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Universidade Estadual de Campinas Instituto de Filosofia e Ciências Humanas Departamento de História

PALMARES & CUCAÚ O APRENDIZADO DA DOMINAÇÃO

Silvia Hunold Lara

Tese apresentada para o concurso de Professor Titular Área de História do Brasil Disciplina HH384 - História do Brasil I

Campinas, 2008

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Para meus primeiros leitores

III

Agradecimentos
Como sempre, das maneiras as mais diversas, muita gente me ajudou a fazer a pesquisa e a escrever essa tese. A lista é longa e começa com Flávio dos Santos Gomes que, logo no início da pesquisa, em 2005, me cedeu todo o levantamento da documentação impressa sobre Palmares que havia realizado, doação generosa que veio acompanhada por várias dicas bibliográficas e sugestões. Ele inaugurou uma série enorme de contribuições que foram aparecendo, aqui e ali, muitas vezes de forma surpreendente. Agradeço muitíssimo a ele e a todos os que vieram em seguida: Adriana Romeiro, Aldo Leoni, Bruno Feitler, Camila Loureiro Dias, Carlos Zeron, Catarina Madeira Santos, Cristina Meneguello, Eneida Mercadante Sela, Érika Simone de Almeida Carlos Dias, Gabriela Reis Sampaio, Hebe Mattos, Iara Lis Schiavinatto, James Green, Jean-Frédéric Schaub, John Monteiro, Kittiya Lee, Mafalda Soares da Cunha, Marcelo Mac Cord, Márcio Santos, Marcus Carvalho, Maria Fernanda Bicalho, Maria Lêda Oliveira, Mariana Françozo, Mariza Carvalho Soares, Matthias Rohrig Assunção, Michael Hall, Pedro Meira Monteiro, Raphael Chambouleyron, Sean Purdy, Silvana Rubino, Stephan Palmié, Tiago C. P. dos Reis Miranda e Waldomiro Lourenço da Silva Júnior. Mesmo que a tese tenha sido terminada, a pesquisa continua e o material que me forneceram será - prometo - melhor aproveitado. Agradeço igualmente aos que me ouviram contar novidades, lamentar dificuldades e repetir histórias. Guardo com carinho e gratidão o simples sorriso de paciente compreensão, a lembrança simpática de mandar uma dica por e-mail ou a disponibilidade para escutar minhas idéias. Obrigada também a Laura Peraza Mendes e Vinicius Todorov, bolsistas de Apoio Técnico do CNPq (ela por dois anos e ele nos últimos meses), que acompanharam de perto a elaboração das tabelas, a garimpagem dos textos e as idas e vindas da pesquisa. Aos arquivistas e bibliotecários das diversas instituições em que trabalhei devo agradecimentos especiais, pela paciência que tiveram para localizar livros, documentos e informações às vezes estranhas mas preciosas para a pesquisa. Dessa vez, também o que não foi encontrado assumiu grande importância e a ajuda especial dos técnicos do Arquivo Histórico Ultramarino, da Torre do Tombo, da Seção de Reservados da Biblioteca Nacional, em Lisboa, e da Seção de Manuscritos da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro foi ainda mais valiosa. Essa pesquisa vem sendo financiada por uma Bolsa de Produtividade em Pesquisa do CNPq e faz parte de um Projeto Temático da Fapesp. Contei ainda com o auxílio do Faepex-Unicamp e da Capes para viagens para apresentar trabalhos e realizar consultas em certos acervos. Com uma bolsa da Rockefeller Foundation Resident Fellowships in the Humanities Program at Northwestern University, pude permanecer cinco meses naquela universidade e usufruir da maravilhosa coleção "Africana" de sua biblioteca. Agradeço ao Jorge Coronado e aos colegas do Latin American and Caribean Studies da Northwestern University e do Center for International and Comparative Studies a acolhida e a oportunidade de discutir com eles os primeiros resultados de minhas pesquisas.

IV

Meus colegas do Cecult, como sempre, merecem lugar especial: Sidney Chalhoub, Maria Clementina Pereira Cunha, Robert W. Slenes, Fernando Teixeira da Silva, Jefferson Cano, Cláudio Batalha e Joseli Mendonça constituem um time de primeira, sempre atarefado e cheio de idéias, do qual tenho orgulho de fazer parte. Juntos fazemos projetos, seminários, conversamos, discutimos; é um privilégio poder contar com vocês como interlocutores constantes e como parceiros de profissão. Obrigada por fazerem a vida universitária valer a pena! Todos nós devemos muito à valiosa colaboração de Flávia Peral, a quem agradeço mais uma vez. Eu não teria conseguido escrever essa tese nos dois últimos meses se Sidney, Flávia e Fernando não tivessem descascado os pepinos e segurado as pontas: essa vou ficar devendo para sempre! Agradeço também a meus alunos, que souberam esperar mais tempo do que o costume para que eu pudesse ler seus textos e conversar sobre suas pesquisas. Meus familiares acompanharam de longe o trabalho, e minha mãe mostrou seu interesse e apoio ao ler essas páginas conforme elas foram sendo escritas. Clementina me incentivou com ironia e bom-humor; Lucas e Isabel ajudaram a contar os dias que faltavam. Sidney, apesar de todas as suas atribulações, achou tempo para assumir o posto de revisor. Obrigada, obrigada, obrigada! Ler é atividade que implica atenção, abertura e partilha. Tenho tido a sorte de encontrar amigos dispostos a ler, comentar e criticar o que escrevo. Agradeço o trabalho que realizam, especialmente com relação aos textos que ainda estão "no forno", incompletos e necessitados de um olhar externo que aponte suas fragilidades e faltas. Ao dedicar a tese a eles, tenho esperança de que o gesto leal e fraterno, que tanto me enche de alegria ... possa se repetir mais uma vez. Muito obrigada!

V

Índice
Introdução
Capítulo 1 - Ajustes 1. Lá e cá 2. A voz da experiência 3. Homens de palavra 4. Com fé, lei e rei Capítulo 2 - Diálogos 1. A força de uma tradição 2. Pelas Américas 3. Além da cultura Capítulo 3 - Conjunções 1. Os negros do Palmar 2. Escravos para Pernambuco 3. Guerras em Angola 4. Sobas, vassalos e kijikos Capítulo 4 - Alternativas 1. A aldeia de Cucaú 2. Problemas 3. Debates em Lisboa 4. Guerra e paz 1 14 14 33 47 64 83 83 100 112 125 126 136 148 162 179 179 195 209 219 228 237 246 247 145 147 150 192 139 142

Palavras Finais
Anexos Lista de abreviaturas utilizadas nas notas Fontes e Bibliografia Mapas e Tabelas Mapa 1 - As fronteiras da escravização na África Central Mapa 2 - As principais rotas comerciais na África Central no século XVII Mapa 3 - A África Central Ocidental no século XVII Mapa 4 - Os mocambos de Palmares e Cucaú Tabela 1 - Estimativa do número de africanos desembarcados no Brasil Tabela 2 - Escravos desembarcados no Brasil

que as letras douradas da lombada indicam conter as "disposições dos governadores de Pernambuco" produzidas entre 1648 e 1696. Para uma avaliação de toda a coleção. A fronda dos mazombos. mandou copiar os papéis existentes na secretaria de governo daquela capitania. encontrará ali um volumoso códice. Pernambuco. Porto. A idéia de arquivo: a secretaria do governo da capitania de Pernambuco (16871809). p. quando governou a capitania de Pernambuco entre 1746 e 1749. com uma bela capa de couro.1 INTRODUÇÃO Quem for ao Arquivo da Universidade de Coimbra. adquirida pelo arquivo no início da década de 1970. Doutorado. 1 (1973): 159. 2006. IV.1 Ele faz parte da coleção intitulada Conde dos Arcos. cartas. São Paulo. ver o Guia do arquivo da Universidade. sexto conde dos Arcos. sem dúvida. sendo depois transferido para o arquivo. O volume é raro. Dom Marcos de Noronha e Brito. Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra. AUC. 1995. precedidas de um índice. 14. 3 Para uma visão geral da atuação administrativa da secretaria da capitania de Pernambuco ver Josemar Henrique de Melo. 3ª-I-1-31. embora haja páginas um pouco manchadas. Se por meio 1 2 Disposições dos governadores de Pernambuco (1648-1696).3 São essas as tais "disposições". Ver também Evaldo Cabral de Mello. . pois contém textos que se julgavam perdidos. 1666-1715. Universidade do Porto. ordens e outros documentos enviados pelos governadores de Pernambuco a diversas autoridades. que estão organizadas por titular do governo. de Francisco Barreto a Caetano de Melo e Castro. Nobres contra mascates. Companhia das Letras. CCA.2 O volume contém cópia dos registros das provisões. Um belo códice. completando assim o material sobre o século XVII pernambucano guardado pelo Arquivo Histórico Ultramarino e por outros arquivos portugueses. O material deve ter ficado com a família. A letra do copista é clara e de fácil leitura. vol.

com os códices da coleção Conde dos Arcos podemos ler as ordens expedidas "para dentro" da capitania ou as cartas e avisos enviados para o governo do Estado do Brasil. Como tantos outros documentos registrados naquele códice. assim como foram desdobradas as abreviaturas e a pontuação foi alterada o mínimo necessário. Trata-se. a pedir perdão por terem vivido tantos anos em "desobediência". assim. para facilitar a leitura. em nome do príncipe de Portugal. a grafia das palavras também foi atualizada. em paz. No verso da folha 334 daquele códice está a cópia de um "papel" enviado por Aires de Souza de Castro a Gangazumba. O tom geral. pois não segue as regras formais desses tipos documentais. de um texto oficial do governo da capitania de Pernambuco. foi um dos líderes de Palmares. O texto foi redigido para avisar Gangazumba que o governador Aires de Souza de Castro. se instalar na aldeia de Cucaú. É. ao mesmo tempo. o documento não parece destoar de todos os outros. Apesar de louvar a "luz" que levou Gangazumba a enviar seus filhos para se colocarem aos pés do governador. contudo. Para ele. sediado na Bahia. . O tal papel não é exatamente uma carta. A concessão se justificava pelo fato de o governador e os "filhos e família" do destinatário terem acertado que "todos os negros [dos] Palmares e os mais potentados deles" viriam. um aviso das negociações realizadas e o documento que selava o compromisso assumido pelas partes. nem uma provisão ou um aviso. sem dúvida. não é nada ameno e as frases são um pouco confusas para o leitor moderno.4 Datado de 22 de junho de 1678. como se sabe. não havia a "menor dúvida" sobre o que 4 Aqui e em toda a tese a grafia dos nomes próprios (de pessoas e lugares) foi atualizada. determinar alguma providência ou chamar a atenção sobre um procedimento administrativo. o governador dirige-se a seu destinatário com deferência e emprega a fórmula usual nas comunicações entre autoridades. Na transcrição das fontes. lhe remetia "o bem da liberdade e [o] perdão" por ter vivido "há tantos anos fora da [sua] obediência". o primeiro gesto de Aires de Souza de Castro é ameaçar o destinatário com uma guerra sem quartel se as promessas assinaladas no tal papel não forem cumpridas no prazo estipulado.2 desses últimos temos acesso à correspondência que seguiu para Lisboa ou que lá foi produzida sobre Pernambuco. mas certamente chama a atenção por seu destinatário que. Também não foi escrito para simplesmente comunicar-se com alguém.

É exatamente por serem documentos oficiais que foram registrados pela secretaria de governo de Pernambuco e aparecem naquele códice da coleção Conde dos Arcos. tenham se desenvolvido entre aqueles homens . e concedia o sítio de Cucaú para que todos pudessem ali fazer suas aldeias. Talvez seja melhor ter um pouco mais de paciência e procurar saber por que aquele papel e essas cartas merecem tanto destaque. irmão de Gangazumba. além de matar a curiosidade. Isso não significa que em tão breve tempo laços de amizade. para Gangazona. 3 e 4. plantar e ter os mesmos lucros que os demais vassalos de Portugal. de imediato. . e a viver e morrer pela fé de Cristo. Aviso logo que. o gesto de pouco adiantará. Essa não é a única comunicação enviada por Aires de Souza de Castro a Gangazumba: há ainda duas outras cartas. de 12 de novembro. Em troca. Como explicar que um governador de uma das mais importantes capitanias do Estado do Brasil no século XVII se corresponda com chefes de mocambos formados por escravos fugidos? Em que condições aqueles textos foram escritos? O que significam as palavras e expressões que empregam? Que novidades trazem sobre a história de Palmares e da aldeia de Cucaú? Por que essa documentação permaneceu até hoje coberta pelo silêncio? Algumas respostas podem parecer simples. muitas perguntas. alforriava Amaro e João Mulato.mas sim que estamos diante de textos que seguem os rituais da escrita administrativa e do diálogo entre autoridades com crédito e poder equivalentes.5 A leitura desses documentos suscita. assim como todos os nascidos nos Palmares. datadas de 24 de julho e 12 de novembro do mesmo ano. Elas seguem as regras que caracterizam textos desse tipo e mencionam a troca de cartas e presentes. 2. 5 Os mais ávidos por novidades podem ir diretamente ao final da tese e ler a íntegra desses documentos nos anexos 1. e terminava prometendo enviar padres para que pudessem aprender a doutrina cristã. que vão copiadas mais adiante naquele códice.3 havia sido concedido: devolvia a mulher e os filhos de Gangazumba que haviam sido presos. E mais outra. que falavam a língua dos Palmares. Gangazumba devia se comprometer a viver em paz e obediência e a entregar todos os negros que haviam fugido para Palmares. como entendemos hoje esse sentimento. Para explicar as "conveniências e a firmeza de todo esse papel" o governador remetia dois soldados honrados e experientes.

ainda são poucos os que têm utilizado esse material. "Narração de alguns sucessos relativos à guerra dos Palmares de 1668 a 1680". AHU_ACL_CU_015. escrita no dia 22 daquele mês. São Paulo. p. Ficou guardada entre os papéis do Conselho Ultramarino. em Portugal: Ernesto Ennes. ver. ao contrário do que se encontra em Coimbra. em A fronda dos mazombos.9 Por duas vezes. 1938. João Blaer. RIAGA. 1947. Gonsalves de Mello a revelar "a existência de tão importante coleção. Pode-se ler a íntegra do texto no Anexo 5. Brasiliense. São Paulo. os mais importantes foram reproduzidos em anexos de obras dedicadas a analisar a história do que passou a ser conhecido como o maior quilombo da história do Brasil. João Francisco Dias Cabral. De fato. Dentre as outras publicações.6 Há contudo uma cópia do tal papel que foi remetida a Portugal em junho de 1678. "Dezenove Documentos sobre os Palmares pertencentes à Collecção Studart" RTIC. Conselheiro Drummond)". por exemplo.10 Uma 6 Apesar de referenciada pelo "Guia do arquivo da Universidade" desde 1973. Embora a coleção já esteja acessível aos pesquisadores há três décadas. junto com uma carta do governador de Pernambuco. A publicação no Brasil foi precedida por uma edição mais simples. Cia. anexo à carta do governador Aires de Souza de Castro de 22 de junho de 1678. Ele mesmo indica que foi J.4 Esses documentos não foram incorporados na análise da história de Palmares porque estão disponíveis há não muito tempo. 11. 56 (1902): 87-96. que ele foi o primeiro a consultar. 20 n. A. a coleção tem sido consultada apenas por alguns especialistas da história pernambucana. pp. 1116 (Todas as referências à documentação desse arquivo. 14. RIAHGP. Barão de Studart. As guerras nos Palmares: subsídios para a sua história. Nacional. Mello. E. os historiadores passaram a investir na busca de fontes inéditas em arquivos brasileiros e portugueses. Eu a descobri por meio de Evaldo Cabral de Mello. Doc. tratada pelo Projeto Resgate seguem a nova notação instituída por ele). 187-246. abrigados durante muito tempo na Seção Ultramarina da Biblioteca Nacional de Portugal. Os primeiros documentos sobre Palmares foram publicados nas revistas dos institutos históricos. 20 (1906): 254-289. offerecido pelo Exm. a fim de construir a história nacional. 7 "Cópia do papel que levaram os negros dos Palmares". 7 (1875): 165-187. RIHGB. Sr. pouco depois da sua aquisição pela Universidade de Coimbra nos anos 70". 1630-1695. S. em 1938 e 2004. 10 n. e hoje está guardada em uma das caixas dos documentos avulsos vindos de Pernambuco no Arquivo Histórico Ultramarino. Ed. 8 O primeiro documento sobre Palmares a ser publicado foi a "Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco no tempo do governador dom Pedro de Almeida de 1675 a 1678 (M. Depois da criação dos Institutos Históricos. 22 (1859): 303-329. 10 Ernesto Ennes. Cx.8 em seguida.7 Esse conjunto documental. "Diário de viagem do Capitão João Blaer aos Palmares em 1645" [trad. D. O quilombo dos Palmares. é bastante conhecido e vem sendo consultado sistematicamente desde meados do século XIX. foram editadas coletâneas que reuniram centenas de outros textos coletados em diversos arquivos. A fronda dos mazombos. C. . de Alfredo de Carvalho]. 9 É o caso de Edison Carneiro.

11 Apesar dessas iniciativas. 187-194. S. pp. Melhoramentos/MEC. 213-219. como em Loreto Couto. 1962. Obra inédita. Melhoramentos.e. Robert Southey. Couto. Gottffried Heinritch Handelmann. pp.l. São Paulo. ed. Na História da América Portuguesa. 361-362 e vol. Palmares foi incorporado à história do Brasil . conseguida "com valor" e "com fortuna". Rocha Pita chega a insinuar que o "fim tão útil como glorioso [que] teve a guerra (. incluindo o quilombo de Palmares. Para uma avaliação das fontes mais usadas pelos estudiosos vide Gérard Police. citou algumas de suas frases. São Paulo. fornecendo-lhe uma chave interpretativa. 19-23. São Paulo. Guyane. os membros dos institutos históricos de Pernambuco e Alagoas abordaram Palmares como um evento importante da história daquelas Os Palmares: subsídio para a sua história. A comparação com as guerras servis na Roma antiga e a versão do suicídio heróico de Zumbi presentes em sua obra ecoam em muitas outras posteriores. pp. Os primeiros quilombos (subsídios para sua história). 11 Ernesto Ennes. História do Brasil [1810-19] (trad. Glórias de Pernambuco e desagravos do Brasil. 1937.como um episódio carregado de sentidos..) 4ª. ed. este documento também não recebeu atenção suficiente. Pesquisa e comentários em documentos históricos do século XVII. Southey.12 Essa falta de interesse também pode ser rapidamente explicada. Maceió. Edufal. 231. especialmente pp. Ibis Rouge. 14 Vide. Cf. Para um balanço do modo com que diversos autores oitocentistas abordaram a escravidão e os movimentos protagonizados por negros ou escravos. Belo Horizonte. até hoje. 258-259. 1977. uma vitória gloriosa.ou da América portuguesa . pp. "Desagravos do Brasil e glórias de Pernambuco" [1757] ABN. 33-36. São Paulo. A mesma referência é feita por Domingos Loreto Couto. 25 (1903): 194..) 2ª.. 1976. D. 3. [Sociedade Nacional de Tipografia]. L. 308-310. EDUSP/Itatiaia. 91. que deve ter Rocha Pito como fonte. 1978.5 terceira compilação chegou a ser organizada. pertencente à Biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. As injustiças de Clio. Oficina de Livros. Rio de Janeiro. 12 Ivan Alves Filho. Melhoramentos/MEC. Francisco Adolfo de Varnhagen. 61-181. a destruição de Palmares aparece com um dos feitos importantes do governo de Caetano de Melo e Castro.) aos negros dos Palmares" foi um dos elementos levados em conta para que o governador de Pernambuco obtivesse posteriormente o "superior lugar de vice-rei da Índia" (p. Lisboa. mas não foi publicada. vide Clóvis Moura. República de Palmares. Desde o século XVIII. História do Brasil [1860] (trad. Apenas Ivan Alves Filho.14 Ao longo do século XIX. Lectures sur un marronnage brésilien. O negro na historiografia brasileira. vol. em 1988. Quilombos dos Palmares. ed. História Geral do Brasil [1854] 7ª. Nas obras que tratam da história de Palmares. 1990.. s. vol. 1988.13 O modo como esse autor descreveu os mocambos e a ênfase dada à batalha final contra tão poderosos inimigos marcaram toda a historiografia posterior. Memorial dos Palmares. pp. de Sebastião da Rocha Pita. p. Décio Freitas. 2003. 3. 2004. 1. por exemplo.e. Handelmann e Varnhagen. 219). História da América portuguesa [1730]. 13 Sebastião da Rocha Pita. pp. 1938. o tal papel nunca foi incluído em qualquer dessas publicações. . pp. sem lhe dedicar mais que um parágrafo. Xenon.

enaltecendo a atuação das tropas locais.Heitor L. "um fato isolado na nossa história". apesar de considerar Palmares "uma das lendas pernambucanas". São Paulo. que fez pender a balança para os feitos dos paulistas. Cia. "The Palmares 'republic' of Pernambuco its final destruction. 17 Taunay considerava que a vitória bandeirante havia eliminado "o grande quisto de escravos rebeldes e fugidos". As guerras nos Palmares. nota 3. São Paulo. Tomo 7. por exemplo. paralelamente. 1941. 412. em manuscrito de 1870. 5 n. Ernesto Ennes. 17 Os mocambos podiam ser vistos com certa simpatia. mas o sentido geral dessas narrativas era enaltecer as personalidades locais que haviam eliminado um incômodo obstáculo à obra da colonização. considerava a destruição dos mocambos uma "miniatura" do processo de ocupação metódica e colonização sistemática das vastas florestas e do extenso território empreendido pelos portugueses nas Américas. Ideal . História geral das bandeiras paulistas. A literatura abolicionista. 44-67 e 73-82. 106-109. 19 Joaquim Nabuco. especialmente com obra de Affonso de Taunay. Havia. 18 Cf. Joaquim Nabuco. Typ. (ed. Recife. de sublimação de uma raça redimida no sacrifício e na insubmissão". p. 1988. São Paulo. Zumbi: historiografia e imagens. Franca. para usar a expressão de Pedro Calmon18. pp. Fundação Joaquim Nabuco/Ed/ Massangana. o "baluarte da libertação de uma raça cuja sujeição decorria todo o sistema econômico do Brasil". Ernesto Ennes. Affonso de Escragnole Taunay. Castro Alves. por exemplo. enquanto o Instituto Arqueológico e Geográfico Alagoano creditava a vitória a Bernardo Vieira de Melo. Reis. salientou o heroísmo da "única tentativa dos negros entre nós para se emanciparem"19. em agosto de 1870. M. História do Brasil. 1697". Ed. escreveu um poema 15 Para uma análise pormenorizada da produção publicada pelos institutos históricos sobre Palmares. 2 (1948): 200-216. apesar de seus barbarismos. que o seguiu de perto. foi analisado por A. Subsídios para sua história. B. Zumbi.16 O debate se prolongou pelo século XX. 2. 2004. 1938. ver Andressa Mercês Barbosa dos Reis. uma valorização de Palmares como símbolo da liberdade. pp. vol. nesse caso. ao longo do século XIX. Pedro Calmon. compilada do original manuscrito por José Antonio Gonçalves de Mello). Ver também.15 Varnhagen. Unesp. Mestrado. . Logo os paulistas contra-atacaram. para valorizar o feito dos bandeirantes na destruição dos mocambos.136. Companhia Editora Nacional. Canton. p. o destaque cabia à resistência dos mocambos e não a seus destruidores. A Escravidão. 1936. The Americas. 16 O debate entre Varnhagen e o Instituto de Alagoas. do mesmo autor. deu a Palmares e ao episódio do suicídio de Zumbi "a importância de epopéia da liberdade. Nacional. privilegiou as realizações de Domingos Jorge Velho. à ordem pública ou ainda ao desenvolvimento do país. pp.6 províncias. 48-50. considerado um herói da história nordestina por sua atuação na chamada Guerra dos Mascates.

Jayme de Altavilla considerava que Palmares. 65-6) 24 Alfredo Brandão.23 No primeiro congresso Afro-Brasileiro. "A Redempção dos Palmares" RIAGA. "A República dos Palmares". ora as lutas empreendidas pelo negro brasileiro. publicado no Diário da Bahia em 20. "Os negros na história de Alagoas".) nas ondas da escravidão"20. Massangana.25 20 O poema "Saudação a Palmares" não chegou a ser publicado antes de sua morte... 22 e 23 de agosto de 1905.185. "As sublevações de negros no Brasil anteriores ao século XIX. 1953. Trabalhos apresentados ao 1 Congresso Afro-Brasileiro reunido no Recife em 1934. O epíteto fora cunhado por Martins. No final dos anos 20. 137-140. 23 Jayme de Altavilla [Amphilophio de Mello]. 1º vol. 21 Nina Rodrigues. 1º vol. Massangana. Fundaj/Ed.) o vaticínio de 13 de maio de 1888 e de 15 de novembro de 1889". em homenagem à "epopéia rubra que remontou os séculos e ficará perpetuamente na história da formação do Brasil.) o primeiro protesto do bárbaro sofredor (. que tendeu ora a enfatizar as características africanas de Palmares.) o primeiro grito de independência do Brasil". A aculturação negra no Brasil. Palmares foi predominantemente caracterizado como uma das maiores "epopéias da raça negra". 11 (1926): 62-63. Ariel. 1988). 64. p. [1880] Lisboa. numa "região de valentes". Estudos Afro-Brasileiros. o interessante artigo de Dale T. 1988). Alfredo Brandão proclamou que o quilombo era "o mais alto feito de heroísmo da raça africana (. mas foi posteriormente incluído na coletânea Os Escravos. 1942. 1977.22 Palmares foi então se tornando um evento de significado nacional. 71. Rio de Janeiro. [Joaquim Pedro de] Oliveira. 25 Mario Mello. São Paulo. "uma federação de estados livres dentro do Estado". Companhia Editora Nacional. "A Tróia Negra". p. havia sido "o primeiro grito de república no Brasil (.. 1935 (ed fac simile Recife. 25 (1993): 189-205. p.24 enquanto Mário Melo defendia ser preciso “relembrar a epopéia desses negros que lutaram contra a escravidão durante mais de três quartos de séculos”. Ariel. 1935 (ed fac simile Recife. São Paulo. p. Trabalhos apresentados ao 1 Congresso Afro-Brasileiro reunido no Recife em 1934. "História e motivo em 'Saudação a Palmares' de Antônio Frederico de Castro Alves (1870)" Estudos Afro-Asiáticos. soltou "a flâmula agitada (. associando-se a outros grande feitos da história pátria.. O Brasil e as colónias portuguesas. ª Editores. reunido no Recife em 1934. A tradição de uma abordagem épica da história de Palmares torna-se evidente no título original escolhido por Nina Rodrigues para o artigo. 22 Vide Arthur Ramos.. Companhia Editora Nacional.21 Em grande parte.. Ver. . 60. como a chamou Nina Rodrigues. Fundaj/Ed. Nesse artigo. Palmares" Os africanos no Brasil.7 apaixonado. Estudos Afro-Brasileiros. 5ª ed. a respeito. [1905]. pp. saudando aquele "ninho d'águias atrevido" que. Rio de Janeiro. Altavilla conclama a necessidade de retirar as pedras das ruínas da cerca palmarina que visitou em 1921 para com elas fazer um monumento "em qualquer logradouro de nossa linda terra". Guimarães & C. essa avaliação acompanhou o movimento mais amplo em prol do reconhecimento das contribuições africanas e negras para a história do Brasil. Ao longo do século XX. Graden. (pp...

bem como glorificar seus heróis tornava-se um ato político. Luna. abordar essa história da resistência negra. Reino Negro de Palmares [1954]. pp. [1968] 2ª ed. mas a ênfase nos aspectos culturais ou étnicos foi perdendo importância diante dos significados políticos que a história palmarina adquiriu. 13-25. destacado por sua resistência e pela tenacidade de suas lideranças. O Quilombo dos Palmares [1947] 2ª ed.30 Nos livros publicados por esses dois últimos autores. pp. Palmares continuou a fazer parte do quadro maior das lutas contra a escravidão. O artigo é praticamente um resumo da obra de Carneiro. 27 Ver. por exemplo. 31 L. e Benjamin Péret. Biblioteca do Exército. Catedral de Brasília/INL. 30 Luiz Luna. 2ª ed.28 A senda libertária e militante aberta por Carneiro foi fortalecida nos anos 50. [1959] 2ª ed. no Brasil e no exterior. Phylon. "Zumbi and the Republic of Palmares". . guerrilhas. Ed. 1958. a queima de documentos ordenada por Rui Barbosa foi usada para atestar as dificuldades dos estudos sobre a escravidão negra. Da fuga ao suicídio. insurreições. "República dos Palmares". Palmares passou a ser. Porto Alegre. 1976. 1972. essa vertente se tornou hegemônica. 21 e J. 2002. publicado originalmente em 1953 e reproduzido nessa edição. Editora da UFRGS. 223-228. pp.8 Depois da publicação da obra de Edison Carneiro. fato explicitamente reconhecido pela autora (p. Durante muito tempo. 1972. Quilombos. As expressões citadas encontram-se em um artigo posterior. de reconhecimento e solidariedade para aqueles que contribuíram "com trabalho. revista. n. "O quilombo dos Palmares" Rebeliões da Senzala. "Que foi o quilombo de Palmares?" [1956] in: O quilombo dos Palmares. Goulart.29 Nos anos 60. São Paulo. Rio de Janeiro. em 1947. como até mesmo para aqueles que se afastavam de suas escolhas políticas. Da fuga ao suicídio. A. o texto de Carneiro constituiu a principal referência para os que queriam conhecer a história de Palmares. com Luiz Luna e Alípio Goulart. Belo Horizonte. Brasiliense. no século XVII"26 e um exemplo da "reação do homem negro contra a escravidão". como Mário Martins de Freitas. Conquista. 64). "um Estado negro à semelhança dos muitos que existiram na África. 1 (1953): 62-70. 14. 179-190. revista e ampliada Rio de Janeiro. "um fenômeno social e econômico dos mais relevantes da vida nacional". 1988.31 Assim. revista Rio de Janeiro. p. Aspectos da rebeldia do escravo no Brasil. Palmares se tornou um símbolo da reação dos cativos à escravidão. "Singularidades dos quilombos". 29 Exemplos dessa perspectiva são as obras de Clóvis Moura. pp. Irene Diggs. 28 Mario Martins de Freitas. José Alipio Goulart. p. ao mesmo tempo. 11. Conquista.27 Tanto para os que concordavam com suas posições. suor e 26 Edison Carneiro. "República dos Palmares" O negro na luta contra a escravidão. 217-238.

B. p. ver A. que ignorou a resistência escrava. Palmares. por meio da qual os escravos conseguiram construir "um mundo fraternal e livre". [e] obstinado". 210. que serviu de fonte para diversas autores no século XIX e XX. Luna. 1984. 34 D. Carneiro.. acreditava-se que Zumbi era um título atribuído aos chefes palmarinos e que o último deles.38 ele 32 33 L. revista e ampliada várias vezes até sua quinta edição em 1985. Memorial dos Palmares. Zumbi: historiografia e imagens. A guerra dos escravos.34 A obra de Ivan Alves Filho dá continuidade a essa corrente: nela Palmares ("nossa primeira luta de classes") aparece como "uma alternativa à sociedade oficial". 5ª ed. Xenon. sua figura foi se tornando central na história de Palmares. reescrita. Zumbi. Caracterizado quase sempre como um jovem "enérgico. Reis. 31. entendido como "a manifestação mais eloqüente do discurso anti-escravista dos negros brasileiros nos quase três séculos da escravidão". especialmente capítulo 3. p. . 37 O suicídio de Zumbi foi popularizado pela obra de Sebastião da Rocha Pita. a respeito. 36 Para um balanço da história da construção da figura histórica de Zumbi. B.32 A obra de Décio Freitas.9 sangue para ajudar a formar um povo livre e uma nação respeitada como fatalmente terá de ser o Brasil".37 Antes. xii-xiii. [1973].36 No início do século XX. O quilombo dos Palmares. 80. resoluto.35 Durante o século XIX. Reis. Freitas alarga e aprofunda o caráter épico da história de Palmares. pelo gesto do suicídio heróico que recusa a escravidão ou pela resistência tenaz vencida só às custas de uma traição. Documentos publicados na Revista do Instituto Arqueológico e Geográfico Alagoano em 1904 e 1906 e a obra de Nina Rodrigues questionaram definitivamente essa versão. havia se jogado em um abismo. Porto Alegre. M. "República dos Palmares". publicada em 1973. Décio Freitas. p. 35 Ivan Alves Filho. como depois. Vide. 1988. uma primeira tentativa de romper com a ordem colonial. Freitas. e a descrever o ímpeto de uma luta que poderia servir de exemplo para militantes e revolucionários. é o ponto culminante dessa forma de abordar a história de Palmares. Seguindo as pegadas de Carneiro e Péret. Zumbi se tornou o grande herói das lutas dos negros no Brasil. juntamente com outros guerreiros. revista e ampliada. os estudiosos documentaram sua morte em uma emboscada em 20 de novembro de 1695 e aos poucos. Rio de Janeiro. para evitar ser preso e reescravizado pelas forças lideradas por Bernardo Vieira de Melo e Domingos Jorge Velho. Palmares. M. pp. que marca o início da luta pela abolição. 38 E.33 Seu livro se constrói como um esforço crítico destinado a reparar os erros do "revisionismo histórico". Mercado Aberto. A.

do mesmo autor. a data de sua morte foi instituída como Dia Nacional da Consciência Negra no Brasil.camara. Desde então. 116. p. acabou morto numa conspiração . Ministério da Cultura. Freitas.40 Em 1978. completando um processo iniciado no século XIX. sucumbira ao peso da derrota e perdera prestígio entre os seus. Vide também Mary Karasch. The human tradition in colonial Latin America. G. Zumbi. v. Gangazumba tornou-se um contraponto. 1996. o 20 de novembro foi se tornando uma data simbolicamente oposta ao 13 de maio: a primeira representando a luta heróica contra a escravidão e. Freitas.gov. a outra. 11. que levou à marginalização e à falta de direitos a maioria dos negros no Brasil. Zumbi dos Palmares. muitas marchas e discursos contra o racismo e as restrições à cidadania dos negros podem ser vistos e ouvidos em quase todas as cidades do Brasil.42 Diante dele. p.43 Desacreditado entre seus companheiros. Em 1996. A.br/internet/InfDoc/novoconteudo/legislacao/republica/Leis1996vCLXXXVIIIn1 1p714/parte-2. B. Zumbi. 43 Gérard Police chega a afirmar que o tratado de 1678 teria sido o "pecado capital" de Gangazumba. Imprensa Nacional. Acessível em http://www. passim. Reis. 1996. um líder que havia avaliado mal o jogo de forças. nov. Human tradition around the world. (ed. pela justiça econômica e social.pdf 42 Foi Andressa Reis quem chamou a atenção para esse detalhe. Palmares. Palmares. A biografia de Zumbi foi fixada a partir das pesquisas realizadas por Décio Freitas e apresentadas na quinta edição revisada e ampliada de seu livro em 1984.41 Foi a biografia elaborada por Décio Freitas que proporcionou a base historiográfica para essa determinação legal. M. pp. Reis. M.). Police. Vide também. 104-120. 257. A. . 2002. Luanda. 41 Cf.10 chegou a ser considerado o "Espártaco negro de Palmares". A cada 20 de novembro. "Zumbi of Palmares: Challenging the Portuguese colonial order. p. B." in: Kenneth J. que até faz menção ao nome cristão de Zumbi. 5. Coleção das Leis da República Federativa do Brasil.39 que se recusou a qualquer acordo com as autoridades coloniais. Francisco. pp. Quilombos dos Palmares. 1995.e também 39 40 D. n. Brasília.116-118. por extensão. a liberdade precária concedida pelo governo imperial em 1888. Zumbi passou a ser oficialmente considerado um herói nacional e não apenas uma referência para os militantes do movimento negro. Andrien. Wilmington: SR Books/Scholarly Resources. optando por uma luta bem organizada e incansável. 188. p. 5726. já que uma lei determinou que seu nome fosse "inscrito no Livro dos Heróis da Pátria que se encontra no Panteão da Liberdade e da Democracia". D.

e de um filme dirigido por Cacá Diegues em 1964. Palmares.45 Neste contexto. 45 D. Ganga-Zumba. que chegou a ser o personagem principal do romance de João Felício dos Santos. a análise rapidamente se afasta da simples oposição entre escravidão e liberdade ou entre composição com as forças coloniais e resistência heróica. Como veremos. as perguntas suscitadas por aqueles documentos copiados no códice da coleção Conde dos Arcos demandam mais vagar e reflexão para que se possa ensaiar alguma explicação. Ao focalizar os termos acordados entre os filhos de Gangazumba e as autoridades em Pernambuco em 1678 e como eles puderam ser implementados. São Paulo. procuro o ponto de vista dos negros dos Palmares e das autoridades coloniais e metropolitanas. p. Edições de Ouro.d. [1961]. apenas para marcar uma virada na história de Palmares: foi a partir de sua recusa em aceitar a paz acordada com as autoridades coloniais que Zumbi teria se afirmado como o novo líder de Palmares. de acrescentar novos dados e completar as lacunas de uma história já tão cristalizada e que tem os olhos voltados mais para o presente do que para o próprio passado. 121. as negociações ocorridas em 1678 e o acordo de paz acabaram sendo apreendidos sob o signo da traição e Cucaú pôde até mesmo ser caracterizado como o "anti-Palmares tão esperançosamente fundado pelas autoridades coloniais". simplesmente. pouco conhecido e quase impopular. Freitas. Para isso.46 Como o leitor já deve ter desconfiado. Ao invés de respostas rápidas. Esse caminho implica uma leitura bastante particular das fontes disponíveis e leva a considerar aspectos que normalmente não estão presentes na história de Palmares. Freitas.44 Na história de Palmares. Muito menos pretendo entrar no debate sobre os méritos e deméritos dos heróis que povoam a história de Palmares. Palmares. p.11 perdeu o lustro entre os historiadores e militantes do movimento negro no século XX. Não se trata. 46 D. é 44 Poucos historiadores dedicaram maior atenção a Gangazumba. para mergulhar na cultura política da segunda metade do século XVII. ao focalizar um episódio que até hoje permaneceu nas sombras. . mencionado de forma breve pelos estudiosos do tema. s. esta tese caminha justamente em sentido contrário. intitulado "Gangazumba". caracterizando-se como "o combatente mais indômito da liberdade de sua gente". 128. as negociações havidas em 1678 tornaram-se um episódio de menor importância. consolidada como uma saga da liberdade. .

"Primeiros passos para uma história da leitura" O beijo de Lamourette. leituras" in: L. pp. 2002. Marcial Pons. Tal alargamento de questões só é possível porque os eventos de 1678 constituem.12 preciso deixar de pensar apenas na história de Palmares para buscar os nexos que ligavam a experiência de muitas pessoas diferentes do ponto de vista social. (trad. do modo como eles foram escritos. o destino dessas peças textuais e o modo como foram lidas na época em que foram produzidas. ao consultar novos documentos. sobretudo. 1992. vários autores têm ressaltado a necessidade de levar em conta o contexto institucional de produção de cada peça documental.) São Paulo.47 Todo um campo novo de indagações tem se aberto com o aprofundamento da análise dos recursos narrativos em ação nas fontes históricas: além dos procedimentos de construção dos textos. Una historia cultural del Siglo de Oro. . 211-238. é fácil encontrar novidades. no Brasil e em Portugal. mas a atenção a esses elementos permite 47 Dentre vários autores. Para a produção e a circulação dos manuscritos nos séculos XVI e XVII. mas as formas da escravização e. Belo Horizonte. vide André Belo.48 Não se trata de deslocar o objeto da investigação para adentrar nos terrenos da história da leitura ou da bibliografia. Vide. Nas últimas décadas. cultural e político na África Central. aqui. vide especialmente Fernando Bouza. Certamente. destaco as contribuições diferenciadas de Robert Darnton e Roger Chartier. pp. 48 Para um balanço dos debates e principais temas abordados pela história da leitura. impressão. como os que estão registrados nos códices da coleção Conde dos Arcos. e as traduções lingüísticas e culturais operadas em cada texto. e os significados que tiveram para eles. Robert Darnton. as relações que ambas mantinham com a liberdade. Madrid. na segunda metade do século XVII. ajudando a constituir o que genericamente é chamado de processo da colonização. Hunt (ed). Autêntica. Percorrê-lo significa não apenas considerar a escravidão. é o modo de ler as fontes. História & Livro e Leitura. o universo empírico de uma investigação sobre as políticas de dominação adotadas pelos portugueses nas terras ultramarinas e sobre o modo como os habitantes desses territórios ocupados reagiram a elas. 2001. Companhia das Letras. São Paulo. 1990. no entanto. tem se levado em conta também as condições da escritura. as intenções do autor. Corre manuscrito. os termos empregados na descrição dos eventos e na qualificação das pessoas. Companhia das Letras. 146-172. por exemplo. Mais importante que isso. É esse o caminho para poder compreender os termos utilizados naqueles documentos e as ações dos homens que os produziram. "Textos. A Nova História Cultural. e Roger Chartier.

aliás. como Angola e o México. O caminho não será longo. Por tudo isso. conforme os assuntos que precisarem ser discutidos e analisados. e levará a lugares distantes. constitui o principal conjunto documental para a história de Palmares. que seguem mais ou menos a cronologia dos acontecimentos. organizei o texto em quatro capítulos. mas será trilhado com vagar. O diálogo com a produção específica sobre Palmares. . acompanhando o ir e vir da correspondência administrativa que. me seguir. gentilmente. Para dar conta dessa tarefa. essa tese pode ser tanto um exercício de análise daquelas quatro disposições do governo de Pernambuco em 1678 quanto um estudo sobre os processos da dominação escravista no Brasil da segunda metade do século XVII. com resultados bem interessantes. Mais que anunciar o percurso ou fazer promessas de uma viagem interessante.13 aprimorar a leitura dos documentos que temos à nossa disposição. porém. Ao pretender ser as duas coisas ao mesmo tempo. prefiro apenas convidar o leitor a. é também uma oportunidade para discutir os procedimentos da análise histórica. com a historiografia sobre a experiência dos escravos nas Américas e sobre a história da África também estará presente.

que começa pelo exame das fontes. 1668 e 1672 pleiteara Angola. Lá e cá Filho de uma boa família. em 1669 e . cavaleiro da Ordem de Cristo. com serviços militares nas guerras de restauração e parentes que governaram praças importantes como o Rio de Janeiro.14 Capítulo 1 AJUSTES Há dois procedimentos básicos seguidos pelos historiadores para lidar com o passado: procuramos saber o que já se produziu a respeito do tema escolhido e consultamos o maior número de registros produzidos pelos envolvidos nos eventos estudados. A solução para o impasse requer o exame detalhado das fontes e do modo como elas foram usadas pelos diversos autores. é preciso caminhar com cuidado. a partir da qual se pode ensaiar uma interpretação dos acontecimentos e tentar desvendar os significados que tiveram para as pessoas que os viveram. Bahia e Angola. dom Pedro de Almeida já havia se candidatado a um posto de governo no Ultramar várias vezes: em 1665. 1. no entanto. É esse o método adotado nesse primeiro capítulo. pois na maior parte das vezes não há como chegar a um acordo ou fazer uma média. Cruzar as informações e cotejar os dados obtidos nesses dois tipos de textos é a tarefa que vem a seguir. Nesse caso. Nem sempre. o que se lê na bibliografia combina com o que se lê na documentação.

Coutinho já havia alertado que os fugitivos eram numerosos. permaneceu vários meses em Lisboa e deve ter acompanhado a discussão gerada pelo pedido feito pelo seu antecessor em 19 de agosto de 1673. vide Ross Little Bardwell. por isso ameaçavam e prejudicavam os moradores da capitania. 981. Sobre a insistência de dom Pedro para obter a nomeação. 33 (microf. n. em julho de 1673. mas precisava de uma autorização régia para usar recursos da Fazenda Real e também pedir 1 Agradeço a gentileza de Mafalda Soares da Cunha por disponibilizar as informações do banco de dados do projeto Optima Pars. Manuscritos do Brasil. D. Doutorado. o governador estava recrutando gente para atacar os Palmares. Como só tomou posse do governo em fevereiro de 1674. Elites Ibero-Americanas do Antigo Regime. Rio Grande do Norte e Ceará. 4114). 2005. ANTT. Monteiro. 191-252. Optima Pars. 114v. fl. pois o governador de Pernambuco tinha sob sua jurisdição as capitanias anexas de Itamaracá. 10.1 Finalmente. Imprensa de Ciências Sociais. AHU_ACL_CU_015. Alagoas. a carta patente só tenha sido expedida em 2 de setembro de 1673. 1974. D.15 1672 o Rio de Janeiro e em 1670 Pernambuco. qualifications. Logo depois de tomar posse no governo da capitania. 10. do qual participa. Pedro Cardim e Mafalda Soares da Cunha (orgs. Nessa ocasião.). 128. 23v. ANTT . Cx. and reward. F. .3 Essa não era a primeira vez que tratava do assunto. pp. University of California. 988. Lisboa. AHU_ACL_CU_015. Cinco dias depois o Conselho Ultramarino pronuncia-se alertando o príncipe regente que a nomeação não havia seguido a tramitação regular. p. estavam bem fortificados e tinham ferreiros capazes de fazer armas. 28. 2 Cf. The governors of Portugal's South Atlantic empire in the seventeenth century: social background. selection.2 Era um cargo de certo prestígio. Fernão de Souza Coutinho escrevera ao príncipe para contar os percalços havidos no combate com os "negros levantados que assistem nos Palmares". Para mais informações vide Mafalda Soares da Cunha e Nuno Gonçalo Monteiro. Afonso VI. Cx. administradas por capitães mores. Santa Barbara. em 1671. Decreto de 23 de julho de 1673. Chancelaria de D. conseguiu ser nomeado pelo príncipe regente para o governo de Pernambuco por um decreto régio procedimento que chegou a causar certo constrangimento no Conselho Ultramarino por quebrar praxes ordinárias. Paraíba. "Governadores e capitães-mores do império atlântico português nos séculos XVII e XVIII" in: Nuno G. liv. fl.Registro Geral de Mercês. Sabendo estar no final de seu mandato. 3 Carta de Fernando de Souza Coutinho de 19 de agosto de 1673. Talvez por isso.

séculos XVII e XVIII" Estudos de . 8 Esses terços foram formados durante o período das lutas contra os holandeses. permitia comunicações bastante seguras e regulares entre as duas cidades. pp. dependendo de vários fatores. salvo em situações de emergência.4 Sem resposta de Lisboa e da Bahia. R. fl. reiterando a necessidade do recrutamento de soldados e comparando o perigo de Palmares aos Tapuias na Bahia. A resposta veio em 5 de setembro de 1671.16 contribuições extras aos moradores. 55-56. Carta de Afonso Furtado de Castro do Rio Mendonça de 5 de setembro de 1671. do terço dos índios do Camarão e dos negros de Henrique Dias. 7 Evidentemente. Este último faleceu em 1648 e foi sucedido por dom Diogo Pinheiro Camarão e em seguida por dom Sebastião Pinheiro Camarão. mas o regime de frotas. Russell-Wood. que convocou "pessoas práticas do Brasil" para avaliar a situação.7 As notícias enviadas em junho de 1671 devem ter chegado a Lisboa em meados de agosto ou setembro e foram bem discutidas no Conselho Ultramarino. Cf.6 Os tempos são bem diferentes de hoje. Henrique Dias chegou a ser nomeado faleceu em 1662 e foi sucedido por Antônio Gonçalves Caldeira e. A viagem demorava em média 75 dias na ida e 60 na volta. Ásia e América (14151808). As datas das cartas indicam que o sistema de frota deve ter sido o meio mais usado. Na segunda metade do século XVII. Difel. 3ª-I-1-31. Depois de muita discussão. sobre o mesmo assunto. CCA. conforme os ventos. em vigor desde meados do XVII. 135 6 A. Juliana Lopes. "Os Henriques nas Vilas Açucareiras do Estado do Brasil: Tropas de Homens Negros em Pernambuco.) Lisboa. as comunicações entre a Coroa e o governo em Pernambuco não precisavam depender somente da ida e vinda das frotas. os dois últimos nomeados mestres de campo da gente preta de Pernambuco. Com o tempo de estadia nos portos. a distância entre o Recife e Lisboa podia ser mais ou menos curta. entre a ida e a torna-viagem. 10. Cx.8 Os prisioneiros deveriam ser repartidos conforme o regimento 4 Carta de Fernando de Souza Coutinho de 1º de junho de 1671. (trad. 2 (2005): 133-152. decidiuse que a guerra contra os Palmares devia ser feita com tropas formadas pelos moradores das vilas vizinhas e por tropas da infantaria paga. doc. 9 (1929): 433-435 5 Carta de Fernando de Souza Coutinho de 1º de outubro de 1671. 917. As cartas podiam aproveitar os vários navios que cruzavam o Atlântico passando por Recife em uma ou outra direção. Havia frotas anuais que ligavam as duas cidades. Alguns dias depois Coutinho escreveu também para o governador do Estado do Brasil. o governador adiou o envio da expedição que planejava fazer contra os Palmares. por Jorge Luís Soares. Kalina Vanderlei Silva. 16 n. 1992. IV.5 A demora não resultava do ritmo das comunicações. inicialmente comandados por Henrique Dias e pelo índio Potiguar Felipe Antonio Camarão. 292. Um mundo em movimento. Revista Anthropológicas. que costumavam sair em abril de Lisboa e voltavam em geral nos meses de julho e agosto. que lutou contra os Palmares. como se verá em breve. AHU_ACL_CU_015. Os portugueses na África. AUC. J. em 1682. D. poder-se-ia levar de sete a doze meses para ir de Lisboa ao Recife e voltar a Lisboa. "A visibilidade do primeiro Camarão no processo de militarização indígena na capitania de Pernambuco no século XVII". DH.

). As discussões podem ser acompanhadas pelos anexos à carta de Fernão de Souza Coutinho de 1 de junho de 1671. Em Pernambuco. UERJ. Cf. 1712. As penas que determinou para os que desertassem eram duras: três tratos de braço solto12 e degredo para o Ceará por dez História.d. mencionada acima. para seguirem por caminhos diferentes até os Palmares. fac-simile. Silva. Imagino que "três tratos de braço" seja suspender por três vezes alguém na polé. Rio de Janeiro. depois de descontado o custo das munições. AHU_ACL_CU_Consultas Mistas. verbete "polé". 11 Além das penas. engrossando novamente os Palmares. Cx. pp. De modo algum. Os homens deviam ser "marcados com um R no rosto. fossem logo confiscados e mortos. CD-Rom. A.fcsh. ele não tomou nenhuma decisão. 9. Coimbra. Cod. J. Vocabulário portuguez e latino. com pesos amarrados nos pés. de modo a destroncar os braços.9 e a Coroa deveria abrir mão do quinto para que fossem repartidos entre os soldados. Vide Regimento das Fronteiras. D.10 A medida era extrema e destinava-se a impedir que os prisioneiros tornassem a fugir. no comando de soldados pagos e de ordenanças. Fontes históricas de Direito português. A consulta do Conselho Ultramarino de 9 de outubro de 1671 traz as decisões finais do Conselho. 12 Dar tratos de polé significa içar a pessoa pelos pulsos por meio de cordas e uma roldana fixada em uma armação de madeira. Raphael Bluteau. angariar mantimentos e obter munições e acabou protelando a expedição por mais de um ano.iuslusitaniae. como no caso da forca (a polé). 288-289 (acessível em Ius Lusitaniae. na parte que melhor parecer" de modo que. 917. http://www. Ao longo da tese.17 das fronteiras do Reino.2 (2002): 145-194. 10. Collegio das Artes da Companhia de Jesus. e depois deixá-la cair subitamente. o caráter extremo da medida inclui a permissão para remeter os escravos apreendidos em Palmares para Castela. os prisioneiros e os que se entregassem voluntariamente deveriam permanecer no Estado do Brasil ou em qualquer outra conquista de Portugal. . 29 de agosto de 1645. Coutinho enfrentava dificuldades para juntar gente. Collecção Chronologica da Legislação Portugueza Lisboa. Imprensa de J. depois de descontado o quinto da Coroa. n. 1854. AHU_ACL_CU_015. aparentemente sem o pagamento de impostos. José Justino de Andrade e Silva.pt/) 10 Estavam isentos dessa determinação as mulheres e as crianças com menos de sete anos. 9 Os parágrafos 78 a 81 do Regimento das fronteiras determinam os procedimentos para repartição das prezas feitas entre os soldados. 17. s. uso genericamente os termos terços "dos Henriques" e "dos índios do Camarão" para designar genericamente essas tropas. ali se instalassem em um arraial e combatessem os mocambos. achados em algum lugar. entretanto. mas não foi possível saber qual foi a decisão régia. enquanto isso. Resolveu-se afinal mandar o coronel Antonio Jácome Bezerra.unl.11 As recomendações foram enviadas ao príncipe em 9 de outubro de 1671 mas. (Ed. ao que tudo indica.

Cx. por exemplo. 2ª ed. 82. 275v . 275. "Segundo Livro de Vereações da Câmara de Alagoas". [1973]. No final. 3ª-I-1-31. IV. todavia. p. Ver também Mario Martins de Freitas. fl. as dificuldades eram muitas e Coutinho menciona não ter tido as repostas necessárias a tempo. por "ser estilo antiqüíssimo nestas capitanias". Décio Freitas chega a dizer que elas haviam se tornado uma das "mais importantes missões atribuídas pela Coroa aos governadores de Pernambuco". depois de descontado o quinto da Coroa. Biblioteca do Exército. alcaide mor de Porto Calvo. Achou um mocambo com 700 casas. Mercado Aberto. 5ª ed. apenas 60 prisioneiros foram entregues ao Almoxarife da capitania. pois até mesmo os senhores haviam se comprometido a despachar os recapturados no primeiro navio. Porto Alegre. é uma diversidade de atitudes em relação ao assunto. 265. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco.13 Bezerra chegou a reunir 600 homens. 2-2v. RIAGA (1875):176-177. os outros foram repartidos entre os soldados. A guerra dos escravos. 1988. 10.17 O que a documentação revela. Como se pode ver no caso da correspondência enviada por Fernão de Souza 13 Bando de Fernando de Souza Coutinho de 20 de outubro de 1672. 16 Consulta do Conselho Ultramarino de 18 de novembro de 1673.16 Vários historiadores insistem na preocupação existente em Lisboa com as guerras contra os Palmares. nenhum permaneceria em Pernambuco. reescrita.15 O tom geral da carta de 19 de agosto de 1673 era de desalento: o governo estava terminando. Palmares. em outubro de 1671. CCA. Cristóvão Lins. 17 Décio Freitas. CCA. 988. acabou por reafirmar as recomendações feitas havia quase três anos.18 anos. que teve seus canaviais queimados pelos negros fugidos.278. fls. Rio de Janeiro. revista e ampliada. A ordem para que todos os pardos forros também fossem engajados está em AUC. p. 14 Há várias medidas contra os desertores em AUC. doc. lutou contra eles e conseguiu entrar na povoação. Dessa vez. no final. 1984. Segundo o governador. . houve muitas deserções14 e as expedições não tiveram sucesso. conseguiu juntar alguma gente para atacar os Palmares. mesmo com essas penas. o Conselho Ultramarino demorou um pouco mais para analisar o assunto e. 222. Reino Negro de Palmares [1954]. 15 Carta de Fernando de Souza Coutinho de 19 de agosto de 1673. IV. pois se acha tão retardado e ser tão preciso acudir-se ao excesso que estes negros fazem naquelas capitanias". Cod. teve porém que voltar por falta de mantimentos. Ver. D. Os que haviam fugido de seus senhores foram devolvidos mediante o pagamento de 12 mil reis. AHU_ACL_CU_015. fls. 3ª-I-1-31. 97. Não deixou de observar contudo que dom Pedro de Almeida deveria levar as ordens necessárias para "dar [a esse negócio] a execução que deve ser com a brevidade que ele pede. no entanto.

Carta de Afonso Furtado de Castro do Rio de Mendonça de 18 de setembro de 1674. AHU_ACL_CU_015. 265. brancos. O tempo de mais um governo havia se passado.fossem seguidas. Cx. mas este. relatando seus problemas e sucessos iniciais em abril de 1674.20 Nesse meio tempo. Cod. Para incentivar os moradores. Cod. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco. o melhor meio de acabar com os Palmares era colocar os índios sob o governo de Camarão instalados à volta de Palmares. por meio do qual finalmente anunciava uma expedição para acabar "com a insolência dos negros levantados dos Palmares". AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco. 20 Consulta do Conselho Ultramarino de 26 de setembro de 1674.18 Trocou cartas com o governador do Estado do Brasil19 e armou tropas para enviar aos Palmares . RIAGA.19 Coutinho. desde que fossem vendidos para fora da capitania. Com certo desconto. o príncipe não tomava nenhuma decisão efetiva. prometia distribuir os prisioneiros entre os participantes. 7 (1875):178 . 10. as recomendações do Conselho Ultramarino seriam enfim aplicadas. D. Ela seria composta por "soldados pagos. Tratando de diversos assuntos. já que o degredo era apenas para fora da capitania. logo que chegou a Pernambuco. o envio de uma expedição 18 19 Carta de dom Pedro de Almeida de 30 de abril de 1674. em 19 de outubro de 1674. para ele. ao mesmo tempo em que medidas graves eram aventadas pelos conselheiros do Ultramarino. de 1666 a 1681". fl. Lá em Lisboa e cá em Pernambuco. 1007. 265. Não se conhece o teor das ordens dadas a Pedro de Almeida. 10 (1929):113-115. aproveitou para dizer que. enquanto em Lisboa nenhuma providência efetiva era tomada. e DH. os ritmos e as necessidades parecem ter sido bem diferentes. começou a dar providências para dar cabo da missão.medidas que o Conselho não considerou suficientes. 21 Bando de dom Pedro de Almeida de 19 de outubro de 1674. sem que a questão tivesse sido resolvida. preferindo recomendar ao príncipe que as instruções oferecidas em 9 de outubro de 1671 .21 Ao que tudo indica. com exceção das "crias" de dez anos. em Pernambuco o governador soltou um bando. depois de descontado o quinto. em datas posteriores. 3v. índios. homens pardos da ordenança e pretos do terço que foi de Henrique Dias". Décio Freitas e Ivan Alves Filho mencionam.aquelas do início do governo de Souza Coutinho . a fim de impedir que eles descessem e fizessem assaltos e que novos fugitivos ali fossem se refugiar. "Segundo Livro de Vereações da câmara da vila de Alagoas. com base em referências constantes em pedidos de mercê feitos por soldados.

pp. A correspondência administrativa trocada com a Corte e com o governo geral do Estado do Brasil revela que diferentes estratégias eram tentadas ao mesmo tempo: podiase usar as tropas formadas por índios e negros. Freitas. Xenon. Palmares. Memorial dos Palmares. de 1666 a 1681". pois julgavam mais fácil enfrentar os índios. um português que havia se estabelecido em São Paulo e pelejara contra os índios na Bahia. pois esses homens eram "gente bastantemente voluntária" que havia demorado muito a fazer a guerra contra os índios na Bahia. aquelas constituídas por soldados pagos. de que o governador de Pernambuco chegou a solicitar o auxílio de alguns paulistas que estavam na Bahia. com quem dom Pedro tratou do assunto. comandada pelo governador dos índios. 23 Carta de Afonso Furtado de Castro do Rio Mendonça de 25 de fevereiro de 1675. porém. que partiu em agosto de 1675. Rio de Janeiro. Além disso. 24 Termo de vereação da Câmara da Vila de Santa Maria Madalena da Lagoa do Sul de 11 de março de 1675. para prear índios ou caçar escravos amocambados. mas de sertanistas que integravam expedições como as que partiam de São Paulo. as ordenanças. talvez 22 D. 10 (1929):134137.24 O episódio indica. no entanto.23 Em março de 1675. que haviam se mostrado eficientes na expulsão dos holandeses. Segundo o governador geral do Brasil. RIAGA. . do que enfrentar os negros com os quais "nunca pelejaram" e que andam fortificados e "têm resistido a tão grandes soldados".20 composta por índios e soldados pagos. DH. se ofereceu para ajudar a combater Palmares e foi aceito pela câmara da vila de Alagoas. que partiu em dezembro de 1674. 63-66. 7 (1875):178-179. com os quais estavam acostumados. "Segundo Livro de Vereações da câmara da vila de Alagoas. 87-88. muitas vezes relutantes em abandonar suas atividades. incluindo o terço dos Henriques. Ver também Ivan Alves Filho. 1988. pp. Sebastião Pinheiro Camarão. Como se pode verificar o termo "paulista" não significa neste contexto que se trate de pessoas nascidas em São Paulo. algo dessas consultas deve ter dado resultado. não valia a pena contar com isso. que também cá na colônia nem sempre os governos do Estado do Brasil e de Pernambuco concordavam quanto aos procedimentos a serem adotados contra Palmares. Há registros.22 Não encontrei documentos sobre elas nas fontes administrativas da secretaria de governo de Pernambuco. pois o sertanista Estevão Ribeiro Baião Parente. compostas pelos moradores. portanto. achava difícil que eles colaborassem na guerra contra os Palmares. e outra.

2 vols. envolvendo questões políticas e financeiras diversas. pp. 26 Cf. e também Stuart B Schwartz. Uma visão mais geral do tema pode ser encontrada em Antonio Manuel Hespanha (org. B. AUC. Editora FGV. Conselheiro Drummond)". não tem levado isso em conta. provisoriamente. S. 1977. que entre novembro de 1675 e julho de 1676 realizou-se uma expedição comandada por Manuel Lopes. há pouca coisa.27 O procedimento é problemático. [1905]. 27 Vide "Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco no tempo do governador dom Pedro de Almeida de 1675 a 1678 (M. Utilizo. a bibliografia tem utilizado de forma exaustiva uma crônica escrita em 1678.). essa versão da crônica escrita em 1678.43-66. As excelências do governador. O livro que registra as ordens e determinações remetidas para as autoridades da capitania anota apenas dois documentos de seu governo. A bibliografia. Nova história militar brasileira. também não são muitas em comparação com o volume da correspondência de outros governadores do mesmo período. Rio de Janeiro. Companhia Editora Nacional.). que conseguiu atacar um dos mocambos. entretanto.28 É essa fonte que permite que vários autores afirmem que. Vitor Izecksohn. ou ainda recorrer aos experientes sertanistas de São Paulo. offerecido pelo Exm. 28 Cf. Sobre Palmares. IV. depois que dom Pedro de Almeida deixou o governo. como se verá com detalhes em breve.25 Cada uma tinha vantagens e desvantagens. CCA. Na falta de fontes administrativas. que enaltece seus feitos. A documentação é bastante escassa para o governo de dom Pedro de Almeida. pois se trata de uma versão dos fatos em que propositalmente o governador é a figura central. índice e fl. São Paulo. São Paulo. "A Arte da Guerra no Brasil: tecnologia e estratégia militares na expansão da fronteira da América portuguesa (1550-1700)" in: Celso Castro. Nina Rodrigues. guardadas no Arquivo Histórico Ultramarino. Círculo dos Leitores. matar vários quilombolas e aprisionar setenta deles.). 3ª-I-1-31. Lisboa. por conta das 25 Para uma análise da organização militar no século XVII. todavia as medidas demoravam a ser implementadas ou não eram exitosas. além de escolhas militares. por exemplo. 2002. Companhia das Letras. p. Disposições dos governadores de Pernambuco (1648-1696). Sr. Diversos autores mencionam. que é a adotada pela bibliografia. RIHGB. pp. 328. 317-320. O novo governador parece ter se esforçado. 2004.26 As cartas enviadas para Lisboa. vide Pedro Puntoni. . Hendrik Kraay (eds.21 mais profissionais. Schwartz e Alcir Pécora (orgs. 22 (1859): 303-329. "Uma nota acerca da organização militar portuguesa e brasileira" in: Stuart. 5ª ed. tomando o que vai ali escrito como se fosse uma descrição fiel dos fatos. enquanto cerca de cem outros voltavam para seus senhores. Os africanos no Brasil. 81. Nova História Militar de Portugal. 2004.

Como já observei acima.significa dificuldade de obter uma decisão e de registrá-la por escrito para que fosse colocada em prática. História de Portugal. Hespanha in: J. Segundo Décio Freitas. Mattoso (dir). mais ou menos" e.Porto Calvo. Não havia como impedir os ataques palmarinos. Zumbi teria sido ferido na perna. São Miguel e Serinhaém . 90.) em todo o resto de 1676. M. As fontes existentes nos arquivos referentes ao governo de dom Pedro de Almeida permitem saber que nem tudo andava bem na capitania. nesse caso. M. 1993. Brasiliense. Freitas. O governador enfrentava oposições internas e havia se indisposto com gente importante. num dos ataques.o provedor da Fazenda. Freitas.31 As cartas trocadas entre as autoridades registram o diálogo entre as instâncias de governo e também a necessidade de um consenso para que as ordens fossem implementadas. "os negros tiveram 800 baixas.as pequenas guarnições se mostravam impotentes para conter as formações palmarinas. Alagoas. Estampa. O antigo regime (16201807). vejam-se os diversos artigos do volume IV.era assim com o soberano.p. Os índios fugiam aterrorizados. Ipojuca. mas dificuldade. revista. nesse caso. não significa desleixo. os antigos escravos de certo modo foram amos no sul de Pernambuco.. (. era assim com o governador da capitania. que recebia pareceres dos conselheiros do Ultramarino e dos outros ministros e secretários de Estado.. 89. por exemplo. Palmares. p. coordenado por A.22 ações de Manuel Lopes. que dependia das outras autoridades locais . . constituem um passo na implementação das decisões. 223."30 Não encontrei documentos que permitam chegar a essa conclusão. 1958. Freitas. Os textos. Palmares. p. 30 D. Senhores de engenho faziam à noite atalaia em suas casas. a correspondência entre o governo de Pernambuco e Lisboa e as determinações do governador para as câmaras e outras autoridades da capitania nesse período é bastante silenciosa quanto a Palmares. Lisboa. Reino negro de Palmares. O quilombo dos Palmares [1947] 2ª ed. 106. D. O silêncio. M. Desde que 29 Edison Carneiro. 31 Para um panorama sobre o tema. São Paulo. o ouvidor e os membros das câmaras. Ausência ou pequena quantidade de textos . p. Engenhos e canaviais eram devorados pelas chamas.sem contar os perdidos por ação do tempo ou por incúria arquivística . A leitura da documentação administrativa desse período revela que a maior parte das decisões é precedida de conselhos . logo houve forte retaliação por parte dos palmarinos: "Em toda parte .29 Alguns vão mais longe.

mencionada acima. Consulta do Conselho Ultramarino de 22 de dezembro de 1675 e de 20 de outubro de 1675. 34 Evaldo Cabral de Mello. 1666-1715. 2000. As tensões entre o governo e as câmaras talvez expliquem o fato de que Fernão Carrilho tenha sido primeiro contratado pelas autoridades de Alagoas e só depois nomeado por dom Pedro de Almeida. 32. os governadores e a Coroa portuguesa. 33.32 As dissensões deviam ser grandes. ainda que tenha sido figura de menor projeção. As providências tomadas pelo governo de Pernambuco contra Palmares participavam desse jogo entre os poderes na capitania e dele dependiam para alcançar algum resultado. pois em junho e julho de 1675 as câmaras de Pernambuco. A tentativa deu algum resultado. A consulta sobre usar os paulistas que fez ao governo geral do Estado do Brasil. vide José Antonio Gonçalves de Mello.23 tomara posse do cargo. II. Jurisdição e conflitos. Pernambuco. indica que a possibilidade era discutida em Pernambuco. Cod. Companhia das Letras. Paraíba e Itamaracá haviam pedido que João Fernandes Vieira fosse nomeado governador da Capitania de Pernambuco. João Fernandes Vieira. Para uma avaliação da contenda entre o governador e João Fernandes Vieira. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco. Os dados biográficos de Fernão Carrilho nem sempre são convergentes. O tema é desenvolvido também por Vera Lúcia Costa Acioli. 265 e BNRJ-Ms. o governador chegou a deixar de cumprir uma provisão régia que atribuía a Vieira a arrecadação e despesa das verbas para as obras nas fortalezas. . 33 Cf. a bibliografia porém indica ter ele se destacado por bater em 32 Em 1677. 1997. A fronda dos mazombos. Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. 424-427. "por ser pessoa de muitos cabedais e experimentado nas tiranias que os negros levantados dos Palmares obram para as poder facilmente extinguir". Cod. toda a segunda metade do século XVII foi atravessada por tensões e conflitos de jurisdição entre as câmaras. 4. embora o sertanista não tenha vindo de São Paulo e nem tenha sido o governador a tomar a iniciativa . Nobres contra mascates. Talvez a idéia de recorrer a tropas que não dependessem tanto das câmaras ou dos moradores tenha florescido nesse contexto. Recife. sendo por duas vezes advertido pelo príncipe regente. especialmente capítulos 1 e 2. entrara em choque com João Fernandes Vieira quanto à jurisdição sobre as fortificações de Pernambuco. pp. mestre-de-campo do Terço de Infantaria de Pernambuco. 1995.ao contrário do que registra a historiografia (talvez por ter se apoiado demasiadamente na crônica de 1678). Aspectos da administração colonial.34 Dom Pedro de Almeida não escapou a essa regra.33 Como bem mostrou Evaldo Cabral de Mello. EDUFPE/EDUFAL. São Paulo. Lisboa.

M. 37 Carta patente de Fernão Carrilho de 1 de julho de 1676. vereadores e capitães mores das Alagoas . A nomeação de Carrilho só foi feita alguns meses depois. a ter um capitão-mor para governá-la. M. mencionam o convite do governador. Carneiro. de 1666 a 1681". pp. RIAGA. portanto. ed. 7 (1875):181-182. assim. e D. Carneiro (p. Os livros que registram as atas da câmara de Alagoas e de Porto Calvo indicam que a contratação de Carrilho foi realizada em fevereiro de 1676.sem que tenha sido feita qualquer referência a dom Pedro de Almeida. A guerra passava. 36 Termo de aceitação de condições de 3 e 12 de fevereiro de 1676. Klepsidra. 218-221). bem distante da aventada pelo Conselho Ultramarino em 1671 e também não 35 Fabiano Vilaça dos Santos. provavelmente por conta da "Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco no tempo do governador dom Pedro de Almeida de 1675 a 1678". entre outros. somente as "crias" de menos de 3 anos ficavam livres de qualquer pagamento. "Feitos de Armas e Efeitos de Recompensa: perfil do sertanista Fernão Carrilho". . Revista Virtual de História.klepsidra. o próprio E. estavam presentes juízes. Na sessão. O quilombo dos Palmares. portanto. "Segundo Livro de Vereações da câmara da vila de Alagoas.net/klepsidra19/fernaocarrilho. que parece ter sido solene. Freitas. um sertanista experiente. sem qualquer cláusula mencionando a obrigação de mandar os prisioneiros para fora da capitania. "Segundo Livro de Vereações da câmara da vila de Alagoas. http://www. o acerto previa medidas bem diferentes das recomendadas pelo Conselho Ultramarino. Os prisioneiros seriam entregues mediante o pagamento de 12 mil réis por cada escravo apreendido nessas capitanias. como havia aventado o governador. 107). 229. mas não um "paulista". Nela. de 1666 a 1681". enquanto este se obrigava a marchar contra os Palmares em agosto de 1676 com uma tropa de "200 arcos e 100 armas de fogo". e também pelo auxílio prestado a incursões em busca de minas de prata em Itabaiana. 7 (1875):179-180.35 Era. por meio de carta patente. com experiência na destruição de "negros levantados" na Bahia e em Sergipe.24 mocambos na Bahia e em Sergipe. 19 (2004).htm. Mesmo assim. RIAGA. Freitas. O reino negro de Palmares. p. valor a ser pago também por aqueles que "viessem buscar abaixo seus senhores".. pp.36 Foram eles que se comprometeram a pagar 700 mil réis para custear a expedição a ser comandada por Carrilho. Como se vê. Palmares.37 A solução encontrada foi. O documento foi publicado novamente por E. pp. Fazem-no. com alçada superior aos capitães das ordenanças e demais soldados e oficiais que o acompanhassem. o governador dom Pedro de Almeida lhe conferia poderes para dispor o que lhe parecesse mais conveniente fazer na guerra contra os Palmares. 98. 236-238 (na 1ª.

os autores sejam unânimes em ressaltar as qualidades do novo comandante.38 Não foi bem assim. 100. É difícil saber o motivo que levou as câmaras a contratarem alguém de fora da capitania. todavia fez primeiro com que Carrilho se comprometesse a usar em primeiro lugar seus próprios homens. Carrilho assumiu seu posto e passou a cuidar dos preparativos para a expedição. Enquanto a expedição demorava a sair.41 As guerras contra Palmares envolviam vários problemas: além do custo dos mantimentos. o 38 39 E. se fossem mortos durante a luta. "Segundo Livro de Vereações da câmara da vila de Alagoas. "Com o aparecimento de Fernão Carrilho. 41 Acórdão de 8 de dezembro de 1676.39 Depois conseguiu que Carrilho pagasse pelos negros cedidos para levar mantimentos. Em junho de 1677. era preciso arranjar escravos para transportá-los e. Acórdão de 3 de agosto de 1676. As câmaras de Porto Calvo. limitando suas contribuições ao ajustado previamente. de 1666 a 1681". de 1666 a 1681". mas as cláusulas acertadas entre Carrilho e as câmaras indicam que essa poderia ser uma forma de escapar das determinações vindas de Lisboa e de Olinda. não eram apenas os assaltos promovidos pelos negros dos Palmares que preocupavam os moradores das vilas da região. p. 7 (1875): 181. O quilombo dos Palmares. outras pessoas em Lisboa tomavam a iniciativa de propor estratégias para a guerra contra os Palmares. 7 (1875): 182. não conseguiram honrar o compromisso e se desentenderam. 7 (1875): 181. Como se vê. pediu que o próprio Carrilho contribuísse para os custos da expedição. Carrilho tinha uma boa oportunidade de enriquecer e ganhar prestígio político e os moradores delegavam os custos a ele. Talvez por seguir de perto a crônica de 1678. os moradores tentavam escapar do recrutamento. Alagoas e Rio de São Francisco. "Segundo Livro de Vereações da câmara da vila de Alagoas. conferindo-lhe poderes talvez maiores do que os comandantes locais. Carneiro. acima de tudo. RIAGA. RIAGA. toda a cena se modifica". chegou a afirmar Edison Carneiro. porém. Alagoas acabou assumindo parte do suprimento da tropa e seu armamento. de 1666 a 1681". . Talvez tenha sido a esperança de maior eficiência. O governador deve ter se rendido às circunstâncias.40 Em dezembro. recorrendo aos moradores só em caso de não poder compor a tropa.25 estava perto das alternativas de aproveitamento das tropas locais. RIAGA. "Segundo Livro de Vereações da câmara da vila de Alagoas. 40 Acórdão de 21 de agosto de 1676.

Seu plano incluía estabelecer no lugar uma povoação. para serem vendidos. Cod. BA. munições e ferramentas fornecidas pelas vilas da região. 265. a realizar a obra e poder se intitular "conquistador". 14v-15. fls. e que seria apoiada com "todo o favor". era bom conhecedor da situação. o comandante geral dessas tropas. considerando-se haver "onze ou doze mil almas" no Palmares. isto é. descontando-se apenas o quinto da Coroa. Propunha que a entrada contra os Palmares fosse feita "pela parte do sertão donde eles senão temem nem vigiam". depois.43 Inojosa sugeria ainda que os prisioneiros não deviam ser devolvidos a seus senhores. Aparentemente. poderia ter o poder de "estropiar e enforcar todo o soldado ou índio que da dita conquista fugir ou cometer caso por onde não mereça ser perdoado". que a eles deveriam se juntar depois que o arraial nos Palmares estivesse instalado. os degredados da Bahia e de Pernambuco. é claro.42 Esse português era homem experimentado no combate aos índios na Bahia e resolveu recomendar o uso de índios daquela capitania. Os maiores de doze anos deviam ser mandados para o Reino. sem data (anterior a maio de 1677). que por certo prestariam valioso auxílio. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco. para servir de base para as operações. pois os negros estariam acostumados a ser atacados a partir do litoral. É interessante observar que Inojosa fala explicitamente na "conquista e povoação" dos Palmares e ele se candidatava. onde se instalariam os índios do Camarão e os negros de Henrique Dias e. pois não apenas mencionava ser preciso evitar que os habitantes de Palmares fossem avisados das expedições como propunha medidas severas contra as deserções: o "cabo maior". 50-v-37. por serem melhores carregadores do que os de Pernambuco.26 Conselho Ultramarino discutiu as sugestões enviadas por Manuel Inojosa. fls. auxiliados por 100 homens do Camarão e outros 100 do terço que foi de Henrique Dias. que devia chegar a cinco ou seis mil cruzados. 43 Carta de Manoel de Inojosa. Era dinheiro mais que suficiente para pagar os custos da operação. "porque ficando na terra se tornarão a ir para os seus Palmares e levarão outros consigo". Cod. A tropa seria formada por "200 homens brancos armados e 400 índios mansos" fornecidos pelo governo geral do Brasil. 230-231. mas ficar com os "conquistadores". Assim. . Além disso. nessa região havia índios inimigos dos negros dos Palmares. gente. "conquistar" os Palmares significava não apenas uma vitória militar mas apaziguar a 42 Consulta do Conselho Ultramarino de 28 de junho de 1677.

e julgavam melhor encarregar João Fernandes Vieira da execução dos planos.45 Como haviam preterido Inojosa. tomaram providências mais específicas sobre o uso do quinto do valor das benfeitorias. até se extinguirem ou [se] reduzirem". em termos gerais. 45 Consulta do Conselho Ultramarino de 28 de junho de 1677. o que é mais .44 A estratégia de Inojosa não deu certo para ele. Cod. Para homens experimentados no sertão. terras e escravos. menciona uma segunda proposta. que atribui a João Fernandes Vieira e teria sido discutida nessa ocasião. nesse caso. o assunto voltou a ser meramente militar . colocar em seu lugar gente que reconhecesse a jurisdição do príncipe português e obedecesse suas leis. essa podia ser uma forma de chegar a uma posição superior nas hierarquias civis e políticas da colônia.e João Fernandes Vieira lhes parecia ser. os conselheiros reiteraram as sugestões feitas em 1671 e 1673 e. Para que a estratégia pudesse ser colocada em prática. mais uma vez. Freitas. 11. 101-104. Vieira seria nomeado governador daquela guerra e deveria ter auxílio do novo governador de Pernambuco.ou seja.que podiam garantir os títulos e conceder as terras. Pelo jeito. A vitória sobre Palmares. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco. mas beneficiou tanto o Conselho. atacar os Palmares podia ser também uma oportunidade para ganhar títulos. seria apenas uma etapa dessa campanha. quanto Fernandes Vieira. e do governo geral do Brasil. 14v-15. fls. pp. Cx. talvez por isso. colonizando-a: para domar a rebeldia dos negros era necessário primeiro vencêlos pela guerra e depois instalar na região uma povoação . no mesmo dia. não mencionaram a "conquista". a pessoa indicada para tomar as providências necessárias . contribuindo os moradores de Pernambuco com o quinto do valor das benfeitorias feitas pelos holandeses nas casas em que viviam. nem a instalação de uma povoação. 265. entretanto. Ernesto Ennes. data a proposta de 1686. D. acostumados a bater nos mocambos. entretanto.46 44 Consulta do Conselho Ultramarino de 28 de junho de 1677. Palmares. Ao enviar sua decisão ao príncipe. consultaram "várias pessoas particulares assim da Bahia como de Pernambuco" que estavam na Corte. que podiam confiar em seus talentos militares. Diante da proposta. 1073. era preciso contar com a devida chancela das autoridades . Como se pode observar. Aceitaram.27 região. mas concordaram que era preciso atacar os Palmares pela Bahia e por Pernambuco. os conselheiros. 46 D. "dando-se [a] estes negros uma guerra viva sem se levantar mão dela.e se havia achado uma solução para custear o empreendimento. AHU_ACL_CU_015. as sugestões de Inojosa.

pp.51 A maior parte dos habitantes do mocambo conseguiu fugir. os planos feitos em Lisboa não chegaram a ser postos em prática. República de Palmares. RIAGA.48 Enquanto isso. pp. João Fernandes Vieira. 36 (o original está em BA. concordaram por fim em enviar os escravos. não consegui encontrar o original desse documento. 48 J. 47 Décio Freitas publica uma consulta do Conselho Ultramarino datada de 8 de novembro de 1677 recomendando que a proposta de Manoel Inojosa fosse remetida a dom Pedro de Almeida para que ele informasse sobre usa utilidade. G. 50 Termo de vereação de 16 de janeiro de 1678. Palmares. 49 Termo de Vereação da câmara de Santa Maria Madalena da Lagoa do Sul de 7 de dezembro de 1677. com base na crônica escrita em 1678. 260-262v). D. p. 7 (1875): 182183. pois a câmara local recusou-se a obedecer a uma ordem de dom Pedro de Almeida. Cf. Freitas diz que o ataque foi feito contra Acotirene. que foi encontrado sem ninguém. como vimos. nas Alagoas. depois de cerimônias que incluíram missa cantada e discursos de exaltação à vitória. "Segundo Livro de Vereações da câmara da vila de Alagoas. de 1666 a 1681". a tropa seguiu para esse mocambo. cujo tempo em Pernambuco terminou em 1682. Cod. 2004. onde vivia a mãe de Gangazumba. arrasado e queimado. Ele teria saído de Porto Calvo com um efetivo bem menor do que o prometido pelo governador.50 A bibliografia. São Paulo. Carrilho já fora nomeado e continuava a enfrentar problemas para armar a expedição contra os Palmares. até atacar Aqualtune. Freitas. Cia. A tensão devia ser grande. de 1666 a 1681". "desprezariam a terra e iriam [para] fora" dela. Andou 13 dias pelos matos. 424-427. 141-142. Mello. ele vinha tendo vários desentendimentos com João Fernandes Vieira. Após alguns dias de descanso. afirmando que seus moradores não iriam contribuir com os escravos para o comboio dos mantimentos e que. 1938. Maceió. Nacional. Cf. A data é estranha. As Guerras nos Palmares: subsídios para a sua história. pois os provável. se fossem obrigados a isso. RIAGA. pois ela menciona as expedições mandadas fazer no tempo dos governadores dom Pedro de Almeida e Aires de Souza de Castro. "Segundo Livro de Vereações da câmara da vila de Alagoas. Pesquisa e comentários em documentos históricos do século XVII. fls. A. detalha a expedição de Fernão Carrilho datando-a de setembro de 1677. é bem provável que tenham desagradado o governador pois. . desde que ressarcidos pelos que fossem mortos e reembolsados pelas munições que fornecessem. Ed.49 Em janeiro. pois a proposta de Inojosa foi avaliada no Conselho em 28 de junho desse ano. Ernesto Ennes. já que não há qualquer registro de uma determinação enviada nesse sentido para Pernambuco. mas os prisioneiros informaram que Gangazumba e seu irmão Gangazona estavam em Sucupira. 50-v-37. 115. Infelizmente. 7 (1875):183 51 D. Edufal.28 Tudo indica que. doc.47 Se as notícias da discussão chegaram de algum modo a Pernambuco. mais uma vez.

outro filho de Gangazumba. ao candidatar-se a um cargo militar. em seguida. Alves Filho. sogros de Gangazumba. uma coluna atacou a cerca de Amaro. Toculo. 17.29 negros haviam fugido para os matos.54 É possível que os dois prisioneiros tenham sido acompanhados por soldados. Memorial dos Palmares. p. Carneiro dá a entender que foi antes de Carrilho voltar a Porto Calvo. não só foram mortos chefes palmarinos importantes. Memorial dos Palmares. dando-lhe o nome de "Bom Jesus e a Cruz". Alves Filho. 88. Cf. As matas em torno da cerca de Amaro foram vasculhadas. e I. pois anos depois.53 Acreditando ter debilitado de todo o inimigo. Carrilho assentou um arraial nesse local. em um dos combates. como um deles. 54 É difícil saber quando foram enviados os dois prisioneiros. de subir em direção aos Palmares. Antonio Pinto Ribeiro contou ter participado da "redução dos negros dos Palmares. fl. obrigando com suas razões ao seu principal chamado Gangazumba (que encontrou no sertão) a mandar três filhos e dois genros a pedir pazes ao governador Aires de Sousa de Castro". pp.52 Três semanas depois. fora feito prisioneiro. com uma proposta para que depusessem as armas em troca do fim das hostilidades. 399 v . O quilombo dos Palmares. Foi recebido com festas e houve 52 53 I. 114-115. ferido na perna e abandonando suas armas pelo caminho. AHU_ACL_CU_Consultas Mistas. acreditando ter destruído Palmares. 55 Nomeação de pessoas para o posto de sargento-mor da ordenança da praça de Pernambuco. chamado Gangamuissa. Matias Dambi e Madalena Angola. Alves Filho. as tropas perseguiam os fugitivos e. o episódio está situado depois da volta a Porto Calvo. D. Enquanto isso. Cod. Freitas. deixando nos Palmares as tropas de Manuel Lopes. 85.55 No final de janeiro de 1678. E. e despachou um mensageiro para dar as novas ao governador e pedir reforços. I. Palmares p. 117. houve novos combates. p. mais prisioneiros e mais mortos. Ivan Alves Filho informa ainda que num dos combates a rainha dos Palmares teria sido também aprisionada. Manuel Lopes foi o encarregado de arregimentar homens e mantimentos e. em 28 de janeiro 1684. Na narrativa de D. além do chefe Acaiuba. Entrou em Porto Calvo com cerca de 200 prisioneiros. Carrilho retornou a Porto Calvo. Alves Filho dá Gangamuissa como morto nesse ataque. Carrilho enviou dois prisioneiros. Carneiro. 85. Freitas e na de I. e ele próprio escapou com dificuldade. p. onde estava Gangazumba. Memorial dos Palmares. Na ocasião foram presos dois de seus filhos e vários sobrinhos e netos. foi morto.

61 Apoiada na crônica de 1678. mais uma vez. 59 Bando do governador dom Pedro de Almeida de 14 de fevereiro de 1678. com vitórias significativas até meados de março. p. "Segundo Livro de Vereações da Câmara de Alagoas". pp. Alves Filho. obtendo o 56 Uma descrição detalhada dessas expedições pode ser encontrada em I. Havia conseguido persuadi-las.57 Décio Freitas registra que antes do regresso de Carrilho duas outras expedições haviam seguido para Palmares. no entanto.60 Ainda que pelo menos duas outras colunas continuassem lutando. e continuaram por lá guerreando ainda por mais três meses. p. 86-87. claro estava que a continuidade da guerra teria que enfrentar. o governador isentou os voluntários que entrassem nos matos para acabar com os remanescentes nos mocambos de pagar o quinto pelas presas que fizessem. a carência de recursos. 59 Ao mesmo tempo. Ele aproveitou uma "embarcação [que ia] de passagem". 61 O contexto é analisado por I. Memorial dos Palmares. RIAGA (1875): 183-184. 78-86. sempre era bom prevenir e.58 Talvez tenha sido a falta de mantimentos que precipitara o retorno de Carrilho a Porto Calvo.56 Enquanto isso. a fim de reiterar a proposta feita por Carrilho. enviou um alferes para Palmares. I. Memorial dos Palmares. fazendo mais prisioneiros e enfrentando problemas com o abastecimento de víveres e com a falta de apoio de alguns senhores de engenho. 118. Alves Filho. 82-88. associando-o diretamente ao início de negociações com Gangazumba. para informar com rapidez o príncipe que havia tido dificuldades em fazer com que as câmaras entrassem em acordo e ajudassem com víveres e soldados numa expedição contra Palmares. 58 D. Palmares. Ao contrário. Palmares. o líder palmarino derrotado. 60 Apenas D. depois de separado o quinto da Coroa. a bibliografia tende a marcar o triunfo conseguido pelas tropas de Fernão Carrilho e Manoel Lopes. ou a possibilidade de uma via alternativa para terminar com a guerra. pp. mas não disse palavra sobre qualquer negociação. Memorial dos Palmares. os destacamentos sob comando de Manuel Lopes continuavam a fustigar os quilombolas. 117-118. 57 E. em fevereiro. Devia estar contente com a vitória. Freitas indica ser o alferes do terço dos Henriques. Alves Filho. Todavia. O quilombo dos Palmares.116. O que o governador dom Pedro de Almeida contou a Lisboa em fevereiro de 1677 foi. . As notícias que enviou a Lisboa não eram detalhadas. um pouco diferente.30 distribuição dos prisioneiros entre os soldados. Freitas. Carneiro. pp. pp.

65 A bibliografia. e dar pessoalmente informações mais detalhadas ao príncipe. entretanto. porém. as notícias parecem ter sido entendidas de forma bem diferente do que supunha o governador em Pernambuco. AHU_ACL_CU_015. Cx.4. imaginava poder voltar em breve a Lisboa. analisa esses eventos apenas a partir da ótica do anônimo cronista de 1678. Ele permaneceu cinco meses nos matos e voltara vitorioso. as informações e as interpretações são divergentes em relação aos eventos que se seguem ao retorno de Fernão Carrilho a Porto Calvo. Mesmo que a fonte seja a mesma. D. 1103. D. . como no caso de um parecer do Conselho Ultramarino que chegou a afirmar que a proposta havia sido enviada aos negros dos Palmares por Aires de Souza de Castro. que remeteu as novas ao príncipe. 11. Ver também anotações à margem da carta de dom Pedro de Almeida de 4 de fevereiro de 1678. Cx. II . Aires de Souza de Castro foi nomeado em agosto de 1677. AHU_ACL_CU_015. Segundo o governador. geravam até informações distorcidas. como "mostras (. lembrando-o que havia consultas sobre o mesmo assunto que ainda aguardavam seu parecer.) desta vitória". Informação constante no banco de dados informações do banco de dados do projeto Optima Pars (ver nota 1). inclusive Gangazumba e dois de seus filhos e prendera outros tantos. por ter obtido o acordo de todos.64 A secretaria do Conselho. tendo "feito geral destruição naqueles bárbaros": matara muita gente "dos de guerra". Dom Pedro de Almeida pretendia levar os prisioneiros para o Reino.62 A carta o coloca como o grande coordenador da campanha. qualidade reforçada pela vitória obtida..31 "geral beneplácito de todos" e nomeado Fernão Carrilho para ser o capitão-mor daquela conquista. o governador designaria 62 63 Carta de dom Pedro de Almeida de 4 de fevereiro de 1678. Cod. 65 Às vezes. BNRJ-Ms. Decerto seria uma entrada em grande estilo na Corte.33.63 Sua carta foi lida pelo Conselho Ultramarino no final de abril de 1678. 64 Consulta do Conselho Ultramarino de 28 de abril de 1678. Pelo jeito. Cx. registrou a carta do governador como dando "conta da vitória que alcançaram os moradores daquela capitania dos negros dos Palmares". 11. 11. D. Esse era um modo de evidenciar sua atuação como bom governante. 1116. se eles quisessem "viver em paz com a colônia". Nina Rodrigues diz que o alferes enviado por dom Pedro de Almeida levou uma "intimação ao rei": as tropas de Carrilho se preparavam para voltar e acabar com o quilombo mas.32. incluindo três mulheres do rei e dez de seus netos. já que seu sucessor já havia sido nomeado. em Lisboa. "aqueles dilatados Palmares [estavam] desertos dessa canalha".. AHU_ACL_CU_015. Pelo jeito. 1103.

68 A declaração de Carrilho sobre a completa destruição dos Palmares é relativizada por Décio Freitas que a explica pelo intuito de obter recompensas e mercês por parte do capitão. [1959] 2ª ed. p. "promessas" reiteradas mais tarde pelo governador. dos moradores. 187. diante da continuidade das escaramuças nas matas. Conquista. Memorial dos Palmares. do Estado do Brasil. a convivência com os mocambos ou as negociações com eles não podem ser analisadas levando em conta apenas a oposição entre o governo (ou os senhores) e os fugitivos. . "O quilombo dos Palmares" Rebeliões da Senzala. dos conselheiros do Ultramarino e do próprio príncipe. pois envolvia avaliações políticas. I. seus interesses e experiências. industriando o alferes para dizer aos sobreviventes que seriam exterminados se não fizessem a paz. dom Pedro de Almeida "mudou de tática". para seguir adiante. 83. 1972. As opiniões variavam conforme os grupos e muitas vezes não eram convergentes. sem dar maiores detalhes. p. Quilombos. revista e ampliada Rio de Janeiro. Carneiro. Dom Pedro de Almeida. o que compensava os "medíocres resultados militares da campanha". também teria tido motivo semelhante para "entabular negociações com vistas a uma solução política do caso palmarino". Alves Filho faz as mesmas ponderações. e contava com o trunfo de ter entre os prisioneiros os filhos e parentes de Gangazumba. E. Rodrigues. do governo da capitania.66 Edison Carneiro refere-se ao "recado" enviado por Carrilho ao rei dos Palmares prometendo cessar os ataques se eles depusessem as armas. dos sertanistas. financeiras e militares por parte das autoridades locais. 115. 88. O quilombo dos Palmares. respectivamente. p. insurreições. sem se deixar iludir pela vanglória de Carrilho. Ele também estava sequioso por celebrar suas façanhas. 69 D. Do mesmo modo.67 Para Clóvis Moura. é necessário saber mais sobre essas pessoas. Por isso. Ed. pp. 66 67 N. 118 e 121.32 terras para viverem e restituiria as mulheres e filhos que estavam em seu poder. Palmares. O caminho permitirá que possamos compreender as condições em que se deram as negociações e os termos que foram ajustados em 1678.69 A guerra contra Palmares colocava em jogo interesses bem diversos. p. guerrilhas. Freitas. Os africanos no Brasil. 68 Clóvis Moura. os dois prisioneiros foram enviados a Palmares com "ordens de rendição" e.

80-81. 98. 72 D. 121-123. que tantos ônus e dissensões traziam para os moradores das vilas da região. Os comerciantes e as "categorias populares". . Alves Filho. depois da campanha de Manuel Lopes "e da onda de terrorismo negro que se lhe seguiu". 320-325. pp. pp. que arcavam com o custo das expedições e estavam amedrontados com os ataques palmarinos. D. as opiniões dividiam-se também entre os partidários das negociações e os que achavam que a sobrevivência de Palmares só seria assegurada com "a guerra e a luta pela libertação da massa escrava do litoral". Memorial dos Palmares. O acordo seria um 70 71 "Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco". Freitas. Ou ainda uma manobra para quebrar a unidade dos rebeldes e assegurar o término da guerra. aproveitando que os principais mocambos estavam destruídos e muitos de seus guerreiros mortos. 93. Segundo esse autor.70 Poderia ter sido também um meio de protelar o provável recomeço dos enfrentamentos. Freitas. Palmares. Vide Benjamin Péret. Porto Alegre.72 Outros autores também mencionam posições diversas entre as autoridades coloniais e os moradores pernambucanos sobre continuar a guerra ou fazer a paz. pp. as autoridades coloniais já haviam tentado outras estratégias para enfrentar Palmares.71 Décio Freitas comenta que. Nos Palmares.105-106. ao sugerir que. Palmares. Flavio Gomes coloca a questão num contexto mais amplo. I. enquanto a "classe dirigente" defendia uma política de enfrentamento. p. p. tinham posições "pacifistas". Alves Filho. A voz da experiência O que teria levado Fernão Carrilho. além da guerra. Editora da UFRGS. dom Pedro de Almeida e Gangazumba a negociar um acordo? Várias passagens da crônica escrita em 1678 indicam que a oferta de paz pode ser entendida como uma tática do governador para solidificar a derrota infligida aos habitantes dos Palmares. o dilema entre continuar a guerra e tentar a alternativa da negociação estava presente nos dois lados da contenda. 2002. "Que foi o quilombo de Palmares?" [1956] in: O quilombo dos Palmares. Memorial dos Palmares.33 2. A mesma análise está presente em I. tais divisões permaneceram durante todo o período subseqüente. pp. como ocupar as fronteiras econômicas com fortins e aldeamentos indígenas.

1990. Cx. 11.75 Outras fontes sugerem que o medo de novas investidas. 328 menciona a "petição do rei dos Palmares. John's Hopkins University Press. Price. Baltimore. John's Hopkins University Press. As observações de F.34 modo de obter que os quilombolas. D. 1329 76 Carta do provedor da Fazenda Real da capitania de Pernambuco ao príncipe regente de 22 de junho de 1678.73 Há poucos comentários sobre as motivações do lado palmarino. 1983. "o sossego voltou ao seio da família negra e o rei Zambi. que examinaremos mais adiante. Escravidão e liberdade no Atlântico Sul. as expedições dos anos 1677 e 1678 haviam provocado pesadas baixas e muitos haviam sido capturados. 75 É o que informa Aires de Souza de Castro em 14 de novembro de 1685 ao Conselho Ultramarino. Cx. p. As guerras nos Palmares. tenha sido o principal motivo para o armistício. AHU_ACL_CU_015. como em outras partes das Américas. First-time. 1118.77 Mário M. o supremo chefe daqueles reis menores. quando as mulheres e filhos de seus 73 Flávio dos Santos Gomes. 117-125. D. D. 11. 77 Carta de dom Pedro de Almeida ao príncipe regente de 4 de fevereiro de 1678. incluindo vários membros das famílias dos chefes dos mocambos. Contexto. após a paz ser assentada. 12.74 Documentos posteriores mencionam que era "estilo" dos negros aproveitarem o momento de substituição do governador da capitania para oferecer acordos de paz. como forma de protelar novas investidas contra os mocambos. que conseguiu assim reaver sua família e a de seus cabos de guerra. 74 A própria "Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco". 1116. Freitas considera o acordo "um dos mais inteligentes golpes políticos" de Gangazumba. por ter feito tantos prisioneiros "que excede as forças humanas". "paralisassem [os] ataques e se mantivessem vivendo em seu mocambos no alto das serras". Vide também Carta do provedor da Fazenda Real da capitania de Pernambuco ao príncipe regente de 22 de junho de 1678. Palmares. Ernesto Ennes.76 Como vimos. pp. Cf. em que pedia paz. Gangazumba chegou até mesmo a ser dado por morto. demorando nas negociações. 2005. doc. AHU_ACL_CU_015. AHU_ACL_CU_015. São Paulo. assim como pelo fato de terem sido aprisionados "mulheres e filhos dos principais". sítio e entrega das mulheres" (grifos meu). foi render graças a Deus no templo que mandara erigir na cerca real do Macaco. AHU_ACL_CU_015. Baltimore. 13. Gomes estão apoiadas na análise de Richard Price sobre os Saramakas do Suriname. Como vimos. diante dos estragos feitos pelas tropas de Fernão Carrilho. Para esse autor. . assim como dois de seus filhos. Cx. Cx. atemorizados com as mortes e a destruição causada pelas tropas coloniais. liberdade. 11. R. The historical vision of an Afro-American people. Um parecer do Conselho Ultramarino de 25 de junho de 1687 chegou a mencionar que Carrilho tinha fama de feiticeiro. 1103. e Alabi's world. Algumas fontes indicam que a iniciativa pode ter partido dos habitantes de Palmares. D.

inclusive de membros de sua família e da destruição dos mocambos. alertando que "pode vir tempo em que se atrevam a cometer e destruir as fazendas. C. Moura. Ele entende que Gangazumba. diante da morte dos principais guerreiros. eram as que podiam servir de referência para aquelas pessoas. p.35 vassalos regressavam salvos aos seus refúgios de liberdade e de amor!"78 Ele é. as interpretações organizam-se de modo a construir uma explicação lógica para a resistência liderada por Zumbi e dar-lhe destaque . Clóvis Moura tem uma visão oposta.79 Ele. não dedica muita atenção aos termos do acordo ou aos interesses nele envolvidos. 252. os golpes e as derrotas" e achou ser "vantajoso" entender-se com os portugueses. A possibilidade é sugestiva e merece ser examinada. mencionando a hipótese de conexões atlânticas e exemplos anteriores e posteriores a Palmares. Pedro Rodrigues. 80 Carta do Padre Pedro Rodrigues. Freitas. "não agüentou.80 Referia-se. o provincial da Companhia de Jesus. como outros autores. 187. aliás. como fazem seus parentes na ilha de São Tomé". Desde o início da ocupação colonial. . Reino negros de Palmares. ao avaliar a situação do Estado do Brasil. com o ânimo que as circunstâncias exigiam. com grande probabilidade. de 1º de maio de 1597. da prisão de tantos. Com exceção de Mário M.ainda que os detalhes nem sempre sejam oferecidos igualmente pelos autores. os portugueses enfrentavam "os negros de Guiné alevantados que estão em algumas serras. levantamentos e "alvoroços". A maior parte focaliza a seqüência dos acontecimentos. ABN. ficaremos no âmbito dos exemplos na área de colonização portuguesa. 20 (1898): 255. Focalizo algumas experiências anteriores pois. provincial da Companhia de Jesus. Como se vê. Por enquanto. Em 1597. o único a não mencionar qualquer conflito de opiniões entre Gangazumba e Zumbi. Apenas Flávio Gomes abre o campo de visão. Freitas. ao levante liderado por Amador que tomou conta da ilha em 1595. mencionou que. que envolveram os moradores e seus escravos ou escravos 78 79 M. donde vêm a fazer assaltos e dar algum trabalho". Este é um bom começo para um passeio pelas experiências de negociação com os escravos no ultramar português. p. M. "O quilombo dos Palmares". além dos aimorés e dos franceses. São Tomé fora palco de revoltas. a bibliografia circunscreve a análise ao episódio das negociações ocorridas em 1678. afinal.

Sobre esses eventos ver também Manuel do Rosário Pinto. 54/55 (1996): 51-91. «Manuel do Rosário Pinto (a sua vida)" in Stvdia. catalogo dos bispos. Amador liderou muitos "homens da sua cor". Aproveitando-se da reunião dominical dos moradores na igreja no início de julho. Lisboa. muitos vieram se "apadrinhar". Revista Internacional de Estudos Africanos. Manuel do Rosário não menciona a proposta de perdão. 30/31 (1970): 244-247. Catarina Madeira Santos. Houve algumas batalhas entre os levantados e tropas do governo e. Vega Editora. Leba. 521-523. dois foram perdoados. Amador foi puxado por cavalos. o governador da ilha lançou um bando prometendo que em quinze dias perdoaria todos os rebeldes que retornassem para seus donos. em meio aos enfrentamentos. 4/5 (1986): 17-74. 2000. O rei Amador resistiu até 14 de agosto. quando foi enfim levado preso por cinco líderes que o acompanhavam. III. 7 (1992): 373-388. comandados por um negro chamado Cristóvão). Tomé". "Revoltas de escravos em São Tomé no século XVI". Para um balanço breve dessa revolta. nos matos da ilha. voltando a produzir açúcar com os 25 engenhos que restaram de pé. "Rebelião e sociedade colonial: 'alvoroços' e 'levantamentos' em São Tomé (1545-1555)". As fontes indicam que Amador chegou a liderar quase 4 mil escravos. A invenção de uma sociedade. foi diferente. primeira metade do século XVI" Stvdia. pp. e governadores. ficando o Amador "sem poder". desde o tempo que a dita ilha foy descuberta the o prezente. Dos outros cinco.83 Dessa vez. serie dos serenissimo reys de Portugal. Rápida e de grandes 81 Cf. que o proclamaram rei. queimaram a cidade de São Tomé e destruíram vários engenhos. dois ficaram presos e um foi esquartejado por ter morto um padre durante a revolta. Libertou também muitos escravos e foi ganhando adeptos (além do auxílio de fugitivos que estavam nos matos. "A formação das estruturas fundiárias e a territorialização das tensões sociais: São Tomé. não se tratava de gente que vivia pelos matos e de quando em vez atacava viajantes e fazendas.110120. Isabel Figueiredo de Barros e Maria Arlete Cruz. 82 "Relatione venuta dall'Isola di S. indicando apenas que. . Tomé". com as noticias que pode descobrir Manoel do Rozario Pinto natural da mesma ilha". foi esquartejado e partes de seu corpo expostas nos lugares públicos da vila. teve as mãos decepadas. 523. doc. São Tomé e Príncipe. em São Tomé. porém. MMA.36 fugidos que se agrupavam em mocambos.82 O prazo chegou a ser prorrogado por mais três dias. publicado por António Ambrósio. MMA. "Relação do descubrimento da ilha de Sam Thomé. ver Isabel Castro Henriques. 83 "Relatione venuta dall'Isola di S. as fugas eram constantes. cazos e suscessos que nella tem hauido. p. III. mas de uma revolta. depois de uma batalha em que morreram mais de 200 revoltosos. pp. e dizem os relatos que a promessa convenceu a quase todos.81 Nem todos esses "levantamentos" foram protagonizados por escravos. Diz um dos relatos que a ilha tornou a ficar "quieta e segura". mas desde que a ilha iniciara a produção de açúcar. Em 1595. 151.

Todas as citações desse parágrafo e do próximo foram retiradas desse documento. 1976. marquês de Montalvão se enfrentaram. Os vereadores consideraram que "por nenhum modo convinha tratar de concertos nem dar lugar aos escravos a que conciliassem sobre este negócio e o que convinha somente era extingui-los e conquistá-los para os que estavam domésticos não fossem para eles e os levantados não aspirassem [fazer] maiores danos" contra os moradores. diante de propostas diametralmente opostas para acabar com os mocambos que haviam se formado na região do rio São Francisco. para que "tratassem com eles de os reduzir". em troca da liberdade e do alistamento no terço dos libertos. como no caso de São Tomé. Embora explicitada com clareza no relato seiscentista que serve de base para os estudiosos que trataram dessa revolta. ela não chegou a ser discutida pela bibliografia que. O fato de ter sido desconsiderada pela bibliografia não significa. São Paulo. O dilema entre guerrear ou negociar foi discutido em muitas ocasiões e as alternativas avaliadas de forma e com intenções bem diferentes. Mocambos. mas também como recurso no enfrentamento dos mocambos. Unesp/Ed. que mais interessam aqui. bem como um padre jesuíta "que sabe a língua dos negros". Pode ter sido usada como subterfúgio para minar as forças dos revoltosos. Segundo o que vai registrado na ata da câmara de Salvador.139-140. que aliás foi mencionada por ele em A Hidra e os pântanos. em que a câmara de Salvador e o vice-rei do Brasil. Mesmo assim. p. quando muito. mas tudo indica que foi aceita por grande parte dos insurgentes. São Paulo. Ed. ela foi sufocada pelas armas. a 84 Termo da câmara de Salvador de 25 de novembro de 1640. Polis. 2005. Um bom exemplo desses casos. quilombos e comunidades de fugitivos no Brasil (séculos XVII-XIX). tratou da traição cometida pelos comandantes que entregaram Amador às autoridades da ilha. pp. que idéias desse tipo não tenham circulado no universo dos administradores coloniais. armário 62) in: Luiz Viana Filho. Livro de atas do senado da câmara de Salvador. (Arquivo Municipal de Salvador. O negro na Bahia. Alistados e livres. Na ocasião. Pode ter surgido em ocasiões de revoltas abertas. o marquês vice-rei havia convocado a Junta de governo para decidir o que fazer com aqueles "negros levantados". Agradeço a Flávio dos Santos Gomes a lembrança desta referência. poderiam permanecer no mocambo. 2ª ed. foi o que aconteceu na Bahia no final do ano de 1640.37 proporções.84 O marquês pretendia enviar o terço de Henrique Dias. entretanto. 402 . Martins/ INL. houve uma proposta de perdão. desde que "não admitissem mais negros fugidos". livro 3.

A câmara continuou contrária a "pôr-se em concerto com esses negros". AHU_ACL_CU_005. como antes se havia praticado. apenas a decisão da câmara. com os quais não havia possibilidade de qualquer negociação. AHU_ACL_CU_Consultas Serviço Real. com algumas modificações: os homens apanhados vivos seriam enviados para as galés. depois enviados para as galés. Verificar também. considerava serem eles escravos fugitivos. levando companheiros. Contou ainda que. 191 e segs.85 Não chegou a mencionar sua proposta. enviara contra os mocambos "umas tropas de índios e outras de negros". conhecidos por estes" e não aos que para lá tinham ido à força ou enganados. Ainda que o debate tenha sido filtrado pela formalidade da ata e pela pena de quem a escreveu. o parecer do Conselho da Fazenda de mesma data. melhor seria que os prisioneiros fossem empregados nas galés da capitania. e que as mulheres fossem mandadas para fora da capitania.38 maior parte das opiniões foi favorável à guerra e a idéia do marquês vice-rei foi descartada. Contudo. depois de descontado o quinto da Coroa. envolvia um modo de incorporar os negros levantados à ordem colonial. pois os que eram aprisionados depois de algum tempo voltavam a fugir. ao contrário. Cx. 1. Contudo. fls. 30. Ao associar o alistamento no terço dos Henriques com a permanência nos mocambos. explicavam que a condenação às galés aplicava-se "somente aos [negros] dos mocambos. o marquês de Montalvão enviou a Lisboa um memorial sobre o assunto. . as mulheres seriam restituídas para seus donos mediante o pagamento de 12 mil réis. A câmara. repetindo que o melhor era conquistá-los. Cod. solicitou à câmara que mais uma vez se pronunciasse sobre o assunto. Por isso. Seu conteúdo é deduzido do resumo que dela fez o Conselho Ultramarino em consulta de 28 de maio de 1642. que fizeram 46 prisioneiros. D. 39. Pouco tempo depois. como entre eles havia "um que os 85 Ainda não consegui localizar o original da carta enviada a Lisboa. em seguida às deliberações. pagando-se por cada um deles 12 mil réis "para prêmio de quem lá fosse buscar estes negros". sobre esse assunto.levando a propostas antagônicas. e as "crias" ficariam com o marquês. não se devia fazer como das outras vezes. Preocupados que a medida gerasse abusos. que seriam depois distribuídos entre os soldados. No final de outubro. As "crias que se achassem nascidas e criadas nos mocambos" ficariam para o governador. a diferença na nomenclatura revela avaliações políticas bastante diferenciadas . A proposta do marquês parecia envolver mais que um subterfúgio para extinguir os mocambos.

Cod. Nesse caso. Niterói. como tal. 29-46. o marquês "o persuadiu a que lhe fossem entregar a gente que ficava nos mocambos e. 1988. uma das lideranças presas foi nomeada capitão do terço de Henriques Dias e.39 governava". Este não foi um episódio isolado. 87 Ver. era possível algum tipo de negociação. que esteve na origem do terço de Henrique Dias. Também em relação aos negros dos Palmares houve negociações anteriores a 1678. EDUFF.87 tenha servido de inspiração para a atitude de Montalvão. especialmente na época do governo de Francisco 86 Consulta do Conselho Ultramarino de 28 de maio de 1642. prometendo-lho. com consulta ao Juiz da Índia e Mina.). vendidos. "Henrique Dias: expansão e limites da justiça distributiva no Império Português" in: Ronaldo Vainfas. . Ou seja. se a via da negociação coletiva por meio de um padre não fora aceita. 191 e segs. Difícil saber. Henrique Dias: Governador dos crioulos. Trajetórias individuais no mundo português nos séculos XVI a XIX. Recife. o partido da guerra contra os mocambos havia prevalecido.86 Talvez a proximidade da guerra contra os holandeses e a concessão de alforria para o recrutamento de escravos para a luta. participou de outra expedição que atacou um mocambo junto ao rio São Francisco. 2007. Retratos do Império. 30. ainda que apenas com um indivíduo. se deviam ser devolvidos a seus antigos donos e como se devia proceder nesse caso . José Antônio Gonsalves de Mello. Essa volta foi atribulada e muitos dos presos acabaram desencaminhados e vendidos pelos caminhos. De qualquer modo. e Hebe Mattos. a esse respeito. Fundação Joaquim Nabuco/Editora Massangana/CNPq. Talvez tenha até mesmo se lembrado do que havia ocorrido em São Tomé. Guilherme Pereira das Neves (orgs. e os mandou fazer outra entrada". O episódio gerou uma enorme discussão em Lisboa.se podiam ser redistribuídos. O centro do debate era a legitimidade das medidas tomadas com relação aos prisioneiros . a outros governadores do Brasil. pp. Georgina Silva dos Santos. em 1595. o fez capitão de Henrique Dias governador dos negros. voltando já depois de vencido o tempo do governo do marquês. a proposta feita ao chefe aprisionado não parece ter oferecido dúvidas. AHU_ACL_CU_Consultas Serviço Real. fls.não havendo qualquer questionamento em relação à alforria concedida ao chefe aprisionado e sua nomeação como oficial do terço dos Henriques. com muitos prisioneiros. mesmo assim. negros e mulatos do Brasil. já que não há registro de qualquer discussão sobre ela nos dois lados do Atlântico.

O conteúdo do tal papel deveria ser lido e explicado aos dois prisioneiros. doc. por exemplo. 62v-63. entre outros. 64. fl. tomando conhecimento dos assaltos feitos em casas e fazendas nas Alagoas pelos "negros do mato". para atacar os mocambos. 54. Os que quisessem vir "com o dito papel tratar alguma coisa" com o governo poderiam "vir livremente sem lhe fazer mal nenhum. AUC. com ordens para destruir todas as roças que lá encontrassem e "arcabuziar (. Brito Freire resolveu enviar nova expedição contra os Palmares. IV. e colocar suas cabeças e quartos pelas estradas.89 Para o ataque contra Palmares. Ao que tudo indica. doc. 3ª-I-1-31.) como rebeldes e levantados" os que resistissem. em um dos muitos regimentos que expediu aos comandantes das tropas que pretendia enviar contra os Palmares. em 1661. Mesmo assim.. No caso. arranjar a munição necessária e traçar estratégias durante todo o ano de 1661. autorizando-os a matar os que resistissem. Planejou enviar seis tropas de 150 a 200 homens cada uma. que haviam conseguido vencer expedições anteriores e se faziam cada vez mais ousados. ele não estava para brincadeiras e tomava medidas severas contra Palmares e outros negros que incomodavam os moradores. CCA. "em nome de El-rei nosso senhor". por caminhos diferentes. fossem escolhidos "dois dos mais antigos e capazes" para que levassem um papel que havia entregue ao capitão da expedição. tomou várias providências. 3ª-I-1-31. expedindo ordens para aprovisionar as tropas. deu instruções precisas para que. 68-68v. isentando os soldados de qualquer punição. CCA. 89 Ordem de Francisco de Brito Freire de 1º de fevereiro de 1661.40 de Brito Freire. . tomando as escravas dos moradores" da região de Santo Antonio. de uma "tropa de trinta negros e alguns mulatos [que] andavam salteando nas estradas. Também aqui elas aparecem em meio a várias alternativas para lidar com os negros levantados nos mocambos. antes lhe darão 88 Vide. para que eles pudessem depois explicálo ao chefe dos mocambos. assim que tivessem feito alguns prisioneiros. ele enviou soldados com ordens para prender os assaltantes. fl. IV. AUC. No início de seu governo.88 Esperava assim acabar com a insolência dos negros dos Palmares. o Regimento de 24 de dezembro de 1661. pelo qual fazia ofertas aos negros..

doc. 123. 3ª-I-1-31. CCA. por isso havia resolvido "mandar-lhe uns cartazes em que lhe[s] prometia terra para suas lavouras e deixá-los viver livremente contanto que não admitissem mais escravos dos moradores. 92 Edital de 6 de dezembro de 1662. CCA. CCA. IV. 86v-87.41 alguns soldados para virem em sua guarda". CCA. desde que tivessem fugido havia mais de um ano. 93 Carta de 17 de abril de 1663. 66-66v. 3ª-I-1-31. doc. também Regimento de Francisco de Brito Freire 4 de janeiro de 166[2]. fl. 91. fl. fl. ele abriria mão das crias. mas documentos posteriores revelam ter sido "editais (. Não pensava em alistar ninguém no terço dos Henriques. AUC. IV. AUC.92 Tudo indica que a providência teve sucesso. fl. IV. AUC. . 86v-87. pois em abril de 1663 Brito Freire enviou uma carta ao governador do Estado do Brasil contando boas novidades. utilizando prisioneiros como intermediários. 91 Edital de 6 de dezembro de 1662. mas previa a concessão de terra e liberdade para os nascidos nos mocambos. O expediente foi tentado de novo no ano seguinte. Explicava ter feito muitas diligências contra os negros dos Palmares "que tanto inquietavam estes moradores". AUC."93 Como fora avisado de que no Rio de São Francisco "o 90 Regimento de Francisco de Brito Freire 29 de dezembro de 1661. pois a preparação do tal papel precedia o envio das tropas. 3ª-I-1-31. fora levado na bagagem do capitão junto com suas armas. para que fossem distribuídas entre os voluntários. 61.91 Francisco de Brito Freire ia bem além da proposta do marquês de Montalvão. doc. Brito Freire ordenou que os vigários consultassem os moradores de suas freguesias. IV. AUC. o governador consultou pessoas experientes e se resolveu a liberar quem quisesse atacar os Palmares. 137. e sítio donde eles nomeassem para fazerem plantas e aldeias". Não constituía uma alternativa à guerra.. fl. doc. sobre esses prisioneiros não haveria qualquer taxa. Além disso. A proposta era feita em meio aos combates. que de costume ficavam com os governadores. Para que tudo pudesse ser executado sem contestações posteriores. antes se obrigariam a entregar os que para lá fugirem. concedendo-lhes ficar com os prisioneiros que fizessem. 123.) em que [se] lhes assegurava para sempre liberdade. IV. doc. 60. 3ª-I-1-31. diante do fato de que as expedições e promessas enviadas não haviam surtido efeito. precedido dessa vez de consultas aos moradores. 66v-67v. assim aos pais como às crias de toda a sua descendência.. sem ter conseguido vencê-los. 3ªI-1-31. Em dezembro de 1662. Cf. CCA.90 Não se pode saber o que dizia o tal papel.

3ª-I-1-31. História da guerra brasílica. doc. Cf. donde também se padecem bastantes perdas dos que fogem para os mocambos. 2ª ed. que governa a todos. Pedia que o governador geral confirmasse a resolução. degolar o cabo de um mocambo e a outro seu companheiro por quererem aceitar o ajustamento". 85. pois na clemência se facilita o rendimento. Em carta dirigida ao governador do Estado do Brasil. mandava combater e prender todos os que não quisessem se sujeitar: "enquanto durar o conflito não dê quartel a quem se defender. Medeiros. IV. enviava para lá o padre João Duarte Sacramento para cuidar do assunto. IV. 74. doc. fl. Nova Lusitânia. Recife. não a souberam avaliar porque não só o despediram com desprezo e palavras escandalosas [como] mais ainda obstinadamente mandou o seu maior. o que muitas vezes não consegue o valor. 1659-1830. 137. "Brito Freyre. quatro meses depois. como me dizem. a sua história e Pernambuco" in: Francisco de Brito Freire. p.94 As negociações não foram bem sucedidas. apoiando as resoluções tomadas por Brito Freire. AUC. 3ª-I-1-31. e desta. 93v-94v.95 A matéria era urgente e a resposta veio logo em 9 de setembro. para último desengano dos negros dessa Capitania. O episódio é rapidamente comentado por J. AUC. de maneira que não fique mais que as memórias de sua destruição. O governador geral considerava apenas não ser justo degolar todos os prisioneiros. mas nem à obrigação militar. 1993. e M. 144. fl. faltos do conhecimento da razão. Igreja e dominação no Brasil escravista. e aprisione todos os que se lhe sujeitarem. CCA. e se se virem que de nenhum modo não têm quartel. 3ª-I-1-31. [que] poderão só ficar no Brasil os que tiverem idade que [os] segure o temor de se 94 Carta de 17 de abril de 1663. apêndice. C. doc. 1977.42 cabo de um mocambo vinha a tratar deste ajustamento". fl. Antônio Gonsalves de Mello. Diante disso. informa as providências tomadas e a proposta feita por intermédio do padre Sacramento e conta que "os negros. 91. AUC. IV. CCA. Por isso. a povoação se abrasará e consumirá tudo. pois a medida não constava das leis civis e militares. Idéia. e resolvia que o melhor era mesmo não dar "quartel a nenhum dos ditos negros de 15 anos para cima e que quando se aprisionassem alguns fossem enforcados nessa praça". 95 Carta de 23 de agosto de 1663. Secretaria de Educação e Cultura. O caso dos oratorianos de Pernambuco. Que ainda que é tão grande o número dos daquele. . mas somente os que fossem reconhecidos como cabeças dos mocambos. João Pessoa. poderá neles obrar a desesperação. E [a] entrada que for. pois deste modo só se não falta à piedade católica. considerava que os negros eram "indignos de nenhuma piedade [sic] e merecedores de um cruel castigo". 110. também carta de 18 de abril de 1663. CCA.

para exemplo de todos os escravos em Pernambuco e na Bahia. Como se vê. para que eu os certificasse da verdade. da memória e da história e merecem ser tratadas aqui. e os mais se podem exterminar como ordenarei. [Relatório dos serviços prestados em Pernambuco]. com que ultimamente mandaram alguns negros falar com os filhos [sic] do sargento mor Antonio Vieira. ele havia procurado "reduzi-los com indústria e suavidade para arrancar as raízes dos males que se padecem há tantos anos". . Seu livro foi escrito entre 1669 e 1675. Officina de João Galrão. pois pela [sic] não saberem haviam degolado dois. cuidando que eram espias nossas. depois de virem prisioneiros". arrasando os mocambos e deixando no Brasil apenas as crianças."97 Nesse texto. e rev. pois incluiu.d. s. Cx. a purissima alma e savdosa memoria do serenissimo principe dom Theodosio. 1675. 97 Francisco de Brito Freire. principe de Portvgal. historia da guerra brasilica.98 Mais uma vez. no relatório final de seu governo. quando esteve preso. 98 Francisco de Brito Freire. DH. a "entrada geral" que mandou fazer com "onze tropas juntas" e que permaneceu no sertão por cinco meses. depois de retornar a Portugal e negar-se a conduzir o rei deposto ao exílio nos Açores. São Paulo. estando "os negros medrosos e quebrantados" pelas mortes causadas. Nova Lusitania. incluiu os "negros dos Palmares" entre "as coisas mais notáveis" da história brasílica que escreveu sobre as guerras contra os holandeses. Ali se pode ler que. mas a mensagem é clara: luta sem quartel. 236 n. suas observações sobre os acontecimentos nessa região misturam características do testemunho. mandara "lançar nos seus mocambos alguns línguas para os persuadir a que baixassem e se reduzissem (como já se havia reduzido a nação dos Tapuias) a viver junto a nós. Brito Freire comenta não ter tido notícia do sucesso ou não da empreitada por se "acabar o tempo da [sua] assistência naquele governo". com que se voltaram aos seus e me tornaram avisar [que] estavam juntando todos para descerem os principais a ter comigo e aceitar o que lhes oferecia. A experiência deve ter marcado Brito Freire.96 O português é arrevesado. a versão é ligeiramente diversa da que se pode obter pela documentação administrativa. 2001. em sítios assinalados.43 tornarem a ir aninhar naquela parte. e quando se não aproveitassem desta benevolência lhes repetiria novos e maiores apertos. Beca. 96 Carta do conde de Óbidos para Francisco de Brito Freire de 9 de setembro de 1663. 51. BNL-Res. 9 (1929): 127129. Para isso. pela sede e fome advinda da destruição de suas plantações. Lisboa. Ed atual. Alguns anos mais tarde.

discorre sobre alguns meios para reduzi-los. que el-rei mandou livrar: e assim lhes constaria. "apesar das diligências (. Como seu livro trata das lutas contra os holandeses na Bahia e em Pernambuco. Em primeiro lugar. não poderia incluir acontecimentos de seu governo. B. Sugere a distribuição dos prisioneiros entre os soldados. sem qualquer referência à concessão de terras ou à liberdade para os nascidos nos mocambos. Não deixa de ser interessante. dever-se-ia instalar na região duas povoações para que servissem de base para as operações. E sem nenhum receio de tornarem a ser cativos. contudo. a fim de que as campanhas fossem feitas sem dar descanso aos fugitivos. casas e lavradores". que a lembrança soma a continuidade da guerra à oferta da liberdade em troca do alistamento no terço dos Henriques.99 A passagem é duplamente interessante.) antes aqueles negros se aumentam que diminuem". aos olhos dos mesmos senhores. ao referir-se ao procedimento que adotou com os Tapuias. Freire.44 Ao tratar das calamidades que afligiam os moradores da capitania no início dos anos 30 do século XVII. ele menciona os holandeses. ela revela o trabalho da memória. Suas considerações partem do fato de que. Brito Freire situa o drama vivido pelos moradores com os Palmares junto a acontecimentos ocorridos em 1634.. Considerava ainda a possibilidade de "reduzi-los com indústria. Ronaldo 99 F. 178 (ed. o que lhe parecia ser melhor do que persegui-los pelos campos. na escola da nossa doutrina e no amparo da nossa assistência. para as almas e para as vidas. andarem livres". As sugestões de Brito Freire são mencionadas por vários autores. Depois de uma breve descrição do modo como viviam os habitantes dos mocambos e dos danos que faziam às "fazendas. 1675) ou pp. que faça a inclusão dos Palmares em sua história e mencione seu próprio nome na passagem. Nova Lusitania. pp. o fruto da sua quietação.280-282 (na ed.. 2001). os Tapuias e os negros dos Palmares. em geral para marcar a existência dos Palmares desde as décadas iniciais do século XVII ou para mostrar que as formas alternativas à guerra estavam destinadas ao fracasso. dando favor e liberdade a alguns dos que trazemos para persuadirem os mais que venham lograr seguramente. bem como recomenda que suas lavouras sejam destruídas. . o interesse no trecho decorre das análises que suscitou na historiografia. Em segundo lugar. viverem livres na forma de todos os outros negros seus parentes alistados no terço de Henrique Dias. Deve-se notar. também. Uma vez que fossem desalojados.

Como se pode verificar nos episódios descritos acima. 1996. os tratados seriam "um meio de obter a alforria para os amotinados e garantir. Assim.pelo menos enquanto o novo soldado cumprisse as novas funções. era uma empresa custosa que sobrecarregava os moradores. enquanto se obtinha uma trégua. . "Deus contra Palmares". por exemplo. Mesmo quando as autoridades e senhores de 100 Ronaldo Vainfas. como vimos. Liberdade por um Fio. para esse autor. pp. decidir segundo sua própria avaliação e manter o acordado. envolvia um debate sobre o destino dos prisioneiros feitos na guerra ou dos negros com os quais se fizesse alguma negociação. A experiência vinha mostrando que. A avaliação das medidas a serem adotadas contra os mocambos passava. A possibilidade de qualquer ajuste individual ou coletivo . 65.101 Talvez se possa avaliar a questão com maior nuance ao ponderar seus aspectos políticos. esse era um recurso que enfraquecia os quilombos e facilitava a repressão.100 De todo o modo. Em terceiro lugar. Paulo. por uma forma diferenciada de qualificá-los (se escravos fugitivos ou negros levantados). O terço dos Henriques constituía um exemplo bem sucedido de colaboração. Para os quilombolas.) a revelar a hesitação e medos dos agentes do colonialismo lusitano". S.45 Vainfas. tais propostas constituíam um "paradoxo incrível (.. observa que "havia algo de estratégico nesse aparente recuo senhorial em face da rebeldia negra organizada".. em primeiro lugar. dependia dos custos financeiros e políticos implicados nas alternativas . p.que não necessariamente eram excludentes. Representações senhoriais e idéias jesuíticas" in: João José Reis e Flávio dos Santos Gomes (org. havia muitos interesses em jogo.). 101 Ronaldo Vainfas. "Deus contra Palmares. pois a concessão da alforria podia significar a suspensão dos ataques. ao comentar essa proposta de Brito Freire. os planos e as estratégias quase sempre redundavam em fracasso. A guerra.implicava o reconhecimento do outro como um oponente político: capaz de ponderar propostas. 62-65. Em seguida. e a devolução dos fugitivos quebrava o nexo entre os mocambos e os escravos das fazendas e engenhos. ao menos pro tempore. e parecia implicar custos menores . apesar de diversos. É evidente que o embuste era possível e que a promessa de liberdade ou do alistamento militar podia ser apenas um subterfúgio. Companhia das Letras. a autonomia das povoações negras".

Além de contarem com aliados. como havia explicitado Montalvão.da aceitação parcial. as reações podiam ser as mais diversas . Tudo indica que não havia concordância entre os moradores das vilas vizinhas e as autoridades coloniais quanto a medidas importantes. Pelo visto. a liberdade vinha ainda acompanhada pela concessão de terras. ao terço dos Henriques ou aos paulistas e a outros sertanistas experientes? As divergências entre os governadores. as câmaras e os senhores de engenho atrasavam as expedições e ajudavam a boicotar os resultados esperados. Se aceitas e implementadas. acabavam por ganhar um (novo) senhor.46 engenho conseguiam destruir um mocambo ou prender alguns ou muitos fugitivos.já que. Até agora temos analisado sobretudo o lado dos que lutavam contra os mocambos. a equação é bastante complexa. que os avisavam das expedições. Outra parte estava no reconhecimento de diferenças entre as mulheres e os homens. mesmo que não para todos os levantados. O costume de dar as "crias" para os governadores significa a quebra do princípio escravista de que os filhos seguiam a condição da mãe . por meio de um acordo de paz. Quem deveria arcar com as despesas das incursões repressivas? Quais as melhores estratégias? Para compor a tropa se devia recorrer aos índios. é preciso levar em conta a grande diferença entre conceder a alforria a um indivíduo.talvez não àquela de seus senhores. em troca de colaboração. Finalmente. elas significariam a continuidade dos mocambos. nascidos de escravas. a região onde estavam instalados era inóspita. e oferecê-la de modo coletivo. Tratava-se de reduzir negros levantados à obediência . e entre os que haviam sido escravos e os nascidos fora do domínio senhorial. No caso das propostas feitas pelo marquês de Montalvão e por Brito Freire. Como se vê. mas a das autoridades coloniais. O que fazer com os prisioneiros? Deviam ser vendidos para fora da capitania ou dados como prêmio aos que lutassem contra os mocambos? Podiam ser usados para pagar parte dos custos das operações militares ou sua tomadia devia ser paga pelos senhores? Parte do dilema residia na necessidade de ponderar o interesse dos senhores dos fugitivos e o da segurança geral da capitania. os que fugiam por vontade própria e os que eram obrigados a ir para os mocambos. libertas ou livres. a resistência dos negros dos Palmares parecia ser invencível. da dissimulação ou da recusa completa. as dificuldades em recrutar soldados enormes e os custos das expedições imensos. com a degola .

para discutir a resposta que os quilombolas traziam de Palmares. Aqui. 103 Edison Carneiro detalha um pouco mais as negociações em torno dos termos da paz. Antes de seguir essa trilha. 328. convocada especialmente para cuidar do assunto. paz. é o "pedido" de Gangazumba por "liberdade. Rodrigues. p.47 exemplar dos que tivessem começado a negociar. 3. Assim. em meados de junho. Estavam presentes dom Pedro de Almeida. o conselho da capitania foi reunido. pois não apenas era mostra evidente da "influência africana e da independência e constituição bárbara ou selvagem em que vivia Palmares" como também da "real importância do Estado negro com o qual a colônia tratava agora como de nação a nação celebrando tratados de paz". é importante saber mais sobre os termos ajustados em 1678. o episódio serve para reafirmar o poderio dos mocambos instalados na Serra da Barriga e mostrar o quanto eram "ilusórias as esperanças do governador" de que estavam enfim destruídos. p. Como dom Pedro já havia sido substituído por Aires de Souza de Castro. Aires de Souza de Castro. N. Depois das cerimônias de recepção e das homenagens. porém. a descrição da embaixada ganha destaque. que terminou por 102 103 "Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco". Em Nina Rodrigues. na narrativa construída por esse autor. 84 . Depois de observar o "curioso contraste" entre esses acontecimentos e o esforço para afirmar a destruição de Palmares. Os africanos no Brasil. o ouvidor geral.102 Mais uma vez. Homens de palavra Todos os autores que tratam com um pouco mais de detalhe das negociações utilizam-se da crônica de 1678 para narrar a entrada no Recife. além dos membros da comitiva vinda de Palmares. de uma embaixada palmarina. entrega das mulheres e local" que é discutido e aceito pelo Conselho. no entanto. o modo de expor e interpretar os acontecimentos varia entre os autores. Nina Rodrigues conclui: "não se comportaria assim um governo forte com agrupamentos fortuitos de negros fugidos que se devem reduzir à obediência". ela foi enviada ao novo governador. realizadas em reunião do Conselho da capitania. o provedor da Fazenda e os oficiais militares que haviam liderado as expedições. embora a fonte seja a mesma.

Freitas. pp. M. Freitas. 106 M. contudo. 131.105 Ao invés de aprofundar o debate nos termos em que está colocado. 118. e F. p. havia proposto a paz como um dos atos finais de seu governo. o "papel" que resultou da reunião entre os enviados de Palmares e as autoridades da capitania de Pernambuco é o principal documento. a solenidade da reunião do conselho e da recepção à embaixada pareciam-lhe ser "um concerto de potência a potência". Memorial dos Palmares. Reino negro de Palmares. O quilombo dos Palmares. Palmares. Para esse autor. fiou-se nas informações do capitão Carrilho e acabou sendo "complacente com a embaixada de Gangazumba e prometeu fazer a paz nas bases pedidas".48 apoiar a proposta do governador de dar aos palmarinos as terras que escolhessem para habitar e plantar. Gomes. é possível verificar que a fonte utilizada por eles foi a crônica publicada pela Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro em 104 105 E. nos "círculos oficiais". confirmado pelos termos benevolentes acertados com os negros. Palmares. de libertar os nascidos em Palmares e lhes facultar comércio e trato com os moradores. M. a bibliografia pouco se demorou sobre os termos ajustados na ocasião. 90-91. . I. Apenas alguns dos autores lhe deram mais atenção: Mário Martins Freitas. 249-251. assim como permitira a isenção do quinto para os voluntários que capturassem os negros que continuavam espalhados pelos matos. Castro. prefiro buscar a via alternativa da leitura das fontes disponíveis. S. Reino negro de Palmares. pp. M. mas estabelece uma diferença entre dom Pedro de Almeida e Aires de Souza de Castro. são as dúvidas. Freitas. como prometer a paz e ao mesmo tempo incentivar voluntários a atacar o quilombo com a promessa de isenção do pagamento do quinto. D. confiante na destruição dos Palmares e sedento de glória. as negociações não eliminam atitudes conflitantes. Tendo em vista a importância desse documento. pp. O primeiro. um receio. Freitas e Décio Freitas citam um pequeno trecho entre aspas. 109-110. O ponto que mais chama sua atenção. Alves Filho.106 Como M. sua análise será feita com vagar e paciência na interpretação de detalhes. Como já observei. por sua vez. Décio Freitas. Ivan Alves Filho e Flávio Gomes. Nesse caso. 251-252. Carneiro. Mesmo assim. "ignorando a situação política e a organização do reino negro dos Palmares". que "mais parecem ditados pelos palmarinos". p. sobre "o sossego a tanto custo conseguido".104 Mário Martins Freitas segue na mesma direção. pp. segundo ele. M.

conforme propunha Gangazumba. 6) que lograriam os foros de vassalos de el-rei e que ficariam obedientes às ordens do governador da capitania. p. Reino negro de Palmares. Palmares. 108 I. o modo como cada um desses autores se refere às condições da paz ajustada entre os embaixadores de Palmares e o conselho reunido em 22 de junho de 1678 é bem diferente. Para Mário M. p. com a ressalva que ali se lê "corsários" e não "contrários". p.108 também se apóia na publicação de 1859 ao resumir as determinações do acordo. 110. Reino negro de Palmares.107 Ivan Alves Filho. 4) gozo do foro de vassalos da 107 M. Freitas. 252. p. e daria guias para as nossas armas o desbaratarem") está em "Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco". 328. M. 91. 251-252. 7) que o rei negro seria nomeado mestre-de-campo de toda a sua gente e responsável pela ordem entre os negros. 4) que fossem restituídos pelo rei todos os escravos fugidos das fazendas e engenhos. é difícil saber a fonte utilizada por ele.116) da "Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco". O trecho citado ("quando algum por rebelde repugnasse a sua e nossa obediência ele o conquistaria. M. ele referencia.109 Décio Freitas registra que dom Pedro de Almeida defendeu "a conveniência das pazes com os palmarinos" e propôs um acordo "nas seguintes bases: 1) liberdade para os nascidos nos Palmares. 5) que teriam comércio e trato com os brancos. 2) concessão de terras para viverem e cultivarem. o conselho discutiu "a paz pedida" por Gangazumba e aceitou a proposta do governador. 3) que seriam livres os negros nascidos nos Palmares. 328. seus cabos maiores". 3) garantia de comércio e relações com os moradores circunvizinhos. pp. ao resumir as cláusulas do acordo. Como não há qualquer anotação ou citação nessa passagem do livro de Flávio Gomes. Memorial dos Palmares. D.49 1859. na nota 57 (p. e daria guias para as nossas armas o desbaratarem"). também estão na "Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco". porém. . 8) que seriam restituídas as mulheres do rei e dos demais potentados. Alves Filho. Freitas. que indica ter consultado a cópia existente no Arquivo Histórico Ultramarino. de Freitas. que viviam distantes das suas cidades" e "conduziria a todos ao nosso domínio. resumida assim: "1) que se lhes desse o sítio que eles designassem ou escolhessem para suas habitações e plantas. 109 M. Freitas. Estranhamente. 2) que a esse sítio se recolhessem no prazo de três meses. e quando algum por rebelde repugnasse a sua e nossa obediência ele o conquistaria. Os dois trechos citados por esse autor ("conduzir alguns contrários. p. Apesar da convergência de fontes.

na página seguinte. considerando que a autonomia de Palmares fosse respeitada. Palmares.50 Coroa". 131. p. p. novos cativos que fugissem para Palmares deveriam ser imediatamente devolvidos para as autoridades coloniais e seus respectivos proprietários. ficando "implícito que os negros nascidos fora de Palmares seriam reduzidos ao cativeiro". cita alguns de seus trechos. os palmaristas poderiam continuar mantendo trocas mercantis com taberneiros. a partir da assinatura daquele tratado. M. Alves Filho. A restituição dos fugitivos. liberdade para todas as pessoas nascidas em palmares. p. Estranhamente.121. Freitas é sem dúvida mais completo do que o apresentado pelos outros três. Divergem quanto a quem propõe ou aceita as condições e quanto ao que ficou acertado nas negociações. É de se perguntar se entregar os fugitivos poderia significar outra coisa diferente do que serem eles "novamente escravizados". 90. Ivan Alves Filho segue de perto a análise de Décio Freitas e resume as cláusulas do seguinte modo: "concessão de terras aos palmarinos em local em que pudessem viver e plantar. colocando as seguintes condições: a liberdade dos negros nascidos em Palmares seria respeitada. 90. Alves Filho. 110 Mais uma vez. p. incluindo o compromisso de Gangazumba de "entregar todos os escravos que destas capitanias haviam fugido para esses Palmares". as condições e termos são um pouco diferentes: "os palmaristas concordaram com um tratado de paz.Freitas. Mesmo que fiquemos com as cinco cláusulas que todos enfatizam. Também não há consenso sobre o teor dessa cláusula: são "os escravos fugidos das fazendas e engenhos". depois de indicar o arquivo que guarda o original. liberdade de comércio entre os palmarino e os moradores das vilas e vilarejos coloniais. que guardam maior proximidade entre si. palmaristas passariam à condição de vassalos do rei. O referido governador aceitou inicialmente."111 Para Flávio Gomes. as terras nas quais os palmaristas iriam viver seriam agora demarcadas pela Coroa. Gomes. os palmarinos seriam considerados doravante vassalos do rei de Portugal.. S. comerciantes e vendeiros da região. Palmares. I. "reduzidos ao cativeiro". . os "nascidos fora de Palmares" ou "os novos cativos que fugissem para os Palmares" que devem ser "restituídos". O resumo oferecido por M."112 É notável a diferença entre os autores. 112 F. Memorial dos Palmares. 110 111 D. que aparece como uma cláusula implícita em Décio Freitas e Ivan Alves Filho. a variação é grande. I.. torna-se uma determinação a ser imediatamente cumprida em Flávio Gomes. O acordo deixava implícito que os palmarinos nascidos fora de Palmares seriam novamente escravizados.

51 "novamente escravizados" ou "devolvidos para as autoridades coloniais e seus respectivos proprietários"? A escolha do lugar onde os habitantes de Palmares iriam se estabelecer também varia. para depois serem remetidas a seus destinos. Era prática comum nas secretarias desse período produzir uma ou mais cópias dos documentos. a essa altura era príncipe regente). por exemplo. esse documento foi assinado pelo governador. e aquela que foi registrada nos livros da secretaria do governo de Pernambuco e copiada no códice guardado no Arquivo da Universidade de Coimbra. O comércio . respectivamente. temos dois originais: a cópia que foi anexada à carta enviada por Aires de Souza de Castro ao príncipe em 22 de junho de 1678. Nesse caso. comerciantes e vendeiros da região" . menos em dois casos: a menção ao batismo dos filhos de Gangazumba que compunham a embaixada e o prazo de trinta dias para a resposta ambas presentes apenas no manuscrito do Arquivo Histórico Ultramarino. mas na interpretação elaborada pelos autores. É surpreendente. Para dar conta de dirimir dúvidas e questões. Isso acontecia 113 Os documentos vão reproduzidos na íntegra nos anexos 5 e 1. porém. também."com os brancos" para um autor. ou simplesmente continuar. ter foro ou ser vassalo da Coroa ou do rei (que. As diferenças apontadas aqui não são de pequena monta: dizem respeito a compreensões díspares sobre os sujeitos responsáveis pelas ações a serem executadas. que se encontra no Arquivo Histórico Ultramarino.pode ser uma prática que passará a existir. a consulta às fontes é um bom procedimento. ganhar a condição de livre. como se pode ver pela tabela comparativa que compõe o anexo 6. com os "moradores das vilas e vilarejos coloniais" para outro. ou apenas com "taverneiros. que nenhum deles tenha ido além do resumo. As divergências não parecem estar baseadas em informações retiradas de fontes diversas. sobre a amplitude das decisões tomadas e sobre quem ou o quê elas incidem. a bem dizer.113 Qual delas escolher? O texto varia pouco nas duas cópias. ora sendo "demarcada" pela Coroa. para explicar o significado de certos termos como. . Além disso. A maior parte das diferenças pode com facilidade ser tributada à atenção dos copistas. sendo feita ora pelo pessoal de Gangazumba. que eram assinadas pelas autoridades simultaneamente.

assim como interesses e 114 Carta de Aires de Souza de Castro de 22 de junho 1678. ficando fora do livro da secretaria. depois da fórmula tradicional de despedida e datação.lembrando ainda que. Pode também indicar que o próprio registro foi feito ao mesmo tempo em que o acordo foi redigido: o escrivão produziu as cópias.não de um acordo. O registro da correspondência enviada e recebida era feito em livros específicos. nesse caso. em nome do príncipe regente.114 Por meio do “papel”. assinado. 1116. Cx. trata-se de um "papel" . registrou-as antes das assinaturas e a cláusula extra foi acrescentada em seguida. o documento que tomarei aqui como base para a análise é o que se encontra guardado em Lisboa. em geral diferentes. O texto é claro: é a falta de obediência ao príncipe que é perdoada e o envio dos "filhos e família" é considerado sinal de submissão suficiente para criar condições para que o governador pudesse fazer concessões e promessas. . que não menciona qualquer assinatura . Vejamos o que ele diz. 11. o governador remete a Gangazumba "o bem da liberdade e perdão" por viver ele "há tantos anos fora da [sua] obediência". que permaneciam nos arquivos das secretarias. e por conta das observações feitas acima. o manuscrito que está em Lisboa deve ter sido produzido ao mesmo tempo que aquele enviado a Palmares. Em primeiro lugar. Não são assinados quando muito. como se pode verificar na documentação guardada no Arquivo Histórico Ultramarino. Todavia. D. ao final do texto. mencionam a assinatura. que contrapõem a dúvida à firmeza e segurança. por ser um manuscrito avulso. AHU_ACL_CU_015. De qualquer modo. Esse fato talvez explique a ausência da menção ao prazo para a decisão de Gangazumba e a implementação do acordo: acrescentada posteriormente. É o caso do manuscrito que pertence à coleção Conde dos Arcos. indicando o nome de quem assina. a cláusula não consta do registro. Assim. ou a existência de rubricas. Aires de Souza de Castro menciona em sua carta ter feito uma "proposta" que foi levada pelos "negros". ao invés de discriminar quais seriam elas. estamos diante de uma cópia da cópia registrada no livro da secretaria de governo da capitania. O trecho é interessante sobretudo pelas palavras empregadas.52 com certa freqüência nas comunicações entre os governantes coloniais e a metrópole. tratado ou outra coisa. o texto continua testando o compromisso assumido entre as partes.

Só depois desse intróito. Cx. 8) é dada alforria ao negro Amaro ("cativo") e a João Mulato. anexo à carta de Aires de Souza de Castro de 22 de junho de 1678. para que se mande fazer a guerra contra eles. Remeto o leitor para o anexo 7. temos aí doze condições claramente enunciadas. O ritmo é quebrado com a menção ao envio de padres para o ensino da doutrina cristã e há um acréscimo final que estipula um prazo de trinta dias para a decisão e outros trinta para a execução do que foi acertado.. Ver anexo 5. e da promessa de honras iguais às feitas aos filhos. D. 11. para que possam morar e fazer "suas aldeias". haverá guerra: as tropas já estão juntas e tinham poder suficiente para derrotá-los "de todo". A continuação segue o espírito das frases iniciais. 6) é concedida "alforria" para os que forem "nascidos" nos Palmares. Doc. onde se encontra também o que vai dito na crônica publicada pela Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro em 115 Cópia do papel que levaram os negros dos Palmares. 3) todos os "negros" das capitanias que haviam fugido para Palmares serão "entregues". E termina com uma ameaça: se no "tempo assinalado" o que foi oferecido não for cumprido. é que os pontos prometidos são enunciados: 1) todos os "negros" dos Palmares e seus "potentados" estão incluídos na paz ajustada. 9) o governador será avisado se houver quem não queira se submeter à "obediência". Não vou insistir na diferença entre o que se lê no "papel" e nos livros dos autores citados acima.115 Bem contadas e discriminadas.) estavam cativos" e iam ser despachados para o Reino serão restituídos. 4) o "sítio [ou "paragem"] a que chamam Cucaú" será concedida por mercê.53 utilidades à luz divina e à salvação. 7) os "filhos e mulheres que (. 5) os moradores de Cucaú poderão plantar seus frutos e ter "os mesmos lucros que têm os mais vassalos" do príncipe português sem serem obrigados "por força a nenhum trabalho particular salvo se for para o serviço do dito senhor". AHU_ACL_CU_015.. com a afirmação de que o envio dos dois soldados é testemunho da "estimação" feita à "gente preta que obra debaixo da obediência" do governo. . que foram batizados. 1116. 2) os que não quiserem seguir a paz acordada serão "obrigados" a isso.

. necessariamente.54 1859. Em torno dos fundamentos católicos do sistema político do antigo regime".117 cria nesse caso uma cadeia hierárquica que liga Gangazumba ao governador e este ao príncipe . 119 Segundo o Vocabulário de Bluteau. suas palavras e determinações. Vocabulário. (Ed. os potentados.mas isso não elimina a hierarquia palmarina. Freitas.). Bluteau. 22 (2001): 133-174.. Vocabulário portuguez e latino. 1712. As cláusulas reconhecem a existência de hierarquias nos lados em negociação: em Palmares há Gangazumba e sua família. O governador negocia em nome do príncipe. Rio de Janeiro.118 embora algumas vezes "vassalo" possa ser entendido mais como um título honorífico. R. Este.o único a não ser obediente a ninguém. UERJ. aliás. os nascidos em Palmares e os negros da capitania que haviam fugido . em Pernambuco há o governador. Coimbra. As promessas do lado dos palmarinos dizem respeito a fazer a paz e a obedecer ao governador de Pernambuco. já que Gangazumba. 118 Tal pressuposto envolvia. Mário M. tal como entendida nesse período. faz parte da concepção de vassalagem.116 O modo como aquele papel foi escrito me leva a concordar com a hipótese.. na época de dom Pedro era apenas um "título. É mais interessante investigar o próprio texto. CD-Rom. Revista de História das Idéias. Memorial dos Palmares.) que (. princípios laicos e religiosos. Raphael Bluteau.119 116 117 M. assim como os filhos de Gangazumba falam em seu nome. Freitas observou que a reunião de negociação mais parecia "um concerto de potência a potência"..além de alguns indivíduos específicos. como indica o Vocabulário de Bluteau. A obediência. e por meio dele ao príncipe. se não costumava ser vassalo senão filho ou neto ou bisneto de fidalgo de linhagem".d. associando as noções de fidelidade e vassalagem. verbete "vassalo". Collegio das Artes da Companhia de Jesus. assume o compromisso em nome de todos os que estão sob seu poder. aplicado apenas aos fidalgos de linhagem. 251. que age em nome do príncipe de Portugal. p. verbete "obediência". fac-simile. M. salvo a Deus. e tão honorífico (. Esse ordenamento. não é questionado nem limitado por qualquer palavra no documento. O príncipe de Portugal passa assim a ser o senhor de todos ("meu e vosso senhor") . por meio dos filhos embaixadores. que pressupõe uma solidariedade que caminha verticalmente em direção ao soberano. . como bem observou Pedro Cardim. "Religião e ordem social. essa "virtude que inclina a executar os mandados do superior e sujeita a vontade de um homem à de outro". s. para quem quiser empreender uma comparação mais detalhada entre os vários textos.

Minas Gerais e as novas abordagens para uma história do império ultramarino português. Ásia e América. Bluteau.120 Ou seja: a obediência ao príncipe português é acompanhada pelo reconhecimento da liberdade de Gangazumba. vice-rei ou capitão general. a liberdade não é devolvida. UFMG. uma carta ou outra. Ed. na maior parte dos casos. Como bem observou Luciano Figueiredo. aqui. O verbo escolhido pode ser mais uma indicação de mundos separados: o papel segue de Pernambuco para Palmares . a respeito. "o Xumbergas". Mello. com sobrescrito. mas operavam nos termos da concepção monárquica restauradora. mas remetida. esses levantamentos não visavam colocar em cheque o poder do soberano. e o respeito aos usos e costumes. O episódio do Xumbergas é longamente analisado por E.duas jurisdições separadas.primeira definição do termo no Vocabulário de Bluteau.e lhe confere um lugar numa hierarquia de poderes. verbetes "remeter"e "remessa". C. segundo Bluteau.55 Ao remeter a Gangazumba o "bem da liberdade e perdão" de sua desobediência. Aires de Souza de Castro pode ter empregado a palavra liberdade. questionando as autoridades locais. Ver. "O império em apuros. Dentre os principais atributos do soberano estavam a justiça. em condições de exigir obediência a seu novo "vassalo". Obediência e perdão eram elementos fundamentais da concepção monárquica durante a segunda metade do século XVII. buscando restabelecer o equilíbrio perdido. assim "um papel. apesar de ter saído do domínio do príncipe português. Esses "levantamentos". terminaram com a deposição das autoridades locais . 1.do governador. no período conhecido como da Restauração. conjuras de fidalgos. Jerônimo de Mendonça Furtado.). Ao perdoar Gangazumba. Faz parte desse contexto a deposição do governador de Pernambuco. Para ser obedecido por seus vassalos. o rei ou seus delegados tinham que governar com justiça e respeitar os usos e costumes locais. o príncipe reafirmava suas qualidades como bom governante. rebeliões antifiscais e anti-jesuíticas na Índia. em sentido mais amplo. cap. Por isso. 121 No período da Restauração ocorreram diversos motins de soldados. na maior parte das vezes. nem concedida. o soberano português evitou a repressão violenta para negociar com seus súditos. Luciano Raposo de Almeida Figueiredo. 197-254. a alguém". Remete-se. a capacidade de garantir fortuna e segurança aos súditos. R. Diálogos oceânicos. Ela está diretamente associada ao perdão . 2001. séculos XVII e XVIII" in: Júnia Ferreira Furtado (org. ao direito natural e às regras tradicionais. Belo Horizonte. não será julgado ou obrigado a alguma pena pela desobediência cometida. como o "estado natural no qual tem o homem todos os movimentos da sua vontade independentes e livres" . A fronda dos mazombos. pelo perdão . em 1666.o que pode significar que. mas é explicitada na carta enviada por Aires de Souza de Castro ao príncipe português em junho de 1678. Por isso. que 120 Remeter é "mandar uma coisa de um lugar para outro". pp. Notas para o estudo das alterações ultramarinas e das práticas políticas no império colonial português.121 Essa concepção está subjacente ao texto ajustado no Recife. Vocabulário. .

reconhecer o respeito à autoridade de Gangazumba sobre os palmarinos. preferindo-se salientar a obediência . O tratamento na segunda pessoa do plural.122 Há. como se fosse continuar a expor suas determinações. já que podem praticar as duas línguas.56 acompanhou o "papel" que está sendo analisado. idade e experiência os distinguem. AHU_ACL_CU_015. fornecendo os atributos para que pudessem servir como embaixadores entre as duas partes que negociam. que registra que os negros "disseram que o seu rei e eles se queriam avassalar e viver debaixo da proteção" do monarca português. Cx. "soldados mui honrados e mui antigos". assim. 1118. uma pequena nuance: enquanto nas primeiras se afirma uma submissão que coloca Palmares em pé de igualdade com outros súditos da monarquia portuguesa. no último se trata de elidir a palavra. não eram padres a servir de embaixadores. e Carta de João do Rego Barros de 22 de junho de 1678. indiretamente. É um papel escrito para ser explicado por intermediários qualificados . O texto que selou o ajuste foi escrito como um documento que emana do governo de Pernambuco: começa com a fórmula tradicional da identificação da autoridade delegada a Aires de Souza de Castro. Nela o governador se refere aos filhos do "levantado a que chamam rei desses Palmares" que queriam ser seus "obedientes vassalos". AHU_ACL_CU_015.mais um dado a corroborar a hipótese do reconhecimento de um acerto entre autoridades com requisitos e características equivalentes. 11. mas soldados. O mesmo termo aparece na carta enviada pelo provedor da Fazenda de Pernambuco ao príncipe. 1116. oferecimentos e pedidos. Não explicita reuniões ou decisões conjuntas. D. São eles que levam o texto e a capacidade de explicá-lo. entre as cartas que seguem para Portugal e o papel que segue para Palmares. bem como o reconhecimento da autoridade delegada de seus filhos corroboram essa diferença. mas promessas e concessões. De modo diverso da tentativa havida durante o governo de Brito Freire. escrita na mesma data. A separação entre o escrito e o verbal é marcada e acentuada também pela diferença da língua falada pelos negociadores . . honra. que aparece bastante atenuada nas cartas das autoridades pernambucanas. 11. D.o sargento-mor e o capitão de infantaria. Tanto a crônica de 1678 122 Carta de Aires de Souza de Castro de 22 de junho de 1678. Nesse caso.e com isso. em 1761. Cx.

um capitão e o sargento-mor. p. . pois anos depois se registra que: "Andou o capitão Antonio Pinto Ribeiro descobrindo umas terras por cima dos Palmares onde estão os negros levantados assistindo e deu o dito capitão com um caminho que foi seguindo debaixo de todo risco de sua pessoa por ir só sem mais companhia e deu com os ditos negros levantados propondo-lhes suas razões bastantes para que fizesse quietação e não molestassem os brancos e fizessem pazes. datado de 9 de fevereiro de 1682. Pernambuco. doc. 38. que usaram mediadores abalizados para transmiti-las tanto por escrito como verbalmente. De todo modo. O capitão deve ter sido Estevão Gonçalves. apalavrados e por escrito. Convenceu-o que queria fazer paz com os brancos.124 Como se trata de um depoimento posterior. transmitindo-lhe as suas razões. o que importa observar é que o papel registra a palavra de duas autoridades. nota 60 o referencia como estando no AHU. 37 e fl. caixa 8. Vindos em paz e escoltados por soldados. 116. cuja finalidade era atestar serviços prestados. fl. entre autoridades que se reconhecem com competências equivalentes e capazes de honrar os compromissos assumidos.57 quanto outras fontes indicam com nitidez terem sido oficiais do terço dos Henriques. fl. Estabelece obrigações mútuas. 124 Não consegui encontrar ainda o original desse documento. Como já observei.ou ainda pode ter sido escrito em outra situação. que foi pago por ter ajudado a trazer os "onze negros dos Palmares que vieram a tratar do ajuste da paz". E os ditos negros o levaram onde estava o principal que os governa por nome Gangazumba. não sua forma final.123 Outro documento indica que pode ter havido também a participação de companhia paga. Se a embaixada composta por seus filhos foi enviada por Gangazumba para pedir a paz ou aceitar a oferta feita pelos enviados do governador é difícil saber. o capitão pode muito bem ter puxado para si todo o mérito das tratativas . IV. Ivan Alves Filho. 344. por eles e seus embaixadores. os embaixadores assumiram poucos mas importantes compromissos: fazer com que todos os habitantes dos Palmares seguissem os termos acordados e entregar os fugitivos que 123 Ordens de Aires de Souza de Castro de 20 e 21 de junho de 1678. 3ª-I-1-31. 344. para o que mandou três filhos seus e dois genros e outros mais em companhia do dito capitão a efetuar essa paz com o governador". CCA. AUC. Memorial dos Palmares. As cláusulas negociadas distribuem-se desigualmente entre ações sob responsabilidade do governo de Pernambuco e de Palmares.2. doc. o texto constitui um passo das negociações.

a ameaça de uma guerra capaz de derrotá-lo "de todo" .58 tinham ido para Palmares. segundo Aires de Souza de Castro. como na proposta aventada pelo marquês de Montalvão diante dos mocambos na Bahia.). em 1640. S. essa possibilidade aparece desde que os habitantes dos mocambos sejam considerados "negros levantados" e não simples "escravos fugidos". é fácil perceber as ambigüidades que contêm. o reconhecimento de que seus moradores terão liberdade para plantar e ter os mesmos lucros que os demais vassalos de Portugal. o reconhecimento da autoridade de Gangazumba estava limitada pela existência de outros poderes. estão a concessão das terras em Cucaú. aqui. pp. a alforria para os nascidos em Palmares e para Amaro e João (o que sugere não serem eles ali nascidos). A concessão de terras já havia aparecido em ocasiões semelhantes. Quando olhadas em conjunto. a cumprir a paz ajustada.seria o elemento capaz de levá-lo. como recompensa por serviços prestados. A ela 125 Para uma análise desses procedimentos. J. No contexto do papel que examinamos aqui. A concessão de terras é prática comum no relacionamento entre governantes e subalternos. A entrega dos fugitivos legitimava a autoridade dos senhores de escravos de Pernambuco e das capitanias anexas. 1769" in: J. e nas tentativas de Francisco de Brito Freire de negociar com os potentados dos Palmares. . Como já havia observado. a obediência geral dependia da autoridade de Gangazumba sobre seus potentados . porém. por outro lado. resguardava a de Gangazumba sobre os nascidos em Palmares. bem como a promessa de honrarias a Gangazumba e o envio de padres para que pudessem ingressar no mundo cristão e nele permanecer. as terras foram concedidas a Gangazumba para atender a um seu pedido. Liberdade por um Fio. Reis e F. a restituição dos filhos e mulheres que haviam sido cativados. O perigo do aniquilamento . Minas Gerais. 193-212. embora para período posterior. "Violência e práticas culturais no cotidiano de uma expedição contra quilombolas. As outras determinações. como uma deferência especial. parecem ter brotado da autoridade do governador. No primeiro caso.e ele poderia contar com o auxílio externo militar para que fossem obrigados a se submeter.125 Não se trata evidentemente do caso. em 1661. O texto indica que as terras de Cucaú foram cedidas a pedido dos palmarinos. Mais uma vez. Gomes (org. ver Laura de Mello e Souza. Do lado do governo de Pernambuco.

Companhia das Letras. Negros da terra. Paz e Terra/Anpocs. Muitos autores consideravam que a escravidão podia até mesmo ser um meio de instrução e salvação na fé cristã. o que significa que não teriam que prestar serviços para ninguém . 128 Para uma visão geral das relações entre as polêmicas sobre a legitimidade do cativeiro dos índios e o dos africanos em Portugal. As muralhas dos sertões. J. cap.126 As expedições que adentravam os sertões para "resgatar" os índios e forçá-los a se estabelecerem nos aldeamentos missionários eram chamadas "descimentos". porém. CNCDP. Índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. cap.a não ser os devidos ao soberano. 1 e 2. Mais uma vez vamos recorrer à carta que encaminhou o papel a Lisboa. mas também de receber "a água do batismo".59 estavam relacionados outros aspectos. como "moradores". Significativa também é a menção à vontade dos palmarinos não apenas de se "avassalar e viver debaixo da proteção" real. os palmarinos deixavam de ser "levantados" que habitavam em mocambos. 2000. Não morariam em vilas. The American Historical Review. Nela. caps. Em Cucaú. que os obrigaram a descer abaixo e pedir pazes com o desesperado temor". A conversão não impedia o processo de escravização dos africanos. Rio de Janeiro. pois viveriam em "aldeias". R. Nádia Farage. vide A. 2. 1. 1991. 1440-1770". Lisboa. Ali não seriam obrigados a nenhum "trabalho particular". como a possibilidade de estabelecer ali suas "aldeias". serem considerados delas "moradores" e poderem cultivá-las. 1994. nem teriam jurisdição própria. Vocabulário. Os termos não são destituídos de significados políticos. Quando os índios eram vassalos. ainda que se possa considerar que os palmarinos descessem das serras para Cucaú. Vide John Manuel Monteiro. Ângela Domingues. Aires de Souza de Castro afirma que a conquista daqueles negros fora feita sem grandes despesas da Fazenda Real e que haviam sido a morte e a destruição de tanta quantidade de gente. Bluteau.1 (1978): 16- . que eram batizados antes ou durante a travessia do Atlântico.127 Assim. Os povos indígenas no Rio Branco e a colonização. verbete "Principal". "Iberian expansion and the issue of black slavery: changing Portuguese attitudes. São Paulo. 83 n. o verbo "descer" é uma expressão diretamente relacionada aos grandes deslocamentos populacionais decorrentes da política indigenista portuguesa. Russell-Wood. além da prisão das "mulheres e filhos dos principais. Colonização e relações de poder no norte do Brasil na segunda metade do século XVIII.128 Para os 126 127 R. para esclarecer os significados desse termo.a ponto de a palavra aparecer no Vocabulário de Raphael Bluteau como "o título que se dá no Brasil ao gentio mais estimado da aldeia e que a governa como capitão dela". "Principal" era o termo usual para designar os chefes das aldeias indígenas . em junho de 1678.

Para uma discussão mais detalhada da necessidade da tutela dos missionários. 131 Cf. Cx. indo ao Recife de quando em vez para abasteceram-se de vinho. 265.130 A identificação da ordem é reveladora. Essa dimensão é reforçada pelo fato de serem indicados padres para ensinar-lhes a doutrina cristã. D. A conversão do gentio era o principal propósito do seu ramo pernambucano: os padres viviam entre os índios pelos sertões do rio São Francisco. contara com o apoio do bispo. Ver ainda Maria do Céu Medeiros. 1998. Doutorado. Trata-se da Congregação do Oratório. La Compagnie de Jésus et l'institution de l'esclavage au Brésil: les justifications d'ordre historique. 20 (1994): 153-181. vide Carlos Alberto de Moura Ribeiro Zeron. 2000. fls. 129 Cucaú parece ter sido apreendido sob esta chave pelas autoridades coloniais. The Indian policy of Portugal in the Amazon region. "A briga dos Néris" Estudos Avançados. e também Mathias C. Seu conteúdo pode ser recuperado por meio do resumo feito pelo Conselho Ultramarino. História dos Índios no Brasil. Formação do Brasil no Atlântico sul. Kiemen. Igreja e dominação no Brasil escravista. Evaldo Cabral de Mello. do mesmo autor. e. a liberdade foi sempre um direito reconhecido pela legislação .desde que vivessem em aldeias. com vocação claramente missionária. hóstias e outros artigos necessários. porém. em 1662. Companhia das Letras. pp. São Paulo. O trato dos viventes.131 A aliança com o governador e o impulso missionário 42. et leur intégration par une mémoire historique (XVIe-XVIIe siècles). 8. e também Luiz Felipe de Alencastro. convertidos e vivendo sob a tutela de ordens religiosas. cap. em Consulta de 26 de janeiro de 1680. 1144. 1992. São Paulo. ordem reformada de origem italiana. Neste empreendimento. Fixados em terras com jurisdição própria. Companhia das Letras/SCM. pp. n. do governador Aires de Souza de Castro. "Índios livres e índios escravos: os princípios da legislação indigenista do período colonial" in: Manuela Carneiro da Cunha (org. em 1672. Octagon Books. 12. 26-27v. 129 Cf. A fronda dos mazombos. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco. a Congregação resolvera mudar-se para o Recife depois da aprovação de suas regras pelo Vaticano. AHU_ACL_CU_015. . New York.). 1973. théologique et juridique. e de negociantes daquela praça. Uma carta posterior de Aires de Souza de Castro permite identificar que foram enviados para Cucaú "dois padres da Recoleta de Santo Amaro". 155-187. Instalados de início na ermida de Santo Amaro. 1614-1693. 3. criada havia poucos anos. Beatriz Perrone-Moisés. dom Estevão Brioso de Figueiredo. Paris. Cod. com ascetismo e sob regras severas.115-132. 130 Carta de Aires de Souza de Castro de 8 de agosto de 1679. eles podiam ser incorporados ao universo colonial.60 índios que haviam se aliado aos portugueses e haviam se convertido à fé cristã. Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales. Essa carta está apenas parcialmente legível.

algo bem diferente da liberdade remetida a Gangazumba. verbete "alforria". a conversão não era o motor dos descimentos e nem os padres haviam sido os instrumentos das negociações. mas significa especificamente "a liberdade que o senhor dá a seu cativo". Fragmentos setecentistas.mesmo das que fossem fugitivas . Mais uma vez. O ato senhorial podia incluir e excluir da mercê concedida quem o senhor quisesse: as exceções são importantes para confirmar o poder daquele que concede algo. Outro ponto importante das negociações foi a concessão da alforria. . AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco. o estatuto das aldeias indígenas. Silvia Hunold Lara. De todo modo. portanto. a respeito. a concessão de alforria é um ato senhorial. foi mandado por Francisco de Brito Freire como intermediário para negociar com os negros dos mocambos no rio São Francisco. É bem provável que a alforria . alforriados. O termo não é genérico. agora. embora situadas em seus termos ou distritos. que possuem um regime de governo separado do das vilas. tanto segundo as praxes do Antigo Regime quanto do domínio sobre os escravos. o Parecer do Conselho Ultramarino de 8 de agosto de 1680. os filhos das escravas . Podiam ser. Companhia das Letras. Bluteau. Parte da condição de que. Além disso. 134 Ver. o enunciado postula uma diferença entre as terras sob jurisdição do governador de Pernambuco e as de Palmares.132 Decerto. 2. o critério de nascimento é parte importante para a qualificação das pessoas em sociedades do Antigo Regime. entre outros. no caso de Palmares. S. ao tratar de modo diverso gente nascida em um e outro lugar. aplicada a máxima escravista.mesmo que 132 A referência a Cucaú como uma aldeia é bastante freqüente na documentação oficial. pois exclui os que de Pernambuco haviam fugido para Palmares. Vocabulário.eram escravos. Por um lado. Paulo. pode ter servido de parâmetro para as autoridades coloniais ao pensarem em Cucaú. Cod. 265. 133 R. fl.133 A doação também não é geral.134 A diversidade de tratamento dado aos negros da capitania e aos nascidos em Palmares é mais um indício de que a autoridade de Gangazumba não é contestada. encontramos ambigüidades. Como se sabe. um dos fundadores da ordem. quando o padre João Duarte do Sacramento. a escolha pode ter sido inspirada pela experiência anterior. cap. 29v. Cf.61 empregado na evangelização dos tapuias justificavam o fato de que. e nas quais a presença dos padres é importante para legitimar uma jurisdição especial. aqueles padres servissem de instrumento de submissão dos habitantes da aldeia de Cucaú. 2007. Por outro lado. cultura e poder na América Portuguesa. Escravidão.

esse é o entendimento explicitado na Consulta do Conselho Ultramarino de 26 de janeiro de 1680. 1124. era natural que quisesse enviar notícias na primeira oportunidade. mas reforçada pela devolução de mulheres e parentes aprisionados pelas tropas de Carrilho . informando que 135 Como veremos mais adiante. cujo costume mandava ficarem com os governadores. Pernambuco parecia ter conseguido achar um caminho para ficar livre das ameaças constantes dos quilombolas.pudesse funcionar como um atrativo capaz de facilitar a fidelidade aos termos do acordo e o reconhecimento da submissão ao governo colonial. A idéia de libertar os nascidos nos mocambos também não é nova e pode ser observada em situações análogas anteriores. na expectativa de que Lisboa concordasse com suas decisões e atitudes. acompanhar os outros textos que foram se juntando a esse primeiro "papel" . Como se vê. Era preciso avisar Lisboa o quanto antes. A missiva do governador é breve.é a medida mais prudente. por exemplo. tinha se comprometido em relação a vários aspectos importantes. Voltaremos muitas vezes a essas determinações e seus múltiplos significados ao longo da tese .136 No mesmo dia em que foi escrito o papel que registrava o ajuste resultante das negociações com os filhos de Gangazumba. o texto contém muitas ambigüidades e pode ter sido entendido de modos bem diferentes por aqueles que estiveram envolvidos em sua produção e leitura. Depois de tentativas anteriores e muitas discussões. AHU_ACL_CU_015. As partes haviam enfim chegado a um acordo. como no tempo de Montalvão e Brito Freire.62 restrita.especialmente porque continuamos a focalizar o ponto de vista das autoridades coloniais. D. Nas discussões sobre os destinos dos prisioneiros. Aires de Souza de Castro. Por ora. Carta de Aires de Souza de Castro de 19 de julho de 1678. 11. Cx. em 22 de junho de 1678. Já fiz menção a algumas passagens dessas cartas.e com eles o desenrolar dos acontecimentos . . de muitas guerras. João do Rego Barros. escreveram para Lisboa. havia uma novidade extraordinária. e não as "crias" . mas vale a pena um panorama mais completo do teor dos textos. ela aparece para indicar um tratamento diferenciado para as crianças apreendidas. como vimos. ele e o provedor da Fazenda de Pernambuco. 136 Vide. sofrimentos e dificuldades. que assumira o governo da capitania havia pouco.135 É interessante observar ainda que o papel menciona os "nascidos em Palmares".palavra pertencente ao vocabulário senhorial usada para designar os filhos dos escravos.

a embaixada viera para ajustar as pazes e o principal ponto do acordo era a concessão de terras em troca da devolução dos fugitivos gesto primeiro e condição para os demais. temerosos do que se lhes havia feito e receando o que se lhe queria fazer".137 A carta de de Rego Barros é mais longa. Pedro de 137 138 Carta de Aires de Souza de Castro de 22 de junho de 1678. do provedor e da câmara. que havia se encarregado da "conquista e guerra dos negros levantados dos Palmares (. 1116. quando uma comitiva de "onze negros filhos e família daquele levantado a que chamam rei destes Palmares" viera comunicar a intenção de se tornarem "obedientes vassalos de Sua Alteza. Com isso o "rei sem dilação enviou logo dois filhos seus acompanhados de oito ou nove mais daqueles negros". Sob suas ordens. que chegaram logo depois da posse de Aires de Souza de Castro. que "com tanto zelo e calor" havia conduzido aquela guerra. Pedro de Almeida é a figura principal. 11. narrando alguns detalhes da negociação. rendia a devida homenagem a seu antecessor.138 Ambas as cartas devem ter sido enviadas a Lisboa por um dos navios da frota que partia naquele ano. 11.63 havia continuado a tratar da guerra contra os Palmares e chamado Fernão Carrilho. d. antes que ele embarcasse de volta para Lisboa. em anexo à missiva. Segundo o provedor. Considerava então que. dom Pedro de Almeida. muitos foram mortos ou destruídos e as "mulheres e filhos dos principais" foram presos. Carta de João do Rego Barros de 22 de junho de 1678. designou-se um "sítio capaz para tratarem do meneio da sua vida. se tudo ocorresse como o planejado. 1118. se conseguiria afinal "a restauração desta terra". O governador prometeu aceitá-la "da parte de Sua Alteza" e mandou que viessem ajustá-la. D. Como bom fidalgo. D. Cx. Nela..) com tão boa fortuna" e sem custo para a Fazenda real além da munição e que por isso merecia ser agradecido e honrado. AHU_ACL_CU_015. AHU_ACL_CU_015. usando tanto de "liberais promessas" quanto da ameaça de uma "sanguinolenta guerra".. "obrigando-os a descer abaixo a pedir as pazes com desesperado temor". Cx. provavelmente o mesmo em que embarcou também d. que [para] lá tinham fugido". diante dos "dois governadores". entregando[-se] primeiro todos os escravos. Por isso mesmo. Os membros da comitiva receberam "a água do batismo" e foram ouvidos. havia feito uma proposta diante da "sua presença e dos mais oficiais e práticos desta praça". portanto. . A concisão do texto é largamente compensada pela remessa do próprio acordo.

que retornava a Lisboa ao final de seu mandato. "depois de haver partido a frota". 4. As informações foram deduzidas da correspondência aqui mencionada. vejamos o que aconteceu com dom Pedro de Almeida. É certo que muitos dos documentos citados também foram consultados e referenciados pelos historiadores. Apesar de ter dado prazo de um mês para que deliberassem sobre "o conteúdo naquele papel". 11. em diversas ocasiões. a documentação administrativa produzida pelo governo de Pernambuco e pelo Conselho Ultramarino. lei e rei Temos seguido até aqui. em 23 dias "mandaram resolução de que estavam por ele e que muito a estimavam". de modo prioritário. mas eles sempre preferiram tomar por base a crônica escrita em 1678. As pessoas enviadas a Palmares haviam retornado em companhia de 16 negros. As coisas marchavam bem: havia "mais esperança em ter a obediência destes negros dos Palmares". D.139 Em 19 de julho. por um navio que arribou em Pernambuco vindo da Paraíba "com a causa de fazer alguma água". Com fé. que estava mui espalhada. enquanto "os outros a que eles chamam reis ficavam ajuntando a gente. pois imaginava poder voltar logo para Lisboa.140 Os acontecimentos pareciam se precipitar e as informações precisavam chegar depressa a Lisboa. estas não são as fontes mais utilizadas pela bibliografia para analisar a maior parte desses eventos. Como vimos. entre eles "os que lhe costumam fazer a guerra e os que maiores vexações faziam nestes povos". É hora de analisá-lo com mais vagar. AHU_ACL_CU_015. . 1124. Muitos construíram suas interpretações quase que exclusivamente a partir desse texto. Como vimos. dom Pedro de Almeida não chegou a mandar para Lisboa notícias muito detalhadas sobre o que acontecia em Pernambuco. 140 Carta de Aires de Souza de Castro de 19 de julho de 1678. o governador enviou mais notícias.64 Almeida. para com ela se recolher ao sítio que se lhe tem assinalado". Cx. Enquanto as cartas seguem para Lisboa. Enviou uma carta em fevereiro de 1678 com a boa nova da vitória 139 Infelizmente não tenho dados precisos sobre a data da partida da frota nem dos navios que a compunham nesse ano.

pp. 143 O primeiro a reproduzir a íntegra da crônica publicada em 1859 foi E. "Os quilombos dos Palmares". O Quilombo dos Palmares. ed. pp. atendia a uma das incumbências dessa instituição que. esta publicação feita em 1859 tornou-se a referência documental básica para todos os historiadores que até agora lidaram com a história de Palmares ou editaram coletâneas de documentos relativos a ela.142 Leramno e dele retiraram informações sem se preocupar com quem o havia escrito nem por que motivo. 1962. p. Todos os historiadores utilizaram o texto tal como ele foi transcrito e publicado em 1859. 5. Os africanos no Brasil.144 O conselheiro Drummond. p. pp. 14 (1930): 142-143. que lhe atribuiu um título: "Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco no tempo do governador dom Pedro de Almeida de 1675 a 1678". por exemplo. Sem qualquer menção ao original consultado pelo conselheiro. sem indicar se se trata de um original ou não. mas referencia em nota a publicação da RIHBG. 115 a 118 (1922): 233. Até meados do século XX. Cf. Brasiliense. muitos autores fizeram menção ao fato de que se tratava de um documento que fora localizado na Torre do Tombo. pelo conselheiro Drummond. 22 (1859): 303-329. p. Edison Carneiro. visava "coligir e preparar os materiais necessários para a história e 141 Aires de Souza de Castro tomou posse em meados de abril de 1678. 144 Nina Rodrigues menciona que o "importante manuscrito" teria sido "oferecido em 1859 ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro pelo Conselheiro Drummond". doada à Biblioteca Nacional. 24 n. 187-206 (2ª ed. Alguns Documentos para a História da Escravidão. Manuel Arão. 142 "Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco no tempo do governador dom Pedro de Almeida de 1675 a 1678 (M. O interessante. entretanto. Melhoramentos. como complemento da exposição que pretendia fazer diante da Corte. 206 (2ª ed. 27-44. Para exemplos mais recentes. vol. "A morte de Zumbi" RIAGA. S. Francisco Adolfo de Varnhagen. Conselheiro Drummond)". 57 n. Sr. História Geral do Brasil [1854] 7ª.141 Talvez tenha mandado escrever a crônica ou incentivado alguém a fazê-lo nessa ocasião. 222). Outros autores indicam tratar-se de uma cópia de original da Torre do Tombo. é que ninguém até hoje se preocupou com esses detalhes. offerecido pelo Exm. Mário Behring. 251. 1630-1695. 73. 1988. Cf. no entanto. e contar tudo pessoalmente. ao reproduzir o documento em O Quilombo dos Palmares. em função da falta de registros. mas só seguiu para Lisboa cerca de dois meses depois que Aires de Souza de Castro tomou posse do governo. ver por exemplo Leonardo Dantas Silva (org.). entre outras coisas. sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. . Cf.143 Bastava o texto e o que ele dizia. RIAHGP. São Paulo. Ver. Recife: Fundaj/Massangana. É difícil saber. cuja cópia havia sido doada à Biblioteca Nacional. p. Carneiro. 1947. 201-222). também indica que o original publicado em 1859 encontra-se na Torre do Tombo.65 alcançada dizendo pretender levar os prisioneiros para o Reino. São Paulo. RIHGB.. na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

invasão holandesa. com ligeiras diferenças de grafia. doc. 1981. costumes dos Palmares (negros) e modo como vivem seu regimen. entre outros.147 Ao final. mas ele se encontra referenciado sob número 5988 no Catálogo de Exposição da História do Brasil. dos damnos que recebem os portugueses d'eles: enfim o estado em que foram achados os Palmares. na qual se havia recorrido ao caso de Palmares para exemplificar como a consulta a novos documentos. Bahia. enviando de lá cópias de documentos ao cônego Januário da Cunha Barbosa. e relações sobre algumas minas. membro do Instituto Arqueológico e Geográfico Alagoano ofereceu ao Instituto Brasileiro e publicou em sua revista uma segunda versão dessa crônica. Palmares. O documento encontra-se num códice que compila diversas cópias de documentos da Torre do Tombo. Rio de Janeiro e Minas Gerais. Agradeço a Márcio Santos a primeira indicação sobre esse documento e aos funcionários da seção de manuscritos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro seus esforços para saber a origem desse documento. 146 Veja-se. Drummond era também ministro de Estado. das partes mais férteis. 1841): 149-157. Brito Freire e Rocha Pita ao tratarem da “famosa História da povoação” de Palmares. O tema já havia sido objeto de discussão numa das sessões do Instituto. Cartas de doação. Pernambuco. 7. Lá está. cabo de Santo Agostinho. o texto publicado pelo conselheiro Drummond. as distâncias de huns lugares aos outros etcetera. Pontes cita como exemplo a necessidade de esclarecer as divergências entre Gaspar Barleus. as cartas de Antônio de Menezes Vasconcelos de Drummond de 10 de abril de 1844 e 16 de abril de 1844. 1534-1792. dando ao seu texto outro título: "Memória dos feitos que 145 Desembargador Rodrigo de Souza da Silva Pontes. Talvez por ser alagoano. secretário da instituição. A biblioteca não possui informações sobre a entrada desse manuscrito em seu acervo.145 Como muitos outros sócios. representações. A tarefa deveria ser realizada no Brasil e em missões no exterior. sobre a partida de Pero de Almeida contra os ditos. 3. 73-113. . 33. Porto Calvo. fls. p. alguns dos quais com recomendação para serem publicados na revista. e a descripção do que se fez para a ruína. diplomas. 6. porém com um título bem diferente. pode-se ler a referência: "Tomo primeiro de Papéis Vários de folhas 149 até 155 verso existente no Armário dos Manuscritos do Real Archivo da Torre do Tombo".10 (jul.146 A seção de manuscritos da Biblioteca Nacional de fato guarda uma cópia da crônica. BNRJ-Ms. feitas provavelmente na mesma ocasião. 147 "Descripção com notícias importantes do interior de Pernambuco como rio de São Francisco. Editora da Universidade de Brasília. feita no século XIX. mas também para dirimir contradições entre os autores que tratavam de um mesmo tema. de foral. vol.1. [1881] Brasília. a conjuração mineira. Paraíba. IHGB. e foi considerada importante não apenas para o conhecimento da história. Lata 142. 001. Pedro Paulino da Fonseca. Em 1876. "Quaes os meios de que se deve lançar mão para obter o maior numero possível de documentos relativos à História e Geographia no Brasil?" RIHGB.66 geografia do Brasil". pasta 6 e Lata 142. obtidos em viagens científicas. por exemplo. poderia dirimir dúvidas até então insolúveis com os escritos disponíveis.512. 3 n. e aproveitou suas viagens diplomáticas ao exterior para visitar diversos arquivos. em que vierão a cair os Palmares". doc.

39. acrescentandolhe um final. África e Ásia". 2004. em Junho de 1678". sem data nem título e que está incompleto. quando Cunha Rivara obteve a licença régia para a impressão de sua obra. pp. Zumbi: historiografia e imagens. Antes de iniciar o texto. ainda não consegui localizar o manuscrito quiçá guardado na Torre do Tombo. Franca. A referência ao manuscrito de Évora. embora se possa identificar que a letra seja do século XVII. Unesp. o autor indica ainda um outro título: ""Memoria dos acontecimentos havidos nos primeiros annos de guerra contra os negros das Palmeiras. a quem agradeço o auxílio. 9. p. 149 Como bem nota Andressa Mercês Barbosa dos Reis.151 Décio Freitas localizou duas outras versões dessa crônica em 1974. seu destroço e paz aceita em junho de 1678". consultas e tentativas.13 . 144. nenhuma cópia da crônica de 1678. Assim. já estava pronto em 1844. CXVI . aguardo informações da busca que vem sendo realizada por Odete Martins. com a respectiva cota. trata-se de uma recriação do texto original da crônica. que foram publicadas por ele em 2004. Esse documento foi referenciado no catálogo elaborado no início do século XIX pelo mais famoso bibliotecário dessa instituição como tendo sido escrito em 1678. "Memória dos feitos que se deram durante os primeiros annos de guerra com os negros quilombolas dos Palmares. 321. Não há. "que compreende a notícia dos códices e papéis relativos às cousas da América. as alterações inseridas por Pedro Paulino da Fonseca distorcem o sentido do documento em várias passagens.a n. Esse primeiro tomo do catálogo. que menciona acontecimentos até 1695. . Imprensa Nacional. não de uma transcrição . pesquisadora dessa instituição. n.149 A Biblioteca Pública de Évora possui um manuscrito anônimo. mas desqualificam seu texto para o tipo de análise que empreendemos aqui. até a paz feita com o rei Gangasuma. tudo indica que os dois membros do Instituto Histórico consultaram fontes diferentes. está na p. Elas são interessantes para um estudo sobre a produção da imagem de Palmares no século XIX. 151 Na Torre do Tombo. Mestrado. e dos successos obtidos.148 Nesse caso. O documento foi referenciado no Catalogo dos manuscriptos da Bibliotheca Publica Eborense organizado por Joaquim Heliodoro da Cunha Rivara.150 A comparação entre o manuscrito de Évora e o texto de Pedro Paulino confirma que este último acrescentou dados e completou o texto. minha procura até agora resultou infrutífera. recebendo ali o título "Relação do que se passou na guerra com os negros dos Palmares nos sertões de Pernambuco".2 . 54-55.1 (1876): 293-322. tomo I. Lisboa. apesar de vários esforços. cod. 150 BPE. Infelizmente ainda não se pode ter certeza nem determinar se são cópias ou originais pois.67 se deram durante os primeiros anos de guerra com os negros quilombolas dos Palmares. que indica tomar por base um manuscrito existente na Biblioteca Pública de Évora. RIHGB. no acervo do IHGB. seu destroço e paz aceita em junho de 1678". Ele afirma ter transcrito os textos de "cópias" guardadas 148 Pedro Paulino da Fonseca. 1850.fato que é explicitamente reconhecido pelo autor.

ainda. pois há apenas algumas ligeiras diferenças que podem ser atribuídas aos copistas ou aos leitores. 154 O texto publicado por Freitas contém diversas correções que indicam a desatenção do copista. Na Biblioteca Nacional de Lisboa. Freitas.68 pelo Arquivo Histórico Ultramarino e pela Biblioteca Nacional de Lisboa. atualmente liderando um projeto destinado a referenciar todas as crônicas sobre o Brasil colonial nos arquivos portugueses. Segundo o autor." Há. não o original . além do esquecimento de cerca de cinco linhas. O documento está transcrito nas pp. da publicação feita pelo conselheiro Drummond e da feita por Décio Freitas indica que devem ter sido de fato copiados da mesma fonte. os manuscritos não puderam ser ainda localizados. é possível afirmar que a crônica escrita em 1678 despertou algum interesse em Lisboa. qualquer título. Registro aqui meus agradecimentos especiais aos dois. uma grande confusão nas informações fornecidas por esse pesquisador. as distâncias de uns lugares aos outros etc. profundos conhecedores daquele acervo. até cento e quarenta e oito existentes no Armário dos (Mss?) [sic] do Real Archivo da Torre do Tombo". cabo de Santo Agostinho. apesar de vários esforços. República dos Palmares. as informações oferecidas por Décio Freitas não são confiáveis. 19. 153 D. p. O documento está transcrito nas pp. Agradeço a essa pesquisadora a generosidade de ter partilhado comigo os resultados de suas pesquisas. Como as cotas mencionadas não conferem nos respectivos arquivos. pois ele indica que o documento guardado pela Biblioteca Publica de Évora constitui o original do que foi publicado pelo conselheiro Drummond em 1959 (sic) e tem por título "Descrição com notícias importantes do interior de Pernambuco como rio de São Francisco.155 A comparação entre esse texto e o do manuscrito da Biblioteca de Évora permite constatar serem eles muito parecidos. Revela. Freitas. como "entalhar-se nos mármores da antiguidade digo da eternidade". havendo mais uma vez diferenças pequenas. 155 D.153 A comparação entre os textos da Biblioteca do Rio de Janeiro. p. pp. contei com a preciosa ajuda de Tiago C. que o manuscrito publicado por Décio Freitas é provavelmente uma cópia.o que não deve acontecer com aquele que pode talvez ainda existir na Torre do Tombo. segundo ele. 34-48.152 O texto que ele chama de "cópia do AHU" também traz o registro de ter sido copiado dos tais Papéis Velhos da Torre do Tombo. que podem ser atribuídas nesse caso mais a dificuldades do leitor com a transcrição de certas palavras. há diferença no número dos fólios. já completou as pesquisas na Biblioteca Nacional de Lisboa sem tampouco conseguir localizar esse manuscrito. dos Reis Miranda e Érika Simone de Almeida Carlos Dias. . apesar de nada termos encontrado.20-33. Como ainda não foi possível achar o original. se comparada à informação do manuscrito da Biblioteca Nacional.154 A cópia descoberta por Décio Freitas na Biblioteca Nacional de Lisboa não tem. evidentemente. As informações sobre os documentos encontram-se na página 19. meu fracasso em localizar o documento publicado por Freitas só se atenuou ao saber que Maria Lêda Oliveira. Ainda que não se tenha conseguido localizar vários desses documentos para fazer a necessária colação dos textos. essa cópia registra ter sido feita do "Tomo primeiro de Papéis Velhos de folhas cento e quarenta e duas. Freitas. até agora. Porto Calvo. Palmares. P. República dos Palmares. não é possível datar essa cópia. 19.19-50. De qualquer forma. República dos Palmares. Em minhas buscas no Arquivo Histórico Ultramarino. Como se vê. Mesmo que não se possa saber a datação dos 152 D.

montuoso [montanhoso] e agreste". provedor da Fazenda Real da capitania. Cx. A existência de cópias da crônica de 1678 em arquivos que guardam documentos da Corte portuguesa e dos órgãos encarregados da administração ultramarina indica. pois seu anônimo autor emprega com freqüência "esta praça" para referir-se à capitania. sem contudo justificar sua hipótese. Carta de João do Rego Barros de 22 de junho de 1678. Além dos elogios. onde se instalaram negros que fugiam do castigo de seus senhores aos quais se juntaram outros. entretanto. Sem consultar todos os manuscritos. cuja letra foi datada como sendo do século XVII. é bastante plausível que tenham existido pelo menos duas cópias dessa crônica no século XVII: a que se encontra na Torre do Tombo (ainda não localizada) e o manuscrito existente em Évora. João do Rego Barros. nota 64.157 A narrativa foi produzida com o objetivo de enaltecer o governador. um texto destinado a uma audiência portuguesa. comparando a destruição deles à vitória contra os holandeses: estes. Pode ter sido. indo além dos circuitos burocráticos do Conselho Ultramarino. 117. Arquivo Histórico Ultramarino e Biblioteca Nacional de Lisboa. inimigos vindos de fora. que acompanhou de perto os acontecimentos. AHU_ACL_CU_015. em "sítio naturalmente áspero. que a notícia da vitória obtida em Pernambuco em 1678 teve alguma circulação em Portugal.156 É difícil determinar se a crônica foi redigida por ordem do governador ou por alguém ligado a ele. tantos elogios fez a dom Pedro de Almeida. . não se pode saber qual deles serviu de matriz ou estaria mais próximo de sê-lo. pois menciona nomes e detalhes difíceis de serem conhecidos por alguém distante. Depois de mencionar seu modo de vida. e aqueles de "portas a dentro". que na carta de 22 de junho de 1678 que enviou ao príncipe. 157 Cf. É.69 textos guardados pela Torre do Tombo. Ivan Alves Filho menciona essa possibilidade em uma nota. Memorial dos Palmares. tomarei por base os documentos existentes em Évora e na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. p. Ele deve ter sido alguém próximo a dom Pedro de Almeida. O relato começa por situar a dificuldade em destruir os Palmares. sobretudo no tempo da ocupação holandesa. como se organizam para a guerra e quem os governa. D. por exemplo. Os elementos do texto sugerem ter sido ele escrito em Pernambuco. seguindo o estilo das relações que costumavam ser escritas nesse período. Para dar conta do "incontrastável desta empresa" descreve primeiro a localização dos mocambos. mostra como esse 156 Tendo em vista a colação possível de ser realizada até agora. 11. 1118. portanto. que foi publicada pelo conselheiro Drummond. expressões e modos de tratar a vitória obtida também contribuem para essa possibilidade.

o texto continua a descrever como. nas quais se perdeu "grandes cabedais. índios. filhas irreverentemente se tratam. CXVI . como contratara o capitão Fernão Carrilho. para que em seu nome lhe 158 "Relação do que se passou na guerra com os negros dos Palmares nos sertões de Pernambuco" BPE."158 Em seguida. assim de Sua Alteza. 7. armas e homens a seu dispor. em abril. porque a vida. providenciara junto às câmaras para que tivesse provisões. em pormenor: os principais embates e escaramuças. as vitórias conseguidas pelas tropas que haviam permanecido nos Palmares levaram dom Pedro de Almeida. animado por "uma prudente indústria e razão de estado" a propor a paz aos negros dos Palmares. dom Pedro entregou o governo a Aires de Souza de Castro. e lhe dera instruções precisas para enfrentar os inimigos. e perecendo muitos soldados. a fazenda porque lha destroçavam e levavam os escravos. negros. [sic] porque lha destroçam.2 . as vidas porque estavam perpetuamente expostas a repentinos assaltos. entre eles membros da família de Gangazumba. porque a vida e honra. como de moradores particulares. as honras porque as mulheres.3. que possam rebater os seus encontros" .13 . as honras porque as mulheres e as filhas se tratavam indecorosamente. n. fl. começa a detalhar as ações empreendidas pelo governador para exterminar os Palmares: como havia nomeado o sargento-mor Manoel Lopes para uma expedição que durara cinco meses em 1675.a. No manuscrito da BNRJ-Ms. demais que os caminhos não eram livres. Demais que os Caminhos158 não são livres. com a chegada de uma comitiva de Palmares "que se [veio] prostrar aos pés de dom Pedro. a fazenda. e só se marchava com tropas. a honra e a fazenda traziam sempre em contínuo risco. os problemas encontrados. 9. lê-se: "Destroem-se os vassalos. e lhe roubam os escravos. mencionando ter sido "até agora impossível" evitar todo esse dano. à Coroa e seus vassalos: "Destroem-se juntamente os vassalos. Cod. Sua volta a Porto Calvo no final de janeiro. que pudessem rebater os seus encontros. passa a descrever as principais "entradas" feitas contra os Palmares. as vidas porque estão expostos sempre a repentinos assaltos. as jornadas pouco seguras. A campanha realizada por Carrilho entre setembro de 1677 e janeiro de 1678 é narrada a seguir.001.70 "inimigo" tem infligido sucessivos danos e prejuízos aos moradores de Pernambuco. com vários prisioneiros. cod. 52. Por fim. com ordem e mandado do Rei [Gangazumba]. as táticas empregadas. e só se marcha com tropas. as Jornadas pouco seguras. as vitórias alcançadas. como dos povos. e auxiliares". Em tom de regozijo. que finalmente colheu os frutos dessa iniciativa.

mais custou a disposição que o sucesso.2 . 7. publicado pelo Conselheiro Drummond em 1859. o que se intentou há muitos anos. Parece o sucesso por maravilhoso. do seu zelo a serem diligentes. BPE.71 rendessem vassalagem.001 lê-se: "como Dom Pedro era a alma que alentava esta empresa. do seu brio aprenderam os soldados a serem constantes. O manuscrito na BNRJ-Ms. 161 "Relação". cod. que se na primeira se venceu um inimigo que nos ocupava o mar. só digo que se na primeira se venceu um inimigo. Em "Descripção com noticias importantes". colheu em quatro meses o fruto destes trabalhos: não deixa de emular esta ação prodigiosa a restauração singular destas Capitanias."161 O encadeamento da narrativa está ordenado de modo a ressaltar as cerimônias que cercaram a paz e mostrar como "a ruína em que vieram cair os Palmares" seria uma glória para o príncipe português.a. BPE. 9. O acordo de paz não consistira em 159 "Relação". fl. Cod. 58." . ordenar expedições e garantir uma vitória sobre um inimigo tão importante quanto os holandeses: "Como dom Pedro de Almeida era a alma que dava vida a estas empresas. e pedirem a paz que desejavam". pois gastando dom Pedro três anos em lavrar estes impossíveis. e da sua disposição a serem prudentes. O governador é nele a figura central. Com todas estas influências do governador dom Pedro. fl. CXVI ." BNRJ-Ms. nesta se superou outro que das portas a dentro nos dominava. capaz de manejar a situação. se conseguiu em quatro meses o que se intentou há muitos anos. da sua disposição a serem prudentes: com todas estas influências do governador dom Pedro se conseguiu em quatro meses. BNRJ-Ms. pareceu o sucesso por maravilhoso. colheu em quatro meses o fruto destes trabalhos.2 . n. e lhe pedissem paz e amizade". 9.3. da sua vigilância a serem cuidadosos. 7.159 A entrada da comitiva no Recife. que informa ter sido o acordo de paz escrito e enviado a Palmares. mas não há outros eventos descritos. 160 O manuscrito de Évora termina aqui. da sua resolução a serem atrevidos. contém dois parágrafos a mais. da sua vigilância a serem cuidadosos. as cerimônias com que foram recebidas e as negociações entabuladas ocupam então a parte final do texto. que só fez lisonja que a fortuna quis fazer.a. lisonja que a fortuna lhe quis fazer.001 lê-se: "os quais se vieram prostrar aos pés de Dom Pedro de Almeida com ordem do Rei para lhe renderem vassalagem. do seu brio aprendiam os soldados a ser constantes. CXVI .13 .3... cod.160 A vitória contra Palmares e o acordo de paz celebrado como meio de solidificar a vitória são descritos como um trunfo político. e pesada bem as circunstâncias foi acerto que a prudência soube dispor. Na "Descripção com noticias importantes do interior de Pernambuco. que se conseguiu destas Capitanias. destinados a marcar a glória de "tão felizes sucessos". Cod. 56v. E não deixa de emular esta ação prodigiosa a restauração singular.13 . E mais custou a disposição que o sucesso. e pesado bem o negócio foi acerto que a prudência de dom Pedro soube dispor. que de fora nos veio conquistar. n. A descrição dos mocambos tem uma função específica: mostrar como Palmares era poderoso e perigoso. nesta se desbaratou outro que nos dominava a campanha. do seu zelo a serem diligentes. pois gastando dom Pedro três anos em lavrar estes impossíveis.

toda a glória desta conquista soube merecer o zelo generoso e a prudência singular de dom Pedro de Almeida.001. honra e fama: de fato. fl. Tudo indica que seus desejos foram frustrados e dom Pedro caiu em esquecimento .72 simples vitória contra escravos fugidos.a n. tendo vencido os Palmares. 7. com boas relações de parentesco e serviços militares de certo destaque.164 Sua nomeação não seguira os procedimentos ordinários.3. Mesmo sem aprofundar a análise sobre essa crônica. dom Pedro de Almeida estava deixando o governo da capitania e enfrentava problemas sérios. nem do gesto enaltecedor de um colega de letras ou armas.2 .13 . Glória. esses os méritos almejados pelo governador ao deixar o governo de Pernambuco. porém a "feliz restauração destas capitanias [de Pernambuco]". a expulsão dos holandeses de Angola em 1648 e de Pernambuco em 1654. seu nome será eterno na lembrança dos moradores de Pernambuco. portanto. 113. embora bem situado na corte. ele havia tido dificuldades em obter o governo de Pernambuco. cod. fl. 52v. 164 Mais uma vez. BNRJ-Ms. Cod. CXVI . BPE. tendo sido ordenada por decreto régio de 23 de julho de 162 163 "Relação". Vários indícios permitem concluir que a crônica não foi entretanto fruto da simples vaidade ou do desejo de vanglória. 9. Em junho de 1678. A vitória sobre Palmares tornava-se. agradeço à Mafalda Cunha pelas informações. "Descripção com noticias importantes". a variedade de detalhes que ela oferece e o contexto que circunstancia sua produção permitem concluir que a narrativa sobre os acontecimentos em Pernambuco dirigia-se a diversos interlocutores e fazia parte de um jogo político bastante complexo. seu aplauso estendido nos perpétuos brados da fama. seu valor aclamado nas incultas montanhas dos Palmares."163 Infelizmente. que não reparando em nenhum impossível se dispôs a conseguir esta fortuna. ainda não consegui seguir os passos de dom Pedro de Almeida depois que ele chegou a Lisboa. um feito militar e político comparável a esses outros. Como vimos.se não caiu em desgraça. retirada da base de dados Optima Pars. Eis o parágrafo conclusivo do manuscrito que está na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro: "Toda a felicidade desta glória. Vide nota 1. .162 O termo "restauração" é significativo: foi empregado para descrever a guerra contra a Espanha em 1640.

corregedores. 33. 170 Carta dos oficiais da Câmara de Olinda ao príncipe regente de 22 de dezembro de 1677. 1098. n. escolhendo sempre outros comandantes para as expedições que enviou a Palmares. Ambas em BNRJ-Ms.4. em dezembro de 1676. D. Decreto de 23 de julho de 1673. Mello. Cx. já que se pode encontrar pelo menos uma carta da câmara de Olinda elogiando sua administração. pedidos das câmaras de Pernambuco. 32. ouvidores) durante o tempo em que residiram no lugar de sua jurisdição.73 1673. algumas câmaras de Pernambuco acusaram dom Pedro de Almeida de criar cargos que não eram necessários e de proteger potentados na Paraíba.170 e a já mencionada carta 165 Cf. 167 Consulta do Conselho Ultramarino de 28 de junho de 1677. sugeriu João Fernandes Vieira para comandar aquela guerra. 28 de outubro de 1678 e 26 de novembro de 1678. . Em 1677. II . Cod. Bluteau.166 Quando o Conselho Ultramarino examinou a proposta feita por Manoel Inojosa sobre a forma como se deveria fazer a guerra contra Palmares. também eram acusados de enriquecimento ilícito e cometer assassinatos: por isso. entrara em choque com João Fernandes Vieira . Cod. 168 Cf. Cod. Paraíba e Itamaracá.32. Em dezembro de 1675. Manuscritos do Brasil. que. 23v. R. Entre o governador e as câmaras locais. fl. sendo por duas vezes advertido pelo príncipe regente. AHU_ACL_CU_015. G. ANTT. por exemplo.um dos principais chefes militares de Pernambuco. para que João Fernandes Vieira fosse nomeado governador da capitania. Residência era o termo empregado para a investigação das ações dos oficiais de Justiça (Juízes de fora. João Fernandes Vieira. Cf. 169 Consulta do Conselho Ultramarino de 22 de dezembro de 1675 e Consulta do Conselho Ultramarino de 20 de Outubro de 1676. Pareceres do Conselho Ultramarino de 26 de fevereiro. 32. A. AHU_ACL_CU_015. 10.33. 11. Por extensão. Cx.169 É bem verdade que também tinha aliados. Cinco dias depois o Conselho Ultramarino pronuncia-se alertando o príncipe regente que a nomeação não havia seguido a tramitação regular. II .167 mas dom Pedro de Almeida não seguiu essa recomendação.165 Desde o início do governo. o governador chegou até mesmo a deixar de cumprir uma provisão régia que atribuía a Vieira a arrecadação e despesa das verbas para as obras nas fortalezas. por sua vez. todos em BNRJ-Ms. BNRJ-Ms.168 Na documentação guardada pelo Arquivo Histórico Ultramarino pode-se encontrar. 33 (microf. o termo é empregado na administração ultramarina para todas as investigações realizadas ao final dos mandatos nomeados pelos soberanos. 166 Para uma avaliação da contenda entre o governador e João Fernandes Vieira vide J. Além das dissensões já examinadas em relação ao contrato com Fernão Carrilho. 4114). II. as relações também não eram boas. o Conselho Ultramarino ordenou que se investigasse com minúcia esses fatos por ocasião de sua residência. em 1675 e 1676.33. pp. 981. 4. 4. 424-427. houve mais problemas. verbete "residência". D. Vocabulário. um ano depois.

de cujos frutos reservam providamente celeiros para o tempo das guerras. 51v. até agora. depois de salientar mais uma vez as características da mata e a qualidade das terras ocupadas."172 171 A residência era constituída na maior parte das vezes pela inquirição por cartas sobre eventuais irregularidades cometidas durante o exercício de um posto de governo no Ultramar. Infelizmente não localizei. ganhando diferentes aliados entre os conselheiros do Ultramarino e outras autoridades que gravitavam ao seu redor. as caças os ajudam muito. dele fazem varias iguarias. BPE. A carreira política de dom Pedro de Almeida estava em perigo e um relato dos sucessos obtidos no final de seu governo bem podia ser uma peça importante nesse jogo de forças.2 . CXVI . É interessante examinar como isso foi feito. o texto passa a caracterizar com mais detalhe os aspectos da vida em Palmares: "Não vivem todos unidos para que um sucesso não acabe a todos.74 de João do Rego Barros. e do inverno. Era certo que a residência que iria enfrentar em Lisboa seria problemática. o de Dambiabanga. os papéis referentes à residência de dom Pedro de Almeida. assim pelo sustento. informa que desde que "houve negros cativos nestas capitanias" também houve habitantes em Palmares e que seu número crescera durante a ocupação holandesa e eles foram se aperfeiçoando no uso das armas. Em "Descripção com noticias importantes". são grandemente trabalhadores. porque são aqueles matos delas abundantes. singularmente prevenidos. identificados pelos nomes: o do Zambi.13 .3. do Amaro e o do Andalaquituxe. Subupira. O relato começa por situar os mocambos ou cercas em uma larga extensão de terras férteis com "palmeiras agrestes". como pela segurança.a n. em palmares distintos tem sua habitação. plantam todos os legumes da terra. são grandemente trabalhadores. em Palmares distintos têm a sua habitação. cod. assim pelo sustento. 172 "Relação". de Acainene.001: " não vivem todos juntos porque um sucesso não acabe a todos.171 De qualquer modo. os conflitos entre potentados locais na Paraíba e em Pernambuco. 7. Em seguida. Esse contexto ajuda a iluminar algumas operações retóricas empreendidas naquele texto. de cujos frutos formam providamente celeiros para os tempos da guerra. dois chamados das Tabocas. Depois disso. plantão todos os legumes da terra. a descrição dos mocambos tinha ali a finalidade de mostrar como Palmares era um inimigo poderoso e perigoso. fl. Como vimos. 9. e do . como pela segurança. Cod. bem como o desagrado das câmaras em relação ao ônus das guerras contra Palmares e outras dissensões devem ter atravessado o Atlântico e ecoado em Lisboa. o de Osenga. o seu principal sustento é o milho grosso. BNRJMs.

este os batiza e os casa: porém o batismo é sem a forma determinada pela Igreja". magistrados. Cod.001: "E com serem estes bárbaros tão esquecidos de toda a sujeição. Cod. chamada Macaco. "muito perfeita". Em "Descripção com noticias importantes". é tratado com todos os respeitos de Rei.3.173 Além disso." 173 "Relação". tem palácio. venerado pelos "naturais dos Palmares como os vindos de fora". porque são aqueles matos abundantes delas.174 A terminologia empregada é toda ela portuguesa: fala-se em rei.3. 51v-52. que cultivava bons alimentos e era governada por Gangazumba. BNRJ-Ms. Robert N.a. dele fazem varias iguarias.13 . escolhem um dos mais ladinos.. Nesse documento não há menção ao fato de o padre ser chamado de Ganga. n. quando se entrou nesta capela. [e] é assistido de todas as guardas e oficiais que costumam ter as Casas Reais (.2 . achou-se uma Imagem do Menino Jesus muito perfeita. CXVI . cod. O "rei domina a todos". encarnado na linguagem. e todos os arremedos de qualquer República se conhece entre eles". Em "Descripção com noticias importantes". não perderam de todo o reconhecimento da Igreja. incapaz de compreender o outro. Braz. e imagens a que encomendam suas tenções. portanto. Alguns autores têm chamado a atenção para a miopia etnocêntrica do olhar colonial. é assistido de guardas e oficiais. mas as "cidades" estão a cargo de "potentados e cabos poderosos que as governam e assistem nelas". fls. o seu principal sustento é o milho grosso. observa por exemplo que as fontes disponíveis sobre Palmares apresentam pelo menos quatro tipos de dificuldades: "1) o inescapável etnocentrismo. que costumam ter as Casas Reais. BNRJ-Ms. "seu rei e senhor". as caças os ajudam muito. BPE.. 9. etc. Anderson. de Nossa Senhora da Conceição e de São Brás. outra de S. e um "a que chamam ganga" que os batiza e casa. onde "tem palácio capaz da sua família.001: "reconhecem-se todos obedientes a um que se chama o Gangazumba. não perderam o reconhecimento da Igreja". n. pois têm ali capela com imagens do Menino Jesus.) fala-se-lhe por Majestade. a este tem por seu Rei e Senhor todos os mais assim naturais dos Palmares. Capas da sua família. 7. do europeu com respeito ao africano ou afro-americano.a. Mesmo que "estes bárbaros" estejam "tão esquecidos de toda a sujeição.13 . 9. nesta Cidade tem capela a que recorrem nos seus apertos. como vindos de fora. . que mais avançou nessa crítica. que é grande. a quem veneram como a pároco. BPE. 7.75 Trata-se. 2) a inadequação de uma língua para traduzir outra. cidades. Ele habita na "cidade real". cod. especialmente quando as estruturas sociais referidas não têm equivalentes na cultura da língua tradutora. fl. que quer dizer Senhor Grande. de gente previdente e trabalhadora. 3) os problemas ortográficos em render inverno. CXVI . "há entre eles ministros de Justiça. assim como de guerra para as execuções necessárias.2 . e com todas as cerimônias de Senhor" 174 "Relação". outra da Senhora da Conceição. e obedecemlhe por admiração". 51v.

entretanto. não se acha nela F. na lingüística. entretanto que esses textos devam ser desqualificados e descartados. "O mito de Zumbi: implicações culturais para o Brasil e para a diáspora africana". Lisboa. Vários historiadores. nem rei. e desta maneira vivem desordenadamente. Sem fé. Caminho. por exemplo. com juízes e magistrados. Chamo a atenção. Frei Vicente do Salvador. nem R. Por ora. pois esse procedimento analítico também é capaz de revelar informações importantes. 5. O confronto do olhar. Loyola. No caso da crônica de 1678. 1500-1640. R entre os indígenas.176 Pero de Magalhães Gandavo. e Georg Thomas. para acentuar sua barbárie e justificar a necessidade de dominá-los e catequizá-los. se referem à falta das letras F."175 Isso não significa. na antropologia ou na história da África Centro-Ocidental para "traduzir de volta" o que teria sido grafado de forma inadequada ou tentar resgatar de algum modo o que foi perdido pelas lentes européias ou europeizadas. sem terem além disto 175 Robert Nelson Anderson. L. uma capela e imagens cristãs: tinha fé. "O encontro inesperado" e Rui Loureiro. que a famosa tríade pela qual os portugueses avaliavam o grau de "civilização" dos povos com os quais tinham contato é empregada em sentido inverso àquele usado para desqualificar os índios do Brasil. pp. é preciso prestar mais atenção no modo como os próprios textos foram escritos. como os de Pero de Magalhães Gandavo. . 1993.). especialmente cap. (trad. ao afirmar que a língua de que os índios usavam "carece de três letras.) Rio de Janeiro. lei e rei. 21-25. (trad. e Guillermo Giucci. pp. Como se sabe. recorreram ao conhecimento produzido em outras áreas. diante desse dilema. nem L. 17 (1996): 99-119. cousa digna de espanto porque assim não têm fé. nem lei. no entanto. torna evidente a barbárie do gentio do Brasil. convém a saber. É um procedimento interessante e que tem rendido muitos frutos. 176 Cf.) São Paulo. como veremos logo adiante.76 os nomes próprios ou as palavras intraduzíveis de uma língua para outra e 4) a possibilidade de transmissão falha de um manuscrito para outro. Política indigenista dos portugueses no Brasil. Rocco. Ed. lei ou rei: Brasil 1500-1532.215-257 e 259-285. Antonio Luís Ferronha. 1982. vários textos portugueses escritos nos séculos XVI e XVII. Afro-Ásia. "A visão do índio brasileiro nos tratados portugueses de finais do século XVI" in: Antonio Luís Ferronha (org. Palmares aparece descrito como um estado bem organizado do ponto de vista militar e político. 1991.

de lei e de rei. que transcreveu e editou esse documento. Essa forma de perceber e caracterizar Palmares aparece também em outros textos do século XVII e XVIII. História da província Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil [1ª ed. não só das suas. ou preceitos.180 177 Pero de Magalhães Gândavo. como observa Maria Leda Oliveira. nenhuma lei guardam. dizem Pancicu.dominiopublico. nem têm rei que lha dê. 262. Assim qualificado. 25. 180 Idem. porque se querem dizer Francisco. mais que ser um testemunho sobre a organização palmarina. Frei Vicente do Salvador reiterou essa máxima. bem como o acordo de paz com Gangazumba. mas sim numa batalha encabeçada por um herói". p."177 Alguns anos mais tarde. e se querem dizer Luiz. Ali. esse texto documenta um modo específico . negociar e estabelecer acordos. dizem Duhi. "A primeira Rellação do último assalto a Palmares" Afro-Ásia. e o pior é que também carecem de fé. com forte potencial bélico. A morte heróica do inimigo torna a vitória sobre ele. ao observar que os índios "nenhuma palavra pronunciam com F. seu líder. L ou R. nesse texto atribuído a Bernardo Vieira de Melo. mas nem ainda das nossas.178 Palmares. e uma capela. Biblioteca Nacional.77 conta. 178 Frei Vicente do Salvador.179 que narra a destruição de Macaco em 1694. 1889. Texto disponível em http://www. Historia do Brazil. já que "o vitorioso não triunfa numa guerra qualquer. p. da Relação verdadeira da guerra que se fez aos negros levantados do Palmar. que se pronunciam com as ditas letras. mais digna e louvável. venerado e reconhecido por todos. Assim. nem peso. a vitória conseguida em 1678. ao contrário. "a que recorrem nos seus apertos".essencialmente político . 33 (2005): 270324. Zumbi. jogando-se em um abismo. os palmarinos são descritos como bons soldados. bem treinados e disciplinados. 1627] Rio de Janeiro. constituía um Estado . É o caso. por exemplo. 7. Nenhuma fé têm nem adoram a algum Deus.de apreender Palmares. e a quem obedeçam". Por isso. tinha ministros da justiça e da guerra. possuía um rei. embora com algumas nuances. .pdf.gov. 1576].um reino civilizado com o qual era possível fazer guerras. nem medida.br/download/texto/bn000165. [1ª ed. podiam se tornar feitos gloriosos e honrados. 179 Maria Lêda Oliveira. aparece como um herói. cap.

governando-se por "estatutos e leis [. com um "príncipe".. dom Pedro de Almeida pôde se orgulhar de ter enfim "restaurado" Pernambuco depois ter vencido os negros da Serra da Barriga e ter firmado com seu rei um acordo de paz. os mocambos aparecem como um poderoso estado. História da América Portuguesa [1730]. Assim. Escritos para audiências portuguesas ligadas à administração colonial.. em 1678.181 Nesse caso. esses três textos operam jogos de opostos construídos com intenções claramente políticas: na crônica de 1678 os protagonistas são dom Pedro de Almeida e Gangazumba. Palmares aparece mais uma vez como um estado forte. a crônica de 1678 procurava justificar a opção pelo acordo de paz e caracterizá-lo como o coroamento de uma vitória militar. 213-219. EDUSP/Itatiaia. as características atribuídas aos chefes palmarinos e aos mocambos operam no sentido de tornar ainda mais evidentes os méritos de dom Pedro de Almeida. 1976. Caetano de Melo de Castro e Zumbi. 181 Sebastião da Rocha Pita. e assim justificase a necessidade de tão grande exército para derrotá-lo. Zumbi. na Relação verdadeira. .] memórias e tradições conservadas de pais para filhos".78 Tal perspectiva também está presente nos famosos parágrafos de Rocha Pita sobre a derrota final dos quilombos. pp. Lei e Rei ecoa mais uma vez nessas páginas. o relato também se inicia com algumas informações sobre Palmares: é preciso dar "noticias da condição e princípio daqueles inimigos. na História da América portuguesa. Enfatizando as características políticas e militares de Palmares como um estado. lei e rei. a tríade Fé. Em todos eles. com fé. Como na crônica escrita em 1678. e dos danos que pelo curso de mais de sessenta anos nos fizeram". São Paulo. Aqui. a vitória sobre Palmares aparece como um feito importante do governo de Caetano de Melo de Castro. chegando mesmo a afirmar serem eles "cismáticos". que era "um dos seus varões mais justos e alentados" e com "magistrados de justiça e milícias". Ainda que Rocha Pita observe que de "católicos não conservavam já outros sinais que os da santíssima cruz e algumas orações mal repetidas e mescladas com outras palavras e cerimônias por eles inventadas ou introduzidas das superstições da sua nação". da origem do povo ou república que estabeleceram. Bernardo Vieira de Melo ou de Caetano de Melo de Castro e ainda mais gloriosa a vitória que obtiveram. são Bernardo Vieira de Melo e Zumbi. das leis com que se governavam.

São contudo as cerimônias utilizadas para reverenciar o rei e os rituais empregados pela embaixada palmarina enviada ao Recife que marcam de maneira mais definida tratar-se de um outro estado.a. Cod. como se o fato desse continuidade às comemorações do triunfo obtido pelo governador Pedro de Almeida. e recebendo dom Pedro os vivas. Os termos empregados para descrever a vida política. é preciso saber a que modelo de estado Palmares está sendo associado. as negociações da paz aparecem sem surpresa. Na narrativa.3. cod. correram os meses seguintes de Abril em que largou o Governo destas Capitanias a Aires de Sousa e Castro seu sucessor. há também uma grande preocupação em caracterizar diferenças. Se a descrição do local onde estão instalados os mocambos e de suas características sociais e políticas poderia designar vários agrupamentos humanos. véspera do dia que na Paroquial do Recife se fazia festa ao nosso Português Santo Antonio.2 . que tinha mandado dom Pedro com o aviso aos palmares. e lhe tocou parte da gloria que dom Pedro soube dispor. habita uma cidade real. 9. BNRJ-Ms. Em "Descripção com noticias importantes". . livres os soldados destas marchas. social e religiosa em Palmares são europeus: Gangazumba é rei e senhor dos Palmares. correram os meses seguintes até os treze de abril em que entregou dom Pedro o governo destas praças a Aires de Souza. possui ministros de justiça e de guerra. Todavia.001: "Passados todos estes sucessos. 7. alegres os povos com estes triunfos. os nomes próprios. entrou o alferes que tinha mandado dom Pedro aos Palmares com aviso. sossegados os moradores destes insultos. e parabéns desta tão singular fortuna. que então transmitia seu cargo a Aires de Souza de Castro: "Passados estes sucessos. véspera do dia em que na Paroquial do Recife se celebrava a festa do nosso português Santo Antonio. o qual trouxe em sua companhia dois filhos do rei com mais dez negros dos mais assinalados nos Palmares". n. fls.182 182 "Relação". entrou nesta praça o alferes. BPE. CXVI . e recebendo dom Pedro os vivas desta fortuna. e lhe tocou parte da glória que dom Pedro soube dispor: porque aos 18 de junho em um sábado a tarde.79 Se esta constitui uma chave interpretativa importante para a compreensão desse texto.13 . Não por acaso o autor dedicou certa atenção a esses aspectos. sossegados os moradores destes insultos. alegres os povos com estes triunfos. em cujos dias brevemente se confirmou a verdade desta relação. As primeiras pistas podem ser procuradas na própria crônica escrita em 1678. pertencem a uma língua bem diferente do português. em cujos dias se confirmou a verdade de toda esta relação. Porque aos 18 de Junho do mesmo ano em um sábado á tarde. 57v-58. livres os soldados destas marchas. de pessoas e lugares. acompanhado de 3 filhos do Rei com 12 negros mais".

de Francisco da Silva.2 . e em protestação da sua vitória.80 A referência à festa de Santo Antônio não é gratuita. cobertas as partes naturais como costumam uns com panos. Além de ser santo padroeiro das armas portuguesas. e lhe bateram as palmas em sinal do seu rendimento.). cobertas as partes naturais como costumam.) gosto". "afabilidade" e "brandura". "singular complacência". fl. porque entraram com seus arcos e flechas.13 . ali lhe pediram a paz com os brancos" . e com uma arma de fogo. uns trançados. e mais potentados e cabos que escaparam ao furor da nossa resolução. Off. encarrega-se de marcar a diferença: "Notável foi o alvoroço.. e valentes todos. outros corridos. não provoca medo ou espanto. ver Silvia Hunold Lara. Festa: cultura & sociabilidade na América Portuguesa. "Uma embaixada africana na América Portuguesa".3. com que ficaram os negros contentíssimos". No texto. com missas solenes e troca de presentes. n. e flechas.. Assim."184 O "notável alvoroço" das pessoas no Recife é também uma operação textual: a embaixada é composta de gente que se veste e se comporta de modo diferente dos europeus.. que a tratou com "grande (. pp.183 Um parágrafo. que causou a vista daqueles bárbaros. Paulo. outros com mustachos [bigodes]. com as barbas. Lisboa. Cod.a. e outros rapados. como no caso da embaixada enviada em 1750 pelo Daomé à Bahia descrita por José Freire Monterroyo Mascarenhas. e em protestação da sua vitória. outros rapados. e lhe bateram as palmas em sinal do seu rendimento. Iris Kantor e István Jankso (orgs. A cavalo vinha um dos filhos do Rei. BNRJMs. uns com barbas trançadas. mas "alvoroço". cod. entretanto. corpulentos. Edusp/Fapesp/Imprensa Oficial. por trazer ainda aberta a ferida de uma bala que na guerra o maltratou. Em "Descripção com noticias importantes". 58. Para uma análise desse documento. Essa diferença. vol. outros com peles. que trazia do rei. e lhe declararam as ordens. porque chegaram com seus arcos. temos aqui os rituais diplomáticos comuns no Antigo Regime português. ali lhe pediram a paz com os brancos. que a remeteu ao novo governador.001: "Notável foi o alvoroço que causou a vista daqueles bárbaros. porque vinha ferido da guerra passada. S. Relaçam da embaixada que o poderoso rei de Angomé Kiay Chiri Broncon . a cavalo vinha o filho do rei. permanência de membros da embaixada no local enquanto duram as negociações e outros sinais de amizade entre as 183 O procedimento se faz presente em textos que relatam a recepção a outras embaixadas africanas por autoridades coloniais no Brasil. 184 "Relação". BPE. 1. a coincidência das datas não parece ser nada aleatória. corpulentos e robustos todos. 151-165. Aires de Souza de Castro "mandou vestir. mais velho. 7. todos se foram prostrar aos pés de dom Pedro de Almeida.. ela dá continuidade ao júbilo pela vitória ao mesmo tempo em que prepara e circunstancia as cerimônias de recepção dos embaixadores. 1751. todos se foram prostrar aos pés de dom Pedro. CXVI . A embaixada foi recebida com "grandes mostras de contentamento" por dom Pedro. no entanto. 9. 2001. e adornar de fitas vermelhas. Em seguida. e uma arma de fogo.

187 Cf. e bat[ia]m as palmas das mãos. se lhe prostram de joelhos aos pés. não é explicitada pelo exótico nem por elementos incompreensíveis por uma audiência portuguesa acostumada a notícias das terras ultramarinas. CXVI . Oferecer a narrativa do episódio nesses termos e caracterizá-lo dessa forma são escolhas políticas.a. 1798]" Stvdia. Em "Descripção com noticias importantes".186 Frei Raimundo de Dicomano. o eleito era levado "para uma praça aonde está preparada uma cadeira e o fazem assentar. n. cod. Em seu Vocabulário. porém conhecido pelos portugueses. os que chegam a sua presença põem logo o joelho no chão. No segundo sábado depois da morte do rei. quando os macotas ("que são os nobres da terra") propõem algum negócio aos sobas (nome dados aos soberanos locais) fazem-no "de joelhos e batendo nas palmas em sinal de respeito".185 Prostrar-se aos pés de uma autoridade e bater palmas não era um ritual desconhecido pelos portugueses. Ele já havia sido mencionado na crônica.2 . Essa diferença. 51v. tomam o barro na cara. Cod. 9.81 partes. a crônica escrita em 1678 mostra que os governadores de Pernambuco e os embaixadores de Gangazumba negociaram um acordo de paz como delegados de nações diferentes. Raphael Bluteau menciona que no Reino de Angola. batem as mãos e gritam viva el-rei. . fl. no entanto. caracterizando-se como um procedimento comum no Reino do Congo e no de Angola. e com todas as cerimônias de Senhor. para indicar que Gangazumba era tratado em Macaco "com todos os respeitos de rei e com todas as cerimônias de Senhor.13 . "Informação do Reino do Congo de Frei Raimundo de Dicomano [(ca. BNRJ-Ms. e protestação da sua excelência" 186 R. Antônio Brásio. descreve a cerimônia de entronização do sucessor no Reino do Congo.187 Assim. Ao contrário. no final do século XVIII. 7. Ao atribuir aos mocambos da Serra da Barriga qualidades similares àquelas encontradas pelos portugueses em suas relações com os sobas centro- 185 "Relação". Vejamos o procedimento utilizado para saudar o governador. e batem as palmas das mãos sinal do seu reconhecimento. 34 (1972): 30.001: "com todos os respeitos de Rei. sinal do seu reconhecimento e protestação da sua excelência". Há também elementos que indicam tratar-se de uma embaixada enviada por um rei diferente. verbete "sova". os que chega[va]m à sua presença [punham] o joelho no chão. Bluteau. Vocabulário.3. e assim está feito o rei". Essa prática é mencionada por diversas fontes do período. BPE.

A chave para entender o que sustenta essa escolha política está no outro lado do Atlântico. Também havia guerras . em busca de elementos que possam contribuir para entender como foi possível realizar essa operação retórica. as condições mais gerais que possibilitaram as negociações entre Aires de Souza de Castro e os filhos e Gangazumba e o contexto político no qual foi possível pensar na implantação da aldeia de Cucaú. Dom Pedro de Almeida podia colher as glórias de uma conquista de grandes dimensões ao terminar seu governo. o cronista indica que as negociações com Palmares diferiam daquelas empreendidas com os outros habitantes da América. o nexo entre as guerras e as negociações com os sobas havia sido o caminho encontrado pelos portugueses para dominar o território. Os próximos capítulos procuram trilhar alguns deles. e as negociações e acordos aconteciam com freqüência. contudo. Não menos importante é o fato de que ele nos aproximará do ponto de vista dos palmarinos.82 africanos. o cronista do triunfo de dom Pedro de Almeida podia ultrapassar o circuito pernambucano para ganhar dimensões mais amplas. tudo indicava que a estratégia estava destinada ao êxito. Lá. . Ao ser empregada aqui com o sinal inverso daquele usado em relação aos índios americanos. no entanto. a leitura cuidadosa da documentação abre caminhos importantes para a análise dos significados dos eventos de 1678. lei e rei. também. Com eles houve relações diplomáticas desde o início. onde as terras ocupadas pelos portugueses eram habitadas por povos que tinham fé. A tríade Fé. Lei e Rei se refere a um modo de compreender e justificar a ocupação das terras e o domínio das gentes característico do processo colonizador português nos séculos XVI e XVII. Para os historiadores. submeter suas gentes e auferir suas riquezas.e muitas. A analogia pôde ser empregada com êxito para caracterizar Palmares e dar legitimidade política às negociações e ao acordo de paz. O percurso permitirá compreender. Em meados de 1678.

não se pode ir adiante só com o exame das fontes. que também variam bastante.83 Capítulo 2 DIÁLOGOS Grande parte da pesquisa histórica consiste em fazer dialogar textos variados. Mais que conhecer o que aconteceu (pois já se abandonou há muito a crença na possibilidade de saber o que "realmente" se passou). do diálogo que estabelece com o conhecimento já produzido. A força de uma tradição Nina Rodrigues foi o primeiro autor a se debruçar com mais atenção sobre as "origens africanas" de Palmares. Os acontecimentos dependem das ações e das intenções de pessoas diversas. ele afirma terem os Palmares se organizado "em um estado em tudo . Depende. não é um objeto único. por exemplo. Por isso. que produzem versões variadas sobre eles. O resultado da análise histórica depende do que o pesquisador enfatiza. os historiadores buscam compreender por que e como os eventos ocorreram e de que maneira foram lembrados ao longo do tempo. Ao analisar suas características de governo. Contudo. escritos em momentos e com intenções as mais diversas. também. O passado. Por isso. esse capítulo abre espaço para ampliar a conversa com a historiografia. É do cruzamento dessas vozes díspares e muitas vezes contraditórias que os historiadores extraem a possibilidade de conhecer o passado. das questões que coloca e das perspectivas e abordagens que adota. esse é apenas um primeiro passo. assim. A essas versões somam-se as memórias e as histórias que foram escritas sobre esses eventos. 1.

essa última edição. [1932]. 71-93.um evento marcante mas que não havia sido liderado pelos sudaneses.5 Escrevendo no início do século XX. Erros e lacunas da história dos Palmares" Diário da Bahia. como então se dizia.84 equivalente aos que atualmente se encontram por toda a África ainda inculta". sobre aculturação. São Paulo. 90-93. porém tentava retirar deles elementos para valorizar a presença negra na formação nacional. "A Troya Negra. 89. As ilusões da liberdade: a escola de Nina Rodrigues e a antropologia no Brasil. 5ª ed. Os africanos no Brasil. 20. 11 n. [1905]. para discutir as hierarquias políticas entre os chefes palmarinos. da Universidade São Francisco. vide Mariza Corrêa. Palmares" o texto foi incluído no livro póstumo Os africanos no Brasil.2 Ao recolher e cotejar as evidências sobre práticas religiosas e lingüísticas. 2 Nina Rodrigues. concluía que os quilombolas haviam voltado "à barbárie africana" e que a destruição de Palmares abrira caminho para a "civilização do futuro povo brasileiro".1 Mais adiante. Os africanos no Brasil. Rodrigues.6 Sua avaliação do que era superior e inferior na África e sua crença na marcha do progresso marcam o julgamento contraditório que produziu sobre Palmares . pp. Por isso. pp. miscigenação cultural e assimilação caminhavam juntos com a necessidade de avaliar o significado da cultura africana no Brasil. rev. 4 N.3 Para Nina Rodrigues. o artigo foi transcrito na Revista do Instituto Archeologico e Geographico Pernambucano. porém.. .. o autor consolida esta interpretação. Os africanos no Brasil. Bragança Paulista. 2001. 63 (1904): 645-572. Nacional. mesmo que não houvesse só negros e que nem todos fossem africanos em Palmares. pp. Cia. Os debates sobre a sobrevivência de "africanismos". 71-93. 88-89 3 N. Rodrigues. Rodrigues. Apesar das datas discrepantes. No início do século e sobretudo nos anos 30 e 40. Companhia Editora Nacional. 1977. Nina Rodrigues estava imbuído do espírito científico e do ideário racista. Os africanos no Brasil. comparando-o com exemplos encontrados entre os Ewes. entretanto. o tema das raízes africanas no Brasil ia bem além das dimensões acadêmicas . aqui. a presença bantu exercia uma indiscutível "influência diretora". pp. p. Ed. especifica ser Palmares "uma criação exclusivamente bantu". 1977. São Paulo.ou científicas. era 1 Nina Rodrigues. pp. 5ª ed. Egbas e outros povos do Daomé ou do Senegal. 2ª ed. 6 Para uma avaliação da produção de Nina Rodrigues e de seus discípulos. na qual predominavam os Angola. Utilizo. Ed. Com o título alterado para "As sublevações de negros no Brasil anteriores ao século XIX. 77-78. 22 e 23 de agosto de 1905. bem como sobre costumes e tradições. julgar o episódio de forma positiva: embora considerasse Palmares "um caso especial e sem exemplo na história dos povos negros". 5 N. que tanto valorizava.4 Isso não significava.

Rio de Janeiro. Importantes para a antropologia e a sociologia. Revista do Arquivo Municipal. Marcos Chor Maio. os elementos políticos. Antonio Sérgio Alfredo Guimarães. . 3. mas com posições diversas quanto ao significado das raízes africanas de Palmares. mesmo diante dos poucos dados disponíveis. A história do Projeto Unesco. São Paulo.9 Este "estado negro" constituía um "exemplo de organização política e econômica". (1939): 121 10 Arthur Ramos.. IUPERJ. 122-123. 47 n. 1997. São Paulo. 34. "O culturalismo dos anos 30 no Brasil e na América Latina: deslocamento retórico ou mudança conceitual?" in: Marcos Chor Maio e Ricardo Ventura Santos (orgs. pp. Lourdes Martínez-Echazábal.85 importante entender e dimensionar o processo de desagregação vivido a partir da saída da África. Nesse período. Fiocruz/CCBB. Ciência e Sociedade. Companhia Editora Nacional. de tática militar. os estudos lingüísticos e antropológicos sobre as culturas africanas serviram de base para diversos autores interessados em valorizar a cultura negra no Brasil ou afirmar a importância da África no processo de formação da nação. Livraria e Editora da Casa do Estudante do Brasil. 1996.. Racismo e anti-racismo no Brasil. na qual se "evidencia[v]am as capacidades de liderança. p. durante o cativeiro e depois da abolição. que estavam se constituindo como campos de investigação.10 Já não se tratava de uma criação "exclusivamente bantu" como em Nina Rodrigues. do negro brasileiro". Fundação de Apoio à USP/Ed. pp. Vide também Arthur Ramos. de organização econômica. de constituição legislativa .). Para Arthur Ramos. Raça. o quilombo era um "estado com tradições africanas dentro do Brasil (.) uma desesperada reação à desagregação cultural que o africano sofreu com o regime da escravidão". mas de adaptações: "os usos e costumes dos quilombos dos Palmares copiavam as organizações africanas de origem 7 Ver. 9 Arthur Ramos. de espírito associativo. especialmente capítulo 5. Artur Ramos e Edison Carneiro seguiram as pegadas de Nina Rodrigues.8 A partir do artigo pioneiro de Nina Rodrigues. "O espírito associativo do negro brasileiro". 1942. [1971]. a respeito. Doutorado. de administração. tais posições ecoaram na história de Palmares ao reforçar a necessidade de discutir. esses debates envolviam intelectuais nacionais e americanos interessados no que então se chamava de "estudos sobre o negro" no Brasil e nas Américas.. O negro na civilização brasileira [1956] Rio de Janeiro. 107.7 Os dilemas daquele presente orientavam um certo olhar sobre o passado. 4. sociais e religiosos da vida nos mocambos. 137-140. 1999. especialmente cap. para um panorama amplo sobre o tema. A aculturação negra no Brasil. 8 Ver. Estudos raciais e ciências sociais no Brasil.75 e Arthur Ramos. "O espírito associativo do negro brasileiro".. pp.

dá continuidade à perspectiva inaugurada por 11 Arthur Ramos. Visões do passado e perspectivas contemporâneas. Nesta. publicado em 1947. Nesse contexto. revista. 13 Arthur Ramos. p. p. Civilização Brasileira) é mais pobre e contém só o texto da primeira edição. quilombos e comunidades de fugitivos no Brasil (séculos XVII. São Paulo. pp. Utilizo aqui a 2ª edição.14 Sem dúvida.11 A controvérsia entre a pureza e a adaptação cultural combinava-se com movimentos mais amplos de valorização da cultura africana e do pan-africanismo. Editora Unesp/ Polis. a obra de E. Companhia Editora Nacional). fac similar da segunda. por exemplo. São Paulo. com algumas revisões. "Ainda sobre os quilombos: repensando a construção de símbolos de identidade étnica no Brasil" in: Elisa Reis. O negro na civilização brasileira. traço religioso ou costume social dos palmarinos vinha acompanhado pela discussão sobre o caráter africano ou variegado do quilombo. Palmares constituiria. foi feita uma quarta edição (São Paulo. O negro na civilização brasileira. como afirmava Edison Carneiro.75. A hidra e os pântanos. publicada no México em 1946. CEN. O Quilombo dos Palmares. também. Maria Hermínia Tavares de Almeida e Peter Fry (orgs). pp.197-221. 12 Para um panorama sobre os significados dos quilombos para a historiografia e o movimento negro no Brasil. Há uma edição anterior. Brasiliense. 1947. acrescentou-se um ensaio inicial. "Singularidade dos quilombos" e vários documentos são publicados em anexo. Carneiro constitui um marco na historiografia palmarina. o esforço para identificar esse ou aquele comportamento político.12 No caso brasileiro. p. . Seu livro. pois conectava-se com a análise das relações raciais e com posicionamentos diversos em relação ao racismo e ao caráter híbrido e permeável da sociedade brasileira.86 bantu. um espaço de luta contra a aculturação promovida pela sociedade escravista e de "restauração de valores antigos”. Cf. 123 e também Arthur Ramos. 1988). integrando a coleção Brasiliana. do mesmo autor. 76. 1630-1695. Política e cultura. São Paulo. Anpocs/Hucitec.13 Mas seria. Mocambos. Mais recentemente.14. 2005. A terceira edição. vide Flávio dos Santos Gomes. 1996. 25-32. "O espírito associativo do negro brasileiro". foi publicada em 1958 (São Paulo.XIX). mas com as modificações introduzidas com os hábitos aprendidos no Novo Mundo”. que havia transposto barreiras e adaptado práticas culturais africanas para um novo meio: "um caso curioso e instrutivo de fusão da experiência e dos elementos africanos com as imposições do novo meio na formação de um Estado em miniatura. que também permearam os estudos sobre os quilombos no Brasil nesse período. manifestando todos os atributos de uma comunidade civilizada". feita em 1966 (Rio de Janeiro. com apresentação de Waldir Freitas Oliveira. as datas saem do título. uma prova da capacidade de associação e organização do "negro brasileiro". também. p. A segunda edição. 14 Edison Carneiro. esse campo politizou-se cada vez mais.

16 Em sua obra. 18 M. no tempo da invasão holandesa. para ele. 1988) é a que utilizo aqui . como no caso da religião. ao considerar Palmares "um pedaço da África transplantado para o Nordeste do Brasil". 16 E. 13-25. O quilombo dos Palmares.17 Toda a primeira parte da obra foi dedicada à geografia. Sua abordagem era um tanto ambígua. 162. 17 Mario Martins de Freitas. de O quilombo dos Palmares.cabe a paternidade do grande movimento palmarino já anteriormente iniciado com alguns negros desgarrados". O quilombo dos Palmares. pp. Carneiro. no entanto. 1958.87 Nina Rodrigues e Arthur Ramos. e sua cultura possuía algumas adaptações. nomeado em 1616. como na África. 59. não há de fato uma discussão sobre os elementos propriamente africanos da vida palmarina . Luiz Mendes de Vasconcelos. aprisionados pelos portugueses durante o mandato do governador de Angola.15 Também para E. a extensa obra de Mário Martins de Freitas trouxe novos elementos. e mandados para o Brasil como escravos . A segunda. Apesar de todo um capítulo dedicado aos "negros dos quilombos". mas o resultado dessa análise nem sempre é claro. São Paulo. . o que se explica pela pobreza mítica dos povos de língua bantu a que pertenciam e pelo trabalho de aculturação no novo habitat americano". p. A ênfase contra-aculturativa é afirmada no artigo "Singularidades dos quilombos" publicado originalmente em 1953 e depois incorporado à 2ª ed. Carneiro. etnografia e história da África. Biblioteca do Exército. p. M. 1954. Carneiro era bantu a base lingüística dos quilombolas. Segundo ele. edição (Rio de Janeiro. ao qual se somaram outros. Em 1954. como um repertório para a resistência: a rebeldia dos escravos se expressava por meio de um processo contra-aculturativo. governados por um rei cujo título nobiliárquico 15 E. os primeiros habitantes dos Palmares seriam jagas: "aos jagas . Companhia Editora Nacional. já que louvava ao mesmo tempo a bravura daqueles que lutaram para derrotar Palmares e enaltecia a coragem dos quilombolas que almejavam a liberdade e resistiram por tanto tempo às investidas coloniais. A cultura funcionava. Reino negro de Palmares. os habitantes de Palmares teriam constituído no sertão de Pernambuco um sobado. os aspectos da resistência dos escravos foram os mais valorizados. "mais ou menos semelhante à católica. em que são descritos os costumes e a vida política e religiosa nos mocambos. p. Freitas.18 Instalados em uma região cheia de palmeiras. Biblioteca do Exército. Rio de Janeiro.belicosa tribo indomável do sobado do famoso Ngola Nbandi. 30.apenas referências mais gerais a práticas bantu. Reino negro de Palmares.

pp. são um pouco confusos. edições Zumbi. A segunda edição. .23 Seu estudo fornecia uma lição exemplar para os militantes de esquerda e Palmares e seus líderes passaram a ser avaliados a partir de seu potencial revolucionário. Paulo. 171.era uma das formas que a luta de classes havia assumido no Brasil.19 Não há evidência documental para tais afirmações. 1959. os artigos foram publicados por Lisboa. O quilombo foi referência importante para movimentos anti-racistas que tinham fortes traços culturalistas. "cuja autoridade repousava no sangue da casta sagrada dos jagas". Vozes. Ed. Luiz Luna. 24 B. 223228. 179-190) é a que utilizo. Ed. Com o tempo teria se desenvolvido uma organização mais centralizada.a rebelião das senzalas. Leitura. na mesma direção. Catedral de Brasília/INL. 1956): 230-249. Aspectos da rebeldia do escravo no Brasil. Péret. como se pode perceber. a historiografia brasileira sobre Palmares abandonou aos poucos essa perspectiva analítica. como a chamou Clóvis Moura . revista Rio de Janeiro. A negação do cativeiro explicava as fugas e os quilombos.22 a resistência escrava . Petrópolis. 22 Benjamin Péret. 65 (abr. O quilombismo. os aspectos da resistência dos escravos diante da escravidão e sua luta pela liberdade do que os aspectos culturais. que utilizo aqui. p. S. "O quilombo dos Palmares" Rebeliões da Senzala. 113-137. e 66 (maio 1956): 467-486. 179. deixo de tratar deles neste texto. Para Clóvis Moura21 e Benjamin Perét.e o que "maior trabalho deu às autoridades para ser exterminado". guerrilhas. especialmente "Ensaio de interpretação". Rio de Janeiro. Mário Freitas interpreta as informações colhidas nas fontes administrativas e na crônica de 1678 segundo seus conhecimentos dos costumes africanos que. Ver também. pp. por Porto Alegre.24 19 20 M. Reino negro de Palmares. revista e ampliada (Rio de Janeiro. 217-238. 1968 (2ª ed. Sob a forma de livro. 21 Clóvis Moura. e o rei "tomou o título militar de Gangazumba. para valorizar. Conquista. 109-128. Sobre o tema ver Abdias do Nascimento. Conquista. 1976. M. Nesse contexto. Documentos de uma militância pan-africanista. pp. 1972. "Que foi o quilombo de Palmares?". "Quilombo em Alagoas" Da fuga ao suicídio. 1980. comandante geral de todas as forças que foram distribuídas pelas embalas e com comandantes subordinados ao alto comando". "O quilombo dos Palmares". Fenda. p. como no caso do quilombismo de Abdias do Nascimento.88 era Zambi. Freitas. pp. A partir dos anos 1950. cada vez mais. 2002 (com estudos complementares por Robert Ponge e Mário Maestri). Editora da UFRGS. 23 Clóvis Moura. "República dos Palmares" O negro na luta contra a escravidão. Palmares teria sido o mais duradouro e extenso dos "movimentos dos cativos contra a escravidão" . 1972. 1988 e com o título O quilombo dos Palmares. e José Alípio Goulart. os autores que analisaram a história de Palmares nos anos 50 e 60 passaram a valorizar o "protesto escravo". insurreições. "Que foi o quilombo de Palmares?" Anhembi. Como não implicaram numa análise histórica de Palmares. pp. Quilombos.20 Mais que as características contra-aculturativas salientadas por Edison Carneiro.

nos anos 1960. constituindo uma demonstração da "vitalidade da 25 Raymond K. latinizados ou próximos de raízes ameríndias". Palmares era um fenômeno interessante pois permitia observar a "recriação de sociedades africanas num novo meio". Palmares teria aos poucos se tornado mais crioulo em função dos nascimentos e dos novos fugitivos: isso significava que um sistema político africano podia ter sido transferido para outro continente e ali tinha sido capaz de governar "não apenas indivíduos de vários grupos étnicos africanos mas também os nascidos no Brasil. muito negros ou quase brancos. chamaram a atenção dos pesquisadores. os estudos sobre o negro ganharam novas dimensões. refutava a hipótese de que os jagas teriam sido os fundadores de Palmares ou terem constituído sua dinastia governante.25 Aqui. Palmares. 26 Para facilitar a leitura. Em 1965 Raymond Kent publicou um artigo em que os estudos acadêmicos sobre a história e a cultura africanas foram arregimentados para realizar uma avaliação mais pormenorizada da presença da África em Palmares. mesmo que elas não tenham sido grafadas dessa forma pelos autores. pois abriam possibilidades interessantes para estudar o modo como as culturas africanas se desenvolveram fora da África. Para ele. Desde 1580.). "Palmares: An African State in Brazil". pp. Rebel slave communities in the Americas. além de resistir por quase um século inteiro a dois poderes europeus. 1973. não havia mais referências genéricas aos bantu.28 Para Kent. adoto. a maioria dos "palmaristas" teria vindo "do perímetro Congo-Angola". assim como para outros autores que estudavam os quilombos nas Américas. aqui e em toda a tese. 166. Kent. embora não pertencessem a nenhum subgrupo bantu específico. "Palmares: An African State in Brazil". p.89 Enquanto isso. o que significava que os fundadores de Palmares. New York. "Palmares: An African State in Brazil" Journal of African History. p. Maroon Societies. O artigo foi posteriormente publicado em Richard Price (ed. Anchor. 6: 2 (1965): 161175.26 Baseado na então relativamente nova historiografia africanista. assim como outras comunidades de fugitivos nas Américas. 28 R.27 Ao adaptar vários modelos africanos. Kent. Kent.170-190. tanto acadêmicas quanto políticas. 175. com o desenvolvimento dos estudos africanistas nos Estados Unidos. Angola se tornara o grande fornecedor de escravos. 27 R. mas análises lingüísticas que faziam referências aos Mbundo e aos Imbangala. constituíam um "amálgama" no qual os crioulos eram poucos. . a notação internacional atual para as palavras centroafricanas.

instalados no litoral. p. Rebel slave communities in the Americas [1973]. não era bem uma novidade. Essa perspectiva se associou a um movimento maior de estudos sobre as comunidades de fugitivos nas Américas. mas havia a necessidade de levar em conta a experiência da própria 29 30 R. Maroon Societies. discutindo o grau de autonomia que os cativos conseguiam manter em relação aos senhores. baseada na africana. Utilizo aqui a 3ª. Nova York. Pantheon. Genovese (Roll. 174 31 Richard Price (ed). Eugene D. The Johns Hopkins University Press. Nos Estados Unidos. portanto.90 arte tradicional africana de governar os homens". centrada na questão da família. Vintage Books. as idéias de Melville Herskovits sobre a adaptação criativa da cultura africana nas Américas. pp. ed. 1983. Herskovits. Da rebelião à revolução. profundamente centro-africana no caso de Palmares. 1977) produziram estudos fundamentais sobre a cultura dos escravos. "Palmares: An African State in Brazil". The myth of the Negro past [1941]. Jordan. 1974) e Herbert Gutman. os estudiosos retomavam. os portugueses. que participou durante algum tempo da vida acadêmica nos Estados Unidos. pp. Baltimore. Kent. Kent. fazia com que esse autor retomasse a avaliação de Nina Rodrigues para inverter seu significado.30 Era. Roll: The World the Slaves Made. 2. 1999. 32 As preocupações norte-americanas mantinham várias conexões com os debates no Brasil. 162 e 175 R. Cf. Mintz a essa edição oferece uma boa análise das obras de Herskovitz. Slenes. e do uso desses elementos culturais como instrumento para enfrentar as adversidades do cativeiro e da vida no pós-emancipação. pela Johns Hopkins University Press. Na senzala uma flor. 1750-1925. Global. 1996.32 Nos anos 70 e 80.) São Paulo. A introdução de Sidney W. Nova Fronteira. Beacon Press. que pode ser observado na coletânea editada por Richard Price em 1973. Nova York. os estudos sobre a escravidão haviam caminhado bastante. por exemplo. Genovese. A segunda edição foi feita em 1979. mencionando inclusive as relações com as idéias de Artur Ramos. de certo modo. Palmares esteve próximo de alterar a história subseqüente do Brasil: se não tivesse sido destruído. provavelmente teriam que enfrentar. .31 A idéia da formação de comunidades de fugitivos que possuíam uma cultura própria. Herskovits reconhece. Boston. The Black Family in Slavery and Freedom. Melville J. A perspectiva comparativa inaugurada por Price foi continuada por Eugene D. "Palmares: An African State in Brazil". intitulada Maroon societies. especialmente cap.29 Essa vitalidade. (trad. vide Robert W. 28-43. no século XVIII. a presença da África que garantia a avaliação positiva da força simbólica de Palmares na história. Para um balanço dessas obras e dos debates sobre a cultura escrava desde Frazier e Herkovits. muitos estados africanos independentes no interior do Brasil. 1990. ao recuperar as dimensões da cultura escrava e suas relações com as heranças africanas. Rio de Janeiro. 33 Nos Estados Unidos. sua dívida para com a reflexão sobre o sincretismo realizada por Arthur Ramos.33 A cultura africana era um elemento importante para se conhecer a lógica das ações dos escravos..

1992.34 Não se tratava mais de "sobrevivências africanas" como pensava Herskovits. Mercado Aberto.39 Ainda que o capítulo dedicado a analisar as características dos quilombos seja intitulado "Angola Janga". em 1971.dentre as quais Palmares ocupa um lugar ímpar. os escravos possuíam uma herança comum que se modificava e se transformava para enfrentar os senhores e as relações nas sociedades escravistas das Américas.37 Assim como Péret.35 se constrói como um esforço para afirmar "o conteúdo político e revolucionário das revoltas escravas" .36 Enfatizar a preservação da cultura africana era. no Brasil. 1976. 37 Décio Freitas. 1973. As edições brasileiras posteriores. Seu livro. buscou novos documentos em diversos arquivos. reescrita. o que movia a resistência dos escravos "era a desgraça comum. p. Durante muitos anos. Beacon Press. Palmares. "Que foi o quilombo de Palmares?". Palmares. 2003). 38 B. Utilizo a quinta e última. Pallas/Universidade Cândido Mendes. pp. 36 Décio Freitas.91 escravidão. Tinha então o título An anthropological approach to the Afro-American past: a Caribbean perspective (trad: O nascimento da cultura afro-americana. já que o contingente trazido para o trabalho nos engenhos constituía "um mosaico étnico e cultural sumamente diversificado". Porto Alegre. Boston. revisadas. ou em 34 Sidney W. Mintz e Richard Price. Infelizmente. para ele. Apesar das diferenças étnicas e lingüísticas. A Guerra dos Escravos. Péret. A primeira versão desse texto circulou como um impresso do Institute for the Study of Human Issues. para ele. 12. pois os conhecimentos nessa área. p. estavam longe de ser satisfatórios. Enquanto isso. uma posição "alienada" e pouco produtiva. foram publicadas em 1978 e 1981. menção genérica aos fundos e arquivos consultados. cuja primeira edição foi publicada em 1973 e sofreu sucessivas revisões. a obra de Décio Freitas consolidava e dava corpo à leitura militante da história de Palmares. 48. 1984. . avaliou e contestou interpretações anteriores. An anthropological perspective. 35 Décio Freitas. que nascia desse encontro das diversas heranças africanas com a sociedade escravista no Novo Mundo. Uma perspectiva antropológica. mas de uma nova cultura. afro-americana. revista e ampliada: Porto Alegre. "a despeito dos progressos ultimamente realizados". o autor se dedicou a estudar ao tema. no final do volume. Os africanos trazidos pelo tráfico para as Américas provinham de regiões diversas e tinham que enfrentar aqui relações sociais e políticas diferentes das africanas. Palmares. Movimento. 172-173. 115 39 Décio Freitas.38 Freitas nega qualquer possibilidade de união étnica ou lingüística entre os escravos. The birth of African-American culture. o empenho na busca de novas fontes e documentos não foi acompanhado pelo cuidado de referenciá-los em notas. A primeira edição foi feita no Uruguai. Rio de Janeiro. Palmares. Há apenas. sem condições de oferecer subsídios para uma análise conseqüente. p.

e. Palmares e Zumbi tornaram-se símbolos da luta maior contra a opressão e exemplo para os militantes. p. 33-39. O negro revoltado. do mesmo autor.41 Havia igualdade civil e política entre os palmarinos. Tal perspectiva abriu caminho para que Palmares pudesse ser pensado como um mundo ideal. Joel Rufino dos Santos. p. Assim. 1982. Escravidão e liberdade no Atlântico sul. 271-283. Alfredo Brandão. pp. 11. "Ainda sobre os quilombos". Alves Filho. São Paulo. oposto ao "mundo do açúcar". Freitas. I. p. 28. "Que foi o quilombo de Palmares?". Palmares. abundância de alimentos. pp. mencionada por alguns autores. 41 Décio Freitas.em particular do partido comunista no Brasil.44 Como vimos de modo breve na Introdução da tese. do mesmo autor. p. ao longo dos anos 1970 e 1980. Sobre o mesmo tema.Brasil . Gomes. com algumas características africanas.Caraíbas. bem como a premente necessidade de defesa diante dos inimigos externos deram origem a um estado centralizado. 2002. . Palmares. Nova Fronteira. África . 42 Décio Freitas. pp. Em alguns casos. nos mocambos teria havido "variedade de culturas agrícolas. Palmares.45 40 Décio Freitas. como em Duvitiliano Ramos. 29 e 30 de novembro de 2001. 199-200.). fruto de um movimento "essencialmente social". em busca da construção de uma epopéia revolucionária. Actas do Colóquio Internacional Universidade de Évora. Ver também Ivan Alves Filho. 101-104. 61-71. pp. houve quem lamentasse a "incapacidade dos escravos" de por em xeque o sistema escravista. constituindo-se como "um asilo aberto a todos os perseguidos e deserdados da sociedade colonial". Zumbi. Péret. Palmares. S. Editora Moderna. 2005. p. "O quilombo dos palmares como resistência e síntese cultural" in: Isabel Castro Henriques (org. Rio de Janeiro. como Edison Carneiro. "A posse útil da terra entre os quilombolas" in: Abdias do Nascimento. [em que] a terra só tem valor pela utilidade [e a] sociedade não [é] dividida em classes.40 Palmares se tornava. 44 Vários autores que trataram de Palmares. produção para consumo interno. "Economia de Palmares" in: Clóvis Moura (org.42 mas a necessidade de acomodar e agregar grupos heterogêneos do ponto de vista étnico e cultural. pp. um vínculo de classe". Maceió. Aderbal Jurema. 45 D. A oposição entre a democracia inicial e a centralização na organização política dos mocambos também foi abordada por B. vide ainda Waldir Freitas Oliveira. 51. pp. sem desníveis sociais (apesar de certos privilégios concedidos aos chefes militares e políticos)". 43 Décio Freitas. p. Os quilombos na dinâmica social do Brasil. essa tendência analítica se desenvolveu em conexão direta com a dinâmica do marxismo e dos partidos de esquerda . que ainda não foi feito. então. Décio Freitas e Ivan Alves Filho tiveram ligações com o PCB. pp. Escravatura e transformações culturais. merece um estudo mais aprofundado. 2001. EdUFAL. que salientam o caráter democrático da distribuição de terras em Palmares. 205.43 Não por acaso. Memorial dos Palmares.153-164. 47. 72. Essa característica. Contexto. Na mesma direção caminham estudos específicos. Editora Vulgata. pp. 1985. 19. Memorial dos Palmares. 2ª ed.92 outras palavras. e. Palmares. Cf. xii-xiii. F. Lisboa. São Paulo.). 115-118. Palmares.

Estudos Econômicos. 17. também. 111-130 e 131-149. e João José Reis. procurando compreender o ponto de vista dos cativos e os motivos para suas ações como escravos e suas formas de reagir contra o cativeiro.17.93 Paralelamente. Schwartz.46 Mais que avaliar as qualidades políticas das ações escravas a partir de concepções e conceitos que lhes eram exteriores.47 bem como artigos que empreendem uma análise das rebeliões escravas e de práticas de fuga ou de troca de senhor que focalizam outras lógicas políticas. especial (1987): 37-59. que oferece uma abordagem inovadora para a história de Palmares. de Clovis Moura. 48 Veja-se. que focalizavam dimensões diversas da vida dos escravos e. H. estava em colocar os escravos como sujeitos da história e valorizar uma lógica diversa das expectativas do marxismo ortodoxo. Um bom exemplo dessas pesquisas. Quilombos e Palmares: a resistência Escrava no Brasil colonial". M de Carvalho. nas universidades brasileiras. nº especial (1988): respectivamente pp. . "'Quem furta mais e esconde": o roubo de escravos em Pernambuco. por exemplo. "Blowin' in The Wind": Thompson e a Experiência Negra no Brasil" Projeto História. daqueles que fugiam e se aquilombavam. destaco um. escrito por Stuart B. os historiadores no Brasil passaram a focalizar com maior cuidado a vida dos escravos sob a escravidão. 17. uma nova abordagem da história dos quilombos se desenvolveu. Luiz R. Essa perspectiva analítica aos poucos suplantou aquela abordagem militante e deu lugar a estudos mais acadêmicos. pode ser colhido nas publicações feitas por ocasião do centenário da Abolição. dedicado ao "protesto escravo". "O levante dos malês na Bahia: uma interpretação política" Estudos Econômicos. entre outros. 47 É o caso. Marcus J. por exemplo. S.49 Uma versão anterior do artigo já havia sido publicada em 1970. que despontaram no Brasil dos anos 1980. nº especial (1988): 61-88. "Da insurgência negra ao escravismo tardio" Estudos econômicos. o que se pretendia então era compreender o ponto de vista dos escravos segundo seus próprios termos. focalizando casos de 46 Para um balanço dessa produção historiográfica ver. aqui. "Mocambos. 1832-1855". 49 Stuart. Inspirados pelas mudanças na historiografia da escravidão nos Estados Unidos e em especial por novas propostas teóricas e políticas no estudo da história social. Schwartz. Lara. 12 (out. levando em conta o ponto de vista dos agentes envolvidos nos diferentes contextos. Encontram-se ali estudos que dão continuidade à vertente clássica das obras dedicadas a analisar a insurgência negra no Brasil. "Rebeliões escravas em Sergipe". B. B. em particular num volume especial da revista Estudos Econômicos. n. Mott.1995): 43-56. 89-110.48 Dentre eles. O gesto político.

assim. 3 n. Vide S. 249-255. Schwartz. Schwartz. ele considerou que as comunidades de fugitivos tinham "raízes em algumas formas tradicionais africanas de organização política e social" e combinavam "tais formas com aspectos da cultura européia e adaptações especificamente locais". que também tratava de Palmares. e situava as fugas e os mocambos num quadro maior de resistência dos escravos. como haviam postulado antes outros autores. de certo modo. "The 'Mocambo': Slave Resistance in Colonial Bahia". (trad. Schwartz considerava a presença africana e as diferenças culturais entre os escravos. Brazil . pois o modo como elas haviam sido integradas. Uma versão intermediária foi publicada em S. Utilizo esse texto para as referências nos próximos parágrafos. do ponto de vista político e militar.54 Havia. Schwartz questionava abordagens 50 Stuart B.) Bauru. Schwartz. 245. destruído em 1763. governados por uma linhagem real. pp. ecoavam formas políticas e sociais africanas. "Repensando Palmares".53 O termo é importante: não mais se trata de um reino africano. B. 53 S. "Repensando Palmares". formando "um único reino neoafricano". . 54 S. 51 Esse artigo ganhou uma nova versão em 1992. "Repensando Palmares: resistência escrava na colônia" in: Escravos. na Bahia. Schwartz. B. porém. Para ele. B. roceiros e rebeldes. p. Journal of Social History. pp. 52 S. "Black slaves in Palmares. uma síntese das posições anteriores. B. 245. essas diferenças não teriam dissolvido as características africanas de Palmares. e Palmares. "Repensando Palmares". uniram-se em sua oposição comum à escravidão". 2001. Schwartz. Ao mesmo tempo em que enfatizava o elemento comum e unificador de resistência à escravidão. Schwartz.The mocambo revolt" Histoire.52 Seu artigo trazia porém uma contribuição importante para o tema.94 quilombos baianos. B. 41 (1982): 38-48. Ao mesmo tempo. seguia modelos africanos. p. ao examinar com mais detalhe duas comunidades de fugitivos: o quilombo do Buraco do Tatu.51 Foi um dos poucos trabalhos publicados naquela ocasião sobre o quilombo da Serra da Barriga. Como muitos autores. Com relação a Palmares. 4 (1970): 313-333. africanos e crioulos.50 Agora ganhava uma análise mais detalhada. 213-255. Palmares era uma comunidade na qual "escravos de várias origens. ou uma comunidade afro-brasileira (ou afro-americana). ao comparar as formas de organização militar e política dos quilombos com aspectos semelhantes que estavam sendo investigados por alguns estudiosos da história centro-africana. Schwartz afirmava que os vários mocambos. Edusc. Schwartz acompanhava a virada historiográfica dos estudos sobre a escravidão.

55 Ao invés disso. de guerras e conquistas. mas um título. S. 251-254. p.57 Como bem observa Schwartz. O Gangazumba de Palmares era provavelmente o detentor desse cargo. ela tinha permitido coesão de homens que não estavam integrados por laços de parentesco nem por deuses ancestrais e que passavam a viver em acampamentos. religiosa. "sua versão dele era incompleta ou. Clarendon Press. um sacerdote cuja responsabilidade era lidar com o espírito dos mortos. 57 S. "Repensando Palmares". que não era de fato um nome próprio. que para ele eram na verdade mais invenções coloniais do que resultado de processos identitários propriamente africanos. Com rituais próprios. a partir do contato entre os Mbundo e os Imbangala: os reinos de Matamba e Kassange. Dois estados haviam se formado na região centro-africana. 1976. a maneira de designar todas as comunidades de fugitivos no Brasil: "a cronologia e a conexão [da palavra quilombo] com Palmares não são acidentais. transformando-a em um poderoso instrumento militar ao permitir a integração de povos desiguais e sem ancestrais comuns. os Imbangala haviam incorporado uma instituição dos Mbundo. 58 S. "Repensando Palmares". ao menos parcialmente. devido a pesquisas recentes sobre a história africana. Schwartz. Kings and kinsmen: early Mbundu states in Angola.95 etnográficas centradas em "identidades étnicas ou culturais específicas". "Repensando Palmares". B.58 Mas havia fortes paralelos: "uma figura fundamental no kilombo era o nganga a zumba. sociedades rituais que haviam permitido que esses guerreiros centro-africanos mantivessem coesão social. 249. Schwartz. Oxford. . que muitas vezes adotavam categorias como "angola" ou "congo". Miller. Há outros ecos das descrições de Angola 55 56 S. B. ele procurou compreender como e por que a palavra quilombo passou a ser empregada para caracterizar Palmares e como essa palavra se tornou. política e militar. compreendida". Schwartz apóia-se especialmente em Joseph C. pode ser. 254. "Repensando Palmares". B. Schwartz. p. pp. Ao se fundirem com as linhagens nativas. a partir de Palmares. Schwartz. No termo quilombo está codificada uma história não escrita. uma variante do modelo original". que somente agora. p. 248. B. se os fundadores de Palmares se inspiraram no kilombo Imbangala para a formação de sua sociedade. pelo menos.56 A chave para decifrar essa história estava nos kilombos Imbangala. ao invadir a região de Angola ao longo do século XVII.

Wurzburg. First International Conference of the Society of Caribbean Research. Cf. usadas pelos escravos para 59 S. ao invés da cultura dos fugitivos. "The internal African Frontier: the making of African political culture" in: Igor Kopytoff (ed. desenvolvidas por Stephen Palmié. 60 Essa perspectiva se baseava nas análises desses mecanismos e instituições africanas. Königshousen and Neumann. 1993. 337-363. 55-67.59 Como se pode observar. para Schwartz há instituições centro-africanas específicas que podem ter sido fonte de inspiração e que talvez tenham sido adaptadas e transformadas. Ele procurou compreender como a marca africana nas ações dos escravos podia ser compatível com a diversidade étnica dos cativos e com os desafios vividos por eles na América. Alguns historiadores já haviam observado que algumas fugas eram temporárias. Mesmo que a vertente militante tenha sido abandonada. 3-84. 253.). como as realizadas por Igor Kopytoff. o interesse predominante continuou a enfatizar os aspectos e os significados sociais das fugas. exatamente como afirmam alguns dos relatos brasileiros.). The African frontier. Vervuert. e Palmié. . . pp. p. que viveu entre os Imbangala e relatou que seu maior luxo era o vinho de palma e que suas rotas e acampamentos eram influenciados pela disponibilidade de palmeiras. "Repensando Palmares". Certamente os estudos sobre as fugas e os quilombos brasileiros passaram por modificações significativas. Schwartz.60 Apesar da importância da contribuição analítica do artigo de Schwartz. 245 e 249. Schwartz leu esses dois artigos antes de serem publicados definitivamente. Não se trata mais de sobrevivências ou heranças africanas. B. Alternative cultures in the Caribbean. Berlin 1988 Frankfurt. Seus comentários fazem com que a associação entre a comunidade de fugitivos e a região de Palmares pareça mais do que coincidência". pp. É bastante curiosa a observação de Andrew Batell. nem de uma nova cultura. ligados a estratégias políticas africanas. Schwartz. a nova senda interpretativa aberta por ele teve pouco impacto na historiografia brasileira. havia em sua análise elementos mais amplos. Ao reproduzir o trecho. S. 1993. B. Bloomington. Além da cultura. "African States in the New World? Remarks on the Tradition of Transatlantic Resistance" in: Thomas Bremer e Ulrich Fleischmann (eds. como papers escritos em 1988 e 1989. mas não nessa direção. pp. pp. O que estava em jogo era uma cultura política: uma experiência africana de integração de povos diversos e de geração de solidariedades que também era empregada também na América. tomei a liberdade de corrigir um pequeno deslize do tradutor na última frase da citação. No kilombo Imbangala a liderança dependia de algum tipo de aclamação ou eleição popular.96 que parecem sugestivos. Indiana University Press. "Repensando Palmares". Stephan “Ethnogenetic Processes and cultural transfer in AfroAmerican Slave Populations” Wolfgang Binder (ed) Slavery in the Americas. 1987.

61 Outros. as questões da cultura dos escravos . Ao estudar formações quilombolas extensas no Vale do Paraíba e na Baixada Fluminense. de Carvalho. dessa ou daquela parte da África. Rio de Janeiro. Mas não contemplavam. ora suas ligações com a sociedade escravista. e A hidra e os pântanos. O centenário da morte de Zumbi não ofereceu novidades.97 exigir dos senhores mudanças nas condições de trabalho. o fato de serem africanos. no início dos anos 1990. "Resistance and accommodation in eighteenth-century Brazil: the slaves' view of slavery" The Hispanic American Historical Review.63 Até os anos 1970 os agrupamentos de escravos fugidos eram vistos em geral como lugares sociais e políticos que se colocavam "fora" do mundo escravista: os fugitivos buscavam o isolamento nas matas. "' Quem furta mais e esconde': o roubo de escravos em Pernambuco. já haviam verificado que as fugas podiam ser instrumentalizadas pelos senhores. 17. como forma de proteger a liberdade conquistada e só retornavam às fazendas e lavouras quando recapturados. . Flávio Gomes documentou as trocas entre quilombolas e taberneiros locais e as relações entre os que estavam nos matos e os escravos que continuavam nas senzalas. nº especial (1978):89-110. ou de serem crioulos pesava pouco na análise empreendida. nem deu margem a um estudo específico sobre Palmares. abordando ora questões da vida interna dos quilombos. que escondiam fugitivos interessados em seu trabalho. Histórias de quilombolas: mocambos e comunidades de senzalas no Rio de Janeiro. assim como no caso da maior parte dos estudos sobre a escravidão. 1 (1977): 69-81. 57 n. 18321855" Estudos Econômicos. 63 Ver. multiplicando os estudos sobre os quilombos em várias regiões e períodos da história da escravidão no Brasil. o panorama mudou por completo desde as pesquisas realizadas por Flávio dos Santos Gomes. Schwartz. Vide Stuart B. especialmente. que depois propuseram um tratado de paz a seu senhor. afastando-se das fazendas e engenhos. As diversas perspectivas de análise se desenvolveram. o tema da cultura e das 61 Um bom exemplo é a fuga dos escravos de Sergipe do Conde. Arquivo Nacional. 1995.ou seja.62 Com relação aos quilombos propriamente ditos. M. 62 Marcus J. Os temas têm variado. Flávio dos Santos Gomes. com outros grupos e segmentos sociais. Ainda que vários deles tenham buscado compreender a lógica dos escravos e dos fugitivos. século XIX. como Marcus Carvalho. Seus estudos abriram a possibilidade de investigar novas dimensões da vida nos quilombos e suas relações com as várias modalidades de fuga.

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heranças africanas não tem sido relevante. Talvez isso possa ser explicado por dois movimentos paralelos. No caso do Brasil, muitos estudos ganharam dimensões políticas mais diretas, ao se conectarem às reivindicações dos remanescentes de quilombos, que foram reconhecidas pela Constituição de 1988. Nesse movimento o termo quilombo se alargou, ganhando novas dimensões, às vezes distantes do significado que ele possuía no século XVII e XVIII. Houve, assim, um novo modo de politizar o tema, levando-o para longe das lides históricas. Por outro lado, em termos mais gerais, tem havido um grande interesse historiográfico pelos processos de contato cultural. Na antropologia e na história os termos mais antigos do sincretismo e da mestiçagem têm sido revisitados, ganhando às vezes novas roupagens e significados. Assim, de modos diversos, a idéia da formação de uma nova cultura no Novo Mundo, proposta por Sidney Mintz e Richard Price nos anos 1970, tem ganhado muitos adeptos, ainda que nem sempre a referência a esses autores seja evidente. A ênfase nos processos de crioulização e formação de sociedades multiétnicas ou multiculturais caracteriza hoje grande parte dos estudos sobre a escravidão nas Américas. Os estudos mais recentes sobre Palmares vão nessa direção. Mesmo concordando com uma predominância centro-africana entre os habitantes dos mocambos, Robert N. Anderson,64 por exemplo, ressaltou que "na segunda metade do século XVII, Palmares era claramente um comunidade multiétnica e praticamente crioula".65 Essa interpretação foi reforçada por alguns arqueólogos como Pedro P. A. Funari, Charles Orser Jr. e Scott Joseph Allen que, baseados na predominância de artefatos indígenas encontrados nas escavações realizadas na Serra da Barriga, acreditam ter documentado a existência de uma população multiétnica em Palmares e discutem sua caracterização em termos de um "mosaico cultural".66
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Robert N. Anderson, "The Quilombo of Palmares: A New Overview of a Maroon State in SeventeenthCentury Brazil." Journal of Latin American Studies 28 (1996): 553-62. 65 R. N. Anderson, "The quilombo of Palmares", p. 559. 66 Pedro Paulo de A. Funari, "A arqueologia de Palmares. Sua contribuição para o conhecimento da história da cultura afro-americana in J. J. Reis e F. S. Gomes (orgs.), Liberdade por um Fio. São Paulo, Companhia das Letras, 1996, pp. 26-51; Charles E. Orser Jr. e Pedro P. A. Funari, "Archaeology and slave resistance and rebellion" World Archaeology, 33 n.1 (jun. 2001): 61-72; e Scott Joseph Allen, "A

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Em outra chave, Flávio Gomes procurou inserir a história de Palmares numa perspectiva atlântica.67 Sua análise valoriza a perspectiva aberta por Richard Price, em Moroon societies, politizada pela abordagem de Paul Gilroy,68 e acrescentada pelos estudos que enfatizam as trocas e os nexos atlânticos.69 Infelizmente, sua obra faz parte de uma coleção que possui restrições editoriais, e se destina a oferecer um panorama abrangente do tema. Assim, ele compensou a ausência de notas de rodapé com a reprodução de vários documentos na íntegra, colocou várias questões e apresentou sugestões interpretativas instigantes, mas não pôde aprofundar nenhuma delas. Os estudos de Robert Anderson e Flávio Gomes mencionam o caminho analítico proposto por Schwartz mas, por motivos diversos, não lhe dão continuidade. Anderson lhe retira a dimensão política, para reafirmar que "a persistência e adaptação de elementos culturais africanos como o quilombo no contexto crioulo afro-brasileiro, de fato, demonstra a continuidade da cultura africana e da cultura da diáspora africana no processo de transculturação ocorrido no Novo Mundo".70 Ou seja, não havia mais uma cultura política, um idioma cultural Imbangala-Mbundo de integração de gente desenraizada que havia se transferido para a América, mas continuidades culturais transformadas pela diáspora africana. Flávio Gomes toma a análise de Schwartz como exemplo das conexões possíveis entre Palmares e o universo africano, colocando diversas questões interessantes sobre a troca de experiências entre as duas margens do Atlântico. Ainda que sejam apenas indicações, suas perguntas indicam que ele pensa em conexões mais diretas, como no caso da circulação de notícias e de pessoas.71 O caminho merece ser explorado, contudo é diverso do apontado por Schwartz. Assim, a tradição que focaliza os aspectos da cultura voltou a ter interesse para os que se dedicam à análise da história dos quilombos e das comunidades de fugitivos. Ela

'cultural mosaic' at Palmares? Grappling with historical archeology of a seventeenth-century Brazilian quilombo" in P. P. A. Funari (org.), Cultura Material e Arqueologia Histórica, Campinas, IFCHUnicamp, 1998, pp. 141-178. 67 Flávio dos Santos Gomes, Palmares, especialmente pp. 13-28 e 116-120. 68 Paul Gilroy, The black Atlantic. Modernity and double consciousness. Londres, Verso, 1993 (trad: O Atlântico negro. São Paulo, Ed. 34/UCAM-CAA, 2001) 69 Luiz Felipe de Alencastro, O trato dos viventes. Formação do Brasil no Atlântico Sul, séculos XVI e XVII. São Paulo, Companhia das Letras, 2000. 70 R. N. Anderson, "The quilombo of Palmares", p. 565. 71 F. S. Gomes, Palmares, especialmente pp. 119-120.

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tem preponderado também nos estudos sobre as negociações com os fugitivos. Com relação a esse tema, no entanto, quase nada há a respeito dos quilombolas no Brasil, ainda que esse seja um aspecto importante na história das fugas e dos fugitivos nas Américas, como veremos a seguir.

2. Pelas Américas A história das fugas e dos quilombos no Brasil está ligada a uma tradição militante que tendeu a valorizar a luta pela liberdade empreendida pelos fugitivos. No caso da história de Palmares, como vimos, tal perspectiva redundou na construção de análises que na maior parte das vezes cultivaram as características heróicas do quilombo e de suas lideranças com o propósito de inspirar outras lutas revolucionárias. Por sua longevidade e pela extensão geográfica que ocupou, Palmares aparece como caso excepcional na história dos quilombos no Brasil. Muitos historiadores já observaram que os quilombos conhecidos foram aqueles destruídos, registrados pelos documentos produzidos pela repressão. De fato. Apenas alguns, mais raros, conseguiram permanecer bem escondidos e escapar das investidas coloniais e imperiais. Poucos remanescentes de quilombos atuais têm suas raízes em quilombos desse tipo - em geral, constituem comunidades que se formaram por outros motivos e que passaram a assumir posteriormente uma identidade quilombola.72 Nesse quadro, as negociações de 1678 aparecem como uma exceção. Também os estudos sobre as fugas e quilombos (ou palenques, cumbes, marrons e cimarrones) nas Américas tenderam a dar menos importância aos acordos de paz. O livro organizado por Richard Price em 1973, no contexto do movimento pelos direitos

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Para uma discussão sobre o tema, ver Hebe Mattos, "Novos quilombos: re-significações da memória do cativeiro entre descendentes da última geração de escravos" in: Ana Lugão Rio e Hebe Mattos, Memórias do cativeiro. Família, trabalho e cidadania no pós-abolição. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2005, pp. 255-301. Ver também José Maurício Arruti, Mocambo. Antropologia e história do processo de formação quilombola. Bauru, Edusc, 2006, bem como os artigos que compõem a parte intitulada "Herança quilombola" na coletânea Clóvis Moura (org.), Os quilombos na dinâmica social do Brasil. Maceió, EdUFAL, 2001, pp. 301-376. Para uma avaliação crítica das tensões entre a análise histórica e a defesa de posições políticas com relação à história dos quilombos e dos remanescentes de quilombos, ver Richard Price, "Reinventando a história dos quilombos: rasuras e confabulações". AfroÁsia, 23 (1999):239-265.

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civis, estava - como ele mesmo diz - "ancorado na crença de que as sociedades criadas pelos fugitivos - no Brasil ou nos Estados Unidos, no México ou na Jamaica - tinham em comum vários aspectos culturais e juntas eram a prova viva e heróica da existência de uma consciência escrava que recusava ser limitada ou manipulada pelos senhores".73 Essa perspectiva valorizava o estudo das lutas empreendidas pelos fugitivos em diferentes lugares das Américas, ao longo de toda a vigência da escravidão e, em especial, das comunidades que eles haviam formado. Como vimos, um dos interesses despertados pelo tema era discutir as características culturais das comunidades criadas pelos fugitivos, para estudar melhor a experiência afro-americana e o modo como as culturas africanas haviam se transformado nas Américas.74 Nessa época, os estudiosos começaram a se interessar pelos Saramaka no Suriname e pelas comunidades maroons da Jamaica. Nos dois lugares, ao longo do século XVIII, os escravos fugidos haviam conseguido resistir a guerras intensas e firmado acordos com as autoridades coloniais, sobrevivendo durante os séculos como povos relativamente independentes, com língua, estruturas sociais e costumes próprios. Mas havia outros casos, e os artigos que compõem a coletânea organizada por Richard Price mencionam vários exemplos de tratados, bem e mal sucedidos, em diversas partes das Américas. Ao longo dos anos, eles despertaram, cada vez mais, a atenção dos pesquisadores. No Brasil, contudo, o tema continuou a suscitar pouco interesse. Na coletânea sobre a história dos quilombos no Brasil, organizada por João José Reis e Flávio Gomes, em 1996, não há nenhum artigo que trate de negociações com fugitivos.75 O artigo do mesmo Richard Price destoa de todos os outros, ao imaginar, com base em seus estudos sobre os Saramaka, como Palmares poderia ter sido se o tratado firmado com Gangazumba tivesse vigorado: "Os homens e mulheres de Palmares chegaram dolorosamente perto do mesmo resultado [que os Saramaka], pois tendo representado uma séria ameaça ao sistema colonial e derrotado, durante sucessivas décadas, ondas
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Richard Price, "Preface to the 1996 edition" in: R. Price (ed), Maroon societies, p. xi. A mesma afirmação aparece, quase que com as mesmas palavras, em R. Price, "Palmares como poderia ter sido" in: J. J. Reis e F. S. Gomes (org.), Liberdade por um Fio, p. 52. 74 Richard Price, "Introduction. Maroons and their communities" in: R. Price (ed), Maroon societies, p. 4. 75 Cf. J. J. Reis e F. S. Gomes (org.), Liberdade por um Fio, passim.

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de entradas organizadas contra eles, poderiam ter conquistado a paz e chegado provavelmente a criar uma vibrante e singular cultura afroamericana".76 Dolorosamente perto de conseguir condições para criar uma cultura vibrante e singular... É a perspectiva americana que certamente possibilita que esse autor inverta o sentido que a maior parte dos historiadores de Palmares atribui às negociações de 1678. De certo modo, para Richard Price, é como se o objetivo final dos movimentos de fuga fosse a formação de uma comunidade de fugitivos forte o suficiente para conseguir conquistar a paz e a estabilidade. Ele não está preocupado com o significado político que os fugitivos podem ter para nós, hoje, mas com o que era importante para as próprias comunidades de fugitivos, segundo a lógica daqueles que fugiam.77 Não por acaso, essa forma de compreender a questão se aproxima de todo o desenvolvimento mais recente da historiografia sobre a experiência dos escravos nas Américas, mencionado há pouco. Tal concepção também está presente no livro recente de Alvin O. Thompson, que faz questão de explicitar que valoriza a luta dos oprimidos diante do que ele denomina de "estados autoritários", ao oferecer um amplo panorama dos movimentos de fuga e das comunidades formadas por fugitivos nas Américas. Dois capítulos dessa obra são dedicados à análise das negociações e dos tratados de paz que, para ele, fazem parte de um quadro maior de estratégias de luta dos escravos, já que estes estavam acostumados a negociar com seus senhores vários aspectos da vida sob a escravidão, a fim de reduzir o peso das condições de vida ou de trabalho ou obter certas regalias. Thompson examina diversos tipos de negociação entre fugitivos e autoridades escravistas, desde aquelas que envolviam diretamente os chefes quilombolas até as que eram feitas por senhores e autoridades coloniais com vistas a alterar suas estratégias e políticas.78 Há, assim, várias possibilidades. Os senhores podiam, por exemplo, oferecer aos escravos (não aos fugitivos) liberdade em troca da revelação de planos de revoltas ou do
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R. Price, "Palmares como poderia ter sido", pp. 57-58. Como já se observou, Flávio Gomes apoiou algumas de suas observações sobre Palmares na obra de Richard Price sobre os Saramakas. Gérard Police aprofunda essa comparação, levantando vários pontos de convergência entre as duas experiências. Cf. Quilombos dos Palmares. Lectures sur un marronnage brésilien. Guyane, Ibis Rouge, 2003, pp. 26-27 e 250-254; e Flávio dos Santos Gomes, Palmares. Escravidão e liberdade no Atlântico Sul. São Paulo, Contexto, 2005, pp. 117-125 78 Alvin O. Thompson, Flight to Freedom. African runaways and Maroons in the Americas. Kingston, University of the West Indies Press, 2006, pp. 265-315. Os próximos parágrafos estão baseados na análise empreendida por esse autor, resumindo suas idéias principais.

aproveitar conjunturas específicas e lidar com os interesses em jogo ou com as diferentes jurisdições talvez fosse algo produtivo. O interessante da análise de Thompson é que ele não leva em conta apenas os interesses senhoriais mas também os dos próprios escravos.103 engajamento em milícias enviadas para prender seus líderes. como no caso de áreas vizinhas sob domínio de nações diferentes. mas indicam que eles tinham certa urgência em chegar a um acordo "amigável".a própria liberdade. insígnias ou favores e privilégios. As negociações resultariam ainda de tentativas de obter alguma recompensa individual . Em vários casos. como assassinatos. anunciadas em editais ou publicadas em jornais e muitas vezes limitavam-se àqueles que não haviam cometido crimes. liberdade apenas para os líderes e seus familiares ou capitães mais próximos. Do ponto de vista dos escravos e fugitivos. ou situações em que havia invasões territoriais e ofertas de liberdade eram utilizadas para angariar adeptos das fileiras inimigas. como aumentar as dificuldades da captura de fugitivos para obter recompensas maiores dos senhores ou das autoridades ou transformando-se de mediadores em caçadores de escravos. liberdade para os nascidos no quilombo em troca da devolução dos escravos fugidos (todos eles ou somente os fugidos havia certo número de anos). que eventualmente aceitavam essas ofertas como uma reação às perdas causadas pelos ataques dos quilombolas a suas roças ou à captura de suas mulheres e familiares. As negociações com os próprios fugitivos podiam envolver tanto indivíduos. haveria até acordos entre as potências imperiais com relação à restituição de fugitivos. os mediadores tiravam algum proveito da situação. etc. por exemplo. esperando ser perdoados sem punição ou negociando com os senhores condições para o retorno às . alguns membros ou toda a comunidade quilombola. Em alguns casos. As ofertas incluíam anistia (com ou sem liberdade) para os que se entregassem em certo prazo. Em alguns casos. para guiar ou compor as tropas expedidas contra os quilombos. Havia também composições que envolviam escravos ou fugitivos e estados escravistas. desertores. As promessas eram feitas por intermediários. Normalmente tais oferecimentos vinham dos senhores e seus agentes. manejando os dois lados para obter vantagens individuais. umas com escravidão e outras em que ela já havia sido abolida. porém arriscado. os fugitivos voltavam de forma espontânea. para quem entregasse ao menos um fugitivo ou para aqueles que servissem de espiões ou guias. postos.

de crises de fome ou epidemias. a obrigação de devolver os escravos a seus senhores. décadas ou séculos. a vida nos quilombos muitas vezes era bem mais atribulada e incerta do que nas fazendas. sobretudo durante os períodos de guerra aberta. o resultado de uma necessidade imperiosa ou uma forma de enfraquecer os fugitivos. com ou sem a presença de padres católicos ou pastores protestantes. Os arranjos eram diversos e dependiam dos envolvidos e das conjunturas: se. o acordo tivesse sido oferecido depois de expedições violentas. Os tratados e acordos de paz propriamente ditos implicavam que as autoridades coloniais reconhecessem os fugitivos como uma comunidade independente. a oferta de anistia para os que voltassem podia ser uma alternativa oferecida pelos governantes. Claro que era possível haver dissimulação e trapaças . de que algum tipo de acomodação era necessária. A mudança do enfrentamento para o diálogo e para o acordo resultava da percepção. enquanto outros duraram anos. mediante pagamento de taxas. e muitas vezes envolviam a confirmação do direito dos fugitivos a certas terras. como o engajamento em milícias especiais ou a possibilidade de comprarem a própria liberdade. Em outros casos.104 fazendas. O ponto de vista dos fugitivos é difícil de ser conhecido e muitos talvez achassem ter conseguido triunfar sobre a vontade senhorial de reescravizá-los. variavam também conforme o tempo que os quilombos haviam conseguido resistir. conforme o que e como os escravos conseguiam negociar os termos da relação de trabalho com seus senhores. ou como alternativa à luta armada. o compromisso de ajuda para conter invasores externos ou para integrar milícias contra novos fugitivos ou aqueles que resistiam ao acordo. Esse talvez fosse mais um motivo para o acordo. Para os escravos. podendo ser considerado uma capitulação. com administração e autonomia judicial. como meio para fortalecer a posição dos cativos na negociação.de ambos os lados. junto com outras. envolvendo toda a comunidade ou apenas parte dela. Para os quilombolas. o acordo podia significar . por parte de ambos os lados. As cláusulas variavam muito. com freqüência incluíam o reconhecimento da liberdade para os que tinham se incorporado ao quilombo até certa data. Muitos previam o estabelecimento dos quilombolas em cidades livres. a proibição de admitir novos fugitivos. por exemplo. Alguns tratados eram negociados porém não chegavam a ser implementados. A avaliação do significado dos tratados também variava. com autonomia política. Algumas fugas eram planejadas com esse objetivo.

Cada um interpretava o tratado a sua maneira. na maioria dos casos. negociar um tratado era reconhecer a incapacidade de vencer os quilombolas pela guerra. O panorama oferecido por Thompson é vasto e para cada possibilidade há sempre um caso concreto como exemplo. caçadores de escravos. senhores de escravos. sem medo de novas taxas para subsidiar as expedições ou ver suas fazendas destruídas pela guerra. Ainda que cada caso tenha suas peculiaridades. soldados. as comunidades tornaram-se dependentes das remessas feitas pelo governo.embora algumas cláusulas eventualmente contivessem limites para o acesso à caça e coleta de produtos da floresta. ao fracasso dos acordos. Podia constituir. pois criavam desigualdades às vezes difíceis de suplantar. muitos interesses estavam em jogo: governo. De modo diverso dos historiadores. Algumas eram motivadas pelas cláusulas acordadas. Eram elas que levavam. no entanto.105 não ter mais que contar os mortos e feridos e conseguir uma situação melhor . sobretudo entre as lideranças dos quilombos. segundo seus interesses. Algumas vezes. mediadores. uma política mais estável de controle sobre os escravos em geral: a capitulação dos fugitivos seria um exemplo de que a liberdade era algo a ser sempre negociado com os senhores. ou a de liberdade restrita a apenas alguns . sem dúvida. E atribuía ao outro (ou aos outros) intenções e motivações diversas . Os exemplos fornecidos por Thompson e pela maior parte da bibliografia que ele discute tratam de negociações e acordos de paz com os mocambos e quilombos ocorridos em sua maior parte no século XVIII. autoridades. mas significava também que. como a de devolução de fugitivos para as autoridades. fugitivos. eles iriam retomar suas vidas e seus negócios.motivo de dissensões freqüentes entre os quilombolas. é possível fazer uma avaliação geral. Para os senhores e autoridades. seus líderes. Poucas são as situações anteriores ao acordo ajustado com Gangazumba. também. e escravos da vizinhança. Com certeza. as pessoas . entre autoridades e entre os próprios fugitivos. mesmo que fossem vistas como presentes ou tributos. em benefício próprio. depois de tratados que incluíam cláusulas de fornecimento de víveres por parte do governo. que percorrem vários séculos e diversas regiões das Américas. uma vez acertada a paz. E. dominar os quilombolas abriria caminho para que suas terras fossem apossadas pelos fazendeiros ou distribuídas entre os soldados.sem contar diferenças internas a cada grupo: dissensões entre senhores.

Flight to Freedom. liderado por Lubolo. suas roças não seriam destruídas e teriam direito de governar sua gente. pp. Puerto Bello e Ballano. 289-290. Instalou-se num povoado defendido por paliçadas e resistiu a duas investidas contra eles. mas eles permaneceram nas montanhas. em 1619. por isso. que não pôde mais usar o título de rei. Em Cartagena. O. perto de Nombre de Dios.80 Na Jamaica. No Panamá. que se decidiram pelo acordo. o grupo diminuiu e acabou se 79 80 A. o governador julgou os custos muito altos e resolveu fazer as pazes com Benkos. Esses tratados continham uma cláusula pouco comum. foram feitos dois acordos com os fugitivos liderados por Darien. foi descoberto por um regimento inglês que lhes ofereceu aliança: em troca de deixar de ajudar os espanhóis. Surpreendido em nova conspiração contra o governador. Price (ed. Lubolo e sua gente receberam direitos civis e terras e constituíram uma milícia que nos anos seguintes acabou colaborando com os ingleses na perseguição aos que recusavam se submeter. Em junho de 1658 um grupo deles. que reconheceram a liberdade de dois palenques. pp. portanto. 77-79 . em 1580. "Palenques en Colombia" in: R. mas indicam que o local ocupado pelos fugitivos foi reconhecido pelas autoridades e que os maus-tratos haviam constituído um ponto importante para as fugas.79 As informações são parcas.106 desconhecem o futuro. cerca de 1. dividindo-se em vários grupos. um antigo rei africano também chamado "el rey Benkos". envolvendo muitos escravos. liderou uma revolta que se estendeu por toda a região. Sem a colaboração dos fugitivos. Domingo Bioho. outras vezes saqueavam as áreas ocupadas pelos ingleses. Depois da morte de Lubolo. quando os ingleses invadiram a ilha. os espanhóis foram rapidamente derrotados. mas pôde usar roupas européias. Benkos foi capturado e enforcado. ficariam livres.500 escravos pertencentes aos espanhóis aproveitaram para fugir. uma avaliação política sobre os custos e benefícios da guerra pelas duas partes. permitindo que os escravos maltratados pelos senhores pudessem comprar a própria liberdade pelo mesmo preço pago pelos senhores ao adquiri-los. Maroon societies. Os ingleses tentaram atraí-los para o seu lado. Algumas vezes guerreavam ao lado dos espanhóis. Thompson. Vejamos algumas das experiências anteriores ou contemporâneas do acordo de 1678.). é preciso prestar atenção à cronologia. Houve. Quando se preparava uma nova expedição. Aquiles Escalante. espada e adaga.

The Maroons of Jamaica. p. cerca de 378 pessoas fugiram durante algum tempo para as montanhas. Granby. 1665-1740" in: R. collaborattion and betrayal. os fugitivos aproveitaram a oportunidade das contendas entre as nações colonizadoras para obtenção de vantagens e direitos. mas não significou que a reintegração dos fugitivos na ordem escravista . .107 dividindo. A calma retornou à ilha. "Slavery and lave revolts: a sociohistorical analysis of the first Maroon War. Price (ed. Maroon societies. 82 Gabriel Debien. Stanford.já que Fabulé passou a servir na casa do governador tenha impedido novas ações. voltou a fugir. A liderança de Lubolo parece ter sido importante tanto para o crescimento do poder dos fugitivos quanto para as negociações visando a manutenção da independência da comunidade e dos direitos conquistados.81 Nesse caso. internando-se nas matas. Fabulé recebeu mil libras de tabaco e o compromisso de que nenhum fugitivo do grupo seria castigado. Negociaram com as autoridades e conseguiram que ninguém seria removido sem permissão. the King and the Royal slaves of El Cobre: negotiating freedom in colonial Cuba. 254-255. na região de El Cobre. Campbell. 2000. Ver também Orlando Patterson. 1670-1780. em que a fuga é um instrumento para negociar com os senhores melhores condições de trabalho e a permanência num certo local. depois de algum tempo Fabulé foi castigado por insuflar uma escrava a matar seu senhor. Thompson.14-25. Enviaram um escravo como intermediário e o acordo foi firmado. The Virgin. Ver também Maria Elena Díaz. Flight to Freedom. A history of resistance. para evitar que muitos fossem transferidos das minas de cobre para as fortificações em Havana. 1988. Mavis C. p. Em 1677. em 1665.82 O episódio é interessante por mostrar que o acordo podia ser uma estratégia em meio a outras. Price (ed. Depois de ser punido pelo delito. Na Martinica. mas porque a própria comunidade se fracionou e se dissolveu.83 Aqui temos uma situação bastante complexa. 108. Stanford University Press. foi capturado e condenado às galés. "Marronage in the French Caribbean" in: R. 1655-1796. especialmente pp. pp. 284. O. O acordo se desfez não por ter sido quebrado por uma das partes. Begin & Garvey Publishers. A vitória dos 81 Cf. em Cuba. 83 A. depois da morte de Lubolo. Maroon societiees. Ele podia colocar um fim às turbulências causadas por comunidades de fugitivos que se fortaleciam.). que só trabalhariam para o rei dois meses por ano e obtiveram terras onde se instalaram com seu próprio cabildo. contudo.). um grupo de fugitivos liderados por Francisque Fabulé fez tantos estragos na ilha que as autoridades resolveram negociar com ele.

Rutas de la esclavitud en África y América Latina. 2001. todos foram acordos relativamente efêmeros. ao terem acesso a terras e representação diferenciada. African ethnicity. México y Colombia" in: Rina Caceres (ed. vários palenques foram destruídos. pp.). localizado a dez quilômetros de Córdoba. La Española. Desde que as plantações de açúcar se instalaram nas terras ao sul do golfo do México. O artigo (pp. mas grupos remanescentes conseguiram se reagrupar em núcleos entrincheirados nas montanhas. Também se comprometiam a capturar e entregar às autoridades os escravos que fugissem e buscassem abrigo no pueblo. Universtiy of New Mexico Press.147-149. Slaves.133-135. Há um episódio. . batizado de San Lorenzo de los Negros. Landers e Bary M. como ainda obtiveram independência política e econômica.). entretanto. depois de resistir a um novo ataque por parte das tropas espanholas. São José. "La cultura material de los cimarrones: los casos de Ecuador. que guarda características mais permanentes e mais próximas do tratado firmado com Gangazumba: é o caso dos fugitivos liderados por Yanga. vide Jane Landers. corporate identity and the evolution of free black towns in the Spanish Circum-Caribbean" in: Jane G. para lá afluíram muitos escravos africanos . a ajudar a Coroa espanhola em caso de ataques estrangeiros e a pagar tributos como todos os demais negros e mulatos forros. Vejamos os detalhes. pois eles não apenas conseguiram seus objetivos. sem intervenção dos espanhóis. A vila foi oficialmente criada por volta de 1630. Eles atacavam os viajantes e os comboios de mercadorias que subiam do litoral para o altiplano e eram rechaçados pelas autoridades coloniais.84 Yanga negociou a paz com as autoridades da Nova Espanha.85 Yanga tornou-se governador desse pueblo. Como se pode verificar por essas breves informações. pp.111-145) oferece uma interessante e detalhada análise do tema. "Cimarrón and citizen.108 fugitivos é grande. Albuquerque. Depôs as armas em troca do reconhecimento da liberdade de todos os que haviam fugido até setembro de 1608 e da fundação de um pueblo livre. 85 Uma transcrição do acordo pode ser encontrada em Jane Landers.e as montanhas serviram de abrigo para os fugitivos. na região de Veracruz. 84 Para uma descrição de uma das batalhas. Editorial de la Universidad de Costa Rica. onde sobreviveram por mais de 30 anos liderados por Gaspar Yanga. Em 1609. 206. na região sul da costa leste do atual México. que contêm uma ou mais variáveis mencionadas por Thompson. subjects and subversives. Robinson (eds. onde se instalaram mais de 500 fugitivos. onde se instalaram com seu próprio governo e justiça. Em 1570.

1519-1650".). que intercedeu em favor deles em várias circunstâncias e o povoado conseguiu sobreviver. "De San Lorenzo de los Negros a Los Morenos de Amapa: cimarrones veracruzanos. Os rebeldes remanescentes permaneceram nas montanhas e em 1743 solicitaram à Real Audiência a sua liberdade em troca da deposição das armas. que sabiam da possibilidade de chegar à liberdade por meio do rompimento brusco das correntes". outros palenques haviam se formado e crescido com o aumento das fugas individuais ou em grupo. "De San Lorenzo de los Negros a Los Morenos de Amapa. in R. até que a traição de um dos levantados levou à prisão dos líderes que foram executados em praça pública em 1737. p.86 A vida em San Lorenzo não era fácil. A rebelião se espalhou com rapidez e tropas foram enviadas para contê-la. que também acabou enforcado na vila de Córdoba.87 Os habitantes de San Lorenzo recorriam ao vice-rei.88 De fato.). pp. prisão do líder. Mas vários deles conseguiram fugir e se esconderam nas montanhas. usurpavam suas terras e perseguiam-nos das mais diversas maneiras. pp. Na mesma região. 161. Maroon societies. 157-174. Muitas foram as batalhas. tentavam impedi-los de fazer aguardente. . N. com novos ataques.e de comerciantes 86 Além do artigo de J. chamado Inácio. para San Lorenzo de Cerralvo. Chávez-Hita. Davidson. Agrediam seus habitantes. no início do século XVIII. marqués de Cerralvo. N. em 1670. Rutas de la esclavitud en África y América Latina. a experiência de Yanga e seus companheiros se tornou conhecida e serviu de exemplo. "Negro Slave Control and Resistance in Colonial Mexico. Os fazendeiros de Córdoba não se conformavam com o acordo.109 mudando depois de nome. Em 1735 eles estavam ligados a uma rebelião de escravos liderados por Miguel de Salamanca. tornando-se um "patrimônio comum de todos os escravos da zona. "De San Lorenzo de los Negros a Los Morenos de Amapa. houve nova tentativa de rebelião. Landers mencionado na nota anterior. O boato talvez tivesse surgido das movimentações de autoridades locais que tentavam negociar com os cimarrones a deposição de armas em troca da criação de um outro pueblo livre. ao que parece movidos pelo boato de que o rei espanhol havia concedido liberdade para os escravos. formando novo palenques. vide David M. 1609-1735" in: Rina Caceres (ed. Outros pueblos libres foram formados na região. Em 1741. pp. 82-103. Price (ed. Chávez-Hita. 87 A.povoado próximo aos palenques .160-161. em honra do vice-rei Rodrigo Pacheco y Osorio. Apesar de contarem com o apoio do alcaide de Teutila . 88 A. como San Miguel de Soyaltepeque. e Adriana Naveda Chávez-Hita.

25. Sem fronteiras. p. 82-92. University of Texas Press. Era de nação Bran e talvez pertencesse a uma linhagem real. "Cimarrón and citizen. http://ospiti. Barbados. ethnicity and regional development. 94 Jane Landers.peacelink. havia pelo menos um grupo de gente vinda de Angola. p. escreveram ao vice-rei solicitando o reconhecimento formal de suas liberdades. 4. . ethnographic. Canoe Press. "Yanga and the black origins of Mexico" The Review of Black Political Economy (2005): 73-77. 26 n. México. e Patrick J. o vice-rei acabou por acatar o pedido e os cimarrones estabeleceram-se no povoado chamado Nossa Senhora de Guadalupe de los Morenos de Amapa. Em 1767. pp. Em troca. conseguiram a liberdade. Austin. Alianza Cien. 258 (mar. para lutar em favor dos espanhóis contra os ingleses. Ver. aproveitando que pessoas favoráveis estavam em postos importantes em vilas vizinhas. a procedência daqueles homens e mulheres não foi determinante para a análise. 121. liderada por Francisco de la Matosa. "Raízes Negras".91 Lá. Finalmente. depois de alguns anos. "The foundation of Nuestra Señora de Guadalupe de los Morenos de Amapa" The Americas. "Cimarrón and citizen. Los 33 negros y otros episodios relacionales. Taylor. Archaeological.it/zumbi/news/semfro/258/sf258p25. p. Eles formavam uma milícia separada. Vide Vicente Riva Palacio. Maroon heritage. Yanga ganhou foros de herói nacional. 1998).92 Yanga havia sido escravizado na África Ocidental. em função dos esforços do historiador e romancista Vicente Riva Palacio.html 93 Jane Landers. formando seu palenque na região montanhosa de Cofre de Perote. 1994. a cidadezinha de San Lorenzo passou a se chamar Yanga e existe até hoje. por exemplo. 92 John Ross. os cimarrones apresentaram-se como voluntários em Veracruz. pp. Há várias reedições.94 Para os historiadores que trataram da história da comunidade de fugitivos e de San Lorenzo de los Negros.110 interessados em seus produtos. respondendo ao chamado do vice-rei. "Maroon heritage in Mexico" in: E. 90 Riva Palacio mergulhou nos arquivos e escreveu uma história de Yanga que foi publicada como parte de uma antologia em 1870 e como uma brochura separada em 1873. Carrroll. a última de 1997.93 Nela.90 Em 1932. embora vários tenham se debruçado sobre o tema com a intenção de participar dos debates sobre a presença dos africanos nas Américas. 89 Sobre o tema ver ainda William B. 126. Race. 1991. 94-108. 1997. Em 1762. Blacks in colonial Veracruz. Sagrario Cruz-Carretero. (1970):439-446. os ataques dos fazendeiros contra os fugitivos continuaram. 91 Há diversos festivais celebrando a memória desses eventos. and historical perspectives. Kofi Agorsah (ed). Escapou com alguns companheiros de Veracruz.89 Cinqüenta anos depois da independência do México. uma enorme estátua de quatro metros de altura sobre um pedestal enfeitado com canas-de-açúcar dá as boas vindas aos visitantes do município. e Joe Pereira.

A aproximação entre a história e as características de Palmares com outras comunidades de fugitivos nas Américas já foi aventada por vários historiadores. Isso aconteceu com Gangazumba. contudo. "Leadership and authority in Maroon settlements". 1 (2004):117-156. Africa World Press. Curto e Renée Soulodre-La France (eds. nem todas as lideranças examinadas reivindicavam descender diretamente de linhagens reais ou afirmavam ter exercido o poder na África. "Leadership and authority in Maroon settlements in Spanish America and Brazil" in: José C. O período da união das Coroas tem sido cada vez mais visitado pelos historiadores. começa a haver um interesse sobre o significado da proximidade da experiência espanhola e portuguesa na administração dos territórios ultramarinos. Agindo como africanos. dedicado a discutir o modo como as lideranças de comunidades de fugitivos legitimavam sua autoridade. 97 Jane Landers. Africa and the Americas. 96 Jane Landers. em geral voltados para questões da história cultural e política. "O governo e a administração do Brasil sob os Habsburgo e os primeiros Bragança".96 Segundo a autora. Em outras. a possibilidade da comparação é um recurso analítico importante.95 Mas nem de longe parece ter tocado no tema da conexão das políticas discutidas nas duas Cortes com relação à escravidão.111 É difícil saber se a experiência de San Lorenzo de los Negros chegou a ser discutida em Lisboa. . Landers aventa a hipótese de Gangazumba e Yanka terem usado os acordos com os europeus para estabilizar sua liderança e dar continuidade à dinastia. no entanto. Hispania¸64 n. Destaco. p. muitos baseados na autoridade dos mais velhos e dos chefes de famílias extensas. cujos filhos puderam herdar seu cargo no governo do pueblo.173-184. Para os historiadores.). entretanto. pp. as relações de parentesco estendiam seu poder sobre várias cidades. no qual compara Gangazumba e Yanga. mas operavam de modo semelhante: mantiveram um poder centralizado e constituíram dinastias reais. como vimos. como no caso de Gangazumba. 181. com milícias separadas como vimos acima. Aos poucos. eles associaram o poder político ao religioso e militar.97 95 Um balanço da produção recente no Brasil e em Portugal sobre esse período pode ser encontrada em Pedro Cardim. as diferenças étnicas puderam ser contempladas. Trento. Interconnections during the slave trade. 2005. Em algumas comunidades. um artigo de Jane Landers . algumas das quais chegaram a ser reconhecidas pelas autoridades coloniais. cujos parentes governavam os mocambos e também no caso de Yanka.

e se ela era mais ou menos africanizada também se tornou um debate permeado por engajamentos diversos. é instigante a eventual conexão entre essas experiências.98 Ao lidar com as permanências e sobrevivências. Do ponto de vista dos escravos. A ênfase em suas características africanas. 3 (2003): 383-419. é menos provável que as informações tenham circulado. selecionados propositadamente entre aqueles que ocorreram no período anterior a Palmares.discutem. e seria interessante verificar . Nas últimas décadas.como sugeriu Flávio Gomes . O próximo item tenta explicar por quê. de todo irrelevante. "O milagre da crioulização: retrospectiva". os historiadores e antropólogos abordam as formas de dominação vigentes no sistema escravista e o modo como os escravos e os fugitivos reagiram a elas . Do mesmo modo. talvez seja mais interessante abordar o tema a partir de outra perspectiva. É pouco provável. Examinada a partir da experiência americana. transformações. Além da cultura A política tem estado presente todo o tempo nas discussões a respeito das comunidades de fugitivos nas Américas. como vimos.se os episódios que mencionamos aqui. o acordo de Gangazumba se torna menos excepcional. cujas negociações se desenvolveram durante o período da união ibérica. mas.112 A possibilidade de comparações entre a história de Palmares e do acordo de 1678 e eventos semelhantes nas Américas é promissora. vide Richard Price. 98 Para um balanço desses debates. Estudos Afro-Asiáticos. Cogitar esta possibilidade não é. . Ao invés de procurar pistas sobre o trânsito das próprias pessoas ou das notícias pelo Atlântico. entretanto. portanto. 25 n. com exceção de San Lorenzo de los Negros. Muitas de suas cláusulas reaparecem em outras experiências análogas. adaptações ou gêneses de culturas nas Américas. saber se os fugitivos recriaram ou transformaram a herança africana que trouxeram consigo. ainda não há pesquisas a respeito. assim como seu abandono para destacar para os aspectos revolucionários da luta contra a escravidão estiveram ligados à defesa de posições políticas. em diferentes áreas de colonização. ou se criaram uma nova cultura. poderiam ter sido conhecidos pelas autoridades coloniais em Lisboa.

Klein. assim como distinguir processos históricos específicos no Novo Mundo. também o próprio conhecimento sobre a África e sobre os africanos escravizados e seus descendentes nas Américas se transformou. entre outros. Linda M. Joseph C.113 o passado. Mintz e R. The Atlantic slave trade. Economic growth and the ending of the Transatlantic slave trade. Thornton. Oxford University Press. trazidos por quais traficantes. para usar um termo de Mintz e Price. Madison. 1988. 2 (abr. 2007 101 S. Price. De uma África mais abstrata e relativamente genérica. O nascimento da cultura afro-americana. Heywood and John K. p. Miller. Nova York. e David Eltis. 1996): 251-288. The University of Wisconsin Press. 2001. antes e depois da chegada dos europeus. Curtin. Central Africans. 53 n. mas de forma limitada. Cambridge University Press. tornou-se possível diferenciar a variedade de situações de contato entre culturas na própria África.99 O debate atual entre os que enfatizam os africanismos ou a crioulização tem levado esses aspectos em consideração. Nova York. dentro e fora da academia . e o recente Linda M. The transatlantic Slave Trade.101 O que tem sido destacado são os valores e costumes cotidianos. Ira. práticas lingüísticas e crenças religiosas. como a que aparece nos trabalhos de Arthur Ramos e Melville Herskovits. Ao mesmo tempo. é possível saber quais "africanos". tem se desenvolvido em termos da "bagagem cultural" trazida pelos escravos. 1527-1867: a database on CD-Rom. no entanto. Hoje não mais se fala em bantus e sudaneses como na época de Nina Rodrigues e há muito a divisão mais ampla entre África Central e Ocidental já não é suficiente. os estudiosos passaram a identificar etnias e contextos históricos de modo cada vez mais preciso. 'From Creole to African: Atlantic Creoles and the origins of AfricanAmerican Society in mainland North America" The William and Mary Quarterly. Brasília. A census.100 Grande parte dessa discussão. O debate sobre as instituições políticas está presente. 51-71. sem mudanças ao longo do tempo. Stephen D. foram levados para esse ou aquele lugar das Américas.). Atlantic Creoles. Merchant capitalism and the Angolan slave trade.e falam do presente. Madison. 1730-1830. entre outros. padrões de relacionamento social e familiar. Ao longo do tempo. David Eltis. "As conexões culturais angolano-luso-brasileiras" in: Selma Pantoja (org. Paralelo/Marco Zero. estão envolvidos no debate mais amplo sobre o lugar das heranças africana ou européia nas sociedades americanas. pp. Entre Áfricas e Brasis. Heywood. com todos os seus desdobramentos político-institucionais. acrescentando-se ainda o fato de que vários africanistas têm discutido os processos de crioulização na própria África. Philip D. 1999. 1969. 1987. 71 . David Richardson e Herbert S. The University of Wisconsin Press. A formulação de Mintz e 99 Ver. Com relação à África Central Ocidental. New York: Cambridge University Press. por que motivos e meios. 100 Ver. Way of Death. and the foundation of the Americas. 1585-1660. Berlin. por exemplo. Behrendt. sem dúvida. Ao mesmo tempo. W. assim como as ênfases políticas variaram.

que é preciso discutir. Príncipes e princesas. O nascimento da cultura afro-americana. dentro das margens de manobra definidas pelo monopólio do poder senhorial". tiveram condições de "compor para si uma ordem social.105 Ao se reconhecerem portadores de uma gramática cultural comum. nos porões dos navios negreiros e durante a vida nas fazendas americanas. ingleses. mas cortes e monarquias. não". W.104 Aos poucos. Formadas por gente diferenciada. 105 S. não. Também nas comunidades de fugitivos esse padrão podia ser observado. Price.. Há um certo padrão cronológico que foi se fixando: os primeiros laços se construíram na travessia do Atlântico.106 Como se pode observar pelo balanço da historiografia realizado no início desse capítulo. estes não puderam transpor o complemento humano de suas instituições tradicionais para o Novo Mundo. no contato com os europeus e sua cultura. .os africanos "provinham de culturas e sociedades diversas e falavam línguas diferentes. ela está baseada na idéia de que "embora imensas quantidades de conhecimento. 104 S. p. etc. mas separada das instituições senhoriais. Mintz e R. O nascimento da cultura afro-americana. 61.114 Price guarda dois aspectos importantes. uma cultura que se desenvolveu dentro do sistema escravista. p. O nascimento da cultura afro-americana. que iam integrando os novos escravos que chegavam àquela comunidade que aos poucos se estabelecia e se desenvolvia. Mintz e R. p. Price. 112. O nascimento da cultura afro-americana. Price. W. (. p. as novas relações sociais e culturais teriam sido "forjadas nas fogueiras da escravidão". supõe a existência de grande diversidade cultural entre os escravos: eram "aglomerados heterogêneos de homens e mulheres"103 arrancados de suas sociedades e vidas cotidianas. W. O nascimento da cultura afro-americana. . pp. Enquanto havia certa homogeneidade cultural entre os europeus . S. os fugitivos também criavam uma nova sociedade.conforme fossem portugueses.) Sacerdotes e sacerdotisas. informações e crenças devam ter sido transportadas na mente dos escravos. amiúde reciprocamente ininteligíveis". 38. Mintz e R. sim. Price. 26. estabelecer laços de solidariedade e criar uma nova cultura. De um lado. Mintz e R.. mas o corpo sacerdotal e os templos. Price. W.102 De outro. 106 S. No momento de 102 103 S. Por isso. entre malungos. W. Mintz e R. eles teriam conseguido. sim. 60 e 61. depois entre os primeiros escravos nas fazendas. essa forma de abordar o tema se tornou predominante entre os historiadores que estudam a experiência de escravos e fugitivos.

as comunidades se constituíam em função da defesa.em geral ou dessa ou daquela região da África. essa proposta analítica tem gerado estudos sobre as identidades. . conflitos entre regimes políticos. os escravos só tivessem trazido formas de viver.107 Não discordo essencialmente dessa forma de abordar a questão. ela abre uma possibilidade de superar a divergência entre a diversidade cultural dos escravos com o corolário da criação de uma cultura diferenciada da africana . conforme avançam os conhecimentos sobre o tráfico atlântico. rivalidades étnicas. por exemplo. Grande parte da discussão tem girado em torno do confronto entre aqueles que acham que esse processo de transformação cultural foi mais ou menos marcado pelas formas da cultura africana . pp.115 sua formação. pensar e agir. a África é um "continente de fronteiras". na qual a integração de povos diversos e desenraizados era parte importante. quando estavam mais frágeis. as formas de coesão dos vários grupos ou sobre os processos de assimilação pelos quais passaram.174. Ao conseguirem se estabelecer. Price (ed).e não simplesmente a continuidade de traços ou elementos culturais. Como observei. O caminho apontado por Schwartz levava em conta a existência de uma cultura política africana. J. Maroons and their communities" in: R. Contudo. e organizavam-se em torno do poder e da autoridade dos guerreiros. p. 108 Jane Landers. Maroon societies. desenvolviam formas mais estáveis e mais crioulizadas. é como se. chegavam eventualmente a negociar com os europeus para se perpetuarem no tempo. Na maior parte das vezes. Landers.108 Para Kopytoff. É uma cultura política que poderia ter presidido as ações dos escravos e fugitivos nas Américas . 107 A tese foi desenvolvida por Richard Price em "Introduction. Há pouco.e a ênfase nas marcas africanas da cultura dos escravos e fugitivos nas Américas. 1-30. Essa proposta está relacionada às teorias de Igor Kopytoff. no qual diferentes tipos de crises (fomes. Se obtivessem sucesso nesse processo. ao atravessar o Atlântico. guerras civis. que têm sido retomadas também por outros autores que lidam com as experiências dos escravos nas Américas. retoma Kopytoff ao analisar as lideranças de grupos fugitivos em várias regiões da América espanhola. "Leadership and authority in Maroon settlements". Uma certa acepção de cultura acabou por se tornar predominante e um modo de apreender o tema se tornou quase uma regra. destaquei a importância da tese proposta por Stuart Schwartz sobre a relação entre o kilombo Imbangala e o quilombo de Palmares.

109 Igor Kopytoff. 287. aqui.111 A parte principal de suas pesquisas dedicam-se a compreender os cultos de aflição no Caribe. dos rituais políticos e religiosos. 1995. do mesmo autor.109 Essa idéia já havia sido utilizada por Stephen Palmié para pensar o outro lado do Atlântico como parte das fronteiras africanas. Ao fazer isso. verificou as possibilidades interpretativas do conceito de Kopytoff. as versões finais desses artigos. Cito. O nascimento da cultura afro-americana. e da autoridade dos que chegam antes ou depois.112 Por isso. 286-300. a ordem social de origem. Utrecht. 1993. 55-67. escritos em 1988 e 1989. as duas abordagens apontavam para a necessidade de prestar atenção em "princípios subjacentes".) The African frontier. 31-44. "African frontiers in the Americas?" in: Wim Hoogbergen (ed. "African frontiers in the Americas?".). ele mudava a chave interpretativa das identidades culturais para formular a questão em termos de sociedade. pp. pp. p. Price. continuidade e ruptura operavam simultaneamente. Born out of resistance: on Caribbean cultural creativity. 110 Stephen Palmié. mas Palmié ocupou-se das comunidades de fugitivos em pelo menos dois artigos. Berlin 1988 Frankfurt. Bloomington. na história cultural afroamericana. assim como a recriação de modelos sociais baseados nas formas tradicionais do parentesco. 1987. de forma mais simplificada. "The internal African frontier: cultural conservatism and ethnic innovation" in: Michael Rösler e Tobias Wendl (eds. não se tratava de opor processos africanos ou de crioulização. ISOR-Publications. Frontiers and borderlands. ou em uma gramática cultural mais ampla que teria permitido aos escravos e aos fugitivos criar um senso de comunidade. Mintz e R. O deslocamento seria constitutivo das sociedades africanas.). First International Conference of the Society of Caribbean Research. aproveitando-se do conceito de Kopytoff. Indiana University Pres. essas novas sociedades reproduzem. 1 . 3-83. e "African States in the New World? Remarks on the Tradition of Transatlantic Resistance" in: Thomas Bremer e Ulrich Fleischmann (eds.). Alternative cultures in the Caribbean. 1999. Vervuert. Peter Lang. nação e estado. Para ele. Ver também.110 Para ele. Anthropological perspectives.116 etc. cap. Frankfurt. mas de pensar como. "The internal African frontier: the making of African Political culture" in: Igor Kopytoff (ed. 111 Stephen Palmié. The reproduction of traditional African societies. 112 S. pp. W. Instalando-se nas fronteiras de sociedades existentes. pp. Neles. que circularam antes como papers.) induzem com freqüência a movimentos populacionais que forçam grupos de africanos a se deslocar e recriar novos laços sociais. Palmié associou as teses de Mintz e Price às de Kopytoff e considerou que os mecanismos que teriam permitido a consolidação de laços entre os que atravessaram o Atlântico e os que fugiam seguiram procedimentos africanos. fez críticas a ele e explorou seu potencial analítico para pensar as dimensões políticas desse processo.

fortalecida por laços de parentesco e descendência. Arquivo Histórico Nacional. os princípios do parentesco renascem. Nesse contexto. as negociações do nganga zumba no Brasil poderiam ser interpretadas como um gesto político para consolidar esse novo estado africano: parte de uma política de estabilização. (trad.o kilombo . ele acrescentou a ela o fato de ser um estado formado por fugitivos. As novas configurações políticas estavam baseadas em certas formas de poder religioso e em títulos e cultos que se rearranjavam para suplantar as linhagens e assimilar heterogeneidades. Assim.113 podia ser vista como uma alternativa institucional "de fronteira" na região angolana. junto com os cultos ancestrais que servem de base para estruturar um novo estado.que se transfere de uma margem a outra do 113 Joseph Miller. que afirmou ser Palmares um estado africano no Brasil ("an African State in Brazil"). Palmié usa a expressão "Brazilian 'Marron State' of Palmares". nganga zumba remeteria mais a um título que a uma pessoa: uma forma de liderança política e religiosa a indicar que a nova sociedade se consolidava . p. e o estado de Kasanje. quando teria prevalecido o estado de guerra. Poder político e parentesco. no Brasil. 114 S. 62. não se trata de uma instituição . 115 S. funcionando como um princípio orientador da sociedade em Palmares. Assim.115 Como na África Central. pensando do ponto de vista institucional.sob a forma de um Estado. Os estados de Matamba. o kilombo teria servido para reagrupar e dar coesão a gente diversa. p. Como se vê. fundado por meio da fusão de elementos Mbundo e Imbangala.até que novas fronteiras se formassem. estudada em profundidade por Joseph Miller. Palmié. eram bons exemplos desse processo.114 Essa instituição poderia ter operado também no Novo Mundo.117 Foi nesse contexto que propôs que a instituição Imbangala do kilombo. para ele. fazendo em seguida re-emergir cultos ancestrais e "fechando a fronteira": reinstalados e reagrupados. capaz de transformar grupos que se deslocavam num espaço político instável em estados. que para ser traduzida perde sua capacidade sintética: ao retomar a expressão usada por Raymond Kent. Palmié. 1995. . Os antigos estados Mbundu em Angola. "African States in the New World?". o aparecimento de cargos políticos revelava o desenvolvimento do processo de estabilização social . 298. diferente da experimentada no início. "African States in the New World?". fundado por Nzinga.) Luanda.

mesmo que "príncipes e princesas" não tivessem sido escravizados. e sem que "cortes e monarquias" tivessem sido transpostos para o Novo Mundo. traziam também em sua bagagem uma cultura política. uma boa maneira de levar em conta processos históricos e não essências identitárias. Palmié escreve quase ao mesmo tempo que Schwartz e os artigos de um e outro são citados por ambos. Ao escrever em 1995. ao serem transportados pelo Atlântico. . Não pretendo entrar na discussão sobre os méritos e problemas da proposta teórica sobre as fronteiras de Kopytoff ou sobre a capacidade hermenêutica de conceitos gerais e abstratos. para ele.118 Atlântico. um modo de criar sociedades e de organizá-las certamente pôde acompanhar os homens e mulheres na diáspora. 296. Em segundo lugar. a reflexão realizada por Stuart Schwartz e Stephen Palmié reconhece que os africanos. segundo moldes africanos. ficando difícil distinguir as duas propostas. p. além de proporcionar mais espaço para a análise da mudança e da transformação elementos tão caros à análise histórica. Palmié.em particular ao tratarem das rebeliões. Caminhar nessa direção é. Em primeiro lugar. Alguns historiadores já exploraram a dimensão política das instituições dos escravos . depois portanto da versão final do artigo de Schwartz. ele observa porém que há muitas diferenças entre o kilombo Imbangala e o quilombo de Palmares e que esse pode ter sido um dos modelos políticos utilizados pelos quilombolas. Além de portadores de "imensas quantidades de conhecimento. Palmié incorpora várias de suas observações.116 Creio que se trata de fato de um bom caminho. O caminho não é novo. Ela me parece ser importante por dois motivos. Para retomar a formulação de Mintz e Price. "African States in the New World?". informações e crenças" eram também sujeitos políticos. para construir uma formulação que julgo importante. Ao concordar com Schwartz. em versões preliminares. mas de um procedimento político mais amplo. Para ficar com 116 S. essa abordagem permite explorar outras formas de conexão entre a experiência africana na África e nas Américas. Prefiro reter a proposta de ir além da cultura pensada em temos de identidades étnicas (que tendem a ser tratadas de modo essencialista) para enfatizar a cultura política. que fornece uma gramática tanto para a formação dos laços de coesão entre os fugitivos como para sua modificação e para a formação de um Estado.

Rebelião escrava no Brasil. entretanto.119 autores brasileiros. Reis. 119 J. 2003. como os 117 João José Reis.muçulmanos nagôs . e sobre práticas escravas. 282. mostrando como as identidades religiosa e étnica dos africanos vindos da África Ocidental moldaram tanto o modo como viveram a escravidão na cidade da Bahia. Como afirma o próprio autor. São Paulo. Os principais líderes da revolta eram nagôs. A história do levante dos malês.119 Reis não faz qualquer referência às teses de Schwartz. A segunda edição. mas ajudou a diferenciar africanos e crioulos e fez com que os malês . Palmié ou Kopytoff . Robert W. no entanto. Slenes estudou a formação de uma "proto-nação bantu" no Sudeste do Brasil na primeira metade do século XIX. Ao compartilhar a experiência comum do tráfico e da escravidão em áreas rurais do Rio e de São Paulo. acrescentando novos capítulos sobre o tema. a revolta foi escrava .os senhores brancos da Bahia.mesmo porque seu objeto é outro. São Paulo. Se de início sua pesquisa voltou-se para aspectos mais culturais. que foi profundamente marcado pelo islamismo. Essas identidades. revista e ampliada (São Paulo. p. 247. Esse. não apagou as marcas étnicas. são as questões relacionadas à formação da força política capaz de alimentar a rebelião (fundada nesse caso em elementos religiosos e étnicos) que orientam a investigação e a interpretação daquele movimento social. Companhia das Letras. Rebelião escrava no Brasil. Slenes. por sua vez. quanto o modo como se revoltaram. Rebelião escrava no Brasil. p. Companhia das Letras.118 Mais que étnica ou religiosa. O primeiro estudou a revolta dos malês em 1835 na Bahia. e havia forte participação de haussás. destaco os estudos de João José Reis e Robert W.um movimento de indivíduos escravizados que buscavam a liberdade e tinham pela frente um poderoso inimigo . 2003) aprofundou a análise dos elementos religiosos e étnicos do movimento rebelde. africanos de várias etnias. 118 J. não foram suficientes para definir o caráter do movimento. . porém. Brasiliense. Em sua análise. como a formação de uma língua franca. Reis. 1986.dessem o tom ao movimento. "é inútil delimitar em casos como este a fronteira exata entre religião e rebelião". J. de línguas e costumes diferentes (mas na maior parte bantus) descobriram paradigmas culturais comuns e criaram uma nova identidade capaz de lhes permitir viver na escravidão e enfrentar os senhores. do kikongo e do umbundu.117 Não eram simplesmente "africanos": as diferenças étnicas e religiosas entre eles foram cruciais para as duas experiências. J. baseada no substrato lingüístico comum do kimbundu.

no 120 Cf. Vassouras. 67/68. Elisée Soumoni e Boubacar Barry (eds). A versão mais acabada do estudo sobre os jongos aparece em “‘Eu Venho de Muito Longe. 1949. n. relacionados a situações de crise) realizados por Beatriz Kimpa Vita e seus seguidores no Kongo do século XVIII.121 Também Slenes não faz referência aos autores mencionados acima. no contexto da escravidão. no início do século XX. ca./fev.120 ela aos poucos avançou para o terreno da política. Vide também “L’Arbre nsanda replanté: cultes d’affliction kongo et identité des esclaves de plantation dans le Brésil du Sud-Est entre 1810 et 1888” Cahiers du Brésil Contemporain (EHESS. 2007. p. Slenes. Livro-CD. pp.1991-92): 48-67. João José Reis e Robert W. 1700/1850" in: Livio Sansone.120 jongos. "'Malungu./jan. ngoma vem!': África coberta e descoberta no Brasil" Revista USP. além dos cultos praticados pelos escravos de Vassouras e Valença que planejaram uma insurreição no Vale do Paraíba em 1848. Slenes analisam contextos escravistas bem diferentes da realidade da escravidão em Pernambuco no século XVII. Africa. Trenton. Robert W. que precisa ser levada em conta no caso de Palmares. procurando na experiência africana elementos desse modo de agir que podem ter ocorrido entre os escravos no Brasil. Rio de Janeiro: Folha Seca/Cecult. e em S. 2008. traços culturais dessa ou daquela nação ou etnia. seguindo modelos africanos. 109-156. Roque. Slenes. "Saint Anthony at the Crossroads in Kongo and Brazil: ‘Creolization’and Identity Politics in the Black South Atlantic. analisar uma gramática política que esteve baseada em práticas e instituições africanas específicas que informaram um modo particular de alguns africanos. p. Eu Venho Cavando’: Jongueiros Cumba na Senzala Centro-africana” in: Silvia Hunold Lara e Gustavo Pacheco. Paris). cujos sentidos nem sempre são fáceis de compreender à primeira vista. as gravações históricas de Stanley J. . (orgs. Memória do Jongo. 121 Robert W. que interessou a esses autores. Mas aqui se trata de sublinhar como instituições sociais e religiosas serviram de esteio para ações politizadas. Brazil and the constructions of trans-Atlantic Black identities.209-236. em situações históricas determinadas. é o modo como esses elementos se articularam. assim. Evidentemente. mas sua pesquisa está orientada pela necessidade de pensar religião e política em conjunto. a política faz parte da cultura. que permitiam uma comunicação entre os cativos distante da compreensão senhorial. tem explorado em perspectiva comparativa os significados políticos dos cultos kimpasi (cultos comunitários de aflição. aqueles praticados pelos membros da Cabula no Norte do Espírito Santo. Uma das grandes diferenças é o fato de a escravidão. 12 (dez. no sentido mais amplo. armarem planos e revoltas contra a escravidão e seus senhores. Esses dois autores buscam.). Stein. Mais que formas ou crenças religiosas. Africa Worls Press. 217-313. Em trabalhos mais recentes. em meados do século XIX.

. S. Formação do Brasil no Atlântico sul. com implicações teóricas que não vou discutir aqui. Paulo. O trato dos viventes. Para uma análise clássica e marcante da colonização portuguesa moderna ver Fernando Antonio Novais. Alameda Casa Editorial. No caso português. Silvia Hunold Lara. vide Luiz Felipe de Alencastro. S. 2. o enquadramento mais geral não pode ser tratado como simples moldura. que incorporou novas áreas "além-mar" ao domínio europeu. evidentemente. Hucitec. Se se pretende investigar gramáticas políticas. modos diversos de abordar o tema. Dito de outro modo. 1979. esse processo envolveu a formação de um império colonial. Modos de Governar. Paulo.123 Não se trata apenas de incorporar o tráfico negreiro como parte importante 122 Há. econômicos e culturais que estiveram em jogo no processo da dominação e exploração das riquezas do Novo Mundo pelos europeus. especialmente cap. São os mecanismos administrativos e os modos de governar as áreas coloniais que têm interessado a maior parte das investigações. no qual territórios espalhados pelos quatro cantos do mundo. Companhia das Letras. 2005. 123 Cf.122 Grande parte da literatura que trata do tema em relação ao processo da expansão e da colonização portuguesas tem se dedicado a analisar seus aspectos econômicos ou como as forças políticas se articularam para controlar os novos territórios e explorá-los. estavam articulados. XVI-XIX). Esse contexto certamente faz parte do campo empírico que está sendo examinado aqui e deve ser levado em conta para aprofundar a discussão. o significado da escravidão e da experiência escrava não tem sido levado em conta na análise das questões políticas imbricadas na história do império colonial português.121 século XVII. Para um exame dos nexos coloniais no século XVII português. habitados por uma diversidade de povos. Como já observei mais extensamente em outro lugar. Paulo. O fenômeno histórico que enquadra a questão que se está discutindo é o da expansão européia moderna. 21-38. pp. ao buscar a gramática política africana em ação no processo de formação e desenvolvimento de Palmares é importante pensar que nem a África nem os mocambos estavam isolados ou excluídos desse contexto mais geral. estar articulada aos mecanismos mais amplos da colonização moderna. Séculos XVI e XVII. "Conectando Historiografias: a escravidão africana e o antigo regime na América portuguesa" in: Maria Fernanda Bicalho e Vera Lúcia Amaral Ferlini (orgs. Não há dúvida a respeito das tensões e dilemas que a dominação colonial fez brotar e os historiadores não se cansam de debater a natureza dos vínculos e dos nexos políticos. Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777-1808). S.). Idéias e Práticas Políticas no Império Português (sécs. 2000.

John Thornton. econômicas e políticas parecidas o suficiente para que os membros de uma e outra sociedade pudessem operar com certa familiaridade. mesmo enfatizando o convívio de africanos de origens diversas. "Early Kongo-Portuguese relations: a new interpretation" History in Africa. Em primeiro lugar. mas de verificar qual o peso que as políticas africanas de um lado e de outro do Atlântico tiveram na constituição das políticas coloniais . não deixaram de mencionar as tensões do contato cultural entre africanos e europeus nas Américas. destaco três pontos que considero importantes para a análise que desenvolvo aqui.na África e no Brasil. no contexto dos impérios coloniais da época moderna. Na abordagem desse tema. afetadas por períodos de fomes e pestes.122 dos mecanismos da exploração colonial ou de enfatizar os nexos econômicos e políticos entre a África e o Brasil. deve-se levar em conta que culturas diferentes. .que não quer dizer somente entendimento e concordância. apesar de Portugal possuir mercadorias diferenciadas e técnicas mais eficazes que o Kongo. Para não me estender em demasia com observações genéricas e abstratas. é bastante freqüente partir do princípio de que havia uma diferença radical entre europeus e africanos. ambos os reinos tinham basicamente o mesmo nível econômico.que dialogar. o modo como povos e civilizações diversas foram forçados a entrar em contato com os europeus variou bastante. com taxas de produtividade semelhantes.com maior ou menor tensão . Mintz e Price. Eram as diferenças nas técnicas de transporte e nas táticas militares. mas comunicação. tiveram . de algum modo. pois aponta a similitude entre a monarquia portuguesa e conguesa no século XVI. bem como nas armas e nos 124 Cf. é preciso conceder a eles a condição de sujeitos políticos atuantes no processo mais amplo da colonização. Thornton volta à documentação quinhentista para mostrar como Portugal e o Kongo possuíam estruturas sociais. Para pensar a política. Uso a palavra aqui no sentido amplo . 8 (1981): 183-204. nos dois lados do Atlântico. Além disso. Há entretanto um artigo de John Thornton em direção contrária.124 Para contestar o anacronismo presente em várias análises das relações entre portugueses e o reino do Kongo. Se buscamos enfatizar que os africanos também traziam em sua bagagem uma cultura política.

uma linguagem política e institucional documentada nas fontes que também é preciso 125 126 J. pp. baseadas no ouro e na prata em Portugal e em tecidos específicos e conchas nzimbu no Kongo e cowri para trocas de longa distância. eram equivalentes nos dois reinos e o fato de Afonso I se intitular "rei do Kongo e senhor dos Ambundos" mostra que a correspondência podia ser reconhecida por ambos os lados. "Early Kongo-Portuguese relations". 127 J.123 tecidos portugueses que interessavam ao reino do Kongo e foram incorporados pelos congoleses. Estamos.e o modo como sua forma e linguagem se encaixavam na sociedade portuguesa e congolesa. nobreza e vassalagem. Thornton. não apenas aquele que considera os africanos de um lado e os europeus de outro.127 Há. em que estão presentes conflitos de hierarquia e jurisdição entre governos. . Para evitar o anacronismo e a projeção de contextos posteriores na análise do século XVI. mas envolve também algum tipo de relação com gramáticas européias. num outro patamar da análise da política. o fato de o ngola ser chamado de "rei" não era apenas retórica. clientelismo e influência dominavam o sistema político".mais especificamente da troca de cartas entre o Kongo e Portugal. a gramática política africana não é exclusivamente "africana". portanto. portanto. Thornton. Do mesmo modo. Além disso. chamo a atenção para o fato de que a análise de Thornton deriva de uma leitura cuidadosa das fontes administrativas .126 As observações de Thornton são importantes. 193-197. pois abrem a possibilidade de entender as relações entre os portugueses e o Kongo a partir de um novo prisma. mas uma forma de interação política e cultural entre eles que ajudou a moldar e conformar o processo pelo qual a expansão colonial pode ser realizada na África. por exemplo. Ambos os reinos possuíam sistemas monetários que possibilitavam redes extensas de comércio. "Early Kongo-Portuguese relations". ele leva em conta o contexto social no qual essa documentação foi gerada e para quem ela foi escrita . mas descrevia tanto as relações internas entre o rei do Ndongo e seus vassalos quanto entre eles e os portugueses. Thornton. Isso significa também dizer que.183-186 e 197-198. especialmente pp. Em segundo lugar. os dois reinos "eram monarquias governadas por um rei e por uma classe de nobres na qual as relações de parentesco. 186. "Early Kongo-Portuguese relations". a partir do século XVI.125 Os conceitos de soberania. J. especialmente. p.

mas da perspectiva da política . para pensar em diferenças sociais e políticas. há que se levar em conta que. bem como outros artigos do mesmo autor em E. não falo do ponto de vista cultural. há diferenças e divergências entre grupos na colônia. mais uma vez. trata-se de explorá-las também do ponto de vista das ações dos africanos em contato com os europeus.124 conhecer. Revista de História. especialmente pp. senhores e escravos. Os autos de vassalagem e a vulgarização da escrita entre as elites africanas Ndembu". no interior dessas categorias. (trad. as relações de poder estão diretamente ligadas ao modo como a produção e a distribuição das riquezas ocorrem em uma certa sociedade. das relações de dominação. Paulo. 2002. mesmo que elas não se expressem em termos classistas.e políticas. 155 (2006): 81-95. e Catarina Madeira Santos. Ao invés de postular o eurocentrismo presente na produção dessas fontes. "Eighteenth century English society: class struggle without class?" Social History. como metrópole e colônia. entre africanos e entre escravos. há diferenças sociais . Dessa vez. do mesmo modo. 1998. Costumes em comum. é preciso lembrar das lições mais singelas da análise social: nem todos os homens e mulheres são iguais. 129 Sobre o tema. 128 Essa perspectiva tem sido explorada com resultados muito interessantes por Ana Paula Tavares e Catarina Madeira Santos (orgs. Em particular quanto a esses dois últimos. Thompson. Mais uma vez. nem todos os europeus são iguais.) S. africanos e europeus. 471-533. Thompson.ou seja. 3 (maio 1978): 133-165. Como sabemos. .). ver E. ao contrário do primeiro capítulo.129 Grande parte da análise do processo da colonização do Novo Mundo tem sido realizada por meio da oposição de categorias genéricas. nem todos os senhores exploram seus escravos da mesma forma. A apropriação da escrita pelos africanos. "Escrever o poder.128 Por fim. Instituto de Investigação Científica e Tropical. Lisboa. Companhia das Letras. em busca de elementos que permitam compreender as diversas gramáticas políticas acionadas no contexto em que Palmares se formou e negociou com o governo de Pernambuco. Africae Monumenta. O próximo capítulo procura navegar por esses mares. P. Se o problema é pensar as relações de dominação. é preciso ir além da diversidade de culturas. em terceiro lugar. Nem todos os interesses metropolitanos são convergentes. a balança penderá para o lado dos escravos. P.

Cada peça do conjunto oferece um ponto de vista bastante circunstanciado dos fatos. Não poucas vezes.125 Capítulo 3 CONJUNÇÕES A documentação administrativa produzida pelo processo colonizador português no século XVII é essencialmente dialógica: cartas. de modo a iluminar tanto as palavras quanto os acontecimentos. Esse é o caminho para compreendê-los sem projetar nos homens do passado nossas próprias idéias e lógicas. relatórios. ao explorar os laços que unem as duas margens do Atlântico no século XVII. . O procedimento é arriscado. pois se pode perder tanto a possibilidade de acompanhar mudanças ao longo do tempo quanto de captar a diversidade das vozes que. O exercício analítico experimentado nesse capítulo pretende escapar da armadilha. os historiadores são tentados a somar as informações produzidas por gente diferente. Para ler essas fontes de uma perspectiva histórica é preciso ir muitas vezes do contexto ao texto e vice-versa. estão registradas na documentação. carregando notícias. de um modo ou de outro. juízos políticos. em conjunturas diversas. na direção das Conquistas e do Reino. queixas e demandas. instruções e ordens que circulam entre diversas partes do império. essas fontes trazem dados sobre muita gente e situações variadas. para construir um panorama uniforme e coerente. Ainda que tenham sido produzidas por um grupo pequeno de pessoas.

Documento anexo à carta do governador Aires de Souza de Castro de 22 de junho de 1678. as relações de parentesco e o lugar que ocupam na hierarquia política e militar dos Palmares. seus sobrinhos. relações de parentesco.2 . Ao mesmo tempo. que foram "alguns negros" que se esconderam naquele "inculto e natural couto". fl. Tuculo. BPE. 2 "Relação". n. "Relação do que se passou na guerra com os negros dos Palmares nos sertões de Pernambuco". 55v. para avisar sobre a possibilidade de um acordo. 9.2 . Cx.2 . n. CXVI . O cronista indica. mas há outros bem mais familiares. chefes de mocambos: seus nomes são conhecidos pelo cronista de 1678 e aparecem em vários outros documentos da correspondência oficial da capitania de Pernambuco e do Conselho Ultramarino.a.13 . pois algumas vezes foi preciso diferenciar os "negros cativos [existentes] nestas capitanias" de 1 Cf.1 Esses não são nomes próprios usuais em português.13 . por exemplo.a. Transcrito no anexo 5. CXVI . 9. enviou "Mateus Zambi e sua mulher Madalena Angola. cod. Gangazona. Pacasa. e João Tapuia e Ambrósio Negro. ambos de maiores anos [idosos]. São anotados os nomes. Dambi. 56v. se chamavam Amaro e João Mulato. Dambiabanga. 3 "Relação". sua mãe. fls. Acainene.2 Havia ainda Gaspar. 55v-56. n.4 Esses registros documentam a existência de um conhecimento bastante grande sobre a vida nos Palmares por parte das autoridades coloniais quanto a nomes. "ambos capitães afamados naquelas campanhas e entre aqueles bárbaros". Os negros do Palmar Gangazumba. Andalaquituxe e Zumbi. hierarquias políticas e cargos militares. Um dos prisioneiros é designado como "Gangamuissa mestre de campo de toda a gente de Angola e genro do rei. seu irmão.13 . 4 "Cópia do papel que levaram os negros dos Palmares". A palavra "negro" tem aqui um sentido genérico. não sendo sinônimo de escravo ou de fugitivo. casado com duas filhas suas". 11. "capitão da guarda do rei". Fernão Carrilho. rei dos Palmares. BPE. D.126 1. o autor anônimo da crônica e as autoridades que redigiram as cartas e demais documentos administrativos também se referem de modo mais genérico aos "negros dos Palmares". fl. . AHU_ACL_CU_015. cod. CXVI . Osenga. no acordo feito no Recife em 1678.3 Os cativos que foram especialmente agraciados com a alforria.a. 1116. os quais são sogros de um dos filhos do rei". cod. por exemplo. BPE. grandes potentados. ao fugirem dos castigos de seus senhores. seu filho. 9.

9. foram enviadas pessoas para viver com os fugitivos. 56 (1902): 87-96. 1116. traduzir esse texto para mim.7 é quase certo que grande parte dessas informações tenha sido obtida por meio dos relatos. entrada 1. pp. geralmente denominado na documentação como os "negros dos Palmares" ou os "negros levantados do Palmar". .05. CXVI . coleção OWIC (Oud West Indische Compagnie). dos negros do terço que foi de Henrique Dias.8 Houve iniciativas semelhantes do lado das autoridades pernambucanas e dos interessados em 5 6 "Relação".a. Itatiaia/Edusp. 11. 7 João Blaer. AHU_ACL_CU_015. O procedimento foi utilizado amiúde no processo da expansão européia. "Cópia do papel que levaram os negros dos Palmares". Belo Horizonte.ou seja. História dos feitos recentemente praticados durante oito anos no Brasil. Se é pouco provável que a narrativa feita pelos comandantes das expedições holandesas enviadas aos Palmares em 1644 e 1645 tenha circulado entre as autoridades em Pernambuco e Lisboa. eles se distinguiam da "gente preta que obra debaixo da nossa obediência"6 . A tradução feita por Alfredo de Carvalho apresenta ligeiras modificações em relação ao texto original.01. documento 47. Transcrito no anexo 5. No caso de Palmares. Tanto as informações detalhadas quanto as qualificações mais genéricas indicam que as autoridades coloniais consideravam os "habitadores dos Palmares" como um grupo específico. D. que está no Arquivo Nacional em Haia. n. "Diário de viagem do Capitão João Blaer aos Palmares em 1645". "para que depois de ficar-lhes conhecendo os lugares e o modo de vida.5 Em alguns casos. passim. cod. Cx. 1974.13 . Agradeço muitíssimo a Mariana Françozo. escritos ou não. o expediente foi usado também pelos holandeses. cotejar. O conhecimento que tinham sobre eles acompanha a construção da própria nomenclatura utilizada no circuito da administração colonial para designá-los.127 outros. 8 Gaspar Barléu [Caspar van Baerle]. dos soldados que subiram as serras para tentar destruir os mocambos. aprender seus costumes e saber a localização dos mocambos. já que Gaspar Barléus menciona um certo Bartolomeu Lintz. inventário número 60. como os que estavam "levantados" nos Palmares. que generosamente usou seu tempo de pesquisa para ler. bem como descobrir os melhores caminhos para atacá-los.2 . 253-254 e 304-305. por sua desobediência. Em algumas ocasiões. BPE. Documento anexo à carta do governador Aires de Souza de Castro de 22 de junho de 1678. RIAHGP. que teria vivido entre eles. como testemunham os muitos indivíduos "lançados" pelos portugueses nas duas margens do Atlântico para permanecer entre os nativos e depois servir de intermediários entre eles e os comerciantes e colonizadores.01. atraiçoasse os antigos companheiros e servisse de chefe da presente expedição" de Roulox Baro.

Mercado Aberto. principiaram [a existir] os habitadores dos Palmares". O cronista de 1678 registra que desde que "houve negros cativos nestas capitanias. Palmares.10 sem dar maiores detalhes. Décio Freitas. p.13 cabe observar que essas evidências são vagas e se referem ao Estado do Brasil. de 1588. RIHGB. 5. 2005. n. trabalham. Contexto. 67 n.128 vencer os Palmares. reescrita. ao propor seu plano para destruir Palmares. Infelizmente não consegui localizar o original. No regimento do governador Francisco Geraldes. mencionou haver "negros de Guiné alevantados" que habitavam "algumas serras" no Estado do Brasil. 141-142. 2004. 10 "Relação". o provincial da Companhia de Jesus. e Flávio dos Santos Gomes. Porto Alegre. República de Palmares. 48. D. CXVI . Pesquisa e comentários em documentos históricos do século XVII.a. BPE. 9. sem precisar qualquer região específica. De fato. já que as fontes são em geral convergentes. Escravidão e liberdade no Atlântico Sul. 13 Ver. em 1597. de 1º de maio de 1597. por exemplo. São Paulo. Maceió. .12 Ainda que alguns historiadores utilizem esses documentos para registrar a existência de mocambos na região onde floresceu Palmares desde o final do século XVI. No circuito das autoridades que lidavam com os assuntos das conquistas portuguesas.13 . durante a permanência na capitania do recém-nomeado 9 Consulta do Conselho Ultramarino de 8 de novembro de 1677. 1984. Ivan Alves Filho. Manuel Inojosa.11 Como vimos. casam e governam. 20 (1898): 255. o rei indica ser preciso acabar com os "negros de Guiné e Angola [que andam] levantados". procurou se informar dos seus costumes. Um dos pareceres do Conselho Ultramarino que examinou sua proposta menciona ter ele mandado "um negro seu escravo com promessa de alforria a que fosse viver entre os ditos negros fingindo fugir ao cativeiro e assim lhes entrando na confiança tomar notícia sobre o modo como vivem. fl.9 Colhidas e acumuladas de modos diversos. [1973]. Freitas. 1988. Memorial dos Palmares. A primeira menção a "negros levantados" em Pernambuco é de 1602. ABN. Palmares. Rio de Janeiro. 5ª ed. as informações sobre os negros dos palmares parecem ter constituído um certo conhecimento. Xenon. pois com saber dos negócios do inimigo se facilita o sucesso da guerra". cod. 11 Traslado do regimento que levou Francisco Geraldes que sua magestade ora mandou por governador do Estado do Brasil em março de 88. o período de formação dos mocambos não é identificado de maneira precisa. A guerra dos escravos. 12 Carta do Padre Pedro Rodrigues.2 . pp. p. Edufal. há menção a vários mocambos nas áreas açucareiras do Estado do Brasil desde o final do século XVI. 29. provincial da Companhia de Jesus. 57v. revista e ampliada. 1 (1906): 224. p.

para completar os 50 negros necessários para o funcionamento de cada engenho. está um sítio entre umas serras a que chamam Palmares. Melhoramentos. escravos desta capitania e depois.16 Apenas em 1612.15 Cabe observar que. 1962. apesar de se referirem a Pernambuco. Observou entretanto que logo o número de escravos ficava reduzido a "menos [d]a metade. com assaltos e correrias que fazem. Como já observaram alguns historiadores. fugindo do trabalho. e são tantos os que desta maneira andam que fazem aldeias e andam levantados. 5.14 Em 1608. 15 Carta de Diogo de Meneses de 23 de agosto de 1608. ao qual ordinariamente se acolhem. ABN. já que "dela redundou serem os inimigos desbaratados com dano e perda de muita gente [que foi] morta e cativa". Diogo de Campos Moreno foi mais preciso: "Nesta capitania [de Pernambuco]. a 30 léguas ao sertão. de que os moradores desta capitania recebiam dano e opressão pelos muitos roubos e latrocínios que faziam e contínuos assaltos que davam". Francisco Adolfo de Varnhagen. Botelho teria mandado fazer uma "entrada pelo sertão dentro aos palmares.129 governador do Estado do Brasil. ficando Pernambuco "livre por ora das insolências desses alevantados". que permaneceu alguns meses em Pernambuco antes de seguir para a Bahia. obrigam os brancos a que os busquem com mão armada. ao escrever seu relato sobre as capitanias do Brasil. Manuel Mascarenhas Homem. Diogo Botelho. Segundo Varnhagen. logo se tornam para a mesma parte. Anderson. entre abril de 1602 e setembro de 1603." Journal of Latin American Studies 28 (1996): 551. algumas vezes. porque fogem e metem-se pelos matos. mais uma vez não há qualquer menção explícita sobre a localização dos mocambos. não 14 Certidão de Manoel Mascarenhas Homem de 29 de junho de 1603. 1 (1910): 36-39. Botelho permaneceu na capitania de Pernambuco. Segundo o relato do governador de Pernambuco. ed. . porém. o novo governador do Estado do Brasil. 73 n. "Palmares: An African State in Brazil" Journal of African History. e ninguém pode com eles e podem crescer de maneira que custe muito trabalho o desbaratá-los deste particular". RIHGB. o termo "palmar" ou "palmares" aparece muitas vezes na correspondência oficial para designar as áreas cobertas por palmeiras nas regiões de Alagoas e Pernambuco. 244-245. antes de ir à Bahia. São Paulo. A "jornada" fora vitoriosa. 16 Raymond K Kent. tanto que os soltam e os trabalham. mencionou que nessa capitania os homens investiam toda a sua fortuna na aquisição de "negros da Guiné". pp. onde estava cópia de negros levantados. do que sucede trazerem muitos. vol. História Geral do Brasil [1854] 7ª. 6: 2 (1965): 164 e Robert N. 57 (1939): 37-39. "The Quilombo of Palmares: A New Overview of a Maroon State in SeventeenthCentury Brazil.

a. ao indicar os nomes daqueles "distintos palmares". 18 "Relação". nem quaisquer mocambos. (ed.17 Como se vê. Gaspar Barleo o declara.13 . Arquivo Público Estadual.). porque sucede que os insultos que os vadios acometem. p. Rio de Janeiro. A insistência com que os relatos desse período mencionam os assaltos dos escravos e a dificuldade de serem contidos talvez explique a fama desses levantados que se escondiam naqueles palmares e. de que estamos tratando aqui. et Nigritas contubernia. Palmares começou a ser. BPE.19 Ao tornar-se um grupo específico e localizado. havia um que se distinguia pelo costume de ali se abrigarem os escravos. 20 G. Barléus registrou dois Palmares. já que o Vocabulário de Bluteau registra que a palavra quer dizer "campo onde nascem palmeiras". Coimbra. 497. Palmares. não só significa campo. pp. um contingente populacional. e assim ficam sem castigo". Mesmo assim. pag. Bluteau cita Barléu. lançam a fama aos dos Palmares. 19 Pe. tom. 2. pelo que não faltam desordens e queixumes. que são as suas fazendas. Conquist. O verbete menciona ainda que. cod. mas também aldeia e casa dos moradores daquelas terras que de ordinário fazem as suas povoações em campos abundantes de palmas". ao descrever Palmares em seu livro. por exemplo. História dos feitos recentemente praticados. Raphael Bluteau. CXVI . (Os seus palmares. o termo "palmar" continuou a possuir um sentido mais amplo. dos muitos palmares existentes na região.130 sendo possível extinguir-lhes o fundamento. o lugar passou a identificar aqueles habitantes que teimavam em resistir às expedições: eram os "negros do Palmar" ou "dos Palmares". Livro que dá razão do Estado do Brasil .20 Francisco de Brito Freire. com o tempo. Orient. um grande e outro pequeno. situado "entre umas serras" a 30 léguas do litoral. 253. utiliza o termo palmar como sinônimo de "cerca" e "mocambo". Aqui palmar é quinta. UERJ. Se a ação dos escravos havia sido capaz de diferenciar inicialmente um lugar. 9. Barléu [Caspar van Baerle]. também. deixando de tradução a associação com os negros: "No seu livro intitulado Res Brasiliae. junto com ela. 99). Vocabulário portuguez e latino. .2 . não quaisquer fugitivos. a configuração de uma nomenclatura. 190-191. fl. verbete "palmar". calcula que "nas 17 Diogo de Campos Moreno. 1712. É bem provável que esses Palmares tenham sido em parte destruídos pelas expedições holandesas e não correspondam exatamente aos Palmares descritos nos anos 1660-1680. s.1612. Palmares tornara-se nome de um lugar específico. com cinco mil e seis mil habitantes cada. (Ed. CD-Rom. O cronista anônimo de 1678. "nas Histórias do Brasil e da Índia. Helio Vianna) Recife. fac-simile. n. escrito no início dos anos 1670.d. 51. essa acepção ainda permanecia.18 No início do século XVIII. d. Collegio das Artes da Companhia de Jesus. 1955. pagi sunt. ou coisa que o valha".

22 "Relação do que se passou na guerra com os negros dos Palmares nos sertões de Pernambuco" BPE. que traduziu o texto para a publicação em RIAHGP. "cidade fortificada de pedras e madeira. apenas a partir de 1678 há identificação dos nomes. Schwartz. o cronista anônimo que elogiou os feitos de dom Pedro de Almeida afirmou ser "opinião vulgarmente recebida de todos os que cursaram aquela campanha" que Palmares abrigava "mais de vinte mil almas". p. "Quilombos e revoltas escravas no Brasil". inventário número 60. eles chamam seu rei de Damby e ele os governava com severa justiça". traduzir o texto para mim. cotejar. entrada 1..13 .05.22 Segundo o cronista. 23 "Relação" BPE. CXVI . também João José Reis. p. 246. 53. Nova Lusitânia. 28 (1995/6): 16-17. e Subupira. e rev. talvez tenha tido acesso ainda ao texto de Blaer. escreve: "havia entre os habitantes toda sorte de artífices e o seu rei os governava com severa justiça. o número de habitantes de Palmares igualaria o total de escravos na economia açucareira na região. Na documentação da primeira metade do século XVII. Stuart B.131 numerosas mas não grandes aldeias a que chamam mocambos" habitavam trinta mil pessoas. Vide S. 2001. 177. É na carta de dom Pedro de Almeida de 4 de fevereiro de 1678 que se pode encontrar a primeira 21 Francisco de Brito Freire. História dos feitos recentemente praticados. 92 e constatou a diferença.25 Gaspar Barléus. documento 47. Mariana Françozo verificou o original no Arquivo Nacional em Haia. Alfredo de Carvalho. [1675] Ed atual. n. 9. Schwartz considerou que.21 Em 1678. segundo a tradução realizada por ela. fl.26 Na documentação portuguesa. O próximo item desse capítulo oferece dados sobre a população escrava em Pernambuco no século XVII. 26 G. Cito pelo original.a. com a média de 100 escravos cada um. cod. a quem agradeço muitíssimo sua generosa gentileza de ler. "Diário de viagem do Capitão João Blaer aos Palmares em 1645".. se a região possuía cerca de 200 engenhos em meados do século XVII. mas não refere nome ou título algum.13 .2 . São Paulo. todavia. 51v e 52.a. . Barléu [Caspar van Baerle]. B. n. apenas o relato do capitão Blaer menciona o fato de que "havia entre os habitantes [dos mocambos] toda sorte de artífices. 24 Ao comentar estas cifras. a cerca real de Macaco "fortificada toda em cerco de pau a pique" teria "mais de mil e quinhentas casas".24. f. presentes nas fontes contemporâneas ou resultantes de pesquisas históricas. 25 João Blaer. Beca. coleção OWIC (Oud West Indische Compagnie).01. A identificação do grupo e de suas dimensões populacionais precedeu o conhecimento mais detalhado sobre quem eram seus líderes. cod.". 9. pp. 253. CXVI .23 As estimativas parecem todavia estar mais atreladas a uma avaliação política do perigo daqueles negros levantados do que em cômputos compatíveis com dados sobre a população de Pernambuco. compreend[ia] mais de oitocentas casas". descrevendo dois Palmares. com a guerras empreendidas pelo governador "foram declinando no número". um grande e outro pequeno. Cf. Revista USP.01. História da guerra brasílica. 56 (1902): 87-96. fl. que escreve apoiado no relato de Lintz e Baho.2 .

É bem possível imaginar que informações sobre os nomes dos líderes possam ter sido obtidas dos prisioneiros feitos nas várias guerras e que algum conhecimento tenha surgido do contato mais próximo dos padres oratorianos que negociaram com eles em nome de Francisco de Brito Freire. sem nomes próprios. "Early Kongo-Portuguese relations: a new interpretation" History in Africa. . 27 Carta de 4 de fevereiro de 1678.que o governador dá como tendo sido morto numa das batalhas lideradas por Fernão Carrilho. AHU_ACL_CU_015. em 1663. por exemplo. 8 (1981): 183-204. Elas podem ter reagido à estrutura de governo em Palmares da mesma forma que os portugueses haviam se comportado diante da monarquia que governava o Kongo. "maior". sem dúvida.132 referência ao "rei por nome Gangazumba" . 1103. A parentela composta por relações consangüíneas ou de afinidade era reconhecida pelos capitães das tropas e pelos governadores de Pernambuco. que governa a todos" e de "o cabo de um mocambo". D. 11. A estrutura de um governante maior e de chefes de mocambos que lhe são subordinados aparece na documentação antes de 1678.28 Naquela ocasião. capítulo 1.29 Gangazumba era "rei e senhor" de uma linhagem governante. Cx.27 Todos os outros nomes e cargos aparecem em textos escritos depois disso e a principal fonte é. seus "cabos" e habitantes como liderava uma rede de parentes que. Os documentos não indicam que essa relação entre parentesco e posições de poder causasse estranheza para aquelas autoridades coloniais. porém. porém. a crônica de 1678. mesmo que os nomes indicassem títulos entre os palmarinos. que a utilizavam para levar recados. no século XV. com poder e jurisdição sobre terras e gentes. Utilizo aqui e em toda a tese "Gangazumba" por ser mais próximo do que foi fixado pela bibliografia. por sua vez. ocupava postos políticos e militares. como observou Thornton. "maioral" ou "rei" não apenas governava os mocambos. A variação no registro dos nomes próprios palmarinos na documentação administrativa e na historiografia é um tema bem interessante.e em seguida em Lisboa . para as autoridades em Pernambuco . que pretendo tratar com detalhes em artigo futuro. o que as cartas registram é a existência de um "maior. Isso significa que. ordens e cartas. John Thornton. O "principal". que a percepção do significado mais amplo das hierarquias palmarinas parece ter se firmado entre as autoridades coloniais. No original "Ganazumbà".eles se referiam a indivíduos. 28 Ver "A voz da experiência". 29 Cf. Foi a partir das negociações havidas nesse ano.

. C. Cx. Moreno. isto é. que em 1612 informou ao rei que os moradores de Pernambuco tinham "muitos escravos de Guiné. D. em 1575. como se verá em detalhe mais adiante. dos índios. entre a terra dos negros. A operação não era. AHU_ACL_CU_015. Bluteau. . poucos meses depois de tomar posse como governador da capitania. 32 D. Todas as fontes dizem que os habitantes dos Palmares haviam fugido dos engenhos de Pernambuco: gente vinda de Guiné. 917.31 No século XVII. Angola começou a aparecer na documentação como uma denominação mais específica. Deve ter contribuído para isso o fato de eles terem uma procedência conhecida pelas autoridades coloniais e pelos colonos pernambucanos. 2ª ed. Livro que dá razão do Estado do Brasil. lei e rei. Fernão de Souza Coutinho escreveu ao príncipe sobre as entradas que pretendia enviar contra Palmares no verão seguinte. e Maria Inês Cortes de Oliveira. pp. São Paulo. ao glorificar dom Pedro de Almeida. A partir do acordo de paz ajustado em 1678. em seu Vocabulário. os africanos enviados para o Estado do Brasil e em particular para Pernambuco saíam basicamente de Angola. Somente depois da fundação de Luanda. a crônica de 1678 reconheceu Palmares como tendo fé. que decidiram recomendar 30 R. Guiné era um termo genérico30 que designava as terras da costa atlântica da África. os reinos de Congo e Biafara. 190. e do estabelecimento dos portugueses na região entre os rios Bengo e Kwanza. Até o final do século XVI. como no caso de Diogo Campos Moreno. e a terra a que chamam Leoa". o mar atlântico.32 Em junho de 1671. indica que Guiné é "ampla região da África. 1976.25-31. p. pelas muitas entradas que aqui fazem todos os anos navios de Angola". conforme os identificavam as autoridades coloniais. 33 Carta de Fernão de Souza Coutinho de 1º de junho de 1671. 10. 19/20 (1997): 37-73. apenas retórica.133 Como vimos. Martins Ed.33 Sua primeira frase exprimia uma certeza: os Palmares eram formados por "negros de Angola fugidos ao rigor do cativeiro e fábricas dos engenhos desta capitania". entretanto. 31 Cf. Essa predominância é atestada por numerosos documentos. empregado algumas vezes para diferenciar os negros trazidos da África daqueles "da terra". Luiz Viana Filho. ou de Angola e Guiné. Livr. a linhagem palmarina passou a ser incorporada aos registros administrativos. Essa identidade foi levada em conta pelos conselheiros do Ultramarino em outubro daquele ano. O negro na Bahia. "'Quem eram os ‘negros da guiné'? A origem dos africanos na Bahia" Afro-Ásia.

entre eles parentes do soberano. que foram mandados para Lisboa. algo mais. Em dezembro de 1671. porém todos pareciam concordar que eles eram gente vinda de Angola que havia fugido das senzalas da região.34 O feito militar teve certa 34 Sobre a batalha de Mpungo Andongo ver Gastão Souza Dias. As autoridades pernambucanas e lisboetas pareciam convergir também em relação à necessidade de cortar a comunicação entre os que permaneciam escravos e os que tinham fugido para Palmares. Ele havia atacado algumas caravanas e se retirado para a capital. pp. Mas há. os portugueses tiveram que enfrentar mais uma vez o rei do Ndongo. que ao mesmo tempo marcava o avanço do domínio português no sertão de Angola e o fim do reino do Ndongo. na região das Pedras Negras (Mpungo Andongo). como às vezes levavam outros a fazê-lo. Os portugueses em Angola. Os portugueses enviaram um grande número de soldados. no Brasil ou em qualquer outra conquista de Portugal. Em Pernambuco e em Lisboa podia haver discordância sobre o melhor método para acabar com os negros dos Palmares.156-158. que resistia ao domínio português havia algum tempo.134 medidas severas para evitar que os prisioneiros permanecessem em Pernambuco. Um episódio pode bem ilustrar essa outra dimensão. que sofriam sob os "rigores do cativeiro" e que haviam fugido de seus senhores. conseguiram tomar a capital. aqui. Os motivos das fugas variam pouco. depois de um cerco de vários meses. já que o "rigor do cativeiro" e os "maus tratos" se repetem em vários documentos. 1959. Lisboa. Essa forma de identificá-los enuncia a percepção de uma solidariedade entre companheiros de infortúnio. Agência-Geral do Ultramar. tratavam de procurar medidas eficientes que evitassem novas fugas e alimentassem o crescimento dos mocambos. Os portugueses estabeleceram um forte no local. O rei foi morto e houve muitos prisioneiros. ao avançar para o interior de Angola. Ao identificarem os levantados dos Palmares como "negros de Angola fugidos" do cativeiro. . A idéia de enviar os prisioneiros para fora da capitania baseava-se na constatação de que não apenas eles tornavam a fugir. sob o comando de Luís Lopes de Siqueira e.

MMM. Schwartz. MMM. Schwartz e Alcir Pécora (orgs. podiam alterar aquele gentio. governadas por Francisco de Tavora. pp. DH.36 Enviados a Portugal em vista do pedido régio. foram distribuídos por conventos e fortalezas. ou meterem-se com os negros dos Palmares. Cf. . XIII. O episódio é comentado rapidamente por Stuart B. vol. Cx. O filho e o irmão do rei do Ndongo seguiram para Lisboa e cerca de 14 "parentes mais chegados do dito rei" embarcaram para o Brasil. de 6 de Setembro de 1672. 2002. que menciona uma carta do governador geral do Brasil de 24 de maio de 1673 (AHU. p. 39 Consulta do Conselho Ultramarino de 12 de junho de 1682. ou por poderem fugir para Angola.). Bahia. 36 Carta de Sua Alteza para o governador Afonso Furtado de Mendonça. A publicação saiu anônima. X.35 Como em outras ocasiões nas guerras centro-africanas. um dos intelectuais mais destacados da corte portuguesa no período. Em setembro de 1672. XVIII. 11). 222. atribuído ao conde da Ericeira. 381-382. enviados pelo governador de Angola. Lisboa. pp. com que lhe parecia ser mais ajustado passá-los ao Maranhão. 206. e não era conveniente que ficassem no Brasil "para se evitar o dano que se pode seguir de buscarem meio de fugirem para os mocambos. n. a respeito. com o séquito que tinham. Veja-se também Consulta do Conselho Ultramarino de 21 de agosto de 1672. como mostra um relato publicado em Lisboa. doc. também MMA. 109. S. pois não podiam voltar para Angola. donde não havia embarcações que fossem a Angola e menos negros com que se acumulassem". e no Brasil havia o mesmo.135 repercussão em Portugal. Companhia das Letras. 64. 159. 143-152 doc.37 Como eram muitos e seu sustento onerava a Fazenda real. São Paulo. donde [eram] conhecidos dos negros deles [e] nos se[riam] mais prejudiciais". B. 37 Ver. A resposta obtida foi a mesma de 1672: "em Angola. 532-533. vol. BNL.d. Miguel Menescal. s. no mez de dezembro de 1671. de modo que nos fosse de grande prejuízo.º conde da Ericeira)]. B. vol. rei das Pedras e Dongo. Pedro. doc. 73. MMM. 222. alguns prisioneiros mais destacados foram deportados. "pela perturbação que podiam causar". 32. em 1679 aventouse a possibilidade de devolvê-los para Angola ou de remetê-los para o Brasil. nosso senhor. "Introdução" in: S. Relação do felice successo que conseguiram as armas do Serenissimo principe D. doc. 38 Consulta do Conselho Ultramarino de 18 de julho de 1679. pp. 180-181. 180-181. pp. 532-533. contra a rebellião de D. 507-508. XIII. governador e capitão general do reino de Angola. Luís de Menezes (3. João.39 o périplo dos membros da família real do Ndongo indica o duplo potencial político 35 Cf. 67 (1945): 213-214. 11.38 Mesmo que em 1682 ao menos alguns deles ainda permanecessem em Portugal. pp. os documentos n. 297-298. 73. [D. vol. 239. o príncipe português escreveu ao governador do Estado do Brasil pedindo que esses últimos fossem remetidos para o Reino. Schwartz. XIII. As excelências do governador. RES 903P. 125. vol. MMM.

J. R. Além disso. que era o principal elo daquelas relações. Comparativamente. o que aconteceria caso ela se juntasse à linhagem que governava Palmares? 2. a proximidade entre Brasil e Angola era grande e as ligações se faziam em muitos níveis e acentuou-se durante o processo de expulsão dos holandeses de Luanda.40 O processo de 40 Segundo A. tem um peso político evidente. a rota Luanda . Havia um intercâmbio legal de mercadorias entre as duas colônias. importantes para a compreensão do contexto no qual as autoridades portuguesas e coloniais identificavam os negros dos Palmares como gente vinda de Angola. O episódio revela ainda uma outra dimensão dessas conexões: as ligações comerciais e políticas entre o Brasil e Angola conectavam também os africanos .Pernambuco era das mais curtas. legumes e outros alimentos. Se os membros da família real do Ndongo não eram de fato "conhecidos" pelos habitantes dos Palmares. durando em média 35 dias. entre Pernambuco e Angola. Pernambuco e Angola na segunda metade do século XVII. ao tráfico negreiro. o que facilitou a troca de frutas. entre os africanos (escravos ou não) das áreas sob domínio colonial e os Palmares. não aproximavam apenas autoridades coloniais e traficantes que atuavam ou tinham interesses nas duas margens do Atlântico. feita por gente acostumada a lidar com as questões da administração colonial.136 dessas comunicações: um refere-se às atlânticas. podiam ser "reconhecidos" por eles com facilidade. O segundo. as duas regiões possuíam muitas similitudes geográficas e climáticas. sem que fosse necessário que passassem por qualquer troço [sic] europeu. outro àquelas internas a Pernambuco. apesar de Angola fazer parte de um comércio triangular . O primeiro diz respeito às relações constantes e estreitas entre Bahia. "Angola dependia mais do Brasil do que de Portugal metropolitano. De fato.isto é. Somente nesse contexto é possível compreender o perigo político da presença desses exilados no Estado do Brasil. Escravos para Pernambuco O episódio dos membros da família real do reino do Ndongo que foram desterrados para Portugal depois da batalha de Npungo Andongo em 1671 ressalta dois temas conexos. Se o retorno da linhagem real a Angola punha em risco a vitória obtida em Mpungo Andongo. A constatação. Russell-Wood.

A comparative study of the Portuguese colonies of Angola and Brazil and their independence from 1648-1825.42 Sem dúvida alguma. The University of Wisconsin Press. Economic growth and the ending of the Transatlantic slave trade. p. e David Eltis. 2007. além de destacar a região açucareira do nordeste do Estado do Brasil. Stephen D. 1987. militares. Rio de Janeiro. . Way of Death. havia sido bem diferente. Os portugueses na África.179-197. Modos de Governar. 44 Os principais estudos sobre o tráfico concentram-se sobre os séculos XVIII e XIX. Um mundo em movimento. suprimentos e cavalos para Angola e. Infelizmente. Boston. Cartas. O trato dos viventes. O Brasil enviava soldados. econômicos. "Cultura política na dinâmica das redes imperiais portuguesas. Em torno do tráfico de escravos articularam-se muitos interesses que fortaleceram os vínculos administrativos. políticos. políticas e religiosas entre Angola e o Brasil vide Anne Wadsworth Pardo. Lisboa. p.1680-1730)" in: Maria Fernanda Bicalho (org. Formação do Brasil no Atlântico Sul. por exemplo. 1. 2000. Madison. de 12 de agosto de 1648. Idéias e Práticas Políticas no Império Português (sécs. porém. comerciais e até religiosos entre as áreas de ocupação portuguesa nos dois lados do Atlântico. Muitos governadores. os dados são bastante fragmentários. Oxford University press. "Sem negros não há Pernambuco e sem Angola não há negros" disse uma vez o padre Vieira. "Conexões imperiais: oficiais régios no Brasil e Angola (c. especialmente. séculos XVII e XVIII" in: Martha Abreu. Boston University. Paulo. e." Cf.41 Em muitos anos. pp. que nos interessa aqui. Civilização Brasileira. e Maria de Fátima Silva Gouvêa e Marilia Nogueira dos Santos. militares. Cultura política e leituras do passado: historiografia e ensino de história. Miller. Rachel Soihet e Rebeca Gontijjo (orgs). S. São Paulo.). pp. o tráfico de escravos era o lastro de todas essas ligações. 42 Para uma análise das ligações administrativas. Companhia das Letras. aportavam em Angola mais navios do Brasil do que de Portugal. o bispo de Angola tinha que responder ao arcebispado da Bahia. séculos XVI e XVII. para o período e a região de que tratamos. David Eltis. Alameda Casa Editorial. e cada lado do Atlântico possuía riquezas e modos de explorá-las bem diversos .44 A literatura sobre o assunto é extensa e muitas revisões têm entre Portugal.43 A famosa frase sintetiza essa relação. a África Ocidental e o Brasil. João Lúcio de Azevedo (coord. juízes e provedores mandados para Angola haviam ocupado cargos no Brasil e vice versa. Os africanos aprisionados na região angolana foram a principal fonte de mão de obra utilizada no Brasil a partir do final do século XVI. Joseph C. 1977. Ásia e América (1415-1808). 43 Carta de Antonio Vieira ao marquês de Niza. Doutorado. 89-110. 1730-1830. Antonio Vieira. 1988. são eloqüentes. Luiz Felipe de Alencastro. Difel. vide Maria de Fátima Silva Gouvêa.). (trad. Nova York. depois de 1676. 234. XVI-XIX). 1992. no entanto. 41 Para alguns exemplos. 2005. vol. Essa obra oferece um bom panorama dos fluxos populacionais e das trocas de mercadorias no Império português. cada vez mais conhecidos. Casa da Moeda. Merchant capitalism and the Angolan slave trade. 1970.mas estreitamente relacionados. Os números do tráfico. 215.) Lisboa. Imprensa Nacional. Vide.137 ocupação dos dois territórios.

1975.P.150-162.000 escravos chegados ao Brasil antes de 1600 permanece.E. p. Africa World Press. 174-180. pp. com algumas revisões: David Eltis. Os números adotados aqui se referem a essa última versão do texto. "National participation in the Transatlantic slave trade: new evidence" in: José C. A escravidão africana no Brasil holandês e as guerras do tráfico no Atlântico sul. A escravidão africana no Brasil das origens à extinção do tráfico [1950] 3ª ed. Paris. Stephen D. São Paulo.45 Philip D. há algumas alterações: consideraram as cifras de Curtin altas para o período entre 1600 e 1650. Ao comparar as cifras dos desembarques feitos pelos navios de diferentes bandeiras. . e Frédéric Mauro. Os dados desse banco vêm sendo atualizados. concluíram que o cômputo de Curtin de 50.000 escravos desembarcados no Brasil seria um número mais compatível com os registrados para outras partes das Américas. Stephen D. entretanto. Nova York. 1999. Alencastro afirmou que esses números deviam ser corrigidos para Behrendt.138 sido feitas desde o trabalho pioneiro de Maurício Goulart e Frédéric Mauro. pp. Curto e Renée Solodre-La-France (eds. 1999. A census. 1621-1648. mas até agora não foram disponibilizadas as novas informações sobre o século XVII.47 Luiz Felipe de Alencastro ponderou que as reduções propostas por esses autores não levaram em conta o contrabando para o Rio da Prata. David Richardson "A participação dos países da Europa e das Américas no tráfico transatlântico de escravos: novas evidências" Afro-Ásia. Madison. Behrendt e David Richardson revisaram os cálculos anteriores. 1969. 1960. São Paulo.V. Interconnections during the slave trade.. Para uma avaliação mais detalhada do tráfico holandês para o Brasil vide Pedro Puntoni. David Eltis. pp.E. o declínio da escravidão indígena e a expansão do gado no período entre 1650-1700. Behrendt. estimam que 177. David Richardson. e ajustaram-na para 150. David Eltis. Curtin. The transatlantic Slave Trade. Para o período subseqüente.). The Atlantic slave trade. Africa and the Americas.N. Le Portugal. para o período subseqüente. Hucitec. 122. que passava pelos portos brasileiros. 1527-1867: a database on CD-Rom. entre 1650 e 1700. 1 (2001): 23-26 e tabela III. embora nem sempre haja concordância entre os autores. 45 Mauricio Goulart. Alfa-Omega. "The Volume and Structure of the Transatlantic Slave Trade: A Reassessment" The William and Mary Quarterly. 13-41. Curtin precisou esses números. estimando 50 mil escravos desembarcados no Brasil até o final do século XVI e outros 560 mil ao longo do século XVII. Trenton. que computam no final dos anos 1670 entre 8 mil e 10 mil escravos por ano. Cambridge University Press.300 em navios holandeses.000 desembarques feitos em navios portugueses e 26. Este artigo foi publicado posteriormente. que calcularam entre 300 e 350 mil escravos chegados no Brasil na primeira metade do século XVII e entre 500 e 550 mil em todo o século. 24 (2000): 26-27. le Brésil et l'Atlantique au XVIIe siècle (1570-1670). 116 e 119. Stephen D. 46 Philip D. 58 n. S. p. pp. Klein. 2005. Behrendt. David Richardson e Herbert S. A mísera sorte. 45. 47 David Eltis.46 Estas estimativas ainda se sustentam. Baseado em estatísticas da saída de escravos de Angola. The University of Wisconsin Press. no período 1600-1625.

Ferreira. Alencastro. contudo. Warfare.49 Desde por volta de 1580. nem todos esses escravos enviados para o Brasil saíam de Angola. F. Curtin.000 185.000 610. Alencastro consultou uma versão ainda inédita do artigo de D. Vide L.48 A tabela 1 ajuda a acompanhar o vai e vem dos números. pp.000 150.139 cima. D. Eltis.Estimativa do número de africanos desembarcados no Brasil Número de Africanos desembarcados no Brasil Período 1551-1575 1576-1600 1601-1625 1626-1650 1651-1675 1676-1700 Totais F. Alencastro. R.000 40. 84. p. mas foi somente a partir do final do século que essa região foi se tornando um parceiro importante no tráfico atlântico.000 Fontes: P. o volume total das importações ao longo do século XVII permanece em patamares bastante semelhantes. Roquinaldo Ferreira informa que.000 175.000 50. Eltis et al. conforme os procedimentos adotados para calibrar as cifras. "National participation in the Transatlantic slave trade: new evidence". Eltis. 2003. L.000 50.000 100. 1650-1800. a partir da segunda metade do século XVII. 69 e 376-377.400 escravos vindos da Costa da Mina para a Bahia. 69 e 376-377 Como se vê.000 175. F. "The Volume and Structure of the Transatlantic Slave Trade. Transforming Atlantic Slaving: Trade. Tabela 1 . 13-41.000 176. O trato dos viventes. mencionado na nota anterior. corrigidas para cima ou para baixo.000 100.F. que haviam sido tomadas como base por Curtin. escravos obtidos em Benguela também foram exportados pelo porto de Luanda. por exemplo. D. especialmente caps. desde o início das exportações de tabaco em 1678 até 1700. Alencastro 10.300 10. and Territorial Control in Angola. Curtin D. Evidentemente.. 116 e 119. pp. S. partia dos portos exportadores da África Central. a maior parte do tráfico negreiro que se dirigia para as costas do Brasil (e para as Américas).". pp. The Atlantic slave trade. University of California. F. L.000 610. 376. pp. 48 L. Los Angeles. 1 e 2. . Alencastro. Behrendt e D. primeiro Mpinda e depois Luanda.000 403. preferindo as estimativas mais antigas feitas por Mauro e Goulart. Isso resultava em grande parte das guerras que marcaram o processo de colonização na região Kongo-Angola e forneciam a maior parte dos cativos transportados pelos portugueses.000 185. O trato dos viventes.. D. 49 Há. Richardson.000 40.300 177. O trato dos viventes. Doutorado.

54 Frei Vicente do Salvador acusa 50 Linda M.140 A partir das últimas décadas do século XVI. salvando com tiros e fumos de água nossas fortalezas e cada uma pare um baleote. pp. ao longo do século XVII. . Não só o declínio da produção açucareira em São Tomé permitiu que as exportações de escravos se voltassem para o Brasil e para as Américas. Antônio Vieira. Atlantic Creoles. Central Africans. Entra por essa barra um cardume monstruoso de baleias. e das naus que dos portos do mar Atlântico estão sucessivamente entrando nestes nossos. Heywood e J. Central Africans. que da África estão continuamente passando a esta América. é a transmigração imensa de gentes e nações etíopes. 39.52 O impacto dos números obtidos pelos historiadores foi constatado em outros termos pelos contemporâneos. Thornton. sem tanta precisão mas com igual magnitude.51 Conforme o ritmo das guerras na África Central. talvez mil escravos!"53 No Brasil. p. Central Africans. como os asientos que levavam cativos para as áreas sob o domínio de Castela passaram a ser firmados com gente que tinha fortes conexões com Angola. os escravos de Angola representavam cerca de 50 a 60% de todo o tráfico negreiro realizado pelos europeus. Atlantic Creoles. 268. 2007. Thornton. O padre José de Anchieta e Fernão Cardim contam 66 engenhos em Pernambuco entre 1580 e 1590. (ed. Cambridge University Press. Cultrix. seiscentos. K. e que nós pelo costume de cada dia não admiramos. pp. 51 L. A escravidão africana no Brasil. retirada de um dos sermões do padre Antônio Vieira: "Uma das grandes coisas que se vêem hoje no mundo. 160-161 53 Pe. 57. Gabriel Soares de Souza estima 50 engenhos na capitania. "Sermão vigésimo sétimo" Sermões. Atlantic Creoles. saíam dessa região entre 9 mil e 12 mil escravos por ano. como se pode verificar pela passagem abaixo. Problemas sociais e políticos do Brasil. chegando em ocasiões excepcionais até a 15 mil por ano. Nova York. 1585-1660. Dados retirados de M. 52 L. Thornton. p. entra uma nau de Angola e desova no mesmo dia quinhentos. Heywood e John K. com a maior razão podemos dizer que trazem a Etiópia ao Brasil. p. os principais compradores de escravos africanos eram os senhores de engenho e os lavradores de cana. M.50 Assim. M. K. Angola e o Brasil passam a ser o centro desse comércio. 1995. and the foundation of the Americas. A armada de Enéas. disse o príncipe dos poetas que levara Tróia à Itália. Goulart. Antônio Soares Amora) São Paulo. 54 A Bahia teria 46 engenhos segundo Anchieta e Cardim e 36 segundo Gabriel Soares de Souza.100 e 104. produzindo cada um 6 mil arrobas de açúcar. Heywood e J. enquanto Abreu e Brito contava 63 engenhos em 1591. como em Pernambuco.

assim como 18 dos 20 engenhos da Paraíba. e 108. A mísera sorte.61 Além de Pernambuco."60 Mauro estimou que em Pernambuco entraram 75. mas chegavam a produzir perto de 500 mil arrobas de açúcar por ano. Contava com cerca de 200 engenhos de açúcar. a capitania de Pernambuco era uma das grandes áreas produtoras de açúcar da América portuguesa. 23 em Itamaracá e 20 na Paraíba. e não mais de 2 mil.56 Em 1640. pouco tempo depois da ocupação. de 1648 a 1652. 59 O período entre a expulsão dos holandeses (1654) e a revolta dos mascates (1711) é pouco estudado e os dados não são precisos. Maurício Goulart estima que entre 1601 e 1652 teriam entrado cerca de 108 mil escravos em Pernambuco: "75 mil. 2 mil. pp.) São Paulo. São Paulo. especialmente capítulo 1. 1650-1720. 2. 57 P. de 1601 a 1630.1750. Sobre a expansão para os sertões vide Pedro Puntoni. 174-180. dos 107 engenhos que os holandeses encontraram em Pernambuco. História da América Latina.57 Na segunda metade do século XVII.141 a existência de 100 engenhos em Pernambuco. de 1637 a 1645. no mesmo período. 60 M. concentrando-se no massapê da várzea dos rios Capiberibe. já se contavam 121 engenhos moentes em Pernambuco. Pedro Puntoni calcula que em 1638. logo com acesso a boas rotas fluviais para o transporte do açúcar. 12 estavam funcionando.78. Goulart. Goulart. 341-347.59 A capitania era. eles eram menores do que seus congêneres baianos. Povos indígenas e a colonização do sertão nordeste do Brasil. p. 85. 58 Stuart B. A mísera sorte. de 1631 a 1636. Puntoni. Le Portugal et l'Atlantique au XVIIe siècle. América Latina colonial. pp. Hucitec/Edusp. 112. Edusp/Fundação Alexandre de Gusmão. Puntoni.55 A invasão holandesa desorganizou parcialmente a produção de açúcar. P. p. quase tanto quanto a Bahia. 23. . enquanto o processo colonizador avançava paulatinamente para os sertões. porém tiveram que enfrentar a concorrência da produção caribenha. dos 20 existentes em Itamaracá.58 Estavam instalados em zonas de boa terra. p.1580-c. O artigo oferece um panorama geral da produção açucareira no Brasil desse período. 61 Frédéric Mauro. portanto. 18 ou 20 em Itamaracá e cerca de 20 na Paraíba. 40 continuavam abandonados. a Bahia era outro grande centro importador de africanos e os senhores de 55 56 M. A guerra dos bárbaros. A escravidão africana no Brasil. os engenhos se recuperaram.000 escravos antes de 1630. um sorvedouro de escravos. 109-111. 106-107. c. A análise que resulta nesses números está nas pp.163.000 entre 1600 e 1652. 1999. Cotejando fontes diversas. Ipojuca e Jaboatão. 6 mil. vol.). nos anos de 46 e 47. Depois de expulsos os holandeses. p. A escravidão africana no Brasil. (trad. As grandes lavouras e as periferias" in: Leslie Bethell (org. "O Brasil colonial. 2002. Schwartz.

"Os mercados de escravos africanos recém-chegados às Américas: padrões de preços.000 86.900 166. ainda que genéricos e um pouco superiores à revisão dos valores globais feitos mais uma vez pelo próprio David Eltis. Pioneira. Os magnatas do tráfico negreiro (séculos XVI e XVII) São Paulo.600 30. 45. chegou a estimar os desembarques de escravos nas diversas regiões do Brasil. "Capitalism and slaving: the financial and commercial organization of the Angolan slave trade.000 176. 69-97. juntamente com Stephen D.no comércio negreiro em relação à Bahia: Tabela 2 . Miller. "The Volume and Structure of the Transatlantic Slave Trade".600 75. according to the accounts of Antonio Coelho Guerreiro. S. 64 David Eltis.300 46.100 15. p. 1999. Behrendt e David Richardson. 1 (1984): 1-56.800 Totais 50.400 Fonte: D. Pantoja e J. 1580-1680). tabela III. 1648-1703" in: S. Esses números são bastante altos se compararmos com a quantidade de escravos existentes na capitania de Pernambuco nesse período. 16. . Curto. Saraiva (orgs. utilizando a Base de Dados sobre o Tráfico Transatlântico de Escravos. produtos que se tornaram importantes no comércio negreiro em Angola a partir de 1650-1660. p. São Paulo. Angola e Brasil nas rotas do Atlântico sul. portanto de Pernambuco . Ver ainda Joseph Miller. 45.500 30. 6 (2003): 16. Sua análise apóia-se em José Gonsalves Salvador.64 Esses dados. Os mesmos dados estão reproduzidos em David Eltis e David Richardson.300 409.000 15. 17 n.200 167. Os cristãos novos e o comércio no Atlântico meridional (com enfoque nas capitanias do sul. tabela III.800 136.000 60.).63 David Eltis.).200 75. Eltis. "Vinho verso cachaça: a luta luso-brasileira pelo comércio do álcool e de escravos em Luanda.600 30. "A economia política do tráfico angolano de escravos no século XVIII" In: Selma Pantoja e José Flávio Sombra Saraiva (orgs. 1673-1865" Topoi. Bertrand do Brasil. 1978 e do mesmo autor. sistematizados na tabela 2.e.Escravos desembarcados no Brasil Regiões Período 1519-1600 1601-1650 1651-1675 1676-1700 Totais Nordeste Bahia Sudeste 35. Rio de Janeiro.c.000 15. Pioneira.62 Precisavam de escravos e contavam com uma boa produção de cachaça e tabaco. 63 Cf. p. 198.300 15. International Journal of Historical Studies. mostram a importância do Nordeste . Angola e Brasil nas rotas do Atlântico sul. Mais uma vez. 1684-1692".142 engenho das duas capitanias dominavam o tráfico de escravos no Atlântico sul em meados do século XVII. os dados são 62 Joseph C. pp. F. José C. "The Volume and Structure of the Transatlantic Slave Trade".

Beatrix Heintze. . p. p.143 fragmentários e não há estatísticas confiáveis. a 3 mil os menores.000 (em 200 engenhos) no final do século XVII.65 Mesmo que calculemos 100 escravos por engenho. A escravidão africana no Brasil.68 De todo o modo. a fraude no registro compensava largamente o risco. Em meados do XVII. produzindo de 7 a 8 mil arrobas de açúcar os maiores. "Angola nas garras do tráfico de escravos: as guerras do Ndongo (1611-1630)" Revista Internacional de Estudos Africanos. Goulart. Edusc. em seu relatório ao Conselho dos XIX da Companhia das Índias Ocidentais. 106 Stuart B. ou que os cativos tenham sido revendidos (legal ou ilegalmente. Goulart. os números estimados para a população escrava em Pernambuco parecem compatíveis com os cálculos da população branca no Brasil. Maurício Goulart calcula que os escravos empregados na produção do açúcar sejam 70% do total de escravos.000 brancos. roceiros e rebeldes. Escrevendo em 1644. Van der Dussen. 108. para o Brasil era de apenas 3$000 réis. Ainda que ilegalmente alguns contratadores cobrassem 4$000 réis.) Bauru.67 o que elevaria a quantidade de escravos em Pernambuco para 11. esta população chegava a 50. Cf. movidos a água. empregando entre 40 a 70 escravos. 68 A taxa cobrada para cada escravo enviado de Angola para os territórios espanhóis era de 7$000 réis. De Laet informa que os grandes engenhos empregavam 100 escravos. já que a diferença no valor dos impostos incentivava a burla. como lembrou Alencastro) para outras regiões. Schwartz.220 cativos no final do século XVI e 34.000 no final do XVII. É possível considerar que as taxas de mortalidade tenham sido altíssimas na população escrava. 246. p. havia no Brasil entre 25. no mesmo período. Há ainda que considerar que muitos dos escravos registrados como sendo enviados para o Brasil.000 brancos. mesmo que se considere que a escravidão africana não estava restrita à produção açucareira. "Repensando Palmares: resistência escrava na colônia" in: Escravos. produziam de 40 a 70 arrobas de açúcar.600 escravos no final do século XVI (tomando por base 66 engenhos). nas décadas finais do século XVI. como faz Stuart B. (trad. 2001.000 e 30. 67 M. conta que os engenhos médios e grandes. os médios 50 e os menores 20. Schwartz.66 a população escrava diretamente ligada à produção do açúcar na capitania de Pernambuco seria de 6. Esses dados parecem incompatíveis com o volume de escravos desembarcados. 12. a esmagadora maioria concentrada em Pernambuco e Bahia.100 no período holandês (em 121 engenhos) e 20. 1 (1984): 19. No final deste 65 66 M. eram na verdade remetidos para as áreas de domínio castelhano. Os estudiosos calculam que. A escravidão africana no Brasil.

n.. então. Os centro-africanos dominaram assim a população inicial de escravos nas Américas no início do século XVII.70 a escravaria pernambucana provinha mesmo.69 Tendo em vista essas estimativas. Bethell (org. Ao longo do século XVII. esse autor já havia mostrado que as áreas de obtenção de escravos na África Central no final do século XVI e início do século XVII eram relativamente restritas. pp.). Central Africans and cultural transformations in the America Diaspora. 2002. e devem ter se juntado a índios escravizados e outros cativos da África ocidental. Cambridge University Press. Henrique Dias afirmou que seu terço era composto “de quatro nações (. A. mas também do volume do tráfico negreiro. c. pode-se calcular que os escravos constituíam 44. vol.2 (2002). Entre 1650 e 1680 a fronteira se 69 Cf. Ainda que Henrique Dias pudesse comandar "Angolas. "Central Africa during the era of the slave trade. Luanda tornou-se. O Kongo foi o primeiro grande fornecedor de escravos para os portugueses. Apud: Kalina Vanderlei Silva. da África Central. Miller. Angolas e Crioulos". Russel-Wood. estima-se que chegavam ao Brasil todos os anos cerca de 2."71 Em um estudo anterior. J. o grande porto exportador de escravos. . 2. em grande parte.144 século.dado que acompanha não apenas o crescimento da produção de açúcar. Esses números mostram que as autoridades coloniais e metropolitanas estavam corretas ao registrar que os escravos de Pernambuco eram gente vinda de Angola. Ao examinar o contexto político e econômico do tráfico de escravos no início do século XVII. 9. isso significava dizer que haviam sido escravizados em Angola. Minas e Ardras". junto com alguma gente do interior de Luanda ou da área do baixo Zaire. Nova York. séculos XVII e XVIII" Estudos de História. em números quase equivalentes nas cidades hispano-americanas e nos engenhos de açúcar no Brasil. p.8% da população no final do século XVI.. o crescimento do reino do Ndongo e a interferência portuguesa na política interna dos reinos africanos fizeram avançar a fronteira da escravização em direção ao sul do Kongo e além do rio Kwanza. 97-98 e Maria Luiza Marcílio. 71 Joseph C. 1490-1850" in: Linda M. 27. R. Franca. "A população do Brasil colonial" in: L. Ardas. Ao longo do século XVII. 70 Escrevendo em 1648 para o comando da WIC. pp.000 portugueses. América Latina colonial.) Minas. Essa porcentagem chegaria a 68% no final do século seguinte . Joseph Miller considera que "a primeira geração de centro-africanos enviados para o nordeste do Brasil veio essencialmente das terras costeiras do sul do Kwanza. 319-322.). A tradução é minha. "Os Henriques nas Vilas Açucareiras do Estado do Brasil: Tropas de Homens Negros em Pernambuco. Um mundo em movimento. Heywood (ed. para formr uma população de trabalhadores de diversas procedências.

145 expandiu de novo. Merchant capitalism and the Angolan slave trade. 1988. The University of Wisconsin Press. Mapa 1 . em direção ao vale do rio Kwango. . p. Way of Death. 148. Madison. O mapa 1 permite visualizar essa progressiva expansão da fronteira da escravização. Miller.As fronteiras da escravização na África Central (datas e lugares aproximados) Fonte: Joseph C. 1730-1830.

as caravanas formadas por escravos para o transporte das mercadorias. Na região Mpumbu havia uma das mais importantes feiras. Isabel Castro Henriques. caps. 2 e 3. sobretudo. Africans in bondage. Lisboa. como o sal. taxas pagas nas passagens fluviais e nas fronteiras de cada jurisdição.das sedas à panaria indiana estampada em Portugal. pp. Estampa. Havia ainda o sal e. os pintados da região entre os rios Kongo. e os kundi e meio-kundi do Kongo). 1990. sobretudo os feitos de folhas de palmeira. 74 Adriano Parreira.73 Adriano Parreira fez um estudo detalhado do comércio na região angolana no século XVII. seja de outras regiões da África (como no caso dos panos de ráfia de Loango. e os panos de fibra vegetal. mas destinavam-se também à comercialização de produtos para o consumo africano incluindo-se aí os escravos destinados às sociedades africanas e ao trabalho nas propriedades portuguesas. Madison. p. Economia e sociedade em Angola na época da Rainha Jinga. Como bem lembra Isabel Castro Henriques. seja da Europa. L. nesse caso. uma concha obtida na costa de Angola. The University of Wisconsin Press. The Portuguese conquest of Angola. . G. as feiras não serviam apenas para o abastecimento do tráfico atlântico. Cf.75 72 73 David Birmingham. 44. Angola e a rede do comércio negreiro" in: João Medina e Isabel Castro Henriques (orgs. Angola e a rede do comércio negreiro. 75 Os panos eram tão importantes no comércio de escravos que os escravos passaram a ser chamados peças: um escravo adulto equivalia a uma peça de tecido importado pelo qual ele era trocado. "Slave prices in the Portuguese Southern Atlantic. e talvez dela tenha derivado o nome dado aos comerciantes especializados nesse comércio. 133. "A rota dos escravos. Os principais produtos. p. no século XVII. Ver também W. A primeira era enviar comerciantes às feiras de escravos nas regiões fronteiras ao reino do Kongo e Angola. 1996. eram os vinhos das Canárias e Madeira. 1600-1830". os impostos para mercadorias específicas. o sistema de pagamento de xikaku. Londres. 14. as mercadorias importadas. Ele examina o traçado das rotas. Way of Death. p. e J. Oxford University Press. eram as mais importantes moedas de troca. havia três maneiras básicas de obter escravos. in: Paul Lovejoy. Studies in slavery and the slave trade. L'ancien royaume du Congo. CNPCDP. variando de importância conforme estivessem ligados ao comércio regional ou atlântico e as mercadorias ali negociadas. Kuvo e Kwango. Joseph Miller. Randles. 1986. 25. Índia e Américas. A rota dos escravos.72 Os pumbos localizavam-se em geral nos entroncamentos das rotas comerciais. Miller.66-69. chamados pombeiros. Lisboa. 1965.). e os tecidos . C. cap.74 O nzimbu.146 Nessa região. século XVII. a aguardente e o tabaco do Brasil.

p.As principais rotas comerciais na África Central no século XVII Fonte: Adriano Parreira. Estampa.147 Mapa 2 . Lisboa. 1990. século XVII.78 . Economia e sociedade em Angola na época da Rainha Jinga.

A depender do tipo de guerra. I. descontavam o quinto da Coroa e distribuíam os restantes pelos soldados. próximo à feira do Ndongo). M. para comprar esses prisioneiros. pp.76 No século XVII. núcleos fortificados de residência dos portugueses no interior. as guerras forneciam muitos prisioneiros. na batalha de Ngoleme.119. Estabelecidos em pontos estratégicos do ponto de vista militar e comercial. depois de conquistados pelos portugueses. Central Africans. em 1483. 78 L. The Portuguese conquest of Angola. Angola e a rede do comércio negreiro". os principais presídios eram Massangano (1583/85). (1611).148 Aos pumbos somaram-se os mercados nas cidades litorâneas e nos presídios. 139-140. Ambaca.77 O segundo método de obtenção de escravos eram os tributos pagos pelos sobas Mbundo. Birmingham. p. Os números são às vezes extraordinários. Thornton. . Birmingham informa por exemplo que. p. o Kongo era um reino relativamente forte e estruturado em províncias (como Soyo. acompanhavam as expedições. os mercadores perderam o equivalente ao carregamento de 24 navios. de quem havia comandado as investidas e de seus resultados. C. Em terceiro lugar. negros e brancos. 25. Heywood e J. 79 D. p.79 Os dois próximos itens examinam os significados políticos dessas formas de obtenção de escravos. K. Wandu e Nkusu) 76 77 I. "A rota dos escravos. C. 140. Muxima (1599). Angola e a rede do comércio negreiro". 3. gerando assim um tráfico específico. Mbata. Cambambe (criado no final do século XVI ou início do XVII. Comerciantes particulares.78 Certamente havia o risco de a mercadoria ser perdida com a derrota portuguesa. os presídios marcavam ao mesmo tempo a penetração portuguesa pelo sertão e seu domínio sobre as redes comerciais. Pungo Andongo (estabelecido em 1671. Henriques. os prisioneiros pertenciam aos governadores portugueses ou aos sobas. depois da vitória sobre o reino do Ndongo) e Caconda. "A rota dos escravos. Os governadores e os comandantes que realizavam as guerras em seu nome. ficavam com alguns prisioneiros. Guerras em Angola Quando os portugueses chegaram à foz do Zaire. dependente das guerras. Atlantic Creoles. Henriques. (1685).

1. a prática de enviar infantes congueses para estudar em Portugal. as missões evangelizadoras e as embaixadas entre os dois reinos foram comuns no século XVI. The Portuguese conquest of Angola. 82 D. 7 83 Idem. os mbundu (ou ambundos). Upsala. 1985. os escravos eram obtidos por meio do pagamento dos tributos. p. 513 (1968): 3-30.82 Nesse período. Thornton. 515 (1968):11-36. A manilha e o libambo. Oxford University Press.149 governadas por linhagens locais ou por chefes escolhidos pelo rei e dele dependentes. . s. ao sul. a penetração portuguesa na região do Kongo consolidou-se com a conversão do mani Mvemba-a-Nzinga ao cristianismo. Por volta de 1530. Nova Fronteira. 1985. adotou nomes e costumes portugueses. de finais do século XV a meados do século XVI. O reino do Congo. ibidem. John K. 1983. T. L'ancien royaume du Congo des origines à la fin du XIXe siècle. "A acção dos portugueses no antigo reino do Congo (1482-1543)" Boletim Geral do Ultramar. 1483-1643. The kingdom of Kongo. 1996. Ilídio do Amaral. pp.81 As armas e a religião portuguesas. 1641-1718. Oxford. 9. A África e a escravidão. além de incorporar o cristianismo. A troca de cartas entre monarcas. cuja arrecadação era mediada pelo rei do Kongo. Rio de Janeiro. 2002. ajudaram a fortalecer o poder do rei do Kongo. Adriano A. o número de escravos exportados do Kongo pelo porto de Mpinda somava entre 4 mil e 5 mil cativos por ano.83 Tanto o rei de Portugal como o do Kongo insistiam que todos os escravos deviam ser exportados a partir do porto de Mpinda. Parreira.. Lisboa. como vestir sedas e outros tecidos finos. Para um bom panorama em português ver Alberto da Costa e Silva. e das guerras para manter o controle sobre os potentados locais que. A capital passou a se chamar São Salvador e a nobreza conguesa. 359-405. [1968] Paris. Birmingham. Birmingham. 24-29. Ministério da Ciência e Tecnologia. 2002. O desenvolvimento da cultura da cana em São Tomé fomentou o tráfico já existente desde meados do século anterior em direção a Lisboa e outras cidades portuguesas. p. cap. pp. Randles. de 1500 a 1700. Anne Hilton. que se fez batizar com o nome de Afonso I. Civil war and transition. G. assim como o comércio de escravos . ocorriam na região dos Mbundo. The kingdom of Kongo. bem como suas mercadorias. 84 D. entre os rios Dande e Kwanza.80 A partir do final do século XV. Madison. por sua vez. École Pratique des Hautes Études/Mouton. 81 Ver também Carlos Alberto Garcia.e.84 80 Os principais trabalhos sobre o Kongo nos séculos XVI e XVII são: W. o reino dos "ngola" (ou de Angola) e a presença portuguesa. 516(1968):77-89. University of Wisconsin Press. The Portuguese conquest of Angola.principal interesse de Portugal na região. The kingdom of Angola and Iberian Interference. como sinal de distinção e diferenciação social. L.

Heywood e John K. 1585-1660. p. . Thornton. Atlantic Creoles.150 Mapa 3 . Nova York. and the foundation of the Americas. 50. Cambridge University Press. 2007. Central Africans.A África Central Ocidental no século XVII Fonte: Linda M.

Era vassalo do reino do Kongo. para que ele. onde esperavam conseguir manter um domínio mais estável. embora a conquista da região pelos portugueses só tenha se efetivado com as expedições de Paulo Dias de Novais. A região litorânea de Angola passou a ser freqüentada por comerciantes que queriam escapar ao controle de Portugal e do Kongo. como governador vitalício. tributário do rei do Kongo. A baía de Luanda oferecia boas condições para os navios e o interesse na obtenção de escravos foi aos poucos promovendo incursões diretas no Ndongo com a finalidade de obter escravos. Como o rei do Ndongo tinha o título de ngola. aumentando o incentivo para a conquista da região ao sul. 2000. ocorreu por força das armas portuguesas. uma demanda crescente por escravos. sobretudo a partir das relações que vinha mantendo com o tráfico atlântico. vide Ilídio do Amaral. 1483-1643. cap. A. pp.151 Na época da chegada dos portugueses. Novais tentou estabelecer uma colonização branca na região de Angola.85 A primeira expedição oficial em território angolano foi realizada em 1520. Portugal concedeu as terras na região entre o sul do Kongo e o rio Kwanza a Paulo Dias de Novais. A retomada do reino. o reino do Ndongo já havia se fortalecido. Parreira. em 1571-74. portanto. C. Angola no último quartel do século XVI e primeiro do século XVII. onde havia uma produção açucareira significativa e. bem como com os potentados da região.149-192. . Instituto de Investigação Científica e Tropical. 85 Sobre o interesse português pela região de Angola ver Ilídio do Amaral. pp. The kingdom of Angola and Iberian Interference. 2. ali instalasse uma nova colônia. que chegaram a expulsar portugueses e congoleses de São Salvador. Ao avançar em direção ao sul do reino do Kongo no final do século XVI. contudo sabiam que a grande riqueza adviria do fornecimento de escravos para as plantações de cana em São Tomé e no Brasil e para as possessões espanholas na América. e também A. O consulado de Paulo Dias de Novais. Para um panorama geral sobre o avanço português em Angola ver A. em 1560 e 1575.407-450.86 Em 1568 e 1574. o Ndongo era um pequeno reino. enfrentando a concorrência dos comerciantes de São Tomé que traficavam ilegalmente na região. Lisboa. o Kongo foi invadido por grupos Imbangala. 86 Sobre o período em que Angola foi governada por Paulo Dias de Novais. Silva. Nessa época. mas tinha sua própria política em relação a Portugal e aos comerciantes que apareciam no litoral de Luanda. os portugueses chamaram a região de Angola. O reino do Congo. especialmente por aqueles que comerciavam com a ilha de São Tomé. A manilha e o libambo. os portugueses imaginavam encontrar minas de prata e evangelizar novos povos. T.

essas mudanças acompanharam as tentativas. 24. p. p. que permitiam o controle sobre as redes comerciais que forneciam lucros por meio da cobrança de impostos e do próprio comércio de escravos e marfim (os principais produtos). Birmingham. movidas por diversos motivos. mas não o domínio almejado sobre a região. que geravam escravos. a morte de Dias Novais em 1589 e a derrota fragorosa em Ngoleme em 1590.como na época de Novais -. que se assenhoreavam dos sobados conquistados. The Portuguese conquest of Angola. D. e com o apoio dos jesuítas . No período entre 1607 e 1660 elas derivaram sobretudo da crise dinástica do reino do Kongo e das tensões 87 88 D.89 O domínio sobre ela e sobre seus habitantes devia articular-se de forma a poder garantir que o tráfico se desenvolvesse conforme os interesses de todos. afinal frustradas. onde os portugueses combatiam grupos dissidentes com o apoio dos poderes locais. A partir de 1605 ficou claro que era o tráfico e não as minas a base da prosperidade dos portugueses na região. pois ofereciam ocasiões propícias para o comércio particular e para o roubo. As excursões a Kisama e a Cambambe foram acompanhadas por novas guerras. Havia vários tipos de guerras. . The Portuguese conquest of Angola.88 As posições portuguesas dependiam das guerras de conquista: eram elas que permeavam as relações com os reinos e sobas locais. a Coroa chamou para si a relação com os sobas locais. Com a união das coroas em 1580. em especial na região de Kasanje. dos agentes do tráfico e dos sobas. Birmingham. Birmingham. p.152 O tráfico se desenvolveu com intensidade crescente na região de Angola. Elas constituíam. promover mais uma vez a colonização e investir na busca de minas de prata e na agricultura. quando Novais investiu com suas tropas contra o Ndongo. de controlar as minas de sal de Kisama e de achar minas de prata em Cambambe. em Angola os portugueses lutavam ao mesmo tempo contra o Ndongo e os Imbangala. sobretudo a partir de 1579.87 Ao contrário do que ocorria no Kongo.19. The Portuguese conquest of Angola. para reconquistar Angola. 89 D. as formas mais rápidas de enriquecimento. como incluía ainda aqueles dos governadores. Até 1605. As guerras tornaram-se parte importante desse processo. 13. a coroa espanhola avaliou a situação e tentou alterar sua política. também. Ao invés de contar com os particulares. A tensão entre defender e controlar as redes comerciais ou guerrear envolvia não apenas os interesses da Coroa.

Havia limites impostos pela Coroa e as investidas só podiam ser realizadas depois de declaradas justas pelo voto de uma Junta composta pelo bispo. séculos XVII e XVIII" in: Júnia Ferreira Furtado (org. pp. conforme os desígnios e interesses mais imediatos. Luciano Raposo de Almeida Figueiredo. Belo Horizonte. 2001. que tivera o objetivo explícito de capturar escravos. No caso do reino do Kongo. 2001. bem como de habitantes do Kongo ou de suas províncias. p. muitos governadores ordenaram guerras sem aprovação prévia. Apesar dessas regras. "O império em apuros. "Angola. Como bem observam Linda Heywood e John Thornton. originadas da diferença de interesses entre portugueses e grupos políticos diversos nos reinos do Kongo e Mbundo.).153 entre os portugueses e o reino do Ndongo. Dentre os motivos que indispuseram o governador Tristão da Cunha (1666-1667) e a população de Luanda. Minas Gerais e as novas abordagens para uma história do império ultramarino português. A luta entre os que queriam as alianças ou manter a independência levou à escravização de muitos Mbundo. que se aliaram algumas vezes ao Ndongo contra os portugueses. 90 Ver. Diálogos oceânicos. as questões dinásticas levavam a guerras entre os postulantes ao trono. 261. conseguindo determinar os lugares em que elas ocorreram. Editora UFMG.). . Diálogos Oceânicos. ouvidor geral. os portugueses queriam obter escravos para enviá-los para o Brasil e para a América espanhola (e assim cumprir o asiento). Ao contrário. Minas Gerais e as novas abordagens para uma história do império ultramarino português. numa das várias "alterações ultramarinas" que terminaram com a expulsão das autoridades locais.90 estava. Ed. uma guerra contra o Libolo. as linhagens lutavam pelo controle do reino e usavam ora os portugueses ora os Imbangala para se fortalecer. e terminavam por escravizar também alguns habitantes do Kongo. que realizavam alianças ora com grupos políticos africanos ora com os portugueses. 197-254. a respeito. consideradas ilegais. provedor da Fazenda e ministros. essas não eram guerras "étnicas". De um lado. A intensidade e a freqüência das guerras podem sugerir que elas eram feitas a esmo. constituindo a principal fonte dos escravos traficados. Notas para o estudo das alterações ultramarinas e das práticas políticas no império colonial português. Mesmo as guerras justas davam margem a várias apropriações privadas. mas políticas. por exemplo. A revolta de Luanda de 1667 e a expulsão do governador geral Tristão da Cunha" in: Júnia Ferreira Furtado (org. Belo Horizonte. UFMG. No reino do Ndongo.91 Linda Heywood e John Thornton realizaram um detalhado estudo das guerras realizadas entre 1607 e 1660. 91 Antonio Luís Alves Ferronha.

Thornton. das ilhas do Atlântico. mas daqueles que foram remetidos para as colônias inglesas e holandesas nas Américas. controlados pelos portugueses. trigo. na virada do século XVI para o XVII. Thornton.113 96 L. Central Africans. ao sul do Ndongo. das Índias de Castela e Buenos Aires com os portos centro-africanos. A partir de então. e do sul. a nordeste do Kongo. p. M. que este estudo não trata dos escravos enviados para o Brasil. 93 B. do leste (atingindo talvez até Moçambique). vinhos das Canárias. M. Thornton. Depois das guerras em Kisama. Heywood e J. Thornton. "Angola nas garras do tráfico de escravos". chegavam a 10 ou 13 mil os embarcados de Angola. cavalos e produtos de luxo eram trocados por escravos remetidos para o Brasil ou Índias de Castela e o resultado das vendas voltava para a Europa na forma de letras de créditos. do Brasil.96 Parecia ser um sistema eficiente. pois os mercadores achavam muitos meios de burlar os impostos. os escravos comerciados vinham de longe. a Coroa determinou ao novo governador. que muitas vezes escapavam do domínio português ou se negavam a abrir as rotas para o tráfico ou dele participar.95 Nesse tempo. Heywood e J. os processos de escravização na África Central eram os mesmos.93 Interessado no comércio. Atlantic Creoles. os governadores ficaram proibidos de realizar qualquer ação militar que não fosse para defender Luanda e os presídios. Heintze. p. K. Atlantic Creoles. 3. p. Central Africans. K. 113 . Contudo.92 Acompanho esses autores nas próximas páginas. M. Central Africans. que cuidasse de estabelecer a paz com os sobas e impulsionasse a agricultura. o governador Manuel Pereira Forjaz estabeleceu uma extensa rede que ligava os negociantes de Lisboa. de modo a fazer crescer as taxas e manter a paz nas conquistas. K. p. para limitar a interferência holandesa que começava a se fazer presente naquela região. Atlantic Creoles. e Songo. em Benguela. especialmente cap. 110 e 113 95 L. Heywood e J. A estratégia previa a fixação dos portugueses em pontos específicos. mas não do ponto de vista da Coroa. Central Africans. em alguns anos. a fim de evitar as guerras privadas para capturar escravos e manter controle sobre o comércio e sobre a costa do Kongo e Loango. As guerras 92 L.154 quem era escravizado e quem os escravizava. Heywood e J. 94 L. que por sua vez podiam ser abastecidos por caravanas vindas até mesmo de Mpumbu. entretanto. Atlantic Creoles. e Benguela:94 os tecidos e roupas. Havia também a necessidade de controlar a recalcitrância dos sobas. Observo. 13. em 1607. M. Manuel Pereira Forjaz. K.

Heywood e J. Atlantic Creoles. um instrumento para a manutenção do poder político dos portugueses na região e. podiam abrir novos mercados. o governador orgulhavase de ter submetido cerca de 110 sobas. p. p. 13. A demanda por escravos. levaram a repetidas campanhas de "punição". os interesses pessoais dos comerciantes privados e dos funcionários coloniais. como ao sul. Thornton. Assim.97 Nessa nova fase de guerras. Atlantic Creoles.100 Foi entretanto durante o governo de Luís Mendes de Vasconcelos (1617-1621) que o Ndongo foi atacado massivamente por tropas portuguesas e Imbangala. Central Africans.119. 115 100 L. Adriano Parreira. "A resurrection for the Jaga" Cahiers d'Études Africaines. Central Africans. vangloriava-se de ter submetido mais de 80 sobas dos reinos vizinhos. substituídos a cada três anos e ávidos por enriquecer de pronto. p. M. Bento Banha Cardoso. Atlantic Creoles. Miller. 18 (1978): 223-227. ao terminar seu mandato. A tentativa de estabelecer um domínio mais efetivo em Benguela fracassou em 1617 e essa região tornou-se apenas um entreposto para o comércio local.98 usando-os como aliados nos ataques aos sobas que se insurgiam contra o domínio português ou bloqueavam as rotas comerciais. p. além de fornecer prisioneiros. a opção pelo comércio "pacífico" foi logo deixada de lado. Os diferentes grupos que adotavam o kilombo ou possuíam títulos kinguri eram genericamente chamados de "jagas" pelos portugueses.99 Seus sucessores guerrearam tanto ao norte de Angola. que governou Angola entre 1611 e 1615. que exploraram suas rivalidades internas. K.116. Heywood e J. trazendo-os para o domínio português e exigindo que pagassem os tributos em escravos e permitissem o funcionamento dos mercados fornecedores de cativos nas terras anexadas. . p. e John K Thornton. Sobre o tema ver ainda Joseph C. portanto.155 constituíam. Central Africans. M. na região dos Dembos. Economia e sociedade em Angola. “Requiem for the Jaga” Cahiers d’etudes Africaines. ao longo dos rios Lukala e Kwanza. Thornton. Thornton. "Angola nas garras do tráfico de escravos". a necessidade de assegurar o controle sobre as rotas comerciais. K. 13 (1973): 121-49. Ao final de seu mandato. entre o Ndongo e o Kongo.101 A aliança entre portugueses e Imbangala permitiu ainda ataques contra territórios dominados pelo reino 97 98 Beatrix Heintze. transformando-os em vassalos de Portugal pagantes de tributos. não um porto de abastecimento para o tráfico atlântico. em Benguela. 159. M. 101 L. os portugueses se aliaram aos Imbangala (chamados jagas pelos portugueses). Heywood e J. incluindo antigas famílias do Ndongo. 99 L. K.

Rio de Janeiro. p. irmã mais velha do rei. 1582-1663. o batismo de vários membros da família real e a retomada do comércio com os portugueses chegou a ser negociado. As manobras políticas e diplomáticas acompanharam o restabelecimento das feiras nas regiões próximas a Mbwila e mais ao 102 103 L. ou a submeter os sobas.103 Para se defender dos ataques portugueses e Imbangala. incluindo Kasanze. pp. sem sucesso. Os estudiosos divergem quanto às fontes e significados do gesto. Civilização Brasileira. Sonsa e pontos de travessia do rio Bengo. Atlantic Creoles. Um tratado que previa a retirada da fortaleza de Ambaca das terras no Ngola. "A rainha Jinga no Brasil" Made in Africa. tentou negociar com os portugueses. (trad. Nzinga Mbandi. 123-124 104 Foi durante essas negociações que Njinga sentou-se sobre as costas de uma escrava. Central Africans. L. K. rei do Ndongo. faziam prisioneiros.156 do Kongo ao norte de Luanda.104 O acordo entretanto nunca foi cumprido e as tentativas de apaziguar a região foram retomadas após a morte de Ngola Mbandi. e Luís da Câmara Cascudo. a fim de angariar escravos que acabavam enviados para o mesmo destino. Heywood e J. a expulsão dos Imbangala da região. Ver. 2000 . Em meio a essas guerras. 1965. E. Havia ainda colonos que se aproveitavam para realizar guerras particulares ou simples pilhagens. Assim. vendidos aos milhares para o tráfico atlântico. para mostrar-se igual aos portugueses. 2532. com a mediação de Njinga. Perspectiva. a respeito. e Selma Pantoja. K. Central Africans. Atlantic Creoles. M.102 No período entre 1621 e 1641. M. Thornton. Heywood e J. com a nomeação de sucessores ligados à Coroa portuguesa. 123. Thornton. Mulher. terras e escravos. agora. Atlantic Creoles. Resistência africana à investida do colonialismo português em Angola. 124-126. Thesaurus. Nzinga. Heywood e J. Central Africans. 1982. L. ocorria nas áreas de guerra: no interior do reino do Ndongo e na região ao sul do reino do Kongo. A escravização.) São Paulo. pp. K. guerra e escravidão. claro. M. Thornton. as guerras e o caos delas decorrente faziam com que a zona de fornecimento de escravos fosse mais restrita do que aquela atingida pelas redes comerciais que funcionavam até 1611. Ngola Mbandi. o planalto do Ndongo e em seguida o vale do rio Kwango continuaram a ser o cenário de guerras destinadas a adquirir minas. p. Brasília. nem sempre os Imbangala nem sempre aliavam-se aos portugueses: realizavam ataques por conta própria ou se juntavam a facções contrárias a eles. Para uma abordagem mais panorâmica sobre a trajetória de Njinga ver Roy Glasgow.

Heywood e J. em batalhas na região de Kabasa. MMM. Thornton. vol. Thornton. 110 L. a carta de Njinga ao governador de Angola de 13 de dezembro de 1655. 524-28.111 mas nada além disso. onde se comerciavam escravos vindos das terras mais a leste. reforçando sua aliança com os Imbangala. M. pp. Thornton. Heywood e J. 136-137. o desenvolvimento de uma administração e economia mais estáveis levou. que tanto trabalho deu aos portugueses. no Kongo. As invasões chegaram a ser questionadas em Roma. As guerras civis no reino do Kongo só terminaram com a ascensão de Garcia II ao trono em 1641. por exemplo. . manipulou várias forças políticas e militares. Kindonga e Tunda.110 Em seguida foi a vez de atacar províncias de Mbamba.. Atlantic Creoles. Central Africans. Mpungo Andongo. com grupos de Imbangala lutando de vários lados. Central Africans. Thornton. aliou-se aos Imbagala. Durante todo esse período. a morte do rei Álvaro II em 1614 desencadeou uma guerra entre os membros da família real que reivindicavam o trono e abriu novas oportunidades de domínio político e obtenção de escravos para os colonizadores. K. à diminuição do caos e das guerras. Njinga tentou ainda continuar as negociações com os portugueses. M. Foi nesse contexto que a presença holandesa se tornou mais 105 106 L. pp. 139-140.157 sul.109 Nesse mesmo período. II. M. conseguiu estabelecer sua capital durante algum tempo nas ilhas de Kindonga e dali atacou Matamba.124. pp. vassalo do reino do Kongo e vizinho de Luanda. 109 L. onde finalmente estabeleceu sua própria capital. Central Africans. 107 Cf. o coração do reino do Ndongo continuou a ser uma das grandes fontes de escravos para o comércio em direção às Américas. Central Africans. 108 L. p. sobas e famílias não reinantes do Ndongo. K.107 Foi assim que nasceu o reino de Matamba. p. p. Heywood e J. sem sucesso. 127. porém os portugueses foram vencidos. K. Heywood e J. 111 L. As guerras começaram com o ataque português a Kasanze. K. Thornton. M. M. 127-128. Central Africans. Heywood e J.108 Apenas no vale do Kwango. Atlantic Creoles. houve devolução de alguns prisioneiros. Atlantic Creoles. Thornton. K. Atlantic Creoles. que ela muitas vezes chamava de kilombo.106 Njinga venceu algumas delas. 127-128. Central Africans. na direção do rio Zenza e de Ambaca. com muitos prisioneiros enviados ao Brasil. pp. Heywood e J. Atlantic Creoles.105 A oposição de Njinga à intervenção portuguesa na sucessão do Ndongo abriu novas oportunidades para a guerra. L. mais próximo de Luanda. que envolveu facções. aos poucos. M. Atlantic Creoles. K.

Explorando a insurgência local.113 A invasão holandesa de Luanda (1641-1648) e a aliança com o reino do Kongo. Heywood e J. p. K. Thornton. ao sul. M. pp. 147. Central Africans. Central Africans. embora algumas ofensivas tenham sido acompanhadas por tentativas de negociação. p. que forneciam de quando em vez cativos para o comércio atlântico. 118 L. mudaram o cenário das guerras depois de 1641. Central Africans. Atlantic Creoles. L. de Kakongo e Loango. Central Africans. K. K. e alguns escravos eram exportados de longe. K. 117 L. 147.112 Havia ainda ações militares e comerciais na colônia de Benguela. K.118 Enquanto isso. bem como a tentativa de engajar Njinga contra os portugueses. 115 L. Heywood e J. Os mercadores luso-africanos do Kongo foram perseguidos (algumas vezes expulsos das vilas. 146-148. Heywood e J. Nsundi e Soyo. Atlantic Creoles.158 agressiva (em função das rivalidades com a Espanha a partir de 1621). 114 L. Os traficantes portugueses puderam comprar milhares de congoleses cristãos de Mbamba. 143-144. . São Salvador. Heywood e J. M.116 Durante esse período. os holandeses enviaram expedições para a região ao longo dos rios Bengo e Kwanza. 116 L. oferecendo uma alternativa para novas alianças contra os portugueses. iniciadas por um ou outro lado. p. Central Africans. M. K. Thornton. Heywood e J.em guerras que forneceram mais prisioneiros e escravos. Thornton. Portugueses e holandeses chegaram a um acordo em 1643. os portugueses. Thornton. Atlantic Creoles. 145. M. Central Africans. pp. Atlantic Creoles. M. Central Africans. mergulhado em crises sucessórias. na tentativa de retomar o reino do Ndongo dos portugueses. p. Thornton. mas conseguiu apenas expandir seu domínio sobre Sengas de Cavanga. Heywood e J. pp. A aproximação entre o reino do Kongo e os holandeses significou que a área de escravização mais uma vez mudou do interior para a zona mais próxima do litoral.117 Njinga aproveitou para fazer suas próprias alianças. com seus bens e escravos confiscados115) e as posições portuguesas foram atacadas. resistia ao domínio do Kongo . Atlantic Creoles. Heywood e J. no intuito de estabelecer zonas de domínio territorial e redes 112 113 L. 152-153. Na região de Mbamba e Mpenda havia sobas descontentes e o Soyo. investiram contra os rebeldes na região dos Dembos. Atlantic Creoles. 142. K. M. Atlantic Creoles. M. o rei do Kongo enfrentou também rivalidades internas. Thornton. Thornton.114 O interesse holandês em controlar as redes do tráfico por meio de alianças com o rei do Kongo e o conde do Soyo trouxe novas possibilidades para os que estavam sob domínio português. ajudados por seus aliados Imbangala.

pp. Songo. atacou a partir de seu kilombo em Matamba vários de seus vizinhos. M.124 O debate entre estabelecer rotas comerciais e empreender guerras ofensivas voltou à tona. EdUFF. 151. Atlantic Creoles. abastecendo o mercado de Luanda com mais e mais escravos. Central Africans. Central Africans. Central Africans. 123 L.125 De qualquer modo. Thornton.159 comerciais.). M. 121 L. p. estabeleceu seu kilombo em Ngangela e dali investiu contra Matamba. K. O trato dos viventes. o abastecimento de escravos era garantido pelas guerras entre os africanos. Heywood e J. Atlantic Creoles.122 Em 1648. Njinga. Central Africans. K. congoleses. Alencastro. p. os portugueses enfrentaram Njinga.123 Reconquistada a capital. 150. vindas do Brasil. destruindo 200 vilas e propriedades à volta de Masangano. 125 L. Thornton. por sua vez. voltou a ser cristã. 2006. Atlantic Creoles. em permanente estado de alerta. Atlantic Creoles. M. 124 L. 152. p. 148. K. Heywood e J. vide L. M. Heywood e J. Thornton. pp. Njinga. Retratos do Império. Thornton.120 Com ajuda de tropas enviadas do Brasil. Central Africans. 149. Heywood e J. Georgina Silva dos Santos e Guilherme Pereira das Neves (orgs. incluindo Kasanje e regiões próximas a Mbwila. M. Hebe Mattos. chegando a invadir sua capital em Cavanga. p. Thornton. 156 . que assim garantiram acesso aos escravos que pudesse 119 120 L. K. 126 L. K. K. K. libertando Masangano e Muxima. Sobre o envio das tropas de Henrique Dias para Angola. Central Africans. ao sul. em especial. Thornton. L. Haku. K. Ela se comprometeu a largar os costumes Imbangala que havia adquirido desde 1626-1629. Heywood e J. 122 L. 228 e 259. Muxim e Cambambe. soldados dos sobas leais aos holandeses e arqueiros de Njinga derrotou os portugueses. o governador Luís Martins de Souza Chichorro conseguiu fazer novo acordo com Njinga. Heywood e J. p. além de voltar a controlar o vale do Kwanza. Niterói. 154-155. Thornton. Lubolo. e o reino de Matamba passou a ser reconhecido pelos portugueses. M. 154. Kasanje. com o apoio das tropas comandadas por Salvador Correia de Sá.126 Em 1656. os portugueses conseguiram retomar Luanda e restabelecer alianças com vários sobas à volta da capital. incluindo parte do terço dos Henriques. M. p. em guerras que resultaram na reafirmação dos laços de vassalagem dos sobas e também na obtenção de escravos. Central Africans. Heywood e J.119 O Kongo continuou a resistir aos portugueses e procurou aliados africanos. Atlantic Creoles. p. pp. foi a vez de recuperar o domínio sobre o Libolo. M. Atlantic Creoles. Central Africans. Bembe. 35-36. Atlantic Creoles. F.121 Em 1643 uma grande aliança entre holandeses. Heywood e J. "Henrique Dias: expansão e limites da justiça distributiva no Império português" in: Ronaldo Vainfas. Yaka. e na região do Dembo. Thornton. ao norte. no Bengo. Atlantic Creoles.

. 157. Embora os portugueses não conseguissem recuperar o domínio efetivo sobre o Kongo. Central Africans.128 No Kongo. The Portuguese conquest of Angola. pp. reclamando da aproximação dos portugueses com Njinga. e da falta de pagamento por parte dos comerciantes. fazendo muitos prisioneiros. o reino do Kongo se dividiu em guerras intestinas pela sucessão. 37. pois muitos dos africanos que os auxiliavam haviam desertado. K. eram os Mbundo que entravam no Kongo em busca de escravos. Os ataques portugueses. a desunião e a falta de um governo estável ofereceram boas oportunidades para a escravização. depois retirou-se para Mpungu Andongo. bem como milhares de soldados. 157. foram mortos. as forças contrárias se enfrentaram em Mbwila. M. Central Africans. M. a rivalidade com o conde do Soyo enfraquecia o poder de Garcia II. p.127 Com o fim dos enfrentamentos nessa região. sob o pretexto de buscar fugitivos. próximo ao litoral. Central Africans. o ngola Ari rebelou-se contra o domínio português. K. L. Em outubro de 1665. Heywood e J. Antônio I e grande parte da nobreza. K. Atlantic Creoles. Heywood e J. Depois da batalha de Mbwila. invertendo o fluxo que existira cem anos antes. circunstância explorada pelos portugueses. João Fernandes Vieira (o mesmo que brigara com dom Pedro de Almeida e fora governador da Paraíba). p.129 A tensão aumentou com a ascensão de dom Antônio I ao trono do Kongo e a chegada de André Vidal de Negreiros (que havia governado Pernambuco e fora nomeado para Angola) a Luanda. M. Atlantic Creoles. 158-159. em 1671. Atlantic Creoles. Agora. onde foi finalmente derrotado. Os portugueses tentaram manobrar a situação e nomearam um rei fantoche depois de sua morte. Atacou Mbaca. Thornton. geravam prisioneiros logo adquiridos pelos comerciantes e remetidos para o tráfico atlântico.pelo menos até a morte de Njinga. pelas tropas 127 128 L. da escravização ilegal de seus súditos. Birmingham. levados como escravos para trabalhar nas fazendas e casas dos portugueses. p.130 No Ndongo. ele se rebelou algum tempo depois. durante o governo de Chichorro e de seu sucessor. o governador pode atacar Kisama.160 fornecer . 129 L. nem sempre vitoriosos. Thornton. O pretexto para o reinício da guerra foi a cobrança de cláusulas do acordo de retomada do Kongo depois da derrota holandesa. Os portugueses não conseguiram levar todos os prisioneiros. ao tentar expandir o reino do Ndongo em direção ao sul. em 1663. Thornton. Heywood e J. 130 D.

De novo. Dessa vez ele foi vencido. . Toda a história das guerras na África Central se desenvolveu. os europeus interessados no tráfico negreiro precisaram controlar os sobas da região. e 131 132 D. os conflitos extravasaram pelos territórios ultramarinos e adicionaram novos ingredientes às guerras que escravizavam tantos homens naquela parte do continente africano. durante todo o tempo. o pagamento de indenização em escravos. vide Fernando Antonio Novais. que havia participado das batalhas de Mbwila em 1665 e Mpungo Andongo em 1671. Indo além do teatro europeu. Enquanto isso. tornando-se um intermediário poderoso no tráfico com a região do Lunda. 133 B. que despontava como um grande fornecedor de cativos. Kasanje se fortalecia. como vimos. reveladora dos novos problemas a serem enfrentados na região: a concorrência com os comerciantes ligados aos interesses holandeses e ingleses. 41. 14. 1. No início da década de 1680. as batalhas implicaram perdas para os comerciantes de Luanda e Luís Lopes e Siqueira. Hucitec. especialmente cap. Heintze. Em Matamba. D. das quais participaram também Matamba e os portugueses. Por isso. em um contexto maior de conflitos envolvendo diversas nações européias. o abandono de qualquer pretensão em relação a Kasanje e a exclusividade do comércio de escravos com os portugueses. p.131 Como observa Birmingham. Essa batalha marcou o fim do Ndongo como reino independente. previa a devolução aos portugueses dos escravos que haviam fugido. p. por meio das guerras e dos acordos de paz. São Paulo. The Portuguese conquest of Angola. essa última cláusula é uma novidade. Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777-1808)". "Angola nas garras do tráfico de escravos". Birmingham. unidos sob a mesma coroa entre 1580 e 1640. Birmingham. The Portuguese conquest of Angola. o reino de Kasanje envolveu-se em guerras sucessórias. que colocou em confronto os holandeses e os estados da península Ibérica. que acabaram por perder as posições conquistadas. O tratado de paz com Matamba. firmado em 1683. apenas o registro escrito da cláusula era novo.132 Na verdade. 41. desde o início do século XVII. Para uma visão mais ampla das rivalidades européias e sua importância na concorrência colonial. foi enviado para conter os rebeldes de Kasanje e Matamba.133 O mais importante dentre eles foi a guerra dos Trinta Anos. p.161 portuguesas. a morte de Njinga reabriu os enfrentamentos com os portugueses. 1979.

Nos reinos do Kongo e Angola. O tráfico negreiro estava imbricado na história da presença dos portugueses na África Central. vassalos e kijikos Como deixa evidente o episódio dos membros sobreviventes da família real do Ndongo desterrados depois da batalha de Mpungo Andongo. aqui narrada de um ponto de vista político e militar. nem todos os prisioneiros das guerras eram enviados para o tráfico Atlântico. Este aspecto nem sempre tem sido considerado pela bibliografia. do Kongo. O poder militar português foi fundamental para submeter os sobas e deles angariar tributos . quando o faz. por sua vez. e articulava autoridades portuguesas e linhagens locais. Os sobas. o poder estava assentado em linhagens descendentes de um ancestral comum (muitas vezes mítico) ou por uma divindade. A profusão de detalhes torna patente o fato de as guerras terem sido o principal instrumento para obtenção de escravos. uma sintaxe que conjugava guerra e paz. portanto. A sintaxe da guerra não era entretanto praticada do mesmo modo por todas as pessoas envolvidas: nem todos os centro-africanos eram ou podiam ser escravizados. privilegia características étnicas e culturais em detrimento de componentes sociais e políticos.pagos em grande parte com prisioneiros. Ndongo. tanto para os colonos portugueses quanto para os potentados africanos.162 evitar que eles se aliassem ou comerciassem com seus rivais. O . exploravam essas rivalidades européias em seu benefício. O domínio político sobre os reinos centro-africanos e sobados garantia ainda privilégios para os interesses portugueses nas feiras e rotas comerciais. Sobas. Sem guerras e acordos de vassalagem. Havia. os navios do tráfico que zarpavam para a América não podiam ser abastecidos. Os portugueses reconheciam haver diferenças sociais e políticas entre os centro-africanos e não deixavam de levá-las em conta ao tratar com os poderes locais na região do Kongo e de Angola e ao operar os mecanismos que produziam escravos para o tráfico negreiro. Essa constatação nos leva a examinar mais de perto as diferenças entre os centroafricanos articulados à guerra e ao comércio de escravos. 4. que tende a discutir os números do tráfico sem contemplar a origem dos escravos ou. Matamba e Kasanje.

A nobreza estava em geral sediada nas cidades (mbanza). governadas em termos políticos e religiosos por um grupo de homens que ocupavam as posições titulares (ngundu) e controlavam o acesso à terra e aos meios naturais. a riqueza. mbanza Kongo. tanto os ligados a ele quanto os de províncias relativamente independentes com as quais mantinha relações de soberania e vassalagem. Elsevier. a população se dividia em livres e escravos. que controlava seus membros e os escravos pertencentes a elas. cada uma com seus respectivos chefes locais (nkulutu) e líderes religiosos (kitomi). (trad. que possuíam certo grau de liberdade e podiam enriquecer ou se libertar. A unidade do reino mantinha-se pelo controle centralizado no rei (mani ou ntotela) do Kongo. o controle das linhagens combinava-se à capacidade de obter tributos (cobrados em produtos. Thornton.eram as formas mais freqüentes de crescimento econômico e aumento de poder político. Os prisioneiros podiam ser integrados às linhagens como dependentes ou como escravos. 2004. que dominavam um conjunto de aldeias (lubata). que governava a linhagem assistido por um conselho de anciãos (makota). . serviços. 1400-1800. chamado soba. pais e filhos. 127.originadas por crises dinásticas ou por rivalidades políticas .163 domínio sobre as pessoas e o território era exercido por meio de uma rede hierárquica de linhagens aparentadas. pp. usados como criados. As linhagens instalavam-se em aldeias. e escravos). O principal posto era ocupado com freqüência pelo mais idoso. batizada de São Salvador pelos portugueses. que governava os chefes locais. mantinham relações comerciais e políticas controladas a partir da capital. A cobrança de taxas e tributos e as guerras . Além dos nobres. adquiridos nas guerras de conquista. o rei ou ngola governava linhagens matrilineares que possuíam posições titulares definidas como relações de parentesco (tios e sobrinhos. relacionadas entre si por meio do casamento.137.15-27. K. A África e os africanos na formação do mundo atlântico.135 No reino do Ndongo. medida em produtos e escravos. Thornton. A população se dividia entre livres (chamados morinda) e 134 John K. 135 J.). incluindo os militares. pp. etc. soldados e trabalhadores. The kingdom of Kongo.) Rio de Janeiro. circulava e podia ser acumulada. Por meio desse sistema corporativo e hierarquizado.134 No Kongo. as linhagens nobres que cercavam o rei e as instaladas nas províncias. Ao mesmo tempo político e religioso.

os Imbangala eram a terceira grande força política na região. Formaram-se assim poderosos bandos guerreiros que se deslocavam pela região Mbundu. não linhageira. Os antigos estados Mbundu em Angola. M. A. chegando a ser algumas vezes incorporados às linhagens por meio de casamentos. Como palavra comum. B. com algumas variações de significado e grafia. 138 Cf. pp.139 136 Joseph C. alguns adotavam um modo de vida mais sedentário e uniam-se a linhagens locais ou agrupavam-se em torno de poderosos chefes militares. Poder político e parentesco. p. constituindo um kilombo sociedade iniciática guerreira.138 Observo que o termo kilombo. pp. no contexto africano. chamados algumas vezes de "capitães". tinha vários significados. ou ainda significar apenas junta. constituindo uma das fontes de poder do sobas. Além desses dois reinos mais centralizados. "Kilombo. Serviam de guerreiros ou trabalhavam nos campos do sobado. não formaram estados centralizados. 139 A. 5 a 8. C. (trad. dotada de forte disciplina militar.) Luanda. Economia e sociedade em Angola. Sua origem é motivo de grande debate entre os historiadores. Economia e sociedade em Angola. união. esses grupos muitas vezes se fracionavam. e que rivalizavam com os makotas.137 que no entanto concordam que eles constituíam agrupamentos políticos militares de gente sem linhagens definidas. especialmente caps. cuja liderança era exercida por chefes militares sem ancestrais e cujo poder não passava para os descendentes.13-14. Economia e sociedade em Angola. 155-159 oferece um balanço resumido dos debates. Arquivo Histórico Nacional. Neto. existe em kimbundu e umbundu. pp. 137 Adriano Parreira. O kilombo era estruturalmente instável. que se organizavam de modo semelhante e estavam vinculados ao Kongo ou ao Ndongo. Heintze. podia designar o acampamento das caravanas comerciais ou os arraiais militares mais ou menos permanentes. J. "Angola nas garras do tráfico de escravos". Ao se deslocarem pelo planalto central de Angola. pp.160167. pois os chefes com títulos subordinados e os makotas buscavam formas de apoio externo . 1995. Parreira. Diferentemente do Kongo e do Ndongo. liderados por chefes que detinham títulos temporários (kinguri).164 escravos (kijikos).foi assim que se aliaram aos europeus ou aos reinos locais. Parreira. Os escravos podiam ser obtidos por compra ou serem prisioneiros de guerras. 153. a não ser na segunda metade do século XVII. . 42-54.136 Havia ainda outros pequenos reinos e províncias. C. que podia fazer pender a balança em favor de uma força ou outra. Maria Conceição Neto esclarece que a palavra. Poder político e parentesco. Miller. Miller.

154-155 141 Ver. Poder político e parentesco. novos estados . Manuel Pereira. Assim como os chefes africanos. assim. "Origem e histórico do quilombo na África". de 2 de agosto de 1606. 140 J. Economia e sociedade em Angola. Revista USP. Apontamentos sobre a ocupação e início do estabelecimento dos portugueses no Congo. os comerciantes portugueses e padres tinham salvo conduto e influíam na política congolesa. ocilombo. ao contrário. Fundindo-se às linhagens locais.. interessados que estavam em obter escravos. quilombos. um reino tributário do Kongo. a partir de meados do século XVII. seus habitantes e riquezas. um poder concorrente em relação aos demais reinos e chefes locais. foi ocupada militarmente. pp. 426-427.141 Tornou-se. tornou-se uma capitania com um governador nomeado pelo rei. Imprensa da Universidade.. implicavam sacrifícios humanos e práticas divinatórias e possuíam um conjunto de proibições (kijila). e A. que conseguiu manter sua relativa independência. a Carta patente do governador do. Miller. mas não havia governadores do Kongo nomeados por Lisboa. a presença portuguesa foi garantida pela associação direta com o rei. Angola. C. cujos rituais excluíam as mulheres e crianças. formaram. 1933. Como forma de organizar e congregar guerreiros. 4 (1989): 5-19. Alfredo de Albuquerque Felner. Angola e Benguela extraídos de documentos históricos. como parceiros políticos e militares. a Coroa retomou para si o governo." Mensagem. Parreira. Coimbra. foi conquistada por tropas portuguesas e.Matamba e Kasanje entre eles.140 Os portugueses conectaram-se a essa estrutura política. 28 (1995/96): 56-63. era o nome de uma sociedade de iniciação de origem Ovimbundo. caps. apropriada pelos Imbangala. Revisa Angolana de Cultura. . Conjugava guerra e alianças para fortalecer seu domínio sobre a região. Angola. pp. passando a nomear a cada três anos um capitão-mor e governador da "conquista e reino de Angola e das mais províncias dela". A região do reino do Ndongo. lutando para impor a eles laços de vassalagem. No caso do Kongo. por exemplo. Ver também Kabengele Munanga. transformou-se em uma das mais importantes instituições políticas centro-africanas no século XVII. a partir de 1575. buscava alianças com o poder militar oferecido pelos bandos Imbangala. 8. As cerimônias dos tratados e acordos entre os soberanos do Kongo e de Portugal misturavam elementos africanos e europeus. por meio do controle indireto das rotas comerciais e dos tributos.165 Do ponto de vista institucional. A partir de 1607.

obviamente.143 Algumas vezes. 3 potes de mel e duas peças de marfim. caindo para 180 em 1664. p. 142 Beatrix Heintze. que haviam participado do processo de conquista (por isso chamados conquistadores) e recebido terras em sesmaria. e a cada mudança de governo os laços de vassalagem eram reafirmados por meio das chamadas . chegou a 204 no final do governo de Fernão de Souza (1624-1630). A avidez por mão de obra local e principalmente por peças para o comércio negreiro acarretou problemas para a Coroa. "The Angolan vassal tributes of the 17th century". 2002. da destruição e do despovoamento causados pelas guerras e fomes. reis e vassalos rebeldes. que deixavam de pagar a vassalagem. Eram eles que arrecadavam os tributos. 33 sacos de feijão. já que os interesses locais em Angola prejudicavam a arrecadação dos impostos.142 O pagamento dos tributos (baculamento) ocorria a cada ano. Glasgow. os pagamentos se tornavam escorchantes. pp. fixando-se depois de algum tempo em 4 peças (escravos) anuais. Cf. Africae Monumenta.166 Durante o período de Paulo Dias de Novais. 1144 sacos de cereais. Instituto de Investigação Científica e Tropical. Além dos tributos registrados nos acordos de vassalagem havia acréscimos e outras taxas cobradas pelos governadores e capitães dos distritos e presídios. 1570-1607" in: Ana Paula Tavares e Catarina Madeira Santos (orgs. A apropriação da escrita pelos africanos. 143 Os tributos não envolviam somente escravos. que mudou o sistema em 1607. 273 cabaças de óleo de palma. Lisboa. Settlement and economic policy. 3180 peças de tecidos. pagos em víveres.). serviços e escravos. Revista de História Econômica e Social.em que os sobas ou comissários negros (quilambas) prestavam homenagem ao novo titular do posto. Os dois artigos são a fonte das informações apresentadas nos dois próximos parágrafos. Nzinga. Num ano da década de 1629 os Mbundo forneceram aos portugueses por meio de tributos 277 animais castrados. o número aumentou para 81 no início do governo de Luís Mendes de Vasconcelos (1617-1621). e. em função do empobrecimento dos sobas. 6. da mesma autora. 535-561. interessados no enriquecimento pessoal. os oficiais administrativos cometiam abusos e as guerras perturbavam a coleta de tributos. 12 vacas. . outras vezes eram suspensos. (1980): 57-78. passando a controlar diretamente a relação com os sobas. A dinâmica política local incluía ainda. "Angola under Portuguese rule: how it all began. R. 67. 580 frangos. A Coroa mantinha um sistema de registro e controle dos sobas e dos pagamentos que faziam. O novo sistema envolvia 11 sobas até 1611. O sistema porém gerava problemas constantes para a Coroa. os vassalos estavam subordinados a amos.

145 Catarina Madeira Santos. mas essa não era uma condição obrigatória. 155 (2006): 81-95. A cada novo governador em Angola. A discussão terminou com a decisão de reiterar a abolição dos baculamentos e suspender as chamadas.167 Em 1638 a Coroa tentou regular a coleta de tributos por meio de um regimento e da criação de uma Junta. Ver. a vassalagem envolvia a "obediência" ao governo português e seus mandatários civis e eclesiásticos. que passaram a ser recolhidos pela Fazenda Real e divididos entre os oficiais conforme regras específicas. etc. Beatriz Heintze. suscitaram um largo debate no Conselho Ultramarino em 1670-71. Em troca. os sobas recebiam ajuda militar. O vassalo continuava a manter relativa autonomia em relação a assuntos internos. . 18 (1980): 111-131. atribuíam aos reis vassalos diversas obrigações. a cada mudança de governo. em particular. Oficializada por meio de cerimônias específicas (o undamento). as guerras sempre exigiam contribuições. tratava-se de uma 144 Muitas vezes o ato de vassalagem era acompanhado pelo batismo do novo vassalo. além da garantia do livre trânsito para o comércio. bem como de regulamentar toda a troca de presentes entre os oficiais da administração portuguesa e os sobas. A vassalagem era. ao mesmo tempo. terminando por suspender os pagamentos e todas as outras obrigações de vassalagem em 1650. perdurando com legalidades e ilegalidades até o século XVIII. Revista de História. Os autos de vassalagem e a vulgarização da escrita entre as elites africanas Ndembu". "Escrever o poder. pagos anualmente.144 Os acordos com os sobas eram escritos e celebrados entre poderes que se reconheciam mutuamente com soberania para tal. Do ponto de vista político. proteção e a promessa de não serem atacados. desapareceram: os sobas continuaram a ser compelidos a oferecer "presentes" aos governadores. "Luso-African feudalism in Angola? The vassal treaties of the 16th to the 18th century" Revista Portuguesa de História. renovavam-se os laços de vassalagem. como a assistência militar em caso de guerra e o pagamento de tributos e outros impostos. a câmara de Luanda determinou muitas vezes novas coletas. Apenas os tributos legais. a respeito. Os "presentes" dados aos governadores. a convivência pacífica com outros sobas vassalos e o compromisso de não acoitar fugitivos. por meio do envio de embaixada e troca de presentes. contudo obrigava-se a aceitar a presença de padres e representantes do governo português em suas terras.145 Mesmo assim. O novo sistema gerou muitas controvérsias em Angola. uma relação política e militar.

Em janeiro do ano seguinte. Os rituais europeus mesclavam-se aos costumes africanos envolvendo rituais específicos. Njinga se rebelou e se constituiu como um poder autônomo. depois de aliar-se aos Imbangala. os primeiro contatos ocorreram em 1621. etc. além de colaborar na propagação da religião cristã em suas terras. a embaixada enviada pelo rei do Ndongo a Luanda. pp. Em certas ocasiões. etiquetas formais. renovar os laços de vassalagem sempre que houvesse um novo governador ou que um novo duque fosse eleito. vol. 1. doc. XIII. . entregar os escravos fugidos que estivessem em suas terras e senhorios. O melhor exemplo é. O acordo de paz entre ela e o governador Luís Martins de Souza 146 Vide "Capítulos do juramento do duque de Hoando. como irmã mais velha de Ngola Mbandi. as negociações podiam durar anos e se realizavam por meio de diversas embaixadas. uma província que foi "resgatada" do domínio do rei do Kongo quando os portugueses venceram dom Antonio na batalha de Mbwila. prestar auxílio militar em caso de necessidade. enquanto o Ndongo foi incorporado ao domínio português por outras vias.168 relação desigual e as cláusulas com sanções aplicavam-se em geral aos vassalos e não aos portugueses. tantas vezes mencionadas pela bibliografia e tratadas de modo breve no item anterior. Assim aconteceu com o duque de Hoando.146 Estava implícito que o duque. Nesse caso. como a troca de presentes. sobretudo quando envolviam os governantes dos grandes reinos centro-africanos e não apenas sobas locais. 35. dar passagem franca e desimpedida às tropas e caravanas comerciais ligadas aos portugueses. em outubro de 1665. não guerrear contra os outros vassalos de Portugal. quando Njinga liderou. de 11 de janeiro de 1666". A negociação envolvia os representantes da Coroa portuguesa (governadores. MMA. o duque e seus makotas juraram fidelidade ao rei de Portugal e prometeram entregar minas de metal ao invés do tributo anual. que atuavam conforme o desenrolar das guerras e o equilíbrio de poder na região. o rei português comprometeu-se a defender e amparar o duque nos conflitos com seus rivais e respeitar todos os seus foros e privilégios. No decorrer dos anos. capitães mores dos presídios. sem dúvida. Em troca. as várias tentativas de acordo entre os governadores portugueses e Njinga. seus nobres e súditos não seriam escravizados pelos colonos portugueses. ou os chefes dos concelhos ou distritos) e os sobas ou seus embaixadores.

campanhas punitivas ou defensivas. "Luso-African feudalism in Angola?". finalmente acertado em 1656. pp. MMA. por exemplo. Ao assinar o acordo. 8/9 (1988): 221-233.147 Se houvesse quebra das cláusulas que regiam a vassalagem. Njinga possuía sua própria corte. que eventualmente chegavam a ser discutidas pelo Conselho Ultramarino. foi depois registrado em português no cartório da cidade. a acordos de capitulação e sujeição. acordos políticos e alianças militares 147 "Traslado do auto de pazes da Rainha Jinga com o governador de Angola (15 de janeiro de 1657)". 89-93. foi trocada por 130 escravos. em Luanda. Sua irmã dona Bárbara. fls. o vassalo era considerado "rebelde" e contra ele as guerras podiam se justificar como punição ou como demonstrações de força para trazê-lo de volta à antiga submissão.148 Em alguns casos. Beatrix Heintze observa que. na prática. A guerra. Lá. 148 B. "quieta e amiga de amigos e inimiga de inimigos" dos portugueses. o texto foi lido em kimbundo.169 Chichorro. doc.150 Assim. o fato de serem escritos permitia que fossem usados para acionar mecanismos institucionais portugueses em busca de fazer valer reivindicações e direitos. XII. Por outro lado. o abandono dos costumes Imbangala adotados desde a aliança com Kalundula. 35.". em 12 de outubro de 1656. . especialmente pp. na qual estavam presentes também os delegados do governador português. e lhes garantia certa autonomia. 149 C. bem como o compromisso de que ela e seus vassalos viveriam dali em diante em paz. 150 Beatrz Heintze. que participou da cerimônia realizada em Matamba. os tratados de vassalagem correspondiam. "Escrever o poder. envolveu sua reconversão ao catolicismo. 129-131. Santos. Heintze. num certo sentido. a aliança com os portugueses fortalecia o poder dos chefes centro-africanos e das linhagens a eles ligadas. a tradição política centro-africana que conjugava guerras e acordos de paz acontecia em kimbundo e português. e interessava aos falantes das duas línguas.149 Em algumas lutas pela sucessão. que em no mais das vezes precedia a cerimônia de vassalagem. uma das facções podia recorrer aos portugueses para denunciar o rival por haver quebrado o acordo ou ganhar a simpatia ao oferecer presentes e escravos. Guerras. Revista Internacional de Estudos Africanos. que havia ficado refém dos portugueses em Luanda desde a década de 1620. As ocasiões de renovação do governo em Luanda muitas vezes ofereciam oportunidades para esse tipo de manobras e intrigas. 89-92. tendia a reforçar essa avaliação. M. "Ngola a Mwiza: um sobado angolano sob domínio português no século XVII".

que só funcionavam se abastecidas de prisioneiros e se as caravanas atravessassem os sertões. F. Praticada por centro-africanos e colonos portugueses. eram obtidos por meio das guerras ou das feiras . para retomar a expressão de Joseph Miller. pp. 59. A ação militar não era possível sem o domínio político e vice-versa: ela legitimava e assegurava os acordos de vassalagem. porém. 152 L. Gouvêa e M. A realização da guerra foi contestada e Vasconcelos chegou a ser acusado de capturar muita "gente inocente".ou seja. implicava diferenciar os centro-africanos. Cf. das demandas dos africanos que se achassem indevidamente escravizados. foram feitos vários prisioneiros. Central Africans. séculos XVII e XVIII". Os tributos estipulados pelos capítulos ajustados com os sobas forneciam escravos que. M. por sua vez.152 A devolução dos sobas e dos prisioneiros ilegalmente escravizados foi um dos pontos das 151 Um bom exemplo é o capítulo 16 do regimento da secretaria de Angola. AHU.não provinham apenas de Angola: escravizados conforme a articulação entre forças militares e políticas dessa região. em carta dirigida a Lisboa. 103 e105. Decreto de 28 de fevereiro de 1688. Santos. . K. As guerras não podiam ser feitas a esmo . Os escravos que foram para o Brasil . ao mesmo tempo em que fazia parte de suas cláusulas. 13 doc.tinham que ser reconhecidas como legítimas. que permitia e mantinha o tráfico. Cx. pelo bispo Manoel Batista Soares. Não se trata. eram circunscritas do ponto de vista geográfico e também social. Durante as campanhas contra o Ndongo empreendidas pelo governador Mendes de Vasconcelos com apoio das tropas Imbangala. p. Angola. As fronteiras da escravização. 119.151 O tema é interessante e merece ser explorado com mais detalhe. de uma concepção de "guerra justa". indo contra as leis de Deus e do rei português. Atlantic Creoles. restrita ao universo português e aos colonizadores. essa sintaxe possuía regras que deviam ser observadas. depois enviados para o tráfico atlântico ou mantidos como kijikos para trabalhar nas propriedades dos portugueses. Essa sintaxe política. N. pertenciam a grupos sociais específicos. Heywood e J.170 estavam imbricados e promoviam a produção e a circulação de escravos. "Cultura política na dinâmica das redes imperiais portuguesas. em 1619.e para Pernambuco . pois revela como as diferenças sociais e jurídicas faziam parte dos mecanismos das relações entre os portugueses e os reinos centro-africanos e como seus elementos podiam ser acionados com sentidos diversos pelas várias partes em confronto. Thornton. Apud: M. que determinou que um oficial deveria cuidar das causas do mocamos . S.

K. 159 L. M. Central Africans. Ambos mostram como as diferenças entre livres e escravos estavam presentes no processo da escravização. Escreveu ao governador do Brasil e ordenou a devolução dos mais de mil cristãos levados de Kasanze para o Brasil. devolveu prisioneiros que tinham permanecido na região. repatriando um primo do duque de Mbamba e cerca de 50 membros da elite congolesa que haviam sido aprisionados. porém. O novo governador. 129. Central Africans. juntando-se às fileiras de Njinga. K.171 negociações entre Njinga e João Correia de Souza.126. p. . em 1621. A legitimidade 153 154 L. Ndambi Ngonga e Kiteshi Kandambi 157 L. 140. O debate volta à tona em 1637. 6. Heywood e J. Vencida a guerra contra Kasanze. Thornton. quando o rei do Kongo denunciou ao papa as invasões feitas por Correia de Souza e os Imbangala. o mesmo governador Correia de Souza trapaceou ao chamar os sobas e potentados locais vencidos para um acordo. K. o rei Filipe IV chegou a prometer investigações sobre o episódio. Heywood e J. em 1622. obedecendo a ordens régias. Heywood e J. Atlantic Creoles. o que está disponível permite algumas conclusões importantes. 139. K. Atlantic Creoles. introduzindo uma variável significativa nos enfrentamentos políticos e militares na região. Glagow. Nzinga. Joseph Miller. p. com o título de panji a ndona teria recriado o reino de Kasanze. 135. "A note on Kasanze and the Portuguese". Central Africans. Thornton. menciona que um dos devolvidos a Angola. p. 141 que teriam sido enviados para o Brasil Ngole a Kaita. n.158 Em Angola. ao tratar do episódio. Thornton.157 Em 1623. L. Thornton. acompanhados por outros mais de mil cativos. K. M. Heywood e J. Central Africans. 156 L. Atlantic Creoles.156 Mais da metade morreu na travessia do Atlântico ou na chegada ao Brasil. 158 L. Central Africans. Atlantic Creoles. as fontes registram no entanto que muitos desses kijikos fugiram. cf. M. The Canadian Journal of African Studies. não houve nenhuma devolução de prisioneiros. que substituíra interinamente Correia de Souza. M. Fernão de Souza. M. p. (1972): 43-56. pp. Cf.153 Como o acordo nuca foi cumprido.159 Apesar de as informações sobre esses dois episódios serem esparsas. K. 137. M. Central Africans. 155 L. 136-137. Heywood e J.154 Considerados livres por Njinga e escravos fugidos pelo governo de Angola. p. Atlantic Creoles. Thornton. K. Atlantic Creoles p. Central Africans. 128. Thornton. p. acusou-os de rebeldes e prendeu 26 deles que. Heywood e J.155 ficaram espremidos entre as forças que se batiam pelo controle da região. Ao invés de realizar a cerimônia de vassalagem. Thornton. o bispo Simão de Mascarenhas. M. também devolveu mais alguns cativos. com a recomendação de que se lhes dessem terras "onde pudessem ficar juntos ou separados". Heywood e J. p. Atlantic Creoles. foram enviados para o governador geral do Brasil. R.

repercutindo em Lisboa e no Brasil.Brasil .161 Não sei se a medida chegou a ser aplicada. gerando debates em Luanda e em Lisboa. Muitas vezes. 185-187. a escravização também podia ser contestada. esses episódios revelam ainda que o aprisionamento em meio às guerras gerava muitas confusões. pp. sobretudo. 2002. chegando a atravessar o Atlântico em várias direções.172 do domínio sobre os escravos locais ou do poder de escravizar constitui. A 160 José C. 121. de outro criava uma instabilidade capaz de desarranjar os acordos políticos entre os poderes locais e o governo de Luanda. p. 29 e 30 de novembro de 2001. temendo serem escravizados.Caraíbas.). para permitir que os sobas pudessem voltar a suas banzas sem serem aprisionados pelos brancos. 28. aldeias inteiras fugiam para o mato. Lisboa. Atlantic Creoles. que garantia que o fluxo dos escravos seria realizado pelo pagamento de tributos e por meio das rotas comerciais que traziam os escravos vindos do interior. para evitar serem confundidos com livres e. Editora Vulgata. diante do avanço das guerras.160 Nem sempre essas salvaguardas funcionavam. uma chave a ser considerada na análise dessa cultura política e mostra como ela podia ser articulada por meio de canais institucionais diversos. mesmo que tenha sido letra vã. . África . já que pessoas livres e até sobas podiam ser escravizadas. Central Africans. Se. de um lado. no intuito de escapar aos exércitos. Por outro lado. Do mesmo modo que havia questionamento sobre a legitimidade das guerras. K. 161 L. Era necessário saber quem podia ser ou não escravizado. M. Havia certa concordância de que as pessoas livres que viviam junto aos portugueses em Luanda e nos presídios não corriam risco de serem escravizadas. Thornton. Heywood e J. o governador Fernão de Souza chegou a determinar que todos os escravos fossem marcados a ferro. Em 1624. Curto. Actas do Colóquio Internacional Universidade de Évora. Tampouco os sobas vassalos da Coroa portuguesa e seus súditos livres podiam ser escravizados. isso não colocava problemas para os interessados no tráfico atlântico. "A restituição de 10.000 súditos Ndongo 'roubados' na Angola de meados do século XVII: uma análise preliminar" in: Isabel Castro Henriques (org. Escravatura e transformações culturais. torna patente a preocupação pelo menos de algumas autoridades em manter a legitimidade das relações políticas que asseguravam o correto fluxo dos escravos. Eles estavam protegidos pela vassalagem. assim.

escreveu ao rei de Portugal para reclamar que seus súditos haviam sido injustamente escravizados. seus bens foram herdados pela viúva e pela filha. As investigações feitas junto a exgovernadores de Angola revelaram que Mendonça costumava freqüentar a corte do ngola. Protestaram por não terem sido consultadas e pelo fato de o rei português ter tomado sua decisão ouvindo apenas "um rei negro que se tem o nome de 162 O caso é analisado por J. assim de negros bons soldados. A acusação foi discutida pelo Conselho Ultramarino que. Curto. antes da chegada do governador Salvador de Sá e Benavides. era tido como seu genro. pp. recomendou a devolução de toda aquela gente. anos antes Antonio Teixeira de Mendonça havia capturado seus súditos.000 súditos Ndongo 'roubados' na Angola de meados do século XVII". Curto. C. dom Felipe (ngola Ari I). as herdeiras viram-se em maus lençóis e reclamaram ao rei. enamorou-se por sua filha e com ela viveu mais de quinze anos. que agora eram obrigados a trabalhar nas propriedades de seus herdeiros. Todavia. Privadas de trabalhadores. C. Eram súditos livres. . 194. J.173 polêmica sobre a restituição de dez mil súditos do rei do Ndongo à liberdade é um bom exemplo de como a questão era complexa e às vezes durava anos. os súditos do ngola seguiam-no na guerra e na paz e muitos moravam em suas casas e fazendas.163 Quando morreu. Segundo ele. como de fazenda". por isso. tornando-se um homem de grande "cabedal. portanto. tendo se destacado tanto na defesa de Massangano durante a ocupação holandesa que chegou a fazer parte do triunvirato que governou o reino de Angola em 1648.162 Em 1653. em 1661. "A restituição de 10. 185-208. que aumentaram as posses por meio de novos casamentos. Muito querido do rei. permaneciam. p.000 súditos Ndongo 'roubados' na Angola de meados do século XVII". Os próximos parágrafos estão baseados em seu artigo. as dúvidas sobre eles. e deviam ser restituídos e indenizados por seu trabalho. Depois de ajudar a perseguir os sobas que haviam se aliado aos holandeses. em abril de 1654. se súditos livres do ngola Ari ou se escravos. rei do Ndongo. 163 A descrição provém de documentos que compuseram sua indicação para ocupar o governo de Angola em 1649. "A restituição de 10. foi recompensado com títulos e distinções de nobreza. Mendonça havia sido um poderoso colono que iniciara sua carreira militar em Ambaca. Ordens foram enviadas para Angola e fizeramse os pagamentos indenizatórios.

seu sucessor. já indica o rumo que as coisas tomaram. Curto. que deveria ter a última palavra sobre a restituição ou não dos "escravos". O episódio mostra como os canais que articulavam interesses centro-africanos e portugueses eram múltiplos e podiam ser acionados em várias direções. nas feiras. em litígio com o rei do Ndongo e pediam os canais da justiça fossem acionados para solucionar a contenda . que também aparece com freqüência nas negociações entre os sobas e os administradores portugueses: o da devolução dos escravos fugidos. Como vimos. Mandou que o assunto fosse investigado pelo ouvidor geral em Luanda. essa palavra. A possibilidade de recorrer ao rei português. empregada pelo rei na carta que enviou ao governador de Angola. . Há ainda um outro ponto que merece destaque. no entanto. com razão. só funcionava se e enquanto fosse reconhecida pelos aliados centro-africanos dos portugueses. Embora não se tenha o resultado do processo. pôs fim à aliança com os portugueses e iniciou as guerras que levaram à batalha de Mpungo Andongo e ao fim do Ndongo como estado independente. 165 J.pela quantidade de gente envolvida e pela magnitude dos contendores . em 1671. aliás. Em geral. estava sempre presente. O Conselho Ultramarino mudou radicalmente de postura e deu razão a elas. C. Dom João Ngola Ari II.174 cristão. Apud: J.164 Disseram ter comprado em hasta pública os escravos que tinham em suas propriedades e que muitos súditos do ngola Ari nelas haviam se refugiado para escapar de tiranias. ou eram prisioneiros feitos nas guerras. que a contenda . Curto afirma. os escravos que faziam parte dos pagamentos dos tributos.000 súditos Ndongo 'roubados' na Angola de meados do século XVII. Curto.165 Essa estabilidade. ajudando a dar estabilidade ao sistema no qual estava assentada a presença portuguesa. Eles eram tão importantes para os centro-africanos quanto para os portugueses.ocorreu logo antes da morte de ngola Ari. Estavam. os costumes são gentílicos". porém. segundo elas.que era judicial e não política. 203. pois constituíam o contingente de trabalhadores que cultivava os campos. C. mas uma parte permanecia na região. p. "A restituição de 10. 205-206. os litígios desse tipo se resolviam por meio de processos e inquirições realizadas nos presídios ou nas cidades do litoral de Angola.000 súditos Ndongo 'roubados' na Angola de meados do século XVII". taxas e demais "presentes" devidos pelos sobas aos portugueses podiam ter sido adquiridos pela via comercial. Grande parte dos escravos era vendida no circuito atlântico. "A restituição de 10. 164 Consulta do Conselho Ultramarino de 2 de setembro de 1661. p.

compartilhavam porém uma cultura política específica. Asilo ameaçado. também era um bom refúgio para os escravos fugidos dos presídios de Muxima. portugueses e lusoafricanos. negociado como prisioneiro de guerra ou vendido. os portugueses organizaram uma expedição contra o mani de Kasanje. era uma arma utilizada para enfraquecer a força dos exércitos inimigos. B. 169 B. Kisama. 167 B. como foi feito no início da campanha contra Njinga em 1626. Massangano e Cambambe . o risco de ser enviado para o comércio atlântico era grande. tinham mais chances de não serem selecionados para a venda além-mar. p.168 A devolução desses fugitivos podia funcionar como pretexto para guerras ou fazer parte dos acordos com os sobas e chegou a provocar debates em Lisboa.167 Os fugitivos dirigiam-se normalmente para longe da zona de influência portuguesa. 166 Beatrix Heintze. conforme a conjuntura. das guerras e dos pumbeiros. Asilo ameaçado. Em alguns casos. Como a possibilidade de compra da liberdade era mínima. Heintze. 18. e com Matamba. Haviam sido aprisionados segundo mecanismos diversos mas articulados e foram obrigados a se transformar igualmente em escravos no Novo Mundo. e sobretudo os que ficavam com o mesmo dono. tratava da lida da casa e. Ministério da Cultura/Museu Nacional da Escravatura. Asilo ameaçado: oportunidade e conseqüências da fuga de escravos em Angola no século XVII. 1995. sob pretexto de ele ter "roubado" escravos e não querer devolvê-los. a promessa de liberdade para os fugitivos que integrassem a "guerra preta".175 transportava os bens.o que ofereceu motivo para diversas expedições punitivas e negociações específicas para devolução de fugitivos. A zona de Kasanje. O mesmo ocorria com a região dos ndembu. 168 Cf.166 Para um escravo. uma vez doado como parte de um tributo.e para Pernambuco . ao sul do rio Kwanza. Heintze. ou procuravam asilo nos sobados inimigos de seus senhores. 8-9. Asilo ameaçado. ajudavam a arranjar mais escravos e a assegurar o poder político. . pp. Heintze. a fuga tornava-se um expediente eficaz para escapar à escravidão. para escapar dos senhores. ao servirem como soldados.169 Diferentes entre si do ponto de vista político e social. até o início dos anos 1620. 9-17. Luanda. p. p. ao norte do Kwanza. Em 1615. os "centro-africanos" transportados da África para o Brasil . Os que permaneciam como trabalhadores dos africanos. era um desses refúgios. 18.

155 n. Atlantic Creoles. pp. . Nas zonas mais remotas. onde a presença portuguesa estava mais ligada às expedições militares. em meados do século XVII. em termos de rituais religiosos e políticos e da cultura material. Ambaca e Cambambe. Central Africans. L. entre 1607 e 1660. na capital e nas imediações. pp.172 Creio que a análise desses autores pode ser tomada como guia para ir além da cultura. assim como nos presídios de Massangano. ver Roquinaldo Ferreira. Para Heywood e Thornton. Eram sobretudo as elites africanas e menos as pessoas comuns que participavam da vida social e política associada à presença portuguesa. conforme as oscilações das guerras e dos acordos de vassalagem. 2 (2006): 17-41. que mostram as regiões específicas em que as guerras ocorreram entre 1615 e 1660 e as zonas de maior ou menor crioulização.Revista de História. Heywood e J. chamada por eles de zonas de crioulização. 172 Ainda que esses autores não explorem esse aspecto. Thornton. metade dos africanos que viviam entre os portugueses eram escravos. Thornton. K. Os portugueses iniciaram uma política de conquista na região do reino do Ndongo em 1575 e a proximidade com os costumes e a religião portuguesa dependia do ritmo das guerras de conquista. A "crioulização" é terreno de muitas controvérsias. essas áreas implicavam graus variáveis de crioulização. Heywood e J. K. Mas havia áreas do reino do Ndongo e de Matamba em que esses contatos podiam ser menores. Cavazzi estimou que. Essas zonas de crioulização correspondiam ao avanço da conquista portuguesa e 170 L.171 À volta desse núcleo. Ela orientou seus comportamentos e escolhas durante a vida como cativos e forjou o modo como reagiram à escravidão. havia maior presença portuguesa. as tensões culturais eram maiores.186. K. 227-235. M. 171 L.185-207. que correspondem a graus diferentes de contato entre a cultura local e a portuguesa. por exemplo. vários sobas independentes. Atlantic Creoles. M. . Para um balanço desses debates. Thornton. do Loango e de Kissama. p. Atlantic Creoles. M. Heywood e J. Central Africans. seus escravos e vassalos também viviam em contato com os portugueses.176 A experiência política que havia conformado suas vidas até então não ficou em terra. Muxima. empregados nos serviços domésticos e nas plantações. bem como escravos. em particular na ilha de Luanda. oscilando ao longo do tempo. ele pode ser deduzido facilmente da análise dos mapas que elaboraram. do outro lado do Atlântico.170 No litoral. Central Africans. "'Ilhas crioulas': o significado plural da mestiçagem cultural na África atlântica". E podiam variar. e de africanos livres e forros. que não pretendo explorar aqui. Linda Heywood e John Thornton destacam três grandes áreas culturais na região centro-africana.

africanos e podia. como o sargento-maior e capitão de infantaria enviados para explicar as "conveniências e a firmeza" do acerto realizado no Recife. K. havia uma experiência política que fazia parte da bagagem que os centro-africanos aprisionados e vendidos na África Central. Tais convergências culturais.175 Se eram gente vinda de Angola. . anexo à carta de Aires de Souza de Castro de 22 de junho de 1678. Thornton. Doc. O fato de os senhores não terem domínio sobre a comunicação entre os escravos é um fator importante. a possibilidade de usar canais de comunicação diversos de seus senhores e. as línguas faladas na zona angolana eram bastante similares. 11. é provável que o "angola" estivesse baseado no kimbundo ou dele contivesse muitos elementos. especialmente na região do Ndongo.177 ao modo pelo qual a Coroa de Portugal estabelecia seu domínio sobre o território.174 Tendo em vista que o kimbundo era a língua falada pelos habitantes do reino do Ndongo. ser praticada em kimbundo. Por isso. Os habitantes da África Central pertenciam a dois subgrupos lingüísticos bantu próximos. A África e os africanos. sobretudo. contudo. 175 Cópia do papel que levaram os negros dos Palmares. o kikongo (na região do Kongo) e o kimbudo.173 Ainda que a língua dos que vinham do interior fosse mais diversificada. 174 J. levaram para a América. É bastante plausível que a língua falada em Palmares tenha sido o kimbundo ou o "angola". 1116. a áreas em que a sintaxe política das guerras e dos acordos era praticada. D. bem como ao modo como se exercia o poder nessa região. p. conhecida por alguns padres e soldados da capitania. Thornton. nele baseado. Transcrito no anexo 5. que funcionava como uma língua franca. elas correspondem. O "papel" ajustado em 1678 entre Aires de Souza de Castro e os filhos de Gangazumba indica que os habitantes de Palmares falavam um língua diferente do português. Cx. muitos falavam o "angola". essa língua deve guardar alguma marca dessa procedência. AHU_ACL_CU_015. 262. Além da cultura e da língua. como o espanhol e o português. O contato entre os colonos portugueses e os centro-africanos esteve associado às guerras e às outras formas de obtenção de escravos. Essa é a opinião de Duarte Lopes e Filippo Pigafetta. também. literal e metaforicamente. A África e os africanos na formação do mundo atlântico. John K. Segundo depoimentos contemporâneos. p. Essa cultura política não era "exclusiva" dos centro. essa cultura política em 173 Cf. Não se trata apenas de uma questão lingüística. 262. kikongo e português.

eles podiam ser reconhecidos pelos negros dos palmares de Pernambuco. e fortalecer o reino negro que havia se formado naquelas serras do interior. Vale a pena perguntar mais uma vez: o que aconteceria se aqueles príncipes exilados se juntassem à linhagem que governava Palmares? . Mais que "conhecidos". parceiros. Podiam se tornar aliados.178 comum faziam com que o temor das autoridades coloniais em relação à presença dos príncipes do reino do Ndongo no Brasil tivesse muitas razões de ser.

sempre que uma explicação for demasiado evidente. para ratificar as determinações ajustadas em 22 de junho. é bom desconfiar. portanto. da história. A aldeia de Cucaú Conta Aires de Souza de Castro que. 23 dias depois de redigido o papel que consolidava os termos negociados entre os filhos de Gangazumba e o governador de Pernambuco. Também não pode ser analisada na base de conjecturas contra-factuais. Isso deve ter acontecido antes de 19 de julho de 1678. não com o que poderia ter acontecido. as respostas não podem ser simples. Mais uma vez. no que não combina. Muito menos de suas contradições. nem se ajusta reside a brecha para aprofundar a análise e. talvez. Para compreendêlo e explicá-lo. achar elementos que ajudem a compreender a complexidade da vida .179 Capítulo 4 ALTERNATIVAS Muitos já observaram que a história não conhece verbos regulares. para com ela se recolher ao sítio . Lógicas binárias e raciocínios causais não conseguem dar conta da multiplicidade de razões e sentidos das ações humanas.e. data em que ele escreveu uma carta ao príncipe português. Nos detalhes da documentação.com o que aconteceu. Por isso. que estava mui espalhada. segundo informa o governador. que vinham acompanhados pelos soldados do terço dos Henriques. 1. lidamos com o passado . Gangazumba enviava seus emissários. Sem dúvida. nova embaixada palmarina foi enviada ao Recife. Enquanto isso. "outros a que eles chamam reis ficavam ajuntando a gente. não encaixa.

12. De um lado. CCA. outros elementos importantes que caracterizavam a vida . AHU_ACL_CU_015. para cuidar que o acordo pudesse se concretizar. respectivamente. doc. 12. Cx. D. 11. doc. . 335v-336. IV. Porto Calvo e Alagoas e para os capitães mores das ditas vilas. militar e econômica .além de ser um gesto "para que eles experiment[ass]em no nosso agrado a segurança com que os reduzimos". 11. AUC.180 que se lhe tem assinalado". ambas de 22 de julho de 1678. De outro. 3ª-I-1-31. 3ª-I-1-31. 4 Carta de Aires de Souza de Castro para o coronel das ordenanças de 22 de julho de 1678. fl.política. Cartas de Aires de Souza de Castro para as câmaras de Serinhaém. Era preciso "juntar a gente" e cuidar de seu sustento. Porto Calvo e Alagoas que separassem "uma pouca de farinha" para que os negros dos Palmares tivessem "algum sustento" enquanto não pudessem se "valer de suas plantas e agilidade". AUC. 3ª-I-1-31. fl. 10 e fl. Em 22 de julho. 1124. IV. CCA. CCA.1 O acordo ia ser implementado e o governador começou a tomar as medidas necessárias. doc. 336. doc. Aires de Souza de Castro determinou às câmaras e capitães das vilas de Serinhaém. pois o trajeto iria 1 2 Carta de Aires de Souza de Castro de 19 de julho de 1678. e é provável que pretendessem também cuidar para que as condições fossem cumpridas como o combinado .3 As medidas tinham a intenção de auxiliar o deslocamento daquela gente. AUC. Havia. e operassem conforme práticas que não eram de modo algum desconhecidas no império português e que haviam mostrado bons resultados na África Central. porém.e que o tornavam bastante diferente do Reino e Conquista de Angola. 336. Gangazumba também recorria a ela em busca de uma aliança que ajudasse a fortalecer a linhagem que governava Palmares e garantisse que os seus súditos não seriam escravizados.desse outro lado do Atlântico . 335v.4 O deslocamento de tanta gente não era um ato corriqueiro e demandava vários preparativos. dom Pedro de Almeida e Aires de Souza de Castro talvez buscassem a paz para obter certa estabilidade. É possível que a sintaxe política centro-africana tenha presidido as escolhas das duas partes que haviam feito o ajuste.2 Enviou também uma carta ao coronel das ordenanças para que ele ajudasse a comboiar os que viessem se "aquartelar ao sítio que pareceu mais acertado e conveniente" e a transportar a farinha arrecadada pelas câmaras. IV. fl. 3 Carta de Aires de Souza de Castro para o coronel das ordenanças de 22 de julho de 1678.

CCA.7 Além disso. CCA. A providência de fornecer farinhas e destacar soldados para o comboio não era incomum. Já havia sido tomada em outros casos. que devia ficar nas cabeceiras do rio Ipojuca. 7 Ordem de 1º de novembro de 1661. muito semelhante ao que se passou com os Junduí dezessete anos antes. 62-62v. a movimentação de tanta gente revestia-se ainda de circunstâncias rituais. mel. 51.9 O procedimento adotado por Aires de Souza de Castro em relação ao descimento dos habitantes de Palmares para Cucaú era. AUC. 53. havia que cuidar para que os palmarinos de fato fossem para o local determinado e. 61v. como nas negociações entre o governador Francisco de Brito Freire e os "tapuias da nação de João Duim" [Jundui]. para que não fossem atacados ou aprisionados .8 Ato contínuo. IV. ao mesmo tempo. AUC. Para além da farinha providenciada e da presença dos oratorianos. peixe do rio. doc. . IV. onde havia "muita caça. nem tão chegados aos currais que dela possam receber dano". AUC. designou o padre João Duarte do Sacramento para ficar na aldeia e nela "levantar logo igreja no lugar que escolher e tiver por mais conveniente para conversão daquelas almas". Do ponto de vista do governo. 3ª-I-1-31. fl. pois se tratava de implementar um ajuste negociado e acertado entre governos até então rivais. AUC. doc. doc. com a ajuda dos padres do Oratório. 60v-61. 3ª-I-1-31. 6 Concessão feita por Francisco de Brito Freire em 22 de outubro de 1661. para que pudessem se sustentar. o governador havia conseguido que os índios se deslocassem e se instalassem em uma aldeia. fl.6 Acertado o local. IV. 53. fl. Nesse caso específico.181 durar alguns dias. desde que não estivessem "tanto ao sertão que pareça que desconfiamos de sua vizinhança. 50. 3ª-I-1-31. IV. a comparação permite retomar observações feitas no primeiro capítulo. CCA. fl. Brito Freire designou soldados do terço do Camarão para acompanhar os índios durante quinze dias e ajudá-los a iniciar as plantações para seu sustento.5 A pedido dos índios. portanto. 3ª-I-1-31. 5 Concessão feita por Francisco de Brito Freire em 12 de outubro de 1661. comprometeu-se a dar 100 alqueires de farinha em cada um dos primeiros três meses depois da mudança. em outubro de 1661. AUC. 8 Concessão feita por Francisco de Brito Freire em 12 de outubro de 1661. 49. doc. 3ª-I-1-31. que se contavam pelo número de seiscentos. CCA. o governador aceitou mudar o local da aldeia para uma região próxima ao rio Capibaribe. 62-62v. 9 Ordem de 25 de outubro de 1661. doc. e ferramenta para trabalharem". 61-61v.e o ajuste viesse por água abaixo. fl. CCA. IV. Nessa ocasião.

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com relação à possibilidade de o governador de Pernambuco ter percebido a povoação de negros que se formava na proximidade de Serinhaém como uma aldeia indígena. A fixação dos índios em aldeias remonta à época do primeiro governo geral, em que havia uma intenção catequética explícita. Dos sucessos iniciais na Bahia quinhentista, no entanto, o aldeamento rapidamente se transformou num terreno de conflitos entre índios, padres, senhores de engenho e autoridades coloniais.10 Não pretendo historiar aqui esses embates nem os debates jurídicos que eles envolveram; basta observar que o assentamento dos indígenas em aldeias e o modo como eram formadas e governadas estavam imbricados na delicada questão da liberdade dos índios. Ao longo do século XVII, a mesma legislação que oscilou entre reconhecer a plena liberdade dos índios e permitir sua escravização, reformou diversas vezes as formas de administrar as aldeias e os modos de utilizar o trabalho indígena.11 Convencidos pelo diálogo ou pela força das armas, os grupos indígenas eram forçados a se deslocar do interior para pontos próximos ao litoral, onde permaneciam sob o governo de padres jesuítas ou de missionários - ou ainda de administradores leigos conforme a determinação régia em vigor. De início, os únicos responsáveis pelas missões eram os jesuítas, mas logo outras ordens religiosas vieram se juntar a eles. A lei de 1611 restringiu a alçada dos padres aos assuntos espirituais, ao determinar que o governo fosse exercido por um capitão - em geral, um morador de destaque na região. A lei de 9 de abril de 1655, para o Estado do Maranhão, e as provisões de 17 de outubro de 1653 e a lei de 12 de setembro de 1663 proibiram a designação de capitães e determinaram que as aldeias fossem governadas pelos missionários e pelos "principais" das nações indígenas.12

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Para uma análise da legislação indígena no século XVI e início do XVII, ver Georg Thomas, Política indigenista dos portugueses no Brasil, 1500-1640. São Paulo, Loyola, 1982; e Carlos Zeron, La Compagnie de Jésus et l’institution de l’esclavage au Brésil. Les justifications d’ordre historique, théologique et juridique, et leur intégration par une mémoire historique (XVIe-XVIIe siècles). Doutorado, Paris, EHESS, 1998, cap. 3. 11 Cf. Beatriz Perrone-Moisés, "Índios livres e índios escravos: os princípios da legislação indigenista do período colonial" in: Manuela Carneiro da Cunha (org.), História dos Índios no Brasil. São Paulo, Companhia das Letras/SCM, 1992, pp.115-132; e também Mathias C. Kiemen, The Indian policy of Portugal in the Amazon region, 1614-1693. N. York, Octagon Books, 1973. 12 B. Perrone-Moisés, "Índios livres e índios escravos", p. 119.

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Localizadas em função dos interesses da administração colonial na defesa do território ou dos colonos em aproveitar o trabalho indígena, as aldeias tinham suas terras reconhecidas como um território sob jurisdição especial.13 Governadas em nome do soberano português, pelos padres, capitães ou até pelos índios, elas constituíam um lugar diferenciado em relação ao termo das vilas e cidades, sob a alçada das câmaras. O regime de missões servia, assim, a interesses que mesclavam o proselitismo cristão, a avidez por mão de obra, e a preocupações mais gerais de defesa do território colonial contra os ataques dos índios bravios ou dos negros dos mocambos.14 A política indigenista portuguesa também implicava a exploração das rivalidades entre as várias nações - aspecto também aproveitado pelos holandeses e franceses em suas tentativas de se fixar na América portuguesa. Os Potiguar da Paraíba, os Jundui do Rio Grande, os Cariri e os Goianás da região do São Francisco foram os principais aliados dos holandeses, enquanto os portugueses eram auxiliados por outros Potiguar e por índios que haviam sido convertidos e integravam algumas tropas, como a liderada por Antônio Felipe Camarão. A expulsão dos holandeses foi, não acaso, seguida de guerras - chamadas "dos bárbaros" - destinadas a submeter esses contingentes indígenas, de modo a reconstruir o domínio português.15 A negociação com os Jundui empreendida por Brito Freire em 1661 foi apenas um dos muitos episódios desse quadro maior.16 A sintaxe política centro-africana não era pois a única a articular guerras e acordos de paz em Pernambuco. Na capitania - assim como no resto do Estado do Brasil e no do Maranhão - os descimentos e as aldeias eram práticas constantes para "reduzir" os índios e trazê-los à obediência do soberano português. A recusa em descer para as missões ou a fuga delas transformava os índios em rebeldes e sujeitos a "campanhas de

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Este é mais um tópico que variou conforme as leis promulgadas, mas esteve sempre contemplado pela legislação. Cf. Manuela Carneiro da Cunha, "Terra indígena: história da doutrina e da legislação" in: Os direitos dos índios. Ensaios e documentos. São Paulo, Brasiliense, 1987, pp. 58-61. 14 Georg Thomas, Política indigenista dos portugueses no Brasil, 1500-1640, caps. 5 e 6. 15 Pedro Puntoni, A guerra dos bárbaros. Povos indígenas e as colonização do sertão. Nordeste do Brasil, 1650-1720.São Paulo, Hucitec, /Edusp, 2002. 16 Nesse caso, houve negociações mas não um acordo escrito. Nas guerras contra os "bárbaros" do sertão das capitanias de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande e Ceará, houve casos, na década de 1690, em os chefes indígenas acabaram por assinar tratados de paz com as autoridades coloniais que foram registrados por escrito. Para alguns exemplos desses acordos ver P. Puntoni, A guerra dos bárbaros, pp. 300-304.

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punição". Podiam servir de justificativa para a guerra contra eles, do mesmo modo que os ataques dos índios bravios do sertão contra os colonos. Assim, no Brasil e em Pernambuco, a cultura política que informava as ações dos escravos fugitivos - da formação de mocambos ao fortalecimento das linhagens encontrava outros elementos, diversos daqueles existentes na África Central. Ainda que os negros dos Palmares tivessem sido reconhecidos pelas autoridades coloniais como um poder separado, cujo governo estava assentado em uma linhagem similar à do reino do Ndongo, as negociações realizadas em 1678 não necessariamente levavam a uma aliança como aquelas realizadas com os sobas de Angola. Para Aires de Souza de Castro, é bem provável que elas significassem, também, a transformação dos mocambos em uma aldeia.17 Essa forma de apreensão pode justificar talvez o fato de que as negociações não tenham considerado a permanência dos negros em Palmares, mas seu descimento para Cucaú, em região mais próxima de Serinhaém - e da sede da capitania. Outros fatores, talvez tenham pesado para determinar o deslocamento daquelas pessoas, já que as terras de Palmares - seguindo o costume - podiam ser distribuídas aos participantes mais destacados das campanhas contra os mocambos, como forma de remunerar seus serviços. A presença dos padres oratorianos, ordem missionária por excelência e bastante ligada aos poderes coloniais em Pernambuco, como vimos, reforça a hipótese de que o modelo da aldeia indígena tenha orientado as ações de Aires de Souza de Castro. Quando tentou negociar com os mocambos em 1663, Francisco de Brito Freire enviou o padre João Duarte Sacramento ao rio de São Francisco - o mesmo que fora habitar com os Jundui em 1661. Naquela ocasião, o rei dos Palmares se recusou a aceitar a proposta do governador. É difícil saber se também dessa vez o padre João Duarte foi o encarregado de ir para Cucaú; é bem possível, pois ele continuava atuante em Pernambuco nessa época e só morreu em 1686, durante a epidemia de febre amarela.18 Alguns documentos permitem saber entretanto que um dos padres foi João da Costa. Anos depois, ao assinar
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A hipótese é reforçada pelo fato de o governador ter sido encarregado da instalação da Junta das Missões em Pernambuco, criada por ordem régia em 7 de março de 1681. O processo foi entretanto cercado de problemas e a Junta só funcionou a partir de 1692. 18 Evaldo Cabral de Mello, A fronda dos mazombos, São Paulo, Companhia das Letras, 1995, pp. 103-104.

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um atestado sobre os serviços prestados por Antonio Pinto Pereira, ele se identificou como um dos oratorianos que havia "assistido em companhia dos negros dos Palmares na aldeia de Cucaú, para onde viera por ordem do governador Aires de Souza de Castro".19 É pouco provável que os oratorianos tenham se transformado em intermediários entre os negros que se instalavam em Cucaú e o governo de Pernambuco. A proximidade entre a ordem religiosa e o governo da capitania permite levantar essa hipótese, mas tudo indica que os contatos, nesse caso, eram mais diretos: entre Aires de Souza de Castro e as autoridades palmarinas, ou por embaixadores por eles nomeados. É o que mostram também as cartas escritas a Gangazumba e Gangazona, no contexto dos preparativos para o descimento para Cucaú. A primeira delas, datada de 24 de julho de 1678, era dirigida a Gangazumba.20 O texto segue a praxe das correspondências oficiais, e seu envio acompanhou a ida e vinda de "capitães e soldados" de ambas as partes - dos oficiais do terço dos Henriques e da gente de guerra de Palmares. Foram eles a compor a parte principal das embaixadas que foram e vieram, articulando a força militar à política diplomática. Houve também troca de presentes: não há muitos detalhes sobre a "cousa da casa" enviada por Gangazumba ao governador, que lhe fez tanto agrado, mas as fontes registram que Gangazumba recebeu "panos para um vestido" e, provavelmente, o machado que pediu.21 Estes não eram objetos quaisquer, já que trocados entre autoridades e com intenção política - e revelam que ambos os lados sabiam escolher o que podia ser significativo para o outro. Em sua missiva, Aires de Souza de Castro acusou o recebimento de uma carta de Gangazumba trazida pelos "capitães e soldados" palmarinos enviados ao Recife, e reafirmou a estima que tinha em ver que, agora, "debaixo da [sua] obediência", ele teria "descanso e conveniência" nas terras que lhe foram concedidas e poderia "viver muito a

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Atestado de 6 de setembro de 1684. AHU_ACL_CU_015, Cx. 13, D. 1311 Carta de Aires de Souza de Castro de 24 de julho de 1678. AUC, CCA, IV, 3ª-I-1-31, fls. 336v, n. 13. O documento pode ser lido, na íntegra, no anexo 2. 21 Documento posterior indica que foram enviados os dois côvados de baeta negra. Cf. Ordem de Aires de Souza de Castro de 2 de dezembro de 1678. AUC, CCA, IV, 3ª-I-1-31, fl. 338, doc. 18. O uso de certos panos era sinal de distinção entre os Mbundo e os presentes podiam ter, assim um significado especial para Gangazumba. Por outro lado, os machados não eram uma arma tradicional entre eles; as que tinham lâminas em forma de meia lua eram usadas pelos Imbangala e pelos guerreiros de Matamba. Cf. Beatriz Heintze, "A cultura material dos Ambundu segundo as fontes dos séculos XVI e XVII" Revista Intrnacional de Estudos Africanos, 10/11 (1989): 15-63.

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[seu] gosto". Reiterou a promessa de lhe fazer "muitas honras e [lhe] dar patentes e insígnias", como era costume fazer "aos pretos que nos cá servem". Avisou ainda ter mandado a farinha, e ofereceu-se para ser o procurador de Gangazumba, em todas as suas "pretensões", em retribuição ao fato de ter ele vindo "para a paz e obediência no tempo do [seu] governo".22 Em seguida, assegurou ter certeza da palavra dada pelo chefe palmarino e ratificou as promessas feitas no "papel" que havia enviado. Disse ainda estar cuidando bem de sua mulher e dos filhos, e explicou singelamente não ter enviado ainda os "meninos" por considerar o grande embaraço de caminhar com eles pelo mato - mas prometeu remetê-los assim que chegassem a Cucaú. Deu notícias do filho que ficara para ser tratado de uma ferida,23 agradeceu o presente enviado - muito estimado - e mencionou mandar outros. Despediu-se, por fim, com o compromisso de dar a Gangazumba, a seu irmão e ao Zumbi tudo o que quisessem - desde que viessem em paz. Ao referir-se aos soldados que tinham acompanhado a embaixada palmarina, o Aires de Souza de Castro informou estarem eles agora encarregados de ajudá-lo no "trabalho do caminho". O governo de Pernambuco teve, mais uma vez, a preocupação em utilizar oficiais do terço dos Henriques - a "gente preta que obra debaixo da obediência" das autoridades pernambucanas.24 O capitão Estevão Gonçalves havia acompanhado a primeira embaixada;25 depois foram o sargento-mor João Martins e o capitão Alexandre Cardoso que voltaram aos Palmares para "trazer a resolução" de Gangazumba sobre o ajuste.26 Todos eram, segundo o governador, "soldados mui honrados e mui antigos"; sabiam ler e escrever o português, mas também podiam falar a língua dos Palmares.

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Infelizmente ainda não consegui esclarecer o significado da oferta para ser o "procurador" de Gangazumba. Pode estar ligado ao ofício de "procurador dos índios", mencionado no alvará de 26 de junho de 1596 e na lei de 9 de abril de 1655, cuja finalidade era proteger os indígenas. O termo, porém, é comum na administração portuguesa, e reforça a idéia de Aires de Souza de Castro considera Cucaú como um território sob jurisdição separada. 23 O fato aparece referenciado também na crônica de 1678 - mas apenas na versão existente em "Descripção com noticias importantes do interior de Pernambuco..." BNRJ-Ms, Cod. 7,3,001, já que a "Relação do que se passou na guerra com os negros dos Palmares nos sertões de Pernambuco" BPE, cod. CXVI - 2 - 13 - a, n. 9 está incompleta. 24 A expressão, como vimos, consta do "papel" que documentou o ajuste realizado em 1678. Cópia do papel que levaram os negros dos Palmares. Documento anexo à carta do governador Aires de Souza de Castro de 22 de junho de 1678 AHU_ACL_CU_015, Cx. 11, D. 1116. Vide anexo 5. 25 Ordem de Aires de Souza de Castro de 20 de junho de 1678. AUC, CCA, IV, 3ª-I-1-31, fl. 344, doc. 37. 26 Ordem de Aires de Souza de Castro de 21 de junho de 1678. AUC, CCA, IV, 3ª-I-1-31, fl. 344, doc. 38.

187 Credenciavam-se. desse modo. 399 v. Ela reitera os termos do que fora acordado em junho daquele ano e registra a boa intenção do governador em manter sua palavra. presentes e deferências estão imbricadas em várias sintaxes políticas. Como tal. 17. Aires de Souza de Castro e os demais oficiais pernambucanos não parecem ter tido dificuldade em relação aos nomes de origem africana. que lhe permitia falar em nome de seus "súditos". Nomeação de pessoas para o posto de sargento-mor da ordenança da praça de Pernambuco. assim como cobra a mesma atitude de Gangazumba. a presença constante dos "línguas" (tradutores) nas tentativas anteriores de negociação com os palmarinos e nessa de 1678 indica o reconhecimento da existência de campos culturais distintos e bem caracterizados. porém. ao mesmo tempo militares e políticas. fl. assim como as promessas feitas na ocasião. Porém. Antonio Pinto Ribeiro afirmou que fora buscar Gangazumba e o havia ajudado a "baixar com mais de 400 pessoas". AHU_ACL_CU_Consultas Mistas. nem a outras características centro-africanas dos palmarinos.tem papel de destaque. elas mesclavam-se a outros modos de agir em relação aos habitantes da colônia . ele foi identificado pelas autoridades coloniais: como "rei" dos Palmares. A sintaxe política centro-africana pode ter prevalecido para Gangazumba. que nesses documentos designam pessoas específicas. detentor de poderes políticos assentados em uma rede de relações familiares. Gangazumba negociou e se comportou na implementação do acordo de modo semelhante a muitas lideranças africanas diante das autoridades portuguesas do outro lado do Atlântico.27 A carta registra a continuidade da relação entre autoridades que se reconhecem mutuamente com poderes e respectivas hierarquias governamentais. em 28 de janeiro 1684.como no caso dos aldeamentos indígenas ou da incorporação de libertos no terço dos Henriques. ao mencionar o episódio em sua folha de serviços.e especialmente nessas cartas . As providências e decisões foram anotadas de forma a registrar que a implementação do ajuste estava garantida. Foram os filhos e irmãos do rei que lideraram as embaixadas e falaram em seu nome. Cod. a desempenhar a tarefa de mediadores e colaboradores na instalação dos palmarinos em Cucaú. Mais que rituais comuns no Antigo Regime. nomeada em vários documentos referentes a Palmares . A parentela real. . a troca de cartas. que se combinam para construir uma forma de domínio na área colonial. para as autoridades pernambucanas. foram dois de seus filhos que 27 Anos mais tarde. Cf.

AUC. IV. em setembro. fossem multados em quarenta mil réis. proibir que qualquer pessoa entrasse com arma de fogo no Recife e que os escravos pudessem andar com qualquer outra arma. ambos combateram contra os "negros rebelados". Não localizei documentos que registrem essas informações. CCA. teriam recebido nomes cristãos que incorporam o nome do governador. era preciso tomar algumas medidas de caráter preventivo. . reconhecida e aceita pelo governo de Pernambuco. IV. Cumprindo ordens régias. Tudo parecia caminhar bem. Tanta gente armada junta também suscitava problemas. A informação deve ter origem em Domingos Loreto Couto que destaca. o governador tenha aproveitado para limitar o uso de espadas. 337. e Brás de Souza Castro.30 Em meados de novembro daquele ano. Glórias de Pernambuco e desagravos do Brasil [1757]. 355v. mas que a fórmula das cartas administrativas podia ser integralmente aplicada. AUC.28 A hierarquia política e militar de Palmares foi. ABN. Xenon. manifesta seu agrado por terem os palmarinos vindo em 28 Ivan Alves Filho afirma Aires de Souza de Castro adotou dois filhos de Gangazumba quando da primeira embaixada enviada ao Recife. Talvez por isso. no final de setembro. 69. 14.188 permaneceram no Recife para atestar a veracidade da palavra empenhada. dentre os "homens pretos" pernambucanos "valorosos". doc.29 O som das caixas anunciando a ordem. a realizar-se no máximo até o último dia do mês de agosto. assim. respectivamente. 3ª-I-1-31. sob pena de serem castigados e de seus respectivos donos. Aires de Souza de Castro escreveu mais uma vez para Gangazumba e. ambos de 26 de julho de 1678. Há outras referências de que. e os da infantaria e da cavalaria. também para Gangazona. filho de Gangazumba. 29 Dois bandos do governador Aires de Souza de Castro. além de terem o cativo confiscado. fl. irmão de Gangasona e também filho de Gangazumba. dessa vez. diferentemente de outros bandos com determinações semelhantes em momentos diversos. que deve ter trazido de Lisboa. para uma "mostra geral" no Recife. As duas cartas mantêm a praxe da correspondência administrativa e usam agora o vocativo "amigo". CCA. As penas referem-se explicitamente a soldados e oficiais. não apenas se o transgressor for um escravo. 1988. fl. 355v-356. ao saudar os destinatários. 25 (1903): 107. 91. no momento em que os temidos palmarinos desciam em direção a Cucaú. 3ª-I-1-31. I. Alves Filho. bem como o ajuntamento de soldados devia causar boa impressão. o governador convocou todos os soldados dos terços pagos da capitania. 68 e fl. O governador saúda Gangazumba e lhe dá as boas vindas por ter chegado a Cucaú. que acompanhou sua instalação nas terras de Cucaú. A diferença em relação ao tratamento mais seco da carta de 24 de julho significa não uma proximidade maior. natural de Cucaú. doc. A pena pecuniária é sempre de 40 mil réis e aplicada em vários casos. Todavia. Rio de Janeiro. 30 Bando do governador Aires de Souza de Castro de 20 de setembro de 1678. doc. dom Pedro de Souza Castro Ganazona (sic). Memorial dos Palmares. ao serem batizados. p.

O fato de explicitar essa satisfação diante do próprio Gangazumba ajudava a consolidar o compromisso entre governantes e homens de palavra. Gérard Police afirma que Gangazumba teria chegado ao Recife em 5 de novembro de 1678. tantas vezes tentada e fracassada. A carta dirigida a Gangazona segue as mesmas praxes textuais. providências administrativas relacionadas ao deslocamento das pessoas de Palmares para o novo lugar. [1973]. O documento está transcrito no anexo 3. 2003. talvez por tratar de assuntos mais práticos. Aires de Souza de Castro parecia orgulhoso. 15. Lectures sur un marronnage brésilien. acompanhado por uma comitiva de 40 pessoas. 5ª ed. São Paulo. o chefe dos Palmares foi nomeado "mestre de campo de toda a sua gente" e dois de seus filhos foram adotados pelo governador da capitania.31 A redução dos levantados dos Palmares à obediência. Recebido com solenidade.189 paz. e I. Em seguida. revista. revista e ampliada. parecia ter sido enfim conseguida. Gérard Police. pp. justificada pelo fato de ele ter se colocado debaixo da obediência do príncipe de Portugal. portanto. p. O texto menciona uma carta anterior de Gangazona e outra de Antonio Pinto que noticiam que muita gente já se pôs em marcha. o governador lamenta a morte do filho de Gangazumba que. e avisa que haverá farinha para seu sustento e soldados para auxiliá-los na chegada. Talvez esse tenha sido o principal motivo da missiva. Edison Carneiro. fl. Mercado Aberto. Brasiliense. A escolha dos termos parece seguir o mesmo cuidado havido na redação do "papel". Palmares. havia sido batizado e morrera como cristão. 3ª-I-131. mas o tom agora é mais pragmático. Ibis Rouge.ou seja. Se dom Pedro de Almeida pudera se vangloriar de ter "restaurado" Pernambuco pela segunda vez. ele agora contava com feitos que também lhe trariam distinções. mas é mais objetiva e indica haver maior proximidade entre os correspondentes. segundo ele. O Quilombo dos Palmares [1947] 2ª ed. São. 337-337v. Em junho e agora em novembro. Guyane. manifestava a satisfação de ter conseguido a obediência de Gangazumba durante "o tempo do "[seu] governo". Alves Filho. IV. CCA. aproveitou para reiterar a oferta do governador de ser o procurador de Gangazumba. A guerra dos escravos. p. 1958. . 90-91 informam que em novembro. e que os demais viriam 31 Carta de Aires de Souza de Castro a Gangazumba de 12 de novembro de 1678. 147. Memorial dos Palmares. além de mencionar que os padres prometidos já haviam sido para lá enviados. reescrita. AUC. doc. 1984. "teve uma morte de todos os brancos invejada" pois morreu como um "filho da igreja" . p. De todo modo. Gangazumba foi pessoalmente ao Recife assinar a paz. 120. 79. Não encontrei documentos que confirmem essas informações. Porto Alegre. em junho daquele ano. Décio Freitas. Quilombos dos Palmares.

16. os rituais da troca de presentes e do tratamento diferenciado em relação às autoridades do sobado de Cucaú continuavam a ser praticados e tinham lugar nas finanças da capitania. com os gastos feitos com "Gangazona e os 40 negros que em sua companhia vieram dos Palmares". Mais uma vez a confiança na palavra empenhada e a confirmação das promessas feitas foram reafirmadas por textos administrativos. AUC. doc. Elas haviam sido entregues à Provedoria por dom Pedro de Almeida.33 A Fazenda real devia arcar. 32 Carta de Aires de Souza de Castro a Gangazona de 12 de novembro de 1678. é difícil estimar tanto as quantidades como discutir o significado dos números registrados pelas fontes administrativas para os que participavam daqueles acontecimentos. No início de dezembro o governador ordenou ao provedor da Fazenda Real que registrasse a restituição "aos negros dos Palmares.32 Além da instalação das pessoas em Cucaú. ainda. Os poucos números referentes ao deslocamento de pessoas e devolução de prisioneiros registrados pela documentação são espantosamente baixos: entre trezentas e quatrocentas pessoas instalaram-se em Cucaú. 3ª-I-1-31. IV. 3ª-I-1-31. 33 Ordem de Aires de Souza de Castro de 2 de dezembro de 1678. doc. O documento está transcrito no anexo 4. mas Aires de Souza de Castro o reconhece como um potentado de menor hierarquia. CCA.190 em breve. ainda que se comprometa a estender a ele os "mesmos privilégios" acertados com o primeiro. Como no caso das cifras sobre a população de Palmares. 338. doc.34 Como se vê. e agora seriam devolvidas aos palmarinos. CCA. [d]as pessoas todas dos quintos" que deviam ser remetidas para Portugal. IV. 3ª-I-1-31. 17. incluindo 12$730 réis de dois vestidos para ele e uma sobrinha e 24$220 réis com mantimentos. 338. IV. embaixadas com dez a quarenta pessoas e apenas seis cativos devolvidos para seus senhores. fl. CCA. em companhia de Zumbi. outras cláusulas do ajuste também eram cumpridas. 34 Ordem de Aires de Souza de Castro de 2 de dezembro de 1678. AUC. Do mesmo modo. fl. 337v. . Gangazona é tratado com a mesma deferência que Gangazumba. O total somava 36$950 réis. AUC. o provedor ficou encarregado de registrar a entrada na Provedoria "de seis pessoas que eles trouxeram para se entregarem a seus donos". fl. 18.

Companhia das Letras. Rio de Janeiro. Porto Alegre. Funari.) suas florestas para recolher-se às matas do Cucaú" e chamou o tratado de "imaginário". 78. Paulo. com troca mútua de presentes e as condições eram cumpridas. e Pedro Paulo de A. 1985.40 35 36 Bando de 26 de dezembro de 1678. Se as negociações de 1678 ocupam um lugar menor na historiografia sobre Palmares. 170 e Robert N..). 39 G. História do Brasil. Escravidão e liberdade no Atlântico Sul. 1996. 1982. p.191 Tudo parecia caminhar bem. 3ª-I-1-31. ed. Brasiliense. . 8. CCA. anotam a localização de Cucaú em seus mapas. "The Quilombo of Palmares: A New Overview of a Maroon State in Seventeenth-Century Brazil. 40 D. O quilombo dos Palmares. Os prisioneiros foram devolvidos e alguns escravos restituídos a seus donos.quilombodospalmares.no final de dezembro. Editora da UFRGS. il. mas todos os dados sugerem que as cláusulas do ajuste firmado em junho de 1678 entre os enviados de Gangazumba e o governo de Pernambuco estavam sendo implementadas. "A arqueologia de Palmares. Nova ed. História dos quilombos no Brasil. M. vol. 2. com a convocação de todos os homens entre quatorze e cinqüenta anos para uma revista no último dia do ano. p. Rocha Pombo chegou a afirmar que os palmarinos "não deixaram (.36 O local sequer aparece nos mapas elaborados por Edison Carneiro em 1947. Liberdade por um Fio. mas . Contexto. O contato entre as lideranças de Palmares e o governo da capitania se fazia conforme as regras de praxe. 1630-1695. p. Palmares. Robert N. São Paulo.125. 1951. Quilombos dos Palmares. 38 Cucaú não é mencionado nos mapas das várias edições da obra de D.. O mapa da página do Parque Memorial Quilombo dos Palmares situa Cucaú ao norte de Serinhaém: http://www. IV. Rocha Pombo.coincidência ou não . entre pp.39 Décio Freitas informa que a região ficava a 32 quilômetros de Serinhaém. 35. como na edição brasileira de B. p. doc. nem em obras mais recentes. Palmares (ed. Freitas." Journal of Latin American Studies 28 (1996): 546. W. Flávio dos Santos Gomes. A bibliografia é ainda mais econômica que a documentação. Os palmarinos desciam em grupos. Não há dados sobre o local nas fontes e apenas dois autores. é difícil saber onde ficava o "sítio do Cucaú".php?sec=quilombo_palmares_localizacao (acessado em 14 de agosto de 2008). 2002.35 A documentação é sem dúvida avara em informações. 1947. 110. Péret. para se estabelecerem em Cucaú. 33). 9 e 10.org. Jackson. São Paulo. S. 37 Edison Carneiro. Cucaú mereceu ainda menos atenção. O Quilombo dos Palmares. pp. 2005.37 que serviram de base para quase todos os autores posteriores. 359. p. Police. p.38 De fato. p. AUC. Sua contribuição para o conhecimento da história da cultura afro-americana in João José Reis e Flávio dos Santos Gomes (orgs. Anderson. 87.br/index.145. sob as ordens de seus chefes. fl. foi a vez de passar em revista as ordenanças. Anderson e Gérard Police. Freitas. Palmares.151.

170. Guyane. Ibis Rouge. Quilombos dos Palmares. 2003. 41 G.600 metros no sistema atual. Uma légua corresponde a 3. .192 número próximo do oferecido por Police. Quilombos dos Palmares.000 braças ou 6.Os mocambos de Palmares e Cucaú Fonte: Gérard Police. Lectures sur un marronnage brésilien.41 Mapa 4 . 146. que menciona cinco léguas. p. assim cinco léguas são 33 quilômetros. sem que se saiba a origem dos dados. Police. p.

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A crônica de 1678 indica tratar-se de uma "dilatada mata que jaz pelas cabeceiras de Serinhaém e Rio Formoso, que se chama Cucaú". Essa região, ao sudoeste de Serinhaém, é de ocupação bastante antiga, já que, antes da invasão holandesa, abrigou um engenho fundado por Francisco de Moura. Segundo Pereira da Costa, em 1637, o engenho tinha o nome de Cucaúpe e ainda pertencia a seu fundador, que estava ausente, em Portugal ou nas Índias. O nome lhe vinha de um riacho que nascia no município de Gameleira e cortava as terras, para desaguar no rio Serinhaém.42 O engenho foi destruído pelos holandeses e ficou abandonado por algum tempo. Em 1666, no tempo do governador Jerônimo de Mendonça Furtado, os moradores de Serinhaém pediram para mudar a aldeia situada próxima àquela vila para o engenho de Cucaúpe, para que dali os aldeados ajudassem a combater os ataques dos "negros tapanhuns" que estavam "levantados". Foram atendidos e o governador mandou que a câmara providenciasse os mantimentos necessários para os primeiros meses. O governador lamentou não poder ajudar com soldados, mas isentou de qualquer pena os que fizessem as entradas e matassem os que resistissem.43 A região não era, portanto, desabitada; nela havia em 1678 pelo menos um engenho44 e, talvez, uma aldeia de índios. Os documentos disponíveis deixam entender que os palmarinos e talvez Gangazumba tenham participado da escolha das terras que lhes seriam doadas por mercê. Ao que parece, o "sítio a que chamam Cucaú" era tido como região fértil, na qual havia muitas palmeiras. Segundo um relato da primeira metade do século XVII, as palmeiras eram "de grande préstimo aos negros, porquanto, em primeiro lugar cobrem com elas as suas casas, em segundo fazem as suas camas, em terceiro abanos com que abanam o fogo, em quarto comem o interior dos cocos e destes fazem os seus cachimbos e comem o exterior dos cocos e também os palmitos; dos cocos fazem azeite para comer e igualmente manteiga, que é muito clara e branca, e ainda uma
42

Francisco Augusto Pereira da Costa, Anais Pernambucanos. [1951] 2ª ed. [fac simile da 1ª ed.] Recife, Fundarpe/Diretoria de Assuntos Culturais, 1983, pp. 228-229. 43 Cf. duas cartas de Jerônimo de Mendonça Furtado de 17 de junho de 1666. AUC, CCA, IV, 3ª-I-1-31, fls. 203v-204v, doc. 171 e fls. 204v-205, doc. 172. 44 Esse engenho transformou-se no século XIX em usina, mantendo o mesmo nome. Sobre essa usina, vide Manuel Correia de Andrade, História das usinas de açúcar de Pernambuco. Recife, Fundação Joaquim Nabuco/Ed. Massangana, 1989; Gonçalves & Silva, O Açúcar e o Algodão em Pernambuco. Recife, s. ed., 1929; Severino Moura, Senhores de engenho e usineiros, a nobreza de Pernambuco. Recife, Fiam/CEHM/Sindaçúcar, 1998.

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espécie de vinho; nestas árvores pegam uns vermes da grossura dum dedo, que comem, pelo que têm em grande estima estas árvores."45 O cronista de 1678 registra que das palmeiras os habitantes dos mocambos faziam "vinho, azeite, sal, roupas; as folhas servem às casas de coberturas, os ramos de esteios, os frutos de sustento, e da contextura com que as pencas se cobrem no tronco se fazem amarras para todo o gênero de ligaduras".46 A preferência por palmares é significativa, sobretudo se lembrarmos da importância do vinho das palmeiras em rituais sociais e religiosos na África Central. A literatura sobre a região angolana é farta em referências sobre o tema. Adriano Parreira, por exemplo, indica que além de os ramos, as folhas e o tronco das palmeiras serem aproveitados na construção das casas, os Imbangala usavam a folhas das palmeiras para construir as paliçadas que ladeavam as ruas de seus kilombos. A fibra exterior da empela servia para encher colchões e travesseiros, assim como as folhas para fabricar cestos e esteiras. Os panos podiam ser feitos de vários tipos de palmeira, aproveitando-se as fibras de umas e outras para o fabrico de sacos, cobertores, esteiras e vestuário. Alguns deles, mais trabalhosos e difíceis de serem tecidos, eram destinados para uso exclusivo dos titulares. Outros, como vimos, podiam servir de moeda.47 O extenso estudo de José Curto sobre o álcool na África Central é rico em dados sobre o uso ritual do vinho de palma, chamado malavu. Obtido da fermentação da seiva retirada do cume da palmeira, essa bebida era consumida sobretudo pelo nobres, sobas e reis e desempenhava papel importante nos rituais religiosos e em cerimônias de importância política e social, como a recepção de convidados e casamentos. Por isso mesmo, ainda que não fosse armazenável, pois azedava com facilidade, chegou a ser usado como imposto e mercadoria para troca. Sua importância era tão grande que, em muitas campanhas militares no século XVII, os invasores adotavam a tática de cortar as palmeiras dos oponentes.48
45 46

"Diário da viagem do capitão João Blaer aos Palmares em 1645", RIAHGP , 56 (1902): 23 "Relação", BPE, cod. CXVI - 2 - 13 - a, n. 9, fl. 51. 47 Adriano Parreira, Economia e sociedade em Angola na época da Rainha Jinga, século XVII. Lisboa, Estampa, 1997, pp. 52-54. 48 José C. Curto, Alcool e escravos. O comércio luso-brasileiro do álcool em Mpinda, Luanda e Benguela durante o tráfico atlântico de escravos (c. 1480-1830) e o seu impacto nas sociedades da África Central Ocidental. Lisboa, Editora Vulgata, 2002, especialmente pp. 48-62.

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Assim, se as terras próximas a Serinhaém foram escolhidas por Gangazumba por terem "palmeiras para o seu sustento",49 certamente poderiam abrigar costumes cujas raízes remontavam ao outro lado do Atlântico. Ali o reino que se formara nos Palmares podia se instalar e crescer, e a linhagem que o governava conseguiria se enraizar. Para Aires de Souza de Castro, a formação de uma aldeia - ou talvez de um sobado estável poderia ser o fim dos confrontos com os negros rebeldes que tanto atormentavam os moradores da capitania.

2. Problemas Pouco mais que isso se consegue saber sobre os acontecimentos relacionados à mudança da gente de Gangazumba para Cucaú. Além dos documentos citados, há ainda o relato feito por Aires de Souza de Castro na carta dirigida ao príncipe português, datada de 8 de agosto de 1679.50 Ela informa que pelo menos três mocambos desceram para Cucaú. Nem todos, porém: segundo o governador, não se havia conseguido "reduzir com a mesma brevidade" um deles, "por ficar mais distante". Nele haviam se refugiado a maior parte dos cativos que tinham "repugnância" de "tornarem [a voltar] para a casa de seus senhores". Duas tentativas para submetê-los foram feitas, uma delas com a ajuda do "maioral dos negros que assistira na aldeia de Cucaú" - um dos que "foram dar obediência quando [ele] logo chegara àquele governo". Contudo, apenas alguns haviam atendido a seu chamado e teriam ido com ele para Cucaú. O governador também pondera que, como agora o governo de Pernambuco contava com guias fornecidos pelos "próprios negros", seria "fácil induzi-los por força" mesmo que tivessem penetrado no "mais oculto destes Palmares". Aires de Souza de Castro intentava fazê-lo logo após a partida da frota. Por outro lado, observava ter feito a distribuição das sesmarias e que os Palmares estavam "cheios de estradas e de muitos gados"; mesmo assim, os moradores "ainda" não estavam seguros em suas casas. Ao

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"Relação", BPE, cod. CXVI - 2 - 13 - a, n. 9, fl. 58v. Carta de Aires de Souza de Castro de 8 de agosto de 1679. AHU_ACL_CU_015, Cx. 12, D. 1144. Essa carta está apenas parcialmente legível. Seu conteúdo pode ser recuperado por meio do resumo de seu conteúdo feito pelo Conselho Ultramarino, em Consulta de 26 de janeiro de 1680. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco, Cod. 265, fls. 26-27v.

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encerrar a carta e afirmar ter relatado tudo "o que tem sucedido sobre esta matéria", lembrava o príncipe que continuava a "falta[r] a resolução de Sua Alteza para com ela se conseguir todo o acerto".51 Como se vê, a avaliação do governador é positiva. O acordo estava sendo cumprido e a resistência de um mocambo - motivada pela "repugnância" de serem reescravizados - poderia ser facilmente contornada com a ajuda de Gangazona. Ainda que a distribuição das sesmarias indicasse que as terras dos Palmares haviam sido incorporadas ao domínio colonial, a segurança pretendida não fora alcançada. Uma lista das sesmarias doadas "em todas estas capitanias de Pernambuco depois que o governador Aires de Souza de Castro tem cessado o prejuízo que faziam os negros dos Palmares que foi a causa porque as pediram as pessoas desta relação", anexa a uma carta de João Fernandes Vieira enviada poucos dias depois,52 permite conhecer os nomes dos que receberam essas sesmarias - vários deles comandantes de tropas que haviam atacado os Palmares junto com Fernão Carrilho, agraciado com vinte léguas de terras.53 Em 16 de agosto foi a vez do provedor da Fazenda enviar sua versão dos fatos.54 Segundo ele, apenas "dois príncipes potentados", Gangazumba e seu irmão, tinham descido para Cucaú, com quase "trezentas almas", ficando nos Palmares outro potentado, Zumbi, "com sua tropa". Vários avisos haviam sido mandados pelos tios ao sobrinho Zumbi, sem sucesso. Mais uma vez se prometeu a ele "o perdão, em nome de [sua] alteza, como aos mais se havia feito" - sem sucesso. Zumbi aparece aqui como alguém que tinha "feito grandes danos e mortes aos moradores" da região e por isso tinha receio
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Carta do governador de Aires de Souza de Castro de 8 de agosto de 1679. AHU_ACL_CU_015, Cx. 12, D. 1144. 52 Documento anexo à carta de João Fernandes Vieira de 20 de agosto de 1679. AHU_ACL_CU_015, Cx. 12, D. 1150. Ennes, por motivos que desconheço, data essa relação de 1685, o cruzamento dos dados indica ter sido escrita provavelmente antes de 8 de agosto de 1679. Ernesto Ennes, As Guerras nos Palmares: subsídios para a sua história. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1938, doc. 8. 53 Pelo título do documento não se pode ter certeza se as terras são ou não em Palmares, mas a soma total das léguas distribuídas é praticamente a mesma mencionada pelo governador, ao descrever como a região estava cheia de estradas e gados. Além de Carrilho, os principais beneficiados foram: o capitão João de Freitas da Cunha, com 50 léguas, o coronel Belchior Álvares, com 40 léguas e os capitães Domingos Gonçalves Freire, Estevão Gonçalves e Gonçalo Teixeira, com 10 léguas cada um. Documento anexo à carta de João Fernandes Vieira de 20 de agosto de 1679. 54 Carta de João do Rego Barros de 16 de agosto de 1679. AHU_ACL_CU_015, Cx. 12, D. 1146. Infelizmente, o documento está ilegível, mas seu conteúdo pode ser recuperado pelo resumo que dela faz o Conselho Ultramarino , em Consulta de 26 de janeiro de 1680. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco, Cod. 265, fls. 26-27v.

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em se juntar aos outros - além de trazer "consigo a melhor gente de guerra". Como Gangazona não havia conseguido convencê-lo, o governador, depois de consultar os capitães e oficiais da câmara, se resolveu "logo dar guerra e destruir este negro rebelde", pagando-se as custas da tarefa com os quintos das casas do Recife.55 A descrição feita por Rego Barros é mais objetiva e pragmática - e mais pessimista. Por esse relato, são apenas dois mocambos e não três que desceram para Cucaú e Zumbi vai descrito com características bélicas fortes o suficiente para justificar a decisão pela guerra: ele não só reunia os melhores combatentes, como tinha uma "tropa". Somadas as informações das duas cartas, fica claro que a percepção das autoridades coloniais justificava a resistência de Zumbi pelo medo de ser punido por seus crimes e a de seus companheiros por não quererem voltar a ser escravos. Se os motivos correspondem ou não à avaliação dos palmarinos é difícil confirmar. As informações sugerem que, diferentemente do grupo de Gangazumba, em que havia filhos e netos portanto gente nascida nos mocambos - Zumbi agregava em torno de si gente que havia vivido na escravidão - e que não queira voltar para ela. As duas cartas indicam ter havido divergências entre os chefes dos mocambos em Palmares. Elas não quebraram, entretanto, suas hierarquias internas: a liderança de um parente do rei manteve-se e a discordância gerou o afastamento de todo um mocambo sob sua liderança. A rebeldia, nesse caso foi dupla, já que Zumbi recusou, ao mesmo tempo, a liderança de Gangazumba e o que fora ajustado em junho de 1678. Lembrando das observações de Igor Kopytoff, pode-se afirmar que o procedimento não era extraordinário - e era até comum em situações de crise na África Central, em que o deslocamento de grupos que se separam das sociedades originais faziam avançar a fronteira.56 Como bem observaram Stuart Schwartz e Stephan Palmié, o kilombo pode ter servido de modelo e guia para que os dissidentes avançassem cada vez mais dentro das

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Consulta do Conselho Ultramarino de 26 de janeiro de 1680. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco, Cod. 265, fls. 26-27v. O escrivão erra ao transcrever o nome de Gangazumba, substituindo o nome próprio por um advérbio: "dois príncipes potentados, enganosamente (sic) e seu irmão". fl. 27 56 Cf. Igor Kopytoff, "The internal African frontier: the making of African Political culture" in: Igor Kopytoff (ed.) The African frontier. The reproduction of traditional African societies. Bloomington, Indiana University Pres, 1987, pp. 3-83. Para maiores comentários ver o item "Além da cultura" no capítulo 2.

doc. buscando os lugares "mais ocultos" daqueles palmares. o governador nomeou Manoel Lopes para comandar a expedição e publicou um edital a fim de incentivar as pessoas a integrarem a expedição: os prisioneiros escravos dos moradores seriam entregues aos donos. doc.59 e determinou ao provedor da Fazenda que 57 58 Edital de 17 de agosto de 1679. . 3ª-I-1-31. 3ª-I-1-31. fl. Como previa uma das cláusulas do acordo de 1678. Mesmo sem contar com notícias de Lisboa. Elas se encarregaram de tornar evidente que a decisão de "fazer de novo a guerra" fora tomada em reunião da Junta da capitania e se justificava pelo fato de que nem todos os negros dos Palmares tinham aceitado viver "debaixo da obediência deste governo nas partes que se lhe assinalou": havia "faltado a esta palavra o negro Zumbi com os mais do seu mocambo". ajuntassem a gente e os mantimentos necessários.57 Assim. o binômio da obediência e da rebeldia foi retomado e posto mais uma vez em prática. como de costume. IV. com a finalidade de armar uma expedição. "com toda a brevidade". e tomou as providências necessárias. era o caso de tomar providências conjuntas para obrigar os renitentes a se juntarem aos que desciam para Cucaú . Porto Calvo. fl. comandadas por gente de Palmares e por oficiais de Pernambuco. 24 Edital de 17 de agosto de 1679. Alagoas e Rio de São Francisco. CCA. a fim de justificar a guerra para reduzir os que se recusavam a cumprir o acordo. fl.mas não do mesmo modo que até então fora feita. 339v. mediante o pagamento de um "assento". AUC. doc. IV.58 Mandou que as câmaras de Serinhaém. Ainda em agosto. o governador continuou a agir. CCA. portanto). 25 59 Ordem de 18 de agosto de 1679. 340. IV. A guerra ia recomeçar . AUC. Ordenou à câmara de Itamaracá que enviasse o que se havia arrecadado com o contrato do sal. como a situação exigia. pois envolvia membros da linhagem governante dos Palmares e Gangazona participava das expedições e dos combates. AUC. mas os outros poderiam ser livremente repartidos entre os participantes da entrada (sem o pagamento do quinto.198 matas. e os que enviassem escravos para carregar os mantimentos seriam atendidos em seus pedidos de postos em milícias e ofícios públicos. 86. CCA. em busca de refúgio e de condições para se estabelecerem em torno de uma liderança militar. 360v.o que estava sendo feito por tropas conjuntas. 3ª-I-1-31. Entre 17 de agosto e 13 de setembro expediu várias ordens.

doc. 361v. Por ter mantido as tropas mobilizadas e logo reiniciar os combates. 3ª-I-1-31. soldados e negros para carregar os mantimentos. 86. pois em 16 de fevereiro.62 Manoel Lopes deve ter partido em seguida. fl. 361. IV. e o capitão do terço dos pretos Alexandre Cardoso 4 mil.63 As providências tomadas em seguida confirmam as dificuldades . doc. IV. 88 e fl. Décio Freitas (Palmares. André Dias. CCA. doc. CCA. Rio de Janeiro. AUC. Freitas considera Aires de Souza de Castro um governante previdente. 362. IV. O sargento mor Manoel Lopes recebeu 50 mil réis. AUC. como em ocasiões anteriores. ao invés de serem pregadas na porta da matriz. havia o incentivo de repartir os prisioneiros igualmente pelos soldados. doc. e Ordem de 6 de dezembro de 1679. 94. Às tropas que perseguiam Zumbi e os que haviam permanecido em Palmares logo se juntaram mais soldados. . pp. AUC. 63 Bando de 8 de dezembro de 1679.61 medicamentos e mantimentos. o governador determinou que o capitão João de Freitas da Cunha saísse da vila das Alagoas em direção aos Palmares. morador em São Miguel. Ordem de 12 de setembro de 1679. fl. com poder para os prender "em qualquer parte onde os colher ainda que seja em fazendas ou casa de quaisquer 60 Ordem de 30 de agosto de 1679. 3ª-I-1-31. Biblioteca do Exército. o capitão Cipriano Lopes.199 distribuísse 102 mil réis para os oficiais que iriam combater em Palmares. A documentação. fl. 1988. CCA.a campanha não estava sendo tão fácil quanto o previsto. IV. CCA. porém. deviam ser anunciadas ao som de caixas "na presença de todos". doc. 89. em 8 de dezembro. AUC. AUC. 255 e 257. pessoas. [1956] 2ª ed. IV. fl. eles ficariam conhecidos "pela infâmia de se retirarem de ocasião tão importante". 3ª-I-1-31. mas logo encontrou dificuldades pois. fundado por Carrilho. com toda as munições. o sargento mor dos pretos João Martins e o ajudante Francisco Tavares (responsável pelas munições e mantimentos) 6 mil cada um. 3ª-I-1-31. IV. com ordens para percorrer "o campo e mais lugares por onde tiver noticia que andam negros fugidos e levantados". doc. para "ir investir ao mocambo em que está o negro Zumbi aquartelado". 360v-361. 360v. CCA. AUC.60 bem como comprasse munições. foi nomeado "capitão-mor de campo da vila das Alagoas e seus distritos". 3ª-I-1-31. 87. além da pena física. Reino negro de Palmares. As medidas eram severas e. 91. Mário M. doc. mas agora se acrescentava a pena de "três tratos de braço solto" e degredo para Angola para aqueles que desertassem "tanto da marcha como da campanha sem licença". 361-361v. 93. CCA. o capitão mor do campo Francisco Ramos. 3ª-I-1-31. 19-120) afirma que uma guarnição havia sido mantida no arraial do Bom Jesus e a Cruz. p. 360v. não fornece indícios seguros sobre isso. Como sempre. fl. fl. o capitão Antonio Pinto e o capitão Estevão Gonçalves 10 mil cada um. 62 Duas ordens de 1º de setembro de 1679. 61 Ordem de 30 de agosto de 1679.

a vila de Alagoas determinava que seus moradores deveriam custear o envio ao arraial onde havia se instalado em Palmares um comboio que devia chagar lá "até 10 de fevereiro" com vinte arrobas de carne. Permitiu a permanência das mulheres desde que entregues "conforme o assento que nesta parte se usa". 66 Bando de 26 de fevereiro de 1680. AUC. Manoel Lopes pedia mais mantimentos. As tropas conseguiram prender "um negro a que chamam Moioio". 65 Em 26 de fevereiro. RIAGA (1875): 184. Em 26 de fevereiro de 1680. 340v-341. não somente fugiam mas ainda seduziam a outros para que o fizessem". a quem os moradores de Porto Calvo. doc. quinhentas curimãs e duas mil tainhas.66 Além de arcar com os custos da guerra. 3ª-I-1-31. os custos corriam por conta dos senhores.64 Enquanto isso. fl. CCA. fl. que interferiam no domínio dos senhores sobre os escravos reavidos. doc. CCA. o governador ordenou então que os moradores que tivessem escravos "destes que se aprisionaram e que conhecidamente forem seus" os embarcassem para fora da capitania num prazo de oito dias. Ele fora enviado à cadeia do Recife.200 moradores" e de matá-los "livremente" se resistissem.65 Além das expedições militares. 3ª-I-1-31. Elas estavam baseadas na constatação de que os negros aprisionados durante as guerras contra Palmares que permaneciam em Pernambuco "em muito pouco tempo. o que foi providenciado por ordem dirigida à câmara de Alagoas.67 É revelador o fato de se recorrer à Justiça. talvez para deixar alguma margem de negociação ou evitar abrir outra frente de batalha. 28. os senhores teriam agora que pagar para deportar os cativos nela aprisionados. carregados por 50 negros. era mesmo preciso que fossem enviados para o Rio de Janeiro ou para Lisboa . o governador também tratou de tomar outras medidas importantes. não impõe penas. "Segundo Livro de Vereações da Câmara de Alagoas".única forma de se conseguir de fato "extingui-los". AUC. IV. pouco popular entre os proprietários de escravos reavidos depois de tantos esforços. Tantas dificuldades não impediram a obtenção de algum êxito. Como se viu. RIAGA (1875):184-185. Como se tratava de uma "conveniência do serviço" real. 30. Alagoas e Rio de São Francisco acusavam de "grandes crimes e insolências". 67 Aviso de Aires de Souza de Castro de 18 de março de 1680. "Segundo Livro de Vereações da Câmara de Alagoas". 341v. IV. Os 64 Patente de 16 de fevereiro de 1680. às ordens do ouvidor geral e auditor da gente de guerra para ser processado e castigado. por exemplo. A ordem. . as ações dos negros dos Palmares eram percebidas sob a tópica da rebeldia. Por isso.

341. saber que outras pessoas podiam chegar até ele sem serem incomodadas. fl. doc. a oferta reiterava os termos acordados em junho de 1678.69 Mais uma vez. mas que fosse morar "com seu tio Gangazumba. 95. ao mesmo tempo. desde que "se reduza à obediência das nossas armas. a via da guerra não foi a única a ser tentada. que eram cumpridos por Gangazona. como no caso da vila de Olinda. AUC. 20 (1906): 268-269. ficando com toda [a] sua família liberta".68 A correspondência entre dois os governadores mostra que os esforços para a destruição do mocambo de Zumbi e a prisão dos que resistiam e continuavam pelos matos ultrapassavam os limites da capitania. 3ª-I-1-31. 362. "homem que soube[ra] guardar sua palavra".201 rebeldes podiam ser reduzidos à obediência . O reconhecimento do poder dos potentados com os quais se havia 68 Carta de Roque da Costa Barreto a Aires de Souza de Castro de 2 de março de 1680. era preciso punir os crimes cometidos contra os moradores . Em Pernambuco. CCA. No caso de criminosos.. Manoel Lopes. doc. AUC. associavam-se para pagar os oficiais que corriam os matos em busca de fugitivos.como no caso da instalação da aldeia de Cucaú . IV. fl. 29. buscando (.70 Ao autorizar qualquer pessoa a servir de intermediário. IV. "por alguma indústria". 70 Bando do sargento mor Manoel Lopes de 26 de março de 1680. O fato foi comunicado ao governador geral do Estado do Brasil. "Dezenove documentos sobre os Palmares pertencentes à Collecção Studart". RTIC. já que o governador geral se comprometia a voltar a pagar os soldos de Manoel Inojosa. Como se vê.) a seu tio Gangazona para viver a mesma liberdade com toda [a] sua família". noticiasse "ao capitão Zumbi" que o governador "novamente lhe tem perdoado em nome de sua alteza que Deus guarde todos os crimes que contras estes povos tem cometido". CCA.e os escravos fugidos deviam ser aprisionados e devolvidos a seus donos. que também participava das guerras contra Palmares.daí o recurso à Justiça. outras câmaras além das mais próximas de Palmares. . o sargento mor reconhecia ter dificuldade para localizar Zumbi e. 3ªI-1-31. O interessante é que Manoel Lopes e o governador não pediram que Zumbi se entregasse. que felicitou o colega de Pernambuco. o sargento mor encarregado do comando das expedições. 69 Ordem de Aires de Souza de Castro para a câmara de Olinda de 20 de março de 1680.. fez publicar um bando em que pedia a qualquer pessoa que.

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negociado a paz era, assim, reiterado - agora na figura de Gangazona. Essa era a forma de reduzir a rebeldia de Zumbi. Mais interessante ainda é o fato de o bando, além de ofertar a paz, trazer explicações sobre a prisão de algumas lideranças palmarinas. João Mulato, Canhongo, Gaspar e Amaro haviam sido detidos, pois "tinham combinado com muitos escravos (...) cativos para se alevantarem faltando às pazes prometidas" e por terem matado "com peçonha seu rei Gangazumba para melhor fazerem a sua aleivosia". A prisão se justificava pelo crime cometido, não porque o governador desejasse faltar "ao que com eles tinha efetuado". A situação era, portanto, delicada. Dois dos agraciados com a alforria em 1678, João Mulato e Amaro, haviam conspirado contra o ajustado em 1678; por isso fora preciso prendê-los. Poderiam ser reescravizados por ingratidão; como tinham cometido o crime de atentar contra a vida de um rei reconhecido pelas autoridades coloniais, deviam ser processados e punidos. É difícil imaginar que essa lógica tenha sido compreendida ou aceita por Zumbi. Na sintaxe política centro-africana, como vimos, a discordância política implicava a separação das facções em disputa e a aliança de uma delas com grupos rivais. Assim fizeram os portugueses e muitos sobas do Ndongo e Njinga, como vimos. Em alguns casos, as lutas sucessórias e as conspirações contra os sobas e potentados muitas vezes incluíam o assassinato por envenenamento. Infelizmente, as fontes são fragmentárias demais para que a hipótese possa ser verificada. Não há dados para saber se houve ou não ligação entre Zumbi e o grupo acusado de ter matado Gangazumba, nem se a conspiração objetivava a fuga coletiva ou a deposição de Gangazumba. Também dessa vez, é a carta enviada pelo governador de Pernambuco a Lisboa, em 22 de abril de 1680 que oferece um panorama mais abrangente da situação.71 Ele conta que, assim que partira a frota, havia mandado Manoel Lopes e outras tropas da capitania entrar "para o sertão" e atacar todos os "mocambos e famílias". Eles tinham conseguido derrotar os negros, pois havia muitos "cativos e mortos, que passa[v]am de oitocentas peças", além dos que morriam "de doença [e] por falta de mantimentos e [do]
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Carta do governador da capitania de Pernambuco, Aires de Sousa de Castro de 22 de abril de 1680. AHU_ACL_CU_015, Cx. 12, D. 1163. O documento está ilegível e seu conteúdo é resumido na Consulta do Conselho Ultramarino de 8 de agosto de 1680. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco, Cod. 265, fl. 29v.

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aperto que se lhes fizera". Só restara "Zumbi que é o que hoje os governa, mas com mui poucos". Como havia ainda gente que estava se "passando para nós por não terem outro remédio" e as tropas continuavam suas diligências, mesmo no "rigor do inverno", a avaliação do governador e dos moradores era relativamente otimista, ainda mais porque eram ajudados pelo "maioral dos negros que assistia na aldeia de Cucaú (...), com zelo e fidelidade". Mas isso não era tudo: os que haviam permanecido em Cucaú "se foram desviando do que prometeram" e estavam "conjurados para se retirarem outra vez levando muitos escravos dos moradores daquela vizinhança, além de darem avisos e levarem mantimentos e munições para a defesa dos outros postos". Fora então preciso "mandá-los prender e havê-los por cativos, como os mais". A decisão fora tomada com o "parecer dos letrados, soldados e pessoas de maior capacidade" e o quinto da Coroa, obtido com os prisioneiros, fora aplicado para custear as guerras. A pilhagem livre para os soldados fora aplicada apenas em relação aos outros prisioneiros.72 Nem uma palavra sobre a morte de Gangazumba e a prisão de seus autores. O balanço da situação não parecia muito alentador para Aires de Souza de Castro. Os rebeldes que não haviam descido para Cucaú estavam quase de todo derrotados, mas ele fora obrigado a prender e cativar muitos dos que estavam na aldeia. Ainda que o governador não enuncie com todas as palavras, o acordo fracassara. O quadro parece claro: ele se certificara de que os que estavam em Cucaú conjuravam para fugir e os mandara prender. Não foram entretanto enviados à justiça nem despachados para fora da capitania, mas escravizados. Ao considerá-los "cativos, como os mais", Aires de Souza de Castro quebrou o padrão até agora seguido, que separava rebeldes, fugidos e criminosos. A decisão deve ter sido difícil, pois fora necessário consultar várias pessoas. Todos eram fugitivos - e a gente da ordenança estava liberada para escravizar qualquer negro que andasse pelos matos. Embora a documentação nem sempre seja clara quanto ao destino das expedições e mencione somente a guerra contra os negros dos Palmares, ao que tudo indica

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As citações, aqui, foram retiradas do resumo da carta do governador de 22 de abril de 1680, constante da Consulta do Conselho Ultramarino de 8 de agosto de 1680. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco, Cod. 265, fl. 29v, pois o original está muito estragado. Cf. AHU_ACL_CU_015, Cx. 12, D. 1163.

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formaram-se, a partir de então, duas frentes de batalha. Edison Carneiro afirma que a tarefa de reduzir os negros levantados de Cucaú foi entregue ao capitão mor Gonçalo Moreira, mas não pude confirmar essa indicação.73 A documentação administrativa do final do governo de Aires de Souza de Castro não fornece muitas informações e a bibliografia tem reconstruído a participação dos vários comandantes por meio de pedidos de mercês feitos em datas posteriores pelos soldados e comandantes - cujas informações são imprecisas e pouco confiáveis.74 O fim de Cucaú não deixou Aires de Souza de Castro muito satisfeito: em meio às notícias enviadas para Lisboa, comentou que, embora "todos aqueles moradores e soldados antigos" confessassem ter obrado "alguma cousa" naquele ano, "ele governador tinha pouca experiência do Brasil, [e] não o sabia avaliar por tal". Ficava, porém, com "o sentimento de não poder adquirir o desejava no real serviço de V.A."; como consolo, ponderava que "ao menos não saíra a muita despesa daquela guerra da Fazenda Real nem na sua entrara mais que a gloria de suceder no seu tempo". Para quem havia tido tanto orgulho de ter reduzido os negros no "tempo do seu governo", o fim da aldeia de Cucaú parecia diminuir a glória de ter destruído os mocambos. Em junho daquele ano, atendendo a uma petição do próprio governador, encaminhada por decreto ao Conselho, os conselheiros opinaram a favor de sua substituição: Aires de Souza de Castro alegava sofrer de "achaques doenças tão graves", queria retornar a Lisboa e já se haviam completado os três anos de seu mandato. Antes de continuar a análise, cabe tratar do modo como a bibliografia interpretou esses acontecimentos. Segundo Décio Freitas, no início de 1680, Cucaú foi arrasado, os "chefes da intentona" degolados e os demais reduzidos à servidão perpétua, partilhados entre os senhores de escravos locais. Terminava assim a história da "capitulação de Gangazumba", como ele a chamou: estava destruído "Cucaú, o caricato anti-Palmares tão esperançosamente fundado pelas autoridades coloniais".75 O posicionamento crítico desse autor é seguido com maior ou menos ênfase pela bibliografia, que opera de modo a construir uma polaridade entre Gangazumba e Zumbi.
73 74

Edison Carneiro, O Quilombo dos Palmares [1947] 2ª ed. revista. São Paulo, Brasiliense, 1958, p. 120. Ver, Por exemplo, E. Carneiro, O Quilombo dos Palmares, pp. 120-124; D. Freitas, Palmares, pp. 119120 e Ivan Alves Filho, Memorial dos Palmares, pp.96-99. 75 D. Freitas, Palmares, p. 120.

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Edison Carneiro observa que, apesar das festas em Olinda e Recife, e do fato de os vitoriosos se sentirem tranqüilos o suficiente para pedir a doação de terras e sesmarias em recompensa de seus serviços, as dúvidas se concretizaram: o acordo não foi aceito "pelos chefes mais resolutos dos Palmares".76 Zumbi, sobrinho do rei, se internou nos matos, "certamente com outros chefes de mocambos mais jovens", para continuar a lutar. Foi tentada uma negociação com Zumbi, sem êxito: "enérgico, resoluto, obstinado, Zumbi iria dar à luta o caráter heróico que a celebrizou entre as insurreições de escravos no Brasil".77 A oposição entre velhice e juventude, associada ao binômio acomodação e resistência aparece em diversos autores e é a principal chave interpretativa dos acontecimentos. A ela se agregam outros elementos. Manuel Arão afirmou, por exemplo, que o acordo de paz não tinha sido tratado com as autoridades competentes do quilombo, e teria sido esse o motivo da dissensão que culminou no assassinato de Gangazumba e na emergência de um novo rei, Zumbi.78 O tema da autoridade está presente também em Jaime de Altavilla, que ponderou que os quilombolas possuíam ideais e princípios e marcou uma distância moral entre Gangazumba e Zumbi, evidenciada pela aceitação da paz pelo primeiro e pela renúncia às regalias e galhardias das ofertas feitas ao segundo.79 Alfredo Brandão, por sua vez, considerou que Zumbi "desconfiou das promessas dos portugueses", recusou-as, "revoltou-se contra o próprio tio, o rei, matou-o com peçonha, reuniu os seus cabos de guerra, internou-se nas matas e, como chefe, como rei, continuou a luta".80 Mesmo para Benjamin Péret, que não dedicou muita atenção ao acordo de paz, é importante afirmar que Gangazumba teria sido "destituído e envenenado por ter pedido a paz com os brancos ou por ter concordado com ela". Para ele, a autoridade de Zumbi residia "na recusa da paz aceita por Gangazumba e na supressão deste último (para a
76

E. Carneiro enfatiza que os governantes palmarinos eram idosos, como Gangazumba e seus auxiliares mais imediatos. Afirma ainda ser ele um "homem idoso quando resolveu fazer as pazes de 1678". Cf. O Quilombo dos Palmares, pp. 69-70. 77 E. Carneiro, O Quilombo dos Palmares, p. 119. 78 Manuel Arão, "Os quilombos dos Palmares". RIAHGP, 24 n.115/118 (1922): 246-247. 79 Jayme de Altavilla [Amphilophio de Mello], "A Redempção dos Palmares" RIAGA, 11 (1926): 59. 80 Alfredo Brandão, "Os negros na história de Alagoas". Estudos Afro-Brasileiros. Trabalhos apresentados ao 1 Congresso Afro-Brasileiro reunido no Recife em 1934. [ed fac simile] Recife, Fundaj/Ed. Massangana, 1988, p. 72.

206 qual, sem dúvida, colaborou)".81 Para esse autor, ao contrário de Gangazumba, Zumbi liderou uma guerra sem fim contra os brancos, na qual "um dos dois [lados] dev[ia] desaparecer".82 A oposição entre Zumbi e Gangazumba aparece também em Clóvis Moura que registra que Gangazumba presidia o conselho formado pelos chefes dos principais quilombos, "até o ano de 1678 quando, havendo negociado a paz com os brancos, perdeu o prestígio entre seus pares e foi assassinado, tendo sido substituído por Zumbi, que passou à história como líder incontestável e herói de Palmares".83 Segundo Mário M. Freitas, entretanto, como foi o filho mais velho de Gangazumba que foi ao Recife assinar a paz, ela acabou sem ser "ratificada pelo rei supremo dos palmarinos e deus da guerra dos quilombos". Não fica claro, no seu texto, se apenas a gente de Gangazumba se dirigiu a Cucaú. Para ele, a paz foi minada pelas investidas contra os quilombos - a "colônia de Cucaú" entre eles -, pelo "cordão de segurança" à volta de Cucaú e da serra da Barriga, que fechavam o comércio dos negros com as vilas vizinhas, bem como pelo bando que isentava os voluntários do pagamento do quinto, e pelo incômodo dos moradores de Porto Calvo e Serinhaém diante da concessão da "floresta majestosa do Cucaú ao rebelados".84 Sem ver conflitos entre Zumbi e Gangazumba, Mário M. Freitas considerou que a trégua teria sido quebrada quando Zumbi tomou conhecimento de que o governador distribuíra entre seus capitães as terras dos Palmares "e que nada mais restava para os negros senão a floresta de Cucaú, onde deveriam viver ilhados para o resto da vida, cercados pelas armas da opressão".85 Avaliando os eventos de um ponto de vista político, tanto do lado dos negros quanto dos governadores, soldados e moradores, Mário M. Freitas situa as negociações no
81 82

Benjamin Péret, O quilombo dos Palmares. Porto Alegre, Editora da UFRGS, 2002, pp. 118, 125 e 126. B. Péret, O quilombo dos Palmares, pp. 125-126. Por isso mesmo, as iniciativas posteriores de paz empreendidas por Zumbi "eram meras astúcias de guerra, destinadas a dar ao quilombo um descanso que lhes permitiria retomar forças" (p. 126). 83 Clóvis Moura, "O quilombo dos Palmares" Rebeliões da Senzala. Quilombos, insurreições, guerrilhas. [1959] 2ª ed. revista e ampliada Rio de Janeiro, Ed. Conquista, 1972, p. 180. Ainda segundo o autor, nos Palmares, "os chefes militares de maior prestígio colocaram-se contra o acordo e, depois de discutirem o assunto, resolveram desrespeitá-lo, executar o rei e entregar a direção de Palmares ao Zumbi, sobrinho do rei, elemento novo e de 'grande valimento'" (p. 188). 84 M. M. Freitas, Reino Negro de Palmares, p. 253. 85 M. M. Freitas, Reino Negro de Palmares, p. 254. Sua avaliação lembra a de Rocha Pombo, que entretanto negou que os palmarinos tivessem se deslocado para Cucaú. Ao invés disso, teriam tratado "logo de concentrar-se em um grande núcleo, ou de reunir o maior número de guerreiros em uma grande fortaleza central que servisse de refúgio para os habitantes dos mocambos do interior". R. Pombo, História do Brasil, vol. 2, p.125.

87 mas aponta a existência de "múltiplas e obstinadas resistências. "sobram indicações de que houve luta armada entre as duas facções" e muitos procuraram refúgio em outros mocambos. Freitas. Imprensa Industrial. diante da destruição dos mocambos e das tropas que continuavam nessa região. 123. Palmares. 91 D. que considerou que a prática podia ser enganosa e colocar em risco a reputação das autoridades. O município e a cidade (notas históricas.88 Segundo ele. pp. Freitas diz retomar a expressão "ditadura de salvação pública" . Palmares. 5-37. 73-76. O quilombo dos Palmares. Ed." Por isso. Sobre isso ver também. 188. Palmares. p. por sua vez. O governador tentou intervir a pedido de Gangazumba mas as incursões para capturar fugitivos continuaram. Palmares. 93 D. 92 A.90 retomou Macaco e instalou uma ditadura91 para fazer frente às necessidades da guerra e agiu de modo a minar a autoridade de Gangazumba. p.207 cruzamento de intenções e estratégias diversas. que contribuem para o seu resultado não tenha sido efetivo. B. no entanto. defendendo a tese de que os quilombolas. pp. "que se arrimaria como o combatente mais indômito da liberdade de sua gente". Freitas.89 O novo chefe. p. principalmente devido à cláusula cruel que imolava ao cativeiro os nascidos fora de Palmares. Freitas. Freitas. as roças eram destruídas e "a cláusula sobre a liberdade de comércio com os moradores estava reduzida a letra morta". pois trata-se da realidade de vencer ou morrer". teria se armado "a resistência". 126.128. p. "O quilombo dos Palmares". Péret. Freitas. ao negociar com negros fugitivos.86 Décio Freitas. Viçosa de Alagoas. lamenta a falta de fontes sobre os "dramáticos sucessos ocorridos em Palmares" depois da assinatura do "pacto do Recife". do mesmo autor.93 86 Nesse sentido. "Os negros na história de Alagoas". é secundado por C. e "mesmo os beneficiários do pacto desconfiavam instintivamente das intenções das autoridades coloniais e dos senhores de escravos".92 Para isso contribuía o clima de insatisfação e insegurança entre os moradores da região. geographicas e archeologicas. que menciona o fato de o acordo ter sido desaprovado em Lisboa. 1914. 124. e sob a liderança de Zumbi. Este autor. Recife. . Palmares. deslocaram-se para a Serra Dois Irmãos. Moura. Freitas. 121. 90 D. p.123. 115. Palmares. p. Longe da autoridade de Gangazumba. Brandão contesta essa possibilidade. e não voltaram para a Serra da Barriga. usada por Benjamin Péret. p. que convenceram Manuel Lopes a fazer rondas pelas matas. 89 D. 88 D. apenas um "reduzido número" de palmarinos seguiu Gangazumba. p. 87 D. anota que o "reinado"de Zumbi correspondeu a um "verdadeiro governo de 'salvação pública' antecipado.

outro várias vezes serviu de intermediário nas tentativas de negociação e colaborou com as forças oficiais. 97 F. 98 F. Carneiro. A negociação se fizera à revelia de vários interesses dos senhores da região. 119.95 Richard Price. as comparações com acordos realizados no Suriname indicam que na maior parte das vezes os fugitivos continuavam escondidos das autoridades coloniais. Começaram a fugir e a juntar-se às fileiras de Zumbi. para os senhores locais e para as autoridades coloniais. Gomes. Gérard Police segue suas pegadas. Carneiro. p. Gomes. o herói destemido". Liberdade por um Fio. "Palmares como poderia ter sido" in: J. Cf. pp. critica a "oposição Gangazumba . S. O quilombo dos Palmares.como traidor da causa dos mocambos . nem teria havido traição nem fraqueza. . sem que se efetivasse a determinação de devolver os companheiros para o cativeiro. Pouco se fala sobre os acontecimentos em Cucaú. J. O próprio Carneiro contrasta os dois: enquanto um liderava a resistência. Gomes (org. 52-59.96 Flávio Gomes. 96 Richard Price. o "juramento de vassalagem" foi logo esquecido por aqueles que haviam se estabelecido nas novas terras. 134. S. é um dos poucos que contesta essa imagem de Gangazumba. 26-27 e 250-254. o exame mais detalhado das fontes cede lugar a inferências que operam no sentido de confirmar um sentido geral atribuído pelos autores à história de Palmares.versus Zumbi. sem que a natureza das relações entre os palmarinos. Para ele. S. 120. p. ao propor uma comparação detalhada entre as duas comunidades de fugitivos. p. a liberdade dos quilombolas fora garantida por instâncias superiores aos 94 95 E. Segundo Edison Carneiro. serviam de espiões para ele e recrutavam escravos das vizinhanças para os Palmares. pp. pp. ente Zumbi e Gangazona.208 Como se vê. Palmares.98 Quais teriam sido esses motivos? A bibliografia informa que os moradores de Porto Calvo e Serinhaém estavam insatisfeitos. Quilombos dos Palmares. levando mantimentos e munições. e entre eles e as autoridades coloniais seja investigada. Palmares. como vimos. E. O jogo de opostos serve como explicação. à oposição entre Gangazumba e Zumbi agrega-se agora uma outra. por sua vez. Reis e F.94 Como Gangazona foi enviado para intermediar e tentar com que Zumbi depusesse as armas. O quilombo dos Palmares.97 ao recomendar ser melhor tratar dos diversos motivos econômicos e geopolíticos para os quilombolas. 134-140.). Acordada pelo governador da capitania e em nome do príncipe regente.

Palmares. e I.99 Afinal. AHU_ACL_CU_015. mesmo que o governador tenha tentado manter Lisboa informada sobre todos os acontecimentos. de Freitas. p. à margem da carta enviada em 22 de junho pelo provedor da Fazenda. Memorial dos Palmares. Não havia notícia do que pensavam os conselheiros do Ultramarino ou o príncipe sobre o ajuste de paz e sobre os acontecimentos posteriores. manda consultar o 99 M. Alves Filho. que arcavam com aqueles custos. 92-95. Reino negro de Palmares.100 A documentação encontrada contudo não registra tais insatisfações. Cf. 94. D.209 interesses locais. Memorial dos Palmares. Alves Filho. que exigiam mantimentos ou destruíam roças. 1116. Pelo menos não de modo oficial. p. e continuavam a onerar os moradores e dificultar a vida econômica. Isso não significa que Lisboa tenha ficado indiferente ao que se passava em Pernambuco. ao contrário. A concessão de terras na região da Serra da Barriga para os que haviam participado das forças repressivas não parece ter compensado os senhores e as câmaras locais. A divergência de opiniões. a região era visitada por expedições em busca de fugitivos. mostra. Muitos reclamavam que as melhores terras haviam sido concedidas aos rebelados e que os soldados que patrulhavam a região também causavam prejuízo em suas plantações. Nenhuma carta foi enviada a ele sobre esse assunto. A primeira reação foi reticente. D. que as câmaras haviam sido consultadas pelo menos por meio das instituições normais. Ao contrário. 101 A anotação não está datada. Cf. Freitas. da junta da capitania ou de consultas a letrados e pessoas experientes naquela guerra.101 Outra anotação. Na margem da carta enviada por Aires de Souza de Castro em 22 de junho de 1678 o secretário do Conselho Ultramarino anotou: "que se espere por cartas do governador". M. feita em 9 de novembro de 1678. 257. Carta do governador Aires de Souza de Castro ao príncipe de 22 de junho de 1678. 100 . pp. Debates em Lisboa Aires de Souza de Castro atravessou quase o tempo todo de seu governo sem que Lisboa se pronunciasse especificamente sobre as medidas tomadas em relação aos negros dos Palmares. 11. 3. 126 e I. o ônus da continuidade da guerra e as esperanças frustradas com o fracasso da paz ajustada não deviam contribuir para um clima otimista na capitania. Cx. p. sem ouvir as câmaras.

É difícil saber detalhes sobre a seqüência dos debates. AHU_ACL_CU_015. 1118. entendido como um modo para submeter os levantados. De qualquer modo. elas foram discutidas ao mesmo tempo. as cartas de Aires de Souza de Castro de 19 de julho de 1678 e de 8 de agosto de 1679. sem assinatura. o "ajuste com os negros" se justificava.210 procurador da Coroa. na capa da primeira carta de Rego Barros há uma anotação feita pela Secretaria do Conselho que diz: "Dentro as cartas do governador Ayres de Souza de Castro que tratam dessa matéria". Esta não era a única opinião: conforme as cartas foram chegando. 11. e aquela do provedor da Fazenda. contudo. Contudo. pois um "dano iminente pede remédio pronto". "por seus próprios nascimentos eram 102 Anotação à margem da carta de João de Rego Barros de 22 de junho de 1678. deviam ser castigados. era prudente que ficassem "o mais longe que puder das nossas praças". 1118. Cx. AHU_ACL_CU_015. pois os papéis foram misturados pelos arquivistas. que analiso mais adiante. e cabia a eles considerar se aquela submissão não poderia ser uma forma de o "inimigo" refazer suas forças. Além do próprio parecer de 1680. e que a promessa de devolução dos filhos e mulheres "que já estavam cativos em tão justa guerra" era "muito pródiga". D. tão apartados da lei de Deus". 11. Carta de João do Rego Barros de 22 de junho de 1678. D. 103 Parecer do Procurador da Coroa de 11 de outubro de 1678. datado de 9 de dezembro do mesmo ano. mas ambígua. D. Cx. como aquele "gentio" era "acostumado a exercitar-se em roubos" e vivia na "liberdade. Cf. 11. Cx. de fato. de 16 de agosto de 1679 fazem parte de três conjuntos documentais separados. AHU_ACL_CU_015. é francamente contrário ao que se passava em Pernambuco: pondera-se ali que aqueles negros não constituíam "nação política" com que se pudesse empenhar o nome do regente português e que eles. haviam agido bem ao batizá-los. já que não só acarretava prejuízo aos que haviam se tornado seus novos senhores. as cartas enviadas de Pernambuco em 22 de junho de 1678 pelo governador e pelo provedor da Fazenda de Pernambuco. Seus termos porém implicavam riscos que deviam ser ponderados: os interesses dos proprietários dos escravos capturados tinham sido prejudicados e havia o perigo de crescer o número de aldeias dos negros.104 Um rascunho de parecer. 1118. . como contribuía para favorecer aqueles que.103 Resposta rápida. a controvérsia se cresceu. 104 No Arquivo Histórico Ultramarino. sem que seu número "aumenta[sse]" ou que "fabrica[sem] novas aldeias".102 O procurador respondeu dois dias depois e ponderou que. ainda que a guerra não tivesse sido ordenada pelo príncipe. Os governadores eram homens experimentados. Havia anuência em relação ao ajuste feito. O procurador considerou ainda a alforria concedida "àqueles que não podia sujeitar" como um "modo de os cativar".

11. de 16 de agosto de 1679. mas também reconhece a possibilidade de serem levantados e. pareceres escritos e depois riscados: a discussão entre os Conselheiros do Ultramarino deve ter sido grande. 1116. As notícias vieram. de um parecer do Conselho. em inimigos e gentios. pelo que se pode deduzir.embora também (até agora) eu não tenha encontrado nenhum pedido explícito a esse respeito. A. e aquela do provedor da Fazenda.] o governador de Pernambuco nesta sua carta vos desserviu [?] que tinham [tirou?] as nossas armas na guerra que se faz aos negros dos Palmares e estado em que hoje se acham e que acordando o governador daria gra[. examinadas há pouco nesse capítulo. Para este último. Sua avaliação tende a perceber os negros dos Palmares pela chave das relações com os indígenas. decidiram esperar que mais notícias chegassem de Pernambuco . D..o que era negado pelo parecerista anônimo. de haver espaço para uma negociação política .A. os palmarinos eram tomados taxativamente por escravos fugidos. Cx..." [seguem-se três rubricas]. Mas não se pode ter qualquer certeza sobre seu conteúdo.106 Opiniões contraditórias. Pelo jeito. datada do início de dezembro.105 A grande diferença entre as duas opiniões reside em considerar ou não todos os habitantes de Palmares como escravos fugitivos. mais de um ano depois dos primeiros debates e pareceres. As rasuras são de época mas deixam que se desconfie de seu conteúdo: "Ao conselho parece fazer presente a V. que [. se faz tudo presente a V.] [6?] de novembro de 1678. AHU_ACL_CU_015.] de fara [?] obrada.donde se seguia que "conceder[-lhes] a liberdade era um dano" aos direitos reais e àqueles dos moradores. .211 escravos" . AHU_ACL_CU_015. uma decisão final a ser encaminhada ao príncipe. mas também em cativos feitos em uma guerra que considerava justa. Lisboa [. que o Conselho conseguiu emitir uma opinião para ser enviada ao regente. Tudo indica que o Conselho estava dividido. com as cartas de Aires de Souza de Castro de 19 de julho de 1678 e de 8 de agosto de 1679. 1116. D... O pouco que se consegue ler indica sugerir ao príncipe a desaprovação das medidas tomadas por Aires de Souza de Castro. portanto. para os quais só havia a alternativa da apreensão e reescravização. O parecer se refere ao conteúdo de todas as cartas mencionadas. Quase chegou a uma conclusão: na margem da carta escrita por Aires de Souza de Castro há uma anotação.. Foi apenas em 26 de janeiro de 1680. para deixar de ter vigor. 11. Mas não houve. de junho de 105 106 Parecer anônimo de 9 de dezembro de 1678. mas que foi logo em seguida rasurada.. O Procurador da Coroa havia sido cuidadoso: falara em escravos. Cx.

Nem a distância entre Pernambuco e Lisboa nem o regime de comunicação baseado nas frotas podem explicar essa indecisão. na prática. nem sobre alguma comunicação enviada ao governador.talvez nem mesmo fosse o mais 107 Parecer do Conselho Ultramarino de 26 de janeiro de 1680. que o príncipe deveria agradecer a forma como o governador tem agido. Cod. O Conselho Ultramarino. 32. tratando da extinção daqueles negros por conservar em quietação os vassalos de [sua] alteza livrando-os das hostilidades e danos que padeciam nos assaltos que lhes davam". II. depois de tanto tempo e de tantas controvérsias. Esboço de sua história. e também à cópia do papel mandado aos negros dos Palmares. Não há qualquer registro sobre a resolução tomada pela Coroa. fl. o Conselho havia se pronunciado de forma vaga. terças e quartas-feiras para tratar dos negócios da Índia. 33.108 Sim. Marcelo Caetano. isso mesmo. diante do assunto. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco.109 Palmares não era de modo algum o único assunto que entretinha os conselheiros .212 1678 a 8 de agosto de 1679. Tudo indica que. 109 Essa mesma deliberação convencionou que o Conselho se reuniria às segundas. Cod. Como vimos. o Conselho decidia. Rio de Janeiro. 265. 26-27v. as atividades do Conselho foi foram regulamentadas por uma deliberação em 1645. 1969. 4. De qualquer modo. . A redação é confusa: um agradecimento pelo serviço prestado e uma recomendação que não deixa saber se a matéria ficava ao arbítrio do governador ou do próprio regente. Há registros de notícias sobre o tema desde pelo menos o início dos anos 1640. BNRJ-MS. Sá Cavalcanti. Cabo Verde demais conquistas. que reservou as reuniões das quintas e sextas para tratar dos negócios do Brasil. pelo governador e pelo provedor da Fazenda de Pernambuco. 48. "deixando a seu arbítrio esta matéria para que nela obre o que for mais conveniente ao bem comum daquela capitania e se consiga o sossego de todos aqueles moradores". 108 Consulta do Conselho Ultramarino de 26 de janeiro de 1680. tendo em vista "as disposições do governador Aires de Souza de Castro e aquele zelo com que sempre se empregou no serviço de [sua] alteza e o que tem obrado na guerra dos Palmares. a responsabilidade na condução dos eventos ficava delegada para a autoridade colonial. Criado em 1642. e aos sábados era a vez da Guiné.107 Depois de tanto tempo e de tantos acontecimentos. p. no tempo em que ainda não existia o Conselho Ultramarino. a possibilidade de acertar as pazes com negros levantados dos mocambos não era novidade.

e governadas exclusivamente pelos jesuítas. A posição foi derrotada em 1680. 5 e 6. Em setembro de 1663 uma provisão régia havia regulado a liberdade dos índios do Maranhão. O contexto era um pouco diferente. mercedários. em pareceres escritos em 1675 e 1679. 110 111 Provisão de 12 de setembro de 1663. vistas como meio de manter os índios sossegados e afirmar o domínio português sobre terras distantes do litoral. . carmelitas e jesuítas responderam aos quesitos propostos pelo Conselho. caps. assentadas em terras que lhes seriam concedidas. Ao mesmo tempo. determinou que todos deviam ser recolhidos em aldeias. Entre 1671 e 1673. oferecendo opiniões sobre vários aspectos a respeito do modo como as aldeias deviam ser administradas. como deviam ser feitos os resgates e o modo da repartição do trabalho dos índios. Kiemen. mais uma vez. A análise mais detalhada destes debates continua sendo a realizada por Mathias C. os conselheiros haviam elaborado uma espécie de questionário. ser contra toda e qualquer forma de escravização dos índios. relacionados com a criação de missões no sertão do rio São Francisco. ao determinar a forma pela qual eles deviam ser administrados pelos padres da Companhia de Jesus e pelas outras ordens religiosas. franciscanos.112 De certo modo. ABN. com vários itens. estava a possibilidade de as aldeias serem governadas pelos próprios índios e serem atribuídas a uma ou várias ordens missionárias. livres de tributos. mas franciscanos e mercedários defendiam que os capitães designados para governar as aldeias apenas queriam enriquecer rapidamente e que o melhor modo de catequizar os índios e mantê-los próximos dos brancos era deixar que governassem suas próprias aldeias. As opiniões eram divergentes. Mesmo assim. 112 Lei de 1º de abril de 1680. para melhor encaminhar os debates que sempre retornavam.213 importante.110 A ordem não havia entretanto resolvido os conflitos entre as ordens religiosas e. estes debates sobre os índios do Maranhão ecoam outros. The Indian policy of Portugal in the Amazon region. pois os ataques dos tapuias às fazendas do Recôncavo baiano eram constantes e as expedições militares contra eles também. 66 (1948): 57-59. ex-governadores. Nos anos 1670. ABN. relativamente contemporâneos. o delicado problema da liberdade dos índios e das missões também freqüentava as reuniões do Conselho. quando a Coroa decidiu proibir todos os resgates e declarar.111 Entre as questões discutidas. 66 (1948): 29-31.

214 Salvador Correia de Sá defendeu uma proposta dos padres capuchos que queriam estabelecer missões entre "o gentio que não quiser voluntário vir para o mar". sob a proteção real. isto é. ca. pp. Povos indígenas e a colonização do sertão nordeste do Brasil. Podia. 114 O termo aparece explicitamente no acordo de 1678.a criação de um reduto de negros livres. vivendo e morrendo "pela fé de Cristo". 29v. Cod. Hucitec/Edusp. Assentados em uma aldeia em Cucaú. Mais de seis meses depois. 89-122.114 ali permaneceriam com suas famílias.do mesmo modo que aconteceram com Aires de Souza de Castro. O reconhecimento da liberdade para os nascidos em Palmares e a concessão das terras em Cucaú eram temas que se entrelaçavam a uma política mais larga de domínio sobre a população do sertão na América portuguesa. 1675. São Paulo. e encaminhou as notícias ao príncipe.) pela terra adentro". A guerra dos bárbaros. isentos da obrigação de qualquer "trabalho particular". havia em Lisboa um campo de debates que pode explicar o fato de Gangazumba e sua gente terem sido compreendidos pelas autoridades metropolitanas do mesmo modo que os índios que desciam para as aldeias no Maranhão ou do sertão do São Francisco . Para uma análise das guerras contra os tapuias no Recôncavo e no sertão do São Francisco... o Conselho mais uma vez se calou.115 Os próprios acontecimentos talvez se encarregassem de resolver o 113 Voto de Salvador Correia de Sá sobre a missionação e o povoamento do sertão. mas não era deu certo. como vassalos da Coroa. sem qualquer comentário. nos anos 1650-1670. podia representar a melhor forma de reduzir aqueles levantados e por fim às longas guerras que causavam tantas despesas e dissensos entre os moradores e as autoridades coloniais. Conselho Ultramarino.113 Como se vê. No contexto em que ainda se debatia a possibilidade de auto-governo dos índios do Maranhão . 1650-1720. aos moradores e colonos. p. 265. fl. Citado por Pedro Puntoni. 2002. que comunicava a continuidade da guerra e os problemas que começavam a existir em Cucaú.posição derrotada em 1680 . quando teve que analisar a carta enviada pelo governador em 22 de abril de 1680. A expressão é frequentemente empregada para designar os serviços prestados pelos índios aldeados (e sob tutela dos missionários) aos particulares. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco. os antigos levantados teriam proteção real e. . 72. O desdobramento dos acontecimentos em Pernambuco tornou evidente o fracasso da iniciativa. segundo ele. este era o meio mais eficaz para estender o domínio e estabelecer a "vassalagem (. vide A guerra dos bárbaros. 115 Consulta do Conselho Ultramarino de 8 de agosto de 1680.

por meio de um alvará. Décio Freitas menciona uma carta do bispo do Recife ao Conselho Ultramarino. por volta de agosto de 1681. para cobrir os gastos havidos naquela empresa. eles acabaram por gerar novos problemas. O tema não era indiferente ao bispo. Cf. Ordenou. E novos e acirrados debates. AHU_ACL_CU_015.215 impasse entre as diversas opiniões. agora. O principal indício dessa intensidade é o fato de que o príncipe finalmente tenha se pronunciado. Relat. contudo.e não apenas de julgar as atitudes dos governadores e dos moradores de Pernambuco em relação a eles. a continuidade da campanha armada contra os rebeldes de Palmares e determinou que os moradores de Pernambuco abrissem mão "do direito que p[udessem] ter ao domínio" daqueles negros para que os capturados pudessem ser distribuídos aos soldados.116 Embora até agora não tenha localizado esse documento. Há pouquíssimas informações sobre os debates que levaram à redação desse texto. De qualquer modo. Concilio. Arquivo Secreto do Vaticano. 118 É bastante provável que o alvará tenha sido decidido pelo príncipe a partir de parecer emitido pelo bispo secretário de Estado. D. nesse caso. 12. com toda a pompa de um documento legal. Agradeço muito a Bruno Feitler a oferta da transcrição desse documento. 120. Freitas. . comunicada por meio de uma carta régia. vulgo Palmares". Tais medidas visavam não só 116 117 D. em 10 de março de 1682. ao invés de uma determinação comum.] 596 (Olinden). ele optou pela via de um documento legal de maior envergadura. Os senhores que mostrassem "alguma repugnância" em se desfazer de seus cativos deveriam pagar 12 mil réis por escravo apreendido. Palmares.118 É difícil saber por que. que impugnava a escravização das crianças e dos que não haviam participado da revolta. Talvez porque se tratasse. p. por exemplo. Relationes Diœcesium [Congr. em primeiro lugar. Cf. Congregazione del Concilio. Em carta dirigida ao papa em 6 de agosto de 1680 dom Estevão Brioso mencionou a presença dos oratorianos na "colônia de etíopes. 1203. o príncipe português promulgou medidas destinadas a terminar de vez com os "danos que pertencem ao sossego público" e solucionar as questões legais criadas pela re-escravização daqueles que haviam se rebelado depois de ajustada a paz. situada perto de Serinhaém. Decreto de 13 de agosto de 1681. Cx. de definir questões relativas à liberdade e ao cativeiro dos negros dos Palmares . e em quais as instâncias deliberativas eles ocorreram. o que esquentou a discussão foi a re-escravização dos habitantes de Cucaú. Diœc. Desta feita.117 há outras fontes que indicam que as discussões em Lisboa foram intensas.

Para que tudo fosse averiguado. tinha que lidar com a espinhosa questão da liberdade concedida aos nascidos nos Palmares . Reafirmou a liberdade para os nascidos em Palmares. porém. tocava na questão central. não era reconhecida para aqueles que haviam incorrido em "traição": ela os levara de volta "ao antigo estado". tal como concedida pelo governador de Pernambuco. que libertara os "negros e mulatos. entretanto. Os culpados seriam condenados à morte.119 Como se pode observar. mas também levavam em conta os interesses senhoriais. os que antes eram escravos continuavam escravos. livres ou escravos. os cativos presos que tornassem a fugir seriam "lançados na galé". se se apresentassem voluntariamente. e eles haviam perdido o direito ao benefício. e suas cabeças levantadas em "postes altos e públicos" no lugar do delito para que o tempo as consumisse. Em seguida. mas registrou o ato como um simples 119 Alvará de 10 de março de 1682. sem onerar os cofres públicos. suas mulheres e filhos e descendentes" que haviam buscado a "obediência" real. procurando equilibrar os dissensos entre os que estavam do mesmo lado na contenda. O "indulto" concedido pelo governador. Por fim.). de certo modo. Nuevas Aportaciones a la Historia Jurídica de Iberoamérica. como o cativeiro dos tais negros": os que eram livres antes de ir para os Palmares. o alvará de 1682 reiterou os termos do acordo de 1678 e. interpretou-o de forma restritiva. mas exigiu várias explicações e adendos e. A fórmula parecia ser simples. nenhum deles. lhe serviu de continuação. Silvia Hunold Lara (org. Esta liberdade. podia continuar no Estado do Brasil (à exceção dos menores de 7 anos e dos que haviam respeitado o acordo de 1678). o príncipe regente ordenava a abertura de uma "devassa do crime de traição" cometido pelos negros de Palmares depois de terem acordado a paz com o governador de Pernambuco. Ao mesmo tempo. o texto passava a regular tanto "a liberdade. sobretudo. "Legislação sobre Escravos Africanos na América Portuguesa in José Andrés-Gallego (coord). Fundación Histórica Tavera/Digibis/Fundación Hernando de Larramendi.que já havia aparecido anteriormente no Conselho Ultramarino. continuariam livres. . abrindo-se um prazo de cinco anos para as demandas judiciais a respeito. ficava mantido. Entretanto. assim como seus descendentes.216 incentivar os soldados a manter a guerra. O alvará determinava ainda que seriam perdoados os que tivessem cometido algum crime antes da fuga. Madrid. 2000 (CD-Rom).

Talvez tivesse continuado .não há entretanto registro disso nas fontes. Separando os "aldeados" dos que eram "dos Palmares". genericamente. o jesuíta Manuel Fernandes. à morte de Gangazumba ou à fuga para juntar-se a Zumbi. mas o coloca como parte dos debates que antecedem a promulgação do alvará de 1682. Décio Freitas é o único a mencionar este parecer. tudo indica que em Lisboa se imaginava que Cucaú continuava a existir. 5. Aires de Souza de Castro. mais uma vez. 397-397v. batizavam e o bispo de Pernambuco crismou a muitos. a questão havia sido repassada para a Justiça e os que haviam incorrido no crime perderiam a liberdade. Palmares. Manuel Fernandes contestava o argumento do governador que justificava a reescravização dos aprisionados pelo fato de a liberdade ter 120 Parecer de Manoel Fernandes de 8 de janeiro de 1683. o alvará não foi capaz de extinguir os debates em Lisboa. Em 1683. em nome do príncipe português. Aliás. doc. tivesse sido ela obtida ou concedida a qualquer título.120 Não se tem notícia de qualquer lei que impeça cristãos de serem cativos. 120-129. . De qualquer modo. fls. BA. Movimento do Orbe Lusitano. os nomes palmarinos estão completamente ausentes do texto do alvará. vol. Apesar de reiterar os termos do ajuste de 1678. com os temas e os termos do debate sobre o cativeiro e a liberdades dos índios do Maranhão. nos negros dos Palmares. o alvará reequacionava os termos do debate e anunciava a decisão por meio de um documento assinado pelo próprio príncipe. n. Os que haviam desrespeitado a concessão real passavam a ser considerados traidores e deviam ser condenados à morte. Mesmo assim. "todos estes negros aldeados [eram] livres e que não podiam ser cativos". nenhuma palavra do longo alvará se refere explicitamente a Cucaú. pp. Cf. D. Códice 50-V-39. escreveu um parecer que retomou o tema. que fala apenas. não se podiam cativar. Não fica claro se o tal crime se refere à conjuração mencionada por Aires de Souza de Castro. porque é contra as leis daquele Estado". e dada esta liberdade e feitos cristãos. deputado na Junta dos Três Poderes e conselheiro do príncipe regente. fazendo-se cristãos e assistindo com eles ministros que os instruíam. Freitas. Para ele. Por outro lado. lhes dera a liberdade e eles "nela estiveram e viveram algum tempo. 153. mas a confusão pode ter sido causada pela proximidade.217 "indulto". Como reconhecia a liberdade para os que haviam buscado a "obediência" real. O texto dedica atenção ainda àqueles que haviam incorrido em "traição".

o jesuíta tocava no ponto fundamental da legitimidade da liberdade concedida àqueles homens e mulheres. . n. 154. doc. e se posicionava de modo claro ao indicar que a solução do dilema era essencialmente jurídica. Roque Monteiro Paim também se pronunciou sobre os acontecimentos . Roque Paim considerou que o alvará de 1682 encaminhava bem a questão. mais uma vez é a da aldeia indígena. A frase faz pensar que o governador tenha tido o cuidado de separar as crianças dos adultos ao distribuir os prisioneiros de Cucaú. "não impugnou mais que o cativeiro dos menores e inocentes. fl. 398. portanto. o governador havia consultado "todas aquelas pessoas que o podiam aconselhar e seguiu o parecer. Ao se referir explicitamente ao "papel em que a estes homens se prometeu e deu liberdade" e transcrever algumas de suas passagens. Fernandes termina sua argumentação observando que todas as informações colhidas sobre o provável crime de traição . aqui. de acordo com o que informava o bispo de Pernambuco. o parecerista tentou mostrar a inexistência de cláusulas condicionais e defender que os aldeados tinham "pouco comércio com os dos Palmares e seus aliados": não mereciam.218 sido dada com a condição de permanecerem obedientes ao rei. Códice 50-V-39. 5.mas foi favorável à decisão tomada por Aires de Souza de Castro. Como a matéria era grave. ibidem. vol.eram "extrajudiciais". seguindo o costume já observado em outras ocasiões . Para ele. exigia procedimentos formais mais claros e jurídicos. ao reconhecer a liberdade concedida anteriormente e ao remeter para a justiça a decisão sobre os negros que tivessem "a culpa de rebelião". Outro importante conselheiro do regente.121 Como se vê. os negros de Cucaú não podiam ser escravizados. que ou pela idade. que em todos foi uniforme" e. ou pelas ações não houveram culpa". BA. A chave interpretativa.mas não há fontes que permitam comprovar essa informação.122 121 122 Idem. qualquer castigo.apresentada como a principal justificativa para a reescravização dos habitantes de Cucaú . Movimento do Orbe Lusitano. Como os índios aldeados. Parecer de Roque Monteiro Paim de 19 de janeiro de 1683.

dom João de Souza. A. que fora criada em 1655 e tinha por atribuição abrigar as questões referentes às missões ultramarinas atendendo às demandas dos missionários. e convocou todos os oficiais e soldados das companhias que haviam sido mandadas para Buenos Aires para fazer nova entradas contra os mocambos.123 Ele provavelmente se refere aqui à Junta Geral das Missões. 127 Ver ordens de 7. 5. Universidade do Porto. 398. Tantos debates... Memorial dos Palmares. n. 127 123 Parecer de Roque Monteiro Paim de 19 de janeiro de 1683. 363. Os efeitos do alvará de 1682 foram poucos. 342v-343. Os preparativos para as novas expedições começaram com a posse do novo governador. bem como o Termo de Vereação de 19 de dezembro de 1680. fl. A documentação subseqüente revela apenas que o alvará de 1682 serviu para justificar novas operações militares. doc. CCA. 3ª-I-1-31. 125 I. vol.) com causa mais justificada pelos grandes danos que têm feito aos moradores das capitanias (. 101.125 Até agora. Ele alegou ser "preciso continuar a guerra aos negros levantados dos Palmares (. 2002. 126 Ordem de 12 de agosto de 1686. Márcia E. "Segundo Livro . Pela propagação da fé e conservação das conquistas portuguesas. 154. 124 Cf.. Códice 50-V-39. doc. Movimento do Orbe Lusitano.124 Ou seja: o debate deveria se deslocar do Conselho Ultramarino para um órgão que estava acostumado a lidar com o difícil tema da liberdade . AUC.126 Cuidou de arranjar munição e mantimentos e de reforçar a tropa com o terço dos índios do Camarão. séculos XVII-XVIII. doc.) vizinhas". doc. IV. agora. p. 100. 8 e 16 de outubro de 1680. 363. aos quais forneceu armas.dos índios no Brasil e. também dos negros. 4. doc. A tal devassa nunca chegou a ser realizada e a correspondência oficial revela muitas dificuldades para a designação dos juízes. IV. a comissão encarregada do assunto ainda não conseguia apresentar nenhum resultado prático. fl. BA. fl. CCA. 33. As juntas das missões.219 O final do parecer de Roque Paim é revelador. e fl. não foi possível localizar qualquer traço dos que estiveram em Cucaú. Ele indica que a discussão sobre o tema devia seguir na Junta das Missões e que "todos devem ver estes papéis". Alves Filho. 3ª-I-1-31. mas nenhuma ação efetiva. Porto. 100. mais de um ano depois. 102. Souza e Mello.. AUC. Guerra e paz O final do governo de Aires de Souza de Castro foi gasto com providências para as guerras contra Palmares. 363v. Doutorado. em 21 de janeiro de 1682. fl.

alguns foram remetidos para o Reino. dom João de Souza. cod. AHC. 365. 34.220 O tom mudou completamente. elogiou o antecessor: "Muito é o que Aires de Souza de Castro obrou nas disposições e eficácia em prejuízo dos negros dos Palmares e utilidade de todas estas capitanias. ser suspenso na polé (roldana fixada em uma armação de madeira. doc. com pesos amarrados nos pés.129 As medidas deram certo resultado. 3ª-I-1-31. 3ª-I-1-31. Cx. o governador queria agora acabar de vez com "os negros dos Palmares". Nem sombra da autoridade afável que seguia os rituais do Antigo Regime ao tratar com Gangazumba e Gangazona ou explicava os motivos de suas determinações às oficiais coloniais. CCA. Mandava que todas as tropas da capitania fizessem arraiais "donde mais convier" e que nenhum soldado poderia "dar quartel a nenhum negro de armas". reduzindo-os de poderosos em que os achou a diferente estado em que hoje se vêm. CCA. Cf. como no caso da forca). 12. desde que não tivesse cometido um crime de morte. destituídos das maiores cabeças que os capitaneavam. verbete polé. AUC. fl. 130 Cf. AUC. Pareceres do Conselho Ultramarino de 19 de agosto de 1681 e 2 e 13 de dezembro de 1681. 265. e AHU_ACL_CU_015. e Ordem de 2 de maio de 1681. sob penas de ser tratiado na polés128. Vocabulário. Ordem de 20 de dezembro de 1680.130 outros faleceram na prisão. Para incentivar as tropas. por morrerem na última guerra que o ano passado [em 1681] lhe mandou de Vereações da Câmara de Alagoas". por considerá-los "uma canalha vil e rebelde [que] de pouco tempo a essa parte se resolvera a fazer alguns excessos dignos do maior castigo". O edital que mandou publicar era duro. 265. 1209 e AHC. fl. 3ª-I-1-31. AUC. 120. D. 131 Cf. e depois ser solto subitamente. determinou que "todas as bagagens de crias e negros que se tomarem da dita guerra ser[iam] livres para se repartirem por todos os que forem e ela" e que os criminosos que participassem da guerra seriam perdoados de suas culpas. RIAGA (1875): 186-187. doc. como parte do quinto. fl. Bluteau. 32. ao escrever para Lisboa dando conta das primeiras notícias de seu governo. 33.131 O novo governador. de modo a destroncar os braços. IV. cod. fl. doc. 129 Edital de 16 de agosto de 1681. IV. CCA. 128 Ou seja. já que houve negros presos . 343-343v. 111. 367v. .tomou entretanto o cuidado de determinar que uma indenização fosse paga aos respectivos proprietários. IV. fl. "como [fosse] mais conveniente ". Os "negros dos moradores que tive[ss]em fugido para o sertão e por medo e temor da guerra se recolhe[ss]em outra vez à casa de seus senhores" deviam ser remetidos para o Recife para serem expulsos da capitania . Qualquer pessoa que ocultasse algum daqueles negros seria castigada.

IV. João do Couto de Andrada. Assim se expressava dom João de Souza: "o negro Zumbi. cabeça de todos os mais rebelados.134 O príncipe chegou a mandar que o Conselho Ultramarino fizesse um regimento com os procedimentos a serem adotados na devassa. 4114).133 O governador do Estado do Brasil foi acusado de não cumprir as ordens régias e as nomeações foram reiteradas por Lisboa. Os desembargadores da Bahia Francisco da Silva Souto Maior e Antonio Rodrigues Banha. declararam-se impedidos. Porto Calvo. n. assegurava poder fazê-lo no prazo de 20 dias. . Em uma carta dirigida às câmaras de Serinhaém. gerou medidas severas contras Palmares. Alagoas e Rio de São Francisco. não obstante a 132 Carta do governador de Pernambuco ao príncipe de 26 de maio de 1682. poucas novidades. Cx. 32 (1936): 202 134 Consulta do Conselho Ultramarino de 12 de novembro de 1682.136 A tentativa. sem que se chagasse a uma solução. porque só fez interesse da desestimação dela". Cf.135 mas a medida não parece ter surtido qualquer efeito. AHU_ACL_CU_015. e recomendou que.. 88 (1950): 229-235 135 Decreto de 4 de março de 1683. 4. Cod. 33 .132 No mais. D. Enquanto isso.Assuntos do Brasil. 384. 49.Brasil. II. o novo governador tentou ainda uma vez negociar com Zumbi. fl. o governador relatou o fracasso das negociações e tomou providências para que se fizesse uma "cruel guerra" para dar continuidade à "redução dos negros fugidos dos Palmares". Manuscritos da Livraria .) maliciosamente um tratado e ajustamento de paz e. 133 Carta de Bernardo Vieira Ravasco a João da Costa Andrade de 7 de julho de 1682. Por volta de maio de 1682. 136 Carta do governado de Pernambuco ao capitão mor João da Fonseca de 23 de maio de 1682. decretos 1663-1702 (microf. 32. E avisava: "se não [se] acomod[assem] a estar sujeitos debaixo da jurisdição desse governo". nomeados de início. 12. ANTT. CCA. voltaria a fazer contra ele e todos os seus uma guerra sem quartel. moveu (. também acabou sem embarcar para Pernambuco. 1226. DH. se Zumbi concordasse em ir ao Recife. DH. 3ª-I-1-31. por ser "negócio de tanta consideração" deveria ser feito em sua presença. quase um ano depois. que simplesmente remeteu-a ao príncipe. AUC. doc.. 33. BN.221 fazer não sem muito dispêndio da sua própria fazenda. o substituto. ao ser frustrada. Depois dessa carta. A carta foi lida pelo Conselho Ultramarino em 29 de agosto do mesmo ano. várias outras foram e voltaram sem que se conseguisse dar início à devassa ordenada pelo alvará de 10 de março de 1682. pois ele escreveu ao capitão mor João da Fonseca dizendo que o ajuste. as tratativas pareciam caminhar bem. "sem que lhe result[asse] o menor prejuízo de o fazer".

AUC. 74. antes procurasse com o maior esforço possível oprimir e castigar a tirania inveterada de bárbaros tão prejudicialíssimos". Para o governador. Tudo indica que o fracasso de Cucaú e das tentativas posteriores haviam calado fundo nas autoridades coloniais. Alagoas e Rio de São Francisco de 1º de julho de 1683. agora. com ordens para as câmaras contribuírem com armas. CCA.138 137 Carta do governador de Pernambuco para as câmaras de Serinhaém. fl. 386v-387. 138 Ordem de 1 de julho d 1683. CCA. IV. 387v-388. 14. na consideração que os negros lhas propusessem.222 experiência dos exemplos passados e a pouca confiança que se deve ter da palavra de semelhantes homens. sítio em que haviam de habitar. doc. o ajuste fracassou. fl. doc. fl. AUC. doc.pode indicar ter havido um momento em que as negociações devem ter parecido promissoras. homens e mantimentos. AUC. apenas a guerra conseguiria castigar a "insolente e escandalosa culpa" daqueles negros. preparando-se com toda a sagacidade para resistirem à guerra que certamente se lhe há de fazer. esperando na bondade de Deus há de permitir se acabe no tempo do meu governo tão grande a opressão". 63. Porto Calvo. doc. IV. AUC. Ordem para o provedor da Fazenda Real de 8 de novembro de 1683. . 3ª-I-1-31. AUC. 3ª-I-1-31. por a experiência ter mostrado em muitas ocasiões a falsidade do ânimo com que intentam semelhantes partidos". fl. Carta de 6 de julho de 1683. entrega dos cativos que haviam de fazer tempo determinado para a conclusão de tudo. IV. dessa vez. IV. 374v. 62. 390-390v. a que o dito Zumbi e seus sequazes têm faltado. CCA. O capítulo 15 de seu regimento determinava expressamente que "não atendesse em nenhum caso a aquelas pazes. pois o governador recomendou a todos. Contudo. CCA. 387v. 3ª-I-1-31. CCA. 3ª-I-1-31. Os termos do acordo eram semelhantes aos ajustados com Gangazumba quatro anos antes.137 O tempo decorrido entre os dois documentos . fl. Fernão Carrilho havia sido nomeado para uma das companhias pagas de Pernambuco em 17 de novembro de 1681 e foi encarregado de comandar a nova expedição. levando dom João de Souza a preparar uma nova guerra. Ordem aos oficiais da câmara de Olinda de 16 de setembro de 1683. 3ª-I-1-31. Parra assegurar que a guerra fosse retomada. que de modo algum "se lhes admitisse proposição de pazes que oferecessem. mostrando em todas as suas ações um malévolo e pernicioso ânimo. 60. IV. me pareceu ouvi-lo pelo capitão mor dessa vila [do Recife] João da Fonseca para maior justificação do ânimo e desejo de evitar dispêndios que semelhante guerra repetidamente costuma causar aos moradores deste Pernambuco e com efeito se ajustou a sujeição dos ditos negros. foram tomadas as providências de sempre. por malícia de Zumbi ou não.de quase um ano . O recurso da negociação parece ter se esgotado. doc.

393. IV.o que sugere terem sido providências extremas. CCA. 3ª-I-1-31. 23.223 Alguns documentos expedidos nesse contexto indicam que a guerra pretendida pelo governador era generalizada. como queria o governador. doc. para prendê-los. deve ter havido certa concordância para que a paz fosse mais uma vez tentada. . ofereceu-lhe o perdão "de todos os excessos" que havia praticado dizendo entender que a sua "rebeldia" fora motivada pelas "maldades praticadas por alguns maus senhores em desobediência às minhas reais ordens". 393-393v. doc. AUC. 37v. 18. fl. CCA. Por meio dela. 3ª-I-1-31. CCA. AUC.143 Para substituí-lo. ao ser nomeado o novo governador para a capitania. fl. Segundo relatou dom João de Souza a Lisboa. mesmo antes de entrar em combate. IV. AUC. também para prender os negros levantados dos Palmares. pois em novembro de 1683 autorizou o capitão do campo de Olinda a entrar nas casas e fazendas em busca dos "escravos fugidos e levantados para os prender". Nem todos entretanto estavam de acordo com a necessidade de uma perseguição sem quartel. Em 1685. ou casas e fazendas". 87 e fl. 13. IV. 143 Ordens de 24 de julho de 1684. creio se tratar de agir também contra os que tinham ficado por ali. IV. Cx.139 Em fevereiro de 1684 concedeu a Manuel Albuquerque a autorização para fazer uma entrada na região de Serinhaém. AUC. 31. a avaliação parece ter sido diferente das autoridades em Pernambuco. fl. 88. doc. doc. já que o rei chegou a redigir uma carta régia ao "capitão Zumbi dos Palmares". Fernão Carrilho. 142 Carta do governador de Pernambuco ao príncipe de 10 de agosto de 1684. 375v-376. foi a vez de Brás de Araújo ser autorizado a buscar negros levantados "em mocambos. doc. 377. 375-375v. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco. mais uma vez. IV. 3ª-I-1-31. fl.141 Como no final do governo de Aires de Souza de Castro. 3ª-I-1-31. resolveu por conta própria fazer as pazes com o novo chefe dos mocambos. 17. fl. e não há dados para esclarecê-la. 265. D.144 Em Lisboa. A frase é enigmática. AHU_ACL_CU_015. Em 17 de abril de 1684.142 A violação da cláusula lhe valeu a prisão. Em seguida 139 140 Ordem de 22 de novembro de 1683. 141 Ordem de 17 de abril de 1684. Concessão de 14 de fevereiro de 1684. 144 Ordem de 4 de novembro de 1684. Zenóbio Acioli de Vasconcelos foi encarregado de dar continuidade à guerra contra Palmares. CCA. e Parecer do Conselho Ultramarino de 29 de novembro de 1684. Cod. 3ª-I-1-31. AUC. CCA. 378v-379. as medidas invadiam o sagrado domínio senhorial . julgamento e pena de degredo para a capitania do Ceará. 1298. doc. concedendo-lhe o privilégio de ficar com todos os prisioneiros que não tivessem senhor.140 Como Cucaú ficava no distrito de Serinhaém. para remediar um grave mal. fl.

"livres de qualquer cativeiro e sujeição". . explicou que diante das queixas em contrário das câmaras. seria forçado a aceitá-la. AUC. D. anos antes. Em carta de agosto de 1685. foi desfavorável a qualquer ajuste de paz: para os conselheiros. 13. ao relatar a Lisboa suas impressões iniciais sobre o estado em que se encontrava a capitania de Pernambuco que acabara de assumir. Freitas. em nova carta ao rei. 1345. Cx. 183. AHU_ACL_CU_015. p. República dos Palmares. 13. 183. Cx. 147 Carta do governador João da Cunha Soto-Maior ao rei de 8 de agosto de 1685. AHU_ACL_CU_015. como observa Décio Freitas. IV. não se sabe se chegou a ser ou não entregue ao chefe negro. 402-403. como fiéis e leais súditos. D. p. 1329. AHU_ACL_CU_015. 1329. ao examinar sua carta de agosto. CCA. 151 Parecer de dom João de Souza de 2 de Dezembro de 1685. Cx. Freitas. Cx. João da Cunha Souto Maior observou ter dificuldades em manter a guerra e ponderou que. D. como também resultava na diminuição da "reputação" das autoridades que tratavam com "uns pretos fugidos e cativos".224 o rei "convida[va]" Zumbi a escolher um local para residir com sua mulher. doc. 3ª-I-1-31.150 A decisão final apoiavase num longo parecer do ex-governador de Pernambuco. 148 Carta de João da Cunha Soto-Maior ao rei de 7 de novembro de 1685. Este era. 146 D. dom João de Souza. não consegui localizar o original desse documento. 150 Parecer do Conselho Ultramarino de 7 de fevereiro de 1686. 1329.151 Aires de Souza de Castro também participou dos debates e 145 Carta do Rei a Zumbi de 26 de fevereiro de 1685. um período de troca de governo e os impasses entre as negociações e os avanços militares se repetiam.149 O Conselho Ultramarino. havia conseguido novos meios para retomar as investidas militares contra Palmares. 13. D. de novo. 7. não só a experiência mostrava "que esta prática é um meio engano". 13. fl. sob a proteção real.145 O documento deve ter sido levado pelo novo governador e. AHU_ACL_CU_015. Infelizmente. que era contrário a qualquer acerto com os negros. se Palmares lhe oferecesse a paz. República dos Palmares. 149 Ordem de 6 de setembro de 1685. e que advertia contra a "cavilação" com que eles simulavam "contemporizar com o novo governador que chega" ou agiam diante da ameaça de uma guerra.148 A documentação da secretaria de governo registra que ele tirou Fernão Carrilho da prisão e o encarregou de comandar novas expedições contra Palmares em setembro de 1685. filhos e capitães. D.146 Os termos lembravam de perto as bases do acerto com Gangazumba.147 Em novembro.

265. 155 Consulta do Conselho Ultramarino de 27 de abril de 1686. os roguei para esta conquista dos Palmares mandando-lhe patentes de conquistadores deles". em que lhe pediam umas patentes de capitão mor e capitães para conquistarem aqueles gentios". o governador escreveu mais uma vez para Lisboa. o ajuste com ele começou a ser negociado em 1687 e foi aditado em 1691. como "se acha[vam] com quatrocentos homens de armas. 14. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco. além da contratação de Carrilho. Antes de ele seguir para Palmares. a documentação administrativa da secretaria de governo da capitania continua a tratar das operações de guerra. 154 Carta de João da Cunha Soto-Maior ao rei de 7 de novembro de 1685. diante da situação. 156 Apesar de tão boas notícias. AHU_ACL_CU_015. já haviam recomendado que ele mandasse continuar a guerra contra os Palmares. . Souto Maior contou ter encontrado em Pernambuco "uma carta de uns paulistas que andam nos sertões. 1345. considerava serem aqueles homens "os verdadeiros sertanejos" e. Itamaracá. 41v e segs. apenas lembraram o rei que. Cx. 44v. Cod.225 defendeu entretanto uma negociação firme. no entanto. 13. fl. Como se sabe. em fevereiro. 1383.154 Ao examinar essa proposta. 265.155 Em agosto de 1686. os conselheiros do Ultramarino não fizeram maiores comentários. D.152 Foi voto vencido. matara muita gente e destruíra casas e mantimentos. 1329. 153 A consulta final enviada ao rei data de 1 de fevereiro de 1686. Cx. além de julgar "muito acertado" que os negros quisessem "descer para baixo [sic] e estarem sujeitos às ordens daquele governo [de Pernambuco]".que terminaram com a assinatura de um tratado de paz 152 Parecer de Aires de Souza de Castro de 14 de novembro de 1685. Cx. para contar que Fernão Carrilho atacara os Palmares. até a contratação Domingos Jorge Velho. Na carta de novembro. ele deu cabo das guerras contra os índios Junduí. AHU_ACL_CU_015. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco. escrita a meu antecessor dom João de Souza. motivo pelo qual "já mortos de fome [vieram] alguns pedir misericórdia e buscar perdão aos seus absurdos". AHU_ACL_CU_015. fl. Cod. no sertão do Açu. D. 13. 156 Carta do governador de Pernambuco ao rei de 2 de agosto de 1686. com prazos certos para não haver protelações. porém. D. Como o pedido não combinava com as ordens que havia recebido. não o atendera. interior das capitanias de Pernambuco.153 O partido da guerra parecia predominar agora também em Lisboa. que aos poucos foram envolvendo os paulistas. Paraíba e Rio Grande do Norte .

J.. o jesuíta.226 entre os índios e o governador da Bahia. espontânea. A guerra dos bárbaros. . sem se restituírem ao serviço e obediência de seus senhores. ao que tudo indica para propor novamente alguma espécie de acordo com os palmaristas." Por fim. portanto. 159 Carta do padre Antônio Vieira a Roque Monteiro Paim de 2 de julho de 1691. p. Cartas. em 1692. Reis e F. A documentação administrativa não dá mais notícias de qualquer tentativa de ajustar as pazes com Zumbi ou qualquer potentado palmarino. de que não podem ser absoltos. pp. que era concedendo-lhe Sua Majestade e todos os seus senhores. Como no caso de Palmares. p.159 Como se vê. merece uma análise mais cuidadosa.). Gomes (orgs.) desse governo". liberal e segura liberdade. Em primeiro lugar. Outras fontes indicam porém que um acordo chegou a ser cogitado. que continuou até 1713. Lisboa. seria visto como espião dos governadores e. F.. Liberdade por um Fio. contrária qualquer acordo de paz. S. 639. cod. já que em 1691.158 Lá em Lisboa e cá em Pernambuco. mais de dez anos depois. The conquest of the Brazilian Indians. 239. ele considerou que qualquer emissário. Londres. Em segundo lugar. Para enfrentar mocambos fortes como os de Palmares. Apud: L. 75-79. o padre Antonio Vieira foi consultado sobre a sugestão de um religioso italiano de "ir aos Palmares". não teria condições de negociar. Correspondência do marquês de Montebelo (1690-93). O trato dos viventes p. Só havia um meio eficaz e efetivo para verdadeiramente se reduzirem. 361 e Pedro Puntoni. 1970. 3. vivendo naqueles sítios como os outros índios e gentios livres e que então os padres fossem seus párocos e os doutrinassem como os demais". Antonio Vieira. nem receber a graça de Deus. 158 Trata-se do jesuíta Antônio Maria Bonucci. alternavam-se os partidários da guerra ou da paz. o que de nenhum modo hão de fazer. que pretendia "reduzir [os habitantes de Palmares] a viverem na sujeição da igreja e das leis (. vol. fiel ao programa 157 Sobre a guerra dos Junduí e especialmente sobre este acordo de paz vide John Hemming. mesmo se fosse um dos "padres naturais de Angola". Alencastro. "Deus contra Palmares. Hemming considera que o tratado teria significado a criação de um reino autônomo. BNL-Res. os ecos do acordo de 1678 ainda se faziam ouvir. 1978. A resposta do famoso jesuíta. achando que ele deve ser entendido mais como uma capitulação de obediência. Coleção Pombalina. Representações senhoriais e idéias jesuíticas" in: J. Macmillan. nunca deixariam de receber os "de sua nação que para eles fugi[ssem].157-160. pp. 343. fls 109-109v. ponderou que "sendo rebelados e cativos. Puntoni discorda. o acordo não colocou fim à "guerra dos bárbaros". Casa da Moeda.).157 Talvez as autoridades tivessem aprendido algo ao lidar com os Palmares. Para uma análise desta consulta vide Ronaldo Vainfas. "ainda que cessassem os assaltos que fazem no povoado dos portugueses". Red gold. João Lúcio de Azevedo (coord. estão e perseveram em pecado contínuo e atual. Imprensa Nacional.

cada cidade. A hipótese de uma missão implicava o reconhecimento da liberdade daqueles negros e. A conclusão de Vieira é bastante clara. J.). 639. que aliava cristianização e liberdade. Não porque o projeto jesuíta era impossível de ser aplicado aos negros. porque conhecendo os demais negros que por este meio tinham conseguido o ficar livres. ao reconhecer ser impraticável a transformação."161 Eis os limites do acordo de 1678 e do reduto de Cucaú. seriam logo outros tantos Palmares. ao analisar este parecer de Vieira. a aceitação de que a fuga e os mocambos haviam sido meios aceitáveis para que fosse obtida. 160 161 R. cada vila. de Azevedo (coord. 3. No início dos anos 1690. com ela. como afirma Ronaldo Vainfas. Vieira foi bem além disso. fugindo e passando-se aos matos com todo o seu cabedal. Como bem lembra Ronaldo Vainfas.227 de sua ordem. "Deus contra Palmares". propunha o eficaz meio de transformá-los em aldeia de "índios e gentios livres" sob a tutela de missionários. Vainfas. neste sentido. 78. a decisão parecia ser ainda mais cristalina. que só poderiam ser catequizados se se mantivessem escravos. cada engenho. p. Já no final dos anos 1680 estava claro que a guerra era a única alternativa. . A avaliação do jesuíta é mais contundente e coloca a equação de modo inequívoco. haviam inscrito a possibilidade concreta de muitos Palmares em cada canto onde houvesse escravos.160 Esse é. Como resultado. L. Carta do padre Antônio Vieira a Roque Monteiro Paim de 2 de julho de 1691. As ponderações do jesuíta desvendam os limites e os impasses vividos desde 1678 e indicam os novos rumos dos acontecimentos. Cartas. p. Diz ele que a concessão desta liberdade "seria a total destruição do Brasil. no entanto. cada lugar. Mais que reduzir os negros levantados que se escondiam nas matas de Pernambuco. que não é outro mais que o próprio corpo. apenas um lado da questão. O modo de lidar com os quilombolas e terminar com os mocambos tinham que mudar. pois libertava os que haviam nascidos nos mocambos e também os que haviam fugido. vol. tratava-se de dar um "salto da rebelião à missionação" e de transformar o quilombo em algo próximo do cenário ideal do projeto colonial da Companhia de Jesus. Antonio Vieira. seus termos haviam de certo modo legitimado a fuga e os mocambos como via de acesso à liberdade.

dirigindo-se a quem. os temas e as interpretações se repetem como bordões. em que momento.na maior parte das vezes impressas .para os escravos.228 PALAVRAS FINAIS A partir da segunda metade do século XX. Os historiadores tenderam quase sempre a privilegiar seus momentos finais. assim. Procurei recuperar a multiplicidade de vozes registrada na documentação administrativa e pude. que leva em conta quem as escreveu. cujo sentido parece ser inquestionável: foi o maior quilombo da história do Brasil. As fontes utilizadas . Ao observar sua relação com outros textos produzidos no mesmo período e com o conjunto de situações relacionadas aos eventos que lhes deram origem. . o melhor exemplo de resistência contra a escravidão e seu último líder constitui um símbolo da luta pela liberdade . iluminar o contexto no qual aqueles quatro textos foram redigidos. meses depois. quase sem relação com outros acontecimentos do século XVII. Ao tomar o papel que registrou as negociações entre Gangazumba e o governo de Pernambuco em 22 de junho de 1678 e as três cartas que. Adotei o procedimento da leitura vagarosa das fontes. Nos livros sobre Palmares. e presta atenção em cada palavra. quando Zumbi domina a cena. apresentados conforme a cronologia. procurei inverter essa tendência e escapar dos bordões. e o enredo da história que narram em tom épico tem permanecido fechado em si mesmo. foi possível descortinar uma outra história dos mocambos que se desenvolveram na capitania de Pernambuco no século XVII. Aires de Souza de Castro enviou a Gangazumba e a Gangazona. para os negros e todos os oprimidos. Palmares tornou-se um fenômeno auto-evidente.são aquelas que explicitamente falam de Palmares.

Como já haviam sugerido Stephen Palmié e Stuart Schwartz. talvez tenham sido um dos motivos para a enorme dificuldade em "vencer" os Palmares. "Palmares: An African State in Brazil" Journal of African History. Tais desentendimentos. É possível que Gangazumba tenha negociado para salvar sua linhagem e seus súditos da destruição completa. Seguir a documentação de perto permitiu colher diferentes avaliações das fugas e dos agrupamentos de fugitivos que se instalaram nas matas de Pernambuco. (trad. majoritariamente vindos da África Central e depois de serem escravos em Pernambuco. lá e cá. 6: 2 (1965): 174. First International Conference of the Society of Caribbean Research. se reuniram como fugitivos nos palmares da capitania. "African States in the New World? Remarks on the Tradition of Transatlantic Resistance" in: Thomas Bremer e Ulrich Fleischmann (eds. porém. que no final da década de 1670 não se tratava mais de gente desenraizada e sem linhagem. como nos kilombos africanos da primeira metade do século XVII. Vervuert. ele tenha procurado alianças para solidificar seu poder e fazê-lo reconhecido e respeitado por seus "vizinhos". pp. 1993. 2001. Edusc. 213-255.e ambas revelam que. Ao contrário. 55-67. nem pretendeu ser alternativa às interpretações até agora produzidas pela historiografia. autoridades coloniais e metropolitanas. As pistas oferecidas pelas fontes permitiram também investigar possibilidades para apreender o ponto de vista daqueles homens e mulheres que. Ao mesmo tempo. 2 Raymond K.2 É difícil medir a força da destruição empreendida pelas tropas de Fernão Carrilho . Realizada como exercício de análise e interpretação.). pp. Alternative cultures in the Caribbean.) Bauru.1 As fontes indicam com clareza. Berlin 1988 Frankfurt. e Stuart B. Também é provável que. e detectar variações no tempo. a leitura dos documentos revelou ainda não ter sido esse o único tema a preocupar as autoridades coloniais e metropolitanas ou a exigir ações mais efetivas e urgentes.229 Essa história não foi contada aqui de modo completo. As duas possibilidades não são excludentes .já que contada por textos laudatórios e cartas que relatam aos oficiais metropolitanos os serviços prestados na capitania de Pernambuco. nesta outra margem do 1 Vide especialmente Stephen Palmié. separar concepções divergentes entre moradores. Schwartz. como muitos sobas centro-africanos fizeram. roceiros e rebeldes. Raymond Kent tinha razão ao constatar que em Palmares estava se formando um estado africano independente. ela permitiu tirar Palmares do isolamento e lhe conferir historicidade. é bem provável que tenham se inspirados nos kilombos Imbangala para se agrupar e continuar longe da escravidão. "Repensando Palmares: resistência escrava na colônia" in: Escravos. . Kent.

Acompanhar o vai e vem das palavras e seus significados permitiu ainda superar a crítica freqüente que salienta a miopia das fontes. as fontes registram justamente isso: um olhar sobre o outro . descrita por qualquer um. verificar mudanças e ensaiar datações. procurei compreender ao mesmo tempo como elas avaliavam Palmares e como os mocambos se organizavam em cada momento. no mínimo. como já se cansaram de afirmar os antropólogos nas últimas décadas. recriaram um reino com características centro-africanas. tinham outras maneiras de pensar e objetivos diversos em relação aos habitantes da América que esperavam manter sob seu domínio. Segui as sugestões de . eles se transformavam todos. em qualquer tempo. em escravos. De modo diferente daqueles que ficaram na África. vassalos e kijikos era possível em Angola mas. forte o suficiente para ser reconhecido como tal pelas autoridades coloniais e metropolitanas. Os que foram para em Pernambuco. Esse também foi o caminho para analisar o contexto no qual as negociações entre Gangazumba e o governo de Pernambuco puderam ser realizadas. porém. havia homens e mulheres que agiam inspirados por uma cultura política centro-africana. Se as identidades são relacionais. O reconhecimento das diferenças entre sobas. O medo dos administradores coloniais de deixar os príncipes do Ndongo no Brasil indica que essa hipótese. Com base nas experiências políticas trazidas com eles. pois participavam das lides da administração ultramarina. esse processo tem uma história: é possível. foi aventada pelas autoridades coloniais do século XVII.que seleciona e atribui significados. não só fugiram como conseguiram se instalar de modo mais permanente nos palmares da capitania. de alguma forma.230 Atlântico. Ainda que as fontes sejam tão esparsas e fragmentárias. depois de embarcados e chegados no Brasil. por seu etnocentrismo ou terem sido elas escritas pela repressão. mas o faz em um certo contexto e situação específicos. como fizemos em vários momentos da tese. Por isso. embora conhecendo a sintaxe política centro-africana. os centro-africanos escravizados no Brasil encontraram homens que. Olhando por cima do ombro das autoridades coloniais e de seus cronistas. do ponto de vista de seus senhores. evitei tomar os costumes e práticas palmarinas como uma cultura estática.

São Paulo. de modos diversos e por caminhos variados. para retomar a expressão de Luís Felipe Alencastro. Formação do Brasil no Atlântico sul. Os centro-africanos possuíam uma sintaxe política que informou 3 4 5 John Thornton. a política praticada em relação aos índios. 2000.tanto do ponto de vista das autoridades coloniais quanto de Gangazumba e sua gente . O estudo realizado aqui permite verificar que houve uma experiência política que se acumulou nas várias margens do Atlântico ocupadas pelos portugueses. além de uma alternativa à guerra. 11. Cartas. O trato dos viventes. pistas para avaliar as condições de diálogo entre aqueles homens tão diversos e desiguais. assim como outros autores. vol. 3. sob a tutela de missionários. obrigando-os a descer e se instalar em aldeias. no entanto.e mostrou como ela era inviável para a continuidade das relações escravistas na América portuguesa.231 John Thornton3 e procurei encontrar nas fontes. João Lúcio de Azevedo (coord. 8 (1981): 183-204. 636-640. p. Lisboa. Aires de Souza de Castro e muitos conselheiros do Ultramarino viram ali. não creio que as questões levantadas por essa tese possam ser enquadradas como parte do aprendizado da colonização. Companhia das Letras. Para a história social. Por tudo isso. 1970. Carta do padre Antônio Vieira a Roque Monteiro Paim de 2 de julho de 1691.4 A sintaxe política centroafricana . "Early Kongo-Portuguese relations: a new interpretation" History in Africa. Ainda que em seu livro ele. o domínio da metrópole sobre suas colônias não foi o único a florescer nos quadros da colonização. Afinal. a possibilidade de implementar. nas sociedades coloniais. e no contexto social e institucional em que foram produzidas.). p. Casa da Moeda. .não pôde ser praticada da mesma forma desse lado do Atlântico.5 sua análise acabou pendendo mais para a lógica da acumulação e da circulação de riquezas no Atlântico português. é necessário prestar atenção nas relações de dominação que se estabelecem entre os homens. O acúmulo de experiência não foi privilégio dos europeus. O padre Antônio Vieira apontou com sagacidade os limites da aplicação dessa política para os mocambos . Luís Felipe de Alencastro. procure analisar os vários caminhos que os conquistadores ibéricos adotaram "para se assegurar o controle dos nativos e do excedente econômico das conquistas". Antonio Vieira. Se em 1678 Gangazumba conseguiu negociar para defender ou estabilizar o reino dos Palmares. É natural para quem está preocupado com os mecanismos do tráfico negreiro. ela cruzou os mares. mais uma vez. além dos mecanismos da exploração e da dominação que regem o sistema colonial. Imprensa Nacional.

No parecer que redigiu sobre uma nova possibilidade de negociação em 1691. Dele participaram muitos outros sujeitos. Por isso mesmo. As ações e escolhas feitas pelos negros dos Palmares foram parte importante desse debate. No entanto. padres e juristas. as palavras utilizadas por Aires de Souza de Castro ao redigir o papel que selou o acordo em junho de 1678. que separava a índios e negros.para ficar apenas no circuito estudado aqui. Talvez tenha sido. Cucaú parece ter constituído um caminho alternativo de muitas maneiras. foi possível reconhecer sua liberdade natural e adotar uma política missioneira em relação a eles.liberdade e escravidão .a alforria. uma forma de obter liberdade. terra para trabalhar e segurança para sobreviver e crescer. no Kongo. no Brasil. Os homens e mulheres vindos de Angola para o Brasil .se colocava tanto em relação a índios quanto a negros e não se fazia apenas entre letrados. para sobreviver como escravos.232 o modo como lidaram com os portugueses e outros europeus que se fizeram presentes na África e foi aprimorada no contato com eles. Vieira deixou subentendido que a escolha da política a ser adotada em relação aos "rebelados e cativos" envolvia também uma questão jurídica importante. F. uma 6 Apenas para citar um exemplo bem engendrado dessa formulação. as discussões no Conselho Ultramarino e o lento pronunciamento régio com relação ao que fazer diante do que se passava em Pernambuco indicam que o tema era dos mais candentes e ia bem além do contraponto entre liberdade para os índios e a escravidão para os negros. fugir e viver nos palmares. . como gerou muitas polêmicas em Lisboa. social e politicamente diferentes. o reduto de homens e mulheres que haviam conquistado a liberdade depois de tantas guerras não só representava uma ameaça para os senhores de engenho pernambucanos. No caso dos escravos negros. pp. no Conselho Ultramarino e em outros lugares da administração colonial . vide L. para muitos dos habitantes de Palmares.trouxeram consigo essa cultura política e a empregaram no Novo Mundo. Alencastro. Podia ser.e para Pernambuco . O trato dos viventes. no Maranhão e em Portugal. que se desenrolou nas matas de Pernambuco. No caso dos índios. a liberdade só podia ser aquela doada pelo senhor . 86-88 e 181-187. no governo geral do Brasil. como indicam as observações de Vieira. 67. no Ndongo. nas câmaras da capitania.6 O que o exame das fontes revela é que o debate sobre ambos .

pp.e não em relações sistêmicas que acabam por transformar a história num jogo lógico. capitães-do-mato e o governo dos escravos" in João José Reis e Flávio dos Santos Gomes (orgs. Resistência. Companhia das Letras.9 Explorei várias dimensões da hipótese levantada por ele e Stephen Palmié sobre os nexos entre a instituição dos Imbangala e a forma da organização dos mocambos em Palmares. p. ele serviu aos Imbangala como instrumento de coesão. foi aceito e reconhecido pelas autoridades coloniais em Pernambuco e em Lisboa. como escravos e como fugitivos. que permitiria compreender melhor Palmares e também a história subseqüente da resistência escrava no Brasil. "A dinâmica da escravidão no Brasil. "Do singular ao plural: Palmares. E se transformou ao longo do século XVII: os Imbangala não só se aliaram aos portugueses. assim.8 O percurso realizado pela tese permitiu ainda realizar um diálogo com a literatura sobre a experiência dos africanos nas Américas. Sua existência e sua derrota. séculos XVII e XVIII". Liberdade por um Fio. Como um sobado ou como uma aldeia. Silvia Hunold Lara. Novos Estudos Cebrap. 1996. 91-92. . as autoridades visavam impedir a todo o custo a formação de novos reinos como Palmares. São Paulo.233 esperança para os escravos. Cf. levaram a alterações da política senhorial em relação ao controle das fugas a partir do século XVIII: ao regulamentar o cargo de capitão-do-mato e colocá-lo sob alçada das câmaras. Não vou retomar aqui o que já foi dito. Apoiada pelas contribuições de Igor Kopytoff. tráfico negreiro e alforrias. em que a ação dos homens cede lugar a forças abstratas e genéricas. assim como a continuidade das guerras contra Zumbi.agora em relação a um hábito historiográfico que eu e meus colegas temos reiterado ao tratar das fugas de escravos e das comunidades a que elas deram origem. Stuart Schwartz já havia observado que no termo quilombo estaria codificada uma história não escrita. 9 Stuart B. Acrescento apenas algumas observações finais . 249. e 7 Avanço. "Repensando Palmares". ao reunir gente desenraizada e sem ancestrais comuns em uma formação militar específica de grande importância na sintaxe das guerras angolanas. observei que o kilombo não era uma instituição separada da sintaxe política centro-africana.7 É na relação conflituosa e tensa entre diferentes perspectivas políticas que podemos encontrar a resposta para a inexistência de mocambos tão longevos e extensos nos dois séculos seguintes . mais um argumento às teses que desenvolvi em artigo anterior.). 74 (2006): 107-123. 8 A pergunta sobre a inexistência de outros Palmares na história do Brasil foi feita por Rafael de Bivar Marquese. Como vimos. Schwartz.

Mas é preciso observar que a palavra quilombo aparece em bem poucos. Alvará de confirmação de 9 de Abril de 1693. 54). 1938. 316-344 (doc. com todas as adaptações e diferenças. em 1691 e 1692. 11 Requerimento do mestre de campo Domingos Jorge Velho ao rei.28) e 238-241 (doc. Ed. "azinha se formar[ia] outro civil novo. em 3 de dezembro de 1691. . depois de novembro de 1695. É provável que Schwartz tenha considerado a data da ratificação do contrato pelo marquês de Montebelo para datar o aparecimento da palavra quilombo na documentação. As guerras nos Palmares: subsídios para a sua história. os estados apoiados nas linhagens também fizeram parte dessa história. Cia. As guerras nos Palmares.234 aos reis e sobas centro-africanos.11 Foi nesse contexto. Em segundo lugar. [posterior a 20 de novembro de 1695]. Ratificação dos capítulos pelo marquês de Montebelo. Ennes. pp. e o kilombo muitas vezes passou a designar a capital de estados fortes. em que ele pedia ao rei que fossem distribuídas as terras prometidas pela destruição dos Palmares. Os documentos estão publicados por Ernesto Ennes. 84-87 (doc. não se pode desconsiderar a cronologia e o modo como as informações foram registradas. que ele ponderou que. faziam parte dos mecanismos de expansão das fronteiras na África. como também se uniram a forças políticas baseadas nas linhagens. todos eles relativos à contratação de Domingos Jorge Velho para "conquistar. creio ter sido uma forma de articular kilombo e estados linhageiros . como no caso de Njinga. mais que a presença de uma única instituição. e em documentos posteriores ligados a sua implementação. como no caso de Matamba e Kasanje. se o kilombo pôde servir de modelo político e militar para os escravos centro-africanos que fugiam para as matas de Pernambuco. São Paulo. aliás. Por isso. Nacional. e que o termo se generalizou no século XVIII. assinado em 1687. neste Barriga ou em qualquer outra paragem tão apta como 10 Capítulos e condições que concede o senhor governador João da Cunha Souto Maior ao coronel Domingos Jorge Velho. mesmo depois de Zumbi ter sido morto. destruir e extinguir totalmente os negros levantados dos Palmares". 34). O termo foi empregado na primeira versão desse contrato. em e de março de 1687.ou uma cultura política centro-africana . Schwartz notou que foi apenas a partir de 1691 que a palavra quilombo aparece na documentação referente a Palmares. como lembrou Stuart Schwartz. Assim.que informou e se fez presente em vários momentos e aspectos da história de Palmares. de certo modo. E. De fato. Ambos. pp. ao designar qualquer comunidade de escravos fugitivos.10 Ele foi usado também em um requerimento escrito por Domingos Jorge Velho.

e especialmente nos palmares de Pernambuco." e que sem os paulistas ali instalados "pode haver outra vez Angola janga. 14 S. os povoados formados pelos fugitivos foram chamados mocambos .e tomou conta da descrição da história dos mocambos que se formaram no Brasil . embora tenha sido descrito por gente que viveu entre os Imbangala entre 1601-1603. cidades. aos poucos. As palavras não aparecem ou desaparecem. 13 S. pp. nem mudam de significado à toa. 91-92. para o caso de Pernambuco e de outras capitanias do Brasil. que diz respeito à historiografia.14 Isso não significa que o significado da palavra quilombo tenha permanecido estático. Angola pequena. pp. por exemplo.13 Essa definição foi elaborada ao mesmo tempo em que o ofício de capitão-do-mato foi regulamentado e seu provimento atribuído às câmaras municipais. H. cercas e palmares.e também de aldeias. com ranchos e pilões. 93-98. também o termo quilombo se transformou em um conceito com características universais e abstratas . Ele variou bastante e não só no Brasil. mocambo continuou a ser a palavra mais usada. primeira metade do século XVI" Stvdia. Essas observações levam a uma outra questão correlata. 23 (1996): 453-454. a designação passou a referenciar motins e revoltas de escravos em geral. uma história dessas palavras e de seus significados sociais e políticos que ainda está por ser feita . Qualificado com um (ou vários) 12 Catarina Madeira Santos. H.15 Há. 54/55 (1996): 81.12 No Brasil. "Quilombos on São Tomé. quando quilombo passou a ter uma definição legal: qualquer agrupamento de mais de quatro ou cinco negros refugiados nos matos. mesmo depois de 1687 ou 1691. o termo quilombo só apareceu na documentação portuguesa referente a Angola a partir de 1617-22.e que apenas começa pela etimologia. até as primeiras décadas do século XVIII. Jan Vansina observa que. quando os governadores começaram a fazer alianças com o Imbangala. o termo era usado para nomear aquele que incentivava as fugas e os ataques às fazendas. Em toda a documentação administrativa produzida até então. "A formação das estruturas fundiárias e a territorialização das tensões sociais: São Tomé.235 esta. "Do singular ao plural". Do mesmo modo que um enredo narrativo sobre Palmares se fixou. 15 Jan Vansina. sem dúvida. Lara. "Do singular ao plural". Nessas fontes a palavra foi muitas vezes empregada como sinônimo de "povoação" e "bando de jagas". Em São Tomé no início do século XVI. Lara. . como eles [os negros o] chamavam" . or in search of original sources" History in Africa. ali.expressão que se tornou tão afamada.

17 Ou seja: no início do século XVIII. 25 (1904): 187-194.e não pelos nomes cristãos que algum dia. tiveram . História da América Portuguesa [1730]. Isso não confere um sentido especial para querer conhecer aqueles homens e mulheres e sua história em seus próprios termos? 16 Sebastião da Rocha Pita. Ela continua a ser reafirmada até hoje .16 Quando os mocambos formados por negros levantados que viviam nos palmares de Pernambuco se tornaram um quilombo? Em que circunstâncias isso aconteceu? Eis uma outra história que está por ser feita. . os primeiros historiadores ao se referirem a Palmares.). 213-219. em contextos demográficos. em 1678. em seu Vocabulário não registrou a palavra quilombo. Collegio das Artes da Companhia de Jesus. O fato de Domingos Jorge Velho ter usado a palavra para designá-los. mas indicou que "no Brasil chamam às aldeias de uns negros repartidos em choupanas. Rio de Janeiro. Coimbra. a que chamam Negros dos Palmares.236 quilombo(s). Desagravos do Brasil e górias de Pernambuco [1757] ABN. pp. Raphael Bluteau. sociais e políticos os mais diversos.d. Palmares acabou por perder sua historicidade: tornou-se exemplo de um mesmo fenômeno observável em várias regiões e períodos. (Ed. CD-Rom. mocambos. A força política da linhagem governante dos Palmares e de seus mocambos não foi reconhecida apenas pelas autoridades coloniais. verbete "mocambo".por todos nós. s. em livros que foram publicados em 1730 e 1757. Vocabulário portuguez e latino. EDUSP/Itatiaia. não constitui credencial suficiente para que ela possa dar conta de toda a história de Palmares. não utilizam a palavra quilombo. donde tomou este sítio o nome". os nomes africanos de seus principais titulares e suas relações de parentesco atravessaram os séculos e são por eles .que sabemos de sua existência. como escravos. Sebastião da Rocha Pita e Domingos Loreto Couto. UERJ. São Paulo. os negros dos palmares (dos Palmares?) construíam e habitavam mocambos. em um contexto específico. 17 Raphael Bluteau. fac-simile. E acrescentou: "são no sertão do Brasil uns negros levantados. 1976. 1712. e Domingos Loreto Couto. [que] deram este nome às aldeias que eles habitam". produzido por escravos de diferentes procedências. Afinal.

e as mais utilidades que os vossos filhos experimentaram e vós de de [sic] hoje em diante achareis da mesma maneira. O título do documento é o que consta do índice desse códice.Papel que escreveu ao principal dos negros dos Palmares sobre as pazes que determinavam fazer. 6. porque bem viram vossos filhos o poder que o Príncipe meu senhor mandou nesta ocasião em minha companhia para vos ir acabar. e perdão de viverdes há tantos anos fora da nossa obediência. incluindo os nomes próprios. parece que permitiu Deus dar-vos esta Luz para ser meio da vossa salvação. governador da capitania de Pernambuco e das mais anexas por Sua Alteza. e que vós os obrigareis a fazê-la no caso que algum não quisesse. Na transcrição desse e dos demais documentos dos anexos atualizei a grafia das palavras. n. Vossos filhos e família me prometeram em vosso nome que todos os negros desses Palmares e os mais potentados deles vinham nesta Paz. meu e vosso senhor. E como vós nisto tudo sois os mais interessados. No caso de Gangazumba e no de Zumbi. . e derrotar de todo. E por mandardes todos nossos [sic] filhos e família a lançar a meus pés a pedir perdão da obediência a que até agora faltastes. tendo por mui firme que também da vossa parte vós não faltareis ao que vossos filhos me vieram pedir e segurar.I .237 ANEXOS Anexo 1 . em 22 de junho de 1687. e que prometíeis entregar todos os negros que destas capitanias haviam fugido para esses Palmares. advertindo-vos que se com efeito não derdes cumprimento ao que me mandais oferecer no tempo assinalado deste papel que vos hei de mandar fazer a guerra pelas tropas que [fl.334v] já tenho juntas. desdobrei as abreviaturas e suprimi algumas vírgulas. 1 (1648-1696).31. AUC. Coleção Conde dos Arcos. de maneira que nenhum de vós outros há de escapar. Ganazumbà. para facilitar a leitura. etc. vol. e terdes entre nós tantos interesses como vos concedo. Em nome do príncipe de Portugal. 1 2 Disposições dos governadores de Pernambuco. vos concedo o que por este papel vos prometo.3ª . no original. nem ter quartel. no que não haverá a menor dúvida. adoto os nomes mais próximos dos fixados pela bibliografia.1 . vos remeto a vós Gangazumba2 o bem da liberdade. VI . fls. Como já observei. está em andamento um estudo mais detalhado sobre a variação no registro dos nomes palmarinos na documentação administrativa e na própria historiografia.1 Aires de Souza Castro [sic]. 334-334v.

que no cabo de viverdes tantos anos arredado da Luz da fé vos dá este caminho para vossa salvação. Coleção Conde dos Arcos. 13. ficando vós outros moradores nela com vossa liberdade para podereis plantar os vossos frutos.3ª . e mulheres que cá estavam cativos para irem para o Reino vo-los hei de tornar a mandar restituir. AUC. vos mando esses dois.1 . . que Deus guarde sem vos obrigarem por força a nenhum trabalho particular. e filhos. vol. 22 de junho de 1687. lhe dou a mesma alforria. e ainda alguns filhos. Recife de Pernambuco. de 24 de julho de 1678. porque como vos sabem a língua. e espero na Graça de Deus. fls. sem embargo de ser mais culpado de todos. n.31. e porque o negro Amaro que lá se acha terá receio de vir por ser cativo nosso. e ao outro que chamam João Mulato concedo o mesmo. vos concedo a dita paragem. Anexo 2 . E na vossa cidade se vos hão de dar padres para vos ensinarem a doutrina cristã para viveres e morreres pela fé de Cristo que é só o verdadeiro Deus.238 Também me pediram para morarem. no original. e a vossa mulher. VI . e quando alguns se não queiram submeter a esta obediência me avisareis logo pelos enviados que vos mando para lhe mandar fazer a guerra como acima vos tenho declarado. melhor vos explicarão as vossas conveniências. e terdes os mesmos lucros que têm os mais vassalos de S. e a todos há de tocar dela.Carta de Aires de Souza de Castro a Gangazumba sobre a vinda dos negros dos Palmares.I . e fazerem suas aldeias. um sargento-maior e outro capitão de infantaria. 336v. Recebi vossa carta em companhia de vossos capitães. Disposições dos governadores de Pernambuco.4 Gangazumba. o sítio a que chamam Cucaú3. O título do documento é o que consta do índice do códice. Todos vós outros os que fostes nascidos nesses Palmares vos concedo alforria. e a firmeza de todo este papel. soldados mui honrados e mui antigos. E vos fico esperando para vos fazer as honras que fiz a vossos filhos. 1 (1648-1696). para que também venhais lograr esta dita. e na sua divina Misericórdia que a vós. com que não tenho mais que vos dizer. e delas vos faço mercê. e para que vos vejais a estimação que nós fazemos da gente preta que obra debaixo da nossa obediência. A. Ele vos guarde muitos anos. e por vos fazer a vontade. e para 3 4 Cucahû. e soldados que tudo estimei muito por ver que Deus é tanto vosso amigo. salvo se for para o serviço do dito senhor.

donde haveis de viver muito a vosso gosto. e ser cousa da casa de que eu sou tão afeiçoado. e conveniência vossa como haveis de ter de ter [sic] debaixo da nossa obediência na terra que vos tenho dado para a vossa povoação. Assim vos mando o machado que me mandastes pedir. e os tenho aqui mui bem tratados como coisa vossa para vo-los mandar tanto que vós vierdes. e para que vejais o cuidado que tenho da vossa gente lhe mando ter feito farinha para que quando chegarem àquele sítio lha levarem para seu sustento enquanto não trabalham. quando chegardes. e filhos estando para irem para o Reino os não quis mandar. e o cuidado com que foi tratado. e todos vossos filhos. E como para cá vierdes tudo o que quiserdes vos hei de dar.239 descanso. Permita Deus que assim seja e ele vos guarde como desejo. e buscam a vida. e dar patentes. e porque estou tão certo na vossa palavra como tenho visto a que não haveis de faltar como eu também vos tenho segurado pelo papel que vos mandei. e porque fico nisto mui certo volo não encomendo mais. e a vosso irmão e ao [?] Zumbi5 podeis dizer o mesmo da minha parte. Vossa mulher. e insígnias na mesma forma que vos vedes levar aos pretos que nos cá servem. e agora de novo vo-lo torno a segurar. irmãos. Os mesmo enviados que foram da outra vez são os mesmos que agora mando para vos virem ajudando ao trabalho do caminho. logo os mandareis. . E eu hei de ficar sempre sendo vosso procurador para todas as vossas pretensões. 24 de julho de 1678. e porque vos quero pagar o virdes pedir a paz e obediência no tempo do meu governo. e capitães hei de fazer muitas honras. Aires de Souza de Castro. parentes. e para avisarem a tempo do que for necessário para vos ir o mantimento. Os vossos filhos e toda a vossa gente vos dirão como eu sou seu amigo e vos darão novas de como vosso filho fica já são da ferida. e assim que em vós vindo. Recife de Pernambuco. 5 Zumbim no original. e pano para um vestido. porque agora não servia mais que de embaraço o ir com aqueles meninos pelo mato. O presente que me mandastes estimei muito por ser da vossa mão.

12 de novembro d 1678. e hoje me veio outra de Antonio Pinto em que me diz que já vindes posto em marcha com muita parte da vossa gente.. de que podeis ter muita consolação porque morreu como filho da igreja. e tenho muita fé nela. meu. AUC.Carta de Aires de Souza de Castro a Gangazumba sobre a sua chegada a Cucaú. e tudo o mais que for necessário. de 12 de novembro de 1678. 8 Ganasona. 7 Disposições dos governadores de Pernambuco.3ª . VI . Coleção Conde dos Arcos. fls. Aires de Souza de Castro.6 Gangazumba amigo.3ª . 15.] [a todos?] aqueles que têm vindo a esta casa.1 . Uma carta vossa tive os tempos atrás. e quis Deus abrir-vos os olhos da cegueira em que vivia para virdes viver em nossa companhia com tanta conveniência.] o gosto com que o esperava. vol.. assim o fio da vossa palavra. e vosso senhor que só debaixo dessa obediência vos poderá Deus ajudar. . 1 (1648-1696). Eu hei de ser vosso procurador. E tantas conveniências quantas [?] havias de lograr na nossa companhia. 337v] dias farinha e gente no Cucaú para vos agasalharem. meu e vosso senhor. e a toda a vossa gente. para que vivendo vós debaixo da sua obediência logreis os mesmos privilégios que logram os mais vassalos seus como 6 Disposições dos governadores de Pernambuco. mas sabei que teve uma morte. e com a vossa vinda se acabou de justificar melhor. 337v.I . pois vos tinha há tantos [fl. VI .31. já lá tendes padres convosco para vos ensinar a doutrina.240 Anexo 3 .. de todos os brancos invejada. n. E vos guarde como desejo.1 . e assim vos confirmo a palavra que vos dou em nome do Príncipe de Portugal. pois acheis em mim tanta vontade de vos fazer mercê. vol. de 12 de novembro de 1678. e assim vos dou as boas vindas de terdes já chegado. 1 (1648-1696). segurando-me que nenhuma há de ficar. n.. Com que podemos crer que está no céu. fls. 16.I . no original. O título do documento é o que consta do índice do códice.Carta de Aires de Souza de Castro a Gangazona sobre a sua vinda. O título do documento é o que consta do índice do códice. nem era possível que [d]isto tivesse dúvida. Anexo 4 . E [. Recife. AUC. e toda a vossa gente como vós poderá [. já que vós quisestes no meu tempo conhecer como éreis obrigado ao príncipe de Portugal.7 Gangasona8 amigo. 337-337v. E só fiquei sentido de não achardes vosso filho vivo. e vos dizerem missa. a vós. e que a mais que fica há de vir com aviso vosso em companhia [?] do Zambim. Sempre estive firme na vossa palavra. e descanso e conhecer a luz da fé que é o caminho da salvação o mais importante.31. Coleção Conde dos Arcos.

12 de novembro de 1678. Aires de Souza de Castro. Recife.] com que foram tratados. D. 10 Gana zumba. tendo por mui firme que também da vossa parte vós não faltareis ao que vossos filhos me vieram pedir. A. e como vos nisto tudo sois os mais interessados. e os mais potentados deles vinham nesta paz. Em nome do Príncipe de Portugal meu e vosso senhor vos remeto a vós Gangazumba10 o bem da liberdade e perdão de [ileg . pois vossa mulher e filhos e alguns que estavam para ir para o Reino. e as mais utilidades que vossos filhos experimentaram e vós de hoje em diante achareis da mesma maneira.. e mais gente que já nesta casa. Cx. Deus vos guarde muitos anos. 11. e por mandardes todos vossos filhos e família a lançar a meus pés e pedir perdão da obediência a que até agora faltastes vos concedo o que por este papel vos prometo. advertindo-vos que se com efeito não derdes comprimento ao que me mandais oferecer no tempo assinalado deste papel que vos hei de mandar fazer a guerra pelas tropas que já tenho juntas.241 [as]segurei a vosso irmão pelas condições que em um papel lhe mandei declarar. e vos agradecer a vontade com que vindes no tempo do meu governo dar esta obediência. que Deus guarde. E o mesmo haveis vós de experimentar. não quis mandar só por vo-los entregar. e que vós os obrigaríeis 9 Documento anexo à carta do governador Aires de Souza de Castro de 22 de junho de 1678 AHU_ACL_CU_015. no que não haverá a menor dúvida.Cópia do papel que levaram os negros dos Palmares. no original. e segurar. de maneira que nenhum de vós outros há de escapar nem ter quartel porque bem viram vossos filhos o poder que o Príncipe meu Senhor mandou nesta ocasião em minha companhia para vos ir acabar de derrotar de todo. e terdes entre nós tantos interesses como vos concedo. Anexo 5 . e terra estiveram vo-lo terão assegurado. e os vossos parentes. 1116. Vossos filhos e família me prometeram em vosso nome que todos os negros desses palmares. . pois viram o [.9 Cópia do papel que levaram os negros dos Palmares Aires de Souza de Castro Governador da Capitania de Pernambuco e das mais anexas por S.. parece que permitiu Deus dar-vos esta luz para ser meio da vossa salvação.carimbo do AHU] há tantos anos fora da nossa obediência.

que Deus guarde sem vos obrigarem por força a nenhum trabalho particular salvo se for para o serviço do dito senhor.242 no caso que algum não quisesse fazê-la. e porque o negro Amaro que lá se acha terá receio por ser cativo nosso de vir. e quando alguns se não queiram submeter a esta obediência. E para que vós vejais a estimação que nós fazemos da gente preta que obra debaixo da nossa obediência vos mando esses dois um sargento maior e outro capitão de infantaria soldados mui honrados e mui antigos porque como vos sabem a língua melhor vos explicarão as vossas conveniências. lhe dou a mesma alforria sem embargo de ser mais culpado que todos. 22 de junho de 1678. Também me pediram para morarem e fazerem suas aldeias o sítio a que chamam Cucaú11. A. Aires de Souza de Castro. 11 Cucau. . e ainda alguns filhos e mulheres que cá estavam cativos para irem para o Reino vo-los hei de tornar a mandar [verso] restituir. os quais ganharam tanto nesta vinda que cá vieram fazer que já vão batizados pela graça de Deus e espero em sua divina misericórdia que a vós e a todos há de tocar dela para que também venhais lograr esta dita. E se estais por ele e vos dou outros trinta para lhe dar cumprimento e execução como neste se contém. e vos fico esperando para vos fazer as honras que fiz a vossos filhos. E a firmeza de todo este papel. e que prometíeis entregar todos os negros que destas capitanias haviam fugido para esses Palmares. Todos vós outros os que fostes nascidos nesses palmares vos concedo alforria. e ao outro a que chamam João Mulato concedo o mesmo. me avisareis logo pelos enviados que vos mando para lhe mandar fazer a guerra como acima vos tenho declarado. e na vossa cidade se vos hão de dar padres para vos ensinarem a doutrina cristã para viverdes e morrer pela fé de Cristo que é só o verdadeiro Deus. Ele vos guarde muitos anos Recife de Pernambuco. com que não tenho mais que vos dizer. no original. e por vos fazer a vontade vos concedo a dita paragem e dela vos faço mercê ficando vós outros moradores nela com vossa liberdade para poderdes plantar os vossos frutos e terdes os mesmos lucros que têm os mais vassalos de S. E por estes enviados me mandareis dentro de trinta dias a resolução do conteúdo em todo neste papel. e a vossa mulher e filhos.

meu e vosso senhor. e perdão de viverdes há tantos anos fora da nossa obediência.1 . e terdes entre nós tantos interesses como vos concedo. e as mais utilidades que vossos filhos experimentaram e vós de hoje em diante achareis da mesma maneira. advertindo-vos que se com efeito não derdes cumprimento ao que me mandais oferecer no tempo assinalado deste papel que vos hei de mandar fazer a guerra pelas tropas que já tenho juntas. parece que permitiu Deus dar-vos esta luz para ser meio da vossa salvação. 334-334v Anexo 5 AHU_ACL_CU_015. de maneira que nenhum de vós outros há de escapar nem ter quartel porque bem viram vossos filhos o poder que o Príncipe meu Senhor mandou nesta ocasião em minha companhia para vos ir acabar de derrotar de todo. E por mandardes todos nossos filhos e família a lançar a meus pés a pedir perdão da obediência a que até agora faltastes. que Deus guarde. e por mandardes todos vossos filhos e família a lançar a meus pés e pedir perdão da obediência a que até agora faltastes vos concedo o que por este papel vos prometo. porque bem viram vossos filhos o poder que o Príncipe meu senhor mandou nesta ocasião em minha companhia para vos ir acabar. e como vos nisto tudo sois os mais interessados. no que não haverá a menor dúvida. fls. e terdes entre nós tantos interesses como vos concedo. Vossos filhos e família me prometeram em vosso nome que todos os negros desses palmares.243 Anexo 6 . e que vós os obrigaríeis a fazê-la no caso que algum não quisesse. etc.Quadro comparativo dos documentos transcritos nos anexos 1 e 5. e que prometíeis entregar todos os negros que destas capitanias haviam fugido para esses Palmares Também me pediram para morarem e fazerem suas aldeias o sítio a que chamam . e as mais utilidades que os vossos filhos experimentaram e vós de de hoje em diante achareis da mesma maneira. E como vós nisto tudo sois os mais interessados. Vossos filhos e família me prometeram em vosso nome que todos os negros desses Palmares e os mais apotentados deles vinham nesta Paz. no que não haverá a menor dúvida. Alteza. 11. tendo por mui firme que também da vossa parte vós não faltareis ao que vossos filhos me vieram pedir e segurar. VI . e fazerem suas aldeias. advertindo-vos que se com efeito não derdes comprimento ao que me mandais oferecer no tempo assinalado deste papel que vos hei de mandar fazer a guerra pelas tropas que já tenho juntas. D. e os mais apotentados deles vinham nesta paz. e que vós os obrigaríeis no caso que algum não quisesse fazê-la.I . tendo por mui firme que também da vossa parte vós não faltareis ao que vossos filhos me vieram pedir. e que prometíeis entregar todos os negros que destas capitanias haviam fugido para esses Palmares. vos remeto a vós Gangazumba o bem da liberdade. Também me pediram para morarem. e segurar. A. Cx. o sítio a que chamam Em nome do Príncipe de Portugal meu e vosso senhor vos remeto a vós Gangazumba o bem da liberdade e perdão de [viverdes] há tantos anos fora da nossa obediência.31.3ª . governador da capitania Aires de Souza de Castro Governador da de Pernambuco e das mais anexas por Sua Capitania de Pernambuco e das mais anexas por S. Anexo 1 AUC. nem ter quartel. e derrotar de todo. parece que permitiu Deus dar-vos esta luz para ser meio da vossa salvação. CA. vos concedo o que por este papel vos prometo. de maneira que nenhum de vós outros há de escapar. 1116 Cópia do papel que levaram os negros dos Palmares Aires de Souza Castro. Em nome do príncipe de Portugal.

e ao outro a que chamam João Mulato concedo o mesmo. os quais ganharam tanto nesta vinda que cá vieram fazer que já vão batizados pela graça de Deus e espero em sua divina misericórdia que a vós e a todos há de tocar dela para que também venhais lograr esta dita. e a todos há de tocar dela. . porque como vos sabem a língua. e vos fico esperando para vos fazer as honras que fiz a vossos filhos. e ainda alguns filhos e mulheres que cá estavam cativos para irem para o Reino vo-los hei de tornar a mandar restituir. para que também venhais lograr esta dita. Todos vós outros os que fostes nascidos nesses Palmares vos concedo alforria. e para que vos vejais a estimação que nós fazemos da gente preta que obra debaixo da nossa obediência. com que não tenho mais que vos dizer. e por vos fazer a vontade. e ainda alguns filhos. e a firmeza de todo este papel. e delas vos faço mercê. e a vossa mulher. melhor vos explicarão as vossas conveniências.244 Cucaú. Recife de Pernambuco. e mulheres que cá estavam cativos para irem para o Reino vo-los hei de tornar a mandar restituir. vos concedo a dita paragem. me avisareis logo pelos enviados que vos mando para lhe mandar fazer a guerra como acima vos tenho declarado. Aires de Souza de Castro. ficando vós outros moradores nela com vossa liberdade para podereis plantar os vossos frutos. e filhos. Cucau. 22 de junho de 1678. E para que vós vejais a estimação que nós fazemos da gente preta que obra debaixo da nossa obediência vos mando esses dois um sargento maior e outro capitão de infantaria soldados mui honrados e mui antigos porque como vos sabem a língua melhor vos explicarão as vossas conveniências. e a firmeza de todo este papel. e terdes os mesmos lucros que têm os mais vassalos de S. Ele vos guarde muitos anos Recife de Pernambuco. soldados mui honrados e mui antigos. que Deus guarde sem vos obrigarem por força a nenhum trabalho particular. e a vossa mulher e filhos. E se estais por ele e vos dou outros trinta para lhe dar cumprimento e execução como neste se contém. A. E vos fico esperando para vos fazer as honras que fiz a vossos filhos. sem embargo de ser mais culpado de todos. Todos vós outros os que fostes nascidos nesses palmares vos concedo alforria. com que não tenho mais que vos dizer. e quando alguns se não queiram submeter a esta obediência. e porque o negro Amaro que lá se acha terá receio de vir por ser cativo nosso. e porque o negro Amaro que lá se acha terá receio por ser cativo nosso de vir. e por vos fazer a vontade vos concedo a dita paragem e dela vos faço mercê ficando vós outros moradores nela com vossa liberdade para poderdes plantar os vossos frutos e terdes os mesmos lucros que têm os mais vassalos de S. um sargento-maior e outro capitão de infantaria. e ao outro que chamam João Mulato concedo o mesmo. e espero na Graça de Deus. E por estes enviados me mandareis dentro de trinta dias a resolução do conteúdo em todo neste papel. e na sua divina Misericórdia que a vós. Ele vos guarde muitos anos. lhe dou a mesma alforria sem embargo de ser mais culpado que todos. A. 22 de junho de 1687. que Deus guarde sem vos obrigarem por força a nenhum trabalho particular salvo se for para o serviço do dito senhor. salvo se for para o serviço do dito senhor. vos mando esses dois. e na vossa cidade se vos hão de dar padres para vos ensinarem a doutrina cristã para viverdes e morrer pela fé de Cristo que é só o verdadeiro Deus. lhe dou a mesma alforria. E na vossa cidade se vos hão de dar padres para vos ensinarem a doutrina cristã para viveres e morreres pela fé de Cristo que é só o verdadeiro Deus. e quando alguns se não queiram submeter a esta obediência me avisareis logo pelos enviados que vos mando para lhe mandar fazer a guerra como acima vos tenho declarado.

Memorial dos Palmares Décio Freitas. [1973]. A.121. Documento anexo à carta do governador Aires de Souza de Castro de 22 de junho de 1678 AHU_ACL_CU_015. Cx. p. 7) que o rei negro seria nomeado mestre-de campo de toda a sua gente e responsável pela ordem entre os negros. Xenon. Reino Negro de Palmares Ivan Alves Filho. Contexto. Porto Alegre. 11. 251-252. D. Palmares. que Deus guarde sem vos obrigarem por força a nenhum trabalho particular salvo se for para o serviço do dito senhor (…) e plantas. fora de Palmares seriam novamente escravizados. Biblioteca do Exército. me o Rei conduziria a todos ao nosso domínio. lhe dou a mesma alforria sem embargo de ser mais culpado que todos. Palmares. A guerra dos escravos. 1984. e por vos fazer a vontade vos concedo que lhes dessem para vivenda o sitio que elles habitações a dita paragem e dela vos faço mercê apontassem 2) concessão de terras para viverem concessão de terras aos palmarinos as terras nas quais os palmaristas iriam viver seriam agora demarcadas pela Coroa ficando vós outros moradores nela com vossa liberdade para poderdes plantar os vossos frutos e terdes os mesmos lucros que têm os mais vassalos de S. (…) em local em que pudessem viver e plantar. e avisareis logo pelos enviados que vos mando quando algum por rebelde repugnasse a sua e para lhe mandar fazer a guerra como acima nossa obediência ele o conquistaria. 5) que teriam comércio e trato e a paz para a sua habitação. São Paulo. Ivan Alves Filho. e ao outro a que chamam João Mulato concedo o mesmo e ainda alguns filhos e mulheres que cá estavam cativos para irem para o Reino vo-los hei de tornar a mandar restituir. reescrita. 22 (1859): 303-329. os palmaristas poderiam continuar mantendo trocas mercantis com taberneiros. seus cabos maiores. 1988.. pp. 1988. . E por estes enviados me mandareisdentro de trinta dias a resolução do conteúdo em todo 2) que a esse sítio se recolhessem no prazo de neste papel três meses. novos cativos que fugissem para Palmares deveriam ser imediatamente devolvidos para as 5) fica "implícito que os negros nascidos fora o acordo deixava implícito que os palmarinos nascidos autoridades coloniais e seus respectivos de Palmares seriam reduzidos ao cativeiro. 2005. 1116. Escravidão e liberdade no Atlântico Sul .) com os brancos. Flávio dos Santos Gomes. Reino Negro de Palmares [1954].liberdade para todas as pessoas nascidas em palmares. p. e quando alguns se não queiram submeter a esta obediência. p. remeto a vós Gangazumba o bem da liberdade e perdão de [viverdes] há tantos anos fora da nossa obediência (…) que ficariam obedientes às ordens do governador da capitania. 8) que seriam restituídas as mulheres do rei e dos demais potentados. conforme propunha Gangazumba. que fossem livres os nascidos nos Palmares. a liberdade dos negros nascidos em Palmares seria . e a vossa mulher e filhos. respeitada e porque o negro Amaro que lá se acha terá receio por ser cativo nosso de vir. liberdade de comércio entre os palmarinos e os moradores das vilas e vilarejos coloniais. Mario Martins de Freitas. 131. que o Rei se recolhesse a habitar o lugar determinado (…) que teriam commercio e trato (…) e cultivarem. Palmares. e plantas. (…) que vós os obrigaríeis no caso que algum não quisesse [fazer esta paz]. Palmares. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. e que prometíeis entregar todos os negros que destas capitanias haviam fugido para esses Palmares 4) que fossem restituídos pelo rei todos os escravos fugidos das fazendas e engenhos. 5ª ed. e daria vos tenho declarado guias para as nossas armas o desbaratarem e na vossa cidade se vos hão de darpadres para vos ensinarem a doutrina cristã para viverdes e morrer pela fé de Cristo que é só o verdadeiro Deus. comerciantes e vendeiros da região e que lograriam os foros de Vassalos de Sua Altez6) que lograriam os foros de vassalos de el-rei 4) gozo do foro de vassalos da Coroa os palmarinos seriam considerados doravante vassalos a partir da assinatura daquele tratado. 3) garantia de comércio e com os moradores relações com os moradores circunvizinhos. A guerra dos escravos Flávio dos Santos Gomes.Anexo 7 . 90. Mercado Aberto. Escravidão e liberdade no Atlântico Sul "Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco no tempo do governador dom Pedro de Almeida…" Vossos filhos e família me prometeram em vosso nome que todos os negros desses Palmares. proprietários Também me pediram para morarem e 1) que se lhes desse o sítio que eles fazerem suas aldeias o sítio a que chamam designassem ou escolhessem para suas Cucau. 2ª ed. Fontes: Cópia do papel que levaram os negros dos Palmares. e os mais apotentados deles vinham nesta paz que se assentasse a paz. (.. Décio Freitas. 1) liberdade para os nascidos nos Palmares.Quadro comparativo da enunciação das cláusulas do acordo ajustado em 22 de junho de 1678 Cópia do papel que levaram os negros dos Palmares Mario Martins de Freitas. revista e ampliada. "Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco no tempo do governador dom Pedro de Almeida…" RIHGB . palmaristas do rei de Portugal passariam à condição de vassalos do rei Todos vós outros os que fostes nascidos nesses palmares vos concedo alforria 3) que seriam livres os negros nascidos nos Palmares. Memorial dos Palmares .

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