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A Morte Misteriosa do Prefeito de Santo André - Parte 2

Sex, 13 de Fevereiro de 2009 10:49

Acusação que vem do cárcere  - Juiz preso diz que o secretário particular de Lula é a chave
para elucidar a morte de Celso Daniel O juiz João Carlos da Rocha Mattos, 57 anos, está preso
há um ano e onze meses, sob a acusação de vender sentenças judiciais. Depois de passar por
quatro cárceres diferentes, ele agora divide um dormitório com um preso no quartel da Polícia
Militar, no centro de São Paulo. Na semana passada, na sala de reunião do prédio, Rocha
Mattos recebeu VEJA para falar sobre o assassinato de Celso Daniel, o prefeito petista de
Santo André morto com sete tiros em janeiro de 2002. Em quase duas horas de entrevista, pela
primeira vez Rocha Mattos contou o que ouviu nas 42 fitas cassete que, gravadas entre janeiro
e março de 2002, continham registros de diálogos telefônicos trocados entre os personagens
do caso.

E fez uma revelação pesada. Diz que, na massa de diálogos registrados, os trechos mais
comprometedores eram protagonizados por uma única pessoa: Gilberto Carvalho, atual
secretário particular do presidente Lula. "Ele comandava todas as conversas, dava orientações
de como as pessoas deviam proceder. E mostrava preocupação com as buscas da polícia no
apartamento de Celso Daniel", conta o juiz. É a mais frontal acusação já feita contra Gilberto
Carvalho no crime de Santo André. No início do ano passado, o jornal Folha de S.Paulo
divulgou transcrições das conversas registradas nas fitas e, mais tarde, teve acesso a trechos
de áudio de vários diálogos, mas descobriu divergências entre transcrições e áudios. Tanto nas
transcrições quanto nos áudios, a presença de Gilberto Carvalho era freqüente mas não
comprometedora. Agora, Rocha Mattos diz que as 42 fitas continham passagens bem mais
graves do que aquilo que veio a público até agora e que Carvalho chegava ao ponto de dar
dicas de comportamento a personagens do caso.

Há telefonemas em que ele pede à então namorada de Celso Daniel, a socióloga Ivone de

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Santana, que concedesse entrevistas à imprensa e não esquecesse de se mostrar emocionada


com a morte do prefeito – o que de fato aconteceu. As conversas gravadas, diz o juiz, traziam
até recados enigmáticos de moradores de uma favela de Santo André, hoje suspeitos de terem
sido contratados para matar o ex-prefeito. "Os recados eram deixados na caixa postal do
telefone de Gilberto Carvalho", afirma o juiz. "Ele comandava praticamente tudo."
Veja – O que quer dizer comandar "tudo"?

Rocha Mattos – Comandava as conversas, as orientações de como proceder, de como


deveriam se comportar o "Sombra" (apelido do empresário Sérgio Gomes da Silva, acusado de
ser o mandante do assassinato), a namorada de Celso Daniel, a preocupação com as buscas,
o cuidado para que não resvalasse nada no PT. Nas gravações, existem até encontros
marcados em apart-hotéis para entrega de numerário (dinheiro).
 
Veja – Conversas entre quem?
Rocha Mattos – Entre Klinger (refere-se a Klinger Luiz Oliveira, ex-secretário de Serviços
Municipais de Santo André e apontado como braço-direito no esquema de corrupção na
prefeitura de Santo André) e Gilberto Carvalho com pessoas não identificadas.

Não é a primeira vez que Gilberto Carvalho aparece envolvido no caso de Santo André.
Francisco Daniel, irmão do prefeito assassinado, já disse em mais de uma ocasião que ouviu o
próprio Gilberto Carvalho admitir que havia um esquema de corrupção na prefeitura de Santo
André – esquema que teria sido a causa da morte do prefeito. Gilberto Carvalho sempre negou
que tenha feito tal confissão. Agora, com as declarações de Rocha Mattos, a situação de
Gilberto Carvalho se complica. O juiz garante que, ao escutar as fitas, constatou que o
secretário particular de Lula conhecia o esquema de corrupção em funcionamento na prefeitura
de Santo André e articulou a estratégia para difundir a tese de que o assassinato fora um crime
comum – e não crime político, motivado por divergências a respeito do uso do dinheiro da
corrupção. Rocha Mattos diz que não denunciou antes o que sabe porque só agora o país
descobriu que a cúpula do PT era o ninho de uma quadrilha. "Imagina eu dizendo tudo isso há
um ano... Quem ia acreditar?", declara ele.

Como quase tudo na investigação da morte de Celso Daniel, há versões e contraversões,


palavras contra palavras. Rocha Mattos não oferece provas do que diz, mas é certo que teve
acesso efetivo às 42 fitas. Na condição de juiz, ele recebeu a incumbência de esclarecer se
elas tinham sido clandestinamente gravadas por agentes da Polícia Federal, conforme
denunciara o Ministério Público Federal. Rocha Mattos concluiu que as fitas eram ilegais, pois
a PF inventou uma investigação fajuta para conseguir fazer as gravações, e mandou que
fossem destruídas – a incineração ocorreu em março de 2003, quando Lula já era presidente e
Carvalho, seu secretário particular. Mais tarde, depois da destruição das fitas originais,
apareceu um conjunto de cópias nas mãos de uma juíza, que o enviou a Rocha Mattos. O juiz

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então guardou as cópias, mas diz que, depois de ser preso pela Polícia Federal, elas
desapareceram. Estavam na casa de sua ex-mulher, Norma, que também foi presa.

Rocha Mattos conta que era indisfarçável o interesse das hostes petistas na destruição das
fitas. Ele diz que, antes de tomar a decisão de mandar incinerar o material, chegou a ser
procurado em seu gabinete pelo delegado Francisco Baltazar, então chefe de segurança da
campanha presidencial de Lula e, mais tarde, dirigente da Polícia Federal em São Paulo.
Foram três encontros. "Ele sempre dizia que seria bom que as fitas fossem destruídas porque
elas poderiam prejudicar o partido." Baltazar afirma que não se lembra de ter falado sobre esse
assunto com Rocha Mattos. As acusações que lança contra Gilberto Carvalho são a terceira
contribuição de Rocha Mattos ao caso de Santo André. Ele já indicou à Justiça duas
testemunhas-chave do crime: uma mulher, cujo nome se mantém em sigilo, que diz ter
testemunhado o seqüestro e presenciado o comportamento cúmplice de "Sombra", e um
homem, hoje preso e também mantido no anonimato, que denunciou com antecedência que
Celso Daniel (e também Toninho do PT, morto em 2001) seria assassinado. Procurado por
VEJA, Gilberto Carvalho disse que "repudia com veemência" as acusações, promete que vai
processar Rocha Mattos e informa que tem notícia de que há gravações montadas com sua
voz, com o objetivo de incriminá-lo. Diz ele: "Nós, os amigos de Celso Daniel, não somos
acusados, somos vítimas".

5 mistérios e uma certeza 

Os bastidores do caso Celso Daniel, o crimecom elementos de romance policial que provoca
calafrios na cúpula do PT

O cadáver de Celso Daniel, que jaz embalsamado no Cemitério da Saudade, em Santo André,
ainda assombra o PT. Nos últimos dois meses, os dois irmãos do prefeito assassinado, João
Francisco e Bruno Daniel, depuseram na CPI dos Bingos. Voltaram a bater na tecla de sempre
– a de que dois petistas de alto coturno, José Dirceu e Gilberto Carvalho, puxavam os fios do
esquema de corrupção que se instalou em Santo André. Nos próximos dias os irmãos serão
colocados frente a frente com Gilberto Carvalho em uma acareação promovida pela CPI. Essa
idéia provoca calafrios até no presidente da República – Lula declarou recentemente que a CPI
dos Bingos estaria "perdendo o foco". Na quarta-feira passada, mais um morto se juntou à pilha
de cadáveres de alguma forma relacionados com o caso. Carlos Delmonte Printes,
médico-legista que fez a autópsia de Celso Daniel e constatou marcas de tortura, foi
encontrado sem vida em seu escritório. Até sexta-feira o episódio ainda intrigava a polícia e o
Ministério Público. O exame pericial descartou causas naturais como um ataque do coração,
mas também não havia marcas de violência que sustentassem a hipótese de assassinato.

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O crime que vitimou o prefeito petista, seqüestrado na noite de 18 de janeiro de 2002 e morto
na tarde do dia seguinte, tem todos os ingredientes de um romance policial. Mistério, pistas
falsas, sexo e luta pelo poder. A trama, no entanto, segue uma dinâmica peculiar: procura-se
um assassino e, no lugar dele, são encontrados corruptos. Reduzido à sua essência, o caso se
compõe de dois crimes. O primeiro é o assassinato do prefeito em si. O segundo, o esquema
de corrupção formado na cidade que ele administrava. Há fortes indícios de que haja uma
conexão entre ambos, mas não apareceu até agora uma prova definitiva. O primeiro crime, o
assassinato, ainda está longe de ser solucionado. A polícia identificou e prendeu os integrantes
da quadrilha que, na noite do dia 18, em São Paulo, seguiu o Mitsubishi Pajero onde estavam o
prefeito e seu amigo Sérgio Gomes da Silva, rendeu-os, seqüestrou Celso Daniel e o
abandonou no dia seguinte numa estrada, já sem vida e com marcas de tortura. Não é possível
afirmar com certeza se houve um mandante. Suspeito de ser o arquiteto da ação, o empresário
Sérgio Gomes da Silva teve prisão preventiva decretada e passou sete meses na cadeia. Foi
solto em julho do ano passado por falta de provas. Já sobre o segundo crime, a propina que o
PT cobrava de empresas que prestavam serviços à prefeitura, não há dúvidas. É um dos
poucos casos de corrupção no Brasil que têm extrato bancário.

Os depoimentos na CPI e as investigações sobre a morte do legista fornecem uma grande


oportunidade para esclarecer os mistérios relacionados à morte do prefeito e aprofundar a
única certeza – a de que havia roubalheira em benefício do PT em sua administração.
Enquanto não se souber exatamente o que aconteceu, o espectro de Celso Daniel continuará a
assombrar o PT – assim como aqueles vilões de filmes de terror que morrem no final, mas
ressuscitam no episódio seguinte provocando sustos ainda maiores. 

 
A CERTEZA
Corrupção com recibo e extrato bancário

Examinando o caso Celso Daniel com óculos de hoje, pode-se dizer que a cidade de Santo
André foi a precursora do mensalão. Na tarde do dia 24 de janeiro de 2002, cinco dias depois
do assassinato do prefeito, a empresária Rosângela Gabrilli, dona de uma empresa de ônibus
em Santo André, procurou o Ministério Público para fazer uma denúncia grave. Segundo ela,
os donos de companhias rodoviárias da cidade eram obrigados a contribuir para uma caixinha

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do PT. O valor do mensalão seria proporcional à quantidade de ônibus que cada empresário
possuía, à razão de 550 reais por veículo. A própria Rosângela, dona da Expresso Guarará,
pagava 40.000 reais todos os meses. A empresária apontou três responsáveis pelo esquema
de cobrança. Sérgio Gomes da Silva, o "Sombra", melhor amigo do prefeito. Klinger Luiz de
Oliveira Sousa, ex-secretário de Serviços Municipais de Santo André. E Ronan Maria Pinto,
sócio de Sérgio em três empresas, ele próprio um dos maiores concessionários do setor de
transporte público na cidade. Em plena efervescência da campanha eleitoral, a denúncia foi
desqualificada por vários petistas, que viram na atitude de Rosângela indícios de manobra
eleitoreira. Mesmo assim, abriu-se uma CPI em Santo André e o Ministério Público foi chamado
a investigar o caso.

A prova de que Rosângela falava a verdade veio em abril de 2003. A empresária encontrou no
fundo de uma gaveta da Expresso Guarará, de sua propriedade, um fax datado de 30 de
dezembro de 1998, em que se informava qual seria o valor da caixinha do mês – 100.000 reais
– e qual parte caberia a cada uma das sete empresas de ônibus na cidade. No mesmo fax
havia o número da conta bancária de Sérgio Gomes da Silva. Com base no fax, o Ministério
Público pediu a quebra do sigilo bancário de Sérgio e constatou que havia depósitos na conta
dele, na mesma data, exatamente nos valores discriminados no fax. Segundo Rosângela, a
caixinha costumava ser paga em dinheiro vivo, transportado em envelopes – naquele tempo os
corruptos ainda não se deixavam apanhar de cuecas recheadas. Em ocasiões especiais, o
depósito era feito diretamente na conta de Sérgio Gomes da Silva. Trinta de dezembro,
véspera de feriado e dia de folga dos office-boys das empresas de ônibus, era uma dessas
ocasiões. Os extratos bancários levantados pelo Ministério Público mostraram que o dinheiro
tinha entrada e saída. No histórico da conta de Sérgio, próximo às datas em que ele recebeu o
dinheiro, havia vários depósitos em favor de amigos, entre eles Ivone de Santana, a namorada
de Celso Daniel na época de seu assassinato. "Era um empréstimo pessoal, Sérgio e eu
somos amigos há anos", disse Ivone a VEJA. Assim, a partir da única certeza do caso – a de
que havia caixinha político-eleitoral em Santo André – surge o primeiro mistério: quem estava
por trás do esquema? E quem se beneficiou dele? 

I MISTÉRIO  
Quem chefiava a quadrilha que arrecadava dinheiro para o PT em Santo
André?

Durante muito tempo se difundiu a versão de que Celso Daniel foi assassinado porque tentou
acabar com o esquema de propina de Santo André. A mais recente virada no caso, em

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setembro deste ano, trouxe um forte indício de que o prefeito sabia do esquema e se
beneficiava dele. O Ministério Público de Santo André localizou uma diarista que prestava
serviços ao casal Ivone de Santana e Celso Daniel. Ela concordou em falar desde que seu
nome não aparecesse nos autos. Certa vez, durante uma faxina no apartamento, a diarista
encontrou três sacos de dinheiro escondidos sob um lençol. No dia seguinte, os sacos não
estavam mais lá. "Isso constitui para nós uma prova cabal de que Celso não apenas sabia do
esquema como participava dele", diz o promotor Roberto Wider Filho, de Santo André, que
investiga o caso desde o princípio. "Até então, o que sabíamos através de depoimentos de
amigos e parentes era que o prefeito talvez conhecesse o esquema, mas o tolerava desde que
o dinheiro fosse todo para o partido. E teria ficado chateado ao perceber que alguns
correligionários se locupletavam."
 
Fica ainda mais difícil acreditar que Celso Daniel não participava quando se levam em
consideração os estreitos laços de amizade entre os petistas de Santo André no tempo da
administração do prefeito. Eram como uma quadrilha, no bom sentido do termo – o do poema
de Carlos Drummond de Andrade que evoca uma dança. Miriam que amava Celso que amava
Ivone que se casou com Michel mas que também amava Celso. Ronan que era sócio de Sérgio
que era amigo de Celso que preparava Klinger para ser seu sucessor. Celso que é irmão de
Bruno que é casado com Marilena que é amiga de Sérgio.

Ao contrário do que ocorre no poema, os petistas da quadrilha de Santo André têm nome e
sobrenome. Miriam Belchior, a primeira mulher do prefeito, Ivone de Santana, sua última
namorada, e os irmãos Michel e Maurício Mindrisz, amigos de toda a vida de Celso, se
conheceram na adolescência. Eram da turma que freqüentava o boulevard Oliveira Lima, no
centro de Santo André, um dos primeiros calçadões do Brasil. Chegaram a cunhar o verbo
"boulevardiar", que significava paquerar no calçadão. Celso começou a namorar Miriam
Belchior na juventude. Na mesma ocasião, outra moça, Ivone de Santana, se apaixonou por
ele. Celso namorava firme uma, mas não desprezava a outra. Quando ele finalmente se
decidiu por Miriam, Ivone se casou com Michel Mindrisz, um dos melhores amigos de Celso e
filho da dona da loja de roupas onde ela trabalhava. Foram felizes, mas Ivone continuou vendo
Celso durante o casamento. Chegou a ter uma filha desse caso extraconjugal, a qual Michel
acabou assumindo. Depois que Celso se separou de Miriam, ele e Ivone, já bem mais
maduros, voltaram a ter um relacionamento. Essa contradança amorosa é relevante para o
caso por uma razão: toda a turma do Boulevard – Ivone, Miriam, Maurício e Michel – ocupou
cargos em um ou mais mandatos de Celso Daniel à frente da prefeitura de Santo André (foram
três no total, o último inconcluso). O fato ilustra uma característica marcante do estilo
administrativo do prefeito. Ele gostava de se cercar de amigos íntimos, de extrema confiança.

O empresário Sérgio Gomes da Silva, por exemplo, era de máxima confiança. Foi apresentado
ao prefeito por Marilena, mulher de seu irmão mais novo, Bruno Daniel. Corria o ano de 1988,
Celso estava em campanha para prefeito e queria ter um esquema de segurança. Sérgio era
versado em artes marciais, conhecia muita gente na área e montou uma equipe para o

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candidato. Eleito, Celso lhe deu a coordenação da guarda municipal e da defesa civil. Sérgio foi
ganhando a intimidade do chefe e cresceu dentro da prefeitura. Logo estava pilotando os
chamados "projetos matriciais", iniciativas que envolviam diferentes secretarias. Isso significa
que era poderosíssimo, pois estava encarregado de cobrar os secretários, motivo pelo qual
todos o chamavam de "Sérgio Chefe". Marilena, a mulher de Bruno, que havia sido nomeada
secretária de Educação, largou a Pasta após uma divergência com o prefeito. O
relacionamento entre os dois irmãos, que eram muito próximos, ficou estremecido. Sérgio de
certa maneira ocupou o espaço vago, tanto que muitos dos amigos comuns a ambos definem a
relação dos dois como fraterna. Ele ficou tão íntimo da turma do Boulevard que se tornou sócio
de Celso, Maurício Mindrisz e Miriam Belchior numa empresa de consultoria. Esteve próximo
às atividades políticas de Celso até 1996, quando fez um novo amigo, Ronan Maria Pinto, e
entrou em sociedade com ele em três empresas de ônibus. Além disso, Sérgio tornou-se
consultor de Ronan na área de coleta de lixo, atividade pela qual os petistas nutrem uma
curiosa atração. Juntos, ambos prestaram vários serviços à prefeitura de Santo André durante
os mandatos de Celso Daniel.

O Ministério Público de Santo André detectou irregularidades em vários desses contratos, e os


investiga até hoje. Os rendimentos declarados de Sérgio Gomes se multiplicaram por dez entre
1996 e 2000. Enquanto o "Sombra" enriquecia, Celso Daniel também fazia um novo amigo.
Arquiteto nascido no Maranhão, Klinger Luiz de Oliveira Sousa foi aluno do prefeito, que
também era professor, na pós-graduação da Fundação Getulio Vargas de São Paulo. Acabou
guindado ao cargo de secretário de Administração quando o prefeito se elegeu para o seu
segundo mandato, em 1996. Corriam rumores de que Celso preparava Klinger para ser seu
sucessor.

Não há indícios de rachas na "Turma do Boulevard" que sustentem a tese de que o prefeito,
indignado com o esquema de corrupção, tenha brigado com seus até então fiéis colaboradores.
Se alguma divergência houve, acabou em esfiha. Em janeiro de 2002, uma semana antes do
crime bárbaro, Celso resolveu ir ao restaurante Arabia, em São Paulo, para comemorar sua
indicação a coordenador da campanha eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva, que considerava o
ápice de sua carreira política. Convidou três companheiros petistas para o evento. O primeiro
era Sérgio Gomes da Silva. O segundo, Klinger Luiz de Oliveira Sousa. E o terceiro... Bem, o
terceiro será revelado no próximo capítulo. 

 
II MISTÉRIO  
Qual a real participação de José Dirceu e Gilberto Carvalho no esquema de
corrupção da prefeitura petista?

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No dia 24 de maio de 2002, apresentou-se ao Ministério Público de Santo André uma


testemunha que pediu para não ser identificada. Ela aparece nos autos do processo com o
nome de "Testemunha Número Um". Diante de quatro promotores, o depoente, que declarou
ser pessoa próxima do prefeito, disse ter conhecimento do esquema de caixinha denunciado
por Rosângela Gabrilli. Endossou o nome dos coordenadores: Sérgio, Klinger e Ronan. A partir
daí, fez acréscimos bombásticos. Segundo a Testemunha Número Um, Gilberto Carvalho, um
dos homens mais próximos de Lula na burocracia petista, sabia do esquema. Mais do que isso.
Gilberto Carvalho teria dito à Testemunha Número Um que ele próprio teria sido por diversas
vezes o portador do dinheiro da caixinha, que entregava pessoalmente ao presidente do
partido, o ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu.
Um mês depois, em junho, a Testemunha Número Um assumiu sua identidade. Tratava-se de
João Francisco Daniel, o irmão mais velho do prefeito. Na ocasião, vários cardeais petistas –
entre eles o deputado Luiz Eduardo Greenhalgh, escalado pelo partido para acompanhar o
caso – vieram a público desqualificar João Francisco, dizendo que ele estava a serviço da
"direita" e que era brigado com o irmão. Contra esse argumento, o irmão do prefeito lembrou a
VEJA que, meses antes do seqüestro, ele próprio, João Francisco, Celso e respectivas
mulheres haviam viajado juntos para a Itália, de férias. Recentemente, João Francisco contou a
mesma história envolvendo Gilberto Carvalho e José Dirceu à CPI dos Bingos. Em outro
depoimento à mesma CPI, o irmão mais novo de Celso, Bruno, endossou a versão. De acordo
com João Francisco, Miriam Belchior, a primeira mulher do prefeito, também sabia da história
em seus detalhes.

Ex-seminarista e ligado à esquerda católica, Gilberto Carvalho foi um dos fundadores do PT no


Paraná. Quando saiu de seu estado natal, ocupou várias funções na burocracia do partido, em
geral diretamente ligadas a Luiz Inácio Lula da Silva. Por essa razão, quando Celso Daniel o
nomeou secretário de Comunicação de sua prefeitura, ele foi visto pela turma do Boulevard
como um enviado especial do próprio Lula ao ABC paulista. Era atípico Celso escolher
colaboradores fora do círculo de seus amigos mais próximos. Gilberto, no entanto, se adaptou
bem. Tornou-se próximo não apenas de Celso Daniel, mas também de Sérgio Gomes da Silva
e Klinger Luiz de Oliveira Sousa, que os irmãos de Celso apontam como os chefões da
corrupção. Naquela noite no restaurante Arabia em que Celso comemorava sua ascensão a
coordenador de campanha no PT, Sérgio, Klinger e Gilberto Carvalho brindaram com ele.
"Acho uma injustiça dizerem que Celso brigou comigo porque soube de algum suposto
esquema. Éramos muito próximos até o fim da vida, e se alguém saiu extremamente

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prejudicado dessa história fui eu", disse Klinger a VEJA. A reportagem da revista tentou
confirmar o encontro no restaurante com Gilberto Carvalho, mas ele não retornou as ligações.
Além dele, Miriam Belchior e José Dirceu também foram procurados. Informados do assunto
que seria tratado, não atenderam à reportagem de VEJA. 

 
III MISTÉRIO  
Por que o Ministério Público e a Polícia Civil chegaram a conclusões tão
diferentes sobre o caso?

Bruno Daniel é o irmão mais novo de Celso. Eles freqüentaram simultaneamente a Escola de
Engenharia Mauá, em São Bernardo do Campo, iniciaram juntos a militância no PT (o mais
velho dos irmãos, João Francisco, preferia ficar longe de política) e iam constantemente ao
Estádio do Pacaembu, em São Paulo, para assistir a jogos do Corinthians. Sempre foram muito
próximos. O assassinato de Celso traumatizou Bruno. Entre as mágoas que guarda do
episódio, uma se destaca: a que nutre pelo deputado petista Luiz Eduardo Greenhalgh, o qual
teria tentado abafar, a todo custo, os rumores de que o crime contra Celso Daniel teria
motivação política. É importante lembrar aqui que, no enterro do prefeito, o então candidato a
presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso emocionado, em que disse: "Esse crime
não foi coincidência. Tem gente graúda por trás disso, e nós vamos descobrir quem é". Dois
meses depois, ninguém mais no PT queria saber de apurar o crime. Greenhalgh, destacado
pelo partido para acompanhar o caso, tentava convencer a família a não aprofundar as
investigações. "Para mim houve um acordo entre PT e PSDB nas vésperas das eleições.
Certamente o PT temia que a apuração sobre a morte do meu irmão revelasse mais corrupção,
e acertou com o PSDB um abafamento do caso, em troca de silêncio sobre possíveis falcatruas
dos tucanos. O Greenhalgh, uma pessoa em que eu confiava, comprou essa versão e tentou
vendê-la a nós", disse Bruno a VEJA.

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IV MISTÉRIO  
Existe alguma relação entre as sete mortes ligadas ao caso?

Na sexta-feira passada, a Polícia Civil e o Ministério Público finalmente concordaram em


alguma coisa relacionada ao caso Celso Daniel. Ambos trabalhavam com a hipótese de que o
legista Carlos Delmonte Printes havia se suicidado. Na véspera, a polícia defendia a tese de
morte natural por ataque cardíaco ou problemas pulmonares. A perícia do Instituto Médico
Legal, no entanto, descartou causas naturais. As vísceras de Delmonte, assim, foram
encaminhadas para um exame toxicológico. De acordo com a família, o legista andava
deprimido com a morte de um filho e a doença grave de outro. Mais um indício de suicídio foi a
carta que o médico deixou com um terceiro filho, na qual especificava detalhes sobre o próprio
enterro e autópsia e listava números de contas bancárias e respectivas senhas. Na tarde de
quarta-feira, o legista foi encontrado morto no chão de seu escritório no bairro paulistano de
Vila Clementino. Na ocasião, ele estava de cuecas.

A morte de Delmonte é a sétima relacionada ao caso. Dos outros seis mortos, pelo menos três
poderiam dar uma virada nas investigações. O mais importante era o bandido Dionísio Aquino
Severo, um dos seqüestradores de Celso Daniel. Na manhã de 17 de janeiro de 2002, dois
dias antes da ação criminosa, Dionísio e mais dois amigos protagonizaram uma fuga

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espetacular. Eles tomavam sol no pátio do presídio Parada Neto, em Guarulhos, quando um
helicóptero apareceu e os resgatou. Só não foi mais cinematográfico porque os guardas do
presídio não reagiram. Estavam, como se diz no jargão dos bandidos, com "os fuzis entupidos"
– ou seja, haviam recebido propina para facilitar a fuga. Quem teria pago? Teria sido Dionísio,
libertado propositalmente para que seqüestrasse Celso Daniel? Pelo menos uma pessoa
acreditava nessa hipótese: o delegado Romeu Tuma Júnior, titular na ocasião da delegacia
seccional de Taboão da Serra, sob cuja jurisdição estava a cidade de Juquitiba, município onde
o corpo foi encontrado. Sondagens feitas por seus investigadores davam conta de que o
helicóptero utilizado na fuga havia sido alugado na região do ABC. Quando passou a investigar
a conexão, Tuma começou a receber ameaças de morte. Os recados vinham da parte do
próprio Dionísio. Três meses mais tarde, o bandido seria preso em Maceió, onde tentava
assaltar um banco. No dia 8 de abril foi levado ao delegado Tuma. Disse que sabia muito sobre
o caso, mas só falaria se fosse possível negociar "condições especiais". Não teve tempo para
isso. Foi assassinado dois dias depois dentro do presídio do Belém, em São Paulo. Dois dos
outros mortos guardavam relação com Dionísio. O primeiro era o bandido Sérgio "Orelha", que
escondera Dionísio logo depois da fuga do presídio. O outro, Otávio Mercier, investigador da
Polícia Civil que procurava Dionísio depois da fuga e teria chegado a fazer um contato com ele
por telefone. Ambos morreram assassinados a tiros.
Antônio Palácio de Oliveira, garçom que serviu o último jantar de Celso Daniel no restaurante
Rubaiyat, morreu quando, perseguido por dois homens, espatifou sua motocicleta num poste.
Paulo Henrique Brito, testemunha que poderia ajudar a esclarecer as circunstâncias do
acidente com o garçom, foi assassinado com um tiro vinte dias depois. A penúltima morte
relacionada ao caso foi a de Iran Moraes Redua, o agente funerário que reconheceu o corpo de
Celso Daniel, jogado numa estrada de terra em Juquitiba. Redua foi assassinado a tiros em
novembro de 2004.

É duvidoso que o legista Carlos Delmonte Printes soubesse algo além do que já havia dito –
ele recentemente participou de dois programas de entrevistas da Rede Globo. Em agosto deste
ano, Printes deu um depoimento a Roberto Wider e Amaro Thomé Filho, promotores de Santo
André envolvidos com o caso, no qual disse que passou dois anos proibido de falar sobre o
assunto pelo superintendente da Polícia Científica de São Paulo, Celso Perioli, e pelo diretor do
Instituto Médico Legal, José Jarjura. No ano passado, em plena vigência da mordaça, VEJA
conseguiu falar com Carlos Delmonte Printes numa entrevista à qual compareceram outros
integrantes da Polícia Civil. Sob a vigilância de seus superiores, Delmonte deu uma versão
intermediária sobre o caso. Celso Daniel havia sido torturado, sim, mas isso não significava
necessariamente que se tratava de crime político, pois existem bandidos comuns que matam
com requintes de sadismo. A revelação mais impressionante que fez na ocasião – e que
repetiu no depoimento de agosto aos promotores de Santo André – foi a de que o corpo de
Celso Daniel, a pedido dele, havia sido embalsamado. A intenção era que o cadáver pudesse
ser exumado no futuro. A ação esteve a cargo da equipe do Aeroporto de Cumbica,
especializada em embalsamamento de corpos para traslados internacionais. Carlos Delmonte
Printes acreditava que muita coisa ainda viria a ser descoberta sobre o caso, e um novo exame
do cadáver poderia fornecer revelações adicionais (o legista confirmou também que Celso
morrera no sábado 19, e não no domingo 20, como está no túmulo do prefeito reproduzido na

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capa de VEJA).
 
Sete mortes depois, resta como testemunha mais importante Aílton Alves Feitosa, um dos
companheiros de Dionísio Aquino Severo na fuga do presídio Parada Neto. 

 
V MISTÉRIO  
Qual a relação entre o assassinato eo esquema de propina em Santo
André?

Quando convidou Dionísio para jogar bola no pátio da cadeia num dia de céu azul, Feitosa
ouviu do amigo: "Hoje o dia está propício para voar". Achou que o colega andava meio
estranho e foi para o futebol. Minutos mais tarde, os dois times ficaram estarrecidos ao ver um
helicóptero pousar no pátio da cadeia e resgatar Dionísio. Ele próprio, Feitosa, ficou mais
surpreso ainda – de forma agradável – quando o companheiro gritou seu nome, chamando-o
para fugir com ele. Foi essa a história que ele contou ao Ministério Público de Santo André em
setembro de 2002. O mais grave de seu depoimento viria depois. Fugido da cadeia, Feitosa
ficou escondido na casa de dona Dete, tia de Dionísio, e teria ouvido conversas dele com seus
comparsas no seqüestro de Celso Daniel. Eles falavam que estava tudo pronto para levar o
"peixe grande". Que o empresário que iria acompanhá-lo sabia de todo o plano e iria facilitar a
ação. Que a perseguição, as colisões e os disparos na Pajero seriam apenas para "fazer a
cena" – afinal, todos sabiam que o carro era blindado e ninguém em seu interior corria riscos.
Que a morte do "peixe grande" seria uma "queima de arquivo". Que Dionísio havia sido
resgatado do presídio para realizar uma série de operações criminosas, e que a principal delas
seria justamente esse assassinato. Era fácil legendar a história. O empresário seria Sérgio
Gomes da Silva, e o "peixe grande", Celso Daniel. Depoimentos posteriores de parentes e
amigos de Dionísio e Feitosa confirmaram vários pontos da versão do segundo. Num dos
depoimentos, Dionísio aparece como mentor da quadrilha, à qual ele se referia carinhosamente
como "timinho de Diadema". Num depoimento, a mulher de Dionísio cita o "Sombra" como
financiador da operação.

Foi com base principalmente nesse depoimento que Sérgio Gomes da Silva teve sua prisão
preventiva decretada em dezembro de 2003, na condição de elemento de alta periculosidade.

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Klinger e Ronan escaparam por pouco. Quase foram condenados pelo Tribunal de Justiça de
São Paulo em junho do ano passado. De três desembargadores, dois votaram a favor da
prisão e um pediu vistas ao processo. Na segunda votação, um dos desembargadores mudou
de idéia e eles se salvaram. Em julho do ano passado, Sérgio Gomes da Silva também foi
solto. O juiz achou que não havia provas suficientes de que ele fosse o mandante do
assassinato. De lá para cá, os personagens do caso Celso Daniel continuam levando vida
normal. Quase todos eles, como José Dirceu, Gilberto Carvalho, Miriam Belchior, Maurício
Mindrisz, Ronan Maria Pinto, Klinger Luiz de Oliveira Sousa e o próprio Sérgio Gomes da Silva,
continuam participando de governos do PT, próximos ao PT ou fazendo negócios com o PT.
Na semana passada, um relatório do Conselho de Defesa da Pessoa Humana, órgão ligado ao
Ministério da Justiça, recomendou que se reabrisse o caso Celso Daniel. O parecer provocou
ira no governo.
No Cemitério da Saudade, em Santo André, jaz um corpo embalsamado.

20/01/2007 - 08h40 - Atualizado em 20/01/2007 - 11h58


Meia década depois, caso Celso Daniel parece longe de solução
Ministério Público e Polícia Civil conduziram investigações concorrentes e divergentes.
O MP fala em crime político e a Polícia Cilvil, em crime comum.
Há cinco anos, em um 20 de janeiro, um caseiro caminhava na Estrada da Cachoeira, em
Juquitiba, na Grande São Paulo, quando encontrou o que acreditava ser um bêbado caído.
Quando chamou a polícia, o Brasil descobriu, junto com o caseiro: o bêbado não era bêbado,
nem estava vivo, era o prefeito de Santo André, Celso Daniel, seqüestrado dois dias antes na
Zona Sul da capital paulista.
 
A perplexidade da opinião pública com a notícia daquele dia 20 deveria ter se esgotado com o
tempo e o avanço das investigações, mas este caso específico não seguiu o roteiro de outros.
"Se eles que são especialistas não sabem, imagine a gente que não é", afirma a psicóloga
Vera Kleimann, vizinha do prefeito. Vera mora no apartamento 51, Celso morava no 38.
 
Filho de um ex-prefeito de Santo André, jogador de basquete e professor universitário, Celso
Daniel cumpria o terceiro mandato como prefeito de Santo André e era encarado como uma
referência intelectual no ABC Paulista, berço do Partido dos Trabalhadores. Começava a
projetar-se como liderança nacional na figura de coordenador da campanha de Luiz Inácio Lula
da Silva para a Presidência da República em 2002.

 
 O crime

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Na noite de 18 de janeiro de 2002, uma sexta-feira, Celso Daniel e o empresário do setor de


transportes, Sérgio Gomes da Silva, amigo e ex-assessor, jantaram no restaurante Rubaiyat,
na Alameda Santos, na região da Avenida Paulista. Na volta para Santo André, por volta das
11 horas, notaram que a Pajero de Gomes estava sendo seguida.
Quando o carro alcançou as ruas Nossa Senhora da Saúde e Antônio Bezerra, na Vila das
Mercês, Zona Sul de São Paulo, passou, de acordo com a polícia e o Ministério Público, a ser
perseguido por três carros: uma Blazer preta, um Santana azul e um Tempra branco.

Os seqüestradores atiraram contra o veículo, retiraram Celso Daniel e o obrigaram a entrar na


Blazer. Sérgio Gomes afirma que o carro parou após uma pane mecânica e foi deixado no
veículo, sozinho. O corpo do prefeito foi encontrado no dia 20, um domingo, em uma estrada
de Juquitiba, com 11 tiros e marcas de tortura.
A dúvida

Os dois pólos da investigação, a Polícia Civil e o Ministério Público, têm visões divergentes
sobre casos. Desde 2002, o Ministério Público fala em crime político e a Polícia Civil, em crime
comum.

Para o MP, Celso Daniel foi morto a mando de uma quadrilha, cuja atividade principal era
supostamente limitada pelo prefeito: a extorsão de dinheiro de empresários do setor de
transportes para financiar campanhas eleitorais.

Para a polícia, o prefeito de Santo André foi vítima da ação de criminosos comuns, que
resolveram, de última hora, trocar de alvo: no lugar de um empresário da Ceagesp, um homem
que aparentava ser rico (estava ao lado do motorista) e que não sabiam ser prefeito.

Embora a Polícia Civil paulista tenha indiciado seis pessoas e apontado que o assassinato de
Celso Daniel foi resultado de um crime comum, em dois inquéritos encerrados em 2002 e em
2006, o Ministério Público insiste na tese de que o empresário do setor de transportes Sérgio
Gomes da Silva, amigo e ex-assessor que estava com o prefeito na noite do crime, atuou como
mandante do assassinato.
 

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O promotor Roberto Wider, um dos três envolvidos na investigação em Santo André, avalia que
serão necessários pelo menos mais quatro anos para levar o suposto mandante do crime para
trás das grades. “Acredito que até o final do ano o julgamento comece, mas isso abre uma
nova fase de recursos”, afirma o promotor. Em dezembro de 2004 e janeiro de 2005, o
empresário chegou a ficar preso por 40 dias por supostamente atrapalhar as investigações,
mas foi solto por determinação do Supremo Tribunal Federal.

O advogado de Sérgio Gomes, Roberto Podval, afirma que diante da falta de provas seu
cliente deverá ser inocentado no processo em que é réu, mas não quis estimar prazos. "O que
ele sofreu até agora já é uma pena bastante alta. Isso acaba com a vida de qualquer pessoa",
disse Podval.
 
O próximo passo do processo é a tomada de um depoimento, ainda em janeiro, de uma
testemunha que, segundo o promotor, garante ter visto um terceiro carro na cena do crime. A
complexidade do caso é tão grande que esse mesmo depoimento interessa tanto à acusação
quanto à defesa.

Se não conseguiram apontar culpados de forma definitiva, os cinco anos de investigações


sobre o seqüestro e assassinato de Celso Daniel foram suficientes para abrir um debate sobre
os limites de atuação que devem ser obedecidos pelo Ministério Público. Wider afirma que todo
o trabalho realizado pelo MP até agora pode perder validade caso o Supremo Tribunal Federal
(STF) decida que o Ministério Público não tem poder para investigar.
 
Anular a investigação do MP é justamente uma das pretensões da defesa do empresário.
"Nunca vi na história desse país um caso com três promotores designados exclusivamente de
um caso. Isso é desproporcional", afirma Podval, advogado de Sérgio Gomes.

 
O tempo

Sessenta meses, duas eleições presidenciais e uma disputa municipal depois, o caso ainda

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desperta a atenção da opinião pública. A expressão "Celso Daniel" surge 152 mil vezes no site
de buscas Google, sete vezes mais do que "Toninho do PT" ou "Antônio da Costa Santos", o
prefeito de Campinas assassinado em 2001.

Assim como a viúva de Toninho, a mãe e os irmãos de Celso Daniel reivindicam o


esclarecimento definitivo do caso.  A família denuncia repetidamente que sofre ameaças
anônimas. E garante que a pressão provocou há um ano o auto-exílio do irmão mais novo de
Celso Daniel, Bruno Daniel, e de seus dois filhos, para local não determinado.

A corretora de vendas Nádia Herculano, que mora na periferia de Santo André tem as mesmas
dúvidas de Dona Vera, a  vizinha de Celso Daniel. "Eu acho que não foi elucidado nem como
ele morreu. É como se ele tivesse morrido ontem", diz.

O Seqüestro do Prefeito

O prefeito de Santo André Celso Augusto Daniel , 50 anos, janta com o amigo Sergio gomes da
Silva no restaurante Rubayat, na zona sul de SP. Os dois deixam o local na Pajero blindada de
Sergio Gomes com destino à cidade do ABC paulista. A Pajero cruza o complexo viário Maria
Maluf e de la acessa as ruas Antonio Bezerra e Nossa senhora da Saúde, no Sacomã em
direção a rodovia Anchieta, que corta Santo André. O trecho é conhecido como “tres tombos”
por causa das subidas e descidas em seqüência. Nesse ponto Sergio e Daniel notam que são
seguidos.

Embarcados em um santana azul, uma Blazeir e um tempra branco, os seqüestradores


interceptam a pajero, depois de forçarem colisões e disparar tiros contra os vidros do veículo.
Daniel é levado pelos seqüestradores por volta das 23h sem apresentar resistência. Sergio
gomes, que estava dirigindo, é deixado no carro.

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20 de janeiro de 2002 – o corpo de Celso Daniel é encontrado pela manhã abandonado com 11
tiros na Estrada da Cachoeira, próxima ao cativeiro onde teria ficado antes de ter sido
assassinado em Juquitiba, na Grande SP, próximo a rodovia Regis Bittencourt. O corpo
apresenta sinais de tortura, como queimaduras provocadas por cano de arma de fogo.

A CARTA DO IRMÃO DE CELSO DANIEL  17/04/2009

Abaixo, uma carta aberta de Bruno José Daniel Filho, um dos irmãos de Celso Daniel. Só para
constar: Bruno e sua mulher, Marilena Nakano, eram militantes do PT. Ao lado do irmão,
integraram o grupo de fundadores do partido. Marilena foi secretária da Cultura da primeira
gestão de Celso em Santo André, entre 1987 e 1990. Ameaçada de morte no Brasil, a família
decidiu morar na França, onse se sente numa espécie de exílio. Segue a carta:

Hoje, 16 de abril, Celso Daniel, meu irmão, estaria completando 58 anos de vida. Como todos
sabem, foi seqüestrado, torturado e assassinado há mais de sete anos quando era prefeito de
Santo André e coordenava a elaboração do programa de governo do então candidato à
presidência da república Luis Inácio Lula da Silva. Sérgio Gomes da Silva, que o acompanhava
no momento do seqüestro, foi denunciado pelo Ministério Público como mandante desse crime.
Foi preso por um pequeno período, mas responde em liberdade, após obter habeas corpus do
Supremo Tribunal Federal, sob a alegação de que não representa perigo para a sociedade.

Apesar de todas as evidências colhidas pelo MP que mostraram que o crime foi planejado e
que há pelo menos um mandante, o Poder Judiciário ainda sequer decidiu se o julgamento
deve ir a júri popular porque, segundo informações que obtivemos do MP, a última das
testemunhas arroladas pela defesa de « Sombra » (conforme Sérgio é chamado pela imprensa
e era conhecido nos meios petistas) ainda não foi ouvida, pois nunca é encontrada. Parece-nos
que expedientes como esse e tantos outros são usados para que as tramitações legais se
alonguem no tempo, de modo a tornar mais difícil sua solução.

Inúmeros outros assassinatos que ganharam amplo espaço na imprensa já foram resolvidos ou
a justiça já se posicionou quanto ao encaminhamento a ser dado. Como explicar que no « caso
Isabella », de cinco anos, morta em 2008 ao cair do apartamento onde residia, seu pai e sua
madrasta já tenham ido a júri popular e até hoje o processo de Celso segue sem essa decisão
após mais de 7 anos ? Como explicar que o promotor Igor Ferreira, 3 anos após ter tirado a
vida de sua esposa já tenha sido julgado e condenado e o caso de Celso segue ainda sem

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resposta da justiça ? Como explicar que no crime de que foi acusado o promotor Thales Ferri
Schoedl a decisão final tenha sido tomada em menos de 4 anos e os indiciados pelo crime
contra Celso ainda sequer tenham ido a júri popular ? Como explicar que o jornalista Pimenta
Neves tenha sido condenado em primeira instância após 6 anos pela morte de sua namorada,
a jornalista Sandra Gomide, e o assassinato de Celso ainda se encontra em fase de arguição
de testemunhas pelo juiz?

Poderíamos citar outros crimes, mas esses já são exemplares para afirmar : há algo de
estranho que impede que o julgamento dos responsáveis por seu seqüestro, tortura e
assassinato não seja solucionado. Quais são as razões dessa morosidade ? Quais são as
pessoas e instituições que têm interesse no sentido de que nada seja resolvido ?

Não cabe a mim julgar os indiciados, mas cabe a mim denunciar esta morosidade. Além disso
tenho o direito de apontar problemas de procedimentos correntes na justiça brasileira. Por
exemplo, procedimentos que impedem o juiz de tomar a decisão se o processo relativo ao
assassinato de meu irmão, passados mais de 7 anos de sua morte, vai ou não a júri popular
enquanto não for ouvida a última testemunha de defesa de Sérgio Gomes da Silva.

Que país é o nosso em que pessoas já condenadas em primeira instância podem ficar soltas
até que todos os recursos nas demais instâncias sejam analisados enquanto nós, minha família
e eu, tivemos que deixar o país em 2006 em função de intimidações, perseguições e ameaças
que sofremos e depois de terem ocorrido oito mortes relacionadas à morte do Celso ? Se é
justo que um julgamento tenha que chegar a seu fim para que haja punições, é justo que os
procedimentos legais possam se alongar quase que indefinidamente ?

Para aqueles que esperam que eu me cale, apesar da condição de exílio que hoje vivo,
outorgado pelo Estado francês, uma vida que tem um lado amargo porque fico distante de meu
país e sou impedido de ver amigos e parentes, quero dizer que o presente que tenho a dar ao
meu irmão em cada um de seus aniversários é e será a minha luta, mesmo à distãncia, pelo
aperfeiçaomento das nossas instituições através de nossas reivindicações de punição aos
culpados pela morte de Celso e de mudanças ligadas às causas que lhe deram origem.

Como aceitar que Donizeti Braga, que teria tido seu celular rastreado na região do cativeiro de
meu irmão, tenha direito a foro especial no processo de investigação pelo único fato de ser
deputado estadual ? Como aceitar que o « Sombra » responda em liberdade por decisão da
mais importante instância do Judiciário brasileiro enquanto somos obrigados a viver exilados ?

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Como aceitar que a lentidão de recursos interpostos possam retardar durante anos e anos a
punição de criminosos, agora que o STF decidiu que a prisão de um condenado só pode
ocorrer quando julgados todos os recursos ?

Sabemos que contamos com a solidariedade e apoio de muitos que lutam e também desejam
que o Brasil seja um país mais democrático e menos injusto. Que esta carta ajude neste
sentido e contribua para que o caso seja equacionado o mais rápido possível.

Bruno José Daniel Filho


França, 16 de abril de 2009

Fontes: http://pt.wikipedia.org/wiki/Celso_Daniel
            http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u73195.shtml
            http://vejaonline.abril.com.br/notitia/servlet/
            http://pt.wikinews.org/wiki/M%C3%A9
             www.terra.com.br/istoe/1892/1892_semana_02.htm
             www.mundolusiada.com.br/.../Nov.Dez_2006.htm
             veja.abril.com.br/191005/cartaleitor.html
             veja.abril.com.br/191005/p_042.html

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