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INTRODUÇÃO GERAL

A Sagrada Escritura é o conjunto dos livros escritos por inspiração divina, nos quais Deus se revela a si mesmo e nos dá a conhecer o mistério da sua vontade. Divide-se em duas grandes secções: ANTIGO TESTAMENTO, que contém a revelação feita por Deus antes da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo ao mundo; NOVO TESTAMENTO, que contém a revelação feita directamente por Jesus Cristo e transmitida pelos Apóstolos e outros autores sagrados.

A SAGRADA ESCRITURA, PALAVRA DE DEUS AOS HOMENS

Deus falou aos homens através de outros homens por Ele escolhidos para esse fim, mas sobretudo por meio de seu Filho, Jesus Cristo (Heb 1,1-2). Desse modo, a Palavra de Deus tornou-se linguagem humana sem deixar de ser Palavra de Deus, assim como o Filho de Deus se fez homem sem deixar de ser Deus; e sujeitou-se, tal como Ele, às limitações e condicionamentos da palavra humana, excepto no erro formal. Tais condicionamentos são:

Condicionamentos de tempo Os livros da Bíblia são fruto do seu tempo. Por isso, se quisermos entender a mensagem de Deus, temos de conhecer o tempo e as circunstâncias históricas em que foi escrito cada um deles. Condicionamentos de espaço Os livros da Bíblia nasceram em vários lugares geográficos, cada qual com o seu ambiente próprio: uns na Palestina, outros no mundo helénico e outros no Império Romano. E um livro também é filho do meio em que nasceu. Condicionamentos de raça Os livros da Bíblia procedem quase todos do povo semita, mais concretamente do povo judeu, que tem um modo de pensar e de se exprimir muito diferente do nosso. É preciso conhecê-lo, para entender a Palavra de Deus. Condicionamentos de cultura Os livros da Bíblia são obra de muitos autores com mentalidade e cultura diferentes, às vezes distanciados entre si por vários séculos. Tudo isso marcou a Bíblia e deve ser tido em conta, pois os autores sagrados, embora escrevessem sob inspiração de Deus, não foram privados da sua personalidade.

TRANSMISSÃO DA PALAVRA DE DEUS A Palavra de Deus, no Antigo Testamento, revelou-se através da Tradição e da Sagrada Escritura. Com Cristo, Palavra em pessoa, começa uma nova Revelação: o Evangelho. Os transmissores desta nova Palavra são os Apóstolos, que dão origem à Tradição Apostólica. Os Evangelistas, mais tarde, inspirados pelo Espírito Santo, recolhem e fixam essa Tradição por escrito, dando assim origem à Sagrada Escritura do Novo Testamento. Por isso, diz o concílio Vaticano II: "A Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura estão intimamente unidas e compenetradas entre si. Com efeito, derivando elas da mesma fonte divina, fazem como que uma coisa só e tendem ao mesmo fim." (Dei Verbum, 9)

INSPIRAÇÃO DA SAGRADA ESCRITURA A Inspiração é o que caracteriza e essencialmente distingue a Bíblia de todos os outros livros humanos. Acreditar na Inspiração da Sagrada Escritura foi sempre um dogma de fé para os Judeus e para a Igreja. Os Judeus dividiam a Bíblia em três partes: a Lei (Torá), que era considerada a Palavra de Deus por excelência; os Profetas (Nebi'îm), que falaram em nome de Deus; e os Escritos (Ketubîm), formando todos juntos os "Livros santos" (1 Mac 12,9). Jesus Cristo e os Apóstolos citaram-nos como Palavra de Deus (Act 1,16; 4,25). Mas São Paulo e São Pedro é que nos transmitem os dois textos clássicos sobre esta verdade. Paulo diz: "Toda a Escritura é divinamente inspirada" (theopneustos: 2 Tm 3,14-17); e Pedro afirma:

"Mas sabei, antes de mais, que nenhuma profecia foi proferida pela vontade dos homens. Inspirados pelo Espírito Santo, é que os homens santos falaram em nome de Deus." (2 Pe 1,21) Os Santos Padres também são unânimes em afirmar que Deus é o autor da Sagrada Escritura e que o hagiógrafo é instrumento de Deus. E a Igreja manifestou a sua fé nesta verdade em vários concílios e documentos. O último e o mais expressivo é a constituição dogmática Dei Verbum (DV), do concílio Vaticano II, que diz: "As coisas reveladas por Deus que se encontram escritas na Sagrada Escritura foram consignadas por inspiração do Espírito Santo." E mais adiante, falando da natureza desta inspiração, acrescenta: "porque escritos por inspiração do Espírito Santo, têm a Deus por autor e, como tais, foram confiados à Igreja. Todavia, para escrever os livros sagrados, Deus escolheu e serviu-se de homens na posse das suas faculdades e capacidades para que, agindo Deus neles e por eles, pusessem por escrito, como verdadeiros autores, tudo aquilo e só aquilo que Ele queria." (n.° 11) Portanto, segundo a constituição Dei Verbum, os livros sagrados são produto da acção transcendente de Deus que suscita, dirige e envolve inteiramente a actividade humana, agindo em constante coordenação com ela. Esta acção divina estendeu-se a todas as faculdades e actos do homem que concorreram para a produção dos livros santos, e abrange todas as partes dos livros e todos os géneros literários que neles se encontram. No entanto, longe de tornar o hagiógrafo passivo, tal acção favorece a sua livre espontaneidade; porque o homem é tanto mais livre e activo quanto mais o Espírito Santo o acompanha. Deus, quando actua no homem, fá-lo sempre com suma delicadeza, respeitando a sua liberdade e a sua maneira de ser, mas valorizando-as e potenciando-as. A Bíblia não é, pois, fruto de um ditado mecânico, mas uma obra em que Deus e o homem intervêm: Deus com as suas perfeições infinitas, e o homem com as suas faculdades e conforme a sua capacidade. Por isso, os dois são verdadeiros autores dos livros sagrados.

A VERDADE DA SAGRADA ESCRITURA Diz também a Dei Verbum: "E assim como tudo quanto afirmam os autores inspirados ou hagiógrafos deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo, por isso mesmo se deve aceitar que os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro, a verdade que Deus, causa da nossa salvação, quis que fosse consignada nas Sagradas Letras." (DV, 11) A verdade da Bíblia é a consequência imediata da Inspiração. Com efeito, se Deus é o autor da Bíblia, se toda ela é obra do Espírito Santo, não pode conter qualquer afirmação que vá contra a verdade e a santidade do mesmo

Deus. No entanto, não podemos buscar na Bíblia qualquer verdade, mas só a que interessa à salvação do homem, ou seja, a verdade religiosa, e só aquela que Deus, causa da nossa salvação, quis que fosse registada nas Escrituras. Trata-se de uma verdade não puramente especulativa, mas concreta, que não se dirige apenas à inteligência, mas ao homem todo; uma verdade que é preciso descobrir através dos muitos e variados géneros literários; uma verdade progressiva, revelada por etapas, obedecendo à pedagogia de Deus em relação aos homens; uma verdade que está em toda a Bíblia e não apenas num livro ou num texto isolado. Por isso, a verdade dos textos sagrados só resulta da totalidade da Bíblia, como a santidade da Igreja resulta do conjunto dos baptizados e não de cada um individualmente.

A INTERPRETAÇÃO DA SAGRADA ESCRITURA "Porque Deus na Sagrada Escritura falou por meio dos homens e à maneira humana, o intérprete da Sagrada Escritura, para saber o que Ele quis comunicar-nos, deve investigar com atenção o que os hagiógrafos realmente quiseram significar e o que aprouve a Deus manifestar por meio das suas palavras." (DV, 12) Para esse fim, o Vaticano II lembra que é preciso ter em conta os géneros literários, os sentidos bíblicos e certas regras teológicas de interpretação.

Os géneros literários. A verdade é proposta e expressa de um modo ou de outro, conforme se trate de géneros históricos, proféticos, poéticos, etc. Estes géneros devem ser entendidos como os entenderam os povos semitas ou helenistas, no tempo em que foi escrito cada um dos livros (DV, 12).

Os sentidos bíblicos. Tradicionalmente, têm-se distinguido na Bíblia os sentidos seguintes: literal, pleno, típico e acomodatício.

O Sentido literal é aquele que o autor quis dar ao texto. Pode ser próprio e impróprio, figurado ou metafórico. O próprio é aquele em que as palavras são tomadas no seu significado corrente; o impróprio é aquele em que as palavras são tomadas no sentido conotativo ou figurado, por exemplo: "Vós sois o sal da terra." (Mt 5,13) O Sentido pleno é o significado mais profundo do texto; sendo inicialmente pretendido pelo autor divino, só se descobre à luz de uma revelação posterior, especialmente à luz do Novo Testamento. Este sentido resulta do facto de a Bíblia ter dois autores: Deus, para quem o futuro é presente, e que, ao inspirar um determinado texto, já conhece toda a revelação posterior nele implícita; e o hagiógrafo ou autor humano, que apenas conhece e tem presente o mistério que Deus quer revelar nesse determinado momento histórico da escrita. Exemplo claro disto são as profecias messiânicas do Antigo Testamento: para nós são claras, porque o Messias já veio; mas o significado que hoje lhes atribuímos não foi atingido plenamente pelo autor sagrado, e só Deus o teve presente desde o princípio. O Sentido típico dá-se quando certos acontecimentos, instituições, pessoas, etc., por vontade de Deus, representam e prefiguram acontecimentos, instituições e pessoas de ordem superior. Assim, a serpente de bronze erguida por Moisés (Nm 21,8-9) é figura de Cristo crucificado (ver Jo 3,14); a passagem do Mar Vermelho (Ex 14,22) é figura do Baptismo (1 Cor 10,2); o maná (Ex 16,14) é figura da Eucaristia (Jo 6). O Sentido acomodatício consiste em dar às palavras da Sagrada Escritura um sentido diferente daquele que o autor lhes quis dar, devido a uma certa semelhança entre a passagem bíblica e a sua aplicação. Este sentido é muito usado na liturgia e na pregação. Temos um exemplo claro nas festas de Nossa Senhora, em que a Liturgia relaciona com a Virgem Maria textos que se referem à sabedoria divina (Pr 8,22-36; Sir 24,14-16).

Regras teológicas de interpretação. Além do já aduzido, o Concílio aponta estes princípios que devem reger a interpretação da Sagrada Escritura: "A Sagrada Escritura deve ser lida e interpretada com o mesmo Espírito com que foi escrita" (DV,12); ou seja: o mesmo Espírito que inspirou os livros santos deve iluminar os teólogos que, docilmente e com espírito de fé, se dedicam a interpretá-los. Cabe aos exegetas, "de harmonia com estas regras, esforçar-se por entender e expor mais profundamente o sentido da Escritura, para que, mercê deste estudo preparatório, vá amadurecendo o juízo da Igreja." A função dos exegetas é preparar e não substituir o juízo último da Igreja, pois só esta "goza do divino mandato e do ministério de guardar e interpretar a Palavra de Deus" (DV,12).

OS LIVROS DA SAGRADA ESCRITURA Os livros da Sagrada Escritura, tanto do Antigo como do Novo Testamento, agrupam-se em três conjuntos: históricos, sapienciais e proféticos, conforme o género literário que neles predomina (Ver p. 2135-2136). Nesta obra, cada conjunto e cada livro são precedidos de uma Introdução. Nela são dadas todas as informações necessárias para enquadrar o texto no seu contexto histórico, geográfico e literário e se apontam os seus objectivos e a sua mensagem teológica.

UNIÃO DO ANTIGO E DO NOVO TESTAMENTO O Antigo Testamento é a história da revelação de Deus ao povo de Israel, narrada e explicada pelos autores sagrados e escrita nos livros da Antiga Aliança, como verdadeira Palavra de Deus. Estava orientado, "sobretudo, a preparar, a anunciar profeticamente e a significar com várias figuras a vinda de Cristo, Redentor universal, e a do Reino messiânico" (DV,15). Embora a sua missão fosse preparar o povo de Israel para a vinda de Cristo, mantém esse mesmo sentido para os homens de hoje. "A

Lei (AT) foi nosso pedagogo para nos conduzir a Cristo" (Gl 3,24). A experiência do povo de Israel é útil também para quem continua à procura de Cristo. Todos temos necessidade de nos preparar para os novos adventos de Cristo, que se realizam na Liturgia e na vida cristã, rumo à Parusia do Senhor. O Antigo Testamento dá-nos a conhecer Deus e o ser humano e o modo como Deus se relaciona com o homem e a mulher. Porque esse conhecimento está adaptado às pessoas a quem se dirige, no Antigo Testamento

encontram-

-se "imperfeições e coisas restritas a um tempo determinado." Realmente, Deus tolerou modos imperfeitos de observar a lei moral: poligamia, divórcio, vingança, etc. Mas isso manifesta a pedagogia divina, que vai conduzindo o povo do imperfeito ao mais perfeito. Por isso, o Antigo Testamento conduz à perfeição do Novo Testamento. Para além disso, o Antigo Testamento já exprime um vivo sentido de Deus, contém doutrinas preciosas sobre Deus e a sua transcendência, sobre a criação, sobre o ser humano enquanto imagem de Deus, sobre a Providência, etc.; e oferece-nos um tesouro admirável de orações. Por isso, "os cristãos devem aceitar devotamente esses mesmos livros", como raiz do Novo Testamento e do Cristianismo (DV,15).

A SAGRADA ESCRITURA NA IGREJA A constituição Dei Verbum diz que "a Igreja sempre venerou as divinas Escrituras a par com o próprio Corpo de Cristo"; que sempre as considerou e continua a considerar, juntamente com a Sagrada Tradição, como regra suprema da sua fé; e, por último, chama-lhes "a fonte pura e perene da vida espiritual" (n.° 21). Mas, para ser realmente a fonte da vida espiritual, é preciso que a Bíblia volte a ser "a alma da teologia", da pregação, da pastoral, da catequese e de toda a instrução cristã (DV, 24). Que todos, sacerdotes, religiosos e fiéis mantenham um contacto íntimo e constante com os Livros sagrados através da leitura assídua, do estudo e da meditação. "Porque desconhecer as Escrituras é desconhecer a Cristo" (São Jerónimo). Para isso, são precisas traduções acompanhadas das notas explicativas correspondentes, em todas as línguas vivas, para que cada um as possa ler na sua língua materna (DV, 25). Para estar cada vez mais em consonância com esta doutrina da Igreja, e porque as ciências bíblicas e da linguagem evoluem, é que a DIFUSORA BÍBLICA meteu ombros a esta edição da Bíblia Sagrada, profundamente revista e actualizada tanto na versão do texto como nas introduções e notas.

COMO UTILIZAR ESTA BÍBLIA Seguem-se algumas sugestões que ajudam os leitores a tirarem o máximo proveito dos vários subsídios incluídos nesta edição da Bíblia Sagrada.

Divisão da Bíblia. Tanto o Antigo como o Novo Testamento dividem-se em livros e estes, em capítulos; mas, para encontrar uma simples frase na Bíblia, os capítulos estão divididos em versículos (v.), muitas vezes formados apenas por uma frase. O capítulo aparece destacado, em algarismos maiores, no início do texto; a numeração dos versículos encontra-se, em algarismos mais reduzidos, no interior do texto. Na cabeça da página está indicado ao centro, o nome do livro por extenso; no ângulo exterior, esse nome em abreviatura e o número do capítulo ou capítulos correspondentes a essa página, por exemplo: Dt 3, correspondente ao capítulo 3 do livro do Deuteronómio.

Introduções. Além desta Introdução Geral, a presente edição também inclui introduções ao Antigo Testamento e ao Novo Testamento, aos grandes conjuntos de livros (Pentateuco, Históricos, Sapienciais, Proféticos, Evangelhos e Actos, Cartas de São Paulo e Cartas Católicas) e a cada livro, a fim de o situar no seu tempo e género literário e melhor se entender a sua mensagem.

Os títulos. Aparecem ao longo de toda a Bíblia, em caracteres negros, em maiúscula ou minúscula. São da responsabilidade dos tradutores e procuram adiantar ao leitor uma ideia geral do texto que vai ler. Como não são Palavra de Deus, não devem ser lidos ao proclamar a Palavra em público.

Notas explicativas. Encontram-se ao fundo da página e são importantes para entender o sentido e o contexto histórico-literário ou religioso de um capítulo ou versículo. Muitas referem-se a um texto maior; outras, a uma simples frase ou palavra.

O asterisco. Sempre que este sinal (*) aparece junto de um versículo, dentro do texto, remete para uma nota explicativa ou uma referência a outros textos bíblicos ("lugares paralelos" ou textos que têm a mesma ideia), no fundo da página.

Citações em itálico. Quando dentro de um texto do Novo Testamento é feita uma citação do Antigo, esta aparece escrita em itálico.

Suplementos. No final desta Bíblia encontram-se vários Suplementos, que proporcionam ao leitor um conhecimento global de certos temas ou explicam melhor alguns termos técnicos ou de matérias concretas que para lá são remetidos pelas notas de rodapé.

Índice de Notas. A presente edição está valorizada por um Índice com os principais temas desenvolvidos nas notas desta Bíblia. Procurando o lugar citado à frente de cada termo encontrará uma nota explicativa.

Índice Bíblico-Pastoral. Oferece temas variados para utilização pastoral em grupos de estudo e oração ou para simples cultura bíblica. A partir da leitura e do estudo das várias referências feitas em cada chamada, pode-se desenvolver um desses temas a vários níveis ou ficar com uma ideia global da sua revelação em toda a Bíblia, mediante uma analogia da fé.

Leccionário. Também oferecemos, no final, um Leccionário Dominical e Festivo que indica as Leituras bíblicas a fazer nos Domingos e Festas, ao longo de cada um dos três ciclos do Ano Litúrgico.

Para entender uma citação bíblica

A ordem dos elementos é: o nome do livro em abreviatura, o número do capítulo e o número do versículo. Assim, Mt 5,12 corresponde ao Evangelho segundo São Mateus, capítulo 5, versículo 12. Se o livro só tiver um capítulo, aparece apenas o livro e o versículo. Assim, 2 Jo 12 para indicar 2.ª Carta de João, versículo 12. Quando são citados vários versículos ou capítulos seguidos, estão unidos por um hífen: Mt 5,12-17 (Mateus, capítulo 5, versículos 12 a 17); Mt 5-6 (Mateus, capítulos 5 e 6); Mt 5,20-6,13 (Mateus do capítulo 5, versículo 20 ao capítulo 6, versículo 13, sem qualquer interrupção). Quando são citados vários versículos do mesmo capítulo, mas não todos seguidos, ficam separados por um ponto: Mt 5,12.14-17 (a citação pára no v.12 e continua do v.14 ao 17 inclusive, não incluindo o versículo 13). Se forem citados diferentes capítulos do mesmo livro, tais capítulos vão separados por um ponto e vírgula mas não é repetido o nome do livro: Mt 5,12.21-23; 6,1-8 (Mateus, capítulo 5, versículo 12 e também do v. 21 a 23 inclusive; e ainda o capítulo 6, do versículo 1 a 8 inclusive). Como se pode ver, a vírgula vai sempre depois do capítulo, a separá-lo dos versículos.

ABREVIATURAS DOS LIVROS DA SAGRADA ESCRITURA

Abd - Profeta Abdias

Js-

Josué

Act- Actos dos Apóstolos

Jz-

Juízes

Ag - Profeta Ageu

Lc- Evangelho de S. Lucas

Am - Profeta Amós

Lm-

Lamentações

Ap - Apocalipse de João

Lv-

Levítico

Br - Profeta Baruc Cl - Carta aos Colossenses Ct - Cântico dos Cânticos 1 Cor - 1.ª Carta aos Coríntios 2 Cor - 2.ª Carta aos Coríntios

1 Mac- 1.° Livro dos Macabeus 2 Mac- 2.° Livro dos Macabeus Mc- Evangelho de S. Marcos Ml- Profeta Malaquias Mq- Profeta Miqueias

1

Cr - 1.° Livro das Crónicas

Mt- Evangelho de S. Mateus

2

Cr - 2.° Livro das Crónicas

Na- Profeta Naum

Dn - Profeta Daniel

Ne-

Neemias

Dt

- Deuteronómio

Nm-

Números

Ecl - Eclesiastes (ou Qohélet)

Os- Profeta Oseias

Ef - Carta aos Efésios

  • 1 Pe- 1.° Carta de S. Pedro

Esd

- Esdras

  • 2 Pe- 2.° Carta de S. Pedro

 

Est

- Ester

Pr-

Provérbios

Ex

- Êxodo

Rm- Carta aos Romanos

Ez - Profeta Ezequiel

  • 1 Rs- 1.° Livro dos Reis

Fl - Carta aos Filipenses

  • 2 Rs- 2.° Livro dos Reis

Flm - Carta a Filémon

Rt-

Rute

Gl - Carta aos Gálatas

Sb-

Sabedoria

Gn - Génesis Hab - Profeta Habacuc Heb - Carta aos Hebreus

Sf- Profeta Sofonias Sir- Ben Sira (antigo Eclesiástico)

Is - Profeta Isaías

Sl-

Salmos

Jb - Job

  • 1 Sm- 1.° Livro de Samuel

Jd - Carta de Judas

  • 2 Sm- 2.° Livro de Samuel

Jdt - Judite

Tb-

Tobite

Jl - Profeta Joel

Tg- Carta de S. Tiago

Jn - Profeta Jonas

  • 1 Tm- 1.ª Carta a Timóteo

Jo - Evangelho de S. João

  • 2 Tm- 2.ª Carta a Timóteo

1

Jo - 1.ª Carta de S. João

  • 1 Ts- 1.ª Carta aos Tessalonicenses

2

Jo - 2.ª Carta de S. João

  • 2 Ts- 2.ª Carta aos Tessalonicenses

3

Jo - 3.ª Carta de S. João Jr - Profeta Jeremias

Tt- Carta a Tito Zc- Profeta Zacarias

Antigo Testamento

conheceu a forma definitiva muitos séculos depois da sua morte (séc. V a.C.); a literatura profética, iniciada com Amós e Oseias (séc. VIII a.C.), terminou com Joel e Zacarias (séc. IV a.C.); os livros históricos, embora contendo tradições do séc. XIII a.C., foram escritos aproximadamente entre os séc. V e I a.C.; e a literatura sapiencial, iniciada com Salomão (séc. X a.C.), só a partir do séc. V a.C. recebeu a sua forma definitiva e alguns livros são do limiar do Novo Testamento. Portanto, a ordem dos livros que a Bíblia apresenta não é histórica, mas lógica; e a atribuição do Pentateuco a Moisés, dos Salmos a David, dos livros sapienciais a Salomão e dos 66 capítulos do Livro de Isaías a este profeta não corresponde à realidade, mas é uma simplificação da História. Se quisermos captar o verdadeiro sentido dos textos, não podemos contentar-nos com esta simplificação, pois cada um deles tem o seu contexto vivo, do qual não pode ser separado. Por isso, antes de passarmos a outros problemas, vamos tentar resumir a história da formação dos livros sagrados.

HISTÓRIA LITERÁRIA DO ANTIGO TESTAMENTO A revelação de Deus à humanidade transmitiu-se, durante muitos séculos, através da tradição oral. A Escritura só começa a ganhar corpo a partir de David. Já antes de David existiam documentos orais ou escritos, como o Código da Aliança (Ex 20,22-23,33), o Decálogo (Ex 20,2- 17; Dt 5,6-21), o poema de Débora (Jz 5,1-31), o cântico de Moisés (Ex 15,1-18). É também a partir do reinado de David-Salomão que se escreve uma das quatro "fontes" que se integrou no Pentateuco (a Javista), se inicia o Saltério por meio de David e a literatura sapiencial recebe o seu primeiro impulso. Com a morte de Salomão, o reino divide-se em Israel, ou Reino do Norte, e Judá, ou Reino do Sul. A história destes dois reinos encontra-se nos livros dos Reis. Em Israel aparecem os profetas Elias e Eliseu, defensores do culto a Javé; no tempo de Jeroboão II (783-743 a.C.), Amós e Oseias e a tradição "Eloísta" do Pentateuco. Em Judá, pouco depois de Amós e Oseias, surgem Isaías e Miqueias (ao profeta Isaías pertence só a primeira parte do Livro de Isaías: cap.1-39). Em 722 a.C., o Reino do Norte cai sob o poder da Assíria e muitos habitantes fogem para Judá, levando consigo escritos e tradições sagradas; deste modo, unem-se duas das tradições do Pentateuco: a Javista e a Eloísta (Jeovista). No tempo do rei Josias (640-609 a.C.), restaura-se o templo e procede-se a uma reforma religiosa: o Reino do Norte tinha desaparecido e o do Sul estava a ser castigado, porque tinham sido infiéis a Javé. É neste período e com esta perspectiva que aparecem os livros dos Juízes, Samuel e Reis. Em 587 a.C., Nabucodonosor avança sobre Jerusalém, toma a cidade e leva para Babilónia, como reféns, muitos dos seus habitantes. É um momento importante na História do povo de Deus. Os sacerdotes, longe do templo, voltam às tradições antigas, dando-lhes um cunho litúrgico e cultual. São ainda eles que, depois do Deuteronómio, dão ao Pentateuco a sua forma definitiva. Os judeus que tinham ficado na Palestina vêm chorar sobre as ruínas do templo e assim nascem as Lamentações, que a Vulgata, indevidamente, atribuiu a Jeremias. Ao mesmo tempo, um profeta anónimo, discípulo de Isaías (Segundo Isaías), conforta os desterrados na Babilónia (Is 40-55). Depois do regresso da Babilónia, são compostos os capítulos 56-66 de Isaías (Terceiro Isaías) e, no séc. V a.C., completa-se a obra com os capítulos 24-27 e 34-35 (Apocalipse de Isaías). Em 538 a.C., de novo em Jerusalém, o Deuteronómio separa-se dos livros históricos e une-se ao Pentateuco; aparece Rute e os profetas Ageu e Zacarias. É também neste século que floresce a literatura sapiencial, editando- se o livro dos Provérbios e, pouco depois, o Livro de Job. Com a reconstrução do templo, nascem novos salmos e adaptam-se os antigos à nova liturgia. No séc. IV a.C., já deveria estar completo o Saltério; nasce o Cântico dos Cânticos; escreve-se Jonas, que canta a providência e a salvação universal de Deus, e Tobias, que exalta a providência de cada dia. A historiografia deste século está representada por 4 livros: 1 e 2 das Crónicas (ou Paralipómenos), Esdras e Neemias, que são obra de um só autor, chamado Cronista. No ano 333 a.C., com a conquista da Palestina por Alexandre Magno, começa, na literatura bíblica, o período helenista. Como reacção, nasce um novo género literário tipicamente hebreu: o midrache bíblico. Pertencem a este período o Eclesiastes (ou Qohélet) e Ben Sira (ou Eclesiástico). Em 175 a.C., Antíoco IV obriga todos os seus súbditos a adoptar a vida e a religião dos gregos. Esta medida provoca a revolta dos Macabeus. É neste ambiente que Daniel publica um livro apocalíptico, para animar os seus compatriotas na luta. Anos depois (100 a.C.), aparece o livro de Ester, 1.° e 2.° dos Macabeus e o livro de Judite. Enquanto os judeus da Palestina resistiam à helenização, alguns judeus de Alexandria procuraram assimilar o pensamento grego, sem sacrificar os seus valores próprios. Esta atitude exprime-se no livro da Sabedoria.

CÂNON DO ANTIGO TESTAMENTO O Antigo Testamento é a parte mais longa da Bíblia. Constitui a lista oficial ou cânon de livros aceites como inspirados e referentes ao tempo da religião hebraica anterior ao cristianismo. Mas esta lista ou Cânon da Sagrada Escritura conheceu algumas divergências, já desde os tempos antigos. Tais divergências nascem das próprias vicissitudes da formação da Bíblia entre os antigos hebreus. A Bíblia que tem a lista mais longa de livros, chamada dos Setenta, é, na verdade, a mais antiga e provém do judaísmo de Alexandria. Apresenta uma tradução dos textos bíblicos para o grego, feita nos três séculos imediatamente anteriores ao cristianismo. Curiosamente, a lista mais recente é aquela que nos propõe apenas o texto original hebraico; a lista final dos livros desta Bíblia Hebraica foi fixada por uma assembleia de rabinos em Jâmnia, só pelos finais do séc. I a.C., e os critérios aí seguidos levaram a diminuir a lista de livros até então reconhecidos como pertencendo à Bíblia. Ficaram assim de fora, no todo ou em parte, alguns livros incluídos há séculos na Bíblia do judaísmo de Alexandria. Por várias circunstâncias, nomeadamente pelo facto de estar na língua grega de uso internacional no Mediterrâneo

oriental, depressa o cristianismo fez sua a Bíblia Grega da Tradução dos Setenta (LXX) e sempre aceitou sem grandes dificuldades o cânon do Antigo Testamento por ela apresentado. Entre os cristãos, a posição a tomar diante destes dois cânones só foi discutida mais significativamente depois da Reforma Protestante. Hoje em dia, as confissões protestantes em geral só aceitam os livros que pertencem ao cânon hebraico, o chamado "cânon curto". Os livros que se encontram a mais na lista grega judaica e cristã antiga são chamados deuterocanónicos ("apócrifos", entre os protestantes) ou pertencentes ao "segundo cânon", chamado "cânon longo". Convencionou- se dar o nome de "primeiro cânon" à lista de livros que são coincidentes tanto na Bíblia Hebraica como na Bíblia Grega - livros chamados protocanónicos (ver p. 2135-2136).

NOMES DE DEUS Nesta Bíblia adoptamos diferentes termos para os diferentes nomes de Deus no AT hebraico.

NOMES DE DEUS

Javé (Yhwh):

-

SENHOR (só no texto)

'Adonay:

-

Senhor

'El:

-

Deus

'Elohim:

-

Deus

'Eliôn:

-

altíssimo

'El 'Eliôn:

-

Deus altíssimo

… Seba'ot:

-

… do universo

Shadday:

-

supremo

'El Shadday:

-

Deus Supremo

'Adonay Yhwh:

-

Senhor DEUS

CONTEÚDOS E SECÇÕES A actual lista de livros do Antigo Testamento foi, ao longo da sua história e tradição, organizada segundo princípios diferentes, daí resultando classificações que não são coincidentes. As duas principais classificações representam, ainda hoje, as duas tradições da Bíblia Hebraica e da Bíblia Grega, no judaísmo antigo. A primeira divide o Antigo Testamento em Torá (Lei), Nebi'îm (Profetas) e Ketubîm (Escritos); a segunda divide-o em Pentateuco, Históricos, Sapienciais e Proféticos. Apesar de as modernas traduções tenderem a utilizar sobretudo o texto hebraico da Bíblia, para estas divisões e para o ordenamento dos livros dentro do Antigo Testamento, é muito mais frequente seguirem o esquema da segunda, ou dos Setenta. É a que seguimos nesta edição, fazendo anteceder cada uma destas secções de uma Introdução própria.

Novo Testamento

NOVO TESTAMENTO é uma expressão que vem do latim: indica os livros da Bíblia escritos depois de Cristo e contrapõe-se a Antigo Testamento, ou seja, aos livros da Bíblia escritos antes de Cristo. Para designar os dois "Testamentos", melhor seria a expressão "Antiga Aliança" e "Nova Aliança" (berîth, em hebraico, e diatheke, em grego). De facto, a ideia teológica de aliança é fundamental na dinâmica interna da Bíblia, como Palavra de Deus para todos os crentes, e percorre-a do primeiro livro ao último. O Antigo Testamento resume-a nesta expressão:

"Vós sereis o meu povo e Eu serei o vosso Deus." (Lv 26,12; Jr 7,23; Ez 37,27) Mas esta Aliança era provisória, apontava para a Nova Aliança (Jr 31,31-34) que foi selada com o sangue de Jesus Cristo (Mt 26,27; Mc 14,24; Lc 22,20). A este respeito, diz o Concílio Vaticano II: "A Palavra de Deus, que é poder de Deus para a salvação de todos os crentes, apresenta-se e manifesta a sua virtude de um modo eminente nos escritos do Novo Testamento. Pois, quando chegou a plenitude dos tempos, Cristo estabeleceu o Reino de Deus na

terra, manifestou o seu Pai e a sua própria Pessoa com obras e palavras e completou a sua obra mediante a sua

morte, ressurreição e gloriosa ascensão e com a missão do Espírito Santo ( testemunho perene e divino os escritos do Novo Testamento." (DV, 17)

...

).

De todas estas coisas são

O NOVO TESTAMENTO E A HISTÓRIA Escritos entre os séc. I-II d.C., em plena civilização greco-romana, os livros do Novo Testamento aparecem-nos na língua "comum" dessa civilização (o grego da koiné) e giram em torno da mensagem de Jesus. Por isso, os Evangelhos são a base de todos os outros livros do Novo Testamento, que, por sua vez, os explicitam e aplicam à vida prática. Mas não podemos compreender suficientemente a mensagem de Jesus nem os escritos que a explicitam, sem conhecermos as circunstâncias históricas em que nasceram. Jesus anunciou a Boa Notícia da salvação apenas oralmente, em aramaico, a língua falada então na Palestina. Os seus discípulos também não escreveram. Preocupava-os mais o anúncio oral - porque urgente - do Evangelho. A atitude de Jesus e dos seus discípulos faz do Cristianismo, não uma "Religião do Livro", mas a religião que se centra numa Pessoa - Jesus Cristo. Depois de terem ouvido a mensagem oral, durante a "primeira geração" cristã, é que os discípulos da "segunda geração" registaram por escrito as palavras e os factos da vida de Jesus para incutir nos cristãos maior fidelidade à mensagem e os conduzir à fé e à salvação em Cristo (Lc 1,1-4; Jo 20,30- 31). Os Evangelhos não são unicamente a "História de Jesus"; são sobretudo a narração escrita das palavras e dos

factos de Jesus de Nazaré, mas já iluminados pelo Cristo ressuscitado, presente na sua Igreja ao longo de muitos anos. A Constituição Dei Verbum (n.° 19) diz que os Evangelhos não são História escrita à maneira do nosso tempo. Os evangelistas fazem uma História em função da fé, da teologia: resumem, interpretam, explicam e redigem factos da vida de Jesus para apresentar uma determinada ideia teológica a uma determinada classe de ouvintes.

AMBIENTE POLÍTICO-RELIGIOSO DO NOVO TESTAMENTO Genericamente falando, o ambiente histórico- geográfico do Novo Testamento é greco-romano. A Palestina cai sob o domínio dos Césares de Roma em 63 a.C. e, com o Império, entra no povo da Bíblia a cultura helenista, que se tornara a cultura mais importante do Império Romano (ver Lc 3,1-2). De facto, um Império geograficamente enorme e com uns cinquenta milhões de habitantes albergava no seu seio multidões de povos, religiões e culturas diferentes (ver Mapas). No entanto, este pluralismo cultural e religioso facilitou, de certo modo, a expansão do Cristianismo, que não tardou em adaptar as suas origens semitas à cultura dominante. Neste campo, deve ser concedido um especial relevo a Paulo (ver Act 15). A Palestina, sobretudo pela mão de Herodes, o Grande (que reinou entre 40 a.C. e 4 a.C.; ver Mt 2,1 nota), entrou também no caminho da civilização helenista, pelas grandes obras, jogos e espectáculos copiados dos helenistas.

Politicamente, as autoridades da Palestina - reis ou procuradores romanos - dependem do Imperador de Roma. Pilatos foi o procurador mais famoso (entre 27 e 37 d.C.), por ter participado activamente no processo e na morte de Jesus. A partir de 66 d.C., começou a revolta contra o poder romano, que foi severamente punida com a destruição de Jerusalém e do Templo, inaugurado poucos anos antes. Com a destruição do Templo, desaparece a classe politicamente mais forte, a classe sacerdotal ou dos Saduceus. Na fuga geral, também a pequena comunidade cristã de Jerusalém, segundo algumas tradições, se refugiou em Péla, na Decápole e noutros locais próximos. A partir de 70 d.C. desaparecem todos os principados da Palestina e o território é governado por administração directa de Roma.

Economicamente, a Palestina, pequeno território junto do deserto, contava pouco na economia do Império. Interessa, no entanto, saber como nela se vivia para compreender a linguagem utilizada por Jesus nos Evangelhos, sobretudo nas parábolas. Trata-se de um território de agricultura mediterrânica (trigo, cevada, figueira, oliveira, videira) e de pastoreio de gado miúdo (ovelhas e cabras). A pequena indústria e o comércio também ocupam um lugar de destaque na vida quotidiana do povo.

Religiosamente, fervilhavam pelo império muitas religiões e cultos pagãos, que gozavam de uma relativa liberdade de culto e de proselitismo. Na Palestina, o templo de Jerusalém concentrava as principais instituições judaicas. Era o centro religioso, o lugar de Deus, do sacerdócio, das festas nacionais; mas também onde as pessoas ligadas ao culto exerciam o poder político. Todo o varão judeu adulto pagava uma didracma por ano de imposto ao Templo. Isso transformava o Templo no centro económico do povo de Deus.

O primeiro Templo tinha sido construído por Salomão no séc. X e destruído pelos Babilónios em 587 a.C

..

O

segundo, mais modesto, foi construído em 515, depois do exílio da Babilónia. Um terceiro Templo foi construído por Herodes, o Grande; inaugurado no ano 60 d.C., foi destruído pelos Romanos no ano 70. Em forma de cubo de uns cinquenta metros e rodeado de vários átrios e portas, era uma obra digna da admiração de qualquer visitante (ver Mt 24,1; Mc 13,1; Jo 2,20). No tempo de Jesus estava na fase de acabamento. A Sinagoga era a instituição religiosa mais importante depois do Templo, aonde todo o bom judeu acudia, cada sábado. O próprio Jesus frequentava a Sinagoga (Lc 4,16-38). Era o lugar onde se proclamava e comentava a Palavra de Deus e se fazia a oração da comunidade; também servia de escola e centro de cultura. Teve especial importância sobretudo na Diáspora. Era chefiada pelos Doutores da Lei e fariseus; e, como não havia sacrifícios, os sacerdotes não tinham nela importância de maior. Interessa aqui referir, com particular relevo, os grupos religiosos de então:

Os Fariseus. Pessoas da classe média e baixa, eram especialmente devotos e cumpridores de todas as normas da Lei de Moisés. A sua origem, sendo embora duvidosa, deve remontar à revolução de Judas Macabeu (séc. II a.C.:

1 Mac 2,42). Considerando Deus como o único Rei de Israel, opunham-se ao poder político instalado: os Romanos e a dinastia de Herodes. Como dominavam na Sinagoga, mediante a sua pregação, levavam o povo a pensar do mesmo modo. Por isso, constituíam o grupo mais numeroso de todos. Jesus denunciou muitas vezes a sua rigidez legalista, que não respeitava o mais importante - o amor - e juntava muitas outras tradições - a chamada Lei oral ou "tradição dos antigos" - às prescrições escritas na Bíblia. Admitiam como canónicos todos os livros da actual Bíblia Hebraica, ou seja, a Lei, os Profetas e outros Escritos (os do AT que estão nas Bíblias católicas, excepto os Dêutero-canónicos). Sendo rígidos na observância da Lei, eram progressistas nas ideias religiosas, pois admitiam, ao contrário dos Saduceus, a ressurreição final e a existência de anjos. Destruído o Templo, no ano 70, com ele desapareceu também a sua organização cultual: os sacerdotes e os sacrifícios. Restava a Lei, a Palavra de Deus que estava na mão dos Fariseus da Sinagoga. E foi a Sinagoga que perpetuou o judaísmo até aos nossos dias. Os Doutores da Lei ou Escribas. Eram o grupo mais ligado ao dos Fariseus. O Novo Testamento refere frequentemente estes rabinos copistas que se tornaram também intérpretes da Lei. Eram os "teólogos" do farisaísmo, embora também houvesse Doutores da Lei entre os Saduceus. Os Saduceus (nome que deriva do Sumo Sacerdote Sadoc) existiam, como partido político, desde o séc. II a.C .. Eram a classe mais ligada ao Templo, por constituírem a classe sacerdotal. Além do sacerdócio, detinham ainda grande parte do poder político, pois, ao contrário dos fariseus, presidiam ao Sinédrio, mediante o Sumo Sacerdote. Politicamente abertos à autoridade romana, eram conservadores em religião, pois, ao contrário dos fariseus, admitiam como canónicos apenas os cinco primeiros livros da Bíblia (Pentateuco) e negavam a existência dos anjos e a ressurreição. Esta classe sacerdotal, no exercício das suas funções, era assistida pelos Levitas, que tinham especial missão no canto litúrgico e nos sacrifícios.

Os Samaritanos. Como o nome indica, eram os habitantes da Samaria, descendentes da população mista - israelita e pagã - que ocupou aquele território depois do exílio dos Samaritanos para Nínive (711 a.C.). Como livros canónicos, só admitiam o Pentateuco (tal como os Saduceus) e tinham um templo no monte Garizim (2 Rs 17,24-28; Esd 4,1-4). Por este motivo, os Judeus (habitantes da Judeia, ao sul) rejeitavam-nos, como se fossem pagãos (Lc 10,25-37; Jo 4,19-22). Os Zelotas. Como o próprio nome indica, zelavam pela independência nacional de Israel contra o poder político estrangeiro. Mas a sua luta era violenta, provocando sucessivos confrontos e atentados contra o exército ocupante. Os Herodianos. Eram os partidários da dinastia de Herodes, o Grande, que governou os diversos territórios da Palestina a partir do ano 37 a.C. sob a suprema autoridade dos Imperadores de Roma (ver Lc 13,31-32).

ESCRITOS E COLECÇÕES DO NOVO TESTAMENTO O Novo Testamento está integrado por 27 livros, divididos em vários grupos ou colecções de escritos: Quatro Evangelhos e Actos dos Apóstolos, Cartas de Paulo, Carta aos Hebreus, Cartas Católicas (Tiago, 1 e 2 de Pedro, 1, 2 e 3 de João, Judas) e Apocalipse de João. Trata-se de uma grande quantidade de livros, e de diferentes géneros literários, o que torna mais difícil a sua compreensão. Por isso é feita uma breve Introdução a cada uma destas colecções. A ordem acima referida é temática e pouco tem a ver com a cronologia. De facto, o escrito mais antigo do Novo Testamento é a Primeira Carta de Paulo aos Tessalonicenses; e o Evangelho de João foi um dos últimos escritos a aparecer. Tais colecções, portanto, estão organizadas segundo a temática e o género literário (ver p. 2136). A TÁBUA CRONOLÓGICA seguinte pode ajudar-nos a situar melhor os diferentes textos sagrados do Novo Testamento nas suas circunstâncias históricas:

Ano

Imperadores

Herodianos e Procuradores

Vidas de Jesus e Paulo

Livros do Novo

romanos

romanos

Testamento

10

Augusto

Herodes o Grande (37-4 a.C.)

Nascimento de Jesus (pelo ano 6 antes daera actual)

d.C.

1

Arquelau (até6 d.C.) Filipe (até ao34) Herodes Antipas

10

Tibério (1-37)

(até ao ano39)

20

Pilatos (26-36)

Baptismo de Jesus(28) Morte e Ressurreição de Jesus (30)

 

Calígula

Herodes Agripa(37-44)

Conversão dePaulo (ano 34)

(37-41)

40

Cláudio (41-54)

1ª Viagemmissionária de Paulo (47)

 

Félix (52-60)

50

Nero (54-68)

2ª Viagemmissionária 3ª Viagemmissionária

1 e 2 Ts (ano 50) Gl; 1 e 2 Cor; Fl; Rm (anos 54-

 

58)

60

Festo (60-62)

Cl; Flm; Fl;

 

4ª Viagem, paraRoma

1 e 2 Tm; Tt (61-

 

67)

 

(60-61)

 

Vespasiano

Morte de Paulo (67)

(69-79)

70

Tito (79-81)

1 Pe; Mc; Mt; Heb; Lc; Act; Cartas Católicas

80

Domiciano

(81-96)

90

Nerva (96-98)

Jo, 1,2 e 3 Jo, 2 Pe e Ap

100

Trajano

(98-117)

COMO E QUANDO SE FORMARAM ESTAS COLECÇÕES? Como dissemos, os discípulos de Jesus só bastante tarde resolveram escrever a sua mensagem. Primeiro, porque o Mestre não lhes apareceu como um escritor, mas como um mensageiro de Deus (Mt 28,16-20). Além disso, a primeira geração cristã vivia num ambiente escatológico, pensando que Jesus estava para vir, glorioso, "sobre as nuvens do céu", conforme a profecia de Daniel (Dn 7,13; Mt 26,64; Mc 14,62; 1 Cor 16,22; 1 Ts 4,17; Ap 22,20). Não admira, pois, que os primeiros

escritos do Cristianismo sejam Cartas, destinadas a resolver problemas concretos de um determinado momento histórico das comunidades (1 Ts 4,13-18). A necessidade de escrever a mensagem de Jesus veio do afastamento cada vez maior da sua fonte - o próprio Jesus de Nazaré (Lc 1,1-4; Jo 20,30-31). A meados da década de 70, já não viveria a quase totalidade das "testemunhas oculares" que tinham visto o Senhor ressuscitado (Lc 1,2; 1 Cor 15,3-8). Esse distanciamento cronológico entre Jesus e as comunidades só poderia ser vencido pela palavra escrita. E assim se formaram as duas grandes colecções ou "corpus" das Cartas de São Paulo e dos Evangelhos. Para a escrita da mensagem de Jesus e para a formação destas colecções muito contribuiu a autoridade dos Apóstolos, em nome dos quais esses textos foram escritos. Grande parte dos livros da Bíblia são pseudónimos, isto é, atribuídos a um personagem importante, para terem melhor aceitação perante o público. Nesse tempo não existia o direito de autor. Sobressai o caso do Apocalipse, de um profeta chamado João, que foi associado ao Apóstolo João. De outro modo, este livro teria tido ainda maiores dificuldades em entrar no Cânon dos livros inspirados. Não podemos esquecer a relação entre o Antigo e o Novo Testamento, pois "Deus, inspirador e autor dos livros de ambos os Testamentos, dispôs sabiamente que o Novo Testamento estivesse escondido no Antigo, e o Antigo se

tornasse claro no Novo (…). Os livros do Antigo Testamento, integralmente assumidos na pregação evangélica,

adquirem e manifestam a sua significação completa no Novo Testamento, ao mesmo tempo que o iluminam e

explicam" (DV 16). Por isso, nesta Bíblia, as citações do AT no NT vão em itálico.

Evangelhos e Actos

Chamamos "Evangelho" a um género literário de escritos do Novo Testamento que tem apenas quatro exemplares na literatura universal: os Evangelhos segundo Mateus, Marcos, Lucas e João. Este género de escritos apareceu depois das Cartas autênticas de Paulo e propôs-se transmitir factos e palavras da vida de Jesus de Nazaré, que as Cartas não tinham ainda referido. Os Evangelhos transmitem-nos factos históricos (Dv 19), mas não de maneira "fria" e "isenta", à maneira da historiografia moderna; os factos e as palavras de Jesus são coloridos pela experiência das comunidades da primeira geração cristã, que vai dos anos 30 a 70.

QUATRO EVANGELHOS É esta experiência das comunidades cristãs que vai influir na tonalidade própria de cada um dos quatro Evangelhos. Por detrás da autoria individual dos Evangelhos - a qual vem da Tradição do séc. II e não se encontra no texto dos Evangelhos - está também uma ou várias comunidades cristãs. A Constituição Dei Verbum não declara que determinado Evangelho pertence a determinado evangelista como seu autor. Afirma

apenas "a origem apostólica dos quatro Evangelhos (

...

)

segundo Mateus, Marcos, Lucas e João" (n.° 18); isto é,

são-lhes atribuídos. A Tradição ligava os Evangelhos de Mateus e de João aos respectivos Apóstolos; o de Lucas a Lucas, companheiro de Paulo; o de Marcos, a um companheiro de Pedro com esse nome. Com isso, pretendia-se ligar estes escritos à sua fonte, que é Cristo, e às suas testemunhas oculares. De facto, os Quatro Evangelhos representam o último estádio da tradição acerca das obras e das palavras de Jesus.

O 1.° período é constituído pelo próprio Jesus, de 6 a.C. a 30 d.C

Jesus não escreveu; apenas anunciou

.. oralmente a mensagem, através dos caminhos da Galileia, da Samaria e da Judeia, reunindo à sua volta um pequeno grupo de discípulos a quem iniciou nos mistérios do Reino dos céus (Mt 13,11). O 2.° período tem o seu início depois da morte e ressurreição de Jesus. Depois da desilusão (Lc 24,18-21) e do medo (Jo 20,19-23), os Apóstolos, com a força do Espírito do Pentecostes (Act 2,1-13), lançaram-se no anúncio da mensagem do Mestre, não se preocupando muito com a escrita mas com a urgência do anúncio do Reino. Rapidamente se formaram muitas comunidades cristãs, tanto na Palestina como nas cidades do Império. Este 2.° período, ou primeira geração cristã, vai dos anos 30 a 70. O 3.° período é constituído pela segunda geração cristã, ou seja, pelos discípulos dos Apóstolos e de outras testemunhas oculares de Jesus. Cada um deles tinha deixado mais marcada alguma tradição acerca de Jesus;

agora, juntam-se as diferentes "tradições" para não se perder a memória do Senhor. Este período vai dos anos 60 a 100. É neste período que aparece a redacção definitiva dos Quatro Evangelhos. A tonalidade própria de cada um desses Evangelhos, a nível literário e teológico, faz com que eles sejam semelhantes, mas também diferentes entre si. Essa tonalidade tem origem no estilo de cada evangelista e na intenção teológica de responder às necessidades específicas da comunidade a quem dirige o seu Evangelho.

EVANGELHOS SINÓPTICOS Por seguirem o mesmo esquema fundamental de Marcos, chamamos a Marcos, Mateus e Lucas "Evangelhos Sinópticos"; porque, se os dispusermos em colunas paralelas e fizermos deles uma leitura de conjunto, deparamos com semelhanças fundamentais e com diferenças de pormenor. Diferente dos "Evangelhos Sinópticos" é o Evangelho segundo São João, escrito entre os anos 90-100. Este Evangelho não segue o esquema histórico-geográfico de Mt, Mc e Lc (que tem origem em Mc) e é mais abundante em discursos de Jesus, com base nos factos da sua vida. Aparece, por isso, como o Evangelho teológico por excelência. O ambiente onde nasceu o Evangelho segundo São João e a sua relação com os Sinópticos continua a

ser objecto de estudo por parte dos especialistas na matéria.

PORQUÊ QUATRO EVANGELHOS? A Igreja aceitou apenas os Quatro Evangelhos, escritos entre os anos 60 e 100. Porquê apenas quatro? Parece que desde o princípio da Igreja houve uma certa propensão para o uso de um único Evangelho. Isso não significa que se negasse a autoridade dos outros. Naturalmente, os cristãos vindos do Judaísmo preferiam o Evangelho de Mateus, escrito sobretudo para lhes falar da relação de Cristo com a Lei de Moisés (Mt 5,17-7,29). Talvez tenham utilizado este Evangelho em discussões com os outros cristãos vindos da civilização helenista, que sustentavam não ser necessária a observância da Lei de Moisés (AT). Marcião é também um caso especial a este respeito: usa o Evangelho de Lucas por lhe parecer o Evangelho que fala do amor de Deus, presente entre os homens em Jesus Cristo; mesmo assim, elimina algumas partes onde esse amor não lhe parece evidente ou onde se fala do Antigo Testamento, que ele rejeitou em bloco. O movimento gnóstico utilizou e manipulou sobretudo o Evangelho de João (ver Jo 14,2-3; 17,16). Tassiano pretendia um compromisso entre as duas tendências (o uso de um único Evangelho e os quatro), harmonizando-os num só (o Diatesseron). Esta harmonização foi largamente seguida nas igrejas siríacas do Oriente, mas praticamente rejeitada nas igrejas ocidentais de língua grega e latina. De facto, fazendo dos Quatro Evangelhos apenas um só, destruíam-se as quatro teologias sobre Jesus, ficando apenas uma "História de Jesus". Ora os Evangelhos são muito mais do que a História de Jesus.

EVANGELHOS APÓCRIFOS E FORMAÇÃO DO CÂNON Muitos outros "evangelhos" apócrifos - isto é, falsos - conheceram uma certa celebridade, a partir do séc. II. Os mais conhecidos foram: "Evangelho dos Hebreus", "Evangelho dos Ebionitas", "Evangelho de Pedro", "Evangelho de Tomé" e Proto-Evangelho de Tiago. De alguns restam apenas fragmentos e breves notícias. Eram histórias populares mais ou menos edificantes sobre factos da vida de Jesus ou simples colecções de algumas palavras a Ele atribuídas. A Igreja soube sempre separar o trigo do joio, a partir de três critérios necessários para um Evangelho ser autêntico: 1) ter uma ligação directa com o grupo dos Apóstolos; nasce daqui a atribuição de cada um deles a um nome importante, se possível, testemunha ocular de Jesus: Evangelho segundo Mateus, segundo Marcos, segundo Lucas e segundo João (critério apostólico); 2) incluir palavras e factos históricos da vida de Jesus, e não apenas um destes conteúdos (critério literário); 3) ser utilizado na pregação e na liturgia da Igreja universal (critério litúrgico). A partir destas exigências, muito cedo foram excluídas da Igreja essas histórias que se apresentavam como "evangelhos". A luta contra os hereges, sobretudo contra Marcião, na segunda metade do séc. II, forneceu à Igreja uma motivação mais para encontrar e colocar ao alcance dos cristãos a colecção ou Cânon dos livros seguramente inspirados pelo Espírito Santo. De qualquer modo, o Cânon só progressivamente, e a partir dos princípios já referidos, se foi formando, entre o séc. II e IV. Assim, as igrejas de língua siríaca utilizavam, por vezes, o Diatesseron em vez dos Quatro Evangelhos e não incluíam as Cartas Católicas mais pequenas (2 e 3 Jo, Jd, 2 Pe), tal como o Apocalipse. Aliás, o último livro da Bíblia foi também o último a entrar no Cânon, devido à desconfiança da Igreja acerca deste género de literatura, que se prestava a muitas manipulações da Palavra de Deus, como acontece ainda hoje. Neste sentido, é a Igreja que, pelo seu sentido da fé, aceita no seu seio os livros inspirados por Deus; mas é também a Igreja quem reconhece oficialmente, para utilidade dos fiéis, o Cânon (norma) dos livros inspirados pelo Espírito Santo.

ACTOS DOS APÓSTOLOS Uns 30 ou 40 anos depois das Cartas autênticas de Paulo, escreveu Lucas o livro dos ACTOS DOS APÓSTOLOS (entre os anos 80-90). Trata-se de um escrito que, quanto ao género literário, se encontra entre a Teologia e a História; ou melhor, o seu autor quis fazer História e Teologia ao mesmo tempo. Veja-se a grande quantidade de discursos (uns 24), que têm mais a ver com a eclesiologia do que com a História propriamente dita das comunidades da segunda geração cristã. Os personagens centrais do livro são primeiramente Pedro, ao longo dos 12 primeiros capítulos, em perfeita continuidade com o seu papel nos Evangelhos; e Paulo, do capítulo 13 em diante. Tudo indica que esta obra pertence ao mesmo autor do terceiro Evangelho (Lucas). Este começa e termina em Jerusalém; os ACTOS começam em Jerusalém, com os Doze, e terminam em Roma com Paulo, como que a dizer que se realizou, pelo menos parcialmente, o programa de Jesus, no meio dos pagãos (Act 28,25-28). Deste modo se cumpre o programa de Jesus, proposto no início do livro dos Actos: "Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo." (Act 1,8) Esta obra apresenta-se, pois, como um segundo volume da obra de Lucas, numa continuidade natural dos Evangelhos e como que registando o seu cumprimento. E sendo Paulo a personagem central da segunda parte, este livro coloca-se, naturalmente, entre os Evangelhos e as Cartas de Paulo. O autor dos ACTOS não nos apresenta, no entanto, Paulo como um Apóstolo e com os mesmos direitos dos Apóstolos, apesar de Paulo reivindicar este título (Gl 1,17). Para Lucas, o direito ao "apostolado" está ligado ao grupo dos Doze e ao testemunho directo e ocular de Jesus (Lc 1,2; Act 1,13.17.21-22). Depois da visão de Damasco, Paulo é introduzido no grupo dos Doze pela mão de Barnabé.

Nesta perspectiva, Paulo não é Apóstolo pela relação directa com o Ressuscitado, mas pela legitimação que recebe das "testemunhas oculares" de Jesus (Lc 1,2). Há diferenças sensíveis entre o Paulo que nos é apresentado pelo autor dos ACTOS e o Paulo que se apresenta nas suas Cartas. Segundo os ACTOS, Paulo é um rabino que continua fiel à Lei de Moisés; segundo as Cartas, Paulo é um judeu convertido que relativiza a Lei para fazer de Cristo o Senhor da sua vida: "Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim" (Gl 2,20).

Cartas de Paulo

O nome de Paulo aparece como autor de 13 Cartas do Novo Testamento, escritas a diferentes comunidades, ao longo de uns cinquenta anos. Não sabemos ao certo quem e como se fez a colecção do chamado "Corpus Paulino". Esta colecção contém as Cartas "proto-paulinas" - ou seja, as autênticas, as que ele próprio escreveu - e as dêutero-paulinas, escritas talvez pelos seus discípulos. São proto-paulinas: Romanos, Gálatas, 1 Tessalonicenses, 1 e 2 Coríntios, Filipenses e Filémon; as dêutero-paulinas - escritas entre 70 e 100 - são as "Cartas Pastorais" - 1 e 2 Timóteo, Tito - e as restantes: Efésios, Colossenses, 2 Tessalonicenses. Ao todo, treze Cartas. No fim do séc. II, a colecção das treze "Cartas de Paulo" (lista que incluía frequentemente Hebreus) estava feita e era aceite em toda a Igreja como Palavra de Deus (ver 2 Pe 3,15-16).

PAULO ESCRITOR? Paulo não foi primariamente um escritor, mas um rabino convertido na célebre "Visão de Damasco" (Act 9,1-19; 22,4-21; 26,9-18) que percorreu muitos milhares de quilómetros (ver as suas viagens nos Mapas, p. 2141-2142), anunciando de cidade em cidade o "Evangelho" da morte e ressurreição de Jesus. Não lhe interessou narrar a vida de Jesus nem sequer os seus milagres. As Cartas eram o único meio ao seu alcance para comunicar com as comunidades recentemente formadas. Entre as Cartas autênticas de Paulo estão, assim, os primeiros escritos cristãos que chegaram até nós. Há, pois, uma íntima relação entre as Cartas e a geografia das primeiras comunidades cristãs dos anos 50-60. Os Doze, que viviam em Jerusalém e viajaram muito pouco, na sua maioria não sentiram a necessidade de escrever Cartas. Podiam responder oralmente às pessoas e à comunidade. Daí o carácter geralmente circunstancial destes escritos, que não tinham propósitos propriamente teológicos. Paulo era, antes de mais, um missionário: "Ai de mim, se eu não evangelizar!" (1 Cor 9,16). A Carta aos Romanos é a excepção mais evidente a este respeito; e Colossenses e Efésios preocupam-se mais com a teologia da Igreja do que com os problemas das igrejas. Tudo isto nos manifesta quais eram os problemas e as necessidades das primeiras comunidades cristãs, tanto judaicas como helenistas, às quais Paulo respondeu a partir do Evangelho. Um exemplo de tudo isto é o facto de Paulo falar apenas uma vez da Eucaristia (1 Cor 11,17-34), para responder aos abusos que havia na comunidade de Corinto.

GÉNEROS LITERÁRIOS E ESTRUTURA Por tudo o que acabamos de referir, as Cartas de Paulo encerram géneros literários bem diferentes: desde o tratado teológico sobre a fé, da Carta aos Romanos, até ao simples bilhete a Filémon, passando pela multiplicidade temática de 1 e 2 Coríntios. Estes géneros literários devem-se sobretudo ao circunstancialismo das suas Cartas, mas também ao temperamento arrebatado de Paulo, unido à sua espiritualidade de convertido. Não podemos ainda esquecer os métodos da exegese rabínica em que Paulo era mestre, por ter frequentado a escola de Gamaliel, assim como a linguagem própria de um semita. Por tudo isto, utiliza frequentemente a linguagem da diatribe cínico-estóica e da antítese e do exagero semita (ver Gl 3,19; 1 Cor 2,2). As grandes antíteses de conteúdo teológico de Paulo são:

Vida-Morte, Carne-Espírito, Luz-Trevas, Sono-Vigília, Sabedoria-Loucura da Cruz, Letra-Espírito, Lei-Graça (2 Cor

3,1-16).

As Cartas de Paulo têm uma estrutura própria deste género literário:

Saudação. Paulo dirige-se a determinada comunidade cristã e saúda-a, por vezes longamente, desejando-lhe os bens cristãos em que aparece, com frequência, a fórmula trinitária. Nesta saudação encontra-se já um resumo da fé cristã. Corpo da Carta. Aqui desenvolve a sua doutrina, faz as suas exortações e responde aos problemas e questões da comunidade. Esta parte constitui a quase totalidade da Carta e mostra-nos qual o seu objectivo. Conclusão. Por vezes, é bastante extensa e contém várias saudações e acções de graças de origem litúrgica (ver Fl 4,2-23).

ESTRUTURA DAS IGREJAS Uma estruturação - ainda que incipiente - da Igreja, mediante os bispos, presbíteros e diáconos, presente sobretudo nas Cartas Pastorais, mostra a necessidade que a Igreja tinha de sobreviver às tempestades, de ultrapassar a idade da infância, em que se sentia a protecção e o acompanhamento dos "pais" fundadores das comunidades. Esta estruturação das igrejas cresce na medida em que diminui a tensão à volta do tema da Vinda do Senhor, nos tempos escatológicos, e na medida em que é ultrapassada a época do Kerigma e chega ao seu fim o tempo do

carisma dos primeiros evangelizadores. Por isso, 2 Tessalonicenses recrimina os que propalam uma vinda imediata do Senhor (2 Ts 2,1-12).

TEOLOGIA O conteúdo teológico das Cartas de Paulo é variado: escatológico, ou seja, a doutrina que se refere aos últimos acontecimentos da História da Salvação; soteriológico, sobre o papel de Deus e do crente na salvação, por meio de Cristo; cristológico, o lugar central de Cristo na realização do plano salvador de Deus; eclesiológico, o papel que Deus confiou à Igreja, por meio de Cristo, para a realização do seu plano de salvação integral da humanidade. Paulo elabora ainda a Tradição ("parádosis"), a partir de temas tradicionais do judeo-cristianismo ou do helenismo. Recolhe hinos, por exemplo, imprimindo-lhes um cunho pessoal. A sua teologia está em contínua elaboração. Por isso, não podemos esperar dele uma teologia plenamente estruturada, nem no seu conjunto nem acerca de qualquer tema especial. O modo como Paulo utiliza o Antigo Testamento ressente-se da sua formação rabínica. Nas 13 Cartas encontramos 76 citações formais introduzidas com as fórmulas próprias: "Como diz a Escritura", "Como está escrito". Algumas citações do AT são feitas com grande liberdade (Rm 10,18: Sl 19,5; Ef 4,8: Sl 68,19), como acontece, por vezes, no Evangelho de Mateus. Um dos processos de argumentação mais utilizados por Paulo corresponde às sete regras de Hillel. Outro processo de interpretação é partir retrospectivamente de Cristo para o AT, fazendo uma interpretação de Cristo como novo Adão (Rm 15,12) ou novo Moisés (1 Cor 10,2). Neste caso, o Antigo Testamento está repleto de figuras e profecias do Novo. Isto coloca-nos uma questão:

COMO CONHECEU PAULO CRISTO E O CRISTIANISMO? Depois da sua conversão, Paulo viveu certamente nalguma ou em várias comunidades cristãs, de Damasco ou da "Arábia" e viveu com os Apóstolos (Gl 1,15-24). Aí recebeu oralmente as instruções necessárias e conheceu colecções escritas ou orais de "Palavras do Senhor". Por isso, na sua argumentação, Paulo distingue as palavras do Senhor das suas próprias palavras ou opiniões acerca da indissolubilidade do matrimónio, da virgindade (1 Cor 7,10.25) e da retribuição dos ministros do Evangelho (1 Cor 9,14; ver 1 Tm 5,18). Outras vezes transmite quase textualmente a doutrina dos Evangelhos que, nessa altura, ainda não circulavam por escrito (1 Cor 11,23-25) e textos dos Sinópticos sobre a instituição da Eucaristia:

Rm 12,14-18 e Mt 5,38-39; 1 Cor 6,7 e Mt 5,39-42; Rm 13,1-7 e Mt 22,15-22; Mc 12,13-17; Lc 20,20-26. A grande preocupação de Paulo consiste em levar o Evangelho, pregado no ambiente da Palestina, para o mundo greco-romano. Por isso, as suas Cartas representam o primeiro e o maior esforço de "inculturação do Evangelho". A passagem da cultura semita para a cultura helenista deve-se sobretudo a Paulo, que levou o Evangelho anunciado por Jesus de Nazaré até às mais remotas regiões do Império Romano. Isto não quer dizer que Paulo tivesse em menor consideração a igreja de Jerusalém e a doutrina da Tradição por ela veiculada (ver Gl 2,2). A sua "visão de Damasco", não se opondo à doutrina tradicional, apenas justifica o seu "Evangelho", isto é, o novo sistema de justiça fundado sobre a fé e não sobre as obras da Lei, interpretadas no sistema farisaico, que era o seu, quando era rabino (Gl 3,23-24). Teologicamente falando, os escritos de Paulo só se compreendem por esta sua mudança de campo: assimilou o sistema teológico dos cristãos de origem helenista, que antes perseguia, e começou a pregação contra o sistema judaico, que antes seguia com rigor de fariseu. Os próprios judeo-cristãos de Jerusalém foram certamente poupados na sua "perseguição" ao Cristianismo nascente, porque salvavam a relação umbilical entre Cristo e Moisés e não pareciam a Paulo mais do que um "desvio" farisaico. Esta inculturação do Evangelho na cultura helenista - tipicamente citadina - levou Paulo, homem da cidade, a utilizar uma linguagem mais teológica e abstracta, própria do ambiente evoluído em que pregou o Evangelho, em contraposição com a linguagem campestre utilizada por Jesus no ambiente agrícola e pastoril da Palestina.

PAULO, POR ELE PRÓPRIO

Sou Israelita, da descendência de Abraão, da tribo de Benjamim. (Rm 11,1)

"Faço-vos saber, irmãos, que o Evangelho por mim anunciado, não o conheci à maneira humana; pois eu não o recebi nem aprendi de homem algum, mas por uma revelação de Jesus Cristo. Ouvistes falar do meu procedimento outrora no judaísmo: com que excesso perseguia a igreja de Deus e procurava devastá-la; e no judaísmo ultrapassava a muitos dos compatriotas da minha idade, tão zeloso eu era das tradições dos meus pais. Mas, quando aprouve a Deus - que me escolheu desde o seio de minha mãe e me chamou pela sua graça - revelar o seu Filho em mim, para que o anuncie como Evangelho entre os gentios, não fui logo consultar criatura humana alguma, nem subi a Jerusalém para ir ter com os que se tornaram Apóstolos antes de mim. Parti, sim, para a Arábia e voltei outra vez a Damasco. A seguir, passados três anos, subi a Jerusalém, para conhecer a Cefas, e fiquei com ele durante quinze dias. Mas não vi nenhum outro Apóstolo, a não ser Tiago, o irmão do Senhor. O que vos escrevo, digo-o diante de Deus:

não estou a mentir.

Seguidamente, fui para as regiões da Síria e da Cilícia. Mas não era pessoalmente conhecido das igrejas de Cristo que estão na Judeia. Apenas tinham ouvido dizer: "Aquele que nos perseguia outrora, anuncia agora, como Evangelho, a fé que então devastava." E, por causa de mim, glorificavam a Deus" (Gl 1,11-24).

"São hebreus? Também eu. São israelitas? Também eu. São descendentes de Abraão? Também eu. São ministros de Cristo? - Falo a delirar - eu ainda mais: muito mais pelos trabalhos, muito mais pelas prisões, imensamente mais pelos açoites, muitas vezes em perigo de morte. Cinco vezes recebi dos Judeus os quarenta açoites menos um. Três vezes fui flagelado com vergastadas, uma vez apedrejado, três vezes naufraguei, e passei uma noite e um dia no alto mar. Viagens a pé sem conta, perigos nos rios, perigos de salteadores, perigos da parte dos meus irmãos de raça, perigos da parte dos pagãos, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos da parte dos falsos irmãos! Trabalhos e duras fadigas, muitas noites sem dormir, fome e sede, frequentes jejuns, frio e nudez! Além de outras coisas, a minha preocupação quotidiana, a solicitude por todas as igrejas! Quem é fraco, sem que eu o seja também? Quem tropeça, sem que eu me sinta queimar de dor? Se é mesmo preciso gloriar-se, é da minha fraqueza que me gloriarei. O Deus e Pai do Senhor Jesus, que é bendito para sempre, sabe que não minto" (2 Cor 11,22-31).

Carta aos Hebreus

Apesar de ser habitualmente conhecido como "Carta", este escrito do Novo Testamento não apresenta um início de carácter epistolar, mais parecendo o exórdio de um sermão (1,1-4). Tem um tom oratório, e o autor nunca aparece a dizer que escreve, mas sempre a dizer que fala (2,5; 5,11; 6,9; 8,1; 9,5; 11,32). Só nos últimos versículos (13,22-25) é que temos um final de Carta precedido por uma frase solene (13,20-21), que funciona como peroração. Considera-se, por isso, que estamos diante de um sermão destinado a ser pronunciado oralmente (1,1-13,21) e de um pequeno bilhete (13,22-25), que lhe foi acrescentado. Trata-se, então, mais de um discurso do que de uma Carta em sentido próprio.

DESTINATÁRIOS Não encontramos no texto nenhuma referência aos Hebreus como destinatários, e nada indica que o grego em que está escrito seja uma tradução do hebraico. É, portanto, difícil dizer quais os seus destinatários, embora o título "aos Hebreus" seja muito antigo (séc. II). Pode facilmente admitir-se que fosse dirigida a judeo-cristãos, saudosos do culto judaico que antes praticavam. O título parece justificar-se ainda mais, se tivermos em conta o conteúdo da Carta, pois ela pressupõe leitores bem conhecedores do culto e da liturgia judaica.

AUTOR, LOCAL E DATA São igualmente imprecisos o autor, o local e a data da sua composição. As Igrejas do Oriente consideraram-na sempre como uma Carta paulina, apesar de muitos reconhecerem as suas diferenças em relação às outras Cartas de Paulo, sobretudo no que se refere à forma literária, à linguagem e estilo, à maneira de citar o AT e mesmo quanto à doutrina. A Igreja do Ocidente negou-lhe a autoria paulina até ao séc. IV e pôs, por vezes, em questão a sua condição de escrito inspirado e canónico. A questão continuou controversa ao longo da história da exegese católica e protestante, mas actualmente é quase unânime a negação da autenticidade paulina. No entanto, admite-se que a CARTA AOS HEBREUS tenha tido origem num companheiro ou discípulo de Paulo, pois há vários pontos de convergência entre ela e a doutrina do Apóstolo: a paixão de Cristo como obediência voluntária, a ineficácia da Lei antiga, a dimensão sacrificial e sacerdotal da redenção e alguns aspectos da cristologia. Trata-se, sem dúvida, de um sermão cristão, cuja origem remonta à Igreja Apostólica, e constitui, por isso, parte integrante da Palavra de Deus. Há apenas um dado que pode apontar-nos para o lugar de composição. Trata-se de 13,24: "Os da Itália saúdam- vos." Mas trata-se de uma expressão que nada ajuda, por ser muito vaga e se prestar a várias localizações. Quanto à data de composição, não pode aceitar-se uma época muito tardia, pois Clemente de Roma cita-a por volta do ano 95. Por outro lado, a relativa afinidade entre a sua teologia e a das Cartas do cativeiro (Ef, Cl, Flm), aponta para uma data próxima do martírio de Paulo, situado pelo ano 67. Uma vez que o autor se refere à liturgia do templo de Jerusalém como uma realidade ainda actual, tudo parece convergir para que os últimos anos antes da destruição de Jerusalém e do Templo, ocorrida no ano 70, sejam a data mais provável da sua composição.

ESTRUTURA E CONTEÚDO Não é fácil encontrar uma única estrutura para este livro. No entanto, propomos a seguinte:

Prólogo (1,1-4). I. O Filho de Deus é superior aos anjos (1,5-2,18): prova escriturística (1,5-14); exortação (2,1-4); Cristo, irmão dos homens (2,5-18). II. Jesus, Sumo Sacerdote fiel e misericordioso (3,1-5,10): fidelidade de Moisés e fidelidade de Jesus (3,1- 6); entrada no repouso de Deus, pela fé (3,7-4,13); Jesus, Sumo Sacerdote misericordioso (4,14-5,10).

III. Sacerdócio de Jesus Cristo (5,11-10,18): normas de vida cristã (5,11-6,12); promessa e juramento de Deus (6,13-20).

  • 1. Cristo é superior aos sacerdotes levitas (7,1-28): Melquisedec (7,1-10); sacerdote segundo a ordem de

Melquisedec (7,11-28).

  • 2. Sumo Sacerdote de uma nova aliança (8,1-9,28): o novo santuário e a nova aliança (8,1-13); insuficiência do

culto antigo (9,1-10); o sacrifício de Cristo é definitivo (9,11-14); Cristo, o mediador da nova aliança pelo seu

sangue (9,15-22); o perdão dos pecados pelo sacrifício de Cristo (9,23-28).

  • 3. Recapitulação: sacrifício de Cristo superior ao de Moisés (10,1-18): ineficácia dos sacrifícios antigos (10,1-10);

eficácia do sacrifício de Cristo (10,11-18). IV. A fé perseverante (10,19-12,29): apelo a evitar a apostasia (10,19-39); a fé exemplar dos antepassados

(11,1-40); o exemplo de Jesus (12,1-13); fidelidade à vocação cristã (12,14-29). Apêndice (13,1-25): últimas recomendações (13,1-19); bênção e saudação final (13,20-25).

TEOLOGIA Este escrito estabelece uma relação entre o Antigo e o Novo Testamento numa perspectiva cristológica. O tema central é o sacerdócio de Cristo e o culto cristão. A novidade é grande: uma pessoa, Jesus Cristo, Filho de Deus e irmão dos homens, é o Sumo Sacerdote superior a Moisés e comparável à figura misteriosa de Melquisedec. Pela sua morte e glorificação, Ele é o mediador entre Deus e os homens; o seu sacrifício substitui todos os sacrifícios antigos, que já não têm capacidade para elevar o homem até Deus. Pela sua morte, Cristo realiza o perdão dos pecados uma vez por todas, estabelece uma aliança nova e eterna com a humanidade e inaugura um novo culto, imagem do culto celeste. A Carta apresenta várias vezes a Igreja como povo de Deus a caminho, e os cristãos, como alguém que partilha o destino de Cristo e é convidado a entrar no seu repouso. Há um itinerário cristão a percorrer, que passa pela conversão, pela fé perseverante, pela aprendizagem da Palavra de Deus e por uma vivência da caridade fraterna. O cristão é aquele que se une a Cristo através da sua própria existência e não deve separar o culto da vida. Através de Cristo, o cristão oferece continuamente a Deus um sacrifício de louvor, no qual inclui toda a sua vida e particularmente o seu serviço aos outros e a sua caridade. Precisa de manter-se integrado na comunidade cristã, de escutar a Palavra e de se manter em comunhão com os responsáveis, pois não pode chegar a Deus sem estar unido a Cristo e aos irmãos. A oferta de Cristo ao Pai "uma vez para sempre" (10,10.14; ver 9,26.28) constitui o grande acontecimento escatológico. Por meio deste gesto histórico cumpriu-se o plano salvífico de Deus, embora continue a caminhada histórica da humanidade até à sua entrada na glória. Quando todos os inimigos forem submetidos a Cristo e for vencida a morte e todas as forças históricas, teremos então a realização do último acto da História salvífica

Cartas Católicas

Há um grupo de sete escritos do Novo Testamento que tem este título muito antigo: CARTAS CATÓLICAS. A partir do séc. IV, esta designação genérica foi reservada para as sete Cartas canónicas: Tiago, 1.ª e 2.ª de Pedro, 1.ª, 2.ª e 3.ª de João e Judas. "Católico" significa universal, e tal deve ser a origem do nome destas Cartas: eram dirigidas a toda a Igreja, e não a comunidades ou pessoas concretas (excepto 2 e 3 Jo, anexas a 1 Jo). Mas nem todas estas Cartas foram, desde os primeiros tempos, universalmente reconhecidas como escritos inspirados; por isso, o historiador Eusébio colocou as Cartas de Tiago, 2.ª de Pedro, 2.ª e 3.ª de João e Judas (assim como o Apocalipse) entre os "livros discutidos, embora admitidos pela maioria", aos quais chamamos Deuterocanónicos. O acordo universal só se deu no Ocidente pelos fins do séc. IV e no Oriente nos séc. VI-VII. Nem os autores, nem os destinatários, nem os temas tratados ou a sua forma literária justificam que estas Cartas formem um conjunto. Agruparam-se pelo simples facto de não serem escritos paulinos. Mas não têm um destinatário concreto, como acontece com as Cartas de Paulo. Nos manuscritos antigos do Oriente apareciam depois de Actos e antes das Cartas de Paulo, pela ordem em que hoje as temos, o que deixa ver o grande valor em que já eram tidas; nos códices, liam-se no lugar que agora ocupam no conjunto dos livros do Novo Testamento, depois da Carta aos Hebreus e antes do Apocalipse de João.

CONTEÚDO O que estas Cartas têm de comum é a temática:

  • 1. Cuidados a ter com os falsos mestres: 2 Pe 2,1-3.10-22; 3,3-4.16-17; 1 Jo 2,18-23.26; 4,1-6; 2 Jo 7-11;

Jd 4-19.

  • 2. Necessidade de guardar a integridade da fé: Tg 2,14-26; 3,13; 4,3-12; 5,7-11; 1 Pe 2,11-12.13-17; 4,1-

4; 2 Pe 3,1-7.14-18; 1 Jo 2,18-29; 4,1-6; 2 Jo 7-11.

  • 3. Exortação à fidelidade na perseguição: Tg 1,2-4.12; 4,7; 1 Pe 1,6-7; 2,11-17; 3,13-17; 4,12-19; 5,6-10; 1

Jo 2,24-28.

  • 4. Proximidade do fim dos tempos: Tg 5,3.7-9; 1 Pe 1,5; 4,7; 2 Pe 3,3-4.8-10; 1 Jo 2,18-19; Jd 18.

Tal temática denuncia uma época relativamente tardia, em que esses problemas eram os mais prementes, devido

ao aparecimento das primeiras heresias cristológicas e a algumas perseguições. Mas estas podem ter vindo do poder político exterior ou do interior da própria comunidade - ou seja, dos falsos mestres.

Apocalipse

Apocalipse é um termo grego que significa "revelação". "Revelação" é, na verdade, o título com que o último livro da Bíblia aparece em algumas edições. O estilo deste livro é estranho para a cultura ocidental, mas enquadra-se perfeitamente na mentalidade semita. As raízes desta literatura encontram-se no Antigo Testamento (Isaías, Zacarias, Ezequiel e sobretudo Daniel), mas também em vários livros judeus que não entraram na Bíblia: Henoc, 2 Esdras e 2 Baruc. Estes últimos já foram escritos depois da destruição do Templo. Foi principalmente nestes livros que se inspirou o autor do APOCALIPSE DE JOÃO.

GÉNERO LITERÁRIO É uma literatura própria das épocas de crise e de perseguição, em que se procura "revelar" os caminhos de Deus sobre o futuro, para consolar e encorajar os justos perseguidos, dando-lhes a certeza da vitória final. Era muito comum no fim do AT e mesmo no tempo em que foi escrito o NT, pois vivia-se um ambiente apocalíptico. Estava-se no "fim dos tempos", isto é, adivinhava-se uma revolução global, com uma radical mudança no modo de ser e de viver. Para isso, muito contribuiu a decadência do Império Romano e as guerras da Palestina, que levaram à destruição do Templo e de Jerusalém, no ano 70. Daí os três textos apocalípticos dos Evangelhos Sinópticos, directa ou indirectamente ligados à destruição de Jerusalém: Mt 24-25; Mc 13; Lc 21.

LIVRO Caracteriza-se por imagens grandiosas e simbólicas, constituídas por elementos da natureza, apresentadas em forma de visões e "explicadas" ao vidente por um anjo. Tais imagens são tiradas do AT, dos apocalipses judaicos, dos mitos e lendas antigas. Assim, o papel dos anjos (7,1-3); o livro selado (5,1); o livro para comer (10,1-11); as trombetas (8,2); as taças (15,7); os relâmpagos e trovões (4,5; 10,3). Estas imagens sugerem mais do que descrevem, e grande parte delas nada tem a ver com a realidade. Trata-se de puros símbolos (1,16; 5,6; 21,16), que podem referir-se a pessoas, animais, números e cores, deixando ao leitor um espaço para alguma criatividade e "inteligência" (13,18; 17,9). As visões simbólicas são projectadas no Céu, para dizer que pertencem ao mundo espiritual, da fé e o que nelas se revela acontece também na terra. Duas forças antagónicas estão em luta permanente: o Dragão - a possível personificação do império romano, no tempo de Domiciano (81-96 d.C.) - e o Cordeiro: Cristo, Cordeiro pascal, é o vencedor de todas as forças do Mal.

OCASIÃO, FINALIDADE E AUTOR A perseguição a que se refere o APOCALIPSE poderia ser a que açoitou as igrejas da Ásia no tempo do imperador Domiciano, por volta do ano 95. Também havia as perseguições internas, isto é, as heresias, sobretudo os nicolaítas (2,6.15), os marcionitas e os que prestavam culto ao imperador. O livro pretende responder à questão: "Quem manda no mundo? Os tiranos, os senhores da Terra, ou o Senhor do Céu?" Este paralelismo entre o Céu e a Terra assegura aos crentes que Deus os acompanha a partir do Céu, e a História segue o seu curso na Terra sob o controlo de Deus e não sob o controlo dos poderes maus. O "vidente" vive na terra mas vê o que se passa no Céu e transmite aos seus irmãos sofredores a certeza de que Jesus está com eles e a sua vitória está para breve. O simbolismo, por vezes irracional, de que o autor se serve para transmitir esta esperança aos perseguidos, assegura aos cristãos que o Reino de Deus ultrapassa a História que eles estão a viver, e ao mesmo tempo é uma linguagem secreta para os perseguidores. O autor apresenta-se a si mesmo como João e escreve em Patmos - pequena ilha do Mar Egeu - onde se encontra desterrado por causa da fé (1,9). A tradição identificou este João com o Apóstolo João, mas não existem argumentos suficientes para o comprovar (Mt 4,21; Jo 21,1-14).

ESTRUTURA E CONTEÚDO O APOCALIPSE apresenta diversas hipóteses de estrutura. Propomos uma divisão em duas partes, depois de uma Introdução (1,1-20):

Introdução (1,1-20):

Introdução e saudação: 1,1-8; Visão do Ressuscitado: 1,9-20. I. Cartas às Sete Igrejas (2,1-3,22):

Sete cartas às igrejas: Éfeso, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia. II. Revelação do sentido da História (4,1-22,5):

O trono de Deus: 4,1-11; Sete selos: 5,1-8,5;

Sete trombetas: 8,6-11,19; Sete sinais: 12,1-15,4; Sete taças: 15,5-16,21; Queda da Babilónia: 17,1-19,4; Triunfo de Cristo. Nova Jerusalém: 19,5-22,5. Epílogo (22,6-21).

TEOLOGIA O APOCALIPSE exprime a fé da Igreja da "segunda geração cristã", isto é, do tempo dos discípulos dos Apóstolos. A doutrina do Corpo Místico (Jo 15,1-8; 1 Cor 12,12-27) recebe aqui nova dimensão: Cristo está no meio dos sete candelabros (1,13) e tem na mão direita as sete estrelas (1,16), símbolos das sete igrejas, que personificam a Igreja universal; Ele é apresentado no mesmo plano que Javé e com os mesmos atributos: é "o Senhor dos senhores e Rei dos reis" (17,14; 19,16), aquele que tem um "nome que ninguém conhece" (2,17; ver 1,8.18; 2,27; 3,12; 14,1; 15,4; 19,16). Deus é o único Senhor da História, apesar das forças conjugadas de todos os senhores deste mundo; por isso,

acontecimentos do AT, como o Êxodo, as pragas do Egipto, teofanias, destruições

...

servem de pano de fundo das

novas intervenções de Deus na História do presente. No meio desta História, a Igreja aparece como espaço litúrgico onde o Cordeiro tem presença permanente, fazendo da comunidade "o céu" na terra. Isso não impede que as forças do Mal estejam em luta constante com ela (e com o Cordeiro: 2,3.9.10.13; 3,10; 6,9-11; 7,14).

Por isso, o APOCALIPSE não pretende predizer nem "revelar" pormenores sobre o futuro da Igreja e da Humanidade, mas conferir a certeza absoluta na bondade de Deus, que se manifestou em Cristo. Também não "fecha" a Bíblia; mas abre diante do leitor crente um caminho de esperança sem fim: "Eu renovo todas as coisas."

(21,5) "Eu venho em breve (

...

).

Vem, Senhor Jesus!" (22,7.20).