Anda di halaman 1dari 1
%HermesFileInfo:J-3:20100620: DOMINGO, 20 DE JUNHO DE 2010 aliás J3 Missão araponga QUINTA, 17 DE JUNHO O

%HermesFileInfo:J-3:20100620:

O

ESTADO DE S. PAULO

DOMINGO, 20 DE JUNHO DE 2010

aliás J3

%HermesFileInfo:J-3:20100620: DOMINGO, 20 DE JUNHO DE 2010 aliás J3 Missão araponga QUINTA, 17 DE JUNHO O

Missão

araponga

%HermesFileInfo:J-3:20100620: DOMINGO, 20 DE JUNHO DE 2010 aliás J3 Missão araponga QUINTA, 17 DE JUNHO O

QUINTA, 17 DE JUNHO

O delegado aposentado da PF Onézimo Sousa declara a uma comissão mista do Senado Federal que recebeu de membros da campanha presidencial da candidata do PT, Dilma Rousseff, proposta para preparar um dossiê contra o rival dela, José Serra, do PSDB.

A vida dos outros

Autores aloprados de dossiês agem supondo que existam consumidores aloprados de dossiês ávidos por saber do caráter alheio

RENATO LESSA

C happaquiddick en-

trou para os anais da

história norte-ameri-

cana como símbolo

das relações entre re-

putação pessoal e vi-

da pública. O aciden-

te automobilístico

que envolveu naque-

la localidade, em 1969, Edward Kennedy e Mary Joe Kopech- ne – membro do staff eleitoral do irmão de Edward, Robert, na campanha presidencial de 1968 –, vitimando-a fatalmente, arruinou, pelas suspeitas de extraconjugalidade e pela acusação de evasão do local do ocorrido, as chances eleitorais nas presidenciais de 1972 do então senador. A indicação democrata acabaria nas mãos de George McGovern. Massacrado por Richard Nixon, McGovern venceria apenas em Massachussets e no Dis- trito de Colúmbia. Conseguiu apenas macér- rimos 17 votos no Colégio Eleitoral, contra 520 conferidos ao Tricky Dicky. McGovern era bom sujeito, liberal ameri- cano das antigas. Sua plataforma incluía a imediata retirada dos americanos do Vietnã e a retomada dos valores e políticas da Great Society, iniciada no governo Johnson. O inte- ressante é que sua campanha foi negativa- mente afetada, para além de seu “radicalis- mo”, por um torpedo que atingiu a alma de seu candidato a vice – o senador Thomas Eagleton – “acusado” de maníaco-depressi- vo e de saúde mental duvidosa. Ele teria sido, ainda, a fonte da informação, disseminada pela direita, de que McGovern queria a legali- zação das drogas e do aborto. Haja dossiês.

FOTOS: DIDA SAMPAIO/AE

%HermesFileInfo:J-3:20100620: DOMINGO, 20 DE JUNHO DE 2010 aliás J3 Missão araponga QUINTA, 17 DE JUNHO O

Guerra eleitoral. Onézimo teria sido sondado por petistas para espionar José Serra

Em um período de poucos anos, as chan- ces eleitorais de dois importantes políticos

norte-americanos foi arruinada por fatores ligados a condutas pessoais. No caso de Ted Kennedy, sua tentativa de retorno à corrida presidencial nos anos 80 foi impiedosamen- te marcada por alusões tais como: “Ontem nevou em Chappaquiddick”. A simples decli- nação da toponímia, pela imprensa de direi- ta, servia de passagem

posições ou evidências sobre a moralidade

pessoal não possam aparecer como compo- nentes do nosso juízo político. Não é esse o problema, mas sim o que ganhamos, em ter- mos de politização e de qualidade de reflexão sobre a vida pública, se os nossos marcado- res cognitivos são configurados, prioritária e exclusivamente, por impressões de natureza moral? Não se trata, digo logo, de promover

um elogio da delinqüên-

para uma aversão que escamoteava as razões políticas do veto, em in- cursão pura e dura pelo campo da moralidade. O pobre senador Eagle-

Por mais odiosa que seja a prática de dossiês, ela alimenta a curiosidade pública

cia ou um encorajamen- to à entrada de celera- dos na vida pública. A aversão a isso é sadia, tal como o demonstra o episódio Ficha Limpa.

De passagem, é impor-

ton retirou-se da políti- ca, na mesma década de 80, após “acusações” de bissexualismo. Paro por aqui, mas essa história continua. Que o digam Clinton, nos anos 90, e, há pou- co, um candidato derrotado nas primárias democratas vencidas por Barack Obama, o senador John Edwards. Há um muito de tu- do a operar como fundamento dessas histó- rias: invenções, indícios e evidências. De res- to, a vida não se espalha em compartimentos discretos e incomunicáveis, de forma que su-

tante que se diga sobre ele: trata-se menos de um avanço na qualida- de da vida pública do que uma tentativa de interdição de que ela venha a piorar cada vez mais. Mas, como a vida mede-se por grande- zas relacionais, é natural que tomemos a se- gunda alternativa como sendo a primeira. Assim como, segundo o dr. Johnson, o pa- triotismo é o último refúgio dos canalhas, a afirmação – da própria – e a negação – da alheia – da honra pessoal, como formas privi-

legiadas de ação no mundo público, são o abismo da política. Nesse sentido, elas são um refúgio de republicidas. Nos EUA, o ape- lo à moralidade, e à reencenação de um contí- nuo potlatch da pureza, esteve sempre a servi- ço de causas reacionárias. Entre nós, a coisa é mais confusa e disseminada. A obsessão à repetição dos mecanismos sombrios que en- volvem o termo “dossiê” parece ser sintoma de uma cultura política assentada na descon- fiança e na crença na eficácia da chantagem e da intimidação. No limite, não há conflito de natureza política, mas entre maquinações criminosas que procuram se apropriar da vi- da pública. Não nasci ontem e reconheço plausibilidade da suspeita. Por vezes, tenho mais do que suspeitas, mas isso não nos con- dena ao abismo da guerra moral. Não foi por capricho que o filósofo políti- co Thomas Hobbes, no não tão longínquo século 17, enumerou entre as condições ne- cessárias para a paz civil uma regra que cha- mou de “anticontumélia”, que dizia respeito a uma cláusula de não difamação. Trata-se de afirmar a incompatibilidade entre a práti- ca da difamação e a qualificação da vida públi- ca. É disso que se trata. Na última aparição, entre nós, dessa patologia, das duas uma: ou há difamadores que elaboraram um dossiê ou há difamadores que acusam inocentes de ter elaborado difamações. De qualquer for- ma, alguém está a difamar. Todos possuem boas razões para a desconfiança mútua. Já não nos distinguimos pela faceta públi- ca do que queremos e imaginamos, mas pelo que, com tal faceta, pretendemos esconder. Supomos que intenções inconfessáveis de- vem sempre estar presentes como configura- doras das motivações para a política. São elas, portanto, que devem ser exploradas, tanto como exigência de sentido quanto co- mo forma de neutralização dos inimigos. Não deixa de haver, ainda, cinismo e curiosi- dade mórbida na coisa. Por mais odiosa que seja a prática dos dossiês, ela alimenta a curiosidade pública e define um padrão de informação a respeito da política. Em outros termos, autores aloprados de dossiês agem na suposição de que existam consumidores aloprados de dossiês, ávidos por informa- ções a respeito do que verdadeiramente inte- ressa: o caráter moral, o fundamento último da vida dos outros.

RENATO LESSA É PROFESSOR TITULAR DE TEO- RIA E FILOSOFIA POLÍTICA DO IUPERJ E DA UNI- VERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE