1
Falava quase sempre por monossílabos. Poucas excepções. Contavam-se pelos dedos de uma mão. Ninguém sabia dizer se ele teria feito um voto de silêncio. Talvez, algum trauma de infância. Quem poderia adivinhar? As respostas eram invariavelmente “não” ou “sim”. Alguns “hum, hum”. Também, ninguém fazia ideia se pensava por monossílabos. Os seres humanos pensam e parte do processo envolve construir frases que não são verbalizadas. Por exemplo: “O que é que eu vou fazer hoje à noite?”. É uma pergunta simples e não é possível construí-la com palavras de uma sílaba só. Simples e complexa ao mesmo tempo. Vários predicados e um sujeito. Era uma vez um sujeito chamado César, que fazia sempre a mesma coisa todas as noites. Comia a mesma coisa todos os dias. Talvez fosse mesmo possível manter todo o processo mental monossilábico, como se de um concurso se tratasse. O maior mono de sempre. Mas, com que propósito? Esse mistério não despertava grande curiosidade na mente daqueles que cirandavam ali na mesma esfera que ele. As tatuagens no braço, sim. Isso, sim. Um mistério daqueles. Porque teria o César tatuado aqueles nomes todos? Alguns, até, repetidos. Mas não adiantava nada perguntar-lhe. A resposta era um cabisbaixo “sei lá”. Um “sei lá” a rasar o solo de tão triste e deprimido. Os monossílabos do César tinham vida própria. Já se lhe desprendiam do corpo, doentes. Abatidos. Como se precisassem de ajuda psiquiátrica. O som desaparecia depressa. As ondas sonoras estatelavam-se no chão. Existências curtas,
sofridas e irrelevantes. Quando, um dia, ele desaparecesse, ninguém seria, especialmente, afectado. Ninguém. Vivalma. Zé Ninguém. O César navegava, tranquilamente, em direcção ao negrume final. Diziam. Mas ele não era nenhum rato. Não abandonaria aquela embarcação. Nem que ardesse, qual pira funerária. Nem que tivesse de ser ele, esse rato persistente, a tomar o leme nas suas mãos calejadas. Até à escuridão final, onde
se veria livre de todas as cicatrizes e de todos os pecados. Mesmo com a sensação de que estava sempre a perder, não desistia. De olhos postos no chão. Sempre aquém, a tentar chegar mais além. Pé ante pé. Mesmo que quisesse gritar “SINTO-ME AQUÉM DE TUDO E TODOS!”, não podia. Alguém – justamente, diga-se – o mandaria calar. Alguém lhe atiraria à cara os monossílabos. “Ó César, tá calado, pá! Limita-te ao sim e ao não. Querem lá ver que a formiga já tem catarro?!”
– Bom dia, César!
– Bom dia!
– Mais um dia, não é, rapaz?
– Pois é.
– Alguma coisa que precises, já sabes, aqui, a Gertrudes
está sempre às ordens. Vens cá à hora de almoço e comes uma bifana no pão como deve de ser, ouvistes? Tu precisas de te alimentar, César.
– Sim.
– Vá. Vai lá. Faz-te lá à vida.
– Sim.
– Desgraçado do moço – comentava, invariavelmente, a
Dona Gertrudes com a Amélia. – É bom moço, mas esta história
Cá para
de quase não falar… Credo! O gato comeu-lhe a língua
mim, não tem os cinco alqueires bem medidos. É meio tantã, só
pode. Tenho tanta pena dele.
– Pois… – reticenciava a Amélia.
– Mas é um moço trabalhador. Nunca se ouviu dizer
que tivesse faltado ao serviço. Já não se fazem assim. São todos doutores. São, são. Da mula ruça. São é uns grandes aldrabões, é
o que são. Mas o César é que as paga. Triste como a noite, aquele rapaz… Diz alguma coisa, rapariga!
– O que é que quer que lhe diga, Dona Gertrudes? Às
vezes, as pessoas perdem-se dentro de si mesmas. Segredos e arrependimentos. Mistérios que se adivinham em olhares
abatidos. Sofrimentos que são como pegadas na areia que o mar engole. Lágrimas que nenhuma água fria consegue disfarçar. É isto que quer que eu lhe diga? Pronto, já disse.
– Ai, rapariga, eu é que estou perdida contigo…
2
Pouca gente faz o que gosta. As pessoas cansam-se muito. Enfadam-se e aborrecem-se. O tédio consome-lhes (nos) as entranhas. Há muito que sabemos que o trabalho é assim. Difícil. Sofrido. Exsudação mal cheirosa que sai por todos os poros. Danos colaterais. Espinhos e cardos. Ocasionalmente, lá se ouve um músico ou um jogador de futebol dizer que é um sonho ganhar a vida a fazer o que se gosta. Nem parece trabalho. É, antes, uma espécie de hobby remunerado. O César estava dentro desta categoria. A categoria dos homens que apreciam o que fazem. Não era bem pago. Pois… isso, de facto, não era. E, só não era mais explorado, porque o senhor Isidro simpatizava com ele. Tinha pena do rapaz. Há muitos anos que o César trabalhava para ele. Uma jóia de moço. Um rubi competente. Lá metido com ele, é certo, mas competente. Às duas em ponto, estava, invariavelmente, sentado no seu carro, com a chave plástica metida na ranhura. Tudo a postos. Até à meia-noite, aquele espaço seria dele. Esquecia toda a dor. Toda. Esquecia o ruído que saía dos altifalantes e, internamente, sintonizava uma das cassetes que ouvira na noite anterior. Como tinha poucas, sabia tudo de cor. Nunca mexia os lábios. Nunca se distraía com o que se passava na pista. Ouvia tudo. Tudo o que se passava na sua cabeça. Cada letra. Cada palavra. Cada solo de guitarra. Ignorava o batuque pimbalarucho pimbarolo. Batuque que o tentava apostemar no mundo real. E conseguia. Quase sempre. Fugir. Ignorar.
Quando o altifalante propagava aquele primeiro ataque
sonoro, começava o dia. Pista ainda vazia. O César arrancava. Mão no volante. Apenas uma. O carro deslizava com elegância na pista cinzenta. Domínio perfeito. Tangentes apuradas. Piões que pareciam encenações teatrais. Uma dança moderna surpreendentemente encantadora. Um bailado a solo. Havendo ali um júri, nenhum se atreveria a dar menos do que nota 10. Medalha de ouro. Via-se bem… melhor, percebia-se bem que o César punha tudo de si ali. Naquele carro vermelho, número 17. Todo o seu coração. Conduzia com o coração nas mãos. Só sentimento. Expressava, assim, o seu amor. A sua raiva. As suas lutas. No carrinho de choque vermelho, número 17. Ana Malhoa a rolar. Toda turbinada. Mas o César, ás do verdadeiro turbo lento, não ouvia nada. Ás de espadas. The Ace of Spades. Não é evidente o quão fundo o trash-pimba-tecno- chunga penetrava no aparelho auditivo dele, mas não devia passar da tona. Tinha um bom sistema de blindagem, o César.
3
Todo o mundo frequentava a feira. Ricos, pobres, cultos, incultos, brutos, gente rude do campo, intelectuais, políticos, gatunos, presidiários em liberdade condicional, ou condicionada, como o ar, militares, namorados, namorados desavindos, mulheres vítimas de violência doméstica, mulheres violentas que violentam com demasiada violência, ditadores, potenciais
ditadores, poetas, escritores, malucos, doidos, varridos, crianças infernais, bebés chorões, mal-educados, bem-educados, artistas, doidos (espera… já referi esta categoria), gente deprimida, gente com distúrbio de ansiedade, gente medicada. Pedantes. Kafkianos. Enfim, gente. Nómadas, por instantes. De um lado para o outro. De Cila para Carabdis. Ouvia-se todo o tipo de pérolas. Atiradas ao ar para os porcos que as quisessem apanhar. Porcos voadores. Num só dia. Ouvidos bem abertos, grandes, como os do lobo mau, e zás! Para te ouvir melhor. Coisas estranhas. Coisas dispensáveis. Coisas desagradáveis. Frases de amor. Poemas raivosos. Ordinarices patéticas. Dramas e horrores. Tudo ruminado com o maior frenesim e atabalhoamento salivar. Em círculos. Os mesmos melodramas. Cuspidos e escarrados. Discussões matrimoniais. Drama.
– Não dizes nada?
– O que é que tu queres que eu te diga?
– Nada. É sempre a mesma coisa…
– Amorzinho, vá lá! Não estamos aqui a andar no barquinho, como tu querias?
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– |
Não me venhas com amorzinho, nem meio amorzinho, |
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ouvistes? |
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Ouviste. |
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O quê? |
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Não é ouvistes. É ouviste. |
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Ai, a brincadeira! Querem lá ver agora?! Estares comigo |
não interessa pra nada, não é? Eu sei que o que tu queres é ir
para casa, sentar esse coiro no sofá e ficar a noite toda a ouvir gente aos gritos por causa da porcaria do futebol.
– Tem calma, mulher!
– Pró que eu havia de estar guardada…
– Sabes o que te digo?
– Sei lá o que tu dizes.
– Num mundo vermelho, o amor é preto… Num mundo vermelho, o amor é preto.
– Hã?
– Tu toleras a minha paixão futebolística e eu tolero o facto de seres uma déspota.
– O quê? Olha que eu não te admito, Francisco Miguel! Comédia de terror.
– Conheces o mito de Narciso?
– O Narciso Miranda de Matosinhos?
– Valha-me Deus!… Não! O mito grego.
– Ah… Conversas sem nexo.
– Sabes que o Bernardo sofre de
hexacosioihexecontahexafobia e pensa que vai para o céu por
causa disso?
– Tás a gozar?
– Tou-te a dizer!
Pedidos de namoro entre estudantes.
– Espera, espera um pouco!
– Diz lá, estou com pressa. Ainda não fiz os
apontamentos para o exame, se é o que me vais pedir…
– Não, não… Não é bem isso. Queria pedir-te outra
coisa…
– Despacha-te, homem!
– Bem… queria perguntar-te se queres ser a mãe dos
meus filhos. Uma real feira. De tudo. Até de vaidades. Deixai toda a esperança, vós que entrais neste lugar. Bem-vindos ao inferno, gente boa! Cruzes credo, criatura!
4
Muitasvezes,aAméliapediaaoCésarqueaacompanhasse a casa, ao fim da noite. Não era longe, mas não era muito seguro uma mulher andar sozinha na rua a altas horas da noite. Falavam pouco, apesar de nutrirem um carinho especial um pelo outro. Era mais uma empatia. De empate. Iguais. Zero a zero. Ou um a um. Em casa ou fora. A empatia é, segundo Hoffman, “a resposta afectiva vicária a outras pessoas, ou seja, uma resposta afectiva apropriada à situação de outra pessoa, e não à própria situação” (aqui ninguém faz ideia quem seja esse tal Hoffman, está na wikipédia). Pouco falavam, mas, numa noite vulgar, mais ou menos igual às outras, tudo mudou. Como se as coisas acontecessem mesmo assim! Com esta ligeireza e simplicidade Será um conto infantil? Por favor! Eureka! Desprendeu-se-lhe a língua.
– Deixas-me à porta de casa, César?
– Sim.
– Obrigado, és um bom anjo da guarda.
– Achas que sim?
– Acho mesmo… como correu o dia?
– Bem.
– Muita gente nos carrinhos, hoje?
– Não.
– O que é que fazes quando não há carros para estacionar ou cabos para arranjar? O César encolheu os ombros.
– Andas por lá, não é…
– Sim.
– Ouves a música e conduzes!
– Não, não.
– Não ouves a música?
– Não!
– Não gostas?
– Odeio.
– O que é que gostas de ouvir?
– Mötorhead.
– Uau! Essa é uma palavra grande, Cesár! Prometi a mim
mesma que, um dia, haverias de falar comigo. Acredita que vou conseguir. Gostas de Mötorhead?
– Sim.
– Muito?
– Sim.
– Está bem.
Seguiram em silêncio durante uns minutos. Lado a lado. As ruas desertas. A vida não estava fácil para ninguém. Ainda menos para os trabalhadores de uma feira popular. Sozinhos na rua. Cansados. Mortos por chegar a casa. Tardes e noites a
preparar pregos e bifanas. Tardes e noites a conduzir carrinhos sem linhas. A dar pequenos toques nos para-choques de borracha dos outros. A trazer carros devolutos pela pista. Uma mão em cada volante. Lado a lado. Reboque totalmente manual.
– César, posso perguntar-te uma coisa?
– Sim.
– Foste sempre assim tão calado? A Dona Gertrudes diz
que, se calhar, tu tiveste um trauma no passado.
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– |
Não. |
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– |
Não tiveste um trauma, ou não foste sempre assim? |
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– |
Não fui sempre assim. |
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Então, porque é que não falas como as outras pessoas |
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todas? |
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– |
Para quê? |
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Olha, sei lá |
Para partilhares esse fardo. Essa tristeza |
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que carregas contigo.
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As palavras só fazem é mal. |
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O |
César falava. A Amélia estava atónita. Não tinha sido |
particularmente difícil, afinal. Talvez se sentisse à vontade com ela. Quem poderia dizer?
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– |
Depende de quem as profere. E depende do que é dito. |
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– |
Amélia, a língua é um mal que ninguém consegue |
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controlar. |
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– |
E um bem. |
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Não, no meu caso. |
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– |
Não estou certa disso. |
– Acredita. A minha língua é veneno e a saliva que produzo tem odor a percevejo. Daqueles pestilentos e nauseosos.
– Não acredito nisso. És um bom homem.
– Não sabes.
– Talvez. Mas gostava de saber…
Ele corou ligeiramente. Gostava de saber? O que quereria isso dizer?
– Nunca falaste com ninguém?
– Falei.
– Mas já não falas?
– Não.
– Porque é que estás a falar comigo?
– Não sei. Acho que me identifico contigo.
– Mas nunca olhaste para mim
– Sabes, há coisas que a vista não alcança.
– Queres ser meu amigo? – perguntou ela de forma
directa e surpreendente, como se a amizade fosse um tipo de
compromisso com data de início perfeitamente definida. Infantil e bonito. Não?
– Já não sou?
– Não sei, mas se disseres sim, passamos a ser. Tipo, grandes, grandes amigos.
– Então, sim, mas…
– Mas?
– Deixa.
– Diz!
– Eu não sou ninguém. Quase não falo. Tu és esperta.
Podes ser quem quiseres. Teres os amigos que quiseres.
– Que parvoíce, César!
– Não é. Tu és demais para mim. De outro campeonato.
Eu fico aquém. Muito aquém. Quanto mais de uma pessoa como
tu…
– Não digas isso.
– Está bem. Mas…
– Pára!
5
Desde a noite em que proferira palavras de incontroláveis e desastrosos efeitos, nunca mais dissera nada. Nada de jeito. Nada que fosse parcial. Nada que não fosse absolutamente neutro. Não podia correr riscos. Com grande poder, vem grande responsabilidade. Com grandes tolices, grandes solidões. Amélia. Trabalhadora. Mulher diligente. Variante de Amália. Sofredora. Fado. Parceiros de nostalgia. Almas torturadas, cada uma à sua maneira. Não precisava de olhar para ela para a ver. Mas olhava. Todos os dias. Os carrinhos de choques do senhor Isidro ficavam na ponta norte do inferno. Um oásis no hades. Tinha de atravessar toda a feira, passando pelas Bifanas da Gertrudes. Chegou a casa mais rico. Já não lhe sucedia tal coisa há anos. Isso. A riqueza. Uma pessoa. Já não tinha uma pessoa há muitos anos. Esta pessoa era dele. Em termos metafísicos. Alguma coisa da essência dessa pessoa era, a partir de agora, dele. Qualquer coisa não palpável. Uma sombra. Um rasgo de luz. Um olhar. Uma coisa qualquer. Uma coisa que não se pode ver. Como o vento. Ou outra coisa intangível. Como o cheiro. Ou o vapor. Ou… Não era muito bom com exemplos. Se tivesse lido mais, talvez tivesse vocabulário suficiente para expressar essa coisa. Assim, chamava-lhe coisa. Que é uma palavra de pobre. Não. Pobre, não. Que feio! De gente pouco vocabulizada. Pegou no walkman e introduziu uma cassete com um dos seus álbuns preferidos. A bem da verdade (como se fosse necessário falar de verdades e mentiras), qualquer cassete que escolhesse teria um dos seus álbuns preferidos. Tinha
poucas. Verdadeiras relíquias, em bom estado de conservação. Nunca se habituara à era digital. Downloads, MP3, iTunes, CD, Internet. Tudo coisas desconhecidas. Tinha o seu velho walkman e uns auscultadores. O seu vício era comprar pilhas. Gastava muito dinheiro em pilhas. Como aquelas pessoas que fumam dois maços de tabaco por dia. Não conseguia viver sem a sua música. Era o seu bem mais precioso. A música e também uma velha Bíblia com letras grandes. A Bíblia que o seu avô paterno usara nos últimos anos da sua vida. Anos em que a diabetes lhe desgastara a visão. Naquela noite, para celebrar esse momento que lhe provocava excitação e medo ao mesmo tempo, escolheu o segundo álbum dos Mötorhead, o Overkill, editado em 1979. Tinha falado em Mötorhead à Amélia. Era um bom ponto de partida para festejar o começo de uma nova era. Nessa noite, meditou nas razões que o levaram a abster-se de falar. Não na totalidade, mas de falar como os comuns mortais que não sofrem de mudez. Relembrou o diálogo com a Amélia. Lembrou-se da Jéssica, a Branca de Neve da Montanha Russa da Disney, que era a mulher (a tipa) por quem estava apaixonado. Apaixonado, sem qualquer expectativa ou vontade de deixar que a paixão fosse mais que um fait-diver platónico. Corou, com medo do que podia acontecer se voltasse a ser uma pessoa normal. Engasgou- se só de pensar no poder das suas palavras. Rotten to the Core. Aterrorizou-se, quando se lembrou do momento que mudara a sua vida para sempre. Tudo, enquanto a fita rolava à passagem do tempo. Imperturbável. “Overkill”. “Stay Clean”. “(I Won’t)
Pay Your Price”. “I’ll be your Sister”. “Capricorn”. “No Class”. Esta última chamou-o à atenção. Sabia a letra de cor. Era uma espécie de lembrete constante. Shut up you talk too loud / You don’t fit in with the crowd / I can’t believe you exist. Aquelas palavras atingiam-no, direitinho, no meio do coração. Vez, após vez. Como estaca em coração desumano de vampiro. Ele não falava demasiado alto, mas não podia falar. Não encaixava na sociedade. Era uma aberração. Sabendo de tudo isto, conduzia
o seu carrinho e mantinha-se calado. Era a sua cruz. Carregava-a com arrependimento e elegância. Uma aberração nascida num cemitério, em dia de lua cheia, à noite. A mãe, coitada, deu à luz o César, em pleno funeral do pai. A sua primeira alcofa fora uma campa de mármore. Uma tragédia de proporções incompreensíveis. Na sua vida, o poder da morte. Os seus lábios, veneno.
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A |
sua saliva, 605 forte. |
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O |
seu hálito, percevejo fedorento. |
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O |
seu coração, cebola. |
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O |
seu suor, óxido de propanotial-s. |
Tóxico. Indigno de beijos ou abraços.
6
– Ó Cesar, isto, hoje, é a doer! – ladrou o senhor Isidro numa bela sexta-feira, dia de poucas brincadeiras.
– Sim.
– Vê lá o carro 45, que ontem deu chatices.
– Está bem.
– Vê-me os cabos e passa uma vista de olhos à rede, a ver se está tudo nos conformes.
– Sim.
– Ainda para mais, hoje é sexta, vêm sempre aqueles
anormais dos Olivais… Tu mete-os na linha, que eu não quero que me afugentem a clientela. Acenou afirmativamente com a cabeça. Não tinha idade, nem saúde, para meter ninguém na linha, muito menos anormais. Dos Olivais.
– Ok. Vamos a isso. Vou começar a meter o som a bombar.
Ah, vê lá se há alguma lâmpada fundida… Tudo pacífico até às sete da tarde. Tony Carreira (que actuava, nessa noite, no palco principal), Quim Barreiros e Rebecca, nos altifalantes. Altiberrantes. Altigritantes. A imagem da Amélia dentro da sua cabeça. Um misto de agape, philia e eros. Leve e confuso. A leveza do ser. A confusão da intimidade. A felicidade do imerecimento. Mais tarde, falariam novamente. Tinha de controlar as suas emoções, e especialmente, a sua língua. Ele conhecia bem os seus superpoderes de vilão. O cheiro a algodão doce incomodava-o e a casa de terror à frente, também. Estava impregnada de tanta vulgaridade que a única coisa que
poderia, realmente, aspirar a assombrar, seria o sentido estético e o bom gosto. A Jéssica passava por ali, constantemente, com as outras princesas. O César deitava um olho e elas riam jocosamente. Aquelas matrafonas nem no melhor carnaval de Torres Vedras passariam por princesas. Aquilo eram bruxas más. Fajutas e ordinárias. Ele até se envergonhava de sentir alguma coisa por uma delas. Coitados dos anões. Coitada da maçã. Assim que a Jess lhe desse uma dentada, apodreceria na hora (a maçã). Por último, coitado do patrão. Tais figurinhas tinham transformado uma das atracções principais da feira numa verdadeira freguesia do cuspo. Caía a noite. Lá estavam os rapazes dos Olivais que chocavam de frente com as garinas. Que desarrumavam os carros e cuspiam para o chão, enquanto latiam palavrões e faziam gestos obscenos. Até a senhoras acompanhadas. A posteriori, metiam- se em sarilhos, pegavam-se uns com os outros ou com algum segurança, e alguém lá acabaria, inevitavelmente, por beijar a terra e a gravilha que cobriam o recinto. A noite não era diferente das outras. C4 Pedro, Psy, Shakira feat Rihanna, David Carreira a cantar “Esta noite”, David Carreira com Snoop Dogg, Ana Malhoa, Burrinho Manso Remix, Badoxa, Axel, Master Jake, Dj Ademar & Boy Teddy, Juvencio Luyiz, Psirico, Emanuel e o “Ritmo do Amor”, Santamaria, “Let’s go to Afrika”, “O meu vizinho deixa-me a bater mal” das Bombocas, Maria Lisboa a botar calor. Um discorrer de detritos sonoros sem fim. Quem poderia esvaziar a reciclagem daqueles gigabytes de barulho?
Sad Wings of Destiny, dos Judas Priest, dava ao César a tranquilidade que precisava para enfrentar aquele inferno. Ruído divinal para combater a poluição que lhe entrava pelos tímpanos adentro. Antibiótico contra aquelas bactérias. A voz do Halford, os solos do Tipton e do Downing. Os riffs cortantes e melódicos. A melodia bela, belíssima, de “Dream Deceiver”. Cantou sozinho. Para dentro. Já nem escutava nada. Só lobrigava os risos porcos
dos feirantes (ou feirastes, mistura de feirantes com trastes) e o olhar lascivo das fêmeas. Tudo em câmera lenta. Sem som. As luzes coloridas brilhavam, dando à pista um ar vintage. Mute. E os Judas Priest a girar internamente. Cantava sem pensar no significado. Sem traduzir. We followed the dreamer through the purple hazy clouds / He could control our sense of time / We thought we were lost but no matter how we tried / Everyone was in peace of mind. Acabou. A noite chegara ao fim.
– César, vens? – perguntou a Amélia, abeirando-se da
pista.
– Sim.
– Como foi o dia?
– Normal.
– Achas? Foi uma loucura. Estou morta.
– Pois…
– Tu estás mais longe da confusão. Nós estamos muito
perto do palco. Em dia de Tony Carreira, só me apetece fugir.
– Imagino.
– Como é que tu aguentas?
– Eu desligo. Na minha cabeça passam os clássicos. Led
Zeppelin. Deep Purple. Black Sabbath. Judas Priest. Metallica. Iron Maiden.
– E consegues?
– Sim.
– És mesmo diferente.
– Para o senhor Isidro tenho um atraso qualquer. Mas eu não me importo.
– Por falares pouco?
– Sim.
– Há alguma razão para isso?
– Há.
– Ok.
– Um dia conto-te.
– Está bem. Espero que a nossa amizade dure até lá.
– Porque não haveria de durar?
– Sei lá! Há sempre tantas coisas que podem correr mal.
– Eu nunca te vou magoar.
– Não prometas coisas que podes não conseguir cumprir.
– Prometo, sim.
– Nós não somos namorados. Essas coisas são os apaixonados que prometem.
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– |
Tu desconheces o meu potencial para magoar as |
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pessoas. |
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– |
Humm… Não temos todos esse potencial? |
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– |
Da mesma forma, não. |
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– |
Claro. E isso impede-te de falar com as pessoas? |
– Se as quero amar, sim.
– Então, isso quer dizer que não me queres amar?
– Não se trata do que eu quero. É o que pode ser. Eu não quero amar ninguém dessa forma que estás a pensar.
– Porquê?
– Porque não.
– Para amares as pessoas, não falas. Falas comigo, mas
não me queres amar como amas as pessoas normais, mas
também não me queres amar como a uma pessoa especial… fiquei baralhada.
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– |
Tu és uma pessoa especial. |
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– |
Espero que sim. |
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– |
Eu nunca terei uma namorada. Os riscos são demasiado |
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grandes. |
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– |
Não percebo. |
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– |
Um dia explico-te. |
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– |
Espero que esse dia não demore. |
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– |
Também eu. |
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– |
Então, nós somos o quê? |
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– |
Humm… irmãos? |
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– |
Amigos, não? |
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– |
Talvez. Amigos mais chegados que irmãos. |
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– |
É uma expressão bonita. |
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– |
É da Bíblia. |
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– |
Amigos mais chegados que irmãos. Gosto. Comecemos |
por aí.
– César, então isso quer dizer que não gostas de ninguém? Ou gostas? Tipo, um crush?
– Um crush?
– Um fraquinho?
– Sim, mas ela não presta.
– Quem é?
– A Jéssica…
– A que faz de Branca de Neve?
– Sim…
– Credo, César! Que bruxa! – exclamou, indignada. – Os
setes anões dessa princesa grosseira devem ser o Pervertido, o Sabujo, o Ofendido, o Asqueroso, o Ranhoso, o Tarado e, falta- me um, pode ser o Energúmeno – fez uma pausa na indignação. – Desculpa… não devia dizer isto…
– Não faz mal. Teve graça.
– Espero que não passe de um fraquinho platónico e não se transforme numa tentação irresistível da carne.
– Da carne?
– Sim. Carne. Carnes. Carnes brancas. Sim desejáveis, perfumadas e tingidas de cores vivas apelativas, férteis, tal qual as flores carnívoras que esperam presas iludidas, sereias de cantos líricos, afinadamente perfeitos, trejeitos ritmados que nascem na mente, aspirando a polinização perfeita. Brancas? Alvas? Inocentes? Não. Carnes que enclausuram as presas, as envolvem em morte lenta e asfixiante, em olhos vistos que se semicerram paulatinamente, inebriados numa felicidade momentânea e um prazer de morte. Carnes que, ora brancas, mastigadas, se tornam
negras e putrefactas inundando de morte a carne realmente alva.
– Uau, Amélia! Realmente as palavras na tua boca ganham outra beleza.
– Às vezes, acho que as palavras são a única coisa que
tenho.
– E eu, a única coisa que não posso ter.
– Muitas vezes, as palavras são-me azedas. São refluxo
que me arde no peito. São fogo que arde sem se ver. São vómito!
Preciso de as expelir para não sufocar… Mas não te distraias do que estávamos a falar. A Jéssica…
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– |
Esquece! Quem sabe ela não muda. |
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– |
Quem é que muda realmente? Quanto mais aquela |
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megera… |
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– |
Amélia… |
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– |
Desculpa. Preocupo-me contigo. Aquilo não é boa rês. |
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– |
Eu sei. Olha, tu sentes-te deslocada aqui? |
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– |
Acho |
que |
sim. |
Estamos |
os |
dois |
deslocados. |
Fora de casa. Em terreno estranho. Nas
trincheiras do inimigo. Pelo menos, agora, somos dois. Um mini- exército.
Incompreendidos.
– Eu estou bem aqui, acho eu. Agora, tu…
7
Sextas-feiras. Sempre iguais. Bíblia aberta, na Epístola de
Tiago. Cassete dos Stryper. Capítulo 3, versículos 8 a 12. Da Bíblia, não de Stryper. “Mas nenhum homem pode domar a língua. É um mal que não se pode refrear; está cheia de peçonha mortal. Com ela bendizemos a Deus, o Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus; De uma mesma boca procede bênção e maldição. Meus irmãos, não convém que isto
se faça assim. Porventura deita alguma fonte, de um mesmo
manancial, água doce e água amargosa? Meus irmãos, pode,
também, a figueira produzir azeitonas, ou a videira figos? Assim tão-pouco pode uma fonte dar água salgada e doce”. Era sempre este o ritual das madrugadas de sexta para sábado. No dia seguinte, a dona Ester iria bater à porta do seu inquilino e, acompanhada da sua filha Madalena, fazer o seu trabalho semanal de porta a porta. A renda era baixa, o César não se podia negar a ouvi-la, tão pouco podia responder torto. Lia o Apóstolo Tiago e refreava a sua língua, que tinha um poder fora do vulgar. Não que ele fosse uma azeitoneira que dá figos.
O seu interior era bom. Seria? Mas quem consegue domar
a língua o tempo todo? Um deslize seria o suficiente. Não lhe parecia correcto que a sua senhoria abusasse da sua condição de inquilino e misturasse assim negócios e prazer. Partindo do princípio que ser Testemunha de Jeová era prazeroso. Atrasado mental para uns. Coitado para outros. Bisonho. Triste como a noite para alguns. Ele não era nenhuma dessas coisas. Apenas um tipo que carregava a sua cruz, cheio de paz.
O caminho que escolhera era estreito. Acidentado. Pouca gente passava por ali. Estava sozinho. Bom, Deus está sempre presente. Mas faltava-lhe gente. Já antigamente (na outra vida que teve, antes de decidir ter esta) não era de muitos amigos. O clássico:
poucos, mas bons. Nos últimos anos, nem isso. Tinha a Amélia, agora. Não conseguia deixar de se sentir grato por isso. “You Won’t Be Lonely”, a sexta faixa do primeiro álbum da mais famosa banda de Heavy Metal cristão, acompanhava-o naquela noite. Noite fria. Noite de Rock and Roll e religião. Noite de paz, depois da noite de desassossego, com Tony Carreira e gente aos encontrões, sem borracha, como os carrinhos. Pelo menos, no 17 estava protegido. A toda a volta. Devidamente resguardado das pancadas do mundo. Apagou a luz e disse: “Até já, Dona Ester! Quem dera que desaparecesse juntamente com os 144000…”. Adormeceu.
8
A rotina matinal dos sábados era quase sempre a mesma desde que arrendara aquelas águas-furtadas. Uma hora para aturar a Dona Ester e a filha. Já tinha uma colecção impressionante de revistas Sentinela. Não que isso o incomodasse. As revistas tinham boas capas. Apocalípticas e épicas. Coloridas e bem desenhadas. A filha da Dona Ester era uma moça bonita. Muito acanhada. Era sempre ela que passava as revistas para a mão do César, sem dizer palavra. Vivia sob o jugo da mãe e não tinha força para se libertar. Podendo, desassociava-se das Testemunhas e ia viver a vida longe da lavagem cerebral que sentia que a Torre da Vigia lhe fazia. Todas as semanas, a senhoria abordava um tema diferente. Transfusões de Sangue. A batalha do Armagedão. Festas de Aniversário. A Trindade. Os perigos do Heavy Metal. Os 144000 co-regentes (é um número simbólico referido, algumas vezes, no livro do Apocalipse). A lista podia continuar. Mas não continua. Já nem o César se lembrava de tudo. Nunca rebateu a Dona Ester. Tinha medo do que poderia dizer. Dispunha de um dispositivo único, ao alcance de poucos. Na verdade, dispunha de dois. O segundo consistia em desligar completamente, tal como fazia nos carrinhos de choque. Conseguia bloquear o som exterior e ouvir as suas canções preferidas. Mas ouvir mesmo. Não uma memória vaga de som. Som real. Em estéreo. Devidamente equalizado. Com graves potentes. Só para si, dentro da sua cabeça. Era um milagre que, ao princípio, o assustava. Depois, habituou-se e passou a usar essa funcionalidade para seu benefício. Benefício, sanidade mental e propósito de vida.
Para que o César conseguisse não abrir a boca e não ser maldição teria de ouvir menos. A estupidez humana não tem limites. A sua própria estupidez não tinha limites. Era imperativo reduzir a possibilidade de estragos. Consoante a música (entre aspas) assim dançava o César. Se o tema era a Trindade, tocava a “After Forever” dos Black Sabbath. I think it was true it was people like you that crucified Christ / I think it is sad the opinion you had was the only one voiced / Will you be so sure when your day is near, say you don’t believe? / You had the chance but you turned it down, now you can’t retrieve. Ia abanando a cabeça e dizendo “pois” ou “hum, hum”.
Quando o tema era transfusão de sangue ocorria-lhe a canção dos AC/DC, “If You Want Blood (You’ve got it)”. If you want blood, you got it / Blood on the streets / Blood on the rocks / Blood in the gutter / Every last drop / You want blood / You got it / Yes you have. O sabor a sangue crescia-lhe na boca. Como um vampiro. Uma pequena maldade. Fight fire with fire. A Dona Ester adorava abordar o assunto da música. Dizia que o rock era a música do diabo e que aquele ruído era a porta de entrada de satanás no corpo dos jovens. E dos menos jovens. Todos hipnotizados por uma das armas preferidas de belzebu para seduzir os mais incautos. Respondia com “God Gave Rock and Roll to You” do Russ Ballard. God gave rock and roll to you / gave rock and roll to you / Put it in the soul of everyone. E, assim, lá ia ele contra-argumentando, sem hipótese de resposta. Contra-argumentando com armas de peso. Com metais pesados.
Yeah we all got hearts made of metal / And our blood is hot molten rock. Nesse sábado, a Dona Ester não apareceu. Estranhou, mas ficou satisfeito. Saiu mais cedo e foi comer uma bifana antes de pegar ao serviço. Assim, ainda trocaria dois dedos de conversa com a Amélia, se a Dona Gertrudes não estivesse para implicar. Por acaso, estava, o raio da mulher.
9
– Bom dia, César! Queres uma bifana, não é?
– Sim.
– Ó Mélia! Faz aí uma bifana ao teu amiguinho – gritou a
Gertrudes lá para dentro. – Já que aqui estás, vou-te dizer uma coisa.
– Sim?
– Eu gosto muito de ti, és bom rapaz e tudo, sim senhora,
mas se eu te apanho engalfinhado com a miúda dou-te cabo do canastro, ouvistes?
– Sim.
– Tu não me digas sim, rapaz!
– Somos só amigos.
– Só amigos? Tá bem, abelha. O que tu queres, sei eu!
Podes ser muito caladinho, mas não me enganas. Vais lá pela calada, conheço bem a tua laia.
– Não, não.
– Diz-lhe que é não, não.
– O que é que quer que lhe diga?
– Olha! Olha! Afinal, tu falas…
– Pois falo. Sabe, mais vale falar pouco do que dizer
disparates.
– Isso é comigo? Tu não te armes em esperto, ouvistes? Encolheu os ombros e não respondeu.
– Qualquer dia, a rapariga aparece por aí grávida e
depois? És tu que a vais sustentar com a miséria que o Isidro te paga? Ainda se fosses piloto de rallys, agora de carrinhos de
choque… deixa-me rir. – Quem dera que este inferno fosse restaurado,
rapidamente, e o lobo pudesse conviver com o cordeiro. Em paz, sem malícia.
– Ó filho, o que o lobo quer sei eu! E tu com essa pele de cordeiro, tá bem, tá…
– Como queira.
Pagou. Pegou na bifana. Piscou o olho à Amélia, que
sorria lá ao fundo, e seguiu viagem. O pão estava seco. Passou pela Jéssica, que estava em amena cavaqueira com a Lurdes e a
Venha o diabo e escolha. Ficou com a impressão de que
esta lhe dirigira um gesto obsceno. Esta diaba. Desviou o olhar e deixou descair a cabeça. Ouviu-a chamar-lhe “atrasado mental” e desatar numa zombação despudorada com as outras bruacas. Irritou-se. Arregaçou a manga direita. Olhou para aquelas tatuagens todas. Já tinha mais de uma dúzia de nomes tatuados. Havia um espacinho para escrever “Jéssica”, mas não lhe iria fazer semelhante maldade. No seu subconsciente escreveu o nome dela no braço com uma agulha mecânica. Depois levou o polegar esquerdo à boca. Molhou-o com um bocadinho de saliva e simulou que apagava, do braço, aquela tinta imaginária, com que não tinha chegado a escrever o nome dela. A Jéssica era uma néscia. Uma sonsa. Lanzuda. Não tinha nada de bom. À parte do pecado original, haveria, seguramente, uma infinidade de razões que justificassem semelhante íntimo. Infância ruim. Más opções. Mas não interessa. Não interessa ao narrador, nem interessava ao César. Ele sabia que ela era
Lucinda
tudo o que os Judas Priest descreviam na canção “Touch of
Evil”. Tudinho, sem tirar, nem pôr. A dark angel of sin / Preying deep from within / Come take me in. Com uma diferença. Era uma tentação sem viabilidade. Era virtual. Até a tentação era platónica. O César não tinha qualquer desejo de se envolver com
a Jéssica. Nem com a Jéssica, nem com nenhuma mulher. Ele não
se considerava misógino, mas, de facto, a ideia de intimidade
física com a Jéssica causava-lhe uma certa repulsa. Imaginava-se
a ceder e, ao vislumbre do primeiro toque, até se arrepiava todo.
Estremecia de náusea. Era Jessicofóbico. Amor… Ódio! Ódio! Abraçou a náusea e seguiu meio trôpego. Com o estômago às voltas. Com tonturas nas entranhas. A sentir-se derrotado. Atropelado por carrinhos de ferro sem revestimento de borracha. Metal contra carne. Sentou-se. Inseriu a chave de plástico e acelerou. Pensou em fugir dali. Guiar em contramão. Pensou em conduzir rumo ao precipício, de braços bem levantados, como a Telma e a Louise. E assim fez. Mas logo embateu na realidade cruel do fim da pista. Abriu os olhos e fez o que tinha a fazer até à meia-noite. Hora a que levaria a Cinderela a casa. A conversa nessa noite foi banal, exceptuando uma pequena questão sobre o inferno. Adequado, realmente. Inferno. Ha-des. Hades. Depois de um dia extenuante. Esclarecer, desde já, se um dia haveria descanso interno e eterno, ou se esta canseira diabólica estava para durar. A Amélia, que era descrente, tinha várias perguntas sobre a fé, mas o inferno era realmente a única que a movia.
– Abandonai toda a esperança, vós que entrais – citou
ela.
– O quê?
– É uma expressão do Dante, referindo-se ao que está escrito nas portas do inferno.
– A que propósito vem isso?
– Lembrei-me. Esta feira é como o inferno. E nós agora estamos a sair. Podemos abraçar a esperança…
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– |
Bem, isso é profundo demais para esta hora da noite. |
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Estou meio a brincar. |
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Gostavas de largar isto tudo, não era? |
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Claro. Tu não? |
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Não. |
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Acreditas no inferno? – perguntou ela. |
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Queres mesmo falar sobre isso? |
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Quero. |
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Sim. |
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Sim, o quê? |
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Acredito. |
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Achas que Deus manda pessoas para o inferno? |
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– |
Sim. |
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Humm… |
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– |
Tu acreditas em Deus, Amélia? |
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Tu sabes que não. |
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– |
Então o que é que queres ir fazer para o céu? |
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– |
Pois. |
Não sei. |
Desfrutar |
o |
paraíso. |
Descansar |
eternamente.
– Mas isso não é o céu. Isso são umas férias nas Maldivas. Ela sorriu. Fazia algum sentido. Despediram-se. O dia (apesar de já passar da meia-noite) chegara ao fim. Ela não perdera o sapato. E ele não era nenhum príncipe. Entrou. A sua mãe chegaria um pouco mais tarde. Uma mulher de trabalho. De sacrifício. De infernos. Parida na marra. Contra tudo e contra todos. Carne para canhão. Mulher de armas. Salvadora.
10
suas águas-furtadas, estava a
Madalena, a filha da Dona Ester, que, nessa manhã, não aparecera para o tentar converter. Converter ou outra manigância do género. Na verdade, não parecia que ela o tentasse converter. Nem angariar. Ou fidelizar. Era apenas um exercício mecânico de retórica pouco evoluída. Um exercício que não demonstrava amor, nem a Deus, nem ao César. Todos os sábados de manhã, a
Dona Ester, ia dizer ao César que as águas continuavam separadas. Não furtadas. Separadas. Ela do lado de lá e ele do lado de cá. E para bem de todos, o ideal era que se mantivessem assim. Cada um em sua margem. Sem pontes. A Madalena estava sentada com os braços pousados em cima dos joelhos flectidos, como se estivesse em sofrimento ou com cólicas.
Sentada,
à
porta
das
– Madalena? – semi-sondou o César surpreendido.
– César!
– Sim?
– Posso entrar?
– Humm… Ok…
– Quero-te agradecer.
– Como assim?
– A minha mãe desapareceu. Não sei o que lhe fizeste,
nem quero saber, mas foi um fardo que me saiu das costas.
– Hã?
– Isso mesmo.
– Desapareceu?
– Sim. Esta manhã saiu de casa para vir falar contigo e
nunca mais voltou.
– Não veio cá.
– César, eu sei bem que tu a odiavas…
– Não! Ela não veio cá.
– Não te preocupes. Está tudo bem.
– Já foste à polícia?
– Não. Deixa estar assim.
Só me sentia um bocado
sozinha. Posso ficar aqui em tua casa, só hoje?
– Não.
– Eu prometo que não incomodo.
Sentou-se no sofá velho, que mais parecia uma espécie de
poltrona. Ou trono. O seu trono pessoal. Ali era Deus. Suspirou e não disse nada, como costumava ser seu apanágio. Pegou no walkman. Quando se preparava para carregar no play, a Madalena interrompeu:
– Queres falar?
– Não – respondeu ele, de forma seca.
– Porquê?
– Não me apetece.
– Ok. Vais fazer o quê?
– Vou ouvir música.
– Não queres falar, porque vais ouvir música?
– Sim.
– Vais ouvir o quê, pode-se saber?
– Várias músicas soltas. Tipo uma mixtape.
– Podes especificar, se faz favor.
– Já que insistes. “Poison” de Alice Cooper. “Solitude” dos
Candlemass. “Rainbow in the Dark” do Dio. “Bad Habits” de Thin
Lizzy. “Stairway to Heaven” dos Led Zeppelin. “A Touch of Evil” dos Judas Priest. E por último, “Born to Lose” dos Mötorhead.
– Parece tudo tão deprimente e horrível.
– Dás-me licença, agora?
– Sim. Ficas sozinho. Por tua conta.
– Como um arco-íris na escuridão…
– Hã?
– Não perceberias. Esquece.
– A minha mãe diz que tu navegas na escuridão. Inundado
de um negrume interior. Olhos tristes, carregados de solidão. Alma em busca de redenção. Sabes, gostava de navegar contigo…
calado.
Novamente. Mas ela não.
Não
sabia
o
que
responder,
por
isso
ficou
– César, eu nunca estive com nenhum homem…
– Ora, ainda bem.
– Não queres… – ofereceu-se a medo.
– Não, não quero! – esconjurou o César. – Quero ouvir música, ok?
– Não me achas atraente?
– Mau! Páras com isso?
– Não! Por favor… foram muitos anos de repressão e medo. Imploro-te.
– Madalena, por favor sai da minha casa, agora.
Ela ouviu e, como que hipnotizada, saiu sem dizer mais nada. O César percebeu logo o que aconteceu. Falou de mais. Deu uma ordem e essa ordem foi obedecida. Caramba! O raio
do poder. O poder das palavras. Será que o desaparecimento da Dona Ester tinha alguma coisa que ver com o que ele tinha dito na outra noite? Mas ela nem sequer ouviu. Ele desejou que ela desaparecesse. Ela, mais 144000. Será que tinha acontecido? Não podia ser. Não, não era possível. E se desapareceu por ordem dele, para onde teria ido? E se ele a tivesse mandado morrer longe? Que desgraça! Era o reviver de um inferno, do qual ele tinha fugido. Não, não podia estar a acontecer. Agora, até sem as pessoas ouvirem, as coisas aconteciam. E depois? Bastar-lhe- ia desejar? E depois? Apenas pensar? E por que razão nunca aconteciam as coisas boas que proferia, mas só as más? Porque uma azeitoneira não pode dar figos? Ele era uma azeitoneira (não se preocupem, o narrador sabe que o correcto é Oliveira)? Ou uma figueira? Ou uma figueira sem frutos, como aquela que Jesus secou? Estaria perdido? Condenado? Que noite! Tantas perguntas. Tantas dúvidas. Inquietou-se ainda mais ao som de Iron Maiden. O número da besta. 666. Seria o número dele? Estaria, ele próprio, hipnotizado pelo olhar de Lúcifer? Algures, no seu couro cabeludo, a marca do diabo, como no outro. No filme do miúdo.
11
O mundo está carregadinho de histórias tristes. Cada
uma mais triste do que a outra. São tantas que nem há como um fulano se compadecer de todas. Este mundo é um oceano de lágrimas. Lágrimas revoltosas. O César navegava nesse mar agitado. Não precisava de companhia. A Madalena era boa miúda. Mais uma história triste. Testemunhas de Jeová. A mãe “desassociou” o pai no dia em que ele aceitou uma transfusão de sangue. O coitado espetou-se de motorizada e não lhe apetecia nada morrer por causa desse detalhe. Sangue dele ou de outros. Era tudo sangue. Acresce que a culpa nem tinha sido dele. Um condutor alcoolizado deu-lhe uma panada por trás. A história do condutor também era uma história triste. E, por sua vez, a história do pai desse também não era muito alegre. Estão a ver? Nunca mais saíamos daqui. Resumindo. O marido da dona Ester aceitou a transfusão. Esta não se conformou e correu com ele. Quando chegou do hospital tinha as malas à porta. Pegou nelas (que remédio) e seguiu viagem. Arranjou uma brasileira e agora está no Brasil, na maior. Frequenta uma dessas igrejas neopentecostais, que vendem frasquinhos de água do rio Jordão para borrifar a casa. Protecção contra os piores espíritos e íman
para todo o tipo de bênção, principalmente, bênção financeira. Não está a resultar, mas pronto. Faz-se o que se pode. A brasileira compensa isso tudo.
O César verbalizou (em voz alta) o seu desejo: “que
apareçam as 144000 Testemunhas de Jeová que mandei desaparecer, bem como a dona Ester”. Nunca tinha funcionado
assim, mas não custava tentar. Com a miúda sozinha, à espreita para sair das cascas, não se esperavam tempos fáceis. Também podia mandar desaparecer a Madalena. Hum. Até se podia mudar
para a casa delas. Se estivesse disposto a voltar atrás
muita coisa. Tomar este mundo de assalto. Podia fazer justiça. Fazer vingança. Fazer. Fazer acontecer. Podia mandar a Jéssica engolir a língua. O senhor Isidro perder aquela voz metálica, irritante, com que gritava palavras de ordem ao microfone da barraca, qual torre, de onde controlava o tráfego na pista. Mas ele tinha deixado essa vida para trás. O velho homem. O seu braço carregava as marcas disso. O seu coração, também. Era um crente. Um crente com um espinho na carne. Melhor, na língua. Piercing infectado. Esforçava-se muito para o domar (o espinho na carne), já que não conseguia libertar-se dele. Os próximos dias decorreriam sem surpresas. Feiras populares. Concertos. Uma avaria no Twister. Pipocas. Venda de tractores. Motorizadas no túnel da morte. Antes fosse no túnel do amor. Crianças a fazer birras. Barquinhos na água com crianças a tentar dar murros em balões rijos. Farturas. Bifanas. Frango assado. Póneis zonzos. Gente carregadinha de bagagem. Gente com muita história atrás. Gente com estudos. Gente sem estudos. Gente que emigrou e depois voltou. Gente que não voltou. Gente que vai trabalhar sem dormir. Gente que vai trabalhar movida a Xanax (outra vez…). Gente sozinha. Abandonada. Desempregada. Gente feliz. Gente esforçada. Nova Gente. Gente com fé. Sem fé. Com fezada. Vidas. Também o juiz que, mais capítulo menos capítulo, vai interrogar o César, tem um história. Mas não nos
podia fazer
interessa. Não serve para nada. Só para encher páginas e páginas de livros. Páginas que todos querem que acabem depressa. Páginas que todos preferiam que não existissem. Nos livros, como na vida real. Entra a 100, sai a 200. Duzentos. Vidas cheias de palavras caras que os nossos ouvidos baratos não têm posses para adquirir. Espaços de eleição que não podemos frequentar. Barrados à entrada por gorilas intransponíveis. Homens de ferro.
12
Fim de linha? O César lutou anos a fio. Com tenacidade
e persistência. Lutou como sabia. Convencido de que o céu
é dos violentos. Lutou com violência contra os seus instintos
pecaminosos. Esventrou-se. Mortificou-se. Talvez isto não fosse dar o peito às balas. Talvez fosse apenas fugir e isolar-se. Mas a vida não é isso? Nascemos, vivemos e morremos sozinhos. Não estava certo de nada. Talvez o reino não se conseguisse conquistar pela força. Mesmo que a força, da qual estamos a falar, seja a força que exercemos contra nós próprios. Contra o mais profundamente impuro e entranhado pecado dentro de nós. E o amor? Em parte incerta. Prefigurava-se pouco plausível que conseguisse persistir até ao fim e receber a coroa da vida. Mais um caso de alguém que tenta tomar as rédeas da sua expiação, sem sucesso? O outro matou-se na esperança que o seu sangue o lavasse. Não lavou coisa nenhuma. Este, enfim, lutava, como cego que dá murros no ar, ansioso por acertar no adversário. Como o Frank Dux na luta final contra o Chong Li. Lutava. Soldadinho de chumbo com mordaça nos dentes. Até quando? Sentia o monstro a querer deitar as garras para fora. Sentia-se nervoso. Excitado. Irritado. Angustiado… ado… ado… ado.
Bem-aventurados os violentos, porque o céu será deles. Bem-aventurados os que exercem violência contra si próprios. Bem-aventurados os que lutam contra o mais profundamente impuro e entranhado pecado dentro dos seus corações. Bem- aventurados os que expurgam. Bem-aventurados os francos.
Bem-aventurados os que conhecem a sua depravação total.
Bem-aventurados os que se esventram e se mortificam. Bem- aventurados os que não desistem. Nunca.
– César, ouve este poema – propôs a Amélia, quando se encontraram a meio da manhã para tomar café.
– Espera, preciso de falar contigo.
– Já falas. É rápido. Ainda temos muito tempo. Ouve:
De um sonho escultural tenho a beleza rara, E o meu seio, — jardim onde cultivo a dor, Faz despertar no Poeta um vivo e intenso amor, Com a eterna mudez do marmor’ de Carrara Sou esfinge subtil no Azul a dominar, Da brancura do cisne e com a neve fria…
– Humm… não estou a perceber nada. Já posso falar?
– Ainda nem acabei, mas pronto… Diz lá
Nem quiseste
saber do que eu acabei de te ler…
– Ok. Fala lá sobre o poema.
– Não, se não queres saber não falo. Para quê? Que te
interessa aquilo de que eu gosto? Sabes que eu gostava de ser
escritora? Não sabes, pois claro que não sabes. É uma amizade de um sentido só. Esta história é sobre o menino César, logo é tudo sobre o menino César.
– Calma, Amélia! Eu quero saber das tuas coisas, é só
que…
– É só que o quê? Vá, diz lá, o que é tão importante, que
não possas ouvir um poema que demora 15 segundos a ler?
– Fiz asneira da grossa!
– Não mataste ninguém, pois não? Então pronto…
– Não sei se não matei.
– Estás a falar de quê?
– Da dona Ester…
– Ah, pois, ouvi dizer que estava desaparecida.
– Então, e não dizes nada?
– O que é que queres? Era para ter comentado contigo,
mas esqueci-me. Parece que há para aí um sururu qualquer com as Testemunhas de Jeová.
– Estou desgraçado! – exclamou, enquanto se sentava,
levando as mãos à cabeça.
– O que é que tu fizeste, César?
– A culpa é toda minha. Toda. O que mais ouviste sobre
isso?
– Tu já arranjavas uma televisão, homem! Parece que
desapareceram uns milhares delas. Anda tudo num rebuliço. Não
se sabe se foi suicídio colectivo ou outra coisa. Eu também não sei bem. Só vi as gordas a passarem em rodapé e pouco mais.
– Quantos milhares?
– Eu sei lá! Era um número redondo, mas não me lembro.
Tenho mais com que encher a cabeça.
– 144000.
– Isso mesmo! Afinal, sabes. Explica lá o que se passa.
– É complicado. Nem eu sei explicar bem. Vais achar que eu sou doido.
– Eu sou tua amiga. Estou contigo para o que der e vier. Sabes que podes confiar em mim, não sabes?
– Sim.
– Espera! É o meu telemóvel…. o quê?… mas ela está onde?… está bem, vou já para aí.
– O que foi?
– A Dona Gertrudes sentiu-se mal e está no hospital. Tenho de ir para lá. Desculpa…
– Sim, vai.
13
Apanhou um táxi e dirigiu-se ao hospital, com o coração apertado. A Gertrudes era a mãe adoptiva da Amélia. Uma vida de labuta para dar um futuro à bebé que encontrara abandonada num caixote do lixo. Vida dura. Solitária. A Amélia estava-lhe eternamente grata. Grata ao ponto de adiar a sua vida para a poder ajudar com os bifes, os pregos e as bifanas. Grata ao ponto de preferir sentir-se presa e frustrada numa qualquer feira popular do que livre a dar autógrafos em sessões de lançamentos de livros na Fnac. O dever, o dever, o prazer, o sonho. Que se lixe! Só queria sair dali. Largar tudo. Nunca mais ninguém lhe poria a vista em cima. E o César? Ah, ele haveria de encontrar outros amigos. Parecia uma criança mimada que começara a balbuciar as primeiras palavras. Talvez ela não fosse a amiga certa para ele. Era um tipo muito misterioso. Coisas de que não podia falar. Um braço cheio de nomes tatuados. Gente de quem não podia gostar. Ela não era mãe dele. Nem queria ser. Nem irmã. Nem amiga. Nem prima. Que inquietação! Nem o poema do Baudelaire conseguira ler. E logo aquele poema, que até era para ele… De qualquer forma, nunca se tinha sentido feliz. Marcas do abandono? Talvez. Coisas de artistas. Ou, se calhar, coisas de toda a gente. Mas nem toda a gente tem a liberdade de sentir. De reconhecer o que sente. De se inquietar. Para alguns é tudo, extremamente, simples. É tudo muito real. Muito nítido. Ela sofria de miopia ou astigmatismo mental. Ou espiritual. Quem era o César? Talvez, uma alma gémea. Gémeos falsos? Ficou com vontade de ser amiga dele desde a primeira
vez que o viu. Passou muito tempo até que isso acontecesse. Foi necessário, quase, meter um requerimento, mas depois, revelou- se, inacreditavelmente, simples. Caramba, a gente precisa de amigos. E nem todos servem. Aliás, quase ninguém serve. Por muito que lhe apetecesse, não estava a ver nada que a levasse, por exemplo, a sentir o mínimo desejo de ser amiga do taxista
que a transportava para o hospital (e vai daí
coisa que transcende o óbvio na escolha das pessoas com quem nos relacionamos. Qualquer coisa intangível. Espiritual. Uma ligação qualquer que não se explica. Para lá de todas as coisas em comum. Para lá de toda a utilidade prática. Uma ligação qualquer sobrenatural. Como na história do Principezinho. Ele não precisava da raposa e a raposa não precisava dele. Eram seres banais. Iguais a todos os outros. Mas a partir do momento em que um cativou o outro passaram a ser indispensáveis. Insubstituíveis. Mesmo que nunca mais se vissem ou falassem, aquele laço nunca mais desapareceria. Era uma marca no corpo. Uma cicatriz. Uma ferida. Teria de falar com ele (com o César). Pedir-lhe desculpa. Não tinha sido nada simpática. A simpatia, não sendo a mais admirável das virtudes, era uma qualidade a não negligenciar. De onde tinha vindo aquela falta de longanimidade? Mas, por outro lado, talvez fosse bom para ele perceber que não podia ser o centro da relação, só porque é o homem-mistério com super- poderes e super-segredos. E se eu me apaixono por ele? Ou não estarei já? Ele não parece nada interessado. Duas pessoas solteiras, sem barreiras,
Há qualquer
).
o que as pode impedir? A Jéssica? Será que ele não me acha atraente? Quer dizer, não sou a mulher mais bonita do mundo, mas também não sou nada de se deitar fora. Se calhar, sou. Mas
eu não devia estar a pensar nisto. A minha mãe está no hospital e eu aqui com devaneios. Ai, Amélia, Amélia! A páginas tantas o taxista interrompeu o pensamento da Amélia. O percurso ainda era longo e o homem estava a ficar enfadado. Tinha estado a noite toda a pé, que é como quem diz, sentado. À espera. A ouvir o Oceano Pacífico. Ou outro oceano qualquer. Um que meta muita água. Como as pessoas que ele transportava todo o dia. A toda a hora.
– Às vezes, arrependo-me de me ter metido nesta vida.
Não compensa. Um dia destes, faço as malas e vou para o estrangeiro.
– Pois, às vezes temos de arriscar.
– Sabe, eu sempre fui um bocado cobarde. Arriscar não é comigo. Mais a mais, nunca fui muito bom a fazer coisa nenhuma. Falta-me confiança, acho eu. Não sou, sequer, um grande condutor. Desenrasco-me. Acho que fui assim toda a
vida. Um sujeito desenrascado, mas sem grandes talentos. Faz- se o que se pode, não é? Se calhar, estou a maçá-la…
– Não. Continue…
– Um homem às vezes também precisa de desabafar.
– Sempre fica mais barato do que ir a um psicólogo.
– É raro encontrar-se alguém com quem se possa falar.
Vou dizer-lhe uma coisa. Fala-se muito na química. Mas a química entre as pessoas é coisa que não existe. É uma ilusão. Um truque.
Parece real, mas esfuma-se enquanto o diabo pisca um olho… se calhar, não é assim o ditado… de repente, baralhei-me…
– Às vezes, há demasiada química entre as pessoas.
– E pouca física. No bom sentido… não me interprete mal.
A química é tão leve e tão insustentável…
– Hum, hum…
– Tão insustentável que nunca a consegui suster. E quando
não se sustém… ou quando não se encontra alguém disposto a fazê-lo por nós…
– Caminha-se na solidão, bem sei.
– Precisamente. Vamos andando de dor em dor. De frustração em frustração. Pisamos essas brasas como se de um ritual de iniciação se tratasse. Mas nunca superamos a prova e voltamos sempre ao mesmo. Descansar e pisar. A correr e a pular. Nómadas. De solidão em solidão. Desculpe, isto não é conversa de homem… Fim. Pagou e saiu. As notícias não eram famosas. Não eram famosas é, no mínimo, eufemístico. Eram más. As piores. A Gertrudes morreu. O ataque cardíaco foi fulminante e a dor da Amélia seria lancinante. Os médicos fizeram tudo o que estava ao seu alcance, mas foi insuficiente. O taxista é que tinha razão. Caminha-se na solidão. Pois.
14
Enquanto este drama se desenrolava, o César voltou para casa. Eram apenas umas águas-furtadas. Não roubadas. Furtadas. Um espaço esconso, mas não desagradável. Um lar.
Às vezes parecia grande, outras, pequeno. Às vezes, parecia um mundo. Quase sempre, uma cidade de refúgio. Isso mesmo. Aquelas águas-furtadas eram uma cidade de refúgio. O local onde o César se escondera do castigador. Banido para a vida.
A sua língua proferiu palavras de morte. Não que fosse esse o
desejo do seu coração. Ou talvez fosse. Coração mau profere desejos de morte. Garganta, sepulcro aberto. Língua que trata enganosamente. Peçonha de áspides. Génio da lâmpada do mal. Homem capaz de fazer as trevas descerem pela força das palavras. Magia negra. Profeta da desgraça. Tudo começou num dia em que estava particularmente
furibundo. Cruzou-se com o chefe no elevador. Saiu este e entrou ele. Olhar faiscante. Palavras, zero. Quando a porta se fechou disse: “Quem me dera que caísses e batesses com a cabeça na parede”. Dito e feito. Vai disto, o Costa escorrega, bate com a cabeça na quina da parede e faz um lenho no meio da testa que o obrigou a levar meia dúzia de agrafos. Quando soube do acontecimento não relacionou, mas aos poucos foi-se tornando evidente. Quando expelia impropérios no trânsito, quando dizia baixinho que era bem feito que fulano ou sicrano entornasse
o café na camisa branca, as coisas aconteciam. Apesar de não
entender, nem dominar, os mecanismos linguísticos, mentais ou
sentimentais, que provocavam semelhante caos, foi começando a bater as asas, que é como quem diz, a dar à língua, de forma pouco saudável ou amistosa. Falava e as asas da borboleta batiam e provocavam um efeito directo. Nefasto. Relativamente inofensivo, ao início, mas sempre intrusivo e, inevitavelmente, malicioso. As palavras do Apóstolo Tiago sobre a língua eram absolutamente literais no caso dele. “É um mal que não se pode refrear, está cheia de peçonha mortal”. Nunca eram um bem. Nunca as refreava. Nunca produziam nada bom. Nada, nem que infimamente, classificável como bom. Tentou de tudo. Ganhar o Euromilhões. Ajudar pobres. Dar rodas a velhinhas lentas, para as ajudar a atravessar estradas. Transformá-las em lebres. Nada. Milagres só para o mal. Darth Vader. Aquele génio fora forjado no quinto dos infernos. Fez mal a algumas pessoas. Este poder revelou o pior de si. O estado negro do seu coração. Talvez fosse por isso que nada de bom acontecesse. Uma oliveira não pode dar figos. Pode sair alguma coisa boa de alguém intrinsecamente mau? A pior desgraça aconteceu quando o César desejou a morte de uma pessoa, num momento de raiva e loucura. A paixão tem destas coisas. O César matou a sua amada. A sua amada Desdemona. Mais ninguém a possuiria. Ela morreu e o César fugiu. Fugiu, não da polícia. Fugiu de si. Fugiu da sua língua. Procurou a sua cidade de refúgio. Procurou outra entidade, pacata e calada. Calou a boca. A sua língua suicidou-se. Dedicou-se a uma existência solitária, amarga, mas pacífica. Que remédio tinha? A Bíblia do seu avô fora a sua salvação. Não a Bíblia. Jesus. O sangue de Jesus.
Ainda assim, a pergunta permanecia. Quem pode controlar a sua língua o tempo todo? Ninguém. Não aqui e agora. Nem morta. Durante anos, esteve tudo controlado, mas este descuido
com a dona Ester ameaçava deitar tudo a perder. O César sentia a língua desprender-se novamente. Ressuscitar feita zombie.
A tristeza, a raiva, a vir ao de cima. Sentia vontade de lhe dar uso. Começando devagarinho até mandar a humanidade toda
explodir. Excepto a Amélia, claro. Kill em’All. Despiu-se e entrou no banho. Chorou enquanto a água corria. Sentia-se a perder o pé. Fez uma oração.
Senhor, ajuda-me! Sinto que me perco. Sinto-me a voltar ao velho homem. Não me deixes cair em tentação. Lava-me com o teu sangue porque esta água e estas lágrimas não me estão a purificar. O meu coração está a empedernir. Começo a ter vontade de afogar o mundo todo nas águas do dilúvio Dá-me um coração de carne. Amém!
Muitas vezes a tristeza é o preço que se paga por fazer
o que está certo. Por fazer o que agrada a Deus. A Bíblia do seu
avô não lhe dizia para fazer o que o que fosse preciso para ser feliz. Ordenava que a vontade de Deus fosse feita nem que isso
trouxesse uma agonia de morte. Um sofrimento atroz. Chorava. Com os anos aprendeu a conter as lágrimas. Secaram-se-lhe os olhos. A máquina avariou. Desconhecia que o sal fosse o lubrificador. A falta de sal estava a tornar tudo intragável. Sem sabor. Intragável e estragado. Corroído. Apodrecido. Repetindo. Muitas vezes a tristeza é o preço que se paga para fazer o que agrada a Deus. Bateram à porta.
15
Estamos, mais ou menos, a meio da história. Daqui para a
frente é que a coisa vai aquecer. Muita acção e poucas descrições. Ainda não é neste capítulo que entra a bófia e o senhor doutor juiz, mas já não falta muito. Um crescendo até ao final. Um final bonito. Podem ir tranquilos. Não morre mais ninguém. Ainda vamos ter algumas reflexões profundas, mas vai correr tudo bem. Acreditem. Não que a vossa crença mude as circunstâncias, mas pelo menos dá-vos algum alento momentâneo.
– César, estás aí? – questionou em voz bem alta a
Madalena, do lado de fora. Ele abriu.
– Então, há novidades da tua mãe?
– Não. Mas a polícia está em cima do acontecimento.
Podemos falar?
– Sim, mas não te ponhas com tolices, ouviste?
– Não ponho, não. Tu não queres, não queres. Não posso
obrigar ninguém. Já percebi que não me achas atraente…
– Deixemo-nos de disparates, Madalena!
– Olha, vou-me embora daqui. Já peguei no dinheiro todo da minha mãe e vou para o Brasil.
– Acho que fazes bem.
– Quero avisar-te que a polícia vai interrogar-te. Mais dia, menos dia, vêm cá bater à porta. Vê lá o que dizes!
– O que é que tu lhes disseste?
– A verdade. Que ela saiu para vir a tua casa e nunca mais
voltou. Eles fizeram várias perguntas sobre ti e depois mandaram- me embora.
– Está bem.
– Queres-me…
– Mau! – atalhou o César.
– Calma! Deixa-me acabar a frase. Queres-me contar o que realmente se passou?
– Ah! É quase impossível de explicar.
– Tenta.
– Não foi propositado, sabes
– Onde é que escondeste o corpo?
– Não há corpo nenhum!
– Não? Dissolveste-o em ácido?
– Credo! Não! Eu não a matei.
– Então onde está ela?
– Não sei. Foi uma coisa que eu disse…
– Disseste uma coisa e ela desapareceu? Mas o que lhe
poderias dizer que a levasse a abandonar tudo? Ameaçaste-a?
Foi um acidente.
– Não estás a perceber. Eu nem falei com ela.
– Pois não. Não estou a perceber nada.
– Ok. Eu mostro-te. Vai buscar um copo de água.
– Não tenho sede!
– Vai. É para te mostrar uma coisa.
– Ok, ok… Pronto… Aqui está ele.
– Prepara-te. Espero que a Madalena entorne o copo de
água que tem na mão por cima da sua blusa. No mesmo instante, a Madalena entornou a água por cima de si, ficando com a blusa (há quem lhe chame camisola) toda encharcada.
– César! Que diabo foi isto?
– Pois…
– Explica! Que raio foi isto?
– Eu consigo fazer coisas más acontecerem… basta-me verbalizá-las.
– Deixa-te de tretas!
– É verdade.
– Isso é impossível.
– Antes fosse. Queres ver mais?
– Só se for em ti próprio.
– Não resulta.
– Olha que conveniente.
– Pois…
– Isso é uma coisa do diabo!
– Pareces a tua mãe…
– Se calhar, a velha é que tinha razão. Então, o que é que lhe fizeste afinal?
– Desejei que ela desaparecesse.
– E que fosse para onde?
– Não especifiquei.
– Então pede que ela volte.
– Mas tu queres que ela volte?
– Humm… pois. Mas ficavas com os teus problemas resolvidos.
– Eu já tentei. Isto só funciona para o mal. Nunca consigo fazer nada bom acontecer.
– És uma espécie de vilão. Com um superpoder. Podias
ganhar este mundo.
– E perder a alma? Eu não quero fazer mal às pessoas.
– Acredito. A minha mãe diz que tu és de Satanás, mas eu sempre gostei de ti. Acho que és boa pessoa.
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– |
Isso não existe. Não há boas pessoas. |
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Se tu dizes… então e as outras Testemunhas, também |
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foste tu? |
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Infelizmente. Pedi para que desaparecesse a tua mãe, |
mais 144000 Testemunhas de Jeová. Foi um desabafo em voz
alta, meio em tom de brincadeira, mas infelizmente aconteceu mesmo.
– Isso pode ter sido coincidência. Se calhar os 144000 mil
estão mesmo no céu a preparar-se para governar juntamente com Cristo.
– Cento e quarenta e quatro mil e um! Contando com
a tua mãe. Será que ela meteu uma cunha? Cabe sempre mais
Vá lá! O número é simbólico. Por favor… e tu já viste que este meu…., enfim, poder, é mesmo real.
um
– Talvez tenhas razão. Estou um bocado confusa…
– É natural.
– Já fizeste mal, quer dizer, já fizeste cenas destas, ruins,
a outras pessoas? Quando ela fez essa pergunta, o César arregaçou a manga da camisola e mostrou-lhe os nomes tatuados. – Já. A esta gente toda – confidenciou, ligeiramente envergonhado.
– Tatuaste os nomes?
– Sim.
– O que lhes fizeste?
– A alguns nada de especial.
– E a outros?
– Bom, esta última morreu…
– Porque é que tatuaste os nomes deles?
– Não sei bem. Talvez seja uma forma de não me esquecer
do mal que lhes fiz. De os homenagear de alguma forma. Não consigo restituir o que lhes tirei. Quem me dera conseguir. Entretanto, a minha vida mudou, mas é difícil nunca pecar. Por
isso, tento dizer o mínimo possível. A carne é fraca… aconteceu
o que eu não queria.
– Vais tatuar Ester? – riu-se com a sua própria ironia
retórica. A pergunta era boa, se bem que um pouco precoce e sádica. Humor muito negro. – Sabes o nome de toda a gente a quem fizeste essas tropelias?
– Não. Alguns inventei.
– LOL… Desculpa dizer LOL. Aprendi esta semana e achei
o máximo.
– Não queres meter música? – pediu a Madalena.
– OK.
– Podias fazer-me um favor? Mandar-me desaparecer e aparecer no Brasil.
– Que disparate, Madalena! E não resulta. Não consigo fazer coisas boas que as pessoas desejem.
– Então, manda-me para a Venezuela e eu apanho um
autocarro para lá.
– Olha, LOL digo eu… Se estiver consciente de que é uma coisa boa, não funciona. Tentaram, mas não resultou. Pena.
– Isto é o quê?
– Isto o quê?
– A música.
– É o primeiro álbum de Black Sabbath.
– Humm, já falaram neles lá na igreja. Como é que se chama?
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– |
Black Sabbath. |
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– |
Gosto. Está-me a dar vontade de fazer coisas… más… |
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– |
Mau! Assim não nos entendemos. |
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– |
Ai, se eu tivesse esse poder… |
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– |
Ouve a música e deixa-te de devaneios. |
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– |
Podíamos, |
talvez… |
deitarmo-nos |
juntos e, depois, |
mandavas-me desaparecer daqui… de raiva… que tal?
– Daqui a pouco, mando-te ires ter com a tua mãe ao
espaço sideral.
– Ah! Ah! Ok. Desculpa… Olha, quem é que sabe desses
teus segredos?
– Ninguém.
– A sério? Nem a tua amiga da feira?
– Não. Ainda não tive ocasião de lhe contar.
– Porque me contaste a mim?
– Tu merecias uma explicação. Deixei-te órfã, afinal de
contas.
– Não deixaste, não. Eu já era órfã há muito tempo. Infelizmente.
– Lamento o que passaste. És boa miúda. Vou-te dar uma
coisa. Fica com esta Bíblia que era do meu avô. Eu depois compro outra. Promete-me que a vais ler todos os dias.
– Ah, não sei o que dizer. Obrigada. Prometo, sim.
Ela abraçou-o e foi-se embora. Nunca mais se encontrariam(?). Chorou muito. Os primeiros rasgos divinos que encontrara em toda a sua vida foram na existência
silenciosa do César. Tiveram duas conversas. Duas. A Madalena
é uma personagem interessante. “Podias desenvolvê-la mais,
narrador!” Para quê? A vida não é mesmo assim? Cheia de gente interessante, com quem não temos mais do que duas conversas. Às vezes, só uma. Às vezes, nenhuma. O César tocou no coração da Madalena e ela no dele, de certa forma. Não é preciso estragar tudo com inúmeros relatos e descrições. Peripécias e desventuras. O que passou, passou. Passou-se. A Madalena seguiu para o Brasil e pronto. Imaginemos mesmo que seguiu. Tinha o dinheiro e foi. Mas o dia ainda não tinha acabado. A vida toda num só dia, como cantam os Rádio Macau. Quando ela saiu porta fora, estava a rolar a faixa “Evil Woman” ainda do primeiro álbum dos Black Sabbath. O mundo está cheio de mulheres más, mas a
Madalena não era, definitivamente, uma delas. A Ester era. Tipo
a mãe da Carrie. Teve o que mereceu. Estava em parte incerta.
Arrebatamentos? Profecias de Nostradamus? Apocalipses? Nãaa… Foi só a má-língua do César. Os 144000 todos portugueses?
Ah, Ah! Genial. O que estariam a fazer? A preparar o reino? Era um bom momento para o mundo. Para as televisões. Para a estrutura directiva das Testemunhas. Reuniões e comités de crise. Quem não gosta de reuniões e de comissões? Mau para os crentes que se deixavam consumir pela dúvida. Pelo menos, agora, a Madalena estava livre para desfrutar o espectáculo.
Livre e solta para descobrir a verdade que liberta. Tinha tomado
o comprimido vermelho e podia agora ser desligada da máquina.
Do sistema que transforma os humanos em energia. Agora tinha
o mundo todo pela frente. E ele é negro e feio e sujo, mas pelo menos podia voltar a cantar os parabéns e receber transfusões de sangue sem receios.
16
Tratar de defuntos não é pera doce. Horas intermináveis no hospital a assistir a um desfile de médicos e enfermeiros. Médicos legistas. Enfermeiros de batas sujas, com bocados de cérebros das autopsias (não, mentira). Cangalheiros. Quer dizer, agora não se chamam assim. Aqueles tipos das agências funerárias, muito tétricos. Mórbidos, até. Indivíduos que parecem, mais ou menos, seres humanos. Seres a meio caminho entre o humano e o zombie. Nosferatus. Catálogos com campas, caixões, lápides e letras douradas para incrustar. Doentio. E demorado. Nem se consegue parar para chorar um bocado. Tem de se esperar uns dias. Morta de sono. Ela. Arrasada. Jesus bem disse para deixarmos os mortos enterrarem os seus mortos. Para manter alguma sanidade no meio da tristeza, a Amélia escrevia pequenos apontamentos, mais ou menos, poéticos no seu caderninho. Não um diário, nem um moleskine. Um caderninho mesmo. Deixava chorar a alma. Abria a torneira da dor que a morte da dona Gertrudes (nunca se habituara a chamar-lhe mãe) lhe trazia. E que coisas bonitas escrevia. Bonitas e salgadas. Folhas molhadas. Tinta lacrimal. Palavras soltas. Sem nexo. Saudade e raiva. Desespero e lamento. Retratos de um mundo mais pequeno. Mais claustrofóbico. Sem cheiro. Entretanto apareceu o cardiologista, qual assombração sudarenta, com uns papéis quaisquer para libertar o corpo, não sei para onde, para ir fazer não sei o quê. E ainda faltava o raio do padre para compor o ramalhete. E logo ela, ateia… Ateia fogo a isto tudo, Maria Amélia! Ateia!
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– Senhor Deus, criador do céu e da terra, que, pelo Baptismo, salvastes o homem do cativeiro da morte e o unistes ao triunfo pascal de Cristo vosso Filho, para que também nós, membros do seu Corpo, nos tornássemos participantes da sua ressurreição, abençoai a sepultura da vossa serva Gertrudes e fazei que ela tenha um sono tranquilo e ressuscite no último dia com os vossos Santos. Por Cristo, nosso Senhor. Finda a bênção da sepultura e enquanto o caixão descia, o padre continuou as exéquias fúnebres. – Deus omnipotente quis chamar desta vida para Si a nossa irmã, cujo corpo entregamos à terra, para que volte ao lugar de onde foi tirado. Supliquemos a Cristo nosso Senhor, que ressuscitou como Primogénito dos mortos e há-de transformar o nosso corpo mortal para o tornar semelhante ao seu Corpo
glorioso, que receba na sua paz esta nossa irmã e a ressuscite no último dia para a glória eterna. Depois de mais este pequeno parágrafo, barra, monólogo, altura para um pequeno diálogo entre padre e congregação reunida em volta do buraco no chão. Uma espécie de cantiga com um refrão muito simples e fácil de decorar.
– Irmãos caríssimos, supliquemos humildemente a Deus,
Pai de misericórdia, pelos nossos irmãos que morreram na paz
de Cristo, dizendo com toda a confiança:
– Ouvi-nos, Senhor.
– Perdoai-lhes, Senhor, os seus pecados.
– Ouvi-nos, Senhor.
– Aceitai, Senhor, as suas boas obras.
– Ouvi-nos, Senhor.
– Conduzi-os, Senhor, à vida eterna.
– Ouvi-nos, Senhor.
– Oremos também por todos aqueles que estão de luto
por causa da morte desta nossa irmã… Consolai-os, Senhor, na sua dor e saudade.
– Ouvi-nos, Senhor.
– Confortai-os na sua solidão com a suavidade da vossa presença.
– Ouvi-nos, Senhor.
– Aumentai a sua fé e fortalecei a sua esperança.
– Ouvi-nos, Senhor.
– Oremos também por todos nós, que ainda peregrinamos
na terra… Fortalecei-nos e conservai-nos no vosso santo serviço.
– Ouvi-nos, Senhor.
– Elevai o nosso coração, para que aspire sempre à glória
eterna.
– Ouvi-nos, Senhor.
– Fazei-nos participar um dia nos vossos bens celestes.
– Ouvi-nos, Senhor.
– Deus eterno e omnipotente, Senhor dos vivos e dos mortos, rico de misericórdia para com todos os que Vos amam:
pela vossa clemência e por intercessão de todos os Santos, concedei àqueles por quem oramos, vivos e defuntos, o perdão dos seus pecados. Por Cristo, nosso Senhor. Parou, para recuperar o fôlego. Continuou.
– Dai-lhes, Senhor, o eterno descanso.
– Nos esplendores da luz perpétua – responderam todos.
Um “todos” não literal. Ou seja, alguns. Os da fila da frente.
– Bendigamos ao Senhor.
Uns com os olhos inchados, outros visivelmente
estafados, todos (agora sim) clamaram com profunda convicção:
– Graças a Deus!
E pronto. Feito. Esta estava despachadíssima. Encomendada às mãos do criador. Altura de abandonar o cemitério. Meia dúzia de familiares circulavam apoiados uns nos outros na esperança de se consolarem. Vã. O grosso das tropas deslocava-se em silêncio. Consternação, mais ou menos, fingida. A morte afecta-nos sempre muito… durante dez minutos. Ou quinze. Os miúdos riam sem pudor. Não da morte. De outras coisas. Da vida. Dos vivos. Há tempo para tudo debaixo do céu. Tempo de viver e tempo de morrer. Tempo de rir e tempo de chorar. Tempo de ir ao cemitério e tempo de voltar para casa. Tempo de actualizar o estado social. A sentir-se triste. Tempo de esperar reacções. Cara amarela com lágrima azul. Palavras de circunstância. Ainda antes de ontem a vi, estava com tão bom aspecto. Ninguém diria que uma tragédia destas… eu ainda não estou em mim. É nestas alturas que nos apercebemos o quão frágeis somos. É um ganda abr’olhos! A vida é breve. Hoje, estamos cá, amanhã, não sabemos. E para quê? Sim, e para quê? Uma vida a trabalhar. Uma vida de canseira, para acabar assim, no buraco. Deus, nosso Senhor, a tenha! Qual nosso senhor, minha senhora? Isto, para a Gertrudes, acabou
aqui. Debaixo da terra. A sete palmos do chão. “Só uma porta, a vida tem, enquanto a morte tem cem.” Os americanos é que a sabem toda. Enterra-se o cadáver
e vai tudo para casa da família do morto dar ao dente. Ah, quem
dera que importássemos essa tradição! Todos no aconchego de uma vivenda de madeira, a trincar umas chamuças, uma saladinha de polvo, umas moelas ou uns rissóis de camarão. O povo já se contentava com esses aperitivozinhos. Uma espécie de lanche ajantarado. Depois do bafiento frio da capela e da molhada relva do cemitério, ninguém tem vagar para ainda ir para casa cozinhar. Só se importam as bodegas. As tradições que não valem um caracol vêm cá todas parar. Meninas inocentes, vestidas de bruxas e rapazes disfarçados de diabos. Redundante, mais a mais. Todos a pedir doces, desrespeitando as indicações da Organização Mundial de Saúde. O McDonalds. A Coca-Cola. Também para os padres estes são dias diferentes. O Padre Jaime só queria chegar a casa, tirar a batina, vestir umas calças de pijama de flanela e sentar-se na poltrona da sua gélida sala de estar que, por sua vez, fazia parte da sua fria casa de pedra.
Manta a tapar as pernas e televisão na 4. Telejornal e telenovela. Tele. Grego téle, à distância. Também a morta estava agora à distância. Era uma telemorta, no fundo. A alma. O corpo ainda estava próximo. O cemitério dos horrores era perto da capela
e da casinha de pedra do padre. Em rigor, a casa não era dele.
Era da paróquia. Ou da diocese. Não sei. Onde estaria a alma da telemorta Gertrudes? Que feio duvidar da própria oração tenha um sono tranquilo e ressuscite no último dia. Duvidar feio, mas
duvidar razoável. Esta reza decorada poderia muito bem ter-se esfumado na atmosfera, misturada com as cinzas expelidas pela chaminé do crematório. Cinzas de outros mortos.
18
Seguiam abraçados. O César e a Amélia. Era o tal ombro amigo. E braço. E coração. E tudo.
– Posso ficar em tua casa, hoje?
– Claro que sim, Amélia.
– E a tua senhoria não se vai importar?
– Acredita que não…
A senhoria não se vai importar, excepto se estivermos diante de um número de fantasmagoria.
– Ok.
– Precisas mesmo de descansar.
– Eu sei. Estou morta… Tchi… que mau!
Apanharam um táxi. Seguiram calados até ao destino. O taxista, que fazia aquele cemitério com regularidade, não disse palavra. Estava habituado. Sintonizava a rádio na Antena 2 e baixava o volume. Quando chegaram, a Amélia deitou-se em posição fetal na cama do César que a tapou com uma manta. Mas não conseguia dormir. Desistiu. Sentou-se na cama. Manta em cima das pernas. As mantas em momentos de dor são uma companhia inestimável. Um caso de estudo. A dor traz consigo o frio.
– Podes pôr uma música?
– Acho que não tenho nada que tu gostes…
– Põe uma coisa violenta.
– Tens a certeza?
– Sim.
Assim foi. Tanana tanana…
yahhh…. Surgery, with no
anesthesia / Feel the knife pierce you intensely / Inferior, no use
/ Angel of
death / Monarch to the kingdom of the dead /Infamous butcher
/ Angel of death / Pumped with fluid, inside your brain / Pressure in your skull begins pushing / Through your eyes… …. …. tannata nanatana
to mankind / Strapped down screaming out to die
– Anjo da morte… veio cedo demais para a minha mãe.
– Nunca a chamaste mãe.
– Mas devia… Uma vida inteira a trabalhar. A criar uma
filha, que não vale nada, para depois morrer assim, de repente. Sem que a vida lhe tenha trazido alguma espécie de recompensa ou compensação pelos sofrimentos que passou. Não é justo. Raio do anjo da morte! Não tinha gente má para ir buscar? A Gertrudes alguma vez lhe fez mal? Já estava na hora de ceifar? Para quê, não me explicas? Para que queres lá a Gertrudes? Para grelhar carne? Carne assada humana.
– Amélia! É melhor ouvirmos uma coisa mais calma –
sugeriu com preocupação.
– Não! Deixa estar. É o quê, isto?
– Slayer.
– Gosto! Mete mais alto. Não tens nada que se beba?
– Água… leite…
– Argh!… Esquece!
– Dorme um bocado.
– Não consigo. Estou irritada. Apetece-me partir isto
tudo. Uma vida frívola. Sem significado.
– Não digas isso. Ela salvou-te e criou-te. Fez um bom
trabalho…
– A minha vida vale esta tragédia precoce? Não vale!
Nem por sombras.
– Não penses nisso, agora. Não é altura para isso.
– É sim. Agora é que é a altura. Não me explicas por que
diabo vivemos? Por que carga de água vivemos se depois se desvanece tudo? Ah, vive o momento! Para? Se nem a lembrança da eventual felicidade permanece depois de mortos. Qual a diferença entre ser feliz ou infeliz, se até isso se transforma em pó? Não há diferença. É inútil e cruel. Sofrer. Fazer sofrer. Morrer ou matar. Vai dar tudo ao mesmo. Ao pó. Ou às cinzas. Consegues perceber, César? Tudo é infinitamente falso. Uma ilusão. Até este meu sofrimento é vazio. Daqui a nada desaparece e nunca mais ninguém se lembra dele. Somos carne para canhão. Mortos-vivos a viver dentro da cartola de um ilusionista. Jéssicas, Gertrudes, boas e más. Vãs. Vãs. Fumaça. Percebes? Achas que eu estou doida, não é? Se não fosse, precisamente, igual ao litro, não me importava de morrer agora. E o padre com aquela conversa da treta… mas alguém se acredita numa palavra que seja do que o homem disse? Consolai-os na sua dor e saudade? Não me sinto consolada. Nem um bocadinho. Consolada de ver a minha mãe transformada em pó? É suposto sentir consolo em carne apodrecida? Em fumo a sair de uma chaminé de um crematório. Pó. Cinzas. Terra à terra. Onde está o consolo? Ah, porque não sofre mais. Perguntem-lhe se ela não preferia continuar a sofrer. Pois claro que preferia. Quando é que o mundo se tornou neste lugar horrível? Foi por altura dos dinossauros? Que entidade
pôde dar origem a um mundo tão cruel? Foi algum defeito no ADN do homo sapiens? Ou do macacoide anterior a ele? Foi a explosão que correu mal? Estamos mergulhados num mundo
tenebroso e os pequenos raios de bondade que se sentem por aí são meras excepções? Diz alguma coisa, raios!
– No jardim do Éden.
– Ah, vá lá! Poupa-me… a culpa é da maçã, querem lá
ver…
– Não há nenhuma maçã.
– Ai não?
– Pois claro que não. Adão e Eva tentaram ser deuses.
– Então por causa de duas pessoas temos a vida toda lixada, é isso?
– Não os culpes. Se nós fossemos Adão e Eva faríamos
precisamente a mesma coisa.
– Eu não. Odeio maçãs!
– Tu com a maçã…
– Sabes, gostava de ter a tua fé calma e pacífica.
– A minha fé não é calma nem pacífica. É uma fé violenta.
É uma luta constante que nunca acaba. Alguma vez afogaste alguém e ficaste a ver a água encher os seus pulmões? A destilar ódio, enquanto todo o ar era sugado daquela vida. Possuído pelo demónio. A tentar ser um deus maléfico. Preso num colete-de- forças à beira da loucura. Tu achas que a minha fé é pacífica? A minha fé é um turbilhão. A violência que já infligi a outros, agora inflijo a mim próprio. Até sufocar. Lá fora, a chuva caía. Nas colunas também. Eram as
últimas gotas da “Rainning Blood”. A cassete chegara ao fim. Esta saraivada de sangue, também. Altura de mudar de música. De pacificar. Bem-aventurados os pacificadores. A confissão do César pareceu à Amélia demasiado profunda para a abordar
agora. Não estava em condições para tanto. Muita areia. Ficaram em silêncio por momentos a ouvir um álbum de Scorpions, o Blackout.
– É verdade! E a tua senhoria? Afinal, o que aconteceu? Desculpa, nunca mais me lembrei disso…
– Ninguém sabe.
– Humm… então desapareceu mesmo?
– Sim.
– Que desgraça! E a miúda?
– Está na maior. Detestava a mãe e aquela vida…
– Coitada.
– Sim.
– Mas, afinal, qual era o teu problema? Disseste que a
culpa era tua ou qualquer coisa assim.
– Não penses nisso, agora. Mais tarde explico-te tudo.
– Ok.
– César, não leves a mal o que vou dizer. Fico a desejar
que tivesse sido a Jéssica a morrer em vez da minha mãe…
– Amélia, não…
– O que é que ela tem que eu não tenho? É mais bonita,
ok, pronto… mas é uma estúpida. Gostas delas burras e novinhas? Eu já sou uma balzaquiana, não é? Agora, sem a minha mãe,
qualquer dia tu arranjas uma namorada e eu fico sozinha. Sem ninguém. Nesse momento o César levantou-se e abraçou-a. O que seria uma balzaquiana? Esta Amélia era mesmo culta.
– Não ficas. Eu nunca te vou deixar.
– Mas?
– Mas não posso ficar contigo. Não quero fazer-te mal. Não
sabes o poder que eu tenho para magoar, irremediavelmente, as pessoas.
– Pois, o homem mistério… e com a Jéssica podes ficar?
– Eu não quero a Jéssica para nada. É só um fraquinho.
– Oh, está bem. Desculpa.
– Agora vai descansar, por favor.
– Sim, mas não podes arriscar?
– Arriscar o quê?
– Ficares comigo…
– Esta não é a altura para falarmos sobre isso. Estás frágil e magoada.
– Não. Eu já gosto de ti há muito tempo… – suspendeu a
frase a meio e poetizou o discurso, recitando um poema de uma amiga, a Sara F. Costa.
vou procurar-te em toda a extensão do meu corpo, sei que me habitas, sepultado algures no meu ego. se não estás aqui, estás nas entranhas das
estrelas e é igual,
é a língua de um filme que achaste medíocre por ser abstracto,
é o leque cromático da gramática que me impinges,
são os nervos exaltados que gritam com o poema
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e |
é o poema que grita |
|
e |
as palavras que estremecem até aos tendões. |
cravo cada letra até à mais profunda solidão
e as folhas lamentam o peso das sílabas.
– Eu não te mereço, Amélia… Continuaram abraçados mais uns minutos. O César deixou que uma lágrima se lhe desprendesse da janela da alma, sem que a Amélia se apercebesse.
19
Ainda não se falou na Jéssica. A miúda que recolhe bilhetes, na montanha russa, vestida de Branca de Neve, e por quem o César tem um fraco, merece que se lhe dedique um capítulo inteiro. Este. O 19.
20
Os inspectores da PJ bateram à porta, às 9h em ponto. Rigor e profissionalismo, acima de tudo. O César não tinha pregado olho. Acompanhado de Deep Purple, Iron Maiden, Trouble, Warlord e Kiss, entregou-se a fantasias toda a noite. Hipóteses e teses. Pressentia o fim. A chegada do carrasco. O que lhe diria? Sim, a culpa é minha. Não sei de nada. Dona quê? Nunca ouvi falar. Perspectivou a possibilidade de dinamitar todos os polícias da cidade. Ninguém lhe poria as mãos em cima. Mas ele não queria voltar a esse caminho. Iria dizer NÃO! Como disse o José Cid ao cigarrinho que lhe ofereceram em Nova Iorque. Atrás não volto. Não volto, não. Deste caminho, eu não desisto. Podia fazer os chuis tropeçarem nas escadas. Ficarem com o carro preso na lama. Afinal, chovia. Um tornado. Um tremor de terra que rebentasse as grades da prisão? Mas não. Nada disso. Diria a verdade, e a justiça que se fizesse. O destino mais certo seria o hospital dos malucos. Sanitário… perdão, sanatório. Talvez, se conseguisse provar aos juízes os seus poderes, isso servisse de atenuante. Mas revelar ao mundo uma coisa assim seria o fim da picada. Podia, num piscar de olhos, transformar- se numa arma apetecível aos maiores vilões. Já se imaginava raptado, amordaçado, torturado, chantageado. Exigências e mais exigências. Armas. Destruição. Morte aos inimigos. Ele não podia cair nas mãos erradas. Não. Não podia relevar as suas fraquezas,… perdão, os seus poderes. Não se ouvia bem, mas os dois inspectores no banco da frente trocavam impressões sobre banalidades. Como se a vida
continuasse. Nem um momento de pesar pelos crimes alheios? Um choro? Uma lagrimita que fosse. Um minuto de silêncio? Nada. Oh, vida malvada! Desligou do mundo. Começou a cantar baixinho, assim:
There I was completely wasting, out of work and down all inside it’s so frustrating as I drift from town to town feel as though nobody cares if I live or die so I might as well begin to put some action in my life
Breaking the law, breaking the law Breaking the law, breaking the law Breaking the law, breaking the law Breaking the law, breaking the law Abanava ligeiramente a cabeça. Não estava triste, o César. Sentia-se esperançoso e revigorado. Polícia. Justiça. Juiz. Que podem temer os homens justos? Ou justificados? Nada. Quem o poderia separar do amor de Deus? No pior dos casos, seria preso. Ou morto pelos companheiros de prisão, numa rixa de refeitório, como nos filmes. Tinha a impressão que se daria bem na prisão. As tatuagens davam-lhe um ar distinto. Duro. Uma viagem bem decepcionante. Nem um paparazzi. Não precisou de tapar a cara com o casaco ou outro trapo qualquer. Nem um jornalista à vista. Nenhum directo. Nem encenado. Entraram pela garagem das instalações e nem um flash, nada. Estava um tipo a fotografar a namorada, encostada a um portão de ferro, com um telemóvel, nada mais. A única foto num raio de 100 metros. Triste.
21
Qual fim de mundo anunciado, pequenos e grandes, o juiz hão-de encarar. Este não parecia grande coisa. Anafado. Adiposo. Um bocado sebento. Gorduroso. Fechados numa sala sem janelas. Candeeiros com luzes amarelas. Em menos de uma hora aquele espaço exíguo iria ficar empestado de suor. Suor de
interrogador. Como aquele tipo do Instinto Fatal. Tal e qual esse tipo. O César não era nenhuma Sharon, mas era igualmente um osso duro de roer. Se a coisa se tornasse insuportável, o melhor seria confessar tudo e seguir viagem para uma cela arejada. Bolas, nem uma janela? Caramba!
– Queira, por favor, dizer o seu nome completo e idade.
– César Afonso Teixeira Duarte. 35 anos.
– Dos Teixeira Duarte?
– Humm… sim… a minha mãe era Teixeira e o meu pai
Duarte.
– Ainda tem contacto com os seus pais?
– Não.
– Porquê?
– Já morreram.
– Em que circunstâncias?
Bom
– O meu pai foi enterrado no dia em que eu nasci e a
minha mãe morreu no caminho entre o cemitério e o hospital.
Morreu na ambulância.
– Entre o cemitério e o hospital?
– Sim. Eu nasci no cemitério durante o funeral do meu
pai.
– No cemitério? – admirou-se o juiz.
– Pois… é a vida. Ou a morte, neste caso. Suponho que a
iminência do meu nascimento foi a gota de água para o coração folião do meu progenitor.
– Você nasceu no cemitério? – repetiu incrédulo.
– Sim.
– E depois?
– Nada.
– Nada?
– Nada.
– Adiante, então. Profissão?
– A minha mãe era…
– Não! A sua profissão! – exclamou o juiz, tal como o ponto de exclamação indica.
– Sou condutor de carrinhos de choque. Não sei se isso é uma profissão.
– Pois. Eu também não. Trabalha para o senhor Isidro Ventura, certo?
– Sim.
– Há quantos anos?
– 10, por aí.
– Por aí?
– Mais ou menos.
– Não se lembra?
– Não.
– Deixe-me avivar-lhe a memória. Terá sido no mesmo
ano em que, misteriosamente, morreu a sua amiga Isabel Santos?
O César corou.
– Talvez… – respondeu.
– Talvez. Talvez. Há quanto tempo mora nesta cidade?
– Bem, desde que cá cheguei.
– chegou há cerca de 10 anos, depois de se mudar da cidade onde vivia e onde morreu, misteriosamente, uma amiga sua, começou
cá
Engraçadinho,
sim
senhora.
Portanto,
quando
a trabalhar para o senhor Isidro e a morar nas águas-furtadas da dona Ester Rebelo. Correcto?
– Já é a segunda vez que refere a palavra “misteriosa- mente”. Mas sim, está correcto.
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– |
Foi o único local onde morou? |
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– |
Sim. |
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– |
Sempre com a dona Ester Rebelo como senhoria. |
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– |
Sempre. |
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– |
Eu sei. Não era uma pergunta… Gosta do seu trabalho |
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na feira? |
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– |
Sim. |
– Os seus conhecidos descrevem-no como uma pessoa muito calada. Acha que eles têm razão?
– Acho.
– No entanto, alguns afirmam que o senhor César Duarte tem um problema mental não diagnosticado.
– Está bem.
– Parece-lhe que podem ter razão?
– Não sou psiquiatra. Nem eles.
– Já foi a algum?
– Já.
– E o que lhe disseram?
– Disseram que eu não tinha qualquer problema. Para
não me preocupar… que este mundo estava recheado de doidos que nunca o viriam a saber.
– Humm… Uma das pessoas interrogadas afirmou mesmo
que o César tinha olhar de, passo a citar, abrir aspas, tarado, psicopata, assassino, fechar aspas.
– Quem é que disse tal coisa?
– Jéssica Pereira. Conhece?
– Claro. Disse de mim o que Mafoma não disse do
toucinho. O que ela precisava sei eu!
– Diga, diga. O mesmo tratamento que deu à Dona Ester?
– Eu dei-lhe um tratamento?
– Diga-me, você.
– Ela é que me deu vários tratamentos. Foi com cada
ensaboadela. Todos os sábados de manhã, durante anos. – Até que um dia fartou-se…
– Quem?
– O César.
– Esse dia foi logo o primeiro, senhor doutor juiz.
– Há 10 anos, mais ou menos, portanto?
– Mais coisa menos coisa.
– A seguir a mudar-se para cá, depois da morte da Dona Isabel Santos
– Isso.
– Se a Dona Ester o incomodava tanto porque é que
nunca mudou de casa? Ou melhor, porque é que nunca mudou de águas?… Esta teve graça.
– Muita. O senhor doutor juiz dava um bom humorista.
– Responda à pergunta!
– Mudar de águas? Não estou com vontade de ir à casa de banho.
– Mau!
– Nunca mudei, porque, no fundo, tinha um fraquinho
pela dona Ester.
– Você está a gozar comigo, certo? Eu não lhe admito,
ouviu?
– Peço desculpa. Olhe, nunca saí, sei lá. Não tenho
resposta para isso. Não me apeteceu. O que quer que lhe diga, que andei 10 anos a planear matá-la?
– Andou?
– Está-se mesmo a ver que sim.
– Voltemos à vaca fria. Alguma vez teve alguma celeuma com a sua senhoria ou com a filha dela?
– Não.
– Muito bem. Onde estava no dia 13 deste mês, sábado, mais especificamente no período da manhã?
– Em casa.
– Em casa – imitou o juiz. – Esteve com a dona Ester, durante esse período?
– Não.
– Ela não foi a sua casa?
– Não.
– Foi sempre, todos os sábados, durante anos, excepto
esse?
– Assim é.
– Conhece a filha, Madalena Rebelo?
– Sim.
– Diria que a dona Ester aprovava a vossa relação?
– Qual relação?
– Bom. Temos provas documentais disso. Não vai negar
que ela esteve em sua casa, algumas vezes, após a morte da mãe, ou vai?
– Bom, não…
– Então, sempre se confirma a morte da senhora. Muito
bem.
– Ei! Calma! Eu não disse isso!
– Já lá chegaremos. Quer, portanto, dizer que a Ester
Rebelo não esteve em sua casa? Mentiu à filha portanto?
– Não sei.
– E aproveitou para fugir, certo? Muito credível, sim
senhora…
– Sim senhor.
– Perdão?
– Esqueça.
– O que afirma é que a senhora mentiu à filha, não foi a
sua casa e desapareceu misteriosamente, certo? E, depois disso, num curto espaço de tempo, a dona Madalena Rebelo já esteve em sua casa, pelo menos, duas vezes.
– Hã… sim, acho que se pode dizer isso.
– Não se pode ter dado o caso de ter despachado a velha para ficar com a miúda, ou pode?
– Despachado a velha? Isso é linguagem técnica que aprendeu na faculdade de direito?
– Não se arme em engraçadinho comigo.
– Não. Não despachei a velha, senhor doutor juiz.
– É o que veremos.
– E também matei as outras Testemunhas de Jeová?
Como? Dissolvi-as em ácido? Comi-as, feito canibal? Vá, diga-me, qual é a vossa tese?
– As outras testemunhas não são para aqui chamadas.
– Ai não?
– Pois claro que não.
– Posso perguntar uma coisa?
– Diga lá.
– Não seria suposto fazerem buscas à minha casa?
– Para encontrar o corpo?
– Exacto.
– Humm – suspirou e encolheu os ombros. – Estão a ser feitas neste momento.
– E eu não tinha de ver um mandado qualquer?
– A casa é sua por acaso?
– Pois
– Adiante. Quanto tempo demoravam, em média, as suas conversas com a falecida?
– Falecida? Não tenho por hábito falar com mortos.
– Senhor César, não o torno a avisar.
– Como queira. Com a dona Ester
de 1 hora, no mínimo.
ela pregava-me secas
– Nunca a mandou embora?
– Não. A renda era baixa.
– Por interesse, portanto. Nunca sentiu vontade de a
tratar mal?
– Depende do que quer dizer com isso.
– De lhe bater ou de fazer com que ele desaparecesse?
– De lhe bater, não! Que ela se calasse ou sumisse, isso sim. O senhor doutor juiz não teria?
– Aqui, quem faz as perguntas sou eu.
– Muito bem.
– De que costumavam falar?
– Ela é que falava. De tudo. Transfusões. Música Rock.
Jesus. Enfim, as coisas de que as Testemunhas de Jeová falam.
– O César gosta de Rock?
– Sim. Rock e Heavy Metal.
– O que lhe dizia a dona Ester sobre esse género musical?
– Que era música do diabo.
– E o César, o que respondia?
– Abanava a cabeça e não dizia nada.
– Ter-se-á dado o caso de uma dessas canções mais violentas o ter compelido a um acto irreflectido?
– Tipo, fiquei possuído pelo demónio da cassete e o diabo mandou-me aviar a senhoria, que é Testemunha de Jeová?
– Sim…
– Claro, foi mesmo isso. O diabo mandou fazê-lo.
– Então, confessa que o desaparecimento foi causado por
si?
– Isso é outra pergunta.
– Ai é?
– Sim. Eu não a matei.
– Mas fez com que ela desaparecesse?
– E se tiver feito?
– Se tiver feito, é culpado.
– Da morte?
– Pois claro.
– Mas não sou.
– Mas é culpado dela não estar entre nós?
– No máximo, posso ser culpado de ela estar em parte
incerta.
– Como a dona Isabel Santos?
– Não. Essa está morta.
– Onde está a dona Ester? Vamos, confesse de vez!
– Não sei.
– Quem é que sabe?
– Deus.
– Mas Deus não está aqui para responder, pois não?
– Está, mas não vai responder. Deus está em toda a parte.
– Volto a perguntar. Onde está a Ester Rebelo?
– Já lhe disse que não faço ideia.
– Em que medida é que se sente culpado de ela estar em parte incerta?
– Na medida em que na noite anterior desejei que ela
desaparecesse.
– Você está a gozar comigo?
– Não, não. Desejei mesmo.
– E?
– De manhã, ela não apareceu.
– Portanto, você é o génio da lâmpada!
– Olhe… bem visto…
– Posso pedir um desejo?
– Pode.
– Diga a verdade, de uma vez! – gritou o juiz, exasperado.
– Já lhe disse.
– Depois disso, o génio da lâmpada foi-se engalfinhar
com a filha… ela veio de livre vontade ou foi mais um desejo que pediu para si próprio?
– Olhe, quem me dera que nada disto tivesse acontecido.
A sério. Se eu soubesse tinha estado calado. Não me diga que nunca desejou que alguém desaparecesse.
– Ai, já desejei, já! Agora mesmo, homem! Já não o posso ver à frente.
– Tem bom remédio.
– Eu não quebro, meu menino. Vamos fazer uma pausa.
– Antes disso. Eu não devia estar acompanhado dum
advogado?
– Nesta fase do processo não há necessidade, mas pode
requerer um.
– Ah, não! Deixe estar. Não tarda, estou daqui para fora.
– Isso é o que vamos ver.
– É fartar, vilanagem!
– Perdão?
– Nada. É malhar enquanto está quente
Deviam estar uns quarentas graus no raio da sala. O juiz suava como um cevado. Libertava gordura como uma bifana da Gertrudes. O César estava cada vez mais em casa. Tranquilo. Por hora, o interrogatório ficaria por ali. O juiz não estava em condições de continuar. Precisava de arrefecer. Durante o fim- de-semana o César ficaria detido. A tortura continuaria na 2ª feira. Detido numa cela fria e deprimente, sem nada para fazer, o nosso homem, tocava mentalmente o Kill em’All dos Metallica. Que bela ideia. Limpar o sebo àquela gente toda e ir ter com a Amélia. Deixar entrar o espírito metálico. Possuído pela barbárie fria do aço. O vingador ex-monossilábico. O Rock tinha as costas largas. Aproveitou o intervalo para fazer um telefonema. Ainda não tinha avisado a Amélia. Ela nem queria acreditar. Ficou sem reacção. Chorava. Chovia. Ficou sem expressão. O mundo desabava. Não tinha forças nas pernas. Só se queria deitar um bocadinho.
22
Ela chegou a casa sem se lembrar como. Pagou o táxi, saiu soturna e caminhou entre a chuva até à porta do prédio, vagarosa e trôpega. O semblante dela à chuva fazia lembrar um demente de olhos vidrados, o cabelo sujo, molhado e escorrido na cara, costas ligeiramente curvadas, gabardine aberta e mala na mão, quase arrastada pelo chão. Fechou a porta de casa atrás dela, encostou-se, olhou em volta. Sentia o
cheiro a defunto, talvez estivesse nela, talvez ela estivesse em processo de decomposição também. Hoje, tinha a certeza que sim, mais do que ontem. Pousou os olhos no sofá e desejou teletransportar-se. Ao fim de uns minutos a retomar forças, caminhou, desfaleceu no sofá e desejou ter quem a tapasse e aconchegasse, estava ensopada da chuva, mas nem isso sentia.
O desejo de alento despertou-a do torpor…
Esticou a mão e tateou a mesa, o candeeiro, o comando da tv…
e encontrou-o. Apertou-o com força, como se ele a aquecesse,
como se lhe tirasse a roupa molhada, como se a confortasse, e
lhe dissesse: vai ficar tudo bem. Era o único alento que tinha. De rompante, abriu-o, e parou a olhar para a página vazia. Inspirou fundo, deslizou o corpo para o chão, despiu a roupa molhada e já hirta, que lhe prendia os movimentos, e começou
a escrever:
Os que amo parecem fugir-me das mãos… Os que me suportam
a vida, morrem-me, vão-se-me, o que me resta mais? A morte. Não consigo respirar… meu Deus… esta morte lenta, porquê
esta asfixia que demora tanto a tirar-me os sentidos?
(fecha os olhos com força e as lágrimas quentes inundam-lhe os pés nus e o caderno, sob o corpo curvado, sentado no chão)
A dor aguda no peito. O ar não me chega às artérias, não me
inunda de vida, antes parecem estilhaços de vidro que me ferem por dentro a carne, que me rasgam desde as narinas aos pulmões e passam para o sangue, isso, deixam-me a esvair-me em sangue e ninguém vê, ninguém me ajuda. Morro, lenta, só, em agonia. Leva-me, leva-me a vida! Arrasta-me à morte, nada mais me
resta. Essa é a única que me espera, que não me vai desiludir, ah, fiel morte, vem, rápido!! Os sonhos só me lembram de onde não vou chegar, as memórias só me agonizam, porque não me resta nada. Resta-me o papel, resta-me só e sempre o papel. O que sempre me entende, me respeita, me é presente e fiel.
A vida leva-me tudo, a atroz vida leva-me tudo, só não me leva
a mim.
23
Choro. Lágrimas. Corpos mutilados. Gente triste. Maridos infiéis. Anões. Corcundas. Obesos. Mulheres de bigode. Crime. Roubo. Deboche. Miséria. Tristeza. E a alegria, quando vem? Não se pode terraplanar isto tudo e começar de novo? De novo, Adão e Eva a renascer, no outro mundo. Voltar a zero num planeta distante. Memória de elefante, talvez. O outro mundo. Bifanas azedadas. Cheiro nauseabundo. Vem cá, agora, Branca de Neve, que eu dou-te uma bifana envenenada! Não há príncipe que te safe! Bruxa! Não há beijo que desfaça este encantamento. Churros e farturas queimados vivos em óleo a ferver, como na idade média. Balões de hélio a imitar formas bizarras. Cavalinhos de plástico. Porcelanas. Faqueiros. Presépios em louça. T-shirts de bandas de Heavy Metal que me lembram de ti. Ginja em copo de chocolate. César, que disparate fizeste, homem de Deus (literalmente)? E agora? Luzes de Néon com forma de gelado. Com forma de coração. Garrafas partidas. Corações partidos. Desonra. Demasiado perfume. Que se entranha no corpo. Cheiro a fritos e perfume. Não são freiras. Só querem um bocado de diversão. Um momento de esquecimento. Vender. Vender. Piscar. Néon. Sapatos de salto alto. De tacão alto. Meias de renda. Saias reduzidas. E se tudo, simplesmente, desvanecesse? Mas não desvanece. Nunca. Onde estás, que não te vejo? Na prisão. Eu cheiro a morte, a perfume, e carne de porco. É natural que tenhas preferido o calabouço. A música martela. Martela. Martela. Manuela. Esmaga-me o crânio, até não poder mais. Ah, se tudo fosse para o inferno!
Enquanto a Amélia se perdia em lamentos, o César
esperava ser presente ao juiz de instrução criminal. De novo.
|
O |
badocha. O fim-de-semana fora profético. Fim-de-semana |
|
de |
epifanias. Já sabia tudo o que ia fazer. Tudo. Tinha tido uma |
revelação, qual João exilado na ilha de Patmos. Adão e Eva. Noé não. Não gostava muito de água. Gato escaldado. Vamos lá! 6 minutos para resolver tudo. 1 para descansar.
– Bons dias!
– Bom dia, Senhor Doutor Juiz! – afirmou convictamente,
como se maiusculizasse as primeiras letras das palavras “senhor”, “doutor” e “juiz”.
– Passou bem o fim-de-semana?
– Muito bem. Era menino para me habituar a isto.
– Só depende de si.
– Vamos a isso.
– Matou a dona Ester Rebelo, no dia 13 de Fevereiro?
– De que mês?
– Mau!
– Pronto, não se zangue. Não matei.
– Meu Deus, que já não aguento mais isto!
– Então, mas ainda agora começámos…
– Muito bem, não quer cooperar, o problema é seu.
– Eu querer, quero.
– Devo informá-lo que as buscas a sua casa – fez o irritante
sinal das aspas com os dedos no ar – não revelaram nada sobre o desaparecimento
– Naturalmente.
– No entanto…
– Sim?
– Descobrimos algumas coisas deveras interessantes.
– Tais como?
– Pode mostrar-me os seus braços. Arregaçou as mangas e mostrou.
que significam essas
tatuagens. Quem são essas pessoas? O que faz aí o nome da falecida Isabel Santos?
–
Pode,
por
favor,
explicar
o
– Gente que eu não quero esquecer.
– Gente a quem fez mal?
– De certa forma, sim.
– Matou-os a todos, não é?
– Não, não é!
– É, sim senhora! Você não me engana. Nós vamos chegar ao fundo desta questão.
– Não vão, não senhor!
– Ai vamos, sim senhora!
– Sim, senhor! – tentou, finalmente, sem sucesso, corrigir aquele feminino mal utilizado.
– Mau!
– Mau, digo eu!
– Confesse, homem! MATOU-OS! – berrou.
– Não!
– Então, o que lhes fez?
– Eu, nada.
– Então, quem fez?
– Sei lá.
Nesse momento, o juiz passou-se da marmita.
– Fala de uma vez, homem! Senão vais dentro muitos e
muitos anos, estás a ouvir?
– Então, mas eu não lhe disse já? Caramba! Eu desejei
coisas más e essas coisas aconteceram. Uma delas foi que a Isabel morresse afogada.
– Outra vez essa parvoíce estrambólica!
– É a verdade.
– Nem lhe tocou, portanto?
– Nem com uma unha.
– E o que lhe fez ela, para lhe desejar semelhante mal?
– Isso não é para aqui chamado.
– Responda à pergunta!
– Não.
– Arre! – Bom, pode-se saber a medida de coacção aplicada? Está visto que não vamos a lado nenhum.
– A medida? A medida é você arder no inferno!!!
– Isso não vai acontecer. Jesus já tratou disso.
– Jesus?
– Sim.
– Você é doido! Matou um monte de gente e vai para o
Tirem-me este indivíduo
da frente!
céu? Pois claro. E eu sou o Pai Natal
– Matei, mas foi antes de Jesus tratar de mim.
– E a dona Ester?
– Não a matei, já disse. Foi um deslize. Não lhe queria
fazer mal.
– Você é completamente mefistofélico. Terá o que
merece. Se houver justiça. Eu cá vou fazer a minha parte, pode ter a certeza.
– O senhor doutor juiz, desculpe que lhe diga, mas não percebeu nada de nada.
– Como queira. Este interrogatório está encerrado.
Podem levá-lo – ordenou o juiz aos polícias, que permaneciam imóveis, na outra ponta da sala, a admirar o espectáculo.
– Espere! Eu confesso – clamou o César, preparando-se para a estocada final.
– Muito bem, confesse.
– Está a gravar?
– Sim, não se preocupe. No fim, só tem de assinar a
declaração.
– Muito bem. Vamos a isso. Quero confessar o seguinte:
Confesso que desejo que o planeta Marte seja habitável. Que tenha uma temperatura agradável e haja alimento e água suficiente para todos, se for possível. Desejo que todos os seres humanos do planeta Terra, num abrir e fechar de olhos, desapareçam daqui e apareçam, como que por magia, em Marte. Que habitem o planeta, sejam felizes (ou não) e que nunca encontrem forma, nem tecnologia para voltar para cá. Desejo que a história da Branca de Neve se materialize na Jéssica, mas em vez de uma maçã, que seja uma bifana estragada e que o príncipe beijador seja terrivelmente feio. Por fim, desejo que
haja as seguintes excepções a este meu desejo: Eu, a Amélia, a Madalena que está no Brasil e um bom homem (ao critério da providência), que esteja perto dela, que a ame. E que sejamos felizes para todo o sempre, aqui, neste terceiro planeta a contar do sol. Ou não. Não me lembro se é o terceiro. Mas pronto. É isto. Obrigado! E, zás! O juiz que estava de queixo caído, simplesmente desapareceu. Como se Houdini tivesse feito das suas, soltando- se dos grilhões. Das algemas ferrugentas e bafientas. Também o escrivão (ou lá como se chama) foi arrebatado, caindo o gravador no chão com estrondo. Os polícias partiram deixando cair os cassetetes, as algemas e as pistolas, de modelo antiquado, uma vez que não havia orçamento para modernização de material de combate. Alarmes dispararam. Carros chocaram e aviões devolutos despenharam-se. Aviões sem seus pilotos voam para a destruição. Minutos de caos. Depois. O silêncio. Todos em Marte. Felizes ou infelizes. Talvez o coração dele estivesse mais alvo e algumas das coisas boas que desejara se concretizassem. Quem poderia saber? E no planeta terra? De novo Adão e Eva. Um par aqui e outro no Brasil. E agora? Para a feira. A Amélia devia estar em pânico. A Eva, sozinha no paraíso, à espera do seu Adão, preso nas instalações da PJ.
Corações abertos. Buracos fundos. Vazios de sangue. Feridas. Cicatrizes. Gastrites e Coca-Cola. Tatuagens. Asas. Anjos. Noir. Tudo noir. Abraços negros. Fazer bem e fazer mal. Sonhos e pesadelos. Temporários. Eternos. Absolutamente eternos. Uma
bomba relógio. Se valeu a pena? A resposta? Um redondo SIM. Infinitas sombras de branco.
24
Depois da agonia inicial, só restavam uns alarmes irritantes e um ou outro foco de incêndio. “O povo é sereno é apenas fumaça”. Como nos fins do mundo e nas revoltas. Nos apocalipses e nas revoluções. Disaster movies. Aqui ou ali. Mais apartamento menos apartamento. Cigarros acessos que caíam ao chão. Felizmente chovia. Aqui. Noutros países, quem poderia saber. De qualquer forma, não tinham planos de ir muito longe. Nenhum deles sabia pilotar aviões. Mas o mundo estava todo por explorar. Veríamos o que a diria a Amélia a tudo isto. As mulheres são uma caixinha de surpresas. Ou várias. Caixas de Pandora. Por um lado, o César seria dela, mas por outro, tinha ido tudo à viola. Ou à guitarra eléctrica cheia de distorção. Havia sempre a possibilidade dela não achar graça nenhuma a este admirável mundo novo e não querer o César, nem que ele fosse o último homem à face da terra. Ou o primeiro. De novo Adão e Eva. Se bem que havia outro casal… lá para as Américas. Sentada na parte de fora da barraca das bifanas, olhava sem expressão para o vazio. Não sabia o que sentir. Não sabia como olhar. Que expressão visual colocar. Não sabia. Não sabia nada. Não sentia medo. Viu o César ao longe. O seu próprio profeta da desgraça. Correu para ele e abraçou-o. Um abraço longo e apertado. – César, o que é que está a acontecer? Sentaram-se e, com calma, ele explicou-lhe tudo. Tintim por tintim. Foi uma explicação tão longa que quando acabou estava a raiar um novo dia. Garganta seca. A recitar de cor.
Diálogos. Sensações. Desejos. Conversões. Lutas. Ansiedades. O sol levantava-se devagar entre nuvens, gotas de água e fumo. Tentava brilhar entre a estrutura metálica da roda gigante, cegando de sono os olhos do casalinho. Entre. Sempre alguma coisa no meio. Casados de fresco.
– Estás desapontada comigo? – perguntou amedrontado.
– Não!
– Mas
não
acontecessem…
era assim que tu querias
– Quais coisas?
– Nós ficarmos juntos…
– Mas vamos ficar juntos?
– Se tu quiseres.
que as coisas
– Tu sabes que eu quero. E as tuas dúvidas? O medo de me fazeres mal?
– Agora, passamos a ser uma só carne. Se te fizer mal a ti, estarei a fazer mal a mim também.
– Oh, César!
– Casas comigo?
– Claro! Mas quem é que nos casa?
– Olha, não pensei nisso. Mas prometo amar-te na saúde
e na doença, na riqueza e na pobreza, até que a morte nos separe. Abraçaram-se. A Amélia chorava de felicidade.
– Uma coisa é certa – disse ele. – Nunca te vou enganar
com outra mulher. És a única mulher do mundo para mim!
– Ah! Ah! Olha, há a outra miúda no Brasil…
– Pois, um dia, se quisermos que o planeta cresça, temos
de levar lá os nossos filhos para casarem com os deles.
– Pois. Primeiro temos de aprender a pilotar um barco ou um avião.
– Sim. Temos tempo, Eva!
– Espero que este jardim não tenha nenhuma serpente
falante.
– O único veneno de serpente é o que está na minha
língua.
– Não desejaste que fossemos felizes para sempre?
– Sim.
– Talvez o teu coração tenha mudado e consigas fazer acontecer o bem.
– E se não tiver mudado?
– Achas que duas pessoas más não podem ser felizes?
– Por si só?
– Sim…
– Acho que não.
– Então, que Deus nos ajude!
Abraçaram-se e deram o primeiro beijo na boca (dizer beijo na boca é um bocado infantil, não é?).
– Olha, porque é que estás de manga curta? – lembrou-se ela de perguntar em jeito de mulher casada.
– Acho que me vesti como se fosse verão.
– Pois. E eu vesti-me para o Armagedão.
– Eh, pá, essa resposta foi… minha nossa!
– César! Deixa-te de tolices. Anda, vamos!
– Oh, pá! Então não acabámos de casar?
E assim, aquela coisa intangível, passou a tangível. E deixou de ser uma coisa. Ele passou a ser dela e ela passou a ser dele. Partilhariam a mente, os sonhos, coisas que os faziam rir ou chorar, outras mais banais. E os dias iriam passar assim. Amores inocentes, mentes apaziguadas, presentes passados, futuros por viver. Amores perfeitos. Como antes da queda. Corações brancos, reluzentes, que quase não cabem dentro do peito.
25
Since the dawn of time I’ve rolled across the earth Snipping in the dust Long before your birth Eatin’tar and gasoline Every light I see is green Open pipes, my machines’s triple-plated chrome
Spirit of the wheel
Wheels of fire burn the night Ride across the sky Wheels of fire burning bright We live to ride
Nunca a pista do Sr. Isidro (agora um marciano) tinha passado tão boa música. “Wheels of Fire” dos Manowar. Carros lentos e música rápida. Andaram horas naquilo. Risos. Braços no ar e beijos em terra firme. Horas a fio sem ouvir a sirene. A buzina que nunca serenava. Sem serem interrompidos. Tempo quase parado. Slow motion. Quem visse a cena… pausa… ninguém veria a cena. Não havia mais ninguém. Comeram que nem alarves. Atiraram pedras à casa fantasma. Arrancaram a cabeça ao Frankstein. Saltaram no trampolim. Meteram a montanha russa em velocidade máxima enquanto o César desejava que os parafusos se fossem soltando devagarinho. Esbardalhou-se no
chão. Desfeita. Como se tivesse sofrido um ataque terrorista. Desejou/despejou também chuva de sangue em cima da banca de CDs e das barracas de farturas, churros e algodão doce. RH positivo. Tornando tudo mais doce. Praga nº 8 em tudo aquilo que os dois detestavam. –
a
compostura.
César,
tu
assustas-me
–
ria-se
ela,
olvidando
|
– |
Ah! Ah! Que belo dia. Hoje é um bom dia para começar |
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de novo. |
|
|
– |
Chuva de sangue… onde foste tu buscar isso? |
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– |
Aos Slayer |
|
– |
É bem possível que tu não existas, meu amado esposo! |
– Amélia! Lembras-te de me perguntares se eu tinha um crush por alguém?
– Sim.
– Agora já não tenho.
– Claro, a outra já se foi… para Marte…
– Não é por isso! Agora tenho um mega acidente nuclear, de proporções épicas… por ti!
– Oh pá! Anda! Vamos ao cinema ver um disaster movie
amoroso… ❤ Foram. Não foi fácil perceber como meter a fita a rodar. Beberam litros e litros de Cola-Cola. Empanturraram-se que nem abades boçais. Novamente. Foram à FNAC e ouviram música. O César dançou alheado de tudo. Doido de alegria. A Amélia leu e leu. E leu. Passaram uns dias por ali. Numa loja de música (música, tecnologia e tralha afecta) abandonada. Todos os lugares
estavam abandonados. Devolutos. Eles tinham a tarefa de cuidar daquilo. Imperfeitos a cuidar de um mundo imperfeito. Um novo começo. A folia não podia durar eternamente. Dormiram durante séculos. Em qualquer lado. Nos sofás destinados à leitura. Em cima dos peluches para crianças. Na alcatifa junto à secção Metal/Alternativa. Fartos de chão e sofás, foram à Conforama buscar uns colchões topo de gama. Colchões e almofadas. Muitas. Lutaram como nos filmes. Esponja e penas a voar por todo o lado. Pegaram nos piores discos que encontraram e foram deitá-los à fonte do piso zero, que, entretanto, o César tinha transformado num lago de fogo e enxofre. Não vamos enumerar os artistas cujos discos foram queimados, porque não seria bonito ofender artistas. Com ou sem aspas. Queimados em nome da arte. Da verdadeira. Ah, isso não existe! Pois, talvez não. Mas deu-lhes um gozo tremendo. Quem os iria censurar? Os verdadeiros (artistas) estavam em Marte e nunca viriam a saber de semelhante devaneio terreno. Terrestre. Deviam ser umas 4 da manhã, quando a Amélia se sentou ao piano e começou a tocar uma canção do Nick Cave e a cantar baixinho. Emocionada. Como se agora, neste cenário, é que aquilo fizesse algum sentido. Death is not the end. Chorava. Limpava as lágrimas com a ponta do vestido. O César dormia. Auscultadores nos ouvidos. Homens! Parou. Pôs-se de pé. Estava frio. Deixou-se ficar perto do piano. De costas voltadas para ele, com uma mão a tocar de mansinho nas teclas. Como se se despedisse de um grande amor. Não olhava para trás, para não se tornar numa estátua de sal, mas ia deixando ficar a
mão um pouco mais. Sentindo nos seus dedos a suavidade das teclas adormecidas. À espera de serem tocadas. Acordadas de novo. Seguiu. Pegou num caderno e numa caneta e sentou-se ao pé do César. Começou a escrever. Agora poderia ser escritora, sim. Sem público. O seu cônjuge não era muito dado às letras. Passaria a ser. Ela não iria escrever para ninguém. Dispensava os peixes. Dispensava os bichos, em geral. Sermões mudos. Detestava diários. Páginas sempre fechadas. Sempre encostadas umas às outras na escuridão. Privadas de sol. Privadas de olhares indiscretos. Livros abertos. Isso, sim. Para o mundo ver. Virtudes e vícios. Verdades e mentiras. Ali, às claras. Para o mundo absorver. Para um mundo novo apreciar. Até que houvesse um verdadeiro mundo novo. Sem dor. Sem pontas de vestidos molhados por caudais lacrimais. De tristeza. Ou alegria. Sem morte. Sem veneno de serpentes. Com serpentes esturricadas em lagos de fogo e venenos mergulhados em antídotos celestiais. Sem mal e sem pecado. Como no início. Como quando Eva conheceu Adão. Como teria sido, perguntou-se ela. Como teria sido a primeira conversa quando tudo era novo? Quando tudo era imaculado? Seria o seu primeiro livro. A história de Adão e Eva, antes do veneno da serpente infectar todo o planeta. O universo, antes dos mortos-vivos. O paraíso perfeito perdido, que um dia voltará a ser perfeito.
26
“O primeiro diálogo entre Adão e Eva”, por Amélia Ribeiro.
– Olá! Como é que te chamas?
– Adão. E tu?
– Humm… bem, não sei.
– Pois…
– Como é que me chamarias?
– Boa pergunta. Não faço ideia. Estou cansado de dar
nomes. É só o que tenho feito desde que aqui cheguei. Dar nomes aos animais. Depois pensamos nisso com calma, combinado?
– Sim.
– Ainda bem que Deus te criou. Sentia-me muito só.
– Estavas aqui há muito tempo?
– Não sei. Talvez. O tempo passa devagar neste lugar. É
tudo incrivelmente perfeito, mas não havia ninguém com quem me pudesse identificar.
– Identificar?
– Sim, claro. As palavras, por si só, não apagam a solidão.
– Hmm…
– Diz-se que a solidão torna a vida um deserto…
– Diz-se? Mas tu és o primeiro homem.
– E tu a primeira mulher. E que mulher.
– Sim, sou a mais bela de sempre.
– Naturalmente. És perfeita.
– Há alguma coisa imperfeita neste lugar?
– Não. Só a solidão.
– A solidão não é uma imperfeição. A solidão é um substantivo feminino.
Ficaram em silêncio uns minutos, a pensar naquilo. Pensavam na solidão sem se sentirem sós.
– Anda, vou mostrar-te o jardim. Há aqui coisas fantásticas.
– Espera. Sinto uma coisa estranha nesta zona…
– Ah, isso. É fome. Precisas de comer.
– Ok.
– Se calhar, jantamos mais cedo, hoje. O jantar aqui é sempre fruta.
– Fruta?
– Sim, é um alimento que cresce nas árvores. Bem, não
só, mas pronto. Eu vou preparar um prato de maçãs, pêras, cerejas e kiwis.
– Também já deste nomes às frutas?
– Ah! Ah! Sim. É quase automático.
– Está bem. Vamos lá.
– Estás a ver aquele bicho além, a brincar com os patos?
– Aquela coisa…
– Verde. É o crocodilo.
– Cro-co-di-lo. Tem uma sonoridade engraçada. Pato, já não é um nome tão feliz. Olha, os animais falam?
|
– |
Não. Parece que há um que diz umas coisas, mas ainda |
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não o vi. |
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– |
Parece? |
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– |
Pois… adiante. Aquele amarelo é o leão. É um bicho |
incrível.
– E aquela coisa farfalhuda que está ao lado dele?
– É uma ovelha.
– Parecem amigos.
– Talvez. Ainda não percebi muito bem o que vai na
cabeça dos animais.
– Talvez, nunca cheguemos a descobrir.
– É possível.
– Falas com Deus? O que te disse ele sobre este lugar?
– Disse para cuidarmos deste mundo e para sermos
férteis.
– Férteis?
– Sim, pelo que percebi, temos a capacidade de gerar seres iguais a nós, mas mais pequenos.
– Como?
– É uma bela pergunta. Não faço ideia. Havemos de
descobrir.
– Está bem. Olha, tu és fixe. Gosto de estar contigo.
– Obrigado. Ah, antes que me esqueça. Há uma coisa
que não podemos fazer. Espero que não me consideres um desmancha-prazeres.
– O quê?
– Não podemos comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal.
– Porquê?
– Porque morremos se comermos.
– Morrer?
– Pois, também não sei bem, mas não me parece coisa
nada boa.
– Que fruto é esse? É tipo as maçãs que vamos comer ao
jantar?
– Não! As macieiras dão maçãs. A árvore do conhecimento
do bem e do mal dá qualquer coisa, cujo nome não sei, nem me atrevo a dar. Na verdade, nem me quero aproximar dela.
– Gostava de ver, só por curiosidade.
– A curiosidade matou o gato.
– Hã?
– Deixa.
– Porque é que achas que Deus colocou aqui uma coisa
onde não podemos tocar?
– Não é tocar. É comer.
– Mas o simples acto de comer, em si, não tem mal algum.
– Pois não. Comer não tem. Pensa nisso de forma mais
abstracta. Deus criou-nos. Vivemos em perfeita harmonia com ele e com o mundo. Se fizermos o contrário da ordem que nos
foi dada, estamos a desobedecer. A desrespeitar o Criador. A quebrar a harmonia. Percebes?
– É o significado do acto, portanto?
– Acho que sim. Olha, uma macieira.
– São bonitas essas maçãs.
– Gosto muito dessa variedade. São maçãs starking.
– Starking. Belo nome. Tu és muito criativo. Gosto mesmo de ti. Acho que estou apaixonada.
– Ainda bem, amor. Ainda bem.
FIM
Esta história faz referência a inúmeras expressões bíblicas, letras
de canções, bandas de Heavy Metal, provérbios, expressões
populares, poetas, patetas, livros e filmes. Estão, mais ou menos, identificadas. Googlem! Há um poema do Baudelaire que fica a meio, porque o César não é muito dado às letras. A dona Gertrudes diz mesmo “ouvistes”. Não é engano do escritor. Se detectarem algum erro ou gralha, saibam que a culpa é do editor de texto ou então do acordo ortográfico, que aqui não se segue, obviamente.
Este livro não seria o mesmo sem as correcções e sugestões da minha mulher. Um coração para ti:
❤
No capítulo 12 há uma frase roubada à Fernanda Marques da
Silva e no capítulo 14, duas ou três, roubadas à Sara Falcoeiras. Roubadas, isto é, roubadas mesmo. Sem autorização. O poema citado no capítulo 18 é da autoria da Sara F. Costa. Tem por título “Ego” e foi retirado do livro O Sono Extenso, publicado pela Ân- cora Editora.
O capítulo
escrito pela Ana Sofia Santos. Obrigado!
22
(e
mais
um
ou
outro
parágrafo)
foi
As páginas não estão numeradas. Foi de propósito.
As ilustrações são da minha autoria. São a preto e branco porque fica mais barato.
Obrigado por me lerem. A mim, não ao texto. Percebem?
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Impressão: Gráfica 99 Maio 2016
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