Anda di halaman 1dari 36

AUGUSTO SANTOS SILVA JOSÉ MADUREIRA PINTO

(orgs-)

Jesuíno, J. C. (1989). O Método Experimental nas Ciências Sociais. In A. S. Silva & J. M. Pinto (Eds.), Medologia das Ciências Sociais. Porto: Edições Afrontamento.

METODOLOGIA

DAS CIÊNCIAS SOCIAIS

3"Edição

última edição:

Silva, A. S., & Pinto, J. M. (Eds.). (1999). Medologia das Ciências Sociais. Porto: Edições Afrontamento.

Edições Afrontamento

1989

Jorge Correia Jesuíno

O objectivo da investigação científica énão só descobrir e descrever acontecimen- tos e fenómenos, mas também explicar e compreender @r que razões tais fenómenos ocorrem. Tal como observa Piaget, "o ideal da dedução causal, em psicologia como noutras disciplinas, consiste numa construção deduqva aplicada Lr produção dos fenó- menos: a causa é uma coordenação lógica projectada' nwma coordenação real" (Piaget 1969: 1-338) (*I. O que há de característico na explicação causal e que ultrapassa o quadro do estabelecimentodas leis é o recurso a modelos servindo de substrato à de- dução. Tais modelos, em psicologia, são todavia múltiplos. Ainda segundoPiaget po- deríamos distinguir entre modelos reducionistas e mo'delos construtivistas, cada um deles comportando por seu turno diversas modalidades. O modelo utilizado em psico- logia social seria, de acordo com esta categorizaçáo, um modelo reducionista procu- rando interpretar as reacções individuais em função das interacções entre indivíduos ou entre estruturas sociais. Independentemente das características específicas do mo- delo utilizado subsiste, porém, o ideal duma explicação causal ultrapassando o qua- dro restrito da observação das sucessões regulares conduzindo, na melhor das hipóte- ses, à formulaçãodas leis. A ideia do recurso generalizado à explicação causal não tem. todxia. aceit.qL universal. Argumenta-se, por vezes, que a história, como algumas áreas de psicolo- gia, se ocupam das acções de agentes racionais, as quais não podem ser explicadas a

* P'aa as referências completas das cibçóes bibliográficas, Ser a orientação bibliográfica final.

216

JORGE CORREIA JESUÍNO

partir de princípios ou leis gerais, são explicadas por razões e não por causas. Tal questão, que permanece em aberto, não será aqui examinada~osseus diversos contor- nos, adoptando-se a posição de uma possível unidade metodológica válida em toda a actividade científica. A explicação causal, em psicologia como noutTas disciplinas científicas, acha-se estreitamente associada ao método experimental. E através da experimentação, efec- tuada no interior dum modelo, que se procede à dedução dos nexos causais entre as

variáveis isoladas. Note-se que tal não significa, como por vezes se considera, que o método científico se reduza apenas àexperimentação, na sua acepção estrita de mani- pulação física de objectos. Se assim fosse, uma ciência como a astronomia não seria possível. Tal como observa Ackoff (1962) o controlo também pode ser obtido pela manipulação conceptual de representações simbólicas, ou seja, de modelos dos fenó- menos a estudar. Com o desenvolvimento, nos anos recentes, de técnicas estatísticas como a classificação e a aleatorização, a manipulação física tende a tomar-se menos necessária. A preocupação como problemada explicaçãocausalem ciênciaérelativamente re- cente. Deve-se a John Stuart Mill a primeira abordagem sistemática desta questão, na sua obra Systern of bgic datada de-1843. Stuart Mill procura aí especificaf as condi- ções que permitem que uma coisa A possa ser considerada causa de outra, P. Ele esta- beleceu cinco métodos ou cânones de indução: o método da concordância, o método da diferença, o método conjunto da concordância e da diferença, o método dos resí- duos e o método das variações concomitantes. Os primeiros três métodos dizem res- peito ao estabelecimento das causas. O método dos resíduos .constitui uma variante do método da concordância. O método das variações concomitantes corresponde ao que actualmente se designa como método correlacional. Experimentaçãoe correlação vêm a afirmar-se como os das métodos utilizados na investigação científica. Basean- do-nos na análise proposta pòr Ackoff (1962) conviria aqui alertar para algumas ambi- guidades que por vezes surgem com a relação causa-efeito. Quando um fenoméno X

é dito causar outro, Y,

podem significar-se diferentes coisas:

(1) X C necessário e suficiexiie para Y - GZ^~OL --h

(2) X é necessário e

(3) X não C necessário nem suficiente para Y, mas ambos tendem a estar presen-

&- fh -<-i>

I

$'C-

* Cj &'C<

não suficiente para Y

C.=-

tes ou ausentes em conjunto.

(L:

A primeira relação (1) corresponde à causalidade determinística, a segunda (2) à causalidade probabilista ou não determinista e a terceira (3) corresponde ao conceito de correlação e pode nem sequer envolver a causalidade. Em termos muito genéricos os cânones da concordância e da diferença de Stuart Mill carrespondem ao segundo tipo de relação, enquanto que o método conjunto seria equivalente à condição da causalidade determinística. Continuando a apoiar-nos na análise proposta por Ackoff (1962), dados os antecedentes A, B e C e o consequente P, teríamos que A seria necessário e suficiente desde que:

O MÉTODO EXPERIMENTAL NAS CIÊNCZASSOCIMS

A,

B, C

A, B', C A, B, C' A, B', C'

A', B, C

A', B', C A', B, C' A', B', C'

Por outras palavras, a A, associado ou não a outras condições, seguir-se-ia sem- pre P, e na ausência de A, associado ou não a outras condições, não se seguiria P. Em termos gerais, estando envolvidas n condições serão necessários 2" testes para es- tabelecer esta relação determinística. Este tipo de relação determinística constitui uma situação ideal difícil de estabele- cer no domínio das ciências da natureza. Note-se que seria necessário garantir que A,B,C esgotassem a lista das condições associadas ao estado ou ao fenómeno a des- Éo reconhecimento de tal limitação que aconselha uma posição epistemológi- ca mais prudente e que se traduz na adopção da causalidade probabilística. A este res- peito há todo um difícil debate filosófico centrado na eficácia das explicações proba- bilísticas que só por si merecia um tratamento separado, como é o caso da controvér- sia em tomo do critério de falsificabilidade de Popper (1959). Para além deste aspec- to acresce ainda que os cânones de Stuart Mill se limitaram às variáveis qualitativas, definidas em termos de presença ou de ausência e não em termos quantitativos, ou seja, de graus de ocorrência. Não obstante as limitações apontadas foi com base no trabalho de S. Mill que se estabeleceram, pela primeira vez, dois grandes métodos de investigação científica: a experimentação e a correlação. 0 segundo grande passo vai ser dado por Fisher (1925, 1935), a quem se deve akriação da análise de variância, instrumento estatístico básico do método e~~erimentâl'~ueactualmente se pratica e que passaremos a considerar.

crever.

f

1

2. PLANOS EXPERIMENTAIS E QUASE-EXPERIMENTAIS

A exposição porventuramaiscompletae mais didáctica sobrea utilização do méto- do experimental em ciências sociais deve-se a Donald T. Campbell e Julian C. Stan- ley (1963). Posteriormente, o mesmo D.T. Campbell, associado a T.D. Cook, refor- mulou e alargou o mesmo tema designadamente no que se refere aos métodos quase- experimentais (Cook e Campbell, 1976). Remetemos o leitor para esses textos bási- cos, sobretudo o primeiro, cuja terminologia, notação e conceitos básicos conhecem

218

JORGE CORREIA JESUÍNO

hoje aceitação generalizada no domínio das ciências sociais. Limitar-nos-emos aqui a expor alguns dos pontos essenciais para um melhor enquadramento do método experi- mental. Para efeitos de fixação de terminologia temos, em primeiro lugar, a definição de experiência como um meio para testar hipóteses causais. Basicamente traduz-se na aplicação dum tratamento, controlada pelo experimentador, aos sujeitos expeimen- tais, podendo as consequências desse tratamento ser empiricamente observáveis. Na terminologia corrente a relação observada tem lugar entre a variávelindependente,ma- nipulada pelo experimentador, e a variável dependente, ou resposta, produzida pelo sujeito ou sujeitos experimentais. De acordo com Cook e Campbell (1976) aceita-se tradicionalmente que há três condições necessárias para afirmar a direcção da causalidade de A para B: (1) antece- dência temporal, (2) covariância e (3) inexistência de explicações alternativas plausí- veis. E sobretudo este último ponto, relativo aos tipos de condições de validade da ex- perimentação, que constitui objecto de elaboração mais sistemática por parte dos auto- res. Relativamente a esta última condição, Cook e Campbell(1976) propõem uma dis- tinção entre validade interna e validade de conrtruto que, em textos anteriores (Camp- bell, 1975, carnpbell e s=ley, 1963), era unicamente designada como validade in- tema. Na distinção actual, a validade interna diz respeito ao grau em que uma relação causal aparente entre A e B pode, de facto, ser devida a outras variáveis. Segundo um exemplo sugerido pelos autores, um aumento de produtividade numa fábrica asso- ciado à introdução duma nova máquina pode, na realidade, ser consequência de flu- mações sazonais. Na segunda acepção, designada agora como validade de construto, o que C posto em causa é a própria significaçã'o atribuida às variáveis independentes e dependentes. Por outras palavras, contesta-se o modelo, o contruto, sugerindo-se uma interpre- tação altemativa para as variáveis manipuladas. Nestas condições uma experiência adequada implica: (I) que os antecedentes temporais sejam claros; (2) que exista uma co-variação estatisticamente significativa entre uma causa e um efeito; (3) que não existam terceiras variáveis que possam dar uma explicação altemativa para a relação entre a causa e o efeito, e também (4) que não haja hipóteses alternativas sobre os construtos utilizados (Cook e Campbell, 1976, p. 226). A este conjunto de condições duma boa experimentação ainda que acrescentar uma última condição, a da validade externa, já descrita em textos anteriores (Camp- bell, 1957).A validade externa,ou representatividade, ou generalizabilidade, tem a ver com as populações, ou contextos, ou variáveis, a que o efeito registado pode ser apli- cado. Esta distinção entre validade interna e de construto, por um lado, e validade exter- na, por outro lado, revela-se de capital importância e permite superar muitos dos mal- -entendidos que saturam a polémica sobre a pertinência e relevância da utilização do método experimental em ciências sociais e, mais especificamente, em psicologia so-

com efeito que a experimentação é artificiale pouco contri-

L --

cial. Quando- - -se---argumenta-

bui Dara a com~reensáodos fenómenos reais. esta aDenas em causa a valiaade exter-

-- --

,

MÉTODO EXPERIMENTAL NAS CIÊNCZAS SOCIAIS

219

na e não a validade interna. Isso não significa, como é óbvio, que a validade externa não seja uma condição importante para o desenvolvimento da ciência. Há, todavia, que a não constituir como condição única de validade, sob pena de se obscurecer os termos do debate. Voltaremos a este ponto. Uma vez caracterizadas as condições de validade da experimentação vejamos

quais os factores susceptíveis de as afectar.

tização iniciadapor Campbell(1957) e sucessivamentecompletadaem textos posterio- res (Campbell e Stanley, 1963;Cook e Campbell, 1979). No que se refere àvalidade interna são de consideraros seguintes principais facto- res de "ameaça".

(a) História - acontecimentos específicos que têm lugar entre a primeira e a se-

gunda medição e que podem constituir uma interpretação alternativa para o efeito ob- servado na variável dependente. @) Maturação - mudança no desenvolvimento dos sujeitos durante o estudo ex- perimental.Esta ameaça é particularmenteimportante em estudos com crianças que se prolonguem por períodos de meses ou mais, ou populações adultas sujeitas a efeitos de socializacão or~anizacional. -

aplicações sucessivas,

pelo que os sujeitos podem melhorar os resultados obtidos.

(d) Instrumentação - ameaça resultante de instrumentos de medida pouco fiá-

Éessa a principal contribuição da sistema-

(c) Testagem - ocorre quando se utiliza o mesmo teste em

veis, produzindo resultados variáveis em diferentes aplicaçóes.

(e) Selecção - ameaça devida ao efeito observqdo poder resultar de diferenças

das pessoas seleccionadas para os grupos experimentais e não dos diferentes aata-

mentos recebidos por cada grupo. (f) Mortalidade - ameaça resultant~:de queths verificadas nos sujeitos experi-

mentais entre sucessivas a~licacães.

.

.

(g) Regressão estatística - ameaça resultante'de os scores extremos das medidas

*

-

observadas regredirem para a média em posteriores aplicações. Por outras palavras,

sujeitos com scoresbaixos i 7' %- 6 - -

5,

3

-4'"

.

(h)Interacções com a selecção - as ameaças antérionnenteindicadas podem inte- ragir com a selecção, produzindo efeitos espúrios. Uma das ameaças mais comuns é a selecção-maturação,resultante de grupos experimentaiscompostos por diferentes ti- pos de pessoas com diferentes taxas de maturação.

Uma outra distinção conceptual proposta é a que se refere à experimentação pro- priamente dita ou experimentação pura itrue experiments) e a quase-experimentação Lquasi experiments). A principal diferença entre uma e outra está relacionad~com a

validade interna. A característica fundamental da experimentação propriamente dita re-

-

-

-

.

side no controlo que--

tia, mediante a aleatorizaçáo dos suieitosexperimentais. Uma segunda característica do metodo experimental é a utilização de grupos de controlo, ou seja, grupos não sub- metidos ao tratamentoexperimental e nos quais deve verificar-se,por hipótese, o efei-

o experimentadorexerce sobre estas fontes alternativas dGE&

220

JORGE CORREIA JESUÍNO

to resultante da manipulação experimental. O recurso à distribuição aleatória dos sujei- tos experimentaispelas diferentes condições ésuficiente para neutralizar as diferentes ameaças à validade interna acima indicadas. No caso dos grupos quase-experimentais a situação é diferente. Como os sujeitos não são distribuídos-- por forma aleatória,-- o in- vestigador terá de proceder por forma a neutralizar, uma a uma, as~ossíveisfontes de ameaça.Convém igualmente referir que a distinção entre a e~~mentaçãopura e a quase-experimentação não corresponde exactamenteàdistinção entre o laboratório e o

terreno.

É com efeito possível conceber estudos quase-experimentais em laboratório,

como vai sendo cada vez mais o caso com os estudos de simulação (Fromkin e Streu- fert, 1976),como é igualmente possível efectuar experimentação pura no terreno, ou seja, no meio natural. Mas é certo que se trata de situações menos comuns, pelo que, por via de regra, se associa a experimentação pura ao laboratório e a experimentação no terreno à quase-experimentação. Quando se trabalha com gr~posreais toma-se difí- cil, senão mesmo impossível, na maior parte das situações,-- o recurso à aleatorização.-- Vejamos agora algumas das principais ameaças à validade externa.

(a) feito de interacção da testagem, em que o pré-teste pode aumentar ou dirni-

nuir a sensibilidade do sujeito à variável experimental,tomando os resultados obtidos pouco representativos dos efeitos da variável num universo não previamente testado. (b) Efeitos reactivos dos arranjos experimentais, afectando a generalização dos efeitos a pessoas não expostas a esse tipo de arranjos. (c) Interferência dos tratamentos múltiplos, resultante da aplicação de vários trata- mentos aos mesmos sujeitos dado não ser fácil eliminar os efeitos de tratamentos ante- riores.

Conjugando os requisitos da validade interna e da validade externa somos todavia levados a observar que é difícil optimizar ambos os tipos de validade, tomando-se ne- cessário optar por uma estratégia de compromisso. Na verdade, a maximização da va- lidade interna passa pelo controlo rigoroso da variável, com possível sacrifício para a validade externa. ou seia. Dara a generalizacão dos resultados Dara além do laborató- rio. Em contrapartida, um maior ênfase na observação de grupos naturais, sem aleato- nzação, é susceptível de aumentar o efeito das ameaças à validade interna. Trata-se duma situacão de certo modo semelhante à aue se verifica com o erro tivo I e o erro tipo 11. um; estratégia de vai-vem, entre laboratório e terreno, parece ser a solução que obviamente se impõe. Passemos em seguida à análise dos diferentes planos experimentais utilizados na investigação e cujo desenvolvimento se deve em grande parte a Fisher. Para o efeito continuaremos a seguir a sistematização e nomenclatura proposta por Campbeli e Stanley (1963). Assim, designar-se-á por X o tratamento administrado ao sujeito ou grupo de su- jeitos experimentais e por O a observação feita com o fim de medir o efeito do trata- mento.

-.

*

-1

u

M~TODOEXPERIMENTAL NAS CZ~NCIASSOCZAZS

PERIMENTAIS

Vejamos, em primeiro lugar, os planos pré-experimentais, em rigor não inter- pretáveis. São os que estão mais sujeitos aos efeitos das ameaças descritas.

(1) O estudo de caso.

Consiste na aplicação dum tratamento (X) a um sujeito ou grupo de sujeitos, se- guindo-se a observação (0) dos efeitos. Pode ser ilustrado da seguinte forma:

Tratamento

Obsemação/Medida

A referência a este plano tem apenas a intenção de ilustrar uma situação mínima, um ponto zero. Um estudo desta natureza reveste-se duma ausência total de controlo, de escasso valor científico. No máximo terá apenas a utilidade de suscitar hipóteses.

(2) O plano pré-teste, pós-teste

v *'

Podemos apresentá-lo da seguinte forma:

O grupo experimental, neste caso, é medido antes do tratamento (Oi) - fase do pré-teste - em seguida é aplicado o tratamento (X), voltandc a ser medido depois do tratamento (O2). Este plano é vulnerável a quase todayas ameaças à validade interna, com excepção da selecção e mortalidade, relativamente controláveis pelo experimenta- dor. Um exemplo típico duma tal aplicação é a que se verifica na avaliação de progra- mas de formação. A população é testada antes e depois da acçáo desenvolvida, atri- buindo-se as diferenças entre as duas aplicações ao efeito do tratamento (acçáo de for- mação). Em rigor tal inferência é abusiva já que não se acham controladas variáveis parasitas susceptíveis de contribuir para uma explicação alternativado efeito observà' do.

-

(3) Comparação de grupos estáticos

Trata-se de um plano em que um grupo submetido ao tratamento experimental é comparado com outro não submetido ao tratamento. Esquematiza-se da seguinte forma:

JORGE CORREIA JESU~O

- A linha a tracejado indica que os sujeitosnão foram distribuídos aleatoriamentep- 10s nruDos. Por isso mesmo não se trata, em rigor, de comparar um grupo experimen- tal com um grupo de controlo. Um exemplo da aplicação deste plánõ pode ser o de duas turmas escolares, uma delas exposta à audição dum programa escolar televisivo, e comparando em seguida os resultados. Este plano, embora menos vulnerável que os anteriores, está sujeito à ameaça de mortalidade e de selecçáo, sendo também difícil garantir a equivalência dos grupos no que se refere àmaturaçáo.O inconvenien- te mais óbvio deste plano é, com efeito, a ausência de pré-teste, pelo que quaisquer di- ferenças nos pós-testes entre os grupos podem ser atribuídas quer a um efeito do trata- mento quer a diferenças de selecçáo entre os grupos não equivalentes.

4. PLANOS EXPERIMENTAIS PUROS

Seguidamenteanalisam-se três planos experimentaispuros.

(1) Plano pré-teste pós-t&te e grupo de controlo.

Neste plano os sujeito&sãoaleatoriamente distribuídos por um grupo de controlo

e por um grupo experimental.e'ambos recebem um pré-teste. A representação esque-

mática, continuando a seguir a convenção de Campbell e Stanley (1963, p. 183), é

A letra A é a inicial de aleatório e significa que os sujeitos foram aleatoriamente distribuídos pelos grupos. Este plano constitui como que o paradigma do método experimental puro e, por isso mesmo, está isento de todas as ameaças à validade interna, ou seja, os factores que afectam directamerte os scores 0. O mesmo não se pode dizer das ameaças à vali- dade externa, envolvendo X e qualquer outra variável. Por outras palavras, os efeitos observados de X podem ser específicos do grupo submetido ao pré-teste, não sendo possível garantir a generalização dos resultados ao universo não pré-testado. Mas, por muitos esforços que se façam no sentido de aumentar a validade externa sem redu- zir a validade interna, tal como foi liminarmente observado por Hume, a induçáo ou

&TODO

EXPERIMENTAL NAS CZI?NCZASSOCIAIS

223

generalização não é passível duma justificação lógica completa (Campbell e Stanley 1963, p. 187). A generalização implica sempre, com efeito, que se faça uma extrapo- lação num domínio não representado na amostra sujeita à experimentação. Ora, do ponto de vista estritamente lógico, não é possível generalizar para além desses li- mites. No caso específico do plano em consideração, por vezes também conhecido

como plano experimental 4, resulta que a sua principal hlnerabilidade reside nos efei- tos de interacção de testagem, que constitui uma ameaça real, enquanto que os restan- tes factores de vulnerabilidade podem ser parcialmente reduzidos. Um ponto que igualmente iqteressa considerar 6 o que se refere aos testes de significânc& a aplicar aos resultados obtidos com a experimentação. No caso do plano experimental verten-

te interessa, com efeito, verificar se o tratamento provoca efeitos significativos, ou se-

ja, se há diferenças significativasentre 02-01e 04-03.Esta verificação implica o recurso

a métodos estatísticos. O problema que então se coloca, e foi sob esse aspecto que a

contribuição de Fisher se revelou decisiva, consiste em determinar o algoritmo estatístico apropriado para proceder ao teste da significância. No caso do plano 4 é comum, segundo reportam Campbell e Stanley (1963), utilizar um teste estatístico pouco adequado e que consiste em aplicar o teste r de Student, separadamenteà dife- rença 02-O1e à diferença 04-03. Se a primeira diferença se revelar significativa e a se- gunda não, conclui-se que X provoca um efeito significativo. O principal inconve- niente deste procedimento é não fornecer qualquer comparação estatística entre o grupo experimental e o grupo de controlo. E assim, com testes mais adequados, a di- ferença pode ~lã~<á6-significati?ã~Testesobedecendo a tais condições consis- tem ou no cálculo da estatística t para a diferença de ganhos entre o grupo experimen- tal e o grupo de controlo ou ainda, preferencialmente, na análise de covariância, fun- IH/1 cionando os pré-testes como covariada. Para o tratamento estatístico deste como doutros casos mais complexos dos planos experimeiitaisrecomendam-setextos espe- cializados como o de Winer (1972) ou Kirk

(2) O plano Solomon de quatro grupos

i

A

O plano Solomon, ou plano 5, procura obviar aos inconvenientes do plano 4 no que se refere à ameaça à validade externa por virtude dos efeitos de interacção dos

r) testes de medida com o tratamento. O plano tem a seguinte configuração:

A ideia central consiste em comparar os elementos do plano anterior (plano 4) com um grupo experimental e um grupo de controlo aos quais não foi aplicado o pré-

224

JORGE CORREIA JESUÍNO

teste pelo que é possível determinar tanto os efeitos principais do teste como os seus efeitos de integcção com o tratamento (Solomon, 1949). Desta forma é possível au- mentar o potencial de generalização dos resultados. Para este plano não existe um teste estatístico que englobe os seusconjuntos de observações. Recorre-se como alter- nativa a uma análise de vanância 2x2 dos resultados pós-teste (02040506).

Pré-teste

~ãopré-teste

Não tratamento

o4

o6

Tratamento

o2

O5

A partir das colunas determina-se o efeito principal de tratamento, a partir das linhas o efeito principal dopré-teste e a partir das células o efeito de interacção. No ca- so dos efeitos principais do pk-teste como da interacção do teste com o tratamento se- rem negligenciáveis, como será desejável, procede-seem seguida ao tratamento reco- mendado anteriormente para o plano 4, ou seja, a uma análise de covariância de O4 pa- ra O2 funcionando os scores do pré-teste (Ol e 03) como covariadas.

(3) Plano pós-teste e grupo de controlo

Trata-se do plano experimental porventura mais simples e eficaz,que dispensa o pré-teste sem por isso ser afectado quer no plano da validade interna quer no plano da validade externa. De acordo com o diagnóstico de Campbell e Stanley (1963) tem, sob esse aspecto, propriedades idênticas ao plano de 4 grupos de Solomon. O formato é o seguinte: , -

Também do ponto de vista do teste de significância este plano reveste-se de gran- de simplicidadebastando uma simples estatística t de diferença de médias. SQ O, 4 0,

(4) Planos factoriais

Os planos factoriais resultam dos planos anteriomerite descritos, diferindo ape- nas no número de variáveis independentes, ou tratamentos manipulados simultanea- mente. Num plano factonal são feitas observaçóes para cada combinação possível dos níveis de cada tratamento. Um plano factorial envolvendo dois tratamentos, cada um deles com dois níveis, é designado como um plano factorial 22 ou 2x2, visto ter quatro células. Três variáveis independentes, com dois níveis cada, produzem um pla- no 23, com 8 células. Mas não é necessário que todas as variáveis tenham igual

&TODO

EXPERIMENTAL NAS CIÊNCIASSOCIAIS

225

número de níveis. Se A tiver 2 níveis, B tiver 3 níveis e C tiver 4 níveis haverá 24 cé- lulas = 2x3~4. Num plano factorialos sujeitos sãoigualmente distribuídos por forma aleatóriape- las diferentes células. A grande vantagem dos planos factoriais é a possibilidade que oferecem para determinar, para além dos efeitos principais, efeitos de interacção, ou seja, da aqão conjugada das diferentes variáveis independentes. Tal épossível a partirdo modelo estatístico de análise de variância, abreviadamen- te designada por ANOVA,criado por Fisher (1925) e inicialmente utilizado em expe- riências no domínio da agricultura. Existem muitos planos factoriais, alguns de consi- derável complexidadeproporcionandogrande flexibilidadede actuação aoexperimen- tador. Para um maior aprofundamento do tema recomendam-se, para além dosjá cita- dos, os textos clássicos de Lindquist (1940) e de Cochran e Cox (1957). Antes, porém, de encerrarmos esta secção, vale a pena referir alguns planos facto- riais com características tão específicas corno engenhosas na sua concepção.

(a) Plano do quadrado latino

A medida que o número de tratamentos e níveis aumenta, maior é a riqueza da observação mas mais complexos e também mais dificilmente interpretáveis se tomam os resultados. Por outro lado, por vezes pode fazer-se economia das análises dos efei- tos de interacção, sobretudo quando se sabe que tais efeitos são negligenciáveis. Se, por exemplo, tivermos três variáveis, independentes umas das outras, e portanto as interacçóes não interessarem, o plano factorial pode ser modificado por forma a exi- gir menor número de observaçóes, limitando-se aos efeitos principais. Suponhamos, por exemplo, que temos três factores A, B e C, cada um deles com 3 níveis. Em lu- gar dum plano com 27 células podemos utilizar um,plano com 9 células tal como a se- guir se exemplifica:

. %

Este plano recebeu a designaçãode quadrado latino.Tal como se pode verificarca- da célula é definida por 3 valores. Cada valor de c aparece apenas uma vez em cada coluna e em cada linha. O mesmo sucede com as outras variáveis. Por exemplo:

226

JORGE CORREIA JESU~NO

Note-se que um dos requisitos deste plano é que o número de factores seja o mes- mo que o número de níveis por factor.

@) Quadrado greco-latino

Partindo do quadrado latino anteriormente ilustrado, pode introduzir-se uma quar- ta variável D com 3 valores d,, d2,e d3, e proceder por forma a que cada nível de cada variável seja associado a todos os valores das outras

A economia de obse~açóesdeste plano em comparação com o quadrado latino

traduz-se numa menor precisão das estimativas dos efeitos principais dos factores.

(c) Planofactorial totalmente aleatorizado

A partir da designação em inglês - Cornpletely Randomized Factorial Design,

- é habitual referir este plano pela sigla CRF.No esquema a seguir ilustra-se a confi- guração dum plano CRF-222

A ideia central, e que distingue este plano dos anteriores, é a sua maior adequação

para observar efeitos de tratamentos resultantes de combinações de níveis dos facto-

res e não apenas efeitos dos factores tomados separadamente, ou ainda efeitos dos factores uns em relação dos outros. No exemplo ilustrativo as 8 combinatórias de três tratamentos, cada um deles com dois níveis, são atribuídas aleatoriamente a 8 amos-

tras aleatórias de sujeitos SI,S2

Uma das vantagens deste plano é o número de sujeitos não ter de ser o mesmo em todas as amostras Si a S8,o que possibilita utilizar todas as experiências que pos-

sam ser realizadas e resistir, por outro lado, a efeitos de mortalidade. Tal vantagem contribui, por outro lado, para aumentar o erro experimental, sendo todavia possível estimá-lo com precisão. Daqui resulta que o plano será tanto mais eficaz quanto maior

S8.

MÉTODO EXPERIMENTAL NAS CIENCIASSOCIAIS

227

a homogeneidade das amostras utilizadas. Ainda reportando-nos ao exemplo dado, este plano permite que o experimentador teste hipóteses relativas aos tratamentos AB, AC, BC e ABC, recorrendo às técnicas estatísticasapropriadas (Kirk 1982).

(d) Planofactorial por blocos aleatorizados

A sigla utilizada neste caso é RBF (RandomizedBlock Factorial Design). Neste

plano factorial os sujeitos a observar são agrupados, tão homogeneamente quanto pos- sível, em blocos, sendo os tratamentos aplicados aleatoriamente em cada bloco. Para uma melhor ilustraçãodo procedimento reproduzimos comparação com o plano CRF, para um caso de 2 tratamentos com 3 níveis cada aplicado a blocos de 6 sujeitos cada (Kirk 1982):

Bloco 1

Bloco 2

Bloco n

(a)Plano RBF-23

c '.

(b)Planotipo CRF-23

A cclnstituição dos blocos comporta duas modalidjides possíveis. Numa primeira

modalidadeos blocos são formados por amostras homogéneas de sujeitos e em segui- da aleatoriamente distribuídas pelos diferentes tratamentos. A segunda modalidade consiste em recorrer a medidas repetidas, ou seja, cada sujeito Csubmetido a todos os tratamentos. Neste caso a ordem de apresentação dos tratamentos C aleatonzada inde- pendentemente de cada bloco.

A principal vantagem deste tipo de plano é produzir menos erro experimental do

que o plano CRF, por virtude da própria constituição de blocos homogéneos. Tal co- mo para o plano anterior,o teste de significânciaimplica técnicas estatísticas,remeten-

do-se o leitor para os textos especializados (Kirk, 1982).

(e) Planos mistos

JORGE CORREIA JESUÍNO

Um dos planos mistos mais utilizados nas ciências sociais é o plano factorial de 10- tes subdivididos (Split-Plot Factorial Design). Conjuga características do tipo CR e do tipo RB, anteriormente descritos. A ideia principal do plano dos blocos aleatonzados é isolar os efeitos duma variável parasita mediante a constituiçáo de blocos homogé- neos, cada um deles representando níveis da variável parasita. O plano SP (Split-Plot) generaliza esse procedimento às diferentes amostras ou grupos desses blocos. Um plano possível é um plano com dois tratamentos: os níveis de um tratamento sáo alea- toriamente atribuídos aos grupos ou blocos; os níveis do segundo tratamento sáo alea- toriamente atribuídos aos sujeitos experimentais dentro de cada bloco. O esquema a seguir, reproduzido com base na sugestáo de Kirk (1982), ilustra as características do plano SP, comparando-ocom os planos CR e RB.

Bloco 1

Bloco 1

BIOCO2,

(a) Plano SP

(b) Plano CR

Bloco 1

(c) Plano RB

De acordo com o caso ilustrado, os sujeitos na amostra SI do Plano SP recebem o tratamento A ao nível al, em combinaçáo com todos os níveis do tratamento B. Os da amostra S2recebem o tratamento A ao nível a2em combinação com todos os níveis do tratamento B. No caso do plano CR cada amostra recebe apenas uma combinaçáo dos

as combinações de todos os

dois tratamentos e no plano RB a amostra SI recebe todas

tratamentos. A dimensão dos blocos no plano RB é, no caso do exemplo, de 6, en- quanto que para o plano SP é apenas de 3. Esta diferença é importante que evita o inconveniente e por vezes a impossibilidade prática de efectuar um plano experimental pelo elevado número de sujeitosrequeridos.

MÉTODO EXPERIMENTAL NAS CZ~?NCIASSOCIAIS

229

Os planos factoriais SP, como aliás toda a técnica experimental moderna, foram iniciaimente usados na agricultura. O próprio termo lote (plot)refere-se a um lote de terreno subdividido ou parcelado. De acordo com a lógica deste plano as diferenças entre os blocos confundem-se com as diferenças entre os níveis de A. Assim, uma consequência do plano SP é pro- duzir uma estimativa mais precisa dos efeitos principais de B e dos efeitos de inte- racção (AB) do que dos efeitos principais de A. Sacrifica-se portanto o rigor da esti- mativa dos efeitos de A. A principal vantagem prática deste tipo de arranjo, para além da economia na dimensão de blocos, consiste em conjugar na mesma experiência fac- tores com diferentes graus de complexidade, permitindo obter informação adicional com custos relativamente reduzidos (Cochran e Cox, 1957).

5. PLANOS QUASE-EXPERIMENTAIS

Analisados, ainda que sumariamente,alguns dos principais planos experimentais puros, passamos em seguida ao exame dos planos quase-experimentais.A sua carac-

distintiva geraré a não aleatorizaçáo dos sujeitos peias condiçóesjo que, des-

de logo, coloca problemas relativamenteao controlÕdas variáveis varasitas. afectan- do aialidade &terna das conclusões. Por vezes, porém, senão &esmo ia grande

maioria dos casos e designadamente nos domínios dp ciência comportamental aplica- da, o experimentador não tem outra alternativasenão re+rrer aos métodos quase-ex- perimentais, alternativaessa aliásbem preferível àrenúncia àexperimentação.O texto mais completo e sistematizadoneste domínio é ainda o de Campbell e Stanley (1963), sendo todavia de recomendar a consulta simultânea jo texto de Cook e Campbell (1979). Os dois textos completam-se mutuamente, sendo reduzida a redundância. Limitar-nos-emos aqui a uma breve referência aos principais modelos indicados por aqueles autores, acrescida de comentários de circunstância.

- ---

ierística- .

(1) Séries temporais interrompidas

Neste plano dispõe-se apenas dum grupo experimental. A ideia básica consiste em obter múltiplas observações em diferentes momentos antes de introduzir o trata- mento. Em seguida aplica-se o tratamento. Pode ser esquematizado da seguinte forma

230

JORGE CORREIA JESU~O

Os sujeitos ou grupo observado servem simultaneamente como sujeitos experi- mentais e como controlo. A avaliação dos efeitos dos tratamentos é feita através do ti- po de descontinuidade observada no perfil da série temporal.

O principal problema no que se refere àvalidade interna deste plano é a dificulda-

de em controlar a história. Existe pois uma hipótese rival por forma a que não só X

mas também outro acontecimento simultâneo possa contribuir para o efeito observa- do. A única forma de reduzir esta vulnerabilidade é então recorrer ao isolamento experimental. Um exemplo apontado por Campbell e Stanley (1963, p. 209) é o dos

estudos de Pavlov sobre os reflexos condicionados. Os resultados seriam certamente diferentes se tais estudos, em vez de efectuados num laboratório à prova de som, fos- sem conduzidos à esquina de uma rua ruidosa. No que se refere à validade externa é também óbvio que o efeito experimental pode ser específico da população observada, tomando problemática a generalização.

O plano geral descrito comporta diversas variantes analisadas em pormenor por

Cook e Campbell(1976, 1979). Por exemplo, podem comparar-se séries num grupo experimental e num grupo de controlo:

Outra aplicação possível é alternar a aplicação do tratamento a um e outro grupo:

A aplicação das séries temporais revela-se sobretudo útil em meios como a in- dústria ou a educação, onde é possível dispor de registos sistemáticos das populações observadas. Permite, no mínimo, formular hipóteses sobre possíveis efeitos de alte- rações inuoduzidas nos sistemas.

(2) Planos com grupo de controlo não equivalente

Trata-se dum plano muito utilizado e recomendável em situações onde não se dis- ponha de melhor meios. Compreende um grupo experimental e um grupo de contro-

lo, ambos

submetidos a um pré-teste e a-Üm pós-teste. Os grupos não são equivalen-

-

tes, como será o caso, por exemplo, de turmas escolares, nao sedispensando pois o

pré-teste:

I _I

I

I

MÉTODO EXPERIMENTAL NAS CI$NCIAS SOCIAIS

com o plano "pré-teste, pós-teste e grupo

de controlo",

Neste plano só o tratamento é que é atribuído aleatoriamente a um outro grupo. No que se refere às ameaças à validade interna. este dano é sobretudo vulnerável aos efeiios da selecção-matur~ção. A sua interpretabilidade depende todavia dos resultados empíricos obtidos em ca- da caso. Cook e Campbell(1976) distinguem cinco possíveis situações representadas a seguir:

Convém pois não confundir este plano

analisado anteriormente na rubnca dos planos expenmentais puros.

T - Tratamento

C - Controlo

1- Pr6-teste

2 - Pós-teste

*,

Destas situaçóes apenas a (e), com um efeito de interacção nítido, não coloca qual- quer problema de interpretação quanto à validade interna+doefeito do tratamento. No caso de (a) e sobretudo no de (b) o efeito da seiecçãd-maturaçãointroduz ambiguida- de. O caso (c) apresenta a particularidade do trataminto provocar um abaixamento nos resultados, situação pouco comum, embora não impossível e empiricamente observada. Na situação (d) são os efeitos de regressão que podem dificultar a inter- pretacáo dos resultados. É o caso duma população, poiexemplo, de aprendizes, com scores inicialmente muito baixos que se pretende aproximar dum grupo de controlo. Esta situação é, de todas, a mais equívoca. No que se refere à validade externa as ameaças deste plano quase-experimental são idênticas às do plano experimental puro, seu homólogo. O efeito de X pode ser específico da amostra e difícil de generalizar para outras populações e situaçóes. O modelo descrito comporta algumas variantes, analisadas em pormenor por Cook e Carnpbell(1976). Por exemplo o plano com tratamento removido, esquematizado da seguinte forma:

232

JORGE CORREIA JESUÍNO

Trata-se de um plano em que se dispõe dum único grupo ao qual se aplica o pn5- -teste e o pós-teste, seguindo-se, porém, uma terceira fase de colheita de dados antes do tratamento ser removido (simbolizado no esquema por X)e uma medição final após o tratamento ter sido removido. A sequência O3 O4 serve de controlo h sequência O1 02. NO caso do tratamento ser eficaz será de esperar uma diferença entre O1 e O2 oposta em direcção à diferença entre O3 e 04. Mas nem sempre os resultados são clara- mente interpretáveis. Outro exemplo é o dos tratamentos inversos

X+ representa um tratamento que é suposto produzir um efeito numa direcção e

X- um tratamento com efeitos inversos do de X+.

Este plano é relativamente resistente à ameaça da selecção-maturaçãoe t? também mais eficaz no que se refere a validade externa, bem como a validade de consuuto. Outro plano alternativo é designado por tratamentos repetidos:

O tratamento é introduzido numa determinada fase e reintroduzido posteriormen- te. Os resultados só são interpretáveis quando O1 difere de 02, O3 difere de 04, sendo ambas as diferenças na mesma direcção. Exemplos deste tipo de plano seriam, segun- do Cook e Campbell(1976), as experiências de Skinner bem como os estudos origi- nais de Hawthome (~oethhsbergere Dickson, 1939).Uma ameaça à validade interna deriva duma possível maturação cíclica, ou seja, os resultados serem afectados por factores periódicos sistemáticos. Ainda um outro plano alternativo, designado por variáveis dependentes não equi- valentes, pode ser esquematiiado da seguinte forma:

OIA

O1B

02A

02B

A e B representammedidas diferentesdum Cinico grupo

Trata-se de um único gmpo pd-testado em duas escalas diferentes, uma das quais é suposta mudar por virtude do tratamento (OA), o mesmo não sucedendo com a outra. Segundo Cook e Campbell(1976) este seria um dos planos quase-experimentais mais difíceis de interpretar e só aconselhávelem situaçoes em que é relativamente se- guro predizer mudanças diferenciais. Um exemplo, propositadamente exagerado, su- gerido pelos autores, seria o caso duma nova máquina associada a um aumento de produtividade mas não a diferenças no estilo de penteado.

MATODOEXPERIMENTAL NAS CIÊNCIASSOCIAIS

(3) Planos correlacionais

De acordo com Campbell e Staníey (1963) sena talvez preferível, no Quese refere aos planos correlacionais, considerá-ios ma& como plan6s de análise de dados do que como planos quase-experimentais. O plano correlacional consiste, com efeito, em comparar duas variáveis observa- das num grupo, não havendo lugar para aplicação dum tratamento. Podemos esque- matizar o plano da seguinte forma:

Grupo

Teste I

Teste 2

Existe aliás uma tradição que opõe método correlacional e método experimental.

Cronbach distingue, inclusivamente, duas "disciplinas" em psicologia. Enquanto a 1ó- gica experimental, segundo este autor, se interessa pela variação por ela própria pro- vocada, a lógica correlacional centra-se em variações existentes entre indivíduos e entre grupos. Ainda segundo este autor, enquanto que as diferenças individuais são um obstáculo para o experimentador, elas são um estímulo para o "correlacionador". Ambas as perspectivas seriam todavia indispensáveis numa ciência como a psicolo-

gia. Os métodos correlacionais implicam com efeito maior peso atribuído à experiên- cia passada, enquanto que o método experimental secentra predominantemente na es- uutura actual dos factores determinantes. Na análise a que, por seu turno, procedem Cahpbell e Stanley (1963), o método correlacional tem algumarelevância para teste de hipóteses causais na medida em que expõe os dados ao teste da falsificabilidade. Se a c6rrelação obtida for zero, a credibi- lidade da hipótese diminui, se for elevada aumenta. E se é certo que a correlação não implica causalidade, a causalidadeimplica correlação:

Em textos mais recentes, Cook e Campbell(1979) examinam desenvolvimentos que entretanto se verificaram nos métodos correlacionais, sobretudo no domínio da sociologia, e segundo os quais se tomaria possível, a partir da estrutura das cor- relações, proceder a inferências causais. Estão nessas condições as técnicas designa-

das por modelos causais, análise depercurso @ath analysis)ou ainda modelos estrutu- rais.

Um conjunto de textos básicos introdutórios a estas técnicas foi editado por Bla- lock (197111985). Uma introdução prática e simplificada a este tema foi igualmente incluida na útil

série de textos Quantitative Applications in the Social Sciences (Asher, 1976).

A ideia básica destas técnicas reside em detectar qual a direcção da causalidade a partir de estruturas correlacionais complexas. De acordo com Cook e Campbell (1976) estes modeloscorrelacionais seriam a forma mais fraca dos planos quase-expe-

234

JORGE CORREIA JESUÍNO

rimentais. A aplicação de tais modelos nos vários domínios das ciências sociais acon- selham a emitir juízos mais prudentes quanto ao seu futuro enquanto técnica experi- mental.

6. ORIGENS DO MÉTODO EXPERIMENTAL EM CIÊNCIAS SOCIAIS

O método experimental em ciências sociais acha-se tradicionalmente associado à psicologia. Em contrapartida a sociologia rejeita, tradicionalmente, o método experi- mental. Quanto à psicologia social, disciplina de fronteira, o maior ou menor grau em que adopta o método experimental depende das suas origens predominantementepsi- cológicas ou predominantemente sociológicas. Curiosamente, e tal como é observado por Farr (1978, 1983), esta dupla orientação acha-se esboçada em Wundt, criador, por um lado, da psicologia experimental, ao fundar o laboratório de psicolo- gia em Leipzig, em 1879, e autor, por outro lado, duma obra sobre psicologia social

- Volkerpsychologie- em 20 volumes, que publica entre 1900 e 1920. Em Wundt parece todavia claro que a psicologia social, tendo por obiecto o estudo de fenómenos como a linguagem, a cultura e a magia, não pode adoptar o método experimental.Te- mos assim na origem da constituição da psicologia como ciência que o método experi- mental tem de se limitar ao estudo de processos elementares como a sensação e a per- cepção, ao nível do indivíduo, enquanto que os processos sociais complexos exigem uma outra aproximaçáo~~met~dológica,de tipo comparativo ou correlacional. Numa palavra a psicologia ou sè,qcupa de processos individuais e é experimental ou se ocu- pa de processos sociais e-nãoé experimental. Mas o próprio método experimental iniciado por Wundt no seu laboratório de psi- cologia vai ser ra~idament~posto em causa. Wundt recorria, com efeito, à inGos- pecção e os sujeitos experitnentais que utilizava eram observadores treinados em re-

portara sua própria experiênciasensorial.Oobjecto da psicologia continuava assim a

centrar-se nos conteúdos da consciência, tal como na psicologia filosófica, apenas mudando o método de abordagem. Deve-se sobretudo a Watson (1913), com o seu manifesto comportamentalista, a definição dum novo objecto para a psicologia - o comportamento observável, definido muito simplesmente como aquilo que o sujeito, humano ou infra-humano, faz. É sobretudo esta tradição inaugurada por Watson que está na base do subsequente desenvolvimento da psicologia experimental no quadro do paradigma estímulo-resposta (S-R)e que se verifica sobretudo nos Estados Uni- dos. Orientação idêntica embora com diferentes origens, mas igualmente experimen- tal, vai ser seguida nos estudos russos sobre reflexõlogia. as também aqui a psico- logia, para ser experimental, tem de limitar-se aos processos elementares e mesmo moleculares dos comportamentos individuais.

MÉTODO EXPERIMENTAL NAS CZ&VCZASSOCIAIS

social, iniciada

por Wundt, vai atrair investigadores como Malinowski, Boas, Durkheim, Thomas e G.H. Mead (Farr, 1978). Este último (Mead, 1934) propõe uma visão alternativa à iniciada por Watson e por ele designada como "comportamentismo social", alterada posteriormente pelos seus continuadores para "interaccionismo simbólico" (Blumer, 1969).Mead é sensível à psicologia social de Wundt, designadamente no que se refe- re à importância da interacção social, do gesto, na formação e desenvolvimento da lin-

guagem. A psicologia social de Mead, igualmente não experimental, vai ser continua- da no âmbito da sociologia norte-americana e só recentemente se verificam tentativas de aproximaçãoe compatibilizaçáocom apsicologiasocial experimental que entretan- to se constitui a partir duma outra tradição. Vimos com efeito que, a partir das suas origens, a psicologia para ser social teria

de renunciar, tal como a sociologia, ao método experimental. A ser assim, a psicolo- gia social não teria razão de ser enquanto disciplina autónoma, correndo sempre o ris- co de se deixar absorverpela sociologiaou pela antropologiacultural. Subsistia contu- do o problema da articulação dos processos individuais e dos processos sociais a deli- mitarum objecto específico com suficiente autonomiaepistemológica e para o qual os métodos comparativos e correlacionais da sociologia se afiguravam insuficientes. De certo modo o que vai tomar possível constituir a psicologia social como ciência 6,co- mo de certo modo sugere R. Pagès (1959), a adopção do método experimental pela sociologia, adopção essa que implica uma mudança de escala tanto ao nível da com- plexidade como ao nível da dimensão dos grupos estudados. O recurso ao método experimental transformaria assim a sociologia em psicologia social.

1959), a resistência ao experimentalis-

Entretanto a outra vertente da psicologia, ou seja, a psicologia

Ainda segundo este mesmo autor (Pagès,

mo em sociologia poderia inclusivamente atribuir-se a tendências expectantes, passi- vas ou conservadoras, associadas a uma certa filhsofia evolucionista da história. "As noções comparatistas, outrora enumeradas por Taine (1866), de meio, momento ou de cultura (raça, etnia) são aparentadas às noções cõmparatistas ou diferenciais ou cor-

relacionais de aptidão e de personalidade em psicologia. Trata-se sempre, no fundo, de naturezas sociaisou individuais, que o prático e o$xperimentalista consideram ape- nas para examinar as suas reacções aos tratamentos' transformadores, enquanto que os comparatistas tendem a fazer deles os seus invariantes" (Pagès, 1959, p. 111). A constituição da psicologia social, enquanto disciplina experimental, passa, po- rém, por vicissitudes que de certo modo explicam as crises de identidade e epistemo- lógica que tem atravessado. As primeiras experiências em psicologia social começaram com o fenómeno pos- teriormente designado porfacilitação social, ou seja, para citar Allport: "O que é que muda na actuação normal do indivíduo solitário quando outras pessoas estão presen- tes?" (1985, p. 39). A primeira investigação nesse domínio deve-se a Triplett (1897), o qual partiu da observação de que os corredores de bicicleta eram mais rápidos quan- do recebiam treino e ainda mais quando em competição. Para tal facto poderiam con- correr diversas explicações, desde o espírito competitivo até aos efeitos de interacção provocados pelo treino. Para citar Pagès: "Essa é uma situaçáo concreta na qual,

236

JORGE CORREIA JESU~NO

como para o suicídio em Durkheim, e guardadas as devidas proporções, um fenóme- no quantitativo observado pode relevar dum grande número de factores, alguns deles puramente físicos e outros sociais (interindividuais). Em lugar, porém, de raciocinar sobre todos esses factores, a partir da observação directa da situação concreta, Tri- plett transpõe os elementos dessa situação para o laboratório, onde pretende conse- guir "abstrair de quase todas as forças (factores) mencionadas" (Pagès, 1959, p. 112, sublinhado no texto). Para o efeito constrói uma experiência com crianças, entre 10 e 12anos de idade, às quais é atribuída a tarefa de enrolarem carretos de canas de pesca, umas delas sozi- nhas e outras acompanhadas, vindo a concluir que a situação de grupo induz melho- res desempenhos. Triplett iniciava assim uma prática expenmental muito próxima do que viria a ser preconizado posteriormente por Lewin (1943/1951) nos seguintes termos: "Se o padráo do campo total é geralmente mais importante do que, por exem- plo, a dimensáo, toma-se possível estudar experimentalmente constelações sociais 'transpondo-as' para uma dimensáo de grupo apropriada. (A psicologia de Gestalt entende por 'transposição' uma mudança que mantém as características estruturais essenciaisinalteradas") (p. 164). Estudos experimentais deste tipo implicando uma concepção laboratorial, apesar de tudo, relativamente simples, figuram já, de forma assinalável, no primeiro manual de psicologia social, editado por Murchison, em 1935. Um exemplo europeu, quase contemporâneo de Triplett, citado por Pagès (1959) seria o dos estudos experimen- tais de A. Binet sobre a "sugestibilidade", reunidos em livro publicado em 1900. A "influência social" vai aliás constituir um dos grandes temas da psicologia social expe- rimental, dando lugar a algumas experiências paradigmáticas como as de Sherif (1935) e de Ash (1952). ' Estes primeirosestudos não são todavia suficientespara criar uma tradição experi- mental em psicologia socia1:É necessário, segundo sugere Jones (1985), aguardar a década de trinta para que essa tradição verdadeiramente se inicie fundamentalmente a partir de três grandes contribuições: os estudos sobre a memória social de Bartlett (1932), os estudos sobre a influência de grupo de Sherif (1936) e os estudos sobre a atmosfera de liderança de Lewin, Lippit e White (1939). Examinaremos resumida- mente cada uma dessas contribuições. No que se refere, em primeiro lugar, a Bartlett, o interesse dos seus estudos resi- de na influência que vieram a exercer no desenvolvimento da psicologia social cogni- tiva, a orientação actualmente predominante na psicologia social expenmental. Bart- lett realizou experiências durante a primeira guerra mundial e nos anos vinte, reunin- do os resultados dos seus estudos num volume publicado em 1932. Inovando relati- vamente a Ebbinghaus, o primeiro a conduzir estudos experimentais sobre a memó- ria, utilizando como material sílabas sem sentido, Bartlett recorre a imagens ou a pas- sagens em prosa, que mostrava aos sujeitos experimentais, pedindo-lhes que as repro- duzissem ao fim duma semana, dum mês e de seis meses. As principais conclusões a que chega indicam que as pessoas recordam o passado em termos das suas próprias atitudes e interesses actuais e também em função das experiências acumuladas no pas-

METODO EXPERIMENTAL NAS CIENCIAS SOCIAIS

237

sado. Tais resultados põem em causa a concepção da memória enquanto arquivq pas- sivo e mostram o papel activo do sujeito na selecção e interpretação dos dados. E esta ideia central que vai ser retomada e desenvolvida na psicologia social cognitiva. No que se refere a Sherif (1936), a expenência por ele realizada consistiu em expor sujeitos, tanto isoladamente como em grupos, ao efeito auto-cinético, ou seja, a uma ilusão óptica que consiste em ver deslocar-se um ponto luminoso fixo, em am- biente obscurecido. Sherif verificou que os sujeitos, na condição individual, ao fim de um certo número de ensaios estabilizam as suas alternativas, as quais correspon- dem às normas individuais. Esse resultado já era aliás conhecido pelos observadores de astronomia, servindo para determinar a equação pessoal. O que há de inovador na expenência de Sherif é a contribuiçãoque ela fornece pa- ra explicar a emergência de normas de grupo. Sherif verificou, com efeito, que na condição de grupo os sujeitos ajustavam as suas estimativas em função uns dos ou- tros, vindo a estabilizar em tomo dum resultado obtido por convergência, e não neces- sariamente idêntico à média das normas individuais. Pelo contrário, ao inverter-se a ordem das condições experimentais, o que se verificou foi que as normas individuais eram influenciadas pelas normas de grupo. As experiências de Sherif,largamente apli- cadas e confirmadas posteriormente,revestiram-sede grandeimportância para a cons- tituição da psicologia experimental.Elas ilustravam de formaexemplar autilização do laboratório no controlo das variáveis, designadamente no que se refere amanipulação de variáveis cujo verdadeiro significado não é conhecido pelos sujeitos submetidos à experiência. Para além disso a experiência de Sherif veio ainda contribuir, no plano teórico, para mostrar que a formação de normas de grupo é explicável a partir do con- texto imediato, no caso vertente o próprio laboratório; sem recurso àmediação de fac- tores mais distantes, de carácter sócio-cultural. A terceira grande contribuição citada refere~seaos estudos de Lewin, Lippit e White (1939) sobre a atmosfera de liderança. ais estudos consistiam em manipular três diferentes estilos de liderância aplicados a grupos de crianças ocupadas em tra- balhos manuais como a construção de máscaras e aeromodelismo. A manipulação foi feita mediante monitores adultos recebendo treino p&io para dirigirem os grupos de forma autoritária, democrática ou anárquica (laissez-$aire). KURLewin, recentemente refugiado nos Estados Unidos, estava interessado em verificar que o sistema demo- Lt<Jir,

crático era, pelo menos, tão eficiente como o sistema directivo e que, para além disso, oferecia vantagens suplementaresdecisivas no domínio da imaginaçao, cnatividade e satisfação do grupo liderado. As experiências são por demais conhecidas, bastando aqui recordar que as hipóteses formuladas receberam confirmação, verificando-se que o estilo democrático, a não confundir com a permissividade e anarquia do estilo lÜ~GFfa~re,provocava maior cnauvidade e satisfaçãosem afectar significativamente Õ-aeprodutiwdade, enquanto que o estilo autoritário, embora eficiente do pxoo de vista estritamente quantitativo, era gerador de agressividade ou, alternativamente,

------

-

-

-- -----

--

-----.---

4

de apam Os estudos de Lewin e colaboradores deram igualmente lugar a muitas investi- gações utilizando o mesmo quadro de referência teórico. Eles ilustravam pela primei-

238

JORGE CORREIAJESU~NO

ra vez a possibilidade de transpor para o laboratório situações de considerável comple- xidade. O estudo das organizações complexas em laboratórios, e consulte-se para o efeito a excelente recensão de K. Weick (1965), radica em grande parte na meto- dologia iniciada por K. Lewin. Do ponto de vista de técnica experimental, estes estudos ilustram ainda uma prática, em seguida largamente usada, senão mesmo abusada, e que consiste em recorrer a um comparsa, ou seja, a um sujeito cuja actuação é conforme às orientações do experimentador. No caso vertente os compar- sas são, como é óbvio, os monitores executando um papel (role-playing). As expe- riências em psicologia social requerem, em muitos casos, uma certa imaginação e en- genhosidade, por alguns tida como excessiva, na manipulação das variáveis indepen- dentes. A descoberta da possibilidade de exercer tal manipulação através dum com- parsa constituiu sem dúvida um passo decisivo para a experimentação em psicologia social. Mais importante ainda teria sido a contribuição de Kurt Lewin no plano teórico. Conforme observa Jones (1985): "A psicologia social foi lenta a elaborar uma teoria própria e esse facto atrasou, sem dúvida, a sua emergência como ciência experimen- tal. Sem uma teoria ligando os processos interpessoais, os experimentadores tinham

generalizar . Foi K. Lewin, mais que qualquer outro, que estimulou

e propôs um racional filosófico para esta abordagem" (p. 67). A teoria de Kurt Lewin, por ele designada como "teoria de campo", insere-se na corrente gestaltista em que ele próprio inicialmente se incluía. Lewin referiu-se à sua teoria como sendo, antes de mais: "um método: nomeadamente um método de ana- lisar relações causais e elaborar construtos científicos" (194311951, p. 45). O que in- teressa salientar neste contexto, mais do que entrar nos pormenores intrincados tanto dos conceitos como da terminologia lewiniana, é a definição do "campo psicológico" em termos de causas açtuais ou sincrónicas. O estudo do comportamento humano definido em termos das interacçóes entre a pessoa e o meio envolvente - C=f (P,S), deve assim ser entendid~~dtimaforma estrita, fazendo-se economia tanto dos factores diacrónicos pessoais (socialização), como dos factores envolventes mais remotos co- mo a cultura e as instituições. Sob este aspecto, Lewin mantém-se na tradição gestal- tista, caracterizada por piaget (1968) como um "estruturalismo estático". Deste quadro teórico derivam consequências importantes para a experimentação.

Se na verdade a análise das relações causais se limita ao "espaço de vida" que imedia- ta e proximamente envolve o sujeito, então a experimentação torna-se, não possí- vel, mas sobretudo a estratégiaepistemológica mais adequada para explicar0 compor- tamento social. Da equação lewiniana resulta, nesse caso, um menor peso para a vanável P, relati- va ao sujeito, a favor das variáveis situacionais sincrónicas. Traduzindo em termos experimentais, a variável S será a vanável independente, desta forma mais acessível à manipulação do experimentador, observando-se os seus efeitos através do compor- tamento dos sujeitos. Note-se ainda, e essa é a diferença que separa o quadro lewinia- no das teorias S-R, que a vanável S não é totalmente exterior ao sujeito e que é sobre- tudo a forma como ela é por ele processada que permite estabelecer relações causais.

dificuldade em

MÉTODO EXPERIMENTAL NAS CI&NCIASSOCIAIS

239

A psicologia social lewiniana é assim, como vimos a propósito de Bartlett (1932), umapsicologia social cognitiva.

E possível, como sugere Jones (1985), que a relutância dos psicólogos de orien-

tação S-R em aceitar o experimentalismo lewinianoesteja relacionada com a perspec- tiva cognitivista, a qual pode suscitar reservas e dúvidas quanto A independência de facto das variáveis independentes. A tradição lewiniana vai todavia produzir os seus frutos a partir dum notável conjunto de investigadoresque continuaram e ampliaram a sua obra, sendo de assinalar, entre outros, Festinger, Canwright, Deutsch, Kelley, Schachter, Thibaut, Bavelas, Lippit e White. Esta não é, porém, a única orientação teórica em psicologia social. Referimos já que os psicólogos de tradição S-R formulam reservas relativamente à psicologia so- cial cognitiva. Segundo observa Jones (1985), os psicólogos S-R, inclusivamente pe- la dificuldade de manipulação das variáveis situacionais,orientam-se mais para a psi-

cologia da personalidade e do desenvolvimento do que para a psicologia social. "Utili- zando os termos de Cronbach (1957), muda-se das leis S-R para as leis R-R, duma perspectiva experimental para uma perspectiva correlacional"(p. 72). Paradoxalmen- te são os comportamentistas, de preferência aos cognitivistas, que vão interessar-se

pelas variáveis

de personalidade. Trata-se contudo de orientações globais

que tam-

bém é possível referir estudos experimentais conduzidos no quadro S-R, em

áreas co-

mo a agressão, a atracção e a mudança de atitude. Em todo o caso, e não obstante a

importância das contribuições de investigadores como Miller e Dollard, Mowrer, Sears, Aronfreed, Bandura e Mischell, há que reconhecer que o impacto da orienta- ção comportamentistaem psicologia social é relativamente secundário.

Em resumo, podemos distinguir, até agora, três grandes tradições em psicologia social. Uma orientação não-experimental, de pendor sociológicoe qualitativo, que re- monta a Wundt e deste a G. H. Mead, e que cristaliza n.a teoria do interaccionismo simbólico. Para esta orientação a realidade ésocialmen'te construída numa perspectiva diacrónica, constituindo a socialização um dos temas centrais a estudar de forma siste- mática. Uma segunda orientação, psicológica, remonta a3K.Lewin, de carácter experi- mental e cognitivista, segundo uma perspectiva sincrónica,centrada nos processos de "locomoção" dos sujeitos no interior dó seu "espaço de vida". Uma terceira orientação, também psicológica, que remonta a Thomdike e a Wat- son, por vezes experimentalista, por vezes correlacional, centrada numa perspectiva diferencialista, visando mais a descobertade regularidadese taxonomias do que expli- cações causais. Destas três diferentes orientações, aqui necessariamente simplificadas, a que vai afirmar-se como hegemónica é a orientação experimentalista.

240

JORGE CORREIAJESU~O

7. EVOLUÇÃO DA PSICOLOGIA SOCIAL EXPERIMENTAL

A análise dos desenvolvimentos numa disciplina científica é feita, regra geral, a

partir da actividade editorial e da actividade associativa. São esses os dois principais

mecanismos de controlo da comunidade científica. No que se refere à psicologia so- cial, a produção científica é fundamentalmente canalizada para revistas, escalonadas segundo uma hierarquia de prestígio, e em menor grau para manuais e livros de tex- tos, na maioria dos casos colectivos. Num estudo recente, Fisch e Daniel(1982) de- terminaram os índices de impacto das revistas de psicologia social cobertas pelo So-

cial Sciences Citation Index (Garfield, 1979), com base nas frequências de citação dos artigos, o que permitiu estabelecer a seguinte hierarquia: Advances in Experimen- tal Social Psychology, Journal of Personality and Social Psychology (I), Journal of Experimental Social Psychology (2), Sociometry (3), Personality and Social Psycho-

logy Bulletin (4), British Journal of Social and Clinical Psychology (3,Journal

of Ap-

plied Social Psychology (6), Journal for the Theory of Social Behaviour (7), Grup- penpsychoterapie und Gruppendynamik (8), European Journal of Social Psychology (9), Zeitschriftfur Soziafpsychologie (Ia), Jòurnal of Social Psychology (1I), Kolner Zeitschriftfur Soziologie und Sozialpsychologie (12),Representative Research in So-

cial Psychology (13), Simulation and Gumes (14,5), Gruppendynamik Forschung und Praxis (14,5), Polish Psychological Bulletin (16), Psychopathologie Africaine (17), Group Psychotherapy, Psychodrama and Sociometry (18), Social Behavior and Personality (19). O primeiro da lis$, com o índice de impacto mais elevado, não C propriamente uma revista mas um livro de texto, editado anualmente por L. Berkowitz e contendo artigos teóricos de síntese no domínio da psicologia social experimental. Até àdataestão publicados dezasseis volumes. Quanto às revistas é de notar que as mais importantes são norte-americanas. No que se refere à primeira da lista - o Journal of Personality and Social Psychology (PSP) -, tinha anteriormente o título de Journal ~fAbnonna1and Social Psycho- logy, dedicando 63% do seu espaço a estudos de laboratório. Com a mudança de títu- lo essa percentagem subiu, sendo de 87% em 1969 (Sarabia, 1983). Idênticas per- centagens se verificam no Journal of Experimental Social Psychology e no Journal of Applied Social Psychology (House, 1973).

A política editorial das revistas tem pois grande importância na orientação da

investigação, funcionando como fonte normativa. Existe aliás uma estreita ligaçáo en- tre a actividade editorial e as sociedades científicas. No caso vertente são de referir a Society of Experimental Social Psychology, fundada em 1965, nos Estados Unidos, responsável pela ediçáo do PSP, e a European Association of Experimental Social

Psychology, criada também em 1965, por um grupo de cientistas europeus, responsá- vel pela edição do European Journal of Social Psychology.

MÉTODO EXPERIMENTAL NAS CIÊNCZASSOCIAIS

241

Em ambos os casos a adopção da etiqueta "experimental" foi intencional, a fim de evitar contaminações indesejáveis (Suoebe, 1980). No que se refere aos manuais, e para além da já citada publicação periódica edita- da por Berkowitz, há que referir muito especialmente o Handbook of Social Psycho- logy, editado por L. Lindzey e E. Aronson, sucessivamente em 1954, 1968 e 1985, e que bem pode considerar-secomo a referência básica da produção em psicologia so-

cial. Comparando com o manual de Murchison, de 1935, que os precede, verifica-se uma presença progressivamente hegemónica da orientação experimentalista que atin- ge, porventura, o seu auge na 2Qdiçã0, em cinco volumes, de 1968. Este predomíniodo experimentalismo,igualmente reflectidona vastidãodabiblio- grafia (Hendrick, 1977),vai todavia ser objecto de várias criticas vindas tanto do inte- rior como do exterior da disciplina, conduzindo ao que veio a designar-se como "cri- se da psicologia social". Segundo Elms (1975) haveria "três fontes de desconforto frequentemente citadas: dificuldades na condução da investigação; discrepâncias entre as expectativas dos investigadores e os resultados obtidos; e pressões externas à acti- vidade profissional mas que se reflectem nas atitudes e comportamentos dos psicólo- gos sociais relativamente às suas próprias investigações (p. 968). As dificuldades re- lativas àinvestigaçáo seriam devidas, segundo aquele autor, àcomplexidade dos com- portamentos sociais humanos, pondo-se em causa a possibilidade do seu estudo pelo método científico praticado nas ciências da natureza. Uma das tdcnicas estatísticas mais utilizadas em psicologia social experimental é a análise da variância. Éfrequente que a análise revele a presença de efeitos de interacção significativos, em prejuízo dos efeitos principais. Esta situação contrasta muito com o que se verifica nas ciências da natureza, onde é normalmente possível isolar os efeitos principais e minimizar os efei- tos de interacçáo. Estes efeitos verificam-se sobretudo quando se constroem modelos mais complexos, com maior número de variáveis independentes, ou seja, quanto mais nos aproximamos dos modelos reais. Também Aronson e Carlsmith (1968), no exaustivo artigo que redigem sobre mé- todo experimental para a segunda edição do Handbook of Social Psychology, obser- vam a "existência dum dilema básico em psicologia-- - -- social experimental. Por um lado pretende-se um máximo controlo sobre a variável independente. Pretendemos que as

diferenças parasitas entre os tratamentos sejam tão reduzidas quanto possível

outro lado, se a experiência é controlada ao ponto dese tornar estéril, pode não envol--- -.

ver o sujeito, ter pouco impacto nele e não afectar o seu com$ortamento

dois objectivos da experiência psico-sociológica, impacto. e controlo,- -- - - --existe-- --uma ten- são constante: quando um aumenta o outro tende a ser sacrificado" @p. 12-13). Um outro problema diz respeito à influência exercida pelo próprio investigador na

natureza dos résultados, efeito que é difícil isolar nas ciências do comportamento. Orne (1962), Rosenthal (1964) e posteriormente Poitou (1978) vieram assim a concluir que é difícil cónceber tarefas a que os sujeitos se recusem, num contexto de laboratório, ainda que essas tarefas pareçam aborrecidas, monótonas, ou mesmo noci- vas para terceiros. Os sujeitos interpretam, em geral, a situação experimental como

Por

Entre os

242

JORGE CORREIA JESU~NO

uma "exigência da ciência" e submetem-se. Pode deste modo suceder, como notam Tajfel e Fraser (1979), "que o experimentador crie requisitos característicosnum gm- po experimental que difiram dos requisitos numa condição de controlo. E daí pode re- sultar que se encontrem diferenças consistentes devido não à variável explicitamente manipulada mas às exigências implícitas de que o próprio investigador não estava consciente" (p. 49). Outro autor igualmente muito crítico relativamente ao experimentalismo éGergen (1973), que põe inclusivamente em causa a possibilidade duma psicologia social cien- tífica. Para Gergen a "psicologia social ocupa-se de factos que em grande parte não

se repetem e que flutuam marcadamente aolongo do

cologia social não se wde acumular. na acemão habitual da ciência. Doraue tal conhe-

tempo .O conhecimentoem psi-

,'

~

-

w

.

cimento não transcende, em geral, as suas fronteiras históricas" (p. 310).

O cepticismo daergen é contestado por Schlenker (1974), para o qual não have-

na descontinuidade entre as coisas e os homens, não dependendo o métòdo científico da natureza do objecto. Posição igualmente mais moderada é seguida por Stroebe (1980), ao sustentar que "não é o uso do método experimental per se que é posto em causa, mas a confiança exclusiva que a esse método é conferida" (p. 196). O recurso exclusivo ao método experimentaTpõae;Xefeito, limitar a nossa compreensão dos fenómenos sociais,já que neles a causalidade circular&-provavel- mente predominância sobre a causalidade linear. Daí que seja altamente recomendá- vel o recurso a métodos alternativos como a observação,o inquérito, a análise de con-

teúdo, eventualmente conjugados com a experimentação.

O recurso exclusivo ao método experimental, em grande parte tornado possível

pela norma de grupo- - da -.comunidade--- científica que o mie-, tem por outro lado efei- tos na própria produção teórica. Na sugestiva caract&izaçãode Suoebe, "várias mini- teorias dominantes paGcem ser periodicamente substituídas por outras mini-teorias

num processo de altemincikentre a "novidade" e o "esgotamentd" (Stroebe, 1980, p. 182). Esta situação é tanto mais inquietante quanto mais tivemos em conta o critério popperiano do conteúdo empírico enquanto critério de validação das teorias em com- petição. Ora o que se verifica na evolução da psicologia social desde a sua inflexão obsessiva para o método.experimenta1 foi, pelo contrário, um certo refluxo no con- teúdo empirico das "mini-teorias", estratégia essa que não parece de forma alguma compensar a eventual elegância dastécnicas utilizadas. Comparada com a tradição ini- ciada por K. Lewin e M. Sherif, a psicologia social das décadas de sessenta e de se- tenta tende a centrar-se em processos cada vez mais intra-psíquicos, como pode verifi- car-se pelas teorias, quase paradigmáticas, à sua escala, da comparação social, da dis- sonância cognitiva e da atribuição causal. Como lamentará Cartwright (1978), "a psi- cologia social nos últimos anos tomou-se cada vez menos social" (p. 175).

É todavia justo salientar que os psicólogos sociais europeus sempre insistiram na

necessidade duma "psicologia social mais social", mais atenta aos fenómenos sociais relevantes e seu impacto nos diferentes níveis de explicação. E isso não significa, de forma alguma, renúncia ao método experimental. Por exemplo, Moscovici, um dos nomes de mais prestígio da psicologia social não apenas à escala europeia, igualmen-

MÉTODO EXPERIMENTAL NAS CIÊNCIAS SOCIAIS

te muito crítico quanto à psicologia social norte-americana (Moscovici, 1972), é, ele próprio, autor de trabalhos experimentais no domínio da influência social e da polari- zação de grupo (Moscovici, 1976), mas, para além disso, está na base duma nova te- mática em psicologia social, a temática das representações sociais (Moscovici, 1961), que utiliza como método a análise de conteúdo, ou técnicas quantitativas como a aná- lise factorial de correspondências (ver, neste mesmo volume, o artigo de J. Vaia). H. Tajfel, outro pai-fundador da psicologia social europeia, sublinha, por seu turno, que a psicologia social correntemente praticada, entenda-se o experimentalismo norte-americano, tende a privilegiar o laboratório fazendo dele um "vácuo social", tomando-se urgente alterar tal perspectiva e construir uma psicologia social mais so- cial. Tajfel é igualmente um experimentalista, todavia preocupado com a tendência da psicolo&a social para se deixar reduzir aos processos intra-psíquicos em prejuízo da articulação com as estruturas sociais. Para Tajfel essa tendência corresponderia in- clusivamente a uma opção ideológica, a mobilidade social contraposta à mudança so-

cial.

Uma psicologia social da mudança social não pode limitar o seu objecto às mu- danças intra-grupais, ou seja, à mobilidade, a qual visa manter intactas as fronteiras do sistema através duma regulaçáo homeostática das interacções que se processam no seu interior. Na perspectiva da mudança social o locus da interacção transfere-se do in- terior do sistema para as suas interfaces e o seu tema passa a ser a questão da legitimi- dade, ou seja, as normm e valores que justificam os comportamentos, as avaliações e as representações dos sujeitosenquanto membros das várias categorias sociais em pre- sença. Um outro autor, Doise (1982), num notável trabalho de síntese, procura categori- zar a acumulação dos conhecimentos em psicologia social distinguindo quatro gran- des níveis de explicação: o nível intra-individual, o nível inter-individual, o nível das "posições" ou "estatutos sociais" e, enfim, o nível das-"crençasideológicas universa- listas". A tese central de Doise é que as teoriasSeráo tanto mais ricas em conteúdo empínco quanto maior for a sua capacidade de articular os difenntes níveis de expli- cação. Mas o aspecto mais sugestivo para a questgo que aqui nos ocupa consiste na proposta de Doise de considerar o método experimental como o mais adequado para promover essa artitulaçáo de níveis epistemológicos. "A psicologia social, escreve Doise, não é necessariamente reducionista e cega às determinações ideológicas, pelo contrário, ela explicita e desmitifica certos funcionamentos ideológicos. A dicotomia entre abordagens mais individualistas e mais colectivas pode serultrapassada por arti- culações de explicações, e se a psicologia social tem, na verdade, um objecto que ihe é próprio, ele é precisamente fornecido pelo estudo dessas articulaçóes. E não nos parece inútil insistir mais uma vez no papel que a experimentação pode

desempenhar no estudo das articulações psicossociológicas" (1982, p. 149, sublinha-

do nosso). Para tanto, e um pouco na linha de Tajfel(1972), considera Doise que ao sujeito psicológico seja mantido o seu estatuto de cidadão "trabalhando (o experimentador) sobre uma matéria- rima constituída pelas normas de comportamentos e represen-

244

JORGE CORREIA JESUÍNO

taçóes que os sujeitos transportam com eles para a situação experimental" (p. 153). Através da experimentação, essas relações sociais são reforçadas ou enfraquecidas a fim de melhor detectar os processos, estimulando o indivíduo e as estruturas sociais. Com Doise assiste-se assim à recuperação do próprio método experimental, em si mesmo compatível com uma psicologia social mais social. O autor, aliás, dá nume- rosos exemplos, alguns deles clássicos, onde claramente se ilustra a possibilidade efectiva duma psicossociologia experimental concebida nestes moldes. Em resumo, verifica-se que o método experimental se tomou praticamente exclusi- vo na psicologia social que se pratica nas décadas de sessenta e de setenta e que, em- bora menos evidente, tal hegemonia se acha ligada a uma centração nos processos in- tra-individuais e inter-individuais, abstraídos das estruturas sociais e das ideologias. Verifica-se ainda que este panorama é típico da produção científica norte-americana, cuja actividade editorial logra normalizar a comunidade dos psicossociólogos, e que a isso não serão estranhas motivações de carácter ideológico. Enfim, vias alternativas são referidas, sobretudo a partir de psicossociólogos europeus, no sentido da consti- tuição duma psicologia social mais social.

8. TENDÊNCIAS RECENTES E PERSPECTIVAS FUTURAS

O mal-estar sentido no interior da psicologia social e denunciado com maior ou menor veemência por algumas das suas vozes mais críticas teria, ehtretanto, produzi- do efeito, havendo indícios de mudanças de orientação tanto ao nível dos métodos co- mo das prioridades temáticas. Uma rápida consulta h recente terceira edição do Hand- book of Social Psychology (HSP) de Lindzey e Aronson, de 1985, fornece algumas pistas nesse sentido. I ' Em termos globais verifica-se que esta nova edição inclui, pela primeira vez, um capítulo sobre o interaccionismo simbólico, por forma a proporcionar "uma maior in- tervenção das perspectivas sociológicas", como é expressamente declarado pelos edi- tores no Prefácio (p. 10). As considerações dum Farr (1978) preconizando uma maior aproximação entre o experimentalismo e as novas correntes da "psicologia so- cial sociológica" adquirem assim maior pertinência. Outro aspecto que igualmente nos parece sintomático nesta nova edição do HSP é a inclusão de novos capítulos sobre papéis sexuais, psicologia ambienta1e aplicações da psicologia social da investigação neste domínio. Enfim, a inclusão dum autor europeu - Moscovici - responsável pelo capítulo sobre "influência social e conformidade", sobretudo porque as suas in- vestigações, neste domínio, partem de posições muito críticas relativamente àpsicolo- gia social norte-americana, não deixa igualmente de ser sintomático. Trata-se aliás do único capítulo, entre trinta, não redigido por um autor norte-americano.

METODO EXPERIMENTAL NAS CIENCIASSOCIAIS

245

Todos estes indícios, quer isolados, quer em conjunto, parecem ter de comum o objectivo de inflectir a disciplina para temáticas de maior relevância social, a par de uma maior abertura a teorias alternativas. No que se refere especificamente ao método experimental, que continua, apesar de tudo, dominante, são igualmente de registar mudanças de orientação significati- vas. No capítulo do HSP sobre o método experimental, da responsabilidade dos mes- mos autores que o redigiram para a segunda edição, verificamos que, de 1968 para cá, haveria três aspectos a salientar: em primeiro lugar manipulações experimentais mais fracas, menos indutoras de stress nos sujeitos experimentais e menos recurso ao embuste; em segundo lugar, mais recurso às "experiências de julgamento" de pre- ferência às "experiências de impacto"; enfim um maior afastamento do laboratório a favor das "experiências no terreno" (Aronson et al, 1985 p. 443). Mas porventura o aspecto mais significativoa sublinhar é o reconhecimentoexplí- cito por pane destes autores da vantagem de combinar a experimentação no laborató- rio e no terreno para fins de elaboração teórica e para o desenvolvimento duma verda- deira psicologia social. Um exemplo duma tal síntese entre o laboratório e o terreno seria o dos estudos sobre o controlo e responsabilidade psicológica. Começou com os estudos sobre psicologica animal no laboratório, passando, em seguida, a estudos sobre o stress humano, voltando novamente ao laboratório e ao terreno. Desse vai- -vem obtiveram-se resultados demonstrando a importância da percepção, por parte do sujeito, mesmo que ilusória, de controlo e de responsalibidade, para aumentar a sua capacidade de resistência a acontecimentos geradores de tensão (Aronson et al, 1985, p. 483). Note-se que não se trata aqui de "corrigir" o "artificialismo" do laboratório subme- tendo-o à prova de fogo da "realidade". A questão diz sobretudo respeito à "validade externa" dos resultados experimentais de certo modo sacrificada à "validade interna", implícita na lógica dos modelos desenvolvida por'~ampbelle associados (1963). A situação de laboratório é tão real e mesmo tão complexa como as situações naturais. O importante do ponto de vista experimental é, conforme a distinção proposta por Aronson et a1 (1968, 1985), entre "realismo experimèntal" e "realismo mundano". Uma experiência é realista na medida em que envolve'os sujeitos, em que tem capaci- dade para os interessar. Éeste realismo que interessa o experimentador, esteja ele a in- vestigar no laboratório ou no terreno, e é também este o processo que permite fazer a ligação entre validade interna e validade externa. Também Doise (1982) sublinha a importânciada complementaridade entre o labo- ratório e o terreno,como instância de articulaçãode diferentes níveis de análise, toma- da possível pela experimentação. A psicologia social europeia é aliás particularmente fértil em exemplos deste vai- -vem entre o laboratório e o terreno. Tal é o caso dos estudos sobre as relações inter- gmpo conjugando as experiências de laboratório conduzidas por Tajfel e colaborado- res (1978) e o teste efectuado por Brown (1978). Numa experiência realizada numa fábrica de construçáo aeronáutica, mostrou este autor, de acordo com a teoria, que os membros dum determinado grupo de trabalhadores preferiam uma situação salarial

- - - -- - -

- - - -- --

-

246

JORGE CORREIAJESUINO

menos vantajosa em termos absolutos, desde que mantivesse uma superioridade relati- va sobre outro com o qual desenvolveram uma relação de competição social. Outro exemplo de complementaridade entre o laboratório e o terreno é dado pelos estudos de Lemaine sobre a originalidade social, inicialmente conduzidos com crian- ças em colóquios de férias (Lemaine, 1966, 1974), testando a hipótese de que os gru- pos, quando em desvantagem relativa, procuram redefinir a situação segundo novas dimensões tornando-se, de algum modo, "incomparáveis". Este mesmo quadro te6ri- co de referência é igualmente aplicado à comunidade científica (Lemaine, Matalou e Provansal, 1969;Lemaine, 1983),oferecendo-se como possível explicação para o es- forço desenvolvido pelos cientistas, sempre em competição para se tornarem "visí- veis". Enfim, um terceiro exemplo, mas muitos outros poderiam ser fornecidos, é o dos estudos de Stephenson (1984) sobre negociação inter-grupos. Conduzidos alternada- mente no laboratório e no terreno, esses estudos permitem verificar que um grupo dis- pondo, àpartida, de maiores vantagens negociais terá maior probabilidade de tirar par- tido dessa vantagem objectiva utilizando uma estratégia negocia1em que a dimensão inter-grupo tenha primazia sobre as relações inter-pessoais. Resultados deste tipo ligando o laboratório ao terreno permitem não apenas confir- mar teorias mas também revelar o seu valor prático e aplicável. Porque, tal como teria dito Kurt Lewin, nada mais prático que uma boa teoria.

Nota

- As obras assinaladas com um * consideram-se as mais indicadas para uma ini-

ciaçáo ao método experimeptal; as obras assinaiadas com ** ilustram aplicações do mktodo.

R. L. ACKOFF (1962) - Scientijic Method - Optimizing applied research decision, No- va Iorque, Wiley & Sons G.W. ALLPORT (1985) - "The historicai background of social psychology", in G. LIND- ZEY e ARONSON (eds.), The Handbook of Social Psychology, 3=ed., vol. I, Nova Ior- que, Random House *E. ARONSON e J.M. CARLSMITH (1986) - "Experimentation in social psychology", in G. LINDZEY e E. ARONSON, Handbook of Social Psychology, 2' ed., v01 I, Addi- son-Wesley * E. ARONSON, M. BREWER e J. M. CARLSMITH (1985) - "Experimentation in so- cial psychology", in G. LINDZEY e E. ARONSON (eds.), Handbook of Social Psycho- logy, 3' ed., vol. I, Nova Iorque, Random House S. E. ASH (1952) - "Effects of group pressure upon the modification and distortion of ju-

MÉTODO EXPERIMENTAL NAS ClENCIAS SOCIAIS

247

dgement", in E. E. MACOOBY, T. T. NEWCOMB e E. L. HARTLEY (ed.), Readings in Social Psychology, Nova Iorque, Holt, Reinhart and Winston

H.

B. ASHER (1976) - Causal modeling, Londres, Sage Publications

A.

BINET (1900) -Lu

suggestibilité, Paris, Schleicher

H.

M. BLALOCK Jr. (ed.) (197111985) - Causal models in the social sciences, Chicago,

Aldine, Atherton

H. BLUMER (1969) -

Symbolic Interactionism: Perspective and Method, Englewood

Cliffs, Nova Iorque, Prentice Hall.

R. J. BROWN (1978) - "Divided we fall: an analysis of relations of a factory workforce",

in H. TAJFEL, Differentiation between Social Groups, Londres, Academic Press CAMPBELL (1957) - "Factors relevant to the validity of experiments in social set-

tings", Psychological Bulletin, 1957,pp. 297-312. **D. J. CAMPBELL e J. C. STANLEY (1963) - "Experimental and Quasi Experimental Design for Research on Teaching", in N. L. GAGE (ed.), Handbook of Research on Teu- ching. A Project of the American Educational Research Association, Chicago, Rand

McNally D. CARTWRIGHT (1978) - "Theory and practice", Journal of Social Issues, 1978, 34, pp. 168-180. * W. G. LOCHRAN (1957) - Experimental designs, Nova Iorque, John Wiley and Sons, 1' ed. 1950,2' 1957.

T. D. COOK e D. T. CAMPBELL (1979), Quasi-Experiments: Design and Analysis Issues

D. J.

for Field Settings, Shokre, I, 11, Rand McNelly [cfr. org.] ** T. D. COOK e D. T. CAMPBELL (1976) - "The Design and Conduct of Quasi-Experi- ments and True Experiments in Field Settings", in M.D. DUNNETTE (ed.), Handbook of Industrial and Organizational Psychology, Chicago, Rand McNally

L.

gist, 1957, 12, pp. 671-684. W. DOISE (1982) - L'Explication en Psychologie Sociale, Paris, P.U.F A. C. ELMS (1975) - "The crisis of confidente in ~ocial~psychology",American Psycho- logist, 1975, 30, pp. 967-976

R. M. FARR (1983) - "Wilhelrn Wundt (1832-1920)hdthe origin of psychology as an experimental and social science", British Journal of Social P~ychology,1983, 22, pp.

J. CRONBACH (1957) - "The two disciplines of psychology", Arnerican Psycholo-

."

289-301

R. M. FARR (1978) - "On the varieties of social psy6hology: an essay on the relation- ship between psychology and other social sciences", Social Science Informtion, 1978, 17, 415, pp. 503-525.

R. FISCH e

H. D. DANIEL (1982) - "Research and publication trends in experimental so-

cial psychology: 1971-1980, European Journal of Social Psychology, 1982, 12, pp.

395-412

A. FISHER (1925) - Statistical Methodsfor Research Workers, Londres, Olivier and Boyd

R.

R.

* H. L. FROMKIN e S. STREFERT (1976) - "Laboratory Experimentation", in M. D.

DUNNE?TE (ed.) - Handbook of Industrial and Organizational Psychology, Chicago, Rand McNally

E. GARFIELD (1979) - SSCI Journal Citation Reports, Institute for Scientific Informa- tion, Filadélfia

A. FISHER (1935) - The Designs ofExperiments, Londres, Olivier and Boyd

248

JORGE CORREIA JESU~O

K.

J. GERGEN (1973) - "Social Psychology as History", Journal of Personality and So- cial Psychology, 1973, 26, pp. 309-320.

C.

HENDRICK (1977) -

Social Psychology as an Experimental Science, New Jersey,

Lawrence Erlbaum J. S. HOUSE (1977) - "The three faces of social psychology", Sociomeiry, 1977, 40, pp.

161-177

K.

E. KIRK (1982) - Experimental Design: Procedures for the Behavioral

Sciences, 23

ed., BrmkslCole Publishing Company

E.

E. JONES (1985) - "Major development in social psychology during the past five deca- des", in G, LINDZEY e E. ARONSON (eds.), The Handbook of Social Psychology, 3' ed., Vol I, Nova Iorque, Random House

G.

LEMAINE (1966) - "InCgalitC, comparaison et incomparabilité:esquisse d'une théorie de l'originalitk sociale", Bulletin de Psychologie, 1966, 20, pp. 24-32.

G.

LEMAINE (1974) - ':Social

differentiation and social originality", European Journal of

Social Psychology, 1974,4, pp. 17-52

G. LEMAINE (1983-84) - "La différentiation sociale dans Ia communauté scientifique",

Bulletin de Psychologie, 1983-84, 37, pp. 477488.

G. LEMAINE, B. MATALON e B. PROVANSAL (1969) - "La lutte pour Ia vie dans la

cité scientifique", Revue Française de Sociologie, 1969, 10, pp. 139-165.

K. LEWIN (194311951) - "Psychology and the process of group living", Journal of Social

Psychology, 1943, Fev., pp. 113-131; K. LEWIN, Field Theory in Social Science, No-

va Iorque, Harper, pp. 155-164 K. LEWIN (194311951) - "Defining the field at a given time", Psychological Review,

1943, 50, pp. 292-310, in K. LEWIN, Field Theory in Social Science, Nova Iorque, Harper, pp. 43-59.

K. LEWIN, R. LIPPIT e R. K. WHITE (1932) - "Pattems of agressive behavior in experi- mental created 'social climates"', Journal of Social Psychology, 1932, 10, pp. 271-299

*E. F. LINDQUIST (1953) - Design and analysis of experiments in psychology and educa-

tion, Boston, Hought+ Mifflin

(1985) - Handbook of Social Psychology, 3Qed.

vol. 1 - Theory and Melhod, Vol. 2 - Special Fields and Applications, Nova Ioque,

Random House

G. M. MEAD (1934) - Mid, Ser and Society: from the Standpoint of a Social Behavio-

G. LINDZEY e E. ARONSQN (eds.)

rist, Chicago, I 11, University of Chicago Press

S.

MOSCOVICI (1972) - "Society and theory in social psychology", in J. ISRAEL e H. TAJFEL (eds.), The Confext of Social Psychology, Nova Iorque, Academic Press.

S.

MOSCOVICI (1976) - Social Influente and Social Change, Nova Iorque, Academic Press

S.

MOSCOVICI (196111976) - La psychanalyse, son image et son public, Paris, P.U.F

C. MURCHINSON (ed.) (1935) - Handbook of Social Psychology, Worcester, Mass., Clark University Press M. ORNE (1962) - "On the social psychology of psychological expenment: with particu- lar referente to demand characteristics and their implications", American Psychologist, 1962, 17, pp. 776-783. * R. PAGÈS (1969) - "L'experimentation en sociologie" (versão francesa de um texto de 1959: "Das Experiment in der Soziologie"), in G. LEMAINE e J. M. LEMAINE

(eds.), Psychologie Sociale et Experimentation, Paris, Mouton/Bordas

MÉTODO EXPERIMENTAL NAS CZ~?NCZASGOCZAZS

249

J. PIAGET (1968) - Le structuralisme, Paris, P.U.F. * J. PIAGET (1969) - "L'explication en psychologie et le parallelisme psycholophisiologi- que", in Histoire et Méthode, Paris, P.U.F

J. P. POITOU (1978) - h Dynamique des Groupes. Une Idéologie au Travail, Paris, Edi-

tions du CNRS

K.

R. POPPER (1959) - The logic of scientific discovery, Nova Iorque, Basic Books

F.

J

ROETHLISBERGER e W. J.

DICKSON (1939) - Manugement and the Worker,

Cambridge, Harvard University Press R. ROSENTHAL (1964) - "The effect of the experimenter on the result of the psychologi-

cal research", in B. A. MAHER (ed.), Progress in experimental personality research,

Academic Press, vol. I., pp. 79-114.

* B. SARABIA (1983) - "Limitaciones de la psicologia social experimental. Necessidade de nuevas perspectivas", in J. R. TORREGROSA e B. SARABIA (eds.), Perspectivas e Contextos de la Psicologia Social, Barcelona, Editorial Hispana Europea.

B. SCHLENKER (1974) 7 "Social Psychology as Science", Journal of Personality and So- cial Psychology, 1974,29, pp. 1-15.

M. SHERIF (1935) - "A study of some social factors in perception", Archive of Psycho-

logy, 22, nQ187.

M. SHERIF (1936) - The Psychology of Social Norms, Nova Iorque, Harper Books.

R. L. SOLOMON (1949) - "An expansion of Control Group Design", Psychological Bul- letin, 1949, 46, pp. 139-150.

G. M. STEPHENSON (1984) - "Intergroup and interpersonal dimensions of bargaining

and negotiation", in H. TAJFEL (ed.), The Social Dimension, Londres, Cambridge Uni- versity Press, Vol. 2, pp. 646-667. *W. STROEBE (1980) - "Process loss in social psychology", in R. GILMOUR e S.

DUCK (eds), The Development of Social Psychology, Nova Iorque, Academic Press.

*H. TAJFEL (1972) - "Experiments in a Vacuum", in J. ISRAEL e M. TAJFEL (eds.),

The Context of Social Psychology, Nova ~orque,'&cademicPress. H. TAJFEL (1978) - Differentiation beíween ~ociaiCrbups: Studies in the Social Psycho- logy of Intergroup Relations, Londres, Academic press.

H.

TAJFEL e C. FRASER (1979) - Introducing Soclal Psychology, Londres, Penguin

BOO~S.

I

N.

TRIPLE'iT (1897) - "The dynamogenic factors in"acemaking and compeution", Ame-

rican Journul of Psychology, 1897, 9,507-533.

"The Psychology as the Behaviorist Views it", Psychological

**K. E. WEICK (1965) - "Laboratory experimentation with organizations", in J. G. MARCH (ed.), Handhok of Organizatiotu, Rand McNally.

**B. J.

J. B. WATSON (1913) - Review, 1913, 20.

WINER (1971) - Sfatistical Principies in Experimental Design, McGraw-Hill (la

ed. 1962).