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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia

uma história de dor, amor e perdão


Tânia Gonzales

Suzana, Letícia, Paula e Lúcia


uma história de dor, amor e perdão

1ª edição

São Paulo
Edição do Autor
2009
Gonzales, Tânia, 1971 -
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia-uma história de
dor, amor e perdão / Tânia Gonzales – São Paulo,
2009.
ISBN 978-85-910249-0-2
1.Literatura Brasileira

CDD-B869

Copyright © 2009 Tânia Gonzales


contato com a autora: gonzalestania.gonzales@gmail.com
http://romancegospel.blogspot.com

É proibida a reprodução total ou parcial desta obra, por qualquer meio, sem a
autorização prévia da autora.
Obra protegida pela Lei de Direito Autoral nº 9610/98.

As citações bíblicas são extraídas da edição Revista e Atualizada- Almeida-


Sociedade Bíblica do Brasil.
Sumário
Prólogo ♥ 11
1-Aniversário ♥ 13
2-Perfumes ♥ 21
3-Regime ♥ 31
4-Informações ♥ 37
5-R.E.M.A. ♥ 48
6-Problemas ♥ 57
7-Um presente ♥ 65
8-Diagnóstico: Anorexia ♥ 78
9-Primeiro beijo♥ 88
10-Trufas e CDs ♥ 99
11-Conversando ♥ 109
12-Café especial ♥ 122
13-Por um fio ♥ 131
14-Boas notícias ♥ 146
15-Apaixonados ♥ 157
16-Quase um beijo ♥ 167
17-Decepção ♥ 178
18-Revelação ♥ 190
19-Reação inesperada ♥ 202
20-Treinamento ♥ 219
21-Aconselhamento ♥ 231
22-Lúcia ♥ 242
23-Namoro curto ♥ 249
24-Tristeza e alegria ♥ 256
25-Rindo à toa ♥ 268
Sumário
26-De volta ao passado ♥ 280
27-A verdade ♥ 294
28-Viagem ♥ 308
29-Saudade ♥ 322
30-Expectativa ♥ 334
31-Lúcia? ♥ 346
32- Novamente o passado♥ 355
33-Campos do Jordão ♥ 365
34-O pai de Lúcia ♥ 371
35-Nunca fui beijada ♥ 381
36-Valter ♥ 393
37-Suzana e Lúcia ♥ 405
38-Novidades ♥ 411
39-Casamento ♥ 419
40-Lua de mel? ♥ 432
41-O retorno ♥ 443
42-Tentação ♥ 454
43-Presente de Aniversário ♥ 467
Epílogo- ♥ 475
Agradecimentos

Minha gratidão a Deus, a minha família e a todos os


leitores.
Para adquirir a versão impressa:
www.clubedeautores.com.br
“Cure o passado. Viva o presente. Sonhe o futuro.”

Provérbio irlandês
Prólogo
Dominada pelo pânico, ela não conseguia gritar. Ele a estava
machucando. Qual o motivo para tanta maldade? Por quê? Ela
queria gritar, queria fugir daqueles braços fortes, mas era frágil
demais...

_ Filha... querida... eu estou aqui! É a mamãe.


_ Mãe... mãe... foi horrível!
_ Foi só mais um sonho, filha! Tente dormir novamente.
_ Estou com medo... e se recomeçar?
_ Querida, eu vou ficar aqui até que adormeça, vou orar bem
baixinho para que Deus lhe dê um sono tranquilo.
Após alguns minutos, Suzana voltou a dormir.
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Capítulo 1 -Aniversário
Paula acordou cedo no dia de seu 19° aniversário. Teria uma festa
surpresa. A mãe, Regina, bem que tentou esconder, mas não
conseguiu ser discreta o suficiente para que tudo ficasse em
segredo, a filha acabou por ouvir uma conversa aqui, outra ali, e
adeus segredo. Mas Paula resolveu fingir que não sabia de nada.
Hoje seria um daqueles dias que ela teria que sair da rigorosa dieta
imposta por ela mesma. Ela tinha um sonho: ser uma modelo
profissional. Já havia feito alguns pequenos trabalhos, mas ela
queria mais, muito mais.

_ Filha, parabéns! -disse Regina, em seguida deu um beijo e


entregou um presente, que fazia parte da estratégia para a festa
surpresa.
_ Obrigada, mãe!
_ Dezenove anos! Como o tempo passa depressa! Abra o seu
presente, espero que goste!
_ É linda! - disse Paula ao ver que era uma bolsa que ela estava
paquerando há algum tempo- E o papai?
_ Ele precisou sair bem cedo, mas não vai demorar. Que tal você
se levantar e tomar um belo café da manhã?
_ Mãe, não posso exagerar. Só quero torradas e um copo de leite
desnatado.
_ Só isso? Nem pensar, hoje é um dia especial, precisa se
alimentar bem.
Regina sempre tentava fazer a filha se alimentar melhor, mas era
muito difícil convencê-la, Paula sempre dizia que estava acima do
peso, mesmo pesando apenas 48 quilos. Era uma linda garota
loira, como a mãe; de olhos azuis, iguais aos do pai; que se

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destacava pela altura. No momento ela estava com os cabelos um


pouco acima dos ombros.
_ Olha só quem já acordou! Feliz aniversário, minha linda filha!-
disse Paulo Reis e em seguida olhou para esposa – Não disse que
voltaria logo? Ela nem saiu da cama ainda! Filha, vá trocar a
roupa e depois venha tomar o café conosco.

Paulo Reis saiu do quarto da filha, desceu as escadas do sobrado,


foi até a cozinha esperar por Paula, a esposa o seguiu, queria
muito falar com ele longe da filha.
_ E então, conseguiu arrumar um substituto?
_ Regina, você acha que é simples assim?
_ É o aniversário da sua filha! Está pensando em faltar?
_ Fale baixo, quer que ela ouça? Eu já falei que não posso
desmarcar, é um congresso de jovens; o pastor Márcio é sempre
tão amável comigo!
_ Ela vai ficar arrasada! Como você foi aceitar...
_ Regina, você sabe muito bem que o meu dia seria ontem, mas
ele me pediu um favor, eu não pude recusar. Eu só vou chegar
mais tarde, qual o horário que você marcou?
_Oito horas; você vai chegar aqui no final da festa... o congresso é
em Pirituba, não é?
_ Sim, mas eu vou fazer de tudo para chegar pelo menos na hora
que ela for cortar o bolo.

Paulo Reis era um pregador itinerante muito requisitado pelas


igrejas para pregar em congressos. Sempre tinha convites para
os finais de semana, mas nos últimos meses até durante a semana
surgia um compromisso. Ele pregava até em outros estados. Sua
igreja era a IGAG (Igreja Graça Abundante Graça), na cidade de
São Caetano do Sul, estado de São Paulo, mas era raro o dia em

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

que podia participar dos cultos. Esta situação entristecia Regina,


sua esposa, pois era muito difícil para ela conseguir acompanhá-lo
aos compromissos; eles tinham uma loja de calçados e ela também
precisava ficar com a filha, que só pensava na carreira de modelo.
Regina havia convidado alguns amigos de Paula que faziam
parte do grupo de jovens da igreja; seriam uns 30 convidados
apenas, já que eles não tinham parentes próximos, somente a irmã
de Regina, Carmem e sua filha Aline, pois os outros parentes
tanto de Regina quanto de Paulo moravam no Rio de Janeiro.
Entre os convidados havia Leonardo, jovem de 23 anos, muito
esforçado e ativo nos trabalhos da igreja, ex- namorado de Paula,
filho do Dr. Rafael Martins, advogado trabalhista e de Lígia,
cirurgiã dentista. Regina ainda tinha esperanças que os dois
voltassem a namorar, Leonardo era o genro que ela havia pedido a
Deus. Recém formado em direito, trabalha com o pai, que é sócio
em um escritório de advocacia. O namoro durou 6 meses;
terminaram uma semana após o aniversário de 18 anos de Paula.
O motivo? O sonho de Paula em ser modelo. Leonardo
simplesmente não concordava com a escolha da profissão da
namorada, principalmente pelo fato dela sempre estar fazendo
regime. Quando os dois saíam ela só tomava um suco natural e era
muito difícil convencê-la a comer. A princípio ele pensava que era
só uma ideia passageira, que logo ela esqueceria o assunto, afinal
ela havia decidido fazer faculdade de veterinária; mas quando
Paula comunicou que só se dedicaria à carreira de modelo, ele
achou melhor terminar o namoro. Definitivamente ele não queria
ser o namorado de uma modelo; mas a amizade continuou, por
isso ele era um dos convidados para a festa de aniversário.
Enquanto Regina cuidava dos preparativos para a festa,
aproveitando que a filha havia saído, pensava em como seria bom
se a filha voltasse a namorar Leonardo, já havia falado várias

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vezes para Paula que ela ia se arrepender por perder um rapaz


como ele, que se ela demorasse muito, com certeza seria tarde
demais. Mas Regina sabia que os pais de Leonardo ficariam
satisfeitíssimos se o filho namorasse Letícia Soares, filha de
Fernando, sócio de Rafael. Eles tinham muitas coisas em comum,
além dos pais trabalharem juntos, as mães também tinham a
mesma profissão e até trabalhavam na mesma clínica; eles se
conheciam desde crianças e eram grandes amigos. Também
moravam em São Caetano do Sul. As duas famílias mal
conseguiam esperar pelo dia em que os filhos anunciassem o
namoro. Letícia era uma boa menina, obediente aos pais, amava
participar dos trabalhos da igreja, muito simpática e além de todas
estas qualidades, era muito bonita também; de estatura mediana,
cabelos loiros, olhos castanhos claros, tinha 19 anos e estava
cursando odontologia, seguiria a mesma carreira da mãe.

Poucos minutos após o horário marcado, os convidados


começaram a chegar, inclusive Leonardo e Letícia.
_Que bom que vocês vieram- disse Regina assim que os viu-
Fiquem à vontade. A Paula vai ficar muito feliz com a sua
presença, Leonardo.
_Boa noite, Regina. Onde está a aniversariante? - perguntou
Leonardo.
_A Aline saiu com ela, mas daqui a poucos minutos elas chegam.
_Conseguiu esconder tudo dela? - quis saber Letícia.
_Acho que ela já sabe de tudo, só está disfarçando.
_ Elas estão chegando!- anunciou Carmem, irmã de Regina.
Assim que Paula entrou, todos os convidados gritaram juntos:
“Surpresaaa!”- e começaram a cantar o famoso: “ Parabéns pra
você, nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida!”
Após muito barulho e muitos abraços, Leonardo conseguiu falar

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

com Paula.
_Parabéns, Paulinha! É pra você, espero que goste- disse
Leonardo entregando-lhe um bonito pacote vermelho com um laço
dourado.
_ Obrigada, meu Léo! Como você está gato hoje! Eu queria você
embrulhado pra presente, pode ser?
_Você não tem jeito mesmo! - disse ele.
_ Oi, Lê! Que bom te ver!- falou Paula cumprimentando Letícia.
_ Feliz aniversário! Você está linda, que novidade, né? - e em
seguida também entregou um presente.
_ Obrigada! E agora é só curtir a minha festa!

_ Como você está gato! Hum... eu acho que alguém está querendo
uma reaproximação... - comentou Letícia assim que Paula se
afastou.
_ Para com isso, Leca! - provocou Leonardo, chamando-a pelo
apelido que ela detestava.
_ Léo, fale baixo e não me chame assim novamente.
_ Assim como, Leca?
_ Dá pra você parar? Vamos comer alguma coisa?
_ É claro que vamos... minha Leca! - Leonardo deu um largo
sorriso e a puxou pelo braço.

Regina estava começando a ficar preocupada, pois já passava das


23h e nada do marido chegar, será que teriam que cortar o bolo
sem ele? A filha ficaria arrasada, ela já havia perguntado por ele
várias vezes e Regina só repetia as mesmas palavras: “ Ele está
chegando”.
Perto da meia-noite, Regina percebeu que não seria mais possível
esperá-lo; chamou a filha para cortarem o bolo.
Quando Paulo Reis entrou, encontrou a esposa e a cunhada

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Carmem fazendo a limpeza. Era uma hora da manhã.


_ Onde ela está?
_No quarto, abrindo os presentes, a Aline está com ela- respondeu
Carmem.
_Como você foi capaz de fazer isso com a nossa filha? Ela
perguntou tanto por você! Eu sabia que isso ia acontecer... - disse
Regina muito nervosa com o marido.
_Calma Regina! Não adianta ficar brava comigo agora. Tinham
muitas igrejas convidadas... comecei a pregar muito tarde e
depois que o culto terminou o pastor me convidou para jantar,
estava tudo preparado na casa dele, não dava para recusar.
_ Não acredito! Paulo, você ficou lá todo tranquilo sabendo que
estávamos esperando por você?
_ Eu... eu vou falar com ela.
Paulo foi até o quarto da filha e por alguns instantes não teve
coragem de abrir a porta, pois ouviu que ela estava chorando.
_ Prima, não fica assim. Olha, deve ter acontecido algum
problema. Você acha que o seu pai iria perder a sua festa de
propósito? - falava Aline tentando consolá-la.
_ Acho! Não é a primeira vez que ele faz isso. Sair pra pregar no
dia do meu aniversário? Caramba! Ele não podia ter feito isso
comigo... não podia... que raiva!
Paulo resolveu bater na porta.
_ Entra! - gritou Paula.
_ Aí está você! Quantos presentes! Todos os seus amigos vieram?
- perguntou Paulo meio sem graça.
_ Todos, só faltou o meu querido pai. Engraçado, né?
Aline achou melhor deixá-los a sós.
_ Filha, minha filha... me perdoe, por favor! Eu não consegui
chegar mais cedo, foi impossível sair.
_ Claro, pai, grande novidade! Você nunca está aqui mesmo.

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_ Não seja injusta...


_ Injusta? Eu? Um pai que falta na festa da própria filha? E ele
mora na mesma casa... eu acho que até pais divorciados
participam mais da vida dos filhos - Paula parou de falar, não
conseguia segurar as lágrimas.
_ Filha, eu sinto muito - dizendo isso Paulo a abraçou.
Ficaram os dois ali abraçados, sem dizer uma palavra; até que
Paulo deu um beijo na filha e saiu do quarto.
_ Ela dormiu? - perguntou Regina assim que o marido apareceu
na cozinha.
_ Não, mas deve pegar no sono logo, logo. A Carmem e a Aline?
_ Já foram embora. Você não podia ter feito isso com ela.
_ Regina, me dá um tempo. Como você acha que eu estou me
sentindo?
_ Espero que esteja péssimo. É isso mesmo... pois é assim que eu
me sinto. Você deveria valorizar mais a sua família. Eu sei que
você ama pregar, sei que as igrejas gostam de convidá-lo, mas
aqui nesta casa existem duas pessoas que precisam de você, nunca
se esqueça disso.
_ Regina, você está exagerando, nós até que passamos um bom
tempo juntos. Quantos pais saem de casa cedo todos os dias e só
voltam à noite... nós até trabalhamos juntos na loja.
_ Não acredito! Paulo, você está sempre viajando, passa dias
longe de casa pregando em congressos pelo Brasil afora. Eu sei
que o seu ministério é muito importante, mas quando isso
atrapalha a harmonia do lar, tem alguma coisa errada. Tenho
certeza que Deus não se agrada disso. A família foi instituída por
Deus e Ele quer os casais sejam felizes. As coisas aqui em casa
não vão bem, por que mentir pra nós mesmos?
_ Regina, cuidado com o que você fala. As pessoas precisam
ouvir uma palavra e eu sou um dos instrumentos de Deus. Não

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posso recuar. Você está exagerando. Eu sou um marido e um pai


bem presente, hoje, infelizmente, não foi possível.
_Tudo bem, Paulo. Eu já sei que esta conversa não vai adiantar
nada. Boa noite!
_ Boa noite.

Paula não estava conseguindo dormir, então resolveu provar


algumas roupas. Colocou uma calça jeans, presente de sua prima e
a blusa vermelha, dada por Leonardo, que sabia muito bem que
aquela era a cor favorita dela.
Deu uma olhada no espelho e não gostou do que viu. “Como estou
gorda! Amanhã vou começar um regime daqueles bem radicais” -
pensou Paula.

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Capítulo 2 - Perfumes
_Minha irmãzinha querida, preciso de sua ajuda. - disse Leonardo
ao entrar na casa da irmã em uma tarde de sábado; duas semanas
antes do dia das mães.
_É assim que você entra na casa de sua única irmã? E meu beijo? -
perguntou Beatriz.
_É verdade, que mancada!- Leonardo deu um apertado abraço e
dois beijos na irmã, para em seguida completar- Me desculpe!
_Tudo bem, mas do que você está precisando?
_Eu quero aproveitar para comprar o presente da mamãe, pra não
deixar para a última hora, estou sem nada para fazer mesmo, vou
até o shopping.
_Está adiantado, hein? Quer uma dica? Eu vou comprar um
vestido que eu vi outro dia, ela estava comigo e eu percebi que ela
ficou interessada nele, mas eu sei o que você pode comprar. Ela
adorou o perfume que eu dei de presente para minha cunhada.
Você pode comprar um kit; eu vou anotar pra você, porque com
certeza se eu falar você vai esquecer.
_Valeu!
_Você vai com a Lê?
_Não, vou sozinho mesmo. Não tenho nem uma companhia, pleno
sábado... vou sozinho para o shopping. Você acha que isso é justo?
_Que drama, Léo! Está sozinho porque quer. Por falar nisso...
bom.. ontem a mamãe ficou me perguntando sobre você e a Lê,
ela não se conforma, quer saber o porquê de tanta indecisão.
_ Indecisão? Quem está indeciso? A mamãe não tem jeito! A Lê é
como se fosse minha irmã mais nova e eu sou como um irmão pra
ela. Será que é tão difícil entender isso?
_ É que a mamãe e o papai acham que vocês formam o casal ideal.

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As duas famílias se entendem; papai trabalha com Fernando,


mamãe com a Sandra. Sogros e sogras trabalhando juntos. E se
não bastasse, a Lê faz faculdade do quê? Odontologia. Ela vai ter
a mesma profissão da mãe e da “sogra”. Perfeito! E tem mais um
detalhe: vocês dois tocam o mesmo instrumento na orquestra da
igreja. Conclusão: vocês nasceram um para o outro.
_Seria perfeito se não fosse por um detalhe: nós não estamos
apaixonados.
_Não esquenta. Quando cada um encontrar a sua cara metade, eles
param com esta história. Você está interessado em alguém no
momento? - quis saber a irmã.
_Bem que eu gostaria, mas... eu... como que eu vou explicar... eu
gostaria de conhecer alguém bem especial, sabe? Não ria de mim,
mas eu quero alguém que me faça sentir algo que eu nunca tenha
experimentado antes. Eu estou esperando por uma princesa. Agora
eu estou falando como vocês!
_ Que fofo! Mulheres... ele está aqui!- gritou Beatriz.
_ Sem brincadeira.
_Léo, meu maninho, você não precisa ter vergonha disso. Olha, eu
tenho certeza que você vai encontrar alguém muito especial, você
merece. Eu entendo, viu? Quando eu conheci o Bruno foi
maravilhoso, eu olhei pra ele e pensei: “É ele, só pode ser ele”; e
aconteceu. Só não digo que está tudo perfeito, porque você sabe
que está faltando alguém muito importante aqui - ao dizer isso,
Beatriz ficou com os olhos marejados, era um assunto muito
delicado para ela.
_ Bia, minha irmã... este alguém tão esperado vai chegar. Na hora
certa vocês vão conseguir realizar este sonho- Leonardo abraçou a
irmã e completou: Eu também estou ansioso para me tornar um tio
bem coruja!
_ Irmãozinho lindo! Deus vai se lembrar de mim, não vai? É tão

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

dolorido passar por isso! Por duas vezes ficar feliz, se sentir
realizada para em seguida...perder. Outro dia eu estava
conversando com uma mãe e ela me contou que uma sobrinha dela
ficou grávida aos 17 anos e por medo da reação do pai, resolveu
abortar. Eu me senti tão mal. Quantos que recebem esta dádiva e
abandonam o bebê até no lixo! Não me conformo! Eu e o Bruno
queremos tanto...
_Bia, vocês vão conseguir! Não perca a fé, não desanime. Você
será uma mãe maravilhosa!
_Você tem razão, vamos parar com esta conversa... eu vou fazer
um cafezinho pra nós e depois você vai comprar o presente da
mamãe.
Beatriz estava casada com Bruno há 5 anos, por duas vezes ficou
grávida e sofreu muito por causa dos abortos. Estava com 30 anos
e tinha um desejo enorme de ser mãe. Era médica pediatra, e o
convívio diário com os pequenos pacientes aumentava ainda mais
este desejo.

Eram quase sete horas da noite quando Leonardo chegou ao


shopping; foi direto para uma conhecida loja de perfumes. Ao
entrar, ele deu uma rápida olhada pela loja e de repente parou o
olhar em uma bonita moça de cabelos castanhos.
Ela estava atendendo um cliente, mas ele não conseguia desviar o
olhar, o rosto dela era muito delicado, parecia uma boneca.
Leonardo estava tão envolvido que não percebeu a aproximação
da outra vendedora.
_ Boa noite, senhor. Posso ajudá-lo?
_ Oi? É... eu... me desculpe, mas eu gostaria de ser atendido por
ela- disse Leonardo apontando bem discretamente para a moça
que havia chamado sua atenção.
_ Tudo bem, mas o senhor vai precisar esperar um pouco, a

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Tânia Gonzales

Suzana está atendendo um cliente.


_ Eu espero, obrigado.
A vendedora se afastou e avisou a amiga que havia um cliente
esperando por ela. Enquanto isso Leonardo ficou pensando: “ O
que está acontecendo comigo? Suzana, é isso, o nome dela é
Suzana. Mas, por que eu não consigo parar de olhar pra ela?”
Poucos minutos depois, ela foi atendê-lo.
_ Boa noite, senhor. Em que posso ajudá-lo?
_Boa noite. Eu... eu... - Leonardo ficou sem conseguir se expressar
por alguns instantes, mas o seu olhar estava fixo nos lindos olhos
verdes de Suzana- Me desculpe... eu gostaria deste perfume-
dizendo isso Leonardo mostrou o papel onde a irmã havia anotado
o nome do perfume.
A vendedora se afastou por poucos segundos para em seguida
voltar com o perfume pedido por Leonardo.
_ É um presente para minha mãe- explicou Leonardo- Minha irmã
me falou sobre um ... kit?
_ Nós temos sim, eu vou buscar para o senhor.
E novamente a bonita moça se afastou para voltar em seguida.
_Ótimo, eu vou levar o kit. - informou Leonardo sem desviar o
olhar da vendedora, que apesar de não se sentir à vontade diante
dele, conseguiu atendê-lo demonstrando segurança.
Leonardo saiu da loja contrariado, sentia uma vontade
insuportável de ficar ali só olhando para ela. “ Que absurdo !” -
pensava Leonardo enquanto caminhava até o estacionamento- “
Para com isso, você nem a conhece, que coisa maluca!”

Depois de três dias Leonardo revolveu voltar ao shopping no


mesmo horário. Ele não conseguia parar de pensar na vendedora
que o havia atendido. Ao entrar na loja, logo a avistou e pediu
para outra vendedora que gostaria de ser atendido por Suzana.

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_ Suzana... Suzanaaa... tem um cliente esperando por você! -


avisou Cláudia, vendedora da loja e amiga de Suzana.
_ Quem? - perguntou Suzana, pois ainda não tinha visto
Leonardo.
_ O que não tirou os olhos de você... sábado, lembra? Você não é
fraca não! Eu que gostaria de ser a vendedora preferida de um
gato como aquele! Vai lá, ele está esperando!
Suzana deu uma rápida olhada em Leonardo, se ela pudesse
pediria para Cláudia atendê-lo, pois havia ficado envergonhada
com o olhar persistente dele.
_ Boa noite, senhor! Posso ajudá-lo?
_ Boa noite, Suzana! Hoje eu gostaria que você sugerisse um
perfume para a minha irmã.
_ Tudo bem, eu vou mostrar algumas opções.
Leonardo até que tentava, mas não conseguia desviar o olhar, não
era um comportamento normal dele, mas simplesmente não dava
para resistir. A vontade dele naquele momento era de convidá-la
para sair, mas ele sabia que isso seria ridiculo, por esta razão, em
poucos instantes, estava saindo da loja com uma sacolinha,
contrariado novamente.

Após 4 dias, Leonardo voltou àquela loja , ele até que tentou
resistir, mas não conseguia parar de pensar em Suzana. Desta vez
ele não precisou chamá-la, Suzana o viu assim que ele entrou.
_ Boa noite senhor! Posso ajudá-lo?
Leonardo gostaria de poder dizer:” Eu preciso muito de sua ajuda,
pois não consigo parar de pensar em você”- mas limitou-se a
dizer:
_ Sim, eu gostaria de uma sugestão, mas hoje eu quero um
perfume masculino. É... pra mim.
Suzana voltou com 4 opções.

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Tânia Gonzales

_ De qual você gosta mais? - perguntou Leonardo.


_ Eu? É... o senhor não gostaria de escolher?
_ Não, na verdade eu gostaria que você escolhesse por mim. Qual
é o seu preferido?
_ Se o senhor deseja assim... este.
_ Então eu vou levá-lo e você teria a loção após barba?
Leonardo saiu da loja e ficou pensando naquela situação. “Para
quem ele iria comprar o próximo perfume? Para seu pai? Ou quem
sabe para a Leca?” Ele mesmo não acreditava no que estava
fazendo. Comprar perfumes só para ficar alguns míseros minutos
com uma vendedora que ele nem conhecia e o pior de tudo era que
ele considerava aqueles minutos os mais importantes de sua vida
nos últimos dias, o que era um absurdo- “ Devo estar muito
carente, só pode ser isso!”-pensou.

_Suzana, destruindo corações! Eu acho que na próxima vez ele vai


comprar perfume para o cachorrinho dele ou quem sabe para o
papagaio? - brincou Cláudia.
_ Para com isso, Cláudia! Ele estava precisando comprar um
perfume.
_ Suzana, o cara vem até aqui pra te ver, você sabe muito bem!
Ele é um gato! Tremendo gato! Ele não tira os olhos de você... se
liga!
Leonardo era um atraente rapaz de 1,90m de altura, cabelos e
olhos castanhos, dono de um lindo sorriso.
Suzana sabia muito bem que Cláudia tinha razão. Ele não desviava
o olhar... era muito difícil para ela manter a concentração. A
esperança dela era que ele não aparecesse mais, seria melhor
assim, ela não tinha ideia de como sair de uma situação como
aquela, simplesmente não tinha experiência nenhuma com rapazes
e nem queria ter.

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Quase um mês havia se passado desde a última visita do cliente de


Suzana, ela se sentia aliviada e ao mesmo tempo uma certa
curiosidade a perseguia. Teria acontecido alguma coisa com ele?
“Que bobagem”- pensava ela-” Por que eu vou ficar pensando em
um rapaz que não vou mais encontrar?”

Suzana trabalhava naquela loja do shopping há quase dois anos, o


mesmo tempo que estava morando em São Paulo. A família
morava em Belo Horizonte e a mãe de Suzana, Marina, que era
técnica em enfermagem, resolveu prestar um concurso em São
Paulo, se fosse aprovada fariam a mudança e outro motivo era o
fato da irmã de Marina, Marisa, querer que eles morassem com
ela, pois era viúva e não tinha filhos, estava se sentindo muito
sozinha. Ela morava em uma casa muito grande e tinha uma outra
casa nos fundos que seria perfeita para a irmã morar, junto com o
marido Davi e as filhas: Sueli e Suzana. E foi justamente isso o
que aconteceu. Há poucos meses começaram a frequentar a
mesma igreja de Marisa, a IGAG (Igreja Graça Abundante Graça),
uma igreja evangélica com cerca de 2000 membros. Em Belo
Horizonte eles estavam afastados da igreja já há alguns anos.
Marina, tinha um horário de trabalho bem complicado e Davi, que
era motorista particular, também chegava tarde do serviço. As
meninas iam às vezes, mas não participavam de nenhum trabalho
realizado pela igreja. Mas agora eles resolveram voltar a
frequentar, isso é bem complicado por causa do horário de serviço
de cada um, mas sempre que possível eles estão presentes nas
reuniões da igreja, é claro que dificilmente conseguem ir juntos.

Marisa, a tia de Suzana, é vizinha da família Soares, e se esforçou


para que a sobrinha Suzana fizesse amizade com Letícia; era
difícil elas se encontrarem, por causa do horário do trabalho de

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Tânia Gonzales

Suzana e também pelo fato das duas estarem na faculdade, mas


mesmo assim elas estavam começando a se entender. Naquele
domingo Letícia havia combinado com Suzana de irem juntas ao
culto.
Chegaram uns vinte minutos antes do início do culto e
aproveitaram para conversar em frente à lanchonete da igreja; de
repente, um rapaz se aproximou.
_Oi, Léo! Eu quero te apresentar a … - Letícia não conseguiu
terminar foi interrompida por Leonardo.
_Não acredito, você aqui? - perguntou Leonardo olhando para
Suzana.
_ Vocês se conhecem? - foi a pergunta de Letícia.
_ Bem... mais ou menos - respondeu Leonardo sem tirar os olhos
de Suzana que também estava muito surpresa por encontrá-lo ali.
_ Como assim? Se conhecem ou não? - perguntou Letícia sem
disfarçar a curiosidade.
_ Eu … andei fazendo umas compras e a Suzana é minha
vendedora favorita.
_ Que legal! Suzana, este é o Leonardo, ele é meu amigão.
_Oi. - disse Suzana simplesmente.
_Oi, que surpresa! Isso é que eu chamo de feliz coincidência-
disse Leonardo.
_Coincidência não, Léo! A Suzana congrega aqui e você também.
_ Espera aí, desde quando?- perguntou Leonardo.
_ Há mais ou menos quatro meses – explicou Letícia.
_ Não pode ser! Como que eu nunca te encontrei aqui?
_ Eu venho poucas vezes, por causa do meu trabalho. - esclareceu
Suzana.
_Mesmo assim...
_ A Suzana não participa dos jovens, nem da escola bíblica... senta
bem lá trás, sai assim que o culto termina. Além dela ter um

28
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

horário de trabalho bem complicado ela também faz faculdade.


_ Lê, nós podemos entrar agora? - perguntou Suzana que estava
sem jeito diante dos olhares de Leonardo.
_ Tá! Podemos sim! Tchau, Léo, depois a gente se fala.
Leonardo ficou extremamente feliz ao ver Suzana, pois nos
últimos dias ele esteve por várias vezes quase indo até o shopping,
mas sempre chegava à conclusão que era melhor não ir para evitar
fazer papel de ridículo novamente, mas a verdade era que aquela
garota não lhe saía da cabeça. O fato de Suzana pertencer à mesma
igreja que ele e ainda por cima ser amiga de Letícia era algo que
ele não podia sequer imaginar, era bom demais para ser verdade.
Precisava falar com a amiga ainda hoje, queria fazer algumas
perguntas.
Suzana também ficou muito surpresa ao ver Leonardo e ao
mesmo tempo muito preocupada. O pensamento dela era:
“ Espero que ele mantenha distância”. O pensamento dele era: “
Preciso me aproximar dela”.

Letícia e Leonardo sempre sentam-se juntos nos cultos em que a


orquestra tem participação, por tocarem o mesmo instrumento:
violino; mas como Letícia esteve ausente nos últimos ensaios, ela
aproveitou para sentar-se ao lado de Suzana.

A IGAG é uma igreja que se preocupa em propagar o evangelho


de Jesus. É envolvida com missões, sustentando vários
missionários pelo Brasil e também exterior. Pedro Gabriel é o
pastor responsável pelo trabalho; ele e a esposa Rute tem um filho
que é missionário em Moçambique, Lucas, que é casado com
Rebeca, eles têm uma filha de quase dois anos, chamada Raquel.
Quando terminou o culto, Suzana disse para Letícia que iria
embora, mas que ela poderia ficar para conversar com os amigos.

29
Tânia Gonzales

_ Não Su, eu vou com você. Nós viemos juntas, vamos juntas.
Nós podemos aproveitar a carona de meus pais, eu preciso tomar
vergonha e tirar a minha carta.
Leonardo bem que tentou se aproximar, mas sempre aparecia
alguém para conversar, ele viu as duas se afastarem, o que muito
o desapontou, mas já havia decidido que iria até a casa de Letícia.

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Capítulo 3 -Regime

Depois da festa surpresa, Paula havia feito uma promessa :


começar um rígida dieta alimentar; pois, segundo ela, precisava
perder pelo menos 5 quilos e bem rapidamente; por isso pela
manhã só comia uma torrada e tomava uma xícara de chá, às
vezes substituía o chá por um suco de laranja com adoçante.
_ Você precisa se alimentar, filha! Onde já se viu comer só uma
torrada no café da manhã? Vai ficar doente e... - Regina não pôde
terminar, foi interrompida por Paula.
_ Mãe, pode parar com isso? Estou seguindo uma dieta especial,
não insista! Vou perder peso custe o que custar, pode escrever
isso!
_ Quem disse que você precisa emagrecer? Está tão bem! Você
não olha pra o espelho não ?
_ Várias vezes ao dia e não gosto do que vejo. E sabe o que eu
vejo? Uma gorda, é isso mesmo, uma gorda!
_ Gorda? Você deve estar com um problema sério na visão ou
será na cabeça?
_ Mãe! Se liga...
_ Não fale assim comigo!
_ Dá licença! Você não vê que eu preciso ficar em forma? Vou
fazer umas fotos no próximo mês e assim do jeito que eu “tô” não
dá, né?
_ Você já é tão bonita, minha filha.
_ Bonita? Minha filha é linda! - disse Paulo Reis assim que entrou
na cozinha.
_ Está vendo? Escute o que o seu pai está dizendo, você é linda! -
concordou Regina.
_ Parem com isso! Vocês não contam, os pais sempre vão dizer

31
Tânia Gonzales

que seus filhos são lindos, maravilhosos, enfim, perfeitos!


_ Você deveria parar de se preocupar tanto com a aparência e
voltar a estudar, que tal? - sugeriu o pai.
_ Paizinho querido, por enquanto não, tenho coisas mais
importantes para fazer.
_ Mais importante do que se formar e ter uma carreira? -
perguntou Paulo Reis.
_ Filha, seu pai está certo e tem mais uma coisa... se você não
tivesse cismado com essa história de ser modelo, seria namorada
do Leonardo até hoje - completou Regina.
_ “Tava” demorando! Eu sabia que a minha amada mãe ia dar um
jeitinho para incluir o Léo nessa conversa. Chega. - dizendo isso
Paula foi para seu quarto.
_ Não sei o que eu faço com essa menina- disse Regina.
_ Essas meninas de hoje sempre acham que é necessário
emagrecer. Bom, na verdade não são só as meninas... vocês
mulheres nunca estão satisfeitas com o corpo.
_ Você tem algum compromisso hoje?
_ Era isso que eu queria conversar com você, Regina. O Pr. Pedro
Gabriel foi convidado para abrir um congresso em Poços de
Caldas amanhã, mas você sabe como é complicado para ele deixar
a igreja em um dia de domingo, por isso me pediu para representá-
lo.
_ Grande novidade! E eu que pensei que nós poderíamos fazer
algum programa em família... que ingenuidade a minha!
_Você não espera eu terminar... o que você acha de irmos juntos?
Podemos ir hoje mesmo.
_Está falando sério?
_É claro que sim. Converse com a Paulinha, ela pode ir também.
Regina foi falar com a filha sobre a viagem para Poços mas ela
não se interessou, havia combinado ir ao shopping com Aline.

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Paulo Reis concordou em deixar a filha passar o final de semana


na casa de Carmem, a irmã de Regina e assim foi com a esposa
para o congresso em Poços de Caldas, o que era raro acontecer,
Paulo viajava quase sempre sozinho.

No final da tarde Paula e Aline foram ao shopping; deram uma


bela olhada nas vitrines; Paula gostou de uma calça jeans e
resolveu provar.
_ Que numeração é essa que você pediu pra vendedora? Que eu
saiba o seu número é...
_Aline, priminha querida, esqueça o meu número antigo... olha
pra mim... ficou apertada?
_ Apertada? Apertada é apelido! Paula você vai passar mal com
essa calça...
_ Me aguarde! Daqui a poucos dias você vai me ver novamente
com essa mesma calça.
_ Se liga, Paula! Como que você vai conseguir? Não viaja.
_ Então tá, espere e verá!
_ Você está delirando, acho que é fome! Vamos comer?
_ Comer? Nem pensar! Hoje eu não coloco mais nada na boca.
_ Pois eu vou, estou morrendo de fome! Resista se puder.
_ Quer apostar?
Aline comeu hambúrguer, batata-frita, um copo grande de
refrigerante e depois ainda pediu um sundae.
_ Nossa, como você consegue? Para onde vai tudo isso? -
perguntou Paula impressionada com o apetite da prima.
_ Como você consegue ficar aí só me olhando comer?
_ Disciplina. Sabe o que é isso? E muita força de vontade.
_ Pra mim isso tem outro nome: passar fome! Come...
_ Nem pensar! Eu tenho um objetivo e não vou permitir que
coisas supérfluas me impeçam de alcançá-lo. Gostou do discurso?

33
Tânia Gonzales

_ E desde quando comer é supérfluo?


_ O que você acabou de comer com certeza é!
_ Só que hoje eu não vi você comendo nada, minha mãe ficou
chateada porque você não almoçou, ficou me perguntando se a
comida dela não estava boa.
_ A tia Carmem cozinha muito bem. E quer saber? Cansei dessa
conversa sobre comida, você só pensa em comer! Vamos sair
daqui? Praça de alimentação é o lugar mais indesejado pra mim no
momento. E será por muito... é... espera um... pouco...
_ O que foi? Você “tá” pálida! O que você está sentindo?
_ Eu … estou bem... acho que me levantei rápido demais, foi isso.
_ Tem certeza? É isso que dá não se alimentar! Você vai comer
alguma coisa, vai sim.
_ Para, Aline! Estou bem, vamos embora.

Naquela noite, Paula se levantou e foi até o banheiro, não estava


se sentindo bem. Estava com uma forte dor no estômago e com
ânsia de vômito; ficou ali por alguns minutos com uma sensação
terrível de mal estar, por fim conseguir provocar o vômito, sentiu-
se aliviada, olhou para o vaso sanitário, só havia líquido, o que
mais haveria? Só havia comido uma torrada e tomado uma xícara
de chá durante todo o dia! “ A Aline está dormindo
tranquilamente, perfeito! A última coisa que preciso agora é de
um sermão!”- pensou Paula para em seguida se jogar na cama.

No dia seguinte, Paula acordou com uma forte dor de cabeça, mas
não se queixou; comeu duas torradas e tomou suco de laranja, a
tia Carmem insistiu para que ela se alimentasse melhor, mas foi
em vão. No almoço não foi diferente, Paula colocou uma colher
rasa de arroz em seu prato e um pouco de salada de alface com
cebola e tomate; Carmem insistiu para que ela comesse um bife

34
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

pelo menos, mas não obteve sucesso. A sobrinha passou o dia


inteiro sem colocar mais nada na boca. Naquele domingo,
Carmem foi à igreja sozinha, pois Aline ficou com Paula que não
estava se sentindo muito bem.
Os pais de Paula só chegariam no dia seguinte, por isso ela dormiu
na casa da prima mais uma noite.
_ Aline? Tá acordada? - perguntou Paula segunda-feira de manhã.
_ Que foi? Deixa eu dormir mais um pouquinho...
_ Aline! Eu preciso pedir um favor.
_ Fala.
_ Não conta para os meus pais que eu passei mal ontem, tá?
_ E sobre sábado no shopping?
_ Também não, né!
_ Eu não sei não... é melhor falar pra eles, quem sabe assim você
resolve se alimentar melhor!
_ Nem pensar! Por favor... eles vão fazer eu comer e eu não posso
engordar!
_ Que droga Paula! Você precisa comer, para com esta história!
Você não está gorda!
_ Aline, por favor.
_ Tudo bem, eu não falo nada, mas você acha que a minha mãe
não vai contar? Com certeza ela vai dizer que nós não fomos ao
culto porque você não estava bem.
_ Eu vou conversar com ela.
_ Boa sorte!
Paula até que tentou convencer a tia, mas assim que eles chegaram
Carmem conversou com a irmã. Regina ficou muito preocupada e
teve uma conversa muito séria com a filha.
_ Minha filha, você acha que está certo não se alimentar? O que
foi que eu disse? Eu sabia que você ia acabar se sentindo mal.
_ Não foi nada, mãe!

35
Tânia Gonzales

_ Com a saúde não se brinca! Eu vou pegar no seu pé, quero ver
você não comer!
_ Mãe, é claro que eu vou comer, só que não é porque vocês
enchem a barriga que eu também vou.
_ Vai, vai sim! Se você acha que se alimentar bem é encher a
barriga, então você vai encher a barriga, pode ter certeza que eu
vou pegar pesado.
_ Que saco!
_ Cuidado como fala comigo!
_ Me desculpe, mas caramba você quer que eu fique gorda?
_ Eu quero vê-la com saúde, é só isso que eu quero! E você não
está gorda, não sei por que você cismou com isso.
_ Cismei? Mãe, eu me olho no espelho todos os dias e não gosto
do que vejo, eu não...- ao dizer isso Paula começou a chorar.
_ Filha, minha filhinha... vem aqui, querida, você é tão linda -
Regina a abraçou com carinho- Pare de falar bobagens, você tem
um corpo perfeito.
_ Perfeito? Desde quando? Mãe eu quero ser uma modelo
profissional e assim como eu estou é impossível.
_ Você não pode emagrecer mais.
_ Eu preciso e vou conseguir, pode ter certeza!
Naquele dia, por causa da insistência de sua mãe, Paula se
alimentou um pouco melhor, mas quando ficou sozinha em seu
quarto e se olhou no espelho começou a chorar e dizer:
_ Sua gorda! Vou me livrar de você, pode ter certeza! Você não vai
acabar com a minha carreira antes mesmo dela começar. Não vai,
não vai mesmo... a Paula gorda está com os dias contados.
Em seguida foi ao banheiro e provocou o vômito.
_ Não disse? A Paula gorda está com os dias contados.

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Capítulo 4 -Informações
Leonardo? Que surpresa, entre! Letícia! Letíciaaa! Olha só quem
está aqui! - disse Sandra sem se preocupar com a exagerada
demonstração de alegria.
_ Obrigado Sandra, desculpe a hora.
_ Não precisa se desculpar, são só dez horas.
_ É que eu preciso falar com a Lê, mas prometo que não vou
demorar.
_ Você pode ficar o tempo que quiser... até que enfim filha - falou
Sandra assim que Letícia apareceu.
_ Oi, Léo, você quer falar comigo? O que será?
_ Bom, eu vou preparar alguma coisa pra vocês comerem - disse
Sandra deixando-os a sós.
_ Você foi embora tão rápido - começou Leonardo.
_ A Suzana quis sair quase correndo, acho que você a assustou!
_ Eu? O que foi que eu fiz?
_ Brincadeira, mas e aí?
_ E aí digo eu. Quero saber de tudo.
_ Saber o quê?
_Para com isso! Bom, mas tudo bem, eu vou fazer as perguntas:
Qual a idade dela? Ela está namorando? Ela falou alguma coisa
sobre mim? E...
_ Calma! Que interrogatório é este?
_ Leca, me ajuda vai, fala.
_ Léo, como você está desesperado! Tudo bem, eu vou dar as
respostas: 19 anos. Não namora. Não falou nada sobre você.
_ Nada?
_ Só falou que você foi algumas vezes até a loja e comprou
perfumes, só isso.

37
Tânia Gonzales

_ Como ela é?
_ A Suzana é inteligente, esforçada, boa filha, pelo que eu pude
constatar, mas é tímida quando o assunto é rapazes. Eu até que já
tentei saber alguma coisa, mas ela não diz nada. Outro dia eu
fiquei conversando com ela sobre namoro, rapazes e tal... mas só
eu que fiquei falando sem parar.
_ E a família dela?
_ O pai chama-se Davi, ele é motorista particular; a mãe, Marina,
trabalha em um hospital, é auxiliar, não, é técnica em
enfermagem; ela tem uma irmã que chama-se Sueli, de 27 anos
que trabalha em uma empresa de telemarketing e ...
_ E a Suzana faz faculdade do quê?
_Letras. Quer ser professora! O que mais eu posso contar?
Espera... eles moravam em Belo Horizonte se mudaram para cá
há dois anos e moram com a Marisa, você conhece... a minha
vizinha que ficou viúva há quase três anos, você lembra... o
marido dela também era da igreja, o Luís, ele morreu de enfarto.
_ Eu lembro dele sim. Então, ela é sobrinha da Marisa!
__É isso aí! A Marisa tem uma casa nos fundos e eles moram lá,
satisfeito agora?
_ Por enquanto, sim!
_ Como você está interessado!
Letícia foi interrompida pela mãe que entrou com uma bandeja
nas mãos.
_ Preparei um lanche pra vocês.
_ Sandra, não precisava.
_ Leonardo, Leonardo! É claro que precisava, fique à vontade e
apareça mais vezes, você anda tão sumido!
_ A Sandra está certa! Tudo bem, Leonardo? - perguntou Fernando
ao aparecer na sala.
_ Oi, Fernando! Tudo ótimo e você?

38
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_ Eu estou bem, você não imagina o que eu estava fazendo em


pleno domingo à noite.
_ Não vai me dizer que...
_ É isso mesmo, Leonardo! É exatamente o que você está
pensando. Amanhã eu tenho uma audiência complicada! Estava
relendo o processo.
_ Eu, hein? Precisa descansar.
_ Tem razão! Que coisa boa você aqui em um domingo à noite!
Quer fazer algum pedido especial?
_ Pai! - protestou Letícia.
_ Filha, acalme-se, eu não perguntei nada...
_ Não, é claro que não, o Leonardo só veio conversar comigo e me
desculpem, mas vocês estão atrapalhando.
_ Opa! Querida é melhor nós irmos dormir o que você acha?
_ Concordo, e Leonardo, vê se aparece.
_ Pode deixar Sandra e obrigado pelo lanche está uma delícia.
_ Como eles viajam, acham que nós dois … - começou Letícia
assim que os pais saíram- formamos um casal maravilhoso... se
eles soubessem que você estava me perguntando sobre a
Suzana... coitados... não quero nem pensar.
_ É verdade. Mas, por que você nunca me falou sobre a Suzana?
_ Léo, eu comentei alguma coisa sim, eu falei pra você que eu
tinha uma amiga nova, que era minha vizinha, mas você nem se
interessou e mudou de assunto, acho que foi mais ou menos isso.
E quer um conselho? Vai devagar com a Suzana, escuta o que eu
estou dizendo, se você quiser ter alguma chance com ela.
_ Você vai me ajudar, não vai?
_ Vamos ver... eu também preciso da sua ajuda... eu acho que tive
uma ideia... a Suzana vai ter folga na próxima sexta-feira, eu
posso combinar com ela para irmos até o shopping e você aparece
lá com uma certa pessoa.

39
Tânia Gonzales

_ Gostei da ideia, mas que pessoa é essa?


_ O Daniel- sussurrou Letícia.
_ Precisa falar tão baixinho? O Daniel? Leca, Leca... o filho do
Isaque da mecânica?
_ Fala mais baixo... é ele mesmo, por quê?
_ Eu sabia, eu sabia! Leca, você está apaixonada por ele?
_ Léo, vamos parar por aqui. Depois a gente conversa.
_ Espera... qual o problema?
_ Meus pais não podem nem sonhar que eu estou interessada nele.
_ Por quê?
_ Léo você ainda pergunta? Para os meus pais você é o namorado
ideal. Então o primeiro problema é que o cara que eu estou
interessada não se chama Leonardo. E depois …
_ E depois?
_ Nada.
_ Letícia, você está preocupada com a reação de seus pais... não
acredito... você acha que eles teriam algum preconceito?
_ Léo, eu acho que sim.
_ Que isso! Os seus pais não teriam uma atitude tão...
_ Eu tenho medo, eles ficariam muito felizes se você fosse meu
namorado, com o Daniel eu acho que eles ficariam muito
decepcionados.
_ Para com isso. Seus pais não seriam contra o namoro por causa
da cor da pele dele, isso não!
_ E tem mais um detalhe: O Daniel não terminou a faculdade,
precisou parar depois que a mãe morreu. O pai dele não conseguia
mais tocar a oficina pois estava muito desanimado, o Daniel
precisou assumir tudo e ficou sem tempo pra estudar, ele estava
cursando administração. Você sabe muito bem o quanto meus pais
valorizam os estudos e não quero brigar com eles, então eu
prefiro esperar, afinal está tudo tão recente! Nós estamos

40
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

conversando há poucos dias.


_ Tudo bem. Então você resolve tudo para o nosso programa de
sexta-feira.
_ Com certeza. Mas eu repito: vai devagar com a Suzana!
_ Valeu, Leca! Você sabe que eu te amo?
_ Sei. Deixa minha mãe ouvir isso! Ela vai flutuar.
Leonardo voltou para casa e ficou pensando em tudo que Letícia
havia contado sobre Suzana. Letícia tinha razão, ele precisava ir
devagar com aquela garota. Não seria nada fácil segurar a
ansiedade até sexta, mas era necessário resistir a tentação de ir
até o shopping para comprar mais perfumes.

No dia seguinte Letícia conversou com Suzana sobre o passeio no


shopping, ela concordou com uma certa relutância; também
aproveitou para combinar com Daniel, fez uma rápida ligação para
ele que ficou muito feliz com o programa.
Daniel é um rapaz de 21 anos, que participa ativamente dos
trabalhos da igreja, é evangélico desde o seu nascimento, mas
congrega na IGAG há cinco anos, tem três irmãs, todas casadas.
Ajuda Isaque, seu pai, na oficina mecânica da família. Precisou
pedir para ser mandado embora da empresa que trabalhava para
dar apoio ao pai que não conseguia mais cuidar da oficina desde a
morte da esposa há dois anos. Ivone havia sofrido durante muitos
anos com sérios problemas cardíacos, até que chegou um dia em
que seu frágil coração não resistiu. Foi um baque para toda a
família, mas era necessário seguir com a vida. Daniel lamentou
muito quando trancou a matrícula da faculdade, mas espera voltar
em breve.

Leonardo passou a semana inteira pensando no encontro que teria


no shopping; estava muito ansioso para rever Suzana, por isso

41
Tânia Gonzales

naquela manhã de sexta-feira, ele acordou muito animado,


havia recebido uma ligação de Letícia confirmando o encontro.
Qual seria a reação de Suzana? Será que ela ficaria zangada com a
Letícia? Estas eram as perguntas que não saíam da mente de
Leonardo. Tinha uma vontade imensa de ouvir a voz dela,
desejava conversar de verdade com ela. Queria saber quais os
sonhos de Suzana, o que ela gostava de fazer, qual a comida
preferida, enfim, Leonardo desejava muito conhecê-la e fazer
parte da vida dela.

Leonardo chegou ao shopping uns trinta minutos antes do horário


marcado por Letícia, alguns minutos depois foi a vez de Daniel
chegar.
_ Olá, Leonardo e aí tudo bem com você? - perguntou Daniel
assim que se aproximou de Leonardo.
_ Tudo beleza, Daniel! E você?
_ Eu estou ótimo. Será que as duas vão demorar?
_ Eu acho que não. E então... você e a Letícia estão namorando?
_ Estamos começando... a Letícia é incrível, ela é tão especial...
bom.. você sabe melhor do que eu.
_ Eu não vou negar que conheço bem a Letícia, nem daria, né?
Você tem razão quando diz que ela é especial; a Letícia é como
uma irmã mais nova pra mim... mas não precisa ficar com ciúme.
_ Não, é claro que não! Eu entendo, a Letícia me contou que vocês
se conhecem desde crianças e ela também me falou que os pais
dela e os seus são doídos para que vocês namorem.
_ É isso mesmo, mas não esquenta! É normal eles desejarem isso,
mas … elas chegaram - disse Leonardo ao ver que Letícia e
Suzana estavam se aproximando.
Quando Suzana viu Leonardo sentiu uma vontade incontrolável de
sair dali rapidamente, ela logo percebeu o que estava acontecendo

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

pois também avistou Daniel, então, antes que eles pudessem ouví-
la, ela falou com Letícia:
_ Não acredito que você fez isso comigo, Letícia. Eu vou embora.
_ Suzana, olha, espera... não vai não! Me desculpe, mas é que eu
preciso conversar com o Daniel e …
_ Eu vou embora, você fica.
_ Mas Su... vai ficar estranho você chegar sozinha... eu não quero
que você vá. Me dê uma hora, só uma, vai!
_ E eu vou fazer o quê?
_ O Léo é um cara legal, converse um pouco com ele, não custa,
vai!
_ Letícia... eu...
_ Por favor! Faz isso por mim!
_ Mas é só uma hora!
_ Valeu, amiga! - dizendo isso Letícia pegou Suzana pelo braço e
foi ao encontro dos rapazes.
Letícia cumprimentou Leonardo e Daniel com um beijo no rosto,
Suzana falou um discreto “oi” para os dois e em seguida Letícia e
Daniel se afastaram. Por um momento Leonardo ficou sem saber
o que dizer, pois Suzana estava com uma expressão que não o
encorajava, mas ele sabia que tinha que fazer alguma coisa para
quebrar o gelo; ele era um rapaz bem extrovertido, mas diante dela
não estava conseguindo pensar direito.
_ É... nós temos uma hora, o que você gostaria de fazer?
Suzana gostaria de dizer: “ Quero fugir de você”. Mas como isso
seria muito embaraçoso, ela disse simplesmente:
_ Eu quero ver uns livros- e em seguida foi até a megastore que
ela conhecia muito bem, pois estavam no mesmo shopping onde
ela trabalhava.
_ Tudo bem- respondeu Leonardo seguindo-a.
Suzana entrou na loja e começou a procurar um livro, Leonardo se

43
Tânia Gonzales

aproximou dela.
_ Olha, Leonardo, você não precisa ficar aqui comigo, pode fazer
outra coisa que depois eu ligo pra Letícia.
_ Nem pensar, eu não vou me afastar de você e adorei ouvir o meu
nome na sua boca, foi a primeira vez e eu …
_ Vamos deixar as coisas bem claras- começou Suzana em um tom
nada amigável apesar de manter a voz bem baixa- eu não quero
conversar com você, não estou interessada em conhecê-lo... só
estou aqui porque a Letícia me pediu, só por isso, então...
_ Calma, eu falei alguma coisa errada?
_ Eu já falei que não quero...
_ Suzana, qual o problema com você? Eu só gostaria de conhecê-
la melhor, ser seu amigo.
_ Eu não quero ser sua amiga... eu não sei o que você está
pretendendo, mas...
_ Nossa, como você é direta.
_ É melhor assim - dizendo isso Suzana voltou a olhar para os
livros.
Leonardo ficou sem saber o que fazer, era uma situação bem
desconfortável; permaneceu dentro da loja mas manteve uma certa
distância de Suzana que continuava muito interessada nos livros.
Após quase uma hora, ela pagou pelo livro que havia escolhido e
ligou para Letícia informando o local em que estava. Enquanto
esperavam por Daniel e Letícia, os dois permaneceram em
silêncio; Suzana aproveitou para começar a leitura do livro,
Leonardo observava o movimento do shopping e às vezes olhava
para Suzana, bem discretamente.
_ Demoramos? - perguntou Letícia ao se aproximar.
_ Vamos embora? - perguntou Suzana apressadamente.
_ Embora? Vamos comer! Estou morrendo de fome, você não? -
quis saber Letícia.

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_ Eu prefiro ir embora.
_ Nem pensar, Suzana! Vamos comer.
Letícia puxou Suzana para levá-la à praça de alimentação.
Resolveram comer pizza. Daniel e Letícia conversavam
animadamente, mas Suzana e Leonardo ficaram em silêncio quase
que o tempo todo, Letícia logo percebeu que o clima entre eles
não estava nada bom.
_ Agora sim podemos ir! - anunciou Letícia- Léo, você dá uma
carona pra o Daniel, ele preferiu vir sem carro só para poder voltar
juntinho comigo, ele não é um amor?
_ Beleza! Mas logo, logo, você vai poder levá-la para casa,
Daniel! - disse Leonardo.
_ Assim eu espero.
A última coisa que Suzana queria naquela noite era sentar-se ao
lado de Leonardo no carro, mas ela não ia ser chata ao ponto de
separar um casal apaixonado. Sentiu-se extremamente
desconfortável por estar tão próxima dele, ficou o caminho todo
olhando para o lado oposto e não disse uma palavra durante todo
o percurso; Leonardo dirigiu calado a maior parte do tempo, só
quebrava o silêncio quando Letícia ou Daniel faziam algum
comentário que o envolvia.
Depois que deixaram Daniel, Letícia tentou descobrir o que estava
acontecendo entre os dois, mas percebeu que não iria obter
sucesso, o clima estava tenso, então ela resolveu esperar para
perguntar ao amigo.
Ao descer do carro, Suzana disse um quase inaudível boa noite e
saiu rapidamente. Letícia aproveitou para questionar Leonardo.
_ O que aconteceu entre vocês? Não me diga que tentou beijá-la?
_ Não viaja, Leca! Beijá-la? Se eu fizesse isso acho que ela me
mataria!
_ Que exagero! Mas o que aconteceu?

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Tânia Gonzales

_ Nada! Nem sei dizer... ela quis ver uns livros eu a acompanhei,
ela me falou que eu não precisava ficar ali... e... sei lá, depois ela
falou que não queria ser meu amigo.
_ Só isso? Léo, você fez alguma coisa... não é possível, o que você
disse pra ela?
_ Olha, a única coisa que eu disse...bom... não é nada demais...
_Fala.
_Ela disse o meu nome e eu gostei, uma bobagem, sabe? Eu gostei
de ouvir o meu nome na boca dela e mencionei isso.
_ Léo, eu não disse que era pra você ir devagar?
_ Mais devagar do que isso?
_ A Suzana é … diferente, é isso! Já desanimou?
_ Não! Mas eu fiquei tão sem graça! Você acredita?
_ Meu amigo! Eu preciso entrar, mas valeu! Não fica triste.
Leonardo se despediu da amiga e durante o caminho para casa
continuou pensando em Suzana; ele havia esperado com tanta
ansiedade por aquele encontro que fora um verdadeiro fiasco. Mas
ele não iria desistir, o desafio estava apenas começando.

Naquela noite Suzana sonhou que estava em um lugar escuro e


fechado e que de repente aparecia alguém que se aproximava dela,
mas ela não conseguia enxergar... só dava para perceber que era
um homem e ele dizia algumas palavras que a princípio ela não
conseguiu entender, mas conforme ele repetia as mesmas palavras,
ele aumentava o volume da voz e ela pôde ouvir:
_ Você é minha! Você é minha! Você não pode pertencer a mais
ninguém! E sabe disso muito bem.
Suzana queria dizer que ela não pertencia a ele mas as palavras
não saíam.
_ Minha linda, vou fazê-la feliz novamente! Você é minha.
Então ele a abraçou e começou a apertá-la cada vez mais forte

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

enquanto dizia:
_ Minha, você é minha! Só minha!
Suzana acordou muito assustada, começou a chorar bem baixinho
e dizer:
_Será que isso nunca vai acabar? Será que eu não vou me livrar
disso? Meu Deus! Meu Deus!

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Tânia Gonzales

Capítulo 5 -R.E.M.A.
Regina estava muito preocupada com a filha, como era difícil
convencê-la a se alimentar melhor. Paula sempre dizia que não
estava com fome e quando olhava-se no espelho sempre
reclamava da aparência. Nos últimos dias sua obsessão pela
magreza havia aumentado, pois estava aguardando ser chamada
para realizar umas fotos.
_ Paula, você precisa estudar, ocupar a mente com algo produtivo,
filha eu acho que...
_ Não acredito! Você vai começar com essa história novamente?
Eu já disse mil vezes que não vou para a faculdade, pelo menos
por enquanto. Tenho outras prioridades, mãe.
_ Qual? Ficar doente por falta de nutrientes em seu corpo?
_ Que drama! Quem vai ficar doente? Sabe qual é o problema de
vocês? Sempre acham que os filhos precisam comer mais.
_ Você está comendo como um passarinho.
_ Mãe, entenda uma coisa de uma vez por todas: eu preciso
perder 5 quilos! Preciso muito perder 5 quilos! Este é o meu
objetivo e por favor não me atrapalhe!
_ Você sempre precisa perder 5 quilos! Se você emagrecer tudo
isso você vai ficar doente, filha!
_ Que papo chato, olha... eu não ia para a reunião da REMA, mas
pra não precisar ouvir esses absurdos...
_ Vai ser bom você se encontrar com os jovens da igreja.
Paula estava se referindo a um trabalho especial que o líder de
jovens da IGAG, Mateus, havia criado. A REMA: rede melhores
amigos, era realizada há dois anos, desde que ele havia assumido a
liderança. Funcionava assim: era realizado um sorteio entre todos
os jovens que iriam participar; cada jovem pegava um papel onde

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

estaria escrito o nome do grupo que ele iria fazer parte durante os
próximos três meses; cada grupo era formado por 8 jovens e um
casal de líderes. Uma das regras da rede era que cada grupo
deveria se encontrar uma vez por semana e o encontro precisaria
durar uma hora pelo menos. Outra regra: todos os membros do
grupo deveria ter o número de telefone um do outro e também
saber o endereço de cada um, para que caso algum participante
faltasse pudesse ser contactado. Se algum jovem percebesse algum
problema com um membro do grupo também teria a liberdade de
entrar em contato para conversar e tentar ajudar de alguma
maneira. A REMA existia justamente para promover a união e a
integração entre os jovens. Naquele sábado seria o primeiro
encontro do grupo que Paula pertencia, o Alfa, que seria liderado
pelo casal: Jônatas e Jessica. O líder havia marcado uma rápida
reunião na IGAG para depois saírem.
Leonardo e Letícia também iriam fazer parte do mesmo grupo, era
a primeira vez que isso acontecia.
Apesar da maioria dos jovens ter muitos compromissos durante a
semana com os estudos e o trabalho, a REMA era um sucesso
entre eles; todos se esforçavam para participar dos compromissos
que eram sempre combinados antes para não ocorrer problemas
com a agenda de cada um.
_ Oi, Léo! Só vim porque você faz parte do mesmo grupo que eu!-
disse Paula assim que se aproximou de Leonardo que já estava
esperando o início da reunião do grupo Alfa.
_ Paulinha, minha linda! Você está bem?
_ Estou legal! Só espero que não inventem algum programa que
envolva uma porção de calorias!
_ Você e as calorias não se entendem mesmo, né?
_ É só elas ficarem bem longe de mim - comentou Paulinha para
em seguida cumprimentar o líder do grupo que havia chegado- Oi,

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Tânia Gonzales

Jônatas!
_ Olá! Paz queridos! Estão animados? - perguntou Jônatas.
_ Tudo depende de você, líder. - disse Paula.
_Que responsabilidade, Jô! - foram as palavras de Leonardo.
_ Pois é! Quem está faltando ?
_ Acho que só a Letícia e a Kátia – disse Leonardo.
_Vamos esperar mais um pouquinho... nem vai ser preciso...
-constatou Jônatas ao ver Letícia que veio com Suzana.
_ Que vergonha! Vocês só estavam esperando por nós duas? -
perguntou Letícia.
_ Tudo bem, vocês estão dentro do horário - disse Jessica, a
esposa de Jônatas.
Letícia cumprimentou todos os participantes do grupo e
aproveitou para apresentar Suzana. Como Letícia sempre
cumprimentava os amigos com um beijo ela precisou fazer o
mesmo, ficou sem jeito quando se aproximou de Leonardo, mas
seria muito estranho se ela o evitasse, assim Suzana também deu
um beijo no rosto dele, era a primeira vez que eles ficavam tão
próximos um do outro, o coração dos dois disparou e Suzana
corou.
Jônatas iniciou a reunião com uma oração, em seguida agradeceu
a participação de todos e aproveitou para fazer uma explicação
que julgou necessária.
_ Eu preciso explicar para vocês o motivo da ausência da Kátia
em nosso grupo. Ela agora pertence ao grupo Ágape e por quê? É
o seguinte: a Letícia me procurou para saber se seria possível que
a amiga dela, Suzana, fizesse parte do mesmo grupo que ela, pois
é a primeira vez que Suzana vai participar da REMA. Como ela
ainda não conhece o pessoal daqui seria melhor as duas estarem
juntas. Bom, eu concordei, mas vocês sabem que o grupo é
formado por 10 pessoas e aqui vale uma explicação: Por que dez?

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

A razão é muito simples: é a quantidade certa para dois carros,


isso facilita nossas saídas. É só isso, não tem nada místico.
Continuando, como nós já estávamos com os grupos todos
formados, eu conversei com a Kátia e ela concordou com uma
mudança de grupo. Como o Ágape estava apenas com 9
integrantes... Eu faço questão de esclarecer para não surgir
comentários do tipo: Será que a Kátia não gostou dos
componentes? Existe algum problema entre ela e algum outro
membro do grupo? A resposta é não! O nosso objetivo com a
REMA é justamente a união e a integração de cada jovem. Suzana,
você é muito bem-vinda à nossa rede; esta linda mulher aqui-
disse Jônatas apontando para Jessica- é a minha esposa, o nome
dela é Jessica e ela também é líder do grupo Alfa. Hoje nós vamos
ao shopping dar um passeio. Vamos fazer um sorteio para definir
as duplas que estarão caminhando pelo shopping para se
conhecerem melhor. Durante o período de uma hora vocês estarão
livres para conversarem com o seu parceiro. E depois... comida! O
local de reencontro das cinco duplas será a praça de alimentação.
Vamos ao sorteio do nosso “ Parceiros do diálogo”.
Suzana estava torcendo para não tirar o nome de Leonardo e ele
queria muito ter uma hora para conversar com ela, mas como ele
foi o primeiro a pegar o papel, logo viu que faria dupla com
Paulinha; Letícia iria conversar com Jônatas; Suzana com Jessica,
o que a deixou aliviada; Willian faria dupla com Vitória e Renan
com Camila.
_ Hoje vamos usar o meu carro e do Leonardo, na próxima
semana nós mudamos. Então aproveitem para já irem com os seus
pares, é claro que vamos precisar separar uma dupla, mas é só até
chegarmos ao shopping - explicou Jônatas.
Como Suzana fazia par com Jessica e Letícia com Jônatas, as duas
foram no carro do líder do grupo.

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Tânia Gonzales

Leonardo lamentou por não ter a oportunidade de se aproximar de


Suzana.
Quando chegaram ao shopping, cada dupla seguiu o seu caminho.
_ Fiquei feliz por fazer dupla com você, Léo! - disse Paulinha.
_ Legal! Eu quero saber como você está, pelo papo lá na igreja
você continua com a ideia fixa em dietas, estou certo?
_ Léo, meu querido! Eu não vou mudar de ideia! Não adianta você
começar com aquele velho discurso: Você precisa se alimentar,
senão vai ficar doente... blá, blá, blá, blá... isso eu ouço todos os
dias. A minha mãe não se cansa...
_Ela está certa. Eu acho que você deveria ouví-la, afinal ela fala
isso para o seu bem.
_ Léo, como você está chato! Que droga! Eu tinha ficado feliz por
fazer dupla com você, mas estou me arrependendo, eu nem ia
participar da reunião de hoje, só resolvi porque a minha mãe
estava com esta mesma conversa.
_ Você sabe muito bem que não pode faltar.
_ Léo! Dá licença... se eu quiser faltar quem é que vai me
impedir?
_ Paulinha! Eu estou falando sério, eu acho que você emagreceu
muito desde o seu aniversário!
_ Você está precisando usar óculos! Olhe pra mim, olhou?
_ Olhei e sabe o que eu vi? Uma garota linda que não precisa de
dietas mirabolantes.
_ Agora eu comprovei que você está mesmo com problemas na
visão. Léo, sua amiga aqui está gorda... gorda! Mas eu vou
resolver isso.
_ Paulinha, gorda? Acho que quem está com problema de visão é
você! Vem comigo.
_ Aonde você vai me levar?
Leonardo puxou Paulinha pelo braço e a levou até uma loja para

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

que ela pudesse se olhar no espelho.


_Para com isso, Léo! Não vou me olhar no espelho!
_ Olha isso, veja que garota linda, veja!
_ Eu vou embora! Depois você vai ter que se explicar com o
Jônatas e ele não vai gostar nada! Você sabe muito bem que o
objetivo da REMA é a união... e eu estou com vontade de brigar
com você! Caramba!
_ Linda, para com isso! Tudo bem, se você não quer... mas eu
estou falando sério, você não precisa disso!
_Agora vamos falar sobre o advogado Leonardo, chega de falar
sobre mim... senão eu vou embora!
_Tudo bem, sua teimosa!
Leonardo e Paula passaram os minutos seguintes conversando
sobre o trabalho dele; depois encontraram-se com os outros na
praça de alimentação, Paula bem que tentou escapar, mas o amigo
a puxou pelo braço. Comeram esfiha. Paula só tomou um suco de
laranja disse estar sem fome, o que provocou um olhar de
reprovação de Leonardo.
Como Renan e Vitória deixaram os carros no estacionamento da
igreja, Jônatas combinou com Leonardo para que ele levasse
Letícia, Suzana, Paula e o Willian, assim só o carro de Jônatas
precisaria ir até a igreja.
Paula sentou-se ao lado de Leonardo e ficou conversando
animadamente com ele. Suzana percebeu o quanto os dois eram
íntimos e isso a desagradou, mas ela não sabia dizer o porquê.
Após deixar Paulinha e Willian em suas respectivas casas,
Leonardo parou o carro entre a casa de Letícia e Suzana, desceu e
enquanto Suzana abria o portão ele se aproximou dela e disse:
_ Eu fiquei muito feliz ao vê-la hoje, pena que o sentimento não é
recíproco, mas mesmo assim valeu a pena. Especialmente ontem
eu fiquei com uma vontade imensa de falar com você. Olhar para

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Tânia Gonzales

o seu rostinho lindo é como ganhar um presente muito especial.


Eu só ficaria mais feliz se você dissesse o meu nome.
Suzana não sabia o que dizer, ela ficou surpresa com as palavras
dele, foram totalmente inesperadas, por isso o som que Leonardo
ouviu não foi o de seu nome sendo pronunciado, mas um tímido:
_ Boa noite!
_ Tchau, Su! Eu também estou aqui, lembra? - disse Letícia.
_ Desculpa Letícia... tchau, depois a gente conversa.
Suzana entrou rapidamente e Leonardo aproveitou para conversar
com a amiga.
_ Por que será que para ela é tão difícil pronunciar o meu nome?
_ Você não tem jeito mesmo! Léo, pensa que eu não ouvi o que
você disse pra ela?
_ Eu disse alguma coisa errada? Eu só falei a verdade. Disse
exatamente o que estava passando pela minha mente naquele
instante. Fui tão sincero! Não é disso que vocês gostam?
_ Meu amigo, eu fui tão clara com você! Eu falei pra você ir com
calma, mas você não consegue resistir. “ Especialmente ontem”;
ontem foi dia dos namorados, você não tem jeito! Mas eu até
estou surpresa por você não ter comprado um presente pra ela.
_ Você não me disse para ir devagar? Hoje eu só fui...
_ Extremamente romântico!
_ Você achou mesmo?
_ Léo, eu achei uma graça, mas a Suzana é muito tímida com
rapazes.
_ E eu torci tanto para formar dupla com ela! Pelo menos ela foi
conversar com a Jessica, menos mal.
_ Mas pode se preparar, você sabe muito bem que todos vão ter a
oportunidade de conversar com cada membro do grupo. Vai
chegar um dia em que a Suzana vai ficar uma hora conversando
com o Willian, por exemplo.

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_ Você está certa, mas o meu dia também vai chegar.


Os dois amigos ainda estavam conversando quando o pai de
Suzana, Davi, chegou do trabalho, ele os cumprimentou e Letícia
aproveitou para apresentar Leonardo.
_ É bom ir fazendo amizade com o sogrinho! - brincou Letícia
assim que o pai de Suzana entrou.
_ Quem sabe eu precise primeiro conquistar o pai … eu acho que
deve ser bem mais fácil!

Davi encontrou as duas filhas assistindo TV, a esposa, Marina,


estava de plantão no hospital naquela noite de sábado. Após
cumprimentar as filhas, fez um comentário sobre o jovem que
havia acabado de conhecer.
_ Que rapaz educado! E ele é bonitão, né? Não sei não, aqueles
dois devem ter mais alguma coisa... não deve ser só amizade...
formam um casal muito bonito.
_ Pai, os dois são só amigos! - disse Suzana, que não entendeu
porque a incomodava tanto esse tipo de comentário sobre
Leonardo.
Naquela noite, Suzana teve um sonho bem diferente dos que
estava acostumada.
_ Você não vai me fazer feliz? É tão fácil! É só você dizer meu
nome.. diz...por favor - eram a palavras de Leonardo.
_ Boa noite, Leonardo!
Leonardo agradeceu com um largo sorriso que fez o coração de
Suzana disparar. Neste momento ela acordou e disse sussurrando:
_ Boa noite, Leonardo!
Naquela noite, Leonardo também sonhou, o que era raro
acontecer. Sonhou que havia tirado o nome de Suzana para
conversarem durante uma hora.
_ Eu estava torcendo para que você fosse a minha parceira de

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Tânia Gonzales

diálogo hoje- começou Leonardo- Conversar com você durante


uma hora será maravilhoso.
_ Pois eu estava torcendo para não tirá-lo! - revelou Suzana com
rispidez.
_ Por quê? O que foi que eu fiz?
_ O motivo é muito simples: eu não suporto você! Eu gostaria
muito que você não me dirigisse mais a palavra.
_ Calma! O objetivo da REMA é a união entre os jovens...nós não
podemos ser amigos?
_ Eu não quero ser sua amiga e não quero mais falar com você!
Será que eu fui clara? Já disse que não te suporto! E quer saber?
Eu vou embora, não preciso e não quero ficar aqui com você.
O sonho de Leonardo terminou com Suzana correndo.

“ Que sonho! É inacreditável! Pelo menos em meu sonho ela


poderia ser mais gentil, mais meiga comigo... mas nem em sonho
ela me quer! “- pensou ele.

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Capítulo 6 -Problemas
Paulo Reis teria uma semana muito agitada. Os compromissos
para pregar já se iniciava em plena segunda-feira, o que provocou
uma séria discussão com a esposa.
_ Que maravilha, Paulo! Então, hoje à tarde você não vai ficar
cuidando da loja? É claro, as pessoas estão esperando pelo grande
pregador! - disse Regina com ironia.
_ Regina, cuidado! Isso é jeito de falar?
_ Me desculpe, querido! É que eu já fiquei a manhã inteira
ocupada organizando algumas coisas na loja e pensei que o meu
querido marido iria ficar lá à tarde. É que eu tenho pouco serviço
aqui em casa, sabe? Quase nada, pensei que poderia descansar -
ela continuou com a ironia.
_ Regina, eu não estou gostando nada do seu tom, fala direito
comigo! Eu passei a manhã inteira em oração e leitura da Palavra,
me preparando para o culto e você com os seus comentários
maldosos está atrapalhando tudo.
_ Me desculpe, grande pregador! Me desculpe por precisar de
você às vezes e não poder contar, me desculpe por ser sua esposa,
me desculpe por viver- ao dizer isso Regina desabou, começou a
chorar.
Paulo sabia muito bem usar as palavras certas em um sermão,
mas não conseguia se expressar quando o assunto envolvia
sentimentos. Saiu sem dizer nada para a esposa, que ainda ficou
por alguns minutos ali na sala de sua casa, em prantos. Voltou
após uma hora e encontrou a esposa deitada no sofá da sala.
_ Ainda está aí, Regina? Almoçou pelo menos? Eu já comi na rua-
informou Paulo.
_ Que consideração a sua, como você é sensível, Paulo! Olha, se

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Tânia Gonzales

tem uma coisa que eu admiro em você é a sua sensibilidade!


_ Regina, já vai começar?
_ É verdade querido! Você é um esposo e pai sempre tão
presente! Faz questão de fazer programas com a família e...
_ Para com isso, Regina! Você é tão injusta! Eu levei você para
Poços de Caldas não faz muito tempo e é assim que você me
agradece?
_ Demorou para jogar na minha cara, como demorou! Paulo, eu
nem sei como você me convidou para irmos juntos, fiquei muito
surpresa.
_ Regina, eu estou ficando nervoso... estava tão tranquilo hoje
pela manhã, sentindo uma paz tão gostosa e agora...
_ Como é duro ouvir a verdade, né, Paulo? Principalmente você
que é um homem tão respeitado, que sabe usar as palavras certas
para comover a multidão, mas não sabe dizer uma palavra de
carinho que alcance o meu coração e o de nossa filha.
_ Pare com este drama, Regina.
_ É difícil ouvir... mas eu preciso falar, cansei de ficar guardando
tudo. Cansei de ser a esposa perfeita, que entende a importância
do ministério do marido, sabe por quê? Porque o meu marido não
sabe a importância de sua própria família. Ele diz para os outros
valorizarem as suas famílias enquanto ele não valoriza a dele!
Você acha mesmo que Deus está satisfeito com você?
_ Você está doente, Regina. É uma doença espiritual. Você precisa
ter comunhão com Deus.
_ Para, pode parar! Agora você vai pregar pra mim? Viva o que
você prega, entendeu? Se você praticar o que diz em seus
sermões, com certeza nossa família será feliz.
Paulo foi para o quarto, pois não sabia mais o que dizer .

Paulinha ouviu toda a conversa dos pais sem que eles percebessem

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

a sua presença, depois saiu e ficou andando sem destino pelas


ruas, até que decidiu ligar para Leonardo, que estava trabalhando;
combinou buscá-la para que pudessem conversar, pois percebeu
que ela não estava bem.
_ Oi, Paulinha! O que aconteceu?- perguntou Leonardo assim que
ela entrou em seu carro.
_ Me desculpe, sei que você estava trabalhando, mas eu precisava
desabafar.
_ Não precisa se desculpar. Vamos para algum lugar, que tal tomar
um cafezinho?
_ Se for só um cafezinho, tudo bem!
Os dois pararam em uma padaria. Leonardo resolveu comer um
lanche, Paulinha só aceitou tomar um café.
_ Sem comentários – disse Leonardo ao ver que amiga não ia
comer nada- ou melhor só um- ao dizer isso ele segurou o braço
dela- que bracinho é este? Até parece o braço de uma menina com
5 anos de idade!
_ Me poupe, Léo! Só hoje, tá?
_ Tudo bem, mas me conta, o que aconteceu?
_ São os meus pais. Hoje eles discutiram feio!
_ Se você quiser contar os detalhes, tudo bem, mas se preferir
ocultá-los não tem problema.
_ Leonardo... eu tenho medo que meus pais se separem.
_ Mas eles falaram alguma coisa nesse sentido?
_ Não, mas minha mãe está tão infeliz! Você sabe que meu pai
viaja muito, que recebe muitos convites para pregar...
_ Sei...
_ E quando está em casa ele fica estudando... ajuda na loja, mas
sempre está com os livros nas mãos. É tão difícil conseguir a
atenção dele! Vive assistindo as próprias pregações e também as
de outros pregadores renomados. Para ele não existe nada mais

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Tânia Gonzales

importante do que o ministério. Outro dia eu comentei com ele


que o aniversário da mamãe estava chegando... sabe o que ele me
disse? Qual é o dia mesmo? E quando eu falei qual era, ele
simplesmente me informou que este era o mesmo dia da abertura
de um congresso em Campinas. Dá pra acreditar? E pior, não é ele
quem vai ser o pregador neste dia, mas ele vai prestigiar um amigo
dele. Quer dizer que ele prefere prestigiar um amigo do que a
esposa?
_ É complicado! Paulinha, eu acho que seu pai sabe muito bem
preparar um sermão, eu gosto de ouví-lo e admiro quem se dedica
ao ministério da palavra, mas quando isso atrapalha a
comunicação dos membros da família, aí é necessário parar com
tudo e refletir, porque com certeza Deus quer o melhor para a
família. Eu sei que sou novo ainda, mas já aprendi a importância
de haver diálogo entre as pessoas. Muitos querem realizar grandes
coisas nas igrejas, nos congressos, nas empresas e se esquecem
que a maior realização é saber conviver com os seus. O tempo
passa tão depressa... depois não adianta ficar chorando diante de
um caixão. Desculpe falar desse jeito... mas precisamos valorizar
mais as pessoas que amamos.
_ Leonardo, você tem toda a razão, mas meu pai não aceita
conselhos, ele adora dar conselhos, mas na hora de ouví-los! Ele
não admite o erro. Não sabe ouvir. Pensa que só porque estudou
muito, é o dono da verdade. Ele é bom na teoria, mas na prática é
péssimo. Outro dia ele deu uma palestra sobre:“ A comunicação
no lar”, dá pra acreditar?
_ Paulinha, você precisa dar muito carinho para sua mãe e parar de
se preocupar tanto com a aparência; outro dia ela comentou com a
minha mãe que você não se alimentava direito e que ela tinha
muito medo de você ficar anêmica.
_ Leonardo, o assunto hoje aqui é o grande pregador Paulo Reis e

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

não a filha dele. Que droga! Você sempre volta neste assunto
chato!
_ Teimosa. Come alguma coisa, por favor! Por mim.
_ Só se você me dar um beijo bem gostoso! - provocou Paula.
_Paula, sem brincadeira!
_ Quem disse que eu estou brincando? Eu deixo você me levar pra
jantar se você me beijar.
_ Isso é chantagem.
_Isso é carência... que custa? Você está sozinho, que eu sei... e eu
também... estou com saudades! Não seja mau.
_ Paula, o assunto mudou de uma maneira...
_ Você quer que eu me alimente e eu quero um beijo, você não
acha justo? Já imaginou a alegria da minha mãe ao saber que eu
jantei com você? Alegria em dose dupla: a filha dela resolveu
comer de verdade e em ótima companhia.
_ Você é tão esperta!
_ E aí? O que você me diz? Ou melhor, não precisa dizer nada... é
só... você sabe.
_ Você está falando sério? Paula, é melhor não.
_ Se eu desmaiar a culpa é toda sua.
_ Não faz isso.
_ Eu estou ficando tonta... não almocei hoje.
_Paula, para com isso.
_Que tontura... as coisas estão rodando... - ao dizer isso, Paula fez
que ia cair e Leonardo foi ampará-la, aproveitando que ele estava
próximo ela o beijou.
_ Que bom... eu tinha esquecido o quanto era gostoso.
_ Paula, isso não se faz … você se aproveitou da situação.
_ Você não quis, foi mesquinho...
_Mesquinho?
_É isso mesmo! E já que eu te beijei nós não vamos jantar.

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Tânia Gonzales

_ Vamos sim, eu vou te levar em um restaurante bem legal, ótima


comida...
_ Nem pensar, eu só vou com uma condição e você sabe muito
bem qual.
_ Então vou levá-la para casa.
_Pra sua? Você prefere que o beijo seja lá?
_Pare de gracinha! Para sua casa... e você vai jantar a deliciosa
comida da sua mãe, porque você é uma ótima filha e não vai
querer que a sua mãe fique mais triste do que ela já está.
_Depois eu que sou a chantagista!
Leonardo levou-a para casa e só saiu de lá depois que Paula se
alimentou. Regina ficou duplamente satisfeita.

Eram quase 23h30 quando Suzana chegou em casa naquela noite


de segunda-feira; Sueli, sua irmã, estava assistindo TV; ela tomou
um banho, preparou um café com leite, pegou algumas bolachas e
sentou-se ao lado da irmã.
_ Suzana, você não imagina quem eu vi hoje na padaria perto do
meu serviço?
_ Não imagino mesmo! Quem?
_ Eu estava lá, esperando meu lanche ficar pronto, quando de
repente eu vejo um rapaz alto, bem vestido com uma camisa social
azul e blazer preto...
_ Sueli? Não estou entendendo...
_Calma, deixa eu terminar a descrição do gato...
_Sueli, quem era? Nem sei por que eu estou me preocupando.
_Suzana, deixa eu fazer um suspense... o bonitão estava muito
bem acompanhado de uma loira linda que parecia uma top
model...
_ Sueli!
_ Tudo bem... eu vou contar... os dois estavam conversando,

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

quando de repente ele se aproximou dela e os dois deram o maior


beijo, lá mesmo na padaria!
_ E eu com isso?
_ Eu ainda não contei quem era o bonitão... você conhece... ele faz
parte do seu grupo.
Sueli também fazia parte de um grupo, o dela era o Ômega, que
também tinha Daniel como um dos componentes. Suzana agora
estava ansiosa e temerosa aguardando o nome do rapaz, mas a
irmã insistia em continuar com o suspense.
_ Quem era?
_ Esqueci de um detalhe: a loira linda também faz parte do seu
grupo! Que grupo animado, hein?
_ Sueli! Para com isso!
_ Tá legal eu vou falar... o casal apaixonado era nada mais nada
menos do que: Leonardo e Paula.
Suzana ficou sem palavras. Ela não conseguia entender o que
estava sentindo.
_ Tem certeza?
_ Claro! Eles devem ter reatado o namoro, pelo que eu fiquei
sabendo eles já namoraram, né?
_ É isso mesmo, agora chega de falar da vida dos outros... vou
dormir.
Suzana queria sair de perto da irmã antes que ela percebesse o
quanto aquela notícia havia mexido com ela. Demorou muito para
ela conseguir dormir. As palavras de Sueli não lhe saíam da
cabeça e as de Leonardo também:“ Rostinho lindo, né? Ele gosta
mesmo de um rostinho lindo! Ele é daqueles que adoram dizer
palavras bonitas para que depois as meninas bobas fiquem
lembrando e … chega... por que eu estou dando tanta
importância pra isso?”
Naquela noite não foi só Suzana que demorou a conciliar o sono,

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Tânia Gonzales

Regina também ficou rolando na cama, só pensando na discussão


que teve com o marido. Paulo Reis chegou pouco minutos após a
meia-noite e resolveu dormir no sofá.
Paula também teve uma noite bem agitada; sonhou que havia
recebido uma proposta de trabalho, mas quando a sessão de fotos
ia começar, as pessoas começavam a rir e dizer se as fotos eram
para alguma grife de roupa para gordinhas. Ela acordou muito
assustada. Levantou-se e foi direto para o espelho: “ Aquelas
pessoas estão certas, você é uma gorda! Por que você jantou hoje
como uma gorda gulosa, hein? Mas amanhã eu vou cuidar de
você.”

Naquela noite, Leonardo fez uma oração especial por Paulinha, ele
ficou muito preocupado com a amiga. Ele percebeu que todas as
vezes que a via ela estava mais magra e o pior é que sempre
Paulinha dizia o contrário. Ele achava muito estranho a atitude da
amiga, será que ela estava com uma daquelas doenças que afetam
as garotas que se preocupam demais com a aparência? Ele se
levantou e foi fazer uma rápida pesquisa pela internet. Digitou:
Bulimia e anorexia. Entrou em alguns sites que falavam sobre o
assunto e chegou a conclusão que a amiga apresentava sintomas
de anorexia.

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Capítulo 7 -Um presente

Suzana não conseguia entender o motivo de ter ficado tão


chateada com a história contada por sua irmã. Não havia razão
para ela se sentir assim, afinal entre ela e Leonardo não existia
nada, nem sequer uma amizade. Foi para a faculdade naquela
terça-feira e passou a manhã inteira imaginando a cena descrita
pela irmã. À tarde, durante o trabalho foi a mesma coisa. Ela
reconhecia que Paula era muito bonita, Sueli tinha razão em dizer
que ela parecia uma top model. Leonardo deveria ser louco por
ela. Suzana começou a lembrar de como os dois conversavam com
toda a animação no dia da REMA. O pior de tudo, era pensar que
quinta-feira eles teriam um novo encontro do grupo, pois Jônatas
resolveu marcar este dia para aproveitar a folga dela. Suzana
achava interessante o propósito da REMA, mas só de imaginar
que um dia teria que formar dupla com Leonardo, já se sentia
totalmente desconfortável.
No mesmo dia, no início da noite, Leonardo foi até a casa de
Letícia levar um presente.
_ Um presente para Suzana? Presente de dia dos namorados
atrasado? Você está querendo conquistá-la? - perguntou Letícia.
_ Não é uma estratégia de conquista, é que eu percebi que ela se
interessou muito por estes três livros, por isso resolvi comprá-los.
_Como você é observador! Bom, é de se esperar, né? Um
advogado precisa estar sempre atento aos detalhes.
_ Você entrega?
_ Por que você não entrega pessoalmente?
_ Do jeito que ela me trata é bem capaz de jogar os livros em cima
de mim!
_ A Su não faria isso!

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Tânia Gonzales

_Tenho minhas dúvidas.

No dia seguinte, antes de ir para a faculdade, Letícia foi até a casa


da amiga.
_ Desculpe o horário, eu sei que você está na correria para sair e
eu também, mas eu precisava lhe entregar isso.
_ O que é isso? - perguntou Suzana ao receber a caixa da amiga .
_ Um presente.
_ Pra mim? Você...
_Não, eu só estou entregando. Foi o Leonardo que mandou.
_Leonardo? Eu não posso aceitar.
_Por quê?
_O que ele está pensando? Ele acha que é só mandar um
presentinho e …
_Calma Su! Ele só quis ser gentil, abra!
_Abrir pra quê? Não vou aceitar, diz para o seu amigo que eu não
sou dessas que se conquistam com presentes!
_ Suzana, espera aí, o Léo não teve a intenção...
_ Você que pensa! Eu sei que você gosta muito dele, mas …
_ Su, abra o presente... não custa... estou curiosa.
_ Tá bom, mas eu só vou abrir porque você está pedindo.
Suzana abriu a bonita caixa florida, logo percebeu que Leonardo
havia comprado exatamente os livros que ela tinha se interessado
naquela dia em que eles se encontraram no shopping.
_ Como ele é espertinho! Ele ficou observando o tempo todo.
_Suzana, reconheça que ele merece um ponto por ter escolhido
direitinho!
_ Ele é muito esperto, é isso que ele é! Se ele pensa que pode me
comprar... ele gastou quase duzentos reais! Eu ia comprar estes
livros com calma, um de cada vez.
_ Então... fique com eles! Você vai precisar.

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_ Não posso! Por favor, Letícia, devolva.


_ Suzana, você está sendo injusta e ingrata.
_ Injusta e ingrata? Eu não sou boba. Letícia, eu não sou uma
garota experiente, mas....
_Suzana, eu conheço o Léo há muito tempo, eu sei que ele não é
do tipo que...
_ Letícia, não adianta, eu sei muito bem que você adora o
Leonardo, eu até entendo a sua preocupação em defendê-lo, mas
eu não tenho nada com ele e nem quero.
_ Nem amizade?
_ É isso mesmo, nem amizade. Eu já percebi qual é a intenção
dele, então, por favor, devolva.
Letícia percebeu que não havia mais argumentos diante da amiga
que estava decidida a não aceitar o presente, por isso, naquela
noite, ela ligou para o amigo para que ele fosse buscar o presente
rejeitado.
_Ela rejeitou o meu presente? - perguntou Leonardo,
inconformado.
_Sinto muito, amigo, mas não teve jeito... e eu insisti... ela acha
que você está querendo comprar a confiança dela.
_Ela pensa isso?
_ Léo, ela não te conhece.
_Ela não me dá oportunidade, como é que ela vai me conhecer?
_ Eu não sei por que, mas eu já percebi que ela está... magoada... é
isso, até parece que você fez alguma coisa muito errada, sei lá.
_ O que foi que eu fiz? Sinceramente, não sei.
_ Léo, Léo... amanhã você pode confrontá-la, vamos ter mais um
encontro do grupo.
_ Confrontá-la? Está brincando, né? Deixa pra lá, se ela quer que
eu mantenha distância, eu vou fazer a vontade dela.
_ Só faltava vocês dois formarem uma dupla amanhã.

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Tânia Gonzales

_ Espero que não, no outro dia eu estava torcendo pra isso, mas
agora … eu não vou impor a minha presença, se ela não me
suporta, o que eu posso fazer?
Letícia percebeu o quanto aquela situação estava machucando seu
amigo. Ele estava interessado em se aproximar de Suzana e ela
decidida a ficar bem longe dele.

A quinta-feira chegou e com ela o novo encontro da REMA.


Foram até um shopping em São Bernardo do Campo. Leonardo
formou dupla com o líder do grupo, Jônatas; Letícia com Jessica;
as outras duplas eram formadas por: Suzana e Willian; Renan e
Vitória e a última dupla: Paula e Camila.
Pensar que Suzana ficaria uma hora conversando com Willian,
deixou Leonardo muito chateado, mas ele sabia muito bem que
todos os participantes do grupo teriam a mesma oportunidade. Ele
gostava muito de Jônatas porque ele sempre tinha algo
interessante para dizer, mas naquele dia ele não conseguia se
concentrar no que o amigo estava dizendo, por várias vezes
Jônatas precisou repetir o que havia dito.
_ Me desculpe, Jô, hoje eu não estou em meu melhor dia.
_ Você está com algum problema? Quer se abrir comigo?
_ Não é nada... não se preocupe.
_ Leonardo, o nosso objetivo aqui é justamente de um ajudar ao
outro, você sabe! Mas se você não se sente à vontade para contar o
que está te afligindo, eu não vou insistir, mas pode ter certeza que
estarei orando por você.
_ Valeu amigo, é complicado...
_ Será que o problema envolve alguma garota?- perguntou
Jônatas.
_ É isso... uma garota muito difícil.
_ Leonardo, às vezes nós oramos por tudo, menos por aquilo que

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

mais está nos preocupando, pode até parecer contradição, mas é


verdade. Principalmente quando o assunto é o coração. Talvez
você pense que não deve ocupar Deus com isso, mas Ele quer que
você confie Nele nesses assuntos também. Se isso o está
preocupando, ao ponto de deixá-lo completamente desligado das
outras coisas, então, amigo, está na hora de conversar com o Pai.
Não pense que pode resolver sozinho. Pra que se afligir tanto?
Deus conhece o coração da garota que está tirando o seu sono,
então, com certeza não existe alguém mais qualificado para você
se abrir. Peça orientação a Deus.
_ Obrigado, Jô! É muito bom ter um amigo como você!
Leonardo e Jônatas foram os últimos a chegarem ao local
combinado pelo grupo. Leonardo logo percebeu que Suzana
estava toda animada conversando com Willian; ele concluiu que o
problema estava mesmo com ele, pois ela não tinha dificuldade
em fazer amizades.
_ E aí, Paulinha, como estão seus pais? - perguntou Leonardo ao
ficar a sós com ela no carro, após deixar Camila e Willian em suas
respectivas casas.
_ Você acredita que eles não estão conversando, desde segunda?
_ Sério? Que coisa chata. E como você está se sentindo?
_Péssima. Eles ficam me usando para poder atacar um ao outro. O
mais absurdo é que meu pai continua saindo, pregando por aí,
como se nada tivesse acontecido. E o pior é que sábado ele vai dar
uma palestra sobre família, lá em Indaiatuba. Pode?
_ E se alguém tentar conversar com o seu pai, você acha que ele
vai parar para ouvir?
_ É claro que não. Eu não posso contar pra mais ninguém... por
favor, Léo, isso não pode se espalhar... confio em você!
_Tudo bem, fique tranquila. Sendo assim, nós só podemos orar
por eles. E você está se alimentando melhor?

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Tânia Gonzales

_ Este assunto não vai rolar! Esquece isso.


Leonardo deixou Paulinha em casa e quando chegou na dele, fez
uma ligação para Letícia.
_ Oi, amigo! Eu sabia que você não ia resistir...o que você quer
saber?
_ Você viu como que a Suzana se deu bem com o Willian?
_ Está com ciúme! Não fica assim. O Willian trabalha no mesmo
ramo que a irmã da Suzana. Eles trabalham em telemarketing,
então ele contou algumas experiências dele. Ele começou a
trabalhar há poucos meses, é o primeiro emprego. E tem mais: a
mãe dele é professora e você sabe que a Suzana está cursando
Letras e o Willian é muito divertido.
_ Só comigo que ela não tem nada em comum, muito pelo
contrário.
_Não fica assim.
_Já me conformei... o caminho até o coração dela é muito
íngreme. Esta garota é inacessível, pelo menos para mim.
_ Ah... não fala assim... mas eu gostei do: “o caminho até o
coração dela é muito íngreme”, que poético! Uau!
_ Está se divertindo comigo, é?
_ Não mesmo... você sabe o quanto eu gosto de você e falando
nisso, a minha mãe também e exatamente por este motivo, é que
no próximo domingo você e a sua família estão convidados para
almoçar aqui em casa, sua mãe já sabe.
_ É mesmo? Tudo bem. Eu acho que vou aproveitar a
oportunidade e pedir permissão para te namorar... - brincou
Leonardo.
_Quem disse que eu quero?
_ Até você me despreza! Mas e o Daniel? Por que você não
aproveita e o convida também? Você tem todo o meu apoio.
_ Não viaja, Léo! Não vou arriscar, pelo menos por enquanto.

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Sábado pela manhã, Letícia foi até a casa de Suzana.


_ Oi, Sueli , tudo bem? - Letícia cumprimentou a irmã de Suzana
que estava assistindo TV.
_ Olá, Letícia! Senta aí, quais as novidades?
_ Nenhuma, e o seu grupo da REMA está bem entrosado? Você
está gostando das atividades?
_ Eu estou e você já está sabendo que na próxima semana vai
haver um torneio de boliche entre os nossos grupos?
_ É mesmo... a Jessica comentou.
_ Você perguntou se meu grupo está bem entrosado, né? Está sim,
mas nada que se compare ao seu.
_Por quê?
_ Sueli! Vai começar com a fofoca? - perguntou Suzana ao
perceber o que a irmã quis dizer com o comentário.
_ Suzana, dá um tempo! Eu só quero fazer uma pergunta para
Letícia, tenho certeza que ela a melhor pessoa...
_O que você quer perguntar? Do que vocês duas estão falando?
_ É que outro dia eu vi duas pessoas do seu grupo se beijando em
uma padaria próxima ao meu trabalho.
_ Sueli, para com isso! Que coisa feia ficar falando da vida dos
outros- protestou Suzana.
_ Agora você me deixou curiosa... dois do meu grupo se beijando?
_ É isso mesmo! Era o seu amigo Leonardo e a Paula.
_ Não acredito! Não pode ser!
_ Sueli... chega... eles são livres e você não tem nada a ver com
isso! - disse Suzana.
_ Eu acho que deve haver algum engano.
_Letícia, eu vi, não foi alguém que chegou e me contou. Eles
devem ter reataram o namoro...
_ O Léo teria me contado... tem alguma coisa errada nesta história,
eu sei que você não está mentindo, eu acredito em você, mas deve

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Tânia Gonzales

ter alguma explicação.


_ Meninas, não vão oferecer nada para Letícia? - perguntou
Marina ao entrar na sala.
_ Oi, dona Marina! Não se preocupe, já comi. Que bom que a
senhora está de folga hoje!
_ Eu estava mesmo precisando- disse Marina, dando um beijo em
Letícia e depois olhando para Suzana, disse: Filha, ontem eu
recebi uma ligação da mãe daquela menina que trabalha com
você... a Cláudia.
_ A mãe dela ligou?
_ É isso mesmo e não gostei nada do que ela me contou, viu? Eu
quero saber o porquê de você não me falar nada sobre os assaltos
que três meninas do shopping foram vítimas?
_ Mãe, para que se preocupar com isso? Acontece.
_Acontece? Suzana, o ladrão derrubou a Cláudia no chão ao
puxar a bolsa dela e você não me fala nada sobre isso? E a outra
garota quase que sofreu um abuso, só se livrou porque apareceu
alguém na hora, o bandido se assustou e saiu correndo.
_Mãe, eu não queria que você ficasse assim toda preocupada, foi
só por isso.
_ Suzana você deveria ter me contado... eu vou dar um jeito... não
sei como, mas você não vai mais voltar sozinha!
_ Mãe, que ideia é essa?
_ Nas duas semanas em que eu trabalho durante o dia eu vou
buscar você, nas outras duas... eu vou pensar em uma outra
solução.
_ Mãe, para com isso, a senhora chega cansada e ainda vai me
buscar? Nem pensar! Vai sair daqui de São Caetano para ir até o
Aricanduva? Todo esse sacrifício pra quê?
_Você ainda pergunta? Não adianta você falar nada.
_ Mãe, a senhora acha que todas as mulheres que trabalham vão

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

ter a mãe pra buscar? Eu não vou sozinha para a faculdade


também? E aí, a senhora vai me levar?
_ Não importa, eu estou falando de você. Pelo menos a sua
faculdade é de manhã, não que as coisas não aconteçam nesse
horário, mas à noite é pior e como logo as férias vão começar
sobre a faculdade nós podemos deixar para depois. Amanhã
mesmo eu vou te buscar! Desculpe, Letícia, mas eu fiquei muito
preocupada com tudo isso.
_ Dá pra entender, dona Marina. Está cada dia mais perigoso
andar por aí.
Letícia ficou mais alguns minutos conversando com as mulheres
da família Souza e depois foi para sua casa.

Domingo, a família Martins foi almoçar na casa da família Soares.


Até Beatriz, a irmã de Leonardo compareceu junto com o marido,
Bruno. Letícia conseguiu conversar com Leonardo alguns minutos
antes do almoço.
_ Eu preciso fazer uma pergunta, muito séria- começou Letícia.
_ Pergunta séria? Você quer saber se eu vou pedí-la em namoro
hoje?- brincou Leonardo.
_ Engraçadinho! Léo, você se encontrou com a Paula em uma
padaria, segunda-feira passada?
_ Como você sabe disso?
_Então é verdade! Voltaram a namorar e você não me contou
nada?
_ É claro que não! Que ideia!
_ Vocês se beijaram lá na padaria?
_ Tem alguém me seguindo?
_ Léo, não acredito! Depois fica aí todo magoado porque a Suzana
não fala com você e blá, blá, blá, blá...
_ Quem foi que te contou isso?

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Tânia Gonzales

_ Você beijou a Paula?


_ Eu vou contar tudo o que aconteceu, mas depois você vai me
dizer quem foi que nos viu lá.
Leonardo explicou tudo para a amiga, só não entrou em detalhes
sobre qual o problema que Paula estava enfrentando, já que a
amiga havia pedido para guardar segredo.
_ Então, foi isso, ela roubou um beijo seu! Como é difícil ser
irresistível!
_Agora me diz, quem contou?
Agora foi a vez dela explicar ao amigo.
_ É brincadeira, justo a irmã da Suzana tinha que presenciar
tudo?- disse Leonardo inconformado.
_ Veja pelo lado bom, de repente isso explica a reação da Suzana.
Ela não aceitou o seu presente e me falou aquelas coisas... vai
saber... ela pode muito bem ter pensado assim: “que rapaz mais
abusado! Beija uma em um dia e dá um presente para outra na
mesma semana!” Concorda? Mas não pense que ela me
confidenciou isso, é pura imaginação minha, tá?
_ Tudo bem, você pode ter razão. Quem sabe?
A seguir, Letícia aproveitou também para relatar sobre a
preocupação da mãe de Suzana por causa dos assaltos.
_ Como que a mãe dela vai até lá... vai ser muito cansativo. Qual
é o horário que a Suzana chega do serviço todos os dias? -
perguntou Leonardo.
_ Às onze e meia; é muito longe!
_ Se fosse de carro, ela chegaria dez e meia mais ou menos-
constatou Leonardo- Eu estou pensando... sem chance, ela nunca
iria concordar.
_ Concordar com o quê?
_ Se a Suzana não me detestasse, bem que eu poderia buscá-la... é
um horário em que eu estou totalmente livre e...

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_ Espertinho! Seria perfeito, imagine você ter a missão de buscá-la


todos os dias... você não iria gostar nadinha, né?
_ É melhor parar de sonhar acordado, ela nunca vai aceitar!
_ Eu posso conversar com a dona Marina... eu percebi que ela
ficou muito preocupada.
_ Comente com ela, de repente, se ela concordar, quem sabe ela
consiga convencer a filha.
Precisaram encerrar a conversa, porque o almoço já estava pronto.
Sandra, a mãe de Letícia, estava muito feliz por receber aquela
família tão querida; ela não perdia a esperança de Leonardo
namorar Letícia. Após almoçarem, Beatriz disse que tinha uma
notícia muito importante para dar e queria aproveitar a ocasião.
_ Eu e o Bruno estamos muito felizes, porque ontem nós pegamos
o resultado de um certo exame que deu... positivo! - informou
Beatriz com todo o entusiasmo.
_ Parabéns! - disse Sandra- Foi surpresa para todos aqui? Nem
você sabia, Lígia?
_ É isso mesmo! Ah, filha! Que notícia maravilhosa! - disse Lígia
dando um forte abraço na filha.
Todos os que estavam presentes, cumprimentaram o feliz casal.
_ Bia, minha irmã! Chegou a sua vez, dra. Beatriz! - disse
Leonardo para em seguida cumprimentar o cunhado- Parabéns,
papai Bruno!

Quando o culto do domingo à noite terminou, Letícia aproveitou


para conversar com a mãe de Suzana; a amiga estava trabalhando,
teria folga no próximo domingo.
_ Letícia, eu ficaria muito grata e muito aliviada também, mas não
sei... dar todo esse trabalho para ele e... seria muito difícil
convencer a Suzana... sei lá, nós nem o conhecemos.
_ A senhora pode ficar sossegada quanto ao caráter do Leonardo e

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Tânia Gonzales

não precisa se preocupar pelo trabalho que ele vai ter, pois foi ele
mesmo quem se ofereceu... agora, quanto à Suzana, bem... aí eu
concordo que vai ser um problema convencê-la.
Marina prometeu que teria uma conversa com o marido e depois
falaria com a filha; aproveitou a oportunidade e pediu para
Letícia apresentar Leonardo para ela. Eles conversaram por
alguns minutos e Marina saiu muito impressionada com o rapaz,
achou-o muito educado e gostou da maneira como ele se referia à
Suzana. No caminho para o shopping, ela aproveitou para
conversar com o marido, pois eles iriam juntos buscar a filha
naquela noite e como o culto na IGAG terminava às 19h30, eles
teriam tempo de sobra para chegar até lá.

_Davi, eu gostaria muito que a Suzana concordasse, isso me daria


muita tranquilidade e sabe o que mais? Eu percebi que o rapaz se
interessa por ela... Davi... você sabe que eu gostaria que a Suzana
se apaixonasse... Davi... nossa filha merece ser feliz, ela sofreu
tanto! Eu gostaria que ela conseguisse se relacionar com algum
rapaz e o Leonardo parece ser um bom rapaz, a Letícia o conhece
há anos, desde que eram crianças e a minha irmã comentou que a
mãe da Letícia, a dra. Sandra, gostaria muito que a filha
namorasse o Leonardo.
_E você ainda quer ver a nossa filha envolvida? Eles têm um
padrão de vida muito diferente do nosso... eu acho que a ideia
desse rapaz buscar Suzana... eu não sei... Marina esquece isso,
você vai arrumar confusão, a dra. Sandra é nossa vizinha e ainda
por cima congrega na mesma igreja.
_ Davi, a Letícia disse que eles se gostam como irmãos! A Marisa
também disse a mesma coisa.
_ O rapaz é advogado, trabalha no escritório junto com a pai, o
dr. Rafael, e você sabe que o pai da Letícia, o dr. Fernando, é

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

sócio lá? Esse pessoal gosta de deixar tudo em família, por isso
não fique sonhando!

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Tânia Gonzales

Capítulo 8 -Diagnóstico: Anorexia


Paula acordou muito feliz, pois ela iria participar de uma seleção
para a escolha de duas modelos para uma campanha publicitária.
Bebeu suco de laranja e comeu uma torrada com um pedaço de
queijo branco.
_ Mãe, hoje é o meu dia! Estou sentindo que tudo vai dar certo,
finalmente vou fazer um trabalho de verdade.
_ Calma, filha! Você sabe que eles só vão escolher duas meninas e
eu imagino que devem concorrer centenas e...
_ Mãe, uma das vagas com certeza é minha! E o papai?
_ Ele vai ficar o dia inteiro na loja, eu tenho que resolver alguns
problemas de documentação e fazer alguns pagamentos.
_ Então vocês conseguiram conversar como duas pessoas
civilizadas?
_Mais ou menos! Só o essencial.
_ Bom... eu já vou e fique torcendo por mim, tá? Um beijão em
seu coração e tchau!
Quando Paula chegou ao local marcado para a seleção, viu muitas
garotas lindas e magras. Logo começou a fazer comparações. “
Como eu estou gorda! Olha só aquela menina, ela é linda e que
corpo perfeito! Não tenho a mínima chance!”
Após esperar por quase três horas, finalmente chegou a vez de
Paulinha. Fez muitas poses para as fotos e estava sendo analisada
quando, de repente, ela começou a perceber que iria cair, tudo
estava girando... ela estava se sentindo péssima.
_ Eu... por favor... me ajude... - disse Paulinha para em seguida
desabar no chão diante dos olhares assustados de todos.
Foi levada até o hospital mais próximo, Karen, uma funcionária
da agência, conseguiu entrar em contato com a mãe de Paulinha.

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Regina conversou com o médico responsável pelo atendimento da


filha, o dr. Romeu, e ficou sabendo que Paulinha estava com uma
anemia profunda e ele aproveitou para perguntar sobre os
hábitos alimentares da paciente e logo as suas suspeitas se
confirmaram: a bonita garota de 19 anos estava sofrendo de um
distúrbio alimentar chamado de anorexia. O doutor, então,
começou a dar algumas explicações sobre a doença. Ele informou
que é uma doença grave e que é o resultado da preocupação
exagerada com o peso.
_ A sua filha se olha no espelho e mesmo estando extremamente
magra, ela se vê como uma obesa. Isso é muito perigoso, pois
pode causar problemas psiquiátricos graves, além dos problemas
físicos. A Paula está pesando 45 quilos, ela tem 1,80m de altura,
precisa ganhar peso urgente, mas é claro que ela não pode de uma
hora para outra começar a ingerir muitas calorias, é necessário um
acompanhamento nutricional muito bem feito, para que ela se
recupere aos poucos, mas ela precisa cooperar, precisa entender a
gravidade da situação.
Regina ficou muito aflita com tudo aquilo que o médico lhe
contou e sabia que ia precisar da ajuda de Deus para convencer
Paulinha a se alimentar de maneira correta.
_ Filha, como você está se sentindo?
_Péssima, eu estraguei tudo! Isso tinha que acontecer justo hoje?
Eles iam me escolher... tenho certeza! Preciso sair daqui, eu vou
terminar as fotos, quem sabe ainda dá tempo e...
_Filha? Pode esquecer isso, você precisa se cuidar! Eu falei tanto
para você se alimentar...
_ Não começa com esse papo chato, até aqui? Que droga!
_ Calma, não precisa ficar nervosa. Agora você precisa de
cuidados especiais, o doutor me disse que você está com anemia
profunda. Isso é muito sério, Paula!

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Tânia Gonzales

_ Anemia? Para com isso, deve ser algum engano. Eu estou ótima,
foi só porque eu fiquei muito tempo esperando.
_Paula, por favor, me ajude! Você precisa aceitar o tratamento.
Filha, eu não quero te perder... - disse Regina com lágrimas nos
olhos.
_ Ih... que drama! Mãe, para com essas ideias, você vai me perder,
por quê? Você acha que eu vou morrer assim tão jovem? Eu estou
bem, os médicos são assim mesmo, eles sempre exageram.
Foram interrompidas por uma batida na porta.
_Posso entrar? - perguntou Paulo Reis ao colocar a cabeça na
porta semi-aberta.
_ Oi, pai, é claro que pode, mas já vou avisando que não quero
ouvir nenhum sermão. - ironizou Paula.
_ Oi, Regina, eu conversei com o médico, ela já sabe?
_ Já, eu contei para ela sobre a anemia profunda, mas ela não está
acreditando.
_Filha, como você pode ser assim tão irresponsável? Sai de casa
sem se alimentar direito, fica por horas em uma fila e...
_ Foi pra isso que o meu querido e amado pai, o pregador das
multidões, veio até aqui? Se a resposta for sim, pode sair... dá
licença... não quero ouvir essas baboseiras... caramba! Não
acredito nisso, que droga!
_ É assim que você fala com o seu pai? Será que não aprendeu
tudo o que nós te ensinamos?- disse Paulo Reis indignado.
_Paulo, não é hora e nem o lugar para esse tipo de conversa.- disse
Regina.
_ O que você me ensinou, pai? Bom... deixa eu pensar um pouco...
ah... lembrei: você me ensinou que é melhor se esconder dos
problemas do que enfrentá-los e uma boa viagem para pregar em
congressos é uma ótima saída. Faz a obra de Deus para todos
verem e admirarem o grande pregador, e de quebra se livra da

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

filha e da esposa. Você ensina como os outros devem agir; a teoria


é maravilhosa, é perfeita, mas na prática a história é bem
diferente.
_ Você está indo longe demais, eu exijo que você me respeite. É
por isso que você está em uma cama de hospital, por não nos ouvir
e...
Paulo Reis foi interrompido por duas batidas na porta. Era
Leonardo.
_ Oi, boa tarde e … paz – disse Leonardo que percebeu o clima de
tensão.
_ Léo! Que bom te ver, amigo! - disse Paula com entusiasmo.
_Paz, Leonardo. É... eu e a Regina vamos deixá-los a sós- disse
Paulo Reis meio envergonhado.
_Eu te agradeço por ter vindo, Leonardo. Sei que você estava
trabalhando- foram as palavras de Regina.
_ Eu que agradeço por ter me avisado.
_Que bom que você apareceu – disse Paula com sinceridade,
assim que os pais saíram.
_ E aí, menina? Que susto você nos deu!
_ Não foi nada... eu só estava cansada, o que é normal, afinal eu
estava há três horas naquela fila e...
_ Linda, você sabe muito bem que não foi só por isso. Se você
estivesse se alimentando como deveria isso não teria acontecido.
_ Ah, Léo... até você? Eu estou tão cansada de todo esse papo,
poxa... eu sempre estou errada? O meu pai vem até aqui e ao invés
de me ajudar, sabe o que ele faz? Me dá a maior bronca e justo ele
que nunca está presente. Ele acha que eu... - Paula ficou em
silêncio, as lágrimas ocuparam o lugar das palavras.
_ Linda...não fique assim - disse Leonardo tentando consolá-la e
acariciando os cabelos de Paula, completou: Vai dar tudo certo.
Os dois permaneceram em silêncio por alguns minutos. Leonardo

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Tânia Gonzales

a abraçou com carinho. Era exatamente disso que Paula estava


precisando: de muito carinho.
_Eu quero sair daqui, Léo. Esse negócio vai me deixar uma bola-
disse Paula apontando para o soro.
_ Tenha paciência. Você não pode nem pensar em tirar o soro, está
me ouvindo?
_ Eu ouvi, mas não garanto nada.
_Linda, não faça nenhuma bobagem. Aceite o tratamento e logo
você vai voltar pra casa.
_ Eles iam me escolher, eu tenho certeza, Léo! Minhas fotos
devem ter ficado ótimas.
_ Não tenho dúvida disso. Você é linda... mas precisa se cuidar.
Com a saúde não se brinca.
_ Eu quero sair daqui... quero trabalhar... se eu ficar aqui por
muito tempo eu vou engordar.
_Pare de se preocupar com isso. Agora pense em se recuperar.
Paulinha...
_Já sei, eu tenho que me alimentar. Estou cansada, sabe? Muito
cansada … só ouço as pessoas dizerem as mesmas coisas... que
droga!
_Se você se alimentar direitinho ninguém precisa falar nada. A
solução está nas suas mãos e na sua linda boquinha.
_ Oiii! Posso? - disse Aline, ao entrar no quarto.
_ Prima! Que bom te ver!
_Oi, Aline. Bom... já que você chegou e vai fazer companhia para
esta linda garota, eu vou embora, preciso voltar ao escritório,
tenho um serviço para terminar- explicou Leonardo- Eu volto
amanhã. Cuide-se, minha linda.

À noite, os componentes do grupo Alfa foram até o hospital visitar


Paulinha. Como ela estava em um quarto particular eles puderam

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

entrar, mas somente dois de cada vez. Leonardo também voltou ao


hospital, a única que não pôde comparecer foi Suzana que estava
trabalhando, mas havia pedido para Letícia avisar que ela iria no
dia seguinte assim que saísse da faculdade.
Após a visita, Jônatas pediu para que todos os componentes do
grupo fossem até a sua casa, para uma rápida conversa.
_ Eu vou fazer um café e para animá-los eu vou logo avisando que
a Jessica preparou um delicioso bolo, enquanto isso ela vai
conversar com vocês- avisou Jônatas.
_ Eu sei que vocês já estão orando por Paulinha- começou Jessica-
mas nós precisamos nos unir ainda mais em oração e também no
sentido de visitá-la. Vamos cercá-la de carinho. Ligando para ela,
indo até a casa dela. Já temos os compromissos da REMA, mas
ela precisa ter mais contato com vocês. O problema dela é sério,
mas é necessário que vocês sejam bem discretos. Ela está sofrendo
de um distúrbio alimentar chamado de anorexia; nós sabemos
algumas coisa sobre o assunto por causa de reportagens, mas
agora cada membro de nosso grupo vai se informar melhor sobre
a doença, pensem nisso como uma lição de casa. Leonardo fez
uma pesquisa na semana passada justamente por ter desconfiado
dos sintomas que Paula estava apresentando. É muito importante
ter conhecimento do problema para poder ajudar. Concordam?
_ Você está certa, Jessica – afirmou Vitória- eu vou pesquisar
também.
_ Muito bem. Hoje em dia com toda a facilidade da internet vocês
terão todas as informações necessárias rapidamente. Aproveitem
para ler sobre histórias de outras meninas com o mesmo problema
e lembrem-se de manter isso em segredo. Vamos marcar uma
reunião para trocarmos as informações, mas enquanto Paula não
admitir que tem este problema nós vamos precisar de muita
sabedoria para ajudar sem invadir a privacidade dela. E todos nós

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Tânia Gonzales

sabemos muito bem para quem pedir sabedoria, não é? Jônatas?


Amor? Venha até aqui para orarmos juntos. Vamos pedir ao nosso
Deus que nos dê sabedoria, que Ele nos capacite para que
tenhamos vitória. Leonardo? Você pode fazer esta oração?
_ Claro, Jessica. Oremos: “ Nosso pai amado, estamos aqui
reunidos porque confiamos em Ti, sabemos que Tu és poderoso e
que só alcançaremos a vitória se estiveres à nossa frente. Estamos
com um sério problema, Paula, a nossa amiga querida, precisa de
todo o carinho, de toda a compreensão, mas se usarmos só a nossa
força, não seremos vitoriosos, precisamos de Ti, pois Tu és, Pai
amado, a nossa fortaleza. Eu te agradeço por este abençoado
grupo, por cada um que reserva parte de seu precioso tempo para
se reunir e ajudar uns aos outros. Isso só é possível pelo amor que
tens derramado no coração de cada um. Te amamos e oramos em o
nome de seu amado filho Jesus. Amém.”
Ao chegar em casa, Letícia ligou para Suzana contando sobre a
reunião da REMA. No outro dia, Suzana foi da faculdade para o
hospital visitar Paulinha acompanhada por Letícia que já estava de
férias.
_ É um problema muito sério, né? Esta necessidade de
acompanhar o padrão de beleza imposto pela indústria da moda é
absurda. Quantas meninas se sacrificam para agradar aos outros,
para ter uma profissão que dura pouco tempo- constatou com
pesar Letícia durante o caminho de volta.
_ Tem razão, Lê! É uma loucura... elas fazem de tudo para manter
o corpo perfeito, quero dizer, perfeito de acordo com os padrões
deles. E isso é tão prejudicial! A Paulinha está tão magra, mas
mesmo assim diz que precisa emagrecer mais. Isso é terrível! Ela
realmente está precisando de muita ajuda.- disse Suzana.
_ E aí, Su? Você me falou ontem que sua vó vinha pra cá, né?
_ Ah... é verdade. A vovó Vivi vai chegar hoje à tarde de Belo

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Horizonte. Estou tão feliz!


_ Vovó Vivi? Qual é o nome dela, é Viviane?
_ Não, é Vilma, mas nós a chamamos de Vivi, nem sei dizer quem
começou.
_ Ah, que legal! Ela é mãe de quem?
_ Da minha mãe.
_ Sua mãe deve estar muito feliz e a sua tia Marisa também, né?
_ Você nem imagina. Quem não está nada contente é a minha tia
Marli, ela mora com a minha vó, disse que já está com saudades.
Se não fosse pelo trabalho dela com certeza viria também. Ela é
enfermeira- explicou Suzana.
_ Também? Não sei como você não resolveu ser mais uma
enfermeira da família Souza.
_ Eu quero ser uma ótima professora.
_ Antes muitas meninas tinham o sonho de seguir a profissão de
professora, mas hoje...
_ É verdade, mas eu quero... a minha vó lecionou por muitos anos
em uma escola estadual, ela amava dar aulas.
_ E a neta quer seguir os passos da vovó... qual a idade dela?-
perguntou Letícia.
_ Ela tem 74 anos. Ela está muito bem de saúde, o único problema
é a visão, ela sente muito por não poder ler, dá pra imaginar, né?
Ela lia muito, como toda professora e agora não consegue mais,
nem com os óculos. Ela amava ler a Bíblia. A minha tia, todos os
dias, faz a leitura de alguns versículos para ela. E ela adora
chocolates, principalmente trufas. Eu vou comprar uns chocolates
para ela.
_ Que graça! Eu sinto muitas saudades dos meus avós, eles moram
em Porto Alegre.
_É mesmo? Eu estou muito feliz com a chegada da minha vovó
Vivi. Mudando de assunto... você acredita que a minha mãe está

85
Tânia Gonzales

me buscando no serviço?
_Eu acredito, a sua mãe estava tão preocupada...
_Eu me sinto tão mal... ela trabalha o dia inteiro e depois vai até lá
me buscar... mas não consigo convencê-la que não é necessário.
Na próxima semana, por exemplo, ela volta a trabalhar no período
noturno e aí o que ela vai fazer? E você deve saber da ideia
absurda dela, né? Aliás, tem um dedinho seu nesta história.
Dedinho? Uma mão inteira.
_ Eu? Nem imagino. Qual a ideia dela?
_ Você disfarça tão mal! Letícia, eu não vou aceitar que o
Leonardo me busque, não mesmo!
_ Por quê?
_ Não faz sentido algum! Absurdo total! Ele sair da casa dele
depois de um longo dia de trabalho só pra me buscar?
_ Mais absurdo é a sua mãe sair de casa e demorar uma hora e
meia para chegar e depois precisar voltar tudo de novo. Isso sim é
um absurdo. O Léo se ofereceu com a maior boa vontade. De
carro ele vai demorar uns 30 minutos.
_ Sem chance!
_Porque você é muito teimosa! Isso daria tranquilidade para sua
mãe e pouparia muito trabalho, concorda?
_ Já decidi. Eu vou encontrar outra solução, você vai ver.
Suzana foi para trabalho, não daria tempo para almoçar por isso
fez um lanche rápido. Naquela semana o seu dia de folga seria
domingo e o seu grupo participaria de um campeonato de boliche
contra o grupo de Sueli, iriam logo após o culto.
Quando chegou em casa naquela noite de terça-feira, junto com a
mãe que foi buscá-la apesar de todos os protestos, a vovó Vivi
estava esperando.
_ Vovó! Que bom tê-la aqui! Minha vovó querida, a senhora deve
estar cansada mas mesmo assim ficou me esperando...- disse

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Suzana ao abraçá-la.
_ Minha neta linda, você acha que eu ia esperar até amanhã para
dar um forte abraço e muitos beijos em você?
_Vovó linda! Isso é para senhora- ao dizer isso Suzana entregou
uma caixinha para a vovó Vivi.
_Obrigada! Mais não precisava gastar comigo.
_ Quando a senhora ver o que é, vai mudar de opinião.
_ Hum... tem razão! Precisava sim! - brincou a vovó- Você sabe
que chocolate é algo que eu não resisto.
_Eu sei vó. Agora, eu vou precisar de sua ajuda. Convença a
minha linda mãe que não precisa me buscar no serviço, por favor!
A senhora viu a hora que ela saiu daqui, não viu?
_ Eu não vou convencer a sua mãe de nada. É você quem eu
quero convencer. A Marina me explicou tudo e até me falou sobre
um rapaz que se ofereceu para buscá-la de carro, sua mãe me disse
que ele é um bom rapaz.
_ Vovó, até a senhora? Esqueça este assunto e me conte as
novidades. Como a tia Marli está?
Suzana conversou com a vovó Vivi até uma hora da manhã.
Como estava muito cansada adormeceu rapidamente.

_ Menina linda! Como você cresceu! Que saudades de você...


chegue bem perto de mim, não se afaste, por que você está
fugindo de mim? Eu sou teu e você é toda minha, venha.
_ Não... eu não sou … me solte, por favor, me solte, não faça isso,
não... - dizia Suzana em seu pesadelo.
Acordou tremendo, estava muito assustada, mas ficou em silêncio,
não queria acordar os outros, principalmente a avó que estava
dormindo em seu quarto.

87
Tânia Gonzales

Capítulo 9 -Primeiro beijo

_ O doutor Romeu me disse que se você prometer que vai seguir


direitinho a dieta, você receberá alta amanhã cedo- informou
Regina.
_ Amanhã? Não pode ser hoje?- Paula perguntou com
impaciência.
_ Filha, ele falou sério, agora depende de você.
_ Tá legal! Eu vou me comportar. Pode dizer para o dr. Romeu
que a Julieta o ama e sempre o amará!
_ Não é hora para brincadeira, que piadinha sem graça!
_ E o papai? Está cuidando da loja?
_ Ele... achou melhor não vir até aqui. Vocês não estão se
entendendo, então ele disse que não queria prejudicar a sua
recuperação.
_ Ah! Ele está certo, pelo menos nisso, né?

Leonardo aproveitou o horário de almoço para visitá-la.


_ Oi, linda! Hoje você está com uma aparência bem melhor, está
até corada!
_ Eu estou merecendo aquele beijo, sabe? Estou limpando o prato,
acredita?
_ Parabéns! Eu já fiquei sabendo que você, provavelmente, sairá
amanhã.
_ Não vejo a hora! Cansei, amigo, estou entediada.
_É assim mesmo. Não quer voltar mais para este lugar entediante?
É muito simples: alimente-se corretamente.
_Ok, dr. Leonardo. Aqui só está faltando a Julieta, sabia? Meu
médico é o Romeu.
_ Linda, seu senso de humor está ótimo. Estamos orando muito

88
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

por você.
_ Obrigada, meu Léo. Agora eu só quero sair daqui e batalhar por
minha carreira, é isso.
_ Para se ter uma carreira é necessário ter saúde. Grave isso em
sua linda cabecinha loira.
_ O que você quis dizer com cabecinha loira? Olha o preconceito,
hein?
_ Preconceito, eu? Paulinha, porque você não volta à estudar?
_ Se liga, Léo! Nada a ver; você sabe muito bem que a minha mãe
sempre sonhou em ser veterinária e como não conseguiu passou
este sonho pra mim, mas o meu sonho é outro.
_ Eu gostaria que você sonhasse com um prato bem colorido,
cheio de legumes, arroz, feijão, filé de peito grelhado, saladas...
_ Dá um tempo, Léo! E isso seria um pesadelo.
_ Eu vou ter uma conversa com o dr. Romeu...
_ Para com isso, Léo. Eu vou sair daqui amanhã. Se liga, tá?

Naquela tarde, Paula recebeu a visita do Pr. Pedro Gabriel que


veio acompanhado de sua esposa, Rute; a tia Carmem também foi
visitar a sobrinha junto com a filha Aline.
No dia seguinte, Paula saiu do hospital com muitas
recomendações do médico que lhe entregou uma dieta especial
que deveria ser seguida à risca.
O grupo Alfa havia marcado uma reunião na casa de Letícia,
naquela quinta-feira à noite. Visitariam Paulinha no dia seguinte.
_ Letícia, em primeiro lugar eu quero agradecer por ceder a sua
casa para nossa reunião.
_Que isso, Jônatas! É um prazer receber o meu maravilhoso grupo
aqui.
_ Quem gostaria de falar sobre a pesquisa ?
_ Eu posso começar- disse Vitória- Anorexia é uma doença grave,

89
Tânia Gonzales

onde existe uma distorção da imagem corporal, isso quer dizer que
a pessoa passa a se ver como gorda, mesmo estando abaixo do
peso. E por achar que está gorda recusa os alimentos. Uma pessoa
que sofre de anorexia, sempre diz que não está com fome, arruma
desculpas para não participar das refeições ou então sempre
inventa dietas absurdas.
_ Eu li que a pessoa pode ficar com sérios problemas psicológicos,
além dos físicos- explicou Renan- Depressão, síndrome do
pânico...
_ Eu li sobre isso também – foram as palavras de Willian- A
pessoa pode ter problemas cardíacos, anemia, como foi o caso da
Paulinha, atrofia muscular, insuficiência renal e... pode até morrer.
_ É um problema muito sério- iniciou Leonardo- Esta preocupação
exagerada com a beleza e todas essas exigências têm destruído o
sonho de muitas meninas. Elas querem brilhar e para isso fazem
qualquer sacrifício. Desejam ter o corpo perfeito, mas na verdade
estão acabando com a saúde. A Paulinha sonha em ser uma
modelo profissional e isso não é um problema, mas quando vira
uma obsessão, aí as coisas complicam. Vocês sabem que ela saiu
hoje do hospital e agora é que entra a parte mais difícil, ela precisa
seguir uma dieta especial e o médico foi bem claro que dessa vez
ela teve muita sorte, nós sabemos que foi a mão de Deus, mas o
doutor disse que se ela não obedecer fielmente à dieta dada por
ele, as consequências serão desastrosas, por isso, precisamos orar
muito e não perdê-la de vista.
_O Leonardo está certo- disse Jônatas- a Paulinha é nossa
prioridade máxima. Ela precisa sentir que nós a amamos muito e
que é muito especial para todos nós e principalmente para Deus.
Ela tem muito valor e precisa saber urgentemente disso.
Queridos, é muito perigoso quando nós damos muito valor à
algumas coisas e desprezamos outras. O equilíbrio é importante

90
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

em tudo o que fazemos, porque quando você dá muito valor à


uma carreira, por exemplo, e não consegue ser bem sucedido,
pronto, acabou o mundo. Outro exemplo: um rapaz se interessa
por uma garota que não está nem aí para ele. O rapaz se apaixona
perdidamente por ela e nada. O que ele faz? Pensa nela o dia
inteiro. Não consegue nem trabalhar direito. E ela? Não está nem
aí. E ele? Já não suporta mais, chega nela e... leva o maior fora. O
que ele faz? Acaba com a vida, afinal viver pra quê? Nada faz
sentido! Não é isso que acontece muitas vezes? No caso da
Paulinha, ela quer ser modelo e como está doente, ela se enxerga
obesa, mesmo estando muito magra e qual a solução? Não comer
ou comer pouquíssimo, e aí coitado do organismo dela que luta
desesperadamente para sobreviver. Vocês viram que ele reclamou
e ela foi parar no hospital. Cuidado com os exageros, tá? Uma vez
eu ouvi algo mais ou menos assim: “ Tudo o que toma o lugar de
Deus não vem de Deus”. Eu não sei onde eu li isso ou quem foi
que disse essas palavras, mas eu concordo com elas. Analisem
alguma situação que vocês estejam vivendo e vejam se não existe
algo errado. Façam perguntas como: “ Será que estou dando mais
valor a isso do que a Deus? Será que valorizo mais uma certa
pessoa do que o meu relacionamento com Deus?” As atitudes
extremas acontecem quando nós exageramos nos sentimentos.
Cuidado! Vamos orar?
Os pais de Letícia, que tinham saído para jantar, chegaram quando
os componentes do grupo estavam se despedindo de Letícia no
portão.
_ Leca, será que eu posso falar com você? É rapidinho.
_ Vocês dois vão ficar aqui no portão conversando? É melhor
entrarem- disse o pai de Letícia.
_ Tudo bem, Fernando, mas não se preocupe eu não vou
demorar.

91
Tânia Gonzales

_ Fique o tempo que quiser, Leonardo.


_ Nós estamos cansados, por isso vamos deixá-los sozinhos e eu
sei que é isso mesmo que vocês querem, estou certa? - perguntou
Sandra.
_Mãe querida, boa noite.
Assim que eles ficaram a sós, Leonardo perguntou ansioso.
_ E aí, você contou para Suzana a real história do beijo?
_Ah, Léo, me desculpe mas ainda não tive oportunidade, é que
com tudo o que aconteceu com a Paulinha e também com a
chegada da vó da Su, eu acabei esquecendo...
_ A vó da Suzana?
_ É a vovó Vivi. Sábado eu vou conhecê-la; a Suzana está muito
feliz, é mãe da dona Marina.
_ Ela veio fazer algum tratamento médico?
_ Não, ela está bem de saúde, a Su até comentou comigo que a
única coisa que a incomoda é o fato de não conseguir ler, nem
com a ajuda de óculos. Ela era professora. E a Su disse que ela
sente muita falta da leitura, principalmente da Bíblia, agora ela
depende de outros lerem para ela. Ela adora chocolates, não resiste
uma trufa.
_ Interessante... e a Suzana não comentou nada sobre a
possibilidade dela concordar que eu a busque?
_ Ela está irredutível; diz que é um absurdo, mas está toda
preocupada porque a mãe dela a está buscando.
_ Quem sabe ela muda de ideia- disse Leonardo otimista- E você?
_ Eu o quê?
_ Já resolveu conversar com os seus pais sobre o Daniel?
_ Psiu! Você quer que eles ouçam? Ainda não, estou dando um
tempo.
_Tempo? Letícia, você precisa resolver isso. Não dá para ficar
namorando escondido, concorda? Dá muito trabalho! Não cansa

92
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

inventar histórias para vocês poderem sair?


_ Se cansa? É claro que sim. Eu gostaria de ter um namoro
normal, sabe? O Daniel poder vir até aqui, dele me trazer quando
nós sairmos, mas por enquanto não dá.
_ Você está orando por esse assunto?
_ Estou... mas eu sinto que ainda não chegou a hora.
_ Lê, o Daniel é um cara legal, os seus pais vão perceber isso e
entender o porquê de sua escolha.
_ Amigo, eu tenho medo da reação deles. Sei lá, e se eles me
proibirem de vê-lo?
_ Eu acho que você deveria conversar com o Daniel e resolver
isso de uma vez. O caminho da verdade é sempre o melhor,
porque do jeito que vocês estão é necessário mentir e isso não é
legal. Seus pais são pessoas que amam a Deus, não entra na minha
cabeça a ideia deles não aceitarem o Daniel por causa de
preconceito.
_ Ah... amigo... eu não sei o que fazer- afirmou Letícia com toda a
sinceridade.

Letícia resolveu ligar para Suzana naquela mesma noite.


_ Su, me desculpe por ligar tão tarde, eu sei que está cansada, mas
eu preciso te contar uma coisa- começou Letícia- é sobre o que a
Sueli presenciou outro dia em uma padaria.
_ Lê, eu não quero saber disso.
_ Deixa eu falar, eu perguntei para o Léo e ele me explicou o que
aconteceu.
_ Explicar um beijo?
_ Espera... eu vou contar tudo.
Após escutar a explicação sobre o episódio do beijo, Suzana disse:
_ E ninguém tem nada a ver com isso, se eles querem voltar a
namorar é assunto deles.

93
Tânia Gonzales

_ Su, parece que você não ouviu uma só palavra do que eu disse.
Eu não falei que foi coisa da Paulinha, que ela simulou uma
tontura para ele se aproximar?
_ Eu entendi. Mas e daí? Não estou nem aí para a vida amorosa do
Leonardo.
_ Eu, hein? O que deu em você?
_ Vamos mudar de assunto? Vocês vão visitar a Paula amanhã à
noite, né?
_ É isso mesmo. Pena que você não possa ir com a gente.

Letícia desligou o celular e ficou pensando na reação de Suzana.


“Será que a Su está com ciúmes dele? O Léo iria adorar se isso
fosse verdade. Ele está tão interessado nela! Se ela soubesse o
quanto ele é especial!”
Letícia começou a lembrar de algo que aconteceu quando ela tinha
15 anos. Especialmente de uma conversa dela com Leonardo em
uma tarde de domingo.

_ O que está acontecendo com você, Leca?- perguntou Leonardo.


_As meninas da escola ficam com aquelas conversinhas sobre
beijo. Cada uma conta a história mais incrível do dia que
aconteceu o primeiro beijo!
_ Isso deve ser normal, não é?
_ É... mas... pra que ficar contando pra todo mundo? Que
caretice!
_ Por que você está tão nervosa? Vai me dizer que você ainda...
_ Léo! Até você? Eu já tenho que aguentar um monte de meninas
curiosas na minha cola querendo saber quem foi que me deu o
primeiro beijo e você também vai...
_ Calma, Leca!
_ Não me chame assim! Que raiva! Amanhã começa tudo de

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

novo... conta vai, conta Letícia!


_ Leca, na boa... não fique brava, mas, você já foi beijada?
_ Léo! Não acredito nisso! Que pergunta é essa? É claro que...
não. Pra você eu posso falar a verdade, mas é segredo.
_Eu sabia, é por isso que você está tão nervosa! Então, você anda
mentindo por aí, hein? Que coisa feia, Leca!
_ Leonardo Martins, para com isso!

A segunda-feira chegou e com ela as mesmas conversas sobre o


primeiro beijo de cada uma das colegas de classe, para desespero
de Letícia.
_ E aí, Lê? Quando as suas amigas vão conhecer a sua aventura no
mundo do primeiro beijo?
_ Vocês não cansam? Eu não quero contar.
_ Eu acho que já descobri! Eu descobri! Meninas, ela não quer
contar por não ter nada para contar, simples assim- constatou uma
das colegas. Você nunca foi beijada! Boca virgem! Boca virgem!
E elas começaram a gritar: “ Boca virgem! Boca virgem!”
_ Parem com isso, eu já fui beijada, sim! Mas vocês nunca vão
saber quem foi, nunca!
Naquela tarde, Letícia fez um pedido muito especial para o amigo
Leonardo.
_ Não dá mais para aguentar! Elas estão certas... mas eu não
posso dizer que nunca beijei. Elas sempre vão ficar na dúvida.
_ Leca... depois elas esquecem.
_ Você não conhece aquelas meninas... eu estive pensando e tive
uma ideia, mas eu preciso da sua participação.
_ Lá vem coisa...que ideia?
_ Na verdade... eu quero fazer um pedido pra você.
_ Não estou gostando disso.
_ Léo, meu amigo querido, eu só confio em você... é... eu não

95
Tânia Gonzales

quero mais mentir para as minhas colegas, mas também não quero
dizer que eu nunca fui beijada, isso não... então, a única solução
que eu encontrei depois de quebrar a cabeça foi...é... pedir para o
meu amigão... me beijar.
_ O quê? É brincadeira, né?
_ Léo, quem melhor que você? Eu tenho vergonha, já pensou se
algum menino resolve me beijar? Ele vai perceber logo que eu não
sei como fazer... e aí as minhas colegas vão...
_Letícia, se as meninas te contarem que não são mais virgens você
vai querer... você está me entendendo, não está?
_ Eu sei o que você quer dizer, mas é claro que não, Léo! É só um
beijo... é uma coisa normal.
_ Leca, essas coisas são assim, daqui a pouco elas vão começar a
fazer pressão sobre isso também e aí você vai se desesperar? Não
entra nessa, amiga!
_ Não é isso, Léo. É que eu quero dar meu primeiro beijo, eu estou
ansiosa... se fosse com você seria perfeito. Eu não quero que algo
tão especial de repente se transforme em algo ridiculo por causa
de algum menino idiota! Eu sei que você não riria de mim.
_Lê, se o cara gostar de você, com certeza não vai rir.
_Por favor! Faça isso por sua amiga!
_Você só tem 15 anos, o meu primeiro beijo foi quando eu tinha
16 anos, eu não sou tão experiente assim. Vou te contar um
segredo: foi com uma menina de 18 anos e a iniciativa foi dela.
Esquece esse assunto. Se eu a beijasse seria muito estranho
depois.
_Por favor!
Por vários dias Letícia continuou com o mesmo pedido e
Leonardo com a mesma resposta. Um dia eles foram ao cinema
juntos. Era uma comédia romântica. Letícia estava assistindo com
muito interesse quando, de repente, Leonardo se aproxima dela e

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

sussurra algo no ouvido de Letícia que ela não consegue


compreender, ao virar o rosto para dizer que não havia entendido
uma só palavra, Leonardo aproveita que estão muito próximos e
atende ao pedido da amiga. Letícia vive o tão esperado momento
do primeiro beijo. Após alguns segundos, Leonardo se afasta sem
dizer uma palavra. Letícia olha para a grande tela, mas agora ela
não consegue mais se concentrar no filme, os pensamentos dela
estão voltados para o momento mágico de seu primeiro beijo.
_ O que você quer fazer agora? - disse Leonardo após saírem da
sala.
_ Podemos comer? - perguntou Letícia meio sem jeito.
Durante todo o tempo que estiveram juntos conversaram pouco,
pois estavam constrangidos. O clima entre eles ficou muito
estranho, nem parecia que eram amigos desde crianças.
E por alguns dias os dois amigos ficaram sem se encontrar, nem
pelo telefone se falaram. Até que em um dia de sábado, Letícia
resolveu ir até a casa de Leonardo.
_ Oi, tudo bem? - Letícia começou – eu...é...
_ Oi, comigo tudo bem, Leca! Você está bem?
_ Eu? É... estou...Léo, eu quero te agradecer por... você sabe.
_ Não precisa tocar neste assunto.
_ Preciso sim, na hora de pedir eu tive coragem, não tive? Agora
eu fico com vergonha, mas eu quero te dizer que foi... incrível!
Tão inesperado... você aproveitou bem o momento.
_ Letícia, eu só achei que seria melhor assim de supetão, porque
entre nós não iria rolar nenhum clima... bom... pelo menos agora
você não precisa mentir.
_ Eu já contei para aquelas meninas curiosas, é claro que não
mencionei a data.
_ Então, agora que está tudo certo eu só te peço uma coisa: Vê se
não entra na onda dessas meninas quando o assunto for... você

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Tânia Gonzales

sabe! Porque nisso, com certeza, você não vai poder contar
comigo!
_ Engraçadinho!
Depois daquela conversa o relacionamento dos dois voltou à
normalidade. Eram os dois melhores amigos novamente.
“ A Suzana não pode sequer imaginar que foi o Léo que me beijou
pela primeira vez. Ela não vai acreditar que foi a única vez e
também não vai entender que foi um grande favor que o Léo me
fez” - pensou Letícia após terminar sua viagem ao passado.

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Capítulo 10 -Trufas e CDs


Na sexta-feira à noite os componentes do grupo Alfa visitaram
Paulinha. Conversaram muito, oraram juntos e também cantaram,
principalmente os louvores preferidos de Paula, que demonstrou
estar muito bem. Às nove horas foram embora.
Leonardo saiu com muita pressa porque iria buscar Suzana no
serviço, pois antes de entrarem na casa de Paulinha ele havia
pedido para que Letícia fizesse uma ligação para mãe de Suzana.
_ Léo, você está abusando, a Suzana não vai gostar da surpresa.
Fala sério! Você ir até lá para buscá-la?
_ Leca, eu não vou lá especialmente para buscá-la, eu preciso
fazer umas compras.
_Quem você pensa que engana com essa conversinha, hein? E
não me chame de Leca.
Letícia ligou para dona Marina que concordou sem hesitação.
Prometeu fazer uma ligação para não pegar a filha de surpresa.
Leonardo chegou quando faltavam trinta minutos para o horário
de saída dela. Precisou entrar em três lojas diferentes para comprar
os presentes que pretendia dar. Vinte e cinco minutos depois ele já
estava esperando por Suzana.
_ Oi, tudo bem? - disse Leonardo com um largo sorriso.
_ Oi, mais ou menos. Você não tem jeito mesmo, né? Eu não gosto
disso, sabia?
_ Do que você não gosta?
_Você está se aproveitando da situação. Você sabe que a minha
mãe está muito preocupada comigo e também sabe o quanto é
complicado para ela vir até aqui e …
_Suzana, calma! Eu só quis fazer um favor para sua mãe; eu
precisava fazer umas compras e...

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Tânia Gonzales

_Só existe um shopping em São Paulo, não é?


_Há vários, mas só aqui eu encontro... você. Não fique brava.
Podemos ir?
Suzana foi até o estacionamento sem dizer uma palavra, entrou no
carro e continuou calada.
_Você quer um chocolate? Melhora o humor - disse Leonardo-
tem uma caixinha no porta -luvas.
_Não, obrigada.
_ Pode pegar um pra mim?
Suzana abriu o porta-luvas, pegou a caixinha, tirou um bombom e
entregou-o para Leonardo.
_ Você não vai pegar um? É delicioso... é chocolate meio amargo,
você gosta?
_Gosto, mas eu não quero melhorar o humor!
_Cuidado com o estresse; eu vou colocar uma música para você
relaxar.
Quando a música começou a tocar, Suzana pensou :“que atrevido,
o que ele está pensando?”, mas não disse uma palavra. Era uma
música gospel romântica que dizia :
“Me lembro bem, a primeira vez que te olhei
Nos seus olhos eu encontrei ternura e amor
Como nunca vi igual.”1
Enquanto Suzana continuava calada, Leonardo pensava” Será que
eu exagerei? É.. eu acho que não foi uma boa ideia colocar este
tipo de música. O que eu faço agora? Pense... pense.”
Leonardo resolveu desligar o som.
_ É... nós fomos visitar a Paulinha - disse Leonardo para iniciar a
conversa.
_E como ela está?

1 Um verso de amor- Pâmela – compositores: Davi Fernandes e Derek.

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Está bem. Ela ficou muito feliz com a visita. Foi bem legal, nós
cantamos muito. Eu comprei um livro para ela... tem uma sacola
lá trás, você pode pegar para dar uma olhada.
_ É melhor não, deve estar embrulhado para presente e...
_Pode abrir, eu vou fazer uma dedicatória.
Suzana pegou a sacola, abriu o pacote e leu o título do livro: “ A
Ditadura da Beleza e a Revolução das Mulheres”2
_É um romance que conta a história de Sarah; ela é uma menina
de 16 anos que é muito infeliz apesar de ser rica e ter uma
carreira de sucesso, ela é modelo profissional. Sarah tem um sério
problema de relacionamento com a mãe e sofre muita pressão por
causa do padrão de beleza imposto pelo mundo da moda e ainda
por cima os pais dela são divorciados. Em um momento de
desespero ela tenta acabar com a própria vida. Felizmente ela se
recupera e a mãe procura um psiquiatra chamado Marco Polo.
Sarah, depois de resistir ao tratamento, começa a aceitar e aprende
com o sábio psiquiatra, o verdadeiro valor da vida. É muito
interessante.
_ Eu já li alguns livros deste autor. Marco Polo? Será que é o
mesmo do livro “O futuro da humanidade?”3
_ É ele mesmo; eu também li. No “ O futuro da humanidade”,
Marco Polo é um estudante ainda e no livro que eu comprei para
Paulinha ele já é um psiquiatra bem sucedido, lembra do poeta?
Qual o nome dele mesmo?
_ Falcão. - lembrou Suzana.
_É isso mesmo, Falcão. Ele também aparece no “ A ditadura da
Beleza”.
_Que legal, deve ser bem interessante mesmo.

2 Autor: Dr. Augusto Cury


3 Autor: Dr. Augusto Cury

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Tânia Gonzales

Eles ainda falaram sobre os livros por alguns minutos. Leonardo


estava feliz, pois era a primeira vez que os dois conversavam de
verdade, sem Suzana se esquivar. Ele estava adorando ouvir a
voz dela e o fato de Suzana participar da conversa ativamente
era maravilhoso.
_ Eu também comprei uma roupinha de bebê- disse Leonardo
preocupado em manter o diálogo- Dá uma olhada e me dê a sua
opinião. Eu escolhi tão rápido!
_ Um macacão salmão... é lindo! Letícia comentou que a sua
irmã está grávida. Ela deve estar muito feliz, né?
_ Muito mesmo... a Bia não vê a hora de ter um bebê em seus
braços. Eu espero que dê tudo certo, ela já sofreu muito, perdeu
dois.
_Que Deus abençoe a gestação dela. A minha mãe também
perdeu dois, antes de mim.
_ E Deus a compensou enviando uma filha linda e maravilhosa.
Este comentário fez Suzana se calar novamente. Depois de cinco
minutos, Leonardo parou o carro, antes que Suzana saísse, ele
pegou uma sacola que também estava no banco de trás, em
seguida abriu o porta-luvas, retirou um pequeno presente e o
colocou dentro da sacola onde já havia uma caixa. Entregou para
Suzana.
_ Eu não posso aceitar – foram as palavras dela.
_ Ah, me desculpe... não são pra você. Eu quero que você entregue
para sua vó.
_ Minha vó? Como você... é lógico... a Letícia contou!
_ Exatamente. Boa noite, Suzana. Eu gostei muito de conversar
com você hoje. Foi ótimo.
_ Boa noite e obrigada pela carona.
_ Não precisa me agradecer, se você quiser amanhã eu...
_ Não será necessário.

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Suzana saiu rapidamente do carro, abriu o portão e entrou sem


olhar para Leonardo.
Ao chegar em casa, Leonardo ligou para a amiga Letícia.
_ Nossa, como meu amigo está animado!
_ Eu estou mesmo, mas não é para menos, né? Hoje nós
conversamos. Bom... nós ficamos juntos uns 40 minutos mais ou
menos, contando tudo e eu acho que conversamos uns 20 minutos.
_ E os outros 20 minutos, o que vocês fizeram? Será que … não
acredito! Vocês se beijaram?
_ Letícia, como você viaja! Até parece... eu e a Suzana nos
beijando, conta outra!
_ Os 20 minutos continuam sobrando...
_ Silêncio, muito silêncio. Tudo bem que eu cometi uma … gafe?
Não sei se posso dizer assim, acho que... eu cometi uma falta
grave... isso mesmo.
_ Falta? O que você fez?
_ Eu inventei de colocar uma música para ela ouvir.
_Ai, ai, ai... que música?
_Espera um pouco que eu vou colocar para você ouvir.
Poucos segundos depois...
_ Léo, eu não acredito! “Me lembro bem a primeira vez que te
olhei nos seus olhos eu encontrei ternura e amor”; você forçou! A
música é linda, mas...
_ Eu sei, pisei feio... mas eu desliguei rapidinho.
_Você é demais! A Suzana deve ter ficado uma fera!
_Não disse nada. Depois eu consegui reverter a situação, falei
sobre a Paulinha.
Leonardo contou sobre a conversa com Suzana.
_Você é tão esperto! Comprou presentes para vó dela...como
conseguiu comprar tudo em tão pouco tempo?
_ Os CD's da Bíblia eu comprei hoje à tarde em uma livraria aqui

103
Tânia Gonzales

em São Caetano, mas mesmo assim eu precisei correr.


_Quer conquistar a família inteira, né?
Enquanto Leonardo detalhava o seu “ encontro “ com Suzana, ela
entregava os presentes para a vovó Vivi.
_ Que rapaz mais atencioso! Presentes para mim e ele ainda nem
me conhece! - disse vovó Vivi muito admirada.
_ Abre, mãe! - pediu Marina.
_ Espera aí... Suzana, me ajude... hum... parecem deliciosos- disse
vovó ao ver a caixa com as trufas, para em seguida abrir o outro
presente- o quê é isso? CDs de música?
_ Não vovó, são CD's da Bíblia, neles estão gravados todos os
versículos da Bíblia, agora a senhora vai poder ouvir as histórias
da Bíblia sempre que tiver vontade- explicou Suzana.
_Não sabia que existia isso! Que coisa linda... que benção! Esse
rapaz é um anjo...- disse vovó toda emocionada com o presente.
_Como nós não pensamos nisso? - disse Marisa que estava lá
esperando pela mãe que iria dormir na casa dela naquela noite.
_ Como ele teve essa ideia? - perguntou Marina.
_ Isso é coisa da Letícia. Eu falei sobre a dificuldade da vovó e ela
comentou com ele.
_O Leonardo está te buscando no serviço? - perguntou Marisa.
_Não tia, foi só hoje.
_Isso porque a Suzana é muito teimosa. Marisa, ele se ofereceu
para buscá-la todos os dias, mas a Suzana não aceita! - explicou
Marina.
_ Ele se ofereceu? Ele está interessado em você, Suzana? A
Sandra não pode sequer sonhar com isso! - constatou Marisa.
_ É claro que não, tia... isso é coisa da mamãe. Ela fica se
preocupando comigo e …
_ Não sei não, aí tem- disse a tia.
_ Qual o problema se o rapaz estiver interessado na minha neta?

104
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Quem é Sandra?
_Mãe, a Sandra é a minha vizinha, ela é mãe da Letícia. Ela sonha
em ter o Leonardo como genro - explicou Marisa.
_ Ela sonha... mas se o Leonardo estiver sonhando com a Suzana,
o que ela pode fazer? - disse vovó Vivi.
_Vó, que história é essa? Vamos parar com este assunto?
_ Eu quero que você ligue para ele e o convide para vir aqui
domingo à tarde tomar um café comigo. Eu vou preparar umas
bolachinhas de nata e um bolo cremoso de fubá e mais algumas
delícias.
_Vovó, por favor, não faça isso - pediu Suzana.
_ Suzana, que coisa feia! O rapaz é tão gentil e você não vai me
deixar agradecer? Ligue para ele.
_Tá bom, vó! Amanhã eu ligo.

Mesmo estando muito cansada, Suzana ficou rolando na cama,


não conseguia dormir. Leonardo não lhe saía da cabeça. Eram
quase duas horas da manhã quando o sono finalmente chegou.

_ Eu estou tão feliz por você ter dito sim ao meu convite- dizia
Leonardo- você não imagina o quanto eu tenho pensado em você.
_ Leonardo, eu também tenho pensado muito em você.
_Como é bom ouvir isso.
Leonardo se aproximou bem devagar e acariciou levemente os
cabelos de Suzana, deslizou a mão para o rosto dela e com os
dedos sentia a maciez da pele dela. Suzana estava com os olhos
fixos nos dele. O momento era perfeito... quando... de repente...
um homem se aproximou e puxou Leonardo com violência. Ele
começou a dar socos e dizer:
_ O que você está pensando? Acha que pode ficar com ela? Pois
eu digo que não pode! Olhe bem para mim rapaz, eu digo que

105
Tânia Gonzales

você não pode ficar com ela e sabe por quê? Porque ela é minha!
Está entendendo? Ela é minha!
_ Não faça isso... não o machuque - gritava Suzana desesperada.
_ Você não quer que eu o machuque? Por quê? Olhe bem pra ele,
pois será a última vez que você o verá! A última! - ao dizer isso o
homem deu um chute próximo ao estômago de Leonardo, que
ficou gemendo no chão.
_Não, não... por favor, não faça isso... não....
Suzana acordou com os próprios gritos, eram cinco horas da
manhã. Olhou em volta e ficou aliviada por não ser real e também
pela vó não estar dormindo ali naquela noite.

No sábado pela manhã Letícia foi conhecer a vovó Vivi.


_Então você é a famosa Letícia? A Suzana me falou muito sobre
você, querida!- disse vovó Vivi.
_ Famosa eu? A senhora que é famosa, vovó! Eu estava ansiosa
para conhecê-la.
_Que bom! Eu estou muito feliz e agradeço a Deus por Ele ter
colocado uma menina tão maravilhosa para ser amiga da minha
neta.
_ Obrigada, vovó! A Suzana sim, que é maravilhosa.
_ Vamos parar com isso? Maravilhosa aqui é a vovó Vivi! Isso
sim! - disse Suzana.
Vovó Vivi contou várias histórias de seu tempo de mocinha lá em
Belo Horizonte e também aproveitou para saber mais sobre a
família de Letícia.

Leonardo acordou muito feliz, naquela manhã de sábado. O lindo


rosto de Suzana não lhe saía da cabeça. Como ele gostaria de
poder tocar naquele rostinho delicado, de acariciar aqueles cabelos
sedosos. Quando ela olhava para ele com aquele lindo par de

106
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

olhos verdes, o que era raro, pois na maioria das vezes ela
desviava o olhar rapidamente, era como se tudo o mais não
existisse, como se o tempo parasse.
_Leonardo? Filho? Ei! - era Lígia tentando chamar a atenção do
filho que estava sonhando acordado sentado à mesa do café da
manhã.
_O quê? Aconteceu alguma coisa?
_Onde você estava?
_Eu? Aqui, eu acordei e vim tomar o café da manhã.
_Não estava … Leonardo, você estava pensando em quem?
_Mãe, para com isso! Bom dia! É assim que as pessoas civilizadas
se cumprimentam e a senhora não vai beijar o seu filho?
_Bom dia e eu não vou só beijar, vou abraçar também, meu lindo
filho. Mas em quem você estava pensando? - insistiu.
_ Dra. Lígia, que tal nós tomarmos um belo café?
_ Não vai me contar... tá bom! E como a Paulinha está? O pai
dela estava lá?
_Ela está bem e o Paulo Reis não estava.
_ É óbvio! A Regina foi até a clínica ontem, ela estava com um
problema em um dente, e ela me disse que o Paulo ia pregar em
um congresso. Ela está bem chateada porque o marido não para
em casa mesmo com o problema da filha.
_ Ah, mãe, o Paulo Reis ama pregar.
_Ama mais do que a própria família.
_Mãe, pegou pesado!
_É verdade, a Regina é quem disse isso, eu só estou repetindo.
Leonardo, você não está pensando em voltar a namorar a
Paulinha, está?
_É claro que não! Mãe...
_Vai saber! Eu gostaria muito de entender por que você e a Letícia
não namoram?

107
Tânia Gonzales

_É simples: somos grandes amigos. Só isso.


_ Mas, filho...
_Mãe, eu não … é... deixa pra lá.
_Você quer me contar alguma coisa...
_ Por que vocês não me chamaram? - perguntou Rafael.
_Você estava dormindo tão gostoso, querido – explicou Lígia
dando um beijo no marido- Estávamos aqui conversando...
_ Sobre o presente que eu comprei para o bebê que está chegando!
- disse Leonardo mudando de assunto.
_Você comprou um presente? Eu quero ver! - pediu a mãe.
_ Espera um pouco, eu vou buscar.
Poucos segundos depois, Leonardo já estava de volta com um
pacote nas mãos.
_Eu quero ver... que coisa mais fofa! Que macacão lindo!
Escolheu muito bem, titio coruja!- elogiou a mãe.
_ É melhor vocês guardarem isso... a mamãe coruja acabou de
chegar – anunciou Rafael olhando pela cortina da sala de jantar.
Beatriz e Bruno entraram instantes depois.
_Família, bom dia! Eu e o meu bebê estamos aqui para tomar o
café da manhã! E o papai Bruno também, é claro.
Depois de muito beijos e afagos na barriga, todos se sentaram para
compartilharem de um delicioso café em família. Leonardo
aproveitou para entregar o presente.
_ Léo, meu irmãozinho lindo, obrigada! Que fofo! Amei! Que
gostoso ganhar presente de bebê!
_ Você está tão linda! - disse Leonardo passando as mãos na
barriga da irmã- e você está bem confortável aí dentro? Seu tio
está te esperando ansiosamente.

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Capítulo 11 -Conversando
Paula olhou-se no espelho e pensou: “ Como eu estou gorda! Essa
história de alimentar-se bem está acabando com o meu corpo, se
eu continuar com isso não vou conseguir voltar ao peso ideal... eu
preciso dar um jeito nisso... mas com a mamãe pegando no meu pé
como é que eu vou fazer? “
_ Filha? Filha? O almoço está na mesa! - anunciou Regina.
Almoçou para satisfazer a vontade da mãe, mas, assim que ficou
sozinha foi atéo banheiro e provocou o vômito.
“ É isso mesmo que eu vou fazer- pensou- é a única solução!”

Naquela tarde de sábado, Leonardo foi até a casa de Paulinha para


entregar-lhe o presente; assim que estacionou o carro o celular
tocou.
_ Alô? Quem fala?-perguntou ele.
_Suzana - respondeu ela timidamente.
_ Suzana? Que surpresa! Tudo bem?
_Tudo bem... eu estou atrapalhando?
_ É claro que não. Pode falar.
_ É... bem... a minha vó pediu para eu ligar... é... ela quer que você
vá amanhã lá em casa tomar um café; a vovó gostou muito dos
presentes e quer agradecer.
_ Pode dizer para ela que eu aceito. Qual o horário?
_ Às três horas da tarde. Este horário está bom pra você?
_Perfeito. Amanhã é o seu dia de folga, não é?
_É isso mesmo. Bem, eu vou desligar agora.
_Suzana, espera um pouco... eu posso buscá-la hoje?
_Não, eu preciso desligar, estou trabalhando.
Suzana desligou o telefone sem dar chance para Leonardo se

109
Tânia Gonzales

despedir.

_ Já que os seus pais não estão, eu vou embora... isso é pra você –
disse ele entregando o presente para Paula.
_ Pra mim? Obrigada! Vou abrir... ah, que gracinha! Só você
mesmo, Léo! “ A ditadura da Beleza...”, legal.
_Você promete que vai ler? Responda, minha linda!
_ Ah... eu... prometo, quer dizer... eu... Léo você sabe que eu não
sou muito chegada à leitura e... esse assunto... já vi tudo!
_Por favor, faz isso por mim! Paulinha, você está se alimentando
direito?
_Estou, Léo! É uma droga... mas o que eu posso fazer? Minha
mãe “tá” de marcação, mas olha pra mim... olhou? Percebeu o
estrago?
_Percebi que você está linda! Se continuar assim vai se recuperar
rapidamente.
_ Quem quer recuperar peso? Diz pra mim? Qual mulher em seu
juízo perfeito gostaria de recuperar o peso perdido? Conhece
alguma?
_ O que está em jogo aqui é a sua saúde, nunca se esqueça disso.
Eu vou ser um pouco duro agora, mas acho que é necessário. Do
que vai adiantar ter um corpinho de modelo dentro de um caixão,
hein? A única vantagem é que vai ser bem mais fácil carregá-la.
_Léo! Que horror! Isso é coisa pra dizer? Caramba, agora você
exagerou... pisou feio!
_ É a verdade! Para de se preocupar com a estética e pense em
você. Entendeu? Pense na pessoa que está aí dentro... você é
especial do jeito que é. As crianças da igreja cantam: “ Aos olhos
do pai, você é uma obra-prima, que Ele planejou, com suas
próprias mãos pintou...”- lembra? A seguir Leonardo continuou
cantando:“ Você é linda demais, perfeita aos olhos do pai, alguém

110
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

igual a você, não vi jamais...”4


_ Você vai participar de algum concurso para descobrir novos
talentos? - ironizou Paulinha.
_ Isso é não é uma brincadeira! Pare de pensar tanto em seu
exterior e cuide da garota linda que está aí dentro!
_ Pra você é muito fácil, ninguém fica exigindo que você tenha
um corpo perfeito...
_ Paula, o assunto aqui é muito sério. Não quero vê-la novamente
em um hospital... deixe que Deus oriente os seus passos... Ele quer
o melhor pra você. Volte a estudar.
_ Léo, na boa... eu adoro você mas este papo está muito chato.
Valeu o presente, não prometo que vou “devorá-lo”, mas qualquer
dia desses eu dou uma olhada nele. Tá?
_Tudo bem. Hoje, lá na igreja, vai ter uma reunião de oração
com todos os grupos da REMA e na quinta-feira o grupo Alfa vai
se encontrar.
_ De repente... se eu estiver animada, tchau, gato.
_Tchau, linda. Cuide-se!
Leonardo deu um beijo na amiga e foi até a casa de Letícia
convidá-la para tomar um sorvete com ele.
_ A Suzana ligou pra você? Quem diria, hein? - disse Letícia,
saboreando o seu sorvete.
_Devo isso à vovó Vivi. Vou lá amanhã tomar um café.
_Que legal. Você foi muito esperto ao escolher os presentes.
_Graças a você. Mas não foi para falar de mim que eu te
convidei... eu gostaria de ajudá-la com o seu namoro.
_Valeu, amigo, mas o que você pode fazer?
_ Te encorajar! Lê, conversa com os seus pais.
_ Léo... eu sei que preciso abrir o jogo com eles, mas...

4 Crianças Diante do Trono: “ Aos olhos do pai ”

111
Tânia Gonzales

_Pare de pensar na reação deles! Pense em como vai ser


maravilhoso oficializar o namoro de vocês! Pense no Daniel, deve
ser bem complicado pra ele! Ele sabe o motivo exato de toda a
sua preocupação?
_Eu digo que é por causa da ideia fixa deles à respeito de você ser
o namorado perfeito pra mim.
_ Leca, isso não é justo. Os seus pais não são preconceituosos.
_Léo, ninguém é, até que tenham algum motivo pra isso.
_Lê, o Daniel é um cara legal, bom filho, trabalhador, temente a
Deus... eu acho que é isso que os pais desejam para seus filhos,
não é? Se ele fosse um mau-caráter, tudo bem... mas não faz
sentido você ficar tão temerosa com a reação deles só porque ele
é negro. Lê, isso é um absurdo total!
_Eu também acho, mas...
_Amiga, peça coragem a Deus e converse com seus pais.
_ Você tem razão, eu vou orar e agir. Bom... hoje tenho uma
ótima oportunidade para orar, né?
_É isso mesmo. Vai ser ótimo orar com todos os grupos reunidos e
depois vamos saborear uma pizza!
_ Vamos para o shopping?
_Não, vai ser lá no salão da igreja mesmo. O horário da Suzana
atrapalha tanto!
_Ligue pra ela e se ofereça para buscá-la, assim dá tempo dela
comer pizza com a gente!
_Eu fiz isso e ela me respondeu com um redondo: não!

A reunião dos grupos da “rede melhores amigos”, começou às sete


horas da noite. O líder de jovens, Mateus, após o período de
oração, falou sobre a importância de não se conformar com o
padrão do mundo, leu em Romanos 12.2 : “ E não vos conformeis
com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa

112
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e


perfeita vontade de Deus”.
_Jovens, o mundo dita as regras, mas isso não quer dizer que
devemos seguí-las. Eu sei que é difícil ser diferente, porém é
necessário. Se você quer agradar a todos os seus colegas lá de
fora, com certeza não vai conseguir agradar a Deus. Para eles é
normal sair em um sábado à noite e se encher de bebidas,
conhecer alguém e “ficar”, só para ter um momento de prazer,
afinal, só se vive uma vez, não é verdade? Então, vamos
aproveitar! Jovens, a Palavra de Deus diz para não nos
conformarmos com o sistema do mundo e o que seria isso? Você
não deve viver seguindo o modelo ou o padrão do mundo, aquilo
que eles acham que é correto, que não faz mal. Não tenham medo
de discordar. Outro dia eu estava pensando em como este mundo
é cheio de contradições. Antes os crentes eram ridicularizados por
dizer que fumar é errado e existia propagandas que mostravam
uma linda paisagem, era um local maravilhoso, ar puro e aparecia
um homem bonito, forte e o que ele estava fazendo? Fumando!
Depois você assistia àqueles filmes lindos, românticos e aquele
ator lindo, fazendo o quê? Fumando. Agora a propaganda de
cigarros é proibida, colocam nos próprios maços uma imagem
nada atraente de alguém que está muito doente e um aviso: “
Fumar é prejudicial à saúde”. E a bebida, hein? “ Beba com
moderação” , e “ Se for dirigir, não beba!”. As estatísticas dizem
que os jovens estão bebendo e fumando cada vez mais cedo.
Muitos estão preocupados com isso. Outra assunto muito em pauta
é a respeito da virgindade. Os crentes estão sempre pregando
sobre a importância de permanecer virgem até o casamento. E o
mundo achava uma caretice. Agora até existem grupos levantando
a bandeira da virgindade. Que legal! Mas para nós isso não é uma
moda, isso é a “boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. Vale a

113
Tânia Gonzales

pena esperar. É fácil? Não, mas se vocês forem equilibrados em


tudo, com certeza vão conseguir esperar. Cuidado com as carícias,
não exagerem nos beijos, pois depois que a chama se acende, é
preciso muito auto-controle para tomar a decisão certa de apagar
o fogo. Dizem por aí que as meninas estão engravidando cada
mais cedo, e é verdade, mas o que eles fazem com relação a isso?
Usem preservativos! Eu não sou contra o uso deles, pelo contrário,
mas por que não lançam uma forte campanha contra o sexo antes
do casamento? Uma campanha para dizer ao jovem que o correto
é esperar. Por que não dizem aos jovens que a melhor maneira de
ficar livre das doenças sexualmente transmissíveis e da gravidez
indesejada é a abstinência sexual? Jovens, eu digo mais uma vez
que vale a pena esperar. Eu não me envergonho de dizer para
vocês que eu me casei virgem, porque para muitos, casar virgem é
só para a mulher. Homem? Que isso! Mas para Deus não há
diferença. Não tem preço que pague você chegar no dia do seu
casamento com a sua consciência tranquila e com aquela
expectativa de como será a primeira vez. Dizem que para o
casamento dar certo é necessário ter experimentado antes, mas
isso é papo furado, se fosse assim não existiriam tantos casais
separados. Eu quero que vocês gravem estas palavras no coração.
A vontade de Deus é: boa, agradável e perfeita. Eu quero
agradecer a todos pela presença, estamos hoje aqui com cerca de
300 jovens e isso é uma benção. Eu quero agradecer também aos
casais de líderes de cada grupo da REMA que têm se empenhado
nas atividades. O pastor Pedro Gabriel pediu para que nós
fizéssemos um trabalho especial para arrecadar fundos para
missões, então cada grupo vai fazer algo para ser vendido. Depois
os líderes vão conversar com vocês sobre isso mais
detalhadamente. Antes de orarmos, eu quero agradecer aos que
ajudaram na cozinha hoje. Valeu!

114
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Após a oração, Leonardo encontrou-se com a amiga Letícia que


lhe deu uma ótima notícia.
_Sério? A Suzana está aqui? - perguntou Leonardo.
_ Você sabe que nas datas especiais os funcionários de shopping e
do comércio em geral sempre trabalham mais, as horas se
acumulam, então a Suzana aproveitou para sair mais cedo hoje.
Ela me ligou avisando que viria.
_ Isso é ótimo. Eu já estava com saudades.
_ Vai devagar... ela está se aproximando, cuidado com que você
diz, tá? - pediu Letícia.
_ Oi, Lê- Suzana cumprimentou a amiga com um beijo- Oi,
Leonardo.
_ Oi, eu não ganho um beijo também? - perguntou Leonardo,
Letícia olhou para ele com reprovação e Suzana brincou:
_ Se você não tivesse falado nada...
_ Que pena, da próxima vez eu vou ficar bem quietinho! Que
bom que você pôde vir. Eu estou muito feliz por você estar aqui.
Letícia estava fazendo sinal para Leonardo parar com aquele tipo
de conversa, mas ele não tirava os olhos de Suzana.
_Obrigada, eu também estou feliz por participar.
_ E por mim, você está feliz ? - provocou Leonardo.
_ Leonardo, que tal nós irmos até o refeitório? - perguntou Letícia
ao perceber que Suzana estava sem graça- Vamos Su?
Como Jessica se aproximou de Suzana e as duas começaram a
conversar, Letícia aproveitar para dar um toque ao amigo.
_ Você é inacreditável!
_O que eu fiz?
_Ainda pergunta? Léo, eu não falei para você ir devagar?
_O que eu falei? Eu nem perguntei como que ela consegue?
_Consegue o quê?
_Ficar mais linda ainda! Hoje ela está acabando comigo. Está uma

115
Tânia Gonzales

princesa. Princesa Suzana!


_Depois você não entende o porquê dela fugir!
Foram até o refeitório, Letícia sentou-se ao lado da amiga e
Leonardo precisou se afastar, pois Jônatas o convocou para ajudar
a servir.
_ E então, qual pizza que devo trazer? Estou aqui para serví-los -
disse Leonardo ao se aproximar da mesa onde estavam Suzana,
Letícia, Vitória e Daniel.
_ E aí, Leonardo, está precisando de ajuda? - perguntou Daniel.
_Não, pode ficar tranquilo já tem um exército ajudando, mas e aí?
Temos pizza: napolitana, portuguesa, calabresa, atum e é claro que
a famosa pizza de mussarela. Princesa Suzana? Qual é a sua
preferida?
Suzana ficou muito envergonhada, foi Letícia quem tirou a amiga
da incômoda situação.
_ Que tal você trazer meio a meio? Napolitana e calabresa, todos
concordam? - perguntou Letícia.
Leonardo voltou instantes depois com a pizza pedida por Letícia,
mas mesmo assim insistiu com Suzana.
_ Se você quiser outro sabor é só me pedir, princesa Suzana.
_ Obrigada, mas não precisa.
_ E você, quando é que vai comer? - perguntou Letícia.
_Mais tarde, agora eu vou servir outras mesas, senão vão pensar
que é proteção- disse Leonardo afastando-se.
Leonardo retornou após trinta minutos trazendo uma pizza
portuguesa, sentou-se ao lado de Suzana. Vitória não estava mais
entre eles.
_ Se você não se importar eu gostaria de saborear esta deliciosa
pizza ao seu lado.
_Fique à vontade.
Letícia e Daniel acompanharam Leonardo, Suzana disse que

116
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

estava satisfeita.
_ Estava deliciosa, o pessoal caprichou- comentou Daniel.
_Concordo com você, que tal nós darmos uma voltinha por aí? -
sugeriu Letícia- Você se importa, Suzana?
_É claro que não.
Leonardo e Suzana ficaram a sós e em silêncio por um breve
momento.
_Tem certeza que não quer mais um pedacinho? - perguntou
Leonardo.
_ Tenho sim, obrigada.
_ E a sua vó?
_ Está toda animada com os preparativos de amanhã.
_Diz pra ela que não precisa se incomodar, pode ser só um
cafezinho mesmo e...
_Você não conhece a minha vó. Pega leve no almoço, porque com
certeza ela vai preparar um banquete.
_Não quero dar trabalho.
_ Ela adora, desde que chegou tomou conta da cozinha.
_ Deve ser muito bom tê-la por perto, né?
_Ela é maravilhosa! Vamos fazer de tudo para que ela fique mais
tempo aqui... e os seus avós?
_Os pais da minha mãe moram em Fortaleza, o irmão mais velho
dela mudou-se por causa do trabalho e os levou também. Eles
vêm aqui uma vez por ano e nós passamos as férias lá. É um lugar
maravilhoso! Meu avô paterno já faleceu e a minha avó mora em
Santa Catarina, ela casou-se novamente. E os seus avós paternos?
_ Também moram em Belo Horizonte, mas detestam viajar. Vovô
Samuel tem 77 anos e a vovó Diva tem 75 anos.
_ Legal! A sua tia Marisa não tem filhos?
_ Não. Com a minha tia estava tudo certo, os médicos sempre
diziam que ela tinha todas as condições para engravidar, uma vez

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Tânia Gonzales

o médico insinuou que poderia haver algum problema com o meu


tio, mas ele nunca concordou em fazer exames para confirmar
isso.
_ Que pena.
_É mesmo uma pena, a minha tia é uma pessoa maravilhosa, tenho
certeza que seria uma excelente mãe. Ela tem um coração enorme.
Eu só estou estudando por causa da ajuda dela. Ela ficou muito
chateada quando ficou sabendo que eu iria trancar a matrícula da
faculdade, pois estava muito complicado conseguir pagar. Eu não
queria dar despesas para ela, mas ela teve uma conversa bem séria
comigo e me convenceu. Eu percebi que era uma grande bobagem
não aceitar por causa de orgulho.
_ Que bom você ter mudado de ideia, isso me dá esperança.
_ Esperança?
_ É isso mesmo, eu ainda tenho esperança que você aceite …
_ Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Eu não vou aceitar
que você me busque.
Letícia estava se aproximando com Daniel, mas como viu os dois
conversando, resolveu voltar e sugeriu ao namorado:
_O que você acha de me levar para casa hoje? Não quero
atrapalhar aqueles dois.
_ Está falando sério? E os seus pais?
_ Ele nem vão perceber, vamos? Eu vou ligar para Suzana
avisando.
Leonardo ainda argumentava com Suzana sobre a possibilidade
dela aceitar a carona, quando o celular dela tocou.
_ Alô? Lê? O quê? Não tem problema, pode ficar sossegada... é
claro que eu não vou ficar chateada. Um beijão. Tchau- Suzana
desligou o celular e disse - A Letícia já foi embora com o Daniel.
_ Ele vai levá-la para casa? Que legal! Então, ela resolveu abrir o
jogo com os pais.

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_ Eu acho que não é bem isso, ela tem certeza que eles não vão
notar.
_ Eu vou procurar a Vitória e pedir que ela te leve para casa.
_ Você tem algum compromisso?
_Compromisso, eu? Não, vou direto para casa... por quê?
_ Por que a Vitória precisa me levar? Você não...
_ Eu? Eu posso levá-la e quero, é que eu pensei que você … sei
lá... você deve estar pensando que eu combinei com a Lê, olha,
não foi nada disso.
_ Eu não pensei isso, se você puder me deixar em casa, eu
agradeço.
_É claro que eu posso, você quer ir agora?
_Quero, por favor.
Leonardo ficou muito surpreso com a atitude de Suzana, na
verdade, ela o havia surpreendido várias vezes naquela noite. Eles
conversaram como dois amigos e a maior parte do tempo ela
esteve descontraída, nem parecia a mesma garota desconfiada e
distante. Durante o caminho para casa, eles continuaram
conversando. Suzana aproveitou a oportunidade e perguntou por
Paulinha, quis saber se ela havia gostado do livro.
_ Não sei se ela vai ler, eu estou muito preocupado... a Paulinha
continua com as mesmas ideias, eu até falei para ela voltar a
estudar. Ela ia fazer faculdade de veterinária e mudou de ideia
para seguir a carreira de modelo.
_ Tomara que ela se recupere de verdade... seria ótimo se ela fosse
para a faculdade, a Paula precisa ocupar a mente com outras
coisas... precisa parar de se preocupar tanto com a aparência.
_ Eu tenho a impressão que você é bem tranquila com relação a
sua aparência, não é?
_O que você quer dizer com isso?
_ Espera um pouco, eu não fui claro, eu acho que você não é do

119
Tânia Gonzales

tipo que fica toda preocupada com isso... sei lá... não que eu pense
que você não liga para sua aparência, ou que você não esteja em
boa forma, não é isso, mas é que eu vejo que você não exagera na
maquiagem, por exemplo, a sua é bem suave e eu gosto disso...
hoje, por exemplo, eu até comentei com a Leca que você estava
ainda mais linda, não sei... você tem uma beleza natural... me
desculpe.
Enquanto Leonardo se atrapalhava todo para explicar sobre a
beleza de Suzana, ela permaneceu em silêncio, mas não desviou
os olhos dele.
_Boa noite, Leonardo e obrigada pela carona.
_Dê um abraço na sua vó por mim. Boa noite.
Leonardo foi para casa pensando em como ele havia se
atrapalhado para falar com Suzana sobre a aparência dela. “ O que
foi aquilo?” - pensou alto.
Suzana também pensou muito nas palavras de Leonardo, ela
precisou reconhecer que havia gostado de conversar com ele
naquela noite. Pensou tanto nele que até sonhou que os dois
estavam em frente à casa dela conversando bem amigavelmente,
quando, de repente, ela ouviu um estrondo e a seguir Leonardo
caiu no chão todo ensanguentado. Suzana se desesperou e gritou
pedindo socorro.
_ Ele está morto! Não adianta pedir ajuda, ele está morto, acabou!
Você pensava mesmo que poderia pertencer a outro? Não
aprendeu ainda que você é minha?
_Não! Alguém me ajude! Por favor! Leonardo! Leonardo! Não,
não, não...
_Querida? Suzana? Você está bem? - perguntou vovó Vivi.
_Ele morreu! Ele morreu! A culpa é minha... - dizia Suzana.
_Suzana, foi só um sonho, está tudo bem.
_Vó?- perguntou Suzana ainda confusa- Foi horrível!

120
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Querida! Minha neta... eu sinto muito! Você ainda tem aqueles


pesadelos?
_Vó, eles desapareceram por algum tempo, mas agora eles
voltaram e estão bem frequentes, desde que eu conheci o
Leonardo... eu não posso ser amiga dele, vó, eu não posso!
_Suzana, isso é porque você está se interessando por ele.
_Não, eu não posso! Eu nunca vou me interessar por ninguém.
Isso é totalmente proibido pra mim.
_Que história é essa? Você merece ser feliz, amar e ser amada.
_Não, não posso... vó, a senhora sabe muito bem.
_Pare de falar isso! Você é uma menina linda e sabe de uma coisa?
Está mais do que na hora de você ter um namorado. Pelo que
dizem, o Leonardo é um ótimo rapaz e...
_Não.
_Você não concorda com isso? Eu só vou conhecê-lo
pessoalmente amanhã, mas...
_ É justamente por isso que eu devo ficar longe dele... ele é muito
bom e merece alguém que também seja.
_ Você é uma menina de ouro, é linda, inteligente, meiga...
_ Não, eu não posso enganá-lo, ele não merece.
_ Suzana, você não está enganando ninguém.
_ Eu não posso enganá-lo... e eu não quero que ele se machuque,
nos meus sonhos ele...
_Querida, são apenas sonhos.

121
Tânia Gonzales

Capítulo 12 –Café especial


Naquela manhã de domingo, Suzana foi com a vovó Vivi para a
escola bíblica. Na noite anterior ela fez a avó prometer que a
conversa que elas tiveram seria mantida em segredo. Após a aula,
vovó Vivi pediu para Suzana apresentar Leonardo para ela.
_Vó, eu não o vi hoje. A Letícia está se aproximando, eu vou
perguntar para ela.
_Vovó Vivi, paz! Tudo bem? - cumprimentou Letícia dando um
forte abraço e beijos na vovó.
_ Querida! Que bom vê-la, está tão linda!
_ Lê, você viu o Leonardo? A vovó quer conhecê-lo.
_ Ele não veio hoje. A família foi almoçar em Jundiaí, um grande
amigo do pai dele, que é um cliente também, está comemorando
porque ganhou um processo complicado. Até a Bia foi com o
marido para participar do almoço.
_Então ele não vai comparecer ao meu café especial? - perguntou
a vovó.
_Vó, eu não sei, ontem ele não comentou nada comigo sobre o
almoço, mas confirmou que iria em nossa casa hoje, eu até disse
que a senhora estava preparando um banquete e o Leonardo falou
que não gostaria de dar trabalho - explicou Suzana.
_Ele deve ter esquecido que tinha um compromisso com a
família... mas é uma pena mesmo.
_Se o Léo confirmou com a Suzana com certeza ele vai chegar
para o café, fique sossegada vovó – assegurou Letícia.
_Você também está convidada! - anunciou a vovó.
_A Su já me convocou. Eu não vou perder... já estou ficando com
água na boca só de pensar!
Vovó Vivi foi para casa toda preocupada com a possibilidade de

122
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Leonardo não aparecer. Às duas horas da tarde Letícia chegou


para ajudá-las nos preparativos.
Os sentimentos de Suzana estavam divididos, uma parte dela
queria que Leonardo não viesse, era tudo muito complicado para
ela... por outro lado, se ele faltasse ao café especial, vovó Vivi
ficaria muito decepcionada.
Quinze minutos antes das três horas, Leonardo tocou a campainha.
Vovó Vivi pediu para que Suzana atendesse.
_ Oi, princesa Suzana! Você está bem?
_ Oi, estou bem e você?
_ Há alguns segundos atrás eu estava muito bem, agora eu estou
ótimo.
_ Entre, a vovó está esperando – disse Suzana ignorando o
comentário dele.
_ Você está bem, mesmo? Dormiu bem a noite passada?
_Na verdade eu não dormi muito bem... mas... é melhor nós
entrarmos.
_Vovó, o seu convidado chegou! - anunciou Suzana.
_ Você é o famoso Leonardo? - perguntou a vovó.
_ Famoso não. É um prazer conhecê-la, vovó Vivi, posso chamá-la
assim?
_ Mas é claro! Eu estou muito feliz em conhecê-lo e aliviada por
você ter vindo.
_Aliviada? Não entendi.
_ A Letícia nos disse que você foi almoçar fora - explicou a vovó.
_ Oi, Leca! Que bom te ver – disse Leonardo cumprimentando a
amiga com um beijo.
_ Eu contei para elas sobre o almoço em Jundiaí – disse Letícia.
_ Ah! A senhora pensou que eu iria faltar a um compromisso tão
importante? Os meus pais ainda ficaram lá e eu seguindo as
recomendações da princesa Suzana, peguei leve no almoço, pois

123
Tânia Gonzales

ela me avisou que hoje aqui teria um verdadeiro banquete.


_A princesa Suzana disse isso, é? - brincou a vovó dando ênfase
na palavra princesa deixando Suzana mais sem jeito do que ela já
estava.
_ É isso mesmo, hum... o cheirinho está ótimo! Boa tarde, dona
Marina- disse assim que a mãe de Suzana apareceu.
_Boa tarde, Leonardo. É uma alegria recebê-lo aqui.
_Leonardo, quero te agradecer pelos presentes, você foi muito
gentil, eu ouço todos os dias a palavra de Deus, é uma benção! O
outro presente não existe mais... estava delicioso!- explicou a
vovó.
_Por falar em presentes, eu preciso ir até o carro, volto já, com
licença.
_Suzana, acompanhe o Leonardo – pediu a vovó.
Suzana só o acompanhou por causa do pedido da avó, mas sempre
ficava sem jeito perto dele.
Leonardo tirou do carro um lindo arranjo de flores.
_Leonardo, eu...
_Não se preocupe, são para sua vó... mas eu tenho que confessar
uma coisa... estas são para você, me desculpe, não resisti- disse
Leonardo tirando um lindo bouquet de rosas vermelhas do banco
traseiro do carro.
Suzana, em uma atitude totalmente inesperada, começou a
chorar...
_ Suzana, por que você está assim? Não chore... por favor... eu não
queria fazê-la chorar. Me desculpe, o que eu posso fazer?
_A culpa não é sua... eu que peço desculpas, me dê só alguns
segundos, preciso me recompor, não posso entrar desse jeito.
Suzana abaixou a cabeça pois algumas lágrimas ainda teimavam
em cair, Leonardo se aproximou e tentou enxugar o rosto dela,
mas ela se afastou rapidamente.

124
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_ Suzana, você está com algum problema? Eu fiz alguma coisa


errada? Olha, se não quiser aceitar as rosas tudo bem.
_Eu … é... eu aceito... você não fez nada errado, a culpa é toda
minha, me desculpe. Eu só peço que não conte pra ninguém sobre
isso.
_Claro, fique tranquila... você consegue entrar, agora?
Suzana balançou a cabeça confirmando e pegou o bouquet das
mãos de Leonardo.
_Obrigada, são lindas!
Os dois entraram em silêncio.
_Nossa, que flores mais lindas! - exclamou a vovó.
_São para a senhora, vovó! - disse Leonardo.
_Obrigada, querido, você é um cavalheiro! Agora, vamos comer?-
vovó deu uma rápida olhada para a neta, mas preferiu não fazer
comentário sobre as rosas vermelhas.
Vovó Vivi havia preparado um bolo especial de fubá cremoso,
bolo de chocolate, pãezinhos folhados de maçã e dois tipos de
pães com recheios salgados e bolachinhas de nata. Para beber
havia café, chá, leite e suco de acerola com laranja que Marina
havia feito em sua centrífuga.
_ Nossa... é um verdadeiro banquete! Vovó Vivi, a senhora não
precisava exagerar, deve ter passado horas na cozinha - disse
Leonardo.
_Fiz tudo com muito carinho e amor, pode ter certeza disso e é
claro que deu trabalho, mas é um tipo de trabalho que dá prazer,
sabe? Ao vê-los devorar tudo isso, eu terei a minha recompensa-
afirmou a vovó para em seguida fazer uma oração- “ Pai, eu te
agradeço por este momento especial, te agradeço pela vida do
Leonardo que é um bom rapaz, também te louvo pela vida dessa
menina linda chamada Letícia, a amizade dela é uma benção para
minha neta e te agradeço pela minha família, eu os amo muito. E é

125
Tânia Gonzales

claro que dou graças pelo alimento que nos tem dado. Oro em
nome de seu filho amado Jesus, amém.”
_ Podem se servir, fiquem à vontade – disse Marina.
_ Vovó, esse pão folhado é delicioso! Adorei! - elogiou Leonardo-
E o seu Davi?
_ Ele precisou levar o patrão para uma festa hoje- explicou
Marina- Esse serviço de motorista particular é assim.
_Leonardo, não fique tímido, sirva-se à vontade – pediu a vovó.
_Eu não estou tímido, pode ficar tranquila, eu me sinto bem à
vontade aqui com vocês... e parabéns, está tudo maravilhoso!
Após o café, vovó pegou algumas fotos.
_ Vó, ele não está interessado em ver fotos- disse Suzana.
_É claro que eu estou! Principalmente se tiver alguma foto sua
quando era bebê.
_Eu tenho sim, nesta foto aqui Suzana tinha 1 aninho.
_Que gracinha! E aqui? - perguntou Leonardo ao ver outra foto.
_Aqui ela tinha uns 5 anos, não era uma princesinha?
_Era uma princesinha, agora é uma verdadeira princesa – o
comentário de Leonardo fez Suzana corar.
_Suzana, não precisa ficar com vergonha, ele tem toda a razão, a
minha neta é uma princesa.
_Vó, quer parar com isso? E a Sueli, hein? - perguntou Suzana
para deixar de ser o centro das atenções.
_Ela tinha uma reunião do grupo, é... qual o nome mesmo? -
perguntou Marina.
_Grupo Ágape. Hoje, depois do culto nós vamos participar de um
campeonato de boliche contra o grupo dela- anunciou Suzana.
Letícia e Suzana começaram a conversar sobre o campeonato de
boliche e os outros compromissos que teriam na próximas
semanas enquanto Leonardo e a vovó Vivi olhavam os álbuns de
fotografia.

126
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_ E esse pássaro? Suzana tem várias fotos com ele... - perguntou


Leonardo.
_ É a Meg, é uma calopsita que era de Suzana. A minha neta
resolveu me dar de presente dois dias antes de se mudarem para
cá, eu fiquei tão emocionada, me apeguei muito a esse bichinho...
mas a Suzana sente muitas saudades dela, olha... esta foto eu tirei
um dia antes de viajar , fiz um porta retrato e dei de presente para
Suzana.

_Bom... eu agradeço por tudo, vovó, mas agora eu preciso ir –


disse Leonardo quase cinco horas da tarde.
_Eu adorei a sua visita e vou marcar para você vir almoçar ou
jantar aqui qualquer dia desses- foram as palavras da vovó Vivi-
A Suzana vai te acompanhar e vê se a convence sobre aquele
assunto- pediu a vovó.
_Vó, que assunto? - quis saber Suzana.
_Qual seria? Sobre ele te buscar no serviço, é claro.
_ Ainda isso? Vó, eu já conversei com ele e com vocês também...
_Você é muito teimosa! É linda, mas também é teimosa!
_Vó, por favor! Isso não tem nada a ver.
_Nada a ver é a sua mãe ou seu pai ir até lá para te buscar...
_Eu concordo, eu já falei pra mamãe que é um absurdo!
_Eu já falei que você não vai mais voltar sozinha! - disse Marina.
_Vamos parar com isso? O Leonardo não precisa ouvir este tipo de
conversa, né? - pediu Suzana.
_Não se preocupe comigo e você sabe muito bem que eu estou à
sua disposição, é só dizer sim- disse Leonardo.
_Já conversamos sobre isso e você sabe qual é a minha resposta.
_Se você mudar de ideia é só me avisar.
_Agora você está de férias mas quando as aulas recomeçarem vai
ser uma correria... se pelo menos você aceitasse a carona de

127
Tânia Gonzales

Leonardo chegaria mais cedo em casa... - disse Marina tentando


convencer a filha.
_ Quantas pessoas fazem o mesmo todos os dias, a vida é assim.
As coisas não são fáceis- constatou Suzana.
_Você tem razão, mas se dá para facilitar ... - Marina foi
interrompida pela filha.
_Mãe, chega! Eu vou acompanhar o Leonardo até o portão.
Leonardo se despediu e seguiu Suzana pelo corredor.
_ Suzana? Por que você...
_Leonardo, se você vai me perguntar sobre o que aconteceu aqui
naquela hora das flores, pode esquecer.
_ Eu só estou preocupado com você.
_Eu estou bem, é cansaço, eu dormi muito mal a noite passada...
eu estou pensando que... eu acho que não vou participar do
campeonato... assim eu posso me deitar mais cedo.
_Você vai fazer muita falta.
_Não vou não, eu nem sei jogar boliche, só joguei uma vez com as
meninas da loja.
_ Mesmo assim, só de você estar lá seria um grande incentivo,
especialmente pra mim. Bom, é melhor eu ir... a sua vó é
maravilhosa e adorei ver as suas fotos e... estar perto de você é...
_Leonardo, por favor!
_Tudo bem, eu vou parar... mas, só um coisa , agora que você está
de férias da faculdade o que você acha que almoçar comigo
qualquer dia desses, hein?
_Eu... não sei se vai dar.
_Pense com carinho. Tchau, princesa Suzana.
_Tchau! E obrigada por ter vindo, foi muito importante para
minha vó.
_E pra você?
_Você não tem jeito mesmo... tchau!

128
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Ao chegar em casa, a mãe de Leonardo o estava esperando com


algumas perguntas. Beatriz também estava lá.
_Quem é essa pessoa que o convidou para um café especial?
_É a mãe da Marisa.
_ Mãe da Marisa? Mas, qual o motivo? Não entendi.
_A mamãe está desconfiada de você, cuidado! - brincou Beatriz.
_Desconfiada do quê? Eu fui convidado e aceitei o convite.
_Leonardo, como que a mãe da Marisa te conhece?
_Mãezinha querida, a mãe da Marisa é a vovó Vivi, que está
passando uns dias na casa das filhas.
_Tudo bem, mas por que ela iria convidá-lo?
_Ai, ai, ai, ai... mãe, o que está passando na sua cabecinha, hein?
_ Esta história é muito estranha.
_ Não tem nada de estranho, acontece que a Letícia, que também
participou do café...
_Agora ela começou a gostar da história- disse Beatriz
interrompendo o irmão.
_Como eu estava dizendo... a Letícia me contou que a vovó Vivi
não pode mais ler por causa de problemas na visão, nem com os
óculos ela consegue mais, como ela lia muito a Bíblia, eu dei de
presente para ela CD's da Bíblia, ela ficou extremamente grata e
me convidou para um café, pois queria me conhecer, satisfeita?
_Parabéns! Foi um gesto muito bonito... mas mesmo assim, eu não
sei... você anda muito diferente e a Sandra também acha que a
Letícia está escondendo alguma coisa dela.
_Escondendo? Mãe...
_A Sandra está desconfiada que vocês dois estão namorando
escondidos.
_Como é que é? Por que eu e a Letícia iríamos namorar
escondidos? Você ouviu isso, Bia?
_Elas sonham tanto com isso que até ficam inventando que há um

129
Tânia Gonzales

mistério no ar- brincou a irmã.


_ É o que a Sandra está pensando, mas eu também acho que você
anda me escondendo algo, mas não penso que seja isso.
_Eu vou tomar banho está quase na hora do culto, beijos para as
duas ou melhor para as três- disse Leonardo passando a mão na
barriga da irmã- ou beijos para os três?
_Vamos esperar para ver, mas para mim o importante é que seja
um bebê saudável- disse Beatriz.
_ É isso aí, minha irmãzinha! Você é a grávida mais linda deste
mundo!
_Exagerado!
_Filho, a Marisa tem uma sobrinha que deve ter a idade da
Letícia, não é? Qual o nome dela?
_Suzana, depois a gente conversa mais, agora eu vou tomar
banho.
Antes de entrar debaixo do chuveiro, Leonardo ligou para a
amiga.
_Como é? Minha mãe acha que nós dois estamos namorando
escondidos?
_É isso aí! Leca, eu já te aconselhei a abrir o jogo com seus pais.
A sua mãe já percebeu que existe algum segredo... ela tendo esse
tipo de pensamento só vai piorar as coisas para o seu lado.
_Valeu, amigo! Eu vou tomar uma decisão, até o próximo
domingo eu falo com eles.

Os dois grupos da REMA foram para o shopping participar do


torneio de boliche. Suzana decidiu ir para casa descansar, mas
antes avisou os líderes de seu grupo. Ela e Leonardo não tiveram
oportunidade para conversar.
Faltavam dez minutos para a meia-noite quando Sueli chegou em
casa, pois ela havia participado do torneio.

130
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Capítulo 13 - Por um fio


Mais uma semana se passou, Suzana estava inconformada com a
situação; o pai dela a estava buscando todos os dias. O grupo
REMA saiu na quinta-feira mas ela não pôde ir. Já fazia quase
uma semana que ela não via Leonardo. “ Ele deve ter desistido da
ideia de me buscar”- pensou ela naquela noite de sábado.
Domingo ela foi à igreja mas também não o viu. Queria perguntar
para Letícia mas a última coisa que ela desejava era demonstrar
algum interesse por ele.

O celular de Leonardo tocou às três horas da manhã, era uma voz


desesperada de mulher.
_Eu não sei o que fazer... ela caiu e ficou parada sem se mexer, eu
estou com tanto medo de perdê-la!
_ Calma, Regina! Você chamou o resgate?
_Eles estão aqui.
_ Regina, o seu marido está aí?
_O Paulo, aquele... ele só pensa nele mesmo, sabe aonde ele está?
Em Campinas.
_Eu vou até aí...
_Vá direto para o hospital...
_Tudo bem... mantenha a calma, confie em Deus.
Leonardo trocou-se rapidamente e foi até o quarto dos pais para
avisá-los. Rafael resolveu acompanhá-lo.
_O Paulo Reis não tem jeito! Mesmo com a filha doente ele
continua com o mesmo ritmo... - disse Lígia inconformada.
Ao chegarem logo encontraram com Regina.
_Que bom que vocês vieram, até a minha irmã precisou fazer uma
viagem rápida e a Aline foi junto.

131
Tânia Gonzales

_Como ela está? O que aconteceu? - perguntou Leonardo ansioso.


_Eles não me deixaram ficar com ela. Eu estava dormindo, mas
como eu tenho o sono muito leve acabei acordando com um
barulho, fui até o quarto dela... ela estava caída no chão, sem se
mexer, estava tão pálida!
_Ela deixou de seguir a dieta passada pelo médico? - foi a
pergunta de Rafael.
_A Paulinha fazia as refeições direitinho, eu ficava esperando ela
terminar para depois sair para a loja.
Após uma hora, um médico veio dar uma notícia nada animadora.
_Sra. Regina, a sua filha está muito fraca... desde quanto que ela
não se alimenta?
_ Ela faz as refeições todos os dias, eu permaneço ao lado dela até
que ela termine...
_Isso é impossível, ela não tem se alimentado há muitos dias...
_Não pode ser... eu vejo ela comendo.
_Então só pode ser uma coisa: ela come e provoca o vômito. Isso
acontece muito... ela come para satisfazer a senhora e depois,
como não quer engordar, provoca o vômito- explicou o médico
para desespero de Regina- Vocês são...
_ Somos amigos dela – explicou Rafael.
_Ela vai precisar permanecer na U.T.I, a senhora pode
acompanhá-la; é melhor os senhores voltarem para casa, não vai
adiantar permanecer aqui. Boa noite.
_ Regina, se precisar de alguma ajuda é só nos ligar, estaremos
orando para que a Paulinha saia desta situação – disse Rafael.
_ Eu deveria ter percebido que ela estava fingindo- foi o
comentário de Leonardo ao saírem.
_Como você iria saber se a própria mãe que passa mais tempo
com ela não percebeu?
_Às vezes eu me sinto um pouco culpado.

132
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Filho, por que isso?


_Por tê-la feito escolher. Quando ela era minha namorada eu disse
que ela deveria fazer uma escolha... se eu não a tivesse
pressionado, talvez...
_Leonardo, isso não faz nenhum sentido. O namoro acabou
porque não havia amor. Não fique se culpando. Ela vai se
recuperar, você vai ver.

Regina olhou para o rosto da filha. Como doía vê-la ligada a


vários aparelhos. As lágrimas começaram a rolar, o coração da
sofrida mãe estava apertado. Em pensamento ela clamava: “ Meu
Deus, não leve a minha filha, eu vou cuidar melhor dela, eu
prometo. Por favor, meu pai! Tenha misericórdia de mim.”

Naquela segunda-feira pela manhã estava difícil para Leonardo se


concentrar no trabalho, ele não conseguia parar de pensar em
Paulinha, ligou para Regina mas ela não tinha nenhuma novidade.
Saiu para almoçar com seu pai, mas quase não tocou na comida.
_Filho, não fique assim! Você precisa se alimentar; não vai ajudar
em nada você ficar aí se culpando. A Regina falou alguma coisa
sobre o Paulo Reis?
_Ele não sabe de nada. Ela disse que não vai avisá-lo; está muito
magoada.
_Ele precisa saber, a Regina não pode fazer isso!
_Foi o que eu disse, mas ela está irredutível.

No shopping Suzana estava tendo uma conversa com a amiga


Cláudia.
_Se você está tão preocupada com o seu pai, por que você não
aceita a carona daquele gato?
_Ah... eu não sei.

133
Tânia Gonzales

_Suzana, pare de bobagem! Pense bem: o seu pai deve ficar


exausto, é bem distante, concorda?
_É claro que eu concordo. Eu já disse várias vezes que isso é
totalmente desnecessário, mas não consigo convencê-los.
_Então, a única solução é aceitar a carona do gato. Que sacrifício!
Estou com pena de você- ironizou a amiga- Por que você não faz
um acordo com os seus pais?
_Acordo?
_Quando as aulas recomeçarem eles vão querer levá-la para a
faculdade também, aí você pode fazer um acordo com eles: você
aceita a carona do gato à noite se eles não inventarem de levá-la
para a faculdade.
Depois da conversa com Cláudia, Suzana fez uma ligação para o
pai.

À tarde, Leonardo ligou novamente para Regina e as notícias eram


as mesmas. Ele ainda tentou convencê-la a ligar para o marido,
mas não obteve sucesso.

Às quatro horas da tarde, o celular dele tocou.


_ Alô? Suzana? Oi, que surpresa!
_ Você está muito ocupado? Eu...
_Pode falar, Suzana. Você está bem?
_Estou, obrigada. E você?
_Eu... é... não estou muito bem.
_O que aconteceu?
Leonardo contou para Suzana tudo o que havia acontecido desde o
telefonema da madrugada passada.
_Que triste! Como é possível uma moça tão linda e inteligente
chegar a ter uma atitude dessas, isso é uma agressão ao próprio
corpo! Eu posso ajudar em alguma coisa?

134
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Ore por ela, Suzana! Eu peço a Deus que ela …


_Tenha fé, ela vai ficar bem. Eu vou desligar, não quero te
incomodar mais.
_Ei, espera aí, você não ligou só pra ouvir a minha linda voz...
_Depois de tudo o que você me contou eu fiquei meio sem jeito...
_Que isso, Suzana! Pode dizer.
Então Suzana contou sobre o acordo que ela havia feito com o pai.
_Isso quer dizer que hoje eu vou poder buscá-la?
_É isso mesmo. Mas, se você precisar ir até o hospital...
_Eu vou no final da tarde... e à noite com certeza eu estarei aí para
te buscar, você salvou o meu dia hoje, eu confesso que estava
muito desanimado.
_Não desanime, ela vai sair dessa. Se você tiver algum problema
para me buscar hoje, é só me avisar.
_ Pode ficar tranquila, eu estarei aí antes das dez- garantiu
Leonardo.
Leonardo despediu-se de Suzana e mal havia acabado de colocar
o celular em sua mesa, quando ele tocou novamente, era Regina
pedindo para que ele fosse até o hospital, pois Paula havia
chamado por ele durante a tarde toda.
_ Eu conversei com o doutor Romeu e ele autorizou a sua entrada-
explicou Regina ao encontrar-se com Leonardo na recepção do
hospital.
Após uma rápida preparação, ele pôde entrar na U.T.I.
_Linda, você está me ouvindo? - perguntou ao aproximar-se do
leito de Paulinha.
_Léo? Léo... - respondeu Paulinha com uma voz quase
inaudível.
_Sou eu... fique tranquila!
_Meu Léo, eu pre-ci-so fa-lar - disse bem pausadamente.
_Minha linda, não faça nenhum esforço.

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Tânia Gonzales

_E-u que-ro pe-dir... per-dão … co-lo-quei o li-vro na ga-ve-ta...


_Paulinha, pare de falar... primeiro você precisa se recuperar.
_Eu... não li... des-pre-zei... o pre-sen-te... vo-cê deu com ca-ri-
nho...
_Não tem problema, minha linda, quando você sair daqui...
_Eu...não... vou ter mais u-ma chan-ce... fui má... eu...
_Você é uma menina maravilhosa, é claro que vai ter mais uma
chance, Deus vai permitir que você saia deste hospital. Agora não
se esforce mais, por favor!- pediu Leonardo segurando a mão da
amiga.
_Pre-ci-so fa-lar... re-ce-bi tan... tan-tas vi... vi-si-tas e não... dei
va...va-lor... me perdoa- as palavras saíam com muita dificuldade.
_Linda, pare de falar, tudo vai ficar bem. Muitas pessoas estão
orando por você.
_Eu... não me...me-re-ço.
_Merece sim, minha linda, você vai sair daqui.
_Vo-cê é... um an...an-jo... sempre cui-dan-do de mim... me pepe...
me perdoa.
_Paulinha, você não precisa pedir perdão para mim, me escuta...
você precisa descansar- ao dizer isso, Leonardo percebeu as
lágrimas no rosto da amiga, passou os dedos levemente para
enxugá-las.
Neste momento, entrou uma mulher.
_Leonardo? Como ela está? - perguntou Marina.
_A senhora trabalha aqui? - perguntou Leonardo ao ver a mãe de
Suzana.
_ Não... eu vim para visitá-la, a Suzana me contou, então como
vou entrar no serviço às sete horas, aproveitei para dar uma
passada por aqui. A enfermeira que está cuidando dela é minha
amiga, é uma excelente profissional.
_É ótimo saber disso.

136
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Agora você precisa sair, ela vai dormir .


_Tudo bem...só vou me despedir dela. Paulinha? Amanhã eu
volto... por favor, não desista.
Leonardo deu um beijo na testa da amiga e em seguida saiu da
U.T.I, acompanhado por Marina.
_ Fique tranquilo, ela vai ficar bem- disse Marina.
_ Assim eu espero... doí muito vê-la desse jeito.
_Ela está bem fraca, mas logo se recupera, você vai ver.
_ Eu vou buscar a Suzana hoje, ela me ligou.
_Eu estou sabendo, fiquei muito aliviada com a decisão dela. Eu
te agradeço.
_Não precisa me agradecer, eu faço isso com um sorriso enorme
no rosto, hoje está complicado para demonstrar; quando a Suzana
me ligou eu quase não acreditei.
_A minha mãe ficou muito contente, ela quer conversar com você
e marcar um almoço.
_Que ótimo, pode falar pra ela que é só marcar, com certeza eu
estarei lá.
_Eu falo sim, agora eu preciso ir e fique tranquilo, Leonardo, a sua
amiga vai se recuperar, fique na paz.
_ Eu também vou embora, a senhora quer uma carona?
_Não é necessário, antes de ir para o hospital eu vou passar em
uma loja aqui perto.

Leonardo aproveitou para fazer uma visita à irmã, pois sabia que
naquele dia ela havia comparecido a uma consulta de pré-natal.
_E então, como o bebê está?
_Está bem, graças a Deus. Estou mais tranquila agora. E a Paula
está melhor?- perguntou Beatriz.
_ Está na mesma. Ela conversou comigo hoje, está tão fraca, a voz
dela quase que não saía...

137
Tânia Gonzales

fiquei arrasado.
_Ah, Léo, Deus ajude que ela fique bem. É tão jovem e bonita!
Essa loucura de querer ter o corpo perfeito... isso precisa mudar...
essas meninas fazem tanto sacrifício!
_ Eu espero que ela se recupere, é muita dor para uma mãe; como
é difícil ver o sofrimento da Regina!
_As mães querem a felicidade dos filhos, desejam que os sonhos
deles se tornem em realidade. De repente você vê o seu maior
tesouro em um hospital, com a vida por um fio, abala a estrutura
de qualquer um. E você se alimentou direito, hoje?
_Não estava com fome... comi pouco no almoço.
_Então você vai jantar aqui, o Bruno já deve estar chegando.
Leonardo aceitou o convite da irmã. Bruno, como Beatriz havia
previsto, logo se juntou a eles. Às nove horas e quinze minutos,
ele saiu para buscar Suzana. Ficou esperando por ela durante uns
20 minutos. Ao vê-la se aproximar, seu coração acelerou... era
difícil disfarçar os sentimentos que ela provocava nele, era uma
sensação maravilhosa saber que ela estava se aproximando e que
eles sairiam dali juntos e melhor ainda: Suzana havia ligado para
ele e sabia que ele estaria esperando por ela.
_Oi, Leonardo, esperou muito?
_ Só um pouco, por você eu esperaria o quanto fosse preciso.
O comentário dele deixou Suzana sem reação, ela não estava
esperando algo tão direto, por isso ele mesmo precisou desfazer o
constrangimento.
_ Eu vi sua mãe hoje lá no hospital.
_É mesmo? E como a Paula está?
_Na mesma. Bom, ela conversou um pouco. Ela está muito fraca,
a voz saiu com muita dificuldade. Ela queria se desculpar, fez
questão de me dizer que não leu o livro que eu dei... é melhor nós
irmos até o carro.

138
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Ao entrarem no carro, Suzana perguntou:


_ O médico não disse nada?
_Ele diz que o estado dela é muito delicado... sabe, Suzana,
quando ela estava falando eu fiquei com muito medo de que ela
estivesse se despedindo, eu... fiquei orando em pensamento,
pedindo a Deus que não a levasse... enquanto eu ouvia aquelas
palavras que ela pronunciava com tanto esforço um medo terrível
se apoderou de mim, se ela … se … acontecesse o pior...
Suzana sentiu que Leonardo estava sofrendo muito com a situação
da amiga, ela queria ter a capacidade de consolá-lo, ela sabia que
ele estava necessitando de um ombro, mas qualquer tipo de
contato físico era muito complicado para ela, por isso se limitou a
dizer:
_ Calma... confie em Deus, ela vai ficar bem.
_E se ela... Suzana, às vezes eu me sinto culpado.
_Culpado? Como assim?
_Se o nosso namoro não tivesse terminado quem sabe ela poderia
até estar na faculdade. Eu não sei...
_Leonardo, isso é um absurdo. Ela fez uma escolha. Nesta vida
nós sempre temos que escolher algo e se a escolha for mal feita
vamos precisar arcar com as consequências.
_Acontece que eu a fiz escolher, as opções eram: eu ou a carreira
de modelo, ela escolheu a carreira. Se eu não a tivesse
pressionado, se …
Leonardo abaixou a cabeça e Suzana se viu novamente no
mesmo dilema: o que deveria fazer? Como consolá-lo? Ela sentia
que naquele momento ele estava precisando ser tocado. Ele
permaneceu em silêncio e na mesma posição. Suzana começou a
mover uma das mãos em direção a ele. Leonardo estava com uma
mão segurando o volante e com a outra em uma das pernas e foi
nesta que Suzana tocou. Aquele toque fez Leonardo levantar a

139
Tânia Gonzales

cabeça e olhar diretamente para os olhos dela.


_Vai dar tudo certo- disse Suzana e em seguida afastou a mão.
_Bom... é melhor sairmos do estacionamento.
Os dois ficaram em silêncio a maior parte do caminho.
_ Semana passada eu estive trabalhando muito, nem consegui
participar da REMA e também não fui ao culto domingo.
Trabalhamos até tarde todos os dias.
_Ah... até domingo?-perguntou Suzana.
_Isso mesmo, mas conseguimos colocar tudo em ordem. Eu fiquei
com... saudades. Será que você também sentiu...
_É... eu não pude participar da REMA, mas fui ao culto, agora eu
estou entrando às 9h nos dias de domingo.
_Que bom, assim você pode participar dos cultos; Suzana, eu
gostaria de dar uma explicação... eu mencionei o namoro, mas
isso não quer dizer que há alguma possibilidade de eu e a
Paulinha reatarmos, com certeza não há... eu só quero o bem
dela... ela é uma menina incrível, eu gosto muito dela como
amigo. Eu quero que fique bem claro isso.
_Leonardo, você não precisa me dar este tipo de explicação, eu...
_Eu achei melhor esclarecer isso. É uma pena, mas já chegamos.
_Então... boa noite e obrigada.
_Boa noite, Suzana. Durma bem.
Com um sorriso tímido, Suzana saiu do carro.
O pai de Suzana, estava assistindo TV; ela o cumprimentou com
um beijo e ele perguntou:
_ Está tudo bem? Qual é a sua opinião sobre voltar para casa de
carro?
_Pai, é claro que é muito melhor, né? Eu não vou ser hipócrita. Eu
estou bem e o senhor?
_Hipócrita, que palavra forte! Eu estou bem. Que tal você fazer
uma “boquinha”? A comida ainda está quentinha.

140
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Eu vou tomar um belo banho e depois eu vou beber um iogurte.


_Só isso? Suzana! Você almoçou bem? Fez um lanche no início da
noite?
_Almocei muito bem e também lanchei. Satisfeito, agora?
_Mais ou menos. E a moça que está internada, tem alguma notícia
dela?
Suzana falou sobre o estado de saúde de Paulinha e mencionou a
visita da mãe ao hospital.
_Agora eu vou tomar um belo banho! - disse Suzana.
Após o banho, Suzana pegou um iogurte na geladeira e uma fatia
de pão de forma com requeijão, foi para seu quarto com um prato
na mão. O celular tocou assim que ela entrou. Era Leonardo,
constatou ao olhar no visor. “Será que aconteceu alguma coisa
com a Paulinha?”- pensou Suzana.
_Oi, Leonardo, o que aconteceu? - perguntou ansiosa.
_Calma, por que você está tão apavorada?
_Você recebeu alguma notícia da Paulinha?
_Ah... eu não fiquei sabendo mais nada; eu nem pensei nisso, me
desculpe. Não imaginei que você ficaria preocupada ao receber
uma ligação minha.
_Tudo bem. Mas, por que você ligou?
_Eu poderia inventar uma desculpa qualquer, mas a verdade é que
eu … queria ouvir a sua voz, foi só isso.
_Então me pergunta alguma coisa.
_Como é?
_Se você quer ouvir a minha voz vai precisar me fazer perguntas,
vou esperar por elas bem quietinha.
Leonardo ficou surpreso com a reação de Suzana.
_Você está certa. Eu vou começar o interrogatório, está
preparada?- brincou Leonardo.
_Estou esperando.

141
Tânia Gonzales

_O que você estava fazendo antes de falar comigo?


_Eu estava segurando um prato.
_Segurando um prato? O que há nele?
_Uma fatia de pão de forma com requeijão e na outra mão estava
com um copo de iogurte.
_Só isso? Você se alimentou bem hoje?
_Sim, senhor. Eu almocei muito bem.
_Depende o que você chama de muito bem. Descreva o seu
almoço pra mim.
_Eu cheguei em um restaurante self service e... não... espera, antes
disso eu encontrei uma amiga que trabalha comigo, nós
almoçamos juntas.
_Você está brincando comigo e eu estou adorando isso.
_Brincando? Você que pediu para eu descrever o meu almoço e
como você quer ouvir a minha voz eu vou ser bem detalhista.
_Você está me surpreendendo, sabia?
_Eu? Vou continuar... tudo bem, vou pular algumas partes, tá? Eu
fiz um prato bem colorido: arroz, feijão, bife à rolê, refogado de
chuchu... salada de beterraba, alface com tomate e cebola e ainda
peguei um pouquinho de uma salada de berinjela. Bebi suco de
abacaxi. Aprovou a minha dieta?
_Gostei. Fico feliz que você esteja se cuidando. Suzana, eu... vou
desligar.
_Nossa, já cansou de ouvir a minha voz?
Leonardo estava cada vez mais surpreso com as palavras de
Suzana.
_Quem é você? Eu acho que liguei para o número errado.
_Não posso brincar um pouquinho?
_Pode. Eu pensei várias vezes se deveria mesmo ligar. Fiquei
discutindo comigo mesmo. “Que ideia é esta de ligar pra ela?
Vocês acabaram de se encontrar.” O outro Leonardo dizia: “ Qual

142
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

é o problema? Eu estou com vontade de ligar e é isso mesmo o


que eu vou fazer.” Foi uma discussão feia, mas venceu o melhor
argumento.
_Depois sou eu que estou brincando, né?
_Eu não estou brincando, princesa Suzana. Eu acho que vou ligar
mais vezes, pelo celular nós estamos nos entendendo melhor.
_É mais fácil, não preciso enfrentar o seu olhar envolvente.
_Definitivamente você não é a Suzana. Me diga quem é você e o
que fez com a minha amiga?- disse Leonardo dando uma
gargalhada.
_Você está se divertindo comigo, é?
_Eu estou desfrutando de uma agradável conversa com você. Pelo
telefone você está mais solta, as palavras estão fluindo
naturalmente, mas eu confesso que mesmo assim eu ainda prefiro
falar com você pessoalmente; nada substitui estar diante dos seus
lindos olhos verdes. Eu adoro olhar para o seu rosto, você tem uns
traços tão delicados e...
_Agora você está abusando da minha boa vontade.
_É, você tem razão. Eu vou desligar, mas estou feliz e satisfeito
comigo mesmo por ter tomado a decisão certa. Suzana, boa noite e
durma bem, até amanhã.
_Boa noite, Leonardo. Até amanhã.
Suzana também estava surpresa com a própria atitude. Era
exatamente como Leonardo havia explicado. A conversa entre os
dois fluiu de maneira natural, Suzana se sentiu muito bem. “Pelo
menos à distância eu consigo esquecer os meus medos e receios,
com certeza é porque não existe a possibilidade de qualquer
contato físico.” - pensou Suzana.

No dia seguinte, Leonardo foi até o hospital antes mesmo de ir


para o escritório. Ligou para o celular de Regina, encontraram-se

143
Tânia Gonzales

na recepção.
_Como ela passou a noite? - perguntou Leonardo.
_Dormiu a maior parte do tempo, graças a Deus. Posso considerar
que foi uma noite tranquila. O médico me disse que ela está
reagindo bem, está bastante otimista, bem diferente do dia
anterior.
_Que boa notícia, Regina. E o Paulo?
_Ele está lá com ela, chegou ontem à noite. Ficou uma fera, disse
que eu deveria ter avisado.
_Regina, ele está certo. Ele é o pai dela, os problemas que vocês
dois estão enfrentando precisa ficar em segundo plano, pelo
menos por enquanto.
_Ah, você está certo.
_Agora eu vou trabalhar, mas eu volto à tarde para vê-la, diz isso
pra Paulinha.
_Eu digo, sim. Eu agradeço todo o seu carinho, eu sei que você é
muito especial pra ela. A Paula o admira muito.
Antes de chegar ao estacionamento do hospital, o celular de
Leonardo tocou.
_Leca?
_Me desculpe ligar tão cedo, mas eu precisava falar com você. E
a Paulinha?
Leonardo deu a boa notícia para Letícia.
_ Que ótimo! Léo, ontem a minha mãe veio com uma história...
bom, ela acha que nós dois estamos namorando escondido.
_A minha mãe comentou isso comigo também.
_Léo, você não está entendendo, ela cismou com isso. Eu ia falar
com eles, domingo, mas...
_Lê, eu acho que agora é a hora certa. Ela está desconfiada porque
você tem se encontrado com o Daniel, não é?
_É isso mesmo, só que ela acha que é com você. A sua mãe tem

144
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

uma parcela de culpa, nesta história. Ela disse que você está muito
misterioso. Acontece que os nossos horários estão coincidindo. A
sua mãe acha que você não foi participar de um café especial
naquele domingo e a minha também não, elas pensam que nós
dois inventamos isso. É mole? Contamos a verdade e elas não
acreditam. Para completar, ontem eu saí com o Daniel e você foi
buscar a Suzana. A imaginação delas está correndo solta... hoje no
café da manhã a minha mãe me deu um abraço e disse: “ Como
eu esperei por este dia! ”
_Mães! Por isso mesmo você deve esclarecer tudo.
_Agora que eu estou com mais receio ainda. Você não ouviu a
minha mãe. “ Filha, eu estou tão feliz, não estou entendendo o
porquê de tanto mistério, mas se vocês querem assim! Eu sei que é
muita pressão em cima de vocês dois, mas é porque nós queremos
o melhor. Como eu pedi a Deus que vocês se decidissem! ” Léo, o
pior é que ela não me ouve, eu digo que ela está confundindo tudo
e é como se eu não dissesse nada.
_Calma, Lê. Mas eu continuo com a opinião de que você deve
esclarecer tudo o mais rápido possível. Esta situação é muito
injusta para o Daniel.
_Ah, meu amigo! Eu preciso desligar, eu estou com tanto medo
da reação deles.
Letícia tinha todos os motivos para ter medo da reação dos pais. A
notícia de seu namoro cairia como uma bomba, principalmente
para sua mãe.

145
Tânia Gonzales

Capítulo 14 – Boas notícias


Naquela noite, durante o jantar, Lígia teve uma conversa com o
filho.
_Leonardo, eu sei que você não gosta deste assunto, mas eu
preciso falar com você.
_Que assunto, mãe? Não vai me dizer que...
_É isso mesmo, você e a Letícia. A Sandra ficou o dia inteiro
falando sobre isso. Ela diz que a Letícia está escondendo alguma
coisa, ela acha que existe algum segredo. E você sabe qual é a
suspeita dela?
_Eu sei e ela está enganada.
_Diz a verdade pra mim, você a Letícia estão namorando?
_Mãe, por que eu e a Letícia teríamos a necessidade de esconder
isso? Não entendo. Isso é o maior sonho de vocês. Não estamos
namorando.
_Então o que está acontecendo? Eu também tenho a impressão
que há alguma coisa no ar. Filho, você não está pensando em... a
Sandra me fez uma pergunta que não me sai da cabeça.
_Que pergunta, mãe? E o pai, hein? Preciso que ele me salve.
_Ele e o Fernando foram jantar com um cliente. Leonardo, você
está pensando em voltar a namorar a Paula só porque ela está
doente?
_Como vocês duas viajam... mãe! Não dá pra entender... primeiro
a Sandra pensa que eu e a filha dela estamos namorando, depois
ela pergunta se eu vou voltar a namorar a Paula?
_Ela acha que é justamente por isso que vocês não oficializam o
namoro. Vocês preferem esperar que a Paula se recupere. E ao
mesmo tempo ela tem medo que a Paula peça para voltar e você
aceite por pena.

146
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Que confusão! Como vocês conseguem?


_Filho, há alguma possibilidade de isso acontecer?
_Mãe, eu não vou voltar a namorar a Paulinha, ela está precisando
de amigos e eu sou um deles. De repente foi algo que eu disse que
formou toda essa confusão, no dia da internação da Paula eu
comentei com o papai que me sentia culpado por tê-la feito
escolher, eu pensei que se tivesse acontecido tudo diferente, quem
sabe ela não teria passado por isso. Agora, quanto ao meu
namoro secreto com a Letícia, isso não tem o menor fundamento.
Fui claro? Eu vou escovar meus dentes, preciso sair.
_Está vendo só? É isso. Por que você vai sair agora?
_Mãe? Eu vou dar uma saída.
_Aonde você vai?
_Que isso? Eu vou sair um pouco. Não vou demorar.
Leonardo não queria mencionar o nome de Suzana, já estava tudo
tão confuso! Mas ele sabia que não iria conseguir mantê-la em
segredo por muito tempo.

Suzana saiu da loja e olhou ao redor para localizar Leonardo, mas


não o avistou. Andou um pouco e parou para observar as pessoas
que passavam. Eram dez e vinte e nada de Leonardo chegar. Ela
estava começando a ficar preocupada. Teria acontecido alguma
coisa?
_Oi... mulheres bonitas não faltam por aqui, mas você com certeza
ganhou de todas- disse uma voz desconhecida.
Ao virar o pescoço, Suzana se deparou com um homem alto e
forte, com a barba por fazer, aparentando uns 40 anos.
_O que uma beldade como você está fazendo aqui
desacompanhada? Isso é um pecado. Eu vou resolver isso agora.
Vou acompanhá-la para onde você quiser, você manda, boneca!
Suzana ficou paralisada, não conseguia falar e nem se mover,

147
Tânia Gonzales

queria sair dali, mas sabia que não era uma boa ideia, pois ele a
seguiria, pensou em voltar para a loja, mas os seus pés não
obedeciam.
_Vamos, boneca! Eu vou levá-la comigo, você não vai mais ficar
sozinha... não mesmo.
Suzana não conseguia responder, queria dizer que estava
esperando por alguém, mas as palavras não saíam, uma sensação
terrível de pânico começou a tomar conta dela, e se ele mostrasse
uma arma e a obrigasse a acompanhá-lo? Ela não iria, nem que ele
ameaçasse atirar nela, ela não iria a nenhum lugar com ele,
preferia morrer ali.
O homem se aproximou mais um pouco e disse:
_Vamos, minha bonequinha... estamos perdendo tempo aqui, há
tantas coisas boas para se fazer! Eu quero ficar sozinho com você
e...
_Desculpe a demora, estava tudo parado por causa de um
acidente- disse Leonardo ao se aproximar, em seguida colocou o
braço no ombro de Suzana.
O homem se afastou rapidamente. Suzana ainda estava sem
nenhuma reação.
_Ei, está tudo bem agora, eu vi de longe que ele a estava
incomodando. Me desculpe o atraso. Suzana?
_Eu... preciso sentar.
_Vem comigo, isso... aqui – disse Leonardo ao se aproximarem de
um banco- Calma, está tudo bem... eu saí cedo, mas foi como eu
disse, o trânsito estava terrível...eu sinto muito.
_Eu...estou bem. Agora, eu estou bem. Que bom que você
chegou... eu estava apavorada!- confessou Suzana.
_Suzana... aquele sujo, falou alguma coisa...
_Ele só dizia que queria me acompanhar e levar pra algum lugar,
sei lá... eu fiquei com medo, na verdade eu fiquei paralisada de

148
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

tanto medo.
Leonardo se aproximou e ia abraçá-la para que se sentisse
protegida, mas Suzana se afastou. Ele percebeu que ela sempre
fugia de qualquer contato físico.
_ Já dá para você andar? Podemos ir para o carro?
_ Podemos, sim.
_ É melhor você me esperar dentro da loja- disse Leonardo ao
entrarem no carro.
_Não é necessário.
_Por quê? Você não quer que alguém da loja me veja?
_Não é isso, espero em frente à loja, está bom assim?
_Tudo bem. Eu vou sair mais cedo ainda, não quero te fazer
esperar novamente.
_Leonardo, você já está me fazendo um grande favor, não precisa
sair mais cedo...
_Eu prefiro esperar por você do que correr o risco de acontecer
algo semelhante novamente.
_Não conte isso pra ninguém, tá?
_Você não vai dizer para os seus pais?
_Não, é claro que não. Eles já se preocupam muito comigo, não
precisam de mais um motivo.
_Tudo bem, eu não conto, vai ser mais um segredinho nosso.
Outro dia você chorou depois que eu mostrei o bouquet, eu não
entendi nada, não sei se você ficou emocionada por causa do
presente ou ...eu acho que foi por outra coisa, mas não sei explicar.
_Vamos esquecer tudo isso? Leonardo, amanhã é o meu dia de
folga.
_Que pena! Quer dizer que ótimo, pra você!
_Amanhã tem uma reunião na casa do Jônatas.
_Que bom! Pensei que não teria a oportunidade de ver o seu lindo
rosto.

149
Tânia Gonzales

Suzana ficou em silêncio, estes pequenos comentários que ele


fazia sempre a deixava sem jeito.
_Ei, onde está aquela garota do celular?
_Você mesmo respondeu a sua pergunta: garota do celular.
_Em nosso próximo encontro você poderia trazê-la?
_Não. Ela é a garota do celular.
_Então, eu já sei como resolver isso- Leonardo tirou o celular do
bolso e aproveitando que o semáforo estava fechado, fez uma
ligação para Suzana.
_Engraçadinho- disse Suzana ao ouvir o seu celular tocando- Não
adianta, assim ela não aparece.
_Por causa do meu olhar envolvente?- provocou Leonardo.
_Eu me recuso a responder.
_Você é tão má, não me dá nem um pontinho!
_Vamos mudar de assunto, a Lê está tão preocupada!
_Esse assunto? A minha mãe me pegou na hora do jantar. Ela me
disse que a Sandra está certa que eu e a Lê estamos comprando as
alianças, os móveis, procurando imóvel e...
_Nossa, vocês nem me convidaram para o casamento?
_Com isso você brinca, né? A Leca precisa esclarecer tudo, está
virando uma bola de neve...
_Leca? Eu reparei que às vezes você a chama assim.
_Ela diz que detesta o apelido, mas eu a chamo assim desde que
éramos crianças.
_Leca. É Leonardo, o jeito vai ser vocês dois assumirem o
namoro.
_Sei, já que você gosta de brincar com os sentimentos dos outros,
eu vou dizer uma coisa agora e não vou poupá-la, é algo que eu
diria com tranquilidade para a garota do celular, mas foi você
quem pediu... eu gostaria de assumir um namoro, mas não com a
Letícia, eu teria o maior prazer e seria o homem mais feliz do

150
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

mundo, se ...
_Leonardo, é melhor você parar com isso.
_Agora, eu vou falar tudo... você não vai me impedir.
_Pare com isso, não estrague tudo.
_Relaxa, eu estava só brincando com você. Eu sei que você já
esgotou a sua cota de emoções hoje. Vamos conversar
amenidades. Vamos começar com este livro- disse ele apontando
para o livro que Suzana estava segurando- Qual é o nome dele?
_Orgulho e preconceito5.
_Hum... e ele fala sobre o quê?
_É um romance inglês. Fala sobre o julgamento que fazemos das
pessoas pelo fato delas terem dinheiro ou não, ocuparem uma alta
posição na sociedade ou não. É bem interessante.
Suzana deu mais alguns detalhes sobre o livro e poucos minutos
depois Leonardo estacionou o carro em frente à casa dela.
_Está muito cansada, hoje? - perguntou Leonardo enquanto
Suzana abria o portão.
_Um pouco, tem algum motivo pra me perguntar isso?
_Tenho. Você por acaso gostaria de receber uma ligação mais
tarde?
Suzana ficou calada por alguns segundos. A garota do celular
queria dizer que sim, a Suzana cheia de receios e medos queria
dizer que não. Por fim disse:
_Você acha que deveria me ligar?
Suzana entrou e fechou o portão sem olhar para Leonardo.

_Oi, filha! Chegou mais tarde hoje.


_Oi, pai! O Leonardo se atrasou por causa do trânsito, ele disse
que aconteceu um acidente.

5 Autora Jane Austen

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Tânia Gonzales

Após o banho, Suzana foi até a cozinha fez um lanchinho rápido e


foi para o seu quarto. Olhou para o celular eram onze e trinta e
cinco, será que ele ligaria?
Leonardo não parava de pensar na pergunta de Suzana: “ Você
acha que deveria ligar?”- por que ela não disse simplesmente sim
ou não? Tinha que complicar. Será que eu deveria ligar? Suzana!
Eram onze e quarenta quando o celular de Suzana tocou. O
coração dela começou a bater mais forte.
_Não, tudo bem. Pode falar, Lê.
_Su, eu sei que é tarde e você deve estar cansada, mas eu tinha
que conversar com você, estou tão perdida. Não sei o que fazer.

Leonardo com o celular na mão, pensou: “ Ela respondeu a minha


pergunta, ligou para alguém só para não falar comigo.”

Após dez minutos de conversa, Suzana desligou o celular e


pensou: “ Será que ele tentou me ligar? Acho que não” - concluiu.

Leonardo ficou aliviado ao receber uma ligação de Regina naquela


tarde de quarta-feira, pois ela tinha ótimas notícias, a filha havia
saído da U.T.I.
_Que notícia maravilhosa, Regina! Obrigado por ter ligado,
preciso terminar um serviço, mas depois vou visitá-la.
Leonardo resolveu ligar para Suzana e contar a boa notícia que ele
havia acabado de receber.
_Alô? Suzana? Posso falar com você?
_Oi, Leonardo, pode sim, está bem tranquilo agora.
_É que a mãe da Paulinha me ligou e contou que ela saiu da
U.T.I., já está no quarto.
_Que ótimo, eu fico muito feliz por saber disso! Quer dizer que o
pior já passou, né?

152
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_É isso aí. Bom... eu vou deixar você trabalhar. Tchau.

Paulinha estava conversando com o pai quando Leonardo chegou


ao hospital.
_Com licença, o quarto da minha linda amiga é aqui? Isso é pra
você- disse Leonardo mostrando um bouquet de flores- vou
colocá-las nesta mesa.
_O-bri-ga-da, Léo! É... bom...te ver- disse Paulinha ainda com
dificuldade.
_Minha linda, estou tão feliz por você estar melhor. E aí, Paulo,
tudo bem?
_Oi, Leonardo, agora as coisas estão melhorando. Obrigado pela
força que tem dado a minha filha.
_Não precisa agradecer, você sabe o carinho que eu sinto por ela.
_Eu sei; vou deixá-los a sós para que conversem melhor, com
licença.
Paula esperou o pai sair para dizer:
_ Ele me... disse que a mi-nha... mãe não a-vi-sou pa-ra ele.
_Tudo bem, Paula. Não fique se preocupando com isso agora, o
mais importante aqui é a sua saúde. Eu senti um alívio tão grande
quando a sua mãe me ligou, ah... minha linda, fiquei com muito
medo de você nos deixar. Mas Deus teve misericórdia de nós e
agora você está melhorando, é isso o que importa.
_Vo-cê é um... amor. É... é...
_Não precisa falar mais nada, poupe seu fôlego.
_Eu... pro... pro-me-to que … vou me cui-dar...
_Tudo bem, eu estou muito feliz por ouvir isso - disse Leonardo
com os olhos marejados e como percebeu que Paulinha também
estava, tocou no rosto dela e enxugou as lágrimas.
_An-jo... Le-o-nar-do.
_Para com isso, eu sou um amigo que se preocupa muito com

153
Tânia Gonzales

você.
Leonardo ficou mais alguns minutos fazendo companhia à amiga,
ao sair do quarto dela, encontrou-se com Regina no corredor.
_ Regina, eu queria mesmo falar com você. Eu posso te pedir um
favor?
_Claro, Leonardo! Depois de toda a força que você …
_Regina, não precisa mencionar isso, eu estou aqui porque a
Paulinha é uma amiga muito querida. Eu sei bem que não é nada
educado se envolver em problemas de casais, mas este caso é
especial, eu faço isso por ela. Por favor, Regina, espere que ela se
recupere, depois você e o Paulo se acertam. Ela sofre muito com
esta situação. Ela precisa ser poupada agora. É momento de vocês
esquecerem as diferenças e se unirem pelo bem da filha de vocês.
Eu não vou pedir desculpas por isso. Amanhã eu volto.
_Leonardo, você tem toda a razão, eu vou me esforçar. Obrigada.

Suzana aproveitou o seu dia de folga para almoçar fora com a


mãe, a tia Marisa e a vovó Vivi, chegaram em casa por volta das
três horas da tarde. Minutos depois saiu com Letícia para visitar
Paulinha.

_ Fico feliz... por … vocês estarem aqui – disse Paulinha, agora as


palavras estavam saindo com mais facilidade.
_Paula, graças a Deus que você está bem. Estávamos tão aflitas!
Havia uma multidão orando por você – disse Letícia.
_ A Lê está certa. Foi um alívio saber que você estava reagindo
bem. Quando o Leonardo contou que você havia saído da U.T.I,
eu agradeci a Deus e fiquei muito feliz!-disse Suzana.
_Obrigada, valeu amigas! O Leonardo é um anjo, ele veio todos
os dias, ele já esteve aqui hoje, saiu poucos minutos antes de

154
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

vocês chegarem. Ele me trouxe um MP3. Ele é tão gracinha que


colocou esta música, vem aqui perto Suzana, quero que você ouça.
Suzana se aproximou e colocou o fone de ouvido: “ Você é linda
demais, perfeita aos olhos do pai, alguém igual a você, não vi
jamais...”6 - Foi a música que ela ouviu.
No íntimo, Suzana lamentou não ter encontrado Leonardo no
hospital, mas lembrou que à noite ele participariam de uma
reunião do grupo Alfa, seria na casa dos líderes, Jônatas e Jessica.
Combinou o horário com Letícia para irem juntas.
_Que dia de folga é este, minha neta? Vai sair novamente?
_Vou em uma reunião do grupo Alfa. Foi um dia bem agitado
hoje, mas eu gostei; almocei com três mulheres maravilhosas,
visitei uma amiga no hospital e o mais importante é que ela está
melhor.
_Fico feliz por isso, minha neta. Com quem você vai?
_Com a Letícia.
_E o Leonardo vai também?
_Ele também faz parte do grupo.
_Que bom! Diga que eu mandei um abraço.
_Eu já vou, até mais tarde, vovó linda!
A reunião começou às oito horas, Jônatas explicou que o pastor
Pedro Gabriel marcou um evento especial para arrecadar fundos
para missões. Cada grupo seria responsável por criar algo que
seria vendido no evento.
_Na próxima reunião cada um vai apresentar a sua ideia para o
evento. Nos encontraremos na quarta-feira e eu já combinei com o
Leonardo, será na casa dele. Ele não está aqui hoje, mas ele me
ligou justificando a ausência. Pessoal, vamos fazer uma oração
agradecendo a Deus pela vida da Paula. Ela ainda vai ficar mais

6 Música: “ Aos olhos do pai”, Crianças Diante do Trono.

155
Tânia Gonzales

alguns dias internada. Continuem orando por ela e façam uma


visita.
Após a oração todos se despediram. Suzana e Letícia aproveitaram
a carona de Vitória.
Eram dez horas quando Suzana chegou em casa. Seu pai e a vovó
Vivi, estavam assistindo um DVD.
_Vem assistir com a gente, filha, é uma comédia.
_Obrigada, pai, mas eu vou aproveitar para deitar mais cedo.
_Faça isso, querida! Você deve estar muito cansada, não parou
hoje- disse vovó Vivi.
_Boa noite pra vocês.

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Capitulo 15- Apaixonados


Suzana foi para seu quarto e ficou pensando nos acontecimentos
daquele dia, que ela poderia até considerá-lo como um dia
perfeito, se não fosse por um detalhe: não ter visto Leonardo. Ela
não conseguia parar de pensar nele. Esperava vê-lo na reunião,
mas ele não apareceu. Ficou o tempo todo ansiosa, pensando que à
qualquer momento ele chegaria, mas saiu de lá frustrada. Ela era
obrigada a reconhecer que gostava da companhia dele.
_Suzana, filha? O seu celular está tocando- avisou o pai- você
esqueceu a sua bolsa aqui na sala.
Davi levou a bolsa até o quarto da filha.
_Obrigada, pai- disse Suzana enquanto abria a bolsa e tirava o
celular.
Ela olhou o visor e seu coração disparou, era Leonardo.
_Alô? Princesa Suzana? Você já estava dormindo?
_Oi, Leonardo, não, eu cheguei da reunião quase agora.
_Tudo bem com você? Estou atrapalhando?
_ Não está atrapalhando. Eu estou bem e você?
_Agora eu estou ótimo. Eu precisei sair com o meu pai, por isso
não pude participar da reunião. Quando eu cheguei em casa liguei
para o Jônatas para saber se vocês ainda estavam lá, mas ele me
avisou que a reunião havia terminado. Eu ia até lá para buscar
você e a Lê. Com quem vocês vieram?
_Com a Vitória.
_Que bom. Agora eu gostaria de falar com a garota do celular.
Posso?
_ Você não quer saber como foi a reunião?
_Não. Amanhã a Suzana me conta. Eu quero falar com a garota do
celular. Porque ontem uma certa pessoa me fez uma pergunta,

157
Tânia Gonzales

deixou tudo por minha conta e risco, mas depois ocupou o celular
só para não falar comigo.
_Você tentou ligar, ontem? - perguntou Suzana, surpresa.
_Claro que sim. Mas você...
_A Letícia me ligou, ela estava precisando conversar.
_Ah, foi ela quem ligou! Gostei de saber, mas sobre isso eu
converso com a Suzana, amanhã, hoje eu quero falar com a garota
do celular, pode chamá-la?
_O que você quer com ela?
_ Eu quero continuar uma conversa que eu comecei com a Suzana
e ela me cortou, eu acho que a garota do celular vai me ouvir.
_Leonardo, eu...
_Eu disse para a Suzana que gostaria de assumir um namoro, mas
não com a Letícia...
_Leonardo, eu acho melhor você não falar...
_Eu estou conversando com a garota do celular, com a Suzana eu
falo amanhã. Desde a primeira vez que eu …
_Leonardo!
_Naquele dia, quando eu fui comprar um presente para minha
mãe, eu olhei pra você eu nunca mais fui o mesmo, eu voltei
algumas vezes e depois sumi porque fiquei com vergonha, me
senti ridículo, mas eu queria muito vê-la novamente, quando eu vi
você conversando com a Letícia na igreja quase não acreditei.
Você estava tão perto e eu nem sabia. Suzana, tenho que dizer
que eu estou...
_Leonardo, eu acho melhor você parar, por favor!
_Amanhã eu não vou falar sobre isso, a menos que a Suzana
queira, mas hoje, como eu estou conversando com a garota do
celular, eu vou continuar... eu tenho que dizer que... estou
apaixonado por você. É isso, eu estou completamente apaixonado
por você.

158
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Suzana não sabia o que dizer, ele simplesmente a havia deixado


sem palavras.
_Suzana? Você ainda está aí? Ei, garota do celular?
_Oi, eu... eu pedi pra você não dizer.
_Eu falaria isso pessoalmente se você não...
_Leonardo, eu acho que é melhor você desligar agora- pediu
Suzana.
_Suzana, não faz isso comigo, diga alguma coisa que eu queira
ouvir... diga!
_Eu... não posso!
_Por quê? Esqueça por um momento a Suzana cheia de medos e
receios que há dentro de você e viva, deixe que a garota do celular
converse comigo. Ela está sufocada aí dentro de você, por quê?
Você tem medo de ser feliz?
Suzana não sabia o que responder, ele estava certo, ela se sentia
sufocada com toda aquela situação. A verdade era que ela não
podia ser feliz completamente.
_Eu vou desligar, Leonardo, não quero falar sobre isso e se
amanhã você tiver a intenção de continuar com esse assunto eu
peço que não me busque no serviço. Boa noite.
Suzana não esperou ele responder.
“ Por que tudo é tão complicado? Por quê? Por que eu não posso
dizer que eu também estou completamente apaixonada por ele?
Por quê? Na verdade eu sei porque. Não posso enganá-lo. Ele não
merece isso. “ - eram os pensamentos desesperados de Suzana.
_Minha neta? Eu bati na porta, mas você não respondeu- disse
vovó Vivi ao entrar no quarto de Suzana.
_Me desculpe, vó. A senhora pode deitar agora, eu também vou...
_Suzana, que carinha é esta? Você estava chorando?
_Não, vó, está tudo bem.
_Você acha mesmo que me engana? O que aconteceu?

159
Tânia Gonzales

_Vó... eu não quero falar sobre isso... por favor!


_Querida, conte pra mim, faz bem desabafar.
_Vó... eu me esforcei, eu fiz de tudo, eu tentei ficar longe dele,
mas eu não consegui evitar... - disse Suzana entre soluços.
_Querida, acalme-se, o que você não conseguiu evitar?
_De me apaixonar, eu sei que não posso, mas eu estou apaixonada
pelo Leonardo... e ele disse que está apaixonado por mim.
_Querida, isso é maravilhoso!
_Não é; a senhora sabe o motivo.
_Suzana, ele é um ótimo rapaz, eu pedi tanto a Deus...
_Não... a senhora sabe que não posso... eu não posso contar a
verdade, mas também não posso enganá-lo; justamente por ele ser
tão bom, ele não merece isso.
_Suzana, que bobagem! Você não teve culpa de nada, você foi
uma vítima, esquece isso e seja feliz.
_Vó... eu não quero mais falar sobre isso, preciso dormir. Por
favor, não conte pra ninguém, nem para mamãe- pediu Suzana.
Vovó Vivi concordou e ficou acariciando os cabelos da neta até
que ela adormeceu.
Suzana sonhou que Leonardo estava se declarando para ela, mas
não era pelo celular. Eles estavam bem próximos um do outro e
ele dizia:
_Eu abri o meu coração pra você e agora é a sua vez. Diga o que
você sente por mim.
_Leonardo eu... eu amo você.
Ele acariciou o rosto dela, segurou em seu queixo e se aproximou
mais um pouco, quando estava prestes a beijá-la, ele disse:
_Mas por que você me enganou? Por que não me falou a verdade
sobre você? Por quê? Pensou que daria para esconder?

_ Filha, eu tive uma ótima ideia- disse Sandra durante o café da

160
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

manhã daquela quinta-feira.


_Que ideia, mãe?
_Eu quero que você convide o Leonardo para almoçar aqui
domingo.
_Mãe, já vai começar com isso? Eu não vou convidá-lo.
_Por que não, Letícia? Então eu vou ligar para ele.
_Mãe, não faça isso, olha, domingo a gente conversa.
_Como assim? Domingo?
_É isso mesmo. Não convide o Léo. Domingo a senhora vai
finalmente entender. Estamos combinadas?
_Você está tão misteriosa! Mas, tudo bem.
Assim que ficou sozinha Letícia ligou para o namorado.
_Dani, amor, eu me decidi. É isso mesmo, domingo à tarde.
Cansei, eu sei que você também. Por isso nós vamos esclarecer as
coisas. Também te amo. Um beijo enorme. Tchau.
Em seguida fez uma outra ligação.
_Léo? Tudo bem? Ah, meu amigo, está uma confusão! Eu preciso
te pedir uma coisa, se a minha mãe te convidar para almoçar você
inventa uma desculpa qualquer para não aceitar. Isso mesmo, eu
vou apresentar o Daniel como meu namorado, domingo à tarde.
Tem razão. Obrigada, amigo, eu vou precisar. Beijo. Tchau.

Foi difícil para Suzana se concentrar no trabalho, tanto por não ter
dormido direito como por não conseguir parar de pensar nas
palavras de Leonardo. Passou a maior parte do tempo em silêncio,
entregue aos pensamentos.
_Nossa, como você está calada hoje! Aconteceu alguma coisa?
Você está doente?- perguntou Cláudia.
_Me desculpe, Cláudia, não estou em meu melhor dia.
_Isso deu pra notar. Mas qual o motivo? Conta, vai!? É por causa
de algum gatinho?

161
Tânia Gonzales

_Cláudia, eu não quero falar.


Cláudia, após quase dois anos trabalhando com Suzana, já sabia
muito bem que não adiantaria insistir.
Às dez horas, Suzana saiu da loja, com uma enorme interrogação
em sua cabeça: Leonardo estaria esperando por ela?
A dúvida de Suzana não durou nem um minuto, ela o avistou
rapidamente. E agora a interrogação era outra: Será que ele
tocaria naquele assunto?
_Boa noite, princesa Suzana! - Leonardo a cumprimentou com
um largo sorriso.
_Boa noite - respondeu simplesmente.
Os dois andaram lado a lado sem dizer uma palavra, por duas
vezes entreolharam-se, mas Suzana desviou o olhar rapidamente.
_ E então, como foi a reunião ontem? - perguntou Leonardo ao
sair do estacionamento.
_Foi produtiva.
_Nossa, que comentário mais frio!
_Não foi a minha intenção. Nós precisamos de ideias para
arrecadar fundos para missões. Na próxima reunião, que será
quarta-feira em sua casa, cada um vai dar uma sugestão.
_Certo, me diga uma coisa, quarta será a sua folga?
_Não. Na próxima semana minha folga cai no sábado.
_É um belo dia, mas que pena que você vai faltar justo na minha
casa. Existe alguma possibilidade de troca?
_Não é difícil, principalmente pelo meu dia de folga ser sábado.
Eu vou tentar.
_Legal. A Lê me ligou hoje pela manhã, ela e o Daniel vão
assumir o namoro. Domingo à tarde ele vai até a casa dela.
_Tomara que tudo dê certo. Que Deus ilumine os pais dela.
_Tomara! E você? Está com uma carinha de cansada! O dia foi
muito corrido hoje?

162
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Hoje estou muito cansada. O pior é que desde cedo que eu estou
assim.
_Não dormiu bem?
_Não. Foi uma longa noite...
_Suzana, foi por minha culpa?
_Leonardo, não estou gostando do rumo que esta conversa está
tomando...
_Tudo bem, esqueça.
_Sabe os livros que você comprou pra mim? Você poderia trazê-
los?
_Claro, até que enfim você... o que significa isso? - perguntou
Leonardo ao ver que Suzana estava lhe dando dinheiro.
_São R$185,00. Foi isso que você pagou, certo?
_Era muito bom pra ser verdade! Por que você simplesmente não
aceita como um presente?
_Eu não vou discutir isso com você. - disse colocando o dinheiro
no porta luvas.
_Tudo bem, amanhã você estará com eles nas suas mãos. Você é
inacreditável! Eu já entendi, você está me castigando por ontem,
não é? Eu sei que ontem eu acabei me empolgando e cometi uma
falta grave, fui íntimo demais, não é? Exagerei. Mas, pode ficar
tranquila, eu não vou mais dizer que estou apaixonado por você,
aliás eu nem sei por que eu disse...
_Leonardo, para com isso! Eu não estou te castigando, eu já tinha
pensado nisso há alguns dias, eu preciso dos livros, mas estava
sem o dinheiro, foi isso, não tem nada a ver com o que você disse
ontem.
_Por que você tem tanto medo? Por que é tudo tão difícil com
você? Você foge do quê?
_Eu disse que se fosse para ter este tipo de conversa …
_Eu sei, tudo bem. Eu não vou falar mais sobre isso. Acho que é

163
Tânia Gonzales

melhor eu não falar mais nada.


Durante vinte minutos os dois permaneceram em silêncio.
Finalmente, Leonardo virou à esquerda e estacionou em frente à
casa de Suzana.
_Boa noite, Leonardo.
_Boa noite.
Suzana entrou em casa desejando que todos já estivessem
dormindo, mas ela sabia que isso era impossível.
_Minha neta linda, boa noite!
_Oi, vó, boa noite! E o meu pai?
_Está tomando banho. Acabou de chegar. Tenho algo especial para
te mostrar.
_Algo especial? O quê?
_Vem comigo até a lavanderia.
_O que a senhora está inventando?
_Eu? Nada. A ideia não foi minha.
_O que é isso? Que gaiola é esta? A senhora comprou uma
Calopsita?
_Eu não, querida! É um presente e ele disse que não aceita
devolução.
_Ah... é um presente do Leonardo.
_Ele passou aqui hoje à tarde. O nome dela é Meg, foi o Leonardo
quem disse. Ela é tão mansinha!
_Meg, vem aqui comigo, gracinha... - disse Suzana, em seguida
abriu a gaiola e colocou o dedo para Meg subir- que fofa! Você é
linda...
_Ele não esqueceu de nada; trouxe ração, brinquedos e você viu o
tamanho da gaiola? Ele pensou em tudo!
_ Meg linda, olha vó, ela está no meu ombro, … que coisinha!
Você gosta de carinho, não é?- disse Suzana acariciando a
cabecinha de Meg.

164
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Suzana, esse rapaz só quer te fazer feliz, por que você não
permite isso? Seja feliz!
_Vó... minha vó linda, eu não sei o que fazer.
_Seja feliz, é simples assim. Não tenha medo do sentimento que
está dentro de você, é algo lindo e puro.
_ Puro? Onde está a pureza?
_Suzana, não confunda as coisas, você precisa deixar que Deus te
cure. Permita que as feridas cicatrizem. Está na hora de você ser
feliz e o Leonardo é o rapaz certo para isso.
_Vó... vamos parar com esse assunto, por favor! Meg...
aqui...isso... agora você vai dormir e eu também. Boa noite, Meg-
disse Suzana colocando-a de volta na gaiola.
_Vai ligar pra ele?
_Não, vó, eu prefiro falar pessoalmente.
_Oi, filha! Que presente, hein?- disse Davi ao se aproximar da
filha.
_Oi, pai! É um belo presente- respondeu Suzana dando um beijo
em seu pai- Agora eu vou tomar banho.
Em seu quarto, Suzana começou a pensar em sua última conversa
com Leonardo: “ Como ele ficou chateado por eu ter pago pelos
livros! Agora dá pra entender, ele havia deixado um presente aqui
pra mim e eu pagando pelo outro! Leonardo, Leonardo, você
precisava ser tão maravilhoso? Precisava ser tão gentil? Você tinha
que ser lindo e encantador? E eu tinha que me apaixonar? Eu não
posso viver esse amor, sei que vou sofrer, mas é melhor assim,
principalmente pra ele. O Leonardo merece alguém sem traumas,
sem um passado triste e terrível como o meu.
Enquanto isso, em sua casa, Leonardo estava pensando em
Suzana: “ É tão difícil entendê-la! Ao mesmo tempo que ela
demonstra que gosta da minha companhia, ela foge. Parece que
ela tem medo que eu queira algo mais do que uma amizade e é

165
Tânia Gonzales

exatamente isso que eu quero, mas parece que ela também quer. É
tudo tão confuso! Se amanhã ela aparecer com dinheiro nas mãos,
eu não vou aceitar. Não vou mesmo. Ah, Suzana, o que você tem
de linda tem de complicada!”

166
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Capítulo 16- Quase um beijo


No dia seguinte, Leonardo foi logo pela manhã ao hospital visitar
Paulinha. Encontrou-se com Paulo Reis no estacionamento.
_ E aí, Leonardo, tudo bem? Paz.
_ Paz. Eu estou bem e como está a sua filha?
_Melhorando, mas vai demorar para sair daqui, o doutor Romeu
disse que desta vez não vai liberá-la tão cedo! Disse que não quer
arriscar nem um pouquinho. Vai lá conversar com ela, eu preciso
sair, hoje eu tenho um compromisso em Osasco, preciso me
preparar. Sabe como é que é: orar, ler, meditar...
_Tudo bem, Paulo, eu vou ver a Paula. Tchau.
_Bom dia, Leonardo! - cumprimentou-o Regina assim que ele
entrou no quarto.
_Bom dia, Regina, Paulinha! Como está a minha linda, hoje?
_Ainda um pouco fraca, mas bem melhor, estou conseguindo até
falar direito!
_E isso é maravilhoso! Se continuar neste ritmo, logo...
_Sair daqui, logo? Nem pensar, eu estou de castigo, eles não
confiam mais em mim.
_Não é bem assim, Paulinha, é que você precisa ganhar força
novamente. Precisa de cuidados especiais...
_Tudo bem, quem mandou eu vomitar!- brincou Paulinha.
_Quem mandou! Você está com um ótimo humor, isso também
ajuda- comentou Leonardo.
_Quem não ajuda é o Paulo. - afirmou Regina.
_Mãe, vai começar?
_Regina, eu me encontrei com ele no estacionamento, ele passou a
noite aqui?
_Pelo menos isso. Hoje ele vai voltar à atividade que ele mais

167
Tânia Gonzales

ama: pregar.
_Acho que é melhor mudar de assunto- sugeriu Leonardo.
_Eu vou deixá-los a sós.
_Às vezes eu acho que eles nunca vão se entender- foi o
comentário de Paulinha assim que a mãe saiu.
_Não pense isso. Agora o importante é a sua saúde, ter esse tipo de
pensamento não vai ajudar. E aí, você está precisando de alguma
coisa?
_Eu “tô” precisando de carinho, será que você pode me ajudar?-
pediu Paula cheia de dengo.
_É claro que eu posso- respondeu Leonardo para em seguida se
posicionar ao lado dela- será que vou arranjar problema se me
sentar na sua cama?
_É claro que não, senta aqui.
Leonardo sentou-se e começou a acariciar os cabelos de Paula e
com a outra mão segurou uma das mãos dela.
_Você está tão cheiroso, pena que eu estou horrível...
_“ Aos olhos do Pai, você é uma obra-prima que Ele planejou,
com suas próprias mãos pintou, a cor de sua pele, os seus cabelos
desenhou, cada detalhe, com um toque de amor...”7 - cantou
Leonardo.
_Você é um sonho... mas me conta as novidades do grupo Alfa;
ontem a Jessica e o Jônatas estiveram aqui, mas eles só falaram
por cima, quero saber dos detalhes... mas não precisa parar de me
fazer carinho, é tão bom!
Leonardo passou a manhã e o início da tarde com Paulinha;
Regina aproveitou para resolver algumas pendências da loja, já
que Paulo Reis estaria muito ocupado durante todo o dia se
preparando para o sermão da noite.

7 Música “ Aos olhos do Pai”, Crianças Diante do Trono.

168
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Às duas horas da tarde Regina voltou para o hospital e Leonardo


se despediu de Paulinha. Ao sair, encontrou-se com Marina, a mãe
de Suzana.
_Já está de saída? - perguntou Marina depois dos cumprimentos.
_Eu cheguei aqui hoje às nove horas da manhã, aproveitei para
passar algumas horas com ela.
_Estas visitas fazem um bem enorme.
_A senhora veio do trabalho?
_Não, esta semana eu estou trabalhando à noite, mas hoje é meu
dia de folga. A Meg é uma graça.
_Ah... é verdade. Espero que a Suzana não pense em me devolver
e nem em pagar por ela, afinal é um presente. Não sei se a senhora
sabe, mas ontem ela me pagou por uns livros …
Leonardo explicou tudo para Marina.
_Sinto muito, Leonardo. Eu espero que você tenha paciência com
ela, a Suzana é uma boa menina, ela não fez por mal. Ela não está
acostumada a receber presentes de rapazes.
_Eu confesso para a senhora que ontem eu fiquei bem magoado. O
que ela disse sobre a Meg?
_Ela adorou. Você foi muito sábio ao escolher o presente. Eu
estou muito feliz por vocês serem amigos, mesmo que a minha
filha não facilite as coisas, não se sinta desencorajado, eu já notei
que ela gosta da sua companhia, mesmo que às vezes ela
demonstre o contrário. Se não fosse assim, com certeza ela não
teria concordado que você a busque. Não pense que ela só aceitou
a sua carona para poupar-nos, isso só foi um incentivo.
_Obrigado, dona Marina. É bom ouvir isso.

Suzana saiu às 22h20, Leonardo a estava esperando bem próximo


à entrada da loja.
_Oi, esperou muito tempo? - perguntou Suzana.

169
Tânia Gonzales

_Uns 40 minutos, eu cheguei mais cedo-disse sem olhar para ela.


_Me desculpe, eu estava atendendo um cliente muito indeciso.
_Não tem problema. Vamos?
_É... você me deu um presente maravilhoso, eu amei! Obrigada.
_De nada. Podemos ir agora?
_Eu... estou com fome e você? - perguntou Suzana sem acreditar
no que havia acabado de dizer.
_Eu não. Que tal você sair do lugar, agora? - disse Leonardo em
um tom nada amigável para em seguida dar uma gargalhada-
Estou brincando, será que eu entendi direito? A princesa Suzana
está me fazendo um convite?
_Você me assustou! Deveria ser ator. É isso mesmo, eu estou lhe
convidando para sair, por mais incrível que possa parecer.
_Santa Meg!
_Leonardo, eu não estou fazendo isso por que você me deu uma
calopsita de presente, não me interprete mal, eu não sou uma
interesseira que …
_Ei, calma! Eu não quis dizer isso, é que ontem o clima ficou
meio pesado...
_Eu sei e a culpa foi minha. Quando eu vi a Meg ontem à noite eu
entendi porque você ficou tão chateado com aquela história dos
livros, afinal você foi até a minha casa levar um presente
especial... você deve ter pensado que eu iria fazer o mesmo com a
Meg, mas você se enganou, eu estou sem dinheiro, agora não vai
dar para eu pagar por ela.
_Suzana...
_Agora eu estou brincando; não pensei em devolver e nem em
pagar. Eu recebi a Meg como um lindo presente de um amigo que
acertou em cheio na escolha.
_Ufa, que alívio! Você quer ficar por aqui mesmo ou...
_Vamos pra outro lugar.

170
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Você manda, princesa Suzana. O que você quer comer? Assim eu


penso em um lugar.
_Eu quero comer beirute.
_Boa escolha, então vamos saborear um beirute.
Saíram do shopping e resolveram parar em um lugar mais
próximo de São Caetano.
_Acho que aqui está perfeito- disse Leonardo, em seguida entrou
no estacionamento.
_Você visitou a Paulinha, hoje? - perguntou Suzana enquanto
aguardavam o beirute.
_Fiquei a manhã inteira com ela, encontrei com a sua mãe , ela foi
até o hospital.
_Ela comentou que ia dar uma passada lá. E como a Paulinha
está?
_Melhor. Mas ainda não há previsão de alta. Ela me pediu uma
coisa hoje e eu fiz- disse Leonardo para provocá-la.
_Será que eu devo perguntar? Bom... o que ela pediu?
_É... será que eu devo contar? Tudo bem, acho que você sabe
guardar um segredo... eu perguntei se ela estava precisando de
alguma coisa e ela me respondeu que sim.
_E...
_Posso fazer um suspense?
_Eu acho que você vai precisar deixar o suspense para depois, o
beirute chegou- avisou Suzana.
_Hum... está uma delícia! Depois do que aconteceu ontem, eu
nunca poderia imaginar que hoje nós...
_Eu me senti péssima por ontem, foi muito chato... o caminho até
em casa foi terrível; que silêncio insuportável!
_Você tem razão. Era um silêncio insuportável, mas teve o seu
lado bom, hoje nós estamos aqui juntos e você me chamou para
sair, mas e aí? Não vai querer saber o que a Paulinha me pediu?

171
Tânia Gonzales

_Ela não pediu pra você dar um sumiço no prato dela, né?
_Suzana fazendo piadinhas?
_Parece piada, mas não é. O assunto é muito sério. Eu queria saber
se o pedido dela tinha alguma coisa a ver com a alimentação.
_Não e nem se tivesse, eu nunca a ajudaria nisso. Ela me pediu
algo que eu gostaria... eu vou falar mesmo que você fique um mês
sem me dirigir a palavra. Eu gostaria que você me fizesse um
pedido igual.
_Leonardo!
_Ela me pediu carinho.
Suzana não disse uma palavra mas continuou olhando para
Leonardo.
_Calma, não fique com esta carinha de espanto; quer que eu
demonstre?
_É claro que não!
_Você não confia em mim? O que você está pensando que eu fiz?
_Não estou pensando nada.
_Confie em mim, afinal eu estava em um hospital com uma garota
frágil e indefesa. Me deixe demonstrar. Suzana, você não confia
em mim?
_Confio, mas...
_ Se existe um “mas” é porque você não confia.
_Leonardo, você é …
_Convincente?
_Persistente! Tudo bem, pode demonstrar.
_E convincente. Eu só me aproximei dela e fiz isso- Leonardo
ficou bem próximo e começou a acariciar os cabelos de Suzana,
enquanto isso ela ficou imóvel olhando fixamente para ele,
permaneceram assim por alguns segundos, até que Leonardo tocou
levemente em uma das mãos dela e em seguida suas mãos
entrelaçaram-se. Suzana ainda olhava para ele. Por alguns

172
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

instantes parecia que só existiam os dois ali. Leonardo pensou: “


como eu gostaria de beijá-la agora, eu vou me aproximar mais e
vou beijá-la, eu... “- e estes eram os pensamentos dela: “ preciso
me afastar... mas não consigo me mexer, preciso... antes que
ele...”- neste momento os dois estavam tão próximos que bastaria
um simples movimento para que os lábios se tocassem... de
repente, Suzana começou a tremer e se afastou rapidamente.
_Suzana, você está bem? Está tremendo!
_ Me dá um minuto. - disse Suzana, em seguida abaixou a cabeça
e colocou uma das mãos em seu rosto.
Leonardo esperou por alguns segundos em silêncio.
_Suzana, está tudo bem? Fala comigo, eu... estraguei tudo. Você
estava tão descontraída, estávamos tendo uma conversa agradável
e eu tinha que... me desculpe. O que você vai pensar de mim?
Com certeza não vai ser uma coisa boa. Suzana, não foi isso o
que eu fiz com a Paulinha. Foi só um carinho como um amigo.
Nós não ficamos assim, olhando um para o outro e nem tentei
beijá-la, é que aqui entre nós o clima era outro.
_Você me leva pra casa?
_Claro.
Andaram lado a lado até o estacionamento e entraram no carro em
silêncio. Leonardo queria falar com ela mas não tinha certeza se
seria conveniente, pois apesar de estarem próximos fisicamente,
ele sentia que naquele momento Suzana estava distante e
inacessível. Teria que aguentar novamente aquele insuportável
silêncio. Ele lamentou profundamente ter provocado aquela
situação, mas estava difícil esconder seus sentimentos, por estar
completamente apaixonado por ela.
“ Faça alguma coisa, não a deixe sair assim”- pensou Leonardo.
Estavam bem próximos da casa de Suzana, chegariam em menos
de cinco minutos.

173
Tânia Gonzales

_Dá pra você prolongar o caminho? Preciso falar com você- disse
Suzana surpreendendo Leonardo.
_ Vamos dar um passeio pela cidade.
_Leonardo... é... o problema não está em você, está em mim. Você
não precisa se desculpar. A única pessoa culpada aqui sou eu por
não conseguir agir com naturalidade diante de algo tão normal, eu
não sei se estou me expressando direito, não sei se você está
compreendendo, mas, ah... o que é fácil para a maioria das
garotas para mim é muito complicado. Eu gostaria que tudo fosse
diferente, você é muito especial, é tão gentil e eu gosto muito da
sua companhia.
_Eu não quero que você se afaste de mim, que me impeça de
buscá-la. Eu prometo que vou me comportar. Não quero que pense
que entre mim e a Paulinha...
_Tudo bem, eu entendi, você é amigo dela e isso é ótimo. Dá para
perceber que ela gosta muito de você e que o admira também.
Fique tranquilo, eu não pensei que você se aproveitou da
situação.
_É que tem aquela história do beijo na padaria e você pode querer
ligar os pontinhos e...
_Não. Pode ficar tranquilo.
_Eu tinha que fazer uma gracinha! Você nunca mais vai me
convidar pra sair.
_Não fale assim. Você está enganado e para provar isso eu te
convido para almoçar na minha casa domingo. Na verdade, este
convite não é só meu, é que a minha vó pediu para convidá-lo.
_Domingo você entra cedo no serviço, não é?
_Eu saio às duas horas. Você me busca e depois almoça em casa.
_Você me surpreende. Só que tem um problema, domingo à tarde
o Daniel vai conversar com os pais da Letícia e eu não gostaria de
estar tão perto. A Sandra está confundindo tudo, você sabe.

174
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Marque um outro dia com a sua vó. Mesmo assim eu vou buscá-la
e se você concordar nós podemos almoçar juntos, lá no shopping
mesmo. O que você acha?
_Tudo bem, estamos combinados. Eu espero que dê tudo certo
para Lê e o Daniel. E agora, que tal você me levar para minha
casa?
Em dez minutos, estavam em frente à casa de Suzana.
_Eu já ia me esquecendo- disse Leonardo pegando uma sacola no
banco de trás- Seus livros, afinal você pagou por eles, e... espera
um pouco... isso... R$1,50, é o seu troco.
_Meu troco? Você é pior do que eu! Ah...amanhã o meu pai vai me
buscar, o patrão resolveu dar uma folga pra ele. Então você pode
aproveitar a noite de sábado.
_Sem você? Impossível.
_Você não tem jeito mesmo. Boa noite.
_Espera um pouquinho... olha só o que eu estou lendo- dizendo
isso Leonardo mostrou um livro para ela.
_O quê? Você está lendo “Orgulho e Preconceito”?
_Para você ver o quanto eu me interesso por você. Confesso que
não é uma leitura muito fácil, mas você tinha razão é bem
interessante. Vou ler mais um pouco e depois nós conversamos
sobre “ Elizabeth e Mr. Darcy”, ok?
_Você é... é …
_Nossa, valeu a pena comprar o livro, eu até a deixei sem fala!
_Engraçadinho! Boa noite.
Enquanto Suzana abria o portão, um carro parou e Letícia saiu
dele.
_Oi, Lê. Era o Daniel ?- perguntou Leonardo apontando para o
carro que havia saído.
_Oi, Léo, Suzana. Era a Vitória. Saímos juntos, eu e o Daniel, ela
e o Renan.

175
Tânia Gonzales

_E aí, vocês vão mesmo conversar com seus pais domingo?-


perguntou Leonardo.
_Sim. Orem por nós.
_Estamos orando! Vocês merecem ter um namoro normal. Agora
eu preciso entrar, está tarde! Boa noite pra vocês- disse Suzana
despedindo-se.
_Tchau, amiga.
_Tchau, princesa Suzana.
_Vocês dois, hein? Hoje vocês fizeram um programinha?-
perguntou Letícia assim que Suzana entrou.
_Eu fui buscá-la e depois nós saímos para comer.
_Vocês estão se entendendo?
_É complicado. Qualquer dia desses a gente conversa. Seus pais
estão chegando, agora?- perguntou Leonardo ao ver o carro de
Fernando se aproximando.
_São eles mesmos, eles saíram para jantar. Estão chegando tarde!
_Que mancada! Se eu soubesse... a sua mãe vai entender tudo
errado!
_Pior que você tem razão, Léo. Lá vem ela...
_Boa noite! Leonardo, que bom te ver!- disse Sandra.
_Boa noite, Sandra. Tudo bem?
_Tudo ótimo, que tal vocês conversarem lá dentro?- sugeriu.
_Boa noite, Leonardo! É melhor vocês entrarem. É imprudente
ficar conversando no portão, está muito tarde- disse Fernando.
_Eu já vou embora. Tem razão, está tarde! Boa noite pra vocês,
tchau, Lê, amanhã a gente conversa.
_Eu deveria ter convidado o Leonardo para almoçar aqui
domingo, esqueci, que cabeça a minha! - lamentou Sandra ao ver
o carro se afastar.

Suzana se sentiu aliviada por sua vó já estar dormindo, não queria

176
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

contar para ninguém o que havia acontecido e como a vovó Vivi


era muito observadora, com certeza perceberia rapidamente. “ Eu
nunca vou conseguir me relacionar com ninguém, isso para mim é
impossível. Coitado do Leonardo, deve estar tão confuso! Eu
tentei não tremer, tentei não me afastar, mas...”

177
Tânia Gonzales

Capítulo 17 -Decepção
Leonardo e Letícia encontraram-se no corredor, quando estavam
se dirigindo para suas classes da escola bíblica, naquela linda
manhã de domingo.
_E aí, amiga? Tudo certo para a grande revelação?
_Ah, meu amigo, estou tão ansiosa! Nem dormi direito.
_Fique calma, “lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque
ele tem cuidado de vós.”8
_Tem razão. Acho que nunca orei tanto como nestes últimos dias.
sexta-feira a minha mãe ficou toda animada, não adiantou eu dizer
que nós não havíamos saído juntos, ela simplesmente não me
ouviu. Ela está tão certa que você vai lá em casa hoje à tarde que
fez um banquete, com tudo o que ela sabe que você gosta.
_Hum... acho que vou dar uma passadinha lá!
_Léo, não brinque com isso!
_Tudo bem, eu não vou, mas guarda alguma coisa pra mim, tá?
_Só você mesmo... e aí, o que está acontecendo entre você e a
minha amiga?
_É muito complicado, nem sei explicar. Quando parece que
estamos evoluindo, de repente tudo volta à estaca zero. Eu acho
que a Suzana teve algum problema muito sério no passado, deve
ter acontecido algo, eu não sei, eu percebo que os pais e a vó se
preocupam muito com ela. Um dia, conversando com o Jônatas,
ele me disse que às vezes nós temos dificuldade em entregar para
Deus certos assuntos em oração, e são coisas importantes, que nos
preocupam muito, mas pensamos que dá para resolver sozinho,
que não é algo para falar com Deus, então eu percebi que era
justamente isso que eu estava fazendo. Mas eu mudei, agora eu

8 1 Pedro 5.7

178
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

tenho orado bastante sobre isso. Quem conhece a Suzana


realmente? Quem sabe o que ela pensa e o que ela sente? Só
Deus, então, não posso deixá-lo fora disso.
_Ah, meu amigo, isso é verdade. Às vezes nos esquecemos que
cremos em um Deus vivo e que se interessa por nós. Eu já notei
isso que você mencionou sobre a Suzana, também acho existe
alguma história, algum segredo. Precisamos parar com a conversa,
está na hora da aula.

Às 14h20 Leonardo e Suzana já estavam juntos em uma fila de


um restaurante self service no shopping.
_Estou gostando de ver, o seu prato está bem colorido! - comentou
Leonardo.
_E o seu está bem cheio! - brincou Suzana.
_Não seja má, ele não está tão cheio assim! Bom... agora chega,
senão vou precisar de outro prato! Vamos procurar um lugar?
_E a sua vó ficou chateada comigo? - perguntou Leonardo, ao
sentar-se.
_Não, ela entendeu. E quando eu disse que … - parou Suzana,
arrependida por ter começado.
_Disse o quê?
_É... que íamos almoçar juntos.
_E aí?
_Ela gostou, mas você está convidado para almoçar lá no próximo
domingo.
_Estarei lá, se você não se opor, é claro!
_Eu? É claro que não, por quê?
_De repente você está cansada de mim, já precisa me suportar
todos os dias e...
_Leonardo, pode parar com essa conversinha, depois o clima vai
ficar pesado e eu não quero que isso aconteça. Vamos conversar

179
Tânia Gonzales

amenidades. A comida está deliciosa!


_E você está linda! Eu não tenho jeito mesmo, mas o que eu
posso fazer? Eu não resisto. Eu senti muito a sua falta ontem.
_Você quer ficar sozinho? Se a resposta é não, mude de assunto.
_É... você tem razão a comida está deliciosa e... eu adoro a sua
companhia, opa! Me desculpe!
Suzana sorriu, pegou o garfo dele e o espetou em um pedaço de
carne, em seguida colocou-o na boca dele.
_Mantenha a sua boca ocupada- disse.
Leonardo só ficou calado enquanto mastigava a carne, depois
disse:
_Eu conheço outras maneiras de... é melhor eu não continuar.
_Concordo. Você está entrando em um território muito perigoso.
Vou avisar pela última vez.
_Tudo bem, eu vou mudar de assunto. Sexta-feira depois que
você entrou, os pais da Letícia chegaram, eles pensaram que eu e a
Lê …
_Não acredito! Que confusão!
_Confusão é apelido; a Sandra está me esperando lá, ela preparou
um café da tarde especial pra mim. Ela cismou que eu e a Leca
vamos oficializar o namoro.
_Ela vai ficar muito decepcionada e isso é um problema. O
ambiente não vai ser nada favorável para o Daniel. Só Deus!
_É, princesa Suzana, o amor precisa enfrentar muitos obstáculos,
mas vale a pena quando se ama de verdade; as coisas mais
valiosas são adquiridas através de sacrifícios.
Entreolharam-se por alguns instantes sem dizer uma palavra.
Suzana sabia muito bem que ele não estava se referindo só ao
relacionamento de Letícia e Daniel.

Após o almoço, Sandra ligou para Lígia, ela estava muito ansiosa,

180
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

pois Letícia havia saído para almoçar fora e ela queria muito saber
se ela e Leonardo estariam juntos.
_Hoje é o grande dia, Lígia. O Leonardo almoçou com vocês?
_Não, ele saiu. Por que você quer saber isso?
_A Letícia também saiu para almoçar fora, eles devem estar
chegando aqui, já são quase quatro horas!
_Sandra, eu não sei não, se o Leonardo fosse oficializar o namoro
hoje, eu saberia, você não acha?
_Eles estão fazendo um mistério, não sei o porquê, mas tudo bem,
eu não ligo, estou tão feliz!
_Sandra, cuidado, você pode ter uma decepção!
_Decepção? Tenho certeza que não. Amiga, finalmente aqueles
dois resolveram se acertar. Agora eu vou desligar. Acho que eles
chegaram. Beijo, tchau.
Letícia entrou com Daniel na sala de estar. Fernando estava lendo
jornal e Sandra terminando de arrumar a mesa na sala de jantar.
_Oi, pai! Nós precisamos conversar com o senhor e a mamãe-
começou Letícia.
_Boa tarde, seu Fernando, tudo bem? - cumprimentou Daniel.
_Boa tarde, você é …
_É o Daniel, pai, ele é filho do irmão Isaque, da mecânica-
explicou Letícia.
_Ah... como o seu pai está?
_Está bem, obrigado.
_Filha, que bom que vocês chegaram, Leonardo olha só o que eu
fiz pa...- Sandra não terminou, ficou parada olhando para Daniel.
_Mãe, este é o Daniel. Ele quer falar com vocês.
_Sente-se, Daniel, fique à vontade- disse Fernando tentando
desfazer o constrangimento.
_Obrigado, bom...eu vou ser bem objetivo. Eu estou aqui para
pedir a permissão do senhor e da senhora para namorar a Letícia.

181
Tânia Gonzales

_O que significa isso, minha filha? Onde está o Leonardo? -


perguntou Sandra em um tom nada amistoso.
_Mãe, o Leonardo não tem nada a ver com isso. Por favor,
mantenha a calma.
_Calma? Eu não estou entendendo nada. O que este rapaz está
fazendo aqui?
_Sandra, a Letícia tem razão, tenha calma. Vamos ouví-los- pediu
Fernando.
_Ouvir o quê? Você só pode estar brincando comigo!- disse
Sandra olhando para a filha.
_Dona Sandra, eu peço desculpas, mas eu acho que ocorreu algum
mal entendido. A senhora não estava esperando por mim, eu sei,
mas eu quero dizer que eu gosto muito da sua filha e...
_Vocês é que não estão entendendo nada, só pode ser brincadeira!
Onde está o Leonardo?
_Mãe, o Leonardo não vem! Pare de falar sobre o Leonardo, isso é
tão constrangedor para o Daniel, é ele que é o meu namorado!
_Namorado? Que ideia é essa? Este rapaz não é o seu namorado!
Pare com isso!
_Sandra, por favor, não se exalte! Vamos tentar resolver isso. -
pediu Fernando.
_Eu não quero ouvir mais nada, com licença. - disse Sandra
retirando-se.
_Mãe? Como ela pôde sair assim, pai!?
_Filha, tenha paciência com ela. A sua mãe confundiu as coisas e
agora ficou decepcionada.
_Tudo bem, Letícia. Podemos resolver isso em um outro dia... -
disse Daniel.
_Outro dia? A minha mãe não podia fazer isso! Sair desse jeito?
_Filha, Daniel, eu acho melhor adiar isso por enquanto. Eu vou
conversar com a Sandra.

182
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Adiar? Pai?
_Seu pai está certo, Letícia, eu vou embora, depois nós
conversamos. Você me acompanha até a porta?
_Tá... mas eu acho que isso não está certo!
_Boa tarde, seu Fernando e me desculpe...
_Você não precisa se desculpar, eu é que peço desculpas. Boa
tarde e mande um abraço para o seu pai.
Letícia acompanhou Daniel até o portão; estava inconsolável.
_Que absurdo! Eu imaginei que não seria fácil, mas... ela nem nos
deu a oportunidade de falar.
_Calma, meu amor, a sua mãe não estava esperando por mim. Foi
uma grande decepção para ela! Ela tinha certeza que veria um
rapaz alto, branco, de cabelos castanhos, chamado Leonardo.
_Isso não tem graça!
_Tenha paciência. É uma questão de tempo. Agora eu vou embora,
nos vemos na igreja- disse Daniel e em seguida despediram-se
com um beijo.

Fernando entrou em seu quarto e encontrou Sandra deitada na


cama.
_Sandra, meu bem... ei... você está chorando?
_Ela não podia fazer isso comigo! Como ela teve a coragem de
aparecer aqui com aquele... rapaz? Ela fez isso para me afrontar,
só pode ser isso!
_Sandra, você confundiu as coisas! Eu bem que falei que você
podia estar errada, mas você não me ouviu, colocou na cabeça que
o Leonardo...
_Coloquei na cabeça? Os dois estão nos castigando, é isso...
_Sandra, isso não faz nenhum sentido! A Letícia ficou muito
chateada por você ter saído daquele jeito e o rapaz saiu tão
envergonhado!

183
Tânia Gonzales

_É mesmo? E eu? Estou muito decepcionada com a Letícia e


também com o Leonardo!
_Eu vou tomar um banho para ir ao culto.
_Eu não vou sair daqui hoje, estou arrasada!

Leonardo e Suzana voltaram do shopping às 16h30; ela o


convidou para entrar e ele aceitou com um sorriso de satisfação.
_Que sorrisinho é este?- perguntou Suzana.
_Quer mesmo saber?
_Eu sei que vou me arrepender, mas eu quero saber.
_Tradução literal do meu sorriso: Ela quer desfrutar mais um
pouco da minha presença, isso é um ótimo sinal!
Agora foi a vez de Suzana sorrir.
_E qual a tradução do seu?
_ Eu sei que vou me arrepender, mas lá vai: Ele tem razão.
Leonardo deu um largo sorriso e disse:
_Um sorriso pode dizer coisas maravilhosas, eu amo o seu sorriso.
_É melhor nós entrarmos, de repente você resolve dar umas
gargalhadas e …
_Você é incrível. Por mim eu ficaria aqui de sorriso em sorriso
até...
_Vem... Leonardo, você acha que o Daniel ainda está...
_Não tem nenhum carro em frente à casa, isso é um péssimo sinal.
A conversa foi rápida demais.
_O pior é que você tem razão. Vem.
_Adoro quando você me chama- disse Leonardo acompanhando-a.
_Oi, Leonardo, fico feliz em vê-lo -disse a vovó assim que eles
entraram.
_Boa tarde, vovó Vivi, pode ter certeza que o sentimento é
recíproco.
_Oi, vó, eu vou mostrar a Meg para o Leonardo.

184
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Oi, dona Marina, tudo bem com a senhora? Seu Davi, boa tarde.
_Oi, Leonardo, comigo tudo bem e como foi o almoço de vocês?
- perguntou Marina.
_ Foi ótimo, almoçar com uma princesa é uma honra – brincou
Leonardo.
_Eu concordo com você, a minha filha é uma princesa! - disse
Davi.
_Podem parar com isso?- pediu Suzana envergonhada- Olha a
Meg aqui, Leonardo.
_Oi, Meg, será que ela vem comigo? Ei... Meg... isso... vem aqui
menina!
_Ela é muito meiga... gostou de você.
_Agora ela quer a dona...eu não culpo você Meg, pode ir...
A calopsita ficou no ombro de Suzana recebendo afagos.
_Viu como ela é dengosa? - perguntou Suzana.
_ Eu nunca pensei que um dia iria desejar ser uma calopsita!
O comentário de Leonardo provocou risos em todos, menos em
Suzana que olhou para ele com olhar de reprovação.
_Uma calopsita macho, que constem nos altos! Meg sortuda!
_Aceita um café, Leonardo? - perguntou vovó Vivi ainda sorrindo.
_Aceito, vó. A Suzana me avisou que eu tenho um compromisso
no próximo domingo, é isso mesmo?
_Com certeza e você não pode faltar, vamos preparar um almoço
daqueles!
Depois de alguns minutos, Leonardo se despediu de todos, pois já
eram cinco e dez; teria poucos minutos para se arrumar e chegar
ao culto.

Lígia estava muito ansiosa para conversar com o filho, assim que
ele entrou, ela o interrogou:
_Leonardo, você sabia que a Letícia e o Daniel estão namorando?

185
Tânia Gonzales

_Oi, mãe, boa tarde!


_Desculpe, boa tarde, querido! E então, você sabia?
_Sabia. Mas, o que aconteceu? Por que a senhora está me
perguntando isso?
_A Sandra me ligou, está muito magoada. Ela ficou decepcionada!
Disse que foi enganada pela filha e por você também.
_Eu? Ela confunde tudo e agora eu sou culpado? Coitada da Lê,
deve estar arrasada! Preciso conversar com ela.
_Filho, com quem você almoçou, hoje?
_Com uma amiga. Mãe, eu preciso tomar banho, vou chegar
atrasado, a orquestra vai tocar...
_Mas antes me diga o nome da sua amiga.
_Mãe? Suzana, ela é sobrinha da Marisa.
_Sobrinha da Marisa? E vocês dois estão...
_Somos amigos, mãe. Depois a gente conversa, a senhora já está
linda e maravilhosa, mas eu...
_Tudo bem, vai lá.

Letícia sentou-se ao lado de Leonardo para tocar o seu violino.


Não conseguiram conversar, a orquestra estava pronta para tocar o
louvor: “A face adorada de Jesus”9.
_E aí, amiga, como você está? - perguntou Leonardo quando
pararam de tocar.
_Estou péssima. Minha mãe nem nos deu a chance de explicar, ela
não veio ao culto, está muito magoada!
Foram interrompidos pela voz do Pr. Pedro Gabriel:
_Amados, vamos louvar ao nosso Criador com mais um belo hino,
quero chamar aqui o jovem Daniel para louvar com a sua bela voz,
o hino 265, “Doce é crer em Cristo”, e você que está aqui neste

9 Hino 304 da Harpa Cristã.

186
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

culto e ainda não creu em Jesus, abra o seu coração, creia que Ele
morreu na cruz para te salvar, para que você pudesse se reconciliar
com Deus, aceite o sacrifício de Jesus, pois crer Nele... é doce.
Louvemos.
_Depois de uma tarde amarga, o meu Daniel está mesmo
precisando cantar : Oh! Quão doce é crer em Cristo.”
_Calma, minha amiga. Tenha paciência, espere em Deus, Ele vai
acalmar o coração da sua mãe. Dê um tempo. Eu tenho certeza
que a Sandra vai adorar o Daniel.
_Você é tão otimista!

Pontualmente, às 19h30 o culto terminou. Beatriz, a irmã de


Leonardo chamou a família para comer pizza na casa dela.
Leonardo chegou até a pensar em convidar Suzana, mas logo
mudou de ideia, não seria prudente e com certeza ela não aceitaria.
Letícia despediu-se rapidamente de Daniel e foi para casa com o
pai. Ao chegarem, ela pediu para ir até a casa de Suzana, precisava
muito desabafar. Como eram vizinhas, Fernando não fez nenhuma
objeção.
_Minha amiga, o que eu vou fazer se eles proibirem o namoro?
_Letícia, você precisa dar um tempo para sua mãe se acostumar
com a ideia.
_O Léo disse a mesma coisa, vocês dois estão na mesma sintonia,
isso é ótimo! Vocês é que são felizes, não vão ter que enfrentar
algo assim. Seus pais ficariam muito felizes se...
_Que papo é este? Eu e Leonardo somos amigos. Não há
possibilidade alguma de nós dois...
_Por que não? Vocês estão se dando bem e...
_Letícia, pode parar com isso. Eu não pretendo namorar.
_Su, que história é esta? Não pretende? Isso é normal. Você
conhece um rapaz, se interessa por ele e ele por você e então

187
Tânia Gonzales

vocês...
_Vamos falar sobre você e o Daniel.
_Do que você tanto tem medo? O Léo é …
_Pare com isso, Letícia! Eu não quero que você comece a
enumerar as qualidades do Leonardo. Esqueça... entre mim e o
Leonardo não vai existir nada além de uma amizade.
_Suzana, você não deveria ser tão taxativa. Não tenha medo de ser
feliz. Tenho certeza que você e o Léo...
_Chega! E aí, o que vocês pretendem fazer agora?
_Vamos precisar fazer algo que eu detesto: esperar. Preciso dar um
tempo para minha mãe, vocês estão certos. Mas, eu não vou
esperar muito tempo.

_Fernando, você não deveria ter deixado a Letícia sair. Você


acreditou que ela ia só até a casa da Suzana?- perguntou Sandra
contrariada.
_Sandra, eu a vi entrar lá, pare de desconfiar da nossa filha.
_Tenho todos os motivos para isso, afinal ela e aquele rapaz
estavam namorando sem o nosso consentimento. Minha filha
fazendo uma coisa dessas! Isso é influência da péssima companhia
que ela arrumou.
_Péssima companhia? Sandra, você está sendo muito
preconceituosa!
_ Só faltava essa! Eu preconceituosa? Fernando, você acha mesmo
que eu ...
_Sandra, eu falei de acordo com as suas próprias palavras e
também pelo comportamento reprovável de hoje à tarde.
_Reprovável? Fernando, a Letícia me enganou, me fez sonhar que
estava finalmente se entendendo com o Leonardo e de repente ela
aparece com aquele... rapaz?
_Você confundiu tudo e a culpa não é dela.

188
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_E você concorda que ela namore com ele? Pois eu nunca vou
aceitar esse namoro. Você está me ouvindo, Fernando? Nunca.

189
Tânia Gonzales

Capítulo 18 - Revelação

Aquela segunda-feira não foi fácil para Lígia, pois precisou ouvir
as queixas de Sandra sobre o namoro da filha.
_Lígia, você não concorda que eu fui traída? Até o seu filho me
traiu!
_Sandra, eu avisei que você poderia estar enganada à respeito da
Letícia e o Leonardo. Mas você com essa sua obsessão, nem me
deu ouvidos.
_Obsessão? É assim que você chama o meu desejo de ver os
nossos filhos juntos?
_Sandra, eu adoraria vê-los juntos, mas as coisas não são assim.
Eles têm direitos também. Nós devemos ajudá-los e orientá-los,
mas eles precisam de liberdade para escolher.
_Acontece que a Letícia não soube escolher. O Leonardo é o rapaz
perfeito e ela aparece com aquele... rapaz.
_Sandra, o Daniel é um bom rapaz. Ele trabalhou na mesma
empresa que o meu genro e o Bruno lamentou muito quando ele
pediu a conta para poder ajudar ao pai, você sabe que depois da
morte da esposa, o Isaque não conseguia fazer mais nada, a oficina
ficou parada e o Daniel precisou assumir tudo.
_É fácil dizer que ele é um bom rapaz, não é com a sua filha que
ele vai namorar! Eu não aceito esse namoro e ponto final.
_Não seja radical, Sandra. Dê uma oportunidade para ele. Espera
aí, não pode ser... será que o problema … não... acho que não.
_O que é Lígia?
_O que te incomoda no Daniel, Sandra, fale honestamente.
_O que me incomoda? O fato dele não se chamar Leonardo, o fato
dele não ser o Leonardo.

190
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Sandra, e o fato dele ser negro, isso incomoda?


_Lígia, o que você está pensando? Você está me chamando de
racista?
_Sandra, eu só estou querendo entendê-la..
_Acho melhor encerrar esta nossa conversa.

Leonardo aproveitou o horário do almoço para fazer uma visita à


Paulinha. Ele ficou sabendo que naquela semana ela receberia
uma visita especial de uma ex-paciente do dr. Romeu que há cinco
anos teve o mesmo problema que ela e agora estava curada. Na
época ela tinha apenas 15 anos. Paulinha também disse ao amigo
que ainda não tinha previsão de receber alta, mas que estava se
sentindo bem melhor e até havia pedido à mãe para trazer o livro “
A revolução da beleza10, para que pudesse começar a leitura.

À noite, Leonardo foi buscar Suzana no shopping.


_Letícia foi até a minha casa ontem depois do culto- disse Suzana.
_Ela está arrasada, né?
_Está muito preocupada com a possibilidade dos pais proibirem o
namoro, ela não gostaria de desobedecê-los, mas também não quer
perder o Daniel.
_Eu acho que o Fernando vai aceitar numa boa, agora a Sandra vai
dar um pouco de trabalho.
_O problema é que para a Sandra é Deus no céu e você na terra,
pelo eu pude perceber. Para ela você é o namorado ideal. O Daniel
é uma pessoa excelente, mas será que ela vai dar uma
oportunidade para que ele demonstre isso?
_Eu espero que sim. E para você, o que eu sou?
_Por que você sempre dá um jeito de me envolver nesses

10 Autor: Dr. Augusto Cury

191
Tânia Gonzales

assuntos?
_Eu fiz uma pergunta tão difícil assim?
_Leonardo, você é um amigo e eu quero que continue assim. Se
você estiver pensando que entre nós dois pode existir algo mais,
só está se iludindo.
_Você adora jogar balde de água fria em mim, não é?
_Não, eu adoro a verdade, é só isso.
_Pois, eu não vou perder as esperanças, eu sei que você sente algo
por mim, só não entendo por que você não deixa que esse
sentimento...
_Eu não quero conversar sobre isso... e a sua irmã, está bem?
_Está. Ontem nós fomos comer pizza na casa dela, quase que eu a
convidei, mas... você teria aceito o convite?
_Provavelmente não.
_Foi o que eu pensei. A princesa Suzana não iria se expor dessa
maneira.
_Acontece que seria muito estranho eu participar de um programa
com a sua família. Eles iriam pensar que...
_E você não gostaria que eles pensassem que entre nós...
_É claro que não! Pra quê? Não existe nada e nunca vai existir.
_Nunca? Você não deveria dizer isso. E se você for um presente
de Deus pra mim?
_Deus não faria isso com você. Leonardo, eu já disse uma vez,
mas vou repetir, o problema não está em você.
_Qual é o problema então? Suzana...
_Chegamos... obrigada pela carona.

No dia seguinte os dois vieram o caminho inteiro conversando


sobre tudo e todos, menos sobre os dois, é claro. Ele queria
aproveitar cada segundo ao lado dela sem comentários que
pudessem chateá-la; não queria provocar qualquer situação que a

192
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

fizesse afastar-se dele, mas às vezes era difícil resistir.


_O que você de comentarmos sobre aquele livro?
_Em qual parte você está?- perguntou ela.
_Na parte que ele se declara para ela. Achei a declaração dele bem
diferente. Imagine alguém chegar e dizer mais ou menos assim:
“Você não serve para mim por causa da sua situação financeira, a
maioria dos membros da sua família é muito inconveniente,
sinceramente eu não gosto da atitude deles, você deveria se
envergonhar da família que tem, mas mesmo assim eu estou
perdidamente apaixonado por você, quer casar comigo?” É hilário.
_A Elizabeth11 não achou nada hilário. Mas você está lendo
mesmo! Pensei que você estivesse brincando, que só fosse dar
uma olhada bem superficial e pronto.
_Eu faço isso por você. Eu quero fazer parte da sua vida de todas
as formas possíveis, se é necessário ler um livro de romance
antigo, tudo bem. Suzana, você precisa concordar comigo que em
matéria de declaração de amor eu ganho fácil do Mr. Darcy. Tenho
ou não tenho razão?
_Assunto encerrado.
_Então você concorda...
_Não foi o que eu disse. Está na hora de encerrar o assunto, foi só
isso que eu disse.
_Como você foge!
_Chegamos. Obrigada pela carona. Boa noite.

A quarta-feira chegou e com ela a reunião da REMA que seria


realizada na casa de Leonardo; Suzana conseguiu trocar a folga
com a amiga Cláudia. Às 20h todos os componentes do grupo já
estavam reunidos.

11 Livro: Orgulho e Preconceito- autora Jane Austen

193
Tânia Gonzales

_Sejam bem-vindos e fiquem à vontade- disse Lígia ao recebê-los-


eu arrumei a mesa na sala de estar com alguns petiscos, se
quiserem fazer a reunião lá, tudo bem. Quem eu não conheço
daqui? - perguntou dando uma boa olhada no grupo- Você é... - ao
dizer isso Lígia apontou para Suzana.
_Mãe, esta é a … Suzana, a sobrinha da Marisa- explicou
Leonardo rapidamente.
_Então você é a famosa Suzana, muito prazer!
_O prazer é meu, dona Lígia.
_Você é muito bem-vinda à nossa casa- disse Lígia ao
cumprimentá-la com um beijo.
_Então... vamos para a sala de jantar? O que você acha, Jônatas? -
perguntou Leonardo ansioso.
Jônatas concordou e assim todos foram para a espaçosa sala de
jantar onde uma grande e bela mesa, repleta de vários tipos de
petiscos, os esperava e como haviam 12 cadeiras estofadas, foi
possível acomodar a todos muito bem.
Jessica começou a reunião com uma oração e a seguir pediu para
que Renan fizesse a leitura.
_” Angustiou-se Amnom por Tamar, sua irmã, a ponto de adoecer,
pois sendo ela virgem, parecia-lhe impossível fazer-lhe coisa
alguma.”12
_ Obrigado, Renan. Eu gostaria de agradecer ao Leonardo e à sua
família por ceder a casa para a nossa reunião- iniciou Jônatas-
Hoje nós vamos ter uma conversa sobre paixões. A história de
Amnom e Tamar vai nos ajudar. Ele era filho do rei Davi e ela
também. Eles eram irmãos só por parte de pai. Amnom
apaixonou-se por ela e o versículo no diz que ele até adoeceu por
isso. Um amigo dele chamado Jonadabe percebeu que havia algo

12 2 Samuel 13.2

194
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

errado, quando Amnom lhe contou, Jonadabe teve uma ideia; ele
diz para Amnom deitar na cama e se fingir de doente e ao receber
a visita do rei era para ele pedir que Tamar cuidasse dele, assim
os dois ficariam sozinhos. E foi assim que aconteceu; quando
Amnom ficou sozinho com Tamar pediu para que ela se deitasse
com ele, mas como ela negou, Amnom a forçou. Renan, leia o
versículo 15, por favor.
_” Depois, Amnom sentiu por ela grande aversão, e maior era a
aversão que sentiu por ela que o amor que ele lhe votara. Disse-lhe
Amnom: Levanta-te, vai-te embora.”
_Valeu, Renan. Vocês notaram que depois que Amnom conseguiu
o que queria, o sentimento por ela acabou? O que ele sentia por
ela?
_Atração física- respondeu Leonardo.
_É isso mesmo- concordou Jônatas- Nada além disso. Amnom só
queria satisfazer o seus desejos sexuais. Queria sentir prazer, só
isso. Depois que conseguiu, ele a desprezou. O amor não é assim.
O amor sabe esperar. Ele quer o bem da outra pessoa. Na primeira
carta do apóstolo Paulo aos Coríntios no capítulo 13 diz que o
amor “não procura os seus interesses”. O amor é muito diferente
de uma paixão que leva o outro ao desespero. Quantas histórias
vocês já ouviram de pessoas que abandonadas por seu amor se
desesperam; uns, por acharem que a vida já não vale mais nada, se
suicidam, outros, por ódio, matam a quem um dia chamou de
amor. Isso não é amor. É sentimento de posse; ela me pertence, ele
me pertence; se não vai ficar comigo, então com mais ninguém. O
filho de Davi provocou uma grande desgraça em sua família,
acabou sendo assassinado por Absalão, irmão de Tamar, que não
se conformou com o que ele fez. Tudo isso por causa de alguns
minutos de prazer. Jovens, vale a pena esperar. E cuidado com os
sentimentos, talvez aquilo que você acha que é amor, é somente

195
Tânia Gonzales

uma atração física.


_Jônatas, quando um rapaz pedi para a namorada uma prova de
amor... você sabe - disse Camila, meio sem jeito.
_Entendi, Camila. Prova de amor? A maior prova de amor que
alguém pode dar é justamente esperar pelo momento certo. Se ele
vem com essa história, caia fora rapidamente, ele só quer te usar.
_Jônatas, às vezes os dois se gostam de verdade e como passam
muito tempo juntos, acabam por adiantar as coisas, não é? - foi a
vez de Vitória se pronunciar.
_Sim, é por isso que nós sempre aconselhamos aos namorados
tomarem muito cuidado com as carícias; pois as emoções ficam à
flor da pele, não é fácil, por isso não provoquem. Mas queridos, se
acontecer, não se sintam as piores pessoas da terra, não fiquem se
culpando, é importante que vocês sejam sinceros, procurem
alguém para conversar. É por isso que cada grupo é liderado por
um casal, isso facilita muito.
_Nós estamos aqui para ajudá-los, se você estiverem com algum
problema é só nos chamar para conversar; qualquer problema, não
necessariamente esse tipo de problema que estamos falando hoje-
explicou Jessica.
_É isso mesmo. Agora, vamos conversar sobre o evento para
arrecadar dinheiro para Missões. Ideias? - perguntou o líder.
Passaram a próxima hora conversando sobre o evento, cada um
apresentou a sua ideia. Ao encerrar a reunião, Jônatas avisou que
teriam um encontro domingo após o culto, iriam ao shopping.
Leonardo lamentou por Suzana e Letícia irem de carona com
Vitória.
_Filho? Ei... você está aqui? - perguntou Lígia ao notar que
Leonardo estava distraído.
_Oi, mãe, eu só estava pensando...
_Em uma moça muito bonita chamada Suzana?

196
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Minha querida mãe, agora a senhora quer adivinhar os meus


pensamentos?
_Agora eu descobri o porquê do meu filho ficar suspirando.
_Suspirando? Mãe?
_Não precisa ficar com vergonha! Ela é uma graça... eu fiquei
observando e cheguei a conclusão que vocês formam um belo
casal.
_Quem é que forma um belo casal? - perguntou Rafael ao sair de
seu escritório.
_Nosso filho está apaixonado, Rafael!
_Mãe, para com isso, eu...
_Eu nunca vi você assim, nem quando era um adolescente!
Querido, você está completamente apaixonado! Ela não
corresponde?
_Mãe, deixa esse assunto para outro dia.
_Você está sofrendo... eu vejo isso em você. Meu filho, cuidado!
Eu me preocupo porque isso é tão complicado! Não faça nenhuma
bobagem, olha, eu sei que às vezes não é fácil, mas...
_Mãe! Eu e a Suzana somos amigos. Tenha calma, tá? A senhora
está pensando o quê?
_É que nos noticiários aparecem histórias de pessoas que por não
serem correspondidas acabam fazendo alguma loucura...
_Minha mãe, fique tranquila, eu não estou desesperado e nem
desiludido da vida. Pode ficar sossegada que o seu filho não vai
aparecer em nenhuma reportagem policial. Agora eu vou dormir.
_Ei, espera... eu quero saber.
_Pai, a mamãe está viajando.
_Eu estou viajando? O nosso filho está apaixonado, Rafael. E ela
esteve aqui hoje.
_E vocês nem me avisaram? Eu também gostaria de conhecê-la.
_Pai, nós só tivemos uma reunião do grupo.

197
Tânia Gonzales

_Rafael, eu conto tudo pra você, deixe o nosso filho dormir.

Com a Bíblia aberta em 2 Samuel 13, Suzana, pensava: “ Que


coisa terrível! Pobre Tamar, deve ter sofrido tanto! Eu sei muito
bem. “

Sandra entrou no quarto da filha, queria muito ter uma séria


conversa com ela.
_Mãe, eu estou com sono, não acho que é uma boa hora...
_Eu preciso falar, não estou suportando mais. Letícia, você
pretende nos desafiar?
_Desafiar? Mãe, eu só quero ter permissão para namoraro Daniel.
Eu gostaria que vocês aprovassem, é só isso.
_Só isso? Filha, você não tem ideia da minha decepção ao ver
aquele rapaz aqui. Eu estava certa que o Leonardo viria...
_Mãe, a senhora só sabe falar do Leonardo! Compreenda de uma
vez por todas que nós somos grandes amigos e quer saber? Ele
está apaixonado.
_O Leonardo? Por quem? Entendi... então é por isso... você está
magoada e...
_Mãe, não confunda as coisas, eu estou apaixonada pelo Daniel.
_Apaixonada? Não fale bobagens! O Leonardo é o rapaz ideal:
ele é bonito, inteligente, gentil, é fiel a Deus, tem uma boa
profissão, boa família...
_Faltou uma coisa na sua lista: ele é branco.
_O que você quer dizer com isso?
_É isso mesmo. A senhora é preconceituosa. Mãe, isso é racismo!
Quem diria, hein? A Sandra, uma pessoa que diz ser uma
seguidora de Jesus!
_Letícia, não fale assim comigo, eu sou sua mãe! Não sou racista.
_Não? Então prove! Aceite o meu namoro.

198
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Isso não.
_Não, é claro que não. É muito fácil dizer: Eu, racista? De jeito
nenhum! Eu respeito todas as pessoas, eu as aceito, desde que
fiquem bem longe da minha filha.
_Você está indo longe demais... cuidado, eu sou sua mãe.
_Eu falei para o Leonardo, eu disse que eu estava com receio
justamente por isso... mas ele não, ele disse:” Que isso! Você acha
mesmo que os seus pais vão ter esse tipo de preconceito?”
_E ele estava certo, eu não tenho. Só não quero que você namore
com esse rapaz.
_Mãe, eu gosto do Daniel, dê uma chance para ele, conheça-o, por
mim.
_Eu sinto muito, mas não posso. Esqueça. Por quem o Leonardo
está apaixonado?
_Por que a senhora quer saber?
_Me conte, eu quero saber se ele soube escolher. É claro que para
escolher bem mesmo só se fosse você, mas...
_Para com isso. Não vou falar.
_Letícia, você está impossível! Você não quer falar porque não é
verdade, é isso!
_Agora eu sou mentirosa.
_Bem... quem é que estava saindo às escondidas? Agora, me
conte por quem ele está apaixonado?
_A senhora não vai desistir, não é? Pela Suzana.
_Suzana? A sobrinha da Marisa?
_É ela, quem mais?
_Nossa! Vocês estão brincando com a gente, só pode ser isso! A
Suzana? Aquela garota não tem nada a ver com ele. Vive de favor
nos fundos da casa da tia, é uma vendedora que trabalha em
shopping, o pai é um ex-presidiário...
_O quê? Mãe, que história é essa? O pai dela é um ex-presidiário?

199
Tânia Gonzales

_Eu não deveria ter falado isso, esquece... vou deixar você dormir.
_Mãe, agora a senhora vai falar...
_Eu já disse para você esquecer, eu falei sem pensar, foi isso.
_Mãe, que absurdo! A Suzana é uma excelente pessoa, é
esforçada, está na faculdade, trabalha...eu não sabia que a minha
mãe era tão preconceituosa!
_Eu vou dormir, cansei desse assunto, mas tenho certeza que a
Lígia não vai ficar nada...
_ Agora vai se intrometer na vida do Leonardo também?
_Letícia, isso não é problema seu, pode deixar que eu me entendo
com a minha amiga. Boa noite.
Naquela noite foi difícil para Letícia dormir, não conseguia parar
de pensar nas palavras da sua mãe: “ O pai é um ex-presidiário”-
de onde que ela havia tirado isso?

Era quinta-feira, Suzana recebeu uma ligação de sua mãe no final


da tarde avisando que Leonardo precisou fazer uma viagem com o
pai e só voltaria sábado ou talvez, domingo.
_Ele ligou para a senhora? Por que ele não me ligou?
_Já está com saudades? Isso é muito bom. Ele me ligou para
garantir que você não voltaria sozinha. O seu pai vai buscá-la,
não discuta, Suzana, ele já está sabendo.
_Mãe, não precisa. O papai vai estar tão cansado!
_Querida, vou desligar. Ah... o Leonardo confirmou presença no
almoço de domingo. Um beijo. Tchau.
Suzana não sabia explicar, mas pensar que não veria Leonardo a
deixou muito triste, no dia anterior os dois nem tiveram a
oportunidade de conversar e ela tinha que confessar que sentiu
falta disso.
Naquela noite, ao ver o pai esperando-a no lugar de Leonardo,
pôde perceber o quanto a presença dele fazia bem para ela, isso

200
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

era algo que não podia negar.


No dia seguinte Suzana sentiu ainda mais falta dele, “como era
possível isso?”- pensou- “ São só dois dias e eu estou desse jeito?
Bem que ele poderia ter ligado... mas, por que ele ligaria? E se eu
ligasse? Não. Que bobagem, é claro que não!”

Letícia queria muito encontrar-se com Daniel, pois desde domingo


eles não se viam, só se falavam pelo celular, mas a mãe estava de
marcação. Ela tentou por várias vezes retomar o assunto sobre o
pai de Suzana, mas a mãe desconversou.

201
Tânia Gonzales

Capítulo 19 -Reação inesperada


Paula recebeu uma visita muito especial naquela semana: Júlia,
ex-paciente do dr. Romeu. As duas conversaram muito,
descobriram que tinham muita coisa em comum.
_ Paula, é necessário muita força de vontade para sair dessa e eu já
pude perceber que isso você tem.
_Eu quero muito ficar completamente curada, é horrível se olhar
no espelho e sempre achar que está tudo errado.
_Você vai conseguir. Isso também acontecia comigo e agora eu fiz
as pazes com o espelho e com a balança. Você acredita que eu
cheguei a quebrar três espelhos e duas balanças?
_Sério? Bom... isso eu nunca fiz!
_Então você está em melhores condições do que eu estive naquela
época. Paula, eu passava horas me olhando no espelho e de
repente me dava uma raiva tão grande que eu jogava o que
estivesse na minha frente. Uma vez eu joguei um vidro de
perfume, era novo e caro! Joguei-o no espelho. Eu sempre fui
fissurada por balanças, daquelas que ficam no banheiro, sabe?
Pois, estraguei duas elas. Uma foi pela janela, a outra, eu joguei
na parede com muita violência! Eu sentia ódio das coisas que
estavam ao meu redor e me odiava também. Sentia raiva das
meninas que eu achava que eram magras demais. Ficava brava por
não ser como elas.
_E você também provocava o vômito?- perguntou Paula.
_Sim, muitas vezes ao dia. Na maioria das vezes, os meus
sintomas eram de anorexia, mas algumas vezes também os da
bulimia. Era complicado, eu ficava muito tempo sem comer e
depois eu queria compensar isso, foi aí que as coisas se
complicaram ainda mais, pois o meu organismo não suportava

202
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

essas mudanças... e os exercícios? Sempre fui obcecada por


academias, mas como me sentia muito feia, parei de frequentá-las,
então a solução foi me exercitar em casa, fiz de tudo para a minha
mãe comprar uma esteira, insisti tanto que ela me deu de presente
de natal. Me exercitava como uma maluca! Caía de exaustão. Um
dia não consegui me levantar mais. Minha mãe chegou do serviço
e me encontrou no meu quarto, eu estava inconsciente. Ela
precisou chamar uma ambulância, entrei em coma. Fiquei uma
semana assim. Os médicos não davam nenhuma esperança para
minha mãe.
_E seu pai, Júlia?
_Meu pai mora em Manaus, eles são divorciados. Eu... só estou
aqui conversando com você hoje por um milagre. Cheguei a pesar
35 quilos, estava esquelética e mesmo assim me sentia gorda e
muito feia. Isso é terrível! Me tornei uma pessoa depressiva,
amarga... sempre achava que as pessoas falavam mal de mim, que
zombavam de mim. Paula, não permita que isso destrua a sua
vida, ela é muito preciosa; agora eu aprendi a dar valor para o que
realmente tem valor, não tem dinheiro que pague a paz, a alegria
de viver, estar satisfeita consigo mesma. Eu tinha um sonho, eu
queria muito ser uma modelo reconhecida, famosa, mas isso não é
para todas, mas a vida, esta sim, é para todas e todos. Deus nos
deu esse presente precioso e nós temos a obrigação de cuidar
direitinho.
_Você está certa! - disse Paula enxugando as lágrimas- Eu
agradeço a Deus por ter me dado uma nova oportunidade e não
vou desperdiçá-la. Júlia, eu agradeço muito por sua coragem de
vir até aqui compartilhar a sua história comigo, foi muito
importante pra mim.
_Paula, eu recebi uma nova oportunidade e sinto que devo ajudar
as pessoas que estão passando pelo mesmo problema que eu já

203
Tânia Gonzales

enfrentei. Ouça bem, não permita que a moda, que as pessoas


ditem as regras pra você, não permita que o externo prevaleça,
valorize o seu interior, você é uma pessoa única e especial, nunca
se esqueça disso. Pois aqueles que cobram a perfeição não são os
mesmos que lhe estendem a mão quando você cai, nestas horas
eles ficam longe, muito longe. Não vai ser fácil, mas você vai
vencer! O importante é não se fechar em um mundo particular,
isso é muito perigoso. Aceite a ajuda das pessoas, eu sei que você
tem amigos muito especiais, a sua mãe me contou. E eu sei
também que você crê em Jesus e isso é maravilhoso. Ele está
junto com você nesta jornada. Eu também confio em Jesus, só que
eu o conheci no hospital através de uma jovem que estava
internada no mesmo quarto que eu. Ela me apresentou Jesus, me
explicou que ele morreu na cruz para que nós tivéssemos uma
vida de comunhão com Deus. E me disse que ele deu a vida por
mim para que eu pudesse vivê-la plenamente, e que a vida não
constitui no que você pode adquirir: fama, dinheiro, poder. Pois
isso um dia acaba e ninguém consegue levar essas coisas para a
eternidade. Ela leu um versículo para mim, posso pegar a sua
Bíblia? - perguntou Júlia.
_Claro, leia pra mim, por favor!
_” Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; mas
aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre.” 13
Paula, tudo passa... a beleza, as riquezas, o poder, a fama... o que
permanece é o que você faz para Deus. A vontade Dele não é que
você fique desesperada para manter um peso impossível, Ele não
quer que você olhe para o espelho e se sinta feia, não! Deus não
nos criou para isso. Ele nos ama e quer o nosso bem. Da próxima
vez que você se olhar no espelho diga: “ Eu sou importante para

13 1 João 2.17

204
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Deus, eu sou linda e preciosa aos olhos dele”; pois é isso mesmo
que você é, tenha certeza disso, amiga!
As duas se abraçaram e choraram muito. A visita de Júlia foi
realmente um presente muito especial para Paulinha.
Naquele mesmo dia Paula recebeu uma ótima notícia do dr.
Romeu, se a recuperação dela continuasse no mesmo ritmo ela
teria alta no início da próxima semana. O que ela não sabia e
também não deveria saber, era que os pais falavam até em
separação, a situação deles estava bem complicada, não
conseguiam manter um diálogo, pois sempre acabava em
discussão.
_Eu não aguento mais a sua indiferença, Paulo! Você não se
importa comigo, eu sei que você já não me ama mais.
_Como você é dramática, Regina! Pare de pensar só em você, a
nossa filha está internada e você falando esse tipo de coisa? Só
rindo!
_É, eu sei que faz tempo que eu virei um motivo de piada para
você!
_Pare com isso! Não suporto quando você fica aí choramingando.
_Você não me suporta, não é? As pessoas que adoram convidá-lo
para pregar e dar palestras sabem disso? É claro que não! Elas
pensam que o grande pregador Paulo Reis é um santo, acham que
ele é um excelente pai e um ótimo marido... coitados... estão sendo
enganados!
_Regina, eu já avisei para você que eu estou cansado de ouví-la
lamentar!Você é uma ingrata, é isso o que você é! Está sempre
insatisfeita, deveria sentir orgulho em ter um marido tão
respeitado e requisitado, mas não, isso pra você não tem a menor
importância. Estou cansado disso!
_Eu eu já me cansei faz tempo. Vamos resolver isso de uma vez
por todas, para que viver de aparências...

205
Tânia Gonzales

_O que você quer dizer com isso?


_Você não sabe? Não consegue adivinhar? Eu não acredito, que o
grande pregador e palestrante, Paulo Reis, ainda não percebeu do
que eu estou falando?! Eu quero o divórcio, é isso, Paulo.
_Você está maluca? Regina, o quê? Você deve estar com
problema na cabeça, só pode ser isso, vou levá-la a um psicólogo.
_Não preciso de psicólogo, eu quero o divórcio! Chega de mentir.
_Regina, nunca mais toque nesse assunto, está me ouvindo? Você
quer acabar com o meu ministério, é isso?
_Olha só com que ele está preocupado! Não é por ficar sem a
família, ele está preocupado com o ministério dele! Mas, é claro, o
que eu esperava? Você é tão previsível, Paulo, e desprezível é isso
o que você é. Eu vou ao hospital, mas a nossa conversa não
termina aqui.

Eram quase dez horas daquela noite de sábado e Suzana estava


atendendo um cliente, havia pensado em Leonardo durante a tarde
inteira. Ela gostaria de ter força para deixar de pensar nele, mas
era impossível, tinha que reconhecer que estava com muitas
saudades dele. Como era possível, alguém fazer tanta falta assim?
Ela não conseguia compreender. Ele iria adorar saber o quanto a
ausência dele havia mexido com ela. “ Pelo menos a Cláudia não
está aqui hoje, senão ela teria percebido tudo”- pensou ela e após
dez minutos saiu da loja.
Suzana deu uma boa olhada ao redor para encontrar seu pai, mas
de repente seu coração disparou, ela ficou estática olhando para o
rapaz sorridente que se aproximava dela, ela não podia acreditar,
era ele, Leonardo estava ali esperando-a. E, sem se preocupar em
disfarçar a alegria que sentiu ao vê-lo, retribuiu o sorriso. Por
alguns segundos os dois ficaram se olhando sem dizer uma única
palavra.

206
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Boa noite, princesa Suzana! Gostou da surpresa?


Neste momento Suzana fez algo que nem ela mesma acreditou
que seria capaz: ela o abraçou, simplesmente, o abraçou. Aquele
movimento inesperado fez Leonardo ficar sem ação a princípio,
mas logo ele a aconchegou em seus braços. Ficaram por alguns
instantes, assim, abraçados, sem dizer nada, só desfrutando
daquele momento de ternura. Era a primeira vez que os dois
ficavam tão próximos um do outro. De repente, Suzana se afastou
dele, envergonhada.
_Que recepção! Eu acho que vou viajar mais vezes.
_É... me desculpe... eu...
_Não se desculpe, você foi espontânea; eu perguntei se gostou da
surpresa e você me respondeu, foi só isso, não precisa se sentir
culpada, você não cometeu nenhum pecado.
_Eu nem sei o que dizer...
_Vamos comer? Eu cheguei em casa, tomei um banho e vim
buscá-la, estou com fome. E você?
_Também estou.
_Então, vem comigo... Suzana não precisa ficar com vergonha de
mim, eu estou muito feliz por estar aqui com você, especialmente
porque você demonstrou que sentiu saudades de mim. Sabe o que
aconteceu? O seu sentimento foi muito mais rápido do que o seu
pensamento, você não teve tempo para pensar, aí o seu coração
agiu por conta própria; ainda bem que eu não liguei, se você
soubesse não teria reagido assim. Foi uma surpresa e tanto, não
foi?
_Você está adorando isso, né?
_Não vou negar que eu adorei tudo, desde o seu olhar, passando
pelo seu sorriso e terminando em seu abraço... foi quase perfeito,
só faltou uma coisa...
_Nem vou perguntar o que; você não disse que estava com fome?

207
Tânia Gonzales

Os dois foram até a praça de alimentação, desta vez escolheram


uma pizza.
_Você viajou para onde? Se é que eu posso saber...
_Claro que pode, eu não escondo nada de você, sou um livro
aberto e você ?
_Eu fiz uma pergunta, você respondeu com outra, não aprendeu
que isso é muito feio?
Suzana ficou bem desconfortável com a pergunta de Leonardo.
Ela nunca poderia ser um livro aberto, especialmente para ele.
Com certeza ele não iria gostar...
_Tudo bem, calma. Meu pai precisava conversar com um cliente
que mora em São Carlos, e como ele tem dificuldade para se
locomover devido a um acidente de trabalho, nós fomos até lá, é o
Agnaldo. Há meses que ele faz o convite para conhecermos o sítio
dele, então aproveitamos a oportunidade. É um lugar muito
agradável; até pesquei, foi ótimo, mas eu fiquei com muita
saudade, percebi que não posso ficar nem dois dias sem você.
_Tanta saudade... poderia ter ligado.
_Ah... que gracinha! Você ficou esperando uma ligação minha...
ah... Suzana, você está me surpreendendo! Eu confesso que pensei
em ligar, mas resisti e gostei do resultado!
_Para com isso! Agora eu vou precisar suportar um Leonardo
convencido e …
_Apaixonado!
_Exagerado, é isso que você é.
_E a sua vó, está inventando muita coisa para amanhã?
_Está toda animada... ela cozinha muito bem! Hum...com aquele
tempero especial que só ela sabe fazer.
_Neta coruja. E a Lê?
_As coisas estão bem complicadas para a nossa amiga. A mãe dela
está de sentinela, não quer que ela encontre o Daniel de jeito

208
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

nenhum.
_Que coisa chata.

Leonardo deixou Suzana em casa alguns minutos após a meia-


noite.
Naquela noite Suzana demorou muito para pegar no sono, só
pensava na reação que teve ao vê-lo. “ Que foi aquilo? Como eu
tive a coragem de abraçá-lo? Eu não posso negar que fiquei muito
feliz ao vê-lo, mas, me jogar nos braços dele? Até agora eu não sei
como isso foi acontecer. Mas, eu me senti protegida e... feliz... foi
tão maravilhoso! Será que eu conseguiria me relacionar com ele?
Não, é claro que não. Mesmo que eu vencesse todos os meus
medos, não seria justo para ele. Ele merece alguém melhor do que
eu.”

O dia amanheceu, seria um domingo de muito sol. Leonardo


participou da escola bíblica e do ensaio da orquestra, estranhou a
ausência de Letícia, tentou falar com ela pelo celular, mas não
conseguiu. Como ainda era meio-dia, aproveitou a oportunidade
para visitar a amiga Paulinha. Saiu de lá muito animado, pois ela
estava toda confiante e alegre com a possibilidade de receber alta.
Antes das duas horas da tarde, Leonardo já estava esperando pela
saída de Suzana. Por alguns minutos ficou lembrando do
reencontro com Suzana no dia anterior. Como aquele abraço foi
inesperado! Ela era sempre tão contida, mas ontem...aquela reação
de Suzana fez com que Leonardo tomasse uma decisão. Uma
importante decisão.
Ela se aproximou dele com um certo constrangimento, por causa
da noite anterior, e ele se aproveitou disso.
_E então? Estou esperando...
_Esperando o quê?

209
Tânia Gonzales

_O meu abraço... por que essa carinha brava? Hoje não tem
abraço? E se eu disser que estou precisando ser abraçado hoje, que
estou muito carente?
_Problema seu!
_Ué, o que você fez com a Suzana de ontem?
_Ela faltou hoje.
_Que pena. Eu gosto mais daquela, ela é mais feliz,
livre...corajosa e espontânea.
_O que você acha de irmos? Eles estão nos esperando para
almoçar, lembra?

Às 14h35, Leonardo e Suzana chegaram para o almoço especial da


vovó Vivi.
_Agora podemos almoçar! Leonardo, hoje você não vai comer a
tradicional macarronada de domingo, hoje é dia de comida
mineira! - avisou a vovó.
Vovó Vivi havia caprichado no cardápio: Vaca atolada, feijão
tropeiro e outras delícias. Para a sobremesa: doce de leite e doce
de abóbora com coco.

Após o almoço, enquanto saboreavam a sobremesa, Leonardo


anunciou que tinha algo importante para dizer.
_Então, por favor, pode falar, Leonardo – pediu o pai de Suzana.
_Bom... eu quero aproveitar que a família está toda reunida, até a
Sueli está aqui hoje e a tia Marisa, então, eu... eu gostaria de pedir
a sua permissão, seu Davi, para ser o namorado da Suzana.
Neste momento todos se manifestaram, houve uma alegria geral.
Davi nem conseguiu falar por causa da empolgação das mulheres
da família, menos de Suzana, que estava com uma enorme
interrogação naqueles lindos olhos verdes. Ela olhava fixamente
para Leonardo, querendo entender o que ele havia acabado de

210
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

fazer.
_Posso falar agora? - perguntou Davi- Acalmem-se! Estas
mulheres, são capazes de nos deixar malucos! Pois muito bem, eu
estou muito feliz e é claro que você tem a minha permissão para
namorar a minha filha. Você é um bom rapaz e tem demonstrado
que gosta muito da Suzana e a respeita também, o que é muito
importante. Só espero que vocês não exagerem no horário e que
tomem muito cuidado.
_Quanto a isso, o senhor pode ficar tranquilo, eu respeito muito a
sua filha e é claro que eu gosto muito dela e... é isso.
_Então, só temos que dar os parabéns ao novo casal de
namorados- disse vovó Vivi- Querida, estou tão feliz por você!- a
seguir abraçou Suzana- Leonardo, venha aqui me dar um abraço...
ganhei um novo neto.
_E eu ganhei uma vó linda e maravilhosa.
Ainda ficaram se confraternizando por alguns instantes, até que
Leonardo disse que precisava ir embora senão se atrasaria para o
culto. Suzana o acompanhou em silêncio até o portão.
_O que foi aquilo? - perguntou quebrando o silêncio.
_É assim que você chama o nosso namoro?
_Leonardo, como você pôde fazer isso comigo? Você se
aproveitou de uma situação... eu deveria ter sido consultada antes,
estou errada?
_Em circunstâncias normais, sim, mas...
_O quê? Leonardo você não pode decidir por nós dois, isso não é
correto!
_Eu sei qual seria a sua resposta se eu falasse com você antes.
Mas eu também sei que você gosta de mim, não pode negar isso,
eu já desconfiava e ontem tive a certeza.
_Ontem? Você tomou uma decisão dessas por causa de ontem?
Aquilo foi só...

211
Tânia Gonzales

_Não sabe nem explicar, pois eu sei o que foi aquilo, foi o seu
coração me dizendo que você também está apaixonada por mim.
_Eu... você está...
_Eu estou o quê? Mentindo? Delirando? Viajando? Tenho certeza
que não. Se eu estiver errado, então me corrija, vamos, diga que
não sente o mesmo por mim, mas seja convincente!
_Pare com isso... eu não vou dizer nada.
_Não pode negar, é por isso que você não vai dizer nada.
_Eu não posso namorar você.
_Por que você não falou lá dentro? Quer voltar lá? Vamos...
_Não. Eu não tive coragem de dizer porque eles ficaram muito
felizes.
_Só por isso? Se foi só por isso nós vamos lá agora e eu vou me
desculpar e dizer que fui precipitado. Vamos?
_Leonardo... não.
_Então me diga que não foi só para não estragar a alegria deles,
me diga.
_Eu... por que você faz isso?
_Porque eu te amo, é só por isso. Diga.
_Não foi só por esse motivo... não foi só por eles, foi por você...
eu não queria magoá-lo.
_E por você? Diga.
_Também.
_Também? Fale claramente... fale... eu preciso ouvir.
_Eu também gosto de você... ah... mas não posso, você merece
alguém melhor do que eu.
_Isso sou eu quem decide. Eu quero você, Suzana, não quero
alguém melhor ou pior. Eu só quero você, é tão difícil entender
isso?
_Eu... não sei se consigo ser uma namorada pra você, eu já disse
mais de uma vez que o problema está em mim.

212
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Não entendo por que você diz estas coisas, mas quando você se
sentir à vontade para me contar eu estarei pronto para ouví-la.
_Eu não vou conseguir, eu tenho tanto medo...eu não sei … você
precisa de alguém que possa ser carinhosa e não alguém cheia de
receios e medos...
_Fique tranquila, eu espero até que você...
_Leonardo, você quer uma namorada que fique tremendo quando
você se aproxima e …
_ Não sei por que você tem dificuldade para se relacionar, eu sinto
que não é só por timidez... Suzana, ontem você me abraçou,
lembra? Não fique ansiosa, eu sei que você está preocupada com o
nosso primeiro beijo, não é? Não precisa ficar envergonhada, eu
vou esperar, não quero forçá-la e nem vou pegá-la de surpresa ...
fique tranquila, eu sou bem paciente. O importante é que eu sei
que você corresponde ao meu amor, é claro que à sua própria
maneira. Só peço uma coisa, que você me autorize a segurar na
sua mão, senão vai ficar estranho um casal de namorados que
mantêm distância um do outro. Agora eu preciso ir, eu volto daqui
a trinta minutos para buscá-la, afinal você agora é minha
namorada.
Leonardo se despediu de Suzana dando-lhe um beijo no rosto.
Poucos minutos antes das cinco e meia ele já estava de volta, para
buscá-la.
_Você está linda... vamos, eu tenho pouco tempo, a orquestra vai
tocar... e você nunca pensou em tocar algum instrumento?
_Eu já pensei em aprender a tocar violão, mas nunca tentei. Você
gosta muito de violino?
_Muito, tocar faz muito bem, é claro que é necessário se esforçar,
ter disciplina, mas pra mim é algo muito relaxante, que eu faço
com muito prazer. Você deveria experimentar, tenho certeza que
iria gostar, se quiser eu posso ser seu professor, só que tem que ser

213
Tânia Gonzales

de violino.
_Eu agradeço, mas, por enquanto, não. Você falou com seus pais
sobre nós?
_Ainda não. A minha mãe notou que eu voltei mais feliz, você
acredita?
_É mesmo? Leonardo, como você consegue se contentar com tão
pouco? O que eu posso oferecer pra você? Quase nada.
_Suzana? E desde quando o amor pode ser considerado assim? Eu
amo estar com você, é tão difícil você entender isso? Depois
conversamos mais, agora vamos participar de um culto
maravilhoso, venha minha linda namorada.

Leonardo mal teve tempo de se posicionar, o pastor já havia


anunciado o louvor e a orquestra estava pronta para começar a
tocar.
_E aí, meu amigo? Está tão difícil da gente conversar, estou com
saudades, sabia?- foram as palavras de Letícia ao parar de tocar
seu violino.
_É verdade... mas como vão as coisas na casa da família Soares?
_Complicadas ao extremo! Minha mãe está fazendo de tudo para
eu não ter a mínima oportunidade para ver ou falar com o Daniel.
Ela não quer que eu vá nem na casa da Suzana, você acredita?
Quando eu falei que hoje teria um compromisso com o grupo, ela
ligou para o Jônatas para confirmar, dá para suportar isso?
_Sinto muito, amiga. Eu gostaria de poder ajudá-la, mas como?
_Eu sei como. Nós vamos ao shopping, certo? Quando o encontro
do grupo terminar, nós...
Letícia explicou o seu plano para Leonardo e depois ficou muito
surpresa com a notícia que ele deu.
_Não acredito? Vocês estão namorando!? Que legal, Léo! Ah... eu
fico tão feliz por vocês!

214
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Após o culto, o grupo Alfa se reuniu em um shopping. Jônatas


anunciou que fariam mais um parceiros do diálogo e separou as
duplas. Leonardo e Suzana seria uma delas.
_Justo hoje você será a minha parceira, isso é muito engraçado, eu
adorei- comentou Leonardo sorrindo.
_Em todos os sorteios eu ficava torcendo para não cair com você,
agora...
_Que revelação, hein! Você deveria ter vergonha de dizer isso!
Suzana, eu vou dar uma palavrinha com o Jônatas, já volto.

_O quê? Vocês começaram a namorar hoje? Parabéns!- disse


Jônatas.
_Eu achei melhor esclarecer isso, porque eu sei o quanto o
trabalho dos grupos é sério e eu respeito muito.
_Fique tranquilo, Leonardo, pode ir conversar com a sua parceira
especial. Foi ótimo você ter contado, valeu!

_Pronto, aqui estou, já esclareci as coisas com o líder- disse


Leonardo ao se aproximar de Suzana.
_Você falou pra ele sobre nós?
_Eu contei para não dar a impressão errada, pode parecer que
estamos participando só pra namorar, sei lá, que não levamos isso
a sério...
_Tem razão. E aí, vamos andar um pouco ou...
_Se você não se importar eu gostaria de ficar parado e de
preferência sentado. Vamos procurar um lugar?
_Concordo.
A hora passou rapidamente quando eles perceberam já estavam
atrasados para se juntarem ao grupo.
_Faltam quinze minutos para as dez, isso significa que estamos
quinze minutos atrasados, vamos correr... - disse Leonardo.

215
Tânia Gonzales

_Esqueceram do horário, é? - perguntou Vitória sorrindo.


Foram até a praça de alimentação. Jônatas aproveitou para
anunciar que o grupo deles fariam Yakissoba daqui a duas
semanas para arrecadar fundos para missões. Seria um trabalho
em conjunto com o grupo Ágape. Aproveitou para marcar uma
reunião na próxima quarta-feira na casa da Vitória.
Após o lanche, se despediram; Leonardo, Suzana e Letícia ainda
permaneceram no shopping pois se encontrariam com Daniel.
_Valeu a força, Leonardo, está difícil ficar longe da minha
loirinha- confessou Daniel.
_É só uma fase, logo vocês vão poder ficar juntos, a Sandra vai
acabar aceitando, ela só precisa se acostumar com a ideia. Vamos
combinar... daqui a trinta minutos nos encontramos no
estacionamento, eu sei que é pouco, mas precisamos voltar antes
da meia-noite- disse Leonardo.
_Estavam com tanta saudade! Esta semana foi muito complicada
para eles- foi o comentário de Suzana ao ficar a sós com
Leonardo.
_Precisamos intensificar as nossas orações. Só Deus pode
amolecer o coração da Sandra. Eu percebi como você ficou ao vê-
los juntos. O que passou por essa sua cabecinha linda, hein?
_Ah... eu sinto muito... eu acho que não vou conseguir ser sua
namorada. Pra mim é como se fosse um obstáculo intransponível.
Se alguém soubesse disso com certeza iria pensar que é bobagem
minha ou que eu faço isso para te provocar... você está me
entendendo? De repente até você pensa que eu estou dificultando
as coisas só pra...
_Que história é essa? É claro que eu não penso nada disso. Eu sei
que existe alguma coisa que te incomoda muito, eu já disse que
vou esperar.

216
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Como não sabiam quando teriam uma nova oportunidade para


ficarem juntos, Letícia e Daniel aproveitaram cada minuto, as
demonstrações de carinho entre os dois só fazia Suzana sentir-se
pior com relação ao seu namoro. Passou o caminho todo pensando
que ele merecia uma namorada normal, alguém que pudesse
retribuir-lhe o carinho.
Eram onze e quarenta quando deixaram Daniel na casa dele e
cinco minutos depois, Leonardo estacionou em frente à casa de
Suzana. Letícia despediu-se do casal e entrou em sua casa
torcendo para que a mãe já estivesse dormindo.

_Tem alguém aqui que está muito preocupada e eu não estou


gostando disso. Suzana, eu não quero que o nosso namoro seja um
peso pra você, a minha vontade é fazê-la feliz.
_E você vai conseguir ser feliz comigo?
_Eu já estou muito feliz por você ser minha namorada.
_Namorada? Até parece que somos irmãos!
_Isso não. Eu estaria cometendo um pecado terrível se você fosse
minha irmã. O que eu sinto por você não tem nada a ver com amor
fraternal.
_Você ainda consegue brincar?
_Princesa Suzana, pare de se culpar, o nosso namoro começou
hoje, teremos muitas oportunidades para nos comportar como um
casal de namorados. Não se preocupe com isso, não é bom ficar
fazendo comparações com outros casais. Agora é melhor você
entrar, boa noite.
Leonardo despediu-se dela com um beijo no rosto.

Naquela noite, Suzana teve um pesadelo. Ela estava trabalhando,


de repente um homem entra na loja mancando, ela o reconhece
imediatamente, um sentimento de pânico começa a tomar conta

217
Tânia Gonzales

dela, ele olha fixamente para ela e diz:


“ Você não tem jeito mesmo! Acha que pode pertencer à alguém
que não seja eu? Não sonhe, menina linda, não sonhe! Um dia
você foi toda minha, acha que pode mudar isso? Você sempre será
a minha menina linda!”
Neste momento Suzana acordou e passou a mão no rosto para
enxugar as lágrimas.

218
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Capítulo 20 -Treinamento

Naquela tarde de segunda-feira, Suzana recebeu um lindo bouquet


de rosas.
_Nossa, meu Deus! Uau! Quem mandou? Foi o gato da carona?-
brincou Cláudia.
_Gato da carona? Só você. Bom... você vai acabar descobrindo
mesmo... nós estamos namorando.
_Não acredito? Aaaaa, que máximo!- gritou Cláudia.
_Calma... não precisa exagerar.

Às dez horas Leonardo estava esperando por Suzana.


_Boa noite, princesa. Quer uma ajuda?
_Oi, as flores eu mesma levo e obrigada, são lindas.
_Qual é o dia da sua folga? Eu tive uma ideia- disse Leonardo ao
entrarem no carro.
_Quinta, qual é a sua ideia?
_Meu plano é o seguinte: passar mais tempo com você.
_Como?
_Eu quero almoçar com você e só trazê-la de volta à noite.
_E o seu trabalho?
_Pode deixar que eu me entendo com o patrão.
_Aonde você vai me levar?
-O que você acha de passar a tarde na praia?
_Praia? Você está brincando, né?
_Não. Nós precisamos de um pouco de privacidade, não se assuste
comigo, espera, eu explico. Eu tive uma ideia que vai ajudá-la a se
acostumar comigo. Como eu explico sem que você me entenda
mal? Eu tenho um plano. Você tem um certo … medo, digamos
assim, de se relacionar comigo como seu namorado, então eu

219
Tânia Gonzales

pensei que em primeiro lugar você precisa se sentir segura e que


para isso você tem que confiar em mim, certo?
_Certo, mas eu não entendi. Que plano mirabolante é esse?
_Não tem nada de mirabolante, é bem simples e pode se
concretizar com facilidade, vai depender de você. Nós precisamos
de mais tempo juntos e de um lugar tranquilo, não me olhe assim,
eu não estou com segundas intenções, é que em um shopping, por
exemplo, você não iria se sentir à vontade e nem na garagem da
sua casa, então eu pensei que se nós fôssemos em uma praia ou
em um outro lugar bem espaçoso que você não precisasse se
preocupar com as outras pessoas... Suzana, fala que está
entendendo... eu não estou pretendendo levá-la para um lugar
fechado, não é isso.
_Entendi. Está vendo como é complicado ter uma namorada como
eu? Você fica cheio de cuidados, todo preocupado e...
_Princesa Suzana, eu já disse e repito, não se culpe. É que agora
fica difícil para explicar tudo, mas é uma boa ideia, você vai ver. E
aí?
_Tudo bem, mas pense em um outro lugar.
_Nós podemos almoçar e depois irmos a um parque, quem sabe o
Ibirapuera?
_Tudo bem, eu concordo, mas ainda não entendi.

No dia seguinte, Leonardo foi visitar Paulinha e teve uma grande


surpresa.
_Você vai sair hoje?
_Isso mesmo, meu amigo lindo! Só estou esperando o dr. Romeu.
Estou tão feliz, eu prometo que vou me comportar direitinho desta
vez – disse Paulinha muito emocionada.
_Minha linda, eu também estou muito feliz por você! Está
recebendo uma nova oportunidade e eu sei que vai saber

220
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

aproveitá-la.
_Pode ter certeza, aquela Paula maluca não vai ter vez! Eu sei que
não vai ser fácil, o doutor me explicou tudo muito bem, ele disse
que é muito perigoso, que para ter uma recaída é num piscar de
olhos. Eu tenho que ser monitorada, foi bem esta a palavra que ele
usou, o tempo todo, que a minha mãe precisa ficar de olho em
mim. Mas eu estou bem mais consciente agora, da outra vez eu
estava aqui no hospital pensando em como perder peso
rapidamente, maluquinha! Eu vou cuidar da minha saúde pode
ficar tranquilo, meu amigo lindo, meu gato! A sua amiga colocou
um pouco de juízo na cabecinha teimosa dela. Só estou
preocupada com os meus pais, eles estão tão estranhos! Quase
não se falam, eu acho que eles estão me escondendo alguma
coisa...
_Você não deve se preocupar com isso, o mais importante é a sua
saúde, provavelmente é só impressão sua, eles estão
preocupados com você. Ficar todos esses dias no hospital não foi
nada fácil para eles. Deve ser cansaço, é isso.
Duas horas depois da visita de Leonardo Paula saiu do hospital
com seus pais.
À noite, Leonardo foi buscar Suzana e contou sobre a saída de
Paulinha do hospital.

O grupo Alfa se reuniu na casa da Vitória, quarta-feira à noite; só


faltou Suzana, por estar trabalhando. Conseguiram deixar tudo
certo para o evento de missões. Às nove e meia Leonardo saiu
para buscar a namorada.

_Tudo certo para amanhã? - perguntou Leonardo durante o


caminho para a casa de Suzana.
_Acho que sim, embora eu esteja meio confusa... não sei o que

221
Tânia Gonzales

você está pretendendo, além é claro de passar algumas horas


comigo.
_Você está dormindo bem esses dias ou não para de pensar nisso?
_Mais ou menos. Confesso que estou um pouco ansiosa.
_Não precisa ficar assim, confie em mim.
Naquela noite Suzana teve um sono bem tranquilo.

O dia amanheceu, seria um belo dia de sol. Suzana passou a


manhã inteira pensando. “ Qual será a ideia dele? Não consigo
nem imaginar! “
_Olá, princesa Suzana, vamos almoçar? Hoje eu estou me
sentindo como uma criança no dia do aniversário: feliz, na maior
expectativa e ansiosa para abrir os presentes- brincou Leonardo.
_Você está me assustando!
_Ei, é só uma maneira diferente de dizer o quanto eu esperei por
este dia, é só isso. O dia está lindo, tudo contribui para quem
deseja viver momentos inesquecíveis hoje.
_Leonardo, o que você está planejando?
_Ter momentos agradáveis com você.
Almoçaram em um restaurante chinês, para satisfazer a vontade de
Leonardo que ficou com água na boca de tanto que falaram sobre
Yakissoba na reunião do grupo Alfa.
Após o almoço foram para o parque Ibirapuera. Caminharam
durante algum tempo de mãos dadas e depois se acomodaram
embaixo de uma árvore, o sol estava bem forte, eram três horas da
tarde.
_Suzana, eu estive pensando e cheguei à conclusão que a melhor
maneira de você perder o … medo ou o receio... bom... seria você
mesma controlar a situação, é... a minha ideia é que você tome a
iniciativa.
_Você deve estar brincando, né? Eu devo tomar a iniciativa, eu

222
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

nunca vou...
_Calma... me escuta, eu pensei assim: eu vou fechar os meus
olhos, ficar imóvel, esperando que você me beije.
_Leonardo, se é esta a sua ideia eu sinto informar que...
_Espera... não seria um beijo daqueles... e sim um selinho. Eu
fico com os olhos fechados e totalmente parado, sem mexer um
músculo, as minhas mãos vão ficar em cima das minhas pernas, eu
não vou abraçá-la... você vai estar no controle. Se por acaso você
desejar que eu ... a beije, você aperta uma das minhas mãos. E aí?
_Ah... sinceramente eu não sei.
_Vamos tentar?
_E se eu... Leonardo... eu falei pra você que nós dois juntos não ia
dar certo. Você acha que já existiu algum casal de namorados com
esse tipo de conversa?
_Isso eu não sei e também não estou interessado em saber. Suzana,
somos só nós dois, eu acho que é uma boa ideia, tente... olha... vai
ser tudo de acordo com o seu ritmo, você vai estar no controle,
confie em mim, eu não vou me aproveitar da situação. Tudo vai
depender de você. Tente... por nós.
_Tudo bem, vou tentar.
_Então... vou fechar os olhos e esperar, é só isso que eu vou fazer.
Leonardo fechou os olhos e ficou imóvel esperando por Suzana,
que a princípio não teve qualquer reação... alguns segundos se
passaram e Suzana só olhava para ele sem conseguir sair do lugar.
“ Tente... por ele... coragem, isso não pode ser tão complicado, ele
está esperando... por que é tão difícil pra mim? É só encostar
meus lábios nos dele, é só isso... eu preciso, eu tenho que
conseguir... se alguém o visse assim acharia que ele está fazendo
um papel ridiculo e eu não consigo sair do lugar...”
Suzana foi se aproximando bem devagar, com o coração
disparado, ela tocou nos lábios dele com os dedos e depois chegou

223
Tânia Gonzales

mais perto e enfim os seus lábios tocaram nos dele bem


suavemente, Leonardo fez como havia prometido, ficou imóvel;
mesmo desejando com todas as suas forças, beijá-la, ele resistiu
pois não queria que ela perdesse a confiança nele. Poucos
segundos depois, Suzana afastou-se bem devagar e ficou
observando-o, até que Leonardo abriu os olhos e lhe deu um
sorriso.
_Adorei... não foi tão difícil, foi?
_Menos do que eu esperava.
_Vamos repetir isso até que você esteja pronta... não precisa me
olhar assim... por hoje está ótimo. Considere isso como um
treinamento. Que tal nós caminharmos um pouco e depois irmos
ao shopping assistir um filme?
_Gostei da ideia.

Às 22h Leonardo estacionou o carro em frente à casa de Suzana.


_Passar todas estas horas com você foi ótimo, eu quero repetir
isso- disse ele.
_Eu também gostei muito... de tudo- confessou ela, tímida.
_De tudo? É bom ouvir isso... ah... minha princesa, você é a
namorada mais linda e...
_E mais complicada, com toda a certeza.
_Não fale assim. Você precisa ver as coisas por um outro lado, se
não existisse esse medo, nós provavelmente já teríamos nos
beijado como qualquer outro casal e aí perderíamos a
oportunidade de viver todo esse clima, essa expectativa, entende?
É uma sensação deliciosa... fica um mistério no ar.
_É uma maneira bem diferente de ver o problema, parabéns!
_Não pense nisso como um problema e lembre-se que você já
passou pela primeira fase do nosso treinamento. Eu vou deixar
você descansar... boa noite e sonhe comigo.

224
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Olha só quem chegou! - disse vovó Vivi com toda animação, ao


ver a neta.
_Oi, vó. Tudo bem por aqui?
_Tudo ótimo e como foi o seu passeio?
_Foi um dia maravilhoso; ele me levou para almoçar...
_Esperem por mim, eu também quero saber de tudo- falou Marina
saindo da cozinha.
_Oi, mãe. Nós almoçamos em um restaurante chinês e depois
passamos a tarde no parque do Ibirapuera...
Suzana contou tudo, menos sobre o treinamento.

Letícia passou uma semana bem complicada; sua mãe não lhe deu
trégua, aproveitou cada oportunidade para falar mal do
relacionamento dela com Daniel e também não poupou nem
Leonardo e muito menos Suzana.
_ Você e o Leonardo formam um par perfeito, mas vocês adoram
nos contrariar, não é mesmo?
_Mãe, deixe o Leonardo fora da nossa conversa.
_Ele teve a coragem de trocar uma menina linda, de boa família
como você, por aquela...
_Mãe, cuidado como fala da Suzana, ela é uma pessoa
maravilhosa.
_Sei... por que ela não se interessa pelo Daniel, hein? É claro que
não, ele não é um advogado, não tem uma boa família e...
_Mãe, para com isso... o Daniel tem uma família ótima. São
honestos, trabalham, são unidos e...
_E não conseguem chegar a lugar algum. O Daniel e a Suzana
formam um casal perfeito, assim como você e o Leonardo!
_Eu não sabia que a senhora era tão preconceituosa! Só dá para
descobrir esse tipo de coisa quando...
_Preconceituosa, não, eu sou realista e sincera. Por que mentir?

225
Tânia Gonzales

Para que fingir? Não sou hipócrita!


_Não? Na igreja canta: “ Uma família sem qualquer falsidade,
vivendo a verdade... eu preciso de ti querido irmão, precioso és
para mim, querido irmão...” 14Precioso? Desde que mantenha
distância da minha filha, não é, mãe?
_Você está confundindo as coisas.
_Não, infelizmente, não. A teoria é uma coisa, na prática as coisas
são bem diferentes. A verdade é que a senhora não aceita o meu
namoro por dois motivos: por ele ser negro e pela situação
financeira dele. Não adianta negar.
_Letícia, cuidado! Você está chamando sua mãe de racista? Eu só
quero o melhor para você. O Leonardo é o rapaz ideal, e
justamente por esse motivo é que não vou deixar que aquela
menina se aproveite. Para ela é muito conveniente se envolver
com ele; o Leonardo é bonito, gentil, atencioso, tem uma boa
profissão, pertence à uma família excelente e ela? O que ela tem
para oferecer? Não posso negar que ela é bem bonita, mas isso
você também é. A Lígia não vai gostar nada de saber em que
família o filho está...
_Mãe, deixe o Léo em paz, ele está apaixonado!
_Depois que ele descobrir algumas coisas sobre a família dela, vai
mudar de ideia.
_Não prejudique a Suzana, ela não merece.
_Eu tenho a obrigação de alertar a minha amiga Lígia.
_A senhora acha que Deus aprova a sua atitude? Quer acabar
com a felicidade das pessoas, por quê?
_Não coloque Deus no meio disso.
_Não? Mãe, ser cristão não é simplesmente fazer parte de uma
comunidade e participar das programações, vai muito além disso...

14 Louvor: Corpo e família-Compositor: Daniel Souza

226
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

é no viver diário que demonstramos a nossa fé.


_Agora ela vai pregar pra mim. Quem você pensa que é? Letícia,
não me venha com essa conversa mole, você não vai me
convencer, eu nunca vou aceitar o seu namoro com aquele rapaz e
vou ter uma conversa séria com a Lígia.
Letícia foi para o quarto e lá se desfez em lágrimas.

A felicidade de Paula era imensa. Estar novamente em casa era


ótimo. Só havia uma coisa que não estava bem: o relacionamento
de seus pais. Ela notou que os dois mal se falavam. Após o almoço
daquela sexta-feira ela resolveu conversar com a mãe.
_Mãezinha linda, o que está acontecendo entre você e o papai?
_Nada. Por quê?
_Não tente me enrolar... caramba, vocês acham que eu sou boba?-
perguntou Paula sem disfarçar a irritação.
_Não fique assim, não é bom para a sua saúde, minha filha. Pense
só em sua recuperação, está bem? Eu não vou aguentar se você...
_Calma, mãe. Eu só gostaria de saber o porquê desta distância
entre vocês.
_Isso é coisa da sua cabeça. A campainha está tocando, deve ser
alguma visita para você.
_Leonardo! A Paulinha vai ficar muito feliz.

_Léo? Que bom, que você veio, meu gato!


_É ótimo vê-la em casa novamente, minha linda!
_Bom... fique à vontade Leonardo, eu vou fazer um cafezinho-
disse Regina.
_Ah... meu amigo... eu estava mesmo querendo falar com você.
Estou desconfiada que meus pais estão me escondendo alguma
coisa.
_Por que você pensa assim?

227
Tânia Gonzales

_Eu já comentei com você que eles estão se evitando, só falam o


essencial, eu questionei a minha mãe, mas ela disfarça... deve ser
algo grave! Estou com medo deles... se separarem- revelou Paula.
_Que isso, minha linda! Eu já disse que você não pode se
preocupar com esse tipo de coisa, faz mal para sua saúde.
Paulinha, você precisa se cuidar. Por favor, não interrompa o
tratamento. Você precisa seguir a dieta médica à risca.
_Léo, relaxa! Eu estou me alimentando legal, pode confiar. Você
pode me ajudar? Tente descobrir alguma coisa.
_Tudo bem, se é que tem alguma coisa para descobrir.
_Com licença, olha o cafezinho- anunciou Regina interrompendo
a conversa.
Não tiveram mais oportunidade de tocar no assunto, mas, ao sair,
Leonardo teve uma conversa com Regina e não gostou nada do
que descobriu.
_Regina, como vocês podem estar pensando em separação? A
Paulinha acabou de sair do hospital. - sussurrou Leonardo.
_Eu sei que não é um assunto para tratar com você, mas já que
perguntou, é isso mesmo, eu pedi. Não dá mais para viver de
aparências. E o que mais me doí é que ele só se preocupa com o
ministério. Ele não quer prejudicar o ministério dele! Não está
nem aí para o nosso casamento. Isso machuca muito... desculpe o
desabafo.
_Regina... deve haver uma solução para vocês. Você orou por
isso?
_Eu não consigo orar.
-Tente... é necessário. Não tome uma decisão assim sem falar com
Deus. A Paulinha está desconfiada, você já imaginou o quanto ela
vai ficar arrasada?
_Eu sei... gostaria de poupá-la, mas eu não aguento mais.
_Eu vou pedir um favor. Dê um tempo para ver se as coisas

228
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

mudam, se depois você ainda continuar com a mesma decisão...


_Nada mudou durante anos...
_Faça isso pelo amor que você sente por sua filha. Tente mais um
pouco, ore e evite conflitos.
_Tudo bem, eu vou tentar. Obrigada, você é um grande amigo, a
minha filha tem muita sorte. Pena que são só amigos...
Leonardo saiu da casa de Regina, entrou no carro e fez uma
ligação para o pastor Pedro Gabriel. No dia seguinte eles teriam
uma séria conversa.

À noite foi buscar Suzana no serviço e aproveitou o percurso até a


casa dela para conversarem sobre Paulinha e o problema dos pais.
_Isso precisa ficar em segredo, eu contei para que você ore por
eles.
_Tudo bem, pode confiar em mim. Então, amanhã você vai contar
para o pastor?
_Suzana, eu sei que esses assuntos são complicados. Dizem que
em briga de casal não é certo se envolver, mas eu acho que eu
posso para dar uma mãozinha. Mas mudando de assunto... e o
nosso treinamento?
_O que você quer saber?
_Vamos treinar mais um pouquinho, hoje?
_Hoje? Como? A pergunta certa seria: onde?
_Na garagem da sua casa... agora que você já sabe como é, fica
mais fácil.
_Leonardo, eu...
_Não faça esse biquinho.
_Biquinho? Eu fiz um biquinho?
_Fez e ele era lindo... assim eu não resisto.
_Para com isso... ah... eu acho que não vai dar.
_Chegamos, eu vou descer e entrar com você, só até a garagem.

229
Tânia Gonzales

Entraram, Suzana fechou o portão e ficou parada meio sem jeito.


_Vem aqui pertinho de mim... ei, princesa Suzana?
_Leonardo, e se alguém aparecer...
_ Verá um casal de namorados, fazendo o óbvio : namorando.
_ Tá bom.
_As regras são as mesmas: eu fico bem quietinho com os olhos
fechados e você... já sabe... e se quiser apertar a minha mão, fique
à vontade.
Ali, na garagem de sua casa, era bem mais difícil para ela se
soltar, mas mesmo assim...
Suzana olhou para Leonardo e se aproximou... deu um beijo no
rosto dele e deslizou o seu por aquela pele bem barbeada e
perfumada por uma loção que ela conhecia muito bem.
Aquela sensação a fez estremecer, mas ela não se afastou, tocou
com os seus lábios nos dele e por um momento desejou que ele a
beijasse, em uma fração de segundos ela apertou a mão dele e...
imediatamente ele entendeu qual era o pedido dela, Leonardo
moveu os lábios lentamente, mas este movimento fez com que
Suzana se afastasse com um leve tremor. As mãos estavam suadas
e o coração disparado.
_Sinto muito- disse simplesmente.
_Não se desculpe, está tudo bem. Boa noite, minha princesa- disse
Leonardo encaminhando-se até o portão.

Suzana sonhou com uma voz ameaçadora que dizia: “ Você nunca
vai conseguir, nunca! E sabe por quê? Porque você me pertence!
Ele não vai suportar isso por muito tempo e vai desistir de você,
mas eu nunca vou abandoná-la, nunca! Minha menina linda!

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Capítulo 21 - Aconselhamento
Leonardo acordou cedo, era uma linda manhã de sábado; havia
marcado com o pastor Pedro Gabriel de tomarem o café juntos,
por isso, às oito horas da manhã já estava tocando a campainha da
casa do pastor.
_Paz, meu querido, vamos tomar um belo café da manhã, me
acompanhe.
_Paz, pastor Pedro. E a primeira dama, como está?
_A Rute está muito bem, obrigado. Ela saiu para caminhar com
uma amiga dela.
_Pr. Pedro, eu sei o quanto é complicado falar sobre a vida dos
outros, mas eu faço isso pela Paulinha- começou Leonardo assim
que se acomodaram.
_Pode ficar à vontade, Leonardo. Fale tudo o que for necessário.
_É sobre o Paulo Reis e a Regina. Ela quer divorciar-se dele.
_É um assunto muito delicado; e justamente agora que a filha
precisa tanto dos dois!
_É isso o que mais me preocupa, ela pediu a minha ajuda, mas só
está desconfiada. Eu tive uma conversa com a Regina e ela não
teve nenhum receio em dar a notícia. O senhor poderia conversar
com eles, sem que...
_Fique tranquilo, eu dou um jeito nisso.
_Não sei se o senhor está disponível, mas... é o seguinte: Hoje à
noite o nosso grupo vai realizar uma reunião especial para tratar
do evento de missões e a Paulinha faz parte do grupo. Se o senhor
pudesse conversar com eles...
_Eu posso sim. Eu acho que sei o que vou fazer... vou convidá-los
para jantar, o que você acha?
_Excelente.

231
Tânia Gonzales

_Deus vai nos ajudar. Leonardo, parabéns, eu fico muito feliz em


saber que posso contar com jovens como você, que se interessa
pelo bem-estar das famílias de nossa igreja, é maravilhoso.

Leonardo saiu muito satisfeito de sua visita à casa do pastor Pedro


Gabriel e muito confiante também. Ligou para Paulinha avisando-
a sobre a reunião que seria realizada na casa de Jônatas e como ela
concordou em ir ele combinou que a buscaria às sete horas da
noite.

_Um aviso especial aos homens desta casa- começou Lígia- se


comportem bem na minha ausência.
_Quando você volta, meu amor? - perguntou Rafael fazendo uma
carinha triste.
_Não fique assim, terça-feira estou de volta. Leonardo, no
próximo final de semana eu gostaria que você trouxesse a sua
namorada aqui, estamos combinados?
_Não sei, mãe... vamos ver. Está animada com a viagem, dra.
Lígia?
_Estou mais ou menos, eu não queria ficar longe da minha
filhinha querida, não precisa ficar com ciúmes, mas é que esta
semana ela anda meio cansada, se queixando de dores na barriga,
estou preocupada, eu sei que ela teve uma consulta ontem, mas
mesmo assim...
_Fique tranquila, a Bia vai ficar bem e o bebê também. E a
Sandra, resolveu ir e dar uma folga para a Letícia?
_Decidiu de última hora. Eu acho que se ela pudesse levaria a
Letícia junto! Mas vai ser bom para ela passar esses dias longe e
ela adora Poços. Nem vai se lembrar dos problemas daqui.
_Vai ser bom para Letícia, isso sim. Faça uma boa viagem.
Lígia e Sandra tinham um encontro especial com algumas amigas

232
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

da época da faculdade, o passeio estava combinado há meses,


passariam quatro dias em um hotel fazenda.

Sandra conversou muito com a filha fazendo-a prometer que iria


se comportar bem. Antes de sair disse algo que muito preocupou
Letícia:
_Vou aproveitar para conversar com a Lígia sobre a família da
namorada do Leonardo, eu evitei falar até hoje, mas não está
certo, como amiga dela de muitos anos eu devo alertá-la.

Paulinha e Letícia foram para a reunião acompanhadas por


Leonardo. Como o evento da semana seguinte seria realizado
pelas duas equipes, o grupo Ágape também participou da reunião,
o que muito agradou Letícia, pois Daniel fazia parte do grupo.
Conseguiram resolver quase todos os detalhes do evento e
também ficaram sabendo que outros grupos também estariam
trabalhando, pois, além da comida, seriam vendidos: livros,
camisetas e vários outros produtos para arrecadar fundos para
missões.
Leonardo precisou sair antes da reunião terminar, mas já havia
avisado Jônatas, mas antes certificou-se que Vitória levaria
Paulinha para casa. Não se preocupou com a amiga Letícia, pois
imaginou que ela iria aproveitar para passar alguns momentos com
o namorado.

Na casa do pastor Pedro Gabriel...


_Fiquei muito feliz ao receber o seu convite, pastor Pedro- disse
Paulo Reis.
_Eu é que eu estou muito feliz por tê-los aqui. Vamos até o
escritório para conversarmos um pouco, deixemos as esposas
tranquilas aqui na sala.

233
Tânia Gonzales

Rute não perdeu tempo, assim que se viu sozinha com Regina,
iniciou uma conversa.
_Regina, eu percebi que você está muito triste, o que está
acontecendo? A Paulinha está se recuperando bem, não está?
_Está sim, graças a Deus; o problema é outro, eu não sei se devo
ocupá-la com ele.
_Pode se abrir comigo, Regina, eu estou aqui para ajudar.
_Rute, é um assunto muito delicado.
_Fique à vontade para falar.
_Eu... eu quero me separar do Paulo.

No escritório...
_Paulo, você está viajando muito ultimamente, não é?
_Estou sim, graças a Deus tenho muitos convites. Você sabe que
eu amo pregar.
_É... eu sei, Paulo. Mas será que este amor não está exagerado?
_Não entendi.
_Será que você ama mais o seu ministério do que a sua família?
_Pastor Pedro, o que é isso? Eu amo a minha família, é claro, mas
eu tenho que valorizar o dom que Deus me deu. Concorda?
_Sim, é claro. Mas, Paulo, seja bem sincero comigo, você tem
dedicado tempo à família?
_Bem... nem sempre é possível; preciso atender aos convites.
_Paulo, falar a palavra de Deus às pessoas é muito importante,
mas quando isso atrapalha o relacionamento familiar é necessário
parar um pouco e fazer uma análise. A união da família é muito
importante para Deus e para a igreja, pois ela é feita de famílias.
Paulo, quando os compromissos se avolumam e tomam todo o seu
tempo, alguma coisa está errada. Para um casal viver bem é
necessário companheirismo e comunhão, como ter isso estando
sempre ausente?

234
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Pastor Pedro, eu não posso deixar o meu ministério de lado.


_Concordo, mas você também não pode deixar a sua família de
lado. É preciso encontrar o ponto de equilíbrio. Paulo, não use o
ministério como desculpa.
_Eu não estou usando, mas é que a Regina não entende... ela está
sempre reclamando, diz que eu estou sempre ausente...
_Que bom que ela reclama, que ótimo que ela sente a sua falta. Já
imaginou se ela nem ligasse? Paulo, ela quer a sua companhia
porque ela o ama.
_Não ama.
_Paulo, se não fosse assim ela nem se importaria com a sua
presença.
_É difícil conciliar as coisas.
_Você é um homem inteligente, vai saber encontrar o equilíbrio.
Paulo, você ministra às famílias e isso é muito importante, mas a
sua família precisa ver em você aquilo que você prega. A teoria é
boa, a prática é melhor ainda. Assim você terá um ministério
muito mais abençoado, pode ter certeza disso. Eu, por exemplo,
sempre reservo um dia da semana para sair com a minha Rute. Às
vezes ela quer simplesmente ficar aqui em casa mesmo, então nós
preparamos a refeição juntos, conversamos bastante, partilhamos
da vida um do outro. Isso é tão bom! A Regina quer a sua atenção,
Paulo, ela necessita de sua companhia.
_Ela quer a separação. Vai acabar com o meu ministério. As
pessoas vão...
_Paulo, é um absurdo o que você disse. Quer dizer que a sua
preocupação é com o ministério, é com o que as pessoas vão dizer
e não com o fim de sua família? Está errado, muito errado. A sua
esposa e a sua filha precisam de você. A vida da Paula esteve por
um fio, você sabe muito bem disso. Paulo, já imaginou se a tivesse
perdido? Você hoje seria um homem amargurado e cheio de

235
Tânia Gonzales

remorsos. E a Regina iria colocar parte da culpa em você.


Valorize a sua família, Paulo; se assim o fizer com certeza a
Regina e a Paula valorizarão o seu ministério. Pense bem, não
podemos ser egoístas, a nossa família precisa de nós.
_Eu estou muito envergonhado... então eu não deveria nem pregar
mais...
_Ei, não seja radical. Busque o equilíbrio. Paulo, se a sua vida
familiar estiver em harmonia, você será um pregador muito
melhor, pois em suas palavras haverá verdade, haverá amor.
_Eu vou tentar... mas e se a Regina não concordar?
_Paulo, se você prometer mudar, ela vai concordar, afinal ela só
quer o marido dela de volta.

Rute e Regina...

_Regina, Deus quer sempre o melhor para as famílias. Você está


interessada em reconstruir o seu lar?
_É claro, Rute, mas eu quero que a minha filha tenha um pai
presente.
_E você quer ter um marido presente também?
_Sim, eu quero. É por isso que eu reclamo.
_Então, Regina, abra o seu coração para uma reconciliação. Com
muito amor, respeito e compreensão, vocês vão conseguir.
_Obrigada, Rute, por me ouvir, mas se o Paulo não mudar, o que
eu posso fazer?
_Confie em Deus.

Alguns minutos depois, Pedro Gabriel e Paulo Reis saíram do


escritório.
_E então, podemos jantar? - perguntou o pastor.

236
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Suzana saiu poucos minutos após às dez horas e logo avistou o


namorado. Leonardo conversou com ela atualizando-a dos
últimos detalhes decididos na reunião, depois falou sobre o jantar
na casa do pastor, de como ele estava na expectativa e na torcida
de que tudo desse certo. Ainda mencionou a viagem de sua mãe e
também sua preocupação com Beatriz.
_Já falou sobre tudo e todos hoje, menos sobre nós, por que será?
Você nem quis sair hoje, já estamos quase chegando em casa- foi
a observação de Suzana.
_O que você quer dizer com isso?
_Você sabe muito bem... ficou magoado por ontem, não foi?
_Por ontem? Suzana, do que você está falando?
_Você sabe... a sua namorada não consegue lhe dar uma
demonstração de carinho. É claro que você não vai querer sair, pra
quê? Eu sei que você gosta de conversar comigo, mas não é só
isso que você pretendia ao me pedir em namoro, é claro que não!
_Você queria sair hoje? Me desculpe, é que nem pensei nisso, mas
não tem nada a ver com o que aconteceu ontem. Pare com isso.
_Eu sei que sim. Você merece uma namorada de verdade... alguém
que... ah...
_Suzana, você está chorando? Não faz isso, meu amor. Estamos
chegando, quer ir para algum lugar?
_Não.
Leonardo estacionou o carro e ficou olhando para ela, passou a
mão no rosto de Suzana para enxugar-lhe as lágrimas.
_Você vai embora ou quer entrar?
_Eu quero ficar com você, posso?
Suzana fez um sinal afirmativo com a cabeça e desceu do carro,
foi seguida por Leonardo.
_É melhor nós ficarmos aqui mesmo na garagem, não vai dar para
você entrar agora com este rostinho triste.

237
Tânia Gonzales

_Eu quero tentar novamente hoje, podemos?


_Tem certeza, Suzana, você não está bem.
_Eu quero, por favor.
_Tudo bem.
Leonardo fechou os olhos e esperou, mas desta vez não precisou
esperar muito, de repente Suzana já estava próxima tocando-lhe
os lábios... a seguir ela apertou a mão dele com força e Leonardo
achou que havia alguma coisa errada, as coisas estavam indo
rápidas demais... desta vez foi ele que se afastou.
_O que você está fazendo? - perguntou ele.
_Eu que deveria fazer esta pergunta. Por que você não me...
_Suzana, isso não está certo, eu já entendi tudo. Você acha mesmo
que eu gostaria de beijá-la sabendo que você está se forçando a
isso?
_Eu não estou.
_Está sim. Eu sei muito bem o que está acontecendo aqui, você se
sente culpada por ontem. Olhe bem pra mim, eu não vou fazer
isso sem que você realmente queira, ontem eu percebi que você
queria, mas hoje não.
_Você acha que eu não quero?
_Eu sei que você quer, mas hoje você está se punindo, é isso.
_Nossa... ser beijada por você é uma punição? Tenho certeza que
muitas garotas ficariam muito felizes para cumprir a sentença.
_Eu não quero que isso vire um peso pra você. Suzana, lá no
parque foi ótimo... e é assim que eu quero que seja. Não estou com
pressa. Agora é melhor você entrar, está cansada.
Leonardo deu-lhe um beijo na testa e saiu.

_Minha neta linda, qual a razão para toda esta tristeza? -


perguntou vovó Vivi ao ver Suzana deitada na cama, olhando para
o teto.

238
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Ah... não é nada.


_Quem você pensa que engana? Fale comigo, faz bem desabafar.
_Vó, eu não quero preocupá-la.
_ O que está acontecendo com você? Tem alguma coisa a ver com
o seu namoro?
_Que namoro? Coitado do Leonardo, eu sou uma péssima
namorada... eu não consigo...
_O que você não consegue, minha querida?
_Não consigo dar e nem receber carinho... é isso... eu tenho
medo... não conte para ninguém, vó, mas o meu passado está mais
presente do que nunca... eu não consigo ser beijada pelo
Leonardo, eu quero, mas na hora eu entro em pânico, aparecem
umas imagens na minha cabeça, imagens horríveis... é tão difícil
de explicar, mas é como se tudo fosse acontecer novamente... eu
nunca vou me libertar disso e é tudo tão injusto para o Leonardo,
por que eu também não teria coragem de contar para ele, eu não
suportaria o seu desprezo. Ele é tão compreensivo mesmo sem
entender nada... ele diz que vai esperar até que eu me sinta à
vontade, até que eu consiga, mas... vó, e se eu não conseguir?
_Suzana, você não pode pensar assim, deixe que Deus cure as
suas feridas... Leonardo é o instrumento Dele para isso. Ele é
como um bálsamo, preparado especialmente para curar a sua dor.
Não se afaste dele.
_Vó, ele não merece ser enganado.
_Você não o está enganando. Suzana o que aconteceu não foi
culpa sua, você é uma vítima. E se você conversasse com ele?
Quem sabe você se sentiria melhor e...
_Não, vó. Eu nunca teria coragem, morreria de vergonha. O
Leonardo não pode nem imaginar... ele me desprezaria e... não vó,
por favor.
Suzana não conseguiu mais segurar as lágrimas.

239
Tânia Gonzales

_Querida, acalme-se, ninguém vai contar nada para ele, isso é algo
que só você pode decidir.
Vovó Vivi colocou a cabeça da neta em seu colo e ficou
acariciando os cabelos dela por um longo tempo.

_Acorde... ei... Suzana, tem alguém muito especial te esperando


para tomar café- disse Marina.
_Tomar café? Quem está aqui? Ainda são sete horas.
_Ele chegou cedo para dar tempo de tomarem o café bem
tranquilamente; trouxe tanta coisa!Ele vai levá-la para o trabalho.
_Eu vou tomar um banho...
Enquanto isso Leonardo estava na cozinha ajudando a vovó Vivi
na organização da mesa.
_Leonardo, Leonardo, você é um daqueles que Deus fez e jogou a
receita fora. Eu agradeço tanto a Deus por sua vida- foram as
palavras sinceras da vovó.
_Eu é que agradeço a Ele por me dar a oportunidade de fazer parte
da vida de vocês. Eu me sinto muito bem aqui, sabia?
_Ah, querido! A Suzana precisa muito de você; às vezes as coisas
podem parecer confusas e sem sentido, mas tenha certeza que ela
gosta muito de você.
_Bom dia, minha princesa! Você continua linda, mesmo com os
olhinhos inchados- constatou Leonardo ao vê-la.
_Oi, bom dia. Você deveria ter aproveitado para dormir mais um
pouquinho hoje- disse Suzana dando-lhe um beijo no rosto.
_Eu prefiro aproveitar a sua companhia, venha, está tudo pronto,
eu até ajudei a vovó!
_Esse menino exagerou, olha só... - disse a vovó apontando para a
mesa onde havia pães variados, bolos e até frutas.
Após o delicioso café, Suzana e Leonardo saíram, pois ele a
levaria para o trabalho.

240
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Você está bem? - perguntou Leonardo ao entrarem no carro.


_Estou.
_Só isso? Ei, fale comigo! Suzana... eu fiquei muito preocupado
com você ontem- confessou Leonardo.
_É só isso que eu sei fazer: deixar todo mundo preocupado.
_Minha princesa... não fale assim, eu amo você.
_Não deveria me amar, seria muito mais fácil pra você e... pra
mim também.
_ Se você soubesse o quanto a sua presença me faz bem, com
certeza não diria essas coisas.
_Leonardo, eu gostaria de ter uma conversa séria com você, hoje à
tarde.
_Tudo bem, mas nem pense em me dar o fora, tá? Se a sua
intenção for essa, pode esquecer. Eu só aceitaria me afastar de
você se eu tivesse a certeza que não sou correspondido, aí sim.
_Vamos deixar esse assunto para mais tarde. Podemos almoçar
juntos hoje?
_Claro. Eu estava pensando em almoçar na casa da minha irmã,
mas, a minha mãe não vai gostar nada, é melhor esperar que ela
chegue. Ela ficaria uma fera! E já que você precisa tratar de um
assunto sério comigo, é melhor almoçarmos só nós dois.

241
Tânia Gonzales

Capítulo 22 -Lúcia
Leonardo foi até a igreja para o ensaio da orquestra; conseguiu
participar do final da escola bíblica.
_Eu precisava tanto falar com você!- disse Letícia ao se
encontrarem após o término da escola bíblica.
_O que aconteceu, Leca?
_Léo, uma pessoa me procurou hoje, logo cedo, aqui na porta da
igreja.
_Que pessoa?
_É uma história bem esquisita, mas... eu tenho uma colega dos
tempos do colégio, é a Elisa, a mãe dela estudou com a minha mãe
também. Ela me procurou hoje acompanhada de uma senhora
chamada Rita, que tem uma filha de 19 anos. Bom...ela está
enfrentando sérios problemas com essa filha que não sai do
quarto, quase não se alimenta, não faz mais nada, além de ler,
assistir filmes românticos e escrever em um diário.
_E...
_É aqui que você entra na história...
_Eu?
_A Rita encontrou uma foto debaixo do travesseiro da filha e
como não reconheceu a pessoa da foto perguntou para a Elisa,
que é muito amiga da filha dela, e ela disse quem era a pessoa que
estava na foto.
_Letícia, desenrola isso logo, daqui a pouco vai começar o nosso
ensaio- disse Leonardo impaciente.
_Tá legal. A Elisa disse que o rapaz da foto se chamava...
Leonardo.
_O quê?
_É isso mesmo. A garota tem uma foto sua, bom... a Elisa disse

242
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

que na verdade não é só uma.


_Mas por que essa garota teria uma foto minha?
_A Elisa contou que a Lúcia, este é o nome da garota, fez o
primeiro ano da faculdade de direito no ano passado, na mesma
faculdade que você.
_Eu tive algum contato com ela? Não lembro de nenhuma garota
com o nome de Lúcia e também se ela estava no primeiro ano...
não tínhamos contato com o pessoal do primeiro ano.
_Você está certo, não a conhece. A questão é que ela cismou com
você.
_Cismou?
_A Elisa disse que desde a primeira vez que a Lúcia te viu ela
ficou... obcecada por você, tanto que ela desistiu de estudar só
porque você não estaria lá.
_Letícia, você só pode estar brincando comigo. Não estou
acreditando nisso... a minha vida já está tão complicada e aparece
mais isso?
_O que aconteceu? É sobre você e a Suzana?
_É, um dia eu converso com você sobre isso, mas... e aí?
_A mãe dela pediu, não... a palavra é... implorou que eu leve você
até a casa dela, ela tem esperanças que ao vê-lo a filha reaja.
_Meu Deus! O quê? Letícia... eu não sei se isso é conveniente.
_Eu vou com você, quem sabe dá pra ajudá-la e...
_Mas como pode uma coisas dessas? Ela nem me conhece.
_Léo, ela é uma garota muito inteligente, sempre se destacou nos
estudos, mas também era só isso. Ela é muito retraída, se mantém
sempre distante das pessoas. Ela sofre de depressão.
_E se a minha presença complicar ainda mais as coisas, hein?
_A mãe dela acha que vê-lo poderia ajudá-la. Vamos lá depois do
ensaio, ela mora em um apartamento aqui em São Caetano
mesmo.

243
Tânia Gonzales

Participaram do ensaio da orquestra e poucos minutos antes do


meio-dia estavam em frente a um edifício de alto padrão.
_Vamos lá e que Deus nos ajude- disse Leonardo.
Letícia fez uma ligação e em poucos segundos Rita estava na
portaria para recebê-los.
_Rita, este é o Leonardo- disse Letícia.
_Leonardo, lhe serei eternamente grata, a Lúcia está tão distante,
não consigo conversar com a minha própria filha.
_A senhora não precisa me agradecer, podemos vê-la agora?-
perguntou Leonardo querendo sair daquela situação o mais rápido
possível.
Entraram em um apartamento amplo e muito bem decorado. Rita
pediu para que a acompanhassem até o quarto da filha. Era um
lindo quarto decorado com móveis requintados, porém delicados,
havia aparelhos eletrônicos de última geração, era um ambiente
moderno e alegre que contrastava com a tristeza da jovem que
estava sentada em sua cama escrevendo em um diário.
_Filha, olha só quem veio visitá-la.
Lúcia não demonstrou qualquer reação, parecia que continuava
sozinha em seu quarto.
_Lúcia, minha filha, ele veio visitá-la... o rapaz da foto.
Ao ouvir isso, Lúcia levantou a cabeça rapidamente e olhou em
direção à porta onde estavam: Leonardo, Letícia e Rita. Fixou o
olhar em Leonardo e permaneceu assim por alguns segundos.
_Oi, Lúcia, eu vim até aqui para vê-la, como você está? -
perguntou ele para iniciar uma conversa.
Lúcia continuou olhando para ele por mais alguns segundos, então
de repente disse:
_Você existe! Não é só um sonho. Você existe! Não é só um
sonho. Você existe! Não é só um sonho. Você existe! Não é só um
sonho. Você existe! Não é só um sonho- repetia sem parar.

244
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_É claro que eu existo. Lúcia, a sua mãe está muito preocupada,


você precisa se alimentar.
Ela continuou olhando para Leonardo, era como se só ele estivesse
ali.
_Você está aqui. Estou dormindo... é isso mesmo... é um sonho.
Não quero acordar.
_Lúcia, você não está dormindo, eu estou aqui para ajudá-la- disse
Leonardo com uma voz bem mansa.
_A sua voz é tão doce... sinto uma paz... meu anjo. É isso, você é
um anjo. Por que você se afastou de mim? Você sumiu.
_Lúcia, você faria um favor para mim?
_Qualquer coisa.
Por alguns segundos, Leonardo ficou em silêncio, contemplando
aquela jovem à sua frente. Lúcia era uma bonita garota de 19
anos, que no momento estava com o peso abaixo do ideal por se
alimentar pouco; seus cabelos, castanho escuro, estavam curtos e
com uma franja que lhe dava um aspecto de garotinha frágil e
carente; os olhos azuis claríssimos não se desviaram uma única
vez de Leonardo.
_Lúcia, a sua mãe vai trazer-lhe o almoço e eu quero que você se
alimente, estamos combinados?
_Sim.
Rita afastou-se rapidamente para providenciar a comida da filha.
Letícia, encostada na porta do quarto, por um momento pensou em
acompanhá-la, mas resolveu ficar com o amigo diante da situação
incomum.
_Por que você se afastou?- perguntou Lúcia ainda sem desviar os
olhos dele.
_Lúcia, eu não sei do que você está falando?
_Eu... eu fui por várias semanas e você não apareceu mais...
_Leonardo, eu acho que ela está falando sobre a faculdade-

245
Tânia Gonzales

interveio Letícia.
Parecia que Lúcia não podia ouví-la, pois continuou com o olhar
fixo em Leonardo esperando pela explicação dele.
_Ah... eu terminei a faculdade, era o meu último ano.
_Terminou sua missão? Não... não faça isso comigo, eu preciso
muito de você, preciso que você me proteja... que cuide de mim.
Por um breve momento, Leonardo pensou em abraçá-la e dizer
que estava tudo bem, que ela não precisava se preocupar, mas
resolveu ficar onde estava, era melhor agir com cautela, por não
saber qual seria a reação dela.
Lúcia, com o olhar fixo nele, continuava sentada em sua cama.
Leonardo não sabia o que dizer, por isso ficou em silêncio, sentiu
um grande alívio quando Rita voltou com a refeição da filha.
_Filha, veja que delícia, fiz o seu macarrão favorito- disse Rita.
A garota nem se mexeu, continuou olhando para Leonardo sem
dizer uma palavra.
_Lúcia, lembra do que nós combinamos? Você concordou em se
alimentar- falou Leonardo.
Ao ouví-lo, Lúcia levantou-se e pegou o prato das mãos de sua
mãe; começou a comer imediatamente, ali como estava, em pé.
_Sente-se, por favor- pediu Leonardo apontando para uma
delicada cadeira.
Próxima à cadeira havia uma pequena mesa, Lúcia colocou o
prato e reiniciou o almoço.
Rita não conteve as lágrimas pois há meses que não via a filha se
alimentando de verdade. Nos horários das refeições as duas
sempre discutiam muito, pois Lúcia dava só uma ou duas
garfadas e já afastava o prato dizendo estar sem fome.
Em poucos minutos o prato de Lúcia estava vazio.
_Obrigado, Lúcia, isso foi ótimo. Eu quero lhe propor um acordo-
começou Leonardo que durante os minutos em que acompanhou a

246
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

garota se alimentando, ficou orando em pensamento, pedindo a


Deus sabedoria- Eu prometo voltar daqui a quatro dias se você
prometer que vai se alimentar direitinho. Você aceita?
_Aceito- respondeu Lúcia sem hesitação.
_Fico feliz. Então, eu vou ligar para sua mãe na quinta-feira e se
ela me disser que você cumpriu a sua parte no acordo eu volto
aqui para vê-la. Agora eu preciso ir. Lúcia, fique com Deus.
_Espere um pouco- pediu Lúcia para em seguida pegar uma foto
debaixo de seu travesseiro- Veja...
Leonardo olhou para a foto que a garota mostrava, era ele durante
algum intervalo na faculdade, em seguida Lúcia tirou a fronha do
seu travesseiro, que na verdade era uma almofada e Leonardo
pôde ver o seu rosto estampado nela. Por alguns segundos, ele não
soube o que fazer ou dizer, pois era algo que ele absolutamente
não esperava.
_Tudo bem, Lúcia, eu já vi. Agora eu preciso mesmo sair. Tchau.

Rita acompanhou-os até a porta dizendo:


_Eu não sei como posso agradecê-lo, você não sabe o alívio que
me deu ao ver a minha filhinha comendo com tanto apetite! Deus
o abençoe!
_Que isso, dona Rita, não me custa nada ajudá-la. Bom... eu ligo
para a senhora na quinta. Uma boa tarde.
_Boa tarde, dona Rita.
_Obrigada por tê-lo trazido, muito obrigada.
Os dois amigos não trocaram uma única palavra até entrarem no
carro.
_O que foi aquilo? - perguntou Letícia.
_E eu sei? Ah... só Deus sabe o que se passa na mente das
pessoas... que situação!
_Você é o ídolo dela, é isso! Ela estampou a sua foto em uma

247
Tânia Gonzales

almofada! Ai, meu amigo, você está na profissão errada, deveria


ser um psicólogo.
_Letícia, por favor, não conte isso para ninguém.
_Você não vai contar para a Suzana?
_É claro que não. Temos nossos próprios problemas. Por favor, a
Suzana não pode nem imaginar uma coisa dessa!
_Tudo bem, mas eu não sei se você vai conseguir esconder isso
por muito tempo.
_Leca, minha amiga, eu preciso que você me ajude. Agora, vou
deixá-la em casa, preciso buscar a Suzana.
_Leonardo, só quero pedir uma coisa: fique esperto com a minha
mãe, tá?
_Sua mãe? Por quê?
_Bom... ela não está nada satisfeita com o seu namoro, me disse
umas coisas absurdas...
_Que coisas, Leca?
_Não importa, só fique esperto, eu não quero que você se
machuque, você sabe o quanto eu gosto de você, meu irmãozinho!
_Eu também adoro você. Não vai dar para conversarmos, mas
depois eu vou querer saber tudo com detalhes. Tchau, amiga.

248
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Capítulo 23- Namoro curto


Suzana já estava esperando em frente à loja quando Leonardo se
aproximou.
_Me desculpe, foi uma correria para chegar até aqui!- explicou
Leonardo dando-lhe um beijo no rosto.
_Não tem problema, eu esperei só uns cinco minutinhos. Vamos
almoçar?
Durante o almoço, conversaram sobre vários assuntos, menos
sobre o relacionamento dos dois.
_Leonardo, eu disse que precisava conversar com você- disse
Suzana ao caminharem até o estacionamento.
_Suzana, por que você não deixa esse assunto para outro dia?
_Não, eu preciso falar.
_Olha, se é sobre o nosso treinamento, esqueça, por enquanto ele
está suspenso.
_Suspenso por quê? Já desanimou? É isso não é?
_É claro que eu não desanimei, entre - pediu Leonardo e assim
que se acomodaram dentro do carro continuou- eu não pensei que
isso seria um peso pra você. Eu achei que seria bom para você se
acostumar comigo, mas está tão ansiosa... ontem você estava com
raiva de si mesma por não conseguir e não é isso o que eu tinha
em mente quando lhe propus o “treinamento”; era para ser algo
muito tranquilo, suave e até romântico. E foi isso o que
aconteceu no parque, mas agora você fica se cobrando como se
tivesse uma data marcada. Quem estipulou data? Isso é algo entre
nós dois. Eu tenho toda a paciência, eu espero, quando você
estiver pronta...
_Se alguém nos ouvisse nunca iria imaginar que estamos falando
sobre um simples beijo. Isso chega a ser ridiculo... não por você,

249
Tânia Gonzales

mas por mim.


_Para com isso. Eu já disse que é algo entre nós. Se nenhum casal
passou por isso, não me interessa. Como você complica as coisas.
_Por isso mesmo que é melhor nós acabarmos com isso.
_Acabarmos com o quê?
_Com o nosso namoro. O namoro mais …
_Mais o quê?
_Mais nada a ver que já existiu, é isso! Leonardo, namore com
alguém que...
_Não me venha com esta conversa, Suzana. Nós só estamos
namorando há uma semana.
_É isso mesmo, eu não sou sua namorada, sou uma amiga. Eu sei
que nunca vou conseguir e não me pergunte por que eu sei disso.
_O nosso namoro é um peso pra você? O meu objetivo era fazê-la
feliz, mas se … Suzana, você está infeliz com nosso namoro ?
Suzana não gostaria de magoá-lo, mas se essa fosse o única
maneira dele aceitar o fim do namoro...
_Sim. Eu quero acabar com isso agora, é melhor, antes que
passem semanas, meses...
_Você tem certeza disso?
_Tenho, me desculpe, mas eu prefiro terminar agora. Ele já
começou errado. Você nem havia falado comigo e pediu permissão
ao meu pai na frente de todos da minha família... eu fui obrigada a
aceitar. Vê? Não tem como dar certo.
_Se é isso o que você deseja... eu... concordo.
Leonardo deu a partida no carro e dirigiu em silêncio até a casa
de Suzana que virou-se para a janela para que ele não percebesse
suas lágrimas; assim que ele parou o carro, ela desceu sem dizer
nada.

Suzana entrou em casa e sentiu-se aliviada por não encontrar

250
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

ninguém, por certo estavam na casa da tia Marisa. Apressou-se


até o seu quarto e deixou-se cair na cama.
Alguns minutos se passaram até que vovó Vivi entrou no quarto.
_Aí está você. Muita cansada, querida?
_Estou com dor de cabeça- disse Suzana, não mentindo mas
também não revelando o motivo daquela dor repentina.
_Quer tomar algo? Está quase na hora de irmos para o culto, o
Leonardo deve chegar...
_Ele não virá. Vó, eu não vou ao culto hoje.
_Aconteceu alguma coisa?
_Eu estou muito cansada.
_Suzana, fale comigo, o que aconteceu? Você estava chorando,
não estava?
_É por causa da dor... eu preciso descansar.
_Tudo bem. Eu vou ficar com você.
_Não precisa, vó. Pra que faltar ao culto? É só dor de cabeça e
cansaço, só preciso dormir. Amanhã recomeçam as aulas eu
preciso estar bem.
Vovó Vivi percebeu que havia alguma coisa errada, mas deixou a
neta descansar e decidiu que se tivesse uma oportunidade,
conversaria com Leonardo. Foram ao culto sem Suzana e Marina
que estava de plantão no hospital naquele domingo.

Suzana chorou muito ao lembrar da primeira vez que viu


Leonardo e ao pensar em como ele soube conquistá-la. Ele era tão
gentil e amável. Foi até a lavanderia e pegou Meg, colocou-a em
seu ombro e ficou acariciando-a, estava com os olhos marejados e
o coração partido.“ É melhor assim, ele não merece alguém com
um passado tão triste como o meu, eu nunca vou conseguir
superar e ele sofreria muito ao meu lado. Se para dar um beijo é
tão complicado, o que eu faria se chegássemos até o

251
Tânia Gonzales

matrimônio?“
Após o culto, vovó Vivi ficou observando os jovens que saíam na
esperança de ver Leonardo, de repente avistou Letícia.
_Minha querida! Você viu o Leonardo?
_Ele estava conversando com o pastor Pedro Gabriel. E a Suzana?
_Ela não veio hoje, estava com dor de cabeça.
Letícia conversou com vovó Vivi por mais alguns segundos e em
seguida despediu-se dela pois iria embora com o pai que seguia as
recomendações da esposa. Sandra o fez jurar que ficaria de olho
na filha.

Leonardo ficou satisfeito ao saber da conversa franca que o pastor


teve com Paulo Reis e bem como a de Rute com Regina; mas
estava muito desanimado, pois não conseguia pensar em outra
coisa a não ser no término de seu curto namoro com Suzana. Saber
que ela estava infeliz com ele o magoou muito, pois tudo o que ele
queria era fazê-la feliz.” Se eu não tivesse inventado de pedí-la em
namoro agora nós ainda seríamos amigos; era tão bom poder
buscá-la e passar alguns momentos com ela! Agora nem isso eu
vou ter mais!”- lamentou.

Em Poços de Caldas, Sandra aproveitou que estava dividindo o


quarto com a amiga Lígia, para conversar com ela sobre Suzana.
_Lígia, você sabe o quanto a nossa amizade é importante para
mim e é por isso que eu tenho que contar-lhe algo sobre a família
da Suzana.
_O que você tem para me contar sobre a família dela, Sandra?
_Ah, amiga, é um assunto chato, mas, como o Leonardo está de
namoro com ela eu tenho a obrigação de avisar em que tipo de
família ele está entrando.
_Ai, Sandra, você está me assustando!

252
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_É de se assustar mesmo. Lígia, o pai da Suzana ficou preso


durante quase três anos por agredir um homem.
_O quê?
_É isso mesmo. O homem era patrão dele e tinha um problema na
perna e por isso usava uma bengala, pois o pai da Suzana o feriu
com a própria bengala, ele foi parar no hospital, ficou na U.T.I de
tanto que apanhou. Eu sei disso porque a Marisa procurou o
Fernando no escritório para saber se ele tinha algum amigo que
fosse advogado lá em BH, pois ela queria ajudar o cunhado.
_E o Rafael não ficou sabendo disso?
_Só por cima, na época ele estava com um processo complicado
que ocupava todo o tempo dele, mas o Fernando chegou a
comentar com ele. Lígia isso não faz muito tempo... uns cinco ou
seis anos. O Fernando indicou um amigo dele. Eles devem ter se
mudado para cá por causa disso.
_Sandra... que história estranha! Qual o motivo para agir com
tanta violência?
_Lígia, o motivo é o que menos importa, a questão é: você quer
que seu filho tenha um ex-presidiário como sogro? Quer alguém
violento desse jeito tendo contato direto com o seu filho? Eu não
estou contando isso para atrapalhar a vida do Leonardo, eu só
quero que ele seja feliz.

Naquela noite foi difícil para Lígia conseguir dormir, as palavras


de Sandra não lhe saíam da cabeça. “Será que Leonardo sabe desta
história sobre o pai de Suzana? O pior é que ele está tão
apaixonada por esta garota...”- constatou com tristeza pois nunca
vira o filho tão interessado em alguém antes.

Era uma linda manhã de segunda-feira, Leonardo estava no


escritório organizando alguns documentos, olhou para o celular,

253
Tânia Gonzales

eram dez e meia, pensou em Suzana; no dia anterior, após chegar


do culto, sentiu uma vontade imensa de ligar para ela, mas não
cedeu, se o namoro deles fazia mal para ela era melhor se
distanciarem, pensou, só que ele sabia que seria muito difícil ficar
longe dela, pois já estava com saudades só de imaginar que não a
buscaria naquela noite. Seus pensamentos foram interrompidos
pelo toque do celular.
_Alô? Oi, minha irmã querida, como está a grávida mais linda do
mundo?
_Oi, meu irmãozinho lindo, estou melhor, mas ontem me senti tão
mal! Léo, eu estou com medo que aconteça alguma coisa com o
bebê... vou completar 3 meses nesta semana.
_Fique tranquila! Pare de se preocupar; esse bebê vai ser tão
paparicado! A mamãe quase que não viajou por sua causa.
_Eu sei, ela já me ligou várias vezes. Esta tão ansiosa para ser avó
quanto eu para ser mãe. O Bruno dormiu tão mal esta noite, só
ficava me perguntando se eu estava bem.
Leonardo conversou por mais alguns minutos com a irmã e depois
foi até a sala de seu pai para levar-lhe os documentos que havia
separado.

Suzana passou a manhã inteira pensando em Leonardo; saber que


não teria a companhia dele logo mais à noite muito a entristecia,
mas era ela mesma que havia provocado isso ao terminar o
namoro. Como ela gostaria de poder relacionar-se com ele sem
medo ou receio, sem ser atormentada pelo passado.

Eram nove e vinte da noite, constatou Leonardo olhando com


desânimo para o relógio. “ Quem será que vai buscá-la? E se eu …
não... é melhor eu respeitar a decisão dela; mesmo que seja difícil
eu tenho que aceitar que o nosso namoro acabou.

254
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Suzana não contou para a sua família que o seu namoro havia
terminado, por isso foi para casa sozinha naquela noite de
segunda-feira. Estava torcendo para que ninguém a visse chegar e
foi exatamente isso que aconteceu. Ao entrar, cumprimentou o pai
que estava assistindo TV e foi para a cozinha onde encontrou a
mãe e a vovó Vivi. Conversou alguns minutos com elas, e a seguir
foi tomar um banho quente. Sentiu-se aliviada por conseguir
esconder a tristeza que invadia o seu coração e por não
perguntarem nada sobre o horário que ela chegou. No dia
seguinte ela estaria de folga do trabalho, iria aproveitar para fazer
uma visita à Paulinha.

255
Tânia Gonzales

Capítulo 24 -Tristeza e alegria


Suzana acordou cedo e foi para a faculdade, onde passou mais
uma manhã sem conseguir parar de pensar em Leonardo, estava
bem difícil se concentrar nas aulas. “ Aquele sorriso lindo, o jeito
dele me olhar, a voz...”
Suzana estava saindo da faculdade quando seu celular tocou, por
um momento desejou que fosse ele dizendo que a estava
esperando.
_Oi, tudo. Qual é o hospital? Ah... meu Deus, que pena Lê!
Letícia deu-lhe uma triste notícia: Beatriz estava internada e havia
perdido o bebê.
Suzana resolveu ir até o hospital pois a amiga lhe informou que
Leonardo estaria lá. Chegou lá quase duas horas da tarde.
Resolveu ligar para o celular de Leonardo.
_Suzana? O quê? Você está aqui no hospital? Eu vou buscar a
minha mãe na rodoviária. Tudo bem.
Após cinco minutos, Suzana encontrou-se com ele no
estacionamento do hospital. Olharam-se por alguns segundos até
que Suzana disse:
_Eu posso ir com você?
_Pode, é claro... então... vamos, ela deve chegar às três horas.
Entraram no carro, Leonardo abaixou a cabeça e disse:
_A Bia está arrasada! Não dá para entender... - a emoção
embargou suas palavras.
Leonardo continuou de cabeça baixa e Suzana percebeu que ele
passava a mão no rosto discretamente para enxugar as lágrimas
que insistiam em cair. Ela se aproximou dele e começou a
acariciar-lhe os cabelos, dizendo:
_Eu sinto muito... Leonardo... eu sinto muito.

256
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Suzana levantou-lhe a cabeça, puxou-o para perto e beijou-lhe o


rosto com carinho, em seguida tocou os lábios dele com os seus
e por alguns segundos ela permaneceu assim, cobrindo-o com
pequenos beijos nos lábios...com os olhos cerrados, Leonardo
estava inerte, só sentindo a ternura daquele momento, até que
Suzana, sem parar com os suaves toques nos lábios, apertou a
mão dele com força, então ele compreendeu o que deveria fazer...
movimentou os lábios que até então estavam parados e a beijou
suavemente... mas como os dois ansiavam por aquele momento,
logo o primeiro beijo deles se transformou em algo mais intenso,
cálido. Com receio de assustá-la, Leonardo afastou-se bem
devagar acariciando o rosto daquela garota que mexia com o seu
coração.
Os lindos olhos verdes estavam marejados, mas nos lábios havia
um lindo sorriso.
Leonardo a fitava com um olhar terno e também com um sorriso
em seus lábios.
E assim permaneceram por alguns segundos, como se as palavras
pudessem quebrar o encanto daquele momento.
_ Bom... precisamos ir até a rodoviária. - disse Leonardo.
_ Você está certo.
_Como você ficou sabendo? E o seu serviço?
_A Letícia me ligou quando eu estava saindo da faculdade e hoje
estou de folga.
_ Entendi.
_O que aconteceu com a sua irmã?
_Ela passou muito mal logo pela manhã, foi ao banheiro e …
perdeu muito líquido, ela chamou pelo Bruno e eles foram para o
hospital, mas, infelizmente, quando chegaram não havia mais nada
para fazer. Estavam tão felizes... era um bebê muito esperado... a
Bia está muito desanimada. É a terceira vez...

257
Tânia Gonzales

_É tão difícil entender quando essas coisas acontecem... é tão


triste. Nós confiamos em Deus, mas é complicado compreender os
seus caminhos. E a sua mãe já sabe?
_Não. O meu pai achou melhor falar pessoalmente.
_Então, é você que irá dar a triste notícia.

Cinco minutos após Leonardo e Suzana chegarem à rodoviária, o


ônibus de Lígia e Sandra estacionou.
_Meu querido, que bom vê-lo- disse Lígia beijando o filho.
_Seja bem-vinda, minha mãe, oi, Sandra, tudo bem? Como foi a
viagem?
_Oi, Leonardo, passamos dias maravilhosos- respondeu Sandra.
_Vocês são maravilhosas, facilitam as coisas – disse Leonardo ao
apontar as malas com rodinhas.
Só então as duas mulheres viram quem estava com Leonardo, pois
Suzana estava esperando um pouco afastada do fluxo de pessoas,
apesar de ser um dia normal a rodoviária estava bem
movimentada.
_Mãe, a Suzana veio comigo.
_Como vai, Suzana? - perguntou Lígia um pouco sem graça, por
lembrar da conversa com Sandra.
_Estou bem e a senhora? Oi, Sandra.
_Estou bem, graças a Deus, vamos filho?- foi a resposta de Lígia.
Sandra não disse uma palavra só fez um movimento com a cabeça
e deu um sorriso forçado.
_Filho, eu não consigo falar com a Beatriz, a última vez que
conversei com ela foi ontem à noite. Até com seu pai está difícil
falar, ele desligou tão rápido, só me informou que você viria nos
buscar, depois não consegui mais falar com ele. Como que ela
está?
_Vamos entrar no carro primeiro? É chato ficar conversando assim

258
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

com todo esse movimento - disse Leonardo segurando a mão de


Suzana com mais força.
_E então, agora você pode me dizer o que está acontecendo? -
perguntou Lígia com ansiedade, quando já estavam dentro do
carro.
_Calma, mãe; a Bia está internada.
_O quê? Por que vocês não me avisaram? Desde quando?
_Desde hoje de manhã. Mãe...
_Mas, como ela está? O que aconteceu?
_Fique calma, mãe, por favor... mas eu não tenho boas notícias...
ela … perdeu o bebê.
_O quê? Não... não pode ser... filho... como foi acontecer isso? Por
que vocês não me ligaram?
Lígia começou a chorar e Sandra a abraçou tentando consolá-la.
_Ela passou mal logo pela manhã e foi ao banheiro, bom... saiu
uma grande quantidade de líquido e … quando chegaram ao
hospital...
_ Ela deve estar tão mal! Coitada da minha filhinha... estava tão
feliz!
_ Vamos direto ao hospital, está bem?
_Claro que sim... Sandra, você quer que o Leonardo a deixe em
casa?
_Não, eu vou com vocês ao hospital.

Lígia encontrou-se com o marido à entrada do hospital, ele a


abraçou com carinho e ficaram assim por alguns instantes.
_Rafael... como isso foi acontecer? Por que Deus não...
_Calma, minha querida, não fale nada... vamos até o quarto dela,
ela está muito ansiosa para vê-la.

_Você almoçou? - perguntou Leonardo para Suzana ao ver a mãe

259
Tânia Gonzales

se afastar.
_Eu comi um lanche.
_Lanche? Me desculpe, só agora que eu pensei nisso. Você veio
direto da faculdade e...
_Não se preocupe. E você almoçou?
_Eu comi um pouco, estava sem apetite. Eu acho melhor levá-la
para casa, agora a minha mãe vai ficar lá com a Bia e é melhor
que as duas tenham um pouco de privacidade; não vai adiantar
ficarmos aqui. Sandra, quer uma carona?
_Eu vou esperar um pouco, quero ver a Beatriz- respondeu Sandra
que até então estava observando os dois conversarem.
Despediram dela rapidamente e saíram. Sandra ficou olhando para
os dois até desaparecerem de seu campo de visão. Muito lhe
desagradava ver Leonardo de braços dados com aquela garota.

No quarto do hospital, mãe e filha se abraçavam e choravam


muito. Era um duro golpe para ambas. Lígia havia passado por
isso duas vezes antes de se alegrar com o nascimento de Beatriz;
sabia muito bem como doía perder alguém que já significava tanto
mesmo antes de nascer. Como ela gostaria de poupar a sua filha
de tão grande sofrimento, mas a única coisa que podia fazer era
consolá-la.
_Mãe, eu não entendo... por que Deus não me permite ser mãe?
Por quê? O que eu fiz de errado? Qual o motivo para ele me punir
dessa maneira?
_Minha filha, pare com as perguntas pois eu não tenho as
respostas … minha querida... eu sinto tanto! Eu não sei como pôde
acontecer isso... não sei o porquê... só sei que amo você e vou
ajudá-la a superar isso, conte comigo, minha querida!
_Ah... mãe... eu sei o quanto a senhora gostaria de ser avó... me
perdoe por não ser capaz.

260
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Beatriz, você não tem que pedir perdão, querida, você não tem
culpa de nada.
_O Bruno estava tão feliz... ele casou com a pessoa errada. Eu
nem posso dar um filho para ele.
_Filha, não fale assim. O Bruno a ama tanto, ele ficaria muito
triste ao ouvir isso. Agora tente descansar. Eu vou ficar aqui bem
pertinho de você.

_ A Suzana precisa se alimentar, vovó!- avisou Leonardo ao


entrarem na casa de Suzana.
_E ele também- completou Suzana.
_Isso não é problema, vou preparar uma comidinha para vocês.
_Não precisa se preocupar comigo- disse Leonardo.
_Preciso sim, pode sentar e ficar à vontade.
_Eu vou tomar um banho- disse Suzana dando um sorriso para
Leonardo.
_Que pena a sua irmã ter perdido o bebê, agora ela precisa de
muito carinho para superar... por três vezes, não é fácil! Você
espera com tanto carinho, a expectativa é tão grande, e de repente
precisa voltar novamente ao ponto inicial. Só Deus para consolá-
la- disse vovó com tristeza na voz- Você vai precisar esperar mais
um pouco para ser tio.
_É uma situação muito difícil, se doí em mim, imagine a dor que
a minha irmã está sentindo, ela estava tão feliz...
_É querido, existem coisas que nunca vamos conseguir entender.
Há tantas mulheres que abortam por não querer o bebê, por achar
que uma criança atrapalharia a sua vida, enquanto outras dariam
tudo para serem mães e não conseguem.
Alguns minutos depois, Suzana voltou, então ela e Leonardo
saborearam a comida da vovó.
Após a refeição, como Suzana havia comentado com Leonardo

261
Tânia Gonzales

que gostaria de fazer uma visita para Paulinha, ele a levou até a
casa dela.
_Eu vou deixar vocês duas conversando e dar um pulinho até em
casa para tomar um banho- avisou Leonardo- Daqui a pouco eu
volto para buscá-la.
_Tudo bem, eu espero.
_Tchau, Léo. Pode ir tranquilo, gato- disse Paulinha piscando para
ele, e assim que ele saiu disse: Não precisa ficar com ciúmes,
Suzana, eu adoro o Léo, mas infelizmente perdi a minha
oportunidade, agora ele é todo seu; pensa que eu não percebi o
jeito que ele olha pra você? Um olhar tão apaixonado! Você é
uma sortuda!
_Paulinha...
_Não precisa ficar com vergonha, e só peço uma coisa: não o
perca. Não faça como eu, que fui uma boba, eu sei que perdi
muito, ele é tudo de bom! Hum... tudo de bom! Pode crer. Eu
percebi que você não está gostando desse papo, tudo bem... eu
fiquei muito chateada com o que aconteceu com a Bia, é muito
triste, né? “Pô” como que foi acontecer isso?
_É um momento muito difícil para todos eles, a dona Lígia chegou
hoje de viagem e recebeu esta notícia tão triste!
_Poxa! É muito chato... o pior é ter coragem para ficar grávida de
novo, após três abortos!
Suzana e Paula continuaram conversando até que Leonardo
voltou.
_Se comportaram bem na minha ausência?
_É claro, “tá” pensando o quê? Você, hein? Como conseguiu
voltar mais lindo ainda?- brincou Paulinha.
_Que isso, são os teus olhos! Você é que está linda, aquela sua
cor rosada já voltou ... estou feliz por você estar seguindo
direitinho a dieta.

262
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Eu estou, nossa... que alívio, estava me sentindo tão fraca, era
horrível! Mas, graças a Deus , aos amigos que ele me deu e é claro
à minha família, eu estou melhorando a cada dia. E você é o
principal culpado por eu estar assim- disse segurando na mão dele.
_Quero sempre ser culpado por isso.
_E depois eu quero ter uma conversa com você sobre aquele
assunto, “tá” , meu gato?... - disse Paula se referindo aos pais.
_Ah... tudo bem. Agora nós precisamos ir, fique com Deus, minha
linda.
_Tchau, Paula, fiquei muito feliz por vê-la tão bem- disse Suzana.
_Obrigada pela visita, vou acompanhá-los, a minha mãe vai ficar
muito triste por não vê-lo, gato, você sabe o quanto ela gosta de
você.

_Agora são oito horas, quer dar uma passada no hospital comigo?-
perguntou Leonardo ao entrarem no carro.
_Eu quero, quem sabe eu consigo ver a sua irmã dessa vez.
_Claro que sim. Mas, por causa do horário, só dá para ficarmos
um pouquinho.
_Você e a Paula...
_Que foi? Ficou com ciúmes?
_Não é isso... é que parece que vocês dois ainda não se
acostumaram com a ideia de que não são mais namorados...
_Por quê? O que fizemos de errado?
_Não... é só... nada, esquece.
_Que coisa mais fofa! Você com ciúmes fica ainda mais linda!
_Para com isso... é que é um tal de meu gato e de minha linda...
Ao ouvir isso, Leonardo riu com vontade.
_Você acha engraçado? Pois é isso mesmo.
_Que gostoso, você com ciúmes de mim! Adorei! Ei... não pense
isso... olha, é só nosso jeito de tratar um ao outro, mas não tem

263
Tânia Gonzales

nada a ver, ah... minha princesa!


_Vamos parar com isso?
_Tudo bem, mas foi você quem começou! E falando em
começar... é que nós ainda não conversamos sobre o que
aconteceu no estacionamento do hospital.
_É... o que você acha de deixarmos isso pra depois?
_Se você prefere... mas eu posso considerar o nosso namoro
reatado, não é?
_É... pode sim.
_Uau! Ótimo! Você me fez muito falta, sabia? Foram só dois dias,
mas só de pensar que tudo estava acabado entre nós...
_Eu também senti saudades.
_Pena que eu estou dirigindo, senão...
Poucos segundos depois, Leonardo entrou no estacionamento do
hospital.
_Boa noite, Bruno, e aí, meus pais já foram?
_Oi, Leonardo. Faz uma hora mais ou menos que eles saíram. A
Bia está no banheiro. Oi, tudo bem?- disse Bruno cumprimentando
Suzana.
_Oi, eu sinto muito, Bruno, se eu puder ajudar...
_Obrigado, a sua presença aqui ajuda muito, faz bem saber que as
pessoas se importam.
_Oi, meu irmãozinho, que bom que você veio com a Suzana...
-disse Beatriz.
_Oi, Bia, não era a minha intenção que vocês duas fossem
apresentadas em um hospital, mas... esta é a Suzana, minha
namorada, e Suzana esta é a minha irmã, Bia.
_Beatriz, eu gostaria de saber o que dizer para você em um
momento tão difícil!
As duas se abraçaram e deixaram as lágrimas caírem livremente.
_Suzana, eu agradeço por você estar aqui e por fazer o meu irmão

264
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

feliz. Ele estava doído para ser tio, mas não foi desta vez, o papai
do céu não quis... eu não sei o porquê, mas preciso aceitar a
vontade dele.
_Beatriz, Deus vai lhe dar forças para suportar... não sabemos as
respostas para todos os nossos porquês, mas mesmo assim
devemos confiar Nele.
_Você tem razão. Eu quero que você marque um dia para ir lá em
casa, tá? Amanhã eu já estarei lá, então combine com o Léo.

Às nove horas se despediram e em quinze minutos chegaram à


casa de Suzana.
_Posso entrar um pouquinho, só até a garagem?
_Pode. Ainda é cedo.
Entraram e por alguns segundos os dois ficaram se olhando...
_Você vai ficar assim longe de mim? Suzana? Está tímida, por
quê?
_Não é timidez... é só que eu não... não sei o que fazer.
_Vem aqui, vem... podemos repetir o que aconteceu no
estacionamento do hospital?
_Ah... eu acho que sim.
_Você quer?
_É... você tinha que fazer esta pergunta? Por que você
simplesmente não se aproxima e...
_E... faz isso? É isso? É? - perguntava Leonardo enquanto se
aproximava dela e beijava-lhe os lábios com carinho.
_É - respondeu Suzana correspondendo àqueles pequenos beijos.
_Só isso? - provocou Leonardo, sem parar com os selinhos- Posso
parar?
_Ah... não, não pode.
_Como eu fico feliz em ouvir isso desta boca linda e doce.
E essas foram as últimas palavras dele antes de beijá-la com

265
Tânia Gonzales

ternura.
_Você tinha tanto medo e agora... viu só? Não havia motivo para
tanto receio. -disse Leonardo.
_ Eu não pensava que fosse tão...
_Tão?
_Tão maravilhoso! Tão bom e...
_ Não precisa ficar com vergonha de mim, diga.
_E... gostoso- ao dizer esta palavra, Suzana desviou o olhar.
_Minha princesa, você tem razão, é maravilhoso, bom, gostoso,
especial e eu estava ansioso por beijá-la! Seus lábios são doces,
meu amor.
_Eu... tinha tanto medo, eu fiz você esperar e...
_Valeu a pena esperar, como valeu!
_Você é tão compreensivo! Eu quero agradecer por...
_Suzana, você não vai me agradecer... isso não.
_Mas, eu preciso; Leonardo, quando eu estou com você tudo
parece ser mais fácil... você é tão gentil e atencioso comigo, antes
de conhecê-lo eu tinha a certeza de não querer me relacionar com
ninguém, por um motivo que eu não gostaria de contar, é algo
muito doloroso para mim. Mas, você com seu jeito especial, me
conquistou.
_Agora você me deixou sem opção, vou precisar beijá-la, as suas
lindas palavras é que provocaram isso.
_Eu não vou reclamar.
Se beijaram novamente e depois Suzana repousou a cabeça no
peito de Leonardo, que acariciava os cabelos dela com carinho e
por alguns minutos ficaram assim.
_Agora, eu preciso ir, boa noite, minha princesa.
_Boa noite, meu príncipe.
_Adorei, o meu príncipe. Tchau.

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Suzana participou de um lanche com sua família e antes das onze


horas estava na cama. Aquele dia fora muito especial para ela, pois
havia ultrapassado um obstáculo enorme. Ela sabia que para a
maioria das mulheres o primeiro beijo era especial, mas para ela
era muito mais do que isso, era uma vitória contra o medo. “ Eu
não imaginava que um beijo pudesse significar tanto... pudesse
trazer tantas coisas boas, sensações agradáveis... antes, o beijo,
para mim, estava relacionado à dor, à algo repugnante, nojento...”-
ao pensar isso, os lindos olhos verdes ficaram marejados.

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Tânia Gonzales

Capítulo 25- Rindo à toa

Ao olhar pela janela de seu quarto, Lígia viu que o filho acabara
de chegar, resolveu descer e conversar com ele naquele noite
mesmo; pois o assunto sobre o pai de Suzana muito a inquietou.
_Que bom que chegou, filho, eu preciso falar com você.
_Querida, eu acho melhor deixar esse assunto para amanhã, hoje
foi um dia difícil para todos nós- disse Rafael querendo poupar o
filho, por já saber do que se tratava.
_Que assunto?
_Filho, sente-se aqui perto de mim- pediu Lígia- Eu pensei em
deixar para outro dia, mas eu estou tão preocupada! Leonardo, eu
percebi o quanto você está interessado por aquela garota...
_O nome dela é Suzana, mãe. Eu vou trazê-la aqui para...
_Não... pelo menos por enquanto. Filho, eu fiquei sabendo de algo
muito sério sobre a família dela..
_Sobre a família da Suzana? Mãe, são pessoas excelentes, me
tratam muito bem e...
_Leonardo... eu quero o melhor para você, meu filho... o pai da
Suzana... é um ex-presidiário, ele ficou preso por quase três anos.
_O quê? Como que a senhora soube disso?
_Filho, você não sabia, não é? Está vendo só? Eles não contaram
pra você.
_Mãe, isso não é algo que as pessoas gostariam de falar.
_Tem razão. Filho, afaste-se desta garota... por favor.
_Calma, Lígia! Deixe que ele decida- interveio Rafael.
_Quem foi que disse isso? - perguntou Leonardo.
_A Sandra, mas...
_Ah, eu estou começando a entender, a Sandra não está satisfeita
em proibir o namoro da filha, agora ela quer...

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Não seja injusto com a Sandra, ela só quer ajudar.


_Atrapalhar é isso o que ela quer. Que absurdo!
_Filho, você está pensando que ela inventou? Está enganado. Ela
sabe disso porque na época a Marisa pediu ajuda ao Fernando, ela
queria que ele indicasse um advogado, e foi isso o que ele fez. Um
advogado que era amigo de um amigo dele que mora em Belo
Horizonte foi quem pegou o caso.
_E por que o seu Davi foi preso?
_Ele agrediu um homem, bateu tanto que ele foi parar na U.T.I; o
pai da Suzana usou a própria bengala do homem que tinha um
problema na perna, e o pior é que era o patrão dele.
_O quê? Não... o seu Davi não faria uma coisa dessas... ele é um
homem tão tranquilo e...
_Filho, as aparências enganam, você não lê os jornais, não assiste
aos noticiários? Quantos que eram considerados como homens de
bem, pais de família e depois se descobre cada absurdo, alguns
são até pedófilos!
_Mãe, cuidado com o drama... deve haver alguma explicação, se
é que isso é verdade.
_Querido, termine o namoro com ela... eu tenho tanto medo...
pessoas violentas são capazes de tudo e se...
_Mãe, ei, calma... eu não posso chegar na Suzana e perguntar isso
para ela, então, eu não sei o que fazer.
_Lígia, o Leonardo está certo. Não é nada bom ele se precipitar, é
preciso saber a verdade. Eu posso conversar com o Fernando.
_Pai, o senhor não lembra disso?
_Eu sei que o Fernando indicou um advogado atendendo a um
pedido da Marisa, isso foi há mais ou menos cinco anos, mas não
fiquei sabendo os detalhes.
_Meu filho... se afaste dela, você vai encontrar alguém...
_Mãe, eu já encontrei na Suzana tudo o que eu queria e não vou

269
Tânia Gonzales

deixar que isso atrapalhe o nosso relacionamento. Eu vou dormir,


boa noite para vocês, e mãe, vê se dorme, a ansiedade não traz
nada de bom, tá?

Leonardo estava certo de uma coisa: não conversar com a Suzana


sobre o assunto. Os dois estavam vivendo um momento muito
especial e ele não iria estragar tudo.

_Tem alguém aqui nessa mesa que está radiante hoje! - foi o
comentário de Sueli ao ver a irmã toda sorridente; eram seis horas
da manhã de quarta-feira.
_O quê? Falou comigo? Eu preciso tomar o café rapidinho, senão
foi me atrasar para a faculdade, você acordou cedo hoje, hein?
_É, hoje eu preciso entrar mais cedo no serviço. Suzana, você está
nas nuvens hoje! O que aconteceu? Me conta... bom... com toda a
certeza um rapaz alto e bonito tem tudo a ver com a sua alegria!
_É... você acertou!
_Mas e aí? O que rolou?
_ É que aconteceu algo lindo... mas eu acho que não vou contar.
_O quê? A minha irmã vai ficar de segredinho, é? Se liga, Suzana!
Vai contando e com detalhes.
_Detalhes? Não mesmo. Sueli, é que ontem, eu e o Leonardo...
nos beijamos pela primeira vez.
_O quê? Vocês ainda não …
_Não. Você sabe como eu sou para esse tipo de coisa e sabe muito
bem o porquê.
_Uau! Suzana, e aí? Foi o máximo? Conta.
_Foi maravilhoso... mas nada de detalhes, pode esquecer!
_Ah, sua chata! Mas, eu fico feliz. Você merece. Coitado do
Leonardo, hein? Haja paciência!
_Nisso você tem razão. Agora, eu preciso ir, tchau!

270
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Cuidado para não cair por aí! Está nas nuvens!


Logo após o almoço, Leonardo ligou para Rita, a mãe de Lúcia, e
soube que ela estava cumprindo a parte dela no acordo, por isso
ele combinou de passar lá no dia seguinte por volta das duas horas
da tarde. Rita agradeceu muito por ele se preocupar com a filha
dela.

Antes de buscar Suzana no serviço, Leonardo foi visitar a irmã


que já estava em casa se recuperando. Lígia também foi com o
marido, apesar de ter passado a tarde inteira com a filha. O
assunto sobre o pai de Suzana não foi mencionado; Lígia
continuava muito aflita, mas havia prometido a Rafael dar um
tempo para o filho.

_Está vendo? Agora nos cumprimentamos como qualquer casal de


namorados- comentou Leonardo após dar um beijo em Suzana.
_E isso é ótimo, mas não precisa exagerar, tá? Não gosto de
plateia.
_Princesa Suzana, agora ficou difícil resistir.
_E a sua irmã?
_Ela está bem, eu estive na casa dela e preciso levar a minha linda
namorada lá, agora só depende de você.
_Vamos combinar. Você está bem? Parece preocupado.
_ Ontem eu conheci o sabor dos seus lábios como não poderia
estar bem, hein?
_Pare de falar assim, eu fico com vergonha.
_Não... eu só paro se você ocupar a minha boca.
_Leonardo, nós estamos no estacionamento de um shopping, aqui
não.
_Então, entra logo no carro.
_Calma, apressadinho!

271
Tânia Gonzales

_E agora?- perguntou Leonardo ao entrarem.


_Continuamos no estacionamento.
_Ah, não seja má, vem aqui, vem... Suzana!
_Não.
_Não? Você me beijou dentro do estacionamento de um hospital!
_Aquilo foi uma emergência.
_Emergência? Pois agora também é uma emergência, eu estou
morrendo...
_Morrendo?
_Morrendo de vontade de beijá-la... vem aqui.
_Não.
_Não? Você é tão insensível! Então, agora sou eu que não vou
querer, nem que você me peça de joelhos- disse ele dando partida
no carro.
_Nossa, que menino bravo! Leonardo? Olha pra mim e... vem.
_Oi? Você me chamou? - desligou o carro e olhou para ela.
_Chamei.
_Ah, pois agora você vai ficar querendo. Fique sabendo que eu
não sou desses que cedem facilmente, não adianta fazer esse
biquinho lindo e fofo- sem parar de falar Leonardo foi se
aproximando até que os lábios se tocaram.
_Ainda bem que você não cede com facilidade- brincou Suzana.
_Você viu? Eu sou assim... com você, é claro. Agora podemos ir.

Naquela noite, Suzana teve um terrível pesadelo...


_ Menina linda e teimosa! Eu já não avisei que você é minha? Não
há escolha. Você só pode ficar comigo. Acha mesmo que ele iria
querer alguém como você? Se ele soubesse iria desprezá-la e você
viria correndo para os meus braços fortes. Está com saudades não
está? Estou pronto para tê-la novamente... venha... venha.
_Não! Me solte! Não... por favor! Não...

272
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Suzana? Suzana? Minha querida... filha?


_Mãe? Ah... mãe... eu estou com medo! Por que eu ainda sonho
com isso? Por quê? Quando vou me livrar desses pesadelos?
Quando?
_Eu não sei, minha querida! Fique calma.
_Ainda bem que a vovó foi dormir com a tia Marisa! Ela sofre
tanto ao me ver assim!
_Ah... minha filha! Tente dormir novamente.

Eram sete horas da manhã, Lúcia já havia tomado banho e estava


toda arrumada esperando por Leonardo.
_Lúcia? Já acordou? Você deveria aproveitar para dormir mais um
pouco.
_Estou esperando o meu anjo.
_Ele só vai chegar depois do almoço, vai demorar.
_Estou esperando o meu anjo.
_Enquanto espera tome o seu café, ele ficará feliz.
Lúcia saiu do quarto e foi tomar café com a mãe. Sem dizer uma
palavra comeu tudo o que Rita havia preparado, depois voltou ao
quarto e ficou sentada escrevendo em seu diário. Ao meio-dia,
Rita chamou a filha para almoçar e foi o mesmo ritual: Lúcia
sentou-se, fez sua refeição em silêncio, voltou para o quarto e
pegou o diário, continuou escrevendo até a chegada de Leonardo.
_Oi, Lúcia. Como você está? Eu estou aqui porque você cumpriu a
sua parte em nosso acordo.
_Meu anjo- disse Lúcia largando o diário.
_Você está bem?
_Meu anjo, você voltou... você voltou.
Lúcia fitou-o com os olhos cheios de lágrimas. Por um momento,
Leonardo sentiu uma vontade imensa de abraçar aquela garota
frágil, mas conteve-se.

273
Tânia Gonzales

_Eu não disse que voltaria? Lúcia, fale comigo... como você está?
O que está sentindo?
_Eu estou bem porque você está aqui, meu anjo.
_Por que você não sai um pouco, faz um passeio com a sua mãe,
eu tenho certeza que ela ficaria muito feliz.
_Não.
_Por quê?
_Não posso sair... aqui é o meu mundo.
_Há tantas coisas lindas para se ver lá fora...
_Não. Há muitas coisas horríveis lá fora, pessoas más... é
perigoso... há muita tristeza e sofrimento...
Era a primeira vez que ela se expressava dessa maneira, as
palavras saíram carregadas de tanto sentimento que Leonardo
ficou impressionado. “ O que essas palavras significam? Com
certeza não são só meras palavras jogadas ao vento”- pensou ele.
_Lúcia, você pode se abrir comigo. Eu estou aqui para ouví-la.
_Eu quero ouvir a sua voz... leia algo para mim, por favor, meu
anjo.
_Você tem uma Bíblia?
_Bíblia? A minha mãe deve ter uma.
_Então, eu vou falar com ela, já volto.
Leonardo saiu do quarto e encontrou Rita na copa preparando um
café.
_Eu já ia levar um cafezinho para você.
_Obrigado, a senhora teria uma Bíblia, a Lúcia quer que eu leia
para ela.
_Eu tenho, está no meu quarto... beba um cafezinho enquanto eu
vou buscá-la.
Leonardo ficou pensando o que leria para Lúcia, fez uma rápida
oração pedindo direção a Deus... quando Rita voltou com a Bíblia
nas mãos ele já sabia qual a leitura que deveria fazer.

274
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Lúcia, aqui está a Bíblia... eu vou ler: “ Jesus anda por sobre o
mar ”15
Leonardo leu pausadamente e com uma voz muito tranquila;
durante a leitura, Lúcia ficou com os olhos fechados.
_Lúcia, você sabe por que os amigos de Jesus ficaram com medo?
_Por causa do vento?
_O vento era motivo de preocupação, mas eles ficaram
assustados com a aproximação de Jesus, eles pensaram que era um
fantasma e começaram a gritar, Jesus acalmou-os dizendo:” Tende
bom ânimo! Sou eu! Não temais!”, e quando ele subiu no barco o
vento cessou. Lúcia, eu não sei o que provoca medo em você... os
discípulos viram naquele que se aproximava, uma ameaça,
ficaram atemorizados, mas na verdade, a presença de Jesus iria
cessar o vento. Talvez você esteja com medo de quem quer se
aproximar de você para ajudá-la. Eu não sei o que aconteceu com
você, Lúcia, se quiser me contar eu estarei pronto para ouví-la...
mas não impeça que a sua mãe, por exemplo, a alcance... permita
que ela se aproxime, quem sabe assim o vento cessa. Jesus entrou
no barco e tudo se acalmou. Ele também quer fazer isso na sua
vida... não se feche em um mundo só seu, não faça isso. Deixe que
a alcancemos.
_Jesus enviou você para me ajudar, você é o anjo dele, eu sei.
_Você precisa abrir o seu coração... fale comigo, Lúcia, eu estou
aqui para ajudá-la.
_Eu não quero falar... só quero ouvir a sua voz, ela é tão suave...
traz paz... leia mais pra mim.
_Tudo bem, eu vou ler um Salmo que é muito conhecido e é o
favorito de muitos, é o Salmo 23.
Leonardo leu o Salmo 23 por seis vezes seguidas a pedido de

15 Marcos 6.45-52

275
Tânia Gonzales

Lúcia, que ficou com os olhos fechados durante todo o tempo da


leitura.
_Lúcia, agora eu preciso ir, mas eu volto um outro dia, se você
prometer que vai continuar se alimentando. Eu vou pedir mais
uma coisa.
_O quê?
_Que você vá tomar sol todos os dias lá embaixo, perto da piscina.
Combinado?
_Eu não sei... não quero sair daqui.
_Por favor, por mim.
_Tá bom, meu anjo, mas por que você precisa ir?
_Eu preciso trabalhar, eu ajudo o meu pai.
_Ah... o seu pai! É... os anjos ajudam.
_Eu volto na semana que vem, na terça-feira. Tchau, Lúcia.
_Tchau, meu anjo.
Leonardo queria muito fazer algumas perguntas para a mãe de
Lúcia, a encontrou organizando algumas coisas na cozinha.
_Dona Rita, me desculpe, mas eu preciso perguntar-lhe algo.
_Fique à vontade, pode perguntar.
_Aconteceu algo grave na vida da Lúcia? E o pai dela? Me
desculpe se estou sendo indiscreto, mas...
_Tudo bem. Eu sou divorciada há mais de sete anos, ele mora em
Minas, nós morávamos lá... ele vem aqui a cada um ou dois meses
para vê-la.
_A Lúcia tem irmãos?
_O meu ex-marido tem mais dois filhos.
_E ela não tem contato com eles?
_Não. São dois meninos, um de 6 anos e outro de 4 anos.
_A Lúcia e o pai se... entendem?
_O relacionamento entre os dois é bem complicado. Ah...
é...bom... é só isso.

276
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_A senhora gostaria de me contar mais alguma coisa?


_Não. Eu só quero agradecê-lo, eu sei que você deveria estar
trabalhando agora.
_Não se preocupe com isso. Eu fiz um outro acordo com ela...

Suzana saiu da loja, olhou ao seu redor e avistou um sorridente


rapaz, ela retribuiu o lindo sorriso e pensou: “ Como é bom vê-
lo... tudo se transforma, e até parece que não existe o passado,
somente este momento. “
_Boa noite, minha princesa, não imagina a alegria que invade o
meu coração ao vê-la se aproximar com a sua beleza ímpar, as
minhas pernas chegam a tremer não suportando tanta emoção.
_Nossa... fiquei de boca aberta agora! - disse Suzana rindo muito.
_Eu estou em um momento especial de inspiração e ela faz o quê?
Ri. Mas, se a princesa ficou de boca aberta... eu vou ajudar a
fechá-la- ao dizer isso Leonardo beijou-a.
_Você não perde uma, né?
_Ah... minha amada, como eu poderia perder oportunidade tão...
_Tão? O que foi, acabou a inspiração?
_Você está tão engraçadinha hoje e eu estou adorando isso. Vamos
sair daqui, antes que pensem que estamos representando alguma
peça de teatro. E o fim daquela frase é: perder oportunidade
tão...ímpar. - ao dizer isso Leonardo riu com vontade.
_Beleza ímpar, oportunidade ímpar... para onde foi o seu rico
vocabulário?
_A futura professora aqui é você... e que professora... ímpar! Eu
quero ser o seu aluno.
Os dois foram até o estacionamento se divertindo com a
brincadeira.
Durante o caminho para a casa de Suzana, eles conversaram sobre
os preparativos para o evento de domingo. Os grupos estavam

277
Tânia Gonzales

trabalhando muito para que tudo estivesse pronto. Teriam o evento


para arrecadar fundos para missões e o grupo de Suzana ficou
encarregado de fazer Yakissoba e também teriam uma barraca
vendendo alguns produtos de artesanato.
_ E será que eu posso entrar só um pouquinho, para viver um
momento... ímpar com meu par?
Suzana nem conseguiu responder, pois começou a rir e não
conseguia mais parar.
_Eu nunca vi você desse jeito -disse ele.
_Que jeito? Jeito ímpar?
_Para com isso... fiquei bravo agora... isso magoa viu? Como é
que eu vou beijá-la se você não para de rir?
_Eu vou parar... eu consigo, pelo bem da humanidade... parei.
Leonardo se aproximou dela e acariciou o queixo, as bochechas,
contornou os lábios dela com os dedos e quando ia beijá-la...
parou e começou a rir sem parar.
_Isso é um castigo? - perguntou Suzana- Leonardo? Pronto, agora
é você que não para de rir.
_Me desculpe, hoje estamos parecendo dois bobos, sabe o que é
isso? Felicidade.
_Gracinha! Felicidade ím…
_Não fala... psiu...você está proibida de falar.
_Ím...
Leonardo a calou com seus lábios.
_Eu vou embora, antes que dê mais algum acesso de riso neste
casal... ímpar. - disse Leonardo
_Único, sem igual, inesquecível, imensurável, impressionante...
_Incomparável, incomum, incrível, inigualável...
_Incomensurável- disse Suzana provocando-o.
_Humilha! Chega... você venceu! O seu prêmio é... um beijo. O
que você acha disso?

278
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Eu quero o meu prêmio, agora.


_Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Como eu sou um
rapaz muito ajuizado...
Suzana recebeu o seu prêmio. Depois despediram-se rindo muito.
_Hoje nós estamos...impagáveis- comentou Leonardo enquanto
Suzana abria o portão.
_Impagáveis? Ah, não, vamos começar tudo de novo?
_Eu vou embora, chega... ah, minha princesa, foi muito
divertido... eu amo você.
_E eu a você.
_Do que você está falando, hein, minha princesa, ímpar?
_Não começa... eu amo você, é isso.
_Ah, bom... eu queria ouvir com todas as letras. Tchau.
Suzana ficou observando o carro se afastar. Entrou na sala de sua
casa com um imenso sorriso nos lábios.
_Minha filha, que felicidade, hein?
_Oi, pai! É... eu estou feliz, mesmo.
_Se você está feliz, eu também estou, tenho que agradecer muito
ao Leonardo.
_Meu pai querido, ele é tão... especial- ao dizer disso Suzana
começou a rir lembrando da brincadeira dos dois.
_O que foi?
_Nada, eu só lembrei de algo engraçado, bom... eu vou tomar um
belo banho.

279
Tânia Gonzales

Capítulo 26 -De volta ao passado


Paulo Reis, desde a conversa com o pastor Pedro Gabriel, estava
se esforçando para agradar Regina, nos últimos dias ele havia
recusado alguns compromissos para estar com ela. E até
programou passar o final de semana só com ela em Campos do
Jordão, pois era uma cidade que Regina gostava muito. Saíram
poucos minutos depois das sete horas da manhã de sábado. Paula
iria passar o final de semana na casa de sua tia Carmem, junto
com a prima Aline. Elas tinham alguns preparativos para fazer,
pois ambas participavam dos grupos da REMA.16

Letícia e Suzana iriam etiquetar algumas peças de artesanato que


seriam vendidas no dia seguinte, por isso fizeram algumas
pesquisas de preço em algumas lojas da região. Às dez horas
estavam de volta na casa de Letícia. Sandra concordou que elas
trabalhassem lá, mas, a presença de Suzana não lhe agradava.
_Quase meio-dia, eu preciso ir... é só o tempo de almoçar e sair
para o trabalho- disse Suzana.
_Estamos quase terminando. Estou adorando passar estas horas
com você, estava me sentindo tão só. A minha mãe não me deixa
ir na sua casa.
_E o Daniel?
_Ele é outro cabeça dura. Ele me disse que enquanto os meus pais
não aprovarem o nosso namoro, nós temos que nos afastar. Não
quer namorar escondido. Ele não está errado, mas... sinto tanta
falta dele!
_Ah, amiga, eu sinto muito. Coitado do Daniel... ele deve sentir
tanta saudades... mas ele está certo, namorar escondido ninguém

16 Rede Melhores Amigos.

280
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

merece, né?
_É... eu já pensei em conversar com o pastor sobre isso. Quem
sabe se ele falar com a minha mãe... sei lá. Eu fico revoltada com
essas coisas, Su. O Daniel é responsável, fiel a Deus, um
excelente filho e minha mãe não enxerga isso.
_Você vai precisar de mais um pouquinho de paciência.
_Agora, vamos falar sobre você e o meu amigo Léo! Su, você
está muito feliz, né?
_Muito. O Leonardo é maravilhoso. Você tinha toda razão ao me
falar sobre as qualidades dele, você não exagerou, ele é uma
pessoa incrível. Ele me faz sentir como se eu fosse a mais linda
do mundo. É tão atencioso e compreensivo.
_Eu fico feliz ao ouvir isso, eu estava tão preocupada; ele,
completamente apaixonado e você tão distante! Vocês formam
um lindo casal.
_Letíciaaa, a Elisa está te chamando no portão - gritou Sandra.
_Eu vou lá ver o que ela quer, já volto, Su.
Elisa queria conversar com Letícia sobre Lúcia, estava ansiosa
para contar que a amiga havia saído do apartamento para tomar sol
por ter combinado com Leonardo. Enquanto as duas conversavam,
Sandra foi até o quarto da filha, pois queria aproveitar que Suzana
estava sozinha.
_Eu quero falar com você.
_Tudo bem.
_Suzana, não é nada pessoal, mas eu tenho que falar algumas
verdades para você. Eu sei que você está muito feliz e não é para
menos, está namorando o Leonardo, que além de bonito, é
inteligente, tem uma excelente profissão, é de boa família, é um
jovem temente a Deus... enfim, é o namorado que toda garota
gostaria de ter; mas eu preciso dizer que ele não é para você, me
desculpe, mas é a verdade. O que você pode oferecer para ele,

281
Tânia Gonzales

além deste rostinho bonito? Você deveria se afastar dele, é o


melhor que você tem a fazer. Os pais dele não estão nada
satisfeitos com o namoro de vocês. A Lígia até já falou com o
Leonardo sobre isso, mas ele continua com você por pena e... eu
também gostaria que você se afastasse da minha filha.
_Por que a senhora está falando isso?
_Eu amo aquela família e quero o melhor para eles, pois são
pessoas honradas, de caráter, enfim é uma excelente família e a
sua... bem... não posso dizer o mesmo, o seu pai por exemplo...
_A senhora não pode falar do meu pai.
_Posso sim. Você acha mesmo que o passado de seu pai ficaria
escondido por muito tempo? Vocês são tão falsos que nem
contaram para o Leonardo.
Ao ouvir aquelas palavras Suzana começou a tremer.
_Mas ele já sabe que o seu pai é um ex-presidiário, que ele quase
matou um homem, que ele foi covarde ao espancar um homem
doente que usava uma bengala para se locomover. O seu pai não
teve dó e usou a própria bengala para bater nele sem piedade...
_Para com isso, a senhora não sabe de nada, a senhora não...
_Eu sei porque foi o meu marido que indicou um advogado para
defender o seu pai, por essa você não esperava, não é? Achou que
poderia enganar o Leonardo?
_Não...
_Você acha que a Lígia fica tranquila ao saber que o filho
frequenta a casa de alguém tão violento? Ele está aflita e já
implorou para que o Leonardo termine o namoro.
_ O meu pai não é violento, ele é um homem bom...
_Claro que é, tão bom que o pobre homem foi parar na U.T.I; o
seu pai teve a coragem de espancar o próprio patrão, realmente,
ele é um homem muito bom.
_Não fale assim do meu pai, a senhora não sabe o que ele passou,

282
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

a senhora não tem ideia do que ele sofreu, não o conhece, não tem
o direito de julgá-lo.
Suzana tremia muito ao falar e as lágrimas também começaram a
inundar seu rosto.
_Se você gostar um pouquinho do Leonardo, o que eu duvido
muito, pois eu acho que você está é interessada no que ele pode te
oferecer, você se afastaria dele... ele não merece passar por essa
vergonha, já imaginou o que as pessoas vão pensar? É uma pena,
você não tem culpa, mas o seu pai envergonhou o nome de sua
família, e, infelizmente, isso ele nunca vai poder mudar, ele
acabou com a sua família, ele manchou a honra...
_Não! Pare de falar do meu pai dessa maneira, a senhora está
sendo muito injusta.
_Injusto foi o seu pai e cruel, nem deu chance para que o pobre
homem...
_Pobre homem? Aquele porco, imundo, sujo... a senhora chama o
meu pai de cruel? Aquele homem sim, foi cruel! Ele não pensou
que acabaria com a vida … não pensou que destruiria uma
família... o meu pai sofreu muito.
_Sofreu? Bateu no homem sem piedade, quem é que sofreu? Não
adianta querer defender... eu já entendi, você tem medo dele, não
é? Ele já agrediu você? É claro... ele é agressivo... você morre de
medo de seu pai, é por isso que está tremendo desse jeito!
_Chega! O meu pai não merece isso! Ele nunca tocou um dedo em
mim, ele é um pai excelente, ele só queria me proteger... é isso! A
senhora quer saber? O meu pai não suportou ver aquele homem
sujo em cima da filha dele, o meu pai não aguentou ver a filha
dele toda machucada... ele não conseguiu ver aquela cena
repugnante e não fazer nada... aquele pobre homem que usa uma
bengala é um homem sem caráter, é um imundo que... me feriu
profundamente! É isso mesmo! Eu sou uma vítima de... estupro.

283
Tânia Gonzales

Está satisfeita agora? A senhora tem razão, o Leonardo não merece


alguém que tenha um passado horrível como o meu.

Suzana estava tremendo muito e suando frio... sentia-se fraca.


Letícia, que havia escutado a revelação da amiga, a amparou.
_Mãe? O que a senhora provocou? Olha o estado dela? Vem, Su,
vou levá-la para casa.
Sandra não saiu do lugar, estava chocada com as palavras de
Suzana.
_Vem devagar, calma, amiga... você está tão fria! - disse Letícia
segurando no braço dela.

_O que aconteceu? Filha?- exclamou Marina ao ver Suzana


entrando.
_Senta aqui, Su; dona Marina é melhor trazer um copo de água
com açúcar para ela.
_Eu vou pegar... o que aconteceu, Letícia?
_Eu acho melhor esperar que ela se recupere.
_Filha, beba um pouco dessa água... e fale comigo. Minha
querida... por que ela ficou assim, Letícia? Vocês viram alguma
coisa? Algum acidente?
_Não, estávamos lá em casa. Ela e a minha mãe conversaram.
_Sua Mãe? Agora que eu não estou entendendo nada mesmo...
respire fundo, minha filha, vai sentir-se melhor.
_Eu quero deitar.
_Filha... minha querida, fale comigo.
_Mãe... acabou tudo, o Leonardo nunca mais vai querer chegar
perto de mim... ele vai me desprezar.
_Por quê? O que aconteceu?
_Eu... contei toda a verdade para a mãe da Letícia. Ela começou a
falar coisas horríveis do papai... disse que era violento e... tantas

284
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

outras coisas, mãe, eu não suportei ouvir tudo aquilo, tinha que
dizer que tudo o que ele fez foi para me defender.
_Ah... minha filha!
_Me perdoe, Suzana, estou tão envergonhada... a minha mãe não
tinha o direito de fazer isso com você... eu sinto muito.
_Você não tem culpa.. Mãe, a senhora precisa contar para o
Leonardo... explique tudo para ele, eu não quero que a mãe da
Letícia …
_Su, eu vou conversar com a minha mãe, vou implorar para que
ela não fale com ninguém sobre isso, fique tranquila.
_Faz isso, Letícia, por favor... eu não gostaria que o Leonardo
soubesse da verdade por sua mãe... agora eu quero dormir, é só
isso que eu quero. Mãe, avise a Cláudia que eu vou faltar hoje...
eu não vou conseguir trabalhar.
_Fique calma, filha. Vá descansar.
_Su, mais uma vez eu peço desculpas... não estou reconhecendo a
minha mãe, depois que ela ficou sabendo sobre o meu namoro ela
mudou tanto! Estou com tanta vergonha.
_Letícia, não se culpe, você é uma amiga maravilhosa!- disse
Suzana.
Suzana passou a tarde inteira na cama. Chorou a maior parte do
tempo. Vovó Vivi ficou sabendo de tudo e tentou consolar a neta.
_Minha querida... não fique assim. Tudo vai ser esclarecido e você
vai sentir-se melhor. Você sempre dizia que não gostaria de
enganar o Leonardo, embora isso não pode ser considerado
enganar, pois é algo muito difícil para ser revelado, mas agora, já
que essa mulher sabe de tudo, é melhor esclarecer as coisas, e
você tem razão quando diz para sua mãe conversar com ele, já que
é para ele saber a verdade que saiba como tudo realmente
aconteceu e pela pessoa certa, não por alguém com péssimas
intenções.

285
Tânia Gonzales

_Ah, vó... o Leonardo não vai querer ter uma namorada como eu...
ele não vai.
_Não fale isso, ele está tão apaixonado!
_Por isso mesmo que é ele vai ficar mais decepcionado ainda. Eu
não vou conseguir mais olhar para ele... vou morrer de vergonha!
_Minha neta, não pense isso. Ele é um rapaz maravilhoso. Não vai
ser fácil para ele, com certeza vai sofrer muito, mas ele vai
conseguir superar isso. Deus vai ajudá-lo.
Neste momento, Marina entrou no quarto com o marido que
estava com os olhos cheios de lágrimas.
_Minha filha, me perdoe, se eu não... se …
_Pai, não precisa pedir perdão... ah, meu pai.
_Preciso sim, se eu não tivesse me descontrolado as coisas seriam
bem diferentes hoje. Você não precisaria se expor desse jeito,
ninguém iria saber... a culpa é toda minha. Aquela mulher só
ficou sabendo porque eu fui para prisão, eu poderia ter evitado
tudo isso e aquele canalha não teria ficado impune.
_Pai, não se culpe, o senhor já sofreu tanto!
_Minha filha, se o Leonardo não conseguir aceitá-la... eu não vou
me perdoar.
Pai e filha se abraçaram e choraram muito. Marina e a vovó Vivi
saíram do quarto, não suportaram ver a tristeza dos dois.
No final da tarde, Marina ligou para Leonardo avisando que
Suzana não estava bem e por isso estava em casa. Ela bem que
tentou dar um jeito para ele não ir até lá, mas era difícil dar
alguma explicação para convencê-lo.
_Filha, o Leonardo está vindo.
_Mãe, ele não pode me ver assim.
_Querida, ele ficou tão preocupado!
_O que vou falar? A senhora precisa conversar com ele.
_Eu pensei bem e cheguei à conclusão que é melhor contar tudo

286
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

para ele na segunda-feira. Amanhã tem aquele evento de missões e


vocês estão envolvidos, não seria nada bom atrapalhar algo tão
importante, concorda?
_A senhora tem razão, mas como eu vou encará-lo? Não vou
conseguir agir com naturalidade.
_Tente, se esforce, filha. Não vai dar para pedir ao Leonardo que
mantenha distância. Que desculpa daríamos?
_E se a mãe da Letícia...
_Ela não vai contar.

Na casa da família Soares, Letícia mantinha uma séria conversa


com a mãe.
_A senhora provocou, por isso coopere ficando de boca fechada.
_Não sei, não, elas querem é ganhar tempo, duvido que vão contar
a verdade. Você acha que elas vão querer perder um partidão como
o Leonardo? Depois que ele ficar sabendo de tudo com certeza
não vai mais...
_Mãe? A senhora está tão insensível! Aquela família está sofrendo
muito.
_Eu não quero que a minha amiga sofra. Você acha que a Lígia vai
ficar feliz ao saber que a namorada do filho dela...
_Para com isso, mãe, por favor. A Suzana é uma pessoa
maravilhosa.
_Maravilhosa? Letícia, eu quero que você fique bem longe dessa
família.
_Não me peça isso. Eu não vou me afastar da minha amiga
quando ela mais precisa.
_Amiga?
_Mãe, o que está acontecendo? Por que toda essa insensibilidade?
Não fale sobre isso com ninguém, por favor. A dona Marina vai
conversar com o Léo.

287
Tânia Gonzales

_Será?
_O Léo está tão apaixonado! Vai ser muito difícil para ele, então é
melhor que ela conte. Seja compreensiva.
_O Leonardo vai querer distância dessa encrenca.
_Ah... vou para o meu quarto, não dá para conversar.

Leonardo chegou na casa de Suzana poucos minutos depois das


18h.
_O que a Suzana tem? Eu fiquei tão preocupado. Para ela faltar ao
trabalho deve ser algo sério. - constatou Leonardo.
_Não, querido. Não precisa se preocupar, ela sentiu-se mal, mas
não é nada sério- explicou Marina para em seguida levá-lo até o
quarto.
_O que aconteceu com a minha princesa?
_Você não deveria ter vindo.
_É sim que você recebe o seu namorado? Estou muito preocupado
com você.
Leonardo aproximou-se de Suzana e deu-lhe um beijo na testa.
_Eu só estou indisposta, você não deveria se preocupar.
_Indisposta? Eu não sei, não. Você não faltaria por uma mera
indisposição, você está escondendo alguma coisa. Fale comigo,
meu amor.
_Não é nada.
_Os lindos olhos verdes estão me dizendo que derramaram muitas
lágrimas hoje. Não tente me enganar.
Ao ouvir isso Suzana não se conteve e começou a chorar.
Leonardo sentou-se na beirada da cama, colocou a cabeça dela em
seu peito e ficou acariciando os cabelos dela.
_Eu não sei o que aconteceu, vou esperar que você consiga me
contar, mas não me impeça que ficar ao seu lado.
Com estas palavras as lágrimas se tornaram mais abundantes,

288
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Suzana não conseguia segurá-las.


_Meu amor, minha princesa, alguém magoou você? O que fizeram
com você?
_Ah... Leonardo!
_Tudo bem, não fale nada. Eu vou enxugar estas lágrimas
teimosas... um dia você me conta, agora fique tranquila. Você se
alimentou hoje?
_Eu... não quero nada, estou sem fome.
_Não, isso, não. Me diga, o que você gostaria de comer?
_Nada.
_Suzana, você precisa se alimentar. Eu não sou médico, mas eu
estou percebendo que o seu problema não é físico. Aconteceu
alguma coisa que mexeu aí dentro, estou certo?
_Está. Minha mãe vai ter uma conversa séria com você, segunda-
feira.
_Agora eu fiquei preocupado.
_Espere até segunda, por favor.
_Vai ser difícil esperar... mas, se você está pedindo, eu espero.
Agora, o que você acha de sairmos?
_Sair? Não quero sair.
_Hoje é sábado, vamos aproveitar que você não foi trabalhar, o
que você acha, hein?
Suzana não estava com vontade de sair, mas essa poderia ser a
última vez que os dois sairiam juntos. Depois que Leonardo
soubesse da verdade provavelmente ele se afastaria, por isso ela
resolveu aceitar o convite.
_Me dá um tempo, eu vou tomar um banho para me animar.
_Isso, é assim que se fala. Eu vou esperá-la na sala. Vamos jantar
em um restaurante que você vai amar.

_Você faz milagres, Leonardo. Conseguiu convencê-la a sair? Não

289
Tânia Gonzales

poderia imaginar que a Suzana iria querer sair hoje, não mesmo-
disse Marina.
_Vai ser bom, ela precisa se distrair um pouquinho.
_Tem razão. Obrigada por você ser tão atencioso com a minha
filha.
_Eu amo a sua filha, e me corta o coração vê-la tão pra baixo.
Vou tentar animá-la.
Após trinta minutos, Suzana apareceu na sala com um vestido cor
de ameixa, que fez o coração de Leonardo disparar.
_Nossa, você quer acabar comigo. Está linda!
_Você não acha que esta cor é muito... chamativa?
_Realmente... ela está me chamando para bem perto de você.
Ao ouvir o comentário dele, Suzana corou.
_O seu lindo rosto está combinando com a cor do vestido.
_É melhor você parar com os comentários, o meu rosto está
queimando.
Marina ficou olhando para os dois, estava sorrindo, mas,
discretamente precisou enxugar algumas lágrimas teimosas.
_Bom... vamos? Não se preocupe, dona Marina, estaremos de
volta antes da meia-noite.
_Quando ela está com você eu não me preocupo, bom jantar,
divirtam-se.
Ao chegarem próximos ao portão, Leonardo a puxou e beijou-a
suavemente.
_Não resisti, já estava com saudades do sabor dos seus lábios.
_É melhor nós irmos- disse ela simplesmente.
Após o trajeto de vinte minutos, Leonardo entregou as chaves do
carro ao manobrista.
Durante o jantar, Suzana conseguiu se divertir, pois Leonardo
fazia de tudo para animá-la, até lembrou do acesso de riso que
tiveram na quinta-feira, o que a fez rir bastante, esquecendo-se

290
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

por alguns momentos da tristeza que havia em seu coração.


_Estou feliz por você. Comeu bem, riu bastante, conversou
animadamente, é assim que se faz. Você reagiu e isso é ótimo.
Vamos fazer uma coisa?
_O quê?
_Dançar.
_Dançar? Eu não estou acostumada.
_Nem eu, mas... escuta a música... é romântica e eu estou muito
romântico hoje, o que você acha?
_Ah, Leonardo... eu...
_Vem comigo, vai ser ótimo.
Ele pegou-a pela mão e a encaminhou até a pequena área onde
havia quatro casais dançando.
Suzana só havia dançado em seu aniversário de 15 anos, lá em
Belo Horizonte, mas, sentiu-se muito bem nos braços de
Leonardo. Era uma sensação maravilhosa estar ali com ele, por
isso ela aproveitou muito bem o momento deixando o passado no
lugar certo e vivendo o presente de maneira plena.

_Posso entrar? - perguntou Leonardo ao parar o carro.


_É claro.
Suzana queria usufruir da presença dele o máximo possível, pois
em dois dias ele saberia de tudo e então...
_Os meus pais vão viajar para Fortaleza na próxima quinta-feira, a
Bia e o Bruno também; o meu avô fará 80 anos.
_E você?
_Eu não quero ficar longe de você, serão duas semanas lá.
_Leonardo, você deve ir, é o aniversário do seu avô!
_Não sei... é que foi tudo tão repentino. Vovô João tinha pensado
em passar um mês aqui com a minha vó e assim nós iríamos
comemorar o aniversário, mas mudou de ideia, então resolveram

291
Tânia Gonzales

fazer uma festa lá, e como o Bruno e a Bia estão de férias...


_A família vai estar toda reunida, você não pode faltar. É perfeito.
_Você não teria como tirar férias, agora? Assim você iria comigo e
então seria perfeito.
_Não dá, é impossível. Leonardo aproveite a oportunidade, o seu
avô vai ficar muito decepcionado se você não for, e ninguém
completa oitenta anos todos os dias, né?
_Eu vou pensar, mas não me agrada a ideia de ficar todos estes
dias sem vê-la. Bom,foi ótimo sair... adorei passar essas horas
com você.
_Eu também – disse ela.
_Você estava tão abatida hoje à tarde e agora, olha só pra você,
está maravilhosa! Minha princesa, agora eu vou beijá-la.
Suzana entregou-se totalmente àquele beijo, aproveitou cada
segundo e quando ele afastou-se ela o puxou e o beijou
apaixonadamente.
_Calma, princesa, assim eu não resisto, ah... é complicado.
_Me desculpe, eu...
_Tudo bem... é que você agiu de maneira tão inesperada que eu...
_Estou morrendo de vergonha, eu exagerei.
_Não precisa ficar assim, a medida que nos conhecemos melhor é
natural que você se sinta mais à vontade e...
_Me desculpe.
_Não peça desculpas, estamos tão apaixonados que é difícil
manter o controle, mas é necessário, eu não quero passar dos
limites, é por isso que eu me afastei. Suzana, para o homem isso é
mais complicado, você me entende?
_Eu...
_Ah, minha princesa, não precisa ficar assim. Olha pra mim, ei, eu
a amo.
_Eu também o amo.

292
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Eu vou deixá-la descansar, amanhã será um dia bem cansativo.


Você vai trabalhar e depois vai... trabalhar novamente, afinal será
o dia do evento especial de missões. Vem aqui, não precisa ficar
longe... me dá um beijo de despedida.

Deitada em sua cama, Suzana lembrava de cada detalhe daquela


noite, que para ela teve um sabor de despedida, pois não tinha
certeza se Sandra manteria o segredo. Naquela altura dos
acontecimentos seria ótimo que Leonardo viajasse para Fortaleza,
ela sentiria muitas saudades, mas, depois que ele soubesse da
verdade, se afastaria dela, e isso, com certeza, seria muito pior.

293
Tânia Gonzales

Capitulo 27 – A verdade

Finalmente o dia do grande evento de missões havia chegado. Os


jovens da IGAG estavam empenhados, fariam de tudo para que o
evento fosse um sucesso. Desde cedo, vários deles já estavam na
igreja para organizar as barracas e outros estavam na ampla
cozinha para adiantar as coisas, pois a partir da uma hora da tarde
as pessoas chegariam para saborear vários pratos; o grupo de
Letícia, por exemplo, estava encarregado de preparar Yakissoba,
mas teriam outras opções de pratos salgados, além de muitos
doces para a sobremesa. Também seriam vendidos muitos
produtos, entre eles: livros, CDs, materiais de artesanato, que
foram feitos pelos próprios membros da igreja que possuíam
habilidade em trabalhos manuais. Até a vovó Vivi contribuiu com
peças de tricô e também com alguns doces.
Os membros da IGAG tinham um carinho todo especial pelo
trabalho de missões; todos os meses eles contribuíam para que os
vários missionários mantidos pela igreja pudessem ter o seu
sustento; e sempre faziam eventos especiais para que pudessem
enviar um valor maior.
Leonardo trabalhou a manhã inteira na igreja, antes de sair para
buscar Suzana ele resolveu conversar com a amiga Letícia, pois
havia percebido que ela o estava evitando.
_O que está acontecendo com você?
_Não entendi?
_Leca, você me evitou a manhã inteira, pensa que eu não percebi?
_Eu? Você está viajando!
_Como se eu não te conhecesse... fala logo, o que está
acontecendo?
_Nada. Léo, eu preciso ajudar na cozinha, as pessoas estão

294
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

começando a chegar.
Letícia saiu rapidamente, ela sabia muito bem que se ele insistisse
seria difícil ficar calada; a história sobre Suzana a havia deixado
muito triste, principalmente pelo fato da mãe ter provocado
aquela situação. Ao entrar na cozinha, ela recebeu um sorriso que
a fez esquecer por um momento de toda aquela confusão, pois
Daniel também ajudaria na cozinha, assim os dois teriam a
oportunidade de ficarem próximos um do outro.

Leonardo foi ao shopping buscar a namorada. Assim que


chegaram à igreja, Suzana fez uma rápida refeição e também foi
ajudar na cozinha.

Sandra, para evitar conversar com Lígia, não compareceu ao


evento, ela e o marido resolveram almoçar fora, pois havia
prometido manter o segredo por algum tempo.

Às cinco horas da tarde alguns missionários tiveram a


oportunidade de compartilhar as suas experiências com os
membros que lotaram a igreja. Puderam ouvir testemunhos de fé e
coragem o que fazia amarem ainda mais o trabalho de missões.
Pastor Pedro Gabriel agradeceu a todos pelo empenho no evento,
que teve uma arrecadação recorde.
Poucos minutos após às nove horas da noite, Leonardo deixou
Suzana em casa.
_Eu não vou entrar, você está muito cansada.
_Entra só um pouquinho- pediu ela.
_Como eu conseguiria recusar? Você fez até biquinho!
_Não fiz.
_Fez sim. Vou ficar só um pouquinho, amanhã você vai precisar
acordar cedo. O evento de missões foi um sucesso. Foi cansativo,

295
Tânia Gonzales

mas maravilhoso, concorda?


_É lógico que eu concordo. Deu tudo certo, graças a Deus. O
pessoal estava tão animado...mas... e você já decidiu se vai
viajar?
_Ah... não sei, não quero ficar tão distante de você, quem iria
buscá-la?
_Não precisa se preocupar com isso. Eu até acho que não precisa
ninguém me buscar.
_Não comece com isso.
_Leonardo, aproveite a oportunidade para visitar os seus avós e
passar momentos especiais com a sua família.
_Estou pensando... mas, por que você está tão longe de mim? Vem
aqui, minha princesa.
Leonardo a abraçou com carinho, ficou acariciando os cabelos e
depois deslizou a mão sobre o rosto dela.
_Minha linda princesa, como eu vou suportar ficar longe de você,
como manter distância de lábios tão doces e macios, me diga,
como?
Beijaram-se por um longo tempo e enquanto Suzana vivia aquele
momento especial, ela pensava que este poderia ser o último beijo
deles e por isso, ao perceber que ele iria afastar-se, ela o puxou,
pois queria prolongar o momento.
Despediram-se minutos depois.

Naquele noite, Suzana teve um pesadelo.


_Eu não posso mais namorá-la, seria muito vergonhoso para a
minha família, eles nunca aceitariam- dizia Leonardo.
_Me perdoe, eu....
_Me esqueça, Suzana. Eu não conseguiria mais... não depois de
saber que... não dá. Você é uma garota cheia de traumas.
Considere o nosso namoro terminado. Adeus.

296
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Enquanto via Leonardo se afastar, uma dor enorme invadiu o seu


coração, era como se alguém tivesse tirado um pedaço dela...
sentou-se na calçada e deixou que as lágrimas caíssem livremente.

Ao acordar percebeu que o rosto estava molhado. “ É exatamente


isso que vai acontecer, ele não vai me querer, é isso... seria uma
vergonha para a família dele. Eles nunca aceitariam alguém como
eu... nunca. Ah, Leonardo, eu o amo... vou sentir tanta saudade! ”

Era uma manhã chuvosa. Suzana olhou para o relógio e pensou: “


São 5h20, é melhor eu me levantar, ai, ai, ai, está chovendo...
hoje vai ser complicado chegar até a faculdade. Vamos Suzana,
levante!”
Neste momento o celular tocou. Suzana deu uma olhada no visor e
pensou:” Alguém acordou bem cedo hoje!”
_Alô? Oi, não, já acordei. Resolveu madrugar hoje?
_Resolvi que não vou permitir que você se molhe, vou levá-la
para a faculdade, aproveite e durma mais um pouquinho. Passo aí
antes das sete. Não discuta comigo. Tchau.
Suzana se afundou no edredom e pensou:” Como ele pode ser
assim tão maravilhoso? Vai ser tão difícil quando ele se afastar de
mim!”
Trinta minutos depois, Marina entrou no quarto da filha.
_Suzana? Minha filha, você está atrasada! Vai faltar?
_Hã? Mãe... acabei pegando no sono. Eu recebi uma ligação de
alguém muito prestativo que me ofereceu uma carona, bem...
ofereceu não é a palavra certa, na verdade ele me obrigou a
aceitar.
_O Leonardo ligou? Ele se preocupa muito com você.
_Mãe, talvez seja a última vez que ele queira falar comigo.

297
Tânia Gonzales

_ Suzana, você precisa esquecer o passado. Filha, viva o presente!


Deus colocou o Leonardo em seu caminho e eu não acho que ele
vai se afastar de você.
_Mãe, pare com isso, por favor!
_Vai doer muito quando ele ficar sabendo sobre... mas ele vai
entender.

Às 6h40 Leonardo estacionou o carro e ligou para Suzana. Ao vê-


la abrindo o portão, ele saiu do carro com um enorme guarda-
chuva e se aproximou dela.
_Bom dia, princesa Suzana!
_Bom dia, Leonardo, você não precisava ter saído do carro, eu …
_Você acha que eu iria perder a oportunidade de ficar bem
pertinho de você?
Suzana sorriu enquanto ele abria a porta do carro para ela.
_Você não deveria ter todo este trabalho de vir até aqui.
_Trabalho? Suzana, você ainda não entendeu que eu amo estar ao
seu lado? Que cada segundo que eu estou com você é muito
precioso? Não é possível que você não saiba disso, minha linda
namorada.
_Tudo bem, então. Não posso negar que foi ótimo dormir mais
uns minutinhos e que aqui é bem confortável, quente e...seco. O
que mais eu posso querer ?
_Diga que me quer, eu iria adorar!
_Gracinha!

Leonardo trabalhou o dia inteiro muito ansioso; quando estava


com a Suzana ele conseguiu disfarçar bem, mas a verdade é que
ele estava muito preocupado. “ O que a dona Marina tem para me
contar? Será que teria alguma coisa a ver com aquela história do
pai da Suzana ser um ex-presidiário? Bom, se for isso... mas, e se

298
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

for alguma coisa sobre a Suzana? Não adianta ficar nessa


ansiedade, logo eu saberei o que é, já são seis horas, marquei com
a dona Marina às sete... vou trabalhar mais um pouco.

_Me desculpe, eu sei que ainda faltam uns vinte minutos, mas eu
não estava conseguindo me concentrar no trabalho- explicou
Leonardo.
_Tudo bem, entre- disse Marina.
_Dona Marina, eu gostaria que a senhora fosse bem direta, eu
estou muito ansioso.
_Percebi. Aceita um café?
_Aceito se já estiver pronto.
_Calma, Leonardo, eu acabei de fazer, vou buscar.
Dona Marina voltou logo em seguida trazendo duas xícaras de
café.
_Eu vou começar. Leonardo, a Suzana me pediu para conversar
com você, porque ela não gostaria que soubesse da verdade por
outra pessoa. Sábado, ela e a Letícia saíram juntas para comprar
algumas coisas para o evento de missões e depois foram até a casa
da Letícia, bom... em um determinado momento, a Suzana ficou
sozinha e a Sandra aproveitou para ter uma conversa com ela.
Você já ficou sabendo que o meu marido esteve preso por quase
três anos, certo?
_A minha mãe me contou. Eu achei melhor não mencionar isso
com a Suzana.
_Entendo. Sabemos que foi a Sandra quem contou. Só que ela não
disse o motivo, pois ela não sabia o porquê do meu marido ser
um ex-presidiário. É um assunto muito delicado, e a Sandra
conheceu o motivo sábado e foi a Suzana quem contou. A minha
filha não suportou ouvir que o pai era violento, que era um
covarde por ter agredido um homem inofensivo. Que aquele pobre

299
Tânia Gonzales

homem não teve a mínima chance, que o Davi bateu nele com
uma bengala e coisas desse tipo. Foi muito difícil para a Suzana
ficar calada ouvindo aqueles absurdos, porque o meu marido não é
um homem violento, ele teve um momento de fúria, sim, mas não
é próprio dele... e a Suzana não quer que você pense mal do pai
dela.
Marina não conseguiu segurar mais as lágrimas.
_Dona Marina, a senhora não precisa me dizer o motivo, eu
percebo o quanto esse assunto a machuca...
_Eu preciso... Leonardo, a Suzana gosta muito de você, ela o
admira e acha que você merece saber a verdade e depois você
decide se... continua o namoro.
_Que isso? Não estou entendendo, eu não...
_Espera, eu preciso contar... a Suzana estava sozinha em casa, na
época ela tinha 11 anos, era o início de uma noite fria do mês de
julho, eu, o meu marido e a Sueli, estávamos trabalhando; a
campainha tocou e quando a Suzana foi atender ela percebeu que
era o patrão do Davi. Ela achou estranho porque ele perguntou
onde estava o pai dela e disse que ficou esperando por ele em um
determinado local que havia combinado e que ele não havia
aparecido. Disse que esperou por mais de uma hora e nada, então
pegou um táxi e foi até a nossa casa tirar satisfação com ele. A
Suzana explicou que ele não estava, o homem entrou e disse que
não iria embora até que o Davi chegasse. Sentou-se no sofá e
pediu para Suzana lhe trazer um copo com água. A Suzana foi até
a cozinha e enquanto ela enchia o copo... ele se aproximou e
começou... a passar as mãos nos cabelos dela... perguntou onde a
Sueli estava e como a Suzana disse que a irmã estava trabalhando,
ele...
Marina fez uma pausa, pois era muito difícil para ela descrever o
que aconteceu a seguir. Leonardo estava muito tenso, algumas

300
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

coisas terríveis lhe passavam pela mente.


_Leonardo, aquele homem sem caráter, aquele sujo... ele disse à
minha filha que já que a Sueli não estava lá, então ele seria
obrigado a … fazer tudo o que ele havia imaginado com ela
mesma apesar dela ser muito nova. A Suzana me contou depois
com muita dificuldade, que ela achou muito estranho o jeito dele.
Ele começou a … abraçá-la e … como ela gritou... ele a beijou
com violência, para sufocar o seu grito. Ele era tão canalha, que
mordeu os lábios dela... quando eu a encontrei eles sangravam
muito e estavam inchados... eu sinto muito dizer isso... mas
depois aconteceu o pior, ele a despiu e... a violentou.
Leonardo abaixou a cabeça e fechou os olhos.
_Leonardo, quando o Davi chegou e presenciou aquilo... ele não
conseguiu pensar...ver aquele desgraçado em cima da filha dele...
dá pra imaginar o que passou pela mente do meu Davi? Ele pegou
aquela bengala e começou a bater nele sem parar... foi então que
alguns vizinhos vieram e tiraram a bengala das mãos dele, mas o
estrago era grande, o homem foi parar na U.T.I, mas se recuperou
e conseguiu ficar livre da acusação de estupro, até hoje eu não
entendi como foi possível. Bom... ele era e é muito rico... o meu
Davi foi preso... ah... foi terrível, pois além de ficar com a minha
filha naquele estado... fiquei sem o meu marido para me apoiar.
Ele sofre muito porque acha que se tivesse conseguido se
controlar as coisas teriam tomado outro curso. Aquele homem foi
na minha casa com a intenção de abusar da minha filha, ele foi
para isso! Ele inventou um endereço para o Davi buscá-lo mas na
verdade o local não existia. Que homem cruel! A Suzana sofreu
tanto e ainda sofre, ela tem muitos pesadelos ... eu... Leonardo...
meu filho...
Leonardo estava chorando feito uma criança, Marina ainda não
havia presenciado um homem chorar daquela maneira... era de

301
Tânia Gonzales

cortar o coração. Ele estava com a cabeça baixa e as lágrimas


desciam... ele não esperava ouvir aquilo, pensar em Suzana
passando por tamanha violência era demais para ele. Doía
profundamente saber da triste história de vida da garota que ele
amava.
Marina o abraçou e por vários minutos eles ficaram assim...
chorando abraçados, sem dizerem uma única palavra.
_Dona Marina, a Suzana teve algum acompanhamento
psicológico?- perguntou Leonardo ao se recuperar do choque
inicial.
_ Ela foi algumas vezes, mas não conseguia falar uma única
palavra, ela me pedia chorando que não queria ir, como eu percebi
que não estava ajudando, eu concordei com ela. A Suzana era uma
menina muito alegre, simpática e isso a abalou profundamente.
Nós mudamos de bairro, porque ela não conseguia sair na rua,
sempre achava que as pessoas estavam olhando e apontando; ela
só voltou a estudar no outro ano. Foi um período muito difícil, as
minhas irmãs e a minha mãe nos ajudaram muito. A Sueli sentiu-
se culpada por não ter nos alertado sobre ele, porque ele já havia
falado algumas coisas para ela, mas ela não teve coragem para
contar. A Marisa pagou um advogado que era conhecido do dr.
Fernando, mas quando o Davi saiu da cadeia foi muito complicado
porque ninguém dava emprego para ele. Então, ele fazia bicos,
eu, incentivada pela Marisa, resolvi prestar um concurso, passei e
nos mudamos para cá. A Suzana queria que você soubesse por
mim, ela ficou com medo que a Sandra contasse.
_A Sandra foi muito insensível, como ela pôde mexer com a essa
história que causa tanta dor em vocês?
_A Suzana pediu para que eu lhe dissesse que ela vai entender se
você se afastar... no momento é até melhor, pois ela está
envergonhada, não conseguiria encará-lo.

302
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Eu sinto muito, dona Marina. É muito difícil saber dessas


coisas... como existem pessoas cruéis e desumanas! Só pensam
em... satisfazer os seus próprios desejos nojentos e não pensam no
sofrimento que vão causar. O seu Davi vai buscá-la?
_Pode ficar tranquilo, ele vai direto para lá, a Marisa emprestou o
carro dela, embora ele deteste pegar esse tipo de coisa emprestado,
hoje ele concordou.

Leonardo saiu arrasado, pensou até em não ir direto para casa pois
não queria falar com ninguém, mas ao mesmo tempo ele não via a
hora de se refugiar em seu quarto. Entrou, encontrou os pais
conversando na sala de estar, cumprimentou-os rapidamente e
disse que estava muito cansado e por isso iria direto para a cama.
Lígia percebeu que algo grave havia acontecido, por isso foi até o
quarto do filho.
_Querido, me desculpe atrapalhar, mas o que aconteceu?
_Mãe, por favor, hoje não. Não estou com cabeça para conversar
eu só quero tomar um banho e dormir, me entenda.
_Meu filho, permita que eu o ajude.
_Se a senhora me deixar aqui quietinho estará me ajudando muito.
_Tudo bem, mas se precisar é só me chamar.
_Obrigado, mãe.

As palavras de Marina não lhe saíam da cabeça... todo aquele


sofrimento... aquela maldade...ele começou a lembrar de como era
difícil para Suzana permitir uma aproximação, agora ele entendia
o porquê dela tremer tanto. Como o contato físico era difícil para
ela, mas também pudera, depois de tanto sofrimento, ela lógico
que ficaria traumatizada. “ Ah... minha Suzana... minha princesa...
como alguém teve a coragem, não, isso não é coragem, é covardia.
Como alguém pôde ser tão covarde! Você com esse rostinho tão

303
Tânia Gonzales

meigo... eu não suporto isso... não dá para aceitar... o problema


não é com você.. é comigo, era assim que ela dizia. Ah... Deus ”

Naquela noite, Suzana teve uma longa conversa com a mãe e


ambas choraram muito.

Era terça-feira, logo após o almoço, como havia prometido,


Leonardo foi até a casa de Lúcia, mesmo estando completamente
arrasado. Não queria que ela sofresse, bastava os que já estavam
com o coração partido nesses últimos dias.
Rita contou que a filha estava se alimentando bem e que todos os
dias descia com ela para tomar sol.
_Oi, Lúcia, como você está?
_Meu anjo, como é bom ver você.
_É bom vê-la também, Lúcia. E então, como você está?
_Agora, ótima, o meu anjo está aqui. Vai ler hoje?
_Se você quiser.
_Quero.
Desta vez Leonardo havia levado sua Bíblia, abriu-a em João 14.6
e leu:
_ “ Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida;
ninguém vem ao Pai senão por mim.” Lúcia, Jesus é o caminho, a
verdade e a vida, e a vontade dele é que entremos pelo caminho,
que conheçamos a verdade e que a vida dele esteja dentro de nós.
Dentro de você há algo que tem impedido que você seja feliz,
você quer compartilhar o que está aí dentro? Quer se abrir
comigo?
_Não. Aqui dentro existem coisas muito feias... você é um anjo,
não pode ouvir essas coisas.
_Lúcia, Jesus quer que você receba a vida que ele dá e com
certeza não é essa que você está vivendo hoje. Jesus quer ver um

304
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

sorriso neste rosto lindo.


_Você acha que meu rosto é lindo?
_É claro que sim. Você é uma garota linda, venha aqui e olhe para
o espelho, venha.
Lúcia se aproximou bem devagar e olhou-se no espelho.
_Viu? Comprovou como você é linda?
_Não. Só se é lindo quando aqui dentro está lindo e dentro de mim
existe algo muito feio.
Lúcia sentou-se na cama novamente e abaixou a cabeça.
_O que existe de feio dentro de você? Não pode... não há como ter
algo feio aí.
_Você não sabe? São coisas horríveis... coisas que … ele fez... ele
fez... ele fez...ele fez algo horrível... ele é um monstro.
Lúcia começou a tremer e chorar muito.
_Acalme-se, não precisa falar mais nada.
_Meu anjo... meu anjo... existem monstros lá fora...é muito
perigoso porque eles não têm cara de monstro... eles nos enganam,
cuidado com eles... eles têm cara de amigo, de irmão, de pai, mas
na verdade são monstros.
_Lúcia, algum desses monstros machucou você?
_Psiu! Psiu! Não fale nada... cuidado... ele pode machucar o meu
anjo.
_Lúcia, quem pode me machucar?
_Psiu... fale baixo.
_Tudo bem, vamos parar com este assunto. Você gosta de música?
_O que aconteceu com o meu anjo? Por que ele está com o rosto
triste? - perguntou Lúcia como se não tivesse escutado a pergunta
de Leonardo.
_Triste?
_É... o meu anjo está triste. Quem machucou o meu anjo?
_Não é nada... eu perguntei se você gosta de música, e então?

305
Tânia Gonzales

_Gosto, às vezes...
_Eu gravei umas músicas para você, são louvores a Deus, elas
fazem com que você se sinta mais próximo de Deus. Eu toco
violino, aqui... - disse Leonardo mostrando o CD- eu gravei
especialmente para você. Um dia, se você quiser, eu vou trazer o
meu violino e tocá-lo aqui.
_Violino... tá bom. Eu vou ouvir o CD o dia inteiro.
_Que bom... Lúcia, eu preciso ir... é … eu vou precisar viajar e por
isso não poderei estar aqui com você, mas eu ligo e conversamos
pelo telefone. Não deixe de se alimentar e também de descer para
o seu banho de sol. Por que você não sai com a sua mãe para
almoçar fora, amanhã?
_Sair não. Você vai viajar? Eu não queria ficar muitos dias sem
ver o meu anjo.
_Eu preciso visitar alguém que completará oitenta anos, mas eu
volto daqui a alguns dias.
_Oitenta anos! Então, tá...eu vou esperar por você.
_Que bom... agora, preciso ir. Fique com Deus, Lúcia.
Leonardo explicou para Rita sobre a viagem que faria, ela ficou
muito preocupada com medo da reação da filha, mas ele a
tranquilizou dizendo que ligaria. Saiu de lá muito pensativo.
Lúcia, que a maior parte do tempo parecia tão distante, havia
percebido a tristeza dele. E muito o intrigou aquela história de
monstros, será que Lúcia era mais uma vítima como Suzana?
Leonardo havia tomado a decisão de ir para Fortaleza com a
família, seria bom se ausentar por alguns dias, por isso ligou para
Marina avisando-a. Não fez nenhuma pergunta sobre Suzana, era
melhor assim, pensou.
Ao saber que Leonardo viajaria, Suzana sentiu-se aliviada por não
precisar encará-lo tão cedo, e feliz, pois seria bom para ele estar
com a família, mas ao mesmo tempo a tristeza invadiu o seu

306
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

coração.

Sandra resolveu não conversar com a amiga até que ela voltasse
da viagem, não queria preocupá-la, mas tinha certeza que era
obrigação sua alertá-la, pois, provavelmente, Leonardo não teria
coragem de falar sobre o passado da namorada.

307
Tânia Gonzales

Capítulo 28 -Viagem
Às nove horas e trinta minutos da manhã de quinta-feira, a família
Martins pegou o avião para Fortaleza. Beatriz percebeu que o
irmão não estava bem, todos estavam animados com a viagem,
conversando muito e ele ficou calado a maior parte do tempo.
Decidiu conversar com ele assim que tivessem um tempo a sós.
O voo foi bem tranquilo, o avião pousou em Fortaleza quando
faltavam cinco minutos para uma hora da tarde.
Luciano, o irmão mais velho de Lígia, estava esperando-os no
aeroporto.
_Que alegria! O papai e a mamãe estão ansiosos. Sejam bem-
vindos à Fortaleza.
_Meu irmão querido, você está ótimo!
_Você está maravilhosa! Uma gatona! Dr. Rafael, como está? E
os meus sobrinhos lindos? Bruno e aí, tudo bem?
Cumprimentaram-se e após quinze minutos de carro, chegaram à
casa de Luciano e Fátima, que tinham dois filhos: Thaís de 29
anos e Lucas de 32 anos, ainda solteiros. Os avôs estavam
esperando no portão. Foram muitos abraços e beijos. Fátima havia
preparado um almoço muito especial.
No início da noite foi outra festa, pois Thaís e Lucas chegaram do
trabalho.
Beatriz só conseguiu conversar com o irmão no outro dia logo
pela manhã. Leonardo acordou bem cedo e estava apreciando o
lindo jardim da casa dos tios, que era cuidado pelos avós, eles
amavam mexer com a terra, tinham muita disposição e já estavam
há pelos menos uma hora se dedicando às plantas.
_Léo, vamos até a padaria? Eu quero conversar com você.
_Vamos sim, avise a tia Fátima.

308
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Cinco minutos depois os dois irmãos estavam andando pelas ruas


tranquilas do bairro onde moravam os tios.
_Meu irmão, o que está acontecendo com você? Algum problema
com Suzana?
_As coisas andam meio complicadas.
_Por isso você resolveu viajar com a gente. A mamãe me disse que
você só viria na próxima semana para participar da festa.
_É... eu não queria ficar muitos dias longe da Suzana, mas...
_Mas...
_Eu não quero preocupá-la.
_Fale comigo, desabafe, faz bem.
Andaram bem devagar para que Leonardo pudesse contar a
história para Beatriz, que no final do relato do irmão, disse:
_Que coisa terrível! Como existem pessoas más neste mundo.
Coitada da Suzana... sofreu tanto!
_E ainda sofre.
_E a Sandra, hein? Não a estou reconhecendo. Ah, Léo... a vida é
linda, é maravilhoso viver, só que essas coisas nos entristecem...
dá um desânimo.
_Eu vou ter uma conversa muito séria com a Sandra, ela está
provocando o sofrimento da filha e agora quer fazer isso com
todos?
_É, não dá para entender como uma pessoa pode mudar tanto.
Você achou melhor viajar para ficar longe da Suzana?
_Ela está muito envergonhada... é melhor assim, essa distância vai
ajudá-la.
_O que você pretende?
_Vamos parar com este assunto, tá? O pessoal não vai ficar
esperando a manhã inteira para tomar café, que tal andarmos mais
rápido?

309
Tânia Gonzales

Naquela manhã de sexta-feira, Suzana tinha um trabalho para


apresentar na faculdade; o grupo dela conseguiu uma excelente
nota e ela sentiu-se aliviada pois estava muito difícil para ela se
concentrar nos estudos. Pensar na distância que a separava de
Leonardo muito a entristecia. “ Ele está tão longe! Ter a certeza
que não o verei por vários dias dói tanto! Mas... se ele estivesse
aqui, seria diferente? Será que ele já teria me procurado? É
melhor eu ir me acostumando com a ideia de perdê-lo... ele não
vai querer continuar com o namoro... quem gostaria de conviver
com uma garota traumatizada como eu? Com uma ferida que
nunca cicatriza?”

Paula estava muito satisfeita com a sua recuperação; e perceber o


esforço dos pais para se entenderem também a deixava muito
feliz. Paulo Reis e Regina, depois da conversa que tiveram com o
pastor e a sua esposa, mudaram muito, ele aprendeu a dizer não
para alguns convites e ela estava aprendendo a substituir a crítica
pela compreensão. Teriam um logo caminho pela frente, mais o
importante é que deram o primeiro passo.
No sábado à tarde, Paula recebeu a visita daquela garota ex-
paciente do dr. Romeu.
_Você está muito bem, parabéns – disse.
_Obrigada, eu, realmente, estou me sentindo bem. Para você eu
confesso que não é nada fácil... alguns dias atrás, logo após o
almoço, eu me olhei no espelho e aqueles pensamentos
começaram a me incomodar: “ Você é gorda, olhe só pra você, não
tem vergonha? Faça alguma coisa com relação a isso, sua gorda! “
Eu fui ao banheiro e cheguei a pensar em provocar o vômito, mas,
de repente, as palavras de meus amigos da igreja e de meus pais,
vieram em minha mente e falaram mais alto.
_Paula, é assim mesmo. Não é nada fácil... isso pode acontecer

310
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

várias vezes ainda, mas o importante é que você não cedeu. O seu
corpo está ótimo, nem pense que está gorda e continue se
alimentando, amiga. Eu passei por isso, uma vez eu coloquei o
dedo na garganta e fiquei por vários minutos naquela dúvida
cruel. Graças a Deus consegui resistir.
_Outro dia eu resisti a uma forte tentação de jogar a comida que
estava em meu prato no lixo.
_É uma barra! Mas, você vai vencer, aliás, já está vencendo.
_Pode crer, é difícil pra caramba, mas com fé e a ajuda da família
e dos amigos eu vou conseguir.

Letícia, aproveitando que a mãe estava trabalhando, foi fazer uma


visita para Suzana, pois sabia que amiga estaria de folga.
_Oi, Su. Como você está, amiga?
_Ah... não vou mentir, eu não estou nada bem.
_Amiga... está com saudades do Léo, né?
_Estou com muitas saudades... ah... eu preciso me acostumar, é
bem provável que nem me procure quando voltar.
_Que bobagem? Eu duvido que o Léo vai conseguir ficar longe de
você.
_Eu acho que ele não vai continuar com o namoro. Letícia, ter um
relacionamento com alguém que passou por um trauma como o
meu, não é fácil. O Leonardo, mesmo sem saber o porquê já teve
uma ideia de como é complicado. E a família dele não vai me
aceitar.
_Para com isso, Suzana. O Léo é louco por você e os pais dele não
são preconceituosos como a minha mãe.
_Só vai dar para descobrir isso depois que eles ficarem sabendo de
tudo. Você achava que a sua mãe seria tão radical com relação ao
seu namoro com o Daniel?
_Eu não, mas é diferente.

311
Tânia Gonzales

_Tem razão, é diferente. A sua mãe não tem nenhum motivo real
para proibir o seu namoro, mas no meu caso... bom... as mães
querem o melhor para os seus filhos e eu não …
_Suzana, para com isso. Você é a pessoa mais doce que eu
conheço, ah, amiga, apesar de todo o sofrimento você não se
transformou em uma pessoa amarga.
_Eu gostaria de ter o poder para apagar o meu passado, eu queria
tanto...
_Ah, Su, apagar o passado não dá, mas você pode ser feliz agora e
no futuro, não permitindo que essa dor tome conta de você, amiga.
Deus colocou o Léo em seu caminho porque ele é a pessoa certa,
é compreensivo, atencioso, amigo para todas as horas... depois que
o Léo ficou pronto, Deus jogou a receita fora, pode acreditar.
_Nisso você está certa, o Leonardo é maravilhoso. Eu nunca
imaginei que poderia existir alguém igual a ele e é por isso mesmo
que ele merece alguém especial.
_E você é especial.
_Não... eu preciso me preparar psicologicamente para quando o
Leonardo voltar, porque vou ter que aprender a viver sem ele. Só
o verei de longe nos trabalhos da igreja e...
_ Su, você precisa é parar com esse tipo de pensamento.
_A sua mãe está errada ao proibir o seu namoro com o Daniel,
mas eu tenho que concordar com ela em uma coisa.
_Concordar com a minha mãe depois de tudo o que ela falou para
você?
_Ela acha que você e o Leonardo formam o par perfeito e eu
concordo.
_Ai, ai, ai, Suzana, você precisa descansar, eu já entendi, a
saudade que você está sentindo é que está provocando isso, não
está conseguindo raciocinar direito.
_É isso mesmo. Você é uma pessoa excelente e é linda. Vocês se

312
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

dão tão bem e...


_Su, não me venha com esta história porque eu amo o Daniel.
Você ama o Léo e o Léo te ama. Ah, e o Daniel me ama, é claro.
_Letícia... você é uma grande amiga. Mas, me conta uma coisa, e
você e o Daniel, estão se encontrando?
_Só na igreja; o Daniel não quer sair escondido. Eu também não
quero, mas é muito difícil manter distância. Estamos orando,
Deus vai nos dar uma saída. Não dá para aceitar o comportamento
da minha mãe sendo ela uma pessoa cristã. Não concordar com o
namoro só porque o Daniel é negro? Olha, Su, eu não me
conformo, é tanta hipocrisia. A pessoa cumprimenta a outra com a
paz, participam da comunhão através da ceia do Senhor e aí?
Cantam todos juntos: “ Uma família, sem qualquer falsidade,
vivendo a verdade, expressando a glória do Senhor”17; mas você
não serve para namorar a minha filha, querido irmão, a sua cor
não combina com a dela, querido irmão! Ah! Eu vou ter uma
conversa séria com o meu pai, não dá mais para suportar essa
situação, o Daniel não merece ser humilhado dessa forma.
_Eu oro sempre por vocês dois. Você está certa, Deus vai dar uma
saída.
_Suzana, um dia, e eu espero que seja logo, nós vamos sair todos
juntos: Você e o Léo, eu e o Daniel; sem impedimentos.

Em Fortaleza todos estavam bem agitados por causa dos


preparativos para o aniversário de oitenta anos do vovô João, que
seria no próximo sábado. Havia muito para ser feito, por isso cada
membro da família era responsável por uma parte. Toda aquela
agitação estava ajudando Leonardo a não pensar tanto em Suzana,
mas à noite quando tudo se acalmava e ele colocava a cabeça no

17 Louvor: Corpo e família -Compositor: Daniel Souza

313
Tânia Gonzales

travesseiro, as lembranças vinham muito fortes. Ele lembrou do


primeiro dia que a viu na loja e de como ficou impressionado e
que a partir daquele dia ela não lhe saiu mais da cabeça. Pensou
também em como foi difícil beijá-la pela primeira vez, em como
ela tremia... tentou parar de pensar... mas, aquele rosto lindo
estava ali, dominando os seus pensamentos.

O final de semana se foi e uma nova semana começou; para


Suzana os dias que viriam lhe traziam uma triste realidade: seriam
longos dias que só fariam aumentar a saudade que já era grande.
Estudou, trabalhou muito, participou de alguns trabalhos da igreja.
Jônatas, o líder do grupo Alfa, avisou a todos que no próximo
sábado seria realizada uma festa com todos os grupos para
comemorar mais uma etapa da REMA, pois em breve fariam um
novo sorteio. Dentre as pessoas que estavam organizando a festa
estavam: Letícia, Suzana e Paula, por isso nos últimos dias elas
conversaram muito pelo telefone e sempre que possível se
encontravam para tratar dos detalhes. Sandra não gostou de saber
disso, mas não pôde fazer nada.

Leonardo, como havia prometido, ligou para Lúcia a cada três


dias.
_Lúcia, como você está hoje?
_Meu anjo... eu quero vê-lo.
_Eu voltarei daqui a alguns dias, mas, como você está?
_Estou com saudades.
_Está se alimentando bem?
_Estou. Eu ouço as suas músicas todos os dias.
_Que bom. O dia está bonito?
_Hã?
_O dia está bonito?

314
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Eu não sei, não saí do quarto hoje.


_Por quê?
_Estou com medo.
_Medo do que ou de quem?
_Medo.
_Lúcia, me explique, o que a assusta?
_Meu anjo... preciso de você, venha aqui, por favor.
_Lúcia, eu vou demorar mais alguns dias aqui, mas, eu peço que
você não se recuse a comer e saia para tomar sol. Posso confiar
em você?
_Pode. Ele...
_Ele?
_Ele... ele ligou ontem.
_Ele quem?
_Ele.
_Lúcia, qual o nome dele?
_O monstro.
_Quem é o monstro?
_Ele.
_Você não vai me dizer o nome dele?
_Não.
_Tudo bem, eu não vou insistir, preciso desligar. Lúcia, eu ligo
sábado, tá? Fique com Deus, um beijo.
Lúcia desligou o telefone e olhou para a foto que estava em sua
mão.
_Ele... ele... ele... é o monstro.
Rasgou a foto e pegou outra que estava debaixo de seu travesseiro.
_Você é um anjo, o meu anjo- disse para em seguida dar um beijo
na foto de Leonardo.

_Oi, pai, muito serviço? - perguntou Letícia ao entrar no escritório

315
Tânia Gonzales

de Fernando.
_Oi, minha filha, que bom vê-la aqui. Sem o Rafael e o Leonardo
está uma loucura, apesar de terem deixado tudo em ordem com os
processos deles, mas, mesmo assim...
_Será que o senhor pode parar um pouquinho para conversar?
_É claro, querida. Eu não almocei ainda e você?
_Também não. Podemos almoçar?
_Devemos.
Fernando escolheu um restaurante bem próximo ao escritório.
_E então, o que está preocupando a minha linda filha?
_Ah, meu pai...
_A sua mãe, não é? A Sandra ficou tão decepcionada por você e o
Leonardo não namorarem que está impossível.
_É... o senhor está sabendo que ela está atrapalhando até o namoro
do Léo?
_Ela me contou algo muito chato com relação à Suzana, fiquei tão
triste por ela, eu não podia imaginar que foi por isso que o pai
dela... você sabe.
_Pai, a Suzana é uma excelente pessoa, ela não merece passar por
tudo isso, já sofreu tanto e agora precisa dar explicações?
_Tem razão.
_Eu quero que o senhor me responda uma coisa.
_Pode perguntar.
_O senhor também é contra o meu namoro?
_Não, eu não concordo com a sua mãe. Filha, eu também gosto
muito do Leonardo e ficaria muito feliz se vocês dois
namorassem, mas eu sei que você está apaixonada pelo Daniel e
eu acho que ele é um bom rapaz.
_Obrigada, pai, é tão bom ouvir isso. Eu não aguento mais... eu e
o Daniel só nos encontramos na igreja. Ele não quer sair
escondido, o Daniel deseja tanto a aprovação de vocês, mas a

316
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

mamãe...
_Eu sei, filha. Eu tenho conversado com a Sandra, mas ela está
irredutível. Nunca vi a sua mãe assim.
_Me ajuda, pai. Racismo é um absurdo e vindo de alguém que diz
servir a Jesus é pior ainda. O Daniel é trabalhador, é honesto, ama
a Deus, ele é tão responsável...
_Eu sei, filha, eu vou tentar... vou pensar em alguma coisa. Fique
tranquila, tudo vai se resolver.

Fernando teve uma conversa com Sandra naquela mesma noite e


foi uma conversa muito difícil.
_Eu não quero falar sobre esse assunto, para mim isso está
encerrado.
_Sandra, encerrado como? A nossa filha gosta do rapaz e...
_Isso passa, e eu acho que ela nem gosta dele, é só para me
provocar. Você acha que a Letícia, uma menina linda, que está
fazendo faculdade de odontologia, iria se interessar por aquele...
aquele rapaz?
_Sandra, como você pode falar assim? Ele é um ótimo rapaz.
_Ótimo, pode até ser, mas não para minha filha, ele pode ser
ótimo para a Suzana, por exemplo.
_Não coloque essa menina na nossa conversa, você já a fez sofrer
muito.
_Sofrer? Eu estou tentando impedir que ela faça a família da
minha melhor amiga sofrer.
_Sandra, não se envolva mais nisso.
_Impossível, assim que a Lígia voltar de Fortaleza eu vou
conversar com ela.
_Não vai mesmo.
_Vou sim, é a minha obrigação.
_O assunto aqui é a nossa filha. Sandra, eu quero que você aceite

317
Tânia Gonzales

o namorado dela e o trate com respeito, pois é assim que deve ser.
_Fernando, você só pode estar delirando. Eu nunca vou aceitar,
nunca!
_Sandra, a nossa filha está sofrendo. Não faz sentido você ser
contra só porque ele...
_Você também acha que eu sou racista?
_É o que está parecendo, me diga mais algum motivo.
_Ele é um mecânico, não estuda e...
_Sandra, eu não estou lhe reconhecendo. Ele trabalha duro na
oficina do pai, você sabe que o Isaque ficou tão arrasado pela
morte da esposa que não conseguia fazer mais nada, foi o Daniel
que tomou conta de tudo e precisou abandonar a faculdade.
_Tudo bem, ele pode até ser um rapaz trabalhador, mas não serve
para a minha filha. Como que ele pode pensar em namorar a
Letícia?
_Sandra, você precisa orar.
_Não me venha com esta conversa, Deus sabe como o meu
coração está.
_E como sabe! Sandra dá para ter comunhão desta maneira? Eu
não sei como você tem a coragem de participar da...
_Fernando, você está indo longe demais. Está falando da minha
vida espiritual e isso eu não admito. Não adianta querer me
convencer usando esse tipo de argumento, comigo não. Estava
tentando me sensibilizar falando sobre a luta que é a vida do
Daniel e agora quer que eu fique com medo de estar pecando?
Fernando, eu quero o melhor para a minha filha e Deus entende
isso, porque ele sempre quer o melhor para os seus filhos. Nós não
sabemos o que é melhor e às vezes desejamos algo que vai nos
prejudicar e Deus que é onisciente, que vê lá na frente, nos diz
não. Assim eu estou fazendo com a Letícia, ela não sabe o que é
melhor... se soubesse estaria noiva do Leonardo.

318
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Ah! Chega! Vou dormir, está impossível dialogar com você.

Naquele exato momento Letícia estava conversando com Daniel


pelo celular.
_O meu pai vai falar com ela.
_Meu bem, tenha paciência.
_Dani, eu não estou aguentando, isso é tão injusto.
_Eu sei... mas o que você quer que eu faça? Quer que eu tente
conversar com os seus pais novamente?
_Não. Se ela o maltratasse, eu não suportaria. Estou com
saudades.
_Eu também.
_Vamos marcar algum encontro.
_Sair escondido novamente? Não quero isso.
_Também não, mas, eu estou com saudades, vê-lo só na igreja não
dá.
_Vamos pensar em algo. Eu tenho pedido tanto que Deus amoleça
o coração da sua mãe.
_ Vamos marcar alguma coisa.
_Tá bom, pense e depois você me avisa. Fique calma, vai dar
tudo certo, é só uma fase. Tenha uma ótima noite, eu te amo.
Letícia desligou o celular e ajoelhou-se perto de sua cama.
_Meu Pai, isso não é justo... transforme o coração da minha mãe.
Eu não sei mais o que fazer! Só tu podes mudar essa situação e
também eu peço por minha amiga, Suzana, que ela seja feliz ao
lado do Léo, que a família dele compreenda que os dois se amam
e aceite a Suzana, tu sabes o quanto ela é maravilhosa. Em nome
do seu filho, Jesus, é que eu peço essas coisas. Amém.

Faltavam poucos minutos para a meia-noite quando Suzana


deitou-se. O dia seguinte seria sábado e ela estaria de folga, pois

319
Tânia Gonzales

havia trocado com a amiga Cláudia. À noite teriam a festa da


REMA, por isso seria um dia cheio de preparativos especiais;
Suzana estava achando ótimo toda aquela atividade, pois isso
ajudava amenizar a dor que sentia dentro do peito. Leonardo fazia
tanta falta! O lindo sorriso, a voz agradável que dizia coisas que
ela adorava, o aconchego dos seus abraços, os beijos...

_Não faça isso! Por favor, me solte...


_Soltar? Minha linda, não é isso o que os seus olhos me dizem...
você quer que eu a abrace... você me quer bem pertinho, diga a
verdade.
_Não.
_Diga sim, porque para aquele rapazinho você diz, não é mesmo?
_Não... por favor, você está me machucando!
_Você diz isso para ele também? É claro que não, então vai
precisar fazer o mesmo comigo.
_Não.
_Sim, beije-me, vamos... como você faz com aquele rapazinho...
eu quero que você me beije, está ouvindo? Você não pode escapar
de mim... não pode, minha linda!
O homem estava tentando beijá-la, Suzana tentava se soltar
daqueles braços, mas ele era mais forte do que ela.
_Eu vou beijá-la.
_Não! Não! Socorro!

_Suzana? Minha neta, ei... está tudo bem.


_Vó, vó? Eu não aguento mais... esses pesadelos - disse Suzana
em lágrimas.
_Minha querida.
_Quando eu vou ficar livre disso? Por que Deus não me ajuda?
_Minha neta linda, acalme-se, vai ficar tudo bem.

320
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_O Leonardo precisa ficar longe de mim... é melhor para ele.


_Não fale assim... tente dormir.

321
Tânia Gonzales

Capítulo 29 -Saudade
Enfim chegou o grande dia do aniversário do vovô João;
acordaram bem cedo pois não podiam perder tempo.
Comemorariam os oitenta anos do vovô em um chácara. Às oito
horas da manhã já estavam lá organizando tudo. O vovô João e a
vovó Helena estavam muito felizes, principalmente pelo privilégio
de ver a família reunida.
Às onze horas Leonardo ligou para Lúcia.
_Oi, meu anjo.
_Oi, Lúcia, você está bem?
_Estava ouvindo você tocar... quando vou ouví-lo aqui no meu
quarto?
_Breve. Tenha paciência. Você está se comportando bem?
_Estou fazendo tudo o que o meu anjo mandou.
_Eu pedi, não mando em você, Lúcia. Eu peço e você atende, é
isso.
_Meu anjo, o monstro manda... faz coisas horríveis, ele não pedi
licença.
Leonardo pensou em perguntar que coisas horríveis seriam, mas
pelo telefone achou que não seria conveniente.
_Lúcia, você quer me falar o nome do monstro?
_Não. Ele não vai gostar.
_Ele esteve aí?
_Não. Eu não quero que ele venha... ele disse que virá logo, mas
eu não quero.
_Quando ele falou com você?
_Comigo não. Eu não falo com ele.
_Quem falou com ele?
_Minha mãe.

322
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Ah... Lúcia, eu preciso desligar. Tenha um ótimo sábado, por que


você não almoça fora com a sua mãe? Ela ficaria muito feliz.
_Eu não vou sair... só se...
_Se?
_Se for com o meu anjo.
_Então, quando eu voltar nós vamos sair, está bem?
_Está.
Depois de se despedirem, Leonardo desligou. Ele não sabia
explicar, mas todas as vezes que conversava com Lúcia a saudade
de Suzana aumentava mais ainda. “ Como é possível alguém fazer
tanta falta? E se eu ligasse só para ouvir a voz dela? Não, é melhor
não.

A comemoração do aniversário de oitenta anos do vovô João foi


um evento maravilhoso. Ele e Helena até dançaram valsa.
Leonardo olhava para os dois com orgulho. Deveria ser ótimo
passar tantos anos juntos. Os avós tinham 52 anos de casados e
ainda se diziam apaixonados um pelo outro. Leonardo desejou que
Suzana estivesse ali participando daquele momento especial.

A festa na igreja foi muito animada, os jovens cantaram muito,


fizeram muitas brincadeiras, houve também sorteios de vários
brindes e é claro que muitas delícias para serem devoradas.
Havia pão de metro com vários tipos de recheios, salgadinhos
diversos, docinhos e um enorme bolo de chocolate.
Suzana, apesar da imensa saudade que a ausência de Leonardo
provocava, divertiu-se bastante, principalmente com as
brincadeiras de Paulinha que estava animadíssima. Letícia teve a
oportunidade de passar mais tempo com Daniel e até aproveitaram
para sair antes que a festa terminasse para terem um pouco de
privacidade.

323
Tânia Gonzales

Meia-noite e quinze, Paulinha deixou Suzana em casa, havia


emprestado o carro de seu pai.
Neste últimos dias, por causa dos preparativos para a festa, as duas
se aproximaram mais e Suzana estava gostando de aprofundar a
amizade com ela.

Daniel estacionou o carro em frente à casa de Letícia dez minutos


depois e encontrou a mãe dela esperando com uma cara de
poucos amigos,
_Eu sabia que não podia confiar em você, Letícia. Saindo
escondida com este rapaz? Não tem vergonha?
_Mãe, por favor, não faça escândalo...
_Vergonha que os vizinhos ouçam a sua mãe falar você tem, não
é? Mas não tem vergonha de sair com esse aí!
_Dona Sandra, nós estávamos na festa dos jovens e...
_Não quero que você me dê explicações. A minha filha vai entrar
agora e lá dentro eu converso com ela.
_Mãe, não fale assim com o Daniel.
_Falo como eu quiser, ele não merece um pingo de consideração,
saiu com você sem a minha autorização. Gosta de sair às
escondidas, não é?
_Dona Sandra, eu não gosto disso, eu prefiro que tudo seja
esclarecido.
_Ouça rapaz, eu quero que você fique bem longe da minha filha,
entendeu?
_Mãe? Por favor, vamos entrar, deixe que o Daniel converse com
a senhora lá dentro.
_Nós duas vamos entrar, eu não quero este rapaz dentro da minha
casa. Venha Letícia.
_É melhor você entrar, Letícia, depois conversamos.
_Mas...

324
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Entre com a sua mãe, não vai dar para conversar com ela hoje.
_Nisso você tem toda a razão. Venha Letícia!
_Tchau, Dani e me desculpe.
_Não precisa se desculpar.
_Letíciaaaa! - gritou Sandra impaciente.
Letícia entrou muito contrariada e foi direto para o seu quarto.
_Volte aqui, você me deve uma explicação.
_O que está acontecendo, Sandra? Por que essa gritaria?-
perguntou Fernando saindo do quarto.
_Pai, pai... ela fez um escândalo lá na rua, tratou o Daniel tão mal
e...
_Calma, filha.
_Calma? Ela está saindo escondida com aquele rapaz, você
acredita? Ele a trouxe de carro, eu os peguei...
_Sandra, vamos parar com isso, amanhã conversamos melhor, vá
dormir, minha filha.
_Amanhã você não me escapa, vou falar com você- disse Sandra
em um tom ameaçador.

Domingo à tarde, após chegar do trabalho, Suzana pegou Meg, a


calopsita, e enquanto afagava aquela ave dengosa, seus
pensamentos voaram até Fortaleza. “ O que ele estará fazendo
agora? A festa do avô foi ontem, deve ter sido uma festa
maravilhosa. Ah... Meg... que saudades! Será que ele lembra que
eu existo? Deve estar se divertindo tanto que é claro que não vai
perder tempo pensando em mim... pensar em alguém como eu, pra
quê? Para sofrer? É melhor mesmo que ele me esqueça, lá na
IGAG existem muitas moças que seriam perfeitas para ele, eu... eu
não posso tê-lo, não posso... a família dele nunca iria aceitar o
nosso namoro.
_Suzanaaa! Oiii! Sou eu, Letícia!

325
Tânia Gonzales

_Pode entrar, Lê. Estou aqui com a Meg.


_Oi, ah, que gracinha! Ela é tão doce quanto você, amiga. Vem
aqui comigo, vem, Meg.
_Ela gosta de você... e aí como foi ontem com o Daniel?
_Bom... com o Dani foi ótimo, mas, a minha mãe estava me
esperando no portão, você acredita nisso?
_Ah, não! Que coisa chata!
_Foi horrível, ela falou cada coisa! Humilhou o Dani...
_Amiga...
_Su, é tão injusto isso... eu e o Dani nunca mais havíamos saído,
mas ela pensa que nós continuamos saindo escondido mesmo com
a proibição dela. Ela não me escuta.
_Nem sei o que dizer... ah, amiga!
_Vamos mudar de assunto, é melhor. Eu tenho uma boa notícia
para você.
_Notícia para mim? É sobre …
_É claro é que sobre o Léo. Meu pai conversou com o Rafael hoje
cedo e eles voltam quarta-feira.
_Quarta?
_Que sorriso mais lindo... não vê a hora de estar com ele, né?
_Eu nem sei se ele vai me procurar.
_É claro que vai, você acha mesmo que o Léo vai conseguir ficar
longe da amada dele? Deve estar com mais saudades do que você.
_Não sei... eu não quero me iludir.
_Eu me pergunto como ele conseguiu resistir... não ligou para
você uma única vez!
_É... ele não deve estar com saudades como você imagina.
_Ah... não é nada disso. Ele deve preferir conversar pessoalmente,
é natural, depois que ele … é... ficou sabendo de tudo, vocês não
se viram mais, não é?
_Você está certa. Eu nem sei se conseguirei encará-lo novamente.

326
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Estou com tanta vergonha!


_Suzana, para com isso. Quarta-feira o seu príncipe chega e vocês
vão poder matar essa saudade enorme!
_Você é bem otimista... eu não estou alimentando essa esperança
toda, porque se ele chegar e não me procurar, vai doer muito mais.
_Só você mesmo para imaginar que o Léo vai conseguir manter
distância, não mesmo! Escreva o que eu estou dizendo: Ele vai
procurá-la no mesmo dia que chegar.

Terça-feira, Suzana foi para a faculdade e depois para o shopping


trabalhar. Já estava ansiosa, mas, na quarta a ansiedade aumentou
ainda mais por causa da expectativa pela chegada de Leonardo.
Faltavam cinco minutos para as dez horas da noite e ela não estava
suportando mais toda aquela ansiedade. Ele estaria esperando-a?
Esta era a pergunta que não lhe saía da mente. Dez minutos depois
ela saiu da loja e os lindos olhos verdes olharam em todas as
direções na esperança de encontrar aquele lindo sorriso que tanto
lhe fazia falta.
_Filha? Ei? Não me viu? - perguntou Davi para decepção de
Suzana.
_Pai? Oi, eu estava distraída.
_Percebi. Procurando por alguém?
_Não. É claro que não.
_Você mente tão mal.
_Pai... me desculpe, é que eu pensei...
_Eu sei, filha, eu entendo. Vamos?
Deitada em sua cama, Suzana não pôde conter as lágrimas... “ É
claro que ele não iria me procurar. “

No dia seguinte, Cláudia percebeu a angústia da amiga e a


interrogou.

327
Tânia Gonzales

_Suzana, o que está acontecendo com você hoje? Tudo bem que
nos últimos dias você também esteve bem distante... sei que está
com saudades de seu amor, mas, hoje...
_Ah... Cláudia, deixa pra lá.
_Fala comigo, o que aconteceu? Ele chegou de viagem? Vocês
conversaram?
_Ele chegou ontem e … nem me procurou. Nem sei por que eu
estou assim, já esperava por isso.
_Suzana, você não me contou o motivo, mas, ele vai procurá-la,
pode ter certeza disso. Ele deve ter chegado tarde e...
_É, pode ser.

Suzana saiu da loja na maior expectativa de ver Leonardo e mais


uma vez ficou decepcionada. Permaneceu calada durante todo o
caminho para casa, o pai, que a estava buscando com o carro da tia
Marisa, deixou-a entregue à seus pensamentos.

_Su? Oi, me desculpe pelo horário, já estava dormindo?-


perguntou Letícia ao ligar, pois já era quase meia-noite.
_Não, tudo bem. E aí, quais as novidades?
Na verdade, a pergunta que Suzana queria fazer era: “ E o
Leonardo? “
_Eu liguei porque tenho uma novidade sim. Eu disse que o
Leonardo chegaria ontem, mas só os pais dele voltaram de
Fortaleza. Ele ficou lá, com o Bruno e a Beatriz. O meu pai disse
que como o Bruno pegou um mês de férias, quis aproveitar para
ficar mais alguns dias lá. Então ele e a Bia convenceram o Léo.
_Ah...
_Esse “ah” significa muita coisa, não é, amiga?
_Significa alívio e tristeza ao mesmo tempo.
_Alívio: Ele não a procurou porque não voltou. Tristeza: ele ainda

328
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

não voltou.
_Exatamente. Você disso tudo. Obrigada por ter me avisado, Lê.
Você sabe qual é a previsão do retorno deles?
_Meu pai disse que só na próxima semana. Como o Léo levou o
notebook está trabalhando quase que normalmente. O dr. Rafael
só não ficou também porque precisava comparecer em algumas
audiências e a Lígia também não podia mais se ausentar da
clínica.
Após desligar o celular, Suzana pensou: “ Doí menos saber que ele
ainda não voltou... mas, e se acontecer o que eu mais temo? E se
ele preferiu ficar mais alguns dias para me esquecer de vez... ele
não deve nem pensar em mim... é claro que não.

Leonardo resolveu fazer algo diferente com relação à Lúcia, pois


percebeu que ela ficou muito triste quando soube que ele ficaria
longe por mais alguns dias. Combinou conversar com ela pela
internet, usando webcam, assim ela poderia vê-lo mesmo que
fosse à distância.
Lúcia ficou bem animada com a ideia.
_E então? É melhor assim?
_Só um pouco, bom mesmo seria tê-lo aqui comigo.
_Serão só mais alguns dias, logo eu estarei aí.
_A minha mãe quer que eu saía com ela, mas eu disse que só vou
sair com você.
_Comigo? Para onde?
_Faz tempo que eu não vou...
_Onde? Pode falar.
_Ao cinema.
_Hum... então, você quer que eu a leve ao cinema. Tudo bem.
_Verdade? Jura?
_Preciso jurar?

329
Tânia Gonzales

_Não. Eu acredito em você, meu anjo.


_Ótimo. E você está bem?
_Estou. Vou continuar assim se o monstro não aparecer.
_O monstro? Ele disse que iria até aí?
_Disse.
_Disse para quem, Lúcia?
_Para minha mãe. Não quero que ele venha... meu anjo, você
precisa chegar logo.
_Acalme-se.
Leonardo conversou mais alguns minutos com ela e depois ficou
muito pensativo. “ Quando chegar lá eu preciso ter uma conversa
muito séria com a mãe da Lúcia. Preciso saber quem é o monstro,
embora eu já tenha uma ideia de quem seja.”

Passar todos aqueles dias em Fortaleza estava sendo ótimo para


Beatriz e Bruno, curtiram muito as belas praias. Leonardo só
concordou em prolongar a viagem por causa da insistência de
todos, mas, principalmente pelos avôs que estavam muito felizes
com a presença dos netos. Sentia um aperto no coração só de
pensar que já faziam 18 dias que não via Suzana, pois a última vez
fora justamente um dia após o evento de missões, quando ele a
levou para a faculdade. No dia seguinte, resolveu ligar para a
amiga Letícia, pelo menos iria saber se Suzana estava bem.
_Léo? Que surpresa! Puxa, como você demorou para ligar!
Esqueceu a sua amiga, é?
_Como eu poderia esquecer da minha melhor amiga? Estou com
muitas saudades. E aí, como estão todos?
_Depende. Sobre quem, especificamente você gostaria de saber?-
provocou ela.
_Sobre você e o Daniel, por exemplo.
_Sei... então, tá. Está uma grande confusão por causa da minha

330
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

intolerante mãe. Amigo, está tão difícil... pessoalmente a gente


conversa melhor, quando você volta?
_Logo.
_Logo? Isso lá é resposta? Você não está com saudades de uma
certa pessoa?
_Como ela está? Não quero saber detalhes, só se ela está
trabalhando e estudando normalmente e se está participando dos
trabalhos do grupo Alfa.
_Está estudando e trabalhando. Nós tivemos uma festa com todos
os grupos reunidos, eu, a Suzana e a Paulinha fizemos parte da
organização. Foi muito legal. Agora estamos aguardando a nova
formação dos grupos. Você deve estar louco para vê-la, não é?
_Leca, Leca... ah, eu tenho falado com a Lúcia.
_Você ligou para ela?
_Várias vezes. É uma situação muito delicada, eu não posso ficar
muito tempo sem dar notícia senão ela se fecha ainda mais.
_ E o doutor Leonardo já descobriu o porquê dela ter ficado desse
jeito?
_Tenho algumas suspeitas, mas preciso falar com a mãe dela.
Bom... vou desligar. Foi ótimo falar com você e...
_O que foi, quer mandar algum recado para uma certa pessoa?
_Não. Leca, você sabe se a sua mãe falou sobre aquele assunto
com a minha?
_Léo, sinceramente, eu não sei, está impossível manter um
diálogo com a minha mãe.
_Então, tchau amiga. Nos veremos em breve. Um beijo grande.
Adoro você.
_Ah... Léo, volta logo, você faz tanta falta! Um beijo maior ainda
e eu também te adoro.

Assim que o amigo desligou, Letícia fez uma ligação para Suzana.

331
Tânia Gonzales

_Atrapalho? Então, tudo bem, é que eu acabei de receber uma


ligação de alguém que está lá em Fortaleza...
_O Leonardo ligou? Ele está bem?
_Está.
_Que bom, eu fico feliz.
_Ai, ai, ai... vocês dois! Loucos para me encher de perguntas e
ficam nessa, ah... que bom... ela está bem? Ele está bem?
_Ele perguntou alguma coisa sobre mim?
_Ele fez igualzinho você. Quis saber se você estava bem.
_Só isso?
_Só. Perguntou se você está realizando as suas atividades
normalmente.
_Ele pensou que eu iria passar os meus dias deitada na cama, me
lamentando e chorando?
_Calma, Su. Eu sei o que é isso... é uma saudade louca, maluca.
_Ele ligou só pra isso?
_Perguntou sobre o meu complicado namoro.
_Disse quando volta?
_Agora você fez a pergunta que o seu coração estava pedindo.
_Letícia?
_Não. Ele disse simplesmente que vai ser logo. Logo foi a palavra
exata que ele usou.
_Logo? Logo quando?
_Não disse.

Após desligar, Suzana ficou muito pensativa, a amiga Cláudia,


percebeu que algo havia acontecido.
_Suzana, o que foi?
_Nada, é que eu recebi uma ligação de uma amiga e ela me deu
notícias do Leonardo.
_E...

332
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Ele não especificou o dia que vai voltar.


_E você está cada dia mais ansiosa.
_Não deveria, porque voltar de Fortaleza, com certeza ele vai,
mas isso não significa que ele volte para mim.
_Suzana, como você está apaixonada! Isso é lindo!
_Vamos mudar de assunto?

_Está sem sono, minha neta?- perguntou vovó Vivi, pois já


passava de uma hora da manhã e Suzana estava sentada em sua
cama.
_Desculpe por tê-la acordado, vó. Não estou conseguindo dormir.
_Pensando nele?
_É. Amanhã vai completar vinte dias que não o vejo.
_Que gracinha, está contando os dias!
_Ah, vó...
_ Eu já deveria ter voltado para Belo Horizonte, sua tia me liga
quase todos os dias, ela quer saber se eu resolvi morar aqui.
_Seria ótimo.
_Não posso ficar, mas, eu quero esperar até que você e o
Leonardo se entendam. Eu vim para passar um mês e …
_Vou sentir tantas saudades, vó! Agora, sobre o Leonardo eu peço
que a senhora não alimente muita esperança, não quero que fique
decepcionada.
_Tenho certeza que assim que ele chegar de Fortaleza, vai
procurá-la.
_Eu não tenho esta certeza.

333
Tânia Gonzales

Capítulo 30 -Expectativa
Mais três dias se passaram e finalmente a quarta-feira chegou.
Bruno, Beatriz e Leonardo pegaram o voo de volta para São Paulo
às nove horas da manhã. O avião aterrissou no aeroporto de
Guarulhos poucos minutos depois de uma hora da tarde. Rafael
foi recebê-los.
_Sejam muito bem-vindos. Já estava com saudades. A Lígia não
pôde me acompanhar porque havia um cliente marcado
exatamente neste horário- explicou Rafael.

_E aí, filhão? Você não precisa ir para o escritório hoje... - disse


Rafael após deixar a filha e o genro em casa.
_Tem certeza? Eu posso ir.
_Não precisa, você já adiantou muita coisa... trabalhou tanto! Lá
em Fortaleza você quase que fazia o mesmo horário daqui! Não
posso reclamar.

Leonardo chegou em casa tomou um banho, almoçou e depois foi


até a casa de Lúcia.
_Rita, antes que eu veja a Lúcia, eu gostaria de fazer uma
pergunta.
_O que você gostaria de saber?
_Quem está para visitar a Lúcia?
_O pai dela virá sábado.
_Ah... me desculpe, mas, como é o relacionamento dos dois?
_Nada fácil. Ela nem olha para ele.
_Tem algum motivo para isso ou seria por causa da separação de
vocês?
_Eu acho melhor você ir até o quarto dela agora, ela está muito

334
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

ansiosa!
_Tudo bem.

_Filha, olha só quem chegou de viagem!


_ Meu anjo, você voltou !
Lúcia abriu um sorriso enorme, o que não era nada comum, mas
não se aproximou de Leonardo; ela sempre mantinha uma certa
distância e ele não queria invadir o espaço dela.
_Você está bem?
_Agora eu estou ótima! O meu anjo está diferente... a sua cor...
_É verdade... as praias de Fortaleza são lindas! Peguei um
bronzeado.
_Ficou mais lindo ainda.
_Obrigado. Você está com uma aparência ótima.
_Vamos sair, hoje?
_Se você quiser.
_Eu quero.
_Então, eu vou esperar lá fora, está bem?

_A senhora gostaria de nos acompanhar?- foi a pergunta de


Leonardo para a mãe de Lúcia.
_Não, ela não iria gostar. Leonardo, você não imagina a alegria
que eu estou sentindo, são quase sete meses sem colocar os pés na
rua, você consegue imaginar isso?
_Sete meses? Ela saía bastante antes?
_Adorava ir ao shopping com a amiga dela, a Elisa, mas, de
repente foi se fechando e...
_Aconteceu alguma coisa?
_É melhor não falarmos sobre isso, ela pode escutar.

Ao sair do estacionamento do prédio Leonardo percebeu que

335
Tânia Gonzales

Lúcia havia fechado os olhos.


_Ei, Lúcia? Você está bem?
_Estou, é que faz muito tempo que não ando de carro e estou um
pouco tonta com o movimento.
_Ah... é natural, isso logo passa.
Durante o trajeto até o shopping Lúcia abriu os olhos duas vezes,
mas logo os fechava novamente.
_Chegamos. Eu vou abrir a porta para você, é bem provável que
sinta uma certa tontura ao sair.
Leonardo abriu-lhe a porta e ofereceu-lhe o braço, ela o olhou por
alguns instantes e por fim colocou o braço no dele.
_Vamos andar bem devagar, para que você se acostume, me avise
se estiver com tontura, certo?
_Certo.
_Lúcia? Você precisa abrir os olhos.
_Certo.
_Tem certeza que gostaria de ir ao cinema? Não sei se é uma boa
ideia... aquela tela enorme e você com tontura...
_Eu quero, por favor.
Lúcia sentia-se estranha, mas conseguiu caminhar bem devagar.
_Tudo bem?
_Espera um pouco... estou com medo.
_Não há motivo para sentir medo, estou aqui com você, fique
tranquila. Você confia em mim?
_Confio. Mas, são tantas pessoas...
_Sim, mas não precisa ficar assustada, estou aqui com você. O que
vamos assistir?
_Pode ser um desenho?
_Claro. Então, vamos.

Escolheram um conhecido filme de animação; Leonardo comprou

336
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

pipoca e Lúcia começou a sentir-se mais confiante. Durante o


filme, Leonardo percebeu que ela parecia uma criança. Ele ficou
admirado em como ela achava graça de tudo; Lúcia estava
realmente se divertindo.
_Nem vou perguntar se você gostou, está escrito em seu rosto-
disse ao saírem da sala de cinema.
_Adorei, foi muito legal! Obrigada.
_Não precisa me agradecer. Vamos comer?
_Vamos. Eu posso escolher?
_É claro. O que foi?
_Não estou me sentindo bem.
_Vamos parar um pouco, deve ser por causa do movimento...
segure em meu braço.

_Não acredito! Não pode ser!


_O que foi, Sueli?
_Como que ele pôde fazer isso com a minha irmã? Ela está
morrendo de saudades dele...
_Quem?
_Aquele rapaz de braço dado com... não acredito! Como que o
Leonardo teve a coragem de fazer isso com a Suzana? Ela pensa
que ele está em Fortaleza! Que canalha!
_Aquele gato é namorado da sua irmã? Ele é muito gos...
_Gato traiçoeiro é isso o que ele é!
_Pode não ser o que você está pensando.
_Sei... eu não esperava isso do Leonardo! Nem conversou com a
Suzana e já está com outra? Caramba! Eu vou atrás deles...
_Sueli! Vamos perder o filme, deixa isso pra lá, depois você
conversa com ele ou conta logo para sua irmã.
_Ele veio aqui pensando que não encontraria ninguém conhecido,
por que não foi aonde a Suzana trabalha, hein?

337
Tânia Gonzales

_Lá é bem mais longe, né? Sueli, vamos logo, esquece isso, depois
você resolve, eles já foram embora.

_E então? O que você vai querer?- perguntou Leonardo ao


chegarem à praça de alimentação.
_Você promete que não vai rir?
_Prometo.
_É que geralmente são as crianças que...
_Já sei.
_É que eu adoro aquelas bonequinhas!
_Tudo bem. Eu também vou pedir o mesmo, assim você ganha
duas.
_Você também?
_É isso aí, o lanche é pequeno, é melhor assim, eu comi muita
pipoca.

Às oito horas da noite Leonardo deixou uma Lúcia muito


sorridente em casa. Rita agradeceu tanto que ele ficou todo sem
jeito.
Chegou em casa, tomou outro banho, escolheu uma roupa com
bastante cuidado e saiu novamente. Os pais não estavam.

Suzana dava atenção a um cliente que estava com uma enorme


dúvida. A namorada faria aniversário e ele resolveu dar um
perfume, mas estava entre três opções e não conseguia se decidir.
_ A fragrância deste é bem suave, o senhor não disse que ela gosta
de perfume suave?
_É... mas este aqui é tão gostoso! Eu não sei... me desculpe, mas
eu sou tão indeciso!
_Fique à vontade, não se preocupe.
_Você poderia me mostrar mais duas opções?

338
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Tudo bem... olha só este... sinta... o que achou?


_Bem... é...
_Olha quem está entrando na loja com um bronzeado lindo!-
sussurrou Cláudia nos ouvidos da amiga, ao ver Leonardo se
aproximando.
Suzana olhou rapidamente e pensou que não iria conseguir
permanecer em pé. Era ele... Leonardo estava ali, fitando-a com
aquele lindo sorriso.
_Você me mostra outro? -perguntou o indeciso cliente.
_É... é... claro, só um minuto.
_Boa noite- disse Cláudia cumprimentando-o- o senhor poderia
aguardar um momento, é que a sua vendedora favorita está
atendendo um cliente.
_Boa noite, eu espero.
Suzana pegou outro perfume e mostrou ao cliente, que continuou
na dúvida. Leonardo não tirava os olhos dela e isso a estava
deixando mais nervosa ainda, ele percebeu que as mãos dela
tremiam muito.
_E então, o senhor já se decidiu?
_Bem... é... eu não disse que era muito indeciso? Para você ter
uma ideia do grau da minha indecisão, mesmo sabendo que ela
gostava de mim, eu demorei seis meses para pedí-la em namoro.
Você acredita? Mas, eu prometo que não vou demorar tudo isso
para escolher o perfume.
Enquanto o cliente falava, Suzana prestava atenção nele e às vezes
dava uma discreta olhada em Leonardo que continuava com os
olhos fixos nela.
_É... eu acho que vou levar este aqui... ou é melhor este outro? O
que você acha, hein?
_Não entendi?
_Eu quero uma ajuda... qual eu devo levar?

339
Tânia Gonzales

_O senhor quer uma opinião minha... então, eu acho que deveria


levar este aqui, porque ela gosta de perfume suave e este é muito
suave, é perfeito.
_É mesmo? Será? Ai, dúvida cruel! Ser ou não ser? Desculpe a
brincadeira, mas eu vou aceitar a sua sugestão. Vou levar este... ou
este? É... não, agora eu estou certo vai ser este mesmo que a
senhorita sugeriu e muito obrigado, você é muito paciente.
_Que isso! É o meu trabalho.
Após mais alguns segundos, Suzana estava livre para atender ao
seu cliente preferido.
_Boa noite, posso ajudá-lo?
_Pode... eu preciso de uma loção após barba, é a preferida da
minha namorada.
_Ah... eu vou buscá-la.
Suzana pegou a loção e entregou-a para Leonardo que, por um
breve momento, tocou naquela mão trêmula. Entreolharam-se por
alguns segundos.
_É esta, você acertou. Vou levá-la.
_Deseja mais alguma coisa?
_Eu desejo esperá-la lá fora, posso?
_Pode.

_Ainda faltam quinze minutos, o relógio hoje não está ajudando,


né?
_Para com isso, Cláudia, você está me deixando mais nervosa
ainda!
_Ele veio! Está mais gato do que nunca! Uau! Bendita Fortaleza
com a suas belas praias...
_Cláudia? Chega!
_Uma certa pessoa ainda ficou na dúvida se ele iria procurá-la!
_Ele está tão lindo! Eu adoro vê-lo com aquela camisa verde, é a

340
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

minha preferida!
_Você já disse isso para ele?
_Já.
_Que gracinha! Ele colocou pensando em você, que romântico!

Suzana saiu da loja com o coração disparado... a ansiedade era


grande... Leonardo se aproximou rapidamente.
_Oi, como você está?
_Bem. Quando você chegou?
_Hoje. Quer comer alguma coisa?
_Não.
Suzana estava tão ansiosa que se colocasse alguma coisa no
estômago com certeza iria vomitar. Definitivamente, comer não
era uma boa ideia.
_Você avisou …
_Eu falei com a sua mãe, pode ficar tranquila. Vamos?
_Vamos.
Suzana não conseguia se mover...
_E então? Vamos ou não?
_Eu não sei.
_Indecisão pega? Você está até parecendo o seu cliente.
_Tem razão. Vamos.
Andaram lado a lado; Leonardo, durante o caminho até o
estacionamento, olhou para ela várias vezes, mas Suzana não
virou o pescoço uma única vez. Entraram no carro e, de repente,
ela ficou muito envergonhada ao pensar que agora ele sabia de
tudo, ele conhecia o seu triste passado: “ O que será que ele está
pensando de mim? “
_Suzana, você está bem? Está tão pálida!
_E você está tão bronzeado!
_É... você gostou?

341
Tânia Gonzales

_Eu?
_Não precisa responder, você está tão nervosa! Acalme-se, não
estava esperando que eu fosse aparecer?
_Hoje não.
_Algum dia você esperou?
_Por que você sempre faz estas perguntas difíceis?
_Não precisa responder esta também.
_Como foi a festa de aniversário do seu avô?
_Foi show! Ele e a minha vó até dançaram valsa!
_Que legal!
_Você teria adorado... e a festa da REMA?
_Foi ótima, o pessoal estava animado como sempre.
_Eu fiquei sabendo que você ajudou na organização.
_É isso mesmo, foi bem legal trabalhar com a Paulinha e a Letícia.
A Paula é muito divertida!
_Com certeza. Eu fico feliz que ela esteja bem. E você, está bem?
_Estou.
_Suzana, eu...
_Leonardo, é melhor você não falar nada sobre aquele assunto.
O restante do trajeto até a casa de Suzana foi feito no mais
absoluto silêncio.
_Posso entrar?
_Eu acho que...
_Só um pouco.
_Você quer entrar para cumprimentar a minha vó e meus pais?
_Hoje não, eu só gostaria de ficar um pouco com você. Posso?
_Pode.
Entraram e por alguns instantes os dois permaneceram distantes, o
clima entre eles estava estranho, parecia que havia um obstáculo
que os impedia de se aproximarem um do outro.
_Suzana... eu senti tanta saudade, só fiquei todos esses dias longe

342
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

de você porque estava em Fortaleza, se eu estivesse aqui, com


certeza eu...
_Leonardo... eu...
_Eu só resolvi viajar porque a sua mãe me disse que você estava
muito envergonhada, então eu pensei que seria melhor dar um
tempo para você. Eu nunca tive dúvida que...
_Leonardo, você é livre para decidir, não se sinta na obrigação
de...
_Obrigação? Eu amo você. Você acha que me passou pela cabeça
desistir de você?
_Seria natural, depois de saber...
_ Eu pensei em ligar, mas, não seria bom conversar pelo telefone...
eu me segurei para dar um tempo para você sentir-se melhor.
_Você não merece uma namorada traumatizada como eu.
_Suzana, não fale assim. Eu a amo e sinto muito que tenha sofrido
tanto.
Suzana abaixou a cabeça e deixou que as lágrimas inundassem o
seu rosto.
_Minha princesa... como alguém pôde machucá-la? Como? Eu
não entendo... Suzana? Olha para mim, não precisa abaixar a
cabeça, não tenha vergonha, você não teve culpa de nada, é mais
uma vítima da crueldade de um... canalha...olha pra mim.
_Não... eu sinto tanta vergonha... eu nunca quis enganá-lo, mas é
tão difícil dizer... agora você sabe porque algo normal como um
namoro, pra mim é tão complicado! Você... sabe o quanto foi
difícil me... beijar; eu não quero que sofra, eu...
_Suzana, olha pra mim, me deixe enxugar as suas lágrimas... ei...
eu amo você.
_Você não deveria me amar.
_Minha princesa... fique pertinho de mim, não se afaste... eu a
amo tanto! Vem aqui..

343
Tânia Gonzales

_Eu estou morrendo de vergonha.


_Não... ah, meu amor... ei, como ele pôde machucar estes lábios
lindos?- Leonardo começou a acariciar os lábios dela com o dedo-
Eu vou cuidar deles com carinho... eles merecem muito carinho;
posso beijá-los? Eu posso?
_Leonardo...
_Eu posso?
_Sim... você pode.
_Ah... minha princesa, eu estou com tanta saudade deles, tanta...
meu amor... é isso que eles merecem- enquanto dizia estas
palavras, Leonardo tocava os lábios dela com os dele bem
suavemente- eles merecem carinho... eu a amo.
_Eu o amo... senti tanta saudade de você... eu pensei que não fosse
suportar!
_Ah... meu amor, eu também.
Neste momento as palavras não foram mais necessárias, os dois se
entregaram completamente àquele beijo apaixonado e através dele
puderam diminuir a imensa dor que a separação lhes havia
causado.
_Minha princesa, como é bom tê-la novamente em meus braços.
_Como você me fez falta! Eu cheguei a pensar que você não fosse
me querer mais e isso doía tanto!
_Como você pôde pensar isso? Ainda não entendeu que eu a amo?
Não posso ficar longe de você.
_E a sua família?
_Não se preocupe com isso, eu converso com eles.
_Eles já sabem, não é?
_Não sei. Eu acho que não, falei com a minha mãe pelo telefone
hoje cedo e ela estava normal. Não nos vimos ainda.
_Eles vão pedir para você terminar o namoro, com certeza.
_Eu não vou terminar o nosso namoro, só haveria um motivo que

344
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

me faria me afastar de você.


_Qual?
_Se você me pedisse isso, se você me dissesse que não me ama,
mas você teria que ser bem convincente.
_Ah...
_Qual é a sua próxima folga?
_Domingo.
_Perfeito. Eu quero passar o dia inteiro com você. Pense em
algum lugar que você queira conhecer.
_Um lugar? Não sei... assim, de repente, é difícil.
_Hum... o que você acha de passarmos o dia em Campos do
Jordão? Já esteve lá?
_Não, eu tenho vontade de conhecer.
_Perfeito. Vamos passar o dia em Campos do Jordão. Vou embora,
você precisa descansar, faltam cinco minutos para a meia-noite.
Amanhã eu vou levá-la para a faculdade, assim você pode dormir
mais um pouquinho.
_Não precisa.
_Precisa, sim. Agora, me dá um beijo de despedida.

345
Tânia Gonzales

Capítulo 31 -Lúcia?
Ao entrar, Suzana notou que a casa estava bem silenciosa, foi até o
seu quarto e lá encontrou Sueli que a estava esperando.
_Oi, já estão todos dormindo?
_Eles esperaram até onze e meia, a vovó está na tia Marisa. É,
pelo jeito o reencontro foi bom.
_Foi ótimo.
_Suzana, eu não quero ser a chata que vai colocar coisas na sua
cabeça e atrapalhar a sua felicidade, mas eu não conseguiria
dormir se não conversasse com você.
_O que aconteceu, Sueli?
_O Leonardo chegou hoje de Fortaleza?
_Hoje à tarde, por quê?
_Irmãzinha, ele comentou alguma coisa sobre ter ido ao cinema
hoje?
_Cinema? Não.
_Bom... eu vou falar! Fiquei com muita raiva hoje! Caramba!
Hoje, aproveitei a minha folga e eu fui com uma amiga ao
shopping, vi o Leonardo saindo de uma das salas de cinema com
uma garota.
_O Leonardo com uma garota?
_Tenho certeza que era ele, eu quase que fui atrás... eles estavam
juntos.
_Juntos?
_Juntos, abraçados.
_Não pode ser... ele chegou na loja antes das nove e meia.
_Eram mais ou menos sete horas quando eu os vi. Me desculpa, eu
sei que você estava feliz, não sei o que significa isso, mas que é
bem estranho, isso é, você concorda?

346
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_É muito estranho.
_Ele comentou se veio algum parente de Fortaleza, vai saber, de
repente é uma prima dele...
_Não disse nada. Como era a garota?
_Bem nova, deve ter mais ou menos a sua idade.
_Ele tem uma prima em Fortaleza, mas ela é mais velha que ele.
_Suzana, você deveria falar com ele.
_Eu nem vou conseguir dormir.
_Me desculpa, por que você não liga para ele, agora?
_Agora? Está tão tarde!
_E daí? É melhor do que ficar com a pulga atrás da orelha, né?
_Tem razão, eu vou ligar, agora.
_Vou deixar você à vontade, mas seja firme!

Enquanto Suzana estava conversando com a irmã, Leonardo


enfrentava um interrogatório da mãe, pois Sandra havia contado
tudo para ela naquela tarde.
_Mãe, vamos deixar este assunto para amanhã.
_Não. Filho, eu estou muito preocupada, isso é muito sério. É um
tipo de coisa que se carrega para a vida toda. Eu acredito que a
Suzana seja uma pessoa ótima, ela não teve culpa de nada, mas ela
vai conviver com esse trauma sempre e isso pode prejudicar o
relacionamento de vocês. Não quero que você sofra. Uma vítima
de... abuso sexual, pode ter sérias dificuldades para se relacionar
fisicamente, você está me entendendo?
_Calma, mãe. Nós nos amamos, vamos superar isso juntos.
_Falar é fácil, é tão romântico! Mas, a realidade é muito diferente!
_Lígia, deixe que o Leonardo descanse, amanhã vocês conversam
melhor- pediu Rafael.
_Eu estou muito preocupada.
_Mãe, fique tranquila... a Sandra não deveria ter contado, eu

347
Tânia Gonzales

queria conversar com a senhora e ela adiantou-se.


_Ela esperou até demais. A Sandra se segurou, esperou você
chegar de viagem.
_Agradeça a ela por mim- disse Leonardo com ironia- Eu vou
dormir e tente fazer o mesmo, não adianta ficar nesta ansiedade
toda e agora a senhora já sabe que o pai da Suzana não é um
monstro que espancou um pobre homem indefeso. Não podemos
julgá-lo e ele até já pagou pelo que fez, enquanto aquele... sujo, se
saiu bem. Boa noite para vocês.
Assim que ele entrou em seu quarto, o celular tocou.
_Suzana? Aconteceu alguma coisa?
_Me desculpe por ligar tão tarde, mas eu preciso falar com você.
Eu não conseguiria dormir se...
_Tudo bem, o que aconteceu?
_Leonardo, você … foi ao cinema hoje à tarde, ou melhor ontem,
afinal já é madrugada. Você foi ao cinema?
_Fui. Quem me viu lá?- perguntou Leonardo bastante surpreso.
_Minha irmã. Ela viu que você estava acompanhado de... uma
garota. É verdade?
_É verdade. Suzana, não pense que eu a estou enganando.
_Eu achei tudo muito estranho.
_Quando eu contar tudo você vai achar mais estranho ainda.
Bom... vou resumir, você precisa descansar, por isso vou deixar os
detalhes para amanhã. Suzana, eu saí com aquela garota, que se
chama Lúcia, porque ela precisa de ajuda. Ela está deprimida, e
bom... não sou psicólogo, embora a Leca diga que eu escolhi a
profissão errada, mas eu acho que ela sofre de síndrome do
pânico. Bom... ela não saía há quase sete meses. Permanece dentro
do quarto a maior parte do tempo.
_A Letícia sabe disso?
_Ela foi procurada por uma amiga, a Elisa, que é amiga da Lúcia.

348
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Um dia elas apareceram lá na igreja e...


Leonardo contou resumidamente sobre a primeira vez que viu
Lúcia e também explicou para Suzana sobre as visitas que tem
feito àquela infeliz garota.
_Meu Deus, que história! O que você acha que provocou tudo isso
na vida dela?
_Eu estou suspeitando de algo, mas, agora é melhor desligarmos,
descanse, minha princesa. Você entendeu, né? Eu sei que é algo
bastante incomum, mas o que eu poderia fazer?
_Entendi, mas não é fácil aceitar que o meu namorado faça visitas
para uma garota e saia com ela.
_Eu adorei o “ meu namorado “ e é claro que não é fácil. Amanhã
conversamos melhor. Um beijo.
Assim que Suzana desligou Sueli entrou no quarto cheia de
curiosidade. As irmãs conversaram por alguns minutos e depois
foram dormir.

Faltavam quinze minutos para as sete horas da manhã quando


Leonardo chegou para levar Suzana à faculdade.
_Bom dia, minha princesa. Dormiu bem?
_Bom dia, muito bem, há dias que não tinha um sono tão bom.
_Será que eu tenho alguma coisa a ver com isso?
_Tudo a ver.
_Que bom, mesmo com toda aquela história da Lúcia...
_Aproveite o caminho e conte mais alguma coisa.
_Bem... eu disse como ela me chama?
_Não.
_Meu anjo.
_Meu anjo? E por que será?
_Ela me vê como alguém diferente, eu não sei explicar... alguém
que veio para protegê-la, é isso.

349
Tânia Gonzales

_Leonardo... o que você faz quando vai visitá-la?


_Eu leio a Bíblia, ela sempre diz que gosta de ouvir a minha voz...
e então eu aproveito e explico algum versículo para ela, algo que
possa falar ao coração dela. Eu sinto que Deus tem me guiado
nisso, eu até me surpreendo com as minhas próprias palavras.
_Isso é bom... mas... é complicado, ela tem a minha idade, gosta
de ouvir a sua voz e tem uma foto sua debaixo do travesseiro.
_Ela dorme com uma almofada que tem o meu rosto estampado
nela, a Letícia também viu.
_O quê? Ah... ela está obcecada por você! Isso é tão perigoso,
Leonardo.
_Eu fiquei assustado ao ver a almofada, mas aos poucos eu fui
percebendo que ela usa esse “interesse” por mim como uma fuga,
ela tem a necessidade de fugir da realidade, eu não sei a razão
disso, mas, tenho certeza que aconteceu algo que a fragilizou.
Algo muito grave e eu acho que o pai dela tem a ver com isso.
_O pai dela? Você me disse ontem que os pais estão separados há
anos...
_É isso mesmo. Ele mora em outro estado, vem de tempos em
tempos, e ele está para chegar por esses dias e a Lúcia fica muito
nervosa ao falar nele.
_Cuidado, Leonardo. É um assunto muito delicado. Ela... esquece.
_O que foi? Você quer me perguntar algo, não é?
_Não, e de qualquer maneira, nós chegamos e eu preciso entrar.
_Espera um pouco... faça a pergunta, eu conheço esse seu olhar.
_É que... bom... ela se aproxima de você? Como é que... é... quer
dizer...
_Minha princesa, você não precisa ter receio, pode perguntar o
que quiser... eu compreendo a sua preocupação. Você quer saber se
eu tive algum tipo de contato físico com ela, não é?
_É.

350
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Suzana, eu sou um rapaz comprometido, ei... olha pra mim... a


Lúcia mantém uma certa distância, é interessante, é como se ela
me achasse... quase que intocável. Eu sei o que está passando
nessa sua cabecinha linda: Como é que a sua irmã viu nós dois
bem juntos, não é?
_É isso mesmo.
_Eu falei ontem que ela ficou quase sete meses sem sair de casa;
para você ter uma ideia, ela ficou com os olhos fechados até
chegarmos ao shopping. Foi muita sorte ela não ter desmaiado,
sentiu-se tonta por várias vezes, eu ofereci o meu braço para ela,
foi só isso. Mas, eu confesso que não me senti bem, era como se
eu estivesse fazendo algo errado.
_Entendi. Agora eu preciso ir, mas... foi ela quem pediu para você
levá-la ao cinema, não foi?
_Você está certa.
_E se por acaso ela pedisse para você... beijá-la?
_Suzana... por favor, não me fale uma coisa dessas!
_Nunca se sabe... o que você faria?
_Eu não quero nem pensar nessa possibilidade. Ótima aula pra
você.
_Eu tenho que concordar com a Letícia, você está na profissão
errada. E se já não bastasse ter uma namorada complicada, agora
aparece a Lúcia. Tchau.

Leonardo ligou para Sandra convidando-a para almoçarem juntos.


Desejava ter uma conversa séria com ela.
_Fiquei bem surpresa com o seu convite, nem falei para sua mãe.
_Foi melhor assim, senão, com certeza, ela estaria aqui. Sandra, eu
vou ser bem direto. Fiquei muito chateado ao saber da sua
conversa com a Suzana, a mãe dela me contou tudo. Eu não gostei
nada de saber que você fez a Suzana sofrer, eu sei que ela ficou

351
Tânia Gonzales

muito nervosa e que passou muito mal.


_Leonardo, eu não podia imaginar que … você sabe.
_Sim, mas não havia necessidade de fazê-la sofrer tendo que
reviver momentos tão terríveis. Você provocou... ficou falando
mal do pai dela, dizendo que ele era agressivo, como ela poderia
suportar ouvir tantos absurdos à respeito do pai e ficar calada?
Sandra, aquela família sofreu muito. São pessoas maravilhosas.
_Leonardo, eu tive a melhor das intenções, não queria que você
fosse enganado, mas eu não podia imaginar que ela havia sofrido
tamanha violência! A sua mãe está muito preocupada e com toda a
razão. Leonardo, uma pessoa que foi vítima de um... estupro,
carrega esse trauma por toda a vida e isso prejudica os seus
relacionamentos, eu só...
_Sandra, não fique colocando essas coisas na cabeça da minha
mãe. Eu amo a Suzana e não desistir dela por isso.
_São traumas profundos que...
_Pare com isso, Sandra. A Suzana sofreu muito e merece ser feliz.
Se for pela sua teoria as pessoas que são vítimas desse tipo de
violência devem ficar sozinhas para não prejudicar a vida dos
outros.
_Ela pode encontrar outra pessoa, não precisa ser você.
_Ah! Acontece que eu amo a Suzana e ela sente o mesmo por
mim. Eu estou disposto à enfrentar seja o que for para ficar ao
lado dela.
_Você está cego, eu concordo que ela é muito bonita, mas...
_Sandra, ela é linda por dentro, a Suzana é um doce de pessoa,
apesar de ter sofrido tanto! Ela é meiga, inteligente, sensível,
compreensiva e tem um coração enorme. Você foi tão dura com
ela e sabia que ela não falou mal de você uma única vez? Sandra,
eu gostei da Suzana desde a primeira vez que a vi, e olha que eu
não sou desses que acreditam em amor à primeira vista! Eu fui até

352
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

um shopping para comprar um perfume para minha mãe, com


tantas opções mais perto eu fui parar aonde a Suzana trabalha.
Quando eu vi a Suzana pela primeira vez ela estava atendendo à
um cliente e eu esperei para ser atendido por ela e depois de
alguns dias eu voltei lá, só para ficar perto dela por pouquíssimos
minutos, eu mesmo achei aquela situação ridícula, mas eu não
conseguia resistir e eu fiquei muito surpreso ao vê-la um dia lá na
IGAG conversando com a Lê, eu não acreditei que ela estava ali e
que pertencia à mesma igreja que eu. Sandra, eu creio que Deus
tem seus caminhos, ele tem os seus propósitos e eu acredito que
não foi por acaso que eu encontrei a Suzana. Você pode até achar
isso um absurdo, mas é assim que eu penso.
_Leonardo, isso é tudo muito lindo, romântico, mas na hora que...
_Sandra, é melhor você não falar mais nada sobre isso. Eu só
gostaria de pedir para que você não tratasse a Suzana mal, ela não
merece ser desprezada, não impeça a amizade dela com a Lê, as
duas se dão muito bem. Com relação ao namoro da Letícia com o
Daniel...
_Leonardo, agora é minha vez de dizer que é melhor você não
falar sobre isso.
_Você não é preconceituosa, só ficou decepcionada porque
esperava que eu e a Lê...
_Fiquei muito decepcionada. Vocês dois tinham tudo para dar
certo. Para que se envolver com pessoas que não têm nada a ver
com vocês? Eu não me conformo com isso.
_Sandra, o Daniel é uma pessoa excelente, dê uma oportunidade
para que ele demonstre isso, você precisa conhecê-lo de verdade.
Eu sei que a faculdade para você é muito importante e para ele
também, ele só parou porque o pai ficou arrasado e não conseguia
fazer mais nada após a morte da esposa. O Daniel adiou os seus
projetos para se dedicar à oficina do pai e ele está fazendo um

353
Tânia Gonzales

ótimo trabalho. Se ele fosse mau-caráter eu seria o primeiro à


concordar com você porque eu gosto muito da Lê, também quero
o melhor para ela. Sandra, pense na sua filha, ela está sofrendo.
Você sabe que tem uma filha de ouro, não seja tão dura com ela!
_Eu preciso voltar à clínica e você ao escritório.
_Pense nesta nossa conversa com carinho. Eu sei que você
também sofre com essa situação, o clima entre vocês duas está
péssimo e isso afeta a sua família. Converse com Deus e depois
tente um diálogo com a sua filha, você vai ver como as coisas vão
mudar. Eu tenho certeza que você ainda vai gostar muito do
Daniel.

354
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Capítulo 32 -Novamente o passado


_E então, tudo certo para domingo? - perguntou Leonardo ao
buscar Suzana.
_Acho que sim. Nós vamos chegar a tempo para o culto?
_Provavelmente não. Quero passar um dia bem tranquilo com
você, sem pressa. Eu... almocei com a Sandra.
_É mesmo? E como foi?
_Tivemos uma conversa bem séria, mas fomos civilizados, pode
ficar tranquila. Eu precisava falar com ela. A Sandra não é má
pessoa. Eu até consegui falar sobre a Letícia e o Daniel!
_E aí, acha que teve algum sucesso?
_Não sei, mas pelo menos eu mexi com ela. Tenho certeza que ela
vai refletir bastante. Princesa, amanhã eu vou visitar a Lúcia.
_De novo?
_Não faça este biquinho para mim, agora eu estou dirigindo e não
posso fazer nada com ele.
_Você já saiu com ela.
_Eu sei, mas o pai dela está para chegar e eu quero ver se
descubro alguma coisa antes disso.
_Leonardo, tenha cuidado.
_Não se preocupe, eu sou bem discreto. Que bom que chegamos,
agora eu posso cuidar desse seu biquinho lindo.
_Você...
_Eu?
_Você é... ímpar.
_Ah, não! Vamos começar tudo de novo?

Leonardo tinha razão ao dizer que mexeu com Sandra; após o

355
Tânia Gonzales

almoço ela não voltou para a clínica, foi até a casa do pastor Pedro
Gabriel para conversar com a esposa dele, a irmã Rute.
_O que a está preocupando, Sandra?
_Rute... eu fico até com vergonha de dizer, mas... a minha filha
está interessada no Daniel, o filho do Isaque, o mecânico.
_Qual é o problema? Ele é um ótimo rapaz. Ela não é
correspondida?
_Pelo contrário, os dois estavam até namorando escondido. Ele foi
até em casa para pedir a nossa permissão, mas eu não consigo
aceitar.
_Por qual motivo?
_Eu sempre sonhei em ver a minha filha namorando o Leonardo...
_Ah, agora estou começando a entender. Sandra, eu concordo que
o Leonardo é um rapaz maravilhoso, qual a mãe que não gostaria
de tê-lo como genro? Mas, se a Letícia gosta do Daniel... Sandra,
não estamos mais naquela época que os pais arranjavam
casamento para seus filhos. Você pode achar que a Letícia e o
Leonardo formam o casal perfeito, mas as coisas não funcionam
assim. O Daniel é um rapaz sério, cuida muito bem da família;
você sabe que a mãe dele morreu e que o Isaque ficou muito
deprimido e que foi o Daniel que tomou conta de tudo. Qual é o
problema? Qual é o real motivo para que você não aceite o
namoro dos dois? Seja sincera comigo.
_Ah, Rute... eu tenho vergonha de dizer, eu sei que Deus não está
nada satisfeito comigo.
_Pode falar.
_Eu olhava para o Leonardo e a Letícia juntos e pensava: Eles
formam o casal ideal; se dão muito bem e nossas famílias são
muito unidas. Era perfeito. Até que apareceu o Daniel e estragou
tudo. Em pouco tempo ele destruiu o que eu construí durante
anos! Ele não tem nada a ver com a minha filha, nada.

356
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Sandra, seja sincera, incomoda o fato dele ser negro?


_Rute...
_Sandra, não se envergonhe, pode falar.
_Incomoda muito, eu não quero ter netos negros, não quero.
_Ah, Sandra! Mas, é bom que você fale, muitas pessoas não
teriam a coragem de dizer uma coisa como essa. Muitas vezes
valorizamos coisas que não fazem a mínima diferença. As pessoas
são todas iguais, independente de raça, cor, posição social...
precisamos aprender a valorizar a essência, o que a pessoa é por
dentro, o caráter. Você busca harmonia física, a sua filha
encontrou o amor. Ore, tenha uma conversa franca com Deus, sem
máscaras, porque com ele, elas não adiantam, não funcionam, ou
melhor nem existem. Deus nos vê exatamente como nós somos,
não há disfarces. Então não adianta você fazer orações cheias de
enfeites, de firulas, porque Ele sonda o seu coração. Deus conhece
o que você tem de bom aí dentro e isso é ótimo, mas Ele também
conhece as coisas más; os pensamentos que você desejaria não ter.
Saber que existe alguém que nos conhece de verdade é
perturbador, nos preocupa e assusta. Sandra, deixe que Deus cuide
dos seus sentimentos, entregue tudo a Ele, sem reservas; você verá
que tudo vai mudar.
_Obrigada, Rute. Podemos orar juntas, agora?
_Sandra, eu acho melhor você ficar aqui sozinha, eu vou orar em
meu quarto, fique à vontade, o Pedro saiu e vai demorar para
voltar. Você precisa falar a sós com o Pai.

Sandra, no começo, não conseguiu falar nada, só chorava, mas,


aos poucos, ela fez a oração mais sincera que já havia feito em
toda a sua vida cristã.

_Pai, me perdoe! Eu tenho sido tão má e egoísta, tenho vergonha

357
Tânia Gonzales

dos meus sentimentos mesquinhos...eu não sabia que era


preconceituosa e racista... eu não consigo aceitar aquele rapaz, só
por causa da cor dele e isso é terrível. Confessar isso dói muito!
Tenho me comportado tão mal com a minha filha que é
maravilhosa, ela não merece isso... me ajuda... eu quero aceitar o
Daniel, eu quero amá-lo como a um filho. Retire de mim esse
preconceito horrível! Por favor, me perdoe! Tenho sido
intolerante e hipócrita... a Letícia tem toda a razão quando canta
aquele hino da família... “ recebi um novo coração do Pai,
coração regenerado, coração transformado, coração que é
inspirado por Jesus” 18 Pai, eu quero receber esse novo coração...
eu preciso de verdade... e me perdoe por ter magoado aquela
moça, a Suzana, ela não merecia isso, não merecia... já sofreu
tanto, ela precisa de alguém como o Leonardo, ela precisa muito.
Eu te agradeço por colocar pessoas na minha vida que não têm
medo de dizer a verdade. Obrigada, eu sei que com a sua ajuda eu
vou conseguir aceitar do fundo do meu coração, o relacionamento
da Letícia. É em nome de Jesus que eu oro, porque sei que por
causa do sacrifício que Ele fez na cruz, eu, mesmo sendo tão
pecadora, posso ter o privilégio de falar contigo, amém.

Rute voltou à sala e encontrou Sandra ajoelhada e chorando muito.


As duas se abraçaram e puderam sentir a comunhão que só a
presença de Deus pode proporcionar. Depois tomaram um
delicioso café com um pãozinho caseiro preparado por Rute.
Sandra saiu de lá revigorada. Foi até a clínica pois havia um
paciente com hora marcada. Aproveitou para ter uma conversa
com Lígia que ficou muito feliz com a nova atitude da amiga.

18 Corpo e família- Compositor: Daniel Souza

358
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_O quê? Eu não estou entendendo, Leonardo?


_Você sabe muito bem o que eu quero dizer... Suzana, não
mantenha essa distância de mim, eu sou o seu namorado... eu
quero aproveitar bem o nosso dia, afinal estamos só nós dois aqui,
podemos fazer tudo o que tivermos vontade.
_Não é bem assim... eu não estou te reconhecendo... você está
muito estranho hoje.
_Estranho, eu? Estou agindo normalmente. O que você acha que
os namorados fazem? Que só ficam nesses beijinhos sem graça?
Se você pensa isso está muito enganada. Suzana, minha princesa...
vem aqui... fica pertinho de mim, estamos sozinhos, eu te amo
tanto!
_Eu vou ficar longe de você, não estou gostando nada dessa sua
conversa. O que está acontecendo com você?
_O que está acontecendo comigo? Eu tenho uma namorada que
me nega um mísero carinho, é isso. Ela não compreende que
preciso ter a certeza de que ela me ama! Você acredita que para
conseguir beijar a minha linda namorada foi um sacrifício
enorme? Dá para acreditar nisso? Suzana, estamos só nós dois
aqui e nada!
_Parecia que você havia compreendido a razão do meu medo,
você foi tão atencioso e...
_Eu cansei de ser tão bonzinho! Basta! Minha princesa, vem
aqui... estamos perdendo tempo. Você acha que eu vim até
Campos do Jordão para olhar as lindas paisagens? Para curtir o
clima? Eu vim aqui para ter um pouco de privacidade com você. E
agora chega de conversa... nós viemos aqui para namorar e eu não
vou ficar satisfeito só com alguns beijinhos, não mesmo! Vem
aqui, Suzana.
_Não faça isso, eu pensei que você...
_Pensou que eu fosse o quê? Suzana, eu sou homem! Eu preciso

359
Tânia Gonzales

de você.
_Eu quero ir embora.
_Embora? Não mesmo! Não vou perder a viagem... você é uma
ingrata, é isso o que você é... eu tenho sido tão paciente com você,
acho que mereço uma recompensa.
_Não, por favor! Vamos sair daqui!
_Para começar eu quero que você me dê um beijo. Eu vou ficar
esperando, mas não demore, não sou tão paciente assim como
você imagina.
_Leonardo, não faça isso! Você está estragando tudo! Eu confiei
em você e...
_ O quê? Chega dessa conversa, você está falando demais. Se
você não quer se aproximar então eu vou até você, não vou
esperar mais...
_Não, por favor, não se aproxime... estou com medo de você.
_Medo de mim? Eu sou o seu namorado, eu mereço que você me
dê um pouco de atenção. Aquele homem conseguiu tudo o que
quis de você, e eu? Nada? Não, isso não vai ficar assim... eu quero
você e agora.
_Não, não, por favor, Leonardo, não se aproxime de mim...

Suzana acordou chorando e tremendo muito. Olhou para a vovó


Vivi e sentiu-se aliviada por ela estar em um sono profundo.

Durante o trabalho, Suzana pensou muito sobre o pesadelo da


noite anterior. Naquela noite, ao encontrar-se com Leonardo em
frente à loja, ela não conseguiu agir normalmente, quando ele se
aproximou para beijá-la, ela, inesperadamente, afastou-se.
_O que foi? Algum problema?
_Não. Está tudo bem. Vamos?
_Eu não vou ganhar um beijo? Eu fiz alguma coisa errada?

360
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Você não fez nada errado. Vamos?


_Suzana, o que foi? É por causa que eu fui visitar a Lúcia? Você
ficou chateada, não é? Eu fui até lá, mas nem falei com ela porque
ela estava dormindo. A Rita me disse que ela dormiu muito mal
ontem. O pai dela vai chegar terça-feira, deve ser por isso.
_Não fiquei chateada por você ter ido até lá.
_Vamos até o carro, lá nós conversaremos melhor.
Leonardo pegou a mão de Suzana que estava muito fria e úmida.
Suzana ficou calada durante todo o caminho até o estacionamento.
O silêncio foi quebrado por Leonardo assim que entraram no
carro.
_Minha princesa, o que aconteceu?
_Nada. Leonardo, você ficaria chateado se nós não fôssemos para
Campos do Jordão, domingo?
_Por que você mudou de ideia tão de repente?
_Eu não quero ir.
_Posso saber o motivo?
_Eu não estou com vontade, é só isso.
_Suzana, olha pra mim... eu já estou te conhecendo bem, sabia?
Aconteceu alguma coisa.
_Não foi nada e chega de me perguntar isso.
_É, seja o que for, deve ser bem sério.
Leonardo não conseguiu tirar mais nenhuma palavra dela.

_Posso entrar?
_Eu acho melhor não, não fique bravo comigo, eu estou muito
cansada hoje.
_Suzana, nós precisamos conversar, não se feche desse jeito, por
favor. Você está inacessível e isso é péssimo para o nosso
relacionamento. Deixe que eu entre, fale comigo.
_Ah... Leonardo, eu avisei que não seria uma boa namorada para

361
Tânia Gonzales

você, eu avisei.
_Não vamos ficar aqui no portão.
_Tudo bem...vamos entrar.
_Fale, o que aconteceu? A minha mãe te procurou?
_Não é nada disso. Eu não posso contar, você me odiaria.
_Como eu poderia odiá-la? Eu te amo. Vem aqui, fique perto de
mim.
_Não... eu não posso me aproximar de você.
_Por quê?
_Estou com medo.
_Medo de mim?
_Me perdoa! Eu não queria isso... eu não... você não merece isso.
_Suzana, fala comigo.
_Eu sou horrível!
_Não é não, você é linda! Por que você está tão longe de mim?
_Eu... tive um pesadelo com você, eu nem deveria contar isso,
você vai ficar muito zangado.
_Pesadelo comigo? Suzana, nós não podemos controlar os nossos
sonhos. Eu não sei o que aconteceu em seu sonho, mas seja o que
for, você não teve culpa e nem eu.
Com muita dificuldade, Suzana contou sobre o seu pesadelo para
Leonardo.
_Ah... agora eu entendi porque você se afastou quando eu fui
beijá-la. Então é por isso que você não quer viajar comigo!
Bom... eu não posso obrigá-la, se você não se sente segura
comigo... se não confia em mim, o que eu posso fazer?
_Isso machucou você, é lógico. Eu disse que você não deveria
namorar comigo, eu disse.
_Suzana...
_Eu sou uma ingrata mesmo, pelo menos nisso o Leonardo do
sonho tem razão. Você é tão bom pra mim e eu tenho a coragem

362
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

de sonhar esse tipo de coisa ?


_Ah, como se você tivesse poder sobre os seus sonhos! Suzana,
você se culpa demais, até pelos sonhos? Olha, nós não precisamos
ir para Campos, não tem problema algum.
_Você quer entrar um pouco?
_Eu gostaria de cumprimentar a sua família, mas já está tarde.
_É rapidinho, a minha vó quer vê-lo.

_Leonardo, quanto tempo! Já estava com saudades, como você


está bronzeado!- disse alegremente a vovó Vivi.
_Oi, vó, fico feliz em vê-la. Também estava com saudades. E o
restante da família?
_A Marina está trabalhando, o Davi já foi dormir e a Sueli não
chegou da faculdade ainda. Domingo vocês vão fazer um belo
passeio, não é?
_Bem... é que …
_Vamos sim, vó.
_Antes que eu volte para Belo Horizonte, eu quero marcar um
jantar, certo?
_Certíssimo, pelo jantar, agora sobre a senhora voltar para BH,
não concordo.
_Eu preciso ir, a minha filha me espera, ela está tão ansiosa!
_Vou ficar com muitas saudades.
_Você pode me visitar lá.
_Eu vou, pode estar certa disso. Boa noite, vó.
_Boa noite, meu neto querido.

_O que foi aquilo? Por que você não disse para sua vó que nós não
íamos mais?- perguntou Leonardo ao se aproximarem do portão.
_Porque nós vamos.
_Vamos? Suzana, você disse que...

363
Tânia Gonzales

_É um absurdo não irmos por causa de um sonho bobo.


_Eu não quero que você faça isso só para me agradar.
_Eu quero ir para Campos com você. Eu nem deveria ter contado
o sonho.
_Então tudo bem, tchau.
_Só isso? Não vai me dar um beijo?
_Você me evitou lá no shopping, lembra? Eu não quero forçar
nada, eu não sou aquele Leonardo do seu sonho.
_Você está magoado e tem toda a razão. Leonardo, não vai embora
assim... vem aqui, vem... eu confio em você, eu não tenho medo,
me perdoa.
Suzana se aproximou, colocou a cabeça no ombro dele e começou
a acariciar-lhe o rosto. Depois afastou-se um pouco e ficou
olhando para ele por alguns segundos, em seguida puxou-o para
perto, encostou o rosto no dele e ficou apreciando o perfume da
loção após barba que ela adorava. Leonardo permaneceu imóvel,
deixando que ela tomasse a iniciativa.
_Eu confio em você... confio... eu amo você- dizia ela enquanto
dava pequenos beijos no rosto dele... aos poucos os lábios dela
tocaram os dele e ela o beijou, a princípio bem suavemente; até
aqui, Leonardo deixou-a no controle, sem nem sequer abraçá-la...
mas quando ela intensificou o beijo, ele a apertou sobre o seu
peito e a beijou apaixonadamente.
_Boa noite, minha princesa e não sonhe comigo.
_Não gostei da piada.
_Tem razão, foi bem sem graça. Boa noite. Até amanhã.

364
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Capítulo 33 -Campos do Jordão

Ao buscar Suzana naquela noite de sábado, Leonardo percebeu o


quanto ela estava se esforçando para animá-lo. Falou o tempo todo
sobre o passeio que fariam no dia seguinte. Comentou sobre os
pontos turísticos e em como estava ansiosa para ver tudo.
_Nossa, que animação! - foi o comentário dele.
_Você que não está nem um pouco animado, não é?
_Não é isso. Suzana você não precisa demonstrar algo que não
está sentindo. Não combina com você. Não adianta disfarçar. Você
não está tão ansiosa assim por causa do passeio. Você está é
preocupada, isso sim.
_Não é verdade. Eu estou animada por causa da nossa viagem
para Campos do Jordão, sim.
_Tudo bem, eu vou fingir que acredito. Bom... até amanhã.

Suzana levantou-se às seis horas da manhã aliviada por ter


dormido tranquilamente. Tomou banho e foi fazer um café,
apesar de ter combinado com Leonardo que tomariam o café
juntos em alguma padaria, mas seria só um cafezinho puro para
despertar.
Quando faltavam dez minutos para as sete, ela recebeu um torpedo
do namorado dizendo que já estava esperando no portão. Pegou a
sua bolsa e saiu para encontrá-lo. Estava vestida com jeans,
camiseta e um tênis bem confortável.
_Bom dia, minha princesa. Dormiu bem?
_Dormi maravilhosamente bem- disse ela cumprimentando-o com
um carinhoso beijo.
_Você está linda, mesmo com essa carinha de sono. Eu tenho uma
surpresa para você, ou melhor, duas.

365
Tânia Gonzales

_Surpresa?
_Olha só quem vai conosco...
Letícia e Daniel estavam dentro do carro e também iriam para
campos do Jordão.
_Não acredito! Vocês dois juntos? A sua mãe...
_Ela sabe. Estamos aqui com permissão.
_Que legal!
_Oi, Suzana, Deus fez um milagre! - disse Daniel todo sorridente.
_Su, Deus usou o São Leonardo e também a irmã Rute para
conversar com a minha mãe- explicou Letícia toda animada.
_São Leonardo?
_É isso mesmo, Su. O Léo almoçou com ela...
Durante o caminho, Letícia contou sobre a conversa da mãe com a
irmã Rute. Após alguns minutos, eles pararam em uma padaria.
_Vamos tomar um belo café? - perguntou Leonardo- depois eu
gostaria de saber como foi a sua conversa com a Sandra, certo,
Leca?
_Vou contar tudo.

Suzana aproveitou que Daniel e Letícia estavam um pouco


distantes para perguntar algo ao namorado.
_Leonardo, você convidou os dois só por causa daquele sonho,
não foi?
_O quê? Eu quis convidá-los. Você não gostou?
_É claro que eu gostei! Só não gostei do motivo. Você não havia
pensado em convidá-los. Eu...
_Minha princesa, eu só queria que você tivesse um belo dia em
Campos do Jordão, sem se preocupar com nada, sem medos e...
_Está vendo só? Se nós fôssemos sozinhos eu não...
_Tudo bem... esqueça isso. Eu tive a ideia, só que não imaginei
que seria possível. Eu fiquei bem surpreso com a reação da

366
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Sandra.
_Você acha que eu não confio em você, não é? Leonardo... me
perdoe.
_Suzana, para com isso! Você não tem culpa se sonhou que...
_Não tenho culpa por ter sonhado, mas por ter evitado o seu beijo
e por não querer mais viajar, eu tenho culpa sim.
_Chega... vamos tomar café, eles estão nos esperando. E não fale
mais sobre este assunto.
Suzana concordou, mas estava se sentindo muito culpada.

_E então, Leca? Como foi a conversa com a sua mãe? - perguntou


Leonardo ao entrarem no carro após tomarem o café.
Letícia lembrou da conversa especial que teve com a mãe na tarde
de sábado.
_Filha, preciso falar com você.
_Pode falar, mas se for sobre o Daniel....
_É sobre ele mesmo que eu quero falar. Me escute, filha, eu sei
que tenho sido muito intransigente com relação ao seu namoro. Eu
confesso que fiquei muito decepcionada. Eu esperava que o
Leonardo....
_Mãe? Vai começar tudo de novo?
_Fique tranquila. Deixa eu falar... eu esperava que você e o
Leonardo namorassem; era o meu sonho e por isso fiquei tão
decepcionada. Eu disse que era o meu sonho, mas não era o seu e
nem do Leonardo. Doeu muito, fiquei arrasada e fechei o meu
coração. Eu não me conformava com o fato da minha filha estar
namorando alguém que não fosse o Leonardo. Para mim era
inadmissível. Eu sei que magoei vocês. Fui injusta até com a
Suzana, eu sei que preciso ter uma conversa com ela também. Eu
olhava para a Suzana e sentia raiva porque o Leonardo estava
apaixonado por ela e não por você. Filha, ontem eu almocei com o

367
Tânia Gonzales

Leonardo e depois fui até a casa da irmã Rute. Deus usou os dois
para abrir os meus olhos; eu estava me sentindo péssima... não
conseguia aceitar o Daniel e isso era um absurdo! Eu abri o meu
coração para Deus, e então eu enxerguei que estava sendo
preconceituosa. Foi duro reconhecer o meu erro, mas depois veio
um alívio enorme. Por isso eu quero pedir perdão para você e ao
Daniel também e dizer que a partir de hoje vocês têm a minha
permissão para namorarem.
_Mãe? Ah... mãe! Obrigada! Me perdoe também por ter falado
algumas coisas que...
_Você não precisa me pedir perdão, eu estava errada.
_Minha mãe! Estou tão feliz! Não imagina o alívio que estou
sentindo, não aguentava mais ficar sem conversar com você, mãe!

Mãe e filha se abraçaram e permitiram que as lágrimas fluíssem


livremente.

_Depois desta conversa, eu liguei para o Daniel e à noite ele foi


até em casa e pediu novamente permissão para namorarmos e foi
ótimo, minha mãe até o abraçou e pediu perdão também.
_Que benção! Deus sempre nos surpreende - comentou Leonardo.
_Letícia, estou tão feliz por vocês! - disse Suzana com
sinceridade.
_Deus é fiel! Eu orei tanto, chorei, clamei - disse Letícia.
_E aqui estamos. Deus agiu em nosso favor- completou Daniel.

Durante o percurso até Campos do Jordão eles mantiveram uma


animada conversa. Às 10 horas chegaram à “Suíça brasileira”.
Foram para a Vila Capivari que é o principal centro turístico da
cidade. Após caminharem um pouco, pegaram o Bondinho Urbano
que é um pequeno trem turístico. Ele sai da Estação de Vila

368
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Capivari e faz um percurso que dura aproximadamente 40


minutos. Depois andaram de Teleférico e conheceram o Morro do
Elefante. Após um delicioso almoço, Leonardo sugeriu que eles
fossem para o Parque dos Lagos que é uma das áreas naturais mais
importantes e visitadas e é localizado a 11 km do centro da
cidade. Andaram um pouco pelo parque e depois fizeram um
passeio de barco. Os dois casais apreciaram muito o passeio.
Após um lanche rápido continuaram a visita pelo parque.
Eram sete horas quando eles retornaram para a Vila Capivari.
_Eu não sei quanto à vocês mas eu estou cansado e com fome!
Que vocês acham de um delicioso jantar antes de voltarmos?-
perguntou Leonardo.
Todos concordaram e após um apetitoso jantar eles pegaram a
estrada.

Às 23h Leonardo já estava sozinho com Suzana na garagem da


casa dela.
_Adorei o passeio. Eu só não posso dizer que estou
completamente feliz porque eu sei que... - Suzana não conseguiu
completar, foi interrompida por Leonardo.
_Suzana, não começa... o passeio foi maravilhoso.
_Eu preciso falar, Leonardo. Você tem razão ao dizer que o
passeio foi maravilhoso e eu fiquei muito feliz pelo namoro da
Letícia e o Daniel agora ter a aprovação da Sandra e eu adoro a
companhia deles, mas eu não me perdoo... eu sei que você ficou
magoado. Você fez questão de convidá-los para que eu viajasse
tranquila. Leonardo eu não tenho medo de você, eu confio em
você, acredite em mim!
_Minha princesa, você não precisa falar estas coisas, eu sei que
você confia em mim. Meu amor...
Após dizer isso, Leonardo se aproximou dela e a beijou.

369
Tânia Gonzales

_Me perdoa...
_Não precisa pedir perdão, minha princesa.
_Diz que me perdoa, por favor!
_Se isso fará você se sentir melhor, tudo bem, eu a perdoo.

370
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Capítulo 34 -O pai de Lúcia


Lúcia acordou muito assustada, era terça-feira. Ela pegou o celular
e ficou pensando se deveria fazer uma ligação, verificou a hora:
passava das nove horas da manhã. Decidiu ligar.
_Alô? Sim, é o Leonardo. Lúcia? Você está bem? Você quer que
eu vá até aí, agora? Calma. Aconteceu alguma coisa? Ele vai
chegar às 11horas? Lúcia... fique tranquila. Tudo bem, eu vou sair
daqui agora mesmo. Tchau.
Leonardo resolveu passar em sua casa e pegar o violino, ele havia
prometido que tocaria para Lúcia e achou que aquela era uma
ótima oportunidade.
_ Leonardo, eu agradeço a sua atenção, eu sei que você deveria
estar trabalhando agora, mas ela está tão aflita! - disse Rita ao
recebê-lo.
_Não se preocupe, eu vou conversar com ela.
Segundos depois, Leonardo entrou no quarto de Lúcia tocando o
seu violino.
_Meu anjo... meu anjo... que som mais lindo! Toque mais, não
pare.
Leonardo tocou uma música bem suave que ele mesmo compôs.
_Esta música é linda! Toque mais - pediu Lúcia.
_Agora eu gostaria de ter uma conversa com você, Lúcia. O seu
pai está para chegar.
_Eu sei... estou com medo! Não quero ficar sozinha com ele, por
favor, fique comigo!
_Fique calma, Lúcia, por que você... - Leonardo fez uma pausa,
pois não tinha certeza se deveria fazer aquela pergunta, mas
resolveu arriscar- por que você tem medo de seu pai?
Lúcia abaixou a cabeça e ficou em silêncio.

371
Tânia Gonzales

_Lúcia, me responda! Ele machucou você?


Sem obter resposta, Leonardo insistiu:
_Lúcia, o que ele fez? Qual o motivo para tanto medo? Ele
machucou você?
_Ele machucou o meu coração.
_Como? O que ele fez?
_Machucou o meu coração... ele machucou o coração dela,
também, mas não foi só o coração dela … ele a machucou muito...
_Quem é ela?
_Ela... ela... era tão linda.
_Ela quem, Lúcia?
_Ela.
Foram interrompidos por uma batida na porta. Era Rita
anunciando a chegada de seu ex-marido.
_Fique perto de mim, por favor!
_Calma, Lúcia.
Leonardo chegou bem perto e segurou a mão de Lúcia que estava
muito fria e úmida.
_Você quer ir até a sala?
_Só se você não deixar ele se aproximar de mim.
Leonardo concordou mesmo sem saber se isso seria possível.
Ao chegarem à sala Lúcia se posicionou atrás de Leonardo e ficou
apertando a mão dele com muita força.
_Minha filha, como você está linda! - disse o homem alto e
musculoso- Vem aqui eu quero dar um abraço bem forte e vários
beijos.
Lúcia continuou atrás de Leonardo sem dizer uma palavra, ele
ficou sem saber o que fazer. Observou, por alguns segundos,
aquele homem que aparentava ter uns 50 anos e chegou à
conclusão que ele deveria ter uns dois metros de altura. O pai de
Lúcia tinha uma aparência imponente.

372
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Lúcia, fale com o seu pai.- pediu Rita meio sem jeito.
_E então? Vai ficar aí se escondendo de mim? E este rapaz é o seu
namorado?
Como Lúcia continuava parada e sem dizer nada, Leonardo
resolveu se apresentar:
_Eu sou um amigo dela, meu nome é Leonardo.
_Leonardo, muito prazer, eu sou Valter.
_Eu quero voltar para o meu quarto- pediu Lúcia quase
sussurrando para Leonardo.
_Minha filha, há quatro meses que eu não a vejo e é assim que sou
recebido? Eu quero um abraço e um beijo. O que o rapaz vai
pensar?
Valter se aproximou de Lúcia, a abraçou e beijou, mas ela ficou
dura como uma pedra e assim que se viu livre dos braços dele,
correu para o quarto.
_Jovens! Quem os entende? Ela deve estar brava porque eu
demorei muito para visitá-la; mas eu sou muito ocupado. É a vida,
Leonardo, é a vida!
_Bom, eu... vou conversar com ela, com licença- disse Leonardo
para em seguida sair rapidamente da sala.
_Rita, você deixa esse rapaz entrar no quarto dela?
_Valter, não pense bobagens, ele a está ajudando muito, é muito
atencioso.
_Atencioso... sei.
_Você não tem o direito de pensar mal dele, eu não vou admitir
isso.
_Nossa! Ele também conquistou você?
_É melhor ir embora, você sabe muito bem o quanto a sua
presença faz mal à nossa filha.

No quarto de Lúcia...

373
Tânia Gonzales

_Fala comigo, Lúcia! Por que você está assim? Você ficou
apavorada ao vê-lo, por quê?
_Eu não quero falar. Só quero que ele vá embora e não volte
nunca mais.
_Por quê? O que ele fez com você?
_Ele... acabou com os sonhos dela, ele a machucou.
_Como? O que ele fez? A sua mãe sabe?
_Minha mãe sabe de tudo.
_Lúcia, foi por isso que eles se separaram?
_Não quero falar.
_Lúcia, eu quero muito ajudá-la, mas se você não...
_Por favor, meu anjo, chega.
_Tudo bem, se você não quer falar eu vou respeitar a sua decisão.
Lúcia, eu preciso ir, tenho que voltar ao trabalho. Amanhã eu
volto.
_Meu anjo, obrigada.
_Não precisa me agradecer.
Leonardo saiu do quarto e encontrou Rita no corredor.
_Ele já foi?
_Acabou de sair. Como ela está?
_Assustada. Rita, eu já percebi que é um assunto que vocês duas
evitam, mas, eu preciso saber...
Leonardo não conseguiu completar, foi interrompido por Rita.
_Eu peço que você não insista, quem sabe um dia eu conte, mas eu
gostaria que a Lúcia tomasse a iniciativa de contar para você.
_Ah, tudo bem, o que eu posso fazer? Bom... preciso ir, volto
amanhã.
_Agradeço muito. A sua presença é muito importante para a minha
filha.
Leonardo se despediu, já estava perto da porta quando lembrou
que havia deixado o violino no quarto de Lúcia.

374
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Eu esqueci o meu violino no quarto da Lúcia, você poderia pegá-


lo para mim?
_Claro.
Rita já estava se encaminhando até o quarto da filha quando o
telefone tocou.
_Leonardo, você mesmo pode buscar, vou atender ao telefone.
Ele se aproximou do quarto de Lúcia que estava com a porta
entreaberta, ia bater, mas mudou de ideia ao ouvir a voz de Lúcia.
_Eu sinto muito, amiga! Me perdoe... você sofreu tanto! Minha
amiga querida... ele é um monstro, um monstro... como deve ter
doído! Minha amiga... minha amiga.
Leonardo estava impressionado com as palavras de Lúcia, ele
esperou por mais alguns segundos, e, como ela estava em silêncio,
resolveu dar uma leve batida na porta.
_Entre.
_Lúcia, me desculpe, mas eu deixei o meu violino aqui.
_Meu anjo... ele... ele foi embora?
_Ele já foi. Você está melhor agora?
_Um pouco. Você pode tocar algo para mim, rapidinho.
_Eu toco. Eu gosto muito de um louvor que diz assim: “ Perto
quero estar, junto aos teus pés, pois prazer maior não há, do que
me render e te adorar...”19 Vou tocar, porque a minha voz não é
tão boa.
_Eu acho que a sua voz é linda.
_Você é um anjo.
Leonardo começou a tocar e Lúcia fechou os olhos, poucos
segundos depois as lágrimas começaram a molhar o seu rosto. Ele
continuou tocando e quando terminou se aproximou daquela
atormentada garota e a abraçou com carinho; Lúcia nunca havia se

19 Perto quero estar-Compositor: Desconhecido

375
Tânia Gonzales

sentido tão segura, aquele abraço a confortou, as lágrimas


continuaram a rolar.
_Obrigada, Leonardo, obrigada. Não sei o que seria de mim sem
você.
_Querida... você pode contar comigo, sempre vou estar ao seu
lado. Lúcia, você confia em mim?
_Claro que confio.
_Então me diga o que aconteceu. O que ele fez? Quem é esta
pessoa que ele machucou?
_É algo muito feio, eu tenho vergonha de dizer.
_Lúcia, o seu pai... ele...
_Não fale, meu anjo- Lúcia colocou a mão na boca de Leonardo-
Não fale, é muito feio, é horrível.
Leonardo tirou a mão dela que estava fechando a sua boca e a
acariciou.
_Lúcia, quem é esta pessoa que o seu pai machucou? É você?
_Chega. Eu não quero contar.
Leonardo pegou o violino colocou em seu estojo, deu um beijo no
rosto de Lúcia e saiu do quarto. Resolveu não insistir mais com o
assunto, pelo menos por enquanto. Ao sair de lá teve a ideia de
fazer uma visita a um amigo da igreja.
_Léo, que surpresa! Você aqui em meu humilde consultório? -
disse Henrique com alegria.
_Henrique, meu amigo, me desculpe por não ter ligado, será que
você teria um tempinho?
_É claro, Léo. Sente-se e fique à vontade. Aceita um café?
_Aceito, obrigado.
Henrique era formado em psicologia e tinha um consultório há 6
anos. Ele era membro da IGAG desde a adolescência; agora estava
com 32 anos e era casado com Shirley, uma sobrinha do pastor
Pedro Gabriel.

376
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Henrique, eu gostaria de saber a sua opinião sobre um assunto.


Leonardo contou tudo, desde quando conheceu Lúcia até a visita
do pai dela; Henrique ouviu atentamente sem interrompê-lo.
_O que você acha? Esta amiga que ela se refere, pode ser ela
mesma?
_Léo, eu já atendi mais de um caso exatamente assim. A pessoa
não consegue dizer que aconteceu com ela, então ela inventa
alguém. Eu tive uma paciente que deu nome, sobrenome, idade,
profissão... tudo diferente dela e no fim era ela mesma. É um tipo
de proteção que a pessoa cria. Ela tem a necessidade de falar algo
sobre o assunto, mas não deseja se expor. Pode ser o caso da sua
amiga. Você poderia tentar trazê-la aqui.
_Ah...acho que não. Henrique, ela não se abre, eu fico deduzindo
pelo o que ela diz. Eu acho que só pode ser abuso sexual, mas...
_É bem provável, mas pode ser também que ele batia muito nela
quando ela era criança. Você disse que a Lúcia ficou apavorada,
então não pode ser só uma raiva por ele ter se separado da mãe,
por exemplo.
_Não, isso não, e foi a mãe dela que quis a separação. A Lúcia
disse várias vezes que ele é um monstro e ao vê-lo ela ficou
desesperada, dava para ver o quanto ela tem medo dele.
_Pelo que você me contou ela confia em você, então é só uma
questão de tempo, ela vai contar. Léo, é necessário muito tato para
tratar desses assuntos, precisa ir bem devagar. Não convém ficar
insistindo. A sua companhia e a sua compreensão a está ajudando
muito, então continue assim, eu sei que não é fácil, ainda mais
para você que tem uma namorada, mas não se afaste dela agora.
_Eu sei, amanhã eu vou voltar para visitá-la. Henrique, mais uma
coisa: nos casos de abuso sexual... é... é um trauma que a pessoa
carrega por toda a vida? Alguém que sofreu uma violência assim,
consegue superar e … bom... consegue se relacionar normalmente,

377
Tânia Gonzales

ou...
_Léo, é um trauma profundo porque é uma violência terrível. Note
bem, uma garota que foi vítima de um estupro, teve a sua
intimidade violada. Alguém chega de repente e invade o corpo
dela. Tem todo um processo de recuperação, muita conversa,
carinho dos familiares, mas com muito cuidado, porque há garotas
que ficam com muita dificuldade, elas não conseguem sequer ser
abraçadas, ficam apavoradas. Eu tive uma paciente que sofreu um
abuso quando tinha 13 anos , o trauma foi tão grande que ninguém
podia se aproximar dela, nem a própria mãe. Demorou um bom
tempo para que ela permitisse a aproximação. A palavra chave:
compreensão; outra: paciência. Mas, muitas conseguem superar,
formam uma família e são felizes. Meu amigo, você já pensou em
mudar de profissão?
_Henrique, não brinca. Tratar com o emocional das pessoas não é
para qualquer um, eu deixo isso com você. Eu acabei entrando
nessa situação e agora não tem para onde fugir e nem quero; eu
me preocupo muito com a Lúcia e gostaria que ela vivesse como
uma jovem de 19 anos, que estivesse estudando, trabalhando,
namorando...
_Ela vai superar isso. Se você quiser que eu vá visitá-la...
_Henrique, eu tenho medo que ela fique chateada e perca a
confiança em mim.
_ Tudo bem. Continue sendo um bom amigo para ela.

Leonardo voltou para o trabalho e não conseguia parar de pensar


em Lúcia e em seu conturbado relacionamento com o pai. Pensou
muito em Suzana também e na resposta que Henrique deu para a
pergunta dele sobre ser possível superar o trauma de uma
violência tão grande como o estupro.
À noite foi buscar a namorada no trabalho e contou tudo o que

378
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

havia ocorrido naquela manhã na casa de Lúcia e também sobre a


sua conversa com Henrique, mas preferiu omitir a última pergunta
que havia feito ao amigo, não queria que ela se entristecesse.
_Leonardo, cuidado com esse homem, se a Lúcia tem tanto medo,
ele deve ser perigoso. Você precisa mesmo voltar lá amanhã?
_Preciso, eu não posso abandonar a Lúcia nesse momento, eu
espero que você compreenda.
_Sim, eu entendo, mas eu tenho medo que possa sobrar para você,
esse homem...
_Fique tranquila, logo ele volta para a cidade dele. Ele tem
muitos negócios em Porto Alegre. A mãe da Lúcia me contou que
após a separação deles, ela mudou-se para cá com a filha e ele foi
para Porto Alegre e casou-se novamente, tem dois filhos. Eles
eram de Minas Gerais.
_É mesmo? Qual cidade?
_Não sei. Ela só me disse que moravam em Minas. Vamos parar
com esse assunto, agora eu quero...
_O que você quer?
_Você não consegue adivinhar?
_Hum... deixa eu pensar... será que é algo que eu também quero?
_Eu espero que sim, minha princesa.
Leonardo chegou mais perto dela e beijaram-se longamente.
_Ah... que bom... isso me faz esquecer de tudo. Suzana, eu amo
você.
_É tão gostoso ouvir isso, e eu o amo também, muito, muito,
muito.

Naquela noite, ela teve um pesadelo. Estava caminhando em uma


rua deserta, ouviu alguns passos... havia alguém atrás dela... ela
andou mais rápido e depois começou a correr... os passos
continuavam e estavam cada vez mais perto, ela corria mais e

379
Tânia Gonzales

mais rápido e percebeu que a pessoa também estava correndo. De


repente ela escorregou e caiu, sentiu que alguém a levantou,
quando ergueu a cabeça, ela o viu... e agora? Como iria escapar?
Não havia mais ninguém ali. Ele deu um sorriso e disse:
_Que saudades! Pensei que nunca mais me encontraria com você,
minha menina linda!
Suzana acordou assustada.

380
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Capítulo 35 - Nunca fui beijada


Eram duas horas da tarde quando o celular de Leonardo tocou, era
Lúcia suplicando para que ele fosse até a casa dela pois o pai
havia avisado que chegaria às três horas.

_ Eu sinto muito, Leonardo, eu sei que você precisa trabalhar, mas


ela só consegue se sentir segura com você por perto- explicou
Rita.
_Não se preocupe, eu vou lá conversar com ela enquanto ele não
chega.
Leonardo deu uma leve batida na porta e a seguir ouviu Lúcia
gritando:
_Você não vai entrar aqui, você não vai... volta para sua família,
eu não sou mais sua filha.
_Lúcia, sou eu... Leonardo.
_Eu odeio você, eu odeio você, eu odeio você.
_Lúcia, não é o seu pai, você me ligou, lembra?
_Meu anjo? É você?
_Sou eu mesmo.
_Rápido, antes que ele venha, entre.
_Lúcia, acalme-se, ele nem chegou ainda. Como você está agitada
hoje!
_Eu não quero falar com ele. Não me obrigue.
_Eu não vou obrigá-la a fazer o que não quer, fique calma. Você
estava assistindo algum filme?- perguntou Leonardo ao ver a TV
ligada.
_Quer assistir comigo? É um romance, é a história de dois amigos
que depois de um beijo descobrem que estão apaixonados. Falta
pouco para acabar.

381
Tânia Gonzales

_Pode continuar assistindo eu a acompanho.


Após vinte minutos o filme terminou. Leonardo percebeu que
Lúcia estava bem pensativa.
_Eu tive uma ideia- disse ela depois de alguns instantes em
silêncio.
_Ideia?
_Leonardo... eu nunca fui beijada.
Ele não estava esperando ouvir aquelas palavras. Lúcia nunca
havia falado nada sobre esse tipo de assunto. Leonardo, com
receio do que viria depois, permaneceu em silêncio.
_Você ouviu o que eu disse?
_É claro que eu ouvi, Lúcia.
_O que você acha?
_Eu? Bom... é... um dia você vai conhecer alguém e...
_Eu tive uma ideia. Eu não gostaria de ser beijada por qualquer
um, eu sei que para muitas meninas isso é bem normal, mas eu
quero ser beijada por alguém muito especial.
_Um dia você vai encontrar alguém e....
_Eu já encontrei.
Leonardo lembrou de uma pergunta que Suzana fez: “ E se ela
pedisse um beijo para você? “E estava torcendo para que Lúcia
não fizesse esse tipo de pedido.
_Você ouviu o que eu disse? Eu já encontrei.
_Ouvi sim.
_É você. Você é muito especial para mim. Eu nunca fui beijada e
quero que você seja o primeiro.
Leonardo não queria acreditar no que havia acabado de ouvir. E o
pior, Lúcia, que raramente o encarava, estava com os olhos fixos
nele.
_Lúcia... eu...
_Leonardo, eu quero ser beijada por você, eu nunca teria a

382
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

coragem de falar assim com outro rapaz. Você me encoraja, sabia?


Eu me sinto tão segura quando você está perto!
Ele não sabia o que fazer. Não queria magoá-la, mas...
_Lúcia, eu acho que nós não podemos confundir as coisas, somos
amigos.
_Você viu o que aconteceu no filme? Eles descobriram que
estavam apaixonados depois do beijo.
_Lúcia, é um filme.
_Mas, essas coisas acontecem. Você acha que eu sou feia? É isso?
Você não me acha atraente?
_Você é uma garota linda, não é isso.
_Então, qual é o problema?
Leonardo respirou aliviado ao ouvir uma batida na porta.
_Filha, a Elisa está aqui. O seu pai ligou dizendo que só virá
amanhã.
_Que notícia ótima. O que a Elisa quer?
_Lúcia? Ela quer conversar com você, o que seria?
_Eu preciso voltar para o escritório. Lúcia, se você precisar,
amanhã eu volto.
_Vou precisar sim, meu anjo, o monstro disse que virá amanhã.
Leonardo despediu-se de Lúcia e Rita o acompanhou até a porta,
no meio do caminho encontrou-se com a amiga de Lúcia, a
cumprimentou e saiu aliviado.

Foi para o escritório e trabalhou até as sete horas, antes de sair


ligou para a amiga Letícia, precisava muito conversar com ela;
combinaram de encontrar-se em uma lanchonete não muito
distante da casa dela.
_Oi, Léo, você me deixou bem preocupada, o que aconteceu?
_Me desculpe, Leca, mas eu precisava muito falar com você.
Passei por uma situação hoje que eu estou sem saber o que fazer

383
Tânia Gonzales

até agora.
_Ai, Léo, para com isso, fala logo, estou ficando angustiada.
Ele contou tudo e quando terminou a amiga estava de boca aberta.
_Não acredito que ela te pediu isso. Ah... Léo, só você mesmo.
Não é a primeira vez que você recebe esse tipo de pedido vindo
de uma amiga. Quem sou eu para julgar a Lúcia!
_Ah, é bem diferente, né? Eu fiquei sem saber o que fazer,
agradeci a Deus por a amiga dela ter aparecido.
_Léo, Léo... deixa a Suzana saber disso!
_Ela nem pode imaginar. Bem que ela me alertou.
_E aí? E se ela insistir?
_Eu quero a sua ajuda. O que eu posso fazer?
_Vou ser bem prática, há duas opções: beijar ou não beijar.
_Que legal, você me ajudou tanto!
_Ah, amigo!
_Eu não posso beijá-la, eu não posso fazer isso com a Suzana. E
tem mais, mesmo se eu não estivesse namorando eu também não
poderia. Não posso bagunçar a cabeça dela, eu sou alguém que
deseja ajudá-la, não quero complicar ainda mais as coisas.
_É isso, você respondeu. Agora só precisa usar as palavras certas
para não machucá-la.
_Aí que está o problema. Como eu vou explicar para ela?
_Leonardo, peça sabedoria a Deus. Ele vai colocar as palavras
certas na sua boca. Você é tão sincero, eu acho que o caminho é
esse: a sinceridade.
_Valeu, amiga.

Naquela noite ao buscar Suzana, Leonardo conseguiu agir


normalmente, não queria preocupá-la, eles estavam vivendo uma
fase muito boa e ele não queria estragar tudo.

384
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

No dia seguinte, cada vez que tocava o celular, Leonardo ficava


apreensivo, temia ser uma ligação de Lúcia; desejava não
precisar vê-la naquele dia. Ainda não havia pensado no que dizer
para ela. Quando faltavam poucos minutos para as seis horas da
tarde, Lúcia ligou dizendo que o pai iria às oito horas e implorou
para que Leonardo fosse até lá antes daquele horário. Ele ficou
por mais alguns minutos no escritório, depois foi para casa tomar
banho e comer algo.

_Você chegou, que alívio!


_Oi, Lúcia, você está bem?
_Por enquanto sim. Eu gostaria que o monstro fosse embora para
cuidar da família dele e nos deixasse em paz.
_Lúcia, ele é o seu pai, é natural que queira vê-la.
_Eu não o considero mais como meu pai.
_Desde quando?
_Desde... não eu não quero falar sobre isso. Tenho um assunto
mais interessante para conversar com você.
Leonardo esperou calado as próximas palavras de Lúcia, sabia
muito bem qual era o assunto.
_Leonardo, ontem eu disse que gostaria de ser beijada por você e
eu quero que seja agora.
Ao ouví-la falar assim, Leonardo pensou em como Lúcia estava
diferente, ele não podia imaginar que ela teria coragem de ser tão
direta neste tipo de assunto. Ela nem parecia mais aquela menina
frágil e tímida.
_Leonardo, eu quero que você me beije, agora.
_Lúcia, eu nem sei como dizer, mas... eu vou ser bem sincero com
você; eu não posso beijá-la porque eu tenho uma namorada e isso
não seria justo para ela. Você entende?
_Você tem uma namorada? Você nunca disse isso.

385
Tânia Gonzales

_Não tive oportunidade para dizer. Lúcia, eu não quero magoá-la,


gosto muito de você e quero ajudá-la, mas eu não posso, seria
uma traição. Mesmo que seja só um beijo, que namorada aceitaria
isso?
_Você deve gostar muito dela, né?
_Muito. Ela é uma pessoa muito especial.
_Que sorte a dela ter um namorado assim como você, tão sincero e
fiel. Você está certo, eu não teria feito esse pedido se soubesse que
você está comprometido, não mesmo.
_Não quero que fique com raiva de mim.
_É claro que não. Eu já o admirava muito, agora então... ela não
sabe nada a meu respeito, não é?
_Sabe.
_Ela sabe e aceita numa boa que você venha me visitar?
_É claro que no começo ela achou tudo muito estranho, mas
depois ela entendeu. E ela confia em mim.
_Ela tem toda razão para confiar. Qual o nome dela?
Antes que Leonardo pudesse responder, Rita bateu na porta e
avisou que Valter estava na sala esperando pela filha. Lúcia
mudou completamente, começou a tremer e olhou para Leonardo
como se estivesse suplicando por ajuda.
_Calma, eu vou até lá com você.
_E-e-eu não quero ir.
_Lúcia, me dê a sua mão, eu prometo que não vou soltá-la. Vem
comigo.
Ela obedeceu, mas continuava tremendo; ao chegar à sala de estar,
Valter se aproximou dela para abraçá-la, mas logo mudou de ideia
ao ver o rosto amedrontado da filha. Resolveu se afastar.
_Querida, minha filha, como você está linda! O que você acha de
nós dois sairmos juntos, você escolhe, pode ser qualquer lugar.
Lúcia continuou calada; Leonardo estava se sentindo bem

386
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

desconfortável com aquela situação e percebeu que Rita também


estava.
_E então, vamos sair?
_Não! - Lúcia respondeu quase gritando.
_Minha filha, eu vim de longe só para passar alguns momentos
com você, deixei meus negócios, meus...
_Pode ir, pode voltar para a sua família. Eu não quero vê-lo nunca
mais.
_Filha, Verinha, minha Verinha!
_Não me chame assim! Eu odeio quando você me chama assim! -
Lúcia estava gritando agora.
_Rapaz, você poderia ir embora, eu preciso falar com ela.
_Não! Não! O Leonardo não vai embora, você vai. A sua presença
aqui me faz mal, muito mal. Eu odeio você, eu odeio você, você é
um monstro!
_Não fale assim comigo! O que o rapaz vai pensar? É melhor que
você vá embora, é um assunto de família, por favor- disse Valter
olhando para Leonardo.
_Eu só vou se a Lúcia pedir.
_Você é bem atrevido, rapaz, cuidado!
_Cuidado por quê? Vai machucá-lo também? É só isso que você
sabe fazer, machucar as pessoas que eu amo.
_Lúcia, pare de falar assim.
_Valter é melhor você ir, ela está muito nervosa- pediu Rita.
_A culpa é toda sua, você faz tudo o que ela quer.
Neste momento Lúcia correu até o seu quarto e fechou a porta.
_Viu só o que você fez? Ela tem toda razão, você deveria voltar
para sua família e nunca mais aparecer por aqui.
_Rita, eu vou embora, mas eu volto. Eu quero conversar com a
minha filha sem este rapazinho aí.
_Eu não vou deixar que fique sozinho com a Lúcia, ela não quer,

387
Tânia Gonzales

ela morre de medo do senhor, por quê?


_Rapaz, não se intrometa em assuntos de família.
_Valter, vá embora.
_Voltarei amanhã e avise a Verinha que vou levá-la para almoçar.
Diga para ela ficar pronta, eu chego aqui mais ou menos ao meio-
dia.
Valter saiu e Leonardo foi até o quarto para conversar com Lúcia.
_Lúcia, ele já foi embora, posso entrar?
_Pode.
_Como você está? Está mais calma agora?
_Eu não quero ver aquele monstro nunca mais.
_Ah, Lúcia... ele já avisou que voltará amanhã. Ele quer levá-la
para almoçar fora.
_Não, isso não, Leonardo, meu anjo... me ajude, eu preciso sair
daqui.
_Lúcia, eu não sei. O que eu posso fazer? Deixa eu pensar... quer
almoçar comigo amanhã?
_Quero.
_Eu te pego às 11h, assim não corremos o risco dele chegar.
_Obrigada, meu anjo.
_Agora, eu preciso ir, tenho que buscar a minha namorada no
serviço dela.
_Ela trabalha onde?
_Em um shopping, ela é vendedora em uma loja de perfumes. Ela
está cursando Letras, quer ser professora.
_Que legal.
_Lúcia, fique com Deus e até amanhã.
_Até amanhã e mais uma vez: obrigada.
_Não precisa me agradecer.

Leonardo foi direto para o shopping. Enquanto esperava por

388
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Suzana ficou pensando em Lúcia. “ Que relacionamento mais


estranho; aquele homem deve ter feito algo horrível, ele deve ter
violentado aquela indefesa garota, só pode ser isso, mas, então
por que Rita não o impede de ver a filha? “
_E então, vou precisar esperar quanto tempo para o meu namorado
notar que eu estou aqui?
_Suzana? Me desculpe, eu estava tão distraído! Minha princesa, é
tão bom vê-la, você está linda!
_Gracinha! Aconteceu alguma coisa? Você está com uma cara de
preocupado!
_Vamos para o carro, no caminho eu conto.
Leonardo contou para Suzana o que havia acontecido na casa de
Rita, menos sobre o assunto do beijo, preferiu deixar para outro
momento.
_Leonardo, eu já falei pra você tomar cuidado, esse homem deve
ser perigoso. Você acha que ele está gostando da sua interferência?
_É claro que não, mas o que eu posso fazer? Suzana, eu não posso
abandonar a Lúcia. Minha princesa, não fique chateada comigo,
mas amanhã eu vou levar a Lúcia para almoçar, para evitar que ele
a encontre. Ela não quer sair com ele.
_Leonardo... isso está ficando cada vez mais complicado! Você e
ela juntos... eu não quero ser egoísta, mas...
_Minha princesa, você egoísta? Nunca. É normal que você não
goste desta situação, eu também não gosto nada disso, mas você
entende que eu não posso me afastar dela agora?
_Entendo, quer dizer, mais ou menos. Quando o pai dela vai
embora, hein?
_Ah, eu gostaria que fosse hoje, agora. Suzana, hoje eu falei pra
Lúcia que eu tenho uma namorada.
_Só hoje? Ela não sabia ainda?
_Suzana, eu não tive oportunidade para contar, não fazia sentido

389
Tânia Gonzales

eu chegar e dizer: olha, eu tenho uma namorada!


_Não?
_Minha princesa, antes de hoje eu não vi razão para isso.
_O que aconteceu hoje para você resolver revelar o seu grande
segredo?
_Ah, Suzana... não fale assim, não era segredo. Eu vou falar sobre
isso outro dia, você está muito brava hoje.
_Brava? Eu não, pode falar.
_Você não vai gostar nada. Vamos entrar na garagem, eu vou
contar tudo- disse ele ao estacionar o carro.
_Vamos namorar um pouquinho, depois eu conto, porque senão eu
acho que vou ficar sem beijo hoje.
_Leonardo, agora você vai me contar. Nada de namorar, conta
logo!
_Só um pouquinho, me dá um beijo, só um.
_Depois você fala?
_Fazendo chantagem comigo?
_Para de brincadeira, eu estou ficando angustiada!
_Vem aqui, me dá um beijo...
Suzana o beijou rapidamente e ficou olhando para ele, ansiosa.
_Eu, hein? Que beijo foi esse? Muito rápido.
_Leonardo! Diz logo, por favor!
_Eu deveria ter ficado calado, sabe aquele velho ditado? Em boca
fechada...
_Leonardo, eu não quero saber de velho ou de novo ditado, fala
logo!
Então, como ela estava muito ansiosa, ele resolveu contar sobre a
história do beijo.
_O quê? Eu sabia, eu falei pra você, eu avisei... eu... - ela não
conseguiu continuar, as lágrimas começaram a molhar aquele
delicado rosto.

390
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Minha princesa, calma, eu não terminei ainda, me escuta.


_Não quero ouvir. Só de imaginar você e ela... vocês dois se …
_Não, Suzana.
_Eu sabia, não dá certo, um homem e uma mulher se encontrando
assim, conversando tanto e...
_Suzana, espera, deixa eu falar... não aconteceu nada, eu disse
para ela que tinha uma namorada e que não poderia fazer isso e ela
entendeu perfeitamente, eu estava até com receio da reação dela,
mas a Lúcia até me pediu desculpas, ela disse que se soubesse que
eu tinha uma namorada ela não teria feito um pedido desses.
_Ah...
_Linda, me desculpe, eu deveria ter começado pelo final...mas,
não fique brava, eu gostei da sua reação.
_O quê?
_Não fique brava comigo.
_Estou brava sim e muito. Que coisa mais feia, Leonardo! Você
está se divertindo comigo, não é?
_Não, minha princesa, não. É que é tão bom saber que você me
ama!
_Eu não disse isso!
_Os seus lindos olhos me disseram. Brigue com eles depois. Eu
amo você, amo muito...
Leonardo segurou o rosto dela com ambas as mãos e foi se
aproximando para beijá-la, a princípio ela tentou se afastar, tentou
virar o rosto para evitar o beijo, mas a sua resistência durou
poucos segundos.
_Você acha que eu quero beijar outra boca? Acha mesmo? Eu só
quero a sua, minha princesa, foi tão difícil chegar perto dela... tão
complicado, acha que vou por tudo a perder? Eu amo você.
_Eu não deveria dizer isso, não hoje, mas... eu te amo. E vê se da
próxima vez você começa o seu relato pelo desfecho, por favor.

391
Tânia Gonzales

Não gosto de suspense.


_E perder a sua reação? Não mesmo.
_Sem graça.
Ficaram mais alguns minutos desfrutando da companhia um do
outro. Quando faltavam dez minutos para a meia-noite, Leonardo
deu um beijo de despedida na namorada, abriu o portão para sair e
teve uma desagradável surpresa.

392
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Capítulo 36 -Valter
_O que você está fazendo aqui?
_Eu que pergunto, seu espertinho! Fica de conversinha com a
minha filha e agora está com outra?
_Cuidado com as suas palavras. Você me seguiu?
_Eu não lhe devo explicações, agora você sim, seu conquistador
barato! Visita a minha filha e depois...
Enquanto os dois discutiam, Suzana, que não havia saído da
garagem, estava paralisada, não conseguia sair do lugar. “ Não
pode ser verdade- pensava ela- eu reconheço essa voz, eu sei
quem é... não... não pode ser, por favor, não! “
_Como teve a coragem de me seguir? Foi longe demais, já não
chega o que fez à sua filha, hoje?
_Cala boca, rapaz! Cuidado, você não me conhece.
_Nem quero conhecê-lo, o pouco que sei já basta para eu saber
que tipo de homem você é.
_Rapaz, me respeite. Eu vou contar para minha filha o
conquistador barato que ela foi arrumar. Ela vai saber muito bem...

Suzana, que não podia ser vista, pois o portão de alumínio era
quase que totalmente fechado. Ela queria gritar, pedir para
Leonardo entrar, mas as palavras não saíam, de repente ela
começou a pensar se aquilo tudo não era mais um de seus
pesadelos, e desejou que fosse, desejou do fundo do coração, mas
logo ela percebeu que era tudo real. Estava apavorada- “ E se ele o
machucar, e se ele veio aqui atrás de mim, e se.... meu Deus, me
ajuda! Eu não consigo me mover, estou apavorada...”
_Vá embora daqui, ou eu chamo a polícia! E nunca mais volte
aqui!

393
Tânia Gonzales

_Você acha mesmo que eu tenho medo de você, rapaz? Olha bem
para mim, olha... você até que é alto, tem um certo porte, mas,
olha aqui, rapaz, eu posso acabar com você, eu posso...
_Você foi longe demais. Eu vou ligar agora e dizer que fui
ameaçado- Leonardo pegou o celular e isso fez com que Valter se
afastasse dizendo:
_Tudo bem, rapaz, eu vou embora, mas amanhã a minha filha vai
saber quem você é.
Valter entrou em seu carro e saiu cantando pneus.
_Suzana, você ouviu tudo, né? Me desculpe, eu … Suzana, você
está bem?
Ela não respondeu, simplesmente não conseguia sair do lugar e
nem se expressar, o medo a dominou.
_Suzana, fala comigo, Suzana, por favor...
Leonardo a abraçou e só então ela conseguiu sair daquele transe.
_Eu... eu... estou com medo- disse com uma voz quase que
inaudível.
_Não precisa ficar com medo, estou aqui. Aquele homem... como
pôde vir até aqui? Minha princesa, calma, ele já foi. Não... não
chore, está tudo bem. Não aconteceu nada, fique tranquila.
_Aquele homem...
_É o pai da Lúcia.
_Não... não... Leonardo fique longe dele, por favor, fique longe
dele.
_Suzana, acalme-se. Você está ainda mais nervosa do que a Lúcia,
se é que isso é possível. Ele não pode fazer nada contra você, ele
nem a viu.
_Tenho medo por você. Leonardo, por favor, afaste-se deles, eu
imploro!
_Suzana, acalme-se, isso não faz bem, você está … apavorada.
Enquanto estava no aconchego dos braços de Leonardo, Suzana

394
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

pensou: “ não posso contar a verdade para ele, não posso, se ele
soubesse poderia acontecer uma tragédia. Meu Deus, como isso é
possível? Eu não vou me livrar disso nunca?”
_Está mais calma, agora?- Suzana fez que sim com a cabeça- é
melhor você descansar. Eu vou embora, mas me prometa que vai
ficar bem e que não vai encher essa sua cabecinha linda de
bobagens, pare de pensar na Lúcia e no pai dela. Certo?
_Prometa que não vai lá amanhã.
_Suzana, eu não posso prometer isso, a Lúcia...
_Leonardo, esse homem teve a coragem de seguir você, ele é
perigoso, você mesmo disse o quanto a filha dele tem medo e...
_Suzana, calma. Vai ficar tudo bem, logo ele volta pra família dele
e...
_Afaste-se deles, por favor!
_Eu vou embora, descanse. Que Deus lhe dê um sono bem
tranquilo.

Ao entrar em casa, Suzana sentiu-se aliviada por todos já estarem


dormindo. Ela não sabia o que fazer:, “ Devo contar para meus
pais? E o Leonardo? Qual seria a reação dele, que já sente raiva
daquele homem por causa da Lúcia? Se ele soubesse que... e se eu
estiver errada, e se não for ele? Estava tão apavorada que nem
perguntei o nome do pai dela. Aquela voz... não, eu não estou
enganada... mas Leonardo não mencionou nada sobre ele andar
com uma bengala. Ah, meu Deus, o que eu faço?”
Suzana demorou muito a pegar no sono. Não conseguia parar de
pensar em toda aquela situação. Tomou uma decisão: contar para
a vovó Vivi; aproveitaria que no dia seguinte estaria de folga do
trabalho para almoçar com ela.

Logo pela manhã, antes de ir para a faculdade, Suzana combinou

395
Tânia Gonzales

com a avó. Ela estava fazendo café na casa de Marisa porque


havia dormido lá.
_Minha neta, você dormiu bem?
_Não vó, dormi muito mal. Eu quero conversar com a senhora
algo muito sério; vamos naquele restaurante que a senhora tanto
gostou, lembra?
_Estou preocupada com você. Tudo bem, eu chegarei antes de
você.
Despediram-se e Suzana foi para a faculdade, mas foi muito difícil
para ela se concentrar nas aulas. Leonardo ligou no horário do
intervalo. Estava bem preocupado por causa da reação dela no dia
anterior. Suzana aproveitou para perguntar o nome do pai de
Lúcia, e, ao ouvir a resposta, suas pernas amoleceram, pensou que
iria cair ali mesmo.
_Suzana, está me ouvindo? Eu não posso conversar com você
sobre esse assunto, ontem você ficou tão mal.
Suzana conseguiu se recompor e tratou de tranquilizá-lo.
“Então é ele mesmo, o Valter- pensou, assim que Leonardo
desligou- Meu Deus, e agora? O que eu faço? Aquele homem
horrível tão próximo de mim, da minha família e o pior é que ele
está mais próximo ainda de Leonardo”.
Ela precisou se esforçar bastante para participar das aulas
seguintes.

Vovó chegou ao restaurante meio-dia e cinco, após vinte minutos


Suzana já estava sentada ao lado dela.
_Suzana, minha neta, e então, o que está acontecendo?
_Ah, vó, a senhora nem imagina!
Suzana contou tudo. Vovó Vivi ficou muito surpresa e preocupada.
_Meu Deus! Aquele homem tão perto? Você tem razão por estar
com receio de contar para o Leonardo. Será que ele fez o mesmo

396
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

com aquela pobre garota? Ah, desculpe, eu não deveria falar isso.
_Tudo bem, vó, eu também penso o mesmo. Estou apavorada, eu
quero que o Leonardo se afaste deles, mas a Lúcia conta muito
com ele, agora mesmo eles devem estar almoçando juntos.
_Que situação! Só Deus para nos guiar. Ah, Suzana, vamos pedir a
Ele que nos oriente, pois tem o seu pai também. Eu tenho mais
medo da reação dele.
_Dos dois, vó! Imagine o que o Leonardo vai...
_Calma querida!

Enquanto isso, Leonardo e Lúcia também estavam almoçando.


_Eu queria tanto que ele fosse embora, tanto!
_Ele vai, Lúcia. Afinal tem uma família esperando por ele, certo?
_Eu não sei mais o que fazer.
_Você não pode se apavorar. Lúcia, eu preciso contar algo que
aconteceu ontem, porque, com certeza, ele vai falar pra você.
_O que ele vai me falar? O que aconteceu?
_O seu pai me seguiu ontem até a casa da minha namorada.
_Que absurdo! Como ele foi capaz de fazer uma coisa dessas?
_Lúcia, ele acha que eu estou enganando você. Ele pensa que
entre nós dois tem algo mais, então como ele me viu com a
Suzana...
_Suzana?
_Por que a surpresa? É o nome da minha namorada.
_Suzana? Não pode ser... não... que coisa estranha!
_O que é estranho, Lúcia?
_Ah... não... não é possível, é muita coincidência!
_Lúcia, você está me assustando! Ontem eu já fiquei bem
impressionado com a reação da Suzana.
_Por quê? Diz, por favor!
_Ela nem chegou a ver seu pai, porque estava dentro da garagem

397
Tânia Gonzales

e ele me pegou saindo, mas depois que ele foi embora, eu entrei
novamente e a encontrei apavorada, ela se assustou muito.
_Não... não...
_Lúcia, o que foi? Por que você está tão aflita?
_Ah, não... vamos sair daqui, eu já terminei, a gente conversa no
carro.
_Tudo bem.

_Lúcia, você está me preocupando...


_Leonardo, não pode ser... me diz mais alguma coisa sobre a sua
namorada, me diz algo sobre a família dela.
_Ela tem uma irmã, a Sueli, que é mais velha que ela; a mãe,
Marina, o nome do pai dela é Davi...
_Meu Deus! Não acredito, não acredito.
Lúcia colocou a mãos no rosto e abaixou a cabeça.
_Lúcia... o que está acontecendo? Fale comigo.
As lágrimas começaram a rolar e logo o rosto dela estava
completamente molhado, Lúcia passava as mãos para tentar
enxugá-las, mas era em vão. Leonardo não sabia o que fazer.
_Fala comigo, Lúcia! Por favor!
_Meu anjo... não deixe que o monstro se aproxime dela, não
deixe... não... ele vai machucá-la, ele vai... ele... ele vai machucá-
la de novo.
_Lúcia, o que você esta falando? O seu pai... ele... ele … Lúcia,
você conhece a Suzana?
_Ah... sim. Meu Deus... esse pesadelo novamente!
_Lúcia, o pai da Suzana trabalhou para o seu? - perguntou
querendo desesperadamente que tudo não passasse de uma
coincidência.
_Trabalhou. Ah... minha amiga... minha amiga. Ela sofreu tanto!
_Lúcia... era sobre ela que você...

398
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Leonardo não conseguiu completar, agora era ele que estava com
os olhos cheios de lágrimas.
_Era. Eu sinto muito.
_Lúcia... eu sei que ela sofreu muito, a mãe dela me contou, mas...
foi o seu pai que... foi ele, aquele...
Leonardo queria desabafar, gostaria de falar tudo o que pensava de
alguém que comete tal violência, mas se controlou por causa de
Lúcia.
_Pode falar, ele é um monstro, é isso o que ele é, um monstro, um
covarde... eu não entendia o porquê de não poder mais brincar
com a Suzana. O pai dela a levava até a minha casa uma vez por
semana, o monstro não me deixava ir na casa dela. Temos a
mesma idade e meu... o monstro, não permitia que mais nenhuma
menina fosse lá, só a Suzana. De repente, sem mais nem menos, o
pai dela sumiu. Meu pai foi parar em um hospital, minha mãe
disse que foi um assalto e que bateram nele. Eu perguntava sobre
a Suzana, ela dizia que a família dela havia mudado de cidade.
Eu fiquei sem entender pois ela nem se despediu de mim. Cerca de
dois meses depois, meus pais se separaram. Eu vim com a minha
mãe para cá. Ela tinha algumas amigas que moravam aqui e
sempre falavam bem, então, como ela queria ficar bem longe de
Belo Horizonte, nos mudamos. Ele sempre vinha nos visitar, mas
minha mãe nunca me deixava sozinha com ele e os dois quase
nem se falavam. Um dia eu acordei e ouvi algumas vozes que
vinham da sala, percebi que era uma discussão, ainda era bem
cedo, sete horas da manhã, eu acho; abri a porta bem devagar e fui
até o corredor e ouvi tudo o que eles falavam. Leonardo... eles
estavam brigando, a minha mãe resolveu colocar tudo para fora...
foi então que eu descobri a verdade sobre o afastamento da
família da Suzana. Fiquei sabendo que o pai dela esteve preso por
algum tempo e também ouvi minha mãe dizendo que a culpa era

399
Tânia Gonzales

do meu pai, e ela começou a xingá-lo. Quando ela falou sobre o


sofrimento da minha amiga... ah... foi horrível, como doeu ouvir o
quanto ela sofreu nas mãos dele. Me desculpe... eu sei que
machuca ouvir isso. Eles perceberam que eu estava lá, mas era
tarde demais... foi a partir daí que eu me fechei. Fiquei
deprimida... bom... você sabe.
_Lúcia, é muito difícil ouvir isso. Agora eu estou entendendo a
reação dela ontem. Ela não quis me contar com medo que eu faça
alguma loucura. Coitada, ficou tão apavorada!
_Leonardo, fique longe dele, por favor. Não tente nada.
_Calma, Lúcia. A vontade que dá é de procurá-lo e … é melhor
nem dizer, mas eu vou manter a calma. Deus vai me ajudar.
Espera aí...tem uma coisa que eu não estou entendendo... eu já
falei várias vezes o seu nome e ela nunca esboçou qualquer
reação.. tudo bem que há várias Lúcias no mundo...
_É fácil explicar, o meu nome é Vera Lúcia. A minha mãe queria
que fosse Lúcia e … o meu pai gostava muito de Vera, então ele
propôs: Vera Lúcia. Só que as pessoas me conheciam como Vera,
e a maioria me chamava de Verinha, porque ele preferia assim e
proibia a minha mãe de me chamar de Lúcia. A Suzana me
chamava de Verinha também.
_Ah... outro dia ele a chamou assim e você ficou uma fera.
_Depois do que eu descobri sobre ele, eu nunca mais deixei que
me chamassem de Vera e muito menos de Verinha.
_Lúcia, tem outra coisa, bem... eu sei o quanto esse assunto é
delicado, mas... o pai da Suzana bateu no seu com uma bengala...
_O meu pai sofreu um acidente de carro meses antes de contratar
o pai da Suzana, foi até por esse motivo que ele dispensou o
antigo motorista. Ele usou uma bengala durante algum tempo, mas
após algumas cirurgias ficou bem. Se você reparar ele ainda
manca, mas quase que não dá para notar- explicou ela.

400
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Depois de se assegurar que o pai de Lúcia havia desistido de


esperar, Leonardo a deixou no apartamento e voltou ao escritório.
Lúcia contou para a mãe quem era a namorada de Leonardo. Rita,
como não podia deixar de ser, ficou muito surpresa com a
revelação e muito preocupada também.

Leonardo ligou para Suzana e combinaram de jantar fora para


aproveitar a folga dela. Ele resolveu não contar nada durante o
jantar. Ele percebeu o quanto ela estava apreensiva, mas conseguiu
manter uma conversa bem agradável apesar de tudo.
_Minha princesa, você tem o rosto mais delicado e lindo que eu já
vi na vida, eu a amo tanto!
Ele a abraçou com ternura e depois beijaram-se apaixonadamente.
Já estavam na casa dela.
_Você sempre me surpreende, ah, Leonardo, você é o melhor
presente que eu poderia ganhar. Como pode existir alguém assim?
Eu o amo.
_Suzana, é tão bom ouvir isso. É tão bom poder viver esses
momentos com você... nós dois estávamos precisando, não é?
Tantos problemas... as coisas estão tão complicadas; estar ao seu
lado é um maravilhoso presente, eu agradeço a Deus e espero que
possamos estar sempre juntos. Princesa, não fique aflita, não se
preocupe, eu já sei sobre … a Verinha.
_Leonardo, como foi que...
Ele passou então a falar sobre sua conversa com Lúcia.
Suzana deixou as lágrimas rolarem livremente; Leonardo a
aconchegou em seus braços.
_Minha princesa, fique calma, eu não vou fazer nenhuma loucura.
_Leonardo, você promete que não vai...
_Claro que prometo. Fique tranquila.
_Um dia eu gostaria de rever a Ve... ou melhor a Lúcia.

401
Tânia Gonzales

_Eu posso cuidar disso, mas primeiro vamos esperar que aquele...
que ele vá embora. Suzana, me desculpe, eu sei o quanto é difícil
para você falar sobre este assunto, mas, o que aconteceu depois
que seu pai foi preso? Eu quero dizer com relação ao Valter.
_Eu não sei muita coisa... eles mudaram do bairro deles e nós
também mudamos do nosso, era muito difícil para mim... se
continuássemos lá eu teria demorado bem mais para voltar à
rotina.
_Mas, ele não pagou pelo que fez?
_Não. Eles sumiram e a minha família estava tão fragilizada que
não... sei lá.
_Tudo bem. Não, não está tudo bem. Suzana, ele precisa pagar
pelo que fez. Eu vou conversar com seu pai e...
_Não, por favor, Leonardo, eu quero esquecer tudo isso, para
acusá-lo eu vou precisar me expor e toda a minha família, nós já
sofremos tanto, chega.
_Suzana, ele cometeu um crime, eu gostaria que houvesse uma
maneira dele pagar, mas quem sabe se ele já não pagou. Ter aquele
tipo de relacionamento com a própria filha deve doer bastante e
sabe lá o que mais ele precisou enfrentar por causa do que fez. Se
bem que mesmo assim...
_Por favor, eu não …
_Minha princesa, chega desse assunto por hoje.
_Eu vou conversar com meus pais, é melhor eles saberem logo.

Ao entrar em casa, Suzana aproveitou que estavam todos reunidos


na sala, contou tudo e implorou para seu pai não procurar por
Valter.
_Que pesadelo, até o Leonardo precisou conhecer aquele...
_Pai, calma. Ele vai voltar para a nova família dele e tudo vai ser
como antes.

402
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Aquele sem vergonha, canalha... ele merece pagar pelo que fez.
Nós devíamos denunciá-lo, é isso.
_Davi, olha só para nossa filha, ela está tão aflita! Ele deveria
pagar, mas para isso teríamos que...
_Eu sei, Marina. Filha, não quero que você tenha que contar e
recontar aquela história que tanto a machuca, eu não vou permitir
que você passe por tudo aquilo novamente, mas, para isso,
infelizmente, nós precisamos pagar o preço, o preço da
impunidade.
_Pai, eu sei que Deus não é injusto, aquele homem já pagou ou
ainda vai pagar pelo que fez.

No dia seguinte, Leonardo recebeu uma ligação de Lúcia.


_Como você está feliz, o que aconteceu?
_Ele foi embora, o monstro se foi. Ele ligou para minha mãe e
disse que precisava voltar urgente e que vai demorar para dar
notícias, falou que vai viajar com a família. Não podia ter notícia
melhor. Que alívio! Você acredita que ele falou de você para
minha mãe? Disse que você estava me enganando, que você
namorava escondido. Sem noção!
_Lúcia, eu conversei com a Suzana e ela gostaria muito de
encontrar-se com você.
_Sério? Eu pensei que isso fosse a última coisa que ela gostaria.
_Que isso, Lúcia! E então?
_Eu não sei... será que eu estou preparada para um encontro como
esse?
_Vamos combinar uma coisa: no próximo sábado teremos um
encontro de jovens lá na IGAG, seria uma ótima oportunidade de
você conhecer a minha igreja e de rever a Suzana. Você terá uma
semana para decidir. Que tal?
_Eu vou pensar. É muita novidade para minha cabeça perturbada!

403
Tânia Gonzales

_Lúcia, a sua cabeça já está bem melhor. E eu acho que vai ser
muito bom para vocês duas esse reencontro.
_Depois eu dou a resposta. Leonardo, por enquanto eu gostaria de
agradecer por tudo, você é um grande amigo. É um exemplo do
que é se doar por alguém. Você conviveu com uma jovem
confusa, deprimida, meio maluquinha, e se saiu muito bem. Você é
incrível! A Suzana precisa de alguém como você, ela merece ser
feliz depois de tudo o que ela passou.

404
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Capítulo 37 – Suzana e Lúcia

A semana passou sem novidades. Leonardo comentou com Suzana


sobre o provável reencontro dela com Lúcia no próximo sábado e
ela passou os últimos dias bem ansiosa.
Na sexta-feira Leonardo chegou na casa de Suzana às sete horas
da manhã pois iria levar a vovó Vivi até a rodoviária, ela pegaria o
ônibus às 9h. A tia Marisa também estava com as malas prontas,
ficaria um mês em Belo Horizonte. Davi, Marina e Sueli já
haviam saído para o trabalho. Suzana faltou da faculdade para
acompanhar o namorado.
_Vou sentir tanta saudade, vó! - disse Suzana.
_É só me visitar, minha neta. Eu estou tão feliz, passei momentos
maravilhosos com a minha família e ganhei até um novo neto!
Leonardo, você vale mais do que ouro.
_Vovó, a senhora que vale! Pode deixar que eu vou visitá-la e irei
com a minha princesa.

Na rodoviária...

_Suzana, eu espero que dê tudo certo em seu reencontro com a


Verinha.
_Eu também, vó. Ah... vou morrer de saudades!
_Minha neta linda, eu também.
_Vó, foi tão bom tê-la aqui, a senhora não imagina o quanto!
_Eu imagino, porque para mim também foi.

Minutos depois mãe e filha entraram no ônibus com destino à


Belo Horizonte.

405
Tânia Gonzales

_O que você acha de irmos até a casa da Lúcia?


_Leonardo, ela nem deu a resposta ainda sobre o encontro de
jovens e você quer que eu apareça lá de surpresa?
_Eu ligo e pergunto, você concorda?
_Não sei, ah... eu estou com um certo receio.
_Por que, minha princesa? Eu tenho certeza que vai ser ótimo para
as duas; deixa eu ligar, vai?
_Tudo bem, se ela concordar eu vou com você.
_Legal. Vou ligar.

_Agora? Eu... sei lá. Estou com medo. Ela está aí com você,
Leonardo?
_Está sim. Lúcia, para que esperar até amanhã? Não precisa ter
medo, vai ser um encontro emocionante.

Depois de alguns segundos, Leonardo desligou.


_E aí? Ela concordou ou não? - perguntou Suzana com ansiedade.
_Hum... deixa eu pensar... será que ela concordou?
_Leonardo!
_Calma... vamos lá. Você vai rever a sua amiga de infância, agora.
_Ah, meu Deus!

Quando chegaram ao apartamento de Lúcia eram quase onze horas


da manhã.

_Bom dia, Rita. Esta é a Suzana.


_Suzana... ah, menina, nem sei o que dizer, posso abraçá-la?
Abraçaram-se e a emoção tomou conta das duas. Leonardo foi
buscar Lúcia.

_Ansiosa? Ela está lá com a sua mãe.

406
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Você e as suas ideias! Estou tremendo, olha isso...


_Calma, Lúcia, ela também está. Vem comigo.
_Espera um pouco... será que eu vou conseguir?
_Claro que vai.
_Vai primeiro, eu vou logo atrás de você.

Lúcia foi andando bem devagar, estava muito nervosa, o coração


estava disparado, por um momento pensou que não iria conseguir
acompanhar Leonardo.

Na sala de estar a ansiedade de Suzana também era grande.


“ O que eu vou falar para ela? Como ela vai reagir ao me ver? O
que eu faço? Ah, meu Deus, me ajude.”

_Muito bem... Suzana, esta é a sua amiga Lúcia. E Lúcia, esta é


sua amiga, Suzana.

Elas ficaram paradas, uma olhando para a outra sem saber o que
fazer. Leonardo precisou intervir.
_E aí, vão ficar assim o tempo todo?
Ele pegou na mão de Lúcia e a levou até Suzana. As duas amigas
estavam com os olhos marejados. Mais alguns segundos se
passaram, só então Suzana quebrou o silêncio.
_Oi, Lúcia, é assim que você gosta de ser chamada, não é?
_É. Suzana... ah, Suzana, eu nem sei, eu...
As duas amigas se abraçaram e choraram muito uma no braço da
outra. Não conseguiam dizer uma palavra, deixaram que as
lágrimas falassem por elas. Leonardo e Rita foram até a cozinha
para que elas pudessem viver aquele momento especial.
_Suzana, eu sinto muito. Amiga, eu sofri tanto com a sua ausência,
eu não conseguia entender o porquê que nós duas não podíamos

407
Tânia Gonzales

mais brincar juntas. E depois os meus pais se separaram e eu vim


com a minha mãe para cá, eu só fiquei sabendo de tudo há pouco
tempo. Doeu muito saber o quanto você sofreu, ah... Suzana, eu
sinto muito. Não podia imaginar que uma coisa tão horrível...
_Veri... desculpe, Lúcia, não vamos falar sobre este assunto. Eu
sei que para você também é muito difícil. O importante é que nós
estamos aqui juntas novamente. Eu pensei que nunca mais me
encontraria com você. Estou feliz por vê-la. O Leonardo me
contou tudo sobre você. Foram meses de muito sofrimento, né?
_E você? Anos e mais anos sofrendo por causa daquele monstro.
Que bom que o Leonardo apareceu em sua vida.
_Em nossas vidas. Ele tem sido um bom amigo para você, não é?
_É verdade. Ele me tirou de um poço bem fundo. Eu estava tão
mal! Me fechei, não conseguia conversar, foi terrível. O Leonardo
foi um presente de Deus, ele é muito especial, se bem que você
sabe disso muito melhor do que eu. Ele é um anjo. Era assim que
eu o chamava, agora estou usando o nome dele mesmo.
_É, eu sei. Eu acho isso incrível porque ele nos uniu novamente.
_Tem razão, é mesmo incrível. Eu não acreditava em milagres,
mas depois de conhecer o Leonardo, a minha opinião mudou.

Suzana ficou muito feliz ao saber que Lúcia iria voltar para a
faculdade e que também estava decidida a arrumar um emprego.
As duas amigas conversavam animadamente quando Rita
apareceu na sala anunciando que o almoço estava pronto,
Leonardo veio logo atrás trazendo os pratos e talheres para
arrumar a mesa.
Foi um almoço muito especial. Leonardo e Suzana se despediram
delas e combinaram de buscar Lúcia para o encontro de jovens
no dia seguinte.
Leonardo deixou Suzana no shopping para mais um dia de

408
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

serviço.

O encontro de jovens naquela noite de sábado prometia ser


maravilhoso. Suzana e Leonardo buscaram Lúcia às sete horas.
_Estou tão ansiosa, nunca participei de um encontro deste tipo-
disse Lúcia.
_Não se preocupe, o pessoal é incrível, você vai gostar, tenho
certeza- assegurou Leonardo.
_É isso mesmo, você vai se sentir muito bem- completou Suzana.

E a previsão de ambos se confirmou, Lúcia gostou de tudo: dos


louvores, palestra, bate-papo e muita pizza com refrigerante.
Na ocasião ela pôde conhecer Letícia e ambas se deram muito
bem. Lúcia nem lembrava que ela havia acompanhado Leonardo
em seu primeiro dia no apartamento dela.
_Estava tão confusa... sinceramente Letícia, eu não me lembro de
você. Que coisa estranha, né? Estava mal mesmo!
_Mas, graças a Deus, tudo isso já passou.
_É verdade. Que alívio! Como é bom poder viver, porque aquilo
não era vida, não mesmo!

Lúcia também conheceu Paulinha e as duas conversaram muito.


Compartilharam da triste experiência que cada uma viveu.
Naquela noite, Lúcia conversou com a mãe e a convidou para irem
juntas participar do culto de domingo. Rita ficou muito feliz com a
nova atitude da filha, principalmente pelo fato das duas terem a
oportunidade de saírem juntas, pois fazia um bom tempo que isso
não acontecia.

Os meses que se seguiram foram muito especiais: Suzana e Lúcia


sempre se encontravam; Paulinha estava se alimentando bem e

409
Tânia Gonzales

estava cheia de planos para o próximo ano; o namoro de Letícia e


Daniel ia à mil maravilhas; Leonardo e Suzana estavam curtindo
cada momento juntos. A família dele a recebeu com muito
carinho, até Lígia que à princípio estava muito temerosa, ao
perceber o quanto o filho amava Suzana, também ficou feliz com
aquele relacionamento.

Aquele final de ano foi inesquecível para todos: para Paula, por
estar se recuperando muito bem, por estar na expectativa de no
próximo ano voltar para a faculdade de Veterinária e também
pelos pais estarem se entendendo; para Lúcia por ter saído de sua
prisão interior, por ter encontrado em Leonardo um amigo muito
especial e ter se reencontrado com a sua amiga Suzana; para
Letícia, por seu namoro, principalmente pelo fato de seus pais
estarem se dando muito bem com Daniel e finalmente, para
Suzana, pelos encontros e reencontros daquele ano: encontrou o
amor em Leonardo, a amizade em Letícia e reencontrou a alegria
de viver e a sua amiga de infância, Lúcia.
E Leonardo? Está muito feliz, por ter participado das conquistas
das amigas e principalmente por ter o amor de Suzana.

410
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Capítulo 38 -Novidades
14 meses depois...

_Boa noite, minha princesa! Como está a minha professora


favorita? - perguntou Leonardo ao se encontrar com Suzana em
frente à faculdade onde ela está fazendo pós-graduação.
_Estou bem... cansada! E você? Trabalhou muito hoje, meu
advogado favorito?
_Muito, estou com duas causas complicadíssimas. Você sabe que
agora o meu pai está pegando pesado comigo, né? Está passando
para mim os processos mais trabalhosos, mas tudo bem, faz parte.

Suzana saiu do shopping há um ano e está trabalhando em uma


escola de educação infantil; terminou a faculdade de Letras no ano
anterior e se inscreveu em um concurso público para ser
professora do ensino fundamental.
Aqueles últimos meses foram maravilhosos para Leonardo e
Suzana, estavam cada vez mais unidos e felizes, e mais um motivo
de muita alegria era a gravidez de Beatriz, que chegou ao 6° mês,
ela estava radiante por dois motivos: nunca havia conseguido
passar dos três meses e por saber que o seu bebê seria uma
menina.

E quanto a Letícia, Paula e Lúcia?


Letícia está no último ano da faculdade de Odontologia e vai tudo
muito bem com o seu namoro, pretende ficar noiva em breve.
Paula anda muito atarefada, a faculdade de veterinária ocupa todo
o seu tempo e o casal: Regina e Paulo Reis, continuam muito bem.
Paulo ainda sai bastante para pregar e a esposa o acompanha na
maioria das vezes.

411
Tânia Gonzales

Ah... Paula tem se alimentado bem, aprendeu a importância de se


cuidar e de amar a si mesma.
Lúcia está cursando direito e trabalha no escritório de Rafael e
Fernando, por indicação de Leonardo. Ela continua firme nos
trabalhos da igreja, desde que começou a frequentar se tornou
assídua, bem como a sua mãe, Rita. Valter nunca mais voltou, liga
a cada dois ou três meses para saber as notícias, o que faz Rita
suspeitar que ele está fugindo de alguém.

Naquela tarde de domingo, Sueli, a irmã de Suzana, chegou com


uma novidade que pegou todos de surpresa:
_Bom... não tem outro jeito, eu vou ser bem direta: estou grávida.
_Grávida? Filha... mas... como assim?- perguntou a mãe, ainda
sem acreditar no havia acabado de ouvir.
_Como assim? Isso lá é pergunta, mãe? Estou no 3° mês.
_Por isso que você andava tão estranha!
_Estranha? Mãe... eu sei que vocês gostariam que eu tivesse
esperado pelo casamento, mas aconteceu, desculpe por ter
decepcionado vocês. Pai, não vai falar nada? E você Suzana?
_Quem é o pai? - perguntou Davi.
_O nome dele é Maurício, ele trabalha comigo. Nós estávamos
namorando há um ano.
_Um ano! Por que você nunca mencionou isso?- quis saber a mãe.
_Ah... sei lá... é que ele é divorciado, eu fiquei com receio de
contar para vocês, ele tem um filho que está com 8 anos agora. O
menino mora com a mãe.
_Qual a idade do seu namorado? - foi a pergunta do pai.
_Ele tem 40 anos.
_São 11 anos de diferença! - comentou Marina.
_O que são 11 anos, mãe? O importante é que ele me ama. Ele é
uma ótima pessoa, vocês vão comprovar isso em breve. Vamos

412
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

nos casar daqui a um mês. Já está tudo certo no cartório.


_Um mês? - perguntou Suzana que ainda não havia se
pronunciado.
_E só agora você nos avisa?
_Mãe, calma, está tudo certo, vamos nos casar só no civil. Eu só
gostaria que a vovó Vivi viesse. Só quero um almoço em família,
vocês concordam?
_Bem... você já resolveu tudo. Aonde vocês vão morar?
_Pai, o Maurício tem um apartamento, vamos morar lá. Não fique
assim, pai, vai dar tudo certo. Eu gostaria de ter o apoio da minha
família.
_É claro, minha irmã! Pode contar comigo, e parabéns pelo bebê-
disse Suzana para em seguida abraçar a irmã.
_Obrigada, você vai ser uma tia incrível!
_Tudo bem. Fazer o quê?Vocês são tão apressadinhos!Eu quero
conhecer o seu futuro marido hoje mesmo-pediu Davi.
_Eu vou falar com ele, pai. Vovô Davi!
_Para com isso!
_E vovó Marina! Gostou mãe?
_Ah... filha, é... eu acho que gostei!

_A sua irmã está grávida? Uau! Vai casar daqui a um mês! Que
inveja!
_Leonardo? Inveja, é?
_Ah... eu gostaria que o nosso casamento estivesse marcado, como
eu gostaria! Mas, espera aí... eu...
_Leonardo, nada de ideias mirabolantes... precisamos esperar.
_Esperar o quê? Suzana, estamos namorando há quase dois anos,
eu quero...
_Calminha aí... agora é a vez da minha irmã. E nós estamos
namorando há um ano e meio.

413
Tânia Gonzales

_Mas nós podemos marcar a data, não podemos? Não vai ser
daqui a dois ou três meses não, mas, quem sabe daqui a seis
meses, o que você acha?
_Leonardo, eu preciso terminar a pós e...
_Minha princesa, por quê?
_É melhor assim, já imaginou que correria?
_Suzana, eu quero que você seja minha esposa.
_Eu sei, mas vamos esperar.
_Quanto tempo? Eu quero uma data.
_Nossa, só porque a minha irmã vai casar? A situação dela é outra
e...
_Não é só porque ela vai casar, eu já tenho pensado nisso há
algum tempo. Suzana, quer casar comigo?
_Não faz assim... você me deixa sem jeito.
_Responda, por favor! Você quer casar comigo?
_Leonardo, isso não se faz, você já me colocando em uma
situação bem desconfortável...você me pegou de surpresa.
_Eu pensei que você me amasse tanto quanto eu a amo.
_Ah, agora você abusou. Está muito dramático!
_Dramático? Eu amo você e quero que seja a minha esposa. Por
que estamos namorando então?
_Leonardo, para com isso. É claro que eu quero ser a sua esposa,
mas...
_É isso que eu queria ouvir. Quando?
_Eu vou pensar com calma e dou a resposta daqui a uma semana.
Combinado?
_Tudo bem. Eu não quero pressioná-la, mas já está na hora, né?
Eu quero acordar todos os dias e vê-la ao meu lado, vai ser
maravilhoso.
_Meu Leonardo... eu amo você.
Ele chegou mais perto e a beijou.

414
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Minha princesa, eu a amo tanto! Você nem imagina o quanto eu


sou feliz, mas eu quero que a nossa felicidade seja completa.

Sueli apresentou Maurício para a família. Davi teve boas


impressões do futuro marido da filha.

Naquela noite Suzana demorou para conciliar o sono. Aquele


assunto sobre o casamento a estava preocupando muito. É claro
que ela gostaria de se casar, mas uma sensação de pânico começou
a tomar conta dela. Ela amava Leonardo de todo o coração, mas
tinha algo que a incomodava muito e que não daria para fugir: a
lua de mel. Suzana se apavorava só de pensar em ter uma
intimidade maior, as cicatrizes do passado ainda estavam
presentes. Mas, o que ela poderia fazer? Leonardo estava certo.
Não ia dar para adiar, ela não gostaria de magoá-lo, mas será que
ela seria uma boa esposa?
Após uma semana de muita insônia, Suzana estava diante do
namorado só esperando que ele tocasse no assunto. Conversaram
sobre os preparativos para o casamento de Sueli e então Leonardo
fez a tão temida pergunta:
_E então, já passou uma semana. Qual é a sua resposta?
_Qual era mesmo a pergunta?
_Suzana, não brinca comigo.
_Tudo bem, desculpa. Eu... pensei muito e...estamos no final de
fevereiro, bem... o que você acha de setembro?
_Nosso casamento em setembro?
_É isso mesmo.
_Você está falando sério? É que quando eu mencionei o assunto
você não gostou muito.
_Você me pegou de surpresa, foi isso. E então?
_Setembro é perfeito! Você me surpreendeu, ah... Suzana, eu amo

415
Tânia Gonzales

você.

Três semanas depois a família Souza estava reunida para o almoço


especial, em comemoração ao casamento de Sueli.
Vovó Vivi e a tia Marli vieram de Belo Horizonte.

_Que notícia maravilhosa, teremos mais um casamento! Em


setembro estarei aqui novamente.
Foram as palavras da vovó Vivi após Leonardo anunciar a data do
casamento aproveitando que a família estava reunida.

Um mês após o casamento de Sueli, em um sábado à tarde,


Suzana estava estudando quando o celular tocou.
_Oi, o quê? Ela está bem? E o bebê? Eu vou com você. Um beijo.
Suzana fez uma rápida oração e foi se arrumar pois iria com
Leonardo até o hospital. Beatriz, que havia completado 8 meses de
gravidez, precisou ser levada às pressas ao hospital, estava com
fortes dores.
Vinte minutos depois Suzana fechou o portão e entrou no carro do
namorado.
_Oi, como você está? Muito preocupado?
_Ah, Suzana, eu não vou negar, eu estou preocupadíssimo. Não
quero nem pensar se...
_Calma, vai dar tudo certo. Tenha fé.
_Eu tenho, mas não é fácil, estão todos tão apreensivos... ela já
passou por três abortos. Suzana, se acontecer alguma coisa eu
acho que a Beatriz não vai suportar. Agora é diferente, nos outros
ela chegou só até o terceiro mês.
_Fique tranquilo, vai dar tudo certo, confie em Deus. Você vai ser
titio, pode ter certeza disso.
_Obrigado, meu amor. Suas palavras ajudam muito.

416
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Ao chegarem à recepção do hospital encontraram Lígia e Rafael


que estavam esperando por notícias.
_Nada ainda? - perguntou Leonardo.
_Nada, filho. Precisamos esperar- disse Rafael- Oi, minha futura
nora, tudo bem?
_Tudo. Estamos todos loucos para ouvir muito choro de bebê, né?
_Suzana, se estamos! Ah...não é fácil esperar, estou tão ansiosa!
_Calminha, aí, minha mãe. A sua netinha vai chegar, tenha
paciência.
_Isso é que é difícil! O Bruno, coitado, estava todo perdido, não
conseguia nem falar direito.

Vinte minutos depois, aparece Bruno com um grande sorriso.


_Podem comemorar, a Vitória chegou!
_Ah, meu Deus, obrigada! - disse Lígia- Parabéns, Bruno, e a Bia
como está?
_Está bem. A nossa menina quis chegar um pouco antes. Nasceu
com 2,7kilos.
_O parto foi normal?
_Sim, e eu vi tudo, pensei que não ia conseguir.
_Parabéns, papai!
_Valeu, Leonardo, Suzana, sogrão! Parabéns para todos nós!
Dois dias depois, Vitória saiu do hospital com os pais mais
sorridentes do mundo.
_Que coisinha mais fofa, a minha sobrinha é linda!
_Ah, Léo, até que enfim... meu maninho, estou tão feliz! Quando
eu comecei sentir aqueles dores eu pensei que... ah... pensei que a
perderia. Você não imagina o alívio que senti ao ouvir o choro
dela, Léo, foi emocionante. Agradeci tanto a Deus, tanto!
_Você é a mãe mais linda do mundo, quer dizer a mãe mais nova
mais linda do mundo, porque a mãe mais linda é a minha mãe.

417
Tânia Gonzales

_Engraçadinho, a nossa mãe.


_E aproveite bem, porque você terá este título só até a minha
princesa ser mãe.
_Calma, apressadinho, nem casamos ainda! protestou Suzana que
estava com Vitória em seus braços.
_Realmente ele está bem apressadinho- concordou- Beatriz.

418
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Capítulo 39 -Casamento
Apesar de toda a preocupação e de todos os seus receios, Suzana
estava feliz; os últimos meses foram de muita correria, por causa
dos estudos e principalmente pelos preparativos para o casamento.
Faltava só um mês para o tão esperado dia. Eles encontraram uma
casa bem agradável, próxima à casa dos pais de Leonardo. Tinha 3
quartos, sendo um com suíte, uma sala ampla, copa e cozinha,
com um pequeno, mas convidativo quintal com churrasqueira.
Demoraram alguns dias para escolher os móveis e também
correram para entregar todos os convites com uma certa
antecedência. Suzana, assim que ficou tudo certo com a data do
matrimônio, saiu com a mãe para escolher o vestido, e até que foi
uma tarefa fácil porque ela já havia olhado algumas revistas, assim
ela já tinha uma ideia do que queria.
Os padrinhos de Leonardo seriam: Letícia e Daniel, Paulinha e
Willian, Beatriz e Bruno, Jônatas e Jessica; os de Suzana: Sueli e
Maurício, Cláudia (que trabalhou com ela na loja de perfumes) e
Márcio (namorado dela), Lúcia e Henrique (um jovem da IGAG),
Marli e Moacir (tios dela de BH).

_Minha princesa, só falta um mês para que eu possa chamá-la de


minha esposa, estou tão ansioso- disse Leonardo.
_Quanta coisa para pensar, né? São tantos detalhes... será que não
estamos nos esquecendo de nada?
_Está tudo certo, não se preocupe. A minha mãe está toda
animada, nem parece que já passou por isso!
Foram interrompidos por Marina.
_Suzanaaaa... filha!
_A minha mãe me chamando toda apavorada? Será que aconteceu

419
Tânia Gonzales

alguma coisa? Vamos entrar.


_O que aconteceu?
_Desculpe atrapalhar o namoro de vocês dois, mas é para dar uma
ótima notícia: o Mateus nasceu!
_Nasceu? Quem avisou?
_O Maurício ligou; eu ganhei um netinho!
_Mãe, parabéns! E a Sueli está bem? Foi parto normal?
_Está ótima, mas foi uma cesárea. Parabéns para você também, tia
Suzana! O Mateus pesa 4 kilos e mede 52cms.
_É um meninão, hein? Parabéns vovó!
_Obrigada, Leonardo. Eu vou ligar para o Davi.

Vovó Vivi chegou de Belo Horizonte três dias depois do


nascimento de seu primeiro bisneto; estava ansiosa para pegá-lo
no colo.
_Bisavó coruja! Não resistiu, né? Aqui está o seu bisneto- disse
Sueli assim que a avó chegou em sua casa.
_Que lindo, que fofo! Estou tão emocionada...
_Calma, não chore vovó.
_Ah... eu preciso, é muita emoção! Parabéns, Sueli, ele é uma
graça!
_Obrigada, vovó! E parabéns para a senhora também, bisavó! A
Suzana ficou feliz ao saber que ficará até o casamento dela! Vai
ser ótimo tê-la aqui.
A bisavó passou a tarde inteira com o bisneto. À noite Leonardo
foi até lá com Suzana, assim puderam matar um pouquinho da
saudade que estavam da vovó.

_Tê-la aqui é tão bom, vó linda! - disse Suzana ao ficar a sós com
a avó- Nunca esqueço daqueles meses que a senhora passou aqui.

420
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Eu e o Leonardo nem sequer éramos amigos ainda e agora só falta


um mês para o nosso casamento. Ah, minha vó linda, a senhora
faz parte de tudo isso, me ajudou tanto! Viu tantas lágrimas... eu a
amo muito.
_Suzana, minha neta querida, assim eu não aguento! Eu estou tão
feliz por você e o Leonardo. Sempre agradeço a Deus em minhas
orações. E eu também te amo muito, muito.
Vó e neta se abraçaram e conversaram até a madrugada.

Duas semanas depois as duas famílias: Martins e Souza, se


reuniram para um animado almoço. O feliz evento foi realizado na
casa de Beatriz.
_A sua menina está tão linda! Está com quantos meses mesmo?-
quis saber Sueli que estava com o pequeno Mateus no colo.
_Completou 4 meses; e o Mateus está com quantos dias?
_Está só com 17 dias!
_Passa tão rápido, você vai comprovar isso. Olha só para a
felicidade daqueles dois- disse Beatriz apontando para Leonardo e
Suzana- Daqui a duas semanas estarão casados.
_A Suzana vai ficar maravilhosa, o vestido é lindo!

Dez dias depois se reuniram novamente na IGAG para o ensaio.


Além da família estavam também todos os padrinhos.
_Léo, está chegando a hora! Está muito ansioso? - perguntou a
amiga Letícia.
_Eu, ansioso? Que isso! Estou tão calmo! A quem eu quero
enganar, hein? Ah, Leca, eu estou muito ansioso.
_Eu sabia! Deve ser emocionante pensar que falta tão pouco! Ah...
o meu dia também vai chegar.
_E aí, já decidiram quando vai ser?

421
Tânia Gonzales

_Daqui a um ano mais ou menos. O Daniel quer terminar a


faculdade. Lá vem a noiva...
_Oi, o que os dois amigos estão cochichando, hein?
_Su, o Léo estava me dizendo o quanto ele está ansioso! E você,
como está?
_Eu? Estou... ansiosíssima! Está tão próximo!
_Vocês formam um casal tão lindo!
_Letícia, eu concordo plenamente com você- foram as palavras de
Paula ao se aproximar.
_Com o que você concorda? - foi a pergunta de Lúcia ao juntar-
se ao grupo.
_Que a Suzana e o Leonardo formam um casal lindo!- explicou
Paula.
_Então eu também sou obrigada a concordar.
_Ah, amigas, valeu! É maravilhoso ter vocês aqui participando
deste momento especial, concorda comigo meu príncipe
Leonardo?
_Eu sempre concordo com você, princesa Suzana.

Era sexta-feira à noite, Suzana estava tentando dormir.


_Minha neta, pare de se revirar na cama, durma! Você precisa
descansar.
_Eu sei vovó, me desculpe por tê-la acordado.
_O que está acontecendo? É a ansiedade?
_É... mas não se preocupe.
_Suzana, fale comigo... tem alguma coisa te preocupando e muito.
_Ah, vó... deixa pra lá.
_Conte para mim, querida.
_É... vó, nem sei como dizer.
_Você sabe que pode me dizer qualquer coisa. Vamos, fale!

422
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Vó... eu estou preocupada com...


_Com o quê?
_Com a …
_Suzana, fale!
_Estou com vergonha.
_Ah... já sei. Você está preocupada com a lua de mel, não é?
_É.
_Suzana, querida... fique tranquila. O Leonardo é tão gentil e
carinhoso com você, não há motivo para pânico.
_Eu... eu... eu tenho medo de não ser uma boa esposa para ele.
_Suzana, você será uma ótima esposa, eu tenho certeza disso.
_Vó, eu... a senhora está certa. Vamos dormir.

Felizmente, após a sua curta conversa com a avó, Suzana


conseguiu dormir. Acordou às 9h, tomou café e foi para o seu dia
da noiva.

Na casa da família Martins a alegria era completa por estarem


recebendo a visita dos parentes que moravam em Fortaleza; até o
avô de Leonardo fez questão de comparecer ao casamento do neto
apesar de já estar com 82anos.

O casamento estava marcado para as 19h; a festa seria em um


salão próximo à IGAG.
A igreja foi lindamente decorada. Dez minutos antes do horário já
estava completamente lotada.

Leonardo estava muito elegante em seu fraque e muito nervoso


também.
_Meu filho, como você está ansioso! Acalme-se, a sua noiva deve
chegar a qualquer momento.

423
Tânia Gonzales

_Pai, o senhor também ficou assim?


_Eu fiquei muito agitado, não parava um minuto sequer, ia de um
lado para o outro.
_Então o senhor estava bem pior.
_Com certeza. E então, tudo certo para a viagem?
_Tudo. O vôo sai às nove horas.
_O Bruno vai levá-los para o hotel onde vocês passarão a noite
hoje e amanhã eu os levo até o aeroporto.
_Tudo bem. Que horas são?
_Hum... deixa eu ver... sete e dez.
_Já? Os padrinhos estão todos aí, não estão?
_É claro que sim, fique tranquilo, maninho- disse Beatriz ao se
aproximar dos dois.
_Só falta a noiva- foi o comentário do pai.
_Ela está demorando muito.
_Meu irmãozinho querido, calma! Toda noiva atrasa.

_Suzana, filha... vamos? O seu pai já está no carro.


_Mãe... espere um pouco... a vovó já foi?
_Já, ela foi com a Sueli. Você está tão linda! Está nervosa?
_Ah... mãe... eu estou com medo.
_Medo? Suzana, hoje é um dia especial, é o seu grande dia, não há
razão para ter medo!
_Mãe, me desculpe, mas eu tenho medo de não ser a esposa que o
Leonardo espera... eu tenho medo de...
_Filha, você será uma esposa maravilhosa. Esqueça os seus medos
e receios. Viva o presente e seja feliz. Podemos ir agora? O seu
noivo deve estar muito ansioso.
_Podemos sim.

424
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Dez minutos depois o carro da noiva estacionou.

_A noiva chegou! - avisou Beatriz.


_Tem certeza?
_Leonardo! É claro que eu tenho certeza. Eu vou me posicionar,
os padrinhos vão entrar. E você está lindo!

Os primeiros padrinhos a entrar foram Bruno e Beatriz, depois


entraram: Sueli e Maurício, Letícia e Daniel, Cláudia e Márcio,
Paulinha e Willian, Lúcia e Henrique, Jônatas e Jessica e por
último os tios de Suzana que vieram de Belo Horizonte: Marli e
Moacir. A seguir entrou Leonardo e Lígia.
Melissa, a filha de Jônatas e Jessica, entrou jogando pétalas.
E então, ao som de “Agnus Dei “20, entrou Suzana. Davi estava
todo orgulhoso conduzindo a filha. Ela estava conseguindo sorrir
apesar de estar muito emocionada, mas ao encontrar os olhos de
Leonardo, os dela ficaram marejados. Ela conhecia muito bem
aquele olhar apaixonado e aquele sorriso lindo.
Davi encontrou a filha ao noivo com uma satisfação imensa.
Leonardo deu um beijo na testa dela e disse:
_Minha princesa, você está belíssima, eu a amo.
_Eu... eu o amo.

O pastor Pedro Gabriel fez uma oração e após pediu para que os
convidados se sentassem.
_Queridos, hoje é um dia muito especial na vida destes dois.
Suzana e Leonardo, estão aqui hoje para se unirem. O casamento
é algo precioso aos olhos de Deus. O próprio Deus realizou a
união do primeiro casal: Adão e Eva. Ele viu que não era bom

20 Música de Michael W. Smith.

425
Tânia Gonzales

para o homem ficar só e então fez Eva especialmente para Adão.


Leonardo, Deus fez Suzana para você e Suzana, Deus fez
Leonardo para você. O amor os trouxe até aqui e é ele que os
conduzirá. Antes de continuar com as minhas palavras eu vou
realizar o casamento civil. Gostaria de viessem até aqui os dois
casais que serão os padrinhos.
Letícia, Daniel, Sueli e Maurício se aproximaram.
Pastor Pedro Gabriel, logo após realizar a cerimônia civil,
anunciou:
_Agora os noivos terão uma surpresa: Letícia e Daniel vão fazer
uma homenagem a eles através de um louvor.
Eles cantaram: “ Um verso de amor “:
“Me lembro bem, a primeira vez que te olhei
Nos seus olhos eu encontrei ternura e amor
Como nunca vi igual...”21

Suzana e Leonardo se emocionaram muito, foi uma surpresa


maravilhosa pois foi justamente aquela música que Leonardo
colocou para ela ouvir quando eles estavam começando a se
conhecer.
_ Daqui a pouco a noiva terá mais uma surpresa- falou o pastor-
Agora eu vou continuar as minhas palavras. Eu disse que o amor
os trouxe até aqui e que ele os conduzirá. Tudo precisa ser feito
com muito amor, pois só assim vocês serão vitoriosos. Os
problema virão, mas onde existe amor, também existe
compreensão, respeito, confiança e assim vocês chegarão a uma
solução. O apóstolo Paulo nos deixou uma mensagem linda sobre
o amor: “ O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em
ciúmes...não procura o seu interesse... regozija-se com a

21 Cantora: Pâmela – Compositores: Davi Fernandes e Dereck

426
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

verdade...tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”22


Que palavras lindas! Mas se forem praticadas elas ficam melhores
ainda. Queridos noivos, vivam estas palavras. Existirá momentos
que a paciência será testada, vocês passarão no teste? Existirá
momentos em que será mais fácil mentir, mas lembrem-se que o
amor regozija-se com a verdade, ou seja ele fica alegre com a
verdade. Ciúmes? Não; o verdadeiro amor não se arde em ciúmes.
Se você abrir o dicionário nesta palavra, a primeira definição diz
assim: Insegurança em relação a uma pessoa querida23. Leonardo,
não tenha medo de demonstrar o seu amor; Suzana, não tenha
medo de demonstrar o seu amor. Eu digo isso porque uma pessoa
quando sabe que é amada sente-se segura, então o ciúme não
encontrará lugar. Queridos noivos, Deus quer que sejam felizes,
então se esforcem, se empenhem neste relacionamento. E nunca se
esqueçam que o mais importante de tudo é o amor. Ele é mais
importante do que você ter razão em uma discussão, é mais
importante do que o seu ego; ele é sempre mais importante, nunca
se esqueçam disso. Bem... agora chegou o momento da surpresa
para a noiva. Leonardo ensaiou bastante com a orquestra. Suzana,
ele vai cantar especialmente para você. Leonardo, é a sua vez.
Leonardo começou a cantar com os olhos fixos em Suzana que já
não estava suportando tanta emoção. Conforme ele cantava, ela
lembrava de cada momento vivido pelos dois... quando Leonardo
chegou no refrão, o rosto dela estava molhado pelas lágrimas.

“Meu amor, quando palavras não conseguem expressar, veja o


brilho em meu olhar, acredita em mim, o que eu sinto por você, é

22 1 Coríntios 13.4-7
23 Mini dicionário Caldas Aulete

427
Tânia Gonzales

amor.”24
A emoção tomou conta de todos os presentes, principalmente dos
pais de Suzana e da vovó Vivi, que sabiam o quanto aquelas
palavras significavam para ela.
Ao terminar, Leonardo beijou a mão de Suzana e sussurrou:
_Eu te amo!
Suzana nem conseguiu retribuir, as palavras simplesmente não
saíam. Leonardo tirou um pequeno lenço do bolso e enxugou as
lágrimas dela.

_Que romântico! O amor é lindo... queridos, agora estamos


prontos para a entrada das alianças.
A neta do pastor Pedro Gabriel entrou com as alianças. A pequena
Raquel de 4 anos veio com os pais missionários para visitar os
avós. Lucas, filho do pastor e Rebeca, a nora, ficarão um mês no
Brasil, depois retornarão para Moçambique para continuar o
trabalho de missões.
_Ela não é linda? Permitam-me ser um pouco coruja. Muito bem...
aqui estão, duas alianças, símbolo do compromisso de vocês, mas
é claro que o verdadeiro compromisso está aí dentro do coração de
cada um. Compromisso aqui é sinônimo de fidelidade. Leonardo,
o seu compromisso, ou seja o seu acordo, é com a Suzana, por isso
você deve ser fiel a ela. Suzana, com você é a mesma coisa, o seu
compromisso é com o Leonardo, por isso você deve ser fiel a ele.

Depois de fazerem os votos e colocarem as alianças, os noivos


foram abençoados por toda a igreja através de uma oração
especial.

24 Acredita em mim- Novo Som- compositores: Davi Fernandes e


Renato César.

428
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Muito bem... eu como ministro do evangelho, os declaro marido


e mulher. Que as bençãos de Deus estejam sobre a vida de vocês.
Parabéns! Leonardo, pode beijar a sua noiva.
Leonardo acariciou o rosto de Suzana e a beijou suavemente.
_Leonardo, eu amo você- enfim Suzana conseguiu se expressar
através da palavra.
_E eu a você- respondeu ele.

Ao receber o abraço dos pais, Suzana mais uma vez se emocionou


muito. Ela pôde perceber o quanto eles estavam felizes. E cada
casal que os cumprimentava tinha um significado todo especial.
Lígia chorou muito ao abraçar o filho. Rafael bem que tentou
esconder algumas lágrimas que insistiam em cair mas foi em vão.
Beatriz nem tentou segurar ao chegar perto do irmão já estava com
o rosto todo molhado.
Sueli e Suzana se abraçaram emocionadas.
_Suzana, eu agradeço a Deus por ele ter colocado o Leonardo em
seu caminho- foram as palavras de Lúcia ao abraçar a amiga.

Foi um verdadeiro estrondo quando o mais novo casal chegou ao


salão de festas. Após algumas fotos. O casal foi de mesa em mesa
para serem cumprimentados pelos convidados.
_Vó, até que enfim eu a encontrei, ah, minha vó linda!- disse
Suzana que estava ansiosa por abraçar a vovó Vivi.
_Minha neta, parabéns! Foi lindo, chorei muito... o Leonardo é o
principal culpado, quando ele começou a cantar eu desabei a
chorar.
_Vó, linda! Obrigada por tudo. Eu te amo tanto.
_E eu, não ganho um abraço da minha vó? - reclamou Leonardo.
_É claro que ganha! Leonardo, obrigada por tudo, eu tenho certeza
que você fará a minha neta mais feliz ainda.

429
Tânia Gonzales

Depois os noivos foram até a mesa onde estava a família Reis.


_Regina, Paulo, que bom ter vocês dois aqui!- disse o noivo.
_Parabéns aos dois, a cerimônia foi perfeita- disse Paulo
_Você cantando foi a melhor parte- completou Regina.
_A minha voz não é grande coisa, mas eu cantei com o coração.
_Que fofo! - disse Paulinha.
_E aí, amiga, está namorando?
_Léo, não começa! Eu e o Willian somos só amigos; a faculdade
ocupa todo o meu tempo, mas quem sabe...
_Gostei do “ quem sabe”.
Depois foi a vez da família Soares.
_Suzana, parabéns! Estou muito feliz por vocês dois, acredite é de
coração- falou Sandra toda emocionada.
_Eu sei, Sandra, agradeço muito a presença de vocês.
_Leonardo me dá um abraço! Você ficou muito bem de fraque- foi
o comentário de Fernando.
_Valeu mesmo, Fernando, a presença de vocês é muito importante
para nós.

Após muitos cumprimentos, os noivos conseguiram enfim sentar


para comer. Mas a tranquilidade durou pouco, pois precisaram
tirar mais e mais fotos.
_Suzana, chegou a hora de jogar o bouquet; lembra de mim, tá? -
pediu Cláudia.
Suzana se divertiu muito ao ver as amigas ansiosas para pegar o
bouquet; simulou jogar por várias vezes...
_Vai logo, chega de enrolação!- gritavam elas.
Segundos depois o lindo bouquet estava nas mãos da amiga
Letícia.
_Marmelada! Marmelada! - gritavam elas.
Letícia, toda sorridente, se aproximou do namorado Daniel.

430
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Uau! Agora tenho que me apressar... vou começar agora mesmo:


quer casar comigo?
_Muita calma nessa hora, não precisa ter pressa. Eu sou bem
paciente, só não pode exagerar, tá? - brincou ela.
Suzana chegou perto do casal e deu um grande abraço na amiga.
Leonardo aproveitou para brincar com a amiga de infância:
_E aí, Leca, tinha que ser você, a Suzana mirou bem... e acertou
no alvo! Acertou na minha amiga Leca!
_Léo, meu amigo ,eu já disse várias vezes para não me chamar
de...
_Leca? Ah... por favor, eu adoro chamá-la assim, minha amiga
Leca!
_Suzana, posso bater nele? Você me permite?
_Ah, não faz isso com ele...
_Tudo bem, hoje você precisa dele inteirinho, né?
_Uau! Gostei! - brincou Leonardo que ia falar mais alguma coisa,
mas resolveu ficar calado ao ver que Suzana corou.

431
Tânia Gonzales

Capítulo 40 -Lua de mel?


Quando Bruno deixou os noivos no hotel era quase uma hora.
_ E então, feliz? - perguntou Leonardo ao fechar a porta do quarto.
_Muito; foi uma cerimônia emocionante. Você cantar para mim
foi maravilhoso, aquela música é linda, eu …
_Minha princesa, eu amo você, maravilhoso é saber que a partir
de hoje você é minha esposa. Gostei de dizer isso: Minha esposa.
Leonardo se aproximou e começou a acariciar o rosto dela, depois
deslizou os dedos bem lentamente até os lábios, chegou mais perto
e a beijou, a princípio bem suavemente, mas aos poucos ele foi
intensificando até que se transformou em um beijo cheio de
paixão. Suzana estava correspondendo aos carinhos dele, mas de
repente afastou-se.
_Eu... preciso tomar um banho, quero lavar os meus cabelos
urgentemente... ficar livre de todo este laquê.
_Tudo bem. Você ficou linda com o coque, mas eu prefiro que os
seus cabelos estejam soltos, eu adoro acariciá-los. Quer
companhia?
_Não... eu vou tomar um banho bem rápido.
_Vai mesmo lavar os cabelos a esta hora?
_Eu trouxe o meu secador. Está pensando o quê?
_Que mulher prevenida!

Suzana escolheu uma roupa rapidamente. Ela não queria vestir


algo que chamasse muito a atenção de Leonardo, pelo menos não
naquela noite, por isso preferiu uma camisola bem discreta.
“Deveria ter trazido um pijama”- pensou.

Poucos minutos depois ela saiu do banheiro. Estava meio sem

432
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

jeito, não sabia o que fazer.


_Você está linda... e... hum... que cheiro bom... é melhor eu tomar
banho também.
Enquanto Suzana secava seus cabelos, Leonardo tomava o seu
banho.
Instantes depois ele saiu vestido só com o shorts de um pijama
azul escuro estampado com pequenos desenhos geométricos. Ao
vê-lo assim, Suzana estremeceu e pensou se ele estaria
pretendendo algo mais naquela primeira noite juntos; ela desejava
poder dormir tranquilamente, era só o que ela queria.
_Está muito cansada?
_Estou.
_Quer que eu faça uma massagem?
_Não, obrigada. Eu só quero... dormir.
_Tem certeza? Iria gostar da minha massagem. E você está tão
tensa... ajuda a relaxar.
_Eu... gostaria de descansar agora.
_Tudo bem, descanse. Mas eu quero um beijo de boa noite.
Suzana deu um rápido beijo em seu marido e a seguir deitou-se.
_Você está mesmo cansada. Eu estou feliz por tê-la aqui ao meu
lado, muito bom saber que verei o seu rosto pela manhã.
_Um rosto todo amassado.
_Um rosto lindo que eu amo muito.
_Boa noite, Leonardo.
_Boa noite, minha princesa.
Suzana virou-se para o lado oposto ao de Leonardo e fechou os
olhos, mas demorou muito para pegar no sono. Ficou pensando
se Leonardo estaria decepcionado com ela.

Eram seis horas da manhã. Leonardo abriu os olhos e deu um


sorriso ao ver Suzana ao seu lado, ela ainda estava dormindo. Ele

433
Tânia Gonzales

ficou por alguns segundos admirando-a; “ como ela é linda... tê-la


aqui comigo é tão bom... saber que a partir de agora passaremos
todas as noites juntos é …”- seus pensamentos foram
interrompidos pelo toque do celular.
_Sim? Tudo bem, não se desculpe. Ainda não... daqui a trinta
minutos? Certo. Abraço.
_Bom dia.
_Bom dia, minha princesa. O meu pai acabou de ligar; temos que
tomar café, ele chega em trinta minutos.
_Eu vou me arrumar.
_Dormiu bem?
_Sim- mentiu e logo lembrou-se das palavras do pastor: “ Existirá
momentos em que será mais fácil mentir”- então completou-
Quero dizer, mais ou menos.
_Foi pouco tempo, não deu para descansar direito, né?
_É.
Tomaram café ali mesmo no quarto. Às 6h30min entraram no
carro de Rafael.
_Bom dia aos noivos! Descansaram bastante?- perguntou Rafael e
completou a seguir- Não precisam me responder isso, me
desculpe.
_Tudo bem, pai. Deu para descansar um pouco sim, mas já estava
tão tarde! Hoje vai dar para descansar legal.
_É, sei... quer dizer, é melhor eu ficar quieto.
Suzana fez que não percebeu o constrangimento dele.

_Filho, avise o horário do retorno de vocês que eu venho buscá-


los, ou o Bruno, se eu tiver algum problema. Boa viagem , curtam
bastante Porto de Galinhas, é um lugar lindo.
_Valeu, pai.

434
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

O avião pousou no Aeroporto Internacional dos Guararapes25


poucos minutos antes do meio-dia; Leonardo havia alugado um
carro com motorista para levá-los até Porto de Galinhas. Poucos
minutos depois da uma hora eles já estavam na recepção do hotel
em Porto de Galinhas.
_E então, qual é a sua opinião até agora?- perguntou Leonardo
assim que ficaram a sós no confortável apartamento.
_Estou de boca aberta, que lugar maravilhoso! Que presente
incrível, vamos precisar agradecer muito à Bia e ao Bruno.
_Com certeza! Eu já fiquei impressionado assim que chegamos;
que vista espetacular para o mar! Vamos almoçar agora?
_Vamos sim, estou faminta!

_Adorei... estas portas e janelas de vidro deixam o ambiente tão


claro e arejado... - foi o comentário de Suzana ao entrar no
restaurante.
_Eu estou gostando é do que está bem à minha frente... que
delícia! Todas estas opções estão me deixando com mais fome
ainda.
Participaram de um delicioso almoço e após foram caminhar para
conhecer o local que era um verdadeiro paraíso.
No final da tarde voltaram para o apartamento.
_Agora eu só quero um belo banho! - disse Suzana.
_Só? Você não me quer também?
_Precisa falar assim todo dengoso?
_Preciso sim... posso acompanhá-la?
_Leonardo... eu prefiro tomar banho sozinha.
_Tudo bem, como você desejar, minha princesa- disse meio
decepcionado.

25 Recife- Pernambuco

435
Tânia Gonzales

Leonardo ligou a TV e ficou zapeando sem muito interesse.


Assim que Suzana saiu do banho ele desligou imediatamente a
TV, aproximou-se dela e começou a acariciar aqueles cabelos
sedosos e perfumados.
_Que cheiro bom... eu vou tomar banho também para ficar bem
cheiroso para você.
_E depois vamos jantar?
_Já está com fome?
_Não ria de mim, mas eu estou sim, acho que é o clima daqui.
_Tudo bem, minha princesa esposa.

Após o jantar, Leonardo e Suzana ficaram conversando e


apreciando a linda vista para o mar. Às 22h Leonardo a puxou
pelo braço e disse quase sussurrando:
_O que você acha de voltarmos para o apartamento agora?
Suzana quase respondeu que gostaria de continuar ali mesmo, mas
algo no olhar dele a fez mudar de ideia.
_Vamos – disse simplesmente.

Assim que entraram, Leonardo pegou a mão de Suzana e a beijou


com carinho, a seguir beijou o braço e foi subindo até alcançar o
canto dos lábios dela, se deteve por alguns segundos... ela
estremeceu... ele começou a dizer:
_Ah, minha princesa, eu te amo... eu esperei tanto por este
momento, estar aqui com você é maravilhoso.
_Leonardo... eu...
O beijo começou tranquilo... suave... mas segundos depois se
transformou em algo intenso, cálido... ele deslizou as mãos nas
costas de Suzana e a apertou com mais força junto ao peito...
_Leonardo, por favor... pare.
_Suzana... minha princesa, eu...

436
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Leonardo, me solte... por favor – disse ela em um tom urgente.


Ele, sem entender, afastou-se rapidamente.
_O que aconteceu? Está tudo bem?
_Eu... eu quero dormir.
_Já? Está cedo ainda.
_Eu estou cansada.
Ao dizer isso, Suzana foi até o banheiro deixando Leonardo com
uma grande interrogação. Ela reapareceu instantes depois, ajeitou
o seu lado da cama e deitou-se.
_Boa noite.
_Boa noite- respondeu ele.

“ Como ele deve estar decepcionado comigo! Não é para menos...


mas eu não pude evitar, entrei em pânico só de pensar no que viria
depois; o que eu vou fazer? Eu não posso fugir dele o tempo todo.
Eu gostaria de sumir daqui... eu sabia que isso não ia dar certo. Eu
nunca vou conseguir superar, nunca... e isso é tão injusto pra ele!”

Leonardo levantou-se antes das 8h e saiu para dar uma volta pelo
hotel, quando retornou Suzana já estava acordada.
_Bom dia, já podemos tomar o café da manhã?- disse ele.
_Bom dia. É claro que sim.
_Posso... não... não é nada, vamos então.
Leonardo, por um momento, pensou em perguntar para ela se ele
poderia beijá-la, mas mudou de ideia.

Antes do almoço eles resolveram tomar um banho de mar. Á


tarde, aproveitaram as opções de lazer que havia no hotel.
Jantaram às 20h; durante todo o dia eles conversaram sobre tudo
e todos, menos sobre o relacionamento dos dois.
Ao entrar no apartamento, Leonardo ligou a TV, estava passando

437
Tânia Gonzales

um filme de James Bond, ele resolveu assistir. Suzana deitou-se


sem dizer nada.
Leonardo queria muito questioná-la sobre a noite anterior, mas
decidiu esperar até o outro dia.

_ Eu aluguei um carro para irmos até Recife, o que você acha de


passarmos o dia lá?- perguntou ele logo após o café.
_Tudo bem, acho ótimo.
Durante todo o dia eles conversaram bastante, até riram juntos,
mas, semelhante ao dia anterior, não falaram nada sobre eles
mesmos.

Voltaram ao hotel somente no início da noite; após o jantar


ficaram conversando olhando para mar. Só foram para o
apartamento depois das 23h.

_Suzana, nós precisamos conversar.


_Mais?
_Sobre nós.
_Ah...
_O que está acontecendo com você? Por que você tem me
evitado?
_Eu... eu não quero falar sobre isso.
_Nós precisamos. Você está com medo?
_Eu já disse que...
_Suzana, eu sou seu marido agora, eu...
_Eu sou uma péssima esposa... ou melhor nem esposa eu sou!
_Pare com isso, não quero que fale assim. Minha princesa, eu
nunca machucaria você, não precisa ter medo.
_Eu... eu nunca vou conseguir, nunca. Você não deveria ter se
casado comigo, eu... eu não posso, eu...

438
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Ela não conseguiu falar mais, as lágrimas rapidamente inundaram


o seu rosto.
_Não chore, meu amor. Suzana...
Leonardo tentou aconchegá-la em seus braços, mas ela correu até
o banheiro e fechou a porta.
_Suzana, abra a porta, por favor.
Ele não obteve resposta, só ouvia o som de um choro abafado.
_Suzana, não faça isso. Esconder-se não vai resolver nada, venha
até aqui para conversarmos.

Vinte minutos se passaram...


_Suzana, eu vou ligar para recepção e dizer que você ficou
trancada no banheiro...
Poucos segundos depois ela abriu a porta.
_Deite-se e tente dormir; amanhã voltamos a conversar. Boa noite-
disse ele beijando-lhe a testa.

Foi muito difícil para Suzana adormecer...

_Não... eu não quero... me solte, por favor! Não! Não! Você...


não... me solte! Socorro! Não!
_Suzana... amor... eu estou aqui, foi só um pesadelo.
_Hã? Hã? Leonardo? Eu....
_Acalme-se...
_Eu não sei o que fazer, eu...
_Psiu! Não fale mais nada... descanse. Deite-se em meu peito...
calma... ei, é só para que eu possa acariciar os seus cabelos, eu
quero que fique confortável... pode aconchegar-se em meus
braços eu não vou fazer nada.
Vários minutos se passaram até que ele percebeu que ela havia
dormido.

439
Tânia Gonzales

No dia seguinte Leonardo preferiu não tocar no assunto. Passaram


o dia inteiro bem longe do apartamento.

_Quer assistir comigo? É um filme bem interessante; é um dos


meus favoritos, tem um advogado de defesa obstinado, uma
promotora implacável... - disse Leonardo; eram 22h e Suzana
havia acabado de sair do banho.
_Eu... tudo bem vou assistir com você.
Na verdade Suzana gostaria de dizer que preferia dormir, mas para
não magoá-lo ainda mais ela resolveu acompanhá-lo.
_Minha princesa, não precisa ficar tão longe de mim, vem aqui
pertinho, eu prometo que vou ficar bem quietinho e não vou...
Ele achou melhor não continuar a falar para não complicar ainda
mais a situação, pois iria dizer que não tocaria nela.
Suzana se aproximou e começou a se interessar pelo filme. Antes
da meia-noite já estavam prontos para dormir. Ela deu um rápido
beijo nele e desejou-lhe boa noite.

Os últimos dois dias foram bem semelhantes, passavam o dia


inteiro fora do apartamento; curtindo a praia, caminhando, tirando
fotos, conversando muito, mas nunca mencionavam aquele
delicado assunto. No último dia que passariam ali Suzana
comprou algumas lembrancinhas.
À noite Leonardo tentou uma aproximação.
_Amanhã vamos embora deste paraíso tropical, mas eu quero
voltar em breve e você?
_Eu? É... acho que sim.
_Nossa, que falta de interesse!
_Me desculpe... é que... eu só acho que foi um desperdício do
dinheiro da sua irmã; ela nos deu um presente maravilhoso e …
_Você não gostou daqui? Isso é impossível!

440
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_O lugar é maravilhoso... é claro que eu adorei! O problema foi a


companhia.
_Companhia aérea? - brincou ele tentando descontrair um pouco.
_Não tem graça.
_Se não é a companhia aérea... você está se referindo à minha
companhia? Pensei que você gostasse de estar comigo.
_Leonardo, estou me referindo à minha companhia; se a Bia e o
Bruno soubessem o quanto o dinheiro deles foi mal empregado...
_Para com isso. Se você pensa assim por que não se aproxima de
mim para mudarmos isso? Vamos aproveitar a nossa última noite
aqui.
Ele chegou bem perto dela e a levantou, pois Suzana estava
sentada na cama.
_Minha princesa, esqueça tudo e...
_Leonardo...
_Eu quero tanto tê-la em meus braços, ah, Suzana, eu amo você.
Enquanto ele a beijava bem suavemente, Suzana pensava:
“ Eu tenho que conseguir, não posso me afastar dele novamente,
ele não merece isso... eu vou conseguir... preciso. Não, não, eu não
posso me afastar, ele é o meu marido.”
Leonardo, bem gentilmente, a deitou na cama e continuou com
aquele beijo cheio de ternura, sem pressa alguma. Estava tomando
todos os cuidados para não fazer nenhum movimento que pudesse
assustá-la. Ela continuava com aquele exercício da mente:
“ Não posso decepcioná-lo... não posso... ele é tão carinhoso e
compreensivo! Eu vou conseguir...”
De repente algumas imagens apareceram em sua mente, aquelas
imagens do passado que deveriam estar bem enterradas. Eram tão
nítidas... ela queria se livrar daquele peso em seu corpo... ela
precisava sair dali, ela queria gritar!
_Me solta, me solta! Saía de cima de mim, por favor! Eu não

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Tânia Gonzales

quero! - Suzana gritava desesperada.


Sem dizer nada, Leonardo afastou-se dela e foi até o banheiro.

O alarme do celular tocou: eram 8h, Leonardo levantou-se, tomou


um banho e começou a mexer em sua mala; Suzana também
acordou e fez o mesmo que ele; os dois organizaram as malas em
silêncio.
_Eu vou tomar café, quer me acompanhar? - perguntou ele.
Ela concordou. Durante o café houve um silêncio constrangedor.
Voltaram para o apartamento. Leonardo ligou para o pai
confirmando o horário.
_O que você gostaria de fazer antes do almoço? Lembre-se que
precisamos almoçar cedo, o vôo está marcado para às 15h.
_Nada. Eu vou ficar aqui mesmo.
_Então eu vou caminhar um pouco.
Assim que ele saiu, Suzana desabou em lágrimas.
Leonardo só voltou à hora do almoço.
_Podemos almoçar agora?

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Capítulo 41 – O retorno
Deixaram o hotel às 13h; durante o trajeto até o aeroporto eles
permaneceram entregues cada um ao seu próprio pensamento; e
durante o vôo até São Paulo não foi diferente. A situação só
mudou quando encontraram-se com Rafael, aí resolveram colocar
uma máscara para não transparecer que o clima entre eles não
estava nada bom.
_E então? Qual a opinião de vocês sobre Porto de Galinhas?
_Um verdadeiro paraíso- foi a resposta de Suzana.
_O lugar é maravilhoso, pena que a Suzana não gostou da
companhia- ironizou ele.
_Por quê?Vocês tiveram algum problema com a companhia aérea?
_Não, é brincadeira do Leonardo- disse Suzana lançando ao
marido um olhar de reprovação.
_A minha esposa tem razão, eu só estou brincando, estou com um
ótimo senso de humor hoje.
_Tem todos os motivos para isso. Suzana, domingo eu vi o seu
sobrinho, o nome dele é Mateus, certo?
_É isso mesmo.
_Ele está lindo.
_E a Vitória? - quis saber Leonardo.
_Está uma fofura, precisa ver a careta que ela faz! E o biquinho
quando vai chorar? É uma graça!
_Vovô coruja.
_Nós tiramos os presentes do quarto de vocês; colocamos no outro
quarto; são muitos presentes, vocês vão ter bastante trabalho.
_Que bom, nós não temos nada para fazer mesmo- Leonardo
respondeu novamente com ironia.
_Sei. É claro que vocês não têm nada para fazer e isso é ótimo,

443
Tânia Gonzales

não é? Desculpe pelo comentário, Suzana, não queria deixá-la


constrangida.
_Não, que isso!
_Vocês gostariam de almoçar lá em casa amanhã?
_Não sei, pai. Depois eu resolvo com a Suzana.
_Então, tchau. Curtam bastante a casa de vocês.
_Obrigada, sogro.
_Valeu, pai.

_Nem precisava tirar os presentes de nosso quarto, não é? Com


certeza vai ser o lugar que menos vamos ficar- disse ele ao entrar
na casa.
_Leonardo, eu não estou gostando do seu tom de ironia,tudo o
que você tem falado desde que encontramos com seu pai...
_Não está gostando? Pois eu também não estou gostando. Eu não
estou gostando nada do péssimo clima entre nós.
_Eu... o que eu posso dizer? Que sinto muito? Vai adiantar alguma
coisa? Vai apagar o desastre que foi a nossa lua de mel? Não vai
adiantar nada, mas mesmo assim eu quero dizer que sinto muito.
_Eu também. Me perdoe pelo meu péssimo humor. Ah, princesa...
eu amo você.
_Eu amo você. Mas, o que adianta falar? Eu deveria demonstrar,
não é?
_Tudo bem. Vamos parar com isso. Eu vou pedir uma pizza e
depois nós vamos abrir os presentes, o que você acha?
Passaram horas abrindo os presentes, lendo cada cartão e tentando
organizar pelo menos parte deles nos armários.
Era meia-noite quando eles foram dormir.
Após o banho Suzana deitou-se rapidamente. Fechou os olhos e
ficou prestando atenção aos ruídos que vinham do banheiro.
Leonardo, poucos minutos depois, deitou-se ao lado dela. Suzana

444
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

resolveu fingir que já havia adormecido. Ele estava muito


desapontado com a atitude dela, mas resolveu não incomodá-la.
Leonardo acordou antes da esposa; queria fazer uma surpresa para
ela. Foi até a padaria e ao retornar para casa verificou que Suzana
ainda estava dormindo. Fez o café, esquentou o leite, preparou um
suco de laranja; pegou uma bandeja e colocou nela pedaços de
queijo, pães, dois pedaços de bolo e tudo que havia preparado.
_Bom dia, minha princesa.
_Hã? Você já levantou? Não deveria ter preparado tudo sozinho.
Por que você não chamou?- perguntou ela ainda sonolenta-
_Eu queria fazer uma surpresa para minha linda esposa.
_Ah... sua esposa... Leonardo, eu quero me desculpar por ontem.
Eu não estava dormindo quando...
_Que tal você esquecer isso e aproveitar o café?
_Não. Você é tão gentil e eu … Leonardo, eu fingi que estava
dormindo. Me perdoe.
_Minha princesa, tudo bem. Podemos comer agora?
_Podemos. Obrigada por você ser tão...
_Suzana, para com isso. Abra a boca e experimente o queijo...
isso.
Tomaram o café e não falaram mais sobre aquele assunto durante
todo o dia. Concordaram em não sair e continuaram a organizar
as coisas na nova casa, pois o dia seguinte seria segunda-feira e
eles teriam que enfrentar a rotina.
Acordaram cedo e cada um foi para o seu trabalho. No início da
noite Leonardo propôs fazerem uma visita aos pais de Suzana
antes de levá-la para faculdade.

_Como é bom revê-los. Gostaram de Porto de Galinhas?- foi a


pergunta de Marina.
_O lugar é maravilhoso, mãe.

445
Tânia Gonzales

_É verdade, sogrinha. É um lugar lindo e o hotel era ótimo.


_Já conseguiram organizar as coisas?- perguntou Davi.
_Um pouco. Ganhamos tantos presentes... - disse Suzana.
_Filha, está tudo bem?- quis saber Marina assim que ficou a sós
com Suzana- Me desculpe, mas eu tenho a impressão que você
está triste e o Leonardo também não me parece feliz, me desculpe
mais uma vez.
_Está tudo bem, mãe. Eu acho que é cansaço. Ontem ficamos até
tarde organizando tudo.
_Não precisam fazer tudo em um só dia; aos poucos vocês
conseguem se organizar.
_Tem razão, mas a senhora sabe como eu sou, quero deixar tudo
arrumado e...
_Querida, não precisa exagerar, afinal vocês ainda estão em lua de
mel. Fiquei até surpresa por vocês terem vindo aqui hoje.
_É que... já estávamos com saudades, é isso. Bom, agora temos
que ir. Preciso ver o que perdi nestes dias que faltei na faculdade.
_Vocês não quiseram esperar até dezembro!

Naquela semana o novo casal trabalhou muito fora e dentro de


casa também. O clima entre eles não estava muito bom, pois
Suzana não conseguia se aproximar do marido e ele permaneceu
distante, só esperando pela iniciativa dela. E para piorar a
situação, na quarta-feira Marina recebeu um telefonema de Rita
que a deixou muito preocupada.
No dia seguinte resolveu ligar para Suzana.
_Está tudo bem com a Lúcia, o problema é com... o pai dela. O
Valter está internado em Belo Horizonte, o estado de saúde dele é
grave; está com sérios problemas de coração. Ele estava... preso.
_Preso?- perguntou Suzana surpresa.
_A Rita disse que ele foi acusado de …

446
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Do que ele foi acusado?


_De... estupro. Uma menina de 13anos, filha da empregada dele.
_Ah, meu Deus...
_Filha, acalme-se, eu não deveria ter ligado, mas eu preciso falar.
É que a Rita disse que o Valter quer... ele quer falar com você.

Suzana contou tudo para Leonardo assim que chegou da faculdade


naquela noite.
_O quê? Aquele canalha... se ele pensa que eu vou deixar, está
muito enganado- disse Leonardo indignado.
_Leonardo, a situação é bem complicada. O estado de saúde dele é
bem grave. A Lúcia e a Rita já estão lá. Não sei o que fazer!
_Você não tem nada a ver com isso. Eu não vou permitir que
passe por isso, era só o que faltava, já está tudo tão... - Leonardo
interrompeu suas palavras e pensou bem antes de falar pois não
queria falar sobre a vida íntima deles- Você sofreu tanto e não
faria nada bem para ficar diante daquele... homem.
_Ele disse que quer morrer em paz.

Leonardo encerrou o assunto com Suzana e ligou para Marina.

_ Quando foi que ele foi preso?


_Leonardo, você deve lembrar bem daqueles dias que ele esteve
visitando a Lúcia e depois sumiu; pois ele foi preso logo em
seguida. A Rita contou que ele... abusou da menina dias antes de
vir visitar a filha. Ele morava com a família em Porto Alegre mas
ainda tinha alguns negócios em Minas e até ainda possuía uma
casa lá onde vivia uma empregada com a filha. Ele foi acusado e
conseguiram a condenação dele.
_Dona Marina, se vocês tivessem feito a acusação contra ele, se
tivessem reaberto o caso... eu sei que a Suzana iria sofrer, mas...

447
Tânia Gonzales

talvez a pobre menina teria se livrado daquele monstro. Me


desculpe, eu sei que é duro ouvir isso mas é isso que acontece
quando há impunidade. O canalha se sentiu inatingível, só Deus
sabe se ele não fez isso com mais meninas. Agora, depois de tudo
o que ele fez... não, a Suzana não vai passar por isso.
_Leonardo, você não acha que é ela que deve decidir?
_Eu não sei...
_Leonardo, se ele morrer isso pode ser outro trauma para ela. Ele
quer ter a oportunidade de pedir perdão.
_Vamos deixar que ela decida.

Sexta-feira à noite os jovens se reuniram na IGAG para um culto


especial de oração; Suzana sentiu que ela e Leonardo deveriam
participar, por isso faltou à aula naquela noite. Após orarem
durante alguns minutos, Pastor Pedro Gabriel abriu a Bíblia e leu:
“...e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos
perdoado aos nossos devedores...”26
_Amados, nesta manhã falarei sobre o perdão. Perdoar é fácil?
Pedir perdão é fácil? Alguém já perguntou: O que é mais fácil:
pedir perdão ou perdoar? Responda aí em seu coração. Eu digo
que nenhum dos dois é fácil de fazer. É necessário vontade, é
necessário deixar o orgulho de lado. É preciso deixar de ter razão
mesmo a tendo. Você com certeza já ouviu a frase: “ Errar é
humano, perdoar é divino.” Eu digo que perdoar é divino e
humano também, pois se não fosse assim, Deus não nos mandaria
perdoar. Na Bíblia nós encontramos vários versículos que falam
sobre o perdão e o próprio Jesus falou sobre isso algumas vezes.
Não é fácil perdoar porque se há necessidade de perdão é porque
ocorreu algo. É porque alguém cometeu algum erro. Amados,

26 Mateus 6.12

448
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

quando você perdoa é como se um enorme peso fosse retirado dos


seus ombros e a mesma coisa acontece quando você pede o
perdão. Neste momento eu gostaria que você pensasse em alguém
que precisa ser perdoado por você e depois eu também gostaria
que você lembrasse de alguém que você precise pedir perdão.
Pense bem. Você pode estar com sérias dificuldades. Pode estar
pensando: “ Eu não vou perdoá-lo nunca. O que ele me fez é
imperdoável! Esta pessoa não merece.” Pois é por isso mesmo que
esta pessoa precisa do seu perdão: porque ela não merece.
Amados, se ele merecesse não seria necessário perdoar. O perdão
é justamente para quem não merece. Na oração que nós
conhecemos como “ Pai nosso “, Jesus diz “ perdoa-nos as nossas
dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores”;
preste atenção: “ temos perdoado aos nossos devedores”, ou seja
há uma dívida. Que dívida? Amados quando é falado dívida não se
refere somente à uma soma em dinheiro. Uma dívida pode ser
qualquer coisa. Alguém talvez esteja devendo para você o
respeito, a dignidade, a honra. Talvez alguém tenha tirado de você
algo de muito valor e isso o machuca muito. Seja o que for que
esta pessoa tirou de você e que fez toda a diferença em sua vida,
você pode colocar um ponto final em tudo isso e continuar a sua
vida. E ser feliz sem este peso. Você pode até estar pensando
agora: “ Eu não tive culpa nenhuma, ele é o culpado, ela é a
culpada”, mas é exatamente por isso que o perdão está sendo
pedido para você. É você que precisa dar a liberdade para aquela
pessoa. É você. É necessário perdoar porque ele ou ela não
merece. Deus nos perdoou através de Jesus por isso Ele nos diz
para perdoar. Vai ser fácil? Não; mas você não está sozinho.

Naquela noite Suzana chorou muito; Leonardo a envolveu em seus


braços sem nada dizer pois sabia que ela estava travando uma

449
Tânia Gonzales

batalha consigo mesma e que tomaria uma decisão muito difícil


porém extremamente necessária.

Na manhã seguinte Suzana já havia decidido o que fazer.


_Eu gostaria muito que você me acompanhasse nesta viagem.
_É claro que vou, minha princesa. Arrume as coisas, eu vou até a
mecânica do Isaque para ele dar uma olhada no carro.

Chegaram em Belo Horizonte no final da tarde de sábado.


_Suzana, eu agradeço muito a sua presença aqui, eu sei o quanto é
difícil para você- disse Rita.
_Tudo bem, Rita. E a Lúcia, como está?
_Ela está reagindo bem. Está com o pai no hospital. Você prefere
deixar para amanhã?
_Não, Rita. Quero resolver isso o mais rápido possível. Não dá
para adiar, ele está mal, não é? E nós precisamos ir embora
amanhã mesmo por causa do trabalho e da faculdade.
_Sim. Então vamos até lá.

Durante o trajeto até o hospital, Suzana começou a pensar que


seria a primeira vez que se encontraria com aquele homem que
tanto a machucou. Com tristeza deu uma rápida olhada no marido
que também estava sofrendo as consequências da maldade daquele
homem. “ Ah, Leonardo, por culpa deste homem que veremos
daqui a pouco eu não consigo ser uma esposa de verdade para
você, ah, meu Deus, como é difícil pensar em perdoar!” - pensou.

_Não se afaste de mim nem por um segundo, está bem?


_É claro, Suzana. Eu vou ficar ao seu lado o tempo todo, fique
tranquila- assegurou Leonardo.
Havia um policial à porta do quarto. Rita entrou e chamou a filha.

450
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Suzana, minha amiga. Obrigada por ter vindo.


As duas se abraçaram e ficaram em silêncio por um momento.
_Amiga, eu pedi forças a Deus e consegui perdoar meu pai.
Apesar de tudo eu espero que você também consiga.
Suzana apertou a mão de Leonardo e juntos entraram no quarto.
Ao olhar para a pessoa deitada naquele leito de hospital, Suzana
não conseguiu ver nele aquele homem forte e assustador do
passado. Valter estava abaixo do peso e tinha o semblante bem
abatido.
_Você veio- disse em uma voz quase inaudível.
_Sim.
_Fale logo o que deseja, nós precisamos ir embora o quanto antes-
disse Leonardo sem esconder a raiva.
_Leonardo... eu... primeiro gostaria de... de... eu preciso do seu
perdão.
_Eu? Não, não é para mim que deve pedir perdão.
_Você também. Eu quero... que-ro... ah... agradecer por tudo o que
você fez por minha filha.
_Fiz por ela, não por você.
_Eu sei. Mas... você pode me conceder o seu perdão? Por favor!
_Fale logo com a Suzana, acabe com isso de uma vez.
_Sim. Suzana... menina.
Ao ouví-lo dizer “ menina “, Suzana estremeceu e pensou que não
ia conseguir ficar em pé, Leonardo a amparou.
_Eu sei que... que fiz algo terrível e sujo. Sei que a machuquei e...
_Pare com isso. Vá direto ao ponto, ela não precisa ficar ouvindo
estas coisas- disse Leonardo em um tom nada amistoso.
_Sim... me desculpe. Eu sou um monstro. Eu a fiz sofrer... eu... eu
sei que não mereço ser perdoado, mas eu preciso, eu preciso- disse
em lágrimas.
_Por Deus eu o perdoo, só por Deus. Eu preciso esquecer isso de

451
Tânia Gonzales

uma vez por todas. Eu... eu... quero sair daqui.


_Espere um pouco. Suzana, eu agradeço muito, eu... sinto muito
por tudo o que lhe causei.
_Tudo bem, agora chega. Eu vou levá-la daqui, ela já disse o que
você queria ouvir.
_E você?
_Eu?
_Você consegue me perdoar?
_Eu... se a Suzana lhe concedeu o perdão, eu não posso negá-lo.
Fique em paz.
_Obrigado.

Suzana, que até então havia conseguido segurar as lágrimas, ao


sair daquele quarto não se conteve. Leonardo a abraçou
consolando-a.
Despediram-se de Rita e Lúcia e foram para a casa da vovó Vivi.
No dia seguinte, logo após o almoço saíram de Belo Horizonte.
Chegaram em casa naquela noite de domingo exaustos por causa
da rápida viagem.

_Leonardo, durante o sermão do pastor Pedro sobre o perdão,


quando ele disse para pensarmos em alguém para pedirmos
perdão eu pensei em você.
_Em mim?
_É. Eu preciso que me perdoe.
_Por quê?
_Você ainda pergunta? Eu não tenho sido uma esposa para você.
Eu sei que você está sofrendo muito. Nós dois nem se sequer
parecemos como um casal de namorados quanto mais casados! Eu
não consigo, eu não sei o que fazer.
_Suzana, olha, você está cansada. Vamos deixar este delicado

452
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

assunto para um outro dia.


_Adiar? De novo?
_Por favor, eu estou muito cansado.
_Tudo bem.

Quatro dias depois de receber o perdão de Suzana, Valter faleceu.

453
Tânia Gonzales

Capítulo 42- Tentação

Era segunda-feira, 5 de outubro, Suzana e Leonardo estavam


completando um mês de casados. Logo pela manhã, ela recebeu
um lindo bouquet de rosas vermelhas; Leonardo pediu para que
entregassem na escola infantil aonde ela trabalhava. Havia
combinado com a esposa de saírem para jantar naquela noite
especial. Suzana queria que tudo fosse inesquecível para ambos,
por isso decidiu que naquela noite ela daria um presente muito
especial e também muito esperado por Leonardo. Ela estava
cansada de ter tanto medo de algo tão natural e não aguentava
mais a tristeza e a decepção do marido.
Durante o jantar eles conversaram animadamente, algo que não
estava acontecendo há dias. Às 22h chegaram em casa. Suzana
tomou um belo banho e vestiu uma camisola bem provocante; não
pretendia e não queria fugir de Leonardo naquela noite.
Quando ele viu Suzana se aproximando o coração dele disparou.
“ Como ela está maravilhosa... hoje nós vamos começar a nossa
lua de mel, com certeza.”- pensou ele.
_Como você está linda, minha princesa.
_Estou assim pra você.
_Adorei ouvir isso. Suzana... meu amor.
Leonardo começou acariciando aqueles cabelos sedosos, passou
para o rosto e a puxou para si. Beijaram-se longa e
apaixonadamente. Após muitos beijos ardentes ele a pegou no
colo e a deitou na cama.
Segundos depois Suzana estava trancada no banheiro chorando
muito e Leonardo estava na cozinha tomando um copo de água
gelada; estava completamente decepcionado.

454
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Eram sete horas da manhã, Suzana terminou de se arrumar para o


trabalho e foi até a cozinha para tomar o café. Leonardo já havia
saído. Enquanto saboreava o café ela olhava com profunda tristeza
para o sofá que o marido havia dormido. Ela tinha pensado em
proporcionar uma noite inesquecível para ambos e havia
conseguido. A noite anterior foi mais um inesquecível fracasso.
Mais uma vez ela foi uma grande decepção para o marido.

Se concentrar no trabalho depois daquela noite estava sendo muito


complicado para Leonardo.” Será que eu cometi um grande erro
me casando com ela? Será que ela nunca vai superar o trauma?
Eu não aguento mais, eu sinto que estou chegando ao meu limite.
O que eu vou fazer? ”
_Nossa, como você está pensativo hoje, Leonardo!- disse
Alessandra, que estava trabalhando ali com eles há apenas três
meses.
_Oi?
_Está distraído mesmo!
_Me desculpe, o que você disse?
_O quanto você distraído! Eu estou indo almoçar, quer me
acompanhar?
_Ah... não, eu preciso terminar este serviço, vou almoçar mais
tarde, obrigado.

Alessandra era uma linda mulher de 22 anos. Alta, loira, olhos


azuis claríssimos; estava no quinto semestre de direito. Morava
sozinha em uma pequena casa alugada ali mesmo em São Caetano
do Sul. A família mora em uma pequena cidade do interior de São
Paulo.
_Aceita um café? - perguntou Alessandra ao voltar do almoço.
_Não, eu vou almoçar agora. Mas, muito obrigado.

455
Tânia Gonzales

Ao vê-lo se afastar ela pensou: “ Não me agradeça por tão pouco,


gato! Deixe para agradecer um outro dia... ou melhor uma noite.
Gato... para quem casou há tão pouco tempo você está muito pra
baixo, eu posso cuidar disso, se posso!”

No final da tarde Leonardo pensou em ligar para Suzana, mas logo


mudou de ideia.” O que eu vou falar pra ela? “

Suzana foi direto para faculdade, chegou cedo e resolveu estudar


um pouco na biblioteca. Sempre, após o trabalho, passava em casa
para fazer um lanche rápido e muitas vezes Leonardo também
chegava cedo e assim lanchavam juntos, mas naquele dia ela não
queria encará-lo; não tinha nenhuma explicação para o que havia
ocorrido na noite anterior. Há alguns dias tinham financiado um
carro para ela, pois às vezes Leonardo precisava ficar até mais
tarde no escritório e por isso agora ela ia para a faculdade sozinha.
“Pelo menos só vamos nos encontrar à noite em casa. Ah, meu
Deus, ele deve estar me odiando!”

Suzana entrou e encontrou Leonardo deitado no sofá. Havia


adormecido. Ela procurou fazer de tudo para não acordá-lo mas
antes que ela chegasse na cozinha...
_Hã? Já chegou?
_Oi, acabei de chegar. Me desculpe, vocês estava dormindo tão
profundamente que eu...
_Achou ótimo, não é? Que maravilha, ele está dormindo! Não
preciso falar com ele hoje! Não é isso que você pensou, minha
princesa?
_Não. Eu só queria que você descansasse, é só isso.
_É mesmo? Pois eu estou cansado de descansar. É só isso que eu
faço nesta casa: descansar.

456
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Eu sinto muito.


_Sente mesmo?
_Leonardo, eu acho que não... eu não deveria ter me casado.
_Nossa, que revelação!
_Você não merece isso. Eu nunca vou conseguir... então é
melhor...
_É melhor o quê?
_Nos separarmos- disse ela com lágrimas nos olhos.
_Esta é a solução que você encontrou? É a mais fácil?
_Não, é claro que não é, mas talvez seja a única. Ontem eu desejei
que tudo fosse perfeito e...
_Foi um perfeito fiasco. Um desastre total.
_Eu sei.
_É melhor você descansar. Eu vou dormir aqui mesmo para não
incomodá-la.
Sem dizer uma palavra, Suzana foi direto para o quarto. Chorou
muito; demorou horas para conseguir adormecer.

No dia seguinte Leonardo chegou às sete horas no escritório para


evitar falar com Suzana logo pela manhã.

_Bom dia, Leonardo. Você sabe quando a Lúcia volta?- perguntou


Alessandra.
_Acho que na próxima semana, ela ainda está em Belo Horizonte
com a mãe.
_Você chegou cedo hoje, né? Eu deixei estes documentos ontem
no final da tarde e você já está me devolvendo?
_Cheguei cedo. Está tudo certo aí, pode devolvê-los ao Fernando.
_Me desculpe, mas você está com uma cara que teve uma noite
péssima.
_Alessandra, por favor, leve os documentos.

457
Tânia Gonzales

Próximo à hora do almoço, Alessandra foi até a sala de Leonardo.


_Me desculpe incomodá-lo, mas eu estou saindo para o almoço,
quer ir comigo?
_Alessandra, eu acho que não... ou melhor... sim. Eu vou almoçar
com você.
Ela olhou para ele e sorriu satisfeita.

Durante o almoço Alessandra falou bastante sobre a família dela.


_Eles ficam muito preocupados porque lá tudo acontece muito
devagar, é uma cidade pequena onde todos se conhecem, enquanto
aqui... eles assistem os noticiários todos os dias e me ligam
assustados perguntando se o local daquela notícia que eles
ouviram é perto de onde eu moro.
_Eles têm razão de se preocuparem, afinal você mora sozinha!
_Bom... os donos da minha casa moram na casa da frente, mas
eles viajam muito, eles têm uma casa no litoral. Amanhã mesmo
eles vão para lá e só voltam domingo à noite.

Leonardo trabalhou até às oito horas da noite e aceitou o convite


de seu pai para jantar.
_Querido, que bom que você aceitou jantar com a gente- disse
Lígia- Fico com uma peninha de saber que você fica lá sozinho até
a Suzana chegar da faculdade.
_Tudo bem. Não precisa se preocupar.
_Leonardo, está tudo bem, mesmo? Você parece tão desanimado
filho!
_Estou cansado, é só isso, tenho trabalhado demais.
_Rafael, vê se pega leve com o nosso filho, afinal ele acabou de se
casar, está em lua de mel ainda!
_É ele que trabalha demais, eu não posso fazer nada, ele insisti.

458
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Quando Suzana chegou em casa, Leonardo estava no banho.


Minutos depois ele saiu e disse simplesmente:
_Boa noite.
_Boa noite, você não precisa sair, aqui também é o seu quarto-
disse ela ao vê-lo se aproximar da porta.
_Eu quero que você fique à vontade, mas não se preocupe, eu não
vou dormir no sofá, comprei um colchão e o coloquei no quarto ao
lado. Tenha uma ótima e tranquila noite, minha princesa.

Minutos depois Suzana deitou-se; logo o travesseiro ficou todo


molhado, foi mais uma terrível noite para ela.

Na noite seguinte, quando Suzana chegou, Leonardo já estava no


outro quarto, ela pensou em bater à porta para falar com ele, mas
logo mudou de ideia.

Eram oito horas quando Alessandra foi até a sala de Leonardo, ele
já estava trabalhando há pelos menos uma hora.
_Nossa, como você ama o seu trabalho! Já está aí todo
concentrado! Bom dia.
_Oi, bom dia, Alessandra. Tem razão ,eu amo o meu trabalho.
_Eu acho que do trabalho nós devemos gostar, há outras coisas
mais interessantes para amar e que dão mais... alegria e prazer.
_Será?
_Com certeza. É... eu estou um pouco sem jeito, mas eu preciso de
um favor.
_Pode falar.
_Bem... é que ontem à noite a chave do meu banheiro quebrou
dentro da fechadura.
_Tem um chaveiro aqui perto. É bem próximo ao restaurante que
almoçamos ontem.

459
Tânia Gonzales

_É que, bem... os meus pais não querem que eu deixe entrar um


desconhecido em minha casa.
_Eu o conheço bem. O nome dele é Alfredo.
_Mesmo assim, se os meus pais soubessem que eu deixei um
desconhecido entrar na minha casa eles ficariam em pânico. Eu
prometi para eles que nunca faria isso.
_Alessandra, o Alfredo é um senhor muito respeitador. Ele é
conhecido por todos aqui do bairro.
_Obrigada, mas eu não posso. O que eu vou fazer agora? Só usei o
banheiro quando cheguei aqui. Será que... acho que não.
_O quê?
_Os donos da casa viajaram ontem à noite...eles iriam hoje, mas
resolveram adiantar, estou perdida! Mas, você me faria um
favor?
_Fale.
_Você poderia ir até a minha casa, tenho certeza que rapidinho
você resolve o meu problema.
_Eu?
_É. Com as ferramentas certas você consegue. De repente você
arranca a porta, não tem problema depois eu resolvo com o dono.
_Não sei... eu...
_Eu não conheço mais ninguém que eu possa confiar. Você é tão
gentil e eu com certeza vou saber agradecer este grande favor. Vou
agradecer muito.
Dizendo isso ela deu uma piscada para ele e só então ele entendeu
a real intenção dela.
_Alessandra, eu...
_Leonardo, você é tão especial, eu nunca conheci um homem
gentil e tão cavalheiro como você. Este é o meu endereço. Vou
sair daqui às seis horas, passarei em um mercado para comprar
algumas coisas e ficarei esperando por você.

460
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Alessandra colocou um pequeno pedaço de papel na mesa de


Leonardo e saiu sem dizer mais nada. Ele pegou o papel, leu e o
colocou no bolso da calça. Passou a manhã inteira pensando
naquela proposta. “ Ela não deve ter nenhum problema com a
porta do banheiro. Ela estava me paquerando! E se eu... não.
Mas... se eu fosse até lá e... ah, como eu posso estar pensando
nisso? Eu não estou aguentando mais... o clima está péssimo lá
em casa, a Suzana falou até em separação! Se eu aceitasse o
convite da Alessandra, ficaria mais calmo e daria mais um tempo
para Suzana, eu conseguiria ser mais compreensivo e... o que é
isso que eu estou pensando? Não posso fazer isso com a Suzana.
Não posso. Ah, meu Deus, me ajude!”
Eram quase onze horas da manhã. Leonardo resolveu ligar para
Suzana.

_O que você acha de faltar à faculdade hoje? Assim podemos


jantar juntos e ir ao cinema, que tal?
_Leonardo, eu não posso faltar hoje.
_Suzana, por nós.
_Não posso.
_Tem certeza?
_Sim, nós podemos ir amanhã.

Assim que ele desligou, ouviu duas batidas na porta. Era


Alessandra.
_Oi, podemos almoçar juntos hoje?
_Podemos.
_Daqui uma hora eu volto aqui.
_Tudo bem.

Durante o almoço Alessandra aproveitou para se insinuar bastante.

461
Tânia Gonzales

Ela queria que Leonardo tivesse a certeza das suas intenções para
logo mais à noite em sua casa.

Eram cinco horas da tarde, Leonardo resolveu ligar para Suzana


novamente.
_Suzana, falte hoje, por favor. Eu preciso de você.
_Eu... não posso. Sinto muito.
_Eu também sinto muito.

Leonardo desligou o telefone e pegou o pedaço de papel que


estava em seu bolso. Ficou olhando para ele por alguns segundos
e pensou com tristeza: “ Eu também sinto muito.”

Às seis horas, Alessandra deu duas leves batidas na porta e entrou


com um largo e provocante sorriso em seus lábios.

_Eu já vou embora. Ficarei esperando por você com muita


ansiedade e com muito...

Saiu sem completar a frase. Leonardo trabalhou mais uma hora e


meia. Rafael e Fernando saíram meia hora antes. Pegou o celular e
ligou para Suzana, mas o celular dela deveria estar desligado.
Pegou o papel no bolso e ficou olhando para ele por alguns
segundos. Levantou-se, pegou o paletó que estava na cadeira,
recolocou o papel no bolso da calça e saiu do escritório. Eram sete
e quarenta.

Quando Leonardo chegou em casa era meia-noite, estava tudo


muito silencioso. Entrou em seu quarto para pegar uma roupa e
viu que Suzana já estava deitada e deveria estar dormindo ou
fingindo pois não disse uma palavra. Saiu do quarto e foi tomar

462
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

banho no banheiro do corredor. Assim que ele saiu Suzana


levantou a cabeça e olhou para a porta com profunda tristeza.

Leonardo só conseguiu adormecer depois das três horas. Não


conseguia parar de pensar em tudo o que estava acontecendo;
estava sentindo um peso enorme; sentia-se culpado e derrotado.

Suzana levantou-se às oito horas e foi até a padaria. Voltou vinte


minutos depois e foi ver se Leonardo já havia acordado. Abriu a
porta e entrou sem fazer barulho pois percebeu que ele estava
dormindo profundamente. Ficou ali por alguns segundos olhando
aquele rosto que ela tanto amava. Saiu de lá em silêncio. Foi até a
cozinha e deixou a mesa pronta para o café da manhã. Ligou a TV
e ficou assistindo à um programa evangélico. Às 9h30 Leonardo
se levantou.

_Bom dia, estava te esperando para tomarmos o café juntos- Foi


ligar a cafeteira e esquentar o leite.
_Eu perdi a hora... você também?
_Leonardo, hoje é sábado.
_Ah... é verdade.
_Você chegou bem tarde ontem.
_Cheguei.
_Eu cheguei antes das dez; eu tinha um trabalho para apresentar,
saí assim que terminei. Me desculpe por não ter faltado para
sairmos juntos, mas pode ser hoje, se você quiser.
_Pode ser.
_Vamos tomar café?
_Vamos.
_Leonardo, eu estive pensando muito... o clima entre nós está
péssimo e eu não gostaria que continuasse assim. Me perdoe por

463
Tânia Gonzales

falar sobre separação. Não quero me separar de você, eu o amo.


Eu tive uma ideia, bom... ela não é original, na verdade a ideia é
sua. Lembra o que você inventou para o nosso primeiro beijo?
_Claro.
_Então... é... Leonardo, nós estamos muito distantes um do outro,
assim nunca vamos resolver o problema. Bom... eu pensei que nós
poderíamos fazer que somos namorados e começar tudo do zero.
O que você acha?
_Eu... eu acho que pode ser.
_Você está tão desanimado! Mas eu não posso culpá-lo, a culpa é
toda minha por estar sempre fugindo. Eu quero resolver isso, eu
quero do fundo de meu coração ser uma esposa pra você.
Leonardo, amor... você está chorando?
_Me desculpe... eu não mereço você... eu...
_Meu amor, não fale assim, você tem sido tão paciente, mas tudo
tem o seu limite. Olha, eu vou me esforçar...
_Ah, Suzana...se você soubesse... eu tenho pensado tantas coisas e
me arrependo tanto!
_Pare com isso. Vamos sair um pouco? Eu preciso comprar umas
coisas e depois nós podemos almoçar.

Foram até o shopping. Suzana fez compras, eles almoçaram e


depois foram ao cinema.

_Hoje nós estamos parecendo com um casal de namorados.


Concorda?- perguntou ela ao saírem do shopping no final da tarde.
_Tem razão.
_Só faltou uma coisa.
_O quê?
_Um beijo.
_Aqui no estacionamento?

464
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Por que não?


_Vamos entrar no carro pelo menos.
_Tudo bem, meu namorado.
Assim que entraram, Suzana se aproximou de Leonardo e o beijou
apaixonadamente.
_Nossa, você me pegou de surpresa e eu adorei.
_Não consegui esperar por você. Leonardo, eu te amo.
_Suzana, minha princesa. Eu te amo.
Agora foi a vez dele beijá-la.

À noite resolveram ficar em casa. Pediram uma pizza;


conversaram muito e também namoraram bastante. Quase meia-
noite, Leonardo deu um beijo na esposa e encaminhou-se para o
outro quarto.
_O que você está fazendo? Este não é o seu quarto.
_Nós somos namorados e...
_Não. Leonardo eu quero que você durma em nosso quarto.
_Tudo bem. Como você quiser.

Domingo foram para escola bíblica e depois almoçaram com os


pais de Suzana. À noite foram ao culto.
Quando chegaram em casa ficaram na sala namorando por algum
tempo.
_Leonardo, você está entendendo o que eu estou fazendo? Eu não
quero que você pense que a minha intenção é provocar você e
depois fugir. Eu estou me aproximando aos poucos para que...
_Eu sei, Suzana. Você tem razão, é a única solução. Nestes
últimos dias nós estávamos totalmente afastados um do outro
mesmo vivendo sob o mesmo teto e assim as coisas só foram
piorando. Eu estou entendendo perfeitamente.
_E amanhã? É feriado, lembra? O que nós vamos fazer?

465
Tânia Gonzales

_Eu tinha esquecido completamente. A Bia nos convidou para


almoçar na casa dela. À tarde vai ter uma festa para comemorar o
dia das crianças lá na igreja.
_É verdade me pediram para ajudar.
_Então eu vou com você. À noite nós podemos jantar fora.
_Combinado.

No dia seguinte eles acordaram bem tarde, tomaram café e foram


para a casa da irmã de Leonardo. Depois foram todos juntos para a
festa na igreja. Era a primeira festa de dia das crianças que Bia
participava com a sua filha Vitória e ela estava radiante por isso.
À noite Suzana e Leonardo jantaram em um aconchegante
restaurante.

466
Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Capítulo 43- Presente de aniversário

Naquela manhã de terça-feira, Leonardo chegou ao escritório às


oito horas. Ele e Suzana haviam tomado o café juntos. Alessandra
já estava na recepção,conversando com o office-boy; Leonardo
cumprimentou ambos e foi para sua sala. Minutos depois ele
ouviu duas batidas na porta. Era Alessandra.
_O que deseja?
_O que eu desejo? Fiquei muito decepcionada com você sexta-
feira.
_Decepcionada? Não sei por quê? Eu pedi para o Alfredo ir até lá
para resolver o seu problema e ainda expliquei para ele que você
morava sozinha e ele disse que levaria a neta dele; ela é
adolescente já. Ele foi sozinho?
_Que cinismo! Ele foi com a neta sim.
_E resolveu o seu problema?
_Não precisei dos serviços dele; quando ele chegou estava tudo
certo com a minha porta.
_Então por que você está brava? Ele quis cobrar pela visita?
_Muito engraçado. Eu estava esperando por você.
_Eu não sou chaveiro. E agora, se você dá licença eu preciso
trabalhar.
_Você me fez pensar que iria e...
_Eu? Alessandra, sou um homem casado e se você quiser
continuar trabalhando aqui deverá respeitar isso. Evite vir até a
minha sala, se eu precisar falar com você eu aviso. Mas uma coisa,
nunca mais faça qualquer tipo de insinuação à meu respeito, fale
comigo somente assuntos profissionais e nada de convites para
almoçar, já que você não quer só a minha amizade. Fui claro?
_Sim. Com licença.

467
Tânia Gonzales

Leonardo, naquela noite de sexta-feira, saiu do escritório e foi


direto para a casa de Alfredo, mesmo tendo a certeza que não
havia nenhum problema com a porta dela porque queria dar uma
lição em Alessandra. Entregou o endereço para ele e explicou a
necessidade dele ir acompanhado. Após, como não queria ir para
casa cedo, foi até o shopping onde ele havia conhecido Suzana.
Comeu um lanche, andou um pouco e depois escolheu um filme
qualquer para passar o tempo, por isso só chegou em casa meia-
noite. Sentia-se culpado e muito desanimado por ter passado pela
cabeça dele comparecer àquele encontro; por ter chegado a pensar
que seria uma solução. Agradeceu muito a Deus por ter-lhe dado
forças para suportar a tentação. Quando, no dia seguinte, Suzana
falou sobre a ideia dela, ele não aguentou mais todo aquele peso
que estava carregando por isso chorou.

Naquela noite Suzana e Leonardo conversaram animadamente e


ela aproveitou para falar sobre os planos para o aniversário dele
que seria na sexta-feira.
_Suzana, por favor, nada de festa surpresa.
_Que chato! Agora é tarde demais.
_O quê?
_Claro, afinal você vai completar 26 anos!
_Suzana, eu...
_Calma, você acha mesmo que se eu estivesse organizando uma
festa surpresa você iria suspeitar, não mesmo!
_Suzana!
_Fique tranquilo. Eu estou pensando em algo bem íntimo. Um
jantar só nós dois. Até já avisei a sua família.
_Que ótimo. Você não está me enrolando, né? Nós dois chegamos
no restaurante e … surpresa!
_Não, é sério.

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Obrigado.

Suzana estava pensando em algo muito íntimo. Havia prometido


para si mesma que aquela noite seria inesquecível para ambos.
Não iria comprar um presente para Leonardo. Ela seria o presente.
Ela o amava muito por isso iria conseguir.
Passou aqueles dias se preparando psicologicamente e tinha
certeza que não o decepcionaria.

_Bom dia! Feliz aniversário!


_Nossa, faz tempo que você levantou!
_Faz uma hora mais ou menos. Preparei um café especial para
você.
_Para nós dois.
_Parabéns, meu amor!
Suzana o beijou demoradamente.
_Uau! Acho que prefiro os seus beijos do que o café.
_Você precisa se alimentar. Bom, você tem como sair mais cedo
hoje?
_Acho que sim.
_Eu vou estar aqui às cinco horas e vou ficar esperando por você.
_E a faculdade?
_Hoje é aniversário do meu marido!
_Tudo bem. Eu vou fazer de tudo para estar aqui antes das seis.

Suzana estava muito ansiosa. Passou o dia inteiro pensando em


como seria aquela noite. Pediu a Deus forças para vencer aquele
trauma de infância. Ela precisava dar o presente que Leonardo
tanto queria.” Este presente está atrasado! Ele deveria ter sido
entregue lá em Porto de Galinhas. Hoje eu vou conseguir. Eu vou!
Devo isso a ele. Devo isso a nós dois.

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Tânia Gonzales

Suzana chegou em casa poucos minutos antes das cinco horas;


tomou banho e escolheu um vestido verde musgo que usou no
casamento de um primo de Leonardo e ela lembrava que ele havia
gostado muito. Escovou os cabelos e resolveu deixá-los soltos
pois sabia que o marido adorava vê-los assim.
Poucos minutos após as seis horas foi a vez de Leonardo chegar.
_Nossa, como você está linda! Eu não mereço tanto!
_Merece muito mais. Eu já estou pronta.
_Uau, como você está cheirosa! Vou tomar um belo banho e ficar
bem bonito e perfumado pra você.
_Recebeu muitas ligações hoje?
_Sim, o pastor Pedro, a Sandra, a Paulinha, a Leca, minha mãe, a
Bia, o Bruno, sua mãe e almocei com o meu pai e o Fernando. A
Lúcia mandou um grande beijo pra você. No final da tarde
cantaram parabéns, tive até bolo, presentes. Eu trouxe um pedaço
coloquei na geladeira, está delicioso. É bolo mousse de limão,
muito bom. Até a minha mãe e a Sandra apareceu lá. Ah, a minha
mãe levou a Vitória; a Bia não pôde ir porque tinha pacientes para
atender.
_Elas tinham comentado comigo.
_Então você já sabia!
_Claro. Eu pensei em dar um jeito de ir mas não deu.
_Tudo bem. Ah, eu recebi uma ligação muito importante.
_De quem?
_Vovó Vivi.
_Que legal. Eu não sabia que ela ia ligar. Ela está bem?
_Está ótima. Mandou um beijo enorme e disse que está com
muitas saudades, mas agora chega de conversa, vou tomar banho.

Saíram de casa às sete horas. Leonardo vestiu um terno preto com


listras de giz bem discretas, uma camisa branca e uma gravata

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

vinho.
Jantaram em um restaurante muito aconchegante; conversaram
muito e até dançaram duas músicas românticas.
_Lembra quando nós dançamos pela primeira vez?
_É claro que lembro. Eu estava tão triste aquela noite; só ficava
pensando em sua reação ao saber do meu passado.
_Bom, é melhor não falarmos sobre isso. Suzana, você está
maravilhosa.
_E você também. Eu amo você. Vamos pra casa agora?
_Tudo bem, meu amor. Você manda.
_Mas você é o seu aniversário.
_Então eu vou dar uma ordem: beije-me!
_E eu obedeço.
Ela o beijou demoradamente e depois os dois foram para casa.

Durante o caminho Suzana ficou em silêncio; estava muito


ansiosa. Chegaram às 23h.
_Leonardo, eu... é... eu vou para o quarto e quero que você me
espere aqui.
_Agora é você que está no comando.
_Eu não demoro.

Leonardo tirou o paletó e a gravata e sentou-se no sofá.

Suzana voltou vinte minutos depois com uma pequena caixa


dourada nas mãos; não estava usando mais o vestido verde e sim
uma delicada camisola preta. Leonardo levantou-se rapidamente e
ficou olhando para ela fixamente.
_Bom... é o seu presente – dizendo isso ela entregou para ele a
pequena caixa.
Leonardo desfez o laço e ao abrir encontrou um cartão com os

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Tânia Gonzales

seguintes dizeres: “ eu estou lhe entregando um presente muito


esperado; sei que o fiz sofrer demais mas eu quero que isso fique
no passado e que você considere que hoje é o primeiro dia de
nossa lua de mel; não comprei um presente para você de
propósito porque eu quero ser o seu presente, eu! Te amo muito,
me perdoe! A partir de hoje serei a sua esposa, hoje! E tenha certeza
que não vou decepcioná-lo. Feliz aniversário! “

Após terminar a leitura do cartão, ele olhou para ela com um largo
sorriso e disse sem esconder a emoção:
_Eu sei que vou amar muito este presente, muito.

O beijo começou suave, mas em poucos segundos se tornou


intenso. Leonardo pegou Suzana no colo e a levou para o quarto.

Três horas depois, Suzana estava olhando para o marido que havia
adormecido. Ela enxugou algumas lágrimas que insistiam em cair
e sentou-se na cama, este movimento fez Leonardo acordar.
_O que foi? Aonde você vai?
_Vou tomar água, já volto.
_Ah... não demore.
_Não.
Segundos depois ela estava de volta.
_Suzana, você estava chorando? Conseguiu dormir um pouco?
_Chorando? Eu ainda não consegui dormir.
_Meu amor, por quê?
_Estou muito feliz, estou eufórica! Leonardo....
As lágrimas começaram a cair novamente.
_Minha princesa, pare de chorar.
_Eu preciso, são lágrimas de felicidade. Consegui, eu finalmente
consegui vencer o trauma. Parecia um obstáculo intransponível.

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

_Meu amor, nós conseguimos juntos. Eu a amo tanto! Você foi


perfeita! Valeu a pena cada dia de espera.
_Não fale isso, por favor. Estes últimos dias foram terríveis!
_Tem razão, mas hoje estamos felizes e satisfeitos um com o
outro. Bom, eu disse que estamos satisfeitos? Hum... acho que
não. Você disse que é o início de nossa lua de mel, não disse?
_Disse.
_Então, o que você acha de continuarmos, hein?
_Eu acho... ótimo.

Quando conseguiram dormir já passava das cinco horas da


manhã.
Leonardo levantou-se às 9h e saiu sem fazer barulho; Suzana
acordou às 10h e viu que estava sozinha no quarto; levantou-se,
usou o banheiro, colocou uma roupa e foi até a cozinha. O cheiro
estava delicioso.
_Bom dia! Por que você não me chamou?
_Estava dormindo tão gostoso e eu queria fazer uma surpresa. Fui
até a padaria e comprei tudo o que sei que você gosta.
_Hum... este cheirinho de café é maravilhoso!
_Espera aí, eu já volto.

Voltou em seguida com um lindo bouquet de rosas vermelhas.

_Para minha linda e maravilhosa esposa. A noite ontem foi


perfeita em todos os sentidos. Perfeita. Eu amo você.
_Obrigada, são lindas! Ah... você disse exatamente o que está
escrito no cartão.
_Sim. Que tal agora nós tomarmos café?
_Concordo. Estou com muita fome.
_Gastou muitas calorias ontem.

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Tânia Gonzales

_E você...
_Eu? Não tenho nada a ver com isso!
_É mesmo?
_Não. Eu tenho tudo a ver e sempre quero ser o responsável por
isso, sempre.

_Suzana, filha? Tudo bem com você? - perguntou Marina ao ligar


naquela tarde de sábado.
_Oi, mãe. Tudo ótimo.
_Filha, eu liguei para fazer um convite.
_Convite?
_Nós gostaríamos que vocês almoçassem conosco amanhã.
_Almoço aí, amanhã?- perguntou Suzana olhando para Leonardo
que estava ao seu lado na cama e balançou a cabeça
afirmativamente.
_Tudo bem, mãe, amanhã estaremos aí. Um beijo. Tchau.
_Eu pensei em passar o final de semana inteiro só com você, mas
posso abrir uma exceção- disse Leonardo assim que ela desligou.
_Você não está cansado de ficar aqui sozinho comigo?
_Cansado, nem pensar. Eu adoro ficar aqui sozinho com você,
principalmente aqui neste cômodo da casa.
_É mesmo? Nem havia percebido.
_Não? Duvido. Mas, eu acho que estamos conversando demais,
que tal você me acompanhar?
_Para aonde você pretende me levar?
_Para o banho.

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

Epílogo

_ Vocês vão mesmo para Porto de Galinhas no próximo feriado?_


perguntou Davi durante o almoço.
_Vamos, sim, sogrão. E ficaremos no mesmo hotel; pena que serão
só três dias.
_Compensa? É tão longe!- disse Marina.
_Vai compensar com certeza- disse Suzana dando uma discreta
piscada para o marido.

Antes de começar o culto, Suzana encontrou-se com Letícia, Paula


e Lúcia que estavam conversando na lanchonete da igreja.
_Lá vem a senhora Martins- disse Letícia.
_Olá, amigas. Tudo bem com vocês?
_Tudo ótimo. Mas que sorriso é este? Já tem novidade para nós? -
perguntou Lúcia.
_Novidade? O que... ah, já sei. Não, ainda não. Calma, ainda nem
completei dois meses de casada!
_É verdade, calma, Lúcia. Estamos sabendo que você vai prestar
um concurso, é verdade? - foi a pergunta de Paulinha.
_É isso mesmo. Pretendo dar aulas para o ensino fundamental e
depois quero ser professora universitária.
_É isso aí, amiga. Você consegue. Então no próximo ano você vai
continuar estudando, não é?- desta vez foi Letícia que perguntou.
_Vou, com certeza. Não posso parar e o Leonardo me dá a maior
força. Ele me incentiva muito. Mas e vocês, quais as novidades?
Lúcia?
_Bom... eu estou indo muito bem na faculdade e também está tudo
ótimo no escritório Martins e Soares associados. Estão gostando

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Tânia Gonzales

muito do meu serviço. E... o que mais... o Willian anda me


convidando para sair, um dia desses eu aceito.
_Hum... que legal! E você Lê?
_Você sabe que termino odontologia neste ano e estou estagiando
em uma conhecida clínica; confesso que simpatizo muito com as
proprietárias. Eu e o Dani pretendemos casar no próximo ano.
_Que notícia maravilhosa! Paulinha...
_Depois de tantas novidades... estou indo muito bem na faculdade
de Veterinária. Meus pais estão cada dia mais unidos. Não estou
namorando, pelo menos por enquanto, quem sabe em um futuro
próximo... ah, estou me alimentando muito bem.

À noite após o culto...

_Amanhã eu vou acertar tudo para nossa viagem. Achei engraçado


a sua mãe perguntar se compensava...
_Ela não imagina o que nós estamos pretendendo fazer lá.
_Será?
_Bom... no mínimo ela pensa que queremos aproveitar o local
para passear...
_Eu só quero aproveitar o quarto.
_Leonardo, Leonardo. Nós dois merecemos ir até lá e...
_E... por que você ficou toda vermelha, hein?
_Para com isso.
_Foi ideia sua voltarmos para lá e...
_Tudo bem, foi ideia minha, eu confesso. Eu quero apagar aquela
nossa primeira viagem juntos. Desta vez, com certeza, será muito
especial.
_Com certeza.
_Leonardo, você não sabe o quanto eu agradeço a Deus por ter
colocado você em meu caminho. Você sempre foi tão

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Suzana, Letícia, Paula e Lúcia – uma história de dor, amor e perdão

compreensivo, atencioso e...


_Mas ultimamente eu estava insuportável, pode dizer.
_Meu amor, tudo tem limite. Você estava cansado de esperar por
mim e com toda razão.
_O importante é que está tudo bem agora e que estamos muito
felizes.
_Muito felizes. Que alívio! Eu entrava em pânico só de pensar que
você iria se aproximar, agora eu não vejo a hora de você chegar
bem pertinho de mim. Às vezes eu acho que é um sonho. Parece
que estou sonhando desde sexta-feira.
_Vem aqui que eu vou te mostrar que não é um sonho, vem...

Fim

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