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Erw in E.\Lutzer

Uma defesa da fc cristã numa era dc tolerância

Todas as religiões são iguais? A doutrina acerca do que cremos faz alguma diferença? Deus é o mesmo em todos os cultos? Todos-chegarão realmente ao céu e a Deus? Como Jesus é visto nas outras religiões? É possível descobrir a verdade no campo religioso?

Essas e outras questões são abordadas em Cristo entre outros deuses, por Erwin W. Lutzer. Com argumentos irrefutáveis, o autor leva-nos a refletir seriamente acerca dos principais temas religiosos e sobre como Satanás está se infiltrando na Igreja para acabar com a pureza do Evangelho.

Autor

Mestre em Letrns e Teologia e doutor em Leis, o autor já escreveu diversos livros e é pastor-presiden te da Igreja Memorial Moody, em Chicago, onde mora com a esposa e três filhas.

Erwin E. Lutzer

Uma defesa da f é cristã num a era de tolerância

©

CPAD

Todos os direitos reservados. Copyright © 2000 para a língua portuguesa da Casa Publicadora das Assembléias de Deus. Aprovado pelo Conselho de Doutrina.

Título do original em inglês: Christ Among Others gods Moody Press - Chicago Primeira edição em inglês: 1994 Tradução: Luís Aron de Macedo

Preparação de originais: Gilmar Chaves e Alexandre Coelho Revisão: Joel Dutra Adaptação e Editoração eletrônica: Rodrigo Fernandes Capa: Eduardo Souza

ISBN: 85-263-0260-4

CDD: 239 - Apologética

As citações bíblicas foram extraídas da versão Almeida Revista e Corrigida, Edição de 1995, da Sociedade Bíblica do Brasil, salvo indicação em contrário.

Casa Publicadora das Assembléias de Deus Caixa Postal 331 20001-970, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

I a edição/2000

Para meus pais, Gustav e Wanda Lutzer, cujas vidas e palavras ensinaram-me desde

cedo

que Jesus Cristo tem de ser apreciado

como o Filho de Deus, o único Salvador.

SUMÁRIO

Prefácio

............................................................................................

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Introdução................................................................................

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  • 1. OS “DEUSES” ESTÃO AVANÇANDO.......................................11

Você já percebeu do panorama geral?

  • 2. O ÍCONE DA TOLERÂNCIA

.....................................................

29

Como chegamos a esse ponto?

  • 3. A BUSCA DA VERDADE

...........................................................

47

Se é verdade para mim, é verdade para você?

  • 4. UM NASCIMENTO

67

  • 0 que é preciso para ser salvador?

  • 5. UMA VIDA EXTRAORDINÁRIA...............................................87

Quem é o verdadeiro Jesus?

  • 6. UMA AUTORIDADE EXTRAORDINÁRIA

............................

107

Se Deus falou, o que Ele disse?

  • 7. UMA MORTE EXTRAORDINÁRIA

.......................................

127

O que aconteceu naquela cruz do meio?

  • 8. UMA RESSURREIÇÃO EXTRAORDINÁRIA

........................

143

Teriam os discípulos inventado a história?

  • 9. UMA ASCENSÃO

159

O que Cristo está fazendo hoje?

  • 10. UM RETORNO

EXTRAORDINÁRIO......................................

175

Qual Deus reina?

  • 11. UMA PEDRA DE TROPEÇO EXTRAORDINÁRIA..................193

Estão todos perdidos?

  • 12. UMA RESPONSABILIDADE EXTRAORDINÁRIA

..................

211

Como podemos representar melhor a Jesus?

PREFACIO

Pessoas sem ouvido para música dizem que todas têm o mesmo som, mas os amantes de Bach, Handel, Beethoven e Brahms sabem que são diferentes. Do mesmo modo, aqueles que carecem de discer­ nimento espiritual ou conhecimento factual, ou de ambos, dizem-nos que as religiões do mundo são todas a, mesma coisa, e que uma é tão boa quanto a outra, de forma que não importa a qual você pertença. Contudo, eles também estão errados, como os cristãos claramente percebem. A figura de Jesus Cristo, como retratada na história do Evangelho e exposta no restante do Novo Testamento, é sem paralelo. Um homem como Jesus, que agiu à semelhança de Deus feito carne; que falou de si mesmo como o Filho de Deus; que identificou-se como o futuro Juiz do mundo e árbitro do destino de toda criatura; que depois de ser crucifica­ do, ressuscitou dos mortos, deixando o sepulcro vazio e as mortalhas de lado, e reuniu-se outra vez com os discípulos; que tendo entrado no mundo por concepção e nascimento milagrosos, e realizado aqui um ministério de milagres, indo ao ponto de ressuscitar mortos, foi visto deixar este mundo numa ascensão milagrosa; e cujos discípulos, por dois mil anos, têm estado certos de que Ele realmente participa da vida deles, na proporção que eles experimentam a vida dEle; nenhum outro líder religioso e nenhuma outra experiência religiosa jamais se tornaram remotamente como esta! Como fé fundamentada em fatos sobrenaturais e como relação única e transformadora de vida com seu singular Funda­

INTRODUÇÃO

Numa época em que o interesse por Jesus éstá crescendo cada vez mais, não é segredo que as religiões do mundo estejam aumentando numa proporção sem precedentes nos Estados Unidos. Embora o cris­ tianismo historicamente tenha insistido em sua singularidade, muitos líderes religiosos estão predizendo que os problemas do mundo estão ficando tão terríveis que a unidade religiosa será inevitável em um fu­ turo próximo. Nunca escrevi um livro com tal peso, uma convicção crescente de que à medida que marchamos para o próximo século, é absolutamente essencial que nós, como crentes, tenhamos Cristo não apenas em nos­ sos corações, mas também em nossas cabeças. Precisamos ser capazes de convidar os outros a investigar as declarações de Cristo sem embara­ ço ou medo de que as evidências à nossa fé se evaporem.; Precisamos de respostas para nós e para os outros| nesta época em que a verdade reli­ giosa foi reclassificada como pouco mais que opinião pessoal e experi­ ência particular. Quero agradecer a meu amigo Ravi Zacharias por me permitir usar o título Cristo Entre Outros deuses na publicação deste livro. Há vários anos ouvi uma de suas pregações intitulada “Jesus entre outros deuses”,

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CRISTO ENTRE OUTROS deuses

que ficou encravada em minha mente. Ainda que o conteúdo deste livro seja completamente meu, escrevi a Ravi perguntando-lhe se poderia ser- me dada a opção de usar uma versão do seu título, o que ele graciosa­ mente concordou. Sou grato por sua amizade e regozijo-me em seu mi­ nistério mundialmente eficaz. Agradeço aos membros e amigos da Igreja Memorial Moody. Eles me ouviram pregar o conteúdo essencial deste livro, entregue no formato de uma série de mensagens no outono de 1993. Por quinze anos, tem sido meu o privilégio de ocupar esse púlpito histórico para pregar, e nunca fiquei cansado do trabalho nem menosprezei tal honra. Graças às orações do povo de Deus, tenho sido abençoado com a oportunidade de servir a Cristo além das paredes da Igreja Memorial Moody, por meio de conferências e da escrita. Uma palavra especial de agradecimento à minha assistente adminis­ trativa, Pauline Epps, que passou muitas horas diagramando o manuscri­ to e dando sugestões úteis. E mais importante: dou meu apreço amoro­ so à minha esposa, Rebecca, e às nossas três filhas, Lori, Lynn e Lisa, que foram muito compreensíveis durante os dias em que este livro estava no topo de minhas prioridades, e me mantinha horas a fio em meu gabine­ te de estudos. Todo louvor seja dado ao meu Senhor e Salvador Jesus Cristo, a quem amo e em cuja defesa escrevi este livro. Sentir-me-ei plenamente recom­ pensado se aqueles que o lerem vierem a amar a Cristo ainda mais, a adorá-lo com mais fervor e a defendê-lo com maior convicção e graça.

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“DEUSES” ESTÃO AVANÇANDO

Você já percebeu o panorama geral?

nam-se ou morram!” Essa mensagem parecia dominar todas as sessões do Parlamen­ to das Religiões do Mundo, que se realizou em Chicago, Esta­ dos Unidos, em 1993. E o grupo mais freqüentemente visto como quem tem senso crítico — as pessoas a quem jamais se pensou que entrassem nessa agenda de unificação —, era aquele pertencente à fé cristã históri­ ca. Estou convencido de que uma irresistível torrente religiosa está var­ rendo os Estados Unidos. A mensagem que ouvi no parlamento foi que era melhor subirmos a bordo ou seriamos deixados a nadar (ou nos afogar) sozinhos! Os deuses estão avançando, e ai daquele que ficar no caminho de sua agenda de trabalho! Com ideais elevados e planos utópicos de unificar as religiões do mundo para o bem comum, esse parlamento foi convoca­ do para derrubar as barreiras existentes na marcha acelerada em direção à unidade. Seis mil representantes reuniram-se para aprender uns dos outros, explorar áreas de concordância e obter um melhor entendimen­ to das suas heranças religiosas. Eles também promoveram uma ética glo­

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CRISTO ENTRE OUTROS deuses

bal designada a aliviar o sofrimento e as guerras no mundo. Disseram que o seu tempo havia chegado. Que lugar Cristo teve em mais de setecentos seminários disponíveis durante a conferência de oito dias? Às vezes Ele foi admirado e citado de forma genérica e também comparado com outros mestres religiosos de ontem e de hoje. Ele foi visto como mais um estágio no desenvolvimen­ to evolutivo da religião. De fato, Ele foi um estágio muito importante e necessário, mas foi apenas um iluminado entre muitos. Teve quem ob­ servasse que em nossos dias Jesus é obscurecido por outras figuras, mas que Ele deve ser admirado por ser o homem de sua época. Alguém espe­ cial do seu tempo. Com exceção de um ou dois preletores (um disse acerca de Jesus:

“Ele nem mesmo sabia que a Terra era redonda”), Cristo foi reverencia­ do por sua contribuição para a história da religião. Ele até chegou a ser descrito por alguns como um revelador de Deus, um homem que alcan­ çara o mais alto grau de esclarecimento. Outros admitiram que Ele foi o Mestre dos mestres, o único que nos mostra o caminho; o único que deve ser amado e seguido. Mas ai! Ele foi apenas um entre muitos ou­ tros. Embora tenha sido respeitado, Ele não foi adorado. Caro leitor, o que vi e ouvi em Chicago é um microcosmo de sua escola, trabalho e comunidade. E muito provável que seus vizinhos e companheiros de trabalho acreditem que não importa a qual deus você faça suas preces pois, no final das contas, toda deidade é a mesma deida­ de embutida em um nome diferente. De acordo com relatório levantado pela pesquisa Barna em 1993-94, quase dois de cada três adultos afir­ mam que a escolha de uma fé religiosa sobre outra é irrelevante, porque todas as religiões ensinam as mesmas lições básicas de vida.1 Talvez você pertença a essa maioria. Nesse caso, eu o convido a com­ parar Cristo com outras opções religiosas. Venha comigo em uma jorna­ da que esquadrinhará as declarações de Jesus, avaliará os registros histó­ ricos e examinará se Ele deve ser apenas admirado ou adorado de verda­

OS “DEUSES” ESTÃO AVANÇANDO

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de. Não estou escrevendo sobre um Cristo misterioso acessível somente àqueles que já crêem. Da melhor forma possível, apresento um Cristo cujas credenciais estão abertas para o questionamento e investigação. Se você acha que todas as deidades são a mesma, ou que nos pontos essen­ ciais todas as religiões concordam entre si, este livro é para você. E se você já é crente, quero conclamá-lo ao despertamento. Esta é uma oportunidade para reunir um número crescente de crentes que decidiram fincar suas raízes mais profundamente, entender melhor a fé e transformar suas crenças em certezas. Alegremo-nos pela oportunida­ de de representar Cristo em nossa era pluralista. Estes não são tempos de esconder a luz em nossos corações, mas de deixá-la brilhar no cre­ púsculo enevoado do pluralismo religioso. Nunca foi tão importante ter Cristo não apenas em nossas cabeças, mas também em nossos corações! Será que nós — falo àqueles de nós que são crentes comprometidos — ficamos tão indiferentes com a tolerância de nossos tempos, que podemos ver Cristo fora do trono nas mentes das multidões e dai- as costas, como se não tivéssemos notado nada? Todos nos lembramos do quão espantados os crentes ficaram quando foi lançado o filme A Última Tentação de Cris­ to. Contudo, não percebemos que profanação semelhante sempre ocorre, quando Cristo é classificado apenas como uma entre muitas opções. Obviamente cremos que, no futuro, “ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai” (Fp 2.10,11), mas temos de reacender nossa paixão por Ele, para que em nossos dias Ele seja honrado entre nossos vizinhos e amigos. Nosso amor por Ele pode ser medido pela nossa preocupação acerca de sua reputa­ ção entre os povos do mundo. Mas se Cristo é realmente apenas um entre muitos deuses, então é hora de todas as religiões do mundo se unirem. Que todos os líderes religiosos ponham-se em pé de igualdade; que eles reunam seus insights num fundo comum, de forma que possam combater nossas batalhas com

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CRISTO ENTRE OUTROS deuses

um exército unificado. Chega de divisão! Chega de argumentos infrutí­ feros! Chega de fanatismo! Isto força a pergunta: Cristo pertence ao mesmo nível de Buda, Krishna, Bahá’u’lláh e Zoroastro? Como Cristo, tais líderes (e outros) têm ensinado algumas idéias éticas bastante elevadas. Mesmo que afir­ memos que Cristo está no ponto mais alto que os outros, estamos dan­ do a Ele aquilo que lhe é devido? Ou Ele deve ser colocado em posição completamente diferente? Este, obviamente, é o assunto deste livro. Preste bem atenção: no Parlamento ninguém sugeriu que os cristãos deveriam deixar de ser cristãos ou que os hindus deveriam deixar de ser hindus; nem os budistas deveriam deixar de ser budistasf As religiões do mundo têm uma diversidade rica e que deve ser apreciada. Cada uma deve ser admirada como uma pétala bonita; juntas elas formam uma flor magní­ fica chamada religião, uma flor que nenhuma religião pode criai- por si só. Esta flor está crescendo mais depressa diante de nossos olhos do que estamos percebendo. O solo foi preparado, a semente foi plantada e a planta está começando a florescer. Somente fanáticos irracionais estra­ gariam sua beleza e energia. Dizem que “esta flor abençoará o mundo”.

O FUNDAMENTO PARA A UNIDADE

Este não é um livro sobre o Parlamento das Religiões do Mundo, embora eu me reporte ao que aconteceu lá para ilustrar como Cristo é visto em nossa cultura. Também não é sobre religiões comparadas, visto que tais assuntos já foram adequadamente tratados por outros. Este li­ vro é sobre Cristo; é uma tentativa de entendê-lo melhor, adorá-lo mais e representá-lo com mais confiança. Mas antes temos de cobrir alguns assuntos importantes para formar o contexto para argumentação. Freqüentei o parlamento porque quis aprender mais sobre as religi­ ões existentes hoje e ter um melhor entendimento da complexidade que enfrentamos no mundo atual sobre esse assunto. Em segundo lu­ gar, desejei encontrar-me com tantas pessoas quanto possível e compa­

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CRISTO ENTRE OUTROS deuses

amadas e apreciadas — não meramente toleradas. As escrituras hindus dizem: ‘De qualquer maneira que os homens me abordarem, ainda as­ sim Eu vou a eles?.3 Mas se as diferentes religiões são a mesma em es­ sência, por que elas se nos parecem tão discrepantes? É tudo questão de perspectiva; o quanto é fácil para todos nós fazermos uma descrição diferente da mesma coisa. Deus (ou os deuses) é um; são nossas inter­ pretações falíveis que trazem desunião. No Parlamento, os representantes foram levados muitas vezes a gri­ tar “EU SOU!”, como afirmação de sua própria deidade. Foi dito às pes­ soas que ainda acreditavam em oração, que elas orassem ao “deus de sua própria escolha”. Disseram-nos que, quanto mais entendêssemos a nós mesmos e à nossa aldeia global, amadureceríamos mais rápido o bastante para perceber que nenhuma religião tem o direito à exclusivi­ dade. Alguns deuses dão mais certo para você, ao passo que as ricas tradições de outras deidades são mais atraentes a seus amigos.

A VISÃO DA UNIDADE

Arnold Toynbee, famoso historiador, predisse que os governos do mun­ do se uniriam, quer pela força, quer pela federação, mas que a unidade não poderia ter sucesso sem uma religião universal. Ele disse que o cristianismo deve ser purgado de seu “estado pecaminoso da mente”, isto é, do seu exclusivismo. A estrutura política/econômica do governo do mundo precisa ser apoiada pela dimensão espiritual unificada da humanidade.4 Isto está acontecendo diante de nossos olhos. A medida que o mun­ do se torna mais radicalmente plural, torna-se também mais diversifica­ do religiosamente. Dizem-nos que a única esperança para a coexistência pacífica em nosso país e o resto do mundo é que as religiões ponham de lado suas diferenças, e unam-se em volta da bandeira comum do amor, da aceitação e do serviço aos membros da raça humanai Afinal de contas, as várias religiões não passam de expressões diferentes do mesmo ser supremo, do mesmo deus (ou deuses):/'

OS "DEUSES” ESTÃO AVANÇANDO

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Preste atenção em alguns benefícios que a unidade trará:

  • 6 O fim das guerras.

• O fim da fome mediante a redistribuição dos recursos mundiais e

controle populacional. • Conservação do meio ambiente da Terra. • Igualdade genuína entre todas as raças e religiões e entre homens e mulheres.

  • 9 Uma ética global que unirá a família humana. • O amanhecer de uma era completamente nova de realização e

potencial humanos.

Mais tarde, neste livro, discutirei o que acontecerá àqueles que não subscreverem esta agenda. É evidente que em breve todos teremos de decidir, porque no ano 2000 a transformação estará bem adiantada. Testemunhos—aos montes—foram dados acerca dos benefícios pessoais daqueles que dedicaram tempo para harmonizar a mentalidade racional do oriente religioso com a experiência mística do ocidente religioso. A unidade religiosa mudará o mundo, porque ela começa mudando os indivíduos. Uma mulher afirmou ter sido curada mediante a meditação mística; outra disse que seu casamento fora salvo pela religião da Nova Era. Um homem declarou que somente depois de aprofundar-se no hinduísmo é que “encontrou a outra metade da sua alma”. As palavras usadas com freqüência foram “realização”, “paz” ou “energia”. Sim, havia uma por­ ção de testemunhos que diziam: “Funciona!”

ILUSTMÇÕES DA UNIDADE

No famoso poema de John Godfrey Saxéj “Os Cegos e o Elefante”, os seis cegos de íridóstãòíqueriam saber como era um elefante. Cada cego aproxi- mou-se do animal por uma direção diferente; cada um explorou parte do elefante—o flanco, o marfim, a tromba, a pema, a orelha e o rabo. Relatando

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CRISTO ENTRE OUTROS deuses

suas experiências, os seis compararam o elefante a, respectivamente, uma parede, uma lança, uma serpente, uma árvore, um abano e uma corda.

E assim estes homens de Indostão Disputaram em altas vozes e por muito tempo, Cada um, ao defender sua opinião, Exagerou com resolução e energia. Ainda que cada um estivesse, em parte, com a razão Todos estavam enganados!

Assim ocorre muitas vezes nas disputas teológicas^----- Os disputantes, lamento dizer, Zangam-se em completa ignorância Sobre o que cada um quer dizer, E falam disparates sobre um elefante Que nenhum deles vê!5

Se tão somente percebêssemos que as várias religiões do mundo são nada mais que aspectos diferentes da mesma divindade! De fato, conti­ nua o argumento, devíamos ser agradecidos por essas maneiras diversas de ver, porque elas nos dão um panorama mais extenso de quaisquer deuses ou deusas que há. Longe de pensar que uma religião é superior à outra, devíamos ampliar nossos horizontes para vermos o quadro maior. O Ser Supremo é maior do que qualquer retrato dele. Se os cegos e o elefante ilustram por que temos tradições religiosas diferentes, a roda nos ajuda a entender o que acontece quando nos afasta­ mos de nossos dogmas e nos unimos ao centro de nossas crenças. Visualize uma roda com aro, raios e cubo. No (1) aro encontramos nossas doutrinas religiosas, diversas que formam o nível de compreensão mais superficial; contudo, (2) logo que entendemos que nossas crenças são símbolos, co­ meçamos a nos mover para o centro. No aro, o diálogo é impossível por­ que é mesmo difícil para nós entendermos como as outras pessoas acredi­

OS “DEUSES” ESTÃO AVANÇANDO

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tam no que acreditam; mas à medida que nos dirigimos para o centro,

achamos um significado mais profundo. Então, (3) finalmente no cubo

descobrimos nossa verdadeira unidade; aqui está “o brilhante céu azul”,

como ouvi certa pessoa dizer. Agora podemos apreciar melhor as outras

religiões, porque as vemos pela lente da unidade e fé interiores.

OBSTÁCULOS À UNIDADE

Mas o que devemos fazer com nossas crenças doutrinárias, essas tei­

mosas convicções que são obstáculos à unidade? Em uma das sessões do

parlamento, disse certo líderPSegurem-se firmes em suas cadeiras, como

se vocês pudessem passar pelo teto caso se soltassem. Agora pensem em

uma de suas mais apreciadas crenças — soltem sua cadeira e sua estima­

da crença! Nada aconteceu, certo? Agora vocês sabem como eífDepois

nos disseram que podíamos recuperar nossa crença — muito obrigado!

Só precisamos nos acostumar a “soltá-las”!

Se ainda tínhamos relutância em “soltar” nossas queridas crenças, havia

um seminário intitulado “Um Vocabulário para o Século XXI”, o qual objetivava

demonstrar que todas as supostas doutrinas não passavam de metáforas para

um significado mais prolundo. Em termos práticos, significa que o indivíduo

pode abandonai- suas doutrinas sem abrir mão da terminologia que as co­

munica ‘A Bíblia não disse o que a maioria pensa ter ela dito”; tudo o que se

..

exige é que abandonemos nossas doutrinas, e então perceberemos que suas

metáforas receberão um significado mais profiindo e oculto. Se apenas avan­

çássemos além das fases infantis de nossa crença religiosa e crescêssemos

para a maturidade, a maturidade inclusiva.

O cristianismo, disseram-nos, fracassara — ao menos em sua forma

comum no mundo ocidental. Desperdiçamos os recursos da terra por

causa da tola noção de que devemos ter domínio sobre ela.iO cristianis­

mo fala de amor e produz ódio; fala de um Criador e, não obstante,

divide a criação com suas doutrinas estreitas?A mensagem era clara: é

tempo de mudar. O Cristianismo é como um barco que nos fez através-

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CRISTO ENTRE OUTROS deuses

sar o rio; agora é hora de abandoná-lo por um futuro novo e instigante.

Estamos deixando a Era de Peixes (o cristianismo) e entrando na Era de

Aquário. Adeus ao passado e bem-vindo ao futuro.

Bem, acho que você tem uma visão geral da situação. Quando al­

guém diz que o cristianismo fracassou, a maioria das pessoas interpreta

tal assertiva com o sentido de que Cristo fracassou. É sobre nosso Salva­

dor que eles estão falando! E é nosso privilégio ajudar os indivíduos a

ver que eles podem estar equivocados em sua avaliação.

Duas perguntas imediatas nos vêm à mente: como a Bíblia é vista quan­

do um espírito de ecumenismo (inclusivismo) assume o comando? E onde

Cristo se ajusta em uma cultura sincretista (religiosamente unificada)?

E a Bíblia?

E óbvio que, se a Bíblia tem de se harmonizar com quaisquer pontos

de vista religiosos, ela tem de ser reinterpretada, “ajustada”. Sempre que

participo de um programa de entrevistas ou debato sobre os méritos de

Cristo, ouço as pessoas me

dizerem: “Esta é a sua interpretação!” A im­

pressão que se tem é que a Bíblia pode ser facilmente despojada de seu

significado literal e tornada compatível com qualquer ponto de vista.

Agora que a tentativa de unificar as religiões do mundo é assunto

sério, foi lançado recentemente um livro com o título The Bible

Illuminated (A Bíblia Iluminada). Trata-se de uma coleção das histórias

da Bíblia (do Antigo e Novo Testamentos) que interpreta tais relatos de

um ponto de vista universal. 0 editor/autor do livro, Swami. Bhaktipada,

afirma que sua meta é “dar aos cristãos e adeptos de outros credos uma

compreensão da Bíblia que não é sectária, a fim de incentivar uma avali­

ação da Bíblia como expressão particular da verdade eterna que é ensi­

nada nas grandes tradições religiosas de todo o mundo”.6

The Bible Illuminated, que vem com 101 gravuras místicas, é parte

de uma série de livros designados a mostrar que todas as religiões do

mundo têm unidade intrínseca. Swami já publicou The Ramayana

OS “DEUSES” ESTÃO AVANÇANDO

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Illustrated (0 Ramayana Ilustrado), uma edição inglesa das escrituras

védicas hindus. Citando-o mais uma vez: “0 verdadeiro devoto, seja ou

não cristão, muçulmano, judeu, hindu ou de outra fé religiosa, é inspira­

do pelo ouvir das glórias do Senhor proveniente de qualquer fonte auto­

rizada — dos Salmos de Davi ou Gita do Senhor Krishna, do Ramayana

ou do Alcorão”.7

A realidade sempre é obscura, mas pelo fato de detestarmos a ambi­

güidade, tendemos a sustentar tenazmente nosso ponto de vista. Contu­

do, à medida que amadurecemos e somos capazes de sintetizar as várias

perspectivas, unificamos nossos pontos de vista. Conseqüentemente,

quanto maior a unidade, maior a clareza da visão.

  • 0 mesmo é para a Bíblia.

E Cristo?

No caminho do “plano global” para a unidade religiosa está a pessoa

de Cristo. Historicamente, o cristianismo o tem considerado inigualável,

o Filho unigênito especial de Deus, o Senhor, o Salvador. Mas muitos

cristãos — ou pelo menos muitos daqueles que usam o rótulo de cristão

— estão começando a pensar que já não podemos mais manter a exclusi­

vidade em meio à crescente consciência de outras convicções religiosas.

E o ímpeto à unidade é muito forte e sedutor para ser resistido.

Aqui estão três maneiras possíveis de relacionar Cristo com os desa­

fios de outras religiões:

Primeiramente' existe o pluralismo — a afirmação direta de que te­

mos de aceitar todas as religiões como iguais. Cristo é só um homem,

um profeta, um entre várias opções, e não necessariamente uma opção

melhor entre outras. 0 pluralismo insiste que até a palavra tolerância

cheira a fanatismo, a insinuação de que temos de “tolerar” aqueles que

são diferentes de nós. Não devemos apenas tolerar as religiões diferen­

tes; devemos conceder a elas o mesmo respeito que damos à nossa. Nes­

se cenário Cristo é interpretado de forma genérica, mas Ele sempre é

//V d Z/Z3/V/S/W.'? "

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CRISTO ENTRE OUTROS deuses

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despojado de sua deidade (a menos que suas afirmações sejam interpre­

tadas com o sentido de que todos somos divinos).

Este pluralismo (ou universalismo) afirma, sem competência, que ne­

nhuma religião tem o direito de julgar a outra. Sem respeito mútuo, tolerân­

cia sem críticas e aceitação incondicional da “rica” herança dos outros, não

há base para a unidade. A superioridade conduz ao preconceito, o qual deve

ser exposto, desdenhado e subseqüentemente arrancado pelas raízes.

-i Uma segunda instância mais comum é o inclusivismo — abertura às

outras religiões que começou com o iluminismotdo século XIII. Cristo,1 -

de acordo com essa perspectiva, ainda pode ser incomparável, mas Ele

não tem a exclusiva possessão da verdade. As outras religiões também

são uma expressão do divino, embora sua forma seja menos clara que

aquela que nos está especificada no Novo Testamento.

Os liberais sempre procuram demonstrar o valor espiritual das outras

religiões. O Concilio Mundial de Igrejas ressalta que somente pelo diálogo

religioso entre as diversas religiões do mundo será possível ver a totalidade

da revelação de Deus. Só a ignorância e a estreiteza de mentalidade limitaria

a revelação de Deus ao cristianismo, a religião dominante no ocidente.

Desde o Vaticano II, essa marcha em direção ao inclusivismo também

tem sido observada na Igreja Católica. Anteriormente, cria-se com todo

fervor que a salvação só era possível pela Igreja, ou seja, a Igreja Católica.

Mas agora que os protestantes são chamados de “os irmãos separados”,

um texto do concilio diz que a Igreja Romana não deve mais ser identificada

D

como a igreja exclusiva de Jesus Cristo i “os que ainda não reçeberam o

Evangelho estão relacionados com a Igreja de várias maneiras”^ Curiosa­

mente, agora que a porta da salvação foi aberta para os protestantes, tam­

bém abriu-se para os adeptos de outras religiões. Sabe-se que o papa João

Paulo I rezava com hindus, budistas e representantes de outras crenças.

- i -Em terceiro lugar, há o exclusivismo, que sustenta que Deus se reve­

lou somente em Cristo; portanto, todas as outras religiões são imperfei­

tas, desencaminhadoras e falsas. Pode-se dizer que Elias, o poderoso

v-fis/js/M O "

OS "D EU SES" ESTÃO AVANÇANDO

2 3

profeta do Antigo Testamento, era exclusivista. Quando ele teve uma

disputa com os profetas de Baal e ficou comprovado que eles eram fal­

sos, Elias apanhou 400 deles e matou-os no ribeiro de Quisom. ,r:4r

O Novo Testamento mantém esta tradição de exclusividade, com a

diferença de que os seguidores de outras religiões não são mais sujeitos

às penalidades civis. (Embora, intermitentemente ao longo da história

da Igreja, os hereges fossem queimados na fogueira, isto estava baseado

numa confusão entre a era do Antigo Testamento e a ordem do Novo

Testamento de dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.)

O exclusivismo, eu poderia acrescentar, não está em conflito com a liber­

dade religiosa. A liberdade de adotar qualquer religião que a pessoa queira

(ou não queira nenhuma), deve ser um direito em todos os países, especial­

mente naqueles que foram influenciados pela fé cristã. Como veremos mais

tarde, uma definição adequada do exclusivismo significa que, ao mesmo tem­

po que reconhecemos e respeitamos a liberdade religiosa, não comprome­

temos nossas convicções. Também não as combinamos com outras religiões

ou filosofias. Sc há um Deus verdadeiro, nossas opções são limitadas.

Estas três possibilidades geram outras Variações. Por exemplo, há o

seletivismo dizendo que não temos de seguir uma religião, mas compilar nos- ; j

sa própria lista particular de crenças apreciadas. Um smorgasborcP tem a van- í'

tagem de ter muitos pratos nutritivos, e conseguimos escolher o que quer que

satisfaça nosso gosto pessoal. Isto é mais democrático, mais de acordo com o

individualismo radical altamente apreciado nos Estados Unidos. Em tal contex­

to, Cristo pode representar qualquer papel que você deseje.

Nossa geração cada vez mais quer tirai- a religião do âmbito .do discurso

racional e relegá-la à área das preferências e opiniões pessoais! Se há trinta

e um sabores de sorvete, por que não podemos ter variedade semelhante

de religiões? Õs deuses do movimento da Nova Era sempre são, quase a

qualquer custo, tolerantes com as preferências sexuais, o feminismo e os

prazeres hedonísticos. Por que cada um de nós não escolhe uma religião

que seja compatível com nossos valores particulares? A fim de termos uma

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CRISTO ENTRE OUTROS deuses

fé significativa, temos de concordai- com nossas crenças profundamente

mantidas. O que funciona para você pode não funcionar para mim.

EVocê?

O interesse por Cristo está em ascensão. Um recente artigo no U.S.

News & World Report declara que “a busca pelo Jesus histórico está ob­

tendo uma nova onda de energia cultural”.10 Todos os dias — nas igrejas,

em grupos de auto-ajuda, em controvérsias em casa e no escritório —

Cristo é discutido. De fato, o interesse por Ele parece estar aumentando

juntamente com a proliferação de novas espécies de religião privatizada.

Cristo está sendo redefinido para ajustar-se ao sincretismo de nossos

tempos. Mais tarde explicarei por que muitos que falam bem de Jesus

estão na realidade minando-lhe a credibilidade.

Descobri que, [quanto menos algumas pessoas sabem de Cristo, mais

elas gostam dEle. O bebê na manjedoura toca até a mais cínica alma que

há muito perdeu o interesse por religião. O secularista que está inclina­

do a reformar a sociedade cita com reverência versículos selecionados

do Sermão da Montanha. E os modelos religiosos usam Cristo como seu

exemplo de humildade, sacrifício e bondade. Ele é digno de ser falado

em tons de respeito. Alguns dizem que Ele é “o primeiro entre iguais”.

Não obstante, em tudo isso, o louvor a Ele é contido e débil.

: Considerando que Cristo disse que o mundo o odiaria, podemos estar

bastante certos de que, quando o mundo o ama é porque o mundo fez de

Cristo also que Ele não éJO Cristo bíblico não pode ser posto de lado; Ele

fica em nosso caminho forçando-nos a tomar uma decisão, quer para a

direita, quer para a esquerda. Em sua presença a neutralidade é impossí­

vel. O bebê na manjedoura logo cresce para tornar-se Deus, o Rei.

O PROPÓSITO DESTE LIVRO

Escrevi este livro para apresentar razões para que Cristo sempre seja o único.

Todas as tentativas de uni-lo com as religiões do mundo estão fadadas a fracassar.

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OS “D EU SES” ESTAO AVANÇANDO

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5

Assim que explicarmos suas credenciais e o Evangelho que Ele nos trouxe, perce­

beremos que a fé cristã é exclusiva e tem de ser logicamente assim. Em meio a

acusações de fanatismo, nossa tarefa é ser amorosamente exclusivos. Se há boas-

novas neste mundo, os seguidores de Cristo têm de proclamá-las.

A Bíblia traça definida linha pelos povos do mundo, mas não é uma linha

entre raças, nações ou mesmo culturas. Esta linha separa Cristo e seus segui­

dores de todas as outras opções religiosas. Estou resolvido a ajudar-nos na

identificação dessa linha, a mostrar onde ela deve ser traçada e a dar razões

que comprovam que não temos direito algum de movê-la do lugar.

fz? Agentes do FBI contaram-me que não gastam muito tempo examinando

dinheiro falso, visto que há muitas variedades de notas falsas. Em vez disso,

eles analisam com atenção e minúcia as cédulas genuínas, observando todos

os seus detalhes únicos. Armados com um bom conhecimento das cédulas

autênticas, eles podem reconhecer falsificações de qualquer tipo. Aqueles

que estão familiarizados com a verdade reconhecem o erro quando o vêem.

Já mencionei que este livro é um estudo sobre Cristo contra o pano de

fundo de outras preferências religiosas. Se fizermos um exame cuidadoso

do artigo genuíno, ou seja, do Deus-homem, reconheceremos outros mes­

tres que têm origem e crença diferentes. Pretendo demonstrai' quefainda

que outras religiões peguem homens maus e tentem melhorá-los, somen­

te uma tem a capacidade de pegar homens mortos e ressuscitá-los.

  • _j- Quando se viaja pela Suíça, com freqüência se vê ao longe duas mon­

tanhas que parecem estar juntas, mas à medida que a pessoa se aproxi­

ma, nota que elas estão separadas por precipícios muito escarpados. E

bem abaixo, existe uma corredeira impossível de ser atravessada.

Dê uma olhada superficial em Cristo e nos outros deuses. Você pode

achar que existam algumas semelhanças impressionantes. Faça um exa­

me mais demorado e descobrirá que eles estão separados por um abis­

mo intransponível. Cristo tem pouco em comum com os outros mes­

tres, profetas, swamis e gurus. Não se trata apenas de Ele estar no ponto

mais alto do que os outros; em sua presença os outros desaparecem em

algum lugar além do horizonte.

2

6

CRISTO ENTRE OUTROS deuses

Os cristãos não são chamados para torcer as mãos em desespero quando

idéias pagãs tentam diluir as verdades do Evangelho. Somos chamados a dar

uma resposta digna de crédito, a levantar sua bandeira e esperai- que pelo

menos algumas pessoas a saúdem. Espero que você compartilhe minha pai­

xão em conhecer a Cristo com tal precisão, ser convencido de suas credenci­

ais com tamanha certeza e ver sua singularidade com tanta clareza. Que pos­

samos apresentá-lo a qualquer um, a despeito de suas convicções religiosas.

Eis alguns comentários que você já ouviu de amigos ou em programas de

entrevistas. Talvez você mesmo tenha uma destas opiniões. De qualquer modo,

minha intenção é ajudar-nos a esclarecer por que tais perspectivas estão ba­

seadas em interpretações errôneas que as pessoas fazem de Cristo:

• “Você está em Cristo

...

eu estou em Buda

...

todos temos de escolher

a religião que é melhor para nós”.

• “Eu amo Cristo tanto quanto você, mas não acho que Ele seja o único

caminho que nos leva a Deus

...

Deus nunca limitaria a uma pessoa o

caminho para o céu. O meu Deus é mais inclusivo do que isso ” ...

• “Penso que grande parte do Novo Testamento é mitológico. Não creio

que essas coisas tenham acontecido. E só questão de interpretação”.

• “Na minha opinião, todas as religiões do mundo são essencialmente

a mesma; por que discutirmos sobre assuntos periféricos?”

• “Eu não abandonei meu cristianismo, só fui mais longe, a algo mais

profündo. Já não enfatizo a religião, mas apenas o espiritual ” ...

Certo artista chamado Gustave Doré terminou uma pintura de Cris-

„' to. Um transeunte parou para admirar o trabalho e comentou: “Você

deve amá-lo para pintá-lo tão bem!” O artista respondeu: “Sim, eu o amo

mesmo, mas se o amasse mais, eu o pintaria melhor!”

Oito capítulos deste livro são dedicados a pintar um retrato verbal de Cris­

to. Dando o melhor de mim, mostrarei sua singularidade e destacarei por que

todos os esforços em uni-lo com outros deuses são mal orientados. Tendo feito

este estudo, amo-o mais, e minha oração é que, quando você terminar a leitu­

ra, também o ame mais, de forma que juntos possamos “pintá-lo melhor”!

OS “DEUSES” ESTÃO AVANÇANDO

2

7

Mas antes de começar o retrato, o próximo capítulo explica em que ponto

nos encontramos como cultura e porque apresentar a mensagem de Cristo

tem seus desafios especiais para nossos dias. O capítulo a seguir está dedicado

à questão da verdade religiosa, respondendo às objeções daqueles que acredi­

tam que todas as religiões conduzem para o mesmo fim. Mostrarei por que a

ilustração da roda (referida anteriormente é tão profundamente pertinaz:

Depois começaremos nossa jornada colocando Cristo no mesmo nível

que outros deuses. Será que os deuses vão lutai-? Ou vão cair como o antigo

deus filisteu Dagom, quando colocado próximo à arca do Senhor — impo­

tentes na presença de Alguém muito maior do que eles? (1 Sm 5.3).

Prossiga lendo.

NOTAS

  • 1. George Barna, Absolute Confusion (Ventura, Califórnia: Regai Books, 1993), p. 15.

  • 2. Forma de tratamento dirigida aos mestres hindus de religião.

(N. do T.)

  • 3. Swami Chindanansa, ‘Authentic Religion”, panfleto distribuído

no Parlamento das Religiões do Mundo.

  • 4. Arnold Toynbee, Christianity Among the Religions ofthe World (Nova York: Charles Scribner’s Sons, 1957), pp. 95s.

  • 5. The Best Loved Poems ofthe American People, selecionados por

Hazel Felleman (Nova York: Doubleday & Company, 1936), p. 522.

  • 6. Anúncio da Palace Publishing, distribuído no Parlamento das Re­

ligiões do Mundo.

  • 7. Ibid.

  • 8. A. P. Flannery, editor, Documents ofVatican II (Grand Rapids:

Eerdmans, 1975), p. 367.

  • 9. Serviço de bufê com variedade de pratos em que a própria pes­

soa se serve. Em sueco no original. (N. do T.)

  • 10. U.S.

News & WorldReport,

20 de Dezembro de 1993, p. 62.

 

2

 

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fedã

DA TOLERÂNCIA

Como chegamos a esse ponto?

ocê já viu um deus?

\ / Há alguns anos, quando íui a Baalbeck, perto de Beirute, Líba-

  • V no, vi de verdade o antigo deus Baal. Ele fora talhado em pedra

sólida com um sorriso horrendo na face que, do contrário, seria

inexpressiva. Embora nunca tenha voltado ali, suspeito que ele ainda

possua a mesma aparência que tinha, quando lá estive há mais de vinte e

cinco anos.

Ainda que você e eu nunca tenhamos talhado um deus de pedra, todos

enfrentamos a forte tentaçãofde refazer nossa idéia de Deus para que Ele

se conforme à nossa imagem; Freud arrazoou que(as esperanças e sonhos

dos seres humanos assemelham-se tão de perto às alegadas características

de “Deus”, que as pessoas transferem suas esperanças e desejos a um ser

imaginário';; Karl Marx admitia que o homem faz a religião; a religião não

faz o homem:; O homem “apenas encontrou seu reflexo na realidade fan­

tástica do céu, onde ele buscava um ser sobrenatural”.

Em seu livro A Historv of God (Uma história de Deus), Karen

Armstrong argumenta que Deus é apenas um produto da imaginação

3

0

CRISTO ENTRE OUTROS deuses

criativa da humanidade. Deus, segundo ela, pode ser nossa idéia mais

interessante. Ela declara que Yahweh (palavra hebraica para [eovál era,

originalmente um selvagem deus»da guerra e uma das várias deidades,

adoradas pelos israelitas. Levou sete séculos para que esse ser desagra­

dável evoluísse no leová Todo-poderoso, proclamado pelos profetas como

o único e exclusivo Deus. Idéias novas sobre Deus sempre têm surgido

em resposta às novas necessidades psicológicas. De fato, ela raciocina

que, se as grandes crenças não tivessem a capacidade de mudar, possi­

velmente teriam acabado. Por conseguinte, cada geração tem de criar

sua própria concepção imaginativa de Deus.1

Então é Deus que cria o homem ou é o homem que criou Deus?

Paulo ensinou que as pessoas muitas vezes criam deuses de acordo com

sua preferência pessoal. Os pagãos “mudaram a glória do Deus

incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de

aves, e de quadrúpedes, e de répteis” (Rm 1.23). Sim, os indivíduos e as

culturas podem criar deuses.

Nossa sociedade altamente especializada e orientada ao consumidor

já redefiniu Deus, de forma que Ele não se levanta para julgar nossa

cultura, mas antes, a endossa. De acordo com o livro The Day America

Told the Truth (0 Dia em que os Americanos Falaram a Verdade), a

palavra Deus para a maioria dos americanos é “um reflexo distante e

pálido do Deus dos seus antepassados

....

Este não é o ‘Deus ciumento’

da Velha Aliança, mas

...

uma sensação geral de bem e felicidade no mun­

do”.2 Alguém disse que para o homem moderno o céu parece o maior

shopping center que se possa imaginar. Temos um deus que deseia o

nosso prazer, um deus (ou deusa, se você preferir) que promove o femi­

nismo, as preferências sexuais, o aborto e o individualismo radical. Te­

mos um deus que está inteiramente comprometido com nossa felicida­

de e que acredita no potencial humano. Temos um deus que nos deixa

compilar nossos próprios dez mandamentos.

Para oue esse deus mais bondoso e gentil florescesse, tivemos de

curvar-nos diante de outro deus, o qual não é perturbado pela diversida-

O ÍCONE DA TOLERÂNCIA

3

1

_Z)0L£S T/P(2S>

ToáeeÕA/CLÍrt f=>X?Oi/£./7DS>St5-----1

. de moral/espiritual/religiosa de nossa cultura, 0 nome desse deus é to/e- \

rância. Oficialmente, o pecado não existe em nossa sociedade, mas se

sobrou algum pecado, seria a crença na verdade objetiva, a crença de

que algumas coisas ainda são certas ou erradas; a crença de que a discri­

minação ainda tem valor se for definida como discriminadora do que

.acreditamos, do modo como nos comportamos e do que defendemos.

A expressão “viver e deixar viver” tem sido venerada hoje como abso­

luto inegociável da sociedade. Somente o que é definido como intole­

rância é totalmente intolerável. Nosso Deus é tão tolerante quanto um

anfitrião de programa de entrevistas, tão amável quanto um vovô cadu­

co e, acrescentaria, tão pertinente quanto o calendário do ano passado.

Permita-me deixar claro que a tolerância pode ser definida de duas

maneiras legítimas. Como mencionado no primeiro capítulofa tolerân- (

cia lesai é o direito que cada um tem de acreditar em qualquer crença

(ou em nenhuma) que se queira acreditar. Tal tolerância é muito impor­

tante em nossa sociedade, e nós, como cristãos, devemos manter nossa

convicção de que ninguém jamais deve ser coagido a crer no que cre­

mos. A liberdade religiosa não só deve ser mantida nas democracias oci­

dentais, mas também promovida em outros países.

Segundo, existe a tolerância social, o^ompromisso de respeitar to-

das as pessoas mesmo que discordemos frontalmente de sua religião e

idéias. Quando nos envolvemos com outras religiões e questões morais

na feira ideológica, deve ser com cortesia e bondade. Temos de viver em

paz com todos os indivíduos, mesmo com os de convicções divergentes,

ou com os que não têm nenhuma crença. Não precisamos mais de cris­

tãos farisaicos que julguem piamente os outros, sem admitir com humil­

dade que todos somos criados à imagem de Deus. A tolerância, como a

paciência, é fruto do Espírito Santo.

Mas a tolerância da qual falo — se preferir, nosso ícone nacional — é

algo bastante diferente. Trata-se de uma tolerância desprovida de críti­

ca que evita o debate enérgico na busca da verdade. Esta nova tolerância

insiste que não temos direito de discordar de uma agenda social liberal;

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3

2

CRISTO ENTRE OUTROS deuses

-UMlJOl/OX)íe£tTO M E£/aJW

não devemos defender nossas perspectivas de moralidade, religião e res­

peito pela vida humana. Esta tolerância respeita idéias absurdas, mas

castiga qualquer um que acredite em absolutos ou qüe reivindique ter

descoberto alguma verdade. Alguém disse que essa tolerância inclui to­

dos os pontos de vista. Esta é a tolerância apenas para aqueles que mar­

cham no passo da multidão tolerante.

Este novo deus é o nosso único absoluto; a única bandeira que ainda

é considerada merecedora de nossa honra. Este tipo de tolerância é usa­

da como desculpa para o ceticismo perpétuo, para manter à distância

qualquer compromisso com a religião; também é uma entrada para se

ficar vulnerável a aceitar as idéias mais bizarras. A verdade, presume-se,

pode existir na matemática e na ciência, mas não na religião ou na mora­

lidade. A pressão para aceitar essa “tolerância acrítica” I está crescendo

ano após ano.

Você ouviu falar do “politicamente correto", a doutrina baseada em

Uum novo direito americano — j) direito de nunca ser ofendido. Se suas

opiniões batem de frente contraia agenda liberal oficial! é melhor per­

manecer quieto ou será acusado de “violência verbal”. Leis estão sendo

feitas para proibir todo discurso que seja ofensivo a um grupo minoritário.

Desnecessário é dizer que os grupos contra o aborto são uma ofensa

para muitas pessoas; da mesma forma são aqueles que não acreditam na

agenda homossexual; assim são os que acreditam em Cristo como o único

caminho que nos conduz a Deus.

“O propósito da educação”, lamenta Allan Bloom, “não é formar es­

tudiosos, mas proporcionar-lhes uma virtude moral — a franqueza”.3 Ele

afirma que a razão foi substituída pelo compromisso negligente, “um

exercício elevador da percepção, uma sentimentalidade sem valor”.4 A

busca da verdade entra em curto-circuito, porque a verdade, se de algu­

ma forma existe, está fora do nosso alcance.

Partimos da seguinte convicção: todo mundo tem o direito de ter suas

próprias opiniões, dentro do conceito de que toda opinião é igualmente

certa! Partimos do pluralismo genuíno, da concepção de que as religiões

O ÍCONE DA TOLERÂNCIA

3

3

do mundo podem coexistir pacificamente para o sincretismo, a idéia de

que as convicções das várias religiões podem ser combinadas a esmo.

Se você estivesse em um programa de entrevistas e declarasse: “Eu

creio em Cristo”, você seria aplaudido; mas se dissesse: “Cristo é o Salva­

dor do mundo”, vaias ecoariam pela multidão(No Parlamento das Reli­

giões do Mundo havia um seminário mostrando que o rio Jordão e o rio

Ganges são, na verdade, o mesmo fluxo religioso) Cristo e Krishna, o

time perfeito!

Como chegamos a esse ponto na história do mundo? Como chega­

mos à idéia de que matemática, ciências e história estão na categoria da

verdade racional, mas que moralidade e religião devem ser relegadas a

questões de gosto pessoal e experiência particular? Que condições na

sociedade tornaram possíveis para algumas pessoas acreditarem em idéias

contraditórias ou mesmo absurdas? O propósito deste capítulo é:

1. Dar uma olhada no espelho retrovisor para melhor entendermos de

onde viemos, ideologicamente falando, e para onde estamos indo.

Há razões para que a procura da verdade tenha terminado com um

suspiro e a resignação irremediável de que a opinião de cada indiví­

duo é igualmente tão certa quanto a de qualquer outro.

2. Entender como as idéias de nossa cultura afetaram as igrejas evan­

gélicas nos Estados Unidos. Podemos contestar furiosamente a

noção de que toda geração cria o seu próprio Deus, mas o fato

humilhante é que a nossa idéia de Deus — sim, até o Deus cristão

— também foi moldada pela cultura reinante.

A MEGAMUDANÇA IDEOLÓGICA

Nossa nação experimentou uma troca ideológica de proporções

titânicas. Agimos, diferentemente de nossos antepassados, porque pen­

samos diferente. Como nação abandonamos a busca de valores e, pior,

já não acreditamos que tais valores existam. Onde foi que saímos do

caminho?

3

4

CRISTO ENTRE OUTROS deuses

Explicarei esta megamudança alistando cinco características do pen­

samento moderno. Essas mudanças não aconteceram em fases precisas,

nem aconteceram em seqüência. Mas como iremos ver, todas estas cor­

rentes ideológicas estão relacionadas; uma leva inevitavelmente a outra

e cria um fluxo cada vez mais largo. Todos fomos afetados; o fim para o

qual elas conduzem deve compelir-nos a pôr-nos de joelhos.

Da Cosmovisão Centrada em Deus para a Cosmovisão

Centrada no Homem

Duzentos anos depois da Reforma do século XVI, a Europa conheceu

o iluminismo. Em Weimar, Alemanha, visitei a casa de Goethe e fiquei

impressionado com os artefatos provenientes do mundo inteiro, parti­

cularmente da Grécia e Roma, mas também da China e Japão. E óbvio

que Goethe apreciava a arte, mas ele também queria fazer uma declara­

ção teológica: outras religiões, até as religiões pagãs, podem produzir

uma cultura tão avançada quanto o cristianismo. Portanto, o cristianis­

mo não deve ser considerado como tendo lugar especial na história da

raça humana, mas estudado como uma entre muitas religiões que real­

mente ajudam.

Quando o homem viu-se como o centro de todo o conhecimento,

ele definiu religião de acordo com suas próprias expectativas e desejos.

A religião não era mais estimada como a busca do homem para correta­

mente ajustar sua vida às exigências de Deus, mas como um sistema de

crenças que o ajuda a atingir seu pleno potencial.

Joseph Haroutunian, destacado historiador, comentou:

Antes, a religião era centralizada em Deus. Antes, tudo o que não conduzia à glória de Deus era infinitamente mau; hoje, o que não contribui para a felicidade do homem é mau, ipjusto e impossível de atribuir à deidade. Antes, o bem do homem con­ sistia basicamente em glorificar a Deus; hoje, a glória de Deus consiste no bem do homem. Antes, o homem vivia para glorifi­ car a Deus; hoje, Deus vive para servir o homem.5

0 iluminismo não era contra a religião; apenas declarava que nosso

conhecimento de Deus não deveria vir da Bíblia, mas pela luz universal

da natureza. Como tais, todas as religiões do mundo eram essencial­

mente iguais, fundamentadas como estavam na observação natural e na

experiência. A Bíblia foi vista como um livro proveitoso, mas não consi­

derada a revelação de um Deus pessoal. A razão humana foi elevada

acima da revelação.

O iluminismo foi uma bênção mesclada. Por um lado, enfatizou a

liberdade religiosa e a tolerância no melhor sentido da palavra. Dois

séculos antes, a Reforma tinha inspirado nova vida espiritual em regiões

da Europa. Esta luz, porém, era freqüentemente oculta, senão extinta,

pelas controvérsias religiosas que se seguiram anos mais tarde. Podemos

entender por que as pessoas foram alimentadas com a intolerância da

era. Ele deu uma ênfase muito necessária na liberdade de aprendizagem

e na liberdade de consciência.

  • v Infelizmente, o iluminismo também introduziu densas trevas. Quan­

do a Alemanha (e toda a Europa, no que diz respeito ao assunto) resol­

veu optar por aquela teologia mais amável e gentil, referida anterior-

mente, o Evangelho de Cristo ficou obscurecido. Q homem tornou-se o

juiz da religião e da moralidade, e apesar dos ideais nobres, as trevas —

profundas trevas — desceram.

Crimes cometidos em nome da religião (e houve muitos) empalide­

ceram de insignificância em comparação com os crimes cometidos em

nome de uma visão ateísta do homem e do mundo. Não é apenas um

acidente histórico que Buchenwald, um dos campos de concentração de

Hitler, esteja situado a somente seis quilômetros de Weimar — uma iro­

nia que evidentemente não passou despercebida pelo Führer. Conta­

ram-me que ele teve o pervertido prazer de estabelecer um campo da

morte bem junto aos limites da cidade que era o orgulho da tolerância e

da glória do homem.

É um escândalo, além de irônico, que quando os homens se livram

idas disciplinas da religião revelada, a liberdade acabe em escravidão1! A

3

6

CRISTO ENTRE OUTROS deuses

tirania religiosa deve, é claro, ser abominada; mas quando o gênero hu­

mano usa a ambicionada liberdade para negar Deus, segue-se uma tira­

nia pior.

Quando perguntaram a Solzenitsyn como poderia tantos milhões de

pessoas serem brutalmente assassinadas sob a bandeira do ateísmo, ele

respondeu:‘(“Nós nos esquecemos de Deus”. Dostoiévski tinha razão:

“Quando Deus não existe, tudo é permitido’!

Falando dos falsos mestres, Pedro escreve: “Prometendo-lhes liber­

dade, sendo eles mesmos servos da corrupção. Porque de quem alguém

é vencido, do tal faz-se também servo” (2 Pedro 2.19).

Esta troca de pensamento levou a outras óbvias mudanças no modo

como a verdade (se é que ela

existe) foi vista. Jdéias trazem conseqüên­

cias. Quando subimos a bordo de um trem ideológico, temos de ir até o

seu destino final.

Da Autoridade Objetiva para o Relativismo

Quando o homem usa a liberdade para menosprezar a Deus, ele está

sozinho no mundo. Não obstante, ele tem de enfrentar perguntas decisi­

vas: qual é o propósito da vida? Qual é o bem mais sublime e como pode

ser obtido? De que maneira assuntos como moralidade e valores podem

ser

encontrados? A razão humana, com todo o

seu potencial, tem limita­

ções severas. Certamente o homem fez muitos avanços científicos; puse­

mos o homem na lua e inventamos computadores complicados que po­

dem fazer maravilhas num abrir e fechar de olhos. Somos notáveis e

realmente talentosos.

Mas quando se trata de assuntos de máxima importância, achamo-nos inca­

pazes de compreender a realidade que nos cerca. Podemos tra balhar com o

observável mundo da natureza e da ciência, mas quando especulamos sobre o

que se encontra além de nossas sensações, procuramos por entendimento, às

apalpadelas. O estudo científico pode nos ensinar como fazer uma bomba,

mas não pode nos dizer se ela deve ser usada ou como deve ser usada.

O ÍCONE DA TOLERÂNCIA

3

7

Considerando que não há maneira de medir a moralidade e a reli­

gião por nossas especulações, o homem tem de optar pelojrelativismo, a

visão de que não há ponto de referência fixo pelo qual a moralidade e as

religiões possam ser julgadas; Todas as culturas e, em última instância,

todos os estilos de vida, têm suas particularidades e, em grande parte,

estão muito além de qualquer avaliação.

Mas não podemos estabelecer valores com base no que realmente

promova a felicidade ou o bem geral de todos? De forma clara, como

possa parecer, é impossível. Em primeiro lugar, não há consenso do que

é “melhor” para o gênero humano. Para alguns pode não haver acordo

quanto ao modo como o “melhor” deve ser alcançado. Acrescente-se a

isso o egoísmo do coração humano, e temos de confessar que, se depen­

der de nós, cada um faz tudo “o que parece direito aos seus olhos”,

como disse o autor do livro de Juizes.

Nosso problema é que, nas palavras de William James, devíamos tê-

lo levado mais a sério quando ele disse que somos “como cachorros

numa biblioteca, que vêem os livros mas são sabem ler”. Como vítimas

de nossa liberdade autônoma, temos de engendrar nosso próprio signi­

ficado, buscar nossa própria felicidade e, ainda no fim, ver tudo pelo

que trabalhamos ser arrancado de nós na morte. Não admira nem um

pouco que alguns pensadores cometam suicídio!

Isto ajuda-nos a entender por que a religião nos Estados Unidos foi particu-

larizada. Quando houve rejeição à Bíblia, a base para a moral e o conhecimento

espiritual ruíram, e a religião foi reduzida a uma questão de opinião pessoal.

Cristo pode estar certo para algumas pessoas, o hinduísmo pode estar certo

para outras. Ou, preferivelmente, uma mistura dos dois pode ser o melhor

para outros indivíduos. Você pode criai- sua própria receita religiosa ajustável

ao gosto e preferências individuais. Como disse Martin Marty: ‘As,pessoas são

exigentes na escolha das verdades, como se estivessem na fila do almoço, até

que conseguem a combinação certa”. No fim do dia, todo o mundo está igual­

mente tão certo quanto o resto do mundo. E ai do intolerante que sugerir que,

quando as convicções estão em conflito alguém, este deve estai- errado.

3

8

CRISTO ENTRE OUTROS deuses

Woody Allen, que justificou sua relação sexual com a enteada, disse: “O

coração quer o que quer”. Tal como com a moralidade, assim é com a religião

—você tem a sua, eu tenho a minha e para nós não há como decidir quem está

certo. Aquilo em que meu coração acreditar torna-se certo para mim.

Da Objetividade ao Pragmatismo

Se não há ponto de referência fixo, se não há base objetiva para a

moralidade e a religião, então temos de aceitar o relativismo e seu

irmão ideológico gêmeo,'o'pragmatismo: o que funciona .seJorna

certo.

William James escreveu o livro Pragmatism (Pragmatismo), no

qual afirma que/se a hipótese de Deus funciona satisfatoriamen­

te no mais amplo sentido da palavra, então é verdade”.6 Ele per­

sistiu na afirmativa de que temos de adiar nossa resposta à per­

gunta “qual religião é a melhor”, pois “no final das contas, ainda

não sabemos com certeza qual religião vai dar mais certo”. Deve­

mos julgar todos os pontos de vista pelo quanto recebemos por

nossos esforços (ele o chamou de “valor líquido disponível” de

uma crença religiosa).

Michael Horton, em seu excelente livro Made in America The

Shaping of Modem Evangelicalism (Feito nos Estados Unidos—A con­

figuração do Moderno Evangelicalismo Americano), ressalta que hoje

o cristianismo tem de competir com uma variedade de programas de

auto-ajuda. Tem de produzir saúde, riqueza e felicidade. Sabe-se que o

hipnotismo ajuda a superar o vício de fumar; comprimidos podem ser

tomados para vencer a obesidade; e a terapia auxilia aqueles que são

sexualmente viciados. O cristianismo é comparado a uma total confu­

são de programas de auto-ajuda que garantem maximizar a quantida­

de de felicidade dos indivíduos mediante o sucesso financeiro e pesso-

-4 al. “Como um novo inseticida”, escreve Horton, “Deus tem de passar

no teste de utilidade para ser admitido no mercado”.7

O ÍCONE DA TOLERÂNCIA

3

9

Mas continuando Horton em sua demonstração, a Bíblia não foi es­

crita para competir com tais técnicas de auto-ajuda pragmáticas. “Temos

de nos voltar às Escrituras tanto para as perguntas como para as respos­

tas”, diz ele.8 A Bíblia insiste que o grande fim do homem não é atingir a

felicidade, mas antes, glorificar a Deus. É a maneira pela qual pecadores

depravados podem ser recebidos pelo Todo-poderoso. O cristianismo

promete libertação do pecado para aqueles que estão dispostos a ir a

Cristo em arrependimento e fé, e isto o torna totalmente diferente dos

erros da auto-ajuda. Este não é apenas outro numa série de livros, mas

um pertencente a um nível completamente diferente.

William James declara que precisamos de uma religião que funcione.

O cristianismo funciona? Pergunte aos mártires que não foram salvos

dos leões se a crença que tinham funcionava. Pergunte aos que buscam

a Deus para serem curados e, não obstante, morrem de uma doença

desumana. Pergunte ao indivíduo que ficou crente e a esposa o deixou,

por ser ela antagônica à crença recém encontrada por ele. Baseado em

nossas observações finitas, nem sempre o cristianismo funciona.

Agora é claro que se você perguntar se o cristianismo funciona em

nos reconciliar com Deus, se funciona em nos preparar para a morte e a

eternidade que nos espera, então sim, temos ótima razão para crer que

funciona muito bem. De fato, como o restante deste livro tentará mos­

trar, é a única crença que funciona. Mas não podemos julgar uma crença

baseados simplesmente na observação finita do dia-a-dia. O que parece

dar certo hoje, pode não dar certo amanhã. O que funciona nesta era

pode não funcionar na eternidade. Talvez o homem moderno não esteja

se perguntando como ele pode ser declarado justo por Deus, de forma

que venha a desfrutar o céu em vez de sofrer no inferno, mas essa é

precisamente a pergunta que o cristianismo afirma que responde.

Horton diz com correção que, quando o cristianismo é explorado

por sua utilidade, torna-se vulnerável à adaptação, fusão e estagnação.

Se tem de permanecer como “o poder de Deus para salvação”, não deve

4

0

CRISTO ENTRE OUTROS deuses

ser julgado pela observação imediata e superficial. Preocupa-se primari­

amente com questões decisivas, e não com a questão de como podemos

melhorar nossa existência cotidiana.

DA RAZÃO PARA 0 SENTIMENTO

A firme fé em Deus e a convicção na autoridade da Bíblia sempre leva­

ram à convicção de que, objetivamente, a verdade religiosa e moral pode

ser descoberta. Os puritanos, como os reformadores do século XVI, acre­

ditavam que não devia haver nenhuma separação entre o coração e a men­

te. Suas emoções eram estimuladas por grandes pensamentos sobre Deus

e seus caminhos no mundo. Os sermões puritanos combinavam teologia,

filosofia e discurso racional fundamentados na Bíblia como um modo de

encarar o mundo. Eles acreditavam que um coração fervoroso é proveni­

ente de uma mente ocupada que adora um Deus impressionante.

Outrora, a teologia era considerada a rainha das ciências, mas na

ausência de um conhecimento em base científica, ficou obsoleta. A ques­

tão para nós, pessoas dos tempos modernos, não é qual a idéia religiosa

que pode ser apoiada por dados racionais, mas qual a que nos faz sentir

melhor. A psicologia foi substituída pela teologia. A busca séria da verda­

de foi substituída pela busca da felicidade pessoal. 0 filósofo judeu Will

Herberg disse: “Estamos cercados por todos os lados pelos destroços de

nossa grande tradição intelectual

...

Em vez de liberdade, somos sugados

pelo redemoinho do prazer e poder; em vez da ordem, temos o selvático

deserto da falta de normas e o amor à boa vida”.9

0 pecado não é mais o grande inimigo do gênero humano, e sim a

tristeza. Sentir-se bem consigo mesmo é a prioridade número um. A Bíblia

é reduzida a um guia devocional para ajudai- as pessoas a entrai- em conta­

to com seus sentimentos. Assim o cristianismo é amplamente ignorado em

nossa cultura, apesar da excelente evidência de sua superioridade entte as

outras alternativas/Nossa cultura não está interessada em argumentos sé­

rios e evidência racional quando se trata dos assuntos de religião.

O ÍCONE DA TOLERÂNCIA

4 1

Horton destaca que essa ruína gradativa da busca intelectual da ver­

dade deixa o cristianismo sem defesa séria no mercado de idéias, um

mercado do qual é agora expulso. Alguns cristãos, para não serem so­

brepujados, têm tentado argumentar que se você acredita em Cristo,

sentir-se-á melhor do que com as outras alternativas. Mas o convertido

previdente pergunta: como você sabe o que me fará sentir melhor? Meus

sentimentos são de minha exclusiva propriedade!

O que acontece quando uma geração aceita a idéia de que só deve­

mos sentir e não pensar? As pessoas optam por opiniões que ficam aquém

das convicções.

Das Crenças para as Opiniões

Poucas pessoas acreditam em qualquer coisa, exceto (talvez) no direito

à própria felicidade. É compreensível que assim seja, pois se não existe a

verdade objetiva, então não existe nada pelo que valha a pena morrer; e

segue-se que também não exista nada pelo que valha a pena viver.

Harvey Cox escreveu:

A secularização realizou o que a fogueira e a prisão não conse­ guiram fazer; convenceu o crente de que ele pode estar errado, e persuadiu o devoto de que há coisas mais importantes do que morrer pela fé religiosa. Os deuses das religiões tradicio­ nais funcionam como fetiches particulares ou como proteto­ res de grupos congênitos, mas não desempenham absoluta­ mente nenhum papel na vida pública da metrópole secular.10

Deus tornou-se um fetiche particular. Sua principal função é ajudar-

nos a renovar nossa deteriorada auto-imagem. Aceitamos esses valores

de lazer, prazer e realização das próprias esperanças pelo esforço pesso­

al que fizeram nosso Deus parecer compatível com nossa cultura. Isto

nos forçou a retirar-nos do combate, quer por medo de que as evidênci­

as do cristianismo sejam duvidosas, quer pela percepção de que a base

de nossa fé não é importante. Num mundo onde o sentimento é o crité­

rio da verdade, fechamos nossas mentes e bocas e fingimos não notar.

4

2

CRISTO ENTRE OUTROS deuses

Então como viemos parar aqui? Quando rejeitamos a Bíblia que está

enraizada no solo da história e do pensamento racional, descobrimos

que a única alternativa foi reclassificar a religião e os valores como ques­

tões de opinião pessoal e experiências particulares. Sem a fundação, a

casa da religião/moral teve de ser movida para areias movediças, onde as

contradições e os absurdos tiveram de coexistir de alguma maneira.

Para mudar a figura de linguagem, quando a voz do árbitro foi abafa­

da por um coro de vozes competidoras, todo jogador ficou livre para

escrever as regras que satisfizessem as próprias necessidades. Conside­

rando que todo mundo tinha uma opinião diferente sobre o que era

melhor para si, perspectivas contraditórias tiveram de ser toleradas sem

a tentativa de arbitrar entre elas. A tolerância negligente tornou-se uma

necessidade pragmática.

Matemática, história e ciências ainda mantiveram o respeito e assim,

foram consideradas racionais e objetivas. Religião e valores foram pos­

tos num arquivo especial marcado: Opiniões Particulares. A verdade já

não era estimada como tendo qualquer tipo de universalidade, mas era

apenas uma declaração pessoal sobre o que nos faz sentir bem. Vinte e

duas mil mulheres reuniram-se recentemente em Mineápolis, para uma

conferência sob a bandeira da “Re-imagem”. A conferência enfatizou que

as mulheres deveriam formar as próprias opiniões sobre a deidade a

partir de experiências pessoais. A deusa SíjSfia foi honrada, exemplificando

que a teologia deveria ser gerada “de baixo para cima”.

Somos chamados a levantar-nos contra a insistência de nossa geração em

afirmar que a religião não lida com a verdade, mas é tão somente uma questão

de gosto pessoal, como alguém que gosta de jazz ou de Bach. No debate da

religião temos de encarar questões sobre a verdade. Quando as pessoas fize­

rem reivindicações religiosas, temos todo o direito de pedir-lhes as provas.

Não podemos deixar que as pessoas sintam-se confortáveis com uma crença

que as faz igualai' Cristo e Shirley MacLaine. Opiniões particulares devem ser

expostas pelo que elas são, e a pressão deve ser feita através da pergunta: “Que

evidências você tem para provai- que suas opiniões são de fato a verdade?”

O ÍCONE DA TOLERÂNCIA

4

3

Não podemos admitir a guerra ideológica em uma babel de vozes

contraditórias. Temos de redirecionar o enfoque da batalha para aquelas

questões que realmente importam. Podemos confrontar amorosamente

nossa geração com o Cristo do Novo Testamento. Podemos mostrar que

as evidências de sua credibilidade estão abertas à investigação. As raízes

de nossa fé podem ser expostas para que todos possam vê-las.

SUA RESPOSTA À MEGAMUDANÇA

Certo cidadão estava passando de automóvel por uma fazenda, quan­

do notou um celeiro que chamou-lhe a atenção. De um lado do celeiro

havia numerosos alvos e, no centro de cada um — direto na mosca —,

estava encravada uma flecha. Ele ficou surpreso ao pensar que alguém

pudesse ser tão hábil em tiro ao alvo. Parou o carro para felicitar o fazen­

deiro pela perícia com o arco e flecha. O fazendeiro ficou impassível:

“Isto não foi feito por mim”, explicou ele, “foi feito pelo idiota da aldeia.

Ele veio à minha fazenda, atirou as flechas no celeiro e pintou os alvos

em volta delas!”

Se é verdade, como disse Tozer, que o que cremos sobre Deus é a

coisa mais importante para nós, então precisamos perguntar: que tipo

de Deus a nossa sociedade criou? E até que ponto modificamos nossa

idéia de Deus levando em conta a pressão cultural? Preste atenção na

mídia, nos nossos pedagogos e até nos nossos líderes religiosos, e você

terá a impressão de que somos livres para atirar a flecha para onde quer

que desejemos. E um Deus benevolente aprovará cada lance!

O feminismo radical, a homossexualidade, uma pitada de misticismo

oriental combinados com um entendimento ocidental de ioga, entupi­

do com versículos bíblicos — tudo isso e muito mais pode ser seu. O

deus que você escolher irá, é claro, aplaudir seu direito de escolha! Não

há perdedores porque Deus existe para certificar-se de que todo mundo

acerte o alvo na mosca!

Mesmo nós, como evangélicos, parecemos ter-nos curvado diante da

tolerância dessa era. Alguns suprimiram a doutrina do inferno eterno a

4

4

CRISTO ENTRE OUTROS deuses

favor do aniquilacionismo, a interpretação de que os ímpios são lança­

dos no inferno e totalmente consumidos; outros vão mais longe e ensi­

nam que, apesar de Cristo ser o único caminho que nos leva a Deus, a fé

pessoal nEle não é necessária para a salvação.' “O meu Deus”, disse-me

um senhor com ênfase, “nunca castigaria uma pessoa sequer!”]

Harvey Cox argumenta que a moderna religião nasceu quando vie­

mos a acreditar que Deus poderia ser conhecido por “experiências reli­

giosas”. Assim, “uma crença que outrora proclamou um Senhor que le­

vantava e derrubava imperadores, que condenava a extorsão e a trapaça,

foi agora reduzida a ocupar-se exclusivamente com o espírito interior

ou, no máximo, com a ignorância entre indivíduos”. Cox cita Nietzsche,

que acusou os cristãos de domesticarem Deus: “Vocês engaiolaram-no

[Deus], amansaram-no, domesticaram-no e os sacerdotes complacente-

mente deram sua ajuda. O touro que muge tornou-se um boi apático.

Vocês castraram Deus!”11

Então como derrubaremos essa deusa chamada “tolerância acrítica”?

Primeiro, temos de insistir nas reivindicações do cristianismo bíblico.

Temos de disponibilizar as evidências de nossa crença por meio de nos­

sas vidas e palavras, fiemos de incentivar as pessoas a investigar as decla­

rações de Cristo e fazer perguntas difíceisj1 Por último, temos de perce­

ber que o mundo não precisa de nossas idéias sobre Deus, mas necessita

das idéias de Deus sobre Ele e seu relacionamento conosco. E visto que

há boas razões para acreditarmos que Ele revelou-se na Bíblia, precisa­

mos destacar por que todos os outros deuses são apenas ídolos.

Em termos bastante simples, possuímos uma mensagem que força as

pessoas a confrontar um Deus que providenciou um meio de redenção,

mas que não se dobra à pressão social nem fica brando com o tempo. A

proclamação de um Cristo que tem as credenciais para salvar é a nossa

única esperança.

Karen Armstrong, que acredita ser a idéia de Deus uma invenção

da mente humana, diz: /‘Somente o cristianismo ocidental faz um alvo­

roço com credos e crenças”.12 Ela insiste que nenhum cristão do sécu-

O ÍCONE DA TOLERÂNCIA

4

5

lo XX iria “importar-se em começar um argumento sobre a divindade

de Jesus ” ...

Eu o convido a unir-se a mim num grande avivamento! Venha comigo

enquanto investigamos alguns argumentos sobre a divindade de Jesus!

Vamos anunciar que o santuário da “tolerância acrítica” não resiste à

investigação! Vamos estabelecer um ponto e defendê-lo!

IfErnst Renan, o filósofo francês que perdeu a fé, escreveu: “Estamos

nos mantendo com o perfume de um frasco vazio”. Somente um enten­

dimento da singularidade de Cristo pode encher de novo o frasco. Preci­

samos de uma crença que corrija o coração e a mente.

Segundo, se desejamos destronar a tolerância acrítica, temos de en­

tender o que é a verdade. Antes de apresentar um retrato de Cristo com

a intenção de provar por que Ele é a única opção razoável em meio a

uma confusão de vozes contraditórias, precisamos responder à pergun­

ta que Pilatos fez a Cristo, pois ele saiu antes que recebesse a resposta.

“Que é a verdade”?

O que devemos dizer aos que acreditam ser a verdade algo pessoal e

subjetivo? Por que a religião não pode ser particularizada? E a ilustração

da roda mostrando-nos que podemos ser unificados se apenas nos ori­

entamos em direção ao cubo? Afinal de contas, quais são as característi­

cas da verdade?

Continue lendo.

NOTAS

  • 1. Karen Armstrong, A History ofGod (Nova York: Random House^

1993). Citações tiradas de Time, 27 de Setembro de 1993, p. 77.

  • 2. James Patterson e Peter Kim, The Day America Told the Truth

(Nova York: Penguin Group, 1992), p. 201.

  • 3. Allan Bloom, The Closingof the American Mind (Nova York: Simon

& Schuster, 1987), p. 26.

  • 4. Ibid, p. 64.

4

6

CRISTO ENTRE OUTROS deuses

  • 5. Joseph Haroutunian,

Piety Versus Moralism: The Passion of New

England Theology (Nova York: Harper & Sons, 1932), p. 145.

  • 6. WilliamJames, Pragmatism (Nova York: HoughtonMifflin, 1955),

p. 192.

  • 7. Michael Scott Horton, Made in America—The Shaping of Modem

American Evangelicalism (Grand Rapids: Baker, 1991), p. 49.

Este livro forneceu o estímulo para muitas das idéias encontra­

das neste capítulo.

  • 8. Ibid., p. 50.

  • 9. Citado em Made in America, p. 24.

  • 10. Harvey Cox, Religion in the Secular City: Toward a Postmodern

Theology (Nova York: Simon & Schuster, 1984), p. 200.

  • 11. Ibid.

  • 12. Armstrong, A History, citado em Time.

3

A BUSCA DA VERDADE

Se é verdade para mim, é verdade para você?

amos usar nossa imaginação e unir-nos a uma pequena congre­

gação nos arredores de Roma em 303 d.C. O culto informal

começou com oração, a cantoria dos hinos e vários crentes lei­

gos fazendo breves exposições da Palavra. Um orador, o ancião princi­

pal, tomou a palavra e está se concentrando para falar. Obviamente é

difícil a ele encontrar as palavras certas, mas está determinado e assim,

ficamos ouvindo-o.

Ele fala à congregação o que ela já suspeitava: o imperador Diocleciano

emitiu nova lei exigindo que todas as pessoas participassem na cerimô­

nia político/religiosa designada a unir a nação e reavivar o patriotismo

tardio no império. Especificamente, esta cerimônia envolve queimar um

pouco de incenso e dizer que “César é o Senhor”. Aqueles que cum­

prem o ritual recebem um selo de aprovação; os que não o fazem, po­

dem ser levados à morte.

Depois do discurso, os crentes fazem perguntas e discutem que res­

posta devem dar. A resposta não é tão evidente quanto parece. Em pri­

meiro lugar, eles na verdade não teriam de deixar de adorar o verdadei-

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8

CRISTO ENTRE OUTROS deuses

ro Deus; depois de terem jurado submissão a César como Senhor, esta-

riam livres para adorar em particular a qualquer deus que desejassem.

Toda religião é tolerada; a liberdade de cada um escolher o próprio deus

é em geral aceita. Há mesmo riqueza na diversidade.

Em segundo lugar, não se trata de mera decisão religiosa, mas políti­

ca. César convenceu-se de que não era possível ser bom cidadão sem

que se confirmasse seu senhorio. O argumento era que, se alguém tives­

se lealdade a um deus acima de César, não se poderia confiar em tal

indivíduo em tempos de emergência nacional, como por exemplo, na

guerra. Todos os bons cidadãos estavam dispostos a, como estava escrito

no édito, “adorar o espírito de Roma e o gênio do imperador”.

Em terceiro lugar, esta exigência era apenas uma vez por ano. Mesmo

que alguém mentisse, o perdão em Cristo estava prontamente disponí­

vel. Por que não arrazoar, como alguns fizeram: “Por um momento mi­

nha boca pertence ao imperador, embora meu coração sempre pertença

a Cristo”.

Roma era cruel. Muitos pagãos convertidos que agora estavam na

Igreja tinham observado em primeira mão a brutalidade dos cidadãos

romanos. Eles haviam sentado nas arquibancadas do Coliseu e assistido

a combates na arena entre gladiadores. Certa feita, tinham se alegrado

quando os cristãos foram lançados aos animais selvagens. Estavam pre­

sentes e viram quando os crentes clamaram a Deus por libertação. Não

obstante, foram estraçalhados para delírio das multidões sanguinárias.

Se Cristo fosse observado como uma opção entre muitas, os cris­

tãos poderiam prestar lealdade a outras expressões do divino. Por que

não encontrar áreas de concordância, à unidade central de todas as

religiões? Isto não apenas promoveria a harmonia, mas também o bem

comum do Estado. A escolha (no sentido exato da palavra) não era se

os cristãos adorariam a Cristo ou a César; era se eles adorariam a Cris­

to e a César.

Interessante é observar que os pagãos de hoje não vêem conflito

entre a adoração ao imperador e a adoração dada por cada um ao seu

A BUSCA DA VERDADE

4

9

deus. De fato, os romanos satisfizeram as nações que conquistaram cons­

truindo o Panteão, um bonito templo para que nele fossem colocados

todos os deuses e deusas dos povos conquistados. Criam que cada deus

representava o mistério da divindade. Por que fechar-se em uma expres­

são da transcendência, quando parece que todas as religiões estão di­

zendo a mesma coisa? Como veremos, o paganismo antigo e o moderno

sempre têm tolerado outros deuses finitos.

Enquanto o ancião falava ao pequeno ajuntamento, criancinhas de

rostos tristes seguravam com força o braço de suas mães/Se os pais rejei­

tassem o imperador e morressem, quem cuidaria delas? Não seria me­

lhor fazer a confissão política e viver para o benefício dos pequeninos? O

ancião exorta os crentes a permanecerem fiéis à fé cristã, mas ele está

ciente de que alguns darão a César o que ele exige. Essas pessoas afir­

mam ter descoberto que há mais áreas de concordância entre as crenças

de Roma e do cristianismo do que a princípio se pensava.

O que você faria? O que eu faria? Não podemos julgar aqueles que

adoraram César, porque não sabemos o que teríamos feito se enfrentás­

semos decisão semelhante. Mas a maioria dos cristãos — abençoados

sejam eles — recusou acreditar que Cristo pudesse estar no mesmo pata­

mar que os deuses pagãos. É por isso que os cristãos não queriam que

Roma criasse um nicho para Jesus no Panteão pluralista que fizeram.

Entender Cristo era vê-lo tão único e tão especial que lealdade dividida

não podia existir num coração honesto, nem sequer por um momento.

A Roma oficial detestava tal exclusivismo, a idéia de que Cristo era o único

caminho para Deus. Os romanos acreditavam que os cristãos eramSntipatrióticos

(leia-se “politicamente incorretos”) /para oporem-se aos deuses oficiais, que

aparentemente não se importavam com a concorrência. Roma também tinha

outras reclamações dos cristãosfRumores circulavam acerca de canibalismo

praticado entre eles (afinal, eles não afirmavam que comiam a carne de Cristo

e bebiam o seu sangue?). Mas na maioria dos casos, tolerância era o nome do

jogo — tolerância para aqueles que mostravam tolerância! Mas os que não

transigiam suas convicções religiosas ficavam esperando os leões.

~

5

0

CRISTO ENTRE OUTROS deuses

Nossa escolha hoje é mais sutil, mas em princípio é a mesma que os

primitivos cristãos enfrentaram. É verdade que não temos de adorar a

César, embora muitos queiram fazer-nos crer que não há autoridade além

do Estado. Nem precisamos temer que nossas vidas estejam em perigo

se comprometermos nossa fé cristã. Mas a tentação existe — a tentação

de dividir nossa lealdade, de coroar Cristo, o Senhor, para depois dar

coroas menores a realezas concorrentes.

Podemos ver isso muito claramente naquele que afirma ser “budista

cristão”, ou no professor de Escola Dominical que mescla o cristianismo

com ioga ou outras crenças da Nova Era. Mas tais misturas de lealdade

também são toleradas quando o cristianismo é combinado com a psico­

logia secular ou a noção crescente de que o problema do mal pode ser

resolvido acreditando-se num Deus finito. Também vemos isso no indi­

víduo que compromete sua integridade para manter o emprego. A tenta­

ção à idolatria, o forte desejo de combinar Cristo com outros rivais, sem­

pre está conosco. Sempre somos tentados a ser mais tolerantes do que

Deus.

0

propósito deste capítulo é derrubar o ídolo da “tolerância acrítica”,

mostrando:

1. Que é logicamente absurdo acreditar que todas as religiões do

mundo podem ser igualmente certas. Q

2. Que a verdade tem determinadas características que são

transculturais; religião particular é uma contradição.

3. Que nós, individualmente, precisamos ter a certeza de que a

verdade religiosa é objetiva, aplicável a todo o mundo.

Conta-se a história de um homem que perdeu uma chave e procura-

va-a sob a luz de uma luminária de rua, embora a tivesse derrubado mais

ao longe rua acima. Quando lhe perguntaram por que ele não procurava

onde a derrubara, ele disse que queria estar onde a pudesse ver! Somos

todos assim. Todos encaramos a vida pela luz que nos é familiar. Mas

A BUSCA

DA VERDADE

5 1

quando buscamos a verdade, devemos estar dispostos a deixar áreas que

nos são familiares e prosseguir em nossa procura para onde quer que

ela nos conduza.

Não leia este capítulo superficialmente! Venha comigo enquanto

fazemos uma pequena excursão a algumas das principais religiões do

mundo, para ilustrar por que elas não podem ser igualmente verdadeiras.

Visto que parece haver algumas semelhanças, temos de descobrir se as

diferenças são significativas. Depois examinaremos a noção popular que

diz: “Cristo pode ser a verdade para você, mas não para mim”. Uma crença

torna-se verdadeira se tão-somente acreditarmos nela com sinceridade?

AS RELIGIÕES DO CONFLITO MUNDIAL

Em The Decline and Fali ofthe Roman Empire (O declínio e queda

do Império Romano), Edward Gibbon declarou que, durante o declínio

do Império Romano, todas as religiões eram consideradas igualmente

verdadeiras pelas pessoas, igualmente falsas pelos filósofos e igual­

mente úteis pelos políticos!

Será que as pessoas estavam com a razão? Todas as religiões do

mundo poderiam ser igualmente verdadeiras? O filósofo John Hick, em

seu livro The Myth ofChristian Uniqueness1 (O mito da singularidade

cristã) discute que o cristianismo não tem nada de especial que o reco­

mende. Se a unidade tem de ser obtida, temos de nos render à idéia de

que uma religião deve ter preferência sobre outra. De fato, um dos cola­

boradores do livro, Wilfred Kantwell Smith, afirma que não há tal coisa

de idolatria. Todas as religiões têm como centro comum alguma experi­

ência do transcendente, quer de madeira ou de pedra ou mesmo nossa

reflexão do próprio Jesus. Considerando que Deus aceita toda adora­

ção, a reivindicação de singularidade é blasfêmia!

Espero que ao terminar a leitura deste capítulo, você concorde

que este ponto de vista é ilógico e totalmente errado. Pior, conduz a

conclusões alarmantes.

5

2

CRISTO ENTRE OUTROS deuses

Ravi Zacharias observou que a maioria das pessoas acha que todas as

religiões do mundo são essencialmente as mesmas e apenas superficial­

mente diferentes. Mas disse ele que o oposto é que é verdadeiro: as

religiões do mundo são essencialmente diferentes e apenas superficial­

mente as mesmas.

Vamos fazer uma rápida comparação entre algumas das princi­

pais religiões no que tange a somente dois pontos doutrinários: (1) A

compreensão que tais religiões têm de Deus como Ser Supremo; e (2) A

doutrina da salvação que preconizam.

O Ser Supremo

Como você pode ter adivinhado, as principais religiões não-cristãs

não só discordam em relação ao entendimento que têm do Ser Supre­

mo, ou Deus, mas nem mesmo concordam entre si se tal Ser (de qual­

quer descrição) existe!

O hinduísmo acredita em 300.000 deuses. A maioria dos devotos

venera ou adora alguns favoritos, mas respeita todos. Se perguntamos

como esses deuses podem coexistir pacificamente, a resposta é que

(eles só representam uma força impessoal, o Brahma, o Único, a Alma

do Cosmo. Nossa meta é perder nossa identidade nessa unicidade su­

prema.

O hinduísmo não se preocupa com contradições, por conseguinte,

há muitos e freqüentes caminhos contraditórios para a mesma realidade

suprema. A lógica existiria num plano mais baixo. A medida que nos

aproximamos do Supremo, todas as distinções desaparecem e tudo con­

verge no Um. Como as outras religiões orientais, o hinduísmo é melhor

descrito como uma árvore com muitos ramos diferentes e contraditóri­

os. Considerando que absorveu muitas idéias pagãs, não tem um corpo

de doutrinas claramente definido.

O xintoísmo, encontrado principalmente no Japão, é animista e acre­

dita que os deuses (kami) moram em todas as criaturas — até nas árvo­

A BUSCA DA VERDADE

5

3

res, no solo ou objetos. Mas não pensemos que esses deuses são distin­

tos dos objetos em que habitam; são parte do mundo natural. Esses deu­

ses são indiferentes à moralidade e não fazem nenhuma contribuição

para a batalha entre o bem e o mal. Visto que os deuses raramente se

ofendem, o pecado não existe. Desarmonia, sim; pecado, não.

Em contraste, a maioria dos budistas nem mesmo acredita em um

deus (ou deuses). Quando o Parlamento das Religiões do Mundo publi­

cou uma ética global, nem chegou a usar a palavra Deus, porque alguns

budistas teriam ficado ofendidos. Os monges insistiam que quando um

budista reza, está na verdade meditando, falando consigo mesmo.

O islamismo é monoteísta (declara crer em um Deus apenas), con­

ceito tomado por empréstimo da tradição hebraico-cristã. Esta deida­

de não é uma trindade, e está tão distante de nós que nunca poderia

tornar-se homem. Alá não é o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo,

mas era, na realidade, a deidade tribal de Maomé, que elevou seu deus

à posição de Governante Supremo.2 Alá também não pode ser associa­

do a outros deuses não-cristãos por causa do credo básico: “Não há

nenhum Deus, senão Alá, e Maomé é o seu profeta”. Sua distância

moral e espiritual de nós torna necessário que ele fique em grande

parte afastado dos acontecimentos deste mundo. O fatalismo, muitas

vezes cruel, governa.

A última linha é: as religiões não-cristãs não podem sequer concordar

com uma compreensão básica do Ser Supremo. Pense em quão vastas as

diferenças seriam se comparássemos essas idéias com o cristianismo!

A Doutrina da Salvação

Os hindus e os budistas crêem que estamos presos num ciclo de

renascimentos; nós transmigramos, embora não esteja claro como o fa­

zemos. Ambas as religiões acreditam que o problema do homem não é o

pecado, e sim a ignorância. Através da meditação e obediência, pode­

mos ser tirados da confusão para a realidade.

5

4

CRISTO ENTRE OUTROS deuses

Mas neste ponto, as duas religiões separam-se: os budistas estão

comprometidos com os oito caminhos de Buda e esperam pelo nirvana,

a eliminação de todo desejo. Os hindus, por sua vez, buscam a liberta­

ção do karma mediante a ação abnegada e desinteressada. Os xintoístas

não têm uma doutrina clara da vida após a morte e, por isso, crêem

que a salvação vem pelo esforço de se ter uma vida saudável e robusta

aqui e agora.

No islamismo, a salvação vem pelo fazer a vontade de Alá, o que está

decifrado em “os cinco pilares”. No dia do julgamento alguns serão con­

signados para o inferno e outros para um paraíso repleto de delícias

sensuais. Os adoradores de outros deuses (que não sejam de Alá) irão

sem dúvida para o inferno; mas ninguém, nem mesmo um muçulmano

dedicado, pode saber com certeza qual é o seu destino eterno. A pessoa

só pode esperar que no dia do julgamento o bem venha a exceder em

valor ao mal.

Se tivéssemos tempo para explorar estas religiões com mais deta­

lhes, descobriríamos que respostas diferentes são dadas às perguntas

mais básicas. Há um Deus ou muitos? Ele (ou eles) é pessoal ou impes­

soal? O nosso problema é o pecado ou a ignorância? A salvação é ter uma

vida saudável ou é a restauração a um Deus ou deuses? Ou é libertar-se

de um ciclo de renascimentos? Se existe um céu ou um inferno, como é

que eles são?

Por ora, basta percebermos que se todas as religiões do mundo fos­

sem igualmente verdadeiras, o universo seria um hospício cósmico! Co­

locando em outras palavras, se todas as religiões do mundo fossem

igualmente verdadeiras, a lógica exigiria que todas elas fossem igual­

mente falsas: As doutrinas conflitantes se excluiriam mutuamente!

Não aceite a idéia de que essas diferenças lógicas são importantes

apenas para os ocidentais. As religiões orientais afirmam que as contra­

dições podem existir lado a lado. ‘A verdade”, afirmam, “não

é questão

de uma ou de outra, mas é uma síntese tanto de uma quanto da outra”.

A BUSCA DA VERDADE

5

5

Desta forma, as contradições não precisam ser solucionadas. Mas aque­

les que são críticos da lógica servem-se da lógica numa vã tentativa de

ser bem sucedidos em explicar seu ponto de vista.

Talvez você se lembre de que em Alice no País das Maravilhas,

Alice era capaz de acreditar em seis contradições antes do café da ma­

nhã. Mas qualquer pessoa que acredite em duas contradições antes do

almoço, deve, sinto dizer, ser declarado louco! Deixe-me dizer enfati­

camente que as leis da lógica são transculturais; são igualmente aplicá­

veis tanto para o hindu quanto para o muçulmano; aplicam-se da mes­

ma maneira tanto para o budista quanto para o cristão. É lógico que

todas as religiões do mundo podem ser falsas, mas nem todas podem

ser verdadeiras.

Exemplo: não podemos simplesmente crer que há um só Deus (cristianismo) e que também haja 300.000 deuses legíti­ mos (hinduísmo). Não podemos crer que nirvana, céu, paraí­ so, inferno, libertação do karma e perda da identidade pesso­ al em um supremo impessoal sejam todas doutrinas compatí­ veis.; Como disse C. S. Lewis: “Aqueles que buscam tolices encontramTsso mesmo”.

Reflita nisto: se as leis da lógica são nulas, nenhum oriental pode me

criticar por crer no oposto do que ele crê. Ele pode acreditar que a ver­

dade é tanto uma quanto a outra, uma síntese de duas doutrinas contra­

ditórias. Mas eu posso acreditar que a verdade é uma ou a outra, ou seja,

que a verdade tem de seguir as rígidas leis da lógica. Ainda que nossas

opiniões entrem em conflito, isso não deveria nos preocupar, visto que

o oriental acredita que as contradições existam lado a lado. Mesmo que

eu acredite que ele está completamente errado, ele não pode contestar

minhas conclusões. Afinal de contas, a menos que a verdade seja consis­

tente e lógica, pode-se acreditar sempre no oposto do que o outro acre­

dita. Em tal mundo, o disparate

é rei!

^ l? :,.

^

A Bíblia é muito clara ao afirmar que não pode existir nenhuma contra­

dição. A presença da verdade significa que o outro lado está errado.

5

6

CRISTO ENTRE OUTROS deuses

Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis; porque que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas? E que concórdia há entre Cristo e Belial? Ou que parte tem o fiel com o infiel? E que consenso tem o templo de Deus com os ídolos? Porque vós sois o templo do Deus vivente (2 Co 6.14-16).

Todas as religiões do mundo não podem ser igualmente verdadeiras.

Devemos escolher, porque as diferenças são tão profundas quanto a luz e

as trevas, Deus e Satanás, céu e inferno. Distinções doutrinárias são impor­

tantes, muitas vezes contraditórias e logicamente necessárias.

TODAS AS RELIGIÕES REIVINDICAM

A VERDADE PARA SI

Se as religiões do mundo entram em choque uma com a outra, como

a unidade pode ser obtida? Obviamente cada religião teria de fazer sua

declaração da verdade e só falar que tem uma perspectiva diferente da

verdade. Mas o problema é que mesmo essas “perspectivas” estão em

pronunciado conflito. Os filósofos podem nos pedir que abandonemos

qualquer noção da verdade, mas isso é impossível sem que se destrua a

essência da religião.

Como todo religioso sabe, os hindus crêem no karma e na reençar-

nação, pois acham que estas doutrinas correspondem às coisas do modo

como são (crêem que são verdadeiras). Os cristãos acreditam na Trinda­

de e energicamente discordam do islamismo, que nega a deidade de

Cristo e afirma ser Maomé o profeta de Deus. Será que algum dos segui­

dores destas religiões estará disposto a dizer: “Eu creio nessas doutri­

nas, mas não afirmo que sejam verdadeiras”? Acho que não.

Se as religiões do mundo rendessem sua declaração à verdade, ne­

nhum hindu jamais conseguiria apresentar evidências do karma e ne­

nhum budista discordaria dos cristãos que acreditam em um Deus pes­

soal. A religião seria não mais que um assunto cultural ou de preferência

pessoal. Você consegue imaginar todo o mundo concordando de ante­

A BUSCA DA VERDADE

5

7

mão que discutir religião é discutir o erro, porque nenhuma religião

declara que tem a verdade?

Dizem que podemos evitar esse impasse despojando nossas dou­

trinas de qualquer significado literal e buscando um significado sim­

bólico oculto. Durante uma apresentação noturna no Parlamento das

Religiões do Mundo, ouviu-se uma voz pelo sistema de som: “Estamos

construindo um lugar sagrado que abrigará todas as nossas polarida­

des e os nossos paradoxos”. Em outras palavras, a meta era construir

um edifício religioso flexível o bastante para alojar as crenças do

mundo inteiro sob um telhado espiritual. Se não fôssemos tão taca­

nhos e tivéssemos a disposição de dar um pouco, quem sabe poderia

ser feito.

Vamos descobrir por que tal meta não é logicamente possível. A ver­

dade não pode ser curvada para acomodar as religiões do mundo. O que

me leva à pergunta: afinal, o que é a verdade?

CARACTERÍSTICAS DÁ VERDADE

“Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis

meus discípulos e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, fa­

lou Cristo aos discípulos (Jo 8.31,32). Quer acentuemos a autoridade

de Cristo, quer não, temos de concordar que a verdade tem certas carac­

terísticas necessárias.

A Verdade É Universal

Quando Cristo afirmou que a verdade existe, isso, necessariamente,

implica que a falsidade também existe. Suas opiniões pessoais sobre re­

ligião podem ser verdadeiras; mas neste caso, elas também serão verda­

deiras para todos. Se você conhece um amigo que diz: “Cristo é a verda­

de para você, mas não para mim”, diga-lhe com amor:f“Você tem direito

à sua própria opinião particular, mas não tem direito à sua própria ver­

dade particular!”/

5

8

CRISTO ENTRE OUTROS deuses

A matemática é transcultural; é tolice dizer que 2 + 2 = 4 é mera

idéia ocidental. A ciência e a tecnologia também baseiam-se em princípi­

os universais aplicáveis em todos os lugares, em todas as épocas. Quan­

do um astrônomo acha uma nova estrela, ele não mudou a natureza do

universo; apenas achou algo que já existix A verdade existe objetiva­

mente fora de nós mesmos. Não a criamos; só a descobrimoij.

Esta objetividade também se aplica ã religião, ou será que a religião é

meramente pessoal e subjetiva? A lógica exige que, se há um Deus, então

não há dois, três ou dez. Se o que Cristo disse é verdade, então o que

disse Bahá’u’lláh é falso. Você pode morar vizinho à uma ótima família

mórmon, mas o mormonismo e o cristianismo não podem ser ambos

verdadeiros. Os dois podem ser falsos, mas não podem ser igualmente

verdadeiros. E se uma religião do mundo é objetivamente verdadeira, é

verdadeira para todos. A questão é se nos envolvemos com uma religião

que reflita as coisas do modo como elas são no universo.

Temos de resistir à moderna concepção de que existe estreita distin­

ção entre o mundo dos fatos objetivos (matemática, ciências etc.) e o

âmbito da religião, que muitos acreditam que deveria ser relegado ao

mundo privado da opinião pessoal e das preferências individuais. A reli­

gião, se é digna de assim ser chamada, afirma que faz declarações factuais

sobre a realidade espiritual. Isto significa que toda religião tem a respon­

sabilidade de dar evidências às suas reivindicações da verdade. Tais evi­

dências precisam estar acessíveis aos crentes e não crentes igualmente.

Cristo apresentou-se como o único e exclusivo Salvador capaz de

levar homens e mulheres a Deus Pai (razões para isso serão dadas em

capítulos subseqüentes). Logicamente isso exclui todos os outros mes-

tres/gurus que afirmam poder levar homens e mulheres a Deus. Nem

Cristo pode ser o Salvador apenas para o mundo ocidental sem sê-lo

para o mundo oriental. Se Ele é a verdade, é a verdade para o mundo

inteiro. Se a pessoa aceita ou não a Cristo é questão à parte, mas ou Ele

é a verdade para todos ou não é a verdade para ninguém.

A BUSCA DA VERDADE

5

9

A inscrição pregada em cima da cruz não é prova da universalidade

de Cristo, mas é notável ilustração disso. Embora Pilatos tivesse escrito

a legenda em três idiomas para benefício dos que visitavam Jerusalém

durante a Páscoa, harmoniza-se com as mesmas afirmações de Cristo ser

o Senhor, o Rei. Era costume colocar uma placa acima da cabeça do

criminoso, de modo que os passantes pudessem saber que crime o le-

/

vou ã condenação. As palavras acima da cabeça de Cristo eram: “ESTE E

JESUS, O REI DOS JUDEUS” (Mt 27.37). Em João 19.20 lemos: “E muitos

dos judeus leram este título, porque o lugar onde Jesus estava crucifica­

do era próximo da cidade; e estava escrito em hebraico, grego e latim”.

Estas eram as três línguas mais importantes do mundo antigo.

Estava escrito em hebraico. Era a língua da religião. Ao longo dos

séculos, Deus revelou-se por esse belo idioma. Abraão foi chamado o

hebreu; os profetas falavam a mesma língua. Este foi o idioma que trans­

mitiu-nos a revelação do Antigo Testamento. Em sua morte, Cristo rei­

vindicara para si o reino da religião.

O grego era o idioma da cultura. Os gregos podiam pegar barro e

pedra e com isso criar artigos de rara beleza. A perfeição de suas escultu­

ras ainda não tem rival. Na filosofia deram-nos Platão, Sócrates e

Aristóteles, cujos ensinamentos têm intrigado o mundo. E quando Ale­

xandre, o Grande, partiu em suas conquistas, disse que pretendia

helenizar o mundo inteiro. Cristo, como ficará claro, declarou ser maior

do que os nobres cultos de sua época.

Latim era o idioma do governo. Do esplendor das sete colinas de

Roma, os césares tinham orgulho de governar a terra inteira. Eles cons­

truíram extensas estradas e estabeleceram comércio até no ponto mais

distante do mundo conhecido de então. O objetivo era fincar a bandeira

romana em cada rincão. O idioma que transmitiu seu sistema de leis, o

idioma no qual o mundo foi treinado para pensar no governo e no co­

mércio foi o latim. Cristo afirmou que, posteriormente, Ele regeria o

mundo (Mt 25.31).

ram de um guru para ajudar a purificá-los no encontro. Que encontros

interessantes ocorrem naquele “cubo” religioso da roda!

6

0

CRISTO ENTRE OUTROS deuses

Quando Cristo disse: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Nin­

guém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6), parece evidente que Ele não

pensou em si como a verdade para algumas pessoas, mas não para ou­

tras. Em outro lugar disse: “E eu, quando for levantado da terra, todos

atrairei a mim” (Jo 12.32). Se encontramos a verdade nas ciências, histó­

ria, matemática ou religião, ela tem objetividade e universalidade.

Deixe que aqueles que rejeitam Cristo o rejeitem, mas também en­

tendam que se Ele não é a verdade para eles, também não é a verdade

para os seguidores de Cristo. Se Ele é o único e suficiente Salvador do

mundo, como declarou ser, todos os outros estão excluídos. Se Ele é

somente o Salvador para alguns, então suas afirmações são falsas e Ele

não é Salvador de ninguém.

“A verdade”, diz Carl F. Henry, “não está sujeita à revisão como estão

os horários das companhias aéreas

...

0 bom e o verdadeiro não podem

ser reduzidos a qualquer coisa que Hollywood e Madison Avenue apro­

vem momentaneamente, ou a tudo quanto sociólogos dominados pela

cultura e humanistas seculares recomendem”.3 Podemos discordar inde­

pendente do que seja verdade e do que seja errado, mas nunca pense­

mos que verdade e erro não existam.

A Verdade É Consistente

  • 0 cristianismo afirma que nem mesmo Deus é capaz de contradizer-se a

si mesmo. Ele não pode negai- e afirmai- a mesma coisa, da mesma maneira e

ao mesmo tempo. Se pudesse, então não se poderia crer em nenhuma das

suas promessas, pois o conttário poderia ser igualmente verdadeiro!

Assim, o que respondemos a essa gente de mentalidade ecumênica,

afirmando-nos que devemos descartar nossas diferenças e nos unir com

base na experiência interior? Pense novamente na roda (descrita no ca­

pítulo 1). Ela supostamente ilustra que, à medida que as diferentes reli­

giões (raios) se orientam para o cubo, são unificadas. Pense comigo e

veja se esta ilustração é útil ou enganosa.

A BUSCA DA VERDADE

6

1

Primeiro, presume-se que verdade e erro podem fazer o que os raios

de uma roda fazem. É certo que os raios podem ser dispostos de manei­

ra tal, que se convergem para o centro. Mas se os raios acuradamente

representassem a verdade e o erro, teriam de jazer paralelos um ao ou­

tro. Estariam dispostos como trilhos de trem que correm paralelamente

e estariam assim por toda a eternidade. Mesmo na eternidade, dois mais

dois nunca seriam cinco. O erro nunca se torna em verdade, e a verdade

não se torna em erro,

Segundo, esta ilustração dá a impressão que, quando se deixa o aro

(a doutrina) e se move em direção ao centro, nada importante é perdido

no processo. Disseram que a doutrina é o aspecto menos importante da

religião e, portanto, pode ser comprometida ou reinterpretada em di­

versos graus. /Mas não é a parte externa do aro a mais importante? Não é

o que está no aro externo (a doutrina) que determina o que experimen­

tamos no cubo?

Como ilustração, ressaltei que o cristianismo afirma ter Deus provi­

denciado só um Salvador para o mundo, isto é, Jesus Cristo. Outra dou­

trina cristã é que Satanás existe e pode proporcionar experiências enga­

nosas àqueles que tentam aproximar-se de Deus por meio de algum ou­

tro mestre, técnica ou doutrina. Pense nestas doutrinas como estando

no aro da roda. Podemos descartá-las e nos orientar para o cubo em

benefício da unidade? Não. Porque o que experimentamos no cubo é

determinado pelo que acreditamos no aro! '

—— —

-*•

■*■

...

Fiquei surpreso no Parlamento das Religiões do Mundo, pela quanti­

dade de pessoas que concordou comigo quando falei de minha convic­

ção de que Satanás é freqüentemente encontrado na meditação

transcendental. Alguns responderam: “Sim, encontramos o maligno, mas

temos de passar por ele para chegar ao outro lado”. Outros admitiram

que sim, eles ficaram familiarizados com o poder de Satanás e precisa­

ram de um guru para ajudar a purificá-los no encontro. Que encontros

interessantes ocorrem naquele “cubo” religioso da roda!

6

2

CRISTO ENTRE OUTROS deuses

Como cristãos, interpretamos o “cubo” pelo “aro”. Cremos que Sata­

nás se deleita em extremo quando as pessoas o experimentam e pensam

que estão encontrando o “Ser Supremo” (Deus) ou um deus de qual­

quer tipo. Quando advertiu contra os falsos mestres, Paulo disse que

eles se transfigurariam em apóstolos de Cristo: “E não é maravilha, por­

que o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz” (2 Co 11.14). O

cristianismo insiste que toda experiência deve estar baseada em doutri­

na correta. Nenhum cristão sensato poria de lado suas convicções fun­

damentais por causa de uma experiência indefinida e possivelmente

enganosa. A doutrina correta produz experiências legítimas; a falsa

doutrina produz experiências enganosas.

O que acontece quando a religião é reclassificada como nada mais que

opinião pessoal? O homem moderno já não tem um critério pelo qual

idéias competitivas sobre Deus possam ser julgadas. Como Lesslie Newbigin

ressaltou: Hitler estava certo que tinha uma missão de Deus. Confiamos na

palavra de Hider acerca disso? Se não, em que base negamos seu testemu­

nho?4 Sem um padrão objetivo, cada pessoa é livre para seguir até um deus

demoníaco e não temos motivo racional para lhe dizer que ela está errada.

Em um mundo de pluralismo destituído de crítica, onde a idolatria é im­

possível, a idéia que cada pessoa faz de Deus ou dos deuses tem tanta

validade quanto a de outra pessoa. Reconhecidamente, Cristo tem as qua­

lificações para arbitrar entre perspectivas contraditórias.

Mas o que dizemos ao indivíduo que afirma: “Sou adepto do mis­

ticismo oriental, e isso dá certo para miml” Temos de lembrá-lo de

que há diferença entre a pergunta: “Dá certo?” e: “O que é a verda­

de?” Todos sabemos que o erro pode “dar certo” (isto nos faz lem­

brar do menino que na Escola Dominical disse: “Mentir é abomina-

ção ao Senhor, mas sempre ajuda nas dificuldades!”). Sim, uma men­

tira pode dar certo. Mas quando o erro dá certo, dá certo apenas por

um tempo limitado e para um propósito definido. Nenhum erro pode

dar certo indefinidamente. Só a verdade perdura nesta vida e na vida

que há de vir.

A BUSCA DA VERDADE

6

3

A Verdade Pode Ser Conhecida

Até os céticos devem, pesarosamente, admitir que pelo menos um pouco

da verdade pode ser conhecida. Mesmo a negação de que a verdade pode

ser achada é, em si, afirmação da “verdade”. Os céticos que desdenham os

conceitos religiosos acreditam que os insights de tais conceitos devem ser

considerados “verdadeiros”. Não existe o cético genuíno.

Cristo disse: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo

8.32). Ele afirmou que a verdade pode ser conhecida. Isto não quer di­

zer que podemos conhecer a verdade religiosa exaustivamente, pois so­

mos limitados em entender a nós mesmos e ao nosso relacionamento

com Deus. Vemos por meio de vidro embaçado, mas vemos.

Pelo fato de ser o cristianismo uma revelação de Deus, declara que

não só temos a verdade, mas que ela chegou até nós de uma forma que

podemos entender. A procura da verdade não é inútil. Amar a Deus é

amar a verdade.

A Verdade Liberta

Os céticos concordam que passamos a vida buscando a verdade. Tal­

vez queiramos descobrir a verdade sobre nosso companheiro de traba­

lho,

nossos vizinhos e nosso cônjuge. A comunicação presume que exis­

te a verdade e o erro; também presume que a verdade é preferível ao

erro, e saber esta diferença é importante para nosso bem-estar.

O mesmo pode ser dito a respeito da verdade religiosa. Se existe e

pode ser conhecida, destrancaria muitos mistérios que infestam a men­

te. Como chegamos aqui? Qual é o propósito de nossa existência? O que

acontecerá no futuro? Como obter realização pessoal? A verdade tem

poder; é libertadora.

Quando Cristo disse que a verdade liberta, estava falando de certo

tipo de liberdade, uma liberdade que muitas pessoas podem não se pre­

ocupar em ter, mas que pelo menos alguns a buscariam. Os judeus não

se viam como havendo sido escravos de quem quer que fosse, por isso

6

4

CRISTO ENTRE OUTROS deuses

sentiam-se confusos pelas palavras de Cristo. Ele não estava falando so­

bre liberdade política ou econômica. Estava falando sobre liberdade es­

piritual, o privilégio de ser livre da tirania do pecado. Ele ensinou que,

no fim, esse tipo de liberdade é o mais importante de todos.

A Verdade Deve Ser Apreciada

Por que os cristãos disseram não quando os romanos quiseram criar

um nicho para Jesus no Panteão? Porque entenderam duas premissas: pri­

meira, há uma brecha intransponível entre o Deus infinito e pessoal e

todos os deuses finitos. Visto que há boas evidências de que os deuses

finitos são invenção humana, é compreensível que tais deuses sejam indi­

ferentes à rivalidade! Um deus finito tem de abrir espaço para outro. Deu­

ses finitos podem harmonizar seus atributos variegados e contraditórios,

porque individualmente não fazem nenhuma reivindicação da verdade

objetiva. Assim, o movimento da Nova Era pode se dai- ao luxo de promo­

ver uma tolerância de toda espécie de deuses, uma tolerância a qualquer

quantidade de deuses finitos. O mesmo acontece com o movimento

ecumênico, ou com o Parlamento das Religiões do Mundo.

Mas na presença do Deus infinito e pessoal, todos os outros deuses

têm de desaparecer: “Porque o SENHOR é Deus grande e Rei grande

acima de todos os deuses” (SI 95.3). Este Deus corretamente tem ciúmes

de sua própria honra e por isso proclama no primeiro mandamento:

“Não terás outros deuses diante de mim” (Ex 20.3). Deuses finitos têm

de se tolerar uns aos outros; mas confrontados pelo Todo-poderoso,

têm de ser reduzidos. Desta forma, provam que realmente não são deu­

ses coisa nenhuma.

A segunda premissa é que os cristãos primitivos compreenderam que

Cristo não foi apenas um profeta, guru ou líder religioso. Creram que Ele

foi o Salvador, aquEle que descera do céu, não só para nos instruir, mas

também nos libertai- de nossos pecados. Viram-no como o Único Deus

verdadeiro, manifesto em carne. Viram César ser esmagado sob os pés de

A BUSCA DA VERDADE

6

5

Cristo. Então como poderiam dar sua máxima lealdade a um mero ho­

mem, quando tinham empenhado máxima lealdade ao Deus-Homem?

E que eles identificaram uma brecha intransponível entre o cristia­

nismo e todas as outras opções. Creram que procurar a verdade religio­

sa em outro lugar era chegar a um beco sem saída. Qualquer semelhança

entre a religião deles e as religiões de Roma era superficial e enganosa.

Seu compromisso era com a verdade, sua universalidade e consistência.

Eles teriam concordado com o bispo Neill: “Se o cristianismo for purga­

do de sua singularidade, será transformado em algo diferente de si mes­

mo; é como tirar cloro do cloreto”.

Quando minimizamos a diferença entre o cristianismo e as outras

religiões, perdemos o núcleo central dos seus ensinos. O restante deste

livro é dedicado a mostrar que Cristo permanece único, incomparável e,

em última instância, sem oposição.

Venha comigo enquanto o procuramos.

NOTAS

  • 1. John Hick e Paul F. Knitter, editores. TheMyth ofChristian Uniqueness:

Toward a Pluralistic Theology of Re ligions (Mary Knoll, Nova York:

Orbis Books, 1987).

  • 2. Robert A. Morey, Islam Unveiled (Shermans, Pensilvânia: The Scholars Press, 1991), pp. 46-51.

  • 3. Carl F. Henry, Christian Countermoves in a Decadent Culture

(Portland: Multnomah, 1986), p. 110.

  • 4. Lesslie Newbigin, “Religious Pluralism and the Uniqueness of Jesus Christ”, InternationalBulletin ofMissionary Research, Abril de 1989, p. 50.

4

UM

NASCIMENTO

/

EXTMORDINARIO

  • 0 que é preciso para ser salvador?

ocê provavelmente já leu esta história pungente no jornal de

sua cidade: uma avó estava tomando conta de sua neta de dois

anos, quando a pequenina caiu na piscina. Embora a mulher

não soubesse nadar, ela pulou na água num esforço desesperado de

salvar a criança. Horas depois os corpos de ambas foram encontrados no

fundo da piscina.

Se você está se afogando, precisa da ajuda de alguém que satisfaça

duas exigências: Primeiro, a pessoa precisa querer salvá-lo, mas isso em

si não é o suficiente; segundo, a pessoa deve ter a capacidade de salvá-

lo. Você não será trazido à praia com sucesso por alguém que está afun­

dando. Só alguém que domine a água, alguém que tenha controle do

seu ambiente imediato, pode tornar-se salvador. Um salvador não pode

ser alguém que precise ser salvo!

A Bíblia ensina e nossa experiência confirma que somos pecadores,

e, na qualidade de raça, separados de Deus. Nossos próprios esforços

em nos transformar a nós mesmos podem melhorar nosso estilo de vida

ou mesmo nossas atitudes, mas fundamentalmente permanecemos

6

8

CRISTO ENTRE OUTROS deuses

inalterados. Nossa maior necessidade é ser perdoados, reconciliados com

Deus e salvos da tirania presente e conseqüências futuras de nosso peca­

do. Para isso, precisamos de um Salvador.

Neste ponto o cristianismo e todas as outras religiões se separam.

Toda religião tem seus profetas, seus mestres ou gurus que nos dizem

como podemos melhorar a nós mesmos, como podemos nos tornar nosso

próprio salvador de tipo duvidoso. Na prática, dizem-nos que estamos

nos afogando, mas eles nos ajudarão a tornar mais confortável nossa

descida ao fundo do oceano. Ou talvez afirmem que nos darão aulas de

natação. Mas só um Salvador — um Salvador qualificado — pode nos

alcançar e nos arrebatai- do poder das correntes submarinas.

Cristo e só Cristo reivindica que tem o poder de nos alcançar com

mão poderosa. Ele não vocifera ordens dizendo que se nadarmos com

mais afinco poderemos viver alguns minutos a mais. Ele não nos oferece

uma mão vacilante dizendo: “Sou um companheiro de lutas como você;

vamos nos dar as mãos e ir juntos ao fundo”. Nem nos indica a direção

da praia e deixa o resto conosco. Ele sabe, mesmo que não saibamos,

que nosso apuro é sério, que nossa tentativa de corrigir nosso relaciona­

mento com Deus é impossível. O propósito da vinda de Cristo foi decla­

rado antes do seu nascimento, quando o anjo disse a José: “E ela dará à

luz um filho, e lhe porás o nome de JESUS,

porque ele salvará o seu

povo dos seus pecados” (Mt 1.21). Ele mesmo fez sua descrição de cargo

anos mais tarde “O Filho do Homem veio buscar e salvar o que se havia

perdido” (Lc 19.10).

Claro que sempre houve aqueles que quiseram despojá-lo de suas

qualificações. Os estudiosos liberais e os gurus da mídia freqüentemente

insistem que Cristo está se afogando, da mesma maneira que nós. Quan­

do Martin Scorsese dirigiu o filme “A Ultima Tentação de Cristo”, disse:

“Tentei criar um Jesus que, de certo modo, é como qualquer sujeito da

rua”. Quando terminou, ele tinha um Cristo que nem mesmo era profe­

ta, muito menos Salvador. Este Cristo nem mesmo era merecedor de

respeito, muito menos de adoração.

UM NASCIMENTO EXTRAORDINÁRIO 6 9

Quando olho para mim mesmo, quando me conscientizo de minha

pecaminosidade e da santidade de Deus, preciso de algo mais que outro

“sujeito da rua” que é tão pecador quanto eu. Não preciso de aulas de

natação; preciso de alguém que me pegue, me limpe e me leve a Deus.

À PROCURA DE UM SALVADOR SEM PECADO

No Parlamento das Religiões do Mundo andei pela área de exposi­

ções à procura de um profeta/mestre/salvador inocente. Perguntei a um

swami1 hindu se algum dos seus mestres declarava não ter pecado. “Não”,

respondeu ele, mostrando-se irritado com minha pergunta, “se alguém

declara que não tem pecado é porque não é hindu!”

E Buda? Disseram-me que ele não fez tal declaração. Ele encontrou

um grupo de ascetas e lhes pregou sermões. Ensinou que todas as coisas

exteriores são só distrações e encorajou uma vida de disciplina e con­

templação. Buscou iluminação e exortou seus seguidores a fazerem o

mesmo. Buda morreu buscando iluminação. Não há inocência aqui.

E Bahá’u’lláh? Ele disse que teve uma revelação de Deus, mais comple­

ta e mais iluminada do que as que ocorreram antes dele. Embora estivesse

convencido da veracidade dos seus ensinos, ele fez poucas reivindicações

pessoais. Ele julgava que seus escritos eram “mais perfeitos” do que os

outros, mas nunca reivindicou ser perfeito ou estar sem pecado.

Quando fui aos representantes da fé muçulmana, eu já sabia que no

Alcorão o profeta Maomé admitiu que precisava de perdão. Eles concorda­

ram. “Não há nenhum Deus, senão Alá, e Maomé é o seu profeta” é o

credo básico dos muçulmanos. Mas Maomé não era perfeito. Novamente

não há inocência aqui.

Por que eu estava procurando um Salvador sem pecado? Porque não

quero ter de confiar num salvador que está no mesmo apuro que eu.

Não posso confiar minha alma eterna a alguém que ainda está trabalhan­

do suas próprias imperfeições. Considerando que sou pecador, preciso

de alguém que esteja em nível mais alto.

7

O

CRISTO ENTRE OUTROS deuses

É compreensível que nenhum dos líderes religiosos com os quais

falei nem mesmo afirmasse ter um Salvador. Disseram que seus profetas

mostravam o caminho, mas não tinham a pretensão de serem capazes de

pessoalmente perdoar pecados, ou transformar mesmo um único ser

humano. Como um sinal de trânsito, eles davam direções, mas não po­

diam nos levar para onde precisamos ir. Se precisamos de salvação, te­

mos de obtê-la por nós mesmos. A razão é óbvia: não importa o quão

sábio, o quão talentoso, o quão influentes os outros profetas, gurus e

mestres possam ter sido. Eles tiveram a presença de espírito de saber

que eram imperfeitos como o resto de nós. Nunca presumiram poder

alcançar o fundo das águas sujas da depravação humana e levar os peca­

dores à presença de Deus.

Como Cristo era diferente!

“Quem dentre vós me convence de pecado? E, se vos digo a verdade,

por que não credes?” (Jo 8.46). Ele mostrou a hipocrisia na vida dos

seus críticos, mas nenhum deles respondeu ao cumprimento.

Judas, amigo aparente que virou inimigo, disse: “Pequei, traindo san­

gue inocente” (Mt 27.4).

Pilatos, que procurou alguma falta em Cristo, confessou: “Não acho

culpa alguma neste homem” (Lc 23.4).

Pedro, que conviveu com Jesus por três anos, afirmou que Ele “não

cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano” (1 Pe 2.22).

O apóstolo Paulo disse de Deus Pai: “àquele que não conheceu pecado, o fez

pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Co 5.21).

Ou Jesus era sem pecado ou foi o maior dos pecadores por enganar

tantas pessoas sobre sua inocência. Como C. E. Jefferson declara: ‘A. :

melhor razão que temos para acreditar na inculpabilidade de Jesus é o

fato de que Ele permitiu que seus mais queridos amigos pensassem que ;1

Ele era sem pecado”.

Por que Cristo era isento de pecado com o qual estamos tão bem

familiarizados? Se Ele, como nós, houvesse nascido de um pai huma­

no, teria tido a natureza pecaminosa que é passada de pai para filho.

UM NASCIMENTO EXTRAORDINÁRIO

7

1

Se de modo natural tivesse sido o filho de Adão, Ele teria sido pecador.

A concepção virginal preservou sua inocência. Maria experimentou

um milagre especial que assegurou a perfeição do seu Filho. Ele era

como nós, mas com uma diferença importante.

A NECESSIDADE DO NASCIMENTO VIRGINAL

Para ser Salvador, Cristo tinha de satisfazer três exigências. Primeiro, Ele

tinha de ser do sexo masculino, nascido de mulher, como predito em Gênesis

3.15. Ele tinha de ser um de nós para nos redimir. Nenhum anjo poderia ter

levado nosso pecado; Ele tinha de nos representar sob todos os aspectos.

Segundo, Ele tinha de ser sem pecado para ter a perfeição que Deus

exige. Como pecadores, não podemos pagar nosso próprio pecado mesmo

que sofrêssemos para sempre, muito menos pagar pelo pecado de outra

pessoa. Se o sacrifício foi aceito, dependia do seu valor, da sua perfeição.

Terceiro, Ele também tinha de ser Deus, de forma que pudesse ser

dito que o próprio Deus empreendeu uma missão de salvação para re­

conciliar a humanidade pecadora. Se a salvação é do Senhor, Ele tinha

de prover o próprio sacrifício que exigiu.

Revisemos este trecho de teologia: quando Adão pecou, todo o gêne­

ro humano foi envolvido. Assim como o enorme carvalho está na bolota,

assim todos estávamos em Adão e herdamos sua pecaminosidade. Paulo

deixou claro que todos nós não apenas pecamos em Adão, mas por ele

somos pecadores por natureza. Se Cristo tinha de ser sem pecado, então

não podia ter um pai humano.

Mas Cristo não poderia ter nascido como criança comum e, então, mais

tarde (talvez no batismo), ser infundido com a natureza divina? Isso foi suge­

rido, mas essa teoria apresenta outro problema, ou seja, o que teria aconte­

cido com os pecados que Ele teria cometido antes desta transformação? Cris­

to não se tornou alguém diferente; Ele sempre foi a mesma pessoa.

Outros têm argumentado que, se Cristo tivesse pai humano, Deus ain­

da poderia ter providenciado um milagre e tê-lo feito sem pecado. Visto

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CRISTO ENTRE OUTROS deuses

que Deus é capaz de todos os tipos de milagres, isto é possível, mas como

escreveu Alva J. McClain: “Um homem sem pecado no reino moral seria

um milagre maior do que o nascimento virginal no reino biológico”.

Note o quanto é claro o ensinamento da concepção virginal: “Ora, o nasci­

mento de Jesus Cristo foi assim: Estando Maria, sua mãe, desposada com José,

antes de se ajuntarem, achou-se ter concebido do Espírito Santo” (Mt 1.18).

Lucas registra: “E disse Maria ao anjo: Como se fará isso, visto que

não conheço varão? E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre ti o

Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra;

pelo que também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de

Deus” (Lc 1.34,35). A criança já era santa antes de nascer!

Deus, tenho certeza, poderia ter preservado a inocência de Cristo de

diferentes maneiras, mas Ele escolheu fazê-lo pela concepção virginal. O

feto é descrito como “o Santo, que de ti há de nascer”, palavras que não

podem ser aplicadas a qualquer um de nós. Como nós Ele foi concebido

de mulher, mas sem pecado. A encarnação já aconteceu no útero de Maria.

Como poderíamos esperar, sempre tem havido aqueles que negam o

nascimento virginal. Tais indivíduos estão determinados a despojar Cris­

to de suas credenciais de Salvador; insistem que Ele foi somente um

homem com a capacidade de nos direcionar a ideais éticos, mas não

mais qualificado do que nós para içar-nos de nossa própria

pecaminosidade. Talvez Ele até possa nos dar algumas “aulas de nata­

ção”, mas é incapaz de nos estender uma mão poderosa.

Talvez você tenha se batido com sua crença no nascimento virginal de

Cristo. Pode ser que você tenha ouvido falar que está baseada em antigas

mitologias encontradas em outras religiões e diversas lendas pagãs. Vamos

investigai- algumas destas objeções e ver se elas fazem sentido.

OBJEÇÕES AO NASCIMENTO VIRGINAL

A oposição a esta doutrina começou cedo na história da igreja e con­

tinua até hoje.

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CRISTO ENTRE OUTROS deuses

lhos. Estas narrativas são, para citar as palavras de Robert Gromacki, “ba­

nhadas em santidade”. Há um golfo moral e ético que separa as narrati­

vas do Novo Testamento da mitologia pagã.

Em contraste com estas lendas, os escritores do Novo Testamento

eram sóbrios e comedidos, e é evidente que pretendiam ser enten­

didos literalmente. Os relatos do nascimento são narrados com mo­

deração e têm dignidade, plausibilidade e elevado caráter moral.

É digno de nota que os rumores pagãos sobre os deuses que

engravidaram mulheres surgiram depois que os indivíduos ficaram fa­

mosos. Não há nenhum documento que dê a entender ter reivindicado

tais milagres na época do próprio nascimento. Em contraste, a concep­

ção virginal de Cristo foi predita.

Os Relatos Procederam de Fontes Judaicas

Alguns pensam que o nascimento virginal foi inventado para preser­

var a reputação de Maria. O argumento é que ela ficou grávida, quer seja

de José ou de um homem que disse ser mensageiro de Deus. Para enco­

brir o relacionamento imoral de Maria, ela e seus amigos circularam a

história sobre o nascimento virginal.

Ou há os que dizem que foi inventado para cumprir a profecia. Segun­

do o argumento, os judeus, com base em Isaías 7.14, estavam esperando

que o Messias nascesse de uma virgem e, então, atribuíram este milagre a

Cristo. Contudo é interessante notar quê não há evidência alguma de que

mesmo um rabino judeu tivesse esperado que o Messias nascesse de uma

virgem. De uma moça solteira, sim, mas de uma virgem, não. Podemos

supor que tivessem pensado assim, mas não pensaram.

Estes dois pontos de vista acusam Maria de ser adolescente sexu­

almente ativa. Mas estas especulações negligenciam o fato de que

Lucas era historiador cuidadoso, que afirma explicitamente que in­

vestigou tudo, havendo boa probabilidade de ter falado diretamente

com Maria para obter a história dela. Se ela estivesse mentindo so­

UM NASCIMENTO EXTRAORDINÁRIO

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bre a gravidez, ele teria sabido. Claro que José também teria sabido

da verdade. No que diz respeito ao assunto muitas pessoas de Nazaré

ficariam sabendo.

Os cristãos primitivos tinham uma paixão em disseminar a fé cristã.

Certamente que não teriam encoberto as narrativas sobre Cristo com

uma história de reputação duvidosa, a qual teriam suspeitado que nin­

guém acreditaria. Eles criam no relato e outros também, porque tinham

os sinais de autenticidade. Não são as semelhanças das lendas que nos

impressionam; são as dessemelhanças.

Vamos examinar mais detidamente uma versão contemporânea da teo­

ria de que o nascimento virginal foi inventado pelos escritores sacros.

Os Relatos Têm um Significado Oculto

John Shelby Spong é bispo de Newark, em New Jersey. Seu novo

livro, Bom ofa Woman: A Bishop Rethinks the Birth of Jesus (Nascido de

Mulher: Um Bispo Repensa o Nascimento de Jesus) é outra tentativa de,

nas suas palavras,/“salvar a Bíblia dos fundamentalistas”. Seus

arrazoamentos são que (1) as narrativas do nascimento existentes no

Novo Testamento são histórias fantasiosas que não devem ser considera­

das literalmente; (2) Maria muito provavelmente foi vítima de estupro;

(3) o nascimento virginal contribuiu imensamente para uma ótica artifi­

cial e destrutiva da mulher, porque Maria foi usada para forçar as mulhe­

res a se ajustar no papel estereotipado da maternidade; e (4) é provável

que Jesus fosse casado, muito verossimilmente com Maria Madalena.2

Spong foi criado como fundamentalista bíblico, amando a Bíblia com

todo o seu ser. Diz que quando abandonou o fundamentalismo, não

deixou de amar a Bíblia, mas desabituou-se de interpretá-la literalmen­

te. Segundo suas palavras, este método não-literal deu-lhe nova aprecia­

ção pelo significado mais profundo da Bíblia.

Assim temos de perguntar: será que os autores dos relatos dos

evangelhos queriam que “devassássemos, implicássemos e dissecás-

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CRISTO ENTRE OUTROS deuses

semos a história sagrada à procura de significados ocultos, preen­

chendo os espaços vazios e buscandopistas da verdade ainda a ser

j-evelada”, como diz Spong?3 Seu afgumentl) é que os leitores origi-

( nais dos evangelhos teriam entendido que estas eram histórias ima-

j ginárias, mas uma geração centenas de anos mais tarde, distinto das

\ raízes religiosas judaicas e com uma mentalidade ao estilo ocidental,

/ pensa que os relatos ou têm de ser considerados literalmente ou são

mentiras descaradas.

“Não havia nada de objetivo acerca da tradição do Evangelho. Estas

não eram biografias. Eram livros para inspirar fé”, escreve Spong.4 Mateus

e Lucas não estavam mentindo, porque sabiam (ou pelo menos pensa­

vam) que ninguém acreditaria neles.

Spong está muito errado em suas suposições. Ele afirma que os escrito­

res do Novo Testamento estavam na verdade escrevendo comentários so­

bre as Escrituras, observações soltas que eles sabiam que eram lendas. Mas

qualquer estudante imparcial do Novo Testamento concordará que os au­

tores pretenderam escrever um relato direto do que aconteceu, não uma

história fantástica para evocar respeito e admiração. Eles não estavam fa­

zendo um comentário sobre a Escritura, estavam escrevendo-a.

Spong faz o mesmo que todo teólogo liberal, isto é, reescreve a histó­

ria para fazer com que saia de acordo com sua preferência. Este tipo de

revisão não é apenas feito por aqueles que estão interessados em fomen­

tar determinada teoria política (marxismo, por exemplo), mas também

por aqueles que promovem certa tendência religiosa. Revisar a história

quando novos fatos históricos vêem à luz, é uma coisa; fazê-lo por causa

de certas pressuposições pessoais, é outra.

Aqui temos o mesmo antigo dilema que os liberais sempre têm de

enfrentar: Depois de despojar Cristo de suas credenciais de Salvador,

não sobra nada de valor em que acreditai! Spong começou

dizendo que

nunca se teve a intenção de que o nascimento virginal fosse entendido

literalmente, mas que inspirasse fé. Fé em quê?

UM NASCIMENTO EXTRAORDINÁRIO

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Ele diz que o relato foi escrito para “inspirar e gerar respeito e admira­

ção”, mas quanto a mim, “respeito e admiração” evaporam bem depressa

se tais relatos não são verdadeiros. Ficamos com um Cristo cujo pai foi

estuprador, um Cristo que provavelmente era casado, um Cristo que é

pecador justamente como nós. Com certeza não temos um Salvador.

Isto não é cultura, é incredulidade. Spong é absolutamente insistente

que o Jesus dos evangelhos seja reduzido a mero homem. Ele escolheu

negar o nascimento virginal (e outros milagres) somente para fazer com

que os relatos se conformassem com sua incredulidade. Nega o nascimen­

to virginal porque nega a encarnação, ou pelo menos o reinterpreta para

esvaziá-lo de seu significado. Como todos os liberais, suas conclusões es­

tão baseadas no que ele acredita que Deus não pode fazer.

Esqueça o velho ditado que diz que quer você acredite ou não no

nascimento virginal é questão de interpretação. A Bíblia não é um livro

que possa ser interpretado de qualquer forma que se escolha. Certa­

mente há discordância honesta em alguns textos e até nos temas doutri­

nários. Mas o nascimento virginal e os milagres de Cristo são claros e

desprovidos de ambigüidade.

A pergunta é se queremos

acreditar neles.

A incredulidade impulsionou Spong para suas opiniões,

não uma tenta­

tiva imparcial de interpretação.

Spong tem um programa de trabalho facilmente identificável em

todas as páginas dos seus escritos. Embora nunca tenha me encon­

trado com ele, seu livro não me diz nada de precioso sobre Cristo,

mas muito sobre ele mesmo, o autor. Por exemplo, é de meu conhe­

cimento que Spong é a favor dos direitos dos homossexuais, porque

em um livro anterior, Rescuing the Biblefrom the Fundamentalists

(Salvando a Bíblia dos Fundamentalistas),jele apresenta argumentos

a favor de mais tolerância para a comunidade gay e sugere que o

apóstolo Paulo era homossexual.5'Também sei que ele é feminista,

porque afirma que o nascimento virginal até certo ponto é culpado

da opressão das mulheres (presumivelmente porque dá a impressão

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CRISTO ENTRE OUTROS deuses

de que gerar filhos é elevada vocação). Estou bem informado sobre

o quanto ele repugna os fundamentalistas, e o quanto gosta de a

tudo dar conotação sexual. Sei o quanto (ou o quão pouco) ele crê.

Spong pegou o Jesus do Novo Testamento e fez com que Ele se ajus­

tasse à sua concepção pessoal do que Jesus deve ser. Nesse livro encon­

tro Spong, mas não encontro Cristo. Inconscientemente, o bispo escre­

veu sua própria biografia!

Ao discutir seus pontos de vista, ele escreve: “Não permitirei

que meu Cristo seja definido dentro do literalismo mortal

...

(itá­

lico meu).6 Ele diz

que não sujeitará o seu Cristo a interpretações

literais. Mas quem é esse Cristo? Como saber se o Cristo dele é o

verdadeiro? E óbvio que ele criou o seu Jesus particular, não aces­

sível a todos. Spong deveria ter dado o seguinte título ao seu livro:

Meu Jesus muito Particular — Convicções Pessoais de um Bispo

tornadas Públicas.

Quando Spong nos tenta com uma rede de especulação sobre Je­

sus ter-se casado com Maria Madalena, revela seu método de interpre­

tação bíblica. Em uma perceptiva crítica intitulada Who wasJesus (Quem

era Jesus?), N. T. Wright mostra que Spong excluiu-se de todo estudo

histórico sério, a fim de se abrir a “um mundo onde o exegeta moder­

no pode construir uma história fantasista segundo os interesses de

uma ideologia atual, no caso de Spong, uma resoluta insistência de em

tudo levantar questões sexuais”.7 No fim ele fecha o círculo: tendo

presumido que Mateus e Lucas inventaram histórias para refletir suas

próprias ideologias, Spong inventa histórias para promover também

as suas próprias ideologias.

Se Spong pensa que seus livros irão “salvar Jesus dos fundamentalistas”

(os quais provavelmente somos nós, meus amigos), ele deveria saber que

essas fartas objeções liberais de um Cristo milagroso foram respondidas

muitas vezes por estudiosos gabaritados. Pensar que seu livro extinguirá a

fé dos verdadeiros crentes é crer que se pode apagar fogo com palha!

UM NASCIMENTO EXTRAORDINÁRIO

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