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COORDENANDO ORAÇÕES NA LÍNGUA PORTUGUESA 1

Erotilde Goreti Pezatti (UNESP/SJRP)

A coordenação é uma técnica capaz de melhorar um texto. Ela consiste em combinar


duas ou mais orações através de mecanismos de ligação. Aprenda no texto de Erotilde
Pezzati como e quando se deve coordenar orações.

No texto “Refletindo sobre a Língua Portuguesa”, você viu qual é a posição das orações no
sistema de nossa língua, , e aprendeu como identificar, transcrever e analisar a estrutura de
uma oração simples.

Neste texto damos um passo a mais. Veremos agora como se articulam as orações,
sabendo-se que há três estratégias de articulação: por coordenação, por subordinação, por
correlação. Consideramos aqui a articulação por coordenação.

Índice:

1. O que é coordenação de orações?


2. Como se faz coordenação?
3. Que tipos de orações podem ser coordenadas?
3.1 Coordenação de orações simples
3.2 Coordenação de orações dependentes
3.3 Coordenação de orações complexas
3.4 Coordenação de oração simples com oração complexa
4. Relações semânticas estabelecidas pela coordenação: a adição
4.1 Valores discursivos da conjunção e entre orações
4.2 Outros valores semânticos da conjunção e
5. Relações semânticas estabelecidas pela coordenação: a disjunção
5.1 Disjunção exclusiva e inclusiva
5.2 Disjunção entre orações
6. Relações semânticas estabelecidas pela coordenação: a adversidade
7. Outras questões
8. Glossário

1 Camacho (1999) e Pezatti (1999) serviram de suporte para o texto que aqui se apresenta.
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1. O que é coordenação de orações?

A coordenação é um processo sintático que consiste em combinar duas ou mais orações, do


mesmo nível estrutural, por meio de mecanismos de ligação. Isso implica que nenhuma das
orações é subordinada a ou dependente de outra, ou seja, as orações devem ser equivalentes
semântica e sintaticamente. Isso significa que se podem coordenar apenas orações
idênticas, como em (1-1)a, b, c.

(1-1) a. eles pescam muito peixe de rio e usam muito na alimentação.


D2 RJ 355
b cheguei em casa, vi televisão e depois vim para cá pra pra conversar
DID-SP-234:98
c prefiro ficar assi/ a a aqui assistindo televisão ou dormindo ou lendo jornal
DID RJ 328

2. Como se faz coordenação?

No processo de coordenação, o mecanismo de ligação pode estar oculto e nesses casos a


coordenação ocorre por justaposição, como em (2-1)a em que estão coordenadas duas
orações independentes (alguns animais iam hibernar e outros imigravam para lugares
mais quentes), ou pode estar expresso. Nesse caso denomina-se coordenação explícita e é
constituída de uma ou mais conjunção que serve para indicar a relação coordenativa entre
os membros, conforme se observa em (2-2), em que as orações entenderam e não gostaram
estão ligadas por meio da conjunção mas.

(2-1) a. alguns animais iam hibernar, outros imigravam para lugares mais quentes
EF SP 405
b. entenderam mas não gostaram, né?
EF POA 278

3. Que tipos de orações podem ser coordenadas?


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Podem ser coordenadas duas ou mais orações desde que sejam sintática e semanticamente
idênticas, ou seja, pertençam ao mesmo nível estrutural. Assim podem-se coordenar
orações simples, orações dependentes (subordinadas) e orações complexas.

3.1 Coordenação de orações simples

Na coordenação de orações simples (denominada absoluta, na tradição gramatical), duas ou


mais orações conservam sua integridade, em uma relação coordenada ou por justaposição,
como em (3-1)a, ou por coordenação explícita, como em (3-1)b, c,d:

(3-1) a. cheguei em casa, vi televisão


D2 RJ 355
b. eles pescam muito peixe de rio e usam muito na alimentação
DID RJ 328
c. ou você não tem filhos ou vai ser é castrado
EF RJ 379
d. bom, eu acho por exemplo, cebola, uma coisa imprescindível, mas acho horrível o gosto puro
da cebola em si
D2 POA 291

3.2 Coordenação de orações dependentes

É possível também coordenação de orações subordinadas, desde que sejam do mesmo


nível, por meio de justaposição ou por coordenação explícita. Em (3-2)a, b, c foram
coordenadas respectivamente duas orações subordinadas adverbiais finais (ele sair da
faculdade e exercer a profissão em qualquer lugar), duas orações subordinadas
substantivas subjetivas (criar uma pessoa e criar uma imagem) e duas orações
subordinadas substantivas objetivas diretas (que o aluno não fique apenas no nível de
memorização e mas que [.....] ele utilize essa informação em outros, em outras situações ):

(3-2) a. a gente não forma o médico pra ele sair da faculdade e exercer a profissão em qualquer lugar
DID SSA 231
b. criar uma pessoa...ou criar uma imagem é mais ou menos a mesma coisa
EF SP 405
c. então, ele vai desejar que o aluno não fique apenas no nível de memorização, mas que, uma vez
armazenada esta informação, ele utilize essa informação em outros, em outras situações,
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EF POA 278

3.3 Coordenação de orações complexas

É possível ainda a coordenação de orações complexas, denominada pela tradição gramatical


de período composto, conforme se verifica em (3-3), em que a oração complexa Ele estava
certo de que ela nutria por mim verdadeira paixão está coordenada a outra oração
complexa se ela o consultasse, o seu conselho seria negativo.

(3-3) (Ele) estava certo de que ela nutria por mim verdadeira paixão, mas, se ela o consultasse, o
seu conselho seria negativo. (M. Assis, Brás Cubas)

3.4 Coordenação de oração simples com oração complexa

Pode-se coordenar também uma oração simples com uma complexa, uma vez que são
funcionalmente idênticas, pois conservam cada qual sua integridade, como se observa em
(3.4)a, que descreve o treino entre jogadores titulares e reservas de um time de futebol: a
primeira oração simples os dois laterais subiam juntos está ligada por meio da conjunção e
à oração complexa quando o time perdia a bola, os reservas atacavam com perigo. Em (3-
4)b, há coordenação de três orações, sendo duas orações simples (cheguei em casa e vi
televisão) e uma complexa (depois vim para cá pra pra conversar).

(3-4) a Os dois laterais subiam juntos e, quando o time perdia a bola, os reservas atacavam com
perigo.
JB, 30/08/84
b cheguei em casa, vi televisão e depois vim para cá pra pra conversar
D2 RJ 355

O processo de coordenação constitui um mecanismo de construir enunciados complexos a


partir de enunciados mais simples, estabelecendo entre eles relações de adição, disjunção e
adversidade.
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4. Relações semânticas estabelecidas pela coordenação: a adição

A relação de adição entre orações, no português falado, é geralmente estabelecida por meio
de justaposição, como em (4-1)a, ou por meio de conjunção aditiva e, como em (4-1)b.

(4-1) a E põe junto a pimenta, frita a cebola, exatamente para dar um tom
D2 POA 291
b eles pescam muito peixe de rio e usam muito na alimentação.
DID RJ 328

É conveniente distinguir dois tipos de adição, o simétrico e o assimétrico, para ser possível
descrever o estatuto funcional dessa distinção. A primeira admite mudança de ordem entre
as orações coordenadas, sendo as orações independentes uma da outra, como ocorre com
(4-2), em que o valor da conjunção se identifica com o conteúdo funcional-veritativo do
operador lógico.

(4-2) agora, uma escola se compõe de um.... um... local em que haja condições do estudante ter aula
e do professor dar a sua aula
DID SSA 231
Apesar de a coordenação de orações ocorrer geralmente entre orações sintaticamente
independentes, como mostrado acima, um aspecto significativo é que a grande maioria das
sentenças coordenadas representa casos de adição assimétrica, ou seja, casos em que a
ordenação entre elas não pode ser alterada, como se vê em (4-3).

(4-3) em função da necessidade de eu assegurar .... a caça ... e continuar podendo comer
EF SP 405

Duas orações só podem combinar-se se são mutuamente relevantes ou se compartilham de


um tópico comum, conforme se observa em (4-4), em que o tópico comum é a parte
idêntica de cada oração. Como a identidade se estende aos próprios itens lexicais, de modo
que um deles, em pelo menos dois conjuntos, é exatamente o mesmo em forma e conteúdo,
raramente ocorre a expansão do segundo, o que produz (4-4)b em vez de (4-4)a.
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(4-4) a. João comprou o livro e João comprou o caderno.


b. João comprou o livro e o caderno.

O mesmo se aplica a orações coordenadas, como (4-5)a e sua paráfrase (4-5)b, com as
remissões anafóricas de praxe.

(4-5) a. João comprou alimentos e João doou os alimentos para o Orfanato.


b. João comprou alimentos e os doou para o Orfanato.

O tópico comum compartilhado nem sempre está explicitamente manifesto e identificável,


como nos casos prototípicos observados em (4-4)a-b e (4-5)a-b. Existem enunciados, como
(4-6) cuja identidade, embora implícita, é incontestável, já que fazer salada e lavar talheres
constituem duas atividades parciais relacionadas ao domínio comum de cozinhar.

(4-6) Maria está fazendo a salada e Paulo está lavando os talheres.

Entretanto, há enunciados, como (4-7), que, em termos de tópico comum,


constituem casos-limite e por isso nem sempre têm aceitabilidade garantida:

(4-7) José fuma três maços por dia e eu conheço muitas pessoas que sofrem de câncer.

Para entender (4-7), o interlocutor deve lançar mão de sua experiência ou conhecimento do
mundo, ou ainda do discurso prévio que compartilhou, e supri-lo com fatos adicionais que
permitam estabelecer um elo entre uma parte de uma oração e uma parte da outra (cf.
Lakoff, 1971). Ele tem que fazer uma pressuposição sobre fumo e câncer e elaborar
deduções baseadas nessas pressuposições e suas relações com os elementos manifestos no
enunciado. Uma pressuposição está baseada no senso comum de que fumar demais provoca
câncer. Deduz-se que pessoas que contraem câncer são, ou podem ser, as que fumam
demasiadamente, estabelecendo-se um domínio comum entre José e as demais pessoas que
fumam muito.
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Diferentemente dos casos explícitos de identidade semântica, para que enunciados como
esses possam ter um tópico comum, deve ser possível combinar itens explicitamente
manifestos, pressuposições e deduções, para obter uma afirmação de identidade, cujo
resultado deve envolver pelo menos um dos itens lexicais em cada membro da junção que,
no caso acima, é José. (4-6) e (4-7) representam casos de adição simétrica, o que significa,
por um lado, permitir a alteração da ordem das orações sem alteração de gramaticalidade e
de significado e, por outro, permitir livremente qualquer número de membros, como ocorre
em (4-8)a-b e (4-9).

(4-8) a. José está lavando os talheres e Maria está fazendo a salada.


b. José está lavando os talheres, Maria está fazendo a salada e Paulo está pondo a mesa.
(4-9) Eu conheço muitas pessoas que sofrem de câncer, José fuma três maços por dia e Maria fuma
quatro.

Essas propriedades não se aplicam à adição assimétrica (4-10a), cuja alteração de ordem é
possível (cf. 4-10b), mas não com o mesmo sentido original, de modo que (4-10a) e (4-10b)
não são sinônimas por haver diferentes relações de causalidade entre as duas orações
ligadas por e.

(4-10) a. eles pescam muito peixe de rio e usam muito na alimentação.


DID RJ 328
b. eles usam muito na alimentação e pescam muito peixe de rio.

Na adição simétrica, nenhuma das orações conectadas é pressuposta; na verdade, todas são
afirmadas. Já na assimétrica, o primeiro membro do par é pressuposto para que o segundo
seja interpretável. Observe-se, a esse propósito, (4-10c).

(4-10) c. ?eles não pescam muito peixe de rio e usam muito na alimentação

Negar o primeiro membro de uma adição assimétrica resulta muito estranho, e torna o
discurso sem sentido. Negar que eles pescam muito peixe de rio implica negar também sua
conseqüência imediata possível, ou seja, que eles usam muito na alimentação. Assim
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orações como (4-10)a-b não têm sua verdade determinada pela verdade de seus átomos,
pois o e da adição se traduz aproximadamente como “e em seguida”, envolvendo, nesse
caso, sucessão temporal de eventos.

Na coordenação simétrica, cada membro da adição é independente do que o segue e do que


o precede em qualquer parte da sentença completa. Em decorrência disso, cada membro
retém sua integridade e nenhum adiciona significados ao outro, nem uma cadeia de
membros precedentes torna o último um membro ininteligível. Na coordenação assimétrica,
por outro lado, o conjunto é, num certo sentido, maior do que a soma das partes. Além de
encadeamento, o conjunto inclui a idéia de que cada membro ligado leva ao outro e que
nenhum seria verdadeiro, se os que o precedem não o fossem também. Extraídos do
contexto, os membros não reteriam a junção causal ou implicacional, perdendo-se, assim,
parte do significado de todo o enunciado.

A assimetria de (4-10)a - mudança de ordem = mudança de interpretação da sentença - é


aparentemente devida às convenções icônicas da ordem de palavras na narrativa. A ordem
das orações é paralela à ordem dos eventos do mundo real, tornando-se desnecessário
adicionar mais especificação da ordenação temporal aos eventos narrados. Em si mesmo, a
conjunção e não indica sucessão temporal: tal valor semântico pode ser, por exemplo,
atribuído a e depois de (4-11) abaixo; mas a ordem das duas orações pode, por convenção,
ser icônica em relação à seqüência real dos eventos descritos.

(4-11) cheguei em casa, vi televisão e depois vim para cá pra pra conversar
D2 RJ 355

O caso prototípico de impedimento da reversibilidade potencial da ordem das orações é


constituído por pequenos fragmentos narrativos em que cada evento segue necessariamente
o outro de acordo com a seqüência temporal, como demonstra o exemplo (4-11) acima.
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Há outros fragmentos de eventos não narrativos, representados abaixo pelas ocorrências (4-
12)a-c, que ainda assim representam uma seqüência cronológica.

(4-12) a. então esse camarão é refogado com a cebola e põe junto a pimenta
D2 POA 291
b. mexe apaga o fogo e põe dois ovos
D2 POA 291
c. põe aquele refogado ali dentro e tapa, vai ao forno
D2 POA 291

Outros casos menos nítidos de seqüenciação aparecem em (4-13)a-b que, todavia, sugerem
a representação de diferentes fases num processo maior.

(4-13) a. depois de um prazo o senhor paga tanto e pra entrar vai dar mais um tanto
D2 RJ 355
b. eles pescam muito peixe de rio e usam muito na alimentação
DID RJ 328

Os tipos simétrico e assimétrico de adição são semanticamente similares em função de uma


relação inclusiva que torna a adição assimétrica apenas um caso especial da simétrica. Se,
na adição simétrica, não for possível fazer a pressuposição “x e y compartilham a
propriedade z”, não é correlativamente possível chegar à noção de “tópico comum” e obter
uma interpretação aceitável de adição. Essa regra também se aplica à adição assimétrica,
mas nesse caso, o que se faz é construir uma pressuposição a respeito de uma causalidade
ou anterioridade temporal potenciais de um membro em relação ao outro, exatamente como
se constrói uma pressuposição de similaridade entre as partes de duas orações
simetricamente ligadas. O tópico comum no tipo assimétrico de adição é a causalidade ou a
anterioridade temporal, já que uma pressuposição entre A e B autoriza a dedução de que A
e B são similares. O predicado subjacente à conjunção simétrica é “A e B são similares”,
enquanto o predicado subjacente a uma das interpretações da conjunção assimétrica é “A
segue B”. Os dois tipos diferem, segundo Lakoff, porque, na adição simétrica, é necessário
que somente partes das orações ligadas possam ser relacionadas pela pressuposição, de
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modo a assegurar a dedução de um tópico comum. Na adição assimétrica, são as duas


orações ligadas como um todo que contraem a relação e não partes delas.

Na adição assimétrica, parece ser aceitável uma assimetria modo-temporal correlativa,


desde que o verbo do primeiro membro da adição apareça no tempo genérico e o verbo do
segundo, num tempo específico, conforme se observa em (4-14)a.

(4-14) a. Dez homens cabem num fusca e eu paguei cerveja para todo mundo.

(4-14)a é interpretável, se o emissor fez uma aposta de que pagaria a cerveja se seis homens
coubessem num fusca. Como isso se realizou, ele pagou cerveja para todo mundo. Lakoff
afirma que, com o verbo pontual em primeiro lugar, não seria possível interpretar (4-14)a,
mesmo na adição assimétrica, sob a condição de que somente algo genericamente
verdadeiro pode fornecer as condições para a realização de um estado de coisa num
momento específico, mas não o contrário. No entanto, (4-14)b parece ser razoavelmente
interpretável, mas o locutor realiza um ato de fala no segundo membro da coordenação,
decorrente do estado de coisa que de fato ocorreu, expresso no primeiro membro, cuja
paráfrase está contida em (4-14)c.

(4-14) b. Dez homens couberam no fusca e eu pago cerveja para todo mundo.
c. Eu apostei que dez homens nunca caberiam num fusca e que eu pagaria cerveja para todo
mundo se coubessem. Como dez homens de fato couberam no fusca, eu pago cerveja para todo
mundo.

Observe-se, inclusive, que o contrário não seria interpretável, o que aponta para o fato de
(4-14)a constituir uma adição realmente assimétrica:

(4-14) d. ?Eu pago cerveja para todo mundo e dez homens couberam no fusca.

Em (4-14)b, a mera forma dos membros denuncia o fato de que não pode estar envolvida a
adição normal do domínio do conteúdo. O segundo membro da adição é um enunciado
performativo e não constativo como o primeiro. Essa interpretação se conjuga de fato muito
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mais razoavelmente com o conteúdo da segunda oração que o faria uma leitura direta da
adição de conteúdo.

4.1 Valores discursivos da conjunção e entre orações

Há valores adicionais resultantes do emprego do coordenador e entre orações cujas relações


dificilmente podem ser categorizadas como coordenação. Considerem-se, inicialmente, os
exemplos (4-15)a-d em que a função desempenhada pela conjunção é a de marcar mudança
de Tópico* (cf. Dik, 1989), como em (4-15a-c) ou introdução de Subtópico* (cf. Dik,
1989) discursivo, como em (4-15d), representado pelas expressões grifadas, permitindo,
assim, a continuidade e a progressão discursiva.

(4-15) a. eu estou rotulando de incursões foram quaisquer tipos de quê? de relações... em função de
aumento de ampliação de território que os japoneses tinham conhecendo outras áreas... e
acontece que chega... a Segunda Grande Guerra com o Japão realmente sendo uma das
grandes potências...
EF RJ 469
b. tanto isso é verdade que tem despertado... atenção... dos presidentes dos diversos sindicatos...
existentes neste país... e há pouco tempo tivemos inclusive um conclave...
DID RE 131
c. ele saiu de lá falando chinês, não é, fala chinês, fala diversas línguas e tem um prato hindu que
fazem na China
D2 POA 291
d. L1 piso pavimento... quer dizer você sente porque você não tem curvas assim muito fortes pra
fazer... cê não sobe... rampas violentas... não desce rampas violentas... entendeu?
características geométricas... e o pavimento em si que é um pavimento mais... espesso... prá
aguentar um tráfego mais pesado...
D2 SSA 98

Considerem-se, agora, os enunciados (4-16)a-d, cujas orações grifadas, todas introduzidas


pela conjunção e, assumem a função de introduzir constituinte Foco* (cf. Dik,1989),
mediante o mecanismos sintáticos usuais, como clivagem, colocação do constituinte Foco
no início da oração e interrogativa parcial.

(4-16) a. os filmes mostram né?... as incursões do Japão procurando se defender... e a melhor maneira
que ele encontrava para se defender era atacando
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EF RJ 469
b. Mas a ba/ as sobremesas que eles usam muito é... são tortas... né? e onde tem sobremesas ...
assim... doce de coco por exemplo... doce de coco... quindim... que eles usam muito... é na
Bahia...
DID RJ 328
c. não são esse tipo de fru... completamente diferente daquelas que nós estamos acostumados aqui
no Rio... e os nomes realmente eu não guardei
DID RJ 328
d. que tenha regido o cinema atualmente em comparação ao cinema dos anos anteriores e no se/ e
no que seria notada essa diferença?
DID SP 234

Uma outra função discursiva muito recorrente é a de introduzir comentário do falante,


como se observa nos exemplos (4-17)a-b, alguns dos quais representam mecanismos de
modalização avaliativa.

(4-17) a. bom ocorre a guerra e... nada nessa história acontece por acaso... né? se realmente a guerra foi
perdida pelos países do eixo ... é que as condições sociológicas ... econômicas e políticas etc.
etc. fizeram com que fosse perdida a guerra
EF RJ 469
b. quer dizer realmente é uma economia ... que não conseguiu ainda ... sabe? quer dizer dentro do
meu ponto de vista ... apesar de ser ALTISSIMAMENTE industrializada ... ATINGIR a um
desenvolvimento global... e vejam que nem poderia ... estão entendendo a comparação que eu
estou fazendo (com) com a economia americana?
EF RJ 469

Muito recorrente também é o uso de e para introduzir modalização epistêmica, utilizando-


se expressões como acho que e tenho a impressão, que indicam a incerteza da opinião
verbalizada. Observem-se os exemplos (4-18)a-b.

(4-18) a. não fui preparado para isso, mas a gente foi adquirindo uma vivência da coisa né? e eu acho
que o dinheiro todo que eu pudesse, se eu ganhasse assim na loteria e tal eu nunca jogaria em
mercado de capitais
D2 RJ 355
b. eu acho que é tudo um conjunto né::? deve ser::.. ah maquiadores ah:: fundo música e::.. eu
tenho a impressão que é um conjunto de de de trabalho:: medonho aquilo
DID SP 234

Uma função estritamente discursiva, empregada para introduzir um constituinte focalizado


na oração coordenada, mediante clivagem, observa-se em (4-19)a-b.
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(4-19) a. eu por mim estaria só na escola e era isso que eu ia conversar com você
(D2-RJ-355:59)
b. ela funciona dando uma interpretação lógico-formal da lei e é isso que vocês vão aprender
(EF-RE-337: 161)

Ressalte-se que, diferentemente dos casos de focalização, expostos acima em (4-16), a


conjunção exerce, nos casos de (4-19), a função de operador discursivo, já que não atua na
coordenação de estados de coisa, conforme sua função trivial, mas na representação da
função interpessoal, mediante a qual se acentua alguma informação e, simultaneamente,
abandona-se a dimensão do enunciado em favor da dimensão da enunciação. Esse limite é
marcado pelo uso da conjunção e. Casos significativos desse limite são os exemplos (4-
20)a-b:

(4-20) a. quando é que o professor solicita respostas do aluno que exigem apenas e eu digo apenas
porque é o processo mental
EF POA 278
b. outros dirão processos mentais superiores e a expressão habilidades mentais cabe muito bem
EF POA 278

As sentenças acima ilustram claramente um mecanismo empregado para retornar ao


momento da enunciação, observável particularmente no caráter metalingüístico da oração
introduzida por e.

4.2 Outros valores semânticos da conjunção e

Na adição de orações, a conjunção e opera como o modo não-marcado de conexão na


organização textual, já que veicula menos significado que as outras conjunções aditivas ou
e mas. No entanto, observa-se o uso não estritamente aditivo de e, especialmente em
contextos tipicamente adversativos e conclusivos, como em (4-21)a-d.

(4-21) a. artista que começa fora de:: de horário que eles batem tudo então e o que aparece para nós na
televisão é tudo muito organizado::
DID SP 234
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b. tudo parece tão mascarado sei lá e quando aparece em cena o público vê uma coisa totalmente
bonita né
DID SP 234
c. ela está assumindo... tarefas assim... muito precocemente... não é?... e... possivelmente passe
essa fase
D2 SP 360
d. a lei é feita para o homem... para proteger o homem... e no entanto o... homem está sujeito e até
certo ponto escravo da lei...
EF RE 337

Em todos os casos acima, as orações coordenadas poderiam ser conectadas por uma
conjunção adversativa, especialmente (4-21d), que apresenta a conjunção e seguida do
sintagma preposicionado com valor adversativo (no entanto), freqüentemente arrolado nas
gramáticas como conjunção.

Observem-se, agora as ocorrências em (4-22)a-b, cujo conectivo poderia ser perfeitamente


parafraseável por um tipicamente conclusivo, como portanto.

(4-22) a. eram nômades e não se fixavam


EF SP 405
b. ela que faz a feira junto com minha tia e normalmente eu não estou assim muito por dentro dos
preços dos alimentos...
DID RJ 328

É perfeitamente possível arrolar ainda uma série de sentenças que apontam para uma
espécie de função de curinga do coordenador e, conforme demonstra (4-23)a-f:

(4-23) a. Ana caiu num sono profundo e sua cor normal retornou aos poucos.
b. Passamos o dia todo em São Paulo e fui visitar a Bienal.
c. O cachorro do vizinho comeu ração envenenada e morreu.
d. Pedro pôs ração estragada no prato e seu cachorro morreu.
e. Me dá sua foto e eu te dou a minha.
f. Essas são as pegadas da onça e ela passou por aqui há pouco tempo.

Os casos contidos em (4-23)a-d indicam simultaneidade (4-23)a, inclusão temporal (4-23)b,


causa suficiente (4-23)c, causa não suficiente (4-23)d, condição (4-23)e, conseqüência
lógica (4-23)f, além dos valores de sucessão temporal, conclusão e contraste semântico, já
discutidos.
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5. Relações semânticas estabelecidas pela coordenação: a disjunção

As condições lógicas para a existência da disjunção (ou alternância, segundo a tradição


gramatical) não coincidem com os requisitos de sua aceitabilidade nas línguas naturais. De
um ponto de vista lógico, para haver disjunção exclusiva de duas proposições quaisquer, é
necessário apenas que uma seja verdadeira e a outra falsa, condição não suficiente para a
disjunção vista de um ponto de vista discursivo. No discurso, são necessárias três condições
para que haja disjunção (cf. Charaudeau, 1992; Oliveira, 1995).
A primeira é que pelo menos um elemento de uma das asserções disjuntas seja
semanticamente idêntico a um dos da outra. (4-24), por exemplo, preenche esta condição.

(4-24) mas é preciso que eu aplique, que eu utilize os sinais de trânsito na hora certa, ou que eu
tenha a habilidade de passar mais rápido pelo guardinha porque senão, eu (es)tou multada na
primeira esquina
EF POA 278

Nessa disjunção uma entidade da primeira asserção (eu) se repete na segunda. Não é
necessário, entretanto, que se repitam seqüências de itens lexicais; a repetição pode ocorrer
com base em outros mecanismos, como elipse, em (4-25)a, ou especificações semânticas,
em (4-25)b. Enfim, nas disjunções que ocorrem em situações reais de comunicação oral ou
escrita, deve haver um eixo semântico comum aos termos disjuntos, sobre o qual se dá a
oposição entre eles.

(4-25) a para então... ele dizer... se há malignidade ou não nesse nódulo


EF SSA 49
b ela vai dizer também que eu não posso aplicar, também sem fazer uma análise ou aplicação,
então vamos voltar aqui
EF POA 278

A segunda condição é a existência de uma terceira asserção equivalente ao domínio


semântico representado pelo eixo comum às asserções disjuntas. Essa asserção, posta ou
pressuposta, deve ser mais geral que as outras duas, podendo, na maioria das vezes, ser
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introduzida por um conector adversativo. Isso significa que, quando se diz “ou A ou B”,
admite-se uma dessas hipóteses, A ou B, MAS, em qualquer delas, põe-se ou pressupõe-se
C, que se crê verdadeira, quer prevaleça A, quer prevaleça B. É o que ilustra a ocorrência
(4-26)

(4-26) a. não tem importância que a gente chama de análise ou chama de interpretação o importante é
que o processo se realize
EF POA 278

A terceira condição impõe que o locutor desconheça a seleção a operar, o que se pode
manifestar através do emprego da interrogação (direta ou indireta), do imperativo, de
construção hipotética e de construção declarativa referente a fatos futuros, representados
respectivamente em (4-27)a-e. De fato, quem pergunta ignora a resposta; futuro e hipótese
associam-se a dúvida (que por sua vez se associa a ignorância), e o imperativo refere-se a
uma ação que o locutor deseja ver praticada pelo interlocutor, mas tem dúvida quanto à
realização desse desejo.

(4-27) a. a senhora acha que houve alguma evolução ou:: ou que tenha regredido o cinema atualmente?
DID SP 234
b. há muita... discussão aí entre posições opostas de que se o Japão seria uma economia ou um
país desenvolvido.
EF RJ 379
c então, faz esse refogado e põe tomate, um ou dois tomates
D2 POA 291
d porque quando ele vai aferir ou vai investigar experimentar o homem... não é o que o homem
diz... do experimento de laboratório mas sim o que o homem realmente está pensando...
EF RE 337
e além naturalmente do departamento jurídico que é a peça ... de GRANde importância ... porque
vai tratar exatamente de todas aquelas questões... de contra:to ou de distrato
DID RE 131

A relação de disjunção se efetua, no português culto falado, por meio basicamente da


conjunção ou, simples e dupla, que mantém alta freqüência no corpus, não ocorrendo
nenhum caso de outros conectores duplos como ora...ora, quer...quer, seja...seja e às
vezes...às vezes. A esse propósito, é interessante assinalar a ocorrência de um único caso,
contido em (4-28), em que se usa um conector duplo misto, ou seja, ao invés de uma adição
17

repetida, conforme prevêem as convenções normativas, utilizam-se dois conectores


distintos para efetuar a correlação.

(4-28) um conhecimento que aprofunda mais aqueles outros DOIS ... seja como conhecimento num é?
sociológico... ou conhecimento.. normativo... lógico-normativo...
EF RE 337

A ocorrência de seja...seja manifesta, na realidade, uma forma de repetição do predicado


verbal, que parece estar se gramaticalizando como coordenador e cuja associação com ou é
freqüentemente licenciada, com valor concessivo, como é possível verificar numa oração
como Sejam os réus ricos ou pobres, a justiça tem que aplicar-se. (4-28), entretanto,
manifesta uma ocorrência em que dificilmente se pode interpretar seja como verbo.

5.1 Disjunção exclusiva e inclusiva

O sistema de conjunções e, particularmente das conjunções disjuntivas, na evolução do


latim para o português, apresentou uma redução no seu inventário. Havia, no latim, duas
conjunções fundamentais para indicar a disjunção, aut e vel. A primeira expressava a
contraditoriedade ou disjunção exclusiva (A ou B, mas não AB) e a ausência de associação
em todos os termos, seja como conjunção simples (A ou B), seja como dupla (ou A ou B).
Vel, por sua vez, expressava disjunção inclusiva ou simples alternância.

Apesar de os significados de aut e vel estarem bem diferenciados como disjunção exclusiva
e inclusiva respectivamente, a relação entre elas não era a de uma oposição equipolente e
não-neutralizada. Enquanto aut era uma partícula específica de coordenação com âmbito
funcional bem delimitado, vel tinha um valor mais disperso e, possivelmente por isso, uma
posição mais débil no sistema dos nexos de coordenação, indicando possibilidade de
eleição. Essa debilidade de valor significativo impediu que fosse utilizada como conectivo
disjuntivo, o que precipitou seu desaparecimento, sendo, desse modo, gradativamente
substituído por aut: Julia (1986:164).
18

Rubio (1976) observa que, dentre as possibilidades de disjunção em latim, a partícula aut
era a forma geral, usada para expressar a disjunção alternativa entre dois termos, tanto para
os que se excluem como para os semanticamente unidos e até equivalentes ou indiferentes à
eleição. Vel, pelo contrário, não podia ser usada para expressar a disjunção exclusiva,
tornando-se, portanto, o termo marcado da oposição, com um significado puramente
inclusivo.

Apesar dessa delimitação funcional, há ocasiões em que, devido tanto ao limite impreciso
entre exclusão e inclusão quanto ao progressivo enfraquecimento de vel, com a conseqüente
perda da consciência de seu âmbito funcional por parte dos falantes, registram-se usos
pouco adequados dessa partícula, principalmente quando se distancia do período clássico.
De qualquer modo, tudo indica que, apesar de certas exceções, os valores semânticos de
aut e vel estavam relativamente bem delimitados em latim.

Das conjunções disjuntivas latinas, o português só conserva, do ponto de vista da forma, a


geral aut, tendo a outra desaparecido por completo. Dado o valor disjuntivo ‘exclusivo’ de
aut, tudo parece indicar que, em princípio, ou (<aut) português foi considerado pelas
gramáticas como dotado de um valor equivalente ao de seu étimo latino, isto é,
fundamentalmente ‘exclusivo’. Mais tarde, sem dúvida, as gramáticas corrigiram seu valor,
atribuindo à partícula ou tanto o sentido específico como o ‘inclusivo’, pertencente a vel.
Por isso, passou-se a considerar que o português não dispunha de duas marcas diferentes
para indicar relações de exclusão e inclusão e que estavam ambas representadas pela
conjunção ou, cabendo ao contexto a responsabilidade de determinar se se trata de um ou
outro sentido. Como no caso das conjunções latinas, sempre se considerou, em português,
que a repetição reiterada da conjunção ou apenas introduzia uma certa ênfase ou algum
outro tipo de alteração estilística no significado disjuntivo, sendo a especificação de seu
valor exclusivo ou inclusivo um traço unicamente contextual. Subjaz, portanto, a convicção
generalizada de que o sistema português supõe uma redução de uma distinção semântica
existente em latim, ao desaparecer uma das duas formas diferenciadas, com a conseqüente
19

ampliação semântica da partícula que se manteve com o fim de expressar com uma só
forma o significado do que antes era expresso por duas. O que parece apresentar-se como
uma redução do sistema funcional latino em sua evolução para o português é, na verdade,
uma sobrevivência do sistema, com mudança parcial dos recursos significantes.

Se em latim a disjunção exclusiva e a inclusiva tinham como traço expressivo duas


partículas distintas, sendo o recurso da repetição delas antes de cada membro coordenado
uma mera variante estilística, o português, com uma única partícula disjuntiva (variantes à
parte), utiliza esse recurso não como uma variante enfática (ou de algum outro matiz), mas
com um valor distintivo equivalente ao que opunham as duas partículas latinas. Os
significados disjuntivos exclusivo e inclusivo estão perfeitamente delimitados em português
em seqüências como (4-29) e (4-30).

(4-29) é um controle muito natural ou você não tem filhos ou vai ser é castrado
EF RJ 379
(4-30) não tem importância que a gente chama de análise ou chama de interpretação o importante é
que o processo se realize
EF POA 278

Em (4-29) estabelecem-se duas possibilidades únicas para não procriar: evitar filhos com
qualquer tipo de contraceptivo ou ser castrado, sem opção a nenhuma outra. Há aí uma
disjunção exclusiva. (4-30), pelo contrário, manifesta uma disjunção inclusiva: pode-se
chamar de análise, interpretação ou qualquer outro nome que, sem ser um ou outro,
implique os dois.

Observe-se que o enunciado contido em (4-31)a é ambíguo com ou simples, e apenas


alguma informação pragmática adicional, como a contida em (5-7)b,c permitiria desfazer a
duplicidade semântica entre a interpretação inclusiva e a exclusiva:

(4-31) a. Maria quer pudim ou gelatina


b. Maria quer pudim ou gelatina (qualquer um dos dois).
c. Maria quer pudim ou gelatina (apenas um já que ela está de regime).
20

ou então, o emprego de um simples mecanismo gramatical, como a conjunção dupla,


também permitiria desfazer a ambigüidade de (4-31)a em favor de uma interpretação
irrefutavelmente exclusiva, como se observa em (4-31)d.

(4-31) d. Maria quer ou pudim ou gelatina

Uma análise do valor funcional do que se pode considerar dois nexos (disjuntivos) em
português, ou simples e ou duplo (ou...ou), permite comprovar a existência de duas formas
diferentes que têm como significados diferenciados a inclusão e a exclusão
respectivamente. Diferentemente do sistema latino, no português, a partícula não-marcada é
a que comporta o significado primário inclusivo. A forma ‘...ou....’ pode representar tanto a
inclusão quanto a exclusão; já ‘ou...ou...’, somente a exclusão (Oliveira, 1995). Essa
distribuição é, na realidade, a situação normal na maioria das línguas e está em conexão
com o tipo de relação lógica que implica o conteúdo inclusivo com respeito ao exclusivo: a
disjunção inclusiva (alternativa) encerra em si mesma a possibilidade de uma exclusão,
superando-a.

No português falado, há a predominância de ocorrências de ou simples e raros casos de ou


duplo. A pequena incidência de ou duplo pode ser explicada pelo seguinte fato. O caráter
não-marcado da forma simples ‘...ou...’ faz com que suas possibilidades de ocorrência
abarquem também as da forma dupla ‘ou...ou’, além de suas próprias, já que a exclusão,
como parte de seus valores semânticos, pode ser derivada do contexto. Ou duplo nunca
significa outra coisa que não a exclusão, seja qual for o contexto, mas é possível empregar
ou simples (forma não-marcada), em contextos em que a interpretação exclusiva é clara e
não-ambígua, tornando assim redundante o uso de ou duplo. É, por exemplo, o caso das
formas imperativas ou interrogativas, normalmente destinadas, por seu próprio caráter, a
obter uma única resposta, conforme se observa em (4-32)a, b.

(4-32) a. a senhora acha que há diferença entre um e outro ou todos são do mesmo tipo?
(DID SP 234)
21

b. ? a senhora acha que ou há diferença entre um e outro ou todos são do mesmo tipo?

Ou simples é, pois, polissêmico e seu uso inclusivo e exclusivo varia de acordo com a
construção em que aparece. É exclusivo quando junta duas asserções negativas, como (4-
33), ou quando uma é afirmativa e a outra negativa, como (4-34). Na forma interrogativa,
em que cada um dos termos é o escopo da interrogação, também é possível só a
interpretação exclusiva, como demonstra (4-32)a acima.

(4-33) O Brasil não enviou a contrapartida ou a obra não andou. Por isso o Banco Mundial
suspendeu as liberações2.

(4-34) se a:: fruta... eh se eles iam conseguir a fruta ou não...


EF SP 405

Em sentenças afirmativas, entretanto, em que os dois elementos ligados pelo coordenador


são interpretados como sinônimos ou quase sinônimos, a disjunção é inclusiva, conforme se
observa em (4-35).

(4-35) são pessoas ... distribuídas... nas mais diferentes... assessorias... ou nos mais diferentes
órgãos...
DID RE 131

Ou simples é ainda inclusivo quando a construção disjuntiva for o escopo da negação,


como em (4-36)a e (4-37).

(4-36) a. não tem importância que a gente chama de análise ou chama de interpretação o importante é
que o processo se realize
EF POA 278
(4-37) não negamos nunca atender a um doente ou outro que chegue mesmo fora do horário ou que
seja extra
DID SSA 231

De qualquer forma, o que se nota é que, com relação às formas disjuntivas latinas, houve,
no português, uma inversão do caráter das formas marcadas e não-marcadas. Em latim a

2 Não houve esse tipo de ocorrência no córpus analisado.


22

forma marcada (vel) era a inclusiva e a não-marcada (aut), a exclusiva; já no português, a


forma marcada (ou A ou B) é a exclusiva, e a não-marcada (A ou B), ambígua. Além disso,
não se pode falar de redução do sistema funcional de coordenação disjuntiva na evolução
do latim para o português, mas simplesmente de uma redução de formas e, conseqüente
duplicação da única restante, para permitir uma dupla oposição funcional no sistema.

5.2 Disjunção entre orações

O número de ocorrências de orações (independentes ou subordinadas) ligadas por meio do


coordenador ou é pequeno e a grande maioria dos casos constitui ocorrências de ou
simples; a repetição da conjunção ocorre em apenas quatro casos, listados abaixo.

(4-38) que eu cheguei em casa, vi televisão e depois vim pra cá pra, pra conversar ou dessa maneira
ou ir prum cinema ou prum teatro
D2 RJ 355
(4-39) prefiro ficar assi/a a aqui assistindo televisão ou dormindo ou lendo jornal
DID SP 234
(4-40) é um controle muito natural ou você não tem filhos ou vai ser é castrado
EF RJ 379
(4-41) ou aquele que foi... diz que foi ele que fez... tomou a/ (que) fez aquilo ou então e:: é o pai ou a
mãe aquele que não estiver presente
D2 SP 360

Na disjunção de orações, há casos de repetição pura e simples da conjução ou


(polissíndeto), descaracterizando o ou duplo, já que não se percebe uma obrigatoriedade de
escolha entre as duas alternativas implicadas nas ocorrências (4-38) e (4-39) acima. O
disjuntivo ou pode perfeitamente ser elidido, conforme paráfrase em (4-38)a e (4-39)a. O
mesmo não se pode dizer de (4-10) e (4-41).

(4-38) a. que eu cheguei em casa, vi televisão e depois vim pra cá pra, pra conversar dessa maneira, ir
prum cinema, prum teatro
(4-39) a. prefiro ficar assi/a a aqui assistindo televisão, dormindo, lendo jornal

A pouca incidência de ou duplo se explica pelo fato de seu uso se tornar redundante em
construções que não admitem senão a interpretação exclusiva, como por exemplo em (4-
23

42), e em sentenças interrogativas em que cada um dos termos está no escopo da


interrogação, sendo por isso normalmente destinadas a obter uma única resposta, como se
observa em (4-43) e (4-44).

(4-42) depende se essa definição é uma simples re, devolução, repetição daquilo que o professor disse
ou se essa definição tem um caráter de elaboração própria, então, aí, nós estaremos em nível
bem mais complexo
EF POA 278
(4-43) a senhora acha que há diferença entre um e outro ou todos são do mesmo tipo?
DID SP 234
(4-44) se a:: fruta eh se eles iam conseguir a fruta ou não...
EF SP 405

Nota-se ainda que, na disjunção de orações, de modo geral, há uma equiparação entre os
valores exclusivo e inclusivo.

O emprego da conjunção ou também pode representar uma relação sintática simétrica ou


assimétrica entre os membros coordenados (Lakoff, R., 1971). No primeiro caso, as duas
alternativas são mutuamente exclusivas mas equivalentes e independentes uma da outra,
permitindo assim a mudança de ordem; já no uso assimétrico, a segunda alternativa
depende da primeira, por isso a inversão é bloqueada. Assim a ordem de disjuntos
assimétricos reflete a prioridade de uma oração sobre a outra ou a dependência do segundo
em relação ao primeiro: o conjunto primário, independente precede o secundário,
dependente.

Em opções independentes, a ordem dos disjuntos é irrelevante. Para duas opções


independentes, das quais pelo menos uma é verdadeira, seria tão razoável dizer “se não B,
então A”, quanto dizer “Se não A, então B”. A ordenação livre das orações-ou reflete a
não-prioridade de uma opção sobre a outra. Se, contudo, as duas opções não são
independentes uma da outra, então há a interferência de outro fator e ou ‘assimétrico’
reflete a dependência de uma das alternativas sobre a outra. Os dois membros da disjunção
não precisam ainda ser mutuamente exclusivos em si mesmos, isto é, quando se diz (4-45),
24

não significa que os dois eventos descritos não poderiam ambos ocorrer, mas implica que
há um relacionamento unidirecional entre eles.

(4-45) Todo fim de semestre, João envia um capítulo pronto de sua tese ou no dia seguinte seu
orientador liga reclamando.

Considerando “Todo fim de semestre João envia um capítulo pronto de sua tese” como A, e
“seu orientador liga reclamando” como B, pode-se argumentar usando somente a
coordenação disjuntiva assimétrica “se não A, então B”. Sabe-se, na verdade, que, no
mundo real, A não somente é temporalmente anterior, mas realmente exerce uma influência
causal em B, e que o contrário não pode ser verdadeiro: de modo algum a reclamação
subseqüente do orientador influencia o envio prévio de um capítulo pronto da tese por José.

Como vimos, a ordem icônica de palavras pode explicar a maioria das diferenças entre
disjunção simétrica e assimétrica. Com a conjunção ou, a assimetria linear da ordem de
palavras permite a interpretação icônica, já que não há uma relação semântica assimétrica
inerente entre os dois membros da disjunção.

O uso simétrico prevalece, já que a maioria das ocorrências permite inversão de ordem,
conforme se verifica em (4-39), repetida abaixo:

(4-39) prefiro ficar assi/a a aqui assistindo televisão ou dormindo ou lendo jornal
DID SP 234

Há, no entanto, casos que não permitem a inversão das orações coordenadas. Em alguns a
assimetria se deve a uma relação lógica de causa/conseqüência estabelecida entre as duas
asserções: a segunda se apresenta como conseqüência da primeira, conforme se observa em
(4-45) acima; em outros, no entanto, decorre da condição de prioridade de uma oração
sobre a outra, como no caso de asserção afirmativa sobre negativa (primeiramente se afirma
algo para depois negá-lo). Assim, temos assimetria, e conseqüentemente ordem obrigatória,
em (4-46)a abaixo, não sendo possível a paráfrase em (4-46)b.
25

(4-46) a. para então... ele dizer... se há malignidade ou não nesse nódulo


EF SSA 49
b. .? para então... ele dizer...se não há malignidade nesse nódulo ou há.

A simetria entre orações disjuntas predomina em orações subordinadas, como em (4-47).


Não se exclui, no entanto, a possibilidade de ocorrerem, na condição de subordinadas, duas
orações que não admitem mudança de ordem, como se observa em (4-46) acima.

(4-47) toda aquela assistência médica hospitalar... que os sindicatos vem habitualmente cumprindo ou
que vem/ os sindicatos se propõem a fazer...
DID RE 131

As orações subordinadas se comportam como termos e nesse caso exercem funções


sintáticas diversas no predicado matriz, tanto como argumentos, como (4-48) e (4-49),
modificadores, como (4-50), quanto como não-argumentos (satélites), como (4-51) e (4-
52).

(4-48) mas é preciso que eu aplique, que eu utilize os sinais de trânsito na hora certa ou que eu tenha
a habilidade de passar mais rápido pelo guardinha
EF POA 278
(4-49) a categoria do conhecimento (inserção nossa) depende se essa definição é uma definição
simples, re, devolução, repetição daquilo que o professor disse ou se essa definição tem um
caráter de elaboração própria
EF POA 278
(4-50) não negamos nunca atender a um doente ou outro que chegue mesmo fora do horário ou que
seja extra
DID SSA 231
(4-51) prefiro ficar assi/ a a aqui assistindo televisão ou dormindo ou lendo jornal
DID SP 234
(4-52) na medida... em que acabava a caça do lugar OU (que) em virtude da da época do ano no
inverno por exemplo... os animais iam hibernar outros... imigravam para lugares mais quentes
eles precisavam acompanhar... o a migração da caça senão eles iam ficar sem comer...
EF SP 405

Os casos de disjunção encontrados no córpus analisado só se manifestam no domínio do


conteúdo, ou seja, a conjunção ou é o mecanismo de ligação entre eventos ou estados, no
domínio do mundo real, conforme se observa em (4-53).
26

(4-53) ou aquele que foi... diz que foi ele que fez... tomou a/ (que) fez aquilo ou então e:: é o pai ou a
mãe aquele que não estiver presente
EF SP 360

É possível, no entanto, a disjunção de inferências (uso epistêmico) e de atos de fala (uso


conversacional), como se verifica em sentenças como (4-54).

(4-54) O orientador de João vai ligar amanhã reclamando, ou (então) ele já enviou um capítulo pronto
de sua tese.

A interpretação provável de (4-54) é que os dois membros da disjunção são conclusões


epistêmicas tiradas da evidência disponível e não como estados alternativos possíveis do
mundo real: as duas orações não expressam alternativas possíveis do mundo real, mas
alternativas epistêmicas normais. Presume-se que uma predição proposta sobre o
comportamento futuro de alguém está baseada em alguma inferência do que de fato ocorre
habitualmente. Contudo, desde que não oferecemos usualmente predições com a intenção
de que sejam consideradas incorretas (pelas razões de Grice, 1975), o falante não pode,
cooperativamente, estar oferecendo alternativas genuínas. O que está em discussão em (4-
54) não são alternativas do mundo real, mas somente alternativas epistêmicas e uma não
tem prioridade definida sobre a outra (cf. Sweetser, op. cit.). A mesma interpretação
epistêmica se aplica a (4-55) que, diferentemente de (4-54), contém orações em relação
simétrica.

(4-55) A.- João entregou a tese no prazo?


B.- A gráfica atrasou a encadernação ou ele não fez as correções a tempo.

Observe, agora, a sentença (4-56)

(4-56) Entregue a tese no prazo ou você perde a bolsa.

Na disjunção assimétrica acima, o segundo membro da coordenação dá suporte para o


enunciado expresso no primeiro membro, de modo que o receptor é obrigado a escolher
entre seguir a ordem dada ou ver realizar-se o que está expresso no segundo ato de fala, que
27

é um ato de ameaça. Como presumivelmente o receptor desejará afastar a segunda


alternativa, o efeito da disjunção é o de uma ordem reforçada. A interpretação da disjunção
como ato de fala representa ordens, sugestões e perguntas, como se reinterpreta, nos
termos de Sweetser, o exemplo acima contido em (4-56).

6. Relações semânticas estabelecidas pela coordenação: a adversidade

7. Outras questões
8. Glossário
Texto: Valores discursivos da conjunção e entre orações (Link9)

• Tópico - O mesmo que assunto ou tema elaborado numa conversa e no texto que
dela resulta.
• Subtópico - Cada trecho de um texto que, centrado em um tópico discursivo
específico, desenvolve um aspecto de um supertópico.
• Foco - Entidade sobre a qual se fala num episódio discursivo.
Elemento que codifica no texto ou na sentença a informação mais importante.
Elemento da sentença pronunciado com ênfase, ou assinalada por
focalizadores*.