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Universidade Estadual de Campinas Instituto de Filosofia e Ciências Humanas Departamento de História

PALMARES & CUCAÚ O APRENDIZADO DA DOMINAÇÃO

Silvia Hunold Lara

Tese apresentada para o concurso de Professor Titular Área de História do Brasil Disciplina HH384 - História do Brasil I

Campinas, 2008

II

Para meus primeiros leitores

III

Agradecimentos
Como sempre, das maneiras as mais diversas, muita gente me ajudou a fazer a pesquisa e a escrever essa tese. A lista é longa e começa com Flávio dos Santos Gomes que, logo no início da pesquisa, em 2005, me cedeu todo o levantamento da documentação impressa sobre Palmares que havia realizado, doação generosa que veio acompanhada por várias dicas bibliográficas e sugestões. Ele inaugurou uma série enorme de contribuições que foram aparecendo, aqui e ali, muitas vezes de forma surpreendente. Agradeço muitíssimo a ele e a todos os que vieram em seguida: Adriana Romeiro, Aldo Leoni, Bruno Feitler, Camila Loureiro Dias, Carlos Zeron, Catarina Madeira Santos, Cristina Meneguello, Eneida Mercadante Sela, Érika Simone de Almeida Carlos Dias, Gabriela Reis Sampaio, Hebe Mattos, Iara Lis Schiavinatto, James Green, Jean-Frédéric Schaub, John Monteiro, Kittiya Lee, Mafalda Soares da Cunha, Marcelo Mac Cord, Márcio Santos, Marcus Carvalho, Maria Fernanda Bicalho, Maria Lêda Oliveira, Mariana Françozo, Mariza Carvalho Soares, Matthias Rohrig Assunção, Michael Hall, Pedro Meira Monteiro, Raphael Chambouleyron, Sean Purdy, Silvana Rubino, Stephan Palmié, Tiago C. P. dos Reis Miranda e Waldomiro Lourenço da Silva Júnior. Mesmo que a tese tenha sido terminada, a pesquisa continua e o material que me forneceram será - prometo - melhor aproveitado. Agradeço igualmente aos que me ouviram contar novidades, lamentar dificuldades e repetir histórias. Guardo com carinho e gratidão o simples sorriso de paciente compreensão, a lembrança simpática de mandar uma dica por e-mail ou a disponibilidade para escutar minhas idéias. Obrigada também a Laura Peraza Mendes e Vinicius Todorov, bolsistas de Apoio Técnico do CNPq (ela por dois anos e ele nos últimos meses), que acompanharam de perto a elaboração das tabelas, a garimpagem dos textos e as idas e vindas da pesquisa. Aos arquivistas e bibliotecários das diversas instituições em que trabalhei devo agradecimentos especiais, pela paciência que tiveram para localizar livros, documentos e informações às vezes estranhas mas preciosas para a pesquisa. Dessa vez, também o que não foi encontrado assumiu grande importância e a ajuda especial dos técnicos do Arquivo Histórico Ultramarino, da Torre do Tombo, da Seção de Reservados da Biblioteca Nacional, em Lisboa, e da Seção de Manuscritos da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro foi ainda mais valiosa. Essa pesquisa vem sendo financiada por uma Bolsa de Produtividade em Pesquisa do CNPq e faz parte de um Projeto Temático da Fapesp. Contei ainda com o auxílio do Faepex-Unicamp e da Capes para viagens para apresentar trabalhos e realizar consultas em certos acervos. Com uma bolsa da Rockefeller Foundation Resident Fellowships in the Humanities Program at Northwestern University, pude permanecer cinco meses naquela universidade e usufruir da maravilhosa coleção "Africana" de sua biblioteca. Agradeço ao Jorge Coronado e aos colegas do Latin American and Caribean Studies da Northwestern University e do Center for International and Comparative Studies a acolhida e a oportunidade de discutir com eles os primeiros resultados de minhas pesquisas.

IV

Meus colegas do Cecult, como sempre, merecem lugar especial: Sidney Chalhoub, Maria Clementina Pereira Cunha, Robert W. Slenes, Fernando Teixeira da Silva, Jefferson Cano, Cláudio Batalha e Joseli Mendonça constituem um time de primeira, sempre atarefado e cheio de idéias, do qual tenho orgulho de fazer parte. Juntos fazemos projetos, seminários, conversamos, discutimos; é um privilégio poder contar com vocês como interlocutores constantes e como parceiros de profissão. Obrigada por fazerem a vida universitária valer a pena! Todos nós devemos muito à valiosa colaboração de Flávia Peral, a quem agradeço mais uma vez. Eu não teria conseguido escrever essa tese nos dois últimos meses se Sidney, Flávia e Fernando não tivessem descascado os pepinos e segurado as pontas: essa vou ficar devendo para sempre! Agradeço também a meus alunos, que souberam esperar mais tempo do que o costume para que eu pudesse ler seus textos e conversar sobre suas pesquisas. Meus familiares acompanharam de longe o trabalho, e minha mãe mostrou seu interesse e apoio ao ler essas páginas conforme elas foram sendo escritas. Clementina me incentivou com ironia e bom-humor; Lucas e Isabel ajudaram a contar os dias que faltavam. Sidney, apesar de todas as suas atribulações, achou tempo para assumir o posto de revisor. Obrigada, obrigada, obrigada! Ler é atividade que implica atenção, abertura e partilha. Tenho tido a sorte de encontrar amigos dispostos a ler, comentar e criticar o que escrevo. Agradeço o trabalho que realizam, especialmente com relação aos textos que ainda estão "no forno", incompletos e necessitados de um olhar externo que aponte suas fragilidades e faltas. Ao dedicar a tese a eles, tenho esperança de que o gesto leal e fraterno, que tanto me enche de alegria ... possa se repetir mais uma vez. Muito obrigada!

V

Índice
Introdução
Capítulo 1 - Ajustes 1. Lá e cá 2. A voz da experiência 3. Homens de palavra 4. Com fé, lei e rei Capítulo 2 - Diálogos 1. A força de uma tradição 2. Pelas Américas 3. Além da cultura Capítulo 3 - Conjunções 1. Os negros do Palmar 2. Escravos para Pernambuco 3. Guerras em Angola 4. Sobas, vassalos e kijikos Capítulo 4 - Alternativas 1. A aldeia de Cucaú 2. Problemas 3. Debates em Lisboa 4. Guerra e paz 1 14 14 33 47 64 83 83 100 112 125 126 136 148 162 179 179 195 209 219 228 237 246 247 145 147 150 192 139 142

Palavras Finais
Anexos Lista de abreviaturas utilizadas nas notas Fontes e Bibliografia Mapas e Tabelas Mapa 1 - As fronteiras da escravização na África Central Mapa 2 - As principais rotas comerciais na África Central no século XVII Mapa 3 - A África Central Ocidental no século XVII Mapa 4 - Os mocambos de Palmares e Cucaú Tabela 1 - Estimativa do número de africanos desembarcados no Brasil Tabela 2 - Escravos desembarcados no Brasil

O volume é raro. Se por meio 1 2 Disposições dos governadores de Pernambuco (1648-1696).2 O volume contém cópia dos registros das provisões. Companhia das Letras.1 Ele faz parte da coleção intitulada Conde dos Arcos. A letra do copista é clara e de fácil leitura. precedidas de um índice. Dom Marcos de Noronha e Brito. Porto. O material deve ter ficado com a família. Universidade do Porto. 1995. adquirida pelo arquivo no início da década de 1970. CCA. sendo depois transferido para o arquivo. que as letras douradas da lombada indicam conter as "disposições dos governadores de Pernambuco" produzidas entre 1648 e 1696. 2006. ver o Guia do arquivo da Universidade. p. ordens e outros documentos enviados pelos governadores de Pernambuco a diversas autoridades. 1666-1715. Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra. IV. mandou copiar os papéis existentes na secretaria de governo daquela capitania. Nobres contra mascates. AUC. 1 (1973): 159. de Francisco Barreto a Caetano de Melo e Castro. A idéia de arquivo: a secretaria do governo da capitania de Pernambuco (16871809). São Paulo. pois contém textos que se julgavam perdidos. completando assim o material sobre o século XVII pernambucano guardado pelo Arquivo Histórico Ultramarino e por outros arquivos portugueses. vol. sem dúvida. que estão organizadas por titular do governo. Ver também Evaldo Cabral de Mello. A fronda dos mazombos. com uma bela capa de couro. . sexto conde dos Arcos. embora haja páginas um pouco manchadas. encontrará ali um volumoso códice. Doutorado. Um belo códice. quando governou a capitania de Pernambuco entre 1746 e 1749. Para uma avaliação de toda a coleção. 3 Para uma visão geral da atuação administrativa da secretaria da capitania de Pernambuco ver Josemar Henrique de Melo. cartas. Pernambuco. 14.3 São essas as tais "disposições". 3ª-I-1-31.1 INTRODUÇÃO Quem for ao Arquivo da Universidade de Coimbra.

A concessão se justificava pelo fato de o governador e os "filhos e família" do destinatário terem acertado que "todos os negros [dos] Palmares e os mais potentados deles" viriam. O tal papel não é exatamente uma carta.4 Datado de 22 de junho de 1678. não é nada ameno e as frases são um pouco confusas para o leitor moderno. No verso da folha 334 daquele códice está a cópia de um "papel" enviado por Aires de Souza de Castro a Gangazumba. lhe remetia "o bem da liberdade e [o] perdão" por ter vivido "há tantos anos fora da [sua] obediência". Na transcrição das fontes. sem dúvida. sediado na Bahia. o documento não parece destoar de todos os outros. foi um dos líderes de Palmares. Trata-se. para facilitar a leitura. Para ele. pois não segue as regras formais desses tipos documentais. assim como foram desdobradas as abreviaturas e a pontuação foi alterada o mínimo necessário. Também não foi escrito para simplesmente comunicar-se com alguém. a pedir perdão por terem vivido tantos anos em "desobediência". Apesar de louvar a "luz" que levou Gangazumba a enviar seus filhos para se colocarem aos pés do governador. em nome do príncipe de Portugal. contudo. determinar alguma providência ou chamar a atenção sobre um procedimento administrativo. O texto foi redigido para avisar Gangazumba que o governador Aires de Souza de Castro. com os códices da coleção Conde dos Arcos podemos ler as ordens expedidas "para dentro" da capitania ou as cartas e avisos enviados para o governo do Estado do Brasil. . de um texto oficial do governo da capitania de Pernambuco. Como tantos outros documentos registrados naquele códice. o primeiro gesto de Aires de Souza de Castro é ameaçar o destinatário com uma guerra sem quartel se as promessas assinaladas no tal papel não forem cumpridas no prazo estipulado. não havia a "menor dúvida" sobre o que 4 Aqui e em toda a tese a grafia dos nomes próprios (de pessoas e lugares) foi atualizada. nem uma provisão ou um aviso. O tom geral. se instalar na aldeia de Cucaú. assim.2 desses últimos temos acesso à correspondência que seguiu para Lisboa ou que lá foi produzida sobre Pernambuco. ao mesmo tempo. em paz. um aviso das negociações realizadas e o documento que selava o compromisso assumido pelas partes. o governador dirige-se a seu destinatário com deferência e emprega a fórmula usual nas comunicações entre autoridades. É. como se sabe. a grafia das palavras também foi atualizada. mas certamente chama a atenção por seu destinatário que.

5 Os mais ávidos por novidades podem ir diretamente ao final da tese e ler a íntegra desses documentos nos anexos 1.5 A leitura desses documentos suscita. plantar e ter os mesmos lucros que os demais vassalos de Portugal. Essa não é a única comunicação enviada por Aires de Souza de Castro a Gangazumba: há ainda duas outras cartas. Como explicar que um governador de uma das mais importantes capitanias do Estado do Brasil no século XVII se corresponda com chefes de mocambos formados por escravos fugidos? Em que condições aqueles textos foram escritos? O que significam as palavras e expressões que empregam? Que novidades trazem sobre a história de Palmares e da aldeia de Cucaú? Por que essa documentação permaneceu até hoje coberta pelo silêncio? Algumas respostas podem parecer simples. . assim como todos os nascidos nos Palmares. que vão copiadas mais adiante naquele códice. e a viver e morrer pela fé de Cristo. irmão de Gangazumba. além de matar a curiosidade. de 12 de novembro. É exatamente por serem documentos oficiais que foram registrados pela secretaria de governo de Pernambuco e aparecem naquele códice da coleção Conde dos Arcos. e concedia o sítio de Cucaú para que todos pudessem ali fazer suas aldeias. Aviso logo que. de imediato. tenham se desenvolvido entre aqueles homens . Gangazumba devia se comprometer a viver em paz e obediência e a entregar todos os negros que haviam fugido para Palmares. Para explicar as "conveniências e a firmeza de todo esse papel" o governador remetia dois soldados honrados e experientes. alforriava Amaro e João Mulato. muitas perguntas. Elas seguem as regras que caracterizam textos desse tipo e mencionam a troca de cartas e presentes. 3 e 4.mas sim que estamos diante de textos que seguem os rituais da escrita administrativa e do diálogo entre autoridades com crédito e poder equivalentes. o gesto de pouco adiantará. datadas de 24 de julho e 12 de novembro do mesmo ano. que falavam a língua dos Palmares. 2. Isso não significa que em tão breve tempo laços de amizade. como entendemos hoje esse sentimento. Em troca. e terminava prometendo enviar padres para que pudessem aprender a doutrina cristã. para Gangazona.3 havia sido concedido: devolvia a mulher e os filhos de Gangazumba que haviam sido presos. Talvez seja melhor ter um pouco mais de paciência e procurar saber por que aquele papel e essas cartas merecem tanto destaque. E mais outra.

p. De fato. João Blaer. offerecido pelo Exm. em A fronda dos mazombos. C. Dentre as outras publicações. 1116 (Todas as referências à documentação desse arquivo.8 em seguida. por exemplo. S. 11. é bastante conhecido e vem sendo consultado sistematicamente desde meados do século XIX. a fim de construir a história nacional. Ele mesmo indica que foi J. RIAHGP. 7 "Cópia do papel que levaram os negros dos Palmares". Ed. 8 O primeiro documento sobre Palmares a ser publicado foi a "Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco no tempo do governador dom Pedro de Almeida de 1675 a 1678 (M. os mais importantes foram reproduzidos em anexos de obras dedicadas a analisar a história do que passou a ser conhecido como o maior quilombo da história do Brasil. As guerras nos Palmares: subsídios para a sua história. A fronda dos mazombos. O quilombo dos Palmares. São Paulo.4 Esses documentos não foram incorporados na análise da história de Palmares porque estão disponíveis há não muito tempo. 10 Ernesto Ennes. 22 (1859): 303-329. "Diário de viagem do Capitão João Blaer aos Palmares em 1645" [trad. e hoje está guardada em uma das caixas dos documentos avulsos vindos de Pernambuco no Arquivo Histórico Ultramarino. 9 É o caso de Edison Carneiro. "Narração de alguns sucessos relativos à guerra dos Palmares de 1668 a 1680". junto com uma carta do governador de Pernambuco. Embora a coleção já esteja acessível aos pesquisadores há três décadas. anexo à carta do governador Aires de Souza de Castro de 22 de junho de 1678. D. pp. 14. E. Brasiliense. 1947. Sr. Doc. 187-246. que ele foi o primeiro a consultar. Depois da criação dos Institutos Históricos. Os primeiros documentos sobre Palmares foram publicados nas revistas dos institutos históricos. 56 (1902): 87-96. de Alfredo de Carvalho]. Cia. Ficou guardada entre os papéis do Conselho Ultramarino. abrigados durante muito tempo na Seção Ultramarina da Biblioteca Nacional de Portugal. A publicação no Brasil foi precedida por uma edição mais simples. foram editadas coletâneas que reuniram centenas de outros textos coletados em diversos arquivos. Cx. ver. 1938. A. 1630-1695. os historiadores passaram a investir na busca de fontes inéditas em arquivos brasileiros e portugueses. escrita no dia 22 daquele mês. Gonsalves de Mello a revelar "a existência de tão importante coleção. pouco depois da sua aquisição pela Universidade de Coimbra nos anos 70". 20 (1906): 254-289. tratada pelo Projeto Resgate seguem a nova notação instituída por ele). em 1938 e 2004. RIAGA. 10 n. ao contrário do que se encontra em Coimbra. Conselheiro Drummond)". ainda são poucos os que têm utilizado esse material. 20 n.6 Há contudo uma cópia do tal papel que foi remetida a Portugal em junho de 1678.9 Por duas vezes. em Portugal: Ernesto Ennes.7 Esse conjunto documental. Mello. Barão de Studart. Pode-se ler a íntegra do texto no Anexo 5. a coleção tem sido consultada apenas por alguns especialistas da história pernambucana. Eu a descobri por meio de Evaldo Cabral de Mello. São Paulo. 7 (1875): 165-187. João Francisco Dias Cabral. Nacional. . AHU_ACL_CU_015.10 Uma 6 Apesar de referenciada pelo "Guia do arquivo da Universidade" desde 1973. "Dezenove Documentos sobre os Palmares pertencentes à Collecção Studart" RTIC. RIHGB.

. História do Brasil [1810-19] (trad. Francisco Adolfo de Varnhagen. vol.l.5 terceira compilação chegou a ser organizada. 3. São Paulo. 11 Ernesto Ennes. 61-181. Lectures sur un marronnage brésilien. 1988. São Paulo. 19-23. 213-219. Apenas Ivan Alves Filho. São Paulo. 13 Sebastião da Rocha Pita. A comparação com as guerras servis na Roma antiga e a versão do suicídio heróico de Zumbi presentes em sua obra ecoam em muitas outras posteriores..) 2ª.14 Ao longo do século XIX. Nas obras que tratam da história de Palmares. de Sebastião da Rocha Pita. 2003. 361-362 e vol. 3. até hoje. . p. que deve ter Rocha Pito como fonte. [Sociedade Nacional de Tipografia]. Para um balanço do modo com que diversos autores oitocentistas abordaram a escravidão e os movimentos protagonizados por negros ou escravos. Na História da América Portuguesa.) aos negros dos Palmares" foi um dos elementos levados em conta para que o governador de Pernambuco obtivesse posteriormente o "superior lugar de vice-rei da Índia" (p. 258-259. sem lhe dedicar mais que um parágrafo. a destruição de Palmares aparece com um dos feitos importantes do governo de Caetano de Melo e Castro. 1977. Palmares foi incorporado à história do Brasil . Guyane. Maceió. A mesma referência é feita por Domingos Loreto Couto. mas não foi publicada. pp. pp. Pesquisa e comentários em documentos históricos do século XVII.. "Desagravos do Brasil e glórias de Pernambuco" [1757] ABN. São Paulo. ed. Melhoramentos/MEC. República de Palmares.) 4ª. Melhoramentos/MEC. como em Loreto Couto.e. pp. 1990. 1937. Melhoramentos.12 Essa falta de interesse também pode ser rapidamente explicada. 12 Ivan Alves Filho. este documento também não recebeu atenção suficiente. 308-310. História do Brasil [1860] (trad. 91. s.. os membros dos institutos históricos de Pernambuco e Alagoas abordaram Palmares como um evento importante da história daquelas Os Palmares: subsídio para a sua história. Belo Horizonte. Glórias de Pernambuco e desagravos do Brasil. Rocha Pita chega a insinuar que o "fim tão útil como glorioso [que] teve a guerra (. 219). por exemplo. Memorial dos Palmares. o tal papel nunca foi incluído em qualquer dessas publicações. 14 Vide. 25 (1903): 194. Xenon. 231. incluindo o quilombo de Palmares. em 1988. vol. ed. Quilombos dos Palmares. Desde o século XVIII. 1. 1962.e. Oficina de Livros. Gottffried Heinritch Handelmann. S. Couto. pertencente à Biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. Edufal. especialmente pp. Handelmann e Varnhagen. 1976. pp. História Geral do Brasil [1854] 7ª. 2004. Southey. conseguida "com valor" e "com fortuna". citou algumas de suas frases. pp. 1978. D. 187-194. Robert Southey. O negro na historiografia brasileira. EDUSP/Itatiaia. 1938.11 Apesar dessas iniciativas. Os primeiros quilombos (subsídios para sua história). 33-36. ed. Cf. Para uma avaliação das fontes mais usadas pelos estudiosos vide Gérard Police. Lisboa.ou da América portuguesa . fornecendo-lhe uma chave interpretativa. Rio de Janeiro. História da América portuguesa [1730]. uma vitória gloriosa. pp. pp. Décio Freitas. vide Clóvis Moura.como um episódio carregado de sentidos.13 O modo como esse autor descreveu os mocambos e a ênfase dada à batalha final contra tão poderosos inimigos marcaram toda a historiografia posterior. L. Obra inédita. Ibis Rouge. As injustiças de Clio.

Subsídios para sua história. Logo os paulistas contra-atacaram. Havia. em manuscrito de 1870. 5 n. Affonso de Escragnole Taunay. Cia. paralelamente. 1936. "The Palmares 'republic' of Pernambuco its final destruction. Zumbi: historiografia e imagens. enquanto o Instituto Arqueológico e Geográfico Alagoano creditava a vitória a Bernardo Vieira de Melo. Joaquim Nabuco.16 O debate se prolongou pelo século XX. 17 Taunay considerava que a vitória bandeirante havia eliminado "o grande quisto de escravos rebeldes e fugidos". privilegiou as realizações de Domingos Jorge Velho. mas o sentido geral dessas narrativas era enaltecer as personalidades locais que haviam eliminado um incômodo obstáculo à obra da colonização. para valorizar o feito dos bandeirantes na destruição dos mocambos. deu a Palmares e ao episódio do suicídio de Zumbi "a importância de epopéia da liberdade. Reis. 2004. A literatura abolicionista. 18 Cf. foi analisado por A. 2 (1948): 200-216. de sublimação de uma raça redimida no sacrifício e na insubmissão". Nacional. apesar de seus barbarismos. que o seguiu de perto. 1938.6 províncias. Fundação Joaquim Nabuco/Ed/ Massangana. o destaque cabia à resistência dos mocambos e não a seus destruidores. 19 Joaquim Nabuco. Ver também. em agosto de 1870. Mestrado. Franca. 2. enaltecendo a atuação das tropas locais. uma valorização de Palmares como símbolo da liberdade. ver Andressa Mercês Barbosa dos Reis. M. p. 1988. 1697". The Americas. 412. São Paulo. Ernesto Ennes. 16 O debate entre Varnhagen e o Instituto de Alagoas. 48-50. p. apesar de considerar Palmares "uma das lendas pernambucanas". do mesmo autor. "um fato isolado na nossa história". São Paulo. vol. considerado um herói da história nordestina por sua atuação na chamada Guerra dos Mascates. Ed. por exemplo. Typ. Ernesto Ennes. especialmente com obra de Affonso de Taunay. Unesp. Companhia Editora Nacional. 106-109. . o "baluarte da libertação de uma raça cuja sujeição decorria todo o sistema econômico do Brasil". nesse caso. compilada do original manuscrito por José Antonio Gonçalves de Mello). 17 Os mocambos podiam ser vistos com certa simpatia. Pedro Calmon. Canton. 44-67 e 73-82.Heitor L. Recife. ao longo do século XIX. que fez pender a balança para os feitos dos paulistas. pp. (ed. 1941. A Escravidão. Zumbi. para usar a expressão de Pedro Calmon18.15 Varnhagen. por exemplo. pp. salientou o heroísmo da "única tentativa dos negros entre nós para se emanciparem"19. História geral das bandeiras paulistas. pp. Castro Alves. São Paulo. As guerras nos Palmares. à ordem pública ou ainda ao desenvolvimento do país.136. Tomo 7. nota 3. B. Ideal . escreveu um poema 15 Para uma análise pormenorizada da produção publicada pelos institutos históricos sobre Palmares. História do Brasil. considerava a destruição dos mocambos uma "miniatura" do processo de ocupação metódica e colonização sistemática das vastas florestas e do extenso território empreendido pelos portugueses nas Américas.

) o vaticínio de 13 de maio de 1888 e de 15 de novembro de 1889". p. 21 Nina Rodrigues.185.. 1º vol.22 Palmares foi então se tornando um evento de significado nacional.7 apaixonado. 1942. O epíteto fora cunhado por Martins. 5ª ed. em homenagem à "epopéia rubra que remontou os séculos e ficará perpetuamente na história da formação do Brasil. Fundaj/Ed. p.) nas ondas da escravidão"20.23 No primeiro congresso Afro-Brasileiro.) o primeiro grito de independência do Brasil".. [1905]. (pp. Ariel. 1º vol. 1988). 22 e 23 de agosto de 1905. Ariel. associando-se a outros grande feitos da história pátria. "História e motivo em 'Saudação a Palmares' de Antônio Frederico de Castro Alves (1870)" Estudos Afro-Asiáticos. Palmares" Os africanos no Brasil. soltou "a flâmula agitada (. Alfredo Brandão proclamou que o quilombo era "o mais alto feito de heroísmo da raça africana (. p. Ao longo do século XX. 60. Companhia Editora Nacional. 1953. São Paulo. Fundaj/Ed. A aculturação negra no Brasil. Trabalhos apresentados ao 1 Congresso Afro-Brasileiro reunido no Recife em 1934. O Brasil e as colónias portuguesas. "As sublevações de negros no Brasil anteriores ao século XIX. "A Redempção dos Palmares" RIAGA. 22 Vide Arthur Ramos. . A tradição de uma abordagem épica da história de Palmares torna-se evidente no título original escolhido por Nina Rodrigues para o artigo. Nesse artigo.25 20 O poema "Saudação a Palmares" não chegou a ser publicado antes de sua morte. 71.. Estudos Afro-Brasileiros. "uma federação de estados livres dentro do Estado". 64. Altavilla conclama a necessidade de retirar as pedras das ruínas da cerca palmarina que visitou em 1921 para com elas fazer um monumento "em qualquer logradouro de nossa linda terra". "Os negros na história de Alagoas". mas foi posteriormente incluído na coletânea Os Escravos. 1935 (ed fac simile Recife. pp. 1977. "A Tróia Negra". numa "região de valentes". No final dos anos 20. Trabalhos apresentados ao 1 Congresso Afro-Brasileiro reunido no Recife em 1934.. Massangana. o interessante artigo de Dale T. 1935 (ed fac simile Recife. 23 Jayme de Altavilla [Amphilophio de Mello]..) o primeiro protesto do bárbaro sofredor (. p. Palmares foi predominantemente caracterizado como uma das maiores "epopéias da raça negra". [Joaquim Pedro de] Oliveira. 25 Mario Mello. ª Editores. publicado no Diário da Bahia em 20. que tendeu ora a enfatizar as características africanas de Palmares. 1988). ora as lutas empreendidas pelo negro brasileiro. Rio de Janeiro.. Graden. Ver. saudando aquele "ninho d'águias atrevido" que. 65-6) 24 Alfredo Brandão. "A República dos Palmares". como a chamou Nina Rodrigues. Jayme de Altavilla considerava que Palmares.21 Em grande parte. Massangana. reunido no Recife em 1934. havia sido "o primeiro grito de república no Brasil (. 137-140. 25 (1993): 189-205.. São Paulo. Companhia Editora Nacional. Guimarães & C. a respeito. essa avaliação acompanhou o movimento mais amplo em prol do reconhecimento das contribuições africanas e negras para a história do Brasil..24 enquanto Mário Melo defendia ser preciso “relembrar a epopéia desses negros que lutaram contra a escravidão durante mais de três quartos de séculos”. Estudos Afro-Brasileiros. [1880] Lisboa. Rio de Janeiro. 11 (1926): 62-63.

Editora da UFRGS.30 Nos livros publicados por esses dois últimos autores. "O quilombo dos Palmares" Rebeliões da Senzala. 1972. 64). 1972. p. Conquista. 1976. Phylon. guerrilhas.8 Depois da publicação da obra de Edison Carneiro. p. Brasiliense. 223-228. 1 (1953): 62-70. 14. Palmares se tornou um símbolo da reação dos cativos à escravidão. 1988. Palmares passou a ser. bem como glorificar seus heróis tornava-se um ato político. Irene Diggs. O Quilombo dos Palmares [1947] 2ª ed. 2ª ed. de reconhecimento e solidariedade para aqueles que contribuíram "com trabalho. pp. a queima de documentos ordenada por Rui Barbosa foi usada para atestar as dificuldades dos estudos sobre a escravidão negra. como até mesmo para aqueles que se afastavam de suas escolhas políticas. 29 Exemplos dessa perspectiva são as obras de Clóvis Moura. no Brasil e no exterior. Quilombos. suor e 26 Edison Carneiro. 11. Aspectos da rebeldia do escravo no Brasil. insurreições. com Luiz Luna e Alípio Goulart. destacado por sua resistência e pela tenacidade de suas lideranças. "República dos Palmares". essa vertente se tornou hegemônica. o texto de Carneiro constituiu a principal referência para os que queriam conhecer a história de Palmares. revista e ampliada Rio de Janeiro. publicado originalmente em 1953 e reproduzido nessa edição. 1958. em 1947. n. São Paulo. como Mário Martins de Freitas. A. Belo Horizonte. O artigo é praticamente um resumo da obra de Carneiro. abordar essa história da resistência negra. 2002. pp. "Singularidades dos quilombos". [1959] 2ª ed. Luna. Porto Alegre. fato explicitamente reconhecido pela autora (p.31 Assim. mas a ênfase nos aspectos culturais ou étnicos foi perdendo importância diante dos significados políticos que a história palmarina adquiriu. 28 Mario Martins de Freitas. Da fuga ao suicídio. 27 Ver. no século XVII"26 e um exemplo da "reação do homem negro contra a escravidão". "Zumbi and the Republic of Palmares". "República dos Palmares" O negro na luta contra a escravidão. José Alipio Goulart. Reino Negro de Palmares [1954]. revista. "Que foi o quilombo de Palmares?" [1956] in: O quilombo dos Palmares. Da fuga ao suicídio. "um fenômeno social e econômico dos mais relevantes da vida nacional". revista Rio de Janeiro. 21 e J. Conquista. 179-190. Biblioteca do Exército.29 Nos anos 60. Catedral de Brasília/INL. 31 L. "um Estado negro à semelhança dos muitos que existiram na África.28 A senda libertária e militante aberta por Carneiro foi fortalecida nos anos 50. 217-238. Palmares continuou a fazer parte do quadro maior das lutas contra a escravidão.27 Tanto para os que concordavam com suas posições. Ed. pp. 30 Luiz Luna. As expressões citadas encontram-se em um artigo posterior. por exemplo. Goulart. Durante muito tempo. pp. e Benjamin Péret. ao mesmo tempo. [1968] 2ª ed. 13-25. Rio de Janeiro. .

é o ponto culminante dessa forma de abordar a história de Palmares. 35 Ivan Alves Filho.35 Durante o século XIX. Memorial dos Palmares. Caracterizado quase sempre como um jovem "enérgico. que marca o início da luta pela abolição. A guerra dos escravos. Freitas. Zumbi se tornou o grande herói das lutas dos negros no Brasil. Mercado Aberto. p. sua figura foi se tornando central na história de Palmares. os estudiosos documentaram sua morte em uma emboscada em 20 de novembro de 1695 e aos poucos. M. 210. havia se jogado em um abismo. que ignorou a resistência escrava.32 A obra de Décio Freitas.36 No início do século XX. p.9 sangue para ajudar a formar um povo livre e uma nação respeitada como fatalmente terá de ser o Brasil". Décio Freitas. por meio da qual os escravos conseguiram construir "um mundo fraternal e livre". juntamente com outros guerreiros. 34 D. O quilombo dos Palmares. ver A. Zumbi: historiografia e imagens. "República dos Palmares". Seguindo as pegadas de Carneiro e Péret. B. Xenon. que serviu de fonte para diversas autores no século XIX e XX. a respeito. e a descrever o ímpeto de uma luta que poderia servir de exemplo para militantes e revolucionários. Vide. Palmares. Rio de Janeiro. 1984. especialmente capítulo 3.34 A obra de Ivan Alves Filho dá continuidade a essa corrente: nela Palmares ("nossa primeira luta de classes") aparece como "uma alternativa à sociedade oficial". 38 E. publicada em 1973. 36 Para um balanço da história da construção da figura histórica de Zumbi. Carneiro. [1973]. . [e] obstinado".33 Seu livro se constrói como um esforço crítico destinado a reparar os erros do "revisionismo histórico".38 ele 32 33 L.. Freitas alarga e aprofunda o caráter épico da história de Palmares. pp. como depois. acreditava-se que Zumbi era um título atribuído aos chefes palmarinos e que o último deles. Documentos publicados na Revista do Instituto Arqueológico e Geográfico Alagoano em 1904 e 1906 e a obra de Nina Rodrigues questionaram definitivamente essa versão.37 Antes. B. xii-xiii. Reis. revista e ampliada várias vezes até sua quinta edição em 1985. Reis. 5ª ed. 37 O suicídio de Zumbi foi popularizado pela obra de Sebastião da Rocha Pita. Porto Alegre. uma primeira tentativa de romper com a ordem colonial. A. 80. Zumbi. revista e ampliada. 31. 1988. para evitar ser preso e reescravizado pelas forças lideradas por Bernardo Vieira de Melo e Domingos Jorge Velho. reescrita. p. M. resoluto. Luna. pelo gesto do suicídio heróico que recusa a escravidão ou pela resistência tenaz vencida só às custas de uma traição. entendido como "a manifestação mais eloqüente do discurso anti-escravista dos negros brasileiros nos quase três séculos da escravidão". Palmares.

p. que levou à marginalização e à falta de direitos a maioria dos negros no Brasil. pela justiça econômica e social. Em 1996.42 Diante dele. 43 Gérard Police chega a afirmar que o tratado de 1678 teria sido o "pecado capital" de Gangazumba. Luanda.pdf 42 Foi Andressa Reis quem chamou a atenção para esse detalhe. Francisco. 188. 1996. Vide também Mary Karasch. B." in: Kenneth J. Reis. Zumbi passou a ser oficialmente considerado um herói nacional e não apenas uma referência para os militantes do movimento negro. 11. sucumbira ao peso da derrota e perdera prestígio entre os seus. Palmares. acabou morto numa conspiração . Human tradition around the world. p. Reis.41 Foi a biografia elaborada por Décio Freitas que proporcionou a base historiográfica para essa determinação legal. M.43 Desacreditado entre seus companheiros. pp.116-118. Zumbi. 1996. Desde então. M.39 que se recusou a qualquer acordo com as autoridades coloniais. a liberdade precária concedida pelo governo imperial em 1888.camara. Gangazumba tornou-se um contraponto. pp. p. Quilombos dos Palmares.40 Em 1978. Brasília. "Zumbi of Palmares: Challenging the Portuguese colonial order. a outra. (ed. muitas marchas e discursos contra o racismo e as restrições à cidadania dos negros podem ser vistos e ouvidos em quase todas as cidades do Brasil. passim. . Ministério da Cultura. 5. n.gov. do mesmo autor.e também 39 40 D. Wilmington: SR Books/Scholarly Resources. 104-120. p.10 chegou a ser considerado o "Espártaco negro de Palmares". D. A biografia de Zumbi foi fixada a partir das pesquisas realizadas por Décio Freitas e apresentadas na quinta edição revisada e ampliada de seu livro em 1984. que até faz menção ao nome cristão de Zumbi. Zumbi. 41 Cf. Palmares. G. A. 2002. 116. B. A. Vide também. optando por uma luta bem organizada e incansável. a data de sua morte foi instituída como Dia Nacional da Consciência Negra no Brasil. por extensão. v. Freitas. Police. 5726.).br/internet/InfDoc/novoconteudo/legislacao/republica/Leis1996vCLXXXVIIIn1 1p714/parte-2. 257. um líder que havia avaliado mal o jogo de forças. Andrien. Coleção das Leis da República Federativa do Brasil. completando um processo iniciado no século XIX. já que uma lei determinou que seu nome fosse "inscrito no Livro dos Heróis da Pátria que se encontra no Panteão da Liberdade e da Democracia". Acessível em http://www. Freitas. 1995. o 20 de novembro foi se tornando uma data simbolicamente oposta ao 13 de maio: a primeira representando a luta heróica contra a escravidão e. nov. A cada 20 de novembro. Zumbi dos Palmares. Imprensa Nacional. The human tradition in colonial Latin America.

45 Neste contexto. as perguntas suscitadas por aqueles documentos copiados no códice da coleção Conde dos Arcos demandam mais vagar e reflexão para que se possa ensaiar alguma explicação. Freitas. Edições de Ouro. 45 D. 121.d. esta tese caminha justamente em sentido contrário. 46 D. Como veremos. mencionado de forma breve pelos estudiosos do tema. s. de acrescentar novos dados e completar as lacunas de uma história já tão cristalizada e que tem os olhos voltados mais para o presente do que para o próprio passado. para mergulhar na cultura política da segunda metade do século XVII.46 Como o leitor já deve ter desconfiado.44 Na história de Palmares. intitulado "Gangazumba". Palmares.e de um filme dirigido por Cacá Diegues em 1964.11 perdeu o lustro entre os historiadores e militantes do movimento negro no século XX. Ao focalizar os termos acordados entre os filhos de Gangazumba e as autoridades em Pernambuco em 1678 e como eles puderam ser implementados. Esse caminho implica uma leitura bastante particular das fontes disponíveis e leva a considerar aspectos que normalmente não estão presentes na história de Palmares. as negociações ocorridas em 1678 e o acordo de paz acabaram sendo apreendidos sob o signo da traição e Cucaú pôde até mesmo ser caracterizado como o "anti-Palmares tão esperançosamente fundado pelas autoridades coloniais". p. Ganga-Zumba. procuro o ponto de vista dos negros dos Palmares e das autoridades coloniais e metropolitanas. é 44 Poucos historiadores dedicaram maior atenção a Gangazumba. Ao invés de respostas rápidas. Muito menos pretendo entrar no debate sobre os méritos e deméritos dos heróis que povoam a história de Palmares. que chegou a ser o personagem principal do romance de João Felício dos Santos. caracterizando-se como "o combatente mais indômito da liberdade de sua gente". [1961]. ao focalizar um episódio que até hoje permaneceu nas sombras. consolidada como uma saga da liberdade. pouco conhecido e quase impopular. Para isso. Não se trata. a análise rapidamente se afasta da simples oposição entre escravidão e liberdade ou entre composição com as forças coloniais e resistência heróica. p. apenas para marcar uma virada na história de Palmares: foi a partir de sua recusa em aceitar a paz acordada com as autoridades coloniais que Zumbi teria se afirmado como o novo líder de Palmares. Freitas. 128. . São Paulo. as negociações havidas em 1678 tornaram-se um episódio de menor importância. simplesmente. Palmares. .

Hunt (ed). do modo como eles foram escritos. Percorrê-lo significa não apenas considerar a escravidão.47 Todo um campo novo de indagações tem se aberto com o aprofundamento da análise dos recursos narrativos em ação nas fontes históricas: além dos procedimentos de construção dos textos. vide André Belo. 48 Para um balanço dos debates e principais temas abordados pela história da leitura. ajudando a constituir o que genericamente é chamado de processo da colonização. 1990. e os significados que tiveram para eles. Companhia das Letras. "Textos. É esse o caminho para poder compreender os termos utilizados naqueles documentos e as ações dos homens que os produziram. pp.12 preciso deixar de pensar apenas na história de Palmares para buscar os nexos que ligavam a experiência de muitas pessoas diferentes do ponto de vista social. leituras" in: L. e Roger Chartier. 2001. pp.48 Não se trata de deslocar o objeto da investigação para adentrar nos terrenos da história da leitura ou da bibliografia. 211-238. vide especialmente Fernando Bouza. Certamente. mas as formas da escravização e. no Brasil e em Portugal. Marcial Pons. 1992. . no entanto. Madrid. História & Livro e Leitura. Corre manuscrito. Tal alargamento de questões só é possível porque os eventos de 1678 constituem. "Primeiros passos para uma história da leitura" O beijo de Lamourette. as intenções do autor. e as traduções lingüísticas e culturais operadas em cada texto. aqui. o destino dessas peças textuais e o modo como foram lidas na época em que foram produzidas. Una historia cultural del Siglo de Oro.) São Paulo. São Paulo. cultural e político na África Central. vários autores têm ressaltado a necessidade de levar em conta o contexto institucional de produção de cada peça documental. é fácil encontrar novidades. os termos empregados na descrição dos eventos e na qualificação das pessoas. na segunda metade do século XVII. impressão. Companhia das Letras. Belo Horizonte. sobretudo. Robert Darnton. o universo empírico de uma investigação sobre as políticas de dominação adotadas pelos portugueses nas terras ultramarinas e sobre o modo como os habitantes desses territórios ocupados reagiram a elas. as relações que ambas mantinham com a liberdade. por exemplo. A Nova História Cultural. Vide. é o modo de ler as fontes. como os que estão registrados nos códices da coleção Conde dos Arcos. Nas últimas décadas. Autêntica. 146-172. tem se levado em conta também as condições da escritura. mas a atenção a esses elementos permite 47 Dentre vários autores. destaco as contribuições diferenciadas de Robert Darnton e Roger Chartier. Para a produção e a circulação dos manuscritos nos séculos XVI e XVII. 2002. ao consultar novos documentos. (trad. Mais importante que isso.

13 aprimorar a leitura dos documentos que temos à nossa disposição. constitui o principal conjunto documental para a história de Palmares. mas será trilhado com vagar. como Angola e o México. que seguem mais ou menos a cronologia dos acontecimentos. organizei o texto em quatro capítulos. prefiro apenas convidar o leitor a. e levará a lugares distantes. me seguir. Por tudo isso. acompanhando o ir e vir da correspondência administrativa que. O caminho não será longo. é também uma oportunidade para discutir os procedimentos da análise histórica. conforme os assuntos que precisarem ser discutidos e analisados. Mais que anunciar o percurso ou fazer promessas de uma viagem interessante. . aliás. com a historiografia sobre a experiência dos escravos nas Américas e sobre a história da África também estará presente. com resultados bem interessantes. essa tese pode ser tanto um exercício de análise daquelas quatro disposições do governo de Pernambuco em 1678 quanto um estudo sobre os processos da dominação escravista no Brasil da segunda metade do século XVII. porém. gentilmente. Para dar conta dessa tarefa. O diálogo com a produção específica sobre Palmares. Ao pretender ser as duas coisas ao mesmo tempo.

que começa pelo exame das fontes.14 Capítulo 1 AJUSTES Há dois procedimentos básicos seguidos pelos historiadores para lidar com o passado: procuramos saber o que já se produziu a respeito do tema escolhido e consultamos o maior número de registros produzidos pelos envolvidos nos eventos estudados. Nem sempre. a partir da qual se pode ensaiar uma interpretação dos acontecimentos e tentar desvendar os significados que tiveram para as pessoas que os viveram. Lá e cá Filho de uma boa família. pois na maior parte das vezes não há como chegar a um acordo ou fazer uma média. dom Pedro de Almeida já havia se candidatado a um posto de governo no Ultramar várias vezes: em 1665. Nesse caso. o que se lê na bibliografia combina com o que se lê na documentação. com serviços militares nas guerras de restauração e parentes que governaram praças importantes como o Rio de Janeiro. A solução para o impasse requer o exame detalhado das fontes e do modo como elas foram usadas pelos diversos autores. em 1669 e . É esse o método adotado nesse primeiro capítulo. cavaleiro da Ordem de Cristo. Cruzar as informações e cotejar os dados obtidos nesses dois tipos de textos é a tarefa que vem a seguir. no entanto. Bahia e Angola. 1. 1668 e 1672 pleiteara Angola. é preciso caminhar com cuidado.

Doutorado. 191-252. Chancelaria de D. Santa Barbara. 4114). 3 Carta de Fernando de Souza Coutinho de 19 de agosto de 1673. 28. Elites Ibero-Americanas do Antigo Regime. mas precisava de uma autorização régia para usar recursos da Fazenda Real e também pedir 1 Agradeço a gentileza de Mafalda Soares da Cunha por disponibilizar as informações do banco de dados do projeto Optima Pars. Sabendo estar no final de seu mandato. Para mais informações vide Mafalda Soares da Cunha e Nuno Gonçalo Monteiro. em 1671. qualifications. Lisboa. Optima Pars. 2005. o governador estava recrutando gente para atacar os Palmares. p. Cinco dias depois o Conselho Ultramarino pronuncia-se alertando o príncipe regente que a nomeação não havia seguido a tramitação regular. 128. n. 10. fl. Imprensa de Ciências Sociais. 981. administradas por capitães mores. University of California. Cx.1 Finalmente. Nessa ocasião. Afonso VI. 2 Cf. fl. permaneceu vários meses em Lisboa e deve ter acompanhado a discussão gerada pelo pedido feito pelo seu antecessor em 19 de agosto de 1673. D. estavam bem fortificados e tinham ferreiros capazes de fazer armas. a carta patente só tenha sido expedida em 2 de setembro de 1673.Registro Geral de Mercês. Cx. Decreto de 23 de julho de 1673. Rio Grande do Norte e Ceará. em julho de 1673. Coutinho já havia alertado que os fugitivos eram numerosos. ANTT. por isso ameaçavam e prejudicavam os moradores da capitania. Alagoas. liv. 988. conseguiu ser nomeado pelo príncipe regente para o governo de Pernambuco por um decreto régio procedimento que chegou a causar certo constrangimento no Conselho Ultramarino por quebrar praxes ordinárias. Logo depois de tomar posse no governo da capitania. AHU_ACL_CU_015. and reward.3 Essa não era a primeira vez que tratava do assunto. Talvez por isso. Manuscritos do Brasil. 1974.2 Era um cargo de certo prestígio. Monteiro. Fernão de Souza Coutinho escrevera ao príncipe para contar os percalços havidos no combate com os "negros levantados que assistem nos Palmares". 23v. 114v. Pedro Cardim e Mafalda Soares da Cunha (orgs. do qual participa.15 1672 o Rio de Janeiro e em 1670 Pernambuco. F. 10. vide Ross Little Bardwell. Sobre a insistência de dom Pedro para obter a nomeação. Como só tomou posse do governo em fevereiro de 1674. "Governadores e capitães-mores do império atlântico português nos séculos XVII e XVIII" in: Nuno G. pp. The governors of Portugal's South Atlantic empire in the seventeenth century: social background. selection. AHU_ACL_CU_015. 33 (microf. D. ANTT .). Paraíba. pois o governador de Pernambuco tinha sob sua jurisdição as capitanias anexas de Itamaracá. .

As datas das cartas indicam que o sistema de frota deve ter sido o meio mais usado. Alguns dias depois Coutinho escreveu também para o governador do Estado do Brasil.6 Os tempos são bem diferentes de hoje. "Os Henriques nas Vilas Açucareiras do Estado do Brasil: Tropas de Homens Negros em Pernambuco. o governador adiou o envio da expedição que planejava fazer contra os Palmares. poder-se-ia levar de sete a doze meses para ir de Lisboa ao Recife e voltar a Lisboa. Difel.4 Sem resposta de Lisboa e da Bahia. 9 (1929): 433-435 5 Carta de Fernando de Souza Coutinho de 1º de outubro de 1671. (trad. 292. entre a ida e a torna-viagem. séculos XVII e XVIII" Estudos de . como se verá em breve. Havia frotas anuais que ligavam as duas cidades. J.16 contribuições extras aos moradores.8 Os prisioneiros deveriam ser repartidos conforme o regimento 4 Carta de Fernando de Souza Coutinho de 1º de junho de 1671. D. pp. IV. AHU_ACL_CU_015. CCA. dependendo de vários fatores.5 A demora não resultava do ritmo das comunicações. 3ª-I-1-31. Ásia e América (14151808). Juliana Lopes. mas o regime de frotas. "A visibilidade do primeiro Camarão no processo de militarização indígena na capitania de Pernambuco no século XVII". 7 Evidentemente. Kalina Vanderlei Silva. A viagem demorava em média 75 dias na ida e 60 na volta. permitia comunicações bastante seguras e regulares entre as duas cidades. 135 6 A.) Lisboa. conforme os ventos. DH. Cf. Cx. que lutou contra os Palmares. Na segunda metade do século XVII. 16 n. Este último faleceu em 1648 e foi sucedido por dom Diogo Pinheiro Camarão e em seguida por dom Sebastião Pinheiro Camarão. Henrique Dias chegou a ser nomeado faleceu em 1662 e foi sucedido por Antônio Gonçalves Caldeira e. Carta de Afonso Furtado de Castro do Rio Mendonça de 5 de setembro de 1671. 1992. 10. os dois últimos nomeados mestres de campo da gente preta de Pernambuco. que convocou "pessoas práticas do Brasil" para avaliar a situação. reiterando a necessidade do recrutamento de soldados e comparando o perigo de Palmares aos Tapuias na Bahia. Um mundo em movimento. 8 Esses terços foram formados durante o período das lutas contra os holandeses. 55-56. decidiuse que a guerra contra os Palmares devia ser feita com tropas formadas pelos moradores das vilas vizinhas e por tropas da infantaria paga. AUC. 2 (2005): 133-152. as comunicações entre a Coroa e o governo em Pernambuco não precisavam depender somente da ida e vinda das frotas. inicialmente comandados por Henrique Dias e pelo índio Potiguar Felipe Antonio Camarão. em 1682. sobre o mesmo assunto. em vigor desde meados do XVII. A resposta veio em 5 de setembro de 1671. salvo em situações de emergência. As cartas podiam aproveitar os vários navios que cruzavam o Atlântico passando por Recife em uma ou outra direção.7 As notícias enviadas em junho de 1671 devem ter chegado a Lisboa em meados de agosto ou setembro e foram bem discutidas no Conselho Ultramarino. R. Revista Anthropológicas. que costumavam sair em abril de Lisboa e voltavam em geral nos meses de julho e agosto. a distância entre o Recife e Lisboa podia ser mais ou menos curta. do terço dos índios do Camarão e dos negros de Henrique Dias. Os portugueses na África. por Jorge Luís Soares. Depois de muita discussão. Russell-Wood. fl. 917. doc. Com o tempo de estadia nos portos.

fossem logo confiscados e mortos.iuslusitaniae. UERJ. fac-simile.). no comando de soldados pagos e de ordenanças. Os homens deviam ser "marcados com um R no rosto. Vide Regimento das Fronteiras. Cf. José Justino de Andrade e Silva. mencionada acima. Imagino que "três tratos de braço" seja suspender por três vezes alguém na polé. angariar mantimentos e obter munições e acabou protelando a expedição por mais de um ano. Collegio das Artes da Companhia de Jesus. para seguirem por caminhos diferentes até os Palmares. As discussões podem ser acompanhadas pelos anexos à carta de Fernão de Souza Coutinho de 1 de junho de 1671. 10. A consulta do Conselho Ultramarino de 9 de outubro de 1671 traz as decisões finais do Conselho.17 das fronteiras do Reino. com pesos amarrados nos pés. uso genericamente os termos terços "dos Henriques" e "dos índios do Camarão" para designar genericamente essas tropas. 17. Em Pernambuco. 29 de agosto de 1645. Coutinho enfrentava dificuldades para juntar gente. s. Vocabulário portuguez e latino. ali se instalassem em um arraial e combatessem os mocambos. aparentemente sem o pagamento de impostos. pp. 12 Dar tratos de polé significa içar a pessoa pelos pulsos por meio de cordas e uma roldana fixada em uma armação de madeira. Resolveu-se afinal mandar o coronel Antonio Jácome Bezerra. J. achados em algum lugar. http://www.unl. Silva. depois de descontado o custo das munições.2 (2002): 145-194. enquanto isso. os prisioneiros e os que se entregassem voluntariamente deveriam permanecer no Estado do Brasil ou em qualquer outra conquista de Portugal. . ao que tudo indica.pt/) 10 Estavam isentos dessa determinação as mulheres e as crianças com menos de sete anos. entretanto. mas não foi possível saber qual foi a decisão régia. Collecção Chronologica da Legislação Portugueza Lisboa. 9. Cx.11 As recomendações foram enviadas ao príncipe em 9 de outubro de 1671 mas. Cod. AHU_ACL_CU_Consultas Mistas. De modo algum. 1854. A. Coimbra. ele não tomou nenhuma decisão.10 A medida era extrema e destinava-se a impedir que os prisioneiros tornassem a fugir. Rio de Janeiro. como no caso da forca (a polé). depois de descontado o quinto da Coroa. de modo a destroncar os braços.9 e a Coroa deveria abrir mão do quinto para que fossem repartidos entre os soldados. Fontes históricas de Direito português. e depois deixá-la cair subitamente. CD-Rom. 288-289 (acessível em Ius Lusitaniae. 11 Além das penas. 917. D.d. verbete "polé". Imprensa de J. Raphael Bluteau. 1712. As penas que determinou para os que desertassem eram duras: três tratos de braço solto12 e degredo para o Ceará por dez História. n. 9 Os parágrafos 78 a 81 do Regimento das fronteiras determinam os procedimentos para repartição das prezas feitas entre os soldados. AHU_ACL_CU_015. engrossando novamente os Palmares.fcsh. (Ed. na parte que melhor parecer" de modo que. Ao longo da tese. o caráter extremo da medida inclui a permissão para remeter os escravos apreendidos em Palmares para Castela.

97. 17 Décio Freitas.278. Porto Alegre. D. Mercado Aberto. 5ª ed. fls. . 15 Carta de Fernando de Souza Coutinho de 19 de agosto de 1673. 82.18 anos. No final. depois de descontado o quinto da Coroa. as dificuldades eram muitas e Coutinho menciona não ter tido as repostas necessárias a tempo. "Segundo Livro de Vereações da Câmara de Alagoas". IV. 10. fls.13 Bezerra chegou a reunir 600 homens. revista e ampliada. conseguiu juntar alguma gente para atacar os Palmares. doc. Não deixou de observar contudo que dom Pedro de Almeida deveria levar as ordens necessárias para "dar [a esse negócio] a execução que deve ser com a brevidade que ele pede. no final. 2ª ed. nenhum permaneceria em Pernambuco. Cx. 988. alcaide mor de Porto Calvo. acabou por reafirmar as recomendações feitas havia quase três anos. pois até mesmo os senhores haviam se comprometido a despachar os recapturados no primeiro navio. RIAGA (1875):176-177. CCA. 1984. Décio Freitas chega a dizer que elas haviam se tornado uma das "mais importantes missões atribuídas pela Coroa aos governadores de Pernambuco". Reino Negro de Palmares [1954]. os outros foram repartidos entre os soldados. 265. Como se pode ver no caso da correspondência enviada por Fernão de Souza 13 Bando de Fernando de Souza Coutinho de 20 de outubro de 1672. Cristóvão Lins. 14 Há várias medidas contra os desertores em AUC. p. 222. que teve seus canaviais queimados pelos negros fugidos. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco. por exemplo. Rio de Janeiro. 275. o Conselho Ultramarino demorou um pouco mais para analisar o assunto e. reescrita. mesmo com essas penas. em outubro de 1671. Segundo o governador. Ver. lutou contra eles e conseguiu entrar na povoação. Dessa vez.17 O que a documentação revela. A ordem para que todos os pardos forros também fossem engajados está em AUC. p. 16 Consulta do Conselho Ultramarino de 18 de novembro de 1673. Os que haviam fugido de seus senhores foram devolvidos mediante o pagamento de 12 mil reis. Biblioteca do Exército. fl. é uma diversidade de atitudes em relação ao assunto.16 Vários historiadores insistem na preocupação existente em Lisboa com as guerras contra os Palmares. IV. 3ª-I-1-31. 2-2v. apenas 60 prisioneiros foram entregues ao Almoxarife da capitania. 3ª-I-1-31. A guerra dos escravos. Achou um mocambo com 700 casas. 275v . pois se acha tão retardado e ser tão preciso acudir-se ao excesso que estes negros fazem naquelas capitanias". Ver também Mario Martins de Freitas. [1973]. Cod. 1988. houve muitas deserções14 e as expedições não tiveram sucesso. Palmares.15 O tom geral da carta de 19 de agosto de 1673 era de desalento: o governo estava terminando. todavia. CCA. no entanto. AHU_ACL_CU_015. teve porém que voltar por falta de mantimentos. por "ser estilo antiqüíssimo nestas capitanias".

preferindo recomendar ao príncipe que as instruções oferecidas em 9 de outubro de 1671 . em 19 de outubro de 1674. 20 Consulta do Conselho Ultramarino de 26 de setembro de 1674. homens pardos da ordenança e pretos do terço que foi de Henrique Dias". de 1666 a 1681". brancos. para ele. e DH. Não se conhece o teor das ordens dadas a Pedro de Almeida. AHU_ACL_CU_015. começou a dar providências para dar cabo da missão. o envio de uma expedição 18 19 Carta de dom Pedro de Almeida de 30 de abril de 1674. já que o degredo era apenas para fora da capitania. as recomendações do Conselho Ultramarino seriam enfim aplicadas.18 Trocou cartas com o governador do Estado do Brasil19 e armou tropas para enviar aos Palmares . aproveitou para dizer que.19 Coutinho. logo que chegou a Pernambuco. Cx. desde que fossem vendidos para fora da capitania. ao mesmo tempo em que medidas graves eram aventadas pelos conselheiros do Ultramarino. com base em referências constantes em pedidos de mercê feitos por soldados.medidas que o Conselho não considerou suficientes.20 Nesse meio tempo. por meio do qual finalmente anunciava uma expedição para acabar "com a insolência dos negros levantados dos Palmares". RIAGA. Cod. Lá em Lisboa e cá em Pernambuco. 265. sem que a questão tivesse sido resolvida. relatando seus problemas e sucessos iniciais em abril de 1674. em datas posteriores. 10. os ritmos e as necessidades parecem ter sido bem diferentes. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco.fossem seguidas. Décio Freitas e Ivan Alves Filho mencionam. Com certo desconto. 21 Bando de dom Pedro de Almeida de 19 de outubro de 1674. Cod. Carta de Afonso Furtado de Castro do Rio de Mendonça de 18 de setembro de 1674. com exceção das "crias" de dez anos. Ela seria composta por "soldados pagos. Tratando de diversos assuntos. D. prometia distribuir os prisioneiros entre os participantes. fl. o melhor meio de acabar com os Palmares era colocar os índios sob o governo de Camarão instalados à volta de Palmares. enquanto em Lisboa nenhuma providência efetiva era tomada. Para incentivar os moradores. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco. 3v. O tempo de mais um governo havia se passado.21 Ao que tudo indica. 1007. "Segundo Livro de Vereações da câmara da vila de Alagoas. o príncipe não tomava nenhuma decisão efetiva. em Pernambuco o governador soltou um bando. a fim de impedir que eles descessem e fizessem assaltos e que novos fugitivos ali fossem se refugiar. 7 (1875):178 . mas este. índios.aquelas do início do governo de Souza Coutinho . 265. depois de descontado o quinto. 10 (1929):113-115.

RIAGA. Há registros. Como se pode verificar o termo "paulista" não significa neste contexto que se trate de pessoas nascidas em São Paulo. Ver também Ivan Alves Filho. com quem dom Pedro tratou do assunto. e outra. as ordenanças. Além disso. mas de sertanistas que integravam expedições como as que partiam de São Paulo. que também cá na colônia nem sempre os governos do Estado do Brasil e de Pernambuco concordavam quanto aos procedimentos a serem adotados contra Palmares. do que enfrentar os negros com os quais "nunca pelejaram" e que andam fortificados e "têm resistido a tão grandes soldados". 10 (1929):134137. 23 Carta de Afonso Furtado de Castro do Rio Mendonça de 25 de fevereiro de 1675. pp. Memorial dos Palmares.22 Não encontrei documentos sobre elas nas fontes administrativas da secretaria de governo de Pernambuco. de que o governador de Pernambuco chegou a solicitar o auxílio de alguns paulistas que estavam na Bahia. 7 (1875):178-179. Xenon. A correspondência administrativa trocada com a Corte e com o governo geral do Estado do Brasil revela que diferentes estratégias eram tentadas ao mesmo tempo: podiase usar as tropas formadas por índios e negros. 24 Termo de vereação da Câmara da Vila de Santa Maria Madalena da Lagoa do Sul de 11 de março de 1675. pois o sertanista Estevão Ribeiro Baião Parente. DH. que partiu em agosto de 1675. "Segundo Livro de Vereações da câmara da vila de Alagoas.24 O episódio indica. Palmares. Segundo o governador geral do Brasil. pois esses homens eram "gente bastantemente voluntária" que havia demorado muito a fazer a guerra contra os índios na Bahia. se ofereceu para ajudar a combater Palmares e foi aceito pela câmara da vila de Alagoas. que partiu em dezembro de 1674. achava difícil que eles colaborassem na guerra contra os Palmares. que haviam se mostrado eficientes na expulsão dos holandeses. talvez 22 D. comandada pelo governador dos índios.20 composta por índios e soldados pagos. aquelas constituídas por soldados pagos. compostas pelos moradores. de 1666 a 1681". Sebastião Pinheiro Camarão. muitas vezes relutantes em abandonar suas atividades. porém. para prear índios ou caçar escravos amocambados. 87-88. incluindo o terço dos Henriques.23 Em março de 1675. pois julgavam mais fácil enfrentar os índios. 1988. Freitas. com os quais estavam acostumados. pp. . 63-66. no entanto. um português que havia se estabelecido em São Paulo e pelejara contra os índios na Bahia. não valia a pena contar com isso. Rio de Janeiro. portanto. algo dessas consultas deve ter dado resultado.

81. pois se trata de uma versão dos fatos em que propositalmente o governador é a figura central. e também Stuart B Schwartz. guardadas no Arquivo Histórico Ultramarino. pp. 5ª ed. Utilizo.28 É essa fonte que permite que vários autores afirmem que. que conseguiu atacar um dos mocambos.25 Cada uma tinha vantagens e desvantagens. além de escolhas militares. Companhia das Letras.26 As cartas enviadas para Lisboa. Sr. que enaltece seus feitos. 2002. todavia as medidas demoravam a ser implementadas ou não eram exitosas. Os africanos no Brasil. S. B. como se verá com detalhes em breve. 27 Vide "Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco no tempo do governador dom Pedro de Almeida de 1675 a 1678 (M. Uma visão mais geral do tema pode ser encontrada em Antonio Manuel Hespanha (org. 1977. Disposições dos governadores de Pernambuco (1648-1696). que é a adotada pela bibliografia. ou ainda recorrer aos experientes sertanistas de São Paulo. [1905]. CCA. enquanto cerca de cem outros voltavam para seus senhores. Conselheiro Drummond)". Diversos autores mencionam. Na falta de fontes administrativas. essa versão da crônica escrita em 1678. A documentação é bastante escassa para o governo de dom Pedro de Almeida. Companhia Editora Nacional.). depois que dom Pedro de Almeida deixou o governo. . São Paulo. Hendrik Kraay (eds. As excelências do governador. 3ª-I-1-31. há pouca coisa. p. AUC.). índice e fl. vide Pedro Puntoni. 2 vols. 2004. tomando o que vai ali escrito como se fosse uma descrição fiel dos fatos. A bibliografia. IV.). por conta das 25 Para uma análise da organização militar no século XVII. "Uma nota acerca da organização militar portuguesa e brasileira" in: Stuart. matar vários quilombolas e aprisionar setenta deles. Sobre Palmares. 22 (1859): 303-329. Schwartz e Alcir Pécora (orgs. entretanto. Editora FGV. offerecido pelo Exm. a bibliografia tem utilizado de forma exaustiva uma crônica escrita em 1678. O novo governador parece ter se esforçado. não tem levado isso em conta. 317-320. Nina Rodrigues. 28 Cf. envolvendo questões políticas e financeiras diversas. RIHGB. Lisboa. 2004. Vitor Izecksohn. Círculo dos Leitores. 328. pp. por exemplo.43-66. "A Arte da Guerra no Brasil: tecnologia e estratégia militares na expansão da fronteira da América portuguesa (1550-1700)" in: Celso Castro. 26 Cf. Nova História Militar de Portugal. Rio de Janeiro. Nova história militar brasileira. São Paulo. também não são muitas em comparação com o volume da correspondência de outros governadores do mesmo período. provisoriamente.21 mais profissionais. que entre novembro de 1675 e julho de 1676 realizou-se uma expedição comandada por Manuel Lopes.27 O procedimento é problemático. O livro que registra as ordens e determinações remetidas para as autoridades da capitania anota apenas dois documentos de seu governo.

Hespanha in: J. p. 1993. que recebia pareceres dos conselheiros do Ultramarino e dos outros ministros e secretários de Estado. Ipojuca. Freitas. logo houve forte retaliação por parte dos palmarinos: "Em toda parte . num dos ataques. O antigo regime (16201807). Lisboa. 1958. São Paulo. 31 Para um panorama sobre o tema. O governador enfrentava oposições internas e havia se indisposto com gente importante. Segundo Décio Freitas. M. São Miguel e Serinhaém . nesse caso.p. era assim com o governador da capitania. 30 D.31 As cartas trocadas entre as autoridades registram o diálogo entre as instâncias de governo e também a necessidade de um consenso para que as ordens fossem implementadas. Freitas. M.o provedor da Fazenda.. História de Portugal. Não havia como impedir os ataques palmarinos.) em todo o resto de 1676. coordenado por A. Ausência ou pequena quantidade de textos . Reino negro de Palmares.29 Alguns vão mais longe. Freitas. nesse caso.Porto Calvo. As fontes existentes nos arquivos referentes ao governo de dom Pedro de Almeida permitem saber que nem tudo andava bem na capitania. os antigos escravos de certo modo foram amos no sul de Pernambuco. mas dificuldade.significa dificuldade de obter uma decisão e de registrá-la por escrito para que fosse colocada em prática.22 ações de Manuel Lopes. "os negros tiveram 800 baixas.sem contar os perdidos por ação do tempo ou por incúria arquivística . por exemplo. vejam-se os diversos artigos do volume IV. p. não significa desleixo. Palmares. Os textos. Alagoas. Engenhos e canaviais eram devorados pelas chamas. Zumbi teria sido ferido na perna. Mattoso (dir). M. constituem um passo na implementação das decisões. (. D. 90. 89. Palmares. que dependia das outras autoridades locais . 106. a correspondência entre o governo de Pernambuco e Lisboa e as determinações do governador para as câmaras e outras autoridades da capitania nesse período é bastante silenciosa quanto a Palmares. Como já observei acima. 223.. Estampa.era assim com o soberano. revista. mais ou menos" e. o ouvidor e os membros das câmaras. Desde que 29 Edison Carneiro. O quilombo dos Palmares [1947] 2ª ed. . A leitura da documentação administrativa desse período revela que a maior parte das decisões é precedida de conselhos ."30 Não encontrei documentos que permitam chegar a essa conclusão. p.as pequenas guarnições se mostravam impotentes para conter as formações palmarinas. O silêncio. Os índios fugiam aterrorizados. Brasiliense. Senhores de engenho faziam à noite atalaia em suas casas.

O tema é desenvolvido também por Vera Lúcia Costa Acioli. 1666-1715. 1997. A tentativa deu algum resultado. A consulta sobre usar os paulistas que fez ao governo geral do Estado do Brasil. Os dados biográficos de Fernão Carrilho nem sempre são convergentes. Companhia das Letras. As tensões entre o governo e as câmaras talvez expliquem o fato de que Fernão Carrilho tenha sido primeiro contratado pelas autoridades de Alagoas e só depois nomeado por dom Pedro de Almeida. sendo por duas vezes advertido pelo príncipe regente. EDUFPE/EDUFAL. pois em junho e julho de 1675 as câmaras de Pernambuco. Cod. São Paulo. Jurisdição e conflitos. Talvez a idéia de recorrer a tropas que não dependessem tanto das câmaras ou dos moradores tenha florescido nesse contexto. 33. mestre-de-campo do Terço de Infantaria de Pernambuco. especialmente capítulos 1 e 2. Para uma avaliação da contenda entre o governador e João Fernandes Vieira. Consulta do Conselho Ultramarino de 22 de dezembro de 1675 e de 20 de outubro de 1675. 1995. Recife. Paraíba e Itamaracá haviam pedido que João Fernandes Vieira fosse nomeado governador da Capitania de Pernambuco. Pernambuco. entrara em choque com João Fernandes Vieira quanto à jurisdição sobre as fortificações de Pernambuco. .34 Dom Pedro de Almeida não escapou a essa regra. vide José Antonio Gonçalves de Mello. Aspectos da administração colonial.33 Como bem mostrou Evaldo Cabral de Mello. indica que a possibilidade era discutida em Pernambuco. 4. a bibliografia porém indica ter ele se destacado por bater em 32 Em 1677. Nobres contra mascates.23 tomara posse do cargo. pp. As providências tomadas pelo governo de Pernambuco contra Palmares participavam desse jogo entre os poderes na capitania e dele dependiam para alcançar algum resultado. ainda que tenha sido figura de menor projeção. mencionada acima. 33 Cf. "por ser pessoa de muitos cabedais e experimentado nas tiranias que os negros levantados dos Palmares obram para as poder facilmente extinguir". 424-427.ao contrário do que registra a historiografia (talvez por ter se apoiado demasiadamente na crônica de 1678). Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. 32.32 As dissensões deviam ser grandes. 265 e BNRJ-Ms. toda a segunda metade do século XVII foi atravessada por tensões e conflitos de jurisdição entre as câmaras. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco. o governador chegou a deixar de cumprir uma provisão régia que atribuía a Vieira a arrecadação e despesa das verbas para as obras nas fortalezas. 34 Evaldo Cabral de Mello. 2000. II. embora o sertanista não tenha vindo de São Paulo e nem tenha sido o governador a tomar a iniciativa . A fronda dos mazombos. Lisboa. Cod. os governadores e a Coroa portuguesa. João Fernandes Vieira.

com alçada superior aos capitães das ordenanças e demais soldados e oficiais que o acompanhassem. somente as "crias" de menos de 3 anos ficavam livres de qualquer pagamento. vereadores e capitães mores das Alagoas . Klepsidra. portanto. Mesmo assim. "Segundo Livro de Vereações da câmara da vila de Alagoas. de 1666 a 1681". Carneiro. entre outros. . M. portanto. O documento foi publicado novamente por E.klepsidra. mencionam o convite do governador. Nela. p. que parece ter sido solene. pp. enquanto este se obrigava a marchar contra os Palmares em agosto de 1676 com uma tropa de "200 arcos e 100 armas de fogo". ed. 229. A nomeação de Carrilho só foi feita alguns meses depois. 36 Termo de aceitação de condições de 3 e 12 de fevereiro de 1676. M. um sertanista experiente. O reino negro de Palmares. 7 (1875):181-182. a ter um capitão-mor para governá-la. bem distante da aventada pelo Conselho Ultramarino em 1671 e também não 35 Fabiano Vilaça dos Santos. valor a ser pago também por aqueles que "viessem buscar abaixo seus senhores". 37 Carta patente de Fernão Carrilho de 1 de julho de 1676. o próprio E. 19 (2004). de 1666 a 1681".sem que tenha sido feita qualquer referência a dom Pedro de Almeida. pp.24 mocambos na Bahia e em Sergipe. 218-221). RIAGA. Os livros que registram as atas da câmara de Alagoas e de Porto Calvo indicam que a contratação de Carrilho foi realizada em fevereiro de 1676. com experiência na destruição de "negros levantados" na Bahia e em Sergipe. http://www. assim. e D.37 A solução encontrada foi.36 Foram eles que se comprometeram a pagar 700 mil réis para custear a expedição a ser comandada por Carrilho. por meio de carta patente. RIAGA. Carneiro (p.htm. pp. e também pelo auxílio prestado a incursões em busca de minas de prata em Itabaiana. O quilombo dos Palmares. 98. Fazem-no. 236-238 (na 1ª. Como se vê. o acerto previa medidas bem diferentes das recomendadas pelo Conselho Ultramarino.35 Era. Freitas. estavam presentes juízes. o governador dom Pedro de Almeida lhe conferia poderes para dispor o que lhe parecesse mais conveniente fazer na guerra contra os Palmares. Na sessão. "Segundo Livro de Vereações da câmara da vila de Alagoas. "Feitos de Armas e Efeitos de Recompensa: perfil do sertanista Fernão Carrilho". sem qualquer cláusula mencionando a obrigação de mandar os prisioneiros para fora da capitania. Revista Virtual de História. Palmares. Os prisioneiros seriam entregues mediante o pagamento de 12 mil réis por cada escravo apreendido nessas capitanias. como havia aventado o governador. Freitas. 107). mas não um "paulista".net/klepsidra19/fernaocarrilho.. provavelmente por conta da "Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco no tempo do governador dom Pedro de Almeida de 1675 a 1678". A guerra passava. 7 (1875):179-180.

se fossem mortos durante a luta. era preciso arranjar escravos para transportá-los e.40 Em dezembro. pediu que o próprio Carrilho contribuísse para os custos da expedição. O quilombo dos Palmares. RIAGA. As câmaras de Porto Calvo. Alagoas e Rio de São Francisco. os autores sejam unânimes em ressaltar as qualidades do novo comandante. Carrilho tinha uma boa oportunidade de enriquecer e ganhar prestígio político e os moradores delegavam os custos a ele. 40 Acórdão de 21 de agosto de 1676.39 Depois conseguiu que Carrilho pagasse pelos negros cedidos para levar mantimentos. porém. de 1666 a 1681". "Segundo Livro de Vereações da câmara da vila de Alagoas. .41 As guerras contra Palmares envolviam vários problemas: além do custo dos mantimentos. "Segundo Livro de Vereações da câmara da vila de Alagoas.25 estava perto das alternativas de aproveitamento das tropas locais. todavia fez primeiro com que Carrilho se comprometesse a usar em primeiro lugar seus próprios homens. 100. não conseguiram honrar o compromisso e se desentenderam. os moradores tentavam escapar do recrutamento. 7 (1875): 182. de 1666 a 1681".38 Não foi bem assim. limitando suas contribuições ao ajustado previamente. Talvez por seguir de perto a crônica de 1678. não eram apenas os assaltos promovidos pelos negros dos Palmares que preocupavam os moradores das vilas da região. recorrendo aos moradores só em caso de não poder compor a tropa. toda a cena se modifica". O governador deve ter se rendido às circunstâncias. acima de tudo. o 38 39 E. chegou a afirmar Edison Carneiro. RIAGA. mas as cláusulas acertadas entre Carrilho e as câmaras indicam que essa poderia ser uma forma de escapar das determinações vindas de Lisboa e de Olinda. "Com o aparecimento de Fernão Carrilho. Acórdão de 3 de agosto de 1676. Carneiro. Como se vê. 7 (1875): 181. É difícil saber o motivo que levou as câmaras a contratarem alguém de fora da capitania. Em junho de 1677. RIAGA. Talvez tenha sido a esperança de maior eficiência. "Segundo Livro de Vereações da câmara da vila de Alagoas. Carrilho assumiu seu posto e passou a cuidar dos preparativos para a expedição. de 1666 a 1681". conferindo-lhe poderes talvez maiores do que os comandantes locais. outras pessoas em Lisboa tomavam a iniciativa de propor estratégias para a guerra contra os Palmares. Enquanto a expedição demorava a sair. Alagoas acabou assumindo parte do suprimento da tropa e seu armamento. p. 41 Acórdão de 8 de dezembro de 1676. 7 (1875): 181.

descontando-se apenas o quinto da Coroa.26 Conselho Ultramarino discutiu as sugestões enviadas por Manuel Inojosa. A tropa seria formada por "200 homens brancos armados e 400 índios mansos" fornecidos pelo governo geral do Brasil. 265. Os maiores de doze anos deviam ser mandados para o Reino. os degredados da Bahia e de Pernambuco. 230-231. poderia ter o poder de "estropiar e enforcar todo o soldado ou índio que da dita conquista fugir ou cometer caso por onde não mereça ser perdoado". . pois não apenas mencionava ser preciso evitar que os habitantes de Palmares fossem avisados das expedições como propunha medidas severas contra as deserções: o "cabo maior". Cod. pois os negros estariam acostumados a ser atacados a partir do litoral. por serem melhores carregadores do que os de Pernambuco. "conquistar" os Palmares significava não apenas uma vitória militar mas apaziguar a 42 Consulta do Conselho Ultramarino de 28 de junho de 1677. mas ficar com os "conquistadores". AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco. 50-v-37. a realizar a obra e poder se intitular "conquistador". Propunha que a entrada contra os Palmares fosse feita "pela parte do sertão donde eles senão temem nem vigiam". era bom conhecedor da situação. para servir de base para as operações. depois. para serem vendidos. e que seria apoiada com "todo o favor". fls. considerando-se haver "onze ou doze mil almas" no Palmares.43 Inojosa sugeria ainda que os prisioneiros não deviam ser devolvidos a seus senhores.42 Esse português era homem experimentado no combate aos índios na Bahia e resolveu recomendar o uso de índios daquela capitania. Seu plano incluía estabelecer no lugar uma povoação. o comandante geral dessas tropas. onde se instalariam os índios do Camarão e os negros de Henrique Dias e. 43 Carta de Manoel de Inojosa. que a eles deveriam se juntar depois que o arraial nos Palmares estivesse instalado. auxiliados por 100 homens do Camarão e outros 100 do terço que foi de Henrique Dias. sem data (anterior a maio de 1677). que devia chegar a cinco ou seis mil cruzados. fls. BA. é claro. Era dinheiro mais que suficiente para pagar os custos da operação. 14v-15. "porque ficando na terra se tornarão a ir para os seus Palmares e levarão outros consigo". É interessante observar que Inojosa fala explicitamente na "conquista e povoação" dos Palmares e ele se candidatava. nessa região havia índios inimigos dos negros dos Palmares. Além disso. munições e ferramentas fornecidas pelas vilas da região. isto é. Aparentemente. Cod. Assim. gente. que por certo prestariam valioso auxílio.

atacar os Palmares podia ser também uma oportunidade para ganhar títulos. em termos gerais. mas concordaram que era preciso atacar os Palmares pela Bahia e por Pernambuco. 45 Consulta do Conselho Ultramarino de 28 de junho de 1677. a pessoa indicada para tomar as providências necessárias . talvez por isso. que podiam confiar em seus talentos militares. os conselheiros. AHU_ACL_CU_015. não mencionaram a "conquista". Diante da proposta. e do governo geral do Brasil. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco.44 A estratégia de Inojosa não deu certo para ele. Cod.ou seja.que podiam garantir os títulos e conceder as terras. até se extinguirem ou [se] reduzirem". terras e escravos. Para que a estratégia pudesse ser colocada em prática. que atribui a João Fernandes Vieira e teria sido discutida nessa ocasião. Ao enviar sua decisão ao príncipe. 265. mas beneficiou tanto o Conselho. acostumados a bater nos mocambos. os conselheiros reiteraram as sugestões feitas em 1671 e 1673 e. Vieira seria nomeado governador daquela guerra e deveria ter auxílio do novo governador de Pernambuco. 1073. "dando-se [a] estes negros uma guerra viva sem se levantar mão dela.27 região. e julgavam melhor encarregar João Fernandes Vieira da execução dos planos. 101-104.45 Como haviam preterido Inojosa.e João Fernandes Vieira lhes parecia ser. A vitória sobre Palmares. colocar em seu lugar gente que reconhecesse a jurisdição do príncipe português e obedecesse suas leis. 46 D. 14v-15. no mesmo dia. tomaram providências mais específicas sobre o uso do quinto do valor das benfeitorias. menciona uma segunda proposta. era preciso contar com a devida chancela das autoridades . Cx. D. mais uma vez. seria apenas uma etapa dessa campanha. o que é mais . entretanto. Ernesto Ennes. consultaram "várias pessoas particulares assim da Bahia como de Pernambuco" que estavam na Corte. colonizando-a: para domar a rebeldia dos negros era necessário primeiro vencêlos pela guerra e depois instalar na região uma povoação . Para homens experimentados no sertão. Aceitaram. as sugestões de Inojosa. o assunto voltou a ser meramente militar . nesse caso. fls.e se havia achado uma solução para custear o empreendimento. entretanto. Pelo jeito. data a proposta de 1686. essa podia ser uma forma de chegar a uma posição superior nas hierarquias civis e políticas da colônia. quanto Fernandes Vieira.46 44 Consulta do Conselho Ultramarino de 28 de junho de 1677. pp. Palmares. 11. nem a instalação de uma povoação. Como se pode observar. contribuindo os moradores de Pernambuco com o quinto do valor das benfeitorias feitas pelos holandeses nas casas em que viviam. Freitas.

49 Em janeiro. Ed. com base na crônica escrita em 1678. Após alguns dias de descanso. RIAGA. 424-427. até atacar Aqualtune. onde vivia a mãe de Gangazumba. pois os provável.50 A bibliografia. doc. G. nas Alagoas. Carrilho já fora nomeado e continuava a enfrentar problemas para armar a expedição contra os Palmares. depois de cerimônias que incluíram missa cantada e discursos de exaltação à vitória. p. 7 (1875): 182183. .48 Enquanto isso. Ele teria saído de Porto Calvo com um efetivo bem menor do que o prometido pelo governador. a tropa seguiu para esse mocambo. Cf. os planos feitos em Lisboa não chegaram a ser postos em prática. Infelizmente. A tensão devia ser grande. A data é estranha. Cod. República de Palmares. afirmando que seus moradores não iriam contribuir com os escravos para o comboio dos mantimentos e que. já que não há qualquer registro de uma determinação enviada nesse sentido para Pernambuco. arrasado e queimado. Cf. RIAGA. 47 Décio Freitas publica uma consulta do Conselho Ultramarino datada de 8 de novembro de 1677 recomendando que a proposta de Manoel Inojosa fosse remetida a dom Pedro de Almeida para que ele informasse sobre usa utilidade. que foi encontrado sem ninguém. pp. pois a câmara local recusou-se a obedecer a uma ordem de dom Pedro de Almeida. Freitas. 1938. D. como vimos. Pesquisa e comentários em documentos históricos do século XVII. "Segundo Livro de Vereações da câmara da vila de Alagoas.28 Tudo indica que. ele vinha tendo vários desentendimentos com João Fernandes Vieira. é bem provável que tenham desagradado o governador pois. "Segundo Livro de Vereações da câmara da vila de Alagoas. 7 (1875):183 51 D. cujo tempo em Pernambuco terminou em 1682. pp. mas os prisioneiros informaram que Gangazumba e seu irmão Gangazona estavam em Sucupira. de 1666 a 1681". Edufal. de 1666 a 1681". 50 Termo de vereação de 16 de janeiro de 1678. 50-v-37. Mello. 141-142. 36 (o original está em BA. não consegui encontrar o original desse documento. Freitas diz que o ataque foi feito contra Acotirene. "desprezariam a terra e iriam [para] fora" dela. Maceió. Cia. Palmares. 49 Termo de Vereação da câmara de Santa Maria Madalena da Lagoa do Sul de 7 de dezembro de 1677.47 Se as notícias da discussão chegaram de algum modo a Pernambuco. 115. Ernesto Ennes. detalha a expedição de Fernão Carrilho datando-a de setembro de 1677. pois ela menciona as expedições mandadas fazer no tempo dos governadores dom Pedro de Almeida e Aires de Souza de Castro. Nacional. A. 48 J. desde que ressarcidos pelos que fossem mortos e reembolsados pelas munições que fornecessem. Andou 13 dias pelos matos. As Guerras nos Palmares: subsídios para a sua história. mais uma vez. 2004. 260-262v). fls. São Paulo. concordaram por fim em enviar os escravos. pois a proposta de Inojosa foi avaliada no Conselho em 28 de junho desse ano. se fossem obrigados a isso.51 A maior parte dos habitantes do mocambo conseguiu fugir. João Fernandes Vieira.

Carrilho assentou um arraial nesse local. 88. Freitas e na de I. houve novos combates. Manuel Lopes foi o encarregado de arregimentar homens e mantimentos e. fl. o episódio está situado depois da volta a Porto Calvo. as tropas perseguiam os fugitivos e. não só foram mortos chefes palmarinos importantes. Enquanto isso. mais prisioneiros e mais mortos. Memorial dos Palmares. Cod. Carneiro dá a entender que foi antes de Carrilho voltar a Porto Calvo.55 No final de janeiro de 1678. e despachou um mensageiro para dar as novas ao governador e pedir reforços. pp.54 É possível que os dois prisioneiros tenham sido acompanhados por soldados. D. ao candidatar-se a um cargo militar.53 Acreditando ter debilitado de todo o inimigo. fora feito prisioneiro. em seguida. em um dos combates. Ivan Alves Filho informa ainda que num dos combates a rainha dos Palmares teria sido também aprisionada. como um deles. Na narrativa de D. dando-lhe o nome de "Bom Jesus e a Cruz". As matas em torno da cerca de Amaro foram vasculhadas. Alves Filho dá Gangamuissa como morto nesse ataque. 114-115. 85. de subir em direção aos Palmares. outro filho de Gangazumba. Alves Filho. deixando nos Palmares as tropas de Manuel Lopes. ferido na perna e abandonando suas armas pelo caminho. obrigando com suas razões ao seu principal chamado Gangazumba (que encontrou no sertão) a mandar três filhos e dois genros a pedir pazes ao governador Aires de Sousa de Castro". e I. Alves Filho. sogros de Gangazumba. AHU_ACL_CU_Consultas Mistas. com uma proposta para que depusessem as armas em troca do fim das hostilidades. Antonio Pinto Ribeiro contou ter participado da "redução dos negros dos Palmares. 399 v . Carrilho retornou a Porto Calvo. 54 É difícil saber quando foram enviados os dois prisioneiros. uma coluna atacou a cerca de Amaro. I. p. Carrilho enviou dois prisioneiros. Toculo. onde estava Gangazumba. Cf. chamado Gangamuissa. Memorial dos Palmares. 55 Nomeação de pessoas para o posto de sargento-mor da ordenança da praça de Pernambuco. pois anos depois. 117. Foi recebido com festas e houve 52 53 I. 85. acreditando ter destruído Palmares.29 negros haviam fugido para os matos. E. Na ocasião foram presos dois de seus filhos e vários sobrinhos e netos. e ele próprio escapou com dificuldade. Palmares p. além do chefe Acaiuba. Entrou em Porto Calvo com cerca de 200 prisioneiros. Memorial dos Palmares.52 Três semanas depois. p. Matias Dambi e Madalena Angola. Carneiro. foi morto. 17. Freitas. p. Alves Filho. O quilombo dos Palmares. em 28 de janeiro 1684.

60 Ainda que pelo menos duas outras colunas continuassem lutando. ou a possibilidade de uma via alternativa para terminar com a guerra.56 Enquanto isso.61 Apoiada na crônica de 1678. p.30 distribuição dos prisioneiros entre os soldados. p. Freitas. Alves Filho. Carneiro. Ao contrário. mais uma vez. os destacamentos sob comando de Manuel Lopes continuavam a fustigar os quilombolas. Palmares. no entanto. claro estava que a continuidade da guerra teria que enfrentar. RIAGA (1875): 183-184. Memorial dos Palmares. Memorial dos Palmares. Palmares. O que o governador dom Pedro de Almeida contou a Lisboa em fevereiro de 1677 foi. um pouco diferente. o governador isentou os voluntários que entrassem nos matos para acabar com os remanescentes nos mocambos de pagar o quinto pelas presas que fizessem. a carência de recursos. Todavia. para informar com rapidez o príncipe que havia tido dificuldades em fazer com que as câmaras entrassem em acordo e ajudassem com víveres e soldados numa expedição contra Palmares.116. 118.58 Talvez tenha sido a falta de mantimentos que precipitara o retorno de Carrilho a Porto Calvo. Alves Filho. depois de separado o quinto da Coroa. associando-o diretamente ao início de negociações com Gangazumba. Memorial dos Palmares. Devia estar contente com a vitória. a fim de reiterar a proposta feita por Carrilho. 57 E. 58 D. pp. 60 Apenas D. Alves Filho. Havia conseguido persuadi-las. 59 Bando do governador dom Pedro de Almeida de 14 de fevereiro de 1678. mas não disse palavra sobre qualquer negociação. . "Segundo Livro de Vereações da Câmara de Alagoas". pp. Freitas indica ser o alferes do terço dos Henriques. pp. e continuaram por lá guerreando ainda por mais três meses. 61 O contexto é analisado por I. obtendo o 56 Uma descrição detalhada dessas expedições pode ser encontrada em I. I. 86-87. pp. enviou um alferes para Palmares. a bibliografia tende a marcar o triunfo conseguido pelas tropas de Fernão Carrilho e Manoel Lopes. 117-118. com vitórias significativas até meados de março. fazendo mais prisioneiros e enfrentando problemas com o abastecimento de víveres e com a falta de apoio de alguns senhores de engenho. As notícias que enviou a Lisboa não eram detalhadas. O quilombo dos Palmares. 82-88. o líder palmarino derrotado. sempre era bom prevenir e. 78-86.57 Décio Freitas registra que antes do regresso de Carrilho duas outras expedições haviam seguido para Palmares. em fevereiro. Ele aproveitou uma "embarcação [que ia] de passagem". 59 Ao mesmo tempo.

Pelo jeito. Esse era um modo de evidenciar sua atuação como bom governante.62 A carta o coloca como o grande coordenador da campanha. se eles quisessem "viver em paz com a colônia". em Lisboa. "aqueles dilatados Palmares [estavam] desertos dessa canalha". entretanto.) desta vitória". AHU_ACL_CU_015. Nina Rodrigues diz que o alferes enviado por dom Pedro de Almeida levou uma "intimação ao rei": as tropas de Carrilho se preparavam para voltar e acabar com o quilombo mas.31 "geral beneplácito de todos" e nomeado Fernão Carrilho para ser o capitão-mor daquela conquista.65 A bibliografia. imaginava poder voltar em breve a Lisboa. como no caso de um parecer do Conselho Ultramarino que chegou a afirmar que a proposta havia sido enviada aos negros dos Palmares por Aires de Souza de Castro. Ver também anotações à margem da carta de dom Pedro de Almeida de 4 de fevereiro de 1678. porém. e dar pessoalmente informações mais detalhadas ao príncipe. analisa esses eventos apenas a partir da ótica do anônimo cronista de 1678. BNRJ-Ms. AHU_ACL_CU_015. 1103.4. inclusive Gangazumba e dois de seus filhos e prendera outros tantos. as informações e as interpretações são divergentes em relação aos eventos que se seguem ao retorno de Fernão Carrilho a Porto Calvo. 1103.. II . 1116. por ter obtido o acordo de todos. 64 Consulta do Conselho Ultramarino de 28 de abril de 1678. Pelo jeito.33. D. Segundo o governador. tendo "feito geral destruição naqueles bárbaros": matara muita gente "dos de guerra". incluindo três mulheres do rei e dez de seus netos. Informação constante no banco de dados informações do banco de dados do projeto Optima Pars (ver nota 1). D.64 A secretaria do Conselho. registrou a carta do governador como dando "conta da vitória que alcançaram os moradores daquela capitania dos negros dos Palmares". geravam até informações distorcidas.. 11.32. 11. como "mostras (. AHU_ACL_CU_015. já que seu sucessor já havia sido nomeado. que remeteu as novas ao príncipe. Cx. Ele permaneceu cinco meses nos matos e voltara vitorioso. Decerto seria uma entrada em grande estilo na Corte. Cx. Cod. Dom Pedro de Almeida pretendia levar os prisioneiros para o Reino. 65 Às vezes. D.63 Sua carta foi lida pelo Conselho Ultramarino no final de abril de 1678. o governador designaria 62 63 Carta de dom Pedro de Almeida de 4 de fevereiro de 1678. as notícias parecem ter sido entendidas de forma bem diferente do que supunha o governador em Pernambuco. . Cx. 11. Mesmo que a fonte seja a mesma. qualidade reforçada pela vitória obtida. Aires de Souza de Castro foi nomeado em agosto de 1677. lembrando-o que havia consultas sobre o mesmo assunto que ainda aguardavam seu parecer.

e contava com o trunfo de ter entre os prisioneiros os filhos e parentes de Gangazumba. 68 Clóvis Moura. pp. 88. os dois prisioneiros foram enviados a Palmares com "ordens de rendição" e. O quilombo dos Palmares. dos moradores. revista e ampliada Rio de Janeiro. o que compensava os "medíocres resultados militares da campanha". Ed. Ele também estava sequioso por celebrar suas façanhas. p. Os africanos no Brasil. Memorial dos Palmares. p. Por isso.32 terras para viverem e restituiria as mulheres e filhos que estavam em seu poder. 118 e 121. diante da continuidade das escaramuças nas matas. 1972. I. também teria tido motivo semelhante para "entabular negociações com vistas a uma solução política do caso palmarino". 115. Palmares. seus interesses e experiências. dom Pedro de Almeida "mudou de tática". 66 67 N. dos sertanistas. O caminho permitirá que possamos compreender as condições em que se deram as negociações e os termos que foram ajustados em 1678. é necessário saber mais sobre essas pessoas. do governo da capitania. 69 D. dos conselheiros do Ultramarino e do próprio príncipe. Dom Pedro de Almeida. insurreições. Carneiro.67 Para Clóvis Moura. p.69 A guerra contra Palmares colocava em jogo interesses bem diversos. 83. Rodrigues. pois envolvia avaliações políticas.66 Edison Carneiro refere-se ao "recado" enviado por Carrilho ao rei dos Palmares prometendo cessar os ataques se eles depusessem as armas. industriando o alferes para dizer aos sobreviventes que seriam exterminados se não fizessem a paz. a convivência com os mocambos ou as negociações com eles não podem ser analisadas levando em conta apenas a oposição entre o governo (ou os senhores) e os fugitivos. do Estado do Brasil. . As opiniões variavam conforme os grupos e muitas vezes não eram convergentes. respectivamente. [1959] 2ª ed. Freitas. "O quilombo dos Palmares" Rebeliões da Senzala. Alves Filho faz as mesmas ponderações. p. Conquista. sem se deixar iludir pela vanglória de Carrilho. E. Do mesmo modo. "promessas" reiteradas mais tarde pelo governador.68 A declaração de Carrilho sobre a completa destruição dos Palmares é relativizada por Décio Freitas que a explica pelo intuito de obter recompensas e mercês por parte do capitão. para seguir adiante. financeiras e militares por parte das autoridades locais. guerrilhas. 187. sem dar maiores detalhes. Quilombos.

p. tinham posições "pacifistas". Memorial dos Palmares.72 Outros autores também mencionam posições diversas entre as autoridades coloniais e os moradores pernambucanos sobre continuar a guerra ou fazer a paz. 2002. as autoridades coloniais já haviam tentado outras estratégias para enfrentar Palmares.80-81. Freitas. o dilema entre continuar a guerra e tentar a alternativa da negociação estava presente nos dois lados da contenda. A voz da experiência O que teria levado Fernão Carrilho. pp. Palmares. Nos Palmares. D. A mesma análise está presente em I. 98. p. Alves Filho. Ou ainda uma manobra para quebrar a unidade dos rebeldes e assegurar o término da guerra. aproveitando que os principais mocambos estavam destruídos e muitos de seus guerreiros mortos.33 2. 72 D. como ocupar as fronteiras econômicas com fortins e aldeamentos indígenas. as opiniões dividiam-se também entre os partidários das negociações e os que achavam que a sobrevivência de Palmares só seria assegurada com "a guerra e a luta pela libertação da massa escrava do litoral". enquanto a "classe dirigente" defendia uma política de enfrentamento. Alves Filho. que arcavam com o custo das expedições e estavam amedrontados com os ataques palmarinos. Freitas. 320-325. que tantos ônus e dissensões traziam para os moradores das vilas da região.70 Poderia ter sido também um meio de protelar o provável recomeço dos enfrentamentos. pp.71 Décio Freitas comenta que. Flavio Gomes coloca a questão num contexto mais amplo. dom Pedro de Almeida e Gangazumba a negociar um acordo? Várias passagens da crônica escrita em 1678 indicam que a oferta de paz pode ser entendida como uma tática do governador para solidificar a derrota infligida aos habitantes dos Palmares. Vide Benjamin Péret. Segundo esse autor. . Memorial dos Palmares. O acordo seria um 70 71 "Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco". 121-123. Editora da UFRGS. "Que foi o quilombo de Palmares?" [1956] in: O quilombo dos Palmares. Porto Alegre. Os comerciantes e as "categorias populares". I. além da guerra. ao sugerir que.105-106. pp. depois da campanha de Manuel Lopes "e da onda de terrorismo negro que se lhe seguiu". pp. Palmares. tais divisões permaneceram durante todo o período subseqüente. 93.

Algumas fontes indicam que a iniciativa pode ter partido dos habitantes de Palmares. foi render graças a Deus no templo que mandara erigir na cerca real do Macaco. Gangazumba chegou até mesmo a ser dado por morto. First-time. Para esse autor. AHU_ACL_CU_015. pp. como em outras partes das Américas. Cx. D. Palmares. atemorizados com as mortes e a destruição causada pelas tropas coloniais. Cf. Um parecer do Conselho Ultramarino de 25 de junho de 1687 chegou a mencionar que Carrilho tinha fama de feiticeiro. diante dos estragos feitos pelas tropas de Fernão Carrilho. liberdade. doc. The historical vision of an Afro-American people. 1118. Baltimore. Como vimos. 117-125. D. 1116. o supremo chefe daqueles reis menores. Vide também Carta do provedor da Fazenda Real da capitania de Pernambuco ao príncipe regente de 22 de junho de 1678. Freitas considera o acordo "um dos mais inteligentes golpes políticos" de Gangazumba. as expedições dos anos 1677 e 1678 haviam provocado pesadas baixas e muitos haviam sido capturados. 12. Baltimore. 2005. Cx. assim como pelo fato de terem sido aprisionados "mulheres e filhos dos principais". Ernesto Ennes. 1983. demorando nas negociações. 77 Carta de dom Pedro de Almeida ao príncipe regente de 4 de fevereiro de 1678. que examinaremos mais adiante. AHU_ACL_CU_015. 11. após a paz ser assentada. John's Hopkins University Press. As guerras nos Palmares. D. que conseguiu assim reaver sua família e a de seus cabos de guerra. D. Gomes estão apoiadas na análise de Richard Price sobre os Saramakas do Suriname.75 Outras fontes sugerem que o medo de novas investidas. tenha sido o principal motivo para o armistício. AHU_ACL_CU_015.74 Documentos posteriores mencionam que era "estilo" dos negros aproveitarem o momento de substituição do governador da capitania para oferecer acordos de paz. Escravidão e liberdade no Atlântico Sul. p. 328 menciona a "petição do rei dos Palmares. 1103. 13. 1329 76 Carta do provedor da Fazenda Real da capitania de Pernambuco ao príncipe regente de 22 de junho de 1678. assim como dois de seus filhos. R. 74 A própria "Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco". e Alabi's world.77 Mário M. como forma de protelar novas investidas contra os mocambos. 11. sítio e entrega das mulheres" (grifos meu). 75 É o que informa Aires de Souza de Castro em 14 de novembro de 1685 ao Conselho Ultramarino. São Paulo.76 Como vimos. "o sossego voltou ao seio da família negra e o rei Zambi. quando as mulheres e filhos de seus 73 Flávio dos Santos Gomes. por ter feito tantos prisioneiros "que excede as forças humanas". 11. Price.34 modo de obter que os quilombolas. John's Hopkins University Press. Cx. Contexto. 1990. AHU_ACL_CU_015. Cx. . incluindo vários membros das famílias dos chefes dos mocambos.73 Há poucos comentários sobre as motivações do lado palmarino. "paralisassem [os] ataques e se mantivessem vivendo em seu mocambos no alto das serras". As observações de F. em que pedia paz.

provincial da Companhia de Jesus. Freitas. ao avaliar a situação do Estado do Brasil. ficaremos no âmbito dos exemplos na área de colonização portuguesa. Pedro Rodrigues. mencionou que.80 Referia-se. Desde o início da ocupação colonial. eram as que podiam servir de referência para aquelas pessoas. M. . Ele entende que Gangazumba. donde vêm a fazer assaltos e dar algum trabalho". Este é um bom começo para um passeio pelas experiências de negociação com os escravos no ultramar português. o único a não mencionar qualquer conflito de opiniões entre Gangazumba e Zumbi. Como se vê. 20 (1898): 255. 252. levantamentos e "alvoroços". A possibilidade é sugestiva e merece ser examinada. inclusive de membros de sua família e da destruição dos mocambos. 80 Carta do Padre Pedro Rodrigues. que envolveram os moradores e seus escravos ou escravos 78 79 M. o provincial da Companhia de Jesus. ao levante liderado por Amador que tomou conta da ilha em 1595. p. "não agüentou. 187. Clóvis Moura tem uma visão oposta. como fazem seus parentes na ilha de São Tomé". C. Focalizo algumas experiências anteriores pois. diante da morte dos principais guerreiros. "O quilombo dos Palmares". não dedica muita atenção aos termos do acordo ou aos interesses nele envolvidos. além dos aimorés e dos franceses. com o ânimo que as circunstâncias exigiam. a bibliografia circunscreve a análise ao episódio das negociações ocorridas em 1678. Freitas.35 vassalos regressavam salvos aos seus refúgios de liberdade e de amor!"78 Ele é. São Tomé fora palco de revoltas. como outros autores. Apenas Flávio Gomes abre o campo de visão. afinal. de 1º de maio de 1597.ainda que os detalhes nem sempre sejam oferecidos igualmente pelos autores. da prisão de tantos. p. os golpes e as derrotas" e achou ser "vantajoso" entender-se com os portugueses.79 Ele. Reino negros de Palmares. Com exceção de Mário M. ABN. aliás. alertando que "pode vir tempo em que se atrevam a cometer e destruir as fazendas. Moura. os portugueses enfrentavam "os negros de Guiné alevantados que estão em algumas serras. Em 1597. A maior parte focaliza a seqüência dos acontecimentos. Por enquanto. as interpretações organizam-se de modo a construir uma explicação lógica para a resistência liderada por Zumbi e dar-lhe destaque . mencionando a hipótese de conexões atlânticas e exemplos anteriores e posteriores a Palmares. com grande probabilidade.

MMA. O rei Amador resistiu até 14 de agosto. cazos e suscessos que nella tem hauido. 54/55 (1996): 51-91. p. Revista Internacional de Estudos Africanos. Manuel do Rosário não menciona a proposta de perdão. 82 "Relatione venuta dall'Isola di S. foi esquartejado e partes de seu corpo expostas nos lugares públicos da vila. Rápida e de grandes 81 Cf. teve as mãos decepadas. III.110120. publicado por António Ambrósio. 30/31 (1970): 244-247. que o proclamaram rei. São Tomé e Príncipe. quando foi enfim levado preso por cinco líderes que o acompanhavam. as fugas eram constantes. "A formação das estruturas fundiárias e a territorialização das tensões sociais: São Tomé. III.82 O prazo chegou a ser prorrogado por mais três dias. queimaram a cidade de São Tomé e destruíram vários engenhos. Amador liderou muitos "homens da sua cor". Leba. muitos vieram se "apadrinhar". ficando o Amador "sem poder". mas de uma revolta. 4/5 (1986): 17-74. Lisboa. Isabel Figueiredo de Barros e Maria Arlete Cruz. foi diferente. Diz um dos relatos que a ilha tornou a ficar "quieta e segura". "Rebelião e sociedade colonial: 'alvoroços' e 'levantamentos' em São Tomé (1545-1555)". Aproveitando-se da reunião dominical dos moradores na igreja no início de julho. mas desde que a ilha iniciara a produção de açúcar. comandados por um negro chamado Cristóvão). Em 1595. e governadores. o governador da ilha lançou um bando prometendo que em quinze dias perdoaria todos os rebeldes que retornassem para seus donos. em meio aos enfrentamentos. «Manuel do Rosário Pinto (a sua vida)" in Stvdia.83 Dessa vez. pp. Dos outros cinco. Catarina Madeira Santos. 83 "Relatione venuta dall'Isola di S. A invenção de uma sociedade. Tomé".81 Nem todos esses "levantamentos" foram protagonizados por escravos. não se tratava de gente que vivia pelos matos e de quando em vez atacava viajantes e fazendas. 7 (1992): 373-388. primeira metade do século XVI" Stvdia. indicando apenas que. ver Isabel Castro Henriques. Libertou também muitos escravos e foi ganhando adeptos (além do auxílio de fugitivos que estavam nos matos. e dizem os relatos que a promessa convenceu a quase todos. com as noticias que pode descobrir Manoel do Rozario Pinto natural da mesma ilha". serie dos serenissimo reys de Portugal. "Revoltas de escravos em São Tomé no século XVI". 151. dois ficaram presos e um foi esquartejado por ter morto um padre durante a revolta. Tomé". 521-523. "Relação do descubrimento da ilha de Sam Thomé. dois foram perdoados. catalogo dos bispos. pp. MMA. porém. voltando a produzir açúcar com os 25 engenhos que restaram de pé. 523.36 fugidos que se agrupavam em mocambos. Houve algumas batalhas entre os levantados e tropas do governo e. depois de uma batalha em que morreram mais de 200 revoltosos. nos matos da ilha. doc. em São Tomé. As fontes indicam que Amador chegou a liderar quase 4 mil escravos. Sobre esses eventos ver também Manuel do Rosário Pinto. Amador foi puxado por cavalos. Vega Editora. desde o tempo que a dita ilha foy descuberta the o prezente. 2000. . Para um balanço breve dessa revolta.

a 84 Termo da câmara de Salvador de 25 de novembro de 1640. ela não chegou a ser discutida pela bibliografia que. que aliás foi mencionada por ele em A Hidra e os pântanos. mas tudo indica que foi aceita por grande parte dos insurgentes. Embora explicitada com clareza no relato seiscentista que serve de base para os estudiosos que trataram dessa revolta.84 O marquês pretendia enviar o terço de Henrique Dias. Martins/ INL. bem como um padre jesuíta "que sabe a língua dos negros".139-140. São Paulo. O dilema entre guerrear ou negociar foi discutido em muitas ocasiões e as alternativas avaliadas de forma e com intenções bem diferentes. foi o que aconteceu na Bahia no final do ano de 1640. (Arquivo Municipal de Salvador. São Paulo. armário 62) in: Luiz Viana Filho. Mocambos. mas também como recurso no enfrentamento dos mocambos. Todas as citações desse parágrafo e do próximo foram retiradas desse documento. Na ocasião. 2005. que mais interessam aqui. desde que "não admitissem mais negros fugidos". livro 3. quilombos e comunidades de fugitivos no Brasil (séculos XVII-XIX). Mesmo assim. 1976. O negro na Bahia. p. 402 . 2ª ed. para que "tratassem com eles de os reduzir". houve uma proposta de perdão. que idéias desse tipo não tenham circulado no universo dos administradores coloniais. O fato de ter sido desconsiderada pela bibliografia não significa. entretanto. Alistados e livres. poderiam permanecer no mocambo. Agradeço a Flávio dos Santos Gomes a lembrança desta referência. Segundo o que vai registrado na ata da câmara de Salvador. Os vereadores consideraram que "por nenhum modo convinha tratar de concertos nem dar lugar aos escravos a que conciliassem sobre este negócio e o que convinha somente era extingui-los e conquistá-los para os que estavam domésticos não fossem para eles e os levantados não aspirassem [fazer] maiores danos" contra os moradores. Livro de atas do senado da câmara de Salvador. Pode ter surgido em ocasiões de revoltas abertas. tratou da traição cometida pelos comandantes que entregaram Amador às autoridades da ilha. pp. diante de propostas diametralmente opostas para acabar com os mocambos que haviam se formado na região do rio São Francisco. em troca da liberdade e do alistamento no terço dos libertos. Polis. quando muito. Ed. Pode ter sido usada como subterfúgio para minar as forças dos revoltosos. o marquês vice-rei havia convocado a Junta de governo para decidir o que fazer com aqueles "negros levantados". Um bom exemplo desses casos. ela foi sufocada pelas armas.37 proporções. em que a câmara de Salvador e o vice-rei do Brasil. marquês de Montalvão se enfrentaram. Unesp/Ed. como no caso de São Tomé.

Ainda que o debate tenha sido filtrado pela formalidade da ata e pela pena de quem a escreveu. o parecer do Conselho da Fazenda de mesma data.levando a propostas antagônicas. envolvia um modo de incorporar os negros levantados à ordem colonial. considerava serem eles escravos fugitivos.85 Não chegou a mencionar sua proposta. conhecidos por estes" e não aos que para lá tinham ido à força ou enganados. como entre eles havia "um que os 85 Ainda não consegui localizar o original da carta enviada a Lisboa. a diferença na nomenclatura revela avaliações políticas bastante diferenciadas . Preocupados que a medida gerasse abusos. D. depois de descontado o quinto da Coroa. No final de outubro. 39. o marquês de Montalvão enviou a Lisboa um memorial sobre o assunto. Contudo. fls. Contudo. AHU_ACL_CU_005. pagando-se por cada um deles 12 mil réis "para prêmio de quem lá fosse buscar estes negros". levando companheiros. A câmara continuou contrária a "pôr-se em concerto com esses negros". Por isso. Ao associar o alistamento no terço dos Henriques com a permanência nos mocambos. AHU_ACL_CU_Consultas Serviço Real. as mulheres seriam restituídas para seus donos mediante o pagamento de 12 mil réis. melhor seria que os prisioneiros fossem empregados nas galés da capitania. Verificar também. pois os que eram aprisionados depois de algum tempo voltavam a fugir. Cx. não se devia fazer como das outras vezes. repetindo que o melhor era conquistá-los. As "crias que se achassem nascidas e criadas nos mocambos" ficariam para o governador. ao contrário. enviara contra os mocambos "umas tropas de índios e outras de negros". A câmara. sobre esse assunto. Pouco tempo depois. depois enviados para as galés. solicitou à câmara que mais uma vez se pronunciasse sobre o assunto. que fizeram 46 prisioneiros. Cod. 191 e segs. como antes se havia praticado. explicavam que a condenação às galés aplicava-se "somente aos [negros] dos mocambos. . que seriam depois distribuídos entre os soldados. em seguida às deliberações. e que as mulheres fossem mandadas para fora da capitania. apenas a decisão da câmara. Contou ainda que. Seu conteúdo é deduzido do resumo que dela fez o Conselho Ultramarino em consulta de 28 de maio de 1642. com algumas modificações: os homens apanhados vivos seriam enviados para as galés.38 maior parte das opiniões foi favorável à guerra e a idéia do marquês vice-rei foi descartada. 30. com os quais não havia possibilidade de qualquer negociação. 1. e as "crias" ficariam com o marquês. A proposta do marquês parecia envolver mais que um subterfúgio para extinguir os mocambos.

Difícil saber. Também em relação aos negros dos Palmares houve negociações anteriores a 1678. já que não há registro de qualquer discussão sobre ela nos dois lados do Atlântico. 1988. Trajetórias individuais no mundo português nos séculos XVI a XIX. Fundação Joaquim Nabuco/Editora Massangana/CNPq. a esse respeito. vendidos. EDUFF. Talvez tenha até mesmo se lembrado do que havia ocorrido em São Tomé. Recife. prometendo-lho. se a via da negociação coletiva por meio de um padre não fora aceita. e os mandou fazer outra entrada". Guilherme Pereira das Neves (orgs.86 Talvez a proximidade da guerra contra os holandeses e a concessão de alforria para o recrutamento de escravos para a luta.87 tenha servido de inspiração para a atitude de Montalvão. O episódio gerou uma enorme discussão em Lisboa. 29-46. ainda que apenas com um indivíduo. Niterói. Georgina Silva dos Santos. fls. em 1595. Nesse caso. que esteve na origem do terço de Henrique Dias. era possível algum tipo de negociação. 87 Ver. 191 e segs. com muitos prisioneiros. AHU_ACL_CU_Consultas Serviço Real. Henrique Dias: Governador dos crioulos. "Henrique Dias: expansão e limites da justiça distributiva no Império Português" in: Ronaldo Vainfas. o fez capitão de Henrique Dias governador dos negros.se podiam ser redistribuídos. uma das lideranças presas foi nomeada capitão do terço de Henriques Dias e. Ou seja. 2007. a proposta feita ao chefe aprisionado não parece ter oferecido dúvidas. se deviam ser devolvidos a seus antigos donos e como se devia proceder nesse caso . Cod. . participou de outra expedição que atacou um mocambo junto ao rio São Francisco.). o partido da guerra contra os mocambos havia prevalecido. negros e mulatos do Brasil. De qualquer modo. com consulta ao Juiz da Índia e Mina. especialmente na época do governo de Francisco 86 Consulta do Conselho Ultramarino de 28 de maio de 1642. e Hebe Mattos.não havendo qualquer questionamento em relação à alforria concedida ao chefe aprisionado e sua nomeação como oficial do terço dos Henriques. 30. o marquês "o persuadiu a que lhe fossem entregar a gente que ficava nos mocambos e. José Antônio Gonsalves de Mello. como tal. Essa volta foi atribulada e muitos dos presos acabaram desencaminhados e vendidos pelos caminhos. Este não foi um episódio isolado. a outros governadores do Brasil. voltando já depois de vencido o tempo do governo do marquês. mesmo assim.39 governava". Retratos do Império. O centro do debate era a legitimidade das medidas tomadas com relação aos prisioneiros . pp.

para atacar os mocambos. O conteúdo do tal papel deveria ser lido e explicado aos dois prisioneiros. IV. arranjar a munição necessária e traçar estratégias durante todo o ano de 1661. fl. Também aqui elas aparecem em meio a várias alternativas para lidar com os negros levantados nos mocambos. doc. o Regimento de 24 de dezembro de 1661. com ordens para destruir todas as roças que lá encontrassem e "arcabuziar (. Ao que tudo indica. tomou várias providências. por caminhos diferentes. fl. entre outros. CCA. Planejou enviar seis tropas de 150 a 200 homens cada uma. No caso. Mesmo assim. 62v-63. e colocar suas cabeças e quartos pelas estradas. para que eles pudessem depois explicálo ao chefe dos mocambos.89 Para o ataque contra Palmares. CCA. antes lhe darão 88 Vide.) como rebeldes e levantados" os que resistissem. de uma "tropa de trinta negros e alguns mulatos [que] andavam salteando nas estradas. fossem escolhidos "dois dos mais antigos e capazes" para que levassem um papel que havia entregue ao capitão da expedição. "em nome de El-rei nosso senhor". No início de seu governo. 89 Ordem de Francisco de Brito Freire de 1º de fevereiro de 1661. Brito Freire resolveu enviar nova expedição contra os Palmares. em um dos muitos regimentos que expediu aos comandantes das tropas que pretendia enviar contra os Palmares. 64. deu instruções precisas para que. ele não estava para brincadeiras e tomava medidas severas contra Palmares e outros negros que incomodavam os moradores.. doc. ele enviou soldados com ordens para prender os assaltantes. AUC. Os que quisessem vir "com o dito papel tratar alguma coisa" com o governo poderiam "vir livremente sem lhe fazer mal nenhum. em 1661. tomando conhecimento dos assaltos feitos em casas e fazendas nas Alagoas pelos "negros do mato". AUC. 3ª-I-1-31. assim que tivessem feito alguns prisioneiros. pelo qual fazia ofertas aos negros.88 Esperava assim acabar com a insolência dos negros dos Palmares. expedindo ordens para aprovisionar as tropas. autorizando-os a matar os que resistissem. tomando as escravas dos moradores" da região de Santo Antonio. 68-68v. 3ª-I-1-31..40 de Brito Freire. por exemplo. 54. que haviam conseguido vencer expedições anteriores e se faziam cada vez mais ousados. IV. isentando os soldados de qualquer punição. .

para que fossem distribuídas entre os voluntários. assim aos pais como às crias de toda a sua descendência. IV. Em dezembro de 1662.92 Tudo indica que a providência teve sucesso. 91 Edital de 6 de dezembro de 1662. por isso havia resolvido "mandar-lhe uns cartazes em que lhe[s] prometia terra para suas lavouras e deixá-los viver livremente contanto que não admitissem mais escravos dos moradores. o governador consultou pessoas experientes e se resolveu a liberar quem quisesse atacar os Palmares. Não pensava em alistar ninguém no terço dos Henriques. doc. ele abriria mão das crias. CCA. mas documentos posteriores revelam ter sido "editais (. 86v-87. e sítio donde eles nomeassem para fazerem plantas e aldeias".90 Não se pode saber o que dizia o tal papel. A proposta era feita em meio aos combates. precedido dessa vez de consultas aos moradores. que de costume ficavam com os governadores. 60. IV. Para que tudo pudesse ser executado sem contestações posteriores. IV. AUC. sem ter conseguido vencê-los. doc. 93 Carta de 17 de abril de 1663.. também Regimento de Francisco de Brito Freire 4 de janeiro de 166[2]."93 Como fora avisado de que no Rio de São Francisco "o 90 Regimento de Francisco de Brito Freire 29 de dezembro de 1661. Além disso. CCA. fl.) em que [se] lhes assegurava para sempre liberdade. AUC. AUC. doc. doc. concedendo-lhes ficar com os prisioneiros que fizessem. 3ª-I-1-31. 61. desde que tivessem fugido havia mais de um ano. utilizando prisioneiros como intermediários.41 alguns soldados para virem em sua guarda". fl. AUC. 92 Edital de 6 de dezembro de 1662. fl. AUC. mas previa a concessão de terra e liberdade para os nascidos nos mocambos. 123. antes se obrigariam a entregar os que para lá fugirem. 123. CCA. doc. fora levado na bagagem do capitão junto com suas armas. O expediente foi tentado de novo no ano seguinte. fl. Cf.. pois em abril de 1663 Brito Freire enviou uma carta ao governador do Estado do Brasil contando boas novidades. pois a preparação do tal papel precedia o envio das tropas. fl. CCA. .91 Francisco de Brito Freire ia bem além da proposta do marquês de Montalvão. 137. 66v-67v. 3ªI-1-31. 3ª-I-1-31. Brito Freire ordenou que os vigários consultassem os moradores de suas freguesias. CCA. sobre esses prisioneiros não haveria qualquer taxa. 3ª-I-1-31. diante do fato de que as expedições e promessas enviadas não haviam surtido efeito. 91. IV. 86v-87. 66-66v. Explicava ter feito muitas diligências contra os negros dos Palmares "que tanto inquietavam estes moradores". IV. 3ª-I-1-31. Não constituía uma alternativa à guerra.

Diante disso. 85. também carta de 18 de abril de 1663. 3ª-I-1-31. Por isso. Recife. IV. e se se virem que de nenhum modo não têm quartel. 2ª ed. Idéia. fl. CCA. mas nem à obrigação militar.42 cabo de um mocambo vinha a tratar deste ajustamento". 110. 74. fl.94 As negociações não foram bem sucedidas. Medeiros. 144. doc. Secretaria de Educação e Cultura. donde também se padecem bastantes perdas dos que fogem para os mocambos.95 A matéria era urgente e a resposta veio logo em 9 de setembro. AUC. 1977. doc. O episódio é rapidamente comentado por J. enviava para lá o padre João Duarte Sacramento para cuidar do assunto. IV. pois deste modo só se não falta à piedade católica. poderá neles obrar a desesperação. p. AUC. doc. para último desengano dos negros dessa Capitania. Pedia que o governador geral confirmasse a resolução. como me dizem. . o que muitas vezes não consegue o valor. que governa a todos. pois na clemência se facilita o rendimento. IV. a povoação se abrasará e consumirá tudo. [que] poderão só ficar no Brasil os que tiverem idade que [os] segure o temor de se 94 Carta de 17 de abril de 1663. e M. de maneira que não fique mais que as memórias de sua destruição. degolar o cabo de um mocambo e a outro seu companheiro por quererem aceitar o ajustamento". e resolvia que o melhor era mesmo não dar "quartel a nenhum dos ditos negros de 15 anos para cima e que quando se aprisionassem alguns fossem enforcados nessa praça". apêndice. apoiando as resoluções tomadas por Brito Freire. CCA. Nova Lusitânia. e desta. Igreja e dominação no Brasil escravista. informa as providências tomadas e a proposta feita por intermédio do padre Sacramento e conta que "os negros. "Brito Freyre. 91. CCA. 3ª-I-1-31. e aprisione todos os que se lhe sujeitarem. C. O caso dos oratorianos de Pernambuco. Que ainda que é tão grande o número dos daquele. fl. faltos do conhecimento da razão. 95 Carta de 23 de agosto de 1663. mandava combater e prender todos os que não quisessem se sujeitar: "enquanto durar o conflito não dê quartel a quem se defender. 93v-94v. Cf. considerava que os negros eram "indignos de nenhuma piedade [sic] e merecedores de um cruel castigo". João Pessoa. 1993. 1659-1830. pois a medida não constava das leis civis e militares. não a souberam avaliar porque não só o despediram com desprezo e palavras escandalosas [como] mais ainda obstinadamente mandou o seu maior. O governador geral considerava apenas não ser justo degolar todos os prisioneiros. Em carta dirigida ao governador do Estado do Brasil. 137. quatro meses depois. a sua história e Pernambuco" in: Francisco de Brito Freire. AUC. Antônio Gonsalves de Mello. E [a] entrada que for. mas somente os que fossem reconhecidos como cabeças dos mocambos. História da guerra brasílica. 3ª-I-1-31.

da memória e da história e merecem ser tratadas aqui. 96 Carta do conde de Óbidos para Francisco de Brito Freire de 9 de setembro de 1663. com que ultimamente mandaram alguns negros falar com os filhos [sic] do sargento mor Antonio Vieira. a "entrada geral" que mandou fazer com "onze tropas juntas" e que permaneceu no sertão por cinco meses. BNL-Res. s. a versão é ligeiramente diversa da que se pode obter pela documentação administrativa. pois incluiu. com que se voltaram aos seus e me tornaram avisar [que] estavam juntando todos para descerem os principais a ter comigo e aceitar o que lhes oferecia."97 Nesse texto. 236 n. quando esteve preso. depois de retornar a Portugal e negar-se a conduzir o rei deposto ao exílio nos Açores.96 O português é arrevesado. e os mais se podem exterminar como ordenarei. mas a mensagem é clara: luta sem quartel. no relatório final de seu governo. Beca. e quando se não aproveitassem desta benevolência lhes repetiria novos e maiores apertos. 9 (1929): 127129. São Paulo. incluiu os "negros dos Palmares" entre "as coisas mais notáveis" da história brasílica que escreveu sobre as guerras contra os holandeses. Alguns anos mais tarde. Officina de João Galrão. Para isso. cuidando que eram espias nossas. 97 Francisco de Brito Freire. Cx. mandara "lançar nos seus mocambos alguns línguas para os persuadir a que baixassem e se reduzissem (como já se havia reduzido a nação dos Tapuias) a viver junto a nós. para que eu os certificasse da verdade. 98 Francisco de Brito Freire. Ed atual. . arrasando os mocambos e deixando no Brasil apenas as crianças. Brito Freire comenta não ter tido notícia do sucesso ou não da empreitada por se "acabar o tempo da [sua] assistência naquele governo". Seu livro foi escrito entre 1669 e 1675. [Relatório dos serviços prestados em Pernambuco]. em sítios assinalados. ele havia procurado "reduzi-los com indústria e suavidade para arrancar as raízes dos males que se padecem há tantos anos". pois pela [sic] não saberem haviam degolado dois. historia da guerra brasilica. para exemplo de todos os escravos em Pernambuco e na Bahia. depois de virem prisioneiros". estando "os negros medrosos e quebrantados" pelas mortes causadas. Como se vê. 1675. Ali se pode ler que. suas observações sobre os acontecimentos nessa região misturam características do testemunho. Nova Lusitania.43 tornarem a ir aninhar naquela parte.98 Mais uma vez. DH. e rev. a purissima alma e savdosa memoria do serenissimo principe dom Theodosio. A experiência deve ter marcado Brito Freire. 51. principe de Portvgal.d. pela sede e fome advinda da destruição de suas plantações. 2001. Lisboa.

que a lembrança soma a continuidade da guerra à oferta da liberdade em troca do alistamento no terço dos Henriques.) antes aqueles negros se aumentam que diminuem". pp. dever-se-ia instalar na região duas povoações para que servissem de base para as operações. Depois de uma breve descrição do modo como viviam os habitantes dos mocambos e dos danos que faziam às "fazendas.280-282 (na ed. na escola da nossa doutrina e no amparo da nossa assistência. B. Em segundo lugar. o interesse no trecho decorre das análises que suscitou na historiografia. 178 (ed. Uma vez que fossem desalojados. Nova Lusitania. Sugere a distribuição dos prisioneiros entre os soldados. Deve-se notar. o que lhe parecia ser melhor do que persegui-los pelos campos. "apesar das diligências (. andarem livres". não poderia incluir acontecimentos de seu governo. ela revela o trabalho da memória.. Não deixa de ser interessante. bem como recomenda que suas lavouras sejam destruídas.99 A passagem é duplamente interessante. 2001). As sugestões de Brito Freire são mencionadas por vários autores. ao referir-se ao procedimento que adotou com os Tapuias. discorre sobre alguns meios para reduzi-los. Suas considerações partem do fato de que. aos olhos dos mesmos senhores.. em geral para marcar a existência dos Palmares desde as décadas iniciais do século XVII ou para mostrar que as formas alternativas à guerra estavam destinadas ao fracasso.44 Ao tratar das calamidades que afligiam os moradores da capitania no início dos anos 30 do século XVII. também. E sem nenhum receio de tornarem a ser cativos. que faça a inclusão dos Palmares em sua história e mencione seu próprio nome na passagem. viverem livres na forma de todos os outros negros seus parentes alistados no terço de Henrique Dias. ele menciona os holandeses. a fim de que as campanhas fossem feitas sem dar descanso aos fugitivos. que el-rei mandou livrar: e assim lhes constaria. . dando favor e liberdade a alguns dos que trazemos para persuadirem os mais que venham lograr seguramente. 1675) ou pp. Brito Freire situa o drama vivido pelos moradores com os Palmares junto a acontecimentos ocorridos em 1634. para as almas e para as vidas. Freire. contudo. Considerava ainda a possibilidade de "reduzi-los com indústria. sem qualquer referência à concessão de terras ou à liberdade para os nascidos nos mocambos. Em primeiro lugar. o fruto da sua quietação. os Tapuias e os negros dos Palmares. Ronaldo 99 F. casas e lavradores". Como seu livro trata das lutas contra os holandeses na Bahia e em Pernambuco.

Em seguida. É evidente que o embuste era possível e que a promessa de liberdade ou do alistamento militar podia ser apenas um subterfúgio. esse era um recurso que enfraquecia os quilombos e facilitava a repressão. Liberdade por um Fio. a autonomia das povoações negras".100 De todo o modo. O terço dos Henriques constituía um exemplo bem sucedido de colaboração. Companhia das Letras. apesar de diversos. havia muitos interesses em jogo. S. dependia dos custos financeiros e políticos implicados nas alternativas . decidir segundo sua própria avaliação e manter o acordado.45 Vainfas.). os planos e as estratégias quase sempre redundavam em fracasso.101 Talvez se possa avaliar a questão com maior nuance ao ponderar seus aspectos políticos. "Deus contra Palmares". p. pois a concessão da alforria podia significar a suspensão dos ataques. "Deus contra Palmares. em primeiro lugar. 101 Ronaldo Vainfas. Como se pode verificar nos episódios descritos acima.que não necessariamente eram excludentes. 1996. Paulo. por uma forma diferenciada de qualificá-los (se escravos fugitivos ou negros levantados). ao menos pro tempore. pp.pelo menos enquanto o novo soldado cumprisse as novas funções. A experiência vinha mostrando que. 65. era uma empresa custosa que sobrecarregava os moradores. como vimos. . A avaliação das medidas a serem adotadas contra os mocambos passava.) a revelar a hesitação e medos dos agentes do colonialismo lusitano".. ao comentar essa proposta de Brito Freire. A guerra. observa que "havia algo de estratégico nesse aparente recuo senhorial em face da rebeldia negra organizada". Representações senhoriais e idéias jesuíticas" in: João José Reis e Flávio dos Santos Gomes (org.. os tratados seriam "um meio de obter a alforria para os amotinados e garantir. para esse autor. Assim. Mesmo quando as autoridades e senhores de 100 Ronaldo Vainfas.implicava o reconhecimento do outro como um oponente político: capaz de ponderar propostas. por exemplo. 62-65. Para os quilombolas. e a devolução dos fugitivos quebrava o nexo entre os mocambos e os escravos das fazendas e engenhos. tais propostas constituíam um "paradoxo incrível (. e parecia implicar custos menores . Em terceiro lugar. enquanto se obtinha uma trégua. A possibilidade de qualquer ajuste individual ou coletivo . envolvia um debate sobre o destino dos prisioneiros feitos na guerra ou dos negros com os quais se fizesse alguma negociação.

e oferecê-la de modo coletivo. em troca de colaboração. a liberdade vinha ainda acompanhada pela concessão de terras. Tratava-se de reduzir negros levantados à obediência . No caso das propostas feitas pelo marquês de Montalvão e por Brito Freire. da dissimulação ou da recusa completa. Outra parte estava no reconhecimento de diferenças entre as mulheres e os homens. O costume de dar as "crias" para os governadores significa a quebra do princípio escravista de que os filhos seguiam a condição da mãe . mesmo que não para todos os levantados.já que.talvez não àquela de seus senhores. Tudo indica que não havia concordância entre os moradores das vilas vizinhas e as autoridades coloniais quanto a medidas importantes. e entre os que haviam sido escravos e os nascidos fora do domínio senhorial. nascidos de escravas. é preciso levar em conta a grande diferença entre conceder a alforria a um indivíduo. por meio de um acordo de paz. com a degola .46 engenho conseguiam destruir um mocambo ou prender alguns ou muitos fugitivos. as reações podiam ser as mais diversas . ao terço dos Henriques ou aos paulistas e a outros sertanistas experientes? As divergências entre os governadores. Pelo visto. os que fugiam por vontade própria e os que eram obrigados a ir para os mocambos. acabavam por ganhar um (novo) senhor. O que fazer com os prisioneiros? Deviam ser vendidos para fora da capitania ou dados como prêmio aos que lutassem contra os mocambos? Podiam ser usados para pagar parte dos custos das operações militares ou sua tomadia devia ser paga pelos senhores? Parte do dilema residia na necessidade de ponderar o interesse dos senhores dos fugitivos e o da segurança geral da capitania. Quem deveria arcar com as despesas das incursões repressivas? Quais as melhores estratégias? Para compor a tropa se devia recorrer aos índios. a região onde estavam instalados era inóspita. mas a das autoridades coloniais. a equação é bastante complexa. Como se vê. Finalmente. Além de contarem com aliados.da aceitação parcial. que os avisavam das expedições. Até agora temos analisado sobretudo o lado dos que lutavam contra os mocambos. a resistência dos negros dos Palmares parecia ser invencível. as dificuldades em recrutar soldados enormes e os custos das expedições imensos. as câmaras e os senhores de engenho atrasavam as expedições e ajudavam a boicotar os resultados esperados. libertas ou livres. elas significariam a continuidade dos mocambos. Se aceitas e implementadas. como havia explicitado Montalvão.

é importante saber mais sobre os termos ajustados em 1678. Estavam presentes dom Pedro de Almeida. 84 . 328.102 Mais uma vez. p. além dos membros da comitiva vinda de Palmares. entrega das mulheres e local" que é discutido e aceito pelo Conselho. p. 103 Edison Carneiro detalha um pouco mais as negociações em torno dos termos da paz. embora a fonte seja a mesma. no entanto. Rodrigues. Em Nina Rodrigues. o episódio serve para reafirmar o poderio dos mocambos instalados na Serra da Barriga e mostrar o quanto eram "ilusórias as esperanças do governador" de que estavam enfim destruídos. Como dom Pedro já havia sido substituído por Aires de Souza de Castro. o conselho da capitania foi reunido. para discutir a resposta que os quilombolas traziam de Palmares.47 exemplar dos que tivessem começado a negociar. 3. realizadas em reunião do Conselho da capitania. o modo de expor e interpretar os acontecimentos varia entre os autores. na narrativa construída por esse autor. ela foi enviada ao novo governador. Homens de palavra Todos os autores que tratam com um pouco mais de detalhe das negociações utilizam-se da crônica de 1678 para narrar a entrada no Recife. N. a descrição da embaixada ganha destaque. de uma embaixada palmarina. Depois das cerimônias de recepção e das homenagens. Aires de Souza de Castro. é o "pedido" de Gangazumba por "liberdade. Assim. Aqui. o ouvidor geral. em meados de junho. porém. convocada especialmente para cuidar do assunto. o provedor da Fazenda e os oficiais militares que haviam liderado as expedições. Antes de seguir essa trilha. Os africanos no Brasil. paz. Nina Rodrigues conclui: "não se comportaria assim um governo forte com agrupamentos fortuitos de negros fugidos que se devem reduzir à obediência". que terminou por 102 103 "Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco". Depois de observar o "curioso contraste" entre esses acontecimentos e o esforço para afirmar a destruição de Palmares. pois não apenas era mostra evidente da "influência africana e da independência e constituição bárbara ou selvagem em que vivia Palmares" como também da "real importância do Estado negro com o qual a colônia tratava agora como de nação a nação celebrando tratados de paz".

M. O primeiro. 249-251. Tendo em vista a importância desse documento. sobre "o sossego a tanto custo conseguido". Alves Filho.105 Ao invés de aprofundar o debate nos termos em que está colocado. contudo. fiou-se nas informações do capitão Carrilho e acabou sendo "complacente com a embaixada de Gangazumba e prometeu fazer a paz nas bases pedidas". Carneiro. M. Gomes. p. sua análise será feita com vagar e paciência na interpretação de detalhes. Freitas. Mesmo assim. Palmares. Freitas. M. S. nos "círculos oficiais".106 Como M. Reino negro de Palmares. 106 M. como prometer a paz e ao mesmo tempo incentivar voluntários a atacar o quilombo com a promessa de isenção do pagamento do quinto. a bibliografia pouco se demorou sobre os termos ajustados na ocasião. Décio Freitas. p. Freitas. O quilombo dos Palmares. pp.48 apoiar a proposta do governador de dar aos palmarinos as terras que escolhessem para habitar e plantar. e F. pp. havia proposto a paz como um dos atos finais de seu governo. Memorial dos Palmares. mas estabelece uma diferença entre dom Pedro de Almeida e Aires de Souza de Castro. 131. 251-252. Castro. prefiro buscar a via alternativa da leitura das fontes disponíveis. confiante na destruição dos Palmares e sedento de glória. D. por sua vez. Apenas alguns dos autores lhe deram mais atenção: Mário Martins Freitas.104 Mário Martins Freitas segue na mesma direção. são as dúvidas. Ivan Alves Filho e Flávio Gomes. um receio. a solenidade da reunião do conselho e da recepção à embaixada pareciam-lhe ser "um concerto de potência a potência". 118. confirmado pelos termos benevolentes acertados com os negros. Como já observei. "ignorando a situação política e a organização do reino negro dos Palmares". . 90-91. Reino negro de Palmares. assim como permitira a isenção do quinto para os voluntários que capturassem os negros que continuavam espalhados pelos matos. 109-110. pp. as negociações não eliminam atitudes conflitantes. Palmares. Freitas e Décio Freitas citam um pequeno trecho entre aspas. que "mais parecem ditados pelos palmarinos". I. O ponto que mais chama sua atenção. M. Para esse autor. é possível verificar que a fonte utilizada por eles foi a crônica publicada pela Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro em 104 105 E. pp. Nesse caso. o "papel" que resultou da reunião entre os enviados de Palmares e as autoridades da capitania de Pernambuco é o principal documento. de libertar os nascidos em Palmares e lhes facultar comércio e trato com os moradores. segundo ele.

251-252. e daria guias para as nossas armas o desbaratarem"). e quando algum por rebelde repugnasse a sua e nossa obediência ele o conquistaria. 6) que lograriam os foros de vassalos de el-rei e que ficariam obedientes às ordens do governador da capitania. p. Reino negro de Palmares. é difícil saber a fonte utilizada por ele. O trecho citado ("quando algum por rebelde repugnasse a sua e nossa obediência ele o conquistaria. porém. p. Os dois trechos citados por esse autor ("conduzir alguns contrários. 3) que seriam livres os negros nascidos nos Palmares. conforme propunha Gangazumba. D. 328. Memorial dos Palmares. Alves Filho. 4) que fossem restituídos pelo rei todos os escravos fugidos das fazendas e engenhos. Apesar da convergência de fontes. e daria guias para as nossas armas o desbaratarem") está em "Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco". Para Mário M. resumida assim: "1) que se lhes desse o sítio que eles designassem ou escolhessem para suas habitações e plantas. Estranhamente. 252.108 também se apóia na publicação de 1859 ao resumir as determinações do acordo. com a ressalva que ali se lê "corsários" e não "contrários". ao resumir as cláusulas do acordo. p. seus cabos maiores". o modo como cada um desses autores se refere às condições da paz ajustada entre os embaixadores de Palmares e o conselho reunido em 22 de junho de 1678 é bem diferente. 109 M. também estão na "Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco". Freitas. 328. 110.109 Décio Freitas registra que dom Pedro de Almeida defendeu "a conveniência das pazes com os palmarinos" e propôs um acordo "nas seguintes bases: 1) liberdade para os nascidos nos Palmares. Freitas.116) da "Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco". 7) que o rei negro seria nomeado mestre-de-campo de toda a sua gente e responsável pela ordem entre os negros. ele referencia. . na nota 57 (p. Palmares. p.49 1859. Como não há qualquer anotação ou citação nessa passagem do livro de Flávio Gomes. de Freitas. M. 5) que teriam comércio e trato com os brancos. 2) concessão de terras para viverem e cultivarem. Reino negro de Palmares. que viviam distantes das suas cidades" e "conduziria a todos ao nosso domínio. Freitas. que indica ter consultado a cópia existente no Arquivo Histórico Ultramarino. 91. pp. M. p. 3) garantia de comércio e relações com os moradores circunvizinhos.107 Ivan Alves Filho. 108 I. 2) que a esse sítio se recolhessem no prazo de três meses. 4) gozo do foro de vassalos da 107 M. o conselho discutiu "a paz pedida" por Gangazumba e aceitou a proposta do governador. 8) que seriam restituídas as mulheres do rei e dos demais potentados.

as condições e termos são um pouco diferentes: "os palmaristas concordaram com um tratado de paz. É de se perguntar se entregar os fugitivos poderia significar outra coisa diferente do que serem eles "novamente escravizados". incluindo o compromisso de Gangazumba de "entregar todos os escravos que destas capitanias haviam fugido para esses Palmares". comerciantes e vendeiros da região..Freitas. os palmarinos seriam considerados doravante vassalos do rei de Portugal. torna-se uma determinação a ser imediatamente cumprida em Flávio Gomes. Alves Filho. 131."112 É notável a diferença entre os autores. p. os "nascidos fora de Palmares" ou "os novos cativos que fugissem para os Palmares" que devem ser "restituídos". 90. O resumo oferecido por M. M. as terras nas quais os palmaristas iriam viver seriam agora demarcadas pela Coroa. considerando que a autonomia de Palmares fosse respeitada. depois de indicar o arquivo que guarda o original.50 Coroa". A restituição dos fugitivos. Mesmo que fiquemos com as cinco cláusulas que todos enfatizam. p. ficando "implícito que os negros nascidos fora de Palmares seriam reduzidos ao cativeiro". "reduzidos ao cativeiro".121. colocando as seguintes condições: a liberdade dos negros nascidos em Palmares seria respeitada. liberdade de comércio entre os palmarino e os moradores das vilas e vilarejos coloniais. I. os palmaristas poderiam continuar mantendo trocas mercantis com taberneiros. liberdade para todas as pessoas nascidas em palmares."111 Para Flávio Gomes. I. p. a variação é grande. Palmares. O referido governador aceitou inicialmente. 112 F. 90. S. na página seguinte. Gomes. palmaristas passariam à condição de vassalos do rei. Estranhamente. a partir da assinatura daquele tratado. Alves Filho. Palmares. cita alguns de seus trechos. . novos cativos que fugissem para Palmares deveriam ser imediatamente devolvidos para as autoridades coloniais e seus respectivos proprietários. Divergem quanto a quem propõe ou aceita as condições e quanto ao que ficou acertado nas negociações. Também não há consenso sobre o teor dessa cláusula: são "os escravos fugidos das fazendas e engenhos". O acordo deixava implícito que os palmarinos nascidos fora de Palmares seriam novamente escravizados.. Memorial dos Palmares. que aparece como uma cláusula implícita em Décio Freitas e Ivan Alves Filho. que guardam maior proximidade entre si. 110 111 D. p. Freitas é sem dúvida mais completo do que o apresentado pelos outros três. 110 Mais uma vez. Ivan Alves Filho segue de perto a análise de Décio Freitas e resume as cláusulas do seguinte modo: "concessão de terras aos palmarinos em local em que pudessem viver e plantar.

Isso acontecia 113 Os documentos vão reproduzidos na íntegra nos anexos 5 e 1.113 Qual delas escolher? O texto varia pouco nas duas cópias. Era prática comum nas secretarias desse período produzir uma ou mais cópias dos documentos. para explicar o significado de certos termos como. a bem dizer. que nenhum deles tenha ido além do resumo. que eram assinadas pelas autoridades simultaneamente. Além disso. para depois serem remetidas a seus destinos. É surpreendente. que se encontra no Arquivo Histórico Ultramarino. As diferenças apontadas aqui não são de pequena monta: dizem respeito a compreensões díspares sobre os sujeitos responsáveis pelas ações a serem executadas. a consulta às fontes é um bom procedimento. Nesse caso. temos dois originais: a cópia que foi anexada à carta enviada por Aires de Souza de Castro ao príncipe em 22 de junho de 1678. ou apenas com "taverneiros. ganhar a condição de livre. também. As divergências não parecem estar baseadas em informações retiradas de fontes diversas. como se pode ver pela tabela comparativa que compõe o anexo 6. mas na interpretação elaborada pelos autores. Para dar conta de dirimir dúvidas e questões. O comércio . ou simplesmente continuar."com os brancos" para um autor. ter foro ou ser vassalo da Coroa ou do rei (que. porém. respectivamente.pode ser uma prática que passará a existir. sendo feita ora pelo pessoal de Gangazumba. a essa altura era príncipe regente). ora sendo "demarcada" pela Coroa. . por exemplo. menos em dois casos: a menção ao batismo dos filhos de Gangazumba que compunham a embaixada e o prazo de trinta dias para a resposta ambas presentes apenas no manuscrito do Arquivo Histórico Ultramarino. sobre a amplitude das decisões tomadas e sobre quem ou o quê elas incidem. A maior parte das diferenças pode com facilidade ser tributada à atenção dos copistas. e aquela que foi registrada nos livros da secretaria do governo de Pernambuco e copiada no códice guardado no Arquivo da Universidade de Coimbra. comerciantes e vendeiros da região" .51 "novamente escravizados" ou "devolvidos para as autoridades coloniais e seus respectivos proprietários"? A escolha do lugar onde os habitantes de Palmares iriam se estabelecer também varia. esse documento foi assinado pelo governador. com os "moradores das vilas e vilarejos coloniais" para outro.

11.não de um acordo.114 Por meio do “papel”. AHU_ACL_CU_015. o governador remete a Gangazumba "o bem da liberdade e perdão" por viver ele "há tantos anos fora da [sua] obediência". assinado. É o caso do manuscrito que pertence à coleção Conde dos Arcos. Vejamos o que ele diz. ao invés de discriminar quais seriam elas. assim como interesses e 114 Carta de Aires de Souza de Castro de 22 de junho 1678. O registro da correspondência enviada e recebida era feito em livros específicos. como se pode verificar na documentação guardada no Arquivo Histórico Ultramarino. Não são assinados quando muito. Esse fato talvez explique a ausência da menção ao prazo para a decisão de Gangazumba e a implementação do acordo: acrescentada posteriormente. por ser um manuscrito avulso. Em primeiro lugar.lembrando ainda que. ficando fora do livro da secretaria. Aires de Souza de Castro menciona em sua carta ter feito uma "proposta" que foi levada pelos "negros". trata-se de um "papel" . Pode também indicar que o próprio registro foi feito ao mesmo tempo em que o acordo foi redigido: o escrivão produziu as cópias. 1116. o texto continua testando o compromisso assumido entre as partes. e por conta das observações feitas acima. Cx. D. estamos diante de uma cópia da cópia registrada no livro da secretaria de governo da capitania. Todavia. ao final do texto. . indicando o nome de quem assina. que contrapõem a dúvida à firmeza e segurança. Assim.52 com certa freqüência nas comunicações entre os governantes coloniais e a metrópole. O texto é claro: é a falta de obediência ao príncipe que é perdoada e o envio dos "filhos e família" é considerado sinal de submissão suficiente para criar condições para que o governador pudesse fazer concessões e promessas. a cláusula não consta do registro. nesse caso. ou a existência de rubricas. registrou-as antes das assinaturas e a cláusula extra foi acrescentada em seguida. em geral diferentes. o manuscrito que está em Lisboa deve ter sido produzido ao mesmo tempo que aquele enviado a Palmares. em nome do príncipe regente. que permaneciam nos arquivos das secretarias. que não menciona qualquer assinatura . tratado ou outra coisa. o documento que tomarei aqui como base para a análise é o que se encontra guardado em Lisboa. mencionam a assinatura. De qualquer modo. O trecho é interessante sobretudo pelas palavras empregadas. depois da fórmula tradicional de despedida e datação.

6) é concedida "alforria" para os que forem "nascidos" nos Palmares. Só depois desse intróito.. Ver anexo 5. 7) os "filhos e mulheres que (. 8) é dada alforria ao negro Amaro ("cativo") e a João Mulato. é que os pontos prometidos são enunciados: 1) todos os "negros" dos Palmares e seus "potentados" estão incluídos na paz ajustada. 11. 5) os moradores de Cucaú poderão plantar seus frutos e ter "os mesmos lucros que têm os mais vassalos" do príncipe português sem serem obrigados "por força a nenhum trabalho particular salvo se for para o serviço do dito senhor". Cx. que foram batizados. E termina com uma ameaça: se no "tempo assinalado" o que foi oferecido não for cumprido. para que possam morar e fazer "suas aldeias". 3) todos os "negros" das capitanias que haviam fugido para Palmares serão "entregues". anexo à carta de Aires de Souza de Castro de 22 de junho de 1678.115 Bem contadas e discriminadas. Não vou insistir na diferença entre o que se lê no "papel" e nos livros dos autores citados acima. com a afirmação de que o envio dos dois soldados é testemunho da "estimação" feita à "gente preta que obra debaixo da obediência" do governo. AHU_ACL_CU_015. Doc. O ritmo é quebrado com a menção ao envio de padres para o ensino da doutrina cristã e há um acréscimo final que estipula um prazo de trinta dias para a decisão e outros trinta para a execução do que foi acertado. onde se encontra também o que vai dito na crônica publicada pela Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro em 115 Cópia do papel que levaram os negros dos Palmares. 4) o "sítio [ou "paragem"] a que chamam Cucaú" será concedida por mercê. e da promessa de honras iguais às feitas aos filhos. haverá guerra: as tropas já estão juntas e tinham poder suficiente para derrotá-los "de todo"..53 utilidades à luz divina e à salvação.) estavam cativos" e iam ser despachados para o Reino serão restituídos. para que se mande fazer a guerra contra eles. 9) o governador será avisado se houver quem não queira se submeter à "obediência". 2) os que não quiserem seguir a paz acordada serão "obrigados" a isso. . temos aí doze condições claramente enunciadas. Remeto o leitor para o anexo 7. A continuação segue o espírito das frases iniciais. D. 1116.

fac-simile. As promessas do lado dos palmarinos dizem respeito a fazer a paz e a obedecer ao governador de Pernambuco. verbete "vassalo". CD-Rom. suas palavras e determinações.o único a não ser obediente a ninguém.118 embora algumas vezes "vassalo" possa ser entendido mais como um título honorífico. Em torno dos fundamentos católicos do sistema político do antigo regime". Freitas observou que a reunião de negociação mais parecia "um concerto de potência a potência". Vocabulário. se não costumava ser vassalo senão filho ou neto ou bisneto de fidalgo de linhagem". que pressupõe uma solidariedade que caminha verticalmente em direção ao soberano.54 1859. Collegio das Artes da Companhia de Jesus. Vocabulário portuguez e latino. UERJ.além de alguns indivíduos específicos. verbete "obediência".). salvo a Deus. associando as noções de fidelidade e vassalagem. 119 Segundo o Vocabulário de Bluteau. princípios laicos e religiosos. (Ed. M.. O príncipe de Portugal passa assim a ser o senhor de todos ("meu e vosso senhor") . e por meio dele ao príncipe. Bluteau.. como bem observou Pedro Cardim. A obediência. para quem quiser empreender uma comparação mais detalhada entre os vários textos.. O governador negocia em nome do príncipe. em Pernambuco há o governador. 118 Tal pressuposto envolvia. que age em nome do príncipe de Portugal. R. 251. Rio de Janeiro. 1712. "Religião e ordem social. não é questionado nem limitado por qualquer palavra no documento. Raphael Bluteau. Memorial dos Palmares. p. e tão honorífico (. aplicado apenas aos fidalgos de linhagem.d. . s. tal como entendida nesse período.117 cria nesse caso uma cadeia hierárquica que liga Gangazumba ao governador e este ao príncipe . como indica o Vocabulário de Bluteau. Esse ordenamento. assim como os filhos de Gangazumba falam em seu nome. É mais interessante investigar o próprio texto. essa "virtude que inclina a executar os mandados do superior e sujeita a vontade de um homem à de outro". faz parte da concepção de vassalagem. Coimbra. As cláusulas reconhecem a existência de hierarquias nos lados em negociação: em Palmares há Gangazumba e sua família. necessariamente. Revista de História das Idéias. já que Gangazumba. por meio dos filhos embaixadores. os nascidos em Palmares e os negros da capitania que haviam fugido . os potentados. aliás.) que (. Mário M. na época de dom Pedro era apenas um "título.119 116 117 M. Freitas. Este.mas isso não elimina a hierarquia palmarina..116 O modo como aquele papel foi escrito me leva a concordar com a hipótese. 22 (2001): 133-174. assume o compromisso em nome de todos os que estão sob seu poder.

Bluteau. em sentido mais amplo. em 1666. R. O verbo escolhido pode ser mais uma indicação de mundos separados: o papel segue de Pernambuco para Palmares . Remete-se.). Para ser obedecido por seus vassalos. . cap. ao direito natural e às regras tradicionais.o que pode significar que. como o "estado natural no qual tem o homem todos os movimentos da sua vontade independentes e livres" . a alguém". mas remetida. "O império em apuros. Como bem observou Luciano Figueiredo. terminaram com a deposição das autoridades locais . apesar de ter saído do domínio do príncipe português. Ela está diretamente associada ao perdão . "o Xumbergas". a liberdade não é devolvida. Ver. 2001. verbetes "remeter"e "remessa". assim "um papel. Esses "levantamentos". a respeito. o soberano português evitou a repressão violenta para negociar com seus súditos. mas é explicitada na carta enviada por Aires de Souza de Castro ao príncipe português em junho de 1678. vice-rei ou capitão general. que 120 Remeter é "mandar uma coisa de um lugar para outro". Dentre os principais atributos do soberano estavam a justiça. Ásia e América. uma carta ou outra.120 Ou seja: a obediência ao príncipe português é acompanhada pelo reconhecimento da liberdade de Gangazumba. com sobrescrito. Faz parte desse contexto a deposição do governador de Pernambuco. aqui. A fronda dos mazombos. questionando as autoridades locais. esses levantamentos não visavam colocar em cheque o poder do soberano. Belo Horizonte. Por isso. Por isso. pelo perdão . Minas Gerais e as novas abordagens para uma história do império ultramarino português. na maior parte das vezes. o rei ou seus delegados tinham que governar com justiça e respeitar os usos e costumes locais. em condições de exigir obediência a seu novo "vassalo". 197-254. nem concedida. o príncipe reafirmava suas qualidades como bom governante.primeira definição do termo no Vocabulário de Bluteau. a capacidade de garantir fortuna e segurança aos súditos. Jerônimo de Mendonça Furtado.55 Ao remeter a Gangazumba o "bem da liberdade e perdão" de sua desobediência. segundo Bluteau. na maior parte dos casos. buscando restabelecer o equilíbrio perdido. Ed. Luciano Raposo de Almeida Figueiredo. Aires de Souza de Castro pode ter empregado a palavra liberdade. Mello. conjuras de fidalgos. C. 121 No período da Restauração ocorreram diversos motins de soldados. e o respeito aos usos e costumes. Vocabulário. 1. pp. não será julgado ou obrigado a alguma pena pela desobediência cometida. Diálogos oceânicos. mas operavam nos termos da concepção monárquica restauradora. no período conhecido como da Restauração. Ao perdoar Gangazumba.duas jurisdições separadas. rebeliões antifiscais e anti-jesuíticas na Índia.121 Essa concepção está subjacente ao texto ajustado no Recife. séculos XVII e XVIII" in: Júnia Ferreira Furtado (org. Obediência e perdão eram elementos fundamentais da concepção monárquica durante a segunda metade do século XVII.e lhe confere um lugar numa hierarquia de poderes. O episódio do Xumbergas é longamente analisado por E.do governador. UFMG. Notas para o estudo das alterações ultramarinas e das práticas políticas no império colonial português.

Tanto a crônica de 1678 122 Carta de Aires de Souza de Castro de 22 de junho de 1678. já que podem praticar as duas línguas. "soldados mui honrados e mui antigos". bem como o reconhecimento da autoridade delegada de seus filhos corroboram essa diferença. como se fosse continuar a expor suas determinações. fornecendo os atributos para que pudessem servir como embaixadores entre as duas partes que negociam. De modo diverso da tentativa havida durante o governo de Brito Freire. mas promessas e concessões. AHU_ACL_CU_015.e com isso.mais um dado a corroborar a hipótese do reconhecimento de um acerto entre autoridades com requisitos e características equivalentes. Nela o governador se refere aos filhos do "levantado a que chamam rei desses Palmares" que queriam ser seus "obedientes vassalos". idade e experiência os distinguem. A separação entre o escrito e o verbal é marcada e acentuada também pela diferença da língua falada pelos negociadores . 1116. 11. 1118. no último se trata de elidir a palavra. . indiretamente.56 acompanhou o "papel" que está sendo analisado. assim. Nesse caso. 11.o sargento-mor e o capitão de infantaria. D. São eles que levam o texto e a capacidade de explicá-lo. entre as cartas que seguem para Portugal e o papel que segue para Palmares. mas soldados. Não explicita reuniões ou decisões conjuntas.122 Há. O texto que selou o ajuste foi escrito como um documento que emana do governo de Pernambuco: começa com a fórmula tradicional da identificação da autoridade delegada a Aires de Souza de Castro. É um papel escrito para ser explicado por intermediários qualificados . que aparece bastante atenuada nas cartas das autoridades pernambucanas. e Carta de João do Rego Barros de 22 de junho de 1678. preferindo-se salientar a obediência . Cx. D. não eram padres a servir de embaixadores. uma pequena nuance: enquanto nas primeiras se afirma uma submissão que coloca Palmares em pé de igualdade com outros súditos da monarquia portuguesa. O mesmo termo aparece na carta enviada pelo provedor da Fazenda de Pernambuco ao príncipe. AHU_ACL_CU_015. O tratamento na segunda pessoa do plural. reconhecer o respeito à autoridade de Gangazumba sobre os palmarinos. honra. Cx. em 1761. escrita na mesma data. oferecimentos e pedidos. que registra que os negros "disseram que o seu rei e eles se queriam avassalar e viver debaixo da proteção" do monarca português.

Se a embaixada composta por seus filhos foi enviada por Gangazumba para pedir a paz ou aceitar a oferta feita pelos enviados do governador é difícil saber. transmitindo-lhe as suas razões. fl. 124 Não consegui encontrar ainda o original desse documento. 344. doc. Ivan Alves Filho. Memorial dos Palmares. AUC. De todo modo. um capitão e o sargento-mor. fl. que usaram mediadores abalizados para transmiti-las tanto por escrito como verbalmente. Pernambuco. o capitão pode muito bem ter puxado para si todo o mérito das tratativas . datado de 9 de fevereiro de 1682. 37 e fl. nota 60 o referencia como estando no AHU. para o que mandou três filhos seus e dois genros e outros mais em companhia do dito capitão a efetuar essa paz com o governador". CCA.57 quanto outras fontes indicam com nitidez terem sido oficiais do terço dos Henriques.123 Outro documento indica que pode ter havido também a participação de companhia paga. Convenceu-o que queria fazer paz com os brancos. caixa 8. p.ou ainda pode ter sido escrito em outra situação. Como já observei.124 Como se trata de um depoimento posterior. apalavrados e por escrito. o texto constitui um passo das negociações. os embaixadores assumiram poucos mas importantes compromissos: fazer com que todos os habitantes dos Palmares seguissem os termos acordados e entregar os fugitivos que 123 Ordens de Aires de Souza de Castro de 20 e 21 de junho de 1678. pois anos depois se registra que: "Andou o capitão Antonio Pinto Ribeiro descobrindo umas terras por cima dos Palmares onde estão os negros levantados assistindo e deu o dito capitão com um caminho que foi seguindo debaixo de todo risco de sua pessoa por ir só sem mais companhia e deu com os ditos negros levantados propondo-lhes suas razões bastantes para que fizesse quietação e não molestassem os brancos e fizessem pazes.2. cuja finalidade era atestar serviços prestados. 38. doc. O capitão deve ter sido Estevão Gonçalves. o que importa observar é que o papel registra a palavra de duas autoridades. Vindos em paz e escoltados por soldados. que foi pago por ter ajudado a trazer os "onze negros dos Palmares que vieram a tratar do ajuste da paz". entre autoridades que se reconhecem com competências equivalentes e capazes de honrar os compromissos assumidos. E os ditos negros o levaram onde estava o principal que os governa por nome Gangazumba. Estabelece obrigações mútuas. 344. 116. por eles e seus embaixadores. não sua forma final. As cláusulas negociadas distribuem-se desigualmente entre ações sob responsabilidade do governo de Pernambuco e de Palmares. IV. . 3ª-I-1-31.

a obediência geral dependia da autoridade de Gangazumba sobre seus potentados . por outro lado. essa possibilidade aparece desde que os habitantes dos mocambos sejam considerados "negros levantados" e não simples "escravos fugidos".e ele poderia contar com o auxílio externo militar para que fossem obrigados a se submeter. o reconhecimento da autoridade de Gangazumba estava limitada pela existência de outros poderes. Como já havia observado. Gomes (org. Do lado do governo de Pernambuco. "Violência e práticas culturais no cotidiano de uma expedição contra quilombolas.seria o elemento capaz de levá-lo. pp. bem como a promessa de honrarias a Gangazumba e o envio de padres para que pudessem ingressar no mundo cristão e nele permanecer. em 1640. as terras foram concedidas a Gangazumba para atender a um seu pedido. Reis e F. é fácil perceber as ambigüidades que contêm. No contexto do papel que examinamos aqui. 1769" in: J. a alforria para os nascidos em Palmares e para Amaro e João (o que sugere não serem eles ali nascidos). como na proposta aventada pelo marquês de Montalvão diante dos mocambos na Bahia. segundo Aires de Souza de Castro. A concessão de terras é prática comum no relacionamento entre governantes e subalternos. aqui. O perigo do aniquilamento . embora para período posterior.). porém. Quando olhadas em conjunto. . A ela 125 Para uma análise desses procedimentos. 193-212.58 tinham ido para Palmares.a ameaça de uma guerra capaz de derrotá-lo "de todo" . a restituição dos filhos e mulheres que haviam sido cativados. e nas tentativas de Francisco de Brito Freire de negociar com os potentados dos Palmares. ver Laura de Mello e Souza. Liberdade por um Fio. O texto indica que as terras de Cucaú foram cedidas a pedido dos palmarinos. J. parecem ter brotado da autoridade do governador. estão a concessão das terras em Cucaú. No primeiro caso. A concessão de terras já havia aparecido em ocasiões semelhantes. em 1661. resguardava a de Gangazumba sobre os nascidos em Palmares. A entrega dos fugitivos legitimava a autoridade dos senhores de escravos de Pernambuco e das capitanias anexas. a cumprir a paz ajustada. Mais uma vez. S. o reconhecimento de que seus moradores terão liberdade para plantar e ter os mesmos lucros que os demais vassalos de Portugal. As outras determinações. Minas Gerais. como uma deferência especial.125 Não se trata evidentemente do caso. como recompensa por serviços prestados.

como "moradores". verbete "Principal". Nela. 2000. Colonização e relações de poder no norte do Brasil na segunda metade do século XVIII. Negros da terra. ainda que se possa considerar que os palmarinos descessem das serras para Cucaú. Não morariam em vilas. "Principal" era o termo usual para designar os chefes das aldeias indígenas . Os povos indígenas no Rio Branco e a colonização. Índios e bandeirantes nas origens de São Paulo.128 Para os 126 127 R. Vocabulário.1 (1978): 16- . para esclarecer os significados desse termo. cap. "Iberian expansion and the issue of black slavery: changing Portuguese attitudes. 1.59 estavam relacionados outros aspectos. 1994. Quando os índios eram vassalos.127 Assim. Nádia Farage. caps. Companhia das Letras.a ponto de a palavra aparecer no Vocabulário de Raphael Bluteau como "o título que se dá no Brasil ao gentio mais estimado da aldeia e que a governa como capitão dela". A conversão não impedia o processo de escravização dos africanos. 1 e 2. The American Historical Review. Ângela Domingues. CNCDP. o verbo "descer" é uma expressão diretamente relacionada aos grandes deslocamentos populacionais decorrentes da política indigenista portuguesa. como a possibilidade de estabelecer ali suas "aldeias". Aires de Souza de Castro afirma que a conquista daqueles negros fora feita sem grandes despesas da Fazenda Real e que haviam sido a morte e a destruição de tanta quantidade de gente. que os obrigaram a descer abaixo e pedir pazes com o desesperado temor". R. Mais uma vez vamos recorrer à carta que encaminhou o papel a Lisboa. em junho de 1678. Lisboa. 83 n. que eram batizados antes ou durante a travessia do Atlântico. pois viveriam em "aldeias". mas também de receber "a água do batismo". porém. J. além da prisão das "mulheres e filhos dos principais. 2. Significativa também é a menção à vontade dos palmarinos não apenas de se "avassalar e viver debaixo da proteção" real. Muitos autores consideravam que a escravidão podia até mesmo ser um meio de instrução e salvação na fé cristã. o que significa que não teriam que prestar serviços para ninguém . Em Cucaú.126 As expedições que adentravam os sertões para "resgatar" os índios e forçá-los a se estabelecerem nos aldeamentos missionários eram chamadas "descimentos". Paz e Terra/Anpocs. Vide John Manuel Monteiro. serem considerados delas "moradores" e poderem cultivá-las. São Paulo. As muralhas dos sertões. nem teriam jurisdição própria. Rio de Janeiro. 1440-1770". 1991. Russell-Wood. os palmarinos deixavam de ser "levantados" que habitavam em mocambos. Os termos não são destituídos de significados políticos. cap. Ali não seriam obrigados a nenhum "trabalho particular". vide A. Bluteau. 128 Para uma visão geral das relações entre as polêmicas sobre a legitimidade do cativeiro dos índios e o dos africanos em Portugal.a não ser os devidos ao soberano.

Essa carta está apenas parcialmente legível. Octagon Books. e.115-132. Instalados de início na ermida de Santo Amaro. hóstias e outros artigos necessários. 1992. La Compagnie de Jésus et l'institution de l'esclavage au Brésil: les justifications d'ordre historique. 26-27v. "Índios livres e índios escravos: os princípios da legislação indigenista do período colonial" in: Manuela Carneiro da Cunha (org. indo ao Recife de quando em vez para abasteceram-se de vinho. criada havia poucos anos. A fronda dos mazombos. Paris. pp. 155-187.130 A identificação da ordem é reveladora. em 1662. Essa dimensão é reforçada pelo fato de serem indicados padres para ensinar-lhes a doutrina cristã. Beatriz Perrone-Moisés. 265. Neste empreendimento. a Congregação resolvera mudar-se para o Recife depois da aprovação de suas regras pelo Vaticano.131 A aliança com o governador e o impulso missionário 42. 129 Cf. D. dom Estevão Brioso de Figueiredo. com vocação claramente missionária. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco. vide Carlos Alberto de Moura Ribeiro Zeron. Ver ainda Maria do Céu Medeiros. porém. 8. Trata-se da Congregação do Oratório. 2000. fls. The Indian policy of Portugal in the Amazon region. pp. et leur intégration par une mémoire historique (XVIe-XVIIe siècles).). convertidos e vivendo sob a tutela de ordens religiosas. do mesmo autor.desde que vivessem em aldeias. a liberdade foi sempre um direito reconhecido pela legislação . 12. 1973. e também Mathias C. A conversão do gentio era o principal propósito do seu ramo pernambucano: os padres viviam entre os índios pelos sertões do rio São Francisco. do governador Aires de Souza de Castro. Para uma discussão mais detalhada da necessidade da tutela dos missionários. 131 Cf. 20 (1994): 153-181. O trato dos viventes. Companhia das Letras. Fixados em terras com jurisdição própria. Kiemen. em 1672. História dos Índios no Brasil. 3. Doutorado. São Paulo. Evaldo Cabral de Mello. com ascetismo e sob regras severas. Formação do Brasil no Atlântico sul. e de negociantes daquela praça. cap. 1614-1693. eles podiam ser incorporados ao universo colonial. "A briga dos Néris" Estudos Avançados. Cod. em Consulta de 26 de janeiro de 1680. São Paulo. Uma carta posterior de Aires de Souza de Castro permite identificar que foram enviados para Cucaú "dois padres da Recoleta de Santo Amaro".60 índios que haviam se aliado aos portugueses e haviam se convertido à fé cristã. 129 Cucaú parece ter sido apreendido sob esta chave pelas autoridades coloniais. New York. . Seu conteúdo pode ser recuperado por meio do resumo feito pelo Conselho Ultramarino. e também Luiz Felipe de Alencastro. Igreja e dominação no Brasil escravista. 1998. AHU_ACL_CU_015. Companhia das Letras/SCM. ordem reformada de origem italiana. Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales. 1144. théologique et juridique. Cx. n. 130 Carta de Aires de Souza de Castro de 8 de agosto de 1679. contara com o apoio do bispo.

o estatuto das aldeias indígenas. pode ter servido de parâmetro para as autoridades coloniais ao pensarem em Cucaú. o critério de nascimento é parte importante para a qualificação das pessoas em sociedades do Antigo Regime. Como se sabe. portanto.mesmo das que fossem fugitivas . um dos fundadores da ordem. cultura e poder na América Portuguesa. Mais uma vez. . 134 Ver. os filhos das escravas .eram escravos. aplicada a máxima escravista. mas significa especificamente "a liberdade que o senhor dá a seu cativo". Por outro lado. Silvia Hunold Lara. Por um lado. Escravidão. aqueles padres servissem de instrumento de submissão dos habitantes da aldeia de Cucaú. O ato senhorial podia incluir e excluir da mercê concedida quem o senhor quisesse: as exceções são importantes para confirmar o poder daquele que concede algo. Vocabulário. Podiam ser. a conversão não era o motor dos descimentos e nem os padres haviam sido os instrumentos das negociações. que possuem um regime de governo separado do das vilas. De todo modo. ao tratar de modo diverso gente nascida em um e outro lugar. 133 R. 2. pois exclui os que de Pernambuco haviam fugido para Palmares. Companhia das Letras. Cf. Além disso. Outro ponto importante das negociações foi a concessão da alforria.133 A doação também não é geral. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco. 265. Parte da condição de que. fl. a concessão de alforria é um ato senhorial.61 empregado na evangelização dos tapuias justificavam o fato de que. embora situadas em seus termos ou distritos. a escolha pode ter sido inspirada pela experiência anterior. e nas quais a presença dos padres é importante para legitimar uma jurisdição especial. Paulo. a respeito. cap. 29v. O termo não é genérico. verbete "alforria". foi mandado por Francisco de Brito Freire como intermediário para negociar com os negros dos mocambos no rio São Francisco.mesmo que 132 A referência a Cucaú como uma aldeia é bastante freqüente na documentação oficial. o enunciado postula uma diferença entre as terras sob jurisdição do governador de Pernambuco e as de Palmares. Fragmentos setecentistas. encontramos ambigüidades. agora. 2007. alforriados. tanto segundo as praxes do Antigo Regime quanto do domínio sobre os escravos. algo bem diferente da liberdade remetida a Gangazumba. o Parecer do Conselho Ultramarino de 8 de agosto de 1680. quando o padre João Duarte do Sacramento. Bluteau. Cod. S. no caso de Palmares.134 A diversidade de tratamento dado aos negros da capitania e aos nascidos em Palmares é mais um indício de que a autoridade de Gangazumba não é contestada.132 Decerto. entre outros. É bem provável que a alforria .

Voltaremos muitas vezes a essas determinações e seus múltiplos significados ao longo da tese . na expectativa de que Lisboa concordasse com suas decisões e atitudes.é a medida mais prudente. tinha se comprometido em relação a vários aspectos importantes. Aires de Souza de Castro. . havia uma novidade extraordinária. Pernambuco parecia ter conseguido achar um caminho para ficar livre das ameaças constantes dos quilombolas. A missiva do governador é breve. cujo costume mandava ficarem com os governadores. de muitas guerras. escreveram para Lisboa. Nas discussões sobre os destinos dos prisioneiros. AHU_ACL_CU_015. como no tempo de Montalvão e Brito Freire. Cx. em 22 de junho de 1678.135 É interessante observar ainda que o papel menciona os "nascidos em Palmares". A idéia de libertar os nascidos nos mocambos também não é nova e pode ser observada em situações análogas anteriores. como vimos.especialmente porque continuamos a focalizar o ponto de vista das autoridades coloniais. o texto contém muitas ambigüidades e pode ter sido entendido de modos bem diferentes por aqueles que estiveram envolvidos em sua produção e leitura. As partes haviam enfim chegado a um acordo.pudesse funcionar como um atrativo capaz de facilitar a fidelidade aos termos do acordo e o reconhecimento da submissão ao governo colonial. por exemplo. mas reforçada pela devolução de mulheres e parentes aprisionados pelas tropas de Carrilho . informando que 135 Como veremos mais adiante. mas vale a pena um panorama mais completo do teor dos textos. sofrimentos e dificuldades. que assumira o governo da capitania havia pouco.e com eles o desenrolar dos acontecimentos . ela aparece para indicar um tratamento diferenciado para as crianças apreendidas. Por ora. 11.62 restrita. D. Carta de Aires de Souza de Castro de 19 de julho de 1678. Era preciso avisar Lisboa o quanto antes. Depois de tentativas anteriores e muitas discussões. João do Rego Barros. era natural que quisesse enviar notícias na primeira oportunidade.palavra pertencente ao vocabulário senhorial usada para designar os filhos dos escravos. Já fiz menção a algumas passagens dessas cartas. Como se vê.136 No mesmo dia em que foi escrito o papel que registrava o ajuste resultante das negociações com os filhos de Gangazumba. 1124. ele e o provedor da Fazenda de Pernambuco. esse é o entendimento explicitado na Consulta do Conselho Ultramarino de 26 de janeiro de 1680. 136 Vide. acompanhar os outros textos que foram se juntando a esse primeiro "papel" . e não as "crias" .

Cx. A concisão do texto é largamente compensada pela remessa do próprio acordo. Considerava então que. diante dos "dois governadores". D. Nela.137 A carta de de Rego Barros é mais longa. havia feito uma proposta diante da "sua presença e dos mais oficiais e práticos desta praça". O governador prometeu aceitá-la "da parte de Sua Alteza" e mandou que viessem ajustá-la. antes que ele embarcasse de volta para Lisboa. designou-se um "sítio capaz para tratarem do meneio da sua vida. Segundo o provedor. se tudo ocorresse como o planejado. Pedro de Almeida é a figura principal. que "com tanto zelo e calor" havia conduzido aquela guerra. portanto. que havia se encarregado da "conquista e guerra dos negros levantados dos Palmares (. usando tanto de "liberais promessas" quanto da ameaça de uma "sanguinolenta guerra". entregando[-se] primeiro todos os escravos.63 havia continuado a tratar da guerra contra os Palmares e chamado Fernão Carrilho. que chegaram logo depois da posse de Aires de Souza de Castro.) com tão boa fortuna" e sem custo para a Fazenda real além da munição e que por isso merecia ser agradecido e honrado.. "obrigando-os a descer abaixo a pedir as pazes com desesperado temor". AHU_ACL_CU_015. Por isso mesmo.138 Ambas as cartas devem ter sido enviadas a Lisboa por um dos navios da frota que partia naquele ano. d. 1118. Cx. Pedro de 137 138 Carta de Aires de Souza de Castro de 22 de junho de 1678. temerosos do que se lhes havia feito e receando o que se lhe queria fazer". Como bom fidalgo. provavelmente o mesmo em que embarcou também d. . a embaixada viera para ajustar as pazes e o principal ponto do acordo era a concessão de terras em troca da devolução dos fugitivos gesto primeiro e condição para os demais. Os membros da comitiva receberam "a água do batismo" e foram ouvidos. do provedor e da câmara. quando uma comitiva de "onze negros filhos e família daquele levantado a que chamam rei destes Palmares" viera comunicar a intenção de se tornarem "obedientes vassalos de Sua Alteza. dom Pedro de Almeida. Com isso o "rei sem dilação enviou logo dois filhos seus acompanhados de oito ou nove mais daqueles negros". 11. Sob suas ordens. narrando alguns detalhes da negociação. Carta de João do Rego Barros de 22 de junho de 1678. AHU_ACL_CU_015. em anexo à missiva. D. rendia a devida homenagem a seu antecessor. muitos foram mortos ou destruídos e as "mulheres e filhos dos principais" foram presos. se conseguiria afinal "a restauração desta terra". que [para] lá tinham fugido". 11. 1116..

As coisas marchavam bem: havia "mais esperança em ter a obediência destes negros dos Palmares". que retornava a Lisboa ao final de seu mandato. Apesar de ter dado prazo de um mês para que deliberassem sobre "o conteúdo naquele papel". enquanto "os outros a que eles chamam reis ficavam ajuntando a gente. As informações foram deduzidas da correspondência aqui mencionada. o governador enviou mais notícias. 11. para com ela se recolher ao sítio que se lhe tem assinalado". Como vimos. em 23 dias "mandaram resolução de que estavam por ele e que muito a estimavam". 4. Cx. Enquanto as cartas seguem para Lisboa. É certo que muitos dos documentos citados também foram consultados e referenciados pelos historiadores. por um navio que arribou em Pernambuco vindo da Paraíba "com a causa de fazer alguma água". mas eles sempre preferiram tomar por base a crônica escrita em 1678. de modo prioritário. pois imaginava poder voltar logo para Lisboa. Muitos construíram suas interpretações quase que exclusivamente a partir desse texto.64 Almeida. vejamos o que aconteceu com dom Pedro de Almeida. AHU_ACL_CU_015. Como vimos. estas não são as fontes mais utilizadas pela bibliografia para analisar a maior parte desses eventos. lei e rei Temos seguido até aqui. . As pessoas enviadas a Palmares haviam retornado em companhia de 16 negros. Enviou uma carta em fevereiro de 1678 com a boa nova da vitória 139 Infelizmente não tenho dados precisos sobre a data da partida da frota nem dos navios que a compunham nesse ano. "depois de haver partido a frota".140 Os acontecimentos pareciam se precipitar e as informações precisavam chegar depressa a Lisboa. 140 Carta de Aires de Souza de Castro de 19 de julho de 1678. a documentação administrativa produzida pelo governo de Pernambuco e pelo Conselho Ultramarino. É hora de analisá-lo com mais vagar. dom Pedro de Almeida não chegou a mandar para Lisboa notícias muito detalhadas sobre o que acontecia em Pernambuco. D. Com fé. que estava mui espalhada.139 Em 19 de julho. em diversas ocasiões. entre eles "os que lhe costumam fazer a guerra e os que maiores vexações faziam nestes povos". 1124.

O interessante. . sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.. 201-222). pp. Manuel Arão. 251. p. vol. como complemento da exposição que pretendia fazer diante da Corte. 1947.144 O conselheiro Drummond. É difícil saber. 22 (1859): 303-329. pp. S. ao reproduzir o documento em O Quilombo dos Palmares. também indica que o original publicado em 1859 encontra-se na Torre do Tombo. Mário Behring. p. Alguns Documentos para a História da Escravidão. Francisco Adolfo de Varnhagen. ed.65 alcançada dizendo pretender levar os prisioneiros para o Reino. Ver. Brasiliense. Todos os historiadores utilizaram o texto tal como ele foi transcrito e publicado em 1859. entre outras coisas. São Paulo. 1988. pp. 57 n. Até meados do século XX.). Conselheiro Drummond)". 14 (1930): 142-143. História Geral do Brasil [1854] 7ª. 73. O Quilombo dos Palmares. Edison Carneiro. Cf. Sr. 24 n. offerecido pelo Exm. atendia a uma das incumbências dessa instituição que. no entanto. Carneiro. pelo conselheiro Drummond. mas referencia em nota a publicação da RIHBG. 115 a 118 (1922): 233. 5. é que ninguém até hoje se preocupou com esses detalhes. esta publicação feita em 1859 tornou-se a referência documental básica para todos os historiadores que até agora lidaram com a história de Palmares ou editaram coletâneas de documentos relativos a ela. "A morte de Zumbi" RIAGA.142 Leramno e dele retiraram informações sem se preocupar com quem o havia escrito nem por que motivo. na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Cf. p. p. visava "coligir e preparar os materiais necessários para a história e 141 Aires de Souza de Castro tomou posse em meados de abril de 1678. muitos autores fizeram menção ao fato de que se tratava de um documento que fora localizado na Torre do Tombo. "Os quilombos dos Palmares". por exemplo. São Paulo. Melhoramentos. Sem qualquer menção ao original consultado pelo conselheiro. ver por exemplo Leonardo Dantas Silva (org. cuja cópia havia sido doada à Biblioteca Nacional.141 Talvez tenha mandado escrever a crônica ou incentivado alguém a fazê-lo nessa ocasião. Outros autores indicam tratar-se de uma cópia de original da Torre do Tombo. 222). entretanto. e contar tudo pessoalmente. 144 Nina Rodrigues menciona que o "importante manuscrito" teria sido "oferecido em 1859 ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro pelo Conselheiro Drummond". em função da falta de registros. que lhe atribuiu um título: "Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco no tempo do governador dom Pedro de Almeida de 1675 a 1678". mas só seguiu para Lisboa cerca de dois meses depois que Aires de Souza de Castro tomou posse do governo. Cf. RIHGB. Para exemplos mais recentes. Os africanos no Brasil. 27-44. 143 O primeiro a reproduzir a íntegra da crônica publicada em 1859 foi E. 1962. sem indicar se se trata de um original ou não. RIAHGP. doada à Biblioteca Nacional. Recife: Fundaj/Massangana. 206 (2ª ed. 187-206 (2ª ed. 1630-1695. 142 "Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco no tempo do governador dom Pedro de Almeida de 1675 a 1678 (M.143 Bastava o texto e o que ele dizia.

10 (jul. Editora da Universidade de Brasília. Drummond era também ministro de Estado. 7. "Quaes os meios de que se deve lançar mão para obter o maior numero possível de documentos relativos à História e Geographia no Brasil?" RIHGB. Pontes cita como exemplo a necessidade de esclarecer as divergências entre Gaspar Barleus. Paraíba. vol. mas também para dirimir contradições entre os autores que tratavam de um mesmo tema. as distâncias de huns lugares aos outros etcetera. na qual se havia recorrido ao caso de Palmares para exemplificar como a consulta a novos documentos. Talvez por ser alagoano. sobre a partida de Pero de Almeida contra os ditos. e relações sobre algumas minas. 6.147 Ao final. por exemplo. obtidos em viagens científicas. . pode-se ler a referência: "Tomo primeiro de Papéis Vários de folhas 149 até 155 verso existente no Armário dos Manuscritos do Real Archivo da Torre do Tombo". 1534-1792. cabo de Santo Agostinho. mas ele se encontra referenciado sob número 5988 no Catálogo de Exposição da História do Brasil.66 geografia do Brasil". das partes mais férteis. 1841): 149-157. dando ao seu texto outro título: "Memória dos feitos que 145 Desembargador Rodrigo de Souza da Silva Pontes. doc. entre outros. Lá está. Lata 142.145 Como muitos outros sócios. Agradeço a Márcio Santos a primeira indicação sobre esse documento e aos funcionários da seção de manuscritos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro seus esforços para saber a origem desse documento. e aproveitou suas viagens diplomáticas ao exterior para visitar diversos arquivos. membro do Instituto Arqueológico e Geográfico Alagoano ofereceu ao Instituto Brasileiro e publicou em sua revista uma segunda versão dessa crônica. 147 "Descripção com notícias importantes do interior de Pernambuco como rio de São Francisco. as cartas de Antônio de Menezes Vasconcelos de Drummond de 10 de abril de 1844 e 16 de abril de 1844. enviando de lá cópias de documentos ao cônego Januário da Cunha Barbosa. fls. feitas provavelmente na mesma ocasião. 001. Bahia. 33. O tema já havia sido objeto de discussão numa das sessões do Instituto. Pedro Paulino da Fonseca. porém com um título bem diferente. com ligeiras diferenças de grafia. Cartas de doação. representações. doc. e foi considerada importante não apenas para o conhecimento da história. pasta 6 e Lata 142.512. dos damnos que recebem os portugueses d'eles: enfim o estado em que foram achados os Palmares. Porto Calvo. poderia dirimir dúvidas até então insolúveis com os escritos disponíveis. BNRJ-Ms. Em 1876. Rio de Janeiro e Minas Gerais. 3 n. [1881] Brasília. 146 Veja-se. p. Pernambuco. Palmares. 73-113. secretário da instituição. 1981. 3. o texto publicado pelo conselheiro Drummond.146 A seção de manuscritos da Biblioteca Nacional de fato guarda uma cópia da crônica. de foral. invasão holandesa. A biblioteca não possui informações sobre a entrada desse manuscrito em seu acervo. e a descripção do que se fez para a ruína. costumes dos Palmares (negros) e modo como vivem seu regimen. em que vierão a cair os Palmares". O documento encontra-se num códice que compila diversas cópias de documentos da Torre do Tombo. IHGB. alguns dos quais com recomendação para serem publicados na revista. diplomas. A tarefa deveria ser realizada no Brasil e em missões no exterior. a conjuração mineira.1. Brito Freire e Rocha Pita ao tratarem da “famosa História da povoação” de Palmares. feita no século XIX.

tudo indica que os dois membros do Instituto Histórico consultaram fontes diferentes. 1850. A referência ao manuscrito de Évora. ainda não consegui localizar o manuscrito quiçá guardado na Torre do Tombo. e dos successos obtidos. seu destroço e paz aceita em junho de 1678". Esse documento foi referenciado no catálogo elaborado no início do século XIX pelo mais famoso bibliotecário dessa instituição como tendo sido escrito em 1678. O documento foi referenciado no Catalogo dos manuscriptos da Bibliotheca Publica Eborense organizado por Joaquim Heliodoro da Cunha Rivara.151 Décio Freitas localizou duas outras versões dessa crônica em 1974.150 A comparação entre o manuscrito de Évora e o texto de Pedro Paulino confirma que este último acrescentou dados e completou o texto.1 (1876): 293-322. sem data nem título e que está incompleto.13 . Assim. já estava pronto em 1844. trata-se de uma recriação do texto original da crônica. CXVI . até a paz feita com o rei Gangasuma. Não há. 321. que foram publicadas por ele em 2004.149 A Biblioteca Pública de Évora possui um manuscrito anônimo. a quem agradeço o auxílio. com a respectiva cota. o autor indica ainda um outro título: ""Memoria dos acontecimentos havidos nos primeiros annos de guerra contra os negros das Palmeiras. quando Cunha Rivara obteve a licença régia para a impressão de sua obra. 150 BPE. consultas e tentativas. em Junho de 1678".fato que é explicitamente reconhecido pelo autor. 144. cod. n. pesquisadora dessa instituição.148 Nesse caso. 54-55. p. embora se possa identificar que a letra seja do século XVII. apesar de vários esforços. está na p. aguardo informações da busca que vem sendo realizada por Odete Martins. acrescentandolhe um final. pp. não de uma transcrição . . "Memória dos feitos que se deram durante os primeiros annos de guerra com os negros quilombolas dos Palmares. Esse primeiro tomo do catálogo. que indica tomar por base um manuscrito existente na Biblioteca Pública de Évora. Ele afirma ter transcrito os textos de "cópias" guardadas 148 Pedro Paulino da Fonseca. as alterações inseridas por Pedro Paulino da Fonseca distorcem o sentido do documento em várias passagens. Antes de iniciar o texto. 149 Como bem nota Andressa Mercês Barbosa dos Reis. minha procura até agora resultou infrutífera. tomo I. Imprensa Nacional. 2004. Infelizmente ainda não se pode ter certeza nem determinar se são cópias ou originais pois.67 se deram durante os primeiros anos de guerra com os negros quilombolas dos Palmares. recebendo ali o título "Relação do que se passou na guerra com os negros dos Palmares nos sertões de Pernambuco". Zumbi: historiografia e imagens. RIHGB. no acervo do IHGB. Unesp. que menciona acontecimentos até 1695.a n. África e Ásia". "que compreende a notícia dos códices e papéis relativos às cousas da América. 39. 151 Na Torre do Tombo. nenhuma cópia da crônica de 1678. Elas são interessantes para um estudo sobre a produção da imagem de Palmares no século XIX.2 . Lisboa. seu destroço e paz aceita em junho de 1678". 9. Franca. mas desqualificam seu texto para o tipo de análise que empreendemos aqui. Mestrado.

não o original . as informações oferecidas por Décio Freitas não são confiáveis. As informações sobre os documentos encontram-se na página 19. os manuscritos não puderam ser ainda localizados. as distâncias de uns lugares aos outros etc. pp. que podem ser atribuídas nesse caso mais a dificuldades do leitor com a transcrição de certas palavras. atualmente liderando um projeto destinado a referenciar todas as crônicas sobre o Brasil colonial nos arquivos portugueses. pois ele indica que o documento guardado pela Biblioteca Publica de Évora constitui o original do que foi publicado pelo conselheiro Drummond em 1959 (sic) e tem por título "Descrição com notícias importantes do interior de Pernambuco como rio de São Francisco. Agradeço a essa pesquisadora a generosidade de ter partilhado comigo os resultados de suas pesquisas. O documento está transcrito nas pp. pois há apenas algumas ligeiras diferenças que podem ser atribuídas aos copistas ou aos leitores. que o manuscrito publicado por Décio Freitas é provavelmente uma cópia. 19.68 pelo Arquivo Histórico Ultramarino e pela Biblioteca Nacional de Lisboa. P. Freitas. Freitas. profundos conhecedores daquele acervo. se comparada à informação do manuscrito da Biblioteca Nacional. 154 O texto publicado por Freitas contém diversas correções que indicam a desatenção do copista. contei com a preciosa ajuda de Tiago C. Freitas. havendo mais uma vez diferenças pequenas. uma grande confusão nas informações fornecidas por esse pesquisador. apesar de nada termos encontrado. Em minhas buscas no Arquivo Histórico Ultramarino. Como as cotas mencionadas não conferem nos respectivos arquivos. 155 D. .o que não deve acontecer com aquele que pode talvez ainda existir na Torre do Tombo." Há. segundo ele. Ainda que não se tenha conseguido localizar vários desses documentos para fazer a necessária colação dos textos.155 A comparação entre esse texto e o do manuscrito da Biblioteca de Évora permite constatar serem eles muito parecidos. Porto Calvo. Mesmo que não se possa saber a datação dos 152 D. apesar de vários esforços. p. O documento está transcrito nas pp.19-50.154 A cópia descoberta por Décio Freitas na Biblioteca Nacional de Lisboa não tem. 34-48. até agora. Registro aqui meus agradecimentos especiais aos dois. até cento e quarenta e oito existentes no Armário dos (Mss?) [sic] do Real Archivo da Torre do Tombo". é possível afirmar que a crônica escrita em 1678 despertou algum interesse em Lisboa. qualquer título. República dos Palmares. já completou as pesquisas na Biblioteca Nacional de Lisboa sem tampouco conseguir localizar esse manuscrito. República dos Palmares. Revela. 153 D. 19. ainda. Como ainda não foi possível achar o original. Palmares. Na Biblioteca Nacional de Lisboa. meu fracasso em localizar o documento publicado por Freitas só se atenuou ao saber que Maria Lêda Oliveira.153 A comparação entre os textos da Biblioteca do Rio de Janeiro. evidentemente. De qualquer forma. não é possível datar essa cópia. além do esquecimento de cerca de cinco linhas. como "entalhar-se nos mármores da antiguidade digo da eternidade". essa cópia registra ter sido feita do "Tomo primeiro de Papéis Velhos de folhas cento e quarenta e duas. cabo de Santo Agostinho. há diferença no número dos fólios. Como se vê.152 O texto que ele chama de "cópia do AHU" também traz o registro de ter sido copiado dos tais Papéis Velhos da Torre do Tombo. República dos Palmares.20-33. dos Reis Miranda e Érika Simone de Almeida Carlos Dias. da publicação feita pelo conselheiro Drummond e da feita por Décio Freitas indica que devem ter sido de fato copiados da mesma fonte. p. Segundo o autor.

seguindo o estilo das relações que costumavam ser escritas nesse período. Memorial dos Palmares. como se organizam para a guerra e quem os governa. João do Rego Barros. pois menciona nomes e detalhes difíceis de serem conhecidos por alguém distante. Arquivo Histórico Ultramarino e Biblioteca Nacional de Lisboa. Ele deve ter sido alguém próximo a dom Pedro de Almeida. provedor da Fazenda Real da capitania. sem contudo justificar sua hipótese. 11. pois seu anônimo autor emprega com freqüência "esta praça" para referir-se à capitania. mostra como esse 156 Tendo em vista a colação possível de ser realizada até agora. é bastante plausível que tenham existido pelo menos duas cópias dessa crônica no século XVII: a que se encontra na Torre do Tombo (ainda não localizada) e o manuscrito existente em Évora. por exemplo.157 A narrativa foi produzida com o objetivo de enaltecer o governador. inimigos vindos de fora. em "sítio naturalmente áspero. tomarei por base os documentos existentes em Évora e na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. cuja letra foi datada como sendo do século XVII. p. Depois de mencionar seu modo de vida. Para dar conta do "incontrastável desta empresa" descreve primeiro a localização dos mocambos. sobretudo no tempo da ocupação holandesa. Carta de João do Rego Barros de 22 de junho de 1678. expressões e modos de tratar a vitória obtida também contribuem para essa possibilidade. É. . O relato começa por situar a dificuldade em destruir os Palmares. que a notícia da vitória obtida em Pernambuco em 1678 teve alguma circulação em Portugal. Além dos elogios. A existência de cópias da crônica de 1678 em arquivos que guardam documentos da Corte portuguesa e dos órgãos encarregados da administração ultramarina indica. AHU_ACL_CU_015. 157 Cf. Os elementos do texto sugerem ter sido ele escrito em Pernambuco. Ivan Alves Filho menciona essa possibilidade em uma nota. Cx. 117. nota 64.156 É difícil determinar se a crônica foi redigida por ordem do governador ou por alguém ligado a ele. comparando a destruição deles à vitória contra os holandeses: estes. que acompanhou de perto os acontecimentos. que foi publicada pelo conselheiro Drummond. D. entretanto. onde se instalaram negros que fugiam do castigo de seus senhores aos quais se juntaram outros. e aqueles de "portas a dentro". portanto. não se pode saber qual deles serviu de matriz ou estaria mais próximo de sê-lo. tantos elogios fez a dom Pedro de Almeida.69 textos guardados pela Torre do Tombo. montuoso [montanhoso] e agreste". um texto destinado a uma audiência portuguesa. indo além dos circuitos burocráticos do Conselho Ultramarino. Pode ter sido. que na carta de 22 de junho de 1678 que enviou ao príncipe. Sem consultar todos os manuscritos. 1118.

Em tom de regozijo. e auxiliares". mencionando ter sido "até agora impossível" evitar todo esse dano. que pudessem rebater os seus encontros. que possam rebater os seus encontros" . n. negros. as vitórias alcançadas. começa a detalhar as ações empreendidas pelo governador para exterminar os Palmares: como havia nomeado o sargento-mor Manoel Lopes para uma expedição que durara cinco meses em 1675. as honras porque as mulheres. para que em seu nome lhe 158 "Relação do que se passou na guerra com os negros dos Palmares nos sertões de Pernambuco" BPE. demais que os caminhos não eram livres. como contratara o capitão Fernão Carrilho. No manuscrito da BNRJ-Ms. Demais que os Caminhos158 não são livres. as táticas empregadas. porque a vida. a honra e a fazenda traziam sempre em contínuo risco. passa a descrever as principais "entradas" feitas contra os Palmares. as honras porque as mulheres e as filhas se tratavam indecorosamente. as jornadas pouco seguras. as vitórias conseguidas pelas tropas que haviam permanecido nos Palmares levaram dom Pedro de Almeida. as vidas porque estavam perpetuamente expostas a repentinos assaltos. assim de Sua Alteza. entre eles membros da família de Gangazumba. as Jornadas pouco seguras. dom Pedro entregou o governo a Aires de Souza de Castro. em abril. armas e homens a seu dispor. com vários prisioneiros. 9. 52. a fazenda porque lha destroçavam e levavam os escravos.70 "inimigo" tem infligido sucessivos danos e prejuízos aos moradores de Pernambuco. e lhe dera instruções precisas para enfrentar os inimigos."158 Em seguida. 7. e só se marchava com tropas. filhas irreverentemente se tratam. Cod.2 . cod. à Coroa e seus vassalos: "Destroem-se juntamente os vassalos.13 . A campanha realizada por Carrilho entre setembro de 1677 e janeiro de 1678 é narrada a seguir. e só se marcha com tropas. animado por "uma prudente indústria e razão de estado" a propor a paz aos negros dos Palmares. que finalmente colheu os frutos dessa iniciativa. em pormenor: os principais embates e escaramuças. os problemas encontrados. providenciara junto às câmaras para que tivesse provisões. porque a vida e honra.a. CXVI . com a chegada de uma comitiva de Palmares "que se [veio] prostrar aos pés de dom Pedro. e perecendo muitos soldados. as vidas porque estão expostos sempre a repentinos assaltos. lê-se: "Destroem-se os vassalos. com ordem e mandado do Rei [Gangazumba]. como dos povos. [sic] porque lha destroçam.001. e lhe roubam os escravos. índios.3. Por fim. a fazenda. como de moradores particulares. nas quais se perdeu "grandes cabedais. Sua volta a Porto Calvo no final de janeiro. fl. o texto continua a descrever como.

que informa ter sido o acordo de paz escrito e enviado a Palmares. 9. cod.001 lê-se: "os quais se vieram prostrar aos pés de Dom Pedro de Almeida com ordem do Rei para lhe renderem vassalagem.13 . Na "Descripção com noticias importantes do interior de Pernambuco. 56v. A descrição dos mocambos tem uma função específica: mostrar como Palmares era poderoso e perigoso. do seu brio aprendiam os soldados a ser constantes. e lhe pedissem paz e amizade".71 rendessem vassalagem. BNRJ-Ms. pareceu o sucesso por maravilhoso." . E mais custou a disposição que o sucesso."161 O encadeamento da narrativa está ordenado de modo a ressaltar as cerimônias que cercaram a paz e mostrar como "a ruína em que vieram cair os Palmares" seria uma glória para o príncipe português. 161 "Relação". mas não há outros eventos descritos. do seu zelo a serem diligentes. pois gastando dom Pedro três anos em lavrar estes impossíveis. cod. nesta se desbaratou outro que nos dominava a campanha. que de fora nos veio conquistar. BPE. destinados a marcar a glória de "tão felizes sucessos". que se conseguiu destas Capitanias. CXVI . O governador é nele a figura central. o que se intentou há muitos anos. capaz de manejar a situação. do seu zelo a serem diligentes. 7. colheu em quatro meses o fruto destes trabalhos: não deixa de emular esta ação prodigiosa a restauração singular destas Capitanias. fl. ordenar expedições e garantir uma vitória sobre um inimigo tão importante quanto os holandeses: "Como dom Pedro de Almeida era a alma que dava vida a estas empresas. 7. fl. da sua disposição a serem prudentes: com todas estas influências do governador dom Pedro se conseguiu em quatro meses. 160 O manuscrito de Évora termina aqui. do seu brio aprenderam os soldados a serem constantes. Cod. da sua resolução a serem atrevidos. só digo que se na primeira se venceu um inimigo. se conseguiu em quatro meses o que se intentou há muitos anos. e pesado bem o negócio foi acerto que a prudência de dom Pedro soube dispor.a. Cod.2 ." BNRJ-Ms. E não deixa de emular esta ação prodigiosa a restauração singular. e pesada bem as circunstâncias foi acerto que a prudência soube dispor. O acordo de paz não consistira em 159 "Relação". Com todas estas influências do governador dom Pedro. e da sua disposição a serem prudentes. Em "Descripção com noticias importantes". colheu em quatro meses o fruto destes trabalhos.159 A entrada da comitiva no Recife. 58. O manuscrito na BNRJ-Ms. as cerimônias com que foram recebidas e as negociações entabuladas ocupam então a parte final do texto.160 A vitória contra Palmares e o acordo de paz celebrado como meio de solidificar a vitória são descritos como um trunfo político. e pedirem a paz que desejavam". contém dois parágrafos a mais. Parece o sucesso por maravilhoso.2 . que só fez lisonja que a fortuna quis fazer. CXVI .13 . lisonja que a fortuna lhe quis fazer. da sua vigilância a serem cuidadosos. mais custou a disposição que o sucesso.. nesta se superou outro que das portas a dentro nos dominava.3.001 lê-se: "como Dom Pedro era a alma que alentava esta empresa. BPE. 9.3. que se na primeira se venceu um inimigo que nos ocupava o mar. publicado pelo Conselheiro Drummond em 1859..a. pois gastando dom Pedro três anos em lavrar estes impossíveis. n. n. da sua vigilância a serem cuidadosos.

se não caiu em desgraça. 7. BNRJ-Ms. um feito militar e político comparável a esses outros. dom Pedro de Almeida estava deixando o governo da capitania e enfrentava problemas sérios. a expulsão dos holandeses de Angola em 1648 e de Pernambuco em 1654. tendo vencido os Palmares. que não reparando em nenhum impossível se dispôs a conseguir esta fortuna. porém a "feliz restauração destas capitanias [de Pernambuco]". retirada da base de dados Optima Pars. 113. "Descripção com noticias importantes". Vários indícios permitem concluir que a crônica não foi entretanto fruto da simples vaidade ou do desejo de vanglória. portanto. honra e fama: de fato.162 O termo "restauração" é significativo: foi empregado para descrever a guerra contra a Espanha em 1640. fl. Vide nota 1.2 . Eis o parágrafo conclusivo do manuscrito que está na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro: "Toda a felicidade desta glória. seu nome será eterno na lembrança dos moradores de Pernambuco. ainda não consegui seguir os passos de dom Pedro de Almeida depois que ele chegou a Lisboa. tendo sido ordenada por decreto régio de 23 de julho de 162 163 "Relação". Em junho de 1678. 9. embora bem situado na corte. Mesmo sem aprofundar a análise sobre essa crônica. nem do gesto enaltecedor de um colega de letras ou armas. BPE. 164 Mais uma vez. Tudo indica que seus desejos foram frustrados e dom Pedro caiu em esquecimento . 52v. A vitória sobre Palmares tornava-se.72 simples vitória contra escravos fugidos. cod.13 . ele havia tido dificuldades em obter o governo de Pernambuco. toda a glória desta conquista soube merecer o zelo generoso e a prudência singular de dom Pedro de Almeida. CXVI ."163 Infelizmente. seu valor aclamado nas incultas montanhas dos Palmares.164 Sua nomeação não seguira os procedimentos ordinários. fl. com boas relações de parentesco e serviços militares de certo destaque. seu aplauso estendido nos perpétuos brados da fama. Como vimos. agradeço à Mafalda Cunha pelas informações.001. a variedade de detalhes que ela oferece e o contexto que circunstancia sua produção permitem concluir que a narrativa sobre os acontecimentos em Pernambuco dirigia-se a diversos interlocutores e fazia parte de um jogo político bastante complexo. esses os méritos almejados pelo governador ao deixar o governo de Pernambuco. Cod. Glória.a n. .3.

corregedores. sendo por duas vezes advertido pelo príncipe regente. 4.33. 11. 4114). verbete "residência". 33 (microf. 28 de outubro de 1678 e 26 de novembro de 1678. 167 Consulta do Conselho Ultramarino de 28 de junho de 1677. D. AHU_ACL_CU_015.73 1673.4. AHU_ACL_CU_015. 166 Para uma avaliação da contenda entre o governador e João Fernandes Vieira vide J. Mello. 169 Consulta do Conselho Ultramarino de 22 de dezembro de 1675 e Consulta do Conselho Ultramarino de 20 de Outubro de 1676. 981.170 e a já mencionada carta 165 Cf. n. A. Entre o governador e as câmaras locais. algumas câmaras de Pernambuco acusaram dom Pedro de Almeida de criar cargos que não eram necessários e de proteger potentados na Paraíba. 23v. entrara em choque com João Fernandes Vieira . pedidos das câmaras de Pernambuco.168 Na documentação guardada pelo Arquivo Histórico Ultramarino pode-se encontrar.33. para que João Fernandes Vieira fosse nomeado governador da capitania. Vocabulário. João Fernandes Vieira. o termo é empregado na administração ultramarina para todas as investigações realizadas ao final dos mandatos nomeados pelos soberanos. Paraíba e Itamaracá. II . Em 1677. as relações também não eram boas. Pareceres do Conselho Ultramarino de 26 de fevereiro. 1098. ANTT. por sua vez. Cod. Cx. ouvidores) durante o tempo em que residiram no lugar de sua jurisdição. Por extensão.165 Desde o início do governo. pp. Manuscritos do Brasil.32. fl. Cinco dias depois o Conselho Ultramarino pronuncia-se alertando o príncipe regente que a nomeação não havia seguido a tramitação regular. Cf. o governador chegou até mesmo a deixar de cumprir uma provisão régia que atribuía a Vieira a arrecadação e despesa das verbas para as obras nas fortalezas. Em dezembro de 1675. escolhendo sempre outros comandantes para as expedições que enviou a Palmares. Cod. Bluteau.um dos principais chefes militares de Pernambuco. o Conselho Ultramarino ordenou que se investigasse com minúcia esses fatos por ocasião de sua residência. 424-427. todos em BNRJ-Ms. Ambas em BNRJ-Ms. em 1675 e 1676. sugeriu João Fernandes Vieira para comandar aquela guerra. Cod. 4. 170 Carta dos oficiais da Câmara de Olinda ao príncipe regente de 22 de dezembro de 1677. houve mais problemas. 32. BNRJ-Ms. Decreto de 23 de julho de 1673. R. D. um ano depois. 32. 10. que. II. Cx. Além das dissensões já examinadas em relação ao contrato com Fernão Carrilho. . em dezembro de 1676. II . G. por exemplo. já que se pode encontrar pelo menos uma carta da câmara de Olinda elogiando sua administração.167 mas dom Pedro de Almeida não seguiu essa recomendação. Residência era o termo empregado para a investigação das ações dos oficiais de Justiça (Juízes de fora. 33. 168 Cf.166 Quando o Conselho Ultramarino examinou a proposta feita por Manoel Inojosa sobre a forma como se deveria fazer a guerra contra Palmares.169 É bem verdade que também tinha aliados. também eram acusados de enriquecimento ilícito e cometer assassinatos: por isso.

Como vimos. identificados pelos nomes: o do Zambi. os papéis referentes à residência de dom Pedro de Almeida. ganhando diferentes aliados entre os conselheiros do Ultramarino e outras autoridades que gravitavam ao seu redor. plantão todos os legumes da terra. como pela segurança. O relato começa por situar os mocambos ou cercas em uma larga extensão de terras férteis com "palmeiras agrestes". o seu principal sustento é o milho grosso. 51v. Em seguida. em palmares distintos tem sua habitação. os conflitos entre potentados locais na Paraíba e em Pernambuco. como pela segurança. a descrição dos mocambos tinha ali a finalidade de mostrar como Palmares era um inimigo poderoso e perigoso. de cujos frutos reservam providamente celeiros para o tempo das guerras. Em "Descripção com noticias importantes".001: " não vivem todos juntos porque um sucesso não acabe a todos. são grandemente trabalhadores. Depois disso. dois chamados das Tabocas. as caças os ajudam muito. A carreira política de dom Pedro de Almeida estava em perigo e um relato dos sucessos obtidos no final de seu governo bem podia ser uma peça importante nesse jogo de forças. de Acainene. plantam todos os legumes da terra. assim pelo sustento. são grandemente trabalhadores. É interessante examinar como isso foi feito.13 . 7. BPE. até agora. BNRJMs. assim pelo sustento. bem como o desagrado das câmaras em relação ao ônus das guerras contra Palmares e outras dissensões devem ter atravessado o Atlântico e ecoado em Lisboa. o texto passa a caracterizar com mais detalhe os aspectos da vida em Palmares: "Não vivem todos unidos para que um sucesso não acabe a todos. Subupira. CXVI . em Palmares distintos têm a sua habitação."172 171 A residência era constituída na maior parte das vezes pela inquirição por cartas sobre eventuais irregularidades cometidas durante o exercício de um posto de governo no Ultramar. Era certo que a residência que iria enfrentar em Lisboa seria problemática. depois de salientar mais uma vez as características da mata e a qualidade das terras ocupadas. do Amaro e o do Andalaquituxe. informa que desde que "houve negros cativos nestas capitanias" também houve habitantes em Palmares e que seu número crescera durante a ocupação holandesa e eles foram se aperfeiçoando no uso das armas. Esse contexto ajuda a iluminar algumas operações retóricas empreendidas naquele texto. e do . dele fazem varias iguarias.171 De qualquer modo. 9. fl. de cujos frutos formam providamente celeiros para os tempos da guerra.2 . o de Osenga.74 de João do Rego Barros. porque são aqueles matos delas abundantes.3. e do inverno.a n. 172 "Relação". cod. Cod. singularmente prevenidos. o de Dambiabanga. Infelizmente não localizei.

7. e todos os arremedos de qualquer República se conhece entre eles". é tratado com todos os respeitos de Rei. que cultivava bons alimentos e era governada por Gangazumba. as caças os ajudam muito. "seu rei e senhor". 2) a inadequação de uma língua para traduzir outra. Anderson. e imagens a que encomendam suas tenções. não perderam o reconhecimento da Igreja". etc.13 . Capas da sua família. e obedecemlhe por admiração". BPE. do europeu com respeito ao africano ou afro-americano. Em "Descripção com noticias importantes". não perderam de todo o reconhecimento da Igreja. e com todas as cerimônias de Senhor" 174 "Relação". "muito perfeita". Em "Descripção com noticias importantes". chamada Macaco. mas as "cidades" estão a cargo de "potentados e cabos poderosos que as governam e assistem nelas".173 Além disso. 51v. CXVI . observa por exemplo que as fontes disponíveis sobre Palmares apresentam pelo menos quatro tipos de dificuldades: "1) o inescapável etnocentrismo. este os batiza e os casa: porém o batismo é sem a forma determinada pela Igreja". Nesse documento não há menção ao fato de o padre ser chamado de Ganga. achou-se uma Imagem do Menino Jesus muito perfeita.001: "E com serem estes bárbaros tão esquecidos de toda a sujeição. Mesmo que "estes bárbaros" estejam "tão esquecidos de toda a sujeição. cidades. Cod. 9. quando se entrou nesta capela. porque são aqueles matos abundantes delas. . dele fazem varias iguarias. BPE. onde "tem palácio capaz da sua família.. portanto.3. tem palácio. 9.2 . outra de S.a. incapaz de compreender o outro. CXVI . como vindos de fora.a. que costumam ter as Casas Reais. n. Cod. escolhem um dos mais ladinos.75 Trata-se. que é grande. que mais avançou nessa crítica. Robert N. cod. assim como de guerra para as execuções necessárias. e um "a que chamam ganga" que os batiza e casa. 3) os problemas ortográficos em render inverno.001: "reconhecem-se todos obedientes a um que se chama o Gangazumba. de gente previdente e trabalhadora. [e] é assistido de todas as guardas e oficiais que costumam ter as Casas Reais (. o seu principal sustento é o milho grosso. a este tem por seu Rei e Senhor todos os mais assim naturais dos Palmares. a quem veneram como a pároco. Ele habita na "cidade real"." 173 "Relação". venerado pelos "naturais dos Palmares como os vindos de fora". pois têm ali capela com imagens do Menino Jesus. 51v-52. magistrados.174 A terminologia empregada é toda ela portuguesa: fala-se em rei. nesta Cidade tem capela a que recorrem nos seus apertos.2 . especialmente quando as estruturas sociais referidas não têm equivalentes na cultura da língua tradutora.) fala-se-lhe por Majestade. fl. Alguns autores têm chamado a atenção para a miopia etnocêntrica do olhar colonial. outra da Senhora da Conceição. Braz. é assistido de guardas e oficiais. "há entre eles ministros de Justiça. encarnado na linguagem. que quer dizer Senhor Grande. 7. cod. fls. n. BNRJ-Ms. BNRJ-Ms.13 .. O "rei domina a todos".3. de Nossa Senhora da Conceição e de São Brás.

1500-1640. nem R. que a famosa tríade pela qual os portugueses avaliavam o grau de "civilização" dos povos com os quais tinham contato é empregada em sentido inverso àquele usado para desqualificar os índios do Brasil. entretanto que esses textos devam ser desqualificados e descartados. L."175 Isso não significa. 1991. com juízes e magistrados.). torna evidente a barbárie do gentio do Brasil. é preciso prestar mais atenção no modo como os próprios textos foram escritos. convém a saber. "A visão do índio brasileiro nos tratados portugueses de finais do século XVI" in: Antonio Luís Ferronha (org. uma capela e imagens cristãs: tinha fé. .76 os nomes próprios ou as palavras intraduzíveis de uma língua para outra e 4) a possibilidade de transmissão falha de um manuscrito para outro. nem L. lei ou rei: Brasil 1500-1532. diante desse dilema. Chamo a atenção. recorreram ao conhecimento produzido em outras áreas. No caso da crônica de 1678. entretanto. 5. no entanto. Como se sabe.) Rio de Janeiro. não se acha nela F. R entre os indígenas. Vários historiadores. (trad. Palmares aparece descrito como um estado bem organizado do ponto de vista militar e político. pp. nem lei.215-257 e 259-285. "O mito de Zumbi: implicações culturais para o Brasil e para a diáspora africana". por exemplo. Sem fé. e Guillermo Giucci. 17 (1996): 99-119. ao afirmar que a língua de que os índios usavam "carece de três letras. vários textos portugueses escritos nos séculos XVI e XVII. (trad. na lingüística. Afro-Ásia. Loyola. para acentuar sua barbárie e justificar a necessidade de dominá-los e catequizá-los. Antonio Luís Ferronha. como os de Pero de Magalhães Gandavo. O confronto do olhar. Rocco. Ed. "O encontro inesperado" e Rui Loureiro. na antropologia ou na história da África Centro-Ocidental para "traduzir de volta" o que teria sido grafado de forma inadequada ou tentar resgatar de algum modo o que foi perdido pelas lentes européias ou europeizadas. É um procedimento interessante e que tem rendido muitos frutos. se referem à falta das letras F.176 Pero de Magalhães Gandavo. Por ora. Caminho. sem terem além disto 175 Robert Nelson Anderson. como veremos logo adiante. nem rei. lei e rei. Lisboa. 21-25. cousa digna de espanto porque assim não têm fé. 176 Cf. e Georg Thomas. Política indigenista dos portugueses no Brasil. especialmente cap. Frei Vicente do Salvador. pois esse procedimento analítico também é capaz de revelar informações importantes. 1993. 1982. e desta maneira vivem desordenadamente. pp.) São Paulo.

por exemplo. nem têm rei que lha dê. e a quem obedeçam". Frei Vicente do Salvador reiterou essa máxima. Nenhuma fé têm nem adoram a algum Deus. Zumbi. já que "o vitorioso não triunfa numa guerra qualquer. 179 Maria Lêda Oliveira. a vitória conseguida em 1678. p. e uma capela. Por isso. História da província Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil [1ª ed. "A primeira Rellação do último assalto a Palmares" Afro-Ásia. Essa forma de perceber e caracterizar Palmares aparece também em outros textos do século XVII e XVIII. 180 Idem. dizem Duhi. da Relação verdadeira da guerra que se fez aos negros levantados do Palmar. ao observar que os índios "nenhuma palavra pronunciam com F. ou preceitos. 1576].de apreender Palmares. dizem Pancicu. L ou R. não só das suas.um reino civilizado com o qual era possível fazer guerras. e o pior é que também carecem de fé. que transcreveu e editou esse documento. e se querem dizer Luiz. Texto disponível em http://www. Assim qualificado. embora com algumas nuances. p. de lei e de rei. . Assim. 1889. constituía um Estado .180 177 Pero de Magalhães Gândavo. porque se querem dizer Francisco.179 que narra a destruição de Macaco em 1694."177 Alguns anos mais tarde. A morte heróica do inimigo torna a vitória sobre ele. mas sim numa batalha encabeçada por um herói". mais digna e louvável. Historia do Brazil. 25. 262. possuía um rei.br/download/texto/bn000165. 1627] Rio de Janeiro. nem medida. esse texto documenta um modo específico . venerado e reconhecido por todos. negociar e estabelecer acordos. Biblioteca Nacional. nenhuma lei guardam. 178 Frei Vicente do Salvador. É o caso.dominiopublico. tinha ministros da justiça e da guerra. bem como o acordo de paz com Gangazumba. jogando-se em um abismo. nem peso.77 conta. bem treinados e disciplinados. com forte potencial bélico. seu líder. 7.178 Palmares. Ali. mas nem ainda das nossas. 33 (2005): 270324. [1ª ed. podiam se tornar feitos gloriosos e honrados. ao contrário. como observa Maria Leda Oliveira. aparece como um herói. nesse texto atribuído a Bernardo Vieira de Melo.pdf.essencialmente político . mais que ser um testemunho sobre a organização palmarina. que se pronunciam com as ditas letras. cap. os palmarinos são descritos como bons soldados. "a que recorrem nos seus apertos".gov.

Enfatizando as características políticas e militares de Palmares como um estado. são Bernardo Vieira de Melo e Zumbi. a vitória sobre Palmares aparece como um feito importante do governo de Caetano de Melo de Castro. das leis com que se governavam. e assim justificase a necessidade de tão grande exército para derrotá-lo. os mocambos aparecem como um poderoso estado. . na Relação verdadeira. pp.. Como na crônica escrita em 1678. da origem do povo ou república que estabeleceram. Escritos para audiências portuguesas ligadas à administração colonial. e dos danos que pelo curso de mais de sessenta anos nos fizeram".] memórias e tradições conservadas de pais para filhos". Bernardo Vieira de Melo ou de Caetano de Melo de Castro e ainda mais gloriosa a vitória que obtiveram. 213-219. Em todos eles. com um "príncipe". lei e rei. Zumbi. esses três textos operam jogos de opostos construídos com intenções claramente políticas: na crônica de 1678 os protagonistas são dom Pedro de Almeida e Gangazumba. o relato também se inicia com algumas informações sobre Palmares: é preciso dar "noticias da condição e princípio daqueles inimigos.78 Tal perspectiva também está presente nos famosos parágrafos de Rocha Pita sobre a derrota final dos quilombos. Palmares aparece mais uma vez como um estado forte. História da América Portuguesa [1730]. 1976. em 1678. São Paulo. a crônica de 1678 procurava justificar a opção pelo acordo de paz e caracterizá-lo como o coroamento de uma vitória militar. as características atribuídas aos chefes palmarinos e aos mocambos operam no sentido de tornar ainda mais evidentes os méritos de dom Pedro de Almeida. governando-se por "estatutos e leis [. Lei e Rei ecoa mais uma vez nessas páginas. Caetano de Melo de Castro e Zumbi. que era "um dos seus varões mais justos e alentados" e com "magistrados de justiça e milícias". EDUSP/Itatiaia.181 Nesse caso. Ainda que Rocha Pita observe que de "católicos não conservavam já outros sinais que os da santíssima cruz e algumas orações mal repetidas e mescladas com outras palavras e cerimônias por eles inventadas ou introduzidas das superstições da sua nação". na História da América portuguesa. dom Pedro de Almeida pôde se orgulhar de ter enfim "restaurado" Pernambuco depois ter vencido os negros da Serra da Barriga e ter firmado com seu rei um acordo de paz.. chegando mesmo a afirmar serem eles "cismáticos". Aqui. a tríade Fé. com fé. Assim. 181 Sebastião da Rocha Pita.

há também uma grande preocupação em caracterizar diferenças. Os termos empregados para descrever a vida política. sossegados os moradores destes insultos. fls. Porque aos 18 de Junho do mesmo ano em um sábado á tarde. Em "Descripção com noticias importantes". em cujos dias se confirmou a verdade de toda esta relação. possui ministros de justiça e de guerra. os nomes próprios.79 Se esta constitui uma chave interpretativa importante para a compreensão desse texto. entrou nesta praça o alferes.001: "Passados todos estes sucessos. e recebendo dom Pedro os vivas.2 . as negociações da paz aparecem sem surpresa. Se a descrição do local onde estão instalados os mocambos e de suas características sociais e políticas poderia designar vários agrupamentos humanos. sossegados os moradores destes insultos. correram os meses seguintes até os treze de abril em que entregou dom Pedro o governo destas praças a Aires de Souza. 9. Cod. e parabéns desta tão singular fortuna. e recebendo dom Pedro os vivas desta fortuna. As primeiras pistas podem ser procuradas na própria crônica escrita em 1678. cod. livres os soldados destas marchas.3. em cujos dias brevemente se confirmou a verdade desta relação. . livres os soldados destas marchas.a. e lhe tocou parte da glória que dom Pedro soube dispor: porque aos 18 de junho em um sábado a tarde. habita uma cidade real.13 . como se o fato desse continuidade às comemorações do triunfo obtido pelo governador Pedro de Almeida. Na narrativa.182 182 "Relação". 57v-58. BPE. correram os meses seguintes de Abril em que largou o Governo destas Capitanias a Aires de Sousa e Castro seu sucessor. acompanhado de 3 filhos do Rei com 12 negros mais". Não por acaso o autor dedicou certa atenção a esses aspectos. e lhe tocou parte da gloria que dom Pedro soube dispor. é preciso saber a que modelo de estado Palmares está sendo associado. que então transmitia seu cargo a Aires de Souza de Castro: "Passados estes sucessos. alegres os povos com estes triunfos. Todavia. entrou o alferes que tinha mandado dom Pedro aos Palmares com aviso. 7. n. véspera do dia em que na Paroquial do Recife se celebrava a festa do nosso português Santo Antonio. de pessoas e lugares. o qual trouxe em sua companhia dois filhos do rei com mais dez negros dos mais assinalados nos Palmares". alegres os povos com estes triunfos. São contudo as cerimônias utilizadas para reverenciar o rei e os rituais empregados pela embaixada palmarina enviada ao Recife que marcam de maneira mais definida tratar-se de um outro estado. social e religiosa em Palmares são europeus: Gangazumba é rei e senhor dos Palmares. que tinha mandado dom Pedro com o aviso aos palmares. BNRJ-Ms. pertencem a uma língua bem diferente do português. véspera do dia que na Paroquial do Recife se fazia festa ao nosso Português Santo Antonio. CXVI .

9. Edusp/Fapesp/Imprensa Oficial. Iris Kantor e István Jankso (orgs. Aires de Souza de Castro "mandou vestir. Em "Descripção com noticias importantes". ver Silvia Hunold Lara. BNRJMs. ela dá continuidade ao júbilo pela vitória ao mesmo tempo em que prepara e circunstancia as cerimônias de recepção dos embaixadores. cod. porque chegaram com seus arcos. e outros rapados. e com uma arma de fogo. 7. porque vinha ferido da guerra passada. Festa: cultura & sociabilidade na América Portuguesa. e lhe bateram as palmas em sinal do seu rendimento. No texto. que a tratou com "grande (. e lhe bateram as palmas em sinal do seu rendimento. e uma arma de fogo. não provoca medo ou espanto. 151-165. CXVI . outros corridos. no entanto. permanência de membros da embaixada no local enquanto duram as negociações e outros sinais de amizade entre as 183 O procedimento se faz presente em textos que relatam a recepção a outras embaixadas africanas por autoridades coloniais no Brasil. com as barbas. Cod.. BPE. que a remeteu ao novo governador.a. e mais potentados e cabos que escaparam ao furor da nossa resolução. entretanto. porque entraram com seus arcos e flechas..) gosto". Essa diferença. e em protestação da sua vitória. 2001. ali lhe pediram a paz com os brancos. outros com peles.183 Um parágrafo. "Uma embaixada africana na América Portuguesa". encarrega-se de marcar a diferença: "Notável foi o alvoroço."184 O "notável alvoroço" das pessoas no Recife é também uma operação textual: a embaixada é composta de gente que se veste e se comporta de modo diferente dos europeus. Paulo. fl. Assim. todos se foram prostrar aos pés de dom Pedro. com que ficaram os negros contentíssimos". "singular complacência". e adornar de fitas vermelhas. que causou a vista daqueles bárbaros. mais velho. e valentes todos. e lhe declararam as ordens. outros rapados. Lisboa. outros com mustachos [bigodes]. todos se foram prostrar aos pés de dom Pedro de Almeida. mas "alvoroço". a cavalo vinha o filho do rei.001: "Notável foi o alvoroço que causou a vista daqueles bárbaros. por trazer ainda aberta a ferida de uma bala que na guerra o maltratou. que trazia do rei.. A cavalo vinha um dos filhos do Rei. temos aqui os rituais diplomáticos comuns no Antigo Regime português. Em seguida. de Francisco da Silva. uns com barbas trançadas.). Relaçam da embaixada que o poderoso rei de Angomé Kiay Chiri Broncon . e em protestação da sua vitória. ali lhe pediram a paz com os brancos" .3. cobertas as partes naturais como costumam.. como no caso da embaixada enviada em 1750 pelo Daomé à Bahia descrita por José Freire Monterroyo Mascarenhas. 1. e flechas.13 . corpulentos. 184 "Relação". A embaixada foi recebida com "grandes mostras de contentamento" por dom Pedro. vol. uns trançados. n. Além de ser santo padroeiro das armas portuguesas.80 A referência à festa de Santo Antônio não é gratuita. 1751. 58. pp. S. "afabilidade" e "brandura". Para uma análise desse documento. cobertas as partes naturais como costumam uns com panos. com missas solenes e troca de presentes. Off. a coincidência das datas não parece ser nada aleatória.2 . corpulentos e robustos todos.

No segundo sábado depois da morte do rei. no entanto. 1798]" Stvdia.a. e assim está feito o rei". Vejamos o procedimento utilizado para saudar o governador.13 .186 Frei Raimundo de Dicomano. Essa diferença. batem as mãos e gritam viva el-rei. e batem as palmas das mãos sinal do seu reconhecimento. Há também elementos que indicam tratar-se de uma embaixada enviada por um rei diferente. cod. no final do século XVIII. Ao contrário. 9. e protestação da sua excelência" 186 R.185 Prostrar-se aos pés de uma autoridade e bater palmas não era um ritual desconhecido pelos portugueses. Raphael Bluteau menciona que no Reino de Angola. . a crônica escrita em 1678 mostra que os governadores de Pernambuco e os embaixadores de Gangazumba negociaram um acordo de paz como delegados de nações diferentes. Cod. caracterizando-se como um procedimento comum no Reino do Congo e no de Angola. n. BNRJ-Ms.187 Assim. para indicar que Gangazumba era tratado em Macaco "com todos os respeitos de rei e com todas as cerimônias de Senhor. descreve a cerimônia de entronização do sucessor no Reino do Congo. Em "Descripção com noticias importantes". os que chega[va]m à sua presença [punham] o joelho no chão. verbete "sova". o eleito era levado "para uma praça aonde está preparada uma cadeira e o fazem assentar. Bluteau. BPE.001: "com todos os respeitos de Rei. tomam o barro na cara. Em seu Vocabulário. se lhe prostram de joelhos aos pés. Antônio Brásio. e com todas as cerimônias de Senhor. "Informação do Reino do Congo de Frei Raimundo de Dicomano [(ca. e bat[ia]m as palmas das mãos. Vocabulário. 34 (1972): 30. CXVI . não é explicitada pelo exótico nem por elementos incompreensíveis por uma audiência portuguesa acostumada a notícias das terras ultramarinas. 187 Cf. Ao atribuir aos mocambos da Serra da Barriga qualidades similares àquelas encontradas pelos portugueses em suas relações com os sobas centro- 185 "Relação". Ele já havia sido mencionado na crônica.81 partes.3. 51v.2 . 7. Essa prática é mencionada por diversas fontes do período. quando os macotas ("que são os nobres da terra") propõem algum negócio aos sobas (nome dados aos soberanos locais) fazem-no "de joelhos e batendo nas palmas em sinal de respeito". sinal do seu reconhecimento e protestação da sua excelência". fl. os que chegam a sua presença põem logo o joelho no chão. Oferecer a narrativa do episódio nesses termos e caracterizá-lo dessa forma são escolhas políticas. porém conhecido pelos portugueses.

o cronista indica que as negociações com Palmares diferiam daquelas empreendidas com os outros habitantes da América. Com eles houve relações diplomáticas desde o início. e as negociações e acordos aconteciam com freqüência. as condições mais gerais que possibilitaram as negociações entre Aires de Souza de Castro e os filhos e Gangazumba e o contexto político no qual foi possível pensar na implantação da aldeia de Cucaú. Lei e Rei se refere a um modo de compreender e justificar a ocupação das terras e o domínio das gentes característico do processo colonizador português nos séculos XVI e XVII. Também havia guerras . Não menos importante é o fato de que ele nos aproximará do ponto de vista dos palmarinos. A chave para entender o que sustenta essa escolha política está no outro lado do Atlântico. lei e rei. A analogia pôde ser empregada com êxito para caracterizar Palmares e dar legitimidade política às negociações e ao acordo de paz. Ao ser empregada aqui com o sinal inverso daquele usado em relação aos índios americanos. O percurso permitirá compreender. Os próximos capítulos procuram trilhar alguns deles.e muitas. também. onde as terras ocupadas pelos portugueses eram habitadas por povos que tinham fé. a leitura cuidadosa da documentação abre caminhos importantes para a análise dos significados dos eventos de 1678. o nexo entre as guerras e as negociações com os sobas havia sido o caminho encontrado pelos portugueses para dominar o território. em busca de elementos que possam contribuir para entender como foi possível realizar essa operação retórica. submeter suas gentes e auferir suas riquezas. o cronista do triunfo de dom Pedro de Almeida podia ultrapassar o circuito pernambucano para ganhar dimensões mais amplas. . Lá. contudo. tudo indicava que a estratégia estava destinada ao êxito. Em meados de 1678. Dom Pedro de Almeida podia colher as glórias de uma conquista de grandes dimensões ao terminar seu governo. no entanto. Para os historiadores.82 africanos. A tríade Fé.

que também variam bastante. também. Por isso. escritos em momentos e com intenções as mais diversas. Mais que conhecer o que aconteceu (pois já se abandonou há muito a crença na possibilidade de saber o que "realmente" se passou). assim. Por isso. os historiadores buscam compreender por que e como os eventos ocorreram e de que maneira foram lembrados ao longo do tempo. por exemplo. do diálogo que estabelece com o conhecimento já produzido. A força de uma tradição Nina Rodrigues foi o primeiro autor a se debruçar com mais atenção sobre as "origens africanas" de Palmares. É do cruzamento dessas vozes díspares e muitas vezes contraditórias que os historiadores extraem a possibilidade de conhecer o passado. A essas versões somam-se as memórias e as histórias que foram escritas sobre esses eventos. das questões que coloca e das perspectivas e abordagens que adota. não é um objeto único.83 Capítulo 2 DIÁLOGOS Grande parte da pesquisa histórica consiste em fazer dialogar textos variados. esse é apenas um primeiro passo. não se pode ir adiante só com o exame das fontes. O resultado da análise histórica depende do que o pesquisador enfatiza. O passado. que produzem versões variadas sobre eles. ele afirma terem os Palmares se organizado "em um estado em tudo . esse capítulo abre espaço para ampliar a conversa com a historiografia. Os acontecimentos dependem das ações e das intenções de pessoas diversas. Contudo. Ao analisar suas características de governo. 1. Depende.

2ª ed. No início do século e sobretudo nos anos 30 e 40. Utilizo. que tanto valorizava.2 Ao recolher e cotejar as evidências sobre práticas religiosas e lingüísticas. da Universidade São Francisco. o tema das raízes africanas no Brasil ia bem além das dimensões acadêmicas .3 Para Nina Rodrigues. era 1 Nina Rodrigues.1 Mais adiante.6 Sua avaliação do que era superior e inferior na África e sua crença na marcha do progresso marcam o julgamento contraditório que produziu sobre Palmares . Apesar das datas discrepantes. São Paulo. Nina Rodrigues estava imbuído do espírito científico e do ideário racista. "A Troya Negra. Os debates sobre a sobrevivência de "africanismos".ou científicas. Os africanos no Brasil. bem como sobre costumes e tradições. Erros e lacunas da história dos Palmares" Diário da Bahia.. p. 71-93.. 2 Nina Rodrigues. vide Mariza Corrêa. Os africanos no Brasil. Rodrigues. entretanto. 63 (1904): 645-572. 6 Para uma avaliação da produção de Nina Rodrigues e de seus discípulos. 77-78. o autor consolida esta interpretação. aqui. 1977. concluía que os quilombolas haviam voltado "à barbárie africana" e que a destruição de Palmares abrira caminho para a "civilização do futuro povo brasileiro". 71-93. 2001. Bragança Paulista.4 Isso não significava. Os africanos no Brasil. especifica ser Palmares "uma criação exclusivamente bantu".84 equivalente aos que atualmente se encontram por toda a África ainda inculta". pp. miscigenação cultural e assimilação caminhavam juntos com a necessidade de avaliar o significado da cultura africana no Brasil. Cia. 11 n. na qual predominavam os Angola. . 89. [1932]. 4 N. mesmo que não houvesse só negros e que nem todos fossem africanos em Palmares. julgar o episódio de forma positiva: embora considerasse Palmares "um caso especial e sem exemplo na história dos povos negros". 22 e 23 de agosto de 1905. pp. 1977. Ed. comparando-o com exemplos encontrados entre os Ewes.5 Escrevendo no início do século XX. Rodrigues. pp. essa última edição. Ed. sobre aculturação. Rodrigues. 5 N. 88-89 3 N. porém. 20. Os africanos no Brasil. Companhia Editora Nacional. Nacional. São Paulo. como então se dizia. Egbas e outros povos do Daomé ou do Senegal. porém tentava retirar deles elementos para valorizar a presença negra na formação nacional. rev. [1905].um evento marcante mas que não havia sido liderado pelos sudaneses. Com o título alterado para "As sublevações de negros no Brasil anteriores ao século XIX. 5ª ed. a presença bantu exercia uma indiscutível "influência diretora". para discutir as hierarquias políticas entre os chefes palmarinos. Por isso. 5ª ed. Palmares" o texto foi incluído no livro póstumo Os africanos no Brasil. 90-93. pp. o artigo foi transcrito na Revista do Instituto Archeologico e Geographico Pernambucano. pp. As ilusões da liberdade: a escola de Nina Rodrigues e a antropologia no Brasil.

São Paulo. Racismo e anti-racismo no Brasil.7 Os dilemas daquele presente orientavam um certo olhar sobre o passado.8 A partir do artigo pioneiro de Nina Rodrigues. mas com posições diversas quanto ao significado das raízes africanas de Palmares.. os elementos políticos. Vide também Arthur Ramos. mas de adaptações: "os usos e costumes dos quilombos dos Palmares copiavam as organizações africanas de origem 7 Ver. de tática militar. mesmo diante dos poucos dados disponíveis.. A história do Projeto Unesco. Companhia Editora Nacional. especialmente cap. [1971]. 34. 122-123. os estudos lingüísticos e antropológicos sobre as culturas africanas serviram de base para diversos autores interessados em valorizar a cultura negra no Brasil ou afirmar a importância da África no processo de formação da nação. 1999. p. 47 n. de espírito associativo. O negro na civilização brasileira [1956] Rio de Janeiro. esses debates envolviam intelectuais nacionais e americanos interessados no que então se chamava de "estudos sobre o negro" no Brasil e nas Américas. "O espírito associativo do negro brasileiro".85 importante entender e dimensionar o processo de desagregação vivido a partir da saída da África. . a respeito. 107. Fundação de Apoio à USP/Ed. Fiocruz/CCBB.9 Este "estado negro" constituía um "exemplo de organização política e econômica". tais posições ecoaram na história de Palmares ao reforçar a necessidade de discutir. 4. 3. 137-140. pp. IUPERJ. especialmente capítulo 5. do negro brasileiro". (1939): 121 10 Arthur Ramos. Doutorado. São Paulo. 1996. Marcos Chor Maio. pp. sociais e religiosos da vida nos mocambos. 1997. Ciência e Sociedade. para um panorama amplo sobre o tema. Livraria e Editora da Casa do Estudante do Brasil. durante o cativeiro e depois da abolição. de administração. pp. "O culturalismo dos anos 30 no Brasil e na América Latina: deslocamento retórico ou mudança conceitual?" in: Marcos Chor Maio e Ricardo Ventura Santos (orgs. que estavam se constituindo como campos de investigação. 9 Arthur Ramos. Nesse período. Lourdes Martínez-Echazábal. Importantes para a antropologia e a sociologia. o quilombo era um "estado com tradições africanas dentro do Brasil (.) uma desesperada reação à desagregação cultural que o africano sofreu com o regime da escravidão".. Rio de Janeiro. Para Arthur Ramos. 1942. Raça. na qual se "evidencia[v]am as capacidades de liderança. Antonio Sérgio Alfredo Guimarães.. Estudos raciais e ciências sociais no Brasil. de constituição legislativa . de organização econômica. "O espírito associativo do negro brasileiro". 8 Ver. Revista do Arquivo Municipal. A aculturação negra no Brasil.10 Já não se tratava de uma criação "exclusivamente bantu" como em Nina Rodrigues. Artur Ramos e Edison Carneiro seguiram as pegadas de Nina Rodrigues.).75 e Arthur Ramos.

Anpocs/Hucitec. 2005. Civilização Brasileira) é mais pobre e contém só o texto da primeira edição. esse campo politizou-se cada vez mais. 14 Edison Carneiro. p. que também permearam os estudos sobre os quilombos no Brasil nesse período. por exemplo. do mesmo autor. O Quilombo dos Palmares. Utilizo aqui a 2ª edição. foi feita uma quarta edição (São Paulo. 1988). Editora Unesp/ Polis.13 Mas seria. A hidra e os pântanos. feita em 1966 (Rio de Janeiro. Carneiro constitui um marco na historiografia palmarina. quilombos e comunidades de fugitivos no Brasil (séculos XVII. Visões do passado e perspectivas contemporâneas. 25-32. p. foi publicada em 1958 (São Paulo. um espaço de luta contra a aculturação promovida pela sociedade escravista e de "restauração de valores antigos”.14 Sem dúvida. CEN. Palmares constituiria. Maria Hermínia Tavares de Almeida e Peter Fry (orgs). com apresentação de Waldir Freitas Oliveira. A terceira edição. 13 Arthur Ramos.75. que havia transposto barreiras e adaptado práticas culturais africanas para um novo meio: "um caso curioso e instrutivo de fusão da experiência e dos elementos africanos com as imposições do novo meio na formação de um Estado em miniatura. com algumas revisões. "Singularidade dos quilombos" e vários documentos são publicados em anexo. 76. O negro na civilização brasileira. A segunda edição. 123 e também Arthur Ramos. publicado em 1947. Nesse contexto. acrescentou-se um ensaio inicial. o esforço para identificar esse ou aquele comportamento político. 1947. Brasiliense. p. Mais recentemente. também. publicada no México em 1946.86 bantu. São Paulo.XIX). pois conectava-se com a análise das relações raciais e com posicionamentos diversos em relação ao racismo e ao caráter híbrido e permeável da sociedade brasileira. Nesta. como afirmava Edison Carneiro. Companhia Editora Nacional). pp.197-221. dá continuidade à perspectiva inaugurada por 11 Arthur Ramos. também. a obra de E. uma prova da capacidade de associação e organização do "negro brasileiro".14. traço religioso ou costume social dos palmarinos vinha acompanhado pela discussão sobre o caráter africano ou variegado do quilombo. "Ainda sobre os quilombos: repensando a construção de símbolos de identidade étnica no Brasil" in: Elisa Reis. Seu livro. 12 Para um panorama sobre os significados dos quilombos para a historiografia e o movimento negro no Brasil. Há uma edição anterior. manifestando todos os atributos de uma comunidade civilizada". 1996. .12 No caso brasileiro. Política e cultura. p.11 A controvérsia entre a pureza e a adaptação cultural combinava-se com movimentos mais amplos de valorização da cultura africana e do pan-africanismo. integrando a coleção Brasiliana. São Paulo. fac similar da segunda. vide Flávio dos Santos Gomes. as datas saem do título. "O espírito associativo do negro brasileiro". O negro na civilização brasileira. Mocambos. Cf. 1630-1695. São Paulo. revista. mas com as modificações introduzidas com os hábitos aprendidos no Novo Mundo”. pp.

o que se explica pela pobreza mítica dos povos de língua bantu a que pertenciam e pelo trabalho de aculturação no novo habitat americano". em que são descritos os costumes e a vida política e religiosa nos mocambos. e mandados para o Brasil como escravos . etnografia e história da África. Carneiro. os primeiros habitantes dos Palmares seriam jagas: "aos jagas . Biblioteca do Exército. edição (Rio de Janeiro. Biblioteca do Exército. Carneiro. A segunda. 1954. como na África. e sua cultura possuía algumas adaptações. 59. mas o resultado dessa análise nem sempre é claro. para ele. Apesar de todo um capítulo dedicado aos "negros dos quilombos". Em 1954. Segundo ele. p. 1988) é a que utilizo aqui .belicosa tribo indomável do sobado do famoso Ngola Nbandi. p. já que louvava ao mesmo tempo a bravura daqueles que lutaram para derrotar Palmares e enaltecia a coragem dos quilombolas que almejavam a liberdade e resistiram por tanto tempo às investidas coloniais.18 Instalados em uma região cheia de palmeiras. .16 Em sua obra. pp. São Paulo. A cultura funcionava. Rio de Janeiro. 18 M. A ênfase contra-aculturativa é afirmada no artigo "Singularidades dos quilombos" publicado originalmente em 1953 e depois incorporado à 2ª ed. Reino negro de Palmares. O quilombo dos Palmares. não há de fato uma discussão sobre os elementos propriamente africanos da vida palmarina . O quilombo dos Palmares. Luiz Mendes de Vasconcelos.87 Nina Rodrigues e Arthur Ramos. governados por um rei cujo título nobiliárquico 15 E. Reino negro de Palmares. M. Companhia Editora Nacional. Carneiro era bantu a base lingüística dos quilombolas. os habitantes de Palmares teriam constituído no sertão de Pernambuco um sobado. os aspectos da resistência dos escravos foram os mais valorizados. no entanto. Sua abordagem era um tanto ambígua. ao considerar Palmares "um pedaço da África transplantado para o Nordeste do Brasil". no tempo da invasão holandesa. como no caso da religião.15 Também para E. 16 E. como um repertório para a resistência: a rebeldia dos escravos se expressava por meio de um processo contra-aculturativo. 13-25.17 Toda a primeira parte da obra foi dedicada à geografia. 30. ao qual se somaram outros. 1958.apenas referências mais gerais a práticas bantu. aprisionados pelos portugueses durante o mandato do governador de Angola. p. "mais ou menos semelhante à católica. nomeado em 1616. Freitas.cabe a paternidade do grande movimento palmarino já anteriormente iniciado com alguns negros desgarrados". 17 Mario Martins de Freitas. 162. de O quilombo dos Palmares. a extensa obra de Mário Martins de Freitas trouxe novos elementos.

Mário Freitas interpreta as informações colhidas nas fontes administrativas e na crônica de 1678 segundo seus conhecimentos dos costumes africanos que. 179. e o rei "tomou o título militar de Gangazumba. que utilizo aqui. 22 Benjamin Péret. comandante geral de todas as forças que foram distribuídas pelas embalas e com comandantes subordinados ao alto comando". Editora da UFRGS. Ed.88 era Zambi. 21 Clóvis Moura. Ed. Para Clóvis Moura21 e Benjamin Perét. "Quilombo em Alagoas" Da fuga ao suicídio. M. 24 B. "O quilombo dos Palmares". 217-238. 109-128. os artigos foram publicados por Lisboa. Freitas. 23 Clóvis Moura. Conquista. por Porto Alegre. 1980. pp. na mesma direção. pp. Sob a forma de livro. Como não implicaram numa análise histórica de Palmares.20 Mais que as características contra-aculturativas salientadas por Edison Carneiro. edições Zumbi. "cuja autoridade repousava no sangue da casta sagrada dos jagas". O quilombo foi referência importante para movimentos anti-racistas que tinham fortes traços culturalistas. Fenda. 179-190) é a que utilizo. guerrilhas. Paulo. 1972. e 66 (maio 1956): 467-486. Aspectos da rebeldia do escravo no Brasil. Sobre o tema ver Abdias do Nascimento. Nesse contexto. 65 (abr. 113-137. Documentos de uma militância pan-africanista. 223228. "República dos Palmares" O negro na luta contra a escravidão. Conquista. deixo de tratar deles neste texto.19 Não há evidência documental para tais afirmações. insurreições. especialmente "Ensaio de interpretação". Reino negro de Palmares. os aspectos da resistência dos escravos diante da escravidão e sua luta pela liberdade do que os aspectos culturais. revista e ampliada (Rio de Janeiro. Ver também. A negação do cativeiro explicava as fugas e os quilombos. e José Alípio Goulart. como a chamou Clóvis Moura . O quilombismo. Petrópolis. a historiografia brasileira sobre Palmares abandonou aos poucos essa perspectiva analítica. . Com o tempo teria se desenvolvido uma organização mais centralizada. S. p.e o que "maior trabalho deu às autoridades para ser exterminado". como no caso do quilombismo de Abdias do Nascimento. Catedral de Brasília/INL. p. Rio de Janeiro. "O quilombo dos Palmares" Rebeliões da Senzala.24 19 20 M. Quilombos. são um pouco confusos. os autores que analisaram a história de Palmares nos anos 50 e 60 passaram a valorizar o "protesto escravo".a rebelião das senzalas. Luiz Luna. revista Rio de Janeiro. 1988 e com o título O quilombo dos Palmares. cada vez mais. 1956): 230-249. para valorizar. Leitura. 1976. Péret.22 a resistência escrava . 1968 (2ª ed. pp. "Que foi o quilombo de Palmares?". 1959. A partir dos anos 1950. A segunda edição. como se pode perceber. 1972. pp. 171. Palmares teria sido o mais duradouro e extenso dos "movimentos dos cativos contra a escravidão" . pp. Vozes.era uma das formas que a luta de classes havia assumido no Brasil. "Que foi o quilombo de Palmares?" Anhembi. 2002 (com estudos complementares por Robert Ponge e Mário Maestri).23 Seu estudo fornecia uma lição exemplar para os militantes de esquerda e Palmares e seus líderes passaram a ser avaliados a partir de seu potencial revolucionário.

latinizados ou próximos de raízes ameríndias". muito negros ou quase brancos. Maroon Societies. 166. New York. refutava a hipótese de que os jagas teriam sido os fundadores de Palmares ou terem constituído sua dinastia governante. 1973. 175. pois abriam possibilidades interessantes para estudar o modo como as culturas africanas se desenvolveram fora da África.26 Baseado na então relativamente nova historiografia africanista. os estudos sobre o negro ganharam novas dimensões. Em 1965 Raymond Kent publicou um artigo em que os estudos acadêmicos sobre a história e a cultura africanas foram arregimentados para realizar uma avaliação mais pormenorizada da presença da África em Palmares. com o desenvolvimento dos estudos africanistas nos Estados Unidos. tanto acadêmicas quanto políticas. 28 R. a notação internacional atual para as palavras centroafricanas.89 Enquanto isso. embora não pertencessem a nenhum subgrupo bantu específico. aqui e em toda a tese. o que significava que os fundadores de Palmares. "Palmares: An African State in Brazil" Journal of African History. constituindo uma demonstração da "vitalidade da 25 Raymond K.170-190. 6: 2 (1965): 161175. Rebel slave communities in the Americas. Desde 1580. assim como para outros autores que estudavam os quilombos nas Américas. "Palmares: An African State in Brazil". além de resistir por quase um século inteiro a dois poderes europeus. pp. nos anos 1960. Palmares teria aos poucos se tornado mais crioulo em função dos nascimentos e dos novos fugitivos: isso significava que um sistema político africano podia ter sido transferido para outro continente e ali tinha sido capaz de governar "não apenas indivíduos de vários grupos étnicos africanos mas também os nascidos no Brasil. a maioria dos "palmaristas" teria vindo "do perímetro Congo-Angola". Anchor. Para ele. assim como outras comunidades de fugitivos nas Américas.28 Para Kent. "Palmares: An African State in Brazil". Palmares. .). mesmo que elas não tenham sido grafadas dessa forma pelos autores. 27 R. não havia mais referências genéricas aos bantu. 26 Para facilitar a leitura.27 Ao adaptar vários modelos africanos. O artigo foi posteriormente publicado em Richard Price (ed. p. Palmares era um fenômeno interessante pois permitia observar a "recriação de sociedades africanas num novo meio".25 Aqui. Angola se tornara o grande fornecedor de escravos. mas análises lingüísticas que faziam referências aos Mbundo e aos Imbangala. constituíam um "amálgama" no qual os crioulos eram poucos. Kent. adoto. p. chamaram a atenção dos pesquisadores. Kent. Kent.

Kent. Vintage Books. 1996. Boston. os estudos sobre a escravidão haviam caminhado bastante.33 A cultura africana era um elemento importante para se conhecer a lógica das ações dos escravos. The Black Family in Slavery and Freedom. Nova York. Na senzala uma flor. "Palmares: An African State in Brazil". que participou durante algum tempo da vida acadêmica nos Estados Unidos. pela Johns Hopkins University Press. Melville J. sua dívida para com a reflexão sobre o sincretismo realizada por Arthur Ramos. baseada na africana. Global. Nova Fronteira. discutindo o grau de autonomia que os cativos conseguiam manter em relação aos senhores. Beacon Press. Nova York. Cf. Roll: The World the Slaves Made. e do uso desses elementos culturais como instrumento para enfrentar as adversidades do cativeiro e da vida no pós-emancipação. The myth of the Negro past [1941]. Kent. (trad. Essa perspectiva se associou a um movimento maior de estudos sobre as comunidades de fugitivos nas Américas. Slenes. Maroon Societies. Palmares esteve próximo de alterar a história subseqüente do Brasil: se não tivesse sido destruído. The Johns Hopkins University Press. 174 31 Richard Price (ed). não era bem uma novidade. muitos estados africanos independentes no interior do Brasil. pp. 1977) produziram estudos fundamentais sobre a cultura dos escravos. Utilizo aqui a 3ª. Rebel slave communities in the Americas [1973]. A perspectiva comparativa inaugurada por Price foi continuada por Eugene D. Herskovits.) São Paulo. especialmente cap. 33 Nos Estados Unidos. no século XVIII. "Palmares: An African State in Brazil".. 28-43. pp.29 Essa vitalidade. vide Robert W. profundamente centro-africana no caso de Palmares. A segunda edição foi feita em 1979. 1983. Pantheon. intitulada Maroon societies. fazia com que esse autor retomasse a avaliação de Nina Rodrigues para inverter seu significado. A introdução de Sidney W. Mintz a essa edição oferece uma boa análise das obras de Herskovitz.31 A idéia da formação de comunidades de fugitivos que possuíam uma cultura própria. 1999. Herskovits reconhece.32 Nos anos 70 e 80. de certo modo. p. 2. que pode ser observado na coletânea editada por Richard Price em 1973. as idéias de Melville Herskovits sobre a adaptação criativa da cultura africana nas Américas. Da rebelião à revolução. 1750-1925. centrada na questão da família. 1974) e Herbert Gutman.90 arte tradicional africana de governar os homens". Eugene D.30 Era. Baltimore. Jordan. a presença da África que garantia a avaliação positiva da força simbólica de Palmares na história. ao recuperar as dimensões da cultura escrava e suas relações com as heranças africanas. instalados no litoral. por exemplo. mas havia a necessidade de levar em conta a experiência da própria 29 30 R. 1990. Genovese (Roll. os portugueses. Nos Estados Unidos. os estudiosos retomavam. 32 As preocupações norte-americanas mantinham várias conexões com os debates no Brasil. Para um balanço dessas obras e dos debates sobre a cultura escrava desde Frazier e Herkovits. Genovese. provavelmente teriam que enfrentar. mencionando inclusive as relações com as idéias de Artur Ramos. Rio de Janeiro. portanto. 162 e 175 R. . ed.

reescrita. Uma perspectiva antropológica. p. 115 39 Décio Freitas. A primeira versão desse texto circulou como um impresso do Institute for the Study of Human Issues. para ele. Beacon Press. "a despeito dos progressos ultimamente realizados". .34 Não se tratava mais de "sobrevivências africanas" como pensava Herskovits. p. Palmares. 1984. estavam longe de ser satisfatórios. Apesar das diferenças étnicas e lingüísticas.91 escravidão. Mintz e Richard Price. 2003). sem condições de oferecer subsídios para uma análise conseqüente. afro-americana. A primeira edição foi feita no Uruguai.35 se constrói como um esforço para afirmar "o conteúdo político e revolucionário das revoltas escravas" . 37 Décio Freitas. Seu livro. Palmares. revisadas. 1973. revista e ampliada: Porto Alegre.37 Assim como Péret. ou em 34 Sidney W. cuja primeira edição foi publicada em 1973 e sofreu sucessivas revisões. Boston.39 Ainda que o capítulo dedicado a analisar as características dos quilombos seja intitulado "Angola Janga". 38 B. Enquanto isso. An anthropological perspective. Porto Alegre. menção genérica aos fundos e arquivos consultados. As edições brasileiras posteriores. foram publicadas em 1978 e 1981. 12. Rio de Janeiro. para ele. Pallas/Universidade Cândido Mendes. avaliou e contestou interpretações anteriores. que nascia desse encontro das diversas heranças africanas com a sociedade escravista no Novo Mundo. 1992. 36 Décio Freitas. 35 Décio Freitas. no Brasil. A Guerra dos Escravos. Os africanos trazidos pelo tráfico para as Américas provinham de regiões diversas e tinham que enfrentar aqui relações sociais e políticas diferentes das africanas. Utilizo a quinta e última.36 Enfatizar a preservação da cultura africana era.dentre as quais Palmares ocupa um lugar ímpar. 172-173. Movimento. "Que foi o quilombo de Palmares?". Tinha então o título An anthropological approach to the Afro-American past: a Caribbean perspective (trad: O nascimento da cultura afro-americana. Péret. 48. a obra de Décio Freitas consolidava e dava corpo à leitura militante da história de Palmares. uma posição "alienada" e pouco produtiva. em 1971. mas de uma nova cultura. o empenho na busca de novas fontes e documentos não foi acompanhado pelo cuidado de referenciá-los em notas. pp. buscou novos documentos em diversos arquivos. p. já que o contingente trazido para o trabalho nos engenhos constituía "um mosaico étnico e cultural sumamente diversificado". no final do volume. o autor se dedicou a estudar ao tema. Infelizmente. pois os conhecimentos nessa área. Há apenas. o que movia a resistência dos escravos "era a desgraça comum.38 Freitas nega qualquer possibilidade de união étnica ou lingüística entre os escravos. Palmares. Palmares. The birth of African-American culture. Durante muitos anos. Mercado Aberto. 1976. os escravos possuíam uma herança comum que se modificava e se transformava para enfrentar os senhores e as relações nas sociedades escravistas das Américas.

fruto de um movimento "essencialmente social". pp. p.41 Havia igualdade civil e política entre os palmarinos. 29 e 30 de novembro de 2001. Alves Filho. Maceió. "A posse útil da terra entre os quilombolas" in: Abdias do Nascimento. pp. I. p. .). Nova Fronteira. merece um estudo mais aprofundado. como Edison Carneiro. essa tendência analítica se desenvolveu em conexão direta com a dinâmica do marxismo e dos partidos de esquerda . Freitas. com algumas características africanas. 205. nos mocambos teria havido "variedade de culturas agrícolas. Palmares. em busca da construção de uma epopéia revolucionária. 2002. então. 101-104. Ver também Ivan Alves Filho. Em alguns casos.92 outras palavras.44 Como vimos de modo breve na Introdução da tese. África . oposto ao "mundo do açúcar". Memorial dos Palmares. Tal perspectiva abriu caminho para que Palmares pudesse ser pensado como um mundo ideal. Na mesma direção caminham estudos específicos. 115-118. produção para consumo interno. 11. constituindo-se como "um asilo aberto a todos os perseguidos e deserdados da sociedade colonial". do mesmo autor. ao longo dos anos 1970 e 1980. 43 Décio Freitas. vide ainda Waldir Freitas Oliveira.em particular do partido comunista no Brasil. 42 Décio Freitas. Actas do Colóquio Internacional Universidade de Évora. Escravatura e transformações culturais. Palmares. 2ª ed. São Paulo. 33-39.153-164. Escravidão e liberdade no Atlântico sul. pp. "O quilombo dos palmares como resistência e síntese cultural" in: Isabel Castro Henriques (org. bem como a premente necessidade de defesa diante dos inimigos externos deram origem a um estado centralizado. Editora Vulgata. 19. Palmares. Gomes. [em que] a terra só tem valor pela utilidade [e a] sociedade não [é] dividida em classes. 2001.Brasil . 45 D. 1985. Décio Freitas e Ivan Alves Filho tiveram ligações com o PCB. pp. 51. "Ainda sobre os quilombos". Os quilombos na dinâmica social do Brasil. Alfredo Brandão.40 Palmares se tornava. p. 1982. p. "Que foi o quilombo de Palmares?". 41 Décio Freitas. 271-283. A oposição entre a democracia inicial e a centralização na organização política dos mocambos também foi abordada por B. do mesmo autor. um vínculo de classe".). Joel Rufino dos Santos. houve quem lamentasse a "incapacidade dos escravos" de por em xeque o sistema escravista. Memorial dos Palmares. Essa característica. xii-xiii. Aderbal Jurema. EdUFAL. Sobre o mesmo tema. pp. p. Péret. que salientam o caráter democrático da distribuição de terras em Palmares. e. Rio de Janeiro. Palmares. "Economia de Palmares" in: Clóvis Moura (org. pp. Assim. pp.45 40 Décio Freitas. Palmares e Zumbi tornaram-se símbolos da luta maior contra a opressão e exemplo para os militantes. 44 Vários autores que trataram de Palmares. Contexto.43 Não por acaso. 2005. Palmares. Lisboa. Cf. 199-200. e. pp. O negro revoltado. 28. São Paulo. Palmares. sem desníveis sociais (apesar de certos privilégios concedidos aos chefes militares e políticos)". que ainda não foi feito.42 mas a necessidade de acomodar e agregar grupos heterogêneos do ponto de vista étnico e cultural. 72. como em Duvitiliano Ramos. F.Caraíbas. p. Zumbi. mencionada por alguns autores. 47. abundância de alimentos. S. Editora Moderna. 61-71.

17. em particular num volume especial da revista Estudos Econômicos. n. 12 (out.47 bem como artigos que empreendem uma análise das rebeliões escravas e de práticas de fuga ou de troca de senhor que focalizam outras lógicas políticas. 47 É o caso. 49 Stuart. que oferece uma abordagem inovadora para a história de Palmares. B. que focalizavam dimensões diversas da vida dos escravos e. "Rebeliões escravas em Sergipe". nas universidades brasileiras. uma nova abordagem da história dos quilombos se desenvolveu. Estudos Econômicos. os historiadores no Brasil passaram a focalizar com maior cuidado a vida dos escravos sob a escravidão. pode ser colhido nas publicações feitas por ocasião do centenário da Abolição.49 Uma versão anterior do artigo já havia sido publicada em 1970. Inspirados pelas mudanças na historiografia da escravidão nos Estados Unidos e em especial por novas propostas teóricas e políticas no estudo da história social. procurando compreender o ponto de vista dos cativos e os motivos para suas ações como escravos e suas formas de reagir contra o cativeiro. 1832-1855". de Clovis Moura. Encontram-se ali estudos que dão continuidade à vertente clássica das obras dedicadas a analisar a insurgência negra no Brasil. nº especial (1988): respectivamente pp. S. entre outros. 89-110. Quilombos e Palmares: a resistência Escrava no Brasil colonial". "Blowin' in The Wind": Thompson e a Experiência Negra no Brasil" Projeto História. Mott. levando em conta o ponto de vista dos agentes envolvidos nos diferentes contextos. "Da insurgência negra ao escravismo tardio" Estudos econômicos. dedicado ao "protesto escravo". 17. por exemplo. escrito por Stuart B. aqui. 48 Veja-se. Marcus J. o que se pretendia então era compreender o ponto de vista dos escravos segundo seus próprios termos. e João José Reis. Luiz R. destaco um. que despontaram no Brasil dos anos 1980. Schwartz. "O levante dos malês na Bahia: uma interpretação política" Estudos Econômicos. O gesto político. "Mocambos.46 Mais que avaliar as qualidades políticas das ações escravas a partir de concepções e conceitos que lhes eram exteriores. M de Carvalho. 17. H.1995): 43-56.93 Paralelamente. 111-130 e 131-149. daqueles que fugiam e se aquilombavam. Schwartz. Essa perspectiva analítica aos poucos suplantou aquela abordagem militante e deu lugar a estudos mais acadêmicos. . Um bom exemplo dessas pesquisas. Lara. por exemplo. "'Quem furta mais e esconde": o roubo de escravos em Pernambuco. especial (1987): 37-59. B. estava em colocar os escravos como sujeitos da história e valorizar uma lógica diversa das expectativas do marxismo ortodoxo. nº especial (1988): 61-88. também. focalizando casos de 46 Para um balanço dessa produção historiográfica ver.48 Dentre eles.

Como muitos autores. ele considerou que as comunidades de fugitivos tinham "raízes em algumas formas tradicionais africanas de organização política e social" e combinavam "tais formas com aspectos da cultura européia e adaptações especificamente locais". porém. Edusc. seguia modelos africanos. .53 O termo é importante: não mais se trata de um reino africano. governados por uma linhagem real. pp. ao comparar as formas de organização militar e política dos quilombos com aspectos semelhantes que estavam sendo investigados por alguns estudiosos da história centro-africana. Ao mesmo tempo em que enfatizava o elemento comum e unificador de resistência à escravidão. p.) Bauru. Schwartz afirmava que os vários mocambos. "Repensando Palmares". Schwartz considerava a presença africana e as diferenças culturais entre os escravos. que também tratava de Palmares. 4 (1970): 313-333. 52 S. africanos e crioulos. formando "um único reino neoafricano". ao examinar com mais detalhe duas comunidades de fugitivos: o quilombo do Buraco do Tatu. Schwartz. B. 3 n. 249-255. B. Palmares era uma comunidade na qual "escravos de várias origens. 2001. 53 S. "Black slaves in Palmares. como haviam postulado antes outros autores. Schwartz. "Repensando Palmares". e Palmares. destruído em 1763. Schwartz. uma síntese das posições anteriores. 245. Brazil . B. 41 (1982): 38-48. pois o modo como elas haviam sido integradas. essas diferenças não teriam dissolvido as características africanas de Palmares. Journal of Social History. pp. (trad. Schwartz. Para ele. Vide S. Ao mesmo tempo.54 Havia. Schwartz. ou uma comunidade afro-brasileira (ou afro-americana). 54 S. assim. B. Schwartz. "Repensando Palmares: resistência escrava na colônia" in: Escravos. do ponto de vista político e militar. na Bahia.52 Seu artigo trazia porém uma contribuição importante para o tema. Schwartz questionava abordagens 50 Stuart B. 51 Esse artigo ganhou uma nova versão em 1992.The mocambo revolt" Histoire. B. ecoavam formas políticas e sociais africanas. Schwartz acompanhava a virada historiográfica dos estudos sobre a escravidão. 245.51 Foi um dos poucos trabalhos publicados naquela ocasião sobre o quilombo da Serra da Barriga. de certo modo.94 quilombos baianos. roceiros e rebeldes. Utilizo esse texto para as referências nos próximos parágrafos. e situava as fugas e os mocambos num quadro maior de resistência dos escravos. Com relação a Palmares. Uma versão intermediária foi publicada em S. "The 'Mocambo': Slave Resistance in Colonial Bahia". 213-255. "Repensando Palmares".50 Agora ganhava uma análise mais detalhada. uniram-se em sua oposição comum à escravidão". p.

S.56 A chave para decifrar essa história estava nos kilombos Imbangala. que somente agora. B. transformando-a em um poderoso instrumento militar ao permitir a integração de povos desiguais e sem ancestrais comuns. religiosa. B. se os fundadores de Palmares se inspiraram no kilombo Imbangala para a formação de sua sociedade. 1976. 58 S.95 etnográficas centradas em "identidades étnicas ou culturais específicas". p. mas um título. pelo menos. Oxford. 249. a partir do contato entre os Mbundo e os Imbangala: os reinos de Matamba e Kassange. ele procurou compreender como e por que a palavra quilombo passou a ser empregada para caracterizar Palmares e como essa palavra se tornou.57 Como bem observa Schwartz. Clarendon Press. que não era de fato um nome próprio. ao invadir a região de Angola ao longo do século XVII. Com rituais próprios. ela tinha permitido coesão de homens que não estavam integrados por laços de parentesco nem por deuses ancestrais e que passavam a viver em acampamentos. um sacerdote cuja responsabilidade era lidar com o espírito dos mortos. "Repensando Palmares". "Repensando Palmares". devido a pesquisas recentes sobre a história africana. Schwartz. que muitas vezes adotavam categorias como "angola" ou "congo".55 Ao invés disso. 254. 251-254. Schwartz. "Repensando Palmares". pode ser. a partir de Palmares. sociedades rituais que haviam permitido que esses guerreiros centro-africanos mantivessem coesão social. 57 S. 248. Kings and kinsmen: early Mbundu states in Angola. Ao se fundirem com as linhagens nativas. política e militar. p. Schwartz apóia-se especialmente em Joseph C. ao menos parcialmente. Dois estados haviam se formado na região centro-africana. a maneira de designar todas as comunidades de fugitivos no Brasil: "a cronologia e a conexão [da palavra quilombo] com Palmares não são acidentais. p. B. B. uma variante do modelo original". compreendida". Schwartz. que para ele eram na verdade mais invenções coloniais do que resultado de processos identitários propriamente africanos. Schwartz. Miller. No termo quilombo está codificada uma história não escrita. .58 Mas havia fortes paralelos: "uma figura fundamental no kilombo era o nganga a zumba. O Gangazumba de Palmares era provavelmente o detentor desse cargo. de guerras e conquistas. pp. "sua versão dele era incompleta ou. Há outros ecos das descrições de Angola 55 56 S. os Imbangala haviam incorporado uma instituição dos Mbundo. "Repensando Palmares".

"Repensando Palmares". 1993. Berlin 1988 Frankfurt. S. Schwartz. First International Conference of the Society of Caribbean Research.). tomei a liberdade de corrigir um pequeno deslize do tradutor na última frase da citação. 1987. É bastante curiosa a observação de Andrew Batell. pp. 337-363. . Bloomington. Além da cultura. e Palmié. The African frontier. Indiana University Press. Königshousen and Neumann. Schwartz leu esses dois artigos antes de serem publicados definitivamente. B. Vervuert. o interesse predominante continuou a enfatizar os aspectos e os significados sociais das fugas. Mesmo que a vertente militante tenha sido abandonada. como as realizadas por Igor Kopytoff. pp. Schwartz. B. Alguns historiadores já haviam observado que algumas fugas eram temporárias. "The internal African Frontier: the making of African political culture" in: Igor Kopytoff (ed. 3-84.).59 Como se pode observar. Cf. desenvolvidas por Stephen Palmié. nem de uma nova cultura. Certamente os estudos sobre as fugas e os quilombos brasileiros passaram por modificações significativas. que viveu entre os Imbangala e relatou que seu maior luxo era o vinho de palma e que suas rotas e acampamentos eram influenciados pela disponibilidade de palmeiras. exatamente como afirmam alguns dos relatos brasileiros.60 Apesar da importância da contribuição analítica do artigo de Schwartz. Ele procurou compreender como a marca africana nas ações dos escravos podia ser compatível com a diversidade étnica dos cativos e com os desafios vividos por eles na América. . "African States in the New World? Remarks on the Tradition of Transatlantic Resistance" in: Thomas Bremer e Ulrich Fleischmann (eds. p. 60 Essa perspectiva se baseava nas análises desses mecanismos e instituições africanas. ao invés da cultura dos fugitivos. O que estava em jogo era uma cultura política: uma experiência africana de integração de povos diversos e de geração de solidariedades que também era empregada também na América. Stephan “Ethnogenetic Processes and cultural transfer in AfroAmerican Slave Populations” Wolfgang Binder (ed) Slavery in the Americas. 245 e 249. Ao reproduzir o trecho. 1993. Wurzburg. usadas pelos escravos para 59 S. pp. como papers escritos em 1988 e 1989. No kilombo Imbangala a liderança dependia de algum tipo de aclamação ou eleição popular. 55-67. mas não nessa direção. havia em sua análise elementos mais amplos. 253. a nova senda interpretativa aberta por ele teve pouco impacto na historiografia brasileira. Seus comentários fazem com que a associação entre a comunidade de fugitivos e a região de Palmares pareça mais do que coincidência". para Schwartz há instituições centro-africanas específicas que podem ter sido fonte de inspiração e que talvez tenham sido adaptadas e transformadas. pp. "Repensando Palmares".96 que parecem sugestivos. Não se trata mais de sobrevivências ou heranças africanas. ligados a estratégias políticas africanas. Alternative cultures in the Caribbean.

As diversas perspectivas de análise se desenvolveram. século XIX. Ainda que vários deles tenham buscado compreender a lógica dos escravos e dos fugitivos. Os temas têm variado. "' Quem furta mais e esconde': o roubo de escravos em Pernambuco. no início dos anos 1990.61 Outros. Ao estudar formações quilombolas extensas no Vale do Paraíba e na Baixada Fluminense. como Marcus Carvalho. as questões da cultura dos escravos . o panorama mudou por completo desde as pesquisas realizadas por Flávio dos Santos Gomes. ora suas ligações com a sociedade escravista. Arquivo Nacional. 1 (1977): 69-81. nem deu margem a um estudo específico sobre Palmares. multiplicando os estudos sobre os quilombos em várias regiões e períodos da história da escravidão no Brasil. o fato de serem africanos. 18321855" Estudos Econômicos. Seus estudos abriram a possibilidade de investigar novas dimensões da vida nos quilombos e suas relações com as várias modalidades de fuga. com outros grupos e segmentos sociais.97 exigir dos senhores mudanças nas condições de trabalho. "Resistance and accommodation in eighteenth-century Brazil: the slaves' view of slavery" The Hispanic American Historical Review. M. que depois propuseram um tratado de paz a seu senhor.ou seja. Mas não contemplavam. que escondiam fugitivos interessados em seu trabalho. Histórias de quilombolas: mocambos e comunidades de senzalas no Rio de Janeiro.63 Até os anos 1970 os agrupamentos de escravos fugidos eram vistos em geral como lugares sociais e políticos que se colocavam "fora" do mundo escravista: os fugitivos buscavam o isolamento nas matas. O centenário da morte de Zumbi não ofereceu novidades. o tema da cultura e das 61 Um bom exemplo é a fuga dos escravos de Sergipe do Conde. de Carvalho. . dessa ou daquela parte da África. afastando-se das fazendas e engenhos. assim como no caso da maior parte dos estudos sobre a escravidão. e A hidra e os pântanos. especialmente. 63 Ver. Flávio dos Santos Gomes. nº especial (1978):89-110. Vide Stuart B. como forma de proteger a liberdade conquistada e só retornavam às fazendas e lavouras quando recapturados. já haviam verificado que as fugas podiam ser instrumentalizadas pelos senhores. 62 Marcus J. Flávio Gomes documentou as trocas entre quilombolas e taberneiros locais e as relações entre os que estavam nos matos e os escravos que continuavam nas senzalas. Schwartz. 17.62 Com relação aos quilombos propriamente ditos. Rio de Janeiro. 57 n. abordando ora questões da vida interna dos quilombos. 1995. ou de serem crioulos pesava pouco na análise empreendida.

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heranças africanas não tem sido relevante. Talvez isso possa ser explicado por dois movimentos paralelos. No caso do Brasil, muitos estudos ganharam dimensões políticas mais diretas, ao se conectarem às reivindicações dos remanescentes de quilombos, que foram reconhecidas pela Constituição de 1988. Nesse movimento o termo quilombo se alargou, ganhando novas dimensões, às vezes distantes do significado que ele possuía no século XVII e XVIII. Houve, assim, um novo modo de politizar o tema, levando-o para longe das lides históricas. Por outro lado, em termos mais gerais, tem havido um grande interesse historiográfico pelos processos de contato cultural. Na antropologia e na história os termos mais antigos do sincretismo e da mestiçagem têm sido revisitados, ganhando às vezes novas roupagens e significados. Assim, de modos diversos, a idéia da formação de uma nova cultura no Novo Mundo, proposta por Sidney Mintz e Richard Price nos anos 1970, tem ganhado muitos adeptos, ainda que nem sempre a referência a esses autores seja evidente. A ênfase nos processos de crioulização e formação de sociedades multiétnicas ou multiculturais caracteriza hoje grande parte dos estudos sobre a escravidão nas Américas. Os estudos mais recentes sobre Palmares vão nessa direção. Mesmo concordando com uma predominância centro-africana entre os habitantes dos mocambos, Robert N. Anderson,64 por exemplo, ressaltou que "na segunda metade do século XVII, Palmares era claramente um comunidade multiétnica e praticamente crioula".65 Essa interpretação foi reforçada por alguns arqueólogos como Pedro P. A. Funari, Charles Orser Jr. e Scott Joseph Allen que, baseados na predominância de artefatos indígenas encontrados nas escavações realizadas na Serra da Barriga, acreditam ter documentado a existência de uma população multiétnica em Palmares e discutem sua caracterização em termos de um "mosaico cultural".66
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Robert N. Anderson, "The Quilombo of Palmares: A New Overview of a Maroon State in SeventeenthCentury Brazil." Journal of Latin American Studies 28 (1996): 553-62. 65 R. N. Anderson, "The quilombo of Palmares", p. 559. 66 Pedro Paulo de A. Funari, "A arqueologia de Palmares. Sua contribuição para o conhecimento da história da cultura afro-americana in J. J. Reis e F. S. Gomes (orgs.), Liberdade por um Fio. São Paulo, Companhia das Letras, 1996, pp. 26-51; Charles E. Orser Jr. e Pedro P. A. Funari, "Archaeology and slave resistance and rebellion" World Archaeology, 33 n.1 (jun. 2001): 61-72; e Scott Joseph Allen, "A

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Em outra chave, Flávio Gomes procurou inserir a história de Palmares numa perspectiva atlântica.67 Sua análise valoriza a perspectiva aberta por Richard Price, em Moroon societies, politizada pela abordagem de Paul Gilroy,68 e acrescentada pelos estudos que enfatizam as trocas e os nexos atlânticos.69 Infelizmente, sua obra faz parte de uma coleção que possui restrições editoriais, e se destina a oferecer um panorama abrangente do tema. Assim, ele compensou a ausência de notas de rodapé com a reprodução de vários documentos na íntegra, colocou várias questões e apresentou sugestões interpretativas instigantes, mas não pôde aprofundar nenhuma delas. Os estudos de Robert Anderson e Flávio Gomes mencionam o caminho analítico proposto por Schwartz mas, por motivos diversos, não lhe dão continuidade. Anderson lhe retira a dimensão política, para reafirmar que "a persistência e adaptação de elementos culturais africanos como o quilombo no contexto crioulo afro-brasileiro, de fato, demonstra a continuidade da cultura africana e da cultura da diáspora africana no processo de transculturação ocorrido no Novo Mundo".70 Ou seja, não havia mais uma cultura política, um idioma cultural Imbangala-Mbundo de integração de gente desenraizada que havia se transferido para a América, mas continuidades culturais transformadas pela diáspora africana. Flávio Gomes toma a análise de Schwartz como exemplo das conexões possíveis entre Palmares e o universo africano, colocando diversas questões interessantes sobre a troca de experiências entre as duas margens do Atlântico. Ainda que sejam apenas indicações, suas perguntas indicam que ele pensa em conexões mais diretas, como no caso da circulação de notícias e de pessoas.71 O caminho merece ser explorado, contudo é diverso do apontado por Schwartz. Assim, a tradição que focaliza os aspectos da cultura voltou a ter interesse para os que se dedicam à análise da história dos quilombos e das comunidades de fugitivos. Ela

'cultural mosaic' at Palmares? Grappling with historical archeology of a seventeenth-century Brazilian quilombo" in P. P. A. Funari (org.), Cultura Material e Arqueologia Histórica, Campinas, IFCHUnicamp, 1998, pp. 141-178. 67 Flávio dos Santos Gomes, Palmares, especialmente pp. 13-28 e 116-120. 68 Paul Gilroy, The black Atlantic. Modernity and double consciousness. Londres, Verso, 1993 (trad: O Atlântico negro. São Paulo, Ed. 34/UCAM-CAA, 2001) 69 Luiz Felipe de Alencastro, O trato dos viventes. Formação do Brasil no Atlântico Sul, séculos XVI e XVII. São Paulo, Companhia das Letras, 2000. 70 R. N. Anderson, "The quilombo of Palmares", p. 565. 71 F. S. Gomes, Palmares, especialmente pp. 119-120.

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tem preponderado também nos estudos sobre as negociações com os fugitivos. Com relação a esse tema, no entanto, quase nada há a respeito dos quilombolas no Brasil, ainda que esse seja um aspecto importante na história das fugas e dos fugitivos nas Américas, como veremos a seguir.

2. Pelas Américas A história das fugas e dos quilombos no Brasil está ligada a uma tradição militante que tendeu a valorizar a luta pela liberdade empreendida pelos fugitivos. No caso da história de Palmares, como vimos, tal perspectiva redundou na construção de análises que na maior parte das vezes cultivaram as características heróicas do quilombo e de suas lideranças com o propósito de inspirar outras lutas revolucionárias. Por sua longevidade e pela extensão geográfica que ocupou, Palmares aparece como caso excepcional na história dos quilombos no Brasil. Muitos historiadores já observaram que os quilombos conhecidos foram aqueles destruídos, registrados pelos documentos produzidos pela repressão. De fato. Apenas alguns, mais raros, conseguiram permanecer bem escondidos e escapar das investidas coloniais e imperiais. Poucos remanescentes de quilombos atuais têm suas raízes em quilombos desse tipo - em geral, constituem comunidades que se formaram por outros motivos e que passaram a assumir posteriormente uma identidade quilombola.72 Nesse quadro, as negociações de 1678 aparecem como uma exceção. Também os estudos sobre as fugas e quilombos (ou palenques, cumbes, marrons e cimarrones) nas Américas tenderam a dar menos importância aos acordos de paz. O livro organizado por Richard Price em 1973, no contexto do movimento pelos direitos

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Para uma discussão sobre o tema, ver Hebe Mattos, "Novos quilombos: re-significações da memória do cativeiro entre descendentes da última geração de escravos" in: Ana Lugão Rio e Hebe Mattos, Memórias do cativeiro. Família, trabalho e cidadania no pós-abolição. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2005, pp. 255-301. Ver também José Maurício Arruti, Mocambo. Antropologia e história do processo de formação quilombola. Bauru, Edusc, 2006, bem como os artigos que compõem a parte intitulada "Herança quilombola" na coletânea Clóvis Moura (org.), Os quilombos na dinâmica social do Brasil. Maceió, EdUFAL, 2001, pp. 301-376. Para uma avaliação crítica das tensões entre a análise histórica e a defesa de posições políticas com relação à história dos quilombos e dos remanescentes de quilombos, ver Richard Price, "Reinventando a história dos quilombos: rasuras e confabulações". AfroÁsia, 23 (1999):239-265.

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civis, estava - como ele mesmo diz - "ancorado na crença de que as sociedades criadas pelos fugitivos - no Brasil ou nos Estados Unidos, no México ou na Jamaica - tinham em comum vários aspectos culturais e juntas eram a prova viva e heróica da existência de uma consciência escrava que recusava ser limitada ou manipulada pelos senhores".73 Essa perspectiva valorizava o estudo das lutas empreendidas pelos fugitivos em diferentes lugares das Américas, ao longo de toda a vigência da escravidão e, em especial, das comunidades que eles haviam formado. Como vimos, um dos interesses despertados pelo tema era discutir as características culturais das comunidades criadas pelos fugitivos, para estudar melhor a experiência afro-americana e o modo como as culturas africanas haviam se transformado nas Américas.74 Nessa época, os estudiosos começaram a se interessar pelos Saramaka no Suriname e pelas comunidades maroons da Jamaica. Nos dois lugares, ao longo do século XVIII, os escravos fugidos haviam conseguido resistir a guerras intensas e firmado acordos com as autoridades coloniais, sobrevivendo durante os séculos como povos relativamente independentes, com língua, estruturas sociais e costumes próprios. Mas havia outros casos, e os artigos que compõem a coletânea organizada por Richard Price mencionam vários exemplos de tratados, bem e mal sucedidos, em diversas partes das Américas. Ao longo dos anos, eles despertaram, cada vez mais, a atenção dos pesquisadores. No Brasil, contudo, o tema continuou a suscitar pouco interesse. Na coletânea sobre a história dos quilombos no Brasil, organizada por João José Reis e Flávio Gomes, em 1996, não há nenhum artigo que trate de negociações com fugitivos.75 O artigo do mesmo Richard Price destoa de todos os outros, ao imaginar, com base em seus estudos sobre os Saramaka, como Palmares poderia ter sido se o tratado firmado com Gangazumba tivesse vigorado: "Os homens e mulheres de Palmares chegaram dolorosamente perto do mesmo resultado [que os Saramaka], pois tendo representado uma séria ameaça ao sistema colonial e derrotado, durante sucessivas décadas, ondas
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Richard Price, "Preface to the 1996 edition" in: R. Price (ed), Maroon societies, p. xi. A mesma afirmação aparece, quase que com as mesmas palavras, em R. Price, "Palmares como poderia ter sido" in: J. J. Reis e F. S. Gomes (org.), Liberdade por um Fio, p. 52. 74 Richard Price, "Introduction. Maroons and their communities" in: R. Price (ed), Maroon societies, p. 4. 75 Cf. J. J. Reis e F. S. Gomes (org.), Liberdade por um Fio, passim.

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de entradas organizadas contra eles, poderiam ter conquistado a paz e chegado provavelmente a criar uma vibrante e singular cultura afroamericana".76 Dolorosamente perto de conseguir condições para criar uma cultura vibrante e singular... É a perspectiva americana que certamente possibilita que esse autor inverta o sentido que a maior parte dos historiadores de Palmares atribui às negociações de 1678. De certo modo, para Richard Price, é como se o objetivo final dos movimentos de fuga fosse a formação de uma comunidade de fugitivos forte o suficiente para conseguir conquistar a paz e a estabilidade. Ele não está preocupado com o significado político que os fugitivos podem ter para nós, hoje, mas com o que era importante para as próprias comunidades de fugitivos, segundo a lógica daqueles que fugiam.77 Não por acaso, essa forma de compreender a questão se aproxima de todo o desenvolvimento mais recente da historiografia sobre a experiência dos escravos nas Américas, mencionado há pouco. Tal concepção também está presente no livro recente de Alvin O. Thompson, que faz questão de explicitar que valoriza a luta dos oprimidos diante do que ele denomina de "estados autoritários", ao oferecer um amplo panorama dos movimentos de fuga e das comunidades formadas por fugitivos nas Américas. Dois capítulos dessa obra são dedicados à análise das negociações e dos tratados de paz que, para ele, fazem parte de um quadro maior de estratégias de luta dos escravos, já que estes estavam acostumados a negociar com seus senhores vários aspectos da vida sob a escravidão, a fim de reduzir o peso das condições de vida ou de trabalho ou obter certas regalias. Thompson examina diversos tipos de negociação entre fugitivos e autoridades escravistas, desde aquelas que envolviam diretamente os chefes quilombolas até as que eram feitas por senhores e autoridades coloniais com vistas a alterar suas estratégias e políticas.78 Há, assim, várias possibilidades. Os senhores podiam, por exemplo, oferecer aos escravos (não aos fugitivos) liberdade em troca da revelação de planos de revoltas ou do
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R. Price, "Palmares como poderia ter sido", pp. 57-58. Como já se observou, Flávio Gomes apoiou algumas de suas observações sobre Palmares na obra de Richard Price sobre os Saramakas. Gérard Police aprofunda essa comparação, levantando vários pontos de convergência entre as duas experiências. Cf. Quilombos dos Palmares. Lectures sur un marronnage brésilien. Guyane, Ibis Rouge, 2003, pp. 26-27 e 250-254; e Flávio dos Santos Gomes, Palmares. Escravidão e liberdade no Atlântico Sul. São Paulo, Contexto, 2005, pp. 117-125 78 Alvin O. Thompson, Flight to Freedom. African runaways and Maroons in the Americas. Kingston, University of the West Indies Press, 2006, pp. 265-315. Os próximos parágrafos estão baseados na análise empreendida por esse autor, resumindo suas idéias principais.

103 engajamento em milícias enviadas para prender seus líderes. Em vários casos. os fugitivos voltavam de forma espontânea. postos. como aumentar as dificuldades da captura de fugitivos para obter recompensas maiores dos senhores ou das autoridades ou transformando-se de mediadores em caçadores de escravos. que eventualmente aceitavam essas ofertas como uma reação às perdas causadas pelos ataques dos quilombolas a suas roças ou à captura de suas mulheres e familiares. liberdade apenas para os líderes e seus familiares ou capitães mais próximos. desertores. Havia também composições que envolviam escravos ou fugitivos e estados escravistas. Do ponto de vista dos escravos e fugitivos. anunciadas em editais ou publicadas em jornais e muitas vezes limitavam-se àqueles que não haviam cometido crimes. O interessante da análise de Thompson é que ele não leva em conta apenas os interesses senhoriais mas também os dos próprios escravos. As promessas eram feitas por intermediários.a própria liberdade. ou situações em que havia invasões territoriais e ofertas de liberdade eram utilizadas para angariar adeptos das fileiras inimigas. liberdade para os nascidos no quilombo em troca da devolução dos escravos fugidos (todos eles ou somente os fugidos havia certo número de anos). porém arriscado. aproveitar conjunturas específicas e lidar com os interesses em jogo ou com as diferentes jurisdições talvez fosse algo produtivo. para quem entregasse ao menos um fugitivo ou para aqueles que servissem de espiões ou guias. por exemplo. como no caso de áreas vizinhas sob domínio de nações diferentes. insígnias ou favores e privilégios. manejando os dois lados para obter vantagens individuais. Em alguns casos. mas indicam que eles tinham certa urgência em chegar a um acordo "amigável". para guiar ou compor as tropas expedidas contra os quilombos. As ofertas incluíam anistia (com ou sem liberdade) para os que se entregassem em certo prazo. alguns membros ou toda a comunidade quilombola. As negociações resultariam ainda de tentativas de obter alguma recompensa individual . umas com escravidão e outras em que ela já havia sido abolida. Normalmente tais oferecimentos vinham dos senhores e seus agentes. esperando ser perdoados sem punição ou negociando com os senhores condições para o retorno às . como assassinatos. etc. As negociações com os próprios fugitivos podiam envolver tanto indivíduos. os mediadores tiravam algum proveito da situação. haveria até acordos entre as potências imperiais com relação à restituição de fugitivos. Em alguns casos.

Para os escravos.de ambos os lados. Alguns tratados eram negociados porém não chegavam a ser implementados. Claro que era possível haver dissimulação e trapaças . a obrigação de devolver os escravos a seus senhores. como meio para fortalecer a posição dos cativos na negociação. a proibição de admitir novos fugitivos. o resultado de uma necessidade imperiosa ou uma forma de enfraquecer os fugitivos. Para os quilombolas. a vida nos quilombos muitas vezes era bem mais atribulada e incerta do que nas fazendas. Em outros casos. com ou sem a presença de padres católicos ou pastores protestantes. como o engajamento em milícias especiais ou a possibilidade de comprarem a própria liberdade. o acordo podia significar . a oferta de anistia para os que voltassem podia ser uma alternativa oferecida pelos governantes. o compromisso de ajuda para conter invasores externos ou para integrar milícias contra novos fugitivos ou aqueles que resistiam ao acordo. junto com outras. Os tratados e acordos de paz propriamente ditos implicavam que as autoridades coloniais reconhecessem os fugitivos como uma comunidade independente. envolvendo toda a comunidade ou apenas parte dela. conforme o que e como os escravos conseguiam negociar os termos da relação de trabalho com seus senhores. Muitos previam o estabelecimento dos quilombolas em cidades livres. com autonomia política. sobretudo durante os períodos de guerra aberta. Algumas fugas eram planejadas com esse objetivo. podendo ser considerado uma capitulação. mediante pagamento de taxas. por exemplo.104 fazendas. Os arranjos eram diversos e dependiam dos envolvidos e das conjunturas: se. de crises de fome ou epidemias. As cláusulas variavam muito. variavam também conforme o tempo que os quilombos haviam conseguido resistir. décadas ou séculos. com freqüência incluíam o reconhecimento da liberdade para os que tinham se incorporado ao quilombo até certa data. o acordo tivesse sido oferecido depois de expedições violentas. de que algum tipo de acomodação era necessária. O ponto de vista dos fugitivos é difícil de ser conhecido e muitos talvez achassem ter conseguido triunfar sobre a vontade senhorial de reescravizá-los. e muitas vezes envolviam a confirmação do direito dos fugitivos a certas terras. por parte de ambos os lados. com administração e autonomia judicial. A avaliação do significado dos tratados também variava. Esse talvez fosse mais um motivo para o acordo. A mudança do enfrentamento para o diálogo e para o acordo resultava da percepção. enquanto outros duraram anos. ou como alternativa à luta armada.

uma vez acertada a paz. pois criavam desigualdades às vezes difíceis de suplantar. Algumas eram motivadas pelas cláusulas acordadas. que percorrem vários séculos e diversas regiões das Américas. caçadores de escravos. ou a de liberdade restrita a apenas alguns .motivo de dissensões freqüentes entre os quilombolas. Com certeza. mediadores. sem medo de novas taxas para subsidiar as expedições ou ver suas fazendas destruídas pela guerra. no entanto. dominar os quilombolas abriria caminho para que suas terras fossem apossadas pelos fazendeiros ou distribuídas entre os soldados. uma política mais estável de controle sobre os escravos em geral: a capitulação dos fugitivos seria um exemplo de que a liberdade era algo a ser sempre negociado com os senhores. eles iriam retomar suas vidas e seus negócios. as pessoas . soldados. seus líderes. em benefício próprio. sem dúvida.sem contar diferenças internas a cada grupo: dissensões entre senhores. Cada um interpretava o tratado a sua maneira. Ainda que cada caso tenha suas peculiaridades. negociar um tratado era reconhecer a incapacidade de vencer os quilombolas pela guerra. E atribuía ao outro (ou aos outros) intenções e motivações diversas . as comunidades tornaram-se dependentes das remessas feitas pelo governo. é possível fazer uma avaliação geral. ao fracasso dos acordos. depois de tratados que incluíam cláusulas de fornecimento de víveres por parte do governo. também.105 não ter mais que contar os mortos e feridos e conseguir uma situação melhor . senhores de escravos. Os exemplos fornecidos por Thompson e pela maior parte da bibliografia que ele discute tratam de negociações e acordos de paz com os mocambos e quilombos ocorridos em sua maior parte no século XVIII. entre autoridades e entre os próprios fugitivos. Algumas vezes. como a de devolução de fugitivos para as autoridades. mesmo que fossem vistas como presentes ou tributos. fugitivos.embora algumas cláusulas eventualmente contivessem limites para o acesso à caça e coleta de produtos da floresta. Podia constituir. segundo seus interesses. e escravos da vizinhança. na maioria dos casos. autoridades. E. mas significava também que. De modo diverso dos historiadores. Eram elas que levavam. Para os senhores e autoridades. O panorama oferecido por Thompson é vasto e para cada possibilidade há sempre um caso concreto como exemplo. muitos interesses estavam em jogo: governo. Poucas são as situações anteriores ao acordo ajustado com Gangazumba. sobretudo entre as lideranças dos quilombos.

Em Cartagena. por isso.79 As informações são parcas. ficariam livres. cerca de 1. envolvendo muitos escravos. portanto. Algumas vezes guerreavam ao lado dos espanhóis. Domingo Bioho. foi descoberto por um regimento inglês que lhes ofereceu aliança: em troca de deixar de ajudar os espanhóis. liderado por Lubolo.106 desconhecem o futuro. Quando se preparava uma nova expedição.80 Na Jamaica. pp. suas roças não seriam destruídas e teriam direito de governar sua gente. No Panamá. Thompson. 77-79 . o grupo diminuiu e acabou se 79 80 A. mas indicam que o local ocupado pelos fugitivos foi reconhecido pelas autoridades e que os maus-tratos haviam constituído um ponto importante para as fugas. mas pôde usar roupas européias. que não pôde mais usar o título de rei. Surpreendido em nova conspiração contra o governador. mas eles permaneceram nas montanhas. Aquiles Escalante. em 1580. uma avaliação política sobre os custos e benefícios da guerra pelas duas partes. Flight to Freedom. perto de Nombre de Dios. Os ingleses tentaram atraí-los para o seu lado. pp. foram feitos dois acordos com os fugitivos liderados por Darien. Depois da morte de Lubolo. Benkos foi capturado e enforcado. o governador julgou os custos muito altos e resolveu fazer as pazes com Benkos. quando os ingleses invadiram a ilha. liderou uma revolta que se estendeu por toda a região. Vejamos algumas das experiências anteriores ou contemporâneas do acordo de 1678. em 1619. Sem a colaboração dos fugitivos. que se decidiram pelo acordo. Price (ed. outras vezes saqueavam as áreas ocupadas pelos ingleses. um antigo rei africano também chamado "el rey Benkos". dividindo-se em vários grupos. Maroon societies. Em junho de 1658 um grupo deles. é preciso prestar atenção à cronologia.). O. os espanhóis foram rapidamente derrotados. Esses tratados continham uma cláusula pouco comum. que reconheceram a liberdade de dois palenques. 289-290. Houve. permitindo que os escravos maltratados pelos senhores pudessem comprar a própria liberdade pelo mesmo preço pago pelos senhores ao adquiri-los. espada e adaga.500 escravos pertencentes aos espanhóis aproveitaram para fugir. Puerto Bello e Ballano. Lubolo e sua gente receberam direitos civis e terras e constituíram uma milícia que nos anos seguintes acabou colaborando com os ingleses na perseguição aos que recusavam se submeter. Instalou-se num povoado defendido por paliçadas e resistiu a duas investidas contra eles. "Palenques en Colombia" in: R.

Flight to Freedom. collaborattion and betrayal. Fabulé recebeu mil libras de tabaco e o compromisso de que nenhum fugitivo do grupo seria castigado. A liderança de Lubolo parece ter sido importante tanto para o crescimento do poder dos fugitivos quanto para as negociações visando a manutenção da independência da comunidade e dos direitos conquistados. Depois de ser punido pelo delito. 83 A. na região de El Cobre. Enviaram um escravo como intermediário e o acordo foi firmado. mas porque a própria comunidade se fracionou e se dissolveu. Campbell. p. para evitar que muitos fossem transferidos das minas de cobre para as fortificações em Havana. em 1665. Em 1677. em que a fuga é um instrumento para negociar com os senhores melhores condições de trabalho e a permanência num certo local. Price (ed. Negociaram com as autoridades e conseguiram que ninguém seria removido sem permissão. mas não significou que a reintegração dos fugitivos na ordem escravista .81 Nesse caso. Stanford University Press. 2000. contudo. Price (ed. em Cuba. Mavis C.82 O episódio é interessante por mostrar que o acordo podia ser uma estratégia em meio a outras. 1670-1780. internando-se nas matas. Granby.14-25. Stanford. A history of resistance. 108. O. especialmente pp. 82 Gabriel Debien. 284. 1988.). 1665-1740" in: R. The Maroons of Jamaica. p. Maroon societies. voltou a fugir.83 Aqui temos uma situação bastante complexa. Thompson. the King and the Royal slaves of El Cobre: negotiating freedom in colonial Cuba. Ver também Maria Elena Díaz. "Slavery and lave revolts: a sociohistorical analysis of the first Maroon War. 254-255. "Marronage in the French Caribbean" in: R. foi capturado e condenado às galés.). The Virgin. Maroon societiees. 1655-1796. um grupo de fugitivos liderados por Francisque Fabulé fez tantos estragos na ilha que as autoridades resolveram negociar com ele. Begin & Garvey Publishers. . depois da morte de Lubolo. pp. que só trabalhariam para o rei dois meses por ano e obtiveram terras onde se instalaram com seu próprio cabildo. cerca de 378 pessoas fugiram durante algum tempo para as montanhas.já que Fabulé passou a servir na casa do governador tenha impedido novas ações.107 dividindo. O acordo se desfez não por ter sido quebrado por uma das partes. depois de algum tempo Fabulé foi castigado por insuflar uma escrava a matar seu senhor. A vitória dos 81 Cf. Ele podia colocar um fim às turbulências causadas por comunidades de fugitivos que se fortaleciam. Na Martinica. Ver também Orlando Patterson. A calma retornou à ilha. os fugitivos aproveitaram a oportunidade das contendas entre as nações colonizadoras para obtenção de vantagens e direitos.

depois de resistir a um novo ataque por parte das tropas espanholas. Em 1570. na região de Veracruz. .). 84 Para uma descrição de uma das batalhas. Vejamos os detalhes. Landers e Bary M. "La cultura material de los cimarrones: los casos de Ecuador. México y Colombia" in: Rina Caceres (ed. Como se pode verificar por essas breves informações. que guarda características mais permanentes e mais próximas do tratado firmado com Gangazumba: é o caso dos fugitivos liderados por Yanga. corporate identity and the evolution of free black towns in the Spanish Circum-Caribbean" in: Jane G. a ajudar a Coroa espanhola em caso de ataques estrangeiros e a pagar tributos como todos os demais negros e mulatos forros. O artigo (pp.111-145) oferece uma interessante e detalhada análise do tema. todos foram acordos relativamente efêmeros.108 fugitivos é grande. onde se instalaram mais de 500 fugitivos. 85 Uma transcrição do acordo pode ser encontrada em Jane Landers. Eles atacavam os viajantes e os comboios de mercadorias que subiam do litoral para o altiplano e eram rechaçados pelas autoridades coloniais. pp. na região sul da costa leste do atual México. que contêm uma ou mais variáveis mencionadas por Thompson. pois eles não apenas conseguiram seus objetivos. Depôs as armas em troca do reconhecimento da liberdade de todos os que haviam fugido até setembro de 1608 e da fundação de um pueblo livre. onde se instalaram com seu próprio governo e justiça. mas grupos remanescentes conseguiram se reagrupar em núcleos entrincheirados nas montanhas.147-149. Slaves.84 Yanga negociou a paz com as autoridades da Nova Espanha. Universtiy of New Mexico Press. Também se comprometiam a capturar e entregar às autoridades os escravos que fugissem e buscassem abrigo no pueblo. batizado de San Lorenzo de los Negros. entretanto. pp.133-135. A vila foi oficialmente criada por volta de 1630. São José.85 Yanga tornou-se governador desse pueblo. sem intervenção dos espanhóis. vide Jane Landers. onde sobreviveram por mais de 30 anos liderados por Gaspar Yanga. 206. Desde que as plantações de açúcar se instalaram nas terras ao sul do golfo do México. 2001. "Cimarrón and citizen. African ethnicity. para lá afluíram muitos escravos africanos .). Em 1609. como ainda obtiveram independência política e econômica. La Española. localizado a dez quilômetros de Córdoba. Editorial de la Universidad de Costa Rica. Há um episódio.e as montanhas serviram de abrigo para os fugitivos. Robinson (eds. Albuquerque. Rutas de la esclavitud en África y América Latina. ao terem acesso a terras e representação diferenciada. subjects and subversives. vários palenques foram destruídos.

prisão do líder. Agrediam seus habitantes. Chávez-Hita. Os fazendeiros de Córdoba não se conformavam com o acordo. Muitas foram as batalhas. "Negro Slave Control and Resistance in Colonial Mexico. vide David M.160-161. no início do século XVIII. e Adriana Naveda Chávez-Hita. Outros pueblos libres foram formados na região. Landers mencionado na nota anterior. tornando-se um "patrimônio comum de todos os escravos da zona.). houve nova tentativa de rebelião.povoado próximo aos palenques . outros palenques haviam se formado e crescido com o aumento das fugas individuais ou em grupo. N. Chávez-Hita. p. 1519-1650". Em 1741. "De San Lorenzo de los Negros a Los Morenos de Amapa: cimarrones veracruzanos. chamado Inácio. Price (ed. pp. 157-174. Davidson. Os rebeldes remanescentes permaneceram nas montanhas e em 1743 solicitaram à Real Audiência a sua liberdade em troca da deposição das armas. tentavam impedi-los de fazer aguardente. Rutas de la esclavitud en África y América Latina. 82-103. Na mesma região. 1609-1735" in: Rina Caceres (ed. formando novo palenques. usurpavam suas terras e perseguiam-nos das mais diversas maneiras. que sabiam da possibilidade de chegar à liberdade por meio do rompimento brusco das correntes". ao que parece movidos pelo boato de que o rei espanhol havia concedido liberdade para os escravos. pp. O boato talvez tivesse surgido das movimentações de autoridades locais que tentavam negociar com os cimarrones a deposição de armas em troca da criação de um outro pueblo livre. pp. para San Lorenzo de Cerralvo. Em 1735 eles estavam ligados a uma rebelião de escravos liderados por Miguel de Salamanca. 88 A. com novos ataques. . 87 A.86 A vida em San Lorenzo não era fácil.).87 Os habitantes de San Lorenzo recorriam ao vice-rei. in R. Mas vários deles conseguiram fugir e se esconderam nas montanhas. "De San Lorenzo de los Negros a Los Morenos de Amapa. como San Miguel de Soyaltepeque. em 1670. que também acabou enforcado na vila de Córdoba. Apesar de contarem com o apoio do alcaide de Teutila . A rebelião se espalhou com rapidez e tropas foram enviadas para contê-la. marqués de Cerralvo.e de comerciantes 86 Além do artigo de J. até que a traição de um dos levantados levou à prisão dos líderes que foram executados em praça pública em 1737. a experiência de Yanga e seus companheiros se tornou conhecida e serviu de exemplo. Maroon societies. "De San Lorenzo de los Negros a Los Morenos de Amapa. N. 161. em honra do vice-rei Rodrigo Pacheco y Osorio. que intercedeu em favor deles em várias circunstâncias e o povoado conseguiu sobreviver.88 De fato.109 mudando depois de nome.

94 Jane Landers. havia pelo menos um grupo de gente vinda de Angola. Canoe Press. pp. liderada por Francisco de la Matosa. depois de alguns anos. Race. Sagrario Cruz-Carretero.it/zumbi/news/semfro/258/sf258p25. (1970):439-446. "Yanga and the black origins of Mexico" The Review of Black Political Economy (2005): 73-77. 89 Sobre o tema ver ainda William B. "The foundation of Nuestra Señora de Guadalupe de los Morenos de Amapa" The Americas. conseguiram a liberdade. 26 n. 121. 90 Riva Palacio mergulhou nos arquivos e escreveu uma história de Yanga que foi publicada como parte de uma antologia em 1870 e como uma brochura separada em 1873. 4. Eles formavam uma milícia separada. Blacks in colonial Veracruz.html 93 Jane Landers. 82-92. Em troca. México. 25. Vide Vicente Riva Palacio. .peacelink. University of Texas Press. Yanga ganhou foros de herói nacional. and historical perspectives.89 Cinqüenta anos depois da independência do México. escreveram ao vice-rei solicitando o reconhecimento formal de suas liberdades. p. 94-108. Alianza Cien. Escapou com alguns companheiros de Veracruz. para lutar em favor dos espanhóis contra os ingleses. Há várias reedições. 91 Há diversos festivais celebrando a memória desses eventos. Era de nação Bran e talvez pertencesse a uma linhagem real. aproveitando que pessoas favoráveis estavam em postos importantes em vilas vizinhas. os ataques dos fazendeiros contra os fugitivos continuaram. p.110 interessados em seus produtos. Carrroll. Barbados.92 Yanga havia sido escravizado na África Ocidental. 92 John Ross. Ver. p. Austin. Em 1762. 1998). Maroon heritage.94 Para os historiadores que trataram da história da comunidade de fugitivos e de San Lorenzo de los Negros. 126. Finalmente. embora vários tenham se debruçado sobre o tema com a intenção de participar dos debates sobre a presença dos africanos nas Américas. 1997. ethnicity and regional development. Em 1767. a procedência daqueles homens e mulheres não foi determinante para a análise. "Cimarrón and citizen. o vice-rei acabou por acatar o pedido e os cimarrones estabeleceram-se no povoado chamado Nossa Senhora de Guadalupe de los Morenos de Amapa. "Cimarrón and citizen. a cidadezinha de San Lorenzo passou a se chamar Yanga e existe até hoje. uma enorme estátua de quatro metros de altura sobre um pedestal enfeitado com canas-de-açúcar dá as boas vindas aos visitantes do município. pp. e Joe Pereira. 1991. Sem fronteiras. Los 33 negros y otros episodios relacionales. ethnographic.93 Nela. "Maroon heritage in Mexico" in: E. os cimarrones apresentaram-se como voluntários em Veracruz.90 Em 1932. http://ospiti. a última de 1997.91 Lá. em função dos esforços do historiador e romancista Vicente Riva Palacio. Archaeological. Taylor. formando seu palenque na região montanhosa de Cofre de Perote. e Patrick J. por exemplo. 1994. 258 (mar. Kofi Agorsah (ed). "Raízes Negras". respondendo ao chamado do vice-rei.

as diferenças étnicas puderam ser contempladas. Africa and the Americas. pp. muitos baseados na autoridade dos mais velhos e dos chefes de famílias extensas. em geral voltados para questões da história cultural e política. um artigo de Jane Landers . cujos parentes governavam os mocambos e também no caso de Yanka.97 95 Um balanço da produção recente no Brasil e em Portugal sobre esse período pode ser encontrada em Pedro Cardim. 181. dedicado a discutir o modo como as lideranças de comunidades de fugitivos legitimavam sua autoridade. eles associaram o poder político ao religioso e militar.173-184. com milícias separadas como vimos acima. . Isso aconteceu com Gangazumba. p. Trento.96 Segundo a autora. Em algumas comunidades. mas operavam de modo semelhante: mantiveram um poder centralizado e constituíram dinastias reais. no qual compara Gangazumba e Yanga. Destaco.95 Mas nem de longe parece ter tocado no tema da conexão das políticas discutidas nas duas Cortes com relação à escravidão. Aos poucos. como vimos. Interconnections during the slave trade. algumas das quais chegaram a ser reconhecidas pelas autoridades coloniais. 2005. Hispania¸64 n. nem todas as lideranças examinadas reivindicavam descender diretamente de linhagens reais ou afirmavam ter exercido o poder na África. Africa World Press. "Leadership and authority in Maroon settlements". como no caso de Gangazumba. 97 Jane Landers. 96 Jane Landers. 1 (2004):117-156.). cujos filhos puderam herdar seu cargo no governo do pueblo. contudo. "O governo e a administração do Brasil sob os Habsburgo e os primeiros Bragança". as relações de parentesco estendiam seu poder sobre várias cidades. no entanto. Curto e Renée Soulodre-La France (eds. Landers aventa a hipótese de Gangazumba e Yanka terem usado os acordos com os europeus para estabilizar sua liderança e dar continuidade à dinastia. entretanto. Em outras.111 É difícil saber se a experiência de San Lorenzo de los Negros chegou a ser discutida em Lisboa. "Leadership and authority in Maroon settlements in Spanish America and Brazil" in: José C. A aproximação entre a história e as características de Palmares com outras comunidades de fugitivos nas Américas já foi aventada por vários historiadores. O período da união das Coroas tem sido cada vez mais visitado pelos historiadores. Para os historiadores. a possibilidade da comparação é um recurso analítico importante. Agindo como africanos. começa a haver um interesse sobre o significado da proximidade da experiência espanhola e portuguesa na administração dos territórios ultramarinos.

de todo irrelevante. e se ela era mais ou menos africanizada também se tornou um debate permeado por engajamentos diversos. 98 Para um balanço desses debates. ainda não há pesquisas a respeito. 25 n. . entretanto. assim como seu abandono para destacar para os aspectos revolucionários da luta contra a escravidão estiveram ligados à defesa de posições políticas. cujas negociações se desenvolveram durante o período da união ibérica. A ênfase em suas características africanas. o acordo de Gangazumba se torna menos excepcional. e seria interessante verificar . adaptações ou gêneses de culturas nas Américas. com exceção de San Lorenzo de los Negros. como vimos. Estudos Afro-Asiáticos.se os episódios que mencionamos aqui. Além da cultura A política tem estado presente todo o tempo nas discussões a respeito das comunidades de fugitivos nas Américas.98 Ao lidar com as permanências e sobrevivências. vide Richard Price. Muitas de suas cláusulas reaparecem em outras experiências análogas. 3 (2003): 383-419. ou se criaram uma nova cultura. saber se os fugitivos recriaram ou transformaram a herança africana que trouxeram consigo. transformações. em diferentes áreas de colonização. É pouco provável. Do mesmo modo. é instigante a eventual conexão entre essas experiências. selecionados propositadamente entre aqueles que ocorreram no período anterior a Palmares. talvez seja mais interessante abordar o tema a partir de outra perspectiva.como sugeriu Flávio Gomes . mas. é menos provável que as informações tenham circulado. Ao invés de procurar pistas sobre o trânsito das próprias pessoas ou das notícias pelo Atlântico. portanto. "O milagre da crioulização: retrospectiva". Examinada a partir da experiência americana.112 A possibilidade de comparações entre a história de Palmares e do acordo de 1678 e eventos semelhantes nas Américas é promissora.discutem. poderiam ter sido conhecidos pelas autoridades coloniais em Lisboa. Do ponto de vista dos escravos. O próximo item tenta explicar por quê. os historiadores e antropólogos abordam as formas de dominação vigentes no sistema escravista e o modo como os escravos e os fugitivos reagiram a elas . Cogitar esta possibilidade não é. Nas últimas décadas.

Brasília. Nova York. Way of Death. Com relação à África Central Ocidental. práticas lingüísticas e crenças religiosas. 2001. Ao mesmo tempo. Atlantic Creoles. no entanto. Joseph C. Mintz e R. David Eltis. Economic growth and the ending of the Transatlantic slave trade. 1969. é possível saber quais "africanos". trazidos por quais traficantes. Cambridge University Press. 53 n. tornou-se possível diferenciar a variedade de situações de contato entre culturas na própria África. A formulação de Mintz e 99 Ver. tem se desenvolvido em termos da "bagagem cultural" trazida pelos escravos. Oxford University Press. 100 Ver. estão envolvidos no debate mais amplo sobre o lugar das heranças africana ou européia nas sociedades americanas. The Atlantic slave trade. Madison. Hoje não mais se fala em bantus e sudaneses como na época de Nina Rodrigues e há muito a divisão mais ampla entre África Central e Ocidental já não é suficiente. The University of Wisconsin Press. 1996): 251-288. assim como distinguir processos históricos específicos no Novo Mundo. pp. David Richardson e Herbert S. O debate sobre as instituições políticas está presente. sem dúvida. antes e depois da chegada dos europeus. 1730-1830. por que motivos e meios. por exemplo. O nascimento da cultura afro-americana. para usar um termo de Mintz e Price. com todos os seus desdobramentos político-institucionais. acrescentando-se ainda o fato de que vários africanistas têm discutido os processos de crioulização na própria África. Stephen D. mas de forma limitada. Curtin. 51-71. Paralelo/Marco Zero. e David Eltis. os estudiosos passaram a identificar etnias e contextos históricos de modo cada vez mais preciso. Entre Áfricas e Brasis. Philip D. Klein. 'From Creole to African: Atlantic Creoles and the origins of AfricanAmerican Society in mainland North America" The William and Mary Quarterly. assim como as ênfases políticas variaram. 1999. The University of Wisconsin Press. Nova York. 71 . Behrendt. Central Africans. foram levados para esse ou aquele lugar das Américas. Ira. também o próprio conhecimento sobre a África e sobre os africanos escravizados e seus descendentes nas Américas se transformou. 1988. Berlin. sem mudanças ao longo do tempo. p. 1527-1867: a database on CD-Rom. padrões de relacionamento social e familiar. 1585-1660.113 o passado. Merchant capitalism and the Angolan slave trade. entre outros. W. Miller. 2007 101 S.e falam do presente. Ao longo do tempo. Heywood and John K. "As conexões culturais angolano-luso-brasileiras" in: Selma Pantoja (org. Linda M. entre outros. Madison.101 O que tem sido destacado são os valores e costumes cotidianos. and the foundation of the Americas.).99 O debate atual entre os que enfatizam os africanismos ou a crioulização tem levado esses aspectos em consideração. Thornton. De uma África mais abstrata e relativamente genérica. Heywood. e o recente Linda M.100 Grande parte dessa discussão. Ao mesmo tempo. A census. 1987. como a que aparece nos trabalhos de Arthur Ramos e Melville Herskovits. New York: Cambridge University Press. 2 (abr. Price. dentro e fora da academia . The transatlantic Slave Trade.

que iam integrando os novos escravos que chegavam àquela comunidade que aos poucos se estabelecia e se desenvolvia. não". S. amiúde reciprocamente ininteligíveis". 26.conforme fossem portugueses. De um lado.) Sacerdotes e sacerdotisas. ingleses. Príncipes e princesas. Também nas comunidades de fugitivos esse padrão podia ser observado. Há um certo padrão cronológico que foi se fixando: os primeiros laços se construíram na travessia do Atlântico. 105 S. Por isso. 104 S. (. . Price. sim. No momento de 102 103 S. Enquanto havia certa homogeneidade cultural entre os europeus . W. no contato com os europeus e sua cultura. etc. as novas relações sociais e culturais teriam sido "forjadas nas fogueiras da escravidão". sim. Mintz e R. pp. . nos porões dos navios negreiros e durante a vida nas fazendas americanas. os fugitivos também criavam uma nova sociedade. mas o corpo sacerdotal e os templos. O nascimento da cultura afro-americana.. Price. mas separada das instituições senhoriais. O nascimento da cultura afro-americana. 61. eles teriam conseguido. W. tiveram condições de "compor para si uma ordem social. W. supõe a existência de grande diversidade cultural entre os escravos: eram "aglomerados heterogêneos de homens e mulheres"103 arrancados de suas sociedades e vidas cotidianas. p. Mintz e R. 38. 106 S. mas cortes e monarquias. W. p.104 Aos poucos. Price. O nascimento da cultura afro-americana. dentro das margens de manobra definidas pelo monopólio do poder senhorial". Price. p. Formadas por gente diferenciada. Mintz e R. p. entre malungos. essa forma de abordar o tema se tornou predominante entre os historiadores que estudam a experiência de escravos e fugitivos.106 Como se pode observar pelo balanço da historiografia realizado no início desse capítulo. que é preciso discutir.102 De outro. Mintz e R. informações e crenças devam ter sido transportadas na mente dos escravos.114 Price guarda dois aspectos importantes. O nascimento da cultura afro-americana. Price. 60 e 61. Mintz e R. 112. O nascimento da cultura afro-americana. estes não puderam transpor o complemento humano de suas instituições tradicionais para o Novo Mundo. não..os africanos "provinham de culturas e sociedades diversas e falavam línguas diferentes.105 Ao se reconhecerem portadores de uma gramática cultural comum. estabelecer laços de solidariedade e criar uma nova cultura. uma cultura que se desenvolveu dentro do sistema escravista. W. depois entre os primeiros escravos nas fazendas. ela está baseada na idéia de que "embora imensas quantidades de conhecimento.

É uma cultura política que poderia ter presidido as ações dos escravos e fugitivos nas Américas . e organizavam-se em torno do poder e da autoridade dos guerreiros. Maroons and their communities" in: R. essa proposta analítica tem gerado estudos sobre as identidades. pp. pensar e agir. Price (ed). "Leadership and authority in Maroon settlements". ela abre uma possibilidade de superar a divergência entre a diversidade cultural dos escravos com o corolário da criação de uma cultura diferenciada da africana . O caminho apontado por Schwartz levava em conta a existência de uma cultura política africana. conforme avançam os conhecimentos sobre o tráfico atlântico. as formas de coesão dos vários grupos ou sobre os processos de assimilação pelos quais passaram. rivalidades étnicas. . Na maior parte das vezes. por exemplo.174.115 sua formação. Grande parte da discussão tem girado em torno do confronto entre aqueles que acham que esse processo de transformação cultural foi mais ou menos marcado pelas formas da cultura africana . destaquei a importância da tese proposta por Stuart Schwartz sobre a relação entre o kilombo Imbangala e o quilombo de Palmares. no qual diferentes tipos de crises (fomes.108 Para Kopytoff. que têm sido retomadas também por outros autores que lidam com as experiências dos escravos nas Américas. as comunidades se constituíam em função da defesa. Como observei. é como se. retoma Kopytoff ao analisar as lideranças de grupos fugitivos em várias regiões da América espanhola. ao atravessar o Atlântico. Maroon societies.e a ênfase nas marcas africanas da cultura dos escravos e fugitivos nas Américas. Se obtivessem sucesso nesse processo. na qual a integração de povos diversos e desenraizados era parte importante. 108 Jane Landers. Contudo. Uma certa acepção de cultura acabou por se tornar predominante e um modo de apreender o tema se tornou quase uma regra. 1-30. a África é um "continente de fronteiras". p. 107 A tese foi desenvolvida por Richard Price em "Introduction.e não simplesmente a continuidade de traços ou elementos culturais. Landers. J. Há pouco.em geral ou dessa ou daquela região da África. desenvolviam formas mais estáveis e mais crioulizadas. quando estavam mais frágeis. os escravos só tivessem trazido formas de viver. Ao conseguirem se estabelecer. Essa proposta está relacionada às teorias de Igor Kopytoff. conflitos entre regimes políticos. chegavam eventualmente a negociar com os europeus para se perpetuarem no tempo.107 Não discordo essencialmente dessa forma de abordar a questão. guerras civis.

Frankfurt. pp. que circularam antes como papers. 111 Stephen Palmié. 109 Igor Kopytoff. 1993. 287. e "African States in the New World? Remarks on the Tradition of Transatlantic Resistance" in: Thomas Bremer e Ulrich Fleischmann (eds. e da autoridade dos que chegam antes ou depois. Born out of resistance: on Caribbean cultural creativity. essas novas sociedades reproduzem. Alternative cultures in the Caribbean. 110 Stephen Palmié. 55-67.111 A parte principal de suas pesquisas dedicam-se a compreender os cultos de aflição no Caribe. Vervuert. 1 . ou em uma gramática cultural mais ampla que teria permitido aos escravos e aos fugitivos criar um senso de comunidade. "African frontiers in the Americas?". O deslocamento seria constitutivo das sociedades africanas.) induzem com freqüência a movimentos populacionais que forçam grupos de africanos a se deslocar e recriar novos laços sociais. 3-83. 1987. Cito. 112 S.112 Por isso. ele mudava a chave interpretativa das identidades culturais para formular a questão em termos de sociedade. 31-44. ISOR-Publications.). Para ele. verificou as possibilidades interpretativas do conceito de Kopytoff.) The African frontier. continuidade e ruptura operavam simultaneamente. não se tratava de opor processos africanos ou de crioulização. "The internal African frontier: the making of African Political culture" in: Igor Kopytoff (ed. Berlin 1988 Frankfurt. pp. fez críticas a ele e explorou seu potencial analítico para pensar as dimensões políticas desse processo. assim como a recriação de modelos sociais baseados nas formas tradicionais do parentesco. a ordem social de origem. Ver também. The reproduction of traditional African societies. 286-300. na história cultural afroamericana. aproveitando-se do conceito de Kopytoff.109 Essa idéia já havia sido utilizada por Stephen Palmié para pensar o outro lado do Atlântico como parte das fronteiras africanas. O nascimento da cultura afro-americana. Peter Lang. cap.). escritos em 1988 e 1989. mas de pensar como. dos rituais políticos e religiosos. Palmié associou as teses de Mintz e Price às de Kopytoff e considerou que os mecanismos que teriam permitido a consolidação de laços entre os que atravessaram o Atlântico e os que fugiam seguiram procedimentos africanos. mas Palmié ocupou-se das comunidades de fugitivos em pelo menos dois artigos.). First International Conference of the Society of Caribbean Research. aqui. Neles.116 etc. Instalando-se nas fronteiras de sociedades existentes. W. Frontiers and borderlands. "The internal African frontier: cultural conservatism and ethnic innovation" in: Michael Rösler e Tobias Wendl (eds. do mesmo autor. Anthropological perspectives. de forma mais simplificada. 1995. Mintz e R. as duas abordagens apontavam para a necessidade de prestar atenção em "princípios subjacentes". pp. "African frontiers in the Americas?" in: Wim Hoogbergen (ed. as versões finais desses artigos. Bloomington. Indiana University Pres. nação e estado. Price.110 Para ele. p. 1999. Ao fazer isso. pp. Utrecht.

Nesse contexto. 298.) Luanda.até que novas fronteiras se formassem. Palmié. nganga zumba remeteria mais a um título que a uma pessoa: uma forma de liderança política e religiosa a indicar que a nova sociedade se consolidava . eram bons exemplos desse processo. fundado por Nzinga. 115 S. estudada em profundidade por Joseph Miller.que se transfere de uma margem a outra do 113 Joseph Miller. no Brasil. 114 S.113 podia ser vista como uma alternativa institucional "de fronteira" na região angolana. que para ser traduzida perde sua capacidade sintética: ao retomar a expressão usada por Raymond Kent. ele acrescentou a ela o fato de ser um estado formado por fugitivos.o kilombo . que afirmou ser Palmares um estado africano no Brasil ("an African State in Brazil"). fortalecida por laços de parentesco e descendência. "African States in the New World?". as negociações do nganga zumba no Brasil poderiam ser interpretadas como um gesto político para consolidar esse novo estado africano: parte de uma política de estabilização. 1995. Os estados de Matamba. não se trata de uma instituição . p. As novas configurações políticas estavam baseadas em certas formas de poder religioso e em títulos e cultos que se rearranjavam para suplantar as linhagens e assimilar heterogeneidades. para ele. fazendo em seguida re-emergir cultos ancestrais e "fechando a fronteira": reinstalados e reagrupados. Assim. Arquivo Histórico Nacional. e o estado de Kasanje. os princípios do parentesco renascem. (trad. Poder político e parentesco. 62. . quando teria prevalecido o estado de guerra. diferente da experimentada no início. pensando do ponto de vista institucional. Palmié usa a expressão "Brazilian 'Marron State' of Palmares".115 Como na África Central. funcionando como um princípio orientador da sociedade em Palmares.114 Essa instituição poderia ter operado também no Novo Mundo. o aparecimento de cargos políticos revelava o desenvolvimento do processo de estabilização social .117 Foi nesse contexto que propôs que a instituição Imbangala do kilombo. o kilombo teria servido para reagrupar e dar coesão a gente diversa. Como se vê. capaz de transformar grupos que se deslocavam num espaço político instável em estados. p. Os antigos estados Mbundu em Angola. "African States in the New World?". Palmié.sob a forma de um Estado. junto com os cultos ancestrais que servem de base para estruturar um novo estado. Assim. fundado por meio da fusão de elementos Mbundo e Imbangala.

ele observa porém que há muitas diferenças entre o kilombo Imbangala e o quilombo de Palmares e que esse pode ter sido um dos modelos políticos utilizados pelos quilombolas. ficando difícil distinguir as duas propostas. Para ficar com 116 S.118 Atlântico. Não pretendo entrar na discussão sobre os méritos e problemas da proposta teórica sobre as fronteiras de Kopytoff ou sobre a capacidade hermenêutica de conceitos gerais e abstratos. Palmié. . em versões preliminares. mas de um procedimento político mais amplo. Além de portadores de "imensas quantidades de conhecimento. Palmié incorpora várias de suas observações. Alguns historiadores já exploraram a dimensão política das instituições dos escravos . Prefiro reter a proposta de ir além da cultura pensada em temos de identidades étnicas (que tendem a ser tratadas de modo essencialista) para enfatizar a cultura política. "African States in the New World?". 296. Ao concordar com Schwartz. Em primeiro lugar. essa abordagem permite explorar outras formas de conexão entre a experiência africana na África e nas Américas. Em segundo lugar. e sem que "cortes e monarquias" tivessem sido transpostos para o Novo Mundo. Caminhar nessa direção é. além de proporcionar mais espaço para a análise da mudança e da transformação elementos tão caros à análise histórica. uma boa maneira de levar em conta processos históricos e não essências identitárias. O caminho não é novo. informações e crenças" eram também sujeitos políticos. para construir uma formulação que julgo importante. Ela me parece ser importante por dois motivos. Palmié escreve quase ao mesmo tempo que Schwartz e os artigos de um e outro são citados por ambos. p. a reflexão realizada por Stuart Schwartz e Stephen Palmié reconhece que os africanos. segundo moldes africanos. Ao escrever em 1995. mesmo que "príncipes e princesas" não tivessem sido escravizados. que fornece uma gramática tanto para a formação dos laços de coesão entre os fugitivos como para sua modificação e para a formação de um Estado. para ele. ao serem transportados pelo Atlântico. Para retomar a formulação de Mintz e Price. um modo de criar sociedades e de organizá-las certamente pôde acompanhar os homens e mulheres na diáspora. traziam também em sua bagagem uma cultura política. depois portanto da versão final do artigo de Schwartz.116 Creio que se trata de fato de um bom caminho.em particular ao tratarem das rebeliões.

não apagou as marcas étnicas. no entanto. Esse. africanos de várias etnias. A segunda edição. são as questões relacionadas à formação da força política capaz de alimentar a rebelião (fundada nesse caso em elementos religiosos e étnicos) que orientam a investigação e a interpretação daquele movimento social. Ao compartilhar a experiência comum do tráfico e da escravidão em áreas rurais do Rio e de São Paulo. 119 J. acrescentando novos capítulos sobre o tema. São Paulo. p. 2003) aprofundou a análise dos elementos religiosos e étnicos do movimento rebelde. Slenes estudou a formação de uma "proto-nação bantu" no Sudeste do Brasil na primeira metade do século XIX. 282. Companhia das Letras. e sobre práticas escravas. . como os 117 João José Reis. entretanto. mas ajudou a diferenciar africanos e crioulos e fez com que os malês . baseada no substrato lingüístico comum do kimbundu. por sua vez.mesmo porque seu objeto é outro. O primeiro estudou a revolta dos malês em 1835 na Bahia. Robert W. "é inútil delimitar em casos como este a fronteira exata entre religião e rebelião". Em sua análise.um movimento de indivíduos escravizados que buscavam a liberdade e tinham pela frente um poderoso inimigo . Reis. J. de línguas e costumes diferentes (mas na maior parte bantus) descobriram paradigmas culturais comuns e criaram uma nova identidade capaz de lhes permitir viver na escravidão e enfrentar os senhores. e havia forte participação de haussás. não foram suficientes para definir o caráter do movimento. destaco os estudos de João José Reis e Robert W. mostrando como as identidades religiosa e étnica dos africanos vindos da África Ocidental moldaram tanto o modo como viveram a escravidão na cidade da Bahia.118 Mais que étnica ou religiosa. Se de início sua pesquisa voltou-se para aspectos mais culturais.119 Reis não faz qualquer referência às teses de Schwartz. 247. Como afirma o próprio autor.os senhores brancos da Bahia. A história do levante dos malês. Rebelião escrava no Brasil. Brasiliense. Rebelião escrava no Brasil. Rebelião escrava no Brasil. J. porém. Essas identidades. Palmié ou Kopytoff . 1986. 118 J.117 Não eram simplesmente "africanos": as diferenças étnicas e religiosas entre eles foram cruciais para as duas experiências. revista e ampliada (São Paulo. que foi profundamente marcado pelo islamismo. do kikongo e do umbundu. Reis. Os principais líderes da revolta eram nagôs. quanto o modo como se revoltaram.muçulmanos nagôs . Slenes. a revolta foi escrava .119 autores brasileiros. p. São Paulo. Companhia das Letras. como a formação de uma língua franca. 2003.dessem o tom ao movimento.

é o modo como esses elementos se articularam. que interessou a esses autores. Uma das grandes diferenças é o fato de a escravidão. 12 (dez. 1949. Rio de Janeiro: Folha Seca/Cecult. 121 Robert W. Mas aqui se trata de sublinhar como instituições sociais e religiosas serviram de esteio para ações politizadas. Mais que formas ou crenças religiosas. seguindo modelos africanos. "Saint Anthony at the Crossroads in Kongo and Brazil: ‘Creolization’and Identity Politics in the Black South Atlantic. no início do século XX. Paris). tem explorado em perspectiva comparativa os significados políticos dos cultos kimpasi (cultos comunitários de aflição. Slenes analisam contextos escravistas bem diferentes da realidade da escravidão em Pernambuco no século XVII. em meados do século XIX. em situações históricas determinadas. traços culturais dessa ou daquela nação ou etnia. Vassouras. n. no sentido mais amplo./jan. armarem planos e revoltas contra a escravidão e seus senhores. que permitiam uma comunicação entre os cativos distante da compreensão senhorial.209-236. além dos cultos praticados pelos escravos de Vassouras e Valença que planejaram uma insurreição no Vale do Paraíba em 1848. e em S. Em trabalhos mais recentes. Slenes. Slenes. "'Malungu. Livro-CD. Africa Worls Press. Esses dois autores buscam. cujos sentidos nem sempre são fáceis de compreender à primeira vista. ca. Memória do Jongo. 2007. 67/68. analisar uma gramática política que esteve baseada em práticas e instituições africanas específicas que informaram um modo particular de alguns africanos. ngoma vem!': África coberta e descoberta no Brasil" Revista USP. relacionados a situações de crise) realizados por Beatriz Kimpa Vita e seus seguidores no Kongo do século XVIII. A versão mais acabada do estudo sobre os jongos aparece em “‘Eu Venho de Muito Longe. Brazil and the constructions of trans-Atlantic Black identities. Stein. no 120 Cf. mas sua pesquisa está orientada pela necessidade de pensar religião e política em conjunto. Eu Venho Cavando’: Jongueiros Cumba na Senzala Centro-africana” in: Silvia Hunold Lara e Gustavo Pacheco. Trenton. 109-156. Robert W. p. 2008./fev. (orgs. p.). no contexto da escravidão. Evidentemente.120 jongos. procurando na experiência africana elementos desse modo de agir que podem ter ocorrido entre os escravos no Brasil. João José Reis e Robert W. 1700/1850" in: Livio Sansone. a política faz parte da cultura. Africa. que precisa ser levada em conta no caso de Palmares. 217-313. assim. Roque.120 ela aos poucos avançou para o terreno da política.121 Também Slenes não faz referência aos autores mencionados acima. . Elisée Soumoni e Boubacar Barry (eds). as gravações históricas de Stanley J. pp. aqueles praticados pelos membros da Cabula no Norte do Espírito Santo.1991-92): 48-67. Vide também “L’Arbre nsanda replanté: cultes d’affliction kongo et identité des esclaves de plantation dans le Brésil du Sud-Est entre 1810 et 1888” Cahiers du Brésil Contemporain (EHESS.

o enquadramento mais geral não pode ser tratado como simples moldura. Não há dúvida a respeito das tensões e dilemas que a dominação colonial fez brotar e os historiadores não se cansam de debater a natureza dos vínculos e dos nexos políticos. XVI-XIX). Para uma análise clássica e marcante da colonização portuguesa moderna ver Fernando Antonio Novais.123 Não se trata apenas de incorporar o tráfico negreiro como parte importante 122 Há. que incorporou novas áreas "além-mar" ao domínio europeu. S. Esse contexto certamente faz parte do campo empírico que está sendo examinado aqui e deve ser levado em conta para aprofundar a discussão. estavam articulados. modos diversos de abordar o tema. Séculos XVI e XVII.121 século XVII. No caso português. Dito de outro modo. Formação do Brasil no Atlântico sul. econômicos e culturais que estiveram em jogo no processo da dominação e exploração das riquezas do Novo Mundo pelos europeus. evidentemente. O fenômeno histórico que enquadra a questão que se está discutindo é o da expansão européia moderna. . esse processo envolveu a formação de um império colonial. 1979. S. Hucitec. O trato dos viventes. Paulo. Silvia Hunold Lara. 2. Modos de Governar. S. Paulo. estar articulada aos mecanismos mais amplos da colonização moderna. pp. Paulo. vide Luiz Felipe de Alencastro. 2005. Idéias e Práticas Políticas no Império Português (sécs.). Alameda Casa Editorial. Para um exame dos nexos coloniais no século XVII português.122 Grande parte da literatura que trata do tema em relação ao processo da expansão e da colonização portuguesas tem se dedicado a analisar seus aspectos econômicos ou como as forças políticas se articularam para controlar os novos territórios e explorá-los. São os mecanismos administrativos e os modos de governar as áreas coloniais que têm interessado a maior parte das investigações. Se se pretende investigar gramáticas políticas. com implicações teóricas que não vou discutir aqui. especialmente cap. ao buscar a gramática política africana em ação no processo de formação e desenvolvimento de Palmares é importante pensar que nem a África nem os mocambos estavam isolados ou excluídos desse contexto mais geral. no qual territórios espalhados pelos quatro cantos do mundo. 123 Cf. Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777-1808). 21-38. habitados por uma diversidade de povos. Como já observei mais extensamente em outro lugar. o significado da escravidão e da experiência escrava não tem sido levado em conta na análise das questões políticas imbricadas na história do império colonial português. Companhia das Letras. "Conectando Historiografias: a escravidão africana e o antigo regime na América portuguesa" in: Maria Fernanda Bicalho e Vera Lúcia Amaral Ferlini (orgs. 2000.

não deixaram de mencionar as tensões do contato cultural entre africanos e europeus nas Américas. apesar de Portugal possuir mercadorias diferenciadas e técnicas mais eficazes que o Kongo. 8 (1981): 183-204. mas de verificar qual o peso que as políticas africanas de um lado e de outro do Atlântico tiveram na constituição das políticas coloniais . Na abordagem desse tema. Em primeiro lugar. é preciso conceder a eles a condição de sujeitos políticos atuantes no processo mais amplo da colonização. Mintz e Price. econômicas e políticas parecidas o suficiente para que os membros de uma e outra sociedade pudessem operar com certa familiaridade. Para pensar a política. com taxas de produtividade semelhantes. Para não me estender em demasia com observações genéricas e abstratas.124 Para contestar o anacronismo presente em várias análises das relações entre portugueses e o reino do Kongo. afetadas por períodos de fomes e pestes. pois aponta a similitude entre a monarquia portuguesa e conguesa no século XVI.122 dos mecanismos da exploração colonial ou de enfatizar os nexos econômicos e políticos entre a África e o Brasil. o modo como povos e civilizações diversas foram forçados a entrar em contato com os europeus variou bastante.que dialogar. Há entretanto um artigo de John Thornton em direção contrária. mas comunicação.que não quer dizer somente entendimento e concordância. tiveram . deve-se levar em conta que culturas diferentes. John Thornton. Eram as diferenças nas técnicas de transporte e nas táticas militares. nos dois lados do Atlântico. Além disso. é bastante freqüente partir do princípio de que havia uma diferença radical entre europeus e africanos. ambos os reinos tinham basicamente o mesmo nível econômico.com maior ou menor tensão . . bem como nas armas e nos 124 Cf. "Early Kongo-Portuguese relations: a new interpretation" History in Africa. mesmo enfatizando o convívio de africanos de origens diversas. no contexto dos impérios coloniais da época moderna. Thornton volta à documentação quinhentista para mostrar como Portugal e o Kongo possuíam estruturas sociais. Uso a palavra aqui no sentido amplo . de algum modo. Se buscamos enfatizar que os africanos também traziam em sua bagagem uma cultura política. destaco três pontos que considero importantes para a análise que desenvolvo aqui.na África e no Brasil.

a gramática política africana não é exclusivamente "africana". Para evitar o anacronismo e a projeção de contextos posteriores na análise do século XVI.e o modo como sua forma e linguagem se encaixavam na sociedade portuguesa e congolesa. o fato de o ngola ser chamado de "rei" não era apenas retórica. chamo a atenção para o fato de que a análise de Thornton deriva de uma leitura cuidadosa das fontes administrativas . Thornton. Isso significa também dizer que. mas descrevia tanto as relações internas entre o rei do Ndongo e seus vassalos quanto entre eles e os portugueses.125 Os conceitos de soberania.183-186 e 197-198. J. ele leva em conta o contexto social no qual essa documentação foi gerada e para quem ela foi escrita . Estamos. Do mesmo modo. especialmente pp. "Early Kongo-Portuguese relations". pois abrem a possibilidade de entender as relações entre os portugueses e o Kongo a partir de um novo prisma. Thornton. por exemplo. a partir do século XVI. portanto. mas uma forma de interação política e cultural entre eles que ajudou a moldar e conformar o processo pelo qual a expansão colonial pode ser realizada na África. clientelismo e influência dominavam o sistema político". os dois reinos "eram monarquias governadas por um rei e por uma classe de nobres na qual as relações de parentesco. Além disso. "Early Kongo-Portuguese relations". uma linguagem política e institucional documentada nas fontes que também é preciso 125 126 J. especialmente. baseadas no ouro e na prata em Portugal e em tecidos específicos e conchas nzimbu no Kongo e cowri para trocas de longa distância. Em segundo lugar. nobreza e vassalagem. num outro patamar da análise da política. portanto. em que estão presentes conflitos de hierarquia e jurisdição entre governos. 186. . mas envolve também algum tipo de relação com gramáticas européias. p. 193-197. Ambos os reinos possuíam sistemas monetários que possibilitavam redes extensas de comércio.123 tecidos portugueses que interessavam ao reino do Kongo e foram incorporados pelos congoleses. não apenas aquele que considera os africanos de um lado e os europeus de outro.mais especificamente da troca de cartas entre o Kongo e Portugal.126 As observações de Thornton são importantes. pp. eram equivalentes nos dois reinos e o fato de Afonso I se intitular "rei do Kongo e senhor dos Ambundos" mostra que a correspondência podia ser reconhecida por ambos os lados. 127 J. Thornton. "Early Kongo-Portuguese relations".127 Há.

). como metrópole e colônia. as relações de poder estão diretamente ligadas ao modo como a produção e a distribuição das riquezas ocorrem em uma certa sociedade. senhores e escravos. . há diferenças sociais . P. em busca de elementos que permitam compreender as diversas gramáticas políticas acionadas no contexto em que Palmares se formou e negociou com o governo de Pernambuco.ou seja.e políticas. é preciso lembrar das lições mais singelas da análise social: nem todos os homens e mulheres são iguais. Companhia das Letras. Thompson. Revista de História. Mais uma vez. Costumes em comum.128 Por fim. africanos e europeus. bem como outros artigos do mesmo autor em E. a balança penderá para o lado dos escravos. ao contrário do primeiro capítulo. nem todos os senhores exploram seus escravos da mesma forma. do mesmo modo. Em particular quanto a esses dois últimos. Instituto de Investigação Científica e Tropical. Ao invés de postular o eurocentrismo presente na produção dessas fontes. Como sabemos. 3 (maio 1978): 133-165. "Eighteenth century English society: class struggle without class?" Social History. há diferenças e divergências entre grupos na colônia.124 conhecer. trata-se de explorá-las também do ponto de vista das ações dos africanos em contato com os europeus. P. 1998. mesmo que elas não se expressem em termos classistas. no interior dessas categorias. Dessa vez. O próximo capítulo procura navegar por esses mares. ver E. e Catarina Madeira Santos. 155 (2006): 81-95. entre africanos e entre escravos.129 Grande parte da análise do processo da colonização do Novo Mundo tem sido realizada por meio da oposição de categorias genéricas. 2002. mais uma vez. nem todos os europeus são iguais. mas da perspectiva da política . há que se levar em conta que. especialmente pp. 471-533. A apropriação da escrita pelos africanos. Paulo. Se o problema é pensar as relações de dominação. Lisboa. 128 Essa perspectiva tem sido explorada com resultados muito interessantes por Ana Paula Tavares e Catarina Madeira Santos (orgs. Nem todos os interesses metropolitanos são convergentes. "Escrever o poder. para pensar em diferenças sociais e políticas. Thompson. (trad.) S. Africae Monumenta. Os autos de vassalagem e a vulgarização da escrita entre as elites africanas Ndembu". não falo do ponto de vista cultural. é preciso ir além da diversidade de culturas. 129 Sobre o tema. das relações de dominação. em terceiro lugar.

em conjunturas diversas. estão registradas na documentação. na direção das Conquistas e do Reino. carregando notícias. de modo a iluminar tanto as palavras quanto os acontecimentos. O exercício analítico experimentado nesse capítulo pretende escapar da armadilha. O procedimento é arriscado. ao explorar os laços que unem as duas margens do Atlântico no século XVII. instruções e ordens que circulam entre diversas partes do império. Esse é o caminho para compreendê-los sem projetar nos homens do passado nossas próprias idéias e lógicas. de um modo ou de outro. Ainda que tenham sido produzidas por um grupo pequeno de pessoas. Cada peça do conjunto oferece um ponto de vista bastante circunstanciado dos fatos. os historiadores são tentados a somar as informações produzidas por gente diferente. . para construir um panorama uniforme e coerente.125 Capítulo 3 CONJUNÇÕES A documentação administrativa produzida pelo processo colonizador português no século XVII é essencialmente dialógica: cartas. pois se pode perder tanto a possibilidade de acompanhar mudanças ao longo do tempo quanto de captar a diversidade das vozes que. juízos políticos. essas fontes trazem dados sobre muita gente e situações variadas. queixas e demandas. Para ler essas fontes de uma perspectiva histórica é preciso ir muitas vezes do contexto ao texto e vice-versa. Não poucas vezes. relatórios.

e João Tapuia e Ambrósio Negro. Acainene.4 Esses registros documentam a existência de um conhecimento bastante grande sobre a vida nos Palmares por parte das autoridades coloniais quanto a nomes. por exemplo. D. cod. São anotados os nomes.126 1. relações de parentesco. CXVI . . BPE. 1116. chefes de mocambos: seus nomes são conhecidos pelo cronista de 1678 e aparecem em vários outros documentos da correspondência oficial da capitania de Pernambuco e do Conselho Ultramarino. 9.a. Cx. 4 "Cópia do papel que levaram os negros dos Palmares". mas há outros bem mais familiares. pois algumas vezes foi preciso diferenciar os "negros cativos [existentes] nestas capitanias" de 1 Cf. "capitão da guarda do rei". CXVI . AHU_ACL_CU_015. seu irmão. não sendo sinônimo de escravo ou de fugitivo.a. as relações de parentesco e o lugar que ocupam na hierarquia política e militar dos Palmares. Dambi. O cronista indica. Fernão Carrilho. 11. 2 "Relação". grandes potentados. Transcrito no anexo 5. "Relação do que se passou na guerra com os negros dos Palmares nos sertões de Pernambuco". n. 9. Tuculo. o autor anônimo da crônica e as autoridades que redigiram as cartas e demais documentos administrativos também se referem de modo mais genérico aos "negros dos Palmares". ao fugirem dos castigos de seus senhores. Gangazona. Ao mesmo tempo. rei dos Palmares. sua mãe. por exemplo. Um dos prisioneiros é designado como "Gangamuissa mestre de campo de toda a gente de Angola e genro do rei. BPE.1 Esses não são nomes próprios usuais em português. enviou "Mateus Zambi e sua mulher Madalena Angola. 9. "ambos capitães afamados naquelas campanhas e entre aqueles bárbaros". 55v. seu filho. cod. os quais são sogros de um dos filhos do rei". Dambiabanga. hierarquias políticas e cargos militares. cod. Documento anexo à carta do governador Aires de Souza de Castro de 22 de junho de 1678. CXVI .a. Osenga. Andalaquituxe e Zumbi. no acordo feito no Recife em 1678.13 . se chamavam Amaro e João Mulato.2 .2 . BPE. fl. fls. para avisar sobre a possibilidade de um acordo.13 . 56v. fl. que foram "alguns negros" que se esconderam naquele "inculto e natural couto".2 .2 Havia ainda Gaspar. casado com duas filhas suas". Os negros do Palmar Gangazumba.3 Os cativos que foram especialmente agraciados com a alforria. n. A palavra "negro" tem aqui um sentido genérico. 55v-56. ambos de maiores anos [idosos]. seus sobrinhos.13 . n. 3 "Relação". Pacasa.

bem como descobrir os melhores caminhos para atacá-los. aprender seus costumes e saber a localização dos mocambos. "Cópia do papel que levaram os negros dos Palmares". .13 . o expediente foi usado também pelos holandeses. História dos feitos recentemente praticados durante oito anos no Brasil. Itatiaia/Edusp. RIAHGP. atraiçoasse os antigos companheiros e servisse de chefe da presente expedição" de Roulox Baro. 8 Gaspar Barléu [Caspar van Baerle]. Se é pouco provável que a narrativa feita pelos comandantes das expedições holandesas enviadas aos Palmares em 1644 e 1645 tenha circulado entre as autoridades em Pernambuco e Lisboa. Belo Horizonte. CXVI .127 outros. que está no Arquivo Nacional em Haia. cotejar. D. que teria vivido entre eles. Cx. 9. No caso de Palmares.01. "para que depois de ficar-lhes conhecendo os lugares e o modo de vida. como testemunham os muitos indivíduos "lançados" pelos portugueses nas duas margens do Atlântico para permanecer entre os nativos e depois servir de intermediários entre eles e os comerciantes e colonizadores. Agradeço muitíssimo a Mariana Françozo. passim.2 . 253-254 e 304-305. n. que generosamente usou seu tempo de pesquisa para ler. pp. 1116. traduzir esse texto para mim. AHU_ACL_CU_015. eles se distinguiam da "gente preta que obra debaixo da nossa obediência"6 .8 Houve iniciativas semelhantes do lado das autoridades pernambucanas e dos interessados em 5 6 "Relação".7 é quase certo que grande parte dessas informações tenha sido obtida por meio dos relatos.01. 11. já que Gaspar Barléus menciona um certo Bartolomeu Lintz. Em algumas ocasiões. 1974. documento 47.ou seja. 56 (1902): 87-96. geralmente denominado na documentação como os "negros dos Palmares" ou os "negros levantados do Palmar".05. entrada 1. Transcrito no anexo 5. 7 João Blaer. cod.a. inventário número 60. foram enviadas pessoas para viver com os fugitivos. dos soldados que subiram as serras para tentar destruir os mocambos. O conhecimento que tinham sobre eles acompanha a construção da própria nomenclatura utilizada no circuito da administração colonial para designá-los. BPE. Documento anexo à carta do governador Aires de Souza de Castro de 22 de junho de 1678. dos negros do terço que foi de Henrique Dias. "Diário de viagem do Capitão João Blaer aos Palmares em 1645".5 Em alguns casos. A tradução feita por Alfredo de Carvalho apresenta ligeiras modificações em relação ao texto original. O procedimento foi utilizado amiúde no processo da expansão européia. como os que estavam "levantados" nos Palmares. Tanto as informações detalhadas quanto as qualificações mais genéricas indicam que as autoridades coloniais consideravam os "habitadores dos Palmares" como um grupo específico. escritos ou não. coleção OWIC (Oud West Indische Compagnie). por sua desobediência.

Memorial dos Palmares. 13 Ver. e Flávio dos Santos Gomes. já que as fontes são em geral convergentes. Palmares. 10 "Relação". em 1597. 141-142. casam e governam. CXVI .10 sem dar maiores detalhes. principiaram [a existir] os habitadores dos Palmares". No circuito das autoridades que lidavam com os assuntos das conquistas portuguesas. pp. 5. 48. 1 (1906): 224. p. República de Palmares.128 vencer os Palmares.11 Como vimos. Rio de Janeiro. sem precisar qualquer região específica. De fato. Mercado Aberto. 57v. 29. de 1588. procurou se informar dos seus costumes. Freitas.9 Colhidas e acumuladas de modos diversos. No regimento do governador Francisco Geraldes. 1984. 9. Pesquisa e comentários em documentos históricos do século XVII. . 67 n. 11 Traslado do regimento que levou Francisco Geraldes que sua magestade ora mandou por governador do Estado do Brasil em março de 88. 2004. Manuel Inojosa. fl. 20 (1898): 255. Infelizmente não consegui localizar o original. cod. Edufal. BPE. as informações sobre os negros dos palmares parecem ter constituído um certo conhecimento. trabalham. mencionou haver "negros de Guiné alevantados" que habitavam "algumas serras" no Estado do Brasil. provincial da Companhia de Jesus.2 . O cronista de 1678 registra que desde que "houve negros cativos nestas capitanias. A guerra dos escravos. Porto Alegre. Um dos pareceres do Conselho Ultramarino que examinou sua proposta menciona ter ele mandado "um negro seu escravo com promessa de alforria a que fosse viver entre os ditos negros fingindo fugir ao cativeiro e assim lhes entrando na confiança tomar notícia sobre o modo como vivem. Xenon. p. durante a permanência na capitania do recém-nomeado 9 Consulta do Conselho Ultramarino de 8 de novembro de 1677. 5ª ed. Maceió. Escravidão e liberdade no Atlântico Sul. há menção a vários mocambos nas áreas açucareiras do Estado do Brasil desde o final do século XVI.12 Ainda que alguns historiadores utilizem esses documentos para registrar a existência de mocambos na região onde floresceu Palmares desde o final do século XVI. reescrita.13 cabe observar que essas evidências são vagas e se referem ao Estado do Brasil. 2005. p. o período de formação dos mocambos não é identificado de maneira precisa. n. 1988. por exemplo. D. o rei indica ser preciso acabar com os "negros de Guiné e Angola [que andam] levantados".13 . ABN. de 1º de maio de 1597. Ivan Alves Filho. [1973]. A primeira menção a "negros levantados" em Pernambuco é de 1602. pois com saber dos negócios do inimigo se facilita o sucesso da guerra". revista e ampliada. Palmares. 12 Carta do Padre Pedro Rodrigues.a. RIHGB. Décio Freitas. ao propor seu plano para destruir Palmares. o provincial da Companhia de Jesus. São Paulo. Contexto.

. 1 (1910): 36-39. 16 Raymond K Kent. está um sítio entre umas serras a que chamam Palmares. mencionou que nessa capitania os homens investiam toda a sua fortuna na aquisição de "negros da Guiné". antes de ir à Bahia. São Paulo. e são tantos os que desta maneira andam que fazem aldeias e andam levantados. do que sucede trazerem muitos. ao escrever seu relato sobre as capitanias do Brasil. 57 (1939): 37-39. mais uma vez não há qualquer menção explícita sobre a localização dos mocambos. 73 n. Francisco Adolfo de Varnhagen. "Palmares: An African State in Brazil" Journal of African History. Botelho teria mandado fazer uma "entrada pelo sertão dentro aos palmares. Segundo Varnhagen.15 Cabe observar que. obrigam os brancos a que os busquem com mão armada. onde estava cópia de negros levantados. algumas vezes. logo se tornam para a mesma parte. que permaneceu alguns meses em Pernambuco antes de seguir para a Bahia. "The Quilombo of Palmares: A New Overview of a Maroon State in SeventeenthCentury Brazil.14 Em 1608. escravos desta capitania e depois. de que os moradores desta capitania recebiam dano e opressão pelos muitos roubos e latrocínios que faziam e contínuos assaltos que davam". Diogo Botelho.129 governador do Estado do Brasil. História Geral do Brasil [1854] 7ª. Melhoramentos. Anderson. fugindo do trabalho. a 30 léguas ao sertão. 244-245. porque fogem e metem-se pelos matos.16 Apenas em 1612. Manuel Mascarenhas Homem. porém. não 14 Certidão de Manoel Mascarenhas Homem de 29 de junho de 1603. ABN. 1962. Observou entretanto que logo o número de escravos ficava reduzido a "menos [d]a metade. apesar de se referirem a Pernambuco. e ninguém pode com eles e podem crescer de maneira que custe muito trabalho o desbaratá-los deste particular". ficando Pernambuco "livre por ora das insolências desses alevantados". 6: 2 (1965): 164 e Robert N. RIHGB. Diogo de Campos Moreno foi mais preciso: "Nesta capitania [de Pernambuco]. Como já observaram alguns historiadores. ao qual ordinariamente se acolhem. o novo governador do Estado do Brasil. tanto que os soltam e os trabalham." Journal of Latin American Studies 28 (1996): 551. ed. com assaltos e correrias que fazem. Segundo o relato do governador de Pernambuco. vol. 5. A "jornada" fora vitoriosa. já que "dela redundou serem os inimigos desbaratados com dano e perda de muita gente [que foi] morta e cativa". para completar os 50 negros necessários para o funcionamento de cada engenho. Botelho permaneceu na capitania de Pernambuco. o termo "palmar" ou "palmares" aparece muitas vezes na correspondência oficial para designar as áreas cobertas por palmeiras nas regiões de Alagoas e Pernambuco. 15 Carta de Diogo de Meneses de 23 de agosto de 1608. entre abril de 1602 e setembro de 1603. pp.

Helio Vianna) Recife. História dos feitos recentemente praticados. também. 190-191. 18 "Relação". mas também aldeia e casa dos moradores daquelas terras que de ordinário fazem as suas povoações em campos abundantes de palmas". 497. e assim ficam sem castigo". com cinco mil e seis mil habitantes cada. n.20 Francisco de Brito Freire. o lugar passou a identificar aqueles habitantes que teimavam em resistir às expedições: eram os "negros do Palmar" ou "dos Palmares". utiliza o termo palmar como sinônimo de "cerca" e "mocambo". (Os seus palmares. Palmares começou a ser. UERJ. tom.). escrito no início dos anos 1670.a. essa acepção ainda permanecia. 51. nem quaisquer mocambos. É bem provável que esses Palmares tenham sido em parte destruídos pelas expedições holandesas e não correspondam exatamente aos Palmares descritos nos anos 1660-1680. Orient.17 Como se vê. A insistência com que os relatos desse período mencionam os assaltos dos escravos e a dificuldade de serem contidos talvez explique a fama desses levantados que se escondiam naqueles palmares e. Conquist.2 . Palmares. pag. 1955. Raphael Bluteau. Palmares tornara-se nome de um lugar específico. "nas Histórias do Brasil e da Índia. Vocabulário portuguez e latino. . havia um que se distinguia pelo costume de ali se abrigarem os escravos. Aqui palmar é quinta. BPE. situado "entre umas serras" a 30 léguas do litoral. um grande e outro pequeno.d. (ed. Coimbra.1612. ao indicar os nomes daqueles "distintos palmares". ou coisa que o valha". que são as suas fazendas. p. 9. CXVI . Se a ação dos escravos havia sido capaz de diferenciar inicialmente um lugar. um contingente populacional. Arquivo Público Estadual. pagi sunt. verbete "palmar".19 Ao tornar-se um grupo específico e localizado. 99). dos muitos palmares existentes na região. já que o Vocabulário de Bluteau registra que a palavra quer dizer "campo onde nascem palmeiras". 19 Pe. o termo "palmar" continuou a possuir um sentido mais amplo. calcula que "nas 17 Diogo de Campos Moreno. pp. porque sucede que os insultos que os vadios acometem.18 No início do século XVIII. deixando de tradução a associação com os negros: "No seu livro intitulado Res Brasiliae. junto com ela. Bluteau cita Barléu. de que estamos tratando aqui. Gaspar Barleo o declara. CD-Rom. lançam a fama aos dos Palmares. cod. 253. d. s. O cronista anônimo de 1678. com o tempo. fac-simile. por exemplo. ao descrever Palmares em seu livro.13 . Barléu [Caspar van Baerle]. a configuração de uma nomenclatura. 2. (Ed. Collegio das Artes da Companhia de Jesus. não quaisquer fugitivos. não só significa campo.130 sendo possível extinguir-lhes o fundamento. Rio de Janeiro. et Nigritas contubernia. 1712. Livro que dá razão do Estado do Brasil . fl. Mesmo assim. 20 G. Barléus registrou dois Palmares. pelo que não faltam desordens e queixumes. O verbete menciona ainda que.

Na documentação da primeira metade do século XVII. com a média de 100 escravos cada um. pp.2 . É na carta de dom Pedro de Almeida de 4 de fevereiro de 1678 que se pode encontrar a primeira 21 Francisco de Brito Freire. cod. 26 G. p. descrevendo dois Palmares. 177.131 numerosas mas não grandes aldeias a que chamam mocambos" habitavam trinta mil pessoas. Schwartz. 51v e 52. Nova Lusitânia. [1675] Ed atual. n. CXVI .13 . B. Revista USP. 246. p. um grande e outro pequeno. 92 e constatou a diferença. escreve: "havia entre os habitantes toda sorte de artífices e o seu rei os governava com severa justiça.a. também João José Reis. f. que escreve apoiado no relato de Lintz e Baho. 56 (1902): 87-96. Barléu [Caspar van Baerle]. 53. . Beca. o número de habitantes de Palmares igualaria o total de escravos na economia açucareira na região. "Quilombos e revoltas escravas no Brasil". cod. presentes nas fontes contemporâneas ou resultantes de pesquisas históricas. segundo a tradução realizada por ela. Cf. Stuart B. São Paulo. compreend[ia] mais de oitocentas casas".25 Gaspar Barléus. coleção OWIC (Oud West Indische Compagnie). 25 João Blaer.". Schwartz considerou que. todavia.23 As estimativas parecem todavia estar mais atreladas a uma avaliação política do perigo daqueles negros levantados do que em cômputos compatíveis com dados sobre a população de Pernambuco. e rev. A identificação do grupo e de suas dimensões populacionais precedeu o conhecimento mais detalhado sobre quem eram seus líderes.2 . 23 "Relação" BPE. cotejar. talvez tenha tido acesso ainda ao texto de Blaer. 9. apenas o relato do capitão Blaer menciona o fato de que "havia entre os habitantes [dos mocambos] toda sorte de artífices. 253. Cito pelo original. eles chamam seu rei de Damby e ele os governava com severa justiça". "Diário de viagem do Capitão João Blaer aos Palmares em 1645". Vide S. com a guerras empreendidas pelo governador "foram declinando no número". inventário número 60. 28 (1995/6): 16-17.a.05. 9. 2001.21 Em 1678.22 Segundo o cronista.01. apenas a partir de 1678 há identificação dos nomes. "cidade fortificada de pedras e madeira. se a região possuía cerca de 200 engenhos em meados do século XVII.26 Na documentação portuguesa.01.13 . mas não refere nome ou título algum. n. 22 "Relação do que se passou na guerra com os negros dos Palmares nos sertões de Pernambuco" BPE. 24 Ao comentar estas cifras. a cerca real de Macaco "fortificada toda em cerco de pau a pique" teria "mais de mil e quinhentas casas".24. que traduziu o texto para a publicação em RIAHGP. O próximo item desse capítulo oferece dados sobre a população escrava em Pernambuco no século XVII. o cronista anônimo que elogiou os feitos de dom Pedro de Almeida afirmou ser "opinião vulgarmente recebida de todos os que cursaram aquela campanha" que Palmares abrigava "mais de vinte mil almas". História da guerra brasílica. Mariana Françozo verificou o original no Arquivo Nacional em Haia. traduzir o texto para mim. Alfredo de Carvalho. CXVI . fl. documento 47. entrada 1... História dos feitos recentemente praticados. fl. a quem agradeço muitíssimo sua generosa gentileza de ler. e Subupira.

que a utilizavam para levar recados. No original "Ganazumbà". A variação no registro dos nomes próprios palmarinos na documentação administrativa e na historiografia é um tema bem interessante. A estrutura de um governante maior e de chefes de mocambos que lhe são subordinados aparece na documentação antes de 1678. AHU_ACL_CU_015. para as autoridades em Pernambuco .132 referência ao "rei por nome Gangazumba" . .27 Todos os outros nomes e cargos aparecem em textos escritos depois disso e a principal fonte é. capítulo 1. ordens e cartas. Cx. por exemplo. com poder e jurisdição sobre terras e gentes. 27 Carta de 4 de fevereiro de 1678. Elas podem ter reagido à estrutura de governo em Palmares da mesma forma que os portugueses haviam se comportado diante da monarquia que governava o Kongo. Isso significa que. 1103.e em seguida em Lisboa . ocupava postos políticos e militares. "maior". que a percepção do significado mais amplo das hierarquias palmarinas parece ter se firmado entre as autoridades coloniais. Utilizo aqui e em toda a tese "Gangazumba" por ser mais próximo do que foi fixado pela bibliografia. no século XV. 28 Ver "A voz da experiência". a crônica de 1678. seus "cabos" e habitantes como liderava uma rede de parentes que. que governa a todos" e de "o cabo de um mocambo".28 Naquela ocasião. sem dúvida. A parentela composta por relações consangüíneas ou de afinidade era reconhecida pelos capitães das tropas e pelos governadores de Pernambuco.eles se referiam a indivíduos. 8 (1981): 183-204. o que as cartas registram é a existência de um "maior. John Thornton. mesmo que os nomes indicassem títulos entre os palmarinos. que pretendo tratar com detalhes em artigo futuro.que o governador dá como tendo sido morto numa das batalhas lideradas por Fernão Carrilho. porém. D. por sua vez. Foi a partir das negociações havidas nesse ano. "Early Kongo-Portuguese relations: a new interpretation" History in Africa. 11. "maioral" ou "rei" não apenas governava os mocambos. como observou Thornton. O "principal". em 1663. 29 Cf. sem nomes próprios.29 Gangazumba era "rei e senhor" de uma linhagem governante. porém. É bem possível imaginar que informações sobre os nomes dos líderes possam ter sido obtidas dos prisioneiros feitos nas várias guerras e que algum conhecimento tenha surgido do contato mais próximo dos padres oratorianos que negociaram com eles em nome de Francisco de Brito Freire. Os documentos não indicam que essa relação entre parentesco e posições de poder causasse estranheza para aquelas autoridades coloniais.

A partir do acordo de paz ajustado em 1678. Somente depois da fundação de Luanda. Livro que dá razão do Estado do Brasil. Fernão de Souza Coutinho escreveu ao príncipe sobre as entradas que pretendia enviar contra Palmares no verão seguinte. lei e rei. p. "'Quem eram os ‘negros da guiné'? A origem dos africanos na Bahia" Afro-Ásia.32 Em junho de 1671. Moreno. Livr. que decidiram recomendar 30 R. Bluteau. empregado algumas vezes para diferenciar os negros trazidos da África daqueles "da terra". entretanto. São Paulo. ao glorificar dom Pedro de Almeida. como se verá em detalhe mais adiante.33 Sua primeira frase exprimia uma certeza: os Palmares eram formados por "negros de Angola fugidos ao rigor do cativeiro e fábricas dos engenhos desta capitania". a crônica de 1678 reconheceu Palmares como tendo fé. Cx. e do estabelecimento dos portugueses na região entre os rios Bengo e Kwanza. pp. Até o final do século XVI. 33 Carta de Fernão de Souza Coutinho de 1º de junho de 1671. Guiné era um termo genérico30 que designava as terras da costa atlântica da África. em 1575. e Maria Inês Cortes de Oliveira. entre a terra dos negros. O negro na Bahia. 1976. Todas as fontes dizem que os habitantes dos Palmares haviam fugido dos engenhos de Pernambuco: gente vinda de Guiné. D. 2ª ed. Deve ter contribuído para isso o fato de eles terem uma procedência conhecida pelas autoridades coloniais e pelos colonos pernambucanos. o mar atlântico.. Luiz Viana Filho.31 No século XVII. Martins Ed. Essa predominância é atestada por numerosos documentos. que em 1612 informou ao rei que os moradores de Pernambuco tinham "muitos escravos de Guiné. poucos meses depois de tomar posse como governador da capitania.133 Como vimos. em seu Vocabulário. e a terra a que chamam Leoa". 917. A operação não era. os africanos enviados para o Estado do Brasil e em particular para Pernambuco saíam basicamente de Angola. 32 D. indica que Guiné é "ampla região da África. como no caso de Diogo Campos Moreno. a linhagem palmarina passou a ser incorporada aos registros administrativos. Essa identidade foi levada em conta pelos conselheiros do Ultramarino em outubro daquele ano. pelas muitas entradas que aqui fazem todos os anos navios de Angola". dos índios. isto é. 190.25-31. conforme os identificavam as autoridades coloniais. Angola começou a aparecer na documentação como uma denominação mais específica. . 10. ou de Angola e Guiné. os reinos de Congo e Biafara. AHU_ACL_CU_015. apenas retórica. C. 31 Cf. 19/20 (1997): 37-73.

Essa forma de identificá-los enuncia a percepção de uma solidariedade entre companheiros de infortúnio. Mas há. aqui. que sofriam sob os "rigores do cativeiro" e que haviam fugido de seus senhores.156-158. O rei foi morto e houve muitos prisioneiros. Ele havia atacado algumas caravanas e se retirado para a capital.134 medidas severas para evitar que os prisioneiros permanecessem em Pernambuco. Em dezembro de 1671. que foram mandados para Lisboa. A idéia de enviar os prisioneiros para fora da capitania baseava-se na constatação de que não apenas eles tornavam a fugir. depois de um cerco de vários meses. . que ao mesmo tempo marcava o avanço do domínio português no sertão de Angola e o fim do reino do Ndongo. Os portugueses enviaram um grande número de soldados. Em Pernambuco e em Lisboa podia haver discordância sobre o melhor método para acabar com os negros dos Palmares. Os motivos das fugas variam pouco. Ao identificarem os levantados dos Palmares como "negros de Angola fugidos" do cativeiro. 1959. já que o "rigor do cativeiro" e os "maus tratos" se repetem em vários documentos. no Brasil ou em qualquer outra conquista de Portugal. como às vezes levavam outros a fazê-lo. sob o comando de Luís Lopes de Siqueira e. porém todos pareciam concordar que eles eram gente vinda de Angola que havia fugido das senzalas da região. Agência-Geral do Ultramar. tratavam de procurar medidas eficientes que evitassem novas fugas e alimentassem o crescimento dos mocambos. que resistia ao domínio português havia algum tempo. pp. Os portugueses estabeleceram um forte no local. algo mais. Lisboa. ao avançar para o interior de Angola. conseguiram tomar a capital. Os portugueses em Angola. Um episódio pode bem ilustrar essa outra dimensão. na região das Pedras Negras (Mpungo Andongo). os portugueses tiveram que enfrentar mais uma vez o rei do Ndongo. entre eles parentes do soberano. As autoridades pernambucanas e lisboetas pareciam convergir também em relação à necessidade de cortar a comunicação entre os que permaneciam escravos e os que tinham fugido para Palmares.34 O feito militar teve certa 34 Sobre a batalha de Mpungo Andongo ver Gastão Souza Dias.

também MMA. 222.37 Como eram muitos e seu sustento onerava a Fazenda real. Relação do felice successo que conseguiram as armas do Serenissimo principe D. O episódio é comentado rapidamente por Stuart B. 239. X. 64. os documentos n. em 1679 aventouse a possibilidade de devolvê-los para Angola ou de remetê-los para o Brasil. vol.º conde da Ericeira)]. donde [eram] conhecidos dos negros deles [e] nos se[riam] mais prejudiciais". podiam alterar aquele gentio. um dos intelectuais mais destacados da corte portuguesa no período. pp. 222. Bahia. [D. "Introdução" in: S. Cf. B. 2002. vol. 206. alguns prisioneiros mais destacados foram deportados. A publicação saiu anônima. 38 Consulta do Conselho Ultramarino de 18 de julho de 1679. donde não havia embarcações que fossem a Angola e menos negros com que se acumulassem". de modo que nos fosse de grande prejuízo. MMM. 37 Ver. 32. 159. Lisboa. que menciona uma carta do governador geral do Brasil de 24 de maio de 1673 (AHU. governadas por Francisco de Tavora. 143-152 doc. "pela perturbação que podiam causar". pp. s. Pedro. MMM. p. foram distribuídos por conventos e fortalezas. XIII. 73. a respeito. 73. 180-181. Veja-se também Consulta do Conselho Ultramarino de 21 de agosto de 1672. 109. e no Brasil havia o mesmo. 39 Consulta do Conselho Ultramarino de 12 de junho de 1682. Luís de Menezes (3. enviados pelo governador de Angola. A resposta obtida foi a mesma de 1672: "em Angola.36 Enviados a Portugal em vista do pedido régio. Companhia das Letras.35 Como em outras ocasiões nas guerras centro-africanas. MMM.135 repercussão em Portugal. XVIII. 532-533. rei das Pedras e Dongo. 11). com o séquito que tinham. atribuído ao conde da Ericeira. João. B. no mez de dezembro de 1671. vol. vol. S. de 6 de Setembro de 1672. 11. pp. o príncipe português escreveu ao governador do Estado do Brasil pedindo que esses últimos fossem remetidos para o Reino. doc. Schwartz. As excelências do governador. 180-181. XIII. com que lhe parecia ser mais ajustado passá-los ao Maranhão.). doc. DH. São Paulo. 532-533. contra a rebellião de D. Em setembro de 1672.38 Mesmo que em 1682 ao menos alguns deles ainda permanecessem em Portugal. Schwartz e Alcir Pécora (orgs. XIII. 36 Carta de Sua Alteza para o governador Afonso Furtado de Mendonça. doc. 297-298. pp.39 o périplo dos membros da família real do Ndongo indica o duplo potencial político 35 Cf. BNL. 507-508. O filho e o irmão do rei do Ndongo seguiram para Lisboa e cerca de 14 "parentes mais chegados do dito rei" embarcaram para o Brasil. pois não podiam voltar para Angola.d. 125. ou meterem-se com os negros dos Palmares. 67 (1945): 213-214. 381-382. nosso senhor. e não era conveniente que ficassem no Brasil "para se evitar o dano que se pode seguir de buscarem meio de fugirem para os mocambos. Cx. . governador e capitão general do reino de Angola. n. Miguel Menescal. Schwartz. ou por poderem fugir para Angola. vol. RES 903P. MMM. como mostra um relato publicado em Lisboa. pp.

tem um peso político evidente. sem que fosse necessário que passassem por qualquer troço [sic] europeu. Somente nesse contexto é possível compreender o perigo político da presença desses exilados no Estado do Brasil. O segundo. Pernambuco e Angola na segunda metade do século XVII. Se os membros da família real do Ndongo não eram de fato "conhecidos" pelos habitantes dos Palmares. entre Pernambuco e Angola. apesar de Angola fazer parte de um comércio triangular . Se o retorno da linhagem real a Angola punha em risco a vitória obtida em Mpungo Andongo.40 O processo de 40 Segundo A. o que aconteceria caso ela se juntasse à linhagem que governava Palmares? 2. importantes para a compreensão do contexto no qual as autoridades portuguesas e coloniais identificavam os negros dos Palmares como gente vinda de Angola. O episódio revela ainda uma outra dimensão dessas conexões: as ligações comerciais e políticas entre o Brasil e Angola conectavam também os africanos . a rota Luanda . O primeiro diz respeito às relações constantes e estreitas entre Bahia. A constatação. feita por gente acostumada a lidar com as questões da administração colonial. J. podiam ser "reconhecidos" por eles com facilidade. De fato. Comparativamente. não aproximavam apenas autoridades coloniais e traficantes que atuavam ou tinham interesses nas duas margens do Atlântico.Pernambuco era das mais curtas. Escravos para Pernambuco O episódio dos membros da família real do reino do Ndongo que foram desterrados para Portugal depois da batalha de Npungo Andongo em 1671 ressalta dois temas conexos. que era o principal elo daquelas relações. Havia um intercâmbio legal de mercadorias entre as duas colônias. "Angola dependia mais do Brasil do que de Portugal metropolitano. legumes e outros alimentos. Russell-Wood. o que facilitou a troca de frutas.isto é.136 dessas comunicações: um refere-se às atlânticas. ao tráfico negreiro. R. a proximidade entre Brasil e Angola era grande e as ligações se faziam em muitos níveis e acentuou-se durante o processo de expulsão dos holandeses de Luanda. as duas regiões possuíam muitas similitudes geográficas e climáticas. outro àquelas internas a Pernambuco. Além disso. entre os africanos (escravos ou não) das áreas sob domínio colonial e os Palmares. durando em média 35 dias.

43 A famosa frase sintetiza essa relação. vide Maria de Fátima Silva Gouvêa. Casa da Moeda.42 Sem dúvida alguma. e David Eltis. séculos XVI e XVII. séculos XVII e XVIII" in: Martha Abreu. por exemplo. Cultura política e leituras do passado: historiografia e ensino de história.).mas estreitamente relacionados. p. XVI-XIX). políticas e religiosas entre Angola e o Brasil vide Anne Wadsworth Pardo. A comparative study of the Portuguese colonies of Angola and Brazil and their independence from 1648-1825. Companhia das Letras. e cada lado do Atlântico possuía riquezas e modos de explorá-las bem diversos .) Lisboa. políticos. Joseph C. S. p. 234. O Brasil enviava soldados. Madison. militares. 1977. Civilização Brasileira. Vide. Way of Death. 2007. comerciais e até religiosos entre as áreas de ocupação portuguesa nos dois lados do Atlântico. Difel. Modos de Governar. Infelizmente. juízes e provedores mandados para Angola haviam ocupado cargos no Brasil e vice versa. João Lúcio de Azevedo (coord.44 A literatura sobre o assunto é extensa e muitas revisões têm entre Portugal.). Ásia e América (1415-1808). . Os portugueses na África. o bispo de Angola tinha que responder ao arcebispado da Bahia. 215. Alameda Casa Editorial. Idéias e Práticas Políticas no Império Português (sécs. de 12 de agosto de 1648. Antonio Vieira.179-197. 2000. 1730-1830. econômicos. Miller. Um mundo em movimento. Cartas. aportavam em Angola mais navios do Brasil do que de Portugal. "Conexões imperiais: oficiais régios no Brasil e Angola (c. e Maria de Fátima Silva Gouvêa e Marilia Nogueira dos Santos. (trad. o tráfico de escravos era o lastro de todas essas ligações. além de destacar a região açucareira do nordeste do Estado do Brasil. 2005. 1988. Em torno do tráfico de escravos articularam-se muitos interesses que fortaleceram os vínculos administrativos.137 ocupação dos dois territórios. suprimentos e cavalos para Angola e. Nova York. 89-110. Boston. 41 Para alguns exemplos. David Eltis. Boston University. depois de 1676. especialmente. Formação do Brasil no Atlântico Sul.41 Em muitos anos. The University of Wisconsin Press. 1. pp. "Sem negros não há Pernambuco e sem Angola não há negros" disse uma vez o padre Vieira. Oxford University press. 44 Os principais estudos sobre o tráfico concentram-se sobre os séculos XVIII e XIX. Economic growth and the ending of the Transatlantic slave trade. que nos interessa aqui. são eloqüentes. militares. "Cultura política na dinâmica das redes imperiais portuguesas. Rio de Janeiro. os dados são bastante fragmentários. Os números do tráfico. a África Ocidental e o Brasil. Merchant capitalism and the Angolan slave trade.1680-1730)" in: Maria Fernanda Bicalho (org. para o período e a região de que tratamos. no entanto. Os africanos aprisionados na região angolana foram a principal fonte de mão de obra utilizada no Brasil a partir do final do século XVI. 42 Para uma análise das ligações administrativas. 1992. Lisboa. Paulo. pp. Luiz Felipe de Alencastro. São Paulo. Stephen D. O trato dos viventes. e. Imprensa Nacional. 1987. vol. havia sido bem diferente. 43 Carta de Antonio Vieira ao marquês de Niza. Doutorado. Essa obra oferece um bom panorama dos fluxos populacionais e das trocas de mercadorias no Império português. porém." Cf. cada vez mais conhecidos. Rachel Soihet e Rebeca Gontijjo (orgs). Muitos governadores. 1970.

Stephen D. que calcularam entre 300 e 350 mil escravos chegados no Brasil na primeira metade do século XVII e entre 500 e 550 mil em todo o século.000 desembarques feitos em navios portugueses e 26. 122. 1621-1648. entretanto. Alfa-Omega. no período 1600-1625. 45. Este artigo foi publicado posteriormente.. The transatlantic Slave Trade. 174-180. Africa World Press. Stephen D. David Eltis. p. Para uma avaliação mais detalhada do tráfico holandês para o Brasil vide Pedro Puntoni. A census. 47 David Eltis. Behrendt. que computam no final dos anos 1670 entre 8 mil e 10 mil escravos por ano. pp. São Paulo. 1960. Ao comparar as cifras dos desembarques feitos pelos navios de diferentes bandeiras. 45 Mauricio Goulart. Curto e Renée Solodre-La-France (eds. 1527-1867: a database on CD-Rom. David Richardson "A participação dos países da Europa e das Américas no tráfico transatlântico de escravos: novas evidências" Afro-Ásia. Os dados desse banco vêm sendo atualizados. mas até agora não foram disponibilizadas as novas informações sobre o século XVII. A mísera sorte.150-162. Stephen D. Hucitec. David Eltis. 1969. Alencastro afirmou que esses números deviam ser corrigidos para Behrendt. Para o período subseqüente. 1999. le Brésil et l'Atlantique au XVIIe siècle (1570-1670). 1999. David Richardson. S.E. Nova York. David Richardson e Herbert S. pp.N. Behrendt. Paris. entre 1650 e 1700. 1 (2001): 23-26 e tabela III. 2005. p. Africa and the Americas. e ajustaram-na para 150. Cambridge University Press. 116 e 119. Os números adotados aqui se referem a essa última versão do texto. o declínio da escravidão indígena e a expansão do gado no período entre 1650-1700.P.000 escravos chegados ao Brasil antes de 1600 permanece. 24 (2000): 26-27. "National participation in the Transatlantic slave trade: new evidence" in: José C.47 Luiz Felipe de Alencastro ponderou que as reduções propostas por esses autores não levaram em conta o contrabando para o Rio da Prata. estimando 50 mil escravos desembarcados no Brasil até o final do século XVI e outros 560 mil ao longo do século XVII. e Frédéric Mauro. 13-41. Curtin precisou esses números. Baseado em estatísticas da saída de escravos de Angola. 46 Philip D.V. pp.138 sido feitas desde o trabalho pioneiro de Maurício Goulart e Frédéric Mauro. concluíram que o cômputo de Curtin de 50. A escravidão africana no Brasil holandês e as guerras do tráfico no Atlântico sul.300 em navios holandeses. Trenton.E. Klein. há algumas alterações: consideraram as cifras de Curtin altas para o período entre 1600 e 1650. 1975. Behrendt e David Richardson revisaram os cálculos anteriores. embora nem sempre haja concordância entre os autores. A escravidão africana no Brasil das origens à extinção do tráfico [1950] 3ª ed. estimam que 177. que passava pelos portos brasileiros. Curtin. com algumas revisões: David Eltis. . Interconnections during the slave trade. Madison. São Paulo. The University of Wisconsin Press. The Atlantic slave trade. "The Volume and Structure of the Transatlantic Slave Trade: A Reassessment" The William and Mary Quarterly.). pp.45 Philip D. para o período subseqüente. Le Portugal. 58 n.000 escravos desembarcados no Brasil seria um número mais compatível com os registrados para outras partes das Américas.46 Estas estimativas ainda se sustentam.

48 L.000 175.F. preferindo as estimativas mais antigas feitas por Mauro e Goulart.000 Fontes: P. Roquinaldo Ferreira informa que.000 150. R. Doutorado. Transforming Atlantic Slaving: Trade. pp.000 50. Behrendt e D.000 100.000 40. 116 e 119.000 610. Alencastro 10. Los Angeles. The Atlantic slave trade. L. Curtin D. 69 e 376-377. mencionado na nota anterior. nem todos esses escravos enviados para o Brasil saíam de Angola. L. 2003.000 610. D. and Territorial Control in Angola. o volume total das importações ao longo do século XVII permanece em patamares bastante semelhantes. Alencastro consultou uma versão ainda inédita do artigo de D.300 177. Richardson. contudo.000 185. S. D. conforme os procedimentos adotados para calibrar as cifras. desde o início das exportações de tabaco em 1678 até 1700. 69 e 376-377 Como se vê. Eltis..400 escravos vindos da Costa da Mina para a Bahia. "The Volume and Structure of the Transatlantic Slave Trade. O trato dos viventes. Vide L. pp. Isso resultava em grande parte das guerras que marcaram o processo de colonização na região Kongo-Angola e forneciam a maior parte dos cativos transportados pelos portugueses.300 10.000 175.49 Desde por volta de 1580. Eltis.".000 40. mas foi somente a partir do final do século que essa região foi se tornando um parceiro importante no tráfico atlântico. 1650-1800. Curtin. O trato dos viventes. Warfare. "National participation in the Transatlantic slave trade: new evidence". Evidentemente. O trato dos viventes. Alencastro.000 50. que haviam sido tomadas como base por Curtin. . Alencastro. pp. por exemplo. a partir da segunda metade do século XVII. 376.000 176. Eltis et al. primeiro Mpinda e depois Luanda. especialmente caps.. F. D. Tabela 1 . University of California. F.48 A tabela 1 ajuda a acompanhar o vai e vem dos números. corrigidas para cima ou para baixo.000 100. 84.Estimativa do número de africanos desembarcados no Brasil Número de Africanos desembarcados no Brasil Período 1551-1575 1576-1600 1601-1625 1626-1650 1651-1675 1676-1700 Totais F. 1 e 2. Alencastro.000 403. a maior parte do tráfico negreiro que se dirigia para as costas do Brasil (e para as Américas).139 cima. p. pp. 13-41. Ferreira. F.000 185. escravos obtidos em Benguela também foram exportados pelo porto de Luanda. partia dos portos exportadores da África Central. 49 Há.

50 Assim. sem tanta precisão mas com igual magnitude. e das naus que dos portos do mar Atlântico estão sucessivamente entrando nestes nossos.100 e 104. Thornton. Atlantic Creoles. M. chegando em ocasiões excepcionais até a 15 mil por ano. ao longo do século XVII. Thornton. 52 L. Atlantic Creoles. 57. Cultrix. os escravos de Angola representavam cerca de 50 a 60% de todo o tráfico negreiro realizado pelos europeus. como se pode verificar pela passagem abaixo. "Sermão vigésimo sétimo" Sermões.54 Frei Vicente do Salvador acusa 50 Linda M. talvez mil escravos!"53 No Brasil. 160-161 53 Pe. (ed. Angola e o Brasil passam a ser o centro desse comércio. produzindo cada um 6 mil arrobas de açúcar. salvando com tiros e fumos de água nossas fortalezas e cada uma pare um baleote. M. Dados retirados de M. entra uma nau de Angola e desova no mesmo dia quinhentos. que da África estão continuamente passando a esta América. Heywood e John K. A escravidão africana no Brasil. enquanto Abreu e Brito contava 63 engenhos em 1591.140 A partir das últimas décadas do século XVI. Antônio Vieira. O padre José de Anchieta e Fernão Cardim contam 66 engenhos em Pernambuco entre 1580 e 1590. K. K. Heywood e J. Entra por essa barra um cardume monstruoso de baleias. Thornton. disse o príncipe dos poetas que levara Tróia à Itália. p. Antônio Soares Amora) São Paulo. 2007. Nova York. Não só o declínio da produção açucareira em São Tomé permitiu que as exportações de escravos se voltassem para o Brasil e para as Américas. saíam dessa região entre 9 mil e 12 mil escravos por ano. Central Africans. Problemas sociais e políticos do Brasil. . Central Africans. Goulart. pp. e que nós pelo costume de cada dia não admiramos. Gabriel Soares de Souza estima 50 engenhos na capitania. seiscentos. com a maior razão podemos dizer que trazem a Etiópia ao Brasil. retirada de um dos sermões do padre Antônio Vieira: "Uma das grandes coisas que se vêem hoje no mundo. como os asientos que levavam cativos para as áreas sob o domínio de Castela passaram a ser firmados com gente que tinha fortes conexões com Angola. Cambridge University Press. os principais compradores de escravos africanos eram os senhores de engenho e os lavradores de cana. 1995.52 O impacto dos números obtidos pelos historiadores foi constatado em outros termos pelos contemporâneos. 54 A Bahia teria 46 engenhos segundo Anchieta e Cardim e 36 segundo Gabriel Soares de Souza. A armada de Enéas. p. Central Africans. 268. and the foundation of the Americas. 51 L. Heywood e J. é a transmigração imensa de gentes e nações etíopes. pp. 39. p. como em Pernambuco.51 Conforme o ritmo das guerras na África Central. 1585-1660. Atlantic Creoles.

23. de 1648 a 1652. e não mais de 2 mil. Sobre a expansão para os sertões vide Pedro Puntoni. p.). c. nos anos de 46 e 47. vol. a capitania de Pernambuco era uma das grandes áreas produtoras de açúcar da América portuguesa. de 1601 a 1630. 23 em Itamaracá e 20 na Paraíba. porém tiveram que enfrentar a concorrência da produção caribenha. Depois de expulsos os holandeses.000 entre 1600 e 1652. A escravidão africana no Brasil.1750. um sorvedouro de escravos. 2 mil. Goulart. 59 O período entre a expulsão dos holandeses (1654) e a revolta dos mascates (1711) é pouco estudado e os dados não são precisos. 112. Contava com cerca de 200 engenhos de açúcar. especialmente capítulo 1. de 1637 a 1645. 58 Stuart B. São Paulo. 2. já se contavam 121 engenhos moentes em Pernambuco. A análise que resulta nesses números está nas pp. . Cotejando fontes diversas. Goulart. pouco tempo depois da ocupação. A mísera sorte.61 Além de Pernambuco. Puntoni. Maurício Goulart estima que entre 1601 e 1652 teriam entrado cerca de 108 mil escravos em Pernambuco: "75 mil. A guerra dos bárbaros. Ipojuca e Jaboatão. 174-180. e 108. 341-347. História da América Latina. os engenhos se recuperaram. portanto.) São Paulo. concentrando-se no massapê da várzea dos rios Capiberibe. 61 Frédéric Mauro. Schwartz. logo com acesso a boas rotas fluviais para o transporte do açúcar. 57 P. pp.163. 18 ou 20 em Itamaracá e cerca de 20 na Paraíba.000 escravos antes de 1630. enquanto o processo colonizador avançava paulatinamente para os sertões. A mísera sorte. Puntoni. América Latina colonial. 85. assim como 18 dos 20 engenhos da Paraíba. "O Brasil colonial. p. Hucitec/Edusp. p.141 a existência de 100 engenhos em Pernambuco."60 Mauro estimou que em Pernambuco entraram 75. 12 estavam funcionando. Edusp/Fundação Alexandre de Gusmão. 1999.56 Em 1640. p. 106-107. 2002. a Bahia era outro grande centro importador de africanos e os senhores de 55 56 M.57 Na segunda metade do século XVII. quase tanto quanto a Bahia. 60 M. mas chegavam a produzir perto de 500 mil arrobas de açúcar por ano.78. 1650-1720. dos 20 existentes em Itamaracá. no mesmo período. 6 mil. As grandes lavouras e as periferias" in: Leslie Bethell (org. (trad. de 1631 a 1636.58 Estavam instalados em zonas de boa terra. A escravidão africana no Brasil. 109-111. 40 continuavam abandonados. Povos indígenas e a colonização do sertão nordeste do Brasil.59 A capitania era. O artigo oferece um panorama geral da produção açucareira no Brasil desse período. pp. Pedro Puntoni calcula que em 1638. dos 107 engenhos que os holandeses encontraram em Pernambuco. P. eles eram menores do que seus congêneres baianos.55 A invasão holandesa desorganizou parcialmente a produção de açúcar. Le Portugal et l'Atlantique au XVIIe siècle.1580-c.

300 46. "The Volume and Structure of the Transatlantic Slave Trade". 1673-1865" Topoi. Pioneira. "Capitalism and slaving: the financial and commercial organization of the Angolan slave trade. sistematizados na tabela 2. Ver ainda Joseph Miller. 1580-1680). Os cristãos novos e o comércio no Atlântico meridional (com enfoque nas capitanias do sul. São Paulo. Saraiva (orgs.Escravos desembarcados no Brasil Regiões Período 1519-1600 1601-1650 1651-1675 1676-1700 Totais Nordeste Bahia Sudeste 35. Os magnatas do tráfico negreiro (séculos XVI e XVII) São Paulo.400 Fonte: D.300 15. Os mesmos dados estão reproduzidos em David Eltis e David Richardson. Angola e Brasil nas rotas do Atlântico sul.no comércio negreiro em relação à Bahia: Tabela 2 .900 166. International Journal of Historical Studies.e.63 David Eltis.600 30. Pantoja e J.000 86. S.000 15.000 15. os dados são 62 Joseph C. portanto de Pernambuco . 16. 1648-1703" in: S. 17 n. 63 Cf.100 15. 1 (1984): 1-56.c. Bertrand do Brasil.300 409. 45.64 Esses dados.). pp.62 Precisavam de escravos e contavam com uma boa produção de cachaça e tabaco. Curto.200 167. utilizando a Base de Dados sobre o Tráfico Transatlântico de Escravos. Behrendt e David Richardson.200 75.800 Totais 50. tabela III. produtos que se tornaram importantes no comércio negreiro em Angola a partir de 1650-1660. . ainda que genéricos e um pouco superiores à revisão dos valores globais feitos mais uma vez pelo próprio David Eltis. chegou a estimar os desembarques de escravos nas diversas regiões do Brasil. according to the accounts of Antonio Coelho Guerreiro. p. Pioneira. p. Eltis.142 engenho das duas capitanias dominavam o tráfico de escravos no Atlântico sul em meados do século XVII. tabela III.600 75. 64 David Eltis. Sua análise apóia-se em José Gonsalves Salvador. F.000 60. 1684-1692". Esses números são bastante altos se compararmos com a quantidade de escravos existentes na capitania de Pernambuco nesse período. "Vinho verso cachaça: a luta luso-brasileira pelo comércio do álcool e de escravos em Luanda. Angola e Brasil nas rotas do Atlântico sul. 1978 e do mesmo autor. José C. 1999.).000 176.500 30. "A economia política do tráfico angolano de escravos no século XVIII" In: Selma Pantoja e José Flávio Sombra Saraiva (orgs. Rio de Janeiro. 69-97. 198.800 136. 6 (2003): 16. "Os mercados de escravos africanos recém-chegados às Américas: padrões de preços. Miller. mostram a importância do Nordeste . 45. "The Volume and Structure of the Transatlantic Slave Trade". juntamente com Stephen D. Mais uma vez.600 30. p.

000 no final do XVII.67 o que elevaria a quantidade de escravos em Pernambuco para 11. Há ainda que considerar que muitos dos escravos registrados como sendo enviados para o Brasil. empregando entre 40 a 70 escravos. roceiros e rebeldes. "Repensando Palmares: resistência escrava na colônia" in: Escravos.000 (em 200 engenhos) no final do século XVII. produziam de 40 a 70 arrobas de açúcar. 106 Stuart B. p.220 cativos no final do século XVI e 34. Goulart.143 fragmentários e não há estatísticas confiáveis. ou que os cativos tenham sido revendidos (legal ou ilegalmente. mesmo que se considere que a escravidão africana não estava restrita à produção açucareira. 67 M. (trad. a fraude no registro compensava largamente o risco. para o Brasil era de apenas 3$000 réis. p.68 De todo o modo. a esmagadora maioria concentrada em Pernambuco e Bahia.000 brancos. p. Schwartz. "Angola nas garras do tráfico de escravos: as guerras do Ndongo (1611-1630)" Revista Internacional de Estudos Africanos. Edusc. como faz Stuart B. os médios 50 e os menores 20. 12. conta que os engenhos médios e grandes. movidos a água. havia no Brasil entre 25. nas décadas finais do século XVI. 2001. 1 (1984): 19. a 3 mil os menores. A escravidão africana no Brasil. Os estudiosos calculam que. Escrevendo em 1644.65 Mesmo que calculemos 100 escravos por engenho. como lembrou Alencastro) para outras regiões. em seu relatório ao Conselho dos XIX da Companhia das Índias Ocidentais. 68 A taxa cobrada para cada escravo enviado de Angola para os territórios espanhóis era de 7$000 réis.100 no período holandês (em 121 engenhos) e 20. A escravidão africana no Brasil. 108. No final deste 65 66 M.000 e 30. Esses dados parecem incompatíveis com o volume de escravos desembarcados. De Laet informa que os grandes engenhos empregavam 100 escravos. Cf. Ainda que ilegalmente alguns contratadores cobrassem 4$000 réis. já que a diferença no valor dos impostos incentivava a burla. produzindo de 7 a 8 mil arrobas de açúcar os maiores. .600 escravos no final do século XVI (tomando por base 66 engenhos). É possível considerar que as taxas de mortalidade tenham sido altíssimas na população escrava. Goulart.66 a população escrava diretamente ligada à produção do açúcar na capitania de Pernambuco seria de 6. 246. Em meados do XVII. no mesmo período. Van der Dussen. eram na verdade remetidos para as áreas de domínio castelhano. esta população chegava a 50. Schwartz.) Bauru. Maurício Goulart calcula que os escravos empregados na produção do açúcar sejam 70% do total de escravos. os números estimados para a população escrava em Pernambuco parecem compatíveis com os cálculos da população branca no Brasil.000 brancos. Beatrix Heintze.

América Latina colonial. Essa porcentagem chegaria a 68% no final do século seguinte . e devem ter se juntado a índios escravizados e outros cativos da África ocidental. estima-se que chegavam ao Brasil todos os anos cerca de 2. Nova York. para formr uma população de trabalhadores de diversas procedências. "A população do Brasil colonial" in: L. o crescimento do reino do Ndongo e a interferência portuguesa na política interna dos reinos africanos fizeram avançar a fronteira da escravização em direção ao sul do Kongo e além do rio Kwanza. 97-98 e Maria Luiza Marcílio. Angolas e Crioulos". vol.2 (2002). Ardas. Bethell (org. Os centro-africanos dominaram assim a população inicial de escravos nas Américas no início do século XVII. esse autor já havia mostrado que as áreas de obtenção de escravos na África Central no final do século XVI e início do século XVII eram relativamente restritas. "Central Africa during the era of the slave trade. "Os Henriques nas Vilas Açucareiras do Estado do Brasil: Tropas de Homens Negros em Pernambuco. pp. em números quase equivalentes nas cidades hispano-americanas e nos engenhos de açúcar no Brasil."71 Em um estudo anterior.69 Tendo em vista essas estimativas.8% da população no final do século XVI. A.. isso significava dizer que haviam sido escravizados em Angola. c. J. Luanda tornou-se. Ao examinar o contexto político e econômico do tráfico de escravos no início do século XVII. . Ainda que Henrique Dias pudesse comandar "Angolas. Central Africans and cultural transformations in the America Diaspora. p.).70 a escravaria pernambucana provinha mesmo. pp. 27. Ao longo do século XVII. 2002. pode-se calcular que os escravos constituíam 44. n.. Heywood (ed. O Kongo foi o primeiro grande fornecedor de escravos para os portugueses. Minas e Ardras". R. Um mundo em movimento. 319-322.dado que acompanha não apenas o crescimento da produção de açúcar. 1490-1850" in: Linda M. séculos XVII e XVIII" Estudos de História. 9. Joseph Miller considera que "a primeira geração de centro-africanos enviados para o nordeste do Brasil veio essencialmente das terras costeiras do sul do Kwanza. Russel-Wood. junto com alguma gente do interior de Luanda ou da área do baixo Zaire. Esses números mostram que as autoridades coloniais e metropolitanas estavam corretas ao registrar que os escravos de Pernambuco eram gente vinda de Angola. Henrique Dias afirmou que seu terço era composto “de quatro nações (. da África Central. Franca. em grande parte. o grande porto exportador de escravos. 2. Miller. mas também do volume do tráfico negreiro. 71 Joseph C.144 século.). Ao longo do século XVII. Cambridge University Press.) Minas. então.000 portugueses. 70 Escrevendo em 1648 para o comando da WIC. Apud: Kalina Vanderlei Silva. A tradução é minha. Entre 1650 e 1680 a fronteira se 69 Cf.

p. Miller.145 expandiu de novo. Madison. O mapa 1 permite visualizar essa progressiva expansão da fronteira da escravização. 1730-1830. 1988. em direção ao vale do rio Kwango. The University of Wisconsin Press. 148. Merchant capitalism and the Angolan slave trade. Way of Death.As fronteiras da escravização na África Central (datas e lugares aproximados) Fonte: Joseph C. Mapa 1 . .

uma concha obtida na costa de Angola. Os principais produtos. caps. . as mercadorias importadas. Isabel Castro Henriques. 1986. L'ancien royaume du Congo. 1600-1830". e J. Economia e sociedade em Angola na época da Rainha Jinga.146 Nessa região. 1996. 14. 44. CNPCDP. taxas pagas nas passagens fluviais e nas fronteiras de cada jurisdição. 1965. Índia e Américas. Miller. p. nesse caso. The University of Wisconsin Press. Randles. variando de importância conforme estivessem ligados ao comércio regional ou atlântico e as mercadorias ali negociadas. A rota dos escravos. e os tecidos . chamados pombeiros. como o sal. Ver também W. eram os vinhos das Canárias e Madeira.73 Adriano Parreira fez um estudo detalhado do comércio na região angolana no século XVII. seja de outras regiões da África (como no caso dos panos de ráfia de Loango. Kuvo e Kwango. p. e os panos de fibra vegetal. havia três maneiras básicas de obter escravos. Way of Death. cap. Cf. p. in: Paul Lovejoy. C.das sedas à panaria indiana estampada em Portugal. Oxford University Press. eram as mais importantes moedas de troca. mas destinavam-se também à comercialização de produtos para o consumo africano incluindo-se aí os escravos destinados às sociedades africanas e ao trabalho nas propriedades portuguesas.74 O nzimbu. Havia ainda o sal e. "Slave prices in the Portuguese Southern Atlantic. Lisboa. século XVII. 2 e 3. sobretudo. Como bem lembra Isabel Castro Henriques. o sistema de pagamento de xikaku. Na região Mpumbu havia uma das mais importantes feiras. G. no século XVII. "A rota dos escravos.). Africans in bondage. 74 Adriano Parreira.66-69. The Portuguese conquest of Angola.75 72 73 David Birmingham. as feiras não serviam apenas para o abastecimento do tráfico atlântico. as caravanas formadas por escravos para o transporte das mercadorias. a aguardente e o tabaco do Brasil. pp.72 Os pumbos localizavam-se em geral nos entroncamentos das rotas comerciais. 1990. A primeira era enviar comerciantes às feiras de escravos nas regiões fronteiras ao reino do Kongo e Angola. Lisboa. 75 Os panos eram tão importantes no comércio de escravos que os escravos passaram a ser chamados peças: um escravo adulto equivalia a uma peça de tecido importado pelo qual ele era trocado. Ele examina o traçado das rotas. Estampa. e talvez dela tenha derivado o nome dado aos comerciantes especializados nesse comércio. sobretudo os feitos de folhas de palmeira. e os kundi e meio-kundi do Kongo). Londres. Joseph Miller. Angola e a rede do comércio negreiro" in: João Medina e Isabel Castro Henriques (orgs. 25. os impostos para mercadorias específicas. L. Studies in slavery and the slave trade. Madison. os pintados da região entre os rios Kongo. seja da Europa. Angola e a rede do comércio negreiro. 133.

Lisboa. Estampa. p.78 .147 Mapa 2 . 1990. Economia e sociedade em Angola na época da Rainha Jinga.As principais rotas comerciais na África Central no século XVII Fonte: Adriano Parreira. século XVII.

78 Certamente havia o risco de a mercadoria ser perdida com a derrota portuguesa. Central Africans. pp. dependente das guerras. (1685). "A rota dos escravos. Heywood e J. 79 D. Henriques. acompanhavam as expedições. Wandu e Nkusu) 76 77 I. em 1483.77 O segundo método de obtenção de escravos eram os tributos pagos pelos sobas Mbundo. depois da vitória sobre o reino do Ndongo) e Caconda. Birmingham informa por exemplo que. depois de conquistados pelos portugueses. os principais presídios eram Massangano (1583/85). de quem havia comandado as investidas e de seus resultados. Ambaca. . para comprar esses prisioneiros. 78 L. The Portuguese conquest of Angola. Angola e a rede do comércio negreiro". Em terceiro lugar. negros e brancos. o Kongo era um reino relativamente forte e estruturado em províncias (como Soyo. 139-140. gerando assim um tráfico específico.148 Aos pumbos somaram-se os mercados nas cidades litorâneas e nos presídios. Henriques. I. os mercadores perderam o equivalente ao carregamento de 24 navios. Comerciantes particulares. próximo à feira do Ndongo). Thornton. descontavam o quinto da Coroa e distribuíam os restantes pelos soldados. Mbata. Os números são às vezes extraordinários. A depender do tipo de guerra. Os governadores e os comandantes que realizavam as guerras em seu nome. p. Atlantic Creoles. Estabelecidos em pontos estratégicos do ponto de vista militar e comercial. na batalha de Ngoleme. ficavam com alguns prisioneiros. K. 25. 3. Angola e a rede do comércio negreiro".79 Os dois próximos itens examinam os significados políticos dessas formas de obtenção de escravos. M. os presídios marcavam ao mesmo tempo a penetração portuguesa pelo sertão e seu domínio sobre as redes comerciais. Guerras em Angola Quando os portugueses chegaram à foz do Zaire. p. os prisioneiros pertenciam aos governadores portugueses ou aos sobas. C. as guerras forneciam muitos prisioneiros. Cambambe (criado no final do século XVI ou início do XVII. C.76 No século XVII. "A rota dos escravos. Pungo Andongo (estabelecido em 1671. 140. Birmingham. Muxima (1599). núcleos fortificados de residência dos portugueses no interior. p. (1611).119.

ajudaram a fortalecer o poder do rei do Kongo.82 Nesse período. The kingdom of Kongo. 1985. pp. entre os rios Dande e Kwanza. cuja arrecadação era mediada pelo rei do Kongo. e das guerras para manter o controle sobre os potentados locais que. Rio de Janeiro. Lisboa. 359-405. Thornton. 516(1968):77-89. Nova Fronteira. 1641-1718. The kingdom of Angola and Iberian Interference. T. Randles.80 A partir do final do século XV. Oxford. ao sul.83 Tanto o rei de Portugal como o do Kongo insistiam que todos os escravos deviam ser exportados a partir do porto de Mpinda. 81 Ver também Carlos Alberto Garcia. 2002. ibidem. Civil war and transition. Parreira. bem como suas mercadorias.principal interesse de Portugal na região. O reino do Congo. . 7 83 Idem. A capital passou a se chamar São Salvador e a nobreza conguesa. 1996.149 governadas por linhagens locais ou por chefes escolhidos pelo rei e dele dependentes. Ministério da Ciência e Tecnologia. Anne Hilton. 9. por sua vez. G. 2002. 513 (1968): 3-30. o reino dos "ngola" (ou de Angola) e a presença portuguesa. cap. École Pratique des Hautes Études/Mouton. que se fez batizar com o nome de Afonso I.81 As armas e a religião portuguesas. s. de 1500 a 1700. o número de escravos exportados do Kongo pelo porto de Mpinda somava entre 4 mil e 5 mil cativos por ano. Ilídio do Amaral. além de incorporar o cristianismo. Por volta de 1530. p.. os mbundu (ou ambundos). as missões evangelizadoras e as embaixadas entre os dois reinos foram comuns no século XVI.e. "A acção dos portugueses no antigo reino do Congo (1482-1543)" Boletim Geral do Ultramar. Para um bom panorama em português ver Alberto da Costa e Silva. a prática de enviar infantes congueses para estudar em Portugal. os escravos eram obtidos por meio do pagamento dos tributos. L'ancien royaume du Congo des origines à la fin du XIXe siècle. Oxford University Press. como vestir sedas e outros tecidos finos. Madison. Birmingham. John K. Birmingham. [1968] Paris. assim como o comércio de escravos . Adriano A. de finais do século XV a meados do século XVI. The Portuguese conquest of Angola. A troca de cartas entre monarcas. 82 D. 1983. 1. adotou nomes e costumes portugueses. a penetração portuguesa na região do Kongo consolidou-se com a conversão do mani Mvemba-a-Nzinga ao cristianismo. 515 (1968):11-36. The kingdom of Kongo. p. ocorriam na região dos Mbundo. The Portuguese conquest of Angola. A manilha e o libambo. Upsala. 1483-1643. pp. 24-29.84 80 Os principais trabalhos sobre o Kongo nos séculos XVI e XVII são: W. University of Wisconsin Press. como sinal de distinção e diferenciação social. L. 1985. 84 D. A África e a escravidão. O desenvolvimento da cultura da cana em São Tomé fomentou o tráfico já existente desde meados do século anterior em direção a Lisboa e outras cidades portuguesas.

1585-1660. Nova York. Atlantic Creoles. .A África Central Ocidental no século XVII Fonte: Linda M. p. 2007. Thornton. Central Africans. Heywood e John K. and the foundation of the Americas. Cambridge University Press. 50.150 Mapa 3 .

A retomada do reino. Instituto de Investigação Científica e Tropical. Para um panorama geral sobre o avanço português em Angola ver A. o reino do Ndongo já havia se fortalecido. pp. C.86 Em 1568 e 1574. 85 Sobre o interesse português pela região de Angola ver Ilídio do Amaral. aumentando o incentivo para a conquista da região ao sul. vide Ilídio do Amaral.149-192.151 Na época da chegada dos portugueses. especialmente por aqueles que comerciavam com a ilha de São Tomé. ocorreu por força das armas portuguesas. 2. Como o rei do Ndongo tinha o título de ngola. Nessa época. cap. Ao avançar em direção ao sul do reino do Kongo no final do século XVI. onde havia uma produção açucareira significativa e. 1483-1643. que chegaram a expulsar portugueses e congoleses de São Salvador. A baía de Luanda oferecia boas condições para os navios e o interesse na obtenção de escravos foi aos poucos promovendo incursões diretas no Ndongo com a finalidade de obter escravos. O consulado de Paulo Dias de Novais. contudo sabiam que a grande riqueza adviria do fornecimento de escravos para as plantações de cana em São Tomé e no Brasil e para as possessões espanholas na América. embora a conquista da região pelos portugueses só tenha se efetivado com as expedições de Paulo Dias de Novais. em 1571-74. A manilha e o libambo. ali instalasse uma nova colônia. pp.407-450. The kingdom of Angola and Iberian Interference. Silva. o Ndongo era um pequeno reino. A. tributário do rei do Kongo. como governador vitalício. 2000. onde esperavam conseguir manter um domínio mais estável. os portugueses imaginavam encontrar minas de prata e evangelizar novos povos. para que ele. e também A. Lisboa. bem como com os potentados da região. os portugueses chamaram a região de Angola. Portugal concedeu as terras na região entre o sul do Kongo e o rio Kwanza a Paulo Dias de Novais. portanto. o Kongo foi invadido por grupos Imbangala. . A região litorânea de Angola passou a ser freqüentada por comerciantes que queriam escapar ao controle de Portugal e do Kongo. T. 86 Sobre o período em que Angola foi governada por Paulo Dias de Novais. Novais tentou estabelecer uma colonização branca na região de Angola. mas tinha sua própria política em relação a Portugal e aos comerciantes que apareciam no litoral de Luanda. uma demanda crescente por escravos. em 1560 e 1575. sobretudo a partir das relações que vinha mantendo com o tráfico atlântico. O reino do Congo. enfrentando a concorrência dos comerciantes de São Tomé que traficavam ilegalmente na região. Angola no último quartel do século XVI e primeiro do século XVII.85 A primeira expedição oficial em território angolano foi realizada em 1520. Parreira. Era vassalo do reino do Kongo.

em Angola os portugueses lutavam ao mesmo tempo contra o Ndongo e os Imbangala. Até 1605. As guerras tornaram-se parte importante desse processo. Elas constituíam. movidas por diversos motivos. que geravam escravos. 89 D. The Portuguese conquest of Angola. que se assenhoreavam dos sobados conquistados. The Portuguese conquest of Angola. 13. dos agentes do tráfico e dos sobas. A tensão entre defender e controlar as redes comerciais ou guerrear envolvia não apenas os interesses da Coroa.89 O domínio sobre ela e sobre seus habitantes devia articular-se de forma a poder garantir que o tráfico se desenvolvesse conforme os interesses de todos. No período entre 1607 e 1660 elas derivaram sobretudo da crise dinástica do reino do Kongo e das tensões 87 88 D. 24. a Coroa chamou para si a relação com os sobas locais. quando Novais investiu com suas tropas contra o Ndongo. A partir de 1605 ficou claro que era o tráfico e não as minas a base da prosperidade dos portugueses na região.88 As posições portuguesas dependiam das guerras de conquista: eram elas que permeavam as relações com os reinos e sobas locais. Com a união das coroas em 1580. sobretudo a partir de 1579. The Portuguese conquest of Angola.19.87 Ao contrário do que ocorria no Kongo. essas mudanças acompanharam as tentativas.como na época de Novais -. pois ofereciam ocasiões propícias para o comércio particular e para o roubo. em especial na região de Kasanje. Birmingham. como incluía ainda aqueles dos governadores. As excursões a Kisama e a Cambambe foram acompanhadas por novas guerras. onde os portugueses combatiam grupos dissidentes com o apoio dos poderes locais. . Havia vários tipos de guerras. mas não o domínio almejado sobre a região. a coroa espanhola avaliou a situação e tentou alterar sua política. Ao invés de contar com os particulares. a morte de Dias Novais em 1589 e a derrota fragorosa em Ngoleme em 1590. que permitiam o controle sobre as redes comerciais que forneciam lucros por meio da cobrança de impostos e do próprio comércio de escravos e marfim (os principais produtos). afinal frustradas. também. de controlar as minas de sal de Kisama e de achar minas de prata em Cambambe. as formas mais rápidas de enriquecimento. D. Birmingham. Birmingham.152 O tráfico se desenvolveu com intensidade crescente na região de Angola. e com o apoio dos jesuítas . p. promover mais uma vez a colonização e investir na busca de minas de prata e na agricultura. p. p. para reconquistar Angola.

2001. que realizavam alianças ora com grupos políticos africanos ora com os portugueses. Belo Horizonte. os portugueses queriam obter escravos para enviá-los para o Brasil e para a América espanhola (e assim cumprir o asiento). séculos XVII e XVIII" in: Júnia Ferreira Furtado (org. ouvidor geral. Diálogos Oceânicos. Dentre os motivos que indispuseram o governador Tristão da Cunha (1666-1667) e a população de Luanda. Havia limites impostos pela Coroa e as investidas só podiam ser realizadas depois de declaradas justas pelo voto de uma Junta composta pelo bispo. . bem como de habitantes do Kongo ou de suas províncias. mas políticas. "Angola. Luciano Raposo de Almeida Figueiredo. uma guerra contra o Libolo. originadas da diferença de interesses entre portugueses e grupos políticos diversos nos reinos do Kongo e Mbundo. Minas Gerais e as novas abordagens para uma história do império ultramarino português.153 entre os portugueses e o reino do Ndongo. No caso do reino do Kongo. Belo Horizonte. a respeito. que se aliaram algumas vezes ao Ndongo contra os portugueses. essas não eram guerras "étnicas".). provedor da Fazenda e ministros. conforme os desígnios e interesses mais imediatos. consideradas ilegais. 261. Ao contrário. constituindo a principal fonte dos escravos traficados. e terminavam por escravizar também alguns habitantes do Kongo. Como bem observam Linda Heywood e John Thornton. 2001.90 estava. Ed. A luta entre os que queriam as alianças ou manter a independência levou à escravização de muitos Mbundo. conseguindo determinar os lugares em que elas ocorreram. "O império em apuros. que tivera o objetivo explícito de capturar escravos. Apesar dessas regras. 90 Ver. Mesmo as guerras justas davam margem a várias apropriações privadas. A intensidade e a freqüência das guerras podem sugerir que elas eram feitas a esmo. pp.91 Linda Heywood e John Thornton realizaram um detalhado estudo das guerras realizadas entre 1607 e 1660. A revolta de Luanda de 1667 e a expulsão do governador geral Tristão da Cunha" in: Júnia Ferreira Furtado (org. Diálogos oceânicos. 91 Antonio Luís Alves Ferronha. 197-254. Notas para o estudo das alterações ultramarinas e das práticas políticas no império colonial português. UFMG. por exemplo. muitos governadores ordenaram guerras sem aprovação prévia. No reino do Ndongo. numa das várias "alterações ultramarinas" que terminaram com a expulsão das autoridades locais. Editora UFMG. Minas Gerais e as novas abordagens para uma história do império ultramarino português. p. as questões dinásticas levavam a guerras entre os postulantes ao trono.). De um lado. as linhagens lutavam pelo controle do reino e usavam ora os portugueses ora os Imbangala para se fortalecer.

que muitas vezes escapavam do domínio português ou se negavam a abrir as rotas para o tráfico ou dele participar. mas daqueles que foram remetidos para as colônias inglesas e holandesas nas Américas. Havia também a necessidade de controlar a recalcitrância dos sobas. As guerras 92 L. Atlantic Creoles. Central Africans. mas não do ponto de vista da Coroa. Heywood e J. em alguns anos. Atlantic Creoles. chegavam a 10 ou 13 mil os embarcados de Angola. Depois das guerras em Kisama.154 quem era escravizado e quem os escravizava. K. A estratégia previa a fixação dos portugueses em pontos específicos. que por sua vez podiam ser abastecidos por caravanas vindas até mesmo de Mpumbu. e do sul. em 1607. e Songo. M. 13. Manuel Pereira Forjaz. M.113 96 L.95 Nesse tempo. das Índias de Castela e Buenos Aires com os portos centro-africanos. Thornton. em Benguela. Heintze. p. vinhos das Canárias. A partir de então. Atlantic Creoles. a nordeste do Kongo. os processos de escravização na África Central eram os mesmos. para limitar a interferência holandesa que começava a se fazer presente naquela região. Contudo. a Coroa determinou ao novo governador. K. e Benguela:94 os tecidos e roupas.96 Parecia ser um sistema eficiente. na virada do século XVI para o XVII. do Brasil. Central Africans. p. 94 L. trigo. Heywood e J. 93 B. entretanto. Central Africans. cavalos e produtos de luxo eram trocados por escravos remetidos para o Brasil ou Índias de Castela e o resultado das vendas voltava para a Europa na forma de letras de créditos. Central Africans. pois os mercadores achavam muitos meios de burlar os impostos. K. de modo a fazer crescer as taxas e manter a paz nas conquistas.93 Interessado no comércio. Heywood e J. Thornton.92 Acompanho esses autores nas próximas páginas. do leste (atingindo talvez até Moçambique). das ilhas do Atlântico. Atlantic Creoles. os governadores ficaram proibidos de realizar qualquer ação militar que não fosse para defender Luanda e os presídios. 113 . M. especialmente cap. K. M. p. Thornton. que cuidasse de estabelecer a paz com os sobas e impulsionasse a agricultura. Observo. os escravos comerciados vinham de longe. p. 3. 110 e 113 95 L. "Angola nas garras do tráfico de escravos". que este estudo não trata dos escravos enviados para o Brasil. ao sul do Ndongo. controlados pelos portugueses. Heywood e J. a fim de evitar as guerras privadas para capturar escravos e manter controle sobre o comércio e sobre a costa do Kongo e Loango. Thornton. o governador Manuel Pereira Forjaz estabeleceu uma extensa rede que ligava os negociantes de Lisboa.

o governador orgulhavase de ter submetido cerca de 110 sobas. Economia e sociedade em Angola. Heywood e J. Sobre o tema ver ainda Joseph C. um instrumento para a manutenção do poder político dos portugueses na região e.98 usando-os como aliados nos ataques aos sobas que se insurgiam contra o domínio português ou bloqueavam as rotas comerciais. que governou Angola entre 1611 e 1615. Thornton. Bento Banha Cardoso.101 A aliança entre portugueses e Imbangala permitiu ainda ataques contra territórios dominados pelo reino 97 98 Beatrix Heintze. incluindo antigas famílias do Ndongo. p. na região dos Dembos. trazendo-os para o domínio português e exigindo que pagassem os tributos em escravos e permitissem o funcionamento dos mercados fornecedores de cativos nas terras anexadas. Thornton. 159. A demanda por escravos.99 Seus sucessores guerrearam tanto ao norte de Angola. vangloriava-se de ter submetido mais de 80 sobas dos reinos vizinhos. Atlantic Creoles.119. podiam abrir novos mercados. Atlantic Creoles. M. 99 L. Central Africans. K. 13 (1973): 121-49. p. Atlantic Creoles. e John K Thornton. K. “Requiem for the Jaga” Cahiers d’etudes Africaines. portanto. como ao sul. a opção pelo comércio "pacífico" foi logo deixada de lado. Central Africans. Heywood e J. . a necessidade de assegurar o controle sobre as rotas comerciais. os interesses pessoais dos comerciantes privados e dos funcionários coloniais.155 constituíam. p. além de fornecer prisioneiros. A tentativa de estabelecer um domínio mais efetivo em Benguela fracassou em 1617 e essa região tornou-se apenas um entreposto para o comércio local. Heywood e J. K. Miller. Ao final de seu mandato. em Benguela. "Angola nas garras do tráfico de escravos". 13. 101 L. 18 (1978): 223-227. M. não um porto de abastecimento para o tráfico atlântico. p.116. entre o Ndongo e o Kongo. Adriano Parreira. ao longo dos rios Lukala e Kwanza. que exploraram suas rivalidades internas. transformando-os em vassalos de Portugal pagantes de tributos. ao terminar seu mandato. Thornton.100 Foi entretanto durante o governo de Luís Mendes de Vasconcelos (1617-1621) que o Ndongo foi atacado massivamente por tropas portuguesas e Imbangala. M.97 Nessa nova fase de guerras. p. 115 100 L. "A resurrection for the Jaga" Cahiers d'Études Africaines. substituídos a cada três anos e ávidos por enriquecer de pronto. os portugueses se aliaram aos Imbangala (chamados jagas pelos portugueses). Os diferentes grupos que adotavam o kilombo ou possuíam títulos kinguri eram genericamente chamados de "jagas" pelos portugueses. Central Africans. levaram a repetidas campanhas de "punição". Assim.

faziam prisioneiros. Civilização Brasileira. ocorria nas áreas de guerra: no interior do reino do Ndongo e na região ao sul do reino do Kongo. Em meio a essas guerras. 1582-1663. a respeito. 2000 . Um tratado que previa a retirada da fortaleza de Ambaca das terras no Ngola. p.102 No período entre 1621 e 1641. 123. pp. E. 2532. para mostrar-se igual aos portugueses. M. irmã mais velha do rei. (trad.156 do Kongo ao norte de Luanda. Perspectiva. nem sempre os Imbangala nem sempre aliavam-se aos portugueses: realizavam ataques por conta própria ou se juntavam a facções contrárias a eles. tentou negociar com os portugueses. e Selma Pantoja. com a mediação de Njinga.) São Paulo. rei do Ndongo. p. Central Africans. Atlantic Creoles. K. Ngola Mbandi. a fim de angariar escravos que acabavam enviados para o mesmo destino. Central Africans. e Luís da Câmara Cascudo. terras e escravos. Thornton. K. Thesaurus. Atlantic Creoles. a expulsão dos Imbangala da região. o planalto do Ndongo e em seguida o vale do rio Kwango continuaram a ser o cenário de guerras destinadas a adquirir minas. Ver. guerra e escravidão. Assim. L.103 Para se defender dos ataques portugueses e Imbangala. Sonsa e pontos de travessia do rio Bengo. 123-124 104 Foi durante essas negociações que Njinga sentou-se sobre as costas de uma escrava. Rio de Janeiro. vendidos aos milhares para o tráfico atlântico. o batismo de vários membros da família real e a retomada do comércio com os portugueses chegou a ser negociado. com a nomeação de sucessores ligados à Coroa portuguesa. M. Thornton. Brasília. Para uma abordagem mais panorâmica sobre a trajetória de Njinga ver Roy Glasgow. "A rainha Jinga no Brasil" Made in Africa. Heywood e J. 1965. Atlantic Creoles. 1982. agora. A escravização. K. Heywood e J. incluindo Kasanze. claro. Heywood e J.104 O acordo entretanto nunca foi cumprido e as tentativas de apaziguar a região foram retomadas após a morte de Ngola Mbandi. Havia ainda colonos que se aproveitavam para realizar guerras particulares ou simples pilhagens. sem sucesso. As manobras políticas e diplomáticas acompanharam o restabelecimento das feiras nas regiões próximas a Mbwila e mais ao 102 103 L. Nzinga Mbandi. Mulher. L. ou a submeter os sobas. 124-126. pp. Thornton. as guerras e o caos delas decorrente faziam com que a zona de fornecimento de escravos fosse mais restrita do que aquela atingida pelas redes comerciais que funcionavam até 1611. Resistência africana à investida do colonialismo português em Angola. Nzinga. Os estudiosos divergem quanto às fontes e significados do gesto. Central Africans. M.

Atlantic Creoles. M. 108 L. Thornton. conseguiu estabelecer sua capital durante algum tempo nas ilhas de Kindonga e dali atacou Matamba. Thornton. com muitos prisioneiros enviados ao Brasil. K. Atlantic Creoles. K. que envolveu facções.107 Foi assim que nasceu o reino de Matamba. Atlantic Creoles. pp.110 Em seguida foi a vez de atacar províncias de Mbamba. por exemplo. Durante todo esse período. M. 127-128. 139-140. houve devolução de alguns prisioneiros. sobas e famílias não reinantes do Ndongo. Thornton. 107 Cf. aliou-se aos Imbagala. K.108 Apenas no vale do Kwango. M. em batalhas na região de Kabasa.124. Heywood e J. pp. 110 L. vol. M. Thornton. pp. mais próximo de Luanda. onde finalmente estabeleceu sua própria capital. Mpungo Andongo.106 Njinga venceu algumas delas. Central Africans. 109 L. reforçando sua aliança com os Imbangala. As guerras começaram com o ataque português a Kasanze. M. K.105 A oposição de Njinga à intervenção portuguesa na sucessão do Ndongo abriu novas oportunidades para a guerra. . na direção do rio Zenza e de Ambaca. MMM. à diminuição do caos e das guerras. 524-28. Kindonga e Tunda. As invasões chegaram a ser questionadas em Roma. a carta de Njinga ao governador de Angola de 13 de dezembro de 1655. K. pp. manipulou várias forças políticas e militares. no Kongo.109 Nesse mesmo período. Atlantic Creoles. Heywood e J. o desenvolvimento de uma administração e economia mais estáveis levou. que tanto trabalho deu aos portugueses. vassalo do reino do Kongo e vizinho de Luanda. Central Africans. Central Africans. que ela muitas vezes chamava de kilombo. 136-137. K. Central Africans. Thornton. Njinga tentou ainda continuar as negociações com os portugueses. Thornton. com grupos de Imbangala lutando de vários lados. Foi nesse contexto que a presença holandesa se tornou mais 105 106 L. sem sucesso. p. Heywood e J. II.157 sul. L. p. Central Africans.. 127-128. porém os portugueses foram vencidos. Heywood e J. Atlantic Creoles. 127. Heywood e J. M. Atlantic Creoles. onde se comerciavam escravos vindos das terras mais a leste. o coração do reino do Ndongo continuou a ser uma das grandes fontes de escravos para o comércio em direção às Américas. 111 L. aos poucos. a morte do rei Álvaro II em 1614 desencadeou uma guerra entre os membros da família real que reivindicavam o trono e abriu novas oportunidades de domínio político e obtenção de escravos para os colonizadores. Heywood e J. As guerras civis no reino do Kongo só terminaram com a ascensão de Garcia II ao trono em 1641.111 mas nada além disso. p. Central Africans.

São Salvador. e alguns escravos eram exportados de longe.113 A invasão holandesa de Luanda (1641-1648) e a aliança com o reino do Kongo. Central Africans. 142. K. M. Thornton. 147. Central Africans. Thornton. Heywood e J. p.118 Enquanto isso. Portugueses e holandeses chegaram a um acordo em 1643. Atlantic Creoles. Atlantic Creoles. p. ao sul. A aproximação entre o reino do Kongo e os holandeses significou que a área de escravização mais uma vez mudou do interior para a zona mais próxima do litoral. Atlantic Creoles. Heywood e J.em guerras que forneceram mais prisioneiros e escravos. K. oferecendo uma alternativa para novas alianças contra os portugueses. Heywood e J. 152-153. Atlantic Creoles.112 Havia ainda ações militares e comerciais na colônia de Benguela. 115 L. p. na tentativa de retomar o reino do Ndongo dos portugueses. Heywood e J. Atlantic Creoles.117 Njinga aproveitou para fazer suas próprias alianças. mudaram o cenário das guerras depois de 1641. M. Heywood e J. bem como a tentativa de engajar Njinga contra os portugueses. Atlantic Creoles.114 O interesse holandês em controlar as redes do tráfico por meio de alianças com o rei do Kongo e o conde do Soyo trouxe novas possibilidades para os que estavam sob domínio português. Thornton. mergulhado em crises sucessórias. M. K. K. M. Central Africans. o rei do Kongo enfrentou também rivalidades internas. 116 L. investiram contra os rebeldes na região dos Dembos. ajudados por seus aliados Imbangala. os holandeses enviaram expedições para a região ao longo dos rios Bengo e Kwanza. embora algumas ofensivas tenham sido acompanhadas por tentativas de negociação. pp. 143-144. Os traficantes portugueses puderam comprar milhares de congoleses cristãos de Mbamba. Explorando a insurgência local. Os mercadores luso-africanos do Kongo foram perseguidos (algumas vezes expulsos das vilas. 146-148.158 agressiva (em função das rivalidades com a Espanha a partir de 1621). Thornton. 114 L. 117 L. Central Africans. p. Nsundi e Soyo. K. Central Africans.116 Durante esse período. Thornton. 118 L. mas conseguiu apenas expandir seu domínio sobre Sengas de Cavanga. 145. . pp. iniciadas por um ou outro lado. M. Heywood e J. Central Africans. Atlantic Creoles. Heywood e J. pp. K. 147. Thornton. no intuito de estabelecer zonas de domínio territorial e redes 112 113 L. L. resistia ao domínio do Kongo . de Kakongo e Loango. os portugueses. Central Africans. Na região de Mbamba e Mpenda havia sobas descontentes e o Soyo. com seus bens e escravos confiscados115) e as posições portuguesas foram atacadas. que forneciam de quando em vez cativos para o comércio atlântico. K. M. Thornton. M.

Heywood e J. Songo. incluindo Kasanje e regiões próximas a Mbwila. M. p. Atlantic Creoles. incluindo parte do terço dos Henriques. pp. 121 L. que assim garantiram acesso aos escravos que pudesse 119 120 L. 149. K. Bembe.123 Reconquistada a capital. ao sul. K. K. o governador Luís Martins de Souza Chichorro conseguiu fazer novo acordo com Njinga. Ela se comprometeu a largar os costumes Imbangala que havia adquirido desde 1626-1629. Heywood e J. libertando Masangano e Muxima. chegando a invadir sua capital em Cavanga. Central Africans. 124 L. e o reino de Matamba passou a ser reconhecido pelos portugueses. abastecendo o mercado de Luanda com mais e mais escravos. destruindo 200 vilas e propriedades à volta de Masangano.124 O debate entre estabelecer rotas comerciais e empreender guerras ofensivas voltou à tona. Thornton.119 O Kongo continuou a resistir aos portugueses e procurou aliados africanos. foi a vez de recuperar o domínio sobre o Libolo. Heywood e J. Atlantic Creoles. M. Thornton. 150. com o apoio das tropas comandadas por Salvador Correia de Sá. Thornton. 35-36. EdUFF. K. Muxim e Cambambe. Heywood e J. p. Central Africans. vide L. Atlantic Creoles. Njinga. Heywood e J. o abastecimento de escravos era garantido pelas guerras entre os africanos.126 Em 1656. 122 L. K. p.121 Em 1643 uma grande aliança entre holandeses. Atlantic Creoles. M. Njinga. M.). no Bengo. vindas do Brasil. M. 228 e 259. pp. estabeleceu seu kilombo em Ngangela e dali investiu contra Matamba. 156 . 152. Haku. Central Africans. Lubolo. Atlantic Creoles. Atlantic Creoles. 2006. Hebe Mattos. os portugueses enfrentaram Njinga. Thornton. Thornton. por sua vez. "Henrique Dias: expansão e limites da justiça distributiva no Império português" in: Ronaldo Vainfas. pp.122 Em 1648. Yaka. Heywood e J. Retratos do Império. voltou a ser cristã. Central Africans. ao norte. os portugueses conseguiram retomar Luanda e restabelecer alianças com vários sobas à volta da capital. p. M. Heywood e J. Thornton. p. Atlantic Creoles. K. e na região do Dembo. p. 154. Heywood e J.159 comerciais. 151. congoleses. Central Africans. L. em permanente estado de alerta. M. Thornton. p. Central Africans. em especial.120 Com ajuda de tropas enviadas do Brasil. 126 L. Central Africans. Thornton. Central Africans. M. O trato dos viventes. em guerras que resultaram na reafirmação dos laços de vassalagem dos sobas e também na obtenção de escravos. 125 L.125 De qualquer modo. Niterói. K. F. K. atacou a partir de seu kilombo em Matamba vários de seus vizinhos. 154-155. soldados dos sobas leais aos holandeses e arqueiros de Njinga derrotou os portugueses. Atlantic Creoles. Sobre o envio das tropas de Henrique Dias para Angola. 123 L. Alencastro. Kasanje. Georgina Silva dos Santos e Guilherme Pereira das Neves (orgs. 148. além de voltar a controlar o vale do Kwanza.

O pretexto para o reinício da guerra foi a cobrança de cláusulas do acordo de retomada do Kongo depois da derrota holandesa. Em outubro de 1665. o reino do Kongo se dividiu em guerras intestinas pela sucessão. Central Africans. geravam prisioneiros logo adquiridos pelos comerciantes e remetidos para o tráfico atlântico. e da falta de pagamento por parte dos comerciantes.130 No Ndongo. Atlantic Creoles. L.128 No Kongo. em 1663. durante o governo de Chichorro e de seu sucessor. Thornton. depois retirou-se para Mpungu Andongo. Central Africans. foram mortos. ele se rebelou algum tempo depois. M. Antônio I e grande parte da nobreza. K. a rivalidade com o conde do Soyo enfraquecia o poder de Garcia II. Os ataques portugueses. Heywood e J. Agora. pelas tropas 127 128 L. a desunião e a falta de um governo estável ofereceram boas oportunidades para a escravização. Birmingham. M. Atacou Mbaca.160 fornecer . Os portugueses tentaram manobrar a situação e nomearam um rei fantoche depois de sua morte. p. p. Heywood e J. da escravização ilegal de seus súditos. Heywood e J. The Portuguese conquest of Angola. M. nem sempre vitoriosos. Os portugueses não conseguiram levar todos os prisioneiros. Depois da batalha de Mbwila. circunstância explorada pelos portugueses. 130 D. 37.pelo menos até a morte de Njinga. .129 A tensão aumentou com a ascensão de dom Antônio I ao trono do Kongo e a chegada de André Vidal de Negreiros (que havia governado Pernambuco e fora nomeado para Angola) a Luanda. próximo ao litoral. o ngola Ari rebelou-se contra o domínio português. 129 L. pois muitos dos africanos que os auxiliavam haviam desertado. Embora os portugueses não conseguissem recuperar o domínio efetivo sobre o Kongo. Central Africans. K. levados como escravos para trabalhar nas fazendas e casas dos portugueses. reclamando da aproximação dos portugueses com Njinga. onde foi finalmente derrotado. João Fernandes Vieira (o mesmo que brigara com dom Pedro de Almeida e fora governador da Paraíba). ao tentar expandir o reino do Ndongo em direção ao sul. eram os Mbundo que entravam no Kongo em busca de escravos. pp. Thornton.127 Com o fim dos enfrentamentos nessa região. invertendo o fluxo que existira cem anos antes. fazendo muitos prisioneiros. K. p. 158-159. Atlantic Creoles. bem como milhares de soldados. o governador pode atacar Kisama. 157. as forças contrárias se enfrentaram em Mbwila. 157. Atlantic Creoles. em 1671. Thornton. sob o pretexto de buscar fugitivos.

Enquanto isso. essa última cláusula é uma novidade. Birmingham. The Portuguese conquest of Angola. reveladora dos novos problemas a serem enfrentados na região: a concorrência com os comerciantes ligados aos interesses holandeses e ingleses. que acabaram por perder as posições conquistadas. foi enviado para conter os rebeldes de Kasanje e Matamba. em um contexto maior de conflitos envolvendo diversas nações européias. 41. que havia participado das batalhas de Mbwila em 1665 e Mpungo Andongo em 1671. p. No início da década de 1680. os conflitos extravasaram pelos territórios ultramarinos e adicionaram novos ingredientes às guerras que escravizavam tantos homens naquela parte do continente africano. a morte de Njinga reabriu os enfrentamentos com os portugueses. 14.132 Na verdade. p. especialmente cap. Toda a história das guerras na África Central se desenvolveu. 1. Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777-1808)". durante todo o tempo. 1979. apenas o registro escrito da cláusula era novo. o abandono de qualquer pretensão em relação a Kasanje e a exclusividade do comércio de escravos com os portugueses. como vimos. das quais participaram também Matamba e os portugueses.131 Como observa Birmingham. desde o início do século XVII. The Portuguese conquest of Angola. Por isso. Kasanje se fortalecia.133 O mais importante dentre eles foi a guerra dos Trinta Anos. p.161 portuguesas. vide Fernando Antonio Novais. "Angola nas garras do tráfico de escravos". Heintze. De novo. Essa batalha marcou o fim do Ndongo como reino independente. tornando-se um intermediário poderoso no tráfico com a região do Lunda. que colocou em confronto os holandeses e os estados da península Ibérica. 133 B. 41. Dessa vez ele foi vencido. O tratado de paz com Matamba. unidos sob a mesma coroa entre 1580 e 1640. Hucitec. Birmingham. que despontava como um grande fornecedor de cativos. D. o reino de Kasanje envolveu-se em guerras sucessórias. firmado em 1683. por meio das guerras e dos acordos de paz. e 131 132 D. previa a devolução aos portugueses dos escravos que haviam fugido. o pagamento de indenização em escravos. São Paulo. as batalhas implicaram perdas para os comerciantes de Luanda e Luís Lopes e Siqueira. Para uma visão mais ampla das rivalidades européias e sua importância na concorrência colonial. Indo além do teatro europeu. Em Matamba. . os europeus interessados no tráfico negreiro precisaram controlar os sobas da região.

162 evitar que eles se aliassem ou comerciassem com seus rivais. Havia. Matamba e Kasanje. Os sobas. nem todos os prisioneiros das guerras eram enviados para o tráfico Atlântico. aqui narrada de um ponto de vista político e militar. 4. Os portugueses reconheciam haver diferenças sociais e políticas entre os centro-africanos e não deixavam de levá-las em conta ao tratar com os poderes locais na região do Kongo e de Angola e ao operar os mecanismos que produziam escravos para o tráfico negreiro. e articulava autoridades portuguesas e linhagens locais. A profusão de detalhes torna patente o fato de as guerras terem sido o principal instrumento para obtenção de escravos. portanto. O poder militar português foi fundamental para submeter os sobas e deles angariar tributos . por sua vez. Sobas.pagos em grande parte com prisioneiros. exploravam essas rivalidades européias em seu benefício. os navios do tráfico que zarpavam para a América não podiam ser abastecidos. Este aspecto nem sempre tem sido considerado pela bibliografia. A sintaxe da guerra não era entretanto praticada do mesmo modo por todas as pessoas envolvidas: nem todos os centro-africanos eram ou podiam ser escravizados. privilegia características étnicas e culturais em detrimento de componentes sociais e políticos. que tende a discutir os números do tráfico sem contemplar a origem dos escravos ou. vassalos e kijikos Como deixa evidente o episódio dos membros sobreviventes da família real do Ndongo desterrados depois da batalha de Mpungo Andongo. uma sintaxe que conjugava guerra e paz. O . Nos reinos do Kongo e Angola. Essa constatação nos leva a examinar mais de perto as diferenças entre os centroafricanos articulados à guerra e ao comércio de escravos. O domínio político sobre os reinos centro-africanos e sobados garantia ainda privilégios para os interesses portugueses nas feiras e rotas comerciais. O tráfico negreiro estava imbricado na história da presença dos portugueses na África Central. Ndongo. Sem guerras e acordos de vassalagem. quando o faz. o poder estava assentado em linhagens descendentes de um ancestral comum (muitas vezes mítico) ou por uma divindade. tanto para os colonos portugueses quanto para os potentados africanos. do Kongo.

originadas por crises dinásticas ou por rivalidades políticas .). o rei ou ngola governava linhagens matrilineares que possuíam posições titulares definidas como relações de parentesco (tios e sobrinhos.137. A cobrança de taxas e tributos e as guerras . Thornton. o controle das linhagens combinava-se à capacidade de obter tributos (cobrados em produtos. Elsevier. 127. cada uma com seus respectivos chefes locais (nkulutu) e líderes religiosos (kitomi). que controlava seus membros e os escravos pertencentes a elas. As linhagens instalavam-se em aldeias. a riqueza.135 No reino do Ndongo. que governava a linhagem assistido por um conselho de anciãos (makota). . medida em produtos e escravos. Ao mesmo tempo político e religioso.134 No Kongo. que governava os chefes locais. Os prisioneiros podiam ser integrados às linhagens como dependentes ou como escravos. circulava e podia ser acumulada. Thornton. etc. The kingdom of Kongo. 2004.eram as formas mais freqüentes de crescimento econômico e aumento de poder político. pp. Além dos nobres. serviços. e escravos). A nobreza estava em geral sediada nas cidades (mbanza). que dominavam um conjunto de aldeias (lubata). mbanza Kongo. A África e os africanos na formação do mundo atlântico. soldados e trabalhadores.) Rio de Janeiro. pp. A população se dividia entre livres (chamados morinda) e 134 John K. que possuíam certo grau de liberdade e podiam enriquecer ou se libertar. chamado soba. relacionadas entre si por meio do casamento. Por meio desse sistema corporativo e hierarquizado. A unidade do reino mantinha-se pelo controle centralizado no rei (mani ou ntotela) do Kongo. usados como criados. 1400-1800. 135 J.163 domínio sobre as pessoas e o território era exercido por meio de uma rede hierárquica de linhagens aparentadas. mantinham relações comerciais e políticas controladas a partir da capital. K. (trad. a população se dividia em livres e escravos.15-27. O principal posto era ocupado com freqüência pelo mais idoso. governadas em termos políticos e religiosos por um grupo de homens que ocupavam as posições titulares (ngundu) e controlavam o acesso à terra e aos meios naturais. adquiridos nas guerras de conquista. incluindo os militares. tanto os ligados a ele quanto os de províncias relativamente independentes com as quais mantinha relações de soberania e vassalagem. batizada de São Salvador pelos portugueses. as linhagens nobres que cercavam o rei e as instaladas nas províncias. pais e filhos.

Miller. Economia e sociedade em Angola. ou ainda significar apenas junta. tinha vários significados. no contexto africano. e que rivalizavam com os makotas.160167. pp. não formaram estados centralizados. C. Parreira. Diferentemente do Kongo e do Ndongo. 138 Cf. A. constituindo um kilombo sociedade iniciática guerreira. 1995.136 Havia ainda outros pequenos reinos e províncias. dotada de forte disciplina militar. O kilombo era estruturalmente instável. liderados por chefes que detinham títulos temporários (kinguri). Economia e sociedade em Angola. Além desses dois reinos mais centralizados. especialmente caps. a não ser na segunda metade do século XVII. constituindo uma das fontes de poder do sobas. união. pois os chefes com títulos subordinados e os makotas buscavam formas de apoio externo . pp. existe em kimbundu e umbundu. alguns adotavam um modo de vida mais sedentário e uniam-se a linhagens locais ou agrupavam-se em torno de poderosos chefes militares. Ao se deslocarem pelo planalto central de Angola. podia designar o acampamento das caravanas comerciais ou os arraiais militares mais ou menos permanentes. M. Os escravos podiam ser obtidos por compra ou serem prisioneiros de guerras. chegando a ser algumas vezes incorporados às linhagens por meio de casamentos. Serviam de guerreiros ou trabalhavam nos campos do sobado. (trad. cuja liderança era exercida por chefes militares sem ancestrais e cujo poder não passava para os descendentes. "Kilombo. 5 a 8. B.164 escravos (kijikos). Como palavra comum. Arquivo Histórico Nacional.) Luanda. Os antigos estados Mbundu em Angola. Poder político e parentesco. não linhageira. 155-159 oferece um balanço resumido dos debates. Sua origem é motivo de grande debate entre os historiadores. que se organizavam de modo semelhante e estavam vinculados ao Kongo ou ao Ndongo.137 que no entanto concordam que eles constituíam agrupamentos políticos militares de gente sem linhagens definidas. 139 A. Poder político e parentesco. Maria Conceição Neto esclarece que a palavra. Parreira. esses grupos muitas vezes se fracionavam. chamados algumas vezes de "capitães". que podia fazer pender a balança em favor de uma força ou outra. Economia e sociedade em Angola. 137 Adriano Parreira. pp. Miller. 153. 42-54.13-14. os Imbangala eram a terceira grande força política na região. C.foi assim que se aliaram aos europeus ou aos reinos locais. . Formaram-se assim poderosos bandos guerreiros que se deslocavam pela região Mbundu.138 Observo que o termo kilombo. Neto. "Angola nas garras do tráfico de escravos". J. com algumas variações de significado e grafia. pp.139 136 Joseph C. p. Heintze.

buscava alianças com o poder militar oferecido pelos bandos Imbangala. foi conquistada por tropas portuguesas e. Parreira. e A. tornou-se uma capitania com um governador nomeado pelo rei. Angola.. pp. Como forma de organizar e congregar guerreiros.141 Tornou-se. Imprensa da Universidade. As cerimônias dos tratados e acordos entre os soberanos do Kongo e de Portugal misturavam elementos africanos e europeus. a partir de 1575. 8. 1933. Ver também Kabengele Munanga. transformou-se em uma das mais importantes instituições políticas centro-africanas no século XVII. Manuel Pereira. por meio do controle indireto das rotas comerciais e dos tributos. A partir de 1607. foi ocupada militarmente. Coimbra. como parceiros políticos e militares.140 Os portugueses conectaram-se a essa estrutura política. interessados que estavam em obter escravos." Mensagem. formaram. ocilombo. Revisa Angolana de Cultura.165 Do ponto de vista institucional. Revista USP. seus habitantes e riquezas. Angola e Benguela extraídos de documentos históricos. A região do reino do Ndongo. quilombos. assim. os comerciantes portugueses e padres tinham salvo conduto e influíam na política congolesa. 28 (1995/96): 56-63. lutando para impor a eles laços de vassalagem.. a Carta patente do governador do. "Origem e histórico do quilombo na África". 426-427.Matamba e Kasanje entre eles. novos estados . Miller. por exemplo. Poder político e parentesco. a presença portuguesa foi garantida pela associação direta com o rei. 154-155 141 Ver. implicavam sacrifícios humanos e práticas divinatórias e possuíam um conjunto de proibições (kijila). que conseguiu manter sua relativa independência. 140 J. Angola. Alfredo de Albuquerque Felner. cujos rituais excluíam as mulheres e crianças. Conjugava guerra e alianças para fortalecer seu domínio sobre a região. mas não havia governadores do Kongo nomeados por Lisboa. Economia e sociedade em Angola. ao contrário. caps. era o nome de uma sociedade de iniciação de origem Ovimbundo. . Apontamentos sobre a ocupação e início do estabelecimento dos portugueses no Congo. Fundindo-se às linhagens locais. de 2 de agosto de 1606. No caso do Kongo. a Coroa retomou para si o governo. um poder concorrente em relação aos demais reinos e chefes locais. passando a nomear a cada três anos um capitão-mor e governador da "conquista e reino de Angola e das mais províncias dela". C. 4 (1989): 5-19. pp. um reino tributário do Kongo. Assim como os chefes africanos. a partir de meados do século XVII. apropriada pelos Imbangala.

Além dos tributos registrados nos acordos de vassalagem havia acréscimos e outras taxas cobradas pelos governadores e capitães dos distritos e presídios.). A avidez por mão de obra local e principalmente por peças para o comércio negreiro acarretou problemas para a Coroa. já que os interesses locais em Angola prejudicavam a arrecadação dos impostos. obviamente. (1980): 57-78.142 O pagamento dos tributos (baculamento) ocorria a cada ano. . R. 535-561. que haviam participado do processo de conquista (por isso chamados conquistadores) e recebido terras em sesmaria. Africae Monumenta. Lisboa. 33 sacos de feijão. chegou a 204 no final do governo de Fernão de Souza (1624-1630). p. 142 Beatrix Heintze. Revista de História Econômica e Social. e. 1570-1607" in: Ana Paula Tavares e Catarina Madeira Santos (orgs. o número aumentou para 81 no início do governo de Luís Mendes de Vasconcelos (1617-1621). Os dois artigos são a fonte das informações apresentadas nos dois próximos parágrafos. da destruição e do despovoamento causados pelas guerras e fomes. e a cada mudança de governo os laços de vassalagem eram reafirmados por meio das chamadas . A Coroa mantinha um sistema de registro e controle dos sobas e dos pagamentos que faziam. Glasgow. passando a controlar diretamente a relação com os sobas.143 Algumas vezes. da mesma autora. reis e vassalos rebeldes. Eram eles que arrecadavam os tributos. 273 cabaças de óleo de palma. em função do empobrecimento dos sobas.em que os sobas ou comissários negros (quilambas) prestavam homenagem ao novo titular do posto. Cf. Num ano da década de 1629 os Mbundo forneceram aos portugueses por meio de tributos 277 animais castrados. Nzinga. 12 vacas. outras vezes eram suspensos. 6. 143 Os tributos não envolviam somente escravos. A dinâmica política local incluía ainda. que deixavam de pagar a vassalagem. que mudou o sistema em 1607. pp. 67. os pagamentos se tornavam escorchantes. "Angola under Portuguese rule: how it all began. os vassalos estavam subordinados a amos. O sistema porém gerava problemas constantes para a Coroa. Instituto de Investigação Científica e Tropical. O novo sistema envolvia 11 sobas até 1611. 3 potes de mel e duas peças de marfim. os oficiais administrativos cometiam abusos e as guerras perturbavam a coleta de tributos. 580 frangos. fixando-se depois de algum tempo em 4 peças (escravos) anuais. interessados no enriquecimento pessoal. pagos em víveres. caindo para 180 em 1664. "The Angolan vassal tributes of the 17th century".166 Durante o período de Paulo Dias de Novais. 3180 peças de tecidos. 1144 sacos de cereais. serviços e escravos. A apropriação da escrita pelos africanos. 2002. Settlement and economic policy.

18 (1980): 111-131.167 Em 1638 a Coroa tentou regular a coleta de tributos por meio de um regimento e da criação de uma Junta. perdurando com legalidades e ilegalidades até o século XVIII. Apenas os tributos legais. ao mesmo tempo. a cada mudança de governo. além da garantia do livre trânsito para o comércio. Em troca. "Escrever o poder. Os autos de vassalagem e a vulgarização da escrita entre as elites africanas Ndembu". a vassalagem envolvia a "obediência" ao governo português e seus mandatários civis e eclesiásticos. 145 Catarina Madeira Santos. proteção e a promessa de não serem atacados. mas essa não era uma condição obrigatória. tratava-se de uma 144 Muitas vezes o ato de vassalagem era acompanhado pelo batismo do novo vassalo. 155 (2006): 81-95. Os "presentes" dados aos governadores. O vassalo continuava a manter relativa autonomia em relação a assuntos internos.144 Os acordos com os sobas eram escritos e celebrados entre poderes que se reconheciam mutuamente com soberania para tal. Revista de História. "Luso-African feudalism in Angola? The vassal treaties of the 16th to the 18th century" Revista Portuguesa de História. uma relação política e militar. suscitaram um largo debate no Conselho Ultramarino em 1670-71. bem como de regulamentar toda a troca de presentes entre os oficiais da administração portuguesa e os sobas. Beatriz Heintze. . desapareceram: os sobas continuaram a ser compelidos a oferecer "presentes" aos governadores. Do ponto de vista político. terminando por suspender os pagamentos e todas as outras obrigações de vassalagem em 1650. que passaram a ser recolhidos pela Fazenda Real e divididos entre os oficiais conforme regras específicas.145 Mesmo assim. atribuíam aos reis vassalos diversas obrigações. O novo sistema gerou muitas controvérsias em Angola. renovavam-se os laços de vassalagem. como a assistência militar em caso de guerra e o pagamento de tributos e outros impostos. contudo obrigava-se a aceitar a presença de padres e representantes do governo português em suas terras. Oficializada por meio de cerimônias específicas (o undamento). pagos anualmente. A discussão terminou com a decisão de reiterar a abolição dos baculamentos e suspender as chamadas. etc. em particular. A vassalagem era. Ver. a respeito. as guerras sempre exigiam contribuições. por meio do envio de embaixada e troca de presentes. a convivência pacífica com outros sobas vassalos e o compromisso de não acoitar fugitivos. a câmara de Luanda determinou muitas vezes novas coletas. os sobas recebiam ajuda militar. A cada novo governador em Angola.

Os rituais europeus mesclavam-se aos costumes africanos envolvendo rituais específicos. depois de aliar-se aos Imbangala. como a troca de presentes. uma província que foi "resgatada" do domínio do rei do Kongo quando os portugueses venceram dom Antonio na batalha de Mbwila. etc. vol. . de 11 de janeiro de 1666". os primeiro contatos ocorreram em 1621. sobretudo quando envolviam os governantes dos grandes reinos centro-africanos e não apenas sobas locais. ou os chefes dos concelhos ou distritos) e os sobas ou seus embaixadores. 1. as várias tentativas de acordo entre os governadores portugueses e Njinga. renovar os laços de vassalagem sempre que houvesse um novo governador ou que um novo duque fosse eleito. Assim aconteceu com o duque de Hoando. capitães mores dos presídios. além de colaborar na propagação da religião cristã em suas terras. 35. MMA. prestar auxílio militar em caso de necessidade. o duque e seus makotas juraram fidelidade ao rei de Portugal e prometeram entregar minas de metal ao invés do tributo anual. seus nobres e súditos não seriam escravizados pelos colonos portugueses. que atuavam conforme o desenrolar das guerras e o equilíbrio de poder na região. quando Njinga liderou. pp. tantas vezes mencionadas pela bibliografia e tratadas de modo breve no item anterior. doc. em outubro de 1665. entregar os escravos fugidos que estivessem em suas terras e senhorios. O melhor exemplo é. Njinga se rebelou e se constituiu como um poder autônomo. Em janeiro do ano seguinte. a embaixada enviada pelo rei do Ndongo a Luanda. Em troca. Nesse caso. No decorrer dos anos. XIII. sem dúvida. não guerrear contra os outros vassalos de Portugal. O acordo de paz entre ela e o governador Luís Martins de Souza 146 Vide "Capítulos do juramento do duque de Hoando. enquanto o Ndongo foi incorporado ao domínio português por outras vias. as negociações podiam durar anos e se realizavam por meio de diversas embaixadas. dar passagem franca e desimpedida às tropas e caravanas comerciais ligadas aos portugueses. o rei português comprometeu-se a defender e amparar o duque nos conflitos com seus rivais e respeitar todos os seus foros e privilégios.168 relação desigual e as cláusulas com sanções aplicavam-se em geral aos vassalos e não aos portugueses. etiquetas formais.146 Estava implícito que o duque. como irmã mais velha de Ngola Mbandi. Em certas ocasiões. A negociação envolvia os representantes da Coroa portuguesa (governadores.

o texto foi lido em kimbundo. Revista Internacional de Estudos Africanos. Sua irmã dona Bárbara. acordos políticos e alianças militares 147 "Traslado do auto de pazes da Rainha Jinga com o governador de Angola (15 de janeiro de 1657)". a aliança com os portugueses fortalecia o poder dos chefes centro-africanos e das linhagens a eles ligadas.147 Se houvesse quebra das cláusulas que regiam a vassalagem. e lhes garantia certa autonomia.169 Chichorro. 89-93. Por outro lado. "Ngola a Mwiza: um sobado angolano sob domínio português no século XVII". 149 C. tendia a reforçar essa avaliação. por exemplo.148 Em alguns casos. 8/9 (1988): 221-233. As ocasiões de renovação do governo em Luanda muitas vezes ofereciam oportunidades para esse tipo de manobras e intrigas. Beatrix Heintze observa que. num certo sentido. Santos. doc. a tradição política centro-africana que conjugava guerras e acordos de paz acontecia em kimbundo e português. especialmente pp. que em no mais das vezes precedia a cerimônia de vassalagem. o fato de serem escritos permitia que fossem usados para acionar mecanismos institucionais portugueses em busca de fazer valer reivindicações e direitos. o vassalo era considerado "rebelde" e contra ele as guerras podiam se justificar como punição ou como demonstrações de força para trazê-lo de volta à antiga submissão. bem como o compromisso de que ela e seus vassalos viveriam dali em diante em paz. que participou da cerimônia realizada em Matamba. . M. foi trocada por 130 escravos. 150 Beatrz Heintze. MMA. campanhas punitivas ou defensivas. 148 B. envolveu sua reconversão ao catolicismo. finalmente acertado em 1656. "Luso-African feudalism in Angola?". A guerra. em 12 de outubro de 1656. o abandono dos costumes Imbangala adotados desde a aliança com Kalundula. foi depois registrado em português no cartório da cidade. "quieta e amiga de amigos e inimiga de inimigos" dos portugueses. na prática. "Escrever o poder. e interessava aos falantes das duas línguas. na qual estavam presentes também os delegados do governador português. uma das facções podia recorrer aos portugueses para denunciar o rival por haver quebrado o acordo ou ganhar a simpatia ao oferecer presentes e escravos. Guerras. que eventualmente chegavam a ser discutidas pelo Conselho Ultramarino. XII. fls.". Njinga possuía sua própria corte. Heintze. pp. os tratados de vassalagem correspondiam. em Luanda. 129-131. Ao assinar o acordo. a acordos de capitulação e sujeição. Lá. 89-92. 35.149 Em algumas lutas pela sucessão. que havia ficado refém dos portugueses em Luanda desde a década de 1620.150 Assim.

p. que determinou que um oficial deveria cuidar das causas do mocamos . 119. para retomar a expressão de Joseph Miller. que permitia e mantinha o tráfico. restrita ao universo português e aos colonizadores. indo contra as leis de Deus e do rei português. Angola.152 A devolução dos sobas e dos prisioneiros ilegalmente escravizados foi um dos pontos das 151 Um bom exemplo é o capítulo 16 do regimento da secretaria de Angola. Praticada por centro-africanos e colonos portugueses. A ação militar não era possível sem o domínio político e vice-versa: ela legitimava e assegurava os acordos de vassalagem.e para Pernambuco . Essa sintaxe política. ao mesmo tempo em que fazia parte de suas cláusulas.tinham que ser reconhecidas como legítimas. eram obtidos por meio das guerras ou das feiras .que só funcionavam se abastecidas de prisioneiros e se as caravanas atravessassem os sertões. N. depois enviados para o tráfico atlântico ou mantidos como kijikos para trabalhar nas propriedades dos portugueses. . 59. AHU. Decreto de 28 de fevereiro de 1688. pois revela como as diferenças sociais e jurídicas faziam parte dos mecanismos das relações entre os portugueses e os reinos centro-africanos e como seus elementos podiam ser acionados com sentidos diversos pelas várias partes em confronto. Santos. As fronteiras da escravização. pelo bispo Manoel Batista Soares. Cx. de uma concepção de "guerra justa". F. Thornton. em carta dirigida a Lisboa. Os escravos que foram para o Brasil . "Cultura política na dinâmica das redes imperiais portuguesas. Heywood e J. Não se trata. Cf. pertenciam a grupos sociais específicos.170 estavam imbricados e promoviam a produção e a circulação de escravos. Durante as campanhas contra o Ndongo empreendidas pelo governador Mendes de Vasconcelos com apoio das tropas Imbangala. pp.151 O tema é interessante e merece ser explorado com mais detalhe. Apud: M. por sua vez. Central Africans. em 1619. Os tributos estipulados pelos capítulos ajustados com os sobas forneciam escravos que. A realização da guerra foi contestada e Vasconcelos chegou a ser acusado de capturar muita "gente inocente". S.não provinham apenas de Angola: escravizados conforme a articulação entre forças militares e políticas dessa região. porém. Atlantic Creoles. 103 e105. das demandas dos africanos que se achassem indevidamente escravizados. M. séculos XVII e XVIII".ou seja. eram circunscritas do ponto de vista geográfico e também social. 13 doc. 152 L. As guerras não podiam ser feitas a esmo . K. implicava diferenciar os centro-africanos. foram feitos vários prisioneiros. Gouvêa e M. essa sintaxe possuía regras que deviam ser observadas.

M. Central Africans. Central Africans. R. M. 159 L. M. O novo governador. M. Fernão de Souza. K. 139. devolveu prisioneiros que tinham permanecido na região.171 negociações entre Njinga e João Correia de Souza.155 ficaram espremidos entre as forças que se batiam pelo controle da região. 156 L. M. juntando-se às fileiras de Njinga. Thornton. Thornton. quando o rei do Kongo denunciou ao papa as invasões feitas por Correia de Souza e os Imbangala. n. o que está disponível permite algumas conclusões importantes. Atlantic Creoles. Atlantic Creoles. p. com a recomendação de que se lhes dessem terras "onde pudessem ficar juntos ou separados". Vencida a guerra contra Kasanze. M.157 Em 1623. foram enviados para o governador geral do Brasil. 137. 140. repatriando um primo do duque de Mbamba e cerca de 50 membros da elite congolesa que haviam sido aprisionados. K. que substituíra interinamente Correia de Souza. 136-137. M. acusou-os de rebeldes e prendeu 26 deles que.158 Em Angola. p. ao tratar do episódio. Central Africans. Central Africans. K. Heywood e J. 141 que teriam sido enviados para o Brasil Ngole a Kaita. (1972): 43-56. obedecendo a ordens régias. "A note on Kasanze and the Portuguese". Escreveu ao governador do Brasil e ordenou a devolução dos mais de mil cristãos levados de Kasanze para o Brasil. o rei Filipe IV chegou a prometer investigações sobre o episódio. Heywood e J. 6. K. introduzindo uma variável significativa nos enfrentamentos políticos e militares na região. Heywood e J. 129. p. Joseph Miller. 128. p. Thornton. . menciona que um dos devolvidos a Angola. não houve nenhuma devolução de prisioneiros. 158 L. cf. K. p. com o título de panji a ndona teria recriado o reino de Kasanze. em 1622. K.126. Ao invés de realizar a cerimônia de vassalagem. Atlantic Creoles. Glagow. The Canadian Journal of African Studies. Heywood e J. as fontes registram no entanto que muitos desses kijikos fugiram. o bispo Simão de Mascarenhas. L. Central Africans. Thornton. 135. Heywood e J. em 1621.154 Considerados livres por Njinga e escravos fugidos pelo governo de Angola. K. A legitimidade 153 154 L. p. porém. também devolveu mais alguns cativos.159 Apesar de as informações sobre esses dois episódios serem esparsas.156 Mais da metade morreu na travessia do Atlântico ou na chegada ao Brasil. Central Africans. Atlantic Creoles. o mesmo governador Correia de Souza trapaceou ao chamar os sobas e potentados locais vencidos para um acordo. Atlantic Creoles p. Thornton. Atlantic Creoles. Ndambi Ngonga e Kiteshi Kandambi 157 L. Ambos mostram como as diferenças entre livres e escravos estavam presentes no processo da escravização. Central Africans. acompanhados por outros mais de mil cativos. Atlantic Creoles. Heywood e J. Cf. Thornton. 155 L.153 Como o acordo nuca foi cumprido. O debate volta à tona em 1637. pp. Nzinga. Heywood e J. p. Thornton.

Havia certa concordância de que as pessoas livres que viviam junto aos portugueses em Luanda e nos presídios não corriam risco de serem escravizadas. Actas do Colóquio Internacional Universidade de Évora.172 do domínio sobre os escravos locais ou do poder de escravizar constitui. p.161 Não sei se a medida chegou a ser aplicada. no intuito de escapar aos exércitos. mesmo que tenha sido letra vã. aldeias inteiras fugiam para o mato. isso não colocava problemas para os interessados no tráfico atlântico.000 súditos Ndongo 'roubados' na Angola de meados do século XVII: uma análise preliminar" in: Isabel Castro Henriques (org. 29 e 30 de novembro de 2001. já que pessoas livres e até sobas podiam ser escravizadas. de outro criava uma instabilidade capaz de desarranjar os acordos políticos entre os poderes locais e o governo de Luanda. Heywood e J. Muitas vezes. A 160 José C. K. para permitir que os sobas pudessem voltar a suas banzas sem serem aprisionados pelos brancos. M. "A restituição de 10. Escravatura e transformações culturais. 2002. Editora Vulgata. Eles estavam protegidos pela vassalagem. Por outro lado. de um lado. que garantia que o fluxo dos escravos seria realizado pelo pagamento de tributos e por meio das rotas comerciais que traziam os escravos vindos do interior. Tampouco os sobas vassalos da Coroa portuguesa e seus súditos livres podiam ser escravizados.). esses episódios revelam ainda que o aprisionamento em meio às guerras gerava muitas confusões. a escravização também podia ser contestada. gerando debates em Luanda e em Lisboa. chegando a atravessar o Atlântico em várias direções. para evitar serem confundidos com livres e. o governador Fernão de Souza chegou a determinar que todos os escravos fossem marcados a ferro. Curto. Era necessário saber quem podia ser ou não escravizado. Lisboa. Central Africans. torna patente a preocupação pelo menos de algumas autoridades em manter a legitimidade das relações políticas que asseguravam o correto fluxo dos escravos. África . 121. Se. assim. Em 1624. 161 L. 185-187. Atlantic Creoles.Caraíbas. pp. temendo serem escravizados. sobretudo. repercutindo em Lisboa e no Brasil. Thornton. 28.160 Nem sempre essas salvaguardas funcionavam.Brasil . diante do avanço das guerras. . uma chave a ser considerada na análise dessa cultura política e mostra como ela podia ser articulada por meio de canais institucionais diversos. Do mesmo modo que havia questionamento sobre a legitimidade das guerras.

se súditos livres do ngola Ari ou se escravos. Os próximos parágrafos estão baseados em seu artigo. enamorou-se por sua filha e com ela viveu mais de quinze anos. Eram súditos livres. em 1661. 194. que aumentaram as posses por meio de novos casamentos. Depois de ajudar a perseguir os sobas que haviam se aliado aos holandeses. antes da chegada do governador Salvador de Sá e Benavides. C. as dúvidas sobre eles. 163 A descrição provém de documentos que compuseram sua indicação para ocupar o governo de Angola em 1649. tendo se destacado tanto na defesa de Massangano durante a ocupação holandesa que chegou a fazer parte do triunvirato que governou o reino de Angola em 1648. "A restituição de 10. portanto. recomendou a devolução de toda aquela gente. pp. seus bens foram herdados pela viúva e pela filha. Mendonça havia sido um poderoso colono que iniciara sua carreira militar em Ambaca. Todavia.163 Quando morreu. Muito querido do rei. rei do Ndongo. e deviam ser restituídos e indenizados por seu trabalho. permaneciam. os súditos do ngola seguiam-no na guerra e na paz e muitos moravam em suas casas e fazendas. anos antes Antonio Teixeira de Mendonça havia capturado seus súditos. A acusação foi discutida pelo Conselho Ultramarino que. C. Protestaram por não terem sido consultadas e pelo fato de o rei português ter tomado sua decisão ouvindo apenas "um rei negro que se tem o nome de 162 O caso é analisado por J. . dom Felipe (ngola Ari I). em abril de 1654.162 Em 1653. 185-208.000 súditos Ndongo 'roubados' na Angola de meados do século XVII". Curto. p. que agora eram obrigados a trabalhar nas propriedades de seus herdeiros. as herdeiras viram-se em maus lençóis e reclamaram ao rei. por isso. J.000 súditos Ndongo 'roubados' na Angola de meados do século XVII". Ordens foram enviadas para Angola e fizeramse os pagamentos indenizatórios. Segundo ele.173 polêmica sobre a restituição de dez mil súditos do rei do Ndongo à liberdade é um bom exemplo de como a questão era complexa e às vezes durava anos. "A restituição de 10. era tido como seu genro. como de fazenda". Privadas de trabalhadores. As investigações feitas junto a exgovernadores de Angola revelaram que Mendonça costumava freqüentar a corte do ngola. foi recompensado com títulos e distinções de nobreza. escreveu ao rei de Portugal para reclamar que seus súditos haviam sido injustamente escravizados. Curto. tornando-se um homem de grande "cabedal. assim de negros bons soldados.

que era judicial e não política. p. no entanto. segundo elas. C. com razão. ajudando a dar estabilidade ao sistema no qual estava assentada a presença portuguesa. 165 J.pela quantidade de gente envolvida e pela magnitude dos contendores .000 súditos Ndongo 'roubados' na Angola de meados do século XVII". Dom João Ngola Ari II.164 Disseram ter comprado em hasta pública os escravos que tinham em suas propriedades e que muitos súditos do ngola Ari nelas haviam se refugiado para escapar de tiranias. seu sucessor.000 súditos Ndongo 'roubados' na Angola de meados do século XVII. os costumes são gentílicos".ocorreu logo antes da morte de ngola Ari. mas uma parte permanecia na região. estava sempre presente. Estavam. Embora não se tenha o resultado do processo. os escravos que faziam parte dos pagamentos dos tributos. Grande parte dos escravos era vendida no circuito atlântico. já indica o rumo que as coisas tomaram. aliás. Curto. que também aparece com freqüência nas negociações entre os sobas e os administradores portugueses: o da devolução dos escravos fugidos. Curto. em litígio com o rei do Ndongo e pediam os canais da justiça fossem acionados para solucionar a contenda . Há ainda um outro ponto que merece destaque. que a contenda . empregada pelo rei na carta que enviou ao governador de Angola. O episódio mostra como os canais que articulavam interesses centro-africanos e portugueses eram múltiplos e podiam ser acionados em várias direções. O Conselho Ultramarino mudou radicalmente de postura e deu razão a elas. Curto afirma. C. . Como vimos. essa palavra. 164 Consulta do Conselho Ultramarino de 2 de setembro de 1661. que deveria ter a última palavra sobre a restituição ou não dos "escravos". pois constituíam o contingente de trabalhadores que cultivava os campos. Apud: J. A possibilidade de recorrer ao rei português. 205-206. os litígios desse tipo se resolviam por meio de processos e inquirições realizadas nos presídios ou nas cidades do litoral de Angola.174 cristão. ou eram prisioneiros feitos nas guerras. "A restituição de 10. em 1671. só funcionava se e enquanto fosse reconhecida pelos aliados centro-africanos dos portugueses.165 Essa estabilidade. taxas e demais "presentes" devidos pelos sobas aos portugueses podiam ter sido adquiridos pela via comercial. nas feiras. 203. "A restituição de 10. Em geral. Mandou que o assunto fosse investigado pelo ouvidor geral em Luanda. p. Eles eram tão importantes para os centro-africanos quanto para os portugueses. porém. pôs fim à aliança com os portugueses e iniciou as guerras que levaram à batalha de Mpungo Andongo e ao fim do Ndongo como estado independente.

Asilo ameaçado. pp. conforme a conjuntura. Asilo ameaçado. Como a possibilidade de compra da liberdade era mínima. ao servirem como soldados.o que ofereceu motivo para diversas expedições punitivas e negociações específicas para devolução de fugitivos.166 Para um escravo. para escapar dos senhores. tratava da lida da casa e. Os que permaneciam como trabalhadores dos africanos. era um desses refúgios. também era um bom refúgio para os escravos fugidos dos presídios de Muxima. Heintze. ou procuravam asilo nos sobados inimigos de seus senhores.compartilhavam porém uma cultura política específica.169 Diferentes entre si do ponto de vista político e social. p. A zona de Kasanje.167 Os fugitivos dirigiam-se normalmente para longe da zona de influência portuguesa. 169 B. Asilo ameaçado: oportunidade e conseqüências da fuga de escravos em Angola no século XVII. e com Matamba. Ministério da Cultura/Museu Nacional da Escravatura. Asilo ameaçado. portugueses e lusoafricanos. 166 Beatrix Heintze. ajudavam a arranjar mais escravos e a assegurar o poder político. uma vez doado como parte de um tributo. o risco de ser enviado para o comércio atlântico era grande.175 transportava os bens. negociado como prisioneiro de guerra ou vendido. Massangano e Cambambe . a fuga tornava-se um expediente eficaz para escapar à escravidão. Em alguns casos. . 18. 18. ao norte do Kwanza. como foi feito no início da campanha contra Njinga em 1626. 9-17. 1995. B. era uma arma utilizada para enfraquecer a força dos exércitos inimigos. e sobretudo os que ficavam com o mesmo dono. p. os portugueses organizaram uma expedição contra o mani de Kasanje. sob pretexto de ele ter "roubado" escravos e não querer devolvê-los.168 A devolução desses fugitivos podia funcionar como pretexto para guerras ou fazer parte dos acordos com os sobas e chegou a provocar debates em Lisboa. Em 1615. 168 Cf. das guerras e dos pumbeiros. p. tinham mais chances de não serem selecionados para a venda além-mar. O mesmo ocorria com a região dos ndembu. 8-9. Heintze. Kisama. Heintze. Haviam sido aprisionados segundo mecanismos diversos mas articulados e foram obrigados a se transformar igualmente em escravos no Novo Mundo. Luanda. 167 B. ao sul do rio Kwanza. até o início dos anos 1620. os "centro-africanos" transportados da África para o Brasil .e para Pernambuco . a promessa de liberdade para os fugitivos que integrassem a "guerra preta".

essas áreas implicavam graus variáveis de crioulização. Heywood e J.171 À volta desse núcleo. Atlantic Creoles. do Loango e de Kissama. Essas zonas de crioulização correspondiam ao avanço da conquista portuguesa e 170 L. Atlantic Creoles. que não pretendo explorar aqui. assim como nos presídios de Massangano.172 Creio que a análise desses autores pode ser tomada como guia para ir além da cultura. Ela orientou seus comportamentos e escolhas durante a vida como cativos e forjou o modo como reagiram à escravidão. Thornton. M. Os portugueses iniciaram uma política de conquista na região do reino do Ndongo em 1575 e a proximidade com os costumes e a religião portuguesa dependia do ritmo das guerras de conquista. Atlantic Creoles. Thornton. K. pp. chamada por eles de zonas de crioulização. empregados nos serviços domésticos e nas plantações. Linda Heywood e John Thornton destacam três grandes áreas culturais na região centro-africana. Ambaca e Cambambe.170 No litoral. as tensões culturais eram maiores. 171 L. A "crioulização" é terreno de muitas controvérsias. 2 (2006): 17-41. . que correspondem a graus diferentes de contato entre a cultura local e a portuguesa. 227-235. que mostram as regiões específicas em que as guerras ocorreram entre 1615 e 1660 e as zonas de maior ou menor crioulização. Central Africans. onde a presença portuguesa estava mais ligada às expedições militares. em termos de rituais religiosos e políticos e da cultura material. Heywood e J. e de africanos livres e forros. Nas zonas mais remotas. M.155 n. ver Roquinaldo Ferreira.186. ele pode ser deduzido facilmente da análise dos mapas que elaboraram. K. conforme as oscilações das guerras e dos acordos de vassalagem. K. Heywood e J. Eram sobretudo as elites africanas e menos as pessoas comuns que participavam da vida social e política associada à presença portuguesa. . em particular na ilha de Luanda. M. havia maior presença portuguesa. L. Mas havia áreas do reino do Ndongo e de Matamba em que esses contatos podiam ser menores.185-207. Para Heywood e Thornton. seus escravos e vassalos também viviam em contato com os portugueses. "'Ilhas crioulas': o significado plural da mestiçagem cultural na África atlântica".Revista de História. bem como escravos. E podiam variar. na capital e nas imediações. pp. oscilando ao longo do tempo. Thornton. p.176 A experiência política que havia conformado suas vidas até então não ficou em terra. por exemplo. Para um balanço desses debates. Central Africans. em meados do século XVII. vários sobas independentes. 172 Ainda que esses autores não explorem esse aspecto. metade dos africanos que viviam entre os portugueses eram escravos. entre 1607 e 1660. Muxima. Cavazzi estimou que. Central Africans. do outro lado do Atlântico.

essa língua deve guardar alguma marca dessa procedência. nele baseado. que funcionava como uma língua franca. contudo. John K. Transcrito no anexo 5. O contato entre os colonos portugueses e os centro-africanos esteve associado às guerras e às outras formas de obtenção de escravos. 262. Além da cultura e da língua. 175 Cópia do papel que levaram os negros dos Palmares. Não se trata apenas de uma questão lingüística. a possibilidade de usar canais de comunicação diversos de seus senhores e. muitos falavam o "angola". levaram para a América. K. o kikongo (na região do Kongo) e o kimbudo. é provável que o "angola" estivesse baseado no kimbundo ou dele contivesse muitos elementos. as línguas faladas na zona angolana eram bastante similares. 11. Essa cultura política não era "exclusiva" dos centro. 262. Thornton. anexo à carta de Aires de Souza de Castro de 22 de junho de 1678. A África e os africanos. AHU_ACL_CU_015. Tais convergências culturais. a áreas em que a sintaxe política das guerras e dos acordos era praticada. conhecida por alguns padres e soldados da capitania. Por isso. sobretudo. .177 ao modo pelo qual a Coroa de Portugal estabelecia seu domínio sobre o território. literal e metaforicamente. como o sargento-maior e capitão de infantaria enviados para explicar as "conveniências e a firmeza" do acerto realizado no Recife. Cx. 1116. Segundo depoimentos contemporâneos. Essa é a opinião de Duarte Lopes e Filippo Pigafetta. É bastante plausível que a língua falada em Palmares tenha sido o kimbundo ou o "angola". especialmente na região do Ndongo. kikongo e português. Thornton. Os habitantes da África Central pertenciam a dois subgrupos lingüísticos bantu próximos. O fato de os senhores não terem domínio sobre a comunicação entre os escravos é um fator importante.174 Tendo em vista que o kimbundo era a língua falada pelos habitantes do reino do Ndongo. 174 J. como o espanhol e o português. também. essa cultura política em 173 Cf. elas correspondem. p. O "papel" ajustado em 1678 entre Aires de Souza de Castro e os filhos de Gangazumba indica que os habitantes de Palmares falavam um língua diferente do português. ser praticada em kimbundo. D.175 Se eram gente vinda de Angola. havia uma experiência política que fazia parte da bagagem que os centro-africanos aprisionados e vendidos na África Central. Doc. bem como ao modo como se exercia o poder nessa região. A África e os africanos na formação do mundo atlântico. p.africanos e podia.173 Ainda que a língua dos que vinham do interior fosse mais diversificada.

eles podiam ser reconhecidos pelos negros dos palmares de Pernambuco. Vale a pena perguntar mais uma vez: o que aconteceria se aqueles príncipes exilados se juntassem à linhagem que governava Palmares? .178 comum faziam com que o temor das autoridades coloniais em relação à presença dos príncipes do reino do Ndongo no Brasil tivesse muitas razões de ser. Podiam se tornar aliados. parceiros. e fortalecer o reino negro que havia se formado naquelas serras do interior. Mais que "conhecidos".

para ratificar as determinações ajustadas em 22 de junho. Também não pode ser analisada na base de conjecturas contra-factuais. Gangazumba enviava seus emissários. sempre que uma explicação for demasiado evidente. Por isso. portanto. é bom desconfiar. A aldeia de Cucaú Conta Aires de Souza de Castro que. achar elementos que ajudem a compreender a complexidade da vida . Muito menos de suas contradições. nem se ajusta reside a brecha para aprofundar a análise e. segundo informa o governador. no que não combina. Para compreendêlo e explicá-lo. "outros a que eles chamam reis ficavam ajuntando a gente. não com o que poderia ter acontecido. que estava mui espalhada.179 Capítulo 4 ALTERNATIVAS Muitos já observaram que a história não conhece verbos regulares. Lógicas binárias e raciocínios causais não conseguem dar conta da multiplicidade de razões e sentidos das ações humanas. Enquanto isso. da história. Sem dúvida. que vinham acompanhados pelos soldados do terço dos Henriques. não encaixa. talvez. data em que ele escreveu uma carta ao príncipe português. Nos detalhes da documentação. as respostas não podem ser simples.com o que aconteceu. para com ela se recolher ao sítio . lidamos com o passado . Mais uma vez. nova embaixada palmarina foi enviada ao Recife.e. 1. Isso deve ter acontecido antes de 19 de julho de 1678. 23 dias depois de redigido o papel que consolidava os termos negociados entre os filhos de Gangazumba e o governador de Pernambuco.

porém. AUC. D. CCA. Havia. 3ª-I-1-31. Aires de Souza de Castro determinou às câmaras e capitães das vilas de Serinhaém. Porto Calvo e Alagoas que separassem "uma pouca de farinha" para que os negros dos Palmares tivessem "algum sustento" enquanto não pudessem se "valer de suas plantas e agilidade". 336. e é provável que pretendessem também cuidar para que as condições fossem cumpridas como o combinado . É possível que a sintaxe política centro-africana tenha presidido as escolhas das duas partes que haviam feito o ajuste. IV. .política. AHU_ACL_CU_015.e que o tornavam bastante diferente do Reino e Conquista de Angola. 3 Carta de Aires de Souza de Castro para o coronel das ordenanças de 22 de julho de 1678. fl. pois o trajeto iria 1 2 Carta de Aires de Souza de Castro de 19 de julho de 1678. doc. 1124. 10 e fl. 12. para cuidar que o acordo pudesse se concretizar. IV.desse outro lado do Atlântico . outros elementos importantes que caracterizavam a vida . De um lado. 11. CCA. 335v. Cartas de Aires de Souza de Castro para as câmaras de Serinhaém. doc. IV. 11. De outro. 3ª-I-1-31. AUC.180 que se lhe tem assinalado". 12. Era preciso "juntar a gente" e cuidar de seu sustento. e operassem conforme práticas que não eram de modo algum desconhecidas no império português e que haviam mostrado bons resultados na África Central. 335v-336. Em 22 de julho. CCA. militar e econômica . Porto Calvo e Alagoas e para os capitães mores das ditas vilas. fl. 3ª-I-1-31. Gangazumba também recorria a ela em busca de uma aliança que ajudasse a fortalecer a linhagem que governava Palmares e garantisse que os seus súditos não seriam escravizados. respectivamente.3 As medidas tinham a intenção de auxiliar o deslocamento daquela gente.4 O deslocamento de tanta gente não era um ato corriqueiro e demandava vários preparativos. doc. ambas de 22 de julho de 1678. fl. 4 Carta de Aires de Souza de Castro para o coronel das ordenanças de 22 de julho de 1678. dom Pedro de Almeida e Aires de Souza de Castro talvez buscassem a paz para obter certa estabilidade. doc.1 O acordo ia ser implementado e o governador começou a tomar as medidas necessárias.além de ser um gesto "para que eles experiment[ass]em no nosso agrado a segurança com que os reduzimos". AUC. Cx.2 Enviou também uma carta ao coronel das ordenanças para que ele ajudasse a comboiar os que viessem se "aquartelar ao sítio que pareceu mais acertado e conveniente" e a transportar a farinha arrecadada pelas câmaras. 336.

49. nem tão chegados aos currais que dela possam receber dano". para que não fossem atacados ou aprisionados . 3ª-I-1-31.9 O procedimento adotado por Aires de Souza de Castro em relação ao descimento dos habitantes de Palmares para Cucaú era. IV. Do ponto de vista do governo. 9 Ordem de 25 de outubro de 1661.181 durar alguns dias.6 Acertado o local. fl. 62-62v. 61v.e o ajuste viesse por água abaixo. fl. Brito Freire designou soldados do terço do Camarão para acompanhar os índios durante quinze dias e ajudá-los a iniciar as plantações para seu sustento.7 Além disso. muito semelhante ao que se passou com os Junduí dezessete anos antes. portanto. peixe do rio. mel. . 53. doc. onde havia "muita caça. desde que não estivessem "tanto ao sertão que pareça que desconfiamos de sua vizinhança. 51. 60v-61. e ferramenta para trabalharem". AUC. fl. Nesse caso específico. havia que cuidar para que os palmarinos de fato fossem para o local determinado e. AUC. 7 Ordem de 1º de novembro de 1661. com a ajuda dos padres do Oratório. 62-62v. Nessa ocasião. doc. IV. Para além da farinha providenciada e da presença dos oratorianos. designou o padre João Duarte do Sacramento para ficar na aldeia e nela "levantar logo igreja no lugar que escolher e tiver por mais conveniente para conversão daquelas almas". fl. AUC. pois se tratava de implementar um ajuste negociado e acertado entre governos até então rivais. doc. IV. 5 Concessão feita por Francisco de Brito Freire em 12 de outubro de 1661. o governador havia conseguido que os índios se deslocassem e se instalassem em uma aldeia. a comparação permite retomar observações feitas no primeiro capítulo. 61-61v. 8 Concessão feita por Francisco de Brito Freire em 12 de outubro de 1661. como nas negociações entre o governador Francisco de Brito Freire e os "tapuias da nação de João Duim" [Jundui]. CCA. CCA. 50. 3ª-I-1-31. 53. em outubro de 1661. CCA. 3ª-I-1-31. comprometeu-se a dar 100 alqueires de farinha em cada um dos primeiros três meses depois da mudança. ao mesmo tempo. fl. que devia ficar nas cabeceiras do rio Ipojuca. doc. A providência de fornecer farinhas e destacar soldados para o comboio não era incomum. a movimentação de tanta gente revestia-se ainda de circunstâncias rituais.5 A pedido dos índios. doc. IV. IV. 3ª-I-1-31. para que pudessem se sustentar. AUC. CCA. Já havia sido tomada em outros casos. 6 Concessão feita por Francisco de Brito Freire em 22 de outubro de 1661.8 Ato contínuo. o governador aceitou mudar o local da aldeia para uma região próxima ao rio Capibaribe. que se contavam pelo número de seiscentos. AUC. 3ª-I-1-31. CCA.

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com relação à possibilidade de o governador de Pernambuco ter percebido a povoação de negros que se formava na proximidade de Serinhaém como uma aldeia indígena. A fixação dos índios em aldeias remonta à época do primeiro governo geral, em que havia uma intenção catequética explícita. Dos sucessos iniciais na Bahia quinhentista, no entanto, o aldeamento rapidamente se transformou num terreno de conflitos entre índios, padres, senhores de engenho e autoridades coloniais.10 Não pretendo historiar aqui esses embates nem os debates jurídicos que eles envolveram; basta observar que o assentamento dos indígenas em aldeias e o modo como eram formadas e governadas estavam imbricados na delicada questão da liberdade dos índios. Ao longo do século XVII, a mesma legislação que oscilou entre reconhecer a plena liberdade dos índios e permitir sua escravização, reformou diversas vezes as formas de administrar as aldeias e os modos de utilizar o trabalho indígena.11 Convencidos pelo diálogo ou pela força das armas, os grupos indígenas eram forçados a se deslocar do interior para pontos próximos ao litoral, onde permaneciam sob o governo de padres jesuítas ou de missionários - ou ainda de administradores leigos conforme a determinação régia em vigor. De início, os únicos responsáveis pelas missões eram os jesuítas, mas logo outras ordens religiosas vieram se juntar a eles. A lei de 1611 restringiu a alçada dos padres aos assuntos espirituais, ao determinar que o governo fosse exercido por um capitão - em geral, um morador de destaque na região. A lei de 9 de abril de 1655, para o Estado do Maranhão, e as provisões de 17 de outubro de 1653 e a lei de 12 de setembro de 1663 proibiram a designação de capitães e determinaram que as aldeias fossem governadas pelos missionários e pelos "principais" das nações indígenas.12

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Para uma análise da legislação indígena no século XVI e início do XVII, ver Georg Thomas, Política indigenista dos portugueses no Brasil, 1500-1640. São Paulo, Loyola, 1982; e Carlos Zeron, La Compagnie de Jésus et l’institution de l’esclavage au Brésil. Les justifications d’ordre historique, théologique et juridique, et leur intégration par une mémoire historique (XVIe-XVIIe siècles). Doutorado, Paris, EHESS, 1998, cap. 3. 11 Cf. Beatriz Perrone-Moisés, "Índios livres e índios escravos: os princípios da legislação indigenista do período colonial" in: Manuela Carneiro da Cunha (org.), História dos Índios no Brasil. São Paulo, Companhia das Letras/SCM, 1992, pp.115-132; e também Mathias C. Kiemen, The Indian policy of Portugal in the Amazon region, 1614-1693. N. York, Octagon Books, 1973. 12 B. Perrone-Moisés, "Índios livres e índios escravos", p. 119.

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Localizadas em função dos interesses da administração colonial na defesa do território ou dos colonos em aproveitar o trabalho indígena, as aldeias tinham suas terras reconhecidas como um território sob jurisdição especial.13 Governadas em nome do soberano português, pelos padres, capitães ou até pelos índios, elas constituíam um lugar diferenciado em relação ao termo das vilas e cidades, sob a alçada das câmaras. O regime de missões servia, assim, a interesses que mesclavam o proselitismo cristão, a avidez por mão de obra, e a preocupações mais gerais de defesa do território colonial contra os ataques dos índios bravios ou dos negros dos mocambos.14 A política indigenista portuguesa também implicava a exploração das rivalidades entre as várias nações - aspecto também aproveitado pelos holandeses e franceses em suas tentativas de se fixar na América portuguesa. Os Potiguar da Paraíba, os Jundui do Rio Grande, os Cariri e os Goianás da região do São Francisco foram os principais aliados dos holandeses, enquanto os portugueses eram auxiliados por outros Potiguar e por índios que haviam sido convertidos e integravam algumas tropas, como a liderada por Antônio Felipe Camarão. A expulsão dos holandeses foi, não acaso, seguida de guerras - chamadas "dos bárbaros" - destinadas a submeter esses contingentes indígenas, de modo a reconstruir o domínio português.15 A negociação com os Jundui empreendida por Brito Freire em 1661 foi apenas um dos muitos episódios desse quadro maior.16 A sintaxe política centro-africana não era pois a única a articular guerras e acordos de paz em Pernambuco. Na capitania - assim como no resto do Estado do Brasil e no do Maranhão - os descimentos e as aldeias eram práticas constantes para "reduzir" os índios e trazê-los à obediência do soberano português. A recusa em descer para as missões ou a fuga delas transformava os índios em rebeldes e sujeitos a "campanhas de

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Este é mais um tópico que variou conforme as leis promulgadas, mas esteve sempre contemplado pela legislação. Cf. Manuela Carneiro da Cunha, "Terra indígena: história da doutrina e da legislação" in: Os direitos dos índios. Ensaios e documentos. São Paulo, Brasiliense, 1987, pp. 58-61. 14 Georg Thomas, Política indigenista dos portugueses no Brasil, 1500-1640, caps. 5 e 6. 15 Pedro Puntoni, A guerra dos bárbaros. Povos indígenas e as colonização do sertão. Nordeste do Brasil, 1650-1720.São Paulo, Hucitec, /Edusp, 2002. 16 Nesse caso, houve negociações mas não um acordo escrito. Nas guerras contra os "bárbaros" do sertão das capitanias de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande e Ceará, houve casos, na década de 1690, em os chefes indígenas acabaram por assinar tratados de paz com as autoridades coloniais que foram registrados por escrito. Para alguns exemplos desses acordos ver P. Puntoni, A guerra dos bárbaros, pp. 300-304.

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punição". Podiam servir de justificativa para a guerra contra eles, do mesmo modo que os ataques dos índios bravios do sertão contra os colonos. Assim, no Brasil e em Pernambuco, a cultura política que informava as ações dos escravos fugitivos - da formação de mocambos ao fortalecimento das linhagens encontrava outros elementos, diversos daqueles existentes na África Central. Ainda que os negros dos Palmares tivessem sido reconhecidos pelas autoridades coloniais como um poder separado, cujo governo estava assentado em uma linhagem similar à do reino do Ndongo, as negociações realizadas em 1678 não necessariamente levavam a uma aliança como aquelas realizadas com os sobas de Angola. Para Aires de Souza de Castro, é bem provável que elas significassem, também, a transformação dos mocambos em uma aldeia.17 Essa forma de apreensão pode justificar talvez o fato de que as negociações não tenham considerado a permanência dos negros em Palmares, mas seu descimento para Cucaú, em região mais próxima de Serinhaém - e da sede da capitania. Outros fatores, talvez tenham pesado para determinar o deslocamento daquelas pessoas, já que as terras de Palmares - seguindo o costume - podiam ser distribuídas aos participantes mais destacados das campanhas contra os mocambos, como forma de remunerar seus serviços. A presença dos padres oratorianos, ordem missionária por excelência e bastante ligada aos poderes coloniais em Pernambuco, como vimos, reforça a hipótese de que o modelo da aldeia indígena tenha orientado as ações de Aires de Souza de Castro. Quando tentou negociar com os mocambos em 1663, Francisco de Brito Freire enviou o padre João Duarte Sacramento ao rio de São Francisco - o mesmo que fora habitar com os Jundui em 1661. Naquela ocasião, o rei dos Palmares se recusou a aceitar a proposta do governador. É difícil saber se também dessa vez o padre João Duarte foi o encarregado de ir para Cucaú; é bem possível, pois ele continuava atuante em Pernambuco nessa época e só morreu em 1686, durante a epidemia de febre amarela.18 Alguns documentos permitem saber entretanto que um dos padres foi João da Costa. Anos depois, ao assinar
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A hipótese é reforçada pelo fato de o governador ter sido encarregado da instalação da Junta das Missões em Pernambuco, criada por ordem régia em 7 de março de 1681. O processo foi entretanto cercado de problemas e a Junta só funcionou a partir de 1692. 18 Evaldo Cabral de Mello, A fronda dos mazombos, São Paulo, Companhia das Letras, 1995, pp. 103-104.

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um atestado sobre os serviços prestados por Antonio Pinto Pereira, ele se identificou como um dos oratorianos que havia "assistido em companhia dos negros dos Palmares na aldeia de Cucaú, para onde viera por ordem do governador Aires de Souza de Castro".19 É pouco provável que os oratorianos tenham se transformado em intermediários entre os negros que se instalavam em Cucaú e o governo de Pernambuco. A proximidade entre a ordem religiosa e o governo da capitania permite levantar essa hipótese, mas tudo indica que os contatos, nesse caso, eram mais diretos: entre Aires de Souza de Castro e as autoridades palmarinas, ou por embaixadores por eles nomeados. É o que mostram também as cartas escritas a Gangazumba e Gangazona, no contexto dos preparativos para o descimento para Cucaú. A primeira delas, datada de 24 de julho de 1678, era dirigida a Gangazumba.20 O texto segue a praxe das correspondências oficiais, e seu envio acompanhou a ida e vinda de "capitães e soldados" de ambas as partes - dos oficiais do terço dos Henriques e da gente de guerra de Palmares. Foram eles a compor a parte principal das embaixadas que foram e vieram, articulando a força militar à política diplomática. Houve também troca de presentes: não há muitos detalhes sobre a "cousa da casa" enviada por Gangazumba ao governador, que lhe fez tanto agrado, mas as fontes registram que Gangazumba recebeu "panos para um vestido" e, provavelmente, o machado que pediu.21 Estes não eram objetos quaisquer, já que trocados entre autoridades e com intenção política - e revelam que ambos os lados sabiam escolher o que podia ser significativo para o outro. Em sua missiva, Aires de Souza de Castro acusou o recebimento de uma carta de Gangazumba trazida pelos "capitães e soldados" palmarinos enviados ao Recife, e reafirmou a estima que tinha em ver que, agora, "debaixo da [sua] obediência", ele teria "descanso e conveniência" nas terras que lhe foram concedidas e poderia "viver muito a

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Atestado de 6 de setembro de 1684. AHU_ACL_CU_015, Cx. 13, D. 1311 Carta de Aires de Souza de Castro de 24 de julho de 1678. AUC, CCA, IV, 3ª-I-1-31, fls. 336v, n. 13. O documento pode ser lido, na íntegra, no anexo 2. 21 Documento posterior indica que foram enviados os dois côvados de baeta negra. Cf. Ordem de Aires de Souza de Castro de 2 de dezembro de 1678. AUC, CCA, IV, 3ª-I-1-31, fl. 338, doc. 18. O uso de certos panos era sinal de distinção entre os Mbundo e os presentes podiam ter, assim um significado especial para Gangazumba. Por outro lado, os machados não eram uma arma tradicional entre eles; as que tinham lâminas em forma de meia lua eram usadas pelos Imbangala e pelos guerreiros de Matamba. Cf. Beatriz Heintze, "A cultura material dos Ambundu segundo as fontes dos séculos XVI e XVII" Revista Intrnacional de Estudos Africanos, 10/11 (1989): 15-63.

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[seu] gosto". Reiterou a promessa de lhe fazer "muitas honras e [lhe] dar patentes e insígnias", como era costume fazer "aos pretos que nos cá servem". Avisou ainda ter mandado a farinha, e ofereceu-se para ser o procurador de Gangazumba, em todas as suas "pretensões", em retribuição ao fato de ter ele vindo "para a paz e obediência no tempo do [seu] governo".22 Em seguida, assegurou ter certeza da palavra dada pelo chefe palmarino e ratificou as promessas feitas no "papel" que havia enviado. Disse ainda estar cuidando bem de sua mulher e dos filhos, e explicou singelamente não ter enviado ainda os "meninos" por considerar o grande embaraço de caminhar com eles pelo mato - mas prometeu remetê-los assim que chegassem a Cucaú. Deu notícias do filho que ficara para ser tratado de uma ferida,23 agradeceu o presente enviado - muito estimado - e mencionou mandar outros. Despediu-se, por fim, com o compromisso de dar a Gangazumba, a seu irmão e ao Zumbi tudo o que quisessem - desde que viessem em paz. Ao referir-se aos soldados que tinham acompanhado a embaixada palmarina, o Aires de Souza de Castro informou estarem eles agora encarregados de ajudá-lo no "trabalho do caminho". O governo de Pernambuco teve, mais uma vez, a preocupação em utilizar oficiais do terço dos Henriques - a "gente preta que obra debaixo da obediência" das autoridades pernambucanas.24 O capitão Estevão Gonçalves havia acompanhado a primeira embaixada;25 depois foram o sargento-mor João Martins e o capitão Alexandre Cardoso que voltaram aos Palmares para "trazer a resolução" de Gangazumba sobre o ajuste.26 Todos eram, segundo o governador, "soldados mui honrados e mui antigos"; sabiam ler e escrever o português, mas também podiam falar a língua dos Palmares.

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Infelizmente ainda não consegui esclarecer o significado da oferta para ser o "procurador" de Gangazumba. Pode estar ligado ao ofício de "procurador dos índios", mencionado no alvará de 26 de junho de 1596 e na lei de 9 de abril de 1655, cuja finalidade era proteger os indígenas. O termo, porém, é comum na administração portuguesa, e reforça a idéia de Aires de Souza de Castro considera Cucaú como um território sob jurisdição separada. 23 O fato aparece referenciado também na crônica de 1678 - mas apenas na versão existente em "Descripção com noticias importantes do interior de Pernambuco..." BNRJ-Ms, Cod. 7,3,001, já que a "Relação do que se passou na guerra com os negros dos Palmares nos sertões de Pernambuco" BPE, cod. CXVI - 2 - 13 - a, n. 9 está incompleta. 24 A expressão, como vimos, consta do "papel" que documentou o ajuste realizado em 1678. Cópia do papel que levaram os negros dos Palmares. Documento anexo à carta do governador Aires de Souza de Castro de 22 de junho de 1678 AHU_ACL_CU_015, Cx. 11, D. 1116. Vide anexo 5. 25 Ordem de Aires de Souza de Castro de 20 de junho de 1678. AUC, CCA, IV, 3ª-I-1-31, fl. 344, doc. 37. 26 Ordem de Aires de Souza de Castro de 21 de junho de 1678. AUC, CCA, IV, 3ª-I-1-31, fl. 344, doc. 38.

que lhe permitia falar em nome de seus "súditos". Como tal. Antonio Pinto Ribeiro afirmou que fora buscar Gangazumba e o havia ajudado a "baixar com mais de 400 pessoas".187 Credenciavam-se. Ela reitera os termos do que fora acordado em junho daquele ano e registra a boa intenção do governador em manter sua palavra. detentor de poderes políticos assentados em uma rede de relações familiares. Cf. que se combinam para construir uma forma de domínio na área colonial.e especialmente nessas cartas . Cod. AHU_ACL_CU_Consultas Mistas. Porém. nomeada em vários documentos referentes a Palmares . porém. a desempenhar a tarefa de mediadores e colaboradores na instalação dos palmarinos em Cucaú. a presença constante dos "línguas" (tradutores) nas tentativas anteriores de negociação com os palmarinos e nessa de 1678 indica o reconhecimento da existência de campos culturais distintos e bem caracterizados. desse modo.tem papel de destaque. a troca de cartas. ele foi identificado pelas autoridades coloniais: como "rei" dos Palmares. fl. assim como as promessas feitas na ocasião. A parentela real. ao mencionar o episódio em sua folha de serviços. Gangazumba negociou e se comportou na implementação do acordo de modo semelhante a muitas lideranças africanas diante das autoridades portuguesas do outro lado do Atlântico. As providências e decisões foram anotadas de forma a registrar que a implementação do ajuste estava garantida. . nem a outras características centro-africanas dos palmarinos.27 A carta registra a continuidade da relação entre autoridades que se reconhecem mutuamente com poderes e respectivas hierarquias governamentais. ao mesmo tempo militares e políticas. 17. elas mesclavam-se a outros modos de agir em relação aos habitantes da colônia . em 28 de janeiro 1684.como no caso dos aldeamentos indígenas ou da incorporação de libertos no terço dos Henriques. presentes e deferências estão imbricadas em várias sintaxes políticas. Foram os filhos e irmãos do rei que lideraram as embaixadas e falaram em seu nome. Mais que rituais comuns no Antigo Regime. assim como cobra a mesma atitude de Gangazumba. Aires de Souza de Castro e os demais oficiais pernambucanos não parecem ter tido dificuldade em relação aos nomes de origem africana. foram dois de seus filhos que 27 Anos mais tarde. para as autoridades pernambucanas. que nesses documentos designam pessoas específicas. 399 v. Nomeação de pessoas para o posto de sargento-mor da ordenança da praça de Pernambuco. A sintaxe política centro-africana pode ter prevalecido para Gangazumba.

dessa vez. 3ª-I-1-31. mas que a fórmula das cartas administrativas podia ser integralmente aplicada. manifesta seu agrado por terem os palmarinos vindo em 28 Ivan Alves Filho afirma Aires de Souza de Castro adotou dois filhos de Gangazumba quando da primeira embaixada enviada ao Recife. 355v. e Brás de Souza Castro. O governador saúda Gangazumba e lhe dá as boas vindas por ter chegado a Cucaú. Cumprindo ordens régias. dentre os "homens pretos" pernambucanos "valorosos". fl. em setembro. A pena pecuniária é sempre de 40 mil réis e aplicada em vários casos. ambos combateram contra os "negros rebelados". assim. 3ª-I-1-31. e os da infantaria e da cavalaria. teriam recebido nomes cristãos que incorporam o nome do governador. 29 Dois bandos do governador Aires de Souza de Castro. ambos de 26 de julho de 1678. Há outras referências de que. IV. doc.30 Em meados de novembro daquele ano. era preciso tomar algumas medidas de caráter preventivo. no final de setembro. proibir que qualquer pessoa entrasse com arma de fogo no Recife e que os escravos pudessem andar com qualquer outra arma.29 O som das caixas anunciando a ordem. o governador convocou todos os soldados dos terços pagos da capitania. Glórias de Pernambuco e desagravos do Brasil [1757]. também para Gangazona. 69. irmão de Gangasona e também filho de Gangazumba. diferentemente de outros bandos com determinações semelhantes em momentos diversos. ao saudar os destinatários. reconhecida e aceita pelo governo de Pernambuco. 25 (1903): 107. no momento em que os temidos palmarinos desciam em direção a Cucaú. fossem multados em quarenta mil réis. Memorial dos Palmares. AUC. a realizar-se no máximo até o último dia do mês de agosto. além de terem o cativo confiscado. IV. doc. que acompanhou sua instalação nas terras de Cucaú. p. Alves Filho. Não localizei documentos que registrem essas informações. não apenas se o transgressor for um escravo. que deve ter trazido de Lisboa. ao serem batizados. 1988. dom Pedro de Souza Castro Ganazona (sic). 91. sob pena de serem castigados e de seus respectivos donos. filho de Gangazumba. As duas cartas mantêm a praxe da correspondência administrativa e usam agora o vocativo "amigo". AUC. 355v-356. CCA. 68 e fl. . CCA. A diferença em relação ao tratamento mais seco da carta de 24 de julho significa não uma proximidade maior. I. Talvez por isso. respectivamente. Xenon. ABN. Rio de Janeiro. Tanta gente armada junta também suscitava problemas. 30 Bando do governador Aires de Souza de Castro de 20 de setembro de 1678.188 permaneceram no Recife para atestar a veracidade da palavra empenhada. o governador tenha aproveitado para limitar o uso de espadas. Tudo parecia caminhar bem. Aires de Souza de Castro escreveu mais uma vez para Gangazumba e. natural de Cucaú. bem como o ajuntamento de soldados devia causar boa impressão. A informação deve ter origem em Domingos Loreto Couto que destaca. fl. para uma "mostra geral" no Recife. Todavia. doc.28 A hierarquia política e militar de Palmares foi. 14. 337. As penas referem-se explicitamente a soldados e oficiais.

São. parecia ter sido enfim conseguida. . revista. Porto Alegre. 90-91 informam que em novembro. São Paulo. Se dom Pedro de Almeida pudera se vangloriar de ter "restaurado" Pernambuco pela segunda vez. mas o tom agora é mais pragmático. Gangazumba foi pessoalmente ao Recife assinar a paz. 337-337v. O fato de explicitar essa satisfação diante do próprio Gangazumba ajudava a consolidar o compromisso entre governantes e homens de palavra. Gérard Police afirma que Gangazumba teria chegado ao Recife em 5 de novembro de 1678. em junho daquele ano.31 A redução dos levantados dos Palmares à obediência. O texto menciona uma carta anterior de Gangazona e outra de Antonio Pinto que noticiam que muita gente já se pôs em marcha. Mercado Aberto. Quilombos dos Palmares. Em junho e agora em novembro. 15. o governador lamenta a morte do filho de Gangazumba que. Edison Carneiro. O documento está transcrito no anexo 3.ou seja. e que os demais viriam 31 Carta de Aires de Souza de Castro a Gangazumba de 12 de novembro de 1678. Ibis Rouge. 5ª ed. O Quilombo dos Palmares [1947] 2ª ed. 1958. o chefe dos Palmares foi nomeado "mestre de campo de toda a sua gente" e dois de seus filhos foram adotados pelo governador da capitania. fl. Aires de Souza de Castro parecia orgulhoso. e I. além de mencionar que os padres prometidos já haviam sido para lá enviados. Gérard Police. justificada pelo fato de ele ter se colocado debaixo da obediência do príncipe de Portugal. havia sido batizado e morrera como cristão. "teve uma morte de todos os brancos invejada" pois morreu como um "filho da igreja" . doc. e avisa que haverá farinha para seu sustento e soldados para auxiliá-los na chegada. 147. revista e ampliada. segundo ele. A guerra dos escravos. [1973]. Em seguida. A escolha dos termos parece seguir o mesmo cuidado havido na redação do "papel". Décio Freitas. Recebido com solenidade. tantas vezes tentada e fracassada. 120. providências administrativas relacionadas ao deslocamento das pessoas de Palmares para o novo lugar. Memorial dos Palmares. 2003. Talvez esse tenha sido o principal motivo da missiva. Alves Filho. talvez por tratar de assuntos mais práticos. aproveitou para reiterar a oferta do governador de ser o procurador de Gangazumba. Brasiliense. Lectures sur un marronnage brésilien. pp. manifestava a satisfação de ter conseguido a obediência de Gangazumba durante "o tempo do "[seu] governo". mas é mais objetiva e indica haver maior proximidade entre os correspondentes. De todo modo. acompanhado por uma comitiva de 40 pessoas. reescrita. 79. Guyane. ele agora contava com feitos que também lhe trariam distinções. A carta dirigida a Gangazona segue as mesmas praxes textuais. 1984. p. p. 3ª-I-131. AUC. IV.189 paz. portanto. Palmares. CCA. Não encontrei documentos que confirmem essas informações. p.

O total somava 36$950 réis. mas Aires de Souza de Castro o reconhece como um potentado de menor hierarquia. O documento está transcrito no anexo 4. 337v. incluindo 12$730 réis de dois vestidos para ele e uma sobrinha e 24$220 réis com mantimentos. CCA. CCA. AUC. Gangazona é tratado com a mesma deferência que Gangazumba. . doc. 34 Ordem de Aires de Souza de Castro de 2 de dezembro de 1678. AUC. doc. ainda. 32 Carta de Aires de Souza de Castro a Gangazona de 12 de novembro de 1678. e agora seriam devolvidas aos palmarinos. 17.34 Como se vê. é difícil estimar tanto as quantidades como discutir o significado dos números registrados pelas fontes administrativas para os que participavam daqueles acontecimentos. ainda que se comprometa a estender a ele os "mesmos privilégios" acertados com o primeiro. fl. fl. No início de dezembro o governador ordenou ao provedor da Fazenda Real que registrasse a restituição "aos negros dos Palmares. embaixadas com dez a quarenta pessoas e apenas seis cativos devolvidos para seus senhores. AUC. 18. 3ª-I-1-31. doc. Do mesmo modo. Os poucos números referentes ao deslocamento de pessoas e devolução de prisioneiros registrados pela documentação são espantosamente baixos: entre trezentas e quatrocentas pessoas instalaram-se em Cucaú. o provedor ficou encarregado de registrar a entrada na Provedoria "de seis pessoas que eles trouxeram para se entregarem a seus donos". 3ª-I-1-31. fl. 3ª-I-1-31. os rituais da troca de presentes e do tratamento diferenciado em relação às autoridades do sobado de Cucaú continuavam a ser praticados e tinham lugar nas finanças da capitania. Como no caso das cifras sobre a população de Palmares. 338. IV. 16. 338.190 em breve. outras cláusulas do ajuste também eram cumpridas. 33 Ordem de Aires de Souza de Castro de 2 de dezembro de 1678. [d]as pessoas todas dos quintos" que deviam ser remetidas para Portugal. CCA.33 A Fazenda real devia arcar. com os gastos feitos com "Gangazona e os 40 negros que em sua companhia vieram dos Palmares". Elas haviam sido entregues à Provedoria por dom Pedro de Almeida.32 Além da instalação das pessoas em Cucaú. Mais uma vez a confiança na palavra empenhada e a confirmação das promessas feitas foram reafirmadas por textos administrativos. em companhia de Zumbi. IV. IV.

39 G. Brasiliense. Péret. Quilombos dos Palmares. Palmares.125.coincidência ou não . "The Quilombo of Palmares: A New Overview of a Maroon State in Seventeenth-Century Brazil. W. pp. . S.. Não há dados sobre o local nas fontes e apenas dois autores.br/index. 1996. 1982. p. mas todos os dados sugerem que as cláusulas do ajuste firmado em junho de 1678 entre os enviados de Gangazumba e o governo de Pernambuco estavam sendo implementadas. sob as ordens de seus chefes.38 De fato. e Pedro Paulo de A. 2.). História do Brasil. Robert N. 3ª-I-1-31.. Palmares. 40 D. anotam a localização de Cucaú em seus mapas.191 Tudo parecia caminhar bem. "A arqueologia de Palmares.36 O local sequer aparece nos mapas elaborados por Edison Carneiro em 1947. O contato entre as lideranças de Palmares e o governo da capitania se fazia conforme as regras de praxe. Cucaú mereceu ainda menos atenção. foi a vez de passar em revista as ordenanças. doc. com a convocação de todos os homens entre quatorze e cinqüenta anos para uma revista no último dia do ano. Os palmarinos desciam em grupos. 359. CCA. 9 e 10. entre pp. São Paulo. 8. mas . p. Flávio dos Santos Gomes. Jackson.40 35 36 Bando de 26 de dezembro de 1678. O mapa da página do Parque Memorial Quilombo dos Palmares situa Cucaú ao norte de Serinhaém: http://www. Porto Alegre. Freitas. Rio de Janeiro.35 A documentação é sem dúvida avara em informações. p. 33). Rocha Pombo. Companhia das Letras. 1951. p.151. Rocha Pombo chegou a afirmar que os palmarinos "não deixaram (. com troca mútua de presentes e as condições eram cumpridas. Se as negociações de 1678 ocupam um lugar menor na historiografia sobre Palmares.) suas florestas para recolher-se às matas do Cucaú" e chamou o tratado de "imaginário". 78. 38 Cucaú não é mencionado nos mapas das várias edições da obra de D. 1630-1695. Editora da UFRGS.quilombodospalmares. 2002. Sua contribuição para o conhecimento da história da cultura afro-americana in João José Reis e Flávio dos Santos Gomes (orgs. nem em obras mais recentes. 1947. como na edição brasileira de B. O Quilombo dos Palmares. AUC. A bibliografia é ainda mais econômica que a documentação. Escravidão e liberdade no Atlântico Sul.145. fl. O quilombo dos Palmares. 1985. Palmares (ed. Police. 37 Edison Carneiro. 170 e Robert N. ed. Liberdade por um Fio.37 que serviram de base para quase todos os autores posteriores. Anderson. São Paulo. p.org. Contexto.php?sec=quilombo_palmares_localizacao (acessado em 14 de agosto de 2008). p. Paulo. Freitas. M. Funari. 87. p. IV. Os prisioneiros foram devolvidos e alguns escravos restituídos a seus donos. para se estabelecerem em Cucaú. História dos quilombos no Brasil.39 Décio Freitas informa que a região ficava a 32 quilômetros de Serinhaém." Journal of Latin American Studies 28 (1996): 546. Nova ed. vol. é difícil saber onde ficava o "sítio do Cucaú". Anderson e Gérard Police. 35.no final de dezembro. il. 110. 2005.

2003. Quilombos dos Palmares. assim cinco léguas são 33 quilômetros. Lectures sur un marronnage brésilien.000 braças ou 6. p.41 Mapa 4 . 170.192 número próximo do oferecido por Police. 146. Guyane. Police. . 41 G. p.Os mocambos de Palmares e Cucaú Fonte: Gérard Police. Uma légua corresponde a 3. Ibis Rouge. Quilombos dos Palmares. que menciona cinco léguas. sem que se saiba a origem dos dados.600 metros no sistema atual.

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A crônica de 1678 indica tratar-se de uma "dilatada mata que jaz pelas cabeceiras de Serinhaém e Rio Formoso, que se chama Cucaú". Essa região, ao sudoeste de Serinhaém, é de ocupação bastante antiga, já que, antes da invasão holandesa, abrigou um engenho fundado por Francisco de Moura. Segundo Pereira da Costa, em 1637, o engenho tinha o nome de Cucaúpe e ainda pertencia a seu fundador, que estava ausente, em Portugal ou nas Índias. O nome lhe vinha de um riacho que nascia no município de Gameleira e cortava as terras, para desaguar no rio Serinhaém.42 O engenho foi destruído pelos holandeses e ficou abandonado por algum tempo. Em 1666, no tempo do governador Jerônimo de Mendonça Furtado, os moradores de Serinhaém pediram para mudar a aldeia situada próxima àquela vila para o engenho de Cucaúpe, para que dali os aldeados ajudassem a combater os ataques dos "negros tapanhuns" que estavam "levantados". Foram atendidos e o governador mandou que a câmara providenciasse os mantimentos necessários para os primeiros meses. O governador lamentou não poder ajudar com soldados, mas isentou de qualquer pena os que fizessem as entradas e matassem os que resistissem.43 A região não era, portanto, desabitada; nela havia em 1678 pelo menos um engenho44 e, talvez, uma aldeia de índios. Os documentos disponíveis deixam entender que os palmarinos e talvez Gangazumba tenham participado da escolha das terras que lhes seriam doadas por mercê. Ao que parece, o "sítio a que chamam Cucaú" era tido como região fértil, na qual havia muitas palmeiras. Segundo um relato da primeira metade do século XVII, as palmeiras eram "de grande préstimo aos negros, porquanto, em primeiro lugar cobrem com elas as suas casas, em segundo fazem as suas camas, em terceiro abanos com que abanam o fogo, em quarto comem o interior dos cocos e destes fazem os seus cachimbos e comem o exterior dos cocos e também os palmitos; dos cocos fazem azeite para comer e igualmente manteiga, que é muito clara e branca, e ainda uma
42

Francisco Augusto Pereira da Costa, Anais Pernambucanos. [1951] 2ª ed. [fac simile da 1ª ed.] Recife, Fundarpe/Diretoria de Assuntos Culturais, 1983, pp. 228-229. 43 Cf. duas cartas de Jerônimo de Mendonça Furtado de 17 de junho de 1666. AUC, CCA, IV, 3ª-I-1-31, fls. 203v-204v, doc. 171 e fls. 204v-205, doc. 172. 44 Esse engenho transformou-se no século XIX em usina, mantendo o mesmo nome. Sobre essa usina, vide Manuel Correia de Andrade, História das usinas de açúcar de Pernambuco. Recife, Fundação Joaquim Nabuco/Ed. Massangana, 1989; Gonçalves & Silva, O Açúcar e o Algodão em Pernambuco. Recife, s. ed., 1929; Severino Moura, Senhores de engenho e usineiros, a nobreza de Pernambuco. Recife, Fiam/CEHM/Sindaçúcar, 1998.

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espécie de vinho; nestas árvores pegam uns vermes da grossura dum dedo, que comem, pelo que têm em grande estima estas árvores."45 O cronista de 1678 registra que das palmeiras os habitantes dos mocambos faziam "vinho, azeite, sal, roupas; as folhas servem às casas de coberturas, os ramos de esteios, os frutos de sustento, e da contextura com que as pencas se cobrem no tronco se fazem amarras para todo o gênero de ligaduras".46 A preferência por palmares é significativa, sobretudo se lembrarmos da importância do vinho das palmeiras em rituais sociais e religiosos na África Central. A literatura sobre a região angolana é farta em referências sobre o tema. Adriano Parreira, por exemplo, indica que além de os ramos, as folhas e o tronco das palmeiras serem aproveitados na construção das casas, os Imbangala usavam a folhas das palmeiras para construir as paliçadas que ladeavam as ruas de seus kilombos. A fibra exterior da empela servia para encher colchões e travesseiros, assim como as folhas para fabricar cestos e esteiras. Os panos podiam ser feitos de vários tipos de palmeira, aproveitando-se as fibras de umas e outras para o fabrico de sacos, cobertores, esteiras e vestuário. Alguns deles, mais trabalhosos e difíceis de serem tecidos, eram destinados para uso exclusivo dos titulares. Outros, como vimos, podiam servir de moeda.47 O extenso estudo de José Curto sobre o álcool na África Central é rico em dados sobre o uso ritual do vinho de palma, chamado malavu. Obtido da fermentação da seiva retirada do cume da palmeira, essa bebida era consumida sobretudo pelo nobres, sobas e reis e desempenhava papel importante nos rituais religiosos e em cerimônias de importância política e social, como a recepção de convidados e casamentos. Por isso mesmo, ainda que não fosse armazenável, pois azedava com facilidade, chegou a ser usado como imposto e mercadoria para troca. Sua importância era tão grande que, em muitas campanhas militares no século XVII, os invasores adotavam a tática de cortar as palmeiras dos oponentes.48
45 46

"Diário da viagem do capitão João Blaer aos Palmares em 1645", RIAHGP , 56 (1902): 23 "Relação", BPE, cod. CXVI - 2 - 13 - a, n. 9, fl. 51. 47 Adriano Parreira, Economia e sociedade em Angola na época da Rainha Jinga, século XVII. Lisboa, Estampa, 1997, pp. 52-54. 48 José C. Curto, Alcool e escravos. O comércio luso-brasileiro do álcool em Mpinda, Luanda e Benguela durante o tráfico atlântico de escravos (c. 1480-1830) e o seu impacto nas sociedades da África Central Ocidental. Lisboa, Editora Vulgata, 2002, especialmente pp. 48-62.

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Assim, se as terras próximas a Serinhaém foram escolhidas por Gangazumba por terem "palmeiras para o seu sustento",49 certamente poderiam abrigar costumes cujas raízes remontavam ao outro lado do Atlântico. Ali o reino que se formara nos Palmares podia se instalar e crescer, e a linhagem que o governava conseguiria se enraizar. Para Aires de Souza de Castro, a formação de uma aldeia - ou talvez de um sobado estável poderia ser o fim dos confrontos com os negros rebeldes que tanto atormentavam os moradores da capitania.

2. Problemas Pouco mais que isso se consegue saber sobre os acontecimentos relacionados à mudança da gente de Gangazumba para Cucaú. Além dos documentos citados, há ainda o relato feito por Aires de Souza de Castro na carta dirigida ao príncipe português, datada de 8 de agosto de 1679.50 Ela informa que pelo menos três mocambos desceram para Cucaú. Nem todos, porém: segundo o governador, não se havia conseguido "reduzir com a mesma brevidade" um deles, "por ficar mais distante". Nele haviam se refugiado a maior parte dos cativos que tinham "repugnância" de "tornarem [a voltar] para a casa de seus senhores". Duas tentativas para submetê-los foram feitas, uma delas com a ajuda do "maioral dos negros que assistira na aldeia de Cucaú" - um dos que "foram dar obediência quando [ele] logo chegara àquele governo". Contudo, apenas alguns haviam atendido a seu chamado e teriam ido com ele para Cucaú. O governador também pondera que, como agora o governo de Pernambuco contava com guias fornecidos pelos "próprios negros", seria "fácil induzi-los por força" mesmo que tivessem penetrado no "mais oculto destes Palmares". Aires de Souza de Castro intentava fazê-lo logo após a partida da frota. Por outro lado, observava ter feito a distribuição das sesmarias e que os Palmares estavam "cheios de estradas e de muitos gados"; mesmo assim, os moradores "ainda" não estavam seguros em suas casas. Ao

49 50

"Relação", BPE, cod. CXVI - 2 - 13 - a, n. 9, fl. 58v. Carta de Aires de Souza de Castro de 8 de agosto de 1679. AHU_ACL_CU_015, Cx. 12, D. 1144. Essa carta está apenas parcialmente legível. Seu conteúdo pode ser recuperado por meio do resumo de seu conteúdo feito pelo Conselho Ultramarino, em Consulta de 26 de janeiro de 1680. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco, Cod. 265, fls. 26-27v.

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encerrar a carta e afirmar ter relatado tudo "o que tem sucedido sobre esta matéria", lembrava o príncipe que continuava a "falta[r] a resolução de Sua Alteza para com ela se conseguir todo o acerto".51 Como se vê, a avaliação do governador é positiva. O acordo estava sendo cumprido e a resistência de um mocambo - motivada pela "repugnância" de serem reescravizados - poderia ser facilmente contornada com a ajuda de Gangazona. Ainda que a distribuição das sesmarias indicasse que as terras dos Palmares haviam sido incorporadas ao domínio colonial, a segurança pretendida não fora alcançada. Uma lista das sesmarias doadas "em todas estas capitanias de Pernambuco depois que o governador Aires de Souza de Castro tem cessado o prejuízo que faziam os negros dos Palmares que foi a causa porque as pediram as pessoas desta relação", anexa a uma carta de João Fernandes Vieira enviada poucos dias depois,52 permite conhecer os nomes dos que receberam essas sesmarias - vários deles comandantes de tropas que haviam atacado os Palmares junto com Fernão Carrilho, agraciado com vinte léguas de terras.53 Em 16 de agosto foi a vez do provedor da Fazenda enviar sua versão dos fatos.54 Segundo ele, apenas "dois príncipes potentados", Gangazumba e seu irmão, tinham descido para Cucaú, com quase "trezentas almas", ficando nos Palmares outro potentado, Zumbi, "com sua tropa". Vários avisos haviam sido mandados pelos tios ao sobrinho Zumbi, sem sucesso. Mais uma vez se prometeu a ele "o perdão, em nome de [sua] alteza, como aos mais se havia feito" - sem sucesso. Zumbi aparece aqui como alguém que tinha "feito grandes danos e mortes aos moradores" da região e por isso tinha receio
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Carta do governador de Aires de Souza de Castro de 8 de agosto de 1679. AHU_ACL_CU_015, Cx. 12, D. 1144. 52 Documento anexo à carta de João Fernandes Vieira de 20 de agosto de 1679. AHU_ACL_CU_015, Cx. 12, D. 1150. Ennes, por motivos que desconheço, data essa relação de 1685, o cruzamento dos dados indica ter sido escrita provavelmente antes de 8 de agosto de 1679. Ernesto Ennes, As Guerras nos Palmares: subsídios para a sua história. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1938, doc. 8. 53 Pelo título do documento não se pode ter certeza se as terras são ou não em Palmares, mas a soma total das léguas distribuídas é praticamente a mesma mencionada pelo governador, ao descrever como a região estava cheia de estradas e gados. Além de Carrilho, os principais beneficiados foram: o capitão João de Freitas da Cunha, com 50 léguas, o coronel Belchior Álvares, com 40 léguas e os capitães Domingos Gonçalves Freire, Estevão Gonçalves e Gonçalo Teixeira, com 10 léguas cada um. Documento anexo à carta de João Fernandes Vieira de 20 de agosto de 1679. 54 Carta de João do Rego Barros de 16 de agosto de 1679. AHU_ACL_CU_015, Cx. 12, D. 1146. Infelizmente, o documento está ilegível, mas seu conteúdo pode ser recuperado pelo resumo que dela faz o Conselho Ultramarino , em Consulta de 26 de janeiro de 1680. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco, Cod. 265, fls. 26-27v.

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em se juntar aos outros - além de trazer "consigo a melhor gente de guerra". Como Gangazona não havia conseguido convencê-lo, o governador, depois de consultar os capitães e oficiais da câmara, se resolveu "logo dar guerra e destruir este negro rebelde", pagando-se as custas da tarefa com os quintos das casas do Recife.55 A descrição feita por Rego Barros é mais objetiva e pragmática - e mais pessimista. Por esse relato, são apenas dois mocambos e não três que desceram para Cucaú e Zumbi vai descrito com características bélicas fortes o suficiente para justificar a decisão pela guerra: ele não só reunia os melhores combatentes, como tinha uma "tropa". Somadas as informações das duas cartas, fica claro que a percepção das autoridades coloniais justificava a resistência de Zumbi pelo medo de ser punido por seus crimes e a de seus companheiros por não quererem voltar a ser escravos. Se os motivos correspondem ou não à avaliação dos palmarinos é difícil confirmar. As informações sugerem que, diferentemente do grupo de Gangazumba, em que havia filhos e netos portanto gente nascida nos mocambos - Zumbi agregava em torno de si gente que havia vivido na escravidão - e que não queira voltar para ela. As duas cartas indicam ter havido divergências entre os chefes dos mocambos em Palmares. Elas não quebraram, entretanto, suas hierarquias internas: a liderança de um parente do rei manteve-se e a discordância gerou o afastamento de todo um mocambo sob sua liderança. A rebeldia, nesse caso foi dupla, já que Zumbi recusou, ao mesmo tempo, a liderança de Gangazumba e o que fora ajustado em junho de 1678. Lembrando das observações de Igor Kopytoff, pode-se afirmar que o procedimento não era extraordinário - e era até comum em situações de crise na África Central, em que o deslocamento de grupos que se separam das sociedades originais faziam avançar a fronteira.56 Como bem observaram Stuart Schwartz e Stephan Palmié, o kilombo pode ter servido de modelo e guia para que os dissidentes avançassem cada vez mais dentro das

55

Consulta do Conselho Ultramarino de 26 de janeiro de 1680. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco, Cod. 265, fls. 26-27v. O escrivão erra ao transcrever o nome de Gangazumba, substituindo o nome próprio por um advérbio: "dois príncipes potentados, enganosamente (sic) e seu irmão". fl. 27 56 Cf. Igor Kopytoff, "The internal African frontier: the making of African Political culture" in: Igor Kopytoff (ed.) The African frontier. The reproduction of traditional African societies. Bloomington, Indiana University Pres, 1987, pp. 3-83. Para maiores comentários ver o item "Além da cultura" no capítulo 2.

fl. IV. e os que enviassem escravos para carregar os mantimentos seriam atendidos em seus pedidos de postos em milícias e ofícios públicos. comandadas por gente de Palmares e por oficiais de Pernambuco.59 e determinou ao provedor da Fazenda que 57 58 Edital de 17 de agosto de 1679. AUC. 86. fl. 360v.198 matas. CCA. com a finalidade de armar uma expedição.o que estava sendo feito por tropas conjuntas. Mesmo sem contar com notícias de Lisboa. fl. como a situação exigia. 3ª-I-1-31. Ainda em agosto. a fim de justificar a guerra para reduzir os que se recusavam a cumprir o acordo. IV. 3ª-I-1-31. em busca de refúgio e de condições para se estabelecerem em torno de uma liderança militar. mediante o pagamento de um "assento". buscando os lugares "mais ocultos" daqueles palmares. portanto). como de costume. AUC. Entre 17 de agosto e 13 de setembro expediu várias ordens. Ordenou à câmara de Itamaracá que enviasse o que se havia arrecadado com o contrato do sal. 24 Edital de 17 de agosto de 1679. o governador continuou a agir. 339v. . mas os outros poderiam ser livremente repartidos entre os participantes da entrada (sem o pagamento do quinto. doc. "com toda a brevidade". Alagoas e Rio de São Francisco. e tomou as providências necessárias. Porto Calvo. era o caso de tomar providências conjuntas para obrigar os renitentes a se juntarem aos que desciam para Cucaú .57 Assim. CCA. A guerra ia recomeçar . pois envolvia membros da linhagem governante dos Palmares e Gangazona participava das expedições e dos combates. AUC. IV. 25 59 Ordem de 18 de agosto de 1679. Como previa uma das cláusulas do acordo de 1678. 340. Elas se encarregaram de tornar evidente que a decisão de "fazer de novo a guerra" fora tomada em reunião da Junta da capitania e se justificava pelo fato de que nem todos os negros dos Palmares tinham aceitado viver "debaixo da obediência deste governo nas partes que se lhe assinalou": havia "faltado a esta palavra o negro Zumbi com os mais do seu mocambo". o binômio da obediência e da rebeldia foi retomado e posto mais uma vez em prática. CCA. o governador nomeou Manoel Lopes para comandar a expedição e publicou um edital a fim de incentivar as pessoas a integrarem a expedição: os prisioneiros escravos dos moradores seriam entregues aos donos. doc. 3ª-I-1-31.mas não do mesmo modo que até então fora feita. ajuntassem a gente e os mantimentos necessários.58 Mandou que as câmaras de Serinhaém. doc.

1988. 88 e fl. 3ª-I-1-31. 3ª-I-1-31. CCA. AUC. CCA. 361-361v. fl. 61 Ordem de 30 de agosto de 1679. AUC. 63 Bando de 8 de dezembro de 1679. 360v. e Ordem de 6 de dezembro de 1679.62 Manoel Lopes deve ter partido em seguida. 62 Duas ordens de 1º de setembro de 1679. doc. 89. Como sempre. com ordens para percorrer "o campo e mais lugares por onde tiver noticia que andam negros fugidos e levantados". doc. o capitão Antonio Pinto e o capitão Estevão Gonçalves 10 mil cada um. pp.a campanha não estava sendo tão fácil quanto o previsto. IV. Ordem de 12 de setembro de 1679.63 As providências tomadas em seguida confirmam as dificuldades .61 medicamentos e mantimentos. 361v. André Dias. Mário M. Às tropas que perseguiam Zumbi e os que haviam permanecido em Palmares logo se juntaram mais soldados. p. 3ª-I-1-31. soldados e negros para carregar os mantimentos. doc. pois em 16 de fevereiro. o governador determinou que o capitão João de Freitas da Cunha saísse da vila das Alagoas em direção aos Palmares. em 8 de dezembro.199 distribuísse 102 mil réis para os oficiais que iriam combater em Palmares. doc. ao invés de serem pregadas na porta da matriz. morador em São Miguel. CCA. As medidas eram severas e. fl. 360v. CCA. 362. Por ter mantido as tropas mobilizadas e logo reiniciar os combates. o capitão mor do campo Francisco Ramos. como em ocasiões anteriores. IV. pessoas. fundado por Carrilho. porém. doc. 360v-361. 94. doc. para "ir investir ao mocambo em que está o negro Zumbi aquartelado". Biblioteca do Exército. A documentação. Freitas considera Aires de Souza de Castro um governante previdente. 87. fl. IV. AUC. Reino negro de Palmares. 3ª-I-1-31. CCA. Décio Freitas (Palmares. com poder para os prender "em qualquer parte onde os colher ainda que seja em fazendas ou casa de quaisquer 60 Ordem de 30 de agosto de 1679. O sargento mor Manoel Lopes recebeu 50 mil réis. fl. 19-120) afirma que uma guarnição havia sido mantida no arraial do Bom Jesus e a Cruz. fl. fl. deviam ser anunciadas ao som de caixas "na presença de todos". doc. AUC. 3ª-I-1-31. havia o incentivo de repartir os prisioneiros igualmente pelos soldados. o sargento mor dos pretos João Martins e o ajudante Francisco Tavares (responsável pelas munições e mantimentos) 6 mil cada um. e o capitão do terço dos pretos Alexandre Cardoso 4 mil. além da pena física. 255 e 257. [1956] 2ª ed. com toda as munições. foi nomeado "capitão-mor de campo da vila das Alagoas e seus distritos". 3ª-I-1-31. o capitão Cipriano Lopes. IV. CCA.60 bem como comprasse munições. . 361. AUC. 91. mas logo encontrou dificuldades pois. AUC. 86. não fornece indícios seguros sobre isso. mas agora se acrescentava a pena de "três tratos de braço solto" e degredo para Angola para aqueles que desertassem "tanto da marcha como da campanha sem licença". IV. IV. 93. Rio de Janeiro. eles ficariam conhecidos "pela infâmia de se retirarem de ocasião tão importante".

67 Aviso de Aires de Souza de Castro de 18 de março de 1680. fl. Em 26 de fevereiro de 1680. 28. a quem os moradores de Porto Calvo.67 É revelador o fato de se recorrer à Justiça. carregados por 50 negros. pouco popular entre os proprietários de escravos reavidos depois de tantos esforços. 65 Em 26 de fevereiro. as ações dos negros dos Palmares eram percebidas sob a tópica da rebeldia. CCA. RIAGA (1875): 184. . por exemplo. quinhentas curimãs e duas mil tainhas. "Segundo Livro de Vereações da Câmara de Alagoas". IV. doc. Por isso. 66 Bando de 26 de fevereiro de 1680.65 Além das expedições militares. Tantas dificuldades não impediram a obtenção de algum êxito.64 Enquanto isso.única forma de se conseguir de fato "extingui-los". 3ª-I-1-31. 341v. Manoel Lopes pedia mais mantimentos. os custos corriam por conta dos senhores. que interferiam no domínio dos senhores sobre os escravos reavidos. não impõe penas. CCA. 30.66 Além de arcar com os custos da guerra. RIAGA (1875):184-185. o que foi providenciado por ordem dirigida à câmara de Alagoas. o governador ordenou então que os moradores que tivessem escravos "destes que se aprisionaram e que conhecidamente forem seus" os embarcassem para fora da capitania num prazo de oito dias. 3ª-I-1-31. AUC. Como se viu. IV. às ordens do ouvidor geral e auditor da gente de guerra para ser processado e castigado. Permitiu a permanência das mulheres desde que entregues "conforme o assento que nesta parte se usa". A ordem. Os 64 Patente de 16 de fevereiro de 1680.200 moradores" e de matá-los "livremente" se resistissem. talvez para deixar alguma margem de negociação ou evitar abrir outra frente de batalha. fl. doc. Como se tratava de uma "conveniência do serviço" real. a vila de Alagoas determinava que seus moradores deveriam custear o envio ao arraial onde havia se instalado em Palmares um comboio que devia chagar lá "até 10 de fevereiro" com vinte arrobas de carne. "Segundo Livro de Vereações da Câmara de Alagoas". Ele fora enviado à cadeia do Recife. era mesmo preciso que fossem enviados para o Rio de Janeiro ou para Lisboa . os senhores teriam agora que pagar para deportar os cativos nela aprisionados. AUC. o governador também tratou de tomar outras medidas importantes. As tropas conseguiram prender "um negro a que chamam Moioio". não somente fugiam mas ainda seduziam a outros para que o fizessem". 340v-341. Elas estavam baseadas na constatação de que os negros aprisionados durante as guerras contra Palmares que permaneciam em Pernambuco "em muito pouco tempo. Alagoas e Rio de São Francisco acusavam de "grandes crimes e insolências".

O interessante é que Manoel Lopes e o governador não pediram que Zumbi se entregasse.68 A correspondência entre dois os governadores mostra que os esforços para a destruição do mocambo de Zumbi e a prisão dos que resistiam e continuavam pelos matos ultrapassavam os limites da capitania. que também participava das guerras contra Palmares.69 Mais uma vez. 70 Bando do sargento mor Manoel Lopes de 26 de março de 1680. 20 (1906): 268-269. O reconhecimento do poder dos potentados com os quais se havia 68 Carta de Roque da Costa Barreto a Aires de Souza de Castro de 2 de março de 1680. a oferta reiterava os termos acordados em junho de 1678.como no caso da instalação da aldeia de Cucaú ..70 Ao autorizar qualquer pessoa a servir de intermediário. . 95. CCA. RTIC. CCA. Em Pernambuco. era preciso punir os crimes cometidos contra os moradores . ao mesmo tempo. fl. 69 Ordem de Aires de Souza de Castro para a câmara de Olinda de 20 de março de 1680. já que o governador geral se comprometia a voltar a pagar os soldos de Manoel Inojosa. 3ª-I-1-31. que felicitou o colega de Pernambuco. AUC. Como se vê. O fato foi comunicado ao governador geral do Estado do Brasil. associavam-se para pagar os oficiais que corriam os matos em busca de fugitivos.e os escravos fugidos deviam ser aprisionados e devolvidos a seus donos. buscando (. como no caso da vila de Olinda. "por alguma indústria". AUC. Manoel Lopes.daí o recurso à Justiça. ficando com toda [a] sua família liberta". "homem que soube[ra] guardar sua palavra". o sargento mor encarregado do comando das expedições. fez publicar um bando em que pedia a qualquer pessoa que. que eram cumpridos por Gangazona. fl.201 rebeldes podiam ser reduzidos à obediência . outras câmaras além das mais próximas de Palmares. 362. 3ªI-1-31. No caso de criminosos. doc. mas que fosse morar "com seu tio Gangazumba. saber que outras pessoas podiam chegar até ele sem serem incomodadas.) a seu tio Gangazona para viver a mesma liberdade com toda [a] sua família". 341. noticiasse "ao capitão Zumbi" que o governador "novamente lhe tem perdoado em nome de sua alteza que Deus guarde todos os crimes que contras estes povos tem cometido". "Dezenove documentos sobre os Palmares pertencentes à Collecção Studart". desde que "se reduza à obediência das nossas armas. o sargento mor reconhecia ter dificuldade para localizar Zumbi e. doc. IV. 29. IV.. a via da guerra não foi a única a ser tentada.

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negociado a paz era, assim, reiterado - agora na figura de Gangazona. Essa era a forma de reduzir a rebeldia de Zumbi. Mais interessante ainda é o fato de o bando, além de ofertar a paz, trazer explicações sobre a prisão de algumas lideranças palmarinas. João Mulato, Canhongo, Gaspar e Amaro haviam sido detidos, pois "tinham combinado com muitos escravos (...) cativos para se alevantarem faltando às pazes prometidas" e por terem matado "com peçonha seu rei Gangazumba para melhor fazerem a sua aleivosia". A prisão se justificava pelo crime cometido, não porque o governador desejasse faltar "ao que com eles tinha efetuado". A situação era, portanto, delicada. Dois dos agraciados com a alforria em 1678, João Mulato e Amaro, haviam conspirado contra o ajustado em 1678; por isso fora preciso prendê-los. Poderiam ser reescravizados por ingratidão; como tinham cometido o crime de atentar contra a vida de um rei reconhecido pelas autoridades coloniais, deviam ser processados e punidos. É difícil imaginar que essa lógica tenha sido compreendida ou aceita por Zumbi. Na sintaxe política centro-africana, como vimos, a discordância política implicava a separação das facções em disputa e a aliança de uma delas com grupos rivais. Assim fizeram os portugueses e muitos sobas do Ndongo e Njinga, como vimos. Em alguns casos, as lutas sucessórias e as conspirações contra os sobas e potentados muitas vezes incluíam o assassinato por envenenamento. Infelizmente, as fontes são fragmentárias demais para que a hipótese possa ser verificada. Não há dados para saber se houve ou não ligação entre Zumbi e o grupo acusado de ter matado Gangazumba, nem se a conspiração objetivava a fuga coletiva ou a deposição de Gangazumba. Também dessa vez, é a carta enviada pelo governador de Pernambuco a Lisboa, em 22 de abril de 1680 que oferece um panorama mais abrangente da situação.71 Ele conta que, assim que partira a frota, havia mandado Manoel Lopes e outras tropas da capitania entrar "para o sertão" e atacar todos os "mocambos e famílias". Eles tinham conseguido derrotar os negros, pois havia muitos "cativos e mortos, que passa[v]am de oitocentas peças", além dos que morriam "de doença [e] por falta de mantimentos e [do]
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Carta do governador da capitania de Pernambuco, Aires de Sousa de Castro de 22 de abril de 1680. AHU_ACL_CU_015, Cx. 12, D. 1163. O documento está ilegível e seu conteúdo é resumido na Consulta do Conselho Ultramarino de 8 de agosto de 1680. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco, Cod. 265, fl. 29v.

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aperto que se lhes fizera". Só restara "Zumbi que é o que hoje os governa, mas com mui poucos". Como havia ainda gente que estava se "passando para nós por não terem outro remédio" e as tropas continuavam suas diligências, mesmo no "rigor do inverno", a avaliação do governador e dos moradores era relativamente otimista, ainda mais porque eram ajudados pelo "maioral dos negros que assistia na aldeia de Cucaú (...), com zelo e fidelidade". Mas isso não era tudo: os que haviam permanecido em Cucaú "se foram desviando do que prometeram" e estavam "conjurados para se retirarem outra vez levando muitos escravos dos moradores daquela vizinhança, além de darem avisos e levarem mantimentos e munições para a defesa dos outros postos". Fora então preciso "mandá-los prender e havê-los por cativos, como os mais". A decisão fora tomada com o "parecer dos letrados, soldados e pessoas de maior capacidade" e o quinto da Coroa, obtido com os prisioneiros, fora aplicado para custear as guerras. A pilhagem livre para os soldados fora aplicada apenas em relação aos outros prisioneiros.72 Nem uma palavra sobre a morte de Gangazumba e a prisão de seus autores. O balanço da situação não parecia muito alentador para Aires de Souza de Castro. Os rebeldes que não haviam descido para Cucaú estavam quase de todo derrotados, mas ele fora obrigado a prender e cativar muitos dos que estavam na aldeia. Ainda que o governador não enuncie com todas as palavras, o acordo fracassara. O quadro parece claro: ele se certificara de que os que estavam em Cucaú conjuravam para fugir e os mandara prender. Não foram entretanto enviados à justiça nem despachados para fora da capitania, mas escravizados. Ao considerá-los "cativos, como os mais", Aires de Souza de Castro quebrou o padrão até agora seguido, que separava rebeldes, fugidos e criminosos. A decisão deve ter sido difícil, pois fora necessário consultar várias pessoas. Todos eram fugitivos - e a gente da ordenança estava liberada para escravizar qualquer negro que andasse pelos matos. Embora a documentação nem sempre seja clara quanto ao destino das expedições e mencione somente a guerra contra os negros dos Palmares, ao que tudo indica

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As citações, aqui, foram retiradas do resumo da carta do governador de 22 de abril de 1680, constante da Consulta do Conselho Ultramarino de 8 de agosto de 1680. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco, Cod. 265, fl. 29v, pois o original está muito estragado. Cf. AHU_ACL_CU_015, Cx. 12, D. 1163.

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formaram-se, a partir de então, duas frentes de batalha. Edison Carneiro afirma que a tarefa de reduzir os negros levantados de Cucaú foi entregue ao capitão mor Gonçalo Moreira, mas não pude confirmar essa indicação.73 A documentação administrativa do final do governo de Aires de Souza de Castro não fornece muitas informações e a bibliografia tem reconstruído a participação dos vários comandantes por meio de pedidos de mercês feitos em datas posteriores pelos soldados e comandantes - cujas informações são imprecisas e pouco confiáveis.74 O fim de Cucaú não deixou Aires de Souza de Castro muito satisfeito: em meio às notícias enviadas para Lisboa, comentou que, embora "todos aqueles moradores e soldados antigos" confessassem ter obrado "alguma cousa" naquele ano, "ele governador tinha pouca experiência do Brasil, [e] não o sabia avaliar por tal". Ficava, porém, com "o sentimento de não poder adquirir o desejava no real serviço de V.A."; como consolo, ponderava que "ao menos não saíra a muita despesa daquela guerra da Fazenda Real nem na sua entrara mais que a gloria de suceder no seu tempo". Para quem havia tido tanto orgulho de ter reduzido os negros no "tempo do seu governo", o fim da aldeia de Cucaú parecia diminuir a glória de ter destruído os mocambos. Em junho daquele ano, atendendo a uma petição do próprio governador, encaminhada por decreto ao Conselho, os conselheiros opinaram a favor de sua substituição: Aires de Souza de Castro alegava sofrer de "achaques doenças tão graves", queria retornar a Lisboa e já se haviam completado os três anos de seu mandato. Antes de continuar a análise, cabe tratar do modo como a bibliografia interpretou esses acontecimentos. Segundo Décio Freitas, no início de 1680, Cucaú foi arrasado, os "chefes da intentona" degolados e os demais reduzidos à servidão perpétua, partilhados entre os senhores de escravos locais. Terminava assim a história da "capitulação de Gangazumba", como ele a chamou: estava destruído "Cucaú, o caricato anti-Palmares tão esperançosamente fundado pelas autoridades coloniais".75 O posicionamento crítico desse autor é seguido com maior ou menos ênfase pela bibliografia, que opera de modo a construir uma polaridade entre Gangazumba e Zumbi.
73 74

Edison Carneiro, O Quilombo dos Palmares [1947] 2ª ed. revista. São Paulo, Brasiliense, 1958, p. 120. Ver, Por exemplo, E. Carneiro, O Quilombo dos Palmares, pp. 120-124; D. Freitas, Palmares, pp. 119120 e Ivan Alves Filho, Memorial dos Palmares, pp.96-99. 75 D. Freitas, Palmares, p. 120.

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Edison Carneiro observa que, apesar das festas em Olinda e Recife, e do fato de os vitoriosos se sentirem tranqüilos o suficiente para pedir a doação de terras e sesmarias em recompensa de seus serviços, as dúvidas se concretizaram: o acordo não foi aceito "pelos chefes mais resolutos dos Palmares".76 Zumbi, sobrinho do rei, se internou nos matos, "certamente com outros chefes de mocambos mais jovens", para continuar a lutar. Foi tentada uma negociação com Zumbi, sem êxito: "enérgico, resoluto, obstinado, Zumbi iria dar à luta o caráter heróico que a celebrizou entre as insurreições de escravos no Brasil".77 A oposição entre velhice e juventude, associada ao binômio acomodação e resistência aparece em diversos autores e é a principal chave interpretativa dos acontecimentos. A ela se agregam outros elementos. Manuel Arão afirmou, por exemplo, que o acordo de paz não tinha sido tratado com as autoridades competentes do quilombo, e teria sido esse o motivo da dissensão que culminou no assassinato de Gangazumba e na emergência de um novo rei, Zumbi.78 O tema da autoridade está presente também em Jaime de Altavilla, que ponderou que os quilombolas possuíam ideais e princípios e marcou uma distância moral entre Gangazumba e Zumbi, evidenciada pela aceitação da paz pelo primeiro e pela renúncia às regalias e galhardias das ofertas feitas ao segundo.79 Alfredo Brandão, por sua vez, considerou que Zumbi "desconfiou das promessas dos portugueses", recusou-as, "revoltou-se contra o próprio tio, o rei, matou-o com peçonha, reuniu os seus cabos de guerra, internou-se nas matas e, como chefe, como rei, continuou a luta".80 Mesmo para Benjamin Péret, que não dedicou muita atenção ao acordo de paz, é importante afirmar que Gangazumba teria sido "destituído e envenenado por ter pedido a paz com os brancos ou por ter concordado com ela". Para ele, a autoridade de Zumbi residia "na recusa da paz aceita por Gangazumba e na supressão deste último (para a
76

E. Carneiro enfatiza que os governantes palmarinos eram idosos, como Gangazumba e seus auxiliares mais imediatos. Afirma ainda ser ele um "homem idoso quando resolveu fazer as pazes de 1678". Cf. O Quilombo dos Palmares, pp. 69-70. 77 E. Carneiro, O Quilombo dos Palmares, p. 119. 78 Manuel Arão, "Os quilombos dos Palmares". RIAHGP, 24 n.115/118 (1922): 246-247. 79 Jayme de Altavilla [Amphilophio de Mello], "A Redempção dos Palmares" RIAGA, 11 (1926): 59. 80 Alfredo Brandão, "Os negros na história de Alagoas". Estudos Afro-Brasileiros. Trabalhos apresentados ao 1 Congresso Afro-Brasileiro reunido no Recife em 1934. [ed fac simile] Recife, Fundaj/Ed. Massangana, 1988, p. 72.

206 qual, sem dúvida, colaborou)".81 Para esse autor, ao contrário de Gangazumba, Zumbi liderou uma guerra sem fim contra os brancos, na qual "um dos dois [lados] dev[ia] desaparecer".82 A oposição entre Zumbi e Gangazumba aparece também em Clóvis Moura que registra que Gangazumba presidia o conselho formado pelos chefes dos principais quilombos, "até o ano de 1678 quando, havendo negociado a paz com os brancos, perdeu o prestígio entre seus pares e foi assassinado, tendo sido substituído por Zumbi, que passou à história como líder incontestável e herói de Palmares".83 Segundo Mário M. Freitas, entretanto, como foi o filho mais velho de Gangazumba que foi ao Recife assinar a paz, ela acabou sem ser "ratificada pelo rei supremo dos palmarinos e deus da guerra dos quilombos". Não fica claro, no seu texto, se apenas a gente de Gangazumba se dirigiu a Cucaú. Para ele, a paz foi minada pelas investidas contra os quilombos - a "colônia de Cucaú" entre eles -, pelo "cordão de segurança" à volta de Cucaú e da serra da Barriga, que fechavam o comércio dos negros com as vilas vizinhas, bem como pelo bando que isentava os voluntários do pagamento do quinto, e pelo incômodo dos moradores de Porto Calvo e Serinhaém diante da concessão da "floresta majestosa do Cucaú ao rebelados".84 Sem ver conflitos entre Zumbi e Gangazumba, Mário M. Freitas considerou que a trégua teria sido quebrada quando Zumbi tomou conhecimento de que o governador distribuíra entre seus capitães as terras dos Palmares "e que nada mais restava para os negros senão a floresta de Cucaú, onde deveriam viver ilhados para o resto da vida, cercados pelas armas da opressão".85 Avaliando os eventos de um ponto de vista político, tanto do lado dos negros quanto dos governadores, soldados e moradores, Mário M. Freitas situa as negociações no
81 82

Benjamin Péret, O quilombo dos Palmares. Porto Alegre, Editora da UFRGS, 2002, pp. 118, 125 e 126. B. Péret, O quilombo dos Palmares, pp. 125-126. Por isso mesmo, as iniciativas posteriores de paz empreendidas por Zumbi "eram meras astúcias de guerra, destinadas a dar ao quilombo um descanso que lhes permitiria retomar forças" (p. 126). 83 Clóvis Moura, "O quilombo dos Palmares" Rebeliões da Senzala. Quilombos, insurreições, guerrilhas. [1959] 2ª ed. revista e ampliada Rio de Janeiro, Ed. Conquista, 1972, p. 180. Ainda segundo o autor, nos Palmares, "os chefes militares de maior prestígio colocaram-se contra o acordo e, depois de discutirem o assunto, resolveram desrespeitá-lo, executar o rei e entregar a direção de Palmares ao Zumbi, sobrinho do rei, elemento novo e de 'grande valimento'" (p. 188). 84 M. M. Freitas, Reino Negro de Palmares, p. 253. 85 M. M. Freitas, Reino Negro de Palmares, p. 254. Sua avaliação lembra a de Rocha Pombo, que entretanto negou que os palmarinos tivessem se deslocado para Cucaú. Ao invés disso, teriam tratado "logo de concentrar-se em um grande núcleo, ou de reunir o maior número de guerreiros em uma grande fortaleza central que servisse de refúgio para os habitantes dos mocambos do interior". R. Pombo, História do Brasil, vol. 2, p.125.

Freitas.128. 91 D. Freitas. Freitas.87 mas aponta a existência de "múltiplas e obstinadas resistências.207 cruzamento de intenções e estratégias diversas. p. 123. 90 D. usada por Benjamin Péret. que menciona o fato de o acordo ter sido desaprovado em Lisboa. 5-37.93 86 Nesse sentido. Freitas. "Os negros na história de Alagoas". p. .89 O novo chefe. B. 73-76. 88 D. diante da destruição dos mocambos e das tropas que continuavam nessa região. p. no entanto. 1914. O município e a cidade (notas históricas. e "mesmo os beneficiários do pacto desconfiavam instintivamente das intenções das autoridades coloniais e dos senhores de escravos". lamenta a falta de fontes sobre os "dramáticos sucessos ocorridos em Palmares" depois da assinatura do "pacto do Recife". 89 D. 124. teria se armado "a resistência". Viçosa de Alagoas. Palmares.92 Para isso contribuía o clima de insatisfação e insegurança entre os moradores da região. p.90 retomou Macaco e instalou uma ditadura91 para fazer frente às necessidades da guerra e agiu de modo a minar a autoridade de Gangazumba. ao negociar com negros fugitivos. Ed. principalmente devido à cláusula cruel que imolava ao cativeiro os nascidos fora de Palmares. Palmares. e não voltaram para a Serra da Barriga.123. Imprensa Industrial. Péret. Este autor. do mesmo autor. p. "que se arrimaria como o combatente mais indômito da liberdade de sua gente". 115. defendendo a tese de que os quilombolas. por sua vez. geographicas e archeologicas. 126. que considerou que a prática podia ser enganosa e colocar em risco a reputação das autoridades. p. "sobram indicações de que houve luta armada entre as duas facções" e muitos procuraram refúgio em outros mocambos. 188. pp. "O quilombo dos Palmares". é secundado por C. Freitas diz retomar a expressão "ditadura de salvação pública" . O governador tentou intervir a pedido de Gangazumba mas as incursões para capturar fugitivos continuaram. Freitas. Freitas. p. as roças eram destruídas e "a cláusula sobre a liberdade de comércio com os moradores estava reduzida a letra morta". Palmares. 92 A. 87 D. deslocaram-se para a Serra Dois Irmãos. Moura. anota que o "reinado"de Zumbi correspondeu a um "verdadeiro governo de 'salvação pública' antecipado. O quilombo dos Palmares. Recife." Por isso. Palmares. p. 93 D. 121. Brandão contesta essa possibilidade. e sob a liderança de Zumbi. pp.86 Décio Freitas.88 Segundo ele. Longe da autoridade de Gangazumba. Palmares. apenas um "reduzido número" de palmarinos seguiu Gangazumba. pois trata-se da realidade de vencer ou morrer". Sobre isso ver também. que contribuem para o seu resultado não tenha sido efetivo. Palmares. que convenceram Manuel Lopes a fazer rondas pelas matas.

o "juramento de vassalagem" foi logo esquecido por aqueles que haviam se estabelecido nas novas terras. ente Zumbi e Gangazona. Acordada pelo governador da capitania e em nome do príncipe regente. pp. E.96 Flávio Gomes. 119. Gomes (org. "Palmares como poderia ter sido" in: J. o exame mais detalhado das fontes cede lugar a inferências que operam no sentido de confirmar um sentido geral atribuído pelos autores à história de Palmares. Quilombos dos Palmares. 97 F. é um dos poucos que contesta essa imagem de Gangazumba. S. p. Cf. levando mantimentos e munições. Palmares. Liberdade por um Fio. 26-27 e 250-254.versus Zumbi. O próprio Carneiro contrasta os dois: enquanto um liderava a resistência.95 Richard Price. 134.208 Como se vê. 52-59.94 Como Gangazona foi enviado para intermediar e tentar com que Zumbi depusesse as armas. . J. Gomes. critica a "oposição Gangazumba . à oposição entre Gangazumba e Zumbi agrega-se agora uma outra. ao propor uma comparação detalhada entre as duas comunidades de fugitivos.como traidor da causa dos mocambos . Gomes. Gérard Police segue suas pegadas. pp. e entre eles e as autoridades coloniais seja investigada. 134-140. p. pp. o herói destemido".97 ao recomendar ser melhor tratar dos diversos motivos econômicos e geopolíticos para os quilombolas. O jogo de opostos serve como explicação. O quilombo dos Palmares. Reis e F. por sua vez. a liberdade dos quilombolas fora garantida por instâncias superiores aos 94 95 E. nem teria havido traição nem fraqueza. Palmares. outro várias vezes serviu de intermediário nas tentativas de negociação e colaborou com as forças oficiais. para os senhores locais e para as autoridades coloniais. Carneiro. sem que a natureza das relações entre os palmarinos. sem que se efetivasse a determinação de devolver os companheiros para o cativeiro. p. as comparações com acordos realizados no Suriname indicam que na maior parte das vezes os fugitivos continuavam escondidos das autoridades coloniais.98 Quais teriam sido esses motivos? A bibliografia informa que os moradores de Porto Calvo e Serinhaém estavam insatisfeitos. S. A negociação se fizera à revelia de vários interesses dos senhores da região. S. Começaram a fugir e a juntar-se às fileiras de Zumbi. Para ele. 120. Pouco se fala sobre os acontecimentos em Cucaú. serviam de espiões para ele e recrutavam escravos das vizinhanças para os Palmares. Carneiro. 96 Richard Price.). O quilombo dos Palmares. 98 F. como vimos. Segundo Edison Carneiro.

p. Freitas. 11. 100 . pp. M. da junta da capitania ou de consultas a letrados e pessoas experientes naquela guerra. A primeira reação foi reticente. Ao contrário. Pelo menos não de modo oficial. mostra. que arcavam com aqueles custos. Muitos reclamavam que as melhores terras haviam sido concedidas aos rebelados e que os soldados que patrulhavam a região também causavam prejuízo em suas plantações. 3. de Freitas.99 Afinal. Carta do governador Aires de Souza de Castro ao príncipe de 22 de junho de 1678. D. p. 257. sem ouvir as câmaras. que as câmaras haviam sido consultadas pelo menos por meio das instituições normais. Alves Filho. o ônus da continuidade da guerra e as esperanças frustradas com o fracasso da paz ajustada não deviam contribuir para um clima otimista na capitania. Memorial dos Palmares. A divergência de opiniões. Isso não significa que Lisboa tenha ficado indiferente ao que se passava em Pernambuco. 94.100 A documentação encontrada contudo não registra tais insatisfações. 92-95. Cf. Debates em Lisboa Aires de Souza de Castro atravessou quase o tempo todo de seu governo sem que Lisboa se pronunciasse especificamente sobre as medidas tomadas em relação aos negros dos Palmares. Não havia notícia do que pensavam os conselheiros do Ultramarino ou o príncipe sobre o ajuste de paz e sobre os acontecimentos posteriores. que exigiam mantimentos ou destruíam roças. e I. Reino negro de Palmares. AHU_ACL_CU_015. 101 A anotação não está datada. Memorial dos Palmares. a região era visitada por expedições em busca de fugitivos. Na margem da carta enviada por Aires de Souza de Castro em 22 de junho de 1678 o secretário do Conselho Ultramarino anotou: "que se espere por cartas do governador".209 interesses locais. feita em 9 de novembro de 1678. p. A concessão de terras na região da Serra da Barriga para os que haviam participado das forças repressivas não parece ter compensado os senhores e as câmaras locais. 1116. Nenhuma carta foi enviada a ele sobre esse assunto. Cx. 126 e I. Palmares. manda consultar o 99 M.101 Outra anotação. mesmo que o governador tenha tentado manter Lisboa informada sobre todos os acontecimentos. e continuavam a onerar os moradores e dificultar a vida econômica. ao contrário. D. Alves Filho. à margem da carta enviada em 22 de junho pelo provedor da Fazenda. Cf.

pois um "dano iminente pede remédio pronto". elas foram discutidas ao mesmo tempo. e que a promessa de devolução dos filhos e mulheres "que já estavam cativos em tão justa guerra" era "muito pródiga". Além do próprio parecer de 1680. 11. o "ajuste com os negros" se justificava. 104 No Arquivo Histórico Ultramarino. . pois os papéis foram misturados pelos arquivistas. como contribuía para favorecer aqueles que. Contudo. Havia anuência em relação ao ajuste feito. como aquele "gentio" era "acostumado a exercitar-se em roubos" e vivia na "liberdade. entendido como um modo para submeter os levantados. sem que seu número "aumenta[sse]" ou que "fabrica[sem] novas aldeias". AHU_ACL_CU_015. datado de 9 de dezembro do mesmo ano. Carta de João do Rego Barros de 22 de junho de 1678. de fato. Os governadores eram homens experimentados. AHU_ACL_CU_015.103 Resposta rápida. De qualquer modo. era prudente que ficassem "o mais longe que puder das nossas praças". Cx. 1118. O procurador considerou ainda a alforria concedida "àqueles que não podia sujeitar" como um "modo de os cativar". Esta não era a única opinião: conforme as cartas foram chegando. haviam agido bem ao batizá-los. as cartas enviadas de Pernambuco em 22 de junho de 1678 pelo governador e pelo provedor da Fazenda de Pernambuco. "por seus próprios nascimentos eram 102 Anotação à margem da carta de João de Rego Barros de 22 de junho de 1678. é francamente contrário ao que se passava em Pernambuco: pondera-se ali que aqueles negros não constituíam "nação política" com que se pudesse empenhar o nome do regente português e que eles. que analiso mais adiante. Seus termos porém implicavam riscos que deviam ser ponderados: os interesses dos proprietários dos escravos capturados tinham sido prejudicados e havia o perigo de crescer o número de aldeias dos negros.102 O procurador respondeu dois dias depois e ponderou que. Cf. tão apartados da lei de Deus". mas ambígua. D.104 Um rascunho de parecer. 11. 1118. Cx. AHU_ACL_CU_015. a controvérsia se cresceu. contudo. D. e aquela do provedor da Fazenda. as cartas de Aires de Souza de Castro de 19 de julho de 1678 e de 8 de agosto de 1679. 103 Parecer do Procurador da Coroa de 11 de outubro de 1678. 1118.210 procurador da Coroa. ainda que a guerra não tivesse sido ordenada pelo príncipe. já que não só acarretava prejuízo aos que haviam se tornado seus novos senhores. deviam ser castigados. D. 11. sem assinatura. É difícil saber detalhes sobre a seqüência dos debates. de 16 de agosto de 1679 fazem parte de três conjuntos documentais separados. na capa da primeira carta de Rego Barros há uma anotação feita pela Secretaria do Conselho que diz: "Dentro as cartas do governador Ayres de Souza de Castro que tratam dessa matéria". Cx. e cabia a eles considerar se aquela submissão não poderia ser uma forma de o "inimigo" refazer suas forças.

Sua avaliação tende a perceber os negros dos Palmares pela chave das relações com os indígenas. Quase chegou a uma conclusão: na margem da carta escrita por Aires de Souza de Castro há uma anotação. e aquela do provedor da Fazenda. O Procurador da Coroa havia sido cuidadoso: falara em escravos. As notícias vieram. As rasuras são de época mas deixam que se desconfie de seu conteúdo: "Ao conselho parece fazer presente a V. pareceres escritos e depois riscados: a discussão entre os Conselheiros do Ultramarino deve ter sido grande. AHU_ACL_CU_015. 1116. Tudo indica que o Conselho estava dividido. O pouco que se consegue ler indica sugerir ao príncipe a desaprovação das medidas tomadas por Aires de Souza de Castro.donde se seguia que "conceder[-lhes] a liberdade era um dano" aos direitos reais e àqueles dos moradores. O parecer se refere ao conteúdo de todas as cartas mencionadas..211 escravos" .. para os quais só havia a alternativa da apreensão e reescravização. D. que [. de haver espaço para uma negociação política . decidiram esperar que mais notícias chegassem de Pernambuco . Mas não se pode ter qualquer certeza sobre seu conteúdo. de um parecer do Conselho. se faz tudo presente a V.106 Opiniões contraditórias.embora também (até agora) eu não tenha encontrado nenhum pedido explícito a esse respeito. datada do início de dezembro. uma decisão final a ser encaminhada ao príncipe.] o governador de Pernambuco nesta sua carta vos desserviu [?] que tinham [tirou?] as nossas armas na guerra que se faz aos negros dos Palmares e estado em que hoje se acham e que acordando o governador daria gra[. D. Foi apenas em 26 de janeiro de 1680. mais de um ano depois dos primeiros debates e pareceres. mas também reconhece a possibilidade de serem levantados e. 11. 1116. Pelo jeito. com as cartas de Aires de Souza de Castro de 19 de julho de 1678 e de 8 de agosto de 1679.A.. mas também em cativos feitos em uma guerra que considerava justa. A. Para este último. de 16 de agosto de 1679." [seguem-se três rubricas]... 11.o que era negado pelo parecerista anônimo. AHU_ACL_CU_015. pelo que se pode deduzir... em inimigos e gentios. Mas não houve. que o Conselho conseguiu emitir uma opinião para ser enviada ao regente. portanto. Lisboa [. Cx. os palmarinos eram tomados taxativamente por escravos fugidos.105 A grande diferença entre as duas opiniões reside em considerar ou não todos os habitantes de Palmares como escravos fugitivos.] [6?] de novembro de 1678. . de junho de 105 106 Parecer anônimo de 9 de dezembro de 1678. examinadas há pouco nesse capítulo. para deixar de ter vigor. mas que foi logo em seguida rasurada.] de fara [?] obrada. Cx.

Cod. Rio de Janeiro. diante do assunto.109 Palmares não era de modo algum o único assunto que entretinha os conselheiros . 1969. 33. que o príncipe deveria agradecer a forma como o governador tem agido. o Conselho havia se pronunciado de forma vaga.107 Depois de tanto tempo e de tantos acontecimentos. O Conselho Ultramarino. Nem a distância entre Pernambuco e Lisboa nem o regime de comunicação baseado nas frotas podem explicar essa indecisão. nem sobre alguma comunicação enviada ao governador. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco. Esboço de sua história. 109 Essa mesma deliberação convencionou que o Conselho se reuniria às segundas. Marcelo Caetano. e aos sábados era a vez da Guiné. isso mesmo. Não há qualquer registro sobre a resolução tomada pela Coroa. a possibilidade de acertar as pazes com negros levantados dos mocambos não era novidade.108 Sim. a responsabilidade na condução dos eventos ficava delegada para a autoridade colonial. Há registros de notícias sobre o tema desde pelo menos o início dos anos 1640. p. Como vimos. A redação é confusa: um agradecimento pelo serviço prestado e uma recomendação que não deixa saber se a matéria ficava ao arbítrio do governador ou do próprio regente. as atividades do Conselho foi foram regulamentadas por uma deliberação em 1645. que reservou as reuniões das quintas e sextas para tratar dos negócios do Brasil. De qualquer modo. 108 Consulta do Conselho Ultramarino de 26 de janeiro de 1680. depois de tanto tempo e de tantas controvérsias. 265. no tempo em que ainda não existia o Conselho Ultramarino. 32. II. tratando da extinção daqueles negros por conservar em quietação os vassalos de [sua] alteza livrando-os das hostilidades e danos que padeciam nos assaltos que lhes davam".212 1678 a 8 de agosto de 1679. BNRJ-MS. Criado em 1642. fl. 26-27v. e também à cópia do papel mandado aos negros dos Palmares. tendo em vista "as disposições do governador Aires de Souza de Castro e aquele zelo com que sempre se empregou no serviço de [sua] alteza e o que tem obrado na guerra dos Palmares. o Conselho decidia. Sá Cavalcanti. Tudo indica que. terças e quartas-feiras para tratar dos negócios da Índia. . 4. 48. pelo governador e pelo provedor da Fazenda de Pernambuco. na prática.talvez nem mesmo fosse o mais 107 Parecer do Conselho Ultramarino de 26 de janeiro de 1680. Cod. Cabo Verde demais conquistas. "deixando a seu arbítrio esta matéria para que nela obre o que for mais conveniente ao bem comum daquela capitania e se consiga o sossego de todos aqueles moradores".

66 (1948): 57-59. ao determinar a forma pela qual eles deviam ser administrados pelos padres da Companhia de Jesus e pelas outras ordens religiosas. A posição foi derrotada em 1680. Entre 1671 e 1673. As opiniões eram divergentes. carmelitas e jesuítas responderam aos quesitos propostos pelo Conselho. vistas como meio de manter os índios sossegados e afirmar o domínio português sobre terras distantes do litoral. oferecendo opiniões sobre vários aspectos a respeito do modo como as aldeias deviam ser administradas. como deviam ser feitos os resgates e o modo da repartição do trabalho dos índios.213 importante. . estava a possibilidade de as aldeias serem governadas pelos próprios índios e serem atribuídas a uma ou várias ordens missionárias. determinou que todos deviam ser recolhidos em aldeias. assentadas em terras que lhes seriam concedidas. Mesmo assim. Nos anos 1670. O contexto era um pouco diferente. Em setembro de 1663 uma provisão régia havia regulado a liberdade dos índios do Maranhão. relativamente contemporâneos.110 A ordem não havia entretanto resolvido os conflitos entre as ordens religiosas e. ABN. estes debates sobre os índios do Maranhão ecoam outros. 110 111 Provisão de 12 de setembro de 1663. o delicado problema da liberdade dos índios e das missões também freqüentava as reuniões do Conselho. pois os ataques dos tapuias às fazendas do Recôncavo baiano eram constantes e as expedições militares contra eles também. relacionados com a criação de missões no sertão do rio São Francisco. ABN. em pareceres escritos em 1675 e 1679. 112 Lei de 1º de abril de 1680. franciscanos. ex-governadores. caps. mais uma vez. mas franciscanos e mercedários defendiam que os capitães designados para governar as aldeias apenas queriam enriquecer rapidamente e que o melhor modo de catequizar os índios e mantê-los próximos dos brancos era deixar que governassem suas próprias aldeias. mercedários. com vários itens. Ao mesmo tempo. os conselheiros haviam elaborado uma espécie de questionário. Kiemen.111 Entre as questões discutidas. 66 (1948): 29-31. livres de tributos. quando a Coroa decidiu proibir todos os resgates e declarar.112 De certo modo. The Indian policy of Portugal in the Amazon region. A análise mais detalhada destes debates continua sendo a realizada por Mathias C. e governadas exclusivamente pelos jesuítas. ser contra toda e qualquer forma de escravização dos índios. 5 e 6. para melhor encaminhar os debates que sempre retornavam.

aos moradores e colonos. este era o meio mais eficaz para estender o domínio e estabelecer a "vassalagem (. sem qualquer comentário. 89-122. No contexto em que ainda se debatia a possibilidade de auto-governo dos índios do Maranhão . isto é. A expressão é frequentemente empregada para designar os serviços prestados pelos índios aldeados (e sob tutela dos missionários) aos particulares.113 Como se vê. 115 Consulta do Conselho Ultramarino de 8 de agosto de 1680. 114 O termo aparece explicitamente no acordo de 1678. São Paulo.) pela terra adentro". vide A guerra dos bárbaros. pp. o Conselho mais uma vez se calou. Cod.a criação de um reduto de negros livres.posição derrotada em 1680 . O desdobramento dos acontecimentos em Pernambuco tornou evidente o fracasso da iniciativa. segundo ele. 29v. Hucitec/Edusp. 1650-1720.do mesmo modo que aconteceram com Aires de Souza de Castro. O reconhecimento da liberdade para os nascidos em Palmares e a concessão das terras em Cucaú eram temas que se entrelaçavam a uma política mais larga de domínio sobre a população do sertão na América portuguesa. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco.. Citado por Pedro Puntoni.214 Salvador Correia de Sá defendeu uma proposta dos padres capuchos que queriam estabelecer missões entre "o gentio que não quiser voluntário vir para o mar". fl.114 ali permaneceriam com suas famílias. Povos indígenas e a colonização do sertão nordeste do Brasil. Para uma análise das guerras contra os tapuias no Recôncavo e no sertão do São Francisco. Podia. nos anos 1650-1670. havia em Lisboa um campo de debates que pode explicar o fato de Gangazumba e sua gente terem sido compreendidos pelas autoridades metropolitanas do mesmo modo que os índios que desciam para as aldeias no Maranhão ou do sertão do São Francisco . isentos da obrigação de qualquer "trabalho particular". e encaminhou as notícias ao príncipe.. os antigos levantados teriam proteção real e. ca. 1675. mas não era deu certo. sob a proteção real. . 72. que comunicava a continuidade da guerra e os problemas que começavam a existir em Cucaú. Mais de seis meses depois. como vassalos da Coroa. 2002. 265. Conselho Ultramarino. Assentados em uma aldeia em Cucaú. podia representar a melhor forma de reduzir aqueles levantados e por fim às longas guerras que causavam tantas despesas e dissensos entre os moradores e as autoridades coloniais. A guerra dos bárbaros. vivendo e morrendo "pela fé de Cristo". quando teve que analisar a carta enviada pelo governador em 22 de abril de 1680.115 Os próprios acontecimentos talvez se encarregassem de resolver o 113 Voto de Salvador Correia de Sá sobre a missionação e o povoamento do sertão. p.

Relationes Diœcesium [Congr. para cobrir os gastos havidos naquela empresa. eles acabaram por gerar novos problemas. com toda a pompa de um documento legal. Arquivo Secreto do Vaticano. Concilio. Agradeço muito a Bruno Feitler a oferta da transcrição desse documento. 120. O principal indício dessa intensidade é o fato de que o príncipe finalmente tenha se pronunciado. por exemplo. 12. Relat.117 há outras fontes que indicam que as discussões em Lisboa foram intensas. Tais medidas visavam não só 116 117 D.e não apenas de julgar as atitudes dos governadores e dos moradores de Pernambuco em relação a eles. Freitas. Palmares. a continuidade da campanha armada contra os rebeldes de Palmares e determinou que os moradores de Pernambuco abrissem mão "do direito que p[udessem] ter ao domínio" daqueles negros para que os capturados pudessem ser distribuídos aos soldados.116 Embora até agora não tenha localizado esse documento. que impugnava a escravização das crianças e dos que não haviam participado da revolta. Desta feita. Diœc. o que esquentou a discussão foi a re-escravização dos habitantes de Cucaú. de definir questões relativas à liberdade e ao cativeiro dos negros dos Palmares . Cf. Talvez porque se tratasse. Cx. e em quais as instâncias deliberativas eles ocorreram. 118 É bastante provável que o alvará tenha sido decidido pelo príncipe a partir de parecer emitido pelo bispo secretário de Estado. agora. em 10 de março de 1682. Cf. O tema não era indiferente ao bispo. Décio Freitas menciona uma carta do bispo do Recife ao Conselho Ultramarino. contudo. AHU_ACL_CU_015. o príncipe português promulgou medidas destinadas a terminar de vez com os "danos que pertencem ao sossego público" e solucionar as questões legais criadas pela re-escravização daqueles que haviam se rebelado depois de ajustada a paz. Decreto de 13 de agosto de 1681. Os senhores que mostrassem "alguma repugnância" em se desfazer de seus cativos deveriam pagar 12 mil réis por escravo apreendido. em primeiro lugar. vulgo Palmares". nesse caso. Há pouquíssimas informações sobre os debates que levaram à redação desse texto. ao invés de uma determinação comum. D. comunicada por meio de uma carta régia. p. De qualquer modo. por volta de agosto de 1681. Ordenou.] 596 (Olinden). Em carta dirigida ao papa em 6 de agosto de 1680 dom Estevão Brioso mencionou a presença dos oratorianos na "colônia de etíopes. 1203. por meio de um alvará. situada perto de Serinhaém. ele optou pela via de um documento legal de maior envergadura.118 É difícil saber por que. E novos e acirrados debates. .215 impasse entre as diversas opiniões. Congregazione del Concilio.

2000 (CD-Rom). O alvará determinava ainda que seriam perdoados os que tivessem cometido algum crime antes da fuga. Reafirmou a liberdade para os nascidos em Palmares. livres ou escravos. mas exigiu várias explicações e adendos e. se se apresentassem voluntariamente. interpretou-o de forma restritiva. Madrid. O "indulto" concedido pelo governador. Por fim. Os culpados seriam condenados à morte. mas também levavam em conta os interesses senhoriais. Entretanto. lhe serviu de continuação. suas mulheres e filhos e descendentes" que haviam buscado a "obediência" real. Para que tudo fosse averiguado. Em seguida. Nuevas Aportaciones a la Historia Jurídica de Iberoamérica. mas registrou o ato como um simples 119 Alvará de 10 de março de 1682. podia continuar no Estado do Brasil (à exceção dos menores de 7 anos e dos que haviam respeitado o acordo de 1678). nenhum deles. "Legislação sobre Escravos Africanos na América Portuguesa in José Andrés-Gallego (coord). tocava na questão central. continuariam livres. os cativos presos que tornassem a fugir seriam "lançados na galé".119 Como se pode observar. sobretudo. sem onerar os cofres públicos.). ficava mantido.216 incentivar os soldados a manter a guerra. os que antes eram escravos continuavam escravos. que libertara os "negros e mulatos. o texto passava a regular tanto "a liberdade. e eles haviam perdido o direito ao benefício. tal como concedida pelo governador de Pernambuco. de certo modo. entretanto. tinha que lidar com a espinhosa questão da liberdade concedida aos nascidos nos Palmares . Ao mesmo tempo. Fundación Histórica Tavera/Digibis/Fundación Hernando de Larramendi. Silvia Hunold Lara (org. e suas cabeças levantadas em "postes altos e públicos" no lugar do delito para que o tempo as consumisse. A fórmula parecia ser simples. assim como seus descendentes. o príncipe regente ordenava a abertura de uma "devassa do crime de traição" cometido pelos negros de Palmares depois de terem acordado a paz com o governador de Pernambuco. como o cativeiro dos tais negros": os que eram livres antes de ir para os Palmares. porém. o alvará de 1682 reiterou os termos do acordo de 1678 e. não era reconhecida para aqueles que haviam incorrido em "traição": ela os levara de volta "ao antigo estado". .que já havia aparecido anteriormente no Conselho Ultramarino. abrindo-se um prazo de cinco anos para as demandas judiciais a respeito. Esta liberdade. procurando equilibrar os dissensos entre os que estavam do mesmo lado na contenda.

BA.120 Não se tem notícia de qualquer lei que impeça cristãos de serem cativos. D. com os temas e os termos do debate sobre o cativeiro e a liberdades dos índios do Maranhão. Palmares. Como reconhecia a liberdade para os que haviam buscado a "obediência" real. o alvará não foi capaz de extinguir os debates em Lisboa. nenhuma palavra do longo alvará se refere explicitamente a Cucaú. os nomes palmarinos estão completamente ausentes do texto do alvará. "todos estes negros aldeados [eram] livres e que não podiam ser cativos". Freitas. deputado na Junta dos Três Poderes e conselheiro do príncipe regente. e dada esta liberdade e feitos cristãos. mais uma vez. não se podiam cativar. Apesar de reiterar os termos do ajuste de 1678. Não fica claro se o tal crime se refere à conjuração mencionada por Aires de Souza de Castro. fazendo-se cristãos e assistindo com eles ministros que os instruíam. tivesse sido ela obtida ou concedida a qualquer título. em nome do príncipe português. o alvará reequacionava os termos do debate e anunciava a decisão por meio de um documento assinado pelo próprio príncipe. Códice 50-V-39. Para ele. nos negros dos Palmares. o jesuíta Manuel Fernandes. Talvez tivesse continuado . doc. batizavam e o bispo de Pernambuco crismou a muitos. De qualquer modo. vol. que fala apenas. pp.não há entretanto registro disso nas fontes. 397-397v. mas o coloca como parte dos debates que antecedem a promulgação do alvará de 1682. Por outro lado. Mesmo assim. 120-129. lhes dera a liberdade e eles "nela estiveram e viveram algum tempo. n. escreveu um parecer que retomou o tema. Cf. Movimento do Orbe Lusitano. à morte de Gangazumba ou à fuga para juntar-se a Zumbi. . O texto dedica atenção ainda àqueles que haviam incorrido em "traição". Separando os "aldeados" dos que eram "dos Palmares". tudo indica que em Lisboa se imaginava que Cucaú continuava a existir. porque é contra as leis daquele Estado". 153. Em 1683. Décio Freitas é o único a mencionar este parecer. genericamente. Aires de Souza de Castro. Manuel Fernandes contestava o argumento do governador que justificava a reescravização dos aprisionados pelo fato de a liberdade ter 120 Parecer de Manoel Fernandes de 8 de janeiro de 1683. fls. mas a confusão pode ter sido causada pela proximidade. a questão havia sido repassada para a Justiça e os que haviam incorrido no crime perderiam a liberdade. Os que haviam desrespeitado a concessão real passavam a ser considerados traidores e deviam ser condenados à morte. 5. Aliás.217 "indulto".

Ao se referir explicitamente ao "papel em que a estes homens se prometeu e deu liberdade" e transcrever algumas de suas passagens. que ou pela idade. de acordo com o que informava o bispo de Pernambuco. "não impugnou mais que o cativeiro dos menores e inocentes. Parecer de Roque Monteiro Paim de 19 de janeiro de 1683. A frase faz pensar que o governador tenha tido o cuidado de separar as crianças dos adultos ao distribuir os prisioneiros de Cucaú.apresentada como a principal justificativa para a reescravização dos habitantes de Cucaú . fl.eram "extrajudiciais". ibidem. Outro importante conselheiro do regente. mais uma vez é a da aldeia indígena. portanto. que em todos foi uniforme" e.122 121 122 Idem. Para ele. 398. n. Fernandes termina sua argumentação observando que todas as informações colhidas sobre o provável crime de traição . o jesuíta tocava no ponto fundamental da legitimidade da liberdade concedida àqueles homens e mulheres. Movimento do Orbe Lusitano. 5. BA. Códice 50-V-39. A chave interpretativa. doc. ou pelas ações não houveram culpa".218 sido dada com a condição de permanecerem obedientes ao rei. Como a matéria era grave.mas não há fontes que permitam comprovar essa informação. . exigia procedimentos formais mais claros e jurídicos. o parecerista tentou mostrar a inexistência de cláusulas condicionais e defender que os aldeados tinham "pouco comércio com os dos Palmares e seus aliados": não mereciam. vol. Roque Paim considerou que o alvará de 1682 encaminhava bem a questão. os negros de Cucaú não podiam ser escravizados. e se posicionava de modo claro ao indicar que a solução do dilema era essencialmente jurídica.121 Como se vê. o governador havia consultado "todas aquelas pessoas que o podiam aconselhar e seguiu o parecer. 154. Como os índios aldeados.mas foi favorável à decisão tomada por Aires de Souza de Castro. seguindo o costume já observado em outras ocasiões . ao reconhecer a liberdade concedida anteriormente e ao remeter para a justiça a decisão sobre os negros que tivessem "a culpa de rebelião". qualquer castigo. aqui. Roque Monteiro Paim também se pronunciou sobre os acontecimentos .

219 O final do parecer de Roque Paim é revelador. 125 I. 5. As juntas das missões. Movimento do Orbe Lusitano. Códice 50-V-39. aos quais forneceu armas. agora. p. 100. "Segundo Livro . Ele alegou ser "preciso continuar a guerra aos negros levantados dos Palmares (. doc. doc.) com causa mais justificada pelos grandes danos que têm feito aos moradores das capitanias (. mais de um ano depois. n. 3ª-I-1-31. não foi possível localizar qualquer traço dos que estiveram em Cucaú. Ele indica que a discussão sobre o tema devia seguir na Junta das Missões e que "todos devem ver estes papéis". 33. 2002. Porto. Os efeitos do alvará de 1682 foram poucos. A tal devassa nunca chegou a ser realizada e a correspondência oficial revela muitas dificuldades para a designação dos juízes. vol. 100.) vizinhas". 8 e 16 de outubro de 1680. AUC. Guerra e paz O final do governo de Aires de Souza de Castro foi gasto com providências para as guerras contra Palmares. fl. 124 Cf. 154.dos índios no Brasil e. a comissão encarregada do assunto ainda não conseguia apresentar nenhum resultado prático. AUC. 363v... CCA. IV.. Tantos debates. BA. doc. Universidade do Porto. 127 123 Parecer de Roque Monteiro Paim de 19 de janeiro de 1683. 342v-343. e fl. também dos negros. A documentação subseqüente revela apenas que o alvará de 1682 serviu para justificar novas operações militares.. e convocou todos os oficiais e soldados das companhias que haviam sido mandadas para Buenos Aires para fazer nova entradas contra os mocambos. 127 Ver ordens de 7. mas nenhuma ação efetiva. 363. em 21 de janeiro de 1682. fl. 126 Ordem de 12 de agosto de 1686. Doutorado. bem como o Termo de Vereação de 19 de dezembro de 1680.124 Ou seja: o debate deveria se deslocar do Conselho Ultramarino para um órgão que estava acostumado a lidar com o difícil tema da liberdade . CCA.125 Até agora. 3ª-I-1-31. 101. dom João de Souza. Márcia E. Souza e Mello. fl. Pela propagação da fé e conservação das conquistas portuguesas.123 Ele provavelmente se refere aqui à Junta Geral das Missões. que fora criada em 1655 e tinha por atribuição abrigar as questões referentes às missões ultramarinas atendendo às demandas dos missionários. 363. 4. séculos XVII-XVIII. 102.126 Cuidou de arranjar munição e mantimentos e de reforçar a tropa com o terço dos índios do Camarão. A. doc. 398. doc. Os preparativos para as novas expedições começaram com a posse do novo governador. Alves Filho. IV. Memorial dos Palmares. fl.

de modo a destroncar os braços. com pesos amarrados nos pés. 3ª-I-1-31. cod. Para incentivar as tropas. IV. 34. sob penas de ser tratiado na polés128. Pareceres do Conselho Ultramarino de 19 de agosto de 1681 e 2 e 13 de dezembro de 1681. AHC. Cx. 367v. e Ordem de 2 de maio de 1681. 111. e AHU_ACL_CU_015. 131 Cf.220 O tom mudou completamente. como no caso da forca). doc. IV. 365. 3ª-I-1-31. CCA. 12. verbete polé. fl. desde que não tivesse cometido um crime de morte. O edital que mandou publicar era duro. RIAGA (1875): 186-187. 343-343v. como parte do quinto. CCA. Vocabulário. Os "negros dos moradores que tive[ss]em fugido para o sertão e por medo e temor da guerra se recolhe[ss]em outra vez à casa de seus senhores" deviam ser remetidos para o Recife para serem expulsos da capitania . 32. Cf. fl. 3ª-I-1-31. AUC. 1209 e AHC. por considerá-los "uma canalha vil e rebelde [que] de pouco tempo a essa parte se resolvera a fazer alguns excessos dignos do maior castigo". fl. elogiou o antecessor: "Muito é o que Aires de Souza de Castro obrou nas disposições e eficácia em prejuízo dos negros dos Palmares e utilidade de todas estas capitanias. fl.alguns foram remetidos para o Reino. 120. 130 Cf. ao escrever para Lisboa dando conta das primeiras notícias de seu governo. ser suspenso na polé (roldana fixada em uma armação de madeira. Nem sombra da autoridade afável que seguia os rituais do Antigo Regime ao tratar com Gangazumba e Gangazona ou explicava os motivos de suas determinações às oficiais coloniais. reduzindo-os de poderosos em que os achou a diferente estado em que hoje se vêm. cod. IV.131 O novo governador. "como [fosse] mais conveniente ". dom João de Souza. Mandava que todas as tropas da capitania fizessem arraiais "donde mais convier" e que nenhum soldado poderia "dar quartel a nenhum negro de armas". doc. fl. Bluteau. AUC. destituídos das maiores cabeças que os capitaneavam. Ordem de 20 de dezembro de 1680. já que houve negros presos . .tomou entretanto o cuidado de determinar que uma indenização fosse paga aos respectivos proprietários.129 As medidas deram certo resultado. o governador queria agora acabar de vez com "os negros dos Palmares". D. 128 Ou seja. AUC. 265. 129 Edital de 16 de agosto de 1681. por morrerem na última guerra que o ano passado [em 1681] lhe mandou de Vereações da Câmara de Alagoas". determinou que "todas as bagagens de crias e negros que se tomarem da dita guerra ser[iam] livres para se repartirem por todos os que forem e ela" e que os criminosos que participassem da guerra seriam perdoados de suas culpas. Qualquer pessoa que ocultasse algum daqueles negros seria castigada. e depois ser solto subitamente. doc.130 outros faleceram na prisão. 33. 265. CCA.

e recomendou que. Enquanto isso. . fl.Brasil. IV. CCA. o governador relatou o fracasso das negociações e tomou providências para que se fizesse uma "cruel guerra" para dar continuidade à "redução dos negros fugidos dos Palmares". declararam-se impedidos. porque só fez interesse da desestimação dela". Assim se expressava dom João de Souza: "o negro Zumbi.133 O governador do Estado do Brasil foi acusado de não cumprir as ordens régias e as nomeações foram reiteradas por Lisboa.221 fazer não sem muito dispêndio da sua própria fazenda.. várias outras foram e voltaram sem que se conseguisse dar início à devassa ordenada pelo alvará de 10 de março de 1682. nomeados de início. Os desembargadores da Bahia Francisco da Silva Souto Maior e Antonio Rodrigues Banha.135 mas a medida não parece ter surtido qualquer efeito.) maliciosamente um tratado e ajustamento de paz e. pois ele escreveu ao capitão mor João da Fonseca dizendo que o ajuste. assegurava poder fazê-lo no prazo de 20 dias. o novo governador tentou ainda uma vez negociar com Zumbi. AUC. 32. D. que simplesmente remeteu-a ao príncipe. 33. se Zumbi concordasse em ir ao Recife. DH. poucas novidades. BN. Em uma carta dirigida às câmaras de Serinhaém. 3ª-I-1-31. gerou medidas severas contras Palmares. Cf. Cx. Porto Calvo. DH. n. 4. 136 Carta do governado de Pernambuco ao capitão mor João da Fonseca de 23 de maio de 1682. não obstante a 132 Carta do governador de Pernambuco ao príncipe de 26 de maio de 1682. ao ser frustrada.. 12. Cod. 88 (1950): 229-235 135 Decreto de 4 de março de 1683. as tratativas pareciam caminhar bem. voltaria a fazer contra ele e todos os seus uma guerra sem quartel. 4114). "sem que lhe result[asse] o menor prejuízo de o fazer". 33 . moveu (. 49. doc.Assuntos do Brasil. A carta foi lida pelo Conselho Ultramarino em 29 de agosto do mesmo ano.132 No mais. Alagoas e Rio de São Francisco. 133 Carta de Bernardo Vieira Ravasco a João da Costa Andrade de 7 de julho de 1682. João do Couto de Andrada.136 A tentativa. Depois dessa carta. Por volta de maio de 1682. Manuscritos da Livraria . cabeça de todos os mais rebelados. 1226. 384. sem que se chagasse a uma solução. quase um ano depois. decretos 1663-1702 (microf. 32 (1936): 202 134 Consulta do Conselho Ultramarino de 12 de novembro de 1682. o substituto. AHU_ACL_CU_015. por ser "negócio de tanta consideração" deveria ser feito em sua presença. E avisava: "se não [se] acomod[assem] a estar sujeitos debaixo da jurisdição desse governo".134 O príncipe chegou a mandar que o Conselho Ultramarino fizesse um regimento com os procedimentos a serem adotados na devassa. também acabou sem embarcar para Pernambuco. ANTT. II.

CCA.222 experiência dos exemplos passados e a pouca confiança que se deve ter da palavra de semelhantes homens. doc. Ordem aos oficiais da câmara de Olinda de 16 de setembro de 1683. entrega dos cativos que haviam de fazer tempo determinado para a conclusão de tudo. Carta de 6 de julho de 1683. Alagoas e Rio de São Francisco de 1º de julho de 1683. IV. levando dom João de Souza a preparar uma nova guerra. preparando-se com toda a sagacidade para resistirem à guerra que certamente se lhe há de fazer.de quase um ano . CCA. AUC. 3ª-I-1-31. AUC. 138 Ordem de 1 de julho d 1683. 374v. 386v-387. esperando na bondade de Deus há de permitir se acabe no tempo do meu governo tão grande a opressão". fl. doc. Os termos do acordo eram semelhantes aos ajustados com Gangazumba quatro anos antes. pois o governador recomendou a todos. agora. fl.pode indicar ter havido um momento em que as negociações devem ter parecido promissoras. 3ª-I-1-31. Tudo indica que o fracasso de Cucaú e das tentativas posteriores haviam calado fundo nas autoridades coloniais. 74. doc. doc. AUC. fl. doc. por malícia de Zumbi ou não. 60. 3ª-I-1-31. CCA.138 137 Carta do governador de Pernambuco para as câmaras de Serinhaém. apenas a guerra conseguiria castigar a "insolente e escandalosa culpa" daqueles negros. 14. Ordem para o provedor da Fazenda Real de 8 de novembro de 1683. na consideração que os negros lhas propusessem. 387v. Contudo. fl. Para o governador. a que o dito Zumbi e seus sequazes têm faltado. Porto Calvo. IV. O recurso da negociação parece ter se esgotado. Parra assegurar que a guerra fosse retomada. IV. me pareceu ouvi-lo pelo capitão mor dessa vila [do Recife] João da Fonseca para maior justificação do ânimo e desejo de evitar dispêndios que semelhante guerra repetidamente costuma causar aos moradores deste Pernambuco e com efeito se ajustou a sujeição dos ditos negros. IV.137 O tempo decorrido entre os dois documentos . IV. O capítulo 15 de seu regimento determinava expressamente que "não atendesse em nenhum caso a aquelas pazes. foram tomadas as providências de sempre. sítio em que haviam de habitar. CCA. fl. 390-390v. 387v-388. mostrando em todas as suas ações um malévolo e pernicioso ânimo. o ajuste fracassou. 62. antes procurasse com o maior esforço possível oprimir e castigar a tirania inveterada de bárbaros tão prejudicialíssimos". AUC. . 3ª-I-1-31. dessa vez. Fernão Carrilho havia sido nomeado para uma das companhias pagas de Pernambuco em 17 de novembro de 1681 e foi encarregado de comandar a nova expedição. 3ª-I-1-31. que de modo algum "se lhes admitisse proposição de pazes que oferecessem. por a experiência ter mostrado em muitas ocasiões a falsidade do ânimo com que intentam semelhantes partidos". AUC. homens e mantimentos. com ordens para as câmaras contribuírem com armas. 63. CCA.

393-393v. 87 e fl. também para prender os negros levantados dos Palmares. concedendo-lhe o privilégio de ficar com todos os prisioneiros que não tivessem senhor.144 Em Lisboa. CCA. Zenóbio Acioli de Vasconcelos foi encarregado de dar continuidade à guerra contra Palmares. 142 Carta do governador de Pernambuco ao príncipe de 10 de agosto de 1684. e não há dados para esclarecê-la. 3ª-I-1-31. Em 1685. CCA. as medidas invadiam o sagrado domínio senhorial . Em seguida 139 140 Ordem de 22 de novembro de 1683. 378v-379. 23.139 Em fevereiro de 1684 concedeu a Manuel Albuquerque a autorização para fazer uma entrada na região de Serinhaém. doc. 375v-376. doc. 3ª-I-1-31. resolveu por conta própria fazer as pazes com o novo chefe dos mocambos. AUC.223 Alguns documentos expedidos nesse contexto indicam que a guerra pretendida pelo governador era generalizada. 141 Ordem de 17 de abril de 1684. 13. 18. 144 Ordem de 4 de novembro de 1684. doc. 393. mesmo antes de entrar em combate. 3ª-I-1-31. Cx.143 Para substituí-lo. fl. doc. para remediar um grave mal.o que sugere terem sido providências extremas. 265. 31.140 Como Cucaú ficava no distrito de Serinhaém. já que o rei chegou a redigir uma carta régia ao "capitão Zumbi dos Palmares". AUC. . Segundo relatou dom João de Souza a Lisboa. 17. CCA. fl. AUC. Em 17 de abril de 1684. deve ter havido certa concordância para que a paz fosse mais uma vez tentada. IV. 1298. e Parecer do Conselho Ultramarino de 29 de novembro de 1684. 3ª-I-1-31. CCA. para prendê-los. pois em novembro de 1683 autorizou o capitão do campo de Olinda a entrar nas casas e fazendas em busca dos "escravos fugidos e levantados para os prender". como queria o governador. ofereceu-lhe o perdão "de todos os excessos" que havia praticado dizendo entender que a sua "rebeldia" fora motivada pelas "maldades praticadas por alguns maus senhores em desobediência às minhas reais ordens". fl. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco. IV. Cod. Nem todos entretanto estavam de acordo com a necessidade de uma perseguição sem quartel. A frase é enigmática. mais uma vez. julgamento e pena de degredo para a capitania do Ceará. Por meio dela. 377. doc.142 A violação da cláusula lhe valeu a prisão. IV. foi a vez de Brás de Araújo ser autorizado a buscar negros levantados "em mocambos. 88. fl. 143 Ordens de 24 de julho de 1684. creio se tratar de agir também contra os que tinham ficado por ali. ao ser nomeado o novo governador para a capitania. IV. AHU_ACL_CU_015. doc. AUC. IV. D. 375-375v. 37v. 3ª-I-1-31. Concessão de 14 de fevereiro de 1684. AUC. CCA. fl. Fernão Carrilho. a avaliação parece ter sido diferente das autoridades em Pernambuco.141 Como no final do governo de Aires de Souza de Castro. fl. ou casas e fazendas".

AUC. não consegui localizar o original desse documento. D. como observa Décio Freitas. 1329. Em carta de agosto de 1685. foi desfavorável a qualquer ajuste de paz: para os conselheiros. um período de troca de governo e os impasses entre as negociações e os avanços militares se repetiam. explicou que diante das queixas em contrário das câmaras. IV. como fiéis e leais súditos. 147 Carta do governador João da Cunha Soto-Maior ao rei de 8 de agosto de 1685. República dos Palmares. filhos e capitães. Infelizmente. havia conseguido novos meios para retomar as investidas militares contra Palmares. p. 183. e que advertia contra a "cavilação" com que eles simulavam "contemporizar com o novo governador que chega" ou agiam diante da ameaça de uma guerra. "livres de qualquer cativeiro e sujeição". 7. João da Cunha Souto Maior observou ter dificuldades em manter a guerra e ponderou que. D. Freitas. dom João de Souza. seria forçado a aceitá-la. não se sabe se chegou a ser ou não entregue ao chefe negro. Cx. D. que era contrário a qualquer acerto com os negros. AHU_ACL_CU_015. D. D.224 o rei "convida[va]" Zumbi a escolher um local para residir com sua mulher.150 A decisão final apoiavase num longo parecer do ex-governador de Pernambuco. não só a experiência mostrava "que esta prática é um meio engano".146 Os termos lembravam de perto as bases do acerto com Gangazumba. 148 Carta de João da Cunha Soto-Maior ao rei de 7 de novembro de 1685. Cx.145 O documento deve ter sido levado pelo novo governador e. se Palmares lhe oferecesse a paz. de novo. 13. AHU_ACL_CU_015. 13. 3ª-I-1-31. 1345. 150 Parecer do Conselho Ultramarino de 7 de fevereiro de 1686. sob a proteção real. 13. anos antes. Cx. 149 Ordem de 6 de setembro de 1685. ao examinar sua carta de agosto. . AHU_ACL_CU_015.149 O Conselho Ultramarino. AHU_ACL_CU_015.151 Aires de Souza de Castro também participou dos debates e 145 Carta do Rei a Zumbi de 26 de fevereiro de 1685. p. em nova carta ao rei. ao relatar a Lisboa suas impressões iniciais sobre o estado em que se encontrava a capitania de Pernambuco que acabara de assumir.147 Em novembro. CCA. Cx. doc. Freitas. República dos Palmares. como também resultava na diminuição da "reputação" das autoridades que tratavam com "uns pretos fugidos e cativos". 146 D. 1329. 13. fl. Este era.148 A documentação da secretaria de governo registra que ele tirou Fernão Carrilho da prisão e o encarregou de comandar novas expedições contra Palmares em setembro de 1685. 402-403. 151 Parecer de dom João de Souza de 2 de Dezembro de 1685. 1329. 183.

fl. no sertão do Açu. não o atendera. o ajuste com ele começou a ser negociado em 1687 e foi aditado em 1691. Como o pedido não combinava com as ordens que havia recebido. 1345. AHU_ACL_CU_015. AHU_ACL_CU_015. 1383. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco. 154 Carta de João da Cunha Soto-Maior ao rei de 7 de novembro de 1685. os conselheiros do Ultramarino não fizeram maiores comentários. além da contratação de Carrilho. D.152 Foi voto vencido. Souto Maior contou ter encontrado em Pernambuco "uma carta de uns paulistas que andam nos sertões. AHU_ACL_CU_015.225 defendeu entretanto uma negociação firme. 265.155 Em agosto de 1686. 41v e segs. D. 13. Paraíba e Rio Grande do Norte . 156 Carta do governador de Pernambuco ao rei de 2 de agosto de 1686. 265. matara muita gente e destruíra casas e mantimentos. Como se sabe. 155 Consulta do Conselho Ultramarino de 27 de abril de 1686. o governador escreveu mais uma vez para Lisboa. AHU_ACL_CU_Consultas de Pernambuco. Cx. motivo pelo qual "já mortos de fome [vieram] alguns pedir misericórdia e buscar perdão aos seus absurdos". apenas lembraram o rei que. considerava serem aqueles homens "os verdadeiros sertanejos" e. porém. como "se acha[vam] com quatrocentos homens de armas. Cod. Itamaracá. 44v. 156 Apesar de tão boas notícias. para contar que Fernão Carrilho atacara os Palmares. Na carta de novembro. até a contratação Domingos Jorge Velho. 1329.que terminaram com a assinatura de um tratado de paz 152 Parecer de Aires de Souza de Castro de 14 de novembro de 1685. 13. . com prazos certos para não haver protelações. fl. D. os roguei para esta conquista dos Palmares mandando-lhe patentes de conquistadores deles". Cx. ele deu cabo das guerras contra os índios Junduí. já haviam recomendado que ele mandasse continuar a guerra contra os Palmares. 14. 153 A consulta final enviada ao rei data de 1 de fevereiro de 1686. Cx. em que lhe pediam umas patentes de capitão mor e capitães para conquistarem aqueles gentios". que aos poucos foram envolvendo os paulistas. em fevereiro. Cod.153 O partido da guerra parecia predominar agora também em Lisboa.154 Ao examinar essa proposta. Antes de ele seguir para Palmares. interior das capitanias de Pernambuco. a documentação administrativa da secretaria de governo da capitania continua a tratar das operações de guerra. diante da situação. no entanto. escrita a meu antecessor dom João de Souza. além de julgar "muito acertado" que os negros quisessem "descer para baixo [sic] e estarem sujeitos às ordens daquele governo [de Pernambuco]".

pp. fls 109-109v. 75-79. A guerra dos bárbaros. Imprensa Nacional.) desse governo". Macmillan. que continuou até 1713. vivendo naqueles sítios como os outros índios e gentios livres e que então os padres fossem seus párocos e os doutrinassem como os demais". . Lisboa. contrária qualquer acordo de paz. Para uma análise desta consulta vide Ronaldo Vainfas. Liberdade por um Fio. João Lúcio de Azevedo (coord. 639. Londres. The conquest of the Brazilian Indians. alternavam-se os partidários da guerra ou da paz. mesmo se fosse um dos "padres naturais de Angola".159 Como se vê. sem se restituírem ao serviço e obediência de seus senhores.157-160." Por fim. 343. espontânea. o que de nenhum modo hão de fazer. Cartas. 1970. pp. que pretendia "reduzir [os habitantes de Palmares] a viverem na sujeição da igreja e das leis (.. já que em 1691. vol. Em primeiro lugar. liberal e segura liberdade. 3. achando que ele deve ser entendido mais como uma capitulação de obediência. Reis e F. o padre Antonio Vieira foi consultado sobre a sugestão de um religioso italiano de "ir aos Palmares". Gomes (orgs. cod. 361 e Pedro Puntoni. merece uma análise mais cuidadosa. ele considerou que qualquer emissário. A documentação administrativa não dá mais notícias de qualquer tentativa de ajustar as pazes com Zumbi ou qualquer potentado palmarino. nunca deixariam de receber os "de sua nação que para eles fugi[ssem]. fiel ao programa 157 Sobre a guerra dos Junduí e especialmente sobre este acordo de paz vide John Hemming. 159 Carta do padre Antônio Vieira a Roque Monteiro Paim de 2 de julho de 1691. Outras fontes indicam porém que um acordo chegou a ser cogitado. 239. 158 Trata-se do jesuíta Antônio Maria Bonucci. BNL-Res. o jesuíta. seria visto como espião dos governadores e. de que não podem ser absoltos. p. 1978. "ainda que cessassem os assaltos que fazem no povoado dos portugueses". ponderou que "sendo rebelados e cativos. Alencastro. Apud: L. em 1692. os ecos do acordo de 1678 ainda se faziam ouvir. Casa da Moeda. J. Representações senhoriais e idéias jesuíticas" in: J. "Deus contra Palmares.). Para enfrentar mocambos fortes como os de Palmares. não teria condições de negociar. estão e perseveram em pecado contínuo e atual. Hemming considera que o tratado teria significado a criação de um reino autônomo. Só havia um meio eficaz e efetivo para verdadeiramente se reduzirem. o acordo não colocou fim à "guerra dos bárbaros". p. Red gold.). A resposta do famoso jesuíta.157 Talvez as autoridades tivessem aprendido algo ao lidar com os Palmares. que era concedendo-lhe Sua Majestade e todos os seus senhores. S. Correspondência do marquês de Montebelo (1690-93). Em segundo lugar. Puntoni discorda..226 entre os índios e o governador da Bahia. F. nem receber a graça de Deus. Antonio Vieira. portanto. mais de dez anos depois.158 Lá em Lisboa e cá em Pernambuco. Como no caso de Palmares. ao que tudo indica para propor novamente alguma espécie de acordo com os palmaristas. Coleção Pombalina. O trato dos viventes p.

J. ao analisar este parecer de Vieira. Antonio Vieira.160 Esse é.227 de sua ordem. a aceitação de que a fuga e os mocambos haviam sido meios aceitáveis para que fosse obtida. que não é outro mais que o próprio corpo. de Azevedo (coord. Já no final dos anos 1680 estava claro que a guerra era a única alternativa. fugindo e passando-se aos matos com todo o seu cabedal. apenas um lado da questão. p. Vieira foi bem além disso. que só poderiam ser catequizados se se mantivessem escravos. A avaliação do jesuíta é mais contundente e coloca a equação de modo inequívoco. Não porque o projeto jesuíta era impossível de ser aplicado aos negros. O modo de lidar com os quilombolas e terminar com os mocambos tinham que mudar. Mais que reduzir os negros levantados que se escondiam nas matas de Pernambuco. . A conclusão de Vieira é bastante clara. seriam logo outros tantos Palmares. Como bem lembra Ronaldo Vainfas.). cada vila. seus termos haviam de certo modo legitimado a fuga e os mocambos como via de acesso à liberdade. A hipótese de uma missão implicava o reconhecimento da liberdade daqueles negros e. haviam inscrito a possibilidade concreta de muitos Palmares em cada canto onde houvesse escravos. L. 639. cada engenho. que aliava cristianização e liberdade. ao reconhecer ser impraticável a transformação. neste sentido. como afirma Ronaldo Vainfas. Carta do padre Antônio Vieira a Roque Monteiro Paim de 2 de julho de 1691. Como resultado. p. "Deus contra Palmares"."161 Eis os limites do acordo de 1678 e do reduto de Cucaú. no entanto. No início dos anos 1690. Vainfas. cada lugar. Cartas. porque conhecendo os demais negros que por este meio tinham conseguido o ficar livres. pois libertava os que haviam nascidos nos mocambos e também os que haviam fugido. 78. 3. com ela. 160 161 R. As ponderações do jesuíta desvendam os limites e os impasses vividos desde 1678 e indicam os novos rumos dos acontecimentos. propunha o eficaz meio de transformá-los em aldeia de "índios e gentios livres" sob a tutela de missionários. a decisão parecia ser ainda mais cristalina. Diz ele que a concessão desta liberdade "seria a total destruição do Brasil. vol. cada cidade. tratava-se de dar um "salto da rebelião à missionação" e de transformar o quilombo em algo próximo do cenário ideal do projeto colonial da Companhia de Jesus.

Ao tomar o papel que registrou as negociações entre Gangazumba e o governo de Pernambuco em 22 de junho de 1678 e as três cartas que.228 PALAVRAS FINAIS A partir da segunda metade do século XX. que leva em conta quem as escreveu. . meses depois. Aires de Souza de Castro enviou a Gangazumba e a Gangazona. em que momento. Ao observar sua relação com outros textos produzidos no mesmo período e com o conjunto de situações relacionadas aos eventos que lhes deram origem. o melhor exemplo de resistência contra a escravidão e seu último líder constitui um símbolo da luta pela liberdade . iluminar o contexto no qual aqueles quatro textos foram redigidos. foi possível descortinar uma outra história dos mocambos que se desenvolveram na capitania de Pernambuco no século XVII. os temas e as interpretações se repetem como bordões. apresentados conforme a cronologia. quando Zumbi domina a cena. e o enredo da história que narram em tom épico tem permanecido fechado em si mesmo. para os negros e todos os oprimidos.para os escravos.na maior parte das vezes impressas . procurei inverter essa tendência e escapar dos bordões.são aquelas que explicitamente falam de Palmares. quase sem relação com outros acontecimentos do século XVII. Adotei o procedimento da leitura vagarosa das fontes. cujo sentido parece ser inquestionável: foi o maior quilombo da história do Brasil. dirigindo-se a quem. e presta atenção em cada palavra. assim. Palmares tornou-se um fenômeno auto-evidente. Os historiadores tenderam quase sempre a privilegiar seus momentos finais. Procurei recuperar a multiplicidade de vozes registrada na documentação administrativa e pude. As fontes utilizadas . Nos livros sobre Palmares.

nem pretendeu ser alternativa às interpretações até agora produzidas pela historiografia.1 As fontes indicam com clareza. pp. . As pistas oferecidas pelas fontes permitiram também investigar possibilidades para apreender o ponto de vista daqueles homens e mulheres que. porém.). 6: 2 (1965): 174. "African States in the New World? Remarks on the Tradition of Transatlantic Resistance" in: Thomas Bremer e Ulrich Fleischmann (eds.229 Essa história não foi contada aqui de modo completo. 2001.) Bauru. pp. Também é provável que. Seguir a documentação de perto permitiu colher diferentes avaliações das fugas e dos agrupamentos de fugitivos que se instalaram nas matas de Pernambuco. como muitos sobas centro-africanos fizeram. É possível que Gangazumba tenha negociado para salvar sua linhagem e seus súditos da destruição completa. "Palmares: An African State in Brazil" Journal of African History. 2 Raymond K. autoridades coloniais e metropolitanas. "Repensando Palmares: resistência escrava na colônia" in: Escravos. 213-255. Alternative cultures in the Caribbean. Edusc. e detectar variações no tempo. que no final da década de 1670 não se tratava mais de gente desenraizada e sem linhagem. e Stuart B. Raymond Kent tinha razão ao constatar que em Palmares estava se formando um estado africano independente. ele tenha procurado alianças para solidificar seu poder e fazê-lo reconhecido e respeitado por seus "vizinhos". como nos kilombos africanos da primeira metade do século XVII. a leitura dos documentos revelou ainda não ter sido esse o único tema a preocupar as autoridades coloniais e metropolitanas ou a exigir ações mais efetivas e urgentes. se reuniram como fugitivos nos palmares da capitania. Schwartz. talvez tenham sido um dos motivos para a enorme dificuldade em "vencer" os Palmares. Ao contrário. First International Conference of the Society of Caribbean Research. lá e cá.2 É difícil medir a força da destruição empreendida pelas tropas de Fernão Carrilho . ela permitiu tirar Palmares do isolamento e lhe conferir historicidade. é bem provável que tenham se inspirados nos kilombos Imbangala para se agrupar e continuar longe da escravidão. Berlin 1988 Frankfurt. separar concepções divergentes entre moradores. 1993. (trad. Vervuert. Tais desentendimentos.já que contada por textos laudatórios e cartas que relatam aos oficiais metropolitanos os serviços prestados na capitania de Pernambuco. Como já haviam sugerido Stephen Palmié e Stuart Schwartz. Ao mesmo tempo. majoritariamente vindos da África Central e depois de serem escravos em Pernambuco. As duas possibilidades não são excludentes . 55-67. Kent. Realizada como exercício de análise e interpretação. roceiros e rebeldes. nesta outra margem do 1 Vide especialmente Stephen Palmié.e ambas revelam que.

foi aventada pelas autoridades coloniais do século XVII. depois de embarcados e chegados no Brasil. Esse também foi o caminho para analisar o contexto no qual as negociações entre Gangazumba e o governo de Pernambuco puderam ser realizadas. no mínimo. tinham outras maneiras de pensar e objetivos diversos em relação aos habitantes da América que esperavam manter sob seu domínio. em escravos. verificar mudanças e ensaiar datações. em qualquer tempo. procurei compreender ao mesmo tempo como elas avaliavam Palmares e como os mocambos se organizavam em cada momento. Olhando por cima do ombro das autoridades coloniais e de seus cronistas. Ainda que as fontes sejam tão esparsas e fragmentárias. forte o suficiente para ser reconhecido como tal pelas autoridades coloniais e metropolitanas. descrita por qualquer um. evitei tomar os costumes e práticas palmarinas como uma cultura estática.230 Atlântico. O reconhecimento das diferenças entre sobas. Acompanhar o vai e vem das palavras e seus significados permitiu ainda superar a crítica freqüente que salienta a miopia das fontes. De modo diferente daqueles que ficaram na África. como fizemos em vários momentos da tese. O medo dos administradores coloniais de deixar os príncipes do Ndongo no Brasil indica que essa hipótese. pois participavam das lides da administração ultramarina. os centro-africanos escravizados no Brasil encontraram homens que. havia homens e mulheres que agiam inspirados por uma cultura política centro-africana. Segui as sugestões de . Os que foram para em Pernambuco. não só fugiram como conseguiram se instalar de modo mais permanente nos palmares da capitania. porém. esse processo tem uma história: é possível. do ponto de vista de seus senhores. recriaram um reino com características centro-africanas.que seleciona e atribui significados. Com base nas experiências políticas trazidas com eles. por seu etnocentrismo ou terem sido elas escritas pela repressão. Se as identidades são relacionais. vassalos e kijikos era possível em Angola mas. embora conhecendo a sintaxe política centro-africana. eles se transformavam todos. como já se cansaram de afirmar os antropólogos nas últimas décadas. mas o faz em um certo contexto e situação específicos. as fontes registram justamente isso: um olhar sobre o outro . Por isso. de alguma forma.

p. João Lúcio de Azevedo (coord. Para a história social. Companhia das Letras. . 1970. o domínio da metrópole sobre suas colônias não foi o único a florescer nos quadros da colonização. 2000. a possibilidade de implementar.5 sua análise acabou pendendo mais para a lógica da acumulação e da circulação de riquezas no Atlântico português.tanto do ponto de vista das autoridades coloniais quanto de Gangazumba e sua gente . Afinal. p. para retomar a expressão de Luís Felipe Alencastro. vol. Se em 1678 Gangazumba conseguiu negociar para defender ou estabilizar o reino dos Palmares. Antonio Vieira. 8 (1981): 183-204. O padre Antônio Vieira apontou com sagacidade os limites da aplicação dessa política para os mocambos . pistas para avaliar as condições de diálogo entre aqueles homens tão diversos e desiguais. nas sociedades coloniais. obrigando-os a descer e se instalar em aldeias. mais uma vez. Por tudo isso. É natural para quem está preocupado com os mecanismos do tráfico negreiro. Aires de Souza de Castro e muitos conselheiros do Ultramarino viram ali. 636-640. 11. não creio que as questões levantadas por essa tese possam ser enquadradas como parte do aprendizado da colonização.e mostrou como ela era inviável para a continuidade das relações escravistas na América portuguesa. Imprensa Nacional. Cartas.). no entanto. a política praticada em relação aos índios. O acúmulo de experiência não foi privilégio dos europeus. Luís Felipe de Alencastro. Ainda que em seu livro ele. é necessário prestar atenção nas relações de dominação que se estabelecem entre os homens. e no contexto social e institucional em que foram produzidas. além de uma alternativa à guerra. Carta do padre Antônio Vieira a Roque Monteiro Paim de 2 de julho de 1691. Os centro-africanos possuíam uma sintaxe política que informou 3 4 5 John Thornton. procure analisar os vários caminhos que os conquistadores ibéricos adotaram "para se assegurar o controle dos nativos e do excedente econômico das conquistas". Formação do Brasil no Atlântico sul. assim como outros autores. de modos diversos e por caminhos variados.não pôde ser praticada da mesma forma desse lado do Atlântico.4 A sintaxe política centroafricana . 3. ela cruzou os mares. São Paulo. "Early Kongo-Portuguese relations: a new interpretation" History in Africa. Lisboa. O trato dos viventes. além dos mecanismos da exploração e da dominação que regem o sistema colonial. sob a tutela de missionários.231 John Thornton3 e procurei encontrar nas fontes. O estudo realizado aqui permite verificar que houve uma experiência política que se acumulou nas várias margens do Atlântico ocupadas pelos portugueses. Casa da Moeda.

pp. que se desenrolou nas matas de Pernambuco. no Ndongo. as palavras utilizadas por Aires de Souza de Castro ao redigir o papel que selou o acordo em junho de 1678. para muitos dos habitantes de Palmares. No caso dos escravos negros. uma forma de obter liberdade. 86-88 e 181-187.e para Pernambuco . social e politicamente diferentes. Alencastro. Podia ser. foi possível reconhecer sua liberdade natural e adotar uma política missioneira em relação a eles. O trato dos viventes. no Kongo.a alforria.6 O que o exame das fontes revela é que o debate sobre ambos . as discussões no Conselho Ultramarino e o lento pronunciamento régio com relação ao que fazer diante do que se passava em Pernambuco indicam que o tema era dos mais candentes e ia bem além do contraponto entre liberdade para os índios e a escravidão para os negros. como gerou muitas polêmicas em Lisboa.trouxeram consigo essa cultura política e a empregaram no Novo Mundo. no Brasil. para sobreviver como escravos. no Conselho Ultramarino e em outros lugares da administração colonial . nas câmaras da capitania. padres e juristas. fugir e viver nos palmares. no Maranhão e em Portugal.232 o modo como lidaram com os portugueses e outros europeus que se fizeram presentes na África e foi aprimorada no contato com eles. o reduto de homens e mulheres que haviam conquistado a liberdade depois de tantas guerras não só representava uma ameaça para os senhores de engenho pernambucanos. 67. . F. a liberdade só podia ser aquela doada pelo senhor . uma 6 Apenas para citar um exemplo bem engendrado dessa formulação. como indicam as observações de Vieira. Cucaú parece ter constituído um caminho alternativo de muitas maneiras. Vieira deixou subentendido que a escolha da política a ser adotada em relação aos "rebelados e cativos" envolvia também uma questão jurídica importante.para ficar apenas no circuito estudado aqui. Talvez tenha sido. que separava a índios e negros. No entanto.liberdade e escravidão . No parecer que redigiu sobre uma nova possibilidade de negociação em 1691. vide L. no governo geral do Brasil.se colocava tanto em relação a índios quanto a negros e não se fazia apenas entre letrados. Dele participaram muitos outros sujeitos. terra para trabalhar e segurança para sobreviver e crescer. As ações e escolhas feitas pelos negros dos Palmares foram parte importante desse debate. Por isso mesmo. No caso dos índios. Os homens e mulheres vindos de Angola para o Brasil .

Companhia das Letras. e 7 Avanço.233 esperança para os escravos. E se transformou ao longo do século XVII: os Imbangala não só se aliaram aos portugueses. 91-92. "Repensando Palmares".). . São Paulo. "A dinâmica da escravidão no Brasil. levaram a alterações da política senhorial em relação ao controle das fugas a partir do século XVIII: ao regulamentar o cargo de capitão-do-mato e colocá-lo sob alçada das câmaras. Stuart Schwartz já havia observado que no termo quilombo estaria codificada uma história não escrita. Apoiada pelas contribuições de Igor Kopytoff. foi aceito e reconhecido pelas autoridades coloniais em Pernambuco e em Lisboa. tráfico negreiro e alforrias. que permitiria compreender melhor Palmares e também a história subseqüente da resistência escrava no Brasil. mais um argumento às teses que desenvolvi em artigo anterior. 74 (2006): 107-123. Como vimos. Resistência. ao reunir gente desenraizada e sem ancestrais comuns em uma formação militar específica de grande importância na sintaxe das guerras angolanas. Não vou retomar aqui o que já foi dito. observei que o kilombo não era uma instituição separada da sintaxe política centro-africana.7 É na relação conflituosa e tensa entre diferentes perspectivas políticas que podemos encontrar a resposta para a inexistência de mocambos tão longevos e extensos nos dois séculos seguintes . assim como a continuidade das guerras contra Zumbi. séculos XVII e XVIII".9 Explorei várias dimensões da hipótese levantada por ele e Stephen Palmié sobre os nexos entre a instituição dos Imbangala e a forma da organização dos mocambos em Palmares. Schwartz. Acrescento apenas algumas observações finais .e não em relações sistêmicas que acabam por transformar a história num jogo lógico. em que a ação dos homens cede lugar a forças abstratas e genéricas. 1996. capitães-do-mato e o governo dos escravos" in João José Reis e Flávio dos Santos Gomes (orgs. Novos Estudos Cebrap. pp. como escravos e como fugitivos. Cf. 249. Como um sobado ou como uma aldeia. Liberdade por um Fio. 9 Stuart B. 8 A pergunta sobre a inexistência de outros Palmares na história do Brasil foi feita por Rafael de Bivar Marquese. p. Silvia Hunold Lara. as autoridades visavam impedir a todo o custo a formação de novos reinos como Palmares.agora em relação a um hábito historiográfico que eu e meus colegas temos reiterado ao tratar das fugas de escravos e das comunidades a que elas deram origem. assim. "Do singular ao plural: Palmares. ele serviu aos Imbangala como instrumento de coesão.8 O percurso realizado pela tese permitiu ainda realizar um diálogo com a literatura sobre a experiência dos africanos nas Américas. Sua existência e sua derrota.

em que ele pedia ao rei que fossem distribuídas as terras prometidas pela destruição dos Palmares. assinado em 1687. O termo foi empregado na primeira versão desse contrato. de certo modo. creio ter sido uma forma de articular kilombo e estados linhageiros . Ambos. 34).10 Ele foi usado também em um requerimento escrito por Domingos Jorge Velho. As guerras nos Palmares: subsídios para a sua história. ao designar qualquer comunidade de escravos fugitivos. Os documentos estão publicados por Ernesto Ennes.234 aos reis e sobas centro-africanos. depois de novembro de 1695. Schwartz notou que foi apenas a partir de 1691 que a palavra quilombo aparece na documentação referente a Palmares.11 Foi nesse contexto. como no caso de Njinga. "azinha se formar[ia] outro civil novo. E. aliás.que informou e se fez presente em vários momentos e aspectos da história de Palmares. como no caso de Matamba e Kasanje. em e de março de 1687. pp. faziam parte dos mecanismos de expansão das fronteiras na África. Em segundo lugar. São Paulo. Alvará de confirmação de 9 de Abril de 1693. pp. 316-344 (doc. Nacional. que ele ponderou que. mesmo depois de Zumbi ter sido morto. e que o termo se generalizou no século XVIII. 1938. como lembrou Stuart Schwartz.ou uma cultura política centro-africana . Ed. e o kilombo muitas vezes passou a designar a capital de estados fortes. Ratificação dos capítulos pelo marquês de Montebelo.28) e 238-241 (doc. e em documentos posteriores ligados a sua implementação. Por isso. As guerras nos Palmares. 84-87 (doc. Ennes. se o kilombo pôde servir de modelo político e militar para os escravos centro-africanos que fugiam para as matas de Pernambuco. De fato. neste Barriga ou em qualquer outra paragem tão apta como 10 Capítulos e condições que concede o senhor governador João da Cunha Souto Maior ao coronel Domingos Jorge Velho. mais que a presença de uma única instituição. [posterior a 20 de novembro de 1695]. os estados apoiados nas linhagens também fizeram parte dessa história. Mas é preciso observar que a palavra quilombo aparece em bem poucos. 11 Requerimento do mestre de campo Domingos Jorge Velho ao rei. em 1691 e 1692. em 3 de dezembro de 1691. com todas as adaptações e diferenças. Cia. Assim. 54). como também se uniram a forças políticas baseadas nas linhagens. destruir e extinguir totalmente os negros levantados dos Palmares". É provável que Schwartz tenha considerado a data da ratificação do contrato pelo marquês de Montebelo para datar o aparecimento da palavra quilombo na documentação. não se pode desconsiderar a cronologia e o modo como as informações foram registradas. . todos eles relativos à contratação de Domingos Jorge Velho para "conquistar.

Do mesmo modo que um enredo narrativo sobre Palmares se fixou. cidades. Lara.e tomou conta da descrição da história dos mocambos que se formaram no Brasil . aos poucos. "Do singular ao plural". que diz respeito à historiografia. "Quilombos on São Tomé. As palavras não aparecem ou desaparecem. Ele variou bastante e não só no Brasil. quando quilombo passou a ter uma definição legal: qualquer agrupamento de mais de quatro ou cinco negros refugiados nos matos. 93-98. sem dúvida. uma história dessas palavras e de seus significados sociais e políticos que ainda está por ser feita . para o caso de Pernambuco e de outras capitanias do Brasil. a designação passou a referenciar motins e revoltas de escravos em geral. até as primeiras décadas do século XVIII. H. H. Jan Vansina observa que. 13 S. quando os governadores começaram a fazer alianças com o Imbangala. Angola pequena. "A formação das estruturas fundiárias e a territorialização das tensões sociais: São Tomé. Nessas fontes a palavra foi muitas vezes empregada como sinônimo de "povoação" e "bando de jagas". também o termo quilombo se transformou em um conceito com características universais e abstratas . "Do singular ao plural". Em toda a documentação administrativa produzida até então. 91-92. Essas observações levam a uma outra questão correlata. . 23 (1996): 453-454. ali. pp.e especialmente nos palmares de Pernambuco.12 No Brasil." e que sem os paulistas ali instalados "pode haver outra vez Angola janga.e também de aldeias. Qualificado com um (ou vários) 12 Catarina Madeira Santos. Lara.13 Essa definição foi elaborada ao mesmo tempo em que o ofício de capitão-do-mato foi regulamentado e seu provimento atribuído às câmaras municipais. cercas e palmares. embora tenha sido descrito por gente que viveu entre os Imbangala entre 1601-1603. 54/55 (1996): 81. Em São Tomé no início do século XVI.235 esta. o termo era usado para nomear aquele que incentivava as fugas e os ataques às fazendas. os povoados formados pelos fugitivos foram chamados mocambos . pp. primeira metade do século XVI" Stvdia.15 Há. 15 Jan Vansina.expressão que se tornou tão afamada. o termo quilombo só apareceu na documentação portuguesa referente a Angola a partir de 1617-22. como eles [os negros o] chamavam" . nem mudam de significado à toa.e que apenas começa pela etimologia. or in search of original sources" History in Africa.14 Isso não significa que o significado da palavra quilombo tenha permanecido estático. com ranchos e pilões. mesmo depois de 1687 ou 1691. 14 S. mocambo continuou a ser a palavra mais usada. por exemplo.

por todos nós.17 Ou seja: no início do século XVIII.que sabemos de sua existência. História da América Portuguesa [1730]. UERJ. Ela continua a ser reafirmada até hoje . os nomes africanos de seus principais titulares e suas relações de parentesco atravessaram os séculos e são por eles . Vocabulário portuguez e latino. 1976. mas indicou que "no Brasil chamam às aldeias de uns negros repartidos em choupanas. 1712. fac-simile. EDUSP/Itatiaia. . sociais e políticos os mais diversos. Afinal. Collegio das Artes da Companhia de Jesus.236 quilombo(s).d. (Ed. verbete "mocambo".). em um contexto específico. produzido por escravos de diferentes procedências. Isso não confere um sentido especial para querer conhecer aqueles homens e mulheres e sua história em seus próprios termos? 16 Sebastião da Rocha Pita. não utilizam a palavra quilombo. Palmares acabou por perder sua historicidade: tornou-se exemplo de um mesmo fenômeno observável em várias regiões e períodos. em contextos demográficos. Coimbra. não constitui credencial suficiente para que ela possa dar conta de toda a história de Palmares.e não pelos nomes cristãos que algum dia. em 1678. 25 (1904): 187-194. E acrescentou: "são no sertão do Brasil uns negros levantados. 17 Raphael Bluteau. os primeiros historiadores ao se referirem a Palmares. mocambos. em seu Vocabulário não registrou a palavra quilombo. s. A força política da linhagem governante dos Palmares e de seus mocambos não foi reconhecida apenas pelas autoridades coloniais. donde tomou este sítio o nome". [que] deram este nome às aldeias que eles habitam". como escravos.16 Quando os mocambos formados por negros levantados que viviam nos palmares de Pernambuco se tornaram um quilombo? Em que circunstâncias isso aconteceu? Eis uma outra história que está por ser feita. O fato de Domingos Jorge Velho ter usado a palavra para designá-los. São Paulo. CD-Rom. Desagravos do Brasil e górias de Pernambuco [1757] ABN. Sebastião da Rocha Pita e Domingos Loreto Couto. Raphael Bluteau. Rio de Janeiro. a que chamam Negros dos Palmares. os negros dos palmares (dos Palmares?) construíam e habitavam mocambos. tiveram . 213-219. pp. e Domingos Loreto Couto. em livros que foram publicados em 1730 e 1757.

parece que permitiu Deus dar-vos esta Luz para ser meio da vossa salvação. O título do documento é o que consta do índice desse códice. e terdes entre nós tantos interesses como vos concedo. Em nome do príncipe de Portugal. no original. E como vós nisto tudo sois os mais interessados.1 . Ganazumbà. e as mais utilidades que os vossos filhos experimentaram e vós de de [sic] hoje em diante achareis da mesma maneira. Na transcrição desse e dos demais documentos dos anexos atualizei a grafia das palavras.I . advertindo-vos que se com efeito não derdes cumprimento ao que me mandais oferecer no tempo assinalado deste papel que vos hei de mandar fazer a guerra pelas tropas que [fl. E por mandardes todos nossos [sic] filhos e família a lançar a meus pés a pedir perdão da obediência a que até agora faltastes. vol. incluindo os nomes próprios. está em andamento um estudo mais detalhado sobre a variação no registro dos nomes palmarinos na documentação administrativa e na própria historiografia. adoto os nomes mais próximos dos fixados pela bibliografia.3ª . governador da capitania de Pernambuco e das mais anexas por Sua Alteza. No caso de Gangazumba e no de Zumbi.237 ANEXOS Anexo 1 .1 Aires de Souza Castro [sic]. no que não haverá a menor dúvida. .334v] já tenho juntas. de maneira que nenhum de vós outros há de escapar. para facilitar a leitura. vos concedo o que por este papel vos prometo. n. tendo por mui firme que também da vossa parte vós não faltareis ao que vossos filhos me vieram pedir e segurar.Papel que escreveu ao principal dos negros dos Palmares sobre as pazes que determinavam fazer. vos remeto a vós Gangazumba2 o bem da liberdade. porque bem viram vossos filhos o poder que o Príncipe meu senhor mandou nesta ocasião em minha companhia para vos ir acabar. Como já observei. 1 2 Disposições dos governadores de Pernambuco. e que vós os obrigareis a fazê-la no caso que algum não quisesse. e derrotar de todo. nem ter quartel. fls. Vossos filhos e família me prometeram em vosso nome que todos os negros desses Palmares e os mais potentados deles vinham nesta Paz. desdobrei as abreviaturas e suprimi algumas vírgulas. VI . 334-334v. e que prometíeis entregar todos os negros que destas capitanias haviam fugido para esses Palmares. meu e vosso senhor. 1 (1648-1696). Coleção Conde dos Arcos. 6. etc. e perdão de viverdes há tantos anos fora da nossa obediência.31. em 22 de junho de 1687. AUC.

e porque o negro Amaro que lá se acha terá receio de vir por ser cativo nosso.238 Também me pediram para morarem. e terdes os mesmos lucros que têm os mais vassalos de S. Coleção Conde dos Arcos. melhor vos explicarão as vossas conveniências. no original. com que não tenho mais que vos dizer. e para 3 4 Cucahû. Ele vos guarde muitos anos. e fazerem suas aldeias. e a firmeza de todo este papel. A. VI . n.1 . AUC.31. Anexo 2 . e a todos há de tocar dela. e por vos fazer a vontade. e mulheres que cá estavam cativos para irem para o Reino vo-los hei de tornar a mandar restituir. 1 (1648-1696). vol. E na vossa cidade se vos hão de dar padres para vos ensinarem a doutrina cristã para viveres e morreres pela fé de Cristo que é só o verdadeiro Deus. porque como vos sabem a língua. e para que vos vejais a estimação que nós fazemos da gente preta que obra debaixo da nossa obediência.Carta de Aires de Souza de Castro a Gangazumba sobre a vinda dos negros dos Palmares. o sítio a que chamam Cucaú3. vos mando esses dois. E vos fico esperando para vos fazer as honras que fiz a vossos filhos. . 22 de junho de 1687. e ainda alguns filhos. e ao outro que chamam João Mulato concedo o mesmo. e filhos. de 24 de julho de 1678. fls. sem embargo de ser mais culpado de todos. e soldados que tudo estimei muito por ver que Deus é tanto vosso amigo. e quando alguns se não queiram submeter a esta obediência me avisareis logo pelos enviados que vos mando para lhe mandar fazer a guerra como acima vos tenho declarado. Recife de Pernambuco. um sargento-maior e outro capitão de infantaria. salvo se for para o serviço do dito senhor. O título do documento é o que consta do índice do códice.3ª .4 Gangazumba. e espero na Graça de Deus. que Deus guarde sem vos obrigarem por força a nenhum trabalho particular. 336v. Disposições dos governadores de Pernambuco. lhe dou a mesma alforria. vos concedo a dita paragem. Todos vós outros os que fostes nascidos nesses Palmares vos concedo alforria. para que também venhais lograr esta dita. 13. soldados mui honrados e mui antigos. que no cabo de viverdes tantos anos arredado da Luz da fé vos dá este caminho para vossa salvação. e a vossa mulher. e delas vos faço mercê. Recebi vossa carta em companhia de vossos capitães.I . e na sua divina Misericórdia que a vós. ficando vós outros moradores nela com vossa liberdade para podereis plantar os vossos frutos.

donde haveis de viver muito a vosso gosto. e porque fico nisto mui certo volo não encomendo mais. logo os mandareis. 24 de julho de 1678. e para que vejais o cuidado que tenho da vossa gente lhe mando ter feito farinha para que quando chegarem àquele sítio lha levarem para seu sustento enquanto não trabalham. e filhos estando para irem para o Reino os não quis mandar. e porque vos quero pagar o virdes pedir a paz e obediência no tempo do meu governo. e pano para um vestido. e o cuidado com que foi tratado. e conveniência vossa como haveis de ter de ter [sic] debaixo da nossa obediência na terra que vos tenho dado para a vossa povoação.239 descanso. Aires de Souza de Castro. E eu hei de ficar sempre sendo vosso procurador para todas as vossas pretensões. Recife de Pernambuco. quando chegardes. . e todos vossos filhos. e buscam a vida. parentes. E como para cá vierdes tudo o que quiserdes vos hei de dar. Os mesmo enviados que foram da outra vez são os mesmos que agora mando para vos virem ajudando ao trabalho do caminho. e dar patentes. e porque estou tão certo na vossa palavra como tenho visto a que não haveis de faltar como eu também vos tenho segurado pelo papel que vos mandei. 5 Zumbim no original. porque agora não servia mais que de embaraço o ir com aqueles meninos pelo mato. irmãos. Assim vos mando o machado que me mandastes pedir. e agora de novo vo-lo torno a segurar. Vossa mulher. Os vossos filhos e toda a vossa gente vos dirão como eu sou seu amigo e vos darão novas de como vosso filho fica já são da ferida. e insígnias na mesma forma que vos vedes levar aos pretos que nos cá servem. e para avisarem a tempo do que for necessário para vos ir o mantimento. e os tenho aqui mui bem tratados como coisa vossa para vo-los mandar tanto que vós vierdes. e ser cousa da casa de que eu sou tão afeiçoado. Permita Deus que assim seja e ele vos guarde como desejo. e a vosso irmão e ao [?] Zumbi5 podeis dizer o mesmo da minha parte. e capitães hei de fazer muitas honras. e assim que em vós vindo. O presente que me mandastes estimei muito por ser da vossa mão.

1 .. AUC. no original.I .31. Anexo 4 . 337v] dias farinha e gente no Cucaú para vos agasalharem. 337v. meu. E só fiquei sentido de não achardes vosso filho vivo. e que a mais que fica há de vir com aviso vosso em companhia [?] do Zambim. e assim vos dou as boas vindas de terdes já chegado. VI . E [. 1 (1648-1696). Coleção Conde dos Arcos. e com a vossa vinda se acabou de justificar melhor. 12 de novembro d 1678. e descanso e conhecer a luz da fé que é o caminho da salvação o mais importante. 8 Ganasona. a vós.3ª . O título do documento é o que consta do índice do códice. pois vos tinha há tantos [fl. e vosso senhor que só debaixo dessa obediência vos poderá Deus ajudar. fls. 337-337v. vol.I .Carta de Aires de Souza de Castro a Gangazona sobre a sua vinda.. de 12 de novembro de 1678. 15. e a toda a vossa gente. O título do documento é o que consta do índice do códice. E tantas conveniências quantas [?] havias de lograr na nossa companhia. para que vivendo vós debaixo da sua obediência logreis os mesmos privilégios que logram os mais vassalos seus como 6 Disposições dos governadores de Pernambuco. e assim vos confirmo a palavra que vos dou em nome do Príncipe de Portugal. . vol.6 Gangazumba amigo.240 Anexo 3 . e hoje me veio outra de Antonio Pinto em que me diz que já vindes posto em marcha com muita parte da vossa gente. e tenho muita fé nela. assim o fio da vossa palavra. já que vós quisestes no meu tempo conhecer como éreis obrigado ao príncipe de Portugal. segurando-me que nenhuma há de ficar. de que podeis ter muita consolação porque morreu como filho da igreja. nem era possível que [d]isto tivesse dúvida.] o gosto com que o esperava. Aires de Souza de Castro. n.31. meu e vosso senhor.1 . e toda a vossa gente como vós poderá [. de todos os brancos invejada. já lá tendes padres convosco para vos ensinar a doutrina.Carta de Aires de Souza de Castro a Gangazumba sobre a sua chegada a Cucaú. Eu hei de ser vosso procurador. 7 Disposições dos governadores de Pernambuco. 1 (1648-1696). E vos guarde como desejo. 16. n. AUC. e quis Deus abrir-vos os olhos da cegueira em que vivia para virdes viver em nossa companhia com tanta conveniência. fls. e tudo o mais que for necessário. mas sabei que teve uma morte.. Coleção Conde dos Arcos.3ª . e vos dizerem missa.7 Gangasona8 amigo. Recife. pois acheis em mim tanta vontade de vos fazer mercê.. Sempre estive firme na vossa palavra. VI . Com que podemos crer que está no céu.] [a todos?] aqueles que têm vindo a esta casa. de 12 de novembro de 1678. Uma carta vossa tive os tempos atrás.

E o mesmo haveis vós de experimentar. A. e mais gente que já nesta casa. . que Deus guarde. no original. Anexo 5 .. e terdes entre nós tantos interesses como vos concedo.Cópia do papel que levaram os negros dos Palmares. advertindo-vos que se com efeito não derdes comprimento ao que me mandais oferecer no tempo assinalado deste papel que vos hei de mandar fazer a guerra pelas tropas que já tenho juntas. parece que permitiu Deus dar-vos esta luz para ser meio da vossa salvação. Cx.241 [as]segurei a vosso irmão pelas condições que em um papel lhe mandei declarar. e que vós os obrigaríeis 9 Documento anexo à carta do governador Aires de Souza de Castro de 22 de junho de 1678 AHU_ACL_CU_015.] com que foram tratados. Recife.carimbo do AHU] há tantos anos fora da nossa obediência. e como vos nisto tudo sois os mais interessados. Aires de Souza de Castro. 12 de novembro de 1678. e as mais utilidades que vossos filhos experimentaram e vós de hoje em diante achareis da mesma maneira. tendo por mui firme que também da vossa parte vós não faltareis ao que vossos filhos me vieram pedir. Em nome do Príncipe de Portugal meu e vosso senhor vos remeto a vós Gangazumba10 o bem da liberdade e perdão de [ileg . e os mais potentados deles vinham nesta paz. no que não haverá a menor dúvida. e segurar. e os vossos parentes.9 Cópia do papel que levaram os negros dos Palmares Aires de Souza de Castro Governador da Capitania de Pernambuco e das mais anexas por S. 11. e por mandardes todos vossos filhos e família a lançar a meus pés e pedir perdão da obediência a que até agora faltastes vos concedo o que por este papel vos prometo. Deus vos guarde muitos anos. não quis mandar só por vo-los entregar. pois viram o [. Vossos filhos e família me prometeram em vosso nome que todos os negros desses palmares. e vos agradecer a vontade com que vindes no tempo do meu governo dar esta obediência. e terra estiveram vo-lo terão assegurado. D. pois vossa mulher e filhos e alguns que estavam para ir para o Reino. 1116. 10 Gana zumba. de maneira que nenhum de vós outros há de escapar nem ter quartel porque bem viram vossos filhos o poder que o Príncipe meu Senhor mandou nesta ocasião em minha companhia para vos ir acabar de derrotar de todo..

Ele vos guarde muitos anos Recife de Pernambuco. 22 de junho de 1678. E a firmeza de todo este papel. e quando alguns se não queiram submeter a esta obediência. com que não tenho mais que vos dizer. . Também me pediram para morarem e fazerem suas aldeias o sítio a que chamam Cucaú11. no original. A. 11 Cucau. e na vossa cidade se vos hão de dar padres para vos ensinarem a doutrina cristã para viverdes e morrer pela fé de Cristo que é só o verdadeiro Deus. e ao outro a que chamam João Mulato concedo o mesmo. e que prometíeis entregar todos os negros que destas capitanias haviam fugido para esses Palmares. e por vos fazer a vontade vos concedo a dita paragem e dela vos faço mercê ficando vós outros moradores nela com vossa liberdade para poderdes plantar os vossos frutos e terdes os mesmos lucros que têm os mais vassalos de S. e porque o negro Amaro que lá se acha terá receio por ser cativo nosso de vir. e ainda alguns filhos e mulheres que cá estavam cativos para irem para o Reino vo-los hei de tornar a mandar [verso] restituir. Todos vós outros os que fostes nascidos nesses palmares vos concedo alforria. que Deus guarde sem vos obrigarem por força a nenhum trabalho particular salvo se for para o serviço do dito senhor. E se estais por ele e vos dou outros trinta para lhe dar cumprimento e execução como neste se contém. E por estes enviados me mandareis dentro de trinta dias a resolução do conteúdo em todo neste papel. me avisareis logo pelos enviados que vos mando para lhe mandar fazer a guerra como acima vos tenho declarado. os quais ganharam tanto nesta vinda que cá vieram fazer que já vão batizados pela graça de Deus e espero em sua divina misericórdia que a vós e a todos há de tocar dela para que também venhais lograr esta dita. Aires de Souza de Castro. e vos fico esperando para vos fazer as honras que fiz a vossos filhos. e a vossa mulher e filhos. lhe dou a mesma alforria sem embargo de ser mais culpado que todos. E para que vós vejais a estimação que nós fazemos da gente preta que obra debaixo da nossa obediência vos mando esses dois um sargento maior e outro capitão de infantaria soldados mui honrados e mui antigos porque como vos sabem a língua melhor vos explicarão as vossas conveniências.242 no caso que algum não quisesse fazê-la.

nem ter quartel. VI . Em nome do príncipe de Portugal. e que vós os obrigaríeis no caso que algum não quisesse fazê-la. advertindo-vos que se com efeito não derdes comprimento ao que me mandais oferecer no tempo assinalado deste papel que vos hei de mandar fazer a guerra pelas tropas que já tenho juntas. advertindo-vos que se com efeito não derdes cumprimento ao que me mandais oferecer no tempo assinalado deste papel que vos hei de mandar fazer a guerra pelas tropas que já tenho juntas. e os mais apotentados deles vinham nesta paz.I . tendo por mui firme que também da vossa parte vós não faltareis ao que vossos filhos me vieram pedir. de maneira que nenhum de vós outros há de escapar. porque bem viram vossos filhos o poder que o Príncipe meu senhor mandou nesta ocasião em minha companhia para vos ir acabar. e como vos nisto tudo sois os mais interessados. no que não haverá a menor dúvida. parece que permitiu Deus dar-vos esta luz para ser meio da vossa salvação. e que vós os obrigaríeis a fazê-la no caso que algum não quisesse. 11. que Deus guarde.243 Anexo 6 . Vossos filhos e família me prometeram em vosso nome que todos os negros desses palmares. e que prometíeis entregar todos os negros que destas capitanias haviam fugido para esses Palmares Também me pediram para morarem e fazerem suas aldeias o sítio a que chamam . Alteza. e as mais utilidades que os vossos filhos experimentaram e vós de de hoje em diante achareis da mesma maneira. Anexo 1 AUC. fls. A. e derrotar de todo. e as mais utilidades que vossos filhos experimentaram e vós de hoje em diante achareis da mesma maneira. e perdão de viverdes há tantos anos fora da nossa obediência. D. e segurar.Quadro comparativo dos documentos transcritos nos anexos 1 e 5. Também me pediram para morarem. E como vós nisto tudo sois os mais interessados. CA. etc.31. E por mandardes todos nossos filhos e família a lançar a meus pés a pedir perdão da obediência a que até agora faltastes. 334-334v Anexo 5 AHU_ACL_CU_015. e por mandardes todos vossos filhos e família a lançar a meus pés e pedir perdão da obediência a que até agora faltastes vos concedo o que por este papel vos prometo. meu e vosso senhor. de maneira que nenhum de vós outros há de escapar nem ter quartel porque bem viram vossos filhos o poder que o Príncipe meu Senhor mandou nesta ocasião em minha companhia para vos ir acabar de derrotar de todo. vos concedo o que por este papel vos prometo. vos remeto a vós Gangazumba o bem da liberdade. Vossos filhos e família me prometeram em vosso nome que todos os negros desses Palmares e os mais apotentados deles vinham nesta Paz. e terdes entre nós tantos interesses como vos concedo. e terdes entre nós tantos interesses como vos concedo. governador da capitania Aires de Souza de Castro Governador da de Pernambuco e das mais anexas por Sua Capitania de Pernambuco e das mais anexas por S.3ª . e que prometíeis entregar todos os negros que destas capitanias haviam fugido para esses Palmares.1 . parece que permitiu Deus dar-vos esta luz para ser meio da vossa salvação. tendo por mui firme que também da vossa parte vós não faltareis ao que vossos filhos me vieram pedir e segurar. no que não haverá a menor dúvida. Cx. o sítio a que chamam Em nome do Príncipe de Portugal meu e vosso senhor vos remeto a vós Gangazumba o bem da liberdade e perdão de [viverdes] há tantos anos fora da nossa obediência. 1116 Cópia do papel que levaram os negros dos Palmares Aires de Souza Castro. e fazerem suas aldeias.

e ainda alguns filhos. e a firmeza de todo este papel. 22 de junho de 1678. Recife de Pernambuco.244 Cucaú. porque como vos sabem a língua. e na sua divina Misericórdia que a vós. com que não tenho mais que vos dizer. com que não tenho mais que vos dizer. e a firmeza de todo este papel. e porque o negro Amaro que lá se acha terá receio por ser cativo nosso de vir. Todos vós outros os que fostes nascidos nesses palmares vos concedo alforria. Ele vos guarde muitos anos. Cucau. Todos vós outros os que fostes nascidos nesses Palmares vos concedo alforria. os quais ganharam tanto nesta vinda que cá vieram fazer que já vão batizados pela graça de Deus e espero em sua divina misericórdia que a vós e a todos há de tocar dela para que também venhais lograr esta dita. e espero na Graça de Deus. lhe dou a mesma alforria. e quando alguns se não queiram submeter a esta obediência. e a vossa mulher e filhos. sem embargo de ser mais culpado de todos. lhe dou a mesma alforria sem embargo de ser mais culpado que todos. e para que vos vejais a estimação que nós fazemos da gente preta que obra debaixo da nossa obediência. 22 de junho de 1687. vos mando esses dois. E vos fico esperando para vos fazer as honras que fiz a vossos filhos. um sargento-maior e outro capitão de infantaria. ficando vós outros moradores nela com vossa liberdade para podereis plantar os vossos frutos. que Deus guarde sem vos obrigarem por força a nenhum trabalho particular. e ainda alguns filhos e mulheres que cá estavam cativos para irem para o Reino vo-los hei de tornar a mandar restituir. e delas vos faço mercê. A. soldados mui honrados e mui antigos. e vos fico esperando para vos fazer as honras que fiz a vossos filhos. para que também venhais lograr esta dita. e quando alguns se não queiram submeter a esta obediência me avisareis logo pelos enviados que vos mando para lhe mandar fazer a guerra como acima vos tenho declarado. e ao outro a que chamam João Mulato concedo o mesmo. e a vossa mulher. e mulheres que cá estavam cativos para irem para o Reino vo-los hei de tornar a mandar restituir. E para que vós vejais a estimação que nós fazemos da gente preta que obra debaixo da nossa obediência vos mando esses dois um sargento maior e outro capitão de infantaria soldados mui honrados e mui antigos porque como vos sabem a língua melhor vos explicarão as vossas conveniências. E na vossa cidade se vos hão de dar padres para vos ensinarem a doutrina cristã para viveres e morreres pela fé de Cristo que é só o verdadeiro Deus. melhor vos explicarão as vossas conveniências. e ao outro que chamam João Mulato concedo o mesmo. e a todos há de tocar dela. me avisareis logo pelos enviados que vos mando para lhe mandar fazer a guerra como acima vos tenho declarado. Aires de Souza de Castro. . E por estes enviados me mandareis dentro de trinta dias a resolução do conteúdo em todo neste papel. Ele vos guarde muitos anos Recife de Pernambuco. e por vos fazer a vontade vos concedo a dita paragem e dela vos faço mercê ficando vós outros moradores nela com vossa liberdade para poderdes plantar os vossos frutos e terdes os mesmos lucros que têm os mais vassalos de S. e porque o negro Amaro que lá se acha terá receio de vir por ser cativo nosso. e terdes os mesmos lucros que têm os mais vassalos de S. que Deus guarde sem vos obrigarem por força a nenhum trabalho particular salvo se for para o serviço do dito senhor. A. e por vos fazer a vontade. salvo se for para o serviço do dito senhor. e na vossa cidade se vos hão de dar padres para vos ensinarem a doutrina cristã para viverdes e morrer pela fé de Cristo que é só o verdadeiro Deus. vos concedo a dita paragem. e filhos. E se estais por ele e vos dou outros trinta para lhe dar cumprimento e execução como neste se contém.

Reino Negro de Palmares [1954]. p.) com os brancos. 251-252. Rio de Janeiro. os palmaristas poderiam continuar mantendo trocas mercantis com taberneiros. . 1988. Palmares. p. 131. pp. 1988. Porto Alegre. Palmares. 8) que seriam restituídas as mulheres do rei e dos demais potentados. que fossem livres os nascidos nos Palmares. revista e ampliada. reescrita. e os mais apotentados deles vinham nesta paz que se assentasse a paz. "Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco no tempo do governador dom Pedro de Almeida…" RIHGB . E por estes enviados me mandareisdentro de trinta dias a resolução do conteúdo em todo 2) que a esse sítio se recolhessem no prazo de neste papel três meses. 2ª ed.. a liberdade dos negros nascidos em Palmares seria . seus cabos maiores. 11. (…) em local em que pudessem viver e plantar. [1973]. Memorial dos Palmares . respeitada e porque o negro Amaro que lá se acha terá receio por ser cativo nosso de vir. que o Rei se recolhesse a habitar o lugar determinado (…) que teriam commercio e trato (…) e cultivarem. Mario Martins de Freitas. Décio Freitas. palmaristas do rei de Portugal passariam à condição de vassalos do rei Todos vós outros os que fostes nascidos nesses palmares vos concedo alforria 3) que seriam livres os negros nascidos nos Palmares. e que prometíeis entregar todos os negros que destas capitanias haviam fugido para esses Palmares 4) que fossem restituídos pelo rei todos os escravos fugidos das fazendas e engenhos. liberdade de comércio entre os palmarinos e os moradores das vilas e vilarejos coloniais. fora de Palmares seriam novamente escravizados. Flávio dos Santos Gomes. 7) que o rei negro seria nomeado mestre-de campo de toda a sua gente e responsável pela ordem entre os negros. p.liberdade para todas as pessoas nascidas em palmares. conforme propunha Gangazumba. 22 (1859): 303-329. Rio de Janeiro. e por vos fazer a vontade vos concedo que lhes dessem para vivenda o sitio que elles habitações a dita paragem e dela vos faço mercê apontassem 2) concessão de terras para viverem concessão de terras aos palmarinos as terras nas quais os palmaristas iriam viver seriam agora demarcadas pela Coroa ficando vós outros moradores nela com vossa liberdade para poderdes plantar os vossos frutos e terdes os mesmos lucros que têm os mais vassalos de S. Mercado Aberto.Anexo 7 . Reino Negro de Palmares Ivan Alves Filho. 1984. comerciantes e vendeiros da região e que lograriam os foros de Vassalos de Sua Altez6) que lograriam os foros de vassalos de el-rei 4) gozo do foro de vassalos da Coroa os palmarinos seriam considerados doravante vassalos a partir da assinatura daquele tratado. (…) que vós os obrigaríeis no caso que algum não quisesse [fazer esta paz]. Contexto.Quadro comparativo da enunciação das cláusulas do acordo ajustado em 22 de junho de 1678 Cópia do papel que levaram os negros dos Palmares Mario Martins de Freitas. me o Rei conduziria a todos ao nosso domínio. Ivan Alves Filho. Documento anexo à carta do governador Aires de Souza de Castro de 22 de junho de 1678 AHU_ACL_CU_015. e plantas. (. Biblioteca do Exército. e daria vos tenho declarado guias para as nossas armas o desbaratarem e na vossa cidade se vos hão de darpadres para vos ensinarem a doutrina cristã para viverdes e morrer pela fé de Cristo que é só o verdadeiro Deus. 90. lhe dou a mesma alforria sem embargo de ser mais culpado que todos. proprietários Também me pediram para morarem e 1) que se lhes desse o sítio que eles fazerem suas aldeias o sítio a que chamam designassem ou escolhessem para suas Cucau. A. A guerra dos escravos. novos cativos que fugissem para Palmares deveriam ser imediatamente devolvidos para as 5) fica "implícito que os negros nascidos fora o acordo deixava implícito que os palmarinos nascidos autoridades coloniais e seus respectivos de Palmares seriam reduzidos ao cativeiro. e quando alguns se não queiram submeter a esta obediência. 2005. 5) que teriam comércio e trato e a paz para a sua habitação. que Deus guarde sem vos obrigarem por força a nenhum trabalho particular salvo se for para o serviço do dito senhor (…) e plantas. e a vossa mulher e filhos. Cx. Palmares. Palmares. A guerra dos escravos Flávio dos Santos Gomes. Memorial dos Palmares Décio Freitas. São Paulo. 1116. remeto a vós Gangazumba o bem da liberdade e perdão de [viverdes] há tantos anos fora da nossa obediência (…) que ficariam obedientes às ordens do governador da capitania. 1) liberdade para os nascidos nos Palmares. 3) garantia de comércio e com os moradores relações com os moradores circunvizinhos. e avisareis logo pelos enviados que vos mando quando algum por rebelde repugnasse a sua e para lhe mandar fazer a guerra como acima nossa obediência ele o conquistaria.121.. Escravidão e liberdade no Atlântico Sul "Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco no tempo do governador dom Pedro de Almeida…" Vossos filhos e família me prometeram em vosso nome que todos os negros desses Palmares. e ao outro a que chamam João Mulato concedo o mesmo e ainda alguns filhos e mulheres que cá estavam cativos para irem para o Reino vo-los hei de tornar a mandar restituir. Escravidão e liberdade no Atlântico Sul . D. 5ª ed. 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