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THE HIGHLANDER'S BRIDE

Michele Sinclair

Escócia, 1307

Preso ao dever... Atraída pelo desejo.


Conor McTiernay sempre sonhou com um amor verdadeiro. Porém, a realidade das
mulheres que o desejavam somente pelo título e pela riqueza o levaram a descartar a idéia
de casamento. Isso, até ele conhecer a inglesinha que seus homens encontraram
escondida na floresta. As manchas de terra e fuligem não conseguiam ocultar a beleza de
Laurel Cordell... Mas seria ela apenas outra sedutora ardilosa, ou Conor finalmente
encontrara a mulher de sua vida? Laurel confiou no chefe de clã escocês para
protegê-la do homem cruel de quem ela fugira. Nos olhos prateados de Conor, ela
vislumbrava a coragem de um guerreiro e o brilho da paixão. Mas antes que
Laurel e Conor pudessem explorar o crescente desejo entre ambos,
aquele amor recém-descoberto seria ameaçado por segredos do passado...

Digitalização: Crysty
Revisão: Ana Ribeiro
CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

Querida leitora,

Eu me encantei com esta história de Laurel e Conor, um casal de personagens


encantadores e cativantes! Laurel está a caminho da fortaleza de seu avô, nas Terras
Altas, quando é raptada pelo implacável herdeiro dos Douglas. Mas consegue escapar e
é resgatada por Conor, líder do clã McTiernay. Com medo de provocar a ira do avô sobre
os Douglas e os McTiernay, ela guarda segredo de seu passado. Conor, por sua vez,
cansado de mulheres que só estavam de olho em seu título e sua fortuna, jurou a si
mesmo que nunca se casaria... até que ele fica conhecendo Laurel. Mas nem Conor nem
Laurel imaginavam as adversidades que ainda teriam de enfrentar...

Leonice Pomponio
Editora

Copyright © 2007 by Michele Peach

Originalmente publicado em 2007 pela Kensington Publishing Corp.


PUBLICADO SOB ACORDO COM KENSINGTON PUBLISHING CORP.

NY.NY-USA Todos os direitos reservados.


Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas
vivas ou mortas terá sido mera coincidência.

Proibida a reprodução, total ou parcial, desta publicação, seja qual for o


meio, eletrônico ou mecânico, sem a permissão expressa da
Editora Nova Cultural Ltda.

TÍTULO ORIGINAL: THE HIGHLANDER'S BRIDE

EDITORA Leonice Pomponio


ASSISTENTES EDITORIAIS
Patrícia Chaves
Paula Rotta
Silvia Moreira
EDIÇÃO/TEXTO
Tradução: Sulamita Pen
Revisão: Giacomo Leone
ARTE Mônica Maldonado
ILUSTRAÇÃO Thomas Schluck
MARKETING/COMERCIAL
Andréa Riccelli
PRODUÇÃO GRAFICA
Sônia Sassi
PAGINAÇÃO
Estúdio Editores.com
© 2008 Editora Nova Cultural Ltda.
Rua Paes Leme, 524 — 10 andar — CEP 05424-010 — São Paulo — SP
Premedia, impressão e acabamento: RR Donnelley

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

CAPÍTULO I

Escócia, 1307

― E Milorde, não pensa em se casar? A pergunta vinha sendo feita de maneira


incessante nas últimas semanas, desde que seu irmão mais novo decidira subir ao altar.
— Agora é a sua vez, Conor! — era o comentário daqueles que o encontravam.
Os ligados a ele com certa intimidade nada ousavam perguntar, mas os outros não
se furtavam à indagação fatídica.
— E milorde, quando resolverá se casar?
— Nunca, se é que isso é da sua conta — era a resposta brusca com que ele
brindava a maioria dos curiosos que o haviam aborrecido durante a cerimônia.
No caminho de casa, os cavaleiros que cavalgavam a seu lado não se cansavam de
provocá-lo:
— E então, Conor, quando vai escolher uma noiva? — um deles imitou a voz
dissonante de uma das matronas escocesas que haviam atormentado Conor naquela
última semana.
Risos se sucederam entre o grupo de homens, todos morenos de olhos azuis.
— Qualquer dia desses, Craig, ele vai lhe dar uma surra.
— Espero que ele acerte a boca de Craig — disse um dos mais jovens, defendendo
o irmão mais velho.
Conor ignorou a tagarelice dos irmãos e liderou o grupo até um riacho próximo para
refrescar as montarias. A viagem estava chegando ao fim, e logo ele estaria de volta às
terras dos McTiernay, onde retomaria seus deveres como chefe do clã.
— Cuidem bem dos cavalos. Acamparemos mais à frente, no vale.
Os homens obedeceram. Eles não chegariam antes do anoitecer ao destino
sugerido, a muitos quilômetros ao norte, onde não havia sequer um regato para matar a
sede dos homens e dos animais. No entanto, era uma decisão acertada. Nenhum deles
gostaria de dormir próximo às terras dos Douglas.
Embora uma pequena parte do território dos Douglas se limitasse com terras dos
aliados por onde Conor e seus homens costumavam passar, tratava-se de uma
localização estratégica. Protegida por dois enormes despenhadeiros, havia apenas dois
lados que necessitavam de fortificação, e era o que os ancestrais dos Douglas haviam
feito.
No caminho para o vale, Conor pensava na pergunta do irmão. Conor McTiernay era
um homem de estatura elevada, mesmo para os padrões masculinos dos habitantes das
Terras Altas. Usava os cabelos castanho-escuros amarrados para trás, ao contrário dos
soldados escoceses. Fazia anos que as jovens e suas mães empregavam as mais
variadas táticas para persuadi-lo a assumir um compromisso. Não havia uma única moça
solteira que não se encantasse com a idéia de tornar-se esposa de um poderoso chefe de
clã, ainda mais sendo ele jovem, atraente e vigoroso.
Com o decorrer dos anos, Conor se cansara do interesse artificial das belas jovens e
passara a ser considerado um homem frio e rude que não se rendia aos encantos
femininos.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

O que pouco o incomodava, pois Conor não tinha intenção de se casar. A maioria
dos matrimônios não passava de um simples contrato, um meio de assegurar alianças,
perpetuar a linhagem familiar, compartilhar tarefas e satisfazer necessidades físicas.
Seu talento com a espada e a lealdade indiscutível de seus homens geravam bons
acordos. Seus irmãos certamente assegurariam a continuidade dos McTiernay, e suas
necessidades físicas podiam ser satisfeitas sem nenhum compromisso.
O casamento de seus pais fora diferente. Eles se amavam, confiavam um no outro e
haviam construído uma união admirável. E desde a adolescência, Conor pensava em
edificar uma vida semelhante à deles.
Desconfiado, Conor analisava, com resultados desanimadores, as mulheres que
tinham pretensão de tornar-se lady McTiernay. Embora muito corteses, quando
interrogadas a respeito dos verdadeiros interesses, umas choravam e outras entravam em
pânico, sempre declarando ser ele o único lorde montanhês sem coração. Após uma série
de desilusões e experiências desagradáveis, concluíra que a existência maravilhosa de
seus pais não se estenderia a ele.
O grupo chegou ao vale e pôs-se a montar acampamento. A temperatura caía e
Conor estava contente em voltar para casa. Muitas coisas teriam de ser feitas antes do
inverno e em poucas semanas as montanhas estariam cobertas de neve.
Conor observou os homens que montavam uma grande fogueira no centro da
clareira. O grupo não era numeroso. Cinco de seus seis irmãos e quatro de sua guarda de
elite. Em geral Conor não permitia que a família toda ultrapassasse a fronteira dos
McTiernay, mas o casamento exigira a presença dos familiares. Relutante, acabara
concordando com a viagem dos irmãos mais novos, apesar de o trajeto ser feito em terras
de aliados ou clãs neutros.
— Aposto que Colin terá uma ótima noite de núpcias — Craig opinou, rindo.
O gêmeo Crevan sorriu e continuou comendo um pedaço de carne. Os gêmeos de
dezessete anos eram muito parecidos, altos, com cabelos castanho-escuros e olhos
azuis. Contudo a personalidade deles diferia como a água do vinho.
— Colin deve estar feliz, pois Deirdre é muito bonita — Clyde, o caçula de quase
doze anos, afirmou.
Os mais velhos o provocavam, dizendo que o estoque de nomes bonitos começados
com a letra "C" se esgotara quando ele nascera, e Conor o consolava dizendo que os dois
eram os únicos que tinham os olhos cinzentos, da cor da prata. Os outros tinham olhos
azuis como os da mãe.
— Com seu nome, Clyde, nem espere essa felicidade. — Conan, de catorze anos,
gostava de imitar os mais velhos.
Clyde irritou-se e jogou terra com a bota na capa xadrez de Conan. Este, por
vingança, deu um pontapé com força e a terra atingiu não apenas Clyde, mas também
Conor. E se não fosse a intervenção de Cole, o mais velho depois de Conor e Colin, a
provocação teria desandado numa briga entre irmãos. Com o casamento de Colin, Cole
ficara encarregado de evitar a discórdia entre os mais novos, pois Conor, chefe do clã, era
muito ocupado e não podia perder tempo com esses detalhes de pouca importância.
— Chega — Cole imitou a voz firme de Conor nos campos de treinamento.
Conor não participou da altercação e recostou-se num dos olmos que rodeavam a
pequena clareira. A interferência de Cole, um rapagão de vinte e um anos, conseguira
refrear os ânimos e impedir a provável destruição do acampamento recém-montado.
Mesmo em terras de aliados, eles ainda se encontravam muito perto da fronteira dos
Douglas. Conor adoraria enfrentar num campo de batalha aquele chefe de clã cruel e
desonesto, mas não na presença dos irmãos mais novos e a vários dias de distância de
casa.
Conor conversou com os quatro soldados e elaborou um esquema de vigilância.
Mais alguns dias de viagem ao norte e a vigília poderia ser relaxada. Depois das ordens

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distribuídas, voltou ao acampamento onde Craig relatava os últimos boatos.


— É inacreditável o que Hilda me disse — Craig afirmou.
— Quem é Hilda? — Clyde indagou.
— Ah, uma moça com quem ele passou a noite — Conan falou como se fosse
familiarizado com tais eventos.
— Bem, Hilda me disse que a neta de Maclnnes vai morar com ele. — Craig piscou,
malicioso.
— E o que t... tem isso? — Crevan, introspectivo e calmo, era o oposto de Craig,
sempre alegre e exuberante.
Contudo, enganava-se quem supunha serem o temperamento afável e a ligeira
gagueira sinais de fraqueza. Dois anos de treinamento haviam transformado Crevan num
verdadeiro McTiernay. Esperto, estrategista e rude numa batalha.
— Ela é inglesa. — Craig fez uma careta.
— Ora, mas se ela é n... neta de Maclnnes e ele é e... escocês, c... como pode s...
ser isso?
— Não sei. Maclnnes é das Terras Altas, foi o melhor amigo de nosso avô e,
segundo Conor, Maclnnes mantém as tradições do Norte.
— Então ela n... não é i... inglesa.
— Hilda contou que ela mora na Inglaterra há muitos anos e que perdeu a mãe,
mulher bonita e filha de Maclnnes, ainda criança. Por isso nem deve lembrar-se mais das
tradições escocesas. Todos apostam que ela não agüentará muito tempo e voltará para a
Inglaterra. Maclnnes é muito severo.
— Os ingleses deveriam ficar na terra deles. — Cole desprezava o país vizinho e
seus habitantes.
— Cole, os ingleses podem arruinar nossas terras? — Clyde lembrou-se dos
comentários negativos dos guerreiros McTiernay.
— Por que a dama inglesa vem morar na Escócia com o avô? — Conan não
esperou a resposta de Cole.
— Talvez ela odeie a Inglaterra — Craig opinou, mastigando carne fria de carneiro.
— Os ingleses não são espertos o suficiente para odiar a terra natal — Cole falou
com desprezo. — Ela talvez queira tirar proveito por ser a única herdeira de um lorde
poderoso.
— Mas você disse que ela era bonita — Conan ponderou, sempre perdido em
relação ao sexo oposto, embora fosse inteligente e procurasse instruir-se lendo
manuscritos.
— Conan, uma moça bonita pode ser burra e irritante — Craig afirmou com
superioridade. — Nunca se esqueça disso.
— Eu sei — Conan alteou a voz. — Por isso mesmo nunca me casarei, como Conor.
Não queremos mulheres pouco inteligentes, mesmo que sejam bonitas. — Ele procurou a
aprovação de Conor, mas o irmão estava de olhos fechados e com expressão
imperturbável.
— Além do mais eu disse que a mãe era bonita, não ela — Craig afirmou. — E por
isso, foi cortejada por muitos homens.
— E por que a neta de Maclnnes é inglesa? — Clyde indagou.
— Porque a mãe fugiu para se casar com um barão inglês. Bonita e pouco esperta,
como se pode deduzir. E, provavelmente, a coitada da neta de Maclnnes deve se parecer
com o pai.
— O que deve entristecer bastante Maclnnes — Clyde comentou.
Em geral Conor não participava da conversa dos irmãos. Ele amava a família e
considerava difícil saber quando deveria assumir o papel de irmão mais velho ou de chefe
do clã. Por isso, ao se tornar lorde McTiernay, encorajara Colin a atuar como irmão mais
velho, o que lhe permitia ocupar-se com o clã em tempo integral.

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Naquele dia, Colin se casara com Deirdre, filha mais velha de lorde Dunstan. Depois
da volta para casa, Cole os deixaria para fazer parte da guarda de lorde Schellden, um
aliado com terras a oeste dos McTiernay, Colin e Cole tinham sido os primeiros a sair,
mas logo os outros também iriam embora em busca dos próprios destinos.
E, por algum motivo, aquela idéia o fazia sentir-se solitário e triste. Por isso
procurava disfarçar a dor, distanciando-se deles. Sua vida era o clã, e o clã precisava
dele.
Conor foi afastado de seus devaneios quando Finn, comandante da guarda, se
aproximou, sério e preparado para uma luta.
— Hamish está investigando um ruído que escutou na mata.
Naquele instante eles ouviram um grito abafado de Seamus. Desembainharam as
espadas e avançaram para confrontar-se com o inimigo. Ao chegar mais perto da floresta,
viram Loman e Hamish arrastando uma mulher para a clareira.
Loman chegou perto de Conor, segurando-a pelo braço, e ela parou de espernear.
Pelo arfar de Loman, Conor imaginou o que acontecera e admirou-se como uma moça tão
magrinha poderia ter dado tanto trabalho.
— Ela atingiu Seamus na cabeça e nós a pegamos enquanto ela tentava fugir da
cena do crime — contou Loman.
Laurel espantou-se ao ouvir a palavra "crime" e em seguida irritou-se. O gigante a
quem chamavam de Seamus tentara aprisioná-la, e defender-se era seu direito. Ela fitou
o líder deles, o maior de todos.
Conor notou que ela procurava esconder o pavor que sentia. Ficou fascinado com a
mudança de expressão de surpresa para raiva, mas não estava preparado para o olhar
dela.
A aparência desgrenhada e as roupas rasgadas desapareceram diante dos olhos
que lembravam o mar do Norte numa tempestade: azul-escuros com laivos verdes. Eles
se entreolharam por alguns momentos, antes de Conor retomar o raciocínio.
— Quem é a senhora? — ele perguntou em tom monocórdio.
Alta e dona de um porte régio, não parecia importar-se com a manga rasgada do
ombro ao cotovelo. Seus olhos brilhavam, e ela o desafiava com o queixo erguido. Mas
Conor notou o leve tremor quando ele se aproximou, surpreso pela atração que sentia
pela desconhecida.
Desesperada, Laurel teve a intuição de que seu captor, aquele escocês enorme,
poderia ser também seu salvador.
— Sou Laurel Rose Cordell. — Ela levantou ainda mais o queixo.
Conor acenou para Loman soltar a jovem orgulhosa e observou-a massagear o local
por onde fora presa. Terra e galhos secos estavam emaranhados nos longos cabelos
loiros. Os ossos malares eram altos e a boca carnuda pedia beijos. Era incrível que se
sentisse encantado por uma mulher naquele estado, tão desarrumada.
Ora, ela era inglesa, estava suja e mal vestida, mas exalava um perfume de flores,
mais precisamente de lilases. Aquelas tinham sido as flores prediletas de sua mãe, que
sempre as cultivava na fortaleza.
Embriagado por aquele perfume e pela cor dos olhos que não o desfitavam, Conor
demorou alguns instantes para notar que ela segurava, como se não percebesse, uma
pequena adaga com cabo de madrepérola. Na certa a jovem devia estar um pouco
confusa, se imaginava poder ferir alguém com aquela arma de brinquedo. Disse a si
mesmo que seria melhor tirar dela a lâmina, antes que ela se cortasse.
Laurel estremeceu ao vê-lo aproximar-se e teve uma idéia tola: fugir. O gigante
chegou perto dela e tirou a adaga de sua mão. Ela não pretendia recuar de maneira tão
covarde, mas o líder do grupo era grande demais mesmo para ela, considerada alta para
uma mulher. Ele tinha feições enérgicas e, apesar de muito musculoso, Laurel não se
sentiu ameaçada. A impressão era de que ele podia enfrentar um exército inteiro, se

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preciso fosse.
Ele estava tão próximo que era possível ver uma pequena cicatriz no supercílio
direito, cortando a sobrancelha ao meio. Fora essa pequena imperfeição, seu rosto tinha
uma beleza masculina perfeita, e diferente de seus braços que apresentavam inúmeras
cicatrizes. Era evidente que ele enfrentara muitas batalhas e soubera como sobreviver a
elas.
O guerreiro tinha espessos cabelos castanho-escuros e olhos literalmente prateados
que fascinavam, diferente de tudo o que Laurel já vira. Ela comparou-os a uma taça de
cristal que refletia a luz. Ele não perdia um só de seus movimentos, mesmo o menor
deles.
Apesar do tamanho descomunal e da frieza de seu olhar, Laurel percebeu, mesmo
sem entender o motivo, que estava segura com ele. Ele a ajudaria e a protegeria. Ele teria
de fazê-lo.
Sob a fraca luz do luar, Conor observou a inglesa encará-lo como se calculasse o
que deveria fazer. O vestido rasgado em vários locais deixava entrever uma camisa
branca e rendada, muito feminina. Com certeza, tratava-se de uma jovem de classe alta.
Ele não conhecia ninguém que usasse roupas íntimas tão luxuosas. Os cabelos pareciam
loiros, mas era difícil distinguir o tom sob a camada de sujeira. Até o rosto mostrava
manchas que poderiam ser de terra ou de sangue.
Hamish aproximou-se com um pano úmido para ela se limpar, mas Laurel recuou.
— Não foram meus homens que fizeram isso — Conor falou com desagrado pelo
fato de ela estar com medo deles.
— Não — ela confirmou com simplicidade.
Conor anuiu, tirou o tecido das mãos de Hamish e entregou a Laurel que, dessa vez,
não se assustou.
Laurel começou a limpar o rosto e revelou parte de sua beleza. Ela possuía feições
dignas da nobreza da Escócia: suave, feminina e cheia de energia; nariz ligeiramente
arrebitado e pele clara; lábios carnudos que pediam uma exploração minuciosa. Conor
sentiu vontade de beijá-los com profundidade e paixão, e beber neles de todas as
maneiras possíveis.
Laurel terminou de limpar o rosto e as mãos e ouviu um barulho vindo da mata.
Aterrorizou-se até ver Seamus aparecer na clareira. Ao mesmo tempo lembrou-se que lhe
haviam imputado um ataque que ela não cometera e encarou Conor com a cabeça
erguida.
— Não cometi nenhum crime. — Sem se defender, ela fitava Conor como se o
desafiasse a desmenti-la.
Conor percebeu a mudança de pânico para alívio quando ela vira Seamus aparecer.
A jovem na certa fugia de alguém ou de alguma coisa.
— A senhora está segura, aqui ninguém lhe fará nenhum mal — Conor esclareceu,
tentando deixá-la mais calma. — Por acaso está fugindo de seu marido? — Ele detestou
a pergunta, mas era preciso saber a resposta.
Laurel lembrou-se de como estivera perto de se casar e negou com um gesto
veemente de cabeça.
— Não sou casada! — ela praticamente gritou.
Por um instante o gigante sedutor pareceu aliviado com a resposta, o que não fez
nenhum sentido para Laurel.
De repente, a situação pareceu complicada demais, e Laurel teve vontade de sentar-
se e pensar sobre o que deveria fazer. Ela suportara e presenciara crueldade demais nos
últimos dois dias. Estava muito cansada, e até respirar custava-lhe grande sofrimento.
Pense, Laurel, pense, ela advertiu a si mesma. Apesar do que o líder dissera, ela
ainda não se sentia segura. Teria de encontrar uma maneira rápida de afastar-se dali para
o mais longe possível. Olhou para cima e notou a energia tranqüila daquele olhar honesto.

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Ali estava um homem que honraria a palavra dada, se Laurel conseguisse obter a
promessa de que ele a levaria para onde estivesse se dirigindo.
— Por favor, leve-me com o senhor — Laurel pediu com suavidade. — Nem que
seja por algum tempo. Uma vez que eu esteja longe o suficiente...
Nisso a energia de Laurel esgotou-se. Ela agarrou o braço de Conor e desmaiou.
Conor e seus soldados ficaram atônitos. Ela não dera a menor demonstração de que
se sentia mal. Finn curvou-se para ajudá-la, mas foi impedido bruscamente por Conor,
que se abaixou e a levantou nos braços. Um forte desejo de protegê-la inundou-o quando
ergueu o corpo frágil e largado.
— Não permitirei que nenhum malefício lhe aconteça, minha jovem — Conor
sussurrou no ouvido de Laurel enquanto caminhava rumo ao acampamento. — Eu lhe
dou minha palavra de honra.
Chegando ao local onde estavam acampados, Conor deitou-a sobre sua manta
xadrez e cobriu-a para protegê-la do frio da noite. Sorrindo, deixou a pequena adaga ao
alcance da mão de Laurel Rose Cordell.

Laurel acordou antes do amanhecer. Espreguiçou-se e sentou-se, sentindo o corpo


dolorido. A noite anterior parecia uma recordação distante, meio sonho, meio pesadelo.
Relanceou um olhar ao redor. Estava num acampamento, rodeada por escoceses
gigantes e de pés descalços. Um movimento brusco a lembrou das costelas que doíam e
por isso custava-lhe respirar, embora a cabeça não latejasse tanto.
Laurel levantou-se com cuidado, fechou os olhos e lembrou-se do homem austero,
de olhos cinzentos que davam a impressão de ser prateados, que pareciam ler sua alma.
Abaixou-se e pegou a manta de lã xadrez onde dormira. Sentiu a trama macia do tecido
em tons de azul, verde com traços dourados, vermelhos e cor de vinho, e enrolou-se nela
para se aquecer. A manta tinha cheiro de cavalo e do homem que prometera mantê-la a
salvo do perigo. Era estranho, mas o agasalho dava a sensação de conforto enquanto ela
caminhava rumo à mata para satisfazer suas necessidades fisiológicas.
Conor viu-a levantar-se. Por quase toda a noite ele a observara dormir. Durante o
sono ela pouco se movera, como se qualquer mudança de posição lhe causasse
sofrimento. Nas atuais condições, era difícil avaliar sua aparência, mas admitiu que algo
em Laurel Rose o cativara.
Viu-a enrolar-se na manta e ir para a floresta mal iluminada pelo sol que despontava.
Laurel caminhava com calma, dignidade e graça, sem nenhuma indício de que houvesse
escapado de uma experiência desastrosa.
Conor sacudiu a cabeça pela centésima vez, tentando afastar os pensamentos
indesejáveis. Nunca vira uma mulher em estado tão deplorável e, mesmo assim, ele a
desejava... e muito.
Fora uma atração instantânea. Conor levantou-se com brusquidão. Precisava
concentrar-se no dia de viagem e na volta para casa. Encontraria um lugar seguro para
abrigar Laurel Rose Cordell e retomaria sua rotina diária. Tratou de reunir a guarda para
que levantassem acampamento.
Laurel deparou-se, na volta, com os homens prontos para partir. O mais jovem dos
escoceses gigantes foi o primeiro a vê-la parada na margem da clareira. Os outros
estranharam a suspensão das atividades de Clyde e seguiram o olhar dele.
Viram uma jovem alta, magra, com longos cabelos loiros e incríveis olhos azul-
esverdeados. O braço estava machucado, o vestido rasgado, e ela estava enrolada em
uma das mantas dos McTiernay.
Laurel espantou-se ao ver os cinco escoceses. Eram todos montanheses típicos,
com traços fortes, vestimentas e armamentos característicos das Terras Altas. Dois eram

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bem jovens, mas em pouco tempo ficariam encorpados como os mais velhos. Tinham
cabelos castanhos que variavam do claro e acobreado ao escuro como os do líder. Os
olhos azuis e brilhantes era característica comum, com exceção do mais jovem que tinha
olhos cinzentos como o do homem que lhe prometera proteção.
Laurel lembrou-se dos homens que ela conhecera na noite anterior e um momento
de pânico a invadiu. Precisava fugir. Certamente a procuravam pelo que ela fizera.
— Está tudo bem? — um dos escoceses se aproximou. — A senhorita está um
tanto... descomposta. — Os outros a rodearam, dispostos a ajudar.
Laurel entendeu que eles pretendiam apenas prestar-lhe auxílio e que estavam
curiosos.
— Tem razão, estou mesmo um horror. Deve ter sido um irmão seu que me ajudou
ontem à noite. — Laurel hesitou ao ver os quatro mais jovens sorrirem. O mais velho dos
cinco não escondia a carranca. Ela o ignorou e dirigiu-se aos mais simpáticos. — Algum
dos cavalheiros poderia me dizer onde posso lavar o rosto?
Todos negaram com um gesto de cabeça, e o mais jovem esclareceu:
— O regato mais próximo faz divisa com as terras dos Douglas. — Ele apontou o
local de onde ela fugira na noite anterior.
Laurel empalideceu.
— Mas há um riacho mais ao norte, senhorita, e vamos para lá hoje — um dos
gêmeos falou.
— Se quiser, pode vir conosco — o outro ofereceu. Laurel ficou radiante com o
entusiasmo dos jovens, e seu sorriso contagiou o grupo. Até mesmo Cole, que odiava os
ingleses e a Inglaterra, teve vontade de ajudar a jovem que fora cruelmente atacada.
Conor chegou a tempo de ver os irmãos olharem para Laurel como se ela fosse um
anjo caído do céu. Ela também os enfeitiçara, assim como às sentinelas, que não
paravam de falar de Laurel.
Sob as primeiras luzes da manhã, os cabelos loiros poderiam deixar um homem
abismado. O rosto oval, os olhos grandes, o nariz arrebitado e os lábios rosados eram
uma visão irresistível. Pouco importava que seus cabelos estivessem sujos e
desgrenhados. Diante de um jovem como aquela, homens esqueciam onde se
encontravam, do que eram capazes e até de seus deveres.
Conor estreitou os olhos para os irmãos e Laurel voltou-se para ver o que causara o
sobressalto de todos. Ela viu o homem que, na noite passada, prometera ajudá-la. Ou
tudo não passara de um sonho?
— O senhor falava sério? — Laurel sussurrou quando ele chegou mais perto.
Conor admitiu que Laurel tinha um olhar hipnótico. Sem o brilho da raiva, a cor dos
olhos ficava mais clara, mesclando o azul com uma tonalidade incomum de verde. E
pareciam ainda maiores na moldura dos cílios escuros e das sobrancelhas perfeitas. A
face direita estava inchada e o hematoma do braço aumentara e escurecera. Ao ver os
ferimentos à luz do dia, Conor teve de controlar a raiva quando Laurel desenrolou a manta
para devolvê-la.
O grito sufocado dos irmãos foi audível. Alguém batera nela sem misericórdia e
Conor entendia por que ela não se mexera durante o sono.
— O que aconteceu?
— Quem fez isso?
— Sente-se, por favor, senhorita.
— Qual é o seu nome?
— Onde é a sua casa?
— Diga-me quem fez isso e eu a vingarei — um dos gêmeos afirmou.
— Meu irmão a salvará — o mais jovem prometeu. — Ele é chefe de um clã muito
poderoso.
Conor conseguiu impor silêncio com o olhar.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— Quem é o responsável por esses ferimentos? — A voz dele estava carregada de


fúria contida.
Os quatro guardas retornaram da vigilância noturna e espantaram-se com a ira do
lorde. Nisso, viram Laurel.
— Não importa quem me feriu, mas sim que não darei mais oportunidade de
repetirem o feito. Por favor, posso ir com o senhor? — Laurel indagou, ansiosa, e notou o
turbilhão em seu olhar.
— A senhora virá conosco — Conor confirmou a promessa sem demonstrar
emoção.
Laurel esperava sair dali sem demora. Ela não queria que outros homens honestos
morressem por sua causa.
— Podemos ir agora?
Conor estreitou os olhos. Pela pressa de Laurel, era de se supor que o agressor dela
não desistiria facilmente.
— Fique tranqüila, partiremos em seguida. Mas antes do final da viagem, quero
saber quem fez isso — Conor apontou o rosto e os braços de Laurel, e fez um sinal para
os homens. — Vamos.
O grupo montou e Hamish aproximou-se de Laurel.
— Milady. — O soldado mostrou o próprio cavalo. Laurel caminhou na direção do
animal castanho, desapontada por não ter sido convidada pelo chefe.
O lorde das Terras Altas parecia feroz naquela manhã. Era assustador o controle
que ele exercia sobre cada movimento que fazia com o corpo tenso. Os cabelos escuros
esvoaçavam na testa e o olhar não poderia ser mais gélido. Mesmo assim, Laurel sentia-
se atraída pelo homem que lhe transmitia confiança e sentimento de proteção.
Conor montou o garanhão, decidido a manter distância da jovem que o encantava.
Mas quando a viu aceitar o convite de Hamish, sentiu o coração gelar. E, num impulso,
incitou o cavalo para a frente, arrebatou a jovem do solo e sentou-a em seu colo.
Hamish pareceu confuso e montou. Embora sem apreciar a decisão do chefe, a
lealdade a McTiernay falou mais alto.
— Permita-me perguntar seu nome, senhor — murmurou Laurel por sobre o ombro,
depois de ajeitar-se de lado sobre a montaria.
— Conor — ele pronunciou junto à orelha de Laurel, e ela se arrepiou.
Eles cavalgaram por toda a manhã, parando apenas uma vez para uma refeição
ligeira e para dar um descanso aos cavalos. Laurel comeu muito pouco e falou menos
ainda. Conor sabia que ela estava com dores, embora procurasse não gemer quando o
cavalo fazia movimentos mais bruscos no terreno acidentado.
A segurança de montar com Conor foi substituída por uma reação intensa e
inesperada pela proximidade. Quando ele sussurrou o nome em sua orelha, Laurel
admitiu que seria melhor ter ido com o outro cavaleiro.
Durante as primeiras horas ela tentou manter-se ereta sobre o animal e evitar o
contato físico com Conor. Mais tarde, suas forças se esgotaram e ela não teve como não
se recostar no peito dele. Conor era muito forte e tinha um cheiro masculino e sensual;
natural, cálido, reconfortante.
Conor sentiu alívio quando ela finalmente cedeu ao cansaço. Constrangia-o ver o
desconforto de ela manter-se ereta para não se encostar em seu peito. Mas, no momento
em que ela o fez, a tortura aumentou.
Durante a manhã inteira ele se deliciara com o perfume de lilases e procurara
ignorar a pele sedosa quando a sentia. E com Laurel de encontro a si, a agonia
suplantava a dor que teria ao vê-la nos braços de outro homem.
Uma hora antes do anoitecer, Conor fez sinal para Finn. Os outros pararam e Conor
foi até uma moita que escondia um regato. Desmontou, ajudou Laurel a descer e entregou
a ela uma pequena bolsa.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

Ele entendeu a tolice de continuar a segurá-la, mas Laurel o fitou sem fazer
nenhuma tentativa de desvencilhar-se.
— Ali adiante há um riacho onde a senhorita poderá banhar-se. A água não deve
estar muito fria. — Conor apontou o caminho por entre a sebe. — Vou dar algumas
ordens a meus homens e voltarei em seguida. — Finalmente ele a soltou. — A senhorita
estará segura aqui — disse antes de se afastar.
Conor voltou ao acampamento ainda não erguido e encontrou os irmãos reunidos,
conversando animadamente. Entregou as rédeas do cavalo para Cole e afastou-se com
Hamish para demarcar um perímetro de vigilância.
Hamish era um homem corpulento com cabelos castanho-avermelhados que
chegavam aos ombros, e os olhos verde-escuros refletiam suas emoções que, no
momento, eram uma mescla de posse e proteção.
— O que pretende fazer, milorde? — Hamish referia-se à jovem inglesa.
— Cumprir minha promessa.
— O que foi que prometeu a lady Laurel, sir? Segurança ou levá-la de volta à
Inglaterra? — Diante da hesitação de Conor, Hamish deduziu: — Certamente não é a
segunda hipótese.
Conor estranhou o questionamento do soldado em geral retraído.
— Não se preocupe, Hamish. Estamos voltando para casa e cuidarei da inglesa
pessoalmente.
Hamish não gostou do tom áspero de Conor, que nunca escondera suas restrições
quanto ao sexo oposto e decidiu pedir a mão de Laurel em casamento, caso ela não
pudesse voltar para a Inglaterra.
Conor notou que Hamish, assim como os outros e até mais do que eles, sentia-se
atraído por Laurel, o que o irritava profundamente. Gostaria de saber o motivo por que
Laurel despertava tanto a atenção dos homens.
Conor encarregou Hamish de terminar a marcação do perímetro e marcou um
encontro com ele e Seamus perto do desfiladeiro rochoso, assim que o soldado
terminasse outra tarefa.
Ao chegar próximo da clareira, ele se deparou com Laurel sentada dentro do regato,
com os ombros para fora da água. Os cabelos lavados brilhavam sob o sol do poente e
davam a impressão de nos de ouro.
Laurel se levantou e, nas costas, eram visíveis os vergões dos pontapés a que fora
submetida. Ela foi até a margem e Conor viu as marcas de mãos grandes nos braços.
Admirou a coragem de Laurel, que não se queixara nem gemera. Ela era uma jovem linda
e intrépida, e Conor admitiu que se tratava da mulher mais desejável que conhecera.
Em breve ele mataria o Douglas que certamente fizera aquilo. Contava ter as
respostas antes de chegar em casa. Não importava quem fosse o agressor que encostara
as mãos sujas na mulher de lorde McTiernay. O canalha teria de morrer.
Sua mulher? Ora, aquilo não passava de uma fascinação temporária!
A ânsia localizada na virilha aumentou ao vê-la vestir-se. A porção não ferida de
pele, agora limpa de sujeira e sangue, e iluminada pelo sol da tarde, parecia cálida e
sensual. Conor sacudiu a cabeça, passou as mãos nos cabelos e procurou raciocinar.
Várias emoções o atormentavam: desejo, posse e vontade premente de protegê-la.
Quando Conor finalmente chegou à clareira, Laurel vestira a camisa delicada e
tentava puxar a túnica. As duas peças estavam úmidas por terem sido lavadas. Ela não
se aborreceu por ainda não estar vestida. Pelo contrário, pareceu aliviada.
— Poderia ajudar-me? — Laurel pediu. Conor tirou a peça molhada.
— Preciso examinar suas costelas. Laurel olhou ao redor, assustada.
— Não se preocupe, ninguém a verá. Todos sabem que estou aqui para protegê-la.
Ela arrancou a veste da mão dele e cobriu o peito.
— Elas estão ótimas.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— Percebi sua respiração curta durante o dia e a senti estremecer com os


movimentos mais bruscos.
— São ferimentos leves e eu lhe asseguro que estou bem. Não darei o menor
trabalho. — Laurel recuou.
Conor aborreceu-se.
— Não tenha medo, não a molestarei. Laurel fitou-o com desprezo.
— Não sou covarde, milorde, e posso dizer-lhe que jamais me acovardei. Só não
quero que o senhor toque em... mim. — Laurel enrubesceu.
— Certo, minha inglesa misteriosa, mas assim mesmo terei de examiná-la.
Conor segurou-a com firmeza sem perder a suavidade e Laurel não teve alternativa.
Suportou estoicamente o toque dele em seu corpo.
— Respire, senhorita. — Ele apalpou as costelas uma por uma.
Era impossível respirar com ele a tocando de maneira tão sutil. Laurel nunca
estivera perto de um homem como Conor. Apesar de seu tamanho e força, era bondoso.
Um guerreiro que também era protetor e que a fazia sentir-se plenamente mulher, com
necessidades e desejos. O pior era a vontade de que ele nunca se afastasse.
Sem querer, ela gemeu e ele continuou apalpando.
— Chega, por favor! — Laurel deu um grito e largou-se de encontro a ele.
Conor segurou-a e acariciou-lhe os cabelos.
— Está bem...
Conor esperou que ela parasse de tremer e ergueu-lhe o queixo. Foi impossível
resistir.
Roçou os lábios nos dela e sentiu uma contração na virilha. Os lábios carnudos e
macios se renderam ao carinho. Conor prosseguiu no seu pequeno caminho ao paraíso e
sentiu Laurel estremecer.
Conor segurou-lhe a cabeça e aumentou a intensidade do beijo. Pressionou a boca
na de Laurel e, com a língua, provocou a abertura de seus lábios. A resposta inocente e
natural de Laurel comoveu-o até a alma. Jamais uma mulher o afetara com tal intensidade
e com tanta rapidez. Conor interrompeu o beijo e afastou-se, tentando recuperar o fôlego.
Laurel estava confusa, e o beijo rápido parecia parte de um sonho. Conor a
perturbava de uma maneira insólita. Na noite anterior ele demonstrara ser um protetor e
pela manhã se mostrara distante e frio. Naquele momento, acabava de desencadear
sentimentos e reações físicas que ela desconhecia. Sua única certeza era de ele ter
salvado sua vida.
Conor inspirou fundo antes de falar:
— A senhorita está com duas costelas fraturadas e terei de enfaixá-las antes de se
vestir. As ataduras diminuirão a dor durante a jornada. Ainda temos muitos dias de
viagem pela frente. — Conor admitiu que o beijo aumentara o desejo que sentia por
Laurel.
Ela consentiu e viu-o rasgar uma tira da própria camisa. Ao mesmo tempo que
Conor a enfaixava, despertava emoções ainda mais fortes dentro dela.
Foi apenas ao voltar ao acampamento que Laurel se acalmou e falou normalmente.
— Estamos seguros aqui? — perguntou, sem se dirigir a ninguém em particular.
— Sim, milady — Loman respondeu. — Estamos em domínios de aliados.
Loman era bem-humorado e tinha vontade de agradar, mas no campo de batalha,
era um terror para os inimigos. Esguio e musculoso, aparentava afabilidade com sorrisos
constantes. Laurel lembrou-se de quando ele a encontrara lutando com Seamus e
entendeu que Loman não era tão inofensivo.
— Por favor, pode me chamar de Laurel. — Ela sorriu para o soldado.
Loman fitou Conor de relance e, pelo olhar dele, entendeu que o direito de chamá-la
pelo nome de batismo pertencia a ele.
— Não seria conveniente, milady.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— O senhor não pretende continuar usando "milady", não é?


Loman engoliu em seco.
— Pretendo, milady, até novas ordens de milorde. Ao contrário do que dissera antes,
Conor deixava claro que Laurel não estava disponível. Loman imaginou o que Hamish
pensaria disso.
Laurel foi até a fogueira e aceitou a manta do irmão mais novo de Conor, mas o fez
prometer que ele se sentaria a seu lado. E diante das chamas, começou a desembaraçar
os cabelos. Os irmãos a olhavam como se nunca tivessem visto uma mulher loira.
Enquanto tirava os nós, Laurel resolveu distraí-los e ao mesmo tempo conhecê-los
melhor.
— Vocês são das Terras Altas — deduziu, e recebeu acenos de anuência. Então
inclinou-se para o adolescente a seu lado. — Como é seu nome, rapaz?
O rosto do menino iluminou-se.
— Sou Clyde e aqueles são meus irmãos Cole, Craig e Crevan que são gêmeos, e o
outro é Conan. Conor é o chefe de nosso clã. Somente Colin não está aqui.
— E por quê?
— Ele acabou de se casar.
— Ah. E com qual clã tenho o privilégio de partilhar a fogueira?
— Somos os McTiernay — Conan, sentado do outro lado, declarou com orgulho.
Laurel supôs que os McTiernay pertencessem a um clã grande e poderoso,
conforme Clyde lhe dissera. E fora o líder quem a beijara.
— E para onde estamos indo?
— Nós vamos para casa — Cole, o que parecia mais velho dos que ali estavam,
respondeu.
— Onde é isso, Cole? — Laurel testou a reação dele diante da intimidade.
— Bem longe da Inglaterra — ele respondeu, amuado. Era evidente que, mesmo
não querendo magoá-la, não agradava a Cole a idéia de Laurel acompanhá-los. Ela se
levantou e aproximou-se dele.
— Se achar conveniente eu ir embora, Cole, irei imediatamente.
A franqueza o surpreendeu. Laurel exalava perfume de flores e era uma jovem
adorável. Além de ser a mais bonita que ele já vira. E a mais maltratada. Apesar de odiar
os ingleses, não poderia negar-lhe ajuda.
— Não, milady. Eu não deixaria ninguém viver com um Douglas.
— Por que eu haveria de morar com eles?
— Não é de onde veio, milady? Nós a vimos empalidecer esta manhã à menção do
nome Douglas, e estávamos acampados muito perto da fronteira deles — Craig interferiu.
Laurel voltou a sentar-se ao lado de Clyde.
— Eu não venho de nenhum local vizinho daquela gente odiosa.
Laurel procurou desencorajar a conversa a respeito de sua origem, fingindo
concentrar-se nos cabelos. Depois de soltar os nós maiores, rasgou uma tira de renda da
manga. Tentou amarrar os cabelos para trás, mas a dor a impediu de levantar os braços.
Conor adiantou-se rapidamente ao ver Hamish demonstrar intenção idêntica. Tirou a fita
improvisada da mão de Laurel e amarrou os cabelos loiros. Ele experimentou os sentidos
acirrados ao sentir a suavidade das madeixas e o perfume de flores. Mesmo amarrados
no alto da cabeça, os cabelos ainda deslizavam pelas costas. Atormentado pela atração
que sentia por aquela beldade, Conor afastou-se a pretexto de verificar as cercanias.
Precisava parar de imaginar Laurel debaixo dele, gemendo o nome dele. Hamish seguiu-
o.
— Preciso conhecer suas intenções, milorde.
Conor anuiu, reconhecendo o interesse de seu soldado por Laurel. Entendia também
que, mesmo lutando contra o próprio desejo, não suportaria a idéia de Laurel nos braços
de outro.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— Ela é minha.
Hamish compreendeu, mas não soube como agir. Conor era seu senhor e por isso
devia lealdade a ele, o que não o impedia de saber se as intenções dele eram tão sérias
como as suas.
— Ela sabe?
— Isso não importa.
— Milorde sabe o que houve? E se ela for casada?
— Ela não é — Conor afirmou, inflexível.
— E se a família estiver à procura dela? O que dirá a eles?
— O que lhes diria, Hamish? — Conor se deteve e encarou a sentinela, que nem ao
menos piscou.
— Que jamais permitiria que ela fosse maltratada. Que eu a protegeria e sustentaria
por toda a minha vida.
Conor recomeçou a andar.
— Pois seria isso o que eu falaria.

Laurel corria e tentava respirar. A cada tentativa, a dor lancinante no tórax


aumentava, o que não a impedia de correr cada vez mais. Um ente malévolo, escuro e de
olhos negros, a perseguia. Se ele a apanhasse, causaria a morte de todos a quem ela
amava. Laurel sabia que aquela presença aterrorizante não desistiria de persegui-la. E
quando ela estava a ponto de desmaiar de exaustão, um homem grande e sem rosto a
ergueu e a carregou por cima das árvores até as montanhas azuis e cobertas de neve. Ali
ela se sentiu segura. A paz a rodeou como um nevoeiro numa manhã fria e ela pôde
finalmente dormir.
Conor, que tinha o sono leve, acordou no meio da noite com a agitação de Laurel.
Ela sonhava, aterrorizada. Ao ver a expressão de pânico, ele entendeu que a expressão
de orgulho que ela exibia quando acordada era apenas uma máscara para esconder o
pavor. E ela somente se acalmou quando Conor a tomou nos braços.
Laurel acordou no meio da noite, sentindo-se aquecida e segura. Ora, devia tratar-se
de um sonho, pois ela parecia descansar a cabeça no ombro de Conor e estava com uma
das pernas sobre a dele, numa posição íntima e inconveniente.
Laurel não se moveu, embora soubesse que deveria afastar-se. Fechou os olhos,
ciente de que nunca se sentira tão bem. Nos braços de Conor encontrava um porto
seguro que desapareceria com o amanhecer. Ninguém saberia de nada, pois Conor era
sempre o primeiro a se levantar. Em vez de afastar-se como faria uma verdadeira dama
inglesa, Laurel ficou onde estava, saboreando cada momento até adormecer em paz.
Conor acordou junto com Laurel. Observou a respiração suave e imaginou se ela se
afastaria. Como ela permaneceu imóvel, Conor acreditou que o abraço a agradava tanto
quanto a ele. O mais provável era que Laurel pretendesse aquecer-se.
Conor procurou não pensar em como era delicioso tê-Ia a seu lado. Procurou
esquecer o aroma de lilases e tentou adormecer. Forçou a si mesmo a não acariciar as
madeixas douradas e sedosas que teimavam em enrolar-se em seus dedos, mas o sono
demorou a chegar.

Na manhã seguinte, Hamish e Loman se ofereceram para levar Laurel. Contudo os


irmãos argumentaram que ela deveria ir com um McTiernay. Laurel, sem querer melindrar
ninguém, ficou no meio da clareira, procurando uma solução diplomática. Conor resolveu
a disputa, levando-a consigo.
O beijo que lhe revolvera a alma e o fato de terem dormido sobre a mesma manta

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

somente aumentara o desejo por Laurel. O comportamento tranqüilo e a coragem serena


faziam crescer sua admiração por ela. Sentir o corpo de Laurel durante o dia inteiro seria
uma doce tortura da qual ele não pretendia se livrar.
— Milady virá comigo — Conor afirmou ao aproximar-se.
Laurel sorriu e ele franziu o cenho, como ela já esperava. Começava a entender
aquele gigante atraente e bondoso.
Laurel sentia menos dores e deu razão a Conor pelas ataduras que a deixavam com
maior conforto para viajar. A paisagem era bela e Laurel notou que eles se aproximavam
das montanhas.
— Aquelas são as montanhas das Terras Altas? — perguntou.
Conor riu e Laurel sentiu o riso vibrar em seu corpo.
— Não, aquelas são as colinas que separam a fronteira da Escócia Central.
Aquelas enormes montanhas de pedra eram colinas?
— As Terras Altas são imensas e se sobrepõem às demais. Só os mais fortes
podem ali sobreviver — Conor falou, orgulhoso de seu país. — Amanhã chegaremos ao
vale da Escócia Central. Pela manhã, enquanto subirmos as colinas, a senhorita poderá
ver vários lagos a oeste.
Laurel lembrou-se que o avô sempre se referia a eles.
— O vale se estende de sudoeste a nordeste e ao longo das montanhas, cortando o
centro da Escócia, separando as Terras Altas das fronteiras.
— Por quanto tempo cavalgaremos no vale?
— Sairemos dele depois de amanhã. Observe a mudança do terreno à medida que
nos aproximarmos.
Laurel já notara a mudança no arenito vermelho e no calcário, característicos de sua
terra natal e das fronteiras. O arenito permanecia, mas em mistura com rochas cinza-
chumbo com muitos buracos. Seu avô explicara que esses traços tinham sido causados
pelo resfriamento da rocha fundida. Era difícil imaginar uma rocha tão quente que se
derretia e mudava de forma ao resfriar-se.
Depois da pausa para o almoço, eles prosseguiram rumo ao Norte pelo vale Glyde,
que passava pelo meio da Escócia. Era uma combinação de terras ribeirinhas, florestas
de freixos e olmos, e vegetação luxuriante. Laurel maravilhou-se diante de tanta beleza e
sentiu Conor descontrair-se, o que a fez deduzir que estavam em solo amigo. Admirou-se
como ele conhecia a região e a dividia perfeitamente em relação a amigos e inimigos.
Depois de viajar com ele por dois dias, Laurel sabia que o perigo se afastava e
sentiu-se disposta a conversar.
— Clyde disse que os McTiernay, exceto Colin, voltaram para casa. Quem é ele?
Ele voltará logo?
— Colin é o segundo McTiernay e ficará com a família da esposa. Ele ajudará na
guarda e poderá se tornar chefe do clã.
— Não é usual um homem assumir o papel de líder do clã da esposa.
— Nesse caso é diferente. Deirdre Dunstan é a filha mais velha e ela só tem irmãs.
— Assim como os McTiernay são todos homens. — Laurel sorriu e olhou para a
frente.
— Há diferenças fundamentais. Sem filhos para se tornarem chefes, alguém tem de
lutar pelo título. No caso de Dunstan, o clã é pequeno, mas poderoso. Se Colin se tornar
lorde, a aliança entre nossos clãs se tornará inquebrantável.
— Porque os McTiernay são homens? — Laurel procurava entender.
— Porque Colin é forte, experiente, capaz e, o mais importante, confiável.
— Então ele será leal.
— Nem poderia ser diferente... Ele é meu irmão. Laurel sorriu, divertida com a lógica
circular.
Eles cavalgaram mais um pouco antes de Laurel ter coragem de fazer uma pergunta

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

pessoal.
— Por que milorde não se casou antes dele? Conor deu de ombros.
— Não tenho motivos para procurar um bom casamento.
— Oh, não?
— Não preciso me casar. Tenho acordos estabelecidos com os clãs que me
interessam. Meus irmãos continuarão a linhagem McTiernay, e quanto à parte... física,
isso não requer compromisso.
Eles continuaram o trajeto em silêncio. Laurel constrangeu-se com a frieza de Conor
ao analisar os três motivos para um enlace. Onde se encaixavam o amor, o afeto e a
amizade?
Conor sentiu o desagrado de Laurel ao que ele dissera, embora sem o contradizer.
Talvez ela entendesse e concordasse com ele.
No entanto, embora fosse contrário ao casamento, era surpreendente que a idéia de
formar uma família com Laurel lhe parecesse subitamente agradável.
Naquela noite, Conor escolheu um local sem fontes próximas de água para o
acampamento. Laurel surpreendeu-se pela decisão, mas nada perguntou.
Mais tarde, depois da refeição noturna, os irmãos iniciaram as costumeiras
conversas alegres e provocações familiares. Laurel observou a camaradagem entre eles
e entristeceu-se com a idéia de que o irmão Ainsley e ela nunca tivessem sido tão
amigos.
Além da mãe, apenas o avô lhe demonstrara afeição. O homenzarrão escocês lhe
contara lindas histórias, a ensinara a cavalgar e a proclamara a mais bela menina
escocesa que já existira. Reconhecia que ele fora tendencioso, mas o avô era uma de
suas recordações mais queridas. O pai não lhe deixara boas lembranças. Enquanto a
mãe era viva, ele fora atencioso e dedicado. Mas Laurel sempre soubera que o pai
desejara outro filho e não uma filha. Era impossível esquecer as constantes palavras de
desapontamento pelo fato de a esposa não lhe ter dado mais um herdeiro. Ainsley era o
primogênito, o filho da primeira mulher que morrera logo após seu nascimento. Sua mãe
lhe dissera que fora um casamento arranjado, No entanto ela se casara com o pai de
Laurel por amor, apesar dos obstáculos que os separavam. O maior deles era o avô ser
contrário ao casamento da filha com um inglês.
Laurel entendia o avô. Depois de viver na Escócia e na Inglaterra, era difícil
compreender por que sua mãe escolhera um mundo frio e severo, longe dos risos e
cantos que permeavam a casa do avô. Após a morte da esposa, o pai tornara a se casar,
mas o casal não teve filhos. Ele passara a viver de maneira fria, rígida e inflexível. Com os
filhos não era um carrasco, apenas mantinha distanciamento deles.
Durante alguns anos após a morte da mãe de Laurel, ele consentia que a filha
visitasse o avô durante o verão. Mas com o passar do tempo, cessara a permissão para
encontrar os parentes escoceses. Por duas vezes, Laurel estivera para casar-se com
barões vizinhos e, nas duas, o noivo morrera antes do casamento. O primeiro em campo
de batalha, e o segundo de velhice.
Com a morte do pai, o futuro de Laurel se tornou menos promissor. O irmão não se
mostrava inclinado a dar-lhe um dote e encontrar um marido para ela. Não se cansava de
afirmar que ela era alta demais, magra demais e que a língua afiada enfastiava os
homens. Depois de algum tempo, Ainsley resolveu se casar com uma mulher que lhe
daria acesso ao poder, à riqueza e aos bons contatos. Nesse momento a irmã tornou-se
um peso morto.
Laurel aproveitou a oportunidade para conversar com Ainsley. Explicou que ele
poderia livrar-se das responsabilidades familiares sem gerar repercussão. Depois de
alguns meses de trabalho de persuasão, Ainsley consentiu que Laurel fosse para a casa
do avô, mas sob uma condição: que prometesse nunca mais voltar.
As palavras de Ainsley ainda soavam em seus ouvidos: "Muito bem, seja feita sua

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vontade. Torne-se uma escocesa imunda, mas nem eu nem minha família pretendemos
ouvir falar novamente de sua pessoa. Meus homens a escoltarão até a Escócia, onde
terminarão meus deveres para com você".
Laurel concordara rapidamente e no momento em que cruzara a fronteira da
Escócia, relegara a segundo plano tudo o que se referia à Inglaterra, incorporando o
coração escocês.
Ela piscou algumas vezes, voltando ao presente. A conversa dos irmãos terminara e
todos se preparavam para dormir. Procurou por Conor e não o viu, mas alguém estendera
a manta dele para ela se deitar.
Horas mais tarde, Laurel sonhou que era perseguida e novamente salva antes de
perder as forças. Acordou e notou que Conor lhe acariciava os cabelos, murmurando
palavras de carinho. Ele a induziu a adormecer de novo e Laurel desejou que Conor
estivesse sempre a seu lado para salvá-la dos pesadelos, tanto da realidade quanto dos
sonhos. Laurel acordou mais tarde e notou que Conor se afastara, embora não fizesse
muito tempo, pois a manta ainda estava quente. Olhou ao redor e avistou-o ao lado de
três soldados, preparando os cavalos e falando em gaélico com outro guarda, Loman.
Eles rumavam para uma choupana próxima, de onde trariam alguma coisa. Loman ficaria
responsável pela desmontagem do acampamento e todos partiriam ao amanhecer, assim
que eles voltassem. Laurel deitou-se de costas e fingiu dormir. Não queria dar a perceber
que entendera o que eles conversavam em gaélico.

CAPÍTULO II

Conor e seus homens se prepararam para um ataque surpresa. Embora Conor não
considerasse o fato como um procedimento perigoso, aquele não fora planejado na volta
para casa. Na verdade, preferia não expor os irmãos mais novos a um perigo em
potencial. Laurel precisava de um cavalo com urgência e os rapazes continuavam em
segurança.
Ela adormecera naquela tarde enquanto cavalgavam e o perfume de lilases fizera
Conor encontrar dificuldade em concentrar-se nos perigos que os rondavam. Toda vez
que ela se mexia para se acomodar melhor de encontro a ele, Conor se distraía e
pensava em acariciá-la. Laurel se encaixava a seu corpo com mais perfeição do que a
própria armadura e parecia ter sido feita sob encomenda para ele.
Conor descartou a idéia de deixar Laurel montar com os outros. Os irmãos estavam
encantados por ela e também não seria aconselhável distrair os soldados da guarda.
Naquela noite, ao embalar Laurel nos braços e confortá-la por causa dos pesadelos, teve
uma certeza: não permitiria que ninguém mais a segurasse como ele fazia. Somente ele
poderia proteger Laurel e não pretendia relegar esse direito a qualquer outro, nem mesmo
a Finn, seu comandante recém-casado e feliz, que parecia o único imune aos encantos de
Laurel.
Por isso planejara fazer uma pequena e rápida incursão à luz do luar. Um cavalo
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sumiria e eles desapareceriam rumo ao Norte.


Conor vira no trajeto uma fazenda isolada dos vizinhos e com vários cavalos de
raça. Na manhã seguinte, o fazendeiro daria por falta de um dos cinzentos. Era uma
oportunidade única. As choupanas próximas das cidades apresentavam obstáculos. As
cidades eram mais seguras, contavam com guardas de vigia; e os animais eram
sistematicamente recolhidos.
Aquela fazendola ficava afastada de uma urbe e o clã Stirling ainda se recuperava
das perdas da batalha de Falkirk e do sucesso do cerco de Robert Bruce contra Eduardo
para recuperar aquelas terras. Seria improvável que alguém quisesse vingar-se do roubo
de um simples cavalo.
Conor planejou a hora e a rota e preparou o ataque.
No final da manhã seguinte, Laurel ainda não se recuperara do espanto de ter um
cavalo só para ela. Era um garanhão cinzento de passo firme, apesar de não estar
ferrado. Conor garantira que o animal era forte e veloz, e não precisaria de muito trato.
Laurel notara que os montanheses gostavam de seus eqüinos, mas não exageravam nos
cuidados com eles. Decidiu chamá-lo de Borrail, o nome de um dos soldados de seu avô
que haviam cuidado dela quando ainda era menina.
Finn, depois de falar com Conor, aproximou-se de Laurel.
— Conor achou que milady poderia interessar-se em saber mais a respeito de nosso
progresso e de nossas terras.
— Ah, sim. — Laurel animou-se. — A diversificação das belas paisagens é
fascinante.
Finn avaliou a sinceridade da afirmativa.
— Milady verá coisas ainda muito mais bonitas quando chegarmos às Terras Altas,
onde o cenário mais majestoso de todos inclui as montanhas McTiernay.
— Essa deve ser a opinião de Conor. — Laurel sorriu. — Onde estamos agora?
— Nós nos aproximamos da "cintura" da Escócia, onde nosso país é mais estreito.
Laurel calculou que o "estreito" fosse relativo, pois não se via a linha da orla em
nenhum lugar.
— Logo chegaremos a Forth Valley, que é a porta de entrada para as Terras Altas.
Os Stirling são nossos aliados e lutaram conosco ao lado de Wallace e de nosso rei,
Robert Bruce. Há poucos anos Robert cercou o castelo deles e recuperou-o da Inglaterra.
—Visitaremos o Castelo Stirling? — Laurel ficou apreensiva, receando que boatos
de ela viajar com os McTiernay se espalhassem e chegassem aos ouvidos dos Douglas.
— Não. Estou apenas avisando para milady não estranhar a presença de soldados.
Eles conhecem Conor e o respeitam, e nos deixarão passar.
O Castelo Stirling era uma fortaleza antiga anterior à época de Alexandre I. As
batalhas entre a Inglaterra e a Escócia eram conhecidas, principalmente as que envolviam
William Wallace. Laurel ficou satisfeita em ver o local, mesmo a distância.
Logo alcançaram uma colina de onde avistaram o Forth River, que os homens
haviam descrito durante a refeição matinal. Esse rio caudaloso era a origem dos regatos
frios onde Laurel se banhara naquela manhã. No inverno, eles se tornavam uma
passagem perigosa até depois do degelo da primavera. A noroeste avistava-se uma bela
região sem colinas, mas com pastagem verdejante que escondia os lagos.
— Finn, como se chama esta região?
— Trossachs, milady. É bonita, não é? Mas sua admiração aumentará muito quando
alcançarmos as montanhas McTiernay nas Terras Altas. Terrenos com elevações e
depressões suaves aninhados entre picos imensos cobertos de neve. É um cenário
verdadeiramente majestoso. — Finn cutucou o cavalo e aproximou-se de Conor.
Laurel observou a conversa dos dois e concluiu que os McTiernay formavam um clã
poderoso, onde o chefe era admirado e respeitado tanto pelos soldados quanto pelos
irmãos.

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Imaginou como seria viver na terra dos McTiernay até o inverno passar. Ela, uma
inglesa, seria aceita pelos demais?
Na hora do almoço, Conor interrompeu a viagem por algum tempo para o descanso
dos cavalos, que enfrentavam um trajeto difícil desde o amanhecer. Também pretendia
verificar as condições físicas de Laurel.
— Laurel, venha comigo. — O tom autoritário de Conor não admitia recusa.
— Pois não, milorde — ela consentiu com cinismo. Conor não gostou do tratamento
formal, que era empregado pelas mulheres do clã. Queria que Laurel o chamasse pelo
nome. Não pretendia ser apenas um lorde para Laurel, nem que ela o visse como líder e
protetor temporário.
O mais estranho era ele se incomodar com a maneira como uma mulher, ainda mais
uma inglesa, se dirigia a ele.
— Quero que me chame de Conor. — Ele a encarou. Conor imaginou se algum dia
se acostumaria às nuances de brilho daquele olhar. Em alguns momentos era escuro
como um mar tormentoso; e no seguinte, como agora, era cristalino, luminoso como raios
de sol refletidos num lago. Aquela jovem enfeitiçava sua alma.
— Finn disse que todos o chamam de milorde ou lorde McTiernay, jamais usam
Conor.
— Laurel, procure entender. Não sou seu lorde, Sou apenas Conor. — Ele se
afastou rumo a algumas pedras rodeadas por olmos e moitas cerradas.
Se ele não era o senhor dela, também não teria a responsabilidade de protegê-la.
Laurel perguntou-se onde estaria o herói que a salvava todas as noites... Bem, se os
irmãos o chamavam de Conor, talvez ele só permitisse o tratamento informal para os mais
íntimos. Ora, Finn gozava da intimidade de Conor. Ou talvez a permissão valesse para as
mulheres.
Laurel franziu a testa. Era inquietante pensar na quantidade de mulheres do clã que
o chamavam de Conor.
— Além de seus irmãos, alguém mais o chama de Conor? — Laurel falou para as
costas dele, enquanto ele se embrenhava na mata.
— Sim, claro.
Laurel prendeu a respiração.
— Alguma mulher? Conor virou-se.
— Uma que está na minha frente.
— Além de mim?
— Por que a pergunta? Laurel estreitou os lábios.
— O senhor é um homem exasperante. Na certa pensa que seu tamanho permite
que distribua ordens a torto e a direito. Pois eu lhe garanto, não estou sob seu comando e
não tenho medo do senhor. — Ela o encarou com raiva e Conor retomou o trajeto inicial.
— Conor, por acaso está bancando o tolo para me irritar? — Laurel gritou.
Conor não respondeu. Laurel passou por cima de uma pedra e recusou-se a
prosseguir. Conor se deteve, olhou para trás e foi brindado com um sorriso desafiador.
Laurel já demonstrara traços de personalidade forte, quando fora capturada e lutara para
soltar-se.
Ele imaginara que a fúria cedesse com o passar dos dias. Qualquer um que
estivesse cansado e com dor ficaria exasperado. Ele também não duvidava que Laurel
tivesse um temperamento explosivo que controlava com maestria apesar das condições
adversas. O que era admirável.
— Laurel, se quiser me perguntar alguma coisa, seja direta. Ou será que não tem
coragem? — Conor provocou-a e logo entendeu que entrava em terreno perigoso.
Laurel ela linda e tentadora em quaisquer circunstâncias. E irritada, superava todas
as expectativas. Nem a beleza das Terras Altas se comparava a ela.
Laurel se aproximou e parou diante dele. Os cabelos loiros ondulavam ao vento e

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

refletiam os raios solares. Com as mãos na cintura, tentava acalmar-se inspirando fundo,
o que acentuava o contorno dos seios. A donzela inglesa recatada cedera lugar a uma
mulher desafiadora de olhar cintilante, gloriosa e imponente como uma rainha.
Conor admitiu que teria de afastar-se de imediato ou daria a Laurel mais um motivo
para ficar furiosa.
Na verdade, Laurel lutava para manter o controle.
— Ninguém, nem mesmo um barão ou outro nobre qualquer, nem mesmo o senhor,
lorde McTiernay, jamais poderá me chamar de covarde. — A seriedade da afirmativa era
tão manifesta como se a falta de coragem fosse um traço inadmissível.
Conor sorriu e passou a mão nos cabelos.
— É verdade, meu amor. Eu a vi demonstrar mais força e coragem do que muitos
homens teriam feito na sua situação.
Laurel baixou os olhos, mais aliviada por Conor não a considerar uma medrosa.
Caso contrário não a teria aceitado como companheira de viagem.
— Porém, meu amor, eu a chamarei da maneira que eu achar melhor.
Laurel arregalou os olhos e Conor recomeçou a andar.
— Conor — ela o chamou sem sair do lugar —, está me subestimando.
Esperou alguns segundos e o seguiu.
Eles começaram a subir um ligeiro aclive e a dor nas costelas aumentou com a
respiração forçada. Conor caminhava na frente, em silêncio, e Laurel observou o físico
perfeito.
Ele era um homem grande e forte, mas ela não se sentia intimidada por isso. A
presença de Conor lhe transmitia segurança. Ele era gentil, embora determinado. Severo,
mas atencioso. Era um homem que ela poderia amar facilmente.
As pernas nuas, longas e musculosas eram perturbadoras. Até os quadris davam a
impressão de ser rijos sob as pregas da manta xadrez. A musculatura dos ombros e
braços era visível através da camisa branca de Unho, o que a fez ficar com uma vontade
absurda de acariciar suas costas e de tocá-lo em todos os lugares.
Como seria entrelaçar os dedos naqueles cabelos? Seriam grossos e sedosos como
pareciam? O olhar cinzento se tornava ainda mais hipnótico em contraste com o tom da
pele bronzeada pelo sol de verão. Conor era másculo e incrivelmente sedutor. Por que
ainda não se casara? Ah, ele não gostava de compromissos!
Laurel imaginara que a opinião de Conor a respeito de casamento a impediria de
desejar a companhia dele e até de ouvir sua voz. Ledo engano. Ela nunca se sentira tão
estimulada como ao lado de Conor.
Cada momento junto dele fazia com que o desejasse ainda mais. No entanto, sabia
que não haveria futuro para eles. O que deveria fazer? Dois dias de convivência e um
beijo estavam longe de prender um coração e ela teria de se precaver. Seria uma tolice
permitir que o isolamento emocional sofrido na infância lhe causasse sofrimento na vida
adulta.
No entanto, gostaria de beijá-lo ainda uma vez antes da separação. Precisava sentir
os lábios dele de encontro aos seus, captar o aroma e lembrar-se para sempre do
contato. Quando adormecia, Laurel antecipava a presença de Conor a seu lado no
momento em que os pesadelos viessem.
Oh, Senhor, talvez ela já estivesse apaixonada por ele...
Laurel se recriminou. Teria de acabar com as fantasias a respeito de Conor. Ele
podia estar atraído por ela, mas não a desejava como esposa. Mesmo admitindo que o
desejava de formas nunca imaginadas, estava ciente de que seu futuro não seria ao lado
daquele homem.
Precisava apenas de tempo para se recuperar e para descobrir uma maneira de
avisar o avô a respeito da ameaça de Douglas. Com a morte de Keith Douglas e com o
desaparecimento dela, o velho Douglas certamente preparava uma guerra contra o clã de

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

seu avô, os Maclnnes. Deus, por motivos ignorados, mandara Conor para ajudá-la e o
futuro dos Maclnnes descansava na possibilidade de esse montanhês atraente protegê-la!
Enquanto não arquitetava um plano, Laurel se permitiria a satisfação de estar ao
lado de seu salvador.
Conor sentiu que Laurel o analisava como se quisesse desvendar sua alma. Será
que ela não o achava atraente? Mesmo não sendo casada, era possível que estivesse
interessada em outro, talvez um futuro marido, e poderia estar fazendo comparações não
favoráveis a ele.
— Conor, mais devagar!
Ele apressara o passo sem perceber, e Laurel encontrava dificuldade em
acompanhá-lo.
— Só mais um pouco, gostaria que visse algo. Conor não sabia por que desejava
mostrar aquela paisagem para Laurel. Fazia anos que a descobrira, quando ainda fazia
parte da guarda de honra de lorde Maclnnes, melhor amigo de seu avô. Era uma coisa
muito especial e, na certa, seria do agrado de Laurel.
— Milorde... não poderia... ir mais... devagar? Laurel arfava, e a região das costelas
latejava. Conor olhou para trás e sentiu-se culpado. As costelas fraturadas! E toda aquela
subida! Fazia dois dias que ele parecia incapaz de raciocinar. Provocara-a quando, na
verdade, só queria fazê-la sorrir. Em vez de levá-la a um local para a distrair, causava-lhe
sofrimento. Não a culparia se ela vociferasse e exigisse voltar. Conor virou-se rumo ao
acampamento.
— Conor, por tudo o que é mais sagrado, o que está fazendo? — Laurel fitou-o com
perplexidade. — Por acaso estamos perdidos? Eu o ouvi dizer que estávamos perto e...
Conor não conteve o riso. Laurel pensava que ele não soubesse onde se
encontravam.
— Não, amor, não estou perdido e, a seu lado, jamais estarei — Conor falou sem
pensar e notou o olhar de ansiedade de Laurel.
— É logo atrás daquelas árvores, mas resolvi voltar por causa de suas dores.
Laurel endireitou os ombros.
— Bobagem, podemos ir, só não consigo andar depressa. Mesmo que não esteja
perdido, não quero perdê-lo de vista.
— Não se preocupe, Laurel, eu a encontraria. Eu sempre a protegerei. — Você é
minha.
Conor, tenso de desejo, seguiu com Laurel até uma touceira onde ela se abaixou
para ver o que estava adiante. Laurel ficou atônita com tanta beleza. Sempre achara o
condado de Northumberland muito lindo, especialmente a costa do Mar do Norte, mas
nada se comparava ao que via.
Daquele ponto, avistava-se a Escócia a perder de vista. Ao longe, faixas de terra
projetavam-se no oceano. Algumas eram cobertas por árvores e outras apresentavam
penhascos intermináveis. Dezenas de lagos brilhavam ao sol. Algumas árvores pareciam
tocar o céu e as formações rochosas eram únicas. Nuvens assentavam-se aqui e ali,
dando ao cenário uma aparência sobrenatural.
Conor observou Laurel absorver a beleza do lugar. Pelo interesse anterior dela nas
paisagens, imaginara que se encantaria com as terras dele e entenderia seu amor por
elas.
— É maravilhoso, Conor. Nunca vi nada igual. É sempre assim?
— É. Pelo menos tem sido, todas as vezes que passo por aqui.
Conor não apreciava o cenário a seu redor, mas a visão que tinha diante de si.
Laurel era alta, esguia e delicada, e seus olhos, no momento, tinham a cor dos lagos que
ela mirava. Ele pensou qual seria a cor deles no auge da paixão. Alguém já teria visto?
— Há uma certa magia neste lugar. — Laurel não percebeu o olhar intenso de
Conor.— Como se estivesse congelado no tempo e nós estivéssemos afastados de todos

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

os males do mundo.
Conor abraçou-a pelos ombros e os dois contemplaram a natureza em silêncio. As
palavras tornaram-se desnecessárias.
A contragosto, Conor interrompeu aquela tranqüilidade.
— Laurel, precisamos ir agora. Não vai demorar a escurecer.
Ela olhou ao redor e anuiu. Encontrara a paz no pouco tempo em que estivera ali.
Seus problemas haviam assumido uma forma menos grave, com uma solução viável.
Acreditava que encontraria uma maneira de avisar seu avô sem que os Douglas
soubessem.
— Obrigada, Conor, por trazer-me aqui — Laurel falou quando ele segurou sua mão
para descer. — Era tudo o que eu precisava.
Ao chegar próximo ao acampamento, Laurel escutou o entrechocar de espadas e viu
homens lutando. —Conor! Alguém atacou o acampamento! Precisamos ajudá-los! —A
visão dos homens de Ainsley sendo massacrados poucos dias antes voltou à sua mente.
— Eles estão apenas treinando, Laurel. Não há perigo. Laurel olhou com raiva para
cima.
— Quer me dizer que homens lutando com espadas não oferecem perigo?
Conor não respondeu.
— Então é assim? Alguém terá de impedi-los, e a tarefa caberá a mim.
Ela colidiu com Conor, que a impediu de passar.
— O que está pensando em fazer, Laurel? Frustrada, ela fechou os olhos.
— Conor, não seja irritante! É muito aborrecido ter de repetir sempre a mesma coisa
— falou em voz baixa, mas firme. Conor não saiu do caminho, e ela fez nova tentativa.
— Vou pedir-lhes para acabar com a luta. Se não adiantar, terei de usar meios mais
enérgicos — avisou, severa.
As risadas contidas de Conor aumentaram a raiva de Laurel e ela puxou do bolso a
adaga de cabo de madre-pérola que trouxera do castelo dos Douglas.
Ao vê-la segurar o pequeno punhal, Conor não pôde mais se conter. Suas
gargalhadas interromperam o treino de combate entre os McTiernay e as sentinelas.
Os irmãos se espantaram e vieram investigar a origem dos brados de riso, pois
aquele era um fato inusitado. Conor McTiernay raramente sorria, quanto mais gargalhar
daquela forma! Eles ficaram ainda mais surpresos ao ver Laurel furiosa.
Se olhares pudessem causar danos, Conor ficaria desfigurado para sempre. O que
deixava nele uma impressão muito agradável. Não via a hora de levar Laurel para casa.
No momento em que a idéia de levar Laurel para o castelo e para sua cama tomava
forma, Laurel investiu. Conor não teve tempo de reagir. Laurel mudara a adaga para a
mão esquerda e arrancou a faca do cinto dele. E, num segundo, mirou e atirou.
Primeiro foi a adaga que atingiu uma das bolsas de pele dos guardas que estava
pendurada numa árvore. Com a outra mão, Laurel arremessou a faca de Conor. O peso
inesperado do cabo desviou um pouco a arma, mas ainda assim a lâmina atingiu o tronco
de madeira que estava perto da manta de Conor, a cerca de dez metros de distância.
O silêncio foi imediato e todos fitaram as lâminas, ora fincadas, que Laurel atirara
com tanta precisão. Ela entendeu de imediato que se excedera ao dar vazão a sua
irritabilidade, mas... paciência. Não pudera evitar.
— Eu lhe disse que sei tomar conta de mim mesma — falou, serena.
— Laurel, como foi que fez isso? — Loman indagou. Conor sentiu a raiva ferver.
— Loman, para você ela é "milady" — ele avisou em tom frio e ameaçador.
— Conor, não fale assim com Loman. Ele estava apenas fazendo uma pergunta.
Não é necessário descarregar nele a raiva que sente de mim. — Laurel procurou
amenizar a situação.
Nada adiantou.
— Direi o que eu quiser, quando eu tiver vontade e da maneira que eu desejar para

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

qualquer pessoa. Sou o lorde deles! — Conor esbravejou, sem o menor sinal do riso
anterior. Carrancudo, fitou Loman que teve de anuir.
Laurel observou-o intimidar os soldados e recusou-se a seguir o exemplo de Loman.
— Conor McTiernay, você pode ser o lorde deles, mas certamente não é o meu.
Está lembrado do que me disse? Que eu não deveria chamá-lo de lorde, mas sim de
Conor! — ela gritou.
— Veja como fala, meu amor... ou será que não é mais uma lady? — Conor
continuou a falar em altos brados, achando que a crítica a faria desistir da discussão.
Mas se enganara. Em vez de se retrair, Laurel continuou na ofensiva.
— Uma lady? Bem, suponho que deve ser essa a sua concepção de uma "dama".
Laurel observou os irmãos, imóveis e estarrecidos, Eles nunca haviam visto alguém
enfrentar Conor daquela maneira. Ninguém. A maioria das mulheres se acovardava na
presença dele. Se ele erguia um pouco a voz ou olhava com mau humor para alguém, era
o bastante. Todos recuavam, intimidados.
O que estava acontecendo entre Laurel e Conor era uma espécie de milagre.
Primeiro ele riu, depois ela demonstrou que podia cuidar de si mesma e então eles
gritaram um com o outro. Laurel começou a andar de um lado a outro.
— Na Inglaterra uma lady é uma mulher nascida na nobreza. A palavra alude a seu
título ou posição social. Alguns se referem a mulheres ricas como uma lady, mesmo sem
título. Você acaba de referir-se a uma lady levando em conta seu decoro e virtude. Mas
todas elas têm de ser bem-comportadas, obsequiosas e de conduta ilibada. Estou certa,
Conor?
Conor limitou-se a olhar para Laurel, que se detivera diante dele com um sorriso
gelado.
— Para o caso de você estar em dúvida, sou uma lady por nascimento, mas não
pelo desempenho. Sei caçar, cavalgar e também fico irritada. E quando estou com raiva,
digo palavras não muito finas. Meu pai não me considerava uma lady, e meu irmão, muito
menos. A única pessoa no mundo que me tinha na conta de uma lady era meu avô. É
uma pena que ele não esteja aqui para testemunhar e apoiar meu comportamento próprio
de uma lady.
O silêncio que se seguiu foi atordoante, e mais uma vez fora ela a causadora do
impasse. Laurel admitiu que fora longe demais. Desafiara Conor diante dos irmãos e dos
soldados da guarda. O pai e o irmão sempre ficavam envergonhados quando ela se
entregava a esses arroubos emocionais. A explosão poderia resultar num confinamento
imediato e de duração indefinida, O que sucedera? Ela se considerava capaz de controlar
o mau gênio. Por que Conor a provocava e por que ela reagia daquela maneira?
Os homens continuavam atônitos, e ela ainda estava chocada quando Finn bateu-
lhe nas costas amigavelmente.
— Milady conseguirá.
— Conseguirei o quê? — Laurel espantou-se. Finn sorriu de orelha a orelha.
— Temíamos que as Terras Altas pudessem acovardá-la, pela maneira tímida como
vinha se comportando nesses dois dias. Nossa única esperança era a coragem com que
cavalgava, apesar do sofrimento. Mas agora tenho certeza de que milady conseguirá se
adaptar.
Os outros anuíram e também sorriram.
Foi a vez de Laurel ficar pasma. Eles estavam felizes por ela ter perdido o controle,
mas Conor continuava impassível.
De repente, um pensamento agradável e ao mesmo tempo terrível ocorreu a Laurel.
— Finn, esclareça-me uma coisa.
— Pois não, milady.
— Por que é tão importante que eu me adapte? Finn pareceu perplexo.
— Milady, a mulher de um lorde tem de ser enérgica não apenas física, mas também

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

emocionalmente.
— Finn tem razão, milady — Seamus concordou. — Não seria adequado para Conor
ter de se preocupar com as fraquezas de uma mulher sensível aos rigores do meio
ambiente.
— O que estão pretendendo dizer com isso? — Laurel franziu a testa.
— Bem, o que Seamus quis explicar...
— Ela já entendeu — Conor interrompeu Loman.
— Pois eu lhe asseguro que "ela" não entendeu — Laurel afirmou, arrepiada com a
arrogância de Conor.
— Claro que sim, amor. Você está apenas se recusando a aceitar isso.
— O que está propondo? Ainda ontem milorde afirmou que nunca... que não
precisava... que... — Laurel não conseguiu terminar. Sentia-se eufórica e arrasada ao
mesmo tempo.
Conor entendeu que todos haviam percebido a atração que sentia por Laurel.
— Não estou propondo nada. Apenas proteção e um teto.
Novamente confusa, Laurel sentiu alívio e decepção, mas o orgulho a obrigou a
responder:
— Ótimo, pois quero apenas um cômodo para morar até eu decidir o que fazer. Eu
lhe prometo que minha permanência ficará restrita ao inverno e que irei embora na
primavera.
— Milady vai morar conosco no castelo — Craig afirmou. — Não é, Conor?
Craig desejava que Laurel trouxesse a Conor a ternura que faltava nele e no lar dos
McTiernay
— Creio que os dois precisam um do outro e que se completariam — Craig insistiu.
— Ela é linda e... Conor, ela não o teme. — Ele se virou para Laurel. — É verdade,
milady?
— Que idéia ridícula. Claro que não tenho medo de lorde Conor. Posso me irritar
com ele, mas não tenho medo dele.
A resposta resultou em um sorriso coletivo dos irmãos. Os McTiernay eram
desconcertantes.
— Laurel, mais uma coisa — Conor falou. — Está decidido que milady vai morar no
castelo.
Laurel fitou-o com o queixo erguido.
— Não vou. Não será apropriado.
— Achei que não estivesse interessada em ser uma lady convencional.
— Posso não estar interessada em normas sociais para uma conduta respeitável.
Ainda assim não ficarei sob o mesmo teto com milorde.
— Ficará.
— Não!
Conor inclinou-se para sussurrar em seu ouvido:
— Confie em mim, amor, você ficará.
Laurel se virou para responder e hesitou alguns segundos diante da dor causada
pelo movimento.
— Lorde Conor, garanto que se arrependerá se pretende me obrigar. — Laurel
agarrou-o pela camisa. — Eu preciso sair daqui — ela sussurrou.
Conor entrou em pânico ao supor que Laurel imaginava partir no dia seguinte e que
nunca mais a veria. No mesmo instante decidiu que não permitiria que isso ocorresse.
Apesar do desejo de abandoná-lo, Laurel ficaria até ele decidir que o caso estava
terminado. — Milady não partirá — Conor afirmou, tenso. — Não creio que tenha
entendido. Eu não deveria ter sido tão impulsiva a ponto de atirar as facas, O que tinham
as adagas a ver com a partida de Laurel? Conor resolveu continuar aquela discussão em
particular e lançou olhares ameaçadores para os homens, que se apressaram a cuidar de

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

suas tarefas interrompidas.


Conor segurou o braço de Laurel e arrastou-a na direção do rio.
— Conor, por favor — ela implorou, com lágrimas nos olhos.
— Laurel? — Ele se preocupou. — Por que está chorando?
— Eu não deveria ter atirado aquelas facas — ela repetiu. — Meu orgulho sempre
me causou problemas.
Minhas costelas estão me matando. Eu me virei muito depressa, a bandagem cedeu
e a dor está ficando insuportável. Eu não podia imaginar o quanto as ataduras ajudavam e
agora nem consigo respirar direito. Por favor, ajude-me a chegar ao rio e tornar a amarrá-
las.
Alívio e pavor o assaltaram ao mesmo tempo. Ela não pretendia deixá-lo e precisava
dele! Mas o desejo de tocá-la era insuportável. Sempre que estava ao lado de Laurel, o
perfume feminino o envolvia e excitava. Se tivesse de fazer novamente o curativo em
Laurel, Conor temia não resistir aos impulsos.
Com uma extraordinária força de vontade, Conor abafou sua paixão e levou Laurel
até o rio. Ajudou-a a desenrolar a faixa e virou-se enquanto ela se banhava nos
preparativos noturnos.
Ele foi até a parte mais afastada do rio para se lavar, mas a água fria não acalmou
sua ânsia por Laurel. Pensou na própria energia desde a primeira vez em que a tivera nos
braços e na sensação de perfeição nunca antes experimentada. A necessidade de
possuí-la que o consumia como fogo aumentou quando voltou para onde deixara Laurel.
Vestindo a camisa feminina de renda, ela o aguardava para amarrar as ataduras.
— Desculpe se a fiz esperar — disse ele com secura.
— Não tem importância.
Laurel olhou a camisa dele colada no peito. Ele decerto tomara banho e se vestira
sem estar seco, o que acentuava ainda mais a musculatura rija e forte. Os pêlos escuros
do peito se afunilavam para baixo. Só então ocorreu a Laurel que se trajara da mesma
forma e que o tecido fino de renda devia revelar também o próprio corpo.
Conor não conseguia se concentrar em mais nada. Os seios de Laurel eram grandes
e os mamilos róseos eram visíveis sob a renda que também moldava os quadris, sem
deixar dúvidas quanto às curvas perfeitas. A tensão na virilha aumentou
consideravelmente.
— Conor? — Com inocência, Laurel estendeu a tira de pano usada antes. — Eu
gostaria que me ajudasse, pois a bandagem foi muito benéfica.
Enquanto amarrava a atadura improvisada, Conor, inadvertidamente, esbarrou no
busto de Laurel e ela experimentou uma sensação quente e úmida entre as pernas. De
repente, desejou estar sem roupas para sentir a pele dele na sua.
Laurel não entendia aquela ânsia incomum. Afinal, ela não o amava. Conor era um
homem muito atraente, mas era também um gigante insuportável e arrogante que se
comprazia em irritá-la. Recriminou a si mesma por tais pensamentos e procurou manter o
autocontrole e moderar seu comportamento.
Conor entendeu o perigo que corria quando tocou na região das costelas para
verificar se o traumatismo não piorara. Lembrou-se do orgulho inexplicável que sentira ao
testemunhar a destreza de Laurel, jamais vista numa mulher.
Ela era uma verdadeira lady. Além da beleza, do encanto e da graça, tinha os
requisitos indispensáveis para sobreviver nas Terras Altas. Era inteligente, perita com
armas, desembaraçada e corajosa, além de demonstrar uma extraordinária capacidade
de resistência.
Os cabelos molhados de Laurel lembravam o frescor das flores nativas da primavera
e sua pele era macia e sensual. Conor apressou-se em terminar o curativo e, ao afinal,
notou que, além da gratidão nos olhos dela, havia algo mais profundo. Laurel o desejava
e também se sentia perturbada pela proximidade.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

Imóvel, parecia esperar a iniciativa de Conor que, ao perceber aquele olhar


brilhante, sentiu crescer dentro de si reações primitivas. Ele roçou os dedos na face de
Laurel ao levar para trás dos ombros as mechas loiras e úmidas. Com a outra mão,
acariciou-lhe o braço, inclinou-se e beijou-a levemente.
Os lábios de Laurel eram suaves, cálidos e inocentes, e ela correspondeu ao beijo
com ansiedade. Laurel acariciou-lhe as costas e o efeito do busto dela contra seu peito
causou em Conor uma ânsia insuportável.
Conor intensificou o beijo, provocou-lhe o lábio inferior e mergulhou a língua em sua
boca quando ela entreabriu os lábios. Deleitou-se com o sabor e acariciou-lhe os ombros.
Como a fragrância de Laurel, seu beijo lembrava frescor, naturalidade e inocência.
Laurel não imaginava que homens e mulheres se beijassem daquela maneira.
Assustou-se com os movimentos iniciais da língua de Conor, mas a sensação erótica
acabou por vencê-la e ela correspondeu na mesma intensidade. Com os dedos
entrelaçados nos cabelos de Conor, manteve a cabeça dele abaixada, encorajando-o a
continuar.
Conor entendeu que a resposta de Laurel se devia ao desejo dela que aflorava.
Deslizou a mão pelos ombros e costas e contornou a bandagem, debaixo do busto. Com
os polegares, roçou os mamilos até deixá-los túrgidos.
Laurel surpreendeu-se com as carícias tão íntimas e por pouco não se afastou. Mas
Conor interrompeu o beijo e passou a lamber-lhe o pescoço. Ao mesmo tempo,
massageava os seios intumescidos, o que fez Laurel arquear as costas.
A resposta instintiva de Laurel aumentou ainda mais a tensão de Conor, que jamais
desejara uma mulher com tamanha intensidade. Era inacreditável que uma jovem
inexperiente pudesse ser tão apetecível.
Conor abaixou as mangas da camisa de Laurel e expôs os seios magníficos. Os
olhos dela haviam escurecido e o matiz azul-esverdeado se acentuara. Ele admitiu que
nunca vira olhar mais adorável ou mulher mais encantadora.
Conor curvou-se e tomou um dos seios na boca. Lambeu os contornos firmes,
mordiscou os mamilos endurecidos e fez Laurel gemer. Em tempo nenhum ela
experimentara aquelas sensações nem sonhara que pudessem existir. O mundo à sua
volta desaparecia enquanto Conor continuava com as carícias eróticas usando a língua e
os dentes.
O calor entre as pernas de Laurel aumentou até ela imaginar que devia estar em
chamas. Nada mais tinha importância a não ser o que Conor fazia com ela. Nem mesmo
o que estava acontecendo, contanto que continuasse.
Conor pensou que seria consumido pelo desejo. A resposta de Laurel e seus
gemidos de prazer faziam Conor esquecer do local onde se encontravam.
De repente, uma voz interrompeu seu pensamento, que se alçava em direção aos
céus.
— Conor! Conor! Cole e Finn me mandaram à sua procura. Responda!
O que Craig queria? Conor estacou imediatamente e segurou Laurel, que por pouco
não perdeu o equilíbrio. Os últimos momentos haviam deixado os dois trêmulos de
paixão. Ele acariciou-lhe as costas e tentou se acalmar.
— Conor! Espero que saiba onde Laurel está, pois é preciso trazê-la de volta.
Movimentos estranhos que não pareciam amigáveis do outro lado do acampamento
atraíram a atenção das sentinelas.
— Está bem — Conor respondeu antes de Craig alcançá-los. — Retorne à clareira e
diga a Finn que irei buscar Laurel. Voltaremos imediatamente, e não façam nada até eu
chegar.
Eles escutaram Craig murmurar uma concordância antes de se afastar.
— Laurel, meu amor, teremos de regressar — ele afirmou, frustrado, mas com
preocupação.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

Agarrada na camisa de Conor, Laurel escondeu o rosto no peito másculo e Conor


sentiu-a anuir.
Laurel inspirou fundo e ergueu a cabeça. Ainda cambaleando pelo desejo não
satisfeito, refletiu que precisava fazer muitas perguntas a si mesma e também a Conor.
No entanto, nenhum dos dois teria as respostas. Em silêncio, ajeitaram as roupas e
deixaram o rio rumo ao acampamento.
Ali chegando, Conor saiu com Finn e mais um soldado para investigar os
movimentos no cômoro. Eles se encontravam na fronteira das Terras Altas e próximos
dos limites de vários clãs. Contudo, a perturbação daquela noite deveu-se apenas a uma
matilha de lobos à procura da próxima refeição. Quando Conor retornou, Laurel estava
adormecida sobre a manta dele.
Conor decidiu não esperar até os pesadelos de Laurel surgirem. Deitou-se e tomou-
a nos braços. Instintivamente, ela se virou, encostou a cabeça no ombro dele e
aconchegou-se.
Era inacreditável a sensação de alegria e paz que o envolveu. Pouco antes, aquela
mulher cativante o deixara em fogo. Naquele momento, mesmo sem perder o desejo
feroz, estava certo de que nada faria que pudesse perturbar o sentimento de satisfação
absoluta.
Curvou a cabeça e beijou-lhe os cabelos, inalando o perfume suave. Não podia
imaginar como Laurel, uma inglesa, tecera tão rapidamente ao redor dele uma teia de
encantos que o prendera de maneira inequívoca.
De uma coisa teve certeza. Jamais a deixaria partir. Laurel lhe pertencia.
Esse foi o último pensamento de Conor antes de adormecer.

Eles haviam cavalgado boa parte da manhã quando Finn aproximou-se de Laurel. O
terreno se modificara e o grupo perseverava na subida para o Norte. Felizmente os
cavalos tinham energia e força necessárias para vencer a região montanhosa.
— Milady.
— Finn. — O sorriso de Laurel seria capaz de iluminar a mais escura das noites.
Ah, essa dama transformará o clã num redemoinho, ele pensou.
— Como está se sentindo hoje? Sua respiração não parece tão difícil.
— Muito bem. — Laurel tornou a sorrir. — Minhas costelas estão se solidificando, o
que torna mais fácil respirar.
A trilha estreitou-se e Finn ficou atrás de Laurel por alguns instantes.
— Fico feliz em ouvir isso. Se o tempo ajudar, chegaremos em casa em um ou dois
dias.
Laurel levou Borrail para perto do cavalo dele.
— Por favor, Finn, não retarde o grupo por minha causa. Posso acompanhar o
passo de todos.
Finn analisou a sinceridade do pedido no olhar luminoso de Laurel e concluiu que
seria tão difícil mentir quanto dizer a verdade.
— Está bem, milady, mas temos de acompanhar a marcha do cavalo mais vagaroso.
Laurel não perguntou qual era, temendo que fosse o dela, e mudou de assunto.
— Então estamos perto das terras dos McTiernay? Finn notou a postura tensa de
Conor, concentrou-se no caminho à frente e evitou olhar para Laurel.
— Sim, milady.
— Eu gostaria de conhecer mais a história deles.
— Os McTiernay fazem parte de um clã coeso e orgulhoso, e Conor é um líder sábio
e forte.
Finn gostava de falar sobre a admiração e o respeito que sentia pelos membros do

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clã e por seu lorde.


— Conor está seguindo os passos do pai e lidera o clã com tranqüilidade e pulso
firme. A destreza com a espada e a habilidade para treinar homens permitiram a ele
estabelecer alianças sólidas com famílias importantes. E recentemente os McTiernay
absorveram alguns clãs menores, e o número de membros do nosso clã aumentou muito.
Conor agora tem a incumbência de deixar os outros tão experientes na arte de lutar como
nós sempre fomos.
— Por que Conor concorda em admitir homens que não podem trazer contribuição
imediata como soldados?
— Milady, Conor tem a reputação de liderar homens experientes e implacáveis num
campo de batalha. Isso dá a ele uma posição de influência e poder. Alguns bandos
menores de montanheses não têm escolha a não ser juntar-se a um clã maior para
sobreviver. Além disso existem guerreiros altamente qualificados que não têm para onde
retornar após lutar por William Wallace e Robert Bruce.
Laurel sabia que durante anos Eduardo I castigara a Escócia com guerras e apenas
recentemente fora desalojado daquelas terras, com exceção de poucos castelos
escoceses ainda sob seu poder.
— Existem clãs com predominância de fazendeiros ou que perderam os melhores
guerreiros nas lutas.Os mais jovens têm de ser treinados e estão procurando por líderes
para os guiar, instruir e proteger. Nosso lorde é um dos poucos que reúne as três
condições. Por isso, milady, pode se considerar afortunada. Mas eu não creio que milorde
entenda quem é o felizardo. Laurel espantou-se.
— Finn, todos estão interpretando mal as intenções de Conor! Ele me considera
apenas um mistério a ser desvendado.
Finn continuou olhando para a frente.
— Isso não é verdade, milady.
— Finn, não pretendo insultar sua inteligência e negar que exista uma estranha
atração entre nós, mas isso não tem nem terá importância.
Finn virou-se e enxergou a sinceridade no rosto de Laurel.
— Conor afirmou que não tem nenhuma intenção de se casar.
Finn estava certo de que Laurel mudaria a opinião de Conor. Uma vez no castelo, os
boatos de que ela não era casada se espalhariam e muitos candidatos à sua mão
apareceriam. Será que Conor não pensara nisso?
Finn observara os dois e sabia que eles seriam felizes juntos. Conor nunca estivera
tão animado. Ele ria, conversava, e seu humor mudava quando Laurel estava por perto.
Era como se Conor tivesse encontrado em Laurel o que procurava havia muito tempo,
uma pessoa com quem ele pudesse abrir a alma e o coração. E o instinto lhe dizia que
Laurel também agia com maior naturalidade ao lado de Conor do que no mundo onde fora
criada. Podia apostar que havia sangue escocês nas veias de Laurel, apesar de ela falar
com o abominável sotaque dos ingleses.
— Bem, voltando ao início, Finn, e quanto aos irmãos? Os McTiernay parecem
bastante ligados uns aos outros. Eu só tenho um irmão e nós apenas nos toleramos.
— Seu irmão não virá procurá-la? — Finn segurou as rédeas com força.
— Não, Finn. Meu irmão sentirá grande alívio quando souber que desapareci — ela
afirmou com pesar e incitou o cavalo para a frente.
Finn procurou distraí-la da tristeza.
— Mesmo os McTiernay mais jovens são conhecidos como guerreiros ferozes.
Embora só os três mais velhos tenham enfrentado batalhas, os mais jovens têm treinado
exaustivamente e serão excelentes soldados, Todos eles, e até mesmo Clyde, têm um
talento especial para a estratégia, uma característica dos McTiernay. É uma pena que
isso não possa ser ensinado.
— Por que, Finn?

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— Milady, a prática pode ensinar um homem a lutar correta e rapidamente. Mas é


difícil aperfeiçoar a maneira de pensar ou a rapidez com que ele formula os planos de
batalha. Conceitos são transmitidos, palpites e truques podem ser passados adiante, mas
a aptidão natural tem de ser inerente à pessoa.
Laurel abaixou a cabeça para se desviar de um galho.
— Meu avô dizia a mesma coisa a respeito de seu melhor amigo, que sempre
superava em estratégia qualquer grupo de soldados ingleses, até os mais armados.
Finn imaginou por que o avô dela pensaria em vencer os próprios parentes. A
menos que ele não fosse inglês. Finn gostaria de antecipar-se às perguntas que Conor
certamente faria a Laurel assim que se aproximassem do castelo.
— Finn, e quando os irmãos não estão lutando? Também são unidos?
— Sim, milady, os McTieraay são muito devotados e leais uns aos outros.
— Eles moram juntos na fortaleza?
— Todos eles e muitas outras pessoas.
— Então o castelo deve ser bem grande.
— O castelo é enorme e bem fortificado — Finn concluiu quando Conor se
aproximou e ficou entre ele e Laurel.
Conor diminuiu o passo e não conteve a curiosidade para saber o que Finn
conversava com Laurel, ao lado de quem cavalgara na hora passada.
— O que houve com o castelo? Laurel receou que as batidas de seu coração
pudessem ser ouvidas depois da aproximação de Conor.
— Eu estava perguntando quem mora no castelo e imaginei que deve ser imenso,
para abrigar você, seus irmãos e tantos outros.
Conor deu de ombros.
— É um dos maiores.
— Por sua autoridade e pelo tamanho do clã, suponho que teria de ser dessa forma.
— Finn pode ter exagerado um pouco. — Conor fitou o comandante com expressão
impassível.
— Se me permitir, Laurel, Finn tem outras tarefas, como por exemplo determinar
funções para as sentinelas — Conor falou com rispidez e adiantou-se.
Laurel incitou Borrail para a frente e parou ao lado de Conor.
— Não permitirei que faça isso, Conor McTiernay.
— Como é? — Conor surpreendeu-se. Laurel esperou até Finn se afastar.
— Nem pense em acusar Finn de não cumprir com as obrigações. Vi quando pediu
a ele para me fazer companhia.
—- Pedi a ele para se certificar sobre sua saúde e suas condições para montar, não
para discutirem sobre o tamanho do clã McTiernay ou de nossa fortaleza!
Laurel ergueu o queixo.
— Não adianta querer modificar os fatos a seu bel-prazer. Não sou nenhuma jovem
frívola atraída pelo que você tem para oferecer. Estou interessada em saber para onde
vamos e o que me espera.
Conor não entendia como uma simples conversa podia desandar com tanta
facilidade.
Laurel, por sua vez, não sabia por que se irritara, mas era inaceitável ele ter gritado
com ela na frente dos outros.
— Você não queria falar sobre o assunto comigo e mandou Finn em seu lugar. Se
pretender ficar furioso com alguém, sugiro que use a si mesmo como alvo. Foi você, e
não eu, quem impediu Finn de cumprir com os deveres.
Conor desviou o olhar de Laurel, uma inglesa fogosa, e só então percebeu que Finn
já se afastara. Laurel e ele estavam sozinhos. O grupo passara por eles enquanto Laurel
o criticava.
Embora admirasse a coragem dela, era inadmissível discutirem na presença dos

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

demais. Não deveria ser admoestado por uma mulher, ainda mais por uma inglesa.
Conor fechou os olhos e procurou recuperar o controle da própria raiva e da
situação.
— Preste atenção, Laurel. Não admito discussões diante de meus homens — ele
falou em voz baixa, mas ameaçadora.
Conor estava certo. Discordar dele em altos brados poderia prejudicar sua
credibilidade e sua posição como líder do clã. Ela não deveria comprometer nem diminuir
a situação de Conor perante seu povo, ainda mais depois de ele ter salvado sua vida.
— Tem razão. Prometo que não farei mais isso. — Laurel abaixou a cabeça,
sabendo que seria impossível manter as opiniões para si mesma. — Mas não poderemos
discutir em particular?
— Claro. — Conor não escondeu a surpresa pela humildade.
Laurel suspirou, aliviada. Ele concordava em debater o assunto com uma mulher em
determinadas circunstâncias. A perspectiva de discutir com ele a sós era estranhamente
excitante. Muitas vezes ela vira os pais discutirem e em seguida fazer as pazes. Laurel
piscou várias vezes para afastar as fantasias perversas. Estava se apaixonando por
Conor e não sabia como lidar com isso. Conhecia a opinião dele a respeito de casamento,
e ela também não podia assumir o compromisso de um matrimônio.
Conor observou a miríade de emoções que passavam pelo semblante de Laurel e
seria capaz de jurar que, por um momento, ela também sentira paixão por ele. Mas num
instante, a intensidade do olhar foi substituída por tristeza e resignação.
Ele não resistiu, inclinou-se, segurou-lhe a cabeça com uma das mãos e beijou-a.
Conor aprofundou o beijo e Laurel entreabriu os lábios, recebendo os afagos da língua
dele com a sua. Gemeu quando o beijo se tornou mais intenso e Conor tentou prendê-la
entre os braços. O cavalo de Laurel se mexeu e interrompeu o beijo tórrido. Separados
fisicamente, eles se entreolharam, arfantes, com desejos secretos que não ousavam
expor. Laurel levou os dedos aos lábios ligeiramente intumescidos e disse a si mesma
que já estava apaixonada por Conor. Era preciso impedir a continuidade daquela tortura,
pois esse era um amor sem futuro.
— Conor, não podemos continuar agindo dessa maneira. Não nego a atração que
sinto, mas não a entendo e tenho de lutar contra ela.
— Amor, eu posso afirmar que essa será uma luta inglória. Eu mesmo tentei abafar
meu desejo desde o momento em que nos conhecemos.
— Não importa, eu vencerei essa batalha. Você é contrário ao casamento, mas eu
acredito no amor e no matrimônio. Meus pais se amavam e foram muito felizes. Minha
mãe morreu e meu pai se casou de novo. E não houve amor nem respeito entre ele e
minha madrasta. — Laurel inspirou fundo. — Conor, eu não o pressionaria a se casar
comigo, mas peço-lhe que se mantenha afastado de mim, pois não terei forças para
resistir.
Conor sentiu um frio interior e fitou Laurel com pesar. Avisou-a que teriam uma longa
jornada durante a tarde. Incitou o cavalo para a frente e disparou. Queria chegar ao
castelo na noite do dia seguinte.
Laurel compreendeu que acabava de destruir qualquer esperança de ser feliz com o
único homem que poderia amar. A dor de seus ferimentos não era nada em comparação
ao que sentia dentro de seu peito.
Conor não a amava.
Além disso, ela teria de partir na primavera para avisar o avô sobre as ameaças de
Douglas.
E esperava que não fosse tarde demais.

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CAPÍTULO III

Conor decidiu que teria de ficar sabendo naquela noite sobre as circunstâncias que
antecederam a chegada de Laurel ao acampamento.
Era óbvio que Laurel guardava algum segredo, mas Conor não tinha certeza se
gostaria ou não de conhecê-lo. Procurara se convencer de que não se importaria com a
vida pregressa de Laurel. Mas depois de ouvi-la falar que acreditava no casamento,
precisava de algum motivo forte para ajudá-lo a manter-se longe dela. Tivera de fazer um
esforço grande para afastar-se, quando a vira imersa na dor.
Independentemente disso, era preciso saber o que acontecera para melhor protegê-
la.
À noite, os irmãos se entregaram às provocações de sempre, rindo, animados.
Laurel prestou pouca atenção as conversas ruidosas sobre clãs, batalhas, aliados e
inimigos. Esperava Conor voltar do patrulhamento noturno, quando sentiu um toque leve
em seu ombro.
— Milady — murmurou Hamish —, milorde gostaria de falar com a senhora.
Laurel estremeceu. Ensaiou um sorriso para os rapazes, pegou a manta, levantou-
se e seguiu Hamish em silêncio. Ela imaginava o motivo pelo qual Conor mandara chamá-
la e talvez devesse agradecer por ele ter esperado três dias para escutar sua história.
— É, creio que chegou a hora — falou, mais para si mesma.
— Sim, milady.
Laurel se deteve e, constrangida, fitou Hamish.
— Poderia fazer o favor de me chamar de Laurel quando Conor não estiver
presente?
— Não, milady.
— Então queira explicar o motivo. Hamish franziu a testa.
— Milady, fazemos parte da guarda de milorde. Sem o consentimento dele não
podemos chamá-la pelo nome, e duvido que ele nos conceda essa permissão.
Laurel não chegou a perguntar o porquê. A poucos metros, viu Conor conversando
com Finn, e, quando ela se aproximou, os dois interromperam o assunto.
— Peça a Loman que o acompanhe na inspeção do perímetro do campo — Conor
dispensou Hamish, que anuiu e saiu para cumprir as ordens.
Finn afastou-se da rocha onde estava apoiado e cedeu o lugar para Laurel. Ela
agradeceu e sorriu. A noite estava fria, e Laurel alegrou-se por ter trazido a manta de
Conor.
— Imagino que esteja ansioso para saber o que houve e por que aceitei sua ajuda.
Conor demonstrou altivez e um brilho de ameaça no olhar.
— Sim, quero conhecer toda a história e principalmente o nome do homem que a
surrou e o motivo que o levou a fazer isso. — Ele usou o tom distante de um juiz imparcial
e não o de um amigo protetor.
Laurel suspirou. Pensar no que acontecera haveria de piorar sua tensão.
— Bem, primeiro tenho de lhe agradecer por sua ajuda.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

Percebendo o que se passava com Laurel e também a atitude fria de Conor, Finn
resolveu intervir.
— Está tudo bem, milady, ninguém a fará sofrer, Estamos muito longe das terras dos
Douglas e dentro de fronteiras aliadas. Nenhum habitante das Terras Baixas tentará
aventurar-se até as Terras Altas.
— Meu nome completo é Laurel Rose Cordell e, como devem ter percebido, morei a
vida toda na Inglaterra. Meu irmão é um barão, e suas terras ficam próximas da fronteira
escocesa, nos montes Cheviots do condado de Northumberland.
Laurel olhou para baixo. Teria de contar a história para Conor, mas não deveria
expor o avô a nenhum perigo. Seria melhor eles imaginarem que ela era uma jovem
inglesa sem vínculos com a Escócia.
— Fui seqüestrada por Keith Douglas e alguns de seus homens, enquanto
cavalgava nas terras de meu irmão. — Ela hesitou, odiando ter de mentir. — No início eu
não sabia de quem se tratava. Eles galoparam para dentro da propriedade a toda
velocidade e massacraram a escolta que me acompanhava. De doze homens, apenas
dois sobreviveram. O líder Douglas é cruel, gosta de matar e de sangue. Ignoro o motivo
do ataque e por que fui levada com ele.
Finn olhou para Conor. Laurel não tinha consciência de que sua beleza despertava
cobiça? Conor fez um sinal imperceptível para o comandante se calar.
— No início, eles riram do pesadelo que haviam criado. Dois homens começaram as
provocações para decidir quem me possuiria primeiro. Nisso, o líder a quem chamavam
de Keith ficou furioso. Deu um soco em um deles e enfiou a espada no peito do segundo.
— Ela fitou Conor. — Ele matou um de seus homens! Que tipo de pessoa é capaz de
cometer tamanha atrocidade?
Laurel olhou para as mãos cerradas antes de continuar.
— No começo fiquei em estado de choque, mas quando ele matou o guarda,
comecei a lutar. Muitos de meus ferimentos foram causados durante o trajeto até a
fortaleza dele. Eu o arranhei várias vezes no rosto e no pescoço, e quanto mais eu lutava,
mais ele me batia. Assim mesmo continuei a atacá-lo sempre que tinha oportunidade.
Finalmente ele acabou por me amarrar e me atirou sobre o cavalo.
Laurel estremeceu com as recordações.
— Quando chegamos ao castelo, eu sabia que a morte me aguardava. O demônio
me desamarrou antes de passarmos pelos portões, forçou-me a cavalgar com ele e me
avisou que se eu desse um pio ou fizesse um movimento em falso, ele me mataria. No
castelo grande e escuro, crueldade e frio transpiravam das paredes. Eu nunca senti nada
parecido e pensei que Keith fosse o sinônimo da maldade, mas o pai dele... Não imaginei
que pudesse existir tanto ódio numa pessoa, até mesmo pelo próprio filho, e acho que
isso o consumia.
Laurel ficou em pé e abraçou-se.
— O que aconteceu depois foi chocante, mas eu já não tinha mais forças. Pareceu-
me que Keith desejava se casar comigo, embora eu não soubesse o motivo. Ele
acreditava que eu aceitaria o enlace depois de ele ter matado minha guarda e batido em
mim. Mas o pai não concordou. Ele permitiria que Keith se deitasse comigo, mas sem
matrimônio. Conforme entendi, lorde Douglas havia prometido Keith em casamento para a
filha de outro lorde. O clã Douglas havia feito muitos inimigos e precisava assegurar
outras alianças que não se baseassem apenas em palavra de honra.
Ainda mais que a honra dos Douglas pouco valia, fato que se confirmava a cada
passo, Conor pensou.
— Ele sugeriu que o filho me violentasse sem demora — Laurel sussurrou —, pois
ele também desejava me possuir.
Laurel omitiu o restante da conversa para não arriscar a vida do avô. Lorde Douglas
lhe dissera que ela teria de cooperar, pois se voltasse às terras do avô, ele mataria todos

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

os Maclnnes.
Sem conhecer o poder nem o tamanho do clã do avô, Laurel preferia não arriscar.
Ela faria qualquer coisa para proteger o avô, de quem guardava lembranças
maravilhosas. Os abraços apertados, a maneira como ele girava com ela nos braços e as
maravilhosas histórias da Escócia por ele contadas.
— Isso é o suficiente por esta noite. — Conor mal conteve a ira.
Ele fora invadido por fortes emoções enquanto Laurel falava, e nada mais queria
escutar. Imaginar que outro homem pudesse ter tocado e batido nela acabaria por levá-lo
à loucura.
Laurel o segurou pelo braço.
— Por favor, deixe-me terminar. Contarei tudo e depois não tocaremos mais no
assunto — Laurel implorou com lágrimas nos olhos.
Conor concordou, embora fosse de opinião que relembrar o acontecido era
prolongar a agonia. E jurou que a vingaria, pois seria impossível esquecer.
Laurel encostou-se na rocha e notou que Finn se mostrava realmente assustado.
— Finn, agora estou bem. Lembre-se de como me encontraram. — Laurel sorriu
para ele e deixou-o sem fala.
Embora fosse casado e feliz, Finn entendia a atração dos outros por Laurel. Se
Conor demorasse a se decidir, os pedidos para a mão dela se sucederiam de imediato. E
seria interessante saber se a posição de Conor contrária ao casamento se manteria firme.
— Acredito que Keith estava enraivecido não apenas com a recusa do pai, mas
sobretudo com a sugestão de ele também participar do festim. Keith não desistiu, mais
determinado do que antes, e na certa para vingar-se do pai. Casar-se com uma inglesa
seria o maior desafio que poderia fazer ao pai. E assim fomos parar num altar diante de
um sacerdote.
Laurel hesitou e arrumou a manta.
— O pobre homem estava tão chocado quanto eu, que me encontrava num estado
deplorável. Keith, muito sério, dava a impressão de ser um maníaco. E quando o padre
perguntou se eu concordava com os votos, recusei. Keith jurou que me mataria, mas
mesmo assim eu me mantive firme, certa de que não sobreviveria àquela noite. Mas eu
não morreria como esposa de Keith Douglas.
Laurel fez uma pausa para respirar. Eles entenderiam que ela se tornara uma
assassina? Conor continuava impassível. Ele acreditaria nela? Ou seria de opinião que
ela deveria ter concordado? Não, ele não pensaria isso.
— Keith ficou enlouquecido. O clérigo tentou segurá-lo, mas Keith o agrediu e
ordenou que o coitado saísse das propriedades dos Douglas. Arrastou-me pelos cabelos
até seus aposentos e tentou me surrar de novo. Consegui evitar vários golpes, até ver
uma adaga sobre a mesa próxima à janela. Consegui pegá-la no momento em que ele me
agarrou. Eu não queria matá-lo, mas ele me jogou na cama e impossibilitou que eu me
levantasse. Eu só queria impedi-lo de me... Ele veio por cima de mim e quando ergui o
braço, o punhal afundou em seu peito.
Conor continuava sem reação, e Laurel continuou:
— Saí do quarto por onde eu tinha vindo, fui até a capela, dali para fora do castelo e
comecei a correr. Só parei quando encontrei suas sentinelas. Não sei o que eu teria feito,
Conor, se não tivesse me ajudado.
Se Laurel suspeitasse do que se passava na mente de Conor, não teria completado
o relato. Conor gostaria de abraçá-la e garantir-lhe que ninguém mais a faria sofrer nem
ameaçaria os que ela amava. Renovaria a promessa de protegê-la e desejava que Laurel
confiasse nele e precisasse apenas dele, de ninguém mais.
No entanto, Conor permaneceu distante enquanto Laurel contemplava as
montanhas das Terras Altas.
Abraçada a si mesma, era como se procurasse afastar de vez as maldades do

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

mundo. Desabafar não parecia tê-la aliviado. Pelo contrário, aumentara o peso da culpa.
— Laurel? — Não havia raiva na voz de Conor contra a inglesa que matara um
escocês, apenas compaixão.
Ela se virou com lágrimas nos olhos e sufocou um grito quando Conor a abraçou
com força, como se quisesse absorver todos os problemas dela.
Laurel agarrou-se em Conor. Talvez ele fosse o único que poderia entendê-la e
assim aliviar a culpa de sua alma. Nos braços de Conor, sentia-se protegida do passado,
do presente e do futuro. Ali, Douglas não existia. Conor cuidaria dela, e seu avô estaria
salvo.
Finn observou a atitude inusitada de Conor, conhecido por sua frieza emocional, e
notou que Laurel desejava o homem e não o lorde. Ele seria eternamente agradecido a
Laurel por ter trazido o amor à vida de Conor e por isso seria capaz de dar a vida por ela.
Estava escuro quando eles voltaram ao acampamento. Os irmãos McTiernay
dormiam sobre as mantas. Conor estendeu a dele num espaço vago perto do fogo e fez
sinal para Laurel se acomodar, enquanto ele se reclinava numa árvore próxima.
Laurel perguntou-se se ele se distanciava porque ela lhe pedira para se afastar ou
por causa da história que ela contara. De qualquer maneira, ela dormiria sozinha naquela
noite.
Novamente os pesadelos atormentaram Laurel, e ela acordou abraçada a Conor.
Quando voltou a dormir, Conor afastou-se.
Laurel despertou pouco antes do amanhecer. Conor e a guarda já haviam se
afastado para os preparativos da jornada daquele dia. Ela se levantou, disposta a lavar o
rosto e fazer a higiene matinal.
No caminho para o regato, ouviu Conor e Finn discutindo em gaélico a respeito dela.
Laurel era fluente naquele idioma que o avô lhe ensinara.
Finn desejava atacar os Douglas imediatamente e Laurel entendeu que os
McTiernay não morriam de amores por aquela família poderosa. Conor, no entanto, não
se mostrava disposto a provocar uma guerra que custaria inúmeras vidas a seu povo.
Muitos aliados precisavam de seus membros depois de ter ajudado Robert Bruce a
conquistar castelo por castelo a fim de reconquistar a Escócia e expulsar os ingleses.
Conor encerrou a conversa afirmando que cuidaria de Douglas e de seu filho, mas
no devido tempo.
Laurel esperou os dois se afastarem e foi até o riacho para se lavar. Sentou-se na
ribanceira e estava refletindo sobre as palavras de Conor quando o ouviu aproximar-se.
— Escutou muita coisa? Ele a vira.
Laurel levantou um ombro.
— O suficiente.
Uma inglesa que entendia o gaélico.
Na noite anterior Conor imaginara que Laurel se dispusesse a falar sobre a família,
mas ela continuava misteriosa. Dissera que o avô gostava de enganar soldados ingleses,
e ela compreendia o idioma céltico. Certamente tinha ascendência escocesa.
— Conor, não permitirei que arrisque a vida por minha causa.
Conor curvou-se e segurou-lhe a face.
— Sou dono de mim mesmo e já tomei uma decisão que não será modificada — ele
afirmou com voz suave.
— Por favor — Laurel fitou-o com olhar lacrimejante —, não faça isso.
— Não se preocupe, meu amor. — Ele a abraçou. — Esta tarde terei de adiantar-me
no trajeto para encontrar os membros de meu clã e resolver os problemas que devem ter
surgido durante minha ausência. Mas não a deixarei sozinha. Meus irmãos e as
sentinelas a acompanharão, entendeu?
Laurel estava confusa. Conor tinha a consideração de contar-lhe os planos, mas a
abandonava.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— Entendi, Conor. — Ela se levantou e passou a mão na veste empoeirada. — Eu o


verei à noite?
— Talvez — ele respondeu com indiferença. — Bem, mais uma pergunta. Seu irmão
não virá procurá-la?
— Não. Ele se casará em breve, e a noiva dele quer me ver longe da propriedade.
Meu irmão acabou de receber o título e todos os bens, e com certeza relutaria em
oferecer um dote por um contrato de casamento. Ele está feliz por se ver livre de mim.
Conor se afastou, aliviado. Saberia como enfrentar os Douglas, mas não se sentia
seguro quanto à família de Laurel. Tinha apenas uma certeza: seu futuro estava ligado ao
dela.
Laurel esperou Conor afastar-se e voltou ao regato. Lavou o rosto e olhou seu
reflexo numa poça de água próxima. Estava com a aparência horrível. Não era de admirar
que Conor tivesse pressa em deixá-la, mas era surpreendente que demonstrasse alguma
atração por ela. O importante seria ela manter distância de Conor, depois que chegassem
ao castelo.
Ela chegou ao acampamento e encontrou Conor preparando a partida. Sob a luz do
sol ela notou os olhos injetados de Conor, como se ele não tivesse dormido.
— Muito bem, todos montados — ele ordenou. — Quero chegar em casa ao
anoitecer.
Os homens obedeceram e em minutos eles se puseram a caminho.
Durante toda a manhã Laurel sentiu a perda de algo e sem esperança de retorno.
Nada mais de brincadeiras leves ou olhares fugazes. A descontração sumira. Conor não
olhara para trás uma única vez para certificar-se de seu bem-estar. Na verdade, o que se
esperar depois de "Eu lhe peço que se mantenha afastado de mim"? Uma declaração de
amor eterno, ou um pedido de casamento?
Laurel sabia que nada disso seria possível depois de ter pedido para Conor ficar
longe dela. Em vez de lamentar o fim de um relacionamento que mal chegara a começar,
deveria sentir-se satisfeita. Ela não desejava nenhum problema além dos que já tinha, e
apaixonar-se por Conor McTiernay seria o pior deles.
Conor sentia o olhar fixo de Laurel, que o acompanhava, investigando. Mas o que
ela queria? Pedira para ele não a importunar, e era o que ele estava fazendo.
Ele repassava mentalmente vezes sem fim as palavras que Laurel dissera na
véspera. Os pais dela, assim como os dele, tinham sido apaixonados e felizes. E ele,
outrora, também desejara para si mesmo um amor como o dos pais. Em vez disso,
encontrara promessas falsas e desejos de riqueza e poder.
Laurel estava à procura dos mesmos sentimentos que ele idealizava, mas fora ele
quem a fizera perder a esperança. A história de Laurel e a lembrança de que ele a fizera
duvidar da fé no amor não o deixaram dormir a maior parte da noite. Ela o desejava e o
aceitava, porém não queria renegar seus ideais e o amor-próprio pela paixão que os
atraía. Conor não sabia dizer se deveria se dar por satisfeito ou se ficava frustrado.
Fez sinal para Finn de que seguiria adiante dos outros e embrenhou-se na floresta.
No final da tarde Craig diminuiu a marcha do cavalo, aproximou-se de Laurel para
conversar e ela se alegrou com a visão otimista do gêmeo mais descontraído. Sem
Conor, que se adiantara conforme o avisado, nada melhor do que um pouco de diversão.
Para ela, fora difícil testemunhar o afastamento de Conor depois de cruzarem as
fronteiras da propriedade dos McTiernay.
Durante o trajeto, Laurel concordou com os louvores às terras magnificentes, O
território dos McTiernay ficava incrustado nas montanhas, rodeado por penhascos
enormes, rios pitorescos e imensos braços de mar que alcançavam a base das
elevações.
A distância, era possível divisar o castelo no alto de um extenso rochedo escarpado
e o rio largo que desaguava num lago e que dominava a paisagem de uma vasta região.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

Ao redor do castelo, havia choupanas de vários tamanhos, construídas em madeira e


pedra. Pareciam sólidas, quentes, próprias para manter as famílias aquecidas durante os
meses de inverno.
— Craig, quem mora naquelas choupanas?
— Os fazendeiros e suas famílias. Aquela — ele apontou uma próxima às muralhas
do castelo — pertencia ao velho Gowan.
— Pertencia?
— Sim, ele morreu há alguns meses, mas eu sempre pensei que o velho esquisitão
fosse me enterrar.
Craig tinha dezessete anos, e era cômico imaginar que um homem idoso pudesse
sobreviver a ele. Laurel riu e admirou-se pela habilidade dele em trazer bom humor
mesmo aos eventos tristes.
— Na certa você o matou. Craig deu risada.
— Ele foi um grande guerreiro de meu pai e o comandante da guarda dos McTiernay
por muitos anos. Era um homem respeitado por nosso povo.
— Por que ele resolveu viver fora das muralhas do castelo?
— Quando meus pais eram vivos, ele morava conosco. Depois da morte deles,
Gowan preferiu viver sozinho em vez de ficar na fortaleza com as lembranças.
Laurel esperava que Conor atravessasse os portões para saudá-los, mas ninguém
apareceu. Havia apenas o movimento normal de entrada e saída de soldados.
Eles chegaram ao alto da colina, onde o solo era coberto por uma vegetação ainda
verde que se tornaria marrom com o inverno.
As muralhas do castelo formavam um "D" com a dos fundos, que era reta e se
elevava acima de uma ravina em cuja base corria o rio originário das montanhas que se
derramava no grande lago do vale por onde haviam passado aquela manhã. Aquelas
eram as Terras Altas, com montanhas abaixo, acima e ao redor deles.
A paisagem das laterais do castelo era semelhante à do resto do país. Árvores que
se amontoavam às margens do rio, campos de terras cultiváveis e clareiras para
treinamento de guerreiros.
A despeito da região imensa e do grande número de habitantes do clã, tinha-se a
impressão de um lar entre as montanhas. Laurel observou isso no rosto das mulheres e
das crianças que passavam. Apesar da vida dura, todos pareciam animados, felizes e
sem preocupações, coisa que ela nunca pudera enxergar na propriedade do irmão.
Esperava que a futura esposa de Ainsley trouxesse a alegria que faltara a eles quando
crianças.
Os irmãos McTiernay se agruparam a seu redor. Seria por proteção ou para indicar
que ela viera por vontade de Conor?
O grupo aproximou-se das muralhas externas e atravessou uma grande ponte de
madeira que conduzia a uma entrada larga protegida por uma barbacã fortificada. Aquela
era a única passagem atrás da cortina de muralhas do castelo. A entrada era fortificada
de cada lado por torres que proviam pontos de acesso às muralhas.
— Cole?
— Sim, milady?
— Por que existem tantas aberturas nas muralhas?
— A combinação de passagens superiores e laterais com os espaços abertos entre
elas fornece um sistema adicional de segurança. Em tempos de guerra, se um inimigo
consegue ultrapassar a entrada pela ponte, podem-se jogar pedras e água fervente sobre
os invasores.
— Esse método tem sido aplicado com freqüência?
— Não e há muito tempo. Este território foi ocupado pelos McTiernay há séculos. A
fortaleza original foi construída há centenas de anos. Os ataques eram comuns até meu
bisavô erigir as muralhas, que são consideradas uma das estruturas mais seguras e

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

fortificadas das Terras Altas. Que eu saiba, as passagens foram usadas apenas uma vez,
antes do término da construção da barbacã.
Eles passaram pelas muralhas e entraram no pátio. O Castelo McTiernay era
imponente. Por dentro, as muralhas que circundavam o pátio de grandes dimensões
pareciam ainda maiores. Havia seis torres circulares, duas na muralha que se erguia
sobre a ravina, duas nas curvas e duas ao lado dos portões de entrada.
As quatro torres principais estavam erguidas sobre plintos, enquanto as torres da
guarita junto aos portões eram situadas sobre bases circulares.
Ao redor do pátio externo, viam-se as construções , anexas. A estrebaria e a oficina
do armeiro ficavam na parte oeste do castelo. A panificadora, a cervejaria e outras
estruturas afins localizavam-se a leste. A capela, o salão nobre e o hall ficavam junto à
muralha setentrional. A altura das construções era impressionante. A torre noroeste
parecia alcançar o céu.
— Santo Deus, aquela torre deve ter no mínimo seis pavimentos! — Laurel
exclamou enquanto desmontava. Nunca vira nenhuma tão grande e tão alta.
— Sete, lady Laurel — Craig respondeu, usando o título que não era usado desde a
morte de sua mãe. — Nas noites sem neblina, minha mãe costumava subir nas ameias
para observar o céu e dizia que era possível tocar nas estrelas. Por isso a chamava de
torre estrelada.
Alguém se aproximou por trás e segurou as rédeas de Borrail. Laurel virou a cabeça
e deparou-se com um homem idoso, magro e de estatura média. Era quase calvo e tinha
uma corcova nas costas pelos anos do trabalho com cavalos. Ela nem precisou avisá-lo
sobre o temperamento obstinado do animal. Com gentileza e pulso firme, ele segurou o
cavalo sem incidentes.
— Qual o seu nome, senhor? Pelo sotaque, ele calculou que a dama fosse inglesa,
apesar do vestido rasgado e dos cabelos desalinhados. Mas quando ela tornou a fitá-lo,
ele teve a impressão de estar diante de um anjo.
— Moça, eu me chamo Neat. Em que poderei ajudá-la?
— Neal, ela é a mulher de Conor — Cole advertiu-o, diante do tratamento informal
que o outro empregara.
— Cole, isso não é verdade — Laurel corrigiu-o e virou-se de novo para Neal. —
Sou apenas uma hóspede temporária de milorde. Como ele me deu este cavalo, eu
gostaria que o senhor cuidasse dele. Eu me afeiçoei muito a Borrail. Ele pode não ser
muito bonito, mas é forte, carregou-me por essas montanhas com galhardia sem me
derrubar nenhuma vez. Por isso ele significa muito para mim.
Neal desconfiou da sanidade mental de Laurel. Quem se importava se um cavalo
era bonito ou feio? Mas se ela gostava tanto do animal, trataria dele como se pertencesse
a lorde Conor.
Cole entregou as rédeas ao mestre cavalariço e virou-se para o irmão mais novo.
— Clyde, por favor, leve milady à torre estrelada e peça para Glynis preparar os
antigos aposentos de mamãe.
— Oh, não, Cole. Não teria sentido eu ocupar a ala de sua mãe. Conor não
aprovaria isso.
— Claro que aprovaria.
— Ah, não importa, decidi não ficar no castelo. — Laurel endireitou os ombros. — O
que acha da choupana de Gowan? — Era preciso manter-se longe de Conor, a qualquer
custo. — Isso mesmo, a choupana será um local excelente. Além do mais, sei que Conor
não veria com bons olhos minha permanência nos aposentos de sua mãe.
— Foi Conor quem deu essa ordem.
Naquele momento, uma senhora de olhar bondoso aproximou-se. Ela era baixinha,
gorducha, simpática e de aparência confiável.
— Bom dia, milady. Meu nome é Glynis. Lorde Conor pediu-me para levá-la até seus

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

aposentos e providenciar o que for preciso para milady.


Espantada, Laurel não discutiu. Seguiu Glynis pelo pátio e entrou no hall do castelo.
Era um recinto grande, iluminado, com janelas em arco na parede norte. Chamas
crepitavam nos braseiros e aqueciam a tarde fria. Muitos soldados já estavam reunidos
para a refeição da noite e tagarelavam em voz alta.
— Perdão, milady, por causa dessa bagunça, do barulho e do mau cheiro. O clã
McTiernay é formado por um punhado de gente forte e corajosa, mas desde a morte de
lady McTiernay, há muitos anos, o castelo nunca mais foi o mesmo. Somente os
aposentos de sir Conor ficam arrumados.
Laurel notara a má conservação do castelo e o cheiro desagradável. O junco do
chão encontrava-se amassado, sujo, em decomposição, e em muitos locais o piso de
madeira aparecia. A mesa principal no final do salão estava vazia. Os soldados
acomodavam-se nas mesas de cavalete ao longo das paredes. Entretidos em comer e
conversar, ninguém os notou.
Laurel observou os criados que entravam a todo instante e desapareciam atrás de
biombos de madeira que separavam o hall da área de serviço. Acima dos biombos ficava
a galeria dos menestréis. Pela quantidade de cerveja e vinho que os criados traziam,
Laurel supôs que a massagem por trás dos biombos estava ligada ao porão onde se
armazenavam bebidas.
Laurel e Glynis passaram por uma porta lateral em direção à torre estrelada, onde
ficava a maior parte da ala residencial. A porta de acesso à torre também era em arco.
Elas cruzaram o pórtico e Laurel viu um aposento pequeno e vazio à direita da porta.
Devia ser o local onde a sentinela montava guarda para proteger o acesso à escada em
espiral.
Laurel seguiu Glynis aos andares superiores. No quarto pavimento Glynis se deteve,
rodeou o corrimão e abriu a porta de um aposento grande e elegante. Laurel admirou o
que deveria ser a sala de estar de lady McTiernay. A decoração em verde e ouro velho
captava a pouca luz que entrava no recinto pelas três pequenas janelas em arco da
alcova.
A lareira estava acesa, e o ambiente, aquecido.
— Embora o aviso tenha sido de última hora, espero ter preparado o quarto a seu
gosto. Lorde Conor me disse que milady precisaria de roupas novas. — Ela indicou os
trajes sobre a cama.
Laurel sentiu-se constrangida.
— Glynis, quem teve de se desfazer dos vestidos?
— São de minha filha, e ela ficou feliz em poder servi-la. Eu lhe asseguro, milady,
faríamos qualquer coisa por milorde. Se ele pedisse, eu tiraria as minhas roupas para
milady usar.
— Glynis, não me sentirei bem em abusar da bondade de sua filha — Laurel, sem
perceber, falou em gaélico. — As roupas são lindas e devem ser as melhores que ela
tem. Se eu tivesse agulha e linha, poderia muito bem consertar meu vestido e depois
lavá-lo. Até eu poder fazer outro, me arranjarei com este.
Glynis percebeu a teimosia e desistiu de argumentar. Laurel lhe pareceu orgulhosa e
decidida, e ainda por cima falara em gaélico. Ela teria descendência escocesa? Pelo
menos era o que parecia. Se fosse verdade que Conor McTiernay encontrara uma noiva,
ela poderia trazer muita alegria ao clã. Laurel seria enérgica o suficiente? Teria medo de
Conor? Seria capaz de suportar os invernos rigorosos?
— Está bem, eu arrumarei agulha e linha, e também mandarei preparar um banho e
uma refeição decente, A maioria dos homens já comeu. Por favor, não discuta, milady
precisa de um banho e eu ficaria aborrecida se não pudesse ajudá-la.
Laurel não teve coragem de recusar a gentileza de Glynis. Mas depois do banho e
do vestido remendado, rumaria para a choupana desocupada. Não ficaria no castelo e

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

muito menos nos aposentos da mãe de Conor.


— Glynis, onde está milorde? — Laurel perguntou quando a criada voltou com os
apetrechos de costura. — Não o vi quando entramos.
— Ah, ele está com os convidados no salão nobre. O hall agora é usado apenas
pelos soldados.
— Quem são os visitantes?
— Lorde Schellden e sua guarda chegaram esta manhã, e acredito que lorde
McTiernay ficará no salão nobre por toda a noite. Quer que eu vá chamá-lo?
— Oh, não, de jeito nenhum. Eu tenho sido um transtorno para ele nestes últimos
dias e peço-lhe para não interrompê-lo. Eu estava apenas curiosa.
Glynis sorriu e saiu em busca da água dó banho e do sabão de lilases. Laurel estava
realmente interessada em Conor. Durante anos, muitas jovens haviam tentado atrair a
atenção de Conor, mas ele não se interessava por nenhuma. E nesse dia, quando
chegara, Conor dera instruções tão detalhadas sobre os preparativos que Glynis supôs
estar esperando a visita da rainha da Escócia. E depois de ver Laurel, mesmo num estado
deplorável, teve a confirmação de que a jovem era bondosa além de muito bonita. E se
Laurel fosse enérgica o bastante, certamente seria a eleita.
Mais tarde, depois do banho, Laurel vestiu a camisa limpa e sentou-se para
consertar o vestido, enquanto Glynis desembaraçava seus cabelos. Dera muito trabalho
remover a sujeira e tirar o mau cheiro que parecia ter-se colado em sua pele.
— Ah, milady, meus olhos nunca viram jovem mais bonita. — Glynis terminou de
escovar as longas madeixas e amarrou-as para trás.
— Agradeço sua bondade, Glynis, mas não se preocupe. Pode cuidar de suas
obrigações e eu terminarei de me arrumar.
— Oh, não tenho muito que fazer. Somente o pessoal da cozinha é sempre
atarefado e todos os dias é um grupo diferente de mulheres que executa o trabalho.
— Não existe criadagem com funções específicas?
— Não, com exceção do ferreiro, do armeiro e do encarregado da estrebaria. Há
algum tempo, milorde achou que seus irmãos estavam muito acomodados e exigentes, e
mandou os ajudantes de volta para suas casas. Os meninos tiveram de cuidar de tudo,
exceto da cozinha. — Glynis inclinou-se para cochichar. — Coitados, eles não sabem
fazer nada. Os quartos ficam sempre em desordem, os salões sujos e malcheirosos.
— E quando há visitas?
— Ah, nessas ocasiões o salão nobre é limpo, assim como os aposentos destinados
aos convidados. E uma vergonha, milady. Este castelo precisa de uma boa governança.
— Não só o castelo, mas Conor também, ela pensou.
— Glynis, antes de tudo insisto para que me chame de Laurel, e depois quero
desfazer um mal-entendido. Não sou a noiva de lorde McTiernay. Ele me salvou e ficou
entendido que irei embora na primavera.
— Mas milady está ocupando o quarto da mãe dele...
— Glynis, entendo que o pedido de Conor tenha dado uma impressão errônea.
Trata-se de uma medida temporária para que eu pudesse tomar um banho e descansar.
Craig mostrou-me uma choupana vazia e faço questão de ficar lá até minha partida.
Glynis percebeu que Laurel o chamara de Conor e decidiu não discutir. Mas
imaginou o que ele diria quando soubesse que ela estava dormindo sozinha numa
choupana do lado de fora do castelo.
— Se essa é sua vontade, lady Laurel...
— Pronto Glynis, terminei o remendo. Agora preciso de mais duas coisas e depois
não a aborrecerei mais. — Laurel hesitou, envergonhada. — Eu gostaria que me ajudasse
a amarrar as ataduras antes de eu me vestir.
— Claro, milady. — Glynis executou a tarefa com maestria.
— Glynis, já fez isso antes, não fez?

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— Ah, sim, muitas vezes. E quem fez o curativo em milady também sabia o que
estava fazendo. — Glynis reconheceu as tiras que tinham sido parte de uma camisa de
homem. — Fico surpresa que tenha deixado um dos soldados fazer isso — ela provocou
uma resposta.
— Oh, não, foi Conor quem se ofereceu para amarrar a faixa. Eu não queria, mas
depois admiti que ele estava certo. Minha respiração e as costelas melhoraram muito
depois de eu ter sido enfaixada.
— Foi uma medida acertada, e gostaria de sugerir que mantenha as ataduras por
mais alguns dias. Isso fará com que se sinta melhor. — O que os outros diriam se
soubessem daquela intimidade? — Qual o outro pedido, lady Laurel?
— Por favor, apenas Laurel.
— Mas a senhora é uma lady.
— Já fui, agora não sou mais. Quero ser uma mulher comum e ajudar no que puder
durante o inverno. Terei de ir embora na primavera, Glynis, e por isso não posso ficar no
castelo. Só preciso que me indique uma maneira de chegar à choupana de Gowan.
Glynis não escondeu o espanto. Ela se arriscaria à ira de Conor se ajudasse Laurel,
mas como negar à moça um pedido?
— Bem, suponho que poderei ajudá-la. Na única entrada do castelo há apenas uma
sentinela de plantão. Quando eu terminar o serviço, devo retornar à minha casa, e a
choupana do velho Gowan fica no meu caminho. Podemos ir juntas.
— Nem sei como agradecer tanta bondade — Laurel disse com lágrimas nos olhos.
— Todos os montanheses são como a senhora?
— E todos os ingleses serão como milady? Laurel enxugou as lágrimas e sorriu.
— Então vamos.

— Onde está ela?! — Conor berrou no salão nobre. Ele mandara um soldado ver se
Laurel estava bem e se os aposentos a haviam agradado. Desde que a mãe falecera,
ninguém mais ocupara aquele quarto. E a explosão sobreveio quando o rapaz voltou com
a notícia de que Laurel não fora encontrada.
— Eu sei que ela chegou, vi o cavalo dela na estrebaria! — Conor lançou um olhar
feroz para Finn. — Procure-a em todos os cantos do castelo! Quero saber quem a viu,
quando ela foi vista pela última vez e onde ela esteve!
Finn entendeu que o pavor de Conor era pela possibilidade de ter perdido Laurel.
Conor andava de um lado para outro, imaginando o que poderia ter acontecido. Os
vestidos que mandara para ela ainda estavam sobre a cama. As únicas evidências de sua
chegada eram o cavalo e a água usada do banho de tina, que ainda estava no quarto.
Só faltava ela ter fugido porque ele não falara em casamento... Mas o receio de que
ela estivesse em perigo, bem como a ansiedade, aumentavam a cada notícia negativa.
— Ela não está no rio e ninguém a viu indo para lá ou voltando, lorde McTiernay —-
um dos soldados informou.
— Eu só a vi quando ela chegou — o encarregado da estrebaria afirmou, ainda mais
curvado. — Devo dizer que a achei encantadora, mas um pouco confusa. Espero que seja
encontrada sã e salva. É uma dama incomum.
— Ela será encontrada! — Conor declarou com rispidez. — E que Deus ajude quem
encostar num só fio de cabelo dela!
Neal teria estranhado a ira de Conor, em geral reservada ao campo de batalha. Mas
depois de ter conhecido a jovem intrigante, compreendia a reação dele.
— Neal, ela deu alguma indicação de para onde pretendia ir?
— Não, milorde. Ela entregou-me Borrail e...
— Quem é esse?

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— O cavalo dela, milorde. Milady pediu-me para cuidar bem do animal, pois fora um
presente seu. Isso não é verdade?
— Sim, continue.
— Cole veio buscá-la, e creio que ela não se sentiu à vontade para ocupar os
antigos aposentos de lady McTiernay. Depois ela mencionou a choupana de Gowan e...
Conor não escutou o restante do relato. Virou-se e correu para fora do hall e pelo
pátio.
— Abram os portões!
Conor chegou à choupana de Gowan e, pela janela, viu Laurel arrumando gravetos
na lareira. Com os cabelos soltos, ela usava o próprio vestido, que estava com a manga
no lugar.
O medo que o acometera nas últimas duas horas se transformou em raiva. Ela
recusava o abrigo, as roupas e lhe desobedecera! Ela não o enganaria mais.
Furioso, ele bateu na porta.
Laurel imaginou que Conor viesse, assim que descobrisse que fora desafiado. Com
certeza ele nem se importava com o fato de ela estar ou não no castelo, e fora o orgulho
ferido que o trouxera até ali. Se ela pudesse encontrar uma maneira de salvar o amor-
próprio de Conor, ele a deixaria ficar na choupana.
De repente a porta cedeu e Conor entrou no cômodo, que a presença dele deixou
ainda menor. Ele irradiava uma vitalidade masculina primitiva. Tomara banho e estava
com roupas limpas. A manta estava presa na cintura e a camisa cor de açafrão de
mangas longas não escondia os músculos. Conor não trazia, espada, nem a túnica longa
com a jaqueta bordada que usara na viagem.
A presença arrogante e poderosa de Conor quase foi a perdição de Laurel e ela se
recriminou. Se vacilasse naquele momento, seria incapaz de manter distância no futuro.
Conor teria de sair dali antes de ela se jogar nos braços dele, atirando para o alto as
regras de boa conduta e os sonhos de amor e casamento. Ela deu uma tossidela.
— O que o traz aqui a esta hora da noite? — Laurel falou com naturalidade forçada.
— Eu estava me preparando para dormir.
— E mesmo, Laurel? E tão longe de seus aposentos? Conor deu um passo à frente,
com expressão tenebrosa, e Laurel recuou.
— Está se referindo aos que mandou preparar para mim no castelo?
— Exatamente.
— Sua oferta me sensibilizou, Conor, mas não posso aceitar. Eu me sentirei mais à
vontade nesta choupana. Se eu ficar aqui, não despertarei falatórios desnecessários, e
todos acreditarão na donzela que foi salva por lorde McTiernay no caminho para casa.
— Você é muito mais do que isso. Laurel estremeceu.
— Não sou, Conor, e nós já falamos sobre o assunto.
— Sim, e nada mudou. No entanto eu prometi protegê-la e não poderei fazer isso a
distância.
Laurel endireitou os ombros e estreitou os lábios.
— E os outros membros do clã que moram do lado de fora das muralhas?
— Eles são montanheses — foi a resposta sucinta de Conor, antes de erguê-la nos
braços e carregá-la de volta para o castelo.
— Conor McTiernay, largue-me no chão! O fato de ser maior e mais forte não lhe dá
o direito de fazer isso!
— Pense como quiser, Laurel. — A raiva de Conor sumia por estar com Laurel entre
os braços.
Quando ele abrira a porta, tivera de prender a respiração. Os cabelos limpos e
brilhantes de Laurel chegavam à cintura em mechas onduladas e a pele mostrava-se
impecável.
Naquele momento, Conor experimentava de novo a suavidade de Laurel e a

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

fragrância envolvente, e seu desejo avolumou-se. Não tinha certeza se poderia cumprir a
promessa de manter-se afastado dela. O poder de atração de Laurel sobre ele era
extraordinário, e ultrapassava o plano físico.
Eles chegaram ao pátio e Conor deixou-a no chão, o que não diminuiu seu ardor.
— Laurel, não saia mais do castelo.
— Ora, vejam! Mesmo que eu tenha sido arrastada até aqui, tornarei a sair. Juro que
milorde não vencerá essa batalha e eu lhe asseguro que rivalizo com sua teimosia
escocesa! — ela gritou.
O barulho atraiu a atenção dos que estavam dentro do castelo. Muitos vieram
conferir o que acontecia e espantaram-se ao ver Conor discutir com uma dama
desconhecida.
— Meu amor, se eu tiver de carregá-la mais uma vez até aqui, pode ter certeza de
que se arrependerá.
— Guarde suas ameaças para seus soldados, Conor McTiernay. Milorde não
bateria numa dama, numa criança ou num cavalo por tão pouco. E vou continuar
negando.
Conor fechou os olhos por um instante.
— Não me provoque, Laurel, estou falando sério. Não saia novamente da fortaleza
ou acabará por se arrepender da façanha.
— Está me dizendo que sou uma prisioneira? Que não posso cavalgar pelos
campos nem me banhar no rio?
— Sozinha, não, pelo menos não enquanto eu estiver ausente do castelo. Eu só
poderei assegurar proteção
:
para quem ficar do lado de dentro das muralhas.
— E seu povo que mora do lado de fora? — Laurel apontou na direção do portão. —
Estão seguros, não estão?
— Laurel, eles são montanheses, acostumados com as agruras da região. Eu
garanto que nada lhe acontecerá se ficar aqui dentro, onde qualquer um poderá ajudá-Ia
em caso de necessidade. Terá de ficar aqui, dormirá nos aposentos de minha mãe e não
se fala mais nisso. Laurel notou o olhar gélido e entendeu que perdera a batalha. E ao
perceber a aglomeração, sentiu-se profundamente envergonhada. Seu orgulho vinha
sendo posto à prova naqueles últimos dias, sempre que discutia com Conor. Se teimasse
ou cedesse à pressão dele, seu brio sofreria mais um golpe. Mas àquela altura pouco
importava se ficasse no castelo. Ninguém acreditaria que Laurel Cordell era uma dama
depois daquela cena.
— Está bem — murmurou, frustrada. — Mas eu lhe prometo que vai se arrepender.
Conor deu uma risada. Laurel tinha coragem e vivacidade, e nada poderia ser mais
adorável do que a imagem dela sob a luz do luar.
— Imagino que sim, meu amor, mas somente na minha volta. Viajo amanhã cedo
com Cole e lorde Schellden.
A notícia espantou Laurel e ela esqueceu a raiva.
— Por que Cole terá de ir junto?
— Ele vai fazer treinamento como soldado da guarda de Schellden.
Conor surpreendeu-se por ter respondido. Não costumava dar satisfações a
ninguém, mas se sentia culpado por não facilitar a vida de Laurel e por ter de abandoná-
la logo após a chegada. E se a pergunta não o houvesse pegado desprevenido, teria
estranhado a mudança de atitude de Laurel, que o fitou com malícia.
— Conor — ela falou com doçura. — Não acha que o castelo está em condições
precárias? Se eu tiver de ficar aqui, gostaria de lhe pedir para fazer algumas modificações
e torná-lo habitável.
Ela o fitou com ar suplicante, pensando nos conselhos do avô: "Com mel se pegam
as abelhas".

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— Não faça mudanças que não possam ser desfeitas.


— Claro, milorde. Quanto tempo pretende demorar-se?
— Creio que uns quinze dias, e, por favor, não me chame de milorde.
— Desejo-lhe uma boa viagem, Conor. — Ela fez uma vênia, com aparente
submissão.
Mais tarde Conor entenderia que o comportamento de Laurel deveria ser encarado
como uma advertência.

CAPÍTULO IV

Laurel acordou na manhã seguinte ansiosa para iniciar as reformas. Ela teria apenas
duas semanas para fazer o que demandaria meses, mas seria tempo suficiente para
Conor se arrepender do acordo feito. Ela assumiria não só o posto de senhora do castelo,
mas também todas as decisões e responsabilidades inerentes à posição. E se ele não
gostasse das modificações, paciência. Ela o advertira para deixá-la na choupana. E para
morar no castelo, somente se ele se tornasse habitável.
— Milady? — uma voz suave chamou-a do corredor.
— Entre, por favor. — Laurel sorriu para a jovem que entrava.
A moça tinha cabelos castanhos crespos e olhos da mesma cor, parecia insegura e
retorcia as mãos.
— Milady, eu vim para ajudá-la esta manhã. Lorde McTiernay disse que eu deveria
servi-la como sua criada particular.
— Ah sei. Qual é o seu nome?
— Brighid, milady. — Ela não parava de retorcer os dedos.
Laurel adiantou-se e segurou-lhe as mãos para acalmá-la.
— A mãe de Conor tinha criadas de quarto?
— Não me lembro, milady. Ela tinha criadas que a ajudavam no banho e na hora de
se vestir.
Laurel sorriu, depois fitou a outra com seriedade e soltou as mãos dela.
— Eu também nunca tive uma criada pessoal e não sei se a idéia me agrada. Mas
eu adoraria que fôssemos amigas, Brighid, e também que me chamasse de Laurel.
— Sim, milady... Laurel.
Mais calma, Brighid passou a considerar os boatos a respeito da nova dama do
castelo. Diziam ter a hóspede inglesa desafiado lorde McTiernay e ainda estar viva para
contar a história. Contavam que ela o convencera a permitir modificações no castelo
enquanto ele estivesse viajando e todos estavam curiosos para ver o que ela faria.
Brighid quase recusara quando Conor lhe dissera que teria de atender a hóspede.
Ela nunca fora criada particular de ninguém e imaginava que prestar serviços a uma
inglesa seria horrível, ainda mais uma tola e mal-agradecida. Contudo, Laurel não
correspondia a nenhuma expectativa desagradável. Ela se mostrava simpática, gentil e
bondosa. Brighid sorriu, desarmada.
— Maravilhoso! — Laurel exclamou. — Assim é bem melhor. Tenho muitos planos e
pouco tempo para executá-los. Espero contar com sua ajuda e com a de Glynis, se eu
tiver sorte. Você poderia encontrá-la para mim? Por acaso conhece mais alguém que
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esteja procurando trabalho na propriedade?


— Ah, sim, claro, milady... Laurel. Muitos gostariam de trabalhar aqui, mas lorde
McTiernay proibiu.
— Bem, agora tudo mudou. Lorde McTiernay concordou com algumas modificações
e eu estou ansiosa para começá-las. Por fora, o castelo dá a idéia de ser um paraíso, mas
quando se entra nos salões, o mau cheiro desfaz qualquer boa impressão. Não sei como
alguém pode viver numa sujeira como essa. — Laurel fez uma pausa. — Perdoe-me o
arroubo. Às vezes não consigo conter a língua, mas é impossível discordar que uma
limpeza se faz necessária, não é? Posso contar com sua ajuda? Brighid concordou com
veemência. A idéia de melhorar o castelo seria bem-vinda, pois todos achavam o estado
atual uma vergonha.
Laurel sorriu, entusiasmada.
— Que maravilha! Por favor, traga Glynis e quem mais estiver interessado em
ajudar. Pessoas de qualquer idade, desde que vocês as achem adequadas e com energia
para trabalhar. Encontrem-se comigo no salão nobre.
— Sim, milady. Brighid sorriu e saiu correndo. Finalmente entendia o que ouvira
naquela manhã. Lorde McTiernay encontrará uma dama para seu castelo, embora nem
ele nem lady Laurel soubessem disso.
Laurel foi até a janela e inspirou fundo. Conseguir ajuda era o primeiro passo no
caminho de seus objetivos. Ela se comprometera e não havia como recuar. Minutos
depois, deixou o quarto, disposta a organizar tudo.
Ela chegou ao saguão, mas não sabia como alcançar o salão nobre. Viu alguns
soldados sentados à mesa comendo sobras do jantar da véspera. Esse hábito
desagradável teria de ser abolido. Toda a comida que sobrasse deveria ser descartada.
Nada de ficar azedando para a refeição seguinte. Era incrível como aqueles monta-
nheses mantinham a saúde apesar dos hábitos precários de higiene.
— Perdão, cavalheiros.
Os homens se espantaram. Aquela era a jovem que desafiara o chefe do clã e ainda
estava viva. E vê-la à luz do dia explicava os motivos. Era a mulher mais deslumbrante
que haviam conhecido e seus cabelos brilhavam como ouro sob os raios de sol que
penetravam pelas janelas.
— Poderiam me informar como chegar ao salão nobre?
Todos se levantaram ao mesmo tempo, procurando atrair a atenção de Laurel.
— Eu lhe mostrarei, milady — falou o mais alto e levou um cutucão nas costelas.
— Milady olhou para mim, não foi? Eu lhe indicarei o caminho.
— Sem dúvida, Arlen, você a levará pelo trajeto mais longo.
— Eu a conduzirei até lá — prontificou-se um homem de ombros largos. — Sou o
mais categorizado. — O assunto pareceu encerrado, mas não de maneira a agradar os
demais.
— Milady — o grandalhão apontou para a esquerda quando saíram do saguão.
— Obrigada. Qual é o seu nome, soldado?
— Buzz, milady.
— Que nome interessante. O meu é Laurel, e prefiro que me chame assim do que
"milady".
— Não seria apropriado usar o nome de batismo para a mulher de lorde McTiernay.
— Pois eu lhe garanto, Buzz, não sou mulher de ninguém, portanto não será
apropriado chamar-me de milady. Entendeu?
Buzz fitou-a e sorriu.
— Sim, milady. Laurel tentou fazer uma carranca, mas foi impossível diante do
sorriso de Buzz. Os montanheses eram extremamente teimosos quando metiam uma
idéia na cabeça. Ela o seguiu até uma construção de tamanho considerável no lado
oposto da muralha norte.

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Buzz abriu uma porta grande que dava acesso a um hall imenso. O teto era
abobadado com vigas de madeira. Na parede leste havia uma grande lareira. A mesa
principal ficava na extremidade do salão e era iluminada por uma janela grande na parede
norte. Uma entrada ogival atrás da mesa principal conduzia a pequenos compartimentos,
e um deles devia ser a latrina. Biombos de madeira, como no saguão, separavam o
recinto da área de serviço.
— Estamos no salão nobre, milady.
— Ele é mais comprido, mais estreito, e mais suntuoso que o saguão.
— Sim, e pode acomodar uma multidão, dependendo da disposição das mesas. No
momento está arrumada para lorde McTiernay jantar com a guarda de elite e com
eventuais visitantes. No passado era o local onde a família McTiernay se reunia e fazia as
comemorações.
Apesar de ser um recinto bem grande, era convidativo. Uma boa limpeza e a troca
do junco realizariam um efeito excelente.
No lado oposto, uma segunda lareira distribuía o calor. Laurel imaginou como seria
agradável receber amigos e familiares naquele salão. Conor sentado na plataforma
elevada na extremidade oposta à entrada... Ela e Conor ocupando as grandes poltronas
na companhia de familiares e amigos.
Laurel voltou de seus devaneios e observou que havia apenas duas mesas
arrumadas. As outras deviam estar no hall ou desmontadas em algum canto.
— Obrigada. Ahf Buzz, eu poderia contar com sua ajuda nos próximos dois dias? E
talvez eu precise de mais algumas pessoas.
— Mandarei doze homens pára ajudá-la. Isso será o bastante, milady?
Laurel foi até uma das grandes janelas de onde se descortinava a ravina. Ao longe,
as montanhas com os topos brancos, os campos verdes e as florestas compunham a
paisagem deslumbrante.
— Sim, Buzz, obrigada.
Buzz retirou-se e foi para o pátio, inspirando o ar frio da manhã. Era um pecado uma
jovem tão linda estar fora de seu alcance. O sorriso de Laurel poderia induzir um exército
a atender ao seu pedido. E não apenas por sua beleza, mas também por sua atitude.
De certa forma ela se parecia com milorde. Tinha o dom de inspirar respeito e
simpatia. Qualquer um seguiria alegremente suas instruções. A única vez em que Buzz
vira Conor perder o controle fora no pátio, na véspera, quando ele gritara com Laurel.
Agora entendia o que Glynis dissera. Lady Laurel era a mulher indicada para lorde
McTiernay.
Sorridente, Buzz foi à procura dos soldados que ajudariam a futura lady McTiernay.
Teria de escolhê-los com critério. Rapazes muito jovens poderiam arriscar o pescoço se
acabassem apaixonados por ela. Precisava de soldados casados e felizes. Falaria com
Finn e os dois decidiriam quais os soldados que deveriam trabalhar com Laurel até a volta
de Conor.
Glynis e Brighid reuniram várias mulheres e alguns homens para se encontrarem
com Laurel no salão nobre. Para alguns, era a primeira vez que pisavam na grande área
de recepção e ficaram impressionados. Laurel teve paciência por alguns momentos até
conseguir a atenção de todos e mais outros tantos para convencê-los de que falava a
sério.
— Milady, está querendo insinuar que pretende implantar mudanças no castelo
inteiro? — um dos homens mais velhos perguntou, parecendo ágil e esperto para a idade.
'
— Bem, não sei se os termos seriam exatamente esses...
— Pode me chamar de Dooly milady. — Ele fora um fazendeiro a vida toda, mas os
filhos haviam assumido seus encargos e ele estava ansioso para trabalhar na fortaleza.
Mas sem que tivesse de se opor à vontade de milorde.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— Não seria Dudley?


— Dooly.
— Muito bem, Dooly. Onde estávamos?
— Milady estava explicando como faria para consertar o castelo — respondeu um
dos mais jovens.
— Ah, obrigada. Você é Torrance, certo?
— Sim, senhora, mas as pessoas me chamam de Torrey.
— Estou atrapalhada com tantos nomes, mas eu lhes agradeço pela colaboração.
Bem, voltemos ao comentário de Dooly a respeito da fortaleza. Não pretendo consertar
nada, pois acredito que a estrutura seja perfeita e o castelo sólido.
— Se é sólido, então para que consertá-lo? — indagou o amigo de Torrey.
— Uma pergunta excelente. Estou me referindo à parte da limpeza, conservação,
administração e assuntos gerais. Entre eles a maneira de as pessoas comerem,
dormirem, tomarem banho, etc. Percebi que todas essas funções estão absolutamente
descuidadas.
— Tem certeza, milady? — perguntou outro dos mais velhos. Fallon, um homem
corpulento e forte, mais baixo do que as sentinelas, tinha cabelos vermelhos e crespos, e
barba vermelho-escura com vários fios brancos, Apesar da aparência rústica, parecia
compreender as idéias de Laurel.
— Posso assegurar que recebi autorização de lorde McTiernay para fazer mudanças
no castelo.
— Tem certeza de que ele compreendeu exatamente o que milady pretende fazer?
— Fallon não disfarçou um certo tom de comando na voz.
— Vou dizer apenas mais uma vez. — Laurel, sem paciência, batia a ponta do pé no
chão. — Eu farei as modificações que achar necessárias. Lorde McTiernay me proibiu de
morar fora do castelo e eu me recuso a conviver com essa sujeira. Não conheci lady
McTiernay, mas tenho certeza de que ela não aprovaria o estado em que tudo ficou
depois da morte dela. E até vergonhoso receber visitantes aqui. E como fui obrigada a
ficar aqui dentro, terei de fazer mudanças. Até a chegada da primavera, o castelo voltará
a ser bem organizado. Terá de ser limpo, arrumado e se tornará decente para as visitas!
Laurel parou de bater o pé. Olhou ao redor e sentiu-se constrangida. Mais uma vez
perdera o controle e, como sempre, por culpa de Conor. Se ele a tivesse deixado ficar na
choupana, ela não teria de discutir tal qual uma megera com aquele povo bondoso.
— Agora entendi, milady — Fallon anuiu.
— Sim, com sua explicação, tudo ficou esclarecido — Dooly concordou.
— Ah, sim — uma das jovens interveio. — Milady passou a ser a senhora do
castelo.
— Senhora do... Nada disso! Sou apenas uma hóspede que se recusa a viver
como... como um McTiernay! — A irritação de Laurel com os montanheses não se limitava
aos soldados.
Ela os viu sorrir com uma dose de malícia e inspirou fundo para se acalmar.
— Sinto muito por meu comportamento imperdoável.
— Não se preocupe, milady. Nós gostamos de pessoas decididas.
— Ah, Dooly, quer dizer que meu temperamento explosivo não os desagrada?
— Não, milady — Glynis respondeu. — Percebemos que milady é uma mulher
corajosa e enérgica quando enfrentou lorde McTiernay no pátio.
Oh, Senhor, todos sabiam da história!
— Agora sabemos que milady é honrada, sincera e que tem determinação para
cumprir as tarefas a que se propôs.
— E por que eu haveria de fazer o que não é certo? Será que imaginaram isso? —
Ela recebeu acenos afirmativos do grupo eclético ali reunido. — Posso saber o motivo?
— Milady desafiou o chefe do clã.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— Além disso, não se mostrou arrependida.


— Sim, eu vi isso com meus próprios olhos — disse um dos rapazes.
O que não era verdade. O pai dele presenciara a troca de asperezas e relatara aos
familiares que milorde em breve se casaria com uma inglesa. Outra possibilidade era que
a inglesa fizesse de todos uns tolos por ter desrespeitado um chefe de clã tão poderoso
como McTiernay. O pai do rapaz suspeitava que a primeira possibilidade era a correta,
pois McTiernay exigira que ela o chamasse pelo nome de batismo.
— Meu desacato às ordens de lorde McTiernay para ficar no castelo tornam-me
honrada?
— Oh, não, apenas corajosa.
— Ou tola — Torrey murmurou.
— Milady não é nenhuma tola! — O amigo dele defendeu Laurel.
— Milady mostrou honradez ao defender lady McTiernay e os desejos dela — Glynis
interrompeu a discussão.
Laurel admitiu que todos eram amistosos, mas as conversas deles a deixavam
confusa.
— Agradeço a compreensão de todos e agora eu gostaria de discutir meus planos.
Começaremos pelo hall e pela cozinha.
Todos se alvoroçaram, resistentes à idéia.
— Milady tem certeza de que pretende mexer na cozinha? Como...
Laurel decidiu agir com mais energia. Se desse atenção a todas as objeções, jamais
chegariam a um acordo e ela não faria nada até a volta de Conor. Mesmo tendo obtido a
permissão dele, certamente Conor não imaginava o teor das reformas pretendidas. Mas
depois de feitas, Laurel esperava que o agradassem.
— Tenho certeza de que teremos de fazer mudanças na cozinha, mas
começaremos pelo hall. Torrey?
— Sim, milady?
— Por favor, diga a Finn para me encontrar mais tarde. Preciso conversar com ele
sobre os novos regulamentos em relação ao pátio e ao hall.
Torrey não escondeu o espanto.
— Vá logo, Torrey — Laurel usou um tom autoritário e observou-o sair. Depois pediu
ao grupo que a seguisse até o hall.
Na véspera Laurel avaliara as condições daquele recinto e verificara que o junco era
velho, que em muitos locais nem mesmo existia. Sobre o mesmo havia restos de cerveja,
gordura, ossos, excrementos, e muitos outros dejetos que ali apodreciam e deixavam um
cheiro horrível.
Assim que ali entraram, Laurel começou a distribuir instruções. Sem perceber,
passou a falar em gaélico para explicar que o junco velho teria de ser retirado e
substituído por uma forração nova.
Algumas mesas seriam trocadas de lugar para facilitar a entrada e saída dos
criados. O hall precisava ser submetido a uma boa limpeza e as vidraças seriam lavadas.
As lareiras teriam de ser limpas e abastecidas com madeira seca, que ficaria empilhada
nas laterais.
— Aqui será um bom começo, e deixar este hall com aspecto decente será um
desafio. Por isso todos terão de trabalhar aqui por quanto tempo for necessário. Nos
próximos dias eu dividirei vocês em grupos para atuarem em diferentes partes do castelo.
— Ela sorriu.
Os corações que Laurel ainda não conquistara foram vencidos pelo comando no
idioma materno deles. Os dois homens mais velhos, que ainda estavam em dúvida se a
aceitavam ou não, foram vencidos pelo sorriso contagiante.
— Fallon, se lhe agradar, eu gostaria de encarregá-lo de dirigir os trabalhos deste
recinto.

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— Eu gostaria muito, milady, mas como poderemos limpá-lo se os soldados comem


e se confraternizam aqui?
— Nenhum deles poderá entrar no hall até que a limpeza seja completada.
— Isso poderá levar dias.
— Certamente e enquanto isso eles terão de encontrar outro local para conversar e
comer. Eu já comi, dormi e conversei ao ar livre e posso garantir que é melhor do que isto
aqui. — Laurel fez um gesto largo, abrangendo o recinto. — Glynis? Brighid? Por favor,
levem-me até a cozinha. Fallon, estarei lá se precisar de mim.
Enquanto se afastava, Laurel ouviu Fallon dar instruções em voz alta.
— Glynis, quero lhe fazer uma pergunta e desejo uma resposta sincera.
— Claro, milady.
— O que acha de assumir um cargo mais importante aqui no castelo? Estou me
referindo a tornar-se a governanta dos McTiernay. Entendo que não se trata de uma
posição habitual, mas...
— Milady, é a senhora quem vai resolver tudo.
— Digamos que o tamanho do castelo requer uma governanta para supervisionar a
organização. Será que seu marido não aprovará a idéia?
— Oh, não haverá problema quanto a isso. Dudley ficaria muito orgulhoso, e minhas
filhas podem tomar conta do trabalho de nossa casa, mas a responsabilidade é muito
grande. Eu costumava ajudar lady McTiernay, que Deus se apiede de sua alma, mas...
governanta! Elas são empregadas em castelos suntuosos, devido à importância do cargo,
e eu não quero desapontá-la.
— Não se preocupe, Glynis. Tenho experiência no assunto, mas devo admitir que
nunca me deparei com um castelo nestas condições. O que nós realmente precisamos é
de um administrador, mas não tenho idéia de onde poderemos encontrar um. Será uma
tarefa exaustiva trazer o castelo de volta à sua imagem anterior e treinar os criados para a
manutenção. Eu tenho confiança de poder contar com sua sinceridade. Preciso de uma
pessoa para informar-me sobre os costumes das Terras Altas e para esclarecer minhas
dúvidas. Por favor, fale com seu marido e dê sua resposta amanhã cedo.
Laurel fez uma pausa antes de falar com Brighid.
— Leve-me até a cozinha. Glynis, quem é a cozinheira?
— Hoje deve ser o turno de Fiona e portanto a comida será boa. Ela gosta de
cozinhar. A maioria detesta a tarefa, pois muitas têm de abandonar suas casas e fazer
comida para os guerreiros do clã.
— Entendo. E quem é a melhor delas?
— Fiona, com certeza. O bolo escuro que ela faz é excelente e derrete na boca, bem
diferente dos feitos por Melinda que milady provou ontem à noite.
Fora exatamente a refeição intragável que deixara a cozinha no alto da lista das
prioridades, Laurel pensou. O pão estava duro e cediço, a carne malcozida e sem gosto.
Ela se surpreendera que um clã daquele tamanho fosse tão mal alimentado.
Elas foram até a cozinha, situada entre o hall e o salão nobre, com portas de acesso
para os dois cômodos. Na verdade eram várias cozinhas menores que se fundiam,
formando um recinto maior. Havia fornalhas para aquecer e cozinhar carne, além de uma
lareira central, uma estrutura quadrada de pedra com exaustão externa para a fumaça.
Atrás da cozinha ficava a copa, onde eram lavados utensílios e as aves preparadas
para o cozimento.
Laurel, quando criança, conhecera várias cozinhas nas visitas que fazia com o avô e
a mãe, e aquela lhe pareceu muito espaçosa e bem aproveitável.
— Olá, Fiona.
A mulher grisalha e robusta que sovava a massa nem mesmo levantou o olhar.
— Meu nome é Laurel e serei hóspede de lorde McTiernay durante o inverno.
Nenhuma resposta.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— Ele me permitiu ficar e consentiu que eu efetuasse algumas melhorias no castelo.


Fiona não lhe dava a menor atenção e talvez pensasse em responder somente na
primavera.
— Fiona pode continuar sovando a massa, mas preste atenção. A partir de hoje,
você será a cozinheira do castelo e não fará mais turnos de trabalho com outras
mulheres. Escolherá suas ajudantes e a cozinha ficará sob sua responsabilidade. Se a
comida não for aceitável, você será substituída. Estamos entendidas?
A mulher idosa imprimiu mais força às mãos e Laurel percebeu que as ordens de
uma estranha não agradavam à outra, que franziu as sobrancelhas.
— Vou poder escolher minhas auxiliares?
— Sim, mas terá de comunicar à governanta Glyris de quem se trata. Elas deverão
ajudá-la a preparar e a servir as refeições.
— E vou poder escolher o cardápio?
— Esse detalhe terá de ser resolvido comigo ou com a governanta, mas nós
certamente apreciaremos suas sugestões.
Laurel imaginou qual seria o motivo da hesitação de Fiona.
Fiona gostava de preparar as refeições, era uma boa cozinheira e orgulhava-se por
sua comida ser apreciada por Conor. Mas tratava-se de um trabalho exaustivo, pois os
soldados pediam algo para comer o tempo inteiro.
— Fiona, mais uma coisa. As partir de agora, as refeições serão servidas apenas
três vezes ao dia. Homens berrando por um prato de comida é uma cena muito grotesca,
além do caos que isso provoca na cozinha. Por favor, acerte com Finn quais serão os
horários mais convenientes. Depois me deixe ciente sobre o que resolveram.
— Falando de mim? — Finn entrou.
— Chegou em boa hora, Finn, Vamos caminhar um pouco? Glynis, por favor, acerte
com Fiona o cardápio de hoje. Depois de falar com Finn, eu gostaria que me
acompanhasse num passeio pela fortaleza.
— Por toda ela?
— Sim, Glynis, quero ver tudo.
Laurel sorriu para Finn e, com pose de rainha, adiantou-se rumo ao pátio, seguida
por ele.
— Milady ouvi dizer que está fazendo mudanças no hall e que a entrada será
vedada a meus homens durante a reforma — ele falou com rispidez.
Laurel pensou em defender seus pontos de vista quando o viu sorrir. Algum dia
chegaria a entender aqueles montanheses? Mesmo assim, gostava muito deles.
— Finn, como comandante da guarda, fica encarregado dos soldados e do
treinamento deles na ausência de Conor?
— Isso ocorre mesmo quando ele está aqui, milady?
— Ah, então eu gostaria de contar com sua assistência em algumas coisas.
— Farei o que estiver ao meu alcance.
— Em primeiro lugar, preciso que mantenha seus homens afastados do hall até o
término dos serviços de limpeza. Creio que isso não lhe trará problemas, não é?
— Claro que não, milady.
— Foi o que imaginei. Quando não gostam de alguma coisa, os montanheses logo
se põem a esbravejar ou discutir.
Finn deu risada, mas não negou a verdade da afirmativa.
— E um pedido razoável, pois aquele hall precisa ser melhorado. Os homens ficarão
satisfeitos com a mudança — Finn confirmou enquanto se dirigiam à panificadora.
— Não duvido, e eu também gostaria que os soldados colaborassem, pois a sujeira
e a comida não se acumulam sozinhas no chão. Finn, sua tarefa é acompanhar o
desempenho de seus subordinados dentro e fora dos campos de treinamento, não é?
— Sim.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— Então espero que os soldados se mostrem à altura da educação que receberam


da mãe que os criou. Suponho que elas não devem ter-lhes permitido o desmazelo nem a
falta de compostura. Por favor, peça-lhes que se comportem de maneira mais civilizada
daqui por diante. — Laurel não deu a ele a chance de responder. — Bem, a alimentação
de todos deve melhorar bastante, mas para manter a boa vontade da cozinheira, será
preciso tratá-la com respeito. Fiona ficará encarregada da cozinha e eu lhe peço para
combinar com ela os horários mais adequados para as refeições.
— Ela irá cozinhar para todos? Como foi que milady conseguiu tal milagre?
Laurel deu um sorriso astucioso.
— Isso não importa.
— Fiona é a melhor cozinheira de todo o clã. Depois disso, creio que milady
conseguirá fazer qualquer coisa aqui dentro. Eu me perguntava como milorde reagiria
diante das mudanças, mas com Fiona na cozinha, ele aceitará qualquer coisa. — O
sorriso de Finn foi significativo.
— Bem, como eu dizia — Laurel não conseguiu encontrar um tom impositivo —,
combine com Fiona os horários mais convenientes para três refeições diárias. Assim ela
terá mais tempo disponível para caprichar na comida.
— Sim, milady. Algo mais?
— Só uma coisa, os treinamentos no pátio.
— Milady não vai me pedir para acabar com eles. ;Nem Conor nem eu
concordaríamos com isso, mesmo que Fiona nos desse comida na boca.
— Quem falou em acabar? Os montanheses são engraçados, adoram sair pela
tangente e imaginam despropósitos. Quantas horas por dia são gastas em treinamentos?
— Muitas horas, milady.
— Eu estava pensando em estabelecer períodos mais adequados para os treinos.
Notei esta manhã que as pessoas acabam atrapalhando os exercícios no entra-e-sai do
castelo para executar as próprias obrigações. Era verdade. Alguns meses antes, um
homem fora seriamente ferido durante os exercícios de esgrima.
— O que sugere, milady?
— Várias opções, Finn. Parar os treinamentos durante alguns minutos em períodos
predeterminados de tempo, ou parar durante uma hora pela manhã e outra à tarde.
Finn não gostou de nenhuma delas.
— Parar um treino no meio de um exercício e recomeçar dez minutos depois seria
tão difícil quanto contraproducente.
— Bem, os homens poderiam se exercitar no pátio pela manhã e fora do castelo
depois do almoço.
Finn achou a sugestão viável para os meses quentes, mas no inverno seria
impraticável ficar do lado de fora das muralhas. Mas ele haveria de encontrar outro local
para a prática de exercícios.
Laurel tocou na manga de Finn.
— Entendo que nenhuma das sugestões seja ideal para o exercício dos guerreiros,
mas os trabalhadores teriam melhores resultados em suas tarefas se ficassem afastados
dos soldados.
— Esteja certa de que procuraremos ajudar, milady. Laurel torceu as mãos,
envergonhada por tantos pedidos.
— Falei há pouco com Buzz, um homem muito bondoso, sobre pessoas para ajudar
nas mudanças e ele ficou de consultá-lo.
Finn achou graça no qualificativo de Laurel para Buzz, o briguento.
— Ele já falou comigo e nós mandaremos pelo menos meia dúzia de homens para
auxiliá-la nas tarefas mais pesadas. Podem ser diferentes a cada dia?
— Como for mais conveniente, Finn, e eu lhe agradeço a cooperação. Creio que por
ora é só. Mais uma vez, obrigada. Não esqueça de falar com Mona sobre a alimentação

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

dos homens, enquanto o hall estiver fechado, para estabelecer os horários.


— Sim, milady.
Finn afastou-se, espantado. Laurel cumpriria a promessa de fazer com que Conor se
arrependesse de não tê-la deixado ficar na choupana.
Laurel Rose Cordell sabia lidar com as pessoas. Até Fiona, considerada a mais
rabugenta do clã, concordara com o que Laurel sugerira. E por seu temperamento
obstinado, não fora escolhida por Conor para ser a cozinheira oficial do castelo. Ele na
certa não pretendia perder tempo discutindo com ela. E Laurel conseguira uma pronta
colaboração da mal-humorada Fiona.
Laurel não podia imaginar que solidificava o futuro no castelo com cada coração que
conquistava e com cada mudança que fazia.
Laurel e Glynis percorriam o castelo e, mesmo com muito para fazer, os objetivos
pareciam viáveis. Embora Laurel dissesse a todos que fazia tudo para não ficar mal
acomodada, ela só pensava em Conor. Queria deixar o castelo confortável para ele, para
a família e para os hóspedes. Seria um dos poucos presentes que poderia dar a Conor
por ele ter salvado sua vida.
Glynis não entendia como Laurel podia falar em gaélico sempre que dava instruções
ou sugestões aos membros do clã.
— Posso lhe fazer uma pergunta? Laurel assustou-se com a voz que a tirou dos
devaneios.
— Claro, Glynis, do que se trata?
— Como é que milady fala nosso idioma tão bem?
Laurel mordeu o lábio inferior. Como haveria de sair-se dessa enrascada? Ela
odiava mentir e não sabia fazê-lo com convicção.
— Bem, meu avô me ensinou a falar gaélico. Ele aprendeu com o avô dele e assim
por diante. Os parentes de minha mãe conheciam o idioma e ninguém sabia o motivo.
— Seu avô era escocês?
Como ela se esquivaria da pergunta? Talvez fosse melhor não responder.
— Eu morava junto aos montes Cheviots no condado de Northumberland. Isso fica
na fronteira da Inglaterra com a Escócia.
Glynis imaginou se Laurel pretendia esquivar-se das perguntas.
— Tem saudades de sua casa, milady?
— Sinto falta de caminhar na praia e sobre as falésias, e percorrer os portos de
pesca. — As duas passaram pelo portão da guarda e Laurel viu as montanhas cobertas
de neve e a vegetação luxuriante. — Mas depois de ter visto as Terras Altas, sempre me
lembrarei desta natureza exuberante.
Glynis não se deixou enganar pelas evasivas de Laurel e, exatamente por elas,
desconfiou da origem escocesa dela. Laurel também se referia ao lar no passado, como
se para lá não pretendesse voltar. Para onde ela iria na primavera? Talvez à procura de
algum parente escocês. Ansiosa, a criada queria terminar logo o passeio para espalhar o
boato.
— Ali é a estrebaria, e Neal é o responsável pelos cavalos de lorde McTiernay. Ele
trabalha aqui desde que milorde era menino.
Laurel acenou para Neal, que não estava preparado para o que viu. Ouvira dizer que
Laurel era uma beldade... ele a vira suja e com a roupa rasgada... e que milorde estaria
apaixonado por ela. Os comentários não eram exagerados. A dama que sorria para ele e
perguntava sobre Borrail era um verdadeiro anjo caído do céu.
— Seu cavalo ficará feliz em vê-la, milady. Ele fica inquieto por não fazer exercícios.
Laurel aproximou-se do cavalo, acariciou-lhe o pescoço e as orelhas.
— Não se preocupe, Borrail, não me esquecerei de você. No momento tenho muito
que fazer, mas assim que eu puder, sairemos para galopar. Isso o deixa feliz? — Laurel
murmurou.

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— Milady está falando em gaélico com o cavalo — Neal cochichou com Glynis.
— Sim, ela tanto fala em inglês como na nossa língua, algumas vezes até mistura os
idiomas numa mesma frase — Glynis respondeu num fio de voz. — Creio que ela nem se
dá conta disso. Neal, posso apostar que ela descende de escoceses. Ela é
temperamental e linda demais para ser inglesa pura. — Ela ficou satisfeita com a
anuência de Neal. — E o domínio do idioma confirma a minha teoria.
— Lorde McTiernay escolheu muito bem — Neal afirmou.
— Sem dúvida. Mas lady Laurel diz que vai embora na primavera, veja só.
Ela podia dizer isso e Conor podia dizer que a deixa-ria ir, mas Neal não se iludia.
— Vamos, milady? — Glynis chamou.
— Só um instante. Neal, quantos cavalos estão sob sua responsabilidade?
— Os de lorde McTiernay e os da guarda de honra.
— Há alguém para ajudá-lo quando todos estão no castelo?
Cuidar dos cavalos era um trabalho duro, e alguém teria de aprendê-lo para poder
dar continuidade no trato com os animais.
— Não preciso de ajuda. — Neal não sabia se deveria sentir-se insultado. Ela o
considerava incapaz ou um fraco?
Laurel tratou de explicar-se.
— Há muitos jovens no castelo que precisam aprender a tratar dos cavalos. Se os
rapazes soubessem como manejar as montarias, facilitariam o trabalho de Finn. O que
acha de ensinar um ou dois garotos de cada vez? Cuidar dos animais não é um trabalho
que possa ser feito de qualquer maneira e apenas quando for conveniente.
Desde que Conor dispensara a ajuda no castelo, Neal observava o conhecimento
dos mais velhos perder-se. Apenas lutas e estratégias de batalhas eram levadas em
consideração. Era prazeroso ser testemunha das mudanças que estava ocorrendo no
Castelo McTiernay. E ele não se esquivaria da ajuda.
— Seria um grande prazer ensinar os garotos — Neal afirmou com olhar brilhante.
— Vamos, Glynis. Nós estamos atrapalhando a labuta de Neal.— Laurel sorriu e
passou o braço no da mulher que rapidamente se tornara sua amiga.
Em seguida as duas foram à capela. Era uma construção retangular, simples, de
dois andares, que ficava ao lado da torre estrelada. A nave dividia o ambiente na
horizontal, separando a área reservada à família na parte superior. Os outros membros do
clã ficavam na parte inferior. A beleza da construção devia-se aos tetos em arco que
tinham sido pintados por um artista que visitara o castelo alguns séculos antes.
A abóbada pintada contrastava com a simplicidade abaixo. As naves laterais tinham
fileiras de pilares de pedra que suportavam o teto de madeira. Os bancos eram sólidos e
estavam empoeirados, e os destinados aos McTiernay eram estofados e a maioria
precisava de reparos. O altar mostrava estar em desuso por algum tempo.
— Glynis, não há um sacerdote aqui?
— Há, sim, mas ele não vem aqui há séculos.
— Logo se vê — Laurel falou mais para si mesma. — Depois que os homens
terminarem a limpeza do hall, eu os mandarei para cá.
— Sim, milady.
— As cortinas, os estofados e os revestimentos do altar precisam ser trocados.
Glynis conduziu Laurel para fora da capela.
— Há vários rolos de tecido na torre norte, e se me permite a sugestão, milady
poderia aproveitar alguns para fazer seus vestidos.
A princípio, Laurel pensou em recusar.
—Tem razão, não posso usar a mesma roupa todos os dias. — Ela olhou o traje
remendado. — Tem certeza de que os tecidos não serão empregados para outros fins?
— E eu lhe daria a sugestão se não fosse permitido utilizá-los?
Depois de passar a manhã com Laurel, Glynis sentia-se mais descontraída. A

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franqueza pareceu-lhe a melhor maneira de fazer sugestões para Laurel, que tomava
decisões rápidas. O Castelo McTiernay finalmente voltaria a florescer.
Glynis observou Laurel e mudou de direção.
— Milady deve voltar a seu quarto, pois logo será hora de jantar. Mandarei Brighid
preparar-lhe um banho e trazer alguns tecidos para sua apreciação.
Foi só então que Laurel percebeu que estavam na base da escada da torre
estrelada. Glynis terminara sutilmente a ronda do dia.
— Ainda é cedo, eu gostaria de ver...
— Por hoje é suficiente. Lorde McTiernay me torceria o pescoço se descobrisse o
quanto tem trabalhado, milady. Suas costelas ainda não estão curadas e notei sua
dificuldade para respirar depois de subir os degraus da capela.
De fato, a respiração estava dificultosa. Irritava-a sentir-se como uma inválida, mas
também sabia que, se não se cuidasse, acabaria na cama.
— Está bem, mas só por hoje — Laurel concordou e começou a subir a escada.
Laurel estava sentada no sofá perto da janela, olhando a paisagem quando bateram
na porta.
— Entre. — Ela esperava Brighid, mas foram os McTiernay mais jovens que
entraram no quarto. — Olá! Pensei que os dois tivessem acompanhado Conor e lorde
Schellden.
— Não nos permitiram ir. — Clyde sentou-se na cama da mãe, como costumava
fazer quando era pequeno.
Conan foi para o lado dele e esparramou-se para olhar o teto.
— Adoro este quarto. Mamãe nos deixava brincar aqui à vontade — Conan
comentou. — Mas depois que ela morreu, Conor trancou o quarto e não permitiu que
ninguém mais o usasse... até agora.
— Conor deve gostar muito de milady. Pretende se casar com ele? — Clyde
perguntou com inocência. — Ah, espero que sim. Milady é bela e bondosa como nossa
mãe.
— Obrigada, Clyde. Eu também gosto de todos, mas não creio que eu vá me casar
com seu irmão. Ele é um homem importante e precisa de uma mulher à altura de seu clã.
— Ah, mas milady é muito valorosa e inteligente. A maioria das pessoas acha
maravilhoso seu trabalho de limpar o castelo e que já estava mesmo na hora de nosso
irmão permitir modificações. Alguns acham inacreditável que milady tenha desafiado
Conor e receiam pelas conseqüências.
Clyde deu risada e jogou-se de costas na cama.
— Imagine quando a virem atirar uma adaga! Laurel ignorou o gracejo e olhou para
Conan.
— Conan, por que limpar o castelo seria como desafiar Conor?
— Conor disse que nós éramos mal-agradecidos.
— Como assim?
— Na época ele não se referiu a Clyde e a mim em particular, mas aos gêmeos e a
Cole, que eram piores do que nós. Uma noite ele ficou muito nervoso, mandou todos os
criados para casa e disse que não teríamos nenhum auxílio enquanto não
aprendêssemos a dar valor a quem nos ajudava. — Conan deu de ombros. — Suponho
que ainda não aprendemos.
Pobre Conor, tentando educar os irmãos, acabara se prejudicando, Laurel pensou.
Ela sentou-se na cama entre os dois e segurou as mãos deles.
— Seu irmão está certo ao afirmar que a ajuda deve ser tratada com cortesia e
gratidão, para contar com a boa vontade de todos. Mas, ao contrário de Conor, não
pretendo deixar a imundície no castelo por causa de alguns meninos "mal-agradecidos".
— Laurel, qual o significado exato desse termo? — Clyde indagou.
— Quer dizer que se não soubermos agradecer nem reconhecer o trabalho que

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

alguém faz por nós, não seremos merecedores de ajuda — respondeu Finn, entrando no
quarto. — Mandei trazer a água de seu banho, milady.
— Finn, isso não é de sua responsabilidade! — Laurel exclamou.
— Cuidar de seu bem-estar é parte de minhas obrigações enquanto McTiernay
estiver ausente.
Ele evitou comentar que Conor fora enfático ao encarregá-lo de organizar
pessoalmente tudo o que se relacionasse com Laurel, inclusive essa parte.
— Isso é bobagem, eu mesmo posso ir até a cozinha para tomar banho. Ninguém
precisa carregar água para cima e para baixo por minha causa.
Laurel foi até a porta, mas Finn impediu-a de passar. Ele era quase tão alto como
Conor, embora menos musculoso, mas foi uma barreira sólida.
Naquele momento, Brighid surgiu no corredor, carregando tecidos, fitas e rendas.
Espantou-se ao ver os rapazes sentados na cama e Finn argumentando com Laurel.
— Eu... desculpem-me. Quer que eu vá embora, milady? Glynis me disse que eu
deveria trazer-lhe isto, mas se milady está ocupada...
— Que ótimo, Brighid! — Laurel adorou a interrupção. — Esse deve ser o tecido
sobre o qual Glynis me falou?
A moça anuiu e Laurel examinou os panos.
— Estes não servirão, eu preciso de fazendas mais fortes para estofados e cortinas.
Somente o xadrez parece apropriado, mas nem esse será suficiente.
— Bem, milady, os outros tecidos não poderão ser disponibilizados enquanto não
forem feitos pelo menos cinco vestidos para milady.
Nervosa, Brighid notou o olhar arregalado de Laurel. Ela recebera instruções de
Glynis para não ceder a nenhum tipo de pressão, pois as ordens de Conor McTiernay
tinham sido expressas nesse sentido.
Laurel, por sua vez, não queria deixar Brighid constrangida diante de seus
superiores.
— Está bem, amanhã cedo conversarei com Glynis. Brighid pareceu aliviada.
— Sim, milady, devo deixar os rolos no canapé? Laurel não queria ocupar seu local
favorito. Começou a arrastar um sofá mais desconfortável para perto da lareira quando
Conan correu para ajudá-la.
— Obrigada por sua ajuda, Conan. Brighid, pode deixar tudo aqui. — Laurel
lembrou-se de Neal. — Finn, posso fazer outro pedido?
— Claro. — Finn estava curioso a respeito do que seria.
— Eu gostaria que Neal tivesse um ou dois aprendizes para ajudá-lo, em sistema de
rodízio. Ele está ficando velho e é muito difícil cuidar sozinho de todos os animais, —
Laurel impediu-o de argumentar. — Ele não se queixou, em absoluto, mas isso não quer
dizer que não necessite de ajuda. Além do mais, ele é uma fonte de sabedoria que não
pode ser desperdiçada.
— Sobre o que está falando, milady? Conor está certo ao afirmar que milady
argumenta em círculos.
— Não é nada disso!
— É sim. Milady pode rivalizar com minha mulher quando resolve confundir minha
cabeça. Aileen usa esse mesmo sistema. Para descobrir o que ela quer, é preciso
desvendar um enigma. E ela ficou ainda pior com o bebê que está a caminho. Nunca fala
exatamente o que pensa. Milady, o que está pretendendo dizer com fonte...
Ah os homens!
— Quero dizer que Neal conhece tudo a respeito de cavalos como cuidar e tratar
deles, e até como treiná-los. Esse conhecimento será perdido se não for passado adiante.
Dessa vez Finn entendeu e prometeu procurar dois rapazes para iniciar o
treinamento de cavalariços. Prometeu também que os garotos se revezariam para
aprender, o que traria conhecimento para muitos.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

E inesperadamente, Clyde pediu para ser o primeiro aprendiz de Neal.


Laurel não conseguia dormir. Fazia muito tempo que não se sentia tão satisfeita,
nem imaginava que se sentir apreciada e útil proporcionasse tamanho bem-estar.
Onde estaria Conor, o que ele estaria fazendo e onde dormiria? Repreendeu-se pela
centésima vez. Na certa Conor a esquecera assim que saíra da fortaleza, e por que ela
não podia fazer o mesmo em relação a ele?
Levantou-se e, quando pegou a túnica, notou-a úmida da lavagem. Ah, teria de
acrescentar um penhoar na lista de roupas que ela e Brighid haviam começado a preparar
naquela noite. Andou de um lado para outro e resolveu que a camisa seria suficiente.
Abriu a porta e espiou, embora não esperasse encontrar ninguém. Glynis lhe dissera
que apenas Conor e ela ocupavam aposentos na torre estrelada. Os outros membros da
família dormiam em outra ala do castelo, na torre norte. Os servos e os soldados, nas
torres leste ou oeste. Calçou as sapatilhas que encontrara no quarto e saiu, pé ante pé.
Sentiu-se culpada por usá-las, apesar de todos garantirem que a falecida lady McTiernay
teria insistido para que o fizesse.
No caminho, passou pelos aposentos de Conor, mas não parou. A torre tinha sete
andares, e ao chegar no alto, saiu pela porta que levava às ameias. A longa subida valeu
a pena. Laurel nunca vira as estrelas tão claramente e imaginou se dali não poderia
enxergar os anjos do céu. Sentiu-se livre, sem preocupações nem problemas. Feliz.
Apenas Conor fazia falta.
A alcova repleta de árvores perto do Castelo Stirling já não lhe parecia o lugar ideal
para beijar. Aquela torre enorme era o local mais romântico do mundo. Abraçou-se por
causa do ar frio da noite e começou a rodopiar junto ao muro, cantando.
Muitos soldados dormiam na torre, por fazer parte da guarnição permanente, e
vários ficavam junto aos parapeitos para vigiar, pelas ameias, a aproximação de
estranhos.
— Acorde, Gil — Fergus cutucou-o. — Acho que eu estava dormindo, pois vi a
mulher dos meus sonhos.
Gil virou-se e começou a roncar. Fergus não desistia com facilidade e deu um
empurrão no amigo.
— Um anjo está entre nós.
Gilroy, um soldado alto e magro, porém forte e esperto, sentou-se disposto a atingir
o companheiro mais baixo com um tapa na cabeça. Foi quando viu ao que Fergus se
referia. O mais belo dos anjos dançava na torre estrelada.
Era uma visão vestida de branco e com longos cabelos loiros que alcançavam a
cintura. Era alta e tinha um corpo perfeito que reluzia sob o brilho do luar. Gilroy pensou
em verificar o que acontecia para certificar-se de que a imagem era real, quando ela
desapareceu no ar, assim como surgira. Ele jurou para si mesmo que jamais se queixaria
dos deveres noturnos de vigilância.

Conor enfrentou mais uma noite agitada. Preocupava-se por ter deixado Laurel
sozinha e tentava convencer-se de que era sua promessa que o fazia pensar nela
constantemente. Estava dividido entre os deveres com o clã, os irmãos e Laurel. Jurara
protegê-la e acabara deixando o encargo para Finn.
Ai de Finn, se alguma coisa acontecesse a Laurel durante sua ausência! Conor
passara uma hora explicando a seu comandante o que os outros homens poderiam ou
não fazer em relação a Laurel.
Confiava em Finn para manter Laurel afastada dos perigos e dos homens
excessivamente atenciosos, ou não o teria dispensado da viagem à propriedade de
Schellden. Apenas Finn, que tinha um casamento feliz e seria pai em breve, parecia-lhe

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

capaz de resistir aos encantos de Laurel. Confiava em seus homens como guerreiros
capazes e leais, mas o fato de não ter intenção de pedir Laurel em casamento a deixava
vulnerável.
Conor refletiu que gostaria de ser como Finn, um admirador não vulnerável. Admitiu
que jamais uma mulher lhe despertara tanto desejo. Lembrou-se de como ela o desafiara,
recusando-se a ser intimidada. As mulheres do clã de Schellden que ora o rodeavam
portavam-se como todas as outras. Acovardavam-se ao menor olhar. Eram todas fracas,
sem opinião própria, e não podiam ser comparadas a Laurel, um mistério de cabelos
dourados e olhos da cor do mar. Fechou as pálpebras e lembrou-se da suavidade dos
lábios de Laurel, ávidos apesar da inexperiência.
Ansiava por abraçá-la novamente, como se os dois tivessem sido feitos um para o
outro. Receou enlouquecer de tanto desejá-la. E saber que ela correspondia fazia com
que fosse tomar um banho no lago gelado todas as noites.
Tinha menos de duas semanas para tirar Laurel Cordell do pensamento. Se não
conseguisse, acabaria se deitando com ela, independentemente das conseqüências.

CAPÍTULO V

― Milady? — Glynis chamou da porta. — Entre, Glynis. Laurel vestiu a túnica nova.
As costelas haviam melhorado muito nos últimos dias. Doía apenas levemente quando ela
subia ou descia a escada, e já conseguia se vestir sozinha.
— Ah, milady, está tão linda! Brighid é uma excelente costureira. Milorde ficará muito
satisfeito quando voltar e a vir usando o padrão xadrez do clã.
Ou não, Glynis pensou. Conor sempre fora possessivo, e se visse Laurel tão linda
seria capaz de exigir que ela voltasse a ficar mal vestida como antes.
— Não sei não, Glynis. Vestir o manto do clã me parece muita presunção. — Laurel
tirou uma poeira imaginária da dobra do ombro. Ela se encantava com a trama do tecido e
procurou um motivo racional para envergar algo que pertencesse a Conor. — Mas a lã é
quente e as noites estão se tornando mais frias.
— Nós tivemos um verão curto, o que às vezes acontece nesta época do ano.
Quando começa a esfriar, uma onda de calor pode aparecer e durar várias semanas, e
depois desaparecer. Muitos acreditam que isso é prenuncio de frio rigoroso.
Glynis ajudou-a com as pregas, pois Laurel ainda não tinha muita prática em acertá-
las.
As duas saíram e foram até o hall. Os reparos haviam demorado mais do que o
previsto, mas Laurel esperava reabri-lo para os soldados ao entardecer. Ela ficara
ocupada com os trabalhos do hall, do salão e da capela, sem tempo para visitar outras
partes do castelo, como a oficina do ferreiro e as demais torres. Imaginava que também
estivessem em mau estado, o que a faria iniciar outras frentes de trabalho. Seria preciso
cuidado e fazer uma coisa por vez.
— Milady, eu gostaria de lhe falar a respeito do administrador — Glynis comentou
quando elas entraram no hall.
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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

O recinto passara a ser um local agradável para os homens se reunirem, comer e


conversar sobre os eventos diários. As lareiras, depois de limpas, passaram a ser
novamente eficazes fontes de calor. As janelas tinham sido lavadas e deixavam entrar
mais claridade e mais calor durante o dia, e as mesas de cavalete podiam ser
desmontadas fora do horário das refeições. As melhorias, tanto ali como na capela, foram
surpreendentes e feitas sob a supervisão de Fallon, que foi alvo de comentário honroso
de Laurel.
— Era sobre ele que eu gostaria de falar, milady.
— Sobre Fallon?
— Sim. Eu a aconselharia a admiti-lo como administrador.
Laurel concordava com a proposta, mas não imaginava como tocar no assunto com
um homem tão difícil. Temia que ele se sentisse insultado e, por algum motivo, não
gostaria de desagradá-lo. Fallon era mais disposto a apontar erros do que elogiar, o que
fizera quando o excesso de projetos de limpeza resultará num atraso da reabertura do
hall. A temperatura caía e os homens se alimentavam de comida fria.
— Não creio que Fallon queira assumir o cargo, e eu não pensaria em aborrecê-lo
depois de toda a ajuda que ele nos prestou.
— Milady, Fallon é o administrador do Castelo McTiernay.
— Como é?! — Laurel exclamou e atraiu a atenção dos que estavam trabalhando e
logo abaixou a voz. — Que belo administrador! Deixou tudo em péssimo estado, e eu
achando que ele fosse um homem capaz!
— Milady não entendeu. Sabe que milorde dispensou todos, não é? Então...
— Oh, pobre Fallon, ele deve ter sofrido muito ao ver a fortaleza chegar a tal estado
de abandono. Não é por acaso que ele sempre sabia o que devia ser feito.
Laurel se sentiu culpada por ter duvidado da experiência de Fallon. Ela o nomearia
novamente administrador, pois ele era mais do que indicado para o cargo. Mas antes
precisava falar com ele.
Laurel encontrou Fallon no pátio conversando com Hamish e Loman. Ela sorriu para
os dois nessa primeira vez em que os via desde a volta deles.
Hamish e Loman observaram-na aproximar-se e sorrir. Hamish literalmente se
derreteu, e Loman deu razão a Finn, que o prevenira, assim como a Hamish e Seamus,
para manter o restante da tropa afastada de Laurel. E eles também deveriam manter
distância.
Finn aumentara propositalmente o tempo de treinamento, o que os deixava exaustos
no final da tarde.
Todavia, diante de Laurel usando uma roupa nova que acentuava a cor dos olhos e
destacava o tom dos cabelos soltos, Finn duvidou que algum dos homens dormiria
naquela noite apesar do cansaço. Conor teria de voltar o quanto antes e casar-se com ela
antes que algum outro se adiantasse a ele.
— Perdoem-me, cavalheiros, mas eu gostaria de falar com Fallon por um instante.
— Laurel não se incomodou com a presença dos demais. — Você nos tem prestado uma
ajuda inestimável nos últimos dias, na restauração do castelo, o que me fez pensar no
posto de administrador. Sabe do que estou falando, não é? — Ela fingiu inocência.
— Sim, milady, estou ciente do que é esse posto e de suas responsabilidades.
— Ótimo. Eu esperava contar com sua ajuda para treinar Scully como administrador
da fortaleza.
Loman e Hamish se entreolharam. Laurel certamente não conhecia o temperamento
de Fallon, que já fizera muitas moças correrem para casa aos prantos depois de uma
reprimenda.
— Milady deseja que eu ensine a função para Scully? — Fallon ergueu a voz.
— Sim, acredito que ele corresponderá à confiança que depositarmos nele.
Na verdade, seria um horror, apesar de Scully ser um homem de boa vontade. Ele

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

era esquecido, desajeitado e por isso acabava ocasionando desastres. Fora preciso
restringi-lo a áreas menos nobres, para evitar danos maiores.
— Scully tem um coração enorme e gosta de agradar. Não acha essas
características importantes?
— Milady perdeu o juízo! — Fallon gritou. — Boas intenções nada têm a ver com
bom desempenho. Um administrador precisa ser organizado, capaz de distribuir ordens e
tomar decisões, verificar o que precisa ser feito e ordenar a execução dos trabalhos. Ele
tem de se antecipar às necessidades de um lorde e executá-las antes que o lorde se dê
conta das faltas. Ele tem de conhecer a fortaleza por inteiro, detalhes de cada setor e de
seus responsáveis. Só assim será possível coordenar os requisitos necessários para o
funcionamento perfeito de um castelo, mesmo em caso de visitantes inesperados. Scully
não tem a menor idéia sobre a metade das funções deste castelo, quanto mais coordená-
las!
Laurel suspirou, indiferente à manifestação de desagrado, e ergueu a mão para
impedir a interferência de Loman e Hamish.
— Tem toda a razão, e por isso terei de lhe pedir apenas uma coisa. Não mantenha
mais toda sua capacidade oculta de mim, sr. Administrador. Você me manteve na
ignorância desse fato e mesmo assim exerceu um controle perfeito das reformas
enquanto trabalhou comigo. No entanto, esqueceu-se de mencionar um traço de caráter
que me parece importante. A honestidade, não é?
Fallon ficou sem voz. Hamish e Loman não se lembravam de uma única vez em que
Fallon tivesse caído na própria armadilha. Aquela seria uma história lembrada muitas
vezes.
Laurel compadeceu-se ao vê-lo emudecido.
— Então, Fallon? Eu preciso de ajuda, e somente você tem competência para isso.
Hoje pretendo visitar a panificadora e a oficina do ferreiro, e gostaria de contar com sua
orientação.
As palavras de Laurel trouxeram Fallon de novo ao normal.
— Pois não, milady. Seria muito bom milady ouvir meus conselhos nesses assuntos.
Os soldados observaram Laurel afastar-se com Fallon, conversando sobre vários
assuntos. Laurel Cordell nunca precisara da ajuda deles e o mistério a seu respeito
aumentava. Ela enfrentara Conor, convencera Fiona a ser a cozinheira efetiva e intimidara
Fallon.
No final da manhã, Laurel, Glynis e Fallon inspecionaram a panificadora. Fiona
estivera preocupada nas últimas duas noites com a qualidade do pão. O padeiro insistia
que o problema residia nas fornalhas. A cerâmica sempre aquecia demais e queimava a
parte externa do filão, tornando-o intragável.
O recinto para a panificação era escavado no penhasco situado sob as construções
das muralhas norte e oeste. O hall, o salão e a cozinha pareciam estar no primeiro
pavimento, quando na verdade ficavam acima dos cômodos incrustados na rocha. Era
uma maneira inteligente de aumentar o espaço e manter a segurança.
Laurel deveria ter imaginado isso ao ver o piso de madeira do salão nobre, em vez
de terra batida. O piso inferior estendia-se sob o hall e a cozinha, fazia uma curva sob a
torre norte e terminava na torre de supervisão, sendo usado para armazenar alimentos e
materiais necessários para o castelo, como armas, por exemplo, Laurel imaginou se o
tecido das cortinas estaria guardado ali. Glynis e Brighid se recusavam a procurar
qualquer coisa para a capela, enquanto o guarda-roupa de Laurel não estivesse completo.
Laurel não conseguira demovê-las e concluíra que teria de esperar pelas cortinas.
O local da panificação era pequeno se comparado a outros recintos ou ao de outros
castelos. O teto era arqueado, e a porta, sólida.
— Por aqui se vai às masmorras — Glynis explicou.
— Não temos prisioneiros, mas quem trabalha aqui embaixo prefere se prevenir.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

Havia um escoadouro para fora, uma fornalha e uma passagem de comunicação


com a construção principal. Fallon apontou o conduto da fornalha e Laurel deu razão ao
padeiro. Estava em péssimo estado.
— Serão necessários mais homens para o trabalho.
— Laurel suspirou.
— Teremos de remontar as pedras ao redor da lareira para permitir o escoamento
da fumaça — Fallon acrescentou.
Laurel concordou e garantiu a ele toda a ajuda necessária, fazendo da panificadora
a prioridade depois do término da reforma do hall. A capela poderia esperar, pois não
havia sacerdote. Eles precisavam comer.
Naquela noite o hall foi aberto e os soldados irromperam nele aos trambolhões,
como de costume. Mas em pouco tempo entenderam que, para desfrutar da comida
maravilhosa de Fiona, teriam de aprender a levantar-se quando uma dama entrava, a não
derrubar farelos no junco fresco e a evitar arrotos na presença de Laurel.
Aquela era a primeira vez em que muitos soldados viam a dama escocesa que viera
da Inglaterra, embora os boatos já tivessem percorrido todo o clã.
No início, os guerreiros foram atraídos por sua beleza, depois se encantaram com
sua inteligência. E quando ela deixou o hall para que pudessem comer à vontade, todos
se julgaram capazes de vender a alma para vê-la feliz.
Sem erguer a voz, Laurel podia dar ordens para um batalhão, assim como Conor
fazia. A postura regia de Laurel impunha respeito e, por mais que ela negasse, todos
acreditavam que ela seria a próxima lady McTiernay. No momento, era o que os impedia
de se aproximar dela com intenções matrimoniais.
No entanto, se Conor continuasse a refutar a idéia de casamento, num breve espaço
de tempo haveria homens duelando por ela.
Depois das histórias sobre Laurel e Fallon se esgotarem, o hall ferveu com as
conversas sobre um anjo branco que visitava o castelo McTiernay à noite. Alguns tinham
ouvido o anjo cantar, mas a maioria apenas enxergara a visão envolta em branco. Com as
noites claras, a guarda do castelo ficava mais numerosa para ver o anjo de McTiernay
dançando ao luar.

Conor galopava. Depois de ultrapassar a fronteira dos McTiernay, ele deixara Craig
e Crevan para trás com outros guerreiros. Era uma insanidade disparar naquela
velocidade, mas fazia dezesseis dias que ele não via Laurel. O que ela teria feito na
ausência dele? Recebera um bom tratamento? Finn conseguira manter os homens
afastados?
Claro que Finn seguiria suas ordens, e o mais provável era que Laurel estivesse
nervosa por não ter com que se ocupar. Ela tinha uma natureza irrequieta, embora fosse
capaz de se mostrar submissa.
Conor decidira acompanhar Cole até a propriedade dos Schellden para afastar-se de
Laurel com urgência, antes de acabar rendido às necessidades primitivas que o
atormentavam desde que a conhecera.
Àquela altura, Conor apenas desejava voltar e cumprir o prometido: zelar pela
segurança e pelo bem-estar de Laurel. Nunca mais entregaria aquela responsabilidade a
outrem. Somente ele poderia deixá-la a salvo de seu clã que tinha caráter desconfiado e
hostil. E, sendo inglesa, devia ter sido alvo de palavras pouco amáveis.
Conor subiu mais uma colina e cruzou o platô a todo galope. Em geral, costumava
visitar alguns parentes no caminho para saber como estavam passando e receber
notícias. Os membros do clã que viviam perto da fronteira raramente se aventuravam
naquele trajeto difícil para chegar ao castelo, ainda mais nos meses de inverno. Naquele

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

dia, Conor não parou nem mesmo para cumprimentá-los. Os que ouviram sua
aproximação mal tiveram tempo de vê-lo acenar na passagem.
Conor entrou no pátio do castelo, pulou do cavalo e estranhou não ver ninguém no
horário de treinamento dos soldados.
Nisso ele viu Neal e o filho do fazendeiro Angus que, de mão estendida, aguardava
as rédeas.
— Pegue o cavalo de milorde e ande com ele um pouco antes de escová-lo — Neal
instruiu o rapaz antes de falar com Conor. — E um prazer revê-lo, milorde, embora o
esperássemos um pouco mais tarde. Notícias de sua volta acabaram de chegar. Lady
Laurel ficará encantada em vê-lo, — Assim que se recuperar do choque.
Saber que Laurel o esperava deixou Conor mais descontraído, mesmo sem imaginar
o quanto lhe importava que Laurel se preocupasse com sua volta.
Laurel provavelmente pensara nele, assim como ele não a esquecera. O que não
seria estranho. Afinal, ela conhecia poucas pessoas e devia sentir-se solitária.
— Peça a lady Laurel para encontrar-se comigo no salão nobre — ele disse para
Neal antes de escutar o tropel de um cavalo.
Finn aproximou-se e desmontou.
— Espero que tenha feito uma boa viagem, milorde. Se está procurando por lady
Laurel, informo-lhe que ela não está no castelo.
Finn não esperava ser atirado no chão com violência.
— Explique o que está acontecendo! — Conor bradou, e os que se aventuraram a
saudá-lo afastaram-se rapidamente.
— Ela está bem, Conor, isso eu posso garantir. — Finn sentou-se, ajeitou a túnica e
esfregou o pescoço e o ombro que tinham sido alvo do ataque de Conor. — Milorde sabe
que eu a protegeria com minha vida, assim como faria com qualquer McTiernay.
— E por que Laurel está fora do castelo? Eu o encarreguei de protegê-la na minha
ausência! — A raiva de Conor escondia seu receio,
— Protegê-la, sim, mas não encarcerá-la, o que teria sido impraticável mesmo com
milorde ao lado dela. — Finn ficou em pé e permaneceu fora do alcance de Conor.
— Finn, responda-me! Onde está Laurel?
— Ela saiu montando Borrail, decerto com intenção de caçar para o jantar. — Finn
sabia que Conor ficaria furioso com a primeira das surpresas.
— Neal! Meu cavalo... imediatamente! Por que Laurel teve de ir caçar? Os homens
se recusam a fazer isso por ela ser inglesa? Se for isso, eles se arrependerão!
— Conor, ela gosta de caçar e é muito habilidosa. Além do mais, vários soldados
sempre estão com ela.
Finn montou no cavalo.
— Nossos homens serão incapazes de providenciar a carne e precisam de uma
mulher para fazer isso? Ou estarão se recusando a alimentar uma inglesa?
O ímpeto exacerbado de Conor deixava evidente a importância de Laurel para ele.
Finn precisava acalmá-lo antes que todos os planos de Laurel fossem arruinados. E
se Laurel se aborrecesse, Aileen também ficaria infeliz.
— Milorde nunca se preocupou tanto com o bem-estar de uma mulher.
Conor estacou ante as palavras desafiadoras de Finn.
— Laurel soube de sua volta e esteve elaborando um cardápio com Fiona para
recebê-lo. Algumas caças são demoradas para conseguir e quando ela se ofereceu para
trazê-las, também não acreditei, mas tive de admitir sua habilidade como caçadora. Laurel
é extremamente, capacitada para usar nossas armas e é uma amazona excelente.
Lembre-se do que ela fez com a adaga. E posso lhe dizer que todos os homens se
apaixonaram por ela.
Finn entendeu a tolice do que dissera assim que acabou de falar. Naquela altura
ninguém escaparia da raiva de Conor. Deus que protegesse Laurel!

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

Eles foram até o campo de treinamento onde Laurel, ladeada por Loman e Hamish,
montava Borrail. Concentrados nos exercícios e por causa do barulho das espadas, não
ouviram a aproximação de Conor e Finn.
— Conor, antes que resolva desforrar a ira em seus homens, devo avisá-lo que pedi
a Loman e a Hamish para ficarem com Laurel enquanto eu vinha saudá-lo. Esta foi a
primeira e única vez que eles ficaram com Laurel sem a minha presença.
Conor incitou o cavalo para diante e escutou parte da conversa sem que Laurel o
notasse. Os cabelos longos de Laurel brilhavam sob o sol da tarde. Embora presos na
nuca, madeixas finas dançavam sobre os ombros ao sabor da brisa. Ela se mantinha
ereta e sua postura era elegante e graciosa. Conor admitiu mais uma vez que Laurel tinha
um encanto único.
— Milady, a escolha das armas, da vestimenta e dos cavalos é determinada pela
velocidade que será necessária em uma batalha — Loman explicava.
— Eu nunca vi nenhum homem usar armadura nos treinamentos. Isso não afetaria a
habilidade de lutar em ocasiões mais perigosas?
— Milady está pensando como uma inglesa. Armaduras deixam um homem mais
pesado e diminuem a velocidade e a precisão. É uma carga e um estorvo numa batalha.
Mesmo assim, alguns montanheses gostam de usar cachecóis no pescoço como
proteção, mas lorde Conor acha isso um desperdício de tecido. Nenhum cachecol
impedirá a morte de um homem com nossas espadas de folha larga.
Laurel estremeceu.
— Com um treinamento adequado, não há necessidade de usar armadura —
Hamish interveio. Seu ardor por Laurel não diminuíra naquelas duas semanas, conquanto
entendesse estar ela muito longe de seu alcance.
— As armaduras devem ser usadas para proteger o cavalo, e essa é uma das
responsabilidades de um guerreiro — Loman acrescentou.
— Isso não faz sentido — Laurel espantou-se.
— Dependendo do tipo de batalha, lorde McTiernay exige que sejam amarradas
correntes nas coxas dos cavalos para evitar o ataque das lanças — Hamish explicou.
— E quando o combate é de espadas contra flechas?
— Esquecemos lanças e adagas.
Loman aproximou o cavalo e apontou um grupo de homens a distância que fazia
exercícios com lanças longas de comprimentos variáveis entre dois e cinco metros.
— E esta, para que serve? — Laurel apontou uma lança de cerca de um metro e
meio de comprimento.
— Ela é forjada com lâminas de espadas velhas. — Conor adiantou-se. — A beira
afiada tem uma boa extensão de corte e a ponta aguçada é usada para perfurar. É uma
arma mortal usada apenas por guerreiros e não por damas.
— Conor! — Laurel virou-se para vê-lo, esfuziante de alegria. — Você voltou!
Para Conor, a imagem de Laurel aliviou sua alma sedenta e ele a olhou da cabeça
aos pés. Ah, como a desejava!
— O que faz aqui, meu amor? Não estava caçando?
— Estava, e já mandei um homem entregar as carnes para Fiona. Ah, Conor, estou
tão feliz com sua volta. Fizemos tantas inovações e eu... — Laurel arregalou os olhos, o
que dava a seu rosto uma fragilidade aparente.
— O que houve de errado, Laurel? — Conor indagou ao vê-la empalidecer.
— O que está fazendo aqui? — Laurel gritou e olhou para Finn. — Você disse que
milorde poderia demorar dias para regressar! Eu queria tudo arrumado no hall e ainda há
muito para fazer! — Laurel virou o cavalo. — Finn, mantenha-o afastado até que eu
mande avisar. Esta é uma ordem! — ela gritou e saiu a galope.
Conor alcançou-a e puxou as rédeas de Borrail, mas Laurel ofereceu resistência.
— Se não parar de lutar pelas rédeas, eu pararei nós dois de uma vez! — Conor

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

avisou-a.
Laurel entendeu que Conor não estava brincando e concordou em reduzir o passo.
— Agora me diga o que tinha de estar pronto para a minha volta. Vejo que nada de
ruim lhe aconteceu e Finn me disse que meus irmãos estão ótimos. Do que se trata,
Laurel Rose Cordell?
— Conor McTiernay, nem pense em voltar para casa e chamar-me de tola depois de
meu trabalho insano!
— Para casa? Este é meu castelo!
Laurel girou na direção dele e, veladamente, procurou retomar as rédeas de Borrail.
Como podia um homem ser tão exasperador e cativante ao mesmo tempo? Conor usava
um kilt, o saiote xadrez pregueado e parcialmente trespassado, cinturão, espada e uma
camisa solta e colorida com açafrão que era bastante pregueada.
Nisso ela reparou no olhar de Conor, que se divertia, embora quisesse dar a
impressão de estar com raiva. Laurel lembrou-se de como ele apreciava sua
determinação e disse a si mesma que ele se surpreenderia.
— O castelo não apresentava condições de moradia. — Laurel procurou parecer
enérgica e convincente. — Você permitiu que eu fizesse modificações, embora não
permanentes. E com a ajuda dos membros do clã chegamos a bons resultados. Eu queria
estar a seu lado para celebrar as conquistas e evitar que entre no castelo sem perceber o
esforço de todos. — O que a faz pensar que eu não apreciaria o que eles fizeram?
— Clyde.
O que o irmão dissera para convencê-la que ele não gostaria do que fora feito?
Eles cavalgaram em silêncio até cruzar a barbacã e as muralhas da fortaleza. Laurel
parou e encarou Conor. Sem conseguir pensar em outra coisa, ele admitiu que faria
qualquer coisa que Laurel lhe pedisse. Só pensava em fazê-la feliz.
— Conor... — A coragem de Laurel começava a se dissipar. — Eu apenas... Bem,
por favor, não se aborreça. Entendo que posso ter me excedido em minha autoridade,
mas todos foram muito prestativos. O castelo é muito grande e, no estado em que se
encontrava, não refletia seu status de um poderoso chefe de clã.
Conor sentiu o coração disparar. Laurel torcia as mãos, claramente preocupada com
a reação dele diante do que ela fizera.
— Diga-me exatamente o que devo esperar, Laurel.
— Conor, não posso estragar a surpresa.
Conor pensou em interrogá-la, mas ao fitar os lábios carnudos e macios, perdeu a
capacidade de raciocinar. Tudo o que queria era beijá-la.
Antes que a prudência o fizesse refletir, puxou-a por cima de seu cavalo, sem se
importar com o que os outros pensariam. Alisou para trás os cabelos de Laurel e notou os
olhos rasos d'água.
— Laurel, diga-me o que você fez. — Ele lhe acariciou o rosto. — Prometo que não
ficarei nervoso, querida. Você derrubou alguma coisa ou construiu uma nova ala?
Laurel adorou estar novamente nos braços dele. Conor transmitia calor, força e
segurança. Ela sabia que deveria responder à pergunta, mas naquele momento só lhe
ocorria a lembrança da última vez em que ele a beijara. O desejo se tornava insuportável
e apenas as regras de bons costumes evitaram que atirasse os braços ao redor do
pescoço de Conor e o beijasse.
Conor, no entanto, não se incomodou com a adequação do momento. Com os lábios
entreabertos, Laurel arfava. O tempo e a distância não haviam diminuído a atração que
sentia por ela, forte e poderosa, quase tangível.
Conor cedeu a seus desejos e beijou-a. A correspondência foi instantânea e Laurel
entreabriu os lábios sob a boca persuasiva que a provocava com a língua ávida e quente.
Timidamente a princípio, Laurel imitou os movimentos dele, agarrou-o pelos ombros
e puxou-o mais para perto. O beijo a incendiava e espalhava uma sensação feminina e

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

primitiva dentro dela.


Laurel ouviu um gemido e depois de vários segundos entendeu que saíra de seus
próprios lábios. Conor estava a ponto de explodir diante da inocência e da resposta
apaixonada de Laurel. Ela se derretia nos braços dele que, por sua vez, era estimulado
pelos gemidos e suspiros suaves. Conor segurou-lhe os seios e passou o polegar sobre o
mamilo coberto. A submissão de Laurel era completa e Conor procurava descobrir o que
havia por baixo das saias dela, quando escutou a aproximação de cavalos.
Interrompeu o beijo e rapidamente trouxe Laurel de volta à consciência. Santo Deus,
ela era linda, pensou, enquanto Laurel tentava se recompor do pequeno desvario. Conor
entendeu como estivera perto de perder o controle e recriminou-se. Não podia fazer isso.
Casamento e Laurel não eram para ele. Jamais se comprometeria com uma mulher.
— Conor! Lady Laurel está bem? — Craig gritou às costas deles e notou Conor
escondendo Laurel antes de deixá-la de novo sobre o garanhão cinzento.
Laurel se sentia envergonhada por sua falta de compostura depois de tantas
promessas que fizera a si mesma. O plano era ser cortês, mas distante, e amigável
enquanto permanecia a uma distância física segura. Como fora parar nos braços de
Conor assim que ele chegara?
— Estou muito bem, Craig — respondeu por sobre o ombro, enrubescida, enquanto
conduzia Borrail ramo aos portões da fortaleza. — Prazer em vê-los novamente, Seamus
e Crevan.
Ela acenou sem os fitar. Precisava de alguns instantes para se recompor.
Entraram no castelo e Laurel desmontou.
— Eu estava pedindo um favor a milorde — explicou a Craig.
— No colo dele, milady?
— Ela estava caindo do cavalo — Conor mentiu, procurando enganar os irmãos.
Ele claramente não pretendia proclamar o que acontecera, e parecia desejar que
nada houvesse ocorrido. Laurel perguntou a si mesma se Conor lamentava tê-la beijado.
Segurou as rédeas de Borrail para levá-lo à estrebaria, mas Clyde apressou-se em
fazer isso por ela.
— Clyde, o que está fazendo na cavalariça? — Conor perguntou, incrédulo. Havia
anos que ele tentava inutilmente fazer com que os irmãos mais novos assumissem
alguma responsabilidade no castelo.
— Foi idéia de Laurel. Ela queria que Neal tivesse ajuda e assim poder
transpassar...
— Transmitir — Laurel corrigiu-o.
— Isso mesmo, para Neal transmitir seus conhecimentos à geração mais jovem. —
Clyde ficou feliz em ter captado o sentido das palavras de Laurel quando ela convencera
Neal a aceitá-lo como um dos primeiros ajudantes. — Assim, aprenderei tudo sobre
cavalos. É preciso levá-los para fazer exercícios diários, escová-los e tratar deles. Esse é
meu trabalho, e Neal diz que isso é muito importante. Se eu for um bom aprendiz, no
futuro serei um guerreiro mais valoroso.
Clyde olhou para o irmão em busca de encorajamento.
— Neal, fico satisfeito em ver que está ensinando a Clyde o que sabe. Se ele for
relapso, por favor, me avise.
— Milorde, Clyde é um bom rapaz, ansioso para aprender, e aprende depressa. Ele
tem se desempenhado muito bem com a montaria de sua esposa e não se descuida de
seus deveres. Mas se isso acontecer, Fallon e eu o corrigiremos.
Conor permitiria que Fallon e ele assumissem os encargos do castelo como antes?
— Clyde? — Conor fitou o irmão com o cenho franzido.
— Sim, Con... quero dizer, milorde? — O menino se corrigiu ante o olhar
desaprovador de Neal.
Neal o instruía sobre os modos de lealdade e respeito. Conor era irmão de Clyde,

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mas antes de tudo era o superior de Clyde como chefe do clã. Isso requeria deferência e
reconhecimento.
— Sugiro que escute Neal e acate o que ele diz, caso contrário suas preocupações
não se restringirão somente a mim. Parece que terá de se explicar com Fallon também.
Neal sorriu e ajudou-o a segurar os cavalos.
— Neal? — Laurel chamou-o. — Não se esquecerá sobre hoje à noite, não é?
— De maneira nenhuma, milady. E depois desta noite, duvido que milorde também
esqueça — Neal falou por sobre o ombro, tentando disfarçar o quanto se divertia.
Aquilo era ridículo, pensou Laurel. Neal se referia a ela como se fosse a mulher de
Conor. Era preciso esclarecer a todos, inclusive a Conor, que ela não era mulher de
ninguém!
Laurel esqueceu que Crevan, Craig e Seamus estavam atrás de Conor.
— Conor McTiernay, nunca mais me beije desse jeito! Por acaso disse a seus
homens que somos casados? Tenho a impressão que sim, pois eles não param de referir-
se a mim como sua esposa!
Conor se surpreendeu. Estaria Laurel tentando prendê-lo numa armadilha? Fazia
anos que tinha conhecimento desses truques detestáveis.
— Não, Laurel. Eu já lhe disse que nunca me casarei! — Conor berrou para que
todos ouvissem. — Não pedirei ninguém em casamento, independentemente das
artimanhas que possam arquitetar!
Laurel ergueu o queixo e seus olhos faiscaram.
— Não creio que tenha entendido, lorde McTiernay — ela revidou. — Fui eu, e não
milorde, quem decidiu que nada há entre nós. Mesmo que me pedisse em casamento, eu
jamais o aceitaria! Além do mais, se algum dia eu me casar, seu brutamontes grosseiro,
escolherei um cavalheiro educado e atencioso, e não um gigante gritador que mantém
seu castelo desorganizado e sujo!
— Então a senhorita se casará com um inglês baixote, fracote e idiota! — Conor
rugiu, furioso pela idéia de Laurel se casar com outro.
— Não me unirei a nenhum britânico, mas a um escocês... de preferência atencioso,
cavalheiro e... bem-educado! — Laurel notou a multidão que surgia de todos os cantos.
Oh, Senhor! Acontecera de novo. Será que ela nunca aprenderia a se controlar
diante de Conor? Ela o acusava de ser rude depois de Conor tê-la salvado. O que os
outros não pensariam a respeito?
Ela se recompôs de imediato, sem traços da irritação anterior.
— Agora preciso finalizar os preparativos — afirmou com voz doce que nem de
longe lembrava o temperamento explosivo. — Prometa-me que não fará nenhuma
alteração antes de discutirmos a respeito. — Laurel hesitou antes de cochichar. — E que
não deixará ninguém perceber que os resultados não foram de seu agrado. Lembre-se,
eles fizeram tudo isso para agradá-lo. Eles o amam, Conor McTiernay, não se esqueça
disso.
Laurel afastou-se rumo à torre estrelada sem ouvir a resposta. Conor, ainda zonzo
pela altercação e com a brusca mudança de atitude de Laurel, percebeu o sofrimento em
sua fisionomia.
Sem saber a que mudanças ela se referia, entendera que Fallon estava de volta ao
trabalho, provavelmente assumindo as funções anteriores. E por intermédio dele, haveria
de descobrir o que estava acontecendo, para depois decidir se mudaria alguma coisa.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

CAPÍTULO VI

Sentado no salão nobre, Conor observava os soldados e os membros do clã falarem


sobre os acontecimentos do dia. Laurel ainda não chegara, mas ele soubera de muitas
coisas desde que ela se afastara.
Fallon preparara um banho e o ajudara a vestir-se para a celebração noturna.
Enquanto se banhava, Conor conseguira que o antigo criado lhe contasse alguma coisa.
Laurel conseguira um milagre após desafiá-lo. Fazia anos que ele dispensara o
auxílio dos membros do clã, na tentativa de ensinar os irmãos a dar valor pela ajuda. O
resultado fora um desastre, mas ele não admitira o erro. Permitira apenas o trabalho
necessário para manter a integridade estrutural do castelo.
Quando Fallon contou que fora reintegrado no cargo e que Laurel restabelecera a
ordem no castelo, Conor entendeu o motivo do nervosismo dela. Como ela ousara
assumir responsabilidades que competiam a ele? Conor quis falar com Laurel
imediatamente, mas decidiu acalmar-se primeiro.
Mais tarde, Finn lembrou-o do aviso de Laurel no dia da discussão. Conor começou
a esbravejar, afirmando que não dera permissão a ela para contratar pessoas nem para
limpar o castelo.
— Milorde, eu o respeito mais do que a qualquer outro e o seguiria na mais acirrada
das batalhas para defendê-lo, assim como a todos os McTiernay, em quaisquer
circunstâncias. Mas não quero escutá-lo negar suas promessas.
— Aquelas não foram meras palavras, Finn, e eu poderia matar um homem por dizer
que não mantenho minhas promessas.
A raiva que Conor sentia pela interferência de Laurel era profunda, e a calma que
conseguia aparentar, apavorante.
— Talvez não o tenhamos entendido bem na noite anterior à sua partida, quando
milorde concordou que a fortaleza não estava em boas condições de ser habitada. — Finn
recostou-se na parede de pedra, esperando que Conor entendesse a armadilha que
Laurel preparara para ele, porém Conor insistiu que Laurel fora intrometida e ardilosa para
conseguir os objetivos.
— E quais seriam esses objetivos? — Finn começava a irritar-se por Conor não
enxergar o que acontecia.
— Vingança, pura e simples. Laurel disse que eu me arrependeria e foi o que
aconteceu. E eu lhe asseguro que a minha vingança será duplamente mais doce.
— Milorde, nunca o vi agir de maneira tão impertinente, mas suponho que sempre
haverá uma mulher que faça um homem agir dessa maneira, um dia ou outro.
Finn não se abalou com o olhar fulminante de Conor.
— Olhe a seu redor, milorde! Isso não é vingança, é amor! Milorde tem idéia do
quanto Laurel trabalhou preparando tudo para a sua volta? Se olhar para as mãos dela,
notará como estão ásperas, pois ela não se contentou em só mandar e ajudou a todos.
Milorde por acaso imaginou o motivo de Laurel, uma inglesa, ter sido tão prontamente
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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

aceita por seu povo? Ela trabalhou todos os dias ajudando, limpando, organizando o que
chamou de "o lar de milorde".
Conor continuava a encarar Finn com o semblante sombrio.
— Laurel tomou decisões acertadas. Ela começou por fazer reparos nas choupanas
para o inverno e deu ocupação para quem desejava trabalhar. Fez questão de conhecer
os membros do clã e seus problemas para adequar melhor as necessidades do castelo a
seu povo. Devolveu a eles não apenas a segurança, mas o orgulho. Se quiser um
conselho, milorde, não diga nada contra Laurel na frente de ninguém, com exceção de
mim e Fallon. Os membros de seu clã são leais a milorde, mas também a lady Laurel.
O fato de seu povo tê-la aceitado deixou Conor mais calmo. Ele receara que Laurel
fosse espezinhada por eles.
— Mas ela é inglesa...
— É, mas Glynis descobriu que ela também descende de escoceses e espalhou a
notícia. Os homens e as mulheres passaram a encarar Laurel como uma compatriota,
ainda mais que ela domina nosso idioma.
Conor esquecera de perguntar a ela a esse respeito.
— Laurel confirmou ser escocesa?
— Creio que não. Essa deve ter sido mais uma das famosas conclusões de Glynis,
mas como o boato só beneficiou Laurel, não tomei nenhuma atitude em contrário. E nesse
caso, creio que Glynis pode ter acertado.
As peças se encaixavam. Laurel admitira querer se casar com um escocês, mesmo
sem revelar toda a verdade sobre o que lhe acontecera.
Conor continuou a matutar sobre os antecedentes familiares de Laurel e sobre as
mudanças que ela fizera nos dois cômodos. A do hall era impressionante. Antes ele se
recusava a entrar no recinto malcheiroso e tão pouco cuidado por seus homens e seus
irmãos. Agora estava limpo, cheirava bem e tinha até cortinas.
O salão nobre fora escrupulosamente limpo e a mobília fora remanejada para
facilitar a entrada e a saída das pessoas. O junco fresco que cobria o chão perfumava o
ambiente. As lareiras irradiavam calor sem enfumaçar o recinto.
Foi quando a celebração começou.
Um banquete digno do clã mais poderoso foi arrumado sobre as mesas, sem deixar
dúvidas quanto à atividade da cozinha. Havia carnes de veado, pato, coelho, lebre e
javali. No centro, um pavão assado e decorado com as penas. Várias outras aves
espalhavam-se nas travessas, inclusive pombas, calandras e tordos. Finn comentou que
várias carnes puderam ser preparadas por Laurel ter saído à caça dos animais.
Muitas vezes Conor se sentara à mesa com líderes aliados e desejara ter uma
refeição melhor para oferecer. Naquele momento, ele reconheceu que sua fortaleza
deixaria orgulhoso qualquer lorde. Os homens pareciam mais felizes e bem-comportados.
Até seus irmãos o surpreendiam, procurando não parecer desalinhados nem
indisciplinados.
Conor notou uma certa hesitação de seus homens em relação a ele e perguntou o
motivo. Foi Aileen, a mulher de Finn, quem respondeu.
— O que esperava, milorde? — Ela balançou a cabaça e os cabelos fulvos. —
Todos estão apreensivos.
Aileen era uma mulher alta de feições delicadas que a faziam parecer muito jovem,
apesar da barriga já pronunciada. Os olhos castanhos sempre alegres demonstravam
censura naquela noite.
— Foi a sua lady Laurel que tornou tudo isso possível e foi por sua visão e vontade
que milorde está diante de um banquete tão maravilhoso. Quem, a não ser ela, poderia
induzir Fiona a fazer alguma coisa? Foi lady Laurel quem a convenceu a cozinhar em
caráter permanente para milorde.
Conor não fora informado a respeito e refletiu no que mais Fallon teria ocultado dele.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

A personalidade difícil de Fiona era tão lendária quanto sua extraordinária habilidade na
cozinha, e no entanto, Laurel conseguira persuadi-la.
— É verdade — Clyde interveio, favorável a Laurel. — Todos fariam qualquer coisa
por lady Laurel. Para o bem de todos, ela usou um truque para Fallon aceitar o cargo, e
agora os dois são grandes amigos. Ouvi Fallon e alguns soldados dizer que protegeriam
lady Laurel até mesmo de milorde. — Clyde mordeu um pedaço de carne e começou a
mastigá-lo. — Por que teriam dito isso, Conor? Será que ignoram que milorde jamais a
faria sofrer? Que milorde a salvou de pessoas más e que a trouxe aqui para ser
protegida?
Conor não chegou a responder. Um brinde em altas vozes atraiu a atenção de
todos, e a compreensão do que Clyde acabara de dizer foi imediata, Todos falavam em
louvor de Laurel. Os membros do clã a defendiam e trabalhavam com afinco para que ela
se sentisse bem-vinda.
Aquela revelação atingiu Conor profundamente. Seu desejo era deixar Laurel
tranqüila e satisfeita em sua fortaleza, então por que se incomodar com as
demonstrações de carinho e lealdade que seu povo dedicava a ela? A questão passava
pelo sentimento de posse e não o agradava. Além disso, aborrecia-se por outro homem
receber de Laurel palavras de reconhecimento e respeito que deveriam ser dirigidas a ele.
Gritos sufocados atraíram a atenção de Clyde que, de queixo caído, olhava para a
entrada do salão nobre. Conor virou a cabeça, viu o que chamara a atenção de Clyde e
prendeu a respiração. Os céus haviam enviado um anjo para o Castelo McTiernay e seu
nome era Laurel Rose Cordell.
Laurel pensara em não comparecer à comemoração depois de ouvir os gritos de
Conor sobre traição e vingança. Mas o sexto sentido lhe dissera que se tratava da
primeira reação e que Conor acabaria por apreciar as mudanças. Pelo menos, era o que
Laurel esperava.
Laurel refletira sobre as possibilidades de sucesso enquanto tomava banho, se
vestia e tentava, em vão, prender as madeixas com pentes.
— Lady Laurel, por que não deixa os cabelos soltos? — Brighid perguntara ao
entrar. — Eles são tão brilhantes e sedosos... e certamente atrairão as atenções de
milorde.— A moça piscou e tirou os pentes da mão de Laurel que novamente insistiu nada
haver entre ela e Conor.
Brighid concordou para não discutir, mas presenciara a altercação entre os dois
naquela manhã e, como os demais, não tivera dúvida quanto aos sentimentos de ambos.
Laurel decidira deixar os cabelos soltos com a desculpa de que ajudariam a disfarçar
o exagero do vestido que Brighid fizera. A túnica azul-marinho tinha um corpete de veludo
bordado em contas e justo sob os seios. 0 colar de cristal de quatro voltas dava um toque
gracioso ao vestido. As mangas bufantes eram azul-esverdeadas e diáfanas como a
sobressaia. Brighid insistira na manta do clã, mas Laurel se recusara a usá-la.
Laurel entrou no salão nobre, ouviu os sussurros, e o orgulho a impeliu para a frente.
Conor não conseguia desviar os olhos dela. Estático, como se um raio o tivesse
atingido, não conseguiu se mover durante alguns segundos. Os cabelos loiros e soltos
acentuavam as feições perfeitas de Laurel e a cor do vestido ressaltava a cor dos olhos.
O vestido revelava as curvas bem-feitas, e o tecido ondulava com o caminhar de
Laurel. Ela calçava sapatilhas que combinavam com o vestido, ao contrário de muitas
montanhesas que andavam descalças até no inverno. E o efeito geral fazia crescer o
desejo que atormentava Conor.
Os membros do clã se reuniram ao redor de Laurel para cumprimentá-la pelo
desempenho. Modesta, ela creditou os melhoramentos ao esforço do povo de McTiernay.
Conor observou o intercâmbio de carinho entre os membros do clã e Laurel, e a
conclusão foi óbvia. A despeito das afirmativas de Finn, de Fallon e da própria Laurel,
aquela gente não se empenhara por ele, mas sim por ela. Todos, inclusive ele, a

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

amavam.
Conor levantou-se e, como os demais admiradores, foi ao encontro de Laurel. E ao
vê-lo, ela entendeu que a raiva fora substituída por afeto e admiração.
Receando que Laurel se recusasse a comer a seu lado, Conor a conduziu pela mão
até a cadeira de espaldar alto próxima à dele, e Laurel o seguiu calmamente.
Ela tentara acalmar o coração quando vira Conor vir a seu encontro. O traje dele era
magnífico: túnica longa com mangas largas e jaqueta curta ricamente bordada. Não
portava arma e estava descalço, o que aumentava a sensualidade de sua aparência.
Antes de conhecê-lo, um homem sem sapatos lhe pareceria ofensivo.
Ela contemplou Conor durante toda a noite e maravilhou-se com o brilho das
chamas que se refletiam nos cabelos escuros e na pele bronzeada. Os olhos cintilavam
de alegria enquanto ele escutava as histórias contadas pelos irmãos. Não podia haver
homem mais atraente.
Laurel sorria enquanto acompanhava a conversa a respeito da viagem às terras de
lorde Schellden. Craig era o mais animado, relatando casos engraçados a respeito de
Cole e de seus primeiros dias como integrante da guarda de honra. O riso de Laurel era
contagiante e fazia qualquer um gravitar ao redor dela. Depois de algum tempo, Laurel
anunciou o início das danças e ordenou o desmonte de algumas mesas para aumentar o
espaço central.
Dooly foi o primeiro a convidar Laurel para dançar, e ela aceitou, alegre. Conor
sentiu-se invadido por ondas de ciúme ao notar que todos os homens observavam Laurel
dançar e desconfiou que esse sentimento de posse não o abandonaria.
Durante as horas seguintes, os convites para dançar se sucederam um após o outro,
sem pausa. Jovens e velhos, altos e baixos, magros e gordos, todos faziam fila,
esperando ser recompensados. Laurel, sempre sorridente, não recusou nenhum.
Aileen decidiu bancar a casamenteira, depois de analisar os homens rendidos aos
encantos de Laurel. Finn tentara dissuadir a esposa de vir, pois uma mulher às vésperas
de dar à luz não deveria estar em uma festa, mas ela fora irredutível. Ele não pôde deixar
de sorrir quando a viu sentar-se ao lado de Conor, fingindo inocência.
— Esta é uma noite triunfante, não é, lorde McTiernay? — Aileen não se sentiu
desencorajada por não obter resposta. — Acredito que milorde ficará bastante ocupado
nas próximas semanas, porque ouvi vários homens cochicharem a respeito de pedir a
mão de Laurel. Milorde já pensou em como fará para decidir entre os pretendentes?
Aileen começou a brincar com as fitas das mangas, olhando para a multidão como
uma criança ingênua.
— Lady Laurel é adorável. No começo, todos imaginavam que ela fosse destinada a
milorde. Mas os dois descartaram a hipótese com veemência, o que acendeu a esperança
de muitos homens. Quando fui apresentada a ela, tive a impressão de que a conhecia
havia muito tempo e logo nos tornamos amigas. Portanto espero que milorde saiba
escolher um bom marido para ela. Aliás, tenho de perguntar a Laurel se ela decidirá
esperar até a primavera ou se pretende se casar imediatamente.
Aileen sorriu e juntou as mãos.
— Bem, milorde, preciso ir. Prometi a Finn que não ficaria até tarde.
Conor relanceou um olhar desconfiado para Aileen, que se levantou e deixou o hall
com Finn, conversando com vivacidade.
Conor conhecia Aileen havia anos. A intenção dela era óbvia e certamente não fora
ditada por Laurel. O que Aileen dissera não era novidade, depois de analisar o
comportamento dos homens presentes ao lado de Laurel. Mesmo assim, ele pretendia se
manter afastado dela.
Conor tomou um grande gole de cerveja e escutou a conversa de alguns homens às
suas costas, que não ficavam com as canecas vazias graças à eficiência de uma das
criadas.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— Ela sorriu para mim!


— Nada disso, foi para mim — disse outro.
— Ah, eu poderia dançar com ela a noite inteira. Ela tem um perfume de flores de
primavera e eu morreria feliz se a tivesse a meu lado.
Os três haviam dançado algumas vezes com alguma das moças e Conor só
percebeu de quem se tratava quando eles discutiram sobre a cor dos olhos da jovem.
Eles estavam apaixonados por Laurel.
Eles também não sabiam definir se os olhos de Laurel eram azul-escuros com laivos
verdes como o mar ou ver-de-azulados como os lagos das Terras Altas.
Conor foi até uma das janelas com vista para a ravina e procurou controlar o ciúme
que germinava rapidamente em seu coração. Admitiu a própria irracionalidade, pois
Laurel não estava flertando com ninguém, muito menos acenando com algum tipo de
intimidade para os homens. E não tardou a ouvir outro grupo de soldados debater sobre o
futuro de Laurel.
Eles argumentavam sobre os prováveis candidatos à mão de Laurel, tendo em vista
que lorde McTiernay descartara a possibilidade de unir-se a ela em matrimônio. Aileen
estava certa. Em breve uma corrente humana masculina pediria Laurel em casamento.
Como ele faria para contornar o caso?
Como Conor não dançara com Laurel nem uma só vez, aumentava a certeza de que
ele realmente não pretendia desposá-la.
Os guerreiros continuaram a discutir sobre qual deles fora o preferido de Laurel e,
diante do não-comprometimento de Conor, estavam ansiosos para assumir o papel de
marido e protetor. Conor esforçou-se para permanecer calmo e indiferente, mas perdeu o
controle quando o comentário chegou aos lábios carnudos de Laurel que pediam beijos.
Conor não se lembrava do que dissera ao berrar, mas em minutos o salão nobre
ficou vazio, restando apenas Laurel, que o encarava.
— Pare de me olhar com tanta raiva, Conor McTiernay! Não fui eu quem mandou
todo mundo embora. O que foi que aconteceu e por que eu tive de ficar aqui?
— Precisamos conversar. Laurel estreitou os lábios.
— Sobre a superioridade com que se comportou esta noite? Milorde não dançou
com ninguém, ficou sentado, solene, e só conversou com seus irmãos e com Finn. Até
mesmo Aileen foi ignorada, o que a fez retirar-se mais cedo.
— Ah, então você notou minha presença? Pensei que isso seria impossível diante
da multidão de admiradores.
— Multidão de admiradores? — Laurel ofendeu-se. — Conor McTiernay, seja
objetivo antes que eu perca a paciência!
Conor aproximou-se e agarrou-a pelos braços.
— O que está tentando fazer, Laurel Rose Cordell? Quantos homens quer
arrebanhar como pretendentes? Todos? Talvez seja conveniente fazer outra festa e
convidar os soldados da sentinela que não puderam comparecer, para eles também se
encantarem com sua beleza.
— Excelente idéia, contanto que milorde não estivesse presente! — As lágrimas
queimavam nos olhos de Laurel. — Você é um homem insuportável, e não sei por que eu
desejei tanto que estivesse aqui.
— Não seria para eu testemunhar a lealdade a seu comando e ficar sabendo
quantos homens se ajoelharam a seus pés?
— Ora, mas que idéia ridícula! — Laurel engoliu um soluço. — Todos me respeitam
por sua causa e trabalharam pensando em agradá-lo! Posso saber o motivo de seu ódio?
— Laurel baixou a voz. — Não fiz isso por minha causa, mas por você.
Ela finalmente deu vazão ao pranto. Comovido, Conor afastou as lágrimas do rosto
dela com o polegar.
— Por mim, Laurel? Achei que desejasse apenas uma vingança por eu não a ter

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

deixado ficar na choupana.


Laurel abaixou o olhar e os cílios longos descansaram nas faces.
— Eu apenas não queria assumir mais nenhuma dívida de gratidão. — Ela olhou
para cima. — Então vi uma maneira de ajudá-lo, devolvendo o castelo à sua forma antiga.
Dessa forma seu status seria beneficiado e você poderia receber condignamente seus
amigos e aliados.
Conor fitou-a e todo o ressentimento evaporou-se diante dos lábios umedecidos
pelas lágrimas, dos olhos grandes e interrogativos e da pele suave. Era uma combinação
inebriante.
— Sua ajuda foi inestimável, Laurel. Eu deveria ter cuidado dos cômodos há muito
tempo.
— Então por que se exaltou dessa maneira?
—Você é minha, Laurel, e está na hora de parar com fingimentos — Conor afirmou
com voz profunda e rouca. — Não permitirei que nenhum homem a corteje, pois acabo de
descobrir que é inaceitável a idéia de outro a beijar ou tocar.
Conor impediu-a de responder com um beijo lento e terno que sugeria desejo, mas
também afeição. Laurel sentiu as pernas enfraquecerem è apoiou-se em Conor para não
cair. E a um queixume de Laurel seguiu-se um gemido de Conor.
Ela entrelaçou os dedos nos cabelos de Conor e abaixou ainda mais a cabeça dele,
acentuando o fervor do beijo. Conor passou a ponta da língua nos lábios de Laurel e ela
os entreabriu, prendendo a língua dele e sentindo um aperto no baixo-ventre e uma
ansiedade até então desconhecida.
A boca de Laurel era quente e convidativa, e Conor gemeu, frustrado, antes de
soltar-lhe os lábios. Ela arqueou as costas e Conor traçou uma trilha de beijos em seu
rosto e pescoço, inspirando a fragrância feminina que despertava nele uma necessidade
primitiva e poderosa.
Jamais uma mulher o afetara daquela maneira. Com Laurel nos braços, perdia o
controle e a noção do tempo. Nada mais importava a não ser ela. Virou-a e encostou-a
contra a parede de pedra, pressionando os quadris em seu abdome.
— Você é minha, Laurel, agora e para sempre. Laurel estremeceu e Conor tornou a
beijá-la, acariciando-lhe o busto com mãos quentes e fortes, sentindo os mamilos
endurecerem sob o vestido. Levantou-a nos braços e sentou-se na poltrona perto da
lareira, com ela no colo, continuando com os carinhos sensuais.
Tirou-lhe as sapatilhas, passou a mão por baixo das saias de Laurel e explorou a
suavidade das pernas nuas.
— Preciso tocá-la e sentir sua pele, amor — sussurrou antes de pressionar os lábios
nos dela.
Em seguida beijou-lhe a orelha, por dentro e por fora, despertando ondas de desejo
entre as pernas de Laurel. Ela mal teve consciência de que se agarrava em Conor e se
erguia para propiciar um toque mais íntimo.
Ele desejava sentir cada centímetro de Laurel e despertá-la para o êxtase. Abaixou
as mangas do vestido pelos ombros e o busto de Laurel ficou à mostra. No íntimo, Laurel
sabia que era preciso impedi-lo de prosseguir, mas nada fez. Jamais sonhara com as
sensações físicas que Conor lhe despertava e não foi capaz de interrompê-las.
Ele continuou a beijá-la com avidez, sem encostar nos seios. Depois do que pareceu
a Laurel uma eternidade, ele roçou os contornos delicados e acariciou os mamilos róseos.
Ela sufocou um grito. As mãos ásperas proporcionavam sensações maravilhosas,
indescritíveis.
Conor procurou conter-se, apesar do desejo que o atormentava e das respostas
instintivas de Laurel, que o incendiavam por dentro. Ele teria de fazê-la experimentar o
prazer para ela nunca mais duvidar que lhe pertencia. Quando a noite terminasse, Laurel
não mais pensaria em deixá-lo nem imaginaria casar-se com outro.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

Laurel supôs que nada aumentaria aquela sensação enlouquecedora, quando Conor
beijou-lhe um dos seios e provocou o mamilo até uma tensão insuportável. Ela arranhou-
lhe as costas e Conor acariciou-lhe a parte interna da coxa, os dedos seguindo o mesmo
ritmo da língua no busto.
— Conor, não! — ela gemeu quando Conor alcançou a junção entre as pernas.
Mas logo esqueceu a restrição. Conor passou a beijá-la com paixão ainda mais
intensa e Laurel entreabriu as pernas.
— Você é macia e quente, meu amor...
Conor inalou a fragrância de flores e de excitação, e entendeu que Laurel devia
estar úmida. Deslizou a mão para cima até quase alcançar a intimidade de Laurel e, com
um gemido rouco, a penetrou com os dedos. Laurel prendeu a respiração e ficou imóvel.
Segundos depois, abriu os olhos e tentou afastar a mão de Conor.
— Amor, calma. — Conor moveu devagar os dedos para dentro e para fora,
passando o polegar no ponto mais sensível. — Confie em mim, eu jamais a machucaria.
Deixe-me mostrar-lhe como será entre nós dois.
— Conor, eu confio em você mais do que em qualquer outra pessoa. Oh... — O
restante da frase foi perdido com a continuidade dos movimentos cada vez mais rápidos.
Lágrimas de prazer afloraram aos olhos de Laurel. Ela sentiu o mundo girar, sufocou
um novo grito e agarrou-se em Conor, arqueando o pescoço para trás. Seus músculos se
contraíam em espasmos incontroláveis, enquanto seu corpo tremia. Ela não suportava
mais a agonia, sentindo-se a ponto de explodir.
De repente ela imaginou que o céu se abria e a inundava com sensações
indescritíveis. A razão deixava de existir e a experiência era um presente lindo e
misterioso que Conor lhe concedera.
Aos poucos a consciência voltou. Laurel se viu no salão nobre, sentada no colo de
Conor com as pernas abertas. Ela arfava, abraçada nele e com o rosto aninhado no peito
musculoso. O coração, que batia em descompasso, poderia ser ouvido do outro lado das
paredes. Conor a segurava por baixo da saia, enquanto ela procurava entender o que
acontecera.
Inebriado com a mescla de odores de Laurel, Conor sentia o coração bater em
uníssono com o dela. Admitiu que só pensara numa coisa: dar-lhe prazer. E ele jamais
pensara em satisfazer uma mulher, colocando-se em segundo plano. Embora não tivesse
alcançado o clímax, chegara muito perto, e a sensação fora infinitamente melhor do que
as anteriores, com mulheres experientes.
Dar prazer a uma jovem inocente como Laurel era gratificante. Conor abraçou-a e
endireitou as mangas do vestido, mas Laurel continuava agarrada nele.
— Conor, o que houve? Eu não consegui me controlar, nem queria! Foi tudo tão
estranho e eu não sabia o que fazer...
Sensibilizado, Conor ergueu-lhe a cabeça e beijou-a suavemente.
— Você não tinha de fazer nada, apenas deixar que eu a amasse. E assim será
sempre, você não terá de impedir coisa nenhuma, Laurel. Nós teremos muitas
oportunidades para repetir o que houve hoje. — O receio de comprometer-se
desaparecera por completo.
— Mas isso não é certo, Conor, e jamais deveríamos fazê-lo. E como não podemos
nos controlar, deveríamos ficar afastados um do outro — Laurel manifestou-se com
inocência.
Conor carregou-a nos braços rumo à torre estrelada.
— Por que a seu lado eu não consigo pensar nem me comportar corretamente? —
Laurel perguntou, com a cabeça encostada no ombro dele. — Devo ser uma devassa que
não consegue manter as mãos longe de você.
— Laurel acariciou-lhe os ombros.
— Isso acontece porque você é escocesa, meu amor. — Conor entrou nos

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

aposentos dela e deitou-a sobre a cama.


Como ele descobrira? Conor conheceria seu avô? Ou ela teria deixado escapar uma
palavra indiscreta? Conor não entendeu a tensão de Laurel.
— Conor, eu não sou escocesa.,— Ela ergueu o corpo, procurando parecer
convincente.
— É, sim, Laurel, ou pelo menos será quando o padre Lanaghiy chegar. — Conor
sorriu, procurando deixá-la à vontade.
Laurel só pensava no perigo que o clã Maclnnes poderia estar correndo.
— O padre Lanaghiy não pode mudar os fatos. — Laurel se levantou e foi até a
janela para observar o céu noturno. A neve não demoraria a cair.
— Pode sim, meu amor. E com certeza o fará em breve.
Laurel virou-se.
— O que um sacerdote tem a ver com isso?
— Muita coisa, se nós nos casarmos.
— Conor, não posso ficar aqui, nem me casar com você! Eu preciso ir embora!
Conor aproximou-se, impressionado com a angústia na voz dela.
— O que a impede de se casar comigo, Laurel? O quê? — Conor sentiu o grande
receio de Laurel e desejou ser aquele a quem ela pediria proteção.
— Existe outra pessoa? Você já é comprometida?
— Não, Conor! Como lhe ocorreu pensar nisso? Jamais haverá outro para mim! —
Em pânico, Laurel segurou o rosto dele. — Por favor, não me peça para eu me casar com
você. Onde estão suas idéias contrárias ao matrimônio?
Conor segurou-lhe as mãos.
— Laurel, meu amor, não se preocupe tanto. Jamais deixarei que alguém a
prejudique.
A esperança no olhar de Laurel surgiu e desapareceu em segundos.
— Não se trata apenas de mim, e eu não podia deixá-lo magoar a quem amo,
mesmo que não fosse de maneira intencional.
Conor franziu o cenho e apertou as mãos dela.
— Laurel, por acaso está se referindo a outro homem?
— Conor, eu já lhe disse. Nunca houve, nem haverá outro.
O coração de Conor ficou mais leve.
— É seu irmão?
— Não.
Laurel soltou-se das mãos dele, foi até a lareira e abraçou-se, numa tentativa de
afugentar o frio interior. Conor acabaria por descobrir a verdade mais cedo ou mais tarde,
e talvez a melhor coisa a fazer fosse explicar-lhe tudo. Ele entenderia por que ela teria de
ir embora na primavera e desaparecer. Seria preciso mudar o nome, os cabelos, qualquer
coisa para os Douglas nunca mais a encontrarem.
Conor aproximou-se por trás, abraçou-a e beijou-lhe o alto da cabeça.
— Laurel, permita que eu a ajude. Não poderei protegê-la enquanto os segredos não
forem desvendados. Confie em mim.
Laurel inspirou fundo. Chegara a hora de desabafar, Se não pudesse confiar em
Conor para ajudá-la, então em quem confiaria? E ela resolveu encaixar a peça que faltava
naquela noite de horror.
— Quando Keith Douglas me raptou, eu não estava na Inglaterra. Eu tinha ido visitar
meu avô, que mora na fronteira da Escócia.
Laurel era escocesa!
— Fale-me sobre ele.
— Ele é o pai de minha mãe, e quando ela era jovem fugiu para se casar com meu
pai, um barão inglês. Ele já tinha sido casado, e tinha um filho, Ainsley, meu meio-irmão.
É triste afirmar que meu pai não amou a primeira mulher, pelo menos não como amava

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

minha mãe.
— Laurel hesitou, tornou a respirar fundo e prosseguiu:
— Embora meus pais fossem apaixonados, meu avô não aceitou a união. Depois de
alguns anos eu nasci e meu avô ficou mais tolerante. Afinal, eu era a primeira neta. Mas
meu pai não esqueceu a rejeição de meu avô e recusou-se a pisar em solo escocês.
Mesmo assim, não impediu que minha mãe e eu visitássemos meu avô várias vezes por
ano.
— Foi assim que você aprendeu o idioma gaélico. — Conor gostaria de protegê-la
de todos os males do mundo.
— Foi. Desde criança eu adorava meu avô, que era muito diferente de meu pai e
não apenas em tamanho, pois meu avô é um homem grande. Vovô era muito carinhoso,
não se cansava de fazer brincadeiras comigo e de contar lindas histórias. Nós dois
tínhamos uma afinidade especial e minha mãe dizia que éramos parecidos, talvez na cor
dos olhos e dos cabelos.
Laurel virou-se nos braços de Conor, buscando compreensão e apoio.
— Faz muitos anos que não vejo meu avô. Depois que minha mãe morreu, meu pai
não me deixou voltar à Escócia nem permitiu que soldados escoceses me
acompanhassem. Não me olhe assim. Meu pai me amava, mas ele era um homem
inflexível e piorou muito depois da morte de minha mãe. Creio que eu o desapontava. Ele
não podia esquecer minha origem quando testemunhava meu temperamento ou minha
aparência.
Laurel procurou coragem para continuar a narrativa.
— Quando meu irmão se tornou barão, vi a oportunidade de voltar para meu lar
escocês. Ainsley abominava a idéia de ter de pagar um dote para quem se casasse
comigo, e a noiva dele queria que eu saísse do castelo. Finalmente consegui convencer
Ainsley a me deixar partir para a Escócia, com a promessa de nunca mais voltar, sob
nenhuma hipótese.
Laurel estremeceu e desvencilhou-se dos braços de Conor. Ele insistiu para Laurel
sentar-se, mas ela negou com um gesto de cabeça.
— Fazia alguns dias que estávamos na Escócia quando caí nas garras de Keith
Douglas, que me levou para a fortaleza do pai. Keith era cruel, mas nem de longe se
comparava a lorde Douglas, que me ofereceu ao filho, mas deixou claro que ele também
me possuiria.
Laurel sentiu-se transportada de volta àquelas horas de tortura e viu os olhos
escuros de Douglas brilhando de maldade. A imagem dos cabelos negros emaranhados
que emolduravam o rosto pontiagudo e distorcido pelo ódio queimava em sua mente. Ela
começou a tremer e esfregou os braços. De costas para Conor, não podia ver a fúria
crescente no olhar dele.
— Suponho que lorde Douglas tenha decidido me ameaçar ao ver o desprezo com
que eu o encarava. Ele conhecia meu avô e jurou que se eu não cumprisse suas ordens,
atacaria o povo de minha mãe... e mataria todos.
Laurel ficou em silêncio durante alguns minutos, procurando recuperar-se das
lembranças do medo. Conor foi até a janela, usando a força física para controlar o ódio
que sentia.
— Diga-me quem são eles e eu os protegerei.
— Não posso dizer, Conor. Por favor, não insista. Compreende agora por que não
posso me casar com você e por que tenho de partir? Na primavera Douglas reunirá seus
homens e cumprirá a promessa.
— Laurel, o que está planejando fazer? — Conor fitou-a, incrédulo.
— Terei de partir e nunca mais voltar. Mudarei meu nome, minha aparência e
cortarei meu cabelo para que Douglas não me reconheça. Depois terei de encontrar uma
maneira de avisar meu avô sobre a traição de Douglas.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

As lágrimas de Laurel deslizavam, e Conor abraçou-a, imaginando como poderia


vingá-la.
— Não deixarei que corte seus cabelos, meu amor. — Ele afastou uma mecha
dourada para trás da orelha de Laurel. — Pense um pouco, para onde você iria e como
poderia sobreviver?
— Não sei, talvez para a França, onde eu poderia ser a criada de alguma dama...
não sei. Neste inverno estarei protegida e na primavera eu desaparecerei antes que se
espalhem os boatos de que me encontro nas Terras Altas. Douglas não o atacará se eu
não estiver aqui. Por isso não posso ficar e, por mais que eu o ame, não posso me casar
com você — Laurel concluiu em voz baixa e pesarosa.
Laurel dissera que o amava, o que excluía a possibilidade de ela partir e não se
casar com ele. Laurel lhe pertencia, de corpo e alma. Ela deveria apenas acreditar nesse
amor e confiar nele para resolver tão grave problema.
Conor levantou-lhe o queixo.
— Entendi perfeitamente o que você me contou, mas agora quero que preste
atenção. Nós nos casaremos sem demora e se você confiou em mim até agora, terá de
acreditar que encontrarei uma maneira de manter sua família em segurança. Quem é seu
avô?
— Por favor, Conor, não me pergunte isso. Não quero expô-lo ao perigo.
Pelo visto, a confiança que Laurel depositava nele era restrita.
De repente, Conor supôs que acabava de descobrir quem era o avô de Laurel e
recriminou-se por não ter desconfiado antes. A cor dos cabelos era um indício, e os
olhos... Apenas um clã da Escócia tinha aquele tom particular. Conor mandaria avisar que
Laurel estava em segurança logo após o casamento, mas duvidava que a notícia
chegasse antes da primavera. Se realmente estivesse certo quanto à identidade do avô
de Laurel, a ameaça de lorde Douglas se mostraria tão oca quanto sua honra. Lorde
Maclnnes e lorde MeTiernay tratariam de ensinar isso ao patife.
— Meu amor, case-se comigo. — Conor abraçou-a. — Resolverei seus problemas
na primavera. Se nessa ocasião sua fuga for a única maneira de não arriscar a segurança
de sua família, eu a deixarei partir. Mas até lá permita que sejamos felizes. Você confiará
em mim e em nós o suficiente para concordar com a proposta? Ele jamais a deixaria
partir, mas precisava ganhar tempo para convencê-la.
Laurel gostaria de acreditar que fosse possível Conor salvar seu avô e, além do
mais, depois do que acontecera entre eles, não poderia manter-se afastada de Conor. —
Está bem, Conor MeTiernay, eu me casarei com você, mesmo que seja apenas até a
primavera. Nunca amarei outro homem, e meu coração sempre será seu,
independentemente do que possa acontecer.
— E você, meu amor, sempre será minha, e nosso casamento durará muitas
primaveras.
Conor beijou-a demorada e apaixonadamente.
— Esperaremos até o casamento, Laurel. Você não gostaria de ficar diante do padre
sem ser donzela, não é?
Laurel acariciou-lhe a nuca, passou a mão por seus cabelos e Conor estremeceu.
— Não creio que isso seja importante depois do que houve no salão nobre... —
Laurel puxou-lhe a cabeça e mordiscou-lhe a orelha. — Você tem um gosto tão bom...
Conor esteve a ponto de deitá-la e fazer com ela um amor tão louco como vinha
fantasiando desde que a conhecera. Laurel diante dele, com toda a sua ingenuidade,
provocava-o com uma sensualidade inata. A mais experiente das mulheres não poderia
ser mais excitante e sedutora. Mas com uma determinação inacreditável, Conor evitou
que Laurel continuasse com os avanços.
— Não, meu amor, sua virtude será maculada se você continuar dessa maneira.
Os olhos de Laurel, inflamados de paixão, fariam com que ele esquecesse todas as

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

boas intenções.
— Mas eu pensei que... o que fizemos... você não... — Laurel não conseguia formar
um pensamento coerente.
— O que nós fizemos no hall foi apenas um aperitivo das delícias que desfrutaremos
juntos no futuro. Na noite do nosso casamento você se tornará minha, de corpo, mente e
alma.
Laurel estremeceu. Não podia imaginar nada mais maravilhoso do que ele já lhe
proporcionara.
Conor se inclinou, tocou levemente nos lábios dela com os seus e foi até a porta.
— Laurel, a partir de amanhã, você começará a usar a manta dos McTiernay. — Ele
fez um aceno de cabeça e saiu.
Laurel começou a rodopiar pelo quarto.
— Serei lady McTiernay! Conor quer se casar comigo! Laurel jogou-se na cama e
adormeceu, vestida e sorridente.

CAPÍTULO VII

Laurel acordou na manhã seguinte quando Brighid entrou no quarto carregando um


embrulho.
— Brighid, é você? — perguntou, sonolenta.
— Sim, milady — a moça sussurrou, constrangida por ter acordado a futura lady
McTiernay e ansiosa para saber a verdade sobre os rumores. — Milorde entregou-me isto
para milady usar hoje.
Laurel pulou da cama e examinou a bela manta que Brighid trouxera.
― Pode me ajudar a vesti-la? — Laurel indagou, animada.
Ela cantarolou enquanto se lavava e vestia a manta dos McTiernay. As mulheres
das Terras Altas usavam uma versão mais fina e mais longa da manta grossa usada
pelos homens.
— Creio que esta manta era da mãe de milorde — Brighid confidenciou enquanto
ajudava Laurel a amarrar o tecido sobre a túnica. A cor escura do xadrez azul e verde
contrastava com a pele clara de Laurel.
— Ah, Brighid, creio que nunca aprenderei a ajeitar isto! Você conseguiu dar uma
feição feminina a um conjunto volumoso.
Brighid pregueara a manta, prendera na cintura de Laurel e enrolara o tecido
sobressalente nos ombros antes de prendê-lo na frente com um broche. Laurel notou que
uma parte do tecido fora deixado solto, como um capuz que poderia ser útil em dias de
mau tempo.
— Brighid, onde conseguiu isto? — Laurel se referiu ao belo broche de ouro e prata
que lembrava um dos botões das camisas de Conor.
— Esse também era de lady McTiernay. Em geral essas peças são passadas de
mãe para filha.
— Como não há filhas McTiernay... — Laurel passou os dedos na herança.
— Por isso lady McTiernay exigiu a promessa de Conor de dar o broche à próxima
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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

lady McTiernay que, ao que tudo indica, será milady.


Laurel suspirou, feliz. Nunca imaginara que ficaria tão satisfeita com a proposta de
Conor.
— É, sim. Serei lady McTiernay assim que o padre Lanaghly chegar e celebrar a
cerimônia.
— Creio que milady vai desejar terminar a capela logo.
Fallon conseguira grandes progressos no castelo, mas ainda havia muito para ser
feito. Os bancos da capela teriam de ser trocados, assim como o tecido das poltronas e
do altar. E certamente seria preciso um bom tempo para limpar todos os vitrais.
— É verdade. Você sabe onde estão Fallon e Glynis no momento?
— Na capela, milady. Assim que souberam da notícia do casamento, os dois foram
até lá para discutir sobre a restauração.
Laurel franziu a testa. Sem dúvida, a capela precisava ser reformada, mas havia
coisas prioritárias para serem feitas antes da chegada do inverno.
— Venha comigo, Brighid. Preciso falar com eles antes de percorrer as choupanas.
— Choupanas? — A moça espantou-se. O essencial para Laurel parecia ser a
moradia dos membros do clã.
— Sim, notei no outro dia que há muitas com telhados em péssimo estado, o que
seria pavoroso no inverno.
Laurel desceu a escadaria da torre, foi até a capela e, da porta, avistou Fallon e
Glynis.
— As janelas terão de ser limpas antes — Fallon assegurou. — Não entrará
nenhuma luz por ali, se a cerimônia for num fim de tarde.
— Todos os casamentos dos McTiernay aconteceram ao entardecer.
As manhãs eram dedicadas aos preparativos dos noivos. À cerimônia, seguia-se um
grande banquete e a celebração se prolongava noite adentro, mesmo após a retirada do
casal para seus aposentos.
— Concordo com a limpeza dos vitrais — Glynis concedeu. — Mas o senhor não
poderá congregar os esforços de todos nesse mister. Lady Laurel quer as poltronas
restauradas e o revestimento do altar trocado. E precisarei de quase todas as mulheres
para completar a tarefa a tempo.
— Quase todas? — Fallon exasperou-se.
Naquele momento Laurel entrou na capela, sorridente.
— Os dois identificaram locais que precisam de atenção, mas eu gostaria que os
bancos fossem consertados antes. Fallon, escolha cinco ou seis homens para o serviço.
Precisarei dos demais para outra incumbência.
Os dois ficaram constrangidos ao supor que Laurel escutara a discussão.
— Milady está linda nessa manta e deixará lorde McTiernay orgulhoso. — Glynis se
recuperou logo. — Milady nos presenteou com algo que havíamos perdido há muito
tempo. O amor que permeava o castelo e que possibilitava aos McTiernay guiar seu povo
com energia e inteligência.
— Isso mesmo, milady foi uma bênção mandada dos céus para nós — Fallon
concordou com voz emocionada.
— Obrigada, Glynis — Laurel comoveu-se. — Obrigada, Fallon. Eu é que me sinto
abençoada por estar aqui.
Laurel beijou o velho administrador no rosto e Fallon esqueceu de perguntar a ela
sobre os planos do dia.
Laurel saiu de outra choupana que precisava de reformas urgentes. Das sete
visitadas, encontrara três em mau estado e certamente mais algumas se juntariam à lista.
Em geral, Conor supervisionava os reparos, mas naquele ano, com o casamento de
Colin e a viagem às terras de lorde Schellden, as tarefas costumeiras haviam sido
relegadas a segundo plano. Na Inglaterra, Laurel ficava com a responsabilidade da

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

conservação da aldeia, além dos cuidados com os habitantes. Ainsley considerava aquele
um trabalho exaustivo e o delegava à irmã. Para Laurel, cuidar das necessidades do clã
era uma continuação do que sempre fizera.
— Eles fazem parte de uma família adorável — Laurel comentou com Brighid. — E
uma pena que eu tenha vindo visitar o membros do clã quando a maioria dos homens
está caçando ou se preparando para o inverno. Você viu como a menina é esperta? É
capaz de dar trabalho aos pais no futuro.
— A pequena Mangam vive atrás dos irmãos mais velhos, todos mexeriqueiros.
Brighid estava animada por acompanhar Laurel naquela inspeção. A maioria das
mulheres não interferia nas obrigações dos lordes, mesmo se ele não as cumprisse.
Laurel era diferente. Tomava decisões e ousava fazer o que as outras mulheres teriam
receio até de pensar.
As mulheres do clã relutaram, a princípio, em falar sobre o que precisava ser feito
em suas casas, mas Laurel não tardou em ganhar a confiança delas ao conversar sobre a
família, os filhos e outros assuntos vantajosos para elas.
Laurel demonstrou interesse genuíno nos problemas familiares e teve aceitação
imediata ao sugerir que as mulheres sabiam tão bem quanto os homens o que precisava
ser feito. O respeito veio com a discussão sobre a necessidade das reformas e o tempo
necessário para que fossem executadas.
Brighid espantou-se com a precisão de Laurel ao lembrar-se dos detalhes sobre o
que fora resolvido com cada família. Era evidente que a tarefa não era nova para Laurel,
que tinha excelente memória. Laurel também organizou informes e listas de itens de
maneira clara para que todos pudessem entender e acompanhar o progresso e a ordem
das melhorias. Quando um lorde dava uma ordem, todos obedeciam sem questionar. O
Conceito de discussão em grupo para posterior aceitação era uma novidade para Brighid.
Elas não chegaram a entrar em outra choupana. Um menino de cerca de cinco anos
veio correndo para avisar que Aileen estava em trabalho de parto e precisava de ajuda.
Elas o seguiram e passaram por carroças, animais e choupanas até chegar à casa de
Aileen..
— Aileen? — Laurel bateu na porta.
— Lady Laurel, por favor me ajude — a outra gritou. Laurel entrou. Aileen, pálida,
gemia agarrada na manta.
— Onde está Finn?
— Saiu com Conor para ir a algumas das aldeias mais afastadas que milorde não
visitou na volta do castelo de lorde Schellden. — Aileen fez uma careta de dor.
— Aileen, há quanto tempo você está com contrações?
— Não muito. — Aileen arrastou-se até uma cadeira próxima da lareira quando as
cólicas mais fortes cederam. — Mas o intervalo é muito pequeno entre elas. Todos dizem
que o primeiro filho demora a nascer, mas não creio que isso acontecerá comigo.
— Não se preocupe. Já mandou chamar a parteira? — Laurel falou com Brighid
quando Aileen negou com um gesto de cabeça. — Vá buscá-la, e encontre-a mesmo se
ela não estiver em casa. Não volte sem ela.
Laurel nunca ajudara uma criança a nascer e precisava de ajuda, mas não gostaria
que Aileen soubesse disso. Sua mãe morrera ao dar à luz Daniel, um bebê morto. E
depois da saída de Brighid, fez uma prece pedindo orientação ê calma, e começou a
abanar o rosto de Aileen. O quarto estava muito quente.
— Aileen, o calor a ajuda em algo?
— Para ser franca, é intolerável, mas não quero que meu bebê se resfrie.
Laurel afastou para o lado várias achas de madeira, reduzindo consideravelmente a
quentura da lareira.
— Essa temperatura será suficiente e não a sufocará. Um novo espasmo fez Aileen
contrair as faces e agarrar-se nos braços da cadeira.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

Laurel encontrou um pedaço de linho, molhou-o e passou no rosto de Aileen.


— Aileen, talvez eu devesse procurar ajuda... com uma das mulheres que já tiveram
filhos.
Aileen apertou a mão de Laurel.
— Não. Eu disse ao pequeno Alec para ir a seu encontro. A parteira e eu discutimos
ontem e ela foi embora para a casa dela que fica bem ao norte. Será um milagre se
Brighid a encontrar e convencê-la a voltar. Por favor, Laurel.
— Aileen, eu não entendo nada de nascimento de crianças.
— Sei que é uma curandeira, Laurel.— Aileen levantou-se e foi até o fogão para
fazer um chá.
Laurel espantou-se. Ninguém poderia imaginar que a mulher que agora despejava
água gemia de dor dois minutos antes.
— Finn e eu a vimos limpar e costurar ferimentos dos guerreiros no campo de
treinamento.
Laurel foi até o fogão e tirou o jarro das mãos da outra.
— Aileen, aqueles eram homens com pequenas ulcerações e eu não poderia lhes
causar maiores danos. Mas você, seu bebê... — Laurel foi incapaz de terminar o
pensamento.
— Você não apenas limpava as feridas, mas aplicava ungüentos e ministrava
decocto de ervas para os homens beberem. Sei que poderá me ajudar. — Uma nova
contração fez Aileen se agarrar no braço de Laurel. — Por favor, não me deixe.
O pouco que Laurel sabia sobre ervas e a prática de curar fora ensinado por sua
mãe, e era nisso que ela teria de se apegar.
— Alguns de seus lençóis terão de ser inutilizados. — Laurel foi até o baú onde a
amiga guardava a roupa de cama.
Aileen sentiu-se mais tranqüila por Laurel ter consentido em ajudar. Naquelas
poucas semanas, as duas haviam se tornado íntimas como irmãs. Ambas haviam perdido
a mãe quando ainda crianças, e tinham irmãos com quem mantinham um relacionamento
formal. E depois de tantos anos, haviam finalmente encontrado uma alma gêmea.
— Aileen, você se sente melhor em pé, sentada ou deitada?
— Sentada. Mas quando fico impaciente, andando é melhor.
— Bem, então ande. Deixarei cadeiras pelo quarto e assim você poderá se sentar
quando começar uma contração.
Laurel rasgou os lençóis e amarrou-os aos pés da cama. Depois ferveu água com
que limparia os itens que seriam usados, assim como fazia ao suturar as feridas.
Durante algumas horas, Laurel continuou a ajudar Aileen da melhor forma possível e
o tempo pareceu estender-se indefinidamente.
Quando os espasmos começaram a se suceder com maior rapidez, Laurel deu a
Aileen as alças amarradas de lençol para ela puxar.
— Ah, então é para isso que elas servem! — Aileen exclamou no breve intervalo
entre as dores. — Onde está Finn? Por que ele não está aqui? Por que ele fez isso
comigo?
Laurel pegou a tesoura. Pela maneira como Aileen se curvava e abaixava, a criança
não demoraria muito a nascer. Onde estaria a parteira? Laurel engoliu o medo e lembrou-
se da força de Conor. Quando tudo terminasse, certamente desmaiaria nos braços dele.

Conor vasculhou o castelo de ponta a ponta, mas ninguém sabia do paradeiro de


Laurel. A última vez em que fora vista, ela saía da fortaleza na companhia de Brighid. E
nenhuma das duas fora encontrada.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

Ele acabava de voltar das margens do rio, onde fora procurá-la. Fallon e Glynis
haviam iniciado a busca em lados opostos, procurando atenuar a culpa. Eles apenas se
lembravam da última conversa, quando Laurel dissera que precisava de homens para
uma tarefa mais importante do que restaurar a capela. Finn chegou, depois de procurar
Laurel nas proximidades do campo de treinamento.
— Nada.
O medo congelava o sangue de Conor. Se algo acontecesse a Laurel, ele não
suportaria a perda. Precisava dela. Acabara de descobrir como era ser amado de verdade
e de encontrar alguém que desejava a mesma coisa que ele de um casamento: uma
união baseada na amizade, na confiança e no desejo.
Conor sentiu os músculos tensos e o estômago contraído. Haveria de encontrá-la sã
e salva. E nunca mais a deixaria sozinha e sem proteção, para não experimentar o terror
que o corroía naquele momento.
— Neal, traga um cavalo! Alguns minutos depois Clyde surgiu com Borrail.
— Este era o único animal descansado, Conor.
— A fisionomia do rapaz exprimia preocupação. — Tudo dará certo, não é? Laurel é
formidável e todos a amam. Se ela estiver em perigo, alguém poderá ajudá-la, não é?
— Com certeza, Clyde — Conor procurou ser convincente.
— E se aqueles homens que a maltrataram resolveram voltar para raptá-la?
As palavras do irmão caçula fizeram eco a seus temores mais profundos e Conor
jurou novamente nunca mais perdê-la de vista, depois que ela fosse encontrada, Se
Douglas ousasse pisar em suas terras, ele haveria de fazê-lo pagar por isso.
— Finn, vou procurar na floresta. Ela pode ter resolvido caçar e ter-se perdido. Vá
para casa ver sua esposa.
Clyde e Finn observaram Conor galopar noite adentro.
Finn aproximou-se de sua casa e notou uma aglomeração ao redor. Alguém abriu a
porta, disse alguma coisa para um dos homens e voltou para dentro. Teria acontecido
alguma coisa com Aileen?
Ele desmontou e entrou correndo dentro de casa. Aileen estava deitada na cama e
Laurel embalava um bebê na manta.
— Finn — Laurel falou ao vê-lo. — Venha conhecer seu filho.
Finn não conseguiu dar um passo.
— Aileen? — ele murmurou, apavorado, ao ver a esposa imóvel.
— Ela está bem, apenas cansada. Aileen foi forte e suportou tudo com galhardia.
Seu filho é grande e saudável. — Laurel fitou o bebê. — Você deixou sua mãe esgotada,
agora vamos ficar quietinhos e deixá-la descansar, não é? Finn, não gostaria de segurar
seu filho?
Laurel estendeu os braços e ajudou o comandante atônito a segurar o menino. Finn
estava com os olhos marejados.
— Ele não é lindo? — murmurou Aileen, abrindo os olhos.
Finn, com o filho nos braços, foi até a cama e sentou-se ao lado da esposa.
— É, sim, doçura.
— E você deveria ter visto Laurel. Ela ficou comigo o dia inteiro e ajudou-o a nascer.
Acho que em alguns momentos ela ficou mais apavorada do que eu.— Aileen alcançou a
mão da amiga. — Obrigada por ter me ajudado.
Foi então que Finn se lembrou de Conor e entregou o filho para a esposa.
— Conor! — ele berrou, assustando as duas mulheres e o bebê, que começou a
chorar. Virou-se e agarrou Laurel. — Temos de voltar para a fortaleza imediatamente.
Conor a está procurando feito louco. Nós vasculhamos todo o castelo, o rio e as
imediações! Conor acabou de ir para a floresta.
— Oh, não! Preciso ir, ele deve estar furioso.
— Não está, mas ficará assim que a vir — Finn advertiu-a.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— O quê?
— O medo de um homem se transforma em raiva quando o receio desaparece. E
quanto maior o receio, maior a raiva.
— Obrigada. Irei imediatamente. — Laurel abraçou a amiga, beijou o bebê e saiu
correndo, sem esperar por companhia.
Conor voltou da floresta e viu Laurel correr. Aproximou-se e puxou-a para cima do
cavalo. Ao ver que não estava ferida, o medo que congelava seu coração transformou-se
num ódio infernal.
— Conor! — Ela o abraçou. — Estou tão feliz por tê-lo encontrado! Você não vai
acreditar no que aconteceu!
Conor não retribuiu o abraço e Laurel notou a expressão lúgubre.
— Não diga nem uma palavra, Laurel.
Ela estremeceu com a frieza de Conor, mas decidiu que não o enfrentaria. Ficou em
silêncio, sentindo a tensão irradiar-se do corpo dele.
Conor galopou até a fortaleza. Passou os portões, apeou de Borrail, pôs Laurel no
chão e entregou as rédeas para Neal, que se adiantara à chegada deles. Neal desistiu de
saudar Laurel. Conor estava realmente furioso.
Neal levou Borrail até a estrebaria, entregou o animal a um dos rapazes e saiu à
procura de Fallon.
— Fallon, estou preocupado com lady Laurel. — Neal andava de um lado para outro
no hall.
— Ele não lhe faria nenhum mal. — Fallon não demonstrou a apreensão que sentia.
— Fisicamente, talvez não — Neal falou. — Mas poderá estraçalhar sua alma. Lady
Laurel tem um espírito espontâneo e livre que, uma vez combalido, não irá se recuperar.
O que poderemos fazer?
— Nós? Nada. Eu vou verificar se a interferência se faz necessária.
— Irei com você — Neal respondeu.
— Eu também! — Clyde e o outro cavalariço gritaram em uníssono, saindo de trás
de algumas mesas desmontadas.
— Creio que eu também irei, caso milady precise de assistência feminina — Glynis
afirmou, rodeando o biombo que separava o hall da área de serviço.
Conor levou Laurel pela mão até a torre estrelada e subiu a escadaria com
movimentos bruscos. Chegando a seus aposentos, entrou e fechou a porta com um verniz
de calma que não disfarçava sua ira.
Ele parou diante da lareira, apoiou as mãos no consolo e fitou as chamas por alguns
minutos.
— Você nunca mais deixará o castelo, a menos que seja em minha companhia! —
decretou, sem se virar.
Laurel estava incerta de como deveria proceder.
— Não quer saber o que houve?
— Não.
— Conor, se me deixar explicar, entenderá por que demorei tanto para voltar.
— Não quero ouvir nada, Laurel. — Os nós dos dedos estavam brancos de encontro
ao granito escuro. — Exceto que não sairá mais daqui sem um acompanhante.
O temperamento de Laurel começou a se inflamar.
— Quer dizer que sou uma prisioneira? Conor, desconfio que você não queria uma
esposa, mas um animal de estimação para segui-lo por toda parte e ficar esperando sua
volta trancado no quarto.
— Não me desafie, Laurel, depois do que me fez passar esta noite!
Ela se aproximou.
— Será que não está curioso para saber pelo que eu passei esta noite?
Conor estreitou os olhos.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— Estou, mas não quero saber. Qualquer coisa que me diga poderá piorar ainda
mais a situação.
— Ah, então o que está pensando? Que saí para me divertir com um homem?
Na verdade, aquela idéia não ocorrera a Conor até Laurel dizer aquilo. E seu
movimento foi tão rápido que Laurel não o percebeu de início. Conor segurou-a pelo pulso
e puxou-a.
— Que Deus se apiede de você se isso for verdade, Laurel! — ele falou com olhar
cintilante. — Eu mataria os dois!
Laurel desvencilhou-se e lutou para não perder o controle.
— Eu não me dou bem com ameaças, Conor — ela falou, trêmula.
— E também não me agrada saber que minha noiva esteve com outro homem!
— Você é uma criatura insuportável!
— Você já me disse isso antes.
— Não ficarei aqui com você, nem que uma tropa tente me impedir de sair! Eu lhe
prometo que encontrarei um meio de fugir do castelo!
— Se for necessário, eu a atirarei na masmorra! Laurel virou-se para sair, mas
Conor foi mais rápido e bateu a mão na porta.
— Onde foi que esteve com o outro, Laurel? Passou o dia todo nos braços de um
amante?
O sussurro gélido causou arrepios em Laurel.
— O que isso importaria para você se fosse verdade?
— Ninguém encosta um dedo no que é meu!
— Então pode se acalmar, milorde. Passei o dia todo com Aileen, que entrou em
trabalho de parto.
O desprezo na voz dela foi percebido por Conor, que não conseguiu respirar por
alguns instantes.
— O filho de Finn? — Ele parou de pressionar a porta. — Aileen?
— Os dois estão bem — a resposta foi ríspida. Laurel ainda não terminara de falar e
Conor tomou-lhe o rosto entre as mãos e começou a beijá-la. A raiva que se seguira ao
medo explodiu como numa necessidade primitiva e resultou numa torrente de beijos fe-
rozes.
Conor precisava saber se ela ainda o amava. Ele teria de fazê-la entender que a
desejava tanto que doía e que, independentemente de qualquer discussão, da fúria e do
pavor, eles seriam para sempre um do outro.
Conor sentiu a resistência inicial de Laurel diminuir quando ela o agarrou pelos
ombros. Conor gemeu. Apesar do que ele fizera e da raiva que Laurel sentira, ela ainda
reagia com paixão quando a tomava nos braços.
A porta, sem a pressão feita por Conor, abriu-se e vários rostos ansiosos
apareceram, prontos para defender Laurel se necessário fosse. Mas o que viram foi um
homem amando sua mulher e que nem ao menos percebeu a interferência deles. Fallon
levou um dedo aos lábios, indicou a escada para o grupo e fechou a porta.
Eles não esconderam o alívio, mas somente Clyde se manifestou.
— Eu sabia que Laurel conseguiria acalmá-lo. — O garoto sorriu. — De agora em
diante, quando Conor estiver espumando de raiva, chamaremos Laurel.
Fallon deu um tapinha amigável nas costas do rapaz e fez sinal para que todos
fossem dormir. Tudo estava bem.
No quarto de Conor, ele aninhava o rosto de Laurel nas mãos e embevecia-se em
contemplá-la. O sorriso doce e convidativo de Laurel dava a Conor a certeza de que ela
lhe pertencia.
Conor tocou-lhe a face levemente com a ponta dos dedos e Laurel prendeu a
respiração. Ela levou a cabeça para trás e os cabelos deslizaram pelos ombros. Conor
segurou-lhe a nuca e beijou-lhe a boca. O beijo foi lento e suave, para Laurel

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

experimentar o amor e o desejo que se confundiam dentro dele.


O beijo os fez esquecer da raiva que os acometera pouco antes. Para Laurel, só
importava a delícia de estar nos braços de Conor e ela rezou para que a sensação jamais
desaparecesse. Ela estremeceu ao experimentar uma necessidade incomum.
Conor sentiu o desejo crescer diante da reação de Laurel e aprofundou o beijo.
— Conor... — Laurel pronunciou o nome dele como um gemido e Conor receou
perder o controle.
Laurel puxou a camisa de Conor para fora do cinto e acariciou-lhe a pele. Ele a
deixava transtornada pelos anseios ardentes e profundos que lhe despertava.
Laurel arranhou levemente as costas de Conor e ele ultrapassou os limites da razão.
O desejo o consumia e, sem interromper o beijo, passou a despir Laurel. Soltou o broche
que pertencera à sua mãe, em seguida a túnica e começou a baixar a camisa pelos
ombros.
Laurel sentia-se flutuar. Conor a beijava com ternura e com paixão, e ela gemia
pronunciando o nome dele. Só percebeu que a veste fora tirada e que a camisa estava
pendurada na cintura, quando Conor beijou-lhe o busto.
Ele levantou Laurel no colo e carregou-a até a cama. Tornando a beijá-la, deixou-a
no colchão macio e deitou-se sobre ela, retomando a exploração dos seios, roçando cada
mamilo e provocando-os com a boca até ela gritar para ele não parar. Arfante e trêmula,
ela fechou os olhos e Conor pensou que enlouqueceria pelo desejo que o atormentava.
Laurel entrelaçou os dedos nos cabelos de Conor, deleitando-se com as sensações
por ele causadas. Deitada embaixo dele, percebeu a masculinidade crescer e enrijecer.
Algo profundo e misterioso desenvolveu-se sob o impacto do olhar fixo de Conor, e a
vontade de tocá-lo na turgidez era esmagadora.
Conor acariciou-lhe a parte interna das coxas, deixando-a transtornada. Ela se
contorceu, desejando mais e ansiosa por oferecer a ele um prazer semelhante.
Acariciou-lhe o abdômen e, sob o kilt, encontrou o membro palpitante.
Conor ficou imóvel. Nunca imaginara que uma mulher pudesse lhe proporcionar
tanta satisfação. Segurou a mão de Laurel para evitar que a tortura prosseguisse, mas
não deixou de fitá-la. Os cabelos espalhados no travesseiro formavam um halo dourado
que emoldurava a fisionomia confusa.
— Conor, o que fiz de errado? — Ela tirou a mão e constrangeu-se. — Nada do que
fazemos aqui é errado, meu amor. — Conor beijou-lhe a testa e a ponta do nariz. —Você
pode me tocar onde quiser. Ele segurou-lhe as mãos, elevou-as por cima da cabeça e
beijou-lhe os lábios com uma paixão que beirava a selvageria. Afastou-se, tirou as roupas
e deitou-se novamente sobre Laurel, consciente de que jamais experimentara sensações
tão intensas. Laurel era doce, suave e vulnerável.
Conor tomou-lhe os seios com as mãos em concha, roçando os polegares sobre as
pontas róseas. Abaixou a cabeça e beijou cada uma delas, estimulando-as com os lábios.
Laurel, trêmula, gemia e encontrava dificuldade para respirar. Conor sentiu-a mover
os quadris de encontro às suas coxas e só pensava em possuí-la. Desceu a boca até o
ventre de Laurel e depois passou a língua ao redor do umbigo, fazendo com que ela se
arqueasse. E acompanhou os toques suaves e persistentes com beijos apaixonados.
Conor afastou-lhe a camisa completamente e moveu-se para beijar a quentura entre
as pernas dela.
— Conor, não! — Laurel tentou sentar-se e agarrou-lhe os ombros.
Conor nem ao menos levantou a cabeça e, de repente, Laurel sentiu as carícias da
língua de Conor em suas partes mais íntimas. Conor sugou-a com vigor e ela pendeu o
corpo para trás, zonza dentro de um redemoinho. Conor segurou-lhe os quadris e
prosseguiu nas provocações com a língua, deixando-a à beira da loucura. Ela se
contorcia, arrebatada por um vagalhão de prazer inimaginável. Conor levou-a às alturas,
determinado a fazê-la alcançar o clímax, indiferente aos protestos dela.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

E, assim, Laurel foi transportada ao êxtase.


Presenciar o desempenho sexual de Laurel foi a experiência mais intensa que Conor
já tivera. Aquela mulher era sua alma gêmea, e estar com ela o completava. Ele sentiu a
impossibilidade de conter-se por mais tempo. Afastou as pernas de Laurel e tornou a
deitar-se sobre ela.
Quando ele pressionou os quadris, Laurel sentiu a rigidez e o volume da ereção de
Conor, e, por instinto, ergueu-se de encontro a ele. Mordeu-lhe o ombro, instigando-o a
continuar, querendo experimentar o que ainda desconhecia.
Com suavidade, Conor acariciou-lhe o monte-de-vênus e encontrou o pequeno
órgão de prazer que passou roçar com os dedos. Laurel se contorceu de encontro à mão
de Conor, supondo que a sanidade a abandonara.
— Conor! Por favor, não pare... — implorou, gemendo. Conor entendeu que Laurel
estava preparada para recebê-lo e a própria rigidez lhe causava sofrimento. Ele a beijou e
abriu-a cuidadosamente para a primeira investida. Sentiu a resistência inicial que provava
ser ele o primeiro, e então a penetrou. Laurel gritou, dessa vez de dor. Conor parou
dentro dela e segurou-lhe o rosto entre as mãos. Laurel era cálida e apertada e era quase
impossível manter-se imóvel.
—Vai passar, meu amor — ele murmurou, acariciando-lhe o rosto antes de beijar as
lágrimas involuntárias que deslizavam pelas faces.
:
A voz de Conor e as carícias dele a acalmaram e o sofrimento cedeu. Laurel se
mexeu para acariciar-lhe as costas e Conor sentia um prazer que chegava a ser doloroso.
Ela o apertava e o envolvia perfeitamente, como jamais acontecera. Laurel aparecera
inesperadamente em sua vida e seria sua para sempre.
— A dor passou?
— Quase. Isso é tudo? — O sorriso ingênuo de Laurel era inebriante.
— Oh, não! Nós apenas começamos.
Conor começou a se mover dentro de Laurel e ela entendeu ao que ele se referia.
No início, Laurel pensara que ele seria grande demais, mas Conor entrava e saía
lentamente para alongá-la o suficiente para recebê-lo.
O ritmo intensificou-se e as sensações que a invadiam a levaram para outro mundo.
Conor passou a acariciar-lhe os seios com a língua, no mesmo ritmo dos impulsos
que provocavam uma sensação dolorosa. Laurel arqueou as costas e seus gritos
sensuais excitavam Conor ainda mais.
— Conor...
— Eu sei, amor, eu sei — ele respondeu com voz trêmula.
Laurel agarrou-se nele como se fosse a única coisa sólida em sua vida. Sentiu-o
recuar e investir com profundidade e movimentos cada vez mais rápidos.
— Oh, Conor... eu não... Conor!
Laurel arregalou os olhos e Conor poderia jurar que nunca vira um tom de azul tão
intenso.
Experimentou novamente a sensação deliciosa crescer dentro de si e dessa vez
com maior intensidade. Deslizou a mão no ponto onde os corpos se juntavam, tocou na
sensível pele feminina, e Laurel gritou, com a sensação de romper-se em milhões de
pedaços.
Conor estremeceu e impeliu-se pela última vez. Laurel seria sua para sempre, e um
passara a pertencer ao outro.
Eles desceram lentamente do paraíso, satisfeitos com o que haviam acabado de
partilhar. Laurel acariciou o peito de Conor e suspirou, abismada. Nunca se sentira tão
viva, tão amada e protegida.
Ainda atordoado, Conor admitiu que, em tempo algum, fazer amor lhe trouxera uma
satisfação tão perfeita. Enquanto vivesse, não teria outra mulher. Ele desejava Laurel a
seu lado, em seus braços e em sua cama, como sua esposa e mãe de seus filhos.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

Conor espreguiçou-se, virou-se de lado e acariciou o braço de Laurel. O olhar dele


era possessivo e ainda ardia de desejo. Ele não pudera esperar até o casamento para
Laurel ter a primeira experiência.
— Amor?
— Sim? — Laurel esfregou o queixo no peito de Laurel, descontraída e feliz. — Sinto
tê-la machucado.
— Eu o amo, Conor. — Laurel virou-se para ele com um sorriso brilhante de ternura.
Laurel afirmou que o amava, sem ser por medo ou paixão, mas por ser verdade.
— Eu a amo muito mais do que imaginei ser possivel.
— Por favor, Conor, não vamos brigar mais.
— Eu até concordaria, mas creio que seria pouco compatível com seu
temperamento.
Laurel deu um cutucão em Conor.
— Meu? E o que me diz do seu? Admito que eu não deveria ter reagido diante de
seu receio e aceitado que sua ansiedade era normal, sem responder com raiva. Conor
apoiou-se no cotovelo para olhá-la. — Não creio que você tenha entendido. Eu não
estava ansioso, mas sim enfurecido. Laurel brincou com os pêlos do peito de Conor.
—Você ficou com medo quando não conseguiu me encontrar e, quando viu que eu
estava bem, suas emoções se converteram em ódio.
Conor deitou-se sobre Laurel e encarou-a.
— Preste atenção, Laurel. Sou o chefe de um clã muito grande, um montanhês e um
McTiemay. Nunca tenho receio de nada.
— Está querendo me dizer que por ser um lorde, é incapaz de ter medo?
— Isso mesmo. Laurel notou a mudança de comportamento. O olhar dele tornou-se
distante e sério, sem nenhum traço de paixão. Ela sentou-se, pôs os pés para fora da
cama e cobriu o peito com o cobertor.
A idéia de não admitir apreensão pareceu-lhe ridícula. Conor era humano e, como
tal, sujeito a emoções, inclusive medo, raiva e amor. Mas ele era também um homem
difícil, que não deixava transparecer nenhuma ponta de fraqueza.
Laurel inspirou fundo e virou-se para encará-lo.
— Muito obrigada por me explicar isso. Agora, relaxe. Não quero discutir depois do
que acabamos de compartilhar.
Conor analisou a expressão de esperança e contentamento. Também não queria
argumentar com Laurel. Segurou-a pela cabeça e beijou-lhe longamente os lábios para
demonstrar tudo o que sentia por ela.
Depois virou-se de costas e levou-a junto com ele. Pensou nos acontecimentos do
dia, enrolou os cabelos dela nos dedos e acariciou-lhe o rosto.
— Pelo que Fallon comentou, você andou trabalhando nos reparos da capela para
nosso casamento.
— Isso mesmo. Fallon e Glynis estavam discutindo, como bons montanheses que
são, sobre a ordem dos trabalhos a ser executados.
— E tudo ficará pronto a tempo? O padre Lanaghly chegará dentro de poucos dias.
— Provavelmente não, pois há muito para fazer nas choupanas, e restaram poucos
homens para fazer a restauração da capela.
— Choupanas?
— Isso mesmo. Eu me refiro a consertos nos telhados, portas, janelas e lareiras,
obras normais que antecedem o inverno.
— E o que você sabe a respeito disso? Laurel, não me diga que esteve conversando
com meus homens sobre esses assuntos? Laurel ficou tensa ao sentir a apreensão de
Conor.
— Não se aborreça, Conor. Na maioria dos casos conversei com mulheres, pois elas
sabem melhor o que é preciso ser feito dentro de casa. E eu havia feito poucas visitas

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

esta manhã quando...


Conor sentou-se abruptamente, e Laurel foi afastada para o lado.
— Esta manhã! — ele berrou. — Entendi você dizer que estava com Aileen.
— É verdade, eu estava, mas você não me deu chance de explicar tudo.
— Pois estou lhe dando agora. O tom de voz não agradou a Laurel e ela também se
sentou, vestiu a camisa e procurou não ficar com raiva.
— Você se encontrava atarefado com muitos deveres e eu só quis ajudar. O
trabalho não é novidade para mim, pois quando morava com meu irmão, eu era
responsável pela manutenção da aldeia. Brighid e eu fomos conversar com os moradores
das choupanas para ver quem precisava de assistência antes das tempestades de
inverno. Nós havíamos visitado poucas casas, quando fomos chamadas para ajudar
Aileen.
— Laurel, você não tinha o direito de fazer isso — Conor declarou, ameaçador.
— Não? — Laurel sentiu a ira crescer. — O que está me dizendo? Em breve serei a
senhora deste clã, e certamente assumirei essas tarefas após o casamento.
— Não admito que minha mulher faça serviço de homem.
— Você quer dizer que Finn ou Fallon podem fazer isso e eu não?
— Sim, eles são homens. Laurel saiu da cama, enfurecida.
— E o que a lady deste castelo terá de fazer? Ficar tecendo?
— Você fará o que todas as esposas dos chefes fazem. Cozinhar, limpar e preparar
as refeições. Virá se despedir de mim quando eu tiver de me ausentar, e me receberá
quando eu voltar. Providenciará o conforto de nossos convidados, quando os tivermos.
Não finja que não conhece os deveres de uma dama, Laurel.
— Nunca aparentei ser quem não sou, Conor, e não é agora ,que vou começar a
fazer de conta que gosto de ficar confinada às responsabilidades domésticas. Gosto de
cavalgar, de caçar, de administrar a aldeia é a verdade. E você sabe que tenho
capacidade para esses encargos! —Laurel gritava, mesmo sabendo que não o
convenceria daquela maneira.
— Pois não fará nada disso!— Conor rugiu. Laurel atirou um travesseiro nele.
— Então fique sabendo que não me casarei com um homem que se recusa a
receber ajuda quando necessário e justificável.
— Sua intervenção não se justifica, nem será necessária.
— Só porque sou mulher?
— A minha mulher.
— Não sou... ainda. E sabe do que mais? Depois desses esclarecimentos, estou
pensando em desistir de me casar com você! — Laurel agarrou o resto das roupas e foi
até a porta, sem que Conor fizesse nenhum gesto para impedi-la.
— Você se casará comigo, Laurel Rose Cordell, e tão logo o sacerdote chegar! Não
entende o que aconteceu esta noite? Você se deitou comigo. É minha por todos os
direitos, exceto pelo de Deus. E esteja certa de que contarei com a bênção divina antes
do final da semana!
Laurel o encarou com ódio. Que homem arrogante! Pensava que se casaria com ela
só porque... Laurel abriu a porta e se deteve antes de sair.
— Escute aqui, Conor McTiernay. Nunca planejei mudar minha maneira de ser.
Nunca! Nem por você nem por homem nenhum. Se você quiser assumir todas as
responsabilidades do clã, faça bom proveito. Eu amo você, Conor, mas se não puder me
aceitar como sou nem concordar com minha contribuição naquilo em que tenho
conhecimento e experiência, então não me casarei com você, apesar de ter me perdido.
E, com essas palavras, ela saiu do quarto.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

CAPÍTULO VIII

No dia seguinte, Laurel acordou cedo e foi barrada pela sentinela do portão quando
pretendia tomar banho no rio.
— Sinto muito, milady, mas recebemos ordens de milorde para não deixá-la sair da
fortaleza. — O guarda se sentia constrangido por transmitir as instruções de Conor, ainda
mais ao ver o olhar sombrio de Laurel.
Laurel não queria punir o rapaz por ser o portador de más notícias, por isso
cumprimentou-o e dirigiu-se de volta para a torre estrelada, como se pretendesse
regressar a seus aposentos. Em vez disso, foi para a estrebaria e tirou Borrail da baia
sem acordar o cavalariço que ressonava. Montou sem arreios e passou voando pela
sentinela, antes que ele tivesse tempo de reagir.
Ah, manter-me prisioneira! Eu lhe mostrarei quem eu sou, Conor McTiernay. Ainda
está para nascer quem poderá me controlar!, Laurel pensou enquanto se dirigia para o rio.
Na verdade não estava quente para um banho ao ar livre. A temperatura esfriava a cada
dia, não demoraria a nevar e as águas ficariam congeladas. Ela tirou as meias e
experimentou as pedras frias. Estava ciente de cometer uma insensatez, mas precisava
se afastar um pouco do castelo e também precisava de um banho. Pensar nas ordens de
Conor fazia sua raiva voltar com toda a força. Tirou a roupa e entrou na água gelada,
rezando para que o choque térmico diminuísse sua irritação. Lavou os cabelos e o corpo
com o sabão de lilases que trouxera, e quando se preparava para voltar à margem, Conor
apareceu.
Ele entrou no rio, ergueu Laurel no colo, voltou para a ribanceira, enrolou-a numa
manta e ordenou-lhe para se vestir.
Laurel aguardava, mas não tão cedo, a indignação de Conor por ela ter saído do
castelo de maneira tão intempestiva. Conor certamente não entendia que ela também
estava furiosa com as decisões autoritárias tomadas por ele.
Depois da refeição matinal, Conor ficara sentado junto ao fogo, revendo
mentalmente o que acontecera na noite passada. E, mais uma vez, a excitação o
envolveu. Fora uma experiência incrível e única. Laurel despertara vida nele.
Conor disse uma imprecação. Laurel o fizera sentir-se amado, importante,
necessário e de, maneira inusitada, o surpreendendo com as palavras de despedida. Ele
pensara em Laurel a noite toda, e em sonhos ela desaparecia, deixando em seu lugar um
imenso e perigoso vazio. Toda vez que acordava, estava sozinho e com pavor de tê-la
perdido. Levantou-se e ordenou às sentinelas do portão para a impedirem de sair sem
ele.
Pouco mais tarde, ao ser informado da fuga, Conor ficou chocado. Ninguém ousava
desobedecer-lhe. Pensando por que ela o desafiava publicamente, saiu do castelo e
encontrou-a tomando banho no rio gelado.
— Posso saber o que está fazendo aqui? — gritou, com raiva e excitado ao mesmo
tempo ao vê-la molhada e nua.
Laurel pôs a veste e encarou-o, desafiadora.
— Seja mais específico, milorde. Quer que eu lhe explique a necessidade de um
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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

banho ou está se referindo à minha saída do castelo no lombo de Borrail?


Apesar do esforço em contrário, Laurel começou a tremer, o que dificultou a
discussão e também calçar as meias. Conor viu Borrail amarrado numa árvore e adiantou-
se, ficando entre Laurel e o cavalo.
—Você montou nesse animal enorme sem sela? Está pretendendo se matar?
— Santo Deus, mas que idéias preconceituosas, Conor! Não são só os homens que
podem montar sem sela.—Vestida, Laurel se sentia mais confiante. Ergueu o queixo e o
fitou com olhar cintilante de ódio. — Eu gostaria de lhe dizer que tenho visto seus homens
montarem e caçar, e posso garantir que meu desempenho é bem melhor do que muitos
deles. Por isso, guarde suas noções ridículas e me deixe passar.
Ela endireitou os ombros e segurou a barra da saia para rodeá-lo. Conor segurou-a
pelo braço e virou-a de frente para ele.
— Laurel, não pense mais em tomar banho de rio, pois estará se arriscando a uma
doença grave. Primeiro terá de acostumar o corpo à temperatura fria das Terras Altas.
— Eu estava muito bem até ouvi-lo gritar como um maluco. — Ela tentou
desvencilhar-se.
— Eu a estava protegendo.
Com um arranco, Laurel soltou-se.
— Bobagem! Sua fúria deveu-se à minha saída da fortaleza e isso nada tem a ver
com o local que escolhi para tomar banho, mas sim por ter sido contra a sua vontade.
Conor passou a mãos nos cabelos, esforçando-se para não perder as estribeiras.
Não queria começar o dia daquela maneira com Laurel. Na noite anterior tivera um prazer
extraordinário, seguido pelo sofrimento de sua partida, e gostaria que não tivessem
terminado a noite com tanta animosidade. Mesmo assim se convencera de que a recusa
de Laurel em casar-se com ele fora um pretexto para preservar o orgulho.
Os dois se encararam com raiva durante alguns minutos, até Conor não suportar
mais vê-la tremer com os cabelos molhados que ensopavam o vestido. Ergueu-a nos
braços e montou o próprio cavalo. Batendo os dentes , Laurel não protestou quando
Conor torceu-lhe as mechas úmidas e enrolou-a na manta de lã, antes de segurar as
rédeas de Borrail. Eles subiram a colina e rumaram pela estrada de terra que chegava até
as muralhas do castelo.
— Independentemente do que você possa pensar, quero poupá-la. Os rios são
traiçoeiros nesta época do ano e várias pessoas que se arriscaram não puderam voltar à
margem, pois as correntes são muito fortes e geladas.
Laurel não podia duvidar daquela lógica.
— Eu gosto de tomar banho de rio, pois isso ajuda a libertar meus pensamentos. —
E a esfriar minha cabeça, acrescentou em pensamento.
— Então, quando quiser entrar nessa água gelada, iremos juntos. — Conor pensou
em várias maneiras de aquecê-los depois.
— Eu preferia ir sozinha ou na companhia de alguma das mulheres. — Mais
aquecida, Laurel tornou a rebelar-se.
— Elas não poderão ajudá-la em caso de necessidade e nenhum homem terá
permissão para acompanhá-la.
— Então sou uma prisioneira, milorde?
Conor não gostou da maneira formal como Laurel se dirigira a ele.
— Quem lhe disse isso?
— Uma sentinela avisou que eu não poderia deixar as muralhas da fortaleza. Por
acaso sou considerada uma criança ou estarei sendo privada de minha liberdade?
— Sabe muito bem que não é nada disso, Laurel. Não posso estar a seu lado o
tempo inteiro e preciso saber que você não corre perigo.
Conor lembrou-se dos pesadelos onde Laurel desaparecia num vácuo, e segurou-a
com força.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— Então precisa vigiar meus movimentos? Eu não conseguirei viver dessa maneira,
e, se me forçar a isso, encontrarei uma maneira de fugir.
— Eu a trarei de volta — Conor resmungou, aborrecido com o rumo da discussão.
— E eu tentarei até conseguir.
— Eu não pretendo controlar você, Laurel, mas sim protegê-la! Será tão difícil de
entender? Ontem à noite o castelo paralisou todos os serviços. Sem conseguir encontrá-
la, mandei todos os homens procurá-la, deixando a fortaleza sujeita a ataques. Não
poderei tolerar novamente uma coisa dessas, mesmo que eu tenha de impedi-la de sair.
Conor devia estar realmente preocupado com seu bem-estar, ou não teria enviado
tantas pessoas à sua procura. Ela não podia imaginar o que ocorrera apenas por sua
saída, e um sentimento de culpa incomodou-a.
— Eu não pretendia causar transtornos, mas você também não pode querer que eu
fique trancada lá dentro. Por favor, não me peça isso e eu prometo nunca sair sem avisar.
— Se você quiser ir a algum lugar, eu a levarei.
Conor achou a solução adequada.
Laurel não era da mesma opinião. A postura arraigada de Conor no tocante às
atividades dela junto ao clã era intolerável. Ela não se casaria com Conor McTiernay e ele
esperava uma esposa submissa e indiferente aos problemas dos outros. Mas como fugir e
ficar afastada dele?
— Bem, e quando eu quiser passar o dia com Aileen e o bebê?
Conor certamente não pensara numa situação que, para ele, não seria agradável.
Duas mulheres trocando confidências e uma criança chorando, — Nesse caso você
poderá ter outro acompanhante e terá de informar alguém sobre suas andanças. Conor,
conhecido por sua intransigência, ajustava e mudava alguns dos princípios que haviam
norteado sua vida, por causa de Laurel. E a grande recompensa era o sorriso luminoso e
o brilho daquele olhar deslumbrante.
— Obrigada, Conor. Prometo que sairei sempre acompanhada e deixarei um aviso
sobre onde poderei ser encontrada.
Laurel estava alegre, feliz e o chamara de Conor. Finalmente as coisas retornariam
à normalidade.
Conor se enganara ao pensar que os problemas estavam resolvidos. Descobriu
mais tarde que eles não se resumiam ao fator de quem acompanharia Laurel nas saídas
do castelo.
— Está me dizendo que ela mandou falar comigo?! — ele berrou para Fallon no hall
da capela.
— Exatamente. Lady Laurel explicou que, de agora em diante, todos os assuntos do
clã deveriam ser resolvidos por milorde.
— O que não é novidade. Mas o que isso tem a ver com a escolha das janelas que
deverão ser limpas ou do material mais adequado para o estofamento? — Conor estava
perplexo por ter sido chamado para resolver problemas domésticos que deveriam ser da
responsabilidade dela.
— Lady Laurel me avisou que milorde determinaria tudo a ser feito. Como tive de
disponibilizar mais homens...
— Avisou? Até parece que vou submeter-me às exigências de Laurel! — Conor
berrou e saiu da capela a passos largos.
— Milorde, farei primeiro os bancos ou as janelas? — Fallon gritou.
— Não sei, droga! Janelas!
Laurel não o manipularia como se ele fosse um chefe de clã inexperiente. Por Deus,
ela teria de aceitar que Conor McTiernay era quem dava as ordens!
— Glynis! — Conor viu-a sair da cozinha em direção à torre estrelada.
Ela mudou de direção e aproximou-se, afobada.
— Sim, milorde?

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— Diga a lady Laurel que ela jantará comigo esta noite no salão nobre. — Esta
noite, meu amor, resolveremos o assunto, ele disse para si mesmo e fez menção de se
afastar.
— Milorde, lady Laurel pediu para eu o avisar que jantaria na casa do comandante e
assim aproveita para visitar o bebê.
Laurel estava muito enganada, se achava que iria ajudá-lo para sempre.
Na verdade, foi Conor quem se iludiu. Laurel conseguiu afastar-se dele nos dias que
se seguiram. Os motivos foram variados, desde visitar doentes até jantar com Aileen.
Todavia ela manteve a promessa. Levava Brighid junto, e sempre havia alguém na
fortaleza informado sobre seu paradeiro. Laurel também se manteve fiel à promessa de
abandonar as responsabilidades da fortaleza para Conor e ele nunca a encontrava para
terem uma conversa séria. Com as modificações feitas por Laurel no castelo, havia muitas
coisas a serem resolvidas diariamente, pois Conor não desejava que voltasse a imperar a
desordem anterior. Ele conhecia Laurel e sabia que ela o testava, provocando uma
rendição. Ah, mas ele se manteria firme não cederia quanto ao papel de Laurel nos
assuntos do clã.
Todas as noites, Conor esperava o retorno de Laurel para falar com ela. Mas Laurel
ia para o quarto e já estava dormindo quando ele subia para se recolher.
— Você não pode continuar com isso — Aileen avisou-a na quinta noite em que
Laurel foi visitá-la, enquanto Brighid embalava o bebê junto à lareira. — Eu sei, mas não
consigo encará-lo. — E o que você vai fazer quando o sacerdote chegar? Finn está
convencido de que você e milorde acabarão se casando. — Ela pegou o filho das mãos
de Brighid e ajeitou-o no meio da cama. Laurel suspirou, infeliz.
— Aileen, eu não me casarei com um homem que deseja fazer de mim o que não
sou.
— Concordo que ele não deveria querer mandá-la, mas ainda assim acho que você
deveria se casar com ele. Você não tem escolha, afinal está morando com ele.
— De certa forma, você tem razão. Mas o lugar onde Conor e eu dormimos não
implica necessariamente em matrimônio. Ele se recusa a permitir que eu faça coisas que
me deixaria feliz e quer que eu me torne uma versão enfadonha de mim mesma. Ele teria
de ficar satisfeito, e não envergonhado, com minha vontade de ajudar.
— Ele não se envergonha, Laurel, nem é justo que você diga isso. — Aileen segurou
o braço da amiga. — Tenho certeza de que ele ama você, mas os homens demoram
muito para mudar de opinião. Seja paciente.
— Ela está certa, milady — Brighid apoiou Aileen. — Os homens são muito teimosos
em alguns assuntos, como tradições e o que consideram como suas responsabilidades —
ela comentou com tristeza.
— Brighid, parece-me que você também está com problemas a respeito dos
homens. — Laurel espantou-se ao ver a jovem à beira das lágrimas.
— É verdade. Donald, meu noivo, sentiu-se inferiorizado depois que me tornei sua
criada e acompanhante. Ele diz que eu deveria encontrar um trabalho mais condizente
com minha posição social. Para Donald, não interessa se não me importo com isso e que
desejo apenas ser a esposa de um guerreiro. Ele não me ouve.
— Oh, Brighid, eu não imaginava que os homens tivessem idéias tão ridículas. O
que faremos com eles? — Laurel levantou as mãos, exasperada.
— Não sei, lady Laurel, mas espero que a senhora descubra logo a resposta —
Brighid desesperou-se.
Laurel levou as mãos à cintura, com raiva de quem impedia a jovem de ser feliz.
— Ora, Brighid, ele deveria entender que é um felizardo por ter o seu amor, e
agarrá-lo enquanto ainda pode. Seu status e o dele pouco importam diante da grandeza
do mundo.
— O mesmo poderia ser dito em relação a você, Laurel. — Aileen mexeu-se na

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

cadeira, ainda dolorida pelo parto recente. — É preciso segurar com as duas mãos
quando o amor se apresenta, e certamente os problemas perderão a importância com o
tempo. Case-se com Conor e seja feliz.
Laurel pensou a noite inteira naquelas palavras, Brighid e ela foram embora e
chegaram ao castelo como das vezes anteriores. Usaram a entrada leste, que dava
acesso à torre de supervisão. Dali, Laurel foi até a passagem no alto da muralha e
diretamente para as ameias da torre estrelada, de onde desceu para seus aposentos.
Todas as noites, Conor abria a porta e observava o sono simulado de Laurel antes de ir
dormir. Depois que ele se afastava, Laurel chorava.
Aquela noite não foi diferente, mas Conor se demorou mais alguns segundos.
— Boa noite, amor — ele sussurrou. — O padre Flanaghly chegará amanhã. Nossas
disputas terão um fim e nós nos casaremos.
Aileen está errada, Laurel pensou, chorando. Os dois se amavam, mas isso não
mudava nada.
Na manhã seguinte, logo cedo, Laurel procurou Brighid na cozinha. — Bom dia,
Fiona. Brighid já chegou?
— Sim, ela está nos fundos, limpando uma panela. Uma das minhas ajudantes não
estava se sentindo bem e eu não posso alimentar um exército sem ajuda — Fiona
comentou, azeda como de costume, embora fosse ótima cozinheira.
— Ah, que pena! Peça a Glynis para providenciar uma ajudante. Deve ser muito
difícil cozinhar para tantas pessoas sem auxiliares. Brighid?
— Estou indo, milady. — Brighid voltou, trazendo a panela limpa. — Pronto, Fiona.
— Fiona, por favor, diga a quem perguntar que voltaremos tarde — Laurel pediu. —
Vou procurar a parteira, pois estou precisando de um remédio para Aileen, que ainda não
se recuperou. Espero conseguir pelo menos um medicamento para as dores.
Fiona anuiu, sem tirar os olhos das batatas que descascava.
— Seria melhor se milady tratasse de arrumar uma ajudante com urgência.
Laurel mandou Glynis falar com Fiona e foi com Brighid até a estrebaria. Enquanto
Clyde selava os cavalos, Laurel pegou a adaga e o arco, e repetiu para Neal os planos de
procurar a parteira.
As duas cavalgaram durante horas rumo ao Norte, onde a temperatura era bem
mais fria. O solo que se tornava rochoso dificultava o avanço dos cavalos, e Brighid não
tinha muita prática em conduzir uma montaria. O trajeto demorou mais do que Laurel
esperava, até Brighid apontar para uma choupana de pedra rodeada por pinheiros no alto
de um monte.
Elas se aproximaram e uma mulher robusta abriu a porta. Seus cabelos eram
vermelhos e rebeldes, e por cima da camisa carmim ela usava a manta dos MacTiernay,
que ia do pescoço aos tornozelos. Pregueada, a manta era presa sobre os quadris com
um cinto largo de couro semelhante ao que Conor usava.
— Quem é a senhora? — ela perguntou, quando Laurel apeou.
— Sou Laurel Cordell. A senhora é a parteira dos MacTiernay?
— Sim — foi a resposta seca.
A hostilidade da mulher devia ser por conta dos visitantes, e principalmente se não
eram montanheses.
— A senhora deve ter ouvido falar de mim. — Laurel não estava bem-humorada
depois da viagem longa naquele frio.
— Sei que a senhora é inglesa e que vai se casar com milorde.
— Isso ainda terá de ser resolvido — Laurel resmungou enquanto amarrava Borrail
numa árvore.
— Não vai se casar? — A mulher arqueou as sobrancelhas vermelhas.
— Não pretendo.
— A senhora se acha boa demais para ele?

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

Ela ouvira boatos a respeito do orgulho da beldade inglesa.


— Nada disso. Apenas não pretendo mudar por ele nem por homem nenhum. Eu
amo Conor McTiernay, mas me recuso a tornar-me uma inútil quando posso fazer muitas
coisas. Até lorde Conor não aceitar isso, nós não nos casaremos.
A mulher anuiu, em sinal de aprovação. Laurel teve a impressão de que passara
num teste.
— Sei que fizeram uma viagem difícil. Podem entrar e venham se aquecer. — A
mulher se virou e entrou.
Brighid e Laurel a seguiram e pararam diante da lareira central. A mulher não tirava
os olhos de Laurel, talvez para continuar observando-a e avaliando-a.
— Ouvi dizer que a senhora ajudou Aileen dar à luz o bebê.
Apesar da distância, a mulher estava a par dos acontecimentos do clã.
— Sim. Eu esperava que a senhora chegasse a tempo para ajudar, pois eu não
tinha idéia do que estava fazendo. — Laurel esfregou as mãos diante das chamas.
— Milady fez um bom trabalho.
— A senhora não estava lá e não poderia saber. Tudo terminou bem por pura sorte,
pois tenho mais experiência com arranhões e cortes, o que é bem mais simples.
— Eu estava, e milady fez um bom trabalho. Laurel ficou atônita. Se Brighid voltara
sem a parteira, como podia ela ter presenciado tudo?
— Perdão, milady, Hagatha me fez prometer que eu não diria nada — Brighid
desculpou-se, constrangida.
— A senhora esteve lá? — Laurel não entendeu.
— Sim, eu queria ver seu desempenho. Achei que Aileen fosse uma tola em confiar
numa inglesa, mas eu me enganei.
— Está bem, Hagatha. Vim até aqui porque Aileen precisa novamente de sua ajuda.
— Parteira — a ruiva corrigiu-a.
— Como é?
— Inglesa, prefiro que me chame de parteira — a mulher disse em tom casual.
— Hagatha — Brighid irritou-se —, você sabe que deve chamá-la de milady ou de
lady Laurel, e em breve de lady McTiernay.
— Só depois de morta, eu não a chamarei de "inglesa".
— Está bem, Brighid — Laurel tentou apaziguar a situação. — Acho agradável
quando alguém se refere a mim sem nenhum título.
— Milady, mas a senhora é tão escocesa quanto britânica.
— Isso é verdade? — Foi a vez de Hagatha surpreender-se. — Nesse caso não a
chamarei de inglesa, pois estaria insultando sua parte escocesa. Dependendo de meu
humor, eu poderei chamá-la de Laurel.
Laurel começava a gostar de Hagatha, uma pessoa que tinha seus próprios códigos
de ética.
— Pois bem, parteira, como já lhe disse, vim até aqui por causa de Aileen. Ela ainda
tem dores devido ao rompimento dos tecidos.
— Então deve ter sido bem grande.
— Foi extenso e pensei em fazer uma sutura, mas Aileen não aceitou a sugestão.
— Pois deveria ter feito. Dilacerações são comuns quando os bebês são grandes,
mas agora não adianta mais dar pontos. — Hagatha abriu um gabinete com ungüentos e
ervas medicinais.
— A senhora tem uma bela coleção. — Laurel aproximou-se.
— Conhece tudo isso, não é?
— Só os usados para febre e ferimentos. Quando eu era menina, algumas vezes
minha mãe me deixava ajudá-la a cuidar dos soldados. — Laurel apontou os frascos com
amieiro, quebra-febre, arruda e hera terrestre.
— Ouvi dizer que você tratou dos ferimentos dos guerreiros após o treinamento.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— Fiz isso durante algum tempo, mas o estoque de ervas terminou. Pensei em
colher mais e secá-las durante a primavera.
Hagatha pegou um frasco com ungüento.
— Peça a ela que use este medicamento duas vezes ao dia.— Ela pegou uma
embalagem com ervas secas.—Estas são para fazer um chá. O ungüento ajuda na
cicatrização e o cravo-da-índia diminui a dor e não faz mal para o bebê. — Hagatha foi até
a porta, indicando o fim da visita.
— Hagatha, você mora sozinha?
— Desde a morte de meu marido. Não gosto de companhia nem de ficar no castelo.
As três saíram da casa e Hagatha segurou a mão de Laurel.
— Fico satisfeita que tenha vindo, Laurel. Milorde é um felizardo, ou pelo menos
será, quando entender o que perderá se não a deixar ser feliz. Meu marido também
procurou fazer com que eu mudasse e não deu certo. Como segui a mesma trilha e tentei
fazê-lo mudar, acabamos fazendo um acordo para um deixar o outro em paz. Desde
então fomos felizes. Experimente fazer isso com milorde e verá que a única maneira de
alcançar a felicidade é deixar cada um ser como é.
Hagatha virou-se, entrou na choupana e fechou a porta.
A volta foi ainda mais demorada, pois Brighid não estava acostumada a cavalgar
grandes distâncias. Quando se aproximaram das muralhas do castelo, já fazia tempo que
escurecera.
Laurel, que enxergava bem sob a luz do luar, precedia Brighid e perscrutava os
arredores para se prevenir de algum perigo. Por sorte, nada aconteceu até elas
chegarem, mas uma porção de sentinelas se alinhava sobre as muralhas, obviamente
procurando por alguém.
Oh, Senhor, Conor vai me trancar para sempre!, Laurel pensou.
Ela deteve os cavalos antes de entrarem no raio de visão dos soldados e tirou da
sacola de couro o ungüento e as ervas.
—: Brighid, dê isto a Aileen pela manhã, junto com as instruções de Hagatha.
Brighid tentou em vão persuadir Laurel a deixá-la ir junto e ajudar a explicar os
motivos do atraso.
— Brighid, aqueles homens estão procurando por nós. Posso imaginar o estado de
ânimo de lorde McTiernay no momento e não quero que você seja alvo da raiva dele.
Será melhor eu enfrentar milorde sozinha e você ir direto para casa.
— Milady deixou avisado para onde iríamos e todos sabem que a parteira mora
longe.
— Não creio que isso tenha importância nesta altura dos acontecimentos.
— O que acontecerá com milady? Laurel abraçou-a.
— Ele não vai me bater, não tenha receio. Apenas duvido que ele continue
consentindo nas minhas saídas do castelo, mesmo para visitar Aileen.
— Mas milady só queria ajudar!
— O que vai piorar tudo.
Laurel instigou Borrail para a frente, e quando chegou aos portões do castelo, foi
avistada pelas sentinelas. No pátio, surpreendeu-se por não ver Conor. Entregou as
rédeas para um cavalariço e dirigiu-se para seus aposentos.
— A senhora deve ser lady Laurel.
Laurel virou-se ao ouvir a voz e deparou-se com um sacerdote com a bondade
estampada na fisionomia. Cabelos e barbas brancas contrastavam com os olhos
castanhos margeados por rugas de tanto sorrir.
— Sou eu. O senhor é o padre Lanaghly?
— Acertou. Conor ficará feliz em saber que milady voltou em segurança.
— Tenho certeza disso. Ele está aqui?
— Não. Milady voltou antes dele e dos homens.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— Neal e Fiona não disseram a ele para onde fui?


— Com certeza, mas ele não pareceu convencido de que milady sobreviveria a uma
viagem tão longa sem escolta. Creio que ele se enganou.
— Oh, Senhor! Ele deve estar furioso. Eu não imaginava que fosse demorar tanto, e
Deus é testemunha de que Brighid é a mais lerda das amazonas. — Laurel arregalou os
olhos ao entender que invocara o Santo Nome em vão, por duas vezes, diante do padre.
Lanaghly não poderia estar mais encantado. Ele a vira entrar no pátio com
imponência e o halo de cabelos loiros soltos ao vento, e agora, ao deparar-se com o belo
rosto e os olhos adoráveis, entendeu por que lorde Conor resolvera abandonar os votos
de celibato.
— Milady está certa a respeito de milorde, mas como todos os temperamentais, ele
acabará por aquietar-se. Fique calma e vá se deitar. Com certeza milorde irá procurá-la,
assim que chegar.
— Obrigada, padre.
Laurel subiu a escadaria chorando. Não tivera intenção de provocar novamente um
alvoroço. Pretendera apenas ajudar a amiga.
Preparou-se para dormir e, de camisão, começou a escovar os cabelos, sentada
numa poltrona diante do fogo. Quando Conor e ela parariam de discutir?
Conor foi avisado da chegada de Laurel por sentinelas que foram ao seu encontro e
sentiu-se aliviado. A neve começava a cair, e antes de o dia amanhecer o solo estaria
branco. E como da outra vez, o medo foi rapidamente convertido em fúria.
Ele entrou no quarto de Laurel e viu a cama vazia.
— Laurel!
Ela adormecera na poltrona e assustou-se com o chamado feroz.
— Estou aqui, Conor! — Ela deu a volta na cadeira estofada.
Conor reprimiu a vontade de tomá-la nos braços.
— Quem lhe deu permissão para ir até a casa de Hagatha? — ele vociferou. — Por
acaso não notou o tempo? Já está nevando! Será que sua satisfação consiste em vagar
pelo mundo, pensando apenas em si mesma? , Novamente fui forçado a mandar meus
homens atrás de você. Nunca mais faça isso, Laurel! Nunca mais, entendeu?
Laurel estava cansada, com frio e apenas o orgulho a impedia de chorar.
— Fui até a casa de Hagatha para ajudar Aileen e não imaginei que fosse demorar
tanto. Sinto muito que tenha mandado seus homens à minha procura, mas eu lhe
asseguro que sei muito bem tomar conta de mim mesma.
— É melhor mesmo, pois com mais uma proeza dessas acabará sendo merecedora
de um belo castigo! Na semana passada, tive de sair duas vezes à sua procura. Nunca vi
ninguém mais egoísta, desobediente e enganadora. Você usou seus encantos e sua
beleza para fazer-me ceder a seus desejos. Mas isso não se repetirá, ouviu bem?
Portanto, trate de afastar de mim esses olhos azuis que fazem os homens cumprir suas
ordens. A desilusão de Laurel foi imensa e a fez esquecer o orgulho e a raiva. Pensara
que Conor a amava, mas ninguém dizia tais coisas para o ser amado.
— Entendi. — Ela baixou a cabeça. — Da próxima vez em que eu sair, será por uma
boa causa.
— Não haverá uma próxima vez.
Ah, mas haveria! Ela iria embora na primavera e não mais voltaria. Talvez tivesse
uma chance na Irlanda, se fosse capaz de esconder suas origens. De costas para Conor,
enxugou as lágrimas.
Conor admitiu que estava sendo injusto, mas sentia-se sem autoridade perto de
Laurel e um inútil quando ela se expunha ao perigo. No passado, outras mulheres haviam
usado os mais diferentes artifícios para conseguir atraí-lo, e isso funcionava quando ele
era mais jovem, antes de se dar conta dos fingimentos. Pensara ser imune aos
expedientes egoístas delas. E naquele dia, descobrira que Laurel abusara de sua boa

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

vontade. Na verdade, ela deixara avisado para onde ia e fora acompanhada. Mas também
sabia que Conor não aprovaria o trajeto até a choupana de Hagatha. Imperdoável.
— Laurel, não saia da torre e não me provoque novamente — advertiu ele em tom
glacial antes de sair e fechar a porta.
Laurel caiu de joelhos e chorou. Como Conor podia fazer tão pouco-caso dela?
Quando ele pediria uma explicação antes de atacar sem conhecer os motivos? Limpou as
lágrimas e abraçou-se. Precisava pensar.
Subiu os degraus rumo às ameias. O que lhe importava o frio, se ela nada sentia?
—Veja! — Fergus gritou e Gilroy olhou para cima. — É nosso anjo, certamente
enviado para aquecer a noite fria.
Os dois fitaram, maravilhados, a visão branca que perambulava pelas ameias da
torre estrelada. No início, vários homens haviam caçoado quando eles mencionaram o
anjo que aparecia e desaparecia como um espírito ao luar. Depois, quando outros
testemunharam o fenômeno, o posto deles fora sede de uma aglomeração. E depois o
anjo sumira. Até aquela noite.
Gilroy e Fergus sentaram-se e observaram o anjo caminhar suavemente. A
luminosidade reduzida por causa da nevasca deixava a imagem difusa, mas parecia que
seus braços se moviam mais animadamente do que o normal.
— Ela está dançando? — Gilroy perguntou.
— Não sei, é difícil dizer. — Fergus estreitou os olhos.
Eles continuaram a contemplar o anjo por algum tempo, mas acabaram por
adormecer.
No salão nobre, Lanaghly se esmerava num sermão.
— O que foi que lhe aconteceu, lorde Conor? Por que os McTiernay sempre se
exaltam quando se trata das amadas? Primeiro, milorde quase destruiu a fortaleza para
ensinar uma lição a seus irmãos. Agora, acusa uma mulher amada por todos, inclusive
pelo senhor, de ser egoísta, desobediente e enganadora. Ela é um lindo milagre. Olhe a
seu redor! Ouviu os risos? Será preciso outro milagre para admitir que está errado?
Lanaghly, assim como os demais, pressupôs que Conor se aborrecesse com Laurel. Mas
ninguém imaginara comentários tão ásperos como os que foram ouvidos do corredor. Os
que estavam próximos da torre estrelada contaram os fatos para os outros. Brighid soube
do que acontecera e voltou ao castelo na tentativa de defender Laurel. Explicou a todos
que teriam chegado mais cedo se ela mesma fosse uma amazona mais experiente. O clã
começou a se dividir em grupos que apoiavam Laurel ou Conor.
Conor se sentia extremamente infeliz. Depois de sair dos aposentos de Laurel,
começara a beber cerveja da despensa. Quando Lanaghly se aproximara, sentiu-se no
direito de ficar com raiva da atitude enganosa de Laurel. Fora somente depois que o
sacerdote o forçara a ouvi-lo que ele entendera a própria crueldade.
Lembrou-se das últimas palavras de Laurel: "Da próxima vez em que eu sair, será
por uma boa causa".
Enterrou a cabeça entre as mãos e compreendeu o significado do vazio lúgubre de
seus pesadelos. Ele perderia não apenas Laurel, mas também seu amor. O que ele
fizera? Uma nova onda de medo o invadiu.
Conor sabia que abusara da confiança de Laurel e de seu amor, mas teria todo o
inverno para reparar o erro. Ele a convenceria a ficar e a perdoá-lo, assim como a
persuadira a aceitar o casamento. Se fosse preciso, usaria o estratagema de proteger o
avô dela como fator de convencimento.
Loman subiu a escada da torre de vigia até onde se encontravam as sentinelas do
turno da noite. Fora uma noite terrível e, pelo visto, o dia seria ainda pior. Nunca vira
Conor tão estressado emocionalmente, e tudo o que ele dissera fora por medo. Conor
temia por Laurel, tinha medo que ela fosse como as outras e tinha receio de si mesmo.
Sacudiu a cabeça ao ver os dois guardas dormindo e cutucou os dois.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— O que estão fazendo aqui? Vão morrer congelados. Vou trocar a guarda de hora
em hora até a nevasca cessar.
— Ei! — Gilroy deu um empurrão em Fergus. — O anjo ainda está conosco!
— Do que estão falando? — Loman franziu o cenho.
— O anjo que vem nos visitar à noite com o céu estreado, mas que hoje veio com a
neve.
— Vocês estão loucos, vamos embora.
— Veja por si mesmo. — Fergus apontou a torre estrelada.
Então Loman viu os cabelos dourados. — Não se trata de um anjo, seus idiotas! —
Loman começou a correr.
Loman nem parou quando viu Conor e Lanaghly saindo do hall. Empurrou-os e
começou a subir os degraus da torre de dois em dois e até de três em três, chegou até a
porta dás ameias e teve de golpeá-la para abrir, pois a madeira, expandida com a
umidade, emperrara.
Laurel estava encolhida no piso de pedra, congelada. Os cabelos pareciam sincelos
colados na pele. Loman a levantou no colo e estava descendo a escada quando
encontrou Conor.
Conor viu Laurel nos braços de Loman, e o medo apertou-lhe o coração. Ele a
perderia. Loman entregou-a para Conor, que disparou até seus aposentos e deitou-a na
cama. Atrás dele, Loman e os outros corriam e gritavam. Em pouco tempo foram trazidos
baldes de água quente e cobertores. Pessoas rodeavam Laurel, esfregando seus braços
e pernas, mas ela não se mexia. Conor, mudo, segurava-lhe a cabeça e rezava para
Laurel não o abandonar.
Após um tempo que pareceu uma eternidade, Laurel piscou. Os lábios continuavam
azuis e os olhos, fundos.
— Meu amor, felizmente Loman a encontrou e agora está tudo bem. — Conor
beijou-lhe as faces, os lábios e as mãos, gelados.
— Sei que você não quis dizer aquilo — ela murmurou.
— Não fale, meu amor.
As lágrimas escorriam pelo rosto de Conor. Era como se ela estivesse nas últimas.
As palavras dele lembravam o que era dito aos moribundos no leito de morte.
— Não me deixe, Laurel, por favor... — Ele segurou-lhe o rosto. — Não me
abandone. Eu a encontrarei onde quer que você esteja e a trarei de volta. Você é minha,
e sem você, serei uma pessoa incompleta. — Ele a abraçou e a embalou, murmurando
palavras de amor em seu ouvido.
Os homens e as mulheres continuavam a friccionar os braços, as pernas e os pés
de Laurel, rezando. Conor viu Lanaghly e pensou no pior. Não permitiria que o padre
desse a ela a extrema-unção.
— Saia daqui, padre, seus serviços não serão necessários esta noite! Deixe-nos a
sós.
— Não estou aqui por ela, filho, mas por sua causa. Estou rezando fervorosamente
para que essa alma generosa permaneça conosco.
Conor não saiu do lado de Laurel durante horas. A cor normal demorava a voltar, e
Laurel continuava muito fria, tremendo sob vários cobertores. Ele acabou mandando
todos embora, tirou a roupa de ambos e abraçou-a. Então Laurel começou a melhorar. Os
lábios estavam pálidos, mas não azuis. Os dedos dos pés e das mãos começaram a
adquirir cor.
Mas o horror prosseguiu quando a febre tomou conta de Laurel e Conor admitiu
nunca ter se sentido tão péssimo e fora de controle.
Durante dias, Laurel entrava e saía da consciência, delirando sobre a incapacidade
de Conor em confiar nela. E Conor não se afastava.
Uma vez ela acordou, sentou-se e pediu que ele explicasse por que dissera que ela

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o enganara. Conor admitiu que cometera um erro e que não pretendera dizer aquilo. Ela o
contradisse e iniciou um discurso sobre a própria infância, confirmando que ele estava
certo. Quando tinha cinco anos, encantava a cozinheira propositalmente para conseguir
sobremesa extra todas as noites. Havia convencido o chefe dos cavalariços a ensiná-la a
caçar e a montar sem sela. Chegara a persuadir o irmão a deixá-la partir da Inglaterra. —
Você estava certo a meu respeito, Conor, e ficará muito melhor sem mim. — Depois
disso, Laurel voltou a ter febre muito alta e crises de inconsciência. — Ela não pode me
deixar dessa maneira — Conor queixou-se para Hagatha, que chegara no dia anterior. A
parteira banhou a testa de Laurel com água fria. — Não se preocupe, ela vai melhorar.
Aconselho-o a comer alguma coisa, pois quando ela se recuperar, milorde vai precisar de
toda a sua energia para convencê-la de que não tentará mudá-la.
No dia seguinte, a febre diminuiu. Laurel estava muito fraca e com a garganta seca,
mas Conor animou-se. Laurel tinha a impressão de que fora atropelada por uma horda de
cavalos e gemeu ao levantar um braço.
Todos os músculos do corpo doíam e os ossos pareciam quebrados. A cabeça
latejava.
— Não se mova, meu amor, apenas me diga o que deseja.
— Água... — Laurel notou como ele estava pálido e abatido. — Conor, o que houve
com você?
Ele sorriu e sentou-se.
— Ele não tem comido nada — Hagatha disse do outro lado. — Durante os cinco
dias em que a menina delirou de febre — ela apontou o polegar para Conor —, esse aí se
recusou a comer e praticamente não dormiu.
Laurel estreitou os olhos, procurando focalizar quem falava.
— Hagatha... o que está fazendo aqui? Sei que odeia deixar a choupana — Laurel
murmurou e fechou os olhos.
— Fico feliz que tenha percebido meu sacrifício — Hagatha brincou.
— Preciso de um banho — Laurel falou em voz baixa.
— Sabemos disso, mas terá de esperar alguns dias e sem reclamar — a parteira
avisou-a com voz firme. — Bem, pedirei à cozinheira para fazer um caldo.
Instantes depois, Conor e Laurel ficaram sozinhos.
Laurel virou a cabeça e observou o homem que roubara e retalhara seu coração. Em
pé, junto à janela, ele a observava. Os cabelos estavam emaranhados, as roupas
amassadas e não muito limpas.
— O que houve, Conor? Você está com uma aparência péssima.
Ele sorriu, chegou perto da cama, sentou-se na beirada, afastou os cabelos de
Laurel para trás da orelha, como gostava de fazer, e disse a si mesmo que ela ficaria
curada. Laurel tinha energia para superar qualquer coisa.
— Você foi encontrada no alto da torre, congelada na neve.
— Eu me lembro de ter ido até lá para pensar. Estava muito frio e eu quis entrar,
mas não consegui abrir a porta, por mais que eu a empurrasse. Eu gritava e ninguém me
ouvia. Pensei que fosse morrer.
— Não fale. — Conor fechou os olhos e abraçou-a. — Nunca mais permitirei que me
abandone. Eu a seguirei para qualquer lugar e a trarei de volta para mim. Será tão difícil
entender isso? Laurel adormeceu nos braços de Conor. Ele a segurou até Hagatha voltar
e exigir que ele fosse comer e descansar. Durante dois dias Hagatha supervisionou a
recuperação dos dois. No terceiro dia, ela anunciou que voltaria para casa.
— Obrigada por ter vindo, Hagatha — Laurel agradeceu.
— Eu já lhe disse para me chamar de parteira. — Eu sei, mas você é muito mais do
que isso. Você é o bem mais precioso dos McTiernay, — Laurel esticou os braços para
abraçar a mulher ruiva.
— Está bem, mas agora terá de ficar na cama até recuperar as forças. Poderá se

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

levantar para lavar-se, mas continuará em repouso. Esse tempo frio traz doença para os
pulmões das pessoas enfraquecidas.
— Prometo que cumprirei suas prescrições.
— Não se preocupe. — Conor pôs as mãos nos ombros de Laurel. — Ela não fará
nada que possa arriscar sua saúde.
— Você é pior do que ela. — Laurel fitou-o e afastou as mãos dele, erguendo-se,
pronta para desafiá-lo.
— Sim, posso ser.
— Pode ser? Você já é!
Hagatha deixou os dois discutindo e saiu. Desceu a escada, sorridente, pensando
que Conor e Laurel seriam tão felizes quanto ela e o marido tinham sido. Finalmente os
McTiernay haviam encontrado uma dama que os ajudaria a dirigir o clã.
Em cima, Conor e Laurel ainda não haviam notado que Hagatha saíra do quarto.
— Laurel, agora procure descansar. — Conor acariciou-lhe os cabelos.
— Preciso tomar um banho.
— Talvez amanhã. Hoje você já se movimentou demais.
— Conor, vou me movimentar ainda mais se tiver de atirá-lo pela janela. — Laurel
tentou levantar-se, mas Conor a impediu, e o esforço a deixou exausta.
Conor levantou-a nos braços e deitou-a de novo na cama.
— Viu só? Eu lhe disse que você estava cansada.
— Eu não estava até você me maltratar — Laurel resmungou. — Conor, entenda,
por favor. Estou me sentindo mal por estar imunda. Eu ficaria bem melhor se pudesse
tomar um banho e lavar os cabelos.
— E depois promete se comportar e ficar na cama o resto do dia?
Laurel não tinha paciência para aquele tipo de coisa. Raramente ficava doente e
quando isso acontecia, recuperava-se com rapidez.
— Prometo.
— Está bem. Mandarei preparar um banho para hoje à tarde e, por enquanto, trate
de dormir.
Laurel estreitou os olhos diante da arrogância.
— Você é intolerável.
— Você já disse isso várias vezes. — E de nada adiantou.
— Sim, e duvido que a repetição venha a fazer diferença em meus hábitos, mas se
isso a ajuda a se sentir melhor, pode continuar. Conor ajeitou-a na cama e, mesmo
cansada, Laurel não desistia.
— Se eu for dormir, você vai comer. Conor sorriu. Sempre que discutiam, ele
pensara que Laurel o desafiava para irritá-lo. De repente ocorreu-lhe que se tratava
apenas de orgulho ferido. Como ele, Laurel não gostava de aparentar fraqueza.
Finalmente ele descobria um dos muitos mistérios de sua noiva.
— Aceito.
A concordância de Conor acalmou-a. Ela fechou os olhos e dormiu por algumas
horas.
— De maneira nenhuma, Conor McTiernay.
— Quer um banho ou não?
— Claro, mas não com você me lavando.
— Ou eu, ou nada de banho.
— E Brighid?
— O que tem ela?
Laurel estava irritada com a teimosia de Conor.
—Isso não é certo! Homens não dão banho em mulheres.
— Mas esta é uma situação especial.
— Você é o chefe do clã!

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— E você é minha mulher!


— Por enquanto, não sou! Sou uma mulher solteira! O que todos dirão se
descobrirem que lorde McTiernay deu banho numa mulher solteira?
— Ficarão satisfeitos em saber que supervisionei pessoalmente a saúde da futura
lady McTiernay.
Laurel entendeu que não venceria a discussão. Recostado no consolo da lareira,
calmo e descontraído, Conor apenas a observava.
— Conor, por favor, não me peça isso!
Conor aproximou-se e abraçou-a. Fosse ou não correto, ele cuidaria de Laurel até
ela se recuperar.
— Laurel, eu quase a perdi. — Ele beijou-lhe os cabelos. — Pensei nisso quando
você foi à casa de Hagatha e quando Loman a encontrou. E a razão de minha existência
desapareceu até você voltar para mim. — Ele segurou-lhe o rosto e olhou-a. — Enquanto
eu não estiver totalmente certo a respeito de sua recuperação, agirei de maneira
possessiva e pouco ortodoxa. Peço-lhe que seja condescendente comigo.
O beijo que se seguiu confirmou as palavras dele. Demorado e profundo, transmitiu
o amor e a paixão que sentia por ela e Laurel correspondeu à altura, apertando-lhe a
nuca. Apesar das discussões que teriam, ela sempre o amaria, com a alma e o coração.
Conor levantou a cabeça e sorriu.
— Agora, milady, seu banho. — Conor levantou-a no colo e carregou-a até a lareira
acesa.
Desnudou-a aos poucos, parando para roçar os lábios na pele que estava exposta.
Laurel adorou a maneira sutil como ele a tocava e sentiu um calor líquido correr por suas
veias.
Ele a colocou dentro da banheira e lavou-a com o sabão de lilases. Em instantes, ela
esqueceu os motivos por que Conor não deveria banhá-la. As sensações tomaram conta
de Laurel, mas não representavam apenas uma excitação sexual, embora o fascínio e a
paixão estivessem presentes. Era o amor. Conor a tocava como se ela fosse o bem mais
precioso do mundo.
Conor esfregou-lhe os cabelos e Laurel teve vontade de fazer o mesmo com ele.
Ergueu-se um pouco na água, agarrou a camisa dele e tirou-a pela cabeça.
Surpreso, Conor maravilhou-se com a perfeição do corpo de Laurel que, molhado,
refletia a luminosidade das chamas. Segundos depois, percebeu que Laurel tirara o cinto
e que o kilt caía no chão.
— Agora é a minha vez de banhá-lo — ela falou com voz rouca.
Tenso e sentindo a própria rigidez, Conor cedeu ao puxão de Laurel e caiu dentro da
banheira. Laurel começou a ensaboá-lo e ele nem se incomodou se depois ficaria com
perfume de lilás.
— Ah, amor, você acabará me matando! — Conor baixou a cabeça e tentou beijá-la,
mas ela se esquivou e mordiscou-lhe a orelha.
— Como assim?
— Se eu não morrer esta noite de tanto desejo, meus homens me humilharão até a
morte amanhã cedo quando sentirem meu cheiro — Conor afirmou e esfregou o nariz no
pescoço de Laurel.
Durante meia hora eles se entregaram a brincadeiras sensuais e Conor teve de
dissuadi-la várias vezes de consumar o amor deles, alegando excesso de esforço físico.
Quando a água começou a esfriar, Conor tirou Laurel da banheira, secou-a
rapidamente e ajudou-a a vestir a camisola. Em seguida escovou os cabelos longos para
tirar-lhes o máximo possível de umidade. Depois que Conor a deitou, Laurel adormeceu
pensando em tomar outro banho com Conor durante a con-(*) falta parte

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

CAPÍTULO IX

Três dias mais tarde, Laurel rebelou-se. Conor exagerava nos cuidados, Deixara
uma sentinela de plantão na porta do corredor e escondera os vestidos dela. Quando ele
voltou com a refeição, Laurel estava preparada para a guerra.
— O que está fazendo fora da cama? — Conor fechou a porta com o pé.
— Tentando sair.
— Ameaça sem efeito. — Conor indicou a camisa que ela vestia.
Pensando em questões de orgulho, Laurel decidiu concordar com ele no momento,
em vez de se humilhar diante dos outros por estar semidespida.
— Você está sendo completamente irracional — ela o acusou.
— Só um pouco. — Conor deu de ombros.
— Hagatha disse...
— Hagatha disse que você teria de permanecer na cama até recuperar as forças.
Sereno, Conor tirou as travessas da bandeja e deixou-as sobre a mesa improvisada
que vinham utilizando nos últimos dias.
— Conor, você está provocando minha criatividade para eu encontrar uma maneira
de desafiá-lo. E considere-se avisado, pois é o que farei. Sem se impressionar, ele
começou a comer um bolinho com manteiga.
— Você entra, e sai deste quarto a seu bel-prazer, enquanto me deixa aqui
prisioneira e louca de tédio.
Laurel começou a andar de um lado para outro.
— Você poderia confeccionar o vestido de noiva — Conor sugeriu. — Glynis me
disse que você já costurou um vestido.
— Um vestido de casamento só é necessário quando alguém vai se casar.
— Sim, e você se enquadra nessa categoria. — Eu não!
— Engano seu.
— Da próxima vez que vier me visitar, eu terei ido embora. Não apenas para longe
deste quarto, mas para longe de você, seu tirano! Conor não gostou da inflexão da voz de
Laurel e decidiu mudar de tática. Quando a serenidade não funcionava, o que poderia ser
feito? Lembrou-se de Hagatha, que o aconselhara a convencê-la de que não tentaria
mudá-la. Deixou o bolinho no prato, apoiou os cotovelos nos joelhos e fitou Laurel.
— Laurel, sou o chefe de um clã e não posso mudar, tenho responsabilidade de
zelar por tudo o que se relaciona com nosso grupo. Você me pertence, portanto minhas
obrigações a seu respeito são ainda mais rígidas.
—Você não gosta de mim! Sou egoísta e enganadora!
— Eu já lhe disse que estava errado. Eu apenas não podia entender por que você
fazia questão de me deixar louco de preocupação.
Conor apontou a cadeira em frente para Laurel se sentar e comer. Laurel hesitou
antes de obedecer com pose de rainha.
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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— Não foi proposital. Eu não imaginava que fosse me demorar tanto. Além disso, eu
teria feito a viagem em muito menos tempo, se você não me tivesse obrigado a ir com
uma acompanhante. — Ela partiu um pedaço de pão.
— Sim, mais um motivo para minha indignação. Quando eu soube que Brighid a
acompanhava, entendi que era você que a escoltava. Por que não me disse que
precisava falar urgentemente com Hagatha? Eu teria mandado um dos soldados
acompanhá-la, e assim, além de estar segura, você voltaria bem mais depressa.
Laurel sacudiu a cabeça e algumas madeixas se soltaram da fita que as amarrava.
— Não adianta dar nova versão aos fatos, milorde.
— Conor. — Ele ergueu as sobrancelhas.
— Milorde sabe muito bem que não teria me deixado ir à casa de Hagatha com
ninguém mais a não ser com sua augusta pessoa. — Laurel mastigou uma novidade feita
por Fiona, que tinha aspecto ruim, mas gosto excelente.
— Isso se chama haggis e é muito difícil de fazer. Fiona é uma excelente cozinheira
e você acertou em contratá-la em tempo integral. Haggis é um prato típico feito com
coração, pulmões e fígado de carneiro ou bezerro, picados. Mistura-se com sebo, cebola,
farinha de aveia e condimentos, e cozinha-se tudo no estômago de um animal.
Laurel sentiu vontade de vomitar e não conseguiu mais comer nada. Dali por diante,
só comeria alimentos conhecidos. Recostou-se no espaldar da cadeira e cruzou as mãos
no colo. Quem a visse pensaria numa dama recatada, mas Conor percebeu o olhar
tormentoso.
Laurel conseguiu controlar o estômago e procurou corrigir a visão de Conor quanto
ao futuro deles.
— Não quero mais brigar, Conor. Não creio que seremos felizes juntos, pois tudo o
que fazemos é discutir a respeito das mínimas coisas. Entendo a necessidade de proteger
o que é seu, mas você quer me transformar no que não sou. Sou uma dama, mas
desprezo muitas regras da sociedade. Tenho de ser livre para cavalgar e para decidir
quem precisa de minha ajuda. Se eu não puder fazer isso, a essência que me caracteriza
se perderá.
— Então teremos de descobrir uma maneira de satisfazer nossas necessidades sem
mudar nosso caráter — Conor comentou, confiante. Inclinou-se para a frente, segurou a
mão de Laurel e massageou-a. — Isso é possível Laurel. Meus pais eram teimosos e
foram felizes.
— Então?
—Terei de encontrar uma maneira para você exercer a liberdade, sem arriscar a
segurança.
— Conor, isso é irracional. — Laurel foi até a janela e observou o mundo coberto de
branco. — Eu posso escorregar numa escada e cair, por exemplo. Você não pode me
proteger de tudo, e por acaso não lhe ocorreu que eu me preocupo a seu respeito? Você
é chefe de um clã poderoso e certamente tem inimigos que procuram uma oportunidade
para prejudicá-lo. Nem por isso imploro para você não sair ou deixar de se reunir com
outros lordes quando é necessário. — Ela se voltou e encarou-o. — Você não está me
proporcionando proteção, Conor, mas confinamento. Não quero ser sua prisioneira, quero
ser sua esposa.
— Você quer mais do que isso, como, por exemplo, atuar em áreas de minha
competência. Sem me consultar, você toma decisões arbitrárias que colidem com as
minhas.
— Essa não era minha intenção, mas também existem outras formas de ajudar,
como no cuidado com as pessoas e na preservação do que pertence ao clã. Não entendo
de treinamento de guerreiros, mas sei quando um telhado tem de ser consertado... e
também sei como consertá-lo!
— Você não pode perambular por aí dando ordens, pois acabaria criando

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

perplexidade e divisão de lealdades ao invadir os espaços que sempre foram de minha


responsabilidade.
— Qual a diferença entre pedir aos homens para limpar o hall e consertar um
telhado de colmo?
Conor levantou-se e foi até a janela.
— A esposa do lorde tradicionalmente se encarrega da manutenção e da limpeza do
castelo.
— Segundo a filosofia tradicional. Mas se você é o chefe do clã, por que não
determina que eu possa me ocupar com o que está fora das muralhas?
Conor ergueu-lhe o queixo com o polegar.
— Não dividirei minhas obrigações, que são inerentes a um lorde.
— Não quero dividir nada, só quero ajudar. Quero ter liberdade para fazer mudanças
e melhoramentos sempre que forem necessários. Não creio que eu esteja fazendo nada
que você não aprovaria.
— Mas esse é o ponto principal. Você não pode tomar decisões que deveriam ser
minhas.
Laurel abraçou-o com um sorriso luminoso de quem descobrira um tesouro de
grande valor.
— Espere um pouco. Então o problema não está nas decisões, mas sim nas minhas
tentativas de fazer mudanças.
— Mais ou menos. — Sentir o busto de Laurel sob a camisa distraiu Conor, mas ele
também estranhou a mudança na disposição dela.
— E se eu prometer consultá-lo de agora em diante?
Laurel mal continha a alegria. O que lhe interessava era ser útil, e se Conor lhe
concedesse a autoridade, mesmo que fosse caso a caso, seria suficiente.
— Como assim? Conor notou que Laurel não se dava conta, do efeito doloroso
produzido pelo abraço. Prometera a si mesmo que não se deitariam juntos até o
casamento, mas não conseguia afastar Laurel para não quebrar a promessa. — Por
exemplo, o assunto dos telhados das choupanas. —As esperanças de Laurel estavam no
auge. — Se eu os inspecionar, falar com você sobre as melhorias e você as aprovar, eu
poderei executá-las? A sugestão tinha seus méritos. A autoridade de Conor para decidir
seria preservada e Laurel poderia satisfazer sua vontade de ajudar.
— Eu preferiria ser avisado antes da inspeção. Ali estava a solução, Laurel disse a si
mesma com alegria, soltou Conor, rodopiou pelo quarto e largou-se na cama. Conor
permitiria que ela o ajudasse, além de tecer e limpar o castelo!
— Eu especificarei os trabalhos — Conor acrescentou, angustiado porque a
excitação não cedera com o afastamento de Laurel. Ele tratou de se sentar para esconder
a evidência. — E meus homens terão de saber que as resoluções foram minhas.
Laurel deu um pulo, jogou-se no colo dele e beijou-o com paixão.
— Conor, eu o avisarei antes de qualquer evento que eu estiver planejando!
— Você terá de perguntar, não avisar. Laurel franziu o nariz.
— Está bem, perguntarei, mas se você negar eu me reservo o direito de discutir o
assunto até obter aprovação.
Conor não contestou.
— Você terá de ser acompanhada para ultrapassar as muralhas do castelo.
Preciso estabelecer novos acordos, Laurel refletiu.
— Também quero montar Borrail.
— Está certo.
— A galope.
— Sim, mas sua acompanhante terá de possuir habilidade equivalente à sua para
cavalgar.
— Quero mais uma promessa, Conor.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— Diga.
— Não vamos mais discutir como da última vez. Você disse coisas horríveis, que
não eram verdadeiras. Se você tivesse me escutado, nada daquilo teria acontecido.
— Está bem, dou-lhe a minha palavra de que sempre ouvirei suas explicações,
mesmo quando estiver furioso com algo que você fez ou deixou de fazer.
O sorriso de Laurel poderia ter iluminado todo o norte da Escócia.
— Agora sou eu quem deseja uma promessa.— Conor notou o olhar desconfiado de
Laurel. — Nunca mais quero ouvi-la me chamar de milorde, como se você fosse um
simples membro de meu clã. Você é muito mais do que isso, Laurel, mesmo quando
estiver zangada.
Ela acariciou-lhe os cabelos.
— Prometo, Conor.
Ele tinha razão. Havia uma maneira de dois teimosos entrarem num acordo e serem
felizes. Era preciso apenas aprender a ceder um pouco. — Obrigada, Conor.
Laurel fitou-o com adoração e seus olhos brilhavam como as águas cristalinas dos
lagos das montanhas, e Conor entendeu que faria qualquer coisa para tornar a ter aquele
olhar de alegria no rosto dela.
Eles não foram ingênuos em pensar que controvérsias futuras pudessem ser
evitadas, mas hão podiam imaginar que a diferença de opinião os atingiria tão depressa,
Primeiro foi a polêmica de quando Laurel poderia resumir as atividades. Depois de
palavras acaloradas, ficou decidido que ela poderia sair um pouco durante a manhã.
Qualquer outra atividade teria início na semana seguinte, dependendo de seu estado de
saúde. A segunda altercação ocorreu no salão nobre, após o jantar, e teve a ver com os
arranjos para dormir. Conor se recusou a sair do solário e não aceitou a sugestão de
Laurel voltar para o próprio quarto.
— O padre Lanaghly está no castelo!
— E o que tem isso? — Conor bebeu um grande gole de cerveja.
— Nós não somos casados e isso não seria decente.
— Podemos resolver o assunto em poucos minutos, Laurel. Foi você quem
manifestou o desejo de esperarmos pela presença de Cole.
— Claro, e eu gostaria que Colin também viesse, mas seria perigoso viajar pelo país
nesta época do ano.
— Então escolha. Quer dormir junto comigo sendo casada ou prefere esperar por
Cole?
— Conor, você novamente não está sendo racional.
— E provavelmente "insuportável". — Ele se levantou, ergueu-a da cadeira e
abraçou-a. — Eu estarei do seu lado à noite, se você tiver uma recaída ou sentir enjôo. —
Beijou-a no alto da cabeça.
Laurel retribuiu o abraço e apoiou a cabeça no ombro dele.
— Você sabe que já me recuperei e está se baseando em argumentos
inconsistentes.
— Essa é uma das vantagens de ser um lorde. — Conor fitou os lábios polpudos.
— Ah, perdoem-me, mas escutei a conversa — Lanaghly interrompeu-os da entrada,
como se fosse possível não ouvir os altos brados. — E uma das vantagens de ser padre é
a autoridade sobre quem pretende se casar.
Os dois se voltaram para ele.
— Lady Laurel está certa em querer se mudar para seu quarto até a cerimônia.
Tenho feito vista grossa desde que ela ficou doente. — Lanaghly levantou o dedo,
impedindo Conor de interferir. — Caso contrário, não realizarei o casamento.
Ele se sentia culpado por decepcionar Conor, mas o que era certo era certo.
Laurel entendeu que somente vencera a batalha com a intervenção de Lanaghly e
procurou não se vangloriar enquanto voltava para seu quarto.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

Conor, apesar de saber que Laurel estava recuperada, levantava-se várias vezes
durante a noite para ver se não houvera recaída.
As duas semanas seguintes passaram depressa. Conor teve muito trabalho,
envolvendo os preparativos para o inverno, problemas com os membros do clã e
treinamento de guerreiros. Laurel admirou-se pelo acúmulo de solicitações, e no final do
dia a paciência dele se esgotava.
A confecção do vestido e os preparativos para o casamento também mantiveram
Laurel bastante atarefada. Mas, conforme prometera, ela descansava pela manhã e à
tarde.
Assim que pôde sair do castelo, visitou Aileen e Gideon, o bebê que estava bem
desenvolvido.
— Quando Cole chegará?—Aileen perguntou, ansiosa pela realização do enlace.
— Amanhã ou depois. — Laurel ajudava Aileen a preparar a refeição da tarde.
— A capela está pronta?
— Em termos. Os bancos foram restaurados e podem ser utilizados. O estofamento
dos assentos foi refeito, com tecido no padrão McTiernay. As coberturas do altar ficarão
prontas esta noite. Fallon está aborrecido porque as janelas não serão limpas a tempo,
mas Conor não quer adiar mais a cerimônia, mesmo que Cole não chegue até depois de
amanhã.
— Você não está ansiosa? — Aileen mudou Gideon para o outro quadril enquanto
mexia a sopa que cozinhava sobre a lareira.
— Deixe que eu o segure. — Laurel pegou o bebê. — Claro que sim, mas estou
nervosa e espero que tudo saia bem.
— Pelo que Glynis e Brighid andam dizendo, o casamento será maravilhoso e a
capela ficará lotada.
— É isso que me apavora. Eu não deveria ter concordado com uma cerimônia desse
porte.
— Ou talvez, inconscientemente, você estivesse adiando a noite de núpcias.
Muitos especulavam se o enlace não seria uma mera formalidade para Conor e
Laurel.
— Pode ser.
Laurel não se arrependia do que acontecera entre eles, mas não devia explicações a
ninguém, assim como Conor evitava responder às perguntas de Lanaghly.
Os dois dias seguintes voaram. Cole chegara e se divertia com os irmãos,
provocando Conor, o "eterno" celibatário.
Deitada na cama ao amanhecer, Laurel olhava para o teto, sorridente. Depois de
duas semanas de grande azáfama, que incluíra organizar o banquete, preparar os quartos
e confeccionar o vestido de noiva, chegara o grande dia em que ela se casaria com Conor
McTiernay.
Levantou-se e vestiu o penhoar. Minutos depois seu quarto foi invadido por meia
dúzia de montanhesas que não pararam de voejar à sua volta, com um banho perfumado
e outros preparativos. As mulheres demoraram a entrar num acordo sobre o penteado e
as flores, e discutiram sobre os mais variados assuntos.
Depois de algum tempo, Laurel ficou zonza e pediu para todas, exceto Aileen, se
retirarem, admitindo estar nervosa.
Não pensara em se casar quando viera para as Terras Altas, mas sim em encontrar
um porto seguro junto a seu avô. Muita coisa acontecera desde que saíra do castelo do
irmão, e nas últimas semanas a felicidade passara a acenar para ela e Conor, que
aprendiam a viver. Muitas vezes receava acordar e descobrir que tudo não passava de
um sonho. Ao lado da cama, Aileen olhava o vestido de noiva e os acessórios.
— Esse é o vestido de noiva mais lindo que já vi, Laurel. Você criou uma obra-prima.
Laurel sorriu, em pé junto à janela.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— Não sou eu, mas sim Brighid, quem merece os méritos.


Aileen não a contradisse. Brighid era ótima costureira e bordava muito bem, mas
fora Laurel quem desenhara o modelo e executara a maior parte do trabalho delicado.
— Vamos, minha amiga, está na hora de se vestir. Nervosa, Laurel não se moveu.
A idéia de desposar Conor trazia satisfação e paz, mas a idéia de tornar-se lady
McTiernay a assustava.
Ela se dera conta do tamanho e do poder do clã nos últimos dias. Durante a semana
toda, uma procissão interminável de homens vinha cumprimentar Conor, o chefe todo-
poderoso. Centenas de guerreiros, dezenas de lordes dos clãs menores e aliados, e um
sem-número de montanheses tinham vindo desejar felicidades ao casal. A apreensão de
Laurel cresceu quando Finn explicou que Conor poderia reunir facilmente o dobro
daquelas pessoas para uma batalha. Sua tropa contava com mais de mil guerreiros. Ela
não raciocinara ao aceitar o pedido de casamento, e Conor também não, ao pedir-lhe
para casar-se com ele.
Ela fora presa de grande insegurança e perguntava toda hora a Conor se ele estava
seguro do que fazia; e ele, todas as vezes, a convencia de que nunca estivera tão seguro
de uma decisão.
Laurel afastou a cortina dourada com ansiedade e deixou escapar um suspiro
imperceptível, desejando que Conor estivesse ali para tranquilizá-la.
— Laurel? — Aileen chamou-a.
— Hum? — ela respondeu, distraída.
— Venha se sentar um pouco.
— O quê?
— Sente-se a meu lado e vamos conversar. Você está nervosa.
Laurel se acomodou sobre as pernas dobradas, na poltrona defronte da lareira.
— Fale-me sobre a Inglaterra — Aileen pediu, casualmente.
Laurel piscou.
— Nunca estive lá e tenho curiosidade de saber como é. Laurel deu de ombros e
começou a falar sobre o lar de sua infância. Contou que os montes Cheviots em
Northumberland eram reconhecidos como a principal separação entre a Inglaterra e a
Escócia.
— Muitos não têm árvores e um vento perene costuma castigar as gramíneas. Eu
ficava sentada ali durantes horas, escutando os sons. O Muro de Adriano, construído
pelos romanos não conseguiu separar os ingleses dos escoceses. Os dois lados o
escalavam ou o ignoravam. A Inglaterra, como as Terras Altas, é rústica e rochosa, e os
montes são íngremes. A maior parte da região é constituída por mangues, turfeiras e rios
largos. Mas há muita beleza natural, inclusive nos vales verdes e nas praias desertas.
Durante algum tempo Laurel continuou a responder às perguntas de Aileen e
acabou por esquecer os receios.
As mulheres retornaram para avisar que todos estavam prontos, menos Laurel.
Ela sorriu. Com a ajuda de Aileen, ela não demoraria em se vestir para o grande
momento. Foi até a cama e levantou o vestido.
— Milady, nós vamos ajudá-la — Glynis apressou-se.
— Permita-me, milady. — Brighid tirou o penhoar de Laurel.
Bem mais calma, Laurel não se apavorou com a ansiedade das mulheres que a
rodeavam. Elas vestiram Laurel com um diáfano traje íntimo e depois com o vestido.
A túnica era de seda cor de marfim, com bordados feitos por Brighid. O traje interno
era de cetim dourado e com a barra também bordada. O minucioso trabalho de Brighid
fora feito com cristais nos punhos, na cintura, mangas e decote, nas cores azul e dourado,
para combinar com os cabelos e os olhos da noiva.
A parte frontal da túnica lembrava um corte em "V" que se fechava nas costas entre
as omoplatas. As tiras que amarravam as laterais eram douradas.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

As mangas curtas, fofas e bordadas, sobrepunham-se às internas e justas.


Nos cabelos soltos, Laurel usava uma tiara de ouro de seis pontas que, séculos
antes, pertencera à família McTiernay. No centro da peça, havia um emblema céltico com
cristais azuis, pérolas e prata. Na parte posterior da tiara, fios de contas azuis e douradas
se harmonizavam com o bordado do vestido.
Por último, Laurel usou um colar que pertencia à sua família, havia também várias
gerações. Era de pérolas branças com uma estrela dourada e flores minúsculas com o
pingente central.
Elas ouviram uma batida, e uma mulher bem trajada abriu a porta.
— Está na hora? — Laurel sentiu-se nervosa outra vez.
— Sim, milady — a mulher respondeu.
— Milady, os McTiernay estão muito orgulhosos — Glynis afirmou com lágrimas nos
olhos.
As mulheres ergueram a cauda do vestido para que não arrastasse no chão, na
descida da escadaria. Quando chegou ao lado de fora, Laurel notou que havia uma
multidão de montanheses espalhados pelo pátio, sobre as muralhas e nas ameias. Na
capela não caberia nem metade dos homens e mulheres que haviam abandonado seus
castelos e casas para se aventurar numa viagem em meio ao inverno rigoroso.
Emocionado, Finn se aproximou para escoltar Laurel até a capela.
— Milady está maravilhosa e eu me pergunto como não notei sua beleza quando a
vimos pela primeira vez. Felizmente milorde foi mais perspicaz.
— Mas isso é porque você tem Aileen como esposa. Ele anuiu e, com expressão de
amor e orgulho, fitou Aileen, que ajudava as outras mulheres a segurar a cauda do
vestido.
Na verdade, homens e mulheres se deslumbravam com a formosura de Laurel e não
se cansavam de comentar o fato.
Os guerreiros que ladeavam o caminho para a capela levantaram as espadas para
saudá-la, sendo imitados pos todos os soldados do castelo, e o gesto de respeito
comoveu Laurel. Ela se aproximou da entrada da capela e recriminou-se. Era preciso
parar de apertar o buquê de ervas e flores que carregava. As mulheres haviam tido muito
trabalho para selecionar as que simbolizavam fidelidade e proteção espiritual.
Conor ria com os irmãos, mas assim que Laurel entrou na pequena igreja, ficou sem
fala diante da mulher deslumbrante que vinha em sua direção.
Naquela manhã ele resolvera dar um bom galope para desanuviar a mente. Era o
dia de seu casamento e ele sempre rejeitara aquela idéia. O passeio solitário não
acalmara seus pensamentos, que se assemelhavam a um turbilhão.
Então fora procurar companhia no hall, que fazia muito tempo não freqüentava, por
causa do mau cheiro. Com a reforma, porém, o local se tornara agradável e seria
interessante tomar um pouco de cerveja com os companheiros.
Conor bebia com os soldados mais jovens e falava sobre batalhas gloriosas, quando
Fallon e Finn o encontraram. Eles o seguraram pelo braço e o levaram à torre norte.
Antes de subir a escadaria, Conor desvencilhou-se.
— Para onde estão me levando? Finn começou a subir.
— Milorde, seria melhor se... milorde? — Finn voltou-se e fitou Conor que estava
parado e com os braços cruzados na altura do peito.
— Por acaso estão bêbados? — Conor fitou-os com severidade. — Para onde
pretendem me levar?
— Estamos indo para o solário da torre, é evidente — Fallon respondeu.
— Pois eu prefiro meus aposentos, obrigado — Conor respondeu, irritado, e não
saiu do lugar.
— Respeito sua preferência, milorde, mas agora não o deixaremos chegar nem nas
proximidades — Finn afirmou, inflexível. — Creio que será melhor seguir Fallon.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

Conor fez uma carranca que levou Pinn a se explicar.


— Milorde é o poderoso chefe de nosso clã, mas sua noiva está se aprontado na
torre estrelada, e Aileen foi muito clara. Se milorde puser a ponta do pé naquela parte do
castelo, eu terei uma morte lenta e dolorosa. Portanto, a menos que milorde pretenda
enfrentar Aileen, Glynis, Brighid e mais meia dúzia de mulheres dispostas a tudo, será
melhor desistir. Nós pegamos suas roupas, que estão lá em cima junto com um banho
quente à sua espera.
Os dois se entreolharam por um longo momento até Conor resolver subir em silêncio
a escada da torre norte, rumo ao solário. A tensão que o envolvia era inegável.
Depois do banho, ele dispensou todos e deitou-se para pensar. Por que estaria tão
nervoso? Laurel e ele vinham se entendendo muito bem nos últimos dias. Nada havia a
temer.
Passou a mão nos cabelos e levantou-se, disposto a se vestir. A porta foi aberta e
Finn entrou.
— Milorde?
— Sim?
— Seamus está lá fora. Milorde mandou chamá-lo?
— Mandei.
— Posso ajudá-lo em alguma coisa?
— Não, mande-o entrar e depois verifique se tudo está pronto lá embaixo.
Finn estranhou o comportamento de Conor, mas saiu para fazer o que ele pedia.
Conor falou com Seamus e ficou mais aliviado depois de obter a concordância do
outro. Sua promessa logo seria cumprida, mas ele não se sentiria em paz até ver Laurel
novamente.
Naquele momento, ao ver Laurel, Conor esqueceu a frustração, as preocupações e
as responsabilidades. Seu coração disparou, e ele sentiu um orgulho imenso diante da
beldade que se tornaria sua esposa. E também uma vontade ridícula de afastar todos os
homens da capela e do castelo. Não havia mulher que se comparasse à beleza de Laurel.
Era um verdadeiro anjo enviado dos céus para salvá-lo do isolamento e da solidão. Seu
único objetivo de vida seria fazê-la feliz.
Laurel fitou o homem que se tornaria seu marido e seu medo se dissipou. Ela não
via o poderoso lorde McTiernay, mas apenas Conor, seu amado e protetor. Com ele,
aprendera a confiar. Não teria de contar com suas habilidades para sobreviver e poderia
dedicar-se a amar seu atraente montanhês.
Laurel encontrava-se extremamente ansiosa quando Conor e ela deixaram a
recepção suntuosa e foram para o solário da torre estrelada. Estivera nervosa a noite
inteira e a emotividade aumentava com as danças, os brindes e os beijos de felicitações.
Ela rira quando Aileen sugerira ser a noite de núpcias ò motivo de apreensão. Era
uma noção ingênua, pois Conor e ela já eram íntimos. E saber o que a aguardava não a
descontraía, deixava-a excitada. Imaginava se o amor deles continuaria a ser intenso e
poderoso como antes. A última vez fora um produto de paixão resultante de uma briga.
Ela passara a noite toda pensando como seria. Naquele momento, nos braços de
Conor, que trancava a porta, ela ainda se lembrava da cerimônia e da comemoração
posterior.
Conor vestia uma camisa branca e a manta com as cores dos McTiernay. A camisa
estava amarrada na altura dos joelhos com um cinto de couro que também segurava a
manta.
Laurel nunca vira homem mais sedutor.
Os irmãos e a guarda de honra usavam trajes semelhantes. Todos traziam a espada
que servira para criar um arco por onde Conor e ela passaram e voltaram do altar.
Laurel lembrava-se de poucas coisas ocorridas no enlace e uma delas era a
cerimônia do quaich. O quaich era uma espécie de copo que simbolizava a união dos

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

noivos e de suas famílias. Cole pôs água em dois cálices de prata que ostentavam o
emblema dos McTiernay. Depois ela e Conor despejaram simultaneamente a água dos
cálices num belo quaich e dele beberam à felicidade presente e futura.
Havia vários quaich no salão nobre, destinados a oferecer conhaque e uísque para
os visitantes, embora o costume fosse trazer os próprios recipientes. Como a maioria dos
quaich, o que fora reservado para eles era amplo, raso, feito de madeira e com duas
pequenas alças de prata cinzelada que caracterizavam a peça e se projetavam
horizontalmente e em sentido oposto. Aquele não era de madeira lisa e fora feito com
aduelas leves e escuras amarradas com vime e metal. No centro do recipiente, onde as
aduelas se encontravam, uma moeda com o emblema dos McTiernay escondia o
arremate.
Os escoceses, inclusive seu avô, acreditavam que no dedo médio da mão esquerda
havia uma veia que chegava direto ao coração. Laurel recordou-se de Conor deslizando a
aliança de ouro em seu dedo, enquanto falava sobre o amor que os unia e do
compromisso que assumiam. O restante da cerimônia, inclusive a proclamação dos
votos, parecia um borrão. Quando deixaram a capela, uma fatia fina de pão foi jogada em
sua cabeça e as mulheres correram para pegar as migalhas. Laurel ficou sabendo depois
que o pão simbolizava a fertilidade, e as migalhas eram consideradas como amuletos de
boa sorte.
Se todas as tradições e simpatias funcionarem, Conor e eu teremos um batalhão de
filhos, Laurel concluiu.
A recepção fora bastante animada. Laurel se lembrava de ter dançado com muitos
convidados e de ter dado muita risada com as momices dos cunhados.
Fiona se superara. O banquete fora esplêndido e elogiado por todos. A cada minuto
ecoavam brindes a Conor, a ela e a ambos. De repente, quando se viu em meio a um
grupo animado de montanheses, Conor a levou para fora do salão nobre.
— Você não vai me deixar no chão? — perguntou enquanto Conor a carregava
escada acima.
Ele não respondeu e continuou a marcha rumo aos aposentos dele. Fora incapaz de
respirar normalmente desde o instante em que vira Laurel entrar na capela. A mulher de
seus sonhos se casaria com ele e, por várias vezes, se sentira tomado pela emoção. Em
pouco tempo, Laurel se tornara a pessoa mais importante de sua vida. Naquelas poucas
semanas, eles haviam aprendido a confiar, a ouvir e a contar com o apoio um do outro.
Conor trancou a porta, pôs Laurel em pé e acariciou-lhe o rosto e os cabelos. Ela era
certamente a mais bela mulher da Escócia, opinião que era compartilhada por todos que
falavam com ele. Conor procurou não reagir ao ciúme que o atormentara a noite inteira,
mas admitiu que sua resistência chegava ao fim quando um soldado da guarda de lorde
Schellden levantou Laurel em uma dança alegre. Uma solução seria estabelecer uma
norma que obrigaria qualquer homem a manter uma distância mínima de dois metros de
Laurel.
Conor abraçou Laurel e inspirou a fragrância dos cabelos dela que o atormentava
desde a primeira vez em que haviam feito amor.
— Eu a amo, lady McTiernay — Conor afirmou, emocionado.
— Eu também o amo, Conor — Laurel respondeu, radiante de alegria.
O nervosismo de Laurel desapareceu e ela abraçou o pescoço do marido quando
ele a brindou com o primeiro beijo da noite,
Conor esqueceu-se do mundo ao tocar nos lábios suaves e complacentes, e Laurel
se rendeu de imediato. Ele segurou-lhe o rosto e continuou o beijo lento e sedutor que a
deixou ainda mais ansiosa. Laurel estremeceu, mas não se afastou. Conor, excitado,
continuou a beijá-la e a brincar com os lábios abertos, sugando-lhe a língua.
Ela gemeu e tentou apressar o intercurso sexual, mas Conor recusava-se a acelerar
qualquer coisa naquela noite. Conor beijou-lhe as faces, a testa e a orelha que passou a

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

mordiscar.
A garganta de Laurel contraiu-se de desejo.
— Tive a impressão de que nunca mais ficaria a sós com você — Conor murmurou
ao beijá-la novamente na boca.
Conor brincou com o lábio inferior de Laurel, abraçou-a com força e intensificou o
beijo. Ele experimentou do calor da boca tentadora e passou as mãos nas costas de
Laurel.
Ela sentiu amolecer as pernas e somente se manteve em pé porque Conor a
amparava. Estremeceu quando ele lhe beijou o pescoço e os ombros. As carícias suaves
eram tão poderosas quanto as mais intensas.
— Prometa-me, Conor que nunca se afastará de mim.
Conor acariciou-lhe a face com os nós dos dedos.
— Prometo, meu amor. — Os olhos cinzentos brilhavam de amor, possessividade e
desejo. — Você será minha para sempre e eu serei seu para toda a vida.
Ele deslizou os dedos pela nuca e por dentro do vestido de Laurel e voltou a beijá-la,
provocando-a com os lábios e a língua. Laurel buscou o interior da boca de Conor e
rodeou a língua na dele.
Conor removeu a tiara e o colar de Laurel e deixou as peças na mesa próxima da
janela. Abaixou-se e tirou-lhe as sapatilhas, acariciando os pés. Toda vez em que
encostava na pele de Laurel, seu desejo aumentava.
Laurel jamais imaginara aquela ansiedade para tocar num homem. Impediu-o de
tirar o vestido de noiva, segurou-lhe as mãos, beijou-as e abaixou-as, e sorriu ao notar a
curiosidade de Conor.
Ela mordeu o lábio inferior, sem acreditar na própria coragem, e tirou a túnica e a
manta de Conor. Com timidez, soltou a fivela do cinto de couro para puxar a camisa.
Apesar de muito próximos, Laurel encostava nele apenas as pontas dos dedos. Conor
irradiava uma vitalidade masculina e primitiva que fez Laurel hesitar.
Os toques leves, a respiração de Laurel em sua pele, a visão do busto arfante,
causavam em Conor um sofrimento delicioso, e ele desejava mais.
— Não pare, meu amor — ele pediu diante da indecisão.
Laurel não o olhou, ou não seria capaz de continuar.
Enquanto lhe tirava o cinto, Laurel procurou não tocar em Conor, mas seus dedos
roçavam nele como asas de borboleta sobre a camisa que ele ainda vestia. Incapaz de se
conter, Conor segurou-lhe o rosto entre as mãos, curvou a cabeça e beijou-a para revelar,
dessa vez, o desejo e a paixão que o haviam invadido quando ela começara a despi-lo.
Ela abriu a boca e o recebeu com movimentos voluptuosos de língua.
Laurel colou-se em Conor, tremendo, e agarrou-se nos cabelos dele. Antes de
conhecer Conor, ela ignorava o que era beijar, ter paixão e desejo por alguém. Naquele
momento ela se encontrava num inferno de desejo, pronta para irromper em chamas. Era
assombroso.
Conor pressionou o busto de Laurel de encontro ao peito, desabotoou as costas do
vestido, soltou as mangas e passou a beijar-lhe o rosto.
Laurel sentiu o vestido escorregar brandamente até o chão e ficou apenas com a
camisa diáfana.
Conor beijou-lhe o busto por cima do tecido transparente e Laurel estremeceu.
— Você é tão linda... — ele murmurou, encantado.
Laurel prendeu a respiração e agarrou-se nos ombros de Conor, entregando-se ao
delírio.
Conor provocou o mamilo com movimentos circulares de língua e o estímulo intenso
fez Laurel imaginar que não suportaria mais nada. Com cuidado, Conor acariciou-lhe as
pernas, levantou a camisa e tirou-a pela cabeça.
Mesmo nua diante de Conor, Laurel esqueceu a timidez e a vergonha.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— Ah, Laurel, você é deliciosa. Conor acariciou-lhe cada centímetro de pele


exposta, decidido a não deixar nada inexplorado.
Laurel tremia de maneira incontrolável. Conor sorriu com amor e paixão e tomou-a
nos braços.
Ela fechou os olhos, adorando a força de Conor que atravessou o quarto
carregando-a nos braços e a deitou na cama, Ele tirou as peças de roupa que os
separava e deitou-se a seu lado.
— Seus olhos agora parecem azul-escuros — ele sussurrou.
— Pensei que fossem verdes. — Laurel entrelaçou os dedos nos cabelos escuros de
Conor.
Durante um jantar, havia poucos dias, ele dissera que os olhos de Laurel eram
verdes da cor do mar. — Sim, eram, mas eles mudam de cor conforme sua disposição de
ânimo. Laurel, você é muito linda, no entanto sua beleza não é apenas física, mas
também espiritual. Cheguei a acreditar que ficaria sozinho, sem .supor que pudesse
encontrar alguém como você. Uma pessoa que, além de se preocupar com o próximo,
ainda tem fibra e determinação necessárias para sobreviver nestas terras. E agora que a
conheci, nada haverá de nos separar.
— Eu te amo, Conor. — Lágrimas desceram pelo rosto de Laurel. — De todo o
coração e para sempre.
Conor acariciou-lhe os lábios com os dele e estendeu-se sobre ela, sem, no entanto,
largar o peso do corpo. Ele passou as palmas nos bicos róseos até endurecê-los. Com o
coração batendo forte, Conor fez uma trilha de beijos do pescoço até o vale entre os seios
e tomou um dos mamilos na boca. Acariciou-o com a língua, apertou-o entre os lábios e
sugou-o.
Laurel começou a se contorcer com violência.
— Conor! Não suporto mais! — ela gritou e agarrou-se nos lençóis.
Conor separou com a perna os joelhos de Laurel e passou os dedos ha parte interna
da coxa, provocando choques no corpo de Laurel. Ela sentia o baixo-ventre apertado e o
calor entre as pernas aumentar.
Ele ascendeu os carinhos até o monte-de-vênus, mas ali não se deteve, apesar de
Laurel arquear o corpo, querendo mais. Em vez de a satisfazer com os dedos como
acontecera antes, Conor massageou-lhe o busto até Laurel perder a noção do mundo e
gritar várias vezes o nome dele.
O controle de Conor estava a ponto de se desfazer. Ele beijou o espaço entre os
seios e sentiu o gosto salgado da transpiração. Mordiscou e lambeu os bicos endurecidos,
alternadamente, depois os sugou.
Laurel, desesperada, arqueava o corpo e se contorcia, mas Conor continuava a
sucção e as lambidas, fazendo Laurel tremer sem parar. O prazer que Laurel sentia era
extraordinário e se assemelhava a um sofrimento. Ela imaginou que explodiria, se Conor
demorasse mais um pouco.
— Conor, por favor! — ela implorou.
De súbito, Conor umedeceu os. dedos no calor líquido de Laurel e provocou-a com
impulsos suaves que simulavam uma relação. Laurel escondeu a cabeça no ombro de
Conor e tremeu violentamente.
Ele aumentou a intensidade dos movimentos até Laurel ter certeza de que seria
consumida pelo fogo do desejo. Ela se arqueou para trás e o remoinho de ânsia cresceu
até o mundo explodir em chamas enquanto espasmos a sacudiam.
Conor penetrou-a, mergulhando no doce canal estreito, quente e úmido, e quase se
satisfez na entrada. Laurel voltou à Terra quando o sentiu dentro de si. Conor esperou
alguns instantes para o corpo de Laurel se acomodar com a masculinidade pujante. Em
seguida segurou-a pelos quadris e instigou-a num ritmo pleno de paixão. Como da
primeira vez, Laurel se amoldou a ele, aceitou-o e distendeu-se para acomodá-lo, como

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se fosse feita exclusivamente para Conor. E daquela vez Conor pode penetrar mais fundo
e com maior energia.
Laurel agarrou-se nele, ergueu o corpo e rezou para Conor acelerar o ritmo cada vez
mais.
De súbito, os céus se abriram numa explosão, Conor retesou-se e desmoronou num
prazer intenso, sentindo Laurel alcançar o êxtase junto com ele. Conor imaginara que
eles teriam satisfação extrema por toda a vida, mas não esperava que fosse daquela
maneira. Teve a impressão que o corpo e a alma de ambos haviam se encontrado em
outra dimensão. Bem mais tarde ele se sentiu de volta ao castelo, ao solário e à cama.
Ele estava de costas e Laurel, aconchegada em seu ombro, tinha os cabelos
espalhados no travesseiro. Um sentimento profundo e terno de afeição o envolveu.
Laurel suspirou ao ser beijada com doçura e experimentou o coração intumescer
com tanto carinho. Naquele momento ela teve certeza do amor imperecível de Conor.
Com Laurel, Conor experimentara uma sensação de identidade subjacente que
somente acontecia com almas gêmeas. Em silêncio, eles deram provas de amor com
beijos suaves e carícias leves.
Eles passaram a noite partilhando corações e almas, trazendo prazer um ao outro,
várias vezes, até adormecerem de exaustão, abraçados.

Laurel acordou na manhã seguinte e espantou-se ao ver Conor, normalmente


madrugador, ainda deitado.
Desperto há algum tempo, Conor sentiu Laurel se mexer. Embora soubesse que
seus homens o aguardavam para começar os torneios, não conseguia sair do lado de
Laurel. Reconheceu que jamais se sentira tão completo, isso porque Laurel se casara
com ele não apenas diante da Igreja, mas pelo coração.
— Bom dia. — Ele sorriu, virou-se de lado e beijou-a.
Laurel estremeceu e encolheu os dedos dos pés.
— Bom dia, lorde McTiernay — ela respondeu, sonolenta, estirando os músculos, e
um pouco dolorida pelos excessos da noite anterior.
— Como está se sentindo, senhora minha esposa?
— Abençoada. Eu me casei ontem, sabia?
— É mesmo?
Ela deu um sorriso luminoso e apontou um dedo no peito dele.
— Eu lhe disse que me casaria com um escocês e não com um britânico.
— Disse, mas afirmou também que não seria qualquer escocês.
— Ah, sei. Ele teria de ser atencioso e cavalheiro... como você.
Conor mordiscou-lhe a orelha.
— Creio que você disse "bem-educado" também.
— Bem... você é bem-educado... às vezes. Mas quando eu me apaixonei por você,
entendi que teria de fazer concessões.
Conor apoiou-se num cotovelo e fitou-a.
— Como assim?
— Aceitar que você é um gigante.
— Não. Sou um cavalheiro de tamanho normal.
— Aceitar que você grita.
— Sim, mas meu castelo não está mais sujo nem desorganizado. — Conor fingiu
que a façanha era dele.
— Está vendo? É uma concessão. Eu consegui um marido atencioso com um
castelo limpo. E por isso terei de aprender a viver com um gigante que berra e...
Conor interrompeu-a com outro beijo e rolou-a para cima dele. E antes que o

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

momento se estendesse, Conor afastou-se.


— Tenho de ver meus homens. — Ele não se mexeu.
— E, eu também tenho algumas tarefas — Laurel comentou, sem nem mesmo tirar
uma madeixa de cabelos que lhe incomodava o nariz.
— E o que está planejando fazer hoje, senhora minha esposa?
— Bem, vê-lo ganhar no torneio está na minha lista de tarefas. — Ela o fitou com
malícia.
— Está apostando que eu vou ganhar? Laurel sentia-se um diabrete.
— Pode ser, mas Finn é muito experiente, assim como também são outros
guerreiros fortes e grandes.
De súbito, Laurel viu-se de costas e embaixo de Conor.
O olhar dela refletia alegria e o de Conor, o amor infinito que sentia pela esposa.
Sem dizer nada, os dois entenderam que os planos do dia teriam de ser adiados.
Um pouco mais tarde, eles se deram por satisfeitos, Conor beijou Laurel, saiu da
cama e vestiu-se.
Enquanto ela trocava de roupa, Conor abriu uma arca de tamanho considerável è
procurou alguma coisa lá dentro. Depois endireitou-se, trazendo um objeto na mão.
Aproximou-se de Laurel, ajudou-a a prender a manta pregueada e entregou-lhe o broche
de ouro e prata que ela usara naqueles dias.
— Ele pertenceu à minha mãe. Antes foi de minha avó e de minha bisavó e assim
por diante. Sempre foi entregue à futura lady McTiernay dias antes de ela se casar. Sinto
muito que tenha sido Brighid e não minha mãe quem o entregou a você.
Laurel fitou o broche em formato de coração e Conor virou-o. Laurel nunca vira a
gravação no verso, porque Brighid era quem prendia a peça.
Meu coração é teu porque te amo.
Laurel não conteve as lágrimas. Glynis dissera que os McTiernay sempre haviam se
casado por amor, que continuara preservado dentro das muralhas daquele castelo.
— Obrigada, Conor. Guardarei o broche como um tesouro e o entregarei à noiva de
nosso filho.
Os jogos montanheses começaram quando Conor chegou ao local dos torneios.
Apesar do frio, as justas daquele dia não seriam diferentes das que eram efetuadas no
começo do outono. Robert Bruce era amigo de Conor e um patrocinador ativo dos
torneios, tendo prometido estabelecê-los com regularidade num futuro próximo.
Como um grande número de clãs havia viajado de longe para congratular-se com
Conor pelas bodas, improvisou-se uma série de sessões de jogos. Durante todo o dia
haveria contendas para determinar os melhores clãs guerreiros e finalmente o melhor
soldado. Alguns ventos exigiam força bruta, e outros, perspicácia.
Várias mulheres estavam reunidas no lado mais alto dos campos e observavam os
jogos, sentadas em suas mantas. Laurel estava ao lado de Aileen, Brighid e Glynis.
— Vejam, ali está Cole! — uma jovem gritou atrás delas.
Outros gritos se sucederam quando Craig e Crevan apareceram. Laurel observou
Conan e Clyde manobrarem os cavalos dos soldados McTiernay e carregarem
orgulhosamente os itens necessários ao evento. Ela sorriu e acenou para os rapazes.
Uma das disputas consistia em atirar uma pedra pesada que fora tirada do leito do
rio. Em outra se usava um cajado enorme com uma ponta de ferro. Conor e Finn
lideraram os McTiernay através de uma série de jogos que incluíam atirar pedras, saltar
com varas, pulos altos, gealruith, que eram três pulos, gaelbolga, que comparava a
habilidade de atirar dardos, e o rothcleas.
Neste último, muito excitante, o participador tinha de se virar e atirar um eixo de
carroça com uma roda anexa. Para isso não apenas era necessário ter força, mas
também equilíbrio, coordenação e firmeza, que só se conseguiam com a experiência,
No final do dia, os McTiernay eram os prováveis vencedores e Conor o mais bem

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

colocado de todos. Mais tarde, no salão nobre, Laurel achou graça quando os outros
chefes de clã disseram para Conor divertir-se com as vitórias, pois no outono seguinte
seria diferente. Afirmaram que Conor somente ganhara naquele dia por eles terem vindo
com poucos soldados, sendo que os mais fortes e talentosos tinham ficado para proteger
as terras. Conor, por cortesia, respondeu que o resultado teria sido diferente se todos os
homens tivessem vindo para participar.
— Mesmo que tivessem trazido até o último guerreiro — Laurel cochichou ao ouvido
dele —, você ainda ganharia e por larga margem.
Conor sorriu e beijou-a apaixonadamente diante de todos, para que ninguém
duvidasse de seu amor pela esposa.
Mais tarde, quando as festividades estavam terminando, Laurel levantou-se.
— Vá na frente, amor — Conor encorajou-a. — Eu irei em seguida.
Depois que Laurel saiu, Conor aproximou-se de Loman e Finn, que bebiam cerveja
perto de uma das lareiras.
— Milorde! — os dois exclamaram.
— Seamus já partiu?
Naquela manhã ele informara seu plano a Finn e Loman, que haviam expressado
uma concordância entusiástica. Afirmaram que se tratava de um passo inteligente e
necessário para assegurar o futuro de Laurel.
— Sim, como milorde ordenou. Saiu pela manhã, aborrecido por não participar dos
torneios.
— Ele terá outras oportunidades de fazer isso.
— Mas nenhum será como o de hoje. Nossos homens demonstraram os resultados
do treinamento intensivo.
— Seamus saiu cedo?
—Bem antes do almoço. Como as terras dos Maclnnes ficam ao sul, ele voltará
somente na primavera, depois do degelo da neve de inverno.
— Ele ficará abrigado na fortaleza de Maclnnes.
— Esperemos que sim, apesar da mensagem sucinta que milorde enviou — foi o
comentário de Finn. — A ordem de não falar nada além do prescrito pode não ter
resultado agradável para Seamus.
— Seamus é um guerreiro, não uma mulherzinha.
— Sim, mas é também muito fiel a lady Laurel, e se ouvir uma palavra contra ela,
não entregará a mensagem.
Eles conversaram sobre outros assuntos antes de Conor retirar-se para seus
aposentos. No caminho, rezou para ter feito a coisa certa. Afinal, mandara Seamus com
uma comunicação enigmática que lhe parecera a maneira mais viável para assegurar a
vinda imediata de Maclnnes. Finn estava certo, Maclnnes ficaria furioso, principalmente
com a demora de Conor em mandar avisá-lo.
No entanto, teria de retardar as informações sobre o paradeiro de Laurel. Somente
naquela altura, depois de Laurel casar-se com ele diante de Deus, de um padre e de seu
clã, lhe parecera o momento oportuno para informar ao avô que a neta estava viva.

CAPÍTULO X

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

Os meses seguintes foram uma bênção de tranqüilidade para Laurel. Conor e ela
haviam desenvolvido uma rotina em que os dias passavam sem maiores complicações.
Os dois aprendiam a confiar um no outro e a resolver os problemas diários sem discutir.
Cada vez mais, Conor passava a depender de Laurel para informá-lo sobre o que
deveria ser feito para seu povo, e ela tornou-se capaz de diferenciar o que era realmente
necessário do supérfluo. Em poucas semanas, ajudava-o a organizar as prioridades no
que os aldeões solicitavam, nas requisições dos soldados e nas reformas do castelo.
Então tudo mudou numa manhã que começara como o melhor dia da vida de Laurel,
quando ela soube que estava grávida. Nunca fora regular, e um mês de ausência de fluxo
não constituía surpresa. Até o busto maior e mais sensível pareceu-lhe um resultado da
freqüência com que faziam amor.
E só quando Hagatha veio visitá-la, Laurel descobriu a verdade.
Hagatha gargalhou quando Laurel contou a ela o que imaginava. As duas
encontravam-se no salão nobre, temporariamente separado por uma parede que dividia o
aposento em duas partes. No recinto aconchegante, estavam sentadas em poltronas
grandes diante de uma lareira. O calor era convidativo e todos que ali entravam podiam
se descontrair e levantar os pés.
— Não precisa caçoar — Laurel respondeu com uma risada. — Como é que eu
poderia saber?
— Serão todas as inglesas tão distraídas? Excitada com a novidade, Laurel nem se
fingiu de ofendida.
— Um bebê. — Laurel sorriu. — Para quando?
— Pelo que me contou, pode ser em abril ou maio. Preciso de mais algum tempo
para informá-la com maior certeza.
— Você virá me atender, não é?
— Nem um bando de lobos poderia me afastar do primeiro filho de lorde McTiernay.
Laurel apertou a mão da parteira.
— Muito obrigada, Hagatha. Eu sou a mulher mais feliz do mundo.
— Eu lhe disse que os dois haveriam de encontrar uma maneira de viver em paz.
— Você estava certa.
— E trate de não se esquecer disso mais tarde, se pretender livrar-se de mim como
Aileen fez.
As palavras de Hagatha tiveram o efeito de um balde de água fria em Laurel. Ela
ficou nervosa quando outras lembranças retornaram e afetaram sua alegria.
Ela se parecia fisicamente com a mãe. Tinha a mesma altura, a mesma constituição
física e a mesma cor da pele, mas sua mãe mal tivera forças para trazê-la ao mundo, e
morrera no parto do menino. Talvez Laurel também não pudesse trazer um filho ao
mundo e existia uma grande probabilidade de ela morrer também.
— Hagatha, prometa-me que não me abandonará, haja o que houver — implorou,
preocupada. — Preciso ter certeza de que, independentemente do que os outros digam,
você estará aqui para salvar meu bebê.
Hagatha reconheceu a aflição extrema de Laurel e procurou acalmá-la.
— Sim, minha filha. Estarei a seu lado e cuidarei do bebê, sob quaisquer
circunstâncias.
— Muito obrigada, Hagatha. Você não imagina o quanto essa certeza significa para
mim.
Hagatha olhou-a com seriedade.
— O que aconteceu, filha?
— Por que a pergunta?
— Eu tenho visto que os temores poucas vezes a atingem, mas a idéia do parto

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

parece aterrorizá-la. Isso é comum nas mulheres, mas não em lady McTiernay. Diga logo
do que se trata, para eu poder ajudá-la.
— Minha mãe não resistiu ao dar à luz meu irmão, e quando a parteira chegou, os
dois estavam mortos — Laurel explicou com os olhos marejados. — Eu nasci de um parto
muito difícil e ela nem deveria ter tentado mais. Meu pai nunca se recuperou da tragédia.
Hagatha testemunhara casos tristes e também ouvira falar de outros tantos durante
sua longa experiência como parteira. Era o lado obscuro dos nascimentos que ninguém
comentava.
— Escute, minha filha, não a deixarei morrer. Não permitirei que nada lhe aconteça,
nem ao filho de milorde. Fique tranqüila, lorde McTiernay não a perderá. — Hagatha foi
enfática para convencer tanto a si mesma quanto Laurel.
As duas se levantaram e, abraçadas, saíram do salão em busca de Fiona e das
ervas que Hagatha precisava. Ao chegarem ao pátio, Hamish surgiu a galope.
— Hamish, que satisfação em encontrá-lo! Há quanto tempo não o vejo. O que
houve... — Laurel notou o medo na expressão do soldado e intuiu que se tratava de
Conor. — Hamish, o que aconteceu?
O homem hesitou.
— Não! — O pavor tomou conta de Laurel. Hagatha segurou Laurel e impediu-a de
cair.
— Hamish, fale logo, homem!
— Milady, venha comigo! — Hamish pediu. — Depressa! É Conor!
Laurel começou a correr quando escutou um grito atrás de si.
— Não! — Hagatha agarrou-a. — Nem pense em correr ou andar a cavalo como
fazia antes! E muito perigoso. Eu verei do que se trata.
Hagatha notou a tormenta que sombreava a expressão de Laurel e virou-a pelos
ombros.
— Eu lhe prometo que tudo dará certo. Ele ficará bem, e eu não vou passar a vida
escutando que algo aconteceu com a mulher e o filho dele. — Ela sacudiu Laurel de leve
até ela anuir. — Vá preparar o quarto de milorde. É provável que tenha sido ferido
levemente por uma espada ou algo parecido, nada mais. Agora vá!
Em seguida, Hagatha afastou-se, apressada.
Hagatha estava certa. Conor fora ferido, mas não com gravidade. Um soldado
inexperiente perdera o controle da espada numa disputa próximo ao local onde Conor
conversava com Finn. O ferimento fora profundo, mas ele haveria de se recuperar sob os
cuidados de Hagatha e Laurel.
Laurel passou as primeiras noites fazendo curativos e atenta a um possível estado
febril que, felizmente, não ocorreu.
— Minha filha, é preciso dormir ou acabará doente.
— Não se preocupe, Hagatha, eu descansarei.
Laurel acariciou a testa de Conor enquanto ele dormia. Ainda não contara a Conor a
novidade sobre o bebê, esperando o momento oportuno para os dois se alegrarem. E
quando ela o fez, a ocasião ficou muito longe do interlúdio romântico que ela imaginara.
No início, ele estava fraco demais para discutir sobre as normas e restrições que ela
impunha, mas depois de duas semanas, se rebelou.
— Conor, volte para a cama! — Laurel gritou ao vê-lo vestir a camisa e o cinto. Ela
correu e agarrou a manta. — Não o deixarei sair antes de estar curado, ouviu bem?
Hagatha disse que seria preciso no mínimo três semanas antes de você retornar a seus
deveres e, mesmo assim, de maneira restrita.
— Ouvi o que ela disse, mas decidi que já estou ótimo. — Conor estendeu a mão
para receber a manta.
— Nada disso! A sutura nem está completamente cicatrizada e os pontos poderão
se romper ao menor esforço. Acredite, eu vi acontecer isso antes.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— Mas não comigo. — Ele arrancou a manta das mãos de Laurel e passou a enrolá-
la no corpo.
Laurel interpôs-se entre ele e a porta, mas Conor frustrou-lhe as intenções.
— Conor McTiemay, não pretendo perdê-lo. — Laurel não limpou as lágrimas que
começavam a descer mansamente.
— Também não quero perdê-la, Laurel. — Conor suspirou, buscando paciência. —
Mas sou o chefe do clã e tenho muitas incumbências atrasadas. Finn tem feito o possível
para resolver as pendências que têm surgido desde que você me aprisionou em meu
próprio quarto.
— Ele se curvou para beijá-la. — Agora tenho de ir, prometo não exagerar nem me
demorar. Laurel observou-o sair do solário, ciente de que nada mais o teria convencido a
continuar o repouso. Sentou-se numa poltrona e massageou as têmporas. Desde que
acordara, sentira uma forte dor de cabeça e a discussão com Conor a fizera piorar.
Levantou-se disposta a comer, e então o mundo se desfez numa névoa branca.
— Milady? — Alguém dava tapinhas suaves em sua face. — Por favor, acorde,
milady!
Laurel reconheceu a voz distante e quis abrir os olhos, mas estavam pesados
demais. Outras vozes longínquas a chamavam como se estivessem dentro de um túnel,
mas ela não entendia o que diziam.
De repente sentiu-se flutuar antes de ser deixada numa nuvem macia. Outra voz,
bem mais insistente, falou com ela. Bem que Laurel gostaria de cooperar, mas não sabia
como.
— Laurel, por favor, acorde, meu amor. Acorde para mim. — Conor a segurava nos
braços, apavorado.
Ele mandara chamar Hagatha que, por sorte, dava consulta a uma mulher que
morava do lado de fora da muralha, mas a parteira demorou um século para chegar.
— O que houve? — Hagatha perguntou, autoritária.
— Não sabemos — Conor respondeu, rude pela preocupação. — Uma das criadas a
encontrou desmaiada no chão. Fora alguns movimentos e gemidos, ela não reage. — O
pânico o invadiu. — Faça alguma coisa, Hagatha! Num momento ela discutia para me
obrigar a ficar na cama... e em seguida...
Conor balançou a cabeça, olhando para Laurel, visivelmente preocupado. Hagatha
pediu um copo de água e quando o levou os lábios de Laurel, ela voltou à consciência.
— O... que... aconteceu? — Laurel franziu o cenho ao ver-se rodeada de gente e no
colo de Conor na poltrona diante da lareira.
— Você desmaiou, como uma boa inglesa. — Hagatha escondeu a preocupação
atrás da ironia. — Eu a avisei para dormir mais e comer melhor. Acha que minhas ordens
devem se cumpridas apenas se forem dirigidas a milorde? Os cuidados devem ser
redobrados por causa do bebê. Quando foi a última vez que fez uma refeição de verdade,
não apenas beliscar pedaços de pão e cerveja?
Com o olhar fixo em Laurel, Hagatha estalou os dedos, sem notar o espanto de
Conor.
— Tragam uma tigela de sopa para lady McTiernay, e à noite terá de ser um repasto
consistente. Prometa-me, Laurel, que não perderá mais nenhuma refeição.
— Prometo — ela respondeu com voz fraca.
— Está certo. Agora tenho de ir, antes que a mulher a quem eu estava atendendo dê
à luz sozinha, Conor, eu o encarrego de cuidar das refeições de sua esposa. E não pense
em mimá-la demais ou ela se tornará insana. Vamos embora — ela chamou os curiosos.
— Vamos deixá-los sozinhos.
Hagatha saiu, seguida pelos demais.
Conor continuou sentado com Laurel no colo.
— Você me deu um susto, meu amor.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— Me perdoe, foi sem querer. Eu esqueci de comer.


— E eu terei de vigiá-la para não esquecer mais. — Ignorando os protestos dela,
Conor deitou-a na cama, arrumou o cobertor e beijou-lhe levemente os lábios. — Voltarei
logo.
Minutos depois, Conor retornou com uma vasilha grande com caldo de carne e
várias fatias de pão. Enquanto Laurel comia, ele ficou em silêncio, assimilando a notícia
de que seria pai.
— Eu entendi direito? Você está grávida? Conor agia de maneira estranha. Ele
ouvira o que Hagatha dissera, e as perguntas seriam inevitáveis. Mas com tão pouco
entusiasmo?
— Sim.
— E quando o bebê vai chegar?
— Em abril ou maio, Hagatha ainda não sabe ao certo.
Conor passou uma das mãos nos cabelos e procurou controlar a raiva que sentia.
Era a primeira vez que testava a promessa de esperar por uma explicação antes de
esbravejar. Laurel estava praticamente no meio da gravidez!
— E por que somente agora estou sabendo disso? — Ele procurou não gritar. —
Sou o pai, não sou? Acha mesmo que eu não descobriria?
— Ora, é evidente que eu pretendia contar, mas eu mesma descobri na manhã em
que você foi ferido. Eu queria esperar até você ficar curado, para não provocar sua raiva e
ficar inválida antes!
— Você disse que será em abril?
— Ou maio.
— Mas como você podia não saber?
Hagatha rir diante de sua ignorância era uma coisa, mas Conor... Não permitiria ser
humilhada por ele!
— Não sei! Não faço idéia, e também não pretendia esconder nada de você. Não
sou nenhuma tonta, mas nunca fiquei grávida antes, e não entendo nada dessa história
de bebês. Foi Hagatha quem me deu as explicações necessárias, Conor McTiernay!
Desgostosa, ela cruzou os braços na altura do peito e fitou Conor com ar de desafio.
E, de maneira inesperada, Conor tomou-a nos braços e rodopiou com ela em volta do
quarto, mirando-a com olhar reluzente de emoção. Laurel teve vontade de chorar, de rir e
de gritar de alegria.
O beijo de Conor foi intenso e prolongado. Conor queria demonstrar o quanto a
amava e como estava feliz com o bebê, mas os sentimentos mudaram de patamar. Não
demorou muito e os dois estavam envolvidos num clima de desejo. Beijos e carícias não
eram suficientes. Fazia muito tempo que não se amavam, e se esqueceram da fraqueza
de Laurel e do ferimento de Conor.
Rapidamente tiraram as roupas e se deitaram. Quando Conor a penetrou, o
sentimento frenético deu lugar a uma sensação diferente e poderosa.
Laurel enterrou as unhas nas costas dele e o beijou na boca, na garganta e no peito.
Conor recuou e investiu novamente, provocando uma sensação extraordinária.
Eles alcançaram juntos o clímax e depois sucumbiram, agarrados um no outro.
— Conor, foi inacreditável... Ele a acariciou.
— E cada vez ficará melhor, minha adorada.
— Eu não acreditaria nisso, mas meu marido sempre me surpreende.
Conor virou-se e fitou os olhos de Laurel, escurecidos e paixão.
— Promete que cuidará de si mesma, não se excederá e se alimentará de maneira
correta?
— Prometo. — Laurel sorriu. — E você terá de jurar que não fará nenhuma atividade
que possa comprometer a cicatrização do ferimento.
Conor beijou-a na testa.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— Combinado.
Se Laurel soubesse o poder que tinha sobre Conor, ele prometeria a ela as estrelas
do céu.
Aquele Natal foi o mais feliz da vida de Laurel e Conor. As celebrações começaram
na véspera do Dia 25 e se estenderam até o banquete da Epifania, no sexto dia de
janeiro, doze dias após o Natal. Todas as noites o clã se reunia para comer, beber e
escutar música. Nos três principais dias das festividades religiosas, Natal, Ano Novo e Dia
de Reis, havia grandes comemorações com danças ao redor das enormes fogueiras no
pátio e do lado de fora das muralhas.
O hall, o salão, a capela e as choupanas foram decorados com visco, hera e
azevinho, como símbolos de fertilidade e renascimento que a nova estação poderia trazer.
Laurel pediu a Pallon que trouxesse ramos de sempre-verde e convidou as mulheres do
castelo para ajudá-la a decorar as árvores, o hall e o salão com velas e arcos feitos com o
pano xadrez dos McTiernay.
A música era uma constante naqueles dias e refletia o clima natalino nos cânticos
escoceses e nas melodias dos brindes. À noite as músicas para dançar eram tocadas em
conjunto com a celebração de Cristo para despertar os espíritos alegres da temporada.
Todas as noites as festividades aconteciam nos dois cômodos contíguos, mas
Laurel não podia dançar as músicas mais rápidas. Em compensação, Conor fez questão
que as músicas favoritas de Laurel fossem tocadas na clarsach, uma harpa céltica.
O que mais entusiasmava os montanheses eram os banquetes. Devido à grande
quantidade e variação de pratos preparados, sempre havia mulheres na cozinha, à guisa
de ajudantes. Fiona precisava de auxiliares, e muitas vezes Laurel teve de vir à cozinha e
lembrar a elas quem era a encarregada.
— Notei que você nunca especifica quem é — Aileen questionou a tática num dos
dias.
— Quem é o quê? — Laurel fingiu-se de inocente.
— A encarregada.
— E, eu não digo. — Ela sorriu quando chegaram ao pátio.
— Vai me contar ou não?
— Bem, todas são. Quando proponho a questão sem responder, cada uma encontra
a sua resposta. Fiona sabe que é a responsável e acha que estou me referindo a ela.
Glynis acha a mesma coisa. A maioria pensa que estou me referindo a Conor. Você
precisa ver a cara de Fallon se ele está por perto quando eu pergunto. Ele estufa o peito,
dá um sorriso discreto e sai em silêncio.
— Você usa métodos inusitados. Eu deveria tomar umas lições com você.
Laurel cutucou a amiga.
— Tudo o que eu sei, aprendi ao vê-la lidar com Finn.
Elas foram até a panificadora para enfrentar a última altercação ali ocorrida.
Havia uma batalha constante entre a cozinha e a panificadora sobre quem tinha a
maioria do trabalho e dava a melhor contribuição para os esplêndidos banquetes. Cada
refeição tinha biscoitos amanteigados escoceses e biscoitos natalinos de aveia, o que
deixava a panificadora bem atarefada. O restante do cardápio era variável e suntuoso, e o
clã repartia os méritos entre a cozinha e a panificadora.
Serviam-se sopas e guisados, aves e peixes, pães e pudins. Nos três dias principais
das festas, preparavam de carnes de javali, veado, ganso e cisne com batatas e cebolas.
Nos dias subseqüentes às grandes festividades, assavam-se tortas esplêndidas com
picadinhos feitos com as carnes que haviam sobrado e que eram temperadas com
especiarias e frutas.
No dia de Ano Novo, Fiona fez o famoso bolo escuro com Castanhas e, para
comoção de Laurel, o pudim inglês com passas de Corinto, frutas secas, canela e noz-
moscada.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

Conor caçoou de Laurel pela quantidade que ela comeu do doce preferido de sua
infância e garantiu, rindo, que ela precisava se alimentar por dois. E ele estava perto.
Laurel estava cada vez mais esfomeada. Os festejos levantavam os ânimos e fortaleciam
o espírito para suportar os rigores dos longos meses de inverno.
Conor continuou a treinar seus homens no pátio inclinado, a ajudar os fazendeiros a
consertar e fazer ferramentas, e a reparar cercas. Laurel achou ótima a idéia dele de
ordenar aos gêmeos, Crevan e Craig, para carregar e espalhar estéreo e calcário no solo
entre os períodos de neve.
O restante do inverno transcorreu sem incidentes. Laurel engordava a olhos vistos, o
que encantava Conor.
— Estou mais gorda a cada minuto — ela resmungou um dia, enquanto se
preparava para dormir.
Laurel se deitava cedo e descansava durante o dia. Conor insistia para ajudá-la a
descer e a subir as escadas todos os dias.
— Sim, é verdade, mas só na barriga e, mesmo assim, continua perfeita.
Laurel fitou-o de esguelha. Ele era mesmo um mentiroso. Seus tornozelos estavam
inchados e ela nem podia mais caminhar com dignidade, sempre bamboleando como uma
pata.
— Admita que você é tendencioso.
— Pode ser, mas tenho certeza de que encontrarei muitos que me apoiarão. —
Conor aproximou-se por trás e beijou-lhe o pescoço.
— É porque são leais a você. Duvido que dariam a mim um julgamento imparcial. —
Laurel tirou a manta e largou-se na cama, de costas.
Conor não demonstrou a preocupação que sentia. Laurel estava muito cansada e
bem maior do que qualquer grávida que ele conhecera. Levantou os pés dela e tirou-lhe
as sapatilhas.
— Quer que eu mande buscar Hagatha?
— Para quê? Ela me dirá que estou bem, saudável e que não devo me exceder.
Na última vez em que a parteira examinara Laurel, dissera que, pelo tamanho dela,
o bebê poderia nascer antes do previsto.
Conor sentou-se e massageou os pés de Laurel.
— Não está se sentindo bem, meu amor?
Ela se ergueu nos cotovelos.
— Bobagem, estou apenas entediada. Conor deitou-se ao lado dela. Laurel era uma
mulher dinâmica e certamente se aborrecia pelas limitações impostas por seu estado.
— Eu quero cavalgar Borrail.
— Laurel...
— Eu sei que não posso, eu apenas gostaria de poder. Quero que a primavera
chegue logo para eu poder galopar pelas colinas com os cabelos ao vento.
Conor beijou-a com paixão.
— Isso não vai demorar, meu amor. Logo você estará fazendo todas as coisas que
gosta.
A gravidez não alterara o relacionamento sexual deles. A paixão de um pelo outro
era inesgotável. Com o aumento de tamanho de Laurel, eles encontravam maneiras
novas de dar prazer um ao outro. Apenas durante o último mês a atividade deles sofrerá
uma restrição, passando a contar com mais brincadeiras e beijos.
Naquela altura, Laurel adormecia assim que se deitava e várias vezes Conor tivera
de tirar as roupas quando ela já estava num sono profundo.
Laurel deitou-se novamente de costas e fitou o teto.
— Estou com medo, Conor.
— Medo de quê?
— Você tem de prometer uma coisa.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— O que você quiser.


— Você cuidará de meu avô se eu morrer no parto. Hagatha contara a história sobre
a mãe de Laurel, mas ele se recusava a acreditar que o mesmo aconteceria com ela.
— Você não vai morrer.
— Minha mãe faleceu ao dar à luz meu irmão. Eu estou muito grande e ninguém
ignora isso, muito menos Hagatha.
Conor apertou-lhe a mão.
— Nada de mal acontecerá a você, Laurel.
— Eu te amo, Conor. — Uma lágrima solitária desceu pela face dela.
Conor virou-se, segurou-lhe o rosto e fitou-a com olhar intenso.
— Escute, Laurel, você não vai morrer — ele repetiu. — Eu não permitirei isso. Nada
vai tirar você nem meu filho de mim, entendeu?
Ela anuiu, piscando para afastar novas lágrimas.
— Entendi.
Conor abraçou-a junto ao peito.
Hagatha o avisara dos perigos, mas ele não queria escutar mais nada sobre o
assunto. Não poderia viver sem Laurel. Eles criariam os filhos e envelheceriam juntos.
Antes, se ele morresse, seria mais um jovem chefe de clã a perecer num campo de
batalha. Agora Laurel e ele teriam de viver, por eles e pelos filhos. E tudo porque Laurel
instilara uma nova vida nele, em seus irmãos, no castelo e no clã. A idéia de perdê-la e de
perder tudo isso era inconcebível para ele.
Com o rosto aninhado no peito de Conor, Laura sentiu-o tremer e supôs que ele
estivesse chorando. Ela não tivera intenção de aborrecê-lo e muito menos de assustá-lo.
Não poderia imaginar o quanto ele se apoiava na crença e na força dela para acreditar
que todas as coisas terminariam bem.
— Conor, tudo vai dar certo. Nós teremos um filho grande que será um lorde
montanhês. Hagatha esteve aqui várias vezes e sempre me encontrou em boas
condições de saúde. E, como você disse, nada de mal acontecera comigo. — Dali por
diante, ela manteria os receios escondidos em seu coração.
Conor sabia que ela se fazia de forte por causa dele e resolveu fazer o mesmo.
— Isso mesmo, meu amor. Nada de mal acontecerá a nenhum de nós e teremos um
filho robusto que provará nossa teoria. — Ele beijou-lhe os cabelos.
Brighid se casaria na primavera. Donald, o homem por quem ela se apaixonara no
outono, finalmente confessou-se vencido, pediu a mão de Brighid em casamento e a
concordância fora imediata.
Numa manhã clara e brilhante, Laurel ajudava Brighid a preparar o enxoval da noiva,
quando o castelo inesperadamente entrou em estado de alerta. Soldados corriam para
dentro e para fora da torre de vigia de três pavimentos que era uma das estruturas das
muralhas usadas para rechaçar os ataques. O piso térreo onde ficavam suprimentos e
armas estava lotado, e Laurel nunca vira tanto movimento naquela torre.
Não demorou muito e Conor apareceu, juntamente com Loman.
— Venham comigo — Conor ordenou para as duas.
— Conor? — Laurel tentou descobrir do que se tratava.
Ela estava no salão nobre quando o grito de guerra foi ouvido e, pelo visto, as duas
teriam de ser mantidas fora do caminho.
No entanto, por mais que parecesse a Laurel uma convocação às armas, ela
suspeitou de algo diferente, mesmo não sendo esperada a visita de outros lordes, pois
ainda estavam no inverno. Embora a primavera fosse iminente e a neve tivesse
começado a derreter, ainda estava muito frio e as noites eram brancas. O tempo não era
favorável a viagens, e ainda havia possibilidade de nevascas.
Em silêncio, Conor as conduziu até a torre de supervisão, que ficava do lado oposto
à torre de vigia. Abriu as portas e carregou Laurel até o piso inferior, que possuía uma

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

latrina, mas não tinha janelas. Em última análise, era uma prisão. Laurel vira Conor
usando aquela torre durante os meses de inverno, quando algum desordeiro ou bêbado
precisava de tempo para ficar sóbrio.
— Conor, você está me deixando assustada. Por que estamos aqui? O que está
acontecendo?
Brighid aproximou-se de Laurel e segurou-lhe a mão. Elas teriam de se apoiar uma
na outra.
— As duas terão de ficar aqui até eu ou Loman vir buscá-las. Se for Loman, sigam-
no até a poterna, a porta falsa que tem uma saída secreta. Sinto muito pelas condições
desta torre, mas é o lugar mais seguro e próximo ao portão dos fundos.
Laurel meneou a cabeça, assentindo. O perigo rondava o castelo e Conor tinha de
se preparar para a batalha. Mesmo uma fortaleza bem protegida como aquela poderia ser
dominada com um número suficiente de homens e um bom intervalo de tempo. Conor lhe
mostrara a passagem que dava acesso ao compartimento da cisterna do lado de fora das
muralhas e uma passagem secreta de fuga além do rio. Mas era preciso sair pelo portão
dos fundos para chegar à passagem.
— Conor, eu sei que você precisa ir, mas tenha cuidado... e volte para mim, por
favor.
— Eu voltarei, pode confiar. Isto não acabará numa batalha, mas não posso
antecipar a reação de um lorde à mensagem que mandei a ele antes do inverno.
— A que Seamus estava encarregado de levar?
— Como é que você sabe?
— E você acha que eu não me daria conta da ausência de Seamus? — Laurel
endireitou os ombros e disfarçou o medo com uma demonstração de orgulho feminino. —
Bem, agora vá resolver logo esse assunto e venha logo nos tirar deste lugar medonho.
— Está bem, meu amor. — Conor beijou-a e foi embora.
Depois que ele saiu, Laurel começou a andar de um lado para outro, imaginando o
que teria causado tal precaução.
— Se eu soubesse o que está acontecendo, poderia me acalmar — ela disse para
Brighid, que insistia para ela se sentar na cama improvisada a um dos cantos.
— Milorde virá nos buscar logo e ficará aborrecido se a encontrar nervosa e
cansada.
— Conor disse qualquer coisa sobre um lorde que poderia não receber com boa
vontade uma mensagem que foi enviada no outono. O que ele pode ter feito para
despertar a ira do outro chefe?
— Não há como saber, milady. Um homem sempre age à sua, maneira,
independentemente do que uma mulher possa desejar. Pelo menos é o que Donald
sempre diz quando reconhece estar fazendo algo que não me agrada.
Laurel parou de andar. Donald era um homem afável, que se mostrava
invariavelmente disposto a agradar, e Finn garantira a Laurel que ele era um ótimo
guerreiro e que, portanto, seria um bom marido para Brighid. Laurel o observava desde o
noivado e concluíra que ele procurava imitar Conor em todos os aspectos. Talvez até...
— Brighid, estou desconfiada que você sabe de alguma coisa. Conor nunca esquece
de me contar nada. Se ele nada disse, foi proposital, não acha?
— Pois eu creio que ele apenas não quis preocupá-la.
— Brighid caiu na armadilha e notou que Laurel começava a ficar com raiva.
Laurel bateu o pé no chão.
— Na certa, Conor não queria uma discussão, mas não evitará uma assim que eu
descobrir do que se trata.
— Ela recomeçou a andar com passos largos ao redor do recinto, cada vez mais
irritada.
Brighid levantou-se, retorcendo as mãos.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— Milady, pare, por favor! Estou ficando tonta. Se não for pela senhora ou por mim,
pelo menos pense no bebê.
Laurel andou mais devagar, mas não se sentou.
— Tenho certeza de que Seamus deixou o castelo logo após meu casamento. Ele
faz parte da guarda de honra e não o vi tomar parte nos torneios. Conor deve ter
designado a missão naquele mesmo dia, e devia ser muito importante, ou Seamus teria
partido depois das comemorações.
Laurel olhou para Brighid, esperando alguma explicação que não veio.
— Nada de excepcional ocorreu na semana anterior ao casamento. E se era assim
tão importante, por que Seamus não foi antes? Isso não faz sentido. O envio da
mensagem era tão indispensável que impediu Seamus de participar dos jogos, mas não
tão essencial que o fizesse partir antes da cerimônia. Dá a impressão de que Conor fez
questão de esperar até nos casarmos. Não consigo entender!
Inesperadamente, Brighid lembrou-se de algo e tornou a se sentar na cama estreita.
— Talvez isso possa estar relacionado com o que Donald me disse no dia seguinte
ao seu casamento.
Laurel parou de andar e se sentou ao lado de Brighid.
— O que Donald lhe contou? — Laurel procurou não parecer ansiosa. Brighid era
tímida e poderia assustar-se ao revelar algum segredo.
— Nada de ruim, milady. Ele apenas estava ansioso para ser designado para uma
incumbência.
— Ele não lhe contou do que se tratava? — Laurel sabia que ali estavam as peças
para encaixar no quebra-cabeça. — Consegue se lembrar exatamente do que ele disse?
Brighid se surpreendeu com a preocupação que Laurel demonstrava.
— Foi uma conversa trivial, milady. Ele só queria a oportunidade de entregar uma
mensagem ao padrinho de milorde. Eu nunca o vi, mas Donald o conheceu quando era
menino.
— Seamus foi mandado ao encontro do padrinho de Conor? — Laurel espantou-se
com o que lhe pareceu um despropósito. — Por que o padrinho de Conor seria uma
ameaça? Tem certeza de que não era outra pessoa?
— Tenho. O avô e o padrinho de milorde eram grandes amigos e se visitavam com
freqüência. Por isso o que Donald me disse talvez não tenha nada a ver com o que está
acontecendo hoje. Lorde Maclnnes jamais atacaria lorde Conor. A aliança deles é
inquebrantável.
Laurel teve a sensação de ter sido atingida por um saco de pedras. Seu avô estava
nas proximidades, e Conor sabia quem ele era. Laurel não imaginava como Conor
descobrira, mas ele estivera ciente de sua herança escocesa antes do casamento e por
isso estava tão seguro de poder deixar a família dela em segurança.. Ela estreitou os
lábios e procurou manter a calma.
— Brighid, o que sabe a respeito de lorde Maclnnes?
— Ele é um montanhês que se casou com uma escocesa das Terras Baixas, tornou-
se chefe do clã da esposa quando o pai dela morreu e trabalhou muito pela união dos clãs
da fronteira. É atualmente um dos chefes mais poderosos de Dumfriesshire, ou pelo
menos foi o que Donald disse. Bem, isso muda alguma coisa?
Conor sabia que eu era herdeira de lorde Maclnnes e não me disse nada!
Laurel entendeu por que o avô viera preparado para uma luta e admitiu que
precisava sair dali com urgência. Levantou-se bruscamente e sentiu-se tonta, tendo de
voltar a se sentar para não desmaiar. Estava muito pesada e ainda faltavam cerca de
duas semanas para o bebê nascer. Às vezes, ela pensava que sua barriga estouraria
antes de o dia chegar.
— Brighid, vamos — falou, tornando a se pôr de pé.
— Eu não a envolveria em meus problemas se estivesse mais magrinha e ágil. Mas

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

preciso da sua ajuda.


— Milady, não creio que esteja pensando em sair daqui. Milorde ordenou para que o
esperássemos e milady não pode estar pensando em desobedecer!
— Escute, Brighid. — Laurel segurou-a pelos ombros.
— Vou sair daqui agora e terei dificuldade em fazer isso sozinha. Mas irei de
qualquer maneira e entenderei se não quiser vir comigo. Descobri o que está
acontecendo e somente eu posso impedir um desastre.
— Impedir o quê? — Brighid gritou ao ver Laurel abrir a porta e sair. — O que milady
pretende fazer?
— Dessa vez ela sussurrou, depois de Laurel levar um dedo aos lábios.
As duas alcançaram o portão dos fundos, chegaram no compartimento da cisterna e
pararam diante de uma grande arca de madeira.
— Brighid, ajude-me a empurrar a arca, mas só um pouco.
Brighid obedeceu e Laurel abriu uma pequena porta escondida na parede.
— Milady! Não está pensando em passar por aí, está?
— Não estou pensando, vou passar!
Laurel começou a rastejar como podia, e Brighid seguiu-a, duvidando da sanidade
mental das duas. O túnel lamacento era curto, por sorte. Assim que saiu, Laurel
endireitou-se e rumou na direção do pátio inclinado.
A saída do túnel era próxima ao rio e não podia ser avistada do castelo. Brighid logo
percebeu que Laurel não pretendia ficar escondida e correu para ajudá-la a subir a colina.
Embora temerosa pelo que pudesse acontecer, não deixaria sua senhora enfrentar
sozinha a ira dos dois chefes de clã.
Quando Laurel viu Conor e outro homem que deveria ser seu avô, estava
imprestável. Não via a hora de o bebê nascer para recuperar a antiga energia.
Os dois homens estavam a cavalo e se encaravam de espada na mão. Fazia muito
tempo que Laurel não via o avô, e mesmo com os cabelos brancos ainda era o homem
grande e vigoroso de quem ela se recordava, dos tempos de menina. Lembrava-se dele
como um gigante bondoso, risonho e caloroso, e não o indivíduo enfurecido que agora via
de longe.
Mesmo a distância, ela podia perceber a fúria de Conor. Atrás de cada cavaleiro
havia dezenas de guerreiros dos clãs correspondentes, todos a cavalo e, a poucos
metros, inúmeros soldados a pé. Uma batalha estava em efervescência.
—Temos de nos apressar, Brighid! — Laurel afligiu-se.
— Apóie-se em mim, milady, e chegaremos a tempo. Não sei o que pretende fazer,
mas conheço sua capacidade de provocar e também de acalmar a raiva de um homem.
— Deus permita que eu consiga o segundo intento! Finn surgiu de repente e impediu
a passagem de Laurel, que não o vira aproximar-se.
—Volte, milady, isso não é assunto para a senhora — Finn ordenou.
— Saia do meu caminho, Finn! — ela ordenou com ferocidade.
— Não a deixarei passar, milady.
— Finn, deixe-me explicar uma coisa para que não haja dúvida sobre o que
acontecerá. Se não me deixar passar agora, começarei a gritar tão alto que os dois
cabeças-duras... — ela apontou para o avô e Conor — ...escutarão e virão correndo. E
duvido que, diante da raiva que os mantêm espumando, eles ouçam explicações de que
não foi o senhor quem me fez gritar. Ah, darei minhas condolências a Aileen e cuidarei
para que seu filho seja bem tratado.
Finn nunca fora ameaçado por uma mulher. E que ameaça! Ele conhecia Laurel
havia tempo suficiente para distinguir as mudanças em seu olhar. Quanto mais agitada,
mais escuros seus olhos se tornavam. Conor costumava dizer que, quando muito irritada,
os olhos dela lembravam o mar do Norte em meio a uma tempestade. Naquele momento,
estavam negros.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— Fique aqui — ordenou a Brighid, que ficou feliz em obedecer.


Finn pegou Laurel nos braços e carregou-a pelo restante do caminho. Ela desistiu de
pedir para ser deixada no chão. Afinal, Finn não mais comandava sua retirada.
Eles se aproximaram dos beligerantes e Laurel escutou a discussão. Como temia,
ela fora a causa da desavença.
— Se não trouxer minha neta até aqui imediatamente, pode se preparar para a
guerra!
— Laurel é minha, pela lei dos homens e pela de Deus! Ela fez os votos e se
entregou a mim!
— Ela não teve escolha! Minha neta foi seqüestrada no caminho para as terras dos
Maclnnes.
— Fui eu, não o senhor, quem a salvou e a manteve em segurança.
— Segurança? Escutei muitos homens dizerem que ela jurou abandoná-lo e voltar
para meu clã na primavera.
— Laurel só sairá das terras dos McTiernay se passar por cima de meu cadáver!
Tanto faz na primavera ou em qualquer outra ocasião. Se o senhor quer guerra, a escolha
é sua. Meus homens juraram protegê-la e darão a vida por Laurel se ela for forçada a
partir contra sua vontade.
— Se ela quer ficar, por que não posso falar com ela? Finn levou Laurel até perto
deles e deixou-a no chão.
Os dois lordes, enfurecidos naquela batalha de vontades, não perceberam sua
chegada. Laurel endireitou os ombros.
— Conor está certo. Eu não tenho a menor intenção de sair daqui. — Ela fitou os
dois homens a quem tanto amava. — Ainda assim, Conor, eu gostaria de ouvir sua
resposta à pergunta de meu avô. Por que me esconder desse jeito sem me dar a
oportunidade de me encontrar com minha família? — Ela encarou Conor com olhar
chamejante.
Chocados com o aparecimento de Laurel, os dois lordes ficaram emudecidos. Conor
não conseguia acreditar que Laurel lhe desobedecera, arriscando a própria vida e a do
bebê. Ainda não satisfeita, ela se aproximou, dando os dez passos mais perigosos de
toda a Escócia.
— Então? — A fúria de Laurel se comparava à do marido, mas ela evitou cruzar os
braços e bater o pé.
Conor estreitou os olhos.
— Se seu avô estivesse apenas interessado em lhe falar, você já estaria
conversando com ele.
— Mas ele acabou de dizer...
— Ele a teria raptado e não lhe teria dado oportunidade de dizer que pretendia ficar
aqui. Ele acredita que você se sente culpada ou na obrigação de ficar.
— Mas isso é ridículo! — Um olhar para o avô a convenceu de que Conor falava a
verdade. — Estou grávida e não poderia fazer uma viagem dessas.
Maclnnes embeveceu-se na visão de sua única neta. A menina magra e sardenta se
transformara numa mulher maravilhosa e grávida no meio de um campo de batalha. E
com todas as evidências de que seu afilhado, ex-celibatário convicto, não precisava
supervisionar a proteção de Laurel.
— Esta é a prova da qual eu precisava, Conor. — Maclnnes apontou para Laurel
sem olhar para ela. — O que minha neta, no estado em que se encontra, está fazendo
aqui no campo de lutas? — ele vociferou, emocionado.
A preocupação com Laurel tinha sido insuportável. Desde que recebera a
mensagem sucinta de Seamus, vacilara entre a fúria e o alívio. "Estou com Laurel. Ela
está bem. Lorde McTiernay." Nenhuma explicação adicional.
Eufórico ao saber que sua neta estava na Escócia e disposta a morar com ele,

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

Maclnnes mandara vinte de seus melhores guerreiros para escoltá-la, porém era tarde
demais. Os soldados haviam trazido de volta os dois sobreviventes da emboscada, mas
os dois ingleses não foram de muita valia. Eles não conheciam quem levara Laurel e
disseram apenas que se tratava de outro lorde escocês que a dominara.
A fúria de Maclnnes não conhecera limites. Ele percorrera os clãs, um após o outro,
inspecionando, perguntando e tentando descobrir o paradeiro de Laurel. E com a chegada
de Seamus e a mensagem, o alívio se mesclara ao ódio. Seu afilhado era um homem
honrado, que não poderia ser responsável pelo assassinato frio da escolta de Laurel. Mas
Maclnnes fora informado de que Laurel viera para as Terras Altas e se casara com um
desconhecido, contra a vontade. Em sua opinião, Laurel fora raptada duas vezes. Na
primeira por um lorde malvado, e na segunda por Conor, que, em vez de devolvê-la à
família, a dominara.
Ele esperara as condições do tempo melhorarem um pouco antes de fazer a
perigosa viagem ao Norte para trazer de volta sua neta. E era o que faria, nem que
tivesse de lutar contra o afilhado.
— Milorde certamente não sabe como sua neta é teimosa! — Conor respondeu aos
gritos.;—Ela é, de longe, a mulher mais desobediente e irritante que já conheci! Eu a
deixei no local mais seguro do castelo, e onde é que ela está? Aqui! Por que não lhe
pergunta por que ela veio até o campo? Certamente, é o sangue dos Maclnnes que a faz
tão obstinada!
— Conor McTiernay, você suplanta em muito a minha capacidade de enfurecer as
pessoas! — Laurel gritou e virou-se para o avô. — O senhor pode esquecer toda essa
bobagem a respeito de eu voltar. Como pode ver, estou muito bem e feliz, quando não me
deixam irritada por algum segredo que sempre acabo descobrindo. Eu amo esse gigante
de cabeça dura e vou dar à luz um filho dele. Agora, se me permitem, vou para meus
aposentos descansar um pouco e se os dois quiserem discutir por mais uma semana
inteira, fiquem à vontade. Mas escutem bem, não quero nenhum homem ferido e
nenhuma gota de sangue derramada!
— Geniosa — Maclnnes resmungou ao ver Laurel endireitar as costas e afastar-se,
de queixo erguido.
— Milorde nem imagina quanto. — Conor incitou o cavalo para a frente. — Vamos
para o castelo. Finn, providencie acomodações e comida para os soldados de lorde
Maclnnes. Avise os homens que eles participarão dos treinamentos amanhã.
Um brado de satisfação ecoou dos dois lados do campo.
Conor apressou o cavalo até Laurel e levantou-a do solo com facilidade, como se ela
fosse uma criança leve. Ajeitou-a no colo e conservou o animal em marcha lenta para
reduzir os solavancos. Os dois pretendiam continuar discutindo, ele sobre obediência e
ela sobre segredos, mas Laurel acabou adormecendo encostada no peito do marido.
Conor entrou no pátio e apeou com cuidado para não acordá-la. Levou-a para cima,
entrou em seus aposentos e deitou-a na cama. Tirou-lhe as sapatilhas, a veste e
estendeu-se ao lado dela.
Embora estivesse no final da gravidez, Laurel ainda era a mulher mais bela que ele
já vira. A beleza exterior era incomparável, mas a interior capturara seu coração. Ela
acabara de anunciar a todos que ficaria no castelo.
— Eu amo você, Laurel McTiernay, e nunca a deixarei partir — Conor prometeu à
esposa adormecida.
Laurel virou-se de lado e aconchegou-se no peito de Conor. Ele pôs a mão no
abdômen protuberante e sentiu os pontapés e os movimentos do filho, admirado como
Laurel conseguia dormir com aquela agitação. E logo afastou a mão para não provocar
mais batidas internas.
Conor ficou deitado por pouco tempo. Seus convidados precisavam de atenção.
Levantou-se e foi ao salão nobre, onde o padrinho estava sentado numa poltrona diante

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

da lareira. Fora um dia difícil para ambos, pois eles nunca haviam brigado.
— Maclnnes.
— McTiernay. — O homem mais velho olhou de viés e voltou-se novamente para as
chamas.
Conor sentou-se e pegou o caneco de cerveja de cima da mesa.
— Como ela está?
— Cansada. Esse pequeno entrevero foi demais para ela.
— Por que não a impediu de se agitar, McTiernay?
— Tente dizer a uma Maclnnes para não fazer o que tem vontade. — Conor tomou
um gole. — Aprendi que é impossível. Ela me chamou de cabeça-dura, mas eu lhe
garanto que ela é a mais teimosa de nós todos. Milorde deveria ficar um tempo aqui para
testemunhar as alegrias e frustrações que tenho enfrentado. Em princípio, Laurel será a
anfitriã perfeita, mas a menor contrariedade despertará a gata furiosa que vive dentro
dela. Só Deus sabe por que, mas eu amo todas as facetas de Laurel. — Conor terminou
de tomar a bebida.
Maclnnes vira, pouco antes, as fagulhas disparadas por dois espíritos semelhantes
e, naquele momento, ouvindo o afilhado confessar o amor pela natureza apaixonada e
combativa de Laurel, convenceu-se de que a união dos dois era feliz.
Ao saber do casamento deles, ficara atônito. Conor jurara nunca se casar, pois não
precisava de filhos nem de alianças. Maclnnes também temera que o espírito indômito de
Laurel pudesse fenecer com alguém que se mantivesse emocionalmente distante.
Após a morte do pai, Conor se tornara chefe de um clã numeroso e poderoso, e
também bem mais reservado, procurando não demonstrar emoções. Maclnnes
comprovara a frieza do afilhado na discussão no campo de batalha e também que Conor
só perdera a determinação quando Laurel aparecera.
— Quando deve nascer o bebê?
— Hagatha, a parteira, disse que em poucas semanas.
— Filho, Laurel está imensa, parece até que vai estourar. Sua parteira é experiente?
— Laurel confia muito nela, portanto não escarneça de Hagatha diante de sua neta.
Procuro evitar que Laurel se aborreça ou fique agitada. Ela se cansa facilmente, embora
não se queixe. Creio que Hagatha é competente e nós estamos preocupados com o
tamanho exagerado de Laurel. — Conor inspirou fundo antes de sussurrar. — Ela tem
medo de morrer.
— Por que não me disse isso antes? — Maclnnes agitou-se.
— Há quanto tempo milorde chegou? E não faz nem uma hora que estamos
conversando amigavelmente. Laurel tem medo que aconteça com ela o mesmo que
aconteceu com a mãe. Na verdade, eu, Hagatha e muitos outros estamos temerosos. Mas
é importante para ela acreditar que tudo vai dar certo.
Maclnnes notou a angústia no rosto de Conor e considerou que ninguém poderia
duvidar que ele amava Laurel profundamente.
— Não tema, filho, em poucas semanas seu herdeiro nascerá, e Laurel ficará muito
bem.
Conor anuiu, confortado, e uma lágrima deslizou por sua face.
— Se eu a perder, Maclnnes, eu morrerei. Não poderei continuar morando neste
castelo sem Laurel para me amar, encorajar, atormentar ou tentar me dar ordens. — Ele
viu o espanto do padrinho. — Procuro ignorar as tentativas, mas aqueles olhos podem
dobrar o mais empedernido dos homens.
Laurel acordou confusa. Lembrou-se de ter impedido uma batalha e de Conor tê-la
carregado para cima do cavalo. Decerto adormecera e Conor a trouxera para o quarto.
Ela se levantou e foi até a janela. Adorava a paisagem das Terras Altas. As
montanhas perdiam a camada de neve para o verde brilhante da primavera. O sol
começava sua trajetória para oeste, inundando os campos com a promessa de calor.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

Ela afastou-se da vidraça e pegou uma das duas vestes que ainda lhe serviam. Era
de veludo escuro com enfeites dourados e destacava a cor de sua pele e de seus
cabelos, deixando-a mais feminina. Não podia mais usar a manta dos McTiernay pela
impossibilidade de encontrar um cinto para segurar as pregas que se adaptasse a seu
tamanho.
Conor insistira para ela mandar fazer mais túnicas, mas Laurel recusara, alegando
ser um desperdício de trabalho e de tecido.
— Prometo usar os maravilhosos vestidos, assim que retornar à forma antiga — ela
prometera um dia na cama, aconchegando-se nele com promessas de futuras noites de
paixão.
Laurel desceu a escadaria da torre, mas não foi ao salão nobre. Resolveu ir até a
choupana de Aileen. No pátio, fez sinal a um dos soldados para a escoltar.
Brion atendeu-a, solícito. Ele era um dos membros da guarda de elite de Maclnnes e
sentiu-se lísonjeado por poder escoltá-la. Ele se encantara com sua beleza naquela
manhã e não tivera dúvida de que a cor dos cabelos, dos olhos e a postura orgulhosa
eram características dos Maclnnes.
Eles atravessaram os portões com uma rapidez inesperada para uma mulher tão
pesada.
— Olá, meu nome é Laurel. — Ela sorriu. — Pela manta, deduzo que o senhor deve
ter vindo com meu avô.
— Sim, milady.
— Importa-se de ir comigo até a choupana de uma amiga? Não é longe, mas meu
marido acha que preciso de um acompanhante para sair do castelo. Por isso lhe acenei.
— Será uma honra, milady.
— Um dever seria o termo mais adequado. O soldado sacudiu a cabeça.
— Milady está enganada. Tenho esperado há tempos para conhecer a neta de
milorde.
— Não vai me dizer que tem idade para se lembrar de minha infância.
— Não, infelizmente. Comecei a fazer parte da guarda de seu avô muitos anos após
sua última visita. Mas as histórias de seus dias no Castelo Maclnnes ainda ecoam pelas
paredes. Laurel revirou os olhos.
— Oh, não acredito que esteja falando a sério, minhas aventuras eram inocentes.
— Não duvido, milady, mas elas trazem a alegria de volta aos olhos de milorde.
Laurel entristeceu-se ao pensar na solidão do avô sem a presença de familiares.
Eles se aproximaram da choupana de Aileen e Laurel escutou o choro alto do bebê.
Brion esperou do lado de fora enquanto ela entrava.
— Deixe que eu descasque as batatas — Laurel se ofereceu para Aileen pegar o
menino.
Aileen observou durante alguns minutos a amiga, que lhe pareceu distraída.
— Quer falar sobre o casamento de Brighid? — perguntou ao acaso, ciente pelo
marido do que Laurel fizera com ele.
— Não. — Laurel resolveu desabafar a batalha emocional. — Mas eu gostaria de
alguns conselhos a respeito de um problema. Tenho receio de espumar de raiva se
encontrar com meu marido agora. Se isso acontecer, a fúria dele será simultânea. Apesar
de eu estar certa, os fatos não confirmam o que eu sei a respeito de Conor.
— Laurel estava a ponto de chorar.
— O que esta manhã teve a ver com seu problema? — Aileen procurou parecer
casual, como se uma grávida de nove meses invadindo um campo de batalha fosse uma
ocorrência comum.
Laurel deu um suspiro profundo.
— Uma certa relação... Aileen, como você soube? Finn, não é?
— Ele me contou e nunca vi Finn tão nervoso como hoje quando ele veio almoçar.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

Posso afirmar que me alegrei por toda aquela energia estar direcionada para você. Ele
disse que não sabia como Conor tinha paciência de continuar casado com você. — O
sorriso largo de Aileen era uma prova de que ela aprovara a confrontação da amiga,
mesmo contrariando o marido.
— Ele não deveria ter se irritado!—Laurel constrangeu-se. — Ele não percebeu o
que poderia acontecer?
— Claro, e por isso ficou tão preocupado com sua teimosia. Finn receou que você
pudesse sair machucada.
Laurel agitou a mão, descartando a idéia.
— Bobagem, eu não corria nenhum perigo nem por parte de Conor, nem por meu
avô.
— Se eles a tivessem enxergado. Pela maneira como Finn descreveu a cena, eles
não perceberam sua presença até você começar a gritar.
— Oh, Senhor. — Laurel não enxergara a situação sob aquela perspectiva. Talvez
estivesse em perigo maior do que imaginara. — Finn deve ter pensando que sou uma
rematada idiota.
— Não, apenas um pouco tola. Mas não se aborreça, eu considerei os
acontecimentos de hoje absolutamente fantásticos! — Aileen entusiasmou-se.
— Por que eu a deixei tão feliz ao me expor ao perigo?
— Por causa de Finn, é claro. Durante muito tempo pensei que Finn admirasse suas
demonstrações de coragem, como ele dizia, ao enfrentar Conor. Finn e eu sempre fomos
apaixonados, mas creio que a partir de hoje, ele está ainda mais feliz por ter se casado
comigo. Ele falou, depois do almoço, que eu tenho a quantidade certa de beligerância que
não chega a ser demasiada a ponto de causar-lhe preocupação. — Aileen tornou a sorrir.
— Você pode me fazer esse tipo de favores de vez em quando.
Laurel não sabia se ria ou se ficava horrorizada com a pouca consideração de Finn
para com ela.
— Eu não pretendia ser beligerante, mas apenas evitar uma batalha. Pelo menos,
ele poderia ter procurado entender isso.
— Não se preocupe, Finn ainda é um de seus grandes admiradores, mas espero
que os dois não tenham de se enfrentar novamente por enquanto. Quando perde, Finn
sente o ego ferido.
— No entanto isso operou maravilhas no seu — Laurel comentou.
— Com certeza. — Aileen não escondeu a imensa alegria.
As duas começaram a rir e Laurel descontraiu-se.
Depois que o ambiente ficou novamente sereno, Aileen pôs o filho para dormir e
procurou descobrir o motivo do nervosismo de Laurel.
— Se não foi o entrevero da manhã que a aborreceu, então me diga do que se trata.
— Aileen sentou-se e esperou pelo desabafo de Laurel.
— Conor mentiu para mim — Laurel afirmou com tristeza.
Aileen endireitou-se, descrente.
— Bem, não sei se foi exatamente uma mentira — Laurel corrigiu-se —, mas ele me
enganou e eu não entendo por que Conor agiu dessa maneira comigo.
— Você tem certeza de que ele a enganou propositadamente?
— Quanto a isso, não tenho dúvida, Aileen. Conor sabia que eu era uma Maclnnes,
que estava preocupada com meu avô e me fez acreditar em outra coisa.
— Você tem razão, embora isso não combine com o caráter de lorde McTiernay.—
Aileen pensou por alguns instantes. — Você acha que ele aguardava a chegada de lorde
Maclnnes?
Laurel procurou se lembrar das palavras de Conor quando a deixara naquele recinto
infecto na torre de supervisão.
— Creio que sim, mas talvez não tão cedo nem que meu avô viesse tão irado. Na

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

verdade, Conor ficou surpreso pelo grau de hostilidade de meu avô.


— Talvez Conor quisesse apenas lhe fazer uma surpresa.
— Eu gostaria que isso fosse verdade. Mesmo assim, não se justifica ele ter me
levado a acreditar que meu avô estivesse em perigo.
— Mas ele não está em perigo!
— Mas eu só soube disso esta manhã! Eu não tinha idéia de que ele fosse o chefe
de um clã enorme e poderoso das Terras Baixas. Imaginei que meu avô fosse vulnerável
e incapaz de se defender de ataques externos. Conor sabia que isso não era verdade e
que eu estava preocupada com meu avô. E em vez de me tranqüilizar, ele levou a farsa
adiante.
Aileen suspirou.
— Agora eu entendo.
— Entende o quê? — Laurel ficou esperançosa.
— Agora começou a fazer sentido e você fez bem em vir falar comigo. Creio que eu
posso ter a explicação que você esperava.
— Então fale logo. Como Conor pôde me enganar assim?
— Laurel, você não está levando em conta o orgulho montanhês. O que Conor
deseja para você acima de tudo?
— Não creio que você esteja se referindo a me fazer feliz. — Laurel fitou a amiga,
que parecia muito satisfeita consigo mesma, e revirou os olhos. — A minha segurança.
— Exatamente. Os montanheses têm grande orgulho em proteger a família.
— Sim, isso é verdade. Mas o que...
— Para ser honesta, você esteve verdadeiramente ansiosa e preocupada com seu
avô durante o inverno?
Laurel teve de admitir que, apesar de imaginar a fraqueza defensiva de seu avô e
não ter idéia do que Conor faria para protegê-lo, não estivera muito inquieta a respeito
dele.
— Talvez no começo. Depois Conor prometeu que meu avô estaria seguro e que eu
não deveria pensar mais sobre isso, e eu acabei aceitando as palavras dele.
— Laurel, sob o ponto de vista do orgulho de um montanhês, qual o homem que não
vai querer parecer um herói diante de sua amada? Acha mesmo que Conor desistiria de
sua admiração e agradecimentos declarando que lorde Maclnnes não precisava de
proteção? Ainda mais o chefe de um clã poderoso e casado com a mais bela das
mulheres... — Aileen interrompeu o protesto de Laurel. — Isso mesmo, qualquer um
acalentaria a idéia de fazer-se de importante para agradar a esposa, ainda mais sabendo
que ela ficaria confiante no bem-estar do avô.
Aileen recostou-se na cadeira e cruzou os braços, satisfeita com o próprio raciocínio.
Laurel deu razão à amiga. Ela não pensara sob o ponto de vista de Conor, apenas
sob o dela. Verdade que ele a enganara um pouco, mas sem má intenção. Conor,
sabendo que ela e o avô estavam seguros, pretendia fazer-lhe uma surpresa na
primavera. E a reação de Maclnnes fora inesperada e não por culpa de Conor.
Aileen não chegou a continuar o assunto. Elas ouviram uma agitação do lado de fora
e Aileen jurou que bateria no soldado que acordasse seu filho. Correu para abrir a porta e
Conor entrou, pisando duro.
Ele imaginou que Laurel tivesse sido raptada quando Fallon entrou no salão nobre
para perguntar quem acompanhara Laurel para fora do castelo.
Maclnnes viu Conor empalidecer e imaginou o que ele pensava.
— Um homem a meu serviço não levaria minha neta para nenhum lugar.
— Quem garante isso? — Conor controlou a fúria.
— Meus homens são tão leais a mim quanto os seus aos McTiernay. Nenhum deles
faria um movimento sem meu comando.
— E se milorde tivesse ordenado?

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

— Conor, ouça bem. Laurel deixou claro que deseja ficar aqui, a seu lado. Ou será
que eu entendi mal?
Conor estreitou os lábios.
— Milorde está certo, e estou satisfeito por não ter de lutar consigo. Laurel é minha
esposa e enfrentarei qualquer um por ela.
— Já ouvi isso antes;
— Milorde afirmou que seus homens não levariam minha mulher.
Maclnnes espalmou as mãos para os lados.
— O inverso pode ser verdadeiro. Sua mulher pode ter levado meu homem não sei
para onde.
Conor estremeceu.
— Milorde deve estar certo. Laurel tem a obstinação e a cabeça dura dos Maclnnes
e milorde acaba de ter mais uma prova do que venho enfrentando.
Maclnnes sorriu com a frustração de Conor. A personalidade independente de Laurel
levava o casal a uma relação de amor e ódio.
— Laurel sempre foi uma criança que se rebelava ao ser dominada e era impossível
fazê-la aceitar qualquer sugestão que não a agradasse. Diga-me, Conor, é preciso correr
atrás dela todos os dias?
— Em geral são uma ou duas semanas a cada quatro meses em que não faço outra
coisa. Creio que esta semana é uma deles. Maclnnes sorriu.
— Então não é tão grave assim. Em toda a sua vida serão apenas uns dois anos em
que terá de se preocupar em encontrar minha neta, isso se tiver sorte, Conor. —Maclnnes
deu um tapinha amigável nas costas dele. — Vamos procurar Laurel.
Entretanto, não foi tão fácil. Conor supunha que Laurel pedira a um soldado para
levá-la ao acampamento dos Maclnnes, mas ninguém a vira desde a manhã. O tal Brion
também sumira e Maclnnes lembrou-se de que o guerreiro estava ansioso para levar
Laurel de volta para as Terras Baixas.
Depois de algum tempo, ocorreu a Conor, àquela altura extremamente nervoso, que
Laurel poderia ter ido visitar Aileen. Ele detestava ter de sair atrás dela, ignorando seu
paradeiro, e ainda mais estando ela prestes a dar à luz. Quando chegou na choupana
com Maclnnes e Finn, ele estava desesperado, imaginando que Laurel pudesse estar em
trabalho de parto sem qualquer auxílio. E quando a viu tão bem-humorada, o medo, como
sempre, se transformou em ódio.
Laurel viu o rosto carrancudo do marido e soube que ela era a causa.
— Não fique zangado, Conor, vim com um acompanhante — ela se defendeu e
apontou o soldado do lado de fora.
— Ele é um Maclnnes! — Conor berrou. Laurel deu de ombros, sabendo que o
irritaria.
— Mas não deixa de ser um acompanhante. Não me lembro de nenhuma regra que
restrinja minha escolta aos soldados McTiernay. Na verdade, a discussão em que fui
vencedora terminou com a concordância de que uma pessoa fisicamente capaz serviria
como companhia, desde que eu não me aventurasse para além das choupanas próximas
à muralha. Pedi a Brion que viesse comigo, pois não havia mais ninguém disponível, e ele
concedeu com gentileza.
Conor lembrou-se do guerreiro que fazia parte da guarda de Maclnnes e considerou
a escolha de Laurel bastante razoável.
— Estou satisfeito que tenha chegado, lorde Maclnnes — Brion interferiu em defesa
de Laurel. — Creio que estávamos certos em nossas suposições. Lady Laurel está sendo
maltratada aqui.
— O quê? — Laurel, Conor e Maclnnes gritaram em uníssono, e as portas da
choupana estremeceram.
O barulho acordou Gideon. Os três ignoraram o choro do bebê e o olhar fuzilante de

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Aileen. Laurel foi a primeira a se recuperar.


— Brion, por favor, queira explicar-se — ela foi incisiva. — O que você disse não faz
sentido.
— Pois não. — Brion a encarou, recusando-se a capitular diante dos olhares
furiosos dos McTiernay, sem imaginar como estava se arriscando.
E pela segunda vez naquele dia, Laurel interveio para evitar derramamento de
sangue.
— Brion, o que o faz pensar que sou maltratada? — ela indagou em voz baixa.
— A conversa que milady teve com sua amiga. — Ele apontou Aileen.
Laurel puxou Finn pelo braço, sensível como todos os montanheses quando se
tratava da família, para lembrá-lo de que não deveria agir com violência. Brion trilhava um
caminho perigoso e não parecia disposto a recuar. Se uma disputa fosse ali
desencadeada, os dois clãs se enfrentariam numa batalha.
— Brion — Laurel sacudiu levemente a manga dele —, diga-me o que o levou a
essa conclusão.
— Milady disse que foi enganada, que lorde McTiernay a fez acreditar que seu avô
estava em perigo e que também não lhe contou que lorde Maclnnes viria até aqui depois
de receber a mensagem. Nessas condições, não acho que milady deveria continuar nas
terras McTiernay. Volte para casa conosco, onde será amada e respeitada, sem que
ninguém pense em mentir ou enganá-la.
Brion notou o olhar de fúria que se instalara no semblante de Laurel enquanto ele
fazia o discurso.
Conor também notou a mudança e deu razão a Finn. Embora não fosse uma
experiência agradável ser objeto da ira de Laurel, era divertido observar isso acontecer
com outro.
— Brion — ela começou com voz perigosamente doce e olhar sombrio —, permita-
me fazer uma sugestão para seu futuro. Escute bem o que vou lhe dizer, caso contrário
sua vida será curta, principalmente se resolver se casar com uma mulher enérgica.
Brion espantou-se com a reação de Laurel. Ele imaginara que ela ficaria grata por
sua defesa.
— Se pretender bisbilhotar uma conversa particular, faça com que o fato pareça
acidental. Se a ouvir acidentalmente, esqueça-a. Finalmente, se for tão tolo a ponto de
escutar e anunciar o que ouviu, pelo menos repita o diálogo de maneira correta.
Brion desejou que a terra se abrisse sob seus pés.
— Sentir-me enganada foi um sentimento temporário, substituído pelo alívio quando
entendi que meu marido teve a melhor intenção a meu respeito quanto às decisões dele.
Aliás, como ele sempre faz. — Laurel notou o sorriso largo de Conor. — Embora
possamos discordar quanto à maneira exagerada como ele protege meus interesses.
— Perdão, milady — Brion falou, engasgado.
E subitamente o mundo do mancebo voltou ao lugar com o sorriso brilhante de
Laurel.
— Perdoado e esquecido. — Laurel virou-se para o avô e o marido, e fitou-os com ar
de advertência. — Certo?
— Certíssimo. — Maclnnes riu e abraçou-a.
Ele gostava da determinação da neta, que ainda na infância se saía bem das
discussões com os soldados.
Seus planos inteligentes para evitar punições ou reprimendas sempre despertavam
a simpatia geral. Laurel era capaz de enfurecer uma pessoa e cativá-la de imediato. Ele
sentira muita falta de Laurel quando o pai dela proibira as visitas da filha. Nunca mais
ficaria afastado da neta por tanto tempo.
Conor ergueu Laurel nos braços e saiu da choupana de Finn. Eles nada disseram,
pois o orgulho os impediria de admitir uma derrota, ainda mais diante dos outros.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

Quando chegaram a seus aposentos, Conor deixou Laurel no chão e beijou-a


longamente, inebriado mesmo depois de tanto tempo. E sempre seria assim, ele pensou,
esquecido de tudo, exceto de Laurel.
Os dias que se seguiram foram de festanças e torneios entre os dois clãs. As
competições simuladas, assim chamadas por Conor e Maclnnes, tinham lugar no pátio
inclinado do lado de fora das muralhas e diariamente eram introduzidas dificuldades
maiores. Os homens achavam a idéia esplêndida. Laurel e Brighid a classificaram de
"ridícula". Brighid, angustiada, perguntava a toda hora se chegaria ao altar, a despeito de
Laurel garantir que Conor não permitiria que nada acontecesse com David.
Laurel dormia quase o tempo inteiro. Quando estava acordada, sentia-se irritada,
imensa e pesada. Não queria que o avô a visse daquela maneira e o mandava de volta
para casa todos os dias, prometendo visitá-lo depois do nascimento do bebê e da própria
recuperação. Invariavelmente Maclnnes respondia que esperaria pela chegada do
bisneto.
O que mais aborrecia Laurel era a indiferença de Conor e de seu avô diante de sua
raiva e das mudanças de humor. Ela reconhecia que, hão raras as vezes, era exigente e
descortês, e o descaso deles aumentava sua frustração. Desejava que algo acontecesse
para apressar a vinda do bebê ou para redirecionar sua raiva. Seu desejo foi atendido da
pior maneira possível.

CAPÍTULO XI

Keith Douglas cavalgava com seu pai e mais uma dúzia de guerreiros em direção
aos portões da Fortaleza McTiernay, rodeados pelos homens de McTiernay desde a
ultrapassagem dos limites das terras de Conor. A vinda de lorde Douglas fora precedida
por uma mensagem que chegara poucos dias antes. Lorde Douglas mandara avisar que
tinha assuntos importantes a tratar com lorde McTiernay e que viria com poucos homens.
Conor se deu conta da presença de Keith Douglas quando a comitiva se aproximou
do castelo. Ao saber da chegada iminente de lorde Douglas, Conor contara a Maclnnes
sobre a experiência terrível de Laurel nas mãos de Douglas. Como era de se esperar, os
berros de Maclnnes fizeram com que metade de seus homens acorressem com as
espadas desembainhadas. Conor retardara o relato da história por saber que Maclnnes
exigiria o direito de enfrentar o inimigo. Depois de uma discussão exaustiva, Conor e
Maclnnes haviam decidido deixar os Douglas entrarem nas terras McTiernay para explicar
o motivo daquela visita incomum. Depois disso, decidiriam o destino do líder desonesto e
traiçoeiro, e de seu filho.
Em pé na muralha do castelo, Conor recusou-se a receber o canalha que se
aproximava, enquanto Maclnnes observava das sombras o desenrolar dos
acontecimentos. Os dois haviam concordado que seria mais conveniente Douglas ignorar
a presença de Maclnnes até eles ficarem sabendo qual era o assunto que o trouxera até
ali.
Conor e Maclnnes se enfureceram ao ver Keith Douglas vivo, sendo que Laurel se
culpava por tê-lo matado. A presença dele significava perigo. Atirar nele sem justa causa
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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

poderia desencadear uma guerra. Robert Bruce promulgara a lei sobre lutas internas,
estabelecendo que as disputas teriam de ser contra o rei da Inglaterra e não entre clãs.
Bruce obtivera os compromissos de Conor, de Maclnnes e até de Douglas, a respeito.
Porém, depois do que Laurel fizera, certamente Keith viera à procura de vingança,
fosse ela qual fosse.
— Alinhem-se nas ameias e guardem os portões! — Conor gritou enquanto outros
soldados McTiernay rodeavam os catorze homens. — Nenhum Douglas vai ultrapassar
essas muralhas — ele disse com frieza, olhando o grupo de homens cruéis que se
encontrava do lado de fora do castelo. — Nem comerá de nossa comida.
— Nós trouxemos a nossa — o velho Douglas anunciou.
— Diga a que veio e saia de minhas terras! — Conor avisou-o.
Keith adiantou-se e ignorou a reprimenda do pai, que lhe ordenou silêncio.
— Vim buscar minha mulher! — ele berrou com ódio na voz.
Laurel dormia quando Conor e Maclnnes souberam da chegada do grupo e
decidiram nada lhe dizer, esperando resolver a situação sem que ela soubesse de nada.
Mas entenderam a futilidade daquela intenção ao ouvi-la gritar.
Conor desceu correndo até o pátio, onde Laurel estava inconsciente no chão, perto
da muralha norte. Quando voltou a si, ela continuou atônita por ter escutado a voz de
Keith.
— Não pode ser verdade, Conor, não pode. — Laurel agarrou-se na túnica do
marido.
— Calma, meu amor, eu acredito em você. Não duvidei quando me contou o
ocorrido e continuo acreditando em suas palavras.
Laurel acalmou-se um pouco por estar nos braços de Conor. Ele gostaria de poder
ficar ao lado dela para protegê-la, mas se o fizesse acabaria por prejudicar não só a ela,
mas a todos. Ele fitou Maclnnes de relance e anuiu.
— Vá agora.
Maclnnes contemplou a coisa mais preciosa do mundo para ele e engoliu em seco.
— Seja forte, Laurel, sei que você conseguirá. Não importa o que aconteça, não diga
a ninguém que eu estive aqui. — Ele beijou a testa da neta com todo o amor e sumiu na
direção da passagem secreta do comparte-mento da cisterna.
Conor segurou as mãos de Laurel, temeroso como jamais estivera.
— Meu amor, por favor, escute bem. Preciso que confie em mim e acredite em tudo
o que conquistamos. Pode fazer isso? Ótimo. Douglas e seu filho estão entrando...
— Você não vai deixar aqueles dois monstros entrarem em minha casa! — Laurel
gritou, furiosa.
Conor não chegou a responder.
— Sim, filha, ele deixará — Douglas rosnou, ameaçador.
De longe, Laurel sentia o mau cheiro dele.
— Saia daqui! — ela tornou a gritar.
— Ela admitiu a tolice, McTiernay? Sei que meu filho não tem muito juízo, mas ele a
escolheu e ela disse "sim". — Douglas sorriu com ironia e deixou à mostra os dentes
podres.
— O senhor é desprezível. Não posso imaginar como meu marido o deixou entrar
aqui.
— Talvez por ele não ser seu marido — Douglas falou com voz pastosa.
— Não é? Pois está redondamente enganado, animal peçonhento. Somente seu
filho pode ser mais idiota do que o senhor. — Sentiu dor no braço quando Conor o
apertou mais do que o necessário por ela pretender avançar.
— Fique aqui — ele ordenou sem a olhar. — E Deus a ajude se aqueles homens do
lado de fora sustentarem o relato de Keith Douglas sobre sua noite de núpcias.
A hostilidade de Conor surpreendeu Laurel, e ela observou Conor avançar no pátio

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

para conversar com os guerreiros de Douglas.


Ela não podia provar sua história e sem dúvida os soldados de Douglas contariam
muitas mentiras. Conor acreditaria nela? Pouco depois ele retornou, distante e frio,
seguido pelos Douglas, pai e filho.
Keith parecia entusiasmado com os eventos. Depois de ter sido ferido por Laurel,
jurara vingar-se. Traria Laurel de volta, conseguiria fazê-la arrepender-se para o resto da
vida pelo que fizera e faria com ela tudo o que lhe apetecesse.
A princípio, o pai discordara de sua idéia. Não era segredo que Laurel caíra nas
boas graças de McTiernay. Mas os planos de casamento para Keith tinham maiogrado, e
quando Douglas soubera que McTiernay acabara com suas esperanças de uma aliança,
resolvera ajudar o filho a vingar-se e também a procurar uma recompensa pessoal por
isso.
Douglas estava ciente de que não ganharia uma guerra contra McTiernay, mas não
haveria coisa pior para o orgulho de um homem do que perder a mulher para o inimigo.
Apesar do sangue e da sujeira que manchavam o rosto de Laurel Cordell naquele dia, não
havia dúvida de que se tratava de uma beldade. E McTiernay se apossara também
daquele prêmio.
Conor precisava de tempo para evitar uma guerra e matar os Douglas sem despertar
a ira de Robert Bruce. E mesmo que os planos dessem certo, ainda haveria de considerar
uma eventual perda do amor de Laurel. Rezou para Laurel ser forte por ele, pelo futuro e
pelo filho deles. Ele escutou as mentiras a respeito de Laurel e voltou, sombrio.
— Peça aos criados para mudarem suas coisas do solário para a torre norte! Nunca
mais quero vê-la!
A frieza das palavras de Conor retalhou o coração de Laurel e o tempo parou por
alguns momentos até ela escutar uma voz distante de alguém que estava perto dela.
— Levem-na para a torre norte! A moça é minha! — Keith aproximou-se com o
mesmo olhar desvairado da noite em que Laurel o recusara diante do sacerdote.
Conor bloqueou o avanço de Keith.
— Afaste-se dela! — Ninguém duvidava do que aconteceria se Keith desafiasse seu
comando. — O filho que ela carrega no ventre é meu, e só depois do nascimento ela será
sua. Até lá ela permanecerá sozinha. — Conor fitou Douglas-pai com desprezo. — Não
abrirei mão disso.
Conor segurou o braço de Laurel com força e levou-a até os novos aposentos da
torre norte. Esperava ter alguns minutos para uma explicação, mas Douglas os seguiu.
— Você ficará aqui até meu filho nascer e não sairá nem para comer. A parteira virá
diariamente para se assegurar da saúde do bebê. Fora isso, permanecerá solitária. —
Conor fitou-a, implorando para ela entender a mensagem implícita. — Não tolero gente
mentirosa!
Ele saiu e deixou-a sozinha.
Laurel ficou parada por um longo tempo diante da porta que fora fechada, refletindo
no destino cruel que mantivera Keith vivo e que permitira sua vingança.
Ela não conseguiu chorar. Logo depois uma criada chegou para trazer-lhe a escova,
alguns pertences pessoais e a outra túnica. A moça assegurou que tudo acabaria bem,
mas a voz trêmula traía sua incerteza. Assim que ela saiu, Laurel debulhou-se em
lágrimas.
Mais tarde a mesma criada trouxe comida, mas Laurel não conseguiu comer. O
cozido e o pão esfriaram e ficaram rançosos. Conor soube que Laurel não se alimentara e
entendeu que ela tomara suas palavras como verdadeiras. Jurou que, se sobrevivessem
àquilo, não deixaria jamais ninguém ameaçá-los. Pediria perdão e prometeria impedir que
outros sofrimentos a atingissem no futuro. Se ela entendesse por que tivera de ser
protegida, até a deixaria vencer as discussões.
Laurel não conseguiu dormir e passou a noite sentada junto à janela, contemplando

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

o belo cenário das Terras Altas. Não estava muito frio e a lua brilhava. Seria uma noite
ideal para visitar a torre estrelada.
Suspirou. Pelo menos estava num local alto e podia deslumbrar-se com a vista.
Na manhã seguinte, ela também não comeu. Sabia que era preciso esforçar-se pelo
bebê, mas não tinha fome nenhuma. Deitou-se e dormiu de exaustão.
Laurel acordou à noite, quando os raios de luar iluminavam o quarto, e espantou-se
por não ter reconhecido antes a verdade. Sonhara com Aileen, e a amiga inteligente a
ajudara a ver o outro lado da situação.
Deixando as emoções de lado, Laurel foi capaz de entender o que acontecera no dia
anterior. Conor lhe dissera que acreditava e confiava nela. E o avô pedira para ela ser
forte e não revelar a presença dele para ninguém.
Laurel contemplou o reflexo do luar no rio, ora mais caudaloso pela neve que
derretera, refletiu em tudo o que o avô e Conor lhe haviam dito e no que acontecera
depois. Conor agira como se a odiasse, mas impedira Keith de se aproximar dela.
Claro, Conor precisava ganhar tempo, e sua atitude ríspida fora uma artimanha para
enganar os Douglas. E usara a gravidez dela para conceder ao avô e a si mesmo
oportunidade de protegê-la. Laurel comoveu-se por Conor ter de suportar em seu castelo
a presença detestável dos Douglas. Ah, como gostaria de poder avisá-lo que entendera
tudo e que manteria o filho deles em segurança até que fosse encontrada uma maneira
de resolver a situação! Então ela comeu o jantar que fora deixado na mesa.
Conor foi sensível ao recado. Laurel comia, dormia e recebia Hagatha normalmente.
Ela compreendera que algo era preparado, ou, pelo menos, confiava nele.
Quatro dias haviam se passado, mas Conor não teria prolongado a situação por
tanto tempo se Laurel não demonstrasse acreditar nele. Conseguira manter os Douglas
do lado de fora das muralhas, mas tivera de aceitar quatro guardas deles vigiando a torre
norte. Hagatha foi levada para cima no terceiro dia e não saiu mais. Um soldado escoltava
as criadas que subiam e desciam para certificar-se de que não haveria troca de
mensagens.
Conor manteve Aileen e Brighid afastadas, e os irmãos na torre estrelada. Odiava ter
de fazer isso, mas ele sabia que a lealdade deles para com Laurel poderia pôr em risco
seu plano.
Felizmente os irmãos o haviam interpelado no solário e não no hall. Eles não se
conformavam com a presença dos Douglas dentro dos limites dos McTiernay, mesmo
sem saber do isolamento imposto a Laurel. A juventude e a inabilidade de controlar as
emoções haviam forçado Conor àquela decisão. Todos a quem amava teriam de ser
mantidos em confinamento. E ele vivia num inferno.
Laurel acordou com uma dor aguda e fitou a parteira que ressonava a seu lado.
Percebeu que amanhecia por trás da cortina que fora colocada na janela. Hagatha era
muito sensível à luz durante o sono e pedira escuridão completa para dormir bem.
Hagatha era sua única companhia e se tornara sua amiga e confidente. Embora
concordasse com a dedução de Laurel sobre a situação, ela também não imaginava qual
seria o plano de Conor. As duas rezavam e esperavam que ele conseguisse resolver tudo
antes de o bebê nascer.
Mas os pedidos delas não foram atendidos. O bebê nasceria naquele dia e,
recordando-se de Aileen, Laurel refletiu que não conseguiria ficar em silêncio durante o
parto. No entanto ela sabia que Conor não a entregaria a ninguém, muito menos aos
Douglas. Gostaria de poder avisá-lo para ele mudar os planos.
As contrações eram fortes, mas espaçadas, quando Hagatha acordou e
espreguiçou-se.
— Laurel, pelo visto trouxeram a refeição enquanto eu dormia. — Ela experimentou
o que havia nas travessas. — Está fria, mas gostosa. Fiona é mesmo uma boa cozinheira.
Laurel fingira dormir quando o guarda trouxera as bandejas. Aileen preferira andar

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

entre as contrações, mas Laurel optou por descansar e guardar as forças para resistir às
próximas dores. Ela observou Hagatha preparar o prato.
— O que está esperando, filha? Você é a primeira a comer e ainda devora as
migalhas.
— Não estou com fome. — Laurel tentou adiar o inevitável mesmo diante da
experiência de Hagatha.
— Há quanto tempo começaram as dores, filha? — Hagatha nunca se enganava.
— Há pouco, quando acordei.
— É possível que ainda demore. — As duas se entreolharam, receando o insucesso
do plano de Conor. Até a noite, todos no castelo saberiam que Laurel estava em trabalho
de parto.
— Não se preocupe, filha, tudo dará certo. Laurel agarrou a manga da outra.
— Hagatha, prometa-me uma coisa.
— Outra? Já cumpri uma promessa, estou aqui.
— Por favor. — Laurel cerrou os dentes quando uma contração atravessou seu
ventre. — Se tiver de escolher, Hagatha, salve o bebê.
A parteira fitou-a intensamente antes de responder:
— Não farei essa promessa, minha filha.
— Nós duas sabemos que o bebê é grande demais. Se for preciso, pode me cortar e
tirá-lo. Não quero a morte de nós dois, como aconteceu com minha mãe e meu irmão.
Durante a manhã inteira, Laurel tentou em vão obter um juramento de Hagatha, mas
era impossível dissuadir a parteira da idéia de salvar mãe e filho.
A primeira indicação de que algo diferente ocorria no castelo foi a ausência do
almoço. As dores menos espaçadas tiravam a noção do tempo de Laurel, mas não de
Hagatha. Laurel tinha a impressão de que o sofrimento durava dias e não horas. O
segundo sinal foi uma gritaria naquela tarde e até Laurel imaginou ter ouvido um
entrechoque de espadas no pátio.
No começo da noite, Laurel andava pelo quarto e procurava acalmar-se, mas as
dores eram fortes e deviam piorar, pelo que testemunhara com Aileen. Procurou pensar
em outras coisas, enquanto sentia que a rasgavam por dentro.
— Hagatha. — Laurel inspirou fundo. — O que estará acontecendo?
Anoitecia, e ninguém trouxera água nem comida desde a manhã. Fazia algum
tempo, não se ouviam ruídos no castelo. Hagatha nada respondeu, embora estivesse
preocupada com o silêncio depois da chamada às armas. Pensou em sair, mas não
queria deixar Laurel sozinha. E se não conseguisse voltar? Em breve todos ficariam
sabendo que Laurel estava em trabalho de parto. Até o momento, Laurel suportara
corajosamente as contrações sem gritar, mas logo elas se tornariam insuportáveis e a
energia de Laurel estava abalada.
— Não sei, mas vou pedir ao guarda que traga pelo menos água. Não creio que
Conor permitiria que a deixassem morrer de fome e sede.
Laurel deitou-se e agarrou os lençóis, imersa em nova onda de dor.
— Nós sabemos que ele está em combate.
— Eu não estou sabendo de nada.
— Se ele estivesse aqui, nós teríamos comida e água, não é verdade?
— Bem, eu mesma vou buscar algo para beber. O jarro está quase vazio e talvez eu
não possa sair depois.
Laurel anuiu.
Hagatha abriu a porta e notou que não havia sentinelas na entrada da torre. Desceu
a escada e verificou o pátio. Não havia ninguém à vista, e o silêncio era preocupante.
Onde estariam todos?
Hagatha foi até a cozinha. A comida por terminar repousava sobre a lareira
apagada, e Hagatha teve certeza de que algo muito sério acontecera. Mesmo que alguma

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

competição tivesse esvaziado o pátio, sempre havia alguém na cozinha, e o fogo


raramente era apagado. Ela pegou alguma coisa para comer, um frasco com água e
Voltou. Laurel não conseguia mais controlar os gritos de dor.
— Não precisa mais se reprimir, minha filha, não há guardas na torre.
— Então podemos sair daqui?
— Sim, mas primeiro terá de beber um pouco de água. — Hagatha pôs a comida e o
vasilhame sobre a mesa.
— Não havia ninguém para ajudá-la?
— Logo todos estarão de volta. — Hagatha decidiu ocultar a verdade.
— Então vá chamar alguém. —- Laurel não suportou a dor e gritou.
— Não a deixarei sozinha. — Hagatha rezou para alguém aparecer.
Ela estava limpando a testa de Laurel quando a porta foi aberta e Aileen e Brighid
entraram correndo.
— Meu Deus! — Aileen arregalou os olhos ao ver Laurel extremamente pálida. —
Quanto tempo mais vai durar isso, Hagatha?
— O quanto for necessário. — Hagatha pediu silêncio com o olhar.
Brighid saiu correndo em busca de Conor. Aileen aproximou-se e notou que Laurel
parecia dormitar entre as contrações.
— Por favor — Aileen sussurrou —, diga que ela sobreviverá.
Hagatha fez um sinal imperceptível pedindo silêncio.
— Ajude-me agora.
Aileen sentou-se ao lado de Laurel e segurou-lhe a mão. Laurel abriu os olhos.
— Terminou a disputa?
— Sim. — Aileen procurou não chorar ao ver a amiga sofrendo.
— Conor? — Laurel sussurrou.
— Está bem. Viemos ajudá-la, agora não vai demorar muito.
Laurel sacudiu a cabeça.
— Sinto que há algo errado.
Conor perdeu a compostura quando descobriu que Laurel estava em trabalho de
parto desde a manhã. Subiu correndo para vê-la, mas foi impedido de entrar por Aileen e
Brighid. E teve de escutar os gritos lancinantes do outro lado da porta.
— Diga a ela que tudo terminou.
— Ela já sabe — retrucou Aileen, voltando ao quarto com uma caçamba de água.
Conor olhou a porta que se fechava e imaginou se voltaria a sentir a confiança
anterior que Laurel chamava de arrogância. Então desceu a escada e foi para a capela.
E foi onde Maclnnes encontrou Conor na manhã seguinte.
— Por favor, diga-me que o sofrimento de Laurel teve um fim — Conor implorou.
Maclnnes sacudiu a cabeça e sentou-se no banco ao lado de Conor. Ele saíra tarde
da noite para andar e não ter de ouvir os gritos de sua amada neta. Não conseguira salvar
a filha querida e temia perder sua única família. Muito cansado, gostaria de ajudar Conor,
mas nada conhecia que pudesse aliviar a dor do afilhado.
Conor apoiou os cotovelos nas coxas e escondeu o rosto entre as mãos.
— A última semana foi difícil, mas eu não deveria tê-la trancado. A dor que lhe
causei...
— Meu filho, sua atitude foi a mais sensata. Laurel encontrava-se em segurança e
fora do alcance deles. Hagatha estava com ela e o principal foi Laurel saber a verdade.
— Eu sei, mas também nada se compara a essa tortura. — Pela primeira vez na
vida, Conor se sentia apavorado.
Maclnnes nada respondeu, pois também estava com medo.

A manhã anterior começara de maneira bem diferente do usual. Depois da chegada

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

dos Douglas, Maclnnes fora com padre Lanaghly em busca do sacerdote que oficiara as
supostas bodas de Laurel. Lanaghly encontrara o padre Uron com freqüência em suas
viagens durante os meses de inverno e sabia onde procurá-lo. Os dois rezaram para que
Uron ainda estivesse no local previsto.
A viagem fora longa, mas Uron fora encontrado e confirmara o relato de Laurel. Ele
concordou em acompanhá-los para refutar a reivindicação de Keith Douglas. Maclnnes
não teve dificuldade em convencer dois lordes imparciais para acompanhá-los na volta.
Eles chegaram ao castelo no final da manhã anterior, e Conor ordenou aos Douglas
que fossem ao pátio inclinado. Depois libertou os irmãos para que eles testemunhassem
sobre as condições físicas de Laurel na noite em que ela fora encontrada pelos
McTiernay.
O castelo todo parou para presenciar o evento. A raiva e o ressentimento de ter de
suportar a presença dos Douglas veio à tona. Os Douglas haviam conspurcado a honra
de Laurel e todos queriam a morte deles. Porém Conor queria algo mais do que a vida
deles. Queria vingar Laurel.
O pátio de combate estava rodeado de guerreiros McTiernay e Maclnnes. Soldados,
fazendeiros e criados estavam lado a lado para presenciar o que fatalmente ocorreria.
Pela primeira vez foi contada a história de como Laurel fora encontrada e
acompanhara os McTiernay. Hamish falou sobre a coragem dela, e Seamus, sobre sua
perícia. Cada um dos irmãos contou fatos a respeito da coragem com que ela enfrentara o
trajeto para o castelo, apesar de seu estado físico. Glynis falou sobre a generosidade de
Laurel, e Aileen, sobre os dotes de curandeira. Finalmente foi a vez de o padre Uron
denunciar a mentira de Keith Douglas.
Douglas e o pai tentaram argumentar com Uron, mas os dois chefes de clã que
haviam acompanhado Maclnnes os impediram de falar. Conor permaneceu impassível e
seu silêncio foi mais do que ameaçador. Seu sangue fervia ao olhar aqueles homens
cruéis, patéticos e encolhidos que haviam ameaçado Laurel.
— Os senhores levarão o caso ao conhecimento de Robert Bruce? — Conor
perguntou aos lordes imparciais.
— Sim — os dois responderam, apoiando a decisão, o que certamente Bruce
também faria ao saber da verdade.
— Um de meus homens para cada um dos seus — Conor decidiu.
Douglas surpreendeu-se, pois imaginara que seria uma carnificina.
— E se ganharmos?
— Poderão partir — Conor concedeu.
Douglas suspirou. Sabia que McTiernay era um excelente estrategista, mas como
seria ombro a ombro? Ele teria ensinado truques a seus homens?
— Metade é minha — Maclnnes adiantou-se. Conor acenou em concordância e
anuiu para Finn. Finn e seis guerreiros McTiernay se adiantaram com as armas
desembainhadas. Segundos mais tarde Maclnnes e outros seis homens se juntaram aos
demais.
A batalha foi rápida. Douglas subestimara o amor e a lealdade dos homens de
Conor para com Laurel. Um erro grave que acabou com os Douglas e não deixou nenhum
McTiernay ou Maclnnes ferido.
Quando a batalha terminou e os corpos foram retirados das terras dos McTiernay,
Laurel já estava em trabalho de parto fazia doze horas. Conor tomara um banho de rio
antes de encontrá-la. Chegara tarde e não pudera ver Laurel.
A princípio, foi tomado pela aflição normal de um futuro pai. Mas quando os gritos se
prolongaram noite adentro, o pavor que Laurel e ele tentaram ignorar assomou em toda a
sua força.
— Laurel, você conseguiu! — Aileen deu um sorriso largo e ajudou Laurel a vestir a
camisa.

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CHE 319 – Sedução nas terras altas – Michele Sinclair

Os bebês haviam chegado depois de enfrentar um trajeto penoso. Um menino e


uma menina. Laurel beijara os dois, segurara-os por alguns segundos e adormecera sob
a bênção de não sentir mais dor.
Hagatha terminou os deveres de parteira, sorrindo e enxugando as lágrimas. O
menino viera de nádegas, o que explicava o parto prolongado e as dores mais intensas
que o comum. A menina, mais cooperadora, nasceu minutos após o irmão, e de cabeça.
Ao amanhecer, Laurel sentira que estava na hora e quando o rapazinho veio ao
mundo, Hagatha entendeu a própria tolice.
O menino era muito pequeno para o tamanho do ventre de Laurel. Hagatha entregou
o bebê para Aileen e preparou-se para uma segunda criança. Em seguida a cabecinha
surgiu e Hagatha segurou uma menina.
Laurel dissera que não havia gêmeos em sua família, apenas crianças grandes que
arriscavam a vida das mães. Por isso as duas haviam imaginado que se tratasse de um
bebê graúdo. Na verdade, os filhos de Laurel eram grandes para gêmeos, pois a maioria
deles era pouco maior do que as mãos de Hagatha. A mãe de Conor ficara apenas um
pouco mais distendida quando dera à luz Craig e Crevan, dois garotinhos muito
pequenos. Os gêmeos McTiernay eram quase tão grandes como bebês normais e muito
saudáveis. Brighid saiu correndo com a novidade.
— Milorde! Lorde McTiernay! Lorde Maclnnes! — ela gritou pelos corredores até
encontrá-los.
Os dois voaram para fora da capela, com receio de fazer perguntas.
— Milorde...
Conor sentiu o coração parar ao ver as lágrimas de Brighid.
— Milorde é pai de um menino e de uma menina!
— E Laurel? — Ele mal conseguia falar de emoção.
— Está bem, embora exausta, e agora está dormindo. Foi difícil, mas lady Laurel
tem muita coragem e sobreviveu à teimosia dos bebês que insistiam em não nascer.
Conor fechou os olhos e encostou-se na parede externa de pedra da capela. Sua
família estava salva, Laurel lhe dera gêmeos e pela primeira vez, em meses, estava
seguro quanto ao futuro. Seu temor que algo acontecesse com Laurel não lhe permitira
ser completamente feliz.
Maclnnes não se comportou muito melhor, caindo de joelhos ao ouvir a notícia.
Receara tanto que acontecesse com Laurel o mesmo que ocorrera com a própria filha,
que nem mesmo conseguia falar.
Brighid não sabia o que fazer, pois nunca vira Conor agir de maneira tão emotiva.
Ele era conhecido por ter nervos de aço e vontade de ferro. Era desconcertante sentir sua
vulnerabilidade exposta. Depois de ver a reação de Conor, ela desejou que Donald, forte
e sempre reservado, tivesse a mesma reação diante do nascimento do primeiro filho
deles. Sorriu e voltou correndo para ajudar a cuidar dos bebês.

Laurel finalmente convencera Conor a deixá-la descer até o salão nobre. A única
concessão fora permitir que ele a carregasse pára baixo e para cima, pois seus amados
filhos tinham nascido havia apenas três dias. Ela explicara a Conor que, pelo
confinamento a que fora necessariamente submetida na semana anterior, ficaria louca se
não saísse um pouco de seus aposentos.
Conan e Clyde foram os primeiros a cumprimentá-la quando ela chegou nos braços
de Conor que, relutante, sentou-a na poltrona próxima à lareira.
Acomodada, Laurel segurou o lindo menino de cabelos escuros, enquanto Conor
embalava a filha que tinha a cabecinha coberta por uma penugem dourada muito clara.
— Estão pensando em continuar com os nomes começados com "C"? — Conan

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perguntou, na empolgação de seus catorze anos. — Sempre caçoei de Clyde, mas ainda
há muitos para escolher. O que acham de Calum e Colleen?
Graig e Crevan tomaram a vez para oferecer sugestões e só desistiram quando
Conor os ameaçou com trabalhos de limpeza. Os dois bebês continuaram dormindo
durante o animado debate.
Naquela tarde, quando finalmente ficaram sozinhos, Laurel, sorridente, perguntou a
Conor a respeito dos nomes que ainda não tinham sido escolhidos.
— Meu amor, você é quem tem de decidir. Isso é o mínimo que posso lhe conceder
por tudo o que me proporcionou. — Essa era a defesa favorita por não lhe dar uma
resposta.
Conor acariciou-lhe o rosto e beijou-lhe os lábios com ternura.
— Eu te amo, Conor McTiernay.
— E eu te amo, Laurel McTiernay.
Laurel dirigiu o olhar para suas duas preciosidades.
— Gosto da idéia de sua mãe de usar a mesma letra para dar nomes aos filhos e eu
ficaria honrada de continuar a tradição. No entanto, também quero homenagear minha
mãe. Ela teria ficado muito feliz e orgulhosa com os netos. O nome dela era Brenna.
— Então por que não dar a eles nomes começados com"B"?
Conor fitou os olhos brilhantes e o sorriso encantador, e soube que nunca sentiria
tanta paz.
— Conor, quero lhe apresentar Braeden Conor e sua irmã, Brenna Cillian.
Abraçados aos filhos, Conor e Laurel compreenderam que tinham alcançado tudo o
que sempre haviam desejado. Haviam encontrado o amor, lutado por ele, e desdobrado
seus corações escoceses.

Fim

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