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“A METÁFORA DA ÁGUIA COM A

SERPENTE EM ASSIM FALOU ZARATUSTRA:


UM DESAFIO AO PENSAR E AO VIVER”.
LUIZ CELSO PINHO

RESUMO
Este artigo pretende mostrar que a imagem dos animais de Zaratustra
nos remetem a dois problemas centrais na filosofia de Nietzsche. Em
primeiro lugar, a superação do pensamento dicotômico, instaurado pela
Metafísica. Em segundo lugar, o abandono de uma concepção linear de
tempo, através da teoria do Retorno. Ambos os problemas representam
grandes desafios à existência humana.
PALAVRAS- CHAVE: superação das dicotomias, eterno retorno, vida humana.

ABSTRACT
In this paper I argue that the image of animals presented in Zarathustra
is connected to two fundamental problems of Nietzsche’s philosophy.
First, the overcoming of the dichotomous thought created by metaphysics.
Second, the refusal of a linear conception of time as a consequence of the
theory of Return. Both problems represent a great challenge for human
existence.
K EY - WORDS : dichotomous thought, eternal recurrence, human life.

Logo no início do Prólogo, ao prestar homenagem ao aspecto


luminoso do sol, Zaratustra nos fornece uma clara indicação de que
não passou totalmente isolado sua reclusão voluntária no alto de
uma montanha: “são dez anos que sobes à minha caverna; e já se te
haveriam tornado enfadonhos a tua luz e este caminho, sem mim, a
minha águia e a minha serpente”.1 Zaratustra elege uma ave e um
ofídio como seus animais. Chegará inclusive a considerá-los “animais

1
AFZ, “Prólogo”, # 1, p. 27.

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de honra”.2 Tais referências fornecem apenas um esboço geral do


tipo de vínculo que mantém unido esse trio. Em outras passagens
percebemos que a águia e a serpente dão conselhos a Zaratustra,3
cuidam dele após suas crises,4 lhe servem de guia,5 e, acima de tudo,
atestam que ele está capacitado a afirmar o eterno retorno, naquele
que será o momento culminante de seu percurso.6 Além disso, às
vezes, o próprio Zaratustra recomenda àqueles que o procuram (no
caso, os chamados “homens superiores”)7 que escutem com atenção
o que seus animais têm a dizer.8
Não há como deixar passar desapercebido que nas situações
mencionadas acima a águia e a serpente agem sempre em conjunto,
como se compusessem uma unidade indissolúvel.9 Avaliando essa
parceria do ponto de vista biológico, não há dúvida que se trata de um
encontro totalmente insólito. No entanto, pretendemos assinalar
justamente as implicações teóricas decorrentes da metáfora criada por

2
AFZ, IV, “O canto ébrio”, # 2, p. 319.
3
Cf. AFZ, III, “O convalescente”, # 2, p. 223; IV, “O sacrifício do mel”, p. 241.
A águia e a serpente também exortam Zaratustra a aprender a aprender a cantar
(cf. AFZ, III, “O convalescente”, # 2, p. 226).
4
CF. AFZ, III, “O Convalescente”, # 1, p. 222 e # 2, p. 223).
5
“Encontrei mais perigos entre os homens do que entre os animais, perigosos
são os caminhos de Zaratustra. Possam guiar-me meus animais” (AFZ, Prólogo,
# 10, p. 41). Essa passagem é evocada de novo na Terceira Parte, em “O
regresso”, p. 190.
6
“Pois bem sabem os teus animais, ó Zaratustra, quem és e quem deves tornar-
te: és o mestre do eterno retorno — este, agora, é o teu destino!” (AFZ, III, “O
convalescente”, # 2, p. 226). Esse reconhecimento do que se passa consigo
através do “outro” não é uma novidade: “Que me aconteceu, afinal, meus
animais? — disse Zaratustra. — Acaso, não estou transformado? (AFZ, II, “O
menino com o espelho”, p. 97). Aliás, a outra personagem que também corrobora
que Zaratustra já incorporou os ensinamentos da teoria do Círculo é a Vida,
como se pode entrever quando ela diz a respeito do que lhe é segredado no
ouvido: “Tu sabes isto, Zaratustra? Ninguém sabe isto..” (AFZ, III, “O outro
canto de dança”, # 2, p. 233).
7
Deleuze considera que “eles representam (...) o devir da cultura, ou o esforço
para pôr o homem no lugar de Deus” (Deleuze, G. “Dicionário dos principais
personagens de Nietzsche” in Nietzsche, p. 37).
8
Cf. AFZ, IV, “O feiticeiro”, # 2, p. 260; “O mendigo voluntário”, p. 273 e “O
mais feio dos homens”, p. 269.
9
Haar ressalta que entre eles ocorre uma “simbiose maravilhosa” (Haar, M. “Les
animaux de Zarathoustra”, p. 211). Quando a serpente aparece sem a companhia
da águia representa algo negativo para a vida — o niilismo (cf. AFZ, III, “Da
visão e do enigma”, # 2, p. 167-8).

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Nietzsche. O ponto de partida para tal análise encontra-se no final do


Prólogo: “E eis que [Zaratustra] viu uma águia voando em amplos
círculos no ar e dela pendia uma serpente, não como presa, mas como
amiga, pois segurava-se enrolada em seu pescoço”.10 Tem-se aqui
uma imagem que se presta a duas séries de reflexões: uma que se
detém na combinação harmônica entre seres que se locomovem de
formas distintas (o alado e o rastejante) e outra que privilegia a alusão
reiterada à figura do círculo (no vôo da águia e na posição da serpente).
Além de dialogarem com Zaratustra e de o acompanharem ao
longo de sua jornada, esses animais estão relacionados com os desafios
pelos quais ele irá se deparar. Em seu derradeiro discurso, curiosamente
também realizado ao nascer do dia, Zaratustra dá-se conta de que
ainda não encontrou aqueles capazes de trilhar o mesmo caminho dele
— seus “homens certos” —; mas, enuncia, a respeito da águia e da
serpente, o que a humanidade ainda não foi capaz de lhe proporcionar:
“Sois os animais certos para mim”.11 Se se pode afirmar que esses dois
animais são certos é porque apontam, através de metáforas, para aquilo
que há de mais decisivo no aprendizado de Zaratustra. Por um lado,
colocam a questão da oposição de valores ou, mais exatamente, do
pensamento dicotômico, através da polaridade entre alto e baixo. Por
outro lado, retratam uma concepção circular de tempo que vai de
encontro aos processos finalistas, lineares ou totalizantes que
culminam em alguma forma de aprimoramento.
Em suma, a união dos animais sinaliza para Zaratustra a
necessidade evitar tanto o modo de pensar metafísico, que caracteriza-
se pelo estabelecimento de dualismos, quanto a crença —
simultaneamente religiosa e platônica12 — de que o sentido da vida ou
a verdade das coisas devem ser procurados num além-mundo de formas
eternas e essenciais. Na imagem da águia com a serpente está presente
não somente os obstáculos pelos quais Zaratustra terá de passar
como também, pelo menos simbolicamente, a solução para cada um
deles. Nos ocuparemos de cada uma dessas questões a partir da

10
AFZ, Prólogo, # 10, p. 40. Cabe salientar que mesmo no solo a serpente
continua pendendo do pescoço da águia (cf. AFZ, IV, “A saudação”, p. 280).
11
AFZ, IV, “O sinal”, p. 326, os grifos são meus.
12
Em Além do bem e do mal, Nietzsche considera que “cristianismo é platonismo
para o ‘povo’”, o que os torna expressão de uma mesma vontade (Op. cit.,
Prólogo, p. 8).

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narrativa poético-dramática de Assim falou Zaratustra para mostrar


que ambas, além de serem indissociáveis, pois aquele que almeja atingir
uma realidade sem as imperfeições desta já cindiu o mundo em duas
instâncias heterogêneas, constituem aspectos basilares de projeto
filosófico de Nietzsche.

II

A trajetória de Zaratustra está marcada por diversos extremos:


meio-dia e meia-noite, terra firme e alto mar, cume e abismo, solidão e
convívio com os outros, saúde e enfermidade etc. Percebemos, assim,
que há um movimento oscilante entre lugares e situações que se
excluem mutuamente. Essa dinâmica o afeta profundamente. Aliás,
poder-se-ia mesmo dizer que escapar dela representa sua principal
meta. De certo modo, Zaratustra torna-se uma versão nietzschiana do
martírio imposto a Sísifo pelos deuses olímpicos. A diferença, como
veremos mais adiante, é que existe uma solução para esse impasse
causado por estados antagônicos.
Independente do aspecto existencial dessa problemática, nosso
interesse reside em analisar como a linguagem poética empregada por
Nietzsche pode ser traduzida em termos filosóficos. Daí a importância
da idéia de que “a crença fundamental dos metafísicos é a crença nas
oposições de valores”,13 ou seja, de que o pensamento ocidental,
desde o advento de Sócrates, faz-se a partir de uma matriz dicotômica.
Através da alternativa entre mundo-aparente (da transitoriedade) e
mundo-verdadeiro (das idéias imutáveis), os juízos passam a ter por
base uma contraposição primeira, como verdadeiro e falso, belo e feio,
certo e errado, racional e irracional, e daí por diante.
Nietzsche questiona frontalmente tal preceito metafísico: “pode-
se duvidar, primeiro, que existam absolutamente opostos; segundo,
que as valorações e oposições de valor populares, nas quais os
metafísicos imprimiram seu selo, sejam mais que avaliações-de-fachada,
perspectivas provisórias, talvez inclusive vistas de um ângulo, de baixo
para cima talvez, ‘perspectivas de rã’, para usar uma expressão familiar
aos pintores”.14 Falar de uma oposição absoluta é um artifício da

13
Nietzsche, F. Além do bem e do mal, # 2, p. 10.
14
Ib., p. 10.

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linguagem: se levamos em consideração a existência de gradações, não


há, por exemplo, o quente absoluto se contrapondo a um frio absoluto,
mas sim uma multiplicidade de estados diferenciados entre si.
Além dessa crítica à superficialidade do discurso metafísico,
num aforismo paradigmático de Crepúsculo dos ídolos, Nietzsche
ataca o próprio ideal de o pensamento atingir a verdade. Para tanto,
traça um histórico sucinto de seis etapas. Primeira: apenas o sábio
virtuoso tem acesso a ela (platonismo). Segunda: ela se torna
inacessível no mundo terreno (cristianismo). Terceira: na medida em
que não pode ser demonstrada totalmente, faz-se necessário sempre
estar em busca dela (criticismo kantiano). Quarta: se ela não pode ser
conhecida, então também não deve ser levada em conta (positivismo).
Quinta: torna-se “uma idéia que não é útil para nada” (inversão
nietzschiana dos valores). Sexta: “com o mundo verdadeiro destruímos
também o aparente” (superação das dicotomias: transvaloração).15
Postular a inoperância de um pensamento calcado em valores
que se opõem de modo excludente não constitui, porém, o intuito
principal de Nietzsche. Seu interesse reside, acima de tudo, em ressaltar
que o problema do conhecimento não se restringe a uma discussão
meramente epistemológica, pois a verdade germina a partir do solo da
moral. Quando o filósofo for capaz de “substituir a pergunta kantiana,
‘como são possíveis juízos sintéticos a priori?’, por uma outra
pergunta: ‘por que é necessária a crença em tais juízos?’”,16 então ele
se dará conta de que “não passa de um preconceito moral que a verdade
tenha mais valor do que a aparência; é inclusive a suposição mais mal
demonstrada que já houve”.17 Consideramos que Zaratustra depara-
se, inicialmente, com essa discussão conceitual a partir de uma
dimensão dramática, ou ainda, existencial.
Mas, o intuito de Nietzsche consiste em solapar os alicerces
da metafísica. Em Assim falou Zaratustra, isso será retratado através
da imagem do par águia-serpente. Essa abordagem metafórica revela-
se bastante valiosa, pois o absurdo que a parceria entre exímios
predadores — uma ave de rapina e um ofídio peçonhento — atesta o
grau de impossibilidade envolvido na instauração de uma forma de

15
Nietzsche, F. Crepúsculo dos ídolos, “Como o ‘verdadeiro mundo’ acabou por
se tornar fábula”, p. 35-6.
16
Nietzsche, F. Além do bem e do mal, # 11, p. 18.
17
Ib., # 34, p. 41.

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pensar desprovida de qualquer referencial dicotômico. A “esperança”


nietzschiana no advento de “filósofos do futuro” ou de uma raça de
“super-homens” esbarra, certamente, na dificuldade de emitir juízos
que estejam desprovidos de valorações calcadas em oposições. Deste
modo, a própria idéia de verdade requer uma total reformulação.
Nietzsche supera esse empecilho prático através de um artifício
poético. Num primeiro momento, a sabedoria de Zaratustra profere o
seguinte em relação ao problema dos opostos: “Não existe alto nem
baixo!”18 Tem-se assim a simples negação do que seria uma evidência
metafísica. Porém, num segundo momento, Zaratustra proclama: “meu
mundo acabou de atingir a perfeição, a meia-noite é também meio-dia.
A dor é também prazer, a maldição é também benção, a noite é também
um sol”.19 Como vimos, essa solução será estendida para a história da
filosofia em Crepúsculo dos ídolos, sendo que Nietzsche caracterizará
a si mesmo como a saída definitiva da prisão metafísica na qual nos
encontramos.
A simbiose entre uma espécie alada e outra rastejante tanto
representa a constatação de que o pensamento se processa dentro de
uma estruturação dicotômica quanto sinaliza o caminho que Zaratustra
deverá tomar para escapar de suas angustiantes idas e vindas ou de
suas sucessivas alternâncias de estado. O que ele denomina de
“perfeição” — a superação das dicotomias — está diretamente
vinculada ao modo como seus animais vivem. Neste sentido, a atitude
que ele deve adotar para se desfazer dos impasses vivenciados ao
longo de seu percurso corresponde à solução filosófica concebida
por Nietzsche para que o dualismo metafísico seja superado.

III

A segunda imagem suscitada pelos animais diz respeito a uma


figura geométrica — o Círculo. Através dele coloca-se o problema da
afirmação do eterno retorno. Tem-se aqui, mais uma vez, um problema de
cunho existencial, pois a tarefa de Zaratustra será a de lidar com a vida, ou

18
Nietzsche, F. Assim falou Zaratustra, III, “Os sete selos”, # 7, p. 237.
19
AFZ, III, “O canto ébrio”, # 10, p. 323-4. No início da Terceira Parte,
Zaratustra anseia pelo dia em que cume e abismo se tornem uma coisa (cf. “O
viandante”, p. 161).

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melhor, com a temporalidade, sem considerá-la um processo orientado


para um estado futuro de acabamento e realização. Essa compreensão do
devir possui traços em comum com a sabedoria trágica dos antigos gregos.
Contudo, em Assim falou Zaratustra, Nietzsche fará referência ao que ele
poeticamente denomina de a “felicidade dos animais”.20 É ela que lhes
confere a autoridade de explicitar, em primeiro lugar, inclusive, o que vem
a ser a filosofia nietzschiana do Retorno: “Tudo vai, tudo volta; eternamente
gira a roda do ser. Tudo morre, tudo refloresce, eternamente transcorre o
ano do ser. Tudo se desfaz, tudo é refeito; eternamente constrói-se a
mesma casa do ser. Tudo separa-se, tudo volta a encontrar-se; eternamente
fiel a si mesmo permanece o anel do ser. Em cada instante começa o ser;
em torno de todo o ‘aqui’ rola a bola acolá. O meio está em toda a parte.
Curvo é o caminho da eternidade.”21
Deleuze minimiza a relevância do discurso proferido pelo par
águia-serpente para o esclarecimento de algo tão fundamental para o
homem como a teoria do Círculo, tendo em vista que a dupla a exprime
“de maneira animal, como uma certeza imediata ou uma evidência
natural. (A essência do eterno Retorno escapa-lhes, quer dizer, o seu
caráter seletivo, tanto do ponto de vista do pensamento como do Ser.)
Por isso, fazem do eterno Retorno uma ‘tagarelice’, uma ‘omissão’”.22
Essa postura sugere que a teoria do Retorno pode ser enunciada a
partir de dois níveis: um biológico (instintivo) e outro ético (que
envolve avaliações). A rigor, no entanto, também seria possível falar
da perspectiva da Vida, que, em determinados momentos, corrobora o
que Zaratustra lhe segreda sobre a sabedoria trágica.23
A censura a esse modo direto, e, talvez, simplificado, de entender a
dinâmica trágica da existência não invalida completamente a experiência
dos animais. O exemplo deles tem um valor pedagógico na medida em que
eles “não sofrem pelo passado, nem receiam o futuro. Eles vivem num
presente eterno”.24 Numa perspectiva nietzschiana, isso significa que a
vida não tem um sentido: ela não obedece a um processo finalizado. Tudo
o que acontece encontra-se regido pelo princípio do Caos. O que é pontuado
indiretamente pelos animais aparece em inúmeros aforismos de Nietzsche.

20
AFZ, IV, “O mendigo voluntário”, p. 273.
21
AFZ, III, “O convalescente”, p. 224.
22
Deleuze, G. “Dicionário dos principais personagens de Nietzsche” in
Nietzsche, p. 35, os grifos são meus.
23
Cf. AFZ, III, “O outro canto de dança”, # 2, p. 233.
24
Haar, M. “Les animaux de Zarathoustra”, p. 203.

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Destacamos dois. Um anterior a redação de Assim falou Zaratustra e outro


posterior. O primeiro faz um alerta: “Guardemo-nos de atribuir a esse curso
circular qualquer tendência, qualquer alvo: ou de avaliá-lo, segundo nossas
necessidades, como enfadonho, estúpido, e assim por diante (...) Guardemo-
nos de pensar a lei desse círculo como algo que veio a ser, segundo a falsa
analogia dos movimentos circulares no interior do anel.”25 No segundo
aforismo, Nietzsche define o mundo como “um monstro de força, sem
começo nem fim, uma quantidade de força brônzea que não se torna nem
maior nem menor, que não se consome, mas só se transforma (...)”.26
Zaratustra incorpora esses pressupostos filosóficos, pois está ciente
de que não haverá uma vida melhorada, nem sequer uma nova vida. De
acordo com ele, a existência “futura” será implacável e maravilhosamente a
mesma. Daí rejubilar-se desse ciclo inevitável: “Retornarei com este sol,
com esta terra, com esta águia, com esta serpente — não para uma nova
vida ou uma vida melhor ou semelhante. Eternamente retornarei para esta
mesma e idêntica vida, nas coisas maiores como nas menores, para que eu
volte a ensinar o eterno retorno de todas as coisas.”27 Pensar a história
humana a partir do modelo do Círculo é a segunda tarefa que os animais de
Zaratustra lhe sinalizam alegoricamente.
Esse tipo de teoria pode levar, sem dúvida, a uma atitude pessimista
em relação à existência, pois se tudo volta, no fundo, “nada vale a pena”,28
como proclamam os deturpadores, e, estes sim, sem dúvida, simplificadores,
da doutrina de Zaratustra. Se não há esperança em dias melhores, nem na
volta a tempos dourados, o que importa é “querer a eternização do instante
vivido”.29 Mas, para eternizar o presente faz-se necessário viver sem
pretender almejar atingir um estado — terrestre ou celestial — mais
verdadeiro. O “anel dos anéis”, que sela o matrimônio de Zaratustra com a
Vida, implica a fórmula do amor fati: “Nada querer diferente, seja para trás,
seja para a frente, seja em toda a eternidade”.30

25
Nietzsche, F. “O eterno retorno” (textos de 1881), # 20, in Obras incompletas,
p. 389.
26
Nietzsche, F. A vontade de potência, # 385, p. 289.
27
AFZ, III, “O convalescente”, # 2, p. 227.
28
Eis as fórmulas que caracterizam a versão pessimista do ensinamento de
Zaratustra: “Tudo é vazio, tudo é igual, tudo foi!”, “Inútil foi todo o trabalho”
(AFZ, II, “O adivinho”, p. 145); “Tudo é igual, nada vale a pena, o mundo não
tem sentido, o saber nos sufoca” (AFZ, IV, “O grito de socorro”, p. 244), “inútil
é a procura” (ib., p. 246).
29
Machado, R. Zaratustra, tragédia nietzschiana, p. 135.
30
Nietzsche, F. Ecce homo, “Por que sou tão inteligente”, § 10, p. 78.

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Seria possível, contudo, ressaltar uma contradição nos discursos


de Zaratustra, tendo em vista que ele, em inúmeras ocasiões, notadamente
na Primeira Parte do livro, anseia pela vinda do “super-homem” num tempo
futuro para redimir a Terra. Deste modo, ele também compartilharia de um
evolucionismo darwinista.31 Essa objeção deixa de ser pertinente se
priorizamos o aspecto dramático da obra. Como assinala Roberto Machado,
“o super-homem é apresentado numa perspectiva linear de tempo, numa
perspectiva teleológica, de processo finalizado, como o movimento de
realização do homem ou um projeto de redenção futura dos terrores e
horrores da existência atual, que não é última palavra de Assim falou
Zaratustra sobre o super-homem e, muito menos sobre o tempo”.32 Fink
também aponta nessa direção, apesar de abordar outra questão, ao afirmar
que “a teoria nietzschiana do eterno retorno começa no tempo linear e (...)
avança depois para a supressão do tempo linear”.33
Desde A gaia ciência, Nietzsche considera que o sacerdote apregoa
um mundo verdadeiro no além “para que tudo o que ocorre necessariamente
e por si, sempre e sem nenhuma finalidade, apareça doravante como tendo
sido feito para uma finalidade e seja plausível para o ser humano, enquanto
razão e derradeiro mandamento”.34 Com isso, não apenas a divisão entre
mundo terreno e mundo supra-sensível perece diante de uma filosofia do
Retorno como também a vida passa a ser interpretada a partir de elementos
imanentes. Mais do que se limitar ingenuamente ao sensível, Zaratustra é
aquele que anuncia o “super-homem” como meio de resgatar o autêntico
sentido da vida, tendo em vista que o Círculo representa a aliança entre o
ser humano e o instante, entendido como a afirmação incondicional do
passado e o total desprendimento em relação ao futuro.

IV

O que pretendemos apontar neste texto foi que Nietzsche utiliza-


se da metáfora da águia com a serpente em Assim falou Zaratustra para
retratar, por um lado, as dificuldades pelas quais seu personagem central

31
Nietzsche negará, posteriormente, que Zaratustra tenha qualquer afinidade
com Darwin (cf. Nietzsche, F. Ecce homo, “Por que escrevo bons livros”, # 1,
p. 82).
32
Machado, R. Zaratustra, tragédia nietzschiana, p. 50.
33
Fink, E. A filosofia de Nietzsche, p. 99.
34
Nietzsche, F. A gaia ciência, # 1 (“Os mestres da finalidade da existência”).

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passaria e, por outro lado, no intuito de apontar, de forma simbólica, o


caminho que ele deveria trilhar para poder superá-las. A imagem de dois
animais ocupando posições “antagônicas” — nas alturas e junto ao
solo — representa uma crítica à oposição de valores e remete a uma
dificuldade constitutiva, já que pretende superar algo que é inerente ao
modo de ser do pensamento. Além disso, a dupla alusão à circularidade
— no percurso da ave e na posição do ofídio — envolve um problema
eminentemente existencial: viver sem esperar atingir um ponto de chegada
mais verdadeiro, esteja ele num tempo futuro ou na eternidade.
Os animais de Zaratustra o colocam diante de um desafio
simultâneo ao pensar e ao viver. Estaria o ser humano habilitado a
realizar essa tarefa? De acordo com os discursos de Zaratustra, trata-se
de um acontecimento inevitável. No entanto, não podemos deixar de
lado as dificuldades (de ordem teórica e prática) que perpassam tal
empreendimento. Para os que nutrem algum tipo de esperança, seria
oportuno lembrar a interpretação de Nietzsche do mito de Pandora. Ele
explica que “Zeus quis que os homens, por mais torturados pelos outros
males, não rejeitassem a vida, mas continuassem a se deixar torturar.
Para isso lhes deu a esperança: ela é na verdade o pior dos males, pois
prolonga o suplício dos homens.”35 Não se pretende, com isso, sugerir
que a existência não vale a pena, mas sim que o caminho de Zaratustra
conjuga perigosamente luz e trevas. Como uma vela que quanto mais
ilumina acaba extinguindo-se, ele está fadado a consumir a si mesmo...

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