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A complexa Sedução da Matrix

Uma Crítica Conservadora à Real

Escrito por Augusto

Augusto. A complexa sedução da Matrix: uma crítica conservadora à Real. Logaugusto, 2013. Disponível em http://logaugusto.blogspot.com.br/2013/12/a-complexa-seducao-da- matrix-uma.html

Sobre este trabalho:

A Real é um tema controverso no meio conservador. Tratando a Matrix como ilusão, temos na Real um movimento de homens que alerta para os perigos da Matrix amorosa e da ideologia feminista. O que há de errado com os relacionamentos modernos? Apresentamos neste pequeno eBook a teoria realista e analisamos até que ponto ela é útil na guerra cultura.

Diante do emaranhado de mentiras, um conjunto de ilusões a que estamos submetidos, identificar uma mentira é apenas o primeiro passo. Se uma mentira, contudo, é apenas trocada por outra, o esforço foi insuficiente. É trocar uma Matrix por outra. Pode até ser o caso de vencer uma Matrix, mas continuar preso a outra maior. A verdade liberta, mas a falsa sensação de descobrir a verdade engana.

Como lidar diante de um novo panorama? De repente começamos a ver e - dando tapa na cara em si próprio - indagar: "como eu não percebi isso antes? Era tão óbvio". Imerso em um ambiente de confusão, infelizmente, não é difícil acontecer de trocar um caminho errado por outro.

Se é verdade que a Real tem uma teoria que consegue fazer uma boa leitura dos relacionamentos amorosos modernos e um discurso de desmascaramento do feminismo, até que ponto este conhecimento está sendo usado de modo a beneficiar o homem na luta contra o feminismo? Adentrando na polêmica, tentamos responder essa importante pergunta.

Palavras Chave:

Real, conservadores, moral, feminismo, relativismo, dialética hegeliana

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

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  • 1 PROPAGA-SE UM MOVIMENTO QUE DIVIDE OPINIÃO ENTRE CONSERVADORES

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  • 1.1 A DIFICULDADE DE TECER CRÍTICAS À REAL

......................................................................................

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  • 1.2 CONTORNANDO

A DIFICULDADE .............................................................................................................

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  • 2 RESUMO DA REAL

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  • 3 O ORGULHO DA REAL

 

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  • 3.1 POR QUE A TEORIA DA REAL FUNCIONA

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  • 3.2 MOTIVAÇÕES E EXAGEROS

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  • 3.3 NECESSIDADE DA DISCUSSÃO MORAL .................................................................................................

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  • 3.4 A QUESTÃO MORAL DO SEXO

 

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  • 3.4.1 Possíveis objeções e melhores esclarecimentos

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  • 3.4.2 Acerto de contas com o Amor

 

43

  • 4 REAL: O RESULTADO DA DIALÉTICA

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  • 4.1 A DIALÉTICA HEGELIANA

........................................................................................................................

50

  • 4.2 DIALÉTICA HEGELIANA + PRÁXIS (DIAPRAX)

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4.2.1

Estruturando a dissociação cognitiva dentro da Diaprax

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4.3

DORMINDO COM O INIMIGO

 

59

  • 4.3.1 A sutil colaboração com o feminismo

59

  • 4.3.2 Filhos rebeldes de Hebert Marcuse

63

  • 5 CONCLUSÃO ..........................................................................................................................................

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  • 6 DISCUSSÃO ABERTA: CONTATO

I

 

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APÊNDICE

68

APÊNDICE II

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APÊNDICE

75

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INTRODUÇÃO

Durante a época do Orkut, rede social que foi engolida pelo sucesso do Facebook, homens reuniram-se em comunidades para tratar do tema mulher. A partir disso, surgiu um movimento conhecido como Real, impulsionada, entre outras coisas, pelos livros de Nessahan Alita, por testemunhos e também inspirados por movimentos masculinistas americanos em denúncia ao feminismo. É difícil definir o que seria a Real. Entre os participantes desse movimento, o significado de pertencer a Real assume valores subjetivos de difícil definição. Objetivamente, podemos colocar a Real no hall de propaganda anti-feminista de pessoas que, através de livros e testemunhos, opinam e teorizam acerca da dinâmica dos relacionamentos. Quem estuda a ideologia do feminismo pode ter o conhecimento geral de que o feminismo investe em uma luta de classes do homem contra a mulher com a intenção de dividir para conquistar, servindo ao propósito de um projeto de poder político; o efeito prático do dia a dia que esta ideologia gerou dos relacionamentos, contudo, até mesmo por conta de um massivo apelo da mídia e demais investimentos culturais, não são tão óbvios à primeira vista. Neste sentido, a Real intenta realizar leitura crítica do feminismo alertando para conceitos, idéias e paradigmas propositadamente distorcidos por essa ideologia atualmente hegemônica, ou seja, já impregnado no “senso comum” das pessoas, e que estão levando o homem médio à confusão e ao equívoco. Em geral, o encontro com a Real dá-se quando um homem, desiludido (sacaneado) por causa de uma paixão amorosa ou por conta da coleção de fracassos no “amor”, está a procura de respostas. Ao ter encontro com alguma fonte de divulgação „realista‟ (sites, blogs, fóruns, redes sociais, etc.), identifica o conteúdo propagado com seu drama pessoal, descobrindo seus erros passados. É quando o homem é convidado a sair da Matrix. Aquilo que aprendera sobre mulheres e amor, o peso do romantismo e do bom-mocismo tratava-se de uma ilusão. É hora de mudar seus conceitos, mudar sua filosofia de vida, mudar de paradigma. Desvincular-se do engano, colocar os pés no chão e encarar a triste realidade em vez de se esconder na doce ilusão.

A recepção, naturalmente, não é fácil. A verdade, ensinam as grandes religiões e filosofias, liberta; não é sempre indolor, contudo. Emocionalmente perturbado, o homem desiludido desenvolve um sentimento de revolta de modo que o conteúdo da aprendido é, em um primeiro momento, incorporado com uma ferramenta para alcançar vingança, vingança

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contra as desprezíveis mulheres. Daí que muitos reduzem a Real a um bando de homens revoltados com mulheres. No entanto, seria injusto reduzir a Real a definições pejorativas. O conteúdo „realista‟ tem méritos e são fontes de reflexão. Objetivamente falando, a Real, pela sua teoria, consegue descrever a dinâmica dos relacionamentos modernos. O que o cidadão irá fazer com esse conhecimento, é a grande fonte de polêmica. Pode ser que a Real, consoante ao jargão „realista‟, salve vidas. Os membros mais experientes defendem a Real, em grande parte, porque possuem forte sentimento de gratidão. Foram motivados a mudar seu norte de vida e vem obtendo êxito em seu desenvolvimento como homem. Por outro lado, é certo também que há certa propaganda que incomoda o meio conservador. Os membros da „Real‟, diga-se, são diversos. Pessoas de diferentes credos e costumes compartilham o espaço „realista‟, que também conta a presença conservadora. Daí a origem de discussão com atrito entre conservadores de fora e conservadores de dentro da Real. Este, aliás, é o contexto que motivou este trabalho. Há no conservador uma veia crítica que não pode morrer. Além disso, o conservador atenta muito a questão moral dos problemas. A Real, por outro lado, tem na moralidade a grande fonte de suas polêmicas internas. Abrigando pessoas diferentes, opiniões conflitantes aparecem e, a fim de manter a unidade, a Real em si não toma “posição oficial”. Pode-se dizer que a Real é um movimento cuja maioria dos membros são de direita, mas certamente não se pode enquadrar como um movimento conservador, mesmo com conservadores em seu meio. Com conservadores que criticam negativamente e com conservadores que defendem a Real, este trabalho vai tentar superar preconceitos e expor críticas a Real. No primeiro capítulo, o modo como a Real é recebida no meio conservador foi abordado. Além disso, foram feitas considerações que visam suprir o grande problema que surge quando se critica a Real: sua heterogeneidade. Sendo assim, adianta-se que este é um trabalho de conservador para conservadores. O restante, se quiser, pode continuar lendo, mas não que não se esqueça deste importante detalhe. Uma vez que se objetiva vencer preconceitos, o conteúdo da Real não poderia deixar de ser abordado. Sendo assim, um resumo do conteúdo da Real com algumas considerações foi apresentado no segundo capítulo. A crítica a Real inicia-se no terceiro capítulo. Atenta-se que o ato de criticar aqui não representa o simples ato de falar mal ou reclamar, mas de exercício do senso crítico. O que foi julgado como positivo, foi elogiado; se negativo, reclamado. A sustentação será argumentativa, pautada pela honestidade intelectual.

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Se o senso crítico está envolvido, temos no quarto capítulo uma investigação do fenômeno que está por trás de tanta confusão moral acerca da Real. Se no terceiro a crítica foi voltada ao modo como o conteúdo da Real é encarado, no quarto capítulo, a Real é analisada sob o âmbito da guerra cultural que ela se esforça em combater. Por último, em espírito de humildade, foi disponibilizado um canal de diálogo. Um email onde sugestões, críticas e/ou reclamações podem ser dirigidas. Não estão descartadas retificações e/ou melhoramentos em edições futuras. A Real prega, entre outras coisas, o desenvolvimento do homem. O desenvolvimento passa pela crítica. Além disso, como o próprio nome sugere, a Real quer estar pautada na realidade. Isso significa que não há interesse em negligenciar a verdade. Sendo assim, menos do que temer, ela deve desejar o debate, inclusive com seus críticos externos. Sendo verdade que a Real pode ser uma ferramenta para levar as pessoas ao conservadorismo, conforme argumentam conservadores „realistas‟, então a discussão moral, antes de ser evitada, deve ser incentivada. Não está previsto que sejam muitos os leitores, mas a quem se aventurou em explorar estas anotações, deseja-se que de algum modo o conteúdo possa servir de contribuição e aprendizado.

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  • 1 PROPAGA-SE UM MOVIMENTO QUE DIVIDE OPINIÃO ENTRE CONSERVADORES

É um crítico superficial aquele que não enxerga um eterno rebelde no coração de um conservador (G. K. Chesterton)

Cresce na internet um movimento intitulado “Real”. A opinião sobre este movimento é ampla, desde a cega aceitação até a espumosa rejeição. Há presença conservadora no movimento de modo que vem se tornando freqüentes os atritos ocasionados por opiniões divergentes sobre este tema no meio de discussão conservadora. A impressão que é que há basicamente três grupos com opiniões distintas sobre o movimento da Real no meio conservador 1 :

Anti-real: Conservadores que rejeitam a Real por considerarem um

movimento hostil às mulheres composto por moleques carentes e revoltados; Críticos da Real: Conservadores que rejeitam a Real por conta do seu

ensinamento moral questionável. Guerreiros da Real 2 : Conservadores que participam da Real, pois vêem nela um movimento que, apesar da pluralidade de membros, possui muito ensinamento bom.

Discutiremos a postura desses três tipos classificados mais adiante, ainda neste capítulo. A observação preliminar é que se trata de uma discussão voltada ao meio conservador. Também adiantamos que não entraremos no mérito se é conservador de verdade ou não. A questão é que havendo conservadores dentro e fora da Real, parte-se da premissa de que o conservador está aberto a críticas e ao aprendizado, uma vez que, dentre os 10 princípios conservadores de Russel Kirk 3 , encontra-se a prudência 4 e a crença em uma ordem

  • 1 É importante fazer a observação de que se trata de uma divisão em tipos ideais (Max Webber). Observa-se na prática que esses tipos podem se misturar e até mesmo se conflitarem.

  • 2 Há uma espécie de graduação informal dentro da Real, cujo objetivo é chegar a uma espécie graduação que é chamada no meio como Guerreiro da Real (GDR). Assim, é importante deixar a nota de que é uma coincidência de nomes, o Guerreiro da Real deste ensaio NÃO tem o mesmo significado interno da Real. Neste trabalho, refere-se a conservadores que defendem a Real.

  • 3 KIRK, R. Dez princípios conservadores. Tradução de Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior. Fonte:

http://www.kirkcenter.org/kirk/ten-principles.html. Disponível em:

  • 4 Prever as conseqüências em longo prazo. Agir após uma reflexão apurada.

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moral duradoura 5 . Se o “conservador” não estiver aberto à reflexão e à discussão moral, isto é, fixar-se em uma polarização e a um relativismo moral, então é correto dizer que não se trata de um conservador genuíno e, com objetivo de fazê-lo não perder um tempo que talvez seja precioso, recomendamos que sua leitura não passe desse ponto.

1.1 A DIFICULDADE DE TECER CRÍTICAS À REAL

É difícil uma discussão no Facebook no meio conservador (também ocorre em meios liberais) não conter um argumento mais ou menos com este conteúdo: a Real é muito plural, há gente de todo o tipo, não é justo criticá-la por causa de pessoas que não entenderam o que é a Real. Esta é a primeira dificuldade em criticar a Real. Esta ponderação dos „realistas‟ é válida, em partes. A afirmação de que a Real é muito diversificada está correta. Participam da Real pessoas de diferentes religiões, credos, posições políticas, filosofias de vida, etc. Um caso emblemático foi o de John Reese. Reese, um bem sucedido homem de negócios, aplicou como podemos dizer os conhecimentos da Real para colocar uma garota de 18 anos que era virgem e de igreja em um plano sutil de ter sexo por dinheiro. A reação entre os realistasfoi ampla em um espectro que foi desde admiração e aplausos até repulsa e desprezo. Quando o caso de Reese é trazido à tona como material para criticar a Real, há o desvio de que ele é de outro setor da Real. Trouxemos o caso John Reese apenas para ilustrar que de fato a Real é dividida e que, portanto, parte do que podemos chamar de “estratégia sabão” é aplicável. Outra dificuldade em discussão é que não está claro sobre o que é a Real. A definição de tal movimento é subjetiva e cada membro vê de uma forma. Alguns dizem que é sobre relacionamentos, outros dizem que é sobre o desenvolvimento pessoal, outros que é um contraponto contra o Marxismo Cultural. Não há clareza. Lawlyet Wallace está escrevendo um livro provisoriamente intitulado “Filosofia da Real” que tenta justamente suprir esta dificuldade presente em conflitos internos da Real 6 . Lemos o preview de 100 páginas que foi

5 A discussão moral será abordada no Capítulo 3. 6 WALLACE, Lawlyet. Filosofia da Real. Preview 04-10-2013.

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disponibilizado 7 e, apesar de mudanças e reformulações a serem feitas, é nítido que se Lawlyet tenta levar a Real para o conservadorismo.

O fato da Real ser diversificada e maleável não impede que „realistas‟ critiquem

conservadores que se opõe a Real. Os defensores da Real apontam o dedo para os outros, mas

quando é apontado de volta, afirmam que não dá para apontar para algo que não é bem definido e diversificado (estratégia sabão). Uma das poucas coisas que os unem de maneira efetiva é a crítica ao feminismo. No entanto, é irônico observar que este modo de resposta que os defensores da Real recorrem lembra muito a rotina que feministas usam para defender o feminismo. Tomemos o exemplo da Jornada Mundial da Juventude que ocorreu no Rio de Janeiro em julho 2013. A marcha das vadias profanou e quebrou símbolos religiosos em um claro ato de ódio e intolerância. Ao criticar o feminismo por este tipo de ação, algumas malandras recorreram ao famoso discurso:

há vários tipos de feminismo. De fato, há vários tipos de feminismo. A marcha das vadias contém feministas radicais, contudo, as radicais podem agir mais à vontade por causa do escudo que fazem as moderadas. Ao mesmo tempo em que as feministas moderadas aparentam rejeitar o radicalismo, elas tentam, na realidade, colocar os fatos em panos quentes por conta de uma bandeira em comum. Falta a Real um tipo de hombridade moral. Se um setor deste movimento faz algo discordante, teria que ser criticado por outro. É um movimento paradoxal por ser unido e divido ao mesmo tempo. Quando é conveniente, agem conforme uma irmandade concordante. Na hora de colher críticas, alegam ser indefinidos. Lembra também a justificativa mais fajuta para a defesa do comunismo. Quando um esquerdista é confrontado em relação aos milhões de morte do regime que defende, responde que aquilo não era o verdadeiro comunismo, que ele foi deturpado.

1.2 CONTORNANDO A DIFICULDADE

7 Inicialmente o preview foi divulgado para um projeto de comunidade que Lawlyet está investindo. Como a Real começou a suscitar discussão, ele disponibilizou o livro argumentando que a Real pode ser uma ótima fonte para levar as pessoas ao conservadorismo. Confessamos que sua intenção motivou a elaboração deste trabalho.

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O objetivo deste trabalho é tecer críticas à Real. Não temos aqui a pretensão de usar falácias emotivas, espantalhos, sofismas, etc. Mas suscitar uma discussão honesta. Um esforço inicial foi realizado no sentido de catalogar correntes de opinião dos conservadores em relação ao movimento a que aqui se propõe discutir. Relembremos: Anti-real, Críticos da Real e Guerreiros da Real. É verdade, conforme já admitido, que a Real não está bem definida quanto movimento e que sua composição de seus membros é diversificada em termos de opinião, contudo, é inverdade que seja isso motivo para inviabilizar críticas. Há na Real certa organização. Ela é divulgada e discutidas em sites, blogs, fórum, redes sociais e tem até bibliotecas virtuais onde está disponível o conjunto de material base que sustenta seu conteúdo. Trata-se de um movimento que está aberto a novos membros, com a ressalva de que não toleram apologia ao crime (apologistas do nazismo, comunismo e de crimes hediondos são banidos de suas comunidades). A Real é, portanto, assimilável. Sua análise deve ser feita, portanto, dentro de seus livros, líderes e organizadores. Sendo um movimento que motiva o homem a ocupar seu lugar de líder, não seria injusto analisar a Real com base em seus líderes e membros experientes. O erro dos conservadores anti-realistas é criticar a real atacando com “golpes baixos”. Eles atacam os novatos do movimento ou, se preferir, no linguajar „realista‟, os juvenas. Estes são pessoas que muitas vezes aparecem com relatos bastante tristes. Pessoas que foram torturadas sentimentalmente por mulheres egoístas e insensíveis, vadias no jargão „realista‟, que, aproveitando-se do rapaz explorado, fê-lo passar por humilhações e traições. Pessoas que, por exemplo, com dificuldade, pelo duro esforço do trabalho, deram casa, comida, ajudaram nos estudos, para depois a namorada o trair com outro homem. Muito relatado também é o fenômeno da Friendzone, onde a mulher se aproveita do homem apaixonado para tirar favores e obter vantagens, dando doses suficientes de atenção e esperança de „algo a mais‟ para que o homem iludido não deixe a zona da paixão. Trata-se, em suma, de homens emasculados, carentes, ingênuos e fracos que, ao conhecer a Real, descobrem a sistemática de sua tragédia e estão prontos para esboçar reações. Do fundo do poço da dor sentimental, os juvenas entram na fase de revolta. Descobriram que as mulheres não são santas. Bastaria um pouco de fé cristã para ter conhecimento deste não-mistério, mas o fato é que entram em uma fase de revolta da qual se manifesta um sentimento de vingança e desprezo pelas mulheres.

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A revolta dos novatos é real 8 , é passível de crítica; não é justo, todavia, criticar o movimento por causas dos “juvenas”. A fase da revolta é característica. O conselho de

membros mais experientes do movimento é feito no sentido de ajudar o jovem a sair desta fase de orgulho ferido e focar em si. Os juvenasrevoltados habitam os espaços da Real, sobretudo o Facebook. O tempo de duração varia de caso a caso alguns parecendo ser irreversível mas é fato que a Real não age no sentido de alimentar este ódio, mas de auxiliar o novato a superá-lo. Os conservadores críticos da real, por sua vez, fazem críticas mais profundas. Geralmente são compostos por pessoas que conhecem a Real, mas discordam de pontos específicos. Suas críticas estão embasadas, principalmente, na maneira com que é retratada a

mulher. Esses conservadores chamam a atenção para a dose de hostilidade na propaganda e para o teor gnóstico contido nos livros de Nessahan Alita. O que não facilita o debate entre os conservadores críticos e os defensores da real é uma certa intransigência. Um lado molda uma caricatura do movimento e o outro aplica respostas baseadas em rotulagem pejorativas com termos como “mangina”, “cavaleiro branco”, etc. Coisas de Facebook ... Outra dificuldade é que parte do debate está relacionada com conteúdo de ordem moral e da natureza humana, algo que é bastante difícil de ser discutido em uma rede social. Esta dificuldade ajuda a justificar a elaboração deste livro com vistas ao público conservador. É uma tentativa de elevar o conteúdo crítico para que as discussões possam ser feitas de maneira mais honesta. Por último, os Guerreiros da Real que, neste trabalho, estão definidos como conservadores que defendem a Real. Conforme foi discutido anteriormente, fica claro que, dado a diversidade de membros, não é possível catalogar a Real como conservadora. É possível, contudo, catalogá-la como direita no espectro do campo político. A Real tece críticas ao gayzismo, ao feminismo, ao Marxismo Cultural em geral. Faz discurso de tolerância religiosa e defende menos interferência do governo na vida das pessoas. Este fato é deduzido de sua propaganda no Facebook, conteúdo dos blogs e sites e discussão de seus fóruns. Eis como a Real será abordada neste trabalho: devido à falta de unidade ética e moral da Real, ela será analisada com base em sua propaganda e intenções presentes em seus líderes e membros influentes. As críticas serão dirigidas, sobretudo, aos conservadores que defendem a real, haja vista que o conservador tem por hábito visualizar as crises como resultado de desvios morais.

8 Trocadilho lúdico.

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Discorremos a respeito dos problemas em torno da discussão presente no meio conservador a respeito do movimento da Real. A dificuldade de crítica a este movimento será então contornada com duas considerações sólidas: honestidade para dirigir as críticas, usando como base as personalidades influentes do movimento e a não-distorção do conteúdo geral da Real e fazendo o apelo especialmente ao público conservador, favorável ou contra o movimento. Este é um trabalho de conservadores para conservadores. Dito de outro modo: vamos ao máximo evitar esquerdar 9 e esperamos postura similar do lado conservador recíproco 10 . Uma vez confessado o norte ético deste trabalho, é preciso que o conteúdo da Real seja explicado para maior compreensão de conservadores que estejam alheios ao que efetivamente seja a Real. A crítica deve ser dirigida ao que o movimento seja e não ao “ouvi dizer que seja”. No próximo capítulo veremos o conteúdo chave da Real.

9 Sabemos que é impossível debater com esquerdistas, pois eles fraudam o debate. Os esquerdistas não se interessam pela verdade requisito essencial para haver possibilidade de debater , mas aproveitam o espaço para fazer propaganda de suas ideologias e/ou demonizar os oponentes. A respeito do „verbo‟ esquerdar, vale fazer uma recomendação. Luciano Ayan cataloga as fraudes e malandragens dos humanistas: http://www.lucianoayan.com.

10 Feministas, esquerdistas, libertários, juvenas da Real

Ou melhor, colocando de outro modo: odiadores do

... conservadorismo e fanáticos pela Real, por favor, não percam tempo com seus possíveis nonsenses contra este trabalho. A crítica deve ser feita por gente grande. Por gente grande, interprete pessoas com juízo intelectual em ordem. Certamente há pessoas na Real capacitadas para isso, deixe isso para elas.

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2 RESUMO DA REAL

As críticas aqui contidas não se aplicam às mulheres sinceras (Nessahan Alita)

O ingresso na Real é fácil e hospitaleiro. Você será convidado a sair da Matrix. Esta figura de linguagem faz alusão à ilusão amorosa pelo qual o homem de coração partido está imerso. Ele será convidado a escolher entre a pílula vermelha ou azul, podendo escolher se descobre “a verdade” ou se prefere viver no conto de fadas. Optando pela Real, a leituras de livros, principalmente as obras de Nessahan Alita, serão recomendadas. Através destes livros é possível falar com propriedade a respeito do conteúdo da Real. Em seus livros, Nessahan Alita fala sobre mulheres. Alita inspira-se em psicologia evolutiva para descrever os problemas do relacionamento moderno. Vale ressaltar que Nessahan dirige seu livro quanto ao cuidado que os homens devem ter das “mulheres vadias”, não se aplicando às mulheres sinceras (ou honradas no glossário da Real) destacando que não irá se responsabilizar pelo uso que será feito do material. Em nota de rodapé do livro “Como lidar com as mulheres”, Nessahan Alita esclarece o sentido do termo vadia:

A palavra é aqui empregada apenas no sentido de uma pessoa desocupada e ociosa, tal como a definem os dicionários Aurélio (FERREIRA, 1995) e Michaelis (1995), e não em qualquer outro sentido. Para mim, toda pessoa que brinca com os sentimentos alheios é uma pessoa vadia, independentemente do sexo e do número de parceiros sexuais. E o que mais poderia ser alguém que brinca com a sinceridade dos outros senão desocupado por não ter algo mais importante a fazer? Aqui, a palavra tem um emprego mais ou menos próximo ao da pa lavra "megera" e também e é quase um equivalente feminino da palavra "cafajeste", muito comumente utilizada para designar homens que trapaceiam no amor. Enquadram-se neste termo aquelas pessoas que cometem adultério sem o cônjuge merecer, que induzem uma pessoa ao apaixonamento com o exclusivo intuito de abandoná-la em seguida, que retribuem uma manifestação de amor sincero com uma acusação caluniosa de assédio sexual etc. Esta palavra não é empregada com o mesmo sentido pejorativo em todos os países de língua portuguesa e nem possui somente o significado que lhe dá algumas vezes a cultura popular. Um exemplo típico de "vadia" é a personagem Teodora, do romance "Amor de Salvação", de Camilo Castelo Branco. Neste romance, Teodora, uma espertinha dissimulada e manipuladora, se aproveita dos homens que a amam e os leva ao desespero e à ruína. Afonso, uma de suas vítimas, afunda-se nos vícios e chega à beira de um suicídio, mas é salvo da destruição amorosa por sua prima, uma mulher virtuosa e sincera. 11

11 ALITA, Nessahan (2005). Como Lidar com Mulheres: Apontamentos sobre um Perfil Comportamental Feminino nas Relações Amorosas com o Homem. In: O Sofrimento Amoroso do Homem - Vol I. Edição virtual independente de 2008, p.12.

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Feitos os devidos esclarecimentos prévios, vamos à sistemática da Real 12 :

As mulheres possuem um “lado obscuro” de natureza hipergâmica. Isso

significa que a mulher tem a tendência de buscar o homem que lhe proporcionará maior segurança a busca do melhor homem provedor. Tal natureza é evolutivamente explicada pela necessidade inconsciente que a mulher tem em buscar a segurança de sua prole. Daí a justificativa de mulheres se atraírem por dinheiro, status, porte físico, etc. A mulher possui uma inteligência emocional superior à do homem. Ela utiliza esta inteligência para seduzir o preterido homem, isto é, deixá-lo apaixonado. O processo de apaixonamento é realizado através de jogos e apelos emocionais. São atitudes das mulheres cuja racionalidade masculina não consegue compreender, mas que almeja o condicionamento do homem aos seus caprichos. Se bem sucedida no jogo, o homem apaixonado se tornará um capacho sentimental da mulher. Dentre os jogos 13 , podemos citar o puxa-e-empurra. Primeiro a mulher mostra interesse no homem, sendo doce e carinhosa, mas repentinamente, sem motivo aparente, ela se transforma em uma fria e cruel parceira. É quando a mulher te trata de modo carinhoso em um momento e, de repente, ela passa a tratar o homem com frieza e desprezo 14 . A mulher é inclinada a agir desta forma para prender o homem sentimentalmente, mas, paradoxalmente, a mulher interpreta o homem apaixonado como um fraco, passando então a desprezá-lo como parceiro. O motivo das mulheres preferirem os cafajestes está no fato deste tipo de homem não se apaixonar. Ele vence os jogos emocionais, porque não os joga. Sendo a vadia do lado masculino, o cafajeste é um egoísta sentimental. Ele só pensa em si e ignora os sentimentos das mulheres, vencendo os jogos. A mulher interpreta a não-eficácia de seus jogos como sinal de que aquele

  • 12 As considerações desta sistemática não seguem necessariamente Alita (embora seja a leitura principal dos membros da Real). Tentamos condensar certos ensinamentos que são difundidos pela Real através de suas redes.

  • 13 Os livros de Nessahan Alita abordam bastante os jogos emocionais. Um resumo pode ser visto em KOERICH, S. Os 5 jogos emocionais e táticas manipulativas feministas mais frequentes: como vencê-los e bloqueá-los. In:

Machismo Esclarecido (Blog), 11/07/2012. Disponível em

  • 14 Fizemos questão de trazer este exemplo porque além de ser o mais comum em relatos, também será importante para uma explanação no Capítulo 3.

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homem é forte, passando então a desejá-lo e cortejá-lo. Sendo o cafajeste difícil de ser domado, essas mulheres acabam sofrendo e culpando todos os homens por sua desgraça. O sexo é usado pela mulher-vadia como ferramenta de barganha. O impulso sexual da mulher é menor que o do homem, e elas sabem usar o sexo em seu favor. Por este motivo, elas rejeitam o sexo para os homens apaixonados, pois os interpretam como homens fracos, mas abrem as pernas para o cafajeste. Trata-se de uma tentativa de prender o cafajeste através do sexo de qualidade. O mito do amor romântico é combatido. Muito se critica a cultura do romantismo que condicionam o homem à emasculação. Para vencer os jogos emocionais, o homem deve treinar o desapego a fim de

evitar que seja alvo dos jogos sentimentais. Esforço que visa a “morte do ego”.

O feminismo é criticado, pois fomentou o lado obscuro da mulher. A natureza da traição do homem é diferente da mulher. O primeiro trai por ceder a seu impulso sexual. A segunda trai porque se move pela busca de fortes emoções. A mulher vadia procuram ter seu ego inflado. Neste sentido, elas buscam, através do exibicionismo e drama, a atenção e elogios de outros homens.

A competição de ego também protagoniza o entendimento da famosa competição feminina. Fenômeno que se observa quando o atrativo do homem aumenta pelo fato dele ser compromissado e os famosos casos onde a mulher é traída pela melhor amiga 15 . Não se deve analisar uma mulher por aquilo que ela diz de si, mas efetivamente pelo modo como ela age. O homem deve focar em seu desenvolvimento pessoal, sendo as mulheres a conseqüência deste desenvolvimento.

Certamente há mais coisas que poderiam ser citadas, mas estes seriam um núcleo importante para entender o desenvolvimento do movimento. Trata-se de uma sistematização que visa explicar a dinâmica dos relacionamentos modernos e que são discutidos pelos

15 Sobre o fenômeno “as mulheres só enxergam outras mulheres” está incluso no material da Real o livro “O Homem Domado” de Esther Vilar.

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„realistas‟ através da observação do dia-a-dia, relatos e notícias que são debatidas em seus fóruns.

Acreditamos que agora esteja mais fácil compreender a revolta que é ocasionada quando um homem pisado e cruelmente machucado descobre a dinâmica dos relacionamentos pela ótica da Real. Há quase que uma inevitável polarização. A mulher passa a ser odiada e

todas passam a ser vistas como vadias. E o impulso de vingança e de “vencer o atraso” são

explícitos. Os anti-real não estão errados em suas reclamações quanto ao ódio contra as mulheres que pode ser visto nas correntes da Real 16 . Viktor Frankl reconhece esta natureza humana. Preso e maltratado nos campos de concentração nazista, Frankl relatou momento de revolta onde os explorados gostariam de se transformar nos carrascos para pagar na mesma moeda. Contudo, o psiquiatra que criou o logoterapia salienta que este sentimento deve ser superado e focalizado na busca do seu sentido da vida, que, segundo a logoterapia, é uma resposta que de depende de um diálogo honesto consigo: o descobrimento de seu sentido. Escreveu em “Em Busca do Sentido”:

Por longo tempo, durante meio século a psiquiatria tentou interpretar a mente simplesmente como um mecanismo, e consequentemente a terapia da doença mental simplesmente foi encarada como uma técnica. Eu acredito que esse sonho acabou. O que está despontando agora no horizonte não são os contornos de uma medicina psicologizada, mas antes, de uma psiquiatria humanizada. Um médico, entretanto, que continuasse entendendo o seu próprio papel principalmente como o de um técnico, confessaria que não vê em seu paciente mais do que uma máquina, em vez de enxergar o ser humano que está por trás da doença! O ser humano não é uma coisa entre outras; coisas se determinam mutuamente, mas o ser humano, em última análise, se determina a si mesmo. Aquilo que ele se torna - dentro dos limites dos seus dons e do meio ambiente - é ele que faz de si mesmo. No campo de concentração, por exemplo, nesse laboratório vivo e campo de testes que ele foi, observamos e testemunhamos alguns dos nossos companheiros se portarem como porcos, ao passo que outros agiram como se fossem santos. A pessoa humana tem dentro de si ambas as potencialidades; qual ser concretizada, depende de decisões e não de condições. Nossa geração é realista porque chegamos a conhecer o ser humano como ele de fato é. Afinal, ele é aquele ser que inventou as câmaras de gás de Auschwitz; mas ele é também aquele ser que entrou naquelas câmaras de gás de cabeça erguida, tendo nos lábios o Pai-nosso ou o Shem Yisraet. 17

  • 16 Elas concentram-se principalmente no Facebook, onde os „realistas‟ mais experientes admitem que possuem pouco controle e que usam esta rede social com objetivo de propaganda, incentivando as pessoas a buscarem seus fóruns e sites.

  • 17 FRANKL, V. E. Em Busca de Sentido: Um Psicólogo no Campo de Concentração. Porto Alegre: Sulina, 1987; São Leopoldo: Sinodal, 1987. 174p.

17

Longe de querer comparar a Real com uma espécie de terapia, mas é necessário elogiar a preocupação de membros mais velhos em orientar os novatos revoltados. Entretanto, este trecho não é apenas importante para compreender a revolta de certos membros revoltados, mas também questionar a Real sobre a busca do sentido dela. Às vezes eles tentam debater sobre isso, contudo permanece tudo junto e misturado. A Real pode não ter seu sentido definido, mas os mais experientes orientam que o sentido certamente não pelo caminho da vingança e o do ódio. Não queremos com isso sugerir que os juvenasda Real devem ser poupados de críticas, muito pelo contrário. Os “juvenas” da Real devem ser identificados e confrontados. A Figura 1 ilustra a abordagem carinhosa que deve ser empreendida com esses tipos 18 . O que não se recomenda é o “jogo baixo” comentado anteriormente, que seria nivelar toda a Real como sendo composta inteiramente de “juvenas”.

17 Longe de querer comparar a Real com uma espécie de terapia, mas é necessário elogiar

Figura 1 Início de diálogo com um “juvena” da Real.

A Real também faz críticas de cunho político e compartilha conteúdos que visam esclarecer a respeito do Globalismo e do Marxismo Cultural. Quanto aos dois últimos, iremos fazer críticas à postura prática da Real mais adiante, por enquanto estamos nos limitando a escrever um resumo e comentar alguns aspectos da Real. No livro que Lawlyet Wallace está escrevendo (“Filosofia da Real” que foi mencionado no capítulo anterior), ele tenta colocar a Real como um movimento em busca da verdade, não ignorando algumas fases que devem ser vencidas:

18 Colocando-os em seus devidos lugares como a escória da Real.

18

  • 1. Conhece a real e busca estudar honestamente seu material;

  • 2. Passa pela fase da revolta;

  • 3. Percebe, em algum momento, que há algo errado em toda essa revolta;

  • 4. Não se entrega. É travada uma luta pela verdade e pelo próprio crescimento;

  • 5. Passa a entender que não deve forçar a Real, que não deve agir de forma

mecanizada. Passa a buscar a internalização da Real, tornando-a uma extensão de si mesmo;

  • 6. Deixa de se preocupar com o que transmite e com o que os outros pensam.

Sua preocupação não é mais causar impressões, mas em ser uma pessoa autência, respeitando a própria individualidade, sendo capaz de amar e valorizar a si mesmo;

  • 7. Ele já não estuda mais a Real buscando algum interesse. Nem mesmo pelo

crescimento pessoal. Ele passa a estudar a Real pelo amor e prazer que tem

nessa atitude. Seu objetivo agora não é descobrir como se beneficiar com a Real, mas entender verdadeiramente a Real e, se possível, dar sua contribuição. 19

Wallace não é unanimidade da Real e não é possível fazer grandes previsões a respeito de como seu livro será recebido no meio. De certo alguns irão concordar, outros rejeitar, entretanto não dá para saber é em qual proporção isso vai acontecer e quão discutível e transformador será o material no meio „realista‟ 20 . Estamos em um capítulo onde propomos fazer um resumo da Real e este trecho do Wallace foi trazido por dois motivos. Primeiro porque é uma tentativa honesta de descrever os passos até se alcançar em uma meta dentro da Real, o que já seria um sentido. Não vamos discutir quão precisos ou certos estão esses passos, apenas destacamos que há uma tentativa honesta de síntese de alguém que pertence ao meio „realista‟. O segundo motivo, mais importante que o primeiro no contexto deste trabalho, é que o primeiro passo começa em conhecer a Real. Pode parecer óbvio, mas é importante explicitar, uma vez que o que nos interessa é adentrar no motivo que leva as pessoas a conhecerem a Real. Na imensa maioria das vezes, as pessoas são levadas ao conhecimento da Real por conta de problemas que tiveram no relacionamento amoroso. A porta de entrada consiste em estudar os relacionamentos sobre a ótica da Real e para isso recomendam materiais como os de Nessahan Alita. Mesmo abordando temas políticos e culturais, a porta de entrada está em sua propaganda em relação à dinâmica dos relacionamentos os articuladores da Real têm consciência disso e procuram potencializar esta entrada. Neste sentido, é importante esclarecer o cunho teórico da por trás dessa principal abordagem da Real:

  • 19 WALLACE, L. Filosofia da Real. Preview 04-10-2013, p. 13.

  • 20 A abordagem de Lawlyet Wallace é mais voltada ao conservadorismo. Chesterton é bastante citado no preview do livro.

19

Costuma-se falar de má vontade sobre a maldade feminina. A tendência comum é evitá-la, evadindo-se. Por outro lado, denunciar as várias e inegáveis crueldades do homem é algo comum, visto pelas pessoas como natural, pois, como é comum ouvir-se, "os homens não prestam mesmo". Os homens bons, então, dão um sorriso amarelo e fingem achar graça, ainda que no fundo saibam que as coisas não são assim tão simples. Daí a necessidade de trilharmos o caminho oposto para esclarecer o que falta, encarando frontalmente o problema que todos evitam e denunciando-o como fazer as feministas justas com os vícios masculinos. Se é verdade que os machos humanóides animais são maldosos com relação às fêmeas, cobiçando-as, valorizando-as pela beleza exterior e possuem segundas intenções sexuais, não é menos verdade que as fêmeas também são maldosas, valorizando-nos por nossa posição social, nossa atratividade em relação às mulheres bonitas, nosso dinheiro, nossa fama etc. não nos amando desinteressadamente. São totalmente utilitaristas e não nos amam pelo que somos, mas apenas pelos benefícios práticos e emocionais que possam proporcionar. As segundas intenções masculinas são sexuais: o macho quer copular. As segundas intenções femininas são práticas e calculistas: ser invejada pelas rivais, transformada em princesa, ter um escravo, chamar a atenção, ser protegida, ser conhecida, etc. Portanto, não somente os homens são os vilões da história. 21

Este prisma auxilia no entendimento do porquê alguns conteúdos da Real são muitas vezes interpretados como hostis às mulheres por alguns conservadores. A Real está preocupada em alertar os homens sobre os ardis perversos das mulheres que são pouco abordados na cultura vigente. Denunciam a parcialidade cultural onde a mulher é moldada como inocente e boa, enquanto os homens são perversos e malvados. Denunciam o condicionamento cultural que está levando o homem a perda de sua virilidade, principalmente sobre o mito do amor romântico que faz o homem enxergar as mulheres como seres divinos e imaculados. A hostilidade da Real em relação às mulheres é, na verdade, em relação às mulheres vadias que tiram proveito deste ambiente cultural bagunçado. Há um inegável pessimismo que molda as ações da Real, uma vez que o crescimento da vadiagem/promiscuidade é visível a céu aberto. A Real não nega que há problema no homem, mas sua preocupação está mais voltada a criticar as vadias, alertando sobre seu “o lado obscurodesperto e ativo. Procuramos neste capítulo resumir o conteúdo-chave da Real e entender a abordagem „realista‟ para ingresso de novos confrades 22 . Nossa abordagem foi mais descritiva evitando qualquer juízo de valor. Se houve impressão de ataque ou defesa da Real em certo momento deste capítulo, alegamos que não tivemos a intenção. Recomendamos uma releitura do

  • 21 ALITA, Nessahan (2005). A Guerra da Paixão: As Artimanhas e os Truques Ardilosos das Mulheres no Amor. In: O Sofrimento Amoroso do Homem - Vol. III. Edição virtual independente de 2008. p. 60.

  • 22 Em termos „realísticos‟, confrade é o modo como os „realistas‟ dirigem-se entre si. É análogo ao „companheiro‟ dos petistas, ao „camarada‟ dos marxistas-hardcore, ao „colega‟ entre pessoas de mesma profissão, etc.

20

capítulo com espírito de imparcialidade. Se mesmo assim permanecer tal impressão, avisamos que não descartamos reescrever ou adicionar notas explicativas em edições futuras a fim de corrigir esse possível problema. No próximo capítulo, vamos analisar a eficiência da Real de um modo crítico.

21

3 O ORGULHO DA REAL

Para opinar racionalmente contra algum mal é preciso colocar-nos intelectualmente acima dele, não apenas escolher uma das posições que ele mesmo criou; isto só faz agravar a situação (Olavo de Carvalho).

Por que a Real possui relativo sucesso? Por que seus membros são seguros de si? A investigação dessas questões mostra-nos o que é a maior força da Real, mas também a possível origem de sua fraqueza. O sucesso da Real pode ser explicado por dois motivos. Primeiro porque a Real trata da temática dos relacionamentos amorosos, tema que desperta grande audiência. O segundo motivo, ligado ao anterior, é que de fato a Real conseguiu construir uma teoria acerca da dinâmica dos relacionamentos amorosos que apresenta uma precisão apurada em nossa sociedade. Grande parte da temática da Real está condensada na discussão sobre sua teoria acerca dos relacionamentos. É importante reconhecer que não se trata de mero lero-lero, a Real está envolta em uma aura de estrutura científica (informal). Para evidenciar isso, recorramos às considerações que Gustavo Corção presta à estrutura e aos métodos da ciência:

Desde a Idade Média, e principalmente desde Santo Tomás, sabemos que

convém distinguir, no cabedal científico a que damos vários nomes, conforme

seus objetos materiais, duas coisas:

a) O acervo dos dados observados e trazidos por observações e

experimentações à prova da evidência sensível. Demos a este principal

património, e principal critério das ciências o nome de "dado fenomênico"

ou de "fenômenos observados", ou ainda lembremos o nome que lhe davam

os escolásticos: "apparentia sensibilia" onde o termo "apparentia" não

quer dizer "o que parece ser

...

"

e muito menos "o que parece ser, mas não

é", e sim "o que é evidente para o conhecimento sensível".

  • b) A segunda coisa é a síntese interpretativa feita de teorias destinadas a propor uma explicação conexa aos vários elementos dispersos do dado observado. E aqui cabe um reparo importante: a teoria interpretativa, apesar de seu talhe imponente, é cientificamente sujeita ao observado, aos fenómenos, e só se mantém enquanto suas articulações e a costura de seu tecido de hipóteses explicativas conseguem dar conta dos dados observados. 23

Em meio em uma cultura de massa onde o ponto de vista do feminismo é hegemônico, a Real, principalmente impulsionada pelos livros de Nessahan Alita, organizou-se

23 CORÇÃO, G. O Século do Nada. Rio de Janeiro: Record, 1973. p. 123.

22

primeiramente nos espaços do Orkut para discutir a temática dos relacionamentos. Os diversos relatos, notícias e debates criaram um acervo de dados. A teoria presente em seus livros é a síntese interpretativa dos eventos observados, resultando na formulação de uma teoria que tanto os orgulha. O movimento está sustentado na observação da realidade. A Real consegue explicar os problemas dos relacionamentos modernos por meio de sua teoria interpretativa, permitindo que o homem possa se defender em um ambiente onde a informação geral se contextualiza sob a regência de uma hegemonia feminista. Daí que a expressão “sair da Matrix” signifique levar ao homem a entender sua posição de engano cultural e lutar para sair de sua situação precária. A teoria da Real, em suma, possibilita que o homem vença a guerra do “amor”, que deixe de ser enganado pelas “vadias”. Naturalmente que por se tratar de observações limitadas ao campo de ação humana, sua teoria não possui abrangência universal. Fazer tal consideração seria cair na tentação

cientificista que resultaria na ruptura da síntese interpretativa 24 . Alguns „realistas‟ exaltados podem cometer este grave erro, mas a Real em si 25 limita a eficácia de sua leitura às vadias de ambos os sexos 26 . Fazemos estas considerações porque há uma frase recorrente que corresponde a uma espécie de axioma da Real: não existe mulher exceção. É uma frase imprudente, pois pode ser facilmente mal-interpretada por quem não está suficientemente interado no assunto (creio que

a maioria dos conservadores). Em uma ótica distorcida, a afirmação de que “não existe mulher exceção” pode ser entendida como “todas as mulheres são vadias” e, sendo todas vadias, a Teoria da Real pode ter abrangência universal. Na realidade, a interpretação da não-existência da mulher exceção está no entendimento de que todas as mulheres possuem “um lado obscuro”, isto é, não são perfeitas. Isso não é propriamente uma novidade no meio conservador (princípio da imperfectibilidade do homem) e cristão (somos todos pecadores). Assim como não existe a mulher exceção, inexiste também o homem exceção. A polêmica frase é utilizada com objetivo de “dar um tapa” nos novatos da Real que, ainda imersos na Matrix, permanecem iludidos pelo mito do amor romântico, carregando consigo a credulidade sobre a lenda da pureza e santidade feminina e acreditando que a melhor estratégia é ser bondoso, submisso e romântico (miguxo no jargão ridiculatório dos „realistas‟; paspalho, no provocativo) com vistas a conquista da

  • 24 CORÇÃO, G. O Século do Nada. Rio de Janeiro: Record, 1973. p. 124.

  • 25 Lembrando que estamos mais preocupados em analisar seus membros mais influentes.

  • 26 A vadia-homem é o cafajeste. Na Real, é comumente referido de modo abreviado: cafa.

23

doce, bela, única e bondosa lady. O trágico e lúdico fenômeno da Friendzone (Figura 2) é um bom exemplo dessa desconfortável situação.

23 doce, bela, única e bondosa lady . O trágico e lúdico fenômeno da Friendzone (Figura

Figura 2 – Friendzone, onde a „amizade‟ é estranha.

Observar a realidade e elaborar uma teoria interpretativa racional é um mérito da Real. É donde provém sua força e explica o motivo do seu sucesso. Sob a ótica da sua teoria, determinados comportamentos enigmáticos passam a compreensíveis. Este sucesso, contudo, também revela uma fraqueza da Real: a arrogância. Porque a Teoria da Real é funcional, ela desperta admiração e agradecimentos de membros que conseguiram reverter sua situação de capacho em relação às mulheres. Se fossem fazer uma apresentação, a Real teria vários exemplos de “case de sucesso.

24

Provavelmente provém deste identificável sucesso certa arrogância em relação às críticas que vêm de fora. Os críticos são interpretados como pessoas que estão presas na Matrix e, portanto, em estado inferior aos „realistas‟ que saíram da lastimável situação. Quem os critica são catalogados automaticamente como manginas, cavaleiros brancos, matrixianos, miguxos, etc.

Não sabemos se é por causa deste hábito defensivo, ou se é porque a rotulagem pejorativa é regra nos debates virtuais, ou se é por causa dos dois, mas é interessante observar que esta tática de rotulação também está presente nas discussões internas da Real, principalmente quando um assunto descamba para o campo moral. É no campo moral que reside a problemática da Real. De fato a Real trabalha com sua ciência informal que tem seus pés fincados no chão, mas a ciência em si é amoral. Um conhecimento pode ser usado para o bem ou para o mal. Neste aspecto, cada membro é livre para fazer o que quiser, contudo, tal saída não condiz com os outros objetivos da Real que busca combater o esquerdismo no campo político e o Marxismo Cultural no campo cultural. Como conservadores, devemos rejeitar o niilismo realista”. Se a Real almeja fins nobres de mudança, ela não pode ignorar este tipo de debate. O conservador enxerga que as crises são causadas por problemas morais. Reconhecemos aqui que a Real fez uma boa leitura em torno da dinâmica dos relacionamentos amorosos da modernidade. O diagnóstico da Real é bom. É uma ferramenta funcional ao que tange seu campo de ação. Entretanto, como bem pondera Michael Oakeshott 27 , a ferramenta para a execução de trabalho é justamente onde está o cerne da preocupação conservadora.

3.1 POR QUE A TEORIA DA REAL FUNCIONA

Discutimos anteriormente a teoria da Real e admitimos que ela possui êxito em explicar a dinâmica dos relacionamentos modernos. Ponderamos, contudo, que seu range não é universal, limitando-se principalmente como bem esclarece autores influentes do material como Nessahan Alita e Esther Vilar às mulheres vadias.

25

A partir disso, podemos fazer a seguinte afirmação: quanto maior for o índice de vadiagem da sociedade, maior será a abrangência da Real. Nesta afirmação, não estamos excluindo a vadiagem masculina, simbolizada na figura do cafajeste. Então emerge a pergunta: por que a teoria da Real obtém sucesso? Nessahan Alita não esconde sua sustentação pela psicologia evolutiva. Alita elucida que o comportamento vadioé decorrente do ser humano estar voltado ao seu comportamento mais animalesco.

O filósofo Olavo de Carvalho em artigo intitulado “A moral do Brasil” aponta para a

Teoria do Desenvolvimento Moral de Lawrence Kohlberg (grifos nossos):

Se você quer entender e não tem medo de perceber em que tipo de ambiente

mental está metido nesse nosso Brasil, nada melhor do que estudar um pouco a

Teoria do Desenvolvimento Moral de Lawrence Kohlberg. Enunciada pela

primeira vez em 1958 e depois muito aperfeiçoada, ela mede o grau de

consciência moral dos indivíduos conforme os valores que motivam as suas

ações, numa escala que vai do simples reflexo de autopreservação natural até o

sacrifício do ego ao primado dos valores universais.

Kohlberg, que foi professor de psicologia na Faculdade de Educação em

Harvard, desenvolveu alguns testes para avaliar o desenvolvimento moral, mas

os críticos responderam que isso só media a interpretação que os indivíduos

testados faziam de si mesmos, não a sua motivação efetiva nas situações reais.

Essa dificuldade pode ser neutralizada se em vez de testes tomarmos como

ponto de partida as condutas reais, discernindo, por exclusão, as motivações

que as determinaram.

Os graus admitidos por Kohlberg são seis. No mais baixo e primitivo, em que a

conduta humana faz fronteira com a dos animais, a motivação principal das

ações é o medo do castigo. É o estágio da ―Obediência e Punição‖. No

segundo (―Individualismo e Intercâmbio‖), o indivíduo busca conscientemente

a via mais eficaz para satisfazer a seus próprios interesses e entende que às

vezes a reciprocidade e a troca são vantajosas. No terceiro (―Relações

Interpessoais‖), os interesses imediatos cedem lugar ao desejo de captar

simpatia, de ser aceito num grupo, de sentir que tem ―amigos‖ e distinguir-se

dos estranhos, dos concorrentes e inimigos. No quarto (―Manutenção da

Ordem‖), o indivíduo percebe que há uma ordem social acima dos grupos e

empenha-se em obedecer as leis, em cumprir suas obrigações. No quinto

(―Contrato Social e Direitos Individuais‖), ele se torna sensível à diversidade

de opiniões e entende a ordem social já não como um imperativo mecânico, mas

como um acordo complexo necessário à convivência pacífica entre os

divergentes, No sexto e último (―Princípios Universais‖), ele busca orientar sua

conduta por valores universais, mesmo quando estes entram em conflito com os

seus interesses pessoais, com a vontade dos vários grupos ou com a ordem

social presente.

Essas seis motivações refletem três níveis de moralidade: os dois primeiros

expressam a ―moralidade pré-convencional‖; os dois intermediários a

moralidade convencional‖, os dois últimos a ―moralidade pós-

convencional‖.

Se não atentamos para os discursos, mas para as escolhas reais que as pessoas

fazem na vida, não é preciso observar muito para notar que os indivíduos que

nos governam, bem como os seus porta-vozes na mídia e nas universidades, não

passam do terceiro estágio, o mais baixo da moralidade convencional, em que a

identidade, a coesão e a solidariedade interna do grupo prevalecem sobre a

ordem social, as leis, os direitos dos adversários e quaisquer valores universais

26

que se possa conceber (e que desde esse nível de consciência são mesmo

inconcebíveis, embora nada impeça que sua linguagem seja macaqueada como

camuflagem dos desejos do grupo). 28

Embora o artigo esteja voltado para uma crítica ao esquerdismo, a teoria de Kohlberg

auxilia na explicação sobre o êxito da teoria da Real: o nível moral da sociedade está baixo, próximo aos instintos animalescos que Nessahan Alita comenta. Podemos dizer que a sociedade está se bestializando. Ao traçar os instintos bestiais do homem e da mulher, a Real consegue êxito teórico na abordagem dos relacionamentos modernos. Alguns conservadores incomodam-se com o vocabulário presente em sites e blogs „realistas‟, porque as expressões macho e fêmea são empregadas. Contudo, tais termos são coerentes com bestialização social, sendo os mais apropriados para explicar a teoria da Real. O núcleo explicativo da Real está no macho e fêmea, isto é, seus instintos animais inconscientes e que representam bem a baixeza do nível moral a que tais termos se referem. Em suma, podemos concluir que a Real funciona porque estamos diante de uma cultura que demonstra baixo nível moral, que não ultrapassa o terceiro nível de Kohlberg. Há uma correlação inversamente proporcional entre nível moral e funcionalidade da Real, isto é, quanto maior o nível moral da população, menos eficiente será a leitura social da teoria

„realista‟.

Aqui jaz novamente o motivo para que este trabalho se dirija, em especial, ao público

conservador. Uma vez que os conservadores encaram a ordem moral com um princípio importante para o bem estar social, a não-hipocrisia obriga-os a buscar com sinceridade as virtudes humanas, ascender aos níveis morais Kohlberg, posicionando moralmente acima de qualquer esquerdista, vadia ou cafajeste.

3.2 MOTIVAÇÕES E EXAGEROS

A abordagem da Real em sua propaganda é de ataque às mulheres vadias. Existe a preocupação de alertar o homem sobre a hegemonia feminista que é crescente. A Real coloca- se com a pretensão de combater o feminismo, um dos principais males do Marxismo Cultural.

28 CARVALHO, Olavo de. A Moral do Brasil. Diário do Comércio, 19/10/2003. Disponível em:

27

Se o objetivo é de mudança e de quebra de uma hegemonia, tem-se desde Gramsci (um dos pais do Marxismo Cultural) que a disputa é pela mudança do “senso comum”. Como bem observa Olavo de Carvalho, a ironia de Gramsci é que ele defende uma ideologia coletivista, mas não ignora que esta mudança deva ser feita do modo a mudar a percepção a nível individual. O objetivo do gramscismo é mudança cultural, uma completa inversão de valores em benefício de uma força revolucionária:

Para a revolução gramsciana vale menos um orador, um agitador notório, do que um jornalista discreto que, sem tomar posição explícita, vá delicadamente mudando o teor do noticiário, ou do que um cineasta cujos filmes, sem qualquer mensagem política ostensiva, afeiçoem o público a um novo imaginário, gerador de um novo senso comum. Jornalistas, cineastas, músicos, psicólogos, pedagogos infantis e conselheiros familiares representam uma tropa de elite do exército gramsciano. Sua atuação informal penetra fundo nas consciências, sem nenhum intuito político declarado, e deixa nelas as marcas de novos sentimentos, de novas reações, de novas atitudes morais que, no momento propício, se integrarão harmoniosamente na hegemonia comunista. 29

Daí que do ponto de vista estratégico da mudança, não está errada a motivação que os líderes „realistas‟ dão para o fato de que a Real precisa ser internalizada. Isso significa que o homem deve treinar o “desapego” (blindar-se contra a sedução feminina que tenta provocar uma paixão irracional) 30 , focar no desenvolvimento pessoal (trabalho, saúde e finanças 31 ) e voltar-se para a “honra”. Colocamos aspas na honra, porque embora muito seja dito a respeito de motivar o homem a ser honrado, a definição disso não é clara, justamente porque a maior fonte de divergência „realista‟ dá-se no campo moral. Talvez a maior convergência no campo da honra seja a instrução de, caso estar em um relacionamento sério, não trair a parceira. Um Guerreiro da Real não pode ignorar que a honra passa pela autocrítica masculina 32 . Muito a Real critica a mulher vadia e o feminismo, mas pouco se aprofunda sobre a moralidade do homem diante de uma cultura cada vez mais feminista. É daí que pode

  • 29 CARVALHO, Olavo de. A Nova Era e a Revolução Cultural: Fritjof Capra & Antonio Gramsci. Disponível em http://www.olavodecarvalho.org/livros/neindex.htm

  • 30 O conceito de desapego em seu campo de atuação não está aprofundado. Se isso é bom ou ruim, quando é positivo e quando é negativo, será tratado mais a frente.

  • 31 Livros voltados à administração, à aplicação financeira e dicas de exercícios físicos são compartilhados entre realistas.

  • 32 Se ignorar, não é por certo um conservador. Lembrando que Guerreiro da Real neste trabalho é o conservador que defende a Real.

28

ser origem da crítica sobre a Real ser um feminismo com sinal trocado 33 . É bastante relembrado que a Real não é sobre pegar mulher, mas sua teoria ensina que o cafajeste é um imã para atraí-las. Tira-se que uma das autocríticas ao homem é que ele não se torne um cafajeste. Sendo este conselho pouco difundido, a crítica sobre o sinal trocado não pode ser totalmente negada. Outro detalhe relevante é a crítica pela crítica em relação às mulheres feministas. O comportamento de vadia deve ser atacado, mas tão importante quanto metralhar, é formar. O que a Real tem a dizer a respeito da mulher honrada, o oposto da mulher vadia? Pode haver aqui uma objeção de que, mesmo falando pouco, fala-se sobre a mulher honrada e a importância da família não negamos , mas falamos a respeito de uma abordagem visando a conversão. Há certo pessimismo na Real. A hegemonia feminista impregnada no “senso comum” assusta a quem saiu da matrix. A conversão de uma vadia famosa é vista sob a ótica negativista. Transparece certo sentimento de “uma vez vadia, sempre vadia” que é o resultado de levar às últimas conseqüências o conceito de “lado obscuro feminino” 34 . Um processo de conversão certamente não é fácil, mas se algo é difícil, significa que

deve ser deixado? Logo na introdução de “Filosofia da Crise”, o filósofo Mario Ferreira dos

Santos assinala:

Cavamos abismos, quando já os temos dentro de nós. E eles surgem da nossa

desesperança.

É a desesperança que cava abismos. E o homem desesperado, quando não mais

espera o que esperava, precisa encontrar o que não tem. E o desespero, que

está virtualizado no crente fiel, actualiza-se no homem que duvida. Cavam

abismos os que duvidam.

Mas, dirão, é possivel crer mais? Mas pode, acaso o homem deixar de crer? Ele

procura uma crença no desespero, ele procura uma crença ao aprofundar o

abismo, crença até não crer mais em nada.

E quando não crê e procurar crer, fanatiza-se.

(

...

)

E esta desesperança trouxe a inversão dos valores mais altos, a inversão nas

hierarquias. E desde aí começou a avassalante marcha da ascensão dos tipos

mais baixos, para cuja ascensão o capitalismo colaborou, e daí, como

decorrência, surgirem o primarismo, a improvisação, a auto-suficiência dos

medíocres.

(

...

)

Mas, é preciso ter muito cuidado para que não nos ofereçam, com o rótulo de

concreção, velhas visões unilaterais, sectárias, geradoras de novas

brutalidades, que apenas vão repetir a velha monódia da brutalidade humana.

33 Ponto que vai ser aprofundado no próximo capítulo.

34 O “lado obscuro feminino” é um ótimo conceito para fins didáticos, mas não deve sobrepujar o livre-arbítrio, do contrário cai-se em determinismo.

29

Cuidado com as pseudo-sínteses, com os inóculos substitutos de Deus, como nos

propõem os nossos "religiosos" da matéria e os "religiosos" da existência, ou

outros que julgam que ao substituir os símbolos, substituem os velhos

simbolizados. 35

Muito vale refletir este trecho de Mario Ferreira dos Santos. É profundo e possui um alerta importante: a desesperança e o desespero podem levar à fanatização que procede daqueles que não crêem, mas procuram crer. Então se encaminha a perigos que resultam na inversão de valores e a ascensão dos medíocres. Um quadro oposto ao que um conservador

deseja. Além disso, o filósofo faz um alerta que não pode deixar de ser destacado: é preciso ter muito cuidado para que não nos ofereçam, com o rótulo de concreção, velhas visões

unilaterais, sectárias, geradoras de novas brutalidades, que apenas vão repetir a velha

monódia da brutalidade humana. O filósofo vem a colaborar com uma crítica à Real que é bastante pertinente: ser um feminismo com sinal trocado. Há uma mobilização no sentido de usar o conhecimento da Real para fins de vencer uma guerra usando o conhecimento do inconsciente animalesco do homem e da mulher. Com a Real, pode agora o homem vencer a barreira onde a vadia lhe tinha na mão: sexo. O velho sonho de apostar em relacionamentos sérios é, dentro do pessimismo da Real, convertido no desejo de fazer as mulheres abrir as pernas. Ao não buscar uma elevação moral, a Real fica naturalmente presa à cultura do

hedonismo que a própria hegemonia feminista ajudou a promover. A teoria da Real alerta o homem para o famoso jogo do puxa-empurra: a mulher altera seu humor de modo imprevisto (qual mulher não é bipolar? Pode questionar-se em tom de humor) e isso consegue afetar o homem de tal maneira que ele se torna um capacho apaixonado. Se o humor não funciona, a mulher pode usar a variante do sexo. Alternar entre sexo de boa qualidade e censura ao sexo como forma de controlar o homem. É um ardil bem interessante que a Real pescou. Vale reforçar ainda que o condicionamento de estímulos positivos e negativos como forma de controle não é propriamente algo novo no âmbito da engenharia social. Em Jardim das Aflições, Olavo de Carvalho é categórico quanto a isso:

Quem disse que buscar o prazer e evitar a dor nos liberta do determinismo?

Pavlov dizia exatamente o contrário: o binômio dor-prazer é o comutador que

aciona os reflexos condicionados, por meio dos quais um animal ou um homem

pode ser governado desde fora. O budismo diz a mesma coisa: que só alcança a

liberdade quem se coloca para além da dor e do prazer. Aristóteles o confirma,

30

mediante a distinção, que se tornou clássica e foi endossada pelo cristianismo,

entre a vontade livre e a obediência ao instinto. E também pelo Dr. Freud, com

o seu ―princípio de realidade‖ que transcende o princípio do prazer. Mas não é

preciso tanta ciência para nos informar aquilo que um carroceiro sabe

perfeitamente: que, fazendo um asno perseguir a prazerosa cenoura e esquivar-

se do doloroso porrete, podemos levá-lo para onde o quisermos, sem que ele

tenha a menor idéia de estar sendo conduzido de fora nem deixe de estar

persuadido de que exerce livremente o seu clinamen 36 . Não há saída: se os

átomos seguem o clinamen, não são livres: obedecem ao determinismo do

instinto, que é rígido e repetitivo como a lei de queda. 37

Adous Huxley em “Regresso ao Admirável Mundo Novo” também assinala a respeito do puxa-empuxa:

O fato das emoções fortes e negativas tenderem a aumentar a sugestibilidade e

a facilitarem, assim, uma substituição de opiniões, foi anotada e explorada

muito antes de Pavlov. Como assinalou o Dr. William Sargant no seu tão

esclarecedor livro, Battle for the Mind, o grande êxito de John Wesley como

pregador baseava-se no conhecimento intuitivo do sistema nervoso central.

John Wesley iniciava o seu sermão com uma descrição longa e minuciosa dos

tormentos a que os seus ouvintes seriam, com certeza, condenados para todo o

sempre, a menos que se convertessem. Depois, quando o medo e um sentimento

de culpabilidade torturante levavam o auditório à beira da vertigem, ou até, em

alguns casos, a uma depressão cerebral completa, alterava o tom de voz e

prometia a salvação àqueles que cressem e se arrependessem. Com este método

de pregação, Wesley converteu milhares de seres humanos. O pavor intenso e

prolongado levava-os a soçobrar e gerava um estado de sugestibilidade

extremamente intensificada. Nesta situação, as pessoas eram capazes de

aceitar, sem discussão, as afirmações teológicas do pregador. Depois disso,

eram restabelecidos na sua integridade com palavras de consolação, e saíam da

provação com sistemas de comportamento novos, e geralmente melhores,

implantados de modo indestrutível nos seus espíritos e no seu sistema nervoso.

38

Não é interessante observar que a Real consegue êxito em descrever o jogo do “lado obscuro feminino” e então se armar contra ele, mas tem relativa miopia para perceber que no âmbito da guerra cultural podem estar sendo vítimas de estratégia similar?

Outra crítica à Real é a transferência de culpa. O conceito de honra da Real certamente fala sobre o fato do homem arcar com a própria responsabilidade, mas há algo no

comportamento masculino, que é bastante

intrigante...

Àquela espécie de determinismo sobre

o comportamento feminino parece justificar o estilo de comer a vadia e jogar fora”. Este é

um dos campos morais onde Nessahan Alita justifica tais comportamentos argumentando que

  • 36 É um princípio do Epicurismo a respeito do movimento livre e indeterminado dos átomos , definido como o impulso espontâneo de buscar o prazer e fugir da dor.

  • 37 CARVALHO, Olavo de. O Jardim das Aflições de Epicuro à Ressurreição de César: ensaio sobre o materialismo e a religião civil. 2 edição. Rio de Janeiro: Topbook, 1998. p. 44.

  • 38 HUXLEY, Aldous. Regresso ao Admirável Mundo Novo. São Paulo: Hemus, 1959.

31

como a vadia busca se relacionar de modo utilitarista, então o homem pode se aproveitar para passar-lhe a perna. Olho por olho, dente por denteque cria uma contradição onde o combate à promiscuidade feminina é feito mediante o ato de nutrir a promiscuidade feminina. O homem solteiro transformado no cafajeste, o pólo invertido da vadia. Combatendo fogo com fogo, encarna-se, literalmente, a guerra dos sexos. A segregação que Mario Ferreira dos Santos identificou como crisis. Além disso, a justificativa “moral” de Nessahan Alita é influenciada em um princípio gnóstico de culpar terceiros. O determinismo pessimista da Real leva a „inevitabilidade‟ da

vadia, fazendo com que errado seja não se aproveitar disso. Aproveitando-se da maré hedonista promovida pelo feminismo, surfa-se na onda culpando o mar por estar surfando nela.

Ressalta-se também que o ambiente de relacionamento efêmero e utilitarista é uma característica de nosso tempo pós-moderno (e a Real não deixa de confirmar este prognóstico ao descrever a relação vadia-cafajeste). Em “Modernidade Líquida”, o sociólogo Zygmunt Bauman descreve a características efêmeras e instrumentais da dinâmica pós-moderna, onde o “querer” é a principal motivação de nosso tempo. O anterior espírito de produtor seguir regras e preceitos que agradem ao cliente transfigurou-se para o espírito de consumidor a procura da satisfação em curto prazo. Espírito de consumidor este que é alheio ao pensamento conservador, cuja prudência prevê analisar as conseqüências em longo prazo.

3.3 NECESSIDADE DA DISCUSSÃO MORAL

A grande praga da pós-modernista é o relativismo moral, não pelo simples fato de que considera que todas as idéias têm mesmo peso e validade, mas porque também censura o debate moral. Em tempos de relativismo, a discussão moral é movida para baixo do tapete, é vista e este tipo de papo não escapa ao ambiente da Real – como mera “questão religiosa” que “deve ser respeitada” 39 . Oras, este tipo de discurso ignora um detalhe deveras importante: a discussão moral aponta para critérios de verdade que, respeitados, visam objetivamente buscar o melhor caminho para uma ordem social.

39 Tipo de discurso, diga-se que é exemplo visível de manifestação relativista.

32

Não esqueçamos que a justificativa “moral” de políticas esquerdistas, como bem sintetiza Saul Alynsky 40 , está pautada em abstrações. A mais conhecida é o famoso discurso pelo “bem comum”. A partir deste fim impreciso, todas as atitudes dos revolucionários estariam justificadas a priori. Sabemos que este tipo de pensamento não gera a ordem social, mas seu oposto. Tal ambiente relativista, portanto, preocupa-se menos com o bem estar social do que adquirir o poder subjugando uma ordem moral vigente. Os conservadores, por outro lado, estão mais preocupados em discutir os meios para se chegar a determinado fim. Há certos valores inegociáveis, aprendidos pelo sacrifício de nossos antepassados. Além disso, devemos nos preocupar por aqueles que virão depois de nós. Resumidamente, o conservador leva em consideração o fato de sermos uma comunidade de almas. Como o relativismo moral é, em termos práticos, uma ferramenta visa subtrair-se de culpa e/ou responsabilidade afinal, se não há certo ou errado, verdadeiro ou falso, então tudo pode ser feito não é meramente uma surpresa que outra característica presente na pós- modernidade seja a aplicação do sentimentalismo como critério de verdade, um ambiente fértil para colher histerias. Como observa Stanley J. Grenz:

Os pós-modernos não estão também, necessariamente, preocupados em provar

que estão "certos" e os outros "errados". Para eles, as crenças são, em última

análise, uma questão de contexto social e, portanto, é bem provável que

cheguem à conclusão de que "o que é certo para nós talvez não o seja para

você" e "O que está errado em nosso contexto talvez seja aceitável ou até

mesmo preferível no seu". 41

Na questão moral, este é mais ou menos o espírito das discussões „realistas‟. Não

podendo, como já foi observado anteriormente, ser chamado de um movimento conservador. Uma vez que há conservadores na Real e sendo este trabalho dirigido ao público conservador,

devemos rejeitar o espírito pós-moderno e abordar a discussão moral em termos racionais. Em "Inteligência e verdade", Olavo de Carvalho discorre:

O que aconteceria se, numa determinada sociedade, existisse um grande

número de pessoas capazes de julgar por si mesmas e de perceber a verdade,

não sobre todos os pontos, mas sobre os pontos de maior interesse para a

sociedade, ou sobre os que são mais urgentes? Haveria mais sensatez, os

debates levariam a conclusões mais justas, as decisões teriam um sentido mais

40 ALINKY, Saul. Rules of Radicals: A Pragmatic Primer for Realistic Radicals. New York: Random House,

1971.

41 GRENZ, Stanley J. Pós-modernismo: um guia para entender a filosofia do nosso tempo. São Paulo: Vila

33

realista. Agora, numa sociedade onde todos estão se persuadindo uns aos

outros de coisas de que eles mesmos não estão persuadidos, onde todos estão

procurando se enganar, ou onde todos estão procurando ajuda dos outros para

se enganar mais facilmente a si mesmos, todas as discussões versam sobre

fantasmas, as decisões se esvanecem em meros sonhos, as frustrações levam o

povo a um estado de exasperação do qual ele procura fugir mediante novas

fantasias, e assim por diante. Isto acontece no campo religioso, político, moral,

econômico e até no campo científico. Podemos partir para uma outra definição,

e dizer que um país tem uma cultura própria quando ele tem um número

suficiente de pessoas capazes de perceber a verdade por si mesmas, e que não

precisam ser persuadidas por ninguém. Estas pessoas funcionam como uma

espécie de fiscais da inteligência 42 coletiva. Em nosso país o número de pessoas

assim é escandalosamente reduzido. As pessoas encarregadas de perceber a

verdade por si mesmas devem ter uma inteligência treinada para isto, devem ter

uma inteligência dócil à verdade e ser as primeiras a perceber e compreender o

que se passa. Isto é que constitui uma inteligência nacional, uma

intelectualidade nacional. A intelectualidade autêntica não é constituída

necessariamente pelas pessoas que exercem profissões ligadas à cultura ou à

inteligência, mas sim pelas pessoas que, exercendo ou não essas profissões,

realizam as ações correspondentes a elas. Não é preciso ir muito longe para

dizer que a sorte global de um país depende de que haja uma camada de

pessoas assim, para poder, nos momentos de dificuldade, dar esta contribuição

modesta que é simplesmente dizer a verdade. No Brasil temos um número

assombroso de pessoas que trabalham em atividades culturais, escritores,

professores, artistas, em geral subvencionados pelo governo, mas que nem de

longe pensam em cumprir as obrigações elementares da vida intelectual; tudo o

que fazem é apoiar-se uns aos outros num discurso coletivo, reafirmar as

mesmas crenças de origem puramente egoista e subjetivista, expressar desejos e

preconceitos coletivos e pessoais, promover a moda. Essas pessoas vivem

reclamando de que neste país há poucas verbas para a cultura. Mas, para fazer

isso que elas chamam de cultura, já recebem muito mais dinheiro do que

merecem. Os cineastas, diretores de teatro, etc., constituem uma casta

privilegiada, que é estipendiada pelo governo para exibir em público emoções

baratas, afetar indignação e posar como "pessoas maravilhosas" em

apartamentos da av. Vieira Souto. 43

Sendo assim, a discussão moral não pode ser construída em torno da enganação; mas da verdade. Além disso, é sensato que se aborde os interesses mais urgentes da sociedade. Dado tais pressupostos, a temática da Real certamente é relevante, pois retrata a dinâmica dos relacionamentos amorosos. Além disso, o movimento visa fazer um contraponto político e cultural. Discutiremos então aquilo que hoje é um tabu invertido em nossa sociedade pós- moderna: a sexualidade. Como este trabalho não é direcionado a esquerdistas ou pessoas incorporadas do espírito relativista pós-moderno, recordamos que não há receio quanto a

rótulos do tipo “careta”, “retrógrado”, “fanático”, etc.

  • 42 Definição de inteligência: a potência de conhecer a verdade por qualquer meio que seja.

  • 43 CARVALHO, Olavo de. Inteligência e verdade. Apostilas do Seminário de Filosofia. 1994. Disponível em http://www.olavodecarvalho.org/apostilas/intver.htm

34

Rejeitando qualquer relativismo ou sentimentalismo, a discussão moral vai ser empreendida por critérios racionais visando uma ordem moral duradoura para a sociedade. Nossa sociedade moderna pode ter esquecido a existência do certo e errado e da importância da hierarquia de valores, mas isso não justifica colaborar com tal inércia, pelo contrário, desafiar esta censura pós-moderna é fundamental para a sobrevivência do nosso valor humano e ascensão de nossa inteligência. Como explica Olavo de Carvalho:

Se definimos a inteligência como a capacidade humana de captar o que é

verdade, também entendemos que o essencial do ser humano, aquilo que o

diferencia dos animais, não é o pensamento, não é a razão, nem uma

imaginação ou memória excepcionalmente desenvolvidas, embora tudo isto haja

efetivamente no ser humano. Pois pensar, um macaco também pensa: ele

completa um silogismo e até encadeia silogismos num raciocínio relativamente

perfeito. Imaginação, até um gato possui: os gatos sonham. Por este caminho

não encontraremos a diferença específica humana, aquilo que nos torna homens

em vez de bichos. E, se é importante arraigar o homem no reino animal, para

não fazer dele um ser angélico sem pés no solo, também é importante saber

distingui-lo de uma tartaruga ou de um molusco por alguma diferença que não

seja meramente quantitativa e acidental.

O que nos torna humanos é o fato de que tudo aquilo que imaginamos,

raciocinamos, recordamos, somos capazes de vê-lo como um conjunto e, com

relação a este conjunto, podemos dizer um sim ou um não, podemos dizer: "É

verdadeiro", ou: "É falso". Somos capazes de julgar a veracidade ou falsidade

de tudo aquilo que a nossa própria mente vai conhecendo ou produzindo, e isto

não há animal que possa fazer. 44

3.4 A QUESTÃO MORAL DO SEXO

Façamos aqui uma abordagem moral do sexo. Em um dos debates entre conservadores e „realistas‟, alguém desta perguntou: “o que tem de mal no sexo?”. Ótima pergunta. Ela é simples, mas exige uma resposta não tão simples. Lá vamos nós. De qual tipo de sexo estamos falando? A começar, devemos enumerar dois tipos de sexo, classificando-os quanto ao seu fim. Então, vamos dividi-lo em sexo que visa à procriação e sexo que visa o prazer. Façamos isso pela constatação óbvia de que o ato sexual pode gerar filhos (reprodução) e que o prazer é gerado pelo orgasmo. Pode haver uma sagaz observação: há orgasmo no sexo que daqui a nove meses colocará mais um ser humano no mundo. Justo, então esclarecemos que o sexo por prazer não tem a intenção gerar filhos. É o sexo que visa sensação orgásmica com explícito não interesse de ter filho.

44 Idem

35

A primeira questão a ser levantada é: na hierarquia de valores, qual é o tipo de sexo mais importante? O sexo procriativo, naturalmente. Imaginemos que todo mundo deixe de fazer este tipo de sexo, em poucos anos acabaria a humanidade. Este tipo de sexo é fundamental para o ciclo da vida: nascer, crescer, reproduzir e morrer. Se as pessoas deixam de fazer o sexo por prazer e só fizerem o procriativo, a vida e a sociedade continuam. A recíproca, por outro lado, não é verdadeira. Continuando o raciocínio, haverá uma objeção perspicaz: se for descontrolado em demasia, muitos filhos nascerão e como eles serão educados? Daí que entra na equação a família tradicional. O homem casa com a mulher com objetivo de criar um ambiente propício para a criação dos filhos. Deste comprometimento mútuo, resulta a instituição familiar. A própria Real atesta que a expansão de mães solteiras não é benéfica para a sociedade e que, portanto, é preferível que filhos sejam planejados dentro de um projeto de família. Portanto, verifica-se que, neste contexto desejável, a castidade é uma virtude, enquanto a vida promíscua está situada em baixos patamares morais, ou melhor, sendo assertivo, na imoralidade. Para elucidar melhor, podemos definir que o sexo procriativo citado anteriormente é o sexo realizado dentro do casamento, ou seja, o sexo feito em uma estrutura que não tem medo de cegonha. Desta análise constamos que colocar o sexo casual (por prazer) acima do sexo procriativo (dentro de um projeto de família) é uma clara inversão de valores. Não é à toa que a libertação sexual resultou no enfraquecimento da família e conseqüentemente no aumento da desordem social. Certamente há alguém lucrando com isso e é o que sintetiza Jeffrey Nyquist:

Eis a chave para se entender tudo que está acontecendo nos dias de hoje. Além

disso, o novo regime "administrado" teve como seu maior e mais decisivo feito a

aniquilação do pai de família. Se alguém duvida do impacto dessa revelação,

considere a estatística de 2010 do CDC dizendo que 40.8% de todos os

nascimentos provém de mulheres solteiras.

Meus colegas libertários podem perguntar porque nascimentos fora do

casamento estão relacionados com a destruição do capitalismo. A resposta é

simples. O Estado de bem-estar social alimentou essa catástrofe social da

orfandade paterna. Por conta de o pai não ser mais necessário e o novo regime

prometer dar apoio a todos que passarem por necessidades, a sociedade se

transformou e o espírito da época já não é mais capitalista. Ele é agora

estadista.

E agora, ao invés de milhões de pais tomando conta dos seus filhos e esposas,

temos o governo no lugar. Isso é verdade pelo menos em princípio, pois em

última análise pode se dizer que todas mulheres têm um verdadeiro e firme

esposo. Esse esposo é o Estado.

O capitalismo é um sistema de propriedades, e a paternidade é a fonte

permanente da propriedade. Isso está melhor exposto na sábia obra de Stephen

36

Baskerville, cujo artigo recente, "Porquê estamos perdendo a batalha pelo

casamento" explica que "o casamento existe para ligar o pai à família". O

casamento, segundo ele, não é uma instituição de gênero neutro. É a

propriedade do pai que estabelece a família como unidade econômica e que

possibilita a regeneração da função materna. Sem essa propriedade não pode

haver capitalismo, propriedade efetiva ou uma firme base para sustentar a

economia nacional.

Como mostra Baskerville, onde quer que a paternidade seja descartada ou

diminuída, vemos "matriarcados empobrecidos e dominados pela criminalidade

e pelas drogas". Ao fazer o papel de proprietário, o estado se torna pai desses

"matriarcados". De acordo com Baskerville, "sem a autoridade paterna,

adolescentes viram selvagens e a sociedade descende ao caos". Naturalmente, o

estado tem um número cada vez maior de razões para intervir na sociedade e,

por conseguinte, na economia. O que muitos defensores do capitalismo não

conseguiram entender é que a conexão existente entre a autoridade paterna e o

livre mercado. Eles não conseguiram entender que a erosão do patriarcado

significa o surgimento de um estado leviatã (isto é, um governo cujo controle

sobre a economia é cada vez maior o socialismo). 45

O relacionamento monogâmico é, pela natureza humana, o modo mais efetivo de organização social. Este é o grande segredo por trás do sucesso de nossa sociedade ocidental 46 . Ao refutar uma sugestão esquerdista sobre o governo ficar com todo o dinheiro da herança, Milton Friedman responde com uma sagaz observação que tem passado despercebido nesses tempos pós-modernos:

Receio não conhecer o histórico de sua família, mas enquanto cresce, você

descobrirá que esta é, na verdade, uma sociedade familiar e não uma sociedade

individualista. Nós costumamos falar sobre uma sociedade individualista, mas

na verdade não é. É uma sociedade familiar. E os maiores incentivos de todos,

os incentivos que realmente tem motivado as pessoas são os de se criar uma

família; de estabelecer uma família em um sistema decente. Qual é o resultado

de se ter 100% de imposto sobre herança? 100% de imposto iria estimular as

pessoas a dissipar suas riquezas em uma vida de excessos. E qual é o problema

disso?! O problema disso é que: de onde advém as fábricas? De onde vem as

máquinas? De onde vem o capital para investimento? De onde você consegue o

incentivo para desenvolver tecnologias, se o que você está fazendo é estabelecer

uma sociedade na qual os incentivos para as pessoa - se por acidente elas

acumularem alguma riqueza - levam-nas a desperdiçar tudo em entretenimento

fútil? Quer saber, o fato é que é impressionante que as pessoas não percebem a

dimensão a qual o sistema de mercado tem encorajado e possibilitado às

pessoas trabalharem duro e se sacrificarem - o que eu devo confessar que

frequentemente considero uma ação irracional - em benefício de seus filhos. ( ) ...

Lá estão nossos pais que têm todos os motivos para acreditar que seus filhos

  • 45 NYQUIST, Jeffrey. Espírito de Época. Mídia sem Máscara, 17/04/2013. Disponível em

  • 46 PERNOUD, Régine. Luz da Idade Média.

37

terão uma renda maior do que eles jamais tiveram, apertando e poupando para

deixar algo para seus filhos. 47

A família tradicional, o relacionamento monogâmico, é o sacrifício mútuo entre um homem e uma mulher em função de seus filhos. Em termos da Real, o homem e a mulher esforçam-se a conter a “vadiagem” para, compartilhando uma vida conjugal, formar uma família em função da criação dos filhos. Em outras palavras, o sucesso da estrutura familiar depende do exercício de virtudes. Eis porque o hedonismo de nossos tempos é corrosivo. A inversão de valores em torno do sexo fez com que o egoísmo passasse a ser critério de escolha. O sentimento que busca o prazer sexual em detrimento de um projeto para formação de família. O curioso é que a Real possui um ótimo material que visa, entre outras coisas, recuperar conceitos do relacionamento que parecem ter sido enterrados pela cultura feminista. A Real não nega a natureza feminina de ser submissa ao marido e do homem ser o líder da relação. Em “Os Princípios que Regem as Interações Social” 48 , Dr. Ledice e Prof. Plum orientam o homem a buscar a ordem de um relacionamento pela autoridade e liderança. É um trabalho da Manshood Academy que tem conseguido, inclusive, salvar casamentos 49 . Feitas as devidas observações, podemos afirmar que moralmente a castidade e o casamento indissolúvel são valores superiores ao hedonismo e a relacionamentos efêmeros dos quais estamos habituados nos dias de hoje. Antes de comentar possíveis objeções, vamos abordar um possível “meio-termo”. E o sexo no namoro, sem ser casado? Seguindo o raciocínio sobre as virtudes, certamente o sexo no namoro teria um valor superior ao sexo casual, mas inferior à castidade (sexo apenas no casamento), pois no casamento, ao contrário do namoro, há (ou deveria haver) um compromisso concretizado. O namoro é, pois, a pré-etapa do casamento, cujo princípio moral elevado orienta a não colocar a carroça na frente dos bois, ou seja, preservar a castidade. O namoro seria o desenho e as plantas da casa; o casamento, a construção da casa; e o sexo, a mobília, reforma e/ou manutenção da casa.

  • 47 Milton Friedman - Redistribuição de Riquezas. Portal Libertarianismo, Youtube. Disponível em

38

Uma vez que o hedonismo e o materialismo são utilitaristas, a castidade não deixa de ser um parâmetro, embora não infalível 50 , de fidelidade. Não sendo apenas uma “mera questão religiosa”, o sexo restrito a vida conjugal do casamento é, moralmente, o melhor modelo social. A melhoria social, portanto, deveria passar pelo incentivo aos valores tradicionais (castidade e casamento). Infelizmente, o que vemos hoje é o desdém (defender esse tipo de coisa em pleno século XXI), ridicularização (virjão, vai pegar mulher, huehue BR BR) e/ou relativização (isso é a sua opinião ou isso é coisa de religião).

3.4.1 Possíveis objeções e melhores esclarecimentos

Entre possíveis objeções ou comentários retóricos, o objetivo aqui é prestar melhores esclarecimentos e continuar discorrendo sobre o assunto 51 .

Quer dizer que só pode fazer sexo se for com a intenção de ter filho?

Não. Seria um puritanismo besta afirmar isso. O que foi exposto é que o sexo procriativo é moralmente superior ao sexo masturbativo, não obstante, a sociedade pós- moderna age de modo contrário. Neste aspecto, vale a observação sensata que, uma vez escolhida a mãe de seus futuros filhos (em comum acordo com a mesma, claro), o sexo (reprodutivo ou por prazer) seja feito em compromisso de fidelidade. Este é o modo mais prudente e ordeiro de lidar com a questão do sexo. O que não significa, diga-se, que seja fácil.

Nos tempos de hoje, o casamento não dura. Então não faz sentido a castidade.

É a triste realidade de nosso tempo. O hedonismo enfraquece os laços amorosos (perde-se a noção de sacrifício, pautando-se em princípios utilitaristas). Agora, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Isso não muda o fato de que a castidade é um valor

  • 50 Quais são as motivações da castidade? Seriam os homens e mulheres virgens de nosso tempo castos por motivos de consciência moral? Falta de oportunidade, narcisismo religioso, medo, entre outros, seriam

motivações “de risco”.

  • 51 Pode vir a ser atualizado em edições futuras.

39

superior ao come-come. A gasolina, embora líquida, em contato com o fogo não vai apagá-lo. A respeito deste tipo de pessimismo, já foram feitas considerações neste trabalho.

Nunca houve na história uma época em que a coisa funcionou de modo perfeito. Sempre houve putaria. A prostituta é a profissão mais antiga do mundo, por quê? Este é um discurso que se volta a um idealismo romântico.

É preciso destacar um detalhe de extrema importância nesse tipo de discussão. De fato, nunca houve, como nunca vai haver, uma sociedade onde todo mundo faça as coisas do jeito 100% correto. Somos imperfeitos, sendo a perfeição é impossível 52 . Todavia, uma coisa é a pessoa errar sabendo que está errando, outra diferente é pregar o falso como verdadeiro. Está em jogo o peso da consciência. No artigo “A demolição das consciências”, Olavo de Carvalho alerta (grifos nossos):

Moralidade é consciência, é discernimento pessoal, é busca de uma meta de

perfeição que só aos poucos vai se esclarecendo e encontrando seus meios de

realização entre as contradições e ambigüidades da vida.

Sto. Tomás de Aquino já ensinava que o problema maior da existência moral

não é conhecer a regra geral abstrata, mas fazer a ponte entre a unidade da

regra e a variedade inesgotável das situações concretas, onde freqüentemente

somos espremidos entre deveres contraditórios ou nos vemos perdidos na

distância entre intenções, meios e resultados.

Lutero -- para não dizerem que puxo a brasa para a sardinha católica -- insistia

em que "esta vida não é a devoção, mas a luta pela conquista da devoção".

E o santo Padre Pio de Pietrelcina: "É melhor afastar-se do mundo pouco a

pouco, em vez de tudo de uma vez".

A grande literatura -- a começar pela Bíblia -- está repleta de exemplos de

conflitos morais angustiantes, mostrando que o caminho do bem só é uma linha

reta desde o ponto de vista divino, que tudo abrange num olhar simultâneo.

Para nós, que vivemos no tempo e na História, tudo é hesitação, lusco-fusco,

tentativa e erro. Só aos poucos, orientada pela graça divina, a luz da

experiência vai dissipando a névoa das aparências.

Consciência -- especialmente consciência moral -- não é um objeto, uma coisa

que você possua. É um esforço permanente de integração, a busca da unidade

para além e por cima do caos imediato. É unificação do diverso, é resolução

de contradições.

Os códigos de conduta consagrados pela sociedade, transmitidos pela educação

e pela cultura, não são jamais a solução do problema moral: são quadros de

referência, muito amplos e genéricos, que dão apoio à consciência no seu

esforço de unificação da conduta individual. Estão para a consciência de cada

um como o desenho do edifício está para o trabalho do construtor: dizem por

alto qual deve ser a forma final da obra, não como a construção deve ser

empreendida em cada uma das suas etapas.

Quando os códigos são vários e contraditórios, é a própria forma final que se

torna incongruente e irreconhecível, desgastando as almas em esforços vãos

52 Os cristãos apontam para uma única exceção na história: Jesus Cristo.

40

que as levarão a enroscar-se em problemas cada vez mais insolúveis e, em

grande número de casos, a desistir de todo esforço moral sério. Muito do

relativismo e da amoralidade reinantes não são propriamente crenças ou

ideologias: são doenças da alma, adquiridas por esgotamento da inteligência

moral.

Em tais circunstâncias, lutar por este ou aquele princípio moral em particular,

sem ter em conta que, na mistura reinante, todos os princípios são bons como

combustíveis para manter em funcionamento a engenharia da dissonância

cognitiva 53 , pode ser de uma ingenuidade catastrófica. O que é preciso

denunciar não é este ou aquele pecado em particular, esta ou aquela forma de

imoralidade específica: é o quadro inteiro de uma cultura montada para

destruir, na base, a possibilidade mesma da consciência moral. O caso de

Tiger Woods, que citei no artigo, é um entre milhares. Escândalos de adultério

espoucam a toda hora na mesma mídia que advoga o abortismo, o sexo livre e o

gayzismo. A contradição é tão óbvia e constante que nenhum aglomerado de

curiosas coincidências poderia jamais explicá-la. Ela é uma opção política, a

demolição planejada do discernimento moral. Muitas pessoas que se

escandalizam com imoralidades específicas não percebem nem mesmo de longe

a indústria do escândalo geral e permanente, em que as denúncias de

imoralidade se integram utilmente como engrenagens na linha de produção. Ou

a luta contra o mal começa pela luta contra a confusão, ou só acaba

contribuindo para a confusão entre o bem e o mal. 54

Sempre houve mulher vadia na história, mas elas eram mal vistas. O que o feminismo está fazendo é inverter isso como que parodiando as ovelhas de “A Revolução dos Bichos55 :

mulher conservadora ruim; periguete bom 56 . De maneira análoga, parte da Real faz isso em relação ao sexo. Onde o estilo sexo-sexo é incentivado. O nome disso é inversão de valores, justamente porque se troca a virtude pelo vício e vice-versa. É o estupro da consciência moral.

Quem escreveu isso deve ser um baita de um mangina

Provocação de jardim de infância. Seria o caso de relembrar uma nota de rodapé

colocada anteriormente: Feministas, esquerdistas, libertários, juvenas da Real

Ou melhor,

... colocando de outro modo: odiadores do conservadorismo e fanáticos pela Real, por favor, não percam tempo com seus possíveis nonsensescontra este trabalho. A crítica deve ser

feita por gente grande. Por gente grande, interprete pessoas com juízo intelectual em ordem. Certamente há pessoas na Real capacitadas para isso, deixe isso para elas.

  • 53 A engenharia da dissonância será melhor elucidada no próximo capítulo.

  • 54 CARVALHO, Olavo de. A demolição das consciências. In: O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Organização de Felipe Moura Brasil. Rio de Janeiro: Record, 2013. p. 177-179.

  • 55 ORWELL, George. A Revolução dos Bichos. São Paulo: Globo, 2000.

  • 56 O comentário que diz que antigamente era possível diferenciar bem a prostituta da mulher e que hoje não dá para saber mais quem é quem é uma crítica válida aos nossos tempos.

41

Eu me pergunto se quem escreveu isso é virgem ...

Esse tipo de pensamento é, na realidade, exemplo prático da inversão de valores. O virgem pode e talvez seja a regra geral nunca ter feito sexo, porque não consegue lidar com as mulheres (e teria na Real material para mudar de postura). Este caso seria uma pessoa casta por motivos errados, cuja angustia reside em não estar conseguindo ser “igual aos outros”, conforme se é condicionado pela engenharia social feminista. Se quem escreveu isso é virgem ou não é indiferente. Se a resposta for afirmativa, ele tem consciência de que a castidade é uma virtude. Se a resposta for negativa, isso não resultaria em hipocrisia, pois como bem lembra Peter Kreeft 57 , a hipocrisia não é caracterizada por não conseguir praticar o que se prega; mas por deixar de acreditar no que se prega sem deixar de pregá-la, fingindo que se vive de acordo com isso. A hipocrisia é uma propaganda enganosa. Por exemplo, a pessoa que, vivendo orgulhosamente uma vida regada a sexo casual, pregasse a castidade como modelo de vida seria hipócrita 58 . Não seria hipócrita a pessoa que argumenta em favor da castidade e tenta, com sinceridade, praticá-la e, mesmo tendo falhado, continuar tentando fazer aquilo que acha certo.

Está querendo proibir o sexo?

Não. Tal atitude não só seria impossível, como autoritária e imoral. A discussão foi de ordem moral. Fizemos um raciocínio simples em que se concluiu que castidade e família são valores morais superiores a respeito da conduta sexual. O que o leitor fará com tal informação não é da nossa conta. Em um True Outspeak, Olavo de Carvalho comentou que o pecado de ordem particular sempre existiu e sempre vai existir. Isso era problema da pessoa e não afetava a sociedade. O perigo do espírito revolucionário, contudo, está em transformar seus pecados particulares em condutas públicas e desejáveis. É o convite para o caos social.

  • 57 KREEFT, Peter. Maquiavel: a nova "moral" do poder. Quadrante. Disponível em

  • 58 A não ser que admitisse estar errado em sua conduta, aí seria um surpreendente caso de cafajeste sincero.

42

Eu acho que se a pessoa está solteira, ela tem o direito de fazer sexo com quem quiser (se for consensual, logicamente), mas se começar a namorar, aí tem que encarar a coisa com seriedade.

O sexo é feito entre duas pessoas 59 . Se há um homem solteiro, deve haver uma mulher solteira para concretizar tal filosofia. Tem-se, então, a cultura da vadiagem com o pretexto de estar solteiro. Os valores de castidade e família permaneceriam superiores. Além disso, este enunciado não deixa de ser a síntese do pensamento da sociedade atual, resultado da mistura do hedonismo com moralidade ocidental decadente. O pessimismo da Real quanto ao assunto traduz bem o resultado prático desse tipo de filosofia. Esta análise esteve menos preocupada em condutas particulares do que em uma cultura que visa subverter os valores morais, anestesiando a consciência para distinção de verdade-mentira e/ou certo/errado. Sabemos que o “viveram felizes para sempre” dos contos de fadas não condiz com a dura realidade do dia-dia, contudo, os contos de fadas não deixam de ser importante para educar as crianças para os melhores valores. É como dizia Chesterton:

Contos de fada não dizem às crianças que dragões existem. Crianças já sabem que dragões

existem. Contos de fada dizem às crianças que dragões podem ser mortos. Em suma, os contos de fadas já são um preparar da consciência. Isso é bem explicado no Vlogoteca 08, onde Marcela Andrade faz um resumo do livro "Dez maneiras de destruir a imaginação do seu filho". Um dos métodos para destruir a imaginação das crianças está justamente em substituir contos de fadas por clichês políticos e modas:

Substitua os contos de fadas por clichês políticos e modas 60 : Os contos de fadas

e os contos populares trazem personagens fiéis à verdade da vida. Para que seu

filho não aprenda a pintar, prive-o de uma paleta. Para que ele não use a

imaginação a fim de conceber histórias arquetípicas, prive-o da paleta

narrativa. Elimine, corrompa ou subverta todos os tipos, isso será mais fácil de

ser obtido privando-os dos contos de fadas.

Os personagens [dos contos de fadas] vivem num mundo moral, cujas leis são

claras como a lei da gravidade (

...

).

No conto popular, o bem é o bem, o mal é o

mal, e o primeiro sempre triunfará. Isto não é falta de imaginação, mas seu

princípio e fundamento. É isso que possibilitará às crianças, mais tarde,

compreender Macbeth, Dom Quixote ou David Copperfield. 61

  • 59 Combinações numéricas mais bizarras estão sendo desconsideradas.

  • 60 O que casa perfeitamente com o conceito de Escola Unitáriado comunista Antônio Gramsci.

  • 61 Vlogoteca 08 - Dez maneiras de destruir a imaginação do seu filho. Ana Caroline Campagnolo Bellei, Youtube. Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=QFHebzylifE [8:14 - 9:10]

43

Divagamos um pouco, mas a complementação sobre os contos de fadas mostra até que ponto o empenho que visa a distorção da moralidade pode chegar.

99% das mulheres são vadias. Está querendo que eu case com uma vadia?

Podemos voltar a um questionamento anterior sobre a autocrítica. Como posso eu

exigir a mudança de uma mulher se eu não estiver disposto a corrigir meus próprios erros? Pregar a moralidade sendo imoral não é apenas hipocrisia, mas também é a tática de gritar

“pega ladrão” mais alto para vender culpa como inocência.

Há nesse tipo de questionamento provocante certo grau de determinismo. O pessimismo entra em cena e cria o desespero, agravando a crise (conforme citação anterior de Mario Ferreira dos Santos). O namoro é a pré-etapa para o casamento, onde o casal deve se preocupar em conhecer um ao outro, portanto, não deve ser tratado como um tiro no escuro ou como vencer na loteria. A Real tem o conteúdo que, apesar de não estar livre de críticas, permite ao homem analisar as coisas como elas são e de ter maior controle sobre o relacionamento. Com conhecimento e maturidade, é possível engajar um namoro como pé na realidade e evitando a desinformação da matrix. Se não der certo, parte para outra tentativa. Desesperar-se e então abrir mão de tentar resulta no agravamento e não na solução da crise.

Sendo o Amor (com A maiúsculo) a solução moral, distanciar-se dele em nome do amor-mentiroso não é a solução. Por isso, vamos, no próximo item, fazer considerações importantes sobre o Amor, tão em desuso em nosso tempo.

3.4.2 Acerto de contas com o Amor

O amor está no ar. Infelizmente não. A famosa frase “eu te amo” é ótima para bilheteria em cinemas ou para drama de novelas, mas em nossos tempos chega a valer tanto quanto nota de três reais. No Facebook, houve um banner que traduzia bem a realidade moderna. Uma garota que em uma semana já havia amado para sempretrês pessoas diferentes (Figura 3). Por que tantos amores para sempre não vingam?

44

44 Figura 3 – Como diria Galvão Bueno ... Haaaaaja “coração”. O amor é simplesmente uma

Figura 3 – Como diria Galvão Bueno

...

Haaaaaja “coração”.

O amor é simplesmente uma palavra banalizada. Em tempos pós-modernos, vale mais o sentimento do que ações em concreto. O amor que está na mídia e nos relacionamentos rotineiros não é amor de verdade (Amor). O Pe. Paulo Ricardo faz uma reflexão que é bastante pertinente. Considerando um casal jovem que se conheceu na balada e que “rolou aquela química” e um casal de idosos com mais de 50 anos de matrimônio. Em qual dos dois casos há mais sentimento? Certamente que nos jovens da balada. Em qual dos dois casos há mais Amor? Certamente que no casal de velhinhos. Desta sagaz ilustração, conclui-se que o amor não está voltado para o mero sentimentalismo. Não fazemos estas observações para os „realistas‟, mas principalmente para conservadores com grau de romantismo que transgrediu a linha de risco. A Real carrega o desmascaramento do mito do amor romântico no pacote de saída da matrix. Os „realistas‟ sabem diferir o amor da paixão. Ensinam que a matrix é que faz as pessoas trocarem um pelo outro. Então entra em cena o „desapego‟, ou seja, o esforço para não se apaixonar e, assim, vencer a „guerra‟ da dinâmica dos relacionamentos modernos. Novamente vemos a Real acertar em um ponto importante, mas, no momento de lidar com o problema, segue para caminhos questionáveis. Os „realistas‟ identificaram uma importante farsa. A venda de paixão por amor é denunciada. Permanece, contudo, a seguinte problemática: o que é o Amor (a maiúsculo)?

45

No artigo “Amor, casamento, divórcio”, Gustavo Corção atribui o fracasso dos casamentos principalmente à imaturidade, ao despreparo:

As causas da infelicidade são pois numerosíssimas. São entrelaçadas,

combinadas, variadas, convergindo todas para o mesmo epílogo de lágrimas.

Não pretendo deixar aqui uma receita de paraíso conjugal, nem pretendo que o

problema seja fácil. A vida conjugal sempre foi difícil; e sempre o será. Mas o

que se pode dizer sem erro, e sem ridículo otimismo, na atual conjuntura em que

vivemos, é que o desvario ultrapassou seus razoáveis limites, e que alguma

coisa pode e deve ser tentada no sentido de uma recuperação. E para isto

cumpre isolar, no emaranhado de causas, aquela que mais influi na aceleração

do mal.

Torno a dizer que é a imaturidade, o despreparo. As outras causas são todas

tributárias dessa imensa bacia hidrográfica da frivolidade. As pessoas se casam

por motivos oblíquos; se casam sem saber o que é o casamento; fundam família

sem conhecer o que é a família; mudam de estado com ponderações menores do

que os motivos de escolha de uma carreira, e às vezes tão leves como as que

determinam a escolha de uma gravata. Ignoram a natureza do novo estado;

desconhecem-se mutuamente os que se propõem viver unidos; e se ignoram a si

mesmos, seus próprios recursos, seus novos deveres, suas responsabilidades

62

novas.

Mais a frente, no mesmo artigo, Corção então lembra a importância da racionalidade para superação de problemas e que, por conseguinte, está diretamente relacionado com a moralidade:

É claro que a vida está cheia de imprevistos. A própria criança é um destes, e

dos mais terríveis. Mas dizer que a vida é somente formada de imprevistos,

diante dos quais o homem é impotente, equivale rigorosamente a denunciar toda

a validez da moral. Convém firmar este ponto: a pessoa que admitir a

incompetência da razão nos atos mais graves da vida está admitindo

tacitamente a falência total dos princípios de moralidade. Bem sei que já muita

gente admite essa falência, e que seria preciso deslocar a origem das

coordenadas, e escrever um outro livro para discutir esse problema. Neste que

agora escrevo suponho no leitor esse mínimo a confiança na ordem

moral. 63

Em seguida, o jornalista conservador adentra na temática do Amor e dá um tiro de misericórdia na matrix do amor romântico, chamando-o de amor-próprio. Em linguajar „realista‟, seria aquele amor matrixiano que prefere a ilusão à verdade (grifos nossos):

O amor, o verdadeiro amor advinha, penetra, descobre, simpatiza, faz suas as

aflições do outro, dá ao outro suas próprias alegrias. É compreensivo. Mas não

  • 62 CORÇÃO, Gustavo. Amor, casamento, divórcio. Permanência. Disponível em

  • 63 Idem

46

é ―compreensivo‖ no sentido que se dá a esse vocábulo, quando quer significar

uma tolerância que fecha os olhos. Não. O amor verdadeiro é compreensivo

num sentido maior, que não fecha os olhos, mas que também não fecha o

coração. Vê as falhas do outro, vê as misérias do outro, com uma generosa

inquietação, com uma piedosa solicitude. Mas vê. Vê com amor. Mas vê. E é

nessa visão que ele encontra as forças de paciência para os dias difíceis, e que

se defende das amargas decepções. A miséria, o defeito, a falha, apresentados

pelo amor, conservam sempre a dignidade do contexto em que foram

apreendidos, sem sacrifício da veracidade. Porque o amor é veraz; é verídico; é

essencialmente amigo da verdade. E como compete à razão guiar a alma nos

caminhos da verdade, segue-se com lógica irresistível que a razão é o piloto do

amor.

Mas há um amor que é efetivamente cego; um amor que não é verídico; um

amor que não é compreensivo; um amor que não é transformante, e que não

ressoa, que não simpatiza, que não advinha, que é inimigo da verdade. É o

amor-próprio. Cegueira voluntária, o amor-próprio se compraz nas mentiras

que agradam as paixões. Princípio de divisão interna, o amor-próprio divide o

homem de si mesmo.

A maioria dos dramas consiste no equívoco com que se rotula de amor a triste

pantomima do amor-próprio. Esses romances de amor são comédias de erros

em que cada um engana o outro, e a si mesmo se engana, com o jogo gracioso

que se convencionou ser próprio da juventude e da esgrimagem dos sexos. O

centro de todos os disparates é o amor-próprio, a divisão do eu, o divórcio

interno entre a vontade e a inteligência, em torno do qual se forma a

constelação de tendências que Karen Horney chamou de pride system.

O rapaz que descobre, um ano depois do casamento, que foi pescado por causa

do padrão O, e que sua mulher casou-se efetivamente com o casado de pele,

dificilmente poderá alegar a obnubilação produzida pelos encantamentos do

noivado. Sua decepção é injusta. Não viu porque não quis ver. Cegou-se por

amor-próprio. Enganou-se a si mesmo, e por conseguinte faltou com a devida

veracidade, isto é, com o verdadeiro amor. Estenda pois a si mesmo a decepção,

e procure dar-lhe os nomes de humildade e paciência. E sobretudo procure,

agora em bases mais autênticas, recuperar a lealdade ferida pela comédia do

64

amor.

Reconhecemos que o conceito de „desapego‟ da Real é abstrato. Dependendo de como

for interpretado, pode ser algo positivo ou negativo. O exercício do egoísmo, ou seja, amor- próprio a que Gustavo Corção se refere, em um contexto fora da matrix, desembarca justamente para o conceito do homem-cafajeste. O cafajeste é, por definição, desapegado, pois pensa principalmente em si. É alheio à compreensão do outro. Em uma situação de matrix romântica, o egoísmo é manifestado em preferir viver de ilusão, excluindo a compreensão da realidade. O resultado desse tipo de vida está bastante presente nos relatos da Real. O alerta é que ao vencer o romantismo meloso, o amor-próprio entra em cena para guiar a pessoa excessivamente ao interesse próprio (transforma-se no homem-cafajeste), ausentando-se a compreensão para com o outro.

64 Idem

47

O „desapego‟ como ferramenta do amor-próprio é, pois, nocivo. Podemos, contudo, considerar outro aspecto do „desapego realista‟: o exercício dele para vencer os jogos

femininos e dominar o relacionamento. Isto é, o homem ocupar o seu espaço de líder do relacionamento. Neste caso o aspecto é positivo, pois existe a compreensão de que a autoridade masculina é o melhor ajuste para o relacionamento tendo em vista as diferentes naturezas do homem e da mulher. Portanto, o desapego como ferramenta para exercer a liderança é bem-vindo. O homem emasculado, por conta de seu carente apego, desenvolve um medo neurótico pela perda da mulher e acaba tornando-se submisso na mão de uma vadia cheia de amor-próprio. A paixão torna a pessoa irracional e incapaz de tomar as melhores decisões, impossibilitando

uma competente liderança. Liderar, ensina James C. Hunter 65 , não é o mero ato de mandar. A liderança é mais profunda e difícil que isso, ela significa servir àqueles que lhe são submissos. O líder serve a seus subordinados preenchendo suas necessidades. Precisamos, contudo, ficar atento para não confundir necessidade com vontade. Nem sempre o que queremos é o que necessitamos. A discussão com a namorada, muitas vezes, é perda de tempo, pois a mulher se foca mais em discussão emocional do que racional. Mesmo ela estando nitidamente errada, ela tentará fazer valer a máxima de que “não importa quão certo você esteja, você está errado”. Brecar os desejos irracionais da mulher é uma necessidade, embora a mulher não admita. Dominar a relação é, portanto, compreender e satisfazer as necessidades da mulher, ou seja, exercer a autoridade. É pela justa autoridade que está contextualizada a famosa submissão feminina que o feminismo insiste em distorcer 66 . No anteriormente mencionado “Os princípios que regem as interações sociais”, a

comparação de uma mulher com uma criança é bastante recorrente. Não é feito com intuito de ofensa, mas de elucidar melhor a questão sobre a necessidade feminina da autoridade masculina. A imposição de limites à mulher deve ser feito em benefício da mesma. Tais atitudes de liderança demandam autodisciplina e controle. É difícil, mas o homem honrado não deve fugir dessa responsabilidade. A Real, portanto, possui instrumentos para ajudar na conquista do equilíbrio do relacionamento, mas prefere, em grande parte, optar pelo caminho “mais fácil”: vencer o “cu

  • 65 HUNTER, James C. O Monge e o Executivo: Uma história sobre a Essência da Liderança. 18. ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2004.

  • 66 O feminismo cria uma confusão proposital ao interpretar submissão como sinônimo de opressão.

48

doce” das vadias. Vencer o amor-próprio sentimental feminino com amor-próprio racionalista. Inspirado pelo pensamento de Nelson Rodrigues, Luiz Felipe Pondé, em “Filosofia da Adúltera”, reflete:

Os jovens sempre têm razão porque são jovens, e com isso se destrói a própria

possibilidade da juventude, que é se enganar e pedir desculpas pela falta de

experiência da vida. De Nelson para cá a situação só piorou. Psicólogos,

sociólogos, filósofos, pais e mães, padres, todos temem o jovem. Justificam-no

em sua ignorância normal de jovem. Mães que querem aprender com suas

filhas, deixando estas ao sabor do desespero do envelhecimento. Toda mãe que

quer parecer a filha mata o futuro da filha, mostra que ela será uma ridícula

como a mãe o é agora.

O discurso da morte da família é o discurso da morte da juventude. A invenção

do direito de ser jovem inaugura o direito da imaturidade como lei no mundo. A

única possibilidade de alguém ser jovem é que alguém o diga que está errado,

que nada sabe. Por isso, Nelson repete várias vezes que, quando indagado

sobre o que teria a dizer aos mais jovens, ele dizia: ―envelheçam‖. Mas quando

envelhecer é apodrecer (como em nossa época, em que todos querem ser jovens

para sempre), não há futuro para os mais jovens. A criação do ―jovem‖ como

conceito revolucionário é a pior coisa que aconteceu para os mais jovens.

67

Neste mesmo livro, há ainda um apelo que reflete bem o principal teor da crítica que é dirigido pelos conservadores a Real:

(...)

O mundo do sexo tornou-se árido como três desertos e a mulher,

descartável com como uma barata seca que se empurra para o lado.

Os piores homens são os que mais lucraram com a emancipação feminina

porque nunca se preocuparam com as mulheres e agora têm a benção dos

tempos modernos e das feministas, que impede que ela se sinta mulher diante de

um homem com medo de trair sua liberdade para o nada. Não se pode amar e

ser livre ao mesmo tempo. Nelson sabia disso. 68

Por falar em Nelson Rodrigues, aproveitando para fazer um gancho com a discussão

moral anterior, escreveu na crônica “Ser para sempre fiel”:

Hoje, na minha casa, penso de vez em quando no Meireles. E o gesto suicida

parece tornar-se no mais transparente dos mistérios. Na época toda a Aldeia

Campista perguntava: — ―Por quê?‖. Ninguém entendia nada. Mas o Meireles

está diante de mim, tão nítido. Morreu do amor livre e, pois, de falta de amor.

Tudo é falta de amor. O câncer no seio ou qualquer outra forma de câncer. É

falta de amor. As lesões do sentimento. A crueldade. Tudo, tudo falta de amor.

  • 67 PONDÉ, Luiz Felipe. O Jovem. In: A filosofia da adúltera: ensaios selvagens. São Paulo: Leya, 2013. p. 51-

52.

  • 68 PONDÉ, Luiz Felipe. O desinteresse pelas mulheres. In: A filosofia da adúltera: ensaios selvagens. São Paulo: Leya, 2013. p. 75-76.

49

E o Meireles separou o amor e o sexo. E sempre há os que apodrecem em vida

porque separaram o sexo e o amor. A toda hora esbarramos com sujeitos que

praticam a variedade sexual. Esses vão morrer na mais fria, lívida, espantosa

solidão. Por vezes, de madrugada, começo a jogar com as palavras. ―Quem tem

uma tem todas. Quem tem todas não tem ninguém.‖

Depois do suicídio andaram fazendo na rua Alegre um censo das mulheres de

Meireles. Falou-se em ―duzentas‖. Porque teve duzentas, o Meireles morreu

virgem como uma solteirona de Garcia Lorca. 69

Não ignorando a importância do amor, questionando inclusive o não-ensinamento de educação amorosa na escola e criticando a submissão aos instintos animalescos, Nelson escreveu em “A última „mulher fatal‟”:

Teria eu meus onze anos quando me infligiram as primeiras aulas de

―Educação Sexual‖. De vez em quando lê-se que a doméstica Fulana, parda, foi

arrancada do namorado e seviciada não sei em que terreno baldio. Pois foi esta

a minha sensação. Eu me sentia violado quando o professor falava em Sexo (e,

de amor, nenhuma palavra).

Por que dizer aquilo a meninos e meninas e não a cabras, bezerros e vira-latas?

O Sexo, estritamente Sexo, nada tem a ver com o pobre e degradado ser

humano. É, repito, um problema dos já referidos bezerros, vira-latas e cabras.

E nunca ninguém se dispôs a ensaiar uma ―Educação Amorosa‖.

Não me venham falar dos instintos (até hoje não sei por que os temos e não sei

por que os suportamos). O homem começa a ser homem depois dos instintos e

contra os instintos. 70

Neste capítulo, analisamos o conteúdo da Real de modo mais crítico. No próximo, saindo um pouco do âmbito moral, vamos analisar a Real no contexto da guerra cultural que fortalece o esquerdismo e que tem nos movimentos feministas um importante ativismo subversivo.

  • 69 RODRIGUES, Nelson. Ser para sempre fiel. In: RODRIGUES, Nelson; CASTRO, Ruy (coord.). O Óbvio Ululante: primeiras confissões (crônicas). São Paulo: Companhia das Letras, 1993. p. 75.

  • 70 RODRIGUES, Nelson. A Última “Mulher Fatal”. In: RODRIGUES, Nelson; CASTRO, Ruy (coord.). O Óbvio Ululante: primeiras confissões (crônicas). São Paulo: Companhia das Letras, 1993. p. 78.

50

4 REAL: O RESULTADO DA DIALÉTICA HEGELIANA

De acordo com os psicólogos sociais, a transformação não pode ocorrer sem que antes sejam cumpridas as duas primeiras fases dos fatos e sentimentos, sem o que o terreno comum não pode ser encontrado. Com o terreno comum, ou o consenso, os psicólogos sociais procuram resolver a dicotomia de crença/ação que vêem na vida. Essa dicotomia ocorre quando declaramos que acreditamos em uma coisa e agimos de modo diferente. Nossos fatos e sentimentos nem sempre estão em harmonia. Mesmo que digamos que certa regra "é" correta, isso não significa que não podemos achar que "isto deveria ser" diferente. Todos temos nos comportado de acordo com nossos sentimentos, indo atrás do que convém, em vez do que sabemos ser o certo. No que se refere às leis de Deus, esse comportamento é conhecido como pecado (Dean Gotcher).

Chegamos ao ponto crítico do trabalho. O confronto da Real com a Real. Eis a questão: estaria a Real em conformidade com suas intenções declaradas de luta contra o esquerdismo e o Marxismo Cultural? Vimos anteriormente que o diagnóstico da Real em relação à problemática dos relacionamentos modernos é preciso, mas, de modo geral, a Real faz bom uso deste conhecimento? A Real ensina que não devemos avaliar uma mulher pelo que ela diz de si, mas conforme suas ações. Queremos agora analisar a Real não pelo que o movimento diz de si, mas pelas ações que ela efetivamente prega e faz.

4.1 A DIALÉTICA HEGELIANA

Olavo de Carvalho refere-se à dialética hegeliana como sendo a lógica da destruição. O filósofo chama a atenção de que os conservadores, entre outros, estão habituados a pensar de acordo com a lógica formal e que os esquerdistas, por outro lado, carregados de espírito revolucionário, raciocinam em termo de contradições:

Os adversários do esquerdismo, por sua vez, estão de tal modo habituados a

esquemas de pensamento lógico-formais, absorvidos seja das ciências naturais,

seja da economia austríaca, seja mesmo da formação escolástica no caso dos

católicos, que tendem incoercivelmente a explicar a conduta esquerdista em

termos da coerência linear entre doutrina e prática, ou entre fins e meios, e

assim perdem de vista o que há de mais característico no movimento

revolucionário, que é justamente o aproveitamento sistemático das

contradições. Só isso pode explicar que seus repetidos sucessos no campo

51

econômico e tecnológico sejam acompanhados de derrotas cada vez mais

espetaculares na cultura e na política. 71

Quem já se aventurou a debater com esquerdistas, percebeu que eles não possuem capacidade de formar silogismos. Não possuem capacidade lógica. Costumamos subestimá- los, catalogando-os como burros, quando está justamente no contraditório o segredo do progresso do movimento revolucionário. Podemos vencer o debate, mas não levamos:

O movimento revolucionário, enfim, não obedece às leis da ―ação racional

segundo fins‖ conforme as definia Max Weber e pelas quais o adversário

procura em vão explicá-la. Na ação normal humana, a distinção entre meios e

fins é essencial ao ponto de que o predomínio dos meios serve como prova de

que os fins não foram atingidos. Quando, ao contrário, o objetivo é

nebulosamente indefinido e tudo quanto conta é a unidade profunda do

movimento em si, os meios transformam-se incessantemente em fins e os fins em

meios e pretextos. Alguns estudiosos de Hegel disseram que sua Lógica não é

propriamente uma lógica, mas uma ontologia, uma teoria sobre a estrutura da

realidade. Acreditei nisso durante algum tempo, mas hoje vejo que não pode

haver uma teoria do ser quando se começa por dissolver a substância do ser na

idéia do processo. A lógica de Hegel é nada mais que uma psicologia, um

estudo dos processos cognitivos que orientam (ou melhor, desorientam) o

movimento da história humana. Sob certos aspectos, é mesmo uma

psicopatologia a lógica interna do desvario revolucionário. 72

A dialética hegeliana é, em suma, um método permite promover a dissociação cognitiva do ser humano. Em “Maquiavel Pedagogo”, Pascal Bernadin alerta para o incentivo e expansão de políticas pedagógicas que carregam consigo diversas técnicas de manipulação psicológica que visam à subversão da consciência de estudantes:

A teoria da dissonância cognitiva, elaborada em 1957 por Festinger, permite

perceber o quanto nossos atos podem influenciar nossas atitudes, crenças,

valores ou opiniões. Se é evidente que nossos atos, em medida mais ou menos

vasta, são determinados por nossas opiniões, bem menos claro nos parece que o

inverso seja verdadeiro, ou seja, que nossos atos possam modificar nossas

opiniões. A importância dessa constatação leva-nos a destacá-la, para que, a

partir dela, se tornem visíveis as razões profundas da reforma do sistema

educacional mundial. Verificamos anteriormente que é possível induzir diversos

comportamentos, apelando-se à autoridade, à tendência ao conformismo ou às

técnicas do ―pé na porta‖ ou da ―porta na cara‖. Os fundamentos que servem

de base a esses atos induzidos repercutem em seguida sobre as opiniões do

sujeito, modificando-as (dialética psicológica). Assim, encontramo-nos diante

de um processo extremamente poderoso, que permite a modelagem do

psiquismo humano e que, além disso, constitui a base das técnicas de lavagem

cerebral.

  • 71 CARVALHO, Olavo de. A lógica da destruição. Diário do Comércio, 06/08/2007. Disponível em

  • 72 Idem

52

Uma dissonância cognitiva é uma contradição entre dois elementos do

psiquismo de um indivíduo, sejam eles: valor, sentimento, opinião, recordação

de um ato, conhecimento etc. (

...

)

A experiência prova que um indivíduo numa

situação de dissonância cognitiva apresentará forte tendência a reorganizar seu

psiquismo, a fim de reduzi-la. Em particular, se um indivíduo é levado a

cometer publicamente (na sala de aula, por exemplo) ou frequentemente (ao

longo do curso) um ato em contradição com seus valores, sua tendência será a

de modificar tais valores, para diminuir a tensão que lhe oprime. Em outros

termos, se um indivíduo foi aliciado a um certo tipo de comportamento, é muito

provável que ele venha a racionalizá-lo. Convém notar que, nesse caso, trata-se

de uma tendência estatística evidente, e não de um fenômeno sistematicamente

observado; as teorias que referimos não pretendem resumir a totalidade da

psicologia humana, mas sim fornecer técnicas de manipulação aplicáveis na

prática. Dispõe-se, assim, de uma técnica extremamente poderosa e de fácil

aplicação, que permite que se modifiquem os valores, as opiniões e os

comportamentos e capacita a produzir uma interiorização dos valores que se

pretende inculcar. Tais técnicas requerem a participação ativa do sujeito, que

deve realizar atos aliciadores os quais, por sua vez, os levarão a outros,

contrários às suas convicções. Tal é a justificação teórica tanto dos métodos

pedagógicos ativos como das técnicas de lavagem cerebral. 73

A dissociação cognitiva pode ser comparada a estratégica mais conhecida do demônio. O diabo que ao mesmo tempo é o tentador e acusador. A pessoa, ao cair no erro, é então acusada pelo diabo. Surge a vergonha, que tão logo é jogada para baixo do tapete através da moldagem do orgulho. Através dessa tática, o pai da mentira convida ao erro e depois oferece o caminho do orgulho para potencializar a rebeldia e livrar-se da culpa. Em termos „realísticos‟, a dissociação cognitiva é conhecida como hamster da racionalização. Trata-se da capacidade da mulher blindar seu ego e colocar-se como imune de cometer erros. Alguns exemplos comuns: se um homem não dá bola para ela, assume que ele seja gay. Se ela junto com o vizinho presenteiam o marido com um par de chifres, a culpa passa a ser do homem que a abandonava por causa do futebol com amigos. Se ela é traída pelo cafajeste, então todos os homens não prestam. Enfim, toda aquela infantilidade que não cansa de ser apontada nas discussões e propaganda „realista‟. Talvez o caso mais grave de dissociação cognitiva do feminismo seja a tal cultura do estupro, onde o conceito de estupro é flexibilizado para basicamente qualquer abordagem que a mulher não goste. Temos até aqui que a dialética hegeliana é a força motriz para modificação da consciência humana produzida pela dissociação cognitiva. Cabe então evidenciarmos a sistematização deste método e como ele está sendo aplicado de modo a promover o Marxismo

73 BERNARDIN, Pascal. Maquiavel Pedagogo: ou o ministério da reforma psicológica. Campinas: CEDET, 2013. p. 23-24.

53

Cultural. Para este fim, faremos uso do livro de Dean Gotcher intitulado “Dialética Hegeliana e Práxis: Diaprax e o Fim dos Tempos74 . A dialética hegeliana está sistematizada na tese (idéia inicial), antítese (idéia oposta) que do confronto resulta na (síntese):

A estrutura da dialética, composta pelas fases da TESE, ANTÍTESE e SÍNTESE,

é usada pelos psicólogos sociais para representar diferentes facetas da

sociedade (tradicional, transicional, transformacional; ou capitalista,

anarquista, socialista). A estrutura também pode representar a forma como

reagimos e pensamos quando lidamos com problemas em nossas vidas (tese:

obedecer as regras e confiar nos fatos; antítese: seguir os sentimentos; ou

síntese: simplesmente se comportar de acordo com as técnicas de raciocínio).

A TESE pode representar sua opinião original sobre qualquer assunto

obedecer aos fatos, acreditar "que é sempre errado mentir". A ANTÍTESE seria

então uma opinião inversa ou diferente do mesmo assunto seguir os

sentimentos, acreditar que "é correto mentir para se livrar de uma situação

ruim". Logo, a SÍNTESE representa então uma contemporização, a busca da

união apesar das opiniões divergentes para resolver um problema comum

racionalmente justificar um determinado comportamento, acreditar que "é certo

mentir desde que isso seja justificável em determinadas situações, se beneficiar

outras pessoas e não fizer mal a ninguém". 75

O pensamento coletivista, por exemplo, é moldado pela confrontação da tese eu, com a antítese não-eu, induzindo a resolução para a síntese nós. Isso também ajuda a entender o porquê dos coletivistas possuírem aquele característico espírito de bando em que muito bem o Lobão assinala com a frase “frouxos unidos jamais serão vencidos”:

Sentado em uma sala com outras pessoas, você pode classificar a si próprio,

primeira pessoa, ou "eu", como TESE, as outras pessoas, não primeiras

pessoas, ou "não eu", como ANTÍTESE, e o que todos possuem em comum,

inclusive você, primeira pessoa e não primeira pessoa "nós", como SÍNTESE.

Portanto, TESE é aquilo que você acredita ser verdade para si mesmo;

ANTÍTESE é o que todos acreditam ser verdade para eles próprios; e SÍNTESE

é o que você e outros podem racionalmente vir a concordar ser verdade para

todos. É assim que os socialistas ou marxistas criaram seu lema e agenda de

"Um por todos e todos por um", em que a verdade individual é relativa às

necessidades sociais dos muitos e a verdade dos muitos deve considerar as

necessidades pessoais dos poucos, ou de um só. Neste ciclo dialético, tudo é

relativo, mutável e harmoniosamente desviante. Isso é o que os psicólogos

sociais chamam de heurística, a palavra deles para mudança.

Por exemplo, enquanto você está sentado em uma sala com sua mente

raciocinando sobre suas próprias preocupações pessoais (TESE "minhas

preocupações'), os outros estão na mesma sala com suas mentes, raciocinando

sobre suas próprias necessidades particulares. (ANTÍTESE "as preocupações

deles" ou "preocupações que não são minhas"). Portanto, para que todas as

54

pessoas na sala encontrem harmonia social (SÍNTESE "nossas

preocupações"), elas precisam primeiro ser confrontadas ou serem facilitadas a

encontrar alguma questão ou problema comum para enfocar sua atenção,

depois serem dirigidas a uma experiência grupal (práxis) racional ou científica

(dialética) em que aquilo possa ser solucionado pelo consenso (com as

emoções, ou sentimentos). 76

Discutimos no capítulo anterior a respeito do relativismo e o quanto é nocivo à discussão de uma ordem moral. A promoção do relativismo passa pelo processo da dialética hegeliana. A tese que os fatos representam a realidade passa a ser confrontada com a antítese a verdade é aquilo que eu sinto, sendo então moldada para a síntese a realidade é aquilo que eu imagino. Não é à toa que o relativismo é acompanhado por seguidores histéricos:

Esses três diferentes modos de pensar, quando resolvem as diferenças, de

acordo, com diaprax, são tradicional, transicional e transformacional, ou seja,

pensar com fatos, pensar com sentimentos e pensar com habilidades de

raciocínio.

No modo tradicional de pensar, a realidade está baseada em evidências ou em

fatos externos, e o conhecimento é a acumulação desses fatos (quantidade) bem

como o respeito e a obediência a eles. No modo transicional de pensar, os

sentimentos determinam a realidade. E no modo transformacional de pensar,

somente o que pode ser racionalizado é real. Dito de forma bem simples, o

pensamento tradicional vê a realidade como fatos, estabelecidos para todos os

tempos e lugares; o pensamento transicional vê a realidade no coração, onde os

fatos podem ser negligenciados na busca do prazer e onde os problemas podem

ser resolvidos simplesmente indo-se para algum lugar que o faça se sentir

melhor, e o pensamento transformacional vê a realidade na mente, onde os fatos

e os sentimentos estão sujeitos à mudança harmoniosa por meio das habilidades

de pensamento de alta ordem [relativismo]. 77

4.2 DIALÉTICA HEGELIANA + PRÁXIS (DIAPRAX)

Toda a engenharia social promovida pelo Marxismo Cultural acontece em um ambiente real, ou seja, a práxis. Por este motivo, Gotcher nomeia de Diaprax o método para mudança de comportamento e promoção do relativismo. O elemento chave da Diaprax está no facilitador, que pode ser uma autoridade de um grupo (ex: professor) ou personalidades influentes (ex: mídia, “especialistas”, etc.):

  • 76 Idem.

  • 77 Idem.

55

Parece haver uma correlação entre os significados dos fatos, o quanto a pessoa

acredita ou se fundamenta em fatos, e sua posição dentro do processo. Na

medida em que alguém se afasta de sua posição original, em que os fatos são

absolutos (fé), em direção à outra extremidade do espectro, os fatos tornam-se

relativos. Na medida em que o processo leva uma pessoa de sua 1) posição

original, em que os fatos são mais importantes, TESE/tese, a uma condição

em que ela 2) sente ressentimento em relação a eles, uma vez que eles se

interpõem à sua aceitação e às suas novas amizades, ANTÍTESE/antítese,

ao ponto em que ela é 3) capaz de justificar a mudança deles, por meio

da "capacidade de raciocínio" 78 , quando eles não se ajustam ou não

ajudam a melhorar os relacionamentos humanos, SÍNTESE/síntese, os fatos

tornam-se triviais. Qualquer um nesta fase de transformacionalismo vê a

pessoa que defende sua posição com fatos, o tradicionalista, como ignorante,

tacanho, irracional, ofensivo, ou cheio de ódio, dependendo de sua persistência

no uso dos fatos. 79

Dutcher ainda sistematiza três fases, cada qual com seu conjunto de tese, antítese e síntese. No primeiro conjunto, o facilitador promove o questionamento dos valores tradicionais, condicionando o grupo de pessoas a, pelo menos, “abrir a mente”. No segundo conjunto dialético, chamado por Dutcher de controle do clima, o facilitador conduz o grupo a questionar os valores estabelecidos, as antigas regras e/ ou as antigas autoridades buscando estipular um consenso onde, por força da “coesão de grupo”, os valores antigos são rejeitados. Por último, no terceiro conjunto, a pessoa adere ao automatismo e busca ajudar as pessoas “menos esclarecidas”. Transformam-se, então, nos propagadores da “nova mensagem”. Pode parecer que estamos divagando, mas a sistematização da dialética hegeliana é importante para entender em linhas gerais como funciona o processo de mudança de valores, de modo a elucidar o mecanismo da engenharia social do Marxismo Cultural. Trataremos então da Real, fazendo um paralelo com o socialismo. Façamos então árvores gerais em relação à Diaprax:

  • Tese: Conhecimento

  • Antítese: Sentimento

  • Síntese: Relativismo

  • Práxis: Consenso de grupo

  • Resultado: Mudança de valores (propagação do materialismo)

  • 78 Em linguajar da Real, conforme já comentado, podemos chamar de Hamster da Racionalização. Esta figura de linguagem pretende descreve o raciocínio por absurdo que muitas vezes são feitos para que se fuja de arcar com a realidade.

  • 79 GOTCHER, Dean. Dialética Hegeliana e Práxis: Diaprax e o Fim dos Tempos, 1996. Disponível em http://www.espada.eti.br/diaprax.asp

56

  • Tese: Ordem moral duradoura/tradição

  • Antítese: Niilismo/amoralidade

  • Síntese: Relativismo moral/Nova ordem

  • Práxis: Luckas, Gramsci, Escola da Frankfurt

  • Resultado: Socialismo humanista e globalista

  • Tese: Moralidade judaico-cristã

  • Antítese: Feminismo

  • Síntese: Hedonismo

  • Práxis: Pragmatismo/Relativismo moral

  • Resultado: Real

A Real, em grande parte, não deixa de ser um produto da dialética hegeliana proveniente do confronto dos valores tradicionais com o feminismo. Ao mesmo tempo em que argumenta em favor de valores tradicionais, também tem em seu meio de discussão valores revolucionários, principalmente no que tange a moral sexual, já discutida no capítulo anterior. Não cabe aqui uma mera sistematização da Diaprax e um suposto enquadramento arbitrário da Real dentro deste sistema. Por isso continuaremos aprofundando a questão a respeito do contexto cultural a qual a Real se apresenta.

4.2.1 Estruturando a dissociação cognitiva dentro da Diaprax

Conforme explicado anteriormente, a Diaprax como ferramenta para promoção da dissociação cognitiva funciona em três fases, cada qual com seu conjunto dialético. Antes de expor o mecanismo da Real, devemos esquematizar o contexto cultural a qual estamos inseridos.

Fase 1: Interrogação da Tese

o

o

o

Tese: Castidade Antítese: Estamos em pleno século XXI

Não podemos ser retrógrados

... Síntese: São tempos modernos, os valores podem estar ultrapassados.

...

57

Fase 2: Controle do clima/Construção de relacionamentos

 

o

Tese: Não sou obrigado a concordar com a castidade

o

Antítese: Sexo é bom, dá prazer

o

Síntese: Concorda-se que sexo é melhor que castidade

Fase 3: "Libertação"

o

Tese: Viver conforme o novo valor

o

Antítese: É necessário que mais pessoas sejam modernas

o

Síntese: Ser propagador e ridicularizador da castidade.

É mais ou menos em um quadro deste tipo que se encontra a nossa geração. Os valores tradicionais simplesmente foram abandonados da mídia de massa em benefício da idolatria do jovem libertino. Diante deste cenário cultural, a mera tentativa de discutir elevados valores morais será entreposto pelo discurso relativista (“hoje os tempos são outros”) ou ridicularizado por rótulos pejorativos (“retrógrado”, “careta”). O fato do virgem, atualmente,

estar relacionado ao fracasso, torna nítido o avanço da agenda da libertina. Quando a agenda revolucionária obtém sucesso em modificar o “senso comum”, a origem, causas e discussões anteriores ao fenômeno são destinadas ao esquecimento. As novas crenças que foram inoculadas são falsamente creditadas a um mero processo de evolução que ocorreu naturalmente e os discordantes são vistos como “ultrapassados”. Muito do discurso da Real advém da importância dada ao sexo em um relacionamento. O ressentimento é que o cafajeste recebe sexo de qualidade, enquanto os homens tidos como inferiores pela mulher, o sexo é feito de forma escalonada ou mesmo extinguido. Da confrontação entre Real (tese) e feminismo (antítese), permanece a mudança cultural anterior (hedonismo). Não se pode omitir que na Real há um claro apelo contra a infidelidade uma vez que se esteja em um relacionamento sério. É uma situação da qual já foi apontada anteriormente. Façamos então a sistematização:

Fase 1: Questionando o romantismo emasculado

o

Tese: Mito do amor romântico como forma de “conquistar” a mulher e ser

o

feliz. Antítese: Por mais que eu seja “um cara legal”, as mulheres por quem eu me

o

apaixono me abandonam. Elas procuram se relacionar com aqueles que não dão o valor que ela merece. Síntese: Há algo de errado, as coisas não funcionam como me ensinaram.

58

Fase 2: Descobrindo a Real Tese: Por mais que as mulheres digam que “homem não presta”, elas se atraem

o

o

pelos piores. Antítese: Mudei de postura, foquei no desenvolvimento pessoal e hoje mulher

o

não é mais problema. Síntese: A Real funciona.

Fase 3: "Libertação"

o

Tese: Agradecimento a Real

o

Antítese: Precisamos divulgar mais a Real

o

Síntese: O problema da sociedade é que está cheio de manginas, o feminismo

precisa ser denunciado e os valores masculinos resgatados.

O roteiro descrito acima é mais ou menos o panorama geral dos integrantes da Real. O feminismo é, de fato, confrontado, mas o veneno libertino permanece. Deste modo, a Real pode ser catalogada como detentora de um espírito semi-contrarevolucionário, que vai se levando lentamente pela marcha revolucionária, embora mantenha alguns princípios básicos inalterados. Plínio Corrêa de Oliveira explica:

O que distingue o revolucionário que seguiu o ritmo da marcha rápida, de quem

se vai paulatinamente tornando tal segundo o ritmo da marcha lenta, está em

que, quando o processo revolucionário teve início no primeiro, encontrou

resistências nulas, ou quase nulas. A virtude e a verdade viviam nessa alma de

uma vida de superfície. Eram como madeira seca, que qualquer fagulha pode

incendiar. Pelo contrário, quando esse processo se opera lentamente, é porque

a fagulha da Revolução encontrou, ao menos em parte, lenha verde. Em outros

termos, encontrou muita verdade ou muita virtude que se mantêm infensas à

ação do espírito revolucionário. Uma alma em tal situação fica bipartida, e vive

de dois princípios opostos, o da Revolução e o da Ordem.

Da coexistência desses dois princípios, podem surgir situações bem diversas:

* a. O revolucionário de pequena velocidade: ele se deixa arrastar pela

Revolução, à qual opõe apenas a resistência da inércia.

* b. O revolucionário de velocidade lenta, mas com “coágulos” contra-

revolucionários. Também ele se deixa arrastar pela Revolução. Mas em algum

ponto concreto recusa-a. Assim, por exemplo, será socialista em tudo, mas

conservará o gosto das maneiras aristocráticas. Conforme o caso, ele chegará

até mesmo a atacar a vulgaridade socialista. Trata-se de uma resistência, sem

dúvida. Mas resistência em ponto de pormenor, que não remonta aos princípios,

toda feita de hábitos e impressões. Resistência por isto mesmo sem maior

alcance, que morrerá com o indivíduo, e que, se se der num grupo social, cedo

ou tarde, pela violência ou pela persuasão, em uma geração ou algumas, a

Revolução em seu curso inexorável desmantelará.

* c. O ―semicontra-revolucionário‖: diferencia-se do anterior apenas pelo fato

de que nele o processo de ―coagulação‖ foi mais enérgico, e remontou até a

zona dos princípios básicos. De alguns princípios, já se vê, e não de todos. Nele

59

a reação contra a Revolução é mais pertinaz, mais viva. Constitui um obstáculo

que não é só de inércia. Sua conversão a uma posição inteiramente contra-

revolucionária é mais fácil, pelo menos em tese. Um excesso qualquer da

Revolução pode determinar nele uma transformação cabal, uma cristalização

de todas as tendências boas, numa atitude de firmeza inabalável (

...

).

80

Sendo a Real um ambiente que abriga conservadores e cristãos, a livre defesa da Real

sem as devidas ponderações parece um ato imprudente. Se há o interesse de combate ao Marxismo Cultural, isto é, o espírito revolucionário, uma defesa da Real pela Real é um ato

menos conservador do que “progressista”:

Com o ―semicontra-revolucionário‖, como aliás também com o revolucionário

que tem ―coágulos‖ contra-revolucionários, há certas possibilidades de

colaboração, e esta colaboração cria um problema especial: até que ponto é ela

prudente? A nosso ver, a luta contra a Revolução só se desenvolve

convenientemente ligando entre si pessoas radical e inteiramente isentas do

vírus desta. Que os grupos contra-revolucionários possam colaborar com

elementos como os acima mencionados, em alguns objetivos concretos,

facilmente se concebe. Mas, admitir uma colaboração onímoda e estável com

pessoas infectadas de qualquer influência da Revolução é a mais flagrante das

imprudências e a causa, talvez, da maior parte dos malogros contra-

revolucionários. 81

Resgatemos, pois, a prudência. Até que ponto a Real deve ser defendida. Até que ponta ela é efetiva ao que tange o combate contra o Marxismo Cultural?

4.3 DORMINDO COM O INIMIGO DECLARADO

Uma vez apresentado toda a fundamentação anterior, vamos deixar evidente a grande ironia. Infelizmente, a Real não é uma resistência contra aquilo que alega lutar. A propaganda pode ser seu tom nobre e esclarecedor, mas suas ações e discussões práticas mostram que os fins abordados estão em concordância com o inimigo declarado.

4.3.1 A sutil colaboração com o feminismo

  • 80 OLIVEIRA, Plinio Corrêa. Revolução e Contra-Revolução. 4. Ed. São Paulo: Artpress, 1998. p. 13.

  • 81 OLIVEIRA, Plinio Corrêa. Revolução e Contra-Revolução. 4. Ed. São Paulo: Artpress, 1998. p. 33.

60

A Real declara que combate o feminismo. Culpam, com razão, a perversão moral e social que tais movimentos causaram e estão causando na sociedade. É necessário, contudo, levantar uma importante questão: quão distante está a Real de determinados fins feministas? É recomendado a leitura de um Best seller chamado “A Cama na Varanda” 82 , escrito pela feminista Regina Navarro Lins. É um livro longo, cheio de fraude histórica e opiniões macabras, mas que em um ponto acerta em cheio: o problema dos relacionamentos modernos está no individualismo (no sentido de egoísmo). Lins ainda estipula que a duração de quatro anos para os casamentos é decorrente ao fim do efeito da paixão. No desenvolvimento do livro, contudo, a feminista inverte o efeito pela causa e culpa os valores religiosos e a monogamia pela frustração moderna. Usando de meia-verdade,

afirma que os homens e as mulheres modernos são individualistas (egoístas) e que por isso não se ajustam aos velhos valores tradicionais. Exame de consciência para resgatar os valores seria a solução? Nada disso. Pior para os valores tradicionais. Colocando gasolina no fogo, argumenta que sociedade é outra e então a velha idéia de relacionamento monogâmico deve ser questionada e o conceito de família deve ser modificado. O menino dos olhos de ouro de Regina Navarro Lins é o “poliamor”, que consiste em tolerar a infidelidade do cônjuge. Se grande parte dos relacionamentos acaba por causa de traição, tire-se a condenação moral do adultério. O argumento em pró do “poliamor” consiste em dizer que há diversos tipos de “amor”, então se a mulher ama seu marido, mas sente atração sexual pelo vizinho, não há problema em pular a cerca, já que o namorado/noivo/marido ainda terá o amor da mulher. A recíproca, homem brincar com a vizinha, é válida. Para tornar o ponto irrefutável, Lins aponta para o crescimento das casas de swing. Enfim, com o pretexto de salvar relacionamentos, de forma não tão sutil, o “poliamor” simplesmente colocaria fim da família tradicional. Um detalhe tácito é que esta abordagem

“romântica” está baseada na já mencionada idolatria do jovem: a promessa de um

relacionamento sério, mas com passe livre para fazer sexo com terceiros. A possibilidade de estar em um relacionamento sério, mas podendo ser eternamente um solteiro libertino. É o hedonismo passando como um trator em cima da moralidade judaico-cristã. O que a Real tem a ver com isso? Pode indagar o leitor. Oras, não é interessante observar que a premissa da Real e de Regina partem de uma mesma constatação

82 LINS, Regina Navarro. A Cama na Varanda: arejando nossas idéias a respeito de amor e sexo. Edição revisada e ampliada. Rio de Janeiro: Bestseller, 2007.

61

(desmascaramento do mito do amor romântico) e que, embora o desenvolvimento seja diferente, a “solução” para o problema não está assim tão distante? Parte da Real adota, por exemplo, o discurso de desincentivo ao casamento. É um tópico polêmico, há inclusive membros que são casados, pode-se retrucar. Verdade, mas o fato é que existem os adeptos do marriage striker. Há razão para este tipo de decisão. Os motivos são: perda de respeito, perda de frequência sexual, perda de amigos, perda de espaço,

pode perder os filhos e dinheiro, perda no tribunal, perda de liberdade e é mais fácil ser solteiro 83 . Bom, não apenas confirma o individualismo moderno como também alcançam o mesmo fim: o fim do casamento tradicional.

Ainda podemos comparar o “poliamor” com a dinâmica do relacionamento aberto.

Não pode ser ocultada da Real o fenômeno conhecido como marmita zone. É o ato do homem se relacionar com uma vadia com o objetivo de sexo casual, sem compromisso, de modo eventual. A sutil diferença com o “poliamor” é que a marmita zone deixa seu pretexto mais claro. Enquanto o “poliamor” tolera a traição sexual aceitando um relacionamento dito sério e dito “estável” (com o adendo de estuprar o significado de amor), a zona da marmita deixa claro que se trata de um relacionamento aberto, cuja finalidade é o sexo. Quando as estratégias convergem com o interesse do inimigo (feminismo), é esperado que o comichão 84 apareça. O paralelo feito com as idéias de uma das feministas mais influentes do país está estruturado em uma análise da práxis, sendo recomendável também abordar as bases teóricas da ideologia feminista. Para isso, recorramos ao paper “The Gender Agenda” de Dale O‟Leary 85 . O desmantelamento da família monogâmica favorece o sonho marxista do Estado

como educador. Estratégia oriunda do marxismo clássico (“Origem da Família, Propriedade Privada e Estado” de Engels):

A primeira condição para libertação da esposa é trazer de volta todo o sexo

feminino para a indústria pública e que isso, por sua vez, suponha a abolição da

família monogâmica como unidade econômica da sociedade (Engels, p.66).

Com a transferência dos meios de produção para a propriedade comum, a

família deixa de ser a unidade econômica da sociedade. As tarefas domésticas

privadas se transformam em uma indústria social. O cuidado e a educação dos

filhos se convertem em assunto público. A sociedade cuida de todos os filhos por

62

igual, sejam legítimos ou não. Isso suprime toda ansiedade sobre as

"conseqüências" que hoje é o fato social mais essencial - moral além de

econômico - que evita que uma mulher se entregue completamente ao homem

que ama. Não será suficiente provocar o crescimento gradual de encontros

sexuais e com eles uma opinião pública mais tolerante com relação à honra de

uma donzela e a vergonha de uma mulher?

A “ideologia de gênero”, atual discurso defendido pelo feminismo, já era estratégia para desmantelar a tradição ocidental. Em 1978, no livro "Dialética do Sexo" de Shulamith Firestone, estava escrito:

Da mesma forma que para assegurar a eliminação das classes econômicas é

necessário que haja a rebelião da classe marginalizada (o proletário) e que, em

uma ditadura temporal, se tome os meios de produção, para assegurar a

eliminação das classes sexuais é necessário que haja a rebelião da classe

marginalizada (as mulheres) e que se tomem os meios de reprodução: a

restituição a mulher da propriedade de seus próprios corpos e também do

controle feminino da fertilidade humana, que inclui tanto a nova tecnologia

como todas as instituições sociais de maternidade e de criação de filhos. E

como o objetivo final da revolução socialista não era apenas a eliminação do

privilégio da classe econômica, mas sim a eliminação da distinção das classes

econômicas em si, posta-se que o objetivo da revolução feminista deve ser, a

diferença do primeiro movimento feminista, não só a eliminação do privilégio

masculino, mas também da distinção de sexos. A distinção de sexo entre seres

humanos não importa culturalmente.

Segundo Firestone, a liberação sexual seria o motor para impulsionar a liberação política e econômica (marxismo):

Se a atual repressão sexual é o mecanismo básico pelo qual se produzem as

estruturas de caráter que respaldam a atividade política, ideológica e

econômica, o fim do tabu do incesto, por meio da abolição da família, poderia

ter profundos efeitos. A sexualidade libertar-se-ia de sua camisa de força para

erotizar toda nossa cultura, mudando sua definição.

A “libertação” da mulher passa, como ficou evidente, pelo fim do patriarcado. A

estratégia para isso é desmantelamento da família através da erotização da cultura. Atenta-se que se trata de uma erotização, ou seja, estão inclusos homens e mulheres. Embora a Real ateste que o patriarcado é, por natureza, a melhor configuração para o relacionamento entre homem e mulher, sua prática caminha mais para a “libertação” do homem. Aproveitando-se de que a mulher necessita da liderança masculina, muitos „realistas‟ estão menos preocupados em liderar relacionamentos do que simular uma postura de “macho-alfa”. Imersos na desejada cultura erotizada, busca-se menos uma mãe para seus filhos do que um belo par de pernas abertas.

63

Quando Regina Navarro Lins acusa o individualismo (egoísmo), não está errada. A malandragem dela está na tentativa de culpar o inocente (típico do feminismo, diga-se). Com essa mentira, esconde que o individualismo foi, na verdade, promovido, propositadamente, pela cultura hedonista tão cara aos interesses do feminismo.

4.3.2 Filhos rebeldes de Hebert Marcuse

“Eros e Civilização” é uma obra de leitura obrigatória para melhor compreensão do

Marxismo Cultural. Ela foi escrita por Hebert Marcuse, psiquiatra e membro da Escola de Frankfurt. Realizando um sincretismo de Freud com o Marxismo, Marcuse pôde arquitetar a “libertação” sexual. “Eros e Civilização” foi um embrião socialista que influenciou significativamente a guerra cultural da qual a Real anuncia combater.

Freud chamava a atenção para o “princípio de realidade”, onde determinados instintos

humanos, incluso os sexuais, deveriam ser reprimidos em benefício de uma ordem social; Marcuse, porém, não quis saber disso. A repressão sexual seria vista como um ardil do malvado capitalismo para escravizar e frustrar os inocentes dos proletários. Porque explorados, a energia desprendida no trabalho fragmentaria o desejo sexual. Não basta o coitado do trabalhador ser explorado, o lazer isso mesmo o lazer também é vítima do opressor capitalismo, já que estaria atrelado ao consumo. Sendo assim o cheat code de conciliar o racionado tempo de lazer com pornografia e sexo só produziria um falso sentimento de liberdade sexual. Falso porque, veja bem, você continuaria mais preocupado com o que precisa produzir no trabalho. Esta alienação malvada do capitalismo de controlar lazer através do consumo e a repressão moral da sexualidade exercida pela classe opressora produz, segundo o terrorismo de Marcuse, efeitos catastróficos na psique humana. Tomemos nota a respeito do desastroso mega-recalque causado pela opressão contra a libido: ela gera o princípio de destruição, onde a falta de prazer sexual consegue justificar sistema tirânicos como nazismo e fascismo, além das guerras. Não apenas isso, na opinião de Marcuse, o comunismo não deu certo porque “foi mal interpretado” ou porque “traíram Marx”, segundo ele a justificativa para o fracasso das revoluções está na repressão sexual, que conferiria uma auto-sabotagem uma vez que estivessem no poder. Sem se livrar dessa repressão moral burguesa, portanto, não há como fazer valer a tão sonhada revolução socialista.

64

Não podemos parar por aí. O que seria analisar uma idéia esquerdista sem o elemento da inveja? Marcuse também discorda de Freud quanto a abrangência do “principio de realidade”. Na cabeça do comunista, o burguês não trabalha, seu hobby é ficar maquinando em como aumentar a exploração contra o pobre coitado do trabalhador. Como o rico lucra em cima da exploração do pobre, Marcuse afirma que a repressão sexual só age neste, enquanto aquele pode copular livremente. Livre da repressão sexual, os favorecidos pelo capitalismo lucram psicologicamente ao preço de manter os trabalhadores alienados. Essa alienação, já vimos, fomentaria a agressividade que geraria guerra e esta, por sua vez, beneficiaria os ricos. Enfim, Marcuse é um dos principais promotores da revolução sexual. Poucos sabem disso, pois, como foi comentado, quanto mais a revolução cultural avança, maior o

esquecimento sobre sua origem. O “faça amor, não faça guerra” é, como mostra a realidade, uma empulhação. Não vemos mais hippies por aí, a moda não vingou. Não vingou, mas a contribuição cultural deles permanece. Cumpriram seu papel. Estamos sendo governados, como bem observa o Pe. Paulo Ricardo, pelos filhos de Woodstock. A libertação dos instintos sexuais é uma pseudo-ciência marxista. Seja para fomentar a luta de classe ou demonizar o capitalismo, a libertinagem sexual foi propositadamente

promovida pela revolução cultural marxista. Se existem „realistas‟ que desconhecem ou

desconsideram tal informação, não é certamente papel de um conservador esclarecido assinar embaixo da ignorância.

65

5 CONCLUSÃO

Do ponto de vista conservador, acreditamos que a Real deva ser encarada como uma das máximas de São Paulo: analisar tudo e reter o que é bom. Não se pode catalogá-la como uma simples estupidez, ignorando por completo a teoria 'realista' a respeito dos relacionamentos modernos (quando o que está presente no mass media é o viés feminista da mulher ser a vítima social do homem, culminando, em casos mais extremos, mas já em fase de divulgação, na ideologia do gênero), uma vez que ela pode ser aferida no dia a dia, na mera observação em barzinhos, baladas e/ou shoppings. Não apenas isso, a atual juventude de colégio, já com valores afetados pela mistura de imaturidade, canalhice e doutrinação, oferecem também um ótimo cenário de análise do fenômeno amoroso pós-moderno. Neste sentido, a Real não apenas confirma que o "bonzinho só se ferra", como também ajuda explicar por que os destacados e "bullies" conseguem ficar com as menininhas. A inversão cultural erra propositadamente quando diz que os jovens são os modelos a serem seguidos, mas isso não indica que eles não devem ser analisados. Trata-se de uma geração e, queiramos ou não, estarão eles a espalhar os valores a geração seguinte, tal é o ciclo do decaimento moral. Pais pior que avós, filhos piores que os pais. Neste aspecto, vale a observação de que a geração no poder são os filhos de Woodstock, isto é, filhos criados pelas máximas libertinas: sexo, drogas e rock‟n‟roll. Os dois primeiros continuam firmes e fortes, o último está em concorrência com o funk. A Real, em suma, acerta em seu diagnóstico ao esboçar a dinâmica de um relacionamento pautado no individualismo egoísta. Esta leitura da realidade pode ser de grande valor para reconhecer a realidade, ainda mais em um ambiente pós-moderno que, contaminado pela hegemonia feminista, é modelado por um campo de percepção histérico e fraudulento. Dentro de uma guerra cultural, o desmascaramento da visão do oponente é fundamental. Ao apresentar uma boa leitura dos relacionamentos pós-modernos, a Real contribui em termos de dados. Por outro lado, seria um tiro no pé usar esses dados em termos de contribuir com a agenda do inimigo. É esta contribuição, que acreditamos não ser proposital, que o conservador deve se contrapor. O ardil feminista é colocar o homem contra a mulher. Fazendo o homem ter vergonha de ter homem e fazendo a mulher sofrer de egolatria em relação a si. Isso simplesmente mina a possibilidade de relacionamentos duradouros e desestrutura o importante núcleo da família.

66

É a clássica estratégia de dividir para conquistar. O caminho oposto, então, passa pela união e respeito mútuo. A conclusão deste trabalho é que a Real apresenta ferramentas importantes para o combate ao subversivo marxismo cultural, mas que, infelizmente, observando de modo geral, não está fazendo bom uso deles.

67

6 DISCUSSÃO ABERTA: CONTATO

Este trabalho teve como objetivo tecer críticas a Real. Não se limitou a isso, porém. Na realidade, a Real foi um pretexto. Este trabalho teve antes o objetivo de organizar e registrar certos pensamentos que vinham ocupando um setor de minhas reflexões, por isso ele não está fechado, o estudo continua. Não sei se os conservadores de fora da Real continuarão exagerando na dose da crítica ou se conservadores de dentro continuarão defendendo a Real apesar dos pesares dentro do que aqui chamei de “estratégia sabão”. De minha parte, registrei meus pensamentos e fundamentei minhas opiniões. Não estou fechado a críticas. Deixo meu contato aberto para que se possa abrir um canal de diálogo, permitindo que este trabalho e minhas reflexões sejam acrescidos. Meu email para contato é polaaugusto@gmail.com. Que uma nova edição possa ser feita.

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APÊNDICE I

Antes de lançar este humilde trabalho, fui colocado em um grupo realista do Facebook onde se poderia fazer críticas a Real. Como foi observado neste trabalho, uma estratégia de defesa é alegar ao mesmo tempo que a Real é uma só, mas plural. A Real é, inegavelmente, aplicada de diferentes maneiras, mas catalogá-la, insistem absurdamente os „realistas‟ seria proibido, uma vez que, segundo uma espécie de dogma „realista‟, ela é única. Para piorar, fui surpreendido com o argumento de que, ao buscar catalogar a Real, estaria querendo dividi-la. Tendo em vista a insistência nessa estratégia sabão e todo um chororô recíproco entre conservadores „realistas‟ e conservadores anti-real, faço um adendo sobre este atrito com o seguinte texto:

A unidade „realista‟ e a oposição a Real

Se você [caro „realista‟] acha que eu busco [catalogar como forma de tentar dividir a Real], isso não significa que eu busco. Se você acha que a Real é única, isso não significa, na realidade, (e isso é tão evidente que até me assusta não querer perceber, embora se perceba) que ela é aplicada de maneira única. São distinções básicas! [Foi me perguntado] O que categorizaria a Real do Lawlyet? Neste caso, ele tem o preview de um livro bem interessante e que, confesso, motivou a escrever o meu. Ele tornou as idéias dele clara, provavelmente seja por isso que usaram esse termo 86 . Catalogar por nome é um modo. Poder-se-ia catalogar por ideologia. No meu livro, dirijo-me aos conservadores, ou seja, aos realistasconservadores. Se é verdade que a Real é única, eu estaria caindo em “heresia” ao restringir o público

conservador. Isso é absurdo, pois é confessado que a Real "abriga de tudo", logo posso me dirigir a um público específico („Realistas‟ cristãos seriam outro exemplo de público específico dentro da Real). Para deixar claro. O fato de existir a Real significa - e não está se negando isso - que as pessoas partem de certas premissas. Contudo, o desenvolvimento paira por caminhos diferentes, por aplicações diferentes, tornando, por óbvio, diversificada (este inclusive é o

86 O livro não foi ainda lançado, mas Lawlyet deixou claro que idéia geral dele sobre a Real estaria sintetizada nos primeiros capítulos (ou seja, o núcleo geral foi ser relevado). Aliás, ele disponibilizou o preview no grupo liberalismo-conservador justamente para tentar diminuir a “treta” devido a certas discussões sobre a Real que estavam tendo por lá.

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recurso mais usado para defendê-la quando criticada pelos abusos). Sendo assim, para haver intenção de divisão, teria que se atacar as premissas. O restante "real do fulano", por exemplo, são análises mais voltadas ao campo ético-moral o modo como usar o conhecimento. Uma vez que, o conhecimento teórico da Real é, em si, amoral. Sendo assim, essa blindagem da Real ser uma coisa só na hora da propaganda e ela ser diversificada na hora de lidar com críticas é uma tentativa de querer tapar o sol com a peneira. Mais atrapalha do que ajuda em relação à oposição conservadora externa à Real. Não há problema na Real ser diversa, sendo moralmente divergente entre membros, mas ao se vender como uma coisa só, isso dá munição para colocar tudo num balaio só e medir, por exemplo, os „guerreiros‟ pelos juvenas. É a consequência de se adotar tal estilo de divulgação e propaganda. Para rebater a ironia [que me foi dirigida] de "boa sorte querendo catalogar", eu respondo de maneira igualmente irônica "boa sorte com a reclamação quanto a críticas, sem estar disposto a crítica quanto a questão de propaganda e de unidade 'desunida'". É fácil chamar opositores de consermanginas, ignorantes, desonestos, ego-ferido

(atitude, ora essa, que dai sim causa a desonrosa divisão!)

Mais difícil é avaliar como isso

... pode ser amortizado (já que a extinção é praticamente impossível). E quando há pistas para o motivo da comunicação ser difícil, teima-se em achar que o problema está apenas com os outros.

Eu sou da mesma opinião do Lawlyet, acho que a Real pode ser uma excelente fonte para levar pessoas ao conservadorismo. Não pense que eu me alegro com a divisão que ocorre. Mas não tomo partido só de um lado. Existe truculência de ambas as partes. E há algo implícito que está não está sendo relevado. Um conservador se preocupa menos com o fim do que com os meios. Sendo a Real carregada de certo conhecimentos que são comuns a todos, os meios empregados, dado a diversidade de membros, são diferentes e podem [de preferência devem] ser alvos de críticas. Querer blindar essas críticas alegando que "é uma coisa só" é trocar a preocupação conservadora, invertendo o fim (intenção) pelos meios (como obter determinado fim). Expandir a unidade da teoria [„realista‟] para o campo da ação (sendo que o campo de ação não é unido, justamente porque cada membro é livre usar a teoria da maneira que quiser) não é apenas um tiro no pé da própria Real, como é fonte de divisão dentro do meio conservador (que medem a Real pelos juvenas). A truculência recíproca não é ao acaso. O problema de comunicação é bastante evidente. Usem o desapego para observar isso:

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O lado 'realista' reclama que o lado conservador oposicionista não conhece a Real a fundo para tecer crítica. O lado conservador-oposicionista reclama de certas atitudes que visualizam nos meios da Real.

Como essa crise pode ser amenizada? Ah, isso daria um debate bom. Mas adianto, permanecer nessa censura sutil de "um por todos e todos por um" não resolve o problema, agrava-o. Ao vender-se como unanimidade e não ponderar que esta unanimidade só é referente a certas premissas (que é justamente o que faz uma pessoa ser da Real, apesar de aplicar o conhecimento de modo bastante diferente), isso abre margem para o outro lado aferir erroneamente a Real. Optar pelo "foda-se" também não ameniza o impasse, no mínimo o choramingo de ambas as partes irão continuar. A situação é, de modo superficial, esta (no livro, foi feita uma análise mais profunda). A criação deste grupo [de Facebook] e o convite de "consermangina" para tentar o diálogo são aplaudíveis, mas não vai adiantar se houver insistência em confundir coisas que são simples. Defender a unidade teórica da Real é uma coisa. Confundir com o modo de como ela é aplicada é bem diferente ...

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APÊNDICE II

Em meu blog eu fiz um texto onde abordei a questão da consciência, marxismo cultural e feminismo. Por ter relação com a temática deste livro, trago como o artigo como complemento e material de reflexão.

A Prisão da Consciência 87

Ontem, no hangout 'A Civilização Ocidental', foi muito bem comentado que o Marxismo Cultural trava uma briga contra os conceitos. Conceitos estes que são fundamentais para a estrutura do pensamento, uma vez que - como bem explicaram - o raciocínio passa por nosso sistema cognitivo, que é imaginativo, que é donde provém nossas idéias 88 . Os conceitos são abstrações importantes que usamos para ordenar nossa percepção e descrição da realidade. De fato, se temos conceitos deturpados, nosso código de leitura é alterado e nosso modo de pensar e expressar são danificados e, por conseguinte, a descrição da realidade é trocada por histeria. Eu arrisco a ir mais fundo. Diria que o Marxismo Cultural trava uma guerra contra a consciência. Neste prisma, a finalidade é o fim da culpa. Ao louvar o relativismo, não apenas se perde o senso de proporção, como também se almeja excluir qualquer possibilidade de culpa.

Parece uma história bonita. Você elimina a culpa individual que, segundo o conceito marxista de libertação, levaria a uma vida feliz através da busca do mero prazer. A premissa, contudo, é invalidada por causa da existência de nossa consciência. Por mais que se diga que a verdade é relativa, por mais que se diga que não existe certo ou errado, por mais que diga que "gosto não se discute", há não apenas uma hierarquia de valores, como também a existência da verdade e do certo e errado. Por mais que se invista em uma hipnose cultural, a consciência continuará existindo. É intrínseco do ser humano. Resta que o tributo para a ausência de culpa é, então, o confronto "místico" com a consciência que, naturalmente, não trás bons resultados. Olavo de Carvalho

  • 87 Adaptado de AUGUSTO. A Prisão da Consciência. Logaugusto, 11/12/2013. Disponível em

  • 88 Terceiro Hangout de 'A Civilização Ocidental'. Thomas Alex, Youtube, 09/12/2013. Disponível em

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replica bastante a lição que aprendeu de um amigo seu psiquiatra: a neurose é originada por conta de uma mentira. O Marxismo Cultural, em suma, não apenas promove uma guerra social, mas uma luta individual. Na página Mulheres Inteligentes 89 , onde se percebe que são de fato mulheres inteligentes, há dois textos de Fabina Bernotti que traduzem quão triste pode ser a revogação da consciência. No primeiro texto, mais "light", remonta a um episódio que ocorreu com a jornalista que respondeu a uma feminista nos seguintes termos:

"(

...

)Bom,

já que teve liberdade para me jogar seu discurso, peço licença para

explicar rapidamente o meu. Vejo em tudo quanto é publicação, de revistas,

livros à panfletos, passando por televisão e vídeos no YouTube, ―especialistas‖

que pregam o prazer livre feminino. Encorajam o sexo casual e constante com

qualquer macho que lhe corte a frente como forma de autoconhecimento, de

exercer a liberdade conquistada com a fumaça dos sutiãs. Daí vejo amigas e

colegas se esfregando à noite, para chorar de manhã o seu valor que sente

diminuir por entregar o corpo a quem não quer sua alma. A dividir a cama com

quem não quer dividir a vida, a expor sua intimidade a quem não liga para sua

fragilidade. E uma estudiosa como você vem dizer que isto é mais avançado que

ter sexo sadio e constante com o marido com quem você jurou viver diante de

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Deus? ( )" ...

O segundo texto, mais dramático, é uma reflexão sobre o episódio da menina libertina que se suicidou. Este caso foi trazido pela mídia como resultado do vazamento de um vídeo fazendo sexo que vazou na internet. A realidade é que foi, conforme investigou Bernotti, resultado de uma profunda depressão. Ter vídeos dela circulando por pessoas era mais corriqueiro do que a mídia deixou a entender. Detalhe que a investigação nem foi profunda, bastou ler as mensagens da garota nas redes sociais e declarações de amigas próximas 91 . O fato é que a consciência cobra seu preço - cedo ou tarde. E já no desenvolvimento de uma vida desenfreada, como genialmente discorre Mario Ferreira dos Santos em 'Filosofia da Crise', nasce o desespero que leva ao fanatismo. Quanto mais a consciência tenta alertar, mais alto precisa-se gritar para continua o caminho da inversão de valores. Independente do que se acredita, a consciência sabe discernir. Quando tivemos as manifestações de junho, vimos todo um povo gritando e protestando na rua. A população

  • 91 BERTOTTI, Fabiana. Júlia Rebeca. Fabiana Bertotti - Meu cantinho, 19/11/2013. Disponível em

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sentia que as coisas não iam bem, por mais que carecessem de conhecimento para explicar o que está errado. Desesperados, os manifestantes só puderam expressar segundo aquilo que dispunham:

um conjunto de palavras-gatilho da qual somos inundados dia-a-dia. "Mais educação", "mais

saúde", "mais segurança", "mais honestidade"

Fins recheados de nobreza, mas com meios

... carentes de preenchimento. Por mais que, ao gigante, falte uma estrutura saudável de conceitos importantes para organizar idéias como modo de tentar propor alternativas eficazes para resolver os problemas, lá estava a consciência apontando que algo não está certo. É mentira que o gigante estivesse dormindo, ele está sofrendo de mal-estar na verdade. Daí que provém também o ódio irracional aos conservadores. A característica da mente conservadora, ensinava Russell Kirk, é a ordem do pensamento. O exercício de um conservador é pensar. Ao contrário dos promotores do Marxismo Cultural, o conservador não negligencia a voz da consciência. Se os fanáticos (que surgem do desespero) querem ignorar a existência da culpa, o conservador deve relembrar da importância da responsabilidade. Se querem promover a libertinagem, o conservador deve lembrar da existência da ordem moral. Se querem relativizar, o conservador deve lembrar a existência de critérios universais. Se querem a igualdade absoluta, o conservador deve lembrar da existência e importância da hierarquia. Se querem ser impulsivos, o conservador lembra sobre a prudência e racionalidade. Se querem mergulhar em vícios, o conservador deve apontar para o caminho das virtudes. Enfim, o conservador deve tentar emular uma consciência dentro de uma sociedade caótica e desesperada. Por conta do fanatismo histérico que segue junto à campanha pela promoção da inversão da valores, o papel do conservador será alvo de diferentes fontes de ódios. Lembrar aquilo que quer ser esquecido, mesmo que seja para o bem, nunca é agradável, embora seja essencial para a construção de uma sociedade mais harmônica 92 . Sendo assim, antes de ser arrogante, o conservador deve buscar a humildade. A batalha crucial acontece dentro do indivíduo. Se o conservador dá atenção à moralidade, ele deve ser o primeiro a tentar segui-la. Pode e vai tropeçar incontável vezes, mas deve continuamente e sinceramente persistir em tentar alcançar as altas virtudes. Preocupa-me, então, os conservadores arrogantes, pois, como se pode concluir, ele deveria procurar ser humilde, combativo e construtivo.

92 Aqui pode se tomar como exemplo o freqüente fracasso que é relatado quando pessoas que conhecem a Real tentam alertar amigos que estão desonrosamente presos na Matrix. Tentando ajudar, passará por malvado, invejoso, dentre outras repulsas típicas daqueles que preferem uma mentira adocicada a enxergar a azeda verdade.

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O Marxismo Cultural tenta vencer à consciência minando a percepção sensível. A morte da consciência, todavia, é impossível. Mesmo porque, sua morte representaria o fim daquilo que nos distingue dos demais seres do mundo, e que, ao mesmo tempo, faz alcançar a única igualdade possível e desejável: a dignidade humana.

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APÊNDICE III

O artigo que vai abaixo foi escrito um dia depois do dia mundial contra a violência. Um dos objetivos foi expor a hegemonia feminista já impregnada em nossa cultura, ou seja, acusar todo o ardil cultural que vem prejudicando nossa sociedade. Em minha opinião, de todas as vertentes da guerra cultura marxista, o feminismo é o que tem obtido maior êxito em termos da corrupção da mente (conforme pede a estratégia gramscista). Trago este artigo para este apêndice porque ele passa rapidamente por algumas questões que foram abordadas na discussão deste livro.

A Hegemonia Cultural do Feminismo 93

Na disputa pela hegemonia do senso comum, arrisco a dizer que o feminismo é o movimento que tem conseguido obter maior sucesso. É característico dos grupos de pressão das minorias usar de vitimismo como forma de conquistar adesão e adeptos para a engenharia social do politicamente correto. O feminismo, por sua vez, é o que tem dado sinal de melhor sucesso nessa estratégia. O motivo é até simples de entender. O homem é o natural protetor da mulher e tem em seu instinto a necessidade de protegê-la. Homem não pode ver mulher chorar. O homem, em geral, quer a segurança da mulher; como líder, servi-la. A mulher, por sua vez, quer segurança. Ambos concordam, portanto, que a mulher merece proteção contra os malvados. Deste modo, o drama sentimentalista junto ao revisionismo histórico que costumeiramente é alardeado por feministas impregna na alma do homem de modo a sobrecarregá-lo em culpa. A virilidade masculina é posta como vilão e muitos homens, por acreditar no discurso, emasculam-se. O vocabulário também é alterado. Submissão passa a ter conotação negativa (quando é algo fundamental para qualquer sistema hierárquico). Libertinagem passa a ser confundida com liberdade e direitos (quando é o oposto da liberdade e pouco tem de relação positiva com o direito). Amor confundido com paixão. Romantismo com servidão cega. Filho como fardo, e por aí vai. Outro sinal de que é a ideologia cultural com maior sucesso hegemônico é que comentaristas inteligentes como Luiz Carlos Prates e Rachel Sheherazade abraçam o

93 Adaptado de AUGUSTO. A hegemonia cultural do feminismo. Logaugusto, 26/11/2013. Disponível em

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automatismo do discurso vitimista. Em relação ao primeiro, a contradição chega a ser cômica. Defende com unhas e dentes a família, moralizando, com razão, a responsabilidade dos pais sobre os filhos. Mas quando o assunto é formar família, o mesmo passa a dizer que primeiro a mulher deve pensar em si. Esta contradição pode não ser evidente, mas isso é novamente ideologia feminista enraizada no senso comum. A família tem por princípio o sacrifício em favor dos filhos. É uma ação oposta ao egoísmo. Não é à toa que a Igreja a coloca como força santificante, pois ali é onde o amor de verdade, a capacidade de dar a vida por outro, é exercida em máximo grau. Sim, o feminismo também foi o grande responsável pela distorção da definição de família.

Falta temperança. Nem o homem deve ser moldado com o suprassumo da maldade; nem a mulher, da injustiça. Se ontem foi o dia mundial contra a violência, o senso de proporção pediria o exame urgente a respeito do índice de homicídios que no Brasil, que supostamente não está em guerra, já passa dos 50 mil, sendo a grande maioria homens. O que vimos, contudo, foi toda uma discussão sobre violência doméstica contra as mulheres. Em tempo: sobre a violência doméstica, as estatísticas vão contra o senso comum. O homem é que é mais violentado. Homem que bate em mulher merece um belo de um xilindró (e vice versa). Nem homem e nem mulheres de bem são contra isso. É o discurso de chover no molhado. Já a população brasileira, homens e mulheres, acuada pela violência e império dos bandidos, merece segurança. É, o feminismo além de promover a guerra dos sexos, tem a capacidade de furar fila na hora de discutir o problema da violência.