UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO JOÃO DEL-REI DEPARTAMENTO DE LETRAS, ARTES E CULTURA GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO SOCIAL/JORNALISMO
André Henrique Mariz Salmerón
NINJAS FORA DO EIXO:
REDES, TERRITÓRIO E CRISE MIDIÁTICA
São João del-Rei dezembro de 2014
André Henrique Mariz Salmerón
NINJAS FORA DO EIXO:
REDES, TERRITÓRIO E CRISE MIDIÁTICA
Monografia apresentada ao curso de Comunicação Social/Jornalismo da Universidade Federal de São João del- Rei como requisito parcial para obtenção do título de bacharel em Comunicação Social/Jornalismo. Orientador: Dr. Ivan Vasconcelos Figueiredo.
São João del-Rei
Universidade Federal de São João del-Rei
Graduação em Comunicação Social/Jornalismo
2014
AGRADECIMENTOS
Quatro anos se passaram desde que ingressei no curso de Jornalismo da UFSJ – e abrem-se pela frente, agora, todos os anos que ainda virão. A delicadeza do momento impede, talvez, que me lembre de todas as pessoas que merecem meu profundo agradecimento pela ajuda prestada. Mesmo assim, não me privo de citar aqui alguns nomes essenciais, sem deixar de lado a importância de todos (as). Agradeço aos meus pais, Marcus e Maria Estela, por absolutamente tudo que fizeram por mim e meu irmão, Gustavo. Aos professores (as), que nunca se deixaram limitar pelas quatro paredes da sala de aula. Em especial, Ivan Vasconcelos e Chico Brinatti, tanto pelos ensinamentos quanto pelos sermões, pela preocupação, ajuda e, principalmente, por acreditarem em mim mesmo quando eu não acreditava. Agradeço, de coração, também aos amigos e amigas, em especial: Adriano Galvão (Fubá), Ítalo Sena (Titítalo), Matheus Araújo (Manga) e todos outros que fizeram parte da nossa república; Fernanda Morais, que nunca se cansou de (tentar) me colocar juízo; Igor Damasceno, por ter me ajudado escolher cursar jornalismo e viver literatura; Fabiano Porto, Pedro Carozzi, João Eurico Heyden, Léo Rigotto, Vinícius Fernandes e Paulo da Mata, sempre presentes nos momentos bons e ruins; Helthon Andrade, Lívia Tostes, Marlon de Paula, Endiara Cruz, Gustavo Pavan, e todas as pessoas que integraram o Coletivo Sem Eira Nem Beira, por tudo que passamos e fizemos. Deixo também um agradecimento a todos (as) da Ascom-UFSJ, pela dedicação e carinho com a qual me trataram durante o período de estágio, permitindo que me aperfeiçoasse cada vez mais; a Marcius Barcelos (Magoo), responsável pelo Laboratório de Fotografia, por sempre prestar auxílio nas empreitadas fotográficas/audiovisuais. Finalmente, é claro, agradeço a Universidade Federal de São João del-Rei e ao curso de Comunicação Social (Habilitação em Jornalismo), pelo compromisso com a educação superior gratuita e de qualidade.
RESUMO
A sociedade contemporânea vive em meio a dois campos midiatizados. De um lado, o jornalismo possui um território institucional próprio, em constante (trans)formação, marcado, principalmente, pela presença das mídias tradicionais. Por outro, o grande avanço das tecnologias de informação e comunicação contribuíram, também, para a formação de outro território ditado pelas dinâmicas em rede na internet. Este trabalho se dedica ao estudo do choque entre esses campos, através de um caso representativo: a ascensão e queda do Fora do Eixo e seu braço comunicacional Mídia Ninja perante a esfera pública em 2013. Nesse cenário, a pesquisa investiga, em um plano geral, as estratégias de gerenciamento de crise dos grupos pelo viés da Situational Crisis Communication Theory formulada por Coombs (2007). Especificamente, analisa-se como a crise foi reverberada na mídia, por meio dos ethé projetados pela Folha de S. Paulo sobre o grupo, comparando tais designações com as respostas destes. O corpus é formado por quatro notícias publicadas no jornal Folha de S. Paulo durante o auge da crise, de 8 a 15 de agosto de 2013, além das réplicas e táticas dos coletivos transmitidas no Facebook nesse período. Para esta função, nos faremos valer da noção de ethos por meio de Charaudeau (2008; 2010). O estudo revela que a crise midiática enfrentada pelos coletivos foi, em parte, resultado de uma tentativa malsucedida desses grupos de adentrar e provocar mudanças no território do jornalismo tradicional. No embate, a mídia esvaziou a discussão relativa às práticas colaborativas ao mesmo tempo em que neutralizou as críticas feitas ao seu funcionamento. Dessa forma, mapeamos as estratégias adotadas pelo Fora do Eixo e Mídia Ninja para tentarem proteger suas imagens organizacionais, indicando os caminhos mais adequados para lidar com essas situações ao contrastarmos teoria e prática.
Palavras-chave: Território. Jornalismo. Crise midiática. Fora do Eixo. Mídia Ninja.
SUMÁRIO
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INTRODUÇÃO |
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CAPÍTULO |
1 |
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JORNALISMO: |
DISCURSO |
E |
TERRITÓRIO |
E REDES |
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COLABORATIVAS |
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1.1 Discurso jornalístico e a máquina midiática |
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1.2 Território do jornalismo |
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1.2.1 O jornalismo e o discurso neoliberal |
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1.3 Redes colaborativas |
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1.3.1 Jornalismo colaborativo |
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CAPÍTULO 2 – CRISE MIDIÁTICA |
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2.1 As origens da crise midiática da Mídia Ninja |
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2.2 Modelo de gestão de crise de Coombs |
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CAPÍTULO 3 – ANÁLISE |
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3.1 Análise da crise midiática do Fora do Eixo e Mídia Ninja |
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3.2 Análise das estratégias de gestão de crise do Fora do Eixo/Mídia Ninja |
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CONSIDERAÇÕES FINAIS |
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REFERÊNCIAS |
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INTRODUÇÃO
O território institucional do jornalismo é um campo em constante (trans)formação e expansão. Na medida em que avançam as tecnologias de comunicação em rede, também são engendradas mudanças nesse território, que, pouco a pouco, passam a ser incorporadas por seus integrantes. No entanto, as mudanças não ocorrem sem embate e/ou contestação: as organizações/sujeitos que buscam quebrar de forma mais radical com o fazer jornalístico tradicional são marginalizados dentro desse mesmo território. Para adentrarmos nesse nicho, investigamos, em uma perspectiva macroestrutural, as estratégias de gerenciamento de crise do Fora do Eixo e da Mídia Ninja, diante de uma situação de crise desencadeada pela invasão indevida do território institucional do jornalismo, originada em denúncias midiáticas ocorridas em 2013. Especificamente, buscaremos também:
I. Debater, em uma perspectiva teórica, como as novas tecnologias
e o modelo colaborativo alteraram a lógica de produção da notícia, levando a
outras configurações do território do jornalismo, tomando como objetos esses grupos.
II. Analisar a crise midiática do coletivo por meio dos ethé projetados
pela Folha de S. Paulo sobre o Fora do Eixo e Mídia Ninja, comparando tais imagens com as respostas do grupo.
III. Discutir os jogos discursivos de exclusão e intolerância praticados
pela mídia neoliberal brasileira, representada aqui pela Folha de S. Paulo, frente ao modelo de gestão colaborativa e as novas práticas do “fazer saber”
jornalístico empreendidas pela rede de coletivos culturais Fora do Eixo e sua ação Mídia Ninja.
IV. Debater as práticas e a adequação das etapas de gerenciamento
de crise realizadas pelo Fora do Eixo conforme quadro teórico de Coombs
(2007).
De modo a perceber com mais clareza os processos de resistência e negociação no território institucional do jornalismo, acessaremos a retórica e a Teoria Semiolinguística de Charaudeau (2010; 2008; 2006) para apontar os mecanismos pela qual as críticas e propostas desses grupos são neutralizadas
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por ataques retóricos. Ao mesmo tempo, buscaremos mostrar como, a partir disso, se originam crises de imagem que, quando não gerenciadas de maneira apropriada, terminam por tolher a reputação organizacional. A escolha pelo caso específico do Fora do Eixo e da Mídia Ninja é representativa de um universo mais global: do modo como, no geral, iniciativas dessa espécie são retratadas nos grandes veículos de comunicação. Outro ponto específico diz respeito à magnitude que essa situação adquiriu e os efeitos nefastos que a falta de ações adequadas de gerenciamento de crise podem gerar – como veremos mais adiante. O principal problema do nicho aqui estudado é a carência de análises voltadas especificamente para iniciativas que podem ser consideradas de vanguarda, as quais se propõem ir além dos limites de determinado território institucional – no caso, o do jornalismo. Isso é reforçado pelo fato que fenômenos dessa natureza possuem, como nesse caso, especificidades que merecem ser destacadas de forma mais clara. Buscaremos oferecer esse suporte teórico, através do presente estudo, partindo da análise macroestrutural do processo de escrutínio mencionado no parágrafo anterior. No capítulo inicial, serão desenvolvidas as principais fundamentações teóricas que guiam o presente estudo. De início, traçamos alguns apontamentos a respeito do funcionamento dos meios de comunicação em larga escala. Em seguida, avançamos para o conceito e a formação do território institucionalizado do jornalismo. Com isso em mente, oferecemos algumas reflexões a respeito do atual estágio de desenvolvimento da sociedade, no que diz respeito aos meios de comunicação em rede. No capítulo 2, entraremos no âmbito do gerenciamento de crise, propriamente dito. Levando em consideração o contexto apresentado no primeiro capítulo, apontamos para alguns fatores que possibilitaram o surgimento da Mídia Ninja e sua relação com o Fora do Eixo. Logo depois, nos voltamos para a cadeia de eventos que culminou na crise experimentada pelo coletivo. Para finalizar esta etapa, apresentamos a teoria de Coombs (2007) para gerenciamento de crises, que mais adiante nos ajudará a compreender a macroestrutura de ação usada pelo grupo para se defender. Enfim, o terceiro capítulo tomará como base tudo que foi apresentado para avançar numa análise mais aprofundada do objeto. Inicialmente,
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trataremos dos percursos metodológicos e alguns procedimentos pontuais de análise. Logo depois, algumas páginas serão dedicadas ao estudo ethótico da crise, através da análise de quatro matérias veiculadas pelo jornal Folha de S. Paulo, durante o período em questão. Por fim, seguimos com a aplicação da teoria de Coombs (2007) ao caso específico do Fora do Eixo. O objetivo é identificar quais estratégias foram tomadas e questionar sua efetividade, tendo em vista recomendações do autor e a maneira como se desdobraram os eventos.
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CAPÍTULO 1 – JORNALISMO: DISCURSO E TERRITÓRIO E REDES COLABORATIVAS
A internet mudou tudo. Em tempo, fez frente a um modelo de
comunicação que tende cada vez mais a centralização tanto dos meios quanto
das mensagens; possibilitou ainda que os sujeitos, antes meros receptores, se
estabelecessem em posição de potencial igualdade enunciativa com veículos
de comunicação em larga escala. Em outras palavras, o terreno que antes era
ocupado de forma quase exclusiva pela mídia, aos poucos, vem se
horizontalizando. Muito disso se deve as qualidades inerentes da internet: não-
hierarquização de seus usuários, neutralidade 1 das informações e facilidade de
acesso a plataformas de publicação/difusão de conteúdo. Ao levarmos em
conta que a informação é a matéria-prima do jornalismo, é natural que esta
tenha sido uma das áreas que mais se modificou com o avanço das novas
tecnologias de informação e comunicação (TICs).
As mídias tradicionais, essencialmente limitadas ao meio físico, agora
precisam disputar atenção com a espacialidade abstrata, quase infinita e
atemporal da Rede. Nesse novo contexto, passam também a dividir
importância e influência com canais muito menores ou mesmo individuais. De
modo mais evidente, a internet altera significativamente os limites entre
jornalista e público, visto que os primeiros não são mais as únicas vozes
capazes de mostrar ao mundo um determinado recorte do real. Nesse sentido,
demandas informacionais altamente específicas, que por isso mesmo não
podem ser atendidas pelos mass media, podem ser exploradas pelos próprios
(as) interessados (as), se utilizando das facilidades da web. Surge daí a
possibilidade de um novo jornalismo: descentralizado, orientado por nichos e
construído com a participação direta de quem o consome.
Em suma, um modelo colaborativo de fazer jornalismo. Vale lembrar, a
instituição jornalística surge com a premissa de fornecer um resumo-geral dos
1 A neutralidade da rede diz respeito ao princípio de que provedores devem tratar de maneira igual todas as informações disponíveis na rede. Tal imperativo impede, por exemplo, que o valor cobrado para acessar sites mais populares menor ou maior do que aquele cobrado para acessar endereços menos populares. Ou seja, do ponto de vista do provedor, toda informação deve ser considerada “neutra”.
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fatos considerados mais importantes para a sociedade, uma vez que os sujeitos não são capazes de se fazerem presentes nas diversas esferas que a compõe. Para tanto, fazia-se necessária a criação de organizações voltadas especificamente para a realização dessa tarefa. Contudo, o cenário contemporâneo é bem diferente. Ferramentas como computadores, câmeras, gravadores e smartphones – que integram diversas delas – se tornaram banais. O mesmo vale para os meios de publicação. Com isso, a atividade de mover informações para dentro da esfera pública tornou-se acessível a um grande número de pessoas – o que, por sua vez, tem sutilmente colocado em debate o contrato de comunicação firmado entra a instância midiática e sociedade. Se a primeira existe para informar a segunda, o que acontece quando as pessoas se tornam capazes de informarem si mesmas? Os papéis, em parte, se invertem. O conjunto de informações que são produzidas individualmente na web é proporcionalmente muito maior do que o conjunto daquelas produzidas apenas pelas organizações noticiosas. Porém, cabe aqui uma importante ressalva: quantidade, obviamente, não significa qualidade. Os verdadeiros desdobramentos desse novo ecossistema informativo só se farão sentir ao longo do tempo. Por isso, ainda é cedo para apontar rumos e a proposta deste trabalho não é realizar um exercício de previsão. É fato que, na atualidade, a mídia “tradicional” segue sendo a principal responsável por informar grande parte da população. Além disso, é quem influencia muito daquilo que se produz dentro do ecossistema informativo da web. Todavia, certos lampejos de um jornalismo praticado de forma orgânica, entre indivíduos (as) que se conectam em rede, mostram um pouco do que pode vir a ser o futuro da área. Um caso interessante é o descrito por Mallini (2011), a respeito da narrativa colaborativa que se construiu em torno de uma série de protestos realizados em Vitória (ES) em 2013. As principais reivindicações dos manifestantes diziam respeito ao transporte público. Como parte do ato, bloquearam uma das principais vias da cidade, dificultando o trânsito. O evento ganhou notoriedade a partir do uso desproporcional e violento de força pela polícia local. Apesar dos reflexos em diversas partes da capital, ao longo do dia, a mídia tradicional só esteve presente durante a manhã. Contudo, reunidas sob uma mesma tag - #ProtestoEmVitoria, centenas de fotos, vídeos e textos
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retrataram, com vasta pluralidade de pontos de vista, os acontecimentos daquele dia. Porém, o exemplo mais emblemático talvez tenha surgido com os protestos de junho de 2013. Estes têm início com uma manifestação do Movimento Passe Livre (MPL) contra o aumento do preço das tarifas de transporte público em São Paulo (SP) em 3 de junho de 2013. Três dias depois, uma nova manifestação foi convocada e, assim, sucessivamente. No dia 13 de junho, o confronto entre manifestantes e polícia teve seu ápice. Após um duro processo de repressão, 200 participantes do ato foram presos; sete repórteres foram feridos por balas de borracha. Ao passar dos dias, o movimento se espalha como fogo na palha, por diversas partes do país, até se tornar pauta prioritária em praticamente todos os veículos de comunicação do país. Paralelamente, em sites como o Twitter e o Facebook, através da publicação individual de conteúdo, construía-se uma narrativa coletiva dos fatos.
Esses fenômenos, cada vez mais comuns, reforçam a tese de que o jornalismo está se modificando. Essas alterações podem ser indicadas ao tomarmos como base o trabalho de Castells (1999), que argumenta que o avanço das redes digitais modificou também a maneira como a própria sociedade se organiza. O autor elenca uma série de fatores que apontam como o foco organizacional da sociedade tem se deslocado dos arranjos fechados, rígidos, hierárquicos e exclusivos para os modelos mais abertos, flexíveis, horizontais e inclusivos de funcionamento. Para ele, essas formas de organização em rede, embora mais proveitosas, não eram aplicáveis a projetos complexos por causa das dificuldades de se gerenciar a força de trabalho. Entretanto, com o avanço da internet, esse problema é facilmente superado. Para ilustrar, destacamos o trabalho feito pelo site Duo Lingo. Trata-se uma plataforma gratuita para o ensino de idiomas. Entre os diversos exercícios de aprendizado, usuários precisam traduzir pequenas frases ou textos, de modo a avançarem para os módulos mais avançados. À primeira vista, pode não parecer nada demais, mas a parte fascinante é a seguinte: esses textos, que ajudam a compor as atividades curriculares, são retirados de sites reais – como a Wikipédia. Em seguida, as diversas versões enviadas são comparadas para se ter mais certeza de que o conteúdo está correto e, então, essas
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traduções são disponibilizadas ao público. Dessa forma, o projeto coordena um vasto número de pessoas que, através de contribuições pequenas e pontuais, ajudam a traduzir a internet para as diversas línguas do mundo – de inglês para português e vice-versa, por exemplo. Esse modelo é apenas um pequeno exemplo de como as novas tecnologias permitem que empreendimentos complexos sejam completados de forma horizontal e colaborativa. Shirky (2008) oferece mais detalhes sobre as novas possibilidades organizacionais que surgem com o avanço das redes; além de seus efeitos mais tangíveis na atualidade. Um dos pontos principais apontados pelo autor, no que diz respeito a esse trabalho, é o seguinte: a Internet fez com que a colaboração se tornasse acessível a todas as pessoas, sem que necessariamente integrem um corpo profissional ou uma instituição/organização específica. Isso inclui, obviamente, o jornalismo e a produção noticiosa. No entanto, como essas mudanças são recebidas pela máquina midiática? Antes de adentrarmos essa questão, fazem-se necessários alguns apontamentos teóricos.
1.1 Discurso jornalístico e a máquina midiática
Tomando como base a perspectiva charaudeana, compreende-se o jornalismo como discurso que tem seu alicerce na esfera sociohistórica e cultural. Dessa forma, sua percepção ocorre através de representações sociais, saberes parcialmente estáveis criados pela mente humana para ordenar e direcionar os fenômenos do mundo sob a forma de textos. A maneira como esses são consumidos pelas diversas esferas da sociedade é regida, segundo Charaudeau (2010), pelo imaginário sociodiscursivo: universo simbólico que é resgatado durante os atos enunciativos - produção, do consumo, distribuição, etc. Nessa esfera é onde nascem, crescem e morrem os discursos, afetando, assim, a maneira como o mundo é significado. Uma das particularidades do discurso jornalístico é que nele se estabelecem jogos específicos de expectativa entre emissores e receptores. Um destes diz respeito a percepção generalizada de que o trabalho jornalístico é a transposição da verdade para dentro da notícia, sem que sejam aplicados
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filtros. Charaudeau (2010) nos lembra, entretanto, que a natureza da notícia se dá na filtragem e interpretação prévia de um fato. Ao ser transformado em material jornalístico, o acontecimento se desliga da alta complexidade do real, impossível de ser reproduzida em sua totalidade, e passa a existir dentro do espaço público. Nesse ambiente, é condicionado a partir das informações disponíveis dentro desse espaço e tem sua interpretação baseada no imaginário sociodiscursivo vigente. A noção de espaço público é apresentada aqui em conformidade com Charaudeau (2008, p. 118), que a descreve a partir da noção de um “discurso circulante”, caracterizado como “soma empírica de enunciados com visada definicional sobre o que são os seres, as ações, os acontecimentos, suas características, seus comportamentos e os julgamentos a eles ligados”. Tal espaço tem atribuído, a si mesmo, três funções distintas, a saber: (I) instituição do poder/contrapoder; (II) regulação do cotidiano social; (III) dramatização. De maneira resumida, a primeira diz respeito aos discursos que se impõem a partir de uma posição de autoridade, que se coloca acima da sociedade como um todo, guiando suas ações e se cristalizando no discurso político. A segunda se manifesta na forma de discursos que circulam corriqueiramente pela sociedade, atuando no sentido de determinar os padrões comportamentais através das quais os grupos constroem suas visibilidades. Por fim, as funções de dramatização “relatam os problemas da vida dos homens” (CHARAUDEAU, 2008, p. 119), tratando-se aqui das obras ficcionais, míticas, entre outras que “registram o destino humano”. Essas funções, que se entrecruzam de maneira contínua, objetivam um espaço público que não é permanente, homogêneo ou universal, uma vez que resultam, pois, “da conjunção das práticas sociais e das representações”, afirma Charaudeau (2008, p. 120). Por outro lado, a máquina midiática desempenha um importante papel nos processos de abastecimento desse espaço, selecionando quais discursos irão circular. Particularmente, nos interessam os papéis de poder/contrapoder, manifestos na construção de um discurso político-midiático. Por sua vez, este é entendido como aquele visa persuadir o outro a atribuir poder a uma determinada instância enunciante, na forma de votos, mobilização, ativismo, militância, dentre outras. De modo paralelo, é também aquele que atribui
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legitimidade aos discursos de contrapoder, entendidos como aqueles que questionam o funcionamento da ordem estabelecida. Com base nos estudos de Dahlet (2014), Chomsky (1999), Bourdieu e Wacquan (2001) e Miotello (2001) sobre a formação de um discurso global que atua no sentido de naturalizar o funcionamento da ordem estabelecida, expressa na forma de um ideário mais ou menos neoliberal, percebe-se, então, uma preferência generalizada pelos discursos de poder – aqueles que visam manter o status quo – em detrimento dos de contrapoder. Porém, essa preferência não se manifesta, simplesmente, no sentido de não veicular ou ignorar esses discursos. Muitas vezes, se cristalizam em processos que visam situar essas instâncias enunciadoras, no âmbito da esfera pública, de modo que sua percepção pela sociedade como um todo seja negativa, neutralizando, dessa forma, a validade de seus argumentos. Devido ao poder que tem de influenciar a esfera pública, esse sistema se torna capaz de legitimar também a si mesmo e seus interesses particulares – sejam eles quais forem. Dessa forma, no que diz respeito a chegada de novos fatores que alteram seu funcionamento ou de grupos que buscam colocar em cheque sua atuação, não são raras as vezes em que atua simultaneamente como juiz e réu, ao mesmo tempo em que exclui seus acusadores do debate. O resultado é a perpetuação de seu funcionamento, garantindo que as pressões por mudança sejam implantadas, bem ou mal, no ritmo e intensidade que deseja. No caso da crise midiática do Fora do Eixo/Mídia Ninja, como discutiremos nos capítulos seguintes, trata-se de uma disputa de poder pelo domínio do discurso e do território jornalísticos. Não se pretende contribuir, através desse apontamento, para o entendimento maniqueísta ou simplístico acerca da atuação das organizações midiáticas. Fazê-lo seria ignorar a complexidade de forças presentes dentro da sociedade, reduzir seus (as) profissionais a simples peças numa engrenagem com anseios próprios. Contudo, tais apontamentos específicos sobre o modo como a mídia, em geral, lida com os discursos de contrapoder, serão essenciais para o entendimento questões que serão trabalhadas mais adiante – tanto no âmbito específico do gerenciamento de crises quanto nas questões relativas ao modo como essas tecnologias foram incorporadas ao fazer jornalístico.
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1.2 Território do jornalismo
Adentramos agora uma breve discussão acerca do entendimento do jornalismo enquanto área dotada de um território institucional próprio. Essa ideia parte da noção de que o território não é necessariamente uma barreira geográfica. Para Berger e Luckmann (apud BELOCHIO, 2009), o conceito pode ser compreendido como a delimitação objetiva de um universo simbólico, que unifica e dá significado a uma determinada porção da vida humana. Dentro dos limites do presente trabalho, buscamos chamar atenção para a presença de uma série de práticas, profissionais ou não, que ajudam os (as) integrantes desse território a se reconhecerem a si mesmos enquanto tal. A partir daí, podemos compreender, como afirma Belochio (2005), esse conceito de maneira análoga ao que Bourdieu (1997) define o de “campo social”:
um espaço social estruturado, um campo de forças - há
dominados e dominantes, há relações constantes, permanentes, de
desigualdade, que se exercem no interior desse espaço - que é também um campo de lutas para transformar ou conservar esse campo de forças (BOURDIEU, 1997, p. 15).
] [
No interior desse espaço, encontra-se o capital simbólico, “a partir da qual os atores sociais definem normas, assumem papéis e funções e organizam as suas relações, estruturas e atividades”, define Belochio (2009) com base em Klein, Kuschick Berger e Miranda. Dessa forma, as dinâmicas que se estruturam dentro dos campos atuam no sentido de organizar socialmente seu funcionamento. Contudo, no que diz respeito ao jornalismo, como se formam e a que função essas dinâmicas servem? Belochio (2009) nos lembra que o território, nesse caso, “formou-se historicamente baseado em métodos de produção e transmissão de informações que evoluíram conforme o desenvolvimento tecnológico”. Sousa (2014) reforça esta ideia ao apresentar alguns postulados que guiam sua análise com relação à história do jornalismo no ocidente. Destacamos para um em especial, que trata da maneira como as mudanças macroestruturais da sociedade impactam na própria natureza produtiva do fenômeno em questão:
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A gênese do jornalismo situa-se na Antiguidade Clássica, havendo uma retomada na Idade Moderna, graças ao Renascimento, ao
desenvolvimento do espírito iluminista da Ilustração e à satisfação das necessárias condições técnicas (tipografia de Gutenberg, fábricas
e sócio-económicas (alfabetização, capital, iniciativa
privada e empreendedorismo
de
papel
)
)
(SOUSA, 2014, p. 3).
Nesse mesmo sentido, a relação entre a tecnologia e seus efeitos no fazer midiático foi abordada por Briggs e Burke (apud Belochio, 2004). Para os autores, cada etapa da evolução tecnológica traz consigo questionamentos acerca das relações entre “a ‘propriedade’ da mídia e seu conteúdo, entre o conteúdo e a “estrutura” e entre a “estrutura” e tecnologia, principalmente a tecnologia nova” (BRIGGS; BURKE apud BELOCHIO, 2004, p. 267). Compreende-se, a partir daí, que as mudanças que afetam o território institucionalizado do jornalismo não são recebidas de maneira passiva por parte de seus atores. Ao contrário, tal processo é marcado justamente pela discussão acerca da função que essas inovações irão exercer dentro da nova rotina profissional. Um caso particularmente ilustrativo se deu com a chegada do telefone nas redações jornalísticas e as facilidades trazidas por ele.
O que antes só era possível na forma presencial, num espaço estabelecido, adquiriu novas perspectivas. A partir disso, foram modificadas a mentalidade e a organização dos indivíduos em diversos ambientes. As gerações que nasceram familiarizadas com essa tecnologia podem achar muito difícil viver sem seus benefícios (BELOCHIO, 2009, p. 24).
Ao longo da história, a prática jornalística foi se organizando e modificando a partir da delimitação das novas fronteiras de seu território e de seu campo, os quais se alteram conforme o estabelecimento de novas dinâmica na sociedade. Esses processos de evolução dentro do contexto de determinado território são apresentados, no que diz respeito aos marcos teóricos utilizados por Belochio (2009), tomam três formas distintas:
desterritorialização, re-territorialização e des-re-territorialização. Os processos de des-territorialização ocorrem quando a chegada de novas forças dentro de determinado território acarreta mudanças em seu funcionamento. Como coloca Belochio (2009, p. 25), corresponde a “renovação de processos, hábitos e práticas dentro de contextos estabelecidos [ ] capazes de alterar a atuação, função e objetivos de determinados campos”. Essa etapa é marcada por um intenso processo de debate acerca do papel a
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ser desempenhado pelas novas práticas e valores ou mesmo sua legitimidade, em processos marcado tanto por dinâmicas de resistência quanto de defesa. Em seguida, tem início o processo de re-territorialização pelo qual essas novas formas de atuação são institucionalizadas e os limites do território são novamente estabelecidos. Esses dois movimentos, quando ocorridos em sucessão dão origem à dinâmica de des-re-territorialização, que se dá dentro de uma perspectiva sociohistórica ao longo do tempo, ora com maior e ora com menor intensidade. Por meio dessa perspectiva teórica, em consonância com o que afirma Belochio (2009), entende-se aqui que a chegada das novas tecnologias de informação e comunicação desencadeou a acentuação desse movimento de des-re-territorialização em décadas recentes e na atualidade. Os efeitos desse processo já podem ser sentidos na forma de uma maior aproximação entre profissionais da área e amadores; no crescimento da influência e credibilidade de blogs especializados em determinados temas; entre uma infinidade de outros fatores que seguem surgindo e sendo incorporados sob a égide da des- re-territorialização.
1.2.1 O jornalismo e o discurso neoliberal
Para se compreender melhor o processo de des-re-territorialização do jornalismo, cabe pontuar o funcionamento de tal dinâmica, a qual está inserida no campo discursivo do sistema neoliberal. O neoliberalismo diz respeito a um conjunto de práticas, ideias e convicções econômicas que tem como base o pensamento liberal clássico. Dessa forma, representa uma releitura contemporânea, em grande parte, do que foi teorizado por Adam Smith (1988) durante o século XIII. De forma resumida, o filósofo argumenta que a busca de cada sujeito pela satisfação de suas necessidades, através da troca do excedente produtivo, leva ao enriquecimento de uma nação como um todo. Com isso, a presença de um Estado que regulasse as trocas, através da imposição de impostos, tarifas, taxas e afins, é vista como um empecilho para o desenvolvimento econômico. Deriva daí uma série de implicações, tais como o
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princípio da oferta e demanda; a especialização do trabalho visando o aumento da produtividade; a livre-concorrência; dentre outros. Contudo, é importante ressaltar que a doutrina neoliberal deixa de lado certos pontos da teoria clássica. Estudos mais atuais mostram que Adam Smith, ao contrário do que prega a cartilha neoliberal, não enxergava a desigualdade de renda como ocorrência natural do enriquecimento de um país. Conforme esclarece Boucoyannis (2013), se levado a cabo conforme descrito em A Riqueza das Nações, o modelo liberal implicaria no aumento dos salários e em lucros menores para as empresas; no fortalecimento da força de trabalho; na não-formação de monopólios e de alta concentração de capital. Tal fato se daria através da ação dos governos, de modo a mitigar os efeitos negativos do livre comércio, contribuindo assim para uma sociedade mais justa e igualitária. No entanto, o que se vê é a criação de políticas que se baseiam no ideário liberal clássico, mas com ressalvas que garantem os privilégios de determinados grupos. Em seu tempo, o filósofo já compreendia que as políticas que guiavam a intervenção do estado na economia deveriam ser analisadas levando em conta onde se estabelecia e de que forma era exercido o poder. Sobre essa questão, Chomsky (1999) nos lembra de que o próprio Adam Smith “apontou que os “principais arquitetos” da política na Inglaterra eram ‘mercadores e manufatores’ que usavam o poder do Estado para servir aos seus próprios interesses, não importa o quão “graves” fossem os efeitos nos outros, incluindo o povo da Inglaterra” (CHOMSKY, 1999, www.) 2 . Esse movimento de aparelhamento do Estado pelas forças produtivas privadas, de modo a intervir de maneira favorável aos próprios interesses, é compreendido por Chomsky como uma característica importante do neoliberalismo. O autor caracteriza os mecanismos usados pelos Estados Unidos para promover – e, não raramente, impor à força – a adoção de políticas neoliberais ao redor do mundo. Entretanto, o país sistematicamente rejeita medidas de livre mercado que possam ter impacto negativo na economia americana, ironicamente graças à pressão das grandes empresas que pressionam pela abertura de mercados no exterior.
2 No original: “pointed out that the “principal architects” of policy in England were “merchants and manufacturers” who used state power to serve their own interests, however “grievous” the effect on others, including the people of England.” (CHOMSKY, 1999, www.).
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Outro ponto importante que deve ser destacado com relação ao funcionamento do modelo neoliberal é sua pretensão a globalidade. Os Estados Unidos, que emergem da II Guerra Mundial como potência absoluta, buscam, através de uma série de políticas internas e externas, tomarem para si
o papel de porta-vez da democracia. A questão é que, na maior parte dos
casos, conforme mostra Chomsky (1999), essa ideia de democracia se resumia
a adoção de políticas de abertura de mercado. Essas, por sua vez, em sua
maioria, beneficiavam muito mais os EUA do que a população local. 3 Indiferente a esse fato, o país segue operando no sentido de implantar seu ideário neoliberal nos quatro cantos do mundo. Porém, para que esse modelo, com todas as suas contradições e injustiças gritantes, consiga se manter viável, é necessário que os sujeitos, ao menos dentro das nações democráticas, consintam com seu funcionamento. Fica, então, a pergunta: por que via se dá esse processo? Eminentemente pela via discursiva, que organiza, significa e naturaliza o discurso neoliberal nas diversas partes do mundo. Afinal, como afirma Dahlet (2014, p. 126), “mesmo o mais cínico dos sistemas necessita de procedimentos retóricos e de justificações éticas para viabilizar seus empreendimentos”. Nesse sentido, ele aponta para dois processos-chave que fundamentam de modo cada vez mais profundo do mundo enquanto “mundo naturalizado em sistema neoliberal” (DAHLET, 2014, p. 125): a eufemização e a redistribuição semântica. O primeiro diz respeito às palavras usadas para descrever o funcionamento do sistema neoliberal. Eufemismos são figuras de linguagem que funcionam como uma forma de suavizar o peso de determinadas palavras ou ideias. Um exemplo comum é quando dizemos que alguém “faleceu” ou “partiu” e não que a pessoa “morreu”. No caso do discurso neoliberal, essa ferramenta linguística é utilizada no sentido de maquiar as relações de poder e dominação inerentes ao sistema em questão. É a partir daí que surgem termos como “modernização” para se referir a “privatização”; “enxugamento da
3 Os exemplos são abundantes. Um dos citados por Chomsky (1999) diz respeito ao envolvimento dos Estados Unidos no golpe que derrubou o primeiro governo democrático da Guatemala, em 1954. A razão, segundo um oficial, citado pelo autor, foi a “ameaça à estabilidade” (“threat to stability”, no original) de Honduras e El Salvador devido às reformas políticas feitas pelo governo guatemalteco – reforma agrária, programas sociais etc.
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máquina pública” para se referir a diminuição de benefícios sociais; “revisão do fator previdenciário” para se referir ao aumento no tempo de contribuição necessário para a aposentadoria e “colaborador” ao invés de empregado”, para citar alguns exemplos. Com relação aos mecanismos de redistribuição semântica, são compreendidos por Dahlet como:
uma alteração de sentido historicamente atestado, resultante de uma
exploração/repetição incessante das palavras em questão [
resultando na possibilidade de empregar essa palavra para caracterizar novos objetos e fenômenos, a priori sem relação com ela, mas permitindo assim transferir-lhe por contaminação o dinamismo transformador do sentido histórico (DAHLET, 2014, p. 132-133).
e
]
Um dos casos mais interessantes citados pelo autor seja, talvez, o da palavra “social”. Antes, aponta, servia para descrever “tudo que podia ser feito para levar o povo ao poder e constituir um governo de políticas públicas destinadas a satisfazer igualmente as necessidades de todos” (DAHLET, 2014,
p. 131). Entretanto, no panorama atual, é usado para designar medidas ou
políticas que visam a reprodução do próprio sistema neoliberal, analisa o referido autor.
O mesmo acontece com o termo “ideologia” que, segundo Dahlet (2014,
p. 133), num primeiro momento diz respeito a “ciência das ideias nas suas
relações com os signos” (p. 133). Num momento seguinte, passou a descrever
“conjuntos de ideias e doutrinas de todo tipo [
determinada época: ideologia cristã, conservadora, reacionária, liberal, revolucionária, marxista, socialista”. No entanto, na prática, virou um termo de conotação negativa usado, principalmente, para caracterizar as ideologias de esquerda ou, como explica Dahlet (2014, p. 134), para caracterizar “tudo que contribui, mais ou menos violentamente, para reduzir a renda dos mais ricos e a liberdade do povo”. Quando não é utilizada nesse sentido, a palavra parece ser usada como oposição a valores como realismo, pragmatismo ou eficácia – ou seja, se opondo a valores-chave que o discurso neoliberal tomou para si. Esse fenômeno ganha força, como argumentam Bourdieu e Wacquan (2001), ao circular por todas as partes do mundo através de instituições de alto prestígio, que, em teoria, possuem senso crítico e neutralidade intelectual em relação aos rumos da política global.
características de uma
],
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Além de universidades e escolas de negócio, os grandes veículos de mídia desempenham também um papel essencial nesse processo, uma vez que funcionam segundo a lógica de mercado, naturalmente auxiliam na reprodução do sistema neoliberal. Às vezes, de forma sutil, eufemizando termos e jogando com as palavras, como apontou Dahlet (2014); em outras, de forma francamente golpista, como ocorreu na Venezuela, em 2002. 4 O fato é que o Jornalismo, uma vez tratado enquanto atividade empresarial – vivendo, em grande parte, dos lucros obtidos com publicidade – entra em uma espiral produtiva do próprio sistema neoliberal, em que se perde muito daquilo a que se propõe: servir como mecanismo de circulação de informações relevantes por todas as partes da sociedade.
1.3 Redes colaborativas
Atualmente, muito se fala sobre processos, trabalhos ou plataformas ditas “colaborativas”, o que, algumas vezes, pode passar a impressão de que essa ideia é algo recente. Entretanto, há séculos as pessoas vêm colaborando entre si para o desenvolvimento das civilizações humanas. O que muda, na contemporaneidade, é a possibilidade de mudar a maneira como os recursos e atividades são ordenadas de forma a atingir determinado objetivo. Como lembra Castells (2005, p. 17-18), antes da ascensão das redes, o mundo foi marcado por “organizações grandes e verticais, como os estados, as igrejas, os exércitos e as empresas que conseguiam dominar vastos polos de recursos com um objetivo definido por uma autoridade central”. O motivo para isso era a grande dificuldade de reunir e gerenciar grandes contingentes de pessoas e recursos em rede, restringindo o uso desse arranjo principalmente ao mundo privado – grupos de amigos, familiares. No entanto, essas dificuldades vão sendo deixadas para trás com a possibilidade de conexão direta e instantânea, tomando corpo em das principais características da sociedade em rede, conforme descrita por Castells
4 Na ocasião, os principais veículos de comunicação da Venezuela participaram ativamente da tentativa de golpe contra o então presidente, Hugo Chávez. Uma fonte interessante sobre a participação da mídia no processo é Lemoine (2002), para o jornal Le Monde Diplomatique. Disponível em: <http://mondediplo.com/2002/08/10venezuela>. Acesso em: 1 dez. 2014.
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(2005): um aumento exponencial na capacidade humana de se organizar em redes. Nas palavras do autor:
em termos simples, é uma estrutura social baseada em redes
operadas por tecnologias de comunicação e informação fundamentadas na microelectrónica e em redes digitais de computadores que geram, processam e distribuem informação a partir de conhecimento acumulado nos nós dessas redes (CASTELLS, 2005, p. 20).
] [
É especialmente interessante atentar, no trecho acima, para a questão
dos nós que acumulam o conhecimento que é distribuído. “Nós” são pontos individuais dentro de uma rede que, por sua vez, estão conectados, direta ou
indiretamente, a todos os outros nós que compõe essa rede. Como isso se dá em um ambiente virtual, que não é limitado pelas fronteiras geográficas, um dos efeitos decorrentes dessa estrutura é que ela permite que diversas pessoas possam colaborar num mesmo projeto, dentro da rede, sem que necessariamente estejam presentes. Ao levarmos em conta esse aspecto para o caso específico do jornalismo, cuja matéria-prima é a informação, nos deparamos com um mecanismo que tem grande potencial de auxiliar no seu funcionamento e na contribuição para a democracia. Essas características se tornam ainda mais interessantes quando se considera a proliferação, nos últimos anos, das plataformas de publicação/difusão de conteúdo e as novas formas de
socialização que derivam diretamente da interação com esses conteúdos. No espectro mais popular, tomam forma em sites como Facebook, Twitter, Tumblr; mas há também outros, como o Reddit, 4Chan, CraigsList, 9GAG.
A possibilidade de colaborar em temas altamente específicos possibilita
ainda o surgimento de sites como a UltramanWiki: dedicada exclusivamente à franquia japonesa Ultra Series, famosa no Brasil pela série Ultraman, exibida durante os anos 60 e 80.
O exemplo é propositalmente extremo, pois visa dar conta do seguinte
panorama: como, na era pré-internet, seria possível empreender um esforço para reunir tais informações, além de torná-las públicas, através apenas de trabalho voluntário? Provavelmente não. A quantidade de pessoas que se interessam por esse tema não é grande e o projeto envolveria gastos que, no geral, não tornariam essa empreitada financeiramente viável. Entretanto, ao
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reunir fãs de diversas partes do mundo que podem facilmente inserir, checar e conferir informações em um mesmo local, a ideia torna-se viável. Em outras palavras, tornou-se possível graças a organização em rede e às particularidades da internet. No tocante ao modo pela qual se organiza o trabalho, Shirky (2008) nos oferece algumas reflexões importantes, em especial, no que diz respeito ao funcionamento midiático. O autor nos lembra que, em essência, as organizações surgem para atender uma determinada demanda da sociedade. Na medida em que crescem, a tarefa de administrá-la torna-se cada vez mais complexa, surgindo daí sistemas hierárquicos, processos, valores, setores - um corpo burocrático que visa racionalizar seu funcionamento, já que os recursos são limitados e é necessário manter a sustentabilidade do sistema. Dessa forma, cada sujeito tem papéis bem definidos: no caso do jornal, por exemplo, um repórter coleta e redige informações; um editor decide o que é ou não é publicado; diagramadores montam os textos na página e assim por adiante, seguindo uma lógica da linha de produção. Durante boa parte dos séculos XIX e XX, não haviam muitas saídas para esse modelo. O custo dos meios de produção relativos aos veículos de imprensa também contribuía em muito para esse cenário. Contudo, como vimos, isso muda conforme a internet começa a dar seus primeiros passos. Paralelamente, instrumentos de captação do real – gravadores, filmadoras, máquinas fotográficas – vão se tornando mais acessíveis a uma parcela crescente da população, com a transição dos modelos analógicos para os digitais aumentando drasticamente a capacidade de armazenamento. Dessa forma, chegamos ao panorama contemporâneo. Na era pré- Internet, para fazer circular informações relevantes através da sociedade, era necessário criar uma organização que pudesse arcar com os custos dessa tarefa altamente onerosa. Contudo, atualmente, o mesmo trabalho pode ser feito por um grupo muito menor e com orçamento proporcionalmente ínfimo, sem que necessariamente seja necessário criar uma organização ou contar com profissionais. Ao invés disso, o trabalho se divide ao longo de uma extensa rede de colaboradores (as), que se organizam de maneira autônoma e orgânica através de uma plataforma específica. Outra vantagem é que ao abrir a participação para qualquer pessoa, passam a ser incluídas também as
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contribuições pontuais, uma vez que não é necessária vinculação formal a uma organização. Em grande parte, pelo atual funcionamento colaborativo da internet, com milhões de pessoas produzindo e fazendo circular conteúdos por toda a sua extensão.
1.3.1 Jornalismo colaborativo
No que diz respeito ao jornalismo colaborativo, Madureira (2009) aponta que o fenômeno surge nos Estados Unidos e na Ásia no fim dos anos 1990, ganhando maturidade ao longo dos anos 2000. O autor exemplifica algumas iniciativas que foram pioneiras nesse tipo de atividade, como o IndyMedia, criado por ativistas e organizações independentes para cobrir o Fórum da Organização Mundial do Comércio (OMC). Esta terminou por dar origem a diversas outras ações parecidas ao redor do mundo. No Brasil, se cristalizou na forma do Centro de Mídia Independente (CMI), uma das primeiras desse tipo no país. O sítio (http://www.midiaindependente.org) foi fundado em 2001 por “ativistas que participaram da organização (em São Paulo) do protesto contra a reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI), […] através da troca de informações por uma lista de discussão” (RIGITANO, 2003). Atualmente, existem outros coletivos 5 que operam em diversas outras cidades, com endereços online próprios, mas vinculados ao portal principal que reúne uma quantidade considerável de textos. Outra iniciativa de destaque no cenário jornalístico atual é o portal Outras Palavras (www.outraspalavras.net), onde estão reunidos tanto textos produzidos pela própria equipe, que mantém o site através de doações, quanto de diversos outros autores e autoras independentes. A linha editorial preza por artigos que discutem o que o site descreve como “pós-capitalismo” - como tal, todo conteúdo é oferecido gratuitamente. O espaço se faz valer, assim, das contribuições de diversos (as) colaboradores (as) para agregar valores e
5 Existem pontos em Brasília, Curitiba, Goiânia, Fortaleza, etc. Para uma lista completa, ver:
<http://www.midiaindependente.org/pt/blue/static/volunteer.shtml>.
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credibilidade tanto aos indivíduos quanto a organização como um todo, além da rede de pessoas que se interessa pelo jornalismo “alternativo” 6 . Caso semelhante é o do Estúdio Fluxo, fundado por Bruno Torturra, um dos principais articuladores da Mídia Ninja e importante ativista do jornalismo independente brasileiro. A base física do projeto é mantida através de doações voluntárias, visto que todo conteúdo é gratuito; a mobília utilizada foi oferecida por pessoas que se interessaram pelo projeto através da web; usuários são convidados a participarem de live streams, debates e no envio de informações através da internet. Esses fatores apontam e ao mesmo tempo contribuem para a formação de um universo informativo que é independente do território tradicional da mídia. De modo correlato ao processo de des-re-territorialização do jornalismo, nota-se também o surgimento de uma rede de informações que é a própria Internet, na forma de um simulacro de estrutura midiática 7 que é marcada por dinâmicas, valores e linguagem próprios. Entre estes, destacam-se a neutralidade das informações; organicidade; colaboratividade em rede; altíssimo índice de entropia; funcionamento mimético; entre outros. Funcionam, neste sentido, tanto para o bem quanto para o mal: se por um lado inclui as pessoas no abastecimento da esfera pública, por outro lado oferece espaço para circulação de rumores e factóides; se por um lado oferece uma variedade vertiginosa de conteúdo, perde por outro na qualidade do mesmo; assim sucessivamente.
6 Compreendido aqui, dentro da perspectiva teórica apresentada com base em Charaudeau (2008), como aquela que prioriza a circulação dos discursos de contrapoder 7 Compreendido aqui como conjunto de mecanismos que promovem a circulação de informações sobre a sociedade como um todo, do nível macro ao nível micro.
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CAPÍTULO 2 – CRISE MIDIÁTICA
A crise do Fora do Eixo e da Mídia Ninja se deu, em parte, como resultado de uma disputa de “poder dizer” dentro do território institucionalizado do jornalismo. Ao propor uma desterritorizaliação radical, através do uso das redes, ao mesmo tempo em que atacava de forma muito contundente a atuação das mídias tradicionais, desencadearam uma reação dessa última. Esta se deu na forma da crise que, como veremos mais adiante, foi ainda mal administrada e resultou em uma imensa perda de reputação por parte de ambas as iniciativas. Por sua vez, isso resultou na anulação de sua capacidade de atuação política do coletivo. Com isso em mente, precisamos analisar de maneira mais aprofundada o contexto em que se deu sua criação, levando em conta também suas particularidades. Em meio aos avanços recentes na comunicação digital, a sociedade vem, pouco a pouco, repensando seus modos de organização. Atualmente, tornam-se cada vez mais comuns organizações abertas, estruturadas em rede, principalmente, no setor criativo. A facilidade de transmitir informações para qualquer parte do mundo, em tempo real, tem sido o motor principal dessas profundas transformações no modo como trabalhamos, nos relacionamos e consumimos. Na era pré-Internet, para fazer circular informações relevantes pela sociedade, era necessário criar uma organização que pudesse arcar com os custos dessa tarefa altamente onerosa. Atualmente, com a drástica queda nos valores para se veicular informações via web, o mesmo trabalho pode ser feito por um grupo muito menor, sem que necessariamente seja necessário criar uma organização formal ou contar com profissionais. Esse é o caso do Fora do Eixo, uma rede que reúne cerca de 200 coletivos culturais, sediados de norte a sul do Brasil. A iniciativa, que começou reunindo coletivos de Cuiabá, Londrina, Uberlândia e Rio Branco, tinha o objetivo inicial de fortalecer a cena musical independente no país – em especial, a que se localizava fora do eixo Rio de Janeiro – São Paulo, daí a origem do nome. Entretanto, conforme foi crescendo, passou a abarcar uma
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vasta variedade de linguagens, projetos e pautas, a exemplo da fotografia, do audiovisual, da política, da economia criativa, entre outros. Todas as ações do grupo são planejadas e executadas de forma descentralizada, via web, através de listas de e-mail, chats, fóruns, IRC, Skype, Google Hangouts etc. Na base, estão os coletivos locais, no geral, abertos a qualquer um que queira participar; esses são auxiliados por coletivos maiores, que, em alguns casos, já possuem sede própria, onde os integrantes vivem e trabalham com dedicação exclusiva. Os recursos financeiros são arrecadados de várias formas: através de leis de incentivo a cultura, prestação de serviços (design gráfico, fotografia, vídeo, redes sociais), realização de eventos, doações e diversos outros meios. Entretanto, muito do que é feito só é possível graças aos milhares de voluntários que, muitas vezes, oferecem sua força de trabalho pela experiência comunitária proporcionada pela vivência dentro da rede. O dinheiro que essas pessoas abrem mão de receber passa a ser revertido para a própria organização, que mantém casas coletivas, compra equipamentos, investe em formação, realiza eventos. A Mídia Ninja surgiu dentro desse contexto, sendo um braço jornalístico do Fora do Eixo. Idealizada, principalmente, por Bruno Torturra, o nome é uma sigla para “Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação”. A proposta, lançada durante o encontro nacional da rede em 2012, era no sentido de consolidar a figura do jornalista “ninja”, capaz de desempenhar múltiplas funções ao mesmo tempo, mesmo sob condições adversas. Este seria responsável também por mostrar o que a mídia tradicional não mostra ou releva, seja por constrangimento político, seja por pressão financeira ou editorial. A produção desse material ficaria a cargo de pessoas comuns, de modo que pudessem retratar elas mesmas as suas realidades locais; esse conteúdo seria, então, reverberado em rede. Esse projeto editorial não é, de modo algum, inédito na história. Há várias décadas que veículos impressos, rádios e televisões – legalmente estabelecidos ou não – buscam fazer um contraponto ao discurso midiático neoliberal. Entretanto, a grande dificuldade estava situada na capacidade de manter a sustentabilidade de tais veículos sem abrir mão dos princípios editoriais ou ideológicos.
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Na atualidade, os meios de produção e difusão jornalística, como vimos, se tornaram acessíveis a um grande número de pessoas. O mesmo vale para a capacidade de oferecer colaborações individuais, sem a necessidade de se vincular a uma organização ou corpo profissional. Esses fatores são o que possibilitam que projetos jornalísticos mais cívicos e democráticos, como a Mídia Ninja, disputem território discursivo com grandes veículos tradicionais. Contudo, as mudanças em um determinado campo social dificilmente são aceitas de maneira passiva. Ao contrário, quase sempre são articulados movimentos contrários a esse processo, com o objetivo de preservar a essência do campo. O fato é verdadeiramente especial quando diz respeito às práticas neoliberais, uma vez que, conforme aponta Dahlet (2014), é perceptível a formação de um globo discurso que visa naturalizar as desigualdades inerentes a esse modelo. No âmbito específico da batalha entre as formas mais novas e mais tradicionais de atuação da mídia, geralmente, um dos lados detém o monopólio da comunicação em larga escala enquanto o outro costuma atuar em uma área bem mais limitada da arena pública – como veremos a seguir.
2.1 As origens da crise midiática da Mídia Ninja
A Mídia Ninja ganhou imensa notoriedade por sua cobertura durante os
protestos de junho de 2013, em muito graças ao trabalho realizado da forma que foi descrita nos parágrafos anteriores: sempre muito próxima da ação,
buscando dar voz a quem não se sentia representado pelas mídias tradicionais. Grande parte do interesse se dava pelo fato de que os “ninjas” faziam transmissões ao vivo das manifestações, utilizando apenas um celular com conexão a internet e um notebook, do qual era usada a bateria para manter o celular carregado. Entretanto, essa não era a única frente de atuação. Redes sociais como Facebook, Twitter, Flickr e YouTube eram abastecidas diariamente com conteúdo produzido por colaboradores independentes e pessoas que já faziam parte do Fora do Eixo.
O ápice da notoriedade se deu quando o Jornal Nacional, um dos mais
importantes do país, usou imagens do grupo independente em uma matéria
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que tratava justamente dos protestos. Na ocasião, um rapaz havia sido acusado de atirar coquetéis molotov 8 em um grupo de policiais, conforme reportagem do portal G1(2014). Contudo, em um vídeo produzido pela Mídia Ninja, durante o a transmissão dos protestos, mostrava que o acusado era inocente. Passado o turbilhão inicial das manifestações, Bruno Torturra (principal idealizador da Mídia Ninja) e Pablo Capilé (fundador do Fora do Eixo) foram convidados ao programa Roda Viva (2014) da TV Cultura. Os dois foram, então, sabatinados por representantes de diversos veículos tradicionais de mídia: Suzana Singer, ombudsman da Folha de São Paulo; Alberto Dines, do Observatório da Imprensa; Eugênio Bucci, professor da Escola de Comunicação e Artes da USP, além de colunista do Estado de São Paulo; Caio Túlio Costa, da ESPN Brasil; Wilson Moherdaui, da revista Informática Hoje e o próprio apresentador, o jornalista Mário Sérgio Conti. De início, Mário Sérgio Conti faz quatro perguntas: o que é a “Mídia Ninja?”, “o que faz?”, “como se mantém?” e “se consideram isso jornalismo”. Torturra responde as duas primeiras, em seguida, confirma que o que fazem é, de fato, jornalismo e diz considerar curioso que exista alguma dúvida sobre isso. Ao longo do programa, foram indagados sobre uma série de questões, que vão desde a relação com partidos como o PT, qual seria o plano de negócios do projeto, de onde viria o dinheiro, se realmente seria independente. Todavia, ao fim do Roda Viva, o saldo era relativamente positivo. A batalha que colocaria em jogo a reputação da Mídia Ninja e, em especial, o Fora do Eixo, só teria início nos próximos dias. Alguns dias depois, a cineasta Beatriz Seigner publicou um depoimento em que relatava uma série de experiências negativas com relação ao grupo. A participação de Pablo Capilé e Bruno Torturra no Roda Viva foi um dos fatores que motivou a cineasta Beatriz Seigner a publicar, via Facebook, um longo depoimento onde tecia profundas críticas ao movimento. No texto quase não há menção a Mídia Ninja, apenas ao Fora do Eixo, que, até então, abarcava o projeto e o abastecia com recursos tanto tecnológicos quanto humanos.
8 Artefato explosivo que consiste, basicamente, de uma garrafa de vidro contendo algum líquido inflamável. A boca da garrafa é vedada com uma rolha e um pano, que é usado como pavio. Ao atirar a garrafa com o pano em chamas, esta se quebra ao cair no chão e espalha ocombustível, que entra em combustão.
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Ela relata suas experiências com base no contato que manteve durante cerca de um ano. Segundo Beatriz, não só Pablo Capilé nutria um profundo desprezo pela classe artística, como era também um líder autoritário, que centralizava em si todo o movimento. Alega também que este seria contra o pagamento de cachê aos artistas e que a Rede, como um todo, busca se apropriar de eventos de outros grupos para se promoverem, além de (super) inflacionarem os próprios feitos tendo em vista a obtenção de patrocínios e afins.
O depoimento inspirou outro, escrito e publicado pela jornalista Laís Bellini. Um dia depois, a ex-integrante que viveu cerca de três meses na principal sede da organização – a Casa Fora do Eixo São Paulo, em São Paulo (SP) – reforçou o depoimento de Beatriz e denunciou outras práticas preocupantes. Em sua página pessoal do Facebook, ela detalha uma série de práticas autoritárias e abusos psicológicos sofridos por ela dentro da Casa Fora do Eixo São Paulo, principal sede do Coletivo. Compara o funcionamento do Fora do Eixo a uma seita:
Com cara de culturalmente popular, musicalmente descolada,
pessoalmente encantadora, internamente
que está cega como eu já estive e com um número contável nas mãos de quem são os controladores e administradores da rede querendo consumir uma só coisa em você: a sua mente (BELLINI,
cheia de gente incrível
2013)
De acordo com seu texto, Laís era proibida de sair da casa e havia pressão para que não conversasse com quem era de fora da Rede; sobre a suposta horizontalidade, diz que havia na verdade uma estrutura altamente engessada e que a “cúpula”, liderada por Capilé, era quem na verdade tomava todas as decisões.
Diria mais, ali se vive uma ditadura monárquica com toda a sujeira de autoritarismo de milhões de outras caras bonitas que possa haver num governo que se considera como tal. Monárquica porque o Pablo [Capilé]é um rei lá dentro […]. E dito ditatorial porque a única coisa que consigo associar com o medo que existe nas pessoas em questionar o poder da cúpula é a ditadura” (BELLINI, 2013).
Figuram ainda as seguintes afirmações: críticas internas eram abafadas e a pessoa que as fez, rechaçada; comenta sobre jornadas de trabalho que iam das 8h às 4h da manhã, durante a preparação de um congresso interno – ou
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seja, uma média de 19h por dia; haveria forte orientação sexista: mulheres eram direcionadas para certas áreas e homens para outras, no geral as mulheres eram responsáveis pelo serviço doméstico. Isso porque fala ainda de práticas como a que chama de “catar e cooptar”: em reunião interna, um membro (a) era indicado (a) para seduzir determinada pessoa que era considerada interessante para o Fora do Eixo. Laís questiona também a legitimidade fiscal, apontado para o possível uso de notas frias. Quando deixou a Casa, a rede devia a ela aproximadamente R$5 mil. Ao desconsiderar uma série de questões, decidiu fechar a dívida em R$3 mil, dos quais recebeu apenas R$500. Isso porque para “sair da rede tem que ter algum recurso financeiro para começar a vida do zero e muitos, que eu sei, ainda enfrentam longas sessões de terapia” (BELLINI, 2013). Além desses dois depoimentos, diversos outros começaram a surgir e circular tanto pelas redes sociais quanto nos principais jornais do país, em um processo de retroalimentação: quanto mais as críticas ganhavam espaço na mídia, mais depoimentos surgiam na web. Estado de S. Paulo, Veja, O Globo, O Tempo e diversos colunistas, blogueiros, músicos, se manifestaram sobre o tema – em geral, em textos com enquadramento negativo da organização.
2.2 Modelo de gestão de crise de Coombs
Antes de analisarmos uma crise, somos confrontados com a seguinte problemática: como podemos defini-la, de modo a diferenciar as crises de uma
simples turbulência pontual? A literatura especializada nos oferece uma série de contribuições.
A Universidade de Louisville (apud FORNI, 2013), por exemplo, a
compreende como “perturbação ou desordem nas atividades da organização
que resulte em grande cobertura de notícias”. Forni (2013) também apresenta a concepção usada pelo Institute for Crisis Management: “uma ruptura significante dos negócios que estimula uma extensa cobertura dos meios de comunicação”.
Já Rosa (2003), em suas análises, parte da seguinte definição:
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Um conjunto de eventos que pode atingir o patrimônio mais importante de qualquer entidade ou personalidade que mantenha laços estreitos com o público: a credibilidade, a confiabilidade, a reputação (ROSA, 2003, p. 23).
Forni (2013, p. 8) atenta que as definições são variadas, mas possuem zonas de convergência: “a crise exibe duas características bem definidas: a ameaça e o fator do tempo”. No entanto, em nosso entendimento, a atuação dos sistemas de comunicação em larga escala também é um fator essencial na identificação de uma crise. Isso porque partimos do pressuposto de que, para que ocorram danos significativos na reputação de determinada organização, ela precisa ser colocada em uma posição de destaque na esfera pública. Com isso em mente, decidiu-se aqui adotar o conceito utilizado por Coombs (2007), dentro do contexto mais amplo do modelo teórico formulado pelo autor, justamente pelo foco que é dado aos aspectos comunicacionais. Segundo ele, as crises são:
um evento súbito ou inesperado que ameaça romper as operações de uma organização e que representa uma ameaça tanto financeira quanto reputacional. Crises podem causar dano aos stakeholders de maneira física, emocional e/ou financeira (COOMBS, 2007, p. 163). 9
Para Forni (2013), existem 16 tipos possíveis de crise: direitos do consumidor, ética empresarial, meio ambiente, relações trabalhistas ou de pessoal, catástrofes naturais, segurança pública, poder público, danos patrimoniais, controle financeiro, contencioso jurídico, imagem, tecnologia, serviço público, crises regulatórias, crises de gestão e crises políticas. Do ponto de vista dos efeitos causados pelas crises, o autor (2003) as classifica em duas categorias distintas. A primeira é a devastadora, que acontece a partir de eventos como denúncias, assaltos, reclamações graves e afins. São, assim, eventos que tem naturalmente um alto potencial para reverberação na mídia. A segunda categoria é da crise supostamente insignificante: demissões em massa, vazamentos de produtos e contaminação ambiental etc. Em suma, eventos que, a primeira vista, não possuem
9 No original: “a sudden and unexpected event that threatens to disrupt an organization’s operations and poses both a financial and a reputational threat. Crises can harm stakeholders physically, emotionally and/or financially” (COOMBS, 2007, p. 163).
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notoriedade o bastante para serem amplificados pela atuação da máquina midiática. Em nossa visão, a classificação de Forni (2003), apesar de útil, possui uma série de limitações, pois é, em sua totalidade, baseada em estudos de caso. O problema disso é que, sem uma base teórica mais sólida, a fundamentação das análises fica restrita apenas ao que já aconteceu; da mesma forma, sua aplicação é restrita aos casos específicos da qual trata. No entanto, essa lacuna metodológica é preenchida na presente pesquisa por Coombs (2007). O autor parte da noção de que são poucos os trabalhos que lidam com o modo como os stakeholders – pessoas que, de alguma forma, afetam ou são afetadas pela organização – reagem às estratégias escolhidas para proteger a reputação de uma organização durante uma crise. Nesse sentido, apresenta, então, o modelo de Situational Crisis Communication Theory (SCCT) – ou Teoria da Comunicação de Crise Situacional, em tradução livre. Segundo o autor, esse modelo é capaz de oferecer um quadro de análise que ajuda a maximizar a proteção reputacional nas ações de comunicação tomadas após a crise. Ele ressalta que o método SCCT se baseia não em estudos de caso, mas no método experimental. Coombs (2007) avança também na noção de “capital reputacional”, usando a metáfora de uma conta de banco: a reputação é acumulada nessa conta ao longo da existência da organização e, em uma situação de crise, o que está em jogo é o quanto desse capital será perdido. Por isso, a importância de manter esse “saldo” sempre o mais positivo possível – ou, nas palavras de Coombs, uma reputação “favorável” - já que em uma situação de crise, esse capital entrará em jogo para aliviar os efeitos negativos da situação. Porém, antes de tratar das técnicas oferecidas pelo modelo SCCT para proteger a reputação de uma organização, Coombs reforça que, antes de tudo, devem ser tomadas atitudes para proteger a integridade dos stakeholders. Por exemplo, informar ao público que determinado produto não deve ser consumido ou como proceder diante da situação de crise. Em seguida, prestar auxílio psicológico para mitigar o estresse causado, informando o que aconteceu e o quais providências estão sendo tomadas. Por fim, recomenda
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também que sejam feitas demonstrações de apreço pelos stakeholders, mas não necessariamente admitindo a culpa pelo ocorrido.
A origem da teoria de Coombs está na attribution theory, a qual parte do
pressuposto de que, especialmente diante de eventos negativos e inesperados, as pessoas buscam as causas desse evento. Em seguida, atribui responsabilidade por tal fato a alguém ou alguma coisa, ao mesmo tempo em que passa por uma reação emocional – estas podem ser a raiva ou a “simpatia” - e tanto a responsabilidade atribuída quanto a reação emocional podem servir como estopins para a ação. Dessa forma, a resposta será considerada negativa quando uma pessoa
é julgada com responsável e a raiva é invocada; será positiva quando uma
pessoa não for julgada responsável e a simpatia é invocada. Baseia-se, portanto, nos eventos que desencadearam a crise e a maneira como são percebidos/interpretados pelo público em geral: poderiam ter sido evitados ou não? Caso a organização seja considerada culpada, terá sua reputação afetada. Com isso, o SCCT concentra suas forças na análise da situação de crise, de modo que quem fica responsável por gerenciá-la possa escolher a
melhor estratégia possível. Presta atenção especial também na relação do gestor com a ameaça reputacional em questão. Essa ameaça representaria a quantidade de dano que pode ser causado na reputação da empresa, caso nenhuma ação seja tomada. Essas ameaças são determinadas com base em
três fatores: (I) a responsabilidade inicial pela crise; (II) o histórico da crise; (III)
a reputação relacional prévia. Cabe aqui uma breve elucidação a respeito de cada um desses pontos.
A responsabilidade inicial pela crise, de forma resumida, diz respeito ao
quanto a reação dos stakeholders é no sentido de atribuir responsabilidade pela crise a ações organizacionais. Contudo, para compreender o modo como esse processo está ocorrendo, é necessário entender a maneira como a crise está sendo “enquadrada”. Esse enquadramento funciona em dois âmbitos distintos: o da comunicação, que diz respeito ao modo como a informação é apresentada no contexto de uma mensagem e o do pensamento, que trata da
maneira como essa informação será processada a nível individual (COOMBS apud DRUCKMAN, 2001).
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O autor nos lembra, contudo, que a maneira como a informação é apresentada ajuda a determinar o modo como ela será processada, uma vez que é possível ressaltar certos aspectos e maquiar outros. Esse fato tem impacto direto na maneira como os stakeholders irão atribuir responsabilidade à organização. Portanto, caberá ao responsável trabalhar o enquadramento ou perceber este enquadramento em sua análise dos discursos midiáticos.
No que diz respeito a esse ponto, o método SCCT aponta três níveis
distintos de atribuição de responsabilidade. No primeiro deles, o grau de atribuição de responsabilidade é muito baixo, como nos casos em que a crise resulta de desastres naturais, rumores e afins – no caso, o enquadramento é de vítima. No segundo, o enquadramento é o do acidente, onde existe um mínimo de atribuição de responsabilidade. Incluem-se aqui eventos considerados não-intencionais ou que não poderiam ter sido controlados pela
organização, como acidentes e erros técnicos. Por fim, no terceiro caso é onde se encontram os eventos compreendidos, pelos stakeholders como intencionais, onde as atribuições de responsabilidade são muito fortes. Essas ocorrem em casos de erro humano, desvios morais e afins.
O histórico de crise diz respeito a crises anteriores que sejam
semelhantes àquela com a qual se está lidando no presente. Esse ponto é importante, pois, segundo a attribution theory, situações de crise que se repetem passam a impressão de que existe um problema organizacional recorrente. Finalmente, por reputação relacional prévia, compreende-se o modo como a relação da organização com seus (as) stakeholders, em outras situações e ao longo de sua história, é percebida. Esse histórico pode ser favorável (quando tratou bem esse grupo) ou desfavorável (quando tratou mal). Um quadro desfavorável indicaria que a organização não se importa com o bem-estar desse grupo, não apenas em situações de crise, mas em um contexto mais geral. A partir disso, Coombs aponta que dois passos são importantes ao avaliar a ameaça reputacional. O primeiro é determinar o grau de responsabilidade inicial que foi atribuído pelos stakeholders. A ameaça será tão maior quanto for o grau de responsabilidade atribuído. Em seguida, o gestor deverá analisar o histórico de crises e a reputação relacional prévia, já que esses são fatores que intensificam ou suavizam a situação. Por exemplo, se é
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a terceira vez que a mesma crise acontece, a perda de capital reputacional certamente será maior do que se fosse a primeira vez. Essas relações são apontadas pelo autor no diagrama abaixo (FIG. 1).
FIGURA 1: Passos para se analisar a ameaça reputacional Fonte: Coombs (1993).
Na figura, as seguintes relações são estabelecidas: (I) “A” diz respeito ao impacto que a responsabilidade atribuída pela crise tem na reputação organizacional; (II) “B1” e “B2” estão relacionados ao impacto do histórico na responsabilidade atribuída e reputação organizacional, respectivamente; (III) “B3” e “B4”, ao impacto da reputação relacional prévia na responsabilidade atribuída pela crise e reputação organizacional; (IV) “C” está atrelado ao impacto da atribuição de responsabilidade pela crise na emoção dos stakeholders, podendo gerar afetos negativos; (V) “D” retrata a relação entre reputação organizacional e intenção de comportamento; (VI) “E” relaciona o impacto das emoções dos stakeholders com as intenções de comportamento. As estratégias usadas para conter as crises são representadas pelas flechas: (I) F1, que diz respeito às usadas para atuar no âmbito da responsabilidade atribuída pela crise; (II) F2 corresponde às utilizadas para
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atuar no âmbito da reputação organizacional; (III) às empregadas para conter efeitos negativos no âmbito das emoções. Desse modo, essas estratégias de gestão de crises podem ser de três ordens distintas: negação; diminuição e/ou reconstrução. Cada uma delas possui certas particularidades que buscaremos abordar aqui. As primeiras funcionam conforme sugere o próprio nome: no sentido de negar que existe uma crise ou que os eventos que a desencadearam não possuem relação com a organização. Ao cortar esses vínculos, procura-se neutralizar também as perdas reputacionais. Coombs (2007) recomenda que estas sejam usadas em casos que a atribuição de responsabilidade seja muito baixa.
Em seguida, têm-se as estratégias de diminuição, que visam, principalmente, mostrar que a crise não é tão ruim quanto parece ou que a organização não tinha controle sobre os eventos. Ao contrário da primeira, não busca negar uma conexão com os fatos negativos, mas enfraquecer essa ligação. Aqui, a recomendação de uso vale para casos onde a atribuição de responsabilidade já seja mais forte, como é o caso das situações acidentais e afins.
As estratégias de reconstrução funcionam como uma maneira de, literalmente, (re)significar a reputação. Estão incluídas aqui ações de ressarcimento econômico, auxílio direto às vítimas, pedidos de desculpa públicos, enfim. É recomendada nos casos em que o nível de atribuição de responsabilidade é muito alto: quando a organização, de forma consciente, colocou pessoas em risco ou agiu de forma conivente com a situação que desencadeou a crise, por exemplo. É necessário ressaltar que, do ponto de vista da proteção reputacional, levar em conta o papel desempenhado pelas mídias. Independentemente da estratégia escolhida, deve-se pensar em como fazer com que as ações tomadas a partir daí cheguem até a grande mídia. Isso porque, conforme afirma Coombs (2007), ela é uma das grandes responsáveis por determinar a maneira como as pessoas enxergam a situação.
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CAPÍTULO 3 – ANÁLISE
Para discutir as estratégias de defesa e gerenciamento de crise do Fora do Eixo diante de sua crise midiática em 2013, a presente pesquisa realiza um movimento analítico do nível textual para o contextual, percorrendo as denúncias na mídia e as defesas praticadas pelo coletivo. Em um primeiro momento, caracterizamos “qual é o tipo de crise”. Para tanto, investigamos os ethé projetados pelo jornal paulista Folha de S. Paulo de 8 a 15 de agosto de 2013, quando publicou uma série de denúncias sobre o coletivo cultural. Essa incursão permite perceber o cenário midiático que o grupo se depara, a fim de sustentar melhor as análises de suas táticas de resposta. Posteriormente, o estudo realiza uma macroanálise da gestão de crise empreendida pelo Fora do Eixo, comparando-se a observação empírica das estratégias realizadas no Facebook com as recomendações da literatura especializada de Coombs (2007). Para tanto, o corpus dessa segunda fase compõe-se dos conteúdos veiculados na fanpage do coletivo no mesmo período de ataques da Folha de S. Paulo. O ethos é um conceito que tem sua origem na retórica aristotélica, sendo também um de seus pilares, ao lado do logos (reino dos argumentos racionais) e pathos (emoções projetadas). Ele corresponde à capacidade que um orador tem de se fazer crer digno de fé, através da imagem passada ao auditório. Dessa forma, determina também a maneira como determinado argumento será recebido. Conforme Charaudeau (2008; 2010), a construção do ethos se dá como resultado de uma série de interações que, nesse arcabouço teórico, se sustentam no imaginário sociodiscursivo: um universo simbólico acessado pelas partes comunicantes, interferindo tanto no modo como as mensagens são concebidas quanto como são decodificadas. A imagem que o orador projeta de si e do outro no dizer tem base, portanto, nesse imaginário, o qual – por sua vez - é construído por saberes. Tais saberes podem ter como base tanto nos conhecimentos da ordem do saber, que partem do mundo para a pessoa, quanto saberes da ordem da
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crença, os quais surgem da percepção das pessoas a respeito do mundo. O primeiro caso se manifesta, por exemplo, na forma da ciência: vem a partir da identificação de fatores a priori, sujeitos ao rigor metodológico; ao passo que no segundo, tem-se a religião: originária de percepções a posteriori, que não estão sujeitos a metodologia e atuam no âmbito da fé. Esses conhecimentos se fazem presentes a todo o momento na dimensão discursiva da vida, que engloba a totalidade das interações sociais entre pessoas. Por isso, tem grande influência no modo como um percebe o outro. Outro ponto importante para o propósito desse trabalho é o de esfera pública. Para caracterizá-la, nos alinhamos aqui com o pensamento de Charaudeau (2010, p. 118), que a descreve a partir da ideia de “discurso circulante”. Isso diz respeito, à “soma empírica de enunciados com visada definicional sobre o que são os seres, as ações, os acontecimentos, suas características, seus comportamentos e os julgamentos a eles ligados.”. Dito de outro modo, é o conjunto total de discursos que organizam a sociedade em um determinado período e dentro de determinada parcela do mundo social. No que diz respeito a construção desse espaço, a mídia assume um importante papel, na medida em que o abastece com informações de maneira quase ininterrupta. Esses elementos colocados lá pela mídia ajudam a moldar a maneira como a sociedade percebe determinado tema, mas é, ao mesmo tempo, largamente influenciada pelos sistemas de pensamento dessa mesma sociedade. Se, por um lado, essa atuação da mídia é, muitas vezes, louvável, em outros momentos deixa a desejar. Ainda que os discursos que circulam pela mídia sejam muitos e diversos, o próprio poder que a máquina midiática adquire contribui para que, não raras vezes, ela se lance em campanhas que visam naturalizar o status quo – independente da reflexão crítica a respeito desse funcionamento dado. Uma das principais maneiras pela qual esse processo se dá é precisamente através da desqualificação do ethos. Em tempo, se a mídia é capaz de influenciar – com as devidas ressalvas – o que estará presente na esfera pública, é capaz também de organizar esses discursos de modo a se perpetuar no poder. Assim, a maneira como determinada organização, pessoa, instituição ou tema é retratada irá ter impacto direto na maneira como os argumentos
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apresentados, sejam contra ou a favor determinado tema, serão recebidos pela sociedade como um todo – atuando, portanto, no âmbito da retórica. Dessa forma, mesmo que um argumento tenha sustentação lógica (logos) – o que, em essência, deveria bastar para que fosse aceito –, será possível neutralizá-lo pelo ataque a quem o apresenta.
3.1 Análise da crise midiática do Fora do Eixo e Mídia Ninja
Diante dos 16 tipos de crise elencados por Forni (2013), a crise do Fora do Eixo e da Mídia Ninja se encaixa primariamente na categoria “crise de imagem”, uma vez que resulta de uma quebra do ethos organizacional. A natureza desse processo pode ser atribuída a duas outras categorias principais, as quais, justamente, sustentam os depoimentos-chave da crise:
“relações trabalhistas ou de pessoal” e “ética empresarial” - ambas fortemente presentes nos textos publicados por Bellini (2013) e Seigner (2013). Com relação ao grau de intensidade, se encaixa no que Forni (2013) considera como sendo “supostamente insignificante”. À primeira vista, uma postagem publicado em um perfil pessoal no Facebook não se apresenta como uma grande ameaça. Entretanto, como tudo que é tornado público na web, esse conteúdo está sujeito às dinâmicas e fenômenos naturais da estrutura em rede.
No presente caso, um movimento de viralização 10 fez com que os textos se espalhassem como fogo na palha pelas redes sociais. Quando a grande mídia amplificou esse conteúdo, estabeleceu-se uma crise de proporção “devastadora”, segundo a tipologia de Forni (2013), uma vez que estão presentes denúncias de desmandos éticos; exploração indevida; abuso psicológico; uso indevido de recurso público; entre outras. A nosso ver, a transição de situação “supostamente insignificante” para se tornar uma crise “devastadora” está atrelada a dois principais fatores. O primeiro deles é a falta de ações de gerenciamento de crise já nas etapas iniciais do processo. A ausência de um posicionamento rápido em relação aos
10 Quando determinado conteúdo ganha, de maneira rápida, alta notoriedade dentro da rede e se replica por ela com alta velocidade.
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ocorridos cobrou seu preço: quando de fato foram deflagradas ações de resposta, a situação já havia atingido níveis críticos. O segundo fator é que o grupo adotou uma postura, de certo modo “ingênua”, perante a estrutura dos jogos de poder exercidos pela grande mídia, em especial no que diz respeito às iniciativas que questionam a legitimidade de sua atuação – como foi o caso da Mídia Ninja. Mediante um entendimento mais aprofundado do funcionamento das crises midiáticas e das particularidades discursivas da máquina midiática, argumenta-se aqui que, a partir do momento em que foi lançada a primeira postagem – no caso, a de Seigner (2013) em 7 de agosto de 2013 – era possível antecipar os desdobramentos negativos da situação. Ao participar do programa Roda Viva, em 5 de agosto, o grupo se colocou em posição de destaque temporário no espaço público; ao mesmo tempo, fazendo uso dessa visibilidade, teceu críticas que se projetavam partir de um ethos que foi colocado em xeque, alguns dias depois, no próprio depoimento de Seigner. Nesse cenário, diversos fatores latentes que foram ignorados, a exemplo dos critérios de noticiabilidade ali presentes; a postura conservadora de grande parte da imprensa, no que diz respeito aos discursos alternativos a ordem estabelecida; além da própria questão dialética, ou seja, a resposta da mídia com relação às críticas direcionadas a ela. Não propomos que, mediante uma atuação mais presente no momento em que se deu o início do processo de viralização do conteúdo, seria possível evitar sua chegada aos veículos de comunicação em larga escala. Contudo, acredita-se que esse trabalho poderia ter amenizado o processo como um todo. Como lembra Forni (2013), a gestão de crises pode diminuir a duração destas. O Fora do Eixo e a Mídia Ninja são organizações que buscam atuar no sentido de modificar o funcionamento dos sistemas neoliberal e midiático que nele se constrói. Esses coletivos operam, nesse sentido, como organizações de cunho político e, como tais, têm sua força calcada na maneira como são percebidas pela sociedade. Como foi explicado anteriormente, essa percepção é influenciada pelo imaginário sociodiscursivo e pelo discurso circulante. Ao analisarmos as quatro matérias da Folha de S. Paulo sobre o coletivo veiculadas de 8 a 15 de agosto de 2013, concluímos – em estudo anterior –
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que “o discurso político-midiático funciona, em linhas gerais, no sentido persuadir o outro a atribuir poder a determinado (a) enunciador (a), seja na forma do voto, na mobilização etc.” (SALMERÓN, 2014, p. 8). Em outras palavras, grande parte de sua capacidade de atuação discursiva reside em seu capital reputacional. Entretanto, a falta de uma intervenção mais embasada nas táticas de gerenciamento no cenário de crise resultou num aprofundamento desta. Partindo de uma visão mais global, disso resulta que:
Ao ter os ethé de credibilidade sistematicamente atacados, o Fora do Eixo tem seus (contra)argumentos indiretamente neutralizados e/ou marginalizados. Nega-se, assim, competência para propor mudanças no âmbito do funcionamento da sociedade e das práticas neoliberais; além de minar a capacidade de chamar para si essa responsabilidade (SALMERON, 2014, p. 8).
Esse processo pode ser percebido com mais riqueza de detalhes quando analisamos os procedimentos retóricos tomados e os saberes construídos pelo jornal Folha de S. Paulo, através das quatro matérias que compõem o primeiro corpus da presente pesquisa. A primeira traz o seguinte título: “Cineasta diz que Fora do Eixo não paga cachê e pratica “escravidão pós-moderna” (FOLHA DE S. PAULO, 2014b). O primeiro movimento retórico do jornal está em qualificar e empoderar a fonte denunciante. Ao apresentar trechos do depoimento publicado por Seigner (2013) na rede social Facebook, o jornal empresta a ela o ethos de potência: é dado, assim, o direito de falar e fazer o que pensa; nesse caso, criticar o modelo de gestão do Fora do Eixo e romper com suas práticas ditas “exploratórias”. Dessa forma, de dentro do discurso jornalístico, Beatriz passa a assumir a posição enunciatória de uma testemunha, apresentando informações supostamente irrefutáveis, tendo em vista que a experiência pessoal não poderia ser contestada. Assim, suas afirmações ganham peso e credibilidade muito maiores do que se permanecessem restritas às redes sociais. Além disso, Beatriz Seigner é, ela própria, dotada do ethos de autoridade, o qual é reforçado pelo título da matéria: não se trata de uma “ex- integrante”, mas de uma cineasta. Esse jogo semântico agrega mais valor ao
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que é dito pela fonte, uma vez que se infere, a partir desse fato, que a mesma está inserida no universo dos profissionais da arte/cultura, partindo daí a legitimidade que tem para criticar o funcionamento do Fora do Eixo dentro desse mesmo universo. Portanto, não apenas viveu o que relata, como também possui vivência suficiente para que as interpretações feitas por meio dessa experiência sejam consideradas relevantes. No tocante às críticas, a maior parte diz respeito a questões financeiras envolvendo o Fora do Eixo – acusado, por exemplo, de “não repassar cachês a ela e a outros artistas” (FOLHA DE S. PAULO, 2014b). O depoimento é fruto das experiências negativas de Seigner durante o período em que participou de um projeto em parceria com o coletivo. Na ocasião, o último ficaria responsável por organizar exibições de seu filme, “Bollywood Dream – O Sonho Bollywoodiano”, em um circuito de cineclubes pelo Brasil. De acordo com a reportagem, o pagamento seria feito com uma moeda simbólica – o cubo card. Seigner afirma, porém, não ter visto “nenhum centavo deste cubo card ou a plataforma com “menu de serviços” onde esta moeda é trocada” (FOLHA DE S. PAULO, 2014b). Ela acusa o grupo, ainda, de repassar o cachê relativo a participação em um debate no Sesc, no interior de São Paulo, apenas nove meses depois. A reportagem arremata com o seguinte parágrafo:
Citando a participação de Pablo Capilé e do jornalista Bruno Torturra, do coletivo Mídia Ninja, no programa Roda Viva, da TV Cultura, na última segunda-feira, Seigner diz que, segundo Capilé, o Fora do Eixo arrecada entre R$3 milhões e R$5 milhões por ano. “Quanto disso é redistribuído para os artistas que se apresentam na rede?”, questiona ela (FOLHA DE S. PAULO, 2014b).
Nesse sentido e com base nesse testemunho, o jornal avança em uma categoria de saber calcada no conhecimento vivido que, por sua vez, abre espaço para a suspeita de que o grupo promove o desvio de dinheiro ou age de má-fé com relação aos artistas com quem firma parcerias. Por sua vez, isso recai sobre os ethé de credibilidade e de eficácia da organização ou, em outras palavras, a reputação que construiu para si e da qual faz uso de modo a viabilizar sua atuação política. Esse “ataque” retórico ganha mais peso quando a matéria apresenta também as acusações do músico Daniel Peixoto, que diz não ter recebido o
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dinheiro relativo às vendas do seu disco – lançado, como informa a matéria, pelo selo do Fora do Eixo. O motivo para tanto seria que “a rede dirigida por Pablo Capilé cometeu um erro ao registrar as músicas em nome de outra banda, fazendo com que Peixoto não recebesse os direitos autorais distribuídos pelo Ecad” (FOLHA DE S. PAULO, 2014b). Por fim, Peixoto “revela” que a rede mantém mais de 300 desses CDs sem vendê-los. No caso do testemunho de Peixoto, que tem os mesmos efeitos de potência, experiência vivida e autoridade, ataca-se, principalmente, o ethos de competência. Isso fica claro através dos últimos dois parágrafos da reportagem, em que o artista comenta a situação:
Não acho que eles estejam, querendo me roubar, mas é uma negligência. Depois que o Fora do Eixo cresceu, eles perderam o controle. Eles fazem uma matemática errada, mentem. Eles não mostram nenhum documento”, disse Peixoto à Folha (FOLHA DE S. PAULO, 2014b).
Na matéria, o jornal prossegue com as acusações:
Se tivessem me dado a atenção devida, não teria chegado nesse ponto. Me deixaram no vazio várias vezes, sem uma resposta, ficavam me cozinhando. Não é só a grana que está em jogo, mas acho que eu falando encorajo outros artistas que têm queixas contra o Fora do Eixo a se manifestar (FOLHA DE S. PAULO, 2014b).
Outro aspecto essencial da denúncia é que ela trabalha com o princípio de que o trabalho voluntário realizado por quem vive nas casas comunitárias mantidas pelo Fora do Eixo pode ser classificado como “escravidão (pós)moderna” - temática que seria abordada mais a fundo em uma reportagem seguinte. Contudo, no total, apenas um parágrafo da primeira matéria é dedicado a essa questão:
No longo relato, que levantou debates nas redes sociais sobre o coletivo, a diretora também afirma que pessoas que moram na Casa Fora do Eixo – espécie de QG do grupo situado no bairro da Liberdade, em São Paulo, são submetidas a uma situação de “escravidão (pós)moderna”, já que, segundo ela, os moradores “abdicam de salários por meses e anos” e “não têm um centavo ou fundo de garantia para sair da rede” ao trabalhar para o Fora do Eixo. (FOLHA DE S. PAULO, 2014b).
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A Folha (2014b) cria efeito de imparcialidade ao abrir espaço para posicionamento oficial de Pablo Capilé, que, de acordo com a reportagem, não ligou de volta. Foram publicados, então, trechos de um texto em que Bruno Torturra dá seu parecer sobre os eventos. Entretanto, ao introduzir suas falas,
a Folha as desqualifica de antemão: “[Bruno] Torturra publicou um texto no
Facebook se dizendo “deprimido” com os ataques sofridos pelo Fora do Eixo nas redes sociais, mas sem responder objetivamente às críticas da cineasta” (grifos nossos). Com isso em mente, apresentam alguns parágrafos em que o jornalista oferece sua versão sobre os fatos.
“Não é fácil assumir a vida que os moradores da Casa Fora do Eixo escolhem. Dividem quartos, roupas, espaço. Abdicam mesmo de tempo livre em nome de construir algo juntos. E acho um profundo desrespeito a eles dizer que aquilo é uma seita, que sofreram lavagem cerebral por Pablo Capilé”, escreveu o jornalista. (FOLHA DE S. PAULO, 2014b).
Além dele, Rafael Vilela, apresentado como integrante do Fora do Eixo, também rebateu as acusações via Facebook. Segundo a matéria, ele escreveu
que “o texto de Beatriz é uma trama roteirizada com inúmeras inverdades sobre
o coletivo” (FOLHA DE S. PAULO, 2014b). Em seguida, a reportagem traz o
seguinte texto: “Em minhas memórias lembro dela [Beatriz Seigner] assustada, assim como bem descreve em seu post longametragem baseado em fatos reais e em percepções distorcidas.” (FOLHA DE S. PAULO, 2014b). Finalmente, em relação aos problemas apontados por Daniel Peixoto, “um dos integrantes do Fora do Eixo, Felipe Altenfelder, publicou texto na internet desmentindo as acusações” (FOLHA DE S. PAULO, 2014b). Não foi apresentado, porém, o conteúdo desse texto – depois dessa menção, a reportagem prossegue para apresentar as falas do próprio músico. Há de ser crédito à Folha, dessa forma, por ter oferecido o espaço para que o Fora do Eixo apresentasse sua resposta. Por outro lado, tanto no caso do parágrafo anterior como no caso do depoimento de Bruno Torturra – que lembramos, foi desqualificado de antemão -, é perceptível que não houve, em nosso entendimento, um esforço para que o outro lado fosse ouvido da melhor forma possível. Isso, porém, deve ser levado em conta também através do prisma da análise de crises. Uma vez que uma organização encontra-se nessa situação, deve preparar uma força-tarefa que consiga atender às demandas de
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informação apresentadas pela mídia, sob o risco de que essa termine por veicular informações erradas, boatos ou, no presente caso, deixe-se de aproveitar o espaço de resposta. É possível observar, através dos fatos apresentados que a Folha claramente contesta a legitimidade organizacional do Fora do Eixo, atacando, principalmente, seus ethos de credibilidade. O movimento inverso, de permitir ao Fora do Eixo que use o mesmo espaço para se defender, até acontece, mas o modo como foi executado é questionável. Mediante essa estratégia retórica, quaisquer ações que venham a realizar são previamente desqualificadas graças aos ataques sofridos no âmbito retórico.
O cenário se torna ainda mais complexo uma vez que a mídia abastece,
de forma seletiva, o espaço público com saberes de conhecimento – ainda que
apenas da ordem da situação vivida e apresentada por uma testemunha.
Importante chamar atenção para esse fato, uma vez que, efetivamente, não são apresentados dados ou documentos que dêem sustentação às afirmações.
A experiência testemunhal, embora “irrefutável”, é, assim, inflacionada
pelos mecanismos de espetacularização – ao superdimensionar uma insatisfação pessoal e buscando torná-la universalmente aplicável – e
dramatização – quando se enfoca a parte humana, apresentando uma vítima e apontando outra parte como responsável; no presente caso, o Fora do Eixo.
A segunda matéria (MAISONNAVE, 2014) é publicada dois dias depois e
avança agora na desconstrução dos ethé de identificação, enquadrando o grupo como sendo conivente com práticas que violam uma série de preceitos morais. Dessa forma, o próprio caráter da organização é colocado em cena para julgamento. Intitulada “Grupo Fora do Eixo é chamado de “seita” por ex- integrante” e publicada dois dias depois da primeira (10/08/2013), possui, na essência, a mesma construção retórico-argumentativa: uma ex-integrante faz diversas acusações com base em experiências prévias. Contudo, primeiramente, destacamos aqui novas informações que não têm base no discurso testemunhal, mas diretamente no discurso jornalístico. Estas se fazem valer da credibilidade inerente a esse discurso para lançar saberes calcados no âmbito da crença – uma opinião – como se fossem do âmbito do conhecimento. As duas primeiras encontram-se no parágrafo inicial:
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De franco-atirador a vidraça. Alçado à fama durante os protestos pela cobertura ousada e hostil à polícia, o Grupo Mídia Ninja passou a ser alvo de duras críticas nos últimos dias por ex-integrantes e ex- colaboradores (MAISONNAVE, 2014: grifos nossos).
A primeira frase, embora uma figura de linguagem usada com o objetivo de descrever a situação de crise enfrentada pela organização, reforça o fato de que o grupo teve sua legitimidade colocada em cheque. Partindo desse ponto, presume-se que tal fato não ocorreu por acaso – ou, para fazer uso de outra figura de linguagem, “onde tem fumaça, tem fogo”. Entretanto, a afirmação mais interessante é a de que a cobertura feita é hostil em relação à polícia, sem que sejam apresentados argumentos que sustentem a afirmação. Com isso, na falta de imaginários sociodiscursivos anteriores à cobertura jornalística sobre o coletivo, que levem o leitor a questionar essa afirmação, o trecho é tomado não como uma opinião – julgamento do sujeito perante o fato – mas como conhecimento propriamente dito – fato que se apresenta a priori. Essa questão é preocupante uma vez que, ao apresentar o grupo dessa forma, contribui-se para a percepção de que se tratam de criminosos – trazendo, mais uma vez, uma figura de linguagem: “quem não deve, não teme”. Vale lembrar, essas máximas atuam no sentido de naturalizar determinadas concepções e sensos comuns a respeito do funcionamento da sociedade. No parágrafo seguinte, introduz as acusações feitas por ex-integrantes – trataremos disso logo adiante -, mas sem fazer menção ao Fora do Eixo. Constrói-se, dessa forma, ao longo dos dois primeiros parágrafos, a ideia de que Mídia Ninja é que está sendo acusada de ser uma “seita” - o que não corresponde ao depoimento original de Bellini (2013), de onde saem as acusações. Para se ter uma ideia, em seu texto, ela afirma, com relação a estar presente dentro do movimento: “não me refiro a agora que há por exemplo a Mídia Ninja” (BELLINI, 2013). Compreende-se, portanto, que esta sequer existia no período em que Laís Bellini integrava os quadros do Fora do Eixo. O trabalho no sentido de uma redistribuição dos ataques é fortalecida através do seguinte trecho: “O alvo direto dos ataques é o Fora do Eixo (Fde), organização mais ampla responsável pelo Mídia Ninja – os integrantes são os mesmos -, mas com foco maior em produção de eventos culturais” (MAISONNAVE, 2014: grifos nossos).
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Esse argumento não é embasado por documentos, depoimentos ou afins, jogando-o para a esfera da hipótese não-provada ou da pura especulação; contudo, devido à natureza do discurso jornalístico, revestida de efeitos de veracidade.
O mesmo fenômeno pode ser observado em outra afirmação sobre a
quantidade de dinheiro que Fora do Eixo e a Mídia Ninja fizeram circular em 2012: “Só no ano passado, o grupo movimentou R$ 13 milhões, entre festivais de arte e consultorias” (MAISONNAVE, 2014). Apesar de desconexa de fonte, a informação está sujeita aos mesmos mecanismos de construção de “provas”
que regem as afirmações anteriores. Com isso em mente, o texto prossegue para apresentar as acusações sustentadas a partir de testemunhos vividos:
Um dos depoimentos mais fortes é o da jornalista Laís Bellini, que morou no ano passado na principal casa da organização, no centro de São Paulo. Ali, conviveu com Pablo Capilé, 34, fundador do Fde, a quem chama de “rei” de uma “ditadura monárquica” que promove o “escravismo mental e financeiro” da “seita” (MAISONNAVE, 2013).
Em seguida, são apresentadas as acusações principais levantadas pela
Folha a partir do depoimento. Primeiramente, ela afirma que “sem receber salário, era submetida a uma carga intensa de trabalho, incluindo afazeres domésticos, que, apesar da promessa de ‘horizontalidade’, não incluíam os líderes do Fde.” (MAISONNAVE, 2014). Além disso, é descrita uma dívida de R$ 4.500, “que inclui passagem aérea comprada com o cartão de crédito de sua mãe” (MAISONNAVE, 2014).
A matéria reafirma e aprofunda, assim, as críticas feitas anteriormente
com relação aos ethé credibilidade do Fora do Eixo – que agora já passa a ser retratado como possuindo relação simbiótica com a Mídia Ninja –
principalmente, no que diz respeito às atividades trabalhistas e financeiras. Nesse mesmo sentido, o modo como Pablo Capilé – apontado como a principal liderança do grupo –, é apresentado, contribui para a desconstrução do ethos específico de “solidariedade”, compreendida por Charaudeau (2008) como a consonância de pensamento, posição e atitude dos líderes perante seus liderados. Assim como no primeiro caso, é dado espaço para que o Fora do Eixo se manifeste. Entretanto, são necessários alguns apontamentos. O espaço
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concedido para a resposta é, proporcionalmente, bem menor do que o de acusação - 232 palavras, de um lado; 412 de outro. Dentro desse, só é dada a oportunidade de negar as acusações apontadas. Contudo, vale lembrar que essa medida cumpre, na prática, uma mera formalidade deontológica: dar voz aos (às) acusados (as) é uma forma de aderir credibilidade ao discurso por seguir certos padrões éticos inerentes ao campo do jornalismo; só que, da
forma como foi feito nesse caso, sem efetivamente apresentar o outro lado. Essa mesma premissa vale para a uma matéria veiculada no mesmo dia: uma entrevista com o próprio Pablo Capilé, intitulada “Críticas são “soma de exceções”, afirma fundador do Mídia Ninja” (FOLHA DE S. PAULO, 2014c). Nela, o ativista tem a oportunidade de se manifestar a respeito da situação, contudo, em um ambiente controlado pelo jornal que o acusa. Diferentemente do texto anteriormente analisado, neste todas as afirmações partem diretamente da fonte. Por outro lado, como o ethos já havia sido previamente neutralizado, sua capacidade retórica – ou seja, de fazer crer que o que diz é digno de fé – torna o uso desse espaço, mais uma vez, mera formalidade deontológica – os preceitos éticos são seguidos, mas apenas num nível superficial. Chamamos atenção ainda para outro ponto interessante acerca do dinheiro cobrado por Laís Bellini na matéria anterior. Nos dois casos, o mesmo trecho aparece nas duas reportagens: “Sobre o dinheiro cobrado por Laís Bellini, ele admite que “tem erro” e que casos assim precisam ser corrigidos.” (FOLHA DE S. PAULO, 2014b; 2014c). Desse modo, confirma uma denúncia específica, mas, ao mesmo tempo, a generalidade da afirmação feita - “admite
- contribui para a percepção de que as outras acusações
que ‘tem erro’ [
também são passíveis de verdade; que existem ainda, além dos erros apontados, outros que ainda precisam ser corrigidos. Ao mesmo tempo, utilizar o espaço de resposta apenas para negar as acusações, omitindo o percurso argumentativo tomado por quem enuncia, é mais uma forma de atribuir efeitos de verdade às próprias acusações – ainda que estas não possuam fundamento de fato. Esse trajeto, de insatisfação pessoal publicada no Facebook até o momento em que a organização passa a ser percebida como criminosa, culminará na quarta e última matéria analisada
]”
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dentro do corpus: “Líder do PSDB quer informações sobre repasses do governo ao Mídia Ninja”, publicada em 15 de agosto de 2013. Nesta, o processo que leva a percepção da Mídia Ninja sinônimo de Fora do Eixo se dá de maneira mais intensa, como é perceptível pelo título. A reportagem parte de um pedido apresentado pelo senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), a respeito de possíveis repasses de recursos do governo federal para o grupo. Entre os motivos citados por ele no requerimento, segundo a Folha, está “reportagem da revista “Veja” que aponta o repasse de recursos do órgãos públicos para financiar projetos do grupo “Mídia Ninja” (FOLHA DE S. PAULO, 2014d). De acordo com o jornal, outro motivo citado por Nunes é o seguinte:
“Há blogs que são evidentemente manipulados pelo PT e recebem dinheiro de órgãos federais. A Mídia Ninja faz críticas à mídia tradicional, por isso quero saber de onde vêm os recursos dessa agência de notícias informal”, afirmou (FOLHA DE S. PAULO, 2014d).
Dois pontos merecem ser destacados nessa matéria. Primeiro, a opinião de Aloysio Nunes, amplificada pelo jornal, reforça uma proposta de intolerância com relação aos meios não-formais de comunicação: o fato de que a Mídia Ninja faz críticas ao modo como funciona a mídia tradicional, assumindo uma forma diferenciada do padrão, basta para que seja digna de investigação acerca do modo como obtém seus recursos. A crítica, anacrônica na essência, desconsidera a possibilidade de que o jornalismo possa ser executado fora dos moldes do sistema neoliberal vigente. Ignora, portanto, os avanços e potencialidades democráticas da organização em redes. Em segundo lugar, essa matéria encerra o ciclo de aprofundamento da crise, que chega aqui ao seu ponto crítico: de uma postagem no Facebook, com críticas ao Fora do Eixo, culminou em uma investigação judicial contra a Mídia Ninja. Esse trajeto retórico, assumido por quase a totalidade dos veículos tradicionais, cristaliza uma série de saberes que são construídos de maneira parcial. Enquanto isso, na gênese desses saberes, estão experiências subjetivas e julgamentos de opinião, ambos revestidos pelo discurso jornalístico, gerando efeitos de verdade. Dessa forma, como vem sendo afirmado, foi possível neutralizar os argumentos, propostas e força política das duas organizações.
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3.2 Análise das estratégias de gestão de crise do Fora do Eixo/Mídia Ninja
O tópico anterior oferece bases para a compreensão dos jogos discursivos que permearam essa crise em específico, uma vez que o jornal em questão é representativo do quadro geral da mídia durante o período de análise. Neste item, analisamos os principais desdobramentos da crise experimentada pelo Fora do Eixo/Mídia Ninja com relação à crise estabelecida, tomando como base o diagrama proposto por Coombs (2007), como parte do modelo teórico SCCT. Importante notar que o sistema metodológico permite, nesse momento, uma visão macroestrutural do fenômeno. Como visto, o modelo de Coombs (2007) gira em torno de um eixo principal, que liga dois aspectos basilares: a reputação organizacional e as intenções de comportamento – ou, em última instância, a maneira como stakeholders se relacionam com determinada organização. Dentro de um cenário de crise, essas duas instâncias são influenciadas, resumidamente, por fatores discursivos, sociais, históricos e culturais, especificamente: histórico da crise; reputação prévia; estratégias de gerenciamento da crise e aspectos afetivos. A reputação é ainda condicionada pela responsabilidade atribuída pela crise; a intenção de comportamento, por sua vez, diretamente pela reputação organizacional. Nosso percurso analítico seguirá os caminhos propostos pelo autor, a saber: (I) definir o nível da ameaça reputacional; (II) a partir desse entendimento, identificar as melhores estratégias, levando em conta as limitações de cada organização. A partir dessa linha de pensamento, o primeiro passo é apontar o nível de atribuição de responsabilidade com relação à crise. No caso do Fora do Eixo, esta pode ser colocada no grupo das crises que poderiam ser prevenidas. Isso se dá porque o estopim do processo de escrutínio midiático ocorreu na forma de depoimentos em que a organização era diretamente acusada de abusos financeiros e diversas outras ordens. Com isso, era de se esperar que os stakeholders atribuíssem altos níveis de responsabilidade ao Fora do Eixo – em especial, a máquina midiática que contribui ativamente para esse enquadramento.
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Por si só, esse fato já representa uma grande ameaça reputacional. No entanto, há de se levar em conta ainda os fatores de agravamento. Tomemos, de início, o histórico de crises envolvendo o Fora do Eixo. Num primeiro momento, aparentemente a primeira “grande” crise envolvendo o coletivo se deu justamente quando ganhou notoriedade na esfera pública, em parte, graças à popularidade da Mídia Ninja e da aparição de Bruno Torturra e Pablo Capilé no programa Roda Viva. Contudo, ao longo de, na época, 12 anos, o grupo acumulou uma série 11 de crises de imagens menores. Essas, no entanto, estavam restritas a um universo muito menor de pessoas. As situações (vide nota de rodapé) eram, em termos de críticas, todas muito semelhantes às de Beatriz Seigner e Laís Bellini, que estavam previamente disponíveis na internet. Apesar de estarem relativamente restritas a certos grupos, essas críticas, em muitos casos, chegaram ao conhecimento das lideranças do Fora do Eixo. Mais do que isso, foram endereçadas, proporcionalmente, a uma quantidade considerável das pessoas que, na época, conheciam a organização – representando, então, quebras pontuais com os ethé que o buscavam projetar.
11 Em 2011, isso aconteceu pelo menos duas vezes. Na primeira, quando o Fora do Eixo fundou sua primeira base operacional em São Paulo e mediante seus primeiros contatos com movimentos da esquerda paulistana. Na ocasião, um texto publicado no site do coletivo Passa Palavra desencadeou uma ampla discussão, dentro desse meio, sobre a atuação do grupo. Em síntese, atacavam-se as bases da atuação política do Fora do Eixo, que, na visão do Passa Palavra, funcionava no sentido de uma apropriação do Estado. O blog Maria Frô reuniu uma série de textos que discutiam a atuação do coletivo, defendido por uns (as) e rechaçado por outros.O outro incidente se deu alguns meses depois, em dezembro de 2011. No início daquele ano, uma das lideranças do coletivo, Talles Lopes, havia assumido a presidência da Associação Brasileira de Festivais Independentes (Abrafin). Em dezembro, durante a realização do Congresso Fora do Eixo, 13 festivais – entre eles, alguns que ajudaram a fundar a Abrafin – anunciaram publicamente sua saída da organização, entre outros fatores, devido a forte presença do Fora do Eixo. A notícia repercutiu em peso pela cena independente e, já naquela época, a polêmica envolvendo os cachês para bandas estava presente. Nesse mesmo congresso, durante o encerramento, Pablo Capilé foi responsável por desencadear ainda outro arranhão considerável na imagem do coletivo. Em um longo debate, fez duras críticas ao cenário cultural do estado de Pernambuco, resultando em repercussão negativa na mídia regional; a saída de mais um festival de grande porte da Abrafin; críticas nas redes sociais; mais de 20 mil visualizações em um vídeo que satiriza a situação e as práticas do Fora do Eixo, comparando Pablo Capilé ao líder nazista Adolf Hitler.Ao fim de 2012, mais uma vez, o grupo sofreu duras críticas por parte de Malu Aires, produtora do festival BH Indie Music – que, naquele ano, chegava à quinta edição – e autora de diversos outros trabalhos independentes. Em texto publicado originalmente no blog Jukebox, do site Dynamite Online, ela apontava uma série de problemas na estrutura da organização, acusando-a, entre outras coisas, de concorrência desleal e desprezo pela classe artística. No mesmo ano, surgia o tumblr Fora do Beiço, que usava de humor para criticar o coletivo, subvertendo sua linguagem e usando o mote jornalístico para guiar suas postagens, a exemplo da pseudo-notícia: “Depois de 48 anos de carreira Roger Waters compra uma BMW com cubo cards” (FORA DO BEIÇO, 2014).
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Ainda que essas críticas não tenham sido revividas pela mídia tradicional, esses conteúdos estão a alguns cliques de distância de qualquer pessoa que se dê ao trabalho de procurá-los na internet. Finalmente, ao que parece, nada foi feito para corrigir os problemas apontados já na época, uma vez que os mesmos persistiram até a eclosão da crise. O outro fator de agravamento apontado por Coombs (2007) diz respeito à reputação relacional prévia, compreendida, de maneira sucinta, como o histórico das interações entre a organização e seus (as) stakeholders. Relembrando, esta pode ser favorável ou desfavorável. No que diz respeito ao Fora do Eixo, observamos, com base na quantidade de conteúdos semelhantes aos citados anteriormente, que a segunda categoria é mais adequada. Sobre esse aspecto, chamamos atenção para a análise de Azevedo (2013), com relação ao modo como usuários (as) das redes sociais reagiram à crise:
[…] a voracidade dos insultos indica, no seu anverso, uma ampla e consistente rede de ressentimentos já preparada para a desforra. Aquela disposição extremamente agressiva verificada nas redes sociais, não só para curtir e compartilhar as críticas, mas para tripudiar sobre o desastre, achincalhar e deliciar-se com a repulsa indiscriminada contra tudo o que diz respeito ao Fora do Eixo é uma pista significativa para compreendermos o contexto que levou a esse linchamento. (AZEVEDO, 2013).
Como o próprio autor coloca, havia, portanto, antes da eclosão da crise, uma “rede de ressentimentos” em torno do grupo. Tendo em mente o funcionamento da web, essa noção não é puramente abstrata, mas efetivamente concreta. Esse grupo, conectado pela Internet, colocou em circulação, de maneira orgânica, uma grande quantidade de informações negativas a respeito da organização, ao mesmo tempo em que eram produzidos novos conteúdos. Funcionou, portanto, na medida exata do que Castells (2005) descreve como um sistema – ainda que efêmero – de comunicação de massa autocomandada. Desse modo, a crise em questão consegue, ao mesmo tempo: (I) se enquadrar no nível mais intenso de atribuição de responsabilidade, uma vez que é responsável direta pelas causas das situações-chave; (II) se dar após uma série de micro-crises anteriores, visto que reverberaram por entre seus principais stakeholders à época e (III) contar com uma reputação relacional prévia altamente desfavorável. Todos esses itens afetam também, de forma
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indireta, o aspecto afetivo de seus stakeholders, o que, em última instância, tem efeito também nas intenções de comportamento que serão adotadas. Diante de uma crise dessa gravidade, certas medidas deveriam ser tomadas de modo a mitigar as perdas que a organização teria em termos de reputação. Segundo Coombs (2007), elas deverão se basear no modo como está sendo atribuída responsabilidade pela situação. O autor cita três tipos distintos de estratégias: (I) negação; (II) diminuição ou (III) reconstrução. É importante relembrar que, mediante uma crise, segundo Coombs (2007), a organização tem a opção ou de reforçar um enquadramento ou de estabelecer o seu próprio. Em ambos os casos, muito desse trabalho se dará tendo como base a grande mídia. Para o caso específico desse trabalho, isso gera algumas implicações que precisam ser explicitadas. A máquina midiática, como foi visto anteriormente, possui uma preferência pela circulação dos discursos de poder e desqualificação dos discursos de contrapoder, em geral, operando no sentido de neutralizar esses últimos. Além disso, o fato de que os representantes da Mídia Ninja e Fora do Eixo fizeram duras críticas, publicamente, ao funcionamento dos veículos tradicionais adiciona também uma carga afetiva negativa para o processo. Dessa forma, o histórico relacional altamente desfavorável se tornou ainda pior no que diz respeito a relação com a stakeholder mais importante no que diz respeito às crises: a mídia. Ademais, o Fora do Eixo demorou um longo tempo para se manifestar publicamente. Isso permitiu que, como foi mostrado, o ethos da organização fosse sistematicamente desconstruído, neutralizando, assim, sua capacidade de resposta. Esses dois pontos devem ser levados em conta para se compreender mais claramente a gravidade da situação que construiu – em parte, graças ao aparente despreparo da equipe que gerenciou a crise em questão. A primeira ação concreta de posicionamento público, em relação à Folha de S. Paulo, veio dois dias depois da veiculação da primeira matéria. Trata-se de uma entrevista com Pablo Capilé, publicada tanto na versão online quanto na impressa. No texto, são adotadas, principalmente, estratégias de diminuição da crise, como pode ser visto nos seguinte trecho:
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Fundador e principal porta-voz do Fora do Eixo, Pablo Capilé disse que as acusações contra o grupo são “críticas radicais” de uma “soma de exceções” e que há muito mais pessoas envolvidas com o Fde – cerca de 2.000 – do que detratores. (FOLHA DE S. PAULO,
2014)
Além destas, são adotadas também estratégias de negação, como pode ser visto aqui:
Capilé diz que a casa coletiva do Fde em São Paulo é aberta e que não há nenhuma orientação do grupo cooptar integrantes por meio de relações amorosas. “Isso é invenção, não existe uma orientação por parte do movimento sobre com quem as pessoas têm de se relacionar, diz. (FOLHA DE S. PAULO, 2014)
No geral, a maior parte das ações tomadas, em relação ao fornecimento de informações para esses veículos, se deu via Pablo Capilé, com base em alguma dessas duas estratégias. De modo a compreendermos melhor as posições tomadas pelo grupo no que diz respeito às estratégias de gerenciamento de crise, analisaremos mais a fundo essa questão a partir do discurso institucional que adotaram. Esse dizer é compreendido como a própria organização se manifestando, através de uma carta aberta publicada quatro dias após o início da crise. No caso, também foram adotadas, principalmente, estratégias de negação. No que diz respeito a negação, Coombs (2007) descreve, inicialmente, a estratégia de partir para o ataque ao acusador. Numa perspectiva mais abrangente, compreendemos esse “ataque” não necessariamente como um confronto direto, mas ainda como trabalho realizado em prol da desqualificação de um ethos específico – de modo semelhante ao que foi feito pela Folha de S. Paulo com relação ao grupo. Nessa perspectiva, o Fora do Eixo buscou, por sua vez, atacar a legitimidade enunciativa de diversos responsáveis por críticas. Na carta aberta divulgada, o grupo acusa, notadamente, a revista “Veja”, que “iniciou uma série de matérias que visam a nos atingir” (FORA DO EIXO, 2013). Além de questionar a credibilidade jornalística do jornal, faz uso também da estratégia secundária de vitimização. Em seguida, caracteriza as acusações sobre o caráter autoritário das lideranças e a comparação com uma seita como tentativa de “tentativa de caricaturizar desqualificar e neutralizar um processo
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político” (FORA DO EIXO, 2013). Questiona a mídia, de forma mais contundente, no seguinte parágrafo:
Causa estranhamento o fato da revista Veja cobrar da rede Fora do Eixo uma horizontalidade maior de sua organização, sendo que nem ela, nem a mídia tradicional brasileira, possuem um histórico de apoio a este tipo de articulação coletiva, descentralizada e horizontal, tampouco se enquadram nessas características. (FORA DO EIXO,
2013).
Ao mesmo tempo, faz uso de outra estratégia de negação: a busca por um “bode espiatório”. Assim, procura culpar outra pessoa ou organização pela presente crise: a campanha perpetuada pela mídia contra o coletivo. Com relação às críticas e acusações feitas por Beatriz Seigner, a carta segue no mesmo sentido. Apreende-se dela que, na concepção da organização, a responsabilidade da crise não está na maneira que o grupo faz a gestão de suas atividades. Seria resultado de uma incompreensão do funcionamento do Fora do Eixo e também do “modo como as novas gerações e os grupos alternativos colocam frente à ideia de cultura, valorizando seu aspecto informal e cotidiano, não como produto simplesmente, mas como modo de ver e estar no mundo” (FORA DO EIXO, 2013). Em alguns momentos, busca fazer uso também da atribuição de vítima, como forma de fortalecer essa estratégia de ataque. Um exemplo: através do cálculo de gastos efetuados com base na moeda simbólica do grupo (o Cubo Card), estimaram que o custo dos serviços prestados para a exibição do filme de Beatriz, se convertido para reais, equivaleria a mais de R$100 mil. Esse valor é o dobro do patrocínio mínimo, o que garantiria o direito do Fora do Eixo a incluir sua marca no filme – a cineasta, no entanto, negou. Entretanto, “mesmo com sua recusa, entendemos que era importante realizar o investimento [em cubo cards] para fortalecer nossa parceria e fomentar o audiovisual independente” (FORA DO EIXO, 2013). Os mesmos mecanismos de ataque e vitimização entram em jogo com relação às acusações feitas no depoimento de Laís Bellini. Segundo a carta, “é comum que alguns jovens – a partir de expectativas conceituais – tenham dificuldades de se adaptar ao ambiente coletivo e fiquem desiludidos com a convivência na prática.” (FORA DO EIXO, 2013). A responsabilidade por todas
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as insatisfações externadas por ela não seriam, assim, encargo do coletivo, mas sim de Laís, que não conseguiu se adaptar a realidade do grupo. Existem também os casos onde as estratégias de negação se manifestam de forma direta: quando a organização afirma que não existe uma crise em andamento. No caso em questão, também é possível verificar esse tipo de estratégia em diversos momentos. Com relação ao trabalho escravo ou formas análogas, a carta afirma que “nenhum morador, colaborador, parceiro ou qualquer pessoa relacionada aos coletivos da rede jamais foi submetido a trabalho escravo” (FORA DO EIXO, 2013). O mesmo vale para a filiação compulsória a algum partido; o uso de recursos obtidos através de parceria direta com o governo federal; uso de manipulação sexual por seus integrantes. As bases dessas negações se davam em explicações dadas pela própria organização com relação ao seu funcionamento – a exemplo do que ocorreu quando do ataque retórico à Beatriz Seigner, que não compreendeu o modus operandi do Fora do Eixo. Estratégias de negação, como as que foram usadas, partem da ideia de que não existe, de fato, uma crise em andamento. A organização, assim, se desvincula das relações de atribuição de responsabilidade e pretende escapar com a reputação ilesa. Coombs (2007) recomenda que ações nesse sentido sejam tomadas em situações onde a crise envolve, principalmente, rumores, boatos ou afins. Em outras palavras, quando é possível provar de maneira simples, contundente e irrefutável que não há uma crise em andamento. Tendo como base o SCCT e o caso específico do Fora do Eixo, argumenta-se aqui que a organização não poderia ter adotado tal estratégia de negação. As ações voltadas para conter os efeitos negativos das crises se dão em três âmbitos distintos: (I) de percepção da responsabilidade pela crise; (II) da reputação organizacional e (III) do emocional. Essas ações visam cumprir três objetivos específicos, cujo peso é decidido por quem gerencia a crise: (AI) moldar os atributos da crise; (AII) mudar a percepção da organização dentro da crise e (AIII) reduzir as emoções negativas geradas pela crise. Ao publicar sua carta oficial, o Fora do Eixo tenta moldar os atributos da crise de modo a aliviar a percepção de responsabilidade pela crise, partindo do princípio que não havia crise. Por outro lado, a maioria de seus stakeholders ou a sociedade como um todo, já havia chegado a conclusão de que o grupo era,
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de fato, responsável pelos acontecimentos negativos – inclusive a mídia, que é em grande responsável por guiar esse processo. Tentar mudar, de forma tão radical, esse consenso, era um esforço em vão. Na nossa percepção, foi exatamente o que ocorreu e o resultado final foi que o Fora do Eixo não conseguiu cumprir o objetivo de proteger sua reputação por essa via. Com essa ação, busca também mitigar suas perdas em termos de reputação organizacional ao trabalhar pela mudança da percepção da própria organização, dentro do contexto da crise. No caso, isso se deu, principalmente, ao buscar por elucidar o funcionamento interno do Fora do Eixo, projetando-o enquanto organização de vanguarda e, portanto, passível de erros. Porém, se esquece que o que estava em pauta era, na realidade, as ações tomadas pelo grupo – não importando de se foram em decorrência ou não de suas dinâmicas específicas. O que resultou disso foi que o grupo passou a ser, na realidade, percebido como conivente com as próprias práticas que resultaram na situação de crise. O uso da negação falha também no campo emocional, onde deveria buscar-se diminuir as emoções negativas que foram geradas. Em casos extremos, como esse, Coombs (2007) chama atenção para a ocorrência de um fenômeno denominado schadenfreude – termo alemão, que designa o prazer decorrente do sofrimento alheio. Quando o Fora do Eixo nega a responsabilidade pelos fatos ocorridos e não providencia nenhuma ação concreta, nem manifesta uma preocupação mais aparente pelo bem-estar das pessoas afetadas, produz ainda mais sentimentos de indignação e raiva. O resultado disso se faz mostrar, entre outras coisas, naquilo que Azevedo (2013) chamou de “rede de discórdia”: a intensa onda de publicações contra o grupo nas redes sociais. Todos esses fatos culminam na adoção de intenções de comportamento por parte dos stakeholders. Isso diz respeito às posturas que provavelmente irão adotar mediante a organização. No caso do Fora do Eixo, sua força vem precisamente da capacidade de mobilização de pessoas que colaboram, em geral, de maneira voluntária, para a sua manutenção. Acreditamos que essa capacidade foi severamente afetada em decorrência dos eventos aqui analisados. Contudo, por mais que o nível de ameaça fosse gigantesco, uma
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atuação mais bem embasada poderia poupar um do capital reputacional que foi tolhido da organização.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
O jornalismo possui um território que se expande com a chegada de
novas tecnologias. Contudo, as mudanças não são recebidas sem resistência.
Esse fenômeno ocorre de modo a preservar os valores-chave desse território, conforme a percepção de quem o integra.
A chegada da internet, dessa forma, engendrou profundas mudanças.
Dentre essas, destaca-se uma maior participação do público, tanto comentando
quanto contribuindo diretamente conteúdo na forma de fotos, vídeos etc. Entretanto, isto se dá sempre em ambiente controlado, remontando ao modelo teórico dos profissionais do jornalismo enquanto gatekeepers – guardiões daquilo que deve ou não entrar na esfera pública na forma de notícia. A
chegada dessas alterações, com a queda vertiginosa nos custos de publicação
e a banalização do acesso a ferramentas de captação do real, permitiu a
criação de uma rede paralela de circulação de informações. Esse papel, antes exercido de forma exclusiva pelas mídias tradicionais, se torna passível de ser
exercido por grande parte da população. Com isso, formou-se um território que cumpre uma função semelhante a
do jornalismo – o de fazer circular informações sobre a sociedade – e que é em larga escala influenciado por ele, mas que é, ao mesmo tempo, um território distinto: no caso, o território da web. Este é marcado por dinâmicas e valores específicos.
A expansão do território institucional do jornalismo – de modo a incluir,
legitimar e significar algumas das práticas típicas da Internet – pode ser
compreendida como o estabelecimento de uma intercessão entre esse território
e o território mais amplo da web. Nesse ponto, se constrói o jornalismo
“colaborativo” praticado pelos grandes veículos. Porém, no seio do universo simbólico da internet, eclodiu também uma forma própria de jornalismo. Esta é pautada não pelas dinâmicas tradicionais construídas de forma histórica ao longo, principalmente, dos séculos XIX e XX. Ao contrário, se origina das características típicas da comunicação em rede. A proposta da Mídia Ninja, independentemente dos inúmeros problemas relativos ao Fora do Eixo que a abarcou, se insere nesse rol de iniciativas
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nativas das ambiências digitais. A ideia de qualquer pessoa pudesse se declarar integrante do grupo, contribuindo com informações sem restrição de quantidade ou de experiência prévia, parece ter marcado de maneira profunda a maneira como a sociedade brasileira encara a mídia. No entanto, foi também uma de suas ruínas. Ao projetar-se desse território, onde era, talvez, uma das maiores referências, para o terreno da mídia tradicional, parece ter se deixado levar pela soberba reputacional ou mesmo por ingenuidade. Isso porque seus representantes atacaram de forma muito contundente a atuação da grande mídia sem, no entanto, levar em conta as ações de resposta a essas críticas. Além disso, a grande notoriedade obtida trouxe à tona uma série de inconsistências, denúncias e insatisfações de toda a sorte. Ironicamente, através dos mesmos mecanismos que possibilitaram o surgimento e desenvolvimento do grupo. Sem demora, a grande mídia tomou proveito da situação para dar um contragolpe preciso e fatal. Em questão de dias, todas as críticas feitas ao seu funcionamento, que, enfim, passou a ser devidamente discutido, foram neutralizadas. Indo além, apresentaram a principal proposta de mudança como uma alternativa inviável e moralmente questionável. Através desses mesmos ataques retóricos, impossibilitou também qualquer possibilidade de reação do grupo, ao menos do ponto de vista argumentativo. Para piorar, o grupo, que se apresentava como representante das tecnologias em rede, mostrou não ter o conhecimento necessário para administrar a situação. Do ponto de vista do diagrama de Coombs (2007), decidiram pela pior estratégia possível nesse caso, o que resultou no aprofundamento da própria crise. Ainda que as perdas fossem consideráveis, no âmbito reputacional, algumas ações poderiam ser tomadas para evitar esse cenário. A atribuição de responsabilidade era gigantesca. Some-se a isso, um conjunto de veículos que, além de propensa aos discursos conservadores, foi diretamente atacado em seu próprio território. Para completar, um histórico de crises internas recorrentes e um capital reputacional absolutamente desfavorável. Perante essa quantidade de fatores que contribuíam para a
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percepção do grupo como culpado pelas acusações, o conjunto de estratégias mais favorável seria o da reconstrução. Esboçamos aqui algumas sugestões. A primeira coisa a se fazer é admitir os principais erros cometidos e focar nos pedidos públicos de desculpas. Em seguida, apresentar ações concretas para tentar se redimir pelos erros. Aqui, incluem-se tudo, desde fornecer apoio psicológico às vítimas; quitar dívidas pendentes; promover ações de bem-estar dos moradores das casas Fora do Eixo; tudo que funcione no sentido reconstruir a reputação do grupo.
Estamos cientes das dificuldades que organizações como o Fora do Eixo enfrentam em termos de recursos. No entanto, nenhuma das ações foi sequer esboçada em sua resposta oficial. Essa postura, essencialmente, foi mais um fator que contribuiu para piorar uma situação que já era crítica. Em nossas análises, levamos em conta apenas a nota oficial publicada pela organização. No entanto, existem diversas outras ações que visavam o mesmo propósito:
fazer parecer que não havia crise, que o Fora do Eixo não havia cometido uma série erros que culminaram nessa situação. Desse conjunto de fatores, resultou que as reputações do Fora do Eixo e da Mídia Ninja foram severamente impactadas. Não cabe, neste trabalho, discutir a veracidade ou não das acusações; nem emitir um juízo de valor sobre a atuação dos mesmos e nem da mídia tradicional. Limitamos-nos a chamar atenção para o seguinte fato: o debate – a nosso ver, tão necessário – sobre formas mais inclusivas e democráticas de comunicação foi deixado de lado em prol de uma campanha de escrutínio midiático. A Folha de S. Paulo, ao lado de outros importantes veículos brasileiros, esvaziou o debate sobre a atuação da mídia na medida em que desqualificou, sistematicamente, a principal voz a respeito do tema no momento. O jornal se alinhou, assim, com o fenômeno ressaltado anteriormente: a mídia nacional nutre uma preferência pela circulação dos discursos de poder, em geral trabalhando para que discursos concorrentes – no caso, de contrapoder – sejam percebidos de maneira negativa perante a esfera pública. O Fora do Eixo, por sua vez, não se mostrou também capaz de fazer frente a esses ataques. Na realidade, do ponto de vista operacional, acabou decidindo pelo pior caminho possível e, em última instância, acabou reforçando
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o próprio enquadramento negativo que queria combater. A Mídia Ninja, que
nada tinha a ver com a história, acabou sendo apresentada como cúmplice de
tudo.
Com isso em mente, acreditamos que esse trabalho se faz importante, principalmente, para organizações que busquem encarnar os discursos de contrapoder mencionados acima. Sua atuação passa, necessariamente, pela
construção de um ethos que sustente sua capacidade de mobilizar pessoas para a ação. Dessa forma, este estudo busca contribuir para a compreensão dos mecanismos pela qual a mídia pode tentar desconstruir esse ethos de modo a neutralizar a capacidade de mudança desses grupos. Ao mesmo tempo, dá conta também de certos elementos básicos do gerenciamento de crise para que, na pior das hipóteses, seja possível proteger
a reputação que construíram. O estudo é voltado, assim, para, movimentos
sociais, ONGs, coletivos, intelectuais, ativistas, partidos, sindicatos, enfim:
entidades que buscam questionar a legitimidade do status quo como forma de promover o avanço da democracia. Esperamos que, com base nas análises traçadas aqui, possam se fazer projetar para dentro da esfera pública da melhor maneira possível. Não
queremos contribuir, aqui, para uma visão maniqueísta do sistema midiático. Contudo, uma vez que esse tipo de postura altamente conservadora se mostra recorrente na grande mídia, este trabalho se faz útil para que esses grupos possam driblar forças que, muitas vezes, visam desconstruir sua atuação.
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FOLHA DE S. PAULO. Líder do PSDB quer informações sobre repasses do governo ao Mídia Ninja, 15/08/2013. Disponível em:
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14 nov. 2014.
MAISONNAVE, F. Grupo Fora do Eixo é chamado de “seita” por ex-integrante. Folha de S. Paulo, 10/08/2014. Disponível em:
<http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/08/1324584-grupo-midia-ninja-e-
chamado-de-seita-por-ex-integrante.shtml> - Acesso em: 13 nov. 2014.
em:
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