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Objetivos

 Identificar os principais aspectos do sistema filosófico da Idade Média.


 Definir as principais características na montagem do sistema filosófico medieval.
 Caracterizar os principais aspectos do pensamento filosófico de Agostinho de Hipona.
 Estabelecer os critérios que formaram a consolidação de uma atitude filosófica no mundo
medieval e as bases do que hoje chamamos racionalidade ocidental.
 Caracterizar o sistema filosófico de Santo Tomás de Aquino e a fundamentação do papel
da filosofia de Aristóteles no apogeu da Idade Média.

Introdução

Nesta aula continuaremos a direcionar nosso olhar sobre os primeiros passos do cristianismo.
Depois que o Império Romano tornou o cristianismo sua religião oficial, muitas coisas mudaram. A
partir de então, os cristãos não eram mais perseguidos e julgados pelas autoridades romanas. O
perigo agora brotava de dentro do próprio cristianismo.

Com o fim das perseguições, os cristãos sentiram-se livres para vivenciar sua fé. O problema
estava na forma como essa fé deveria ser vivida. Cada grupo de cristãos tentava manter uma
linha de interpretação das Sagradas Escrituras. Todos tinham a Bíblia como livro-mãe. Contudo,
cada grupo tinha uma forma diferente de vivenciar o que a Bíblia dizia. Isso fez com que brigas
internas e divergências surgissem em toda parte. Essas divergências começaram a causar muitos
problemas para as autoridades e os dirigentes do cristianismo. Essas divergências acerca da forma
de vivenciar o cristianismo – que depois foram consideradas erradas – foram chamadas heresias.
A necessidade, agora, era acabar com essas heresias. Justamente nesse ponto é que surgem a
necessidade e as formas de fazer filosofia na Idade Média. A filosofia surge como a grande aliada
da sistematização da fé cristã.

Como você já viu resumidamente na última aula, um importante exemplo desse movimento foi
Santo Agostinho – ou, simplesmente, Agostinho de Hipona. Com uma maneira simples de ver a
vida, esse homem conseguiu unir a filosofia e a fé. Da união desses dois elementos nasceram
conceitos e concepções tão essenciais para o Ocidente que ele mereceu o título de “Pai do
Ocidente”, pois estruturou as bases daquilo que atualmente chamamos racionalidade ocidental, de
pensamento ocidental.

© Piero della Francesca / Art Renewal Center

Santo Agostinho
Depois de vermos o que foi proposto por esse modelo do sistema de Agostinho, veremos uma
outra sistematização, mais complexa e organizada, das relações entre a fé e a filosofia: o sistema
de Tomás de Aquino, que adotou o sistema de Aristóteles para solucionar alguns problemas
internos dessa relação entre razão e fé.

Para que possamos entender todas as relações do cristianismo primitivo com a filosofia,
passaremos por algumas etapas. Primeiramente devemos entender o que é o cristianismo. Depois
veremos quais foram as posturas internas do cristianismo primitivo, quanto ao uso da filosofia
frente aos dados da fé. Em seguida, veremos a sistematização mais sólida e consagrada dos
primeiros passos dos cristãos para montar uma filosofia que pudesse justificar sua fé.

A Idade Média

Iniciaremos aqui definindo, precisando e diagnosticando o que foi a Idade Média e o período no
qual ela aconteceu.

Para termos êxito em nossas investigações acerca da idade Média convido você a abandonar tudo
que foi dito e estudado sobre esse período. Tal movimento possibilitará que você compreenda tudo
o que aconteceu nesse período e sua significação para as gerações posteriores.

Tradicionalmente devemos entender que a Idade Média compreende os sete séculos que se
estendem da eclosão do islamismo na Espanha e na Gália, no século VIII, até meados do século
XV (com a queda de Constantinopla, tomada pelos turcos otomanos). Alguns estudiosos entendem
um período de mais de oito séculos, que vai da mudança da dinastia franca para a dinastia
carolíngia na França, período compreendido do ano 750 até fins dos século XVI, incluindo aí o
Renascimento.

O termo Idade Média (medium aevum) foi usado pela primeira vez em 1469, por João Andrea de
Bussi, bispo de Aleria. O uso desse termo se generalizou. Sua explicação associou-se a um
aspecto pejorativo criado pelos historiadores do século XIX, que viam esse período como
intermediário, obscuro e inculto, separando as teorias gregas clássicas do humanismo
desenvolvido no século XIX, no período moderno.

Hegel, em 1831, realizou uma primeira divisão da história. Essa divisão tinha três momentos, um
deles a Idade Média. Dilthey (1833-1911), um importante filósofo do século passado, apesar de
não manter um preconceito em relação a esse período histórico, dedicou somente dez páginas de
seu livro História da Filosofia aos escritos e teorias desenvolvidas na Idade Média. O livro tem
cerca de 300 páginas.

O principal aspecto que deu origem à cultura medieval foi o renascimento carolíngio, criado por
Carlos Magno (768-814), rei da França. Em 778, suas reformas tomam um aspecto muito
importante, pois ele se dirige aos bispos e abades de seu reino pedindo-lhes que dêem uma
formação boa e sólida aos candidatos ao sacerdócio, àqueles que queriam se tornar padres da
Igreja. Assim, várias escolas foram criadas com o intuito de formar os futuros padres da igreja.
Disso resultou uma enorme valorização do estudo, que dessa forma passou a chegar a uma parte
maior da população, que antes não tinha condições de estudar.

Entretanto, a precisão desse período denominado Idade Média ainda é uma briga entre os
especialistas do assunto. Existem várias teorias sobre quando começou e quando terminou.
Contudo, existe consenso em alguns aspectos. São eles:

1. a Idade Média não foi um período de trevas e obscuridade;

2. a Idade Média foi um período de grande evolução do pensamento filosófico;

3. na Idade Média foram desenvolvidas as principais características que hoje compõem a


identidade do homem ocidental.
Assim, adotaremos a divisão da Idade Média em cinco etapas:

1. a Alta Idade Média, que vai de 768 até o fim do século IX;

2. do século X, com a fundação do Convento Beneditino de Cluny, até fins do século XII;

3. o período de apogeu ou estrelato da Idade Média no século XIII, em que ocorreu a constituição
das universidades;

4. a Baixa Idade Média, que vai da morte do filósofo Duns Scotus, em 1308, até fins do século
XIV; e

5. o período que vai do Grande Cisma do Ocidente, iniciado em 1378 e que se prolongou até 1418
– conhecido como Reforma Protestante –, que abriu caminho a um período de transição que
chegou à Idade Moderna.

A Idade Média ainda é um período que cria muita curiosidade nos pesquisadores. Ainda não foram
traduzidos sequer 10% dos livros escritos nesse período. Estima-se que a tradução de todos esses
textos deve levar mais de cem anos.

Você já percebeu que a Idade Média não é nada daquilo que vimos e aprendemos na escola. Para
ilustrar esses aspectos, conheça um filósofo que está no limite que divide o período Patrístico e o
início da Idade Média. Santo Agostinho é considerado o último filósofo cristão patrístico e o
primeiro filósofo cristão medieval.

anto Agostinho e o apogeu do período Patrístico

Aurélio Agostinho nasceu em 354 em Tagaste, pequena cidade da Numídia, na África. Seu pai era
um pequeno proprietário de terras e não era cristão. Sua mãe, Santa Mônica, era uma fervorosa
cristã. Depois de freqüentar as escolas em Tagaste e na vizinha Madaura, Agostinho dirigiu-se a
Cartago para realizar seus estudos de retórica (370/371). Sua formação cultural realizou-se
inteiramente na língua latina e sob a influência de autores latinos. Na época de Agostinho, o papel
do retórico não era mais político ou civil, como na Grécia Antiga, mas sim de professor. Ensinou
primeiramente em Tagaste (374) e depois em Cartago (375/383). A turbulência e o desrespeito
dos estudantes cartagineses o levou a transferir-se para Roma em 384. No mesmo ano passou de
Roma a Milão, onde assumiu o cargo oficial de professor de retórica da cidade. Sua ida a Milão se
deu graças ao apoio dos maniqueus. O período anterior à sua conversão ao cristianismo foi
marcado por uma vida em que toda espécie de prazer foi buscado. Ele vivia em bordéis, em meio
às prostitutas, bebendo de tudo e fazendo de tudo.

Maniqueus: aqueles que acreditam no maniqueísmo, uma religião segundo a qual


o Bem e o Mal seriam dois princípios opostos que governariam o mundo. Portanto,
eles têm uma concepção dualista sobre o bem e o mal como princípios opostos,
complementares e eternos.

Contudo, em Milão, por volta de 384-386, depois de inúmeras crises espirituais, amadureceu sua
conversão ao cristianismo. Mudou-se para Cassicíaco, abandonando o cargo de professor, e foi
viver uma vida tranqüila ao lado da mãe, do irmão e do filho Adeodato. Em 387, recebeu o
batismo do bispo Ambrósio, deixando Milão para retornar à África. Nesse caminho de volta, na
cidade de Óstia, morre sua mãe Mônica. Ele somente completaria sua viagem de volta em torno
de 388, em função das brigas pelo poder local.

Em sua volta a Tagaste, vendeu os bens de seu pai e montou uma comunidade religiosa (a ordem
dos Agostinianos), ganhando grande notoriedade pela sua santidade de vida. Em 391, quando se
encontrava em Hipona, foi ordenado sacerdote pelo bispo Valério, pela pressão dos fiéis. Em 395,
foi consagrado bispo pelo povo. No ano seguinte, com a morte de Valério, assume efetivamente o
cargo do episcopado oficial. Nessa pequena cidade, ele travou grandes lutas
contra cismáticos eheréticos. Dessas disputas vieram os seus mais notórios livros. Por seu
pensamento e sua obra tenaz, ele determinou uma reviravolta decisiva na história da Igreja e do
pensamento do Ocidente. Morreu em 430, quando os vândalos sitiavam a cidade.
Cismáticos: conjunto de pessoas que desenvolve um tipo de saber que provoca
divisões em sistemas religiosos. São pessoas ou sistemas que promovem divisões
em algum sistema.

Heréticos: aqueles que promovem heresias. Heresias são sistemas ou teorias que
têm uma maneira diferente de entender e interpretar os pontos básicos de um
sistema religioso. Seria uma forma de entender os pontos básicos de uma religião
de uma forma tão diferente que acaba sendo criada uma outra religião.

As influências dos filósofos para o pensamento de Agostinho

Para entender a complexidade do pensamento de Agostinho é necessário compreender quem e


como influenciou sua forma de fazer filosofia. Diz um ditado popular: a grandiosidade de um
pensamento está nas grandes influências que ele teve. Veja então quais foram essas influências.

A primeira de todas as influências sofridas por Agostinho foi de sua mãe. Graças à sua fé, Mônica
construiu uma enorme evolução no interior de Agostinho. Essas influências formaram uma
complexa e belíssima teoria acerca da interioridade humana e de sua relação com a divindade.

Outra influência muito importante foi a leitura da obra Ortensio, do poeta romano Cícero. Com
essa leitura, Agostinho converteu-se ao estudo da filosofia. Nessa época ele ainda estava na
cidade de Cartago. Essa estada o aproximou muito da filosofia platônica, pois a cidade tinha
muitos filósofos ligados ao sistema helênico (o sistema descrito na aula anterior). Assim, essa
leitura aproximou Agostinho do espírito filosófico dos gregos e do sistema neoplatônico.

Neoplatônico ou neoplatonismo: sistema filosófico criado por Plotino e


difundido por seu discípulo Porfírio. Esse sistema visava a reerguer a filosofia
criada e desenvolvida por Platão. Como se tratava de uma nova forma de ver
Platão, esse sistema foi chamado de neoplatonismo, ou seja, novo platonismo.

Outro fator importante foi a sua conversão ao sistema religioso chamado maniqueísmo. Da sua
conversão aos maniqueus, em 373, quando tinha 19 anos, surgiram grandes conflitos interiores e
uma reflexão muito importante sobre a atuação da razão na vida do homem. Outro elemento
importante foi o confronto em 383/384 com os céticos, uma escola filosófica remanescente dos
sistemas helenísticos. Inicialmente ele tentou se unir a essa concepção filosófica. Contudo, por sua
inquietação interior, Agostinho proclama-se inapto a abraçar essa concepção filosófica e parte em
busca de outros sistemas e caminhos.

Maniqueísmo: religião considerada herética. Foi fundada pelo persa Mani e


implicava: 1) um vivo racionalismo, 2) um marcado materialismo, 3) um dualismo
radical na concepção do bem e do mal, entendidos não apenas como princípios
morais, mas também como princípios ontológicos e cósmicos.

Céticos: escola que pregava que o homem deveria duvidar de tudo, pois não
existe conhecimento certo de nada.
Uma série de encontros também foi decisiva para o desenvolvimento do sistema filosófico de
Agostinho. Foram eles:

1. com o Bispo Ambrósio (que lhe ensinou a forma correta de abordar a Bíblia);

2. com os livros neoplatônicos (fato que lhe revelou a realidade do mundo imaterial e a não-
realidade do mal);

3. com a leitura dos textos do apóstolo São Paulo (fato que lhe deu o sentido da fé, da graça e do
Cristo redentor).

A esses elementos foram incorporados ainda os debates, discussões, disputas e batalhas travadas
contra todos os heréticos de sua época:

a. a briga com o maniqueus (que durou até 404);

b. a disputa contra os donatistas (que defendiam a necessidade de não readmitir na comunidade


os que haviam sido corrompidos durante a época das perseguições), em que via o erro de Donato
no fato de acreditar que a validade de um sacramento religioso estava na pureza do ministro e
não na graça concedida por Deus;

c. a polêmica contra os pelagianos (que sustentavam que a boa vontade e as obras eram
suficientes para a salvação do homem, desprezando a necessidade da graça).

Todos esses elementos foram aspectos que proporcionaram grande evolução no homem Agostinho
e o tornaram o maior pensador de seu tempo e um dos maiores pensadores da história.

Agostinho e a sistematização de sua filosofia: o filosofar na fé

Foi o sistema do neoplatonismo quem mudou o pensamento de Agostinho. Contudo, a conversão


ao cristianismo mudou o modo de viver de Agostinho, fator que também lhe abriu novos
horizontes para o pensar. Nessa linha da vida de Agostinho, a fé tornou-se substância de vida e
pensamento. Assim, debaixo da fé, o pensamento de Agostinho apresentou uma nova estrutura e
essência. Com esse movimento nascia um “filosofar-na-fé”, nascia a “filosofia cristã”, aquela que
foi amplamente preparada pelos padres gregos, mas que somente tomou forma a partir de
Agostinho.

O eixo principal a partir do qual o pensamento de Agostinho começou a girar foi, sem sombra de
dúvida, a conquista da fé. Contudo, a postura de Agostinho estava longe de ser aquela que
eliminava a relação entre a razão e a fé. Para ele, a fé estimula e promove a inteligência, ela é
umcogitare cum assensione, um saber que nos conduz até Deus, até as alturas. Analogamente, a
inteligência não elimina a fé, mas a fortalece e, de certa maneira, a clarifica. Resumindo, para
Agostinho a fé e a razão são complementares. A fórmula antiga do credo quia absurdum (“eu
acredito porque isso é um absurdo”) é uma postura espiritual inteiramente estranha a Agostinho.
A postura de Agostinho é expressa pelas fórmulas credo ut intelligam e intelligo ut credam, ou
seja, “creio para entender” e “entendo para crer”. O ponto que Agostinho queria apresentar era de
que sem a razão não há crença e sem crença a razão fica inútil, vazia e sem propósito.

Esses movimentos possibilitaram a Agostinho a descoberta de alguns conceitos de extrema


importância para o homem ocidental: os conceitos de pessoa, interioridade, liberdade, livre
arbítrio, vontade etc. Com isso, Agostinho montou as bases nas quais nós, homens ocidentais,
pensamos e entendemos nosso mundo e nossas coisas.

A descoberta da pessoa, da interioridade, da vontade e do livre arbítrio

Para Agostinho o verdadeiro grande problema filosófico não é o do cosmo ou natureza, mas
aqueles relativos ao homem. O verdadeiro mistério, segundo ele, não é o mundo, mas o que nós
somos para nós mesmos. O problema do homem proposto por Agostinho não é o do homem
considerado abstratamente, em seu geral, mas o problema concreto do eu humano, do homem
como indivíduo irrepetível, como pessoa.
Agostinho tornou-se o grande protagonista de sua filosofia, sendo ao mesmo tempo aquele que
observava e o alvo de sua observação. Começou por investigar a si mesmo, a desvendar as coisas
que sentia, que queria, que fazia. Depois de ter feito isso, somente depois de ter realizado essas
coisas, é que ele se preocupou com as coisas que estão em volta do homem.
Desse movimento resultaram algumas de suas afirmações mais valiosas: “eu próprio me havia
tornado um grande problema para mim”; ou ainda, “eu não compreendo tudo que sou”. Um
exemplo disso pode ser tomado do seu filósofo favorito: Plotino. Plotino falou do homem, da
interioridade do homem, da necessidade do homem de voltar-se a si mesmo somente de forma
completamente abstrata. Plotino não tinha interesse de falar de si mesmo em sua obra e sequer
falar de si mesmo aos seus amigos.

Por outro lado, Agostinho falava muito de si mesmo, especialmente no seu livro Confissões (esse
livro é a primeira autobiografia na história da humanidade). Nele ele descreve o que sentia, seus
conflitos, suas necessidades, suas angústias e revoltas. Assim, justamente no confronto de sua
vontade com a vontade de Deus, é que Agostinho descobre o eu, a personalidade humana. Esse
eu e essa personalidade adotaram um sentido inédito. Veja uma passagem desse livro que mostra
muito bem o que estamos falando até aqui: “Quando eu estava decidindo servir inteiramente ao
Senhor meu Deus, como havia estabelecido há muito, era eu que queria e eu que não queria: era
exatamente eu que nem o queria plenamente, nem o rejeitava plenamente. Por isso, lutava
comigo mesmo e dilacerava-me a mim mesmo”.

Essa frase nos relata a briga interna que existe no homem. Quando falamos de religião, parece
que as coisas se misturam muito. Muitas vezes eu quero realizar aquilo que Deus fala que é o
correto, mas não consigo. Fica uma briga muito grande entre o que eu quero e o que quer a
vontade de Deus para mim. Nessa problemática religiosa, em que existe o confronto da vontade
humana com a vontade divina, surge o espaço de crescimento e descoberta do eu como pessoa.
No confronto da vontade humana com a vontade divina surge o espaço de criação do conceito de
pessoa.

Agostinho revestiu a idéia platônica de corpo e alma com todos os aspectos próprios da revelação
cristã. Com isso ele montou uma nova visão de homem, pois para ele o homem não era somente
o seu corpo. O homem era um homem interior, que deve ser entendido como imagem de Deus e
da Trindade. Com isso, Agostinho desenvolveu uma nova forma de entender o homem. Uma
forma que derivava os pontos básicos de sua estrutura da noção de um Deus que é trinitário
(Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo). Dessa noção trinitária de Deus surgia o lugar para
entender a unidade interior que compõe o homem e suas características básicas, a própria noção
de pessoa.
Sendo assim, podemos dizer que os dois pilares fundamentais da filosofia cristã agostiniana são
“alma” e “Deus”. Para Agostinho, não é indagando ou perguntando sobre o mundo que
chegaremos a alguma resposta sobre o homem, suas necessidades e conflitos internos. É
escavando a alma que o homem encontra o caminho que resolve tudo isso. E esse caminho,
escavado do fundo da alma humana, conduz o homem para um encontro inesquecível com Deus.

Com essas perspectivas relativas ao homem e às suas características, Agostinho montou uma
nova maneira de ver e entender o homem e sua relação com este mundo. Se somos filhos de
Deus, se vamos retornar a esse Deus, as coisas desse mundo não deveriam produzir interesse em
nós. Contudo, para Agostinho, justamente pelo fato de sermos filhos de Deus, devemos ter um
cuidado grande com as coisas deste mundo. Se o mundo foi criado por Deus, se nós somos as
mais perfeitas de suas criaturas, cabe a nós zelar pelo bem desse mundo. Assim, na sua obra
chamada A cidade de Deus, Agostinho desenvolveu um conjunto de regras e posturas morais que
nos levariam a trazer, para este mundo, um pedaço do paraíso. Para ele, cabe a nós, homens e
filhos de Deus, levar a todos os lugares a justiça e a bondade de Deus. Com isso, ele desenvolveu
uma postura moral e ética muito complexa e rígida. Assim, Agostinho formulou o conceito de
história dando-lhe um princípio (como a criação) e um termo (o fim do mundo ou o juízo final). Ele
montou um sistema filosófico que explicava o homem do momento em que nasce até o momento
de sua passagem deste mundo para o mundo espiritual, para seu convívio com Deus.

Através da sua concepção de vontade, Agostinho introduziu a liberdade, a visão da graça, a noção
de livre arbítrio. Essa construção gigantesca de Agostinho acabou por desembocar num grande
tratado, que vinha envolvido no fato de que Agostinho pensava todo o mundo e toda a natureza
envolvida por uma força gigantesca e protetora: o amor vindo de Deus. Esse amor é a real
essência do homem. Por tudo isso, e alguns aspectos que não foram contemplados aqui, afirma-se
que Agostinho é o pai da cultura ocidental, cultura vista como a conhecemos nos dias de hoje.
Santo Tomás de Aquino

Nasceu em Roccasseca, no sul do Lácio, na Itália,


em 1221. Concluiu sua educação primária na © Piero della Francesca / Art Renewal Center
Abadia Beneditina de Montecassino. Prosseguiu
seus estudos na cidade de Nápoles, onde entrou
em contato com a ordem religiosa dos
Dominicanos. Foi discípulo de um dos maiores
pensadores da época, Alberto Magno, na cidade
de Colônia, na Alemanha, entre 1248 e 1252.

Ensinou na Universidade de Paris de 1225 a 1254,


e de 1254 a 1256. Morreu aos 53 anos de idade,
no dia 7 de março de 1274, no mosteiro da ordem
religiosa dos cistercienses na cidade de
Fossanova, enquanto viajava para a cidade de
Lião para se reunir com o Papa Gregório X e seus
conselheiros.

Uma das maiores contribuições de Santo Tomás


de Aquino foi trazer o sistema de Aristóteles de
volta às reflexões da Filosofia. Desde o sistema de
Agostinho, o Ocidente se preocupava somente
com os modelos filosóficos platônicos. Com o
trabalho de Tomás de Aquino e seus amigos, que
traduziram a obra de Aristóteles para o latim,
vários pontos que ainda não estavam bem
acertados foram realinhados. Um desses pontos
foi a divisão entre a Razão e a Fé, entre a Santo Tomás de Aquino
Teologia e a Filosofia.

As diferenças entre a filosofia e a teologia

Um dos elementos de maior investigação na vida de Tomás de Aquino foi a relação entre a
Filosofia e a Teologia. Durante esse período da Idade Média, o período de seu apogeu, várias
foram as tentativas de estabelecer as relações entre a fé e a razão.

Para Tomás de Aquino o maior e mais importante objeto de pesquisa da razão humana era Deus,
não o homem ou a natureza. Nem o homem nem a natureza poderiam ser desvendados sem as
dádivas de Deus. Somente através da Revelação dada por Deus o homem poderia desvendar tudo
que existe por detrás dos fenômenos da natureza e todas as suas relações com outros homens.
Somente Deus é o detentor do verdadeiro conhecimento que desvenda tudo o que existe.

Contudo, para Tomás de Aquino a filosofia tinha um formato próprio, ou seja, tem sua autonomia.
Segundo o ponto de vista de Tomás, a razão do homem, quando guiada pela filosofia, levaria a
grandes e importantes descobertas. Todavia, essas descobertas não conseguiriam dizer tudo sobre
todas as coisas. A filosofia tem seus limites e não consegue desvendar todos os mistérios da
natureza e do homem. Justamente nesses elementos, onde a filosofia não pode dar resposta,
surge a vontade divina. Nesse caso, a filosofia e a teologia não se opõem, elas se completam. A
filosofia e a teologia seriam saberes paralelos, que não se cruzariam, mas que poderiam manter
uma convivência harmoniosa.

Para Tomás de Aquino, a diferença entre a filosofia e a teologia não está no seu objeto de estudo.
Tanto a filosofia quanto a teologia estudam Deus, o homem e o mundo. Porém, a forma de ter
acesso a esses elementos é que se tornaria diferente. A filosofia tem um conhecimento inacabado,
pois é fruto somente da razão humana e de seus raciocínios. A teologia, por sua vez, tem um
conhecimento mais completo, pois este teria sido dado ou revelado por Deus. A teologia, então,
não substituiria a filosofia.

Segundo a visão de Tomás de Aquino somente um elemento poderia instaurar um diálogo entre os
homens, entre aqueles que crêem em Jesus e os que não crêem em Jesus. Para falar com os não-
crentes ou pagãos, os dados da revelação de Deus não funcionariam. Somente a razão poderia
realizar esse papel.
Evoluções feitas por Tomás de Aquino

As evoluções de Tomás de Aquino não pararam por aí. Ele


desvendou vários outros nós que haviam em sua época. Ao
adotar o sistema filosófico de Aristóteles, Tomás de Aquino
implementou, na filosofia, um novo método de fazer ciência,
teologia e a própria filosofia.

Investigando as áreas das ciências, ele abriu novas teorias


sobre a unidade, a verdade, a bondade dos seres, as relações
dos seres com Deus e a visão que deveríamos ter acerca das
coisas. Um dos pontos de destaque nesse aspecto era sua
teoria que explica a razão de existir das coisas, dos seres.
Fazendo uma comparação, uma analogia, Tomás de Aquino
esclareceu várias das relações de Deus com os homens, com o
mundo, com os animais e os fenômenos da natureza. Seu
principal foco estava nas pesquisas que tentavam elucidar as
relações dos homens com Deus.

Ao investigar as relações dos homens para com Deus, Tomás


operou mudanças nas teorias de ética e política da época.
Várias foram as inovações trabalhadas. A teoria ética das
virtudes; a questão da divisão das leis em eterna, humana e
divina; o papel do homem e dos animais na natureza etc.

De tudo que foi desenvolvido, um dos aspectos mais


importantes foi o da relação entre o sujeito e o objeto. Para
Santo Tomás, somente se poderia fazer ciência de forma
dedutiva, ou seja, deveríamos montar em nossas mentes leis
que explicassem os fenômenos da natureza. Essas leis
corresponderiam à realidade, mas não precisariam passar pela
experiência. O que ele queria dizer é que deveríamos sair dos
objetos para ir à representação mental deles. Ele dizia que
teríamos de ir do ser para a representação.
As inovações feitas por Tomás de Aquino proporcionaram
grandes avanços no século XIV. Avanços que começaram nas
teorias políticas e terminaram na forma de pesquisar os
fenômenos da natureza. As evoluções das teorias políticas de
Santo Tomás proporcionaram os avanços políticos da
racionalidade moderna, como a Revolução Francesa.

Resumo

Nesta aula você viu que o cristianismo não é um sistema filosófico. Contudo, precisou da filosofia
para fundamentar suas bases e dar coerência a seus princípios básicos. Esse posicionamento fez
surgir um conjunto de pensadores que acreditava na existência harmoniosa entre a fé a razão.
Dentre esses indivíduos estava Santo Agostinho.

Vimos que Agostinho era um pensador de grande importância, pois foi através da criação de
alguns conceitos como vontade, pessoa, interioridade e livre arbítrio que ele plantou as bases que
formam o homem ocidental contemporâneo. Por isso, recebeu o título de “Pai do Ocidente”.

Aprendeu, também, que o período denominado Idade Média não foi um período de trevas e
escuridão intelectual. Foi o período em que se amadureceram as principais características do
mundo que hoje chamamos de ocidental.

Viu que a Idade Média criou espaços do saber – que hoje chamamos Universidades. Nesse período
foi redescoberta a filosofia de Aristóteles. Santo Tomás de Aquino foi o pensador responsável por
trazer a filosofia de Aristóteles para o interior do cristianismo. Essa nova forma de pensar o
cristianismo trouxe grandes mudanças, principalmente na área da política e da ética. O alcance
desses sistemas filosóficos foi tão grande que chegaram até os ideais da Revolução Francesa.
Atividades

1. Qual a importância de Santo Agostinho para o Ocidente?

2. Como Agostinho lidava com a “interioridade” e como surge o conceito de pessoa?

3. A idade Média pode ser chamada de Idade das Trevas? Justifique a resposta.

4. Qual é o papel da razão na relação entre as crentes e os pagãos, segundo a visão de Santo
Tomás de Aquino?

5. Como é montada a relação entre o ser e a representação em Tomás de Aquino?