ANÁLISE TERMINÁVEL E INTERMINÁVEL 1
I
A experiência ensinou-nos que a terapia psicanalítica - a superação dos
sintomas, inibições e outras perturbações de um sujeito de carácter neurótico -
é um assunto que consome bastante tempo. Daí que tenha havido desde o
início várias tentativas para encurtar a duração das análises. Estes esforços
não precisavam de ser justificados, pois podia-se alegar que se apoiavam nas
mais fortes considerações da razão e da conveniência. Provavelmente havia
também neles um traço do desprezo impaciente com que a ciência médica de
dias anteriores encarou as neuroses, considerando-as importunas e
causadoras de danos invisíveis. Mas agora que se é obrigado a reconhecer a
existência das neuroses, alguns tentam livrar-se delas do modo mais rápido
possível.
Uma tentativa particularmente enérgica foi feita neste sentido por Otto
Rank, após a publicação do seu livro O Traumatismo do Nascimento (1924).
Ele supôs que a verdadeira origem da neurose era o nascimento, uma vez que
este envolvia a possibilidade da “fixação originária” da criança à mãe não ser
1
DIE ENDLICHE UND DIE UNENDLICHE ANALYSE
(a) EDIÇÕES ALEMÃS:
1937 Int. Z. Psychoanal., 23 (2), 209-40.
1950 G. W., 16, 59-99.
(b) TRADUÇÃO INGLESA:
‘Analysis Terminable and Interminable’
1937 Int. J. Psycho-Anal., 18 (4), 374-405. (Trad. de Joan Riviere.)
1950 C.P. 5, 316-57.
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superada ou persistir como “recalcado primordial.” Rank tinha a esperança que,
se tratássemos este trauma primevo através de uma análise subsequente,
ficaríamos livres de todas as neuroses. Um tal fragmento de trabalho analítico
pouparia o resto, pois alguns meses seriam suficientes para realizar a tarefa.
Não discutirei se o argumento de Rank era audaz e engenhoso, direi apenas
que não suportou o exame crítico. Como produto da sua época, concebido na
tensão entre a miséria do pós-guerra na Europa e a “prosperity” dos Estados
Unidos, foi projectado para adaptar o ritmo da terapia analítica à pressa da vida
americana. Não se ouviu falar muito do que Rank fez pelos doentes.
Provavelmente, não fez mais do que faria um Corpo de Bombeiros que,
chamado a socorrer uma casa que se incendiou devido a uma lâmpada de óleo
caída no chão, se contentasse em retirar a lâmpada do quarto em que o fogo
começou. Não há dúvida é que, por este meio, se conseguiria uma
considerável diminuição das actividades dos bombeiros. A teoria e a prática do
experimento de Rank são hoje coisas do passado, como a prosperidade
americana.
Antes mesmo da guerra, também adoptei uma maneira de acelerar o
tratamento analítico. Seguia nessa época o caso de um jovem russo, um
homem estragado pela opulência, que chegara a Viena num estado de
completo desamparo, acompanhado por um médico particular e um assistente.
Em poucos anos foi possível devolver-lhe uma grande parte da sua
independência, despertar o seu interesse pela vida e proceder a um
ajustamento das suas relações com as pessoas que eram mais importantes
para ele. Mas o progresso interrompeu-se aí. Não pudemos ir mais longe no
esclarecimento da neurose da sua infância, na qual se baseava a posterior. O
paciente considerava a sua situação de então altamente confortável e não
desejava dar qualquer passo em frente que o levasse para mais perto do fim do
tratamento. Era um caso de tratamento que se inibia a si próprio; corria, pois, o
perigo de fracassar em consequência do seu - parcial - sucesso. Neste dilema,
recorri à medida heróica de fixar um limite de tempo para a sua análise. No
início do ano, informei o paciente de que esse era o último ano do seu
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tratamento, não importando o que ele conseguisse no tempo que ainda lhe
restava. A princípio, não acreditou em mim, mas, assim que se convenceu que
eu falava a sério, a mudança desejada verificou-se. As suas resistências
definharam e, nesses últimos meses do seu tratamento, foi capaz de reproduzir
as lembranças e descobrir as conexões necessárias para a compreensão da
sua neurose infantil e o domínio da actual. Quando me deixou, em meados do
verão de 1914, suspeitando tão pouco quanto nós do que se ira passar,
acreditei que a sua cura fora radical e permanente.
Comuniquei já que me enganara numa nota de rodapé acrescentada em
1923 à história clínica desse paciente. Quando no fim da guerra ele voltou a
Viena, refugiado e pobre, tive de ajudá-lo a dominar uma parte da transferência
que não tinha sido resolvida. Esta tarefa foi realizada em alguns meses, e pude
terminar a minha nota de rodapé com a declaração que, “desde então, o
paciente tem-se sentido normal e comportado de um modo não excepcional,
apesar da guerra o ter despojado do seu lar, das suas posses e de todos os
seus relacionamentos familiares.” Quinze anos passaram-se sem que tenha
sido refutada a verdade deste veredicto, mas certas reservas tornaram-se
necessárias. O paciente permaneceu em Viena, onde manteve um lugar na
sociedade, ainda que humilde. Durante esse período, o seu bom estado de
saúde foi interrompido várias vezes por crises que foram interpretadas como
ramificações da antiga neurose. Graças à perícia de uma de minhas alunas, a
Dra. Ruth Mack Brunswick, algumas consultas foram pondo momentaneamente
fim a esses episódios críticos. Tenho esperança que a Dra. Mack Brunswick
publique em breve o que se passou. Algumas das crises do paciente ainda
estavam relacionadas com resíduos da transferência; quando isso acontecia,
por efémeras que fossem, apresentavam um carácter declaradamente
paranóico. Outras vezes, contudo, o material patogénico consistia em
fragmentos da história infantil que não tinham vindo à luz enquanto eu o estava
analisando, e que agora se desprendiam - a comparação é inevitável - como
suturas depois de uma operação, ou pequenos fragmentos de osso necrosado.
Considerei que a história do restabelecimento deste paciente era menos
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Mas só pode haver um veredicto sobre o valor desta chantagem: ela é eficaz desde que se acerte no tempo correcto. embora uma parte do material se torne acessível sob a pressão da ameaça. O ditado de que o leão só salta uma vez deve ser aplicado aqui. levando também em conta as experiências de outros colegas. Uma análise termina quando o analista e o paciente deixam de se encontrar para a sessão analítica. Isso acontece quando duas condições foram aproximadamente preenchidas: Análise terminável e interminável 4 . assim.Freud 1937 interessante do que a da sua doença. mais profundamente interessante: existe algo que possamos chamar “fim da análise”. Utilizei ainda a fixação de um limite de tempo noutros casos. e existe alguma possibilidade de levar uma análise a este término? A julgar pela conversa comum dos analistas. pois. só que nunca se pode garantir a realização completa da tarefa. não pode mais ampliá-lo. quando deploram ou desculpam as imperfeições de um colega. Mas um erro de cálculo não pode ser rectificado. uma outra parte será retida e. II A discussão do problema técnico de saber como acelerar o lento progresso de uma análise conduz a uma outra questão. Pelo contrário. há que decidir o que significa a expressão ambígua “fim da análise. a decisão deveria ser deixada ao tacto do analista. Tão pouco se pode estabelecer qualquer regra geral quanto ao momento oportuno para recorrermos a este artifício técnico.” Primeiro. A saída mais óbvia para o paciente seria continuar o tratamento com um outro analista. perdida para os nossos esforços terapêuticos. Uma vez que o analista fixou um limite de tempo. mas sabemos que esta mudança envolveria uma perda de tempo e o abandono dos frutos do trabalho já realizado. ouvimos frequentemente dizer: “a sua análise não terminou”. o paciente perderia toda a fé nele.” De um ponto de vista prático é fácil responder. parece que assim. podemos estar certos que. ficará sepultada. ou “ele nunca foi analisado até ao fim.
que o paciente não sofra mais dos seus sintomas. por outro lado. Análise terminável e interminável 5 . Constatou-se para mais que o ego do paciente não foi muito alterado e que pôde ultrapassar o trauma que esteve na origem da sua neurose. que nunca mais voltou. O que procuramos neste sentido é saber se o analista exerceu uma influência tão poderosa sobre o paciente que não se pode mais esperar uma mudança. Todo o analista já terá tratado de alguns casos que apresentaram esse gratificante desfecho. O problema é que a etiologia do distúrbio neurótico é mista. e. O outro significado do termo “fim da análise” é muito mais ambicioso. Conseguiu-se esclarecer o distúrbio neurótico do paciente. como se ela tivesse conseguido levantar todos os recalcamentos. tenha superado a sua ansiedade e inibições. Houve também lugar para a compreensão interna (insight) dos determinantes do sucesso terapêutico. voltar à nossa teoria. É como se a análise permitisse chegar a um nível de absoluta normalidade psíquica. o facto de estas serem ou não recalcitrantes à sua dominação pelo ego. há a força das pulsões. preencher todas as lacunas da memória do paciente. existem os efeitos dos traumas precoces (prematuros) que o ego imaturo foi incapaz de dominar. caso a análise viesse a ser prosseguida.Freud 1937 em primeiro lugar. que o analista julgue que a maior parte do material recalcado se tornou consciente. capaz de permanecer estável para sempre. No caso em que certas dificuldades externas impeçam este processo de alcançar o seu objectivo é melhor falar de uma análise incompleta. para descobrir se há uma possibilidade delas acontecerem. que foram vencidas tantas resistências internas. nem foi substituído por nenhuma outra perturbação. em segundo. que já não há necessidade de temer mais uma repetição do processo patológico. O que podemos fazer primeiro é consultar a nossa experiência para indagar se estas coisas acontecem de facto. e que foi explicada tanta coisa ininteligível. depois. em vez de uma análise inacabada. Por um lado.
Só neste caso podemos falar de tratamento terminado. temos de admitir que o nosso conhecimento destes assuntos ainda é insuficiente. mas este último possui também a sua própria etiologia.não estavam livres de impedimentos neuróticos. Quanto mais forte for o factor constitucional.Freud 1937 Regra geral.com os homens que eram os seus rivais e com as mulheres que amava . Neste campo. Fica- se tentado a fazer do primeiro factor – a força da pulsão – o responsável pelo surgimento do segundo . Este elucidou tudo o que devia e não necessita prosseguir. O tratamento psíquico tem mais sucesso quando a etiologia é do tipo traumático. o constitucional e o acidental. devia- se perguntar quais são os obstáculos que aparecem no caminho desta cura. Na verdade. quanto mais forte for o trauma. Certo homem que praticou a análise com grande sucesso chegou à conclusão de que as suas relações com os homens e as mulheres . por uma solução correcta. mesmo quando a situação pulsional é normal. Só agora é que se estão tornando matéria de estudo analítico. mais prontamente um trauma conduzirá a uma fixação que perturba o desenvolvimento. há uma combinação de ambos os factores. são os factores que mais pesam na eficácia ou não do tratamento. ele consegue substituir. a decisão inadequada que foi tomada precocemente na vida.a alteração do ego -. mais os seus efeitos prejudiciais se tornarão manifestos. Mas se o paciente que foi tratado desta maneira não adoece mais. Isso conduz-me a dois problemas que surgem directamente da clínica. como espero demonstrar pelos exemplos que se seguem. A força constitucional de uma pulsão e a alteração desfavorável do ego adquirida na luta defensiva contra ela. através do deslocamento e da condensação. ficamos no entanto sem saber se a sua imunidade é ou não devida a um destino bondoso que lhe poupou provações demasiadamente severas. É quando um caso é predominantemente traumático que o tratamento realiza plenamente o que é capaz de fazer. graças ao fortalecimento do ego do paciente. Em vez de indagar como se processa a cura pela análise (assunto que acho ter sido suficientemente elucidado). por Análise terminável e interminável 6 . e logo que podem contribuir para que se torne interminável. parece-me que o interesse dos analistas ainda está mal orientado.
não havia sinal de transferência negativa. surgiram os problemas. Para mais. Mas um dia. um “complexo”). considerando o horizonte limitado da análise naqueles primeiros dias -. O homem incompatibilizou-se com o seu analista e censurou-o por ter falhado ou não ter conduzido a sua análise até ao fim. dizia ele. Uma análise que durou três quartos do ano removeu o problema e devolveu à paciente. Activá-lo teria certamente exigido um comportamento pouco amigável da parte do analista. foi cerceada da vida desde a puberdade por uma incapacidade de caminhar. há também relações amistosas que se baseiam na realidade e que provam ser viáveis. devido a severas dores que sentia nas pernas. pessoa excelente e capaz. já não muito jovem. nem toda a boa relação entre um analista e o seu paciente. Esta iluminação crítica do seu próprio Eu teve um bom resultado. Casou-se com a mulher que amava e tornou-se amigo e mestre dos seus supostos rivais. se teria tido o poder de activar um assunto (ou. O analista. como dizemos. sem qualquer razão externa atribuível. mesmo que tivesse falhado na observação de certos sinais muito débeis dela . o seu direito a participar na vida. Mas. na época da análise. à medida que ficava mais velha. durante os quais as suas relações com o antigo analista permaneceram também desanuviadas. Passo agora ao meu segundo exemplo. O seu estado era de natureza histérica e desafiou muitos tipos de tratamento. deve ser encarada como transferêncial. perdas financeiras e. A sua família foi atingida por várias desgraças. ainda era duvidoso. Mas a Análise terminável e interminável 7 . deveria ter prestado atenção à possibilidade de uma transferência negativa. que levanta o mesmo problema. simplesmente por este não estar activo no paciente naquela ocasião. resolveu submeter-se a uma análise com alguém que considerava superior a si. Mas nos anos que seguiram o restabelecimento. durante e após a análise. ela foi sistematicamente desafortunada. Muitos anos se passaram dessa maneira. devia ter sabido e levado em consideração o facto de uma relação transferêncial nunca poder ser puramente positiva. ela via desvanecer-se toda a esperança de felicidade no amor e no casamento.o que não estava inteiramente excluído. achava o analista.Freud 1937 esta razão. Uma mulher solteira. O analista defendeu-se dizendo que. acrescentou.
Freud 1937 ex-inválida resistiu a tudo valentemente e constituiu um apoio para a família. o que equivale a dizer. Objectarão que os dois exemplos datam dos primeiros dias da análise. que fora superada com êxito. devido a hemorragias profusas. O tratamento analítico bem-sucedido tinha sido realizado há tanto tempo que já não se podia esperar muito mais dos seus efeitos. ou de uma neurose derivada da mesma raiz. pelo menos. Os outros considerarão que isso não está provado. Enamorou-se do seu cirurgião e afundou-se em fantasias masoquistas sobre as temíveis alterações que produziria dentro de si . não teria havido uma nova irrupção da neurose. a mulher adoeceu uma vez mais. pontos de vista inteiramente diferentes. pode também ter sido uma manifestação diferente dos mesmos impulsos recalcados que tenha encontrado uma solução incompleta. Não consigo recordar se foi doze ou catorze anos após o fim da sua análise que. Os primeiros dirão que está agora provado que mesmo um tratamento analítico bem- sucedido não protege o paciente de sofrer mais tarde de outra neurose.fantasias com que ocultava o seu romance -. Hoje. Encontrou-se um mioma que tornou aconselhável uma histerectomia completa. vinte e trinta anos atrás. bastarão para iniciar um exame dos tópicos que estamos considerando. podemos exigir e esperar que uma cura analítica se mostre permanente. Foi um tratamento efectuado nos primeiros anos do meu trabalho como analista. de uma recorrência do seu antigo problema. quanto a eles. Indubitavelmente. foi obrigada a submeter-se a um exame ginecológico. Os cépticos. se não fosse o novo trauma. dirão eles. intencionalmente seleccionados entre um grande número de outros semelhantes. desde então. os optimistas e os ambiciosos assumirão. Estes dois exemplos. respectivamente. caso um paciente adoeça de novo. A partir desta operação. a segunda moléstia da paciente pode ter tido origem na mesma fonte da primeira. que Análise terminável e interminável 8 . e que a nossa técnica se modificou de acordo com as nossas novas descobertas. adquirimos uma compreensão interna mais profunda e um conhecimento mais amplo. Ficou mal até o fim da vida. Mas estou inclinado a pensar que. ou. em tempos bastante difíceis. mostrando-se simultaneamente inacessível a uma nova tentativa de análise. e que.
menos utilizável será para a nossa discussão. Um ponto pelo menos já se tornou claro: se quisermos atender às exigências mais rigorosas da terapia analítica. de modo mais correcto. A minha razão para escolher esses dois exemplos foi precisamente o facto de residirem tão longe no passado. Análise terminável e interminável 9 . assim como a modificação efectuada na natureza e no modo da minha actuação. visto que não dispomos de meios para predizer qual será a história posterior do restabelecimento. de início. incentivam-me a tentar responder às questões que se apresentam. e. É óbvio que quanto mais recente for o desfecho bem-sucedido de uma análise. As expectativas dos optimistas pressupõem claramente uma série de coisas que não são precisamente auto-evidentes. para fins de profilaxia. não nos obriga a restringir tão concretamente as exigências que podem ser feitas ao método terapêutico. de despertar um conflito patogénico dessa espécie que não se está revelando através de nenhuma indicação. e que é aconselhável fazê-lo. que temos o poder.Freud 1937 a sua nova doença não mostre ser uma revivificação do seu primeiro distúrbio a manifestar-se sob novas formas. que há realmente uma possibilidade de se livrar de um conflito pulsional (ou. Coloco estas questões sem me propor responder-lhes agora. de um conflito entre o ego e uma pulsão) definitivamente e para todo o sempre. nem passará por ele. em terceiro lugar. a nossa estrada não nos conduzirá a um encurtamento da sua duração. III Uma experiência analítica que se estende agora por diversas décadas. A nossa experiência. por assim dizer. que. enquanto estamos tratando alguém por causa de um determinado conflito pulsional. vaciná-lo contra a possibilidade de qualquer outro conflito deste tipo. Poder-se-á lançar alguma luz sobre o assunto mediante considerações teóricas. em segundo. Presumem. sustentarão. Talvez nem seja possível dar-lhes qualquer resposta certa. podemos.
Nos últimos anos. Um instante de reflexão levanta uma dúvida quanto a saber se o uso restritivo do adjectivo “constitucional” (ou “congénito”) é pertinente. pois não se trata mais de abreviar o tratamento. como era natural. apenas nos interessa por enquanto o segundo. com as análises didácticas. assim. Fausto. ou que se tornaria acessível a todas as influências deste último. Por mais que o factor constitucional seja importante à partida. verso 2365>. Dos três factores que reconhecemos como decisivos para o tratamento analítico . Façamos aqui um apelo à Feiticeira metapsicológica: “So muss denn doch die Hexe dran!” <”Bem precisamos que a Feiticeira nos ajude”: Goethe. O que quero dizer é outra coisa. de forma a não buscar mais a sua satisfação de um modo independentemente? Se perguntarem por que métodos e meios este resultado se poderia obter não seria fácil dar uma resposta. para que não se ouça mais falar dela. Sem a Análise terminável e interminável 10 . e só um número relativamente pequeno de casos graves permaneceram comigo em tratamento contínuo. que podia ser grosseiramente descrito como “domar” a pulsão. Significa isto que a pulsão seria colocada em completamente harmonia com o ego.a influência dos traumas. modificar a nossa fórmula e dizer “a força das pulsões no momento actual”. a força constitucional das pulsões e as alterações do ego -. ocupei-me de um número bastante grande de pacientes que. a força das pulsões. Não é fazer com que esta exigência desapareça. isso é impossível e indesejável. Em geral. Para evitar toda a má compreensão é necessário que explique melhor o que entendo por livrar-se permanentemente de uma exigência pulsional. dediquei-me principalmente a análises didácticas. o objectivo terapêutico já não é o mesmo. A primeira das nossas perguntas era “se é possível que a terapia analítica livre de um modo permanente e definitivo o sujeito do conflito entre a pulsão e o ego?”.Freud 1937 Em dias passados. desejavam ser tratados tão rapidamente quanto possível. Ora. mas de exaurir as possibilidades de doença nos sujeitos e ocasionar uma alteração profunda da sua personalidade. em vez da “força constitucional das pulsões”. Devemos. interrompido por vezes por breves intervalos. não impede que possa haver uma transformação ou um reforço que interfira no decorrer da vida e tenha efeitos próprios.
o ego conseguia domá-las. sabemos que eles reagem à atitude do sono assumida pelo ego com um despertar das exigências pulsionais.embora seja uma pista do mais alto valor . aqui como alhures. ou por alguma causa semelhante. Contudo. ou para uma relação específica entre a força da pulsão e a força do ego. Uma prova irrefutável desta afirmação é fornecida pelos nossos sonhos nocturnos. certas pulsões são consideravelmente reforçadas: na puberdade e. mas é precisamente desta que o resultado depende. Quando as exigências das pulsões eram fracas. Partamos da presunção que aquilo que a análise realiza para os neuróticos não é mais do que aquilo que as pessoas normais conseguem para si próprias sem o auxílio dela. quer pela exaustão. “domar” a pulsão. ele já não o pode mais fazer. mas quando se tornam mais fortes. Formulada nestes termos. quer pela doença. Temos apenas uma pista para começar . nas mulheres. é para esta antítese que me voltarei agora. de maneira Análise terminável e interminável 11 . se torne nessas ocasiões. Infelizmente.quase disse o “fantasiar” -. o que a Feiticeira revela não é muito claro nem minucioso. A questão era de saber se é possível livrar-se de um modo permanente e definitivo de um conflito pulsional. descobriremos que a nova linha de abordagem conduz inevitavelmente a uma conclusão. Os mesmos efeitos produzidos por estes dois reforços fisiológicos da pulsão podem ser ocasionados. qualquer solução de um conflito pulsional só é válida para uma pulsão parcial. a experiência quotidiana ensina-nos que. Os recalcamentos comportam-se como represas contra a pressão da água. a questão não faz menção alguma à força da pulsão. De modo algum ficamos surpreendidos se uma pessoa. Se a força deste diminui. na menopausa. Se retomarmos a nossa primeira questão. podem renovar as suas exigências e esforçar-se para obter satisfações substitutivas através de maneiras anormais.a antítese entre o processo primário e o secundário.Freud 1937 especulação ou teorização metapsicológica . isto é. não daremos nenhum passo em frente. as pulsões que até então haviam sido controladas com êxito. que antes não era neurótica. numa pessoa normal. Por duas vezes no curso do desenvolvimento individual.
e que não se podem manter contra um aumento da força das pulsões. Dir-se-á que os nossos argumentos são todos deduzidos de processos aparentemente naturais entre o ego e as pulsões. O resultado é sempre o mesmo. frustrações forçadas. e os serviços deles continuam a ser utilizados pelo ego para o domínio das pulsões. Os recalcamentos que se efectuam desde a primeira infância são mecanismos de defesa que o ego imaturo e débil utiliza. A minha desculpa é de estar agora a chamar a atenção para esta negligência. ou da influência colateral e mútua das pulsões. Comportamo- nos sempre como se já soubéssemos tudo. por causas acidentais em qualquer outro período da vida. tenho de considerar uma objecção cuja força reside no facto de estar provavelmente predisposto a seu favor. Posteriormente. A análise capacita o ego que atingiu uma maior maturidade a empreender uma revisão dos Análise terminável e interminável 12 . Mas será realmente assim? Não é precisamente uma reivindicação da nossa teoria que a análise produz um estado que nunca surge espontaneamente no ego. e pressupõem que a terapia analítica nada pode realizar senão sob condições favoráveis e normais. mas a verdade é que a maioria dos nossos conceitos negligenciaram dar até agora ao ponto de vista económico a mesma importância que deram à perspectiva dinâmica e topográfica. Podem-me dizer que devia estar envergonhado por não avançar nesta extensa exposição nada que não seja bem conhecido e evidente. Antes de decidir responder à questão. Livramo-nos dos novos conflitos através do que chamo “recalcamento secundário.” Podemos aplicar ao recalcamento infantil a afirmação que os recalcamentos dependem do poder relativo das forças envolvidas. e que esse estado recentemente criado constitui a diferença essencial entre uma pessoa que foi analisada e outra que não o foi? Mantenhamos em mente esta base da nossa reivindicação. ele não leva a cabo novos recalcamentos.Freud 1937 irregular. mas os antigos persistem. Estas modificações podem derivar de novos traumas. e salienta o poder irresistível do factor quantitativo na causação da doença.
Estivemos interessados em discernir uma alteração qualitativa e. o factor quantitativo. podemos confiar que não cederão tão facilmente ante uma subida da maré da força pulsional. Existe. de maneira que se mostrem à altura de exigências muito maiores do que antes da análise. as transições e os estágios intermediários são Análise terminável e interminável 13 . mas não invariavelmente. excepto sob uma compulsão irresistível. ou que o efeito da análise se limita a aumentar o poder da resistência das inibições. Se assim for. não a vamos abandonar. assim procedendo. simplificamos o mundo dos fenómenos. negligenciámos. O que tem a nossa experiência a dizer sobre isso? Talvez ainda não seja suficientemente ampla para chegarmos a uma firme conclusão. mostrar que a diferença entre uma pessoa que não foi analisada e o comportamento de uma pessoa após tê-lo sido não é tão radical como dizemos. nem tampouco sei se actualmente é possível uma decisão. alguns são deste modo demolidos. No mundo real. A façanha da terapia analítica seria a subsequente correcção deste processo do recalcamento. um outro ângulo a partir do qual podemos abordar o problema da variabilidade do efeito de uma análise. mas não sempre. inicialmente pelo menos. correcção que poria fim à dominância do factor quantitativo. Ela confirma as nossas expectativas com bastante frequência. no final. Realmente não posso comprometer-me com uma decisão sobre este ponto. isso significará que a análise às vezes tem êxito na eliminação da influência de uma pulsão. ou reconstruídos com um material mais sólido. mas não podemos evitar falsificá-lo. Fazendo isso. ou se nenhuma análise se tivesse efectuado. contudo. Sabemos que o primeiro passo para chegar ao domínio intelectual do nosso meio ambiente é descobrir generalizações. Tem-se a impressão de que não se deve ficar surpreso se. ao passo que outros são apenas identificados. regras e leis que tragam alguma ordem ao caos.Freud 1937 antigos mecanismos de defesa. A nossa teoria pôde chegar até aqui. O grau de firmeza destas novas represas é bastante diferente do das anteriores. esperamos e argumentamos. especialmente se estivermos lidando com processos de desenvolvimento e mudança.
desprezamos prontamente o facto de que tais processos são geralmente mais ou menos incompletos. penso que a resposta à questão de como explicar os resultados variáveis da nossa terapia analítica. quando um mecenas generoso nos surpreende com algum traço isolado de avareza. A pesquisa posterior não contradisse esta opinião. por exemplo. que. O mesmo pode ser visto em muitos outros campos. não foram completamente bem-sucedidas. ou quando uma pessoa que é sistematicamente muito bondosa se permite subitamente uma acção hostil. Aplicando estas observações ao nosso problema. e que esta. dirigimos a nossa atenção unicamente para o resultado. por sua vez. o que equivale a dizer que são apenas alterações parciais. Por vezes.” É tentador atribuir uma validade geral a esse ditado malicioso. não existe uma só cujos resíduos não perdurem hoje entre nós. Um arguto satirista da antiga Áustria. mas corrigiu-a. De todas as erróneas e supersticiosas crenças da humanidade que foram supostamente superadas. mas gradativamente. acrescentando que essas substituições não se realizam de modo repentino. como era de esperar. fica-se inclinado a duvidar se os dragões dos dias primevos estão realmente extintos. e que mesmo no desenvolvimento normal a transformação nunca é completa e os restos das fixações libidinais anteriores ainda podem ser mantidos na configuração final. ou mesmo nos mais elevados estratos da cultura. O que um dia veio à vida aferra-se diabolicamente à existência. Ao estudar o desenvolvimento e as mudanças. de maneira que partes da organização anterior persistem lado a lado da mais recente. era seguida de uma fase fálico- genital. uma pendência parcial. Estas “manifestações residuais” são valiosas para a pesquisa genética. Elas mostram que as louváveis e preciosas qualidades baseiam-se na compensação e na sobrecompensação. Johann Nestroy disse uma vez: “todo passo dado para a frente apenas tem metade do tamanho que parece no início. Análise terminável e interminável 14 . nos estratos inferiores dos povos civilizados.Freud 1937 muito mais comuns do que estados opostos nitidamente diferenciados. Há quase sempre manifestações residuais. A nossa primeira descrição do desenvolvimento da libido foi que uma fase oral original cedia o lugar a uma fase anal-sádica.
mas com frequência apenas parcialmente: partes dos antigos mecanismos permanecem intocadas pelo trabalho da análise. Seria possível dizer que à convicção dele pode faltar “profundidade”? Trata-se sempre da questão do tão facilmente desprezado factor quantitativo. O seu controlo sobre a pulsão é melhorado. o factor quantitativo da força pulsional opôs-se aos esforços defensivos do ego. fracassa na sua missão. mas permanece imperfeito. mas restrito. podemos dizer que a análise. excepto pelo resultado que estou tentando explicar. em grau suficiente. ao reivindicar a cura das neuroses pelo controlo da pulsão. mas nem sempre na prática. na verdade. Mas não devemos tomar a clareza de nossa própria compreensão interna como a medida da convicção que produzimos no paciente. por essa razão. o ego maduro. Sem dúvida que é desejável abreviar a duração do tratamento analítico. apoiado pela análise. visto que o poder dos instrumentos com que a análise opera não é ilimitado. o mesmo factor estabelece um limite à eficácia deste novo esforço. É difícil provar que é realmente assim. parecem confirmá-la. Se for esta a resposta correcta à nossa questão. as impressões que se recebem durante o trabalho de análise não contradizem esta pressuposição. mas não temos outra maneira de ajuizar o que acontece. e o resultado final depende sempre da força relativa dos agentes psíquicos que lutam entre si. as fundações sobre as quais um controlo da pulsão se baseia. está sempre correcta na teoria. tal como o ego desamparado anteriormente fracassara. A transformação é conseguida. Nada há de surpreendente nisso. A influência hipnótica pareceu ser um instrumento Análise terminável e interminável 15 . Não obstante. e isso porque nem sempre consegue garantir.Freud 1937 bem podia ser a de que nós também nos esforçamos por substituir os inseguros recalcamentos pelo controlo de um ego que seja digno de confiança. É fácil descobrir a causa deste fracasso parcial. pedimos auxílio à análise. porque a transformação do mecanismo defensivo apenas é incompleta. No passado. mas só podemos conseguir este objectivo terapêutico se aumentarmos o poder da análise de assistir ao ego. Se a força da pulsão é excessiva. sem sempre alcançarmos o nosso objectivo de um modo completo. Agora.
infelizmente. pois a primeira tarefa só pode ser levada a cabo na medida em que a segunda o é. contudo. Por muito que a nossa ambição terapêutica seja tentada a empreender tais tarefas. devem ser tratadas em conjunto. isso prova que os cães não estão dormindo. a experiência rejeita categoricamente a noção. na medida em que um possível conflito futuro se transforma num conflito concreto e actual. não parece ser inteiramente Análise terminável e interminável 16 .Freud 1937 excelente para esse fim. e se é viável e conveniente. ao qual a nossa influência é aplicada. Ao passo que. se eles realmente parecem estar adormecidos. Essa nova maneira de enunciar o problema é apenas uma ampliação da anterior. ou seja. para fins profiláticos. não nos cabe despertá-los. os quais. Desse ponto de vista. Se um conflito pulsional não está presentemente activo. se não está se manifestando. considerámos como nos resguardávamos contra um retorno do mesmo conflito. mas tudo o que estamos tentando fazer é tornar claros os limites da eficácia da terapia analítica. mesmo pela análise. despertar um conflito que não se manifesta? -. pois. IV As duas outras questões . Essa última afirmação. no primeiro caso.se enquanto estamos tratando determinado conflito pulsional podemos proteger o paciente dos futuros conflitos. que com tanta frequência ouvimos em relação aos nossos esforços por explorar o submundo psíquico. Ainda não foi encontrado um substituto para a hipnose. se mostraram vãos. A advertência para deixarmos repousar os cães que dormem. não podemos provocá-lo. podemos compreender como um mestre da análise tal como Ferenczi veio a dedicar os últimos anos de sua vida a experimentos terapêuticos. é peculiarmente despropositada quando aplicada às condições da vida mental. Isto soa a uma proposição muito ambiciosa. mas as razões pelas quais tivemos de abandoná-la são bem conhecidas. e. agora consideramos como nos resguardamos contra a sua possível substituição por um outro conflito. se as pulsões estão provocando distúrbios.
E que tipo de experimentos seriam estes? Poderíamos por exemplo. e isso. nunca nos encontrámos na posição de ter de considerar se estas intervenções na vida real do paciente são justificadas. mediante a frustração e o recalcamento da libido. para fins de profilaxia. não é suficiente tentar regular sofrimentos que já estão presentes e que o paciente não pode evitar. Análise terminável e interminável 17 . Procuramos levar esse conflito a um ponto culminante. A primeira destas alternativas pode ser levada a cabo de duas maneiras: na realidade ou na transferência. assumir a responsabilidade de destruir um casamento satisfatório. e o objecto da nossa experiência terapêutica certamente se recusaria a cooperar com isso. ou contentar-nos em discuti-lo na análise e apontar para a possibilidade de o despertar. desenvolvê-lo até ao seu tom mais grave. ou de fazer com que um paciente abandone um cargo do qual depende a sua subsistência? Afortunadamente. até hoje. a que afirma que a análise deve ser levada a cabo “num estado de abstinência”’? Mas esta é uma técnica que se utiliza para tratar um conflito já activo. temos de lutar contra a sua inércia. Só podemos fazer duas coisas: ocasionar situações em que o conflito se torna presentemente activo. em todas as fases do restabelecimento do paciente. em qualquer dos casos expondo o paciente a uma certa quantidade de sofrimento real. é verdade que já fazemos uso de uma técnica deste tipo no nosso procedimento analítico comum. se sujeitássemos as pobres criaturas humanas a experimentos tão cruéis. Ora. Se aquilo que visamos é o tratamento profilático dos conflitos pulsionais que não estão presentemente activos. que está pronta a se contentar com uma solução incompleta. Receberíamos admonições de todos os lados contra a presunção de emular o destino. a fim de aumentar a força pulsional disponível para o solucionar. A experiência analítica ensinou- nos que o melhor é sempre inimigo do bom e que. não possuímos os plenos poderes que elas teriam tornado necessários.Freud 1937 exacta e exige um debate mais pormenorizado. deixámo-lo muito correctamente ao destino. mas são meramente potenciais. Teríamos de decidir provocar-lhe novos sofrimentos. Consideremos os meios que temos à nossa disposição para transformar um conflito pulsional latente num manifesto.
Mas vêm-se logo as dificuldades. os únicos métodos que entram em consideração são os dois que mencionamos: a produção artificial dos novos conflitos na transferência (conflitos a que. criar um novo conflito só tornaria o trabalho de análise mais prolongado e mais difícil. pois o trabalho da análise progride melhor se as experiências patogénicas do paciente pertencerem ao passado. Em estados de crise aguda. apenas algo muito mais leve. como é o caso da vacina contra a varíola e de muitos outros procedimentos semelhantes. que um paciente que se restabeleceu de escarlatina está imune a um retorno da mesma doença. inutilizável. falta o carácter de realidade) e o despertar de tais conflitos na imaginação do paciente. de modo que o seu ego possa situar-se a uma certa distância delas. A medida protectora não deve produzir a mesma situação de perigo que é produzida pela própria doença. Não sei se podemos assegurar que o primeiro desses dois procedimentos mais brandos está inteiramente excluído na análise. que não lançam uma luz muito promissora sobre este empreendimento. para todos os fins e intuitos. a fim de a tornar imune à mesma. Em primeiro lugar. mas existem objecções teóricas. afinal de contas.Freud 1937 Na prática. trazer Análise terminável e interminável 18 . Os pacientes não podem. tal procedimento está virtualmente excluído. mas jamais ocorre a um médico pegar a escarlatina a uma pessoa sadia que tem possibilidades de adoecer e infectá-la com esta. Ninguém pensa propositadamente conjurar novas situações de sofrimento. Como façanha profilática não haveria muito que se gabar. por exemplo. falando-lhe sobre eles e familiarizando-o com a sua possibilidade. a análise é. Objectar-se-á que estas observações são inteiramente desnecessárias. a fim de tornar possível que um conflito pulsional latente seja tratado. a escolha de tais situações para a transferência é muito limitada. Sabemos. Assim. eles próprios. Na profilaxia analítica contra conflitos pulsionais. Nenhuma experiência foi feita especificamente nessa direcção. e ele retrai-se da análise que está tentando ir além da superfície e revelar as influências do passado. Todo o interesse do ego é absorvido pela realidade penosa.
”’Aumentamos o seu conhecimento. Em segundo lugar. mas suficiente para o tratamento. mas não se exige nenhum intuito técnico para ocasionar isso. com toda a probabilidade. mas não sinto nada disso. Viemos a perceber que nem sequer têm grande pressa de sacrificar. Este pode torná-los ciumentos ou fazê-los experimentar desapontamentos no amor. nem tampouco está o analista capacitado a invocar todos os possíveis conflitos pulsionais a partir da situação transferêncial.a transferência positiva .que é o motivo mais forte para o paciente participar no trabalho conjunto da análise. tais coisas acontecem por si mesmas na maioria das análises. não devemos desprezar o facto de que todas as medidas desse tipo obrigariam o analista a comportar-se de maneira pouco amigável com o paciente. Isto deixa-nos apenas um método: o único que. Após este tipo de esclarecimentos. A situação é muito semelhante à que acontece quando as pessoas lêem trabalhos psicanalíticos. mas é claro que o efeito profilático de tal medida liberal tem sido grandemente sobrestimado. Assim. O que esperamos é que essa informação e essa advertência tenham o efeito de activar nele um dos conflitos que indicámos. Falamos ao paciente sobre as possibilidades de outros conflitos pulsionais e despertamos a sua expectativa de que tais conflitos possam ocorrer. isto é. Pode pensar consigo: “É muito interessante. mas não fazem uso do novo saber com que foram presenteadas. Estou longe de sustentar que esta é prejudicial ou desnecessária. Seja como for. mas nada alteramos nele. foi originalmente considerado. Podemos ter experiências análogas. O paciente recebe a nossa mensagem. O resto deixa-o frio. ao novo conhecimento. O resultado esperado não ocorre. as teorias Análise terminável e interminável 19 . porém. dizem respeitam a conflitos que estão activos nele na ocasião. Dessa vez. e isso teria um efeito prejudicial sobre a atitude afectuosa . quando damos uma educação sexual às crianças.Freud 1937 todos os seus conflitos para a transferência. mas não há reacção. as crianças ficam a conhecer algo que não sabiam antes. creio. num grau modesto. a experiência não fala com voz incerta. O leitor é estimulado apenas por aquelas passagens que sente que se aplicam a si próprio. de modo algum devemos esperar muito desse procedimento.
sobre a natureza do coito ou sobre o modo como nascem os bebés. a força relativa das pulsões. mas que continuam a adorar em segredo seus antigos ídolos. a situação analítica é uma aliança com a pessoa que está em tratamento. V Partimos da questão de saber como podemos abreviar a duração inconvenientemente longa do tratamento analítico e. uma ficção ideal. Quando voltamos a nossa atenção para ele. que têm de ser controlados. e. ainda não dissemos nada. dá-nos uma primeira base sólida para um melhor juízo. Esta primeira impressão é confirmada quando se entra no problema. em conexão com ele. descobrimos que os factores decisivos para o sucesso dos nossos esforços terapêuticos são a influência da etiologia traumática. o que temos para dizer mostrará ser bastante inadequado. O ego anormal. a primeira impressão que temos é a de que há muito a perguntar e muito a responder aqui. e que construíram em harmonia e na dependência da sua organização libidinal imperfeita: teorias sobre o papel da cegonha.Freud 1937 sexuais que despontaram como o crescimento natural. Mas um ego normal é. a alteração do ego. como a normalidade em geral. Análise terminável e interminável 20 . Muito tempo depois de lhes terem dados estes esclarecimentos sexuais. ainda com essa questão em mente. Sobre o terceiro factor. Como se pensa normalmente. a fim de submeter partes não controladas do seu id ou incluí-las na síntese do seu ego. tivemos ocasião de reconhecer a importância suprema do factor quantitativo e acentuar a reivindicação da abordagem metapsicológica para qualquer tentativa de explicação. elas comportam-se como os povos primitivos a quem se pregou o cristianismo. O facto de uma cooperação deste tipo habitualmente fracassar no caso dos psicóticos. e o que denominámos a “alteração do ego”. passámos a considerar se é possível conseguir uma cura permanente ou impedir uma doença futura através do tratamento profilático. Assim procedendo. Apenas o segundo desses factores foi pormenorizadamente examinado por nós. Se quisermos efectuar um pacto desse tipo devia ser com um ego normal.
sob a influência da educação. Posteriormente. consiste em evitar o perigo. é apenas o grau do seu afastamento de determinada extremidade da série. toda a pessoa normal é apenas normal medianamente. desempenhar a sua tarefa de mediação entre o id e o mundo externo. Chamamos a esses procedimentos “mecanismos de defesa”. o ego aprende a adoptar uma atitude defensiva também para com seu próprio id. O seu ego aproxima-se do ego do psicótico num lugar ou noutro e em maior ou menor extensão. Se perguntarmos qual a fonte da grande variedade de tipos e graus de alteração do ego. desde os primeiros anos de vida. se tais alterações são congénitas ou adquiridas. não poderemos fugir à primeira alternativa óbvia. sempre ao serviço do princípio de prazer e da protecção do id contra os perigos do mundo externo. o ego faz uso de diversos procedimentos para desempenhar a sua tarefa. Durante essa luta em duas frentes . Na verdade.posteriormente haverá também uma terceira frente [o superego] -. terão certamente acontecido no decorrer do desenvolvimento. ou seja. que. que fornece a medida provisória do que tão indefinidamente denominamos “alteração do ego”. Se forem alterações adquiridas. pois o ego tem de tentar. Se. O segundo tipo seria o mais fácil de tratar. provavelmente tem razão para assim proceder. desde o começo. o ego acostuma-se a remover a cena da luta de fora para dentro e a dominar o perigo interno antes que este se tenha tornado externo. Nunca houve qualquer dúvida de que o Análise terminável e interminável 21 . a ansiedade e o desprazer. que o estudo dos processos neuróticos se iniciou. Foi a partir de um desses mecanismos. e da sua proximidade da outra. o recalcamento. para a expressar em termos gerais. O nosso conhecimento destes ainda não é suficientemente completo. no decurso desses esforços. e a tratar as exigências pulsionais deste último como perigos externos.Freud 1937 inútil para os nossos fins. infelizmente não é ficção. O livro de Anna Freud (1936) forneceu-nos uma primeira compreensão interna da sua multiplicidade e significação multilateral. pelo menos em parte. é porque compreendeu que uma satisfação da pulsão conduziria a conflitos com o mundo externo.
então. O transcritor seguinte poderia. pois é mais nitidamente diferenciado dos outros mecanismos do que estes o são entre si. que deste modo poderia ser ininteligível. de modo a ficarem ilegíveis. Não obstante. por exemplo. em épocas posteriores. seria. e novas frases seriam interpoladas. os escritos de Flávio Josefo devem ter contido passagens sobre Jesus Cristo que foram ofensivas para o cristianismo posterior. Neste caso. Uma das maneiras seria riscar de maneira cerrada as passagens ofensivas. outras dizendo exactamente o oposto. mas redigidos à mão individualmente. mas desejassem ocultar também qualquer indicação de que o texto fora mutilado. Nos dias de hoje. fossem consideradas indesejáveis. numa época em que os livros ainda não eram impressos em edições. diversos métodos eram utilizados para tornar inócuo o livro. passar a deformar o texto. o recalcamento é algo bastante peculiar. embora saiba que as analogias nunca nos levam muito longe. paralelos com a variedade das maneiras pelas quais o ego é alterado. Pode-se tentar levantar a objecção de que a analogia erra num ponto Análise terminável e interminável 22 . podemos descobrir. segundo Robert Eisler (1929). o único mecanismo defensivo de que a censura oficial poderia valer-se seria o de confiscar e destruir todos os exemplares da edição. Se esta analogia não é levada mais longe é porque o recalcamento tem a mesma relação com os outros métodos de defesa. Ele não continha mais aquilo que o autor desejara dizer de verdade. Suponhamos que um livro desse tipo contivesse afirmações que. para elas. nas diferentes formas dessa falsificação. Imaginemos o que poderia ter acontecido a um livro. Outra maneira: se as autoridades não se satisfizessem com isso. mas com lacunas em certas passagens. que a omissão com a deformação do texto. e o copista seguinte do livro produziria um texto inatacável. produzir um texto que não despertaria suspeita. toda a passagem seria apagada e colocada. no seu lugar. Melhor. mas que estaria falsificado. Naquela época. Palavras isoladas seriam deixadas de fora ou substituídas por outras.Freud 1937 recalcamento não era o único mecanismo que o ego podia usar para os seus fins. Gostaria de esclarecer essa relação com os demais mecanismos através de uma analogia. contudo. não poderiam ser transcritas.
mas é de duvidar que o ego pudesse passar inteiramente sem esses mecanismos durante o seu desenvolvimento. O dispêndio dinâmico necessário para mantê- los. os mecanismos defensivos do ego estão condenados a falsificar a percepção interna e a dar somente uma representação imperfeita e deformada do nosso próprio id. pois um intuito tendencioso desse tipo é. Nenhum indivíduo. para afastar a ameaça alterando activamente a realidade.isto é a verdade . faz uso de todos os mecanismos de defesa possíveis. em grande grau. até ficar suficientemente forte. eles partilham aqui da sorte das instituições que tentam manter- Análise terminável e interminável 23 . sem dispor de um bom par de pernas. esses mecanismos não são abandonados após terem assistido o ego durante os difíceis anos do seu desenvolvimento. No que se refere aos perigos externos. Cada pessoa não utiliza mais do que uma selecção deles. mais tarde. Por essa razão. mostram ser um pesado ónus sobre a economia psíquica. na esfera dos eventos psíquicos. tem de desviá-lo a todo custo. Tornam-se modalidades regulares de reacção do seu carácter. Mas não é possível fugir de si próprio. vê-se que o ego pagou um preço alto demais pelos serviços que eles lhe prestam. O aparelho psíquico não tolera o desprazer. o ego é paralisado pelas suas restrições ou cegado pelos seus erros. Os mecanismos de defesa servem para manter afastados os perigos. Nas suas relações com o id. essa percepção . Às vezes. repetidas durante toda a vida. o indivíduo pode ajudar-se durante algum tempo através da fuga e evitando a situação de perigo. e as restrições do ego que quase invariavelmente acarretam. sempre que ocorre uma situação semelhante à original.deve ser sacrificada. mas estes colam-se ao seu ego. Não se pode discutir se são bem-sucedidos nisso. pode ser comparado ao caminhar num país que não se conhece. e se a percepção da realidade acarreta desprazer. representado pela força compulsiva do princípio do prazer. Mas não é assim. Isso transforma-os em infantilidades. Para mais. a fuga não constitui um auxílio contra perigos internos. e o resultado. pois a deformação de um texto é obra de uma censura tendenciosa. da qual nenhuma contrapartida se pode encontrar no desenvolvimento do ego. Mas é certo também que eles próprios podem se transformar em perigos.Freud 1937 essencial. naturalmente.
O ponto essencial é que o paciente repete essas modalidades de reacção também durante o trabalho de análise. como se queixa o poeta. Fausto. é apenas desta maneira que chegamos a conhecê-las. vê-se compelido a buscar na realidade situações que substituam aproximadamente o perigo original. Num dos casos. A outra metade. com a sua força aumentada. na verdade. da autoria de Anna Freud. Durante o tratamento. verso 1976>. Wohltat Plage” <a Razão torna-se sem sentido. De momento não estamos interessados no papel patogénico dos mecanismos defensivos. A dificuldade da questão é que os mecanismos de defesa dirigidos contra um perigo anterior reaparecem no tratamento como resistências contra o restabelecimento. queremos corrigir algo no ego. Isso não significa que tornem a análise impossível. por assim dizer. “Vernunft wird Unsinn. aquela que a análise primeiro enfrentou nos seus dias iniciais. no outro. O efeito terapêutico depende de tornar consciente o que está recalcado (no sentido amplo da palavra) no id. o bem-fazer uma calamidade: Goethe. desejamos tornar consciente algo do id. entre um fragmento de análise do id e um fragmento de análise do ego. como um pêndulo. que as produz diante dos nossos olhos. Disso decorre que o ego trata o próprio restabelecimento como um novo perigo. constituem a metade da sua tarefa analítica. Assim. Estamos tentando descobrir qual é a influência da alteração do ego que a eles corresponde nos nossos esforços terapêuticos. é a revelação do que está escondido no id. de modo a poder justificar o facto de manter as suas formas habituais de reagir. O material para responder a esta pergunta é fornecido no volume a que já me referi.Freud 1937 se em vida depois da sua época de utilidade ter passado. O ego do adulto. Na verdade. Pelo contrário. Preparamos o caminho para essa tomada de consciência mediante Análise terminável e interminável 24 . o nosso trabalho terapêutico está constantemente oscilando para trás e para frente. preparando o caminho para o desencadeamento da neurose contra a qual lutam. continua a defender-se contra perigos que não existem mais na realidade. podemos facilmente entender que os mecanismos de defensa ocasionam uma alienação cada vez mais ampla quanto ao mundo externo e um permanente enfraquecimento do ego.
o que acontece é isso. isoladas dentro do ego. enquanto o ego se apega às suas defesas primitivas e não abandona as suas resistências. Contudo.com maior ou menor grau de seriedade . desobedece à regra fundamental da análise. suporíamos. opõe-se a eles. Análise terminável e interminável 25 . essas resistências. em certo sentido. Durante o trabalho sobre as resistências. O analista identifica-as mais facilmente do que o faz com o material oculto no id. logo ao restabelecimento. as transferências negativas podem agora levar a melhor e anular completamente a situação analítica. Dessa maneira. o ego retrai-se . são inconscientes e. Poder-se-ia supor que seria suficiente tratá-las como partes do id e.Freud 1937 interpretações e construções. Sob a influência de impulsos desagradáveis que sente em resultado da nova activação dos seus conflitos defensivos. e não permite que surjam novos derivados do inconsciente. tornando-as conscientes. Ora. que será fortalecida até um ponto eficaz pelos factores de transferência positiva que nele serão despertados. e comporta-se com ele exactamente como uma criança que não gosta de estranhos e não acredita em nada do que estes dizem. e corrigir esta. mas interpretamos apenas para nós próprios. Se o analista tenta explicar uma das deformações efectuadas pelo paciente pela sua resistência. mas também à análise como um todo. Assim. não para o paciente. percebemos que há uma resistência contra a revelação das resistências e que os mecanismos de defesa merecem realmente o nome que lhe demos. não devemos contar com enfrentar uma resistência contra a revelação das resistências. colocá-las em conexão com o restante do ego. antes de terem sido examinados mais de perto.de acordo com a situação analítica. Constituem resistências não apenas à tomada de consciência dos conteúdos do id. O paciente passa a encarar o analista como um estranho que lhe está fazendo exigências desagradáveis. embora pertençam ao ego. Não podemos esperar que o paciente possua uma forte convicção do poder curativo da análise. Pode ter trazido consigo uma certa confiança no seu analista. encontra a incompreensão e a inacessibilidade a argumentos bem fundados. Ele deixa de apoiar os nossos esforços para revelar o id. que metade da tarefa da análise estaria realizada.
que ela apenas utiliza alguns deles. Isso certifica-se pelo acto singular de que cada pessoa faz uma selecção dos mecanismos possíveis de defesa. regra geral. mesmo antes de o ego surgir. ainda não existe ego algum. Tal parece indicar que cada ego está dotado. então. tampouco implica qualquer sobrevalorização mística da hereditariedade. Para mais. originais e inatas do ego. portanto. de disposições e tendências individuais. se entendemos por esta o desvio relativo à ficção de um ego normal. sempre os mesmos. acharmos crível que. VI A questão seguinte a que chegamos é a de saber se toda alteração do ego – no sentido em que falámos . o que foi adquirido pelos nossos antepassados forma decerto uma parte importante do que herdámos. Quando falamos numa “herança arcaica” estamos geralmente pensando no id. demonstrado pela experiência quotidiana. as linhas de desenvolvimento. sabemos que não devemos exagerar a diferença existente entre os caracteres herdados e adquiridos. que têm de ser medidas contra as forças hostis.Freud 1937 O efeito ocasionado no ego pelas defesas pode ser correctamente descrito como uma “alteração do ego”. Mas não desprezaremos o facto de que id e o ego são originalmente um só. tendências e reacções que posteriormente Análise terminável e interminável 26 . embora seja verdade que não podemos especificar a sua natureza ou aquilo que as determina. É fácil.é adquirida durante as lutas defensivas dos primeiros anos? Não pode haver dúvida na resposta. no começo da vida do indivíduo. e parecemos presumir que. Mais uma vez nos confrontamos com a importância do factor quantitativo e mais uma vez somos lembrados de que a análise só pode valer-se de quantidades de energia definidas e limitadas. está do lado dos grandes batalhões. de que o resultado de um tratamento analítico depende essencialmente da força e profundidade da raiz das resistências que ocasionam a alteração do ego. Não temos razão para duvidar da existência e importância das características distintivas. que garantiria a lealdade inabalável ao trabalho da análise. desde o início. aceitar o facto. Impõe-se. que a vitória. transformando-a numa antítese.
a quem estamos inclinados a atribuir uma especial “adesividade da libido” Os processos que o tratamento coloca em movimento nessas pessoas são muito mais lentos do que em outra. porque. tais como o simbolismo. deparamo-nos com resistências de um outro tipo. Na verdade é mais do que isso: a experiência analítica impôs a convicção de que mesmo conteúdos psíquicos específicos. aparentemente. os novos investimentos são logo Análise terminável e interminável 27 . abandonando os anteriores em troca deste. Só posso fornecer alguns exemplos desse tipo de resistência. Infelizmente. esta é levada prontamente a novos investimentos. por exemplo. sugeridos pela análise. e que parecem depender de condições fundamentais do aparelho psíquico. pois todo este campo de investigação ainda é desconcertantemente estranho e insuficientemente explorado. ou adquiridas em lutas defensivas. A diferença entre os dois tipos é comparável à sentida por um escultor. raças e nações. inclusive na sua atitude para com a psicanálise. Se avançarmos mais um passo na nossa experiência analítica.Freud 1937 apresentará. não possuem outras fontes senão a transmissão hereditária. em quem a libido parece particularmente móvel. Deparamo-nos com pessoas. a distinção topográfica entre o ego e o id perde muito de seu valor para a nossa investigação. As peculiaridades psicológicas das famílias. elas não podem decidir-se a abandonar os investimentos libidinais de um determinado objecto e a deslocar o seu interesse para um outro. nesse segundo tipo. que não podemos mais localizar. já estão estabelecidas para ele. Encontramos também o tipo oposto de pessoa. embora não possamos descobrir nenhuma razão especial para essa lealdade do investimento. deixados pelo primitivo desenvolvimento humano também estão presentes na herança arcaica. e pesquisas nos diversos campos da antropologia social tornam plausível supor que outros precipitados. conforme ele trabalhe na pedra dura ou com gesso macio. os resultados da análise são frequentemente pouco duráveis. Com o reconhecimento de que as propriedades do ego com que nos defrontamos sob a forma de resistências podem ser determinadas pela hereditariedade. igualmente especializados. não permitem outra explicação.
no entanto. Não há impressão mais forte do que a das resistências ao trabalho de análise que surgem de uma força que se defende por todos os meios possíveis contra o restabelecimento. a sua distribuição. não de ter trabalhado em gesso. que devem ser consideradas como fontes de resistências ao tratamento analítico e obstáculos ao êxito terapêutico. assim vão. e temos a impressão. talvez não muito correctamente. Estamos lidando aqui com o que a investigação psíquica pode aprender: a acção das duas pulsões primárias. referimo-nos a casos de pessoas ainda jovens. onde é explicada como devida à força do hábito ou à exaustão da receptividade.coisas que não podemos imaginar como confinadas a uma única província do aparelho psíquico. Encontra-se a mesma coisa em pessoas muito idosas. Estamos preparados para encontrar na análise uma certa quantidade de inércia psíquica. mas de ter escrito na água. podem ter raízes diferentes e mais profundas. como certas alterações de ritmo de desenvolvimento na vida psíquica que ainda não apreciámos. O nosso conhecimento teórico não parece adequado para fornecer uma explicação correcta de tais tipos. Provavelmente. ficamos surpreendidos por uma atitude dos nossos pacientes que só pode ser atribuída a um esgotamento da plasticidade. Quando o trabalho da análise descerrou novos caminhos para um impulso pulsional. estão relacionadas algumas características temporais. uma espécie de entropia psíquica.” Com os pacientes que tenho em mente. que comummente esperaríamos encontrar. da capacidade de modificação e desenvolvimento ulterior.” Num outro grupo de casos. porém. Como diz o provérbio: “como vêm. que está absolutamente decidida a apegar-se à doença e ao sofrimento. ao id. Aqui. Num outro grupo ainda de casos.Freud 1937 abandonados. mistura e difusão . as características distintivas do ego. todos os processos mentais. fixos e rígidos. relacionamentos e distribuições de força são imutáveis. quase invariavelmente observamos que este não ingressa neles sem uma hesitação acentuada. Chamamos a esse comportamento. ao ego ou ao superego. Uma parte desta força já foi identificada por nós com indubitável Análise terminável e interminável 28 . “resistência do id.
outras quantidades da mesma força. e que fazemos remontar à pulsão de morte da matéria viva. Mas essa é apenas a parte dela que está psiquicamente presa ao superego. e. a que distúrbios essas mudanças correspondem e com que sensações a escala perceptiva do princípio de prazer a elas responde . O assunto é novo e importante demais para que o Análise terminável e interminável 29 . temos de nos curvar à superioridade das forças contra as quais vemos os nossos esforços redundar em nada. De momento. Esses fenómenos constituem indicações inequívocas da presença de um poder na vida mental que chamamos pulsão agressiva ou de destruição. mais copiosamente esses factos nos impressionam. e localizada na relação do ego com o superego.Eros e pulsão de morte -. a reacção terapêutica negativa e o sentimento de culpa encontrados em tantos neuróticos.Freud 1937 justiça como sentimento de culpa e necessidade de punição. Somente pela acção concorrente ou mutuamente oposta das duas pulsões primordiais . Como partes dessas duas classes de pulsões se combinam para desempenhar as diversas funções vitais. em que condições tais combinações se afrouxam ou se rompem. segundo os seus objectivos. Numerosos factos da vida mental normal exigem uma explicação desse tipo. Não se trata de uma antítese entre uma teoria pessimista da vida e uma outra optimista. quanto mais penetrantes os nossos olhos se tornam. Se tomarmos em consideração o quadro total formado pelos fenómenos do masoquismo imanentes a tantas pessoas. Mesmo exercer uma influência sobre o simples masoquismo constitui um ónus muito severo para os nossos poderes. podemos explicar a rica multiplicidade dos fenómenos da existência. não poderemos mais aderir à crença de que os eventos mentais são governados exclusivamente pelo princípio do prazer. podem estar em acção noutros lugares não especificados. e assim se torna reconhecível. não nos confinamos a observações sobre o material patológico. e nunca por um ou outro sozinho. Ao estudar os fenómenos que testemunham da actividade da pulsão de destruição. quer ligadas. quer livres.são problemas cuja elucidação seria a façanha mais gratificante da investigação psíquica.
Viemos a saber que todo o ser humano é bissexual nesse sentido. recentemente adicionado à situação. sem que uma das inclinações interfira na outra. ela obtém êxito em manter a segunda latente e em afastá-la. pela força. na segunda classe. por objectos de ambos os sexos. A heterossexualidade de um homem não se conformará com nenhuma homossexualidade e vice-versa. não existe maior perigo para a função heterossexual de um homem do que o de ser perturbada pela sua homossexualidade latente. É bem sabido que em todos os períodos houve. mais numerosa. Ao passo que na primeira classe de pessoas as duas tendências prosseguem juntas sem se chocarem. Chamamos a estas pessoas “bissexuais” e aceitamos a sua existência sem muita surpresa. Por outro lado. Uma tendência ao conflito desse tipo. Contentar-me-ei. elas encontram-se num estado de conflito irreconciliável. Se a primeira é a mais forte. sem consideração pela quantidade de libido. Somos forçados a concluir que a tendência a um conflito é algo de especial. a emergir independentemente. Aqui temos um exemplo. Se reconhecermos o caso que estamos examinando como uma expressão da pulsão de destruição ou agressiva. pessoas que podem tomar como objectos sexuais membros do seu próprio sexo. surge imediatamente a questão de saber se essa concepção não deve ser estendida a outros Análise terminável e interminável 30 . portanto. como ainda há. quer de maneira latente. da satisfação na realidade. pela qual as duas inclinações rivais têm de lutar. que a sua libido se distribui.Freud 1937 trate como um tema lateral desse debate. dificilmente pode ser atribuída a algo que não seja a intervenção de um elemento de agressividade livre. mesmo se o podem fazer em certo número de casos. quer de maneira manifesta. Mas ficamos impressionados pelo ponto seguinte. Poderíamos tentar explicar isso dizendo que cada indivíduo só possui à sua disposição uma certa quantidade de libido. de acordo com a sua força relativa. por que as rivais nem sempre dividem a quantidade disponível de libido entre si. bem como do sexo oposto. em seleccionar alguns casos exemplificativos. Mas isto não é claro.
Estou prontíssimo a ceder o prestígio da originalidade a favor desta confirmação. seus conflitos internos seriam o equivalente apropriado das lutas externas que então cessaram. de saber se tudo o que sabemos sobre o conflito psíquico não devia ser revisto a partir deste novo ângulo. encontrou pouca simpatia. segundo a qual uma pulsão de morte. A sua personalidade multifacetada actuou nas mais variadas direcções. Mas também incluiu no corpo teórico Análise terminável e interminável 31 . “a quem muitos segredos foram revelados. e acreditava na transmigração das almas. Afinal de contas. Empédocles de Acragas (Agrigento). na Malária e que os seus contemporâneos viram nele um deus. em especial porque nunca pode ficar certo. a sua agressividade experimenta um grau bastante considerável de internalização ou se volta para o interior. nascido por volta de 495 a. Sustentava que toda a natureza era animada. A sua mente parece ter unido os mais agudos contrastes. não há muito tempo. Foi investigador e pensador.” Nascido numa época em que o reino da ciência ainda não estava dividido em tantas províncias. algumas das suas teorias impressionaram inevitavelmente pela mistura dos quatros elementos. presumimos que. profeta e mágico. me deparei com essa teoria nos escritos de um dos maiores pensadores da antiga Grécia. filantropo e médico com conhecimentos de ciências naturais. mesmo entre psicanalistas. e na realidade não foi aceite. não se retraiu ante as obscuridades do misticismo e construiu as especulações cósmicas da audácia espantosamente imaginativa. Fausto. em vista da ampla extensão de minhas leituras nos primeiros anos. Capelle compara-o ao Dr. o ar. de destruição ou de agressão reivindica iguais direitos como sócia de Eros. Diz-se que libertou a cidade de Selinunte. se assim for. político. Isso deixou- me ainda mais satisfeito quando. tal como este se manifesta na libido.. o fogo e a água. a terra. se aquilo que tomei por uma nova criação não constituía um efeito da criptoamnésia.Freud 1937 exemplos de conflito. é uma das maiores e mais notáveis figuras da história da civilização grega. Estou bem cônscio de que a teoria dualista. e. contudo. Era exacto e sóbrio nas suas pesquisas físicas e fisiológicas. no decurso do desenvolvimento do homem de um estado primitivo para um civilizado. na verdade.C.
Eros e a pulsão de destruição. tanto no nome quanto na função. vencido. derrota seu parceiro. um deles esforça-se por aglomerar as partículas dos quatro elementos numa só unidade. Empédocles imaginou o processo do universo como um alternar contínuo e incessante de períodos. como a evolução gradual das criaturas vivas. ao contrário. o acto de Empédocles atribuir ao universo a mesma natureza animada que aos organismos individuais despoja essa diferença de grande parte da sua importância. Desses dois princípios . procura desfazer todas essas fusões e separar umas das outras as partículas primitivas dos elementos. Mas a teoria de Empédocles que merece especialmente o nosso interesse é a que se aproxima muito da teoria psicanalítica das pulsões. e noutra a discórdia realizam completamente o seu intuito e dominam o universo. após o que o outro lado. a sobrevivência dos mais aptos e o reconhecimento do papel desempenhado pelo encontro ocasional ou acaso (τµχη) na evolução. Ao mesmo tempo. de maneira que em determinada ocasião o amor. ao passo que o outro. e que esses princípios estão perenemente em guerra um com o outro. nos quais uma ou outra das duas forças fundamentais leva a melhor. as nossas duas pulsões fundamentais. o amor e a discórdia.Freud 1937 do conhecimento ideias modernas. Os dois princípios fundamentais de Empédocles são. ficaríamos mesmo tentados a sustentar que as duas são idênticas. ao passo que a nossa se contenta em reivindicar a validade biológica. se não fosse a diferença que a teoria do filósofo grego é uma fantasia cósmica. por sua voz.que ele concebeu como sendo “forças naturais operando como pulsões. de maneira algum como inteligências com um intuito consciente” -. O filósofo ensinou que dois princípios comandam os eventos da vida do universo e da mente. Falou de um dualismo fundamental entre philia (ϕιλια) e neikos (νεικοζ). dos quais o primeiro se esforça por combinar o que existe em Análise terminável e interminável 32 . se afirma e.
se houver perícia e paciência suficientes por parte do analista. À parte a restrição ao campo biofísico que se nos impõe. VII Em 1927. mas também a individualidade do analista. essa teoria se alterou nalgumas das suas características. Fornecemos ainda um certo tipo de fundamento ao princípio da discórdia. Ninguém pode prever sob que disfarce o núcleo da verdade contida na teoria de Empédocles se apresentará à compreensão posterior. nem a assegurara que passou a existir com o surgimento da vida. Este finda com a confortadora garantia de que “a análise não é um processo sem fim. Isso não se destina a negar que uma pulsão análoga existiu anteriormente. já não temos como substâncias básicas os quatro elementos de Empédocles: o que é vivo foi nitidamente diferenciado do que é inanimado. Ferenczi leu um instrutivo artigo sobre o problema da terminação das análises. Análise terminável e interminável 33 . de ter levado a melhor sobre “os pontos fracos de sua própria personalidade. ao que faz o que é vivo retornar a um estado inanimado.” O artigo no seu todo parece-me ser um aviso para não abreviar a análise. no seu ressurgimento após dois milénios e meio.Freud 1937 unidades cada vez maiores. fazendo a nossa a pulsão de destruição remontar à pulsão de morte. mas aprofundá-la. em descobrir que. ainda.” Isto fornece um suplemento importante ao nosso tema. ao passo que a segundo se esforça por dissolver essas combinações e destruir a organização a que deram origem. que o êxito depende muito de o analista ter aprendido o suficiente com os seus próprios “erros e equívocos”. mas na ligação e disseminação das componentes. mas um processo que pode ter um fim próprio. Entre os factores que influenciam as perspectivas do tratamento analítico e se somam às suas dificuldades da mesma maneira que as resistências. Ferenczi demonstra. deve-se levar em conta não apenas a natureza do ego do paciente. e não pensamos mais em termos de em mistura e separação de partículas de uma substância. Não ficaremos surpresos. contudo.
em outras. como um mestre.e que isso exclui qualquer tipo de impostura ou engano. porém. bem como na sua reacção a estas. não devemos esquecer que o relacionamento analítico se baseia no amor à verdade . não são absolutamente idênticos. Os opositores da análise quase sempre apontam esse facto com escárnio e o utilizam como argumento para demonstrar a inutilidade dos esforços analíticos. no reconhecimento da realidade . As outras Análise terminável e interminável 34 . razoável esperar que um analista tenha. um grau considerável de normalidade e correcção mental. Finalmente. portanto. Quase parece como se a análise fosse a terceira daquelas “profissões impossíveis” quanto às quais se pode de antemão estar seguro de chegar a resultados insatisfatórios. Afinal de contas. deve ter algum tipo de superioridade. Poderíamos rejeitar essa crítica porque faz exigências injustificáveis. não estiveram invariavelmente à altura do padrão de normalidade psíquica para o qual desejam educar seus pacientes. com as suas próprias personalidades. a par disso. Enquanto for capaz de praticar clínica. como parte das suas qualificações. Os casos. em certas situações. Detenhamo-nos aqui por um momento para garantir ao analista que ele conta com a nossa sincera simpatia pelas exigências muito rigorosas a que tem de atender no desempenho das suas actividades.Freud 1937 Não se pode discutir se os analistas. pode-se argumentar que há certas vantagens no facto de um homem que foi ameaçado pela tuberculose. de maneira que.isto é. possa agir como modelo para o seu paciente e. se especializar no tratamento de pessoas que sofrem dessa doença. um médico que sofre de uma doença dos pulmões ou do coração não está em desvantagem para diagnosticar ou tratar queixas internas. ninguém sustenta que um médico será incapaz de tratar doenças internas se os seus próprios órgãos não forem sadios. É. ao contrário. Além disso. pode-se conceder-lhes que são seres humanos como quaisquer outros. ao passo que as condições especiais do trabalho analítico fazem realmente com que os próprios defeitos do analista interfiram no seu acto e avaliação correcta do estado de coisas do paciente. Os analistas são pessoas que aprenderam a praticar uma arte específica.
somos levados a traçar uma analogia desagradável com o efeito dos raios X nas pessoas que os manejam sem tomar precauções especiais. Quando tal acontece. analista. algo mais acontece também. são a arte de educar e de governar.Freud 1937 duas. Infelizmente. O importante é que se possa fazer um juízo sobre se o candidato pode ou não ser aceite para uma formação posterior. criam uma atmosfera desfavorável à investigação objectiva. de maneira que eles próprios permanecem como são e podem afastar-se da influência crítica e correctiva da análise. que só as pessoas de alta e rara perfeição possam ingressar na candidatura a analista. conhecidas há muito mais tempo. apenas podemos apoiar-nos em impressões. Tal acontecimento poderia justificar as palavras do escritor [Anatole France: La révolte des anges] que nos adverte que. Não seria de surpreender que o efeito de uma preocupação constante com todo o material recalcado que luta pela liberdade Análise terminável e interminável 35 . quando um homem obtém poder. contamos também com que os estímulos que recebeu da sua própria análise não cessem quando esta termina. Por razões práticas. e com que o uso de todas as experiências subsequentes nesse recém-adquirido sentido. Às vezes. por um lado. Parece que certo número de analistas aprende a fazer uso de mecanismos de defesa que lhes permitem desviar de si próprios as implicações e as exigências da análise (provavelmente dirigindo-as para outras pessoas). com a qual começa sua preparação para a futura actividade. com que os processos de remodelação do ego prossigam espontaneamente no indivíduo analisado. qualifica o indivíduo analisado para ser. quando tentamos compreender isso. é difícil para ele não o utilizar mal. por outro. quando o material recalcado surge. e partidarismo. Não podemos evidentemente exigir que o analista seja um ser perfeito antes da sua análise. Ao tentar descrevê-lo. A análise didáctica terá alcançado o seu alvo se fornecer àquele que fica firmemente convencido da existência do inconsciente. de perceber em si mesmo coisas que de uma outra maneira seriam inacreditáveis para ele. ele próprio. Mas onde e como pode o pobre infeliz adquirir as qualificações ideais que necessita a sua profissão? A resposta é: na análise de si mesmo. Mas só isso não basta para a formação do analista. a capacidade. Hostilidade. noutras palavras. esta análise só pode ser breve e incompleta.
rebus bene gestis.com intervalos de aproximadamente cinco anos - submeter-se mais uma vez à análise. Não temos dúvida sobre o modo como isso deve ser feito. ela cumpriu a sua tarefa. Torna-se logo evidente que um Análise terminável e interminável 36 . mas o parceiro activo da situação analítica. embora ameacem não o parceiro passivo. Todo o analista experiente será capaz de recordar uma série de casos em que deu ao seu paciente um adeus definitivo. Aqui não é fácil prever um término natural. há uma discrepância muito menor entre a teoria e a prática. nem tampouco exigir que a pessoa que foi ‘completamente analisada’ não sinta paixões nem desenvolva conflitos internos. VIII Tanto nas análises terapêuticas. temos de nos resguardar contra uma concepção equivoca. Também esses são “perigos da análise”. Nos casos do que é conhecido como “análise de carácter”. com isso. sem se sentir envergonhado por tomar essa medida. e não deveríamos negligenciar enfrentá- los. Nesse ponto. A missão da análise é garantir as melhores condições psicológicas possíveis para as funções do ego. observamos que dois temas têm uma proeminência especial e fornecem ao analista uma quantidade inusitada de trabalho. mas a sua própria análise que se transformaria de tarefa terminável em interminável. ainda que se evitem quaisquer expectativas exageradas e não se estabeleçam para a análise tarefas excessivas. O nosso objectivo não será dissipar todas as peculiaridades do carácter humano em benefício de uma ‘normalidade’ esquemática. como nas análises de carácter. que não seria apenas a análise terapêutica dos pacientes. Qualquer que seja a nossa atitude teórica relativamente à questão. Não estou pretendendo afirmar que a análise nunca tem fim.Freud 1937 na mente humana despertasse também no analista as exigências pulsionais que de outra maneira ele seria capaz de manter suprimidas. penso eu. Todo o analista deveria periodicamente . portanto. o término de uma análise é. contudo. uma questão prática. Isso significaria.
Os dois temas estão ligados à distinção entre os sexos. o desejo apaziguado de um pénis é convertido no desejo de um bebé e de um marido. grandes partes deste complexo transformam-se e contribuem para a construção da sua feminilidade.Freud 1937 princípio geral está aqui em acção. Ele ajusta-se perfeitamente ao caso dos homens. há uma correspondência óbvia entre eles. a formas diferentes de expressão. a atitude passiva. um deles é tão característico dos homens quanto o outro o é das mulheres. O que é comum foi distinguido pela nomenclatura psicanalítica. cujo desfecho. no homem. não devemos desprezar o facto de que não pode.e. o esforço para serem masculinos é desde o início conforme ao seu ego. Nos homens. Alfred Adler preferiu o termo ‘protesto masculino’ para uso corrente. a fase fálica por que passam antes que o desenvolvimento da feminilidade se estabeleça. Ao tentar introduzir esse factor na nossa teoria. a luta contra a atitude passiva ou feminina em relação a um outro homem. é energicamente recalcada e a sua presença só é indicada por sobrecompensações excessivas. em data precoce. pela diferença entre eles. que possui um pénis. Os dois temas correspondentes são. Normalmente. “repúdio da feminilidade” teria sido a descrição mais correcta dessa notável característica da vida psíquica dos seres humanos. mas penso que. Depois sucumbe ao processo do recalcamento. a inveja do pénis . vai determinar o destino da feminilidade de uma mulher. ocupar a mesma posição para ambos os sexos. pela sua própria natureza. desde o início. na mulher. uma vez que pressupõe uma aceitação da castração. como sendo a sua posição em relação ao complexo de castração. como tão frequentemente foi demonstrado. O esforço das mulheres para serem masculinas também é conforme ao ego durante um determinado período de tempo. mas quantas vezes se descobre Análise terminável e interminável 37 . Muita coisa depende de que uma parte suficiente do seu complexo de masculinidade escape ao recalcamento e exerça uma influência permanente no seu carácter. Apesar da dissemelhança do seu conteúdo. Algo que ambos os sexos possuem em comum foi forçado.um esforço positivo para possuir um órgão genital masculino .
e. A importância destes dois temas . Apenas repito o que disse então ao discordar da sua opinião. ele recusa a submeter-se a um substituto paterno. em toda análise bem-sucedida. em ambos os casos foi a atitude própria ao sexo oposto que sucumbiu ao recalcamento. Fliess inclinava- se a encarar a guerra dos sexos como a verdadeira causa e a primeira força do recalcamento. acho que Ferenczi estava pedindo muito. Como se verá pelo que disse.Freud 1937 que o desejo de masculinidade foi retido no inconsciente e que. Falando por minha própria experiência.nas mulheres. ainda podia obter o órgão masculino cuja falta lhe era tão penosa. consequentemente recusa aceitar do médico o seu restabelecimento. com fundamento de que este é irrealizável. que ela é indispensável em muitos relacionamentos na vida. o desejo de um pénis. a luta contra a passividade . Em nenhum momento do trabalho analítico se sofre mais da sensação opressiva de que todos os nossos repetidos esforços foram em vão. a partir deste recalcamento. mas esse desejo é fonte de graves depressões nela.não escapou à observação de Ferenczi. nos homens. Já afirmei noutro lugar que foi Wilhelm Fliess que chamou a minha atenção para esse ponto. explicá-lo a partir de fundamentos biológicos em vez de psicológicos. esses dois complexos tivessem de ser dominados. exerce uma influência perturbadora. ou quando procuramos convencer um homem que uma atitude passiva para com os outros homens nem sempre significa castração. ele transformou num requisito que. Análise terminável e interminável 38 . no fim. e da suspeita de que estivemos pregando ao vento. ou da convicção interna de que a análise não lhe será útil e de que nada pode ser feito para ajudá-la. A sobrecompensação rebelde do homem produz uma das mais fortes resistências transferências. ou sentir-se em débito para com este. Nenhuma transferência análoga pode surgir do desejo da mulher por um pénis. isto é. No artigo lido em 1927. quando recuso conceber o recalcamento desta maneira. Só podemos concordar que tem razão quando aprendemos que o seu motivo mais forte para procurar um tratamento foi a esperança de que. quando tentamos persuadir uma mulher a abandonar o seu desejo de um pénis.
Frequentemente temos a impressão de que o desejo de um pénis e o protesto masculino penetraram através de todos os estratos do psiquismo e alcançaram o seu fundo.Freud 1937 Mas também aprendemos com isso que não é importante a forma como a resistência aparece. as nossas actividades encontram um fim. Só podemos consolar-nos com a certeza de que demos à pessoa analisada todo o incentivo possível para reexaminar e alterar a sua atitude para com ele. fazendo parte do grande enigma do sexo. O repúdio da feminilidade pode não ser nada mais do que um factor biológico. e que. já que. Análise terminável e interminável 39 . Isso é provavelmente verdadeiro. na transferência ou não. o campo biológico desempenha o papel de rocha subjacente. A coisa decisiva permanece que a resistência impede a ocorrência de qualquer mudança – fica tudo como era. para o campo psíquico. Seria difícil dizer se e quando temos êxito em dominar este factor num tratamento analítico. assim.