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UNIVERSIDADE FEDERAL DE RORAIMA ESCOLA AGROTÉCNICA DA UFRR CURSO TÉCNICO EM AGROPECUÁRIA PROF: Jandiê Araújo da

UNIVERSIDADE FEDERAL DE RORAIMA ESCOLA AGROTÉCNICA DA UFRR CURSO TÉCNICO EM AGROPECUÁRIA PROF: Jandiê Araújo da Silva

UNIVERSIDADE FEDERAL DE RORAIMA ESCOLA AGROTÉCNICA DA UFRR CURSO TÉCNICO EM AGROPECUÁRIA PROF: Jandiê Araújo da

OLERICULTURA GERAL

BOA VISTA-RR

2010

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1. INTRODUÇÃO À OLERICULTURA

1.1. O CAMPO DA OLERICULTURA

A Olericultura é um termo técnico-científico, muito preciso, utililizado no meio agronômico. Derivado do latim (oleris, hortaliça, + colere, cultivar), refere-se à ciência aplicada, bem como ao estudo da agrotecnologia de produção das culturas oleráceas.

A palavra hortaliça refere-se ao grupo de plantas que apresentam, em sua maioria, as seguintes características:

  • - consistência tenra, não lenhosa;

  • - ciclo biológico curto;

  • - exigência de tratos culturais intensivos;

  • - cultivo em áreas menores, em relação às grandes culturas; e

  • - utilização na alimentação humana, sem exigir prévio preparo industrial.

Popularmente, as hortaliças ou a sua parte utilizável são chamadas, impropriamente, de “verduras” e “legumes”. Desse modo, em vez de uma única palavra correta, as pessoas utilizam duas, ambas imprecisas e incorretas. Observe- se que, além das plantas vulgarmente conhecidas como legumes e verduras, do ponto de vista agronômico também são incluídos na olericultura: batata-doce, melancia, melão, milho-verde e morango. A olericultura, conforme o interesse a quem a ela se dedica, pode ser vista como atividade agroeconômica, ciência aplicada, recreação educativa, ou como fonte de alimento relevante para a nutrição humana. Aos olericultores empresariais, extensionistas rurais, agentes da assistência técnica e estudantes de ciências agrárias interessaria mais de perto o primeiro enfoque; já o pesquisador agrícola optaria pelo segundo; a professora de ensino fundamental consideraria o terceiro; e o nutricionista, ou mesmo a dona-de-casa esclarecida, consideraria o último aspecto. É importante notar que os termos técnicos olericultura e horticultura não são sinônimos, tendo um segundo um significado muito mais abrangente, não devendo substituir o primeiro, como ocorre na fala popular. Assim, em países europeus, de

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antiqüíssima tradição agrícola, bem como nos Estados Unidos, o termo horticultura

engloba a produção de plantas muito diversificadas.

O tipo de produção intensiva de plantas praticado no hortus medieval – local

murado e próximo à residência – foi denominado horticultura. Em contraposição

havia a agricultura (de agris, campo), referindo-se à produção extensiva de trigo e

outros cereais. Portanto, inclui-se na horticultura a produção de plantas utilizadas na

alimentação humana, bem como aquelas empregadas com finalidade estética, para

aprimoramento do sabor dos alimentos ou para fins medicinais.

O termo técnico fitotecnia (de fiton, planta) é ainda mais abrangente,

referindo-se à agrotecnologia praticada na produção de plantas muito diversificadas

– úteis ao bem-estar humano. Tais plantas podem ser agrupadas em 4 grandes

ramos, por sua vez subdivididos em outros mais particularizados, obtendo-se o

seguinte esquema didático:

FITOTECNIA

Grandes culturas: produtoras de grãos, fibras e estimulantes Olericultura: hortaliças Fruticultura: fruteiras Floricultura: flores Jardinocultura: plantas
Grandes culturas: produtoras de grãos, fibras e estimulantes
Olericultura: hortaliças
Fruticultura: fruteiras
Floricultura: flores
Jardinocultura: plantas ornamentais
Horticultura
Viveiricultura: mudas em geral
Cultura de plantas condimentares
Cultura de plantas medicinais
Cultura de cogumelos comestíveis
Silvicultura: espécies florestais
Forragicultura: pastagem e forrageiras

Conforme ficou evidenciado, a olericultura é o ramo da horticultura que

abrange o estudo da produção das culturas oleráceas. Note-se que tal abrangência

não é pequena, visto que tais culturas englobam quase uma centena de plantas

alimentícias no mundo ocidental.

1.2. CARACTERÍSTICAS DO AGRONEGÓCIO

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  • a) Atividade altamente intensiva

A característica mais geral e marcante do agronegócio da produção de

hortaliças é o fato de ser uma atividade agroeconômica altamente intensiva, em

seus mais variados aspectos, em contraste com outras atividades, extensivas, como

a produção de grãos. Desse modo, há o emprego contínuo do solo de uma gleba,

com vários ciclos culturais, que se desenvolvem em seqüência.

As atividades de campo são realizadas nas 4 estações do ano. Em olericultura,

o chamado “ano agrícola” – termo utilizado por produtores de grãos – se confunde

com o ano civil. Costuma-se dizer que o olericultor é um agricultor que não tem

sossego, em tempo algum, nem direito a feriado e férias.

  • b) Alto investimento

A olericultura exige alto investimento por hectare explorado, ou seja, alto

“input”, em termos físicos e econômicos. Em contrapartida, possibilita a obtenção de

elevada produção física e alta renda (bruta e líquida), por hectare cultivado e por

hectare/ano, ou seja, alto “output”. É notória a obtenção de substancial volume físico

de produção, concentrado em pequena área, inclusive a alta eficiência na utilização

do espaço físico bi ou até tridimensional (no caso de culturas tutoradas). Quanto à

produtividade, por hectare ou hectare/ano, a olericultura destaca-se em relação às

demais opções agroeconômicas.

  • c) Ciclo curto

O ciclo das culturas oleráceas é geralmente curto. A maioria das espécies é de

ciclo anual; algumas são bienais – exigem um período de frio entre as etapas

vegetativa e reprodutiva; e muitas poucas são perenes. Por exemplo, uma mesma

gleba, ao longo de um ano civil, pode ser utilizada com 3 tomatais transplantados,

ou 6 culturas de alface propagadas por mudas, ou ainda 12 semeaduras diretas de

rabanete. Compare-se isso com as culturas produtoras de grãos, que utilizam o

terreno uma só vez, normalmente, ou duas, no máximo. A obtenção de mais de uma

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safra, anualmente e na mesma gleba, eleva o rendimento físico e econômico da

olericultura.

d) Tamanho reduzido da área física

O agronegócio da produção de hortaliças também se identifica pelo tamanho

mais reduzido da área física ocupada, porém intensivamente utilizada, tanto no

espaço como no tempo. O menor tamanho das culturas facilita o aprimoramento nos

tratos culturais, que são intensivos e sofisticados. Esse aprimoramento se observa

mesmo em plantios mais extensos, como ocorre em culturas com finalidade

agroindustrial.

e) Apurada agrotecnologia

A olericultura requer apurada agrotecnologia, sempre em constante evolução.

Viabiliza e exige artifícios tecnológicos refinados, que seriam antieconômicos em

outros tipos de agronegócio. É o caso de produção de mudas em bandejas,

polinização manual de flores, raleamento de frutinhos, desbaste de plantas em

excesso, irrigação por gotejamento, fertirrigação (aplicação de nutrientes dissolvidos

na água), cultura em casa de vegetação e o máximo de sofisticação: hidroponia, que

é a cultura sem utilização de solo. São numerosos os tratos culturais (irrigação,

tutoramento, desbaste, poda, capina etc.). Também é intensiva a utilização de

insumos agrícolas modernos (sementes, defensivos, fertilizantes, agrofilmes etc).

Além disso, torna-se necessário o uso de instalações, equipamentos e implementos

especializados, como galpões para beneficiamento, câmaras frigoríficas, casas de

vegetação, tratores semeadeiras, adubadeiras, transplantadeiras etc.

f) Utilização intensiva de mão-de-obra

É

notória

a

utilização

intensiva

de

mão-de-obra

rural

em olericultura,

certamente acarretando significativos benefícios do ponto de vista social,

contribuindo para diminuir o desemprego – uma das pragas da economia

globalizada desse início de século. Desse modo, utiliza-se um número elevado de

“serviços” por hectare trabalhado e por propriedade. Um “serviço” corresponde ao

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trabalho desenvolvido por um operário adulto durante sua jornada normal de

trabalho, apenas utilizando as mãos e ferramentas manuais.

g) Aproveitamento de terras problemáticas

A olericultura viabiliza o aproveitamento agrícola de glebas consideradas

problemáticas. A utilização de tais glebas seria impraticável em outros tipos de

atividade agrícola, do ponto de vista agronômico e, ou, econômico. O fato fica bem

evidenciado quando o terreno se localiza próximo a cidades ou à margem de

rodovias. Assim, torna-se perfeitamente viável o cultivo de hortaliças em terrenos de

baixa fertilidade, muito pobres em nutrientes, desde que criteriosamente corrigidos e

adubados. Glebas com solo pedregoso também podem ser exploradas, com certas

espécies. São viáveis, inclusive, baixadas alagadas, após a necessária drenagem.

h) Atividade agrícola de risco

Finalmente, há de se considerar o fato de o agronegócio da produção de

hortaliças ser uma atividade agrícola de maior risco para o empresário rural, em

relação a outras opções. Isso ocorre em virtude da maior incidência de problemas

fitossanitários, maior sensibilidade às condições climáticas, notória ocorrência de

anomalias de origem fisiológica nas plantas, entre outros problemas.

i) Requer maior capacidade técnico-administrativa

Devido às características peculiares, o agronegócio da olericultura requer

maior capacidade técnico-administrativa do empresário rural no manejo dos fatores

agronômicos e econômicos e, também, a assistência por parte de técnicos

especializados, mais intensivamente em relação a outros agricultores. Obviamente,

o olericultor torna-se mais exigente em relação à qualidade da assistência técnica.

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1.3. TIPOS DE EXPLORAÇÃO EM OLERICULTURA

Conforme a finalidade a que se propõe, o número de espécies, a localização

da base física e a agrotecnologia utilizada, há alguns tipos característicos de

exploração em olericultura.

  • a) Exploração diversificada

Esta exploração é típica dos chamados “cinturões verdes”, culturas localizadas

na periferia das cidades e próximas aos pontos de comercialização. O olericultor

vende seus produtos aos varejistas, tais como os donos de bancas em feiras,

mercearias, mercadinhos; ou se transforma, ele próprio, em varejista, atingindo

diretamente o consumidor. São olericultores profissionais explorando áreas

pequenas com espécies diversificadas. Esse tipo de exploração tende a sofrer

deslocamentos, motivados pela valorização dos terrenos, em áreas urbanas ou

suburbanas sujeitas à especulação imobiliária.

A interiorização da exploração diversificada, desde que se disponha de

estradas e o transporte não seja por demais oneroso, pode ser uma tendência

auspiciosa. Desse modo, o custo de utilização da gleba, da água necessária e da

energia elétrica torna-se menor; a mão-de-obra rural é mais abundante, mais barata

e melhor qualificada; há maior possibilidade de mecanização, inclusive com

máquinas e implementos simples; e tudo contribui para redução no custo de

produção, por hectare explorado e por tonelada produzida. Além disso, diminui-se a

possibilidade de água contaminada por agentes causadores de doenças tanto em

plantas como em pessoas. Todavia, perde-se a oportunidade de atingir o varejista e,

mais ainda, o consumidor diretamente, em razão da maior distância até os locais de

comercialização.

  • b) Exploração especializada

Parece ser o tipo de exploração para o qual tende a olericultura nas regiões

mais desenvolvidas, mesmo dentro do Brasil, e nas regiões do 1 o Mundo. Quanto à

área cultivada, a exploração especializada já predomina no centro-sul brasileiro,

onde há menor número de espécies oleráceas, e é comum haver apenas uma ou

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duas sendo produzidas por vez. A agrotecnologia de produção torna-se mais

sofisticada, inclusive com maior utilização de máquinas e implementos. Também é

intensiva a aplicação de insumos agrícolas modernos. A propriedade rural,

geralmente, localiza-se longe dos centros urbanos, porém a produção é escoada por

estradas vicinais ou rodovias.

O olericultor especializado às vezes ocupa grandes áreas com uma só cultura,

inclusive utilizando grau de mecanização comparável ao dos produtores de grãos.

Há produtores que cultivam centenas de hectares com batata, cebola, cenoura,

melão e outras hortaliças. Eles concentram-se nas complexidades da produção, no

campo, não se dedicando à comercialização. Geralmente entregam seu produto a

atacadistas, freqüentemente sediados longe do local da produção. Raramente

vendem a varejistas e, muito menos, procuram atingir o consumidor diretamente.

Esse tipo de produtor é aquele que adota, mais prontamente, as inovações

tecnológicas, também valorizando a assistência agronômica. Graças a sua visão

empresarial, ao espírito de iniciativa e à disponibilidade de recursos, torna-se capaz

de causar grande impacto socioeconômico na região onde atua.

c) Exploração com finalidade agroindustrial

A industrialização de hortaliças é uma atividade que vem crescendo no Brasil

para abastecer os mercados interno e externo. Para fornecimento da matéria-prima

necessária à agroindústria, surgiu um tipo peculiar de exploração especializada. São

extensas culturas cujo grau de mecanização é elevado, sendo as hortaliças

cultivadas de maneira extensiva – também aqui cabendo analogia com a produção

de grãos. Objetiva-se obter considerável volume de produção, a um custo unitário o

mais reduzido possível.

Em algumas regiões brasileiras, esse tipo de exploração vem se expandindo,

para acompanhar a crescente demanda por alimentos industrializados ou

semipreparados, motivada pelo fato de a dona-de-casa também trabalhar fora do lar

freqüentemente e não mais dispor de muito tempo para os trabalhos culinários.

Exemplos típicos são as culturas rasteiras de tomate para obtenção de massa; de

ervilha para produção de grão seco posteriormente reidratado; de pimentão para

obtenção do codimento páprica; de alho-porró para sopas desidratadas; e de

aspargo para enlatamento dos turiões.

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d) Horta doméstica, recreativa ou educativa

É precisamente nesse tipo de cultura que há certo retorno às origens da

olericultura, pois lembra o hortus latino e medieval. Aqui não se trata de uma

exploração agroeconômica, já que o objetivo primordial é aprimorar a alimentação

da família ou da comunidade. Dessa forma, propicia-se a obtenção de hortaliças de

alta qualidade, produzidas com requinte artesanal e em pequena escala.

Tal atividade tem sido desenvolvida nos meios urbano, suburbano e rural e até

em apartamentos, utilizando-se, neste caso, caixas com solo ou mesmo cultura

hidropônica. O mais comum são as hortas tipicamente diversificadas, localizadas em

pequenas áreas, próximas a residências, clubes, escolas, hospitais e dentro de

quartéis e de penitenciárias. Os trabalhos são executados manualmente, com ajuda

de ferramentas simples, por pessoas que se dedicam a outras atividades

profissionais.

No ensino fundamental, a horta educativa pode se tornar um meio excelente de

a professora ilustrar, na prática e de maneira fascinante, os variados aspectos da

Biologia, tornando o ensino mais atraente, motivando as crianças. Bons resultados

também foram obtidos com jovens do meio rural organizados em clubes orientados

por extensionistas – um trabalho educativo infelizmente relegado na época atual. Em

instituições dedicadas à recuperação de pessoas com dependência química –

viciadas em álcool ou em drogas – também o cultivo de hortaliças pode contribuir

como um tipo de terapia.

e) Viveiricultura

A produção de mudas de certas espécies oleráceas, destacando-se tomate,

alface e pimentão, tornou-se um tipo particular de exploração olerácea a partir de

meados da década de 1980. Há agrônomos e agrotécnicos que se dedicam a essa

atividade e fornecem, ao olericultor, mudas com garantia de qualidade, inclusive

fitossanidade.

Para o olericultor que pretende implantar uma cultura pelo plantio de mudas,

há vantagens ponderáveis em deixar essa fase altamente delicada sob os cuidados

de um especialista, como ocorreu há muitas décadas em outros países, como

Holanda e Estados Unidos. No Brasil, a tendência é de que a viveiricultura, além da

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tradicional produção de mudas cítricas e de plantas ornamentais, também produza

mudas de hortaliças, pois é uma atividade altamente lucrativa e mais uma opção

para técnicos agrícolas.

f) Produção de sementes e estruturas vegetativas

A produção de material propagativo, como a semente, é um tipo de exploração

que exige muito mais conhecimento do produtor, em relação à obtenção de

hortaliças para mercado. Grandes empresas produtoras de sementes contratam e

orientam culturas especializadas, inclusive fornecendo a semente básica necessária,

bem como a orientação técnica.

As espécies oleráceas de propagação assexuada, a exemplo de batata,

batata-doce, morango e alho, exigem o plantio de certas estruturas vegetativas.

Estas devem ser produzidas em culturas especialmente orientadas, obedecendo-se

a rigorosas normas de fitossanidade, pois tais estruturas são eficientes veiculadoras

de fitopatógenos. Bons exemplos, no Brasil, são a produção de batata-semente

certificada e de mudas vegetativas de morangueiro, isentas ou com baixo teor de

vírus.

g) Cultivo protegido

Certamente a produção de hortaliças em cultivo protegido, dentro de casas de

vegetação ou de túneis cobertos com agrofilmes, é uma exploração diferenciada das

demais, especialmente em razão da possibilidade de controle de alguns fatores

agroclimáticos. Entretanto, considerando-se as vantagens de ordem agronômica e

econômica, são poucas as espécies oleráceas que se adaptam ao cultivo protegido,

sendo alface, tomate, pimentão, pepino, melão e berinjela aquelas mais

comumentes produzidas.

1.4. RUMOS DA OLERICULTURA BRASILEIRA

A evolução da olericultura acompanha o desenvolvimento geral de uma nação,

sendo mais diretamente influenciada por ele que outras atividades agrícolas. Assim,

é sensível às mudanças sociais, econômicas e culturais, decorrentes da elevação do

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nível de prosperidade geral, da urbanização e da industrialização. O grande

olericultor especializado surge como resposta ao desenvolvimento econômico, que

acarreta incremento na demanda e maior exigência na qualidade dos produtos,

quanto ao aspecto principalmente, mas também ao sabor e à riqueza em vitaminas

e nutrientes minerais.

Quanto mais evoluído um povo, maior e mais diversificado é o consumo de

hortaliças, tanto ao natural como em forma industrializada, fato este claramente

observado nos países desenvolvidos. O nível de consumo relaciona-se não só com

a renda pessoal, que, por sua vez, depende do progresso geral de um país, como

também com o grau de escolaridade e de cultura geral de sua população. Além

disso, a evolução do trabalho braçal para um tipo de trabalho mais leve reduz a

necessidade de alimentos energéticos e pode aumentar a demanda de hortaliças.

Certamente, a evolução da agrotecnologia de produção, resultando no aumento da

oferta e na redução do preço para o consumidor, também tende a elevar a demanda

interna.

A olericultura evoluiu mais acentuadamente no Brasil a partir do início da dec.

de 1940, durante a II Guerra Mundial. Naquela época existiam somente pequenas

explorações diversificadas, localizadas nos denominados “cinturões verdes”, nos

arredores das cidades. A partir de então houve um deslocamento em direção ao

meio rural, estabelecendo-se explorações especializadas em áreas maiores, com

certas culturas. A interiorização certamente deveu-se ao fato de alguns olericultores

buscarem melhores condições agroecológicas ou de ordem econômica, fazendo

com que a olericultura brasileira evoluísse da pequena “horta” para uma exploração

comercial com características bem definidas.

A passagem da “horta” para a olericultura empresarial foi promovida pelos

próprios produtores, sem contarem, de início, com o apoio das entidades oficiais de

pesquisa e de assistência técnica – tradicionalmente voltadas para as “grandes

culturas”. Aqui cabe o reconhecimento dos méritos da dinâmica comunidade nipo-

brasileira e aos imigrantes europeus – responsáveis pela expansão e interiorização

da olericultura como agronegócio.

A ampliação e o aprimoramento da rede assistencial oficial aos produtores

rurais, inclusive olericultores, ocorreram após o término da II Guerra Mundial. Desde

o início, os extensionistas têm contribuído efetivamente para a evolução da

olericultura brasileira.

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Especialmente a partir da dec. de 1950, também instituições oficiais de

pesquisa e ensino passaram a apoiar a olericultura, surgindo uma retaguarda

técnico-científica composta por professores e pesquisadores, além de

extensionistas. Esse movimento consolidou-se com a fundação da Sociedade de

Olericultura do Brasil, em 1961. Essa entidade, muito dinâmica, congrega

profissionais ligados aos variados aspectos da produção e da comercialização de

hortaliças.

O empenho do governo federal na implantação e no efetivo funcionamento das

Centrais de Abastecimento (CEASA’s), ao longo da dec. de 1970, também foi

decisivo. A racionalização na comercialização beneficiou, como era esperado, a

produção. A dec. de 1980 foi considerada “a década perdida” – quanto ao

desenvolvimento geral e econômico do País -, não porém, para a olericultura,

especialmente graças às atividades da pesquisa oficial. Vale assinalar que a

Embrapa Hortaliças foi criada em 1981, no Distrito Federal, e vem contribuindo,

desde então, para o aprimoramento da olericultura em âmbito nacional. Na década

de 1990 – a chamada “era da incerteza” – continuou a expansão da olericultura,

inclusive com a definitiva implantação da cultura protegida, bem como o

desenvolvimento da hidroponia e da fertirrigação. Neste início de século ocorre a

introdução do gotejamento, bem como do plantio na palha, em certas culturas

oleráceas. Atualmente, o agronegócio da olericultura é reconhecido como altamente

relevante no cômputo da agricultura brasileira

Explorando sua diversidade agroecológica, o País tem ampla possibilidade de

exportar, em escala muito maior que a atual, produtos oleráceos, ao natural ou

industrializados, especialmente para mercados europeus, em particular durante o

inverno rigoroso desses países, bem como para a China e outros países asiáticos.

O olericultor é um produtor rural capaz de responder, pronta e produtivamente,

a estímulos econômicos e inovações agrotecnológicas, bem como a medidas

governamentais dignas de aplauso, como a implantação das CEASA’s. É um

agricultor bem sintonizado com a realidade do País, sensível às mudanças que

ocorrem na agricultura ou fora dela. Dessa forma, durante o marasmo da década de

1980, foi iniciada a produção em casa de vegetação – uma vitoriosa iniciativa de

olericultores inovadores e de empresários ligados à produção de agrofilmes.

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2. O UNIVERSO DA OLERICULTURA

Dezenas de culturas oleráceas são produzidas no Brasil, sendo a vastidão e a

complexidade do universo da olericultura devido à multiplicidade e às peculiaridades

de cada espécie cultivada como hortaliça. Assim, para um estudo sistematizado da

olericultura como ciência aplicada, torna-se necessária uma metodologia capaz de

evidenciar as similaridades e as dessemelhanças entre as diferentes plantas. Nesse

sentido, algumas classificações têm procurado agrupar as hortaliças com base em

suas características comuns.

2.1. CLASSIFICAÇÃO POPULAR E TÉCNICA

A dona-de-casa brasileira típica não se impressiona com a grande

complexidade do universo abrangido pelas culturas oleráceas. Para ela, as

hortaliças podem ser reunidas em 3 grupos, simplesmente. Desse modo, nessa

classificação popular, os “legumes” constituem as hortaliças que exigem preparação

culinária mais elaborada, como cozimento, assamento ou fritura; as “verduras”, além

de apresentarem a típica coloração verde, são consumidas ao natural; e os

“temperos” são aquelas utilizadas para dar sabor especial aos pratos.

Uma classificação técnica das hortaliças foi adaptada pelas Centrais de

Abastecimento e vem sendo aplicada. De acordo com essa classificação, as

hortaliças podem ser reunidas, segundo suas partes utilizáveis e comerciáveis, em 3

grupos:

Hortaliças-fruto – utilizam-se os frutos ou partes deles, como as sementes:

tomate, melancia, quiabo, morango, feijão-vagem, etc.

Hortaliças herbáceas – aquelas cujas partes comerciáveis e utilizáveis

localizam-se acima do solo, sendo tenras e suculentas: folhas (alface, repolho,

taioba); talos e hastes (aspargo, aipo, funcho); flores ou inflorescências (couve-flor,

brócolos, alcachofra).

Hortaliças tuberosas – as partes utilizáveis desenvolvem-se dentro do solo,

sendo ricas em carboidratos: raízes (cenoura, beterraba, batata-doce, rabanete e

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mandioquinha-salsa); tubérculos (batata, cará); rizomas (inhame); bulbos (alho e

cebola).

Nas diversas CEASA’s, tem-se cometido o engano – do ponto de vista

agronômico – de considerar melancia, melão e morango como “frutas” e não como

hortaliças-fruto.

Por implicações de ordem agronômica na condução das culturas (controle

fitossanitário integrado, manejo de solo, aplicação de adubação), e também por

razões mercadológicas, inclusive por diminuir o risco de insucesso econômico para

o olericultor, é desejável que coexistam hortaliças-fruto, hortaliças herbáceas e

hortaliças tuberosas numa mesma exploração.

2.2. CLASSIFICAÇÃO BOTÂNICA

a) Características e vantagens dessa classificação

A maior vantagem da classificação botânica é basear-se em características

muito estáveis, enquanto a agrotecnologia pode variar ao longo do tempo e

conforme as tradições regionais. As características botânicas definem melhor a

localização de cada espécie olerácea, dentro da imensa comunidade vegetal, da

qual depende a alimentação e a vida humana.

A classificação botânica das espécies vegetais baseia-se no parentesco, nas

similaridades e nas dessemelhanças entre elas, mormente no que se refere aos

órgãos vegetativos e reprodutivos. No caso particular das plantas oleráceas, todavia,

ainda não existe um consenso universal entre botânicos, havendo desacordo quanto

ao nome correto de algumas famílias, gêneros e espécies. Uma compilação é

apresentada na Tabela 1.

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Tabela 1 – Relação taxonômica de 60 hortaliças cultivadas no Brasil, com seus nomes populares, científicos e família botânica

Nome popular

Nome científico (latim)

Família

Abóbora-rasteira

Cucurbita moschata

Cucurbitácea

Abobrinha-italiana

Cucurbita pepo

Cucurbitácea

Acelga-verdadeira

Beta vulgaris var. cicla

Quenopodiácea

Agrião-aquático

Rorippa nasturtium-aquaticum

Brassicácea

Aipo (salsão)

Apium graveolens var. dulce

Apiácea

Alcachofra

Cynara scolymus

Asterácea

Alface

Lactuca sativa

Asterácea

Alho

Allium sativum

Aliácea

Alho-porró

Allium porrum

Aliácea

Almeirão

Cichorium intybus

Asterácea

Aspargo

Asparagus officinalis

Liliácea

Batata-doce

Ipomoea batatas

Convolvulácea

Batata (batatinha)

Solanum tuberosum ssp. Tuberosum

Solanácea

Berinjela

Solanum melogena

Solanácea

Beterraba

Beta vulgaris

Quenopodiácea

Cará

Dioscorea alata

Dioscoreácea

Cebola

Allium cepa

Aliácea

Cebolinha

Allium schoenoprasum

Aliácea

Cenoura

Daucus carota

Apiácea

Chicória

Cichorium endivia

Asterácea

Chuchu

Sechium edule

Cucurbitácea

Coentro

Coriandrum sativum

Apiácea

Couve-brócolos

Brassica oleracea var. itálica

Brassicácea

Couve-chinesa

Brassica pekinensis

Brassicácea

Couve-de-bruxelas

Brassica oleracea var. Gemmifera

Brassicácea

Couve-flor

Brassica oleracea var. botrytis

Brassicácea

Couve-folha

Brassica oleracea var. acephala

Brassicácea

Couve-rábano

Brassica oleracea var. gongylodes

Brassicácea

Couve-tronchuda

Brassica oleracea var. tronchuda

Brassicácea

Ervilha

Pisum sativum

Fabácea

Espinafre

Spinacea oleracea

Quenopodiácea

Espinafre neozelandês

Tetragonia expansa

Aizoácea

Fava-italiana

Vicia faba

Fabácea

Feijão-de-corda (caupi)

Vigna unguiculata

Fabácea

Feijão-de-lima (fava)

Phaseolus lunatus

Fabácea

Feijão-vagem (vagem)

Phaseolus vulgaris

Fabácea

Funcho (erva-doce)

Foeniculum vulgare var. dulce

Apiácea

Inhame

Colocasia esculenta

Arácea

Jiló

Solanum gilo

Solanácea

Mandioquinha(batata-baroa)

Arracacia xanthorrhiza

Apiácea

Maxixe

Cucumis anguria

Cucurbitácea

Melancia

Citrullus lanatus

Cucurbitácea

Melão

Cucumis melo

Cucurbitácea

Milho-doce

Zea mays

Poácea

Milho-verde

Zea mays

Poácea

Moranga

Cucurbita máxima

Cucurbitácea

Morango (moranguinho)

Fragaria x ananassa

Rosácea

Mostarda-de-folha

Brassica juncea

Brassicácea

Nabo

Brassica rapa var. rapa

Brassicácea

Pepino

Cucumis sativus

Cucurbitácea

Pimenta

Capsicum frutescens

Solanácea

Pimentão

Capsicum annuum

Solanácea

Quiabo

Abelmoschus esculentus

Malvácea

Rabanete

Raphanus sativus

Brassicácea

Rábano “daikon”

Raphanus sativus var. acenthiformis

Brassicácea

Repolho

Brassica oleracea var. capitata

Brassicácea

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Continuação

Nome popular

Nome científico (latim)

Família

Rúcula

Eruca sativa

Brassicácea

Salsa (salsinha)

Petroselinum crispum

Apiácea

Taioba

Xanthosoma sagittifolium

Arácea

Tomate

Lycopersicon esculentum

Solanácea

b) Unidades taxonômicas

Os botânicos agruparam as plantas, segundo suas similaridades, em: divisões,

classes, ordens, famílias, gêneros, espécies, variedades botânicas, formas e

indivíduos – do geral para o particular. Considerando os aspectos agronômicos das

culturas, apenas 4 unidades taxonômicas podem interessar mais de perto:

  • - família: reunião de gêneros semelhantes;

  • - gênero: agrupamento de espécies afins;

  • - espécie: unidade taxonômica englobando indivíduos muito similares; e

  • - variedade botânica: população com características peculiares, dentro de

certas espécies oleráceas.

Desde os trabalhos pioneiros do naturalista sueco Lineu (1707-1778) adotou-

se um sistema binário de nomenclatura botânica, em latim, universalmente aceito.

Assim, utiliza-se o nome do gênero e o da espécie propriamente dita para designar

uma determinada espécie botânica. Os nomes científicos das hortaliças facilitam o

intercâmbio entre os estudiosos, evitando-se as dificuldades criadas pelos nomes

populares nos diversos idiomas.

As plantas oleráceas pertencem à divisão Espermatófita – plantas que

produzem sementes, utilizáveis ou não na propagação. A subdivisão é Magnoliofitina

– plantas com óvulos encerrados em um ovário (angiosperma), que originarão

sementes. A grande maioria das plantas oleráceas é incluída na classe Magnoliata –

vegetais cujas sementes apresentam dois cotilédones (dicotiledôneas) -; e a minoria,

na classe Liliata – plantas com um só cotilédone (monocotiledôneas). Atualmente,

essa última classe engloba as famílias: aliácea (alho), arácea (inhame),

dioscoreácea (cará), liliácea (aspargo) e poácea (milho-doce).

17

A relação taxonômica das hortaliças mais cultivadas no Brasil, com os nomes

científicos atualizados das espécies, inclusive das famílias botânicas, é apresentada

na Tabela 1.

c) Variedade Botânica e Cultivar

A espécie tem sido considerada a unidade básica de trabalho dos botânicos,

sendo a categoria na qual Lineu baseou seu genial sistema de nomenclatura.

Entretanto, em casos particulares, as espécies são subdivididas em variedades

botânicas (utilizando-se a abreviatura “var.”). Isso se torna necessário quando certa

população de plantas, dentro de determinada espécie, apresenta características

notáveis, inclusive de importância agronômica e comercial. Um exemplo é a espécie

Brassica oleracea, que abrange algumas variedades botânicas, que constituem

hortaliças de importância mundial, como B. oleracea var. acephala (couve), B.

oleracea var. capitata (repolho), B. oleracea var. Botrytis (couve-flor) e B. oleracea

var. italica (couve-brócolos).

O termo “variedade” – utilizado no sentido agronômico – tem sido substituído

pelo termo técnico cultivar, universal, derivado das palavras inglesas “cultivated

variety” (usa-se a abreviatura “cv.”). Trata-se de um grupo de plantas cultivadas

semelhantes entre si, que se distingue de outros grupos por características de

relevância agronômica e comercial. Tais características peculiares devem ser

mantidas inalteráveis, nos ciclos de propagação da cultivar, ao longo dos anos. Um

bom exemplo da adoção oficial desse termo técnico, no Brasil, é a Lei de Proteção

de Cultivares, instituída em abril de 1997.

As cultivares são obtidas por meio de técnicas de melhoramento genético,

utilizadas por melhoristas de plantas. Uma cultivar, em se tratando de olericultura,

pode ser constituída por plantas pertencentes a um dos quatro seguintes tipos de

agrupamento:

Clone: conjunto de plantas geneticamente idênticas e originárias de uma única

planta-matriz propagada assexuadamente, ou seja, sem utilização de sementes

botânicas. Exemplos: cultivares propagadas vegetativamente de alho, batata, couve-

manteiga, morango e mandioquinha-salsa.

18

Linhagem: grupo de plantas, com aparência muito uniforme, propagadas por

via sexual, cujas características são mantidas por seleção, tendo um padrão em

vista. Originariamente, esse tipo de cultivar é obtido por autofecundação induzida.

Exemplos: cultivares de algumas hortaliças propagadas por sementes.

Cultivar não-híbrida: grupo de plantas que apresenta pequenas diferenças

genéticas (genótipo distinto), porém mantendo características agronômicas comuns

(fenótipo semelhante), pelas quais o grupo possa ser identificado. É o caso do

pepino tipo Caipira, selecionado por olericultores a partir de populações

heterogêneas tradicionalmente cultivadas nas propriedades rurais.

Híbrido, ou cultivar híbrida: conjunto de plantas altamente uniforme, de modo

geral obtido pelo cruzamento controlado entre duas linhagens compatíveis

escolhidas, mantidas por autofecundação induzida. Atualmente há tendência para o

lançamento de híbridos de 1 a geração (sementes de 1 a geração, após o cruzamento)

em brássicas, particularmente em repolho, couve-flor e brócolos. Também se nota

essa tendência no caso de tomate, pepino e pimentão.

Na situação atual, observa-se que as cultivares de hortaliças estão em

constante mudança, inclusive pela introdução de novos híbridos. Então, torna-se

relevante o conceito de tipo ou grupo de cultivares, dentro de uma mesma cultura,

englobando aquelas cultivares com características agronômicas e comerciais

comuns.

Há, portanto, maneiras variadas de se obter uma nova cultivar. Entretanto,

historicamente, a técnica que originou maior número de cultivares de hortaliças ao

longo do tempo tem sido a seleção de plantas, no campo, a partir de um conjunto

desuniforme – a chamada “população”. Tal trabalho, no passado, foi efetuado por

olericultores com notável capacidade de observação e espírito de pesquisador. Os

fitomelhoristas profissionais, todavia, utilizam técnicas bem mais sofisticadas, como

a autofecundação controlada de uma planta especialmente escolhida ou o

cruzamento entre linhagens autofecundadas com características complementares.

Também valem-se de modernas técnicas de laboratório, como o cultivo de embrião,

a cultura de tecidos, a indução de mutações, a criação de plantas transgênicas –

esse um assunto ainda polêmico -, dentre outras.

O nome original de uma cultivar – preferencialmente no idioma de origem ou

em forma aportuguesada – deve ser mantido e utilizado pelos olericultores e por

19

agentes de comercialização de hortaliças. As embalagens de sementes, mesmo

quando importadas, devem conter o nome original, inclusive para evitar duplicidade

e facilitar o intercâmbio entre pesquisadores. Um problema sentido é a multiplicidade

de nomes regionais de uma mesma cultivar, fato corriqueiro no caso de culturas de

propagação vegetativa, como alho, cará e batata-doce.

Para bem caracterizar uma cultura olerácea, deve-se agregar ao nome da

espécie o nome da variedade botânica, se houver, bem como o nome original da

cultivar. Por exemplo, o nome completo e correto da couve-flor brasileira, pioneira no

plantio de verão, é Brassica oleracea var. Botrytis cv. Piracicaba Precoce.

Uma classificação taxonômica integra e sumariza tudo o que se sabe sobre as

plantas oleráceas, incluindo aspectos morfológicos, genéticos, ecológicos ou

fisiológicos. Tal conhecimento possibilita antecipar as exigências de determinada

cultura, auxiliando na escolha e na utilização da agrotecnologia mais adequada.

20

3. OS FATORES AGROCLIMÁTICOS

As condições ambientais interferem, decisivamente, no desenvolvimento das

plantas e na produção das culturas oleráceas. A compreensão dos fatores

envolvidos, especialmente aqueles de natureza agroclimática, é imprescindível para

quem pretenda se dedicar ao estudo aprofundado ou mesmo à prática da

olericultura comercial, em bases técnico-científica.

AMBIENTE, GENÓTIPO E FENÓTIPO

Existem alguns conceitos que devem ser bem compreendidos. Ambiente, ou

“meio ambiente” – expressão redundante muito utilizada pela imprensa -, é o

conjunto de fatores agroecológicos e agrotecnológicos, externos à planta, mas que

muito influenciam o desenvolvimento e a produção. É o caso do clima e do solo,

como também da adubação, irrigação, pulverização e outras práticas agrícolas –

todos incluídos nesse conceito por demais abrangente denominado “ambiente”.

O genótipo – a composição genética da planta – é outro conceito fundamental.

O resultado perceptível, e de implicações práticas, da ação do genótipo interagindo

com o ambiente constitui o fenótipo – algo que interessa mais de perto ao

olericultor. O fenótipo é expresso nas características da planta cultivada,

produtividade da cultura e qualidade do produto obtido, sendo, portanto, a expressão

visível do genótipo.

Dentro desse contexto, há duas vias para o possível aprimoramento da

olericultura. A primeira via é a busca da melhoria da própria planta, procurando-se

adequar o seu genótipo a um determinado ambiente. E isso se obtém por meio do

melhoramento genético, resultando na obtenção de novas cultivares melhoradas,

como é o caso de cultivares adaptadas a condições climáticas distintas daquelas

para as quais a planta foi inicialmente selecionada. Bons exemplos são as cultivares

de alface, brássicas e cenoura – ditas de “verão” -, já que, originalmente, todas as

cultivares dessas espécies eram consideradas “de inverno” e apenas produziam

bem se plantadas no outono-inverno. As novas cultivares foram criadas objetivando-

se a adaptação às condições de clima cálido.

A segunda via é a modificação e adequação do ambiente a um genótipo

previamente escolhido, utilizando-se a moderna agrotecnologia. Em relação a clima,

21

serve de exemplo o plantio de pepino – uma planta intolerante ao frio – em pleno

inverno, sob casa de vegetação, sendo beneficiada pelo efeito estufa. Outros

exemplos são a utilização de adubação, irrigação e defensivos, que tornam o

ambiente propício ao cultivo de certas hortaliças. Um caso notório é o da adubação

de solos de baixa fertilidade natural, que passam a produzir hortaliças exigentes em

nutrientes.

3.2. INFLUÊNCIA DA TEMPERATURA

As culturas oleráceas apresentam com freqüência ampla adaptação climática,

provavelmente por serem cultivadas há muito tempo e nas mais diversas condições.

As espécies de ciclo curto principalmente – que são a maioria – sempre encontram

alguns meses com condições propícias, mesmo quando cultivadas em regiões de

clima distinto daquele de onde tiveram sua origem. Então, ao olericultor cabe

conhecer as exigências climáticas das plantas que pretende cultivar, bem como as

peculiaridades climáticas de sua região ao longo do ano, procurando harmonizar

ambas. Note-se que são os fatores climáticos que mais poderosamente influenciam

algumas características relevantes de uma cultura, como duração do ciclo,

precocidade na colheita, fitossanidade, produtividade, qualidade do produto e,

inclusive, preço de mercado.

Indubitavelmente, é a temperatura o fator climático que maior influência exerce

sobre a olericultura, sendo, freqüentemente, também o principal fator limitante a

essa atividade. A influência é verificada em todas as etapas do desenvolvimento da

planta. Desse modo, cada espécie botânica cultivada como hortaliça, cada

variedade botânica e cada cultivar comercial apresentam uma faixa termoclimática

mais propícia em cada etapa de seu ciclo. Temperaturas abaixo do nível ótimo

podem prolongar o ciclo, ou provocar o florescimento prematuro de certas hortaliças,

prejudicando o desenvolvimento da parte comerciável; acima do nível ótimo, podem

ocasionar perda em qualidade do produto.

As variações termoclimáticas ao longo do dia, do mês e do ano afetam o

desempenho profundamente ou mesmo determinam a época adequada para o

plantio de certas espécies ou cultivares. O ideal seria que cada propriedade

dispusesse de um posto agrometeorológico provido de equipamentos, que

medissem e registrassem a variação térmica.

22

As médias das temperaturas máximas e mínimas mensais caracterizam bem,

mês a mês, a variação térmica ao longo do ano. Os dados primários devem ser

obtidos diariamente, ressaltando-se que as temperaturas máximas costumam

ocorrer durante o dia e, as mínimas, à noite. No cultivo de algumas solanáceas,

principalmente, a variação termoclimática entre o dia e a noite exerce influência

preponderante no desenvolvimento da planta e na produção.

Dentre os fatores que afetam o desempenho das sementes de hortaliças a

temperatura tem sido o mais estudado. Sabe-se então que a germinação, a

emergência e o desenvolvimento inicial das plântulas são diretamente

condicionados pela temperatura do leito no qual se efetua a semeadura. As

condições ótimas são aquelas que possibilitam acelerar a germinação, porém sem

diminuição da percentagem de sementes germinadas. Assim, cada espécie olerácea

apresenta suas exigências térmicas.

Sem dúvida, a temperatura do solo está diretamente relacionada com a

temperatura do ar, com a duração do período luminoso a que foi exposto tal solo e

com algumas características inerentes ao próprio solo. Um exemplo prático é o

efeito da coloração: solos escuros aquecem-se muito mais rapidamente que aqueles

de coloração clara.

3.3. ADAPTAÇÃO TERMOCLIMÁTICA DAS CULTURAS

É possível enquadrar as numerosas espécies botânicas cultivadas como

hortaliças em 3 grandes grupos, inclusive considerando-se as particularidades das

modernas cultivares. Para isso, levam-se em consideração as peculiares exigências

termoclimáticas de cada cultura durante a maior parte do ciclo cultural. Com base

nesse critério, tem-se a seguinte classificação:

- Hortaliças de Clima Quente: aquelas tipicamente intolerantes ao frio, que

prejudica ou mesmo inibe a produção, exigindo temperaturas elevadas, diurnas e

noturnas; são todas intolerantes às geadas, porém algumas toleram temperaturas

amenas. Exemplos: a maioria das cucurbitáceas, batata-doce e quiabo.

23

- Hortaliças de Clima Ameno: produzem melhor sob temperaturas amenas,

que também são aquelas mais favoráveis ao bem estar humano; toleram

temperaturas mais baixas, próximas e acima de 0 o C; e podem, inclusive, tolerar

geadas leves. Exemplos: tomate, batata, alface e moranga híbrida.

- Hortaliças de Clima Frio: exigem ou produzem melhor sob baixas

temperaturas, tolerando aquelas situadas ligeiramente abaixo de 0 o C; suportam

geadas mais pesadas. Exemplos: alho, alcachofra e os vários tipos de couve.

Com base nesse critério, as culturas oleráceas são enquadradas em 3 grupos

(Tabela 2). A classificação das hortaliças segundo a exigência termoclimática

apresentada certamente é imperfeita e sujeita a alterações. Assim, os fitomelhoristas

têm ampliado a faixa térmica favorável ao cultivo de certas espécies, pela criação de

cultivares ditas “de verão” – apropriadas para cultivo sob temperatura mais elevada.

Esse termo deve ser compreendido no sentido de que dentro de uma espécie típica

de clima frio ou ameno foram criadas novas cultivares adaptadas a clima cálido.

Bons exemplos ocorrem nas culturas de alface, cenoura e couve-flor, entre outros.

24

Tabela 2 – Classificação das culturas oleráceas pela exigência termoclimática

Clima frio

Clima ameno

Clima quente

Acelga verdadeira

Abobrinha italiana

Abóbora rasteira

Aipo (salsão)

Agrião d’agua

Batata-doce

Alcachofra

Alface*

Berinjela

Alho

Almeirão

Cará

Alho-porró

Batata

Chuchu

Aspargo

Cenoura*

Coentro

Beterraba

Chicória

Espinafre-neozelandês

Cebola

Moranga híbrida

Feijão-de-corda (caupi)

Cebolinha

Rúcula

Feijão-de-lima (fava)

Salsa

Feijão-vagem

Couve-brócolos* Couve-chinesa*

Couve-de-bruxelas Couve-flor* Couve-folha Couve-rábano Couve-tronchuda Ervilha Espinafre-verdadeiro Fava italiana Funcho Mandioquinha-salsa Morango Mostarda-de-folha Nabo Rabanete Rábano “daikon” Repolho*

Tomate

ditas “de

Inhame Jiló Maxixe Melancia Melão Milho-doce Milho-verde Moranga Pepino Pimenta Pimentão Quiabo Taioba

Observação: (*) Espécies que apresentam cultivares temperaturas cálidas.

verão”, ou

seja, adaptadas a

3.4. TERMOPERIODICIDADE ESTACIONAL

As culturas oleráceas estão submetidas à variação estacional da temperatura,

ao longo do seu ciclo, sendo essa variação indispensável para que ocorram

processos biológicos importantes.

O efeito da termoperiodicidade estacional torna-se mais bem evidenciado nas

espécies oleráceas ditas bienais, como em brássicas (repolho, couve-flor, couve-

brócolos), cebola, beterraba e rabanete. Tais plantas exigem frio para passarem da

etapa vegetativa do seu ciclo para a reprodutiva, com a emissão do pendão floral, e

posterior desenvolvimento das sementes. Não se entenda que são exigidos dois

anos – como o nome sugere -, mas dois períodos de tempo separados por um

intervalo com temperaturas favoravelmente baixas. A exigência de frio para o

pendoamento certamente depende da espécie, da variedade botânica e da cultivar,

havendo aquelas mais exigentes e outras, menos. Note-se que a passagem para a

25

etapa reprodutiva apenas interessa ao produtor de sementes, sendo desastrosa

para o olericultor comum.

As espécies ditas anuais independem de um intervalo de frio para que a planta

passe da etapa vegetativa para a reprodutiva. Um exemplo típico é a alface, que

exige fotoperíodo longo e temperatura elevada para ocorrer o florescimento e a

formação de sementes.

Finalmente, há as espécies perenes, de ciclo muito dilatado, que podem

ocupar o terreno por um ou mais anos. Essas plantas enfrentam as condições

termoclimáticas decorrentes da passagem das 4 estações. Um bom exemplo é o

aspargueiro, que pode permanecer produtivo durante uma década, no campo. Outro

exemplo, de perenidade menos evidente, é o do tomateiro, que se comporta como

uma cultura anual, pelo fato de ser afetado por agentes etiológicos de natureza

variada, fungos, bactérias e vírus, além de insetos-praga, que abreviam o ciclo da

cultura.

3.5. TERMOPERIODICIDADE DIÁRIA

A temperatura oscila ao longo de um dia de 24 horas, sendo as noites mais

frias, geralmente. Em algumas espécies oleráceas, as plantas se desenvolvem e

produzem melhor quando a temperatura noturna é inferior à diurna – uma diferença

de 5-10 o C. Quando mantidas sob temperatura constante, noite e dia, essas plantas

são prejudicadas.

O efeito decisivo da termoperiodicidade diária tem sido mais bem estudado em

tomaticultura, em pesquisas conduzidas na Europa e nos Estados Unidos, as quais

demonstram que a temperatura noturna exerce maior efeito no desenvolvimento da

planta e na produção. Em altas temperaturas noturnas, o crescimento vegetativo é

acelerado, porém são prejudicadas ou até inibidas a floração e a frutificação. Tem

sido demonstrado que temperaturas noturnas de 13 a 18 o C e diurnas de 20 a 25

o C são aquelas mais favoráveis à produção.

Como comprovação prática da exigência termoperiódica do tomateiro, é

conhecido o caso de antigos produtores holandeses, por demais cuidadosos, que se

levantavam em meio à noite invernal para aquecerem suas estufas. Entretanto,

verificavam que seus tomateiros apresentavam menor desenvolvimento e produção,

em relação às plantas de vizinhos, mais comodistas, que deixavam cair a

26

temperatura noturna. Assim agindo, eles propiciavam a termoperiodicidade diária

adequada à cultura.

A exigência de termoperiodicidade também pode explicar a inadequação da

tomaticultura a regiões que apresentam temperaturas diurnas e noturnas igualmente

elevadas, como ocorre na Amazônia.

Outros estudos demonstram que as temperaturas diurnas de 20 a 25 o C e

noturnas de 10 a 16 o C são as mais favoráveis à bataticultura, nas condições

européias e norte-americanas. Isso explica o mau desempenho dessa cultura em

localidades brasileiras de baixa altitude, apresentando temperaturas constantemente

elevadas, de dia e de noite. Inversamente, tem sido demonstrado o sucesso da

cultura em altitudes acima de 800 m, sob temperaturas diurnas amenas e noturnas

favoravelmente menores, como ocorre em planaltos e regiões serranas do centro-

sul.

Outras culturas, menos estudadas, também apresentam exigência de

termoperiodicidade diária, devendo a temperatura noturna ser sempre mais baixa

que a diurna, a exemplo do pimentão, da beterraba, da ervilha e do morango.

  • 3.6. INFLUÊNCIA DA LUZ: INTENSIDADE

A luz solar é um fator climático relevante para o desenvolvimento vegetal, pois

promove o processo da fotossíntese – sem o qual a vida humana e animal seria

impossível sobre o planeta. Quando se estuda a influência da luz na olericultura há

de se considerar a intensidade luminosa e a variação fotoperiódica, separadamente.

Experimentalmente se comprova que a um aumento na intensidade luminosa

corresponde uma elevação na atividade fotossintética, dentro de certos limites,

resultando em maior produção de matéria seca nas plantas. Contrariamente, a

deficiência luminosa provoca maior alongamento celular, resultando em

estiolamento, isto é, aumento na altura e extensão da parte aérea, porém sem

correspondente elevação do teor de matéria seca. Dessa forma, em localidades em

que prevalece alta intensidade luminosa é estimulada a produtividade, nas culturas

oleráceas. Sob baixa luminosidade, ao contrário, há formação de mudas estioladas

e de plantas adultas frágeis, de menor produtividade.

A baixa intensidade luminosa tem sido fator limitante à olericultura no norte da

Europa. Já em países tropicais, como o Brasil, a alta luminosidade favorece a

27

produtividade. Vale enfatizar serem as hortaliças plantas altamente exigentes, ao

contrário do que ocorre com plantas ornamentais de interior, que requerem baixa

luminosidade.

  • 3.7. INFLUÊNCIA DA LUZ: FOTOPERÍODO

A duração do período luminoso – o chamado fotoperíodo -, dentro de um dia de

24 horas, influencia numerosos processos fisiológicos nas plantas. É o caso do

crescimento vegetativo, da floração e frutificação, da produção de sementes e da

obtenção de produtos para a alimentação humana.

O número de horas diárias de luz solar varia conforme a latitude da localidade

e a estação do ano. Belém do Pará – cidade situada pouco abaixo da linha do

Equador terrestre (latitude de 0 o C) -, por exemplo, apresenta 12 horas diárias de

luz, portanto a duração do dia é igual à da noite ao longo das 4 estações. À medida

que se afasta do equador em direção ao extremo sul, constata-se que os dias vão

se tornando, progressivamente, maiores durante o verão e menores no inverno.

Essa variação no período luminoso denomina-se “fotoperiodismo”, ao qual

algumas hortaliças, especialmente aliáceas, são muito sensíveis. Em cebola e alho,

somente ocorre a formação de bulbos quando os dias apresentam duração acima de

um número mínimo de horas de luz – fotoperíodo crítico, característico de cada

cultivar. De acordo com a exigência fotoperiódica, há cultivares precoces e tardias,

conforme necessidade de dias menores e maiores, respectivamente, para a

bulbificação. Essa é a principal razão pela qual certas cultivares sulinas de cebola e

de alho não produzem bulbos se plantadas durante o outono – época normal de

plantio de tais culturas – no centro-sul. Sendo cultivares tardias, a exigência

fotoperiódica não é satisfeita, motivo pelo qual as plantas se mantêm vegetativas.

A formação de flores também depende do fotoperíodo, estritamente, em certas

espécies. Por isso, cultivares européias e norte-americanas de alface pendoam,

precocemente, quando cultivadas nos dias longos do verão brasileiro.

Contrariamente, as cucurbitáceas produzem maior número de flores femininas, com

conseqüente aumento na produtividade, nos dias curtos do inverno. Já o

morangueiro somente floresce e frutifica em dias curtos, tornando-se vegetativo

durante os dias longos do verão.

28

Do ponto de vista prático, o fotoperíodo torna-se fator limitante somente na

produção de poucas espécies oleráceas, destacando-se o caso peculiar da cebola e

do alho. Em outras espécies, o fotoperiodismo afeta menos o desenvolvimento da

planta, bem como a produção.

  • 3.8. IMPORTÂNCIA DA UMIDADE

A água é imprescindível à vida vegetal e constitui mais de 90% do peso da

parte utilizável da maioria das hortaliças, sendo fácil, portanto, aquilatar sua

importância na olericultura. O teor de umidade no solo condiciona a absorção de

água e dos nutrientes minerais, essenciais ao desenvolvimento das plantas; a

umidade do ar influencia a transpiração (perda de água pelas folhas) e outros

processos que afetam a cultura.

Dentre os fatores climáticos, o teor de umidade no solo é aquele que pode

mais facilmente ser controlado pelo olericultor, por meio da irrigação.

Contrariamente, o controle da umidade do ar é bem mais difícil, a não ser pela

escolha criteriosa da época de plantio, considerando-se que o ar é mais seco no

outono-inverno. Note-se que um elevado teor de umidade no ar afeta o estado

fitossanitário da cultura, especialmente no que concerne ao ataque de fungos e

bactérias fitopatogênicos. Contrariamente, baixo teor favorece a manifestação de

ácaros e alguns insetos.

O regime pluviométrico da localidade afeta, substancialmente, a produção das

culturas em geral. Entretanto, no caso particular da produção de espécies altamente

exigentes de água, como o são a maioria das hortaliças, o fornecimento desta não

se pode basear apenas nas chuvas. Por isso, a prática da irrigação racional é

indispensável, devendo estar sempre presente nas cogitações do olericultor.

Durante o período chuvoso, todavia, é possível a cultura não irrigada de certas

espécies – menos exigentes ou dispondo de raízes mais profundas -, por exemplo

aboboreira, chuchuzeiro, aspargueiro, quiabeiro, dentre outras.

Além do efeito benéfico de elevar o teor de água disponível no solo, as chuvas

também acarretam alguns efeitos negativos às culturas, elevando a umidade do ar e

removendo a camada protetora, obtida pela pulverização com fungicidas, o que

favorece o ataque de certos fitopatógenos. Esses problemas fitossanitários são

menos freqüentes durante o inverno, certamente devido à baixa umidade relativa do

29

ar; durante o verão chuvoso podem tornar-se fator limitante, no caso de culturas

suscetíveis.

  • 3.9. AGROTECNOLOGIA NO CONTROLE CLIMÁTICO

O olericultor dispõe, atualmente, de alguns artifícios que possibilitam certo

controle sobre as condições climáticas, na condução de uma cultura de hortaliças.

Quando se pretende diminuir a temperatura do solo ou do leito de semeadura

na formação de mudas, podem-se aplicar alguns tipos de cobertura palhosa, como:

capim seco, palha da haste do arroz, palha de trigo, maravalha de madeira,

bagacilho de cana, casca de arroz etc. O material deve ser abundante na região ou

na propriedade e de baixo custo, devendo sua aplicação ser manual ou, se possível,

mecânica. O principal efeito almejado é baixar a temperatura do solo e mantê-la

favoravelmente estável, alguns graus abaixo da temperatura normal do solo

descoberto, mesmo nas horas de maior insolação. Temperaturas amenas no solo

favorecem muito o desenvolvimento das plantas e a produção de algumas espécies

oleráceas, como alho e morango, nas quais é comum o uso dessa prática cultural.

A cobertura palhosa oferece ainda outros benefícios para as culturas

oleráceas. Um deles é manter adequado teor de umidade no solo por mais tempo,

após a irrigação ou uma chuva, permitindo dilatar o turno de rega, em relação ao

solo descoberto. Assim, constata-se real economia de água e energia, reduzindo-se

o custo de produção.

Outra vantagem desse tipo de cobertura é o controle das plantas invasoras. A

incidência de ervas daninhas é reduzida, dependendo da espécie, podendo-se

efetuar o controle integrado com a utilização de herbicidas, pulverizados sobre o

leito em pré-emergência antes de se aplicar a cobertura. Essas práticas são muito

utilizadas em alho, por exemplo.

No caso de sementeiras, ou mesmo na semeadura direta, também há

benefícios na aplicação da cobertura palhosa, desde que não prejudique a

emergência das plântulas. Dessa forma, pode-se cobrir com casca de arroz uma

sementeira para produção de mudas de cebola ou um canteiro para semeadura

direta de cenoura, não sendo necessária a remoção do mateiral. No entanto, quando

se aplica palha de cereais ou capim, remove-se o material tão logo se constate o

início da emergência das plântulas.

30

A irrigação constitui um tipo muito utilizado de controle climático, já que

complemente ou substitui as chuvas, elevando o teor de água útil no solo, além de

influenciar o microclima formado ao redor da planta irrigada.

Um controle mais efetivo do clima é obtido certamente, pela chamada

“plasticultura” ou “cultivo protegido” – moderna agrotecnologia baseada na aplicação

de agrofilmes.

31

  • 4. SOLO, NUTRIÇÃO E ADUBAÇÃO

As culturas oleráceas são altamente exigentes em nutrientes, razão pela qual

os produtores às vezes, erram ao adubarem em excesso; outras vezes, a adubação

é desequilibrada e, freqüentemente, sem orientação agronômica.

  • 4.1. SOLO E FORNECIMENTO DE NUTRIENTES

O solo é o substrato natural para a produção agrícola, servindo como meio

para o desenvolvimento das raízes. Em que pese sua relevância, entretanto, o solo

pode ser profundamente modificado ou até mesmo dispensado, em olericultura,

como ocorre no cultivo hidropônico. Todavia, o que acontece freqüentemente não é

a substituição, mas a modificação do solo promovida pelo olericultor. Observa-se

que as propriedades físicas de um solo são mais relevantes que o teor de nutrientes,

já que este pode ser profundamente modificado.

O solo agrícola é uma importante fonte de nutrientes minerais para as raízes.

No entanto, no caso particular da olericultura, freqüentemente o solo se comporta

como fonte insuficiente de nutrientes, dada a elevada exigência das culturas. Essa

limitação da fertilidade natural é bem conhecida, podendo ser corrigida pela

agrotecnologia. Evidentemente, devem-se minimizar possíveis danos ecológicos,

como a contaminação da água subterrânea por nitratos ou de lagoas por fosfatos.

As culturas precisam encontrar no solo, sob forma e quantidade adequadas, 14

nutrientes reconhecidos como essenciais aos vegetais. A ausência de qualquer um

deles na solução do solo torna-se fator limitante ao desenvolvimento e à produção

das plantas. São eles:

Macronutrientes

Nitrogênio (N) Principais Fósforo (P) Potássio (K) Cálcio (Ca) Magnésio (Mg) Secundários Enxofre (S)
Nitrogênio (N)
Principais
Fósforo (P)
Potássio (K)
Cálcio (Ca)
Magnésio (Mg)
Secundários
Enxofre (S)

Micronutrientes: boro (B), zinco (Zn), molibdênio (Mo), cobre (Cu), manganês (Mn), ferro (Fe), cloro (Cl) e níquel (Ni).

32

Há ainda mais 3 nutrientes – silício (Si), sódio (Na) e cobalto (Co) – que não

são reconhecidos como essenciais para todas as plantas, mas que beneficiam

algumas.

Os 14 nutrientes inicialmente citados são reconhecidos como essenciais ou

imprescindíveis às plantas superiores – as hortaliças, por exemplo. Os

macronutrientes são extraídos em quantidades mais substanciais pelo sistema

radicular (kg/ha), em relação aos micronutrientes (g/ha). Não obstante, a falta de

alguns gramas de um micronutriente pode resultar no insucesso de uma cultura,

como se observa no campo. Quanto à distinção entre “principais” e “secundários”,

trata-se de questão puramente legislativa concernente à comercialização de

fertilizantes, sem qualquer relevância agronômica.

  • 4.2. EXTRAÇÃO E EXPORTAÇÃO DE NUTRIENTES

As espécies oleráceas extraem do solo e exportam, em suas partes

comerciáveis, maiores quantidades de nutrientes, por hectare, em relação a outras

culturas. Isso ocorre em razão de suas exigências peculiares e, principalmente, da

sua maior capacidade de produção.

A fertilidade natural dos solos não satisfaz, freqüentemente, as elevadas

exigências nutricionais das culturas oleráceas – algo que tem sido demonstrado por

pesquisadores e comprovado, na prática, por olericultores. Entretanto, há toda uma

agrotecnologia técnico-científica utilizada para melhorar um solo.

Em certas situações, o solo é naturalmente rico em alguns nutrientes, como K

e N, sendo capaz de suprir parcela substancial da exigência das culturas.

Contrariamente, é incomum um solo brasileiro apresentando teor tão elevado de P –

em forma utilizável pela planta – que possa dispensar a adubação fosfatada.

  • 4.3. A APLICAÇÃO DE NUTRIENTES

As culturas oleráceas são mais produtivas e exigentes, razão pela qual

extraem e exportam do solo maior quantidade de nutrientes, em relação às culturas

de grãos, por exemplo, exigindo adubações mais fartas. A olericultura também é a

atividade agrícola que oferece respostas mais substanciais à adubação, sob o duplo

aspecto: agronômico e econômico. Adequadamente conduzida, a adubação resulta

33

em maior produção, obtida por unidade de tempo e de área, além de produtos com

maior valor nutricional, aspecto mais atrativo, melhor sabor e aroma, bem como

valor de venda maior. Certamente contribui para isso o elevado potencial genético

das atuais cultivares melhoradas, inclusive mais exigentes em nutrientes, e toda a

moderna agrotecnologia. A irrigação, por exemplo, favorece a utilização dos

nutrientes pelas raízes; e o controle fitossanitário mantém a superfície

fotossintetizante ativa por mais tempo, contribuindo para elevar a produção.

Numa sucessão de culturas sobre uma gleba, é fundamental considerar o

ponderável efeito residual das adubações anteriormente aplicadas, já que é

impraticável fornecer os nutrientes na medida exata para atender, tão somente, à

demanda da cultura visada. Assim, o efeito residual contribui para reduzir o custo da

adubação da nova cultura. Por exemplo, o milho-doce pode suceder uma cultura

rasteira de tomate, exigindo pouca ou nenhuma adubação. Normalmente, o efeito

residual é benéfico, inclusive contribuindo para melhorar a fertilidade do solo.

Entretanto, também pode ser prejudicial, no caso de adubações excessivas. Isso

pode ser exemplificado com a aplicação de fontes de boro, sendo a cultura sucedida

por outras, sensíveis a níveis elevados de B. Vale ressaltar que a análise do solo de

cada gleba de uma propriedade – efetuada anualmente e complementada por

análise foliar das culturas – pode evitar essas situações.

A adubação é fator que onera o custo de produção de uma cultura, porém não

exageradamente. Todavia, como a maximização do lucro líquido por hectare

geralmente coincide com a maximização da produtividade e da qualidade do produto

obtido, para o olericultor empresário é compensador investir em adubação. Aliás,

tem sido constatado por economistas rurais que, no caso particular da olericultura, o

ótimo em termos agronômicos coincide com o ótimo em termos econômicos,

normalmente. Sem dúvida, essa é uma prática que proporciona respostas

favoráveis, razão pela qual um elevado investimento em adubação costuma ser

vantajoso, em termos agronômicos e econômicos.

Em muitas situações, constata-se que o olericultor aplica excesso de certos

nutrientes, ou utiliza adubação desequilibrada, o que, inclusive, pode ocasionar

problemas ambientais, como a contaminação da água subterrânea por nitratos.

Também se deve considerar que há um limite genético para a planta responder à

aplicação de nutrientes – mesmo nas atuais cultivares híbridas de alta produção. Ao

que parece, tal limite vem sendo ultrapassado em certas culturas, como batata,

34

tomate e morango, com conseqüências agronômicas, econômicas e ambientais

negativas.

  • 4.4. A FILOSOFIA DE “CONSTRUIR O SOLO”

Salvo raras exceções, o olericultor brasileiro preocupa-se em adubar a próxima

cultura a ser implantada – um imediatismo até justificável, dentro do contexto

socioeconômico em que ele vive e labuta. É até compreensível que um arrendatário

não cogite em elevar o nível de fertilidade da gleba por ele trabalhada, mas sim de

satisfazer as exigências da cultura. Entretanto, essa atitude é irracional e

injustificável no caso de um proprietário que pretenda manter uma agricultura

sustentável e produtiva, ao longo do tempo.

A filosofia de se preocupar, apenas, em adubar cada cultura é inadequada.

Entretanto, a preocupação exclusiva em melhorar o solo pode conduzir o olericultor

a desastres financeiros. Por conseguinte, é mister implantar a filosofia de “construir”

o solo, a médio prazo, paralelamente à adubação das culturas – imediatismo

necessário à sobrevivência do produtor, especialmente daqueles que dispõem de

área limitada. A “construção” do solo tem sido defendida por estudiosos da

agricultura, em solos tropicais de baixa fertilidade. Entretanto, é necessário conciliar

aquilo que é agronomicamente desejável com o economicamente viável ou

financeiramente possível.

a) Calagem

A calagem é uma das primeiras práticas ao se cogitar em iniciar um programa

de “construção” ou aprimoramento de um solo agrícola.

A quantidade de calcário a aplicar pode ser calculada pelo método de

saturação por bases – muito utilizado no Estado de São Paulo. Nesse método,

objetiva-se elevar a atual percentagem de saturação por bases fornecida pela

análise (V%) para o nível desejável, de 60 a 80%, dependendo da cultura. Também

se procura elevar os teores de Ca e de Mg trocáveis, aplicando um corretivo rico em

ambos os nutrientes, ou apenas em Ca, conforme a situação.

A aplicação de calcário deve ser efetuada a lanço sobre o solo, com

antecedência mínima de 60 a 90 dias do plantio, devendo a gleba ser molhada

35

nesse período pela chuva ou pela irrigação. Observe-se que a cal agrícola é um

corretivo de mais rápida solubilização, que pode ser aplicado com antecedência

menor, de até 30 dias. A faixa de acidez do solo a ser atingida deve ser de pH 6,0 a

6,5 – a mais favorável para a maioria das culturas, inclusive por possibilitar a

absorção da maioria dos nutrientes.

  • b) Adubação corretiva

A adubação corretiva tem por objetivo elevar a disponibilidade de certos

nutrientes, como o P e o K, num solo de baixa fertilidade natural, ou empobrecido

por anos de manejo inadequado. Visa, também, reduzir as perdas no solo de

nutrientes aplicados em formas prontamente solúveis. Proporciona melhor

disponibilidade de certos nutrientes ao sistema radicular, o que ocorre num maior

volume de solo a ser explorado pelas raízes. Evita-se, assim, que as raízes se

concentrem em pequeno volume de solo – como ocorre quando a adubação é

localizada em covas.

  • c) Adubação verde

A incorporação de restos culturais ao solo é um meio eficiente e econômico

que o agricultor dispõe para elevar o teor de matéria orgânica, além do

enriquecimento em nutrientes. A chamada “adubação verde” é um caso particular da

incorporação de plantas herbáceas ao solo, favorecendo as condições físicas,

químicas e biológicas. Consiste em incorporar a massa vegetal produzida no próprio

terreno, utilizando-se, para isso, plantas da família das fabáceas (antigamente,

leguminosas), especialmente cultivadas para essa finalidade. Destacam-se, dentre

elas, as crotalárias e as mucunas, pela produção de massa verde e riqueza em N.

Quando em floração, com as plantas ainda tenras e facilmente decomponíveis,

promove-se a incorporação pela aração ou gradagem.

Os benefícios dessa prática agrícola ancestral são numerosos e notáveis. O

mais relevante é a fixação do N atmosférico pelas raízes, em simbiose com certas

bactérias fixadoras. Além deste, podem ser citados: a descompactação do solo,

provocada pela passagem de máquinas; a melhoria na utilização dos nutrientes

pelas culturas; o aumento na capacidade de armazenamento de água; a redução na

36

população de nematóides daninhos; a redução na infestação de plantas invasoras; e

certa proteção do solo contra a erosão provocada pelas chuvas.

A única desvantagem é deixar a gleba ocupada, durante alguns meses, com

uma cultura que não produzirá renda imediata. Talvez isso não explique a falta de

tradição no uso dessa utilíssima prática agrícola, mas sim o total desconhecimento

por parte dos olericultores. Certamente, essa prática pode ser economicamente

desvantajosa para um arrendatário, mas não para um proprietário rural.

  • 4.5. ADUBAÇÃO MINERAL NO PLANTIO

O plantio é ocasião propícia para o fornecimento de nutrientes às plantas via

sistema radicular. O N constitui exceção, podendo ou não integrar a adubação de

plantio, já que a maior parcela da dose programada deverá ser aplicada pós-plantio.

A aplicação de K também pode ser parcelada, se bem que, em muitas situações, a

dosagem total possa ser aplicada por ocasião do plantio.

Não é tarefa fácil conciliar os aspectos agronômicos e econômicos e a

praticidade na aplicação da adubação mineral. Assim, usualmente, aplicam-se

formulações NPK, obtidas a partir da mistura de adubos simples, utilizados como

fontes de nutrientes. Os 3 números, visíveis nas embalagens, referem-se às

percentagens de N, P 2 O 5 e K 2 O. Observe-se que esses dois óxidos são uma forma

arcaica (porém universal) de expressar os teores de P e K disponíveis.

Em olericultura, constata-se que os corretivos de acidez não constituem fontes

totalmente confiáveis de Ca e Mg. Há outro engano generalizado: S não é veiculado

pelas chuvas em quantidades adequadas às necessidades de certas culturas, a não

ser em regiões industrializadas, em razão dos compostos sulfurosos emitidos pelas

chaminés – nocivos aos moradores e à natureza. No campo, constata-se que é

notória a deficiência de Ca e Mg, mais raramente em S, dependendo da cultura e do

solo. Conclui-se que a formulação NPK deva fornecer também os macronutrientes

ditos “secundários”. Obviamente, os resultados das análises do solo e foliar devem

ser considerados.

Uma formulação NPK adequada ao plantio de hortaliças deve ser

substancialmente mais rica em fósforo – expresso em percentagem de P 2 O 5 -, em

relação aos demais nutrientes. O P deve apresentar-se em forma utilizável pelas

raízes. Na maioria das situações, o fornecimento de P não deve ser parcelado,

37

como se faz com N e K. Além disso, o fornecimento de P e Ca por ocasião do plantio

favorece a formação de amplo e ativo sistema radicular. Também tem sido

demonstrado que a localização de P-solúvel diretamente abaixo das raízes, ou

muito próximo, é mais eficiente. Desse modo, a formulação deve apresentar baixa

percentagem de N, elevada de P 2 O 5 e média de K 2 O.

  • 4.6. ADUBAÇÕES EM COBERTURA

Por ocasião do plantio deve-se, na maioria das situações, aplicar a dosagem

total necessária de P, porém apenas uma parcela mínima da dosagem total de N, e

a metade, ou menos, da dosagem total de K. Aplicar as doses adequadas de N é

uma arte, que depende da experiência pessoal com a cultura e o solo trabalhado.

Em alguns casos, a dose total de K também deve ser parcelada, para aumentar a

eficiência de sua utilização pela planta.

A condição para que um nutriente possa ser utilizado pelas raízes, quando

aplicado em cobertura, é que possua boa mobilidade vertical no solo. Nesse

aspecto, destaca-se N, seguido por K, enquanto P apresenta pequena mobilidade

vertical. Por conseguinte, a aplicação de P em cobertura é ineficiente e

antieconômica, na maioria das situações. Uma exceção é o caso do tomateiro

tutorado, que responde bem à aplicação de P na primeira cobertura, desde que haja

incorporação pela amontoa. Em outras situações, ao se aplicar P em cobertura,

parte substancial é fixada pelo solo e o restante não se move com velocidade

suficiente para atingir as raízes ativas na absorção. Inversamente, por sua elevada

mobilidade, a maior parcela da dose total planejada de N deve ser aplicada em

cobertura. Assim, o N estará disponível para as raízes, no tempo e no local mais

favoráveis. Pela mesma razão, a adubação de plantio deve ser pobre em N,

evitando-se perdas por lixiviação, para fora do alcance das raízes, e prevenindo

danos às plantas jovens. Atualmente, considera-se que também o K, em algumas

culturas, deve ter aplicação parcelada, mormente em solos arenosos.

Adubações em cobertura são, portanto, indispensáveis, geralmente.

38

  • 4.7. ADUBAÇÃO VIA FOLIAR

Em olericultura, a adubação foliar justifica-se e é recomendada quando vista

como uma complementação às aplicações efetuadas no solo e, ainda, quando se

pretende uma resposta rápida da cultura, em caso de carência de nutrientes,

declarada ou iminente.

  • a) Macronutrientes

Os olericultores vêm utilizando a adubação foliar. Trata-se de complementar a

adubação via solo, fornecendo pequena parcela da quantidade necessária dos

macronutrientes, ou mesmo parcela substancial, no caso dos micronutrientes.

Experimentalmente, tem sido demonstrada a capacidade de as culturas utilizarem

nutrientes aplicados em pulverização. A eficiência varia conforme o nutriente, a

espécie botânica e as condições agroecológicas.

Há situações em que a adubação foliar é o único meio de corrigir sintomas de

deficiência mineral, com a presteza necessária para que a planta retome o

desenvolvimento e produza normalmente. A absorção de nutrientes via foliar é mais

rápida que pela via normal, radicular, porém esta última absorve quantidades mais

elevadas. Em compensação, aplicados sobre as folhas, os nutrientes sofrem perdas

substancialmente menores. Servem de exemplos a lixiviação do N e a fixação do P,

quando aplicados ao solo. Todavia, as aplicações foliares não podem substituir, no

caso dos macronutrientes, mas apenas complementar a adubação foliar.

  • b) Micronutrientes

No

caso

dos

micronutrientes,

a

aplicação

foliar

pode

suprir,

total

ou

substancialmente, as exigências das culturas, e ter custo muito inferior ao da

aplicação via solo. Além disso, evita as perdas elevadas, comuns nas aplicações ao

solo, já que a eficiente utilização pelas raízes depende do grau de acidez e de

outros fatores edáficos.

39

  • 4.8. FERTIRRIGAÇÃO – ADUBAÇÃO NA ÁGUA

Uma alternativa para a adubação em cobertura é a fertirrigação – dissolução

de certos fertilizantes na água de irrigação -, sendo a aplicação efetuada por

aspersão ou gotejamento. Entre os fertilizantes solúveis mais utilizados estão: uréia,

nitrato de amônio, nitrato de cálcio, nitrato de magnésio, fosfato de amônio e sulfato

de potássio. Também estão disponíveis formulações específicas, de alta

solubilidade, contendo a maioria dos macronutrientes. Todos os nutrientes podem

ser aplicados, embora seja mais comum a aplicação de N e de K em substituição às

adubações em cobertura. Com a generalização do uso da irrigação por pivô central

e a introdução da rega por gotejamento, a fertirrigação vem ganhando adeptos.

Em termos experimentais, pouco se sabe sobre essa agrotecnologia nas

condições brasileiras. Há questões que devem ser consideradas e pesquisadas,

como nutrientes a aplicar, suas melhores fontes, dosagens adequadas e intervalos

entre as aplicações. Indubitavelmente a fertirrigação, em comparação com os

demais métodos de aplicação de fertilizantes, permite grande economia em adubos;

alta precisão na dosagem e na aplicação; economia de mão-de-obra; maior

eficiência da adubação; e perdas mínimas por percolação, lixiviação, escorrimento e

fixação.

  • 4.9. HIDROPONIA – CULTIVO NA ÁGUA

A hidroponia – denominado “cultivo sem solo” – vem sendo praticada desde a

dec. de 1930, nos Estados Unidos e em outros países; no Brasil, somente a partir de

fins da dec. de 1980. O solo é substituído por outro meio sólido (cascalho, areia,

vermiculita, plástico, lã de rocha) e é banhado por solução contendo todos os

nutrientes necessários; ou as raízes desenvolvem-se imersas, sem qualquer

substrato sólido. Normalmente, aplica-se essa agrotecnologia juntamente com o

cultivo em estufa.

Essa técnica apresenta várias vantagens em relação ao cultivo no solo: exige

menos trabalho humano; elimina várias operações agrícolas tradicionais; as plantas

não competem por nutrientes ou água; a produtividade pode triplicar, no mínimo; a

utilização da água e dos nutrientes é maximizada; há maior precocidade na colheita;

a incidência de problemas fitossanitários é menor; há menor exigência de aplicação

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de defensivos; geralmente a qualidade dos produtos é melhor; e o produto se

apresenta limpo. Entretanto, também há desvantagens, como custo inicial elevado

da estrutura e dos equipamentos; risco de perda total, por falta de energia elétrica;

exigência de conhecimentos sobre química e nutrição de plantas; e danos severos

às plantas ocasionados pelo balanço iônico e pela condutividade elétrica da solução

inadequados.

A viabilidade econômica da hidroponia depende de vários fatores, sendo

essencial a proximidade de um centro consumidor. Essa técnica permite, inclusive,

que se desenvolva a olericultura em situações em que a utilização do solo é inviável:

em desertos, áridos ou gelados, e em estações orbitais, por exemplo, ou então

quando se dispõe de uma área diminuta, como no caso de um lote urbano. As

culturas produzidas têm sido alface, morango, agrião e tomate, principalmente. Em

termos agronômicos e econômicos, muitas espécies não se adaptam à hidroponia.

Portanto, trata-se de uma opção que não deve ser usada indiscriminadamente. Na

maioria das situações, o solo continua sendo o substrato mais favorável à

olericultura.

  • 4.10. ADUBAÇÃO ORGÂNCIA

É desejável que o olericultor procure aprimorar as condições físicas e

biológicas do solo, pela incorporação de materiais orgânicos, desde que esteja

ciente de que eles são bons condicionadores de solo, porém fontes pouco eficientes

de nutrientes. Aliás, a adubação orgânica vem sendo utilizada há séculos em

olericultura.

Os benefícios da adubação orgânica têm sido reconhecidos, ressaltando-se

que a incorporação de materiais orgânicos, como o esterco animal, torna o solo um

substrato mais propício à agricultura. Ela possui algumas características que

favorecem a agricultura, notadamente: aumenta a capacidade de penetração e

retenção de água; melhora a estrutura, o arejamento e a porosidade; aumenta a vida

microbiana útil, inclusive com eliminação de fitopatógenos; favorece a

disponibilidade e a absorção de nutrientes; e os solos argilosos, pesados e

compactos, tornam-se mais favoráveis, assim como os arenosos, leves e sem boa

estrutura.

41

Vale enfatizar que a adubação orgânica provoca antagonismos entre

microorganismos do solo, podendo resultar no controle biológico de nematóides,

bactérias e fungos, prejudiciais ao sistema radicular das culturas. Em se tratando de

gleba pequena, intensivamente cultivada, é viável procurar manter a sanidade do

solo, por meio de aplicações pesadas de materiais orgânicos. É o que ocorre em

estufas, por exemplo, já que é inconveniente mudar a estrutura do lugar.

42

  • 5. PROPAGAÇÃO E IMPLANTAÇÃO DA CULTURA

As culturas oleráceas são propagadas por sementes botânicas em sua maioria,

ou pelo plantio de partes vegetativas. É nessa etapa delicada da cultura que são

cometidos pequenos e grandes enganos, muitos dos quais não podem ser corrigidos

posteriormente. A bem do sucesso de seu agronegócio, em um mundo mais

competitivo, distinto e distante daquele das décadas passadas, o olericultor

empresário atual dedica mais atenção à etapa crucial da implantação das culturas.

  • 5.1. PROPAGAÇÃO POR SEMENTES

A maioria das hortaliças é propagada utilizando-se semente botânica. Todavia,

tal insumo agrícola, de importância fundamental numa cultura, nem sempre recebe a

atenção devida por parte do olericultor.

  • a) Qualidade da semente

Tradicionalmente, o olericultor brasileiro dá maior importância aos fertilizantes

e defensivos que à qualidade da semente. Agravando essa situação, em muitas

localidades interioranas não há disponibilidade de boas sementes. A relação

custo/benefício deveria ser mais bem avaliada pelo olericultor, que se mostra muito

sensível ao custo elevado de sementes de qualidade. Além disso, a semente

botânica é o item que menos onera o custo de produção de uma cultura.

A semente de alta qualidade deve conter carga genética (genótipo) favorável,

originando plantas responsivas à agrotecnologia e produtos com as características

exigidas pelo consumidor. O índice percentual de germinação deve ser elevado,

acima do padrão nacional mínimo exigido para aquela espécie, constando na

embalagem, juntamente com outras informações de interesse. O nome original da

cultivar deve ser mantido; empresas idôneas imprimem na embalagem esse nome,

bem como o nome comum da espécie (em português, inglês e espanhol).

A semente inferior, além de não ser geneticamente melhorada, pode

disseminar fitopatógenos – responsáveis por focos iniciais de doenças dentro da

cultura. A esse respeito vale ressaltar que as empresas produtoras idôneas, quando

43

necessário, efetuam tratamentos de natureza física (água quente) ou química

(fungicidas e antibióticos) para assegurar a sanidade da semente.

Por ser a umidade capaz de diminuir a longevidade das sementes, estas

devem ter o teor de umidade reduzido, previamente à embalagem em recipientes

herméticos, no caso da maioria das espécies. A embalagem adequada deve

assegurar a manutenção do baixo teor inicial de umidade, não permitindo trocas

com o ambiente externo. As embalagens atuais são de vários tipos (latas, baldes

plásticos, envelopes e saquinhos). Os Envelopes e saquinhos têm paredes

constituídas por camadas de alumínio, polietileno e outros materiais, sendo mais

eficientes na conservação das sementes. Isso ocorre mesmo em umidade e

temperatura elevadas – condições comuns em climas tropicais – e altamente

deletérias às sementes.

Atualmente, observa-se sensível evolução na produção e comercialização de

sementes de hortaliças no Brasil. Nota-se, inclusive, o empenho de algumas

empresas em produzir sementes de cultivares adaptadas às condições brasileiras,

as cultivares nacionais incluídas. Algumas poucas espécies, todavia, não encontram

boas condições agroclimáticas para a produção de sementes, razão pela qual a

semente é importada, como no caso da beterraba.

  • b) Escolha da cultivar

Atualmente, há grande disponibilidade de cultivares melhoradas, como se

verifica nos catálogos das firmas produtoras de sementes de hortaliças. Novas

cultivares vêm sendo freqüentemente introduzidas, a tal ponto que a única maneira

de alguém se manter atualizado é consultar esses catálogos, ou manter contato com

os agrônomos dessas empresas.

Uma evolução que está em pleno andamento é a introdução de sementes de

novos híbridos. Embora as sementes híbridas sejam de custo muito mais elevado,

em relação às não híbridas, há algumas vantagens em sua utilização. Assim,

apresentam o vigor de híbrido (heterose), que se manifesta pela obtenção de

plantas mais vigorosas desde a germinação da semente e, em algumas espécies,

pelo aumento na produtividade. A uniformidade é outra vantagem, constatada

durante o desenvolvimento da planta até à colheita, inclusive com relação ao

produto colhido. A precocidade é observada em todas as etapas do desenvolvimento

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da planta, com encurtamento do ciclo cultural. Finalmente, os fitomelhoristas

incorporam, com maior facilidade no caso dos híbridos, genes de resistência a

doenças.

A última inovação na escolha de cultivares é o uso de plantas transgênicas –

aquelas com genótipo modificado, contendo genes de outra espécie

“transplantados”. A polêmica sobre a utilização de tais plantas, bem como o efeito

sobre o homem e a natureza, levou à criação da Comissão Técnica Nacional de

Biossegurança, em 1996, responsável pelas normas relativas ao uso dessas

plantas. Há notícias sobre cultivares transgênicas de hortaliças, obtidas no exterior,

não introduzidas no Brasil. Observe-se, inclusive, que a melancia “sem sementes” e

o tomate “longa vida” foram obtidos por técnicas de melhoramento genético

clássicas. Até o momento, pelo que se sabe, cultivares transgênicas de hortaliças

não estão sendo plantadas nem comercializadas no Brasil.

  • c) Aquisição de sementes

Atualmente, não mais se justifica o olericultor adquirir sementes retiradas de

embalagens abertas, nem mesmo para pequenos plantios. É que houve uma

sensível evolução, e hoje há embalagens de várias capacidades nos mostruários

das firmas fornecedoras de insumos agrícolas. Igualmente, a não ser que o

olericultor pretenda atuar como fitomelhorista – o que pode ser interessante -, não

mais se justifica produzir sementes na propriedade rural. Há de se considerar esse

um ramo complexo, cada vez mais especializado. Exemplificando, técnicas de

biotecnologia e os procedimentos para a obtenção de híbridos estão fora do alcance

do produtor.

Não é demais, portanto, enfatizar que o olericultor deve adquirir sementes de

alta qualidade em embalagem com capacidade capaz de atender ao tamanho da

cultura programada. É bom ressaltar que se vive, hoje, em um mundo competitivo,

no qual são exigidas mais competência na produção e melhor qualidade no produto.

Logicamente, a aquisição de sementes de qualidade é um dos primeiros passos

para se iniciar uma bem sucedida cultura de hortaliças.

45

  • d) Produção de mudas em sementeiras

45 d) Produção de mudas em sementeiras Produção de mudas em sementeiras (Fotos: Arquivos UFLA). Numerosas

Produção de mudas em sementeiras (Fotos: Arquivos UFLA).

Numerosas culturas oleráceas são tradicionalmente propagadas pela

semeadura em canteiros especialmente preparados – as sementeiras. Essas são

espécies que resistem bem ou são até beneficiadas pelo transplante para o local

definitivo, efetuado posteriormente.

Uma sementeira pode ser um canteiro rústico, temporário, ou mais sofisticado,

com proteção de alvenaria. O importante é que deve satisfazer às exigências iniciais

peculiares a cada espécie, em relação aos fatores que afetam a germinação da

semente e o desenvolvimento da plântula, como temperatura do leito, teor de

umidade, arejamento do meio e fornecimento de luminosidade (em poucos casos).

Dessa forma, é importante planejar bem a localização, devendo o local escolhido

receber luz solar ao longo do dia e ter disponibilidade de água. A proximidade do

terreno de implantação definitiva da cultura também é desejável, pois facilita o

manuseio e o transporte das mudas, diminuindo os riscos por ocasião da mudança

de local.

O leito de uma sementeira merece atenção especial. Deve ser constituído de

solo de textura média, mais arenoso que argiloso e que não seja pesado;

adequadamente fértil, mas não exageradamente provido de N; rico em matéria

orgânica decomposta; e com ótimas propriedades físicas (porosidade, arejamento,

retenção de umidade e drenagem). O preparo do solo deve ser cuidadoso, pois é

necessário evitar que torrões, restos culturais e outros obstáculos impeçam o

contato íntimo entre a semente e as partículas do solo. A constituição ideal do solo

de um leito é aquela na qual um pouco dele, quando umedecido e apertado na

palma da mão, forma um torrão, que se esboroa quando esfregado entre os dedos.

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Quando o solo do local escolhido já apresenta a maioria das características

desejáveis, a obtenção de um bom leito é favorecida. Na prática, todavia,

geralmente é necessária a adição de outros materiais. O terriço de mata, aquela

camada escura que cobre o solo por entre as árvores, é ótimo material. Também o

esterco de curral, curtido e peneirado, é útil condicionador de solo. Se o solo do local

é excessivamente argiloso, pode-se lhe adicionar areia.

As dimensões de uma sementeira devem facilitar a semeadura e a execução

dos tratos culturais. Uma largura útil de 1 m evita o pisoteio, quando há

movimentação de pessoas, e facilita os cálculos referentes às quantidades de

sementes e de adubos. Já o comprimento pode ser muito variável, porém não deve

ultrapassar 5 m, evitando-se perdas de tempo na movimentação dos operários. As

sementeiras devem ser separadas por caminhos com 30 cm de largura, para

movimentação de pessoas, e por outros, mais largos, para passagem de máquinas.

A espessura total do leito deve ser de 15-20 cm, sendo 10 cm localizados

acima do nível normal do terreno, no máximo. Em solos com boa drenagem,

somente há desvantagem na construção de sementeiras muito elevadas, pois o leito

torna-se mais rapidamente ressecado. Depois que o solo é revolvido, incorporam-se

condicionadores de solo (esterco, areia ou vermiculita) e procura-se obter a altura

desejada, acertando a superfície com um ancinho.

Quanto à nutrição mineral, a prática tem consagrado a aplicação de 100-150 g

de superfosfato simples, juntamente com 30-40 g de cloreto de potássio, por metro

quadrado, em solos pobres. O N contido na adubação orgânica costuma ser

suficiente na fase inicial do desenvolvimento da plântula, porém um excesso origina

hastes finas e folhas muito tenras. Esterco de curral, bem curtido e peneirado, pode

ser aplicado a lanço e incorporado 10-15 dias antes da semeadura, juntamente com

os adubos minerais. No acabamento final, a superfície do leito deve ser bem

nivelada.

A semeadura bem rala é feita em sulcos transversais distanciados 10-15 cm e

na profundidade de 1 cm no caso de sementes diminutas. Quando as sementes são

maiores, a profundidade deve ser aumentada, havendo uma regra que estabelece

ser ela o dobro do maior diâmetro. Na maioria das espécies, a densidade de

semeadura deve ser de 3-4 gramas por metro quadrado de leito.

Após a semeadura, os sulcos devem ser cobertos com material do próprio leito,

vermiculita, areia fina ou casca de arroz, não devendo tais coberturas ser removidas.

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Materiais como palha, capim seco ou estopa, podem ser aplicados, porém deverão

ser retirados logo no início da emergência, prevenindo-se o estiolamento das

plântulas.

  • e) Produção de mudas em copinhos

A produção de mudas em copinhos confeccionados com papel de jornal – uma

invenção brasileira da dec. de 1970 – é mais vantajosa para certas espécies em

relação ao uso de sementeiras. É o caso das solanáceas-fruto (tomate, pimentão,

pimenta, berinjela e jiló) e das cucurbitáceas (pepino, abóbora, moranga, melão e

melancia), que podem ser beneficiadas.

Uma das vantagens no uso de copinhos é a diminuição do manuseio das

mudas, prevenindo-se a disseminação de fitopatógenos por mãos contaminadas.

Danos ao sistema radicular são evitados, o que dificulta a penetração de

fitopatógenos de solo. Há redução do tempo necessário à formação da muda, que

permanece no copinho por 25-30 dias, no máximo, após a semeadura. O ciclo da

cultura também é diminuído, devido à ausência de danos às raízes, aumentando-se

a precocidade da colheita. Quando são utilizados híbridos, cujas sementes são de

custo mais elevado, há melhor aproveitamento. Finalmente, o “pegamento” da

muda, após o plantio no local definitivo, é favorecido.

Um dos inconvenientes da formação de mudas em copinhos é a utilização

intensiva de mão-de-obra. Outra desvantagem é que os copinhos perdem água

muito rapidamente, exigindo irrigações abundantes e freqüentes durante o dia.

Para o substrato, um bom material é o terriço de mata ou qualquer outro solo

contendo teor elevado de matéria orgânica já decomposta. No caso de se utilizar

solo pobre, este poderá ser misturado com esterco de curral bem curtido e

peneirado, na proporção volumétrica de 2:1. O superfosfato simples pode ser

aplicado na dose de 20-40 g por litro da mistura, conforme a espécie.

Os copinhos podem ser arranjados, encostados um ao outro, formando-se

lotes com 1 m de largura e até 5 m de comprimento. Distribuem-se duas a três

sementes no centro de cada copinho, as quais devem ser cobertas com o substrato,

de modo a ficarem localizadas na profundidade de cerca de 10-20 mm, dependendo

do tamanho das sementes. Podem-se cobrir os copinhos com casca de arroz, que

não exige a retirada, pois não prejudica a emergência. Irriga-se com regadores de

48

crivo fino ou pequenos aspersores, uma ou mais vezes ao dia. Desbastam-se as

plantinhas em excesso, ao apresentarem as duas folhas cotiledonares e surgir a 1 a

folha definitiva, deixando-se uma a duas mudas por copinho.

  • f) Produção de mudas em bandeja

48 crivo fino ou pequenos aspersores, uma ou mais vezes ao dia. Desbastam-se as plantinhas em
48 crivo fino ou pequenos aspersores, uma ou mais vezes ao dia. Desbastam-se as plantinhas em

(Fotos: Arquivos UFLA)

- O sistema “speedling”

48 crivo fino ou pequenos aspersores, uma ou mais vezes ao dia. Desbastam-se as plantinhas em
48 crivo fino ou pequenos aspersores, uma ou mais vezes ao dia. Desbastam-se as plantinhas em

Em 1985, o sistema “speedling” de produção de mudas – muito utilizado em

outros países – foi introduzido entre tomaticultores paulistas. Consiste na

semeadura em bandejas de isopor.

As células apresentam o formato de tronco de pirâmide invertido, com abertura

na parte inferior. Propiciam o direcionamento das raízes e impedem o seu

enovelamento – defeito comum em outros sistemas de semeadura. Sem o

enovelamento das raízes, as mudas transplantadas para o campo retomarão o

desenvolvimento com maior rapidez, o que reduz o ciclo cultural. Suspensas, as

bandejas facilitam a “poda pelo ar”, que ocorre quando a raiz principal atinge o fundo

das células e cessa o crescimento, havendo estímulo para a emissão de raízes

49

secundárias. Proporciona-se, assim, maior equilíbrio entre a parte aérea e o sistema

radicular.

  • - Substrato

São utilizados substratos especiais nas bandejas, isentos de fitopatógenos e

de sementes de plantas daninhas, com ótimas propriedades físicas e teores

adequados de nutrientes. Esses substratos facilitam, inclusive, a retirada das mudas

em ponto de transplante com torrão. São constituídos por vermiculita expandida,

materiais orgânicos (turfa, casca de pinus, carvão de casca de arroz ou composto

orgânico), fertilizantes e aditivos.

A inclusão de vermiculita expandida é altamente vantajosa, pois esse material

micáceo absorve até 5x o próprio volume em água. Além de conter teores favoráveis

de K e Mg disponíveis, apresenta boa retenção de nutrientes, graças à elevada

capacidade de troca catiônica, aliás, uma propriedade dos bons solos agrícolas. A

vermiculita deve ser utilizada na base de 30-40% em relação ao volume da mistura

dos demais materiais.

Um bom substrato não deve conter solo, devido à presença de fitopatógenos e

sementes de plantas daninhas e por dificultar a retirada da muda com torrão. Essa é

uma das situações, em olericultura, nas quais o solo não é o melhor suporte para as

raízes.

Há substratos prontos para uso, formulados por firmas idôneas, disponíveis no

comércio. A esses substratos não devem ser adicionados fertilizantes ou quaisquer

outros materiais. Também é possível formular bons substratos na propriedade rural.

  • - Enchimento e semeadura nas bandejas

O substrato seco deve ser vertido sobre as bandejas, bem umedecidas,

usando-se uma régua para espalha-lo sobre um grupo de bandejas. As bandejas

devem estar apoiadas sobre uma bancada, não devendo ser erguidas até que o

substrato dentro das células esteja umedecido, para não haver perda pelo fundo das

células. Outra alternativa de enchimento, sem que o substrato se perca, é umedecer

levemente o substrato. Após o enchimento, o excesso é retirado com o auxílio de

50

uma régua. Deve-se evitar a compactação do substrato, pois pode afetar a

vermiculita.

Colocam-se duas ou três sementes pequenas no centro das células, na

profundidade de 3-5 mm. Há quem prefira cobrir as sementes com vermiculita

finamente moída ou com areia. Quando se usa semente peletizada, ou semente

híbrida, de custo elevado, pode-se semear apenas uma.

As bandejas, após a semeadura, podem ser cobertas com estopa ou material

palhoso, que serão retirados por ocasião da emergência. Embora as bandejas

possam ser expostas ao tempo, os olericultores mais tecnificados preferem protege-

las dentro de túnel ou casa de vegetação. Evita-se, desse modo, o indesejável

impacto da chuva, com lixiviação de nutrientes e deslocamento das sementes.

  • - Tratos culturais nas bandejas

O conteúdo das células, estando as bandejas suspensas, perde água com

rapidez, o que é minimizado pela inclusão de vermiculita no substrato. Mesmo

assim, irrigações freqüentes são necessárias, com pouca intensidade, duas a três

vezes ao dia. Deve-se evitar o escoamento de água pelo orifício do fundo das

células, pois isso provoca a perda de nutrientes por lixiviação. Portanto, aplica-se

menor volume de água de cada vez, com irrigações freqüentes, utilizando-se um

regador de crivo fino ou microaspersores. Quando as mudas estiverem mais

desenvolvidas, a freqüência da irrigação deve ser diminuída, para que ocorra o

“endurecimento” da muda.

O desbaste é a eliminação das plantinhas excedentes, em cada célula, quando

se utilizou mais de uma semente. Deve ser efetuado entre 5 e 10 dias da

semeadura, dependendo da espécie. Previamente, faz-se uma irrigação farta,

trabalhando com o substrato umedecido, o que facilita o arrancamento. Há quem

prefira cortar as plantinhas para não abalar as raízes da muda selecionada.

Quando em ponto de transplante, as mudas deverão exibir um sistema

radicular abundante, muitas vezes cobrindo o torrão formado. Uma irrigação prévia

favorece o arrancamento das mudas.

51

- Vantagens da utilização de bandejas

A produção de mudas em bandejas vem sendo preferida por olericultores de

elevado nível tecnológico, certamente por ser superior aos demais sistemas.

Observa-se que, por suas insofismáveis vantagens de ordem agronômica e

econômica, esse sistema de produção de mudas tende a substituir os demais.

O sistema “speedling” eleva o rendimento operacional, na execução de todas

as tarefas; reduz a quantidade necessária de semente, graças à melhor germinação

obtida; melhora a qualidade da muda, pelo equilíbrio entre a parte aérea e o sistema

radicular; aumenta a eficiência na produção de mudas, pela racionalização do uso

do espaço e do tempo; facilita o manuseio das mudas no campo; permite que as

mudas sejam transplantadas com um porte menor; aumenta a rapidez no

desenvolvimento da planta; e propicia maior precocidade na colheita.

  • g) Transplante das mudas

Define-se transplante como a operação de retirar a muda e planta-la no local

definitivo, geralmente em sulco, ou em cova. No caso da maioria das espécies

oleráceas, normalmente transplantadas, o ponto ideal de desenvolvimento é quando

a muda apresenta 4-6 folhas definitivas e 10-15 cm de altura. No sistema

“speedling”, entretanto, as mudas são transplantadas com porte menor, mais novas,

devido à aceleração no desenvolvimento. A idade, em dias, a partir da semeadura, é

muito variável, dependendo da espécie e das condições agroecológicas.

As mudas podem ser transplantadas com raiz nua, quando produzidas em

sementeiras. Aquelas desenvolvidas em copinhos de papel de jornal, ou em

bandejas, apresentam o sistema radicular protegido por torrão. Há substanciais

vantagens em relação às mudas com raiz nua: o índice de “pegamento” no campo

aumenta; a muda recupera-se mais rapidamente, após o transplante; e a planta

retoma o seu desenvolvimento com maior presteza.

Quando as mudas são produzidas em copinhos de papel de jornal, este não é

retirado por ocasião do transplante, o que mantém as raízes quase ntactas dentro

do torrão. Observe-se que apenas o papel de jornal deve ser utilizado, pois permite

a penetração das raízes. No caso de serem utilizadas bandejas com substrato

adequado, as mudas também apresentam o torrão.

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O “endurecimento” das mudas, previamente ao transplante, objetiva adapta-las

melhor às condições do local definitivo, menos favoráveis. Para isso, suspende-se a

irrigação às vésperas do transplante, elevando o teor de matéria seca na planta. A

retomada do desenvolvimento da planta, após o choque provocado pelo transplante,

é favorecida quando há teor elevado de matéria seca. A diminuição na turgescência

também facilita o manuseio e reduz os danos mecânicos, favorecendo o transplante.

O endurecimento também é propiciado pelo fornecimento adequado de P e K, sendo

prejudicado por excesso de N.

A profundidade adequada, ao se transplantar a muda para o local definitivo,

depende da espécie. Dessa forma, as espécies de caule pouco distinto devem ser

plantadas, geralmente, a uma profundidade um pouco maior em relação àquela em

que se encontravam, devendo ser enterradas até à altura de inserção das folhas,

como no caso de tomate e outras solanáceas-fruto. Contrariamente, as mudas de

caule pouco evidente devem ser plantadas na mesma profundidade, como no caso

da alface e outras asteráceas herbáceas. Esses cuidados favorecem a retomada do

desenvolvimento, após o inevitável estresse ocasionado nas plantas pelo

transplante.

Quando a qualidade das mudas produzidas é questionável, é prudente destruí-

las e efetuar nova semeadura.

Uma rigorosa seleção deve ser efetuada, por ocasião do transplante. Desse

modo, são eliminadas todas as mudas anormais, aproveitando-se apenas aquelas

com as características típicas da cultivar e em ótimas condições fisiológicas e

fitossanitárias. Vale enfatizar que as mudas podem constituir excelente veículo de

disseminação de fitopatógenos e que a boa seleção é uma medida preventiva.

Também não devem ser transplantadas mudas “passadas”, pois originarão plantas

adultas tardias e menos produtivas.

Para viabilizar uma seleção rigorosa, é necessário que se obtenha um número

de mudas úteis que seja o dobro, ou pouco menos, do requerido para plantio.

Embora se eleve, dessa forma, o custo do material de propagação, essa

desvantagem é amplamente compensada pela sanidade e produtividade que serão

obtidas na cultura. A disponibilidade de mudas de reserva também possibilita o

replantio de falhas na cultura, obtendo-se o número planejado de plantas adultas,

por hectare plantado.

53

O plantio de mudas com raízes envoltas por torrão – muito superiores às

mudas com raízes nuas – é feito nos sulcos ou nas covas, no espaçamento

adequado. A adubação organomineral aplicada, desde que bem incorporada ao

solo, não afeta esse tipo de muda, e a planta retoma o desenvolvimento com

rapidez. Contrariamente, as mudas de raízes nuas exigem cuidados maiores,

evitando-se o contato direto das raízes com os adubos. O esterco puro, obtido em

gaiolas de galinhas poedeiras, por exemplo, é ótimo adubo, mas pode danificar

mudas de raízes nuas.

O sucesso na operação de transplante traduz-se pelo “pegamento” elevado

das mudas – influenciado pelas condições agroecológicas e agrotecnológicas.

Assim, a presteza com que são efetuadas as primeiras irrigações é garantia de

sucesso, na ausência de chuvas. A aspersão é mais eficiente, por molhar a parte

aérea da planta e reduzir a perda de água por evapotranspiração. Uma prática

favorável é a irrigação do terreno pré-plantio, transplantando-se com solo úmido.

Optando pela irrigação no sulco, deve-se aplicar a água inicialmente em um sulco de

rega temporário, localizado bem próximo às mudas transplantadas; ou irriga-se no

próprio sulco de plantio. O gotejamento também pode ser utilizado, desde que as

mudas fiquem localizadas na região úmida produzida.

A hora mais favorável para se efetuar o transplante é logo antes do crepúsculo,

quando a temperatura se torna amena e não há incidência de luz solar intensa e

direta. Dias chuvosos ou com céu encoberto também favorecem o “pegamento” das

mudas. Condições ambientais desfavoráveis afetam muito mais as mudas de raízes

nuas que aquelas com raízes protegidas por torrão.

  • h) Semeadura diretamente no local definitivo

A maioria das espécies propagadas por semente botânica pode ser semeada

diretamente no local definitivo, evitando-se a trabalhosa operação de transplante.

Por exemplo, em alguns países, repolho, pimentão, alface e cebola são semeados

diretamente no campo, enquanto no Brasil eles são transplantados.

Outros exemplos:

- Melancia e outras cucurbitáceas (apresentam pouca tolerância ao

transplante);

  • - Feijão-vagem e demais fabáceas, milho e quiabo – todas intolerantes;

54

- Tomate rasteiro para agroindústria (também pode ser transplantado);

- A maioria das hortaliças tuberosas, como cenoura, rabanete, rábano, nabo e

beterraba (também pode ser transplantada).

Cada cultura apresenta peculiaridades, inclusive que afetam a propagação. É o

caso das cucurbitáceas e fabáceas (leguminosas), que, com suas sementes

graúdas, são facilmente semeadas diretamente em covas ou em sulcos; já a

cenoura e o rabanete, com suas sementes pequenas, são semeadas em sulcos

superficiais, sobre canteiros definitivos.

Sementes diminutas e de formato irregular, como as de alface, cebola e

cenoura, podem ser “peletizadas”, ou seja: recebem um revestimento que

transforma cada semente numa pequena esfera, favorecendo a semeadura

mecânica. Entretanto, a utilização de sementes peletizadas, em semeadura

mecânica direta, ainda é incipiente no Brasil. Possivelmente uma das razões é o

custo mais elevado, em relação à semente comum, embora essa técnica permita

eliminar o desbaste das plantinhas em excesso – ainda efetuado manualmente.

Inegavelmente, há algumas vantagens na semeadura direta: substancial

economia de mão-de-obra; precocidade no desenvolvimento da planta; redução no

ciclo até à colheita; e menor disseminação de fitopatógenos, na parte aérea e nas

raízes. Entretanto, também há pontos negativos: maior quantidade de sementes

requeridas por unidade de área e maior dificuldade na aplicação dos tratos culturais

iniciais, inclusive capina e irrigação.

  • 5.2. PROPAGAÇÃO VEGETATIVA

A propagação vegetativa ou assexual baseia-se na capacidade – inerentes a

certas estruturas de algumas espécies – de formar um novo indivíduo vegetal,

completo e idêntico à planta matriz. Para isso, essas estruturas são destacadas da

planta-mãe e plantadas. Algumas espécies são propagadas por esse meio, sendo as

principais, em ordem alfabética: agrião, alcachofra, alho, aspargo, batata, batata-

doce, cará, cebolinha, couve-manteiga (clones), inhame, mandioquinha-salsa,

morango e taioba. As estruturas utilizadas são de tipos variados: rebentos, ramas,

bulbilhos, tubérculos, perfilhos, estolhos, dentre outras. São plantadas no local

definitivo ou previamente enraizadas em viveiros. Há razões ponderáveis para que a

55

propagação vegetativa seja utilizada, com exclusividade, em certas espécies, sendo

a inabilidade para produzir sementes botânicas a principal. Outra razão é que

reproduz, com perfeita exatidão, as características da planta-mãe, inclusive aquelas

apreciadas pelo consumidor.

Em propagação vegetativa, assume relevância o conceito de clone: conjunto

de indivíduos originários de uma planta matriz, conseqüentemente possuindo

constituição genética (genótipo) idêntica, em relação a ela e entre si. As plantas

obtidas apresentam o mesmo aspecto (fenótipo), constituindo uma cultura muito

uniforme, por exemplo, clones de alho, que vêm sendo propagados há milênios e

mantêm sua identidade. Entretanto, mutações somáticas podem ocorrer, e o

mutante pode vir a constituir uma nova cultivar clone, caso apresente boas

características, o que, porém, é a exceção, não a regra.

Há um grupo de espécies que pode ser propagado por via vegetativa ou por

sementes, dependendo da conveniência. É o caso da alcachofra, aspargo, cebolinha

e couve. No entanto, vale enfatizar que somente por meio da propagação vegetativa

é que se obtém a reprodução integral das características da planta matriz. Além

disso, o ciclo é reduzido e há antecipação na colheita.

As plantas matrizes devem ser selecionadas pela produtividade, pelo vigor

vegetativo, pelo estado fitossanitário e pelas características do produto.

A propagação vegetativa apresenta algumas desvantagens, quando

confrontada com a via sexual. A principal é a degeneração dos clones ocasionada

pelo progressivo acúmulo de fitopatógenos ao longo das gerações, com a

conseqüente perda de vigor e de produtividade. É que as estruturas propagativas

constituem eficiente meio de perpetuação, não apenas das boas características da

planta matriz, mas também de viroses, por exemplo. Inclusive, a cultura de tecidos

tem sido utilizada para “limpar” certos clones especialmente valiosos, obtendo-se

plantas isentas de fitopatógenos. Essa técnica tem sido praticada, com sucesso, em

batata, morango, alho, batata-doce e mandioquinha-salsa, possibilitando o

“rejuvenescimento” de cultivares tradicionais.

Há uma desvantagem incontornável na propagação vegetativa: o volumoso

material propagativo onera demasiadamente o custo de implantação da cultura. Por

exemplo: no caso da batata, o item batata-semente é responsável por 40% do custo

global da cultura, em certos casos; em cenoura, a semente responde por 4%; e no

tomate tutorado o gasto não passa de 1%, geralmente.

56

  • 5.3. A CONTRIBUIÇÃO DA BIOTECNOLOGIA

A biotecnologia consiste na utilização de células ou tecidos provenientes de

seres vivos, no caso de vegetais, para fins tecnológicos. No caso da agricultura,

procura-se reproduzir uma planta completa, a partir de uma pequena parte, em

laboratório. É possível, inclusive, reconstituir uma planta partindo-se de uma única

célula, já que esta contém todas as informações genéticas necessárias.

Um exemplo da aplicação prática da biotecnologia é o “rejuvenescimento” de

uma antiga cultivar, propagada a partir de tecidos meristemáticos, isentos de vírus e

outros fitopatógenos. Assim, obtém-se uma “nova” planta (mesmo genótipo)

apresentando absoluta fitossanidade, que passa a ser propagada vegetativamente.

Exemplificando: as cultivares nacionais de batata Aracy e Baronesa foram “limpas”

por esse meio, obtendo-se batata-semente pré-básica e básica de alta qualidade.

Essa técnica também vem sendo utilizada na tradicional cultivar paulista IAC

Campinas, originando mudas isentas de viroses.

A cultura do alho poderá vir a ser beneficiada pela variabilidade genética obtida

na cultura de células ou tecidos dos atuais clones, já que mutações somáticas

ocorrem. Então, novos clones poderiam ser selecionados como novas cultivares.

Indo mais além, a fusão de protoplastos – células vegetais desprovidas de parede

celular – permite a hibridação somática entre plantas que não se cruzam pela via

sexual normal. Desse modo, seria possível criar “híbridos somáticos” pelo

cruzamento dos atuais clones, reunindo-se as características desejáveis na mesma

planta, que constituiria uma cultivar melhorada. Entretanto, por enquanto, tais

possibilidades ainda não se tornaram realidades.

A biotecnologia vem, portanto, contribuindo nas áreas de fitomelhoramento e

propagação de plantas. Contudo, é imprescindível que se estabeleça uma “ponte”

eficiente, ligando o laboratório do cientista e a propriedade rural, para que os últimos

avanços da ciência se convertam, com presteza, em agrotecnologia viável.

57

6.

IRRIGAÇÃO

A água constitui mais de 90% do peso de matéria fresca da parte utilizável da

maioria das hortaliças, razão pela qual estas se destacam, dentre as culturas de

relevância, pela elevada exigência de água. Assim, a irrigação é um dos mais

característicos e relevantes tratos culturais, sendo, também, aquele de mais difícil

execução.

  • 6.1. NOÇÕES BÁSICAS SOBRE IRRIGAÇÃO

O teor de água útil no solo, ou seja, o que é aproveitável pelo sistema radicular

das culturas, varia de 0 a 100%. Dentro dessa faixa, quanto mais elevado, mais

facilmente a água será utilizada pelas plantas. Note-se que um teor próximo a 0%

não significa que o solo se ache completamente seco, mas que a pouca água

existente está tão fortemente retida pelas partículas do solo que não é utilizável.

Quando esse teor é atingido, provoca murchamento irreversível nas plantas – o

ponto de murcha permanente. No outro extremo está o teor de 100%, que é o teor

máximo de água que um solo pode comportar – a capacidade de campo – antes que

ocorra a perda de água livre ou gravitacional.

Quando se irriga uma cultura, o teor de água útil deve atingir 100% na região

do solo onde ocorre maior concentração de raízes ativas. Esse nível não deve ser

ultrapassado, sob pena de ocorrer perda de água livre. Após a irrigação, e ao longo

do tempo, o teor de água cairá, devido à utilização pela planta e às perdas.

O teor de água útil no solo, junto às raízes, varia com a espécie e com o

estádio de desenvolvimento da planta; porém, como regra geral, deve ser mantido

entre 70 e 100%. Objetiva-se, assim, maximizar a produtividade e a qualidade do

produto a ser obtido. As hortaliças herbáceas são as mais exigentes de água,

devendo o teor ser mantido próximo a 100% ao longo do ciclo cultura, inclusive

durante a colheita. Sabe-se que mesmo uma ligeira deficiência favorece a formação

de tecidos grosseiros; o desejável são tecidos macios e túrgidos.

As hortaliças-fruto constituem o grupo seguinte, em ordem decrescente de

exigência hídrica. Há dois estádios críticos em que um período de deficiência pode

comprometer a produção: o vegetativo inicial e o de floração e frutificação. São

aqueles de maior sensibilidade, nos quais mesmo uma leve deficiência hídrica afeta

58

a produção. No caso de espécies de produção contínua de frutos, por longo período,

como as solanáceas-fruto, um teor de água próximo a 100% deve ser mantido

também durante a colheita. Outras, como a maioria das cucurbitáceas, exigem

teores mais baixos na fase de amadurecimento dos frutos, o que influencia a

qualidade.

Seguramente, são as hortaliças tuberosas as culturas menos exigentes de

água, inclusive podendo dispensar a irrigação quando chuvas abundantes ocorrem

semanalmente. Mesmo assim, durante o desenvolvimento vegetativo, o teor de água

útil no solo deve ser mantido elevado (70-90%). Durante a formação das partes

tuberosas comestíveis também se deve manter um teor elevado, visto que um farto

suprimento hídrico, nessa fase, eleva a produtividade. Todavia, excesso de água,

ocasionado por drenagem deficiente, ou por aplicação excessiva, prejudica a

qualidade do produto. No estádio final da cultura, quando do “acabamento”, é

necessário manter um teor ainda mais baixo, devendo a colheita ser efetuada com

solo ainda mais seco.

Na maioria das culturas deve-se aplicar, de cada vez, volume de água

suficiente para elevar o teor de água útil até 100%, preferencialmente apenas na

região do solo onde há maior concentração de raízes ativas na absorção (a grande

vantagem do gotejamento). Assim, pequenos volumes de água, aplicados com

freqüência, podem ser vantajosos em certas situações. Entretanto, umedecem o

perfil do solo somente até uma pequena profundidade, restringindo o

desenvolvimento radicular a essa camada superficial. Desse modo, em espécies de

enraizamento mais profundo, a planta pode se tornar incapaz de explorar as

camadas mais profundas do solo, em razão da superficialidade forçada das raízes,

bem como perder a habilidade em resistir a um período acidental de seca.

Dependendo da espécie, então, irrigações mais espaçadas e com maior volume de

água podem ser mais favoráveis. Certamente, a melhor opção depende da espécie

cultivada, levando-se em consideração se o sistema radicular se desenvolve

lateralmente ou em profundidade. Na formação de mudas, por exemplo, é desejável

que as irrigações sejam mais freqüentes e que seja menor o volume de água

aplicado por vez, já que o sistema radicular ainda está em formação e a planta é

mais sensível à perda de água.

Deve-se irrigar a cultura tão-somente para suprir suas necessidades na justa

medida, procurando maximizar os efeitos favoráveis e minimizar os custos. A

59

racionalização da irrigação, aliás, é premente na época atual, evitando-se o

desperdício de água, bem como a má utilização da energia.

  • 6.2. IRRIGAÇÃO POR SULCO

A irrigação por sulco – antigamente denominada irrigação por

infiltração – ainda é utilizada por pequenos olericultores. Realmente é vantajosa

para produtores que dispõem de pequeno capital e de propriedade com elevada

disponibilidade de água, especialmente quando esta se localiza na parte alta do

terreno, podendo ser conduzida por gravidade. Em outros casos, a construção de

pequenas barragens de terra possibilita a elevação necessária. Também podem ser

utilizadas motobombas, para elevar a água, quando não há outro meio.

Um dos relevantes pontos negativos da irrigação por sulco é a elevada

utilização de mão-de-obra especializada na sistematização do terreno e na abertura

dos sulcos e canais, bem como na aplicação e no controle da água. Mais grave

ainda, esse é o método que utiliza e desperdiça maior volume de água por hectare

irrigado. Além disso, a erosão acelerada pode se tornar altamente destruidora,

mormente em glebas com topografia acidentada.

Entretanto, em culturas freqüentemente pulverizadas com defensivos – como

tomate e outras solanáceas-fruto – a irrigação por sulco é positiva, pois não provoca

a lavagem dos pesticidas aplicados à parte aérea, diminuindo, então, a necessidade

de pulverizações e facilitando o controle fitossanitário.

Pequenos olericultores, dispondo de abundância de água, na parte alta do

terreno que pretendam irrigar, podem optar pela rega no sulco, já que não há

dependência de motobombas nem gasto com combustível ou eletricidade.

Na aplicação da irrigação por sulco, deve-se observar o denominado “perfil

úmido”, formado pela infiltração da água nos sentidos vertical e lateral, sendo muito

dependente da textura do solo. Observe-se que a tendência para infiltração vertical

é muito mais acentuada em solos arenosos, lembrando o formato de uma cenoura.

Em solo argiloso, há maior movimentação lateral da água, aproximando-se o perfil

obtido da silhueta de um nabo achatado.

A seção dos sulcos também influencia o tipo de “perfil úmido” obtido, razão

pela qual devem ser construídos com boa largura e pouca profundidade. Assim,

permitem maior movimentação lateral da água, com melhor aproveitamento pelas

60

raízes das plantas dispostas lateralmente, próximas ao sulco. Também pode-se

evitar que as fileiras do centro de um canteiro não recebam água adequadamente,

pelo fato de as raízes não alcançarem a zona úmida. Todavia, mesmo nas melhores

condições, o movimento lateral da água é pequeno, a partir de duas margens de um

sulco cheio. Esse movimento realiza-se por capilaridade, da parte saturada (100%

de água útil) até a parte mais seca do solo. Por apresentarem movimento lateral

mais acentuado, os solos argilosos ou ricos em matéria orgânica são mais

favoráveis à rega por sulco, em relação aos arenosos. Mesmo assim, as fileiras de

plantas devem ser localizadas o mais próximo possível das margens dos sulcos.

A freqüência da irrigação por sulco – o turno de rega – depende da espécie

cultivada, do tipo de solo e das condições climáticas. Solos com maior capacidade

de retenção de água (argilosos ou ricos em matéria orgânica) possibilitam turnos de

rega maiores. Hortaliças herbáceas exigem irrigações mais freqüentes que as

tuberosas, por exemplo. Na prática, irriga-se uma ou duas vezes por semeana. O

olericultor também deve procurar a combinação mais vantajosa entre o intervalo de

rega e a quantidade de água aplicada. Em algumas situações, irrigar mais

pesadamente e com maior turno de rega pode ser mais favorável; noutras,

irrigações leves e freqüentes são mais propícias. Certamente, o estádio de

desenvolvimento da planta deve ser considerado.

  • 6.3. IRRIGAÇÃO POR ASPERSÃO

    • a) Características da aspersão

Numerosos olericultores, sejam eles pequenos ou grandes, preferem a

irrigação por aspersão – uma imitação tecnológica da chuva. Uma das vantagens

desse método é controlar a freqüência, a duração, a intensidade e o tamnho das

gotas. Evita a instalação da complexa rede de canais e sulcos, necessária na rega

por sulco, a qual reduz a área útil ocupada pelas plantas, dificulta a mecanização e

ocasiona, não raro, a erosão da gleba cultivada. Note-se que tanto o pequeno

olericultor, com mangueira de jardim, como o grande empresário, que irriga com pivô

central, estão praticando a aspersão, utilizando os mesmos princípios.

Na aspersão, a água é conduzida dentro de tubulações, sob pressão, até os

aspersores. Estes são capazes de irrigar qualquer gleba, independentemente do tipo

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de solo ou da topografia, inclusive no caso de terrenos planos ou acidentados. A

aspersão, também, permite ótimo controle da quantidade de água a ser aplicada,

além de requerer quantidade muito menor, em relação à rega por sulco, para se

obter resultado similar. A eficiência e a uniformidade da irrigação são muito maiores

mesmo em solos arenosos, nos quais é problemática a irrigação por sulco.

A superioridade da aspersão também é notória, especialmente nos estádios

iniciais do desenvolvimento das culturas, propiciando melhor germinação e

emergência mais uniforme e mais rápida das plântulas. Isso se explica pelo diminuto

tamanho das raízes, dificultando que seja alcançada a zona úmida, propiciada pelos

sulcos de irrigação. Nos estádios posteriores, a aspersão permite que o sistema

radicular se desenvolva melhor e trabalhe mais ativamente, já que há volume maior

de solo úmido. Logicamente, o trabalho radicular mais ativo facilita o aproveitamento

dos nutrientes, beneficiando a produção e a qualidade do produto.

A rega por aspersão racionaliza as operações de campo e é muito menos

exigente de mão-de-obra. A execução, inclusive, é muito simples – isso após uma

instalação complexa.

  • b) Manejo da irrigação

A freqüência das irrigações depende de vários fatores, mas, ao longo do

período seco, a maioria das culturas exige uma ou três aplicações semanalmente.

Em muitas situações, é mais vantajoso promover regas espaçadas e abundantes

que diárias e superficiais. Então, o turno de rega pode variar de 3-7 dias,

geralmente. No período chuvoso, a aspersão é aplicada para complementar as

chuvas sempre que o teor de água útil no solo baixar a um nível desfavorável à

cultura.

A duração da rega e o volume de água aplicado em cada irrigação devem

possibilitar que a zona de maior concentração radicular atinja 100% de água útil – a

capacidade de campo. Assim, tempo de aplicação e volume de água devem ser

controlados em cada faixa do terreno irrigada, evitando-se a perda de água

gravitacional. O uso de tubulação portátil facilita as operações de desmontagem da

linha, transporte e nova montagem, passando-se a irrigar a faixa seguinte.

Quando viável, deve-se preferir irrigar do crepúsculo até ao amanhecer, pois o

aproveitamento da água aplicada é máximo, em razão da ausência de luz solar e de

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ventos quentes e secos – causas de perdas elevadas. Em culturas delicadas, a

irrigação noturna também previne a ocorrência de queima das folhas, bem como de

outros distúrbios. Embora seja uma prática vantajosa, a irrigação noturna é pouco

difundida entre os olericultores.

  • c) Pontos negativos da aspersão

A aspersão também apresenta algumas desvantagens, em relação à rega por

sulco. A mais notória tem sido a lavagem provocada nos pesticidas pulverizados

sobre a parte aérea, dificultando o controle fitossanitário. Isso é crucial no caso de

culturas altamente suscetíveis ao ataque de fungos fitopatogênicos, como as

solanáceas. É por essa razão que a grande maioria dos produtores de tomate

tutorado prefere a rega no sulco. Logicamente, a dificuldade pode ser contornada