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Empadas e Mortes

M. D. Amado
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Empadas e Mortes
Autor: M. D. Amado
Ano de lançamento: 2009

Esta é uma publicação eletrônica


gratuita, distribuída pelo próprio
autor, com o objetivo de divulgar
o seu trabalho. A distribuição e/ou
publicação de todo o conteúdo ou
parte dele, é permitida, desde que
respeitados os direitos autorais. O
autor pede que seja enviado um
email informando onde será
publicada a obra (ou parte dela),
para simples controle e adição ao
portfólio do autor
(marcelo@mdamado.com.br).
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Dedicatória
Dedico essa publicação especialmente aos meus filhos Bruno e Rafael, ao meu
afilhado Gabriel e à Natália Santos Brilhante.

E também ao casal de amigos Ricardo e Mirka, minhas queridas amigas Idelma


Minelli e Kelly Rodrigues, minha prima Marcelina e minha irmã Dora.
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Agradecimentos
Agradecimentos sempre são injustos, pois na emoção de querer mostrar o quanto somos gratos,
cometemos às vezes gafes imperdoáveis, momentaneamente nos esquecendo de pessoas
importantes, mas torço aqui para que isso não aconteça nesse momento:

Meu amigo Wady, responsável por eu retomar o hábito da leitura no início de 2004.

Richard Diegues, Camila Fernandes, Gian Celli e Rita Maria Félix, por terem me incentivado no
início de tudo, lá por volta de 2004, quando comecei a brincar de escrever. Em especial ao
Richard, pela oportunidade nos livros Necrópole, histórias de fantasmas e Paradigmas Volume I.

Ademir Pascale e Elenir Alves pela oportunidade e confiança no fanzine Terrorzine e nas obras:
Draculea – o livro secreto dos Vampiros, Metamorfose – a fúria dos lobisomens e Zumbis – quem disse
que eles estão mortos?

Rosana Raven (fã muito querida), Liartemis e Iam Godoy, pelo apoio e divulgação dos meus
trabalhos e sites, no Flores do Lado de Cima, Ravens House e em seus milhares de blogs (risos).

Eric Novello pelo apoio no Fantastik. Rober Pinheiro e Everson Probst, pela força e amizade e
pelas críticas sempre construtivas do Rober (valeu pelo press release também). Agnes Mirra (fã
desde o início), Miriam Castilho, Emilia Ract, Denise MG, Melissa Mell, Rodrigo Venkli,
Alessandro Reiffer (com minhas reverências), Vilminha e Mensageiro Obscuro pela força que
sempre me deram.

Natacia Araujo, Débora Andrade, Leonardo Pezzella e Liza pela oportunidade no blog A Arte Não
é Minha e pelo aprendizado com as poesias (especialmente Natacia).

Aos novos amigos que vem acompanhando meus textos e poesias: Nivia Gomis, Serena, Marius
Arthorius, Evandro Guerra, Adriano Siqueira, Giulia Moon, Juliano Sasseron, Luciana Fátima,
Roberta Nunes, Matheus Machado, Maurício Montenegro, Nana B. Poetisa, Ângela Nadjaberg,
Márson Alquati...

Espero realmente não ter esquecido ninguém... Se esqueci me perdoem (ou não... risos).
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Indice

Prefácio ..............................................................................................................................- 7 -
Não Fuja Mais....................................................................................................................- 8 -
A Inveja tem Cor ................................................................................................................- 9 -
Alvo e Rubro ....................................................................................................................- 10 -
Mortos Não Comem Empadas .........................................................................................- 11 -
Chovia Muito Naquela Noite...........................................................................................- 13 -
Eu Vejo Gatos Mortos......................................................................................................- 15 -
Dominantes......................................................................................................................- 20 -
Prognóstico ......................................................................................................................- 22 -
Puta Que o Pariu..............................................................................................................- 23 -
Então Era Natal................................................................................................................- 25 -
Não Sou um Monstro.......................................................................................................- 29 -
Motivos Para Esquecer......................................................................................................- 32 -
Não Estou Sozinho no Escuro ..........................................................................................- 34 -
Tábuas e Potes de Vidro ...................................................................................................- 36 -
O Desertor .......................................................................................................................- 38 -
A Torneira........................................................................................................................- 43 -
Fantoches .........................................................................................................................- 47 -
Leitor................................................................................................................................- 51 -
O Autor............................................................................................................................- 52 -
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Prefacio
Melancólico e sanguinário ao extremo. Clichê? Não, esta não é uma palavra conhecida por
M. D. Amado, pois quem conhece o gênero, sabe como é difícil mesclar o horror com o cômico.
O título Empadas e Mortes confirma a minha afirmação. Afinal, já era tempo: foram 13 anos de
dedicação ao terror explícito, centenas de contos e artigos publicados no site Estronho
(www.estronho.com.br), e agora temos o prazer de ler e reler alguns dos melhores contos deste
magnífico e promissor escritor, do qual já venho observando o seu trabalho em antologias e em
seu próprio site.

Como escritor e organizador cultural, estou sempre antenado no mercado literário. Este
ano li dezenas de livros, tanto nacionais como internacionais, entre eles Pride And Prejudice And
Zombies (Chronicle Books), uma paródia sobre zumbis criada pelo autor Seth Grahame-Smith,
baseada na consagrada obra Orgulho e Preconceito da escritora inglesa Jane Austen (1775-1817).
Ligado também no mundo da sétima arte, assisti ao trailer do longa-metragem estadunidense
Zombieland (Sony Pictures), uma comédia de horror que será lançada em outubro de 2009 no
exterior, mas que terá lançamento no Brasil apenas no final deste ano. Em uma palestra sobre
literatura no ano passado, pude ouvir de um editor que as editoras estão cansadas dos zumbis.
Pensei: por quê? Os únicos mortos-vivos que vemos sendo publicados atualmente são os vampiros, mas
raramente os zumbis estampam capas de livros. Com esta ideia em mente desde 2008, além de ver o
entusiasmo do pessoal de outros países com o tema, resolvi criar a coletânea Zumbis: Quem disse
que eles estão mortos? (All Print). O subtítulo Quem disse que eles estão mortos, é justamente para
mostrar que eles não estão esquecidos e, como convidado especial para compor na coletânea,
claro, M. D. Amado. Como disse logo no início deste prefácio, os contos de horror do Marcelo,
na maioria das vezes, são salpicados com uma boa pitada cômica, alguém que não poderia deixar
de convidar para este livro de horror, pois o seu texto trará certamente um bom diferencial para a
obra.

Empadas e Mortes apresenta dezessete contos, iniciando com Não Fuja Mais, um conto
que nos faz recordar dos malditos textos de Augusto dos Anjos, nos levando às sombras de becos
sinistros, dos quais podemos sentir até o seu fétido ardor, tamanha é a descrição do autor. Um
texto pesado e rico em palavras contundentes, se baseado no conceito do mais belo estilo gótico.
Se você já conhece o estilo e os trabalhos deste autor, está ai um prato cheio de puro horror, se
não conhece, acabe logo a leitura deste prefácio e inicie imediatamente a leitura dos contos.
Conselho: após lê-los, antes de dormir, pense duas vezes antes de apagar as luzes do seu quarto,
pois as palavras são poderosas, e se bem construídas, poderão se tornar mágicas e o seu conteúdo
pura realidade.

Que venha logo e sem delongas, o livro impresso de M. D. Amado, pois garra,
determinação, qualidade e público, é o que não falta para este escritor.

Ademir Pascale

Escritor e Organizador Cultural


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Nao Fuja Mais


Esta noite você irá sonhar comigo. Me verá à espreita, rastejando pelas
sombras de becos fétidos e escuros, seguindo o cheiro dos corpos putrefactos. Verá
que eu me alimento de restos que a morte despreza. Que eu sugo o sangue já
coagulado das entranhas jogadas no chão, misturadas a imundície dessa cidade
negra. Eu me farto com todo tipo de bactérias, larvas e tudo aquilo que te faz sentir
nojo.

Assim sou eu, ou melhor, assim sou você. Sou seu lado obscuro e recôndito.
Aquilo que você tenta rejeitar. Que finge não ver. Mas sua hipocrisia é em vão,
porque estou arraigado em sua alma. Não tente me repelir. Não tente me expulsar,
pois sou parte de cada um de vocês. Sou parte do mundo imundo que existe por
trás de toda essa maquiagem frágil e inexpressiva que vocês chamam de sociedade.

Sou seu verdadeiro ser. Quando venho à tona, sou tratado como doença.
Como desvio de personalidade. E minhas atitudes são denominadas de atrocidades.
Mas na realidade, o que faço é apenas revelar sua mente sem censura, sem pudor,
sem vergonha.

E sigo vigiando seu sono, esperando por um desvio no tempo, no sonho, no


pesadelo, na vida. Aguardo minha vez de ser o ator principal dessa sua história
medíocre de vida inútil e incapaz. Quero despi-lo dessa fantasia triste. Esse ‘você’
travestido de pessoa ‘comum’. Quando chegar a hora vou mostrar sua verdadeira
face, seus verdadeiros anseios. Irei expor seus desejos mais sujos e impróprios.

Sigo na calada da noite, sentindo o cheiro de podre, procurando pistas nas


sombras, me energizando com restos e com sangue. Vou lambendo o chão por onde
você pisa, me deliciando com farelos de sua pele e vampirizando sua energia
enquanto você dorme.

Não fuja mais. Não se canse à toa, pois qualquer noite dessas, vamos nos
encontrar frente a frente. E você não conseguirá resistir. Sentir-se-á atraído por
meus olhos negros e foscos. E numa questão de segundos sugarei essa farsa que
reside em seu corpo e inundarei sua alma com minha maldade, tomando aquilo que
por direito é meu.

Não lute! Entregue-se a mim e seja bem-vindo ao inferno do seu verdadeiro


‘eu’.
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A Inveja tem Cor


Eu não ficava bem de vermelho, ao contrário de todas as minhas amigas. Os
homens ficavam fascinados com seus vestidos, blusinhas e principalmente com a
lingerie. Por que eu não ficava bem de vermelho? Por quê? Não adiantava tentar
nada... Nunca consegui atrair a atenção de ninguém me vestindo de vermelho. E eu
adoro vermelho. Amo vermelho.

Já pintei meu cabelo de vermelho imitando todos os tons de cada uma delas e
nem assim obtive sucesso. Marcinha e Roberta sempre chamaram a atenção com
seus cabelos ruivos. E nem eram naturais. Queria tanto ter o charme da Marcinha,
ter os cabelos da Roberta, o corpo da Juliana, que vestia tão bem qualquer vestido,
vermelho ou não. Os pés da Mariana e os olhos da Claudinha...

Ironicamente agora nenhuma delas pode mais se vestir de vermelho. E eu


estou aqui, cercada de homens, todos olhando para mim. Todos querem me levar.
Mas não vou... Agora quem não quer sou eu. Vou ficar aqui no meio do salão de
festas... Juliana não ficou bem de branco. O vestido de noiva ficaria melhor se fosse
vermelho. Por isso abri seu ventre, para dar um bom tingimento ao tecido. Não
consegui fazer com que os olhos da Claudinha se encaixassem no lugar dos meus,
mas antes de arrancá-los, consegui ver como fiquei bem com o escalpo da Roberta.
Não quis os pés da Mariana hoje. Ela pintou suas unhas de roxo... Não gosto.

O charme da Marcinha também não sei como arrancar.


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Alvo e Rubro
O cenário em nada combina com o lençol e as roupas manchadas de sangue.
Um fio de luz entra timidamente pela fresta da janela, iluminando parte do colchão,
o tapete com estampa da Betty Boop e um pedaço da estante de livros. O chão de
tábua corrida muito bem encerado reflete o ventilador de teto, que se encontra
ligado na velocidade mínima. A porta entreaberta ensaia uma pequena dança,
embalada pelo vento que vem do corredor, parecendo anunciar a entrada de alguém
a qualquer momento.

Atiradas de qualquer forma sobre a poltrona de tecido carmim, a calça jeans e


a camiseta de malha verde clara denunciam a pressa de ir para cama na noite
anterior. O celular caído no chão ao lado do par de tênis e das chaves do carro,
registra duas mensagens recebidas e não lidas.

Os cabelos castanhos levemente avermelhados estão jogados sobre um rosto


pálido, porém de uma jovialidade invejável desenhada em traços sublimes. Não
fosse pela mancha vermelha que toma conta de quase todo o ventre, a camisola de
seda branca passaria despercebida aos olhos de quem, como eu, esteja admirando
esse corpo perfeito. Não é um corpo de modelo, ou de atleta e muito menos de
“Musa do Brasileirão” ou “Mulheres Frutas” – que de perfeito nada possuem em
seus corpos. É perfeito em sua naturalidade e em suas curvas. Perfeito nas
proporções. O chamado “corpo de violão”.

O relógio marca oito e trinta da manhã e não despertara, pois hoje ela não
iria trabalhar. Havia programado um merecido dia de folga.

O prenúncio feito pela porta entreaberta se concretizou. Dona Carmem


entra no quarto e se depara com o vermelho que pintara o lençol, a calcinha e as
coxas de sua filha.

O susto leva ao grito, que leva ao susto...

— Aninha!!! Aninha!!!

E Aninha, despertada de um de seus melhores sonhos, ainda meio zonza,


esfrega os olhos e olha para o meio de suas pernas.

— Puta que o pariu! Esqueci de por o absorvente!


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Mortos Nao Comem Empadas


Era pra ser apenas mais um dia de trabalho na lanchonete...

Por volta de 16:00h dois sujeitos com cara de poucos amigos entraram,
olharam para o balcão de salgados e vieram na minha direção. Um deles, o maior e
mais forte, foi logo cuspindo seu pedido – cuspindo mesmo, porque o homem
parecia ter uma torneira aberta na boca.

— Uma empada de bacalhau!

— De bacalhau acabou senhor. Acabei de servir as duas últimas. – apontei


levemente com a cabeça para o rapaz sentado, próximo a ponta do balcão.

O sujeito estufou o peito e caminhou até onde estava o rapaz, que já ia


abocanhar sua primeira empada. Não houve tempo para a primeira mordida. Levou
um tiro a queima roupa. Antes mesmo de seu corpo tombar no chão, batendo com
a cabeça na lixeira, o atirador falou bem alto:

— Mortos não comem empadas! – e puxou o pratinho com as duas empadas


para o seu lado.

Assustado como todos no local, me recolhi ao fundo da cozinha. Mas de


onde estava podia ver nitidamente que o homem que levara o tiro se mexia. Seu
corpo se contorcia e sofria pequenos espasmos musculares. Pude ver quando a bala
do revólver foi expelida de sua pele e seu ferimento se fechou. Daquele momento
em diante seu corpo começou a se transformar. A primeira vista parecia crescer e
escurecer. Somente depois é que notei que o escurecimento era na verdade uma
grande quantidade de longos pelos negros. Seu rosto ficou desfigurado, dando-lhe
feições caninas de grandes proporções. Alheio a essa estranha mutação que acontecia
atrás de si, o autor do disparo terminava de comer as duas empadas, com a educação
de um glutão, e dava gargalhadas com a boca cheia, enquanto conversava bobagens
com o segundo sujeito que o acompanhava.

Quando terminou, deu um último gole no seu refrigerante e bateu a mão no


balcão dizendo que o lanche era por conta da casa. Quando se virou para ir embora,
esbarrou na criatura. Tinha cerca de dois metros de altura e seus ombros pareciam
desenhar uma montanha de pedras peludas. Os grandes olhos amarelos fitaram o
sujeito de cima a baixo.
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Com uma das mãos ele o segurou pelo pescoço, deixando seus pés erguidos a
poucos centímetros do chão. Com as garras afiadas da outra mão, rasgou seu ventre
e alguns segundos depois retirou uma espécie de massa viscosa, amarelada e suja de
sangue. Depois disso soltou o sujeito, que agora trazia estampado em seu rosto o
pavor de estar vendo suas tripas caídas no chão imundo da lanchonete. A criatura
abriu a boca e jogou aquela massa gosmenta para dentro.

Antes de sair esbarrando em todas as pessoas ao redor, olhou para trás, parou
por um segundo e disse baixinho:

— Realmente... Mortos não comem empadas. Mas eu não estou morto e a


empada é minha.

Virou-se em direção a porta, deu um passo e parou novamente. Moveu


levemente a cabeça para o lado esquerdo e me procurou. Olhando fixamente para
mim, ironizou:

— De bacalhau essa empada só tem o nome!


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Chovia Muito Naquela Noite


Chovia muito naquela noite e eu estava na sala, lendo o romance “Uma
fortuna perigosa”, de Ken Follett, tomando uma taça de vinho tinto barato, sentado
confortavelmente em minha poltrona do papai com uma coberta sobre as pernas.
Estava próximo à janela, um pouco de lado. A cortina estava aberta e os raios às
vezes chegavam a assustar um pouco. Relutei em me levantar para fechar as
cortinas, pois estava tudo tão aconchegante que parecia um enorme sacrifício sair
dali naquele momento, mas os raios continuavam a clarear todo o ambiente e isso
me tirava a concentração. Tomei outro gole de vinho e tirei os óculos, colocando-os
sobre o livro já fechado, depois de ter deixado o marcador na página 250.

Quando tirei a coberta de cima das pernas, senti um vento frio vindo da
porta do corredor. Ainda descalço, caminhei até a janela para fechar as cortinas, mas
antes de puxá-las, olhei instintivamente para fora, como sempre fazemos durante
uma chuva forte. O vidro estava muito molhado por fora e um pouco embaçado
por dentro, mas foi possível ver um vulto atravessando a rua. Era algo absurdamente
grande e forte. Suas formas se confundiam diante das gotas de água que escorriam,
fazendo-o parecer um monstro. Não sei dizer ao certo sua altura, mas com certeza
era maior que o portão da casa de frente, detalhe que pude notar quando ele
terminou de atravessar a rua e parou por uns instantes em frente a esse portão.
Tinha uma cabeça enorme, semelhante a de um grande cachorro. Parecia estar
farejando algo no ar e olhava para todos os lados até perceber em determinado
momento, a minha silhueta na janela. Chegou a dar um passo em minha direção,
mas alguma coisa o fez mudar de idéia. Olhou assustado para a rua de baixo e saiu
correndo em sentido contrário.

O mais incrível aconteceu em seguida, quando fechei as cortinas e me virei


para retornar para minha poltrona. Posso afirmar com absoluta certeza que as
janelas estavam trancadas. No entanto assim que me virei, uma das duas partes da
janela empurrou a cortina, trazendo um vento frio e muitas gotas de água gelada. E
não foi somente isso. Pude ouvir nitidamente um grito de mulher. Alguém pedia
socorro e gritava de maneira apavorante no meio daquela chuva. Me aproximei da
janela, que agora tinha também um rastro de sangue misturado as gotas de chuva.
Os gritos pareciam estar um pouco mais espaçados e abafados. Olhei para fora
tentando ver algo, mas não consegui nada além de molhar todo o meu rosto e parte
do peito.
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Segundos depois, senti uma forte pancada e uma grande dor na cabeça.
Alguma coisa me atingiu e agora eu estava caído ali no chão da sala com tudo
molhado ao meu redor. Água e sangue.

A janela estava quebrada, a cortina rasgada e a polícia lá fora. Eu via as luzes e


ouvia as vozes de várias pessoas e rádios de comunicação ligados. Com muito
esforço, me levantei e voltei para a janela. Pude ver que a chuva havia cessado e lá
fora o corpo de mulher jogado sobre o capô de um carro chamava a atenção. Seu
corpo bem claro, parcialmente descoberto e manchado de sangue do peito para
baixo, estava imóvel. Um policial veio em minha direção. Estava com uma lanterna
em uma das mãos e se continuou se aproximando.

Fiz um sinal com a cabeça, mas parece que ele não percebeu. Chamou outro
policial e ficaram olhando para minha janela. Novamente acenei com a cabeça, mas
nenhum dos dois parece ter visto. Acenei com os braços. Eles então vieram
novamente em direção à janela. A luz da lanterna me ofuscava a visão e quando
consegui perceber algo além daquele clarão diante de mim, vi os policiais pulando
pela janela. Nesse momento tive a impressão que estivessem passando por mim, sem
me notar.

Eles olharam para o chão molhado e para meu corpo estendido perto da
poltrona. Em minhas mãos eles encontraram um pedaço do vestido daquela
mulher. Ao meu lado, o seu coração. E na minha cabeça, um buraco de bala.

Naquela noite, chovia muito...


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Eu Vejo Gatos Mortos


Enquanto caminhavam pelo longo corredor do velho casarão, os dois amigos
comentavam as estranhas atitudes de Berenice nos últimos dias. Há semanas ela
vinha insistindo na idéia de que gatos mortos a cercavam por todos os lados. No
início ela mesma ria de tais despropósitos. Mas com o passar do tempo, começou
agir de forma estranha, olhando para todos os lados, se escondendo pelos cantos e
dizendo frases sem nexo. Léo e Bia, preocupados com o estado emocional de
Berenice, queriam convencê-la a procurar ajuda, mas nos últimos dias a pobre
amiga não saia de dentro do sótão. Na maior parte do tempo ficava encolhida,
enrolada num tapete velho e empoeirado.

O casarão do século XVII abrigara no passado uma família riquíssima que


tinha como principal característica, a ostentação. Faziam questão de promover festas
sempre que adquiriam algum objeto de arte, móveis novos, carruagens ou mesmo
belos animais exóticos que traziam de suas inúmeras viagens ao exterior. As gerações
que vieram depois não eram muito diferentes e com o passar do tempo foram
perdendo alguns de seus bens para custear e sustentar as luxuosas festas. No final do
século XX, já completamente abandonado e deteriorado pela ação do tempo, o
casarão se transformou numa pensão para estudantes. Histórias e lendas envolvendo
os antigos moradores do local sempre foram uma constante entre os jovens
inquilinos. Vultos no corredor, som de taças de cristal durante a madrugada, risadas
vindas do porão e até mesmo gritos no meio da noite. Estes e outros fenômenos
eram os temas preferido dos universitários quando se encontravam nos botecos,
após a aula. No entanto quando voltavam para seus quartos na velha pensão, o
medo do desconhecido invadia a mente de praticamente todos eles, incluindo-se aí
os mais céticos.

Mas as visões de Berenice eram inéditas. Ao menos pelo que se sabia até
então. Gatos mortos andando pelo corredor e pelos jardins nunca tinham sido
relatados anteriormente. Com medo do que pensariam os outros amigos a respeito
dela, Bia resolveu não contar para ninguém sobre o que estava acontecendo. Ela e
Léo levavam comida sempre que podiam e ficavam ao seu lado tentando acalmá-la,
sem muito sucesso.

— Eu vejo gatos mortos... Eu vejo gatos mortos... Mas aqui eles não me
machucam. Não me machucam. — dizia sempre, com os olhos arregalados e o
pavor estampado em suas pupilas.
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No final de mais uma tarde de vigilância, o casal deixou Berenice novamente


sozinha. No caminho até o jardim dos fundos, conversaram a respeito:

— Léo, temos que fazer alguma coisa. A Berenice tá pirada. Além do mais,
ela não pode ficar enfiada nesse sótão para sempre.

— Mas o que podemos fazer? Você não quer pedir ajuda para mais ninguém.
Sozinhos não conseguiremos tirá-la de lá. E Bia... — ele parou próximo a porta e
disse com um tom abafado na voz — Eu... Eu preciso te contar uma coisa.

Olhou para os lados para ter certeza que ninguém poderia ouvi-lo e
continuou:

— Eu... Ouvi uma voz hoje quando chegamos ao sótão.

— O que tem isso demais? A pensão está cheia hoje. É sábado. O zum zum
zum não para.

— Não Bia. Eu escutei uma voz no meu ouvido, enquanto estávamos no


sótão.

— Ah, por favor, Léo! Você também não! Já me basta uma amiga maluca.

— Maluco? Mas Bia... É isso que você pensa de Berenice? Poxa, ela é nossa
melhor amiga.

— Léo, no começo eu achava que ela estava estressada ou deprimida, carente,


sei lá. Mas cara... Tem quatro dias que ela não sai do sótão. Não para de falar que
vê gatos mortos. Só come o que a gente leva pra ela e mesmo assim, porque a gente
insiste. Sem falar no fato de ficar enrolada num tapete velho, mofado e empoeirado.
Isso não é coisa de alguém normal, ou é? E agora você me diz que está ouvindo
vozes? Ah por favor...

Bia saiu para o jardim deixando para trás o amigo, envergonhado e ainda
cismado. Que voz teria sido aquela?

À noite Léo resolveu que ficaria com Berenice. Ia tirar a prova dos nove.
Entre um intervalo e outro onde repetia a frase “eu vejo gatos mortos”, a amiga
chegou a dizer que as aparições eram mais constantes durante a madrugada.
Quando Léo entrou no sótão, Berenice pulou de susto. Não o esperava ali. Mas ao
perceber que era o amigo, ela se acalmou e o chamou para ficar ao seu lado.
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— Eu não vou me enfiar debaixo desse tapete Berê. Pode esquecer! Fico aqui
perto de você, mas não ai debaixo.

— Não diga que não avisei. Ai fora você vai ser alvo fácil para eles.

— Eles quem Berê?

— Os gatos... Os gatos... Eu vejo gatos mortos... Eu vejo...

Léo se acomodou perto de Berenice, mas não tão perto. O cheiro do tapete
lhe incomodava bastante. Tentou conversar com ela, mas era impossível. Ela só
repetia a mesma frase e ficava olhando para os lados. Nas primeiras horas da noite
nada aconteceu e ele acabou pegando no sono.

Pela manhã Léo desceu as escadas correndo à procura de Bia. Nunca havia
corrido tanto na vida dele. Seu corpo doía e as feridas e arranhões que se estendiam
por toda parte, ardiam como fogo. Virando no corredor, avistou Bia que entrava
pela porta que dava para o jardim dos fundos.

— Bia! Bia! – chegou quase atropelando a amiga.

— Minha mãe do céu! O que aconteceu com você? Briga?

— Bia, é verdade! É verdade!

— O que é verdade? Que você brig...

— Bia!!! Me escuta! Eu vi os gatos... Mais do que isso, olha o que eles me


fizeram. Eram estranhos, de olhos vermelhos... Alguns pareciam estar em estado de
decomposição e outros eram muito estranhos, tinham garras afiadas e...

— PARE! PARE COM ISSO AGORA LÉO! – Gritou Bia, interrompendo o


amigo. — Você ficou maluco de vez? No mínimo você se meteu em alguma briga
por causa de um rabo de...

— PARE VOCÊ BIA! – agora foi a vez de Léo interromper a tentativa de


Bia. — Não está reconhecendo essas marcas? São unhadas de gatos e... Caralho,
como isso arde!

Bia olhou para os ferimentos, olhou nos olhos de Léo, suspirou e disse, já
virando de costas e voltando para o jardim:
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— Minha nossa... Tem alguma coisa na água dessa casa. Eu vou embora
daqui, antes que eu fique louca também.

— Mas... Bia... Biaaaa!

Carlos, que esperava por um amigo na porta da sala, olhava assustado para
Léo, que ficou com cara de paisagem enquanto Bia sumia atrás das árvores do
jardim.

— Ei! Acorda Carlinhos! Se estiver com sono, é melhor nem ir para a quadra.
Vamos, estamos atrasados! – Disse-lhe Robson, que acabara de descer as escadas.

— Cara... – ele olhava ora para o amigo, ora para o gato parado na porta dos
fundos — Eu podia jurar que vi aquele gato discutindo com o outro que saiu pela
porta.

— Você quis dizer brigando né? O bichano tá todo detonado, coitado. A


briga deve ter sido feia.

— Não cara... Eu to dizendo que ouvi os dois... Tipo assim... Conversando,


saca?

Robson olhou dentro dos olhos de Carlos, como se procurasse vestígios de


uso de drogas ou algo semelhante.

— Carlinhos, você tá de sacanagem comigo, ou anda usando drogas?

— É sério cara... Eu ouvi... E também vi os dois conversando.

— Na boa... Eu já ouvi de tudo aqui no casarão, mas gatos que falam é a


primeira vez – gargalhou — Anda... Vamos jogar bola!

— Robson... Não é só isso. Eu tenho ouvido gatos miando durante a


madrugada, como se estivessem dentro do meu quarto. E quando me levanto para
procurá-los, não vejo nenhum por perto. Nem do lado de fora da casa.

— Cara, você está usando tóxico! Sai dessa véio!

Quando Carlinhos ia mandar o amigo ir se foder, uma garota baixinha, pele


clara e rosto muito bonito, chegou perto dos dois e interrompeu a conversa.

— Oi! Vocês viram a minha gata por ai? Ela não aparece há cinco dias.
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— Qual? A malhada de cinza? – perguntou Robson.

— Não, aquela azul com listras amarelas... Por acaso eu tenho outra gata?

— Opa! Calma aí! Também não precisa responder assim.

— Ah, vá se foder! – deu as costas e saiu pelo corredor gritando —


Bereniceeee! Bereniiiiice! Berêeeeee! Caralho de gata dos infernos!
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Dominantes
É hora de escrever. Passa da meia noite e minhas mãos estão loucas para criar
uma nova história. Os olhos acompanham os movimentos sobre as teclas e vigiam o
que está sendo escrito. Mas a mente... Ah, a mente. Essa viaja numa velocidade
incrível. Monta cenários, molda corpos e rostos. Lança idéias e sugestões que
percorrem meu corpo até chegar as mãos. Em alguns momentos uma pequena
pausa. Um momento de dúvida para continuar a escrita. Dar uma lida no que
acabou de ser escrito também é válido para retomar o rumo. Ou quem sabe para
mudar a direção.

Mas as minhas mãos praticamente têm vida própria nessas horas. Muitas
vezes imagino um destino para aquela personagem e elas, mãos insanas, acabam
desenhando outro fim. Trocam a vida pela morte, o amor pelo sofrimento...
Esperam, criam, escrevem. Mãos assassinas.

É hora de escrever e elas repetem palavras e frases quando acham que devem.
A mente não concorda a princípio, mas depois se entrega. Ajuda. Melhora. Os
olhos também gostam de olhar para elas, quando estão em seu frenético balé da
escrita. Teclas e mais teclas sendo pressionadas, formando a sua história. Montando
o texto que vai fazer sentir medo ou que vai gerar comentários. Que vai agradar ou
desagradar. Causar admiração ou indiferença.

E o que importa é que elas continuam me dominando. Nesse momento por


exemplo, acho que o texto pode parar por aqui. Pode terminar, pois já não está me
agradando muito. Sinto que não está mais fluindo naturalmente, mas elas não
querem parar. Não deixam. Insistem que se o texto não está bom, ainda pode
melhorar. Dizem que ainda não é hora de parar, pois não estão satisfeitas. Precisam
escrever. Se for preciso, escreverão até sangrar as pontas dos dedos.

Agora elas voltaram ao início do texto, lá na segunda frase e fizeram uma


correção. Eu falava que meus dedos estavam loucos para escrever, mas elas
mudaram a frase. Disseram agora que elas é que estavam loucas para escrever. Estou
lhes dizendo. Não tenho mais controle. Elas não me obedecem. Ou será que sim?
Pelo que vejo, escrevem o que eu estou pensando e...

“Subindo as escadas ele não enxergava nada além de um ponto luminoso no alto.
Tomou aquele ponto como referência para entrar no quarto e por um fim àquela
história. Seus passos pesados sobre as tábuas podres chegavam a criar novas rachaduras
na velha madeira. A respiração ofegante podia ser ouvida a metros de distância.
- 21 -

Quando se postou de frente para a porta, firmou o punho e ergueu o machado. Com a
mão esquerda girou a maçaneta e abriu a porta rapidamente...”

Ok... Já entendi. Vocês interrompem quando querem e estão apenas me


dando a chance de reclamar, por reclamar, não é isso? Devo então aceitar que meus
textos são feitos por vocês e não por mim, correto? Mãos... Devo cortá-las.

“... quando entrou no quarto, viu o escritor debruçado sobre o notebook, tentando
apagar o que acabava de escrever. Atravessou por cima da cama e atacou com toda força.
Partiu o crânio do homem ao meio. Fácil assim, como se corta uma melancia com um
facão. Inacreditável foi ver as duas mãos continuarem a escrever. O texto falava sobre
um homem que tinha medo do que escrevia e de uma força oculta que o guiava por
entre as palavras e frases soltas de um universo ficcional.

Escritores... Devemos matá-los.”


- 22 -

Prognostico
Saiu do consultório médico desolado. Alguns exames teriam que ser
repetidos, mas o prognóstico médico não era muito condizente com a tal esperança.
Com certa dor no peito, de ver um rapaz tão jovem com os dias contados, o
“doutor” lhe deu apenas alguns meses de vida. Ele que nunca ganhara nada em
sorteios, rifas ou loterias, ganhou um lugar entre os raros casos daquela doença
terrível. Um caso em cada milhão de pessoas.

Atravessou a avenida, pegou sua moto que tinha comprado há apenas uma
semana. Um dos sonhos de um jovem de 18 anos. Apenas um de uma lista enorme
que a juventude necessita. Não tinha forças para chorar. Concentrava toda sua
energia na torcida para que fosse um erro do laboratório. Uma troca de nomes, um
erro grosseiro de interpretação do médico. Fosse o que fosse ele nem pensava em
processar ninguém. Só queria viver. Começar a viver.

No caminho de casa tomou todo cuidado possível, pois ainda não acreditava
que aquilo poderia estar acontecendo com ele. Não queria morrer no trânsito e nem
em lugar algum. Não agora. Pensou na carreira que queria seguir, na namorada de
adolescência que sempre amou e que jurou fidelidade para sempre...

Mas ao mesmo tempo pensamentos contrários lhe inundavam a mente. E se


fosse realmente verdade? O que faria? O que viveria nos últimos meses de sua vida?
Viagens, festas, sexo, infidelidade, curtição... O celular toca.

Parou no acostamento do anel rodoviário. Era o “doutor”. Desesperado e


eufórico ao mesmo tempo, o médico lhe dizia: - “Foi um lamentável engano meu
jovem! O encarregado do laboratório acabou de me ligar. Houve uma tro...”

Ops! Hummmm...

Ah... Carretas! Carretas carregadas e desgovernadas não conseguem parar tão


facilmente.
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Puta Que o Pariu


Operário em tempo quase integral, escritor nas raras horas vagas. Escrever era
a única coisa que o fazia se sentir um pouco melhor. Era quando esquecia seus
erros, falhas e má sorte e entrava em um mundo de sonhos. Naquela manhã quando
chegou ao seu posto de trabalho, o fez decidido a por um fim em sua vida repleta de
fracassos.

Antes, porém, resolveu escrever suas últimas palavras, destinadas... à ela.


Pegou seu celular e mandou a mensagem: “Te amo a cada amanhecer. A cada gota de
chuva que cai sobre seu rosto em meus sonhos, onde ainda posso ser feliz. Te amo sempre!
Nunca se esqueça meu amor.”

Esperou por alguns minutos a resposta. Queria receber um último “oi”. A


resposta não veio... Ele suspirou profundamente, retirou as luvas e arregaçou as
mangas do uniforme. Olhou para o sobe e desce da lâmina de corte da máquina e
sentiu um arrepio lhe subir a espinha. Pensou em tudo no dia anterior. Pediu a um
colega que trocasse de lugar com ele, dando uma desculpa de não querer conversa
com o encarregado que ficava ao lado de sua máquina. Ele queria ficar longe da
enfermaria. Não seria um pequeno corte nos pulsos. Deceparia suas mãos e não
haveria tempo para que alguém pudesse salvá-lo.

Olhou mais uma vez para o celular, na esperança de ver uma resposta.
Nada... Deu dois passos em direção a máquina. Um colega ao lado tentou chamar
sua atenção, dizendo para se afastar. Ele ignorou.

Queria ver a morte chegando. Sonhava com ela há várias noites. Tinha
curiosidade de saber como era. Se realmente uma velha senhora vestida de negro, ou
uma jovem mulher linda e carinhosa. Torcia para que não fosse um homem. No
entanto não houve tempo para que ele pudesse vê-la chegar. Quando viu o seu
próprio sangue jorrando em grande quantidade e suas mãos rolando para o outro
lado da prensa, sendo completamente esmagadas por 15 toneladas de pressão,
acabou desmaiando. Nunca pode com sangue.

...

Ouvia vozes... Música... Respirava lenta e calmamente. Por um momento


pensou que era mentira aquilo que aprendera nos livros de espiritismo. Diziam que
os suicidas tinham um triste fim. Estava se sentindo bem. Confortável. Podia sentir
uma leve brisa em seu rosto. Ao contrário do calor prometido de um inferno de
arrependimentos, sentia até um pouco de frio. Antes de abrir os olhos, sorriu.
- 24 -

Pobre coitado. Justamente naquele dia em que decidiu se matar daquela


forma horrível, uma equipe de paramédicos, equipada inclusive com uma UTI
móvel, estava fazendo uma demonstração de primeiros socorros na grande fábrica.

A única frase que lhe veio à cabeça: - Puta que o pariu!


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Entao Era Natal


Eu queria fugir de tudo e de todos naquele dia. Trocar de vida, me
transformar em alguém que nunca fui. Ser corajoso, ter garra. Impor minhas
vontades e me colocar em um lugar de destaque na vida das pessoas. Principalmente
na vida dela...

Abandonei praticamente todos os sonhos que ainda me restavam depois de


mais de trinta anos de fracassos e decepções, apenas para amá-la. Disposto a seguir
seus passos onde ela fosse. Mas o mínimo de desejos pessoais, planos e carências eu
ainda mantinha. Mas isso nem sempre era levado em consideração. Acho que nunca
foi... Ou talvez algo tenha mudado em algum momento de nossa história. Sua vida
seguia conforme seus planos, apenas de acordo com os seus planos.

Amor... O tão sonhado amor. Tão procurado, tão exaltado por poetas e
escritores. Cantado em lágrimas por músicos e por pessoas comuns, no chuveiro, no
trabalho... Na vida. Acho que eu estava me cansando desse tal amor. Talvez,
cansando, não seria a palavra mais correta. Acho que desistindo seria o mais certo.
Sabe... Na verdade, a palavra eternizando também se encaixaria. Confuso isso não?
Tentarei explicar. É que cheguei ao ponto de amar tanto, que todo o sofrimento
por qual havia passado se transformou em anestesia. Comecei a aceitar coisas e fatos
sem me importar com os efeitos e consequências. Voltei a viver a vida de outra
pessoa, apenas esperando o dia em que tudo terminaria. Era certo. Mais do que
certo que tudo terminaria um dia. Os sonhos dela falavam muito mais alto que o tal
amor. Estávamos vivendo partes de uma longa despedida. Mais dia, menos dia, o
adeus chegaria. Tentei viver aqueles meses de forma a aproveitar cada segundo ao
seu lado. Juras de amor cruzavam nossos olhares. Juras de amor eterno. E sinceros.
Cada lado ao seu modo. Eterno seria o sentimento, contrapondo-se a proximidade
do término do relacionamento. Era só uma questão de tempo. Não fosse num
próximo concurso ou proposta de trabalho, seria na seguinte, ou na outra... Ou
meses depois. Mas estava escrito que ela seguiria o seu caminho passando por cima
de todo o seu sentimento por mim. Atropelando a saudade, o desejo e até mesmo o
prazer que sentia ao ficar deitada, nua, em silêncio, de olhos fechados apenas
recebendo meus carinhos e meus mimos.

Naquele dia de Natal eu entendi porque meus dias anteriores estavam tão
tristes e cinzentos. Não eram somente as nuvens de chuva que eu avistava pela
janela. E o arrepio nos pelos dos braços não eram causados pelo vento frio que
soprava em meu corpo. O que eu estava sentindo por perto era a morte de mais um
sonho. O de viver ao lado dela. De fazer parte de sua vida, não como coadjuvante,
- 26 -

mas sim como um dos protagonistas. E se era realmente amor o que eu sentia,
estava na hora então de desistir de tudo e deixar que ela fosse feliz. Deixar que ela
alçasse voo, livre de mim. Livre de preocupações práticas de uma vida a dois. Por
isso estava ali, vivendo aquela longa despedida. Dando adeus aos poucos. Trocando
sorrisos por lágrimas a cada despedida. Vivendo a felicidade ao seu lado e a tristeza
em sua ausência.

Até aqui, o leitor deve estar pensando se tratar um lamento piegas de um


romântico frustrado. Mas o que relato a seguir vai mudar o contexto. Aconteceu na
noite de Natal, quando decidi que eu também era alguém. Quando resolvi mostrar
quem eu realmente era. Até então, em nome daquele amor, daquela paixão insana,
eu havia me escondido. Tinha guardado para mim toda essência daquilo que eu
sempre fui e não poderia mostrar a ela, nem a ninguém.

Não sei o leitor acredita em vampiros, lobisomens, monstros do pântano ou


mitos semelhantes. Se você é fã desse tipo de leitura talvez tenha se empolgado
agora, achando que finalmente vai ler algo interessante. Se você é leitor de romances
ou de qualquer outro tipo de literatura e não acredita nessas criaturas, deve estar
pensando: perdi meu tempo lendo mais uma baboseira.

A bem da verdade você talvez tenha realmente perdido seu tempo lendo uma
baboseira, mas não é o caso de acreditar ou não nessas criaturas, pois não sou
nenhuma delas. Ou talvez seja um pouco de cada.

Naquela noite de Natal, antes mesmo da meia-noite, peguei o meu carro e


parti. A cada maldito quilômetro que nos separava, eu pesava os prós e os contras
daquilo que estava planejando fazer. A Lua cheia iluminando a noite me trazia
fome. Fome de carne humana. O vento gelado que entrava no carro por uma fresta
na janela alimentava minha sede por sangue. O amor eterno que eu jurei a ela, aos
poucos se desenhava em minha mente com outra roupagem. Ele poderia se
transformar em realidade. Mortos. Nós dois. Mortos. Eternamente lado a lado.
Tentei controlar meus instintos, mas a cada lembrança de tudo aquilo que eu já
tinha passado por ela, eles se tornavam ainda mais fortes. Já estava ficando
irreconhecível. Olhei pelo retrovisor e meu rosto estava quase totalmente tomado
por mim mesmo. Por aquilo que sempre fui.

Na entrada de uma cidadezinha na beira da estrada, uma puta levantou a


saia. Parei o carro. Ela era simplesmente horrível. Mas quando estamos com muita
fome qualquer carne tem o mesmo gosto e nem sempre o prato precisa ter uma
apresentação agradável aos olhos. Cerca de dez quilômetros depois da cidade, eu
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parei o carro e joguei o seu corpo no mato. Para uma mulher tão feia, ela até que
tinha seios muito bonitos... E bem gostosos, literalmente falando. Quando passei
em frente ao posto policial tive medo de ser parado. Não teria como explicar o
sangue no banco do passageiro e também em minhas roupas. E muito menos aquele
mamilo que acabará de ver sobre o painel do carro – não consegui mastigar. Parecia
chiclete.

Não fui parado e segui meu caminho, disposto a por um fim em tudo, para
iniciar novamente juntos, sem nada mais que pudesse atrapalhar os meus sonhos.
Sim, os meus. Não queria mais viver os sonhos de outra pessoa. Era a minha hora e
eu passaria por cima de tudo e de todos para realizar a minha vontade. Parei num
posto de gasolina para ir ao banheiro e tentar esfriar a cabeça com um pouco de
água fria na nuca, pois eu já não estava tendo controle sobre meus reflexos ao
dirigir. Mas o que aconteceu ali naquele lugar foi algo que chocou até a mim
mesmo.

Não consegui me conter ao ver aquele cachorrinho peludo, tão simpático e


desprotegido. As pessoas ao redor gritavam revoltadas. Mulheres enojadas saíram de
perto. Outras vomitaram sobre seus lanches e refrigerantes. Eu ria. Eu gargalhava ao
despedaçar aquele bichinho tão inocente com as minhas próprias mãos. Ah, como
foi excitante fazer aquilo. Talvez nem tanto quanto foi devorar os seios daquela
puta, mas ali eu tinha platéia. Eu era o centro das atenções. Era o ator principal e
não somente um coadjuvante. Quando dois homens vieram em minha direção com
uma barra de ferro nas mãos, mostrei minhas garras. Afiadas e sujas de sangue. Um
deles desistiu da investida. O outro, um tolo... Idiota do caralho, me fez matar
novamente. Se eu não estivesse ainda com o estômago cheio da refeição na estrada,
eu teria comido um pedacinho das tripas que lhe arranquei. Mas minha mãe havia
me ensinado que comer por gula era pecado.

Resolvi voltar para o carro e partir, como se nada tivesse acontecido.


Caminhei tranquilamente, pedi licença a uma senhora que estava perto da porta e
entrei. Ouvi gritos por todos os lados, mas eu atingi um nível tão grande de êxtase
que não me permitia distinguir as palavras. Soavam como blá blá blá e eu girei a
chave na ignição. Quando engatei a ré e olhei pelo retrovisor, a imagem daquele
carro da polícia estacionado ali atrás me fez sorrir. Eu pensei no quanto eu fui
estúpido e distraído. Não tinha visto a viatura antes. E muito menos os policiais
armados na frente do meu carro. Um deles ainda estava com a boca cheia,
mastigando o seu pão com mortadela, enquanto mirava a minha cabeça. Sim, eu vi
um pedacinho da mortadela no canto da boca. É... Eu sei. Difícil acreditar que no
meio dessa confusão toda eu me ateria a esses pequenos detalhes, mas eu sou assim.
- 28 -

Segurando o volante e olhando minhas mãos, pensei nela. Pensei novamente


que eu a amava demais. E que eu não tinha o direito de privá-la de seus sonhos. Era
hora de desistir. Lembrei de seus beijos, do seu corpo nu sobre o meu. Olhei ao
redor. Estava cercado de pessoas revoltadas e quatro policiais armados. Eu poderia
me entregar. Ser preso e viver pensando nela o resto da vida. Mas era Natal... Então
eu me dei um presente especial. Levantei o dedo do meio na direção do policial
com a escopeta, troquei de marcha e acelerei o carro na sua direção. Não sei ao
certo se eu o esmaguei primeiro contra a parede, ou se ele atirou antes. Ele quebrou
as pernas. Nada demais.

Eu? Bem... Eu estou livre. Caminhando pela estrada, sem pressa, sem rumo.
Brincando com um pedacinho de osso do meu crânio, que peguei no chão no posto
de gasolina. Caiu quando os caras colocaram meu corpo no rabecão, junto com a
sacolinha com os pedaços do meu cérebro e rosto.

Ela agora vai seguir o seu caminho e ser feliz. E eu vou vivendo essa nova
vida, cheia de novidades e mistérios. A cada quilômetro eu vivo o meu castigo. A
cada cem passos eu me transporto daquilo que vocês chamam de inferno até as
lembranças que me fizeram feliz ao lado dela. Depois retorno ao inferno com um
sorriso no rosto, certo de que vou cumprir minha promessa, de amá-la eternamente.

Piegas, não?
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Nao Sou um Monstro


Ela me achou em meio aos livros. Numa tarde de um dia qualquer, se
aproximou de mim. Reconheceu-me de uma publicação. Escrevo. Faço das palavras
e frases, colchas de retalhos não coloridas. Tons de cinza e pedaços negros de
tecidos, feitos de fios de imaginação. Sangue e espíritos sempre foram minhas
preferências, embora não me faça de rogado diante de qualquer tema. Pode parecer
a princípio, que eu seja convencido ou que “esteja me achando”, mas garanto-lhes
que não se trata disso. Apenas não tenho medo das escritas. E somente das escritas.

No começo fui encantado pelas mesmas virtudes ou dons. As palavras. E


talvez não há ninguém melhor que ela, para proferi-las. Seja falada ou escrita,
embora sua naturalidade com as letras jogadas em meios literários seja muito mais
destacada. Teus olhos chegaram até mim com um brilho de novidade. Com ar de
encanto e descoberta. A voz trouxe um tom de maturidade. Em pouco tempo estava
em teu colo.

As tardes de caminhadas no parque nos inspiravam a desenhar os mais belos


poemas. Enquanto que nas manhãs de passeios de barco, ao som das cores do mar,
rabiscávamos o pudor, sobrepondo-o com as mais devassas fantasias sexuais. Mas
em pouco tempo as coisas foram tomando outra forma. Aquela mulher quase
perfeita mostrou teu corpo frio. Tuas mãos tocavam minha nuca com a brancura do
pólo norte. Mantinha-se distante por vezes, a ponto de não me ver à sua frente.
Meu sorriso ardia. As roupas se soltavam ao vento. A via nua de preconceitos, mas
também de culpas. Mas eu não era visto por ela da mesma forma. Em alguns
momentos, seu olhar sobre mim era de estudo. Teses.

Então aconteceu.

Não sei como, mas um dia acordei preso a certas correntes. Meu corpo
jogado em um calabouço de estranhas sensações. De um lado o característico
cenário de um lugar como esses: podridão, escuridão e umidade. O ar pesado da
tortura do tempo invadia minhas narinas, enchendo meus pulmões de bactérias.
Atrás de mim, um ambiente puro. Paredes pintadas de um verde claro quase
balsâmico. Uma brisa fresca batendo em meus cabelos e costas, trazendo um pouco
de esperança. Se movesse minha cabeça levemente para a direita, era capaz de
escutar Brahms. Sem muita precisão, poderia dizer que era um concerto para
violinos. Voltando-me novamente para frente, a composição era permeada pelo som
de gotas e ratos.
- 30 -

Fui julgado. Ou talvez justamente o contrário. Não tive veredicto. Mas ainda
assim era estudado. Observado.

Monstro.

Em poucos dias depois de estar nesse lugar, vi meus pés sendo cobertos por
escamas. As unhas enegrecendo e tornando-se afiadas. O mesmo acontecia com
minhas pernas, aos poucos. Minhas coxas ainda não tinham sido tomadas por tal
revestimento. Ainda sentia frio em meu corpo nu. Certa noite, minha garganta
começou a coçar. Tentei pigarrear. Tentei ouvir minha voz e apenas sons guturais
brotaram de dentro de mim. Senti meus lábios enrijecerem. Me veio em mente um
de meus contos, onde um homem lagarto era um terrível raptor de mulheres, afim
de que elas lhe servissem como parideiras de sua prole. Mas ali eu era o prisioneiro.
Na manhã seguinte, confirmei quase sem espanto, a minha condição. O sol
iluminava parte de meu tétrico lar provisório e abaixo de mim (comentei que estava
pendurado com as mãos presas?), o reflexo na poça de urina me mostrou no que me
transformei.

Em algumas poucas horas no dia, sentia sua presença atrás de mim. Como se
ela mesma tocasse os violinos. Todos ao mesmo tempo. Remédio para minhas
dores. Lavagem cerebral para que não me revoltasse.

“Não sou um monstro...” – eu dizia com certa carga de amargura na voz.

“Nunca disse que era” – a resposta chegava numa voz doce, carregada de
dúvidas.

Fim de algumas semanas.

Senti meu corpo mais forte. Estava tomado por completo por essa criatura
que me veste. Foi quando ela ficou diante de mim, na parte suja. Pegou uma
enorme chave enferrujada e abriu os cadeados.

“Você está livre. Não preciso mais observá-lo. Não vejo porque ficar mais
com você.”

“Agora que me tornei... isso?”

O silêncio calou os violinos. Exterminou os ratos e tapou as goteiras.

Nosso olhar se cruzou, entornando lágrimas e trevas. “Eu não era um


monstro”, eu repetia baixinho. “Nunca disse que era” – vinha novamente a mesma
- 31 -

resposta automática. E simplesmente, como se desliga um aparelho eletrônico, ela


virou as costas, pediu desculpas e disse adeus.

Meus braços ainda formigavam. Senti o gelado líquido que me tomava as


veias. Minha língua, agora bi-partida, sentia no ar o perfume de sua inocente
maldade. Antes que a porta se fechasse, ela olhou para trás. Sorriu suas lágrimas. No
final do corredor, pude ver através da fresta da porta, outro homem. Ele carregava
arrependimentos. Levava palavras fúteis e decoradas. Era seu retorno.

Pedi um último olhar.

“Eu não sou um monstro... Abrace-me!”

Violinos. A brisa. Minhas garras.

Bebi seu sangue até a última gota.

Sempre fui um psicopata das letras.


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Motivos Para Esquecer


No espelho do banheiro estava escrito com batom: Eu sempre te amei. Seus
olhos vidrados na frase, nem se davam conta da sua própria imagem refletida. Não
conseguia perceber seus olhos fundos, a cor pálida, cabelos despenteados e um olhar
perdido no passado. Estava parada ali há horas. Em cada letra, em cada pedaço
coberto pelo batom, existia um momento de alegria, um instante de tristeza,
passagens rápidas por fases de sua vida juntos. Do dia em que se conheceram até o
dia anterior. O único dia de todos, que ela queria apagar da memória. Talvez fosse
isso que ela estivesse tentando fazer naquele momento. Mas tentava em vão...

Uma briga de casal. Uma briga idiota como outra qualquer, como todos os
casais. Dessas incontáveis discussões que não levam a lugar nenhum e que sempre
retornam de tempos em tempos. Um bom dia, um beijo e uma brincadeira
inocente. Aquele dia teria começado como todos os outros dias perfeitos que eles
sempre tiveram, não fosse um detalhe. Um único e pequeno detalhe: a perda do
controle.

Sua cabeça agora começava a doer. Ela não se lembrava mais do motivo da
briga. Tentou relembrar todos os passos daquele dia, mas algo parece ter bloqueado
sua mente. Lembrou de tudo que aconteceu desde que acordou naquela manhã.
Lembrou-se de gritos, portas batendo, ironias, lágrimas... Mas o motivo de tudo
aquilo ter acontecido se perdeu. Por um instante tirou os olhos do espelho, olhou
para o quarto e viu as colchas jogadas ao chão. O lençol fora do lugar e roupas
jogadas pelo quarto. Sorriu ao se lembrar de como ele a pegou na cama, após terem
feito amor, fazendo muitas cócegas em sua barriga.

Perto da porta, ao lado da cômoda, ela viu o porta-retratos caído, com o


vidro quebrado. Era sua foto de casamento. Caiu quando ele derrubou a porta do
quarto e ela foi lançada sobre a cômoda. E a porta nem estava trancada na hora. Por
algum motivo, ele deve ter pensado que estava e já subiu as escadas com o intuito de
entrar a qualquer custo. Seus olhos estavam vermelhos como nunca haviam estado
antes. Ele arfava e chegava mesmo a babar pelos cantos da boca. Ela nunca teve
tanto medo dele como na noite anterior. Depois de derrubar a porta, ele ficou
olhando-a por alguns segundos. Ela chorava em silêncio. Abraçando suas próprias
pernas, se encolheu no canto do quarto, quase se enfiando debaixo da cama. Ele
estava muito nervoso, totalmente fora de controle. Suas garras estavam
completamente esticadas e suas veias do pescoço pulsavam de tal maneira que era
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possível ver de longe os movimentos e era quase audível o som do sangue que por
ali corria.

Ela voltou seu olhar para o espelho e novamente leu: Eu sempre te amei.
Ainda não conseguia se lembrar porque a briga começou. Abaixou a cabeça, deixou
seu corpo escorregar pelos azulejos e ficou de cócoras no chão, segurando os cabelos
e deixando que as lágrimas novamente corressem por seu rosto, enquanto lembrava
os últimos passos de seu amado.

Ele estava incontrolável daquela vez. Ninguém conseguiria detê-lo... A não


ser ele mesmo. Depois de quebrar a TV com as próprias mãos, ele arrancou a porta
do guarda-roupa, abriu uma de suas gavetas e pegou um revólver. Tirou todas as
balas. Olhou fixamente para ela. A voz não saia e ela não conseguia implorar que ele
não fizesse aquilo. Tentava mover-se, sair dali daquele canto, pular em cima dele
para tomar a arma, mas era como se ele mesmo estivesse controlando seu corpo. Era
o que ele queria. Que ela ficasse paralisada. Depois de jogar várias roupas pro alto,
encontrou o que estava procurando.

Ela ainda não tinha tido coragem de olhar. Desde que tudo aconteceu, ela
não conseguiu olhar para o lado, perto do vaso sanitário. Então tomou coragem,
respirou fundo primeiro olhando para o teto e foi lentamente virando a cabeça em
direção ao corpo caído no chão, agora já sob a forma humana. Sem vida, sem raiva,
sem ódio, sem medo. A bala de prata atravessou seu peito e conteve sua fúria.

Ele preferiu não machucá-la.


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Nao Estou Sozinho no Escuro


Falta energia há algumas horas. Já anoiteceu e o céu está nublado. Chovia até
agora há pouco e ainda ouço os carros passando sobre o asfalto molhado da avenida.
As velas acabaram e não me resta outra coisa a não ser me deitar e aproveitar os
poucos minutos que ainda me restam de bateria no notebook. Não fosse pela luz da
tela, estaria completamente escuro aqui no quarto.

Ouço o som macabro do vento nas arestas da janela. O som dos carros
começa a diminuir e estou com uma sensação estranha. Acho que não estou sozinho
aqui dentro. Sinto a presença de alguém. Eu percebo que alguém entrou na minha
casa. Mas não escutei nenhum barulho de porta, chaves ou mesmo de janela se
abrindo. O vento uivou mais forte dessa vez e escutei o barulho de uma latinha
rolando na rua. Um carro passa... Tem alguém aqui dentro.

Tento me mexer, mas não consigo. Minhas pernas não se movem. Escrevo
para tentar disfarçar uma pequena lasquinha de medo que começo a sentir. A
sensação de que alguém se aproxima está aumentando. Parece que está no quarto
agora... Meu Deus! Sinto a cama afundando ao meu lado. Como se alguém estivesse
deitado comigo... A lasquinha de medo agora é um bom pedaço incômodo de
pavor. Ainda não consigo mexer minhas pernas e tenho medo de olhar pro lado. No
entanto não consigo eliminar as imagens periféricas. Pelo canto do meu olho, eu
vejo uma sombra se aproximando de meu ouvido... Meu Deus!!! Estou com medo!
Com muito medo... Não consigo falar ou gritar. Só me resta escrever...

A sombra... Agora começa a tomar forma. Não vou mover meu rosto... Não
vou. Não quero! Mas... Não adianta. Vejo um olho... A luminosidade da tela do
notebook está refletindo no rosto feminino que vejo ao meu lado. Ela tem olhos
negros...

Minha Nossa!!! Eu senti... Por Deus, eu juro que senti o toque gelado de um
nariz em meu rosto. Estou tremendo... Tenho que voltar várias vezes para corrigir o
que escrevo. Meus dedos estão... Meu Deus! A sua mão... Ela vai me segurar. Tem
unhas compridas, parecem pintadas de preto... Não, é roxo... Deu pra ver agor...

Ela me tocou... Meu coração está disparado. Estou tremendo cada vez mais,
mas não consigo parar de escrever. Socorro... Alguém... Me ajudem... Ela beijou
meu rosto. Um beijo frio, muito frio. Me arrepiei por inteiro. Acho que... Acho que
vou me virar. Espere... Agora que reparei que... Minha mãe do céu! Não tem
nenhum corpo ao meu lado... Na posição em que está o rosto e a mão, tinha que
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dar para ver o corpo deitado e eu o sinto afundando a cama perto de meus pés
também. O que será isso meu Deus?

Vou me virar...

Esse texto estava na tela do computador de um homem encontrado morto em sua


casa, por volta das 21:20h do sábado, dia 18 de outubro de 2008. Seu corpo estava
completamente seco. Sem água, sem sangue... Nada. Apenas pele e osso. Curiosamente, os
olhos estavam arregalados. Os legistas não encontraram nenhuma explicação lógica para
o acontecido. O lençol estava com pequenos rasgados, causados muito provavelmente
pelas unhas do homem, que deveria estar apavorado no momento em que se deparou
com essa... “coisa” descrita por ele. A polícia não encontrou sinais de arrombamento na
casa. A porta estava trancada, as janelas fechadas e os cachorros no quintal, quase
mortos de fome e sede.

Um fato intrigante é que o homem nos conta que estava sem energia em sua casa
e que ele estava utilizando as baterias do notebook. Mas os vizinhos dizem que não
faltou luz naquele dia. E quando entramos em seu quarto, o computador estava ligado,
usando a tomada como fonte de energia. Conferimos na companhia de luz e não houve
registro de chamada ou de reparo na rede elétrica da rua, ou mesmo da casa.
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Tabuas e Potes de Vidro


“I Never Dreamed” do “Black Label Society” toca agora...

O tempo nublado e ao mesmo tempo abafado remexe minha memória e


sinto os pulsos cortados. O sangue escorria de meus braços naquela noite em que
resolvi deixar que o amor, sentimento altamente destrutivo, morresse dentro de
meus poros. As noites de depravação e tortura que se seguiram então são hoje
pinturas abstratas escorrendo tinta pelas paredes do meu ego. As vitimas que fiz, ou
melhor que tomei para mim, foram as mais belas insanidades de tons rubros. Meu
estranho ritual de abrir as ataduras e fazer correr novamente meu sangue sobre os
cadáveres era a sensação mais próxima que eu tinha em relação a prazer...

“Fire it up”... ainda “Black Label Society”... Essas guitarras mais roucas e
pesadas me lembram o êxtase com que eu arrancava os corações e olhos daquelas
pessoas. Sem olhos para se encantarem pelo físico e sem o coração para sentir aquela
maldita palpitação que nos faz tremer o corpo quando achamos que encontramos a
pessoa certa, não haveria mais amor. Sem amor eles não se destruiriam. Sei que isso
parece contraditório, mas eu os libertei de um erro. O maior de todos...

A mistura ficou até interessante em minhas estantes. Olhos azuis, verdes,


castanhos e até vermelhos (obviamente com lentes coloridas que não quis tirar) –
jovenzinhos metidos a vampirinhos da moda. Os corações estão etiquetados com os
nomes das pessoas por quem se apaixonaram. Procuro organizá-los em ordem
alfabética, pois sempre fui muito chata com essas coisas. Mas não tenho
identificação para os olhos. Não sei porque, mas nunca quis. Talvez porque tenho
medo de me apaixonar. Talvez porque eu prefira vê-los apenas como pequenas
bolinhas coloridas.

Tive que parar por um tempo. A polícia chegou perto de me capturar


quando comecei a usar a internet para marcar encontros virtuais. Mas tenho sede.
Tenho fome. Me falta prazer e preciso voltar às ruas. As pessoas precisam de
salvação. Não usarei mais a internet. Enviei alguns currículos e fui aprovada em
alguns lugares. Começarei por uma conceituada empresa que oferece preparativos
para o mais feliz dia da vida de dois pombinhos apaixonados. Terei em minhas
mãos todos os dados necessários. Endereços, horários de ensaios... “Suicide
Messiah”, acho que não preciso mais falar sobre a banda.

Agora preciso ir. Tenho que comprar mais tábuas para novas estantes e
bonitos potes de vidro que vi numa feirinha de artesanato. Logo minha coleção
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aumentará e ainda preciso dar um jeito de roubar mais éter do hospital de meu
pai...

“Rasteje através das chamas que comem sua carne. Afogado nas águas que
conhecem você melhor. Pode entrar eu tenho esperado por você aqui. Nos seus joelhos,
onde você deve rastejar. Voando tão alto você nunca vai cair. Pode entrar nos
esperávamos você aqui. Curve-se, você fez sua escolha. Ele nunca da, ele sempre pega. A
queima elétrica que alimenta o fogo. É apenas seu messias suicida...” (Black label
society)
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O Desertor
Lucius, como era conhecido entre os vampiros, era na verdade Mário Lúcio.
Tinha 34 anos quando foi mordido por seu próprio tio Demétrius, que optou por
manter seu nome mesmo depois de se tornar um dos mais terríveis vampiros de sua
geração. Lucius sempre teve idéias revolucionárias quando ainda era um simples
funcionário público. Vivia se metendo em confusões com sindicatos e associações. E
esse ímpeto rebelde não mudou depois que deixou de ser um mero mortal.

Há algumas décadas vinha amadurecendo a idéia de que a raça de


sanguinários – como ele mesmo gostava de denominar seus semelhantes – deveria
ser exterminada, ou no mínimo levada a quase extinção. Achava que a matança e a
“contaminação” já haviam fugido ao controle dos mestres há muito tempo.
Encontrar vampiros que partilhassem de suas idéias não era tarefa fácil. Tentou por
alguns anos arrebanhar seguidores, mas acabava por ter que destruí-los quando
percebia que estavam a ponto de denunciá-lo. Desistiu do suposto exército rebelde e
passou a agir sozinho, usando como armas fatais: traição e emboscadas. Era mestre
na arte da conversa e dissimulação. Mais do que a grande maioria dos vampiros.
Sempre foi fácil atrair suas vítimas para a morte definitiva.

Desde que começaram a correr boatos sobre um traidor entre os vampiros,


ele não teve mais residência fixa. Tinha medo que alguma eventual testemunha
ocular não percebida por ele pudesse por tudo a perder. Se escondia cada semana
em um lugar diferente. A metrópole era grande o suficiente para abrigá-lo em
dezenas, talvez centenas de porões, sótãos, depósitos e buracos imundos, sem que
houvesse necessidade de repetir o mesmo local. Dois dias atrás, num final de tarde,
ele ouvira vozes no galpão onde estava morando provisoriamente. Homens falavam
em reativar a fábrica. Escondido num banheiro escuro, ele decidiu que era hora de
partir. Iria para um albergue. Precisava de um banho, que há dias não tomava.

Apesar de sua rebeldia contra a própria espécie, era obrigado a se alimentar,


como qualquer vampiro. Tinha uma peculiar visão do que era fazer justiça. Escolhia
presídios ou locais onde poderia encontrar criminosos de toda estirpe. Se for para
matar em nome de sua sobrevivência, que fossem sacrificados os piores indivíduos
da espécie humana. Depois de satisfazer sua sede, ele os decapitava e incinerava os
corpos, evitando assim que se tornassem novos sanguinários. E lá estava ele,
admirando a tocha humana diante de seus olhos, enquanto com um lenço, limpava
os cantos da boca. Um vento gelado entrava pelo basculante daquele barraco
imundo, cheirando a mofo e carne queimada. Seus cabelos compridos pareciam
dançar um balé desencontrado, no ritmo do sopro frio do vento em suas costas e do
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bafo quente do fogo à sua frente. Quando percebeu as chamas lambendo aquilo que
um dia fora um par de cortinas na janela, decidiu ir embora. Que o fogo
consumisse tudo. Pouco lhe importava. Antes de sair, ainda pegou alguns papelotes
de droga que estavam sobre a mesa. Um pouco para uso próprio. Um pouco para
servir de isca.

Nessa mesma noite, antes de sair do albergue para sua refeição rápida, pegou
em sua mochila uma caixinha de madeira onde guardava algumas recordações. Na
verdade, era apenas um disfarce para o seu registro de mortos. Fazia pequenas
marcas com canivete, no interior da caixa e também em sua tampa. Sua memória
não era boa para números. Então registrava na tampa, através de uma combinação
de riscos horizontais e verticais, o número de vampiros destruídos. As iniciais de
seus nomes eram marcadas no interior da caixa. Com o passar dos anos, ficou tão
confiante no sucesso de suas missões quase semanais, que passara a escrever as
iniciais e a aumentar a contagem de mortos antes mesmo de iniciar a abordagem
das futuras vítimas. Abriu seu canivete e fez a ducentésima trigésima quarta marca
na tampa. No interior da caixa, fez um minúsculo “D”. Era hora de acertar as
contas com o titio.

Sexta-feira. Demétrius com certeza estaria em uma das danceterias da área


nobre da cidade. Só se contentava com mulheres lindas e de preferência novinhas.
Fazia delas suas escravas sexuais até se cansar, o que se dava geralmente depois de
duas ou três semanas. Depois disso as abandonava a própria sorte. Lucius sabia que
seu tio não era presa fácil como tantos idiotas que ele havia despachado para o
inferno. A aproximação deveria ser feita com muito cuidado e paciência. Já não o
via há meses. Não poderia simplesmente aparecer do nada e lhe oferecer drogas ou
alguma preciosa informação, argumentos utilizados por ele para atrair suas vítimas
para as armadilhas.

Não seria difícil encontrar seu tio. Bastava prestar a atenção em carros esporte
importados, rodeados de vampiras patricinhas. Em poucos minutos de caminhada
Lucius viu um BMW conversível com três mulheres ao redor e uma em seu
interior. Era Karime. Uma das favoritas de Demétrius. Das que ele nunca
descartava. Atravessou a rua com olhar fixo na garota, que imediatamente percebeu
estar sendo observada e voltou-se para Lucius.

— Karime...

— Lucius, você por aqui. Anda sumido rapaz.


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— É... Andava meio entediado com essa coisa de badalações, festas,


barulho...

Lucius detestava música eletrônica. Achava que não passava de um monte de


barulhinhos irritantes com uma batida maçante para acompanhar. Preferia os
clássicos.

Passando a unha do dedo indicador no rosto de Lucius, com uma leve


pressão, Karime questionou se Demétrius sabia que ele estava de volta.

— Acredito que não, mas o que há de errado? Não posso mais passear pelo
seu território? Rever a... Família? – perguntou com ironia.

Karime se ajoelhou sobre o banco do passageiro e se aproximou de Lucius,


parado ao lado da porta. Os olhos vidrados da sedutora sanguinária o encararam e
seus lábios quase tocaram os dele. Vagarosamente, passando a ponta do nariz em
seu rosto, ela chegou até seu ouvido esquerdo e sussurrou:

— Por que não pergunta diretamente a ele?

Ela se afastou, olhou de soslaio para sua direita, dando a entender que
Demétrius estava se aproximando. Ficou parada, encarando Lucius. Ela o devorava
com os olhos. Ele não se fez de rogado e também demorou a desviar seu olhar.
Notou que a cada década ela parecia estar mais linda e sensual. Porém algo em seu
olhar dizia que ela estava diferente. Não era a mesma Karime de anos antes. Tinha
algo de perverso em seu doce tom de voz.

— Ora vejam só! Meu querido sobrinho!

— Demétrius... – Lucius meneou a cabeça.

— Meu Deus... Opa... Força de expressão – Demétrius riu sozinho de sua


piada — Quanta formalidade! Me chame de tio, ora essa.

— Você sabe que não sou dado a esse tipo de tratamento – disse Lucius,
tentando disfarçar com um sorriso a sinceridade com que falava aquilo.

Depois de uma gargalhada que ecoou pelo quarteirão, Demétrius chamou


Lucius para a sua casa. Iam dar uma festa para receber as novas amigas que trazia
com ele.

No carro foram Demétrius, Karime, Lucius e as duas novas vítimas de seu


tio. Na mansão a festa já havia começado bem antes deles chegarem. Mulheres
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seminuas pulando de colo em colo, rindo e bebendo. Duas ou três trepavam ali
mesmo no salão principal. Demétrius passou por uma dessas, puxou-a pelos
cabelos, arrancando-a de cima do homem que a penetrava.

— Eu não lhe disse que essa noite você deveria se guardar para as minhas
novas amigas?

— Eu só estav...

— Estava porra nenhuma! Já para cima e leve essas duas com você. Vá para o
seu quarto, pois o meu receberá um convidado especial. E não vá se servir antes de
mim... Não ouse!

As três seguiram até o fim do salão e subiram a grande escadaria forrada com
tapetes cor de vinho. Demétrius virou-se pra Lucius e quase sussurrando lhe disse ao
pé do ouvido:

— Não sei o que diabos você está querendo e por que resolveu aparecer
depois de tanto tempo. Depois conversaremos melhor. Só quero que saiba que não
sou nenhum idiota. Por enquanto, divirta-se...

E olhando para Karime, Demétrius completou:

— Com quem quiser.

Uma ponta afiada de gelo parecia ter corrido pela espinha de Lucius. Não
gostou daquilo. Seria mais difícil do que ele pensara. Seu tio já se armara todo.
Talvez o melhor caminho seria aproveitar a primeira chance e agir de surpresa. Para
isso usaria Karime. Sabia das perversões de seu tio. Se fosse para cama com ela,
certamente mais tarde Demétrius apareceria para a “festa” e provavelmente muito
bêbado. Era sua chance.

Já no quarto, Karime serviu um pouco de Absinto e Lucius provou o


delicioso corpo daquela a quem sempre desejou. Nem o absinto era capaz de lhe dar
tanto prazer e excitação quanto aquela boca macia, com dentes perigosamente
afiados. Por alguns minutos ele desejou que Demétrius não mais aparecesse no
quarto. Queria que aquela noite fosse eterna.

Cerca de uma hora depois, como previsto por Lucius, Demétrius apareceu no
quarto. Karime estava sentada na beirada da cama, nua e ainda suada. Em seu colo,
o notebook aberto. Demétrius se aproximou para ler o que ela escrevia. Na tela, a
palavra eliminado foi surgindo aos poucos, ao lado do nome de Lucius. Em seguida
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um clique e a confirmação: Documento “Lista dos Prováveis Traidores” salvo com


sucesso.

Ao lado da cama, perto da cômoda, a cabeça de Lucius esbarrava na calcinha


de Karime. Antes de sair, Demétrius beijou-a na testa e resmungou:

— É realmente uma pena... Eu gostava desse lençol.


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A Torneira
Tudo começou com a torneira da pia da cozinha. Quando a fechou, um
filete de água insistiu em sair. Ele então girou mais forte a torneira e escutou um
estalo. Ela abriu novamente jorrando a água com toda força. Novamente ele a
fechou e dessa vez tomou mais cuidado, usando de menos força para fechá-la.
Outra vez o filete de água. Bem devagar, ele girou a torneira até o final. Cessou.

Naquele dia recebeu a notícia de que um dinheiro que deveria receber não
havia sido depositado. Tentou entrar em contato com a pessoa que lhe devia e não
conseguiu. Também naquele dia sentiu um aperto no peito ao fazer amor com sua
namorada. Pareceu-lhe que aquela era uma das últimas vezes que se encontrariam.
Não sabia porque, mas algo dentro dele tentava o preparar para o fim daquele
romance. Chegou a comentar por alto com ela, que sentia algo estranho. Um
pressentimento ruim. Ela, cansada de ouvir essas coisas vindas dele, com sua
habitual falta de paciência e estupidez iniciou uma discussão sobre os constantes
pensamentos negativos dele. Inutilmente ele tentava explicar a ela, que era algo
muito forte e que ele não conseguia controlar essas emoções. Bateram portas, saíram
pisando duro e se deitaram, virados de costas, um para o outro.

No dia seguinte ele desceu para fazer o café e encontrou a torneira da cozinha
pingando. Enquanto a água fervia, tentou arrumar a torneira. Desparafusou, olhou
seu mecanismo e acabou por assumir que não entendia muito daquilo. Colocou
tudo novamente no lugar, reapertando fortemente o parafuso. Enquanto estava ali a
torneira não mais pingou. Ainda sentia aquele aperto no peito. Aquele seria o dia da
partida de sua namorada, que morava em outra cidade e eles demorariam em se
encontrar novamente. Subiu e a viu ainda dormindo. Não quis usar o banheiro do
quarto para não acordá-la. Fechou a porta do quarto e foi no outro banheiro. Lavou
as mãos e fechou bem a torneira, confundindo-a momentaneamente com a da
cozinha. Entrou em seu escritório e foi ler notícias na internet.

Perto da hora do almoço, resolveu descer para preparar a comida. Quando


passou pelo banheiro ouviu um barulho. Notou a torneira aberta, desperdiçando
enorme quantidade de água. Ficou nervoso, pois calculava que tinha ficado ao
menos duas horas sentado em frente ao computador e por todo esse tempo a água
foi desperdiçada. Fechou a torneira, abriu vagarosamente a porta do quarto para ver
se ela tinha acordado. Ainda não. Fechou a porta e começou a descer as escadas. À
sua cabeça veio a imagem dele fechando a torneira do banheiro. Ele tinha certeza
que havia feito.
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Quando o almoço estava quase pronto ela desceu. Deu-lhe um abraço terno e
carinhoso. Pediu desculpas pela discussão do dia anterior e o beijou. Ao se
separarem, ela olhou para a pia e perguntou ironicamente se ele era sócio da
companhia de água e esgoto da cidade. Ao olhar na mesma direção que ela, notou a
torneira com um filete de água. Aquilo já começava a irritá-lo.

Durante a tarde os dois revesaram momentos de brigas e juras de amor, como


já vinha acontecendo há alguns dias. A noite ele a levou até a rodoviária e se
despediram de forma diferente das outras vezes. Ele não quis ficar para ver o ônibus
partir e ela não fez cara de que estava se importando com isso. Quando chegou em
casa subiu e foi direto para o seu quarto. Quis tomar outro banho. Ao entrar, notou
a torneira semi-aberta e imediatamente ironizou em pensamento, que ela o havia
criticado pela torneira da cozinha e havia deixado a do banheiro aberta. Mas quanto
estava sob o chuveiro, um pensamento lhe veio em mente. Três torneiras. Duas nos
banheiros e uma na pia, esquecidas abertas, com defeito, fechadas e misteriosamente
abertas novamente. Coincidência?

Pela manhã, na segunda-feira, ele já desceu as escadas com a roupa de cama


nas mãos. Passava da hora de lavar. Preparou tudo e abriu a torneira da pia da área
de serviço para que pudesse encher a máquina de lavar. Notou que havia um
vazamento por cima da torneira, fazendo com que parte da água saísse por ali, ao
invés de descer pela mangueira. Mais uma torneira. Coçou a cabeça nervosamente,
esfregou as mãos no rosto e foi fazer um café. Notou que a torneira da pia da
cozinha havia piorado. Por mais que tentasse fechá-la com cuidado, ela continuava
pingando num ritmo um pouco mais rápido que no dia anterior.

Ligou para o homem que lhe devia. Ouviu uma série de desculpas e a
promessa que no dia seguinte teria o seu dinheiro. No mesmo dia, durante a tarde,
bateu o carro. Estava com ele apenas há três dias. Era um carro mais velho, porém
muito conservado e o chateou bastante ver o estrago causado.

Os dias foram passando e as coisas piorando na vida dele. O homem ainda


não havia mandado o seu dinheiro, as coisas no trabalho não estavam nada bem, a
empresa dele enfrentava sérios problemas financeiros e ele se encontrava cada dia
mais desanimado para trabalhar. Não conseguia render. Não tinha mais
concentração no que fazia. Sua constante briga com a torneira da pia só não era
maior que sua luta com a sua memória, pois todos os dias saia pensando em
comprar outra torneira ou chamar alguém para arrumar aquela. Mas quanto
retornava do trabalho, olhava para a pia e se percebia seu esquecimento em resolver
aquele problema. Todos os dias. Sempre assim. E a torneira pingava cada vez mais.
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Num final de semana em que não precisava acordar cedo, ele despertou por
volta de 9 horas da manhã. Entrou no banheiro e viu sua torneira aberta. Soltou um
palavrão em voz alta e a fechou. Saiu do quarto, passou pelo outro banheiro e deu
uma conferida na torneira. Estava fechada. Foi até o quintal colocar ração para os
cachorros e viu o chão da área todo molhado. A torneira da máquina de lavar estava
aberta e jorrando água por cima. Outro palavrão. Voltou para a cozinha e somente
então notou que o pinga-pinga da pia havia aumentado consideravelmente. Quase
arrancou os cabelos de tanta raiva. Imediatamente pegou a chave do carro e resolveu
sair para comprar outra torneira, mas o toque do telefone o deteve. Era seu sócio.
Numa conversa rápida e direta, teve a notícia de que eles teriam que fechar a
empresa. Estava tudo acabado. Desolado, desistiu de sair e se jogou no sofá
chorando de nervoso. Dois dias antes havia terminado o namoro por telefone. O
homem que o devia sumiu e não atendia mais o celular. A empresa havia falido.
Desejou morrer. Desejou de verdade, de coração.

De repente o silêncio tomou conta de tudo. Não havia mais o barulho dos
carros na avenida. Os vizinhos não faziam mais a algazarra de sempre. Os cachorros
estavam quietos e ele não ouvia mais o som da serra elétrica da madeireira ao lado.
Por outro lado, mais nítido do que nunca e bem mais alto, ele começou a ouvir o
pinga-pinga na torneira da pia. Aquele som parecia invadir sua cabeça. Teve a
impressão que seu coração acompanhava o ritmo dos pingos caindo sobre a pia de
aço inoxidável. Tentou se levantar, mas algo o segurou. O barulho foi aumentando
e ele fechou os olhos. Tentou gritar, mas sua voz não saiu. Colocou as mãos
tapando as orelhas, tentando sem sucesso, fazer com que o som diminuísse. Olhou
para o lado e notou a porta do lavabo aberta. De onde estava viu que a torneira
estava aberta e jorrando água com muita força. Olhou para o chão da cozinha e viu
que tudo estava inundado. Voltou novamente seu olhar para o lavabo e viu a água
transbordando na pia. Das escadas que davam acesso ao segundo andar, começava a
escorrer muita água, quase formando uma pequena cachoeira nos degraus. A sala
começava a se parecer com uma piscina e ele não conseguia se mexer. O celular
tocou. Viu pelo identificador que era sua namorada, ou ex, no caso. Tentou
atender, mas sua voz não saia. Do outro lado ela tentava dizer que o amava e que
estaria ao lado dele sempre. Pedia desculpas e queria tentar de novo. Mas ele só
queria pedir socorro e não conseguia. O nível da água subiu rapidamente. Nervoso
ele atirou o celular contra a parede e concentrou suas forças em suas pernas,
tentando mais uma vez se levantar do sofá. Não conseguiu. Não entendia como
aquela água toda estava entrando pela casa e muito menos compreendia por que ela
não estava escapando pelas frestas das portas.
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A água já lhe cobria o peito e subia cada vez mais rápido. Tinha desejado
morrer, mas agora o medo da morte lhe percorria o corpo. Sem conseguir se
segurar, ele literalmente se borrou de pavor. Os olhos arregalados olhavam ainda
incrédulos para água que já lhe cobria o queixo...

Parou de escrever...

— Que droga! Odeio quando acontece isso.

— O que foi amor? – perguntou sua esposa, desviando momentaneamente o


olhar, do livro que lia.

— Ah, estava tão empolgado aqui escrevendo um conto e justo perto da cena
final, eu perdi o fio da meada. Não consigo finalizar.

— Você está cansado querido. Descanse um pouco. Venha comigo tomar


um bom banho e fazer amor. Está precisando relaxar. Tem enfrentado muitos
problemas essa semana. Esqueça de tudo pelo menos hoje. Esqueça esse conto ai
também e venha. Vamos!

Fechou o notebook e com um sorriso concordou com sua esposa. Disse para
ela se adiantar, porque ia apenas beber um pouco de água e já iria ao seu encontro
no banho. Desceu as escadas ainda pensando em como terminaria o conto. Se o
homem morreria afogado ou se escaparia. Seria um sonho ou ele realmente morreria
daquela maneira bizarra em sua própria sala?

Entrou na cozinha ainda absorto em seus pensamentos. Pegou o copo quase


que automaticamente, sem ao menos perceber seus movimentos para abrir o
armário. Abriu a geladeira, pegou a garrafa e ao começar a despejar a água no copo,
olhou para a pia da cozinha.

— Puta que o pariu! Esqueci de comprar a torneira de novo!


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Fantoches
Há milênios venho intuindo meus escolhidos a fazerem o que eu bem
entendo. Não sujo minhas mãos, pois não é preciso. Sempre tive quem fizesse isso
por mim, ou até quem transferisse essa tarefa a terceiros, levando assim apenas a
fama, o que para mim sempre foi uma ótima e deliciosa forma de me esconder.
Enquanto recomeço minha escalada por essas rochas imundas, cheias de musgo e
sangue, relembro algumas das mais belas atrocidades que provoquei direta ou
indiretamente. Ah, como isso me dá um cruel sorriso de satisfação. Sinto meus
poros arderem com a acidez do ar por onde passo agora, mas me deleito com essas
lembranças.

Poderia citar inúmeras passagens antes da era cristã, mas quero partir
justamente dessa época, pois é minha preferida. A traição de Judas não se deu como
esses tolos homens da igreja insistem em divulgar. O buraco era mais em baixo, mas
de qualquer forma eu estava lá. Procurando uma forma de acabar com toda aquela
politicagem que um dia dividiria os homens ainda mais. Mas quando percebi que
não conseguiria, deixei as coisas seguirem conforme os tais desígnios de Deus. A
única coisa que me restou foi aproveitar o ensejo e me divertir um pouco.
Crucificações eram tão comuns naquela época. Eu só soprei algumas palavrinhas
nos ouvidos das pessoas, para que caprichassem mais no sangue e na dor.

Eu tinha plena convicção de que aquela coisa toda não poderia ter acabado
daquele jeito. Mas hoje, se eu fosse um tolo cristão, daria graças ao senhor por não
ter conseguido fazer o que pretendia. Se tivesse conseguido, teríamos menos
conflitos religiosos pelo mundo. Meu fracasso foi uma vitória em longo prazo.
Gargalho ao ver o nome de Deus ser usado para matar.

Às vezes penso em como é injusta essa minha condição. Tendo tantos


poderes de persuasão e facilidade de me locomover por onde quero na superfície,
aqui sou obrigado a me submeter a todo esse esforço para chegar ao topo. O
ambiente é até agradável, com todas essas almas perdidas e suas faces estúpidas,
transbordando desespero. Mas tem hora que cansa.

Voltando às minhas memórias e ainda citando o conflito religioso, acho que


a melhor época foi durante as cruzadas. Ah, Urbano II... Grande cara. “Aos que
morrerem em combate contra os pagãos muçulmanos, prometo a salvação de suas
almas”. Pelas chamas do meu reino, quanta bobagem! Nunca me diverti tanto.
Corpos mutilados, cabeças separadas dos corpos... Eu brincava de trocá-las de lugar.
Era engraçado. Mouro com cabeça de cristão e vice-versa. Toda aquela baboseira de
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credos, raças e todo tipo de idiotice preconceituosa. Para nós, as almas são incolores
e desprovidas de razão ou credo. Deliciava-me junto com meus comandados, entre
os banhos de sangue e os gritos incessantes de espíritos errantes. Aos que tinham o
privilégio de ver com nossos olhos, o cenário eram da mais pura beleza e
desarmonia. Um mar de cadáveres e moscas. A podridão depois de alguns dias e as
larvas se alimentando da carne, enquanto pateticamente alguns mortos tentavam
reaver seus corpos. Deixávamos que sofressem essa dor por alguns dias, até que nós,
ou aqueles que vestiam branco, os conduziam ao seu destino.

Após cada massacre, continuávamos visitando o meu amigo Urbano II e seus


sucessores. Não podíamos deixar que estúpidos servos de Deus tirassem nossas idéias
das mentes daqueles que comandavam a tão poderosa igreja. Foi preciso ir e vir
várias vezes. Revezávamos entre os campos de batalha e os aposentos das santidades.
Soprávamos-lhes palavras e frases. Cuspíamos idéias sórdidas em seus pensamentos.

A fama acabou por ficar com eles. Só queria e ainda quero, apenas o
resultado. A fama é prejudicial.

E por falar nela, meu grande e famoso amigo: Vlad III. Homem de coragem,
bruto e com a maldade arraigada. Mas também precisou de uns pesadelos em seu
leito para aceitar o meu jeito de brincar. A primeira vez que atravessou uma lança
no corpo de um homem, Vlad se ajoelhou e orou ao seu Deus, implorando perdão.
Dei-lhe logo um belo safanão para que deixasse de ser covarde. Em poucos dias ele
já havia empalado e ordenado a matança de centenas de homens. Ganhou o apelido
de “empalador” e depois ainda levou a fama de vampiro. Sou obrigado a rir...
Diziam que ele gostava de sangue. Não era ele. Era eu quem bebia todo o sangue
que escorria daqueles “palitinhos humanos”. Hummm... Ainda sinto o delicioso
cheiro da morte e o sabor enferrujado do vermelho daqueles corpos. O único
incômodo era o agradável clima da Valáquia.

Vampiros... Que tolice!

Essa superfície que não chega. Acho que estou ficando molenga com o passar
dos séculos. Antes eu fazia esse percurso com menos tempo. Minhas mãos já estão
feridas. E ainda tenho que passar por toda aquela camada grudenta e viscosa. Ora
bolas... Isso não é justo.

Gostei de Londres. 1888. Enganar a polícia foi tão fácil. Não foi um feito de
grandes proporções, como eu prefiro, mas a energia era intensa e sombria.
Montaram um verdadeiro circo à procura de um único homem. Deram-lhe até um
nome: Jack, the ripper. Ah, como eu ri desses tolos. Nunca existiu um Jack. Eram
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vários Jacks. Todos levados por mim a cometer aqueles assassinatos exatamente da
mesma maneira. E eu dormia calmamente nos aposentos da rainha. Por que
prostitutas? Ora... Não me lembro. Eu devia estar entediado, de saco cheio de
energias sexuais. Aliás, eu já havia brincado em Londres cerca de mil anos antes,
quando incuti na cabeça dos Vikings que eles deveriam destruir a cidade, que ainda
se chamava Lundenwic. Acho que acabei fazendo um enorme bem a eles. Afinal
Londres é um nome muito mais fácil de pronunciar. Londres... London... Deviam
me agradecer... Malditos ingleses.

Não me recordo de quem teria sido a primeira idéia de promover uma


batalha entre os homens, mas esse sujeito deveria ter um altar erguido em sua
homenagem. Não fosse por ele, eu e muitos outros não teríamos tanto prazer. Já fiz
tantas coisas interessantes nessas estúpidas guerras humanas. Lembro-me de ter
acompanhado os generais japoneses nas duas guerras mundiais. Desde a invasão da
Manchúria, seguindo minha canção que se repetia em suas mentes, eles mataram
milhares de pessoas, inclusive indefesas criancinhas filipinas em Manila. Não estou
bem lembrado da letra, mas era uma melodia suave e repetitiva... “seguir a diante,
matar para viver... seguir os sorrisos apagados das criancinhas...”. Ou algo assim...

Na verdade eu já os tinha deixado anos antes, mas minha semente rendeu


bons frutos. Foram milhões de pessoas mortas em combates e massacres. Chineses,
birmaneses, indonésios, filipinos... Estupros foram centenas, talvez milhares.
Minhas pequenas sementinhas do mal, de olhinhos puxados. Eu acompanhava tudo
à distância, pois já estava bem longe deles, trabalhando com aquele que talvez tenha
sido minha mais ilustre vítima.

Homem inteligente, culto e educado. Só queria o melhor para seu povo. Era
amante das artes. Isso até me conhecer. Infiltrei-me em sua vida e me instalei em
teus sonhos. A descoberta do anti-semitismo, alguns anos antes de se tornar um
líder, foi um presentinho meu. Um pequeno investimento para o futuro. Hoje ele é
odiado por milhões de espíritos espalhados pelos quatro cantos do mundo e por
todas as dimensões onde ainda vivem algumas das mais de cinqüenta milhões de
vítimas de nosso expurgo. Seu nome é citado em livros, pesquisas, trabalhos e ainda
causa muita discórdia por esse mundo afora. Talvez tenha sido minha maior obra
prima até hoje. Alguns idiotas ainda tentam reviver seus feitos e seguir o que não se
pode mais recriar. Não entendem que essas coisas não podem se repetir. A maldade
está na novidade. A crueldade surge do inesperado.

Finalmente pareço me aproximar da superfície. Maldita sina sem sentido


essa. Protocolos infernais, com o perdão da palavra.
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Nas últimas décadas tenho estado mais calmo. É... Até que pensando melhor,
acho que estou mesmo me tornando um moleirão. Tenho me limitado a incentivar
gangues, quadrilhas de traficantes, contrabandistas e terroristas. Estou mesmo é
precisando de algo maior. De enormes proporções. Superar todos os números
somados até hoje. Dizimar a humanidade... Não, espere... Não posso dizimar.
Senão perco meus propósitos e minha diversão. Mas até que uma quase destruição
total não seria tão ruim. Quase consegui isso há alguns anos, mas os malditos
tinham que inventar uma trégua. Saudades da guerra fria.

Bom, mas enquanto não penso em nada grandioso... Ah, finalmente...


Cheguei. Pelo visto meu senso de direção também está piorando com o tempo.
Onde diabos eu estou?

Enquanto não me vem nada de espetacular à mente, vou brincar mais um


pouco de estuprar, matar, viciar... Quer dizer... Eu não. Vou escolher alguém.
Alguém que possa aos poucos montar um cenário de destruição em massa. Que seja
inteligente e que tenha potencial de liderança. Alguém desconhecido por enquanto.
Preciso de tempo para moldar as idéias e guiar o seu caminho de acordo com os
meus interesses.

Que tal você? Sim, você mesmo. Não quer conversar um pouco? Preciso me
apresentar?
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Leitor

Caro leitor, já que teve paciência de chegar até aqui, peço que deixe um
comentário na página dedicada a esta publicação, no link:
www.mdamado.com.br/empadas

Críticas também são bem-vindas. A opinião do leitor é muito importante


para o prosseguimento dos meus trabalhos (ou de minha total desistência, caso seja
um verdadeiro fracasso).

Se preferir escrever um email, envie para marcelo@mdamado.com.br e


entrarei em contato (se até lá eu não tiver entrado em depressão por consequência de
um suposto grande número de rejeições aos meus textos).

Obrigado,

Abraços horripilantes,

M. D. Amado (o autor apreensivo).


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O Autor
M. D. Amado (Marcelo Dias Amado) é natural
de Belo Horizonte, MG. Foi cuspido no
mundo em 17 de janeiro de 1969, sendo que
69 é sua dezena preferida.

Analista de Sistemas por acidente, começou a


escrever em 2004, inspirado nos contos de
escritores nacionais como Richard Diegues,
Rita Maria Félix e outros. Fã de Ken Follett,
Edgar Allan Poe, Ray Bradbury e H. P.
Lovecraft, brinca com as palavras sem
compromisso com gênero ou estilo literário.

Mantém desde 1996 o site Estronho e Esquésito (www.estronho.com.br) onde além


de publicar textos e curiosidades inusitadas, abre espaço para escritores nacionais de
literatura fantástica publicarem seus contos e poesias, além de divulgarem seus livros
e trabalhos literários diversos.

Em seu site particular (www.mdamado.com.br) mantém um portfólio com diversos


contos, minicontos e poesias. Alguns desses textos estão aqui nesta publicação
eletrônica.

M. D. também possui minicontos, poesias e textos publicados nos fanzines


Terrorzine e Flores do Lado de Cima, além de ter participado de alguns blogs
literários, como o A arte não é minha em 2009 e da lista de discussão Cryacontos.

O autor já participou das seguintes antologias nacionais: Necrópole 2 – Histórias


de Fantasmas (2005, Ed. Alaúde, Org. Richard Diegues); Paradigmas Vol. 1
(2009, Tarja Editorial, Org. Richard Diegues); Draculea – O livro secreto dos
vampiros (2009, All Print, Org. Ademir Pascale); Metamorfose – A fúria dos
lobisomens (2009, All Print, Org. Ademir Pascale) e é convidado especial na
antologia Zumbis – Quem disse que eles estão mortos?,
mortos? que será lançada em
breve pela All Print, também numa organização de Ademir Pascale.
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M. D. Amado é um dos autores convidados nesse livro
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