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Licenciatura em Psicologia – 2º CICLO – 1º ANO

C RIANÇAS ABANDONAD AS :
N EGLIGÊNCIA , MAU S TRATOS E P ROBLEMÁTICAS NO
DESENVOLVIMENTO DO SUJEITO 1

Docente:
Prof. Doutora ???????

Discentes:

Dezembro 2008

1
Atenção! Trata-se de um primeiro Esboço de trabalho – pelo que tem uma grande parte de citação directa,
não assinalada do autor Fonte, 2oo4 – cuja Leitura de tese se recomenda (ver Bibliografia), tal como o ponto
sobre “A criança e o seu Desenvolvimento na perspectiva de Piaget” não contém qualquer referência, neste
caso é parte de uma síntese elaborada por mim com base na obra de Piaget, referenciada na bibliografia.
Chama-se igualmente a atenção para o facto de, por lapso, não se referir o nº de página de onde se retirou a
citação e de a Bibliografia conter algumas referências que ainda não foram utilizadas, mas que são meros
indicativos de estudos importantes a consultar no futuro... Obrigada!
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Toda riqueza provém do trabalho, asseguram os


economistas. E assim o é na realidade: a natureza
proporciona os materiais que o trabalho transforma em
riqueza. Mas o trabalho é muito mais do que isso: é o
fundamento da vida humana. Podemos até afirmar que, sob
determinado aspecto, o trabalho criou o próprio homem.
(Engels,1990).
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ÍNDICE

I – Introdução.......................................................................................................................1

1. Contexto histórico do abandono e Negligência .................................................................2

2. Fundação das Misericórdias, em Portugal.........................................................................2

3. Alterações jurídico-administrativas...................................................................................6

4. A declaração dos “Direitos da Criança”..........................................................................10

5. A criança e o seu desenvolvimento segundo Jean Piaget.................................................11


5.1. Estádio Sensório-motor..............................................................................................................................12
a) Permanência do objecto .................................................................................................................13
5.2. Estádio Pré-operatório ...............................................................................................................................13
5.3. Estádio das Operações concretas ..............................................................................................................14
5.4. Estádio das Operações formais .................................................................................................................15
6. Crianças abandonadas: uma realidade actual...................................................................16
6.1. Importância da família ...............................................................................................................................19
6.2. Para onde vão as crianças depois do abandono? ......................................................................................19
6.3. Adopção ......................................................................................................................................................20
7. Risco, vulnerabilidade, protecção e resiliência................................................................22

IV – Conclusão ..................................................................................................................25

V – Referências..................................................................................................................26

Anexo I .................................................................................................................................i
1. Refúgio Aboim Ascensão, no Algarve ...........................................................................................................i
1.1. Missão e Objectivos ................................................................................................................................i
1.2. Como nasceu a emergência infantil? .....................................................................................................i
1.3. Unidade de Habilitação Madalena Perdigão ........................................................................................ii
1.3.1. Terapia Ocupacional ..................................................................................................................ii
1.3.2. Terapia da Fala ..........................................................................................................................iii
1.3.3. Fisioterapia ................................................................................................................................iii
2. Ajuda de berço................................................................................................................................................iv
2.1. Missão e objectivos ...............................................................................................................................iv
2.2. Como funciona a Ajuda de Berço? ......................................................................................................iv
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I – I NTRODUÇÃO
Vive-se numa época em que a criança ocupa um espaço privilegiado no universo das
famílias e das sociedades do mundo ocidental, com os seus direitos a serem
internacionalmente reconhecidos – o que lhe confere o privilégio de beneficiar dum
programa específico de protecção e de segurança social – qualquer situação de abandono,
exploração ou maus tratos é considerada como um comportamento repugnante, socialmente
reprovado e juridicamente condenado.

Inseridos num espaço europeu, onde as crianças são tão valorizadas e a adopção constitui
um objectivo de muitos casais, não admira que quaisquer comportamentos lesivos da sua
integridade física e mental sejam profusamente debatidos e socialmente condenados, à luz
dos valores da sociedade contemporânea (Fonte, 2004).

Paradoxalmente, mesmo após terem sido reconhecidos e oficialmente aprovados os seus


direitos, primeiro pela Declaração de Genebra, em 1924, mais tarde pelas Nações Unidas,
em 1959, a realidade tem-nos mostrado que os problemas das crianças não são um exclusivo
do passado, se pensarmos que muitas delas ainda hoje são vítimas de abandono, maus tratos
e perversas formas de exploração.

Apesar do fenómeno do abandono de crianças estar associado a comportamentos e práticas


das populações do passado, a sua dimensão e o contexto em que o mesmo se gerou e
desenvolveu assegurou-lhe um espaço próprio na nossa memória colectiva. Transmitido de
geração em geração, quantas vezes de forma deturpada, qualquer caso de infanticídio ou de
abandono de crianças, nos dias de hoje, acaba por desencadear uma profunda reflexão e
suscitar novos problemas, aos quais os especialistas de várias áreas procuram dar resposta
(Fonte, 2004).

Temos como imprudente aquele que, através de uma conduta, afasta-se do mínimo que a
apropriada execução exige. O exemplo clássico de excesso de velocidade por motorista em
noite chuvosa é extremamente ilustrativo. Em contra-partida conceitua-se prudência como
uma relutância de tomar riscos, que consiste em uma virtude de respeito aos riscos
desnecessários. Ou seja, imprudente é aquele que faz quando não deveria fazer. Configura-
se a imperícia a partir do despreparo do agente em exercer determinada função onde
conhecimentos técnicos são indispensáveis para o sucesso da atividade ou profissão. O leigo
que exerce artes medicinais, culminando este proceder em prejuízo ou dano para alguém,
demonstra-se como imperito. Ou seja, imperito é aquele que não sabe fazer. Negligente
demonstra-se o agente ao na prática de proceder, que revele e caracterize omissão, em
prejuízo de uma atitude que deveria ser originalmente positiva. A negligência sintetiza,
portanto, um proceder negativo, uma abstenção de procedimentos seguros fixados em
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norma ou regulamento. Ou seja, negligente é aquele que não faz quando tem que fazer
(Guimaro Junior, 1999).

Por tudo isto consideramos fundamental abordar o tema do abandono infantil e tentar
perceber, a partir daí, como este se relaciona com a negligência, maus tratos e problemáticas
do desenvolvimento do sujeito. Gostaríamos ainda de aflorar a temática da adopção, já que
esta é a solução considerada ideal para muitos dos casos de abandono Começamos por
recuar no tempo e tentar perceber como era vivida esta realidade no passado para depois
virmos até aos nossos dias e tentar compreender a verdadeira dimensão do problema.

1. CONTEXTO HISTÓRICO DO ABANDONO E NEGLIGÊNCIA


De uma forma muito resumida o contexto histórico desta problemática, perde-se nas brumas
dos tempos, chegaram no entanto, indicações que:
• Criação de hospitais e orfanatos para crianças abandonadas e órfãos no séc. II d.C.;
• Nos sécs. V, VI e VII existiam em várias regiões da Europa orfanatos para crianças
abandonadas;
• Em Portugal: intervenção social com crianças maltratadas teve início no séc. XVI. No séc.
XVIII foi criada a “Roda” (Radbill, 1987; Zigler e Hall, 1989; Fonte, 2001, 2004);
• O 1º artigo científico sobre mau trato surge em 1962:
Kempe, C. H., Silverman, F. N., Steele, B. F., Droegemueller, W., & Silver, H. K.(1962).
The battered-child syndrome. JAMA, 181(Jul 7), 17–24.

Recuemos então ao passado, em Portugal, levados pela mão Teodoro Afonso da Fonte
(2004) que, aquando da sua investigação de doutoramento se deparou com a seguinte
situação: “num estudo comparativo que efectuámos a partir dos registos paroquiais e
municipais dos expostos de Ponte de Lima, pudemos comprovar que, no período de 1792 a
1874, o número de expostos das fontes paroquiais é inferior ao que nos é fornecido pelas
fontes municipais. Esse diferencial resulta do facto dos registos municipais conterem o
registo do total de expostos que entraram na Rodas/Hospícios do concelho, enquanto as
fontes paroquiais apenas integram os registos dos expostos que aí foram baptizados,
excluindo aqueles que, comprovadamente, já vinham baptizados”.

2. FUNDAÇÃO DAS MISERICÓRDIAS, EM PORTUGAL


Foi sobretudo durante o século XVI, que se fundaram algumas das principais Misericórdias
da região norte, como a Misericórdia de Viana (Figura 1), com as quais se pretendia dar
cumprimento às catorze obras de misericórdia (sete espirituais e sete corporais). Estas
instituições são bem o exemplo vivo de uma extraordinária longevidade, estando bem
enraizadas entre as comunidades locais e continuando a assegurar algumas das suas mais
importantes valências religiosas e sociais.

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Figura 1. A Misericórdia de Viana, na 2ª metade do século XIX (cit. Fonte, 2004)

Com o Estado a não resolver os inúmeros problemas sociais que afectavam alguns sectores
da população do país, uma situação agravada pelo facto dos concelhos não conseguirem dar
cobertura às obrigações que lhes haviam sido imputadas pelo poder central, foram as redes
de solidariedade, espontâneas ou institucionais, que acabaram por evitar o agravamento das
situações de marginalização e exclusão social dos mais desprotegidos.

De facto, “Quando confrontámos os dados estatísticos dos concelhos de Viana e Ponte de


Lima, relativos ao período de 1842 a 1867, obtidos através da exploração das fontes
municipais (utilizando uma metodologia microanalítica) e das fontes distritais, é possível
comprovar a falta de correspondência na evolução da admissão de expostos nesses dois
concelhos (Figura 1). Nesse período, a fonte distrital contabilizava mais 1124 expostos do
que os dados obtidos através das fontes municipais dos referidos concelhos, ou seja, quase
mais 20% de registos. É um problema que resulta do facto das fontes distritais não
diferenciarem as crianças expostas das subsidiadas, uma percentagem que só não é
superior porque o sistema de atribuição de subsídios ainda era bastante restritivo.”

Figura 2. Evolução global do registo de expostos nos concelhos de Viana e P. de Lima (1842-1867)
(cit. Fonte, 2004)

Esta posição poderá ser explicada pelo facto das Rodas terem emergido como instituições
que salvar a vida de muitas crianças, na linha do pensamento iluminista de Pina Manique
que, através duma ordem-circular de 1783 (um tema a tratar num próximo capítulo),

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mandou criar estas instituições, por todo o território nacional, para salvar a vida de tantos
vassalos que tão úteis poderiam ser à pátria (Fonte, 2004). Refira-se o facto do corregedor
de Viana ter indicado a existência nesta comarca de 759 confrarias, para um total de 274
freguesias. Muitas delas ainda hoje continuam a existir, mantendo viva a herança dos
antepassados, a religiosidade popular e o carácter solidário das suas gentes. Em 1865, o
distrito de Viana contabilizava 783 irmandades e confrarias (Fonte, 2001).

A dieta alimentar das populações rurais, descrita por Custódio Vilas-Boas (1800; 1970),
seria basicamente constituída por “pão de milho e centeyo; hum pobre caldo de feijão ou
couves; vinho verde; algumas vezes carne de porco, bacalhao ou sardinhas, cujo
mantimento os faz robustos, e saudáveis”. Porém, não se poderá esquecer a importância do
leite, sobretudo de vaca, o qual, juntamente com a broa de milho, constituía a base da
alimentação das populações rurais. Uma alimentação melhorada estaria reservada para os
dias mais festivos. A penúria e as situações de extrema miséria estariam reservadas a uma
parte mais reduzida da sua população, sobretudo às pessoas ou famílias sem possibilidade
de angariar o seu próprio sustento, por incapacidade física ou por ociosidade.

O sentimento de pertença a uma comunidade estava profundamente enraizado entre as


populações do Alto Minho, crescendo em torno da Igreja, para onde confluíam os
paroquianos e onde se desenrolavam os “ritos de passagem”. Perante a dura realidade
quotidiana, os habitantes desta região procuravam amenizar as agruras da vida e ultrapassar
as inúmeras dificuldades. A solução poderia passar pelo desenvolvimento de um conjunto
de estratégias que lhes permitissem contornar os problemas de sobrevivência e que
assentavam, essencialmente, na consolidação dos vínculos familiares e na valorização das
relações e laços de vizinhança, assentes em solidariedades verticais ou horizontais. Há
estatísticas demonstrativas da separação que se faz entre as crianças legítimas e as
ilegítimas.

Quadro 1
Nascimentos, legítimos e ilegítimos, no distrito de Viana (1864) ) (cit. Fonte, 2004)

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Depois da identificação de alguns comportamentos que não se afastavam muito dos padrões
europeus, o estudo demográfico de Guimarães, realizado pela investigadora Norberta
Amorim (1987), acabou por demonstrar que as taxas de ilegitimidade registadas, tanto na
zona urbana como nas freguesias limítrofes rurais, não se enquadravam nas indicadas para o
já referido modelo europeu dos países do Sul da Europa. Eram indicadores seguros que
apontavam para a possibilidade de se estar perante um comportamento demográfico
específico, com a ilegitimidade a atingir proporções muito superiores às de outros países
europeus (Quadro 2) (Fonte, 2004).
Quadro 2
Actualidade da percentagem de ilegítima na Europa no Antigo Regime (cit. Fonte, 2004)

O Baixo Minho é considerado por Neves, em 1998, como um núcleo demográfico que
poderia ser classificado como o “epicentro do fenómeno da ilegitimidade no território
português”. Se considerarmos que estes dados permanecem elevados, para a actual
realidade, vejamos o que sucede globalmente nos dias de hoje .
Quadro 3
Nados vivos anos de 1960 a 2003: alguns indicadores (Carrilho, 2006)

A percentagem de nados-vivos fora do casamento tem vindo a aumentar substancialmente


nos últimos anos, sobretudo na região de Lisboa e Vale do Tejo, onde em 2003 atingiu
39,3% dos registos. Nos Açores, estes nascimentos representaram, nesse mesmo ano, 16,9%

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dos registados. Comparando com a Europa dos 15, Lisboa (39,3%) ultrapassava, em muito,
a média europeia (31,4%) em 2003 (Carrilho, 2006).

A solidariedade humana, alicerçada num espírito de benemerência social e inspirada nos


princípios da doutrina cristã, acabou por impedir que a miséria e a indigência alastrassem e
se generalizassem, sobretudo em períodos de conjuntura mais desfavorável. Este altruísmo
solidário ajudará a explicar um certo particularismo nas relações humanas e sociais entre as
comunidades de uma região profundamente rural, a contrastar com aquilo que se verificaria
nos grandes espaços urbanos do nosso país, em particular no período da sua
industrialização, bem mais propícios a situações de exclusão social (Carrilho, 2006).

As Ordenações do Reino constituem o suporte jurídico em que se estruturou a assistência às


crianças órfãs no nosso país, às quais apareciam associadas as crianças que haviam sido
enjeitadas pelos seus familiares ou cujos progenitores eram desconhecidos. O estudo da
comunidade é um dos meios privilegiados e indicados para se avaliarem determinados
comportamentos individuais, nomeadamente como definiram os seus “arranjos familiares”,
como organizaram os seus agregados domésticos, como se relacionaram com os parentes e
vizinhos, como herdaram a autoridade e o património, como sobreviveram e como se
reproduziram (Scott, 2004).

Como vemos apesar das desigualdades entre ricos e pobres, ambientes industriais e rurais a
verdade é que se vivia numa época em que ainda havia valores que sustentavam toda a
comunidade/sociedade, religião, família, estes alteram-se profundamente com o advento da
industrialização e o êxodo das populações das aldeias para os meios altamente
industrializados – as cidades.

3. ALTERAÇÕES JURÍDICO-ADMINISTRATIVAS
E a Roda do Hospital Real,
rodando dia e noite, ia
recebendo crianças sobre
crianças, a boquita sequiosa,
os cabelos numa névoa de
oiro, sorrindo para a sua
própria desgraça!
(Júlio Dantas, 1915)

As grandes alterações jurídico-administrativas apenas apareceram no período liberal, altura


em que foram publicados novos diplomas legislativos e os Códigos Administrativo, Penal e
Civil, como reflexo duma nova concepção da assistência e duma nova visão da sociedade
em relação às populações vítimas de exclusão familiar e social. Na prática, a nova legislação
liberal mais não pretendia do que reorganizar o serviço de beneficência e assistência pública
às crianças expostas, abandonadas e indigentes, mantendo inalterados os seus princípios e
objectivos fundamentais. O caminho da modernidade pressupunha que o Estado

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complementasse ou viesse a substituir progressivamente a caridade particular, à medida que


esta se revelava incapaz de dar resposta às crescentes solicitações das sociedades modernas.

Gouveia Pinto (1928) chegou a afirmar que “não seremos excessivos se calcularmos a
entrada anual dos expostos em todas as casas da roda e Hospitais do Reino de Portugal, e
Algarve, em 10:000, e o número de existentes até aos 7 anos de idade em 30:000. Este
último número deveria incluir as crianças que entravam em cada ano e, muito
provavelmente, não apenas as expostas, mas também as subsidiadas.”

Foi em pleno século XIX, quando se procuravam encontrar os mecanismos adequados para
atenuar o problema do aumento significativo do número de crianças expostas, que se
considerou não ser possível resolver esse problema, sem se conhecerem previamente as
causas que estariam na origem de tal comportamento social e demográfico. Logo no
primeiro quartel desse século, o jurista português, Gouveia Pinto (1820, p. 3), considerou
que o enjeitamento dos filhos, pelos seus progenitores, estaria relacionado com alguma das
seguintes razões:
1º. Pelo perigo que corrião, se fossem conhecidos, como acontece nas uniões clandestinas, em
que há todo o interesse em ocultar os factos;
2º. Pela summa pobreza dos pais;
3º. 3.º-Pela sua perversidade, que suffoca em seus corações os sentimentos de amor paterno e
lhes faz considerar a criação dos filhos como hum pezo, de que procurão alliviar-se (...).

A designação de “exposto” só foi juridicamente abolida após a publicação do Código do


Registo Civil, em 1958. Em seu lugar, as crianças que estivessem nessas circunstâncias
foram integradas no grupo dos “menores abandonados”. Estes passaram a ser considerados
como estando em perigo moral, desde o início do período republicano (dec. de 27 de Maio
de 1911. Fariam parte deste grupo de crianças todos os recém-nascidos, filhos de pais
incógnitos, que fossem encontrados ao abandono em qualquer lugar (vide art.ºs 126.º e
seguintes do Código Civil de 1958).

Quando as apelidavam de “postiças”, os escrivães assumiam um provincianismo que se


começou a generalizar entre as populações desta região, como forma de designar as crianças
que estavam a ser criadas por famílias não biológicas. Nalguns casos, estas crianças
acabaram por dar continuidade à Casa – unidade de produção e consumo – que as havia
acolhido e adoptado. Em S. Lourenço da Montaria, uma freguesia rural do concelho de
Viana do Castelo, ainda hoje persiste a tradição ancestral de associar as pessoas à Casa, cujo
nome foi passando de geração em geração. Uma delas ainda hoje é conhecida por “Casa da
Postiça”, uma designação que terá resultado da presença de uma “postiça”, a qual terá
herdado a casa da presumível ama de acolhimento.

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O poder central deu prioridade às crianças abandonadas, com as medidas legislativas a


definirem o verdadeiro estatuto jurídico dos expostos. Assim, enquanto que Carlos III
procurou impedir que os expostos pudessem ser adoptados por pessoas sem escrúpulos,
mais preocupadas em usá-los em benefício próprio do que em educá-los convenientemente,
Carlos IV legislou no sentido de acabar com o estigma da marginalidade e com os
problemas de inserção social dos expostos. Empenhado na dignificação da criança
abandonada, este monarca, por decreto de 5 de Janeiro de 1794, determinou a legitimação,
para efeitos civis, de todos os expostos de pais desconhecidos, assimilando-os, em termos
laborais e judiciais, à classe dos homens bons. Ao considerar que os expostos não poderiam
ser objecto de qualquer discriminação social, a legislação passou a condenar as pessoas que
injuriassem estas crianças, chamando-lhes ilegítimos, bastardos, espúrios, incestuosos ou
adulterinos (Pérez Moreda, 1980).

Como reflexo da mentalidade populacionista, então reinante, Diogo Inácio de Pina Manique
enviou a todos os provedores das comarcas uma ordem-circular, datada de 10 de Maio de
1783, cujo principal objectivo era alargar a rede assistencial de acolhimento das crianças
expostas e regulamentar a sua criação.

A finalidade da intervenção do Estado seria a de salvar a vida de muitas crianças que


continuavam a ser sacrificadas “como inocentes victimas da indolensia com que os Povos
vem perecer tantos cidadoens que poderião ser uteis ao Estado e glória para a Nação”. De
acordo com o que estava determinado na citada ordem-circular, cada provedor “hirá
pessoalmente a todas as terras da sua Comarca e em cada hua das villas della estabelecerá
hua casa em q’ haja hum lugar onde se possão expor as crianças sem que se conheça quem
as leva” (...). Era a legalização e a generalização das Rodas como instituições de assistência
à infância abandonada, dotadas de um instrumento que garantisse todo o sigilo à exposição
de crianças (Pina Manique, 1783).

Em 1806, o príncipe regente, depois de relembrar que as Misericórdias e os Hospitais do


reino e seus domínios se encontravam sob a sua “real e imediata protecção”, determinou que
todas as Misericórdias se regulassem pelo compromisso da Santa Casa da Misericórdia de
Lisboa, cujos bens deveriam ser destinados ao exercício da sua função assistencial. Com
uma larga abrangência social, uma das prioridades destas instituições seria a de procurar
melhorar a assistência às crianças abandonadas, eleitas pelo príncipe regente como “hum
dos objectos mais dignos da Minha Real Consideração, e dos mais recomendáveis á
caridade christã, e proprios do Instituto das Misericórdias”.

Publicado no D.L., n.º 71, de 28 de Março de 1868. Este decreto da Direcção Geral da
Administração Civil determinava o seguinte: “Tendo o decreto de 21 de Novembro de 1867,
regulado por um modo uniforme em rodo o reino o serviço dos expostos, substituindo o

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systema das rodas pelo de hospícios de admissão restricta, fundando-se as disposições


d’aquelle decreto nas faculdades que ao governo conferia a lei de 26 de Junho do mesmo
anno; e havendo sido declarada sem effeito esta lei pelo decreto de 14 de Janeiro último,
não podendo por isso subsistir aquelle regulamanto, até porque estão as suas prescripções
em desaccordo com a legislação administrativa e penal vigente: hei por bem revogar o
supradito decreto de 21 de Novembro de 1867. O presidente do conselho de ministros e
secretário d’estado interino dos negócios do reino, assim o tenha entendido e faça executar.
Paço, em 20 de Março de 1868”.

Numa tentativa ímpar de legislar, chegou-se à conclusão os expostos ficariam a cargo do


Hospício, até completarem os 7 anos de idade, exceptuando os casos de manifesta
incapacidade física ou mental. Previa-se, ainda, a concessão de subsídios de lactação às
mulheres solteiras pobres que, por motivo de gravidez notória, tivessem sido intimadas para
darem conta dos partos ou que, não o tendo sido, se tivessem apresentado voluntariamente
para dar conta dos filhos. O subsídio poderia ter a duração de um ano, prorrogável por mais
seis meses, quando a criança corresse perigo de vida.

Figura 3. Subsídios de aleitação concedidos pela Câmara de Ponte de Lima (1868-1887) (cit. Fonte,
2004)

Fonte (2004) é de opinião que este projecto de regulamento, a ser aprovado, deveria
começar a ser executado a partir do início do ano de 1880. Porém, como o mesmo não
mereceu o apoio e a concordância das autoridades municipais, manteve-se a mesma
estrutura assistencial, de acordo com o regulamento distrital de 1866. Mesmo sem ter sido
aprovado, este projecto acabou por originar uma profunda reflexão sobre o estado da
assistência à infância desvalida e abandonada no distrito de Viana, o qual é bem o reflexo da
continuidade do debate e da polémica nacional, que não se esgotou com a abolição das
Rodas. Todavia, foi preciso esperar pelo ano de 1888 para que fosse adoptado um
regulamento de âmbito nacional, harmonizando todos os procedimentos e normalizando as
práticas institucionais.

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Quadro 4
Despesas com os expostos na Roda de Caminha (1848/1849) (Fonte, 2004)

4. A DECLARAÇÃO DOS “DIREITOS DA CRIANÇA”


A organização “Save the Children”, fundada na Inglaterra, em 1914 pela pacifista Eglantyne
Jebb, sob o lema “Temos ao menos que Salvar as Crianças”, surgiu logo após a 1.ª Guerra
Mundial. Olhada com desconfiança por aqueles que a conotavam com determinadas
motivações políticas, esta organização foi-se espalhando por outros países e pretendia que
as nações assegurassem um mundo de paz a todas as crianças, através do reconhecimento
dos seus direitos, sem qualquer discriminação política, económica, social ou religiosa
(Zigler & Hall, 1989).

Na sequência do trabalho desenvolvido, Eglantyne Jebb elaborou a “Carta dos Direitos das
Crianças”, a qual mereceu a aprovação da Assembleia Geral da União Internacional de
“Save the Children”, em 1923, tendo sido adoptada pela Sociedade das Nações, em 1924.
Oficialmente conhecida por “Declaração de Genebra”, onde estão consignados os princípios
básicos de protecção à infância, o seu conteúdo viria a ser substancialmente ampliado, após
a 2.ª Guerra Mundial, com a aprovação da “Declaração Universal dos Direitos da Criança”
pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1959.

Salvaguardando a integridade das famílias, a Declaração de Genebra passou a defender para


todas as crianças um desenvolvimento normal, a nível material, moral e espiritual. Assim, as
crianças com fome deveriam ser alimentadas, as doentes tratadas, as deficientes auxiliadas,
as inadaptadas reeducadas e as órfãs e abandonadas recolhidas. Esta última recomendação
faz-nos lembrar a longa tradição do nosso país na recolha e criação das crianças expostas e
desvalidas, num programa assistencial a que estiveram associadas as Rodas e os Hospícios,
sem esquecer os Asilos da Infância Desvalida. Contudo, estas medidas não se haviam
revelado suficientemente eficazes para resolver os problemas de tantas crianças inocentes,
nascidas em ambientes familiares muito precários ou vítimas de abandono, como o
pareciam provar os elevados níveis de mortalidade registados, sem esquecer os problemas
de inserção social dos sobreviventes.
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Em 1980, são promulgadas, nos E.U.A. e no Reino Unido, duas leis que, incorporando a
maior parte das recomendações dos especialistas em protecção infantil e familiar, resultam
da reflexão crítica sobre os resultados da formalização do sistema de acolhimento familiar,
cujas lacunas são claramente identificadas (Capdevila, 1996). Também o acompanhamento
de todas as fases deste processo é essencial, salientando-se o apoio especializado de
retaguarda às colocações familiares e a avaliação final (Capdevila, 1996):
a) da consecução dos objectivos propostos e da modificação das causas desencadeantes;
b) do benefício obtido pela criança acolhida;
c) do benefício obtido pela família cujo menor precisou de acolhimento;
d) da experiência da família acolhedora.

Porque é a criança o âmago deste trabalho é importante perceber que todo o abandono,
negligência e maus tratos têm consequências mais ou menos irreversíveis sobre o sujeito
alvo de... é necessário ter-se presente o que teorizam alguns dos principais teóricos do
desenvolvimento humano.

5. A CRIANÇA E O SEU DESENVOLVIMENTO SEGUNDO JEAN PIAGET


É portanto importante ter alguns teóricos de referência para perceber como se organiza o
desenvolvimento do ser humano. Assim e pegando na teoria de desenvolvimento por
estádios de Jean Piaget vemos que quando nasce o ser é designado por recém-nascido até
completar um mês de idade, bebé quando tem entre um e dezoito meses de idade, e por fim
é considerada criança quando tem uma idade compreendida entre dois e doze, catorze anos
aproximadamente.

Segundo Piaget, trazemos em nossa genética o conhecimento, e junto com o meio,


construímos nossas aprendizagens. Segundo ele, existem quatro estádios de
desenvolvimento intelectual. O seu trabalho sobre a criança enquanto “sujeito epistémico” –
não enquanto sujeito individual mas como parte do desenvolvimento do pensamento
humano – constitui aquilo que se designa por epistemologia genética.

Desenvolve uma teoria psicobiológica que se baseia na assimilação de elementos do meio


numa estrutura prévia do sujeito. Após esta, uma acomodação, onde os processos mentais se
modificam em prol das experiências. De seguida verifica-se uma adaptação, que consiste
numa regulação interior entre o organismo e o meio, e, por fim uma equilibração, que se
expressa sendo um mecanismo auto-regulador que permite uma nova destabilização.

Piaget subdivide o desenvolvimento intelectual em quatro estádios:


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• Estádio sensóriomotor (dos 0 aos 18/24 meses) – O sujeito usa os sentidos para interagir
com o meio;
• Estádio pré-operatório (dos 2 aos 6 anos) O pensamento sofre transformações qualitativa
(determina a qualidade), as crianças já não usam somente a suas sensibilidades, neste estádio
cresce a capacidade de armazenamento, ele começa a compreender e falar;
• Estádio das operações concretas (dos 6/7 aos 11/12 anos) – É o estádio operacional, onde já
podem testar os problemas;
• Estádio das operações formais (dos 11/12 anos aos 15/16 anos) – É nesta fase que a criança
desenvolve a sua própria identidade.

Como afirma Piaget o conhecimento não pode ser concebido como algo predeterminado, o
conhecimento resulta das acções e interacções do sujeito no ambiente
O adulto deve procurar interferir menos, respeitar as fases da criança, e corresponder aos
seus interesses. Quando as correcções não acontecem, o adulto limita-se a ensinar/fazer
entender a criança que os erros também fazem parte da aprendizagem.
Por exemplo, o construtivismo propõe que o aluno/criança participe activamente do seu
processo de aprendizagem, com o auxilio dos colegas/adultos, com pesquisas, estimulando a
busca de respostas para suas dúvidas, desenvolvendo assim o raciocínio. Rejeita a
apresentação dos ditos conhecimentos prontos.

5.1. ESTÁDIO SENSÓRIO-MOTOR

Ocorre durante os 0-18meses de idade – Neste estádio, ocorre uma espécie de conquista
através da percepção e dos movimentos, daí a designação de sensóriomotor, de todo o
universo prático que rodeia a criança. Caracteriza-se portanto por uma inteligência prática,
que se aplica à resolução de problemas (procurar um guizo escondido, alcançar uma bola,
entre outros...), e que se baseia na acção, anterior à linguagem e ao pensamento.
A criança nasce com reflexos, que irão gradualmente pelo exercício transformando – se em
esquemas sensoriais – motores, por exemplo, a criança herda uma tendência instintiva de se
nutrir, tendência esta que será actualizada pela sucção, ao compararmos um recém-nascido
no momento de nascimento e alguns dias depois, podemos verificar que este reflexo sofreu
algumas modificações, estando mais complexo.

As capacidades sensoriais, como a audição, a visão, o olfacto e o tacto ainda não estão
coordenadas entre si. O mundo para o bebé é percepcionado como caótico, pois não é
estruturado em função de um tempo e espaço, não existe diferenciação entre ele e o meio
envolvente. Uma das evoluções que ocorre neste estádio, é a aquisição da construção do
objecto permanente. Esta inicia-se por volta dos nove meses, e permite à criança a
concepção de um mundo estável, onde a existência dos objectos é independente da sua
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percepção imediata. No início deste estádio domina um certo egocentrismo, pois o bebé não
compreende que está inserido numa sociedade, encarando o mundo como se este girasse em
torno de si mesmo, até que os progressos da inteligência sensório – motora levam à
construção de um universo objectivo, onde o próprio corpo aparece como elemento entre os
outros.

a) Permanência do objecto
A construção do objecto permanente ou permanência do objecto, surge também neste
estádio por volta dos nove meses de idade, e traduz a capacidade de o bebé saber que pelo
facto de um determinado objecto encontrar-se escondido ou oculto por determinados
instante, não significa que este deixou de existir, que desapareceu.

Até aos doze meses de idade, o bebé vai ter actos intencionais com coordenação de meios e
de fins para obter o que deseja. Pode ser considerado como exemplo, o facto de o bebé
puxar o cobertor (meio) para apanhar o brinquedo (fim). A partir dos dezoito meses, a
criança de uma forma interiorizada, consegue uma invenção rápida de novos meios para
resolver problemas por combinação mental. É esta interiorização que lhe permite uma súbita
compreensão dos problemas, a criança começa a entender que há um espaço geral, onde ela
e vários objectos se incluem. Entre os dezoito meses e dois anos de idade, faz-se uma
transição de uma inteligência sensório – motora para uma inteligência representativa e
simbólica.

A criança torna-se portanto capaz de imitar sem a presença de objectos, acontecimentos que
presenciou, podem ser imitados posteriormente (imitação diferida). Além disso começa já a
ter representações mentais dos objectos e pessoas, ou seja ao ouvir falar de certos objectos
ou pessoas, já tem as imagens mentais correspondentes. No final deste estádio, embora a
criança permaneça bastante egocêntrica, auto centralizada na sua percepção da realidade, já
terá sofrido uma boa evolução no sentido de conhecimento e adaptação à realidade. Ter-se-á
desenvolvido portanto, de modo a resolver uma série de situações, através de uma
inteligência sensório-motora.

5.2. ESTÁDIO PRÉ-OPERATÓRIO

Ocorre entre os 2-6 anos de idade – Neste estádio, o pensamento passa a assentar na
capacidade de simbolização, e não na acção imediata e directa como no estádio sensório-

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motor. A criança passa a poder representar objectos ou acções por símbolos (função
simbólica). Um exemplo representativo, pode ser, quando a criança brinca ao faz-de-conta,
pois representa uma coisa por outra.

Uma das principais características deste estádio ao nível do pensamento, é o egocentrismo,


pois a criança não compreende o ponto de vista do outro porque se centra no seu ponto de
vista, ou seja está auto centrada. A realidade é percepcionada e imaginada a partir do seu
ponto de vista. Podem-se distinguir dois sub-estádios: o do pensamento pré-conceptual ou
do exercício da função simbólica (cerca dos dois aos quatro anos) e o do pensamento
intuitivo (cerca dos quatro aos sete anos).

No primeiro sub-estádio, domina um pensamento mágico, em que os desejos se tornam


realidade, sem preocupações lógicas, uma imaginação prodigiosa que tudo permite explicar.
Neste tipo de pensamento há a atribuição de emoções e pensamentos a objectos inanimados
(animismo), a realidade é construída pela criança (realismo), explicam-se os fenómenos
naturais como se tivessem sido produzidos pelos seres humanos para lhe servir como todos
os outros objectos (artificialismo) e as acções interessam pelos resultados práticos, ou seja
as coisas têm como finalidade a própria criança, dado o seu egocentrismo (finalismo)

O segundo sub-estádio caracteriza-se pelo pensamento intuitivo, que surge a partir dos
quatro anos, e consiste na classificação d objectos pela criança por aproximações sucessivas,
embora sem uma lógica de conjunto.

Relativamente à linguagem, nota-se um certo desenvolvimento, na medida em que passa a


tornar-se mais frequente a linguagem socializada, ou seja em que há um diálogo verdadeiro
com intenção de comunicação, passando a tornar-se menos comum a linguagem
egocêntrica, ou seja que não necessita necessariamente de um interlocutor, sem função de
comunicação.

5.3. ESTÁDIO DAS OPERAÇÕES CONCRETAS

Ocorre entre os 6-12 anos de idade – A criança desenvolve o pensamento lógico, passa a ter
capacidade para realizar operações mentais, isto é, a criança organiza o pensamento em
estruturas de conjunto e os seus raciocínios lógicos são também reversíveis. É pela
reversibilidade que a criança pode entender que se pode somar, pode também subtrair, e que
a duas operações estão relacionadas.

14
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A criança neste estádio, passar a ter noções de conservação de peso (cerca dos nove anos), e
da massa e do volume (cerca dos doze anos). Com a possibilidade de realizar esquemas
mentais operatórios, a criança passa a compreender a relação parte/todo, a poder realizar
operações de classificação e de seriação, e a obter a conservação do número e adquirir a
noção de tempo, de espaços globais e de velocidade. Observamos aqui uma evolução de um
estado de indiferenciação, de desorganização do pensamento e de auto centralização, para
uma compreensão lógica e adequada da realidade, que permite consciencializar a criança,
que é um indivíduo entre outros.

5.4. ESTÁDIO DAS OPERAÇÕES FORMAIS

Desenvolve-se cerca dos onze, doze anos de idade, indo até aos quinze, dezasseis anos de
idade, aproximadamente – Caracteriza-se por um pensamento abstracto, uma inteligência
formal e pelo exercício de raciocínios hipotético/dedutivos. Deste modo, o adolescente
“desliga-se” do real, sem necessitar de se apoiar em factos, tem a capacidade de pensar
abstractamente e deduzir mentalmente sobre várias hipóteses abstractas que se colocam.
Torna-se portanto, capaz de resolver problemas através de enunciados verbais.

O Adolescente torna-se apto a exercitar ideias no campo do possível, pensa sobre o


pensamento e formula hipóteses. São estas as capacidades que lhe vão permitir definir
conceitos e valores, assim como estudar determinados conteúdos escolares, como a
geometria descritiva, filosofia, entre outros… Adquire, deste modo, a capacidade para
criticar os sistemas sociais, e propor novos códigos de conduta, discutir os valores morais
transmitidos pelos seus pais e construir os seus próprios valores, adquirindo então uma certa
autonomia, torna-se consciente do seu próprio pensamento, reflectindo sobre ele a fim de
oferecer justificações lógicas para os julgamentos que faz. Neste estádio, domina o
egocentrismo cognitivo, típico da adolescência, consiste na crença que o adolescente tem na
sua capacidade de resolver problemas que surgem, bem como o considerar que as suas
concepções são as melhores, as mais correctas. Estas e outras aquisições, são responsáveis
em grande parte pelas mudanças que ocorrem em todo o comportamento do adolescente,
ajudando-o inclusivamente na considerada problemática básica da adolescência, a busca de
identidade e de autonomia pessoal.

Os estágios de desenvolvimento cognitivo forneceram indicadores para a definição da


complexidade da situação, ou seja, deve-se propor situações de aprendizagem compatíveis
com o estágio actual de desenvolvimento cognitivo do aluno/criança/adolescente. Para
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Licenciatura em Psicologia – 2º CICLO – 1º ANO

Piaget aprender é actuar sobre o objecto da aprendizagem para compreendê-lo e modificá-


lo. Daí surge o outro conceito chave: a aprendizagem activa, como aprender é uma continua
adaptação ao meio externo, aprende-se quando se entra em conflito cognitivo, i.e., quando
somos confrontados com uma situação que não sabemos resolver.

O organismo desequilibra-se frente à nova situação, mas como todo organismo vivo procura
o reequilíbrio. Para encontrar o equilíbrio, lançamos mão de um complexo processo de
adaptação. Adaptação é o processo pelo qual o sujeito adquire um equilíbrio entre
assimilação e acomodação. A assimilação refere-se à introdução de conhecimentos sobre o
meio e a incorporação ao conjunto de conhecimentos já existentes. Através da incorporação,
a estrutura de conhecimento existente se modifica de modo a acomodar-se a novos
elementos – tal modificação é denominada acomodação. Equilíbrio é o processo de
organização das estruturas cognitivas num sistema coerente, interdependente, que possibilita
ao indivíduo a adaptação à realidade. É a partir deste entendimento que as situações de
aprendizagem baseiam-se em jogos e desafios, nos quais o sujeito é defrontado com um
problema novo para resolver.

6. CRIANÇAS ABANDONADAS: UMA REALIDADE ACTUAL...


Esporadicamente, a comunicação social tem-nos confrontado com determinados factos que
representam a negação dos mais elementares direitos das crianças e da dignidade humana.
Sem dispormos de estimativas seguras, são periodicamente noticiados casos de infanticídio,
abandono e exploração de crianças, algumas deles a ferirem profundamente a sensibilidade
humana e a introduzirem na opinião pública um problema que, afinal, não era exclusivo das
sociedades que nos precederam2.

Nos finais do século XX, quando foi noticiada a “venda de crianças”, nos Açores, este
problema foi objecto de uma ampla abordagem na comunicação social, o que facilitou e
promoveu o debate público, ao pronunciar-se sobre o assunto, o Presidente da República
considerou que tal situação não seria uma característica específica de uma determinada
região, antes o resultado de condicionantes económicas e sociais de um país que chegou a
dispor de “rodas” para nelas se exporem ou depositarem as crianças. Na prática, estaríamos
perante um problema que “faz parte da nossa História, do percurso da nossa pobreza”3.

2
Os casos de abandono são bem mais frequentes do que os de infanticídio, apesar de se tratar de situações
residuais, quando comparados com o que se verificou num passado relativamente recente, em que a exposição
de crianças se poderia fazer em instituições de assistência onde existia uma “roda” – um mecanismo legal que
permitia que as crianças lá pudessem ser depositadas, sem que se soubesse quem as deixava.
3
Este problema da “venda de criança” emergiu a partir de factos reais registados nos Açores, em 1999, o qual
acabou por despertar uma grande discussão pública, com a intervenção de alguns representantes de órgãos de

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Licenciatura em Psicologia – 2º CICLO – 1º ANO

Sobre o caso registado no Açores, o Provedor de Justiça alertou para a necessidade de se


distinguirem os casos de pessoas que, por necessidade económica e sem contrapartidas,
entregam os filhos a pessoas que têm possibilidade de os adoptar e educar, daqueles que
configuram o tráfico e venda de crianças. Esta notícia, publicada no Jornal de Notícias, em
10 de Março de 2000, considerava que este projecto não é inédito no Mundo. Segundo o
jornal, alguns juristas dos Estados da Califórnia, Pensilvânia e da Florida, nos Estados
Unidos da América, decidiram seguir as pisadas dos seus compatriotas texanos e permitir
que as mães pudessem entregar os recém-nascidos antes de os abandonarem no lixo. A
notícia terminava com a informação de que, em Houston, a lei permitia que as mães que não
quisessem os filhos os pudessem entregar nas emergências dos hospitais, sem serem
interrogadas (Fonte, 2004).

Um pouco mais tarde, o mesmo assunto voltou a ser lançado na comunicação social, através
de um não menos polémico artigo intitulado “O regresso da Roda dos Expostos”. Tratava-se
de um extenso artigo que foi publicado na revista “Nova Gente”, em 2002, ilustrado com
imagens e com posições públicas assumidas por alguns dos intervenientes neste novo
sistema assistencial. Nele se noticiava o mesmo programa de recolha de crianças
abandonadas na Alemanha, o qual estaria a ser adoptado em vinte cidades, sendo
apresentado como uma recuperação do antigo método de salvar bebés abandonados, o que
levava a concluir que «a Roda dos Expostos dos tempos modernos parece ter vindo para
ficar». O mesmo artigo apresentava alguns dados estatísticos para fundamentar a criação
desta “Roda dos Expostos dos tempos modernos”, dando conta de que, em 1999, foram
registados 46 casos de crianças abandonadas na Alemanha, um número que baixou para 32
crianças, no ano seguinte.

Com um carácter excepcional, embora muito preocupante para a época em que vivemos, o
abandono de crianças nas maternidades, nas igrejas, à porta de particulares, nas ruas e, até,
em lixeiras e caixotes de lixo tem sido periodicamente noticiado e escalpelizado pelos
principais meios de comunicação social4.

soberania nacional. Os dados citados baseiam-se numa notícia publicada no Diário de Notícias, em 6 de Julho
de 1999. Também o Provedor de Justiça se pronunciou sobre o mesmo caso, o que o levou a defender uma
alteração ao Código do Registo Civil que impeça registos de falsas identificações ou paternidades, através da
apresentação de um atestado médico, o que impediria ou dificultaria a “venda de crianças”. Sobre o caso
registado no Açores, o Provedor de Justiça alertou para a necessidade de se distinguirem os casos de pessoas
que, por necessidade económica e sem contrapartidas, entregam os filhos a pessoas que têm possibilidade de
os adoptar e educar, daqueles que configuram o tráfico e venda de crianças.
4
Alguns casos foram notícia de primeira página, como o do bebé que foi abandonado no Algarve, dentro de
um carrinho. Segundo testemunhas, «quem o abandonou deixou-o em local bem visível para ser rapidamente
encontrado, bem vestido e protegido do frio». A criança foi recolhida no Refúgio Aboim Ascensão, em Faro,
tendo-se descoberto, mais tarde, ser filho de um casal inglês (JN, 15 de Janeiro de 2002). Este caso continuou

17
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Um jornal diário publicou, em 1992, um estudo sobre “Os bebés intrusos e malditos”, uma
problemática que mereceu honras de primeira página, subordinada ao tema “Dezenas de
casos registados anualmente – Bebés abandonados: Histórias Portuguesas”. Muitas dessas
crianças seriam abandonadas pelas mães, logo após o parto, por vezes com a cumplicidade
dos pais.

Depois de abolidas, há mais de um século, e terem praticamente caído no esquecimento, o


renovar do interesse pelo conhecimento das “rodas”, como instituições de recepção de
crianças “enjeitadas”, foi despertado pela notícia de que, num país da União Europeia, se
estava a desenvolver um programa que alguma comunicação social considerou ser a
“recriação da ‘roda’ que os portugueses já conheceram” (JN, 10 Março de 2000).

Em 1991, terão sido deixadas 22 crianças nestas condições, com as mães a declararem que
não queriam ficar com os filhos. De acordo com os dados apurados, «a maioria das
mulheres são solteiras, pertence a um estrato social bastante baixo e não tem emprego». A
primeira e principal razão para não ficarem com os filhos era a falta de condições
económicas.

Já nos finais de 2003, a comunicação social desvendou aquilo que considerou ser uma rede
de tráfico e venda de crianças, filhas de imigrantes. Segundo uma reportagem da TVI,
emitida no dia 4 de Dezembro, essas crianças, de poucos meses de idade, estariam à venda
por 25 000 euros, com o “negócio” a ser realizado em plena cidade de Lisboa. O jornal
“Correio da Manhã”, de 6 de Dezembro, analisou a legislação vigente e concluiu que a

a ser notícia, a partir do momento em que se deu início a um complexo processo de adopção, por se tratar de
uma criança filha de pais estrangeiros.
Foram divulgados os casos de vários recém-nascidos. Entre eles o do bebé que foi encontrado debaixo do altar
de uma igreja, em Águeda, e o da menina, com cerca de uma semana de vida, que foi deixada à porta do
Centro Comunitário de Recardães, de madrugada, tendo sido notada a sua presença por um vizinho que ouviu
uns gemidos vindos do lado do Centro Comunitário. A criança estava dentro de uma alcofa, bem limpa e
agasalhada (in JN, de 23 de Junho de 2002).
Sob o título “Mulher abandona o filho horas após ter dado à luz em Braga”, o Jornal de Notícias, de 26 de
Dezembro de 2002, noticiou que a parturiente desapareceu, sem deixar rasto, horas depois de ter dado à luz no
Hospital. A mãe, uma mulher de 28 anos, terá utilizado dados de identificação falsos, na altura do
internamento, para ocultar a sua identidade.
O mesmo jornal já havia publicado outras notícias sobre o problema do abandono de crianças (JN, de 26 de
Setembro de 2002). Uma delas dava conta da simulação do abandono de uma criança por dois jovens, recém-
casados, ele com 16 e ela com 17 anos de idade. De acordo com a notícia, estes jovens, “movidos pela
vergonha e medo dos familiares, realizaram o parto numa casa em construção e simularam a história do
abandono. A ideia era ganhar tempo e coragem para contar o caso à família”.
Também foi noticiado o abandono de uma criança, na Guarda, tendo-se descoberto ser filha de uma
adolescente, com apenas 15 anos de idade, a qual, depois de tratada no hospital, acabou por sair em liberdade,
por ser inimputável.

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venda de crianças em Portugal não é punida por lei. O actual Código Penal é omisso nessa
matéria, penalizando apenas a sua venda quando as crianças se destinam a exploração
sexual ou trabalho forçado. No entanto, um novo projecto de lei prevê penas de prisão entre
cinco e quinze anos para quem venda ou compre crianças.

6.1. IMPORTÂNCIA DA FAMÍLIA

A harmonia, a qualidade do relacionamento familiar e a qualidade do relacionamento


conjugal são aspectos importantes que exercem influência directa no desenvolvimento dos
filhos, podendo influenciar até mesmo no possível aparecimento de déficits e transtornos
psicoafectivos nos indivíduos (Tállon, Ferro, Gómez, & Parra, 1999). No que respeita às
relações estabelecidas dentro do âmbito familiar, pode-se argumentar que, segundo
Romanelli (1997; 2002), a família está estruturada por relações de naturezas distintas. De
um lado, relações de poder e autoridade estruturam a família, cabendo a marido e esposa, a
pais e filhos, posições hierárquicas definidas e direitos e deveres específicos, porém
desiguais. Por outro lado, a família é estruturada por relações afectivas criadas entre seus
componentes, com conteúdo diversificado conforme o vínculo entre eles e de acordo com o
género e a idade de cada um dos seus integrantes. Porém, a organização das relações
estruturais é variável em famílias de diferentes segmentos sociais.

6.2. PARA ONDE VÃO AS CRIANÇAS DEPOIS DO ABANDONO?

Um dos mais prováveis destinos destas crianças são instituições de acolhimento, nestas
instituições as crianças recebem os cuidados básicos necessários, alimentação, abrigo,
vestuário, entre outros… Porém falta-lhes um bem essencial, a relação afectiva com os seus
progenitores, o que afecta o desenvolvimento e bem-estar da criança.

Devido a carências a nível emocional as crianças de instituições podem desenvolver


diversos problemas a nível psicológico, há muito estudados, por autores como
Winnicott,???? como depressões, estados de tristeza e ansiedade permanente, dificuldades
cognitivas e de integração, dificuldade no reconhecimento da sua identidade, dificuldade em
desenvolver a linguagem, o que afecta a sua capacidade de comunicação, o que por
conseguinte afecta o seu relacionamento com outras pessoas, logo a formação de laços
afectivos não ocorre facilmente.

Porque estamos a Norte e consideramos que um profissional da área da Psicologia deve


conhecer um pouco da realidade do seu País, apresenta-se em anexo algumas das
instituições de acolhimento. Ao Sul do País, no Algarve, Refúgio Aboim Ascensão, a
escolha foi aleatória, no entanto, recordamos que é um destino turístico onde são por vezes
abandonadas crianças de outras nacionalidades; e a tão conhecida Ajuda de Berço.

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6.3. ADOPÇÃO

A adopção é um processo legal no qual uma criança passa a ser assumida como filho(a) de
uma pessoa ou de um casal, sem ser filho biológico deste. Decorrida a adopção, as
responsabilidades e os direitos dos pais biológicos em relação à criança adoptada, passam
para a pessoa ou o casal que a adoptou.

As crianças adoptadas são maioritariamente crianças que foram abandonadas ou


precocemente retiradas às suas famílias.

Depois do abandono a maioria das crianças ficam com diversos problemas a nível
psicológico, porém nem todas as crianças vêem a sua vida psíquica afectada negativamente
(Sá, 2005).

Ainda que tendo sido adoptadas precocemente, quando estas crianças têm conhecimento da
verdade acabam sempre por se questionar sobre a sua origem. Sabe-se que nesta fase as
crianças têm tendência a pensar que os pais foram forçados a abandoná-las, por vezes
chegam mesmo a responsabilizar-se e culpabilizar-se do seu abandono (Sá, 2005).

O processo de adopção é portanto um processo muito complexo que envolve muitos


sentimentos, emoções e necessidades tanto por parte dos pais adoptivos como por parte da
criança adoptada. Existem vários factores que podem influenciar o sucesso do processo de
adopção, o modo como se preparam os intervenientes é muito importante, pois esta é uma
nova etapa na sua vida que não é fácil (embora possa ter sido muito desejada), pois como já
foi referido envolve muitos aspectos emocionais inerentes ao ser humano. Este processo
pode também ter que ultrapassar vários entraves burocráticos, o que causa em ambas as
partes um estado de elevada ansiedade (Sá, 2005).

Muitas vezes, existe por parte dos pais adoptivos um receio que se prende com as origens da
criança, pois é sobejamente conhecida a influência dos progenitores na formação do seu
carácter, na sua maneira de ser e estar. Porém quem deseja adoptar uma criança deve
esquecer todos os mitos sobre hereditariedade e genética, os pais adoptivos devem por de
parte o passado da criança e ajudá-la a começar uma nova vida. O abandono deixa na
criança marcas que necessitam de tempo, paciência e afecto para serem saradas (Sá, 2005).

Quando adoptada por pessoas compreensivas e com capacidade de acolher e tolerar algumas
frustrações iniciais, a criança pode perfeitamente superar os traumas vividos pela situação
de abandono. Ao ser adoptada criança ganha uma nova família, alguém que quer recebê-la
como seu filho(a). E se, por um lado, este era o maior desejo da criança, a sua experiência e
medo de voltar a ser abandonada conduzem-na à insegurança. A maneira como os pais
adoptivos encaram a criança e o seu respectivo comportamento é determinante no sucesso

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do processo de adopção, o estabelecimento de um vínculo entre a criança e os novos pais é


essencial (Sá, 2005).

Só quando a criança criar um vínculo seguro com os pais adoptivos é que se irá sentir
amada, e só assim terá a capacidade de criar novos laços afectivos, novas amizades e terá
novos interesses, desejo de adquirir novos conhecimentos. Depois de ter vivido o abandono,
só com esta nova relação a criança compreenderá a segurança e a estabilidade dos afectos
(Sá, 2005).

É frequente existir nos pais adoptivos o receio de não conseguirem estabelecer um vínculo
afectivo de qualidade, o tempo que esperaram pelo momento que vivem agora foi fazendo
com que ficassem com diversos receios e com uma enorme ansiedade. Outro dos medos
mais frequentes por parte da família adoptiva é o de adoptar crianças mais velhas, pois
acreditam que por estas terem uma idade mais elevada possam ter vivenciado mais
intensamente a experiência do abandono e por consequência serem mais revoltadas e terem
mais dificuldade de se adaptar à nova família. A vida psíquica destas crianças pode
realmente ser muito dolorosa e complexa. A idade da criança influencia a adaptação à sua
nova vida, pois esta tem um passado que se prende com cuidados primários muito pouco
adequados (negligência, subnutrição, maus tratos) o que vai influenciar as suas acções, a sua
maneira de ser e agir, porém este factor não impede a criança adoptada de ser um bom
filho(a) (Sá, 2005).

Há quem defenda que a criança deve ser adoptada o mais cedo possível, pois enquanto bebé
usufruirá desde cedo dos cuidados da mãe adoptiva, como já foi referido a relação mãe/bebé
é essencial para um desenvolvimento saudável da criança, tanto a nível físico como a nível
psicológico. Por outro lado, há também quem defenda que uma adopção muito precoce pode
ter desvantagens tais como: a mãe adoptiva tem que se decidir rapidamente, o bebé não será
devidamente amamentado, não esquecendo também o facto da família adoptiva não ter
oportunidade de avaliar o provável desenvolvimento do bebé. Ainda que se saiba que o
futuro desenvolvimento da criança está intimamente ligado com a relação que se vai
estabelecer entre esta e a nova família adoptiva. Não adoptar uma criança por se achar que
esta se vai desenvolver de uma forma inadequada, é condenar essa criança a um futuro
infeliz, a não ter a oportunidade de ter uma nova família, de recomeçar de um novo ponto de
partida (Sá, 2005).

A adopção tem prós e contras mas quem adopta defende que o importante é amar a criança,
fazer tudo para que esta se sinta bem, acarinhada e querida. Apesar das dificuldades já
referidas e das que se prendem também com os entraves burocráticos, uma criança que foi
abandonada pode ser novamente feliz.

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7. RISCO, VULNERABILIDADE, PROTECÇÃO E RESILIÊNCIA


A relevância do contexto no qual ocorre o desenvolvimento tem sido confirmada através de
vários estudos (Neiva-Silva & Koller; 2002; Silva & Hutz, 2002; Yunes, Miranda & Cuello,
2004). Pesquisando adolescentes em risco social, Neiva-Silva e Koller verificam aspectos
singulares da dinâmica da rua como contexto de desenvolvimento. Riscos e oportunidades
foram abordados por Yunes et al. (2004), considerando as condições do contexto de
institucionalização. Segundo as autoras, as instituições podem “influenciar a trajectória de
vida das crianças e adolescentes, de maneira a inibir ou incentivar o desenvolvimento
psicológico sadio” (p. 198). De modo semelhante, Siqueira, e Dell'Aglio (2006) abordam
estudos que vislumbram os efeitos negativos da institucionalização, bem como outros nos
quais as instituições puderam prover apoio social a crianças e adolescentes, favorecendo o
desenvolvimento de aspectos saudáveis mesmo diante de adversidades.

As adversidades identificadas na vida dos adolescentes na contemporaneidade associam-se à


presença e co-ocorrência de riscos diversos. Por risco entende-se “todo tipo de eventos
negativos de vida que, quando presentes, aumentam a possibilidade do indivíduo
apresentar problemas físicos, sociais ou emocionais” (Yunes & Zsymanski, 2001, p. 24).
Partindo da compreensão dinâmica que o conceito de risco abriga, facilmente se percebe
que o cometer um acto considerado infracção ou delinquência não se pode explicar pela
presença isolada de um factor adverso, mas sim, através da complexa cadeia de eventos da
trajectória do jovem (Cunha, 2000; Garbarino, 1999; Shoemaker, 1996; Silva & Hutz,
2002). Face à necessidade de que o período da medida judicial favoreça não apenas a
desvinculação com o acto de infracção mas, também de outros agravos, Vicente (1998)
sugere adopção de práticas que estimulem o potencial para o desenvolvimento dos jovens,
auxiliando-os a contraporem-se às adversidades às quais estão expostos. Para a autora, um
modo possível de promover experiências renovadoras de sentido e aquisição de novas
potencialidades seria estimulando o potencial de resiliência no contexto socioeducativo.

Entendida enquanto potencial ou capacidade que o ser humano desenvolve no sentido de


superar adversidades e continuar sua trajectória de vida de forma mais favorável (Pesce,
Assis, Santos & Oliveira, 2004), a resiliência não tem por finalidade eliminar os riscos ou
tornar o sujeito “invulnerável”, mas encorajá-lo a lidar efectivamente com a situação e sair
fortalecido da mesma. Ainda que esse conceito careça de univocidade, corresponde a um
processo que é simultaneamente social e intrapsíquico, e que remete para a “capacidade de
encontrar forças para transformar intempéries em perspectivas” (Assis et al., 2006, p. 57).
Tal capacidade tem sido objecto de estudos importantes, sobretudo junto a segmentos
populacionais em risco social (Burt, 2002; Garbarino, 1999; Pesce et al., 2004; Shoemaker,
1996).

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Licenciatura em Psicologia – 2º CICLO – 1º ANO

Richters e Weintraub (1990) alertam para a indefinição que perpassa a literatura sobre risco,
caracterizada por uma confusão promíscua entre noções como as de risco, vulnerabilidade e
inadaptação, entre factores redutores do risco e factores de protecção. Na opinião destes
especialistas, terá sido a formulação inadequada das próprias questões a contribuir para a
falta de clareza das respostas encontradas.

O estado actual da investigação sobre o risco traduz um domínio de pesquisa


consideravelmente disperso (Haggerty, Sherrod, Garmezy & Rutter, 1996):
− pode contemplar uma variedade de factores de risco e compreender:
a) os precursores biológicos e comportamentais, os factores de predisposição genética
e ambiental e da personalidade, enfatizados pelos estudos etiológicos;
b) o estudo dos padrões de coping, das condições da sua génese e desenvolvimento;
c) o efeito actualizante das experiências de stress;
d) a avaliação dos resultados que, nos estudos longitudinais, são definidos em termos
de critérios múltiplos, incluindo a ausência de atrasos significativos do
desenvolvimento, de problemas de aprendizagem ou comportamento graves, e a
consecução das tarefas desenvolvimentais ou estádios psicossociais culturalmente
apropriados para uma dada idade (Werner, 2000);
e) os sinais de défices graves sociais e biocomportamentais;
f) os padrões de resiliência e adaptação na adversidade;
− pode abranger todo o ciclo vital ou apenas incidir na infância, para identificar as
criançasconsideradas em risco;

serve-se ainda de uma variedade de métodos, desde os estudos de caso, aos estudos
transversais, a curto-prazo e longitudinais.

Os factores protectores, devido à complexidade e dinâmica envolvidas, correspondem de


facto a mecanismos ou processos que ajudam o sujeito a apresentar respostas viáveis
(Luthar, Cicchetti & Becker, 2000; Yunes, 2003). À semelhança dos factores de risco, os de
protecção não constituem entidades absolutas capazes de produzir respostas iguais em todos
os indivíduos. Estes interagem junto de outras variáveis, de modo dinâmico e complexo, de
tal forma que aquilo que para uns pode ser entendido como protecção, para outrospode não
lhe corresponder (Assis et al., 2006; Yunes, 2003). Independentemente desta variabilidade,
facto é que os adolescentes necessitam factores de protecção ao longo de seu
desenvolvimento.

A literatura tem sugerido pensar nos benefícios resultantes da promoção de factores de


protecção a adolescentes que infringiram de algum modo a Lei, como modo de promover a
resiliência (Burt, 2002; Celia & Souza, 2002; Haggerty, Sherrod, Garmezy & Rutter, 1996;
Huebner, 1997; Munist et al., 1998; Rutter, 1987). Ao estudar diferentes trajectórias de
irmãos e primos no que se refere ao envolvimento com a lei, Assis (1999) chama atenção
para a presença de aspectos que funcionaram como protecção ao longo da vida dos jovens;
Shoemaker (1996) afirmou que o enfrentamento do quotidiano face aos agravos diferencia-

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Licenciatura em Psicologia – 2º CICLO – 1º ANO

se basicamente pelo potencial de resistir e não sucumbir às dificuldades, o qual está


associado à presença de factores ou mecanismos de protecção. Outras investigações referem
que vivências ocorridas no período da medida judicial foram vistas enquanto fundamentais
para o desenvolvimento de competências que ajudaram a superar dificuldades na vida de
jovens que haviam cometido delitos (Todis, Bullis, Waintrup, Shultz & D'Ambrosio, 2001).
No Brasil, o programa CrerSendo e o atendimento em privação de liberdade desenvolvido
pelo Centro Educacional Marista Marcelino Champagnat – CEMMAC, ambos em Belo
Horizonte, mostraram resultados positivos a partir do desenvolvimento de potencialidades
que auxiliaram adolescentes a prosseguir modos de vida mais favoráveis (UBEE, 2004).
Em um país com histórico de massacres em escolas protagonizados por adolescentes
armados, cresce a procura por métodos eficazes de reabilitação social e reintegração
de delinquentes juvenis. O objectivo é atingir jovens com problemas de conduta.

No estudo intitulado Tiere im Strafvollzug (Animais no regime penitenciário), feito pelo


criminologista Hans-Dieter Schwind, da Universidade de Osnabrück, é sustentada a ideia de
que a presença de animais na cadeia melhore o comportamento dos detidos.

Acredita-se que o contato com os animais ajude os infratores a adquirirem responsabilidade


e, sobretudo, os ensine a criar laços afetivos, muitas vezes esquecidos no cotidiano onde
estão ou estavam inseridos.
Figura 4. Animais Ajudam na ressocialização de delinquentes juvenis (in DW, 2009)

Ainda segundo esta notícia do Deutsche Welle, de 17-04-2009, por exemplo ao nível da
empatia, os animais, designados por “companheiros terapêuticos”, nomeadamente os cães,
“reduziriam os sentimentos negativos, como a monotonia e a depressão, incentivariam à
constituição da responsabilidade para com o outro, trabalhariam o fortalecimento do laço
afectivo através do diálogo não verbal e promoveriam as habilidades sociais, como a
paciência e a tolerância à frustração” (DW, 2009).

Estas duas realidades Brasil e Alemanha, vêm ao encontro do que muitos investigadores têm
defendido – dotar os adolescentes de factores de protecção – a metodologia empregue é a
mais diversa, entre nós há relatos de que a música (musicoterapia) e arte (artererapia) têm
obtido bons resultados.

Promover a resiliência articula-se numa perspectiva do cuidado, conceito positivo de saúde


(Ayres, 2004), à psicologia positiva (Yunes, 2003) e à convivência com factores de
protecção (Rutter, 1987). De um modo geral, todas estas perspectivas enfatizam os aspectos
positivos e saudáveis dos indivíduos. As medidas socioeducativas devem desempenhar,
portanto, um papel de apoio social ao adolescente em conflito com a lei, oferecendo um
efeito de protecção que remeta para o desenvolvimento da capacidade de enfrentamento de
adversidades (Siqueira & Dell'Aglio, 2006; Rutter, 1987).

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Licenciatura em Psicologia – 2º CICLO – 1º ANO

IV – C ONCLUSÃO

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Licenciatura em Psicologia – 2º CICLO – 1º ANO

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Licenciatura em Psicologia – 2º CICLO – 1º ANO

ANEXO I

1. REFÚGIO ABOIM ASCENSÃO, NO ALGARVE

O Refúgio Aboim Ascensão é uma Instituição Particular Cristã de Solidariedade Social,


considerada de Superior Interesse Social e foi fundado em 1933, em Faro, por Manuel
Aboim Ascensão de Sande Lemos, dando cumprimento à vontade testamentada de seu tio e
sogro Rodrigo Aboim Ascensão, fundador em 1901, em Lisboa, da Associação Protectora
da Primeira Infância.

Inicialmente como lactário e centro de apoio a mães solteiras, depois como serviço médico
de recém-nascidos e prematuros, a Instituição sofreu alterações ao longo dos anos, quer de
ordem técnica, quer de ordem metodológica, não abdicando, contudo, de cumprir o ideal
benemérito do seu fundador: “Apoio à Primeira Infância”.

1.1. Missão e Objectivos


Promove a educação, o suporte psicopedagógico, a reabilitação e a sociabilização da criança
em risco.

Proporciona o acolhimento, enquadramento jurídico, clínico, social e pedagógico e


reinserção na família biológica ou encaminhamento para a adopção da criança em parceria
com a Segurança Social e interacção com Tribunais.

1.2. Como nasceu a emergência infantil?


Desde 1985 o Refúgio Aboim Ascensão sofreu remodelações de base, no que diz respeito
quer ao equipamento quer ao enquadramento sócio – jurídico e clínico – pedagógico das
crianças temporariamente internadas, em emergência.

Apoiado em Acordos com os Ministérios da Segurança Social e do Trabalho, Justiça, Saúde,


Educação bem como com a Câmara Municipal de Faro, o Refúgio é hoje um grande Centro
de Acolhimento Temporário de Emergência, o primeiro a ser criado em Portugal, para
crianças em Risco de ambos os sexos, desde recém nascidos até aos 5 anos de idade.

Em 5 de Agosto de 1988, nasceu no Refúgio, o Projecto “Emergência Infantil”, como


resposta concreta à necessidade de acolhimento temporário e interdisciplinar de crianças em
risco ou já vitimadas.

A partir de 1990, o Refúgio passa a orientar a sua intervenção pela Convenção das Nações
Unidas sobre os Direitos da Criança.

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Licenciatura em Psicologia – 2º CICLO – 1º ANO

A Emergência Infantil é como que um grito “EI!” que traduz a ideia força de que qualquer
cidadão tem o dever de intervir em favor de uma criança em situação difícil, qualquer que
seja o motivo que a faz sofrer.

Luís Vilas-Boas (2004), fundador da Emergência Infantil e Director do Refúgio, tem


defendido publicamente que:
“Urge que nos ocupemos, em tempo útil, da Criança em Risco ou já vitimada, promovendo
o seu Acolhimento, Enquadramento técnico (jurídico, clínico, social e pedagógico) e o seu
Reencaminhamento posterior para a família natural.”

1.3. Unidade de Habilitação Madalena Perdigão


A U.H.M.P é uma estrutura do Refúgio Aboim Ascensão, tendo como principal objectivo
acompanhar exclusivamente as crianças da instituição de forma a potenciar as suas
capacidades de desenvolvimento, durante o seu período de internamento, a população
atendida é constituída por crianças com idades compreendidas entre os zero meses e os seis
anos.

Esta população é essencialmente constituída por bebés de gravidez de risco, filhos de pais
toxicómanos, crianças vítimas de negligência e maus tratos, crianças com patologia
instalada (deficiência auditiva, perturbação da comunicação…), crianças com problemas no
desenvolvimento (hiperactividade, dispraxia, atraso no desenvolvimento global, problemas
respiratórios, alteração postural, dificuldades de aprendizagem, entre outras…)

Para prestar auxilio a estas crianças a unidade de habilitação Madalena Perdigão conta com
serviços de terapêutica ocupacional, terapêutica da fala e fisioterapia.

Por considerarmos de grande importância o apoio prestado a estas crianças para que estas
superem os seus problemas, que em grande parte advêm de situações de negligência e
abandono, vai-se aprofundar um pouco mais o modo como realmente ocorrem estes
acompanhamentos.

1.3.1. Terapia Ocupacional

O principal objectivo da Terapia Ocupacional na Unidade de Habilitação Madalena


Perdigão é proceder à avaliação, tratamento e habilitação de crianças internadas nesta
instituição, utilizando técnicas terapêuticas (Integração Sensorial, Hidroterapia,
Psicomotricidade, Maternage, Neurodesenvolvimento, Relaxamento, entre outras…)
integradas em actividades seleccionadas consoante o objectivo pretendido, ou seja de acordo
com a situação especifica de cada criança.

ii
Licenciatura em Psicologia – 2º CICLO – 1º ANO

Áreas de intervenção:
• Estimulação e Intervenção Precoce;
• Dificuldades de Aprendizagem;

• Saúde Mental (Instabilidade Psicomotora; Hiperactividade; Agressividade).

1.3.2. Terapia da Fala

Os profissionais de terapêutica da fala são responsáveis pela prevenção, avaliação e


intervenção nas perturbações da comunicação em crianças.

A sua intervenção terapêutica poderá ser directa, estimulando as capacidades linguísticas


verbais e não verbais da criança, com vista a atingir o desenvolvimento normal de
linguagem ou indirecta, orientando e aconselhando as pessoas que lidam diariamente com a
criança (educadores; professores; voluntariado técnico e familiares).

Áreas de intervenção:
• Dificuldades de Aprendizagem;

• Perturbações Periféricas;
• Deficiência Auditiva;

• Saúde Mental.

1.3.3. Fisioterapia

A Fisioterapia centra-se na análise do movimento e da postura, para avaliar e planear a sua


intervenção, adequada à criança, com o objectivo de prevenir e tratar, habilitando
perturbações que a impossibilitem de se desenvolver com a máxima funcionalidade e
harmonia.

Utiliza técnicas específicas, como: Neurodesenvolvimento, Cadeias musculares,


Hidroterapia, Cinesioterapia respiratória, entre outras… isto para além da educação dos
prestadores de cuidados a estas crianças em condições especiais.

Áreas de intervenção:
• Estimulação e Intervenção Precoce
• Condições Ortopédicas

• Condições Neurológicas

• Condições Respiratórias

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2. AJUDA DE BERÇO

Foi constituída no dia 12 de Março de 1998, no Cartório Notarial de Lisboa.

A Ajuda de Berço nasceu na sequência das necessidades sentidas por um grupo de


profissionais, das mais diversas profissões, tais como médicos, pediatras, enfermeiros,
psicólogos, técnicos de serviço social e juristas e sociólogos, para dar resposta aos
problemas das crianças em risco, situação de abandono e vítimas de exclusão social.

2.1. Missão e objectivos


A Ajuda de Berço promove, defende e dignifica a vida humana, através do apoio a mulheres
grávidas sem condições e aos filhos delas nascidos; bem como o acolhimento e
encaminhamento de crianças entre os 0 e os 3 anos de idade que não possam viver com os
pais ou familiares (in Site “Ajuda de Berço”).

2.2. Como funciona a Ajuda de Berço?


Os pedidos de admissão de crianças provêm de diversas instituições, com algumas das quais
a Ajuda de Berço mantém protocolos de cooperação. Destas podemos destacar: os Hospitais
e Maternidades, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e o Centro Regional de Segurança
Social.

O acolhimento das crianças é feito após cada caso ser analisado e aprovado pela Direcção e
Equipa Técnica. Para além do acolhimento das crianças, os técnicos da Ajuda de Berço
intervêm na dinâmica familiar de cada criança, com o intuito de ajudar as famílias, quando
possível, a encontrar soluções para receber a criança. Assim, é dado apoio aos pais para
encontrarem alternativas, nomeadamente encaminhando para os diversos departamentos ou
serviços disponíveis na comunidade.

A par do acolhimento das crianças, é definido o projecto de vida de cada uma, em conjunto
com a equipa técnica da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, Segurança Social e o
Tribunal competente.

Há três caminhos possíveis para a criança:


• Retorno à família natural;
• Adopção;
• Institucionalização;

Em qualquer caso, o objectivo é que a criança siga um projecto de vida digno, com amor, e
adequado à sua situação.

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