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NEGLIGENCIANDO A ALMA 1

NEGLIGENCIANDO A ALMA
Maurice J. Roberts

A Bíblia nos adverte inúmeras nos diz: “Sobre tudo o que se deve
vezes a vigiarmos nosso próprio co- guardar, guarda o coração, porque
ração. Apesar disso, com grande fre- dele procedem as fontes da vida” (Pv
qüência, os crentes tropeçam e caem 4.23).
por falta de diligência no cumpri- Guardar o coração não é uma
mento deste dever elementar! Não é obra pela qual os homens nos louva-
em vão que a Bíblia nos diz: “Me- rão ou nos darão reconhecimento. É
lhor é o longânimo do que o herói uma atividade secreta da alma, ocul-
da guerra, e o que domina o seu es- ta para todos, exceto para Deus. Esta
pírito, do que o que toma uma cida- obra não nos proporcionará um títu-
de” (Pv 16.32). lo honroso de Doutor em Divinda-
Muitos homens têm servido seu de, tampouco nos levará a alguma
país como presidente ou primeiro- posição de prestígio acadêmico. Por
ministro, todavia, não têm sido ca- conseguinte, é pecaminoso minimi-
pazes de cuidar de seu próprio zar este dever secreto de vigiar o pró-
coração e vida, protegendo-os de pe- prio coração, vendo-o como uma ta-
quenas concupiscências e tentações refa insignificante na qual não deve-
comuns. Muitos líderes distintos têm mos prender nossa atenção.
comandado exércitos na terra e es- Somos propensos, especialmen-
quadras no mar, porém não têm sido te quando crentes novos, a medir a
capazes de resistir um ou dois peca- importância de nossos deveres espi-
dos assediadores. As batalhas mais rituais pelo grau de posição que eles
intensas não ocorrem fora de nós, e nos proporcionam diante das pesso-
sim em nosso íntimo. Esta é a ma- as. Talvez isto não seja totalmente
neira como a Bíblia encara o assun- errado, mas é uma atitude que tem
to. Por esta razão, a Palavra de Deus os seus perigos. A escada de Satanás
2 Fé para Hoje
para a fama e o sucesso geralmente e cuidar da saúde dela é a nossa mais
tem degraus podres que os homens elevada sabedoria. Apesar disso,
não percebem de imediato. quão raramente o fazemos! Se a so-
Somos bastante imaturos no que ciedade reflete as opiniões íntimas do
diz respeito a avaliarmos nossas pri- homem a respeito da vida, que lugar
oridades espirituais. Podemos nos insignificante a alma ocupa em nos-
preparar com diligência para reali- sos dias! Os pais espirituais edifica-
zar deveres exteriores e nos apressar ram igrejas; nós construímos
nas preparações secretas. Nossos ser- supermercados e estádios. Os pais
mões estão prontos, mas nosso cora- espirituais liam a Bíblia e estudavam
ção está despreparado. Nossa vida teologia, mas nós lemos — se é que
exterior é impressionante, porém lemos — ficção, fantasia e tolices.
nossa vida particular pode estar em Os pais espirituais vigiavam a sua
desordem. Pregamos contra o peca- alma e a de seus filhos; todavia, as
do com muita ortodoxia, contudo, pessoas de nossa época pensam ape-
não lamentamos suficientemente a nas no corpo e seus apetites. Deve-
respeito do pecado em nossa devo- mos esperar que o mundo exterior
ção particular. De que outra manei- siga o seu ponto de vista pagão a res-
ra podemos explicar as quedas de peito da vida. O crente, porém, nun-
pastores que nos deixam admirados ca pode abandonar suas prioridades
e chocados? De que outro modo po- bíblicas. A preocupação com a alma
demos justificar os escândalos repen- tem de vir em primeiro lugar, se
tinos e as trágicas apostasias? O nossas vidas têm de glorificar a Deus.
homem interior do coração foi es- O crente deve cuidar de sua alma
quecido na pressa e afobação de aten- como se esta fosse uma propriedade
dermos aos deveres públicos. de Deus em seu íntimo. Afinal de
A Bíblia corrige esta abordagem contas, a alma é aquilo que nos dis-
desequilibrada a respeito das priori- tingue dos animais. A alma é a parte
dades espirituais. Ela nos instrui a que originalmente portava a imagem
olhar para a nossa própria alma, an- de Deus. Nossa alma é imortal e eter-
tes de colocarmos o mundo ao nosso na. Embora o pecado tenha danifi-
redor em ordem. A Bíblia nos orde- cado severamente a imagem de Deus
na a nos certificarmos quanto à raiz, na alma, a regeneração restaura, no
antes de nos preocuparmos com as verdadeiro crente, esta imagem per-
flores e os frutos. Se a raiz for sau- dida. Se conhecemos o valor da alma,
dável, haverá bom fruto no devido devemos mantê-la como uma coroa
tempo. No entanto, frutos prematu- de jóias e colocar em alerta todas as
ros podem murchar e morrer, em faculdades que possuímos, a fim de
pouco tempo, quando as raízes da protegê-la.
árvore são negligenciadas. “Todo
ramo que, estando em mim, não der Uma das razões para vigiarmos
fruto, ele o corta” (Jo 15.2). nossa alma deve ser esta: um deslize
A alma é o maior tesouro que pode estragar, de uma só vez, todo o
possuímos. Portanto, guardar a alma bem que tivermos realizado. Um ho-
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mem pode ser um missionário ou um deve pensar em Balaão, Saul e Ju-
pregador fiel durante vários anos. das Iscariotes.
Mas, se ele escorregar e prejudicar
sua reputação, por causa de algum Se precisamos de uma terceira
tropeço irrefletido, todas as boas coi-
advertência para não negligenciarmos
sas que ele realizou durante vinte ou nossa alma, esta advertência deve ser:
mais anos serão apagadas da mente o extremo cuidado que nosso bendi-
dos homens, devido a este tropeço, to Senhor demonstrou em relação a
que foi praticado talvez em um úni- Si mesmo. Aos doze anos de idade,
co dia. Essa é a natureza precária da Ele se mostrou mais preocupado em
vida que desfrutamos como pessoas adquirir conhecimento da verdade do
espirituais. Andamos em uma cor- que em sentir medo de deixar seus
da-bamba moral em todo o nosso pais inquietos. Esta é uma lição que
caminho, até chegarmos seguros do nos ensina como o homem perfeito
outro lado. valoriza os meios da graça e anela
fazer a vontade de Deus. Os nossos
Esta deve ser a segunda razão queridos, se for necessário, têm de
para vigiarmos nossa alma: a sutile- sofrer um pouco de tristeza, mas nada
za de nosso inimigo. Talvez não lem- nos deve impedir de nos envolver-
bramos co- mos nos in-
mo devería-  teresses de
mos o fato Uma das razões para vigiarmos nosso Pai (cf.
que temos Lucas 2.49).
um adversá- nossa alma deve ser esta: um Portanto, ve-
rio que não deslize pode estragar, de uma ja o nosso Se-
cessará, em só vez, todo o bem que nhor em suas
momento al- tivermos realizado. tentações no
gum, de ten- deserto, en-
tar levar-nos  quanto repe-
à queda? Sa- le a Satanás,
tanás conhece bem nossa fragilida- em cada ataque, e vence todas as in-
de e nosso amor pela comodidade. vestidas dele. Veja-O também co-
Ele pode adaptar sua isca ao nosso locando Pedro no seu devido lugar:
gosto. Satanás pode nos oferecer, “Arreda” (Mt 16.23). A amizade
assim como ofereceu ao apóstolo era preciosa, mas não podia se in-
Pedro, um fogo onde poderemos terpor entre Cristo e sua missão de
nos aquentar. Ele pode encontrar, ir à cruz.
assim como o fez a Sansão, uma Vigiar nossa alma significa,
Dalila que nos induza ao sono fa- como o Senhor Jesus nos mostra,
tal. Satanás pode misturar seu cáli- manter vigilância firme e intensa so-
ce com tanta esperteza, que o be- bre o nosso senso de obrigação para
bedor não acordará, até que sua com Deus. Significa colocar a von-
alma esteja nas chamas do inferno. tade de Deus em primeiro lugar em
Aquele que duvida de tudo isso todas as nossas atitudes. Significa
4 Fé para Hoje
preferir o caminho do dever, em vez atrasado; agora, ele se arrasta até à
do caminho do prazer. Significa odi- igreja e nunca chega na hora. O que
ar todas as influências e todas as su- causou isso? Ele negligenciou sua
gestões que podem enfraquecer nos- alma.
sa dedicação à vontade de Deus ou À medida que a fogueira se apa-
enfraquecer nossa resolução cristã de ga em uma floresta, as feras se apro-
colocar a glória de Deus à frente de ximam furtivamente. De modo se-
todas as outras considerações. melhante, à medida que o crente ne-
Visto que temos um coração cor- gligencia sua alma, os pecados de seu
rupto, é possível abandonarmos o íntimo começam a enfrentá-lo, com
“primeiro amor” (Ap 2.4). Quer seja maior perigo. Velhos pecados vol-
por mau exemplo, quer seja por en- tam a persegui-lo. Concupiscências
gano, quer seja apenas por causa de da juventude, que o crente julgava
enfraquecimento da determinação, o mortas, ressurgem com novo vigor.
crente pode aprender a abaixar o pa- Torpor incapacitante e estranha lan-
drão de sua obediência. Aquilo que guidez tornam quase impossível ao
em sua alma começou como ouro se crente outrora ativo repelir seus ini-
tornou prata no decorrer dos anos; migos espirituais. O seu testemunho
depois, bronze, e, por fim, é apenas definha. Sua adoração esfria. Seu
ferro ou ferrugem. Outrora, ele vi- amor pela comunhão diminui. Tal
via; agora, porém, tem apenas nome crente inventa desculpas para a sua
de que vive (Ap 3.1). Sua prata ago- ausência na companhia dos santos.
ra é escória, e seu vinho está mistu- Ele é apenas uma imagem pálida do
rado com água. Isto não acontece em homem que era. O que causou isso?
sua totalidade com o verdadeiro cren- Ele negligenciou a sua alma.
te, mas a sua vida cristã pode em certa A alma de pregadores e minis-
medida tornar-se assim. O que cau- tros do evangelho, assim como a
sou isso? Ele negligenciou a sua alma de todos os outros crentes, tam-
alma. bém está exposta aos tipos de deca-
Quando uma casa sofre um afun- dência sobre os quais acabamos de
damento, toda a sua estrutura é afe- falar. Nenhum crente deve se enga-
tada. De modo semelhante, quando nar. Quando a batalha para manter-
um crente negligencia sua alma, to- mos nossa vida espiritual estiver per-
dos os aspectos de sua vida espiritual dida no lugar secreto, o simples fato
entram em declínio visível. Antes, de sermos chamados “reverendo”, ou
esse crente acreditava na infalibili- “pastor”, ou de vestirmos roupas es-
dade da Bíblia; agora, ele ri disso, peciais não nos salvará da queda. A
reputando-o uma paixão da juventu- negligência da alma não reterá por
de. Antes, ele se levantava bem cedo, muito tempo seu amor por sã doutri-
pela manhã, para orar e preparar seu na ou adoração evangélica.
coração para o novo dia; agora, ele O ministro do evangelho que
pula da cama, tendo raros minutos começa a negligenciar sua alma aca-
para orar e meditar. Antes, ele tinha bará, se não se arrepender e mudar
seu lugar na igreja e nunca chegava de atitude a tempo, por negar as dou-
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trinas fundamentais da fé, em secre- trangeiros. Estas coisas foram escri-
to e, depois, em público. A necessi- tas para o nosso ensino.
dade do novo nascimento não é mais Existem armadilhas e ciladas para
considerada por ele com seriedade. o crente velho, assim como existem
A aceitação vazia dos artigos da Con- para o crente novo. Talvez devido
fissão de Fé da Igreja é tudo que ele ao fato de imaginar que já passou da
exige dos membros de sua igreja. zona de perigo o crente velho acre-
Pouco a pouco, toda a mensagem da dita que pode aliviar sua vigilância.
Bíblia foge dele. A expiação, a res- Grande parte dos conflitos de sua
surreição, o nascimento virginal de peregrinação ficou para trás. Ele está
Cristo, a ira de Deus, a segunda vin- quase contemplando a praia de ouro.
da de Jesus e o julgamento por vir — Mas o peregrino veterano tem de lu-
todos estes artigos de fé se removem tar até ao fim. Relaxar pode equiva-
do credo pessoal de tal ministro, ler a manchar sua boa reputação e
embora ele não tenha coragem ou perder uma parte de sua grande re-
integridade moral para afirmar isso. compensa.
Como este pregador mudou, deixan-
do de ser evangélico e tornando-se A Palavra de Deus nos apresenta
um céptico? Ele negligenciou sua o caminho de restauração da negli-
alma. gência da alma: “Sê, pois, zeloso e
Parece estranho, mas a negligên- arrepende-te” (Ap 3.19). Separe um
cia da alma é algo que freqüentemente tempo para orar e jejuar. Aflija a sua
ocorre com o homem maduro e não alma. Lamente os seus pecados pas-
com o jovem. Foi em sua maturida- sados. Clame intensamente a Deus
de, e não em sua juventude, que Noé que lhe outorgue perdão e um novo
foi vencido pelo vinho. Foi em sua senso de seu amor. Odeie a frieza
maturidade, e não em sua juventu- pecaminosa que abafou o seu primei-
de, que Davi contemplou a Bate-Seba ro ardor por Cristo. Lembre o preço
com conseqüências trágicas. Foi em pago em favor de sua alma, no pre-
sua maturidade que Salomão multi- cioso sangue de Cristo. Implore ao
plicou o número de suas esposas e Todo-Poderoso que lhe dê um novo
manchou sua boa reputação, por to- derramamento do seu Espírito, para
lerar as divindades de tais esposas. reacender a chama do altar. Talvez
Foi em sua maturidade, e não em sua muitos de nós precisemos deste arre-
juventude, que Ezequias mostrou pendimento, mais do que imagina-
seus tesouros aos embaixadores es- mos.

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A Lei profere ameaças; o evangelho oferece promessas.


Thomas Adams
6 Fé para Hoje

PASTORES OU POTENTADOS?
John MacArthur Jr

A lguns líderes modernos de mos supor que o exercer liderança


igrejas imaginam-se a si mesmos seja algo espetacular. Liderar a igre-
como homens de negócios, persona- ja (estou falando sobre todos os as-
lidades da mídia, promovedores de pectos da liderança espiritual, não
entretenimento, psicólogos, filósofos somente da função do pastor) — não
ou advogados. Essas idéias e concei- é um manto de status a ser conferido
tos se contrastam, nitidamente, em à aristocracia da igreja. Não é obti-
todos os seus detalhes, com o tom da do pela idade avançada, comprado
simbologia que as Escrituras utilizam com dinheiro ou herdado por laços
para descrever os líderes espirituais. de parentesco. O ministério de lide-
Por exemplo, em 2 Timóteo 2, rar não recai necessariamente sobre
o apóstolo Paulo empregou 7 metá- aqueles que são bem-sucedidos em
foras para descrever os rigores do seus negócios ou em suas finanças.
ministério de liderança. Ele apresenta Liderar a igreja não é distribuído
o pastor como um mestre (v. 2), um com base na inteligência ou no ta-
soldado (v. 3), um atleta (v. 5), um lento. As exigências para a liderança
agricultor (v. 6), um obreiro traba- são pureza de caráter, maturidade
lhador (v. 15), um vaso (vv. 20-21) espiritual e, acima de tudo, disposi-
e um escravo (v. 24). Todas essas ção de servir com humildade.
figuras evocam idéias de sacrifício, A metáfora favorita de nosso
labor, serviço e arduidade. Elas nos Senhor, referindo-se à liderança es-
falam, de modo eloqüente, sobre as piritual, era a de um pastor — al-
responsabilidades complexas e diver- guém que cuida do rebanho de Deus.
sas envolvidas no ministério de lide- Esta foi uma figura que Jesus utili-
rar. Nenhuma delas transforma o zou para descrever a Si mesmo. Todo
ministério de liderança em algo es- líder de igreja é um pastor. A pala-
plendoroso. vra pastor significa alguém que cui-
Esta é a razão por que não deve- da de ovelhas. Esta é uma figura
PASTORES OU POTENTADOS? 7
muito apropriada. Um pastor guia, enquanto os homens mais velhos re-
alimenta, fortalece, consola, corri- alizavam serviços que demandavam
ge e protege. Essas são responsabili- mais habilidade e maturidade.
dades de todo líder de igreja. Pastorear um rebanho espiritual
Os pastores não possuem status. não é tão simples. O pastorado espi-
Em todas as culturas, eles ocupam ritual requer mais do que uma pessoa
os níveis mais baixos da pirâmide de pouca instrução e sem objetivos.
social. Isto corresponde perfeitamen- Os padrões são elevados, e as exi-
te às palavras de nosso Senhor, ao gências, difíceis de satisfazer. Nem
dizer: “O maior entre vós seja como todos podem preencher as qualifica-
o menor; e aquele que dirige seja ções, e de todos os que as satisfazem
como o que serve” (Lc 22.26). poucos parecem ser bem-sucedidos
No plano que Deus estabeleceu neste ministério. O pastorado espiri-
para a Igreja, a liderança é uma po- tual exige um homem de integridade,
sição de humildade, amor e serviço. piedade, dons e capacidades múlti-
Liderar a igreja é um ministério, não plas. No entanto, ele precisa manter
um empreendimento administrativo. a perspectiva e o comportamento de
Aqueles que Deus indica como líde- um jovem pastor de animais.
res não são chamados para serem A tremenda responsabilidade de
monarcas, e sim súditos humildes; liderar o rebanho de Deus está acom-
não celebridades espertíssimas, e sim panhada do potencial de grande bên-
servos que trabalham com empenho. ção ou de grande juízo. Os bons lí-
Aqueles que lideram o povo de Deus deres são duplamente abençoados (1
têm de ser, antes de tudo, exemplos Tm 5.17), e os péssimos líderes são
de sacrifício, devoção, submissão e duplamente repreendidos (v. 20),
humildade. pois “àquele a quem muito foi dado,
O próprio Senhor Jesus serviu muito lhe será exigido” (Lc 12.48).
como modelo para nós, quando se Tiago 3.1 nos diz: “Não vos tor-
inclinou para lavar os pés dos discí- neis, muitos de vós, mestres, saben-
pulos — uma tarefa que habitualmen- do que havemos de receber maior
te era realizada pelos servos mais in- juízo”.
feriores (Jo 13). Se o Senhor do uni- As pessoas freqüentemente me
verso agiu assim, nenhum líder de perguntam o que eu acho ser o se-
igreja tem o direito de pensar que é gredo do crescimento fenomenal da
um mandachuva. Igreja Comunidade da Graça, nas
Pastorear animais é um trabalho últimas duas décadas. Antes de qual-
que não exige muita habilidade. Não quer outra resposta, eu lhes digo que
existem universidades que oferecem é a soberania de Deus que determina
graus de doutorado em pastorear ani- a membresia de uma igreja e que os
mais. Não é um trabalho difícil. Até números não constituem um critério
um cachorro pode ser treinado para para avaliar o sucesso espiritual.
guardar um rebanho de ovelhas. Nos Entretanto, em meio ao tremendo
tempos bíblicos, rapazes (Davi, por crescimento numérico, a espirituali-
exemplo) pastoreavam as ovelhas, dade vital de nossa igreja tem sido
8 Fé para Hoje
notável. Estou convencido de que mas reflete a atitude que desejamos
Deus nos tem abençoado principal- transmitir como pessoas chamadas
mente porque nosso povo tem mos- por Cristo para liderar sua igreja.
trado forte compromisso com a Filipenses 2.3-4 nos dá as pres-
liderança bíblica. Ao afirmar e pro- crições para uma igreja saudável:
curar seguir o exemplo piedoso dos “Nada façais por partidarismo ou
seus líderes, a nossa igreja tem aber- vanglória, mas por humildade, con-
to as portas às extraordinárias bên- siderando cada um os outros superi-
çãos das mãos de Deus. ores a si mesmo. Não tenha cada um
Os líderes da Igreja Comunida- em vista o que é propriamente seu,
de da Graça têm se esforçado para senão também cada qual o que é dos
vencer a preocupação que algumas outros”. Como devemos ministrar?
igrejas parecem ter em relação à Procurando honrar as outras pessoas
auto-estima e ao egoísmo caracterís- e satisfazer as necessidades delas. Se
ticos da sociedade contemporânea. Os as pessoas de uma igreja estão bri-
líderes de nossa igreja tanto seguem gando por posições e autoridade, ali
o modelo como proclamam a chama- haverá o mesmo tipo de caos que
da de Jesus ao discipulado — “Quem houve entre os discípulos, quando
não toma a sua cruz e vem após mim perguntavam a Jesus qual deles era o
não é digno de mim.Quem acha a maior (Mt 20.20-21, Mc 9.33-35,
sua vida perdê-la-á; quem, todavia, Lc 22.24).
perde a vida por minha causa achá- Temos de liderar com humilda-
la-á” (Mt 10.38,39). de nosso povo. Os pastores determi-
Há alguns anos, quando constru- nam a direção do rebanho. Nenhu-
íamos o auditório que agora utiliza- ma igreja será bem-sucedida, se os
mos como ginásio, alguns fizeram a seus líderes falharem em sua tarefa.
compra de sete cadeiras em formato E nenhum rebanho sobreviverá e
de trono, com uma coroa esculpida prosperará, se os seus pastores tenta-
em sua parte mais alta. Tais cadeiras rem barganhar seu ministério por tro-
serviriam ao propósito de que o cor- nos.
po de pastores se assentassem, quan-
do subissem à plataforma. Nunca (Adaptado de Shepherdology: A
usamos aquelas cadeiras. Nossos pas- Master Plan for Church Leadership
tores preferem assentar-se nos ban- [Pastorado, um Plano-Mestre para
cos, com a igreja. Isto é simbólico, a Liderança da Igreja].)

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A vida não tenciona ser um lugar de perfeição, e sim de


preparação para sermos perfeitos.
Richard Baxter
DISCIPLINA NA IGREJA 9

DISCIPLINA NA IGREJA
Choolwe Mwetwa
(Pastor na Zâmbia. Preletor na V Conferência Fiel em Moçambique.)

D epois da pregação da Palavra, modo breve os princípios extraídos


a administração fiel da disciplina é deste e de outros textos bíblicos.
uma das características da igreja ver-
dadeira; mas esta característica está
1. FORMAS DE DISCIPLINA
desaparecendo em nossos dias. Os
sermões não atacam os pecados soci- Quando nos referimos à discipli-
ais e o materialismo. E os pecados na na igreja, devemos pensar não
morais raramente são confrontados. somente na punição do erro. A dis-
O resultado dessa atitude é uma gra- ciplina bíblica na igreja se inicia com
dual infiltração do mundanismo na atitudes de prevenção e, por conse-
igreja. Muitas igrejas pensam que guinte, inclui tanto a disciplina
uma estrita aceitação da disciplina na formativa como a reformativa. A pri-
igreja é subversiva ao seu crescimen- meira envolve todo o processo que
to. Para uma época que não vê nada resulta em prevenir os crentes de ca-
menos que sucesso em números, a írem no pecado. Todo o processo de
disciplina se torna uma desvantagem. batismo, tornar-se membro da igre-
Exceto nos casos de pecados horrí- ja, submeter-se ao ministério de
veis, a disciplina na igreja tem sido ensino, manter a prática da oração e
amplamente abandonada por muitos. da comunhão com o povo de Deus,
Não importa qual seja a sua ten- alcançar o perdido, separar o dízimo
dência de pensamento, desejo afirmar de sua renda para o Senhor e subme-
que o critério de avaliação de uma ter-se à liderança dos pastores — essas
liderança saudável e bem-sucedida é coisas estão antecipadas na discipli-
uma igreja bem disciplinada. Preten- na formativa da igreja. A disciplina
do salientar cinco aspectos da reformativa, assim como nos sugere
disciplina que são dignos de nossa o termo, se preocupa com o apri-
reflexão. Mateus 18.15-20 nos ofe- moramento de um crente que se
rece os princípios mais esclarecedores beneficia pouco da disciplina
a respeito deste assunto. Em vez de formativa, um crente que erra em sua
apresentar uma exposição completa jornada cristã. Estaremos nos refe-
desta passagem, considerarei de rindo a esta disciplina sempre que
10 Fé para Hoje
utilizarmos o termo disciplina sem tor ou presbítero. O próximo passo
qualificativos. é o isolamento social (Rm 16.17-20).
Os crentes culpados de algum Trata-se do esforço dos membros para
erro em seu viver, como o “irmão” reterem sua comunhão, seu amor e
mencionado no versículo 15, estão seu cuidado para com o irmão que
sujeitos a diversos modos de atitude pecou. Este esforço tem o objetivo
reformativa, dependendo do seu pe- de produzir embaraço ou vergonha
cado. Essa atitude é reabilitadora e (2 Ts 3.14,15). Alguns se referem a
punitiva em seu propósito. Às vezes, isto como suspensão da comunhão.
os pastores têm evitado o termo “pu- Por último, temos a forma mais se-
nição” ao descrever este aspecto da vera, que é a excomunhão (Mt 18.17;
disciplina. No entanto, o apóstolo 1 Co 5.4,5). Por meio desta forma
Paulo a chama de “punição” em 2 de disciplina, o membro que conti-
Coríntios 2.6. Portanto, a punição é nua no erro é excluído da igreja, de-
uma parte integral da disciplina. É clarado contagioso à comunhão da
claro que não significa punição físi- igreja e entregue de volta ao mundo,
ca; tampouco se refere a confiscação do qual Satanás é o senhor. Na reali-
de bens. É uma disciplina infligida dade, este membro é declarado e tra-
emocional e psicologicamente pela tado como um não-crente, até que
terrível vergonha experimentada pelo prove o contrário. Ao mesmo tempo
disciplinado. Quanto menos odioso em que este membro terá permissão
for o pecado, tanto menos severa de freqüentar os cultos e será enco-
deve ser a punição. Precisamos di- rajado a fazer isso, ele o fará na con-
zer que a seriedade do pecado de dição de réprobo. A membresia da
alguém está mais relacionada à ati- igreja, conforme se pode observar,
tude da própria pessoa para com o é um pré-requisito para qualquer for-
pecado cometido do que ao caráter ma de disciplina.
intrínseco do seu pecado. Este é um Não há necessidade de enfatizar
fato importante na administração da que somente os membros da igreja
disciplina. Basicamente, quatro ofen- local estão sujeitos à disciplina. O
sas devem estar sujeitas à reprovação ofensor é chamado de “irmão” (Mt
imediata da igreja. 18.15), não somente porque mantém
A forma mais branda de disci- um relacionamento social para com
plina reformativa é a simples repre- o ofendido, mas também porque os
ensão entre um crente e outro (Mt dois pertencem a um corpo idêntico
18.15). Mas o que realmente nos chamado igreja. Todo o contexto
interessa neste artigo é o exercício ressalta isto. Toda igreja verdadeira
da disciplina mais formal e pública. deve ter um rol de membros consti-
Neste caso, a primeira coisa a fazer tuído de crentes batizados, com bom
é a repreensão pública (1 Tm 5.20). testemunho diante da igreja e do
Nesta repreensão, o crente errante é mundo. Na freqüência da igreja, ha-
ordenado a desculpar-se diante da verá aqueles que não são membros.
congregação do povo de Deus e re- Estes serão crentes ou não-crentes.
preendido publicamente por um pas- Os não-crentes não devem ser mem-
DISCIPLINA NA IGREJA 11
bros de uma igreja, em nenhuma cir- razão, somente os membros de uma
cunstância. De modo semelhante, igreja local podem ser disciplinados.
nenhum crente deve, em qualquer Os incrédulos não podem ser
circunstância, deixar de fazer parte objetos da disciplina da igreja, por-
da membresia de uma igreja local. que medidas de disciplinas têm o
Na ocorrência de um pecado, a dis- objetivo de restaurar os crentes que
ciplina será aplicada aos membros, e erram e não o de regenerar os incré-
não àqueles que estão fora da dulos, que, em primeira instância,
membresia da igreja. Embora os não devem ser aceitos na membresia
crentes não-membros devam ser ad- da igreja. Tais pessoas são insensí-
vertidos particularmente, por causa veis aos propósitos disciplinadores da
do seu erro, restauração;
isto não é um  por essa ra-
exercício da zão, não
disciplina da
A disciplina bíblica na igreja se podem ser
igreja. No inicia com atitudes de preven- objetos da
máximo, ção e, por conseguinte, inclui disciplina da
isto equivale tanto a disciplina formativa igreja. É
às admoesta- Deus que
ções e repre-
como a reformativa. tem de julgar
ensões diri-  aqueles que
gidas aos estão fora da
não-regenerados que ouvem a men- igreja, enquanto esta julga os seus
sagem do evangelho na igreja. membros (1 Co 5.12,13).
Há boas razões que explicam por Alguns talvez desejem saber que
que a disciplina reformativa dever ser medidas devem ser aplicadas a um
aplicada somente aos membros da crente que erra e não é membro da
igreja. Primeiramente, a disciplina igreja que ele freqüenta com regula-
é um privilégio deles. Hebreus 12.5- ridade. As Escrituras desconhecem
11 nos recorda que a disciplina é um esse tipo de pessoa. Todo crente tem
instrumento de confirmar a filiação; de pertencer à membresia de uma
é uma evidência de ser amado, bem igreja. Visto que tal pessoa não exis-
como uma preparação da santidade te nas Escrituras, fazer considerações
que compartilharemos com Deus. Em hipotéticas somente daria crédito à
segundo lugar, são os próprios cren- possibilidade inaceitável da existên-
tes que desfrutam de todos os cia de tal pessoa.
privilégios da membresia; e a disci- Na melhor das situações, pode-
plina da igreja consiste na perda de mos apenas nos referir ao caso de um
alguns desses privilégios. Seria uma crente que é passível de disciplina
zombaria retirar privilégios de pes- enquanto participa de outra igreja,
soas que não os desfrutavam antes. da qual ele não é membro. Alguém
A perda de privilégios peculiares só que está nesta condição deve ser dis-
pode ser aplicada a pessoas que estão ciplinado por sua igreja de origem
no gozo desses privilégios. Por essa sob a recomendação e superintendên-
12 Fé para Hoje
cia da igreja onde ele freqüenta. Em os da disciplina são a purificação da
outras palavras, ao receber a infor- igreja, a restauração do pecador e a
mação dos líderes da igreja a qual glorificação do nome de Deus.
ele freqüenta, os líderes da igreja de
origem decidirão que medidas disci-
4. OS AGENTES DA DISCIPLINA
plinares apropriadas devem ser apli-
cadas ao membro errante. A natureza da igreja exige que
Este foi o princípio que o após- todos os membros estejam envolvi-
tolo Paulo abordou, quando, ao se dos na disciplina. Aqueles que vêem
encontrar distante da igreja de um irmão ou uma irmã em pecado
Corinto, onde o pecado fora come- se encontram na linha de frente do
tido, ele, como presbítero de outra dever — isto é o que afirma Mateus
igreja (em Éfeso), disse: “Eu, na 18.15. Em segundo, o dever recai
verdade, ainda que ausente em pes- sobre aqueles que são informados ou
soa, mas presente em espírito, já aqueles que são chamados a tentar
sentenciei, como se estivesse presen- promover a restauração do crente que
te, que o autor de tal infâmia seja, está no erro (v. 16). Em terceiro, a
em nome do Senhor Jesus, reunidos responsabilidade da disciplina recai
vós e o meu espírito, com o poder sobre os presbíteros ou pastores que,
de Jesus, nosso Senhor, entregue a encontrando dificuldade em assegu-
Satanás....” (1 Co 5.3-5.) Tudo isso rar-se do arrependimento, trazem o
deve nos mostrar com clareza que os caso à igreja, para que haja uma ação
membros da igreja são os objetos da formal (v. 17).
sua disciplina. É muito importante que os mem-
bros sejam encorajados a cumprir seu
papel de protegerem um ao outro e
2. CASOS PARA DISCIPLINA
em insistir que os errantes se arre-
As ofensas passíveis da discipli- pendam. Uma igreja que fecha os
na da igreja são: (1) permanência no olhos ao pecado, deixando que os lí-
erro - Mt 18.15-17; (2) conduta ou deres farejem sua existência e o
ensino causadores de divisão - Rm resolvam por si mesmos, essa igreja
16.17; Tt 3.10; (3) comportamento logo será dominada por imoralidade
desordenado - 2 Ts 3.6-15; (4) pe- e escândalos. Os primeiros passos
cado escandaloso - 1 Co 5.1-13; e, mencionados em Mateus 18.15,16,
(5) desacato à disciplina da igreja - envolvendo os membros da igreja,
Mt 18.17; Nm 16.12-20. são importantes para que o trabalho
pastoral não se faça necessário. O
dever dos pastores e líderes deve apa-
3. PROPÓSITO DA DISCIPLINA
recer nos últimos estágios. Eles
Embora a vergonha (2 Ts 3. devem agir no estágio final de pro-
14b), a repreensão (1 Tm 5.20) e a curar estabelecer as circunstâncias
humilhação (1 Co 5.5) sejam os que cercam o pecado, de validar as
objetivos da disciplina, são objetivos exortações ao arrependimento e de
secundários. Os propósitos primári- exercer a forma ideal de punição, se
DISCIPLINA NA IGREJA 13
esta for necessária. A exceção, con- certeza a respeito de como classifi-
forme elucidaremos, ocorre nos casos car o pecado, eles são advertidos a
em que o pecado tem uma natureza procurar o conselho dos líderes so-
escandalosa. bre o pecado, enquanto mantêm suas
atitudes particulares.
5. PROCEDIMENTO NA DISCIPLI-
O papel dos líderes da igreja.
NA
Depois de estabelecer as circuns-
O papel de membros individuais da tâncias relacionadas ao pecado e ao
igreja. caráter do arrependimento, se este
A passagem de Mateus 18, con- ocorrer, os líderes decidem a puni-
forme já a apresentamos, é o proce- ção apropriada que o ofensor merece,
dimento que temos de seguir. Mas a fim de satisfazer adequadamente os
este procedimento se aplica, fre- propósitos para os quais a discipli-
qüentemen- na foi insti-
te, àquilo  tuída. Eles
que chama- devem trazer
mos de com- A igreja tem de participar da esta decisão
portamento decisão disciplinar, porque os aos membros
desordenado membros tomarão parte da igreja,
e não ao pe- na aplicação da disciplina. para que eles
cado escan- a ratifiquem.
daloso. No  Quando o a-
caso especí- póstolo Pau-
fico de um comportamento desorde- lo disse aos crentes de Corinto: “Eu,
nado, o crente pode ser instado ao na verdade, ainda que ausente em
arrependimento, em particular. pessoa, mas presente em espírito, já
Quando há ocorrência de pecado es- sentenciei, como se estivesse presen-
candaloso, o culpado não somente é te, que o autor de tal infâmia seja,
confrontado com a realidade de seu em nome do Senhor Jesus, reunidos
pecado por aqueles que o testemu- vós e o meu espírito, com o poder
nharam, como também está sob a de Jesus, nosso Senhor, entregue a
responsabilidade de contá-lo imedi- Satanás” (1 Co 5.3-5), ele especifi-
atamente aos líderes. Nenhuma con- cou o papel que um pastor ou
fissão particular, ou remorso, ou presbítero desempenha no processo
arrependimento manifesto para com de disciplina. Nesta passagem, o
os membros comuns termina o pro- apóstolo deixou claro que os líderes
cesso de disciplina. Os pastores ou têm de formular o juízo com o qual
presbíteros devem ter a permissão de o restante da igreja deve concordar.
lidar urgentemente com esse tipo de Não compete ao membro realizar o
pecado, por causa do dano que pode papel dos líderes. Àqueles compete
ser causado ao ofensor, à sua igreja apenas ratificar a decisão destes, a
e à obra de Cristo (1 Co 5.1-13). menos que a decisão tenha sido uma
Nos casos em que os crentes não têm decisão mal formulada e não esteja
14 Fé para Hoje
em harmonia com a lei de Cristo. ça e/ou participar da Ceia do Senhor,
As decisões de natureza disciplinar por algum tempo. A natureza do pe-
não são necessariamente atingidas por cado desse crente e o seu estado de-
procedimentos democráticos ou por terminarão as restrições. Casos dessa
concordância da maioria. natureza envolvem aqueles cuja con-
O corpo de presbíteros ou pasto- fissão de erro é imediata e voluntá-
res que julga um caso de disciplina ria, cujo remorso e arrependimento
tem de ser visto como um conselho são inconfundíveis e cujo pecado não
de juízes que, depois de muita in- tenha causado escândalo público e não
vestigação, deliberação e busca da envolva implicações legais (Rm
orientação divina, chegam a um ve- 13.3,4). A razão para tal procedi-
redito. Normalmente, eles têm o pri- mento, neste caso, é que já se cum-
vilégio de conhecer informações priu o propósito fundamental da
referentes ao caso com o qual estão disciplina na igreja — ou seja, a res-
lidando, informações que outras pes- tauração do pecador e purificação da
soas, devido aos ditames da confi- casa de Deus (cf. Pv 28.13; 2 Co
dência, não podem saber. Este fato 2.6-8,10b). O que a igreja deveria
merece grande respeito. É claro que ter produzido por um ato de censura
os membros da igreja ouvirão a res- o Espírito Santo produziu logo que
peito dos detalhes relevantes e os dis- o pecado foi cometido.
cutirão, quando necessário. As
informações dos membros da igreja O papel da congregação.
são importantes, porque servem para Se os membros da igreja não têm
eliminar a possibilidade de perder razões boas e convincentes para dei-
informações vitais relevantes ao caso xarem de concordar com as reco-
em apreciação, informações que os mendações dos líderes, eles têm o
membros talvez possuam. Isso tam- dever de apoiá-las. A igreja tem de
bém revela, de maneira formal, a participar da decisão disciplinar,
opinião, a sabedoria e o dever dos porque os membros tomarão parte
membros para com Deus, no que se na aplicação da disciplina. O levan-
refere àquele caso de disciplina. tar as mãos é uma maneira segura,
Será proveitoso mencionar que embora não indispensável, de ma-
haverá casos com os quais os líderes nifestar concordância. Por conse-
terão de lidar e resolver em particu- guinte, todo membro de igreja,
lar. Os membros nunca saberão des- incluindo aquele que se abstém de
ses casos, até, provavelmente, o Dia votar e aquele que se ausenta da as-
do Juízo. Nesses casos, o crente er- sembléia, está obrigado a aplicar a
rante será repreendido e aconselha- disciplina que a assembléia concor-
do particularmente. Por causa de sua dou.
própria consciência, esse crente pode Além disso, precisamos enfatizar
ser advertido a se abster de funções que os procedimentos na assembléia
públicas na igreja, tais como liderar de membros são confidenciais. Os
a música da igreja, orar em público, pronunciamentos dos membros pre-
assumir qualquer função de lideran- sentes não podem ser ditos aos mem-
DISCIPLINA NA IGREJA 15
bros ausentes e, menos ainda, à pes- assim como protege o irmão de man-
soa cujo caso disciplinar a assembléia ter sentimentos aversivos, contra
estava considerando. As contribui- pessoas específicas, ao fazerem re-
ções de cada membro são feitas em velações negativas de sua conduta e
confidência. Sem a autorização pré- vereditos dolorosos. Assim como os
via dos autores de tais pronunciamen- juízes deliberam entre si mesmos, na
tos, citá-los (ignorando o perigo de ausência do acusado, para chegarem
má interpretação do fato ou do con- a uma decisão, é recomendável que
texto) a alguém que não se inteirou a assembléia faça seu julgamento na
dos procedimentos da assembléia sig- ausência do crente acusado. Isto é
nifica ser um difamador e pode cons- bom para ambas as partes.
tituir-se numa quebra dos estatutos Existe a urgente necessidade de
da igreja, bem como da aliança de restaurarmos a disciplina da igreja ao
amor (o amor “tudo suporta” — 1 seu lugar de importância. Freqüen-
Co 13.7). Somente os presbíteros ou temente, os líderes se comprometem
pastores têm o direito de comunicar neste assunto, quando eles mesmos
a decisão da igreja ao membro cul- não vivem corretamente. Quer sejam
pado e de responder às suas pergun- culpados de suas próprias práticas
tas; e os membros disciplinados têm erradas, as quais exigem disciplina,
de mostrar respeito aos pastores e quer não estejam mantendo um rela-
presbíteros nas ocasiões em que lhes cionamento saudável com os
dirigem tais perguntas. E os pasto- membros da igreja, ambos os casos
res e presbíteros, devemos ressaltar, envolvem culpa de cumplicidade. A
não têm o direito de revelar os no- timidez é outro fator que enfraquece
mes daqueles que lhes forneceram a disciplina, ou seja, o temor dos
informações, sem que estes os auto- homens ou o amor pelo louvor dos
rizem previamente. Revelar tais no- homens. O amor por números é ou-
mes, sem consentimento antecipado, tro fator.
seria uma traição. Se não tivermos Com fidelidade e cuidado, de-
este cuidado, amargura, ódio e cis- vemos pastorear nossas ovelhas da
mas podem surgir na igreja. E o bem maneira como elas devem ser pasto-
almejado pela disciplina será arrui- readas. Quando errarem de modo
nado. grave, devemos corrigi-las com amor
ou discipliná-las sem cairmos em
O lugar do irmão errante. autoritarismo, o qual as Escrituras
Embora o crente errante possa condenam (1 Pe 5.2,3). Oh! deve-
estar presente para ouvir as acusações mos meditar sobre o fato de que a
contra ele e o veredito da igreja lhe medida de uma igreja saudável e de
possa ser anunciado diante dos pre- uma liderança bem-sucedida é uma
sentes na assembléia, minha opinião igreja bem-disciplinada! Isto mantém
é esta: ele deve ser mantido ausente a pureza da igreja, visto que aspira à
das deliberações sobre o seu caso. Isto pureza de Cristo, o seu cabeça, a
permite que haja liberdade de expres- quem seja a glória para sempre.
são e julgamento entre os membros, Amém!
16 Fé para Hoje

A UTILIDADE DAS ESCRITURAS


NO ACONSELHAMENTO
Wayne Mack

O que a Bíblia nos ensina? A nos ensina (pelo menos na forma de


Bíblia nos ensina a respeito da vida; princípios) tudo o que necessitamos
ela nos ensina a própria verdade (Jo saber para que tenhamos uma vida
17.17). A Bíblia nos ensina a verda- eficaz e bem-sucedida, conforme
de que precisamos saber para come- Deus mesmo define esse tipo de vida
çarmos a viver a vida que honra e (2 Pe 1.8,9; 1 Tm 4.7; Jo 10.10).
glorifica a Deus. Ela nos ensina o As Escrituras são o nosso padrão
que é certo e o que é errado; o que é infalível e inerrante em assuntos de
proveitoso, o que é sábio e o que é fé e de prática. A Palavra de Deus é
estultice. A Bíblia nos ensina como “perfeita e restaura a alma”; é “fiel
podemos escapar da corrupção que e dá sabedoria aos símplices”; é cor-
existe no mundo e em nosso cora- reta e alegra o coração; é pura e “ilu-
ção. Ela nos ensina como podemos mina os olhos”. Seus ensinos são
ser eficientes no ministério cristão; “mais desejáveis do que o ouro, mais
como ser bons esposos e esposas, pais do que muito ouro depurado”. Por
e filhos; como ser bons cidadãos, meio deles, o povo de Deus é adver-
como amar a Deus e ao nosso próxi- tido, protegido do erro e de angústi-
mo (2 Pe 1.3,4). A Bíblia nos ensi- as, e, “em os guardar, há grande re-
na como resolver nossos problemas compensa” (Sl 19.7-11).
à maneira de Deus (1 Co 10.13; Rm O Salmo 119, o capítulo mais
8.32-39). Ela nos ensina como ter longo da Bíblia, refere-se totalmen-
alegria, paz, gentileza, paciência, te à Palavra de Deus. Neste salmo,
bondade, amabilidade, autocontrole em quase todos os seus 176 versícu-
e dignidade (2 Pe 1.5-7; Gl 5. los, o autor exalta a utilidade dos
22,23). A Bíblia nos ensina a res- ensinos encontrados na Palavra de
peito da Divindade, do céu, do in- Deus. Conhecer e praticar os ensi-
ferno, da vida presente e da vida por nos da Palavra de Deus produz uma
vir. Na verdade, a Palavra de Deus vida abençoada, um coração agrade-
A UTILIDADE DAS ESCRITURAS NO ACONSELHAMENTO 17
cido, livramento do opróbrio, pure- problemas. Depois de apresentar as
za de coração, libertação do pecado, várias e habitualmente conflitantes
alegria e gozo incomparáveis, livra- teorias a respeito do homem e seus
mento da reprovação e do desprezo, problemas (teorias ensinadas por lí-
vigor e fortalecimento interior, ou- deres respeitados no campo da psi-
sadia e coragem, conforto e refrigé- cologia), um dos professores disse:
rio, liberdade e segurança e muitos “Não podemos ter certeza se qual-
outros benefícios. Não devemos nos quer destas teorias é completamente
admirar des- verdadeira.
tas palavras  Mas, se vo-
do salmista: Quão infeliz é a situação daque- cês têm de
“Terei pra- aconselhar
zer nos teus les que, trabalhando em ajudar outras pesso-
mandamen- outros, não têm uma base sólida as, estudem
tos, os quais que lhes capacite a entender as estas teorias
eu amo”; pessoas e seus problemas e a e decidam
“Terei pra- qual delas
zer nos teus encontrar soluções para eles. lhes parece
decretos;  mais sensata.
não me es- Vocês têm
quecerei da tua palavra”; “Os teus de fazer isso porque, quando as pes-
testemunhos são o meu prazer, são soas vierem para aconselhamento,
os meus conselheiros”; “Lâmpada elas desejarão ouvir algo que lhes es-
para os meus pés é a tua palavra e, clareça o porquê dos problemas pe-
luz para os meus caminhos”; “A los quais elas estão passando”. Apre-
minha alma tem observado os teus ciei a sinceridade deste homem, mas
testemunhos; eu os amo ardentemen- fiquei triste por reconhecer que pes-
te”; “Tenho por, em tudo, retos os soas estariam procurando ajudar ou-
teus preceitos todos” (Sl 119.47, 16, tras a entenderem seus problemas e a
24, 105, 167, 128). encontrarem soluções para eles, sem
Que bênção é possuirmos o en- terem qualquer razão consistente que
sino infalível do Deus infinito e iner- lhes daria a certeza de que as coisas
rante, desfrutando deste ensino como em que estavam crendo tinham al-
um guia para nossa vida e um auxí- gum valor genuíno. Ao mesmo tem-
lio para entendermos nossos proble- po, eu me regozijei em saber que a
mas e as soluções para eles! Este en- Palavra de Deus é proveitosa para nos
sino se tornou especialmente real para ensinar, de maneira infalível, “todas
mim há algum tempo, quando esta- as coisas que conduzem à vida e à
va em meus estudos universitários na piedade” (2 Pe 1.3).
área de psicologia. Enquanto estu- Em outro curso de psicologia, a
dava na universidade, ouvi muito a questão dos valores estava sendo dis-
respeito de teorias e opiniões de mui- cutida. Havíamos aprendido que a
tas pessoas supostamente eruditas no única maneira de alguém determinar
que diz respeito ao homem e seus o certo e o errado é agir de confor-
18 Fé para Hoje
midade com esta máxima: “O certo não temos realmente nenhum padrão.
é tudo aquilo que é significativo e Quão infeliz é a situação daque-
satisfatório para você e não machuca les que, trabalhando em ajudar ou-
as outras pessoas”. Em meu papel de tras, não têm uma base sólida que
respostas daquela aula, afirmei que lhes capacite a entender as pessoas e
isso nos deixa em um dilema terrí- seus problemas e a encontrar solu-
vel, relativista e incerto no que se ções para eles. Quão agradecidos e
refere a determinar o certo e o erra- humildes nos deveríamos mostrar
do. De maneira tão respeitosa e gen- pelo fato de que temos a Palavra de
til quanto possível, escrevi: “Esta Deus, a qual é proveitosa para nos
maneira de determinar o certo e o ensinar. Meus irmãos, posso dizer-
errado é bastante relativista e subje- lhes, não com orgulho, e sim com
tiva, pois aquilo que eu penso ser sig- ousadia, que realmente temos as res-
nificativo e satisfatório pode ser postas! Temos a verdade na Palavra
muito diferente daquilo que outra de Deus. Neste livro, a Bíblia, o Deus
pessoa pensa ser significativo e sa- todo-poderoso nos revela o que é
tisfatório. Além disso, como eu posso certo e o que é errado. Quando fun-
saber que algo é realmente significa- damentamos nosso entendimento nes-
tivo e satisfatório? Visto que eu sou te livro, não precisamos perguntar:
um ser humano limitado, aquilo que “O que eu estou fazendo é certo ou
eu penso ser significativo e satisfa- errado?” Se os ensinos deste livro são
tório pode não ser, de maneira algu- inspirados por Deus, podemos ter
ma, uma avaliação exata”. paz, confiança e segurança, se aqui-
No mesmo papel de respostas, lo em que cremos, o que dizemos, o
escrevi as seguintes perguntas a res- que fazemos está de acordo com o
peito da declaração de que o certo é que a Bíblia diz. Se o Deus todo-po-
aquilo que não machuca as outras deroso, todo-sábio, onisciente e in-
pessoas: “Que padrão devo utilizar falível ensina algo, o que nos impor-
para determinar se algo realmente não tam as coisas ensinadas pelo resto do
machucará outra pessoa? Como pos- mundo? É de acordo com a lei e com
so ter certeza de que outra pessoa não o testemunho da Palavra de Deus que
será ferida por aquilo que eu faço ou falamos a verdade, e qualquer coisa
não faço? Sou finito e falível, e meu que contradiz a Palavra de Deus é
entendimento daquilo que machuca expressamente falsa (Is 8.20).
os outros pode ser total ou, pelo Se uma pessoa não tem a certeza
menos, parcialmente errado”. Em resultante de reconhecer que aquilo
respostas às minhas perguntas, o pro- em que ela crê é o ensino de Deus,
fessor escreveu: “Você levantou al- tal pessoa passa a vida toda como um
gumas questões sérias e interessan- navio sem âncora. Ela é constante-
tes, para as quais não temos respos- mente jogada de um lado para o ou-
tas; mas continuaremos a lutar com tro, sem qualquer fundamento ver-
tais questões”. Em outras palavras, dadeiro para ter certeza a respeito de
se esquadrinharmos este padrão do qualquer coisa. Quando tal pessoa
certo e do errado, descobriremos que medita realisticamente a respeito de
A UTILIDADE DAS ESCRITURAS NO ACONSELHAMENTO 19
sua situação, o resultado é incerteza, soa entende, crê e aplica esses ensi-
temor, ansiedade, depressão, confu- nos à sua vida, ela possui os funda-
são, perplexidade e várias outras ex- mentos sólidos para desfrutar de paz,
periências desagradáveis. Ao contrá- confiança, certeza, contentamento,
rio disso, quando uma pessoa reco- ousadia, coragem, gozo, gentileza,
nhece que os ensinos da Bíblia fo- bondade, amabilidade, autocontrole
ram inspirados por Deus, e tal pes- e dignidade.

CANTAR NA ADORAÇÃO
De acordo com o costume da Festa da Páscoa, nosso Senhor
Jesus entoa com os seus discípulos, no silêncio da noite, o “Halel”,
a grande canção de louvor que consistia dos Salmos 115 a 118. É a
primeira vez que encontramos nosso Senhor cantando — o origi-
nal grego não admite qualquer outra interpretação. Por meio dessa
atitude, nosso Senhor consagrou para sempre a música vocal em
sua Igreja. O cantar — esta linguagem de sentimentos, esta exala-
ção de um estado de mente elevado, este impulso de uma alma
extasiada — é um valioso dom do céu à terra.
Adotado no serviço do santuário, quão benéfica e abençoadora
é a sua influência! Quem não experimentou o seu poder de elevar-
nos acima da atmosfera obscura da vida diária; seu poder de
transportar-nos, de modo maravilhoso, aos arredores do céu; seu
poder de dilatar e comover o coração; seu poder de repelir a tris-
teza e romper os laços de inquietação? E este dom pode realizar
coisas maiores do que estas, quando, do céu, o Espírito Santo mescla
com o cantar o seu sopro. Milhares de vezes, o cantar tem restau-
rado a paz em meio às lutas, banido a Satanás e aniquilado os seus
projetos. À semelhança de uma deliciosa brisa da primavera, este
dom tem soprado através da planície rija e fria, levando corações
endurecidos a se derreterem como cera, tornando-os aráveis e
capazes de receber a semente da eternidade.
Vemos o Senhor da glória cantando com os seus discípulos.
Oh! Se Davi, que escreveu aqueles salmos, tivesse imaginado que
eles teriam a honra sublime de serem cantados pelos graciosos
lábios dAquele que era o supremo objeto das suas canções, ele
teria deixado a pena cair de suas mãos, em jubilosa admiração!
(F.W.Krummacher; The Suffering Saviour, p. 79)
20 Fé para Hoje

COMO ADOUTRINA
AFETA O EVANGELISMO
OS CAMINHOS DIVERGENTES DE
ASAHEL NETTLETON E CHARLES FINNEY
Rick Nelson

M uitos hoje expressam surpre- de seu zelo evangelístico, e liberais


sa quando ouvem o nome de Asahel se referem com orgulho ao envolvi-
Nettleton, o último grande evange- mento de Finney na reforma social.
lista que expôs as Doutrinas da Graça. Mark A. Noll considera Charles Fin-
Embora Nettleton (1783-1844) tenha ney “a figura crucial no evangelica-
visto trinta mil pessoas convertidas lismo dos norte-americanos brancos,
durante um ministério ativo de dez depois de Jonathan Edwards”, tendo
anos no início do século XIX, seu impacto mais duradouro do que Ral-
legado sofre de trágica negligência, ph Waldo Emerson, Daniel Webster
talvez até de menosprezo, nas mãos e Horace Mann, na vida da nação
dos historiadores eclesiásticos con- emergente.
temporâneos. O legado de Charles Finney
Por outro lado, Charles G. Fin- moldou, em muitos aspectos, a teo-
ney (1792-1875) tem sido objeto de logia e a metodologia do evangelis-
extensiva abordagem biográfica. mo, em especial o evangelismo dos
Considerado o pai do avivalismo batistas do Sul. A publicação das
moderno, Charles Finney represen- obras mais importantes de Finney,
ta o marco divisor na mudança do Lectures on Revivals of Religion (Pa-
calvinismo para o arminianismo lestras em Avivamentos da Religião)
como a teologia predominante no e Lectures on Systematic Theology
evangelismo. Conservadores gostam (Palestras em Teologia Sistemática),
muito de Charles Finney por causa causaram um impacto no evangelis-
COMO A DOUTRINA AFETA O EVANGELISMO 21
mo que se estende até aos nossos afirmações. O homem, sendo total-
dias. A ênfase dos batistas do Sul nas mente depravado em sua natureza e
cruzadas simultâneas, na preparação escolha, não pode salvar a si mes-
das cruzadas e no sistema de apelo mo. Pela graça de Deus, alguns foram
público e a utilização de reuniões de escolhidos para a vida eterna. Para
avivamento como estratégia podem os eleitos por Deus, o Senhor Jesus
ser atribuídas à considerável influ- realizou uma expiação penal e vicá-
ência de Charles Finney sobre o evan- ria em favor dos pecados deles, na
gelicalismo de seus dias. cruz. O eleito, por quem Jesus mor-
Este artigo afirma o ponto de reu, será atraído pela triunfante graça
vista de que a crença de uma deno- de Deus ao arrependimento e à fé
minação, uma igreja ou uma pessoa salvadora em Cristo. Eles serão pre-
a respeito da salvação está diretamen- servados por Deus para a salvação
te relacionada ao evangelismo que eterna.
elas praticam. A soteriologia molda Os seres humanos têm de ser re-
a metodologia de evangelismo. O generados por Deus e precisam ter
pressuposto é que a sã doutrina da sua natureza humana transformada,
salvação deve produzir uma prática antes que se arrependam e confiem
correta de evangelismo. em Cristo para a salvação. Na teolo-
gia de Nettleton, a capacidade
humana de reagir em cada etapa da
O AVIVALISMO DE A SAHEL
salvação provém de um ato sobera-
NETTLETON — CENTRALIZADO
no de Deus. A menos que Deus o
EM DEUS
impulsione, o homem permanecerá
Seguindo a linha teológica de desesperadamente perdido.
Jonathan Edwards, que enfatizava a A metodologia de Nettleton cor-
responsabilidade humana na perspec- respondia perfeitamente à sua teolo-
tiva calvinista sobre o mundo, Asahel gia. Ele utilizava a pregação como
Nettleton representava o aprimora- meio de trazer os pecadores à con-
do calvinismo da Nova Inglaterra de vicção de seus pecados. Nettleton
seus dias. Enquanto se apegava fir- regava todos os seus esforços evan-
memente a cada um dos artigos do gelísticos com ardente e humilde ora-
Sínodo de Dort (também conhecidos ção a Deus, o único que podia
como os Cinco Pontos do Calvinis- regenerar uma pessoa perdida. Aos
mo), conforme o entenderam os despertados, que respondiam à cha-
teólogos que o antecederam na Nova mada para se reunirem fora dos cul-
Inglaterra (Jonathan Edwards, Jose- tos normais, Nettleton oferecia
ph Bellamy e Timothy Dwight), reuniões de inquirição, que eram es-
Asahel Nettleton acreditava, antes e sencialmente sessões de aconselha-
acima de tudo, que seu sistema de mento evangelístico em grupo.
doutrina era fiel à verdadeira revela- Nestas reuniões, as pessoas podiam
ção bíblica. receber ajuda pessoal sem a pressão
As crenças de Asahel Nettleton pública de oferecerem uma resposta
podem ser resumidas nas seguintes positiva.
22 Fé para Hoje
Poucos homens chegaram ao ní- humanos eram depravados em sua
vel de perspicácia que Nettleton vontade e não em sua constituição; a
demonstrou no evangelismo pesso- eleição para a salvação resultou do
al. Ele era um habilidoso cirurgião conhecimento antecipado da respos-
da alma. Instava com aqueles que se ta dos homens ao convite do evange-
sentiam despertados a colocarem o lho; a expiação realizada por Jesus
assunto da salvação de sua alma di- não pagou a dívida do pecado de nin-
ante de Deus, em particular. Muitos guém, como um substituto penal;
vieram à fé salvadora em Cristo como pelo contrário, a expiação apenas
resultado do ministério de Nettleton permitiu que Deus perdoasse peca-
nos “lugares ermos”, em igrejas de dores, sem violar sua própria natu-
todos os tipos e tamanhos. Poucos reza e lei.
dos convertidos de Nettleton aban- Michael Horton resumiu com
donaram sua confissão, retornando exatidão as crenças de Finney: “Deus
ao mundo. não é soberano; o homem não é pe-
cador por natureza; a expiação não é
o verdadeiro pagamento do pecado;
O AVIVALISMO DE C HARLES
a justificação, por imputação, é um
FINNEY — CENTRALIZADO NO
insulto à razão e à moralidade. O
HOMEM
novo nascimento é simplesmente o
Nos primeiros dias de sua moci- resultado de técnicas bem-sucedidas.
dade, Charles G. Finney decidiu re- E o avivamento é o resultado natural
agir contra o que acreditava ser os de campanhas inteligentes”.
resultados do evangelismo deficien- Visto que os seres humanos são
te do calvinismo exposto por homens agentes morais livres, Finney acre-
como Asahel Nettleton. Acreditan- ditava que eles podiam rejeitar a
do ser ele mesmo um corretivo para graça de Deus. Mesmo depois de ar-
a excessiva ênfase na soberania divi- repender-se e professar a fé em
na, Finney enfatizava a responsabi- Cristo, a salvação final de uma pes-
lidade dos homens como agentes soa permanecia incerta, dependente
livres e possuidores de moralidade. de sua obediência até à morte”.
Finney havia sido treinado como A teologia de Finney o levou a
advogado e, infelizmente, não pos- perceber que somente um inimigo, a
suía educação teológica formal; por vontade obstinada, impedia a salva-
isso, ao ler as Escrituras, ele ficou ção de todas as pessoas. Os métodos
persuadido de uma salvação em ter- que Finney empregava eram avalia-
mos de uma filosofia de legalismo e dos com base em sua eficácia de
moralidade. Tal mentalidade exigia quebrar a vontade obstinada dos pe-
que os responsáveis por obedecerem cadores. Este pragmatismo dominou
à lei tinham de ser livres para obede- o ministério de Finney. Servindo-se
cer. Enquanto Nettleton enfatizava de um amálgama de métodos que já
a liberdade de Deus, Finney decidiu estavam em uso, ele revolucionou o
enfatizar a liberdade do homem. evangelismo e fez surgir o avivalis-
Finney acreditava que os seres mo moderno. Finney popularizou
COMO A DOUTRINA AFETA O EVANGELISMO 23
uma forma mais dramática de pre- apresentação clara e poder espiritu-
gar, utilizou a oração pública como al, o evangelismo será aprimorado.
uma ferramenta para se pressionar os Se ministros do evangelho e mem-
pecadores, permitiu que mulheres bros de igreja assumirem o empenho
orassem em reuniões mistas, denun- de orar como o fizeram Nettleton,
ciou oponentes, mudou a tradição Finney e seus cooperadores em avi-
aceita nas reuniões de inquirição, vamentos, o evangelismo será revo-
organizou as reuniões de oração de lucionado. Eles não somente pra-
grupos pe- ticaram a
quenos e e oração pes-
quipes de vi-  soal, mas
sitação às ca- Muitos dos milhares que foram também or-
sas, fez sur- ganizaram a
gir as campa-
tocados pelo ministério de oração das
nhas evange- Charles Finney retornaram ao igrejas em
lísticas e pre- mundo, depois que desapareceu preparação
parou o ca- a influência local do para aviva-
minho para mentos. Se
o que mais
evangelista carismático. os interessa-
tarde se tor-  dos forem
naria o siste- corretamen-
ma de apelos te aconselha-
públicos. Estas novas medidas cau- dos e não forem publicamente pres-
saram grande controvérsia, mas sionados a tomarem decisões prema-
também são reportadas como o meio turas (e, conseqüentemente,
para trazer aproximadamente espúrias), os resultados do evange-
500.000 pessoas ao despertamento. lismo serão preservados em um grau
mais elevado. Se os ministros do
APLICAÇÕES AO EVANGELISMO evangelho e membros de igreja pra-
ticassem evangelismo pessoal teolo-
CONTEMPORÂNEO
gicamente correto, as igrejas seriam
Estas descobertas são aplicáveis transformadas pela infusão de uma
ao evangelismo moderno em dois nova vida espiritual.
níveis. Primeiro, que princípios po- Se considerarmos esses dois ho-
demos aprender desse estudo? Segun- mens do passado como exemplo para
do, que homem pode oferecer melhor o futuro do evangelismo, qual deles
exemplo ao futuro do evangelismo, se tornaria o exemplo mais desejá-
Nettleton ou Finney? vel? Duas razões me levam a escolher
No que se refere aos métodos, Nettleton: a) o legado de Finney não
os dois podem nos oferecer um ex- pode resistir a uma avaliação rigoro-
celente ponto de partida quanto às sa; b) quanto mais consideramos o
aplicações. Se a pregação for marca- legado de Nettleton, tanto mais cla-
da por paixão, fidelidade às Escritu- ramente enxergamos um quadro de
ras, aplicação pessoal pertinente, equilíbrio doutrinário.
24 Fé para Hoje
O legado de Charles Finney tem va e suspeita. James E. Johnson ad-
sido questionado há muito tempo. mitiu que esses testemunhos dão
Alvin L. Reid, professor de evange- crédito “à acusação de que muitas
lismo do Seminário Batista do Sul, pessoas introduzidas nas igrejas pela
fez a seguinte observação: excitação das reuniões de avivamen-
Finney recebeu o crédito por to nunca experimentaram realmente
haver produzido o ímpeto que uma mudança de coração”. Boyle
causou a mudança da obra de escreve a Finney, em 1834:
Deus para a obra de homens, no Consideremos os campos
avivamento e no despertamento onde eu, você e outros trabalha-
espiritual.... O convite público, mos como ministros de
as reuniões prolongadas (hoje avivamento, e qual é o estado
chamadas “cultos de avivamen- moral de tais campos hoje? Qual
to” ou apenas “avivamentos”) e era o estado deles alguns meses
a preparação para tais reuniões depois que os deixamos? Visitei
podem, em grande medida, ter diversas vezes alguns desses cam-
sua origem em Charles Finney. pos e gemi, em espírito, ao ver
Ele tem sido elogiado e conde- o estado infeliz, carnal, gélido e
nado por esta mudança. Ao contencioso em que as igrejas
avaliarmos Finney, temos de caíram — e caíram logo depois
lembrar que ele estava reagindo que partimos de entre elas.
ao calvinismo frio, inerte e ex-
tremo de seus dias. Em sua autobiografia, Mahan
escreveu que muitas pessoas supos-
Muitos dos milhares que foram tamente convertidas nos avivamen-
tocados pelo ministério de Charles tos, os pastores que organizavam as
Finney retornaram ao mundo, depois reuniões e até os evangelistas que
que desapareceu a influência local do dirigiam as mesmas subseqüentemen-
evangelista carismático. B. B. War- te sofreram tanto moral como espi-
field advertiu que “grande proporção ritualmente. Ele disse:
daqueles que foram introduzidos nas Eu estava pessoalmente fa-
igrejas, pela excitação do avivamen- miliarizado com todos eles. Não
to, não eram verdadeiramente posso recordar um homem se-
convertidos, conforme demonstra quer, exceto o irmão Finney e o
claramente a história subseqüente de pai Nash, que poucos anos de-
suas vidas”. pois de nossa partida não tenha
A fim de que ninguém rejeite perdido sua unção, tornando-se
Warfield como um calvinista de igualmente desqualificado para o
Princeton e inimigo de Finney, os ofício de evangelista e de pas-
testemunhos dos amigos e colabora- tor.
dores de Finney, James Boyle e Asa Entre os evangélicos, Michael S.
Mahan, oferecem evidências adicio- Horton tem liderado, com vigor, ata-
nais de que o trabalho de Finney ques ao legado de Charles G. Finney.
precisa ser visto com bastante reser- Horton retrata Finney como o pai
COMO A DOUTRINA AFETA O EVANGELISMO 25
espiritual do movimento de cresci- buída a Finney. Quando ministros do
mento de igrejas, do pentecostalismo evangelho que não produzem os nú-
e do avivalismo político. Ele acusa meros apropriados de membros são
Finney (utilizando as palavras do vergonhosamente demitidos de seu
próprio Finney) de negar estas dou- púlpito, o observador prudente vê,
trinas cardeais: o pecado original, a por trás da tragédia, uma das máxi-
substituição penal como o motivo da mas de Finney — “um ministro sá-
expiação e a natureza divina do novo bio será bem-sucedido”. Finney
nascimento. acreditava que, se todos os ministros
Visto que Finney repudiou mui- do evangelho seguissem seu exem-
tos dos dogmas da fé cristã histórica, plo, o avivamento varreria a terra,
Horton o chamou “não somente de introduzindo o milênio. Somente
inimigo do protestantismo evangéli- uma década depois da publicação de
co, mas também do cristianismo seu livro sobre avivamento —
histórico”. Horton admitiu que Fin- Lectures on Revivals of Religion (Pa-
ney estava certo em um ponto: “O lestras em Avivamentos da Reli-
evangelho afirmado pelos teólogos de gião), Finney queixou-se de que os
Westminster, que Finney atacou di- avivamentos haviam diminuído, tan-
retamente e, de fato, o evangelho to em quantidade como em qualida-
afirmado pela maioria dos evangéli- de. Wilson comentou com exatidão:
cos é ‘outro evangelho’, em distinção “Avaliados pelos padrões do próprio
ao evangelho proclamado por Fin- Finney, seus ensinos a respeito da
ney”. Horton faz uma pergunta maneira de produzir convertidos e
embaraçadora aos evangélicos que, avivamentos, bem como as pressu-
inconscientemente, em nome do su- posições que fundamentavam tais
cesso no evangelismo, têm colocado ensinos se comprovaram errados”.
Finney em um pedestal de herói: “Ao Somente a eternidade revelará
lado de qual desses evangelhos você quantas das pessoas que começavam
se colocará?” a experimentar verdadeira convicção
Monte Wilson vincula correta- de pecado nos avivamentos de Finney
mente Finney às mudanças no foram impelidos a tomar uma deci-
evangelismo e percebe que a estima- são espúria de salvação, arriscando
tiva incorreta de Finney a respeito assim a sua alma eterna.
da natureza humana é a raiz de sua Finney se tornou um grande
crença no fato de que “avivamentos catalisador na mudança da teologia
podem ser planejados, promovidos, que fundamenta o evangelismo. Visto
propagados pelo homem”. A tendên- que o arminianismo suplantou o
cia moderna de confiar em técnicas calvinismo, o homem substituiu a
de preparação para avivamentos pode Deus como centro da teologia de
ser atribuída a uma adoção desta fal- evangelismo. Robert H. Lescelius
sa premissa de Finney. Quando o afirmou corretamente que, “desde
evangelismo é avaliado somente com aquela época, o arminianismo tem
base nos resultados, a responsabili- predominado no evangelicalismo
dade desta avaliação tem de ser atri- americano”.
26 Fé para Hoje
A teologia e o ministério de Fin- de combater o que ele via como uma
ney foram construídos sobre a falsa forma extrema de calvinismo, Fin-
premissa de que o calvinismo preju- ney alterou desordenadamente a
dica o evangelismo. Dois anos antes balança, ou seja, mudou o agir de
de Charles Finney ser batizado, ses- Deus para o agir do homem na sal-
senta e quatro pessoas haviam se vação. O evangelismo de Finney
convertido na mesma igreja. Finney carecia do primeiro ponto do evan-
chegou à fé em Cristo em meio a um gelho — uma transformação divina
avivamento regional, durante uma dos seres humanos, de pecadores a
época em que o calvinismo domina- santos. O avivalismo de Finney dei-
va a atmosfera teológica. xou como resultado igrejas que
A premissa permanece tão falsa ficaram em piores condições porque
hoje quanto o era nos dias de Charles se dividiram quanto às “novas medi-
Finney. Um contemporâneo de das” ou porque demitiram ministros
Finney na Inglaterra, o pregador ba- piedosos que não tinham as propen-
tista Charles Haddon Spurgeon, sões evangelísticas de Finney. Todos
edificou uma grande igreja e estava os métodos de Finney devem ser re-
comprometido com a soteriologia avaliados sob um ponto de vista
reformada. O fenomenal e popular crítico no que diz respeito ao seu ali-
treinamento de evangelismo chama- cerce doutrinário. Em benefício da
do Evangelismo Explosivo foi criado saúde futura do evangelismo, aquilo
por um pastor presbiteriano, D. James que é proveitoso tem de ser separado
Kennedy, cuja igreja continua a cres- do que é prejudicial, no que diz
cer fundamentada em uma teologia respeito ao ministério de Charles
reformada. Finney.Por
O autor e pre-  outro lado,
gador John Asahel Net-
MacArthur Asahel Nettleton entendia que tleton de-
Jr. pastoreia “a teologia determina monstrou o
uma igreja a metodologia”. potencial
próspera e saudável do
mantém pon-  evangelismo
tos de vista fundamenta-
reformados. Ninguém pode defender do na teologia sã. O ministério de
com sucesso a premissa de que assu- Nettleton não prejudicou as igrejas;
mir uma posição arminiana na em vez disso, proporcionou-lhes edi-
soteriologia significa tornar-se mais ficação. Pastores que trabalharam ao
evangelístico do que uma igreja que lado de Nettleton sentiam que esta-
mantém uma teologia reformada. vam sendo abençoados por um co-
O legado de Charles Finney tem pastor. Nettleton entendia que a
de ser considerado tão perigoso por igreja existia antes de chegar o avi-
causa da natureza antropológica de vamento e que continuaria ministran-
sua teologia e dos métodos resultan- do ao povo, depois que o evangelista
tes dessa teologia. Em seu esforço se dirigisse a outro lugar. Ele acre-
COMO A DOUTRINA AFETA O EVANGELISMO 27
ditava que era muito importante man- padrão das Escrituras, porque sabia
ter a saúde da igreja. que qualquer outro procedimento
Comparado com o elevado índi- causaria ruína no final, não impor-
ce de abandono dos convertidos de tando quão bem-sucedida parecesse
Finney, Nettleton obteve uma mar- tal metodologia.
ca notável na quantidade de pessoas O legado de Asahel Nettleton
que se mantiveram firmes, como re- oferece um fundamento melhor para
sultado de suas reuniões. Pastores o futuro do evangelismo. Ele não
geralmente testemunhavam que, de- estava certo porque era um calvinis-
pois de mais de vinte e cinco anos, ta; estava certo porque avaliou o certo
quase todos os que se haviam decla- e o errado pela revelação bíblica, em
rado convertidos permaneciam fiéis vez de fazê-lo utilizando o raciocí-
seguidores de Cristo. nio humano. Nettleton acreditava que
Embora os números de Nettle- os homens são totalmente deprava-
ton não alcancem os números de dos em sua natureza, porque a Bíblia
Finney, temos de perguntar quantos o afirma. Acreditava também que
supostamente ganhos por Finney re- Deus tinha de agir inicialmente na
tornaram ao mundo. Comparado com salvação, porque Jesus declarou isso
Finney, Nettleton trabalhou em um com clareza (Jo 6.44; 6.65). Net-
campo geograficamente menor. Os tleton cria que a expiação foi uma
lugares em que ele ministrou eram substituição penal, porque ele a via
menos populosos. Alguém poderia retratada deste modo nas Escrituras.
indagar o que aconteceria se Nettle- Nettleton acreditava que as pessoas
ton tivesse ministrado nos centros podiam ser reconciliadas com Deus
populacionais visitados por Finney. tão-somente pela fé em Cristo e pelo
Asahel Nettleton entendia que “a arrependimento para com Deus, por-
teologia determina a metodologia”. que a Bíblia ensinava isso. Ele
Ele trabalhou conscientemente com acreditava que os verdadeiros cren-
pessoas, de um modo que honrou a tes seriam conhecidos, em última
ação divina que produziria conver- instância, pelo viver santo, porque
sões autênticas. O testemunho de este era um princípio bíblico.
Bennet Tyler descreveu o ministério Os batistas do Sul têm jurado sua
de Nettleton como uma chuva gene- lealdade à revelação bíblica. Eles
rosa que nutria o solo ressecado e deveriam reavaliar seu comprometi-
produzia fruto espiritual permanen- mento com o evangelismo pragmá-
te. James Ehrhard afirmou que “mui- tico de Finney, comparando-o com
to surpreendente aos leitores as Escrituras. Descobririam que as
modernos é a descoberta de que a tre- opiniões dele a respeito da natureza
menda eficácia de Nettleton aconte- humana têm de ser repudiadas.
ceu sem a instrumentalidade de Finney estava errado no que se refe-
qualquer dos métodos que os evan- re à expiação como um pagamento
gélicos modernos pensam ser essen- em favor dos pecados de ninguém,
ciais no evangelismo”. Asahel em particular. Ele acreditava que a
Nettleton provou a metodologia pelo agência humana cumpria um grande
28 Fé para Hoje
papel na salvação, um papel maior mútua das verdades aparentemente
do que as Escrituras lhe permitem. contraditórias. Ele aconselhou com
Os erros de Charles Finney referen- sabedoria: “Na Bíblia, a soberania
tes às Escrituras produziram erros no divina e a responsabilidade humana
viver diário, erros que até hoje são não são inimigos.... São amigos e
uma praga entre os batistas do Sul, trabalham juntos”. Isto levou Packer
especialmente a baixíssima taxa de à seguinte conclusão: “O melhor
retenção dos novos convertidos. método de evangelismo.... é aquele
O excelente livro de J. I. Packer, que torna possível a mais ampla e
A Evangelização e a Soberania de completa explanação das boas-novas
Deus, representa uma posição mais de Cristo e de sua cruz, bem como a
bíblica. Começando com o pressu- mais exata e perscrutadora aplicação
posto de que Deus é soberano em destas boas-novas”.
todas as coisas e, particularmente, na Visto que os batistas do Sul pro-
salvação, Packer descreve a tensão fessam a crença na autoridade das
bíblica entre a soberania de Deus e a Escrituras, eles acreditam na depra-
vontade do homem como uma vação humana e, portanto, têm de se
antinomia que tem de ser aceita. posicionar contra Finney, juntamen-
Packer adverte aqueles que enfatizam te com aqueles que afirmam que os
a responsabilidade humana em detri- homens são pecadores e necessitam
mento da soberania de Deus, afir- de salvação, e não de uma reforma
mando que tal abordagem leva ao moral auto-induzida. Os batistas do
evangelismo “pragmático e calcula- Sul crêem que a salvação procede do
do” com uma filosofia aparentada coração de um Deus santo, mas gra-
com a “lavagem cerebral”. Ele ad- cioso, que providenciou uma expia-
mite que tal evangelismo seria apro- ção vicária na morte de seu Filho,
priado, “se o produzir convertidos”, Jesus Cristo. Eles crêem que a sal-
e não a fiel proclamação da verdade, vação pode ser obtida por meio do
fosse a responsabilidade do crente. arrependimento e da fé em Cristo,
Packer também faz uma advertência como resposta à graciosa chamada de
àqueles que negligenciam a respon- Deus, por intermédio do poder de
sabilidade humana, a fim de exaltar convencimento do Espírito Santo.
a soberania de Deus. A tentação de Essas crenças devem compelir os
tais pessoas é negligenciar a respon- batistas do Sul a repudiarem sua as-
sabilidade evangelística de todos os sociação teológica e metodológica
crentes, com base na suposição de com Charles Finney, impulsionan-
que Deus salvará os eleitos. Packer do-os a se aproximarem do modelo
censura essa atitude, chamando-a de fornecido por Asahel Nettleton, que
apatia evangelística inescusável. incorporou a teologia e a prática
Citando o exemplo de Charles sobre a qual a Convenção foi
Spurgeon, que disse nunca haver ten- estabelecida. Finney acreditava que
tado reconciliar amigos, J. I. Packer seus dias necessitavam de uma mu-
oferece uma perspectiva sadia e equi- dança rumo ao arminianismo, para
librada que reconhece a dependência que houvesse equilíbrio. A influên-
COMO A DOUTRINA AFETA O EVANGELISMO 29
cia de Finney causou um mudança de estarmos falando sobre a orde-
extrema na direção da responsabili- nação de homossexuais ao ministé-
dade humana. Os batistas do Sul pre- rio. Isso testemunha a certeza da
cisam contra-balancear a excessiva autoridade bíblica em nossa famí-
mudança de Charles Finney em di- lia de fé. Portanto, andemos jun-
reção ao homem, atingindo nova- tos, com a Bíblia e o coração
mente o equilíbrio bíblico em sua abertos, tendo uma conduta contro-
teologia e prática de evangelismo. lada por Cristo, restabelecendo o
Em dias recentes, regozijei-me equilíbrio correto entre a sobera-
em ouvir o Dr. Timothy George nia de Deus e a responsabilidade
afirmando ser excelente o fato de humana, na soteriologia.
que os batistas do Sul estão abrin- ________________
do novamente o diálogo a respeito (Extraído do “Founders Journal”,
destes assuntos cruciais. Conforme com adaptações e supressão de no-
disse o Dr. George, é positivo que tas. Artigo originalmente dirigido
estejamos conversando sobre a dou- aos batistas do Sul dos Estados
trina da salvação nestes dias, em vez Unidos.)

O TEMOR DE UM PASTOR
J. C. Ryle

O que eu temo em relação a você? Tudo. Temo que


você persistirá em continuar rejeitando a Cristo, até que
perca a sua alma. Temo que você seja entregue a uma
mente reprovável e não desperte jamais. Temo que você
chegue a tal dureza de coração e morte, que nada rom-
perá o seu sono, exceto a voz do arcanjo e da trombeta
de Deus. Temo que você se agarre a este mundo fútil,
com tanto apego que nada poderá separá-lo dele, exceto
a morte. Temo que você viva sem Cristo, morra sem
perdão, ressuscite sem esperança, receba julgamento sem
misericórdia e seja lançado inevitavelmente no inferno.
30 Fé para Hoje

MOÇAMBIQUE E ANGOLA
Gilson Santos

movimento e experimenta mudanças;


MOÇAMBIQUE
percebe-se aqui e ali expressões de
Nos últimos cinco anos, a Edi- otimismo e esperança.
tora Fiel vem realizando uma aben- A conferência da Editora Fiel é
çoada conferência para pastores e realizada na cidade de Nampula, ter-
líderes em Moçambique. A quinta ceira cidade do país, localizada ao
conferência anual aconteceu nos dias norte, acima do importante rio
27 a 30 de julho de 2004. Zambeze. Em 1997, a população
Moçambique é um país de lín- estimada de Nampula era 315 mil
gua portuguesa, localizado na África habitantes. Nos últimos anos, a ci-
Austral e banhado pelo oceano dade vem experimentando um cres-
Índico. A população, estimada pela cimento impressionante, e alguns
ONU em 2002, era 19 milhões de sugerem que esse número pratica-
habitantes, e a expectativa é que em mente triplicou.
2050 Moçambique tenha uma popu- Em Nampula, há alguns anos,
lação de mais de 31 milhões. A capital está instalada a Livraria Fiel, que,
é Maputo, no sul do país. recentemente, passou por dois mo-
O país convive com grande po- mentos difíceis. O primeiro, devido
breza, e os índices de qualidade de ao retorno de um missionário que a
vida são baixos, impondo um qua- coordenava; ainda não se encontrou
dro geral bastante precário. Moçam- outra pessoa para substituí-lo. O se-
bique sofreu com a Guerra de gundo momento difícil deu-se no
Independência contra a dominação último mês de agosto, quando a li-
portuguesa. Obtida a independência vraria foi assaltada. Um dos seus
em 1975, o país viu-se mergulhado funcionários – um crente simples e
numa guerra civil, que lhe trouxe dedicado – foi brutalmente assassi-
graves conseqüências. O país está em nado. O assassino já foi identificado,
MOÇAMBIQUE E ANGOLA 31
e alguns dos bens furtados foram re- rência em Moçambique. País vizi-
avidos. nho de Moçambique, na Zâmbia
O trabalho da Editora Fiel é co- fala-se o inglês, e o Pastor Mwetwa
ordenado em Moçambique pelo foi traduzido pelo irmão Tiago San-
missionário norte-americano Karl tos, gerente da Editora Fiel no Brasil.
Peterson, que tem seu escritório em Os preletores trataram diversos as-
Maputo. Ele administra todo o pro- pectos expositivos e práticos, sobre
cesso de inscrições; gerencia o o tema geral “Cristo Amou a Igre-
Projeto Biblioteca do Pastor e esta- ja”.
belece contatos com os pastores. Durante a conferência, os líde-
Durante a conferência, ele ministra res desfrutam de bom companheiris-
alguns workshops, e é muito amado mo e promovem frutíferos encontros
pelos irmãos moçambicanos. O mé- de avaliação. A fraternidade entre os
dico e missionário Dr. Charles pastores impressiona, assim como
Woodrow, que reside em Nampula, entre as esposas.
coordena toda a parte logística da con- A livraria cumpre um papel
ferência. O Dr. Woodrow, que está muito importante durante todo o
estabelecendo um hospital em evento. Os pastores moçambicanos
Nampula, coordena pessoalmente to- têm sido grandemente influenciados
dos os detalhes de transporte, por uma literatura sã, e a este res-
hospedagem e cozinha, esforçando- peito dão efusivo testemunho, com
se para que todos tenham acolhida ações de graça. No presente, 56 pas-
eficiente, acomodações dignas e boa tores têm sido beneficiados pelo
alimentação. Projeto Biblioteca do Pastor, rece-
Muitos dos presentes na confe- bendo periodicamente esta revista,
rência viajam muitas horas, alguns livros e, eventualmente, auxílio
enfrentando um percurso de quase para participação nas conferências.
três dias, utilizando barcos, cami- É grande a alegria e gratidão que
nhões e ônibus. Mesmo assim, demonstram pelas igrejas que lhes
quando chegam ao local da confe- dão este apoio oportuno. Atualmen-
rência, aguardam com grande te, 27 brasileiros participam do
ansiedade o início das reuniões. Es- projeto, adotando pastores e líderes
tas transcorrem de forma bem moçambicanos; este número, com
participativa, os ouvintes são bem toda certeza, poderia ser exponen-
atenciosos, e canta-se bastante, com cialmente maior.
muita expressividade e alegria. A
África é música! Em 2004, a confe-
ANGOLA
rência contou com cerca de 150
adultos inscritos. Também neste ano foi realizado
Os preletores deste ano foram os um primeiro encontro com alguns
irmãos Pr. Choolwe Mwetwa, da pastores e líderes em Angola. Esse
Zâmbia, e Pr. Gilson Santos, do Bra- encontro, realizado nos dias 3 a 5 de
sil. O pastor Mwetwa é o terceiro agosto, foi um primeiro contato ten-
pastor zambiano a pregar na confe- do em vista a implantação dos
32 Fé para Hoje
ministérios da Editora Fiel naquele lixo se acumula nas ruas; bairros
país. enormes não têm serviços básicos,
Angola é o outro país de língua como água, luz e esgoto; há uma
portuguesa na África Austral. É ba- nuvem de poeira sobre a cidade; e o
nhado pelo oceano Atlântico; ali a trânsito é caótico. O angolano, não
influência brasileira é muito grande. obstante, é simpático, hospitaleiro e
O país tinha em 2003 uma popula- dinâmico.
ção estimada pela ONU em 13 A Editora Fiel deu início em
milhões e 900 mil habitantes. Angola ao Projeto Biblioteca do Pas-
O país sofreu muito com a guer- tor, entregando seus primeiros livros.
ra pela independência do domínio Esta revista também tem sido envia-
português. A independência foi ob- da para diversos pastores.
tida em 1975, depois de 490 anos de Este primeiro encontro foi mui-
conquista, ocupação e colonização to encorajador, e há grande expecta-
por parte de Portugal. Depois, o país tiva pela expansão do ministério da
viu-se mergulhado em sangrenta Editora naquele país, onde muitos
guerra civil, cujo armistício deu-se pastores militam em condições de
em 2002, com a mediação da ONU. grandes adversidades. Alguns deles
A paz recente ainda traz certa inse- têm tido a oportunidade de estudar
gurança e desconfiança. O interior em instituições teológicas no Brasil,
do país foi bastante devastado, com e nutrem grande respeito e gratidão
muitos terrenos minados e grande nú- pelas igrejas e missionários brasilei-
mero de mutilados. ros.
Em nossos dias, muitos ango- A África Meridional é uma das
lanos dispersos pela guerra estão regiões do mundo mais afetadas pela
retornando ao país. A expectativa AIDS, e é raro uma igreja ali que
é que em 2050 Angola tenha uma não tem de deparar-se com esta rea-
população de mais de 43 milhões lidade. Moçambique e Angola não
de pessoas. As coisas estão acon- são exceções.
tecendo numa velocidade incrível, Em toda aquela vasta região,
com mudanças intensas, a passos cercados por vizinhos que têm o in-
largos. Chegam em Angola mui- glês como idioma europeu oficial,
tas organizações humanitárias e encontram-se estes dois países de lín-
ONGs internacionais. gua portuguesa. Há muitas portas
A capital é Luanda, ao noroeste abertas. Moçambique e Angola
do país. Em 2001, a cidade contava constituem-se numa grande respon-
com uma população estimada em sabilidade para as igrejas do Brasil.
1.500.000 habitantes. Alguns suge- Oremos para que Deus prossiga
rem que esta população é mais do abençoando o ministério da Editora
que o dobro. A guerra fez a cidade Fiel nestes dois países, trabalho este
inchar e acentuou a desorganização que merece o nosso melhor apoio e
social. As condições são precárias: o encorajamento.

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