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Vencer a eleição

©Públio Athayde
Historiador (UFOP) e
Cientista Político (UFMG)
publio.athayde@gmail.com

Engraçado como as pessoas “torcem” em política com a mesma


irracionalidade que no futebol ou no turfe! Um pouco menos paixão faria
bem. Ano que vem vamos às urnas, todos sabem, e as articulações estão
em curso. Para a maioria, o projeto é “vencer a eleição”. Esse projeto, essa
meta, existe para os concorrentes no pleito ou para muitos eleitores, para
os quais o critério consiste em “adivinhar” quem vai se eleger e sufragar
aquele nome, como uma aposta. À aposta se segue a “torcida” para que o
resultado corresponda à pule (bilhete de aposta; boleto). Muitas vezes a
aposta e torcida antecedem o voto, quando o eleitor adere à candidatura ou
partido, exteriorizando seu alinhamento ou mantendo-se reservado.

A grande confusão está no conceito de vencer a eleição. Na maior parte


das vezes as pessoas entendem “vencer a eleição” exclusivamente como
“ser eleito”. Um pouco como vencer a corrida ou a partida significa
exclusivamente derrotar um ou mais adversários. Mas vitórias eleitorais são
de natureza diferente. Participar de uma eleição, concorrendo nela, tem
mais de um objetivo – principalmente quando a possibilidade de eleição é
remota ou nula. Aderir a candidaturas, participando ativamente delas,
quando a eleição é inviável é da mesma natureza.

Uma vitória eleitoral pode ser simplesmente a divulgação de um projeto, a


consolidação de um partido, a afirmação de uma ideia. Vejamos alguns
exemplos de grandes vitórias eleitorais sem eleição: do general Euler
Monteiro ninguém se lembra, mas ele foi candidato a presidente da
República em 1978 – sem nenhuma chance no Colégio Eleitoral, mas
marcou a presença da oposição; Ulisses Guimarães, também concorreu no
Colégio e venceu perdendo. Mais perto de nós? Fantástica a vitória de Lula
em sua primeira candidatura à presidência – mesmo que o eleito tenha sido
Collor, o estupendo resultado obtido consolidou o partido dele e a ideia de
que um operário não estava fora do páreo. Somente na quarta e quinta
candidaturas o sufrágio conduziu Lula ao Governo, mas talvez a vitória
tenha sido maior na primeira – se considerarmos o ineditismo da postulação

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e a dimensão da concorrência; por esses dois últimos critérios, quando foi
eleito, Lula enfrentou candidatos mais pífios e já era contumaz em pleitos
nacionais. Exemplificando mais: alguns se lembram do fabuloso resultado
do Dr. Enéias quando, do nada, surgiu em nossas telinhas rugindo: –“Meu
nome é Enéias” e acolheu significativa votação, a maioria de protesto, mas
que constituiu uma vitória do marketing e que, posteriormente, resultou na
enxurrada de votos para deputado que fizeram daquele médico a
locomotiva do partido dele na Câmara. No último pleito nacional, a grande
vitoriosa foi Heloisa Helena; advinda do ostracismo de seu partido original,
aquela senhora levantou milhões de votos e viabilizou seu novo partido.

Postos esses exemplos históricos, imaginemos o que pode significar aderir


a candidaturas, sem “torcer” – no sentido de apostar em eleição, ou mesmo
no sentido irracional de desconsiderar as alternativas como prováveis,
possíveis, ou mais viáveis. Postular uma vitória nas urnas pode ser bem
diferente de propugnar por um cargo, e tem sido em aparentes derrotas que
se construíram grandes biografias, coroadas muitas vezes de êxitos
eletivos posteriores.

Na via inversa, muitos são os candidatos que, inadvertidamente alçados ao


cargo que postularam, transformam em fragorosa derrota, algumas vezes
coberta de escárnio, a ascensão pelo voto. Nesse rol, para ficarmos na
esfera da Presidência da República, incluamos Jânio Quadros e Collor, que
colecionam, em suas facetas biográficas convergentes, o fato de terem sido
defenestrados por forças claras ou ocultas.

Claro que há grandes vitórias que culminam em diplomação. Aqui temos o


exemplo de Tancredo Neves, indiretamente eleito, mas soberanamente
ungido pela vontade de reconhecida maioria dentre os cidadãos. Sua
ausência na posse deve ter sido a maior das frustrações nacionais. A
eleição de Obama tem a mesma característica, é uma vitória, conquanto
não por outros fatores, no mínimo pelo significado de alguém com sua etnia
naquele cargo. A posse do atual presidente americano representa,
subsidiariamente, a revisão dos valores de seu antecessor – e aqui está um
dos grandes benefícios da alternância.

A vitória eleitoral pode ser expressa em números que se diluem na


expectativa. Qualquer desconhecido terá facilmente 100.000 votos para
presidente da República. O que não significará necessariamente vitória,
mas somente que há aquele mesmo número de esquizoides ou empatias.
Se eu obtivesse 10.000 para deputado em qualquer dos cinco maiores

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colégios do Brasil, seria um feito – pois sou ninguém – e teria somado á
uma legenda um número relevante, seria uma vitória para mim, que nem
sequer tenho pretensão nesse sentido – mas não seria eleito.

Torcer por uma vitória eleitoral é torcer para que uma ideia floresça, que um
nome desponte, ou que algo seja passado a limpo. Mas torcer não precisa
ser o ato irracional que o verbo expressa em sentido próprio, mas que bem
representa a atitude de quem se desespera por um resultado desportivo.
Torcer por uma vitória eleitoral pode ser elencar as prioridades, por critério
pessoal ou coletivo, e implementar ações racionais que produzam efeito no
sentido pretendido.

Para nossas eleições presidenciais do ano que vem temos muitos


postulantes alinhados. Bem poucos poderão vencer. Começando pela
candidata da situação, dona Dilma não ganha, nem leva: se ela for eleita, a
vitória é do Lula (e será uma vitória tão grande quanto sua primeira derrota
– posta é remota a possibilidade de essa candidatura prosperar). As outras
senhoras, Heloisa Helena e Marina da Silva, não vejo como esse palanque
inglório lhes venha acrescentar à biografia uma lauda que seja, quanto
menos qualquer láurea. Ciro já nem tem mais a idade aventureira nem
argumento que lhe emprestem maior significado nessa concorrência. O
azar da disputa pode fazer dele qualquer coisa, se não escorregar com a
palavra mais que na outra vez. O azar da disputa provavelmente não fará
dele nada mais. José Serra teve sua vez no palanque nacional, não
acrescentou nada – foi uma candidatura meramente formal, pra cumprir a
tabela e dar posse ao concorrente. Ele poderá trazer algo de novo agora?
Certamente não. Suas realizações no governo paulista não fazem dele
nenhum expoente pelo país afora. Essa candidatura, mesmo eu admitindo
nela a possibilidade de prosperar, não será uma vitória, pois terá sempre o
sabor de regresso ao período FHC no que ele tinha de menos interessante:
a falta de audácia e criatividade.

Os partidos pequenos surgirão com nomes mais ou menos desconhecidos,


aqueles que, despreparados para a edilidade de qualquer capital, pleiteiam
a magistratura suprema. Não haverá surpresas por esse lado.

Não sei quem vai ser eleito presidente da República em 2010, mas só vejo
um postulante apto a vencer nas eleições: Aécio Neves. Essa candidatura,
caso se concretize, tem a força da juventude do governador de Minas
conjugada à inigualável experiência legislativa e de dois mandatos
consecutivos no governo de seu estado. Aécio, eleito presidente, seria a

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sublimação da frustração da posse de seu avô, mas, sobretudo, seria o
aporte de uma filosofia política alicerçada na ética posta à prova por
gerações consecutivas de atividade pública ilibada. Em seu currículo, traz o
jovem governador a bagagem da mais vibrante reforma administrativa de
uma máquina pública que já se viu no país. As magníficas reformas na
estrutura física da administração estadual, obras de vulto e altamente
representativas em Minas, completam-lhe o perfil para fazer dele presidente
da República, já no próximo pleito. Para completar o quadro, imagine-se a
expectativa de um debate bilateral, visto em todos os recantos, em que
Dilma tenha que enfrentar Aécio. Não vejo bolsa família que supere a
abissal diferença qualitativa entre estes dois postulantes.

Mas há os azares e os interesses múltiplos. Pode ser que o PSDB entenda


fazer o governador dos paulistas candidato. A vitória de Aécio estará
configurada, nesse caso, pela derrota nas urnas que poderá advir a Serra.
Serra perdendo a eleição a tese de Aécio vence. Caso Dilma perca para
Serra, e ela é tão ruim que isso pode acontecer – aquela senhora já teve
algum voto? – Aécio terá apoiado de tal forma e com tal peso seu
correligionário que lhe sobrará, na pior das hipóteses, um dos mais
importantes ministérios quando não estiver no Senado.

O quadro está posto, e em diversas alternativas plausíveis, o grande


vencedor em 2010 já está definido. Mas há ainda a mais negra alternativa a
ser aventada: não se sabe por que torpe caminho e raciocínios, o risco da
bolivarização – que seja remoto – existe, e a perspectiva de extensão do
mandato atual ou de sua recandidatura enfrentam apenas a tênue barreira
de uma reforma constitucional. Nesse caso, seremos todos derrotados.