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I Colóquio de História da Universidade Federal Rural de Pernambuco Brasil e Portugal: nossa história ontem e hoje

UFRPE, Recife, Pernambuco, Brasil

 

De 3 a 5 de outubro de 2007

OS CABOCLOS DE ITAPARICA, INTERFACES DE BRASIS

Resumo:

A cada 7 de Janeiro, em Itaparica, Baía de Todos os Santos, celebra-se a festa da independência. Diversas formas de comemoração acontecem então, sobressaindo-se a apresentação dos caboclos e o cortejo da imagem do caboclo Tupinambá. Desde 1939, cabe ao grupo Os Guaranis a promoção de um ritual em praça pública. Busca-se compreender a estruturação histórica deste espetáculo híbrido, em que podemos identificar aspectos cívicos, lúdicos e religiosos, permitindo entrever uma trama de negociações pelas quais formas artísticas diversas vêm se interfaciando, como benditos do catolicismo tradicional popular, de origem portuguesa, e pontos do candomblé de caboclo, além de outros breves temas compostos provavelmente em torno dos anos 30. Palavras chave: Caboclo; Itaparica; Hibridismo.

Résumé:

Le 7 janvier, à Itaparica, île située dans la Baie de Tous les Saints, on célèbre tous les ans la Fête de l´Indépendance. Parmi les diverses formes de commémoration, on remarque la présentation des “caboclos” et le

cortège de l´image du caboclo Tupinambá. Depuis 1939, c´est le groupe Os Guaranis qui réalise le rituel du rapt

Il s´agit ici de comprendre la structuration historique de ce spectacle hybride où

peuvent être identifiés des aspects civiques, ludiques et religieux qui laissent entrevoir une trame de négociations assurant l´interface entre diverses formes artistiques, telles que les “benditos” du catholicisme populaire traditionnel, d´origine portugaise, et les chants de Candomblé de Caboclo, outre d´autres thèmes probablement composés autour des années 30. Mots clés: Caboclo; Itaparica; Hybridisme.

de la reine, en place publique

Esta contribuição reúne aspectos preliminares da pesquisa “Os Festejos do Caboclo de Itaparica uma história de figurações e transfigurações de identidades na Baía de Todos os Santos”, realização do Grupo de Pesquisa O Som do Lugar e o Mundo, da Universidade Federal da Bahia. Inicialmente, traça-se um breve quadro acontecimental dos festejos, para em seguida ensaiar um leque de possibilidades de interpretação. No 7 de Janeiro, em Itaparica, Bahia, comemora-se a independência. Foi neste dia que, em 1823, o pequeno exército concentrado na vila de Itaparica, formado majoritariamente de pessoas do povo, deteve o desembarque de parte da tropa comandada pelo Brigadeiro Madeira de Melo, último baluarte da hegemonia militar e comercial portuguesa na Província. A cada ano, promove-se então uma série de manifestações cívicas e religiosas, destacando-se a apresentação dos caboclos no centro histórico e, hoje, também turístico. Observam-se festejos semelhantes em pelo menos outras 8 localidades, compreendendo a capital, o Recôncavo da Baía de Todos os Santos e o Baixo Sul: Cachoeira, Itacaré, Jaguaripe, Salinas da Margarida, Salvador, Santo Amaro da Purificação, Saubara e Valença. Em termos de calendário, o festejo acontece ou na data localmente emblematizada

1 Professor da Universidade Federal da Bahia e Coordenador do Grupo de Pesquisa O Som do Lugar e o Mundo.

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como dia da independência ou no 2 de Julho, data da independência da Bahia. Esta última rememora o 2 de Julho de 1823, quando soldados baianos e mercenários puderam entrar livremente em Salvador.

O elemento comum a esses festejos é o cortejo com a imagem do caboclo ou da

cabocla, ou ainda de ambos, como é o caso de Salvador. Entretanto, percebe-se considerável diversidade entre as comemorações de um lugar para o outro, justamente no que diz respeito a este item que ocupa o centro do nosso objeto de pesquisa, qual seja, a figura do caboclo. Em Santo Amaro, o cortejo está diretamente associado à prática do candomblé, cabendo a um grupo de filhos de santo a arrumação da imagem. Já em Jaguaripe, o cortejo da cabocla Dona América é administrado pela Prefeitura, não se evidenciando ligação com o candomblé. Em Itaparica, o cortejo do caboclo não parece apresentar ligação direta com o candomblé no sentido propriamente institucional desta tradição, pois não envolve a existência de locais sagrados destinados ao culto e uma hierarquia sacerdotal a ele relacionada. Entretanto, o vínculo estabelecido por parte da população com o caboclo Tupinambá guarda homologias e analogias com relação àquele experimentado entre o praticante do candomblé e sua casa de santo. O caboclo é a divindade mestiça em torno da qual se organiza todo culto afro-brasileiro que não guarda fidelidade ao cânon oficial do saber religioso correspondente às divindades de origem africana. Nas comemorações de Itaparica, parece sempre presente. Isto transparece na unção, no entusiasmo e na reverência não somente dos figurantes como de boa parte dos circunstantes quando da passagem da imagem do caboclo em cortejo. Cenas como

estas dificilmente poderiam ser capturadas em linguagem ensaística convencional, sendo necessário, para tanto, o recurso a meios audiovisuais. A propósito, o produto da pesquisa constará também de um vídeo.

A festa da independência em Itaparica é consideravelmente singular no universo das

comemorações verificadas nas localidades acima referidas. No início da noite de 6 de janeiro, com fachos acesos, dá-se a puxada do carro, ainda sem a imagem do caboclo. Ainda se vêem

algumas mulheres que levam penas presas aos cabelos, nos dias que precedem a data da independência. No final da tarde do dia 7, temos a levada do carro já com o caboclo, que esteve por um ano abrigado no prédio da Prefeitura. No dia 9, por fim, acontece a guardada da imagem do caboclo, restando o carro na quitanda (abrigo) no centro da praça do Campo Formoso, até o ano seguinte. Antes ou depois do cortejo, acontece nos três dias a encenação em praça pública chamada pelos moradores de Itaparica de “roubada da rainha”, com a duração de cerca de

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hora e meia. Os Guaranis, grupo formado em 1935, sustenta esta apresentação. O roteiro é consideravelmente complexo, tendo início em frente à igreja de Santo Antônio, no alto da colina do mesmo nome, a 400 metros do local da aldeia, com o pedido de bênção aos santos católicos. Na praça do Campo Formoso, dá-se a encenação principal. A rainha da aldeia, resistindo inicialmente aos galanteios de um capitão-do-mato, termina por ele seduzida e abandona os caboclos, seus súditos. Estes, sob o efeito da jurema, não deram pela fuga. Quem percebe a ausência da rainha é o Caboclo Mestre, que convoca os caboclos e chama o Caboclo Velho para se aconselhar. Este, por sua vez, chama o Caboclo Adivinhão para proceder ao oráculo de búzios. Descobre-se onde estão a rainha e seu raptor. Uma brigada parte ao seu encalço, traz de volta a rainha e mata o intruso. Na aldeia, o clima é de constrangimento geral. Os caboclos falharam na guarda de sua soberana, devido à embriaguez; a rainha, por haver deixado sua aldeia. O Caboclo Mestre repreende a rainha, mas os caboclos clamam em sua defesa, posto que sua fuga se deu em virtude de não terem sido eles bons guardiões. Ela, então, responde reciprocamente, colocando as mãos nas têmporas de cada um e erguendo-os para a luta e para a dança. Restaura-se, assim, a normalidade rompida da aldeia. Enfim, trata-se de um continuum entre encenação em praça pública e cortejo, promovido pelos Guaranis, em torno da figura do caboclo Tupinambá, nos dias 6, 7 e 9 de janeiro, contando com a participação da Prefeitura no que diz respeito à preparação do lugar da encenação, organização do cortejo e publicidade, além da própria presença do Prefeito e de alguns de seus auxiliares, que confere à ocasião um toque de oficialidade. Uma trajetória de negociações é sugerida pela observação do hibridismo na encenação da aldeia dos caboclos de Itaparica. Alguns elementos lembram nitidamente o reisado, como a presença da rainha, da forma como se veste e como enverga o cetro, a coroa e o manto, precedida imediatamente de um estandarte. Outro elemento de origem católica são os hinos, referindo-se várias vezes a Nossa Senhora e ao Senhor do Bonfim. Algumas cantigas parecem benditos; outras aproximam-se de ou coincidem com pontos de candomblé de caboclo. As informações colhidas junto a diversos idosos para a montagem deste Projeto dão conta de que, décadas atrás, praticava-se uma diversidade notável de folguedos, sobretudo no verão. No período compreendido entre os últimos anos 20 e os anos 40 do século XX, havia diversos tipos de cordão: o afoxé com as baianas, a burrinha, o bumba meu boi. Nos anos 60 e 70, nos primeiros dias do ano, passava o bloco do garrancho, com sucata de diversos tipos de material fixadas em galhos secos. Vejamos este depoimento de C.P.B.C, 80 anos, em

26.01.2007:

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O cortejo do caboclo, antigamente, tinha o Caboclo Velho, o Preto Velho, o Caboclo Adivinhão. O bumba-meu-boi era no dia 8 de janeiro, um dia depois da festa principal de Itaparica. Tinha o mandu, tinha a marujada, tinha tudo. Vinha o Terno das Flores, o Terno das Nações, inclusive os veranistas participavam. Antigamente não tinha a roubada da rainha. A festa do caboclo era diferente, ficava diferente a depender de quem organizava. Dependia da comissão responsável de cada época. Era segundo a individualidade de cada responsável. Aí ia mudando, ficando sempre o caboclo no meio, que ele é o mais importante.

Os mais velhos dizem que o primeiro mestre do festejo, Eduardo (não se encontrou registro do seu sobrenome), fundou Os Guaranis tendo vindo de Salvador, onde participava dos festejos do 2 de Julho. Isto não explica a forma que tomou a comemoração dos caboclos em Itaparica, pois não há notícia de encenação semelhante em Salvador ou no Recôncavo. Há motivos para supor que, nesta passagem, outros elementos tenham interagido com a tradição das comemorações da independência, amalgamando-se nos festejos do 7 de Janeiro, mantendo sempre a figura do caboclo no centro. É provável que este sentimento de orgulho e distinção decorra em parte do cultivo de algumas narrativas que enaltecem a participação do povo de Itaparica na guerra de independência, como é o caso da crônica histórica de Ubaldo Osório (1979). A rede escolar local, desde pelo menos os anos 30 do século XX, tem se esmerado em incutir nos adolescentes o sentimento cívico, destacando o heroísmo dos moradores de Itaparica no passado. E não é menos significativo que o neto de Ubaldo Osório, o romancista João Ubaldo Ribeiro, tenha aportado a narrativa paradigmática desta singularidade do povo itaparicano, Viva o Povo Brasileiro (1984). A elaboração que este romance oferece da figura do mestiço e, em diversos trechos, do próprio caboclo tem sido a principal fonte para uma série de atividades culturais desenvolvidas pela Prefeitura Municipal de Itaparica a cada verão. Toda a história da cidade costuma ser lida a partir desta narrativa fundadora. Na sondagem inicial realizada para a confecção deste Projeto, não foram encontrados registros escritos da história dos Guaranis. Os mais velhos colocam algumas poucas informações, como o nome do sucessor de Eduardo, Justino Martins Ferreira, sucedido por seu primo Eusébio Martins Ferreira. O neto deste último, Orlando Rosa, hoje enfermo, liderou o grupo por mais de 30 anos, tendo passado a direção para Hildo Santana. Atualmente, o Presidente é Emanuel Brito Pita. Entretanto, as entrevistas tanto com os Guaranis ou simplesmente os caboclos aportam muitas informações sobre as transformações que o festejo vem sofrendo ao longo das últimas décadas.

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A persistência dos festejos em torno do caboclo de Itaparica encontra hoje apoio significativo nas iniciativas vinculadas ao turismo. Ainda que esta atividade não seja o motivo decisivo para a realização das festas, trata-se de um reforço motivacional às manifestações. É possível que tal movimento permita uma ressignificação de forças que perpassam o acervo das culturas locais de modo a atualizá-la em uma nova praça de acontecimentos. Colocado este quadro inicial, podemos sugerir que esta pesquisa se situa no campo da História Cultural. É provável que a melhor denominação seja História Social da Cultura, porquanto aponta para a compreensão das criações culturais enquanto criações de uma sociedade, em que diferentes pólos estabelecem tensões. Numa definição de Chartier, a História Cultural tem por objetivo principal “identificar o modo como em diferentes lugares e momentos uma determinada realidade cultural é construída, pensada, dada a ler” (1990:41). No caso deste Projeto, diríamos “construída, pensada, dada a festejar”. Numa acepção de domínio enquanto abrangência, podemos afirmar ainda que se trata de uma História Local que, pela sua implantação, poderia também ser chamada de História Regional. Algumas descobertas e alguns elementos de reflexão têm validade para toda a área referida. Outros aspectos parecem particulares do campo mais imediato, qual seja, a cidade de Itaparica e seus arredores. Mesmo quando um elemento resulta original na pesquisa, pode estar compondo, no momento ou adiante, um quadro mais amplo, correspondente a um contexto regional. Cabe ressaltar a importância da interdisciplinaridade como postura desejável diante da insuficiência das disciplinas isoladas para dar conta da complexidade dos objetos de pesquisa. Aqui, o princípio da interdisciplinaridade está bem afastado da justaposição ou simples complementaridade. O próprio objeto desta pesquisa, uma prática cultural que organiza representações em linguagem religiosa e artística, demanda um diálogo epistemológico permanente aos efeitos de sua interpretação. A hipótese construída ao longo dos últimos meses pela equipe que desenvolve a pesquisa é que o culto ao caboclo Tupinambá vem se constituindo historicamente como uma estratégia central de composição do corpus de referências de identidade cultivado em Itaparica, em virtude da dinâmica de negociações nos âmbitos étnico e político, visibilizados nos planos cívico, religioso e artístico. No sentido de experimentar esta hipótese e considerando as semelhanças e a origem comum dos festejos cívico-religiosos do caboclo na região considerada, convém colocar brevemente alguns elementos de interlocução em torno da história das comemorações do 2 de

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Julho em Salvador, num esforço de compor o próprio ambiente de reflexão em que procuramos construir o nosso objeto. Wlamyra Albuquerque (1996) entende a festa dos caboclos no 2 de Julho como uma apropriação das figuras dos caboclos pela tradição dos orixás. Através desta assimilação, o povo de Salvador e do Recôncavo passa a se reconhecer e se autoproclamar brasileiro, devendo reverência e homenagem aos deuses da terra, que haviam precedido os orixás. Esta intuição já está presente em Jocélio Teles dos Santos, para quem o caboclo seria “menos brasileiro do que aparenta e mais „africano‟ do que poderia se crer” (1995:147). Em seu estudo sobre a integração do caboclo ao mundo do candomblé, o antropólogo segue na direção de que as construções simbólicas do caboclo, neste âmbito, “não podem ser vistas exclusivamente como resultantes de um sistema religioso, mas na relação que esse sistema mantém com um sistema de valores que se encontra na sociedade envolvente” (idem, ibidem). O historiador canadense Hendrick Kraay (2000) coloca a pergunta pela categoria social a partir da qual o povo pobre e mestiço da Bahia comemora a independência através do culto aos caboclos. Para o autor, o fator étnico cede relativamente diante do fator classe. O índio mais precisamente, na sua versão de caboclo emerge como um ícone de legitimidade / legitimação, sendo que os caboclos se configuram como próximos de Paraguaçu, ancestral indígena emblemática de baianos e brasileiros. O desenvolvimento da festa teria se dado no sentido de desafricanizar os heróis. Este processo, então, guardaria analogias com a construção de uma identidade brasileira a partir do recurso ao índio pelos poetas e romancistas românticos. Não é difícil observar o saldo desta negociação: os candomblés de caboclo seguem vigorosamente sua trajetória, multiplicando-se independentemente das casas de candomblé que se estabeleceram como guardiãs da ortodoxia e “impregnando” com sua presença – por vezes cômica, por vezes embaraçosa, por vezes ainda salvadora o próprio candomblé dito simplesmente “tradicional”, ou seja, canônico. Os pesquisadores que se detiveram sobre a Guerra da Independência da Bahia como tanto gostam de chamar os baianos o processo que se estende de junho de 1822 a julho de 1823 e culminou na consolidação da pertença da província ao novo Estado do Brasil remarcam a elevada conflitividade da sociedade do Recôncavo naquele período. É o caso de João Reis no seu estudo sobre as Revoltas dos Malês (2003). Sérgio Guerra Filho insiste em discutir a pouca conta em que eram tidas as camadas populares mesmo quando sua participação na definição do resultado da guerra foi

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fundamental. São recorrentes as evidências de que os soldados recrutados para a campanha demandavam, após a independência, sua incorporação à primeira linha (2004:123). A insatisfação diante do não cumprimento das promessas dos senhores e/ou da não realização de seus sonhos de brasileiros levou a alguns levantes como o dos Periquitos, estudado por Luís Henrique Dias Tavares (1990). De fato, o exército brasileiro que recebeu o reforço dos mercenários não era composto apenas de negros e mestiços, como também de índios, como aponta Braz do Amaral (1957). Guerra Filho aponta, como um dos resultados da vitória, “a formação de uma identidade nacional brasileiracomo sucessora de outras identidades coletivas e sua relação com o antilusitanismo(2004, p.132). A complexidade do componente étnico da guerra é atestada por Luiz Henrique Tavares (1982; 2003) e Ubiratan Castro Araújo (2001). João Reis (1989) ressalta a significância do vocabulário que designava os tipos humanos conforme a tonalidade da cor da pele. Algumas fontes da época não deixam dúvidas quanto ao estado de guerra que se experimentava para aquém e para além das campanhas propriamente militares. A dona de engenho Maria Bárbara França, em diversas cartas ao marido em Portugal, registrou o clima:

“Eu não nego que a mulatada seja infame. É. Pois são soberbos, mas, como temos boas leis, demos-lhes quem os escute e castigue. Já saberás que a crioulada da Cachoeira fez requerimentos para serem livres. Estão tolos, mas a chicote tratam-se” (França, 1980:36). O Tenente José Joaquim de Almeida e Arnizáu, herói de guerra cachoeirano, servindo em 1825 no Rio de Janeiro, ao arrolar a Pedro I razões para a criação de um destacamento de polícia em Cachoeira, traça uma demografia da conflitividade (Arnizáu, 1998:41):

Ora, havendo como há 20 engenhos em tão limitado espaço, e tendo cada um deles de 100 cativos para cima, e alguns 200, e havendo de 50 a 80, nas fazendas, não contando inumeráveis agregados, e vadios, salta aos olhos do entendimento a grande necessidade que há de um corpo que mantenha a boa ordem nestes lares, onde a heterogeneidade de cores e condições dá origem a rixas, queixas, roubos, assuadas e assassínios.

Conflitividade, negociação, fluidez e mestiçagem emergem, assim, como feixes conceituais problematizantes para a construção do nosso objeto de pesquisa. Numa configuração histórica tão dinâmica e beligerante, o que poderia ser dito do culto popular ao caboclo como ícone principal da independência? Quem seriam mesmo esses caboclos? Para compreender o estabelecimento do culto cívico-religioso-político aos caboclos, é preciso levar em consideração tanto a dimensão de conflitividade de Salvador e seu Recôncavo naquela terceira década do século XIX quanto a prática da negociação étnica,

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social e política que viabilizou a continuidade da sociedade baiana em tempos de “independência”. O que dizer, então, dos desdobramentos deste culto? Albuquerque (1996) e Kraay (2000) abordam sua flexibilidade no sentido de perdurar. Voltando os olhos para o cortejo dos caboclos em Itaparica no século XIX, a única notícia encontrada é de Ubaldo Osório. Segundo este autor, travava-se alegórico combate entre portugueses e brasileiros no largo em frente ao Forte de São Lourenço, costume que pouco a pouco foi desaparecendo. Quanto ao que mais nos interessa neste Projeto, afirma Osório (1979:548-9):

Até o ano de 1856, o Carro do Caboclo era conduzido, à noite do dia 6 de janeiro, à luz dos fachos de palmas de ouricuri, para as fortificações da Praia Grande, onde permanecia, sob a vigilância dos batalhões populares, acampados nas barracas, nos cômoros de areia, bem defronte à roça de D. Francisca de Barros Galvão, a irmã do Herói que, em 1823, repeliu bravamente, naquela praia, o desembarque tentado pelos lusitanos. No povoado de Amoreiras, até o amanhecer do dia 7, havia o samba de roda e as cantigas sambadas, nas ruas iluminadas pelas carochas de gomos de bambus. Marujos entoavam velhas canções praieiras e improvisavam quadras exaltando a bravura da sua gente.

Progressivamente, os festejos do 7 de Janeiro se resumiriam à cidade de Itaparica. A propósito, a pesquisadora em Artes Cênicas Célia Gomes (1995) relata cuidadosamente a diversidade de folguedos em Itaparica, sendo notável a quantidade de grupos de reisado em diversos pontos da ilha, alguns deles bem próximos da cidade de Itaparica. As interações de matrizes culturais na festa do caboclo de Itaparica foram tratadas por Renato Almeida já na década de 1940, sendo que o autor não se reporta a uma pesquisa de campo, mas aos dados da Secretaria da Educação (1942:275):

Embora a forma externa do auto seja ameríndia, a mistura afro-brasileira é sensível, não só na música como em certas reminiscências dos reinados negros, bem assim do Capitão do Mato apresentado como inimigo, e que talvez se refira aos temíveis preadores de índios. Em todo caso, é sincretismo muito explicável, por se tratar de folguedo do Recôncavo Baiano, a zona de maior influência africana no Brasil, pois este bailado se faz na Cidade de Itaparica .

Por fim, convém observar que é com a Etnomusicologia que se trava outra vertente da nossa interlocução. Trata-se inicialmente de Maria da Conceição Perrone (1995), que sugere a aproximação entre a encenação de Itaparica e a dos Caboclinhos ou Cabocolinhos , presentes em diversas áreas do Brasil, como Pernambuco e Paraíba. Mais recentemente, esta discussão vem se estabelecendo também com Sônia Chada (2006), que abordou os rituais de

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caboclo como radicalmente sincréticos, propondo como explicação de sua especificidade justamente sua capacidade de interfaciar diversas origens e linguagens. Como foi afirmado no início deste texto, a pesquisa está ainda no seu início. No sentido de atender à motivação colocada no enunciado da proposta deste Grupo de Trabalho, poderíamos afunilar uma pergunta; no caso, pelo conteúdo ou pela dimensão religiosa das práticas culturais desenvolvidas por ocasião dos festejos do 7 de Janeiro em Itaparica. Vejamos. Num universo de 51 membros, apenas 2 são iniciados no candomblé; entretanto, em torno do culto ao Caboclo Tupinambá, sentem-se ligados ao mundo dos orixás e caboclos, e assim elaboram uma experiência singular de territorialidade, que lhes confere elevada auto- estima. Participar do cortejo e do auto da aldeia lhes coloca numa situação de destaque na emblematização do caboclo como referência maior da história de Itaparica. Os caboclos se constituem como uma marca da ilha e da cidade de Itaparica e como tal se representam a si próprios. O entusiasmo dos manifestantes é nitidamente percebido pelos circunstantes. Para alguns, trata-se de louvar o Caboclo Tupinambá, e sem o caboclo não teria acontecido a independência de Itaparica. Para outros, trata-se de aparecer bonito na cerimônia tradicional pública mais importante da ilha e revestir-se de orgulho e prestígio diante daqueles que acompanham tanto o cortejo quanto o auto. Para outros ainda, não é preciso iniciar-se no candomblé para participar dos festejos, pois “o caboclo já é do candomblé” (J.V.S., 47 anos). Há quem afirme, sem reservas de ufanismo, que o caboclo Tupinambá “é um caboclo mesmo da ilha de Itaparica, uma coisa importante da história do Brasil” (A.A.S., 19 anos). Para alguns, seja entre os mais idosos, seja entre os mais jovens, “sem o caboclo e o povo de Itaparica, a Bahia ainda seria dos portugueses” (V.R.S., 78 anos). Percebe-se então, tanto na própria forma dos festejos quanto nas interpretações dos próprios participantes, a realização de uma ampla interface de sentidos, que poderiam ser remetidos a categorias como o cívico, o religioso, o étnico, o político e o estético, não necessariamente por ordem de importância. É possível que a noção de auto-estima possa funcionar como um denominador comum nesta dinâmica. Tal crescimento em termos de auto-estima parece ser reforçado pelo prestígio que Os Guaranis vêm alcançando diante dos públicos de outras cidades. Além de participar das comemorações do 2 de Julho em Salvador, todos os anos, o grupo já foi convidado a

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participar dos festejos em outras cidades do Recôncavo e do Baixo Sul, o que vem atestar um reconhecimento de dignidade e o status de referência. A pesquisa segue na perspectiva de contribuir para a compreensão de uma dinâmica tão complexa quanto fascinante como a (re)invenção contínua do caboclo Tupinambá e a inserção da pequena Itaparica no livro da História do Brasil.

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