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O Peso e a sua História

Por: Belarmino Batista

(Pesense radicado no Canadá)

Um pouco de historia sobre o Rio e o “barco” .

Devo sublinhar que nesta época existia no Peso, assim como noutras
povoações vizinhas como Alcaria, Barco, Silvares, Barroca do Zêzere etc.,
uma embarcação que ligava as duas margens do Rio Zêzere ás povoações do
outro lado, neste caso ao Pesinho, para transporte de pessoas, animais e
mercadorias. Quando chegava a Primavera e o caudal do Zêzere era mais
diminuto, eram postas umas tábuas, (passadeiras) no lugar onde hoje se
situa a Ponte, que em muitas ocasiões ainda eram levadas por alguma cheia
imprevista. No caso do Peso, esse barco e o direito de exploração pertencia
ao “ Passal” uma instituição ligada á Igreja.

As Tábuas e o Barco, nessa altura eram a Ponte Peso - Pesinho

Assim era “arrematado” o barco, nome dado ao acto de arrematação para a


exploração do mesmo durante um ano. Dos grupos interessados que
houvesse, a exploração seria dada a quem mais oferecesse. Como havia e há
uma grande afinidade familiar e social entre os habitantes do Peso e Pesinho
e a necessidade de ir ao Mercado e Feiras do Fundão, vender ou comprar
animais como suínos, jumentos gado caprino e até juntas de bois, alem de
se abastecerem de outros produtos que só encontravam no Fundão, como
árvores , couves , sementes, etc., quase toda a gente pagava essa avença
aos Barqueiros, para poderem utilizar o barco. (Como tudo se modificou em
uma ou duas décadas!)

O Barco ancorado do lado do Peso e do lado do Pesinho

Depois pela época das colheitas esse homens que tinham ficado com a
exploração do barco, iam de porta em porta, no Peso e no Pesinho, cobrar
uma certa quantidade de milho, creio que um alqueire, medida de (20 litros),
ou mais tarde, azeite, quem não tivesse milho, para assim poder usar o
barco quando fosse necessário.

Quando aparecia alguém de outra terra que necessitasse de usar o barco,


pagavam uma quantia, á descrição.

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----Voltando ao título, sei que era dia e Natal, teria eu os meus 10 a 12 anos
tinha chovido bastante toda essa semana e o Rio começava a transbordar
para os “lodeiros” nome dado, ás terras de cultivo adjacentes ao Rio.

Como era dia de Natal havia gente do Pesinho e Peso em ambas as partes do
Rio e pela tarde, depois das visitas familiares, seria o regresso ás suas
terras. Entretanto como era hábito muitas dessas pessoas juntavam-se na
zona central da povoação, onde existiam as tabernas, únicos lugares onde as
pessoas da aldeia congregavam para socializar.

Assim ao fim da tarde era frequente e considerado normal, alguns sentiam


os efeitos do álcool, demonstrando-o nas mais diversas formas. Os
“barqueiros” eram normalmente bem tratados neste sentido e nunca lhes
faltava a bebida oferecida pelos utentes do barco, pois era conveniente ter
sempre os “barqueiros ‘ na mão par se poder atravessar o rio quando
necessitassem e sem muita demora. A dose habitual para estes homens era
os “meios/quartilhos” nome dado aos copos de ¼ de litro.
Se não pudessem beber na altura a bebida ficava paga para ser bebida
noutra oportunidade. Consequentemente ao fim da tarde já teriam uma dose
considerável de meios – quartilhos, principalmente aos fins-de-semana e
dias de mercado no Fundão, (segundas feiras).

Mas entretanto o caudal do Zêzere devido ás chuvas que tinham caído


durante a semana quase sem cessar, continuava a aumentar
consideravelmente, quase sem as pessoas darem por isso. E ao cair da tarde
quando queriam regressar ás suas casas procuravam os “barqueiros” para a
passagem ao outro lado. Entretanto estes, já tinham mudado o barco do
paredão das “tábuas”, onde normalmente estava ancorado, para o paredão
da “pontaria” mais acima, mas a uns 100 a 150 metros desviado do leito do
rio amarrado a uma arvore, pois junto ao leito tornava-se perigoso, por o
paredão começar a estar coberto de agua. Entretanto durante a manha já
alguém tinha gritado do lado do Pesinho. Ó... Barqueiro! Era assim que se
comunicava oralmente duma margem para a outra, não havia telefone. Ainda
me lembro..., ao fim da tarde fui a casa dos meus avós maternos (no Adro
da Igreja) e daí pude ver com mais precisão toda a extensão da
cheia.

Ainda me lembro perfeitamente de todo aquele barulho arrasador (soava)


como lhe chamavam que as águas do Zêzere faziam naquela situação de
cheia. As mesmas tinham chegado à estrada do Peso e do outro lado à
fonte do Pesinho que estava parcialmente submersa

As Pessoas e o Barco

Aliás foi dessa visão da cheia e desse sussurrar assustador e delirante do


Zêzere que, ainda jovem, me ficaram na memória as bases para esta
crónica.
Com o movimento habitual desta data festiva, nem barqueiros nem
passageiros utentes do barco, se davam conta do perigo que poderia resultar
o atravessamento do Zêzere.

Avaliando as circunstâncias hoje, confesso que era precisa ter coragem...


(ou efeitos de alguns copos) para se aproximarem do leito do Rio naquelas
condições.

Assim os barqueiros Joaquim Augusto e José Cortiça, este ultimo natural do


Barco mas casado no Peso, apelido este de Cortiça, vinha-lhe do facto de ser
destemido para o rio. Como a cortiça nunca ia ao fundo, daí o nome porque
era conhecido.

Assim lá foram esses 4 ou 5 homens, ignorando todos os perigos, tentar a


travessia do Zêzere. Lembro-me de algumas pessoas se concentrarem em
lugares para observar esta tentativa de travessia do Rio, pois obviamente
receavam o pior. E a travessia fez-se da seguinte maneira.

Começaram, por levar o barco ao longo do paredão, para se aproximarem do


leito do rio. Aqui trocaram as varas, normalmente usadas para chegarem ao
fundo do rio, pelos remos, pois as varas, que teriam aproximadamente uns 5
metros não chegavam ao fundo do leito. Por aqui poderemos avaliar a
fundura que o Rio levava. Puxando o barco para cima o mais possível, foram
deixando descair o mesmo, ao mesmo tempo remando contra a corrente e
tentando segurar a proa (frente) do barco sempre para nascente, assim o
barco foi puxado para a margem do Pesinho, até que se aproximou das
margens da outra banda, mas vindo parar cá para abaixo mesmo frente ao
sitio dos Barros, levando-o em seguida pelos lodeiros até mesmo ao fundo
do Pesinho. O barco não regressou ao Peso esse dia, mas sim no dia
seguinte com as aguas já a baixar.

O Zêzere tinha sido vencido mais uma vez por este punhado de homens
destemidos e habituados aos perigos do mesmo.
Como se fazia o transporte para a outra margem

Quero recordar uma nota trágica, em que o Zêzere nem sempre era
transposto com segurança. Foi por alturas de 1958/59 em que na travessia
de Alcaria para o Dominguiso, numa segunda feira de Inverno, já noite
cerrada, um grupo de jovens raparigas dos Vales do Rio, que trabalhavam
numa fabrica de colchões em Alcaria, ao regressarem a casa depois de um
dia de trabalho, ao chegarem à margem direita o barco foi de embater um
tronco de arvore parcialmente coberto de agua e com o balanço do choque,
duas jovens foram cuspidas para as aguas e nunca mais foram vistas. A
tragédia tinha acontecido e o povo dos Vales do Rio correu aos gritos com
lampiões e outras luzes que puderam arranjar e indiferente à chuva que caía
copiosamente e tinha caído todo o dia, dirigiu-se para as margens do rio sem
saber exactamente o que tinha acontecido e quem tinha desaparecido. Já era
tarde de mais para que alguma ajuda fosse útil., pois as duas jovens tinham
desaparecido, para serem encontradas, uma, dias depois para os lados das
margens da Coutada e a outra algumas semanas mais tarde, cá para as
bandas de Dornelas do Zêzere.

Cheia no Rio nos dias de hoje

Eu lembro-me... eu estava nos Vales do Rio, conhecia bem estas jovens que
o Zêzere roubou tão tragicamente na sua juventude e assisti a estes
momentos trágicos das famílias a quem estes ente queridos tinham sido
tragados pelas aguas impetuosas do Zêzere.

Este Rio que trazia riqueza a estes povos pelas terras que banhava, trouxe
também a tragédia. Aqui a refiro para que não caia no esquecimento das
gerações viventes.

Nomes dos Barqueiros mais conhecidos. Joaquim Augusto, José Cortiça,


António Pereira, seu filho Joaquim Pereira, José Travanca, João...? (homem
da Ti Patrocínia Madeira)
Peço desculpa em mencionar alguns nomes pelos apelidos (alcunhas) pois
não sei outros.

IMAGENS DE INFÂNCIA VIVIDA NO PESO

Textos de:

Belarmino Batista

(Pesense radicado no Canadá)

( As fotos são dos sites Peso Antigo )

PESO 1945

Ainda me Lembro!

Escolhi este título para esta serie de escritos

Sobre o Peso do meu passado

Foi á muitos anos atrás… quando a minha memória começou a fixar as


coisas que via, talvez á volta dos meus 5 ou 6 anos. Lembro-me que era
uma manhã risonha, com orvalhada, mas com sol quentinho; tinha dormido
em casa dos meus avós maternos, o que fazia frequentemente, pois eu era o
seu primeiro neto.
Ainda me lembro… o meu avô aparelhou um jumento que tinha, com uma
tosca albarda, e pôs-me cima do animal, mesmo em frente á Igreja, onde
moravam e resolveu levar-me com ele. Foi a primeira vez que montei num
animal, por tão longa viagem. Fomos até ao sítio do Barrocão ou Barroca
das Canas, não posso precisar, há volta de 5 ou 6 km, pelos velhos caminhos
de então, por meio de pinhal e mato, uma verdadeira aventura para uma
criança da minha idade; talvez daí a razão do que vou contar e eis o principal
cenário que continua vivo na minha mente e o motivo por que escrevo esta
crónica.

Ainda me lembro… que ao sair do povoado, no sítio dos Barreiros, quando os


casebres da minha aldeia, (sim... casebres) na altura chamávamos-lhe
casas, já tinham ficado para traz e comecei a avistar a natureza. Ao meu
lado esquerdo, pinhais; ao meu lado direito, o sol que há pouco tinha
nascido, as vinhas, um chão de terra cultivado que por sinal era de meu avô
paterno e ouvi o canto das aves naquela manhã, que (hoje sei) era de
Primavera, ainda me lembro… do caminho marcado pelos fundos rodados
dos carros de bois; e gostei tanto daquela paisagem e daquele contacto com
a natureza, que não sei porquê, as minhas retinas de criança, fixaram e
gravaram para sempre na minha memória, aquele cenário, para o resto da
minha vida.

Na minha mente de criança, penso hoje, se existe o paraíso, seria aquela


paisagem, aquele envolvimento com a natureza, naquele ambiente rural,
naquela idade do desabrochar para a vida…visto por uma criança. Como eu
gostaria de saber transmitir numa tela, estas imagens de infância que ainda
guardo na minha mente. Ao ouvir os diferentes cantos das aves, perguntava
ao meu avô e ele me dizia… é o rouxinol, é o pintassilgo, etc., isto ao longo
dos olivais e terras de cultivo. Ao avançar para os pinhais, o canto das aves
já era outro; o cuco e o gaio, este ultimo lembro-me ter visto alguns… de
criança, não talvez nesta minha primeira aventura, pois na minha memória
ficou mais acentuada aquela imagem da saída da povoação e o contacto
com o espaço aberto e para mim, grandioso da natureza.

Não me lembro muito do resto da jornada, apenas que o animal comia umas
folhas de milho seco (canas, como lhe chamavam na minha aldeia) que o
meu avô tinha levado entaladas na albarda do animal. E a mim, deu-me
também qualquer coisa para comer que minha avó me tinha mandado.

Ainda me lembro… que ficamos num pequeno talhão de terra de cultivo, á


beira do Ribeiro, que hoje sei é o do Braçal, que nasce a centenas de metros
na serra que chamamos do Penesinhos. Hoje… percorrendo o mesmo
trajecto (paraíso) de á 55 anos, o que fiz á alguns anos atrás, o caminho
hoje é rua, é diferente; desapareceram os vestígios dos animais de carga e
os rodados dos carros de bois, as casas hoje podem-se chamar casas, (não
casebres) mais bonitas e confortáveis, mas as aves… essas desapareceram;
o seu cantar foi substituído pelo som da rádio e as terras que outrora
estavam bem cultivadas, qual jardim do paraíso está abandonado; e na
montanha, o pinhal oferece uma imagem desoladora; paisagem de terra
queimada, (dos fogos do verão). O paraíso da minha infância, da
memória a desabrochar para o mundo, como aquela manhã de Primavera…
desapareceram… mas enquanto eu viver, ainda me lembro… Á coisas que
nunca esquecem… e outras por serem das primeiras que o nosso cérebro
guarda, quando começamos a tomar consciência do que existe á nossa beira,
ficam-nos gravadas para sempre nessa calculadora maravilhosa a que
chamamos memória e vão e vêm á nossa mente para o resto da nossa vida.
Esta é uma delas.

Ainda me lembro… nas horas de nostalgia… cá longe… na emigração.

B.Batista .Agosto. 78

II
Ainda me Lembro!!!

1947/48

Os anos dos pós guerra

Nascido no Peso em 1939, ano em que começou a II guerra mundial


(39/45) escusado será dizer que foram anos difíceis para toda a Europa.

Ainda me lembro que o Peso, era uma aldeia como tantas outras de uma
fisionomia rural e agrícola, mas com a particularidade de estar ligada á
industria de lanifícios através da tecelagem, sendo esta industria uma das
bases de sustento de muitas famílias. Não me lembro muito bem das
grandes vicissitudes da mesma, no que toca á falta de básicos géneros
alimentícios, como pão e mercearias, devido ao facto de meus pais e avós
terem mercearia e padaria. Mas ainda me lembro de ver filas de pessoas no
pátio da padaria de meus avós paternos, à espera para lhe venderem pão, o
que era feito através de um postigo com grades. Sei hoje que muitas dessas
pessoas vinham de longe, das terras do sul do Zêzere como Barco, Paul,
Ourondo e até de Silvares e S. Martinho. Chegavam durante a noite, para de
manhã poderem apanhar o precioso pão, que alguns iam vender depois nas
suas terras a preço mais elevado.

Deste facto tive conhecimento já aqui em Vancouver, por pessoas que


participaram nesta “realidade”que afinal iam ao Peso buscar pão e hoje sei
era a padaria de meus avós Foram tempos de dificuldades que se viviam
nesta época, nestas aldeias rurais das Beiras e não só, dificuldades estas que
se prolongaram por mais de duas décadas, até que surgiu a emigração para
França, nos princípios de 1960/65.
Havia racionamento para muitos géneros de consumo, como pão, açúcar,
arroz, sabão, etc. e lembro-me de meu pai, me pôr a cortar cupões de
cadernetas que eram distribuídas pela então, IGA (Intendência Geral de
Abastecimentos) todos os meses aos comerciantes. Esta entidade estatal,
regulava os abastecimentos de géneros de consumo básico ás populações.
Assim conforme o número de pessoas do agregado familiar, era-lhes
atribuído uma certa quantidade desses produtos, que os comerciantes iam
levantar aos armazéns da sede de concelho. Algumas dessas famílias com
maior numero de filhos e que portanto tinham acesso a mais uns quilos
desses produtos, por vezes, por falta de dinheiro, vendiam esses géneros a
outras pessoas que melhor os podiam comprar.

Por alturas de 1955/60 as Paróquias recebiam igualmente farinha americana


e canadiana, doada pela “Caritas” uma organização internacional de apoio
aos países pobres, (sim Portugal estava classificado como tal) para ser
distribuída pelas pessoas com mais necessidade nas aldeias, o que nem
sempre acontecia. Parte dessa farinha era vendida ás padarias, desculpem
esta revelação, mas isto faz parte da história do nosso povo porque era
farinha “especial” e bastavam uns 10 a 15 kg num saco de 75 kg para se
fazer um pão de muito melhor qualidade e apresentação, já que a farinha
fornecida ás padarias era uma mistura de trigo, fava e feijão frade
(pequeno).

Quem se lembra ainda dos famosos pães de testa (5$00).

Os primeiros automóveis do Peso

Foi no início da década de 1950 que vieram para o Peso os primeiros


automóveis, por via da indústria de panificação.

Havia no Peso duas padarias importantes para a área do “Rio”:

A de meus avós, Belarmino Batista & filhos.


E a dos Irmãos Pires (Abílio, Ângelo e José.)

Nesta época de falta de géneros alimentícios, ter uma mercearia ou


principalmente padaria era uma vantagem económica que não se podia
ignorar. Assim estas duas famílias tentaram expandir e com certo êxito, esta
oportunidade.

Assim se adquiriram os primeiros automóveis para o Peso, para a


distribuição do pão pelas terras vizinhas, que até então era feita com
carroças puxadas por cavalos e machos. Em muitas aldeias não havia
padarias, ou se havia, eram apenas exploradas nas mesmas. Não nos
esqueçamos que nesta época as aldeias eram mais povoadas do que
actualmente. Embora vivendo-se com dificuldades, havia nelas “‘vida”,
comparado com esse tempo, hoje são quase aldeias “fantasmas”.

No caso de meu avô, comprou-se um “Nash” dos célebres modelo T que era
posto a trabalhar com uma grande manivela. Tiravam-se os bancos de traz,
já que a mala traseira era bastante pequena, mais parecida com um baú e
assim enchia-se o espaço, com o pão que era posto dentro de grandes cestos
de verga e em cima dos mesmos.

O pão desta época era na maioria, unidades de 1 kg, kg e meio e do


tamanho de um prato. Usava-se o pão de testa, o centeio e o pão de milho,
(mais conhecido por broa) a (5$00) e igualmente o de 1kg ($3.30). Menos
usado era o pão “fino” assim lhe chamavam, que consistia de regueifas
(4$80), carcaças ou pão de quartos (1$60) e os celebres papossêcos
($0.40), que chegaram aos nossos dias.

Esse pão era distribuído pelas aldeias do “rio”como Coutada, Barco, Paul,
Ourondo, Casegas, Sobral e para o lado norte, Erada, Unhais, Cortes e até á
isolada Bouça. Onde não havia estrada e era enviado um robusto cavalo,
pelo comerciante, que transportava 3 cestos de pão, para ser revendido no
único estabelecimento da povoação. Alguns anos depois tentava-se a zona
industrial do Tortosendo, Covilhã e as inúmeras quintas ao redor.

No caso dos Irmãos Pires, passado algum tempo adquiriram também um


automóvel, (género de furgoneta) para o mesmo efeito, lembro-me que
tinha os lados de madeira ou imitação e já mais moderno. Não me lembro da
marca; (Austin?)

Assim a indústria de panificação do Peso era conhecida, por toda a Cova da


Beira.
Gerou-se até como é óbvio, uma certa animosidade entre as duas famílias,
ao interferirem nas zonas económicas uma da outra. Era a luta pela
sobrevivência.

Existiam ainda, que eu me lembre, dois fornos de coser pão para o povo, o
da Ti Ana Poiares e outro...(?) funcionando no sistema de “maquia”.
Maquia era a forma de pagamento das pessoas pelos serviços prestados.
Assim pagava-se o uso do forno com o mesmo pão, consoante a quantidade
de pão cosido.

Pagava-se uma "cota" com produtos da terra, como milho e azeite, ao


barbeiro, aos barqueiros para a travessia do Zêzere. O mesmo acontecia
com o Doutor. (vejam a introdução nos meus escritos de”O salto”). O
pagamento da côngrua ao Padre, era igualmente feito com os mesmos
produtos. O dinheiro era um “bem” secundário, que muitos possuíam em
mínima quantidade.

Já que falei na ti Ana Poiares, estou-me a lembrar do seu filho Amândio, que
trabalhava no mesmo forno e conseguia equilibrar um tabuleiro de
pão á cabeça, coisa que só as mulheres faziam. Este dedicava-se aos
domingos a engraxar sapatos, levava 1.50 (15 tostões) e era um bom
profissional. Posso dizer que com a sua ocupação contribuía para que o Peso
fosse uma aldeia onde havia um pouco de tudo. Muitos rapazes dos Vales,
Pesinho e Coutada, vinham ao Peso aos domingos, para engraxar os sapatos,
por não haver nas suas terras este serviço.

Nestes tempos em que a estrada não era alcatroada e os caminhos todos


poeirentos no verão e lamacentos no inverno, andava-se muito a pé. A
primeira e única camioneta de carreira que fazia o trajecto entre o
Tortosendo e o Barco, começou, creio nos anos 60, saia do Barco pela
manhã antes das 7 horas e vinha pelas 6 horas da tarde.

III

Ainda me Lembro!!!...das tradições da tecelagem no Peso.

Segundo ouvira dizer aos meus avós desde tempos antigos que havia no
Peso quem se dedica-se á tecelagem de cobertores, lençóis de linho e
mantas de âmbito artesanal.

Com o advento das fábricas de lanifícios no Tortosendo, (a Covilhã já ficava


longe…naquela época) as gentes da aldeia começaram a trabalhar na
tecelagem, para essas mesmas fábricas, indo buscar as matérias-primas
necessárias para depois fazerem o trabalho em casa. Novos teares, (só de
um pano) assim lhe chamavam aos teares maiores, foram adquiridos por
muitas pessoas da aldeia e assim começava uma nova era para muitos, uma
nova vida que lhes garantia o sustento da família.

Assim eram trazidas grandes meadas de fio que depois eram estendidas num
grande estendedouro, (ordedouro assim lhe chamavam, a grandes barras de
ferro, não tão grandes no tamanho, das balizas do futebol) que iam desde a
estrada do Cabouco ao cimo do Carrascal, ao longo do extremo Poente da
escola da D. Blandina, assim era conhecida a mesma.

Essas grandes meadas de fio eram (julgo) transformadas em mais pequenas


para serem passadas numa dobadeira para depois serem transferidas para
um “fuso” que seria depois usado na lançadeira do tear. Estes trabalhos
secundários eram quase exclusivos das mulheres. Depois do trabalho estar
completo o tecido, era levado á fabrica para receberem o pagamento e trazer
outro trabalho, (se o houvesse) . Quem passa-se pelas ruas da aldeia,
poderia ouvir o matraquear dos teares a qualquer hora do dia ou da noite.
Existia um barracão, assim se chamava uma série de palheiros que iam
desde a casa actual do Senhor João Sardinha até á área onde estão os
tanques, lavadouros públicos e aí estavam instalados uns quantos teares, 4
ou 5 não posso precisar onde havia sempre gente a trabalhar até altas horas
da noite e manhã cedo.

Era esta a vida de muitos habitantes do Peso, até princípios da década de


1960.

Devo salientar que estas mercadorias eram transportadas ás costas ou em


jumentos, (o Ti Zé Aires tinha um burro, rijo e dócil que era nessa altura
como que o táxi da aldeia) – pelo caminho da “Serra”que seguia do cimo dos
Vales do Rio, até ao fundo do Cabeço do Tortosendo. Estes teares,
instrumentos de trabalho, eram registados num Departamento
Governamental, cujo nome não me lembro e lhes garantia um alvará que
mais tarde foram valorizados, pois ao fazer-se a reconversão da industria de
lanifícios, de manual para automática, eram necessário aos industriais de
lanifícios, obter três alvarás de teares manuais para um tear eléctrico. E
assim foram adquiridos muitos, ou quase todos, a um preço que ia desde os
12 mil escudos aos 20 mil , conforme a procura; uma pequena fortuna nessa
época.
Depois começou a ser ”descoberta”a emigração para França e igualmente
com a reconversão dos teares manuais para eléctricos, automáticos como lhe
chamavam e assim muitos começaram a deixar a indústria de tecelagem
manual. Alguns foram aprender a trabalhar com os novos teares e
arranjaram trabalho no Tortosendo e Covilhã, para onde iam todos os dias de
bicicleta. Eram notórios os grupos de tecelões que especialmente do Peso,
Coutada e Dominguiso, enchiam a estrada, (ainda de maquedame) e se
ouviam á distância, falando uns para os outros. Fazendo este trajecto,
infelizmente alguns conterrâneos nossos encontraram a morte na estrada,

Com esta mudança para o progresso iria acabar uma indústria para as
aldeias do Rio e não só, pois outras limítrofes como o Teixoso, Aldeia do
Carvalho, Sarzedo, Ferro, Peraboa etc., haviam muita gente a trabalhar nesta
indústria.

No caso do Peso, houve outra reconversão: os que não seguiram para França
tão depressa, ou já pela idade mais avançada, lançaram mão á tecelagem de
mantas de trapos. O Peso chegou a ser a terra com mais gente a trabalhar
neste sector artesanal em todo o distrito, ou até talvez em todo o país.

Senão vejamos; a área de domínio das gentes do Peso estendia-se a todo o


distrito de Castelo Branco, área de Alcains, a partes do da Guarda, área do
Sabugal e Coimbra, como Barroca do Zêzere, Vasco Esteves, Loriga, etc.

Eu próprio como proprietário do automóvel de aluguer (táxi) da aldeia, na


altura percorri todos estes percursos no transporte dessas mantas, em toda
a década de 1960 e até à minha emigração em fins de 1973.

De salientar que cada pessoa tinha a suas localidades, que na maioria dos
casos era respeitada, não fazendo concorrência uns aos outros.
Com o envelhecimento dos mesmos e a emigração para França, esta
actividade foi-se desvanecendo até á sua extinção. Assim se vira mais uma
página da história do Peso.

É pena que não tivesse ficado um pequeno museu com todos os artefactos
desta indústria, (tecelagem) para que as gerações vindouras pudessem
apreciar.

IV

Ainda me Lembro!!!

A vinda da electricidade

Por alturas de 1958/59, (?) chegou a electricidade ás aldeias do Rio, desde o


Dominguiso ao Barco e isto foi certamente um dos grandes benefícios desta
época.

Este melhoramento veio proporcionar como é óbvio um substancial


desenvolvimento ás aldeias e uma melhoria nas condições de vida daqueles
que podiam instalar a luz eléctrica em casa. Para esses as candeias de azeite
ou os candeeiros a petróleo, poderiam já ser coisas do passado. Possibilitou
igualmente a mecanização da indústria de panificação na aldeia.

Ouvir-se a rádio era já possível, pagando uma licença anual de 100$00


escudos á então Emissora Nacional. E passados poucos meses, eis que
apareceram mesmo os fiscais da Emissora entrando nos estabelecimentos e
apanhando os que não tinham essa licença, creio que nenhum a tinha e
lembro-me que meu pai foi um dos apanhados. Com a rádio, nas tabernas já
poderia haver mais divertimento e informação, tal como o relato dos jogos
de futebol.

Lembro-me igualmente que nomeadamente as mulheres, se reuniam em


frente da telefonia para ouvirem o” romance”.As tabernas iam-se
transformando em cafés (onde café não havia) ficariam a ser tabernas mais
civilizadas, pelo menos com cadeiras e mesas, em vês dos tradicionais
bancos quadrados de madeira.

O primeiro verdadeiro café a ser aberto no Peso, foi o dos irmãos Arnaldo e
António Proença, isto já depois da vinda da Televisão. Todas as noites eram
casa cheia, principalmente para a noite de teatro. As emissões começavam
da parte da tarde acabava á volta das 11 da noite.
Uma das bebidas mais populares na altura, para os que não bebiam vinho,
era uma mistura de gasosa com café (de cevada) que fazia uma espuma
mais parecida com cerveja preta. Havia um nome próprio para esta bebida,
que não me recordo.

Ainda me lembro que a primeira televisão no Peso, foi dos Irmãos Pires e nos
primeiros dias foi posta na varanda do seu estabelecimento no Largo do
Chafariz, onde á noite um arraial de gente se reunia para ver a TV.

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Queria recuar um pouco no tempo, para antes da vinda da electricidade.

As primeiras telefonias existentes no Peso, foram as do Sr. Ângelo Morrão no


Largo do Chafariz, que era proprietário de um dos melhores
estabelecimentos de mercearias, retrosaria e fancaria de todas as aldeias do
Rio. Aqui vinham muitas pessoas das aldeias vizinhas, abastecerem-se para
não irem ao Tortosendo ou Fundão. A outra casa com telefonia era de meu
avô, Belarmino Batista.

Estas eram as únicas casas que tinham electricidade fornecida por um


gerador movido a vento e instalado no telhado. As pessoas chamam-lhe
“caravelas”.

Ainda me lembro que as pessoas no dia das celebrações de N. Sra. de


Fátima, no 13 de Maio, enchiam a sala da casa de meu avô, para ouvirem as
reportagens das mesmas. Lembro-me igualmente quando da morte do então
Presidente da Republica, Marechal Carmona, se encher a casa de gente,
onde eu estava também e ver as pessoas chorar com o relato emocionante e
sentimental dado pelo incomparável locutor de então, Artur Agostinho.
Recordo-me bem deste acontecimento, por ter chorado também.

Lembro-me igualmente de ir ouvir, muitas vezes sozinho, por alturas da


Pascoa, os relatos do hóquei em patins para o campeonato do mundo,
transmitidos de Geneve ou Montreaux, na Suíça. Gostava ainda de ouvir o
programa dos Companheiros da Alegria no Rádio Clube Português todas as
noites, espectáculo musical que na década de 1950/60, percorria Portugal de
lés a lés. Igrejas Caeiro e Elvira Velez eram os produtores deste espectáculo,
que revelava muitos dos bons artistas/cantores portugueses.

Isto só era possível graças aos geradores a vento.

Autoria do Pesense:

Belarmino Batista

Emigrante no Canadá

(Estes textos são publicados no site do Peso, com a devida autorização do


autor