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S6 sabático

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SÁBADO, 5 DE JUNHO DE 2010 O ESTADO DE S. PAULO

Inédito
Leia a seguir fragmento do último romance do paranaense
Wilson Bueno, que foi morto em sua casa, em Curitiba, no
início da semana; a obra sairá em 2011 pela editora Planeta

CARLINHOS MÜLLER/AE

MANO,
A NOITE
ESTÁ
VELHA
gora, Mano, é a
noite, a mesma
e imemorial noi-
te do bairro

A
new-kitsch que
nos acolheu um
dia, região pos-
ta à margem
convertida hoje
em polo referen-
cial da cidade. Terminais de ônibus ex-
pressos, prediozinhos acanhados e as ca-
sas d’antanho – persistentes; algumas de
madeira, com lambrequins e ali, ainda, a
chaminé do jurássico fogão à lenha.
Dia desses, o retrato, não sabido, dentro de
um velho livro. Ao virar a página, sonolento,
depois de alguns bons minutos de leitura, ei-
lo que desprega da página, ali não sei há quan-
totempo,einusitado,giraecaientreascober-
tas,deborco,oreversoencardido,manchado.
Desviro o retrato num gesto autômato.
Nele estamos nós: um longínquo domingo
no Passeio Público. A foto é de uma beleza
inesperada e exasperante. A Mãe, em pé, na
grama, a saia godê; o Pai, também ereto, o
terno de paletó trespassado, a gravata, o
chapéu; você de um lado e eu de outro,
ambos de calças curtas, ambos de azul-ma-
rinho, o branco colarinho fechado.
Atrás de nós a vegetação, os pedalinhos
do lago – esmaecidos como se numa tela
impressionista, tanto o tempo descoloriu o
retrato mambembe. Mas estamos nítidos,
os quatro, numa harmoniosa composição,
quase artística, eu diria, Mano, não fossem
fuleiros modelos, fotógrafo e paisagem.
Fragmentos, pequenos textos a marcar o
andado da hora, nem sempre na ordem em
que as horas se põem – mas engolidas pelo
tempo como quem despenca de um abismo.
Pinheiros & precipícios. Cores fortes, repi-
to,ainda que de aquarela, cores fortes e som-
brias, possivelmente a exalar alguma ternu-
ra, a mexer com esses afetos, com essas afei-
ções insubstituíveis, às vezes prosaicas, ali
onde, queiramos ou não, se fazem – ou se
desfazem – os laços de família.
Nenhuma coragem de rever os velhos ál-
buns onde guardamos a nossa cara de meni-
nos; e do Pai, da Mãe, uns olhos buliçosos,
juvenis. Não põe sal na ferida, Frederico –
ouves? Longínqua a voz da Mãe, a pôr ter-
mo ao assunto doloroso, vulgar, assunto
que eu repisava com um gosto perverso. Ela
mesma amuada e sem esperanças, deixan-
do cair a frase como deixava cair os ombros,
sentada no gasto sofá da varanda.

AS METAMORFOSES DE UM
ILUMINISTA DEMOLIDOR
Ficcionista usou animais como uma alegoria da corrupção e da selvageria

DANIEL SNEGE/ DIVULGAÇÃO


não é, mas poderia ser, o que coloca o au- O AUTOR
ANTONIO GONÇALVES FILHO tor do outro lado da linha de La Fontaine Nome: Wilson
e outros moralistas. Para Bueno, a apro- Bueno (1949-2010)
ilson Bueno priação era um direito literário e ele não Origem: Jaguapitã (PR)
foi nosso La abriu mão de ressuscitar Ivan Krilov para Principais obras:
Fontaine, in- refletir sobre nosso atual estado de irra- Bolero’s Bar (Editora
felizmente cionalidade, usando as lições desse ilumi-

W
Travessa, 1986), Mar
nada popu- nista, que igualmente recorria às bestas Paraguayo (Iluminuras,
lar como o fa- como alegorias de nossa corrupção e sel- 1992), Meu Tio Roseno,
bulista fran- vageria, a mesma que matou a facadas o a Cavalo (Editora 34,
cês. Há cin- ficcionista brasileiro de 61 anos. 2000) e A Copista de
co anos, ao Bueno tem tantos livros bons que seria Kafka (Planeta, 2007)
comentar difícil apontar o melhor. Desde Mar Para-
seu Cachorros do Céu, escrevi que algum guayo, publicado em 1992 pela editora Ilu-
dia o Brasil ainda iria reconhecer o escri- minuras – em portunhol, como foi conce-
tor paranaense – assassinado em sua ca- bido –, esse cruzamento híbrido de guara-
sa, em Curitiba, onde foi encontrado mor- ni, português e espanhol ficou identifica-
to na última segunda-feira – como um do como sua marca registrada, a da iro-
dos grandes reinventores do panorama li- nia fina, erudita, demolidora, que não
terário brasileiro. E foi. No entanto, o poupa ditaduras nem ditadores. Há, em
que produziu jamais recebeu os mereci- Cachorros do Céu, um grau tão elevado de
dos prêmios – e ele foi finalista de tantos demolição que as próprias palavras tre-
deles, perdendo sempre, que deve ter se mem em desenfreada metamorfose, co-
habituado à derrota. O talentoso ficcio- mo seus bichos – um jabuti que se disfar- que é Mano, A Noite Está Velha. A Iluminu- em dois rápidos parágrafos.
nista chileno Roberto Bolaño (1953- ça de bacia, um macaco que dança taran- ras, além de Mar Paraguayo, lançou tam- Criador de um caderno cultural de
2003), ao menos, ganhava todos, mesmo tela e um rato beauvoiriano que se enoja bém o experimental Jardim Zoológico, grande repercussão, também lido por
não tendo a popularidade de que desfruta da experiência existencial. apresentado pelo compositor Arnaldo An- acadêmicos e plebeus, Nicolau, e duran-
nos dias de hoje. Fatalmente deve aconte- Diversas editoras se ocuparam da obra tunes. Nomes como o do músico pop e o te anos colaborador do Estado, Wilson
cer o mesmo com Wilson Bueno, que já de Wilson Bueno, que desde 2005 era ex- do ensaísta Benedito Nunes, autor do pre- Bueno vai ser lembrado, sobretudo, por
tem livros publicados fora do Brasil. clusivo da Planeta do Brasil – à qual cou- fácio de Meu Tio Roseno, a Cavalo, ates- sua generosidade, por seu humor e
Metamorfose era o negócio de Bueno. be seu testamento literário, este acerto tam a versatilidade de Bueno, capaz de imenso talento literário. Bolaño deve es-
Em Cachorros do Céu, tudo parece o que de contas com o irmão, morto em 2002, pular da academia para o bar da esquina tar em boa companhia.