos e regulamentos. Vamos esclarecer então.

Depois das macrodivisões, como partes, títulos, capítulos e seções, o usual é


encontrarmos as seguintes microdivisões, no texto oficial, nesta ordem:

1. Artigos – São discriminados por números arábicos. Até nove, empregam-se


ordinais e de dez em diante, cardinais, assim: artigo 5.º, artigo 9.º, artigo
10, artigo 25, etc. Observe a abreviação dos números ordinais, cuja grafia
exige o ponto abreviador, conforme a norma ortográfica brasileira. Lembre-se
de que se você escrever “5º”, em vez de “5.º”, deverá ler “cinco graus”. Vale
o que está escrito. Outra coisa: o cabeçalho do artigo é chamado pela palavra
latina “caput”, que neste contexto significa parte superior.
2. Parágrafos – São detalhamentos e esclarecimentos dos artigos e
representam-se pelo sinal “§”. A este segue-se o número ordinal respectivo
abreviado até nove. De dez em diante, os números são cardinais. Dessa
forma, § 2.º, § 4.º, § 10, etc. Se só há um parágrafo, escreve-se “parágrafo
único”.

3. Alíneas – São divisões dos artigos ou dos parágrafos. Geralmente, indicam-se


por letras minúsculas seguidas de parêntese fechando: a), b), c), etc.
Quando, fora do texto oficial, referimo-nos às alíneas, grafamo-las entre
aspas, assim: “De acordo com o que consta na alínea ‘b’, acima, ...”. Aqui, a
letra da alínea foi escrita entre aspas simples porque a frase já estava entre
aspas.

4. Incisos – São divisões das alíneas e indicam-se, geralmente, por algarismos


romanos: I, II, III, etc.

Exemplifiquemos:

“Art. 4.º – Os procedimentos para se efetivarem as promoções são os previstos no


Regulamento Geral, observado que:
a) as três últimas avaliações de desempenho não devem conter qualquer restrição
ao funcionário;
b) exarado o parecer da Comissão de Promoções, será ele levado para a diretoria
de Pessoal para análise;
c) a diretoria de Pessoal confirmará os nomes dos promovidos levando em conta
um dos seguintes critérios:
I. A capacidade do servidor, atestada pela avaliação;
II. O tempo líquido de serviço do funcionário.”.

Agora, exemplo em que figuram parágrafos:

“Art. 11 – A Associação será administrada por uma diretoria composta de Diretor-


Presidente, Diretor-Secretário, Diretor-Tesoureiro, Diretor de Relações Públicas e
Sociais e Diretor de Patrimônio.
§ 1.º – A Associação poderá contar com o auxílio de assessores em
número ilimitado, que ficarão vinculados a quaisquer diretorias.
§ 2.º – Cada assessor será indicado por um diretor e deverá ter seu nome
aprovado em reunião da diretoria.
§ 3.º – Os assessores exercerão atividades de consultoria e participarão
das reuniões da administração social quando convidados, nas quais não
terão direito a voto, conforme a seguir:
a) as participações dos assessores não terão custos para a Associação;
b) os pareceres dos assessores deverão ser apresentados por
escrito e entregues ao diretor respectivo, conforme o ‘caput’ deste
artigo, e serão:
I. Redigidos através de computador e impressos em papel A4.
II. Entregues em duas vias.
III. Protocolados pela Secretaria.”.
Quando precisamos nos referir a essas divisões, podemos ordená-las do geral para
o particular ou do particular para o geral, como nos seguintes exemplos:

• Nossa posição está embasada no artigo 4.º, § 3.º, alínea “c”, inciso IV.
• Refiro-me ao inciso IV da alínea “c” do § 3.º do artigo 4.º.

Dica nº 161

Concordância e ordem direta

A sintaxe portuguesa estabelece a seguinte ordem, considerada “natural”, dos


termos essenciais da oração: sujeito, predicado e complemento. É a ordem direta.
O estudo em boa gramática esclarecerá o sentido desses termos técnicos.

Tal estudo revelará também quais os tipos de ajuste – a concordância – que deve
haver entre aqueles termos. Assim, a concordância é verbal quando o verbo se
harmoniza com o sujeito e nominal, quando o adjetivo se ajusta ao substantivo; o
predicativo, ao sujeito e o pronome, ao nome a que se refere.

O que nos interessa agora é saber como a ordem direta ajuda a precisar a
concordância, tanto a verbal como a nominal. Comecemos pela verbal.

Muitas vezes, ficamos em dúvida ou mesmo incorremos em erro de concordância


por estarem aqueles termos na ordem inversa. É o caso de “Consta algumas
informações importantes no texto”. Localizamos o sujeito perguntando ao verbo
quem ou o que praticou tal ou qual ação ou quem está em determinado estado.
Sobre a oração acima, interrogamos: o que consta? A resposta é: algumas
informações importantes. Portanto, o sujeito dessa oração é “algumas informações
importantes”, que está posicionado depois do predicado – na ordem inversa, pois –,
este constituído da forma verbal “consta” e do adjunto adverbial “no texto”. Na
ordem direta, a construção fica: “Algumas informações importantes consta no
texto”. Vemos então que alguma coisa está errada: se o sujeito está no plural, o
verbo – que deve concordar com ele – precisa também ficar no plural. Em
conseqüência, mantida a ordem inversa, temos: “Constam algumas informações
importantes no texto”.

Vejamos a oração “Há de concorrer para isso, certamente, além da fé, outros
fatores que proporcionam estabilidade emocional às pessoas”. A antecipação do
predicado e seu distanciamento do sujeito facilitam a falta de concordância. Vamos
pôr os termos da oração principal em seus devidos lugares, ou seja, na ordem
direta: “Outros fatores há de concorrer certamente para isso além da fé”. Não há
concordância, vê-se claramente. O sujeito plural, “outros fatores”, requer o verbo
também no plural. Por isso, temos de construir “Outros fatores hão de concorrer
certamente para isso além da fé”.

Outro exemplo: “Que entre os bons, pois os melhores estão saindo". Parte da
estrutura está na ordem inversa. É só pormos os termos na ordem direta e a
concordância torna-se clara: “Que os bons entrem, pois os melhores estão saindo".
Como o sujeito é plural, "os bons", o verbo deve necessariamente concordar com
ele e também ir para o plural: "entrem".

Agora, dois exemplos de concordância nominal:

Tomemos a oração “Foi dado ciência ao delegado de plantão". Coloquemo-la na


ordem direta: “Ciência foi dado ao delegado de plantão”. Não está certo, não é? O
correto, pois, é "Ciência foi dada ao delegado de plantão" ou, na ordem anterior,
"Foi dada ciência ao delegado de plantão". É o mesmo caso de "Foi dada voz de
prisão". Nos dois exemplos, o particípio (dada), que integra o predicativo, tem
função adjetiva e por isso concorda com o substantivo ao qual se liga (ciência, voz
de prisão). Concluímos que na ordem direta isso fica mais evidente.

Mais esta: "Vem sendo apresentada inúmeras denúncias de mau comportamento".


Na ordem direta, a oração fica: "Inúmeras denúncias de mau comportamento vem
sendo apresentada". Constatamos claramente que o predicativo (apresentada) não
concordou com o sujeito (inúmeras denúncias de mau comportamento), como
deveria. Notamos também que não houve concordância verbal, pois a forma “vêm”
é que precisaria ser empregada para concordar com o citado sujeito. A construção
correta, portanto, é "Vêm sendo apresentadas inúmeras denúncias de mau
comportamento".

Então, você já sabe: quando tiver dúvida sobre concordância, verifique se os


termos da oração encontram-se na ordem direta. Se não estiverem, ponha-os –
sujeito, predicado (verbo) e complemento – e as coisas ficarão mais claras.

Dica nº 162

O artigo definido e a determinação do substantivo

Fator importante para a compreensão dos textos é a leitura atenta da presença ou


ausência do artigo definido: “o”, “a”, “os”, “as”. Na elaboração textual, a colocação
ou não de exemplares dessa classe de palavras vai, em alguns casos, ser
fundamental para a ocorrência da crase.

Comecemos por constatar que o artigo definido determina o substantivo, ou seja,


indica que se trata de algo ou alguém determinado, que se conhece, como em ‘Vejo
o pai da Vanessa" e “Trata-se da Sílvia, a ruiva mais linda da capital federal”. Se só
há uma secretaria, podemos dizer que “Jair perguntou onde ficava a Secretaria da
escola”.

Do mesmo modo, o artigo acompanha nome de que se sabe ou de que já se falou


antes. Assim, construímos “Emerson estava com um copo de vinho na mão quando
Tânia se aproximou. Continuou a segurar o copo e olhou-a nos olhos” e “Afonso
estava no zoológico com o garoto Adilan, diante da jaula do leão. O pai explicou
calmamente ao filho alguns hábitos do felino”. Se pergunto “Onde está o
dinheiro?”, depreende-se que se trata de dinheiro do qual já se sabe. E mais: “É o
presidente mais popular da história do País”. Por já se saber de qual país se trata,
usa-se o artigo e coloca-se “P” em “País”. “Conheço Hamilton desde os tempos do
colégio” e “Acho que Daisy estava com problema na cabeça”. Sabemos de qual
colégio estamos falando. Quanto a Daisy, a referência é obviamente à cabeça dela,
pois não poderia estar com problema na cabeça dos outros.

Tratando-se de pessoas, quando não se tem conhecimento ou intimidade suficiente


ou se quer manter alguma distância formal, não se usa o artigo, como em “A
dissertação de Carlos Mamede (em vez de “do Carlos”) teve aprovação unânime” e
“Foi eloqüente a fala de dom João Braz de Aviz” (e não, “do dom João”).

Usa-se também o artigo definido quando queremos passar a idéia de totalidade e


não, de parte dela, como neste exemplo que vimos há pouco: “O pai explicou
calmamente ao filho os hábitos do felino”. Se a estrutura fosse “O pai explicou
calmamente ao filho hábitos do felino”, sem o “os”, entenderíamos que teriam sido
explicados parte dos hábitos e não, todos. É o mesmo caso de “Vi os empregados
saírem”. Caso escrevêssemos “Vi empregados saírem”, a referência seria apenas a
parte dos empregados e não, a todos.

Veja agora mais dois casos de uso ou não do artigo definido. Repare na diferença
entre “Felipe vai voltar para casa” e “Felipe vai voltar para a casa”. Na primeira
frase, queremos dizer que Felipe vai voltar para o lar, para o lugar em que mora,
independentemente do tipo de construção de que se trate. Já na segunda, a volta é
para o tipo de edificação denominado “casa”, de um ou dois pavimentos, da mesma
forma que diríamos “Felipe esteve na casa”. Contudo, se acrescentarmos algum
qualificativo, tal oração poderá readquirir o primeiro sentido, como em “Felipe vai
voltar para a casa dos pais”, em que não se sabe se se trata de casa térrea ou
apartamento. Concluímos, pois, que no sentido de lar, lugar onde se mora, “casa”
geralmente não é acompanhada de artigo: “Ficaremos em casa”, “Saímos de casa”.

Examinemos agora outro aspecto: quando o emprego ou não do artigo feminino


acarreta a colocação ou ausência do acento grave indicador de crase. Em “Dirigiu-
se a alunas da classe” (parte das alunas), o “a” é preposição, que faz parte da
regência do verbo “dirigir-se“ (dirigir-se a algum lugar). Se, porém, dizemos
“Dirigiu-se a + as alunas da classe”, quero dizer que alguém dirigiu-se a todas as
alunas da classe. Neste caso, o “a” preposição vai-se fundir com o “as”, artigo, por
crase: “Dirigiu-se às alunas da classe”. Outro exemplo é “O fiscal referiu-se a
maçãs da banca do Cícero”. Não foi utilizado o artigo definido feminino antes de
“maçãs” e assim entendemos que o fiscal se referiu a algumas maçãs apenas.
Entretanto, se empregamos o artigo, o entendimento é o de que o fiscal referiu-se
a todas elas. Aí haverá crase também: “O fiscal referiu-se a + as maçãs da banca
do Cícero = O fiscal referiu-se às maçãs da banca do Cícero”.

Às vezes, usamos o artigo definido em caráter expressivo, para realçar algo ou


alguém, como em “Ele não é apenas bom, ele é o bom” e “João Guimarães é o
cara”. Vieira possui trecho muito elucidativo do que ora falamos: “Os outros
também eram seus filhos, não o negara Jacó; mas o seu filho era José. Vai muito
de ser filho a ser o seu filho” (ALMEIDA, 1999, § 243, Obss., 1.ª). Celso Cunha
chama este uso de “artigo de notoriedade”.
É bom ficar claro que não se explorou nesta página toda a teoria do artigo, mesmo
do definido. O foco foi dado apenas na função determinativa dessa classe de
palavras. Para conhecimento completo do assunto, é necessário seu estudo em boa
gramática, como as abaixo indicadas.

Dica nº 163

Invariabilidade do advérbio

Todos nós estudamos e os professores ensinamos que o advérbio é classe de


palavras invariável. Assim, ele não se flexiona em gênero (masculino/feminino)
nem em número (singular/plural).

Consta também que o advérbio, por ser invariável, não está sujeito a variações de
grau (diminutivo, aumentativo, superlativo). Entretanto, não é isso que se vê no
dia-a-dia da língua.

Há uma série de variações de grau que atingem o advérbio, palavra que se pode
situar no grau comparativo e no superlativo. Assim, podemos, com uso de
advérbio, expressar idéias de comparação de igualdade (com auxílio de “tão” e
“como” ou “quanto”), superioridade (valendo-nos de “mais” e “que” ou “do que”) e
inferioridade (com emprego de “menos” e “que” ou “do que”): “Norma chegou tão
cedo como (ou “quanto”) Mercedes”, “Norma chegou mais cedo que (ou “do que”)
Mercedes” e “Mercedes chegou menos cedo que (ou “do que”) Norma”.

O advérbio pode ainda variar no grau superlativo: “Nas férias, Gabriel estudou
pouco e Vanessa, pouquíssimo”, “O Corinthians vai muitíssimo bem” e “O foguete
subiu rapidissimamente”.

O advérbio assume amiúde a forma diminutiva mediante o emprego dos sufixos “-


inho” ou “-zinho”. Veja se não lhe parecem familiares frases como “Daniela saiu
agorinha mesmo”, “Luzia finalmente conseguiu ficar juntinho de Joaquim”, “O navio
partiu cedinho”, “A biblioteca fica pertinho da reitoria”, “O sítio do Nelson é bem
longinho daqui”, etc.

Nesses casos, os falantes, ao arrepio da vontade dos gramáticos, aplicam, com


função enfática, o diminutivo nesses advérbios. Em outras palavras, põem ênfase
neles. Em conseqüência, as idéias que essas formas adverbiais transmitem
adquirem mais intensidade: “agorinha = exatamente agora, há poucos minutos”,
“juntinho = muito junto, bem próximo”, “cedinho = muito cedo”, “pertinho = muito
perto”, “longinho = um bocado longe”.

Os doutores da língua consideram serem essas formas próprias da linguagem


familiar ou coloquial e, conseqüentemente, recomendam sejam evitadas no padrão
formal. Contudo, elas já se começam a insinuar nos textos de escritores
conhecidos. A “Nova gramática do português contemporâneo” oferece vários
exemplos delas:

Ø “Vem cedinho, vem logo que amanheça!” (E. de Castro, “Últimos versos”).
Ø “Era mais de meia-noite quando ele entrou lento, devagarinho” (Coelho
Netto, “Obra seleta”).

Ø “Só faltaram os mapas de Marte, diz baixinho” (M. J. de Carvalho, “Tempo de


mercês”). Neste exemplo, “baixo” é adjetivo em função adverbial, já que
modifica a flexão verbal “diz”. Leia mais sobre isso clicando aqui.

Por tudo o que há pouco vimos, melhor seria os especialistas reverem o conceito de
invariabilidade do advérbio. Poderiam inclusive admitir como correta, ainda que de
forma limitada, mas também na escrita, a flexão da citada classe de palavras.

Dica nº 164

Ditongos crescentes e decrescentes

Os ditongos podem-se classificar de acordo com três diferentes critérios. Um deles


baseia-se na posição da vogal tônica do ditongo e da semivogal na estrutura da
sílaba.

Vale lembrar que no ditongo existem sua vogal tônica – que não é necessariamente
a tônica da palavra – e a semivogal. Assim, em “ca-ra-gua-tá”, o “a” assinalado é a
vogal tônica do ditongo /wa/ e não é a tônica da palavra, que é o último “a”, em
“tá”. Dizemos “vogal tônica do ditongo” porque, na verdade, a semivogal é também
vogal. Então, no ditongo, há a vogal tônica e a semivogal, átona.

Muito bem: pelo critério acima mencionado, os ditongos classificam-se em


crescentes e decrescentes. O que vem a ser isso? Veremos já.

Na estrutura da sílaba, existem três posições: o ápice ou centro da sílaba – sempre


ocupado por vogal – e as encostas ou laterais: o aclive, a encosta em que se situa
o fonema ou fonemas que antecedem a vogal, e o declive, encosta em que se
localiza o fonema ou fonemas que a seguem. Vejamos como isso se passa em
alguns exemplos de estrutura da sílaba::

Saiba que nem todas as sílabas possuem fonemas nessas três posições: há sílabas
que têm fonema no aclive e ápice (“pa”, em “ca-pa”); outras, no ápice e declive
(“ar”, em “ar-co”) e outras só no ápice (“a”, em “a-mor”).

Agora, você vai ver alguns exemplos de fonemas na estrutura de sílabas que
apresentam elementos nas três posições. Tomemos, nas palavras “bo-lor”, “fil-tro”
e “de-mais”, as sílabas “lor”, “fil” e “mais”. No alfabeto fonético (que representa
tecnicamente os fonemas), elas são escritas /lor/, /fil/ e /mays/. Vejamos agora
como essas sílabas dispõem-se nos diagramas que as representam:

Repare que as vogais sempre ocupam o ápice ou centro da sílaba. Nesta altura,
você deve-se estar perguntando: ué, onde estão os ditongos crescentes e
decrescentes? Calma, estamos quase chegando lá. A explicação que acabou de ser
dada é necessária para o entendimento do que vem a seguir.

Acreditamos você haver notado que o último exemplo de sílaba – /mays/ – contém
ditongo. Se pensou isso, acertou. Realmente, na sílaba /mays/, existe o ditongo
/ay/. Observe que, no diagrama, a vogal, /a/, do ditongo ocupou o ápice e a
semivogal, /y/, o declive. É assim mesmo que as coisas se passam: a vogal tônica
do ditongo está sempre no ápice ou centro da sílaba e as semivogais (/y/ = “i” ou
/w/ = “u”), no aclive ou declive. Bem, agora chegamos ao ponto que interessa: a
posição, na estrutura da sílaba, dos fonemas que compõem os ditongos.

Sejam as palavras “de-pois”, “co-meu”, “i-gual” e “gló-rias”. No alfabeto fonético,


as sílabas assinaladas são escritas assim: /poys/ - /mew/ - /gwal/ - /ryas/. Sua
estrutura é a mostrada pelos seguintes diagramas:

Você, com sua esperteza, já percebeu que todas essas sílabas contêm ditongos.
Pois é isso mesmo. Na sílaba 1, o ditongo é /oy/ = oi; na 2, é /ew/ = eu; na 3,
/wa/ = ua e na 4, /ya/ = ia.

Pela observação dos diagramas, constatamos que nas sílabas 1 e 2 a semivogal


está no declive. Portanto, depois da vogal, que está no ápice. Então, da posição em
que estão as vogais /o/ e /e/ até o declive, onde se encontram as semivogais /y/ e
/w/, há decréscimo, ou seja, descemos.

Já nas sílabas 3 e 4 vemos que as semivogais estão no aclive; portanto, antes da


vogal, que está no ápice. Da posição em que se localizam as semivogais /w/ e /y/
até o ápice, onde está a vogal /a/, há subida, isto é, crescimento.

Agora, ficou fácil entender por que se diz que os ditongos podem ser “crescentes” e
“decrescentes”, não ficou? Assim, o ditongo é crescente quando a semivogal está
no aclive, antes da vogal e, portanto, cresce-se da encosta (aclive) para o topo
(ápice) da sílaba. Ele é decrescente quando a semivogal situa-se no declive, depois
da vogal e desse modo decresce-se do ápice para a encosta (declive) da sílaba.
Você pode ainda perguntar: cresce e decresce o quê? A intensidade da emissão
sonora: da semivogal (fraca) para a vogal (forte) há crescimento da intensidade do
som vocal. Da vogal (forte) para a semivogal (fraca), há decréscimo.

Exemplos de mais palavras que contêm ditongos crescentes: “á-gua”, “ân-sia”, “lí-
rio”, “qua-se”, “sa-güi”, etc.

Palavras em que há ditongos decrescentes: “boi”, “con-tei”, “fu-giu”, “rou-pa”,


“sau-da-de”, etc.

A compreensão de tudo isso certamente ajuda a entender uma das regras de


acentuação gráfica, a que diz que as palavras paroxítonas terminadas em ditongo
crescente são sempre acentuadas, caso dos exemplos já vistos “água”, “ânsia”,
“lírio”, etc. Para ler mais sobre esse tema, clique aqui.

Dica nº 165

Emprego do sufixo “-dade” (“-idade”)

O sufixo “-dade” é acrescido a adjetivos para formar substantivos que expressam a


idéia de estado, situação ou quantidade. Vamo-nos concentrar nos dois primeiros
conceitos e desse modo temos “igual + dade = igualdade”, “leal + dade =
lealdade”, “mal + dade = maldade”, etc.

Ao receber tal sufixo, os adjetivos terminados em “-az”, “-iz”, “-oz” e “-vel”


reassumem a forma latina, uma das quais é “-bil”. Assim, o adjetivo “amável”
forma o substantivo que a ele se refere retomando a forma que tinha no latim:
“amabile”, sem o “e” final: “amabil-“. Soma-se a ele o sufixo “-dade”, desta forma:
“amabil + idade = amabilidade”.

Você vai estranhar: ué, mas o sufixo não é “-dade”?! Como temos aí “amabil-i-
dade”? É que – e as principais gramáticas brasileiras não falam nisso – nesse caso
é acrescida vogal de ligação por motivo de eufonia e facilidade de pronúncia. Então,
ora podemos ter o sufixo “-dade”, como em “bondade”, ora “-idade”, como em
“volatilidade”.

São muitos os substantivos formados a partir da forma latina do adjetivo


correspondente, que em grande parte dos casos indicam, como já dissemos, estado
ou situação. Retomemos o substantivo “amabilidade”, que significa condição de
amável, e vejamos alguns outros construídos semelhantemente, empregados de
forma adequada:
• “O presidente foi tratado com muita amabilidade pelo anfitrião” –
“Amabilidade”: condição de amável.
• “No debate, discutiu-se a invariabilidade do advérbio” – “Invariabilidade”:
condição ou estado de invariável.
• “Deficientes enfrentam problemas, como falta de acessibilidade e desrespeito”
– “Acessibilidade”: condição de acessível.
• “As medidas contribuirão para dar sustentabilidade à extração da castanha” –
“Sustentabilidade”: condição de sustentável.

Ocorre que nos dias atuais há freqüentemente inadequação do emprego dos


substantivos assim formados. O problema aumenta na razão direta da proliferação
de nomes que contêm o sufixo “-idade” por confusão com nomes correlatos. Desse
modo, vemos:

• “Composições receberam melhorias de confortabilidade e condições de


acesso” – O correto é “conforto”.
• “Isso foi feito para evitar certa irritabilidade na população” – O correto é
“irritação”.
• “Vamos verificar a condição de habitabilidade do imóvel” – O correto é
“habitação”.

Nesses três contextos, no significado do vocábulo adequado – “conforto”, “irritação”


e “habitação” –, não existe o traço condição ou estado. Por isso, não cabe o
substantivo terminado em “-idade”.

É preciso estarmos atentos para não incorrer em equívocos. Faz-se necessário,


portanto, antes de nos dispor a empregar substantivos com o sufixo considerado,
vermos se o sentido tem a ver com “condição” ou “estado”.

Dica nº 166

Adéqua ou adequa?

Nem uma nem outra. Os verbos “adequar/adequar-se”, “brotar”, “doer”, “falir”,


“latir”, “precaver-se”, “reaver” e outros não se conjugam – na norma culta da
língua e em sentido denotado – em todos os modos, tempos e pessoas. Por isso,
são chamados “defectivos”.

E por que isso ocorre? As causas são várias: para evitar confusão com flexões de
outros verbos de emprego mais freqüente ou por questão de eufonia ou mesmo por
desuso. Dessa maneira, a primeira pessoa do presente do indicativo do verbo “falir”
não é utilizada por já haver a forma “eu falo”, do verbo “falar”; à pronúncia
desagradável e/ou difícil é atribuída a falta da primeira pessoa do presente do
indicativo e as do presente do subjuntivo do verbo “abolir”; pelo desuso, justifica-
se a defectividade de “fremir”, “fulgir”, “haurir”, “jungir”, “ungir” e outros.

O verbo “adequar/adequar-se” só se conjuga, no indicativo, na primeira e segunda


pessoa do plural (“adequamos” e “adequais”) e faltam-lhe todas as flexões do
presente do subjuntivo e do imperativo negativo. No imperativo afirmativo, só é
flexionado na segunda pessoa do plural (“adequai”). Na prática, esse verbo aparece
mais freqüentemente no infinitivo impessoal ou não-flexionado (“adequar”) e no
particípio (“adequado”). Veja a conjugação completa desse verbo em RYAN, 1989,
p. 82.
Que fazer então? Simples: quando, ao falar ou redigir, pretendemos empregar tal
verbo (ou outros defectivos) em uma das flexões faltantes, é só substituí-lo por
sinônimo que caiba no contexto considerado. Assim, construímos “Sua proposta
não se compatibiliza com os interesses da empresa” e “Ajustei o texto à nova
legislação”.

O quadro descrito, porém, não é estático e eterno: se e quando a maioria dos


usuários da língua resolver mudar tal situação, essa e outras conjugações da
espécie certamente serão alteradas.

Dica nº 167

Ortoepia/Ortoépia

O termo “Ortoepia” significa pronúncia correta dos sons isolados (vogais e


consoantes). Podemos, porém, falar em “correção” para a pronúncia das palavras?
É verdade que tudo no idioma resulta de convenção, isto é, de acordo entre os
falantes. Isso vale até mesmo para outros setores da língua, como a sintaxe, onde
há regras mais rígidas. Contudo, parece que, no que se refere à área fonética,
talvez seja mais apropriado falar em uso do que em correção.

Assim, o uso que a grande maioria dos falantes faz é o fator determinante da
pronúncia aceitável das palavras. Quem se põe a falar diferente, chama a atenção
dos demais, quando não é corrigido.

Comecemos pela própria palavra “Ortoepia”: a derivação do original grego impõe a


pronúncia paroxítona: “Ortoepia”, com “ê”. Entretanto, a forma mais usual é
proparoxítona: “Ortoépia”, com “é”. Se a maioria quer assim, assim é.

A alteração da pronúncia dos fones geralmente se dá com relação ao timbre e ao


acento tônico. Não vamos aqui tratar das mudanças que afetam esse último, mas
apenas das relacionadas com as vogais (timbre e altura) e a substituição de
algumas consoantes.

Seguem algumas palavras em que há vacilação quanto à pronúncia culta de fones.


Os acentos estão colocados apenas para assinalar o timbre (aberto ou fechado) ou
o fone em que houve alteração:

Às vezes, as pessoas que aderem a certo tipo de pronúncia concentram-se em


certa região e sua quantidade é grande o suficiente para caracterizar regionalismo,
ou seja, norma de uso por certo grupo falante. Vão aqui alguns exemplos de
regionalismos:
Quando a pronúncia desviada não altera o significado da palavra, produz, no
máximo, estranhamento. Entretanto, às vezes, a emissão inadequada dos fones
muda o significado. Isso tem estreita relação com o fenômeno da paronímia e a
palavra que tencionávamos emitir acaba sendo substituída indevidamente por outra
de pronúncia muito próxima. É aí que mora o perigo: dizemos uma coisa em lugar
de outra.

Vejamos alguns exemplos de mudança na emissão de vogais ou consoantes com


alteração do significado:

Comprimento (extensão) – Cumprimento (saudação)


Deferimento (concessão) – Diferimento (adiamento)
Despercebido (desatento) – Desapercebido (desprevenido)
Descriminar (não considerar crime) – Discriminar (distinguir)
Despensa (lugar para guardar alimentos) – Dispensa (desobrigação)
Emergir (vir à tona) – Imergir (afundar, mergulhar)
Emigrar (sair de mudança de um país) – Imigrar (vir de mudança para um país)
Flagrante (evidente) – Fragrante (aromático)
Mandado (ordem judicial) – Mandato (procuração, delegação popular)
Secessão (separação) – Sucessão (seqüência, transmissão)
Tráfego (trânsito) – Tráfico (comércio ilegal)
Treplicar (refutar com tréplica) – Triplicar (tornar três vezes maior)
Vultoso (de grande vulto) – Vultuoso (acometido de vultuosidade, inchado)

Portanto, se quisermos estar com o “passo certo”, isto é, afinados com a maioria
dos membros do grupo falante, devemos atentar para a pronúncia usual.

Dica nº 168

Prosódia

Prosódia é a parte da Fonética que descreve a pronúncia (das palavras) usualmente


aceita pela maioria dos falantes cultos, especialmente quanto ao acento tônico. Por
isso, não se deve falar propriamente em “correção”, mas em padrão de uso quando
falamos de pronúncia.

A quase totalidade das nossas palavras provém do latim e em conseqüência a


prosódia portuguesa segue a latina na maior parte dos casos.
Repetimos aqui então que, no que se refere à prosódia, é importante conhecer
onde se encontra o acento tônico da palavra, ou seja, qual é a sílaba tônica. Além
desta, há também, em palavras de maior extensão, a “subtônica”, isto é, a
pronunciada mais intensamente que as demais átonas. Antigamente, a subtônica
recebia acento gráfico (grave), como “cafèzinho” e “ràpidamente”, prática abolida
em 1971.

O desvio do padrão majoritariamente aceito constitui o vício fonético denominado


“silabada”, a ser evitado. Segue abaixo lista incompleta de palavras cuja sílaba
tônica está assinalada de acordo com a pronúncia culta:

Oxítonas

Gibraltar
Nobel (é)
recém- (ê)
refém (ê)
sutil (Existe “sútil”, adjetivo e substantivo, com outros sentidos.)
ureter (ê-é)/ureteres (ê-é-ê) (Já houve a pronúncia paroxítona.)

Paroxítonas

acórdão (A imprensa às vezes publica “acordão”, aumentativo de “acordo”, com


outro sentido.)
avaro (Há também “ávaro”, com outro sentido.)
aziago
batavo
bênção (Na norma popular, encontra-se “benção”, oxítona.)
Bolívar
bórax
cânon
cartomancia
ciclope (ó) (Há tendência para a transformação em proparoxítona, com “ô”.)
cível (A forma oxítona “civil” é outra palavra.)
decano (â)
díspar
druida (drui-da)
edito (Há também o substantivo na forma proparoxítona, com “é”.)
filantropo (ô)
gratuito (Há tendência para a divisão silábica em “gra-tu-í-to”.)
ibero (é)
indene (ê)
libido
maquinaria
Martinez (Não existe “Martinez”, oxítona; o que há é a pronúncia original
espanhola, paroxítona, ou a correspondente portuguesa “Martins”.)
misantropo (ô)
Normandia
pegada
perito
projétil (é) [A forma oxítona – projetil (ê) também é admitida.]
pudico
quiromancia
réptil (Vale o mesmo dito sobre “projetil”.)
rubrica (Em “Formato mínimo”, canção gravada pela banda Skank, encontra-se a
pronúncia proparoxítona. Condescendentemente, entendamos que o Samuel Rosa
e o Rodrigo Leão valeram-se do recurso denominado “licença poética”, já que há
vários vocábulos proparoxítonos na letra da música.)
têxtil

Proparoxítonas

arquétipo
ávaro (O substantivo e o adjetivo relacionam-se com os ávaros, povo bárbaro
oriundo da Ásia Central, que assolou a Europa entre o século VI e o VIII e acabou-
se tornando europeu.)
bávaro
brâmane
cânone
cômputo (Substantivo; a forma paroxítona é flexão do verbo “computar”.)
édito (Como já vimos, há também a forma paroxítona, com “ê”.)
ínterim
Lúcifer (ê) (A pronúncia popular é oxítona, com “é”.)
monólito (A pronúncia paroxítona, com três “ôôô” é muito comum.)
Niágara
ômega
protótipo
végeto [Há também “vegeto” (ê-é), flexão do verbo “vegetar”.)
zênite

“Estratégia” pode ser proparoxítona ou paroxítona conforme a divisão silábica: “es-


tra-té-gi-a” ou “es-tra-té-gia”.

Há palavras que, mesmo na língua culta, admitem dupla prosódia, como “acróbata
(ó)/acrobata (ô)”, “ambrósia (ó)/ambrosia (ô)”, “anídrido/anidrido”,
“boêmia/boemia”, “crisântemo/crisantemo (ê)”, “hieróglifo (ó-ô)/hieroglifo (ô-ô)”,
“homília/homilia”, “Ortoepia ê)/Ortoépia (é)” (veja a propósito a dica n.º 167),
“projétil (é)/projetil (ê)”, “réptil (é)/reptil (ê)”, “xérox (é)/xerox (ê)”,
“zangão/zangão”.

Por vezes, há diferença entre a prosódia brasileira e a lusitana. Assim, enquanto no


Brasil a pronúncia culta é “pudico” e “rubrica”, em Portugal são correntes as
formas proparoxítonas.

Com o passar do tempo, o acento tônico pode-se deslocar, fenômeno relativamente


comum. Assim, “pântano” já foi “pantano”. Em nossos dias, testemunhamos a
transformação de proparoxítonos em paroxítonos em razão da tendência que os
falantes da língua portuguesa têm de evitar aqueles. Exemplo disso são “ânodo” >
“anodo”, “aríete” > “ariete (ê-ê)”, “cátodo” > “catodo (ô)”, “clítoris (ô)” > “clitóris
(ó)”, “elétrodo (ê-é)” > “eletrodo (ê-ê)”. Por influência espanhola, o original
“Oceânia” tornou-se paroxítono – “Oceania” –, com a divisão silábica “O-ce-a-ni-a”.
Ainda assim, admitem-se também as formas “O-ce-â-ni-a”/”O-ce-â-nia”.

Para estarmos com o “passo certo”, ou seja, de acordo com a maioria, é


conveniente emitirmos as palavras com o acento tônico normalmente aceito e
assim evitamos a silabada.

Dica nº 169

O prefixo “re-“

O prefixo “re-“, de origem latina, pode ter três sentidos:

1. Repetição, como em “recapear” (tornar a capear), “recapitalizar” (tornar a


capitalizar), “recarregar” (carregar de novo), “repisar” (pisar de novo,
repetir), “reler” (voltar a ler), “repaginar” (paginar novamente), “renumerar”
(numerar de novo alterando a sequência ou a ordem dos números), “rever”
(ver de novo), “repensar” (pensar novamente reconsiderando), etc.
Observamos que em certas palavras esse prefixo não tem apenas o
significado de repetição: algum outro traço semântico é adicionado ao
significado do verbo ou do substantivo derivado.

2. Reforço, a exemplo de “rebuscar” (buscar minuciosamente), “rejubilar”


(causar muito júbilo, alegria), “revidar” (de “re + envidar”: responder ofensa
com outra maior), “revigorar” (aumentar o vigor), “revirar” (virar muitas
vezes), etc.

3. Retrocesso, recuo, como em “reflorestar” (recompor a floresta), “reiniciar”


(voltar ao início), “retornar” (voltar para o ponto de partida), etc.

Algumas palavras, como “reformar” e “reluzir”, aparentam conter o prefixo “re-“ e


isso pode mesmo ser verdadeiro, mas devemos ter em mente que elas se
formaram no latim e não, no português. Portanto, não devemos considerar tal
prefixo em sua constituição, pois esses verbos já ingressaram no português desse
modo. Levamos em conta aqui, pois, a existência de “re-“ nas palavras formadas
no português.

Muitos outros vocábulos iniciados pela sílaba “re” não contêm o prefixo referido e o
aluno ou o “concurseiro” devem estar atentos para não ser vítimas de armadilhas. É
o caso de “rebentar” (explodir ou quebrar com violência), “recordar” (lembrar-se),
“registrar” (escrever ou assinalar), “relatar” (fazer relato), “reparar” (consertar ou
notar), “reter” (guardar ou segurar com firmeza), “retificar” (tornar reto, corrigir ou
purificar), “revelar” (descobrir ou divulgar), “revoltar” (indignar, sublevar), etc.

http://www.paulohernandes.pro.br/
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