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Sobre o Desejo Espiritual de Iluminação.

Mesmo que você deseje Deus é uma escravidão!

Osho, Você disse que a motivação para a liberação, ou


para o samadhi, também é uma tensão e uma barreira.
Mas não é correto dizer que ela não é um 'desejo' do ser
humano, mas uma 'aspiração' – uma sede intrínseca ao
ser humano?

Você precisa entender o que significa o desejo – e as religiões


o confundiram muito sobre isso. Se você deseja alguma coisa
do mundo, elas chamam isso de desejo. Se você deseja
alguma coisa do outro mundo, elas dão um nome diferente.
Isso é absurdo. Desejo é desejo! Não faz diferença qual é o
objeto do desejo. O objeto pode ser qualquer coisa – deste
mundo, material, ou de outro mundo, o espiritual – mas o
desejar permanece o mesmo.

Todo desejo é uma escravidão. Mesmo que você deseje Deus é


uma escravidão; mesmo que você deseje liberação, é uma
escravidão. E a liberação não pode acontecer a menos que
esse desejar vá embora totalmente. Assim, lembre-se: você
não pode desejar libertação, isso é impossível; isso é
contraditório. Você pode se tornar sem desejo e, então, a
libertação acontece. Mas ela não é um resultado de seu
desejo. Ao contrário, ela é uma conseqüência do não-desejo.

Assim, tente entender o que é o desejo. Desejo significa que


exatamente agora você não está bem, você não está à
vontade. Neste exato momento, você não está à vontade
consigo mesmo; e alguma outra coisa, no futuro, se satisfeita,
lhe trará paz. A satisfação está sempre no futuro; nunca está
aqui e agora. Essa tensão da mente pelo futuro é o desejo. O
desejo significa que você não está no momento presente. E
tudo o que existe é somente o momento presente. Você está
em algum lugar no futuro e o futuro não existe. Ele nunca
existiu, ele nunca existirá. Tudo o que existe é sempre o
presente – este momento.

Essa projeção de sua satisfação em algum lugar, no futuro, é o


desejo. Assim, qualquer que seja a satisfação futura é
irrelevante. Pode ser o reino de Deus, o paraíso, o nirvana,
pode ser qualquer coisa, mas se ela está no futuro, é desejo. E
você não pode desejar no presente, lembre-se; isso não é
possível. No presente você só pode existir, você não pode
desejar. Como você pode desejar no presente?

O desejo conduz ao futuro, à fantasia, ao sonho. Por isso tanta


insistência de Buda pelo não-desejo, porque somente no não-
desejo você se move para a realidade. Com o desejo você se
move para os sonhos. O futuro é um sonho e quando você
projeta no futuro, você irá se frustrar. Você está destruindo a
realidade do momento por sonhos futuros e esse hábito da
mente permanecerá com você. Ele é fortalecido todo dia.
Assim, quando seu futuro chegar, ele chegará na forma do
presente e sua mente novamente se moverá para algum outro
futuro. Ainda que você pudesse alcançar Deus, você não
ficaria satisfeito. Do jeito que você é, isso é impossível. Mesmo
na presença do divino, você se moveria para o futuro.

Sua mente sempre está se movendo para o futuro. Esse


movimento da mente para o futuro é o desejo. O desejo não
está relacionado com algum objeto – se você deseja sexo ou
se deseja meditação, não faz diferença. O desejar é a coisa –
você deseja. Isso significa que você não está aqui, significa
que você não está no momento real e o momento presente é a
única porta para a existência. O passado e o futuro não são
portas, são paredes.

Assim, eu não posso chamar nenhum desejo de espiritual. O


desejo como tal é mundano. O desejo é o mundo. Não há
nenhum desejo espiritual; não pode haver. Esse é um truque
da mente, uma fraude. Você não quer abandonar o desejo;
então, você muda os objetos. Primeiro você estava desejando
riqueza, prestígio, poder. Agora você diz que não deseja e que
essas são coisas mundanas. Você as condena e aqueles que as
desejam são condenados aos seus olhos. Agora você deseja
Deus, o reino de Deus, o nirvana, moksha, o eterno, sat-chit-
ananda, o Brahma. Agora você deseja isso e se sente muito
bem. Pensa que está transformado, mas você não fez nada.
Você permanece o mesmo.

Você está apenas trapaceando a si mesmo. E agora você está


em uma enrascada maior, porque você pensa que isso é não-
desejar. Você permanece o mesmo. A mente permanece a
mesma; o funcionamento da mente permanece o mesmo.
Você ainda não está aqui. Os objetos do desejo mudaram, mas
a corrida, o sonho, permanece. E o sonho é o desejo – não o
objeto.

Assim, tente me compreender. Eu digo que todo desejo é


mundano, porque o desejo é do mundo. Assim, não é uma
questão de mudar o desejo, não é uma questão de mudar os
objetos. É uma questão de mutação, de uma revolução do
desejo para o não-desejo – do desejo para o não-desejo, não
dos velhos desejos para novos desejos, dos desejos mundanos
para desejos de outro mundo, dos desejos materiais para os
desejos espirituais; não! Do desejo para o não-desejo é a
revolução!

Mas como se mover do desejo para o não-desejo?

Você só pode se mover se houver algum desejo. Se algum


motivo vantajoso, alguma ambição, algum ganho existir,
somente então você pode se mover do desejo para o não-
desejo. Mas, então, você não está de forma alguma se
movendo. Eu digo que com o não-desejo você atingirá bem-
aventurança eterna. Isso é certo – que com o não-desejo a
bem-aventurança eterna acontece. Mas se eu digo para você
que com o não-desejo você ganhará a felicidade eterna, você
tornará isso um objeto de desejo e, então, você perderá
completamente o ponto. Ela não é o resultado, mas a
conseqüência de uma profunda compreensão.
Assim, tente entender que com o desejo existe miséria e não
pense que você já sabe disso. Você não sabe; do contrário,
como você pode se mover para o desejo? Você ainda não se
tornou consciente que desejo é miséria, que desejo é inferno.

Fique consciente! Quando você desejar alguma coisa, fique


consciente. Então, mova-se com o desejo em alerta total e,
então, você chegará no inferno.

Todo desejo leva à miséria, quer seja satisfeito ou não. Se


satisfeito, ele leva mais cedo; não satisfeito ele leva mais
tempo – mas todo desejo leva à miséria. Fique alerta de todo
o processo e mova-se com ele. Não há pressa, porque nada
pode ser feito com pressa e crescimento espiritual não é
possível com pressa. Mova-se lentamente, pacientemente.
Olhe todo desejo e, então, olhe como todo desejo se torna
uma porta para o inferno. Se você estiver vigilante, mais cedo
ou mais tarde você compreenderá que desejar é um inferno.
No momento em que essa compreensão acontecer, não haverá
desejo. De repente, o desejo desaparecerá e você estará em
um estado de não-desejo. Eu não disse sem-desejo, eu
simplesmente disse “não-desejo”.

Você não pode praticar isso, lembre-se; somente os desejos


podem ser praticados. Como você pode praticar o não-desejo?
Você não pode praticá-lo, você só pode praticar os desejos.
Mas se você ficar alerta, você se tornará consciente de que
eles levam à miséria. E quando cada desejo leva à miséria,
quando isso se torna uma compreensão para você – não mera
opinião e conhecimento, mas um fato compreendido –, o
desejo desaparece, ele se torna impossível. Como você pode
se conduzir para a miséria? Você sempre está se conduzindo
para a felicidade – pensando que está – e sempre se movendo
para a miséria. Isso está acontecendo há vidas e vidas. Você
sempre pensa que isso ou aquilo é a porta do paraíso; e
depois que você entra, sempre se dá conta de que aquilo é o
inferno. E tem sido assim, sem nenhuma exceção; esse é
sempre o caso.

Mova-se com atenção em cada desejo e permita que todo


desejo o leve à miséria. Então, de repente, um dia a
maturidade lhe acontecerá. Esse amadurecimento acontecerá
a você: você compreende que todo desejo é miséria.

No momento em que você compreende isso, o desejo


desaparece. Não existe necessidade de fazer algo então; o
desejar simplesmente cai, murcha e você está em um estado
de não-desejo. Nesse não-desejo o nirvana existe, a absoluta
felicidade perfeita existe. Você pode chamar isso de Deus, de
reino de Deus ou do que quer que você escolha chamar, mas
lembre-se bem de que isso não é um resultado de seu desejo.
É uma conseqüência do não-desejar e o não-desejar não pode
ser praticado.

Aqueles que “praticam” o não-desejo, estão iludindo a si


mesmos. Há muitos pelo mundo todo – bhikkhus, saniássins –
que estão praticando o não-desejo. Você não pode praticar o
não-desejo; nenhuma coisa negativa pode ser praticada. Por
baixo, eles estão desejando, estão ansiando por Deus, pela
paz que acontecerá, pela bem-aventurança que está
esperando por eles em algum lugar, no futuro, além da morte.
Eles estão desejando; eles chamam seus desejos de “desejos
espirituais”.

Você pode enganar a si mesmo muito facilmente. As palavras


são muito enganosas e você pode racionalizar. Você pode
chamar um veneno de Ambrósia, e quando você o chama
Ambrósia ele lhe aparece ambrosia. As palavras hipnotizam;
isso é uma coisa. Mas esse sentimento, essa compreensão de
que o desejo é miséria, deve ser seu.

Mary Stevens escreveu em algum lugar que ela estava


visitando a casa de um amigo e a filha de seu amigo era cega.
Mary Stevens ficou muito confusa porque a garota dizia: “Ele é
feio! Eu não gosto dele!”. Ou então: “A cor deste vestido é
linda!”.

Como ela era cega, Mary Stevens perguntou: “Como você


sente que alguma coisa é feia e que uma cor é bela?”

A garota disse: “Minhas irmãs dizem isso para mim.”. Isso é


conhecimento.

Buda disse que desejo é miséria e você continua repetindo.


Isso é conhecimento. Você está desejando e você nunca viu
que o desejo é miséria. Você simplesmente ouviu Buda dizer.
Isso não funcionará. Você está simplesmente desperdiçando
sua vida e oportunidade. Sua própria experiência pode
transformá-lo; nada mais transforma. O conhecer não pode
ser tomado emprestado. Se for tomado emprestado, trata-se
apenas de uma fraude. Parece real conhecimento, mas não é.
Mas por que nós seguimos um Buda ou um Jesus? Por quê?
Por causa de nossa cobiça. Olhamos para os olhos de Buda e
eles são tão pacíficos que a cobiça surge, o desejo de saber
como atingir aquilo. Buda é tão bem-aventurado – sempre em
êxtase. Um desejo surge: como ser como um Buda? Nós
também desejamos tais estados.

Então, continuamos perguntando como Buda alcançou aquilo,


como aquilo acontece. O “como” cria muitos problemas,
porque então Buda dirá que aquilo acontece no “não-desejo”.
E ele está certo, aquilo aconteceu no não-desejo. Mas quando
escutamos que no não-desejo aquilo acontece, começamos a
praticar o não-desejo, começamos a abandonar os desejos e
todo o esforço é um desejo para ser como um Buda.

Buda não estava tentando ser como algum outro; ele não
estava pedindo para ser um buda. Ele simplesmente estava
tentando entender a sua própria miséria – e quanto mais
compreensão despertava nele, mais a miséria desaparecia.
Então, um dia, ele veio a entender que o desejo é veneno. Se
você desejou, você caiu vítima: agora não há possibilidade de
você estar feliz. Você só pode ter esperança – esperança e
frustração; então, mais esperança e mais frustração. Esse será
seu círculo. E quando você fica mais frustrado, você espera
mais, porque esse é o único consolo. Você continua se
movendo no futuro, porque, no presente, você sempre teve
frustração – e a frustração está chegando por causa de seu
passado.

No passado, este presente era o futuro e você esperava por


ele. Agora ele é uma frustração. Então, você espera
novamente pelo futuro; e quando ele se tornar o presente,
você novamente ficará frustrado. Então, você esperará
novamente. Então, mais frustração, mais esperança; e com
mais esperança, ainda mais frustração. Isso é um círculo
vicioso. É isso o que é a roda do samsara.

Mas nenhum buda pode lhe dar seus olhos. E é bom que eles
não possam ser dados a você; do contrário, você
permaneceria sempre uma fraude, eternamente. Então, você
nunca se tornaria autêntico. É bom sofrer, porque somente
através do sofrimento você se tornará autêntico e real.

Assim, a primeira coisa: mova-se com seus desejos de forma


que você possa compreender o que eles são. Experiencie
qualquer sofrimento que esteja escondido ali. Deixe aquilo ser
relevante para você.

Somente isso é austeridade – somente isso é tapascharya.

Naropa diz que se você puder estar alerta, cada desejo o leva
para o nirvana. E esse é o sentido, porque se você está alerta,
você sabe que todo desejo é miséria. E quando você
esquadrinhou cada canto e esquina do desejo, de repente você
pára. Nessa parada, o acontecimento; e ele sempre esteve
presente. Esse acontecimento sempre está esperando por
você, esperando para encontrá-lo no presente. Mas você
nunca está no presente, você está sempre sonhando. A
realidade o sustenta: por causa do real você está vivo, por
causa do real você existe. Mas você continua se movendo no
irreal. O irreal é muito hipnótico.

Eu ouvi uma piada judia...


Dois velhos amigos se encontraram depois de muitos, muitos
anos. Então um amigo disse para o outro:
– Eu não o vejo há vinte e cinco anos. Como está seu filho,
seu menino Harry? – O outro disse: – Ele é um grande poeta.
Por toda essa terra sua voz é ouvida, suas canções são
cantadas e aqueles que conhecem poesia dizem que, mais
cedo ou mais tarde, ele irá se tornar um laureado do Nobel. –
O outro amigo disse:
– Maravilhoso! E conte-me sobre seu segundo filho, o Benny.
Como ele está? – O amigo disse: – Eu estou tão feliz com meu
segundo filho. Ele é um líder, um grande líder político. Milhares
e milhares o seguem e estou certo de que, mais cedo ou mais
tarde, ele será o primeiro-ministro deste país. – Então o amigo
disse:
– Meu Deus! Que afortunado você é! E com relação a seu
terceiro filho, Izzie? – O pai ficou muito triste e disse:
– Izzie? Ele ainda é Izzie. É um alfaiate. Mas eu lhe digo que
se não fosse por Izzie, todos nós estaríamos morrendo de
fome.

Mas o pai estava triste, porque Izzie era apenas um alfaiate. E


o poeta e o grande político, o grande líder – eles são sonhos.
Izzie é a realidade – o alfaiate. “Mas se não fosse Izzie, nós
todos estaríamos morrendo de fome.” – ele disse. Você não
poderia existir se não fosse por este momento. Isso é real.
Mas você nunca está feliz com isso. Você está feliz em seus
sonhos, com o futuro, com laureados do Nobel, primeiros-
ministros... Neste momento, “Izzie é apenas um alfaiate!”. Sua
realidade está onde você está enraizado; seus sonhos não são
seu chão. Eles são falsos. Chegue a um acordo com sua
realidade no momento presente. Encontre-a, encare-a, seja
ela qual for; e não permita que a mente se mova para o
futuro. O futuro é o desejo. Se você puder estar aqui e agora,
você é um buda. Se você não puder estar aqui e agora, então
tudo é apenas matéria de sonho.

E você terá de voltar, porque os sonhos não o levam a nenhum


lugar. Eles só podem levá-lo para a esperança e para a
frustração, mas nada real acontece através deles. Mas lembre-
se de minha advertência de que você não pode imitar.

Você terá de passar através do sofrimento. O sofrimento é o


caminho. Ele o purifica, ele o torna alerta, ele o torna
consciente. Quanto mais consciente, menos você é preenchido
de desejo. Se você está perfeitamente consciente, nenhum
desejo acontece e a meditação não significa nada mais do que
consciência perfeita.

Osho, The Book of the Secrets, V2, # 46


Osho, O Livro dos Segredos, V2, # 46

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