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20 Fé para Hoje

O GRANDE REAVIVAMENTO
NA INGLATERRA NO SÉCULO XVIII
Paulo Anglada

A condição moral deplorável em pravação pode, às vezes, nos levar a


que se encontra o nosso país quase pensar que a situação é irremediável
dispensa comentário. A impiedade e e que não encontra paralelo na histó-
perversão dos homens, que cada dia ria de outras nações. Nem uma coisa
mais têm trocado a verdade de Deus nem a outra é verdade. A Inglaterra
pela mentira, mudando a glória do da primeira metade do século XVIII
Deus incorruptível, adorando e ser- caracterizava-se pela impiedade,
vindo a criatura ao invés do Criador, corrupção e imoralidade. As trevas
têm suscitado a ira de Deus sobre o espirituais assolavam todas as cama-
Brasil. Por isso, Deus tem entregue das sociais daquele país. A terra de
nosso povo à imundícia, pela concu- muitos reformadores e dos puritanos
piscência de seus próprios corações. decaiu tanto, que “a corrupção, a
E, por haverem desprezado o conhe- desonestidade e o desgoverno nos al-
cimento de Deus, o próprio Deus os tos postos era a regra, e a pureza, a
entregou a uma disposição mental re- exceção”.
provável, para praticarem toda sorte A Igreja da Inglaterra, na sua
de coisas inconvenientes e aprovarem grande maioria, jazia inerte, sem
os que assim procedem (Rm 1.18, nenhum vigor. Os sermões, meros
23, 24, 25, 28, 32). ensaios morais, nada podiam fazer no
sentido de despertar, converter e
salvar os pecadores. “As importantes
A INGLATERRA ANTES DO REAVI- verdades pelas quais Hooper e La-
VAMENTO DO SÉCULO XVIII
timer tinham ido para a fogueira, e
Esse estado de impiedade e de- Baxter e muitos dos puritanos, para a

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prisão, pareciam ter sido totalmente práticas da moda nas camadas mais
esquecidas e colocadas na prateleira.” elevadas da sociedade da época e não
Um conhecido advogado cristão escandalizavam ninguém.
da época afirmou que visitou todas
as mais importantes igrejas de Lon-
dres, e que não ouviu “um único dis- A TRANSFORMAÇÃO DA INGLATER-
curso que apresentasse mais cris- RA NA SEGUNDA METADE DO SÉ-
tianismo do que os escritos de Cícero, CULO XVIII
e que lhe seria impossível descobrir, Na segunda metade do século
do que ouvira, se o pregador era um XVIII, a Inglaterra mudou. Foi radi-
seguidor de Confúcio, de Maomé ou calmente transformada. Isto porque
de Cristo!” milhares de pessoas foram transfor-
Os bispos e arcebispos da época, madas. Trabalhadores e membros das
na sua grande maioria, eram homens classes mais elevadas tiveram sua
mundanos; tão mundanos que houve moral e costumes transformados.
casos em que o próprio rei teve de Como diz Nichols, “forte entusiasmo
intervir para restringir a impiedade apoderou-se da vida religiosa da In-
deles. Para se ter uma idéia da situa- glaterra, afugentando a indiferença e
ção, conta-se que, quando a pregação o desinteresse” que marcou a primeira
de Whitefield come- metade do século
çou a incomodar o C
XVIII. “Que uma
clero, foi sugerido mudança, para me-
com seriedade pelo Proclamavam as lhor, aconteceu na
próprio clero que a palavras de fé Inglaterra nos últi-
melhor maneira de
dar um fim à sua
com fé, e a história mos cem anos”, a-
firma Ryle no final do
influência era torná- da vida, com vida. século XIX, “é um
lo um bispo. Quanto C fato que, eu supo-
ao clero paroquial, nho, nenhuma pes-
Ryle afirma que “seus sermões eram soa bem informada jamais tentaria
tão indizível e indescritivelmente negar... Houve uma grande mudança
ruins, que é reconfortante lembrar para melhor. Tanto na religião quanto
que eram geralmente pregados a na moral, o país passou por uma
bancos vazios”. A verdade é que a completa revolução. As pessoas não
situação moral da Inglaterra na pri- pensam, não falam, nem agem como
meira metade do século XVIII era tão faziam em 1750. Este é um fato, que
baixa, que condutas reprováveis e os filhos deste mundo não podem ne-
comuns hoje no Brasil, como a práti- gar, por mais que tentem explicá-lo”.
ca do adultério, fornicação, jogo, Foi nesse período que surgiram as
linguagem obscena, profanação do obras sociais de caráter cristão, as
domingo e bebedice, também não escolas dominicais — “um dos pri-
eram consideradas coisas condená- meiros passos na educação popular
veis na Inglaterra na primeira metade da Inglaterra” —, a abolição do
do século dezoito. Estas eram as comércio de escravos, as reformas

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nas prisões, hospitais, bem como o os fortes, a fim de que ninguém se


moderno movimento missionário que vanglorie na presença dEle.
alcançou muitos países na Ásia, George Whitefield, John Wesley,
África e Américas. A transformação William Grimshaw, William Romaine,
que a Inglaterra experimentou foi tão Daniel Rowlands, John Berridge,
grande, que muitos historiadores Henry Venn, Samuel Walker, James
afirmam que, não fora isto, fatal- Harvey, Augustus Toplady e John
mente o país também sofreria as Fletcher, soberanamente escolhidos,
agruras de uma revolta interna, como habilitados, ungidos e revestidos de
a Revolução Francesa. A estas trans- especial graça, sacudiram a Inglater-
formações também se atribui a as- ra de um extremo ao outro com a
censão da Inglaterra à posição de líder antiga arma apostólica da pregação.
entre as nações no século passado. “A espada que o apóstolo Paulo em-
punhou com poderoso efeito, quando
tomou de assalto as fortalezas do pa-
ganismo dezoito séculos atrás”,
OS INSTRUMENTOS DE TRANSFOR- escreve Ryle, “foi a mesma espada
MAÇÃO DA INGLATERRA
pela qual eles obtiveram suas vi-
O que operou essa transfor- tórias”. Tendo contemplado a glória
mação? A que se deve tamanha de Deus mais vividamente (como
mudança? Ryle observa acerta- Paulo, na estrada de Damasco, e
damente, que “o governo do país não Estêvão, ao ser apedrejado); tendo
pode reivindicar o crédito pelas mu- sido o amor de Deus derramado em
danças. Moralidade não pode vir à seus corações pelo Espírito Santo;
existência através de decretos-lei e tendo recebido em seus espíritos o
estatutos. Até hoje as pessoas jamais testemunho direto do Espírito Santo,
vieram a ser religiosas por meio de a respeito do seu bendito relacio-
atos parlamentares”. A Igreja da namento com Cristo, e estando
Inglaterra, como instituição, também cheios de uma alegria indizível e cheia
não pode reivindicar este crédito. Os de glória, tais homens anunciaram o
bispos, arcebispos e clero que des- Evangelho de Cristo de modo sim-
crevemos há pouco jamais poderiam ples, direto, ousado e cheio de fervor.
ser os instrumentos de tal obra. “Proclamavam as palavras de fé com
Qual, então, foi a fonte e quais fé, e a história da vida, com vida. Eles
os instrumentos de tamanha transfor- falavam com ardente zelo, como
mação? Deus foi a fonte; e uma dúzia homens que estavam totalmente per-
de homens simples, a maioria mi- suadidos de que o que diziam era
nistros da Igreja da Inglaterra, foram verdade”.
os instrumentos. Aprouve a Deus O que pregavam esses homens?
escolher alguns de seus servos fiéis; Todo o conselho de Deus, especial-
não eram poderosos, nem pessoas de mente doutrinas como a suficiência
nobre nascimento. Entretanto, foram e a supremacia das Escrituras, a total
estes homens humildes, mas fiéis, corrupção da natureza humana, a
que Deus escolheu para envergonhar morte expiatória de Cristo na cruz, a

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justificação pela graça mediante a fé, vida cristã vigorosa e cheia de frutos;
a necessidade universal de conversão milhares foram profundamente con-
e de uma nova criação pelo Espírito vencidos de seus pecados, foram le-
Santo, a união inseparável da verda- vados ao mais sincero arrependimen-
deira fé com a santidade pessoal, o to, compreenderam a graça de Deus
ódio eterno de Deus pelo pecado e o em Cristo Jesus e por ela foram al-
seu amor pelos pecadores. Eles não cançados; e muitos — que até se
hesitavam em proclamar clara e dire- opunham — foram secretamente in-
tamente às pessoas “que elas estavam fluenciados e estimulados. Foram
mortas e precisavam viver; que se estes os homens e estas, as doutrinas,
encontravam culpadas, perdidas, os quais, nas mãos de Deus, “to-
desamparadas, desesperadas e em pe- maram de assalto as fortalezas de
rigo iminente de destruição eterna”. Satanás”, conclui Ryle, “arrancando
“Por mais estranho e paradoxal que milhares como que tições do fogo, e
pareça a alguns”, afirma Ryle, “o pri- mudaram o caráter da época”. Foram
meiro passo deles no propósito de estes os homens — sinceros e fiéis -
tornar bom o homem, foi mostrar que e esta, a pregação — viva, verdadeira
este era completamente mau; e o ar- e ungida - que aprouve a Deus es-
gumento primordial deles, no sentido colher para reavivar sua Igreja e trans-
de persuadir as pessoas a fazerem al- formar a Inglaterra na segunda meta-
guma coisa por suas almas, era de do século dezoito. Abençoa-nos
convencê-las de que não podiam fa- também, ó Deus, livra-nos da incre-
zer nada por elas”. Eles também dulidade, testifica diretamente em
“nunca recuaram em declarar, nos nosso espírito que somos teus filhos,
termos mais claros, a certeza do jul- pois cremos nisso, derrama o teu
gamento de Deus e da ira porvir, se amor em nossos corações pelo teu
os homens persistissem na impe- Espírito, que em nós habita; concede-
nitência e incredulidade; e, apesar nos a mesma alegria indizível e cheia
disso, nunca cessaram de magnificar de glória. Reaviva a tua obra em nosso
as riquezas da bondade e da com- país.
paixão de Deus e de conclamar todos
os pecadores a arrependerem-se e
voltarem-se para Deus, antes que ________________
fosse tarde demais”. Nota: A maioria das citações e in-
formações deste artigo foram extraídas
CONCLUSÃO do relato sobre o reavivamento espi-
Foram estes os homens e esta, a ritual do século XVIII na Inglaterra,
pregação que Deus usou como ins- escrito por J. C. Ryle. Os três primeiros
trumentos para reavivar a Igreja na volumes (George Whitefield, John
Inglaterra e, assim, transformar com- Wesley e William Grimshaw) foram
pletamente o país. Através desses traduzidos pelo autor desse artigo e
instrumentos de Deus, muitos crentes publicados no Brasil pela Editora
foram levados a renovar sua aliança Clássicos Evangélicos, na série Líderes
com o Senhor e passaram a viver uma Evangélicos do Século XVIII.

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