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DOMINGO, 6 DE JUNHO DE 2010 O ESTADO DE S. PAULO

aliás,
O poeta das ruas
Tião conta a realidade
de uma vida surreal. J8

A SEMANA REVISTA
estadão.com.br
GRÁCIA LOPES LIMA/DIVULGAÇÃO

MUSTAFA OZER/AFP

Vitoriosos ou
vulneráveis?
O ataque à Flotilha da Liberdade em águas
internacionais chamou atenção para o bloqueio a Gaza
– e colocou Israel na mira dos críticos. Como reduzir
o risco para ativistas em zonas de conflito? A politização
da ajuda humanitária é um mal necessário? Radicalização
do governo israelense justifica boicote cultural ao país?

Com a palavra, Umberto Eco, Saskia Sassen,


Antonio Donini e David Grossman

Págs. J4, J5 e J6

Deportados. Ativistas
pró-palestinos detidos
na segunda-feira
chegam a Istambul

7 8 9 10 11 12
J4 aliás
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DOMINGO, 6 DE JUNHO DE 2010 O ESTADO DE S. PAULO

Final Israel ataca em águas internacionais um navio


com ativistas pró-palestinos, causando a
infeliz morte de nove manifestantes turcos. A
Flotilha da Liberdade tentava furar o bloqueio
à Faixa de Gaza, imposto em 2007, para levar
SEGUNDA, 31 DE MAIO ajuda humanitária aos palestinos.

AMIR COHEN/REUTERS
formação e de proteção. Precisamos inves-
tir mais tempo ouvindo o que têm a dizer
as pessoas para as quais prestamos assistên-
cia. Ainda há um tanto de arrogância na for-
ma com que agentes ocidentais impõem
sua forma de conduzir a ajuda. Estamos
aprendendo, mas o processo é lento.

● O sr. costuma criticar a ‘marginalização de


formas não ocidentais de ajuda humanitária’.
Se você olha para o cenário atual de ajuda
humanitária no mundo, é evidente que há
um estilo ocidental de conduzir sua admi-
nistração – tanto de ONGs como das mis-
sões da ONU. É o jeito primeiro-mundista
de fazer as coisas. Isso não permite que
grandes agências humanitárias levem em
conta o modo com que os locais respon-
dem a crises. Quando acontece um terre-
moto no Haiti, as primeiras pessoas a pres-
tar assistência são as autoridades locais e
os grupos humanitários já atuantes na re-
gião. Isso é esquecido pelas grandes agên-
cias de ajuda que vêm depois. É verdade
que, na maioria das vezes, essas agências
realizam ótimo trabalho, até porque têm
mais dinheiro, melhor treinamento, apoio
do governo e aviões maiores. Mas isso cria
uma distância entre as pessoas que estão
provendo a assistência e as que a estão rece-
bendo, o que pode criar uma relação pouco
saudável de dependência.

● Houve progresso no trabalho humanitário


desenvolvido pelas Nações Unidas?
Tecnicamente estamos melhores, temos
melhores códigos de conduta para guiar o
trabalho, mas a ONU não fez nenhum pro-
gresso para articular uma posição mais for-
temente humanitária de agências como o
Escritório das Nações Unidas para a Coor-
denação de Assuntos Humanitários, o Uni-
Inspeção de carga. Navios de ajuda humanitária levavam para Gaza basicamente alimentos, remédios, material de construção, roupas e brinquedos cef ou o World Food Program. A ala huma-
nitária da ONU tinha mais autonomia. Ago-
ra, tanto no mandato do secretário-geral
Ban Ki-moon, como no anterior, de Kofi
Annan, o departamento de ajuda humanitá-

Voluntários do perigo ria está cada vez mais submetido ao Secre-


tariado, que é um órgão político e leva mais
em consideração o que está sendo discuti-
do no Conselho de Segurança do que os
Convenção de Genebra diz que agentes humanitários devem ser protegidos. Mas violações raramente são punidas princípios humanitários.

● Como o sr. vê o trabalho feito no Haiti


REPRODUÇÃO
depois do terremoto?
Acho que houve problemas no modo como
CAROLINA ROSSETTI Gaza. Era isso que as pessoas naqueles bar- Sim e não. Houve um crescimento, em nú- esse enorme empreendimento humanitá-
cos queriam comunicar à opinião pública meros absolutos, de casos de violência con- rio no Haiti foi efetuado. A excessiva milita-
episódio que re- internacional e, nesse sentido, a iniciativa tra agentes humanitários. Mas, em termos rização da ação e a necessidade dos ameri-

O
sultou na morte foi um sucesso. Agora, o modo com que os relativos, isso se explica pelo aumento sig- canos de coordenar tudo criaram alguns re-
de nove ativistas israelenses reagiram, conduzindo mal a nificativo nos últimos 15 anos no número veses. Acho que o envolvimento de países
integrantes de operação, acabou se voltando contra Israel. de engajados na área. Entretanto, é impor- em desenvolvimento nessas situações é po-
uma ação humani- Há uma discussão sobre se a ação israelen- tante entender que os picos de violência na sitivo. E creio que esse envolvimento será
tária internacio- se era justificada ou não – uma vez que tu- última década em regiões como Sri Lanka, mais intenso nas próximas décadas. Brasil,
Entrevista nal pode ter sido do leva a crer que Israel interveio em águas Sudão, Somália, Iraque e Afeganistão pode China e Índia tendem a desempenhar um
Antonio positivo na medi- internacionais. Não sou um especialista ser explicado pelo fato de que, nessas cri- papel mais importante na cena internacio-
Donini da em que cha- em direito internacional, mas do ponto de ses, agentes humanitários foram vistos co- nal, seja no campo econômico ou político,
mou atenção para vista humanitário o que acontece em Gaza mo tendo perdido sua neutralidade. e também tentarão exercer maior influên-
a “punição coletiva em Gaza”, afirma Anto- nos últimos anos é, claramente, uma puni- cia nas missões humanitárias. Nos últimos
PESQUISADOR DO nio Donini, sociólogo do Feinstein Interna- ção coletiva que viola as leis humanitárias ● Há um aparato legal para proteger quem 15 anos, as agências ocidentais tiveram
FEINSTEIN INTERNATIO- tional Center, da Universidade Tufts, nos internacionais. Acho que mesmo que vies- dá ajuda humanitária em zonas de conflito? uma vida relativamente fácil, sendo capa-
NAL CENTER DE ESTUDOS EUA. Por outro lado, ele avalia que a tenta- se a ser justificada do ponto de vista legal, Não. O que temos são as Convenções de zes de operar quando e como desejavam,
DE AJUDA HUMANITÁRIA tiva dos cerca de 750 manifestantes pró-pa- não o é, certamente, do ponto de vista mo- Genebra, que dizem que atores indepen- de acordo com os próprios termos. Acho
E DIREITOS HUMANOS DA lestinos – entre os quais a cineasta brasilei- ral. Moralmente, a atitude dos israelenses dentes, neutros e imparciais que atuem na que isso se tornará cada vez mais difícil,
UNIVERSIDADE TUFTS ra Iara Lee – de furar o bloqueio israelense foi desastrosa. Agora, reitero: o que essas ajuda humanitária devem ser protegidos. pois veremos mais países como o Sudão,
à Faixa de Gaza não pode ser entendida co- ONGs vindas da Turquia fizeram não foi Mas poucas pessoas que atacaram ou mata- Sri Lanka, Mianmar ou Tailândia sendo cau-
mo estritamente humanitária, já que tinha uma ação estritamente humanitária, mas ram agentes humanitários foram levados à telosos ao permitir que agências humanitá-
um posicionamento político evidente. Lí- também política. Justiça. Em tese, deveria haver um sistema rias façam o que bem entendam em seus
der de um grupo de estudos que traça estra- de leis que protegesse esses agentes. territórios. Eles vão querer reafirmar sua
tégias para aumentar a eficiência, o profis- ● É possível separar ajuda humanitária de soberania e controlá-las. E o fato de nações
sionalismo e a segurança do empreendi- envolvimento político? ● Organizações estrangeiras são vistas com terem as próprias regras e regulamentos so-
mento humanitário internacional, Donini Sim. É sempre melhor tentar se manter fiel mais credibilidade por não estarem associa- bre o que acontece em seus limites pode
diz que atos de violência contra agentes hu- aos princípios básicos da ajuda humanitá- das a grupos locais? ser bom. No Brasil e na Europa, por exem-
manitários podem resultar da perda dos ria: independência, imparcialidade e neutra- Quando entrevistamos comunidades no plo, ONGs não podem sair por aí fazendo o
princípios de “neutralidade, independên- lidade. O que acontece às vezes é que, para Afeganistão e na Colômbia sobre os pontos que querem. Por isso a regulação da socie-
cia e imparcialidade”. que possam ajudar pessoas em situações di- positivos e negativos da ajuda estrangeira, dade civil é importante. Mas também exis-
Funcionário da ONU por 26 anos – parte fíceis, as agências humanitárias dialogam constatamos, em algumas situações, que a tem países que usam o discurso nacionalis-
deles como diretor do Escritório de Coor- com grupos que têm interesses políticos de- atuação internacional é vista como mais in- ta para impedir qualquer tipo de assistên-
denação de Assistência Humanitária –, Do- clarados. E isso pode ser perigoso. No Afe- dependente e menos corruptível. Em ou- cia a pessoas em situação de vulnerabilida-
nini critica a perda de autonomia das mis- ganistão, por exemplo, se uma organização tros casos, as agências estrangeiras não são de. O Sri Lanka é um exemplo disso.
sões humanitárias da organização, cada que presta ajuda humanitária é vista sensíveis à realidade e à cultura regionais, e
vez mais submetidas à agenda política do apoiando a intervenção militar liderada pe- agentes humanitários do local entendem ● Qual tem sido o papel e o alcance do setor
Conselho de Segurança. Apesar do avanço los EUA, ela põe em risco seus funcioná- melhor esse cenário. A aceitação por parte privado na prestação de ajuda humanitária?
na área, com a melhoria no treinamento e rios assim como as comunidades em que das comunidades depende muito do profis- Há fundações como a Bill & Melinda Gates,
nos códigos de conduta de agentes humani- atuam, pois será entendida pelo Taleban sionalismo do trabalho feito. que levantam recursos para a África, mas
tários, ainda existe o resquício da “arrogân- ou outros grupos insurgentes como não atuam mais em questões relacionadas ao
cia ocidental”, criando um abismo entre neutra no conflito. Já em desastres natu- ● Houve uma maior profissionalização des- desenvolvimento e menos em questões hu-
quem presta ajuda humanitária e quem rais, como o terremoto no Haiti, é possível se tipo de ajuda? manitárias. Por outro lado, existem organi-
mais precisa dela. que agências de ajuda humanitária traba- Nas últimas duas décadas houve um au- zações privadas com fins lucrativos que, ba-
lhem com autoridades locais sem que o en- mento do treinamento, tanto na ONU sicamente, entram em uma região compli-
volvimento político seja posto em questão. quanto nas ONGs. Em geral, agentes huma- cada por um preço. O exemplo extremo dis-
● Como o senhor avalia o episódio que resul- nitários internacionais têm diploma univer- so são companhias privadas de segurança,
tou na morte de nove ativistas pró-palestinos ● Na sexta-feira houve mais uma tentativa de sitário. Antes não tinham ou, então, eram que em geral não auxiliam nem um pouco
que tentaram furar o bloqueio israelense? furar o bloqueio a Gaza. Ações como essa graduados em áreas não relacionadas ao na ajuda humanitária. Sem dúvida, há um
Preocupo-me com o 1,5 milhão de pessoas podem se tornar mais frequentes? trabalho que exerciam – não era raro ver papel a ser cumprido pelo setor privado
que sofrem sob o bloqueio em Gaza, que Difícil saber. Se Israel tivesse alguma sensa- um bacharel em letras atuar como enge- nessas missões, mas temos que ter cuidado
em si mesmo já é uma violação do direito tez deixaria esses novos navios entrarem, nheiro hidráulico em algum campo de refu- ao definir se esse ou aquele grupo presta as-
humanitário internacional. Esse é o ponto mesmo que os inspecionassem na entrada. giados. O empreendimento humanitário sistência, de fato, humanitária. Para ser hu-
de partida. Pode-se, porém, argumentar se As críticas internacionais contra a atitude tornou-se mais profissional e institucionali- manitário, é preciso ser capaz de demons-
essa flotilha era estritamente humanitária israelense são positivas, mas ainda não sa- zado, mas estou preocupado que tenhamos trar obediência aos três princípios que já
ou se nutria propósitos políticos. Claro bemos se Israel modificará sua política de perdido a flexibilidade, o sentimento de mencionei: independência, neutralidade e
que é uma ação política, que envolvia pes- bloqueio a Gaza. Achei forte e correta a res- inovação e o engajamento que organiza- imparcialidade. Se uma organização priva-
soas com os mais diversos interesses, mas posta do secretário-geral da ONU, porém a ções menores com voluntários costuma- da está lá para fazer dinheiro, seu interesse
é uma iniciativa válida – ao chamar a aten- discussão do Conselho de Segurança foi ex- vam ter como, por exemplo, na crise huma- pode estar desfocado das pessoas que mais
ção da mídia para a situação dos palestinos tremamente previsível e politizada, tendo nitária em Biafra. Existe sempre o risco de necessitam de ajuda. O empreendimento
que vivem em circunstâncias extraordina- assumido um tom muito brando. que, com a estruturação excessiva do setor, humanitário tem evoluído rapidamente e,
riamente difíceis. Basicamente, o mundo a assistência passe a ser menos eficaz. De há dez anos, não tínhamos essas empresas
se esqueceu dos palestinos e o apoio a eles ● O sr. falou no risco que os grupos humanitá- qualquer forma, hoje há uma percepção prestando assistência em áreas de conflito.
é muito pequeno, exceto por parte da rios podem correr. Ataques a voluntários e maior de que é essencial consultar as pes- Há ocasiões em que elas podem ser eficien-
ONU e de algumas ONGs que atuam em trabalhadores da área têm aumentado? soas sobre suas necessidades físicas, de in- tes, mas precisam ser supervisionadas.
O ESTADO DE S. PAULO DOMINGO, 6 DE JUNHO DE 2010 aliás J5

REPRODUÇÃO
Discriminação.

É loucura boicotar Cartaz de rede


de acadêmicos
e organizações

a cultura israelense propõe forçar


mudança nas
políticas de
Israel por meio
de boicote a
Pode-se discordar das políticas de Israel; já condenar todos os suas instituições
cidadãos de um país pelas posições de seu governo é racismo

acadêmicos israelenses apoiaram e apoiam


UMBERTO ECO quase totalmente seu governo e, como tal,
são cúmplices de suas políticas. As universi-
dades israelenses são também os lugares

E
m janeiro de 2003, es- onde alguns dos projetos de pesquisa mais
crevi um artigo la- importantes são realizados sobre novas ar-
mentando o fato de mas baseadas em nanotecnologia e siste-
que The Translator, mas tecnológicos e psicológicos para con-
uma publicação aca- trolar e oprimir a população civil”.
dêmica britânica, ha- Na carta, espécie de manifesto, esses
via se juntado com acadêmicos pedem para as pessoas se abs-
outras publicações terem de tomar parte em qualquer coope-
britânicas num boi- ração acadêmica e cultural, incluindo cola-
cote acadêmico de borar com instituições israelenses. Eles
universidades israelenses em protesto pe- sugerem também a suspensão de todas as
las políticas do premiê israelense Ariel formas de financiamento e subsídio.
Sharon. Mona Baker, editora de The Trans- Embora eu discorde completamente das
lator, havia sido signatária da carta aberta políticas do governo israelense, é falso afir-
anunciando o boicote. Pouco depois, ela mar, como os defensores italianos do boico-
convidou dois cientistas israelenses do te fazem em sua carta, que universidades e
conselho editorial da revista a renunciar. acadêmicos israelenses apoiam “quase to-
Os dois intelectuais em questão, dra. Mi- talmente” o governo de seu país. Muitos in-
riam Schlesinger e dr. Gideon Toury, esta- telectuais israelenses continuam comba-
vam em desacordo com as politicas de tendo com firmeza as políticas de seu go-
Sharon, mas isso não fez a menor diferen- verno. Por exemplo, a European Jewish
ça para Baker. Call for Reason (ou JCall) produziu recen-
Em minha crítica, eu observei duas coi- temente uma petição contra a expansão
sas: primeiro, que é necessário fazer uma dos assentamentos israelenses, assinada
distinção entre as políticas do governo de por um grande número de destacados inte-
um país (ou mesmo sua Constituição) e o lectuais judeus europeus. Ela causou uma
fermento cultural em ação dentro dele. Se- agitação enorme, mostrando que o debate ao boicote. Ora, vamos considerar, a título que o Sinédrio estava de mau-humor na
gundo, assinalei implicitamente que consi- continua tanto dentro como fora de Israel. de raciocínio, uma hipótese, para ver se Sexta-Feira Santa.
derar todos os cidadãos de um país respon- De mais a mais, isso é ilógico. Por que o chegamos a acordo. Suponhamos que cir- Ninguém concordaria que todos os rome-
sáveis por políticas de seus governos era boicote deveria ser tão abrangente? Deve- culem, em certos países estrangeiros, ru- nos são estupradores, todos os padres, pe-
uma forma de racismo. Não há nenhuma di- ríamos proibir filósofos chineses de partici- mores de que a administração Berlusconi dófilos e todos os estudiosos de Heidegger,
ferença entre os que picham todos os israe- parem de conferências filosóficas porque na Itália está tentando solapar o sagrado nazistas. Da mesma forma, nenhuma posi-
lenses dessa maneira e os que sustentam Pequim censurou o Google? Se físicos em princípio democrático da separação de po- ção política contra um governo deveria con-
que, como alguns palestinos cometem atos universidades de Teerã ou Pyongyang esti- deres deslegitimando o Judiciário – e está denar toda uma raça ou cultura. Esse princí-
de terrorismo, devíamos bombardear to- vessem colaborando ativamente na cons- fazendo isso com o apoio de um partido pio é particularmente importante no mun-
dos os palestinos. trução de armas atômicas para seus países, político xenófobo e racista. Será que agra- do literário, em que a solidariedade global
Recentemente, em Turim, surgiu uma seria compreensível que seus pares acadê- daria a Vattimo, ele próprio um crítico do entre cientistas, artistas e escritores sem-
carta aberta sob a égide do ramo italiano da micos em Roma ou Oxford pudessem prefe- governo italiano, se universidades america- pre foi uma maneira de defender os direi-
Campaign for the Academic and Cultural rir romper todas as relações institucionais nas protestassem contra as políticas na Itá- tos humanos além-fronteiras. / TRADUÇÃO DE
Boycott of Israel, uma rede de acadêmicos com eles. Mas não vejo por que eles deve- lia não o convidando mais para atuar como CELSO M. PACIORNIK
e organizações trabalhando para forçar riam romper relações com acadêmicos tra- professor visitante, ou se comitês espe-
uma mudança nas políticas de Israel com o balhando em campos não afins: perdería- ciais tomassem medidas para retirar todas ✽
boicote de instituições israelenses. Esse do- mos todo o diálogo sobre a história da arte as suas publicações de bibliotecas america- UMBERTO ECO, ACADÊMICO ITALIANO, É AUTOR
cumento, cuja intenção é censurar o gover- coreana ou da literatura persa antiga. nas? Acho que ele gritaria “injustiça” e ve- DOS BEST-SELLERS BAUDOLINO, O NOME DA ROSA
no de Israel por suas políticas, inclui a se- O filósofo Gianni Vattimo, meu amigo, ria tais ações como o equivalente a respon- E O PÊNDULO DE FOUCAULT, ENTRE OUTROS. SEU
guinte declaração: “As universidades e os está entre os que apoiam essa convocação sabilizar todos os judeus por deicídio por- LIVRO MAIS RECENTE É HISTÓRIA DA FEIURA

Reflexos de marionete
Ação foi consequência natural do fechamento de Gaza e da perpetuação de uma visão autoritária
URIEL SINAI/REUTERS
criatividade.
DAVID GROSSMAN O fechamento de Gaza é um fracasso. Um
fracasso que dura quatro anos. Isso significa
que não é apenas imoral, mas também nada

N
enhuma explicação prático – na realidade, agrava a situação, co-
justificará ou apaga- movemosnesteexatomomento,eaindapre-
rá o crime que foi co- judica os interesses vitais de Israel. Os cri-
metido aqui, e ne- mes cometidos pelos líderes do Hamas, que
nhumadesculpacon- mantêm preso o soldado israelense Gilad
seguirá minimizar a Shalit há quatro anos sem permitir uma úni-
importância dos es- ca visita da Cruz Vermelha e da Faixa de Ga-
túpidos atos do go- za dispararam milhares de foguetes sobre
verno e do Exército. cidades e aldeias israelenses, são atos que
Israel não enviou devem ser tratados com firmeza, utilizando
seus soldados para matar civis a sangue-frio; os recursos legais disponíveis a um Estado
na realidade, esta era a última coisa que que- soberano. O cerco a uma população civil não
ria. E no entanto, uma pequena organização é seguramente um deles.
turca,fanática em suas convicções religiosas Gostaria de acreditar que o choque provo-
e radicalmente hostil a Israel, recrutou para cado pelas ações frenéticas dessa semana le-
sua causa centenas de pessoas que querem a vará a uma reavaliação de todo o conceito do
paz e a justiça e conseguiu atrair Israel para fechamento,libertando finalmenteos pales-
uma armadilha precisamente porque sabia tinos do seu sofrimento e limpando Israel
como Israel reagiria. E sabia que, como uma dessa mancha moral. Mas a experiência nes-
marionete,Israelestá destinadoeécompeli- tatrágica regiãonos ensina queo queocorre-
do a reagir da forma como reagiu. Batalha. ‘Israelenses parecem estar perdendo pureza de intenções e criatividade’ ráserá exatamente o oposto: os mecanismos
Quão inseguro, confuso e vítima do pâni- da resposta violenta, os ciclos de vingança e
co pode ser um país para agir como Israel sas. Mas esses fatos não são relevantes no sência de alternativas, ao uso de uma força ódio já começaram uma nova rodada, cuja
agiu! Por uma combinação de uma excessi- momento: tais opiniões, pelo que sabemos, maciça e exagerada em cada ocasião decisi- magnitude ainda não é possível prever.
va força militar e uma falha fatal em anteci- não merecem a pena de morte. va, quando a prudência, a sensibilidade e a Acima de tudo, essa insana operação mos-
par a intensidade da reação das pessoas a Os atos cometidos por Israel na segunda- imaginação criativa deveriam ser utilizadas. tra até que ponto chegou o declínio de Is-
bordo dos navios, matou e feriu civis, e o fez feira são apenas a consequência natural do E, de algum modo, todas essas calamida- rael. Não é necessário ressaltar essa afirma-
– como faria um bando vergonhoso fechamen- des – inclusive os eventos mortais de segun- ção. Qualquer um que tenha olhos para ver
de piratas – fora das to de Gaza, que por sua da-feira – parecem parte de um processo de percebe e sente isso. Já há aqui os que que-
águas territoriais de Is- Matou e feriu civis vez é a perpetuação da deterioração ainda maior que afeta Israel. rem transformar o sentido natural e justifi-
rael. Evidentemente, como um bando de estratégia autoritária e Tem-se a impressão de que um sistema polí- cado da culpa de Israel numa afirmação esd-
essa avaliação não im- condescendente do go- tico maculado e inchado, medrosamente rúxula de que o culpado disso é o mundo
plica uma concordân- piratas: fora das águas verno israelense, pron- consciente do caos opressivo produzido ao inteiro. Entretanto, o mais difícil para nós
cia com os motivos, ex- territoriais de Israel to a arruinar a vida de longo dos anos por suas próprias ações e será conviver com nossa vergonha.
plícitos ou implícitos, 1,5 milhão de pessoas disfunções e sem nenhuma esperança de de- / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA
e frequentemente ma- inocentes na Faixa de satar o imbróglio interminável que conse-
lignos, de alguns participantes da frota que Gaza a fim de obter a libertação de um único guiu criar, torna-se ainda mais inflexível ✽
se dirigia a Gaza. Nem todos eram pessoas soldado preso, por mais precioso e amado diante de prementes e complexos desafios, DAVID GROSSMAN, ESCRITOR ISRAELENSE,
com objetivos humanitários, amantes da queele possaser. Essefechamento éadecor- perdendo ao mesmo tempo as qualidades É AUTOR DE A MULHER FOGE (COMPANHIA
paz, e as declarações de alguns deles sobre a rência natural de uma política canhestra e queoutrora caracterizavam Israel e sua lide- DAS LETRAS) E PERDEU UM FILHO NO LÍBANO
destruição do Estado de Israel são crimino- calcificada que cada vez mais recorre, na au- rança – pureza de intenções, originalidade, QUE LUTAVA PELO EXÉRCITO DE ISRAEL
J6 aliás
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DOMINGO, 6 DE JUNHO DE 2010 O ESTADO DE S. PAULO

Sinal de A Hungria informa que sua situação econômica é


grave e apresentará um plano para evitar que o
alerta país siga o caminho da Grécia. Peter Szijarto,
porta-voz governista, diz que o governo anterior
“manipulou dados” sobre o real estado da
SEXTA, 4 DE JUNHO economia, como a Grécia havia feito.

As narrativas da globalização
Novas geografias sociais estão abrindo espaços inéditos de contestação pelos quais navegam as flotilhas da liberdade

JASON LEE/REUTERS A. RUSBRIDGER/DIVULGAÇÃO

LAURA GREENHALGH

M
uitas análises
contornam o
fenômeno da
globalização.
Especialistas
enveredam
pelo mundo
tecnológico,
outros prefe-
rem a expan- Ponto
são do capitalismo, outros, a aceleração por Ponto
dos fluxos financeiros, outros optam por fo- Saskia
calizar as desigualdades. A americana Sassen
Saskia Sassen, professora de sociologia da
Columbia University e da London School
of Economics, está em todas essas frentes PROFESSORA DE
e ainda consegue ter uma abordagem origi- SOCIOLOGIA DA
nal. Investiga a globalização a partir das no- COLUMBIA UNIVERSITY
vas geografias – social, urbana, humana. E DA LONDON SCHOOL
Nesta terça-feira às 17h30, Saskia fará uma OF ECONOMICS
única palestra na Faculdade de Economia,
Administração e Contabilidade da USP, em
São Paulo, absolutamente dentro do seu
campo de estudos. Será um momento raro
para a comunidade acadêmica e para o pú-
blico interessado em ouvi-la falar, uma vez
mais, sobre as tensões e contradições das
global cities, termo que inaugurou há mui-
tos anos, e ainda sobre os dilemas da socie-
dade civil, tão desnorteada, mas tão cheia
de possibilidades.
Saskia conversou sobre esses temas com
o caderno Aliás, por e-mail, na semana pas-
sada. Foi um feito. Estava em Londres, de
repente viajou para a China, regressou aos
Estados Unidos via Chicago e logo viria pa-
ra o Brasil. Entre um embarque e outro, a
professora expôs sua visão sobre vários de-
safios contemporâneos, ao mesmo tempo
que opinou sobre a crise deflagrada com o
ataque a uma flotilha humanitária que se di-
rigia para Gaza, até ser interceptada por for-
ças militares israelenses. Acha que os ativis-
tas atingiram seu objetivo – chamar a aten-
ção mundial para uma causa. O que não sig-
nifica que a situação vá mudar. Casada com
o historiador americano Richard Sennett,
também professor da London School e au-
tor do já clássico O Declínio do Homem Públi-
co (Companhia das Letras, 1988), Saskia
Sassen lançou (fora do Brasil) inúmeros tí-
tulos, como Metropolis e Formações Digitais,
e ainda Sociologia da Globalização, agora tra-
duzido para o português e publicado pela
editora gaúcha Artmed. A seguir, trechos
de uma conversa feita em várias partes.

Espaços de contestação Global cities. Pequim mudou a geografia do poder e as elites corporativas de São Paulo integraram-se a NY, Londres, Dubai...
“Tenho me dedicado ao tema da sociedade
civil, suas dinâmicas e formas de expres- tos – desde a comida até as opções bancá- qual residem os jovens de hoje. Antigas nar- Cosmopolitismo dispensável
são, considerando ser esse um dos capítu- rias. Em meus textos mais políticos, digo rativas já não lhes cabem. Estou certa de “Existem múltiplas globalizações. A eco-
los mais fascinantes dos estudos sobre glo- que nos tornamos consumidores de cidada- que, para muitos, é algo animador. Até por- nômica, a corporativa, a financeira, a tec-
balização. Eu me interesso particularmen- nia e de democracia, em vez de criadores que muitos não desejam aquela estabilida- nológica. Nota-se nisso tudo certa tendên-
te pelas novas geografias sociais que confi- de cidadania e de democracia, como já fo- de de vida que seus pais perseguiram. Mas, cia de desumanização da nossa vida e da
guram nosso tempo, dentro das quais nos mos antes. para a imensa maioria dos jovens nascidos nossa subjetividade. Mas outras globaliza-
deparamos com inéditos espaços de contes- em famílias pobres e vulneráveis, essa falta ções também estão em curso, como a da
tação. A Flotilha da Liberdade é algo assim. Não é só Gaza... de narrativas pertinentes constitui uma zo- sociedade civil, da defesa dos direitos hu-
Mesmo semeando tensões, logrou chamar “Um segundo tema, parte do meu novo pro- na de perigo. manos, das lutas pela preservação do
a atenção mundial para uma determinada jeto de pesquisa, diz respeito ao número ca- meio ambiente, e essas nos humanizam de
causa, o repúdio ao bloqueio de Israel a Ga- da vez maior das ‘lógicas da expulsão’ ope- Miopia dos governantes maneira profunda. Temos aí os sinais da
za, reanimando o debate internacional. Co- rando na fase atual e emergente do capita- “Nossos líderes estão ‘presos’ no espaço na- emergência de um humanismo desnacio-
mo espaço de contestação que é, esse movi- lismo avançado. Essa fase é marcada pelo cional. Só pensam e agem nos limites do es- nalizado, para o qual não é necessário se-
mento consegue ser efetivo, utilizando rela- aumento no número de pessoas que foram paço nacional, enquanto lei, jurisdição, au- quer tornar-se um indivíduo cosmopolita.
tivamente parcos recursos. É um pouco co- ‘expulsas’ de alguma forma, de algum lu- toridade e base de operações. E disso não Basta ser humano e acreditar em certas
mo age o Greenpeace em suas operações. gar, de alguma situação, em número que su- escapam nem os Estados Unidos, cujo po- causas. Digo que nem é preciso ser cosmo-
Mas resolve? Não. Porque do debate para a pera de longe as recém-incorporadas clas- der é projetado globalmente. De repente, lá polita no sentido de que é possível estar
implementação de mudanças vai um tem- ses médias de países como Índia e China. se vai mais um pelotão de fuzileiros para o envolvido, de forma local, com a denúncia
po longo. Implementar significa lidar com Emprego o termo ‘expulsão’ para me refe- front, mas, no fundo, no fundo, isso tem a ao torturador da prisão mais próxima ou
processos bem mais complexos. rir a uma gama de situações: o número ca- ver em como reagir a insatisfações internas com a fábrica que polui a água de seu bair-
da vez maior de pobres no mundo; os desa- com o presidente. Insisto em dizer que os ro, e ao mesmo tempo totalmente cons-
Ações difusas e confusas brigados que lotam campos de refugiados nossos governantes não sabem como lidar ciente de que ao redor do mundo há ou-
“Organizações da sociedade civil, nem to- formais e informais; as minorias populacio- com cross-border processes, ou seja, proces- tros como você.
das, mas muitas, querem atuar no plano nais armazenadas em prisões; trabalhado- sos da globalização que cruzam fronteiras
global, sem utilizar sua capacidade para tan- res cujos corpos são destruídos ou inutiliza- e assim se configuram. Nossos governan- Cidades globais
to. Porque não sabem lidar com um mundo dos em idade muito precoce; populações tes querem que o capital cruze fronteiras. “São espaços complexos, carregados de
também feito de globalizações laterais, excedentes, porém capazes, confinadas em Que setores de mão de obra também o fa- contradições. Temos pelo menos 70 delas
umas conectadas às outras. Portanto, exis- guetos e favelas; e por aí vai. São muitas as çam. Mas não querem os terroristas, os tra- no planeta, cidades em que o poder corpo-
te um potencial não realizado nessas orga- ‘lógicas da expulsão’, incluindo a transfe- ficantes, os imigrantes pobres, porém não rativo se consolidou de forma espantosa,
nizações, e em seus projetos, justamente rência de áreas que antes faziam parte do sabem lidar com fluxos indesejados, preci- criando geografias da centralidade que ho-
quando tantas frentes de batalha se abrem chamado ‘território nacional soberano’, pa- sam aprender. Não há outro jeito. Até mes- je conectam lugares e pessoas, cruzando a
por aí. Essa sensação de estar conectado e, ra a finalidade básica de venda no mercado mo os governos mais poderosos terão que histórica divisão entre Norte e Sul. Expli-
ao mesmo tempo, se sentir perdido no global. Desde 2006, cerca de 30 milhões de começar a trabalhar com governos sem tan- co: as elites corporativas de São Paulo es-
mundo de hoje é um dos dilemas da globali- hectares de terra foram comprados e licen- to poder. E não só para caçar terrorista. Go- tão completamente integradas à geografia
zação. E não afeta apenas essas organiza- ciados por governos e investidores para o vernos nacionais, é verdade, tornaram-se global do poder que inclui Nova York, Lon-
ções. Tomemos como exemplo o mundo fi- cultivo de alimentos direcionados aos paí- bem mais internacionais desde os anos 80, dres, Dubai. E há Pequim, Xangai, cidades
nanceiro: temos tantos especialistas prepa- ses ricos e para garantir o controle de recur- ao longo do desenvolvimento de uma eco- que estão mudando a geografia do poder.
rados e cientes das transformações globais sos naturais, tais como fontes de água, jazi- nomia global corporativa e do mercado de Ao mesmo tempo, outras minorias, os vul-
e ainda assim uma leve quebradeira bancá- das de minérios, etc. Enquanto isso, a cota capitais. É pena que não estejam aprenden- neráveis, os desabrigados, os discrimina-
ria os pegou de surpresa, recentemente. La- mundial de desabrigados aumentou em 17 do a ser mais internacionalistas também dos, enfim, os deslocados vão justamente
cuna curiosa, não? Nós nos sentimos perdi- milhões, atingindo um total de 27 milhões. em relação ao meio ambiente, à fome glo- encontrar espaço para seus projetos de vi-
dos, a bordo de altíssimos níveis de conhe- bal, à injustiça global... Em meu livro Terri- da, resistência e exigências aonde? Nas glo-
cimento. Tanto se pergunta sobre como li- Os jovens e o futuro tório, Autoridade, Direitos, sem tradução pa- bal cities. Devemos estudá-las. Precisamos
dar com o mal-estar da globalização. Ele é “Eis uma boa questão. De acordo com a ex- ra o português, afirmo que essa nova capa- entender como aqueles que são expulsos
parte do processo. Diz respeito a um mun- plicação de meu marido, Richard Sennett, cidade para o internacionalismo poderia do interior, ou de suas pequenas cidades,
do em que o cidadão se torna cada vez mais antigas narrativas de vida e trabalho já não ser empregada em projetos bem mais inte- encontram exatamente na cidade global o
espectador passivo e, muitas vezes, uma ví- funcionam para um número cada vez ressantes, desde que haja renovação nas único lugar que ainda lhes resta para viver.
tima ou mero consumidor de artigos pron- maior de pessoas. Eis o espaço subjetivo no classes governantes. Ainda que dormindo nas ruas.