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Centro Universitário do Norte

Presidente
Waldery Areosa Ferreira
Reitora
Maria Hercília Tribuzy de Magalhães Cordeiro
Pró-Reitor Administrativo
José Frota Pereira
Pró-Reitora Acadêmica
Leny Xavier Louzada
Diretor Financeiro
Fernando Martins
Diretor do Colégio do Norte
Antônio Ordival da Silva
Diretora de Ensino de Graduação
Maria Izolda de Oliveira Barreto
Diretor de Pós-Graduação e Pesquisa
Tristão Sócrates Baptista Cavalcante
Diretora de Extensão
Júlia Cristina Silveira Camilotto
Coordenação Editorial
Grace Soares
Capa
Silas Santos e Talita Soares
Projeto Gráfico e editoração
Talita Soares
Edição de Imagens
Daniele Seixas

Conselho Científico
Prof. Msc. Allan Soljenítsin Barreto Rodrigues (FBN)
Profa. Dra. Ierecê Barbosa Monteiro (UNINORTE)
Prof. Dr. Walmir Albuquerque (UEA)

A exatidão das informações, conceitos e opiniões são de exclusiva responsabilidade dos autores.

Publicada em dezembro de 2009

3
FICHA CATALOGRÁFICA

Revista Científica Saber do Norte:edição /Centro Universitário do Norte/Laureate.


Programa de Pós-Graduação ciências sociais aplicadas.
Ano 1, n.1, 2009-Manaus: Uninorte / Laureate,2009
Publicação Semestral

1. Educação 2. Interdisciplinaridade 3. Ciências e Mídia Regional.


Educação Ambiental 4. Amazônia no Cinema Brasileiro

CDU:303

Bibliotecária Alcimar Matta da Silva CRB 266/AM

4
Sumário
artigos e autores

APRESENTAÇÃO
05
Grace Soares

Marcos Conceituais Para O Desenvolvimento Da


Interdisciplinaridade
Amarildo Menezes Gonzaga 07

CIÊNCIA E MÍDIA REGIONAL: NAS ENTRANHAS DA REDE


Cidoval Morais de Sousa 26
Karliane Sousa Coelho

DESAFIOS DA PESQUISA QUALITATIVA: ASPECTOS A SEREM CONSIDERA-


DOS NA ESCOLHA DO MÉTODO DE PESQUISA CIENTÍFICA 36
Luiza Maria Bessa Rebelo

TERRA E TERRITÓRIO INDÍGENA: DIREITO IMEMORIAL E O DEVIR 49


Ivani Ferreira de Faria

A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO FATOR ESSENCIAL PARA A MELHORIA DA


SAÚDE PÚBLICA NA CIDADE DE MANAUS
58
Antonio Geraldo Harb
Valéria Silva Melo de Souza

A LOGÍSTICA COMO VANTAGEM COMPETITIVA


72
Milanez Silva de Souza

A Amazônia no cinema brasileiro


84
Gustavo Soranz

A influência do contexto institucional do Ensino Superior na


cultura organizacional nas IES públicas e privadas: estudo de
múltiplos casos na Cidade de Manaus-AM 98
Mariluce Santiago Souza
Cristina Amélia Pereira Carvalho

COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA: UM PANORAMA GERAL


Grace Soares Costa 113

5
APRESENTAÇÃO
GRACE SOARES COSTA

A Divulgação Científica é uma exigência sob vários aspectos.


Estamos nos referindo a um segmento que recebe milhões de investi-
mentos, anualmente (de fontes públicas ou privadas), e cujos resultados
devem se desdobrar em mecanismos de desenvolvimento social, acima
de tudo.
Ciente da importância de se criar um canal entre a produção sobre
ciência, a comunidade acadêmica e a sociedade em geral, o Centro
Universitário do Norte (Uninorte/Laureate) lança a sua Revista Cientí-
fica Digital ‘’Saber do Norte’’.
A iniciativa acompanha o momento de mudanças pelo qual passa a In-
stituição. Uma das pioneiras no ensino universitário particular de Man-
aus, há algum tempo, o Uninorte centra esforços na ampliação e quali-
ficação de seus quadros docente e discente, solidificando a cultura da
pesquisa científica em nível de graduação e pós-graduação.
A ação fortaleceu a rede de parceiros institucionais, muitos dos quais
entraram com suas produções neste primeiro número da Revista, que
reunirá uma mostra de temas atuais e desafiadores inseridos no campo
das Ciências Sociais Aplicadas.
A Revista Saber do Norte é um periódico semestral aberto a con-
tribuições da comunidade acadêmica do Uninorte, bem como pesquisa-
dores das demais Instituições de Ensino e Pesquisa da região e do re-
stante do País.
O projeto editorial da ‘’Saber do Norte” orienta a publicação de re-
sultados de trabalhos de pesquisa inéditos, divulgações e estudos de
caso organizados na forma de artigos científicos.
A presente edição traz artigos produzidos no campo da Comunicação,
Administração, Geografia, Educação e Tecnologia da Informação.
Boa leitura!

6
Artigos

7
Marcos conceituais
para o desenvolvimento da interdisciplinaridade

Gonzaga, Amarildo Menezes,

Doutor em Educação – Universidad de Valladolid – Espanha;


Professor do Programa de Mestrado em Ensino de Ciências da Amazônia, da
Universidade do Estado do Amazonas – UEA.
Resumo

Produção construída em atendimento à prova de desempenho do concurso de provas e títulos da


Universidade do Estado do Amazonas, na disciplina Transversalidade e Ensino de Ciências, do Programa de
Pós-Graduação em Educação e Ensino de Ciências na Amazônia. Aborda-se, inicialmente, sobre a interdis-
ciplinaridade, para efeito de apresentação.

Palavras-chave: interdisciplinaridade; educação; pós-graduação.

Abstract

Production constructed in attendance to the test of performance of the competition of tests and
headings of the University of the State of Amazon, in disciplines Transversalidade and Ensino de Ciências,
of the Program of After-Graduation in Education and Education of Sciences in the Amazônia. It is ap-
proached, initially, on the interdisciplinaridade, for effect of presentation.

Key words: interdisciplinaridade; education; after-graduation.

IntroduçÃO

Não vendo pela conotação do modismo, e muito menos por uma descrição
funcional, é que procuraremos discorrer a respeito da interdisciplinaridade. Adot-
amos, como pressupostos básicos, os fundamentos de Fazenda (1998), Vascon-
celos (2002) e Lenoir (2003). Procuraremos, inclusive, priorizar os aspectos
epistemológicos sustentadores que detectamos para efeito de demonstração das
similaridades e divergências existentes entre eles.
Também faremos um redimensionamento das discussões dos teóricos
mencionados, procurando demonstrar as influências e as implicações que a in-
terdisciplinaridade tem trazido à educação, principalmente a partir da necessária
relação de complementaridade no “enxergar”, apreender e experienciar o fazer
ciência na Educação em Ciências.

1. Abordagens conceituais: similaridades e divergências da interdisci-


plinaridade

Nossa intenção não é, nesta unidade, conceituar interdisciplinaridade, es-


tabelecendo recortes que, por conseguinte, nos levarão ao dissociamento das
inter-relações necessárias para sua legitimação, tanto funcional quanto episte-

8 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


mologicamente. Partindo deste princípio, procuraremos demonstrar, a partir das
abordagens de Fazenda (1994), Vasconcelos (2006) e Lenoir (2003), as simi-
laridades e divergências existentes nas formas como os respectivos teóricos a
concebem.
Ao discorrer sobre interdisciplinaridade, Fazenda (2006) parte do
princípio de que a construção de uma teoria única sobre interdisciplinaridade é
impossível, mas adverte para a necessidade de se trazer à tona as experiências
dos pesquisadores que tratam sobre esta temática. Considerando isto, descreve
o seu próprio itinerário, demonstrando as três etapas que consegue visualizar,
assim definidas:
- Recorte Epistemológico (1970 - construção epistemológica da interdis-
ciplinaridade); (1980 – explicitação das contradições epistemológicas); (1990
- busca de um projeto antropológico).
- Ótica das influências disciplinares recebidas (1970 - busca de uma ex-
plicitação filosófica); (1980 – busca de uma diretriz sociológica); (1990 - busca
de um projeto antropológico).
- Organização teórica (1970 - definição de interdisciplinaridade); (1990 -
construção de uma teoria da interdisciplinaridade).
Redimensionando sua discussão, Fazenda (2006) faz uma descrição pan-
orâmica sobre o processo de legitimação da interdisciplinaridade, partindo da
década da estruturação conceitual básica, em 1970, apesar de seu efetivo início
datar de meados dos anos 60, na Europa, mais especificamente na França e na
Itália, a partir de um movimento que procurava elucidar e classificar temati-
camente as propostas educacionais, romper com uma educação fragmentada,
opor-se ao conhecimento decorrente do capitalismo epistemológico de certas
ciências, assim como aos currículos especialistas e à patologia do saber, decor-
rentes da alienação da academia.
Fazenda (2006) também pontua algumas atividades que foram signifi-
cativas para a legitimação da interdisciplinaridade no cenário mundial, como o
Projeto de Pesquisa Interdisciplinar para as Ciências Humanas, patrocinado em
1961 pela UNESCO, e apresentado por George Gusdorf, que visava ao estabe-
lecimento de uma convergência para trabalhar pela unidade humana, a partir
da diminuição da distância teórica entre as ciências humanas. Como resultado
deste estudo, explorou-se a arte, em sua dimensão antropológica, para super-
ar a dicotomia entre ciência e arte; estudos antropológicos das matemáticas,
para superar a dicotomia entre cultura e ciência; aspectos não-tecnológicos das
proposições técnicas, como estabelecimento do embate entre objetividade e
subjetividade; a cibernética, através da neurofisiologia, para a superação do
vazio existente entre espaço e tempo.
Outro destaque dado por Fazenda (2006) aos acontecimentos que legiti-
mam a interdisciplinaridade foi o colóquio que aconteceu em 1967, em Louvain,
que teve como finalidade refletir sobre o estatuto epistemológico da tecnologia, a
partir das necessidades de pesquisas sobre as relações Igreja/Mundo. Procurou-
se, a partir disto, definir o sentido da reflexão, os métodos convenientes e os
meios necessários à execução do referido projeto, cuja hipótese teórica apren-
dida e a se investigar foi: se os caminhos indicados para o estudo da dicotomia
ser/existir seriam a discussão interdisciplinar sujeito humano/mundo.

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 9


Fazenda (2006) também menciona como acontecimento legitimador da
interdisciplinaridade, o documento que foi elaborado pelo Comitê de experts –
Guy Berger, Leo Apostel, Asa Brigs, Guy Michard – e patrocinado pela OCDE. A
finalidade do respectivo documento incidia em contemplar os principais prob-
lemas do ensino e da pesquisa nas universidades, a partir de uma nova forma
de concebê-los, tomando como parâmetro as atividades de pesquisa coletiva e
inovações no ensino. A respeito do ensino universitário, destacou-se a revisão
das relações entre disciplinas e problemas da sociedade. E sobre a interdiscipli-
naridade, tomou-a como reflexão aprofundada, crítica e salutar, a ser adotada
no funcionamento da instituição universitária, no desenvolvimento da pesquisa
e da inovação.
Guy Palmade também é mencionado por Fazenda (2006), devido ao fato
de que, em 1977, aprofundou questões sobre a interdisciplinaridade, mostrando
os perigos da sua interpretação como ciência aplicada. Demonstrou também os
obstáculos mais freqüentes na aplicação dos níveis pluri, multi e interdiscipli-
nar, destacando o problema dos espíritos solitários; a interdisciplinaridade vista
como a ciência das ciências; os perigos ideológicos e a própria organização das
ciências, a partir dos distintos níveis. Destaca também a ambigüidade própria do
caráter interdisciplinar, como a polêmica existente entre o objeto e campo das
ciências, o papel e o valor do conhecimento, a dúvida conceitual sobre os pro-
jetos interdisciplinares autênticos, o movimento de redimensionamento teórico
das ciências e revisão dos hábitos de pesquisa.
A respeito de como repercutiram as discussões sobre a interdisciplinari-
dade no Brasil, na década de 1970, Fazenda faz alusão a alguns aspectos a
serem considerados. Ainda na década de 1960, comenta que a interdiscipli-
naridade chega como modismo, assumindo a condição de palavra de ordem no
âmbito educacional, passando a ser a semente e o produto das reformas educa-
cionais entre 1968 e 1971, principalmente nos três graus de ensino. Menciona,
para caracterizar a década de 1970, a obra Interdisciplinaridade e Patologia do
Saber, de Hilton Japiassu, caracterizando-a em duas vertentes: principais difer-
enciações conceituais a partir de Michand, Heckhansen, Piaget e Jautsch, que
procura mostrar as ambigüidades, a controvérsia maior decorrente da impos-
sibilidade lógica de uma linguagem única na explicitação do conhecimento. A
outra vertente é a necessidade de uma metodologia interdisciplinar, tendo como
resposta um projeto possível de realização, a partir de recursos disponíveis. As-
sim como de cuidados na constituição da equipe interdisciplinar, no estabeleci-
mento de conceitos-chave, delimitações do problema/questões desenvolvidas,
repartição de tarefas e comunicação dos resultados.
Referente à década de 1980, a discussão feita por Fazenda sobre a inter-
disciplinaridade começa a partir do estatuto de epistemologia convencional dado
àquela e que, mesmo nesta condição, avança na compreensão das implicações
teóricas que a sustentam.
Por outro lado, na década de 1980, conforme a descrição de Fazenda
(2006), foi elaborado um documento, no ano de 1983, por Gusdorf, Apostel,
Bottomou, Dufrenne, Mommsen, Morin, Palmarini, Smirnov e Ui, denominado
de Interdisciplinaridade e Ciências Humanas. Trata de pontos de encontro e
cooperação das disciplinas que foram as ciências humanas e da influência que

10 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


umas exercem sobre as outras, do ponto de vista histórico e filosófico. Analisa
também problemas e campos de estudos mais significativos, procurando mostrar
certas relações existentes entre as ciências naturais e as ciências humanas.
Decorrentes dos estudos do mencionado grupo, Fazenda apresenta os seguintes
avanços significativos: atitude interdisciplinar passa a pontuar-se em síntese
imaginativas e audazes, a interdisciplinaridade passa a ser categoria de ação,
além de exercício de conhecimento; e também com diferença de categoria, se
relacionada à disciplinaridade; arte do tecido bem traçado e flexível; ponto de
referência do desenvolvimento das próprias disciplinas .
Ao discorrer sobre a legitimação da interdisciplinaridade na década de
1990, Fazenda (2006) considera a década mencionada como aquela responsável
pelo ápice da contradição para estudos e pesquisas referentes àquela categoria.
Argumenta que houve proliferação indiscriminada das práticas intuitivas. Tece
crítica sobre a condição da ciência, que não está no acerto, mas no erro, sendo
necessário, a partir disto, exercer e viver a interdisciplinaridade de formas dif-
erenciadas. Assim argumenta porque percebeu que, em nome da interdiscipli-
naridade, abandonaram-se e condenaram-se rotinas consagradas, criaram-se
slogans, apelidos, hipóteses de trabalho improvisadas e impensadas.
As pesquisas, por sua vez, durante a década em questão, buscaram ex-
plicitar o caminho percorrido em práticas interdisciplinares intuitivas, como uma
forma de retirar delas os princípios teóricos, necessários para as práticas do-
centes interdisciplinares.
Em uma condição complementar ao posicionamento de Fazenda (2006),
apresenta-se Vasconcelos (2007), dando à discussão sobre a interdisciplinari-
dade um tratamento bem mais epistemológico. Em caráter abrangente, parte
de uma reflexão sobre os riscos da homogeneização e do imperialismo episte-
mológico, considerando-os como típicos das ciências modernas, a partir de uma
crítica à fragmentação dos saberes, assim como à posição que os fenômenos
físicos, biológicos e sociais assumem no respectivo processo.
Vasconcelos (2007) parte de uma análise histórica, para efeito de demon-
stração de processos de homogeneização epistemológica, descrevendo princi-
palmente as seguintes estratégias de ação: redução da complexidade dos fenô-
menos, tomando como parâmetro a criação do saber central, como paradigma
único para legitimar um mesmo campo de saber; o processo de sistematização
particular, como forma de imperialização dos campos dos fenômenos naturais,
biológicos, humanos e subjetivos, transformando-os em um único campo da
ciência e em um único paradigma; a dinâmica da produção do saber, radicali-
zando pólos da divisão social do trabalho, gerando um saber totalizante e onipo-
tente, capaz de tirar a complexibilidade da natureza e da sociedade; prevaleci-
mento de poder oriundo da competência instaurada a partir do capital simbólico
que se legitima na instituição, através de grupos específicos, que se firmam por
intermédio das ações dos atores sociais, de forma totalitária.
Outra discussão que Vasconcelos (2006) levanta, para efeito de demon-
stração de que a atitude interdisciplinar ultrapassa os limites das perspectivas
convencionais do funcionalismo a ela atribuído ultimamente, passa a ser uma
condição emergencial, possível de romper com o imperialismo epistemológico
que ainda perdura. Parte do desenvolvimento dialético das ciências, que resultou

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 11


em rupturas epistemológicas a partir, por exemplo, da teoria da relatividade e
da física quântica, e os novos conceitos que emergiram para justificar espaço,
tempo, causalidade e substância. E também da condição em que se começa a
observar a história da ciência, como um processo conceitual descontínuo, cara-
cterizada por erros, rupturas, retificações conceituais, desmitificando a condição
de continuidade ao saber normativo, a forma preconceituosa de enxergar o sen-
so comum, as ciências entendidas como pré-ciências e as ideologias.
Um dos aspectos que nos chamou atenção na discussão feita por Vas-
concelos (2006), a respeito da crítica que tece ao imperialismo epistemológico
das ciências modernas, incide na apresentação do posicionamento de teóricos
sobre a respectiva questão. Dentre eles está Feyerabend (1924-1994), filósofo
austríaco que desenvolveu parte de sua vida acadêmica nos EUA. Crítico do
positivismo, parte do princípio de que as teorias são incomensuráveis e compe-
tem entre si, não existindo um padrão comum, o que possibilita o julgamento
dos méritos de cada uma delas. Os métodos científicos, para Feyerabend, pos-
suem perspectivas particulares, e não são auto-evidentes ou superiores a outras
abordagens, o que induz a um anarquismo epistemológico.
Bachellard e Canguilhen também são discutidos por Vasconcelos (2006),
para efeito de crítica ao imperialismo epistemológico. De seus pressupostos
teóricos, para este feito, adota-se o reconhecimento da complexidade, da diver-
sidade e da diferença dos objetos e dos campos epistemológicos, disciplinares e
científicos existentes entre o discurso científico e o saber popular.
Vasconcelos (2006) também se utiliza de Karl Popper (1902-1994), pre-
cursor do movimento pós-positivista, para demonstrar, através de uma crítica à
cerca do relativismo e da natureza do conhecimento nas ciências convencionais,
para efeito de demonstração da necessidade de quebra do imperialismo epis-
temológico daquelas. Popper, segundo Vasconcelos (2006), propõe que a reali-
dade externa não pode ser regida exclusivamente pelas leis naturais/históricas,
assim como aquelas não podem ser apreendidas na sua totalidade, devido à
precariedade dos instrumentos sensoriais e cognitivos humanos. Fala das ver-
dades provisórias, abertas à refutação, assim como da busca e acumulação de
evidências empíricas, na eliminação de erros, soluções, tentativas testes das
conseqüências dedutivas, e refutação de conjecturas. Para isto, propõe caminho
para eliminação das tendenciosidades do pesquisador, a partir da crítica mútua
dos cientistas, da necessidade de abertura da metodologia e dos resultados à
analise e ao questionamento, por parte da comunidade científica.
Outro aspecto que nos chamou atenção na discussão feita por Vasconce-
los (2006), foi a sobre o tipo de tratamento possível de ser dado aos princípios
norteadores capazes de sustentarem práticas interdisciplinares e interparadig-
máticas, a partir da complexidade, em universidades e instituições de pesquisa.
Para tanto, propõe o seguinte: práticas científicas propositoras, centradas em
perspectivas de visões apenas e sempre aproximativas do real; valorização da
liberdade e da imaginação criadora com base no multiperspectivismo; negação
das diversas estratégias de homogenização e imperialismo epistemológico; au-
tonomia institucional acadêmico-científica e de auto-organização do trabalho
teórico e científico, na explicitação do trabalho teórico e científico, mediado de
seus valores éticos e de sua posição social; gestão da prática interdisciplinar e

12 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


interparadigmática no processo de aprendizagem e práxis social; formação de
redes horizontais de colaboração, troca de experiências e trabalhos integrados;
novos desenhos institucionais, processos de socialização e de reprofissionali-
zação mais ampliada, para a formação e identidade profissional de cientistas e
trabalhadores, em campos interdisciplinares, de longa duração e mais perma-
nentes.
Um terceiro aspecto que nos chamou atenção na discussão de Vasconce-
los (2006) sobre a interdisciplinaridade foi a apresentação dos diversos tipos
de práticas interdisciplinares. Inclusive, em seu comentário a respeito das dif-
erenças existentes, demonstra que não emergem apenas nas fronteiras entre
disciplinas, mas também entre teorias, paradigmas, campos epistemológicos,
profissões e campos de saber e fazer. Reforça também que as práticas interdisci-
plinares significam interação entre diversas fronteiras de saber, entre dimensões
e saberes com status acadêmicos, também no campo expressivo da arte e com
os saberes populares, de forma contraditória e paradoxal.
Especificamente a respeito dos diversos tipos de práticas inter, Vasconcelos
(2006), de início, procura definir as práticas multidisciplinares como gama de
campos de saber, que simultaneamente se entrecruzam, sem fazer aparecer re-
lações existentes entre eles. De forma que os sistemas obedecem a um só nível,
respondendo a objetivos únicos, e não mantendo nenhuma cooperação.

As práticas pluridisciplinares, por sua vez, mantêm uma justaposição en-


tre os campos de saber, obedecendo a um mesmo nível hierárquico, agrupados
e possuindo relações existentes entre si:

As práticas pluridisciplinares-auxiliares, como elementos distintos da an-


terior, se apresentam com as contribuições entre um ou mais campos de saber,
obedecendo a um mesmo nível hierárquico, agrupados e com relações existentes
entre si. Mas, no sistema, apresenta dois níveis de coordenação e objetivos he-
gemonizados, a partir de um campo de saber na condição de encampador:

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 13


Nas práticas interdisciplinares há a interação participativa, com o intuito
de legitimar a construção e pactação axiomática comum a um grupo de campos
de saber conexos, obedecendo a um nível hierárquico superior, que redefine
elementos internos, gerando campos originais. No sistema há dois níveis, sus-
tentados por objetivos múltiplos, com uma coordenação em nível superior, que
tende à horizontalização, evidenciando possibilidades de estabelecimento de re-
lações de poder:


Um quarto aspecto discutido por Vasconcelos (2006) sobre a Interdiscipli-
naridade são os obstáculos e limites referentes à sua aplicação. A respeito disto
apresenta o seguinte: a forma como ainda se dá o processo de inserção histórica
na divisão social e técnica do trabalho e da constituição dos saberes enquanto
estratégia de poder; o mandato social imperante, que costuma se legitimar a
partir de um campo específico; a institucionalização de organizações corpora-
tivas; processos institucionais e culturais que criam barreiras profundas para a
troca de saberes e às práticas interprofissionais colaborativas e flexíveis.
Por fim, apresenta recomendações para a implementação de práticas interdis-
ciplinares e interparadigmáticas. Dentre elas, mencionaremos cinco, que acredi-
tamos serem necessárias para a discussão da próxima unidade:
- desenvolvimento histórico das práticas interdisciplinares, como uma for-
ma de, estrategicamente, a médio e longo prazo criar legislações profissionais
em geral e no próprio sistema, enfocando-as;
- seleção criteriosa dos profissionais ou pesquisadores que irão participar
de qualquer projeto interdisciplinar.
- incentivo às práticas interdisciplinares nas universidades e instituições
acadêmicas na formação básica dos profissionais e nos currículos dos cursos de
graduação e pós-graduação
- relações institucionais de pesquisa, programa ou projeto, a partir de uma
estrutura democrática, constituída através de mecanismos de discussão e de-
cisão horizontais que estimulam a negociação constante.
- incentivar a recuperação da complexidade do objeto e do autoconheci-
mento dos pesquisadores ou trabalhadores, bem como o reconhecimento e
desenvolvimento das diversas dimensões e aptidões na vida da população em
estudo ou clientela.
O terceiro teórico que trazemos para discorrer sobre Interdisciplinaridade
é Yves Lenoir (LENOIR, 1998). A respeito de seu posicionamento, chama-nos
atenção a diferenciação que faz entre Interdisciplinaridade Científica e Interdis-
ciplinaridade Escolar. Assim como a possibilidade de aplicação nos níveis curricu-
lar, didático e pedagógico.

14 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


Concernente à diferenciação entre disciplina científica e disciplina escolar,
comenta que a segunda possui elementos de conteúdos diferentes das disci-
plinas científicas, nas suas finalidades e na lógica da estruturação intensa. Por
outro lado, na sua organização, apesar de o dispositivo ser idêntico, similar ou
análogo ao da primeira, seus objetivos são diferentes, suas modalidades de
aplicação são diferentes, seus referenciais são diferentes. A primeira, ou seja, a
interdisciplinaridade científica, busca a edificação de uma síntese conceitual ou
acadêmica do fato, que é um jogo social e epistemológico, antes de tudo univer-
sitário.
Decorrente desta diferenciação, surge a seguinte dupla visão das finali-
dades da interdisciplinaridade.
E Perspectiva de pesquisa-sín- Perspectiva Instru- A
U tese conceitual mental N
R ACADÊMICA ESCOLAR G
O L
Objetivo: Constituir quadro con- Objetivo: Resolver
P O
ceitual global que pode, numa problemas de existên-
É -
ótica de interação, unificar todo o cia cotidiana-práticas
I S
saber científico particulares.
A A
-Unidade do saber. -Saber diretamente útil X
-Superciência. e utilizável Responde a Ô
-Ordem filosófica e epistemológica questões e aos prob- N
lemas sociais, anseios I
da sociedade C
A

Fonte: Lenoir (1998)



Lenoir assim define os campos de operacionalização da Interdisciplinaridade:

INTERDISCIPLINARIDADE

Prática
Científica Escolar Profissional
Finalidades

Modalidades

Fonte: Lenoir (1998)

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 15


Assim como as concepções epistemológicas que norteiam sua função:

Concepções Epistemológicas Características


Abordagem relacional Estabelecer ligação e passarelas
Abordagem ampliativa Preencher o vazio entre duas ciências
Abordagem radial Substituir outra estruturação que a es-
truturação disciplinar

Fonte: Lenoir (1998)

De maneira mais precisa, Lenoir retorna à distribuição entre interdiscipli-


naridade científica e interdisciplinaridade escolar, tomando como parâmetro as
finalidades, os objetivos, as modalidades de aplicação, o sistema referencial e a
conseqüência.

Interdisciplinaridade Científica Interdisciplinaridade Escolar


FINALIDADES
Produção de novos conhecimentos e a res- Difusão do conhecimento (favorecer a
posta às necessidades sociais integração de aprendizagem e o conheci-
mento) e a formação de atores sociais
OBJETOS
MODALIDADES DE APLICAÇÃO
Noção de pesquisa: conhecimento é sis- Noção de ensino, de formação: sujeito
tema de referência aprendiz e relação com o conhecimento –
sistema de referência

SISTEMA REFERENCIAL
Disciplina – qualidade de ciências (saber Disciplina – matéria escolar (saber esco-
sábio) lar) não se restringe às ciências
CONSEQUÊNCIA
Novas disciplinas – diversos processos, Ligações de complementaridade entre as
realização técnico - científicas matérias escolares

Fonte: Lenoir (1998)

A respeito da interdisciplinaridade escolar, Lenoir classifica-a em três


níveis: curricular (primeiro nível), didática (segundo nível) e pedagógica (ter-
ceiro nível).
A interdisciplinaridade curricular é, preliminar mente, didática e pedagóg-
ica. Há o estabelecimento de ligações de interdependência, de convergência e
de complementaridade entre as diferentes matérias escolares, formando o per-
curso de uma ordem de ensino ministrado, o que requer incorporação de con-
hecimentos capazes de manter a diferença disciplinar e a tensão benéfica entre
a especialização disciplinar e o dado interdisciplinar. Procura legitimar-se a partir
da exclusão de toda tendência à hierarquização dominante, requerendo a co-
laboração de diferentes matérias em termos de igualdade, complementaridade
e interdependência quanto às contribuições que podem dar, e que devem existir
em um processo de formação.
Correspondente ao segundo nível, que é a interdisciplinaridade didática,
há a caracterização por suas dimensões conceituais e antecipativos, para tratar

16 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


da planificação, organização e avaliação da intervenção educativa, não deixando
de levar em conta a estruturação curricular, para estabelecer preliminarmente
seu caráter interdisciplinar, através da busca de realização do seu objetivo, que
é a articulação dos conhecimentos a serem ensinados e sua inserção nas situ-
ações de aprendizagem.
A interdisciplinaridade pedagógica, que corresponde ao terceiro nível,
caracteriza-se pela atualização em sala de aula da interdisciplinaridade didática.
Procura, através da prática, assegurar a colocação de um modelo ou de mod-
elos didáticos interdisciplinares inseridos em situações concretos da didática,
podendo até ser qualificada de transdisciplinaridade, e deve estar no âmbito do
projeto de produção educativa.

2. Similaridades e Divergências
Ao estabelecer uma possível triangulação entre as discussões propostas
por Fazenda (2006), Vasconcelos (2006) e Lenoir (1998), pudemos constatar o
seguinte.
A respeito do caráter histórico das abordagens, Fazenda relaciona o
desenvolvimento da interdisciplinaridade à própria experiência que obteve como
pesquisadora das questões interdisciplinares. O que difere de Vasconcelos, que
procura dialogar com os teóricos, transpondo inclusive a perspectiva interdisci-
plinar, quando a relaciona com o que chama de condição interparadigmática, que
é levada a um nível bem acima de um plano funcional. Lenoir, por sua vez, nem
chega a entrar no mérito desta tentativa de desvelar a condição epistemológica
que norteia os pressupostos teóricos da interdisciplinaridade, a partir do esta-
belecimento de marcos históricos. A respeito deste aspecto, menciona apenas
o Seminário da Organização de Cooperação e de Desenvolvimento (OCDE), da
Universidade de Linkoping, através do qual vislumbrou duas perspectivas da
interdisciplinaridade: a perspectiva de pesquisa-síntese conceitual (acadêmico),
e a perspectiva instrumental.
Vasconcelos, ao definir interdisciplinaridade, toma a iniciativa de caracter-
izá-la como uma prática, que ocorre a partir da interação participativa e inclusiva
de campos de saber conexos, capazes de gerar a redefinição de seus elemen-
tos internos, propondo novos campos originais de saber. Em uma perspectiva
sistêmica, apresenta dois níveis, sustentados por objetivos múltiplos, com uma
coordenação em nível superior. Por outro lado, chama atenção para a possível
tendência desta prática à horizontalização, instituindo relações de poder. Decor-
rente disto, Lenoir vai mais além de Vasconcelos, visto que não só distingue
a interdisciplinaridade científica, da interdisciplinaridade escolar, mas também
cria duas novas possibilidades de redimensionamento daquela: a interdiscipli-
naridade profissional e a interdisciplinaridade prática. Fazenda, por sua vez, não
chega a explicitar uma preocupação em definir interdisciplinaridade, mas con-
sidera imprescindível buscar ou desvelar o percurso teórico dos pesquisadores
que têm a interdisciplinaridade como foco. Ainda argumenta que é impossível a
construção de uma única, absoluta e geral teoria da interdisciplinaridade.

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 17


3. Interdisciplinaridade e Ensino de Ciências

Não é novidade que as práticas e investigações centradas no ensino de


ciências, por muito tempo, sempre foram centradas na memorização de con-
teúdos, para atender àquilo que preconiza e legitima a aprendizagem mecânica,
criando barreiras para a efetivação da aprendizagem significativa (AUSUBEL,
1980). Decorrente disto, temos convivido com visões reducionistas de proces-
sos de ensino-aprendizagem, que muito têm contribuído na aceitação de que
o cientificismo precisa sempre aparecer como o fator determinante no estabel-
ecimento de relações de poder, tomando como estratégia o próprio processo de
construção do conhecimento. A existência daqueles que são capazes de investi-
gar, na condição de “grupo seleto”, passa a ser necessário, assim como daqueles
que se apresentam em posição antagônica, e que se sentem na obrigação de
quem precisa usufruir dos processos e produtos oriundos do que os primeiros
produzem, a partir, principalmente, do conhecimento.
A partir do quadro apresentado, que desafios acreditamos serem possíveis
de adoção, para efeito de aplicação da interdisciplinaridade, tomando-se como
foco principal as questões emergentes centradas no ensino de ciências?
Acreditamos que Lenoir (1998), a partir da distinção que estabelece entre a
interdisciplinaridade curricular, didática e pedagógica, poderá nos ajudar neste
primeiro delineamento para a pergunta que fizemos a nós mesmos. Principal-
mente a partir da prerrogativa de que as duas últimas são preliminares à pri-
meira. O primeiro nível de interdisciplinaridade descrito por Lenoir, ou seja, a
interdisciplinaridade curricular é uma perspectiva, em um nível mais complexo
e aprofundado, de legitimar a própria interdisciplinaridade. Nesta discussão,
aquela, por sua vez, será interpretada a partir de uma abordagem radical, na
condição de opção epistemológica, cuja característica principal incide na substi-
tuição da estruturação disciplinar por outra natureza de estruturação (LENOIR,
1998). Sendo assim, não deixa de ser uma interação participativa entre o grupo
de campo de saber conexo, para efeito de sustentação de um nível hierárqui-
co superior, possível/necessário para a redefinição dos elementos internos, que
gerarão outros campos originais de saber (VASCONCELOS, 2002).
Tratando-se de orientações curriculares sobre ciências, temos como refer-
ência nacional os Parâmetros Curriculares, tanto para o Ensino Fundamental,
quanto para o Ensino Médio (BRASIL, 1997), sendo que nesta discussão focare-
mos apenas o Ensino Fundamental.
Referente ao Ensino fundamental, em linhas gerais, nos Parâmetros Cur-
riculares Nacionais, em uma perspectiva sistêmica, percebe-se que as diretrizes
gerais foram redimensionadas para a condição de objetivos gerais, que passar-
am a ser ressignificados nas áreas de Língua Portuguesa, Matemática, Ciências
Naturais, História, Geografia, Arte, Educação Física e Língua Estrangeira, para
efeito de legitimação dos seguintes eixos temáticos: Ética, Saúde, Meio Ambi-
ente, Orientação Sexual e Pluralidade Cultural. Cada um deles tende a ganhar
legitimidade a partir de uma condição transversal, perpassando pelas demais
áreas de conhecimento, caracterizando-as e, ao mesmo tempo, colocando-as na
condição de zonas fronteiriças que, estrategicamente, se oferecem para o diálo-

18 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


go, de acordo com o que apresenta os objetivos gerais de cada Área de Conheci-
mento. Aqueles, por sua vez, são direcionados para os quatro ciclos (Primeiro
Ciclo – 1ª e 2 ª séries; Segundo Ciclo - 3 ª e 4ª séries; Terceiro Ciclo - 5 ª e 6 ª
séries; Quarto Ciclo - 7 ª e 8 ª séries). Para efeito de caracterização de cada um
deles, são feitas as respectivas articulações entre os objetivos e os conteúdos da
Área, adotando-se critérios de avaliação, e respectivas orientações didáticas.

Fonte: Parâmetros Curriculares Nacionais, 1997.

A partir do desenho apresentado, percebe-se que o leque de eixos temáti-


cos convergem para um único ponto, que é a caracterização da Área de Conheci-
mento. Se fizermos uma análise deste encaminhamento, a partir das concepções
epistemológicas que norteiam as funções de interdisciplinaridade, segundo Le-
noir (1998), poderemos dizer que, de imediato, a abordagem de caráter rela-
cional, que se caracteriza pelo estabelecimento de ligações e passarelas, assim
como nuances da abordagem ampliativa, que procura preencher a lacuna ex-
istente. Para transversalizar a temática Saúde, por exemplo, far-se-á necessário
o estabelecimento da proximidade entre ciências como a Biologia, a Química, a
História, etc. Por outro lado, o mesmo não se pode dizer da abordagem radical,
que substitui a estruturação disciplinar inicial por outra estruturação original.
Principalmente porque sua legitimação depende da adoção de estratégias me-

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 19


todológicas que fujam dos padrões convencionais de ensino; aspecto impre-
scindível no processo de caracterização da interdisciplinaridade.
Além disso, a interdisciplinaridade curricular, devido ao grau de abrangên-
cia e de complexidade em que se encontra, precisa ser pensada em uma per-
spectiva sistêmica, de forma que as partes não resultem na condição de que a
parte está no todo, mas sim de que o próprio todo está nas partes. Sendo assim,
os objetivos gerais do Ensino Fundamental apresentados não podem ser inter-
pretados como o todo, que se sustenta a partir da soma de cada uma das partes,
que são as respectivas áreas apresentadas. Assim como os eixos temáticos não
podem representar as partes, que se diluem na forma de todo, conforme se
apresenta a caracterização da área e seus respectivos objetivos gerais que, por
conseguinte, se fragmentam, para efeito de caracterização dos Ciclos.
Especificamente sobre o Ensino de Ciências Naturais no Ensino Funda-
mental, acreditamos também que o seu objetivo principal incide em “mostrar
a Ciência como um conhecimento que colabora para a compreensão do mundo
e suas transformações, para reconhecer o homem como parte do universo e
como indivíduo” (BRASIL, 1997, p. 21). Logo, a Ciência não está para alguns,
na condição de privilegiados, mas sim para todos. Tem como propósito torná-los
cidadãos efetivos e capazes de apreenderem-na, desconstruí-la e reconstruí-la,
como conhecimento capaz de proporcionar a compreensão da dinamicidade do
mundo, assim como as constantes e contínuas mudanças pelas quais ele passa.
Por conseguinte, predomina o princípio de que os fenômenos estão imbricados
às próprias ações humanas, na condição também de todo, a serem partes de um
todo maior, que com ele interage diretamente, em uma perspectiva sistêmica.
Desta forma, será possível se quebrar o paradigma de que ensinar ciências im-
plica em “considerar-se Ensino de Ciências como sinônimo da descrição de seu
instrumental teórico ou experimental, divorciado da reflexão sobre o significado
ético dos conteúdos desenvolvidos no interior da Ciência e suas relações com o
mundo do trabalho” (BRASIL, 1997, p. 22).
Ensinar Ciências implica em mudança de postura, em possibilidades de
tomadas de atitudes capazes de levar os estudantes a compreenderem que o
mundo que estudam não somente faz parte, mas também depende deles para
continuar garantindo a sua existência. Nesta relação imbricativa entre homem-
mundo, o respeito pelo próprio corpo, em uma condição sistêmica, acaba re-
fletindo no respeito pelos demais corpos, que dão vida e sentido para os seres
humanos, que se reconhecem na condição de responsáveis pela legitimação do
valor pessoal e social da vida, em um clima de respeito pela diversificada, que
busca uma unidade, tão necessária e emergente.
Outro aspecto que consideramos interessante sobre a discussão feita pe-
los PCNs, referente ao Ensino de Ciências Naturais, é o que consideramos como
estatuto epistemológico a ele atribuído, quando é apresentado como

[...] o espaço privilegiado em que as diferentes explicações so-


bre o mundo, os fenômenos da natureza e as transformações
produzidas pelo homem podem ser expostas e comparadas. É
o espaço de expressão das explicações espontâneas dos alunos
e daquelas oriundas de vários sistemas explicativos. Contrapor

20 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


e avaliar diferentes explicações favorece o desenvolvimento de
postura reflexiva, crítica, questionadora e investigativa, de não-
aceitação a priori de idéias e informações. Possibilita a percepção
dos limites de cada modelo explicativo, inclusive dos modelos
científicos, colaborando para a construção da autonomia de pen-
samento e ação (BRASIL,1997, p. 22)

Chama-nos atenção a condição sistêmica atribuída ao espaço projeta-


do, para efeito de caracterização do Ensino das Ciências Naturais. Todos os
elementos interagem, na busca de problematizar as múltiplas e diferentes
explicações atribuídas tanto aos fenômenos da natureza, quanto às transfor-
mações produzidas pelo homem. É uma relação centrada na complementari-
dade, visto que homem e mundo estão para se auto-explicarem, dando um
sentido próprio à vida, não mais limitado às necessidades e expectativas das
exigências atribuídas pelo mundo do trabalho, a partir do que é preestabel-
ecido pelos critérios de verdade, fielmente seguidos, na condição de herança
do processo de construção do conhecimento cartesiano.
Da forma como o espaço para o Ensino de Ciências Naturais é apre-
sentado, também podemos observar que se valoriza a relação mediada entre
conhecimentos e indivíduos, não se resumindo apenas à apresentação de
definições científicas, para atender a uma determinada circunstância cogni-
tiva, que nem sempre chega a atingir ao nível de compreensão dos alunos.
Para tanto,

Em Ciências Naturais são procedimentos fundamentais aqueles


que permitem à investigação, à comunicação e ao debate de
fatos e idéias. A observação, a experimentação, a comparação,
o estabelecimento de relações entre fatos ou fenômenos e
idéias, a leitura e a escrita de textos informativos, a organi-
zação de informações por meio de desenho, tabelas, gráficos,
esquemas e textos, a proposição de suposições, o confronto
entre suposições e entre e os dados obtidos por investigação,
a proposição e a solução de problemas, são diferentes pro-
cedimentos que possibilitam a aprendizagem (BRASIL,1997,
p. 29).

As especificidades mencionadas, quando adotadas como atitudes, pod-


erão demonstrar a capacidade de compreender e experienciar o mundo em
uma perspectiva sistêmica. A idéia, para assim caracterizar-se, apresenta-
se como um processo constante e contínuo, em que os seres vivos ganham
multiplicidades representativas, no processo emergente de tentativas de re-
spostas. Desta forma, é possível a garantia da legitimação de uma relação
imbricativa entre os seres humanos, o conhecimento e o ambiente, não como
elementos simplificadores do processo, mas como aspectos imprescindíveis
na valorização da vida, nas suas mais variadas dimensões.a

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 21


CONSIDERAÇÕES FINAIS

De acordo com o que propõe os Parâmetros Curriculares Nacionais, dentre as


capacidades que norteiam o Ensino de Ciências Naturais, ao final do ensino funda-
mental, temos:
- Compreender
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a natureza como um todo dinâmico, sendo o ser hu-
mano parte integrante e agente de transformação do mundo em que vive.
A ideia de que o todo resulta da soma das partes, concebendo o princípio de
que a totalidade é possível de ser analisada a partir de um corte/ fragmentação,
propositalmente difundida pelo investigador não é suficiente para atingir a esta
capacidade. Para tanto, faz-se necessário investir em estratégias alternativas de
investigação e ensino, que superem os padrões convencionais. Acreditamos que
elas poderão (a partir da adoção de princípios legitimadores dos paradigmas emer-
gentes, dentre eles o paradigma da complexidade), oportunizar novas formas de
observar o mundo, não mais na condição de um lugar em que seres humanos
pensam que se auto-sustentam, através das relações que estabelecem entre si,
fazendo daquele apenas uma fonte inesgotável de sobrevivência. Pelo contrário, a
natureza, em sua condição sistêmica, mantém uma relação de complementaridade
com o homem, que dela faz parte, e que precisa, mais do que nunca, se sentir parte
dela.
Decorrente do exposto no parágrafo acima, faz-se imprescindível, nas aulas
de Ciências, a adoção de práticas pedagógicas que não se limitem apenas à trans-
missão de conteúdos, na condição de informações que, na maioria das vezes, só
tendem a descontextualizar os fenômenos e as experiências humanas da realidade
dos alunos, devido ao excessivo nível de abstração com que são repassados. A
memorização de fórmulas, de termos técnicos e de procedimentos laboratoriais
como um fim pedagógico não podem mais assumir a condição de fator determinante
no processo ensino-aprendizagem. Os fenômenos, as experiências, os problemas
reais precisam ser contextualizados e, por conseguinte, ressignificados, como parte
da vida dos estudantes.
- Identificar relações entre conhecimento científico, produção de tec-
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nologia e condições de vida, no mundo de hoje e em sua evolução históri-
ca.
Todo ser humano, em uma condição sistêmica, se retroalimenta a partir do
conhecimento que produz, o que se evidencia nas tecnologias adotadas para otimi-
zar a sua condição de vida, tomando como parâmetro principalmente as exper-
iências históricas. Desta realidade não podemos distanciar nossos estudantes do
Ensino Fundamental, que estão em processo de descoberta do mundo, e que pre-
cisam perceber que fazem parte dele, e que a partir dele se auto-afirmam e se
auto-sustentam como seres vivos e seres humanos.
As práticas pedagógicas, assim como as atividades investigativas, precisam
aproximar cada vez mais os estudantes do conhecimento científico. É de funda-
mental importância que assumam, perante ele, uma postura de sujeitos capazes de
problematizá-lo, a partir de um processo interativo, de forma que possam interpre-
tar as questões emergenciais em desafios necessários na criação de alternativas de
sobrevivência, em um mundo marcado pela competitividade.

22 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


- Formular questões, diagnosticar e propor soluções para problemas
reais a partir de elementos das Ciências Naturais, colocando em prática
conceitos, procedimentos e atitudes desenvolvidas no aprendizado esco-
lar.
A partir deste imperativo, será possível que os estudantes comecem a per-
ceber que a educação científica precisa fazer parte de suas vidas. Por conseguinte,
procurarão explorar, a partir das suas inquietações, respostas capazes de question-
arem a relevância da sua atuação como indivíduo que retroalimenta sua condição
humana, a partir de conhecimentos que não somente recebe, mas que os descon-
strói e os reconstrói. Logo, o que se aprende sobre Ciências na escola não pode
mais se restringir a uma aprendizagem mecânica.
Pelo contrário, o tipo de tratamento dado aos conteúdos deverá contribuir
para que a aprendizagem significativa (AUSUBEL, 1984) ganhe espaço no processo
de construção do conhecimento dos estudantes, de forma que não se limite apenas
à memorização de conteúdos. Para tanto, a valorização dos conhecimentos prévi-
os trazidos pelos estudantes, assim como estratégias decorrentes da transposição
didática fazem-se necessárias.
- Saber utilizar conceitos científicos básicos, associados a energia,
matéria, transformação, espaço, tempo, sistema, equilíbrio e vida.
A ciência não está distante dos seres humanos, visto que sem eles não seria
capaz de se autosustentar. Infelizmente, devido a questões de ordem ideológica,
não é assim concebida, fazendo com que tanto aqueles que não têm acesso ao meio
acadêmico e escolar, quanto aqueles que dependem deles para se legitimarem pes-
soal e profissionalmente passem a interpretá-la como algo quase que sobrenatural,
e de viabilidade possível apenas para aqueles que apresentam traços estereotipa-
dos de cientistas, ou para aqueles que se predispõem a passar por caminhos tor-
tuosos, e respectivos rituais de passagem.
A proposta desta capacidade, pelo que se pode perceber, se associada ao que
comentamos no parágrafo anterior, além de ser revolucionária, visto que propõe
significativas quebras de paradigmas, tende a criar uma nova consciência a respeito
do processo, e se dá através da utilização adequada dos conceitos científicos, sem-
pre a partir da ressignificação daqueles no contexto da Ciência.
Nas atividades pedagógicas centradas no Ensino de Ciências, para efeito de
consecução da capacidade em questão, estratégias de ensino pautadas em metod-
ologias centradas no aprender fazendo, a partir da problematização do que é apre-
sentado, e sua respectiva desconstrucão e reconstrução são imprescindíveis. Sendo
assim, não há aquele que apenas ensina, e o outro que apenas aprende, há ambos
que se deixam levar por possibilidades de múltiplas e diferenciadas descobertas do
que se apresenta como emergente, para efeito de contribuição na valorização da
vida, dos seres vivos e dos seres humanos, principais responsáveis pela tessitura
do que está na condição de mundo.
- Saber combinar leituras, observações, experimentações, registros,
etc., para coleta, organização, comunicação e discussão de fatos e infor-
mações;
No processo investigativo, os registros são imprescindíveis, apesar desta cul-
tura não ser valorizada como deveria no cotidiano nem do ambiente acadêmico, e
muito menos do ambiente escolar. Isto ocorre porque nos demais segmentos so-

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 23


ciais, em função das inúmeras atividades a serem operacionalizadas, os indivíduos
que fazem a universidade, assim como a escola, geralmente se vêem envolto às
exigências dos aspectos burocráticos, comuns no processo de legitimação da hier-
arquia estabelecida, desde os mais diferentes níveis.
Sendo assim, seja em ambientes escolares (que precisam saber contar suas
histórias, para efeito de construção de sua memória), seja nos ambientes acadêmi-
cos, que precisam construir conhecimentos científicos, que é o saber sábio, a ser
transposto para o saber a ser ensinar - conhecimento planejado pelo professor - e,
por conseguinte, ao saber ensinado - conhecimento explorado pelo professor em
sala de aula, (YVES CHAVELLARD, 1991), a cultura dos registros faz-se impre-
scindível no processo de legitimação. Historicamente, é através dela que a ciência
ganhou relevância e espaço no âmbito social, atravessando fronteiras, quebrando
paradigmas, adotando técnicas de leitura, observações, experimentações, regis-
tros, comunicação, discussão e informações de fatos e fenômenos.
São procedimentos que precisam ser explorados em estratégias de ensino
que fujam dos padrões convencionais adotados na escola. Para tanto, atividades
como trabalho com projetos, experiências em ambientes de ensino não-formais,
elaboração de portifólios, diários de bordo etc. podem contribuir significativamente
na legitimação da cultura do registro.
- Valorizar o trabalho em grupo, sendo capaz de ação crítica e coop-
erativa para a construção coletiva do conhecimento;
O processo de construção do conhecimento é muito mais proveitoso e prazeroso
quando há participação efetiva de pessoas, que contribuem na busca de uma uni-
dade, a partir da diversidade de opiniões e de pontos de vista que apresentam.
Sugerimos, inclusive, que o termo “trabalho de grupo” seja substituído por “trabal-
ho em equipe”, visto que o segundo apresenta especificidades que não se limitam
apenas a ações de curta duração, para efeito de execução de tarefas específicas.
Sua intenção vai mais além do exposto, principalmente se partirmos do princípio
de que a equipe, além de valorizar as diferenças dos seus membros, no processo
de busca da unidade, procura também trabalhar valores e atitudes no decorrer do
desempenho das atividades.
Além disso, o trabalho em equipe tende a conduzir os envolvidos para um engaja-
mento capaz de levá-los a experienciarem situações de aprendizagem efetivamente
significativas. Estratégias como painel integrado, visitas técnicas, seminários, e out-
ras que criem oportunidades de seres humanos perceberem suas limitações, de que
são diferentes e possuem potencialidades significativas para compartilharem com
o outro, também na condição de diferente, a fim de interagirem com os demais
elementos, que também contribuem na tessitura sustentadora da complexidade do
sistema social em que estão imbricados.
- Compreender a saúde como bem individual e comum, que deve ser
promovido pela ação coletiva;
Seres vivos precisam estar sãos, para que assim possam interagir com eficá-
cia, na tessitura que emerge, sistemicamente, da complexidade que os sustenta, e
não diferente, na mesma condição, os seres humanos, que se auto-explicam e se
auto-organizam, também em uma perspectiva sistêmica.
Primar pela qualidade de vida, objetivando a compreensão e promoção da
saúde não na condição de um bem individual, mas sim de um bem comum, que
precisa ser conquistado e transformado em consciência coletiva, é de suma im-

24 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


portância para uma sociedade pensada em uma perspectiva complexa e sistêmica.
Para tanto, nada mais propício do que começar a difundir esta natureza de consciên-
cia ainda nas séries iniciais. As práticas de ensino centradas nas Ciências Naturais,
acreditamos, é um campo fértil para esta difusão, caso sejam adotadas estratégias
alternativas capazes de levar os estudantes a problematizarem as questões rela-
cionadas ao corpo, na condição de sistema, que precisa assim ser percebido e ex-
perienciado ainda nos primeiros anos de vida dos estudantes.
Projetos investigativos e pedagógicos com temáticas emergentes, focadas
em aspectos como a higiene do corpo, as medidas profiláticas para evitar contágios
com doenças infecciosas, os cuidados com a higienização do espaço físico, etc. são
algumas das alternativas possíveis de conduzir para a valorização da saúde, a partir
de uma consciência coletiva.
- Compreender a tecnologia como meio para suprir necessidades hu-
manas, distinguindo usos corretos e necessários daqueles prejudiciais ao
equilíbrio da natureza e ao homem.
Não há como fugir da realidade informacional que permeia as vidas dos seres
humanos, na atual conjuntura. As inovações tecnológicas cada vez mais se redi-
mensionam, para atender às necessidades e expectativas, nunca antes permitidas
de serem experienciadas nas mais diferentes esferas que caracterizam a complexi-
dade sistêmica do planeta Terra.
Os seres humanos sempre buscaram otimizar suas ações, através do aprimo-
ramento das tecnologias. Por conseguinte, acabaram imbricando aquelas às suas
práticas cotidianas, transformando-as em aspectos delineadores imprescindíveis no
processo de caracterização dos padrões de sobrevivência, códigos de ética e de
conduta que norteiam os novos rumos da sociedade. Em função disto, incrementa-
se a cultura de que a relação estabelecida entre homem e novas tecnologias se dá
a partir da dependência do primeiro em relação à segunda, mesmo sendo aquele o
único responsável em pensá-la e transformá-la em processos/produtos. O redimen-
sionamento deste princípio tem levado os líderes e os demais segmentos sociais a
assumirem uma postura de refém desta nova “roupagem” de como as tecnologias
se apresentam. Criaram-se e difundiram-se novas tecnologias na condição de fim,
que se encerra naquilo que elas podem oportunizar, em caráter pragmático e orde-
nador de possibilidades de otimização do tempo, que cada vez mais é interpretado
como escasso.
Decorrente desta ordem, consolida-se uma condição subalterna àquele que
pensa e cria as novas tecnologias, no momento em que elas se transformam em
processos/produtos, e passam a ser disponibilizadas para os demais segmentos da
sociedade, como um serviço a ser oferecido.
Por outro lado, não consideram os aspectos nocivos e prejudiciais, que tam-
bém se apresentam como contrapartida no bojo do que é apresentado. Pensemos,
por exemplo, nas contribuições que as descobertas no campo da física atômica
trouxe para a humanidade. Se analisadas em uma perspectiva de complementari-
dade, verificaremos que tanto contribuiu com a oferta de oportunidades promisso-
ras, quanto retrógradas. Descobertas no campo da informática nos deram a opor-
tunidade de solucionarmos problemas em curto espaço de tempo, mas também
criaram mecanismos de dependência e isolamento para aqueles que a inseriram
levianamente em suas ações cotidianas.

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 25


Ainda no início da vida acadêmica de nossos estudantes, precisamos conduzi-
los a reflexões aprofundadas sobre estas questões, a fim de que possam com-
preender que as novas tecnologias estão para eles, e não eles para as novas tecno-
logias. Desta forma, contribuiremos também para que construam uma consciência
de ser humano autônomo e capaz de perceber que sua vida pode ser ressignificada
a partir da inter-relação sistêmica entre ele, os demais e o próprio universo ao qual
pertence e com o qual interage, através do uso das novas tecnologias como um
meio.
As práticas de laboratório de ciências construídas a partir de reflexões trazidas
pelos estudantes, e relacionadas com a própria história da interface entre ciência
e tecnologia precisam ser experienciadas. Estratégias como a construção de simu-
lações de experiências oriundas dos conhecimentos prévios dos estudantes, através
do uso de programas de informática, podem ajudar no processo de formação de
uma consciência de sujeitos que, efetivamente, se sentem como os autores de suas
histórias, e capazes de perceberem que as novas tecnologias não passam de meios,
para suprir suas necessidades.

Referências

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26 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


CIÊNCIA E MÍDIA
REGIONAL:NAS ENTRANHAS DA REDE
Sousa, Cidoval Morais de 1
Coelho, Karliane Sousa 2
1
Jornalista, Professor/Pesquisador do Mestrado em Ensino de Ciências e Matemática
e do Departamento de Comunicação da Universidade Estadual da Paraíba. Professor
Associado do PPGCTS-UFSCar.
Email: cidoval@gmail.com

2
Jornalista, pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Comunicação Pública da Ciência
e da Tecnologia, da Universidade Estadual da Paraíba.
E-mail: karlianecoelhopb@gmail.com

Resumo

O objetivo do presente trabalho foi investigar a presença de conteúdos relacionados à investigação


científica e tecnológica em portais e sites de notícias localizados no Estado da Paraíba. Entende-se que a
comunicação infiltra a pesquisa científica e é tão relevante para ela como o é para as questões relativas ao
gesto de tornar público os seus resultados. A ciência presente nos sites e portais estudados é descontex-
tualizada, em grande medida não é produzida no Brasil e na região e é tratada apenas pelos seus resulta-
dos.

Palavras-chave: comunicação; ciência; rede; público.

Abstract

The objective of this work is to investigate the presence of contents related to the science and
technology production in portals and news websites from Paraíba. It is understood that communication in-
filtrates scientific research and the former is as relevant for the later as it is for the concerns about making
public their results. The science presents in the studied websites and portals is decontextualised, most of
them are not produced in Brazil and in the area and it is sorted out just by their results.

Key words: communication; science; net; public.

Introdução

Nos últimos anos, investigadores das áreas de comunicação, sociologia e


especialistas em Divulgação Científica vêm procurando construir matrizes teóri-
cas e metodológicas para investigar as relações mídia e ciência. A idéia geral é
que a Divulgação Científica representa um canal favorável à compreensão pú-
blica da C&T e, ao mesmo tempo, um importante agente informador/formador,
que nutre e se nutre do processo de popularização do conhecimento (PINEDA,
2003).
Mas sabe-se, também, que uma coisa é o público informado e outra com-
pletamente diferente é o público formado. No primeiro caso predomina, no máxi-
mo, a especulação; no segundo, o público é capaz de manejar, compreender e
traduzir códigos culturais diferentes. A formação, segundo Pineda (2003), exige
um nível de conhecimento que permite argumentar, sustentar, discutir, discordar
baseado em pressupostos sólidos acerca de aspectos tecnocientíficos.

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 27


A educação científica, no entender da autora, deve ser um dos pressupos-
tos da Divulgação Científica, ao atuar como ponte entre o laboratório ou centros
de pesquisa e inovação e a sociedade. Por isso, deve proporcionar a construção
de uma mentalidade nova, que possa encarar a ciência não apenas como algo
dado, definitivo, mas como construções abertas que podem ter diferentes leitu-
ras.
Knor-Cetina (1999) destaca dois modelos relacionados à comunicação da
Ciência, um deles é o modelo Standard, considerado tradicional; e o modelo in-
fluenciado pelo enfoque CTS (Ciência, Tecnologia e Sociedade). O modelo tradi-
cional diz respeito à comunicação de mensagens ocorrida de um emissor para um
receptor, através de canais técnicos tais como a fala, a escrita, entre outros, de
forma linear, unidirecional. De um lado está quem tem a posse da informação e
transmite; de outro, quem apenas recebe.
A comunicação, nesse modelo, está diretamente ligada às questões de
produtividade e ao sistema de recompensa em ciência: aquilo que interessa é a
quantidade de produtos tecnocientíficos, na medida em que ela se encontra rela-
cionada com outros fatores (estrutura organizativa, por exemplo), ou caracterís-
ticas relacionadas com a produção própria de um determinado domínio, como a
contagem e os padrões da citação ou da co-citação.
O segundo modelo, segundo Knorr-Cetina, pode ser resumido pela idéia de
que as elocuções comunicativas são atos de palavra; elas realizam ações, ou, na
terminologia da teoria dos atos de palavras, têm uma força ilocucionária que não
depende do seu conteúdo proposicional.
Para Knorr-Cetina (1999), a idéia de que a comunicação e particularmente
a fala e a escrita são intrinsecamente processos ativos, tornou possível entender
a comunicação como “uma esfera da atividade social de direito próprio, no inte-
rior da qual as mensagens não são apenas preservadas ou transmitidas, mas for-
madas e construídas” (1999, p. 380). Isso, segundo ela, faz reavivar o interesse
na comunicação na medida em que esta inclui estratégias de persuasão. Este
modelo abriu as portas para estudos das negociações interativas e da definição
de sentido por dois ou mais participantes do processo da comunicação.

Essa concepção não só assume que as mensagens se modificam


na interação, mas igualmente que há resultados emergentes –
efeitos da interação aos quais os participantes poderiam che-
gar por si mesmo. Finalmente o esbatimento da distinção entre
palavras e obras, entre comunicação e ação, tornou emblem-
ática quaisquer fronteiras entre, por um lado, a investigação e
o trabalho científico, e, por outro, a comunicação dos resultados
dessa investigação. A comunicação infiltra a investigação, e é
pelo menos tão relevante para ela como o é para as questões
relativas ao gesto de tornar públicos os resultados; de fato, em
algumas áreas, o discurso parece ser o banco de trabalho para a
elaboração dos resultados científicos (1999, p. 380).

Numa direção parecida, outros autores sugerem que se pense a comu-


nicação pública da ciência a partir de dois grandes modelos: o modelo unidi-
recional, que propõe processos de comunicação em uma única via, desde os

28 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


cientistas até a sociedade, nos quais a chave é a disseminação da informação; e
os chamados modelos dialógicos, nos quais a participação e a postura ativa do
público são o foco de atenção (FARES et al., 2007).
O modelo unidirecional se subdivide em dois: o Modelo de déficit, que
está associado a uma visão em que os cientistas são os únicos detentores do
conhecimento, e o processo comunicativo acontece em uma única via, sendo os
cientistas os emissores, o público os receptores passivos. (STURGIS e ALLUM,
2004); e o Modelo contextual, no qual os indivíduos não recebem a informação
como recipientes vazios, pelo contrário, processam os conhecimentos de acor-
do seus próprios esquemas sociais e psicológicos (LEWENSTEIN e BROSSARD,
2006).
Quanto aos modelos dialógicos temos o Modelo de experiência leiga, que
valoriza os conhecimentos locais, que podem ser tão relevantes para a resolução
de problemas científicos e tecnológicos como os conhecimentos científicos (LE-
WENSTEIN, 2003). E, por fim, o Modelo de participação pública o qual se baseia
no compromisso de democratização da ciência e da tecnologia
valorizando o diálogo entre os cientistas e os não-cientistas (DURANT, 1999).
O que está em questão não é somente o acesso à informação sobre C&T,
mas as possibilidades de ação que poderiam ser realizadas para a melhor apro-
priação da ciência pelo público leigo, levando em consideração a participação da
população nesse processo.

A proposta

Inspirados no conjunto das reflexões feitas acima os autores deste texto e


outros colaboradores investigaram a presença de conteúdos de natureza cientí-
fica e tecnológica na mídia impressa e eletrônica do Estado da Paraíba. Neste tra-
balho são apresentados, apenas, os resultados quantitativos e algumas reflexões
pontuais da pesquisa que teve como foco os sites e portais de notícias.
Buscou-se, de forma específica, verificar, de um lado, a origem da produção
noticiada (se regional, nacional, internacional), e, de outro, os principais temas
enfocados. Tomou-se como recorte cronológico os anos de 2006 e 2007, definido
em função da disponibilidade de arquivo de conteúdo nos sites/portais seleciona-
dos.
O corpus desta investigação foi selecionado a partir de buscas no Google
(www.google.com.br), usando como descritor o termo “portais de notícias da
Paraíba”. Foram selecionados 28 portais/sites. Considerou-se, para efeito de
análise, os que estavam no ar há mais de dois anos, com atualização regular
(pelo menos uma vez por semana) e que apresentavam, de fato, marcas noticio-
sas locais e/ou regionais. Apenas cinco passaram por esse filtro. O quadro abaixo
apresenta um rápido perfil dos portais/sites selecionados.
Entende-se aqui o Jornalismo Científico (JC) como parte integrante do proc-
esso de Comunicação Pública da Ciência (CPC), constituindo uma de suas dimen-
sões – a dimensão midiática. As reflexões acima, produzidas originalmente tendo
em vista as diferentes práticas (e dimensões) da CPC, são aqui apropriadas para
dar suporte a análise do material coletado, naquilo que pode ser generalizado,
como as características gerais do modelo tradicional (de CPC): ‘estandardização’,

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 29


linearidade, unidirecionalidade e percepção de público centrada no modelo defi-
citário, já explicado acima.
SITES PERFIL

www.paraibaonline.com.br No ar desde 2003, o portal Paraíba Online tem como cara-


cterística mais contundente a enfática cobertura política.
Dos portais que compõem o corpus desta pesquisa, este
é o que se percebe o maior número de atualizações e em
quantidade o maior número de matérias.
www.wscom.com.br No ar desde 2001, o portal de notícias Wacom possui o
caráter jornalístico político, em suas matérias observa-se
que o portal contempla de forma especial assuntos ligados
a esse tema.
www.brejo.com.br No ar desde 2003, o site Brejo é voltado para uma cober-
tura dinâmica sobre os mais variados assuntos, compondo
dez editoriais: cidades, cultura, geral, informática, Paraíba,
policial, política, social, turismo e educação, além de qua-
torze colunistas.
www.portalparaiba.com.br O site disponibiliza ao leitor notícias sobre o mundo, o
estado da Paraíba e a cidade de Campina Grande, possui
dezoito editorias: internacional, Brasil, Paraíba, cidades,
política, esporte, cultura, turismo, tecnologia, educação,
saúde, economia, policial, sociedade, colunistas, agenda
cultural, charges, culinária e vídeos.
www.paraibanews.com.br Com um conteúdo jornalístico e de entretenimento, o
Portal Paraíba é pautado de diversas formas, através de
agências de notícias e assessorias de comunicação. Entre
as suas editorias estão: Brasil, cidades, cultura, economia,
educação, entretenimento, esporte internacional, policial e
política.
Fonte: Elaboração dos autores.
Quadro demonstrativo 01: Perfil dos Sites selecionados

Adota-se a compreensão de Pereira, Serra e Peiriço (2003), segundo a


qual divulgar ciência não é e nem pode ser ensinar curiosidades, uma vez que na
descrição do conhecimento existe um sistema de valores e de posicionamentos
éticos ou ideológicos, ainda que não tratado de maneira explícita; e a proposição
de Huergo (2001), para quem todo processo de comunicação da ciência deve
considerar, dentre outras questões: a) o conteúdo científico e tecnológico como
construção social; b) os comunicadores e seus saberes; c) o universo vocabular
do interlocutor (comum e especializado); d) as contradições da vida social, cul-
tural geral; e) e a construção da mensagem de modo que o público se reconheça
nela, perceba as relações entre o conhecimento divulgado e o seu cotidiano.
Compreende-se, também, que o Jornalista Científico, além de divulgar
fatos, acontecimentos, descobertas, invenções, deve saber contar, explicar, con-
textualizar as hipóteses, as teorias, os debates, as dúvidas; e, junto com dados,
noções, termos, deve saber lidar com ‘estórias’ e personagens, e com a história,
a filosofia, a sociologia das ciências. Deve, também, saber mostrar, indagar e
comentar não só as idéias científicas, assim como os métodos e os processos da
ciência, e não pode abrir mão de sua responsabilidade enquanto profissional do
jornalismo (CASTELFRANCHI, 2007).

30 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


Embora não se enfatize aqui uma análise específica de conteúdo, é im-
portante destacar que as idéias acima orientaram e dirigiram os olhares que se
debruçaram sobre o objeto ação deste trabalho. Isso implica reconhecer que,
muito fortemente, os conteúdos observados (e aqui discutidos) se apresentaram
aos autores com as “virtudes” e “defeitos”, “fragilidades” e “fortalezas” estabel-
ecidos por esse alinhamento teórico-metodológico.

A Internet

Segundo Castells (2003), a internet surgiu nos Estados Unidos ainda na


década de 1960. Foi na Arpanet (Advanced Research Projects Agency), uma
empresa formada em 1958 pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos,
que as primeiras experiências com a rede mundial de computadores foram fei-
tas. No Brasil, as primeiras experiências foram conduzidas na segunda metade
dos anos 1980, por iniciativa do Governo Federal, mas se limitavam ao ambiente
acadêmico. As primeiras experiências privadas envolvendo atividades jornalísti-
cas aconteceram no começo dos anos 1990, e foram levadas a cabo pelos gru-
pos Jornal do Brasil e Folha de São Paulo.
Destacam-se pelo menos quatro fases na curta trajetória do webjornal-
ismo. A primeira é marcada fortemente pela transposição pura e simples dos
conteúdos publicados em jornais impressos para plataformas on-line; e a seg-
unda, pelo incremento de hipermídias, redução da transposição e produção de
material exclusivo. Já a terceira caracteriza-se pela incorporação de hipermídia
à produção textual, distribuição do conteúdo para outras plataformas (celulares
e handhelds), interconexão para além do material de apoio e menus de nave-
gação, e aprofundamento da interação dos veículos com o público navegador
(chats, canais de discussão, listas, enquetes, etc).
A quarta fase caracteriza-se pelo aprofundamento da hibridização das nar-
rativas, pela mudança de orientação (a Net, que antes era apoio, complemento,
suporte, agora se assume como centro de irradiação da produção jornalística),
a individualização e diversificação dos emissores (blogosfera, por exemplo), e
a preconização do fim da exclusividade da empresa jornalística como única ha-
bilitada a produzir e emitir informações. Descobre-se, nessa fase, que ocorre
paralela a terceira (ressalte-se nenhuma das fases aqui descritas foi superada
com a emergência de outra, e que os modelos transpositivos ainda são muito
comuns na rede), que o público é mais ativo e exigente do que se imaginava,
e já não aceita qualquer coisa como informação. Tem o seu próprio padrão de
qualidade. Basta verificar as sessões “comente esta notícia”, comuns a quase
todos os sites, portais e blogs que acompanham, tecnicamente, os avanços da
rede.
No que diz respeito ao Jornalismo Científico a Internet não só criou um
universo grande (e variado) de possibilidades de contato com diferentes fontes
e recursos narrativos (hipermídia, hi pertextualidade, hibridização de lingua-
gens), como eliminou dois grandes problemas que impediam, segundo o dis-
curso corrente nas redações, a publicação mais freqüentes de matérias sobre
ciência e tecnologia: a falta de tempo (particularmente nos noticiários de tv e
de rádio) e de espaço (nas publicações impressas). Quase duas décadas depois

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 31


de emergência do JC na rede, observa-se, porém, a prevalência da transposição
pura e simples do que já foi impresso, ou o armazenamento, em vídeo e/ou áu-
dio do que já foi mostrado na TV ou no rádio; pouca diversidade temática e de
fontes; e concentração distributiva (material produzido e distribuído por duas ou
três grandes agências internacionais). Ainda assim, no entendimento dos au-
tores, e em concordância com Leal (2003), não há como negar que o webjornal-
ismo, hoje, mesmo que se discuta o seu verdadeiro alcance (a exclusão digital
é significativa) e a confiabilidade (publicação livre, sem ‘controle’ de qualidade),
é, sem dúvida, uma importante promessa de democratização do conhecimento
científico e tecnológico.

Resultados: a ciência na rede

A partir da coleta de dados, efetuada durante o primeiro semestre de


2008, foi possível traçar o perfil atual do Jornalismo Científico praticado pelos
portais e sites de notícia no Estado da Paraíba. As amostras foram segmentadas
para facilitar o entendimento. O primeiro aspecto observado é o da origem, e o
segundo diz respeito aos assuntos abordados nas matérias.

Quanto à origem

Os gráficos a seguir representam uma comparação entre os anos de 2006 e


2007 em relação à origem das matérias. Em dois anos a cobertura de fatos
científicos total dos portais foi de: Paraíba Online – 2.190 matérias; Wscom –
401 matérias; Brejo – 543 matérias; Portal Paraíba - 16 matérias; e Paraíba
News – 59 matérias.

Gráfico 01: Panorama da origem das matérias


32 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


Gráfico 02: Comparação entre portais/sites

No Paraíba Online o número de matérias internacionais chegou a 1.458,


contra 184 de cobertura local. No portal Wscom foram identificadas 188 de
matérias nacionais e 116 relacionada a produção local. Já o portal Brejo publicou
331 matérias de origem internacional e apenas 71 matérias de origem local. O
único portal a apresentar uma cobertura local maior que internacional foi o Por-
tal Paraíba News, que publicou no período pesquisado, 26 matérias locais contra
6 internacionais. A cobertura nacional foi superior, com 27 matérias. Por último,
o Portal Paraíba publicou 8 matérias internacionais e 3 locais. O gráfico 02 apre-
senta o percentual comparativo entre os cinco portais analisados em relação à
origem da cobertura.
Curiosamente o portal Paraíba Online, que publicou o maior número de
notícias relacionadas à produção científica, apresentou o segundo menor índice
de cobertura local - 18,07%. O portal Brejo tem o menor índice com 13,06%,
seguido do Portal Paraíba com 18,75%. A cobertura científica local no Portal Ws-
com representou 28,92% e no Paraíba News, 44,05%.

Quanto à distribuição temática

A segunda classificação dos dados coletados refere-se aos assuntos abor-


dados pelas matérias de natureza científica. A partir dos dados foi possível es-
tabelecer seis segmentos: ciência (relacionada à cultura científica, de maneira
geral), tecnologia (produtos resultantes da investigação científica), saúde, meio
ambiente, pesquisa (matérias relacionadas à pesquisa aplicada) e evento cientí-
fico. O gráfico 03 mostra a comparação entre os portais em relação aos assuntos
abordados nas matérias de C&T publicadas nos dois anos em análise.

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 33


Gráfico 03: Distribuição dos temas nos portais

Observa-se, no gráfico acima, que portal Paraíba Online mostrou-se mais


linear na divisão dos assuntos abordados, assim como o Wscom, que embora
apresente um número maior de matérias sobre tecnologia, também abordou
outros assuntos. O Portal Paraíba News publicou uma diversidade maior de te-
mas ligados à C&T.

Considerações

Mesmo não sendo objeto deste trabalho uma reflexão acurada sobre os
conteúdos das matérias encontradas nos portais e sites investigados pelos au-
tores, tomando como parâmetro as questões levantadas por Pereira, Serra e
Peiriço (2003), Huergo (2001) e Castelfranchi (2007), sobre o que vamos chamar
aqui de modelo ideal de divulgação científica, observou-se no material coletado
pelo menos cinco fragilidades:
a) narrativas centradas nos resultados, em detrimento dos contextos de
produção e justificação das descobertas e/ou investigações aplicadas;
b) preocupação excessiva com a descrição utilitária/comercial do objeto,
quando se tratava de produto tecnológico, ou quando a notícia dizia respeito à
medicamentos, e quase nenhuma linha sobre riscos, dúvidas, incertezas, con-
trovérsias (já que nenhuma descoberta é desprovida de interesse e contém, em
si, toda verdade científica);
c) a atualidade da notícia definida em função de questões como curiosi-
dade e grandiosidade, em detrimento da essência, do verdadeiro significado
social da investigação de que foi resultado a matéria em questão;
d) narrativas que isolam o objeto e seus “criadores” da esfera da vida
cotidiana, da história, como se a investigação científica ou tecnológica fosse
desenvolvida em uma outra esfera, resultasse de experiências extra-humanas,
ou fosse conduzida por seres infalíveis;

34 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


e) transposição pura e simples do material fornecido por agências, par-
ticularmente internacionais, sem acréscimos ou construção de guias de leituras
complementares, próprias do ciberespaço.
Considerando a predominância nos sites paraibanos, da ciência produzida
fora do País, sugere-se três ações interligadas: uma de mobilização interna por
parte da comunidade científica – a ciência precisa dar-se a conhecer; outra de
mobilização das instituições de ensino superior para a abertura de cursos de
extensão, especialização, treinamentos, seminários de qualificação de profis-
sionais para a divulgação científica; e uma outra de estudos e investigações mais
específicas, com pesquisas dirigidas à comunidade dos jornalistas para se tentar
perceber, a partir de suas respostas, o que o jornalista paraibano pensa, sabe ou
conhece da ciência produzida em seu Estado.
Partilha-se, aqui, da convicção política de que o Jornalismo Científico, na
web ou em outras mídias, contribui, significativamente e de forma positiva, para
o desenvolvimento da tecnociência, e cria as condições para que ela seja apro-
priada socialmente e promova as transformações necessárias a construção de
uma sociedade mais justa e ambientalmente sustentável.

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36 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


DESAFIOS DA PESQUISA QUALITATIVA:
ASPECTOS A SEREM CONSIDERADOS NA ESCOLHA DO MÉTODO DE
PESQUISA CIENTÍFICA

Rebelo, Luiza Maria Bessa


Professora Associada II da Universidade Federal do Amazonas;
Doutora em Engenharia de Produção (UFSC).

Resumo

O objetivo deste artigo é apresentar e discutir aspectos que orientam a pesquisa qualitativa desta-
cando que o paradigma que a norteia tem seus fundamentos em questões mais amplas do que a mera
discussão de um conjunto particular de técnicas em si mesmo. Objetiva ainda, discutir os aspectos rel-
evantes que devem ser considerados por ocasião da escolha desse tipo de pesquisa e da análise dos dados
qualitativos. A metodologia usada para elaboração do estudo foi de natureza bibliográfica, buscando-se em
autores renomados, os argumentos que dirigem este tipo de pesquisa. Por fim, o estudo indica que a argu-
mentação elaborada ao longo do artigo deve permitir ao leitor identificar que se há oposição de conceitos,
não é entre pesquisa qualitativa e pesquisa quantitativa, mas a oposição está radicada fundamentalmente,
nas concepções de mundo e de ser humano.

Palavras-chave: pesquisa qualitativa; paradigma; análise de Dados.

Abstract

This article’s goal is to present and discuss aspects that direct a qualitative research, emphasizing
that the paradigm that conducts it is based on issues that go beyond the simple discussion of a particular
set of techniques itself. This article also aims to discuss relevant aspects that shall be considered, due to
the selection of this particular type of research and its qualitative data analysis. The methodology used for
this study’s elaboration was of bibliographic nature, seeking in renowned authors’ works arguments that
direct this kind of research. At last, this study indicates that the argumentation elaborated throughout the
article allows the reader to identify that if there’s concept opposition, it is not between the quantitative and
qualitative researches themselves but the opposition is fundamentally rooted in the world and the human
being’s conceptions.

Key words: qualitative research; paradigm; data analysis.

“Tudo que é vivo se reveste de uma pluralidade de aspectos” (Dilthey)

Introdução

As reflexões acerca dos desafios na pesquisa qualitativa, a serem apre-


sentadas neste artigo, tomarão como ponto de partida, a afirmação de Morgan
e Smircich (1980) quando indicam que, a mera substituição do “paradigma da
pesquisa quantitativa”, com expressiva presença nas décadas de 1960 e 1970,
pelo “paradigma da pesquisa qualitativa”, reinante na década de 1980, soa ar-
tificial e vazio de significado, pois não se discute as questões centrais presentes
na escolha dos métodos na pesquisa em ciências sociais, incorrendo-se então

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 37


– segundo os mesmos autores – numa super simplificação, grosseira, de vez
que ambos os pontos de vista estão assentados igualmente num empirismo
abstrato, quase como um fim em si próprio. A partir desta constatação, buscar-
se-á argumentar que a escolha do método de pesquisa – se qualitativo ou quan-
titativo – dependerá da ontologia, da epistemologia e da visão de ser humano
subjacente à investigação que está sendo feita. Ou seja, o objetivo da argumen-
tação e, conseqüentemente, do presente trabalho, é assinalar que o paradigma
da pesquisa qualitativa tem seus fundamentos em questões mais amplas do que
a mera discussão de um conjunto particular de técnicas em si mesma.
Argumenta-se ainda que construir um projeto de pesquisa, considerando o
entendimento de Goldenberg (2000, p.74), é uma etapa importante e delicada.
Essa construção pressupõe a elaboração de um design que possa dar conta, ao
final, de responder à questão de pesquisa a qual originou a investigação. Pronta
essa etapa do delineamento, o pesquisador parte para a construção efetiva de
sua investigação, incluindo aí, o trabalho de campo, conforme a escolha dos
métodos e técnicas. Com os dados em mãos, o pesquisador pode ter a ilusão
que está chegando ao final de seu trabalho cientifico, conforme alerta Gomes
(apud MINAYO, 1994, p.67). Pode ocorrer, no entanto, de que ele se veja em
um emaranhado de dados sem saber o que fazer com eles, como foi mostrado
por Coffey & Atkinson (1996, p.1-2) quando descreveram a cena em que dois
pesquisadores estavam ‘perdidos’ diante de centenas de folhas de papel com
dados coletados. Esse quadro adquire maior grau de complexidade quando se
trata de pesquisa qualitativa, pois enquanto a pesquisa de natureza quantitativa
é mais simples em função de sua objetividade e de sua condição de ser factual e
mensurável sob algum procedimento estatístico escolhido, a pesquisa de natu-
reza qualitativa tem como objeto situações complexas ou estritamente particu-
lares (RICHARDSON, 1985, p.39).
É, pois, sobre pesquisa qualitativa, seus paradigmas seus mitos e o proc-
esso de análise dos dados nesse tipo de pesquisa, que o presente artigo tratará
a seguir, destacando alguns aspectos relevantes que devem ser considerados
por ocasião da escolha desse tipo de pesquisa e da análise dos dados qualita-
tivos, bem como alguns procedimentos mais usuais durante a execução de tão
importante etapa do processo de construção do conhecimento científico.

O papel do significado no contexto da pesquisa qualitativa

Toda esta celeuma em torno do paradigma qualitativo, para Mazotti (1998),


inicia-se como uma reação ao paradigma quantitativo, originário das ciências
naturais, fortemente presente nas pesquisas realizadas no campo das ciências
sociais até então, o qual, por sua vez, estava estruturado em bases e princí-
pios positivistas. Esse quadro de crítica à ciência tradicional mobilizou muitos
cientistas sociais a buscarem “caminhos para a efetivação de uma ciência mais
comprometida com a transformação social” (MAZOTTI, 1998, p.129). Esta au-
tora adverte ainda que o termo “paradigma” então usado, encontra respaldo no
significado mais comum expresso por Khun (1962 apud MORGAN, 1980), den-
tre os vinte um assinalados por seu criador, qual seja o de uma nova visão da
realidade, uma ótica alternativa da visão então vigente. Mazotti (1998) recorre

38 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


a Patton (1986 apud MAZOTTI, 1998, p. 131) para caracterizar o “paradigma
qualitativo”, indicando como principal característica das pesquisas qualitativas a
adoção da tradição ‘compreensiva’ ou interpretativista, o que significa que “es-
sas pesquisas partem do pressuposto de que as pessoas agem em função de
suas crenças, percepções, sentimentos e valores e que seu comportamento tem
sempre um sentido, um significado (grifo da autora), que não se dá a conhecer
de modo imediato, precisando ser desvelado”. Dessa assertiva, pode-se inferir
que o paradigma qualitativo ancora-se fortemente na figura do pesquisador, em
sua ontologia, epistemologia e visão de ser humano, conforme indica Bradley
(1993 apud DIAS, 2000) ao enunciar que “na pesquisa qualitativa, o pesquisa-
dor é um interpretador da realidade”.
Minayo (1994, p. 23) afirma que “em oposição ao Positivismo, a Sociologia
Compreensiva responde de forma diferente à questão sobre o qualitativo. Esta
corrente teórica coloca como tarefa central das ciências sociais a compreensão
da realidade humana vivida socialmente. Em suas diferentes manifestações,
como na Fenomenologia, na Etnometodologia, no Interacionismo Simbólico, o
significado é o conceito central de investigação”. Goldenberg (2000 p. 18) con-
valida este ponto de vista, ao assinalar que a ‘sociologia compreensiva’ considera
necessário, para estudar os fenômenos sociais, um procedimento metodológico
diferente daquele utilizado nas ciências físicas e matemáticas. Dizendo de outra
forma, “as principais características dos métodos qualitativos são a imersão do
pesquisador no contexto e a perspectiva interpretativa de condução da pesqui-
sa” (KAPLAN & DUCHON, 1988 apud dias, 2000).
Um dos primeiros estudiosos a criticar o uso da metodologia das ciências
naturais pelas ciências sociais foi o filósofo alemão Wilhelm Dilthey (apud GOLD-
ENBERG, 2000, p. 18), dada a diferença do objeto de estudo das mesmas. Para
este estudioso, os fatos sociais não são suscetíveis de quantificação, de vez que
cada um deles tem um significado próprio, singular, exigindo, pois, que cada
caso concreto seja compreendido em sua especificidade. Assim, caberia às ciên-
cias sociais preocuparem-se com a compreensão de casos particulares e não
com a formulação de leis generalizantes, como fazem as ciências naturais. Ainda
recorrendo a Dilthey, Goldenberg (2000, p. 19) registra que esse filósofo difer-
enciou o método das ciências naturais do das ciências sociais, por meio de dois
conceitos: as ciências naturais (‘erklaren’) buscam generalizações e a desco-
berta de regularidades, enquanto as ciências sociais (‘verstehen’) objetivam a
compreensão interpretativa (os significados) das experiências pessoais dentro
do contexto em que foram vivenciadas. No paradigma da pesquisa qualitativa,
portanto, fica salientado que “o estudo dos fenômenos sociais tem como foco os
significados dos sujeitos que os constroem, o que requer partir-se do princípio
que o estudo precisa também ser analisado na perspectiva dos sujeitos” (PATRÍ-
CIO et alii, 1999).
De acordo ainda com Goldenberg (2000), o maior representante da de-
nominada ‘sociologia compreensiva’ foi Max Weber (que se apropriou da idéia
de ‘verstehen’ de Dilthey), o qual esclarece de forma bastante precisa os pres-
supostos inerentes às ciências sociais e às ciências naturais, ao assinalar que
o principal interesse da ciência social é o comportamento significativo dos
indivíduos engajados na ação social, ou seja, o comportamento ao qual os in-

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 39


divíduos agregam significados considerando o comportamento de outros in-
divíduos. Assim, o cerne da questão é compreender que, os próprios cientistas
sociais são sujeito e objeto de suas pesquisas, já que suas práticas direcion-
am-se para pesquisa dos significados das ações sociais de outros indivíduos e
deles próprios. Esta é um contraponto consistente com a visão positivista que
separa, de forma radical, sujeito e objeto, além de pleitear uma visão obje-
tiva do primeiro sobre o segundo. Os cientistas sociais, ao contrário, “buscam
compreender os valores, crenças, motivações e sentimentos humanos, com-
preensão que só pode ocorrer se a ação é colocada dentro de um contexto de
significado” (GOLDENBERG, 2000, p. 19).
Morgan e Smircich (1980, p. 491) elucidam melhor essa falsa dicoto-
mia quando destacam que a escolha de um ou outro método – qualitativo ou
quantitativo – não pode ser feita ou considerada, no plano abstrato. “A escolha
e a adequação de um método incorporam uma variedade de pressupostos a
respeito da natureza do conhecimento e os métodos através dos quais o con-
hecimento pode ser obtido, bem como o conjunto de pressupostos básicos
sobre a natureza do fenômeno a ser investigado”. Para referendar este argu-
mento, os citados autores buscam no esquema de análise oferecido por Burrel
e Morgan (1979 apud MORGAN e SMIRCICH, 1980, p. 491) a comprovação de
suas teses, ao apresentarem um continuum que, em um extremo, contempla
as abordagens objetivas nas ciências sociais e, no pólo oposto apresenta as
abordagens subjetivas nas ciências sociais, passando ainda por outros métodos
intermediários situados ao longo do referido continuum.
Cada um dos métodos apresentados no referido modelo está vinculado
a uma ontologia, a uma epistemologia e a uma visão da natureza humana.
Da mesma forma que os autores acima citados, colocam em oposição o posi-
tivismo e a sociologia compreensiva, Burrel e Morgan (1979 apud MORGAN
e SMIRCICH, 1980, p. 492) opõem os paradigmas funcionalista e o interpre-
tativo, embora alertem que esta análise não está completa porque omite os
paradigmas radical estruturalista e radical humanista (depois eles o fazem em
outro estudo). Ainda assim, o esquema oferece a possibilidade de que se com-
preenda que cada olhar sobre o fenômeno a ser estudado, está comprometido
com uma ontologia e uma visão da natureza humana. Este ‘filtro’ (que está as-
sentado em um dado paradigma), automaticamente, demanda uma dada epis-
temologia e uma metodologia que amparem e sustentem esse olhar. Ou seja, a
escolha da epistemologia e do método – se qualitativo ou quantitativo – vai se
dar como sucedâneo de uma escolha primeira que é: “como o mundo e as pes-
soas são vistas pelo sujeito cognoscente?”. Os autores alertam que embora
o método inerente a um dos extremos do continuum (relativo ao paradigma
funcionalista) seja ainda dominante, a migração na direção do outro extremo
(relativo ao paradigma interpretativista) vem se dando, o que revela que uma
nova forma de olhar o homem e o mundo está em curso, além de destacaram
que as posições no continuum não devem ser rígidas mas fluidas e flexíveis.
Na verdade, eles ressaltam, “este esquema oferece uma maneira útil de pensar
sobre os tipos de pressupostos que sublinham continuamente a pesquisa e o
debate no campo das ciências sociais, e os problemas a respeito da epistemo-
logia e da metodologia adequados” (MORGAN e SMIRCICH, 1980, p. 493).

40 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


Em termos da instância epistemológica, os autores exemplificam que quan-
do o pressuposto ontológico é de que a realidade é como uma estrutura con-
creta e objetiva, a ênfase então, recairá na epistemologia positivista bem como
na escolha de uma metodologia de natureza empírica e quantitativa. Por outro
lado, ao se migrar para o outro extremo do continuum, na abordagem subjetiva
das ciências sociais, os pressupostos ontológicos ancoram-se na realidade como
uma projeção da imaginação humana, e a instância epistemológica demanda
a obtenção de um insight fenomenológico, uma revelação, e a escolha da me-
todologia recairá sobre os modelos qualitativos de análise. O que isto significa?
Para Morgan e Smircich (1980), significa que a escolha dos métodos e das téc-
nicas não é determinada e categorizada no abstrato, de vez que é a natureza e
o significado preciso do fenômeno que delineia os pressupostos sobre os quais
os cientistas sociais agem. A questão de fundo é a abordagem do problema, a
natureza das crenças que os pesquisadores sociais trazem para seus objetos de
estudo e não, as técnicas em si mesmo, as quais terminam por serem as respon-
sáveis pela falsa dicotomia, quantitativa x qualitativa. Ao usar a linguagem dos
paradigmas (funcionalista e interpretativista, por exemplo), esses autores obje-
tivam sugerir que o estudo de cada fenômeno deve estar ligado, vinculado, a um
modo mais amplo, a um corpo maior, de visualização da organização social.
Trivinos (1987) igualmente alerta para a falsa dicotomia (qualitativa x
quantitativa), que não encontra respaldo para sobreviver, tanto do ponto de
vista da análise marxista quanto do ponto de vista da própria experiência do
pesquisador. Este autor destaca que, no começo, a pesquisa qualitativa foi domi-
nada pelo funcionalismo e o estrutural-funcionalismo com raízes no positivismo,
especialmente no campo da antropologia, com Malinoswski, que se esforçava na
interpretação e explicação das realidades culturais que estudava, buscando leis
generalizantes para classificá-las. Mas, como forte reação ao enfoque positivista
nas ciências sociais, surge “na década de 70, a pesquisa qualitativa de natureza
fenomenológica, cujas bases teóricas, de tipo idealista, privilegiava a consciência
do sujeito, entendendo a realidade social como uma construção humana, per-
mitindo rápido desenrolar de seus princípios ...” (TRIVINOS, 1987, p. 125). Este
autor, embora reconheça o valor do enfoque fenomenológico como contraponto
ao positivismo tão em voga, destaca que ele é inadequado para os países sub-
desenvolvidos por não incorporar o enfoque dialético presente no materialismo
histórico. Diante desse argumento, este autor ressalta que o teor de qualquer
enfoque qualitativo que se desenvolva será dado pelo referencial teórico no qual
se apóie o pesquisador, ou seja, na ontologia esposada pela figura do pesquisa-
dor. Assim, os traços fundamentais da pesquisa qualitativa fundada no enfoque
interpretativista, encontram-se, de um lado, na sua natureza desreificadora dos
fenômenos, do conhecimento e do ser humano, e, de outro, na rejeição da neu-
tralidade do saber cientifico. Ainda Trivinos (1987, p. 117) destaca que essas
posições qualitativas baseiam-se especialmente na fenomenologia e no marx-
ismo. Em função disso, pode-se “distinguir dois tipos de enfoques na pesquisa
qualitativa que correspondem a concepções ontológicas e gnosiológicas especi-
ficas de compreender e analisar a realidade”, quais sejam:
a) Os enfoques subjetivistas-compreensivistas com suporte nas idéias de
Weber, Dilthey, Schleiermacher, Jaspers, Heidegger, Marcel, Hursell e ainda, Sar-
tre;

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 41


b) Os enfoques crítico-participativos com visão histórica-estrutural com
suporte nas idéias de Marx, Engels, Gramsci, Adorno, Horkheimer, Marcuse,
Fromm, Habermas, entre outros.
Mazotti, (1998, p. 132) chama a atenção para o fato de que as diversas
tradições englobadas sob o rótulo de paradigma qualitativo apresentam entre
si diferenças significativas com relação a aspectos essenciais ao processo de
investigação, incluindo aí a posição referente ao que é real, o campo de objetos
julgados apropriados ao tipo de pesquisa, as crenças sobre os méritos de dif-
erentes métodos e técnicas, a forma de apresentar os resultados e os critérios
para julgar a qualidade dos estudos. Dessa forma, esta autora apresenta três
paradigmas como sucessores do positivismo, segundo três dimensões, os quais
serão apresentados de forma sintética, seguir:
a) Construtivismo social: enfatiza a intencionalidade dos atos humanos e
o “mundo vivido” pelos sujeitos, privilegiando as percepções dos atores. O mé-
todo utilizado pelos construtivistas “procura colocar entre parêntesis” as crenças
e proposições sobre o mundo para melhor apreendê-lo. Os pressupostos básicos
do construtivismo social foram resumidos assim por Guba (1990 apud MAZOTTI,
1998, p. 133):

1.Uma ontologia relativista;


2.Epistemologia subjetivista; e
3.Metodologia hermenêutico-dialética.

b) Pós-positivismo: caracteriza-se nas ciências sociais como a abordagem


que enfatiza o uso do método cientifico como a única forma válida de produzir
conhecimentos confiáveis, mas baseado em modelos experimentais e quase-ex-
perimentais com teste de hipótese, visando a formulação de teorias explicativas
de relações causais (GUBA, 1990, entende como o positivismo disfarçado). Seus
pressupostos básicos são assim definidos:

1. Uma ontologia crítico-realista;


2. Uma epistemologia objetivista-modificada; e
3. Uma metodologia experimental/manipulativa modificada.

c) Teoria crítica: neste paradigma, a palavra ‘crítica’ assume pelo menos


dois sentidos. Um, se refere à crítica interna, isto é, à análise rigorosa da argu-
mentação e do método.
Dois, diz respeito à ênfase na análise das condições de regulação social, desi-
gualdade e poder. Os pressupostos deste paradigma são:

1. Uma ontologia crítico-realista;


2. Uma epistemologia subjetivista; e
3. Uma metodologia dialógica e transformadora.

Como se pode perceber, a construção teórica proposta por Mazotti (1998)


guarda estreita coerência com a discussão elaborada por Morgan e Smircich
(1980), quando enfatizam que o marco definidor do que é pesquisa quantitativa
ou qualitativa, é a ontologia, a epistemologia e a visão do pesquisador sobre a

42 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


natureza humana. A metodologia escolhida deverá guardar relação direta com
estes pressupostos. Assim, o falso dilema na escolha do método mais adequado,
fica resolvido, pois não é ele que orienta a natureza da pesquisa mas ele sim, é
orientado pela linha teórica adotada pelo pesquisador. Decididamente, “a difer-
ença entre qualitativo-quantitativo é de natureza. Enquanto os cientistas sociais
que trabalham com a estatística apreendem dos fenômenos apenas a região
‘visível, ecológica, morfológica e concreta’, a abordagem qualitativa aprofunda-
se no mundo dos significados das ações e relações humanas, um lado não per-
ceptível e não captável em equações, médias e estatísticas” (MINAYO, 1994, p.
22).

Compreendendo o processo de análise de dados na pesquisa qualita-


tiva

A fim de que não se incorra em erro primário de analisar os dados em


pesquisa de natureza qualitativa, de forma isolada e estanque, Trivinos (1987,
p. 137) aponta que nesse enfoque, é preciso que a coleta dos dados seja feita
em interação dinâmica com a análise dos dados, em contínuo processo de ret-
roalimentação e realimentação. Coleta e análise de dados em pesquisa qualita-
tiva constituem dimensões únicas de um mesmo eixo, permitindo com que os
dados e pesquisador “dialoguem” entre si, encaminhando a novas instâncias e
interrelações, fazendo, em alguns casos, que o pesquisador retorne ao campo
para novos levantamentos, advindo daí seu caráter não-fragmentário, e sim,
“unitário e integral”. Este mesmo aspecto é ressaltado por Coffey & Atkinson
(1996, p. 2) quando destacam que “nós nunca deveríamos coletar dados sem
que ocorra uma análise simultânea dos mesmos”.
Em relação aos instrumentos de coleta de dados em pesquisa qualitativa,
ainda Trivinos (1987, p. 137) assinala que os mesmos não são substantiva-
mente diferentes daqueles empregados na pesquisa de natureza quantitativa,
pois o diferencial será estabelecido na forma de analisar. No entanto, há duas
dimensões que verdadeiramente fazem a diferença entre pesquisa qualitativa e
quantitativa: em primeiro lugar, tem-se a questão dos papéis do pesquisador e
do pesquisado, de vez que ambos são sujeitos implicados no mesmo processo
de investigação científica, não existindo a clássica separação do sujeito e ob-
jeto, tal qual na pesquisa de cunho positivista. Um segundo aspecto, relaciona-
se com a constatação de que “os dados qualitativos são derivados de uma nova
abordagem paradigmática pós-positivista, enquanto as abordagens quantitati-
vas de dados são derivadas de um paradigma tradicional (positivista)” (COFFEY
& ATKINSON, 1996, p. 5).
Conforme se assinalou acima, coleta e análise de dados não são etapas
estanques e separadas. Na fase de coleta de dados, o pesquisador já está se-
lecionando, apreendendo e fazendo conexões com o referencial teórico obtido
previamente. Ou seja, mesmo os dados em seu estado puro, já se configuram,
no que Coffey & Atkinson (1996) chamam de “dispositivos heurísticos”, em el-
ementos que fornecem pistas para o processo de análise, por isso, o “divórcio
entre coleta e análise de dados é uma separação artificial e não totalmente
desejável” (COFFEY & ATKINSON, 1996, p. 6). Esses autores chamam a at-

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 43


enção dos pesquisadores para o fato de que os mesmos devem compreender
que análise dos dados não é uma série separada de procedimentos aplicados a
um corpo inerte de dados. Em qualquer estratégia de pesquisa que está sendo
seguida, o problema de pesquisa, o desenho da pesquisa, os métodos de coleta
de dados e as abordagens analíticas, estão imbricados entre si, em que um as-
pecto contém o outro.
Há autores que ampliam o enfoque destacado anteriormente de que coleta
e análise dos dados em pesquisa qualitativa são aspectos inseparáveis entre si.
Gomes (apud MINAYO, 1994, p. 68), por exemplo, se declara partidário da linha
que entende ‘análise de dados’ num sentido mais amplo que abrange também,
a interpretação dos mesmos. Essa posição assenta-se na compreensão de que
a análise e a interpretação estão contidas no mesmo movimento: o de olhar
atentamente para os dados coletados na pesquisa, diversas vezes, na busca de
desvendar o que está além dos dados brutos. Pode-se afirmar, então, que coleta
– análise - interpretação constitui-se em dimensões de um mesmo processo,
que não podem ser vistos ou entendidos de forma separada, fragmentada.
Considerando que pesquisas de natureza qualitativa geram um enorme
volume de dados, Alves-Mazzotti (2001, p. 170) adverte que os mesmos devem
ser organizados e compreendidos “através de um processo continuado em que
se procura identificar dimensões, categorias, tendências, padrões, relações,
desvendando-lhe o significado”. Tanto essa autora quanto Van Manen (1990),
indicam que à medida que os dados vão sendo coletados, o pesquisador já
deve ir tentando identificar temas e relações, construindo interpretações (ainda
que provisórias), e gerando novas questões e/ou aperfeiçoando entendimentos
prévios, o que pode conduzi-lo a buscar novos dados, refinando, a cada etapa,
um pouco mais a capacidade de interpretar.
Com o objetivo de tornar mais compreensível ao leitor e à própria autora
desse ‘paper’ sobre o que é, de fato, análise dos dados em pesquisa qualitativa,
transcrever-se-á , seguir, algumas definições de consagrados estudiosos:
1) Para Huberman & Miles (1994 apud COFFEY & ATKINSON, 1996, p.
7), a análise de dados em pesquisa qualitativa constitui-se de três sub-proc-
essos interligados: a) redução de dados (seleção e condensação – os dados
são sumarizados, codificados e analisados em temas, grupos e categorias); b)
exposição dos dados (maneira pela qual os dados são expostos na forma de
diagramas, de gravuras ou de forma visual para mostrar o que os dados sig-
nificam); e c) desenho das conclusões e verificação (isso pode ser feito através
de varias táticas: olhando para casos comparativos ou contrastando; tomando
nota e explorando temas, padrões e regularidades; e usando metáforas);
2) Para Dey (1993 apud COFFEY & ATKINSON, 1996, p. 8), a análise dos
dados em pesquisa de natureza qualitativa é descrita, em primeiro lugar, através
da identificação e da relação entre categorias analíticas. A análise de dados em
estudos de natureza qualitativa é um processo de resolução desses mesmos da-
dos em seus componentes constituintes para revelar seus temas característicos
e padrões. A análise dos dados também é subdividida em três processos:
2.1 – Descrição – a análise oferece completa e compreensiva descrição
que inclui (onde apropriado) o contexto da ação, as intenções do ator social e o
processo no qual a ação social está enraizada;

44 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


2.2 – Classificação – os dados devem ser classificados em ordem para
dar ‘significado’. Isso significa a categorização dos dados e a distribuição das
partes dos dados, para temas e códigos;
2.3 – Conexão – os dados categorizados ou codificados podem ser anal-
isados em termos de padrões e conexões que emergem. Nesse momento, as
partes dos dados são conectadas novamente.
3) Wolcott’s (1994 apud COFFEY & ATKINSON, 1996, p. 8) restringe o
termo análise de dados em pesquisa qualitativa para um significado mais es-
pecializado. Esse autor argumenta que os dados qualitativos podem ser trans-
formados em diferentes maneiras e para diferentes fins.
Ele divide o método em três tipos:
3.1 – Descrição – segue o pressuposto básico de que os dados deveriam falar
por si próprios;
3.2 – Análise – refere-se a um caminho especializado de transformação dos da-
dos, ao invés de ser um termo totalmente abrangente. A análise nesse contexto,
identifica fatores e relacionamentos-chave, de forma prudente e controlada. A
ênfase é na busca de temas e padrões dos dados, envolvendo procedimentos
sistemáticos para identificar características e relacionamentos essenciais;
3.3 – Interpretação – ocorre quando o pesquisador tenta oferecer sua própria
interpretação, além do que está sendo apresentado factualmente.
Há algumas diferenças entre essas três visões, sobretudo no que diz
respeito ao uso simultâneo ou separado dessas etapas descritas acima. Mas é
Tesch (1990 apud COFFEY & ATKINSON, 1996, p. 10) que esclarece as cara-
cterísticas-chave da análise de dados em pesquisa qualitativa ao advertir que
as características não são comuns para todos os tipos de análise de dados
qualitativos, embora haja alguns aspectos regulares, tais como:
• A análise de dados é um processo cíclico e uma atividade reflexiva;
• O processo analítico deveria ser compreensivo e sistemático mas não,
rígido;
• Os dados são segmentados e divididos em unidades significativas, mas
a conexão com o todo é mantida;
• Os dados são organizados de acordo com um sistema derivado dos da-
dos em si mesmos.
Ainda Tesch (1990 apud COFFEY & ATKINSON, 1996, p. 30), descreve a
análise qualitativa em termos de descontextualização e recontextualização dos
dados. Descontextualizar os dados significa segmentá-los em porções com-
preensíveis, de forma organizada e classificada, mas retendo o significado.
Tais dados segmentados são agrupados em ‘pólos significativos’, classificados,
categorizados, e então estão prontos para serem recontextualizados, dando
um novo contexto para os dados segmentados. Esse ciclo pode ser repetido di-
versas vezes, levando ao refinamento da análise. A cada descontextualização/
recontextualização se tem a possibilidade de novas leituras, e, sobretudo, a
possibilidade de enriquecimento do texto.
Esse é um caminho para se proceder a análise dos dados de natureza
qualitativa mas, como adverte Coffey e Atkinson (1996, p. 3), existem muitas
formas se de analisar dados qualitativos e, não há uma única maneira correta
de fazê-lo. Assim, é preciso encontrar maneiras produtivas de organizar e tra-

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 45


balhar com os dados para pensar com e sobre os mesmos, de forma dialógica
e interativa. Esses mesmos autores indicam duas maneiras de se lidar com os
dados: a) a codificação pensada em termos de simplificação ou redução dos
dados, facilitando o processo de análise e interpretação; e b) a codificação dos
dados pensada de forma mais complexa, envolvendo a expansão, transfor-
mação e reconcepção dos dados, permitindo as mais diversas possibilidades
analíticas. Mesmo na primeira forma, simples, os dados funcionam como arte-
fatos heurísticos capazes de fornecer possibilidades de análise e interpretação,
e a segunda maneira, já encaminha uma forma extremamente rica de se pro-
ceder a análise e a interpretação.
Analisar e interpretar os dados em pesquisa de natureza qualitativa en-
volve, conforme os autores acima citados esclarecem, ir além do factual, tran-
scendendo os dados na busca de uma dimensão significativa. Esse significado
emergente é gerado pela indagação sistemática aos dados codificados. Como
se vê, portanto, codificar, categorizar em pólos significativos, analisar e inter-
pretar são aspectos fortemente imbricados de uma mesma tarefa: desvelar
o significado dos dados. Ratificando essa afirmação, Dey (1993 apud COFFEY
& ATKINSON, 1996, p. 46) sugere que uma vez que os dados são mostrados
em uma forma codificada, as categorias podem ser recuperadas, divididas em
subcategorias, totalmente unidas entre si. E o movimento da codificação para
a interpretação dos dados em pesquisa qualitativa envolve trabalhar com, con-
duzindo a explorar os códigos e categorias que foram criados. Nessa mesma
linha de raciocínio, Strauss (1987 apud COFFEY & ATKINSON, 1996, p. 48)
desenvolve o uso da codificação como parte do processo de interpretação e
análise, ligando o processo inicial de codificação para um processo mais refi-
nado de uso de categorias visando à geração de um quadro conceitual mais
amplo. Essa abordagem é adotada por Coffey & Atkinson (1996, p. 49) pelo
fato de que ela encoraja os pesquisadores a irem além da mera redução e sim-
plificação dos dados, exortando-os a expandir os dados (em vez de reduzi-los)
e a pensar de forma interativa com os dados, não os isolando do contexto.
Na direção de transformar os dados codificados em dados significa-
tivos, Delamont (1992 apud COFFEY & ATKINSON, 1996, p. 47) aponta que o
pesquisador deveria tanto buscar padrões, temas e regularidades nos dados,
quanto contrastes, paradoxos e irregularidades, ao analisar e interpretar os
dados em pesquisa qualitativa, pois pode ser que no singular e no inusitado
que esteja contido o significado maior. Deve-se atentar ainda, para a forma
como os entrevistados falam de suas experiências, pois além do conteúdo (tão
destacado até agora), há a forma com que o fazem, e as metáforas (ou ‘graphic
way’), que podem ser usadas, relatadas, em geral, através de histórias e nar-
rativas, permitindo, assim, diversas análises e interpretações para a mesma
história. Segmentar e codificar os dados, garimpando o conteúdo ali contido,
em pesquisa qualitativa é uma etapa importante, mas não é tudo, pois a forma
como as experiências são narradas e as figuras de linguagem utilizadas podem
demandar um grau de criatividade e sensibilidade diferenciadas do pesquisa-
dor.

46 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


A Guisa de Conclusão

O debate metafísico entre pesquisa qualitativa e pesquisa quantitativa ain-


da municia muitos congressos, livros e artigos, em nível nacional e internacional,
levando a uma suposta ‘guerra de paradigmas’, na qual de um lado, estariam os
pesquisadores que usam os métodos qualitativos e, de outro, os pesquisadores
que adotam os métodos quantitativos em seu labor cientifico. Quem vencerá?
Nesse nível de debate, todos saem perdendo!
O que se quer chamar atenção, ao final deste artigo, é que a discussão
nesse nível é estéril e infecunda. Ao discutirem os métodos, os meios de re-
alização de uma pesquisa (se qualitativo ou quantitativo), os cientistas sociais
relegam ao segundo plano a questão-chave, o fim último da pesquisa, qual seja,
o que está subjacente ao tema pesquisado. A quem servirá a pesquisa? Qual
(ais) o(s) fundamento(s) teóricos que embasam a pesquisa? Qual a visão de
ser humano que orienta o plano de pesquisas? Quais os significados que serão
buscados na investigação e quais significados serão analisados e interpretados?
Qual a essência, a ontologia, que orientará o estudo, o conhecimento do fenô-
meno?
Todas essas questões remetem à reflexão de que o pesquisador ao as-
sumir uma posição funcionalista ou interpretativista, influenciará o modo como o
processo de pesquisa será concebido e conduzido. A idéia de que o processo de
pesquisa pode ser separado do que está sendo pesquisado é possível somente
sob uma perspectiva funcionalista. De igual modo, na concepção funcionalista
uma investigação é dirigida para um referente externo, ao passo que na visão
interpretativista, o processo precisa ser interno, uma parte ativa da participação
do pesquisador em modelar o mundo. Em relação aos métodos e técnicas, para
o pesquisador que se apóia no paradigma interpretativista, os instrumentos não
têm uma existência independente daquilo que se destinam medir; eles são ex-
tensões de quem conhece ou opera como elemento chave na tentativa de con-
struir ou conhecer a realidade. Para o pesquisador que se situa no paradigma
funcionalista, os instrumentos são um meio de atingir uma reflexão ou mensu-
ração acurada de um objeto que possui existência independente.
Patrício et alii (1999, p. 4) orienta de forma clara esta questão quando
afirma que “os métodos qualitativos de pesquisa apresentam características
próprias inseridas em paradigmas que reconhecem a subjetividade nas inter-
ações humanas, a diversidade e a complexidade dos fenômenos sociais, o que
requer uma gama de possibilidades de métodos que possa dar conta de descrev-
er, compreender e interpretar essa realidade, tendo em vista a especificidade e
o caráter coletivo de ser humano”.
Isto posto, espera-se que a argumentação elaborada ao longo do presente
estudo permita ao leitor identificar que se há oposição de conceitos, não é entre
pesquisa qualitativa e pesquisa quantitativa, mas a oposição está radicada fun-
damentalmente, nas concepções de mundo e de ser humano (portanto, na on-
tologia, na epistemologia e na visão de ser humano), na manutenção do status
quo e dos privilégios ou, da busca da utopia de um mundo melhor, mais solidário
e fraterno. A ‘guerra’ não é de paradigmas (se qualitativo ou quantitativo) mas
de comprometimento com a transformação ou com a perpetuação da injustiça.

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 47


O falso dilema exposto ao longo do texto tem, na realidade, servido para acober-
tar, mistificar, um mundo assentado na desigualdade e na exclusão da maioria
da população, com o aval e o beneplácito da ciência ‘asséptica’ e pretensamente
neutra. Urge, pois, aos pesquisadores comprometidos com a transformação de
uma sociedade mais justa, utilizar-se do paradigma qualitativo e da ciência en-
gajada em suas investigações para desvelar a realidade em seus significados
essenciais e, assim, iniciar uma trajetória em direção a uma sociedade efetiva-
mente humanizada e igualitária.
De acordo com Gomes (1994 apud MINAYO, 1994, p. 69), é valioso se ter
claro qual a finalidade de se proceder à análise dos dados em pesquisa qualita-
tiva. A essa chamada de atenção, o autor responde recorrendo à própria Minayo
(1992 apud MINAYO, 1994), para indicar três finalidades para essa etapa do
delineamento da pesquisa, quais sejam: a) estabelecimento de uma compreen-
são dos dados coletados; b) confirmação ou não dos pressupostos da pesquisa
e/ou resposta às questões formuladas; c) ampliação do conhecimento sobre o
assunto pesquisado, articulando-o ao contexto cultural da qual faz parte. Essas
finalidades não são excludentes mas articuladas entre si, podendo ocorrer si-
multaneamente. A título de esclarecimento, Gomes (1994 apud MINAYO, 1994,
p. 79) assinala com muita propriedade que “o produto final da análise de uma
pesquisa [qualitativa], por mais brilhante que seja, deve ser sempre encarado
de forma provisória e aproximativa, pois se tratando de ciência, as afirmações
podem superar conclusões prévias a elas, e podem ser superadas por outras
afirmações futuras”.
Além do mais, a análise e interpretação dos dados em pesquisa qualitativa
sempre terão caráter de singularidade e ineditismo por ter como foco central o
humano, as pessoas. Como indica Patrício et alii. (1999, p. 3), “o estudo dos
fenômenos sociais tem como foco os significados (grifo meu) dos sujeitos que
os constroem, logo, o estudo também precisa ser analisado na perspectiva dos
sujeitos, os dados devem ser coletados, preferencialmente, onde os fenômenos
são construídos, e a análise desses dados pede que essa etapa ocorra concomi-
tante com a coleta, objetivando compreendê-los e interpretá-los à luz dos sig-
nificados dos próprios sujeitos e de outras referências afins da literatura”.
Por tudo que foi dito ao longo desse artigo, soa com enorme propriedade a
constatação de Coffey & Atkinson (1996, p. 24) de que “as múltiplas metodolo-
gias de pesquisa qualitativa podem ser vistas com uma bricolagem e o pesquisa-
dor como um bricoleur (DENZIN & LINCOLN, 1994). O bricoleur é alguém que
tem a habilidade para usar e adaptar materiais diversos e ferramentas: ele é um
para a pesquisa qualitativa”. Na análise de dados na pesquisa qualitativa é vital
“conversar” com os dados, ver além deles, o significado em sua essência, sendo,
portanto, criativo, sensível, e original. Essa produção artesanal e criativa é que
faz a pesquisa qualitativa tão fascinante!

48 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


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Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 49


TERRA E TERRITÓRIO INDÍGENA:
DIREITO IMEMORIAL E O DEVIR

Faria, Ivani Ferreira de

Professora adjunto 1 da Universidade Federal do Amazonas,


doutora em Geografia Física.

Resumo

Este artigo é resultado da pesquisa de mestrado que demonstra a luta dos povos indígenas do Alto
rio negro representados por 22 etnias de três famílias lingüísticas Tukano, Aruak e Maku pela demarcação de
sua terra única e contínua. Discerne as concepções indígena e do Estado de terra, territórios autodeterminação
esclarecendo o significado e a importância da geografia mítica com a demarcação do território. O referencial
teórico-metodológico é dialético com pesquisa participante que utilizou como procedimentos, levantamentos de
fontes primárias e secundárias, entrevistas com lideranças indígenas, militares e representantes de instituições
governamentais e não-governamentais entre 1993 a 1996. Os aportes teóricos fundamentaram-se nas obras
de Milton Santos, Claude Raffestin, Dominique Buchillet, Ariovaldo Umbelino de Oliveira, Wanderley Messias da
Costa e Mario Pessoa. Mesmo sabedor de que as concepções são diferentes da sua, o Estado, por meio das For-
ças Armada tentou por diversas maneiras impedir a demarcação da terra indígena do Alto Rio Negro utilizando
o discurso da segurança nacional confundindo unidade nacional com integridade territorial fundamentados no
conceito de Estado-Nação que desconsidera as diferenças culturais e os conceitos construídos a partir da diversi-
dade das nações/povos indígenas que ocupam estas terras desde tempos imemoriais. As organizações indígenas
do Alto Rio Negro, conscientes do embate ideológico, político e econômico lutaram pelo território, pois sabiam
que era a única maneira possível de sobrevivência física e cultural. A luta foi alcançada com a demarcação da
terra única e contínua com 8.150.000 há em 1998. O desafio agora é sobreviver na terra onde o planejamento
e a gestão do território surge como alternativa de desenvolvimento e autonomia.

Palavras-chave: terra indígena; território indígena; nação; autodeterminação.

Abstract

This article is the result of research for master degree and shows the fight of indigenous people at the
upper Negro River in the Brazilian State of Amazon, represented by 22 different ethnic groups belonging to three
language families Tukano, Aruak and Maku, for single continuous delimitation of their land. Distinguish between
the Indian and the State concept of land, territories, self-determination, clearing up the significance and impor-
tance of mythical geography concerning territorial demarcation.
This study use dialectics as theoretical and methodological references in participative research and data gathe-
ring procedures concerning primary and secondary sources, interviews with indigenous leaders, militaries, go-
vernmental and nongovernmental representatives between 1993 and 1996. The theoretical support came from
the works of Milton Santos, Claude Raffestin, Dominique Buchillet, Ariovaldo Umbelino de Oliveira, Wanderley
Messias da Costa and Mario Pessoa.
The government trough Army tried in several ways to obstruct the demarcation of the indigenous land arguing
with the discourse of national security, mixing up national unity with territorial integrity based on the concept
National State in which criteria like cultural differences are not considered, as well as those concepts constructed
on diversity of indigenous people/nations that live in this land since immemorial time.
The indigenous organizations from de upper Negro River, aware about ideological, political and economical
issues, fought for their territory, as they know that it would be the only possible way of physical and cultural
survival. The objective was reached with single continuous land demarcation of 8.150.000 hectares in 1998. The
challenge now is to survive on the territory where planning and managing appear as development and autonomy
alternative.

Key words: indigenous land; indigenous territory; nation; self-determination.

50 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.



introdução

Apesar de o termo terra indígena existir no Art.231 da Constituição Federal


Brasileira e na Lei 6.001/73, todos os documentos oficiais, quer sejam da Funda-
ção Nacional do Índio (FUNAI), Ministério da Justiça, gabinete da Presidência da
República (decretos, pareceres, exposições de motivos etc.) fazem menção sem-
pre à área indígena e não à terra. Na visão do Estado, o termo terra é apenas uma
categoria jurídica, uma porção superficial do território, cabendo às comunidades
indígenas apenas o direito à sua posse e não à sua propriedade, sem a possibili-
dade de administrá-la como decidirem.
Neste sentido, o conceito de terra indígena estabelecido pelo Estado, atra-
vés do Parágrafo primeiro do Art.231 da Constituição brasileira, no qual são:

Terras tradicionalmente ocupadas pelos índios, as por eles habitadas em


caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as im-
prescindíveisàpreservaçãodosrecursosambientaisnecessáriosaseubem
estar e às necessárias a sua reprodução física e cultural, se-
gundo seus usos, costumes e tradições, vem substituir o de
território, na tentativa de confundir como se ambos fossem si-
nonímicos. Tal definição, foi uma estratégia para que os ín-
dios passassem a acreditar que mesmo com denominação di-
ferentes, o que estaria sendo demarcado seria o território.

Na leitura indígena, terra para o Estado é uma concepção simplista que li-
mita o conceito indígena de terra, pois não considera o significado sócio-cultural
e sua importância na perpetuação da cultura e da vida. A terra é simplesmente
um pedaço da superfície do território, um bem que adquiriu valor de troca, uma
mercadoria. “Acho que o governo, ao demarcar estas ilhas, continua tendo uma
visão simplista de que o índio em um pedaço de terra sobrevive. (...) só é capaz
de admitir hoje a coexistência da própria terra enquanto elemento único para a
questão da vida indígena hoje” (SANTOS, 1993).
Assim, o conceito de terra para a sociedade indígena não é mais o mes-
mo de antes do contato. A concepção tradicional de terra como elemento único,
fundamental que se auto-sustentava (sustentação absoluta e imediata do hoje)
sofreu uma evolução e a ela foi acrescentado um novo sentido, o do amanhã, de
planejar, que não existia antes.

A resposta é única: terra significa vida, a terra significa futuro.


Terra é tudo para nós. Por isto é preciso ampliar (...) para manter
essa sobrevivência. (...) se você quer viver, tem de manter e ga-
rantir aquilo que dá esta condição pra você (FRANÇA, 1993).

(...) o índio do século XX, quase século XXI, não tem o mesmo
conceito, não pode ter o mesmo conceito estático e parado. O
índio não tem o mesmo conceito de terra que tinha antes do con-

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 51


tato: a terra enquanto natureza te sustentava. Hoje é diferente.
A terra é importante, ela continua tendo o mesmo sentido original,
terra. Mas a natureza não é mais capaz de se auto-sustentar. Ele (o
índio) tem que manejar a terra, ele tem que ocupar, tem que pro-
duzir a terra. E aí você muda de conceito porque eu acho que é um
conceito de território, pois é mais amplo e mais completo. Tem esse
lado político, que na visão original não existia. Os índios não tinham
futuro. Não planejavam o futuro. Para eles a natureza era o futuro
[grifo nosso], era a garantia da sobrevivência. A sobrevivência dig-
na, caçando, pescando e coletando. O índio não precisava pensar em
plantar, não precisava derrubar para plantar, não precisava pensar
em criar animais, não precisava pensar como vai ser a procriação.
A coisa era tão larga que era inútil pensar. Por isso limitava. Mas eu
acho que tem esse lado político do próprio planejamento do futuro,
da própria projeção, isso é fundamental. Justamente a diferença é
esta: se demarca um pedaço, significa que a terra é aquilo, tem um
pedaço e está tranqüilo. Não é isto não! É preciso ter este pedaço
mais amplo, onde você não só se realiza hoje mas se projeta ama-
nhã [grifo nosso]. Esse amanhã é uma coisa nova para os índios que
na cultura não tinha isto. O índio caça hoje, se ele mata uma anta,
ele come tudo. Amanhã ele não está preocupado se vai matar outra
anta. Ele quer saber de comer tudo hoje. Ele já sabe que amanhã
ele vai conseguir de certa forma, qualquer coisa. Ele não sabe o que
é, mas sabe que a natureza oferece. E hoje é diferente. Não dá mais
pra viver assim. Tem que pensar, tem que construir o futuro. Tem
que construir hoje, tem que planejar e isto de território é importante
porque aí você vai fazer as projeções. O crescimento populacional
a partir dos problemas que a gente enfrenta hoje. Quer dizer, com
invasão e destruição, diminuiu a caça, diminuiu a pesca, já não é
possível esperar da natureza (SANTOS, 1996).

O termo território, assim como nação e autodeterminação, foram absorvi-


dos pelas comunidades indígenas e futilizado, a priori, como instrumento de rei-
vindicação da autonomia.
Ele não existe no vocábulo de nenhuma língua indígena do Alto Rio Negro
e do Brasil.. Por isso, quando o índio fala território, a pronuncia é em português.
Terra é Diita, em Tukano, e Hipai, em Baniwa.
O termo território só entrou no vocabulário indígena após o contato com a
sociedade envolvente. Antes não se pensava e não precisava pensar nisto.
A leitura indígena do conceito de território é uma evolução do próprio
conceito de terra, que adquiriu um cunho político conjuntamente com a ideia de
limite.
(...) na concepção tradicional, original não existia o termo território.
Não teria sentido discutir isso. O sentido de território só existe após
o contato. Antes do contato, o índio podia ir e vir, ele definia sua pró-
pria vida, seu destino sem tutela, sem nada e sem pré-condições.
Depois do contato, há pré-condições. Estas são impostas

52 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


pela dominação, pela exploração, pela violência. E você pre-
cisa afirmar-se. Antes não, a natureza te garante isto. A terra
te garante isto.. Por isto a terra é tudo. Depois a terra jão não é
tudo. Você precisa de elementos políticos. Aí você tem um conceito
de território [grifo nosso], que tem sentido de poder, sentido de
domínio e de limite. Território é limite. É você limitar o espaço. A
terra é uma coisa ilimitada, ilimitável. Ela é tudo. Como você vai
considerar limite numa concepção ilimitada de terra que seria o
território! Não tem como fazer a relação. Só é possível pensar o
território depois do contato porque você limita as coisas.Na visão
tradicional posso estar em qualquer ponto do universo, eu estou
no mesmo espaço, no mesmo momento, na mesma situação, com
os mesmos direitos, com os mesmos deveres, o que não acontece
hoje (SANTOS, 1996).

Para as nações indígenas do Alto Rio Negro, território significa terra contínua
com autonomia e soberania, onde vivem com seus costumes, histórias e filosofias
diferentes. A autonomia e soberania referentes ao território consistem em um siste-
ma de autogoverno, em que o poder de decisão, de planejar o futuro está nas mãos
das próprias nações indígenas.
A autonomia reivindicada deve partir da realidade indígena vigente, ou seja,
planejar, desenvolver mecanismos e estratégias sócio-econômicas no território que
possibilitem a sobrevivência física a partir dos seus referenciais, identidade territo-
rial e cultural, de modo a permitir conjuntamente a preservação cultural.
O cunho político não está fundamentado nos princípios de autodeterminação
das ideologias de Estado, que defendem a tese de que a autonomia política de uma
nação representa a formação de um novo Estado Nacional.
Para essas nações indígenas, a autodeterminação não significa a formação
do Estado Nacional. Nada mais é do que o poder de decisão, de poder planejar, de-
senvolver o território de acordo com a sua realidade, tradições e costumes sem a
interferência dominadora do governo.
Preferem utilizar o termo autonomia no lugar do termo autodeterminação
exatamente por reconhecerem a carga ideológica que comporta e que acaba por
desfavorecer a reivindicação indígena pelo território, apesar de ser um direito re-
conhecido juridicamente. A autonomia reivindicada pressupõe a existência do terri-
tório, mas não do Estado. “A autonomia é isto. Você poder se relacionar a partir do
seu referencial, da sua realidade, do seu projeto, do seu potencial. Evidentemente,
respeitando o projeto do outro, contribuindo. Você tem algo de concreto a partir do
qual você cria relações” (SANTOS, 1993).
Portanto, terra e território, para as nações indígenas do Alto Rio Negro, são
fruto do processo histórico de cada nação. E, por outro lado, o termo nação consiste
em um povo que tem seu território, sua história e o poder de decisão sobre o seu
destino (MELGUEIRO, 1993).
Diante do exposto, fica evidente a relação intrínseca entre as concepções de
terra, território e nação das nações indígenas do Alto Rio Negro.
A concepção indígena de nação não está fundamentada nas concepções de
Anderson e Hobsbawm, pois não são imaginadas e não surgiram a partir dos prin-

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 53


cípios liberais do Estado-Nação. Ao contrário, são nações reais, vividas, concretas,
fruto do processo histórico de diferentes povos. São nações sem Estado.
Exatamente por esta organização política (Estado) estar ausente, a comu-
nidade internacional dos Estados Modernos, com sua visão etnocêntrica e colonia-
lista, não considera as nações indígenas como nações, assim como não admite a
existência de um território sem o controle do Estado.
Partindo desse princípio, o Estado e, consequentemente, a legislação brasileira não
consideram as nações indígenas como nações e tampouco seus territórios.
No entanto, caso o fizessem, diante da visão internacional haveria uma so-
breposição territorial que poderia culminar em um conflito internacional de nacio-
nalidades.
Assim, o Estado brasileiro, para evitar um conflito internacional, transformou
a questão do território e da autonomia indígena em um conflito nacional, de terras
(interno), ou melhor, de segurança nacional, através da lei brasileira que reconhece
apenas a terra indígena e atribuiu aos índios a categoria de cidadãos brasileiros.
Reconhecendo a terra e dando a cidadania aos índios, o Estado brasileiro tra-
tou de reconhecer as terras indígenas como território brasileiro, ao mesmo tempo
que, atribuindo-lhes a nacionalidade, impediu a autonomia das nações em seus
territórios.

Ser o índio um cidadão brasileiro, portanto, é uma ficção. Os índios


não constituíram a Nação brasileira. Para adquirir essa cidadania
são obrigados a perder a sua identidade, deixar de ser índios; visto
por esse lado, o índio é brasileiro por naturalização. Enquanto o
índio mantiver sua identidade cultural, pertencerá a uma nação di-
ferente da nação brasileira, será Guarani, Nambikuara, Yanomami,
Pataxó etc., porque cada uma dessas nações tem normas funda-
mentais de funcionamento estabelecidas há mais tempo do que as
regras adotadas pela Constituição Brasileira. E é o estabelecimento
dessas regras e sua obediência que realmente definem o cidadão
(SOUZA FILHO, 1989).

À luz da teoria de Estado e dos princípios positivistas da revolução burguesa, a


constituição de um Estado Nacional pressupõe a existência de um território, de uma
nação e de um governo soberano. Nessa perspectiva, a concepção de território é, para
os governantes e para os militares, uma categoria jurídico-política, abrangendo o es-
paço aéreo, marítimo e terrestre (subsolo), que permite a reprodução básica das con-
1
dições de existência da nação organizada e administrada pelo Estado . “O território é
2
área ou conjunto de áreas, com três dimensões, donde se irradia o poder do Estado ”.
Essa concepção de território é puramente técnica e jurídica, pois significa suporte
material sobre o qual o Estado exerce sua autoridade, que circunscreve seu limite sepa-

1
SILVA, Golbery do Couto. Conjuntura política nacional: o Poder Executivo & Geopolítica do Brasil.
3. ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1981.

2
PESSOA, op. cit., p.57.

54 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


rando-o de outros Estados. O território é elemento para a existência do Estado. Carece
do conteúdo humano, cultural e do próprio sentido de territorialidade. Não há interação
entre o território e a nação.
O temor das Forças Armadas de que surjam “quistos étnicos” ou “territórios livres”
pondo em risco a soberania nacional por meio da demarcação dos territórios indígenas é
infundado, uma vez que as concepções indígenas de nação, território e autodetermina-
ção não correspondem às concepções daqueles e também porque a legislação brasileira
não permite tal fato.
As nações indígenas localizadas na faixa de fronteira não representam obstáculos
nem perigo ao desenvolvimento e à segurança do Estado. Ao contrário, essas sim são
as verdadeiras guardiãs da fronteira não só pelo conhecimento geográfico do território,
mas, principalmente, pelo significado e importância que ele tem para a sobrevivência.
E mesmo que essas nações quisessem, não poderiam tornar-se independentes
em forma de Estado, pois não teriam condições, infra-estrutura e nem conhecimento
para suportar e sustentar uma estrutura política como esta.

Existe um certo desentendimento.(...) os militares pensam da


maneira deles, o governo pensa de sua maneira, a própria FUNAI
pensa de sua maneira, nós índios pensamos da nossa maneira.
Agora o importante para nós é lutar para chegar a um consen-
so. (...) na visão militar seria até um empecilho ter uma terra
indígena onde existe uma fronteira. Isto não é verdade, pois os
índios não atrapalham nenhum tipo de demarcação branca de
territórios nacionais ou internacionais. Para nós isto não tem va-
lidade, pois nós varamos pra Colômbia, varamos pra Venezuela,
varamos para o Peru sem pedir, sem ter passaporte, sem ter per-
missão de ninguém. Isto é uma questão de relacionamento de
grupo com grupo. Para nós não existe essa demarcação interna-
cional. Por isto não temos nada que interferir na demarcação de
fronteira de um Estado para o outro. (...) o nosso trabalho (...)
vem contribuir até para a vigilância da área fronteiriça. É uma
contribuição do próprio índio em relação à guarnição das frontei-
ras. Isto faltava aos militares entender. Quer dizer, não queriam
entender, não porque não entendessem, mas porque não que-
riam admitir. (...) Nós não estamos querendo criar um território
independente, até porque não temos condições para isto. Não
temos nenhuma infra-estrutura para enfrentar uma coisa desta.
e nós estamos muito bem assim, chamados de brasileiros. E nós
resolvemos isto em assembléia até como uma bandeira de luta.
Estamos defendendo também as coisas do Brasil.

As lideranças indígenas reconhecem a divergência de pensamento entre elas


e o governo brasileiro. Mas sempre estiveram dispostas a dialogar, encontrar um
consenso. Para as nações indígenas, não importa que o Estado utilize os termos
povos, etnias ou grupos, área, terra ou território indígena, pois eles têm consciên-
cia do que são e do que querem. “Agora, nós queremos o respeito à nossa cultura,
3
os direitos que conseguimos conquistar e que estão na Constituição de 88” .

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 55


Embora conscientes do embate ideológico, político e econômico, as organizações
indígenas do Alto Rio Negro sempre lutaram pelo território, pois sabem que é a única
maneira possível de sobrevivência física e cultural. É o futuro de suas gerações que está
em jogo. Parte da luta já foi alcançada com a regularização da terra contínua e única.
Agora, o desafio é outro: criar políticas e projetos sustentáveis de gestão territorial para
a terra demarcada que priorizem a identidade territorial e cultural em bases comunitária
e participativa.

Para não considerar

As políticas implementadas pelo Governo, seja federal, estadual ou muni-


cipal, nas áreas da saúde, educação, produção e meio ambiente não têm levado
em consideração o pensamento das organizações e povos indígenas no Brasil,
pois o planejamento participativo não ocorre de fato. Sempre grupos identifi-
cados como “os Notáveis” (sabem tudo) continuam a decidir e definir o que é
melhor para os povos indígenas sem consultá-los e a desconsiderar a identidade
territorial e cultural da área. Assim, o etnodesenvolvimento, que na verdade
pode ser chamado de desenvolvimento sustentável, assume o significado de au-
tonomia dos povos indígenas sobre seus territórios, de decidir sobre o presente
e o futuro de acordo com a identidade territorial e cultural. Surge como uma
alternativa de gestão territorial para as terras indígenas desde que os projetos
de desenvolvimento sustentáveis sejam em bases comunitárias e participativas,
realmente planejados, executados e gerenciados pelas organizações e povos
indígenas.

É inegável que o imenso acervo de conhecimentos e tecnologia


das distintas sociedades indígenas tem alto valor para a ciência
ocidental e para a humanidade com um todo, pois contém mode-
los que duraram séculos, em uma prática que hoje seria chama-
da de “desenvolvimento sustentável”. Por isso, um dos principais
argumentos utilizados a favor do resgate desses conhecimentos
é o de que podem ser incorporados ao acervo de conhecimen-
tos científicos ocidentais. O problema aqui, de novo, é que essa
incorporação representa uma apropriação unilateral dos conhe-
cimentos e tecnologias indígenas por parte do Ocidente, muitas
vezes acompanhada pela privatização dos conhecimentos por
parte de empresas biotecnologias ou farmacêuticas e dos gover-
nos dos países do Norte (LITTLE, p. 42, 2002).

Assim, a prática de “resgatar” os conhecimentos de uma sociedade sem tentar


“resgatá-la” da destruição não seria mais aceita como apropriada, tendo de ser acom-
panhada de posicionamentos e atividades comumente considerados políticos. Nesse
sentido, o atual desafio da ciência é acolher os frutos dessa tradição para integrá-los à
sua prática, ao mesmo tempo em que mantém seus padrões de rigor científico.

3
FRANÇA, op. cit.

56 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


As ciências, de uma forma geral, precisam, portanto, ser renovadas para
poderem confrontar os desafios ambientais feitos a todos. É nesse contexto que
se propõe um diálogo intercientífico, no lugar da simples apropriação unilateral,
seja por parte das sociedades indígenas, seja por parte da sociedade dominante
brasileira. A procura de diálogo em um universo caracterizado pelas polaridades
de romantismo e dominação é no mínimo difícil, contudo, é justamente essa pos-
sibilidade de estabelecer uma verdadeira comunicação entre ciências que pode se
tornar o pilar de uma nova ação indigenista no Brasil (ibid, p. 43).

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Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 57


A EDUCAÇÃO AMBIENTAL
COMO FATOR ESSENCIAL PARA A MELHORIA DA SAÚDE PÚBLICA NA
CIDADE DE MANAUS

Harb, Antonio Geraldo1


Souza, Valéria Silva Melo de2
1
Professor da Universidade do Estado do Amazonas, doutor em Engenharia de Produ-
ção pela Universidade Federal de Santa Catarina.

2
Mestre em Desenvolvimento Regional, pela Universidade Federal do Amazonas.
Resumo

Objetivo deste artigo foi analisar os investimentos em abastecimento de água, esgotamento sa-
nitário e as suas correlações com doenças diarréicas agudas em crianças de zero a nove anos, na cidade
de Manaus no período de 2002 a 2006. O estudo revelou que o abastecimento de água e esgotamento
sanitário, é vital para a elevação da qualidade de vida e podem minimizar as doenças diarréicas agudas,
porém comprovou serem insuficientes se não associados com a mudança de hábitos higiênicos pessoais e
coletivos, os quais podem ser adquiridos por meio da educação ambiental.
Para a análise descritiva, estabeleceu-se um estudo comparativo entre duas zonas geográficas da
cidade, zona Norte e Centro-Sul, onde aplicou-se um instrumento de pesquisa e constituiu-se uma amos-
tra. Por meio das análises de variância, análises de comparação entre as médias e a análise fatorial, cons-
tatou-se significativas divergencias em algumas variáveis. O estudo revela a necessidade de investimento
no setor de saneamento básico e na educação ambiental, nas zonas periféricas da cidade de Manaus.

Palavras-chave: qualidade de vida; educação ambiental; investimento em abastecimento de água; esgo-


tamento sanitário.

Abstract

The objective of this article was to analyze the investments in sanitary exhaustion, water supply
and its correlation with acute diarréicas illnesses in zero children the nine years, in the city of Manaus in the
period of 2002 the 2006. The study it disclosed that the sanitary exhaustion and water supply, is vital for
the rise of the quality of life and can minimize the acute diarréicas illnesses, however proved to be insuffi-
cient if not associates with the change of personal and collective hygienical habits, which can be acquired
by means of the ambient education.
For the descriptive analysis, a comparative study was established enters two geographic zones of
the city, zone North and Center-South, where a research instrument was applied and consisted a sample.
By means of the variance analyses, analyses of comparison between the averages and the factorial analy-
sis, evidenced significant divergences in some 0 variable. The study it discloses the necessity of investment
in the sector of basic sanitation and the ambient education, in the peripheral zones of the city of Manaus.

Key words: quality of life; ambient education; investment in sanitary exhaustion; water supply.

Introdução

O relatório sobre água e saneamento do Fundo das Nações Unidas para a


Infância - UNICEF (2006) declara que mais de 1,5 milhões de crianças meno-
res de cinco anos no mundo perecem devido à escassez de água de qualidade,
eliminação dos dejetos de forma não-segura e deficitárias noções de higiene do

58 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


ambiente em que vivem. Fatores decisivos para as dispersões de doenças previsí-
veis, dentre elas, as diarréias agudas.
Informações adquiridas no Banco de Dados do Sistema Único de Saúde e Se-
cretaria de Estado de Saúde do Amazonas evidenciam elevados índices notificados
de doenças diarréicas agudas em crianças menores de nove anos na cidade de Ma-
naus. Pela ótica econômica, além de configurar uma externalidade negativa, eleva-
se os gastos do governo na área da saúde pública curativa, e pode comprometer o
desenvolvimento físico, social e outras formas de desenvolvimento na infância.
Pretende-se apresentar os investimentos em abastecimento de água, esgo-
tamento sanitário e sua correlação com a incidência de doenças diarréicas agudas
em crianças de zero a nove anos, na cidade de Manaus no período de 2002 a 2006.
Posteriormente, estabelecer um estudo comparativo e descritivo entre a zona Norte
e Centro-Sul, com o objetivo de correlacionar o grau de pior e melhor situação en-
tre as variáveis, abastecimento de água, esgotamento sanitário e saúde pública em
2008.

1. Saúde e Doença
Na antiguidade, as pessoas acreditavam que as doenças eram castigos das di-
vindades, um desequilíbrio de luta entre o bem e o mal. Melo & Cunha (2006) acre-
ditam que a saúde e doença são resultados das condições de alimentação, habita-
ção, transporte, emprego, lazer, liberdade, acesso aos serviços de saúde. O conceito
de saúde/doença pode ser tanto pessoal como coletivo, à medida que indivíduos e
sociedade consideram ter mais ou menos saúde e doença, dependendo do momento
e dos valores atribuídos a uma situação.
Ávila - Pires (2000) esclarece que saúde e doença não são entidades defini-
das, pois se definem de maneira circular e recíproca, uma em relação à presença ou
ausência da outra. De qualquer maneira, o autor faz referência à saúde e doença
como uma condição instável, tanto rara de ocorrer como momentânea.
Almeida (1998) apóia a ideia de Ávila - Pires e explica que a saúde deve ser
entendida em sentido mais amplo, como componente da qualidade de vida. Desta-
cando que não é um bem de troca, mas um bem comum, um bem e um direito social
onde cada um e todos possam ter assegurados o exercício e a prática do direito à
saúde, a partir da ampliação e utilização de toda a riqueza disponível.
A condição de saúde de uma pessoa ou da comunidade é o resumo da relação
com o meio em que vive (social, econômico, cultural e ambiental), pois com o meio
comprometido definem-se os fatores que podem desencadear ou não episódios de
doenças.

1.1 Características das doenças diarréicas


As doenças diarréicas constituem um grave problema de saúde pública. Calcu-
la-se, a cada ano, uma elevada taxa de casos notificados, ocorrências de internações
hospitalares e mesmo de mortalidade na infância.
Marcondes (1991) refere-se à diarréia aguda como uma situação clínica em
que ocorre perda anormal de água e eletrólitos (além de outros nutrientes) por via

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 59


intestinal baixa, decorrente do rompimento do equilíbrio das funções básicas do tubo
digestivo (digestão, absorção e secreção), caracterizada por alteração do hábito in-
testinal com o aumento do número de evacuações e/ou diminuição da consistência
das fezes, com duração inferior a 30 dias. De maneira geral, a sua gravidade depen-
de da presença e da intensidade da desidratação do indivíduo.
Wolkoff (2005) descreve que a diarréia implica no aumento da quantidade de
fezes ou aumento da freqüência das evacuações. Portanto, as diarréias podem ser
contraídas por condições desfavoráveis de saneamento básico, associadas à preca-
riedade do meio físico, no que tange a higiene da habitação e de quem nela habita,
ou seja, da duvidosa condição sanitária e/ou da conservação inadequada dos ali-
mentos.
Sendo assim, a diarréia é um sintoma de uma doença cuja gravidade e trata-
mento dependem do agente causador e das condições físicas da pessoa infectada.
No entanto, considerando a forma de veiculação destes parasitas, trata-se de uma
doença previsível, com solução a ser administrada por meio de medidas educacio-
nais e sanitárias.

1.2 Educação Ambiental

Na década de 1940, começa a se ter idéias sobre Educação Ambiental (EA),


pois passou-se a entender que a EA deveria ser disseminada como disciplina em
todos os níveis da educação, de forma que permitisse ao cidadão administrar e con-
trolar seu ambiente.
A Educação Ambiental, de acordo com o Conselho Nacional do Meio Ambiente
(CONAMA), é um processo de formação e informação orientado para o desenvolvi-
mento da consciência crítica sobre as questões ambientais e de atividades que
levem à participação das comunidades na preservação do equilíbrio ambiental.
O conhecimento do ambiente em seu contexto (biológico, político, social,
cultural, econômico, educacional, paisagístico, religioso e sanitário, etc.) e dos
problemas que estão relacionados com a presença do homem, é essencial para
que os indivíduos e grupos sociais gerem um senso crítico e obtenham respon-
sabilidade. No entanto, isso leva a uma crítica da própria conduta, seja uma
mudança de atitude, de procedimentos individuais ou coletivos.
No último encontro da ECO-92 no Rio de Janeiro, foram estabelecidos, por
meio do Documento da Agenda 21, assuntos relacionados ao meio ambiente,
inclusive nas temáticas: saúde humana, saneamento básico e abastecimento de
água.
Junior (2000) esclarece que a partir desse momento o documento Agenda
21 reconhece e passa a valorizar assuntos como conscientização ambiental, utili-
zando esse instrumento para propagar e induzir os cidadãos a buscarem melhor
condição de vida.

2. Procedimentos Metodológicos

Para obter os dados referentes às doenças diarréicas agudas foi necessário


coletá-los junto à Secretaria Municipal de Saúde (SEMSA), por meio da Gerên-
cia de Epidemiologia e Monitoramento. Os dados relativos aos investimentos em

60 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


abastecimento de água e esgotamento sanitário foram adquiridos pelos relatórios
anuais da administração da Águas do Amazonas.
Para a análise descritiva, a população investigada reduziu-se à população
das zonas Norte e Centro-Sul da cidade de Manaus, onde foram aplicados 200
questionários, estruturados e direcionados aos moradores, por meio de instrumen-
to de pesquisa, sendo 100 para cada zona estabelecida no estudo. O objetivo era
medir o grau de correlação entre as variáveis abastecimento de água, esgotamen-
to sanitário e saúde pública e, portando, identificar a variável que possa exercer
melhor ou pior grau de situação sobre a saúde da população. Utilizou-se dos recur-
sos aplicativos do pacote estatístico Statistical Package for Social Science - SPSS
16.0, o qual permitiu estabelecer as análises multivariadas e análise fatorial deste
trabalho.

3. Resultados e discussões
Os Relatórios Anuais da Administração da Águas do Amazonas do período
de 2001 a 2006 demonstram investimentos no setor de saneamento básico de R$
150.877 milhões. Neste mesmo período, a Gerência de Epidemiologia notificou
88.462 casos de doenças diarréicas agudas na faixa etária de zero a nove anos na
cidade de Manaus. Os resultados e discussões a seguir estão fundamentados nas
análises multivariadas e análise fatorial.

3.1 Análises Descritivas: Comparação das diferenças das médias entre as zonas
Norte e Centro-Sul da cidade de Manaus, avaliando o melhor e pior grau de situ-
ação das oito variáveis

Para os resultados descritivos, foram estabelecidas oito variáveis referentes


ao abastecimento de água, esgotamento sanitário e saúde pública, as quais são
apresentadas na tabela 1, divididas em uma escala que varia de um a cinco, o nú-
mero um a pior situação e o número cinco a melhor situação, para cada zona geo-
gráfica estudada. Na análise das Médias entre a zona Norte e Centro-Sul, estudou-
se a média, o desvio padrão e o nível de significância conferido à cada variável. Foi
considerada, no resultado do estudo na zona Norte, a média de melhor situação,
representada pela V5, com valor de 4,500 e considerada de pior situação a variável
V8, com resultado de 2,153 de média. Na zona Centro-Sul, a variável que alcançou
a melhor situação foi a V6 com resultado de média de 4,400, em relação à variá-
vel de pior situação, na mesma zona geográfica, identificada a V8, com média de
2,566.

3.2 Análises Multivariadas

As análises estatísticas das multivariadas indicam quando ocorre a existên-


cia de mais de duas medidas para cada elemento. As variáveis são avaliadas si-
multaneamente, mensuradas por uma escala de múltiplas variáveis, denominada
de construto.

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 61


3.2.1 Análise de Confiabilidade das Escalas
Segundo Spector (2005), o grau de confiabilidade é reproduzido por meio
dos resultados consistentes de uma escala, entre medidas repetidas ou iguais
de um mesmo elemento analisado, resultando uma ausência de erro qualquer.
Portanto, objetivando verificar a confiabilidade da escala, utilizou-se o cálculo do
coeficiente Alpha de Cronbach, que corresponde ao alcance de relação interna
da escala. O coeficiente varia de zero a um e, portanto, quanto mais próximo
do coeficiente um estiver, melhor será o seu resultado e grau de confiabilidade.
Neste estudo, a confiabilidade das escalas confirma-se por meio do valor Alfa de
Cronbach na V5 com 0,427 e na V6 com 0,371, conforme observado na tabela 2,
a qual expõe os resultados das amostras do segmento estudado, demonstrando
que as variáveis possuem graus moderados de melhores situações, nas duas
zonas geográficas.

62 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


3.2.2 Análise Fatorial

O objetivo principal da análise fatorial foi o de esclarecer a correlação en-


tre um grupo de variáveis, levando-se em consideração um número limitado de
variáveis não-observáveis. Essas variáveis ou fatores foram calculados pela com-
binação linear das variáveis originais, conforme observado na tabela 3 - Matriz de
correlação das variáveis.
Na observação da matriz de correlação das variáveis, constata-se o en-
cadeamento entre as variáveis V2 (armazenamento da água de beber) com a V1
(a origem da água utilizada para beber), a V3 (a família trata a água de beber)
com a V1 respectivamente, portando, apresentando combinações de 0,405 e
0,552 para este estudo.

Pereira (2005) descreve que a análise fatorial tem premissas sobre a


origem dos dados que necessitam ser averiguados. A com melhor situação
é a de caráter métrico das avaliações de medidas, os quais recomendam
a análise da classificação das frequências, por meio de testes rigorosos de
suas variáveis, ajustando-as as sua normalidade.
A credibilidade da escala pode ser comprovada nos resultados da me-
dida de adequação de cada amostra (KMO) com 0,546 e do teste de esferici-
dade de Bartlett`s, apresentando um qui-quadrado aproximado de 140,217
e o grau de liberdade de 28, com significância 0,000 (p< , 01). Segundo Hair
et al (2003), os valores de KMO acima de 0,500 individual para cada variável
ou para a matriz completa, indicam ser apropriada a aplicação da análise
fatorial, conforme tabela 4.

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 63


A matriz de contra imagem do (MAS) Measure of sampling adequacy (cor-
relação de uma variável contra a outra, controlados os efeitos de todas as outras
consideradas no modelo) ou teste de Kaiser-Meyer-Olkin (KMO) apresentou-se
conforme a tabela 5.

��������������������������������������������������������������������
Observou-se que a maioria das correlações está acima do mínimo reco-
mendável, de 0,500 para resultados satisfatórios, com a análise fatorial, sendo
assim, a amostra pode ser considerada adequada. A seguir, a tabela 6 exempli-
fica a derivação dos autovalores e explica a variância total. Na respectiva figura
1, apresentou-se os autovalores (scree plot) definindo a quantidade de valores
extraídos da matriz.

64 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


Analisando os componentes mais importantes da tabela 6, percebe-se a
utilização da técnica de decomposição da matriz de correlação ou covariância,
resultando em cargas fatoriais, as quais demonstram o grau de associação a
cada fator e aos autovalores integrados a cada fator envolvido. Hair (2003)
salienta que os números de autovalores denotam a autenticidade do fator. Os
números maiores do que um são considerados expressivos e, portanto, usa-
se para definir o critério de percentagens da variação que os fatores extraídos
procuram ilustrar 60% ou menos da variância para estudos na área das ciências
sociais. Neste caso, ao utilizar como critérios de autovalores resultariam em
quatro fatores explicando 67,19% da variância. Com relação ao diagrama de
autovalores, (scree plot) definiu-se como regra a quantidade de fatores mesmo
antes da totalidade da variância acumulada definir a composição, ou seja, delin-
ear uma quase reta pela gradual diminuição dos valores da variância elucidada
para cada fator.

Hair apud Harb (2005) explicam que o pesquisador precisa procurar ex-
trair um conjunto de fatores que seja representativo ao estudo. Portanto, a
tabela 7 demonstra a matriz de comunalidades com os indicadores conferidos
às variáveis originais que significam, em termos percentuais, o quanto da vari-
abilidade de cada variável é explicado. Para este caso, a melhor explicação é a
V5 – relacionando-se com o fator: Armazenamento da água para higiene pessoal
e da residência, com 90% e a de menor explicação é a V7 – representada pelo
item: Destino do esgoto do banheiro, com 54,%.
Hair (2003) esclarece que quanto aos critérios das comunalidades devem-
se enfatizar, tão-somente, a variável que possua pelo menos a metade da var-
iância explicada e a grande maioria exceda a 60%. Portanto, considerando a
matriz de comunalidades, na tabela 7, a maioria das variáveis atende ao critério
de explicação satisfatório da variância.

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 65


A matriz de comunalidades processou as informações e posteriormente
extraiu-se a matriz de fatores (factor loading), visualizada na tabela 7. Utilizou-
se como critério para a escolha das cargas fatoriais como segue: valores acima
de 0,300 devem ser considerados, acima de 0,400 são importantes e acima de
0,500 são altamente expressivos. Como Hair apud Harb (2005, p. 175) expõem
“essa regra é para aplicabilidade de amostra com no mínimo 100 casos”.
A Tabela 8 – Matriz fatorial incompleta, comprova os coeficientes utilizados
para apresentar as variáveis padronizadas em fatores. As cargas fatoriais com
maiores correlações concentram-se nos fatores um, dois e três. Isto dificultou as
explicações e produziu fatores irrelevantes para explicar as dimensões ocultas.
Harb (2005) explica que essa variabilidade, sem perda do teor da infor-
mação, utiliza o procedimento de rotação dos fatores. Sendo assim, a rotação
mais utilizada é a ortogonal varimax, que tem efeito minimizador da quantidade
de variáveis com alta carga de determinado fator, e que apresentou-se aceitável
para coligar cada variável em um só fator, de forma a simplificar o resultado da
matriz.


Para processar a rotação varimax, a variância ilustrada foi redistribuída,
com nova composição dos fatores, demonstrado na tabela 9.

66 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


A matriz fatorial, após a rotação varimax, configurou-se com melhor dis-
tribuição, modificando o resultado da variância de cada fator. Não registrou mu-
dança na variância total, explicada nos quatro fatores. Representou 67,19% nas
comunalidades.
A tabela 10 demonstra a classificação das variáveis entre os fatores, após
a rotação varimax, a qual é exemplificada com melhor distribuição.
Malhotra (2001) esclarece sobre a importância que se deve direcionar
para cada fator, pois é indispensável averiguar se eles apresentam cargas ou
coeficientes não-zerados, em algumas variáveis, e, se carregados os fatores,
que sejam com poucas variáveis expressivas, o melhor seria apenas com uma.
A tabela 10, a seguir, configura a rotação varimax e enquadra-se, de acordo com
a recomendação, estabelecida por Malhotra (2001) que são cargas para mais
de um fator, demonstrando, portanto, duas cargas e com valores pouco expres-
sivos.

A tabela 11 exemplifica, por meio dos resultados, a confiabilidade das di-


mensões do construto para as variáveis do segmento abastecimento de água e
esgotamento sanitário. No grau das duas dimensões do construto, o coeficiente
Alpha de Cronbach apresenta um alcance numérico de 0,308 e 0,153, demon-
strando que devem ser considerados, isto é, os K-itens testados relacionam-se
com os verdadeiros escores.

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 67


Os coeficientes dos escores fatoriais dos quatro componentes relacionados
evidenciam os valores das variáveis utilizadas como objeto para calcular cada fa-
tor. Neste caso particular, o cálculo do escore do fator foi feito pela multiplicação
do valor da variável pelo coeficiente do escore do fator, o qual determina, para
análise de componentes principais, os escores adequados, conforme se verifica
na tabela 12.
A matriz de transformação dos fatores demonstrada pela tabela 13 rep-
resenta os coeficientes aplicados sobre a matriz de fatores originais para a ex-
tração da matriz rotacionada. Os coeficientes na diagonal, próximos de zero,
indicam baixa rotação e os coeficientes acima de 0,500 exprimem alta rotação
no fator. Para este caso, ressalta-se que o fator 2 foi o que mais recebeu cargas
fatoriais rotadas. fatoriais rotadas.

Com a finalidade de ajustar o modelo, processou-se a matriz de correlação


reproduzida, caracterizada pela tabela 14, com a finalidade de averiguar a dif-
erença entre as correlações apresentadas, ou seja, contidas na matriz de cor-
relação de entrada, e as correlações produzidas, estimadas com base na matriz
fatorial. O triângulo inferior esquerdo da matriz contém a matriz de correlação
reproduzida, a diagonal exprime as comunalidades e o triângulo superior direito
que contém os resíduos entre as correlações observadas e as correlações re-
produzidas.

68 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


Posteriormente, a rotação varimax, configurada pela tabela 15, pode reti-
rar quatro fatores, dentre os quais, com as variáveis de melhor grau de situação,
representadas por médias elevadas. Vale ressaltar que a escala varia de 1 a 5,
e para este caso quanto mais perto do coeficiente um for, pior é a situação, e
quanto mais perto do coeficiente cinco, melhor a situação. Portanto, a variável
V6 - Periodicidade da limpeza e manutenção do banheiro foi representada por (X
= 4,409), a variável V4 - Origem da água que a família usa para higiene pessoal
e da residência (X = 4,263), seguida pela variável V5 - Armazenamento da água
para higiene pessoal e da residência (X = 4,070), a variável V1 - Origem da água
utilizada para beber (X = 4,010), a variável V7 - Destino do esgoto do banheiro
(X = 3,765), a variável V2 - Armazenamento da água de beber (X = 3,705).
Das duas variáveis restantes, uma se enquadrou em grau de situação
moderada, representada pela V3 – Armazenamento da água de beber (X =
3,000), e seguida pela ordem decrescente a variável V8 – A faixa etária em que
as doenças diarréicas são mais freqüentes nas crianças, foi considerada de pior
situação (X = 2,360). Demonstrou-se, por meio dos resultados, as variáveis
consideradas de melhor e pior grau de situação, nas duas zonas geográficas da
cidade de Manaus.

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 69



CONCLUSÃO

Concluiu-se que, o abastecimento de água e esgotamento sanitário, não


são por si só, instrumentos eficazes na argumentação de que as doenças diarréi-
cas agudas possam ser significativamente reduzidas. Há de se considerar que,
a educação ambiental é um fator essencial como medida de prevenção. Asso-
ciados, esses fatores podem mudar as atitudes pessoais, conduzindo a menores
índices de doenças diarréicas agudas e por conseqüência, redução dos gastos do
Governo na área da saúde pública curativa.
A análise comparativa entre as populações da zona Norte e Centro-Sul, foi
estabelecida pela correlação entre abastecimento de água, esgotamento san-
itário e saúde pública, o que permitiu identificar variáveis de melhor e pior grau
de situação. Portanto, para a análise descritiva, foi considerado a média, o desvio
padrão e nível de significância para cada variável. Atingiu-se a melhor média na
variável Armazenamento da água para higiene pessoal e da residência,
com nível de significância superior de (p<0,05), confirmando que essa variável
é de melhor grau de situação no segmento estudado e, portanto fundamental.
A menor média foi a variável A faixa etária que as doenças diarréicas são
mais frequentes nas crianças, a qual evidenciou a pior situação.
A análise fatorial identificou duas variáveis significativas para o segmento
estudado: a variável 2, O armazenamento da água de beber, e a variável 3,
A família trata a água de beber.
A aplicação do teste de medida de adequação de dados KMO – Kaiser-
Meyer-Olkin, atestou a validade da análise fatorial, por meio do conjunto das
variáveis analisadas. Confirmou-se, também, a confiabilidade das escalas, pelos
resultados das amostras do (KMO) com 0,546. Ressalta-se que, valores acima
de 0,500, para cada variável, indicam ser apropriada a aplicação da análise fa-
torial.
Para a característica do estudo, foi mais apropriada a extração de qua-
tro fatores. O valor geral da escala de Alpha de Cronbach foi de 0,231, repre-
sentados por escalas individuais, variou entre 0,153 a 0,308. Na matriz fato-
rial, após rotação varimax, mostrou-se melhor distribuída, a variância total nos
quatro fatores a qual foi de 67,19%, ou seja, demonstrou estar acima do limite
mínimo recomendado, que é de 60%. Os resultados das análises originadas do
grau de melhor e pior situação, nos três segmentos estudados, são resultantes
das diferenças socioeconômicas e ambientais entre as populações das zonas es-
tabelecidas no estudo, as quais demonstraram diferenças consideráveis em al-
gumas variáveis, enquanto em outras poucas foram as divergências percebidas.
Espera-se que este estudo contribua para melhorar a eficiência distributiva
dos serviços em abastecimento de água e esgotamento sanitário na cidade de Man-
aus. Com relação à saúde pública, fica a expectativa de maior comprometimento na
área da higiene pessoal e coletiva. Ressalta-se, ainda, que ter serviços adequados
de infra-estrutura em abastecimento de água e esgotamento sanitário é essencial
para a elevação da qualidade de vida, porém, são muito mais eficazes no combate
de doenças tidas como previsíveis, quando associados a bons hábitos higiênicos, os
quais podem ser adquiridos por meio da conscientização e educação ambiental.

70 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


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Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 71


A LOGÍSTICA
COMO VANTAGEM COMPETITIVA

Souza, Milanez Silva de

Mestre em Ciências Contábeis, Doutorado em Finanças, professor e pesquisador da


UFAM, coord. do Mestrado em Contabilidade e Controladoria da UFAM, vários tra-
balhos apresentados em congressos nacionais e internacionais e em revistas especiali-
zadas.

Resumo

O presente artigo objetiva mostrar a evolução da logística, discutir sobre a importância e as vantagens da
gestão através das novas ferramentas da Tecnologia da Informação como fator de apoio a Logística Inte-
grada com o objetivo da maximização da cadeia de valor, termos atendimento e canais de distribuição efi-
cientes no atendimento aos clientes uma vantagem competitiva. Da mesma forma, analisa a Logística, cujo
os principais desafios que se colocam são decorrentes de avanços tecnológicos, constantes mudanças da
economia globalizada e a necessidade de produtos competitivos, impactando na qualidade e nos custos.

Palavras-chave: distribuição; gestão; logística.

Abstract

The present objective article to show the evolution of the logistic one, to argue on the importance and the
advantages of the management through the new tools of the Technology of the Information as Integrated
factor of support the Logistic one with the objective of the maximização of the value chain, terms attend-
ance and efficient canals of distribution in the attendance to the customers a competitive advantage. In the
same way, it analyzes the Logistic one, whose the main challenges that if place are decurrent of techno-
logical advances, constant changes of the globalizada economy and the necessity of competitive products,
impactando in the quality and the costs.

Key words: distribution; management; logistic.

1. Desenvolvimento das Abordagens sobre logística

1.1 Evolução histórica da logística


No começo no terceiro milênio, o mundo está caracterizado por transfor-
mações e mudanças rápidas e profundas que exigem capacidade de compreen-
são, de adaptabilidade e de decisões tempestivas. Também as empresas públi-
cas e privadas são obrigadas a mudar porque está se modificando a sociedade
inteira, mudou o mercado em que operam e são diferentes a respeito do passado
os recursos direcionais que estas podem e devem utilizar.
A concorrência é global e não conhece fronteira; o movimento das popu-
lações é contínuo de uma parte à outra da terra e constante é a preocupação
com o futuro do planeta.
Muita atenção tem sido dada à disponibilidade de alimentos para abastecer a pop-

72 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


ulação mundial. Estima-se que um terço do suprimento de alimentos perecíveis
é perdido durante a distribuição. Tendências como estas tornarão importantes
e bem remunerados aqueles cargos responsáveis pelo fluxo de materiais, as-
sim como pela entrega de serviços. Nenhuma firma de produção ou serviços
pode operar sem executar atividades logísticas em algum grau e saber como
administrá-las.
Logística empresarial não tem o mesmo significado para todas as pessoas,
inclusive para aqueles que estão ativamente engajados no assunto. Até o mo-
mento, o campo ainda não tem um título único para identificá-lo, como fizeram
os setores de marketing e de produção. Uma amostra dos membros do Conselho
Nacional da Distribuição Física, norte americano (Kobayashi, 2000), mostrou que
a área é representada por nomes como transportes, distribuição, distribuição
física, suprimentos e distribuição, administração de materiais, operações e logís-
tica. Apesar de distribuição física ser o título mais popular, neste texto ela é cha-
mada de logística empresarial, pois este é o título que vem se consolidando no
cenário mundial. Ele implica tanto o suprimento físico como a distribuição física.
Caso fosse viável produzir todos os bens e serviços no ponto onde eles são
consumidos ou caso as pessoas desejassem viver onde as matérias primas e a
produção se localizam, então, a logística seria pouco importante. Isto não ocorre
na sociedade moderna. Uma região tende a especializar-se na produção daquilo
que tiver vantagem econômica para fazê-lo. Isto cria um hiato de tempo e espaço
entre matérias-primas e produção e entre produção e consumo. Vencer tempo e
distância na movimentação de bens ou na entrega de serviços de forma eficaz é
a tarefa do profissional da logística. Sua missão é colocar as mercadorias ou os
serviços certos, no momento certo, nos lugares certos, nas condições desejadas,
ao menor custo possível. Admite-se que a logística empresarial é o é o ponto de
fronteira com a administração e o marketing, constituindo-se no último estágio
para a redução dos custos.
Foram propostas muitas definições para logística empresarial. Para os nos-
sos estudos, preferimos a de Ballou:

A logística empresarial trata de todas atividades de movimen-


tação e armazenagem, que facilitam o fluxo de produtos desde
o ponto de aquisição da matéria-prima até o ponto de consumo
final, assim como os fluxos de informação que colocam os produ-
tos em movimento, com o propósito de providenciar níveis de
serviço aos clientes a um custo razoável (1993, p. 45).

Nunca se falou tanto em logística como nos dias de hoje. É comum abrir-
mos um jornal de Economia e Negócios, em qualquer parte do mundo, e encon-
trarmos referências ao assunto logística. Ela é considerada um fator de vantagem
competitiva, quando bem administrada. Há 20 anos, não era esse o conceito da
logística no mundo empresarial. O que levou a logística ao crescimento verifi-
cado nos dias de hoje? Faz-se necessário, demonstrar a evolução da logística em
três épocas distintas, deixando claro que as atividades essenciais de transportes,
manutenção de estoques e processamento de pedidos não são novidades.
Assim, podemos destacar alguns fatos das últimas décadas considerados
responsáveis pelo desenvolvimento acentuado da logística.

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Antes de 1950, os anos adormecidos, as empresas fragmentavam a admin-
istração de atividades-chave da logística. O transporte era encontrado freqüen-
temente sob o comando geral da produção; os estoques eram responsabilidade
de marketing, finanças ou produção e o processamento de pedidos era contro-
lado por finanças ou vendas. Era comum o conflito de objetivos e de responsa-
bilidades para as atividades logísticas.
Alguns pioneiros, como Arch Shaw (1912) e Fred Clark (1922), identificar-
am a natureza da distribuição física e como ela se difere da criação da demanda
no marketing.
A atividade logística militar na Segunda Guerra Mundial foi o início para
muitos dos conceitos logísticos utilizados atualmente. Por volta de 1945, em-
presas alimentícias foram as primeiras, colocaram sob uma única gerência os
serviços de armazenagem e transporte de produtos acabados.
Antes de 1950, poucas empresas exploraram os benefícios desse rearran-
jo, pois nem a teoria nem o ambiente econômico estavam aptos para a criação
do clima necessário a uma mudança de atitudes. A área do marketing crescia de
importância e a administração estava mudando seu foco da produção (influên-
cia dominante da época) para uma orientação para o marketing (consumidor).
Nos Estados Unidos, a economia experimentava rápido crescimento, devido à
demanda reprimida dos anos de depressão até à posição dominante da indústria
americana no mercado mundial. O clima era para vender e produzir. Os lucros
eram altos. Certa ineficiência na distribuição era tolerada.
O período representado pelos anos 50 até a década de 60 representou a
afirmação da logística, que passou da teoria para a prática. O ambiente era propí-
cio. O marketing estava bem definido e orientava muitas empresas. Entretanto,
professores de marketing não estavam totalmente satisfeitos com o que havia
sido criado até então. Segundo Paul Converse (1995), conhecido professor de
marketing nos Estados Unidos, as companhias prestavam mais atenção à com-
pra e venda do que à distribuição física. Esta era, muitas vezes, subestimada
e colocada de lado como algo de pouca importância”. Peter Drucker (2000),
escritor e consultor de administração de empresas conhecido mundialmente,
chamava as atividades de distribuição que ocorriam após a produção dos bens
de “as áreas de negócios infelizmente mais desprezadas e mais promissoras da
América”.
As condições econômicas e tecnológicas eram de tal envergadura que en-
corajaram o desenvolvimento da logística, como uma disciplina especial. Quatro
condições–chave foram identificadas, que encorajaram o desenvolvimento da
disciplina, conforme Ballou (1993):
1 – alterações nos padrões e atitudes da demanda dos consumidores;
2 – pressão por custos nas indústrias;
3 – avanços na tecnologia dos computadores;
4 – influência no trato com a logística militar.
Além das migrações populacionais, os consumidores demandavam mais
variedade das mercadorias ofertadas. Os produtos proliferavam de poucas uni-
dades de itens, para até 12.000 nos grandes supermercados. Um número fantás-
tico para a época. Automóveis eram oferecidos em diversas cores, motores e
tamanhos. A tendência era a mesma para quase todas as indústrias. Variedade

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era sinônimo de maiores custos de manutenção de estoques, e, consequente-
mente, de maiores cuidados na administração dos mesmos.
Os padrões de distribuição começaram a mudar. Passou-se a administrar
pequenos estoques no varejista e substancial parte dos mesmos para os fornece-
dores ou para centrais de distribuição que passaram a demandar entregas mais
frequentes para ressuprimento. Isto aumentou a importância da distribuição
para fornecedores e centrais de distribuição, pois maiores níveis de inventários
deviam ser administrados e, ao mesmo tempo, maior disponibilidade de estoque
e entregas mais velozes deviam ser providenciadas.

2.2. Tecnologia da informação aplicada à logística


O avanço da tecnologia da informação (TI), nos últimos anos, vem per-
mitindo às empresa executar operações que antes eram inimagináveis. At-
ualmente, existem vários exemplos de empresas que utilizam a TI para obter
redução de custos e/ou gerar vantagem competitiva.
Um exemplo fantástico é o da Dell Computer, conforme a revista Business
Week (1998, p. 05). Ela investiu pesado na venda direta e na customização de
computadores pela Internet. O resultado foi um expressivo faturamento em re-
lação aos seus concorrentes, tornando-se uma das maiores empresas de com-
putadores do mundo. Além disso, obteve lucros tão expressivos que a fizeram
conquistar a posição de empresa com o melhor desempenho no setor de tecno-
logia de informação. Na mesma linha, o Wal Mart – maior varejista do mundo
– que possui 5.000 fornecedores e 3.000 lojas nos Estados Unidos, controla e
gerencia suas atividades baseando-se fortemente na TI. No Brasil, também está
administrando com forte apoio da TI a Souza Cruz – uma das maiores fabricantes
de cigarros do mundo, que atende cerca de 200.000 clientes diretos. Ela é con-
siderada uma referência na prestação de serviços de logística e de distribuição
- utiliza um roteirizador (um software) para superar o desafio que é atender e
controlar 200.000 varejistas e seus agregados. Com o auxílio imprescindível do
roteirizador, seus veículos atingem uma eficiência de 99% e efetuam, em média,
43 entregas por dia.
Estes exemplos têm por objetivo demonstrar a importância da TI para o
desenvolvimento da logística.
Atualmente, existe uma grande agitação junto às empresas no sentido da
implementação de sistemas de gestão empresarial, conhecidos como ERP, do
inglês Enterprise Resource Planning. Não são somente as grandes empresas que
procuram estas soluções para os seus problemas: há programas para todas as
situações e para todos orçamentos. Esse sistema visa basicamente permitir que
as empresas falem a mesma linguagem com seus parceiros, possibilitando uma
gestão integrada. Certamente, relatórios gerenciais com informações diferencia-
das estão com seus dias contados.
Nossa preocupação é com a Logística. Como ela está sendo abordada?
O fluxo de informações é um elemento de grande importância nas operações
logísticas. Pedidos de clientes, informações de mercado, ressuprimento, necessi-
dades de estoques, movimentações nos armazéns, documentação de transporte
e faturas são algumas das formas mais comuns de informações logística.

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Antigamente, o fluxo de informações baseava-se, principalmente, no pa-
pel – resultando em uma transferência de informações lenta, pouco confiável e
propensa a erros. O custo decrescente da tecnologia, associado à sua maior faci-
lidade de uso, permitem aos executivos poder contar com meios para coletar, ar-
mazenar, transferir e processar dados com maior eficiência, eficácia e rapidez.
A transferência e o gerenciamento eletrônico de informações proporcion-
am uma oportunidade de reduzir os custos logísticos mediante sua melhor co-
ordenação. Além disso, permite o aperfeiçoamento do serviço baseando-se na
melhoria da oferta de informações aos clientes.
Tradicionalmente, a logística concentrou-se no fluxo eficiente de bens ao
longo do canal de distribuição. O fluxo de informações muitas vezes foi deixado
de lado, pois não era visto como um fator capaz de favorecer o cliente. Além
disso, a troca de informações limitava-se à velocidade do papel. Atualmente,
três razões justificam a importância das informações precisas e transmitidas em
tempo viável para sistemas logísticos eficazes, conforme Chrsitophe (1997):
• Os clientes percebem que informações sobre status do pedido, disponibi-
lidade dos produtos, programação de entrega e faturas são elementos necessári-
os do serviço total ao cliente;
• Com a meta de redução do estoque total da cadeia de suprimentos, os
executivos percebem que a informação pode reduzir de forma eficaz as neces-
sidades de estoque e recursos humanos. Em especial, o planejamento de neces-
sidades que utiliza as informações mais recentes pode reduzir o estoque, mini-
mizando as incertezas em torno da demanda;
• A informação aumenta a flexibilidade, permitindo identificar (qual, quan-
to, como) quando e onde os recursos que podem ser utilizados para que se
obtenha vantagem estratégica.
Um exemplo de posicionamento estratégico baseado em tecnologia de
informação é o caso de empresas de entrega expressa. A FEDEX foi a primeira
empresa a oferecer a entrega para o dia seguinte. Isto ocorreu em 1973, nos
Estados Unidos. Já no final dos anos 80, ela passou a ter todo o controle sobre o
ciclo de pedido do cliente, graças aos pesados investimentos em TI. Atualmente
seu sistema processa mais de 60 milhões de transações por dia, o que equiva-
lente a mais de três milhões de pacotes entregues. Imaginemos estas operações
sem investimentos em TI.
Outro exemplo que deve ser registrado é o da interação entre fabricantes
e varejista, no gerenciamento da cadeia de suprimentos. O sistema utilizado é
o ECR ( Eficient Consumer Response). Através desse sistema, algumas redes
varejistas começam a disponibilizar informações do ponto de venda para seus
fornecedores, de modo que estes sejam responsáveis pelo ressuprimento au-
tomático dos produtos.

2.3. Logística e as crescentes expectativas do cliente.


Maximizar as utilidades de tempo, de lugar e de posse é, sem dúvida, a
função básica da distribuição. A logística contribui sobremaneira para o sucesso
de uma organização possibilitando uma entrega precisa de produtos, dentro do
prazo. A pergunta-chave é: quem é o cliente? Do ponto de vista da logística, o

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cliente é qualquer destino de entrega. Desde a residência dos consumidores a
empresas varejistas e atacadistas até as docas de recebimento das fábricas e
armazéns de uma empresa. Em algumas situações, o cliente é uma outra organ-
ização ou um indivíduo que está tomando posse do produto ou serviço que está
sendo entregue. Em várias outras situações, o cliente é uma instalação diferente
da mesma empresa ou um parceiro comercial situado em alguma outra parte da
cadeia de suprimentos. Independentemente da finalidade e do destinatário, o
cliente é o foco e a força motriz para o estabelecimento dos requisitos do desem-
penho logístico.
O perfeito entendimento de como a logística contribui para a implemen-
tação da estratégia de marketing é o princípio lógico da busca da satisfação
do cliente, com o menor custo possível. As empresas orientadas pelas opor-
tunidades de mercado consideram a satisfação das necessidades do cliente a
principal motivação para o desempenho de suas atividades. Um dos objetivos
do marketing é penetrar em mercados específicos e gerar transações lucrativas.
Outro é a satisfação do cliente. Esta postura, frequentemente chamada de con-
ceito de marketing, emergiu como parte das mudanças ocorridas no período pós
II Guerra Mundial: de mercados dominados pelo vendedor, para mercados domi-
nados pelo comprador. Pretendemos aqui enfocar três conceitos fundamentais.
O primeiro refere-se à essência do marketing orientado para o planejamento
de negócio. Em seguida, abordamos a crescente atenção ao desenvolvimento
da logística como uma competência central. Por fim, a natureza dinâmica da
atividade logística é examinada segundo as necessidades do ciclo de vida do
produto. É importante entender que o desempenho logístico deve ser modificado
ao longo do tempo para atender as novas necessidades do marketing.

2.4 Abordagem de Marketing

2.4.1 Conceito de Marketing


O conceito de marketing baseia-se na identificação das necessidades es-
pecíficas do cliente e, em seguida, busca responder a essas necessidades lo-
calizando os recursos disponíveis para satisfazê-las de maneira singular. A ideia
fundamental é que o nível máximo de sucesso é alcançado na medida em que
todas as atividades relacionadas ao trabalho contribuem para atender às expec-
tativas do cliente, Silva (2002, p.17), define marketing como sendo o conjunto
de atividades humanas, destinado a atender aos desejos e necessidades dos
consumidores, por meio de processos de troca utilizando ferramentas específi-
cas, tais como, a propaganda, a promoção de vendas, a pesquisa de mercado,
a concepção de produtos, a distribuição e a logística, entre outras, que para se
obter êxito é necessário criatividade, imaginação e emoção.
A competência logística se encaixa na equação do sucesso de marketing
devido à maneira como afeta cada uma dessas idéias fundamentais.
Para que o esforço do marketing tenha sucesso, os produtos devem estar
à disposição dos clientes, ou seja, os clientes devem poder obter prontamente
os produtos desejados. Para viabilizar a ação de compra, os recursos da empre-
sa vendedora devem estar focados no cliente e na disponibilidade dos produtos.

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Quatro atributos econômicos aumentam o valor do produto ou serviço para o
cliente: forma, tempo, lugar e posse.

2.4.2 Marketing Integrado


Podemos entender o Marketing Integrado analisando o Marketing Mix, que
é um conjunto de atividades projetadas para atrair clientes, alcançando, simul-
taneamente, os objetivos da empresa. Os chamados 4Ps que foram definidos
por Mccarthy e Perreaut (1997) como os quatro pontos básicos (produto, preço,
promoção e praça), constituem o Marketing Mix genérico. Para desenvolvermos
uma estratégia eficiente é necessário integrar recursos envolvidos com essas
atividades em um esforço que maximize o impacto sobre o cliente. A logística é
o processo que satisfaz às exigências de tempo e lugar, assegurando que as ne-
cessidades do cliente envolvidas na coordenação e localização do estoque e out-
ros serviços relacionados sejam atendidos de maneira satisfatória. O resultado
do desempenho logístico é o serviço ao cliente. Independentemente da ênfase
do Marketing Mix, o desempenho logístico é parte fundamental da estratégia de
marketing, pois nenhuma transferência ocorrerá sem o cumprimento das ex-
igências de tempo e lugar.

2.4.3 Logística e a Distribuição diante do Ciclo de Vida do Produto


A logística pode ser posicionada de modo a proporcionar muito mais que
um apoio passivo às necessidades de Marketing. As oportunidades de mercado
exigem da logística e da distribuição uma atitude de permanente sintonia com o
marketing, disponibilizando estoque e o tempo de resposta ao cliente a tempo
de maximizar o atendimento das necessidades de tempo, de lugar e de posse.
Uma empresa enfrenta constantemente uma competição do mercado em relação
à vida útil de um produto. Esta concorrência pode ser demonstrada através do
modelo de ciclo de vida. Este modelo ilustra claramente as condições de com-
petição:
Introdução – grande disponibilidade de produto e grande flexibilidade
de logística, aliados ao grande investimento em propaganda e promoção. As in-
certezas são muitas. A concorrência aguarda.
Crescimento – o produto alcança um nível de aceitação no mercado. As
vendas tornam-se um pouco mais previsíveis. A chave é atingir o break-even o
mais rapidamente e partir para novos mercados. É o momento de, entre outras
providências, ajustar contatos, acordos, condições de vendas, tudo em busca de
maior eficiência logística e de distribuição. Os investimentos retornam. A concor-
rência aparece com a vantagem competitiva do benchmarking. O nível de serviço
ao cliente, adequado para sustentar logisticamente o crescimento do mercado,
é uma questão complexa e exige a integração de todos os níveis hierárquicos. O
endomarketing é recomendado.
Maturidade (saturação) – caracterizada por concorrência acirrada.
Declínio – quando um produto está em declínio, os executivos avaliam a
possibilidade de retirá-lo do mercado ou fazer uma distribuição restrita.
O desempenho logístico deve ser posicionado para apoiar o negócio de forma

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continuada, sem, no entanto, assumir risco excessivo no caso de surgir a neces-
sidade de retirar o produto do mercado. O risco mínimo torna-se mais impor-
tante do que alcançar o custo logístico unitário mais baixo.

2.4.4 Logística e Distribuição – Alavancas fundamentais para o serviço


ao cliente

O marketing identifica o desempenho logístico apropriado. A questão es-


tratégica decisiva é determinar a combinação de serviços e o seu escopo dese-
jado, de modo a estimular e apoiar as transações das empresas. Para desen-
volver uma estratégia eficaz de serviço ao cliente, é necessário aplicar técnicas
de marketing e de logística de forma eficaz e contínua. Uma definição clara e útil
do serviço ao cliente pode ser observada conforme citado por Berry e Parasura-
man, (1995, p.30).

ATRIBUTO DESCRIÇÃO
Confiabilidade A capacidade de prestar o serviço pro-
metido de modo confiável e com precisão.
Sensibilidade A disposição de atender e ajudar o cliente
e proporcionar um serviço rápido.

Empatia O conhecimento e a cortesia dos fun-


cionários e suas habilidades em transmitir
confiança.
Segurança A atenção e o caminho individualizados
proporcionados ao cliente.
Tangibilidade A aparência física das instalações, eq-
uipamentos, funcionários e matérias de
comunicação.

Fonte: BERRY e PARASURAMAN, (1995, p. 30).

Esta definição ilustra a tendência de se pensar no serviço ao cliente como


uma orientação a processos a qual tem base nos conceitos de gerenciamento da
cadeia de suprimentos (Supply Chain Management). Um programa de serviço ao
cliente deve incorporar medidas de monitoramento de desempenho. A questão
principal continua sendo o custo/benefício. Devemos analisar e comparar os cus-
tos de manter e de conquistar um cliente.

2.4.5 Capacitação de serviço básico


Disponibilidade, desempenho e confiabilidade são dimensões fundamen-
tais e dedicadas no serviço aos clientes. São atributos que podem variar de im-
portância dependendo da situação do mercado. A disponibilidade é a capacidade
de ter o produto em estoque no momento em que ele é desejado pelo cliente. O
planejamento e administração logística e de distribuição em harmonia gerenciam
a contento a demanda. Acordos logísticos podem ser estudados. O desempenho
operacional é medido pela capacidade da logística de adaptar-se às variações da

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demanda e aos fatos imprevistos da área de marketing. O desempenho opera-
cional envolve comprometimento logístico com prazos de execução esperados e
as suas variações possíveis. Os indicadores são: velocidade, consistência, flexi-
bilidade e contratempos/recuperação.
Velocidade – do ciclo de atividades é o tempo decorrido do momento em que um
pedido é colocado até a chegada da remessa. Esse comprometimento deve ser
visto do ponto de vista do cliente. Pode variar entre apenas algumas horas até
semanas. Vários fatores incidem sobre essas variações, entre outros, o modal de
transporte versus característica do produto.
Consistência – embora a velocidade do serviço seja essencial, a maioria dos ex-
ecutivos de logística dá uma maior ênfase à consistência, ou seja, a capacidade
da empresa em executar um serviço dentro do prazo de entrega esperado du-
rante vários ciclos de atividade.
Flexibilidade – refere-se à capacidade da empresa de lidar com solicitações ex-
traordinárias de serviço ao cliente, entre outros, modificações de acordos, apoio
para programas de marketing, introdução de novos produtos, retirada de produ-
to do mercado, recall de produto, personalização de produto dentro de sistema
logístico etc.
Erros – independentemente da harmonia da operação logística de uma
empresa, erros irão ocorrer. A administração da logística e da distribuição não
só devem prever erros justificáveis como deve dispor de planos de contingência
para normalizar a situação.
Confiabilidade – em logística, qualidade é sinônimo de confiabilidade. A
capacidade de cumprir níveis de disponibilidade de estoque e desempenho op-
eracional planejado são questões fundamentais da qualidade em logística.
Além da confiabilidade do serviço, o aprimoramento contínuo é fundamen-
tal. Os profissionais envolvidos em logística e distribuição estão interessados
em atingir os objetivos operacionais com um mínimo de contratempos possível.
Uma maneira de alcançar esses objetivos é aprender com os erros e aprimorar
o sistema operacional.

3. Apresentação de caso
Após a exposição do embasamento teórico apresentado no artigo, o
presente tópico traz a apresentação do caso da Folha de S. Paulo e O Estado
de S. Paulo que juntos criaram a empresa S. Paulo Distribuição e Logística
Ltda, em 2001, visando obter maior vantagem competitiva com a logística de
distribuição.

3.1 Contextualização das Empresas


A Folha de S. Paulo, fundada em 1921, com R$ 1,1 bilhão de faturamento
anual, 4.400 funcionários e com uma circulação média de 395.975 exemplares.
O Estado de S. Paulo foi criado em 1875, possui R$ 900 milhões de faturamento
anual, contando com 3.086 funcionários e circulação média de 337.182
exemplares. A fusão aconteceu em 27/08/2001 em áreas não afins do foco
de competição, que é o mercado jornalístico, criando uma nova empresa, a S.

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Paulo Distribuidora e Logística Ltda, com uma previsão de faturamento anual na
ordem de R$ 150 milhões.
Com a criação dessa nova empresa, os grupos rivais estabeleceram como
meta garantir a entrega dos jornais a seus clientes até no máximo 06h30 da
manhã na Grande S. Paulo, como também obter ganhos de escala e melhoria na
logística de distribuição, também passaram a antecipar a entrega dos jornais no
interior de S. Paulo e em outros Estados.
A nova empresa efetua também entregas de outros produtos editoriais,
encomendas expressas e material vendido pela Internet, atuando em 927
cidades do Brasil e percorrendo mais de 50 mil quilômetros, passando a ter a
maior cobertura entre as grandes empresas do setor no Estado de S. Paulo.
Vale salientar que o novo modelo da empresa S. Paulo Distribuidora Ltda será
totalmente independente da parte editorial e financeira pelos dois jornais.

3.2 A logística na S. Paulo Distribuidora Ltda


O crescimento da logística no Brasil, como visto anteriormente, está
intimamente ligado à competitividade causada pela globalização e contínua
busca pela redução de custos através da otimização de processos. A visão que
os empresários têm hoje a respeito da competitividade, demonstra a evolução
logística que, sem dúvida, é o grande diferencial em termos de gestão.
Neste sentido, a S. Paulo Distribuidora Ltda, empresa criada especificamente
para atender o ramo de distribuição, estará sempre em busca de métodos e
procedimentos que indiquem possibilidades de melhorias do desempenho: mais
rapidez nas entregas, redução nos custos financeiros, uso de esquemas de
transporte intermodais, controle informatizado de estoques em processamento
e em trânsito, exame dos trade-off com o objetivo de obter custos mínimos
a longo prazo e, finalmente, ter condições de atingir vantagem diferencial
competitiva. Portanto, os serviços prestados pela logística obedecem exatamente
às necessidades de serviços expressas pelos clientes. O papel logístico tem como
desafio tornar possível algumas soluções que possibilitem, a partir de qualquer
produto e qualquer cliente, adequar esse processo a um processo eficiente de
atendimento, a um preço baixo e alguns prazos que ele determinar.

Conclusão

Grande parte dos negócios, hoje, é definida em um ambiente global, o que


vem forçando as empresas, independente de sua localização ou base de mercado,
a considerar o restante do mundo em sua análise de estratégia competitiva. O
mundo está caracterizado por transformações e mudanças rápidas e significativas
que exigem capacidade de compreensão, de adaptabilidade e de decisões
tempestivas. Também as empresas públicas e privadas são obrigadas a mudar,
porque a sociedade inteira mudou, o mercado em que operam mudaram. Os clientes
mudam o próprio estilo de vida; os produtos tendem a ser escolhidos conforme o
gosto de cada indivíduo; a competição no desenvolvimento de novos produtos é
sempre mais forte e, ao contrário disso, o ciclo de vida deles é sempre mais breve.

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Os recursos do management são constituídos de um número de pessoas sempre
menor, porém mais competente. O cash flow deve ser utilizado com mais eficiência
e eficácia, procurando o minimax, ou seja, minimizar os custos maximizando os
resultados. Alianças, parcerias, estratégias de vendas e de distribuição e outras
ações empresariais exigem do profissional a procura constante de novos businesss
que ofereçam autonomias e ricas potencialidades para os novos anos, alicerçadas
por redes de informática e pela cooperação de setores diferentes.
A logística, em muitos setores econômicos, é a atividade que pode criar a
diferença entre os concorrentes e oferecer uma expressiva vantagem competitiva,
sendo considerada por muitos, inclusive, como a derradeira fronteira para a
redução dos custos nas empresas.
A concepção da rede logística, que deve movimentar produtos ou serviços
desde as fontes de produção até os consumidores finais, é a chave para prover o
nível de serviço necessário para gerar vendas e controlar custos. O planejamento do
sistema pode ser dividido em um problema espacial e outro temporal. O problema
espacial ou geográfico envolve a localização estratégica dos sítios de armazenagem
e a definição da rotas que as mercadorias devem seguir. O problema temporal
ou dinâmico envolve a determinação dos melhores métodos para controle de
estoques, entrada e processamento de serviço. Um projeto extensivo do sistema
pode ser conseguido com a composição das soluções de ambos os problemas.
Boa compreensão do problema da concepção do sistema logístico pode ser
obtida pelo entendimento dos conceitos e princípios básicos do ciclo de vida do
produto, da estrutura de frete e da curva ABC.
O futuro da logística é brilhante, certamente. As tendências econômicas
mostram que os custos para a movimentação de bens e distribuição de serviços
devem crescer proporcionalmente às outras atividades, tais como manufatura e
marketing. O aumento dos custos de combustível, a implantação de melhorias de
produtividade e questão ecológica, vão contribuir para o prestígio e desenvolvimento
da logística. Caberá aos administradores oferecerem todo a sua atenção aos
assuntos logísticos visando à redução dos custos e, acima de tudo, a satisfação do
cliente.
A inflação, o consumismo e a ecologia são forças que atuam para prestigiar
a logística. Entretanto, o caráter de suas operações não vai ser muito diferente do
atual. O uso de tecnologia, novas e revolucionárias, não será o foco da atenção
dos administradores para solução de seus problemas logísticos nas próximas duas
décadas. Pelo contrário, a administração cautelosa vai procurar extensões da
tecnologia existente. A utilização da tecnologia será, sem dúvida, o grande fator
de desenvolvimento dos serviços logísticos.
As responsabilidades do profissional de logística deverão aumentar
rapidamente nas próximas décadas. Não será apenas responsável pelas funções de
distribuição física e de administração de materiais no seu país, como também deverá
dominar a crescente área da logística internacional. Finalmente, o profissional de
logística começará a aplicar os conceitos e princípios nos problemas organizacionais
de serviço, tais como, bancos e igrejas e hospitais. No terceiro milênio, esses
problemas serão tão importantes quanto os de manufatura. Mais que nunca, se
fará necessário profissionais capazes de enfrentar esses desafios.

82 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


Referências

BALLOU, Ronald H. Logística empresarial. Tradução de Hugo T. Y. Yoshizaki. São Paulo: Atlas, 1993.

CHRSITOPHER, Martin. Logística e gerenciamento na cadeia de suprimentos: estratégia para redução de


custos e melhoria dos serviços. Tradução Francisco Roque Monteiro Leite. São Paulo: Pioneira, 1997.

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Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 83


A Amazônia
no cinema brasileiro

SORANZ, Gustavo.

Mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia, pela Universidade Federal do Amazo-


nas e coordenador da faculdade de Comunicação do Centro Universitário do Norte.

RESUMO

O artigo busca traçar um panorama da representação da Amazônia no cinema brasileiro, inicial-


mente identificando a presença da região em filmes de ficção para depois apresentar os principais momen-
tos do documentário de cunho antropológico produzido na região amazônica, desde o período mudo até as
experiências contemporâneas, identificando matrizes para uma nova representação da região no cinema.

Palavras-chave: cinema; comunicação, pesquisa.

ABSTRACT

The article search draw Amazônia representation on the Brazilian cinema, firstly identifying the
presence of the region on fiction films to later present the principal moments of the anthropological docu-
mentary produced on the Amazonian region, since the mute period to the contemporary experiences, iden-
tifying the matrix to a new representation of the region on cinema.

Key words: cinema; comunication; research.

Introdução

Em geral, temos duas situações na representação da Amazônia no cinema


brasileiro: a primeira é a dos filmes que tomam a região de passagem, de modo
superficial, apressado. Não raro, tais filmes colocam a região como um destino
exótico, uma referência à aventura, um eterno retorno aos mitos já reforçados
pelos filmes estrangeiros. Do outro lado, temos os filmes mais comprometidos
com posições políticas e sociais, que buscam representar
momentos importantes da história recente do país.
Um nome importante relacionado ao cinema na Amazônia foi Líbero Luxardo,
paulista da cidade de Sorocaba, que se mudou para Belém, no Pará, no final da
década de 1930. Inicialmente interessado na realização de documentários, re-
alizou no Mato Grosso, em 1931, o longa Alma do Brasil – retirada da Laguna,
baseado no romance homônimo de Visconde de Taunay sobre as batalhas nos
campos do Mato Grosso conhecidas historicamente como A retirada da Laguna,
filme co-dirigido por Alexandre Wulfes. Estabelecido no Pará, Luxardo realiza

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em 1962 o primeiro longa-metragem ficcional daquele estado, intitulado Um dia
qualquer. Realizaria ainda os longas Marajó, barreira do mar (1964) e Um dia-
mante e cinco balas (1967)
Em 1960, Mario Civelli dirige o filme Bruma seca, trama que apresenta
uma aventura pela floresta inóspita, em um embate entre o humano e a natu-
reza. Seus entrechos dramáticos apresentam diversos conflitos que marcam a
história do processo civilizatório na região, como a disputa violenta por terras e
a exploração de riquezas naturais, como o ouro.
Com a abertura política e a busca pela identidade nacional nas décadas de 1970
e 1980, temos filmes que vão em busca da representação da diversidade bra-
sileira num processo de reflexão das diferenças regionais. O filme Bye-bye Bras-
il, dirigido em 1979 por Cacá Diegues, realiza um passeio pelo interior do país,
cruzando a Amazônia até chegar à Brasília, revelando pelo trajeto o impacto que
a televisão e a cultura estrangeira causaram na cultura popular.
Outro filme que trata de questões conflituosas relacionadas à Amazônia é
Fronteira das almas, dirigido em 1987 por Hermanno Penna, que mostra os con-
flitos por terra a a partir de projetos governamentais de ocupação em Rondônia
e de invasões de terra no Sul do Pará, questões que até hoje são a raiz de diver-
sos conflitos reais na Amazônia.
Poucos filmes se baseiam em fatos históricos da região, como é o caso
do filme Ajuricaba – o rebelde da Amazônia, dirigido por Oswaldo Caldeira, em
1977. O filme mostra a história de um tuxaua líder de uma tribo na Amazônia
que lidera um grupo formado por diferentes etnias em uma resistência à coloni-
zação portuguesa no início do século XVIII, tornando-se uma referência histórica
de resistência dos povos indígenas na Amazônia. Este filme é um caso interes-
sante, pois toma como protagonista uma liderança indígena, personagem tipi-
camente excluído das grandes narrativas nacionais, trazendo assim a questão
dos povos nativos brasileiros para o centro do debate sobre identidade nacional
travado naquele momento histórico.
A Amazônia aparece na trama de alguns filmes da série Os Trapalhões.
Nos diferentes títulos, os membros da trupe envolvem-se em diversas situações,
sempre mesclando aventura, humor e romance juvenil. No filme Os trapalhões
e a árvore da juventude, dirigido por José Alvarenga Jr., em 1989, está presente
o discurso em defesa da floresta, além da busca mística pela juventude eterna
possível na tal da “árvore da juventude”. No filme Os trapalhões na serra pelada,
dirigido em 1982 por J.B. Tanko, o evento histórico da corrida pelo ouro no gar-
impo de Serra Pelada serve de pretexto para apresentar uma trama de conflitos
de exploração da terra entre brasileiros e estrangeiros. Há, ainda, o filme Os
heróis trapalhões – uma aventura na selva, dirigido em 1988 por José Alvarenga
Jr, temos a mistura de elementos mágicos como sementes que fazem voar e
desmandos típicos de uma terra sem lei.
Podemos citar os filmes infanto-juvenis Tainá, dirigido por Tânia Lamarca,
em 2000, e sua continuação, Tainá 2 – a aventura continua, dirigida, em 2004,
por Mauro Lima, como filmes que tomam a região pelo discurso ambientalista,
atualizando as referências à região para tópicos sintonizados com os comprom-
issos politicamente engajados de preservação ambiental, mas ainda recheando
a trama de lugares-comuns em uma elaboração maniqueísta de diversos aspec-
tos a ela relacionados, como o tráfico de animais e a preservação da floresta.

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Por sua vez, a região amazônica tem uma relação muito íntima com a
produção documental brasileira, condicionada em parte pelo interesse que a
região desperta em diferentes áreas do conhecimento e também devido ao proc-
esso de produção possível na região, que não oferece facilidades logísticas e
operacionais para desenvolver um cinema de ficção, pois é dependente de estru-
turas mais complexas de produção. Sem contar o fato de a região estar afastada
dos grandes centros econômicos do país que, a despeito de importantes ciclos
econômicos, como a época da borracha ou do elevado PIB de Manaus devido ao
seu Pólo Industrial, a coloca distante dos principais agentes de financiamento e
de distribuição cinematográfica, o que dificulta o amadurecimento desse tipo de
cinema e a afirmação de uma cadeia produtiva adequada às suas demandas de
produção.
Assim, estabelecemos aqui uma importante condição que, evidentemente,
ajuda a definir as estratégias de representação da Amazônia no cinema nos
casos estrangeiro e nacional: no cinema internacional a Amazônia está mais
presente em filmes de ficção, frequentemente como um tema abordado, espo-
radicamente e mais recentemente como locação de filmagens, sendo em geral
uma referência, uma ideia, que remete a um conceito imaginário; enquanto que
na cinematografia nacional a produção relativa à Amazônia oferece um número
maior de documentários em relação aos filmes de ficção, portanto, uma produção
mais ligada ao estatuto da realidade e da sua interpretação. Cabe lembrar que
estamos levando em conta aqui nessas indicações trabalhos para cinema, o que
exclui trabalhos produzidos eminentemente para televisão que, caso fossem in-
cluídos nessa contabilidade, poderiam mudar radicalmente o cenário proposto,
pois,o crescente interesse internacional em relação à Amazônia tem aumen-
tado significativamente o número de documentários de emissoras internacionais
produzidos na região.

A chegada do cinema na Amazônia

Graças a um período de importante projeção econômica para a região,


com o ciclo de exportações da borracha, o cinema chega à Amazônia muito
cedo. O estilo de vida dos barões do negócio da borracha tinha como referência
as cidades européias; e o cinema, como meio de expressão por excelência da
vida moderna, tinha espaço garantido em cidades como Belém e Manaus, que
respiravam prosperidade econômica e tinham elites que buscavam manter as
regalias próprias de grandes centros urbanos europeus, assim, (SOUZA, 2007,
p. 15) “a Amazônia do ciclo da borracha esquece os padrões limitados do colo-
nialismo português e entrega-se ao romantismo da aventura capitalista”.
Uma série de títulos cinematográficos trazidos para Belém e Manaus
preenchia as agendas de salas de show e teatros, oferecendo um espetáculo
de entretenimento comercial. Para Paranaguá, “a introdução do cinematógrafo
na América Latina confirma que o continente se encontra integrado ao sistema
capitalista internacional, em forma subordinada, dependente, como importador
de manufaturas e exportador de matérias-primas e produtos agrícolas” (1985,
p. 11). Entretanto, foi justamente essa relação de troca comercial identificada
por Paranaguá como sendo uma relação de posições desiguais, um dos pilares

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que possibilitou o surgimento de produção cinematográfica na Amazônia no iní-
cio do século XX.
Júlio César Araña, um importante seringalista do período, com produção
centralizada no Peru, “temendo que as denúncias do jovem engenheiro Walter
Handerburgo de que mantinha trabalhadores escravizados em seus seringais
atrapalhassem seus negócios em Londres, procura Silvino Santos para realizar
um documentário em suas terras” (SOUZA, 2007, p. 75). Para Vale (1994, p.
1996)

Araña, que vivia nessa época na Europa, percebeu a importân-


cia e o impacto maior das imagens em movimento para seus
propósitos e enviou Silvino Santos a Paris, em 1913, para um
estágio de três meses nos estúdios Pathé-Films e nos laboratóri-
os dos irmãos Lumière. Lá, pesquisou uma combinação química
que, aplicada à emulsão da fita, assegurasse a resistência ao
calor e à umidade do clima tropical. Com milhares de metros de
negativos e uma filmadora Pathé, voltou ao Brasil para filmar os
índios no Peru.

Silvino Santos havia sido contratado para filmar os povos indígenas ao lon-
go do rio Putumaio e, por dois meses, permaneceu em atividade percorrendo al-
guns rios da região, registrando diferentes etnias. O material, entretanto, nunca
foi utilizado, pois se perdeu em naufrágio do navio que levava os negativos para
serem copiados nos Estados Unidos. (VALE, 1996, p. 162) “Dessa primeira exper-
iência, Silvino adquiriu a técnica que o lançou definitivamente para o cinema”.
Para Souza, (2007, p.76) “Araña inaugurou na região o interesse pela arte
que engatinhava. Mesmo sem ter surtido o efeito desejado, já que o filme nunca
chegou a ser exibido, a maravilha da imagem em movimento estava definitiva-
mente instalada em Manaus.”
Outro pilar importante para o estabelecimento da produção cinematográ-
fica ao redor do mundo está relacionado à produção das chamadas “vistas” ou
filmes de atualidades, frutos do trabalho de cinegrafistas que se lançavam ao em-
preendimento de registrar imagens de diferentes culturas em busca do exótico
e das suas peculiaridades para a exibição principalmente nos grandes centros
europeus e norte-americanos. Dos trabalhos realizados nesse período, é pratica-
mente impossível relacionar títulos, pois, em geral, eram produções de diretores
anônimos, sendo o filme assinado quase sempre pela produtora realizadora e o
título conhecido pelo interesse despertado pelo tema ou pela localidade, dentro
da lógica que imperava no sistema de distribuição e exibição de cinema da época,
onde os filmes eram negociados por metragem e exibidos ao critério do exibi-
dor que passava a ser dono daquela cópia específica. Esta, por sua vez, não se
consistia em um material estruturado, mas sim em uma seqüência de imagens
animadas sobre aspectos sociais, culturais ou da natureza de determinadas local-
idades. Para Monte-Mór, (2004, p. 102) “o cinema apropriou-se rapidamente dos
domínios reservados à antropologia, fazendo circular suas câmeras nos mundos
exóticos, produzindo imagens atraentes para as fantasias do Ocidente”; o que
nos permite dizer que, a Amazônia, por sintetizar a ideia de “Novo Mundo” no im-

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aginário ocidental, foi locação privilegiada de filmagens nesse período. Segundo
Toulet (2000, p.103),

pioneiros de um mundo novo, os operadores desempenham um
papel capital: além de registrarem imagens, eles lançam, no cur-
so de suas peregrinações, as bases da exibição, da produção e
da distribuição, como fundadores das cinematografias nacionais.
Muitos não assinaram nem seus filmes nem seus atos e per-
maneceram desconhecidos.

O trabalho desses cinegrafistas do período inicial do cinema permaneceu


anônimo na história, entretanto, para além do mero registro de imagens, de “vis-
tas”, com intenção de difusão nos grandes centros urbanos da Europa, ou pod-
eríamos dizer, para além das imagens meramente ilustrativas de uma realidade
empiricamente observada, o cinema é rapidamente incorporado ao trabalho de
campo das ciências sociais e das expedições científicas, onde vai ser mais um
instrumento da pesquisa, gerando vastos registros de imagens em movimento
de regiões outrora desconhecidas, o que ajuda a confirmar outro campo do cin-
ema na região, os documentários de cunho antropológico. Além das atividades
econômicas identificadas até aqui, o final do século XIX foi marcado por iniciati-
vas governamentais de reconhecimento e ocupação de territórios no interior do
Brasil e em zonas fronteiriças, passando por várias regiões, do Centro-oeste ao
Norte, diversas comissões foram organizadas para a instituição de serviços de
comunicação e de transportes. Essas ficaram genericamente conhecidas como
Comissão Rondon, em homenagem ao Marechal Cândido Mariano da Silva Ron-
don.

Os trabalhos da missão Rondon tinham o múltiplo caráter


militar, político e científico. Afinada com o ideário positivista
e nacionalista que inspirava a oficialidade da época, a missão
encarava as linhas telegráficas como um instrumento geopolítico
de fixação, integração e herdado do Império. Ao avançar em
território florestal escassamente povoado, os engenheiros
militares não encontravam somente obstáculos geográficos, mas
também a resistência de índios, que vinham sendo expulsos de
outras áreas por seringueiros e núcleos de colonização colonização
agrícola (DA-RIN, 2006, p.2).

A amplitude das ações dessas comissões organizadas pelo governo da Pri-


meira República fez com que fossem necessárias ações de diferentes campos de
conhecimento em suas atividades, o que aproximou Rondon de pesquisadores
nas áreas das ciências naturais e sociais. Segundo Tacca (2001, p.15),

O espírito científico das grandes expedições do século XIX e do


início do século XX influenciou Rondon a levar botânicos, zoól-
ogos e outros cientistas para fazerem levantamentos da fauna e
da flora. O levantamento topográfico e geográfico foi feito pelo
próprio Rondon e seus ajudantes, e ele também fez levantamen-

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tos etnográficos da cultura material de alguns grupos indígenas
e medições antropométricas dessas populações.

Um dos aspectos que chama a atenção nesse empreendimento multidis-


ciplinar é a valorização do registro visual como mecanismo de conhecimento.
Ainda segundo Tacca (2001, p.16)

A criação de uma seção especializada em documentação em


material fotossensível foi uma ação inovadora para os padrões
da época, necessitando altos investimentos e a apropriação de
uma tecnologia especializada inexistente no país, principalmente
se levarmos em conta que o uso desse material se daria em
péssimas condições ambientais, como alta umidade e dificuldades
de transporte. A documentação imagética foi considerada como
outras atuações científicas da Comissão, apresentando relatórios
e publicações como a Expedição ao rio Ronuro, publicação nº
90, relatada pelo capitão Vicente de Paulo Teixeira da Fonseca
Vasconcellos, em 1945. Nesse relatório, cita as duas câmeras
de cinema pertencentes à Comissão e operadas por Reis: uma
Williamson de 30 metros e uma Debrie Studio de 120 metros.

O principal fotógrafo e cineasta da Comissão Rondon foi o major Luiz Tho-


mas Reis, realizador dos filmes mais importantes da Comissão, entre eles Rituais
e festas bororo (1917) e Ao redor do Brasil: aspectos do interior e das fronteiras
brasileiras (1932).

Luiz Tomás Reis e Silvino Santos – documentaristas da Amazônia

O trabalho de Luiz Tomás Reis e Silvino Santos tem muitas similaridades.


Ambos se iniciaram na produção cinematográfica quase que ao acaso; Santos
era fotógrafo e pintor em Manaus quando foi procurado para fotografar povos in-
dígenas que trabalhavam em seringais de propriedade de Júlio César Araña, que
o enviou à França para estágio nos estúdios Pathé, em 1913, para aprender a re-
cente técnica cinematográfica (VALE, 1996); Reis era tenente e integrava a cha-
mada Comissão Rondon quando, em 1912, após tentativas frustradas utilizando os
serviços de um estabelecimento comercial de fotografia do Rio de Janeiro, propôs
ao marechal Cândido Rondon a formação do Serviço Fotográfico e Cinematográ-
fico da Comissão Rondon, que ficou sob sua responsabilidade (TACCA, 2001);
desenvolveram vasta filmografia no período em que o cinema estava se afirmando
enquanto linguagem e foram pais fundadores do documentário brasileiro, fil-
mando boa parte de sua obra na Amazônia. Para Ramos, (1997, p. 180) “dentro
do padrão autoral/longa-metragem de documentário, os dois principais cineas-
tas do mudo brasileiro são Luís Tomás Reis e Silvino Santos.”
Talvez o principal aspecto que aproxime a obra de ambos os cineastas
seja a condição privilegiada que tiveram para desenvolver suas filmagens, que
permitiu que produzissem extensa obra para o período, com diversos filmes em

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curta, média ou longa metragem. Santos era funcionário de um importante em-
presário da cidade de Manaus, que como uma espécie de mecenas, interessado
na propaganda das potencialidades da floresta amazônica, financiou a produção
de diversos filmes sobre os aspectos naturais e riquezas da região. Reis era te-
nente do exército brasileiro e como responsável pelo Serviço Fotográfico e Cine-
matográfico da Comissão Rondon foi o principal realizador dos filmes originados
dos trabalhos em campo das expedições.
Outro aspecto fundamental na obra de ambos e que interessa particular-
mente em nossa análise é o fato de terem filmado suas obras majoritariamente
na Amazônia, o que coloca a região em posição destacada na história de um
certo documentário brasileiro, de cunho antropológico. A despeito de cada um
dos realizadores ter uma finalidade a cumprir com seus trabalhos, Silvino Santos
fazia filmes de propaganda e Luís Tomás Reis fazia filmes de caráter instituci-
onal, isso não impediu que “pudessem desenvolver uma obra própria, com um
estilo pessoal” (RAMOS, 1997, p. 180).
Classificar a obra de Santos como propagandística e a de Reis como in-
stitucional talvez seja, ao menos a princípio, de um reducionismo injusto, que
pode levar a julgamentos precipitados sobre os filmes em si, caso se tome os
termos pelo que significam hoje num mundo marcado por interesses comer-
ciais e onde temos uma história do gênero documentário que aponta diver-
sas evoluções em termos de linguagem, mas como apontou Da-Rin (2006),
“seus filmes contemplam aquilo que Grierson viria considerar, alguns anos
mais tarde, como características básicas do documentário: um cinema de
propaganda utilizando a ‘cena natural’”. Ainda segundo Da-Rin (2004, p.72),

A importância que Grierson atribuía aos materiais naturais esta-


va ligada a uma convicção, formada ainda no seu período ameri-
cano, de que o cinema possuía uma capacidade intrínseca de
representação naturalista, quase diluída e distorcida pelo cinema
industrial de ficção.

Ao levarmos em conta essa observação de Griserson em relação ao poten-


cial das imagens naturais, podemos dar o real valor à produção de Silvino Santos
e Luís Tomás Reis para a confirmação de um campo para o documentário bra-
sileiro, pois, com as condições de produção garantidas pelos aspectos instituci-
onais mantenedores das filmagens, esses cineastas puderam se lançar à exper-
iência de filmar o real em contato direto com a realidade empírica, ampliando as
possibilidades do documentário mudo brasileiro para além da mera abordagem
jornalística factual ou expositiva. Ainda que desenvolvam abordagens diferentes
em relação aos seus objetos e personagens, sendo, no final das contas, marca-
dos pelas contingências institucionais em cada cãs: Reis, como um cineasta liga-
do a uma estratégia científica de cunho positivista, e Santos, ligado a estratégias
de propaganda mercantil; seus filmes têm grande importância para a Amazônia,
especificamente, pois marcam uma oposição àquelas imagens evocadas pelos
modos de representação dominantes em relação à região amazônica existentes
no cinema hegemônico internacional, discursos estes que recuperam categorias
referentes aos preconceitos advindos das interpretações apriorísticas da região

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pelo discurso externo, sobretudo estrangeiro, fundamentando a representação
da região em categorias imaginárias, que reforçam clichês e lugares comuns
referentes à ideia de “novo mundo” no imaginário ocidental. Temos aqui, talvez,
marcada certa tendência ou vocação da Amazônia para o filme documentário,
pois seria esse o gênero capaz de subverter as imagens preconcebidas geral-
mente trabalhadas em enredos ficcionais, que concretizam em imagens o imag-
inário fantasioso sobre a Amazônia, conferindo ao documentário relevante papel
social e cultural para a afirmação de um discurso próprio para a região, algo
que pensamos irá se amadurecer com o projeto Documentos da Amazônia, a ser
analisado posteriormente.

O moderno documentário na Amazônia

Daremos aqui um salto no tempo para analisar outro período histórico


fundamental para a Amazônia que consequentemente tem reflexos nos seus
moldes de representação. Seguiremos com a observação de filmes que tratam
da região a partir da década de 1960, período em que, entre outras coisas, o
país passou a viver sob regime de ditadura militar e a região amazônica passou
a ser considerada de segurança nacional, para onde foram destinados uma série
de programas intervencionistas de cunho integracionista e desenvolvimentista,
que ignoravam suas especificidades socioculturais.
A região continua a marcar a história do documentário brasileiro de ma-
neira muito importante. Nesse período temos uma série de filmes que serão
realizados em parceria por antropólogos e cineastas, frutos do Instituto de Cin-
ema Educativo (INCE). São filmes que, em sua maioria, mantém uma abord-
agem expositiva sobre a realidade e, nesse caso, dado o interesse antropológico,
retratam populações indígenas da Amazônia brasileira. Entre os vários casos,
podemos citar Kuarup, dirigido por Heinz Forthman em 1962, com parceria de
Roberto Cardoso de Oliveira e Jornada Kamaiurá, de 1965, também dirigido por
Heinz Forthman, agora com a assessoria do antropólogo Roque Laraia.
O filme brasileiro de ficção enfrentou problemas para encontrar espaço de
exibição no circuito comercial em seu próprio mercado, sendo essa uma questão
candente ainda hoje. No caso específico dos documentários, que nesse período
não tinham a projeção popular que tem hoje, essa questão se complica ainda
mais e, se levarmos em conta esse tipo de cinema de interesse específico como
é o caso dos documentários sobre a Amazônia, a situação tende a se complicar
ainda mais. Tal produção tem ficado relegada a espaços como cineclubes, cine-
matecas, festivais e universidades, sendo que, ainda hoje, essa é a realidade da
maioria dos documentários sobre a Amazônia: a despeito dessa ser uma região
intensamente filmada, os filmes não encontram espaço no circuito “oficial” de
exibição cinematográfica.
Para Xavier (2001, p. 57) “a melhor caracterização dos problemas do cin-
ema brasileiro no período exige uma atenção maior às transformações sócio-
econômicas mais gerais ocorridas no país”, sendo assim, a parir do início dos
anos de 1970, sintonizado com as mudanças sociais e políticas, em uma atmos-
fera crescente de questionamento do discurso oficial, que em relação à Amazô-
nia tinha posturas de controle e de ufanismo, o cinema brasileiro vai produzir

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obras críticas e que buscam adentrar no interior do país e buscar revelar a sua
face real. Nesse período, vem à tona diversas problemáticas que estão relacion-
adas com a região amazônica e que não eram condizentes com o discurso oficial,
como o problema da ocupação da terra, da migração e, sobretudo, o da devas-
tação da floresta, que desembocou no crescimento do discurso ambientalista.
Ainda segundo Xavier (2001, p.60),

Inserido numa esfera dominada pelo produto industrial, o cin-


easta brasileiro opta por um determinado tipo de cinema em
meio a tensões e cálculos relacionados com uma política de
produção, num contexto cultural e ideológico específico. Em
sua intervenção, vê sua necessidade de expressão, suas preo-
cupações temáticas, seu envolvimento com a linguagem e sua
relação com o espectador mediados por uma equação que per-
meia a produção e a crítica no Brasil: a questão nacional.

Em busca de encontrar a questão nacional, por um lado o cinema brasileiro


vai buscar inspiração no modelo neo-realista italiano e nas vanguardas européias
do período para forjar um movimento nacional de cinema que tem a intenção
de refletir sobre a realidade do país, tensionando seus modos de representação.
Surge o Cinema Novo. Por outro lado, um grupo de cineastas, inspirados pela
revolução cultural e de costumes vai fundar o chamado Cinema Marginal. Nesse
período, o cinema brasileiro ficou marcado pela polarização entre o Cinema Novo
e o Cinema Marginal, movimentos estéticos que centralizaram o debate e a dis-
cussão. Entretanto, é justamente na brecha dessas categorias que vão existir cin-
eastas que fogem ao esquematismo dessa divisão polarizada e vão realizar obras
fundamentais para o cinema moderno brasileiro. Novamente, a Amazônia está
no centro da história do documentário brasileiro de cunho antropológico. Com o
filme Iracema – uma transa amazônica, Jorge Bodanzky inicia sua aproximação
da região, que renderá uma série de filmes fundamentais para a história do cin-
ema nacional.

Um novo olhar sobre a Amazônia

Com as ações do governo militar avançando em direção à Amazônia,


a região considerada como de segurança nacional, sendo o lema central a
máxima de “integrar para não entregar”, o discurso oficial sobre a região es-
tava se concretizando em ações como as estradas de rodagem como portas
de entrada para a Amazônia que, atravessando largas áreas de floresta, eram
obras faraônicas de eficiência questionável, como se comprovou com a falên-
cia do projeto da transamazônica e o incentivo à migração nordestina para sua
ocupação, que ocasiona ainda hoje disputas violentas de terras, por exemplo.
No bojo da discussão política esboçada por esse cenário, o documentário
sobre a Amazônia vai assumir forte tom de denúncia. A aproximação dos cineas-
tas com a região se dá por uma postura ideológica de questionar o regime mili-
tar mostrando que sua propaganda oficial para a região amazônica não condizia

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com o que acontecia na realidade. Muitos filmes vão buscar as fissuras desse
discurso oficial e retratar o que está por trás da imagem institucionalizada da
Amazônia. Um caso célebre é o do já citado Iracema – uma transa amazônica,
de Jorge Bodanzky. Filmado em 1974, mas com lançamento liberado em 1981,
devido à censura do regime militar, o filme cria uma metáfora para representar
a Amazônia invadida pelas intenções progressistas do regime, e como esse con-
tato acaba por corrompê-la e degenerá-la. No filme, um caminhoneiro, chamado
Tião Brasil Grande, conhece na beira da estrada uma garota vinda do interior
chamada Iracema que, desse encontro em diante, passa a ser explorada e a se
prostituir. Com esse filme, Bodanzky vai, no reverso do discurso oficial do regime
militar, mostrar a realidade do trabalho escravo, da prostituição infantil e dos
conflitos de terra; além disso, vai exibir imagens da devastação da floresta e in-
cêndios em grandes áreas verdes, imagens que vão percorrer o mundo e chamar
atenção para a situação ambiental da Amazônia. O que torna o filme especial é
o fato de, em um período de forte repressão como era o final dos anos de 1970,
adentrar uma região de segurança nacional e mostrar aquilo que se passava lá,
num embate com a realidade que coloca em questão não só tal discurso oficial
sobre a região, mas os próprios cânones da representação ficcional, borrando os
limites da realidade, resultando em um filme que está exatamente na fronteira
entre o documentário e a ficção, num período onde a tendência do cinema bra-
sileiro, devido à pressões do regime militar, era a fuga para a ficção escapista ou
a ficção alegórica.
A partir de Iracema, Jorge Bodanzky vai realizar uma série de outros filmes
na Amazônia, indo cada vez mais fundo na região, tratando de conflitos de terras
(Igreja dos oprimidos, 1985) e ocupação estrangeira na Amazônia (Jari, 1980),
por exemplo, revelando para o resto do Brasil uma realidade até então desconhec-
ida e esquecida. Tal relação demonstra um olhar comprometido com a região por
parte do cineasta, que, filme após filme, desenvolve abordagens cada vez mais
integradas com sua realidade histórica, contribuindo para sua desmistificação e
reconhecimento, o que aponta para um autoconhecimento por parte do país em si.
Outro filme de Jorge Bodanzky que oferece ótimo contraponto a Iracema,
além de ser emblemático da relação entre realidade e imaginário que a Amazô-
nia desperta, é Terceiro Milênio, dirigido em 1980. O filme mostra o então se-
nador Evandro Carreira em campanha pelo interior do Amazonas, revelando os
confins do país. Se Iracema é um filme que “borra” os limites entre ficção e re-
alidade, por lançar em situações reais, personagens fictícios, contribuindo para
uma representação naturalista na ficção, improvisada entre atores profissionais
e cidadãos locais interpretando seus próprios papéis, o filme Terceiro Milênio
constrói sua narrativa a partir da figura do senador Evandro Carreira, person-
agem extremamente performático e verborrágico, que confere certo ar ficcional
àquilo que é puro registro documental de uma campanha eleitoral. A seu modo,
esse filme também amplia o debate sobre os limites entre ficção e documentário.
Em uma espécie de road movie pelas estradas de rio da região, o filme revela a
Amazônia profunda, das barrancas de rio, comunidades rurais e ribeirinhas, que
permanece praticamente desconhecida da maioria dos brasileiros.
Outra experiência de destaque na produção é o projeto Vídeo nas Aldeias.
Desdobramento das atividades do Centro de Trabalho Indigenista (CTI) e fruto

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 93


da militância indigenista de seu fundador, Vincent Carelli, o projeto vai se uti-
lizar da democratização da produção audiovisual através do suporte eletrônico
do vídeo, utilizando tal recurso para a reflexão e a crítica sobre as questões da
causa indígena, oferecendo instrumento para que os próprios indígenas, antes
objeto de pesquisa, tornem-se agentes de sua própria história, desenvolvendo
estratégias de afirmação de discursos próprios objetivados em trabalhos audio-
visuais.
O projeto, existente há mais de 20 anos, se iniciou realizando trabal-
hos sobre e com diversas etnias indígenas ao redor da Amazônia, contribuindo
para a promoção de outra imagem desses grupos, mais complexa e ligada em
seu processo histórico, pois normalmente são estereotipados pela grande mídia
como sendo uma única e indistinta categoria. Nunca buscaram encontrar o índio
tipificado, de sinais diacríticos identificáveis, mas sim proporcionar o surgimento
de um discurso próprio por parte de cada uma das diferentes etnias, revelando
questões culturais e de identidade.
De uma prática comprometida com a causa indigenista que resultava em
documentários realizados juntamente com os grupos indígenas, o projeto pas-
sou a ser formador de cineastas indígenas, oferecendo instrumental técnico e de
linguagem para que eles sejam os próprios condutores dos trabalhos, contando
suas histórias do seu próprio ponto de vista. Para Bentes,

Ao decolar a câmera da mão dos antropólogos e cineastas profis-


sionais e formar realizações indígenas, a primeira questão que
podemos subliminar é a do deslocamento de poder e uma re-
flexão decisiva sobre a produção do saber. Quem tem a câmera
tem o comando e a simples posse pelos índios desse instrumen-
to de observação, intervenção e comunicação pode produzir um
outro pensamento ou dar visibilidade a uma outra lógica visual
e mental.

Com a chegada de Mari Corrêa, o projeto amplia suas perspectivas, incor-


porando e alterando conforme sua própria experiência a metodologia do atelier
varan, centro de formação e realização de documentários na França. Com a ex-
periência de desenvolver capacitação de grupos indígenas para o uso do audio-
visual como uma ferramenta de autoafirmação e preservação cultural, o projeto
dinamiza as relações entre os grupos indígenas em si e as suas relações com a
sociedade urbana, apontando para diversas áreas de conhecimento, colocando a
Amazônia no centro de uma importante experiência do documentário brasileiro
contemporâneo. Sobre isso, Bentes diz que

A questão interessa não apenas para se pensar o uso das ima-


gens na antropologia, na etnografia ou nas ciências sociais, mas
dá visibilidade aos impasses em torno do documentário contem-
porâneo que vêm problematizando temas como a produção da
auto-imagem, a fabulação, a construção do real, a nossa relação
com a imagem do outro, temas recorrentes em toda uma série
de filmes.

94 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


Ao oferecer a possibilidade do discurso organizado pelo próprio indíge-
na, em uma autoetnografia, o projeto Vídeo nas Aldeias coloca o documentário
contemporâneo realizado na Amazônia entre os mais interessantes do gênero
no Brasil. Assim, podemos dizer que a Amazônia esteve ligada a momentos
importantes do documentário brasileiro, particularmente daqueles de cunho
antropológico, desde os pioneiros do cinema silencioso, Silvino Santos e Luiz
Thomas Reis, passando pelos filmes-documentários de denúncia no período da
ditadura militar, até chegar ao modelo militante do Vídeo nas Aldeias.
Os documentários realizados pelos indígenas iniciados nas oficinas do pro-
jeto Vídeo nas Aldeias oferecem a possibilidade de se estabelecer outra relação
entre sujeito e objeto, uma relação que subverta os métodos clássicos do docu-
mentário, propondo novas abordagens, que resultem em novos discursos, inver-
tendo o eixo da relação documentarista/objeto. Segundo França (2004, p.31)

A proposta de exprimir uma identidade já dada ou uma rea-


lidade estanque que pre-existiria ao filme, tão presente
no discurso antropológico, etnográfico ou nos documentários
expositivos clássicos, não tem lugar nestes filmes. Os olhares
dos índios para a câmera, seus gestos, suas expressões, seus
sorrisos, suas falas, são momentos intensos, fortes, justamente
porque mostram a consciência de que se trata de um jogo entre
quem filme e quem é filmado, um jogo em que a performance
dos índios está ligada a fatores que são produzidos pelo docu-
mentário, para o documentário e que não existiriam sem ele.

Ao enfatizar que existe algo que o documentário produz que depende da


relação existente no jogo entre quem filma e quem é filmado e, principalmente,
está ligado a fatores que são produzidos pelo documentário, França está se
referindo àquilo que podemos considerar a “voz” do documentário, segundo os
termos propostos por Nichols, ainda que a autora não use tais termos em sua
análise. Segundo Nichols, todo e qualquer documentário tem uma “voz” própria,
sendo que

a voz do documentário não está restrita ao que é dito verbal-


mente pelas vozes de “deuses” invisíveis e “autoridades” plena-
mente visíveis que representam o ponto de vista do cineasta
– e que falam pelo filme – nem pelos atores sociais que
representam seus próprios pontos de vista – e que falam no filme.
A voz do documentário fala através de todos os meios disponíveis
para o criador. Esses meios podem ser resumidos como seleção
e arranjo de som e imagem, isto é, a elaboração de uma lógica
organizadora para o filme (2007, p.76).

Até aqui, temos insistido nas imagens sobre a Amazônia, privilegiando nas
análises o aspecto da visualidade. Entretanto, os filmes são muito mais do que
a imagem em si, são o resultado da articulação da imagem e do som. O que

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 95


queremos destacar é que essa articulação revela aspectos outros presentes na
maneira de abordar um tema, dando a compreender um discurso subjacente à
forma do filme. Podemos dizer que os filmes constroem pontos de vista sobre a
Amazônia, que revelam modos de representação sobre a região orientados so-
cial e politicamente.


REFERÊNCIAS

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www.videonasaldeias.org.br. Acessado em 17/07/2009.

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Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 97


A influência do contexto
institucional do Ensino Superior na cultura organizacional nas
IES públicas e privadas: estudo de múltiplos casos na Cidade
de Manaus-AM

Souza, Mariluce Santiago


Carvalho, Cristina Amélia Pereira

Resumo

Na proposta de analisar a repercussão das pressões do contexto institucional sobre a cultura or-
ganizacional de instituições de ensino superior do setor público e privado da Cidade de Manaus, a presente
investigação contribui para debater a relevância do entendimento da dinâmica ambiente-organização-
cultura por meio de uma visão do fenômeno enquanto processo que integra aspectos cognitivos, culturais e
institucionais. O delineamento da pesquisa é do tipo estudo de casos múltiplos com perspectiva de análise
descritivo-explicativa, predominantemente qualitativa, acrescido de dados quantitativos complementares.
Os resultados indicam que o contexto institucional é percebido pelos dirigentes com base em esquemas
interpretativos e significados peculiares e socialmente compartilhados. Dessa forma, a repercussão das
pressões do contexto institucional sobre a cultura da organização variou conforme a interpretação compar-
tilhada pelos seus dirigentes e a especificidades das instituições.

Palavras-chave: Instituições de Ensino, Contexto Institucional, Cultura Organizacional.

Abstract

In the proposal to examine the impact of the institutional pressures on the organizational culture of
institutions of higher education in public and private sectors of the city of Manaus, this research contributes
to debate the relevance of understanding the dynamics of organization-environment-culture through a vi-
sion of the phenomenon as a process that integrates cognitive, cultural and institutional. The study design
is study of multiple cases with the perspective of descriptive and explanatory analysis, with a predomi-
nantly qualitative approach, together with additional quantitative data. The results indicate that the insti-
tutional environment is perceived by management based on interpretative schemes and unique meanings
and socially shared. This enabled the various readings of the same environment by the two institutions,
supporting the theory. Thus, the impact of the institutional pressures on the culture of the organization was
dependent on the interpretation shared by their leaders and the specific institutions.

Keywords: Education Institutions, Institutional Context, Organizational Culture.

INTRODUÇÃO

Por fazerem parte de uma rede social complexa e interativa, as ações de


uma organização não repercutem apenas na sua estrutura interna, mas geral-
mente impacta todo o seu campo organizacional, assim como no processo in-
verso, também pode ser impactada por outras organizações, o que leva a re-
flexão sobre o processo de construção social das organizações. Para Berger e
Luckmann (2003), as instituições são construções sociais que funcionam como
diretrizes para as ações dos atores sociais, que se estruturam e se institucionali-
zam por meio da interação social.
A teoria institucional, nesse sentido, ganha importância, pois direciona o seu ol-
har para a relação mútua entre o ambiente e as organizações. Em sua essência,
a abordagem institucional é apropriada quando o propósito é analisar como as
organizações institucionalizam valores, crenças e práticas que influenciam suas

98 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


decisões e ações. Esta abordagem volta sua atenção para o modo como os val-
ores institucionalizados na sociedade exercem pressão sobre as ações e estru-
turas organizacionais, considerando relevante analisar a interconexão entre os
aspectos instrumentais e os elementos simbólicos na formação da cultura organ-
izacional. Considerando o exposto, este estudo buscou analisar a forma como o
contexto institucional do Ensino Superior influencia a cultura organizacional nas
IES públicas e privadas.

1. TEORIA INSTITUCIONAL
Os estudos de Selznick são considerados precursores da teoria institu-
cional, por introduzir as bases de um modelo institucional, reconhecendo que
as organizações sofrem pressões do ambiente social tanto quanto do ambiente
técnico, transformando-se em sistemas orgânicos e complexos, exercendo e sof-
rendo pressões diversas (CARVALHO; VIEIRA, 2003).
De forma geral, a teoria institucional atenta para assuntos até então ignorados
pelos estudos organizacionais, evidenciado a importância dos elementos cultur-
ais, simbólicos e cognitivos, de normas e valores sociais. A partir da perspectiva
institucional, ganha relevância a visão do homem como ator social, que formula
suas estratégias conforme significados atribuídos às regras de funcionamento
organizacional, institucionalizadas na sociedade.
Meyer e Rowan (1977) expõem que as organizações tendem a se estru-
turarem cada vez menos em razão da necessidade de eficiência e de resultados,
mas principalmente em função das regras institucionais e seu revestimento de
significado social compartilhado. As regras institucionais funcionam como mitos
que as organizações incorporam, ganhando legitimidade, estabilidade e per-
spectivas de sobrevivência reforçada. Assim, as organizações são pressionadas
tanto por variáveis concretas, como tecnologia, recursos e tamanho, quanto
pelo sistema de valores, crenças e mitos compartilhados e institucionalizados
(GOULART; VIEIRA; CARVALHO 2005).
Os institucionalistas, portanto, consideram os recursos humanos, mate-
riais e econômicos como pontos críticos para o funcionamento das organizações,
mas não se deve negligenciar o ambiente institucional no qual a organização
está inserida como uma forma estratégica de adquirir e manter sua legitimidade.
A preocupação básica desta abordagem reside em entender como a ação organ-
izacional pode ser influenciada por pressões instrumentais – mercado, recursos,
tecnologia – e pressões institucionais – Estado, legislação, profissionais.

1.1 Ambiente e pressões institucionais


O ambiente teve seu conceito enriquecido pelos teóricos institucionalistas,
responsáveis por distinguir mais claramente o ambiente técnico e o ambiente
institucional (PACHECO, 2002). Por ambiente técnico entende-se o espaço de
troca de bens, produtos e serviços, atuando como fonte de recursos ou de in-
formações, na qual as organizações estão fortemente voltadas para os aspectos
econômicos, atreladas aos interesses instrumentais e de mercado, sendo recom-
pensadas por sua eficiência e eficácia operacional. Neste caso, as organizações,
de forma racional, têm a capacidade e a oportunidade de exercer um poder dis

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 99


cricionário sobre seu projeto e a alteração da sua estrutura em resposta a con-
tingências ambientais (OLIVER, 1998). A noção de ambiente institucional, por
sua vez, amplia a visão do ambiente técnico, ao tratar dos aspectos cognitivos e
culturais presentes na ação organizacional, constituído de sistemas simbólicos,
valores sociais e culturais, normas instituídas e construções cognitivas, elemen-
tos essenciais para a formação do comportamento social e organizacional. A
seguir, no Quadro 01, apresentam-se as principais características e diferenças
do ambiente organizacional.

Dimensões relevan- Ambiente instituci- Ambiente técnico


tes onal

Contexto ambiental Político e legal Mercado


Fator de demanda Legitimidade Recursos
chave
Tipo de pressão Coercitiva, mimética e Competitiva
normativa
Constituintes chaves Estado, agências e as- Fontes de fatores de
sociações profissionais produção escassa
Mecanismos de con- Regras, regulamen- Troca crítica de de-
troles externos tações, inspeções pendências
Fatores do sucesso Conformidade às re- Aquisição e controle de
organizacional gras e normas institu- recursos críticos
cionais

Quadro 01: Diferenças entre ambiente técnico e institucional


Fonte: Oliver (1998, p. 102)
Observe que tal diferenciação é importante didaticamente, mas não im-
plica em uma dicotomia entre ambiente técnico e institucional. Na verdade, as
organizações trabalham sob níveis diferentes de pressões ambientais, sendo
uma dimensão técnica e outra institucional. Um estudo que analise apenas uma
destas dimensões do ambiente tende a tornar-se uma visão parcial da realidade
(CARVALHO; VIEIRA, 2003; MACHADO-DA- SILVA; BARBOSA, 2002).

1.2 Processo de Institucionalização


Na perspectiva das ciências sociais, o termo instituição tanto pode significar es-
trutura física quanto conjunto de regras, normas e significados que regem as relações
sociais entre os indivíduos, definindo padrões de comportamento. Enquanto padrão de
comportamento, instituição refere-se ao processo de interiorização de regras e precei-
tos de ação. Regras e preceitos, por sua vez, não são mágicos ou dados ao acaso, mas
construção humana, social, histórica, aceitas e legitimadas no decorrer do tempo.
Scott (2001) define instituições como sendo estruturas sociais compostas por
elementos regulativo, normativo e cognitivo que, juntos, proporcionam estabilidade
e significado ao comportamento social, enfatizando o processo de institucionalização
para adquirir e garantir legitimidade diante da sociedade. Esses elementos são con-
siderados os pilares que atuam como suporte para as instituições, conforme pode ser
observado no Quadro 02.

100 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


Característica Regulador Normativo Cognitivo

Base da submissão Utilidade Obrigação Pressuposição


social
Mecanismos Coercitivo Normativo Mimético
Lógica Instrumentali- Adequação Ortodoxia
dade
Indicadores Regras, leis, Certificação, Predomínio,
sanções aceitação isomorfismo
Base da legitimação Legalmente Moralmente Culturalmente
sancionada governada sustentada,
conceitual-
mente correta

Quadro 02: Os três pilares das instituições


Fonte: Scott (2001)

O pilar regulador enfatiza o estabelecimento de regras de comportamento


social e o monitoramento direto destes por meio de coerção e sanções, na forma
de recompensas ou punições, que podem restringir ou constranger determinad-
as condutas. As organizações tendem a enquadrar-se em determinadas normas
por razões de conveniência, evitando punições e sanções pelo não alinhamento
com o que está normatizado, instituído legalmente.
O pilar normativo evidencia os valores e as normas sociais que servem de
fundamento e alicerce para o comportamento coletivo, reforçada numa dimen-
são prescritiva. O elemento normativo das instituições contribui para a estabi-
lidade social, à medida que o comportamento é motivado por normas e valores
coletivos e institucionalizados e não por interesses individuais.
O pilar cultural-cognitivo evidencia a concepção de esquemas interpreta-
tivos e subjetivos que operam como um filtro para a ação dos atores sociais,
chamando atenção para o fato de indivíduos e organizações estarem imersos em
um contexto institucional e para a construção social da realidade organizacional
(CARVALHO; VIEIRA, 2003). O aspecto cultural-cognitivo destaca a importância
da análise relacional entre as ações e o ambiente para a construção e internali-
zação dos significados, que são preservados ou modificados pelos indivíduos.
A distinção que se faz entre os pilares regulador, normativo e cultural-cog-
nitivo é tão somente didática, visto que os mesmos são considerados por Scott
(2001) como interdependentes, embora se reconheça que em dado momento
um elemento possa exercer maior ou menor influência sobre a legitimação do
comportamento social.
A institucionalização é identificada como um processo central na criação
e perpetuação de grupos sociais duradouros. Com este conceito aprofunda-se
a idéia de que a realidade organizacional é socialmente construída e não uma
resposta inerte às pressões do ambiente institucional. Nesse sentido, Tolbert e
Zucker (1999, p. 205) propõem

[...] um conjunto de processos seqüenciais – habitualização, objeti-


vação e sedimentação – sugerem variabilidades nos níveis de instituci-
onalização, implicando, deste modo, que alguns padrões de comporta-
mento são mais sujeitos do que outros à avaliação crítica, modificação
e mesmo eliminação.

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 101


Para Tolbert e Zucker (1999), portanto, o processo de institucionalização é
visto seqüencialmente, a partir da compreensão de como um determinado script
é aceito e reproduzido ou rejeitado e, conseqüentemente revisado, visando al-
terar os padrões institucionais. A institucionalização realmente acontece quando
práticas tornam-se habituais e não mais são questionadas pelos atores sociais.
A habitualização, primeiro estágio do modelo proposto pelas autoras,
refere-se às inovações, impulsionadas por meio de mudanças do ambiente, leg-
islação ou mesmo forças do mercado. Nessa etapa, ocorre o desenvolvimento de
bases padronizadas entre organizações diante de desafios e problemas comuns
ou semelhantes, por meio de novos arranjos estruturais, que poderão ser adota-
dos por outras organizações (isomorfismo mimético), percebidos porque existe
o monitoramento interorganizacional. Esse estágio é também definido como de
pré-institucionalização, etapa em que poucas organizações assumem o risco de
adotar estruturas ou práticas que ainda não foram objetos de teorização formais
ou validados por um grande número de organizações.
O estágio seguinte, denominado objetificação, é tratado pelas autoras
como a fase semi-institucional, caracterizada pelo desenvolvimento de signifi-
cados socialmente compartilhados, com certo grau de consenso em relação às
estratégias adotadas, por isso os arranjos estruturais são difundidos e dissemi-
nados. É também conseqüência do monitoramento que a organização faz de
seus competidores numa clara tentativa de aumentar sua competitividade.
Por fim, o terceiro estágio é o da Sedimentação, propriamente dito o es-
tágio da institucionalização plena, com a perpetuação e a exterioridade da es-
trutura, baseado na sua continuidade histórica. A sedimentação consiste na fase
em que os atores sociais passam a adotar como verdade padrões de comporta-
mentos e normas sociais.
A institucionalização, portanto, ocorre quando crenças e ações adquirem
status de regras de conduta social. Estas regras, conforme são vivenciadas,
tornam-se padrões e passam a ser consideradas habituais por tipos específicos
de atores, ou concepções amplamente compartilhadas da realidade (MACHADO-
DA-SILVA; FONSECA, 1996). É um processo que ocorre de fora para dentro, bus-
cando adequação por meio da interpretação a padrões normativos de suporte e
legitimação.

2.3 Processo de Isomorfismo: pressões para a homogeneização


Os estudos sobre isomorfismo ganharam relevância com o trabalho de
DiMaggio e Powell (1983), ao identificar a existência de dois tipos de isomor-
fismo: competitivo e institucional. O isomorfismo competitivo trata de questões
como conquista de mercado, recursos e clientes. Porém, os autores reconhecem
que as organizações travam uma competição não apenas por razões técnicas ou
econômicas, mas porque esperam alcançar legitimidade, poder e força política
junto aos seus pares. Trata-se do isomorfismo institucional, que pode ser visu-
alizado como uma pressão sobre as organizações para assemelhar-se também
na adoção de práticas e processos considerados legítimos. Os autores identifi-
cam três tipos de isomorfismos institucionais, detalhados a seguir:

Isomorfismo Coercitivo – pressões formais e informais de uma


organização sobre outras, considerando a busca pela legitimidade de

102 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


suas ações. As pressões exercidas pelo Governo ou de outras agên-
cias reguladoras para aprovar seus sistemas legais são exemplos
de forças coercitivas. Essas pressões são, geralmente, associadas
à legislação ou requisitos legais, mas também podem decorrer de
obrigações contratuais com outros atores e limitam a ação organ-
izacional. O isomorfismo coercitivo destaca como central o impacto
do ambiente institucional em detrimento do ambiente técnico. Scott
(1987) comenta que “a perspectiva institucional dá especial ênfase
às relações de autoridade: a capacidade das organizações, especial-
mente as organizações públicas, de depender de coerção legítima”.

Isomorfismo Mimético – são pressões para copiar ou imitar outras or-


ganizações em ralação aos seus processos, atividades, estruturas ou sistemas,
padronizando determinadas respostas para enfrentar as incertezas do ambi-
ente. Essa imitação pode ser realizada sem qualquer comprovação empírica ou
mesmo estudo técnico de seus resultados positivos. As pressões do isomorfismo
mimético podem explicar a adoção, por exemplo, de práticas de gestão para o
qual existe pouca evidência de eficiência e bom desempenho da organização,
como os modismos de qualidade total, reengenharia, downsizing etc.
Isomorfismo Normativo – processo de profissionalização. Ocorre quando
um grupo de profissionais luta coletivamente para controlar uma determinada
situação, condições de trabalho ou mesmo instrumentos de produção. Um grupo
de profissionais adota sistemas e técnicas que foram consideradas legitimas por
outros grupos de profissionais influentes ou relevantes dentro do seu campo de
atuação. Essas normas são transmitidas por meio da educação e da formação de
profissionais e de processos de certificação acreditados por organismos profis-
sionais. DiMaggio e Powell (1983) identificam o Estado e as profissões liberais
como os principais formadores do ambiente institucional contemporâneo.

3. A CULTURA ORGANIZACIONAL
É ponto comum para os estudiosos da administração que as organizações
ocupam um espaço central na sociedade contemporânea, influenciando direta-
mente na disseminação de padrões sociais de comportamento, por meio de um
exercício sutil e legitimado de poder simbólico, manifestado por meio de inter-
esses, coalizões, jogos de poder e interações sociais (CARVALHO; VIEIRA, 2007).
Essa é uma característica importante das organizações, pois elas são capazes de
criar e induzir os indivíduos a padrões de comportamentos descritos em normas e
valores, constituindo-se numa referência identitária para seus membros, consid-
erando a relevância da categoria trabalho para a sociedade capitalista.
Qualquer organização, independente da esfera pública ou privada, apresen-
ta características comuns, pois são entidades sociais estruturadas, coordenadas e
planejadas para o alcance de determinados objetivos. Por serem socialmente con-
struídas, as organizações têm a sua história e apresentam uma maneira própria
de interpretar e lidar com a realidade, comumente denominada de cultura organ-
izacional. Por este enfoque, a cultura da organização é criação coletiva, mas não
de consenso, sendo geralmente resultado de conflitos (MARTIN, 1996).

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 103


3.1 Definições de Cultura Organizacional
Schein (2001), um dos autores mais recorrentes quando se busca definir
a cultura organizacional, considera um processo dinâmico de como as pessoas
interagem, aprendem, partilham, modificam e passam adiante a cultura. Alves
(1997) apresenta a cultura organizacional como um conjunto complexo de
crenças, valores, pressupostos, símbolos, artefatos, conhecimentos e normas,
freqüentemente personificado em heróis, que é definido na empresa pelos sis-
temas de comunicação e pela utilização de mitos, estórias, rituais, além de
processos de endoculturação. Já Freitas (1991) a define como um conjunto de
produtos concretos, como os símbolos, a linguagem, os valores e as normas,
entre outros, por meio dos quais o sistema é consolidado e perpetuado. Con-
siderando essas definições, a cultura transforma-se num sistema de significa-
dos considerados válidos e aceitos pelos membros da organização, servindo de
base para compreensão e interpretação de diversos fenômenos organizacion-
ais.
Mesmo sem uma definição consensual sobre o termo cultura organiza-
cional, Schein (2001) e Hosfstede (1991) apontam algumas características
básicas que são aceitas por diversos autores: é uma construção histórico-so-
cial, percebida por meio de artefatos, linguagem, mitos, valores, arquitetura,
ritos etc., institucionalizada, flexível e difícil de ser mudada.
Para Schein (2001), a cultura de uma organização não se forma espon-
taneamente, ao contrário, ela é resultado da luta por sobrevivência, visando
equilibrar a adaptação ao ambiente externo e a manutenção de uma coerência
interna. Buscando esse equilíbrio, os membros da organização diferenciam ex-
periências positivas, estratégias e padrões de comportamentos que funcionar-
am adequadamente para o alcance de um determinado objetivo das experiên-
cias negativas, que resultaram em fracassos e resultados indesejados. A partir
deste aprendizado, o grupo seleciona e mantém certos padrões de comporta-
mentos, valores, normas e regras associados ao sucesso diante do problema
de adaptação externa e coerência interna, institucionalizados como a maneira
mais correta de agir dentro da organização (MOTTA; VASCONCELLOS, 2006).
Morgan (1996) compara a cultura de uma organização “tal como um ice-
berg”, onde o que fica visível é uma parte muito pequena do seu tamanho real,
ponderando que é na parte submersa onde estão as mais profundas verdades
da cultura. Na verdade, falar de cultura é fazer uma referência ao processo de
construção da realidade, que aproxima os indivíduos de uma compreensão dos
eventos, ações, objetos, expressões e situações particulares de maneiras dis-
tintas, fornecendo as bases para um padrão de comportamento institucional-
mente aceito como adequado.

3.2 A Noção de Subculturas e os três paradigmas de Martin


Outro aspecto importante na análise da cultura organizacional é o reco-
nhecimento da presença de subculturas, entendidas como grupos de indivíduos
que compartilham um conjunto específico de valores e crenças, diferenciando-
se dos demais membros da organização da qual fazem parte. A formação de
subculturas está associada com situações do cotidiano da organização, possi-

104 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


bilitando aos grupos um relacionamento mais proximamente em função de de-
pendências de tarefas, atividades em comuns e proximidade física, por exemplo.
Esta aproximação pode ajudar a criar sistemas de valores próprios, destacado
do todo organizacional.
A noção de subcultura é particularmente importante para que se tenha
uma compreensão da organização sendo complexa e permeada por ambigüi-
dades. Neste sentido, Martin (1992) adiciona contribuição relevante, ao tratar
dos paradigmas de integração, diferenciação e fragmentação, pelos quais é pos-
sível interpretar a cultura organizacional, conforme apresentado a seguir:

- Paradigma de Integração: entende a organização como integrada cul-


turalmente, considerando ser possível alto grau de consenso entre os membros
da organização e, por outro lado, exclui a presença de ambigüidades.
- Paradigma da Diferenciação: admite a presença de subculturas, forma-
das por características de aproximação, níveis de poder, áreas de atuação e
interesse e divisão de tarefas. Admite o consenso apenas dentro de cada sub-
cultura e a presença da ambigüidade como sendo uma inconsistência externa
à subcultura. A perspectiva de diferenciação incide sobre a inevitabilidade de
conflitos nas organizações e apresenta a “falta de consenso” como uma questão
que precisa ser compreendida e tratada no âmbito da investigação da cultura
organizacional.
- Paradigma da Fragmentação: trata a ambigüidade como sendo a essência
da cultura, considerando a possibilidade de consenso esporádico, de acordo com
as coalizões que se formam para resolver problemas específicos ou enfrentar
desafios comuns. Neste sentido, a ambigüidade, a complexidade das relações
entre as manifestações, e uma multiplicidade de interpretações não se encaixam
em um consenso estável.
A autora defende que a análise sobre a cultura organizacional deve con-
siderar a presença simultânea dos três paradigmas numa mesma organização,
sendo os três paradigmas isolados tipos ideais, difícil de ser encontrado em
sua forma pura. Em certos momentos pode existir o consenso em torno de
certas propostas, o que leva ao paradigma da integração. Esse consenso pode
ser desfazer na seqüência, diante de um problema diferente. Por fim, o grupo
pode fragmentar-se por conta de posicionamentos ambíguos e múltiplas inter-
pretações da realidade.

4. MÉTODO

A presente investigação de natureza subjetiva, cuja preocupação central é


compreender a repercussão das pressões do contexto institucional sobre a cultu-
ra organizacional de duas instituições de ensino, configura-se como um estudo
de casos múltiplos, descritivo-explicativo com abordagem predominante-
mente qualitativa, acrescido de dados quantitativos complementares com
a intenção principal de aprofundar a discussão de aspectos da questão
estudada.
Quanto à sua abordagem é predominantemente qualitativa, à me-
dida que objetiva analisar o significado dos fatos e a percepção dos en-
volvidos com o fenômeno em estudo, cujas nuanças são complexas, de natureza
social e não pode ser entendido ou analisado por meios de dados exclusivamente

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 105


quantificáveis ou mesmo porque o foco não recai sobre o número de vezes em
que uma variável aparece, mas sim no contexto em que se apresentam (MINAYO,
2003). A pesquisa qualitativa visa construir um entendimento das experiências
dos respondentes, descobrir como estes percebem e interpretam o mundo a sua
volta e como isso influencia as suas ações.
No entanto, em determinados momentos enfoca também processos e var-
iáveis, recorrendo a dados quantitativos. A escolha por uma combinação de mé-
todos quantitativos e qualitativos numa mesma investigação ocorre quando se
pretende amenizar possíveis deficiências ou desvios no uso de um dos métodos
isoladamente e ainda se quer garantir maior confiança e credibilidade na inter-
pretação e validação dos resultados encontrados (CRESWELL, 2007). Segundo
Bryman (1992), outra vantagem da combinação entre métodos quantitativos e
qualitativos é a possibilidade da variação dos instrumentos de coleta e acesso a
diferentes níveis da realidade.
A escolha pela estratégia de estudo de caso é indicada quando se pretende
lançar um olhar minucioso sobre um ambiente, um sujeito ou uma ação especi-
fica, de maneira a permitir uma compreensão mais detalhada do fenômeno estu-
dado (GIL, 2008; GODOY, 2005; TRIVIÑOS, 1987). Para Yin (2005) o estudo de
caso é uma investigação empírica que investiga um fenômeno contemporâneo
dentro do seu contexto da vida real, utilizando múltiplas fontes de evidências,
podendo beneficiar-se de estudos prévios para direcionar a coleta e a análise de
dados. Por sua vez, Babbie (1999) enfatiza que o estudo de caso torna-se uma
estratégia adequada quando se pretende descrever e explicar de forma abran-
gente as diversas configurações de uma determinada situação social.

5. DESCRIÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS


O objetivo geral do estudo foi analisar a repercussão das pressões do
contexto institucional sobre a cultura organizacional de duas Instituições de
Ensino Superior, sendo uma da rede pública e outra privada, localizadas na
cidade de Manaus-AM. Para tanto, foram definidos cinco objetivos específicos:
(1) caracterizar o contexto institucional do ensino superior; (2) identificar e
caracterizar os valores e as pressões do contexto institucional sobre as insti-
tuições pesquisadas; (3) analisar a relação entre os valores e as pressões do
contexto institucional e a cultura organizacional das Instituições de Ensino
Superior Públicas e Privadas em Manaus/AM; e (4) analisar a forma como os
valores e as pressões repercutem nas ações das instituições pesquisadas.

5.1 As pressões ambientais e as Instituições de Ensino Superior


O presente estudo restringiu-se a duas instituições de ensino supe-
rior da cidade de Manaus: uma Universidade e um Centro Universitário.
A opção por investigar estas duas modalidades de instituições de ensino
superior fundamentou-se por conta de sua importância e peculiaridade
em relação ao setor.
A Universidade é enquadrada como entidade pública, mantida pelo Gov-
erno Federal. O Centro Universitário é entidade com fins lucrativos, clas-

106 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


sificado numa posição intermediária entre a universidade e as instituições
isoladas, cuja vocação primordialmente é o ensino.
A Universidade adota o regime semestral e realiza um processo se-
letivo a cada ano. O caráter público e sua tradição atuam como forte at-
rativo para o preenchimento de suas vagas, por isso não se nota grandes
esforços de marketing para atrair novos candidatos. O Centro Univer-
sitário desenvolve seu projeto de crescimento por meio da diversificação
na oferta de cursos e do aumento de vagas. Utiliza algumas estratégias
para atrair candidatos, como preço, infra-estrutura, financiamento próp-
rio, possibilidade de intercâmbio e para divulgar essas estratégias faz uso
de propaganda ostensiva.
O sistema de ensino superior brasileiro, desde sua gênese, é alta-
mente regulamentado, obrigando as instituições a adequar-se às normas
e mecanismos formais de coerção determinados pelo Estado. A legis-
lação que regulamenta a educação superior possibilita que as IES possam
assumir diversos formatos, como universidades, centros universitários,
faculdades isoladas, institutos superiores de educação, entre outros. No
entanto, apesar dessa abertura, as IES acabam por adotar estruturas e
práticas administrativas semelhantes, numa tendência isomórfica, apre-
sentada por DiMaggio e Powell (1983), como uma força restritiva que
pressiona as IES a assemelhar-se umas com as outras, principalmente
quando são confrontadas com as mesmas condições ambientais.
Os dirigentes de cada instituição têm uma forma peculiar de av-
aliar o ambiente no qual estão inseridos, pois cada um avalia a partir do
conjunto de valores e das especificidades de cada instituição. A única
congruência entre as instituições configura-se no entendimento de que a
avaliação institucional, como uma forte pressão coercitiva, impacta signi-
ficativamente tanto na organização quanto no funcionamento das institu-
ições de ensino.
Entre as outras pressões significativas oriundas do contexto institu-
cional, o Centro Universitário identifica o aumento da concorrência en-
tre as instituições por alunos e mais espaço no mercado; as exigências
advindas da sociedade por maior qualificação do quadro docente, e por
fim, a pressão pela diversificação, principalmente na oferta de cursos. Os
dirigentes da Universidade apontam o aumento de vagas, principalmente
no horário noturno, a interiorização como as pressões de maior impacto
sobre a instituição. Analisam-se, na seqüência, estas pressões.

5.2 Os valores prevalentes


De modo geral, o Centro Universitário enfatiza como seus valores preva-
lentes a sustentabilidade, a adequação legal, a qualidade de ensino, a preo-
cupação financeira, a formação para o mercado, a responsabilidade social e a
inovação.
Para a Universidade o conjunto de valores prevalentes é tradição, ade-
quação legal, credibilidade, qualidade de ensino, formação humanística, respon-
sabilidade social e sustentabilidade. A análise permitiu observar congruências e
incongruências em relação aos valores que sustentam as duas instituições.
Os valores que mostram congruência entre a Universidade e o Centro Univer-
sitário são adequação legal, qualidade de ensino, responsabilidade social e sus-

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 107


tentabilidade. A natureza dessa congruência está relacionada com as mudanças
impostas pelo ambiente político-legal, que exerce alta pressão coercitiva sobre
as instituições de ensino, impondo a adequação legal, configurada no conheci-
mento e no atendimento às exigências da legislação que regulamenta o sistema
educacional brasileiro como uma necessidade básica para evitar sanções e man-
ter os direitos legais de funcionamento, provocando alterações no comporta-
mento da organização.
Já a congruência entre os valores sustentabilidade, responsabilidade so-
cial e qualidade de ensino reflete o posicionamento dos dirigentes em relação às
pressões do ambiente social, que enfatizam estes valores como relevantes para
garantir apoio político e legitimidade, destacando forte característica isomórfica,
tendência das instituições se assemelharem umas às outras, quando submetidas
às mesmas condições ambientais (DIMAGGIO; POWELL 1983).
Por outro lado, as incongruências nascem da interpretação diferenciada
do contexto institucional em função esquemas interpretativos de referência e
peculiaridades das instituições. Estes esquemas, criados individualmente e so-
cialmente compartilhados, influenciam o modo de interpretação e interação com
as pressões do ambiente pela organização. Os esquemas interpretativos, por
serem exclusivos de cada organização, garantem a existência de diversidade.

5.3 Contexto, valores e cultura organizacional


Neste tópico pretende-se responder qual a relação entre os valores, as
pressões do contexto institucional e a cultura organizacional das instituições
investigadas. Para isso, retoma-se o quadro teórico que dá suporte a presente
pesquisa. O foco de análise da relação ambiente-organização privilegiou teorias
que tratam essa relação como sendo socialmente construída, tomando por base
o sistema de referência dos atores organizacionais, que se apóiam para interp-
retar a realidade na conjunção de elementos do contexto institucional, aspectos
cognitivos, valores e crenças. Destacam-se, considerando a vertente cognitiva
da teoria institucional, a importância dos elementos simbólicos, das pressões do
contexto institucional e dos valores nos arranjos estruturais e nas ações organ-
izacionais.
Ainda segundo o quadro teórico apresentado, evidenciou-se a relevância
dos esquemas interpretativos dos atores sociais na análise das pressões ambi-
entais, na interpretação dos valores e na significação da realidade, que tende a
se refletir pela organização, repercutindo nas ações estratégicas adotadas. Por
outro lado, a noção do paradigma da diferenciação evidencia que a organização
é constituída por diferentes subculturas, cujas relações se fundam em valores,
interesses, níveis de poder e práticas profissionais diferenciadas, o que significa
dizer que essa apreensão da realidade pode não ser consensual por parte dos
atores ou mesmo grupos de atores organizacionais.
Os resultados indicam que os dirigentes das instituições de ensino inves-
tigadas identificam as pressões ambientais a partir de seus esquemas inter-
pretativos, baseado em um conjunto de crenças e valores comuns. Após esse
mapeamento do ambiente, no qual os dirigentes identificam quais pressões são
realmente criticas para a instituição, é possível estabelecer respostas que, em
ultima instância, orientam a ação e repercutem na cultura organizacional, que
de forma recursiva, incide novamente sobre a análise do contexto ambiental.

108 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


5.4 Repercussão dos valores e das pressões nas ações das IES
A Universidade e o Centro Universitário avaliam o ambiente de forma
diferenciada, por conta de esquemas interpretativos e valores peculiares, ele-
gendo um conjunto de pressões isomórficas que aponta como única congru-
ência a avaliação institucional, questão abordada em tópicos anteriores. Disso
depreende-se que a linha fundamental de ação adotada pelas duas instituições
segue cenários diferentes e particulares, como se passa a demonstrar.
O Centro Universitário direciona sua ação para o crescimento do número
de alunos, assegurando dois ou mais processos seletivos por ano em coerência
com o valor preocupação financeira. Ainda ancorada neste valor, a instituição
trabalha para ampliar sua estrutura física e maximizar a existente, por meio da
ocupação total das salas de aula no horário noturno e políticas de incentivos para
aumentar a matrícula nos cursos diurnos.
O valor qualidade de ensino orienta as duas instituições, embora as ações
implementadas adotem linhas diferenciadas. O Centro Universitário estabelece
como ações prioritárias a contratação de professores titulados e a tentativa de
qualificar melhor quadro docente existente, incentivando por meio de bolsas e
progressão na carreira, a participação em programas de Mestrado e Doutorado,
assim como estruturou parcerias para a realização de Minter – Mestrado Inter-
institucional, atualmente com quatro em andamento, coerentemente também
com o valor adequação legal. A Universidade trabalha na reorganização de seus
projetos pedagógicos, buscando adequar os cursos para responder aos novos
desafios da aprendizagem, articulando a união entre teoria e prática e entre en-
sino, pesquisa e extensão.
O Centro Universitário, ancorado no valor formação para o mercado, age
no sentido de que uma fração do seu corpo docente seja constituída por profis-
sionais com larga experiência de mercado, mesmo sem formação pedagógica
específica ou com experiência acadêmica, considerando o equilíbrio entre titu-
lação e experiência profissional. Para a Universidade, o critério prioritário é a
contratação de professores titulados, com vocação para a pesquisa, coerente-
mente com o valor adequação legal.
As duas instituições preocupam-se com a sustentabilidade. A Universidade
criou a Fazenda Experimental (FAEXP), localizada no quilômetro 38 da BR-174,
rodovia que liga a capital Manaus (AM) à Boa vista (RR), cuja proposta é es-
timular a criação de projetos e soluções tecnológicas para o desenvolvimento e
a sustentabilidade da região amazônica. Na mesma linha, o Centro Universitário
criou a Estação Experimental, campo de estudos que ocupa uma área de 270
hectares, próximo à Vila de Lindóia, em Itacoatiara (a 280 quilômetros de Man-
aus), com a finalidade de promover programas e projetos que garantam a auto-
sustentabilidade da população local.
Motivado pelo valor inovação, o Centro Universitário institui o CDE – Cen-
tro de Desenvolvimento Empresarial, cuja proposta inicial é compartilhar idéias
e práticas promissoras que possam se transformar em projetos inovadores. O
foco principal do CDE é fechar parcerias com empresários, empreendedores e
pesquisadores das mais diversas áreas, estabelecendo um elo entre o espaço
acadêmico e o mercado. A Universidade, ancorada nos valores credibilidade e
tradição, estabelece parcerias com empresas e outras instituições de ensino
para fomentar o desenvolvimento tecnológico e investir em pesquisas de aplica-
bilidade prática, coerentemente com o valor responsabilidade social.

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 109


Com base no que foi exposto até aqui, pode-se inferir que as duas insti-
tuições de ensino estão submetidas a um conjunto de pressões isomórficas que
contribuem para certa homogeneização. Porém, a forma como o grupo de diri-
gentes, em função de esquemas interpretativos peculiares, analisa as pressões
ambientais e a própria especificidade de cada instituição, influencia o curso das
ações adotadas. As incongruências e congruências nas ações ocorrem em função
da forma com a instituição representa para si as pressões ambientais, segundo
grau de valorização ou concordância (OLIVER, 1991).

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Um dado importante que a pesquisa pôde consolidar é a forte presença do
isomorfismo coercitivo na constituição do contexto do ensino superior brasileiro,
no qual as instituições públicas e privadas se apresentam como dependentes em
relação ao Estado, assemelhando-se em suas respostas aos mecanismos legais.
Nesse sentido, as instituições de ensino demonstram aquiescência em relação
a mecanismos de pressão como novos instrumentos de avaliação institucional,
expansão de vagas nos cursos noturnos e qualificação do corpo docente, por ex-
emplo, como estratégia para adquirir e manter sua legitimidade e apoio político.
Dessa forma, conclui-se claramente que as pressões coercitivas exercem im-
pacto sobre a estrutura organizacional, regras e procedimentos, independente
da esfera administrativa ou das dimensões organizacionais.
A análise das ações das duas instituições de ensino pesquisadas alinha-
se a esta conclusão, ao apontar ações diferentes em face do mesmo contexto
institucional, reconhecendo a perspectiva de que o ambiente possui aspectos
objetivos com diferentes interpretações subjetivas dos atores sociais (BERGER;
LUCKMANN, 2003). Assim, a ação adotada reflete a visão de mundo dos diri-
gentes, emergindo como respostas à maneira como lidam com as pressões do
contexto institucional. Dessa forma, a compreensão da ação organizacional está
ligada com a compreensão simultânea do conjunto de pressões do ambiente in-
stitucional que orientam para o isomorfismo entre as instituições de ensino, que
também está relacionada com a compreensão da capacidade de interpretação
dos atores organizacionais deste mesmo conjunto de pressões. A ação adotada
não é resultado de uma reação mecânica, mas de interpretações que seus diri-
gentes fazem do ambiente técnico e institucional.
Com base nas conclusões levantadas é possível responder ao problema de
pesquisa proposto: de que forma o contexto institucional do Ensino Superior in-
fluencia a cultura organizacional nas IES públicas e privadas? Afirma-se que as
pressões do contexto institucional exercem influencia na cultura organizacional,
repercutindo nos valores e nas crenças tradicionais das duas instituições de en-
sino, assim como no plano de ação, nos arranjos operacionais e na maneira de
interpretar o próprio ambiente. Porém, os resultados encontrados evidenciaram
que o mesmo contexto institucional de referência levou as duas instituições a
ações diferenciadas, baseadas na maneira como os dirigentes interpretaram a
realidade e delimitaram suas atuações.
Estudos semelhantes envolvendo outras instituições de ensino perten-
centes ao setor educacional do Estado seriam de elevada importância empírica,
pois este conjunto de estudos tornaria possível uma maior compreensão de
como o contexto institucional influência a cultura organizacional.

110 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


Sugere-se também estudos que busquem aprofundar a percepção do contexto
ambiental por parte dos dirigentes dos níveis estratégicos e táticos e a conexão
com as estratégias gerenciais em instituições de ensino superior públicas e pri-
vadas, destacando congruências e incongruências entre os dois níveis de diri-
gentes.

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112 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA:
UM PANORAMA GERAL
COSTA, Grace Soares.
Jornalista e mestre em sociedade e cultura na Amazônia.
E-mail: grace.soares@gmail.com

Resumo

Em Manaus, é iminente a necessidade de, cada vez mais, procurar no meio científico um embasa-
mento necessário para dar encaminhamento à criação de políticas públicas voltadas para a conservação do
meio ambiente, potencialização da economia e para a própria geração de bem-estar humano. Nesse con-
texto, a comunicação assume um papel fundamental na concepção de uma política de ciência e tecnologia
para a Amazônia, desde que a participação da população, dentro desse processo, seja ampliada.

Palavras-chave: Ciência, comunicação, jornalismo científico

Abstract
In Manaus, it is imminent the necessity of, each time more, to look in the scientific way a basement
necessary to give guiding to the creation of public politics directed toward the conservation of the environ-
ment, potencialização of the economy and for the proper generation of human well-being. In this context,
the communication assumes a basic role in the conception of one politics of science and technology for the
Amazônia, since that the participation of the population, inside of this process, either extended.

Word key: Science, communication, scientific journalism

Introdução

Na década de 80, o Instituto Gallup (GALLUP, 1987) realizou uma pesquisa


encomendada pelo Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST), do Rio de Ja-
neiro, pela qual foi constatado um interesse de 71% da população brasileira por
assuntos de caráter científico.
Vinte anos passados, a Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI)
em conjunto com a Rede Ibero-Americana de Indicadores de Ciência e Tecno-
logia (RICYT), coordenaram a realização de pesquisas em Buenos Aires e ci-
dades do Brasil, Espanha e Uruguai em três eixos de interação entre a Ciência
e a Tecnologia (C & T) e a sociedade: a percepção pública, a cultura científica
e a participação dos cidadãos. Entre os resultados obtidos, alguns se mostram
contraditórios, revelando a dificuldade por parte da população em trabalhar a
mediação de questões relacionadas à C & T. A pesquisa revelou que a maio-
ria dos entrevistados, uma média de 77% (o Uruguai em menor porcentagem,
57,3%, mas ainda sim alta), concordam que o desenvolvimento da ciência e da
tecnologia é o principal motivo da melhoria da qualidade de vida da sociedade.
“Mas essa imagem positiva da ciência e da tecnologia não influencia, porém, o
imaginário social quanto à sua eficácia instrumental para resolver problemas ou
melhorar a vida do mundo” (VOGT & POLINO, 2003, p. 81). Já que pouco mais
da metade desses entrevistados, principalmente na Argentina, não crê na pos

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 113


sibilidade de melhoria da situação trabalhista nesses países, a partir dos resulta-
dos oriundos de C & T.
No Amazonas, com o Distrito Industrial sendo um dos maiores empregadores
do Estado, a ciência, frequentemente, não é reconhecida como uma aliada, e
sim como uma concorrente. Trabalhadores temem a mecanização (inadiável)
das empresas e das indústrias com receio de perderem seus postos de trabalho.
A máquina fazendo o trabalho do homem mais rápido, com risco zero de aci-
dentes e com a precisão de uma máquina. Esse é um dos efeitos previsíveis e
irremediáveis do aumento do uso da tecnologia no setor produtivo: a diminuição
no número de postos de trabalho.
Zarias & Evangelista (2004) concordam que uma saída para amenizar o
grave impacto do desemprego sobre a sociedade é reduzir o número de horas
trabalhadas, sem perda salarial. Essa, inclusive, é uma das principais reivindi-
cações dos sindicatos, tanto nos países desenvolvidos quanto nos países periféri-
cos. No entanto, a incorporação intensiva de tecnologia no mundo do trabalho,
seja na indústria, no comércio ou no setor de serviços, trouxe uma realidade
mais complexa que amplia o cenário da pesquisa e não se restringe à redução
do emprego. Ocorre, hoje, uma verdadeira revolução nas relações de trabalho e
no aparecimento de novas ocupações, com profissões sendo extintas e outras,
novas, criadas.
Como se percebe, são duas amostragens da percepção da ciência e da tec-
nologia pelo público realizadas em diferentes épocas e que nos permite realizar
leituras igualmente distintas. A primeira diz respeito à concepção do impacto
dessas áreas na vida social. Bastam poucos minutos de conversa com alguns
atores envolvidos nesse processo (produtores de conhecimento e receptores) e
é possível perceber que a comunidade científica tem uma opinião e a sociedade
outra (conflituosa, inclusive). Essa desarmonia é um dos fatores que coíbem
desenvolvimento de setores ligados à Pesquisa e Desenvolvimento (P & D). É
nesse cenário que surgem alguns instrumentos governamentais e sociais, cuja
atuação já desperta uma nova tendência de produção e apropriação da tecno-
ciência e um afinamento no diálogo entre as partes.
A outra questão refere-se ao fato, indubitável, de que, à sua maneira, a
população dispensa um interesse significativo ao universo científico. Um mer-
cado novo e emergente começa a consolidar-se para atender essa demanda por
conhecimento. Mas as alternativas precedentes à introdução de técnicas e códi-
gos jornalísticos na prática da comunicação de ciência e tecnologia ainda persis-
tem e, em algumas situações, configuram-se como uma eficiente ferramenta.
Para comunicar, portanto, é necessário um requisito principal, que é um
público receptor. É o que mostra Pereira:

Por si só, a prática da divulgação científica e tecnológica encerra um


paradoxo fundamental. A ciência exige uma estrita aderência à re-
alidade e uma rígida precisão na descrição dos fenômenos. A ela in-
teressam as causas eficientes, positivas, pois as causas primárias ou
especulativas pertencem ao domínio da filosofia. Mas divulgação só
existe quando há público. Concessões têm que ser feitas para atraí-lo
(2003, p. 60).

Em Manaus, é iminente a necessidade de, cada vez mais, procurar no meio


científico um embasamento necessário para dar encaminhamento à criação de
políticas públicas voltadas para a conservação do meio ambiente, potencialização

114 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


da economia e para a própria geração de bem-estar humano. Nesse contexto,
a comunicação assume um papel fundamental na concepção de uma política de
ciência e tecnologia para a Amazônia, desde que a participação da população,
dentro desse processo, seja ampliada.
As Instituições de Ensino e Pesquisa representam a base desse desenvolvimento,
por meio das quais deverão ser geradas as benesses oriundas do investimento
em P & D que, se bem direcionadas, poderão se fazer sentir diretamente na so-
ciedade.
Beltrão (1992, p. 32), coloca em debate o fato de, há muito tempo, se
atribuir a essas instituições a responsabilidade pela sensibilização da comuni-
dade para o seu papel e sua participação no processo de desenvolvimento cientí-
fico e tecnológico. Por conseguinte, a elas foi incumbido, também, o encargo de
articular meios de divulgação dos resultados, cuja contrapartida seria o respaldo
necessário para a continuidade das atividades (futuras).
Quando se trata de comunicação, é importante destacar o nível de capi-
laridade e de penetração que sua prática pode adquirir. Podemos imaginar um
bairro, com moradores interessados em conscientizar alguns núcleos sobre a
preservação do meio ambiente e os cuidados com a higiene pessoal. É provável
que um sistema de alto-falante distribuído em pontos estratégicos atenda à de-
manda de comunicação nessa área. Ou uma reunião de bairro na qual serão ap-
resentadas palestras com autoridades no assunto. No entanto, quando se pensa
numa política de comunicação de C &T para um Estado, o Amazonas, por exem-
plo, o cenário é outro. Alguns aspectos deverão ser levados em consideração,
como as condições geográficas, dimensão territorial e os níveis de conhecimento
da própria população residente.
Uma pesquisa na Internet, colocando como palavra-chave, “Amazonas”, já
seria suficiente para interar qualquer pessoa – que não um amazônida – acerca
das dimensões continentais em meio as quais estão dispersos os municípios co-
bertos por esse Estado, que guardam grandes áreas de florestas e são cortadas
por grandes rios. O acesso às comunidades mais distantes é limitado, podendo,
muitas vezes, ser viabilizado somente via fluvial, o que representaria dias ou até
mesmo semanas de viagem.
Portanto, para algumas regiões, o contato com o saber científico só se dá
por intermédio de pesquisadores, cujos trabalhos de pesquisa exigem o deslo-
camento a essas áreas. Oficinas, cartilhas, palestras, exposições, entre out-
ras atividades, foram – e ainda são – alguns dos instrumentos utilizados pela
comunidade científica na tentativa de construir uma ponte entre conhecimento
científico e o saber popular, nível de comunicação é identificado “face a face”.
Algumas prosperaram, outras não. Então, pode-se concluir que essas ações de
popularização, ainda que informais, eram mantidas à custa de investimento
orçamentário, institucional. Esses esforços iniciais foram e são fundamentais
para a mobilização de grupos de pesquisadores interessados em sistematizar
seus resultados e torná-los públicos.
O surgimento no Estado de políticas públicas de ciência e tecnologia, que
encorajam os Governos a fazerem investimento nas áreas dos conhecimentos
avançados e estratégicos, foi um dos fatores determinantes de mudança desta-
cadamente na Pós-Graduação e na pesquisa, conseqüentemente, nos meios de
dar vazão à gama de informações geradas nesses dois eixos de desenvolvimento.
As Secretarias de Estado de Ciência e Tecnologia – criadas recentemente no ras-
tro dos fundos setoriais e das novas políticas de desenvolvimento econômico

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 115


regional – e as Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs) na região Norte são os
instrumentos oficiais de administração e articulação destas ações, introduzindo
um novo conceito de comunicação científica, aliando oportunidade de financia-
mento à necessidade de divulgação.

A desculpa de que a ciência deve manter-se restrita aos círculos espe-


cializados não mais se sustenta, pelo contrário, é cada vez mais certa
a necessidade de que é preciso levar ao público o conhecimento cientí-
fico e agitar as implicações sociais que as descobertas dessa natureza
podem trazer. Torna-se, nesse processo, no entanto, fundamental que
o comunicador da ciência conheça algumas normas que a experiência
assentou. (KREINZ & PAVAN, 1998, p. 136).

Além de editais temáticos destinados ao financiamento de pesquisas que


atendem às reais demandas da região, fortalecendo estudos em áreas estratégi-
cas, a proposta das FAPs é investir também na formação de recursos humanos.
A comunicação científica apresenta-se como instrumento de mediação nesses
dois processos, uma vez que já é uma exigência, por parte dos financiadores, in-
cluir nos projetos a contrapartida da pesquisa à sociedade. E esse aspecto é req-
uisitado, de forma clara, no corpo dos editais. Portanto, pressupõe-se a reserva
de recursos financeiros e/ou recursos humanos específicos para o exercício da
atividade, antes mesmo da submissão do projeto à avaliação da comissão cientí-
fica.
Por outro lado, no processo de intercâmbio de conhecimentos, é comum
reconhecer a comunicação também como um agente de transformação social,
pois carrega consigo a missão de educar e, por conseguinte, despertar vocações
científicas nos jovens. É sabido que as ações de inclusão da C&T na pauta na-
cional sempre estiveram aquém da real necessidade. Em boa parte, isso se jus-
tifica pela falta de visibilidade das aplicações diretas dos processos científicos
e tecnológicos, perpetuada durante muitas décadas. O surgimento de oportu-
nidades de financiamento extra-orçamentário, a partir da Fapeam e de outras
agências de fomento1 impulsiona a criação de um novo cenário de crescimento
e motivação profissional na área, no qual a C & T ocupa status de Política de
Estado e não de política de governo. A maioria das pessoas pode não saber,
mas tem direito, enquanto cidadão, de tomar conhecimento dos resultados das
pesquisas científicas desenvolvidas por instituições públicas de sua região, pois
o investimento financeiro que as movimenta tem origem nos cofres públicos.
Três questões são levantadas diante do que foi exposto: a primeira refere-
se às possibilidades de surgimento de novos mecanismos de comunicação sob a
tutela de Agências de Fomento e a segunda – “do outro lado do balcão” - diz res-
peito à percepção pública desses conteúdos científicos. É interessante tanto para
instituições quanto para os financiadores tornar público os resultados e proces-
sos de pesquisa, mas em que medida – a C & T - alcança um nível de integração
suficiente para converter-se em conteúdos que se expressam nas práticas gerais
da sociedade e em componentes do senso comum de seus membros. Por último,
é preciso “(...) pensar a comunicação social com ênfase na ocorrência de inter-

2
A saber, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Financia-
dora de Estudos e Projetos (Finep), além dos fundos setoriais criados pelo Governo Federal. Soma-se a
esses o capital financeiro destinado à pesquisa investido na Amazônia, oriundo de organizações internac-
ionais.

116 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


ações sociais gerais da própria sociedade – isto é, entre setores da sociedade
e entre pessoas – através dos meios de comunicação” (BRAGA & CALAZANS,
2001, p. 23).
De acordo com os autores, estudos iniciados principalmente nas décadas
de surgimento da televisão e do auge do rádio, buscavam como foco para as
análises de percepção da comunicação social apenas a observação dos meios e
do sistema midiático, em detrimento do modo como a sociedade interagia at-
ravés desses meios. Isso gerou uma visão dualista, predominando uma ênfase
na mídia como sujeito da ação sob os usuários, receptores. Nessa perspectiva,
a comunicação social é vista como uma relação bipolar entre a mídia e esses
usuários. Estes, mesmo que já considerados ativos, dispunham de poucos meios
de agir concretamente sobre as mensagens.
O advento da Internet alterou esse quadro, pois apresenta em sua fórmula
uma característica determinante que é a interatividade, ainda que a valoração
desta seja considerada um erro frente à existência de outros modos de a so-
ciedade interagir que não somente sob essas condições possibilitadas pela rede
de computadores. Braga & Calazans (Ibid) explicam: “Essas perspectivas têm
levado a uma clivagem entre meios: interativos (vistos positivamente e mesmo,
às vezes, com deslumbramento); e não-interativos (vistos então como supera-
dos ou francamente negativos)”.
Em outras palavras, há sempre uma grande tensão noticiado o surgimento
de uma nova invenção ou um avanço tecnológico. Especulações sobre a in-
trodução dos meios mais recentes no lugar de seus antecessores começam a
surgir. Assim, é sempre difícil de mudar o status quo, porque este sabe dos
riscos aos quais está sujeito, comparadas as suas contribuições com os benefí-
cios que o novo meio oferecerá à sociedade. Da mesma forma com os meios de
comunicação. Foi assim quando a Tv surgiu, pondo em dúvida a validade fun-
cional do rádio, e assim com os jornais com relação à Internet. Braga & Calazans
explicam que esses processos de comunicação específicos não são substituídos
chegada uma nova alternativa tecnológica para o mesmo fim. O uso derradeiro
dependerá da própria avaliação da sociedade sobre seu papel, enquanto instru-
mento. Findado o interesse, pouca utilidade esse meio ainda terá. Até lá, este
pode migrar para atender outros públicos e outros objetivos; permanecendo em
contínua evolução.
Esse quadro explica, em parte, a persistência, ao longo dos anos, de deter-
minados métodos alternativos de divulgação de C & T coordenados pela própria
comunidade científica, no Amazonas, e o motivo pelo qual não foram substituí-
dos. Falta ainda identificar especificamente o perfil dos principais receptores
dessa produção científica e quais as mudanças ocasionadas nesse universo a
partir do surgimento de mídias e jornalistas especializados na cobertura dessas
questões, e da terceirização da comunicação empresarial.

A imagem da ciência na sociedade

A ciência e a tecnologia, assim como outras ferramentas de uso e benefí-


cio social, estão, a todo o momento, sob a avaliação da sociedade. Critérios que
variam da experiência acadêmica ao impulso regido pelo senso comum regem
essa análise empírica. Que imagem a sociedade faz das questões do âmbito da
C& T? Essa é a questão posta à prova por alguns estudiosos das Ciências So-
ciais: compreender a percepção pública da ciência e da cultura científica.

Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 117


Para Vogt & Polino (2003, p. 41), “o conceito de percepção pública remete
ao processo e aos mecanismos de comunicação social e ao impacto destes sobre
a formação de conteúdos, atitudes e expectativas dos membros da sociedade
em relação à ciência e tecnologia”. Eles acreditam que a interface estabelecida
entre a ciência e a cultura de uma sociedade origina-se da consolidação de um
estoque de conhecimentos que vão além daqueles de caráter codificado que o
indivíduo incorpora. Assim, uma sociedade estaria mais ou menos cientifizada
na medida em que a questão “para onde se dirigem a C & T” constitua um tópico
da cultura e do debate social.
Reitera-se a importância da participação dos cidadãos em questões cientí-
ficas e tecnológicas, ressaltando que um novo dimensionamento dos desdobra-
mentos das ações nessa área já nos permite sepultar a visão simplista e imedi-
atista a qual foi relegada missão de atender às demandas sociais, passando a
reconhecer o papel da C & T como meio, instrumento e instituição de poder.
Nos últimos 30 anos, em alguns países, os problemas relativos à per-
cepção pública da ciência e da cultura científica tornaram-se objeto de interesse
das instituições e de todos aqueles agentes relacionados com os processos de P
& D. O resultado foi a concepção desses problemas como questões centrais dig-
nas de ocuparem lugar de destaque em agendas de governos, e tomarem corpo
em projetos de políticas públicas.
Já se sabe da necessidade de envolvimento da sociedade nas conquistas
da ciência. O ponto determinante é que esta deve estar em condições de discutir
os dilemas suscitados pela investigação científica. Compreender a ciência implica
dispor de conhecimentos sobre a natureza e a dinâmica da pesquisa científica.
Justifica-se por meio de quatro principais argumentos a necessidade de se fo-
mentar uma cultura científica para a sociedade.
1) Argumento pragmático: numa era onde os aparatos tecnológicos mos-
tram os caminhos para a modernidade, o domínio desses instrumentos é um
determinante para a inserção social do indivíduo. As pessoas precisam de uma
compreensão da ciência (mais ainda) e da tecnologia para saber como atual na
vida cotidiana.
2) Argumento democrático (cívico): relacionar-se com os temas complexos
da pesquisa científica com os quais os cidadãos se defrontam em seus cotidiano,
só é possível com o mínimo de compreensão do que é a ciência.
3) Argumento cultural: conhecer o mundo onde se vive, explicar os fenô-
menos, as dinâmicas ambientais e a evolução da história humana. A ciência
constitui parte da herança cultural, o homem recorre a ela para entender e
relacionar-se com o meio que o cerca.
4) Argumento econômico (profissional): uma economia calcada na atuação
de profissionais com suficiente cultura científica tem mais chances de tornar-se
sólida e produtiva.
O debate acerca destas questões culminou no surgimento das primeiras
iniciativas voltadas para a criação de instrumentos para medir os níveis de per-
cepção pública e “cultura científica”. Isso demonstra uma preocupação de natu-
reza diversa, que passa pela legitimação do trabalho da comunidade científico-
tecnológica, pelo impacto social da ciência e tecnologia, até a apropriação, por
parte do público, do processo de construção, uso e distribuição do conhecimento.
Analisar a percepção pública da ciência significa, inicialmente, enveredar por
alguns campos de inter-relação entre esta e a sociedade, tal qual um jogo de
interesses. Eles podem ser reconhecidos como fatores que levam o público a

118 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


querer relacionar-se com a ciência ou sistema científico-tecnológico e funcionam
como indicadores de percepção. São eles:
1) Interesse: indicador por meio do qual se tenta apreender a importância
relativa que a sociedade atribui à pesquisa científica e ao desenvolvimento tec-
nológico.
2) Conhecimento: indicado para examinar o nível de compreensão de con-
ceitos científicos considerados básicos.
3) Atitudes: compreender as atitudes (podendo ser entendido como
reações) da sociedade com relação ao financiamento público da pesquisa e a
confiança na comunidade científica, e da percepção sobre os benefícios e riscos
da ciência.
Esses indicadores foram aplicados e considerados válidos por diversos
países, principalmente os da União Européia, Estados Unidos e Canadá. Suas
observações tiveram influência direta das pesquisas de percepção idealizadas
pela National Science Foundation (NSF) cujo aparato conceitual desenvolvido
pela organização, nas últimas décadas, tornou-a uma referência na elaboração
de indicadores de cultura científica.

A dinâmica social da ciência

Como a sociedade deve portar-se para assimilar características de uma


cultura científica? Primeiramente, desassociar cultura científica de tipo de con-
hecimento, interesses e atitudes que os indivíduos têm com relação à ciência.
Assim, ela é tida apenas como um atributo individual. O seu entendimento
precisa estar associado a uma condição da sociedade.
Para que um novo saber se instale é preciso que os seus objetivos, mé-
todos e conhecimentos produzidos sejam partilhados por uma assembléia de
praticantes que os validem.
Diante disso, em uma situação apresentada pelo jornalista e analista de
Ciência e Tecnologia do Observatório Nacional (RJ), Pereira (2003, p. 59), é fácil
entender disparidades do tipo: hoje, no Brasil, muitos sabem do sucesso das
pesquisas sobre seqüenciamento do genoma humano, mas pouco entendem o
que é DNA.
A valorização excessiva do advento das descobertas contribui para miti-
ficar o valor da Ciência, sem permitir uma visão crítica que deve sempre existir
no tratamento de temas científicos.
Cascais (2003, p. 67) discerne sobre a mitologia dos resultados, assina-
lando que ela pode consistir em:
1) representar a atividade científica pelos seus produtos;
2) subsumir os processos científicos à consecução finalista e cumulativa de
resultados;
3) e isolar exclusivamente como resultados aqueles que são avaliados a
posteriori com êxito de aplicação.
Isso passa implicitamente por: ignorar a atividade científica enquanto
processo, anular o papel do erro produtivo na tomada de decisão e nas escolhas
científicas, de tal modo que o sucesso da obtenção de resultados é atribuível
ao rigor da concepção metodológica - implicando na necessária eliminação do
“resto”, daquilo que não é aproveitável (a ciência enquanto disciplina de ob-
servação); e assimilar fins a resultados, assim definidos em função da eficácia a
posteriori da empresa científica, excluindo os resultados fortuitos, inesperados
ou adversos.
Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009. 119
Esse é um impasse enfrentado pela maioria dos meios destinados à veicu-
lação de informações científicas: o risco da simplificação. A pesquisa de percepção
coordenada pelo OEI em conjunto com a RICYT, respalda, cientificamente, essa
preocupação. Os estudos direcionados à representação social da ciência e da tec-
nologia enquanto idéia chegaram aos seguintes resultados: entre 30% e 40% dos
entrevistados na Espanha e Uruguai e metade dos consultados no Brasil, vêem
a ciência como epopéia de grandes descobertas. Eles (analistas das pesquisas)
vincularam essa relação às narrativas escolares, ficção científica e à divulgação
científica.
O jornalismo empresarial (assessorias das Instituições de Ensino e Pesquisa)
e a comunicação de massa têm sua parcela de culpa. Isso nos leva a questionar
o que é notícia para a grande imprensa quando se trata de ciência e de produção
de conhecimento.
Será tomado o seguinte exemplo. Em setembro de 2004, realizou-se a 1ª
Reunião Regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) no
Amazonas. Para a mídia, a reunião em si não é um fato noticiável, pois para a
maioria dos chefes de redação e jornalismo é difícil vincular C & T a um determi-
nado contexto político no qual o país está inserido. A atividade do cientista e os
resultados brutos de uma determinada pesquisa que estão sendo divulgados du-
rante o evento não são notícias para a imprensa. Para muitas delas, o importante
é cobrir um acontecimento, a ciência aparecerá caso possa contribuir para a for-
mulação da matéria, mas o grande foco serão os interesses envolvidos no evento.
O problema transpõe os limites geográficos de Manaus e, como numa espécie de
epidemia, assola tantos outros estados. Tomando um pré-diagnóstico apontado
por Guimarães:

O tratamento da ciência como notícia, ao tomar a ciência como acon-


tecimento e não como processo de produção de conhecimento, coloca
a ciência como um lugar que pudesse dar respostas presentes para
problemas presentes, bastando, para isso, mobilizar a ciência (2001,
p. 20).

Competindo no mesmo mercado, estão as mídias especializadas (revistas,


programas de Tvs, suplementos de jornais etc.). Suas linhas editoriais são bem
claras: conteúdo científico mais denso, o que pressupõe maior número de fontes
e melhor qualidade textual. As agências de fomento também descobriram as van-
tagens de ocupar uma parcela dessa “responsabilidade pública”, que é a comuni-
cação científica. Sob esse viés, são criadas Revistas, lançados editais para a área
e promovidos eventos destinados à popularização de conhecimento (mesmo que
não estejam vinculados à área da comunicação).
É possível visualizar, portanto, uma rede de “comunicadores”, onde cada um
delimita uma linha de atuação para atingir um determinado perfil de público.
O objetivo geral é tornar o conhecimento científico um patrimônio de uso
comum. O sucesso na transição – entre ciência e senso comum - depende, é claro,
do nível de educação da população, do grau de participação – conflituosa, inclu-
sive – nas tomadas de decisão sobre C &T.
Tanto a comunicação pública quanto a educação formal são peças-chave nesse
processo de formação, mas é mister que não sejam esquecidos fatores impor-
tantes como a influência de instituições, mecanismos sociais e processos que
promovam a cultura científica, já que estes também caracterizam a cultura de
uma sociedade.

120 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


Algumas questões são colocadas para debate: a maneira que os indivíduos
vêem a ligação das atividades de ciência e tecnologia locais com a dinâmica
social e produtiva da sociedade é uma delas. Captar o momento em que, aos
olhos dos cidadãos, parece faltar sincronia entre o que propõe a ciência local e
as necessidades, demandas ou interesses da sociedade, é o ponto de partida
para buscar compreender a cultura científica no contexto da dinâmica social da
ciência. Como?
Investindo numa maior participação dos cidadãos em questões de ciência
e tecnologia, garantindo-os, com isso, meios de apropriação social do conheci-
mento. A percepção e o conhecimento dos riscos da ciência, ao estarem dis-
tribuídos socialmente, fazem com que o desenvolvimento da tecnociência não
seja uma atribuição única e exclusiva dos especialistas. Se o que se propõe é
o direto da sociedade a participar das políticas de desenvolvimento em C & T,
pode-se utilizar o seu grau de participação como indicador do nível de integração
destas questões na cultura de sociedade.
Reforça-se que as questões de C & T não podem estar dissociadas daque-
las que a sociedade toma rotineiramente. A prova maior disso é que na política
pública não bastam mais as considerações dos aspectos científicos e tecnológicos
como fonte de legitimidade. Cobra-se também das iniciativas a contemplação,
nos processos, do direito à informação e à participação por parte da sociedade
como requisito fundamental para verdadeiro exercício da democracia.
Um espaço estratégico destinado a ouvir a opinião da sociedade civil, normal-
mente quando diz respeito à tomada de decisão do Governo ante à implemen-
tação de alguma ação importante e que afetará a economia, bem-estar, modo
de vida etc., das pessoas, é a Audiência Pública. A realização desses “fóruns”
está entre as obrigações – previstas na Constituição – de Governos, instituições
e empresas públicas e privadas, pois resguarda o direito do cidadão de se mani-
festar contra ou a favor de algum projeto, em favor da melhoria da sua condição
de vida. A construção do Gasoduto Coari-Manaus e, mais recentemente, a pro-
posta de construção da Ponte Manaus-Iranduba, também estão passando por
esse processo de “arguição da sociedade”. No entanto, para efetivar a “razão
de ser” das Audiências é preciso uma ampla mobilização social. Caso contrário
haverá sim a participação de setores organizados que pouco – ou nada – repre-
sentam a voz da maioria.
O recapeamento da BR-319 também tem merecido atenção especial da
sociedade, incitada pelo confronto político acompanhado nos jornais acerca da
viabilidade do empreendimento. Desde 1973, ano de sua inauguração, a BR-319
representa um ideal de crescimento econômico para o Amazonas. Mais de três
décadas se passaram e a proposta do projeto vive um novo desafio: reerguer-
se do cenário de abandono a qual esteve restrita durante todos esses anos e
projetar-se como um empreendimento ambientalmente respeitável.
É o que esperam o Ministério dos Transportes e a Universidade Federal do
Amazonas (Ufam), respectivamente, órgão executor da obra e a instituição co-
ordenadora do Estudo de Impacto Ambiental (EIA), documento necessário para
liberação das obras de “reconstrução” da rodovia nos trechos que vão do Km 250
ao Km 655,7, no entroncamento com a BR-230, que dá acesso ao Município de
Lábrea (AM). O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais
Renováveis (Ibama) expediu, esse ano, o Termo de Referência solicitando a re-
alização do estudo ambiental.
Para as demais áreas (que antecedem o Km 250 e que se situam depois
do Km 655,7 até o Km 817), onde o tráfego ainda flui, já existem ações de “re-
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cuperação” dos trechos da estrada, mas que não fazem parte do EIA.
Segundo prevê a Legislação Ambiental, o EIA é um documento que tem
por finalidade avaliar os impactos ambientais gerados por atividades potencial-
mente poluidoras ou que possam causar degradação ambiental. Em seu corpo,
deverão ser propostas medidas mitigadoras (amenizar impactos) e de controle
ambiental, garantindo o uso sustentável dos recursos naturais. Produzido numa
linguagem mais técnica, à semelhança daquela usada em alguns relatórios das
diferentes equipes técnico-científicas envolvidas nos estudo, o EIA é transfor-
mado em um relato de diagnóstico mais legível e voltado para a popularização
dos dados gerados no processo. A ele são agregados mapas, quadros, tabelas e
outros instrumentos ilustrativos para facilitar a leitura e a interpretação do pú-
blico em geral, sobretudo nas Audiências Públicas. Surge o Relatório de Impacto
Ambiental (Rima).
A exemplo do EIA/Rima coordenado pela Ufam no final de 2003 para a obra
do gasoduto Coari-Manaus, o da BR-319 também obedece ao mesmo cronogra-
ma de atividades, incluindo as Audiências Públicas e espaços para interação da
sociedade com o projeto (site e eventos que precedem as Audiências oficiais).
Para o estudo da BR, a listagem de áreas temáticas é grande, incluindo: geolo-
gia, geomorfologia, hidrologia, limnologia, flora, fauna terrestre (vários grupos),
ictiofauna (estudo da fauna de peixes), sociologia, demografia, economia, antro-
pologia, arqueologia, doenças tropicais e engenharia civil. A ciência é o escudo
da sociedade. É ela quem atestará a viabilidade, a segurança e a conseqüências
das ações do homem sobre o meio ambiente, neste caso. Sua atuação deverá
estar dissociada da política, para garantir a idoneidade do seu diagnóstico.
A equipe responsável pela elaboração do EIA da BR é formada, predom-
inantemente, por pesquisadores da Ufam e do Inpa, especialistas nas áreas
temáticas e com experiência comprovada em estudos de avaliação de impac-
tos ambientais. Ao mesmo tempo, espera-se desses profissionais compromisso
para com as causas sociais e ambientais da Amazônia, assegurando a qualidade
técnico-científica do estudo, e cujas conclusões serão norteadas pelos compro-
missos morais e éticos de todos os membros da equipe.
Em geral, como já mencionado, a participação da sociedade em processos
de licenciamento ambiental ocorre nas audiências públicas. Em um momento
posterior à conclusão do estudo, quando este já foi submetido ao órgão ambi-
ental para análise. Mas nada impede a realização de encontros e fóruns de dis-
cussão antes da etapa de entrega do relatório. Ouvir as pessoas, principalmente
aquelas envolvidas diretamente no empreendimento, faz a diferença no produto
final.
É preciso levar em conta, também, que forças contrárias, científicas ou ide-
ológicas, estão estabelecidas em Organizações Não-Governamentais, agências,
comissões sociais, grupos ambientalistas, com meios próprios de divulgação em
rede produzindo contra-argumentos e fatos políticos relevantes ou não. A atu-
ação desses agentes, ditos representantes da sociedade civil organizada, pode
servir ao bem e ao mal; fiscalizando a idoneidade dos processos de licenciamen-
to, por exemplo, ou imprimindo posições ou opiniões ilícitas sobre o assunto,
distribuídas tal qual um vírus na Internet frente aos canais de relacionamento
consolidados, previamente compradas por terceiros passíveis de beneficiamento
diversos (financeiro e político).

122 Revista Científica do Centro Universitário do Norte. Ano 1, n.1, 2009.


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