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Grandes Cheias

em Portugal
(1967)
INFORMAÇÃO IMPORTANTE

O texto que se segue é uma reprodução escrita,


com pequenas adaptações e esclarecimentos, do
programa exibido pela Rádio e Televisão de
Portugal, “1967 – Grandes cheias em Portugal”
integrado na série “50 Anos 50 Notícias”, de 2007.
Como tal, cumpre-me esclarecer que toda a
informação constante deste documento foi
apresentada pela citada estação de televisão
portuguesa, aquando da exibição do documentário
referido.
Resta-me recordar, em último lugar, que no ano
de 2007 a Rádio e Televisão de Portugal celebrou o
seu quinquagésimo aniversário.
GRANDES CHEIAS EM PORTUGAL
(1967)

A chuva caiu intensa na noite de 25 de Novembro.


Choveu mais na abastada zona do Estoril, mas onde
o dilúvio se abateu verdadeiramente foi nas zonas
mais degradadas da ribeira de Odivelas e nas
margens do Rio Trancão. A lama e a noite
esconderam milhares de mortos, nunca se soube ao
certo quantos.
(João Bernardo, membro da Associação de
Estudantes do Instituto Superior Técnico) “Dizia-se
que tinham sido contabilizadas quinhentas pessoas
mortas e que depois se deixou de contabilizar. O
lugar onde eu estive era uma favela, um bairro de
lata pequeno, um buraco, que tinha prédios mais
acima. De manhã, acho que se tinha apresentado o
dono das barracas para cobrar o aluguer. As
pessoas não pagaram. Não chegou a haver
confrontos e a Guarda Nacional Republicana, tal
como durante o período em que nós lá estivemos,
não quis ir para a lama para não sujar as botas.”
No terreno, apenas actuaram os bombeiros e os
estudantes. O Governo de Salazar dedicava toda a
atenção à Guerra Colonial e foi incapaz de reagir à
tragédia que vitimava os mais pobres dos cidadãos.
(Diana Andringa, estudante de Medicina em 1967)
“Lembro-me das Associações de Estudantes,
algumas das quais proibidas, a atravessarem Lisboa
em camionetas emprestadas, com letreiros a dizer
«Associações de Estudantes de Lisboa» e os polícias
sinaleiros a pararem o trânsito para nós passarmos.
Ou seja, aquele grupo de ilegais, de terríveis
subversivos que eram os estudantes, serem, de
repente, reconhecidos como aqueles que estavam a
fazer um grande trabalho. E apareceram depois, a
certa altura, as senhoras da Cruz Vermelha. Estas
distribuíram o pão e uma lata de sardinhas a
famílias de cinco pessoas que tinham ficado sem
nada.”
A grande preocupação do regime era esconder a
dimensão da tragédia. A censura impedia que as
imagens dos mortos passassem na televisão e
alterava os números das vítimas noticiados pelos
jornais.
(Diana Andringa) “Os jornais censuraram quase
tudo. São os recortes mais extraordinários dessa
época, porque não apenas são os cortes como é a
mudança dos números. O jornalista escreve um
determinado número de mortos e a censura corta e
põe muito menos.”
(João Bernardo) “Disseram-me que, ao final do
dia, tinha havido numa nota oficiosa, lida na
televisão (penso que na rádio também), alertando a
população para o facto dos comunistas se estarem a
aproveitar da situação para fazer demagogia,
ajudando as pessoas.”
(Diana Andringa) “Não vias, de facto, um socorro
às populações, que lhes arranjasse sítio onde elas
pudessem ficar, onde pudessem dormir, ficassem
alojadas, distribuíssem medicamentos, comida,
cobertores. Quase tudo isso veio da iniciativa de
pessoas, como estudantes católicos, associações de
estudantes, etc., que fizeram isso. O resto era a
ineficácia total, e ainda aconteceu, por vezes, que a
Guarda Nacional Republicana, em vez de se
preocupar com as pessoas que estavam naquele
estado, se preocupou em prender os estudantes,
porque eram agitadores.”
As cheias de 1967 tiveram uma importância
fundamental na politização dos jovens estudantes.
(João Bernardo) “Portanto, eu faria assim um arco
directo desde as inundações de Novembro de 1967
até à acção dos delegados do Movimento das Forças
Armadas, em 1974.”
Porque foi do movimento estudantil que surgiram
os partidos de extrema-esquerda e os oficiais
milicianos, que mais tarde foram os “Capitães de
Abril”.

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