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TESTE DE COMPREENSÃO ESCRITA

O RAPAZ E O LIVRO

“Só está contente a ler”, dizia a mãe do rapazinho. “Trabalho não é com
ele.” No seu espírito, leitor e mandrião identificavam-se, via-se à distância.
E estava na razão, na sua razão. Ali,
um homem não pode perder tempo com leituras. E ali é que ela e o filho-
pastor, já sem pai, viviam e lutavam para subsistir. Isto passava-se há
coisa de catorze anos.
Quando vim para Lisboa resolvi mandar-lhe livros com a indicação “para
ler ao domingo”. Esperava poupá-lo assim às iras familiares. Fui à estante
dos “restos” e fiz uma escolha que julguei criteriosa. Uns livros “para
rapazes”, dois ou três de Emílio Salgari que ali tinham ancorado não sei
como, alguns policiais. Óptimo. E se lhe mandasse um bom livro? À tarde
passei pela livraria e comprei um volume acabado de sair e de que eu
tinha gostado muito. E mandei o embrulho para o correio.
Nada de resposta, o que era natural. Quem lhes ensinou que se deve
agradecer um presente, mesmo pequeno? E o caso caiu no esquecimento.
No ano seguinte voltei à quinta pelo Natal. O rapazinho ainda por lá
andava a guardar ovelhas. Veio ter comigo, todo risonho, de pelico e
bordão.
“Muito obrigado pelos livros”, disse. “Gostei muito, então de um deles
gostei mesmo muito. Já o li três vezes.”
“Ah, sim? Então de qual?”
“O nome não me lembro, mas era de um senhor Alves.”
“Alves?”
“Alves, pois. Um livro muito bonito.”
Devia ser qualquer livro que eu metera no embrulho e de que me
esquecera. “Era então muito bom, dizes tu?”
“É que nunca li nada tão bonito.” E os olhos do rapazinho brilhavam. “Os
outros que a senhora mandou, deve haver quem goste mas eu confesso
que não gostei assim muito. Agora do livro do senhor Alves… Eram
histórias, sabe a senhora… Havia uma então… Ah, agora me lembro como
se chama: “Olhos de Água.”
Alves Redol, pronto. O tal livro de que eu gostara muito. Senti-me de
repente envergonhada pelos outros que lhe tinha mandado como quem os
deita fora, muito envergonhada. É uma estupidez pensar que um
rapazinho lá porque tem só a 4.ª classe, lá porque guarda ovelhas no fim
do mundo, não pode ter já o seu gosto e esse gosto não pode ser certo.
Lembrei-me desta história sem história, há alguns dias, durante uma
conversa sobre “teatro para o povo”. O que deve dar-se-lhe? Havia quem
perguntasse. Teatro difícil? Teatro fácil? Nem uma coisa nem outra, talvez.
Teatro bom e não importa que lhe chamem bonito, é um modo de dizer.

Maria Judite de Carvalho, A Janela Fingida, Ed. Seara Nova, 1975


Nas perguntas 1., 2., 3., 5. e 7., assinala com uma cruz (X) a afirmação
correcta.

1. A narradora conheceu um rapazinho


a. de Lisboa, que trabalhava, pois vivia com dificuldades.
b. que vivia apenas com a mãe e trabalhava, pois vivia com
dificuldades.
c. que era órfão de pai e era pobre, embora não trabalhasse.

2. O grande entretimento do rapaz


a. era levar as ovelhas a pastar.
b. era a leitura.
c. era conversar com a narradora.

3. A narradora decidiu enviar ao rapaz


a. uma selecção de livros para jovens que tinha em casa.
b. uma selecção de bons livros que adquiriu.
c. uma selecção de livros que possuía e um outro que comprou.

4. Explica, por palavras tuas, o motivo por que os livros foram enviados
com a indicação
“para ler ao domingo”.

5. A escolha da narradora revelou-se


a. parcialmente acertada.
b. completamente acertada.
c. completamente errada.
6. Justifica a afirmação que seleccionaste na pergunta anterior.

7. Este episódio permitiu à narradora tirar a seguinte conclusão:


a. na literatura como no teatro, há que escolher obras que as
pessoas entendam.
b. as peças de teatro e os livros para o povo devem ser bonitos.
c. na literatura como no teatro, o importante é a qualidade.
Soluções
O RAPAZ E O LIVRO
1. b; 2. b; 3. c; 5. a; 7. c.