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o CONHECIMENTO

NO COTIDIANO
AS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS
NA PERSPECTIVA DA PSICOLOGIA SOCIAL

Ana Mercês Bahia Bock


Angela Arruda
Bader Burihan Sawaia
Celso Pereira de Sá
Clélia Maria Nascimento Schulze
Edson Alves de Souza Filho
Leny Sato
Maria Alice Vanzolini da S. Leme
Mary Jane P. Spink (org.)
Neuza Maria Guareschi
Ricardo Vieralves de Castro
Silvia T. M. Lane
Solange de Oliveira Souto

editora brasiliense
Copyright © by Associação Brasileira
de Psicologia Social, 1993
Nenhuma parte desta publicação pode ser gravada,
armazenada em sistemas eletrônicos, fotocopiada,
reproduzido por meios mecãnicos ou outros quaisquer
sem autorização prévia da editora.

Primeira edição, 1993


1~ reimpressão, 1995

Preparação de originais: Irene Hikishi


Revisão: Carmem T. S. Costa e Márcia Leme Sumário
Capa: Luciano Pessoa

Apresentação.......... 7

PARTE I: Perspectivas Teóricas e Metodológicas


Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) _\ .-J
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) li Representações Sociais: o conceito e o estado
o conhecimento no cotidiano: as representações sociais na atual da teoria . 19
perspectiva da psicologia social! Mary Jane P. Spink (org.).
- São Paulo: Brasiliense, 1995. Celso Pereira de Sá
ISBN 85-11-15057-9
2(0 impacto da teoria das Representações Sociais 46
I. Interação social 2. Psicologia social r. Spink, Mary
Jane.P.
Maria Alice Vanzolini da Silva Leme

3. Usos e abusos do conceito de Representação


95-4371 CDD-302 Social . 58
índices para catálogo sistemático: Silvia Tatiana Maurer Lane
1. Interação social : Sociologia 302
2. Psicologia social 302
4. Representação e ideologia - o encontro
d sfetichizador . 73
Bader Burihan Sawaia

studo empírico das Representações Sociais 85


Mary [ane Paris Spink
EDITORA BRASILlENSE S.A.
R. Barão de Itapetininga, 93 - 11.° a.
01042-908 - São Paulo - SP
Fone (011) 258-7344 - Fax 258-7923
An li d Representações Sociais 109
Piliada à ABDR 'd on Alves de Souza Filho
PARTEII: Relatos de Pesquisa

1. Representações sociais da prostituição na


/ cidade do Rio de Janeiro...................... 149
Ricardo Vieiralves de Castro

2. A Representação Social do trabalho penoso 188


Leny Sato

3. A criança e a Representação Social de poder


e autoridade: negação da infância e afirmação
da vida adulta 212
Neuza Maria de Fátima Guareschi
Apresentação
4. Ecologia e desenvolvimento: representações
de especialistas em formação.............................. 234
Angela Arruda
À medida que a Academia começou a reabilitar a
5. As Representações Sociais de Pacientes ordem simbólica, liberando-a dos grilhões da infra-es-
portadores de câncer 266 trutura econômica da sociedade, a noção de represen-
Clélia Maria Nascimento Schulze tação como mediação da ordem simbólica passou a ser
cada vez mais central nas várias disciplinas que se de-
6. Eu caçador de mim: pensando a profissão bruçam sobre o estudo do mundo social.
de psicólogo.......................................................... 280 A noção propriamente dita tem uma longa histó-
Ana Mercês Bahia Bock ria e não cabe a nós traçá-Ia aqui: Vale, entretanto, res-
saltar a polissemia seminal introduzida em seu estUdO)
7. O jogo de papéis e Representações Sociais na através da escolha lingüística: "re resenta ão", na
universidade: o estudo de um caso particular .. 292 ers12ectiva lingüística, é tanto re-a resentação - e, ~
Solange de Oliveira Souto ortanto c~ e a re idade - como i erprera, ão.
, pois, um misto de pré-ciência, ainda nos estágios de
descrição do real, e de teatro, em que atores criam um
mundo imaginário, reflexo também do mundo em que
vivemos - um exemplo, como queria Wittgenstein, do
poder da linguagem de criar o mundo.
A centralidade atual da noção de representação se
videncia na produção das mais diferentes disciplinas:
hi tória das idéias, a antropologia, a economia, a
H mi ti a a psicologia, todas focalizam as representa-
8 o CONHECIMENTO NO COTIDIANO APRESENTAÇÃO 9

ções corno objeto central de estudo ou corno instrumen- "onde" são controlados até porque afetam o produto-
to imprescindível para acessar o objeto em questão. O o "que" e o "corno". Já na vertente que estuda as "Re-
estudo das representações define, assim, um cenário presentações Sociais", o contexto é um aspecto funda-
.interdisciplinar; contudo, corno as diferentes discipli- mental da pesquisa, seja porque as representações são
nas mantêm suas especificidades, ao apresentar um li- campos estruturados pelo habitus e pelos conteúdos
vro escrito a partir da perspectiva da psicologia social, históricos que impregnam o imaginário social, seja
faz-se necessário pontuar algumas dessas diferenças. porque são estruturas estruturantes desse contexto e,
É na psicologia social que as representações dei- corno tal, motores da mudança social.
xam de ser mera noção catalisadora e adquirem o esta- Assim, se num primeiro momento usamos a preo-
tuto de abordagem, ou, mesmo, corno querem alguns, cupação com o "processo" corno estratégia para distin-
de teoria. As razões são claras: a sicolo ia social se guir a forma pela qual a psicologia social pensa as
de~ e a uestão do conhecimento _f.Q!n.Q...proe, representações, reintroduzimos agora o "conteúdo"
cesso e não apenas corno conteúdoj a elaboração_do~ para distinguir a abordagem aqui adotada das verten-
nhecimento na .l2ers ect'va do in ivíduo na suA.. tes mais cognitivistas da psicologia social, especial-
~g~ aridade ou IlO que lhe étípico enquanto repre- mente aquelas que focalizam o conhecimento apenas
senfante da espécie - nas características da ideação corno processamento de informação. O conteúdo, no
corno ca acidade cognitiva rópria da espécie -, tem caso, é essencialmente um conteúdo social; conteúdo
si o tradicionalmente um campo e estudo aapsicolo- -- este que é produto e produtor da ordem simbólica.
gia. ~ssa ers ectiva s.representações são essencial- Não se trata, portanto, de ausência ou presença de con-
mente dinâmicas; são produtos de determinações tanto ceitos específicos, pois as representações são
fiistóricas corno ao aqui-e-agora e construções que têm valorativas antes de serem conceituais; e respondem a
urna função de orientação: conhecime~tos sociais que ordens morais locais, ficando, corno tal, prenhes de
situam o indivíduo no mundo e _situando-o, definem afeto; sendo conhecimentos práticos, estão orientadas
sua identidade sociar: o seu modo de ser particular, para o mundo social, fazendo e dando sentido às práti-
produto de séú ser social. cas sociais. São essas especificidades que fazem com
Mas também dentro da psicologia social há pers- que seja apropriado pensar num livro sobre as Repre-
pectivas diversas que se debruçam sobre a construção entações Sociais na perspectiva da psicologia social.
do conhecimento. Importante frisar, portanto, que este Enquanto abordagem, as Representações Sociais -
livro foi organizado a partir da abordagem denomina- mo vêm sendo trabalhadas por Serge Moscovici e
da pela psicologia social de "Representações Sociais", s U olaboradores - têm se destacado mais pela rique-
que se contrapõe explicitamente às vertentes mais z. ::I. produção empírica marcada pela diversidade
ognitivistas da "cognição social". São muitos os auto- pois n e cenário atuam pesquisadores das mais
r s que procuram dar corpo a esta distinção, prova, tal- variados tradições - do que pela reflexão teórico-
v z, da proximidade entre os dois campos de saber. r '\( to 1(1) i .O presente livro, embora valorize a ri-
I diferenças apontadas, a questão do contexto é a que z< l div rsidade da produção empírica brasileira,
'lu melhor pontua a distância. Nas vertentes foi organize d d maneira a situar o leitor no debate
cognitivistas o contexto é o conjunto de variáveis inde- mais g( ral; m Ia, assim, capítulos teóricos e meto-
Ix-nd ntes que pr cisam ser controladas: '''quem'' e 101)gi os om apresentação de trabalhos empírico
10 o CONHECIMENTO NO COTIDIANO APRESENTAÇÃO 11

que possam dar concretude à discussão conceitual. cia/identidade. Ambas as vertentes geraram uma rica
Sendo fruto das discussões que vêm sendo travadas produção empírica e a autora assinala algumas contri-
em reuniões científicas, de âmbito nacional na área da buições feitas na América Latina em geral e no Brasil
psicologia, o livro incorporou autores de regiões diver- em particular.
sas do país. Reflete, assim, em certa medida, a produ- Buscando um novo paradigma que permita ver o
ção nacional nesta área. homem na totalidade de seu pensar-sentir-agir, Bader
O livro está dividido em duas partes. A primeira Burihan Sawaia, no capítulo "Representação e ideolo-
inclui seis capítulos que versam sobre questões teóricas gia - o encontro desfetichizador", relaciona esses dois
e metodológicas. conceitos elaborados para refletir sobre o processo de
Celso Pereira de Sá, em "Representações Sociais:o construção da consciência humana: a ideologia na
conceito e o estado atual da teoria", situa as represen- perspectiva da dialética materialista e as Representa-
tações no contexto mais amplo das tradições psicológi- ções Sociais na perspectiva de Moscovici. O encontro
cas e sociológicas, pontuando aí a ótica específica da entre representações e ideologia, segundo a autora, se-
psicologia social. Trabalhando fundamentalmente com ria um processo desfetichizador de mão dupla que
as proposições de Serge Moscovici e Denise J odelet, o transformaria o estudo da produção do conhecimento
capítulo tem por objetivo conceituar as Representações em veículo de crítica à dominação no plano do sujeito-
Sociais e explicitar os elementos básicos da teoria. indivíduo.
Maria Alice Vanzolini da Silva Leme, no capítulo Mary [ane Paris Spink, em "O estudo empírico
seguinte, intitulado "O impacto da teoria das Repre- das Representações Sociais", procura caracterizar o
sentações Sociais", introduz o leitor no debate mais esforço de pesquisa na área, destacando a diversidade
amplo atualmente travado na Europa. Destaca dois de abordagens metodológicas e apontando para a ri-
eixos desse debate: de um lado a crítica feita à falta queza potencial dessa diversidade, no que diz respeito
de clareza conceitual da abordagem proposta por ao refinamento conceitual do quadro teórico. Buscando
Moscovici; e, de outro, o questionamento sobre a origi- avançar além de tal diversidade, procura delinear as
nalidade dessa abordagem e sua relação com outras áreas de concordância que permitem falar de uma pro-
vertentes teóricas da psicologia social. dução cumulativa da pesquisa.
O terceiro capítulo, de autoria de Silvia Tatiana Finalmente, Edson Alves de Souza Filho, no capí-
Maurer Lane, é intitulado "Usos e abusos do conceito tulo "Análise de Representações Sociais", aborda
de Representação Social". Partindo da constatação da spectos relativos à coleta e análise dos dados. Explo-
importância da abordagem introduzida em 1961 por rando mais detalhadamente três procedimentos usuais
Serge Moscovici para o estabelecimento de uma "psi- d análise - as análises qualitativas, a busca da estrutu-
cologia social crítica", aponta para a coexistência, no rs discursiva e as análises quantitativas - possibilita ao
Brasil, de duas formas de trabalhar as Representações 1 itor inteirar-se da variedade convergente e divergen-
Sociais. A primeira, mais próxima à Escola Francesa de t das formas de análise utilizadas no estudo das Re-
Moscovici, debruça-se diretamente sobre a questão do presentações Sociais.
nhecimento. A outra, pautada pela perspectiva ma- A segunda parte do livro é constituída por sete
l rialista histórica, focaliza as representações como r latos de pesquisa sobre temas variados que permi-
mediação para o estudo da tríade atividade/consciên- l m o leitor visualizar a fertilidade da abordag m,
o CONHECIMENTO NO COTIDIANO APRESENTAÇÃO 13

im como ver em operação questões teóricas e A pesquisa de Neuza Maria Fátima Guareschi, "A
metodológicas discutidas nos capítulos anteriores. Os criança e a Representação Social de poder e autorida-
temas abordados versam sobre prostituição, saúde, po- de: negação da infância e afirmação da vida adulta",
der e constituição de campos profissionais. nvolveu observações realizadas em diferentes mo-
Ricardo Vieiralves de Castro pesquisou as "Repre- mentos do cotidiano das crianças na escola e entrevis-
sentações Sociais da prostituição na cidade do Rio de tas individuais com elas. A análise evidenciou uma
Janeiro". Escolhendo como cenário o Mangue, zona de clara dicotornia entre os que mandam e os que obede-
baixo meretrício do Rio de Janeiro, desenvolveu uma cem, sendo a classificação nessas categorias resultante
pesquisa de tipo etnográfico, envolvendo longo perío- da observação do que as pessoas fazem, falam e pos-
do de observação participante complementada por en- suem. Ou seja, as condições econômicas, intelectuais
trevistas com cerca de cinqüenta prostitutas. Procurou e profissionais, assim como a idade das pessoas, asso-
entender as representações de prostituição, primeira- ciadas aos seus papéis sociais tanto no espaço priva-
mente na ótica das próprias prostitutas e, a seguir, na do quanto público, constituem as fontes nas quais as
ótica da lei. Contrapondo, nesta análise, o "mundo de crianças buscam justificativas para lhes conferir autori-
fora" e o "mundo de dentro", descortina uma repre- dade e poder.
sentação altamente dicotomizada entre ser prostituta Angela Arruda, no capítulo "Ecologia e desenvol-
no mundo de fora e ser mulher direita no mundo de vimento: representações de especialistas em forma-
dentro. Embora representada no senso comum como ção", discute dados de interesse para o debate que se
desprovida de regras morais, a prostituta revelada no trava atualmente sobre a relação homem-ambiente.
estudo não apenas incorpora os valores mais gerais da Sua pesquisa fez uso de questionários para comparar
ordem social vigente, como também se cerca de nor- as representações de diferentes grupos de estudantes
mas e regras definidas e limitadas que regulam a sua sobre questões ambientais em face do problema de
atividade. crescimento e desenvolvimento econômico. Conforme
Leny Sato, focalizando "A Representação Social o acesso e o envolvimento com o saber ecológico e a
do trabalho penoso", também faz a sua cota de obser- proveniência geocultural-institucional dos estudantes,
vação participante ao acompanhar os motoristas de os diferentes grupos colocam como protagonista da
ônibus urbanos em suas viagens de rotina, comple- regulação com o ambiente ora a ciência/técnica, ora as
mentando as observações com entrevistas. A análise forças políticas e sociais. A estrutura desse sistema de
dos dados leva a autora a concluir que o trabalho peno- representações está ancorada em representações mais
so refere-se a contextos de trabalho geradores de incô- gerais da relação homem-ambiente, baseada na
modo, de esforço e de sofrimento físico e mental sen- bipolaridade entre a valorização da integração com a
tidos como demasiados, sobre os quais os motoristas natureza e a necessidade de intervenção sobre a natu-
não têm controle. Para introduzir um grau mínimo de reza. A adesão a diferentes modelos obviamente leva
controle, os motoristas lançam mão de ações adapta- ao privilegiamento de diferentes formas de atuação
tivas que visam seu ajuste ao trabalho. O estudo das frente às políticas ambientais.
r presentações permitiu, assim, uma melhor compre- Clélia Maria Nascimento Schulze, que já há muito
en ão da relação homem-trabalho e do papel das estra- tempo vem trabalhando com a questão do câncer, é
t gias de adaptação nesse cenário. autora do capítulo" As Representações Sociais de paci-
14 ON HECIMENTO NO COTI DlANO APRESENTAÇÃO 15

nt portadores de câncer". A análise das entrevistas culdades de superação dessas contradições quanto as
om ssenta pacientes revelou pouca clareza por parte possíveis soluções estavam presentes nos discursos.
d t sobre como a saúde pode ser otimizada, sobre a No capítulo final, intitulado "O jogo de papéis e
natureza da doença que os acometia e sobre as estraté- Representações Sociais na universidade - o estudo de
gia de enfrentamento adequadas para a aceitação do um caso particular", Solange de Oliveira Souto relata
tratamento ou para a luta contra a doença. Procurando os resultados de entrevistas com 41 membros da comu-
entender a pobreza dos conteúdos relativos à doença, a nidade universitária - professores, funcionários e estu-
autora destaca dois fatores contribuintes. Na perspecti- dantes - buscando entender as representações sobre o
va do sistema de atendimento, a conduta do corpo mé- papel do professor universitário. A universidade, neste
dico, neste caso a de não informar o paciente sobre o estudo, emergiu como uma instituição esquecida. Já o
desenvolvimento e o significado da doença, não faci- professor foi representado como figura dicotomizada
litou a elaboração de representações mais complexas entre o batalhador dedicado e alguém desinteressado e
sobre a mesma. Na perspectiva dos pacientes, o medo pouco valorizado, embora permaneça sobre ele a ex-
à dor, marca registrada entre os portadores de câncer pectativa de abnegação, sabedoria e idealismo. As Re-
nas classes menos privilegiadas, que não têm acesso à presentações Sociais da universidade e do professor
morfina, operou no sentido de bloquear a elaboração demonstram a necessidade de redimensionar as análi-
cognitiva. O estudo das Representações Sociais, por- ses que defendem a categoria, de modo a levar em con-
tanto, contribui aqui para a definição de estratégias ta as visões e expectativas de todos os segmentos que
mais humanas de atendimento à saúde. compartilham da vida nessa comunidade.
Situando-se na linha teórica desenvolvida a partir Em síntese, como obra coletiva, o livro busca não
do referencial materialista dialético, Ana Mercês Bahia apenas introduzir o leitor em uma área de estudo que
Bock, no capítulo intitulado "Eu caçador de mim: pen- vem se desenvolvendo com extrema rapidez, como
sando a profissão de psicólogo", analisa o processo de procura, também, delinear num cenário inter-regional
trabalho dos profissionais de psicologia e a produção de produção acadêmica nacional, definindo focos de
da consciência que acompanha esse trabalho e lhe dá produção temática ou regional que possam servir de
sentido. Partindo de entrevistas com onze profissio- referência para outros pesquisadores. Pensamos neste
nais diferenciados quanto ao local de trabalho - insti- livro como uma semente passível de germinar e frutifi-
tuição, consultório e universidade - analisa as repre- car com todo o esplendor.
sentações de si próprios, da atividade desenvolvida e
da psicologia como ciência e profissão. De modo geral,
a psicologia emerge como uma profissão importante
mas incapaz de gerar sua função social; um fazer efi-
ciente, mas desacompanhado de saber coerente; um
fazer necessário que não atinge a todos que dele neces-
sitam: enfim, um saber importante mas limitado. Ou
" ja, a partir da análise das Representações Sociais, a
p icologia emerge como ciência/profissão carregada
t ontradições, em que tanto a consciência das difi-
ti If'A 1./ 1St e ma d e Hi b 11c t ••••
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N. fiscal: O 1- 53
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~o empenho: ~~~3. ~B/~J.. PARTE I
F'ornecedor: 4 ~ Perspectivas teóricas e
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1. Representações Sociais:
o conceito e o estado
atual da teoria

Celso Pereira de Sá

o termo Representações Sociais designa tanto um


conjunto de fenômenos quanto o conceito que os en-
globa e a teoria construída para explicá-los, identifi-
cando um vasto campo de estudos psicossociológicos.j
A cunhagem desse termo e, portanto, a inauguração do
campo devem-se ao psicólogo social francês Serge e
Moscovici.
./ Um primeiro delineamento formal do conceito e
da teoria das Representações Sociais surgiu no traba-
lho de Moscovici intitulado La psychanalyse, son image et
son public (1961,1976),a propósito do fenômeno da so-
cialização da psicanálise, de sua apropriação pela po-
pulação parisiense, do processo de sua transformação
para servir a outros usos e funções sociais. Partindo da
tradição da sociologia do conhecimento, o autor come-
çava então a desenvolver uma psicossociologia do co-
nhecimento.
Moscovici (1976) declarava, entretanto, que sua
mbição ia além da criação e da consolidação de um
ampo específico de estudos: queria redefinir os pro-
1/
20 o CONHECIMENTO NO COTIDIANO o CONCEITO E o ESTADO ATUAL DA TEORIA 21

bl mas e os conceitos da psicologia social a partir des- Para fazer frente à perspectiva individualista ou
e fenômeno" (p. 16).De fato, os fenômenos, o conceito /I psicologista" que se instalara na psicologia social,
e a teoria das Representações Sociais só podem ser Moscovici foi buscar uma primeira contrapartida
bem apreendidos no contexto de um tal processo de onceitual em uma tradição sociológica tão extrema-
renovação temática, teórica e metodológica da psicolo- mente oposta quanto a de Durkheim, para quem qual-
gia social. quer tentativa de explicação psicológica dos fatos
Nesse sentido, Robert Farr (1987), o principal sociais constituiria um erro grosseiro. Tratava-se do
divulgador da perspectiva renovadora de Moscovici na conceito de representações coletivas..t.lpelo qual Durkheim
comunidade científica de língua inglesa, assim a avalia: (1912, 1978) procurava dar conta de fenômenos como
"Como uma forma explicitamente social de psicologia a religião, os mitos, a ciência, as categorias de espaço
social ela constituiu uma importante crítica da natureza e tempo etc. em termos de conhecimentos inerentes à
individual de muito da, assim chamada, psicologia so- sociedade. /
cial na América do Norte e Crã-Bretanha" (p. 346). / Na sociologia durkheimiana, lia sociedade é uma
Realmente, a vertente sicossociológica renova- realidade sui generis" e as representações coletivas, que
dora da qual Moscovici participa, de origem européia, a exprimem, são fatos sociais, coisas, reais por elas
condena a tradição norte-americana dominante, entre mesmas.)Âs representações coletivas, diz Durkheim
outras coisas, por e ocu ar basicamente dO~Eroces~os (op. cit.), "são o produto de uma imensa cooperação
EsicolQgicoE-Ílldivid uais enquanto influenciados p~r que se estende não apenas no espaço, mas no tempo;
algo tão vagamente.sccial.quanto "a presença real, para fazê-Ias, uma multidão de espíritos diversos asso-
imaginária ou implÍ.Citade.Qlltrosindivíduos~ (Allport, ciaram, misturaram, combinaram suas idéias e senti-
1968). Para os críticos, tal perspectiva simplesmente mentos; longas séries de gerações acumularam aqui
não se mostra capaz de dar conta das relações infor- sua experiência e saber" (p. 216).
mais, cotidianas, da vida humana, em um nível mais Dessa gênese espetacular resultariam as caracte-
propriamente social ou coletivo. rísticas básicas das representações coletivas, em rela-
/ J;:m uma psicologia social mais socialmente orien- ção ao comportamento e ao pensamento individuais:
tada, é importante considerar tanto os comportamen- autonomia, exterioridade, coercitividade. Dizendo de
tos individuais quanto os fatos sociais (instituições e outra forma, os indivíduos que compõem a sociedade
práticas, por exemplo) em sua concretude e singulari- seriam portadores e usuários das representações coleti-
dade histórica e não abstraídos como uma genérica vas, mas estas não podiam ser legitimamente reduzi-
presença de outrosjImportam ainda os conteúdos dos das a algo como o conjunto das representações
fenômenos psicossociais, pouco enfatizados pelos psi- individuais, das quais difeririam essencialmente (ver
cólogos sociais tradicionais em sua busca de processos Durkheim, 1924,1970)..)
tão básicos ou universais que pudessem abrigar quais- A proposição do conceito de representações cole-
quer conteúdos específicosJ Além disso, não impor- tivas buscou apoio empírico no estudo da religião bas-
ta apenas a influência, unidirecional, dos contextos tante simples de povos ditos primitivos, embora,
ociais sobre os comportamentos, estados e processos segundo Durkheim, isso tivesse sido feito por razões
individuais, mas também a participação destes na stritamente metodológicas. A teoria durkheimiana
.onstrução das próprias realidades sociais.) ssegurava que as "formas elementares" identificadas
o CONHECIMENTO NO COTIDIANO O CONCEITO E O ESTADO ATUAL DA TEORIA 23

n quelas representações religiosas seriam encontradas, fato, o conceito de representações coletivas continha,
orno substrato básico, também nas religiões mais ela- no entender de Moscovici (1984a, 1984b, 1989), vários
boradas. O mesmo aconteceria com relação às demais
f) spectos que o impediam de dar conta dos novos fenô-
formas de conhecimento social, visto derivarem todas . I menos detectados.
da própria religião. Em primeiro lugar, o conceito durkheimiano
De fato, a extensão explicativa do conceito de abrangia uma gama muito ampla e heterogênea de for-
representações coletivas à sociedade ocidental da épo- mas de conhecimento, supondo-se estar nelas concen-
ca em que fora proposto - início do século - poderia trada uma grande parte da história intelectual da
parecer suficiente, dada a ainda relativa integridade humanidada.Em Moscovici, considerando seu objeti-
das religiões e de outros "sistemas unificadores". Nas vo de estabelecer uma psicossocíología do conhe-
sociedades contemporâneas, entretanto, novos fenô- cimento, as representações sociais deveriam ser
menos representacionais, de origem e âmbito bastante reduzidas aL'uma modalidade específica de conheci- j
diversos, impõem-se ao exame sob uma perspectiva mento ue t or n ao a e a oraçao e com or-I?
psicossociológica. Moscovici assim esclarece a diferen- ta ntos e a comunicação entre indivíduos"Jno
ça entre os fenômenos de que Durkheim se ocupara e quadro da vida cotidianajEm segundo ugarlia concep-
aqueles que ele julga deverem atrair a atenção da psi- ção de Durkheim era bastante estática, o que possivel-
cologia social nos dias de hoje: mente correspondia à estabilidade dos fenômenos para
cuja explicação havia sido proposta" mas não à plas-
"As representações em que estou interessado não são ticidade, mobilidade e circulação das representações
as de sociedades primitivas, nem as reminiscências,no contemporâneas emergente~ Em terceiro lugar.i.as
subsolo de nossa cultura, de épocas remotas. São aque- representações coletivas eram vistas, na sociologia
las da nossa sociedade presente, do nosso solo político, durkheimiana, como dados, como entidades explica-
científico e humano, que nem sempre tiveram tempo tivas absolutas, irredutíveis por qualquer análise pos-
suficiente para permitir a sedimentação que as tornas- terior, e não como f7nômenos que devessem ser eles
se tradições imutáveis. E sua importância continua a próprios explicados." À psicologia social, pelo contrá-
crescer, em proporção direta à heterogeneidade e
flutuação dos sistemas unificadores - ciências oficiais, rio, segundo Moscovici, caberia penetrar nas represen-
religiões, ideologias - e às mudanças pelas quais eles tações para descobrir a sua estrutura e os seus meca-
devem passar a fim de penetrar na vida cotidiana e se nismos internos.
tornar parte da realidade comum." (Moscovici, O 9.~e ~ssas diferen~as ~ostram é que, ~
1984a:18-9) ./ ( MOSCOVICI fOIbuscar na sociologia durkheimiana um
primeiro abrigo conceitual para suas objeções ao exces-
Compreensivelmente, o reconhecimento da exis- sivo individualismo da psicologia social americana,
tência de uma outra ordem de fenômenos exigiria um isso não era suficiente ou adequado para os seus pro-
outro tipo de conceito para englobá-Ios. Daí, o pósitos de renovação da disciplina.Realmente, o desa-
surgimento dottermo Representações Sociais ,implicapdo fio maior implicando tal renovação consistia em situar
um decisivo afastamento da perspectiva "sociologista] efetivamente a psicologia social na encruzilhada entre
xtrema da noção original e a construção teórico- a psicologia e as ciências sociais, em ocupar de fato
onceitual de um espaço psicossociológico próprio. De
-- sse território limítrofe, onde se desenvolvem fenôme-
o CONHECIMENTO NO COTIDIANO o CONCEITO E O ESTADO ATUAL DA TEORIA 25

uja dupla natureza - psicológica e social - tem as questões ecológicas; a preservação de flores-
id reiteradamente admitida, e que, por isso mesmo, tas e de espécies animais; a poluição, a destrui-
i lhe pertenceria de direito. ção da camada de ozônio; a responsabilidade
O problema, entretanto, não reside exatamente dos países industrializados; a Amazônia e o
nos fatos ou fenômenos, mas sim em sua constitui- Pantanal;
ção como objetos do conhecimento psicossociológico. - a política e a economia;o governo e os políticosbra-
Segundo Denise Jodelet, principal colaboradora e sileiros;a corrupção política;os cartéis econômicos;
continuadora do trabalho de Moscovici, essa é uma a manipulação pelosmeios de comunicaçãode mas-
) tarefa que comporta riscos. No caso das Representa- sa; os interesses estrangeiros, os Estados Unidos, o
ções Sociais, "o fato de que se trate de uma forma de Iraque de Saddam Hussein, a Cuba de Fidel, a Co-
conhecimento acarreta o risco de reduzi-Ia a um evento munidade Européia, a Rússia e a CEI, o Japão e os
intra-individual, onde o social intervém apenas secun- "tigres asiáticos";
dariamente; o fato de se tratar de uma forma de pensa- - as cidades, as características dos diferentes bairros
mento social acarreta o risco de diluí-Ia nos fenômenos e regiões; sua história, sua" cultura", o status para
culturais ou ideológicos" (jodelet, 1984:36). seus moradores; a segmentação histórica dos es-
paços urbanos;
as "classes" de pessoas; o adulto e a criança; os
Os fenômenos e o conceito de jovens e os velhos; o masculino e o feminino; os
homossexuais; os descasados, a mãe solteira, a
Representações Sociais "produção independente"; nordestinos,
baianos, cariocas e paulistas; hippies e yuppies;
Diante dos riscos acima denunciados, como situar a tecnologia e o domínio da natureza; as via-
o conhecimento mobilizado pelas pessoas comuns, na gens espaciais; o computador; a energia nuclear;
comunicação informal da vida cotidiana, sobre os se- as telecomunicações;
guintes assuntos e objetos sociais? as desigualdades sociais e educacionais; a po-
as disciplinas acadêmicas e/ou as profissões breza, a marginalidade; meninos de rua, pive-
que exigem treinamento nesse nível, como as tes, trombadinhas; a violência urbana e a inse-
ciências físicas e biológicas, a psicologia, a me- gurança do cidadão; os grupos de extermínio; o
dicina, a informática etc.; tráfico de drogas, o crime organizado, o arbítrio
a saúde e a doença; as doenças de maior impac- policial.
to social e histórico, como a lepra, a tuberculo-
se, o câncer, a aids; a doença mental; os avanços A lista foi intencionalmente extensa - e certamen-
da medicina oficial, os transplantes de órgãos; a te ainda bastante incompleta - para ilustrar a quantida-
eficácia das medicinas paralelas e das práticas de e a extrema diversidade de assuntos que, nas
terapêuticas populares; as técnicas de preserva- relações interpessoais do dia-a-dia, prendem a atenção,
ção da saúde física e mental, como a ioga, a me- o interesse e a curiosidade das pessoas, demandam sua
ditaçãotranscendental,as ginásticase as anti-ginásti- compreensão e forçam seus pronunciamentos. As ex-
cas;as psicoterapias;as curas religiosas; plicações então veiculadas vão além do que chamaría-
\
OCONCEITOEOESTADOATUALDA TEORIA 27
o CONHECIMENTO NO CqTIDIANO

m d simples opiniões sobre os assuntos ou atitudes importante "estar por dentro". Moscovici fala quanto a
1 das em relação aos objetos sociais neles envolvi- te último ponto de uma "pressão à inferência" por
d . Comumente, fazem uma articulação ou combina- parte do grupo engajado na conversação. A rigor, en-
ção de diferentes questões ou objetos, segundo uma tretanto, os grupos ou segmentos socioculturais podem
lógica própria, em uma estrutura globalizante de im- variar bastante quanto ao grau e consistência da infor-
plicações, para a qual contribuem informações e julga- mação que tenham sobre um dado assunto, quanto à
mentos valorativos colhidos nas mais variadas fontes e estruturação visualizável, unidade e hierarquização
experiências pessoais e grupais. desse conhecimento em um campo de representação,
/ Por isso mesmo.jsegundo Moscovici (1976),esses quanto à atitude ou orientação global - favorável! des- r;
"conjuntos de conceitos, afirmações e explicações:', que. favorável, por exemplo - em relação ao objeto da re-
sãoês Representações Sociais, devem ser considerados presentação. Estas são as dimensões identifica das por
como verdadeiras "teorias" do senso comum, "ciências Moscovici (1976) nos universos de opinião característi-
coletivas" sui generis, pelas quais se procede à interpre- cos dos diferentes grupos e segmentos.
tação e mesmo à construção das realidades sociais (p. Mas cabe, ainda, perguntar qual a origem da com-
48). A propósito, quem nunca ouviu alguém dizer na preensão dos assuntos e das explicações confiantemen-
discussão de um ou outro daqueles assuntos: "Eu te- te emitidas pelas pessoas. Como teria sido gerado tal
nho uma teoria sobre isso"? conhecimento? Relembre-se aqui os riscos alertados
Parece fora de dúvida que a mobilização de tais por Denise Jodelet: trata-se de conhecimentos inerentes
Representações Sociais realmente aconteça, em todas à própria sociedade ou de pensamentos elaborados
as ocasiões e lugares onde as pessoas se encontram individualmente? i!:rata-se, com certeza, de uma com-
informalmente e se comunicam: no café da manhã, no preensão alcançada por indivíduos que pensam. Mas,
almoço e no jantar; nas filas do ônibus, do banco e do não sozinhos. A semelhança de seus pronunciamen-
supermercado; no trabalho, na escola e nas salas de tos - se não com os dos interlocutores do momento,
espera; nos saguões, nos corredores, nas praças e nos pelo menos com os de outros grupos de que participe -
bares; talvez, principalmente nos bares e botequins, em demonstra que terão pensado juntos sobre os mesmos
pé ou sentado, para um cafezinho, uma happy hour ou assuntos.
uma noitada "jogando conversa fora". Faz simples- Isto é o que se entende por uma explicação psi-
mente parte da vida em sociedade.J.Para Moscovici cossociológica da origem dessa forma de pensamento
(1984a), as Representações Sociais, por seu poder con- social, que Moscovici denominou "Representações
vencional e prescritivo sobre a realidade, terminam Soci~is"l.Nessa perspectiva, o processo de gênese das
por constituir o pensamento em um verdadeiro ambien- representações tem lugar nas mesmas circunstâncias, e
te onde se desenvolve a vida cotidiana. '1 ' ao mesmo tempo, em que se manifestam. Ou seja,
O interesse pelos assuntos listados como ilustra- tEor meio da mesma "arte da conversação" que abran-
ção - e pelos demais que se venha a pensar - possivel- ge tão extensa e significativa parte da nossa existência
mente não deve suscitar maiores questionamentos. cotidíana.j
Afinal de contas, trata-se de questões que ou têm uma 1.0 que se vê, assim, em funcionamento é, nos ter-
rel vância bastante imediata para a vida das pessoas mos de Moscovici (1984a),uma sociedade pensante, algo
ou t~m uma atualidade tal que lhes seja socialmente tão distante de uma concepção estritamente socíológi-
o ONHECIMENTO NO COTIDIANO O CONCEITO E O ESTADO ATUAL DA TEORIA 29

quanto de uma concepção exclusivamente psicológi- outra lógica, já chamada de "lógica natural", utilizam
. A primeira sustentaria, por exemplo, que" os gru- m canismos diferentes de "verificação" e se mostram
pos e os indivíduos estão sempre e completamente sob m nos sensíveis aos requisitos de objetividade do que
o controle de uma ideologia dominante, que é produzi- a sentimentos compartilhados de verossimilhança ou
da e imposta por sua classe social, o Estado, a Igreja ou plausibilidade. Assim se expressa Moscovici quanto à
a escola, e que o que eles pensam e dizem apenas refle- imagem que a sociedade faz de si mesma em um e ou-
te tal ideologia" (p. 15). Uma versão da segunda diria tro desses universos:
que nossas mentes são "caixas pretas" que simples-
mente recebem informações e idéias de fora e proces- "Nos universos reificados, a sociedade se vê corno um
sistema com diferentes papéis e categorias, cujos ocu-
sam-nas para transformá-Ias em julgamentos, opiniões
pantes não são igualmente autorizados para
e assim por diante. Na perspectiva psicossociológica representá-Ia e falar em seu nome. O grau de participa-
de uma sociedade pensante, os indivíduos não são ção é determinado exclusivamente pelo nível de quali-
apenas processadores de informações, nem meros ficação. (...) Há um comportamento próprio para cada
"portadores" de ideologias ou crenças coletivas, mas circunstância, um estilo adequado para fazer afirma-
pensadores ativos que, mediante inumeráveis episódios ções em cada ocasião e, claro, informações adequadas
cotidianos de interação social, "produzem e comuni- para determinados contextos.
cam incessantemente suas próprias representações e Nos universos consensuais, a sociedade se vê como um
soluções específicas para as questões que se colocam a grupo feito de indivíduos que são de igual valor e
si mesmos" (p. 16). Da mesma forma que se trata a so- irredutíveis. Nessa perspectiva, cada indivíduo é livre
ciedade como um sistema econômico ou um sistema para se comportar como um 'amador' e um 'observa-
político, diz Moscovici (1988), cabe considerá-Ia tam- dor curioso', (...) que manifesta suas opiniões, apresen-
ta suas teorias e tem urna resposta para todos os
bém como um sistema de pensamentp.j
problemas. [A arte da conversação] cria gradualmente
.•.. Certamente, a descrição acima não se aplica a to- núcleos de estabilidade e maneiras habituais de fazer
das as formas de conhecimento que são produzidas e coisas, uma comunidade de significados entre aqueles
mobilizadas em uma dada sociedade. Moscovici (1981, que participam dela." (Moscovici, 1981:186-7)
1984a) considera coexistirem nas sociedades contem-
porâneas duas classes distintas de universos de pensa- Com freqüência, como o ilustra o próprio trabalho
mento: os universos consensuais e os universos reificados. pioneiro de Moscovici, a matéria-prima para a cons-
Nos últimos, bastante circunscritos, é que se produzem trução dessas realidades consensuais que são as Repre-
e circulam as ciências e o pensamento erudito em entações Sociais provém dos universos reificados.
geral, com sua objetividade, seu rigor lógico e metodo- gundo Moscovici e Hewstone (1984),além do senso
lógico, sua teorização abstrata, sua compartimen- omum concebido como "um corpo de conhecimentos
talização em especialidades e sua estratificação produzido espontaneamente pelos membros de um
hierárquica. Aos universos consensuais correspondem grupo e fundado na tradição e no consenso" (p. 544),
as atividades intelectuais da interação social cotidiana Hurge na nossa época um novo tipo de senso comum,
pelas quais são produzidas as Representações Sociais. novos saberes sociais ou populares, conhecimentos de
As "teorias" do senso comum que são aí elaboradas cgunda mão, cuja operação básica consiste na contí-
não conhecem limites especializados, obedecem a uma nu, propriação "das imagens, das noções e das lin-
10 o CONHECIMENTO NO COTIDIANO o CONCEITO E o ESTADO ATUAL DA TEORIA 31
../

uagens que a ciência não cessa de inventar" (p. 543). termos pode ter um efeito pernicioso, como eu acredito
Um importante papel é desempenhado, nesse processo ter tido freqüentemente nas ciências do comportamen-
de transferência e transformação dos conhecimentos, to" (ibid.).
pelos divulgadores científicos de todos os tipos - jor- " Não obstante, existem alguns esforços de
nalistas, cientistas amadores, professores, animadores formalização e/ou esclarecimento conceituais, que cer-
culturais, pessoal de marketing - e pela crescente am- tamente convém examinar. A Moscovici (1976) se
pliação e sofisticação dos meios de comunicação de deve, por exemplo, na obra de inauguração do campo,
massa a definição distintiva das Representações Sociais, ou
Uma conceituação formal das Representações So- seja, a justificativa para chamá-Ias "sociais", em termos
ciais deveria ser enfim bem-vinda, após tantas tentati- de sua função específica e exclusiva: "uma modalidade '1-../
vas de apreensão indutiva do fenômeno e de de conhecimento particular que tem por função a ela- V
dimensionamento do seu espaço na sociedade. Na ver- boração de comportamentos e a comunicação entre
dade, essa não tem sido uma tarefa das mais fáceis indivíduos" (p. 26). Segundo o autor, a alusão ao pro-
para seus próprios propositores e promotores. cesso de produção social das representações, tanto
Moscovici mesmo não dava muita importância a tal quanto ao fato de serem socialmente compartilha-
exigência acadêmica. Nesse sentido, em um artigo das, não seriam suficientes para distingui-Ias de outros
(Moscovici, 1988) de réplica a críticas à noção de Re- sistemas de pensamento coletivo, como a ciência e a
presentações Sociais, ele declara o seguinte: ideologia.
Nessa mesma linha, cabe tomar de Claudine
"(...), eu via a psicologia social corno urna ciência so- Herzlich, ainda no período entre a primeira e a segun-
cial,juntamente com a antropologia, a história, a socio- da edições do livro de Moscovici, o modo como ela
logia etc. Portanto, eu acreditava que ela deveria busca "precisar em que sentido a representação é [para
seguir urna estratégia análoga com relação às teorias e o psicossociólogo] uma forma de pensamento social":
fatos. Nesses campos, não se tenta emular a perfeição
da Física e ninguém se sente compelido a verificar "Para os sociólogos - principalmente os de orientação
urna série de hipóteses, urna de cada vez, não impor- durkheimiana ou marxista - esse problema se confun-
tando quão triviais possam ser. E muito menos a dar de com o da determinação de urna Representação So-
urna definição não ambígua de cada um de seus con- cial por urna rede de condições objetivas, sociais e
ceitos. (... ) Quando eu me recusei a ser mais específi- econômicas. (...) Para o psicossociólogo resta compre-
co em definir o fenômeno das Representações Sociais, ender a natureza da própria representação na medida
eu levava esses precedentes em consideração. As pes- em que ela se atualiza em urna organização psicológi-
soas então esperavam - e ainda esperam - que eu ca particular e preenche uma função específica. A re-
inaugurasse um campo de pesquisas corno se eu sou- presentação, tal foi a tese psícossocíológíca, merece
besse de antemão a maneira como as coisas evolui- plenamente, e de modo autônomo, seu caráter social
riam." (p. 213) em primeiro lugar porque contribui para definir um
grupo social em sua especificidade, constituindo um
E, de forma mais contundente, citando um de seus atributos essenciais. (...) Em segundo lugar,
metodólogo americano (Kaplan, 1964): liA demanda ( pelo fato mesmo de que ela é um dos instrumentos
por exatidão de significado e por definição precisa de graças ao qual o indivíduo, ou o grupo, apreende seu

(
ONHECIMENTO NO COTIDIANO ' o CONCEITO EO ESTADO AnJALDA TEORIA 33

ambiente, um dos níveis em que as estruturas sociais A Teoria das Representações Sociais
lhes são acessíveis, a representação desempenha um
papel na formação das comunicações e das condutas
Possivelmente, o primeiro passo para a elabora-
sociais." (Herzlich, 1972:306-7)
ão da Teoria das Representações Sociais, a partir de
Já com o campo em ampla efervescência, Denise , u conceito, terá sido a estrutura de dupla natureza-s
Jodelet (1984), tendo detectado uma importante con- onceptual e figurativa - que Moscovici lhe atribuiu, des-
vergência quanto à natureza dos fenômenos repre- de o início. Tratava-se de atender à exigência do conhe-
sentacionais nos mais diversos trabalhos desen- cimento propriamente psicossociológico (expressa por
volvidos independentemente, propõe a seguinte Herzlich, acima) de compreender "como a representa-
conceituação geral: ção se atualiza em uma organização psicológica parti-
cular".
"0 conceito de Representação Social designa uma for- Moscovici (1976) declara ter obtido úteis informa-
ma específica de conhecimento, o saber do senso co- ções de partida da psicologia clássica (sic), que conce-
mum, cujos conteúdos manifestam a operação de bia as representações como uma instância interme-
processos generativos e funcionáis socialmente marca- diária entre a percepção e o conceito. Considerando,
dos. Mais amplamente, designa uma forma de pensa- entretanto, que nada o obrigava a ficar limitado a esse
mento social. modo de ver as coisas, Moscovici prefere tratar a repre-
As Representações Sociais são modalidades de pensa- sentação como "um processo que torna o conceito e a
mento prático orientadas para a comunicação, a com- percepção de algum modo intercambiáveis, visto que
preensão e o domínio do ambiente social, material e
se engendram reciprocamente" (p. 55). Ela seguiria,
ideal. Enquanto tais, elas apresentam características
por um lado, a linha do pensamento conceptual, capaz
específicas no plano da organização dos conteúdos,
de se aplicar a um objeto não presente, de concebê-
das operações mentais e da lógica.
A marcação social dos conteúdos ou dos processos de 10, portanto, dar-lhe um sentido, simbolizá-lo. E, por
representação refere-se às condições e aos contextos outro lado, à maneira da atividade perceptiva, trataria
nos quais emergem as representações, às comuni- de recuperar esse objeto, dar-lhe uma concretude
cações pelas quais elas circulam, às funções que elas icônica, figurá-I o, torná-lo "tangível".
servem na interação com o mundo e com os outros." Supondo que o processo seja responsável por sig-
(pp.361-2) nificativas transformações entre o que é "tomado" do
real e o que é a ele "reenviado", Moscovici se faz mais
Mais tarde, dando prosseguimento à tarefa de sis- specífico quanto à própria natureza atualizada das re-
tematização do campo, de que se incumbira, [odelet pr sentações:
(1989) proporciona a seguinte definição sintéticã, sobre
a qual parece existir hoje um amplo acordo dentro "Representar uma coisa (...) não é com efeito simples-
da comunidade de seus estudiosos: epresentações mente duplicá-Ia, repeti-Ia ou reproduzi-Ia; V
Sociais são "uma forma de conhecimento, wcialmente ela- reconstituí-la, retocá-Ia, modificar-lhe o text . A comu-
borada e partilhada, tendo uma visão prática e concorrendo ni ação que se estabelece entre o conceito e a percep-
para a construção de uma realidade comum a um conjunto ã , um penetrando no outro, transformando a
social'] (p. 36). sub tância concreta comum, cria a impressão de 'rea-
14 o CONHECIMENTO NO COTIDIANO O CONCEITO E O ESTADO ATUAL DA TEORIA 35

lismo'. (...) Essas constelações intelectuais uma vez fi- Embora a estrutura de uma representação tenha
xadas nos fazem esquecer que são obra nossa, que tive- sido formalmente descrita a partir de categorias -
ram um começoe que terão um fim, que sua existência p rceptiva e conceptual- já abstraídas anteriormente,
no exterior leva a marca de uma passagem pelo Moscovici (1976)sustenta que, no campo fenomenal, as
psiquismo individual e socia1."(Op. cit.,pp. 56-7) r presentações dão-se de forma direta e imediata. Diz
1 a esse respeito:
Argumentando que a insistência, no passado,
quanto a "uma espécie de desenvolvimento genético "Ao representar qualquer coisa não se sabe jamais se
que vai do percebido ao concebido,passando pela represen- se mobiliza um índice do real ou um índice convencio-
tação",é apenas uma construçãológica,Moscovicipropõe a nal, social ou afetivamente significante.Somente uma
sua própria estrutura teóricapara as representações.Diz ele, evolução ulterior, um trabalho conscientedirigido seja
em uma formulaçãojá tornada clássicano campo: além do convencional, em direção ao intelecto, seja
além do figurado, em direção ao real, permite sanar
"No real,a estrutura de cada representaçãonos aparece essa incerteza. Por essa razão, essas formas de conheci-
desdobrada; ela tem duas faces tão pouco dissociá- mento que são as representações (...) são, ao menos no
veis quanto a frente e o verso de uma folha de papel: que se refere ao homem, primordiais. Os conceitose as
a face figurativa e a face simbólica. Nós escrevemos percepções são elaboraçõese estilizaçõessecundárias,
umas a partir do sujeito e as outras a partir do objeto."
que: Representação figura , entendendo por isso (p.64)
significação
que ela faz compreender em toda figura um sentido e
em todo sentido uma figura." (Moscovici,1976:63) Urna outra proposlçao teórica, admitida por
Moscovici (1987) como de formalização cronologica-
Dessa configuração estrutural das representações, mente posterior à dos processos da objetivação e da
Moscovici partiu então para urna primeira caracteriza- ancoragem, mas que deveria precedê-I os logicamente,
ção de seus processos formadores. A\. função de dupli- na medida em que constitui o próprio princípio básico
car um sentido por urna figura, dar materialidade a um que eles servem, é a transformação do não familiar em
I objeto abstrato, "naturalizá-lo", foi chamada de familiar. Por isso, parece melhor deixar para tratar da-
I "objetivar". A função de duplicar urna figura por um queles processos em maiores detalhes depois de nos
sentido, fornecer um contexto inteligível ao objeto, inteirarmos desse princípio. .
interpretá.::lo, foi chama " orar". interessante Realmente, Moscovici (1984a) considera que
examinar exemplos dos resultados desses processos no "para compreender o fenômeno das Representações
caso da representação social da psicanálise, estudada ociais devemos começar do começo", perguntando:
pelo autor. O fato de que um complexo psicanalítico 11 Por que criamos essas representações?". Sua resposta,
seja tomado como algo quase que psicofísico no indiví- apresentada sob a forma de urna intuição e de urna
duo - por exemplo, diz-se que fulano tem um complexo convicção básicas, é a de que" o propósito de todas as
- ilustra a objetivação. A terapia pela escuta psicanalíti- n pr sentações é o de transformar algo não familiar, ou
ca, urna estranha medicina sem remédios, sendo asse- .t própria não familiaridade, em familiar" (pp. 23-4). E,
melhada à confissão religiosa, ilustra a ancoragem. Iros eguindo:
-o CONCEITO E O ESTADO ATUAL DA TEORIA 37
36 o CONHECIMENTO NO COTIDIANO

"O que eu quero dizer é que os universos consensuais Urna realidade social, corno a entende a teoria das
são lugares onde todos querem se sentir em casa,a sal- Representações Sociais, é criada apenas quando o novo
vo de qualquer riscode atrito ou disputa. Tudoo que é ou não familiar vem a ser incorporado aos universos
aí dito e feitoapenas confirmacrençase interpretações onsensuais. Aí operam os processos pelos quais ele
adquiridas, corrobora mais do que contradiz a tradi- passa a ser familiar, perde a novidade, torna-se social-
ção. (...) No todo, a dinâmica dos relacionamentosé mente conhecido e real. O fato de que isso ocorra sob o
uma dinâmica de familiarização,onde objetos,indiví- peso da tradição, da memória, do passado, não signifi-
duos e eventossão percebidose compreendidosem re- ca que não se esteja criando e acrescentando novos ele-
lação a encontros ou paradigmas prévios. Como mentos à realidade consensual, que não se esteja pro-
resultado, a memória prevalece sobre a dedução, o
duzindo mudanças no sistema de pensamento social,
passado sobre o presente, a resposta sobre o estímulo,
que não se esteja dando prosseguimento à construção
-
as imagens sobrea 'realidade'." (Ibid.)

Mas, corno então compreender que a teoria das re-


do mundo de idéias e imagens em que vivemos. O re-
sultado é - constata-se pelo estudo empírico das Repre-
presentações se caracterize corno um campo de estu- sentações Sociais - altamente criativo e inovador no
dos sobre a "construção da realidade", se o que se diz âmbito da vida cotidiana.
presidir a sua formação são justamente as formas habi- Realmente, se o estranho não se apresentasse tão
tuais ou tradicionais de pensamento? Corno a freqüente e imprevisivelmente, o pensamento social
postulação de um tal princípio pode ser conciliada com humano teria a estabilidade que Durkheirn atribuíra às
as declarações de Moscovici (1988),ao comentar o seu representações coletivas. "A tensão com o não famili-
próprio trabalho, de que "era nosso propósito compre- ar", diz Moscovici (1988), "tem o mérito de impedir
ender a inovação mais do que a tradição, urna vida so- que a habituação mental domine completamente" (p.
cial em construção mais do que urna preestabelecida" 236). Segundo o autor, o estranho atrai, intriga e per-
(p. 219), de que "estamos lidando com conhecimento turba as pessoas e as comunidades, provocando nelas
cujo objetivo é criar realidade" (p. 229) ou de que "a o medo da perda dos referenciais habituais, do senso
linha guia [de seus escritos] é o enigma da mudança e de continuidade e de compreensão mútua. Mas, ao tor-
da criatividade" (p. 223)? nar o estranho familiar, ele é tornado ao mesmo tempo
A rigor, diz Moscovici, "ambos os universos menos extraordinário e mais interessante. A conclusão
[reificado e consensual] atuam simultaneamente para de que" as Representações Sociais tornam forma e são
moldar a nossa realidade" (op. cit., p. 233). Nas socie- comunicadas para fazer o mundo cotidiano mais exci-
dades modernas, o novo é comumente gerado ou trazi- tante" (ibid.) mostra bem o quanto elas são característi-
do à luz por meio dos universos reificados da ciência, as dos tempos modernos.
da tecnologia ou das profissões especializadas. São no- A ancoragem, um dos dois processos formadores
vas descobertas ou teorias, invenções e desenvolvi- das Representações Sociais, consiste na integração
mentos técnicos, produções de fatos políticos e ognitiva do objeto representado - sejam idéias, acon-
econômicos, inovações classificatórias e analíticas, e te imentos, pessoas, relações etc. - a um sistema de
assim por diante. A exposição a esse novo é que intro- P nsamento social preexistente e nas transformações
duz a não familiaridade OM a estranheza na sociedade implicadas (Jodelet, 1984).Por certo, as representações
mais ampla. " disponíveis podem funcionar também corno siste-
38 o CONHECIMENTO NO COTIDIANO o CONCEITO E o ESTADO A TIJAL DA TEORIA 39

mas de acolhimento de novas representações. De um específicas, para localizá-Ia, de fato, na matriz de iden-
modo geral, o processo é responsável pelo enraíza- tidade da nossa cultura" (p. 34). E, prosseguindo:
mento - ou, como o próprio nome indica, ancoragem-
social da representação e de seu objeto. "Minhas observações provam que denominar uma
Segundo Moscovici (1984a), ancorar é classificar e pessoa ou coisa é precipitá-Ia (como uma solução quí-
denominar: "coisas que não são classificadas nem de- mica é precipitada) e que as conseqüências disso são
nominadas são estranhas, não existentes e ao mesmo três: (a) uma vez denominada, a pessoa ou coisa pode
tempo ameaçadoras" (p. 30). E, prosseguindo sua ar- ser descrita e adquire certas características, tendências
gumentação: etc.; (b)ela se toma distinta de outras pessoasou coisas
através dessas características e tendências; (c) ela se
"Desde que possamos falar sobre alguma coisa, avaliá- toma o objeto de uma convenção entre aqueles que
Ia e assim comunicá-Ia - mesmo vagamente, como adotam e partilham a convenção." (Ibid.)
quando dizemos de alguém que ele é 'inibido' - então
podemos representar o não usual em nosso mundo Uma ilustração interessante da importância da
usual, reproduzi-lo como a réplica de um modelo fa- classificação e da denominação na formação e mudan-
miliar. (...) [Nesse processo] a neutralidade é proibida ça de uma Representação Social é proporcionada por
pela própria lógica do sistema em que cada objetoe ser Moscovici (1984a) e Jodelet (1984), a propósito de uma
deve ter um valor positivo ou negativo e assumir um decisão da Sociedade Americana de Psiquiatria, em
determinado lugar numa hierarquia claramente gra- 1978, de substituir os termos "neurose" e "neurótico"
duada." (Ibid.) pela designação de "desordens específicas". Para um
jornalista que comentou a decisão, a categoria "neuró-
Moscovici considera que a classificação dá-se me- tico" implica uma atitude de escusa, compreensão,
diante a escolha de um dos paradigmas ou protótipos uma disposição de se ajustar a esse indivíduo que não
estocados na nossa memória, com o qual comparamos é totalmente senhor de seus atos. Enquanto isso, aludir
então o objeto a ser representado e decidimos se ele a uma "desordem" supõe o mesmo comportamento
pode ou não ser incluído na classe em questão. Não se que se tem em relação a um carro enguiçado; não há
trata, observe-se, de uma operação lógica de análise da desculpas nem compaixão, mas sim busca de reparo
proporção de características que o novo objeto tenha para reduzir a desordem e adaptar socialmente o paci-
em comum com os objetos da classe. O que se põe em ente. "A sociedade concede ao neurótico um lugar
jogo é uma comparação generalizadora ou partícula- honroso e às vezes desejável entre o psicótico e o ho-
rizadora, pelas quais se decreta que o objeto se inclui mem comum; não é o mesmo nicho que ela reserva
ou se afasta da categoria, com base na coincidência/ para quem sofre de 'desordens' devidamente
divergência em relação a um único ou poucos aspectos especificadas." (Iodelet, 1984:359-60) _
salientes que definem o protótipo. A "lógica natural" L.6. ov]etivação, o outro processo de formação das
em uso nos universos consensuais preside o processo. I Representações Sociais, consiste em uma "operação
Quanto à operação de denominação, diz Moscovici imaginante e estruturante", pela qual se dá uma "for-
(1984a) que "ao denominar alguma coisa, nós a tira-
ma" - ou figura - específica ao conhecimento acerca do
mos de um anonimato perturbador para dotá-Ia de objeto,' tornando concreto, quase tangível, o conceito
uma genealogia e incluí-Ia num complexo de palavras
abstrato, "materializando a palavr~ (Iodelet, 1984).
40 o CONHECIMENTO NO COTIDIANO
o CONCEITO E O ESTADO ATUAL DA TEORIA

Segundo Moscovici (1984a), ~Qbjetivar é descobrir a ') a sociedade tenha adotado tal paradigma ou núcleo fi-
gurativo, fica mais fácil falar sobre qualquer coisa que
qualidade icônica de urna idéia ou ser imprecisos, re-
possa ser associada ao paradigma e, por causa desta
produzir um conceito em urna imagem" (p. 38).
facilidade, as palavras referentes a ele são usadas mais
O resultado da objetivação pode ser bem Ilustra- freqüentemente." (Moscovici, 1984a:38-9)
do, no âmbito de urna pesquisa sobre a representação
do corpo, pela caracterização feita do sexo feminino [odelet (1984), tornando o caso da representação
corno "o tabernáculo sagrado da vida" (jodelet, 1984). enquanto apropriação popular de uma teoria científica
Nessa imagem do útero corno um tabernáculo estão ou erudita, corno a psicanálise, descreve três fases no
concentradas idéias muito enraizadas, de origem reli- processo de objetivação: (1) seleção e descontex-
giosa, corno a interdição moralista e a devotação exclu- tualização de elementos da teoria, em função de crité-
siva do sexo à reproduçãojNa Representação Social da rios culturais, normativos; (2) formação de um "núcleo
psicanálise, Moscovici encontrou o aparelho psíquico figurativo", a partir dos elementos selecionados, corno
objetivado em um esquema espacial dividido em duas urna estrutura imaginante que reproduz a estrutura
partes - inconsciente e consciente - separadas por urna conceitual; (3) naturalização dos elementos do núcleo
linha de tensão, onde são então encarnados o conflito, figurativo, pela qual, finalmente, "as figuras, elemen-
a repressão e o "recalque" que acaba produzindo o tos do pensamento, tornam-se elementos da realidade,
"complexo". Terá certamente influído nessa obje- referentes para o conceito" (p. 368). Moscovici (1984a)
tivação a preexistência cultural de outras dualidades assim caracteriza o produto final desse processo:
opostas mais comuns, corno voluntário-involuntário,
mente-alma, exterior-interior, aparente-obscur~ 1/( ... ) a imagem é totalmente assimilada e o que é perce-
Moscovici (1984a)justifica a postulação teórica do bido toma o lugar do que é concebido, [este] é o resulta-
processo, dizendo que "desde que nós pressupomos do lógico de tal estado de coisas. Se as imagens
que as palavras não falam sobre 'nada', somos compe- existem, se elas são essenciais para a comunicação e
lidos a ligá-Ias a alguma coisa, a encontrar equivalen- compreensão sociais, isto é porque elas não são (e não
tes não-verbais" (p. 38). Não obstante, ele reconhece podem permanecer) sem realidade tanto quanto não
que nem todos os conceitos podem ser ligados a ima- pode haver fumaça sem fogo. Desde que elas devem ter
gens, principalmente porque a disponibilidade destas é uma realidade, nós encontramos uma para elas, não im-
porta qual. Assim, por uma espécie de imperativo lógi-
menor. Já se disse, nesse sentido, que objetivar é
co, as imagens se tomam elementos de realidade mais
"reabsorver um excesso de significados". Conclui o au- do que elementos de pensamento." (p. 40)
tor, a propósito da objetivação de conjuntos complexos
de conceitos, corno o da estrutura psicanalítica
exemplificado acima:
Sobre o estado atual do campo de estudos
1/Aquelas [palavras] que, devido à sua capacidade para
serem representadas, tiverem sido selecionadas, (...) O campo de estudos designado pela expressão Re-
são integradas ao que eu chamei de um padrão de nú- presentações Sociais acaba de completar 30 anos. Grosso
cleo figurativo, um complexo de imagens que reproduz modo: nos seus primeiros dez anos de vida, permaneceu
visivelmente um complexo de idéias. (...) Uma vez que praticamente ignorado; nos dez anos seguintes, passou
o ONIIECIMENTO NO COTIDIANO O CONCEITO E O ESTADO A TUAL DA TEORIA 43

r melhor nutrido por uma significativa quantidade terpretação epidemiológica da difusão das representa-
de pesquisas empíricas sobre os mais variados objetos ções, proposta por Sperber (1989).Articulações são fei-
de representação; nos últimos dez anos, presenciou tas com estudos independentes sobre a linguagem,
uma ainda maior intensificação dessa atividade, tratou inclusive no que se refere à questão metodológica do
de se refinar em termos teórico-conceituais, de se dis- acesso às Representações Sociais. A possibilidade de
cutir e se aperfeiçoar metodologicamente, empenhou- outros precursores, além da sociologia durkheimiana,
se em atualizar seus relacionamentos potenciais com é examinada. Parentescos em relação a diferentes abor-
outras abordagens do mesmo campo fenomenal, difun- dagens, como a "construção social da realidade" de
diu~se para além das fronteiras francesas e européias, e, Berger e Luckmann (1973),a etnometodologia e a his-
obviamente, passou a ser alvo de críticas e questio- tória das mentalidades, são reconhecidos e explorados.
namentos no meio acadêmico da psicologia. Comparações críticas com a tradição psicossociológica
Tais críticas ou ressalvas - por exemplo, Harré concorrente da cognição social (Moscovici, 1982) são
(1984),Potter e Litton (1985),McKinlay e Potter (1987), desenvolvidas.
Parker (1987), Iahoda (1988) - e as réplicas de Tudo isso mostra que Moscovicitinha razão ao dizer
Moscovici (1984b, 1985, 1987, 1988) e outros são todas que, quando da inauguração do campo, não poderia
academicamente legítimas. Manifestam desacordos antecipar como ele viria realmente a se desenvolver.
acerca de questões relevantes para a sistemática da pro- Essa atitude de reserva e cautela é convincentemente
dução de conhecimento nos universos reificados: pres- justificada pelo autor, quando, em 1984, ele faz uma
supostos ontológicos e epistemológicos, consistência projeção quanto ao futuro desejável do campo de estu-
lógica na construção de teorias, validade e fidedignida- dos no desempenho de sua função renovadora da psi-
de metodológica etc. Não há espaço aqui para resenhá- cologia social:
Ias e destacar os principais pontos em choque. Mas cabe
ressaltar que discussões como essas sempre desempe- "Uma das tarefasda psicologiasocialdeveria ser então
nham um importante papel no desenvolvimento de um a de coletar tais representaçõese descrevê-Iassistema-
novo campo de estudos: previnem contra os meros mo- ticamente - em outras palavras, estabelecerum corpus
dismos inconseqüentes e testam a vitalidade das pro- semelhante aos que a antropologia, a história, a
posições básicas do sistema e de suas implicações. etnologia e a psicologia da criança têm à sua disposi-
O que importa, portanto, é que o campo das Re- ção. (...) Somente com a ajuda de uma tal acumulação
de fatos e interpretaçõespode uma ciênciaprogredir e
presentações Sociais, passando pelo teste da crítica
formular uma teoria geral." (Moscovici,1984b:954-5)
externa e beneficiando-se da crítica interna, tem se
mostrado cada vez mais produtivo. Seu valorheu-
rístico se evidencia pela crescente diversidade de ques-
tões cuja pesquisa tem inspirado e às quais tem REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
proporcionado os referenciais teóricos. Novas concep-
ções complementares são oferecidas à teoria, dentre as ALLPORT, G. W. The historical background of modem social
quais se pode destacar, para fins de ilustração, as no- psychology. In: G. LINDZEY e E. ARONSON (eds.). The
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44 o CONHECIMENTO NO COTIDIANO
O CONCEITO EOESTADO ATUAL DA TEORIA 45

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