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A Macroeconomia da Reindustrialização 1 (VERSÃO PRELIMINAR, novembro/2012)

1. Introdução

Francisco Eduardo Pires de Souza

A Macroeconomia da Reindustrialização (VERSÃO PRELIMINAR, novembro/2012) 1. Introdução Francisco Eduardo Pires de Souza O fato

O fato de que a indústria de transformação brasileira vem perdendo densidade e dinamismo nos últimos anos é hoje reconhecido, pela maioria dos analistas, como um fenômeno de grande importância para entender o comportamento presente da economia. Existem contudo divergências importantes sobre as causas e sobre as vantagens de resgatar o papel que este setor desempenhou por muitas décadas na economia do país. E, mesmo entre os que são a favor de que o país adote como prioritário um projeto de relançamento da industria, há dúvidas sobre que tipo e amplitude de indústria devemos ter no país.

O presente texto se propõe a tratar apenas de uma pequena parte das questões acima, a saber: a) identificar e mensurar fatores macroeconômicos relacionados à competitividade externa da indústria brasileira que contribuiram decisivamente para o seu encolhimento relativo e perda de dinamismo; b) apontar alguns dos requisitos para reverter este processo, bem como os obstáculos (sobretudo políticos) que uma agenda de redinamização industrial deve superar.

Com o objetivo acima, o texto se desdobra em 5 seções, além desta breve introdução. A seção 2 a seguir decompõe o processo de debilitamento industrial dos últimos 15 anos em 3 fases, sendo uma delas de revigoramento. A finalidade desta decomposição é entender os motivos e a natureza deste processo no caso brasileiro recente, e refletir sobre as condições requeridas para viabilizar a recuperação do dinamismo industrial. A seção 3 faz uma análise empírica, usando dados das contas nacionais e da matriz de insumo-produto, da evolução dos custos industriais unitários, por categoria de despesa, em reais e em dólares, para chegar a uma noção quantitaiva da perda de competitividade externa por parte da indústria brasileira. Nas seções 4 e 5 discute-se a agenda da redinamização industrial, as iniciativas que vem sendo adotadas pelo governo desde meados de 2011, e os obstáculos políticos para avançar nesta agenda. A seção 6 conclui pela viabilidade da reindustrialização, porém destacando o papel que um projeto econômico nacional apoiado num acordo social, explícito ou implícito, pode jogar para superar os obstáculos políticos.

1 O presente trabalho representa o desenvolvimento de uma apresentação feita no ao 9º Fórum de Economia coordenado pela Escola de Economia de São Paulo da FGV em parceria com FIESP, IEDI e DIEESE, em setembro de 2012.

A Macroeconomia da Reindustrialização (VERSÃO PRELIMINAR, novembro/2012) 1. Introdução Francisco Eduardo Pires de Souza O fato

Professor do Instituto de Economia da UFRJ e Assessor da Vice-Presidência do BNDES. As idéias aqui expostas são de exclusiva responsabilidade do autor, não refletindo posições das instituições às quais está filiado.

2. O esvaziamento da indústria: marchas e contramarchas

As evidências empíricas que sugerem um processo de desindustrialização no Brasil remontando a meados da década de 1980 parecem pouco robustas. Como mostraram Bonelli e Pessoa (2010), quando se corrige os efeitos das mudanças metodológicas nas contas nacionais e se calcula os dados a preços constantes, a participação da indústria de transformação no PIB baixa cerca de 3 pontos percentuais entre os valores máximos alcançados no início dos anos 80 e a metade da década de 90 do século passado. Se considerarmos, ademais, que nos dez anos que vão até o meio da década de 1980 a indústria brasileira encontrava-se super-dimensionada, em decorrência de um altíssimo grau de fechamento associado às fortes restrições externas enfrentadas pela economia do país, uma perda de participação da indústria daquela magnitude não parece muito significativa.

Nos últimos 15 anos, contudo, um fenômeno bem mais relevante e significativo para o dinamismo da economia brasileira, encontra-se em curso. E, neste período, a razoável homogeneidade das séries estatísticas permite uma análise bem mais confiável da participação da indústria de transformação na economia brasileira.

O gráfico 1 a seguir mostra a evolução da participação do produto industrial no PIB a preços básicos, de 1995 ao segundo trimestre de 2012. Há claramente dois períodos de perda de participação (1996-1998 e 2005-2012), mediados por um período de expressiva recuperação de peso da indústria (1999-2004). A segunda fase do processo de encolhimento industrial é bem mais intenso, com perda de 4,6 pontos percentuais de participação em 8 anos. Se medirmos a preços constantes, a queda é mais suave, mas ainda assim significativa (quase 3 pontos percentuais do PIB a partir de 2005 e 4 pontos percentuais desde 1995) 2 .

A mudança estrutural tem sido relativamente rápida, já que a retração de alguns pontos percentuais em um componente que tem um peso inferior a 1/5 do PIB, requer que seu ritmo de crescimento seja muito inferior ao do todo. Isso pode ser constatado na tabela 1 a seguir, que mostra a grande diferença de desenpenho entre a indústria de transformação e o PIB desde 2005. Nela pode-se notar também que a velocidade da mudança agravou-se nos últimos 4 anos.

2 Cabe ressaltar que a queda dos preços relativos dos bens industriais neste período (responsáveis pelo fato de que a retração na participação a preços constantes é menor do que a verificada a preços correntes), deve-se não ao aumento de produtividade da indústria, como observado em períodos anteriores e destacado por Bonelli e Pessoa (2010), e sim por efeito da apreciação cambial que forçou a baixa relativa dos preços e das margens de lucro do setor.

Gráfico 1

Gráfico 1 Tabela 1 Taxas Médias Anuais de Crescimento do PIB e da Indústria de Transformação

Tabela 1

Taxas Médias Anuais de Crescimento do PIB e da Indústria de Transformação (%)

Indústria de Período PIB Transformação Diferença em pontos percentuais
Indústria de
Período
PIB
Transformação
Diferença em pontos
percentuais

2005-2008

2,7

4,6

1,9

2009-2012(*)

-0,4

2,9

3,3

(*) crescimento médio geométricos dos 3,5 anos entre 2009 e o 2o. trim. de 2012. Fonte: IBGE. Elaboração do autor.

Mais importante, no entanto, é o fato de que o fraco desempenho relativo (2005-2008), seguido de recuo absoluto do produto da indústria de transformação (2009-2012), ocorreu a despeito do crescimento sustentado da demanda doméstica por manufaturas. Ou seja, ao contrário do passado, quando as fases de recuo da produção da indústria de transformação estavam associadas a contrações da demanda doméstica, agora estamos diante de um fenômeno de contração provocada pela perda de espaço nos mercados doméstico e externo 3 .

3 Utilizando-se a produção da indústria mundial, estimada pelo Netherlands Bureau for Economic Policy Analysis (CPB), como proxy da demanda mundial por manufaturas, o crescimento desta demanda nos períodos mostrados na tabela 1 foi de, respectivamente, 3,2% e 1,4%, taxas superiores, mais uma vez, às da produção doméstica.

Em outras palavras, estamos diante de um fenômeno de encolhimento industrial por perda de competitividade e não por falta de demanda.

O gráfico 2 a seguir reflete essa faceta do processo de esvaziamento industrial dos últimos 15 anos. Nele se mostra a evolução da participação da produção da indústria de transformação no total da demanda doméstica por produtos manufaturados. É interessante observar que a tendência é a mesma observada no gráfico anterior sobre a participação da indústria de transformação no PIB. De fato, pode-se identificar dois momentos de perda de participação no mercado: o primeiro, durante o período do Plano Real, quando a produção doméstica passou de um volume superior ao da absorção doméstica (o que implica que estava havendo exportações líquidas de produtos da indústria de transformação) a um volume 2,9% inferior ao da demanda em 1998; o segundo, mais acentuado, em que a relação produção doméstica/absorção doméstica de produtos da indústria de transformação despenca de 105,9% para 96,3%. Entre estes dois períodos, verificou-se uma fase de rápida recuperação da competitividade em que a produção doméstica avança substancialmente sobre os mercados doméstico e externo, indo de 97,1% da absorção doméstica para 105,9%.

Gráfico 2

1998 2006 2005 2004 2003 108,0% 2001 2000 1999 2007 1997 1996 1995 1994 Fonte: IBGE,
1998
2006
2005
2004
2003
108,0%
2001
2000
1999
2007
1997
1996
1995
1994
Fonte: IBGE, Sistema de Contas Nacionais, Tabelas de Recursos e Usos. Projetado para 2010 e 2011 com dados das Contas Nacionais Trimestrais e Funcex.
96,3%
103,4%
97,1%
105,9%
1993
104,0%
102,0%
100,0%
98,0%
96,0%
94,0%
92,0%
90,0%
106,0%
Industriais (%)
Participação da Produção Doméstica na Demanda Interna por Produtos
2002
2011
2010
2009
2008

À luz das evidências empíricas apresentadas acima pode-se levantar duas questões relevantes para analisar a pertinência e a viabilidade de um processo de reindustrialização a partir da situação atual. A primeira delas é o caráter prematuro do processo de perda relativa de importância do setor industrial. A segunda, envolve a questão das condições requeridas para viabilizar a recuperação do dinamismo industrial.

No que se refere à primeira questão, é comum argumentar-se que a redução do peso da indústria no PIB é uma característica inerente a processos de desenvolvimento, a partir de certo estágio em que, alcançada uma relativa saciedade em termos do consumo de bens industriais, a elasticidade renda da demanda por essa classe de produtos torna-se inferior à unidade. Sendo assim, se a propensão a média a consumir bens e serviços se mantiver estabilizada, ganhos adicionais de renda se traduzem num aumento maior da demanda por serviços e menor da demanda por bens industriais. Por outro lado, isto significa que, em havendo uma relação de correspondência entre os perfis da demanda e da oferta de bens e serviços de um país 4 , sua produção industrial deverá declinar como proporção do PIB, refletindo o declínio da sua demanda por produtos industriais como proporção da renda.

No entanto, as mudanças na estrutura produtiva (e de comércio exterior) do Brasil nos últimos anos não parecem ter a ver com o fenômeno acima referido, de redução na demanda relativa por bens de consumo industriais. Se fosse assim, a produção da indústria manufatureira deveria estar refletindo a evolução da demanda doméstica por manufaturas. Mas como mostrado no gráfico 2, o que está acontecendo é uma queda da produção relativamente à demanda.

Outra evidência importante no mesmo sentido foi apresentada por Arbache (2012). Este autor mostra que embora a participação da indústria brasileira no PIB se aproxime daquela observada em países desenvolvidos (que está em declínio pelas razões apontadas

anteriormente), sua “densidade industrial”, definida como a produção industrial por habitante,

é muito inferior à daqueles países e mais próxima da verificada em países em desenvolvimento. Uma maneira de interpretar este resultado é que o produto industrial per capita baixo reflete um consumo per capita de manufaturas ainda reduzido, o que por sua vez sugere uma elasticidade renda da demanda ainda relativamente elevada para essa classe de

produtos; enquanto que a relativamente reduzida participação da indústria no PIB reflete a incapacidade que a produção industrial do país vem demonstrando de acompanhar o crescimento da demanda, por falta de competitividade.

Se a perda de participação da indústria no PIB estivesse resultando tão somente da queda do peso dos produtos industriais no consumo, a idéia de reindustrializar a economia perderia muito de sua força. Contudo, se o problema é a queda da participação da produção doméstica no consumo, sem uma correspondente retração do peso do consumo de produtos industriais na renda, então faz sentido incluir a reindustrialização num projeto econômico para o país 5 .

  • 4 Mesmo num mundo globalizado com elevado grau de abertura externa, há algum viés da produção para o mercado interno, inclusive no caso de comercializáveis (vide a respeito McCallum, 1995). Isto implica que o leque de bens e serviços que compõem a oferta tende a ser, pelo menos relativamente, dependente da composição da demanda interna.

  • 5 Uma discussão mais completa sobre a conveniência de reverter o processo em curso, de perda de peso da indústria, envolve considerações sobre capacidade de crescimento, dinamismo tecnológico, produtividade, nível relativo dos salários pagos no setor industrial, e outros fatores que não trataremos neste trabalho.

Avaliar o quanto e com que características, não é objeto do presente texto, que visa tão somente examinar algumas causas importantes deste processo e refletir sobre a viabilidade de uma redinamização da indústria manufatureira no país.

A segunda questão evocada pelas evidências empíricas acima envolve o breve interregno de redinamização industrial (1999-2004). Este processo foi, como vimos, razoavelmente intenso e

vigoroso, e certamente teve como um de seus ingredientes básicos a recuperação da competitividade da produção manufatureira doméstica, num contexto macroeconômico de forte depreciação cambial, elevados superávits primários e redução dos juros. As diversas iniciativas de política econômica então adotadas, que permitiram a restauração da competitividade da indústria brasileira, ocorreram sob pressão de uma dramática crise cambial em 1998/99. Foi numa situação em que o país foi colocado contra a parede por uma crise cambial que se aprovou reformas institucionais e medidas de política econômica que viabilizaram aquele processo de reavivamento industrial. Isto coloca o problema a ser discutido adiante – da viabilidade política da reindustrialização em tempos de “conforto econômico”.

3. A altura do desafio da reindustrialiação

Para responder à questão de se é possível a reindustrialização do Brasil, convém, inicialmente, investigar que fatores levaram à perda de peso da indústria e até que ponto eles são reversíveis. A análise dos resultados de um exercício como este está sujeita, no entanto, à salvaguarda de que não faz sentido pensar em simplesmente voltar no tempo e recuperar a indústria perdida, já que mudaram substancialmente os mercados, as tecnologias e as condições internacionais e domésticas dentro das quais a indústria pode se desenvolver. Ainda que com certo artificialismo, para fins analíticos vamos abstrair o fato de que uma eventual reindustrialização significaria mudanças na composição na indústria de transformação. Começaremos então pela questão das causas da perda de dinamismo industrial e das condições requeridas para revertê-las, coeteris paribus.

Na introdução deste texto vimos que a indústria de transformação brasileira perdeu rapidamente espaço no mercado doméstico nos últimos anos. De fato, enquanto a absorção doméstica de produtos da indústria de transformação cresceu 35% entre 2004 e 2011, a produção doméstica teve uma expansão acumulada de apenas 12%. Ou seja, uma parte substancial do impulso proveniente da demanda interna por produtos manufaturados vazou para o exterior porque a indústria doméstica perdeu espaço para os competidores externos. No mercado internacional, o mesmo fenômeno de perda de competitividade pode ser notado:

enquanto as exportações mundiais de manufaturados cresceram 35% entre 2004 e 2011 6 , as exportações brasileiras de manufaturados apresentaram uma retração, em volume, de 5% 7 .

Neste trabalho examinaremos o papel específico do aumento dos custos industriais desde o início da década passada e sua relação com a perda de competitividade da indústria. Muitos trabalhos utilizam simplesmente o custo unitário do trabalho como proxy da evolução dos custos industriais. Porém outros componentes importantes do custo industrial, como por exemplo a energia elétrica, tem tido comportamento singulares e relevantes, o que nos levou a tentar fazer uma avaliação mais ampla da evolução dos custos industriais.

A tabela 2 a seguir apresenta uma estimativa da evolução dos custos operacionais da indústria de transformação entre 2000 e 2011. Os valores dos índices para o ano de 2004 foram também incluídos porque, como se viu na seção anterior, esse ano representou o auge do subperíodo em que houve uma redinamização industrial (1999-2004), antes portanto do reinício do processo de debilitamento da indústria. A tabela foi construída com base em informações extraídas da tabela de recursos e usos das contas nacionais e da matriz de insumo-produto para a economia brasileira, complementada por outras fontes para o período mais recente 8 . Os índices para os diversos componentes do custo industrial estão expressos em termos unitários, representando a evolução do custo nominal por unidade produzida. Desta forma, eles variam diretamente com o aumento do preço de cada insumo e inversamente com a eficiência com a qual cada insumo é empregado. A título de exemplo, o custo unitário do trabalho aumenta com a elevação do salário nominal por trabalhador e reduz-se com o aumento da produtividade do trabalho; o custo da energia elétrica aumenta com a elevação da tarifa de eletricidade cobrada da indústria, e reduz-se com a racionalização e aumento da eficiência no uso da energia, e assim por diante.

De acordo com as estimativas apresentadas na tabela 2, entre 2001 e 2011 o custo médio ponderado dos insumos usados pela indústria subiu 126%, ou seja, 8,5% ao ano, superando em 1,9 ponto percentual a inflação média anual medida pelo IPCA (6,6% a.a.). O custo do trabalho e outros insumos não comercializáveis, cujos pesos na estrutura de custos corresponderam a 26% e 18% respectivamente, lideraram a alta, subindo em torno de 10% ao ano. O custo da energia elétrica teve uma elevação próxima à média, enquanto o dos insumos importados como seria de esperar puxaram a média para baixo.

  • 6 Calculados a partir da série de índice de volume mundial de exportações de manufaturados da OMC, atualizado de 2010 para 2011 pelos dados da ONU (Monthly Bulletin of Statistics). A taxa de expansão de 35% é igual à do crescimento da demanda brasileira por produtos industriais, no mesmo intervalo de tempo (2004 a 2011), por mera coincidência.

  • 7 Dados da Funcex para exportações de manufaturados em volume.

  • 8 Vide tabela completa e metodologia no Anexo 1. Os valores são diferentes dos apresentados na exposição feita no 9º Fórum de Economia FGV-SP, porque a metodologia foi diferente, conforme explicado no Anexo 1.

Tabela 2

Tabela 2 Para avaliar o efeito desta elevação dos custos unitários da indústria sobre a competitividade

Para avaliar o efeito desta elevação dos custos unitários da indústria sobre a competitividade externa dos produtos manufaturados brasileiros, apresenta-se a seguir a evolução dos preços em dólares dos produtos manufaturados importados pelos EUA, provenientes de países e regiões selecionados (tabela 3). Os preços dos manufaturados exportados pelos países industrializados para os EUA subiram 35% contra uma alta de 47% para os demais. Porém, as exportações de manufaturas chinesas tiveram aumentos médios de preços de cerca de 5% apenas.

Tabela 3

Tabela 2 Para avaliar o efeito desta elevação dos custos unitários da indústria sobre a competitividade

Em outras palavras para que o produto brasileiro se mantivesse competitivo no mercado internacional, sem comprimir as margens de lucro do produtor doméstico (e portanto seu incentivo para produzir e exportar), seus custos (em dólar) teriam que crescer dentro do intervalo mostrado na tabela acima. Por outro lado, dado que o custo em dólar de um produto brasileiro é igual a seu custo em reais dividido pela taxa de câmbio, e tendo em conta que os custos em reais subiram, em média, 126% no período, seria necessária uma elevação substancial da taxa de câmbio nominal (R$/US$) para que os preços em dólar pudessem subir em níveis compatíveis como os dos principais concorrentes. Para manter a competitividade frente às manufaturas exportadas pelos países industrializados, por exemplo, a alta da cotação do dólar no período teria que ter sido de 67%. Mas em vez disso, a taxa de câmbio se apreciou, levando a cotação do dólar a cair 29% no mesmo período 9 .

9 Os indicadores apresentados nas tabelas 2 e 3 e no gráfico 3 tem o mesmo significado analítico da taxa de câmbio real, mas trazem informações complementares, por serem elaborados mais sob medida para

O gráfico 3 a seguir apresenta a evolução, ano a ano, da taxa de câmbio nominal brasileira, comparada à evolução virtual da taxa de câmbio requerida para manter a competitividade das exportações brasileiras de manufaturados no mercado norte-americano, frente aos concorrentes dos países industrializados, de todos os demais países em conjunto, e dos chineses.

Gráfico 3

Índice da Taxa de Câmbio (R$/US$) requerida para manter a competitividade dos manufaturados

brasileiros x Taxa Observada

250 215 200 167 153 150 Taxa de Câmbio Requerida 100 dados os Preços de Exportação
250
215
200
167
153
150
Taxa de Câmbio Requerida
100
dados os Preços de
Exportação dos Demais
Países
Taxa de Câmbio Observada
71
50
Taxa Requerida dados
Preços de Exportação dos
Países Industrializados
Taxa requerida dados os
preços de exportação dos
0
produtos chineses
2001
2002
2003
2004
2005
2006
2007
2008
2009
2010
2011

Fontes: US Department of Labor Statistics e National Bureau of Statistics of China (para preços das exportações chinesas de 2001 e 2002). Elaboração do

Autor.

O fato de que a taxa de câmbio nominal caiu 29% entre 2001 e 2011, em vez de subir para compensar a alta dos custos em reais, implicou que os custos unitários da indústria brasileira subiram, em moeda estrangeira, ainda mais do que na moeda nacional. Como se pode verificar na última coluna da tabela 2 acima, a elevação do custo unitário médio da indústria, em dólares, foi de 217% 10 .

Não é objetivo do presente texto discutir qual seria o nível adequado para a taxa de câmbio. Por isso, não há nenhuma sugestão de que o ano 2000, adotado como base estatística nas tabelas anteriores, represente um nível ideal da taxa de câmbio real, para servir de meta para a política cambial. Os indicadores acima apresentados tem por objetivo apenas mostrar a

a indústria de transformação, discriminarem a evolução dos diferentes componentes do custo e a competitividade relativa a diferentes concorrentes.

  • 10 Mas a velocidade da deterioração não foi uniforme: de 2001 a 2004, o índice dos custos em dólar subiu de 100 para 118 (5,6% ao ano), acelerando daí para frente, para uma alta média de 15,2% ao ano no período subsequente (2005-2011).

dimensão da perda de competitividade desde o início da década passada, derivada da evolução de custos e preços ao longo do período, para alimentar uma reflexão sobre os requisitos para uma reindustrialização do país.

Dada a imensa disparidade entre a evolução dos custos brasileiros em dólar e o preço dos competidores, é forçoso concluir que a restauração da competitividade, inevitável para a reindustrialiação do país, deverá compreender uma solução multifacetada.

Por um lado, parece evidente que não há possibilidade de reverter um hiato tão grande de competitividade simplesmente através de aumentos da produtividade (por cima da internacional) ou da redução do que se convencionou chamar de “custo Brasil”. Se for assim, pode-se concluir que a taxa de câmbio teria que refletir nossa perda de competitividade nos demais planos, elevando-se em direção a um nível mais competitivo.

Por outro lado, dada a dimensão do hiato, parece igualmente evidente que a correção não pode ser apenas via câmbio, quando mais não fosse pelos efeitos colaterais de uma desvalorização cambial tão ampla quanto a que seria requerida para restaurar a competitividade e o dinamismo da indústria manufatureira. Seria pois indispensável reduzir também os custos em reais da indústria via outros instrumentos, sobretudo via aumento da produtividade do trabalho e ganhos de eficiência no uso dos demais insumos.

4. A economia política da reindustrialização e a política econômica em curso

A agenda da reindustrialização consiste portanto de um leque amplo de iniciativas que incluem medidas cambiais e medidas voltadas para o aumento da produtividade e redução dos custos em reais da indústria. Além disso, para conter o pass-through do câmbio para a inflação e garantir que a desvalorização nominal seja preservada como uma desvalorização real persistente é indispensável que outros instrumentos sejam empregados para conter a inflação. No campo das políticas macroeconômicas, a política fiscal é uma alternativa indispensável para alcançar este objetivo. Políticas macro-prudenciais, de contenção do crédito, integram também o conjunto de instrumentos para viabilizar a desvalorização cambial, sobretudo porque uma política de juros mais baixos é parte essencial desta estratégia, o que limita o emprego deste último instrumento (pelo menos por comparação ao papel que ele desempenhou na década passada).

A agenda acima tem grandes implicações no plano da economia política. A começar pela mudança no nível da taxa de câmbio o preço relativo mais importante da economia que, por suas implicações redistributivas, enfrenta óbvias resistências políticas. Uma elevação da taxa de câmbio, além de redistribuir renda dos setores produtores de bens e serviços não comercializáveis para os comercializáveis, impõe perdas a todos os que detém dívidas em

dólares (não protegidas por instrumentos de “hedge cambial”) e ganhos para os detentores de

ativos líquidos denominados em moeda estrangeira (destacadamente o governo).

O ajuste fiscal requerido para evitar os efeitos inflacionários da elevação da taxa de câmbio, bem como para compensar as renúncias fiscais associadas à redução dos custos industriais requerida para aumentar a competitividade brasileira, também impõe a necessidade de contrariar interesses seja de beneficiários de determinados componentes do gasto público, seja de incentivos e subsídios que perderam sentido no quadro atual 11 .

Por fim, a distribuição temporal de custos e benefícios políticos da política cambial conspira fortemente a favor de reduções e contra elevações da taxa de câmbio. De fato, a apreciação cambial gera, a curto prazo, um caminho fácil para reduzir a inflação, além de aumentar o poder de compra da população em termos de produtos e serviços importados (como viagens ao exterior), gerando uma sensação de conforto político. Por outro lado, seus benefícios maior competitividade, traduzindo-se numa pauta de exportações mais diversificada e estável, e um maior dinamismo econômico só são colhidos a médio e longo prazos. Daí que, desde a estabilização da economia com o Plano Real, em julho de 1994, períodos de depreciação real significativa da taxa de câmbio só se verificaram em momentos de crise (1999, 2002 e 2008), sendo seguidos por períodos longos de apreciação em fases de normalidade.

Os Novos Passos da Política Econômica e a Recuperação da Competitividade

A boa nova é que, a despeito de todos os desincentivos para promover mudanças que promovam a reindustrialização, fora de um contexto de crise, algumas importantes medidas neste sentido começaram a ser tomadas desde meados de 2011, com relativo sucesso, no sentido de reverter o processo de perda de competitividade da indústria brasileira. Daquele momento até o presente (setembro de 2012), foram tomadas iniciativas importantes em dois planos: a mudança no mix de política macroeconômica e a adoção de uma política industrial voltada para a desoneração tributária e redução de alguns dos principais itens de custos das empresas.

A mudança na calibragem dos instrumentos da política macroeconômica foi ingrediente fundamental da política de restauração da competitividade da indústria brasileira. Através de uma combinação de forte redução (5 pontos percentuais) na taxa básica de juros com uma elevação de cerca de 25% na taxa de câmbio, entre julho de 2011 e setembro de 2012 (Gráfico 4), promoveu-se, ao mesmo tempo, uma importante redução do custo do capital e uma redução linear dos demais custos, medidos em dólar, dos produtos industriais brasileiros.

11 É o caso, por exemplo, a lei Kandir, que foi aprovada em 1996, num contexto de aguda restrição de divisas, com o objetivo de alavancar as exportações de primários, via isenção do ICMS. Mantida até hoje, mesmo quando o país passou a experimentar o problema oposto de superabundância de ingresso de moeda estrangeira , a concessão incentivos fiscais para a exportação de produtos que desfrutam de altíssima rentabilidade (como os minerais) tornou-se um nonsense. Porém, benefícios são fáceis de aprovar e difíceis de retirar quando não mais são requeridos.

2/2/2012

2/8/2012

5/7/2012

5/1/2012

7/6/2012

1/3/2012

29/3/2012

26/4/2012

16/2/2012

27/9/2012

24/5/2012

21/6/2012

30/8/2012

10/5/2012

16/8/2012

19/7/2012

13/9/2012

19/1/2012

12/4/2012

15/3/2012

1/9/2011

4/8/2011

8/12/2011

15/9/2011

21/7/2011

29/9/2011

18/8/2011

24/11/2011

27/10/2011

22/12/2011

10/11/2011

13/10/2011

Gráfico 4

Juros (Selic) e Câmbio (RS/US$)

14

12

10

8

6

4

2

0

1,56 2,03 7,5
1,56
2,03
7,5
12,5
12,5
1,56 2,03 7,5 12,5

2,5

2

1,5

1

0,5

Taxa Selic Taxa de Câmbio
Taxa Selic
Taxa de Câmbio

0

Fonte: Banco Central do Brasil.

Ainda que a persistência do novo arranjo de política macroeconômica ainda esteja em consolidação, é inegável que os resultados já alcançados venceram o ceticismo quanto à sua exequibilidade. De um lado, a combinação da política de intervenções compradoras no mercado de câmbio com a imposição de controles (via tributação) sobre os fluxos de entrada de capitais e de transações no mercado de derivativos, vem sendo capazes de garantir a estabilidade da taxa de câmbio num patamar bastante depreciado em relação aos valores prevalecentes até meados de 2011. A hipótese de que tais medidas seriam inócuas para influenciar a taxa de câmbio, senão por um período curtíssimo, parece não estar se confirmando. Tampouco há evidências de que a depreciação da taxa de câmbio seja apenas um sub-produto do agravamento da crise internacional, sobretudo da crise européia. Ao contrário, uma comparação do comportamento das cotações do real com as de outras commodity currencies evidencia que, desde a mudança da política brasileira, ocorreu um descolamento entre elas (Gráfico 5).

Gráfico 5

Gráfico 5 Por outro lado, a política de redução das taxas de juros básicas venceu obstáculos

Por outro lado, a política de redução das taxas de juros básicas venceu obstáculos importantes, como o ceticismo do mercado financeiro quanto ao controle da inflação 12 e a suposta intocabilidade da regra de remuneração das cadernetas de poupança. É importante assinalar, contudo, que caso se forme uma conjuntura de pressões inflacionárias, que ponham em risco o cumprimento das metas, poderá ser necessário o acionamento de outras medidas para deter a alta dos preços, como uma contração fiscal, para que o novo mix se mostre sustentável.

É importante destacar que a redução da taxa Selic de referência foi acompanhada de movimento semelhante em todo o espectro de taxas de juros, tendo por consequência uma queda no custo de capital das empresas. No gráfico 6 abaixo pode-se visualizar a queda das taxas de capital de giro para as empresas bem como das taxas de mercado para prazos de 1 ano, desde que a taxa Selic começou a ser reduzida, em agosto de 2011.

12 No início de outubro de 2012, as previsões das instituições “top 5”, divulgadas pelo Relatório Focus do Banco Central, para a inflação de 2012, cravaram nos mesmos 5,4% que elas haviam previsto em meados de julho de 2011, logo antes do Banco Central surpreender o mercado com o primeiro corte da taxa Selic. As críticas iniciais de que o Banco Central havia abandonado o objetivo de conter a inflação, e de que esta entraria em trajetória ascendente, se mostraram infundadas.

Gráfico 6

Taxa Selic e Taxas de Mercado

35,0 29,8 30,0 25,0 20,1 20,0 Taxa Selic Taxa para Capital de Giro Swap Pré x
35,0
29,8
30,0
25,0
20,1
20,0
Taxa Selic
Taxa para Capital de Giro
Swap Pré x DI (360 dias)
15,0
12,6
12,5
10,0
8,0
7,5
5,0
0,0
jan/11
fev/11
mar/11
abr/11
mai/11
jun/11
jul/11
ago/11
set/11
out/11
nov/11
dez/11
jan/12
fev/12
mar/12
abr/12
mai/12
jun/12
jul/12
ago/12

Fonte: Banco Central do Brasil

As mudanças no plano da política macroeconômica foram acompanhadas de uma focalização da política industrial em medidas voltadas para a redução dos custos industriais e aumento da competitividade das empresas brasileiras. No segundo semestre de 2011 e ao longo do ano de 2012, uma sucessão de medidas foram adotadas com este objetivo, podendo-se destacar:

1)

a eliminação dos encargos previdenciários sobre a folha de salários de um grande número de setores industriais;

2)

a redução substancial anunciada da tarifa de energia elétrica industrial, associada ao processo de renovação das concessões vincendas;

3)

a redução dos juros nos empréstimos do BNDES para a aquisição de bens de capital e o encolhimento do prazo para a depreciação de máquinas e equipamentos.

O efeito combinado das medidas de redução dos custos industriais e com a depreciação cambial pode ser estimado em uma queda acumulada de cerca de 19% nos custos industriais em dólar, no biênio 2012-2013 (tabela 4). Isto deixaria o nível dos custos industriais, em dólar, muito pouco acima dos observados em 2008, quando a indústria já vinha perdendo peso tanto na estrutura produtiva como no comércio exterior, mas ainda não havia estagnado. A rigor, a redução de custos foi maior, na medida em que as estimativas acima não incorporam os custos

financeiros. Como visto acima, o custo do capital de giro caiu cerca de 1/3 entre meados de

  • 2011 e meados de 2012. Isto representou uma importante redução adicional de custos, cujo

montante não foi aqui estimado.

Tabela 4

financeiros. Como visto acima, o custo do capital de giro caiu cerca de 1/3 entre meados

Não resta dúvida, portanto, que a política econômica adotada a partir do segundo semestre de

  • 2011 representa um primeiro e importante passo para deter e possívelmente começar a

reverter - o processo de esvaziamento industrial. Porém, tendo em conta a dimensão da perda de competitividade nos últimos dez anos, certamente ainda será necessário avançar na direção do aumento da produtividade e, de uma maneira mais geral, da redução dos custos em dólar das manufaturas brasileiras, para restabelecer a densidade e o dinamismo da indústria brasileira.

5. A natureza de medidas adicionais a serem buscadas por um acordo social explícito ou implícito

As medidas adotadas a partir de meados de 2011 tiveram o mérito de mostrar a viabilidade de mudanças importantes na arquitetura da política econômica, capazes de reduzir o hiato de competitividade da indústria de transformação brasileira em relação aos seus concorrentes. Contudo, como sugerido pelas projeções para 2012 e 2013 dos custos da indústria manufatureira, ainda há muito o que fazer para promover uma reindustrialização significativa do país. Como prosseguir avançando e recuperar a competitividade perdida?

Primeiramente, na linha das medidas até aqui empregadas, cabe distinguir aquelas que já foram exploradas ao máximo, podendo ser consideradas como esgotadas, e aquelas em relação às quais ainda é possível avançar. Reduções adicionais nas tarifas de energia elétrica (além das já anunciadas) ou dos encargos trabalhistas, parecem já ter sido utilizadas até o limite, ou próximo dele. Porém, no que se refere ao custo unitário do trabalho, existem mecanismos a serem ainda explorados ou aprofundados, que não a redução dos encargos trabalhistas e uma inviável (e indesejável) baixa nos salários nominais. Entre esses mecanimos, podemos destacar o aumento da produtividade e a variação cambial.

O Imperativo da Produtividade

O aumento da produtividade tem pelo menos 2 componentes. O primeiro deles, é um

componente de curto prazo, que poderíamos denominar de “ganho fácil” de produtividade. É

fácil porque resulta, em parte, do próprio aumento da produção após um longo período de retração - que deixou de herança não apenas capacidade instalada ociosa, mas também um excedente de força de trabalho dentro das empresas. E esta herança não parece pequena, pois em julho de 2012 a produtividade na indústria de transformação encontrava-se num nível inferior ao de 4 anos antes, refletindo a queda da produção industrial no mesmo período. De fato, como se pode observar no gráfico 7 a seguir, em decorrência da baixa volatilidade do emprego quando comparado à produção, reduções e aumentos da produção industrial tendem a ser acompanhados por movimentos semelhantes na produtividade da mão de obra. Este fenômeno, bastante conhecido, está associado, entre outros fatores, aos elevados custos de demissão e recontratação, que provocam uma inércia grande no nível de emprego.

Pode-se portanto esperar que, na medida em que a indústria entre numa fase de recuperação estimulada por um aumento de sua competitividade face aos concorrentes externos, num contexto de demanda doméstica que prossegue crescente as empresas possam utilizar mais plenamente seu estoque de mão de obra disponível, aumentando assim a produtividade do trabalho. Além disso, depois de 4 anos de estagnação, o restabelecimento de um horizonte de crescimento para a indústria deve induzir a expansão do investimento no setor e, com ele, um aumento da produtividade associado aos avanços tecnológicos incorporados em novos equipamentos (e novos projetos) adquiridos.

Gráfico 7

O aumento da produtividade tem pelo menos 2 componentes. O primeiro deles, é um componente de

O segundo componente do processo de aumento de produtividade é altamente dependente de instituições e políticas adequadas, e só gera frutos a médio e longo prazos. Concretamente, para ir além dos ganhos de produtividade associados à recuperação cíclica, as duas alternativas

mais promissoras são os investimentos em infra-estrutura e em educação, que produzem ganhos sistêmicos. Em ambos os casos, o atraso brasileiro em relação aos principais concorrentes gera oportunidades para ganhos superiores de produtividade (processo de “catching up”). 13

O Papel Estratégico do Câmbio

Enquanto aumentos de produtividade mais substanciais e de médio e longo prazo não se materializam, é inevitável que a taxa de câmbio continue sendo empregada como instrumento estratégico para compensar o atraso e dotar as empresas de capacidade para competir (num contexto em que enfrentam adversidades maiores que a dos concorrentes, por exemplo no que se refere à infra-estrutura). Na medida em que o país se mostre eficiente em reduzir seus custos sistêmicos e elevar o nível educacional de sua população, e a produtividade cresça a um ritmo superior à dos concorrentes, a desvalorização cambial inicial poderá ser progressivamente “devolvida”, pelas razões expressas no teorema Balassa-Samuelson.

Este é pois o papel da política cambial na presente fase da economia brasileira, a partir de uma perspectiva desenvolvimentista. Combinada às demais políticas de redução de custos industriais (destacadamente a desoneração da folha de pagamento, a redução dos juros e dos custos da energia), o câmbio deve ajustar a diferença requerida para restabelecer a competitividade perdida pela indústria nacional. Isto implica ter um nível de taxa de câmbio que compense, inclusive, desvantagens advindas de problemas estruturais, cuja solução demanda um período razoavelmente longo de tempo para serem efetivadas.

Esta política tem algumas implicações importantes. Primeiro, torna-se necessário consolidar uma mudança no regime cambial inaugurado em 1999, muito embora isto não signifique a adoção de um regime de taxas fixas. De fato, o Banco Central pode ter uma meta implícita para a taxa de câmbio, com uma banda igualmente implícita de flutuação, que guie as políticas de intervenção no mercado cambial. Isto não implica abdicar da prerrogativa de deixar a taxa flutuar para absorver parcialmente choques externos, quando a dimensão destes for excessiva para serem enfrentados com o uso das reservas e mudanças nas taxas de juros. Pode-se assim garantir uma taxa de câmbio razoavelmente estável, e num nível competitivo, que estimule o investimento nos setores comercializáveis, sem se comprometer com um regime rígido. Este último ponto é importante no sentido de evitar a vulnerabilidade a crises cambiais e ataques especulativos, como os que foram tão frequentes nos anos 90, levando ao abandono dos

regimes de câmbio fixo e “intermediários”.

A segunda implicação importante é que não é possível garantir a estabilidade da taxa de câmbio apenas com intervenções no mercado e regulação dos fluxos de capitais. É

13 São fundamentais, por suposto, políticas e instituições que estimulem a inovação e a busca da introdução de novas tecnologias pelas empresas. Mas o argumento aqui desenvolvido está procurando destacar aqueles planos nos quais é possível obter grandes e generalizados avanços de produtividade acima do aumento da produtividade dos concorrentes externos, de maneira a reduzir o hiato de custos existente, promovendo aumento do market share nos mercados interno e externo.

imprescindível que as demais condições macroeconômicas sejam consistentes com a taxa de câmbio perseguida.

Se a política macroeconômica produzir um excesso de demanda agregada em relação às possibilidades de produção doméstica 14 , então este excesso vai ter que ser atendido por importações líquidas. O mecanismo que promoverá o aumento das importações em relação às exportações será a taxa de câmbio real. Esta se apreciará através de uma elevação dos preços domésticos (induzidos pelo excesso de demanda) ou, caso o governo deixe a taxa de câmbio baixar, para frear a pressão inflacionária, por uma apreciação nominal da moeda. Para que isso não ocorra, isto é, para garantir a preservação de uma taxa de câmbio real depreciada o suficiente para restabelecer a competitividade industrial, a política macroeconômica deverá então evitar a ocorrência de pressões inflacionárias provenientes de eventuais excessos de demanda agregada, por meio, sobretudo, das políticas fiscal e de crédito 15 .

Elevando as Taxas de Investimento e Poupança como parte do Projeto de Reindustrialização

Olhando para além das políticas de curto prazo, um projeto econômico que tenha como uma de suas peças centrais a reindustrialização do país deve contemplar pelo menos dois aspectos fundamentais: de um lado, a elevação das taxas de poupança e investimento, e de outro, políticas que elevem substancialmente a produtividade da economia brasileira. Em ambos os casos, requer-se, além da escolha de caminhos acertados, determinação e capacidade política para implantação das medidas por parte do governo 16 . Porém, sobretudo no que toca à elevação das taxas de investimento e poupança, há obstáculos políticos não desprezíveis a serem superados, o que exige um esforço de acordo social e político em torno a tais objetivos.

A favor de um pacto destes temos o fato de que a sociedade brasileira - e destacadamente o movimento sindical - evoluiu muito na sua compreensão das questões econômicas e também se tornou menos conflitiva (e portanto possivelmente mais propensa a cooperar) em decorrência das políticas sociais e da persistente melhoria na distribuição de renda e ascenção social de camadas de baixa renda.

  • 14 Houve o cuidado de se evitar aqui o conceito usual de PIB potencial, porque ele evoca uma questão complexa o da endogeneidade relativa do PIB potencial que não pode ser tratada no contexto do presente trabalho.

  • 15 Pastore, Gazzano e Pinotti, M.C.(2012) argumentam que a apreciação do real tem sido consequência das políticas de expansão da demanda doméstica, que elevam os salários no setor de serviços (que, por não serem comercializáveis, podem repassá-los aos preços), alta de custos essa que é transmitida ao setor industrial (que não pode repassá-la aos preços). O argumento, válido num contexto de crescimento econômico, não se aplica contudo aos períodos específicos de retração da demanda, como o que vai do último trimestre de 2008 até meados de 2009, em que o governo adotou uma política expansionista visando retirar a economia da recessão associada à crise internacional.

  • 16 As tendências recentes das políticas macroeconômica e industrial representam indícios de que isto já está começando a acontecer, conforme comentado acima. O tema também vem sendo incorporado ao discurso oficial.

A elevação da taxa de investimento, requerida para a expansão do investimento e crescimento da produtividade, se não acompanhada por uma elevação da taxa de poupança doméstica exigirá, inevitavelmente, um aumento da taxa de poupança externa, ou seja do déficit do balanço de pagamentos em conta corrente como proporção do PIB. O processo através do qual o déficit em conta corrente como proporção do PIB aumenta ocorre, via de regra, por meio de uma apreciação real da taxa de câmbio (via inflação ou redução da taxa nominal) que torna os produtos estrangeiros relativamente mais baratos e os nacionais menos competitivos. A única forma de evitar, a médio prazo, esta consequência indesejada da elevação da taxa de investimento é através de uma alta da taxa de poupança doméstica que em parte é consequência da própria elevação da taxa de investimento e da desvalorização cambial (Bresser Pereira, Araújo e Gala, 2010), mas que certamente pressupõe também um aumento da taxa de poupança do setor público.

A elevação da taxa de poupança do setor público, por sua vez, requer que os gastos correntes do governo cresçam menos do que o PIB (admitindo-se que a carga tributária já tenha atingido um nível excessivo no caso brasileiro). Apesar disto representar uma condição relativamente branda por comparação com ajustes que implicam cortes absolutos de gastos, como vem ocorrendo nos paíse europeus na presente crise não implica ausência de importantes obstáculos políticos. E não é só por conta das demandas sociais e do funcionalismo. As renúncias fiscais destinadas a elevar a competitividade dos bens comercializáveis geram uma onda de demandas por isonomia para setores não comercializáveis que, se atendidas, tendem a reduzir a poupança pública sem o benefício pretendido para a elevação da competitividade externa da economia. Em suma, a formação de um consenso em torno a um projeto claro de reindustrialização do país, que oriente as políticas adotadas, é condição para se evitar o risco de comprometer uma das políticas centrais para dar sustentabilidade a este projeto, que é a política fiscal.

Um acordo social em torno a esse projeto contribuiria também para tirar proveito de dois trunfos importantes com que o Brasil poderá contar nos próximos anos. O primeiro deles é a exploração das reservas do pré-sal. Quanto maior a parcela da renda excedente do petróleo do pré-sal for destinada a um fundo soberano de investimento (no país e no exterior), maior a sua contribuição para o aumento da poupança pública (em simultâneo com uma menor pressão para a apreciação cambial e portanto menor o risco de contrair ou agravar a chamada “doença holandesa”) 17 .

O segundo trunfo advém da oportunidade para a redução da taxa de juros, que vem sendo bem explorada pelo Banco Central desde meados de 2011. Juntamente com a manutenção de superávits primários, isto vem permitindo a redução dos déficits nominais e da dívida pública. Assim, a redução da carga de juros abre um espaço para um aumento da poupança pública,

17 Neste sentido, a briga político-parlamentar pela partilha dos royalties foi um mau presságio. A energia política do país concentrou-se muito mais na disputa por essa espécie de herança (o “bilhete premiado”), do que num esforço para usar o pré-sal como um trunfo para alavancar o desenvolvimento do país.

que tende a se tornar maior, a partir da própria queda da dívida pública (como proporção do PIB). Há aqui, evidentemente, a possibilidade de se tirar proveito de um círculo virtuoso de redução do déficit e da dívida pública.

6. Conclusões

A indústria brasileira passou por um processo de perda de dinamismo e de participação na economia nos últimos 15 anos, sobretudo nos anos mais recentes. Este processo foi induzido por uma acentuada perda de competitividade, expressa num aumento dos custos unitários totais da indústria de transformação de 126% entre 2001 e 2011, que não foram compensados por uma depreciação equivalente do câmbio. Ao contrário, ao longo desse período o real se apreciou em quase 30% frente ao dólar. Dada a dimensão da perda de competitividade daí resultante, a reindustrialização do país requer uma solução multifacetada, que englobe tanto a depreciação cambial, como medidas para elevar a produtividade e reduzir custos (sistêmicos e ao nível das empresas) em reais.

O conjunto de medidas requerido para recuperar o vigor, a densidade e a participação da manufatura no PIB requer a superação de obstáculos políticos não desprezíveis. Porém, passos importantes neste sentido já vem sendo dados desde meados de 2011. Avanços subsequentes possivelmente exigirão uma maior coesão nacional em torno a um projeto econômico que tenha a reindustrialização como um de seus pilares, que torne mais palatável e dê sentido a algumas medidas que representam perdas relativas de curto prazo para alguns setores da sociedade (por exemplo para os setores não comercializáveis e para os detentores de passivos em moeda estrangeira) em prol de ganhos gerais a médio e longo prazos.

Referências

Arbache, J. S. (2012), Is Brazilian Manufacturing Losing its Drive? Mimeo, BNDES (Outubro).

Bonelli, R. e Pessoa, S.A. (2010), Desindustrialização no Brasil: umr Resumo da Evidência. IBRE/FGV, Texto para Discussão, no. 7, março.

Bresser-Pereira, L.C., Araújo, E. e Gala, P. (2010), Efeitos da taxa de câmbio na poupança interna: análise teórica e evidências empíricas para o caso brasileiro. FGV, Escola de Economia de São Paulo, Texto para Discussão no. 252.

McCallum, J. (1995), National Borders Matter: Canada-U.S. Regional Trade Patterns. American Economic Review, Vol. 85, No. 3, June.

Pastore, A.C., Gazzano, M. e Pinotti, M.C.(2012). Porque a produção industrial não cresce desde 2010. Versão preliminar disponível em http://www.brasil-economia-governo.org.br/wp-

Anexo 1 Metodologia da Estimativa da Evolução dos Custos da Indústria de Transformação

Para elaborar um índice de custos unitários nominais da indústria de transformação, para o período 2001 a 2011, o ponto de partida foram os dados das tabelas de recursos e usos das contas nacionais de 2001 a 2009 (último ano disponível para as contas nacionais anuais completas). Os insumos foram agregados em 5 grupos, a saber:

  • a) trabalho = salários + contribuições sociais, na indústria de transformação.

  • b) “Energia Elétrica” = Produção e distribuição de eletricidade e gás, água, esgoto e limpeza urbana empregados na indústria de transformação.

  • c) Insumos domésticos comercializáveis = insumos domésticos utilizados pela indústria de transformação, provenientes da agropecuária e da extrativa mineral.

  • d) Insumos domésticos não comercializáveis = insumos (bens e serviços) provenientes da construção civil, comércio, transporte e armazenagem, serviços de informação, intermediação financeira, atividades imobiliárias e de aluguel, e outros serviços.

  • e) Insumos importados = a totalidade dos insumos importados, das diversas categorias.

Como não há informações sobre os insumos importados pela indústria de transformação na TRU das contas nacionais, usou-se os coeficientes importados dos diversos insumos em 2005, de acordo com a matriz de insumo-produto 18 e projetou-se para os anos posteriores e anteriores.

Para evitar que os custos dos insumos “externos à indústria de transformação” fossem

subestimados, o valor dos insumos provenientes da própria indústria de trasnformação foram

subtraídos, para se construir um valor da produção (VP) de uma indústria de transformação verticalmente integrada (VPVI). Este foi calculado da seguinte forma:

VPVI= VPi Idi = VPi (Ii Imi)

Ou

VPVI= VPi Idi = (VA + I) Idi = (VA + Id + Im) - Idi = (VA + Idi + Idni + Im) Idi = (VA + Idni +

Im) + Idi Idi = VA + Idni + Im Onde: Idi = insumos industriais domésticos da indústria de transformação; Ii = insumos industriais totais da indústria de transformação, que inclui os domésticos e os importados; Imi = insumos industriais importados usados na indústria de transformação.

18 Em 2005, pelos dados da matriz de insumo-produto, 93% dos insumos importados pela indústria de transformação eram produtos industriais (manufaturas e produtos da indústria extrativa). Por outro lado, pela metodologia aqui empregada, os produtos manufaturados nacionais utilizados pela indústria de transformação foram subtraídos do VP da indústria de transformação (e, portanto, também não compõe os custos da indústria de transformação que são apenas os custos de fatores e os custos de insumos externos à indústria de transformação).

Uma vez calculado o VP da indústria de transformação verticalmente integrada, calculou-se os pesos dos 5 componentes de insumos externos à indústria de transformação. Em 2009 estes pesos foram: salários e encargos (28,8%), energia elétrica (4,9%), insumos domésticos comercializáveis (27,5%), insumos domésticos não comercializáveis (20,8%), insumos importados (17,9%).

Por fim, todos os custos em reais foram divididos pelo índice de volume da indústria de transformação (das CN), para que se chegasse a índices de custo unitário dos insumos.exceto para o caso de insumos importados, que não estão na TRU e sofreram um tratamento específico.

Para os anos de 2010 e 2011, utilizou-se índices de preços específicos para cada um dos componentes de insumos. Apenas para o custo do trabalho empregou-se os dados de produtividade do trabalho na indústria de transformação para atualizar o custo unitário do trabalho. Para os demais insumos não foi possível trabalhar com variações nas quantidades empregadas na indústria, de forma que, nestes anos, não estão contempladas as variações na eficiência no uso de tais insumos.

Por fim, as projeções para os anos de 2012 e 2013 foram feitas tomando por base as medidas anunciadas pelo governo para a desoneração das folhas de pagamento, para a redução das tarifas de energia elétrica, projeções para o crescimento do produto industrial e do emprego no período, e uma hipótese de que a taxa de câmbio vai se manter estável em termos reais.

Os resultados completos estão apresentados na tabela A1 a seguir. 19

Tabela A1

Uma vez calculado o VP da indústria de transformação verticalmente integrada, calculou-se os pesos dos 5

Explicar a diferença em relação à tabela apresentada na exposição no Fórum FGV.

19 Cabe notar que estes resultados divergem dos apresentados no 9º Fórum de Economia promovido pela FGV/SP, porque naquela ocasião os cálculos da evolução dos custos foram feitos de forma mais precária, utilizando o método aqui empregado para os anos de 2010 e 2011, para os quais não se dispõe das contas nacionais.