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UM MINISTÉRIO CENTRADO EM CRISTO, REDENTOR E SENHOR

Maria Cecilia Alfano1

A ênfase da nossa cultura ao lidar com os problemas da vida e os atuais transtornos


depressivos, os transtornos da alimentação e outros mais, está no homem como vítima da
cultura, de genes, da família disfuncional, de circunstâncias diversas e de traços de
personalidade que resultam em comportamento disfuncional. A Igreja pode sutilmente ficar
fascinada pelo pensamento secular e, sem se dar conta, passar a explicar os problemas do
homem em termos estranhos à Bíblia. A Igreja pode facilmente se desviar da centralidade de
Cristo e Sua cruz no aconselhamento.

A Bíblia fala-nos de Cristo do começo ao fim (Lc 24.27). Portanto, se queremos um


aconselhamento bíblico, precisamos atentar para a centralidade de Cristo. Em Cristo estão
escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento (Cl 2.3). Ele é a própria vida (Cl
3.4). Em Cristo temos toda sorte de bênçãos espirituais (Ef 1.3) e tudo quanto nos conduz à
vida e à piedade, livrando-nos da corrupção das paixões que há no mundo (2Pe 1.3,4). Sua
graça é suficiente para lidar com cada situação (2Co 12.9).

Os princípios bíblicos para mudança − “Quanto à antiga maneira de viver, vocês foram
ensinados a despir-se do velho homem, que se corrompe por desejos enganosos, a serem
renovados no modo de pensar e a revestir-se do novo homem, criado para ser semelhante a
Deus em justiça e em santidade provenientes da verdade” (Ef 4.22-24), e “Não se amoldem ao
padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam
capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2)
− são chave para o aconselhamento, e nunca podem ser isolados da Pessoa de Cristo e do
relacionamento pessoal com Ele.

Cristo, o Redentor que se dirige ao aconselhado em sua necessidade primordial

Deus nos criou com uma necessidade básica de relacionamento, de amor. Devemos cul-
tivar o senso de valor pessoal e uma autoestima elevada. Esta é a mensagem que ouvimos
frequentemente no meio cristão, com alguma variação nos termos usados. Boa parte dos livros
evangélicos explora a questão da autoestima como base para os problemas pessoais e de
relacionamento. Se queremos ajudar biblicamente uns aos outros, precisamos saber o que
Deus de fato diz sobre a natureza do ser humano e suas necessidades, e como estas devem
ser supridas.

Em primeiro lugar, a Palavra aponta com clareza para as necessidades biológicas:


necessitamos de alimento, água e abrigo (cf. 1Tm 6.8). Estas necessidades, porém, não devem
ser fonte de preocupação: Jesus nos exorta a não andarmos ansiosos quanto às coisas que
teremos para comer, beber ou vestir, “pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas
elas” (Mt 6.32).

O corpo tem necessidades naturais que precisam ser satisfeitas, sob pena de uma saúde
precária ou mesmo morte. No entanto, estas necessidades naturais podem estar envolvidas na
luta entre o homem interior e o pecado. O pecado aproveita-se da dinâmica do corpo,
pressionando o homem interior a ser indulgente em lugar de exercer autocontrole sobre seus
desejos. Isso não quer dizer que o corpo é pecaminoso, mas que o pecado afeta também o
corpo.

Em 1 Coríntios 6.12-13, Paulo ilustra a importância de não dar lugar à natureza


pecaminosa na satisfação das necessidades do corpo:

Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm. Todas as coisas me são
lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas. Os alimentos são para o
estômago, e o estômago, para os alimentos; mas Deus destruirá tanto estes como
aquele. Porém o corpo não é para a impureza, mas, para o Senhor, e o Senhor, para o
corpo.

1
Este texto é parte da dissertação apresentada no programa Master in Arts of Biblical Counseling em The
Master’s College, Santa Clarita, Califórnia, em 2004.
Embora tenhamos sido criados por Deus com desejos voltados para a satisfação física, quando
estes desejos são dominados pelo pecado, eles se tornam desejos pecaminosos que se
expressam em forma, por exemplo, de glutonaria, de relacionamentos sexuais fora dos
padrões bíblicos e vícios os mais diverso. Quando a cobiça encontra portas abertas no coração
para operar, ela tira proveito dos desejos do corpo de tal forma que eles venham a controlar a
pessoa, interferindo em seu inteiro estilo de vida.

Um segundo uso da palavra necessidade diz respeito às necessidades espirituais. Jesus


apontou à inquieta Marta a necessidade primordial de conhecê-lO e ouvi-lO (Lc 10.41-42). De
fato, sem Jesus somos pessoas sem esperança e necessitadas, mortas em nossos pecados,
inimigas de Deus, condenadas perante Ele, escravizadas por Satanás e por nossos desejos, e
incapazes de remediar nossa situação ou agradar a Deus. Temos necessidade de
arrependimento e novo nascimento (Lc 15.7, Jo 7.37) e, depois, de capacitação para viver a
vida cristã (2Pe 1.3). Essas parecem ser claramente nossas necessidades mais profundas,
plenamente atendidas por Deus em Cristo.

Nossa cultura identifica um terceiro grupo de necessidades − as necessidades


psicológicas ou emocionais: significado, aceitação, respeito, admiração, amor, senso de
pertencer, e assim por diante. A necessidade de amor é vista pela psicologia secular como uma
necessidade quase tão básica do ser humano quanto a necessidade biológica de comer ou
dormir. De acordo com este pensamento, as necessidades psicológicas precisam ser
preenchidas especialmente na infância para que possamos ter uma vida sadia.

Tomando por exemplo a área dos transtornos alimentares, o livro editado pela psicóloga
cristã Pam Vedrevelt, e usado por Josh McDowell como literatura de referência no assunto de
anorexia e bulimia2, diz:
Cada ser humano vem ao mundo com quatro necessidades emocionais básicas: a
necessidade de amor, aceitação, valor e segurança. Se estas quatro necessidades são
preenchidas na infância, teremos um bom autoconceito; se não, nosso auto-conceito
será deficiente.
Para a grande maioria das pessoas com transtornos alimentares, alguma ou todas
estas necessidades não foram preenchidas. Esta é a razão por que anoréxicas e
bulímicas são pessoas tão profundamente carentes. Muitas delas vieram de famílias
disfuncionais e gastaram sua infância tentando atender às necessidades dos pais; uma
vez adultas, estão tentando desesperadamente preencher suas necessidades pela
obsessão com a comida.3
A idéia geralmente prossegue com a afirmação de que não vamos receber de outras
pessoas aquilo de que necessitamos para suprir nossas necessidades psicológicas, pois as
pessoas não são perfeitas. Cristo, porém, é quem está pronto a nos suprir. No fato de nem
sempre dependermos de Cristo para suprir estas necessidades, mas tentarmos supri-las de
maneira ilegítima, está o âmago do problema a ser tratado.

Na terapia, a anoréxica ou a bulímica aprende que as quatro necessidades


básicas—amor, aceitação, valor e segurança—foram dadas por Deus a Adão e Eva no
Jardim do Éden. Antes da queda, eles se sentiam plenamente amados, aceitos,
valorizados e seguros em Deus. Após a queda, quando ficaram separados de Deus,
Adão e Eva esconderam-se; eles sentiram a perda do relacionamento que antes
compartilhavam com Deus. Nossas necessidades básicas emocionais derivam desta
falta de relacionamento com Deus. Por meio do relacionamento com Ele
reestabelecido, Ele suprirá plenamente estas necessidades. 4

A ênfase está na dor e no vazio emocional, e o papel principal de Deus passa a ser o de
supridor das necessidades emocionais.

Avaliado a partir da experiência, este modelo parece fazer sentido. Olhando mais de
perto, porém, perguntamo-nos se a evidência de validade não se deve mais ao nevoeiro

2
McDOWELL, Josh, HOSTETLER, Robert. Josh McDowell’s handbook on counseling youth. Dallas: Word,
1996.
3
VREDEVELT, Pam et al. The thin disguise: overcoming and understanding anorexia and bulimia.
Nashville: Thomas Nelson, 1992, p. 196.
4
Idem, ibid.
cultural do que a um claro entendimento da mensagem central das Escrituras: Cristo Jesus
veio ao mundo para salvar pecadores, para nos resgatar das exigências de uma natureza
pecaminosa, e não para suprir necessidades elevadas a ídolos.

Quando as necessidades emocionais não supridas corretamente são apontadas como o


problema essencial, e a natureza pecaminosa do ser humano que se expressa em
comportamento pecaminoso é esquecida, o entendimento do homem e dos seus problemas
perde a precisão bíblica na teoria e prática do aconselhamento.

Na prática, isso significa que se um pastor tratar a mentira de uma pessoa como
pecado, ela poderá dizer que o aconselhamento é superficial. “O pastor não chegou à
verdadeira questão central de meu problema. Meu problema é que eu necessito de
relacionamento. Sou um solitário.” Embora possa ser verdade que aquele mentiroso
queira desesperadamente entrar em relacionamento com pessoas, é também verdade
que a explicação mais profunda para sua mentira é o próprio pecado. Sua mentira é
uma expressão do coração que grita “Eu quero”. É um compromisso consigo mesmo e
rebeldia para com Deus.5

Para entender biblicamente aquilo que hoje é identificado como necessidades emocionais,
é importante olharmos para o homem depois do pecado de Adão. Após a queda, o homem
continuou a ser um portador da imagem de Deus com desejo de estabelecer relacionamentos,
mas a desobediência de Adão trouxe mudanças fundamentais. O coração humano passou a ser
orientado em direção não mais a Deus, mas a si mesmo. Foi no jardim do Éden que o homem
começou a dizer “Eu quero”.

Embora gostar de ser amado não seja pecado, visto que fomos criados por um Deus de
amor e refletimos a Ele tendo prazer em amar e receber amor, o problema estabelece-se com
relação a quanto desejamos ser amados ou para que o desejamos. Fortes anseios por amor ou
impacto, que podem culminar nos comportamentos identificados como disfuncionais, têm
muito em comum com cobiça. Eles têm um bom ponto de início, mas exaltados
pecaminosamente a ponto de serem necessidade emocionais acabam por escravizar.

Quando a suposta explicação mais profunda para as lutas pessoais é a presença de


necessidades psicológicas, perde-se o paradigma bíblico de que estas necessidades idolatradas
são expressão da natureza pecaminosa, e não são simplesmente naturais ao ser humano. O
próprio evangelho acaba sendo alterado, visto que a teologia das necessidades sugere que ele
tem a intenção básica de restabelecer o relacionamento com Deus para preencher as
necessidades psicológicas. Embora isso soe agradável aos nossos ouvidos, não é a verdade
bíblica. As boas novas de Cristo mostram a realidade a nosso respeito com a intenção de nos
libertar de nós mesmos e de nossos anseios pecaminosos.

Jesus morreu para glorificar o Pai redimindo pessoas da maldição do pecado. É


evidente que a cruz traz muitos benefícios, e um deles é que não estamos mais
excluídos da presença de Deus e temos intimidade com Ele. Mas a cruz lida
primeiramente com nosso problema de pecado, nossas necessidades espirituais. 6

O fato de Deus ter criado Adão, e depois Eva como sua companheira, indica que refletir a
Sua imagem não é algo que podemos fazer sozinhos. Boa parte dos mandamentos de Deus
não podem ser executados por uma única pessoa − reproduzir-se e sujeitar a terra, proclamar
o evangelho a todas as nações, entre outros. Existe, portanto, um aspecto bíblico em que
necessitamos de pessoas e de relacionamentos. Dentro da categoria de necessidades
espirituais, as pessoas são necessárias, por exemplo, para nos prevenir quanto ao engano do
pecado, mostrar o amor de Jesus, ajudar a carregar nossos fardos. Sabemos que fomos criados
para viver em relacionamento com outras pessoas, e não em autonomia, e que nesse contexto
devemos amar, encorajar e confortar uns aos outros. Necessitamos uns dos outros, visto que o
conjunto de habilidades e dons é essencial para que a Igreja funcione conforme o propósito de
Deus.

5
WELCH, Edward. When people are big and God is small: overcoming peer pressure, codependency, and
the fear of man. Phillipsburg, N.J.: Presbyterian and Reformed, 1997, p. 146.
6
Idem, p. 146-7.
No entanto, quando a vida num mundo imperfeito inclui relacionamentos imperfeitos que
não nos satisfazem como gostaríamos, voltar-se para Cristo buscando nEle apenas o
suprimento de necessidades emocionais egocêntricas equivale a cristianizar nossa cobiça e sua
satisfação. A questão mais básica da existência humana é “Como posso dar glória a Deus?” e
não “Como Deus pode suprir minhas necessidades emocionais?”. Cristo quer fazer muito mais
por nós do que satisfazer as necessidades emocionais.

O homem interior e o homem exterior

Por trás da questão das necessidades psicológicas e da ajuda profissional para lidar com
elas, está o debate sobre quantos elementos se unem para compor o ser humano. Nesta
perspectiva tricotômica, que identifica corpo, alma e espírito e é base para a chamada
psicologia cristã, a alma inclui o princípio de vida e as faculdade da natureza humana como
mente, emoções e vontade, enquanto que o espírito diz respeito à capacidade de
relacionamento com Deus. De outro lado, na perspectiva dicotômica, o ser humano é visto
como formado de uma parte material e uma parte imaterial, e os termos alma e espírito são
entendidos como o aspecto imaterial da natureza humana, unidos, embora com nuanças
diversas.

A Bíblia afirma que o homem e a mulher foram criados à imagem de Deus e refletem a
pessoa de Deus em uma diversidade de maneiras − fazem uso da razão, criam, usam a
linguagem, fazem escolhas morais, entre outras. A Bíblia não parece muito interessada em dar
uma visão analítica da complexidade do homem, que ela declara ser formado de maneira
assombrosamente maravilhosa (Sl 139.14).7

Os dois textos citados com maior frequência para sustentar a visão tricotômica são
Hebreus 4.12 e 1 Tessalonicenses 5.23. Hebreus 4.12 diz que “a palavra de Deus é viva, e
eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de
dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos
do coração”. Alguns interpretam o texto no sentido de que a Palavra de Deus pode separar a
alma do espírito. Todavia, se a intenção do texto é falar tecnicamente a respeito das partes do
homem, então há no mínimo quatro substâncias que formam uma pessoa: alma, espírito,
corpo (juntas e medulas) e coração (mais adiante dividido em pensamentos e atitudes). Parece
apropriado dizer que o texto sugere que a Palavra de Deus penetra os aspectos indivisíveis do
homem. Ela atinge o mais profundo do ser humano, incluindo alma e espírito.

Em 1 Tessalonicenses 5.23, Paulo diz: “ O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e
o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso
Senhor Jesus Cristo”. Ele não esta dividindo; está adicionando. “Mas ele não adicionou dois
mais um, e isso não é igual a três? − você pode perguntar. Não, assim como quando Jesus
somou coração, alma, mente e força (e ocasionalmente omitiu o corpo e o espírito) não temos
um total de quatro partes.”8

Marcos 12.30 ordena “Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda
a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força” como forma de enfatizar que o
amor a Deus é uma resposta do ser por inteiro. Em vários textos bíblicos, a acumulação de
termos referentes ao homem interior é usada para expressar plenitude. O propósito não parece
ser dividir o homem em suas partes essenciais.

O apóstolo Paulo refere-se com clareza a duas partes distintas do homem, que ele chama
de homem interior e homem exterior (Ef 3.16; 2Co 4.16). No entanto, quando se trata de
estabelecer uma distinção precisa entre as partes que compõem o homem interior, e
especialmente uma distinção entre alma e espírito, encontramos conceitos que se sobrepõem,
e não as dimensões distintas comumente identificadas para defender a necessidade de ajuda
profissional para lidar com a alma.

7
Não vamos desenvolver aqui um estudo completo do assunto, mas apenas destacar elementos
fundamentais para uma avaliação da questão das necessidades psicológicas aplicada ao entendimento
dos problemas tratados no aconselhamento bíblico.
8
ADAMS, Jay. A theology of Christian counseling: more than redemptions. 2. ed. Grand Rapids, Mich.:
Zondervan, 1986, p. 113.
De acordo com Gênesis 2.7, quando Deus criou Adão e Eva, Ele tomou o pó da terra e
soprou o fôlego de vida para fazer um ser vivente. Charles Ryrie comenta que embora
tenhamos neste versículo dois passos distintos do ato da criação, o resultado é singular: um
ser vivente único.

Material e imaterial se combinam para produzir uma entidade única. Dentro do material
existe uma variedade de facetas—artérias, cérebro, músculos, cabelos etc, e dentro do
imaterial também encontramos uma variedade − alma, espírito, coração, vontade,
consciência etc., mas sem uma unidade do ser humano esta diversidade não pode
funcionar.9

Alma, no sentido mais básico do termo hebraico nephesh, significa vida, e designa o
homem originalmente criado como ser vivente. Ryrie10 mostra que no Antigo Testamento, ela é
também o centro de várias experiências espirituais e emocionais do homem. No Novo
Testamento, o termo psyche pode denotar o inteiro homem (At 2.43; 27.37), como também se
referir apenas à parte imaterial (Mt 10.28), sendo foco de redenção espiritual e crescimento
(Hb 13.17; Tg 1.21; 1Pe 1.9). Espírito (os termos ruach e pneuma, hebraico e grego
respectivamente) é usado somente com referência à parte imaterial do homem. Como uma
faceta do homem interior, ele é centro das emoções e de atividades como pensamento (Is
29.24), lembrança (Sl 77.6), humildade (Mt 5.3), ciúme (Nm 5.14), contrição (Sl 34.18), entre
outros.

Tanto o Antigo como o Novo Testamentos sugerem repetidas vezes que o ser humano é
melhor entendido como possuidor de dois aspectos − material e imaterial − e que cada um
deles consiste de uma variedade de facetas. Por exemplo, Mateus 10.28 menciona o corpo
material e a alma imaterial juntando-se: “Não temais os que matam o corpo e não podem
matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o
corpo”. 1 Coríntios 7.34 também sugere que somos formados de duas substâncias — material
e imaterial — mas elas são citadas como corpo e espírito, em lugar de corpo e alma. Tiago
2.26 é consistente com essa dualidade e se refere a ela usando corpo e espírito: “corpo sem
espírito é morto”.

Se alma e espírito se juntam como um dos aspectos da dicotomia, por que então duas
palavras? Do estudo dos vocábulos bíblicos, Adams11 conclui que espírito e alma são
perspectivas ligeiramente diferentes para fazer referência ao homem interior. A palavra alma
retrata o homem como ser vivente, e algumas vezes é até mesmo usada em lugar de ser
humano (1 Pe 3.20; Gn 46.22) ou uma forma poética para dizer “eu” (Sl 3.2; 6.6, entre
outros). A palavra espírito sempre retrata o aspecto imaterial excluindo o corpo, enquanto
alma retrata o aspecto imaterial do homem em relação com (ou em unidade com) o corpo.

O coração

Há um outro termo bíblico que também expressa a parte imaterial do homem e que é de muita
importância para que o conselheiro entenda corretamente a natureza humana: o termo
coração. Na Bíblia, diferentemente da visão sentimentalista ocidental moderna, o coração une
o aspecto intelectual ao emocional e contrasta com o homem exterior. Por exemplo, lemos que
“o homem vê o exterior”, porém (em contraste) “o SENHOR, o coração” (1Sm 16.7). O termo
coração indica a vida interior que o homem vive perante Deus. É ao coração que o
aconselhamento bíblico se dirige em última instância, embora encoraje a obediência exterior a
Deus como fruto de um coração transformado. O conselheiro não pode perder de vista que é
possível ao homem pecar em seu coração ainda que não esteja pecando de forma visível (Mt
5.28).

Para fazer referência à totalidade da vida interior do homem, encontramos no Antigo


Testamento o termo hebraico leb. “Na literatura bíblica é o vocábulo usado com maior
frequência para indicar as funções imateriais da personalidade humana e também o mais

9
RYRIE, Charles C. Basic theology. Colorado Springs: Victor, 1996, p. 195.
10
Idem ibid.
11
ADAMS, Jay. Op. cit. p. 113.
abrangente para designá-las, visto que na Bíblia praticamente toda função imaterial do homem
é atribuída ao coração.”12

O termo leb é traduzido de modo diverso em diferentes ocorrências como coração,


mente, vontade e homem interior. Um breve panorama da ocorrência do termo no Antigo
Testamento nos revela que o homem razoa, planeja, entende, pensa, duvida, percebe,
estabelece propósitos em seu coração (Gn 6.5; Pv 6.18, 32; 23.7; 16.9). No entanto, o Antigo
Testamento também usa a palavra coração de modo que inclui outros aspectos além da
atividade mental − atividade volitiva (Pv 2.2, 4.4, 23.26), a disposições de ânimo como
alegria ou aflição (Pv 15.13, 15, 30; 17.22; 27.9, 11), a consciência ou caráter moral (1Sm
24.5; Pv 28.14; 11.20).

No Novo Testamento, a palavra coração (kardia) compartilha seu campo semântico com
numerosas outras, como espírito (pneuma), mente (dinoia, phrenes e nous), alma (psyche),
consciência (suneidesis), e as expressões homem interior do coração (1Pe 3.4) e homem
interior (2Co 4.16). Estes termos têm diferentes ênfases, mas podem ser usados de modo
intercambiável. O Novo Testamento vê o coração figurativamente como o verdadeiro centro da
pessoa, incluindo pensamento, vontade, emoções e consciência, e também o centro da
atividade do Espírito Santo. O coração é o instrumento dos processos mentais (Hb 4.12) e a
razão está ligada a ele (Mc 2.8, Lc 2.51 e 1Co 14.25), bem como a percepção (Mt 13.14). O
homem é uma criatura emocional e seus sentimentos estão associados ao coração − ira (Mt
15.19), medo (Jo 14.27), alegria (At 2.46; Jo 16.22), remorso (Rm 9.2). A consciência está
localizada no coração, atuando como regulador moral (Rm 2.15; Hb 10.22), bem como a
vontade e a capacidade do homem de agir deliberadamente baseado em desejo pessoal (Rm
6.17; 2Co 9.7; Ef 6.5). Embora possamos identificar diferentes aspectos, o coração deve ser
visto como uma totalidade para que seja corretamente entendido. Estes aspectos interagem e
dependem um do outro, em perfeita unidade.

Olharemos mais de perto para dois aspectos do coração que a psicologia costuma
reivindicar para si: mente e emoção. A mente é de particular interesse para o nosso estudo, já
que é comum ouvirmos que os transtornos e conflitos da vida são resultado de distorções na
forma de pensar.

Seres humanos falam, planejam, entendem, pensam, duvidam, percebem em seu


coração. A Bíblia identifica a mente (nous) como iniciador da ação moral.13 Em conseqüência
da queda, a mente é apresentada como depravada (Rm 1.28), fútil (Ef 4.17), egocêntrica (Cl
2.18), corrompida (1Tm 6.5; 2Tm 3.8; Tt 1.15). Afastados de Deus, os homens não pensam
acertadamente, “...antes se tornaram nulos em seus próprios raciocínios.... Inculcando-se por
sábios, tornaram-se loucos.... entregues a uma disposição mental reprovável” (Rm
1.21,22,28). A nous do homem é suscetível a se conformar com o pensamento do mundo −
um sistema ordenado de crenças enganosas dirigido por Satanás (1Jo 2.15-17) − passando a
creditar em um falso sistema de valores que pode resultar em hábitos desordenados, por
exemplo, na alimentação. Ela necessita de renovação em Cristo (Rm 12.2; Ef 4.23). A única
cura é a nous de Cristo (1Co 2.16).

De acordo com George Zemek14, phron é uma raiz da língua grega, usada no Novo
Testamento para representar a mente, e inclui pensar e querer, numa combinação de
atividades intelectuais e afetivas que conduzem a uma ação. Paulo dá uma atenção especial à
qualidade do pensamento do crente, e o uso que faz dos compostos de phron deixa claro,
segundo George Zemek, que não existe algo como um pensamento neutro − um pensamento
sempre é certo ou é errado com relação à verdade de Deus. Isto é importante particularmente
com relação ao composto tapeinophrosyn (mente humilde), a base bíblica para a autoavaliação

12
HARRIS, R. Laird, ARCHER, Gleason L. Jr., WALTKE, Bruce K. Dicionário internacional de teologia do
Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 765.
13
Quando falamos em mente como iniciadora da ação moral, não estamos nos referindo a processos do
cérebro como, por exemplo, o mecanismo da fala ou a memória. Estas não são funções propriamente
morais. Falhas nesta áreas refletem a fraqueza do corpo e limitações naturais pela condição decaída do
homem, mas não são em si pecado.
14
ZEMEK, George J. Jr. Aiming the mind: a key to godly living. Grace Theological Journal, v.5, n.2, Fall
1984, p. 209-45.
apropriada (At 20.19; Ef 4.2; Fp 2.3; 1Pe 5.5). Zemek acrescenta que, em Romanos 12:3,
sōphrone (pensar aquém) é o oposto de hyperphrone (pensar além), mas também da
expressão grega megaphrone (ter uma alta autoestima). “A autoestima dos gregos e seus
contemporâneos se tornou particularmente repugnante à luz do exemplo de Cristo (Fp. 2:6-
8)”.15 E é esta autoestima que a psicologia humanista enaltece e recomenda para que se
vençam os comportamentos disfuncionais.

A psicoterapia cognitiva − amplamente usada no tratamento psicológico dos vários


transtornos e comportamentos disfuncionais — tem como proposta ajudar a pessoa a avaliar
sua maneira de pensar para que faça escolhas adequadas de comportamento. Trata-se, a
princípio, de uma boa proposta. Sabemos que Deus nos deu o uso da razão e ele é importante
no processo de santificação (cf. Rm 6). Também está claro na Palavra que o homem pode
estabelecer uma fala interior (Sl 42.5, 11). O problema da psicologia cognitiva está na
determinação de quais são os pensamentos adequados ou inadequados sem uma âncora
segura na Palavra de Deus, e na omissão da fonte de inadequação, ou seja, a natureza
pecaminosa.

Biblicamente, o homem por si só não chega à verdade sobre seu problema. Isaías retrata
o quadro vivo de um homem enganado pela adoração a outros deuses que não o verdadeiro
Deus − “... o seu coração enganado o iludiu, de maneira que não pode livrar a sua alma, nem
dizer: Não é mentira o em que confio?” (Is 44.20b). E os Salmos mostram o aspecto do
autopapo enganoso − “porque a transgressão o lisonjeia a seus olhos e lhe diz que a sua
iniquidade não há de ser descoberta nem detestada” (Sl 36.2).

O modelo de avaliação pragmático para definir a racionalidade de uma crença com base
no seu impacto funcional não serve para o cristão, pois o cristão deve julgar a verdade bíblica
do pensamento. Para isso é necessário não apenas a mente racional estimulada pelo psicólogo,
mas uma mente treinada, informada e equipada com as pressuposições bíblicas. A fala interior
mentirosa não apenas deve ser identificada e questionada, mas deve ser vista como pecado e
tratada com arrependimento bíblico (do termo grego metanoia, mudança de mente) e uma
mente renovada biblicamente. De acordo com Haarbeck, Link e Brown16, o verbo renovar
(anakainoō) que aparece em Efésios 4.23, Romanos 12.2, e Colossenses. 3.10 significa fazer
novo em qualidade. A transformação do estilo de vida mental é um processo que se dá à
medida que o Espírito Santo opera na mente do homem, conformando-a à mente de Cristo.

E quanto às emoções? Na busca de um comportamento equilibrado, seriam elas o campo


por excelência de atuação de um psicoterapeuta e não do aconselhamento bíblico? O homem
tem capacidade de interagir com o meio ao seu redor e com as circunstâncias e embora a
Bíblia não mencione a palavra emoção nem apresente emoções como uma categoria
abrangente para o conjunto de aspectos que costumamos assim identificar em nosso
vocabulário, encontramos ali alguma descrições vivas relacionadas àquilo que comumente
chamamos de emoção: ansiedade, tristeza, ira, medo, alegria etc.

Ao longo de seu livro Blame it on the Brain (Culpe o Cérebro)17, Edward Welch mostra
que devemos avaliar as emoções no mínimo em dois aspectos. O primeiro aspecto diz respeito
à fonte da emoção. As emoções são tipicamente uma resposta da pessoa por inteiro, coração e
corpo. No entanto, elas podem proceder do coração ou do corpo. Abatimento, por exemplo,
quando ligado a pecado ou culpa pessoal, é causado pelo coração, mas ele também pode ser
causado pela fraqueza do corpo, sendo efeito colateral de alguns medicamentos e
acompanhando várias doenças que afetam as funções do cérebro. Nem toda variação
emocional é resultado de pecado pessoal.

O segundo aspecto diz respeito a como o aconselhado responde diante de determinada


emoção. As emoções podem, e devem, ser mantidas sob controle. Elas não devem comandar
nossa vida, pois são extremamente flutuantes e não são guia seguro. Muitos enfrentam

15
ZEMEK, George J. Jr. Op, cit. p. 214.
16
HAARBECK, H., LINK, H.C e BROWN, C. Anakainoō. BROWN, Colin. O novo dicionário internacional de
teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1983, v.3.
17
WELCH, Edward. Blame it on the brain: distinguishing chemical imbalances, brain disorders, and
disobedience. Phillipsburg, PA: Presbyterian and Reformed, 1998.
problemas pelo simples fato de que vivem regidos por suas emoções e não por uma vontade
sujeita à palavra de Deus.

As emoções são fenômenos com expressão física. Como resultado, é de se esperar que
manipulando a química cerebral seja possível alterá-las. Por exemplo, a fluoxetina,
amplamente conhecida pelo nome comercial de Prozac, pode produzir em algumas pessoas
experiências que mimetizam contentamento. Isso não quer dizer que o coração está melhor
equipado para lidar com as situações de vida, mas que o Prozac pode causar uma reação tal
que dá à pessoa a impressão de que ela está mais capacitada para lidar com o estresse da
vida. No entanto, o coração é imune a medicamentos. A medicina não pode transformá-lo, não
pode remover a tendência para pecar, não pode tornar alguém mais obediente a Deus, embora
possa aliviar os sintomas físicos/emocionais associados ao problema espiritual.

O corpo

O conselheiros bíblicos devem estar atentos para a importância das questões


relacionadas ao corpo. Não podemos ignorar a pesquisa científica. Pelo contrário, precisamos
reconhecer o quanto a ciência pode nos ajudar a compreender melhor o relacionamento corpo
e coração, provendo descrições e ilustrações de valor. Entretanto, as pesquisas da
biopsiquiatria podem dar margem a justificativas bem elaboradas para pecar. O cuidado está
em mantermos sempre as descobertas científicas debaixo da autoridade bíblica. Embora seja
muito atraente pensar que os comportamentos disfuncionais ou transtornos do comportamento
sejam uma mera disfunção do corpo e não pecado, a Bíblia não deixa dúvidas na distinção
entre fraquezas do corpo e comportamento moral − o pecado ganha expressão por meio do
corpo, mas sua causa está no coração.

Com o propósito de ajudar a pensar biblicamente sobre o corpo, Edward Welch destaca
três pontos importantes que resumimos aqui18. Em primeiro lugar, o corpo não é em si
pecaminoso. Após a queda, ele está sujeito a doença, malformação e mau funcionamento. Essa
fraqueza não é pecaminosa em si e deve ser devidamente tratada com os recursos disponíveis
na medicina.

Em segundo lugar, o corpo nunca nos faz pecar, mas ele pode influenciar e até limitar a
expressão do coração. A fraqueza do corpo pode diminuir nossa capacidade intelectual. Uma
doença física ou um desequilíbrio químico podem limitar a habilidade da pessoa para resistir à
tentação, mas não garantem desculpa para um comportamento pecaminoso nem podem de
modo algum limitar a atuação do Espírito Santo e a graça de Deus no processo de santificação.
Pelo contrário, a fraqueza física é uma oportunidade para ser forte espiritualmente: “por isso,
não desanimamos; pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo,
o nosso homem interior se renova de dia em dia” (2Co 4.16). É possível até mesmo que exista
uma certa configuração do corpo que predisponha para um comportamento pecaminoso, mas
não que o determine.

Por último, o corpo sempre representa de alguma forma os intentos do coração.


Precisamos lembrar que somos criaturas que se expressam por meio do corpo, embora o
pecado nem sempre resulte necessariamente em doença física e a retidão não seja garantia de
boa saúde. Há ocasiões, porém, em que o corpo pode criar sintomas como resposta física a
problemas espirituais e situações em que hábitos gerados por um coração pecaminoso atingem
o corpo. É preciso trabalhar em ambas as dimensões para alcançar completa restauração. Os
sintomas físicos podem e devem ser tratados com medicamentos, enquanto o conselheiro
bíblico ministra ao coração.

O relacionamento entre coração e cérebro sugere também que o coração pode ser
representado ou “registrado” na atividade química do cérebro. Seria completamente cabível
descobrir diferenças na química cerebral em pessoas com diagnóstico psiquiátrico dos diversos
transtornos atualmente listados no Manual de Diagnósticos da psiquiatria. Isso não significa
necessariamente que o cérebro causa, por exemplo, um comportamento anoréxico, mas pode
significar que o cérebro expressa a prática deste comportamento. Sabendo disso, podemos

WELCH, Edward. What’s the brain got to do with it? In: HINDSON, Edward, EYRICH, Howard (edits.).
18

Totally sufficient: the Bible and Christian counseling. Eugene, Ore.: Harvest, 1997.
estar mais preparados para as pesquisas que sugerem que o cérebro de uma pessoa irada é
diferente do cérebro de um pacifista, o cérebro de um homossexual é diferente do cérebro de
um heterossexual, o cérebro de uma mulher com comportamento bulímico é diferente do
cérebro de uma mulher que mantém hábitos sadios de alimentação.

Com as descobertas da biopsiquiatria, têm aumentado o uso de medicamentos que


atuam no equilíbrio bioquímico do cérebro.19 Eles de fato aliviam sintomas e, sempre que os
medicamentos ajudam, automaticamente acreditamos que há por trás alguma patologia ou
desequilíbrio químico. Um histórico da hipótese do desequilíbrio químico, todavia, demonstra
que a teoria não é tão provada como parece ser. A idéia de desequilíbrio químico sugere que
alguém, por meio de exames de sangue ou análise patológica, testou a química do cérebro do
paciente e encontrou deficiências em elementos específicos. Mas não é esse o caso. O cristão
deve estar ciente do conceito de desequilíbrio químico e saber que até o presente ele é uma
hipótese científica ou teoria, mas não um fato provado.20

Para o cristão, a questão importante é tomar decisões sábias, baseadas em informação


segura a respeito dos medicamentos disponíveis. Um dos aspectos a considerar é que os
medicamentos podem nos privar dos benefícios de lidar com os problemas e sermos
fortalecidos na fé (Tg 1.2-4). Lidar biblicamente com dificuldades como tristeza ou ansiedade
pode ter um papel central para o amadurecimento cristão.

Corpo e coração são, portanto, duas categorias bíblicas que nos permitem compreender o
homem e encontrar um procedimento criativo e relevante para ajudá-lo em seus problemas
atuais, mas um procedimento essencialmente bíblico. Contudo, é bom lembrar aqui que a
nossa mente finita não encontra todas as explicações que desejaria ter. “Há mistérios em
qualquer discussão da unidade do coração e corpo. Se você anseia por precisão e uma
conclusão completa, ficará desapontado.”21

Em resumo, todos nós temos necessidades genuínas do coração que precisam ser
satisfeitas para que tenhamos vida espiritual, cresçamos em Cristo e, como corpo de Cristo,
expressemos a Deus. Temos também necessidades biológicas e desejos do corpo atingidos
pelo pecado. Não precisamos de um Cristo a serviço de elevar a nossa autoestima. Precisamos
de um Redentor que resgata o coração da idolatria para que possa servi-lO e glorificá-lO como
Senhor em cada aspecto da vida.

Cristo, o Redentor que se dirige ao aconselhado em seu contexto de vida


Em busca de uma causa determinante para problemas que afligem o homem atual, as
psicologias seculares têm levado em conta diferentes fatores do contexto de vida. Muitos
cristãos têm comprado as idéias seculares e elaborados modelos que, em geral, racionalizam o
pecado e apresentam o ser humano como vítima de circunstâncias passadas ou presentes que
determinam disfunções. Embora o aconselhamento bíblico não olhe para o contexto como
determinante, ele entende que o ser humano nunca age no vácuo. Há sempre um conjunto de
elementos atuando ao seu redor, e muitas vezes pressionando-o. O entendimento adequado
destes elementos auxilia-nos a apontar para a Verdade relevante e, ao mesmo tempo, refletir
a misericórdia de Cristo.

Uma conversa sobre os fatores que atuam no contexto de vida pode ser uma porta de
entrada excelente para o aconselhamento. O aconselhado recebe influência dos padrões
culturais e quer estar à altura deles; é possível que sua família não siga os princípios bíblicos
de disciplina e comunicação; Satanás assalta a sua fé; talvez o seu corpo esteja fraco, e ele

19
Não entramos aqui em uma discussão ampla sobre o uso de medicamentos psicotrópicos. Entendemos
que algumas pessoas podem ter sintomas fisicamente mediados de intensidade tal que se faz necessário
um controle por meio de medicamentos por um curto período para que o aconselhamento bíblico possa
começar e ir adiante.
20
Para um debate maior sobre a biopsiquiatria, pode ser útil o artigo de David Powlison, Biological
psychiatry. The Journal of Biblical Counseling, v. 17, n.3, Spring 1999, p. 2-8.
21
WELCH, Edward. Blame it on the brain: distinguishing chemical imbalances, brain disorders, and
disobedience. Phillipsburg, PA: Presbyterian and Reformed, 1998, p.45.
viva incertezas nos relacionamentos, na família, nos estudos, no emprego. Todos estes
elementos podem se juntar para prover o palco em que o aconselhado desenvolve seu estilo
pessoal de vida. As pressões do contexto revelam o seu coração. Reconhecer estes aspectos e
ajudar a lidar com os cada pressão, mas não elimina a responsabilidade pessoal; pelo
contrário, situa a responsabilidade pessoal em um contexto claro de provação e tentação, e
oferece compreensão e oportunidade para reinterpretar as circunstâncias e o comportamento
de acordo com categorias bíblicas.

Ambiente de formação: a família

O ambiente de formação é um forte fator de vulnerabilidade. Ao longo das Escrituras,


Deus mostrou a importância da família na educação e formação do indivíduo (Dt 6.6,7; Ef 6.4).
É intenção divina que as crianças sejam criadas na disciplina e admoestação do Senhor, e
dessa forma sejam despertadas para amá-lO e servi-lO. É plano de Deus que a criança,
durante seus anos de desenvolvimento, receba cuidado, estabilidade, amor e disciplina. Os
instrumentos de Deus são os pais piedosos dispostos a levar seus filhos a Cristo e viver a vida
cristã diante deles. Os desvios do padrão na direção da injustiça, instabilidade, falta de amor
ou disciplina, ou mesmo excesso de proteção, deixam marcas que predispõem a problemas
pessoais e não escapam ao conhecimento de Deus (1Pe 1.16-18). Os pais podem influenciar
seus filhos em direção contrária a Deus, mas Ele diz que nem mesmo a influência de um pai
sobre seu filho pode forçar a pecar (Ez 18.2-20).

Os lares cristãos são liderados por pais salvos pela graça de Deus, mas ainda pecadores,
que falham em sua tarefa de uma forma ou outra. John Bettler faz uma observação que pode
seguramente ser transposta para o Brasil:

A literatura sobre famílias disfuncionais reivindica que algo em torno de 96 por


cento das famílias americanas são disfuncionais. Mas seus números estão errados.
Cem por cento das famílias americanas são disfuncionais porque cem por cento das
famílias são compostas de pecadores.22

O aconselhamento bíblico não coloca o foco em traumas da infância nem sai em busca de
memórias reprimidas23 para lidar com os problemas da vida. Ele dirige o foco para o Redentor
compassivo, que resgata e capacita a lidar com o passado e viver o presente pela graça.

Ambiente de vida: a cultura

Num círculo mais amplo que o lar, o ambiente em que uma pessoa vive é certamente um
dos elementos que mais a influenciam. Imagens e vozes da mídia ensinam valores falsos e
encarregam-se, por exemplo, de elevar a beleza a status divino e ativar os anseios por sucesso
já existentes no coração. Como diz David Powlison (1997b, p. 39), “O impacto da cultura
costuma ser como o efeito da poluição do ar: o que respiramos tende a produzir mudanças em
nós, devagar, mas com constância....Televisão, revistas, filmes ensinam-nos qual aparência
deve ser valorizada e qual aparência estigmatizada”. A Bíblia reconhece a influência que o
sistema de valores do mundo e a pressão dos pares exercem especialmente sobre o jovem (Pv.
1:10). Mas ainda que estar rodeado por um ambiente carregado de valores contrários à
Palavra seja inevitável, isso não faz com que uma jovem seja menos culpável e menos
responsável perante Deus por rejeitar as mentiras da cultura e andar pela verdade da Palavra
(Pv. 2).

22
BETTLER, John. Counseling and the problem of the past. The Journal of Biblical Counseling, v. 12, n.2,
Winter 1994, p.8.
23
Regressão para o tratamento de memórias reprimidas é parte das práticas da linha de aconselhamento
cristão identificada como cura interior, que acredita que é preciso voltar ao passado para receber cura no
presente. O aconselhado é levado a se esforçar para recuperar memórias dolorosas supostamente
reprimidas, visualizá-las como se estivessem acontecendo naquele momento, e então pedir a intervenção
de Deus para curá-las. Embora seja relevante que o conselheiro bíblico conheça as abordagens atuais,
escapa ao objetivo do nosso trabalho estudá-lo a fundo. Vamos nos limitar a apontar para dois elementos
que fazem da regressão algo no mínimo questionável: (1) não há uma orientação bíblica para trazer à
tona e visualizar memórias dolorosas do passado como meio de mudança, e (2) memórias são seletivas e
imprecisas, podem ser manipuladas por sugestão do conselheiro.
História de vida: tristezas e alegrias

Um terceiro fator de influência são as circunstâncias da vida. Cada pessoa tem uma
história única em que se inserem circunstâncias as mais diversas, agradáveis e tristes, que
podem ter o efeito de moldar a expressão do coração à medida que acrescentam provação,
sofrimento ou mesmo sucesso. Sim, sucesso também pode moldar a expressão do coração (Pv
30.8-9). Além disso, nossa história inclui situações em que outros pecaram contra nós −
críticas constantes, intimidação, manipulação, abuso. As Escrituras nos oferecem descrições
vívidas de sofrimento e de como lidar com o sofrimento equilibrando-o com a esperança bíblica
(2Co 4.8-18).

Traços de personalidade: as características pessoais

Indivíduos diferem enormemente em questão de grau de tolerância às circunstâncias −


alguns se sobressaltam facilmente em situações que, relativamente, são de pouca importância
para outros. Este fato nos indica que as características pessoais também interagem neste
conjunto. Não somos idênticos na maneira de agir, e Deus parece se agradar na diversidade.

Os diferentes traços de personalidade são uma questão levantada pela psicologia secular
que merece ser considerada pelo aconselhamento bíblico. A Bíblia não nos dá uma teoria da
personalidade no sentido de que ela não detalha e explica diferenças individuais. David
Powlison diz que “a Bíblia parece andar em direção oposta: aquilo que pessoas têm em comum
é mais crucial para o aconselhamento que a variação individual”.24 Não queremos negar que a
descrição de diferenças individuais pode ter valor, despertando os conselheiros para dados que
precisam considerar para uma intervenção sábia. Devemos, porém, ter certo cuidado em usar
categorias estabelecidas pelo homem, lembrando que todas elas são apenas descritivas e
muitas delas estão baseadas em teorias contrárias à Bíblia.

Por um lado, a personalidade pode ser entendida como nossa tendência a demonstrar
alguns padrões de atuação e relacionamento estáveis ao longo do tempo. Segundo Edward
Welch, ela é melhor entendida como um elemento do aspecto corpo. “Com frequência ouvimos
comentários sobre como a personalidade de uma criança parece duplicar aquela de seu pai, e
parece que algumas características pessoais são mais que apenas o resultado de uma
imitação.”25

Por outro lado, é notório que uma mesma pessoa não se expressa sempre da mesma
forma ao longo de sua vida. E também não se expressa sempre da mesma forma num mesmo
período de vida, mas em circunstâncias diferentes e na variedade de interações sociais a que
está exposta. Neste sentido, parece haver uma relação com o aspecto coração. Alguém que
pode parecer quieto e reservado em determinado contexto, pode ser altamente expressivo em
outro. Traços de personalidade, portanto, embora possam ser herdados, parecem não ser fixos
como, por exemplo, a cor dos olhos.

Embora a pessoa adquira estilos de vida razoavelmente estáveis, eles podem ser
alcançados pela atuação transformadora do Espírito Santo. Resumindo estes três aspectos −
(1) herança genética, (2) trabalho de formação e (3) atuação do Espírito − a personalidade
pode ser entendida como a natureza básica (physis) com que a pessoa nasce, juntando-se a
como ela usou e desenvolveu esta natureza respondendo à vida, e ainda como Deus mudou e
moldou até o dado momento. De fato, sob o controle do Espírito Santo, embora continuemos a
agir de modo peculiar e nossos traços individuais não sejam eliminados, nossa expressão pode
estar cheia de “amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade,
mansidão, domínio próprio” (Gl 5.22-23).

Uma coisa é certa: Deus conhece a especificidade de cada indivíduo e Ele capacita a viver
em amor e obediência de forma que traços de personalidade, embora possam predispor a
certos hábitos, não sejam motivo para pecar, mas para refletir a Sua glória.

24
POWLISON, David. Integration or inundation? In: HORTON, Michael Scott (edit.). Power religion: the
selling out of the evangelical church? Chicago, Ill.: Moody, 1992, p. 206.
25
WELCH, Edward What’s the brain got to do with it? In: HINDSON, Edward, EYRICH, Howard (edits.).
Totally sufficient: the Bible and Christian counseling. Eugene, Ore.: Harvest, 1997, p. 151.
Quando lidamos no aconselhamento com os traços de personalidade, precisamos admitir
que, biblicamente, muito daquilo que uma pessoa comumente justifica como resultado de seus
de traços naturais ou de temperamento é algo sim natural, mas no sentido de que é uma
expressão da natureza pecaminosa e não de uma constituição moral neutra dada por Deus.

O corpo: características genéticas e fragilidade

Conforme já vimos, carregamos características genéticas que influenciam na nossa


maneira de fazer as coisas, e também características genéticas que estabelecem a estrutura do
nosso corpo. Além disso, nosso corpo é frágil e nos impõe limitações próprias da nossa
condição de seres humanos. “Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a
excelência do poder seja de Deus e não de nós.”(2 Co 4.7)

Satanás

O último elemento que queremos destacar no palco das influências é Satanás. Ele se
associa a este drama porque tem um interesse especial em operar no sistema de pensamento
deste mundo (1Jo 2.15-17) e explorar os desejos naturais do corpo para que dominem e
dirijam a pessoa, em oposição aos propósitos de Deus. A Bíblia diz que ele anda em derredor
do crente “como leão que ruge procurando alguém para devorar” (1Pe 5.8). Ele é mentiroso
(Jo 8.44) e tentador (1Ts 3.5). Satanás, porém, não controla um filho de Deus de maneira
mágica, determinando que ele se comporte de determinada maneira. Há como resistir “firme
na fé” (1Pe 5.9), vestindo a armadura de Deus (Ef 6.11) e guardado em Cristo, Aquele que
opera em sua vida e é mais forte que o inimigo (1Jo 4.4, cf. Jo 12.31).

A Bíblia nunca demoniza o pecado, fazendo do indivíduo uma vítima, uma mera
marionete nas mãos de Satanás. Reconhecemos a influência de Satanás, mas cremos que ela
não elimina a responsabilidade moral do homem. Também não queremos dar a Satanás uma
ênfase maior do que a Cristo.26

Muito embora as mais diversas pressões operem no palco, nenhuma delas escapa à
soberania de Deus. Ele rege para a Sua glória todo o contexto: família, hereditariedade, traços
de personalidade, ambiente de vida, opressões do inimigo, crises circunstanciais, fraqueza
física.

Levar a sério as circunstâncias de vida do aconselho, entrando com misericórdia e graça


nas pressões que o atingem, pode abrir a porta para reinterpretar as circunstâncias em
categorias bíblicas, falar sobre o coração ativo que determina o estilo de vida, e incentivar uma
dinâmica bíblica de mudança.

O aconselhamento bíblico distingui-se por destacar a responsabilidade do ser humano,


recusando-se a se dirigir a ele como vítima. Ao mesmo tempo, porém, ele reconhece que
gememos neste mundo (Rm 8.22,23) e, em certo sentido, podemos ser vítimas. Não há dúvida
de que o Senhor Jesus estava (e está) preocupado com o sofrimento das pessoas. Ele chorou,
Ele se moveu de compaixão. Cabe-nos seguir Seu exemplo e lidar paciente e
misericordiosamente com a mulher que enfrenta pressões, sem apenas passar por cima dos
elementos do contexto para chegar logo à questão da responsabilidade. Uma das razões por
que os cristãos respondem positivamente à ajuda das psicologias seculares e de suas
adaptações cristãs é que elas levam a sério a dor que as pessoas sentem neste mundo caído.

Levar a sério a dor não significa, porém, reduzir o problema essencial a ela nem poupar o
aconselhado da realidade do próprio pecado − pecamos não porque outros pecaram contra
nós, mas porque somos pecadores por natureza. Se mantivermos o paradigma da vitimização,
unido ao paradigma das necessidades psicológicas não atendidas, perderemos de vista a única
saída: a graça do Redentor.

26
Não é nossa intenção aprofundar aqui o estudo da atuação de Satanás e das diferentes expressões
atuais do ministério de libertação. Queremos apenas reconhecer a pressão exercida por Satanás e sua
tentativa de engano, e ao mesmo tempo alertar que o conselheiro bíblico não reduza todos os problemas
humanos à atividade demoníaca e todas as soluções ao ministério de livramento.
Pela graça entramos em relacionamento com Deus em Cristo (Ef 2.8) e permanecemos
firmes no palco das provações (Rm 5.2; 2Co 4.15-16). A graça fortalece-nos na provação e
ajuda a suportar a fraqueza (2Co 12.). A graça redentora e sustentadora de Cristo é suficiente
− é “graça sobre graça” (Jo 1.16).

Cristo, o Senhor que chama o aconselhado à verdadeira adoração


Em 1 Coríntios 10, o apóstolo Paulo lembra a experiência do povo de Israel que caiu na
idolatria motivado pela cobiça quando foi colocado à prova por Deus no deserto. Paulo termina
com a seguinte advertência para nós: “Não vos sobreveio tentação que não fosse humana;
mas Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças; pelo contrário,
juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que a possais suportar” (v. 13).

A experiência de Israel ilustra que nem sempre escolhemos não pecar, embora tenhamos
à nossa disposição livramento para não pecar no contexto de pressões. O que nos falta? Talvez
devamos considerar mais atentamente a advertência que Paulo faz logo a seguir: “Portanto,
meus amados, fugi da idolatria” (v.14). Diante de pressões as mais diversas, permitimos que
os desejos ardentes ocupem posição de autoridade em nosso coração e controlem nossas
ações, palavras, pensamentos, sentimentos a respeito do passado, presente e futuro,
produzindo um estilo de vida pecaminoso. Professamos servir a Deus, mas estamos servindo
na verdade a ídolos que competem com Deus.

Logo de início, as consequências de um estilo de vida idólatra não são tão perceptíveis.
Os benefícios parecem ser maiores que os riscos. Com o passar do tempo, todavia, as
consequências começam a crescer e se manifestar em problemas físicos, problemas de
relacionamento, problemas no trabalho ou estudo, problemas financeiros e outros mais, além
do distanciamento de Deus − não podemos esquecer que a Bíblia adverte que o homem colhe
o que semeia (Gl 6.7-8).

As consequências do estilo de vida idólatra juntam-se ao contexto inicial de pressão e


provocam ainda maior pressão sobre a pessoa. O que ela faz? Volta-se ainda mais para seus
ídolos. Escolha após escolha, ela entra em uma espiral descendente, afundando-se a cada vez
mais em um estilo de vida destrutivo, e construindo ao redor de si muralhas de engano,
racionalização e culpa lançada sobre outros, que impedem a mudança.

Biblicamente, o ser humano foi criado com o propósito de viver em dependência de Deus
e adorá-lO − servir a Deus e dar glória a Ele. Parte do plano divino para o ser humano
constava de viver em dependência do conselho de Deus, responsável por obedecê-lO (Gn 1.28-
30, 3.2-3). No entanto, o homem quis alcançar independência de Deus e afirmar a própria
autonomia (Gn 3.5), o que resultou em confusão e escravidão ao pecado.

Em lugar de expressar o relacionamento correto do homem para com Deus, o termo


dependente é hoje empregado para se referir a pessoas cuja vida é controlada por
comportamentos que envolvem abuso de drogas, álcool e também alimentos. Inicialmente, a
psiquiatria adotou o termo adicto − que segundo o Dicionário Aurélio traz o sentido de
dependente, afeiçoado, dedicado, apegado, devoto de forma habitual − para o alcoólatra
crônico27. Nas últimas duas décadas, seu uso se estendeu uso a uma lista de substâncias e
comportamentos limitados apenas pela imaginação. Adicto e os termos correlatos −
compulsão, dependência e co-dependência − entraram também no vocabulário cristão.

Edward Welch define desta forma o problema do adicto: “é uma escravidão ao domínio
de uma substância, atividade, ou estado mental, que se torna o centro da vida, defendendo-se
da verdade de modo que até mesmo más consequências não geram arrependimento, e
conduzindo a distanciamento de Deus. Para locar no mapa teológico, temos a palavra
pecado”.28 A palavra pecado, portanto, provê uma categoria de diagnóstico compreensiva e
concreta para o conselheiro bíblico que quer ajudar uma pessoa a reordenar a sua vida em
obediência a Deus. Esta categoria inclui os comportamentos específicos e os pensamentos

27
A psicologia e psiquiatria têm substituído o termo alcoólatra (adorador de álcool) por alcoolista.
28
WELCH, Edward T. SHOGREN, Gary Steven. Addictive behaviors. Grand Rapids, Mich. Baker, 1995, p.
37.
distorcidos, o todo girando ao redor de uma compulsão (ou seja, um desejo forte, que compele
e é habitual) para viver segundo as inclinações do próprio coração.

Biblicamente, preferimos identificar como cobiça aquilo que o mundo chama de


compulsão. Exemplificando com os transtornos alimentares, fomos criados por Deus com
desejos naturais voltados para a comida, de modo que possamos atender a uma dinâmica
biológica estabelecida por Deus e boa aos olhos dEle. A cobiça, porém, contamina nosso desejo
e uma vez que este desejo é desmedido e escravizador, ele não é legítimo, mas pecaminoso.
Quando saciado, o desejo pecaminoso resulta em atitudes e comportamentos pecaminosos:
glutonaria, obsessão por comida, obsessão por aparência física, manipulação, mentira, roubo,
entre outros. Estes comportamentos dizem respeito ao coração perante Deus e não apenas ao
mecanismo natural da fome e saciedade.

Os comportamentalistas falam em impulsos biológicos e condicionantes ambientais. Sem


dúvida, um mecanismo biológico está em ação. Não podemos, porém, esquecer que o corpo
interage com o coração. Uma pessoa pode ser muito atraída a doces e hidratos de carbono e o
desejo pode ser gatilhado por diferentes circunstâncias, envolvendo não apenas a dinâmica
natural da fome, mas uma interação com aspectos da dinâmica do coração como, por exemplo,
o tédio, a ira e a ansiedade.

É comum ouvirmos falar em necessidades psicológicas supridas pela comida. Já


consideramos biblicamente esta classe de necessidades; resta-nos, portanto, dizer que tanto
as teorias baseadas nas necessidades psicológicas, como aquelas baseadas em impulsos
biológicos, consideram os descontroles sem levar em consideração o aspecto de ao invés de
Deus que está embutido na questão da motivação humana. A perspectiva bíblica é que de fato
somos motivados e controlados por algo, mas quando este algo não nos conduz em direção a
agradar a Deus, trata-se de um desejo da natureza pecaminosa (Gl 5.16; Ef 2.3). A Bíblia
costuma resumir as escolhas erradas da dinâmica de controlar e ser controlado sob a categoria
de idolatria (Cl 3.5).

É interessante notar como o conceito de idolatria aparece entre os autores seculares. O


conceito de que a pessoa que pratica comportamento anoréxico ou bulímico está prestando um
culto é familiar aos que estudam o assunto: “O corpo é objeto hoje em dia de um novo culto”,
dizem Guillemot & Laxenaire29, ou “O culto ao corpo ... ganhou uma divulgação crescente”, diz
Táki Cordás30. A literatura secular, porém, usa a palavra culto sem relacioná-la à idolatria com
respeito Deus, que requer arrependimento e volta a Ele. A solução proposta é encontrar ídolos
substitutos e mais funcionais, ou seja, reabilitar a impiedade para que funcione com sucesso
segundo o critério de ajustamento social desejável.

A Bíblia apresenta cada ser humano como adorador, sem exceção, e explica que o pecado
corrompeu a adoração: como pecadores, mudamos adoração e serviço ao Criador, por
adoração e serviço a criaturas (Rm 1.25). O comportamento errado é resultado de adoração
errada. Edward Welch, ao lidar com o alcoolismo, diz: “Sugiro que reconheçamos que o vício é
um transtorno de adoração”.31

Idolatria é um tema amplo nas Escrituras. Os relatos do Antigo Testamento são na sua
maioria a respeito de pessoas que precisaram responder a uma pergunta básica: “A quem vou
adorar? Ao Criador ou às coisas criadas? A Deus ou ao homem? Ao Deus verdadeiro ou a
ídolos?”. Os dez mandamentos começam com uma proibição da idolatria e a linha histórica
básica do Antigo Testamento continua com pessoas que acharam a idolatria irresistível,
embora Deus as tivesse advertido: “Guardai-vos, que não vos esqueçais da aliança do SENHOR
vosso Deus, feita convosco, e vos façais alguma imagem esculpida, semelhança de alguma
coisa que o SENHOR vosso Deus vos proibiu” (Dt 4.23). Para aquelas pessoas, a idolatria

29
GUILLEMOT, Anne, LAXENAIRE, Michel. Anorexia nerviosa y bulimia: el peso de la cultura. Barcelona:
Masson, 1994, p.55.

CORDÁS, Táki Athanássios. Anorexia e bulimia: o que são? Como ajudar? Porto Alegre, RS: ArtMed,
30

1998, p.41.
31
WELCH, Edward. Blame it on the brain: distinguishing chemical imbalances, brain disorders, and
disobedience. Phillipsburg, PA: Presbyterian and Reformed, 1998, p. 198.
estava mais intimamente associada à adoração de objetos tangíveis feitos de madeira, metal
ou pedra. Os profetas, porém, deixaram claro que o objeto não era tão importante quanto o
significado a ele atribuído no coração do adorador:

Assim diz o SENHOR Deus: Qualquer homem da casa de Israel que levantar os seus
ídolos dentro do seu coração, e tem tal tropeço para a sua iniqüidade, e vier ao
profeta, eu, o SENHOR, vindo ele, lhe responderei segundo a multidão dos seus ídolos;
para que eu possa apanhar a casa de Israel no seu próprio coração, porquanto todos
se apartaram de mim para seguirem os seus ídolos. (Ez 14.4,5)

No Novo Testamento, Paulo amplia o nosso entendimento de idolatria ao incluir ídolos


intangíveis na definição: “Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição, impureza,
paixão lasciva, desejo maligno e a avareza, que é idolatria” (Cl 3.5) e “Sabei, pois, isto:
nenhum incontinente, ou impuro, ou avarento, que é idólatra, tem herança no reino de Cristo e
de Deus” (Ef 5.5).

O apóstolo João também estava preocupado com a idolatria. As palavras finais de sua
primeira epístola não foram escritas para pagãos, mas para crentes: “Filhinhos, guardai-vos
dos ídolos” (1Jo 5.21). Ele não se refere a ídolos esculpidos. Em 1 João 2.16, ele reconhece
que de um lado há uma motivação interior − “a concupiscência da carne”, nosso movimento
centrado em nós mesmos, nossas vontades, expectativas, desejos, necessidades que podem
escravizar. Por outro lado, há uma motivação externa − “o mundo” regido por Satanás.

Richard Keyes32 faz uma distinção entre dois tipos de ídolos, didaticamente útil: ídolos
tangíveis no mundo atual − “ídolos funcionais” e ídolos intangíveis − “ídolos do coração”.
Ídolos funcionais, coisas como comida ou dieta, sexo, e outras mais, são usadas para ganhar
controle sobre a situação. À primeira vista, a decisão de fazer uma dieta não aparenta ser uma
questão de rebeldia para com Deus. Na verdade, quando se dá conta, a pessoa percebe que
não está no controle, mas sob controle: está comprometida com um estilo de vida de
adoração. O ídolo dita os amigos que ela escolhe ou abandona, rege a vida financeira, o uso do
tempo. Enquanto os ídolos funcionais ajudam na questão de ganhar controle, há ídolos
intangíveis no coração como, por exemplo, a substituição da dependência de Deus pela
autonomia rebelde, a busca de prazer egocêntrico, conforto pessoal, controle.

Em geral, os ídolos do coração não são reconhecidos porque costumamos associar ídolos
a algo tangível. Embora o conselheiro comece quase sempre por ouvir um relato das
consequências de um estilo de vida, e possa com certa facilidade identificar os ídolos
funcionais que compõem tal estilo de vida para trabalhar contra eles, é preciso também atingir
os ídolos do coração.

Uma característica da idolatria é que ela pode não envolver uma negação explicita da
existência ou do caráter de Deus nem precisa ser uma substituição completa de Deus. Ao
mesmo tempo que nos declaramos adoradores de Deus, curvamo-nos aos ídolos da nossa
cultura. Enquanto descrentes são totalmente dominados por motivações não piedosas, no caso
de crentes, aquilo que governa o coração pode estar competindo sutilmente com Deus: o
coração está dividido.

Uma segunda característica da idolatria é que ela pode vir na forma de uma afeição
exagerada a algo que, em si, é perfeitamente bom. Alimento, por exemplo, é uma bênção de
Deus para o nosso sustento físico, mas pode também se tornar um ídolo e destruir vidas. Ser
amado por outros também é algo bom, mas quando elevado à condição de necessidade torna-
se um ídolo capaz de governar uma vida.

Uma terceira característica da idolatria é que quando nos voltamos para um ídolo, nosso
propósito não é nos tornarmos seu escravos, mas tirar dele proveito e permanecer no controle.
Por exemplo, quando as pessoas adoram a bebida, o que têm em vista não é se tornarem
escravas dela, mas manipular seu ídolo para alcançar a satisfação pela qual anseiam e na qual
confiam. O paradoxo está justamente no fato de que embora os ídolos prometam benefícios de
autogratificação imediata, o que na verdade fazem é nos escravizar. Ficamos fora de controle.

KEYES, Richard. The idol factory. In: GUINNESS, Os, SEEL, John (edits.). No God but god: breaking
32

with the idols of our age. Chicago, Ill.: Moody, 1992.


“Não sabeis que daquele a quem vos ofereceis como servos para obediência, desse mesmo a
quem obedeceis sois servos, seja do pecado para a morte ou da obediência para a justiça?”
(Rm 6.16). Biblicamente, o pecado pode nos capturar e escravizar, embora não diminua nossa
responsabilidade moral.

Em Cristo está a solução para o homem escravo de seus desejos. O evangelho de Cristo é
uma mensagem para pecadores ativos e não para vítimas necessitadas. Mudança é voltar-se
dos ídolos para o Deus vivo e verdadeiro (1Ts 1.9), crucificar a carne com suas paixões (Gl
5.24), adquirir novos padrões de resposta ao contexto de vida pela graça e o poder de Cristo
habitando em nós (Cl 1.27; Gl 2.20). Mudança é colher boas consequências do fruto de ser
cada vez mais semelhante a Cristo, no temor do Senhor.

A igreja tem assimilado com muita facilidade as teorias seculares e forjado um Cristo
diferente do das Escrituras, unido a algo mais para lidar com eficácia com os problemas da
vida. É necessário voltar à suficiência de Cristo, Redentor e Senhor.