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PORTUGAL

NOTÍCIAS
06 Outubro 2009 / Março 2010
Publ. Trim. (Num. duplo) • Série V • P.V.P €1.75

DOSSIER
Quanto vale uma vida?
Saiba por que não pode esquecer a Pena de Morte

ENTREVISTA CRÓNICA
Joaquín José Martinez relata a sua Durão Barroso, Presidente da Comissão Europeia,
experiência no corredor da morte fala do consenso europeu em torno da pena capital
ÍNDICE
03. 21. 28.
EDITORIAL PRESTAÇÃO DE CONTAS BOAS NOTÍCIAS

04. 22. 29.


ENTREVISTA EM ACÇÃO APELOS MUNDIAIS
Joaquín José Martinez esteve três INTERNACIONAL O cubano Léster González Pentón,
anos no corredor da morte nos Em alguns países do mundo os o tibetano Dhondup Wangchen, o
Estados Unidos da América e tenta direitos das mulheres continuam a ser tunisino Saber Ragoubi e a nepalesa
explicar como é estar condenado à esquecidos, conduzindo a uma realidade Rita Mahato precisam de si.
pena capital que seria evitável: a mortalidade Conheça-os e envie os apelos em seu
materna nome!

07.
RETRATO 24. 32.
Piers Bannister é, até ao final de EM ACÇÃO NACIONAL AGENDA
Março, o Coordenador da Equipa Conheça melhor a estrutura da Amnistia
da Pena de Morte da Amnistia Internacional Portugal em Matosinhos,
Internacional que depois de dois anos de trabalho 33.
intenso como Núcleo se tornou no mais
recente Grupo Local. Saiba ainda como CARTOON
09. correu o Exercício de Avaliação da Ao fechar o ano de 2009 o mundo
EM FOCO secção portuguesa. recordou os Direitos Humanos e
aqueles que os defendem, a propósito
do dia 10 de Dezembro

10. 26.
DOSSIER EM ACÇÃO JOVEM 34.
Pena de Morte: Quanto vale uma
Conheça a ReAJ, um grupo de jovens CRÓNICA
que promove os Direitos Humanos, e
vida? Conheça os argumentos e O Presidente da Comissão Europeia,
saiba o que a juventude pode fazer pelos
os mitos criados em torno da pena José Manuel Durão Barroso, escreve
direitos que são de todos nós, Seres
capital, o caminho percorrido para a sobre a pena capital e a cultura da
Humanos
sua abolição e os casos que mostram morte que a Europa consensualmente
bem que este é um castigo cruel e rejeita
desumano

FICHA TÉCNICA e Financeiro, Diana da Silva Antão, José


Manuel Durão Barroso, José Oliveira, Lucília
• Propriedade: Amnistia Internacional José Justino, Luís Sottomaior Braga, Sara
Portugal Coutinho. Avenida Infante Santo, 42 – 2.º
• Director: Presidente da Direcção, • Revisão: Cátia Silva, Irene Rodrigues,
1350-179 Lisboa
Tel.: 213 861 652
Lucília José Justino Luísa Marques, Pedro Krupenski Fax: 213 861 782
• Equipa Editorial e Redacção: Cátia • Concepção Gráfica e Paginação: Maria Email: boletim@amnistia-internacional.pt
Silva, Irene Rodrigues, Pedro Krupenski João Arnaud Os artigos assinados são da exclusiva responsa-
• Colaboram neste número: Ana Monteiro, • Impressão: Relgráfica-Artes Gráficas bilidade dos seus signatários.
Departamento de Angariação de Fundos
Notícias • Amnistia Internacional 03

EDITORIAL
Pena de Morte
Por Lucília José Justino, Presidente da Direcção

“E se esse mesmo deputado defender a adopção da pena capital / E o venerável cardeal


disser que vê tanto espírito no feto / E nenhum no marginal...” Caetano Veloso, Haiti

comprovada a sua inocência, num país por envolvimento num atentado. Que o
sem pena de morte. Mas se, pelos acasos Mianmar condenou duas pessoas à morte
da vida, noutro país, tivesse sido conde- “por traição” (por terem revelado que
nado à morte e executado, essa prova de membros do governo fizeram uma visita
inocência tardia, de nada teria servido. secreta à Rússia, e à Coreia do Norte, em
2006 e 2008). Numa só semana. Sabendo
Nos Estados Unidos, país com condições
que há países que não divulgam informa-
materiais e um sistema de justiça institu-
ções desta natureza, entre os quais isso
cionalizado, existem hoje, vivas e liberta-
pode ser mesmo “segredo de Estado” e
das, 139 pessoas cuja inocência pôde ser
outros em que coexistem Código Penal e
comprovada quando já estavam nos cor-
justiça religiosa (que faz execuções, como
© Privado redores da morte, aguardando execução.
acontece no norte da Nigéria) podemos
Só em 2009 foram nove os libertados,
Em Janeiro, o Presidente Elgeborj Tsakhia, interrogar-nos quantas outras condena-
mas as expectativas é que esse número
da Mongólia, anunciou que, no segui- ções e execuções terão tido lugar nessa
se multiplique, se puderem ser utilizadas
mento do que já é feito na maioria dos semana. E na semana anterior. E nas se-
(e autorizadas, o que nem sempre acon-
Estados do mundo, o seu país deve cami- guintes. Muita gente. Demasiada gente.
tece), novas técnicas periciais, como os
nhar para a abolição da pena de morte, exames de ADN. Dos libertados, alguns Apesar da argumentação racional não
tendo decidido introduzir uma moratória passaram mais de 20 anos encarcera- conseguir justificar a crueldade e a in-
às execuções, a serem substituídas por dos. Quantos inocentes terão sido mortos justiça de uma pena desta natureza, a luta
uma pena de 30 anos de prisão. É um por erros judiciais? E quantos serão os pela abolição ainda será longa, porque
progresso: há 10 anos, a Mongólia re- que não dispõem de conhecimentos ou a irracionalidade colectiva, os medos e
cusara, terminantemente, a proposta condições para reabrirem os seus proces- os preconceitos também são poderosos,
de moratória aprovada pela Assembleia sos, sabido que é que a pena de morte especialmente quando manipulados por
Geral das Nações Unidas, por ocasião da atinge desproporcionadamente mais os demagogos ou aprendizes de feiticeiro.
celebração dos 50 anos da Declaração membros de minorias étnicas, margina- Tomemos o caso do Uganda, país esco-
Universal dos Direitos Humanos. Mas lizados, iletrados e pobres? lhido por igrejas evangélicas america-
ainda não está assegurada a abolição da nas para campanhas que, em nome da
pena de morte no país, sendo necessária Apesar dos progressos conseguidos a
“protecção da família” e do combate ao
a aprovação pelo Parlamento, controlada nível internacional a situação, especial-
vício e à imoralidade, desencadearam um
pela oposição ao Presidente. A vida dos mente em alguns países, deve levar-nos a
processo que inevitavelmente degenerou
condenados fica assim dependente de reflectir. Fizemos um exercício: utilizando
em violência social, culminando na apre-
uma circunstância política aleatória. apenas informação oficial (naturalmente
sentação de uma lei que pune a homos-
não exaustiva), relativa a uma só semana
Fica bem clara uma das razões para sexualidade com enforcamento. Segundo
de Janeiro, ficámos a saber que o Irão con-
se ser absolutamente contra a pena de o ministro ugandês da Ética e da Integri-
denou e executou seis pessoas por tráfico
morte: contrastar a irreversibilidade da dade “os homossexuais podem esquecer
de droga (e outros poderão ser condena-
perda de vidas humanas perante o acaso, os direitos humanos”.
dos à mesma pena por delito de opinião e
o momento, o erro humano. Lerão à frente de manifestação). Que o Sudão confirmou Afinal, confirma-se, isto anda tudo liga-
o caso de um português, Nicolas Bento, a condenação e executou outras seis por do. Se os movimentos de direitos huma-
condenado a prisão perpétua por um terem resistido à polícia na evacuação nos não continuarem a lutar, essa ame-
homicídio que não cometeu. Neste caso, de um campo de fugitivos da guerra. Que aça pode tornar-se realidade. Temos que
foi possível sair em liberdade por ter sido o Iraque condenou à morte mais onze, continuar a agir!
04 Notícias • Amnistia Internacional

ENTREVISTA
Joaquín José Martinez, Condenado à Morte nos Estados Unidos da América
Nascido no Equador, em 1971, Joaquín José Martinez viajou para Espanha aos cinco anos e depois para os
Estados Unidos da América, onde cresceu. A vida decorreu normalmente até ao dia 28 de Janeiro de 1996,
quando a ficção ganhou dimensão real e um inocente foi preso e condenado à morte pelo assassinato
de Douglas Lawson, de 25 anos, filho de um xerife, e da sua namorada, Sherrie McCoy-Ward. Um crime
que desde 31 de Outubro de 1995 chocava a cidade de Tampa, na Florida, onde o culpado era procurado
a todo o custo. Muitos factores contribuíram para que viesse a ser libertado, mas a Justiça, essa, nunca
chegou a ser feita. Conheça a história que poderia ser a sua, a do seu filho ou a de qualquer outro
familiar, relatada pelo próprio quando esteve em Portugal a convite da Amnistia Internacional para um
ciclo de conferências.
Por Cátia Silva

anos, tudo se desmorona quando vai ano e meio ou dois anos. Sinceramente,
parar a um corredor da morte. O que nem sei quem era, porque era uma em-
o condenou? presa muito grande.
JJM: Havia seis provas fundamentais, AI: Com as provas apresentadas a
segundo a polícia. Primeiro, a declara- acusação era até perceptível, porque
ção da minha ex-mulher, que dizia que houve uma série de coincidências que
tinha cometido o crime [refira-se que jogaram contra si. Muitas pessoas diri-
o casal estava em fase de separação am que não há coincidências?
e que Joaquín deveria, a 27 de Janeiro,
JJM: A verdade é que há. No meu caso
ter ido visitar as filhas. Preferiu passar
havia. O revólver que fez o assassinato
o dia com a nova namorada e como des-
era de nove milímetros como as minhas
culpa disse ter de trabalhar. A ex-mulher
armas. Comento nas gravações com a
telefonou para o trabalho e confirmou a
minha ex-mulher o acidente de automó-
desconfiança. Com raiva ligou à polícia
vel que tinha tido há uns anos [onde mor-
dizendo que tinha o culpado do assassi-
reu o condutor do outro carro] e eles in-
nato brutal que tinha ocorrido três meses
terpretam como se estivesse a dizer que
antes]. A segunda prova era uma grava-
o assassinato tinha sido um acidente. O
© Amnistia Internacional Portugal ção feita em casa da minha ex-mulher,
rapaz tinha trabalhado na mesma em-
onde todos dizem que confesso o crime. A
Amnistia Internacional (AI): Numa das presa que eu... As coincidências existem
terceira era a declaração da minha nova
conferências que deu em Portugal e o mais importante é que se perceba que
namorada, que primeiro estava a meu
dizia que viveu “o sonho americano”. pode acontecer a qualquer um.
favor e depois foi testemunha de acusa-
A que se referia? ção. A quarta eram depoimentos de 12 AI: Falou ainda nos presos que teste-
Joaquín José Martinez (JJM): Desde presos com quem tinha passado tempo munharam contra si. Isso significa que
pequeno que sonhava ser alguém impor- na prisão antes do julgamento, que es- esteve detido preventivamente?
tante. Ter uma empresa. Ter uma casa na tiveram contra mim em troca de redução JJM: Sim, antes do julgamento estive na
praia. Ter família. Casei-me aos 19 anos da pena. A quinta eram as duas pistolas prisão durante cerca de um ano. E aqui
para tentar adiantar tudo isto. Sempre que tinha, de nove milímetros, que usava não era como no corredor da morte, onde
fiz tudo a correr. Queria deixar tudo feito: para fazer tiro ao alvo [que não eram se fica sozinho numa cela. Aqui fica-se
filhos, família, carro, empresas. Aos 24 as armas do crime]. A sexta era o facto com muita gente.
anos tinha tudo isto, por isso, estava a de, segundo a polícia, conhecer o rapaz
viver o sonho americano. assassinado por este ter trabalhado na AI: Foi então com base em tudo isso
mesma empresa que eu há cerca de um que em 1997 entrou no corredor da
AI: No entanto, um ano depois, aos 25
Notícias • Amnistia Internacional 05

morte. Chegou a perguntar-se: porque cinco tribunais e isso pode demorar uns Frank Valdez, que era porto-riquenho.
é que isto aconteceu comigo? 15 ou 20 anos. Conheci-o em 1997 e em 1998 mataram-
-no à pancada. Foram cinco vigilantes,
JJM: Sim. Ao princípio questionava muita AI: Há uma grande morosidade nos pro-
que disseram que ele se tinha atirado ao
coisa. No primeiro mês no corredor come- cessos então, porque o Joaquín esteve
chão, partido a coluna e perdido a cons-
cei a fazer perguntas mentalmente. três anos para conseguir um segundo
ciência. Na autópsia perceberam que
Porquê a mim? Será que Deus me aban- julgamento...
havia marcas das botas dos vigilantes
donou? Será que não há Deus? Será que
JJM: No Estado da Florida, no total, po- sobre várias partes do corpo. Houve in-
estou aqui por alguma coisa que fiz na
dem realizar-se dois julgamentos ao ano vestigação mas não deu em nada.
minha vida? Será por algo que não fiz?
para casos de condenados à morte.
Questiona-se tudo... AI: Todas essas histórias vão sabendo
ainda dentro do corredor?
AI: Como felizmente muitas das pes- “As assinaturas [dos apelos da Am-
soas que vão ler a revista nunca esti- nistia Internacional] fazem com que JJM: Sim.
veram num corredor da morte, pode as pessoas abram um pouco mais os AI: Isso deve ajudar a aumentar a
explicar-nos como é? olhos e pensem: vamos ver se, por pressão psicológica...
JJM: É um corredor largo. À esquerda há acaso, estamos errados neste caso”
JJM: Alguns prisioneiros suicidam-se de-
13 celas. À direita uma parede e o muro
vido à pressão. Outros assinam a sua
que dá para o exterior. É neste corredor AI: Enquanto se aguarda, fica-se numa própria sentença quando dizem que não
que passam todos os companheiros de cela de 1,80 por 2,9O metros. O que fez querem mais recursos. E muitos recor-
prisão, incluindo os que vão ser executa- o Joaquín nos três anos em que esteve rem a medicamentos.
dos. preso?
AI: Imagino que tudo isso piore com o
AI: Há contacto entre os condenados à JJM: Li muito. Tinha de me entreter. aproximar da execução. Ela é anun-
morte? Queria manter-me com a cabeça fora ciada?
JJM: Os prisioneiros estão divididos de 13 do corredor da morte. Respondia a car-
tas. Estudei Ciência Política e o caste- JJM: Sim, sabe-se um mês antes. Agora
em 13, sempre com a divisão de muros,
lhano, para que um dia, quando saísse, imagine o sofrimento de alguém que
por isso, só há mais contacto quando
pudesse dar entrevistas. Preparei-me. sabe que o vão executar em determinado
saímos.
Isto depois do primeiro ano, porque nos dia, a determinada hora, em determi-
AI: E isso é frequente? primeiros meses não pensava em mais nado minuto. Passa-se o mês a lutar por
nada senão em sobreviver. um recurso e na esperança de que haja
JJM: Ocorre duas vezes por semana, mas
alguma mudança, uma chamada de
se chove ou está nublado não se sai. AI: Recebia visitas? última hora. Há sempre a esperança de
AI: No total, quantos prisioneiros es- JJM: Sim. Uma vez por semana, a um que o Governador telefone e diga: anulem
tavam no corredor da morte quando lá Sábado ou um Domingo. a sentença.
esteve?
AI: Dizia nas conferências que pior do AI: E há ainda a despedida dos fami-
JJM: Na altura eram 476. Agora creio que que a execução é o tratamento pouco liares...
são menos, 400 e poucos. digno dado aos presos que estão no JJM: É muito difícil... É o momento de
AI: Recorda-se quantos foram executa- corredor da morte. Penso que muitas dizer adeus aos pais e saber que nunca
dos nos três anos em que lá esteve? pessoas não têm noção do que acon- mais os vão ver...
tece lá. Pode dar-nos alguns exemplos?
JJM: Uns oito. E desde que saí que o AI: Inimaginável...
número tem diminuído. Têm sido exe- JJM: Havia uma lâmpada que piscava
quando iam executar alguém e que se JJM: Nem eu consigo imaginar o que es-
cutadas cada vez menos pessoas.
apagava quando essa pessoa estava sas pessoas sofrem nesse momento. E
AI: Um dos seus amigos na prisão, ainda há aquelas situações em que os
morta, o que é uma forma de tortura
Frank Lee Smith, esteve 14 anos no pais ou mães estão muito doentes e não
psicológica... Às vezes os guardas vi-
corredor da morte até falecer por podem ir despedir-se dos filhos...
nham de madrugada e passavam com as
cancro. A maioria das pessoas não faz
chaves a fazer barulho nas grades todas. AI: Felizmente, com o Joaquín tudo foi
ideia que se fica tanto tempo para se
Outras vezes faziam testes de urina para diferente. Teve direito a um segundo
ser executado. Porque é que isso acon-
ver se os presos se drogavam, às três da julgamento, que começou no ano 2000
tece?
manhã. Tínhamos cinco minutos para o e terminou em Junho de 2001, e tudo
JJM: Esse tempo tem a ver com os re- fazer. Não vou entrar em detalhes, mas mudou. O que aconteceu?
cursos que se podem colocar pedindo posso dizer que quem não o fizesse era
JJM: Para entrar no corredor da morte
novo julgamento a várias instâncias, até levado para a sala do castigo e ficava um
teve de haver uma quantidade de acon-
chegar ao Supremo Tribunal nacional. mês em isolamento.
tecimentos perfeitos para a minha en-
Este é o último a decidir, mas até chegar
AI: Havia também maus tratos físicos? trada. Da mesma forma que para sair do
aqui pode passar-se por uns quatro ou
JJM: Sim. Perdi na prisão um amigo meu, corredor teve de haver uma quantidade
06 Notícias • Amnistia Internacional

de eventos perfeitos para que saísse. AI: Porquê? Embaixada ou no gabinete de um Go-
vernador é importante. Eles vêem o total.
AI: Disse nas conferências que um forte JJM: Porque nos Estados Unidos da Amé-
Percebem que lá fora há interesse por
contributo foi a campanha que o seu rica quando há uma declaração a favor
alguém e vão focar a sua atenção nessa
pai conseguiu organizar em seu nome do Estado essa pessoa não a pode nunca
pessoa. As assinaturas fazem com que
e que fez com que toda a Espanha mudar, senão é perjúrio. Uma coisa é
as pessoas abram um pouco mais os
[país de origem do seu pai e onde hoje mentir a favor do Estado, outra é mentir
olhos e pensem: vamos ver se, por acaso,
Joaquín vive] pedisse a sua libertação. contra o Estado.
estamos errados neste caso.
Teve o Papa... Os políticos espanhóis...
AI: No seu caso, como disse em relação
AI: No entanto, tudo isto pode evitar ape-
JJM: Tive muita sorte. O que mais me dói à gravação, houve provas que foram
nas um mal ainda maior, mas nunca
é saber que outros presos jamais rece- forjadas. Acredito que muitas pessoas
apagar o que se viveu. O Joaquín mudou
berão o apoio que eu recebi. Se eu, sendo ainda se iludam e não acreditem que
muito?
inocente, tive de ter todo esse apoio para se pode ser condenado à morte quando
que me libertassem, coitados dos que lá não se fez absolutamente nada. Sente JJM: Hoje não sou a mesma pessoa. Mu-
estão... isso? dei completamente. Percebi mal saí do
corredor que não iria ser nem a mesma
AI: Mas ser inocente foi fundamental. O JJM: Era algo que eu próprio nunca ima-
pessoa que esteve no corredor da morte,
que diz quando perguntam o que o tirou ginei que fosse possível. Mas quando
nem a pessoa que era antes. Seria uma
do corredor da morte? aconteceu comigo percebi que é muito
pessoa nova. E nessa altura nem sabia a
comum. É mais fácil acreditar que uma
JJM: Para mim, para sair do corredor da magnitude de tudo o que me tinha acon-
pessoa culpada se livrou da pena de
morte é fundamental ser-se inocente, tecido. Quando cheguei ao aeroporto em
morte, do que pensar que um Estado
primeiro que tudo. Garanto que o governo Espanha, tudo estava bloqueado com a
pode executar uma pessoa de forma in-
norte-americano não liberta ninguém se quantidade de pessoas que me foram
justa facilitando provas.
não houver, pelo menos, a dúvida de que receber. Foi incrível. Percebi então que
é inocente. O segundo ponto fundamental não ia voltar a ser o que era e que tinha
para a minha libertação foram os meios “É mais fácil acreditar que um culpa-
de me dedicar à pena de morte.
de comunicação social, as organizações do se livrou da pena de morte, do que
pensar que um Estado pode executar AI: Hoje, além de trabalhar, viaja por
não governamentais e os políticos. Tudo
uma pessoa de forma injusta” todo o mundo a falar da pena capital
isso fez com que eu pudesse conseguir,
e do seu caso, gratuitamente, acres-
ao menos, um julgamento justo, porque
AI: No entanto, para muitas pessoas o cente-se. Seria bem mais fácil de es-
havia pessoas lá fora a verem como é
facto de ter sido possível ir a um se- quecer se, pelo menos, não estivesse
que o julgamento se ia passar. O pro-
gundo julgamento e de ter sido liber- constantemente a recordar tudo. Não
curador do Ministério Público já não se
tado comprova que a Justiça afinal fun- concorda?
comportou como no primeiro julgamento.
ciona. O que lhes diria? JJM: No momento em que deixar de recor-
AI: Mas as provas que o condenaram
JJM: Sempre pensei que a Justiça fosse dar o que vivi deixarei de apreciar tudo o
mudaram?
dar a cada um o que cada um merece. que sou e de ser a pessoa que sou hoje.
JJM: Mudaram todas. A gravação que Sinceramente, eu não merecia todo o Recordo o que sofri, para poder lutar por
tinha sido feita em casa da minha ex- sofrimento por que passei, nem os meus aqueles que continuam a sofrer. Penso
-mulher não se ouvia muito bem, por isso pais, nem a minha família. E se não que se todos fizermos a nossa parte, uma
tinha sido apresentada, no primeiro jul- fosse todo o apoio que recebi, teria, quem pequena parte – e não apenas no caso
gamento, uma transcrição e descobriu-se sabe, sido executado. Estava acusado da da pena de morte mas em muitos outros
que foi preparada pelo xerife, pai de uma morte do filho de um polícia... Nenhum problemas –, podemos mudar o mundo
das vítimas, por uma prima da mesma tribunal me iria dar razão. em que vivemos.
vítima, por detectives, pela minha ex- Entrevista completa em: www.amnistia-interna-
-mulher e por outras pessoas do Depar- AI: É importante então reforçar que
cional.pt (Aprender/Revista da Amnistia Inter-
tamento da Polícia. A transcrição era o apelos como os que a Amnistia Interna- nacional)
que eles diziam que se ouvia na cassete. cional lança em nome de prisioneiros
No segundo julgamento a gravação e a são, efectivamente, essenciais e po-
transcrição não serviram de provas. dem fazer toda a diferença...
AI: E quanto ao testemunho da sua ex- JJM: As pessoas não entendem, como
-mulher? eu não entendia, a importância para
um prisioneiro de receber uma carta. E
JJM: Não a chamam, não querem que quando são pedidas assinaturas, todas
preste declarações. Porque o procurador são importantes porque chegam ao Go-
do Ministério Público se comportou de vernador. É verdade que uma assinatura
forma correcta. Ele sabia que se fosse Conheça melhor a história de Joaquín José
só não faz nada, mas a acumulação de Martinez em www.joaquinjosemartinez.com
ouvida tinha de mentir a favor do Estado. assinaturas, o total que aparece numa e no Dossier desta revista.
Notícias • Amnistia Internacional 07

RETRATO
Piers Bannister, Coordenador da Equipa da Pena de Morte
da Amnistia Internacional - Um percurso escrito nas estrelas
Quando entrou na Amnistia Internacional Piers Bannister tinha 27 anos. Hoje, passadas mais de duas
décadas, recordou com o “Notícias da Amnistia Internacional Portugal” o trajecto percorrido e como
despertou para os Direitos Humanos e para a “bizarra e inaceitável” pena de morte
Por Cátia Silva

A verdade é que hoje sabe que esta paixão não hesitou e aos 28 anos mudou-se
era também a sua e que foi sendo culti- para Alabama, nos Estados Unidos da
vada enquanto, imagine-se, estudava América, para acompanhar casos de
para ser actor. “Estava constantemente condenados à morte. “Lembro-me da
interessado em relações internacio- primeira vez que entrei com um advo-
nais”, recorda, mas só em 1988, aos 27 gado em Tribunal. Ele explicou porque
anos, a escolha se tornou consciente. Op- o réu não deveria ser executado, mas
tou então por ser voluntário na secção do depois uma senhora – inteligente, edu-
Reino Unido da Amnistia Internacional1, cada e bem articulada –, começou a
© Amnistia Internacional
que conhecia bem, e em pouco tempo explicar porque devia ser condenado
conseguiu emprego como Recepcionista. à morte. A minha primeira reacção foi
No final de Março, a Equipa da Pena
Uns meses mais tarde, ficou responsável gritar: pare, vai fazer com que seja
de Morte do Secretariado Internacional1
pela área da Juventude. “Um trabalho morto. Depois percebi: ela sabe disso”.
da Amnistia Internacional divulga os
que era feito com os jovens, nas Uni- Para Piers Bannister, nesse momento
números relativos ao uso da pena capi-
versidades, educando para os Direitos fez-se luz. “Entendi como é bizarra
tal no ano de 2009. O britânico Piers
Humanos e fazendo campanha”, ex- e inaceitável a pena capital”. Para a
Bannister, de 48 anos, coordena a equipa
plica. Desses tempos, recorda o que um advogada que viu em Tribunal, para os
até essa data. Depois, só o destino o dirá,
estudante lhe disse, entristecido: “Serei juízes que ouviu condenarem pessoas
mas o responsável garante que ficará
membro da Amnistia para o resto da à morte ou para os guardas prisionais,
na Amnistia Internacional, onde entrou
vida”. Piers entendeu bem o que queria a pena de morte é um trabalho como
há mais de duas décadas, seguindo o
dizer: abriram-me os olhos, agora não os outro qualquer. “Uma vez estava a fa-
legado dos seus pais. A mãe era advo-
posso voltar a fechar e fingir que não vi. lar com um preso e houve mudança de
gada e activista de um grupo local da
O mesmo iria acontecer consigo, quando guardas. O que saiu disse-lhe adeus
Amnistia “quando esta era uma orga-
viu de perto o que é a pena capital. e ele respondeu: «tem um bom fim-
nização pequena”, reforça. O pai era
escritor, dedicado a temas como a es- -de-semana». Era claro que havia ali
cravatura e os direitos civis, com ênfase amizade, mas dentro de meses aquele
O ENCONTRO COM A PENA DE MORTE
nos Estados Unidos da América. Seguir guarda podia vir a executá-lo...”. Para
os seus passos foi, contudo, totalmente Nas universidades, Piers Bannister fala- o responsável da Amnistia Internacional,
inconsciente. “Um dia, era investigador va sobre violações aos Direitos Humanos, o distanciamento, ou a frieza, que tan-
da Amnistia para os Estados Unidos e mas até aqui a dureza da realidade era tas vezes testemunhou, não podem ser
percebi que tinha um emprego que me ainda teoria, reconhece. Viria, contudo, assim tão reais. “Quando conhecemos
colocava entre a minha mãe e o meu a conhecê-la pessoalmente, quando um alguém que o Estado diz não merecer
pai. Trabalhava em torno da lei e dos acaso o “empurrou” para trabalhar com viver e ele se senta à nossa frente a rir,
direitos civis, nos Estados Unidos e fa- a pena de morte. “Houve em 1990 uma sorrir, chorar e todas essas coisas que
lava de Direitos Humanos. Pensei: o que tournée com vários oradores e um era um Ser Humano faz, penso que é algo
terá acontecido à rebeldia juvenil?”, um advogado norte-americano. No fi- que nunca mais se consegue ultrapas-
diz, com a boa disposição que demons- nal, convidou-me para trabalhar com sar. Deixa de ser teoria e passa a ser
trou em toda a entrevista telefónica. ele durante seis meses”, recorda. Piers realidade”.
08 Notícias • Amnistia Internacional

1. representar a Amnistia na Coliga-


ção Mundial Contra a Pena de Morte e
nas Nações Unidas; 2. ser porta-voz da
referida Coligação para a comunicação
social e representar a Amnistia Interna-
cional nos média para os assuntos rela-
tivos à Pena de Morte; e 3. aconselhar as
equipas regionais da Amnistia, uma vez
que nos países retencionistas o trabalho
passa, também, por procurar a abolição
da pena capital.
© Amnistia Internacional
O Coordenador da Equipa da Pena de Morte com a freira Helen Prejean, autora do livro Dead Man Walking e activista contra a pena capital, Actividades que Piers Bannister realiza
numa reunião em Outubro de 2008. há cinco anos e que, seguindo aquela
que se tornou já uma regra, vai deixar
ACABAR COM A PENA CAPITAL O CAMINHO TRAÇADO PELAS ESTRELAS de desempenhar no início de Abril. O fu-
Depois de lidar de perto com o corredor Ao fim de cinco anos a trabalhar contra turo é ainda incerto, mas Piers não põe
da morte, Piers Bannister, na altura com a pena de morte nos Estados Unidos, de lado a hipótese de se manter ligado
33 anos, sabia que não podia fechar os Piers Bannister agradecia um interreg- à pena capital. Até porque hoje, ao fim
olhos. “Vi a injustiça e o horror da pena no. A oportunidade surgiu no ano 2000, de duas décadas, consegue finalmente
de morte e a partir daí quis trabalhar quando o Secretariado Internacional da “desligar” quando regressa a casa. “Ao
contra a pena capital”, diz, com a mes- Amnistia precisava de um investigador início era difícil, mas as crianças aju-
ma convicção que (acreditamos) terá para os países anglófonos das Caraíbas. dam porque nos mantêm equilibrados”,
tido na altura. O destino tratou do resto: Piers, com 38 anos, assume a respon- diz, referindo-se aos dois filhos rapazes,
o Secretariado Internacional da Amnistia sabilidade de investigar as violações aos de seis e quatro anos. Quando estes lhe
procurava uma pessoa para trabalhar Direitos Humanos em todos estes Esta- dão “descanso” é a música, o cinema e o
a pena de morte nos Estados Unidos dos. Tal como na função anterior, explica, mergulho que o ajudam a descomprimir.
da América. A experiência que tinha, e o trabalho era feito a partir de Londres, No meio de tudo isto a vida de actor ficou
a paixão que certamente demonstrou, mas durante semanas eram realizadas pelo caminho, até porque, diz entre risos,
garantiram-lhe o lugar. missões no terreno e “todos os dias es- “a vida real já me chega”.
távamos em contacto com as pessoas
O trabalho era feito a partir de Londres,
de lá, com as organizações não gover- 1. A Amnistia Internacional é uma organização
mas exigia longas temporadas em solo
namentais locais e outros parceiros”. não governamental com sede em Londres, no
norte-americano. O seu papel, sintetiza, Reino Unido, a que se chama Secretariado Inter-
No fundo, sintetiza, um investigador tem
era visitar condenados à morte e realizar nacional. Tem depois delegações, denominadas
de “olhar para as informações, procu- secções nacionais, em mais de 50 países do mun-
todo o tipo de acções para que não fos-
rar informações e verificar informa- do, entre eles Portugal e o próprio Reino Unido. O
sem executados. Para isso contou sem- objectivo das secções é ajudar a promover e de-
ções”, chegando a conclusões que são
pre com a ajuda de milhares de activis- fender os direitos humanos, difundindo o trabalho
denunciadas em relatórios, comunicados
tas de todo o mundo2. Ao mesmo tempo, da Amnistia a nível nacional.
de imprensa e, sempre que se justifique,
Piers investigava violações aos Direitos 2. A Amnistia Internacional é, acima de tudo, um
em acções urgentes3. Foi o que Piers
Humanos relacionadas com a pena de movimento de activistas e desde o início que a
Bannister fez nas paradisíacas ilhas das sua importância reside na máxima: “a união faz
morte, como o racismo que lhe é inerente
Caraíbas, onde o turismo esconde pro- a força”. Em 1961 o advogado britânico Peter
(ver Dossier desta revista), pressionando Benenson demonstrou, num artigo publicado no
blemas graves como a excessiva brutali-
depois o Governo norte-americano para jornal “The Observer”, vontade de ajudar pes-
dade policial. soas presas pelas suas convicções políticas e/
que mudasse a sua postura.
ou religiosas. Na altura, sabia que sozinho não
Por incrível que pareça, é novamente ao ia conseguir. Hoje são 2,8 milhões os membros e
Um trabalho que, assim sintetizado, pa-
fim de cinco anos, em 2005, que Piers apoiantes que em todo o mundo dão à Amnistia
rece simples, mas é preciso não esquecer Internacional o poder necessário para promover e
assume novas funções, regressando à
que embora tenha sido realizado há ape- defender os direitos humanos. Todos sabem que
pena de morte. Quando alertamos para
nas 15 anos, “na altura, o Governo fazem toda a diferença!
a coincidência de ter mudado de posto
norte-americano sentia-se confortável 3. Em termos teóricos, as equipas do Secretari-
a cada meia década, surpreende-se e
a ignorar a Amnistia”, lamenta Piers ado Internacional – divididas por temas ou por
diz: “se calhar estava escrito nas es- regiões – são compostas por investigadores e
Bannister. Além disso, acrescenta, “a
trelas”. Acredite-se ou não, a verdade é pelos chamados campaigners. Os primeiros são
pena de morte era muito pouco deba- os elementos seniores da equipa e realizam o
que aos 43 anos Piers Bannister assume
tida e se alguém era contra, era como trabalho de investigação. Os segundos ajudam a
a coordenação da equipa de três pessoas denunciar as situações investigadas, através de
se estivesse do lado dos assassinos.
que no Secretariado Internacional realiza comunicados de imprensa, acções urgentes, entre
Havia, por isso, muita hostilidade em outros. Na prática, explica Piers Bannister, “um
anualmente as estatísticas relativas à
relação a nós”. Hoje, garante, a atitude investigador faz campanha e um campaigner
pena capital. Conhecida por Equipa da
é bem diferente e a sociedade (ao menos) faz investigação”.
Pena de Morte, é ainda responsável por:
respeita quem é contra a pena capital.
Notícias • Amnistia Internacional 09

EM FOCO
Nos últimos meses, dois países destacaram-se pelas piores razões. No Haiti, um sismo trouxe à superfície
problemas estruturais há muito escondidos. Os Estados Unidos da América voltaram a abrir telejornais
quando, em Janeiro, a promessa de Barack Obama de fechar Guantánamo não foi cumprida

HAITI pelo que é essencial realizar investiga-


ções independentes às violações aos Di-
-americano veio a público confirmá-lo,
tendo alegado que um dos motivos é a
O QUE NÃO PODEMOS ESQUECER
reitos Humanos. Por último, a Amnistia dificuldade de encontrar países de abri-
Internacional pediu que fossem criadas go para os cerca de 50 detidos que, por
condições para que a dívida externa do razões de segurança, não podem voltar
Haiti seja totalmente perdoada, para que ao seu país de origem.
o país possa agora começar do zero e não
Perante esta situação, a 11 de Janeiro,
cometer os mesmos erros do passado.
quando se assinalaram oito anos desde
O Haiti já não preenche páginas de jor- a abertura da prisão de Guantánamo,
nais, nem é notícia de abertura de tele- a Amnistia Internacional juntou-se à
jornais, no entanto, não nos podemos Reprieve e ao Center for Constitutional
© Amnistia International
esquecer do que aconteceu e ainda Rights (CCR), organizações onde traba-
O lixo acumula-se nas ruas dos bairros de Port-au-Prince.
acontece no país. A catástrofe natural lham advogados de vários prisioneiros,
No dia 12 de Janeiro a terra tremeu no deixou a nu uma realidade que há muito para o lançamento de uma tournée eu-
Haiti. Um sismo de magnitude 7.1 na Es- se arrastava no Haiti e para a qual a ropeia que visa incentivar alguns países
cala de Ritcher abalou o país das Caraí- Amnistia Internacional tem vindo a aler- a receberem detidos da prisão de Cuba.
bas causando milhares de mortos e de- tar com a campanha “Exija Dignidade”: Recorde-se que, desde 2002, foram pre-
saparecidos. Aos sobreviventes restava as más decisões de sucessivos Governos sas em Guantánamo quase 800 pessoas,
esperar pela ajuda da comunidade inter- e as constantes violações aos Direitos mas cerca de 600 foram entretanto liber-
nacional, para proporcionar o acesso a Humanos que originam populações vul- tadas por não existirem provas da sua
água potável, comida e cuidados médi- neráveis, sem estruturas e incapazes de ligação ao terrorismo.
cos. A Amnistia Internacional expressou resolverem de forma autónoma os desa-
O mesmo acontece aos cerca de 50
a sua preocupação com a crescente crise fios que o futuro reserva.
presos que procuram acolhimento em
humanitária no Haiti e enfatizou que a Estados europeus. Enquanto a Amnistia,
promoção dos Direitos Humanos era es-
sencial para um auxílio eficaz e uma re- GUANTÁNAMO a Reprieve e o CCR pressionam os gover-
nos, pedimos-lhe a si que nos ajude a
cuperação sustentável. DETIDOS PRECISAM DE SI
dar coragem aos prisioneiros, injusta-
Durante a distribuição de ajuda e nas mente privados da sua liberdade. Tudo o
primeiras fases da reconstrução, a que tem de fazer é escrever mensagens
Amnistia levantou algumas questões, a de solidariedade e, acredite, estas po-
serem enfrentadas por todos os actores dem fazer toda a diferença. Como disse
envolvidos. Primeiro, foi sublinhada a Bisher al-Rawi, do Reino Unido, que em
necessidade de proteger os direitos dos 2007 regressou a casa: “naquela cela
deslocados internos e de lhes prestar as- © US DoD solitária, sem nada a não ser o vazio,
sistência, sendo essencial ter em conta Um detido do Campo Quatro da Base Naval de Guantánamo. segurar uma fotocópia de uma carta e
as necessidades de protecção especi- ler as palavras que continha significou
22 de Janeiro de 2010 foi a data que, há
ais de crianças e mulheres, mais vul- muito para mim. Essas cartas abriam
um ano, o então recém-empossado Pre-
neráveis à violência, abusos e tráfico. Em as paredes, davam-me esperança e
sidente dos Estados Unidos da América,
segundo lugar, a Amnistia sublinhou ser sussurravam-me: Não foste esqueci-
Barack Obama, anunciou para o encer-
urgente restabelecer o Estado de Direito, do”. Mais informações em www.amnis-
ramento da prisão de alta segurança
apesar de o terramoto ter limitado ainda tia-internacional.pt (Aprender / Revista
situada na baía de Guantánamo, em
mais as capacidades das autoridades da Amnistia Internacional Portugal).
Cuba. Com o aproximar da data definida
haitianas. Foram relatados incidentes
tornou-se claro que o prazo não iria ser
violentos em alguns locais da cidade,
cumprido. O próprio Presidente norte-
10 Notícias • Amnistia Internacional

DOSSIER
PENA DE MORTE - Quanto vale uma vida?
Antes de serem reveladas as estatísticas da Amnistia Internacional relativas à aplicação da pena de
morte no ano de 2009, o “Notícias da Amnistia Internacional” dedica o dossier a esta forma cruel e
desumana de punição, na esperança de que um dia tudo o que aqui está escrito possa apenas fazer
parte dos livros de História

© AP/PA Photo/Halabisaz
Numa cidade perto de Teerão, no Irão, uma plateia assiste ao enforcamento de cinco criminosos, em Agosto de 2007. Vários países continuam a aplicar este método de execução.

Ano de 1987 no Mississípi, Estados Uni- do com o maior silêncio de Edward e dos Johnson deixou de bater, por ter assas-
dos da América. Edward Earl Johnson, restantes prisioneiros. Um psiquiatra sinado um polícia. Um crime que confes-
de 26 anos, vivia as suas últimas duas vem oferecer calmantes, um padre e uma sou sob tortura. A sua história é seme-
semanas de vida, com data de execução freira trazem orações e a família é au- lhante à de milhares outros prisioneiros
marcada para 20 de Maio. Estava há oito torizada a visitar o preso todos os dias. que foram já executados e dos quase
anos no corredor da morte, “sem ver a Quando faltam 72 horas para o momento 20.000 detidos que o consultor Mark
lua a céu aberto”, lamentou, num dos final, o condenado é transferido para Warren estima estarem neste momento
seus últimos momentos com vida. Com uma cela à entrada do corredor da morte, no corredor da morte em todo o mundo. O
o aproximar do fatídico dia – assinalado que é literalmente um corredor com celas que tornou Edward Earl Johnson diferente
pelo próprio no calendário da cela onde de um lado e parede branca do outro. No foi o facto de os seus últimos momentos
só cabia uma retrete, uma cama e um último dia, Edward recebe toda a família terem ficado gravados no documentário
armário –, Edward foi começando a numa sala demasiado pequena para o 14 Days in May, produzido pela BBC e
perder a esperança que até aqui o tinha que parecia ser um velório. A despedida distribuído pela Amnistia Internacional.
alimentado. Na televisão instalada na dá-se às 21 horas e Edward aguarda a A pretensão do filme não foi a de nos
cela via crescerem as manifestações e execução na sua cela, com o advogado fazer sentir o que Edward sentiu – o que
as notícias em redor da sua execução. e uma freira. A 40 minutos desta ocor- é impossível –, mas explicar melhor o
Aguardava por um milagre: o adiamento rer, o condenado é levado para a Sala do que Joaquín José Martinez (ver Entrevista
ou, melhor ainda, a clemência. Ao mes- Isolamento. Mais 20 minutos e chega o desta revista) quis dizer quando esteve
mo tempo, no edifício ao lado, a câmara médico para o analisar. A cinco minutos em Portugal e afirmou: “sinceramente,
de gás que o iria matar era testada com da execução, Edward é sentado e amar- não é tanto o facto de nos irem matar,
coelhos. rado à cadeira da câmara de gás. mas o processo e o tempo até esse mo-
mento”.
A três dias da execução, a agitação au- Às 24 horas e 1 minuto de 20 de Maio
menta no corredor da morte, contrastan- de 1987, o coração de Edward Earl Mas, por que falar de tudo isto agora?
Notícias • Amnistia Internacional 11

CADA VEZ MAIS PERTO DE ABOLIR que 65% dos portugueses defendem a crimes ser cometida de forma passional
A PENA DE MORTE prisão perpétua e 26% concordam com a ou sob a influência de drogas ou álcool.
pena capital. O que estará a fazer regre- Joaquín José Martinez, que esteve no cor-
A luta pelo fim da pena de morte é tão dir um dos países pioneiros na abolição redor da morte na Florida, não precisou
antiga quanto a própria Organização das desta forma de punição (ver caixa “Pena de estudar para perceber isto mesmo:
Nações Unidas, mas só recentemente de Morte em Portugal”) quando o mundo “estive com 476 condenados à morte
se têm notado verdadeiros progressos. caminha no sentido contrário (ver caixa (continua na pág.14)

Primeiro, com a entrada em vigor, em “Cada vez mais perto de abolir a Pena
1991, do Segundo Protocolo Opcional ao OS ESTADOS QUE MAIS MATAM
de Morte”)? Esperamos que os textos
Pacto Internacional sobre os Direitos Ci- seguintes ajudem a mudar a triste reali- Em 2008 (últimos dados disponíveis até
vis e Políticos com vista à Abolição da dade espelhada pela sondagem. ao fecho desta edição), as estimativas
Pena de Morte, até hoje ratificado por da Amnistia Internacional em relação à

1.
72 países. Mais recentemente, a 18 de pena de morte nesse ano cifravam-se
Dezembro de 2007, os defensores dos di- em 2.390 pessoas executadas em 25
reitos humanos de todo o mundo aplau-
A TEORIA DO EFEITO
países e 8.864 condenadas à morte em
diram a aprovação, na Assembleia Geral DISSUASOR 52 Estados. Isto, recorde-se, quando 58
das Nações Unidas, de uma resolução A sondagem publicada na revista Visão Estados mantêm a pena capital na sua
para uma Moratória ao uso da pena de vem mostrar que se mantém vivo um legislação. Números que, muito pro-
morte. mito antigo, que relaciona a pena de vavelmente, estão abaixo da realidade,
A proposta surgiu da Coligação Mundial morte com a insegurança, pois o ques- pois alguns países, como a China e a
contra a Pena de Morte, à qual a Amnis- tionário passava das perguntas sobre Coreia do Norte, continuam a executar de
tia Internacional pertence, e foi aprovada criminalidade violenta para as mais forma secreta, sem informarem sequer
com 104 votos a favor e 54 contra. Um cruéis e desumanas formas de punição. os familiares dos condenados ou devol-
resultado surpreendente quando até É por isso que Piers Bannister, Coordena- verem os seus corpos.
aqui todas as propostas relacionadas dor da Equipa da Pena de Morte da Am-
No entanto, é de salientar que nos últi-
com a pena de morte tinham sido um nistia Internacional na sede, em Londres,
mos anos as execuções se têm concen-
fracasso nas Nações Unidas. A Moratória relativiza os resultados. “Provavelmente
trado em poucos países. Em 2008, 93%
tem, como o nome indica, um cariz tem- as pessoas leram notícias sobre crimes
foram realizadas em apenas cinco Es-
porário, mas o seu objectivo é que os e estão zangadas. A pena de morte é
tados: China (1.718 pessoas), Irão (346
Estados que a ratifiquem se tornem abo- uma expressão de raiva. E as pessoas
pessoas), Arábia Saudita (102 pessoas),
licionistas na prática (o que acontece têm direito a ficar zangadas com o
Paquistão (36 pessoas) e Estados Uni-
ao fim de 10 anos sem execuções) ou na que lêem. Mas quanto mais se discutir
dos da América (37 pessoas em nove Es-
lei. Não sendo vinculativa, tem um forte a pena de morte, mais se vão afastar
tados). Enquanto isso, o resto do mundo
peso político e moral, como comprovam dela”. Desmistifique-se, por isso, o mito
afasta-se cada vez mais desta realidade.
alguns sucessos: o Ruanda, que aboliu do efeito dissuasor que a pena capital,
É por isso que Piers Bannister, Coorde-
a pena capital em 2007, o Uzbequistão na realidade, não tem.
nador da Equipa da Pena de Morte da
e o Quirguistão, que o fizeram em 2008, Até hoje nenhum estudo conseguiu Amnistia Internacional na sede, em Lon-
e o Burundi e o Togo, que puseram fim provar que a aplicação da pena de morte dres, defende: “cada vez que um Estado
à pena de morte em 2009. As atenções origina menor criminalidade. Várias in- decreta a abolição da pena capital, os
da Amnistia Internacional concentram- vestigações têm mesmo concluído pre- cinco países ficam mais isolados”.
-se agora na Mongólia, que já assinou a cisamente o contrário. Em 2004, um
Moratória. Ajude-nos a pedir que acabe Importa, no entanto, referir que nos Esta-
estudo realizado nos Estados Unidos da
com a pena capital. Assine a petição em dos Unidos da América os números tam-
América mostrou que a taxa de homicí-
www.amnistia-internacional.pt (Apren- bém denunciam um progresso, com 60
dios nos Estados que não aplicam a
der/Revista da Amnistia Internacional). execuções a terem lugar em 2005, 53 em
pena de morte ronda os quatro por cada
2006, 42 em 2007 e 37 no ano de 2008.
100.000 habitantes, enquanto nos que
Joaquín José Martinez, que esteve quatro
– estarão a pensar alguns leitores. E, aplicam a média de crimes quase chega
anos no corredor da morte na Florida,
acima de tudo, por que falar de pena aos seis. Além disso, segundo o norte-
está convicto de que “há uma mudança
de morte num país que não a aplica? Se -americano Death Penalty Information
na América” e arrisca três razões princi-
motivos fossem precisos para justificar Center, 88% das execuções ocorrem
pais: a crise económica, porque executar
este Dossier, diríamos que Março é o mês nos Estados localizados a Sul, onde há
é muito caro; o racismo associado à pena
em que a Amnistia Internacional lança também maior criminalidade. Da mesma
de morte, quando Barack Obama é negro,
as estatísticas relativas à aplicação forma, no Canadá a taxa de homicídios
e a Internet. “Há uns anos só havia tele-
da pena de morte no ano anterior. Mas tem vindo a cair desde que, em 1975, a
visão, rádio e imprensa. O que disses-
mais do que isso, muito nos chocou a pena de morte foi abolida.
sem todos respondiam «Ámen». Agora
sondagem de Julho de 2009 publicada Tudo isto é explicado pelos criminolo- há a Internet, onde se pode ver o que se
na revista Visão, feita em parceria com gistas com o facto de a maioria dos escreve noutros países”.
a SIC/GfK Metris/Cesnova, que revelou
12 Notícias • Amnistia Internacional

O MUNDO E A PENA DE MORTE Países Abolicionistas


para todos os crimes
África do Sul Bélgica Costa do Marfim
95 Estados aboliram a pena de morte para todos os crimes Albânia Bósnia-Herzegovina Costa Rica
Alemanha Bulgária Croácia
9 Estados aboliram a pena de morte para os crimes comuns Andorra Burundi Dinamarca
35 Estados aboliram a pena de morte na prática Angola
Argentina
Butão
Cabo Verde
Djibuti
Equador
58 Estados continuam a aplicar a pena de morte Arménia Camboja Eslováquia
Austrália Canadá Eslovénia
Áustria Chipre Espanha
Azerbaijão Colômbia Estónia

Em todo o continente americano,


apenas os Estados Unidos da
América continuam a executar
com regularidade.

Com excepção da
Bielorrússia, a Europa
Países Abolicionistas e a Ásia Central estão
para crimes comuns livres da pena de
morte.
Bolívia
Brasil
Cazaquistão
Chile
El Salvador
Fiji
Israel
Letónia
Peru

PAÍSES ABOLICIONISTAS PARA TODOS OS CRIMES


Onde a lei proíbe a pena capital
Países Abolicionistas
PAÍSES ABOLICIONISTAS PARA CRIMES COMUNS na Prática
Onde a pena capital é aplicável apenas a crimes excepcionais,
incluindo crimes militares ou cometidos em tempo de Guerra Argélia Granada Nauru
Benin Laos Nigéria
PAÍSES ABOLICIONISTAS NA PRÁTICA Brunei Libéria Papua-Nova Guiné
Onde a pena capital existe na lei, mas não se registam execuções Burkina Faso Madagáscar Quénia
há pelo menos uma década ou quando os Estados se compro- Camarões Malawi Rep. Centro-
meteram internacionalmente a não aplicarem a pena de morte Coreia do Sul Maldivas Africana
Eritreia Mali Rep. do Congo
PAÍSES RETENCIONISTAS Gabão Marrocos Rússia
Onde a pena capital continua a ser aplicada Gâmbia Mauritânia Sri Lanka
Gana Mianmar Suazilândia
Notícias • Amnistia Internacional 13

Estados Abolicionistas
nos E.U.A.
Filipinas Ilhas Cook Macedónia Nepal Quirguistão Senegal Ucrânia Alasca Nova Jérsia
Finlândia Ilhas Marshall Malta Nicarágua Reino Unido Sérvia (inc. Uruguai Dacota do Norte Novo México
França Ilhas Salomão Maurícia Niue República Checa Kosovo) Uzbequistão Distrito de Colômbia Rhode Island
Geórgia Irlanda México Noruega República Dominicana Suécia Vanatu Havai Vermont
Grécia Islândia Micronésia Nova Zelândia Roménia Suíça Vaticano Iowa Virgínia Ocidental
Guiné-Bissau Itália Moçambique Palau Ruanda Timor-Leste Venezuela Maine Wisconsin
Haiti Kiribati Moldávia Panamá Samoa Togo Massachusetts
Holanda Liechtenstein Mónaco Paraguai San Marino Turquemenistão Michigan
Honduras Lituânia Montenegro Polónia São Tomé e Príncipe Turquia Minnesota
Hungria Luxemburgo Namíbia Portugal Seicheles Tuvalu Nova Iorque

Estados Retencionistas
nos E.U.A.
Alabama Maryland
Arcansas Mississipi
Arizona Missouri
Califórnia Montana
Carolina do Norte Nebrasca
Carolina do Sul Nevada
É na Ásia que Colorado New Hampshire
se regista o
Connecticut Ohio
maior número de
execuções. Dacota do Sul Oklahoma
Delaware Oregon
Florida Pensilvânia
O Médio Oriente é a Geórgia Tennessee
segunda região do Idaho Texas
mundo onde a pena Indiana Utah
de morte é mais Illinois Virgínia
utilizada.
Kansas Washington
Kentucky Wyoming
Louisiana

Países
Retencionistas
Suriname Afeganistão Chade Guiana Jordânia Paquistão Sudão
Tajiquistão Antígua e Barbuda China Guiné Kuwait Qatar Tailândia
Tanzânia Arábia Saudita Comoros Guiné Equatorial Lesoto Saint Kitts e Nevis Taiwan
Tonga Bahamas Coreia do Norte Iémen Líbano Rep. Dem. do Congo Trindade e Tobago
Tunísia Bahrein Cuba Índia Líbia Santa Lúcia Uganda
Zâmbia Bangladesh Dominica Indonésia Malásia São Vicente e Granadinas Vietname
Barbados Egipto Irão Mongólia Serra Leoa Zimbabué
Bielorrússia Emiratos Árabes Unidos Iraque Nigéria Singapura
Belize Etiópia Jamaica Omã Síria
Botswana Guatemala Japão Palestina Somália
14 Notícias • Amnistia Internacional

e nenhum me disse que tinha pensado da América, onde os condenados po- responsável da Amnistia Internacional.
antes nas consequências de cometer dem, pelo menos, tentar ter um julga- Até porque, desconfia Joaquín José Mar-
o crime”. Até porque, acrescentou, ne- mento justo”. Esta última custa uma tinez: “para onde vai, na verdade, todo
nhum criminoso espera ser apanhado. fortuna, entre investigação, especialis- este dinheiro?”.
Nelson Mandela, ex-Presidente da África tas, juízes e recursos. Para se ter uma
do Sul, defendeu que a pena de morte
não é solução e que o crime se combate
com um sistema policial forte e bem trei-
pequena ideia, refira-se que no Texas, o
principal executor nos Estados Unidos da
América, um caso de pena de morte cus-
3. UMA FORMA SELECTIVA
DE PUNIÇÃO
nado. Outras soluções passariam pela ta, em média, 2,3 milhões de dólares (1,7
erradicação da pobreza. A pena de morte milhões de euros), indica o Death Penalty Quando se fala em pena de morte, Piers
é, na verdade, apenas uma ilusão criada Information Center. Um valor idêntico a Bannister recorda, de imediato, umas
pelos Governos para dizerem que estão manter alguém em prisão perpétua. das figuras mais polémicas da História
a combater a criminalidade quando, na da Humanidade: “Hitler julgava que os
Ainda recorrendo aos números, e fazendo Judeus deviam ser mortos. Para mim,
realidade, a estão a promover ao prolon-
agora contas anuais, veja-se o exemplo discordar com ele apenas na escolha
garem, assim, o ciclo de violência.
da Califórnia, que não está sequer nos de quem deverá ser morto coloca-me

2.
15 Estados que mais executam nos Es- demasiado perto dele”. Quem considera
tados Unidos da América e onde os con- a afirmação exagerada esquece que a
O EFEITO BOOMERANG tribuintes pagam ao ano, com os impos- pena de morte é, efectivamente, um pro-
DO ARGUMENTO ECONÓMICO tos, cerca de 114 milhões de dólares (84 cesso selectivo. Se tal não fosse verdade,
milhões de euros) para matar pessoas. o Vice-Superintendente norte-americano
São muitos os que defendem que é mais
“Dinheiro que poderia ter sido gasto Dwight Presley não diria: “No Estado do
barato condenar à morte um “criminoso”
no fortalecimento da lei, em educação, Mississípi, cerca de 67% dos prisionei-
do que alimentá-lo uma vida inteira atrás
em hospitais ou noutra área”, sugere ros são pobres, com pouca educação e
das grades. Piers Bannister desconstrói o
Piers Bannister. Acrescentamos nós que negros”.
argumento, porque, na verdade, os cus-
poderia até ser usado para o efectivo
tos mais elevados estão no processo ju- Uma afirmação corroborada pelos nú-
combate ao crime violento e a assistên-
dicial. “Num sistema com pena capital meros: em 2009 o corredor da morte
cia às suas vítimas. “É isso que as pes-
há duas opções: a económica, como na norte-americano tinha 42% de negros
soas nos Estados Unidos da América
Arábia Saudita, onde não há julgamen- e 44% de brancos, quando a população
estão a começar a perceber devido aos
tos justos, ou como nos Estados Unidos se divide, segundo o Census de 2000, em
problemas económicos actuais”, diz o
12,9% de negros ou afro-americanos e
MÉTODOS DE EXECUÇÃO AINDA UTILIZADOS 87,1% de outros. Piers Bannister escla-
rece: “os afro-americanos estão sobre-
-representados no corredor da morte
em relação à sociedade, mas se
quisermos olhar para onde o sistema
é realmente racista, temos de ver os
números sobre quem é assassinado”.
Uma realidade que o Death Penalty In-
Enforcamento Apedrejamento Decapitação formation Center torna clara: dos casos
Estados que utilizam: Estados que utilizam: Afe- Estados que utilizam: que culminaram em pena capital, 77%
Egipto, Irão, Iraque, Japão, ganistão, Irão e Somália. Arábia Saudita. são pelo assassinato de brancos e ape-
Jordânia, Paquistão e nas 15% pela morte de negros. “É uma
Singapura.
questão de quanto vale a vida das víti-
mas”, garante Piers Bannister. Joaquín
José Martinez acrescenta que o trata-
mento no corredor da morte é também
muito diferente: “na placa [que tinha
ao peito] dizia «WH», ou seja, white/
branco”. E isso fazia a diferença.
Para além dos negros, outras minorias e
grupos raciais, étnicos ou religiosos têm
Electrocussão Injecção Letal Fuzilamento
Estados que utilizam: Estados que utilizam: China, Estados que utilizam: Afe- ao longo da História provado que a pena
Estados Unidos da América Estados Unidos da América ganistão, Bielorússia, China, de morte é discricionária. O que mui-
(Alabama, Arkansas, (em todos os 35 estados Coreia do Norte, Etiópia, tos de nós desconhece é que o dinheiro
Florida, Illinois, Kentucky, norte-americanos que Iémen, Somália e Vietname.
Oklahoma, Carolina do Sul, mantêm a pena de morte), pode, também, fazer a diferença entre
Saiba mais em www.amnistia-
Tennessee e Virgínia). Guatemala e Tailândia. internacional.pt (Aprender/ Revista a vida e a morte – mesmo nos chama-
da Amnistia Internacional) dos “Estados civilizados”. Joaquín José
Notícias • Amnistia Internacional 15

© Privado
Um manifestante pede a abolição da pena de morte frente a um Gabinete de Ligação Chinês na Região Administrativa Especial de Hong Kong.

Martinez, que esteve quatro anos no cor- silenciar a oposição. Fariba Amini, escri- Martinez, que hoje dá palestras em todo
redor da morte nos Estados Unidos da tora iraniana, denuncia esta realidade o mundo contra a pena de morte, já es-
América, esclarece: “o dinheiro ajuda no site iranian.com, num artigo traduzi- teve nos dois papéis: primeiro, no cor-
muito. Não tira ninguém de um corre- do pela revista Courrier Internacional em redor da morte e dois anos depois de
dor da morte se não for inocente, mas Janeiro: “Quer os réus sejam inocentes sair em liberdade um jovem de 17 anos
o que acontece, e eu conheço alguns ou culpados, a pena capital tornou-se atropelou e matou o seu pai. “Sincera-
casos, é que o dinheiro pode evitar a regra e não a excepção. Nos últimos mente, senti uma raiva e uma vontade
chegar lá”. Até porque os endinheira- tempos, é utilizada como táctica de in- de vingança que me fazia querer ir ter
dos podem contratar os melhores advo- timidação contra os presos políticos, com o rapaz e, quem sabe, matá-lo eu
gados, enquanto os mais pobres ficam para dissuadir outras pessoas de se mesmo. Inicialmente... É uma reacção
com os pouco experientes oficiosos. Piers lançarem em actividades subversivas” normal. Custou-me muito perdoar o ra-
Bannister complementa: “penso que leia-se, em tudo o que implica liberdades paz, mas vê-lo sofrer 100 vezes numa
não se encontra pessoas ricas no cor- fundamentais como a liberdade de ex- cadeira eléctrica não aliviaria a dor
redor da morte. A partir do momento da pressão. E também aqui, como prova o que sinto pela perda do meu pai. E já
detenção, quem és e os recursos que caso de Fariba Amini, a pena capital não passaram seis anos”.
tens fazem uma enorme diferença”. é dissuasora.
Piers Bannister, que contactou com

4.
Se tudo isto chegaria para compreender vários condenados à morte e com os
a selecção inerente à pena de morte, é familiares das suas vítimas, garante
importante perceber que esta não é sem- A ILUSÃO DE ESTAR A que muitos não querem a execução, até
pre aplicada ao mesmo tipo de crimes. FAZER JUSTIÇA por respeito ao seu ente querido. Marie
Para perceber isso basta pensar que en- Deans, cuja sogra foi assassinada em
Se havia leitores desta revista que de-
quanto países como Portugal discutem 1972, disse um dia: “após um homicí-
fendiam a pena de morte, esperamos
o casamento entre pessoas do mesmo dio, as famílias das vítimas enfrentam
que neste momento estejam, pelo menos,
sexo, outros, como a Arábia Saudita, o duas situações: uma morte e um crime.
pensativos. No entanto, acreditamos que
Irão e a Nigéria, punem as relações ho- Sabemos que a vingança não é a res-
muitos deixariam novamente de hesitar
mossexuais com pena capital. Nestes posta. É preciso reduzir a violência e
se a vítima de homicídio pertencesse
países é também comum executar os não causar mais mortes”. Joaquín José
à sua família. Uma vez mais, pedimos
dissidentes políticos, procurando assim Martinez acrescenta: “a execução iria
que não tenham ilusões. Joaquín José
16 Notícias • Amnistia Internacional

destruir outra família”, porque é pre- anos da nova namorada na DisneyWorld. “Toda a arrogância que tinha, perdi.
ciso não esquecer que os condenados Disse à ex-mulher, demasiado ciumenta, Jamais poderia imaginar que seria
são pessoas como todos nós, com pai, que tinha de trabalhar e que iria no dia condenado à morte”, recorda. A sen-
mãe, irmãos...A este propósito Piers seguinte. Esta, desconfiada, liga para o tença teve por base, acima de tudo,
Bannister recorda uma rapariga de 27 escritório e descobre o que Joaquín não duas armas legalizadas que usava para
anos que conheceu no Texas e que “es- quis contar. Cega pelos ciúmes, telefona fazer tiro ao alvo, que não eram as do

DEMASIADO NOVOS no corredor da morte no Irão por um Internacional. A 1 de Maio de 2009 a


PARA MORRER crime que confessou ter cometido para mãe recebe o telefonema desesperado
salvar o namorado, o verdadeiro culpado. da filha: “Vão executar-me. Por favor
Este era maior de idade, enquanto Delara salvem-me...”. A chamada, interrom-
tinha 17 anos na altura do crime e sabia pida, antecedeu o enforcamento que o
que executar jovens por homicídios co- mundo não conseguiu impedir. O mesmo
metidos quando têm menos de 18 anos aconteceu, desde 1990, em pelo menos
é, segundo a Convenção dos Direitos da nove outros países: a Arábia Saudita, a
Criança e o Pacto Internacional sobre os China, os Estados Unidos da América
Direitos Civis e Políticos, completamente (a última vez em 2003), o Iémen, o Irão,
© www.myspace.com/helpdelara proibido. a Nigéria, o Paquistão, a República
Democrática do Congo e o Sudão. Todos
Na Primavera de 2009 o mundo sensibi- Um dado que, no caso de Delara, não
eles assinaram pelo menos um dos refe-
lizou-se com a história de Delara Darabi demoveu as autoridades iranianas,
ridos tratados internacionais. E todos os
e uniu-se para impedir a sua execução. A nem com a mobilização mundial desen-
desrespeitaram.
jovem, de 22 anos, estava há seis anos cadeada pelos activistas da Amnistia

tava a poupar dinheiro para o funeral à polícia e diz que encontrou o culpado do crime; o testemunho da ex-mulher, que
do irmão, porque sabia que ia ser exe- crime que era procurado em cartazes por se voltasse atrás seria acusada de per-
cutado, quando devia estar a poupar toda a cidade. Domingo, 28 de Janeiro de júrio e perderia as filhas; uma gravação
para educação, para comprar uma 1996, Joaquín vai ver as filhas numa rá- pouco audível transcrita pelo famoso
casa ou para uma viagem à volta do pida visita, por ser dia de futebol. Entra FBI, onde Joaquín supostamente con-
mundo...” no carro para voltar a casa, onde o espe- fessa o crime; e a ligação entre o réu e
ram pizzas e muitos amigos. Em segun- Douglas Lawson, que tinha trabalhado

5. ERRAR É HUMANO dos é cercado por carros da polícia e por


um helicóptero, exactamente como nos
filmes, garante. Foi puxado e algemado
dois meses na mesma empresa que
Joaquín, embora este não o conhecesse.
Foi o suficiente para colocar mais um
Vários pensadores, como Alexander Pope, no chão, com as filhas ao fundo, ainda inocente num corredor da morte que
afirmaram durante séculos que “errar é pequenas, a chorar. Nunca mais voltou à deixou marcas irreparáveis. Saiu em
humano”. Hoje, iludidos por uma ideia casa que tinha. Nunca mais viu os mes- liberdade em 2001, graças a um advo-
de Justiça inabalável, estamos a esque- mos amigos. gado contratado, que descobriu que a
cer estes ensinamentos. É novamente gravação tinha sido transcrita pelo pai
Joaquín José Martinez que nos traz de Já no ano seguinte, Joaquín Martinez
de Douglas; a um novo Procurador do
volta à realidade, porque esta lhe bateu ouve o veredicto final: pena capital.
à porta quando tinha 24 anos. Separado
e pai de duas filhas, vivia o sonho ameri-
cano, com carros descapotáveis e di-
nheiro que permitia frequentar salas VIP
e estar rodeado de amigos. A 31 de Outu-
bro de 1995 a cidade onde vivia, Tampa,
na Florida, Estados Unidos da América,
acorda assombrada com o brutal assas-
sinato de Douglas Lawson, de 25 anos, e
da sua namorada Sherrie McCoy-Ward. A
polícia procura o culpado – até porque o
rapaz era filho do xerife – sem sucesso,
como, aliás, lhe era característico. No
início de 1996 a ex-mulher de Joaquín dá
à polícia o que esta precisava: um bode
expiatório.
Tudo começou a 27 de Janeiro, quando
Joaquín devia ir buscar as filhas para © Amnistia Internacional Portugal
passear, mas optou por passar o dia de Joaquín José Martinez quando em Outubro de 2009 esteve em Portugal a convite da secção portuguesa da Amnistia Internacional.
Notícias • Amnistia Internacional 17

Ministério Público, que não quis ouvir a O mesmo aconteceu – pensando só nos
facto há quase um século para as mu-
ex-mulher; e a uma campanha mundial democráticos Estados Unidos da Améri-
lheres e há mais de vinte anos para os
concertada pelo pai de Joaquín com a ca – a Cameron Todd Willingham, exe-
homens.
ajuda de organizações como a Amnistia cutado em 2004, a Gary Graham, morto
Internacional. no ano 2000, a Leo Jones (1998), a David Alguns, imbuídos de um fervor patriótico
Spence e Joseph O’Dell (1997), a Larry datado, poderão ficar muito enlevados
A sua história não é, infelizmente, caso
Griffin (1995), a Ruben Cantu (1993) e a no seu sentimento nacionalista por ter-
único. “Em 2001 era o 96.º a sair de
Carlos DeLuna (1989). Para todos eles foi mos sido dos primeiros a abolir (embora
um corredor da morte”, refere Joaquín.
tarde demais! Hoje, a Amnistia Interna- não o 1º país). Aí encontrarão um sinal
O Death Penalty Information Center
cional tenta que Troy Davis não seja mais comprovativo da nossa suposta natureza
acrescenta que desde 1973 mais de 130
um nome desta lista. Ajude-nos a impe- e dos brandos costumes. Não tendo feito
condenados à morte foram libertados
dir a sua execução. Saiba como em www. pesquisa histórica para poder assumir
porque se descobriu serem inocentes.
amnistia-internacional.pt (Aprender / certezas, considero (e numa perspectiva
Pondo de lado tudo o que Joaquín pas-
Notícias da Amnistia Internacional). comparada) que a abolição precoce da
sou na prisão, de que falámos no início (continua na pág.19)
pena de morte em Portugal, que me or-
deste artigo e que pode conhecer melhor
gulha como português, foi contudo fruto
em www.joaquinjosemartinez.com, a PENA DE MORTE EM PORTUGAL de um movimento lento e que, embora
sua libertação é até um sinal positivo, “O CADÁVER NÃO SE CORRIGE” haja sinais de alguma adesão popular,
mas nem todos têm a mesma “sorte”.
Por Luís Sottomaior Braga, do Grupo Lo- foi fruto de um movimento elitista.
Frank Lee Smith, um dos amigos que fez
cal 24 da Amnistia Internacional Portu- Há sinais contraditórios na análise de
na prisão, esteve 14 anos no corredor
gal e professor de História no ensino longa duração. Por um lado, podemos
da morte pela violação e assassinato
básico citar o historiador especializado em
de uma rapariga. Disse sempre estar
inocente. Em 2000, morreu sozinho na Em 5 de Julho de 1852, para os crimes temas penais, Luís Miguel Duarte, que
enfermaria da prisão pelo cancro que o políticos e, em 1 de Julho de 1867, para recorda numa passagem da sua tese de
consumia. O seu último pedido foi que os crimes civis, Portugal aboliu a pena doutoramento a anedota sobre Carlos V
as provas de ADN fossem revistas. A de morte que manteve, apenas, e com que, ao ler as Ordenações que faziam lei
tecnologia, agora mais avançada, per- natureza excêntrica (em situações de em Portugal, terá perguntado aos seus
mitiu provar que estava inocente e que o combate), para os crimes militares. A conselheiros como é que ainda havia
culpado pelo crime cumpria já uma pena abolição formal estabelecia-se como portugueses, se tanta coisa era punida
semelhante.

© AP/PA Photo/Stf

Um condenado à morte espreita pela sua cela nos Estados Unidos da América.
18 Notícias • Amnistia Internacional

com a pena de morte. Por outro, além É justo assinalar o papel individual que rogativas da vida e fechando a porta ao
da reacção popular emotiva aos casos certos elementos de elites culturais e arrependimento, apaga no coração do
de injustiça, que entrou nas lendas e políticas tiveram no processo: juristas, condenado toda a esperança de redenção
tradições (o galo de Barcelos nasceu de políticos liberais e escritores. No pouco e opõe à falibilidade da justiça humana
uma história sobre injustiça na conde- espaço disponível destaco Ayres de Gou- as trevas de uma punição irreparável”.
nação à morte, para não ir mais longe), veia, cuja frase que dá título a este texto “A pena de morte, assassínio particular
há, por exemplo, o sinal institucional sintetiza um ponto de vista e foi dita no respondido por um assassínio oficial”,
dos reis do período da Expansão que, ao dia em que o Parlamento produziu o re- como dizia Aires de Gouveia, “é ilegíti-
concederem poderes penais a coloniza- sultado de abolir a pena. O seu livro so- ma, desnecessária, inútil e absurda. O
dores (por exemplo, nas capitanias da bre a reforma das cadeias, que Camilo primeiro direito da sociedade é o da sua
Madeira, Açores e Brasil), reservavam a gozou sem apelo nem agravo, mas in- conservação. A sociedade nunca carece
condenação à pena de morte para a sua justamente, na sua Queda de um Anjo, de assassinar para se manter segura”.
tutela exclusiva como monarcas. foi um dos passos de sensibilização es-
A pena de morte resistiu na lei para os
sencial para o problema das penas e sua
A humanização e o caminho até à abolição crimes militares, sendo enfraquecida
aplicação no país.
são lentos e têm algumas voltas, até que num movimento de opinião pública, com
se intensificam, desde o último quartel Naturalmente que o movimento aboli- petições e protestos, em 1874, em que o
do século XVIII, em vários diplomas. O cionista foi uma tendência longa, que Rei D. Luís recusou que fosse aplicada
tempo histórico concreto marcou esta passou por 1 de Julho de 1772, data em a um militar que assassinara um oficial.
mudança. A situação humanizou-se logo que se executou a última mulher; por
A abolição total deu-se em 1911, logo se
após um empolamento da atrocidade, 1834, em que se fez a última execução
recuando para a restrição para o caso
especialmente em relação aos crimes por crime político; por 22 de Abril de
de guerra com o estrangeiro, por causa
de lesa-majestade, no tempo de D. José. 1846, data em que se terá executado, em
da 1ª Guerra Mundial em que, integra-
D. Maria, a filha desse monarca suavi- Lagos, o último homem. A partir de então,
dos numa Divisão Inglesa, um ou dois
zou as penas e aumentou os recursos a pena de morte foi morrendo até à sua
soldados portugueses foram sujeitos à
dos condenados. O espectáculo cruento e execução final, no Parlamento, por acção
dizimação com que os generais britâni-
triste dos Távoras a serem mortos, frente de decisores que a ela se opuseram.
cos resolviam motins e revoltas1.
ao Palácio de Belém (sua antiga casa), à
Houve, claro, efeitos da acção do Enci-
pancada, deitados na roda, deixou mar- O facto é que a longa Ditadura posterior
clopedismo, do Iluminismo ou do Hu-
cas no olhar público e, conjugadas com nunca foi adepta da reintrodução, para
manitarismo mas o processo nacional
a influência do pensamento Iluminista, lá da esfera militar, tendo chegado a
tem as suas particularidades. Uma delas
caiu em desuso o abuso dos tormentos haver debates na então Assembleia Na-
(em que realmente fomos pioneiros) foi a
e das mutilações. Contudo, na primeira cional em que figuras gradas do regime
via constitucional de abolição.
metade do século XIX os sucessivos pro- assumiam, e com vigor, a recusa da ideia
jectos de reforma da lei penal e as Cons- Na proposta governamental da reforma de voltar a ter a pena que alguns radi-
tituições de 1822 e de 1838 e a Carta constitucional apresentada em Janeiro cais defendiam (por exemplo, em 1937
Constitucional de 1826, não eliminavam de 1852 não figurava a abolição da pena o debate fez-se por causa de atentados
a pena de morte, que foi mantida no pro- de morte, porque o Governo queria que contra Salazar que motivaram alguns
jecto e no Código Penal de 1852. Aliás, constasse de uma lei ordinária. a defender que quem os fazia devia ser
no Miguelismo a pena de morte teve um executado). A guerra colonial não susci-
Porém, em 10 de Março de 1852, os De-
recrudescimento de que foram vítimas os tou mudanças na política oficial e não há
putados Rodrigues Cordeiro (por Leiria) e
mesmos grupos liberais que depois, no notícia de execuções formais de milita-
Mendes Leal (por Aveiro) apresentaram
poder, promoveram a sua abolição. res2.
uma proposta de aditamento ao artigo
Assim, da peculiar história portuguesa, 16.º do Acto Adicional à Carta, abolindo E Portugal tem ainda um crédito histórico
podem tirar-se uma ou duas conclusões a pena de morte para os crimes políti- nesta matéria: todos os países de língua
para o activismo de hoje. A abolição cos, que acabou aprovada. Aí se iniciou portuguesa já aboliram as execuções e
acaba por ser um processo não linear um largo processo de discussão entre até em território chinês, o país em que
(com avanços e recuos) em que, mais juristas com propostas e contrapropos- mais se executa, há uma parcela (Ma-
ou menos lentamente, se vai reduzindo o tas sobre o tema mas foi o Ministro da cau) em que deixámos a excepção.
âmbito do problema. Abolir não foi uma Justiça e professor em Coimbra, Barjona
decisão repentina de um génio individual de Freitas quem expôs, na sessão de 28 1. A este propósito vejam-se as acções de acti-
ou nacional, foi um processo. Às tantas, de Fevereiro de 1867, a proposta da re- vismo para o perdão de ingleses, australianos e
como somos um país velho tivemos mais forma penal e prisional que, no artigo 1.º, neozelandeses, mortos injustamente, que ainda
hoje correm na Internet (o termo de pesquisa pode
tempo para fazer o caminho e chegámos continha, a abolição da pena de morte. ser “shot at dawn”).
mais cedo ao fim. A outra conclusão é Segundo o relatório do proponente, a 2. Naturalmente, se falarmos de execuções ex-
que, apesar do contexto do nosso tempo pena “paga o sangue com o sangue, trajudiciais, não poderíamos dizer o mesmo visto
mata, mas não corrige, vinga, mas não que, entre outros ressaltaria logo o caso de Hum-
ser outro, a abolição não foi um movi- berto Delgado, claramente sujeito a um acto desse
mento de massas. melhora, e, usurpando a Deus as prer- tipo.
Notícias • Amnistia Internacional 19

SERÁ A PRISÃO PERPÉTUA


ALTERNATIVA?
O trabalho da Amnistia Internacional pelo
fim da pena de morte tem feito com que
a prisão perpétua não seja até hoje uma
alternativa posta de lado, desde que exis-
ta a possibilidade de revisão da pena,
não podendo esta forma de punição ser
automaticamente sinónimo de uma vida
inteira atrás das grades. Tal seria uma
violação grave ao Pacto Internacional
sobre os Direitos Civis e Políticos, que © Amnistia Internacional Portugal
no artigo 10.º indica: “o regime peni- Nicolas Bento chegou a Portugal no Verão passado, depois de viver um verdadeiro pesadelo.
tenciário comportará tratamento dos
reclusos cujo fim essencial é a sua montar ao ano de 2005. Nicolas Amilton por terra quando o juiz leu a condenação:
emenda e a sua recuperação social”. Bento fora sempre um rapaz aventureiro, prisão perpétua. Momentos dramáticos
viajando de país em país em busca da que Nicolas relata no livro que ajudou
Se tal possibilidade não estiver prevista, felicidade. Encontrou-a em Bedford, a a jornalista Patrícia Lucas a escrever:
a prisão perpétua pode ser entendida 200 quilómetros de Londres, onde co- Innocente, Not Guilty, editado pela Ofi-
como uma forma de tratamento cruel, nheceu a polaca Kamilla Garsztka e en- cina do Livro.
desumano ou degradante, proibida pelas controu um emprego bem remunerado
normas internacionais de Direitos Huma- O que condenou o português Nicolas
numa farmacêutica. Um quadro que
nos. O português Nicolas Bento, que es- Bento foi bem menos do que o que colo-
mudou radicalmente a 13 de Dezembro
teve condenado a prisão perpétua, pode cou Joaquín José Martinez no corredor da
de 2005, quando Nicolas tinha 26 anos.
comprovar isso como ninguém: “todos morte: uma última imagem de Kamilla,
Num dia como tantos outros, voltou a
os dias via um homem enforcado”, diz. de má qualidade, captada pela câmara
casa depois do trabalho e a namorada,
Joaquín José Martinez, que esteve con- de vigilância da ponte por cima do lago
que tinha passado lá a noite anterior,
denado à morte, acrescenta: “dar esta de Bedford. Na imagem, garantiu Casey
deixara a sua mala branca com tudo lá
punição a um jovem de 18 anos é toda Caudle – um perito forense mandado vir
dentro. “Em Inglaterra andamos sem-
a sua vida. E isto pelo mesmo crime de Las Vegas, Estados Unidos da Améri-
pre com os documentos, porque é um
cometido por outra pessoa que tem 50 ca, pela polícia de Bedford –, Kamilla
país com muita imigração e a polí-
ou 60 anos e que ficará uns 40 anos na levava a mala branca que Nicolas en-
cia anda sempre em cima”, ressalva
prisão. É injusto”. tregara, preocupado, às autoridades. Os
Nicolas na conversa com o “Notícias da
advogados, oficiosos, disseram que nada
Amnistia Internacional Portugal” que
NÃO ACONTECE SÓ AOS OUTROS havia a fazer e os meios de comunicação
decorreu em Lisboa. Começou então uma
ingleses não hesitaram em publicitar “o
Joaquín José Martinez esteve em Portugal longa busca por Kamilla, sem grande
monstro português”. Foi um pesadelo
no ano passado, a convite da secção por- ajuda da polícia, que só termina a 24 de
que durou “dois anos, quatro meses, 25
tuguesa da Amnistia Internacional, para Janeiro de 2006 quando o seu corpo apa-
dias e aproximadamente seis horas”,
falar sobre esta violação grave ao Direito rece a boiar no lago de Bedford.
diz Nicolas Bento sem sequer pestanejar.
à Vida, consagrado há 61 anos na Decla- Como acontece com qualquer morte Em Março de 2009 é colocado em prisão
ração Universal dos Direitos Humanos. ocorrida num país estrangeiro, seguiu- domiciliária e em Julho é libertado num
Às centenas de pessoas que o quiseram -se a pesarosa transladação do corpo segundo julgamento.
ouvir dizia que em Espanha [país de ori- e a preparação do funeral, que ocorreu
gem do seu pai e onde hoje vive] ninguém Tal como aconteceu a Joaquín, no caso
na Polónia. Quando Nicolas regressa a
falava de pena de morte até terem cinco de Nicolas muitas coisas tinham ficado
Inglaterra espera-o o início de um verda-
espanhóis condenados à pena capital por investigar. Foram “apenas” precisos
deiro pesadelo. Primeiro, horas seguidas
noutros países. E com isto alertava: pode mais de 50 mil euros para os honorários
de interrogatório, onde “havia alturas
acontecer a qualquer um! Um aviso que do prestigiado advogado britânico Peter
em que pedia a Deus: batam-me, que
tinha, nesse mesmo ano, ficado cravado Hughman, que pediu o que era básico: a
é melhor, porque os maus tratos psi-
na pele do português Nicolas Bento, que reconstituição do crime. Foi preciso es-
cológicos magoam mais”, recorda.
só não esteve condenado à morte porque perar por um dia semelhante de Dezem-
Depois, o julgamento, que começou em
foi julgado com a mais grave condena- bro, agora de 2008, para que uma mu-
Novembro de 2006 e terminou a 25 de
ção num país que não tem pena capital: lher vestida com as roupas de Kamilla
Julho de 2007. Desse tempo, que nunca
o Reino Unido, que colocou um inocente fizesse o mesmo percurso, agora com a
vai esquecer, diz: “sempre pensei que
em prisão perpétua (ver mais na caixa mala branca ao ombro. No vídeo, esta
era um mal entendido e que se ajudas-
“Será a prisão perpétua alternativa?”). reluz como um pirilampo. Antes mesmo
se tudo se resolvia. Afinal, Inglaterra é
da reconstituição ser feita, descobre-se
Para perceber tudo isto é preciso re- um país modelo”. Uma ilusão que caiu
que Casey Caudle não tinha sequer ter-
20 Notícias • Amnistia Internacional

minado os estudos forenses. O visado mente, a todos os cantos do mundo, com da Foz, Guimarães, Lajes do Pico, Lou-
suicidou-se pouco depois. Com a recons- a iniciativa “Cidades para a Vida – Ci- res, Matosinhos, Moita, Nelas, Odivelas,
tituição como nova prova, o julgamento dades Contra a Pena de Morte”, que se Ovar, Paredes, Reguengos de Monsaraz,
de Nicolas é marcado para 14 de Julho de assinala a 30 de Novembro. Desde 2002 Santarém, Setúbal, Tavira e Torres Ve-
2009 e dias depois o português aterra na que a Coligação Mundial Contra a Pena dras. Juntaram-se assim a 1.164 outras
sua Pátria. Hoje garante: “no meu caso de Morte, da qual a Amnistia Internacio- cidades de 81 países do mundo. A todas,
não houve enganos, mas um trabalho nal faz parte, promove esta iniciativa da o nosso obrigado!
grande para que fosse condenado”. Comunidade de Sant’Egidio, que pre-
Quer, por isso, pedir justiça ao Tribunal tende assim distinguir o dia da abolição
Europeu dos Direitos Humanos. Para isso da pena de morte pelo primeiro Estado O QUE PODE FAZER
precisa da sua assinatura. Visite http:// europeu (existente na altura), o Grão- Para acabar com a pena de morte ainda
www.thepetitionsite.com/136/justice- Ducado da Toscana, em Itália, no ano de precisamos da sua ajuda! Venha fazer par-
for-nico-bento. 1786. Neste dia, as autarquias de todo te do Grupo da Pena de Morte da Amnistia
o mundo iluminam um edifício público Internacional Portugal escrevendo para:
ou um monumento histórico em sinal de ai.contrapenademorte@gmail.com
CIDADES PORTUGUESAS UNIDAS condenação pelo uso da pena capital. ou ligando 213 861 652. Pode ainda visi-
CONTRA A PENA DE MORTE Em 2009 foram 19 as cidades portugue- tar o blogue http://contrapenademorte.
Todos os anos, a luta para acabar com a sas que deram o exemplo: Benavente, wordpress.com e participar nas petições
pena de morte pretende chegar, literal- Castro Verde, Coruche, Évora, Figueira que lhe propomos.
Notícias • Amnistia Internacional 21

Nesta edição do “Notícias da Amnistia Internacional Portugal” apresentamos a análise da situação


financeira da secção portuguesa da organização
Por Departamento de Angariação de Fundos e Financeiro

RECEITAS E DESPESAS 2009 AI em Londres, para além da já anunciada volver novos métodos de angariação de
Apresentamos os valores de receita e amortização total do empréstimo con- fundos. Para além destas áreas, é nossa
despesa referentes ao ano de 2009. traído ao SI em 2006, no valor de 230.000 prioridade manter uma gestão financeira
euros. Assim, este ano destacou-se por responsável e rigorosa.
Tal como se pode observar na tabela 1, a
Amnistia Internacional (AI) Portugal ob- uma importante consolidação financeira
teve um saldo positivo em 2009, no valor da secção. RECEITA 730.131,57 €
total de 89.128,25 euros. Tendo em conta Em 2010 pretendemos manter estraté- DESPESA 641.003,32 €
a situação financeira, a secção liquidou gias de fidelização, uma comunicação SALDO 89.128,25 €
a dívida congelada que mantinha ao interna eficaz, promover o activismo junto
Secretariado Internacional (SI), sede da dos nossos apoiantes e membros e desen- TABELA 1 - Receitas e Despesas - 2009

PROJECTO FACE TO FACE


Após finalizado o quarto ano de realiza- projecto), as equipas de colaboradores nas equipas do projecto: basta enviar o
ção do projecto de rua “Face to Face”, da Amnistia Internacional percorreram seu Curriculum Vitae para d.jeronimo@
em 2009 inscreveram-se 2.884 novos mais de 10 cidades do país. Após a amnistia-internacional.pt.
apoiantes e membros que contribuem pausa em Janeiro de 2010, regressámos
mensalmente com donativos para a AI. às ruas de Lisboa e Coimbra no dia 22
Durante oito meses (duração anual do de Fevereiro. Pode vir colaborar connosco

EVOLUÇÃO DE MEMBROS E
APOIANTES 15.000
12.464
11.378
A Amnistia Internacional (AI) terminou 11.250
8.132
o ano de 2009 com 12.464 apoiantes e
7.500
membros activos, uma subida de 8,7%
4.101
relativamente ao ano anterior. Neste total 3.750
de apoiantes e membros, 10.365 pessoas 1.777
chegaram a nós através do Projecto “Face 0
to Face” (ver texto anterior), mantendo o Ano 2005 Ano 2006 Ano 2007 Ano 2008 Ano 2009

seu apoio e contributo regulares a esta


causa. GRÁFICO 1: Total de Membros e Apoiantes activos da AI Portugal entre 2005 e 2009.

Para além deste método de angariação


de fundos, a AI desenvolveu diversas através do envio de apelos urgentes e da implique qualquer custo (pois refere-se à parte do
presença nas acções nacionais e locais. valor de imposto liquidado que paga ao Estado).
acções em 2009, como formas de explorar A maioria dos portugueses não tem conhecimento
alternativas de crescimento financeiro. Visite o site e participe: www.amnistia- que pode dar um destino precioso a parte do seu
Exemplo disso foram as campanhas internacional.pt, como e quando quiser! imposto liquidado. Mas é muito simples: basta
com a Payshop (serviço dos CTT), com os colocar o NIF da Amnistia Internacional (501 223
Magnolia Cafés, com o Montepio (Cartão DÊ À AMNISTIA INTERNACIONAL 738) no Campo 9, do Anexo H do seu impresso do
IRS e vai fazer a diferença, a custo zero!
“+ Vida”) e a campanha do IRS. A todos 0,5% DO SEU IRS, A CUSTO
Visite o vídeo/site da campanha: www.irs2009am-
os que apoiaram a AI, das mais diversas ZERO! nistia.com.
formas, obrigado por participarem nes- Anexo H * Campo 9 * 501 223 738
ta causa comum. Para além dos fundos Em 2009, contámos com o seu apoio
Lembramos que todos os contribuintes podem
angariados, é para nós uma prioridade consignar 0,5% do seu IRS (Lei n.º 16/2001, 22 na Defesa dos Direitos Humanos.
manter activa a participação de todos, de Junho) à Amnistia Internacional, sem que isso Obrigado!
22 Notícias • Amnistia Internacional

MORTALIDADE MATERNA - Morrer em Vão


A falha sistemática dos governos em considerar os direitos das mulheres e jovens com seriedade inibe
acções decisivas numa abordagem à mortalidade materna, que rouba uma nova vida a cada minuto que
passa
Por Sara Coutinho

dos, quer por questões financeiras, por educação. Muitos destes problemas de-
má distribuição geográfica dos serviços, morarão décadas a ultrapassar. Em con-
por falta de instalações preparadas para trapartida, as preocupações de Direitos
receber as mulheres e jovens, quer por Humanos associadas à recente decisão
mera falta de informação. de proibir totalmente a prática do aborto
poderiam, em larga escala, ser resolvi-
No entanto, os problemas que estão na
das de forma rápida e fácil.
origem do grave desrespeito pelo direito
das mulheres à vida são muito mais gene- Neste país, o aborto é crime em todas
ralizados: discriminação institucional; as circunstâncias. O novo Código Penal
casamentos forçados ou precoces; obs- introduzido em 2008 possibilita longas
táculos culturais, sociais ou económicos penas de prisão para mulheres e jovens
no acesso à saúde; falta de acesso a in- que procurem abortar e para profissio-
formação sobre planeamento familiar ou nais de saúde que providenciem serviços
© Anna Kari métodos contraceptivos; ou a ausência de aborto e cuidados de conservação da
Ramatoulaye, de 25 anos, deu à luz o seu quarto filho à beira do do simples e natural controlo da mulher vida e da saúde das mães quando es-
rio, porque o barqueiro que a podia levar para a outra margem,
onde está o Centro Médico, não estava disponível. sobre o seu próprio corpo são factos que tes ponham o feto em risco. A proibição
contribuem para uma elevadíssima taxa
A mortalidade materna é o terceiro pon-
to-chave da nova campanha da Amnis-
de mortalidade materna que, há mais de “As mãos dos médicos es-
tia Internacional, “Exija Dignidade”, e o
duas décadas, não sofre reduções ex- tão atadas... Temos medo
pressivas. mesmo quando estamos
último que faltava abordar no Notícias
da Amnistia Internacional Portugal. Foi Esta preocupação da Amnistia Interna- simplesmente a tratar um
adoptado como tema prioritário por se cional relativamente à saúde materna aborto espontâneo”
tratar de uma clara violação dos direitos é partilhada pelas Nações Unidas que Médico nicaraguano, entrevistado pela
da mulher à vida e à saúde, que está di- na sua Campanha do Milénio–Objectivo Amnistia Internacional em Outubro de
rectamente relacionada com o aumento 2015, aponta como quinta meta, de oito, 2008.
da pobreza. a redução da taxa de mortalidade ma-
terna em 75% até ao ano de 2015. impõe-se mesmo em diagnósticos de
De mais de meio milhão de mulheres que cancro, VIH/SIDA e malária. Antes des-
morre todos os anos por complicações Dois dos piores cenários mundiais na ta alteração à lei, o aborto terapêutico
relacionadas com a gravidez ou o parto, questão da mortalidade materna são as constituía uma prática legal, legítima e
95% são pobres e provêm de países sub- situações actualmente vividas na Nica- um procedimento médico necessário há
-desenvolvidos. Esta é uma realidade que rágua e na Serra Leoa. mais de 100 anos.
não pode ser ignorada, principalmente
por se saber que as complicações que A proibição não prevê qualquer excepção.
podem surgir durante uma gravidez, ain- NICARÁGUA E A PROBLEMÁTICA Aplica-se mesmo em situações em que
da que imprevisíveis, são tratáveis, e as DO ABORTO a continuação da gravidez põe em risco
suas consequências incapacitantes, pas- a vida ou saúde da mulher ou jovem e
A Nicarágua enfrenta vários desafios na quando a gravidez é resultado de uma
síveis de serem prevenidas. batalha contra a pobreza, malnutrição, violação. A lei aplica-se inclusive a jo-
As principais causas da mortalidade doença, desemprego e a necessidade vens menores de 18 anos. Num país onde
materna prendem-se com a dificuldade urgente de melhorar o acesso a serviços 50% das violações sexuais são perpetra-
de acesso a cuidados médicos adequa- básicos como os cuidados de saúde e a das sobre jovens e um terço destas en-
Notícias • Amnistia Internacional 23

gravida na sequência destes episódios, a


proibição total do aborto é, sem margem
para dúvida, um dos principais catalisa-
dores da taxa de mortalidade materna.
As mulheres e jovens da Nicarágua que
engravidem como resultado de uma
violação ou incesto não têm qualquer
opção a não ser levar a gravidez até ao
fim ou procurar abortos ilegais e inse-
guros. Para as mulheres ou jovens com
situações económicas estáveis, é viável
procurar outras soluções fora do país ou
mesmo dentro do país, com condições © Amnistia Internacional
Uma maternidade na Serra Leoa, à qual nem todas as mulheres conseguem chegar a tempo de se salvarem.
não tão precárias como aquelas que es-
tão à disposição de quem vive em situa- cando que as milhares de mortes que se é crucial no esforço de reduzir as taxas
ção de pobreza. Para aquelas que vivem registam todos os anos são evitáveis. No de mortalidade materna e é um direito
abaixo do limiar da pobreza, esta não é entanto, menos de 42% dos partos são humano. As evidências comprovam que
uma possibilidade sequer. assistidos por profissionais preparados e as intervenções que contribuem mais
menos de um em cada cinco partos são para a redução da taxa de mortalidade
87% das jovens que engra- realizados em instalações médicas. Em materna são: a prestação de cuidados
vidam como resultado de pelo menos seis dos 13 distritos do país adequados no parto, cuidados obstétri-
violação ou incesto têm en- não existem quaisquer cuidados obsté- cos de emergência e uma interligação
tre 10 e 14 anos de idade tricos de emergência. eficaz destes cuidados com o planea-
mento familiar.
Os cuidados médicos são inacessíveis
A Amnistia Internacional reconhece a para a maioria da população também As mulheres têm direito a cuidados
importância do anúncio feito pelo go- pelos custos que acarretam. Uma vez médicos que podem salvar as suas vidas
verno da Nicarágua de que iria aliviar a que as taxas de utilização são cobra- ou prevenir consequências graves e os
pobreza e reduzir a mortalidade materna. das de forma arbitrária e imprevisível, governos são os principais responsáveis
É precisamente neste contexto que nos o medo de poder ter que assumir custos pela prestação destes serviços, pelo que
concentramos sobre a questão da proi- insuportáveis inibe muitas mulheres de deveriam ser responsabilizados sempre
bição total do aborto neste país, conside- procurarem os serviços médicos. Como que não cumprirem com as suas obriga-
rando que esta marca um grande desvio resultado, o número relativamente àque- ções. E, enquanto cidadãos, é também
face aos compromissos do governo para las que, efectivamente, recorrem a estes uma responsabilidade nossa garantir
com o melhoramento da igualdade so- serviços é extremamente baixo. que isso acontece.
cial e dado que tem consequências tão
graves para a protecção dos Direitos Hu- Além dos custos acrescidos, das própri-
manos das mulheres e jovens. as incapacidades e condições precárias SAIBA MAIS
dos serviços de saúde, estes estão mal
A Amnistia Internacional realizou dois
distribuídos geograficamente, sendo a
relatórios, um sobre a situação na Nica-
SERRA LEOA – A MAIS ALTA TAXA distância média entre as populações e
rágua, outro sobre a Serra Leoa. “Nicara-
DE MORTALIDADE MATERNA as instalações médicas de 18 quilóme-
gua: The total abortion ban in Nicaragua:
tros. Facto que, aliado a terrenos muito
Na Serra Leoa morrem milhares de mu- Women’s lives and health endangered,
acidentados e à ausência de uma rede
lheres e jovens todos os dias como resul- medical professionals criminalized” e
de estradas, fazem da necessidade de
tado de complicações na gravidez e no “Sierra Leone: Out of Reach: The cost of
chegar a um hospital um autêntico per-
parto possíveis de tratar. A maioria morre maternal health in Sierra Leone” estão
curso de obstáculos.
nas suas casas. Algumas não sobre- disponíveis em www.amnistia-interna-
vivem à viagem até ao hospital, perecen- O acesso a cuidados médicos adequados cional.pt (Aprender / Revista da Amnis-
do em táxis, motas ou a pé. Mesmo que tia Internacional)
consigam chegar aos cuidados médicos, “Ainda estou com dificul-
muitas não recebem o tratamento ne- dades para pagar a dívi-
cessário para salvar a sua vida. Neste da que contraí por levar O QUE PODE FAZER
país, uma em cada oito mulheres morre Adama ao hospital e por A Amnistia Internacional vai apelar às
como resultado de complicações durante pagar medicamentos” autoridades da Nicarágua para que
a gravidez ou parto. Marido de Adama Kamara, mãe de três revoguem, de imediato, a lei que crimi-
crianças, que acabou por falecer em naliza o aborto em qualquer situação.
As principais causas directas da morta-
casa por não dispor de meios para per- Participe enviando o postal que encontra
lidade materna na Serra Leoa são, na sua manecer no hospital. na parte central desta revista.
esmagadora maioria, tratáveis, signifi-
24 Notícias • Amnistia Internacional

GRUPO LOCAL 34/MATOSINHOS - A ultrapassar obstáculos pelos Direitos Humanos


Nesta edição do “Notícias da Amnistia Internacional Portugal” viajamos até à cidade de Matosinhos para
conhecer o Grupo Local 34
Por Diana da Silva Antão

justiça às vítimas dessas violações.


Neste sentido, o Grupo Local 34 recebe
na sua sede pessoas que se encontrem
nesta situação. “A sede não está sem-
pre aberta, no entanto, temos sistema
de marcação para quem necessita de
ajuda”, informa Otília Reizinho.
Apesar de todo o empenho do Grupo, a
antiga Coordenadora confessa que “por
© Grupo Local 34/Matosinhos
vezes é difícil sensibilizar para os Di-
O grupo durante a montagem de uma exposição sobre a Amnistia Internacional. reitos Humanos em meios pequenos”.
No entanto, a “possibilidade de agir e
De um grupo de amigos preocupados feedback é sempre positivo e é através
intervir na defesa dos Direitos Huma-
com os Direitos Humanos, nasceu o Nú- dele que sabemos que chegamos às
nos” é compensadora, diz Américo Frei-
cleo de Matosinhos da Amnistia Interna- pessoas”.
tas, Secretário do Grupo. Já o Assessor
cional. Com o objectivo de sensibilizar
Além das actividades dirigidas a uma para a Comunicação Social, Eduardo
a população da cidade para este tema,
audiência abrangente, o Grupo também Coelho, acrescenta que participar numa
mas ciente das dificuldades que enfren-
promove acções em escolas. No entanto, estrutura da Amnistia Internacional é
taria, o Núcleo fundado em 2007 cres-
nem sempre foi fácil chegar aos mais “termos a possibilidade de contactar
ceu e lutou para divulgar as causas da
jovens, conta Otília Reisinho. “Tivemos com pessoas e podermos partilhar um
Amnistia. Após dois anos de trabalho e
dificuldade em entrar nos estabeleci- interesse que nos é comum: a Defesa
dedicação aos Direitos Humanos, passou
mentos de ensino de Matosinhos e dos Direitos do Homem”. Por tudo isto,
recentemente a Grupo Local 34/Matosi-
trazer esse público até nós. Começá- a agora Vice-Coordenadora do Grupo,
nhos. Conferências, debates e tertúlias
mos a fazer acções dentro dos au- Otília Reisinho, deixa o convite: “Se quer
sobre temas tão variados como o Tráfico
ditórios e inicialmente não obtivemos dedicar parte do seu tempo aos Di-
de Seres Humanos, a Discriminação ou a
resultados, no entanto, agora são as reitos Humanos, o ideal é vir trabalhar
violação aos Direitos Humanos na China,
escolas que nos ligam a pedir colabo- com o Grupo de Matosinhos”. Junte-se
são apenas alguns exemplos das inicia-
ração. Essa barreira foi ultrapassada”. ao Grupo Local 34. Ajude-nos a lutar pe-
tivas promovidas.
As acções de rua também se revelaram los Direitos Humanos!
O Grupo aposta na comunicação social até hoje compensadoras, tendo sido re-
para divulgar as suas acções e conta colhidas, em média, 200 assinaturas em
com a receptividade da imprensa local, cada petição realizada, um número com
de alguns jornais nacionais e do Porto impacto tendo em conta a realidade por- FICHA TÉCNICA
Canal. O blogue do Grupo, que pode tuguesa. Grupo Local 34/ Matosinhos
visitar em http://nucleodematosinhos.
Contudo, o trabalho deste Grupo não fica
blogspot.com/, é também um meio de Coordenadora: Teresa Calisto
por aqui. Na sua comunidade promove a
divulgação. “Tentamos que o nosso Local de encontro: Sede em Leça da
criação de outras associações envolvidas
trabalho seja virado para o exterior e Palmeira
na defesa dos Direitos Humanos, ajudan-
que chegue a públicos variados”, ex- Periodicidade das Reuniões: Quinzenal,
do assim a suprimir importantes lacunas
plica Otília Reisinho, que coordenou o às quartas-feiras com início às 22h
locais. Por último, não podemos esquecer
Grupo Local 34 até ao início deste ano. Contacto: amnistia.matosinhos@gmail.
o principal objectivo da Amnistia Inter-
Acrescenta ainda que a população adere com ou 935 180 218
nacional e deste Grupo: lutar contra os
às iniciativas promovidas na cidade: “o
abusos aos Direitos Humanos e trazer
Notícias • Amnistia Internacional 25

AMNISTIA INTERNACIONAL PORTUGAL REAVALIADA GRUPOS E NÚCLEOS DA AMNISTIA INTERNACIONAL


(grupo, localidade, coordenador, email, blogue)
Nos últimos anos, a secção portuguesa da Amnistia Internacional
tem feito questão de realizar um exercício de avaliação de desem- GRUPO LOCAL 01 (Lisboa)
Coordenador a designar: grupo1.aiportugal@gmail.
penho. Foi o que aconteceu neste início de 2010 com; http://grupo1aiportugal.blogspot.com/
GRUPO LOCAL 03 (Oeiras)
Lucília José Justino: zjustino@gmail.com
A 30 de Janeiro a sede da Amnistia Internacional Portugal reuniu elementos da Assem- GRUPO LOCAL 06 (Porto)
bleia Geral, da Direcção, funcionários, estagiários, voluntários e membros para mais Virgínia Silva: aiporto6@gmail.com; http://aiporto.
um exercício de Auto-Avaliação de Desenvolvimento Organizacional, conhecido pela si- blogspot.com
GRUPO LOCAL 14 (Lourosa)
gla inglesa OSSA. Valdemar Mota: aigrupo14@gmail.com
O convite à participação tinha sido enviado a todos que estão de alguma forma ligados GRUPO LOCAL 16 (Ribatejo Norte)
ao movimento, para que as opiniões fossem variadas. Compareceram 16 pessoas, que Yvonne Wolf: yvonne_wolff@adsl.xl.pt
guiadas por uma facilitadora apontaram os pontos fortes e fracos de várias áreas da GRUPO LOCAL 18 (Braga)
José Luís Gomes: ai18portugal@hotmail.com
Amnistia Internacional: o Programa e a sua implementação, a Organização Interna e as GRUPO LOCAL 19 (Sintra)
Relações Externas. Fernando Sousa: ai.grupo19@gmail.com; http://blog-
Mais do que ser o Notícias da Amnistia Internacional Portugal a relatar o aconteci- 19.blogspot.com ; http://grupo19aisp.no.sapo.pt
GRUPO LOCAL 24 (Viana do Castelo)
mento, fomos tentar perceber o que este representou para os participantes, que, em- Luís Braga: luismbraga@sapo.pt
bora poucos, deram contributos muito importantes para que a Amnistia Internacional GRUPO LOCAL 32 (Leiria)
Portugal continue a crescer e se torne cada vez mais forte na luta pelos Direitos que são Maria Fernanda Ruivo: fernanda.ruivo@sapo.pt
GRUPO LOCAL 33 (Aveiro)
de todos nós, Seres Humanos! Alexandra Monteiro: amnistiaveiro@gmail.com;
http://amnistiaveiro.blogspot.com/
GRUPO LOCAL 34 (Matosinhos)
“Esta foi uma rara oportunidade de, em programáticas, nomeadamente quando Teresa Calisto: amnistia.matosinhos@gmail.com;
simultâneo: exercer um direito de cidada- as apresentam à Assembleia Geral. Este http://nucleodematosinhos.blogspot.com/
nia, consagrado na Constituição; contribuir OSSA foi muito focalizado no trabalho do
para a vida activa e a transparência das staff. Foi, por isso, mais exaustivo quanto NÚCLEO DE ALMADA
organizações da sociedade civil; partici- às tarefas que cabem aos colaboradores Marlene Oliveira da Conceição: ai.nucleoalmada@
gmail.com; http://ai-nucleoalmada.blogspot.com/
par num dos mais importantes movimentos contratados, que passaram, também, a de- NÚCLEO DE ARCOS DE VALDEVEZ
globais de cidadania, a Amnistia Interna- sempenhar um papel muito relevante nas Rui Mendes: rbritomendes@gmail.com
cional. Contudo, o que mais me sensibi- estruturas de um movimento de Direitos NÚCLEO DE CASTELO BRANCO
lizou foi este “exercício” de participação, Humanos, mais alargado nos seus objecti- (a designar): ai_nucleo_castelobranco@yahoo.com;
aliás, ainda invulgar no nosso país, onde a vos e, necessariamente, mais actualizado, http://amnistiacastelobranco.blogspot.com/
NÚCLEO DE CRIANÇAS (Vila Nova de Famalicão)
autocrítica colectiva tem como objectivo exigente e menos amador nos meios e Vitória Triães: aip.ibeji@gmail.com
ajudar-nos a crescer, como: indivíduos, or- eficácia da sua acção no mundo e em cada NÚCLEO DE ESTREMOZ
ganizações e sociedade”. país”. Maria Céu Pires: amnistiaetz@gmail.com
NÚCLEO DE GUIMARÃES
Álvaro Fernandes, apoiante e voluntário da Amnis- Maria Ângela Pires, Presidente da Mesa da As-
Cristina Lima: amnistia.guimaraes@gmail.com
tia Internacional Portugal sembleia Geral da Amnistia Internacional
NÚCLEO DO OESTE / CALDAS DA RAINHA
Teresa Mendes: ai.nucleooeste@gmail.com; http://
aioeste.blogspot.com
“É um excelente exercício de auto-ava- “O OSSA foi, inquestionavelmente, dos exer- NÚCLEO DO PORTO
liação que permite a participação de um cícios de auto-avaliação mais positivos e André Rubim Rangel: nucleo.ai.porto@gmail.com
construtivos em que participei pois é uma NÚCLEO DE TORRES VEDRAS
leque amplo de pessoas - órgãos sociais, Ana Lopes: aitorresvedras@gmail.com; htp://blog.
funcionários, voluntários, estruturas e experiência que traz grande aprendizagem, comunidades.net/aitorresvedras
membros. Todos colocados em pé de igual- desmistifica ideias pré-concebidas, forta- GRUPO SECTORIAL EDUCAÇÃO PARA OS DIREITOS
dade contribuindo com a sua opinião e lece laços, promove a autocrítica e a críti- HUMANOS
percepção para que se alcance um retrato ca construtiva. Um impulso à evolução! A Fernanda Sousa: mfpsousa@gmail.com
sua importância e utilidade decorre funda- CO-GRUPO DA CHINA
real do estado da secção em todas as suas Maria Teresa Nogueira: nogueiramariateresa@gmail.
áreas de actuação”. mentalmente da heterogeneidade do grupo com
de participantes, cujas percepções, mui- CO-GRUPO DA PENA DE MORTE
Irene Rodrigues, Funcionária da Amnistia Interna-
cional Portugal
tas vezes divergentes, mas nem por isso Coordenador a designar: ai.contrapenademorte@
menos enriquecedoras, contribuem para gmail.com
a tomada de consciência, para a reflexão GRUPO DE JURISTAS
Sónia Pires: sonia.c.pires@gmail.com
“Foi com imenso interesse que estive pre- e para a optimização do desempenho da NÚCLEO LGBT
sente. Convém perceber que se tratou de Secção permitindo, assim, concretizar de Manuel Magalhães: lgbt.amnistia@gmail.com
uma auto-avaliação, o que torna bastante forma mais eficiente, e intensa, os objec-
relativa a leitura dos resultados, que têm tivos da sua missão: a defesa e promoção
dos Direitos Humanos. Só por isto…valeu Se ainda não existe um grupo da Amnistia Interna-
- e não por acaso - a forma de “reco- cional Portugal perto de sua casa, pode sempre ser
mendações”. Mas não deixa de ser um ins- a pena!” pioneiro e começar o activismo na sua localidade.
trumento de indicação para os dirigentes, Joana Froes, Direcção da Amnistia Internacional Fale connosco pelo boletim@amnistia-internacio-
que deverão incluí-lo nas suas abordagens Portugal nal.pt ou ligando 213 861 652.
26 Notícias • Amnistia Internacional

JOVEM
Junta-te à ReAJ, vem fazer mais pelos Direitos Humanos!
Há um ano a Amnistia Internacional Portugal ganhou mais energia com o renascimento da Rede de Acção
Jovem. Se tens até 30 anos, vem fazer parte desta equipa
Por Ana Monteiro, vice-coordenadora da ReAJ e membro da Direcção da Amnistia Internacional Portugal

© Pedro Sequeira

Alguns elementos da ReAJ numa acção no Chiado a propósito do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, que se assinala a 17 de Outubro.

A Rede de Acção Jovem da Amnistia In- mos com outros jovens sobre os perigos 26 de Junho, e no dia 17 de Julho iremos
ternacional (ReAJ) teve o seu renasci- da propaganda aliada à tirania e ao ódio. organizar em conjunto uma tertúlia so-
mento no dia 18 de Maio de 2009, no 28º Lembrámo-nos de como era importante bre justiça transicional.
aniversário da Amnistia Internacional não esquecer, mas de como era também
Temos reservadas mais actividades e
(AI) Portugal. essencial recordar sem ódio.
acções que são surpresa. Se quiseres
Desde então ajudámos em campanhas Este é apenas o início, temos planeadas descobrir mais, junta-te a nós ou fica
da AI Portugal, tais como “Acabar com muitas mais acções e gostaríamos que atento aos nossos convites.
a Violência sobre as Mulheres” e “Exija te juntasses a nós na defesa dos Direitos
Peter Benenson, o fundador da Amnistia
Dignidade”. Usámos máscaras brancas Humanos.
Internacional, disse: “Todos aqueles
e vestimo-nos de preto para mostrarmos
As nossas próximas acções incluem uma que hoje ainda sentem um sentimento
que a pobreza por vezes é anónima mas
tertúlia no dia em que se comemoram 16 de impotência podem fazer algo: po-
está presente em todos os segmentos
anos do genocídio ruandês (7 de Abril), dem apoiar a Amnistia Internacional.
da sociedade. No ciclo de conferências
uma festa no dia em que a ReAJ come- Podem ajudá-la a impor-se em nome
de três dias para celebrar o dia em que
mora um ano (18 de Maio) e presença da justiça e da liberdade”.
se assinou a Declaração Universal dos
nos festivais de Verão.
Direitos Humanos, conseguimos 405 as- Sabes que as injustiças acontecem a
sinaturas para os casos da Maratona de Fazemos questão de colaborar com esco- toda a hora, são raros os minutos em
Cartas. las e universidades onde estudam mem- que ninguém no mundo experiencia
bros da ReAJ e, de futuro, pretendemos uma violação de Direitos Humanos, são
Voluntariámo-nos para ajudar na ins-
colaborar com grupos locais e núcleos ainda poucas as pessoas que as ten-
talação de moda que decorreu a 25 de
da AI Portugal. Iremos propor a alunos tam defender. Ao ajudar-nos a sermos
Novembro e ilustrava várias situações de
de uma dessas escolas que façam tra- mais, estarás a ajudar mais pessoas no
violência contra a mulher e, vários meses
balhos de arte relacionados com o tema mundo, evitando que sejam vítimas de
antes, distribuímos flyers e autocolantes
da mutilação genital feminina, que serão violações de direitos humanos. A tua voz
de modo a alertar as pessoas para este
depois expostos no site da AI e apresen- e acção são essenciais, junta-te a nós!
tema.
tados durante o debate sobre este tema. Contacta-nos para redejovem.amnis-
No Dia Internacional em Memória das tia@gmail.com
Vamos receber formação do Grupo de
Vítimas do Holocausto, a 27 de Janeiro,
Estudantes da Faculdade de Direito da
organizámos uma tertúlia sobre propa-
Universidade de Lisboa no Dia Interna-
ganda nazi no Liceu Camões, para falar-
cional de Apoio às Vítimas da Tortura, a
Notícias • Amnistia Internacional 27

II ENCONTRO INTER VEM FAZER PARTE DA


GRUPOS DE ESTUDANTES DA
E MULTICULTURAL CIMEIRA DO MILÉNIO! AMNISTIA INTERNACIONAL
ALBUFEIRA APOSTA NA EDUCAÇÃO
PARA A DIFERENÇA CUMPRE O TEU PAPEL! PORTUGAL
(Coordenadores e emails/blogues)

• GE DO COLÉGIO DE SÃO MIGUEL


(Fátima)
Sónia Oliveira: ai_csm@live.com.pt; aia-
teondepodemoschegar.blogspot.com
• GE DO COLÉGIO DIOCESANO DE NOSSA
SENHORA DA APRESENTAÇÃO (Calvão)
Em Setembro do ano 2000 as Nações Uni-
Jorge Carvalhais: amnistia@colegiocal-
das deram um passo muito importante vao.org
para erradicar do mundo os piores males • GE DA ESCOLA SECUNDÁRIA DE
com a organização da Cimeira do Milénio, ALBUFEIRA
© Amnistia Internacional Portugal
na qual participaram 189 líderes mundi- Rosaria Rego: grupoestudantes_esa_
ais e de onde resultou a Declaração do amnistiainternacional@hotmail.com;
Entre os dias 19 e 22 de Abril, a cidade Milénio que contém os 8 Objectivos de grupodaesaai.blogspot.com
de Albufeira, no Algarve, vai desafiar os Desenvolvimento do Milénio (ODM). O • GE DA ESCOLA SECUNDÁRIA ANTERO
prazo para serem cumpridos termina em DE QUENTAL (S.Miguel, Açores)
mais novos a perceberem as diferenças e
2015, mas de cinco em cinco anos os Es- Fernanda Vicente: fpacvicente@sapo.pt
as semelhanças entre as várias culturas.
tados avaliam a evolução da situação. É • GE DA ESCOLA SECUNDÁRIA DE
Naquela que é a segunda edição do En- ERMESINDE
contro Inter e Multicultural, a Câmara o que vai acontecer em Setembro deste
Maria Arminda Sousa: ai-ese@sapo.pt;
Municipal de Albufeira juntou-se à Am- ano, em mais uma Cimeira onde só os
www.ai-ese.pt.vu
nistia Internacional para, em parceria, Chefes de Estado e de Governo têm as- • GE DA ESCOLA SECUNDÁRIA DE
fazer os alunos das escolas da cidade – sento. Organizações não governamentais FERNÃO MENDES PINTO (Almada)
do 1.º, 2.º e 3.º Ciclos do Ensino Básico e associações, que conhecem de perto a Marta Reis: amnistia.internacional@
e do Secundário – sentirem e pensarem realidade, não terão voz. esfmp.pt
sobre a diferença, tentando levá-los a • GE DA ESCOLA SECUNDÁRIA FILIPA DE
A Amnistia Internacional, a Associação
agirem para acabar com a intolerância. VILHENA (Porto)
das Nações Unidas de Portugal, a Agên-
Carla Ferreira: carlafariaferreira@
“O programa foi construído com base cia ODM e a Objectivo 2015-Campanha hotmail.com
num conceito crescente de aprendiza- do Milénio das Nações Unidas vão tentar • GE DA ESCOLA SECUNDÁRIA MARIA
gem: sentir, pensar e agir, levando os alterar esta realidade com a promoção LAMAS (Torres Novas)
participantes à mobilização efectiva”, da Cimeira (Ideal) dos ODM, só para es- Teresa Gomes: teresinha_mfrg@hotmail.
explica Luísa Marques, Directora de Cam- tudantes universitários, que terá lugar com
panhas da Amnistia Internacional, que nos dias 27, 28 e 29 de Abril em Lisboa, • GE DA ESCOLA SECUNDÁRIA SANTA
ressalva que o programa foi elaborado Coimbra e Porto, respectivamente. Ago- MARIA MAIOR (Viana do Castelo)
com o apoio da associação PAR-Respos- ra, precisamos de ti! Tudo o que tens de Cristina Soares: crisoaresd@hotmail.
fazer é juntar um grupo de 5 ou 10 amigos com; amnistisiados.blogspot.com
tas Sociais e contará com a participação
e inscreveres-te. Durante a manhã cada • GE DA FACULDADE DE DIREITO DE
do ACIDI-Alto Comissariado para a Imi- LISBOA
gração e Diálogo Intercultural. Fernando grupo representa um Chefe de Estado ou
Júlia Maurício: nucleoai.fdul@gmail.com
André, Sociólogo da Câmara Municipal de Governo e avalia o que o seu país tem
• GE DO ISCTE
de Albufeira, explica a necessidade do feito e à tarde os estudantes assumem Ana Monteiro: amnistiaiscte@yahoo.com
Encontro: “no I Encontro tentámos afe- o papel da sociedade civil e apontam • ReAJ-REDE DE ACÇÃO JOVEM
rir de que forma as pessoas estavam os problemas e/ou virtudes de cada Es- Gonçalo Marcelo: redejovem.amnistia@
sensibilizadas para o multiculturalismo tado. O objectivo é que desta Cimeira gmail.com; www.reajportugal.blogspot.
e quais as dinâmicas que existiam [em Ideal saia um conjunto de recomenda- com
Albufeira neste sentido]. Percebemos ções dos estudantes do ensino superior
que os nossos alunos não estão sensi- que será entregue ao Estado português
bilizados para o activismo, porque não para ser levado à verdadeira Cimeira do
experienciam, por norma, esse tipo de Milénio que acontece em Setembro deste
ano. Não podemos esperar que os Esta- Se ainda não existe um Grupo da Am-
actividades”, diz. Uma realidade que a nistia Internacional na tua escola ou
autarquia espera agora mudar com este dos resolvam sozinhos os problemas do
universidade, podes ser tu a criá-lo. Nós
II Encontro. As inscrições estão abertas mundo! Vem cumprir o teu papel e fazer
dizemos como... Escreve-nos para bole-
e a participação é gratuita. Se és estu- deste um mundo melhor! Informações e tim@amnistia-internacional.pt ou tele-
dante em Albufeira procura informação inscrições para aiportugal@amnistia- fona para o 213 861 652.
na tua escola! internacional.pt
28 Notícias • Amnistia Internacional

BOAS NOTÍCIAS
Nos últimos meses chegaram-nos novidades que nos dão motivos para sorrir. Igor e Jestina comprovam
que vale a pena continuar a lutar!

UCRÂNIA Em 2002 foi absolvido pelo Supremo Tri- fosse de imediato libertado, como pedia
IGOR PODIA TER SIDO EXECUTADO bunal ao conseguir provar que estava a Amnistia Internacional, e que não po-
noutra cidade no momento do crime. dia ser extraditado para a Bielorrússia,
onde correria risco de tortura e de outros
A libertação ocorreu em 2002 e Igor mu-
maus tratos, podendo mesmo ser con-
dou-se de forma definitiva para a vizinha
denado à morte. No seguimento de tudo
Ucrânia, onde conheceu Irina, actual
isto, a 2 de Fevereiro a Ucrânia libertou
mulher (na imagem). Levou uma vida
normal até ao dia 25 de Junho de 2007, Igor Koktysh.
quando foi preso pelas autoridades ucra- Já em liberdade, o prisioneiro de cons-
nianas no seguimento de um pedido de ciência pediu à Amnistia Internacional
© Privado extradição vindo da Bielorrússia, que que enviasse um agradecimento especial
reabriu a acusação arquivada em 2002. a todos os activistas que intercederam
Igor Koktysh, hoje com 30 anos, é um ac- Perante a possibilidade de ser extradita- em seu nome. No seu site oficial disse
tivista que ousou, no único país europeu do, Igor Koktysh apresentou queixa ao ainda: “por favor aceitem as minhas
que mantém a pena de morte como for- Tribunal Europeu dos Direitos Humanos mais sinceras palavras de gratidão
ma de punição, a Bielorrússia, pertencer e a Amnistia Internacional e os seus ac- pelo vosso apoio nesta luta por justiça.
à oposição política. Por isso, acredita a tivistas começaram a enviar apelos em Espero que a nossa vitória fortaleça a
Amnistia Internacional, foi preso em Ja- seu nome. esperança dos que estão à beira do de-
neiro de 2001 e acusado de “homicídio Mais de dois anos passados desde a de- sespero e inspire confiança no coração
premeditado e agravado” do parente de tenção, a 10 de Dezembro de 2009 o Tri- dos que continuam a lutar”.
um amigo, punível com pena capital. bunal Europeu deu razão a Igor, alegando
Apesar da tortura e maus tratos de que que não havia justificação legal para a
foi alvo, nunca confessou o assassinato. prisão do activista. Ordenou ainda que

ZIMBABUÉ A zimbabuana Jestina Mukoko, que dirige Humanos. Em seu nome, o investigador
DEFENSORA DOS DIREITOS HUMANOS a organização não governamental Pro- da Amnistia Internacional para o país
EM LIBERDADE jecto Paz do Zimbabué (que monitoriza fez chegar a seguinte mensagem: “Cada
abusos aos Direitos Humanos em todo vez que encontro Jestina diz-me para
o país), foi, a 3 de Dezembro de 2008, enviar a todos os membros da Amnis-
raptada de sua casa e ilegalmente feita tia o seu apreço. (...) Os nossos pos-
prisioneira. Depois de vários dias em re- tais, cartas, telefonemas e, por vezes,
gime de incomunicabilidade, e após ter somente votos de boa sorte deram-lhe
sido torturada, foi acusada de recrutar força para continuar a lutar por um dia
pessoas para participarem em campos melhor”.
de treino para milícias no país vizinho,
No passado dia 10 de Março chegou-nos
o Botswana. Situação similar viveram,
mais uma boa notícia: Jestina foi uma
na mesma altura, dezenas de outros ac-
das mulheres activistas escolhida pela
tivistas zimbabuanos. Depois de quase
Secretária de Estado norte-americana
um ano de prisão, Jestina apresentou re-
Hillary Clinton para receber o Prémio
curso ao Supremo Tribunal do país, que a
Mulheres de Coragem, que pretende,
29 de Setembro do ano passado ordenou
como o nome indica, homenagear mu-
que todas as acusações que pendiam so-
lheres que em todo o mundo lutam pela
bre a activista fossem retiradas.
justiça social, pela equidade e pelos Di-
A Amnistia Internacional tinha pedido a reitos Humanos.
todos os membros e apoiantes que in-
© Amnistia Internacional
tercedessem pela defensora dos Direitos
Notícias • Amnistia Internacional 29

APELOS MUNDIAIS
“Quando organizações como a Amnistia Internacional pedem uma assinatura, assinem.
Porque estão a fazer a diferença. Quando estava no corredor da morte na Florida iam
chegando faxes, emails, postais... Eles não liam tudo, mas viam que chegavam 10.000,
20.000 e acreditem que faz a diferença...
Acham que não serve para nada? Quando o meu pai falava com as secretárias do Go-
vernador da Florida na altura, elas diziam «quem é este espanholito que faz com que
tenhamos a caixa de email e o fax bloqueados e que todas as semanas faz chegarem
centenas de assinaturas. Como podem estar todos tão interessados nele». Acreditem,
as assinaturas são fundamentais”.
Foram estas as palavras proferidas pelo espanhol Joaquín José Martinez, um inocente que esteve três anos no corredor da morte na
Florida, Estados Unidos da América. Foram ditas perante dezenas de estudantes, numa conferência que decorreu em Coimbra em
Outubro de 2009.

NAS PRÓXIMAS PÁGINAS APRESENTAMOS-LHE MAIS QUATRO PESSOAS QUE AINDA PRECISAM DA SUA
AJUDA. CONHEÇA OS CASOS E PARTICIPE!
A SI CUSTA MUITO POUCO E PARA TODOS ELES PODE SIGNIFICAR O FIM DE UMA INJUSTIÇA!
30 Notícias • Amnistia Internacional

CUBA
Activista dos Direitos Humanos condenado a 20 anos de prisão

Léster González Pentón, um defensor dos direitos humanos e membro de um sindicato,


foi uma das 75 pessoas detidas em Março de 2003, durante a repressão aos dissiden-
tes do regime cubano.
Casado e pai de uma filha, Léster Pentón, de 33 anos, tem um papel activo no Movi-
mento para os Direitos Humanos Razão, Verdade e Liberdade e é representante da
Confederação Democrática dos Trabalhadores de Cuba, ambas organizações ilegais,
uma vez que todas as associações civis, profissionais e de Direitos Humanos que não
forem controladas pelo Governo de Cuba, não têm autorização para operar.
Desde 2001 que este defensor dos Direitos Humanos enfrentava intimidação por parte
da polícia. Nesse mesmo ano as autoridades ameaçaram deter Léster se não estivesse
a exercer uma profissão, muito embora tenha sido despedido pelo seu envolvimento no
© Privado sindicato. Em Agosto de 2002, agentes de segurança impediram-no de sair de casa e
de participar em iniciativas organizadas por dissidentes.
A detenção em 2003 e a condenação a 20 anos de prisão, decretada a 7 de Abril do mesmo ano, foram politicamente motivadas. As
acusações de que foi alvo estão ligadas ao exercício pacífico do seu direito à liberdade de expressão e de associação. Está a cumprir
pena, no norte de Cuba, por “actos contra a independência ou integridade territorial do Estado”, uma vez que forneceu a estações de
rádio em Miami, nos Estados Unidos da América, “informações erradas” sobre a situação dos Direitos Humanos em Cuba.
Ajude-nos a libertar este prisioneiro de consciência. Ajude-nos a combater as violações aos Direitos Humanos neste país das Caraí-
bas. Participe! Contamos consigo!

(Postal-apelo em anexo no interior desta revista. Tudo o que tem de fazer é assinar, colocar a cidade e o país de onde envia o apelo e
a data. Depois basta enviar por correio.)

CHINA
Realizador de documentário sobre o Tibete detido

O tibetano Dhondup Wangchen, de 35 anos, foi detido em Março de 2008 após realizar
o filme Leaving Fear Behind, no qual mais de 100 tibetanos partilham as suas opiniões
sobre o Dalai Lama, os Jogos Olímpicos de Pequim e as políticas do Governo Chinês. As
cerca de 35 horas de filmagens foram clandestinamente enviadas para a Suíça, onde
um primo de Dhondup Wangchen editou o documentário.
Três meses e meio após a detenção, o realizador conseguiu escapar e telefonou ao
primo afirmando estar a ser torturado. Voltou a ser detido um dia depois da fuga, tendo
sido torturado e espancado. Foi-lhe ainda negado o acesso a comida e a cuidados de
saúde imprescindíveis, uma vez que tem Hepatite B.
Casado e pai de três filhos, a sua família está impedida de o ver. Mesmo os advogados
de defesa apenas tiveram acesso a Dhondup Wangchen uma única vez e em Julho de
2009 foram obrigados a abandonar o caso. Começou por ser acusado de “jornalismo
ilegal”, um crime que não existe na China, no entanto foi processado por “incitar à sub-
versão contra o Estado e ao separatismo”. A 28 de Dezembro de 2009 foi sentenciado
© Filming of Tibet
a seis anos de prisão, no entanto, não foi dada à família qualquer informação sobre o
julgamento ou a pena. Foi ainda negada a possibilidade de recorrer da sentença.
A Amnistia Internacional considera-o um prisioneiro de consciência, detido por exercer pacificamente o seu direito à liberdade de
expressão.
Ajude-nos a libertar Dhondup Wangchen ou a exigir que tenha um julgamento justo, obedecendo aos padrões internacionais.
Participe! Contamos Consigo!
(Postal-apelo em anexo no interior desta revista. Tudo o que tem de fazer é assinar, colocar a cidade e o país de onde envia o apelo e
a data. Depois basta enviar por correio.)
Notícias • Amnistia Internacional 31

TUNÍSIA
Condenação à morte de Saber Ragoubi é sinal de regressão

Saber Ragoubi, de 26 anos, entregou-se às autoridades da Tunísia após confrontos en-


tre as forças de segurança e membros do grupo armado Soldados Assad Ibn al-Fourat,
alegadamente responsável por actos terroristas e com ligações à al-Qaeda.
Ragoubi faz parte de um grupo de 30 indivíduos, detidos entre Dezembro de 2006 e
Janeiro de 2007, acusado de conspirar para derrubar o Governo, usar armas de fogo e
pertencer a organizações terroristas. Os detidos foram presentes a julgamento a 30 de
Novembro de 2007, no entanto, delegados da Amnistia Internacional comprovaram que
este não obedeceu aos padrões internacionais de Direitos Humanos.
Os detidos afirmaram terem sido vítimas de tortura e de outros maus tratos, incluindo
© Privado agressões físicas com bastões e choques eléctricos. Foram ainda suspensos no tecto,
pisados e ameaçados de violação. Saber Ragoubi contou ao juiz que foi agredido e,
em consequência, perdeu três dentes. No entanto, este não mandou investigar as alegadas práticas de tortura ou a obtenção de
confissões pelo recurso à força.
Os acusados foram sentenciados com penas que vão de três anos de detenção a prisão perpétua e apenas Saber Ragoubi foi conde-
nado à morte. Encontra-se agora em regime de solitária, pelo que não lhe é permitido receber visitas ou correspondência, o que viola
os padrões internacionais de Direitos Humanos.
Para a Amnistia Internacional, a pena de morte não é solução em nenhuma situação. A Tunísia, embora mantenha a pena capital na
lei, é abolicionista na prática, uma vez que não realiza execuções desde 1991. Vamos impedir que o país regrida. Ajude-nos a salvar
a vida de Saber Ragoubi.
Participe! Contamos consigo!
(Postal-apelo em anexo no interior desta revista. Tudo o que tem de fazer é assinar, colocar a cidade e o país de onde envia o apelo e
a data. Depois basta enviar por correio.)

NEPAL
Activista dos Direitos das Mulheres enfrenta perseguição

Rita Mahato tem 35 anos e é consultora de saúde num Centro de Reabilitação para
mulheres vítimas de actos de violência, conhecido pela sigla WOREC, no Nepal. Esta
entidade investiga e documenta casos de violência sexual sobre as mulheres e fornece
assistência legal e médica a todas as mulheres que procuram o Centro.
No entanto, o trabalho desenvolvido por esta activista e pela sua equipa não é bem
recebido na comunidade. Em Junho de 2007, Rita Mahato foi ameaçada de violação e
de morte quando o seu escritório foi atacado por mais de 60 homens. Ainda no mesmo
mês, um grupo de 20 pessoas atirou tijolos contra o Centro de Reabilitação e, quando
os funcionários tentaram confrontar os agressores, estes atiraram-lhes tijolos antes
que pudessem reagir.
A polícia não realizou até à data qualquer investigação às agressões e ameaças de que
© Dixie
Rita Mahato foi vítima, nem ofereceu qualquer tipo de protecção. Casada e mãe de três
crianças, um rapaz e duas raparigas, a activista teme pela sua vida e pela segurança da sua família.
À semelhança do que acontece com Rita Mahato, as activistas que lutam pelos direitos das mulheres no Nepal continuam a enfrentar
ameaças, agressões, discriminação e, por vezes, chegam a ser assassinadas. Tudo isto porque ousam desafiar o sistema patriarcal
vigente no país e tornar públicos casos de violência sexual e doméstica.
Ajude-nos a contrariar esta realidade. É urgente garantir a segurança das mulheres no Nepal, particularmente as que trabalham em
Direitos Humanos, e proteger Rita Mahato e a sua família das ameaças de que são alvo.
Participe! Contamos consigo!

(Postal-apelo em anexo no interior desta revista. Tudo o que tem de fazer é assinar, colocar a cidade e o país de onde envia o apelo e
a data. Depois basta enviar por correio.)
32 Notícias • Amnistia Internacional

AGENDA
A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA NÃO brevemente anunciado e uma vez mais era que todas as crianças entregassem
PODE SER UM SEGREDO a Amnistia conta com a Fundação Serra brinquedos de cariz bélico à Amnistia In-
Henriques para o patrocínio do galardão. ternacional, como sinal da compreensão
Acompanhe o evento em www.amnistia- do problema. Foram entregues mais de
internacional.pt 1.500 “armas”, vindas de 53 escolas,
tendo mais de 8.500 alunos sido sen-
A Amnistia Internacional, em parceria sibilizados. Os brinquedos foram en-
com a women’secret, lançou no dia 25 SEREMOS ASSIM TÃO tretanto transformados numa escultura
de Março a campanha “A violência do- DIFERENTES? que evoca a não-violência, pelos alunos
méstica não pode ser um segredo”, que finalistas da Escola Secundária Artística
visa dar voz a cada mulher afectada por António Arroio, em Lisboa. A peça vai
este tipo de violência em Portugal, as- ser tornada pública a 28 de Maio, na
sim como sensibilizar a população e a capital, quando a Amnistia Internacio-
sociedade para esta realidade, através nal completa 49 anos de vida. Uma se-
de uma colecção exclusiva assinada gunda peça foi promovida pelo Núcleo de
pelo ilustrador André Letria. Numa ini- Crianças da Amnistia, de Vila Nova de
ciativa conjunta, que visa acabar com É esta a pergunta que se impõe quando Famalicão, e criada por Alexandre A. R.
o silêncio, promover o diálogo e terminar olhamos para as imagens captadas pelo Costa e Jorge Fernando dos Santos. Será
com as situações de sofrimento silen- fotógrafo alemão Uwe Ommer, que du- apresentada a 21 de Maio na referida
cioso, as duas entidades lançam uma rante quatro anos visitou 150 países, dos cidade. Mais informações em breve em
colecção-chave, muito feminina e sem cinco continentes, para conceber o álbum
www.amnistia-internacional.pt
segredos. As receitas revertem para a de família do planeta Terra. Em cada Es-
Amnistia Internacional e destinam-se tado procurou famílias que, como disse
ao desenvolvimento de acções contra a Kofi Annan, ex-Secretário Geral das Na-
ções Unidas, “ilustram admiravelmente
CAMINHAR PARA ERRADICAR
violência doméstica e de educação para
os direitos humanos. Fale, Partilhe e de- e de uma forma positiva a diversidade A FOME
nuncie este problema que é de todos nós. e riqueza histórica do nosso mundo”.
Saiba mais em http://violenciadomes- Todas as imagens foram reunidas num
ticanaopodesersegredo.blogspot.com/ livro e numa exposição que tem percor-
Visite as lojas existentes em todo o país rido o mundo, tendo já sido visitada por
e ajude a quebrar o silêncio! mais de 10 milhões de pessoas. A 15 de
Maio, Dia Internacional das Famílias,
as imagens vão ficar junto ao Museu da A 6 de Junho a Amnistia Internacional
VEM AÍ MAIS UM INDIELISBOA Marinha, em Lisboa, trazidas pela Am- volta a associar-se a mais uma Marcha
nistia Internacional Portugal e pela Terra Contra a Fome. O objectivo deste evento é
Esplêndida-Produção de Eventos Cultu- recolher fundos para acções do Programa
rais, no âmbito do Ano Europeu de Com- Alimentar Mundial das Nações Unidas e,
bate à Pobreza e à Exclusão Social. Fique mais concretamente, para a alimentação
É já a 22 de Abril que começa a sétima de crianças em idade escolar que vivam
atento a www.amnistia-internacional.pt
edição do Festival Internacional de Cine- em situação de pobreza extrema. Faça a
ma Independente IndieLisboa, com data sua parte! Junte-se à Marcha Contra a
de encerramento marcada para 2 de
Maio. A Amnistia Internacional Portu-
BRINQUEDOS BÉLICOS Fome. Mais informações brevemente em
gal continua a ser parceria do evento,
TRANSFORMADOS EM ARTE www.amnistia-internacional.pt
no qual irá entregar, à semelhança dos No ano passado a Amnistia Internacional
anos anteriores, o Prémio com o nome da Portugal lançou um desafio às escolas FALAR DE DIREITOS HUMANOS
organização, no valor de 1.250 Euros, ao de todo o país: sensibilizar os mais no-
filme do festival que melhor represen- vos para o problema das armas e para o
NA ESCOLA
tar alguma situação relacionada com facto de serem responsáveis por mais de Se é professor ou pai de um aluno,
a dignidade humana. O júri do prémio, 300 mil mortos todos os anos e por mais apresentamos-lhe algumas ideias para
composto por três personalidades, será de um milhão de feridos. O objectivo que os seus alunos ou filhos interiorizem
Notícias • Amnistia Internacional 33

os Direitos Humanos. A Amnistia Inter-


nacional Portugal é parceira da Escola LEITURAS TOME NOTA
Superior de Educação Paula Frassinetti
THE DEATH PENALTY: A WORLDWIDE
e da Universidade do Porto no projecto PERSPECTIVE • 4 DE ABRIL
intitulado “Aprender os Direitos Huma- De Roger Hood e Carolyn Hoyle Dia Internacional de Consciencialização
nos: Passado e Presente”. O objectivo é 4.ª edição, 2008 para o Perigo das Minas
Oxford University Press, 350 páginas
levar as crianças e os jovens a pensarem PVP: 25,04 libras (encomendando pelo site www.amazon.co.uk)
e discutirem questões de Direitos Huma- • 7 DE ABRIL
Dia Mundial da Saúde
nos. Para tal, este projecto propõe três Este livro é um recurso impor-
soluções. Primeiro, um DVD, chamado tante para quem quer estudar • 8 DE ABRIL
a fundo a pena de morte. Dia Internacional dos Roma/Ciganos
Free2Choose, onde são apresentados Feito por académicos, aborda Dia Internacional do Luto dos Jorna-
dilemas relativos aos Direitos Humanos, várias problemáticas relacio- listas
procurando estimular o debate na sala nadas com a pena capital,
como a arbitrariedade, a dis- • 3 DE MAIO
de aula. Uma ideia destinada aos alu- criminação e a desigualdade. Dia Mundial da Liberdade de Imprensa
nos do Secundário, que têm ainda à sua Trata ainda da questão dos mais vulneráveis,
disposição a exposição Anne Frank and como os jovens, as grávidas e as pessoas com • 18 DE MAIO
debilidade mental. Como foi recentemente re- Aniversário da Amnistia Internacional
Family, composta por fotografias capta- editado, apresenta os progressos relativos à
das pelo pai da famosa judia alemã, que Portugal
abolição da pena capital no mundo.
passou 25 meses escondida num anexo • 28 DE MAIO
com a família, tendo acabado por mor- A MORTE COMO PENA: ENSAIO SOBRE Aniversário da Amnistia Internacional
A VIOLÊNCIA LEGAL
rer num campo de concentração nazi. De Ítalo Mereu • 4 DE JUNHO
Para todos os alunos, do 1.º ciclo ao Martins Fontes 21 anos passados desde o Massacre de
Secundário, há ainda o projecto “Retra- 224 páginas, PVP: 19,43 Euros Tiananmen, na China
tos de Família”, que pretende conceber Esta obra pretende olhar para • 20 DE JUNHO
uma exposição com mais de 2.000 foto- a pena capital como forma Dia Mundial do Refugiado
grafias. Os alunos são convidados a foto- de punição e analisar a sua
história, tentando perceber • 26 DE JUNHO
grafar a sua família e a criar este álbum o que a tornou algo natural
da família portuguesa. Mais informações Dia Internacional de Apoio às Vítimas
para as instituições jurídicas. de Tortura
pelo email direitoshumanos@esepf.pt Está escrito em português do
Brasil.
ou pelo 225 573 420 (ext. 222).

10 de Dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos e a entrega do Prémio Nobel da Paz
Por José Oliveira (FecoPortugal)
34 Notícias • Amnistia Internacional

CRÓNICA
Por José Manuel Durão Barroso
Presidente da Comissão Europeia

tendendo assim reforçar o Dia Mundial de acordo com normas mínimas inter-
contra a pena de morte, que foi criado, nacionais. As orientações da política da
em 2003, por um conjunto de ONGs, mas União Europeia em relação aos países
a que faltava um carácter institucional. terceiros no que diz respeito à pena de
Esta Declaração foi assinada um ano morte constituem uma base para acções
mais tarde. como declarações ou diligências em ins-
tâncias internacionais e relativamente a
Tendo abolido a pena de morte por crimes
países terceiros. O Instrumento Europeu
comuns já em 1867, Portugal foi um dos
para a Democracia e os Direitos Hu-
primeiros países abolicionistas da Eu-
manos é a principal fonte de financia-
ropa. E apraz-me registar que, durante a
mento de projectos abolicionistas a nível
Presidência Portuguesa do Conselho da
mundial. Os esforços da UE para tornar
União Europeia, se promoveu a luta con-
possível um mundo sem pena de morte
tra a pena de morte e eu próprio tive oca-
culminaram na adopção das Resoluções
sião de participar numa iniciativa nesse
sobre a moratória na aplicação da pena
domínio. Sinto-me hoje muito orgulhoso
de morte, adoptadas pela Assembleia-
do vasto consenso alcançado na Europa,
-Geral das Nações Unidas em Dezembro
porque se trata de unir os povos euro-
de 2007 e 2008. Estou confiante que to-
© Comissão Europeia peus em torno de um conjunto de valores
dos os Estados europeus possam apoiar
societais comuns. Estes valores dizem
A União Europeia opõe-se firmemente à uma outra Resolução no Outono de 2010.
respeito a uma região geográfica que
aplicação da pena de morte em qualquer inclui actualmente os 47 países mem- Temos de desencorajar em todo o mundo
circunstância e tem apelado sistemati- bros do Conselho da Europa, incluindo a cultura da morte como punição. A pena
camente à sua abolição universal. Cons- os Estados-Membros da União Europeia, de morte não tem qualquer objectivo útil
titui uma violação dos direitos funda- onde não houve qualquer execução desde na prevenção do crime. Antes pelo con-
mentais e é proibida pelo artigo 2.º da 1997. Na Europa, a Bielorrússia é o único trário, a pena de morte tem um efeito de
Carta dos Direitos Fundamentais da país que ainda aplica a pena capital. degradação nas sociedades que a infli-
União Europeia, que refere expressa- Existem, contudo, sinais que me fazem gem. Creio sinceramente que a pena de
mente: «Ninguém pode ser condenado ter esperança de que dentro em breve morte não deveria ter lugar no sistema
à pena de morte, nem executado». Além também nesse país a pena de morte será penal de qualquer país moderno e civi-
disso, o artigo 19.º proíbe a extradição se abolida. lizado.
houver o risco de ser aplicada a pena de
É importante mostrar ao mundo que a
morte. As instituições da União Europeia
Europa está unida na sua posição face
nunca permitiriam a um dos seus Esta-
à pena de morte. A acção da Europa
dos-Membros a reintrodução da pena de
neste domínio representa uma prioridade
morte, uma vez que tal significaria uma
fundamental da sua política externa em
grave violação dos princípios em que a
matéria de direitos humanos. Nos países
União Europeia se baseia.
onde ainda existe a pena de morte, a
Em 2007, a Comissão elaborou uma União Europeia apela no sentido da sua
Declaração Conjunta União Europeia- abolição ou, pelo menos, para que a sua
-Conselho da Europa que instituiu o «Dia aplicação seja restringida progressiva-
Europeu contra a pena de morte», pre- mente e insiste para que seja utilizada
-
AJUDE-NOS A DEFENDER OS DIREITOS HUMANOS NO MUNDO!

TORNE-SE
MEMBRO
DA
AMNISTIA
INTERNACIONAL

© AP/PA Photo/Khalid Mohammed © UNHCR/H Caux © AP/PA Photo/Halabisaz

TODOS OS DIAS, A TODA A HORA E A CADA SEGUNDO, SÃO VIOLADOS DIREITOS HUMANOS FUNDAMENTAIS
A Amnistia Internacional trabalha para acabar com todos eles
Ajude-nos a defender os Direitos Humanos no mundo!

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• Tornando-se membro (e passando a participar nas reuniões e assembleias da Amnistia Internacional Portugal)
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• A revista trimestral da Amnistia Internacional com notícias e reportagens relacionadas sobre as mais variadas
temáticas ligadas aos Direitos Humanos

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1. Assinale uma das seguintes quatro opções: * 1. Autorizo a minha entidade bancária a debitar da minha
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Quota Anual: €40 €20 (Estudantes, Reformados e Desempregados) tuguesa, as importâncias indicadas e com a regularidade
indicada 2. Estou informado de que os débitos poderão ser
DESEJO FAZER UM DONATIVO REGULAR (sistema de débito directo*)
efectuados em datas distintas 3. A Amnistia Internacional
Quantia do donativo: €10 €25 €50 €100 €250 Outro: apenas poderá alterar os montantes após uma informação
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A violência doméstica
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A Amnistia Internacional e a women’secret uniram-se para dar voz


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women’secret, ilustrada por André Letria, está a apoiar a luta pelos
Direitos Humanos e a denúncia da violência doméstica.

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