Anda di halaman 1dari 11

UM MINISTÉRIO CENTRADO NA PALAVRA DE CRISTO

Maria Cecilia Alfano1

“Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna” (Jo 6.68). Dificilmente
um cristão deixaria de declarar que em Cristo temos garantia plena de vida eterna. No entanto,
a quem vamos para encontrar alívio pleno diante dos dilemas do dia a dia? O entendimento da
psicologia como a ciência que oferece explicações e alívio para a alma tem contribuído para
que a Igreja procure integrar dois mundos −a psicologia e a Bíblia − na esperança de oferecer
uma resposta mais completa e eficiente para os problemas da vida.

Após várias décadas de tentativas integracionistas, o próprio termo integração está ainda
confuso em seu significado, mais perto de um slogan que de um empreendimento acadêmico
genuíno ou uma metodologia prática efetiva.2 A psicologia cristã ou psicoteologia, que deveria
unir o melhor dos dois mundos, não tem se mostrado viável. Gary Collins, cujo trabalho serve
de referência para os psicólogos cristãos, diz que “a Palavra é o fundamento a partir do qual
integramos o cristianismo na psicologia”3. No entanto, em seu livro Can You Trust Psychology?
(Você Pode Confiar na Psicologia?), ele faz esta declaração esclarecedora:

Não há como provar isso. É apenas uma questão de intuição. Eu espero que não
seja verdadeiro. Mas conversar com conselheiros cristãos ao longo dos anos,
deixou-me com a desconfortável impressão de que a maioria deles não
aconselha de modo muito diferente de seus colegas não cristãos.4

Outros têm igualmente afirmado que os psicólogos cristãos não aconselham de modo
distintamente cristão. A declaração abaixo foi feita por um participante de um encontro da
Christian Association for Psychological Studies:

Com frequência, perguntam-nos o que são “psicólogos cristãos” e é difícil


responder, pois não sabemos quais as implicações da questão. Nós somos
cristãos que são psicólogos, mas atualmente não há uma psicologia cristã que é
marcadamente diferente da psicologia não-cristã. É difícil dizer que funcionamos
de maneira que seja fundamentalmente distinta dos nossos colegas não-
cristãos....não há uma teoria aceitável, modelo de pesquisa ou tratamento,
metodologia que seja distintamente cristã.5

O verbo integrar traz o sentido de completar, unir, incorporar, acomodar. Falando a


respeito do empreendimento integracionista, o psicólogo Robert Roberts6 explica que ele
acontece quando um elemento originalmente estranho a um sistema é introduzido neste
sistema. O processo evolui à medida que o sistema e o elemento ajustam-se um ao outro,
cada um deles mudando de algum modo para que ocorra a acomodação. O estado de
integração é alcançado quando o elemento e o sistema ajustaram-se um ao outro
suficientemente para produzir uma nova versão do velho sistema, em que o elemento
integrado funciona harmoniosamente como parte. Após a integração, nem o sistema nem o
elemento permanecem os mesmos.

Parece-nos evidente o fracasso em alcançar por meio da integração um sistema sólido,


exegética e teologicamente bíblico. Raramente aqueles que a praticam questionam a fundo a
visão de mundo que há por trás do sistema ou sistemas em que foram treinados ou que
adotaram, e então se expõem ao perigo de deteriorar a mensagem central das Escrituras. A

1
Este texto é parte da dissertação apresentada no programa Master in Arts of Biblical Counseling em The
Master’s College, Santa Clarita, Califórnia, em 2004.
2
JOHNSON, Eric L., JONES, Stanton L. A history of Christians in psychology. In: JOHNSON, Eric L.,
JONES, Stanton L. (edits). Psychology & Christianity: four views. InterVarsity Press, 2000.
3
COLLINS, Gary. Can you trust psychology? Downers Grove, Ill.: InterVarsity, 1988, p. 112.
4
COLLINS, Gary. Can you trust psychology? Downers Grove, Ill.: InterVarsity, 1988, p. 51.
5
BOBGAN, Martin, BOBGAN Deidre. Against biblical counseling: for the Bible. Santa Barbara, Calif.:
EastGate, 1994, p. 20.
6
ROBERTS, Robert C. A Christian psychology view. In: JOHNSON, Eric L., JONES, Stanton L. (edits).
Psychology & Christianity: four views. InterVarsity Press, 2000.
intenção pode ser boa, mas integrar alguns elementos do cristianismo (geralmente, uma
oração e versículos colhidos aqui e ali) nas psicologias e adaptá-los para uso na psicoterapia
evidencia um comprometimento básico com as psicologias e geralmente resulta em mau uso
da Palavra de Deus.

Os escritos integracionistas soam como cristãos pelos muitos termos bíblicos presentes.
Collins expressa um pensamento bastante comum ao dizer: “...amor, esperança, compaixão,
perdão, bondade, confrontação e vários outros conceitos são partilhados por teólogos e
psicólogos”7. No entanto, Richard Ganz alerta: “Collins esquece que as definições destes
conceitos na psicoterapia são de longe diferentes das definições bíblicas”.8 Aprender a amar a
si mesmo, perdoar a si mesmo, perdoar a Deus, eliminar o complexo de culpa, são apenas
alguns exemplos de ensinos apenas aparentemente bíblicos. Ao lado destes, alguns termos
estranhos à Palavra são acrescentados, resultando num cristianismo diluído onde o pecado
torna-se doença ou disfunção e o homem pecador passar a ser apenas disfuncional.
Certamente os dois sistemas são afetados: a psicologia ganha um jargão cristão que lhe é
estranho e a mensagem de Cristo é enfraquecida.

A tendência integracionista é trabalhar com pouco cuidado na exegese da Palavra, pois


chega-se à Palavra com idéias alheias a ela e em busca de textos para prová-las. Um exemplo
bastante frequente na literatura evangélica é o uso de Provérbios 23.7 para provar o princípio
da psicologia cognitiva de que uma pessoa pode vencer seus problemas mudando suas
crenças. “Aquelas que imaginam a si mesmas como vencedoras têm maiores probabilidades de
manter o peso adequado”, dizem os terapeutas da clínica Minirth-Meier às mulheres com
comportamento compulsivo na alimentação. E prosseguem comentando Provérbios 23.7: “Deus
na Sua sabedoria, diz que devemos usar nossa imaginação para o bem....Devemos sempre nos
livrar dos pensamentos que nos derrotam e condenam porque ‘como imagina em sua alma,
assim ele é’”.9

O contexto do versículo citado, Provérbios 23.6-8, adverte para que se tenha cuidado
com a duplicidade: “Não comas o pão do invejoso, nem cobices os seus delicados manjares.
Porque, como imagina em sua alma, assim ele é; ele te diz: Come e bebe; mas o seu coração
não está contigo. Vomitarás o bocado que comeste, e perderás as tuas suaves palavras”. A
pessoa de quem se fala é alguém não confiável: o homem pão-duro, em contraste com o
generoso (Pv. 22.9). “O termo hebraico para pensa significa basicamente dividir, decidir ou
estimar, ligado à noção de medida.”10 O invejoso mede o alimento, calcula o custo da
hospedagem, mais do que estima a visita recebida. Oferece comida e bebida, mas o seu
coração não é sincero. O que Provérbios 23.7 revela é que às vezes as ações de uma pessoa
não condizem com aquilo que ela pensa, e se queremos conhecer a verdade sobre o caráter de
alguém, não podemos julgar meramente com base em ações. Os pensamentos são de fato
teste do caráter. Wayne Mack diz que “o insight útil que podemos extrair desse versículo é
inteiramente diferente daquele que alguns têm extraído....Se queremos instruir um
aconselhado sobre a importância de sua vida mental, Romanos 12.2 e 2 Coríntios 10.5 são os
textos apropriados porque estes versos discutem a questão em seu contexto”11.

A leitura do texto bíblico em busca de ilustrações para teorias da psicologia é outro


exemplo típico de uso duvidoso da Palavra. Em um empreendimento de eisegese, e não
exegese, alguns personagens bíblicos são escolhidos para ilustrar as categorias importadas de
sistemas seculares como, por exemplo, as versões da teoria dos quatro temperamentos criada
por Hipócrates.12 O uso destas ilustrações bíblicas, conforme diz Jay Adams, “não faz o sistema

7
COLLINS, Gary. Can you trust psychology? Downers Grove, Ill.: InterVarsity, 1988, p. 129
8
GANZ, Richard. Psychobable: the failure of modern psychology and the biblical alternative. Wheaton,
Ill.: Crossway, 1993, p. 64.
9
VREDEVELT, Pam et al. The thin disguise: overcoming and understanding anorexia and bulimia.
Nashville: Thomas Nelson, 1992, p. 224.
10
JAMIESON, Robert; FAUSSET, A.R.; BROWN, David. A commentary critical, experimental, and practical
on the Old and New Testaments. Eerdmans, Grand Rapids, 1973, v.2, p. 489.
11
MACK, Wayne A. Introduction to biblical counseling. Dallas, Tex.: Word, 1994, p. 257.
12
As versões mais divulgadas no meio evangélico brasileiro são a de Tim LaHaye e o sistema DiSC.
se tornar cristão; apenas engana muitos cristãos”.13 Podemos considerar que a maioria dos
profissionais comprometidos em elaborar, aplicar e divulgar essas expressões integracionistas
são bem intencionados. O problema é sua teologia, frequentemente deficiente em algum
ponto, bem como seu entendimento e habilidade de aplicação da Palavra. Isso nos alerta para
que o mero fato de que um conselheiro é cristão não é segurança de que o conselho que ele
oferece seja biblicamente preciso. Fazer uma oração ou adicionar um versículo a um sistema
secular não o faz mais santo, mas apenas mais perigoso em potencial de engano, visto que
entrega ao aconselhado conteúdo alheio à Bíblia com embalagem bíblica.

Embora suas abordagens possam ser diferentes em alguns aspectos, aqueles que
defendem a prática integracionista concordam em um ponto básico: a Bíblia não é um recurso
suficiente para a tarefa de ajudar pessoas a lidarem com os problemas da vida. Precisamos
uni-la a outras verdades. Para podermos avaliar a validade desde paradigma, o primeiro passo
é descobrir do que estamos falando, ou seja, quais as verdades disponíveis para ajudar o
homem a lidar com os problemas da vida.

As psicologias e a Bíblia
A integração da Bíblia com a psicologia tem como base o slogan “toda verdade é verdade
de Deus”. O argumento mais usado é que Deus se fez conhecido por dois veículos: a revelação
especial, que é a verdade registrada nas Escrituras, e a revelação geral, ou seja, a verdade
depositada por Deus na ordem do mundo criado. A revelação geral está disponível a todas as
pessoas em todos os tempos pela graça comum e deve ser investigada e descoberta pelo
homem.

Até aqui, podemos concordar com base na declaração bíblica de que “os céus proclamam
a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos” (Sl 19.1) e “os atributos
invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade,
claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas
que foram criadas” (Rm 1.20). A suficiência da Palavra para lidar com nossos problemas
certamente não implica a exclusão de todo dado extra-bíblico, embora diante daquilo que
constitui um campo legítimo de investigação ainda precisamos lembrar que o homem é finito e
suas descobertas são, frequentemente, parciais. No campo da medicina, por exemplo, novas
descobertas periódicas reorientam o rumo de tratamento dos problemas orgânicos. O homem
tem sua mente atingida pelo efeito do pecado e um dos resultados é que suas investigações
científicas estão sujeitas a limitação e engano. E em última instância, as descobertas de
qualquer ramo do conhecimento não são absolutas e infalíveis − o grau de autoridade infalível
pertence apenas à Palavra.

A palavra psicologia vem da combinação do termo grego psych, que representa o


conceito do homem interior ou alma, com o sufixo logia, que denota cada ramo da ciência ou
conhecimento. Tecnicamente, então, a psicologia afirma ser a ciência ou estudo da parte
imaterial do homem. Antes porém de endossarmos o argumento de que a verdade da
psicologia é verdade derivada da investigação legítima da revelação geral, e portanto confiável,
precisamos avaliar o conteúdo reunido sob o termo psicologia.

A psicologia é definida habitualmente como ciência do comportamento, considerando o


comportamento humano como “toda e qualquer forma observável de reação ou resposta do
organismo a qualquer tipo de estímulo interno e externo. Portanto, na linguagem do psicólogo,
o termo comportamento tem significação muito ampla”14. A palavra comportamento refere-se a
atividades que podem ser diretamente observadas e registradas, tais como falar ou comer, e
também a processos fisiológicos do organismo como, por exemplo, a respiração. Além disso, a
palavra comportamento também é usada para descrever processos de cognição, imaginação,
percepção, emoções e motivação, entre outros, alguns dos quais não podem ser observados
objetivamente. Desse entendimento do termo comportamento, resulta um campo de estudo
que inclui (1) a investigação sistemática de atividades cerebrais como, por exemplo,

13
ADAMS, Jay Edward. Teaching to observe: the counselor as a teacher. Woodruff, SC: Timeless Texts,
1995, p. 25.
14
ROSA, Merval. Introdução à psicologia. Petrópolis: Vozes, 1995, p. 26.
concentrar a atenção, habilidade de linguagem, memória, habilidade para responder questões
abstratas, cálculos; (2) o estudo das teorias da personalidade e mudança (as psicologias
propriamente ditas), e (3) a aplicação das psicologias em situações de aconselhamento (as
psicoterapias).

Ao colocarmos em dúvida a validade da psicologia como verdade confiável para ser usada
pela Igreja em uma metodologia ministerial, não nos referimos ao inteiro campo de estudo,
mas às teorias e modelos que se dedicam a definir a natureza do homem, aquilo que o motiva,
o processo de mudança ou educação, e como o homem deve viver. Nossa objeção não diz
respeito ao termo psicologia em si. Há um sentido em que a fé cristã apropriadamente
entendida é uma psicologia − a psicologia bíblica, que não admite competidores.

As psicologias seculares não formam um corpo uniforme e consistente de conhecimento,


mas um emaranhando de sistemas com teorias e técnicas contraditórias. Em lugar de se ter
conhecimento somado a conhecimento, desde os trabalhos pioneiros de William James no final
do século 19, os principais teóricos discordaram um do outro. Seus sucessores perderam hoje a
esperança de alcançar uma teoria unificada e se contentam com micro-teorias e combinações
ecléticas. Disso resulta que não há uma psicologia a ser integrada no ministério cristão, mas
psicologias. Também resulta que as psicologias não têm como sustentar a natureza de
ciência—observável, interpretável, controlável e previsível.15

O quanto as psicologias e psicoterapias merecem ser chamadas ciência, no sentido em


que tradicionalmente se pensa nesta palavra − uma verdade objetiva, neutra, universalmente
válida − é uma questão continuamente levantada nas últimas quatro décadas por filósofos e
historiadores da ciência como Thomas Kuhn e Karl Popper. Popper, citado por Powlison diz: “a
teoria de Marx sobre a história, a psicanálise de Freud, e a psicologia individual de
Adler...embora apresentadas como ciência, têm mais em comum com os mitos primitivos do
que com a ciência; elas se parecem mais com a astrologia que com a astronomia”.16

É surpreendente também a quantidade de literatura e pesquisa que questiona a


psicoterapia vinda de profissionais da própria área, que declaram que não há estudos clínicos
controlados, levados a efeito e avaliados de acordo com os princípios científicos normalmente
aceitos, que confirmem a eficácia, a segurança e a utilidade da psicoterapia. Encarregado pela
American Psychology Association de fazer uma pesquisa sobre a psicologia como ciência,
Sigmund Koch chegou à conclusão de que “ao longo da história da psicologia como ciência, o
que se tem podido ver como resultado não passa de uma coleção desordenada de dados, sem
uniformidade e com resultados caracterizados pelo insucesso, o que não é condizente com os
princípios claros e definidos da ciência”.17

O caos das pressuposições seculares está evidente a qualquer um. Como cristãos,
porém, podemos ir além e identificar que à luz da verdade bíblica − que acreditamos ser o
paradigma verdadeiro − há um ponto em comum entre todas estas psicologias, embora elas
pareçam diferentes à primeira vista: todas as psicologias não estão em submissão à Palavra de
Deus. David Powlison destaca alguns aspectos unificadores das psicologias seculares.
Todas concordam que o ser humano é autônomo, e não responsável perante um Deus ativo.
Todas concordam que o problema do homem não é o pecado, e pode ser explicado em termos
psicológicos, psicossociais ou psicossomáticos.
Todas concordam em destacar algum outro fator determinante e central para o problema do
homem que não a sua própria escolha a favor ou contra Deus.
Todas concordam que a resposta ao problema e o poder para mudar está no indivíduo, no
relacionamento humano ou na química.
Todas concordam que Cristo e o ministério da Palavra não são a resposta suficiente para
disfunções e síndromes.18

15
POWLISON, David Arthur. Modern therapies and the church’s faith. The Journal of Biblical Counseling,
v. 15, n.1, Fall 1996, p. 32-41.
16
POWLISON, David Arthur. Read to speak, with gentleness and fear. The Journal of Biblical Counseling,
v. 13, n. 2, Winter 1995, p. 3.
American Psychological Association. Psychology: a study of science. Washington, DC: APA,1983.
17

POWLISON, David. A biblical counseling view. In: JOHNSON, Eric L., JONES, Stanton L. (edits).
18

Psychology & Christianity: four views. InterVarsity Press, 2000, p. 208-9.


Diante da evidência das psicologias como verdades que se distanciam da Verdade de
Deus, quando falamos em integração baseada no conceito de graça comum, corremos o risco
de abusar deste conceito. A bondade de Deus é manifestada na graça comum à medida que Ele
faz o sol brilhar igualmente sobre crentes e descrentes, restringe o mal, e permite ao descrente
atuar de muitas formas e descobrir muitos fatos a respeito da criação. No entanto, graça
comum não quer dizer que Deus permite que sistemas competitivos com a Bíblia na descrição
do homem e prescrição da solução para seus problemas, embora aparentemente interessantes
e bem elaborados por mentes brilhantes, sejam integrados com a Verdade de modo a gerar um
sistema que enfraqueça a centralidade de Cristo.

Temos diante de nós os sistemas para uma suposta integração: de um lado uma
variedade de verdades das psicologias e, de outro, a verdade revelada de Deus. Enquanto
tantas verdades a serem integradas à Bíblia são mutuamente contraditórias, a Palavra de Deus
reivindica para si a posição de Verdade absoluta a respeito do homem. “A Tua palavra é a
verdade.” (Jo 17.17)

Em claro contraste com as psicologias incertas e especulativas, o Salmista escreveu a


respeito da Palavra de Deus: “Para sempre, ó Senhor, está firmada a Tua palavra no céu” (Sl
119.89); Jesus disse: “Passará o céu e a terra, porém as minhas palavras não passarão” (Mt
24.35), e Pedro proclamou que “a palavra de Deus vive e é permanente” (1Pe 1.23). Para
provar sua afirmação, Pedro cita Isaías 40.8: “seca-se a erva, e cai a sua flor, mas a palavra
de nosso Deus permanece eternamente”.

A Palavra de Deus nunca muda, é Verdade estável. A base do aconselhamento bíblico


nunca estará desatualizada (Sl 119.89, 160). Os conselheiros que firmam seu ministério na
Palavra, têm uma atuação estável ao longo do tempo. Embora se espere que o conselheiro
bíblico tenha um crescimento pessoal e ministerial ao longo dos anos, fruto de seu crescimento
no conhecimento da Palavra e na vida com Deus, as Escrituras permanecem a fonte e o ponto
de referência para tudo quanto ele crê e faz. Desta forma, o aperfeiçoamento é desejado, mas
o conselheiro bíblico nunca precisa reformular o seu inteiro modelo.

A Palavra de Deus reivindica ser mais que uma verdade. Ela reivindica ser a Verdade
suficiente para o aconselhamento. Ela não é um complemento para teorias da psicologia
secular. Ela não é simplesmente um recurso para tratar das questões espirituais ou das
experiências religiosas do indivíduo, enquanto as psicologias são o guia para encontrar a
solução dos problemas mais profundos. O apóstolo Pedro faz uma declaração contundente
sobre a suficiência da provisão de Deus para que possamos viver de modo que agrade a Ele:
“Visto como, pelo seu divino poder, nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida
e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e
virtude” (2Pe 1.3). Wayne Mack19 comenta que “vida” tem a ver com tudo que se relaciona a
um viver efetivo e bíblico nas atividades dentro do nosso meio ambiente e relacionamentos do
cotidiano. “Piedade” tem a ver com nosso relacionamento com Deus − um viver centrado em
Deus cuja marca é um caráter e uma conduta piedosos.

As Escrituras declaram a respeito de si mesmas que são Verdade completa, contendo


todos os princípios práticos para entender as pessoas e seus problemas. No Salmo 19.7, Davi
escreve: “A lei do SENHOR é perfeita e restaura a alma”. A palavra perfeita (tāmîm) significa
“apropriada, completa, inteira”.20 A Bíblia trata de tudo quanto é necessário para que o homem
seja restaurado à inteireza, de maneira profunda e completa.

O escritor da carta aos Hebreus diz que as Escrituras revelam a Verdade profunda da
natureza humana: “Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer
espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é
apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração” (Hb 4.12). Dois mil anos atrás, a
Igreja não precisava de recursos extra-bíblicos para entender as pessoas e seus problemas e
ajudá-las a desenvolver atitudes, desejos, valores, sentimentos e comportamentos adequados
para viver de maneira agradável a Deus e em relacionamento correto com Ele, consigo

19
MACK, Wayne. What is biblical counseling? In: HINDSON, Edward, EYRICH, Howard (edits.). Totally
sufficient: the Bible and Christian counseling. Eugene, Ore.: Harvest, 1997.
HARRIS, R. Laird, ARCHER, Gleason L. Jr., WALTKE, Bruce K. Dicionário internacional de teologia do
20

Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1647.


mesmas e com outros. Atualmente continuamos a não depender de recursos extra-bíblicos
nestas mesmas questões. E as Escrituras vão além − elas nos advertem explicitamente para
que não olhemos para além dos recursos abundantes que Deus deu para a transformação de
vidas. Paulo diz aos Colossenses: “Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia
e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não
segundo Cristo; porquanto, nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade.
Também, nele, estais aperfeiçoados” (Cl 2.8 10).

Se queremos oferecer uma alternativa distintamente bíblica em conteúdo e prática para


lidar com problemas da vida, alguma coisa das psicologias pode nos ser útil? “Não”, em termos
de integração. “Sim”, em termos de desafio ao nosso ministério.

Uma união impossível

A primeira pergunta que temos diante de nós é: Podemos aproveitar algo das
psicologias e integrar à Bíblia na formulação de uma metodologia para o ministério de
aconselhamento?

A resposta, pelo que já vimos, é “não”. Nosso ponto de partida é esclarecer que
entendemos por metodologia o conjunto de pressupostos teóricos, princípios, alvos e métodos
intrinsecamente relacionados. Uma metodologia do aconselhamento é uma maneira organizada
e comprometida de entender os problemas pessoais e interpessoais do homem e tratá-los. Ela
não pode ser uma reunião de elementos ecléticos e contraditórios.

Em matéria de prescrição, a Bíblia deve ser o nosso guia seguro, assim como era para o
apóstolo Paulo: “Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado...
para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana; e, sim, no poder de Deus. Disto
também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas ensinadas pelo
Espírito” (1Co 2.2,5, 13).

A psicologia é claramente uma religião, e sua hostilidade ao cristianismo está tão bem
registrada e conhecida que não precisamos documentá-la aqui. É claro que nem tudo na
psicologia é anti-cristão (e nem tudo no budismo ou hinduísmo é anti-cristão), e no
entanto seria tolice, desonra para Deus e negação da suficiência do Evangelho e das
Escrituras valer-se de qualquer uma dessas religiões, ou de qualquer outra religião rival
seja para apoiar ou para suplementar nossa fé cristã.21

A colocação de William Kilpatrick expressa de modo claro a questão: “Psicologia e


religião são crenças que competem entre si. Se você se ativer seriamente a um dos dois tipos
de conjunto de valores, haverá de rejeitar o outro logicamente”.22

Quando a teoria sistêmica aponta para a família disfuncional, e a teoria psicodinâmica


diz que um trauma da infância determinou um compulsivo, quando Maslow e seus seguidores
falam em necessidades emocionais básicas não atendidas, ou quando um comportamentalista
aponta para a pessoa condicionada por impulsos biológicos e forças sócio-culturais que a
forçaram a determinado comportamento, ou mesmo quando a biopsiquiatria explica o
problema em termos da genética ou desequilíbrio químico no cérebro, cada uma destas teorias
está comprometida em definir o homem e seu problema de modo que Cristo, o Salvador, não é
a resposta. Estas abordagens não são neutras; são parte do engano do pecado.

As psicoterapias parecem muitas vezes atraentes ao cristão. Alguns de seus elementos


em certo sentido relembram ou ilustram princípios bíblicos. Reconhecemos que nem tudo que
faz parte das abordagens psicoterapêuticas entra em conflito aberto com a fé cristã, embora
sua teoria e prática não sejam o resultado de uma obediência voluntária a Deus nem tenham
como alvo glorificar a Deus. “A sabedoria humana ocasionalmente coincide com a verdade. Até
um relógio parado está certo duas vezes por dia. Mas isso é um desempenho pobre, se
comparado à Palavra, que é verdadeira em todas as suas declarações e suficiente para a vida e

21
HUNT, Dave. Escapando da sedução: retorno ao cristianismo bíblico. Porto Alegre: Chamada da Meia-
Noite, 1995, p. 121.
KILPATRICK, William Kirk Psychological seduction: the failure of modern psychology. Nashville, Tenn.:
22

Thomas Nelson, 1983, p. 14.


o crescimento da igreja”, diz John MacArthur.23 Nestes elementos de verdade ocasionalmente
inseridos nas psicologias, talvez pela forte influência do cristianismo na cultura ocidental, há no
mínimo um perigo que devemos considerar: eles podem estar unidos a erros suficientes para
nos conduzir para longe de Deus.

É necessária muita atenção para que o nosso aconselhamento não venha a se tornar
uma síntese de elementos contraditórios, ou então uma abordagem sub-bíblica, deixando de
oferecer a solução completa e permanente. Podemos correr o risco de abandonar a inteira
verdade de Deus e ouvir dEle: “A mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram
cisternas, cisternas rotas, que não retêm as águas” (Jr 2.13). Toda a base para o
aconselhamento, portanto, deve ser derivada exegeticamente da Palavra. Exclui-se a
integração no âmbito de teorias.

Vamos a uma segunda pergunta: Podemos aproveitar do desenvolvimento atual


do campo da psicologia no âmbito secular, e integrar ao aconselhamento bíblico
alguns de seus métodos e técnicas?

A resposta continua sendo: “em essência, não”. Diferentes sistemas de aconselhamento


não trazem simplesmente boas idéias que os cristãos podem pegar e inserir em uma estrutura
de ministério cristão. Isso é o que é feito em parte na literatura evangélica, sem muitas vezes
mencionar a fonte, esquecendo que estas técnicas estão intimamente ligadas às
pressuposições do sistema de origem.

Essencialmente, as psicologias não fornecem técnicas que não tenham sido reveladas na
Palavra. Reconhecemos que os psicólogos trabalharam em detalhes algumas técnicas e sua
aplicação, e isso nos chama a atenção. Precisamos, porém, ir à Palavra e descobrir as riquezas
na fonte. O perigo de irmos às psicologias em busca de técnicas é que quando as
pressuposições básicas do sistema dentro do qual estas técnicas foram desenvolvidas
contradizem a Bíblia quanto à natureza do homem e a solução para seu problema, é quase
impossível que métodos e técnicas não venham carregados de valores.

Por exemplo, alguns poderiam argumentar que Rogers enfatizou o ouvir, e que a Bíblia
também o enfatiza (Pv 18.13; Tg 1.19). Ambos aparentemente tocam no mesmo ponto. Um
olhar atento, porém, percebe que o propósito do ouvir é diferente em um e em outro, e
também a maneira de ouvir. O conselheiro bíblico ouve de modo ativo para ganhar
informações que lhe permitam orientar o aconselhado para compreender e abordar o problema
biblicamente. Rogers, dentro de sua visão do homem, ouve para ajudar o cliente a externar as
respostas que estão dentro dele mesmo, liberar o seu potencial de conhecimento e
crescimento, e alcançar o bem-estar em autonomia. O aconselhamento bíblico quer ver um
aconselhado que saiba caminhar com maturidade cristã, mas nunca um aconselhado autônomo
com relação a Cristo, à Palavra de Cristo e ao corpo de Cristo.

A vida está relacionada a Deus em sua totalidade, com vistas a dar glória a Ele. Nada é
neutro: métodos e técnicas dentro de uma metodologia do aconselhamento são orientados
para Deus ou são contrários a Deus. Cada sistema secular convida-nos, como parte mais ou
menos explícita do processo de aconselhamento, a adotar certa filosofia de vida, a ver a nós
mesmos e ao mundo mediante um conjunto específico de lentes diferentes da lente bíblica. Se
usarmos lentes duplas — da psicologia e da Bíblia —, obtemos uma imagem dupla e teremos
dificuldade para identificar o caminho certo e indicá-lo ao aconselhado.

A esta altura surge uma terceira pergunta: É mesmo possível em nossos dias
ajudar plenamente os aconselhados sem os recursos da psicologia e da psiquiatria?

Certamente nenhuma concordância bíblica leva-nos a versículos sobre anorexia


nervosa, bulimia, transtorno do pânico, transtorno depressivo. Isso faz com que alguns crentes
relutem diante da afirmação de que a Bíblia contém tudo quanto precisamos. Sentem que a
Bíblia fala a respeito de várias coisas importantes, mas há situações complexas da vida para as
quais gostariam de ter direção mais específica, talvez orientações novas que contassem com a
vantagem do conhecimento de nossos dias.

MacARTHUR, John F. Jr. Nossa suficiência em Cristo: três influências letais que minam a sua vida
23

espiritual. São José dos Campos, SP: Fiel, 1995, p. 102.


Nossa resposta é que Deus não nos privou na Palavra de algo de que precisamos. A
Bíblia é capaz de falar aos problemas mais comuns, mas ela também fala às síndromes
modernas como estresse, depressão ou transtornos alimentares. Em nenhuma concordância
bíblica encontramos estes termos, mas as Escrituras são a lente pela qual podemos olhar para
todos eles. A Bíblia contêm princípios que cobrem todos os aspectos da vida, com um grande
número de situações de vida que demonstram a aplicação desses princípios na prática. Às
vezes, o problema específico aparece tratado em detalhes. Outras vezes, é preciso razoar a
partir de princípios gerais dentro de uma estrutura bíblica. David Powlison diz:

As escrituras fornecem tanto a lente (categorias verdadeiras para a


interpretação) como um vasto número de exemplos concretos.... Deus pede que
vistamos as lentes e nos entreguemos as trabalho árduo de pensar biblicamente sobre
as pessoas. Por exemplo, pondere as implicações de Gálatas 5.19-21. Paulo lista 15
exemplos representativos das obras produzidas pelos desejos da carne. Ele insere esta
lista entre dois comentários que nos lembram que devemos colocar nossas lentes
bíblicas, olhar ao nosso redor e notar outros 115 (ou 1015) mais exemplos: “As obras
da carne são conhecidas.... e coisas semelhantes a estas”.24

Temas atuais precisam de entendimento de um ponto de vista bíblico, ou seja,


encontrar categorias bíblicas eternas que são suficientes para entender o novo ou aquelas
manifestações que não são tratadas nas Escrituras pelo nome atual que lhes é atribuído.

Nossa tarefa de ministério tem dois lados: devemos estudar as pessoas, junto com as
percepções que ganhamos da cultura, incluindo a ciência, e precisamos estudar a Bíblia mais a
fundo. Precisamos conhecer as pessoas e a Palavra para reconhecer o que é necessário para
responder de maneira relevante ao nosso tempo, mas com conteúdo consistentemente bíblico.

Poderíamos nos perguntar, por exemplo, o que a Bíblia tem a dizer sobre as famílias
disfuncionais, identificadas hoje como causa do problema de crianças iradas, jovens viciados,
adultos que cometem abuso sexual, e assim por diante O termo disfuncional não aparece nas
Escrituras. Mas olhando para as características desta família (e por isso precisamos ouvir
como os profissionais descrevem os problemas) descobrimos que é uma família em que os
papéis do marido e da esposa estão confusos, a comunicação está truncada, a ira e a amargura
estão presentes, o abuso verbal é comum, os filhos são suscitados à ira. Além disso, pode
haver também abuso físico ou sexual. A Bíblia dirige-se a todas estas questões.

Semelhantemente, termos como anorexia ou bulimia não estão na Bíblia, mas


encontramos categorias que dizem respeito diretamente ao problema: glutonaria, mentira,
satisfação dos desejos da carne, furto, falta de domínio próprio, amor aos prazeres mais do
que a Deus, medo, ansiedade, temor ao homem (comportamentos que centram ao redor da
aparência e da aprovação humana), orgulho, vaidade, vingança, cobiça, entre outros. Não
ignoramos certamente a complexidade do problema nem negamos que na maioria das vezes é
necessária a ajuda médica para lidar com as consequências físicas do comportamento
anoréxico ou bulímico, mas também não nos deixamos cegar pela idéia de uma síndrome
psiquiátrica.

Assim como as teorias da psicologia, os critérios de diagnóstico da psiquiatria são


mutáveis, sujeitos a contínua revisão com base na experiência, na evolução social, e em
explicações hipotéticas. Uma das evidências é que o Manual Diagnóstico e Estatístico de
Transtornos Mentais está em sua quarta edição (DSM-IV), trazendo a cada edição novos
critérios e novas enfermidades e excluindo outros, sem comprovação científica25.

De dentro do próprio campo da psiquiatria há vozes que se erguem para expor a


verdade de que a origem destes diagnósticos não é cientifica: “Por mais de um século,
psiquiatras constroem diagnósticos, fazem-nos passar por doenças, e nenhuma autoridade
desafia seu engano. O resultado é que poucas pessoas percebem hoje que diagnósticos não

24
POWLISON, David. Critiquing modern integrationists. The Journal of Biblical Counseling, v.11, n.3,
Spring 1993a, p. 32.
No passado, o homossexualismo era um diagnóstico psiquiátrico por influência da teoria psicanalítica
25

que oferecia uma explicação patológica. No DSM IV, o homossexualismo foi retirado e considerado
comportamento alternativo face às pressões sócio-culturais, enquanto que o alto nível de atividade
heterossexual é incluído como transtorno da compulsão sexual.
são doenças”.26 Powlison chama atenção para o fato de que uma pneumonia ou uma laringite
são coisas que as pessoas poder ter. Mas as pessoas não tem bulimia. Elas fazem
determinadas coisas.

Estas categorias simplesmente descrevem alguns padrões típicos de


comportamento, emoções, atitudes, pensamento que são perturbadores para
todos os envolvidos. Elas nada revelam a respeito de causas. São apenas
‘síndromes’, ou seja, um conjunto de fatos que freqüentemente acontecem
juntos.27

Surge agora uma quarta pergunta: Devemos integrar no aconselhamento bíblico


os termos da psicologia e da psiquiatria?

O uso de terminologia científica e médica pode nos iludir: problemas são


psicopatologias ou doenças, dificuldades no lidar com a vida são transtornos ou síndromes,
indivíduos são pacientes, avaliações são diagnósticos, tratamento é terapia, no esforço de criar
uma aparência de credibilidade científica. O aconselhamento bíblico não necessita destes
termos para provar sua credibilidade e eficácia, mas também não há como evitar uma
terminologia no aconselhamento. Termos descrevem problemas, e nos ajudam na
comunicação. Parece-nos bastante equilibrada a posição de Jay Adams:

Na verdade, classificar é inevitável para termos uma comunicação significativa.


Deus usa em sua Palavra classificações. Por exemplo, Ele fala em medo,
ansiedade, mentira. Fala também de adúlteros, efeminados, sodomitas (1Co.
6.9). O que queremos não é eliminar os rótulos, mas usar rótulos apropriados e
precisos que ajudem a falar a verdade.28

Não queremos sugerir que de agora em diante não mencionemos mais os termos
usados em nossa cultura. Cremos, porém, que não seja recomendável usar os termos
psiquiátricos, a menos que os dispamos de toda a bagagem que trazem consigo e façamos
deles palavras corriqueiras para identificar um conjunto de comportamentos. Podemos talvez
dizer: “Você pratica um conjunto de comportamentos que nossa cultura identifica como
_________”. No entanto, sempre que fizermos uso dos termos psiquiátricos, é preciso que
tanto o conselheiro como o aconselhado tenham um claro entendimento daquilo que
representam e do uso que se está fazendo. É necessário esclarecer que são termos apenas
descritivos. De acordo com Elyse Fitzpatrick29, temos algumas razões para esse cuidado,
lembrando que estes termos:
- promovem a idéia de doença, junto com seus correlatos terapia e psicofármacos;
- constituem uma tentativa de caracterizar uma identidade e uma desculpa para pecar, em
lugar de caracterizar um comportamento escolhido;
- podem promover uma forma de orgulho perverso no fato de ter determinada doença;
- podem tirar a esperança, quando se perde de vista que se referem a um estado temporário;
- podem eliminar com superficialidade a investigação de todos os demais fatores envolvidos
que precisam ser trabalhados.
Nosso cuidado deve ser ainda redobrado quando nos damos conta de que cada
aconselhado é um futuro conselheiro em potencial, que passará adiante aquilo que aprendeu.
Queremos deixar claro, porém, que quando vemos perigo em usar uma terminologia importada
de fora da Palavra de Deus, pensamos nos termos de diagnóstico do DSM. Os problemas
orgânicos devem ser chamados corretamente pelo termo médico, e um médico deve estar
envolvido no tratamento.

26
SZASZ, Thomas. Mental illness is still a myth. The Journal of Biblical Counseling, v. 14, n.1, Fall 1995,
p.36.
POWLISON, David. How do you help a psychologized counselee? The Journal of Biblical Counseling, v.
27

15, n. 1, Fall 1996d, p. 3.


ADAMS, Jay E. Why is biblical counseling so concerned about the labels used to describe people’s
28

problems. The Journal of Biblical Counseling, v. 14, n.2, Winter 1996, p. 51.
FITZPATRICK, Elyse M. Counseling women for overeating and bulimia. In: FITZPATRICK, Elyse M.,
29

CORNISH, Carol (edits.) Women helping women. Eugene, Ore.: Harvest, 1997.
Tradicionalmente, na medicina, diagnosticar ou dar nome a uma condição é
fonte de esperança para os pacientes. O rótulo implica que o médico sabe o
que está errado, o que fazer e qual será o prognóstico....Todavia, categorizar
ou diagnosticar “doenças” no campo pseudo-médico da psicoterapia é fictício
em sua natureza. Conquanto algumas doenças mentais tenham fatores
fisiológicos suficientes para serem consistentemente identificadas (p. ex. a
doença de Parkinson), a maioria dos transtornos tratados pela psicoterapia
são termos que refletem meramente influências culturais e escolhas
morais.30

Identificar o problema pelo nome bíblico, e demonstrar a relevância da Pessoa e do poder


de Cristo para a necessidade específica do aconselhado, resulta em esperança real de cura.
Para isso, precisamos aprender a pensar tematicamente tanto sobre o comportamento visível
como sobre o coração. A solução não é a integração, mas um ministério bíblico que aproveite
todos os tesouros da sabedoria e do conhecimentos guardados em Cristo (Cl 2.3).

Uma utilidade possível


Estamos diante de uma última pergunta: Se as psicologias não podem ser
integradas ao ministério bíblico de aconselhamento, elas têm alguma contribuição a
dar?

Aqui a resposta é: “Sim”, as psicologias possuem certa utilidade para o conselheiro


bíblico. Com uma visão crítica do próprio campo de estudo, David Powlison31 diz que o
aconselhamento bíblico não se preocupou muito nas décadas passadas com desenvolver
detalhes do que seria ou não um relacionamento apropriado com as psicologias. Ele andou
ocupado com estabelecer e defender as suas bases. Podemos nos relacionar de diferentes
maneiras com as psicologias. Em um extremo, podemos nos comprometer com elas. Em outro
extremo, podemos correr a distância e nos manter afastados, rejeitando-as talvez por temê-
las. Ambas deixam de ser escolhas equilibradas.

Embora seja verdade que a sabedoria desse mundo não é proveitosa (1Co 3.20), que o
descrente anda na futilidade de sua mente, obscurecido em seu entendimento (Ef 4.17,18),
rejeitando o princípio da sabedoria (Pv 1.7), também é verdade que a Bíblia reconhece que
homens perdidos podem ter elementos da verdade (At 17.28). Com base nisso, parece-nos
possível concordar que as psicologias têm condições de assumir aquilo que autores
comprometidos com o aconselhamento bíblico chamam de um “papel provocativo e
ilustrativo”,32 embora elas jamais possam ser integradas à metodologia do aconselhamento
bíblico.

Psicólogos e psiquiatras têm-se mostrado, com frequência, observadores e investigadores


do comportamento humano mais dedicados do que os cristãos. Eles podem nos desafiar a olhar
para aspectos que talvez estejamos negligenciado no aconselhamento bíblico. É oportuno,
porém, lembrar que as observações são influenciadas pela visão de mundo. As pressuposições
forçam a focalizar o microscópio apenas em determinado aspecto, operando um efeito seletivo.
Por exemplo, uma pessoa comprometida com a pressuposição de que determinado
comportamento é causado por experiências da infância irá explorar cuidadosamente cada
etapa do passado, mergulhando em detalhes e provendo uma ampla riqueza descritiva. No
entanto, este investigador verá apenas algumas coisas e deixará fora do campo de visão outros
fatores ao redor que certamente têm influência no desenvolvimento do problema.

Uma observação é normalmente seguida por uma descrição, e não há descrição sem
algum tipo de interpretação. O incrédulo possui uma lente distorcida—ele não tem idéia de que

DINNEN, Tana. Manufacturing victims: what the psychology industry is doing to people. 2. ed.
30

Montreal: Robert Davies, 1998, 78.


31
POWLISON, David. Crucial issues in contemporary biblical counseling. Journal of Pastoral Practice, v.9,
n. 3, 1988, p. 53-8.
32
Veja POWLISON, David. Integration or inundation? In: HORTON, Michael Scott (edit.). Power religion:
the selling out of the evangelical church? Chicago, Ill.: Moody, 1992, p. 215.; MACK, Wayne, What is
biblical counseling? In: HINDSON, Edward, EYRICH, Howard (edits.). Totally sufficient: the Bible and
Christian counseling. Eugene, Ore.: Harvest, 1997, p. 54; ADAMS, Jay. O manual do conselheiro cristão.
São Paulo: Fiel, 1982, p. 18.
aquilo que descreve de modo perceptivo é um pecado em primeiro lugar contra Deus; ele não
tem idéia de como Cristo pode mudar uma pessoa. O uso que fazemos de suas descrições e
interpretações, depois de devidamente submetidas e testadas à luz da Palavra, não pode ser
caracterizado pela palavra integração.

Temos um exemplo bíblico desta estratégia quando Paulo, fariseu instruído por Gamaliel,
escolheu usá-la em Atos 17.22-31. Durante sua pregação no Areópago, no versículo 28, Paulo
capturou uma formulação dos poetas da época − “pois nele vivemos, e nos movemos , e
existimos, como alguns dos vossos poetas têm dito: porque dele também somo geração” − e a
usou num referencial bíblico. Paulo não integrou paganismo e Bíblia. Foi uma estratégia de
captura e colocação em categorias bíblicas dentro de um mundo centrado em Deus.
Semelhantemente, os incrédulos muitas vezes observam o homem e interpretam mal o que
vêem, mas podemos capturar suas observações e prover a lente para a interpretação em
submissão a Deus, em categorias dentro de um referencial bíblico.

Firmado em seu alicerce bíblico e com muito cuidado, o conselheiro bíblico pode olhar à
sua volta, avaliar e capturar elementos do trabalho de incrédulos que, uma vez despidos das
pressuposições básicas do sistema em que foram elaborados, podem ser considerados dentro
de um referencial bíblico. Não é uma tarefa fácil. Qualquer tentativa de utilizar algum elemento
externo dentro de um referencial bíblico depara-se com um duplo desafio: discernir o que de
fato pode ser coletado no trabalho secular e não trazer juntamente com qualquer elemento as
pressuposições do sistema em que ele foi desenvolvido. Uma educação no campo da psicologia
e uma experiência de conversão parecem ser insuficientes para a tarefa. Mais que um preparo
no campo da psicologia, é necessário o preparo no manejo da Palavra da Verdade (preparo em
teologia e exegese), e o cultivo de uma visão de mundo do ponto de vista de Deus para que se
possa julgar tudo aquilo com que se entra em contato, extrair elementos da fonte original e
inseri-los em um paradigma bíblico.

É nossa convicção que qualquer contribuição oferecida pelas psicologias, embora possa
ser útil, deve ter papel menor do que descritivo, e nunca prescritivo. Tudo quanto
necessitamos para a explicação e tratamento dos problemas pessoais e relacionais do ser
humano pode ser extraído das Escrituras.

Não vemos base bíblica para crer que seja errado estudar os modelos seculares.
Precisamos ser “conhecedores da época” (1 Cr 12.32). Conceitos e práticas não bíblicos devem
ser identificados, examinados, entendidos, avaliados. Devemos estar interessados o suficiente
para conhecê-los e ser corajosos o suficiente para confrontá-los e rejeitá-los abertamente,
defendendo a pureza da verdade bíblica. Familiaridade com as psicologias permite ao
conselheiro bíblico um diálogo com os integracionistas e estimula uma maior habilidade no uso
das Escrituras de modo apologético. A recomendação, porém, é não investigarmos a fundo
estes modelos antes de conhecermos a fundo a verdade bíblica. Parece mais apropriado ver a
investigação das psicologias seculares como secundária e, em certo sentido, limitada. Não é
possível nem desejável conhecê-las todas profundamente. Seria um esforço interminável e
pouco útil, especialmente reconhecendo o quanto são instáveis.

Uma utilidade maior que a psicologia secular pode ter para nós é nos reprovar por não
sermos estudantes dedicado da Palavra, voltados ao trabalho teológico. “O crente também
precisa se arrepender por deixar de usar as suas lentes bíblicas para olhar para a vida. Somos
preguiçosos e não tão diligentes como deveríamos ser”, diz Bill Smith.33

Nossa vocação primordial consiste em descobrir na Palavra as riquezas abundantes que


estão ao nosso dispor, organizá-las em uma teologia prática e usá-las primeiramente na
própria vida e depois na vida dos aconselhados. Precisamos olhar para a herança que o
passado nos deixou, mas temos trabalho a fazer hoje: debruçarmo-nos cuidadosamente sobre
a Palavra não na busca frustrada de um versículo que use a mesma terminologia da psicologia
ou da psiquiatria para identificar as diferentes síndromes, mas querendo aprender a pensar
sobre estes comportamentos com base em princípios bíblicos e construir uma teologia prática
que atenda às demandas dos nossos dias. Cristo e Sua Palavra são suficientes para
transformar integralmente vidas em nossos dias.

33
SMITH, Bill. Authors and arguments in biblical counseling: a review and analysis. The Journal of Biblical
Counseling, v. 15, n.1, Fall 1996, p. 19.