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artigos e ensaios

Os Candangos

Luisa Videsott
Arquiteta formada no Departamento de Analisi e Critica Storica
dell’Istituto Universitario di Architettura di Venezia, Itália, douto-
randa no Departamento de Arquitetura e do Urbanismo da EESC-
USP, luides@sc.usp.br

Revisão da tradução:

Fábio Lopes de Souto Santos


Arquiteto e urbanista, professor doutor do Departamento de
Arquitetura e Urbanismo da Escola de Engenharia de São Carlos,
Avenida Trabalhador Sancarlense, 400, CEP 13.566.590, São
Carlos, SP, (16) 33739294, sotosantos@uol.com.br

Lorenza Pavesi
Designer gráfico formada pela Coventry University (Grã-Bretanha),
pós-graduanda na área de Teoria e História da Arquitetura da
EESC-USP, Rua Madre Saint Bernard 151, Santa Mônica, São
Carlos, SP, lore@ukonline.co.uk

Resumo

O monumento “Os Candangos”, de Bruno Giorgi é um símbolo de Brasília.


Inspirou desde propagandas até a letra da “Sinfonia da Alvorada”, servindo
de emblema da nova capital, como as colunas do Palácio da Alvorada ou a
arquitetura do Congresso Nacional. O artigo indaga o significado da escultura
na construção da capital. Inicia observando a evolução da palavra candango
e o processo de re/nomeação da obra, “conversa” com o depoimento de seu
autor, indaga o significado da sua colocação original, analisa a composição,
as obras às quais se refere e pergunta sobre a identidade dos trabalhadores
que edificaram Brasília.

Palavras-chave: Bruno Giorgi, candango, Brasília.

A palavra Candango

Vamos traçar um breve histórico da palavra candango.


o termo pelo qual os africanos se referiam,
pejorativamente, aos colonizadores portugueses.
Para o verbete, o dicionário Aurélio indica: “1. Como tal, veio ao Novo Mundo com os escravos
Designação que os africanos davam aos portugueses; angolanos. (...) A palavra tornou-se o termo geral
1
Holston, James. A cidade 2. Individuo ruim, ordinário; 3. Pessoa que tem para as pessoas do interior em oposição às do litoral,
modernista, uma crítica de
mau gosto; 4. Designação dada aos operários das e especialmente, para os trabalhadores itinerantes
Brasília e sua utopia, São
Paulo, Companhia das Le- grandes obras da construção de Brasília (DF), de pobres que o interior produziu em grande
tras, 1993, pág. 209-210.
ordinário vindo do N.E.; 5. p. ext. Qualquer dos quantidade. Com esses trabalhadores o termo
primeiros habitantes de Brasília (DF)”. chegou a Brasília”1.

De acordo com James Holston, “antes da construção Durante a edificação da cidade a palavra mudou
de Brasília, [a palavra candango] foi durante séculos de conotação, passando a indicar, elogiando-a,
uma palavra geral de depreciação. Segundo a maior qualquer pessoa envolvida na construção da Capital
parte das autoridades, é uma corrupção de do Brasil. O seu novo estatuto consolidou-se
candongo, uma palavra da língua quimbundo ou rapidamente até substituir, vamos antecipar, o nome
quilombo, dos bantos do Sudoeste de Angola. Era original da obra de Bruno Giorgi: a estátua foi

r sco 7 1[2008 revista de pesquisa em arquitetura e urbanismo programa de pós-graduação do departamento de arquitetura e urbanismo eesc-usp 21
Os Candangos

Figura 1: Bruno Giorgi, Os colocada na Praça dos Três Poderes em Brasilia – aos comerciantes da Cidade Livre, aos trabalhadores
Guerreiros/Os Candangos,
bronze, 1957. Fonte: fotogra-
antes da inauguração da cidade – com o seu nome da construção civil, aos retirantes, aos caminhoneiros
fia de Luisa Videsott. original, “Os Guerreiros”. Ali, logo depois, foi que entregavam qualquer provisão ou aos
renomeada “Os Candangos”. desbravadores das rodovias. Vamos lembrar que a
edificação da cidade incluiu, necessariamente, a
Em 1958, nas revistas O Cruzeiro e Manchete, o construção de rodovias até então inexistentes. Definia,
termo ainda necessitava explicação, significando em suma, todo aquele que se mudou para o Planalto,
2
Damatta, Gasparino e Alli, solteiro.2 Em 1959, segundo o redator de Manchete, pois acreditara no Sonho-Brasília.
Orlando “Canaã, Paralelo
20”, Manchete, 12/07/1958.
a palavra indicava o “trabalhador comum”, “o
3
Magalhães Junior, R. “A
operário que chegou a Brasília à aventura”3. Vale a Em 1959 a palavra ganhava assim um outro
capital da esperança”, Man- pena frisar como a dimensão de aventura, evocando estatuto, o de sinônimo de pioneiro, de
chete, 19/09/1959.
pioneiros e bandeirantes, começa a enriquecer desbravador, de homem que confia no progresso,
positivamente esta palavra, projetando sobre ela de brasileiro comum, operário de Brasília. A
um determinado imaginário referente à Nação. Em palavra evocava os valores da coragem, da
1960, ainda em matérias destas revistas, o termo ousadia, da perseverança, da fé, da dedicação
já indica todos aqueles que trabalharam e trabalham ao trabalho. Resumia enfim todas as boas
para erguer Brasília, incluindo tanto o Presidente qualidades do brasileiro, os aspectos positivos
JK, Oscar Niemeyer e Israel Pinheiro, como profissionais da identidade nacional.
como médicos, jornalistas ou bancários. Estendia-
se ainda aos imigrantes japoneses e seus descendentes Entrava então nos títulos oficiais e passava a ser
chamados para implementar a agricultura na região, mencionada nos discursos do Presidente JK.

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Os Candangos

A essa altura, a palavra candango apagando Talvez o termo abstraia o gênero, o que nos leva a
diferenças e memórias, passava a marcar um conceito, aprofundar a pesquisa sobre a evolução do seu
ou uma ideologia, e não mais uma classe social. conteúdo da realidade para a abstração.
De acordo com a retórica presente nos discursos
do Presidente (e do staff da Novacap), em geral,
A obra de Bruno Giorgi
com o termo candango, designava-se a “grande
família em que, por três anos, se transformou a Com oito metros de altura, a estátua “Os
4
Pinheiro, Israel - “Os mil dias equipe que fez Brasília”4. A grande família substitui Candangos” de Bruno Giorgi, erguida em meio à
de Brasília”, Manchete ,
04/05/1963.
as distinções sociais e representa uma forma de Praça dos Três Poderes, é uma composição frontal
homogeneização social. e estilizada de dois corpos em pé. O grupo é quase
simétrico, exageradamente plano, com pouca massa
Ainda tendo como referência as matérias das revistas, e muitos vazios. As figuras apoiam-se uma na outra,
se entre 1961 e 1963 a palavra indicava qualquer cada qual portando uma vara-lança; apenas uma
pessoa que tivesse contribuído na construção de se apoia no chão. A estatua encontra-se solta, livre
Brasília, após 1963 o termo passou a ser usado no espaço imenso da praça.
ainda mais genericamente, designando quem muda
5
Pinheiro, Israel - “Um ope- de lugar, não necessariamente para Brasília,5 para Esbeltos e com ossos salientes, os corpos,
rário estrela como romancis-
empreender nova atividade. assexuados, terminam em cabeças minúsculas
ta”, Manchete, 21/12/1963.
vazadas por um único e imenso olho. O conjunto
Paralelamente, o trabalhador dos canteiros de obra apresenta um equilíbrio instável: surpreende o
assumia o nome de pião. Segundo um testemunho: observador atento a dimensão da base,
“Esse nome, o que chamava de pião, é porque demasiadamente estreita, especialmente quando
Juscelino chamava o povo candango, né? Que até confrontada com os oitos metros de altura do
eu mesmo cansei de ver ele mesmo dizer que era grupo e com a posição pouco estável e nada
nós candango. Ele dizia era assim, num era só “natural” dos pés, abertos a 90° para o esterno
candango, não. (...) Esse nome apareceu aqui mesmo dos corpos. Os pés, ainda por cima, são animalescos,
em Brasília porque pião é uma pessoa lá pro norte se parecem com pés de galo ou de rapina.
que é amansador de animal. Aqui é homem de
6
Bicalho de Sousa, Nair He- obra, em vez de chamar operário”6. A metade superior da estátua quando observada
loisa. Construtores de
Brasília. Estudo de operários
isoladamente - uma alternância de retas e curvas,
e sua participação política. Ainda sobre os conteúdos da palavra, desde seu vértices e parábolas - ecoa as linhas do Palácio da
Petrópolis, Editora Vozes,
1983, pág. 91.
início, a designação excluía o universo feminino - Alvorada a tal ponto que a estátua parece ter sido
não existe a mulher “candanga”. E se as mulheres, encomendada para exaltar a arquitetura de Oscar
no primeiro ano de construção da cidade, eram Niemeyer.
pouquíssimas, mesmo com o passar do tempo e
7
O termo é usado como adje-
tivo e conjugado na forma com as migrações, o termo permaneceu masculino. Porém, a análise integral da estátua, da cabeça aos
feminil, mas para o verbete o
Além disso, por meio de uma metamorfose operada pés, revela, para além da analogia visual, um outro
Aurélio propõe somente o
substantivo masculino. De pela propaganda e pelas imagens, acabou por tipo de correspondência, anterior à arte moderna:
fato o nome da Instituição é:
desvincular-se do vocábulo um outro grupo aquela existente entre a ação e a postura das figuras.
Museu Vivo da Memória dos
Candangos Incansáveis e Es- humano: os negros. Nas fotografias das revistas, A própria gestualidade remete a uma composição
quecidos.
no cine-jornal, nos comerciais da época, até nas clássica, severa, cujo ritmo lento exprime conteúdos
8
Ferreira Gullar, “Bruno
imagens da “memória póstuma” como, por éticos. Assim comenta Ferreira Gullar: “Seu [de
Giorgi”. in: Itaù Cultural org.
Tridimensionalidade , arte exemplo, nas fotografias escolhidas para os painéis Bruno Giorgi] interesse pela temática brasileira, pelo
brasileira do século XX. São
do Museu da Memória Viva Candanga7 em Brasília, tipo nativo, o conduz a audaciosas conjunções de
Paulo, Cosac&Naify, 1999
9
Maria Izabel Branco Ribei-
o trabalhador de Brasília, embora quase sempre clássico ou do arcaico com o moderno”8. Também
ro, “Bruno Giorgi”. in: Itaù miscigenado, quase nunca é negro. outras avaliações9 ressaltam a tentativa de Bruno
Cultural org. Tridimensiona-
lidade , arte brasileira do sé-
Giorgi de alcançar uma linguagem (figurativa até
culo XX. São Paulo, Porém, nos depoimentos e nos livros de memórias, os anos 60) que se coloca entre classicismo, arcaísmo,
Cosac&Naify, 1999.
pelo contrário, mulheres e negros participam das nativismo brasileiro e modernidade. Uma pesquisa
mesmas cotidianidades.

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Os Candangos

Figura 2: Bruno Giorgi, Os que, vale a pena frisar, ecoa o esforço similar do aceitaram o desafio de erguer a capital no cerrado
Guerreiros/ Os Candangos,
bronze, 1957, detalhe. Fon- artista e amigo Cândido Portinari. vazio? Seriam os operários, aos quais talvez aludam
te: fotografia de Luisa as palavras de Mario Barata, ou seria o candango,
Videsott.
símbolo e iconografia da “grande família” de Israel
O nome da obra
Pinheiro? De fato, quanto mais pesquisamos seu
10
Revista Brasília, n.12, de- A estátua, provavelmente realizada em 1957, foi processo de re-nomeação, tanto mais este se revela
zembro de 1957.
escolhida pela Novacap10 (possivelmente por Lucio interessante e significativo. A aparentemente simples
11
“ Os dois Guerreiros” obra
escolhida por Lucio Costa
Costa11) para ser colocada na praça dos Três Poderes. mudança de nome na verdade, indica um processo
para a Praça dos Três Pode- A princípio, porém, foi intitulada de “Os Guerreiros” de transformação de identidade, uma vez que os
res de Brasilia, integra-se na
cidade ao tal ponto de ser
e foi sob este nome exposta na Bienal de São Paulo nomes não apenas designam, indicam ou descrevem;
considerada a obra síntese da em novembro de 1957 . Ainda com esse
12
às vezes, autoritariamente, re-colocam ou re-
capital do Brasil. A população
substitui o nome original de
patronímico, e antes mesmo da inauguração da inventam a realidade.
“guerreiros” com o de cidade13 chegou à Praça mais representativa de Brasilia.
“candangos”, enxergando
nessas duas figuras simbóli-
Vale a pena aprofundar a pesquisa sobre a
cas os pioneiros vindo do lon- Foi ali que, em pouco tempo, ocorreu a mudança cronologia dessa transformação.
gínquo nordeste para cons-
truir a cidade mais moderna
de seu nome14.
da época. Bruno Giorgi não Assim foi publicado na revista Módulo n. 19 do
conhecia Brasilia e tampouco
a Alvorada ao qual a estatua
Mario Barata escreveu em 1985 que “a mudança agosto de 1960: “Na praça dos Três Poderes ergue-
impôs o característico perfil”. de título se impôs ao verificar-se que os únicos se o grupo escultural de Bruno Giorgi “Os
Maria Pace Chiavari, “Biogra-
fia di Bruno Giorgi”, in Mo-
‘guerreiros’ que atuaram em combate em Brasília Guerreiros”, símbolo do operário que construiu
saico Italiano , revista da co- foram os seus construtores ao aceitarem o desafio Brasilia (...)”.
munidade italiana, <http://
www.comunitaitaliana.com.
de erguerem a capital no cerrado vazio do planalto
br/mosaico/mosaico1/ central”15. Hoje a Secretaria de Estado se refere em Neste sentido, cabe citar aqui um trecho do
liberazione.htm>.
seu site na internet aos Candangos como “uma depoimento de Bruno Giorgi recolhido em 1989
12
___, “Cinco mil pessoas
visitam semanalmente a gran-
homenagem aos que trabalharam na construção por Georgette Medleg Rodriguez, dentro do
de mostra de São Paulo”, O de Brasília”16. Programa de História Oral sobre a construção de
Cruzeiro, 16/11/1957; Segun-
do consta no Catálogo das
Brasília, patrocinado pelo Arquivo Público do Distrito
obras da Bienal das Artes A mudança de nome evidentemente mostra que Federal.
Plásticas de 1957, as obras
deviam serem entregues an-
havia problemas na compreensão e na recepção
tes do fim do mês de maio da obra: infelizmente as notícias que possuímos Bruno Giorgi: “Eu fiz os guerreiros que foram
para serem avaliadas e even-
tualmente expostas.
sobre estas ainda são vagas; também seria fundidos aqui no Rio de Janeiro. E eu tinha feito
13
A revista Veja de 7 de agos-
importante entender à quem esta mudança alude uma maquete de um metro e meio ai eles aprovaram,
to de 1985 publica uma ma- quem são, afinal, os construtores de Brasilia que a comissão aprovou, inclusive o Oscar Niemeyer

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Os Candangos

téria dedicada à estatua, in- aprovou. Então depois eu ampliei aqui, fiz com 9 apresentando-a como a “escultura a ser colocada
clusive uma foto de Marcel
Gautherot relatando a sua
metros de altura. Depois tem um pequeno pedestal, em frente ao Palácio do Planalto”.19
instalação na Praça de Brasília; depois tem dois elementos que se abraçam que
o reporter data em 1957.
chamam de guerreiro, mas o meu sonho era fazer O nome candango ainda não era popular, a epopéia
14
Ver: Loureiro Wernek, Lú-
cia Maria. Brasília , Brasília,
uma homenagem ao candango. Tanto que depois da construção da Capital ainda estava em seus
IBGE, Conselho Nacional de veio pôr nome de candango. Isso aqui é um começos.
Estatística, 2° edição, 1966.
monumento aos candangos.”
15
Barata, Mario. “Monumen-
tos de Bruno Giorgi”, A colocação na Praça dos Três
Skultura/inverno/1985, São Georgette M. Rodriguez: “Então a inspiração deles
Paulo, Skultura Galeria de Poderes
arte, 1985. foi realmente os candangos?”
SEC Secretaria de Estado,
16 Uma outra maquete, publicada no número 16 da
<www.sc.df.gov.br/paginas/ Bruno Giorgi: “Foi os candangos. E como são dois, mesma revista, em abril de 1958, confirma que a
museus/museus_10htm>.
todo mundo batizou por guerreiro, mas não tem idéia inicial era erguer a estatua em frente à fachada
17
Giorgi, Bruno. Depoimento
- Programa de História Oral. nada que ver com guerreiros. São guerreiros de do Palácio do Planalto. Nesta posição, entre o
Brasília, Arquivo Público do araque aquilo ali. É porque candangos são duas parlatório e a rampa, “Os Guerreiros” como que
Distrito Federal, 1989.
figuras de trabalhadores, podem ser três como esse “montariam guarda” em frente ao edifício,
18
Habitat n. 44, setembro
1957, página 37. aqui... todo trabalhador, para mim, naquele período “protegendo” não apenas o palácio, mas também
19
Segundo consta na era candango”. o Governo e a Democracia. Uma posição que,
contracapa do n. 12 da revis- conjugada ao nome, exprimia evidentemente outros
ta Brasilia.
Georgette M. Rodriguez: “O senhor pode falar da significados.20
20
Seria interessante uma
pesquisa com o objetivo de questão da concepção de suas esculturas em Brasília,
indagar os objetivos da equi- existia alguma orientação....?” Analisemos a composição: o esquema utilizado por
pe que escolheu a obra – com
seu nome original: Guerrei- Bruno Giorgi remete a dois importantes grupos
ros – , assim como as motiva- Bruno Giorgi: “Ah, total liberdade. Não me deram esculturais. O primeiro, de autoria do próprio Bruno
ções de sua posição na Pra-
ça dos Três Poderes,e, antes nem o tema para fazer. Eu fiz porque gostava daqueles Giorgi, é “Juventude Brasileira”, estátua colocada
de mais nada, de sua coloca- dois elementos juntos, gostava” 17. no pátio do atual Palácio Capanema no Rio de
ção inicial a complemento da
face do Palácio do Governo. Janeiro, ex Ministério de Educação e Cultura,
na frente do Planalto. Como dissemos, a revista O Cruzeiro trazia na projetado, vale a pena lembrar, pela equipe de Lúcio
21
Armodio e Aristogitone, matéria de 16 de novembro de 1957, dedicada à Costa e Oscar Niemeyer em 1939.
heróis atenienses, tentaram
matar a família de Pisistrato, Bienal de São Paulo, fotografia e comentários sobre
pois estava se tornando uma a grande estatua de bronze de Bruno Giorgi, Outra referência seria um grupo escultural grego
ameaça para a ordem demo-
crática da cidade. “Guerreiros”, colocada no hall. O catálogo desta do V século a.C., Os Tiranicidas, muito conhecido,
<www.wikipedia.org/wiki/ última confirma os dados e o nome. A revista Habitat cujo tema é a defesa intransigente das instituições
Tirannicidi>.
de setembro de 1957 dedica o número 44 à IV democráticas21. Este par de referências, ajuda a
22
Giorgi, Bruno. Depoimento.
Programa de História Oral. Bienal de São Paulo. Ao comentar as obras expostas imaginar, em conjunto com a colocação inicialmente
Brasília, Arquivo Público do do contingente da escultura nacional apresenta pensada, o alcance do simbolismo dos Guerreiros
Distrito Federal, 1989.
com foto a obra “Os Guerreiros” e assim comenta: de Giorgi de guardiões da democracia e do futuro
“Bruno Giorgi, com sua inconfundível capacidade, da Nação. Um memento que bem se adaptaria ao
teve três bronzes aceitos: Esfinge, Guerreiros e ideário de Brasília, aos conteúdos do plano de Lucio
Bucólica. São trabalhos recentes, duma consciência Costa e à propaganda e à atuação política do
plástica eqüidistante da escultura maciça e aberta Presidente JK.
(...) Exemplo soberbo da segunda são os Guerreiros,
de grande beleza., em sua síntese vertical de linhas Bruno Giorgi: “Também o Oscar veio comigo lá na
ligadas por diversos ritmos.”18 Praça dos Três Poderes e escolhemos o lugar. Eu
queria encostar esses dois guerreiros lá de um lado.
Pouco depois, em dezembro de 1957, a capa do E o Oscar Niemeyer disse: ’Não vamos botar no
número 12 da revista Brasília, órgão do departamento meio.” Então tinha um super-caminhão ai com os
de Divulgação da Novacap, exibe a maquete (talvez Guerreiros pendurados num guindaste. Então, esses
a estátua exposta na Bienal) da obra encomendada guerreiros passearam na Praça dos Três Poderes
ao artista Bruno Giorgi para a Praça dos Três Poderes, por todo lado’ ”22.

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Os Candangos

Figura 3: Giorgi, Escultura à A colocação no imenso espaço vazio da Praça dos como revela o depoimento acima de Bruno
Juventude Brasileira, 1947,
colocada nos jardins do Palá-
Três Poderes contribuiu provavelmente, para Giorgi.
cio Gustavo Capanema, anti- desvincular a escultura da função de símbolo
go prédio do M.E.C., no Rio
de Janeiro, com a igreja de
específico de um dos três Poderes presentes naquela Enfim, as declarações de Mario Barata e do
Santa Luzia ao fundo. A Foto praça. Podemos assim imaginar como e porque a próprio Bruno Giorgi (que evidentemente se
é de outubro de 1951.
F o n t e : < h t t p : / /
obra se converteu em um símbolo de Brasília, o ressentem de discussões posteriores à
picasaweb.google.com/lh/ que facilitou o processo de identificação entre inauguração da cidade e das quais,
photo/1ryesTK5o6O
TacK0_C8hMA>.
trabalhadores e monumento, mas também sua provavelmente, as observações da revista Módulo
exploração por um sem número de anúncios a partir de 1960 são uma antecipação) revelam, porém,
Figura 4: Armodio e
Aristigitone, cópia romana em
dos anos 1960.. Ajudaria também a entender, sua como o novo nome e a nova colocação da obra
mármore, do II século d.C., presença indireta na letra da Sinfonia da Alvorada, acabaram mostrando-se mais apropriados para
de original grego. Napoli,
Museo Archeologico
composta por Vinicius de Moraes e Tom Jobim em abranger uma gama de significações mais ampla,
Nazionale. Fonte: <http:// dezembro de 1960: “os trabalhadores: os homens ou mais ajustadas a uma certa história da cidade.
upload.wikimedia.org.
f o t o g r a f i a :
simples e quietos, com pés de raiz, rostos de couro O nome “Candangos” serve hoje como suporte
riccardocarloni.blogspot.com>. e mãos de pedra, e que, no calcanho, em carro de para outras memórias e assim ajuda a construir
boi, em lombo de burro, em paus-de-arara...” 23 uma série de reflexões sobre a cidade.
23
<www.letras.mus.br>. Não é demais lembrar que Vinicius de Moraes
24
Giorgi trabalhou para o participava do grupo editorial da revista Módulo Portanto, para entender melhor os valores que
M.E.C. – realizou o grupo
desde sua fundação e que na letra desta Sinfonia guiaram esta manipulação, vamos examinar
Juventude Brasileira dos jar-
dins do prédio – e a convite aparecem também menções a Oscar Niemeyer. algumas das imagens produzidas naquela
de Gustavo Capanema insta-
época.
lou um ateliê na Praia Verme-
lha em Rio em 1946, a dizer O tempo, os hábitos, as propagandas, as
que dividiu com Portinari,
ideologias, os discursos, as apologias e as
também de descendência ita- Retirantes
liana, o mesmo meio cultural poesias operaram então uma mudança de
e artístico; enfim, por causa
significado, a qual incluía a apropriação de novas As figuras de Bruno Giorgi, com suas varas, sua
do seu compromisso
antifascista, pode ter compar- dimensões e o abandono de outras. Vale a pena esqualidez e equilíbrio instável, trazem à memória
tilhado com o artista de
acrescentar que a transformação, ou substituição, a conhecida tela de Portinari Retirantes de 194424:
Brodósqui similares crenças
políticas. Junto com isso a sua do nome e dos significados da obra de Giorgi em ambas nos deparamos com a mesma composição
tentativa de alcançar uma
foi rápida e complexa: nela estava implícito o frontal, a mesma fragilidade dos corpos, o mesmo
expressividade “nativa” ecoa
análogo esforço artístico de- novo poder que a palavra “candango” assumiu olhar vazio e, por fim, com a presença determinante
senvolvido por Portinari. “A
durante a construção da cidade. Talvez tenha das varas.
idealização classicizante de
Maillol contrasta com a até se infiltrado na memória dos próprios autores,

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Os Candangos

mestiçagem das figuras de Também os pés de “Os Candangos” parecem de esperanças e desilusões, a passagem do pintor
Giorgi, olhos de índio e con-
tornos arredondados de mu-
remeter às aberrações físicas (àquelas lagrimas de de Brodósqui da visão “otimista” dos quadros de
lato”. “Seu interesse pela pedras...) que caracterizam a obra de Portinari: são 1934-36 para a mais “apaixonada e despojada”25
temática brasileira, pelo tipo
nativo, o conduz a audacio-
pés disformes, animalescos, fixados em uma posição de dez anos mais tarde. Em 1958, os retirantes são
sas conjunções de clássico ou contrária às leis da anatomia. Junto com a vara, os temas de uma nova série do pintor, na qual a
do arcaico com o moderno”
Maria Izabel Branco Ribeiro e
pés fornecem os poucos e frágeis pontos de apoio linguagem incerta confere às telas um caráter mais
Ferreira Gullar, in: Itaú Cultu- para as figuras permanecerem eretas. Mas estes de exercício do que de obras acabadas.26
ral, org. Tridimensionalidade,
arte brasileira do século XX,
são pés que se agarram à terra. Pertencem à terra,
São Paulo, Cosac&Naify, uma vez que dela brotam: “Pés de raízes”, canta
1999. O ano de 1958
Vinicius de Moraes na Sinfonia da Alvorada,
25
Fabris, Anateresa. Portinari
pintor social, São Paulo, deslocando definitivamente a simbologia negativa “Os Retirantes [de Portinari] de 1958 não têm nem
Editoria perspectiva/Edusp, da deformidade para a positividade do ato de fincar a calma majestade dos da década de 30 nem a
1990.
raízes na terra: “O Homem. Viera para ficar; trágica intensidade daqueles da década de 40. As
26
Fabris, Anateresa. Portinari
pintor social, São Paulo, permanecer, vencer as solidões. E os horizontes, figuras revelam (...) um artista (...) não tão seguro
Editoria perspectiva/Edusp, desbravar e criar, fundar. E erguer”. do que quer veicular através de sua arte. (...) Portinari
1990.
está tentando repintar um tema a que já dera uma
Cabe lembrar o quanto a figura dos “flagelados” grande intensidade humana, mas o faz sem
Figura 5: Candido Portinari,
fora trabalhada por Portinari a partir dos anos 30. convicção: suas figuras repetem gestos antigos,
Os Retirantes, Óleo sobre Até os 60, ela aparece tratada e re-tratada em suas revestem-se de uma dor que não consegue esconder
tela,1944.Fonte:
www.galeriadegravura.
telas: qualquer reflexão sobre a iconografia referente um vazio emotivo e não podem ser nem mesmo
com.br/imagens/portinari. à identidade brasileira e a de seu povo não pode resgatadas pela palheta mais vibrante.”27
Figura 6: Bruno Giorgi, Os
deixá-las de lado. Compõem um primeiro conjunto:
Guerreiros/Os Candangos, Despejados, (1934) Retirantes (1936), Retirantes Esta data, o ano de 1958, remete, por outro lado,
bronze, 1957 - detalhe. Fon-
te: fotografia de Luisa
(1944) e Criança morta (1944). Na avaliação de a uma conjuntura histórica que teve repercussões
Videsott. Anateresa Fabris, estas telas relatam uma história na construção de Brasília. Este ano presenciou uma

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Os Candangos

Figura 7: Candido Portinari, grande seca e, como resultado, se “abateram” sobre indica que uma cidade nova enfrenta a triste
Os Retirantes, Óleo sobre
tela, 1958. Acervo Museu o Planalto milhares de trabalhadores itinerantes perspectiva de tornar-se menos um exemplo, do
Histórico de Sergipe. Fonte: pobres e sem profissão (cinco mil, apenas no mês que um quisto aristocrático, produzido por uma
www.sociedadesemear.org.br/
agenda/20080714154. de maio)28, a maioria procedente do Nordeste. Para sociedade hierárquica ou dividida em ricos e pobres
Figura 8: Mario Fontenelle, abrigá-los foi criada às pressas a cidade satélite de e ameaçada de submersão rápida ante as condições
Retirantes chegando a Taguatinga29. reais do país”33.
Brasilia: 22/03/1958. Fonte:
Arquivo Público do Distrito
Federal - Brasilia. Vêem à memória as palavras de Portinari: “os Brasília era anunciada como um lugar onde haveria
retirantes vêm vindo com trouxas e embrulhos / trabalho para todos; as obras da Nova Capital
27
Fabris, Anateresa Portinari vêm das terras secas e escuras; pedregulhos / conseguiriam absorver qualquer força de trabalho,
pintor social, São Paulo,
doloridos como fagulhas de carvão aceso” 30. mas a inexperiência profissional dos retirantes criava
Editoria perspectiva/Edusp,
1990. evidentes problemas de inserção34 na grande “cadeia
28
Damata, Gasparino e Aos doze de novembro de 1956, o Diário de de montagem” que construia a cidade. O mundo
Alli,Orlando. “Os primeiros
Brasília31 estimava a população operária de Brasília melhor, anunciado pelas propagandas sobre a Nova
pobres de Canaã”, Manche-
te , 19/07/1958. em 232 pessoas. Em novembro de 1958 o Capital, depois de quase um século de expectativas
29
Kubitscheck, Juscelino. Por- Departamento de Imigração avaliava em 45 mil a (se contarmos o tempo a partir da primeira
que construí Brasília, Bloch
população do ainda inexistente Distrito Federal - constituição), chocava-se com a realidade.
Editores, Rio de Janeiro 1963.
30
Portinari, Deus de Violên-
um acréscimo de três mil pessoas por mês32. O
cia. In: Poemas de Candido fenômeno apresenta números assustadores, Além disso, toda esta migração – do Nordeste até
Portinari, Rio de Janeiro, 1964;
apud: Fabris, Anateresa.
capazes de calar qualquer criatividade artística, como Brasília e do Plano Piloto até as cidades satélites -
Portinari pintor social , São já vimos, ou de criar incertezas nos observadores assumiu naquele ano um caráter violento. Sobre
Paulo, Editoria Perspectiva,
1990
mais críticos. Em 1959 escrevia Mario Barata, as condições de viagem, temos as reportagens das
31
Serviço de Documentação
refletindo sobre a construção de cidades novas e o revistas populares; as descrições do livro Porque
da Presidência da Republica. relativo controle do incremento populacional por construí Brasília, do presidente JK; os depoimentos
Diário de Brasília 1956-57, Rio
de Janeiro, 1960, pág 42.
meio da criação de cidades satélites: “No caso de recolhidos pelo programa de história oral do Arquivo
32
Murilo Melo Filho, “Brasília
Brasilia, em sua fase de construção, já se criaram Público do Distrito Federal e livros de memórias,
demonstra que o impossível barreiras aos imigrantes em busca de trabalho, só como o de Edson Beú, Expresso Brasília, bem como
acontece”, Manchete ,
29/11/1958.
se permitindo, aos menos em certo período, entrada uma crônica-denúncia das modalidades das viagens
33
Barata, Mario. Totalidade
por terra, na região, a pessoa portadora de carta nos paus-de-arara, publicada em vários números
artística e posição das artes de chamada individual ou locação de trabalho. Na do semanário Binômio de Belo Horizonte (n. 243
industriais e artesanato na
cidade nova. Relação apre-
verdade esse tipo de barreiras funcionam e de fevereiro de 1959 e seguintes).
sentada ao Congresso Extra- funcionaram imperfeitamente, mas o fenômeno

r sco 7 1[2008 artigos e ensaios 28


Os Candangos

ordinário Internacional de Talvez Portinari e Bruno Giorgi, assim como as às imagens de Portinari, pertence ao viajante.
Críticos de Arte: Cidade Nova
– Síntese das artes. Brasilia,
reflexões de Mario Barata, estivessem justamente Talvez o signo sirva para lembrar de que os
São Paulo, Rio de Janeiro, “trabalhando” esse novo e grande problema social construtores da capital eram migrantes; talvez
set./1959. In: Habitat n. 57,
dez.1959, pág. 19.
brasileiro. seja simplesmente uma referência,
34
“Alimentar mais 5 mil bo-
publicitariamente eficaz, ao candango e à estátua
cas e dar trabalho a cerca de de Giorgi: a obra já reinava na Praça dos Três
mil homens que só sabiam Comerciais
cuidar de lavoura e gado se- Poderes e estava sendo usada em outros
ria impraticável, prejudicial ao A propaganda da Esso propõe uma imagem
35
comerciais; nesta data, 1960, o apelido de
andamento das obras”.
Damata, Gasparino e Alli, do operário que então construía Brasília, o texto candango já tinha alcançado estatuto de herói
Orlando. “Os primeiros po- que a acompanha deixa claro que foi aquele e já estava sendo usado para anunciar carros,
bres de Canaã”, Manchete,
19/07/1958. homem forte e maciço quem fez Brasília. De físico brinquedos, e outros produtos.
35
A propaganda da Esso, de estatuário, mãos grandes ao ponto de parecerem
1960, entre outros comerciais quase deformadas veste uma indumentária justa, A figura da Esso resume para nós o processo de
interessantes, foi elaborada
pelo jornalista Ibrahim Sued, moderna (no sentido etimológico da palavra); atualização da imagem e do papel do trabalhador-
atendendo à solicitação da isto é, uma indumentária que é dos modus homem comum brasileiro que se deu durante a
Comissão das Solenidades de
Instalação do Governo da Nova odiernos , embora possivelmente não fosse construção de Brasília. A vara, chamando à memória
Capital, presidida pelo Doutor aquela característica dos candangos de Brasília. as figuras de Bruno Giorgi, introduz o complexo
Oswaldo Maria Penido.
Para proteger a cabeça, leva um capacete, discurso sobre os trabalhadores itinerantes pobres
deixando claro que é um trabalhador da do Brasil. A propaganda apazigua iconograficamente
construção civil e que no canteiro de obra são as contradições: os retirantes, graças à construção
respeitadas as normas de segurança. Mas este de Brasília, ultrapassaram sua anterior situação
Figura 9: Propaganda ESSO.
capacete contrasta com os chapéus nordestinos precária e conquistaram, além de uma posição forte
In: Sued, Ibrahim. Brasília
21.4.1960, Programa Oficial presentes nas fotografias e em certas apologias e segura na sociedade, o estatuto de operário. Ecoa
dos festejos da inauguração
da figura do candango escritas na época. Ele a Sinfonia da Alvorada: “os homens simples e
de Brasília. Eduardo Casali
Editor, Brasília, 21/04/1960. segura uma vara, ferramenta-estigma que, graças quietos, com pés de raízes, rostos de couros e mãos

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Os Candangos

de pedras, todos os homens que, com vontade de trabalhos e os trabalhadores dos canteiros de obras
trabalhar e confiança no futuro, pudessem erguer, em Brasília, a quase totalidade das fotografias evoca
36
de Moraes, Vinicius. Sinfo- num tempo novo, um novo Tempo” 36. os murais que Cândido Portinari fizera para o
nia da Alvorada , dez.1960
<http://www.letras.mus.br>.
Ministério de Educação e Cultura no Rio de Janeiro.
As mãos deformadas, as proporções estatuárias, Nas artes visuais, o momento mais rico em termos
as linhas de sombras no desenho da musculação de produção ideológica e de propaganda,
da propaganda Esso, remetem explicitamente aos imediatamente anterior à construção de Brasília,
escravos de Portinari no M.E.C. e convidam a indagar acontecera justamente sob o Estado Varguista. Nossa
melhor sobre o processo de atualizações e atenção, portanto, deve se voltar para esta época,
propagandas da figura do trabalhador ocorrido especialmente para o trabalhador39 idealizado dos
na construção do Estado Moderno no Brasil. painéis de Portinari, pintados justamente na época
da implementação da política varguista de
constituição de um mercado do trabalho institucional
A apologia do trabalhador:
e moderno, procurando compreender sua influência
dos painéis do M.E.C. às fotografias
da construção da capital e a atualização que sofreu nas fotografias e nos
cine-jornais realizados durante a construção e a
“O Candango era uma imagem nova no cenário inauguração da capital. Vale a pena lembrar que
brasileiro. Sem saber ler, realizava com perfeição o muitos dos nomes que criaram a imagem simbólica
trabalho que lhe competia na comunidade operária da Nova Capital haviam colaborado com o estado
da nova capital. Este batia rebites, aquele carregava varguista, destacando-se, entre outros, Lucio Costa,
tijolos, outro temperava o concreto. Cada um no os comunistas Oscar Niemeyer, Bruno Giorgi,
seu setor e todos ajustados a um mesmo ritmo de Cândido Portinari e Henrique Pongetti, fundador
37
Juscelino Kubitscheck. Por- produção.”37 A frase encobre o grave problema de e diretor da revista Manchete, ex-responsável da
que construi Brasília , Bloch
Editores, Rio de Janeiro 1963,
absorção de mão de obra não qualificada provocada seção de cinema do Departamento de Imprensa e
pág. 146. pela migração interna ao Planalto Central e, ao Propaganda40.
38
de Thornes, Jacinto. “O mesmo tempo, transforma o retirante em operário;
candango herói de Brasília”,
Manchete, 07/05/1960.
a racionalidade da produção fabril é evocada pelas Para analisar a imagem das obras de Brasília, proposta
39
Ver os trabalhos de
expressões “comunidade operária” e “ajustados entre os anos 1957-1960 pelos meios de
Anateresa Fabris sobre a ao mesmo ritmo de produção”. Assim ecoam estas comunicação de massa, devemos lembrar também,
obra de Portinari.
revistas: “o candango será absorvido pela capital que os anos 50 foram justamente um momento
40
Cássio dos Santos. Janela
da alma . Anablume-Fapesp, organizada e será operário penteado, roupa limpa, decisivo para as revistas populares que, ao
2006. sapato novo, dinheirinho no banco. Com o atualizarem suas estratégias comunicativas,
desaparecimento da poeira vermelha [dos canteiros atuavam, para uma determinada classe social, como
de obras] o candango perderá o aspecto heróico e meios de comunicação visual de massa. Junto aos
se transformará em folclore”38. cine-jornais e ao radio, estavam abrindo o caminho
para o poder da televisão.
A análise da propaganda da Esso já revelou uma
operação ideológica semelhante, ao mostrar um Algumas das fotografias que analisaremos a seguir
retirante já integrado (e não mais a “praga social” foram publicadas pelas revistas Manchete e O
não resolvida em termos de pobreza e de falta de Cruzeiro. As fotografias aqui publicadas pertencem
inserção no mercado de trabalho). Descrevemos ao acervo do Arquivo Público do Distrito Federal,
como, segundo a propaganda, o trabalhador as quais compõem hoje a memória visual da
itinerante, graças a Brasília, ingressara no Estado construção da capital. Essas imagens estão
com estatuto de operário. disponíveis para pesquisa e publicação; na maioria
são disparos de Mario Fontenelle, fotógrafo oficial
Isso nos convida a pesquisar as interlocuções entre da Novacap (grande parte delas foi publicada pela
os painéis que Cândido Portinari realizara no revista Brasília, órgão da Divisão de Divulgação da
Ministério da Educação e Cultura e as imagens Novacap, dirigida por Raimundo Nonato da Silva)
publicadas nas revistas populares e nos meios de muitas são de Marcel Gautheroit, fotógrafo também
comunicação de massa durante os anos de 1957 e da Revista Módulo. No mesmo arquivo encontram-
1960. Chama atenção o fato de, ao retratarem os se ainda cópias de cine-jornais realizados durante

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Os Candangos

a construção da cidade. Alguns deles pertencem a Levando em conta a finalidade comunicativa das
uma série de gravações encomendadas por Israel revistas populares, seus públicos e seus autores e
Pinheiro ao diretor-produtor Sálvio Silva da Libertas o ambiente internacional que a imprensa vivenciava
Filme de Belo Horizonte, no intento de promover a nos anos 50, a emergência do cinema e da televisão,
41
Catálogo Funarte. “Os cine imagem da construção da cidade41. Outros foram procuraremos entender como que estas fotografias
jornais sobre o período da
construção de Brasília”, MEC encomendados a Jean Manzon diretamente pela se colocam entre os murais e filmes, explorando
– SEC –SPHAN/pro Memória, Divisão de Divulgação da Novacap. tanto a linguagem das composições estáticas quanto
1983.
a das dinâmicas.
Voltando para as fotografias, esse conjunto de
imagens – tanto as dos fotógrafos da Manchete e Ecoando os painéis do Ministério de Educação e
de O Cruzeiro como as de Mario Fontenelle e as de Cultura, a linguagem das fotografias é, acima de
Marcel Gautheroit, - apresentam um elevado padrão tudo, simbólica, articulando-se a partir de poucas
estético e uma grande força comunicativa. figuras, esculturais e fixadas em gestos-chave,
Formalmente perfeitas, em branco e preto, respeitam condizentes com a exaltação do papel do
Figura 10: Trabalhadores e
padrões de ordem, simetria, equilíbrio, composição trabalhador. Os disparos dos repórteres fotográficos
vista do Congresso Nacional, e ritmo, alcançando qualidade artística. Do ponto parecem seguir um claro procedimento: à
Brasilia; DF 1959-1960. Fon-
te: Arquivo Público do Distri-
de vista do conteúdo, constituem narrações decomposição das figuras humanas em formas segue
to Federal. riquíssimas, ainda hoje permanecem atraentes e sua recomposição em ordem arquitetônica,
Figura 11: Mario Fontenelle,
sedutoras, mesmo ao retratar a miséria e a sublinhando a racionalidade dos trabalhos e
Construção do Congresso exploração. Nosso propósito é avaliar esse conjunto indicando a continuidade das ações e a harmonia
Nacional; Brasília: 10/11/
1959. Fonte: Arquivo Público
de fotografias como obra visual, artística, mas entre homens, tarefa executada e ambiente. Há
do Distrito Federal. também como meio de comunicação de massa. pouca preocupação com a narração: talvez domine

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Os Candangos

Figura 12: Mario Fontenelle, a pretensão de aludir aos murais cariocas de Portinari, de tanto suor; as ações são fixadas em gestos, quase
Construção do Congresso
Nacional; Brasilia: 31/05/
talvez houvesse a intenção de exaltar a beleza do a lembrar a repetitividade mecânica do trabalho
1958. trabalho. Mas, olhando as fotos, surge a pergunta: fabril. No conjunto, as imagens, inclusive a da
o quanto os retratados colaboraram com os Manchete de 3 de setembro de1958, que retrata
fotógrafos? Oscar Niemeyer na qualidade de “capataz” da
enorme cidade-canteiro, tornam visíveis os sonhos
As imagens, em branco e preto, nascem de um dos arquitetos de transformar, racionalizar,
processo de síntese. Sua limpeza, a economia de industrializar e limpar o ciclo de produção das
detalhes, confere à realidade retratada uma dimensão construções.
atemporal; o fundo homogêneo – o céu e o
horizonte imensos do Planalto – permite comprimir
Atualizações
a imagem em poucos planos sintéticos, criando
um espaço apto à exaltação do trabalho – braçal, “Nos murais de Portinari os poucos rostos que
porém organizado e racional - e dos locais onde olham para o espectador-testemunho não
este tem lugar - os canteiros, ordenados e funcionais. descrevem um personagem mas uma condição (...)
As roupas dos trabalhadores são quase um emblema, Graças ao ciclo da historia do Brasil do M.E.C. o ex
42
Fabris, Anateresa. Portinari
uma farda independente das necessidades e das escravo virou trabalhador e cidadão e o cotidiano
pintor social , São Paulo,
Editoria perspectiva/Edusp, normas de segurança; as sombras cortam do trabalho virou compromisso ético para o bem-
1990, pág. 122. Ver também:
decididamente a imagem e o contraste entre o estar coletivo”42. Conforme as análises de Anateresa
Schwartzman, Simon;
Bousquet Bomeny, Helena branco e preto transforma as arquiteturas, os Fabris, os conteúdos elaborados nas imagens dos
Maria; Ribeiro Costa, Vanda
esqueletos da futura capital, em cenografias teatrais, painéis do Ministério de Educação e Cultura não
Maria Tempos de Capanema,
Paz e Terra/FGV, 2000. relegando ao segundo plano o fato de serem objeto remetem simplesmente à definição do papel social

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Os Candangos

do trabalhador braçal no Estado (mercado do personagens são pintadas frontalmente,


trabalho) Moderno, mas constróem um retrato do pouquíssimas amostram o vulto e sues olhares vazios
trabalhador proletário e do povo brasileiro, isto é relatam uma condição e não um caráter. Reparemos,
da identidade nacional. Todavia, “o povo, no por exemplo, na instantânea de Mario Fontenelle,
getulismo, não é universal, mas sim aquele acima reproduzida, retratando a chegada dos
comportado, trabalhador e bem-nutrido, retirantes à Brasília. A importância da descoberta
43
França Lourenço, Maria plenamente satisfeito e conformado à situação.”43 desse novo olhar é confirmada pela sua absorção
Cecília. Operários da
Modernidade , São Paulo,
O ciclo de afrescos que Portinari pintou operou na propaganda Esso que acabamos de comentar.
Hucitec Edusp, 1995 pág. 32. uma reinvenção do trabalhador (do ex-escravo)
brasileiro, resolvendo no plano da arte – do mito? Além de olharem diretamente para a câmera, os
– contradições que não encontravam solução na fotografados freqüentemente sorriem. Talvez este
vida real. fato se deva à relação estabelecida no momento,
entre fotografo e fotografado, talvez seja uma escolha
44
Gellner, Ernest. “O adven- De acordo com as análises de Ernest Gellner44, a estética ou de estratégia editorial, poupando o leitor
to do Nacionalismo e sua in-
terpretação: os mitos da na-
construção da identidade nacional nas das durezas da realidade; ou, talvez, fale das
ção e da classe”, em: Gopal sociedades industriais acontece simultaneamente qualidades éticas dos ali representados, daqueles
Ballakrishnan org., Um mapa
da questão nacional, Rio de
à recuperação, destruição e massificação do que constróem Brasilia. Poderia ser um estratagema
Janeiro, Contraponto, 2000. passado – de um certo passado. Nesse processo semiológico, idealizado para projetar no presente
as artes desempenham um papel crucial, de o futuro, ou talvez este fato aponte para a nova
participação e de oposição. Aproveitando essa melhor condição social alcançada pelo País graças
indicação metodológica, avanço a hipótese de à construção da nova capital.
que as matérias veiculadas nos meios de
comunicação de massa durante a construção e “Brasília só pode estar ai como a vemos e já deixando
a inauguração de Brasília consolidaram o discurso entender o que será amanhã, porque a Fé em Deus
sobre a figura do trabalhador como pilar do e no Brasil nos sustentou, a todos nós, a esta família
Estado Moderno: a esta herança do estado aqui reunida a vós todos “candangos” a que me
45
Juscelino Kubitschek. Dis- Varguista acrescentaram, porém, algumas orgulho de pertencer.”45 É esse trecho do discurso
curso inaugural 20.4.1960,
painel do Museu Vivo da His-
atualizações. inaugural de Juscelino Kubitschek que abre hoje a
tória Candanga, Brasília, Nú- visita ao Museu da Memória Viva Candanga em
cleo Bandeirante.
Já ressaltamos a ênfase excessiva das imagens Brasília. Ao seu lado, também na entrada, está
na industrialização, estendendo-o para todos pendurada uma imagem marcante, a foto de um
os setores produtivos, inclusive e, antes de tudo, grupo de trabalhadores que rindo, corre olhando
ao setor das construções. Já mencionamos como para o fotógrafo, enquanto levanta seus braços e
as imagens das propagandas mostravam o os chapéus. No fundo vê-se um prédio das
trabalhador itinerante pobre integrado ao superquadras residenciais.
mercado de trabalho, ou como o uso da palavra
“candango” servia para colocar no mesmo plano Esse retrato coletivo dos candangos foi repetido
o Presidente, os dirigentes da Novacap e os em diversas oportunidades: em uma outra fotografia
trabalhadores, convertendo-os em “homens (Manchete, 2 de julho de 1960), bastante
comuns”,, nivelamento que se refletia também semelhante, são os desbravadores das rodovias que
na conduta de fraternização que JK ou Oscar correm rindo, desta vez levantando chapéus, garrafas
Niemeyer fizeram questão de manter durante a e ferramentas.
execução das obras.
Noutro, (aqui reproduzido) trabalhadores correm
Ocorre simultaneamente uma renovação da em direção ao fotógrafo, tendo em suas costas o
identidade do trabalhador, sobretudo do ponto prédio do Supremo Tribunal. Temos ainda a imagem
de vista do olhar. de trabalhadores que levantam seus braços desde
caçambas de caminhões (Manchete, 21 de abril de
Em muitas fotos os retratados olham diretamente 1960) e a foto (Manchete, 22 de abril de 1961)
para o fotógrafo, diversamente dos painéis do dos novos moradores das superquadras, incluídas
M.E.C., nos quais como já ressaltamos, poucas suas crianças, que avançam sorrindo para o olho

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Os Candangos

Figura 13: Fotografia de da máquina fotográfica [ou para o futuro]. da esplanada, se converteram em objeto privilegiado
Mario Fontenelle. Fonte: Ar-
quivo Público do Distrito Fe-
Finalmente, gostamos de lembrar a foto do próprio de lindíssimas e sugestivas fotografias, como as
deral. Presidente com o chapéu nas mãos, saudando de Mario Fontenelle e de Marcel Gautheroit, ou
triunfalmente o amanhã na capa do livro ainda dos cine-jornais e das propagandas em geral.
autobiográfico “Porque construí Brasilia” ... Essa Estas imagens enfocavam todo o processo, desde
nutrida série de fotografias revela uma clara estratégia o amontoado de vigas até sua montagem nos
de propaganda visual, mas também uma realidade: esqueletos dos prédios. Geravam espanto os
conta uma verdade que é também uma mentira. E trabalhos de montagem, especialmente quando
fala da felicidade de trabalhar para Brasília. noturnos:

“Agora, era grande coisa os esqueletos de


Obras em andamento
construção. Conheci isso em 59. Trabalhando dia
Tanto nas revistas populares quanto nos cinejornais, e noite, máquina de soldar, aquele... parecia que
a descrição da construção da capital e das rodovias cê ficava louco de ver aqueles fogos. Você parava
procurava difundir a imagem de uma organização ali, na altura da rodoviária, que era um imenso
racional, planejada, quase asséptica e como que buraco, né? Ali era um imenso buraco que os tratores
dotada de um movimento próprio, auto-suficiente escavando aquilo ali, pra fazer aquela caída que se
e auto-gerador. Ou seja, queria demonstrar que atravessa pra ir pra Norte, por baixo. Então ali aquele
Brasília não era apenas uma grandiosa obra buraco! Terra, muita, muita terra mesmo! Você
planejada e técnica, mas que também era uma das parava por ali assim, e dava uma olhada na Esplanada
46
Os três adjetivos são entre
os mais freqüentemente usa- mais modernas do mundo. Sua arquitetura e seu dos Ministérios, sempre à tardezinha, à noite. Meu
dos nas matérias das revistas Deus do céu! Parecia fogos de artifício. Era o cidadão
plano - inovadores, revolucionários, inéditos46 -
Manchete e O Cruzeiro.
estavam sendo realizados com recursos e tecnologia trabalhando, peão, gente caindo, muita gente
47
Gomes de Faria. Depoi-
mento - Programa de Histó- os mais avançados. Um exemplo: as estruturas morrendo. Não cuidava muito da segurança, tinha
ria oral; Brasília. Fonte: Arqui-
metálicas dos ministérios, seriais, ordenadamente que fazer. E foi fazendo.”47
vo Público do Distrito Federal,
1990. alinhadas (racionalmente) ao longo do enorme vazio

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Os Candangos

48
Andreoli, Elisabetta e Forty, Essas representações, ainda hoje,48 marcam os relatos uma matéria da Manchete afirma que hansenianos,
Adrian. Arquitetura Moderna
Brasileira. London. Phaidon
dos trabalhos de construção da cidade e continuam tuberculosos eram afastados, assim como os
Press Limited, 2004. transformando os homens ai empregados em desordeiros: “a permanência em Brasília está
49
Mazzola, Philomena formiguinhas. Veiculam mensagens fortes, que falam condicionada ao bom comportamento”50 e à boa
Leporoni. Depoimento. Pro-
grama de História Oral;
de técnica, industrialização e modernização e olvidam saúde.
Brasília. Fonte: Arquivo Públi- qualquer outra informação – aqueles homem caindo
co do Distrito Federal.
– menos sugestiva e pouco elogiosa. Além disso, o caráter de “vida de fronteira” que
50
“Mas quando a coisa é
grave e alguém tenta tirar a
acompanhou a construção da Capital durante o
carta de valente recebe um Quem é/foi o candango? governo JK – e que JK cuidou de propalar - ou a
convite para sair da cidade
(com os desordeiros foram desilusão e a raiva que tomou conta dos
É difícil a reconstrução histórica da complexa
afastados 20 hansenianos e trabalhadores, com a passagem do poder para o
18 tuberculosos). O convite é situação dos canteiros de obras de Brasília. As
uma forma de expulsão. O
presidente Jânio – isto é, com as maciças demissões
matérias das revistas, entre as linhas, sugerem, vez
valente não encontra traba- decorrentes do corte radical nas verbas para
lho e tem que sumir. A per- por outra, umas realidades diferentes, porém suas
manência em Brasília está construção da Capital – permeiam os relatos,
informações precisam ainda de muita pesquisa para
transformando- os em heranças riquíssimas, mas
sua correta apreciação. Os depoimentos - a história
complexa do ponto de vista da credibilidade.
Figura 14: Cartão postal
oral de maneira geral – podem falhar por causa
Colombo. Um conjunto de 12
cartões postais sobre a cons- das alterações que ocorrem na memória; temos
trução da cidade foi recolhi-
relatos, entrevistas e documentários, mas ainda Alguns aspectos da identidade do
do por Luis Gustavo Franco
quando tinha uma empresa fazem falta documentações de arquivo. Um exemplo: candango/pião
de cigarros e tabacos em
os incidentes de trabalhos. Os registros do hospital
Brasília. Os originais foram
emprestados à autora por sua do núcleo bandeirante se perderam durante um “Entre as precárias condições de trabalho na
filha Cristina, colega do de-
incêndio. Segundo uma depoente49, os casos mais construção, onde o risco de morte é um dado
partamento de Arquitetura e
Urbanismo da EESC-USP. graves eram transferidos para outras cidades; já cotidiano, e a sobrevivência miserável no campo,

r sco 7 1[2008 artigos e ensaios 35


Os Candangos

condicionada ao bom compor- os operários vivem em Brasília os limites de seu desfavoráveis. O problema do analfabetismo, isto
tamento”. Magalhães Junior,
R. “A capital da esperança”,
acesso ao mercado de trabalho”51. é o problema da impossibilidade da participação
Manchete ,19/09/1959. democrática para reivindicação dos direitos básicos,
51
Bicalho de Sousa, Nair He- A maioria das pessoas migradas ao Planalto Central, representa, ao meu ver, um dos fatos mais
loisa. Construtores de
Brasília. Estudo de operários
atraída pela exuberante procura de mão de obra, contraditórios da construção da Capital - da Nação
e sua participação política. não tinha profissão definida nem experiência de - da esperança e do futuro.
Petrópolis, Editora Vozes,
1983. trabalho em canteiros de obras. Assim Pedro
52
Arantes, Pedro Fiori. Arantes resumiu a situação: “A grande maioria dos Por outro lado, de acordo com a propaganda
“Reinventando o canteiro de construtores, conhecidos como “candangos”, era presidencial e com as mensagens dos comerciais,
obra”. In: Andreoli, Elisabetta
e Forty, Adrian org. Arquite- composta por trabalhadores rurais empobrecidos como vimos, o retirante ganhou visibilidade e
tura moderna brasileira . ou sem-terra (...) Os canteiros de Brasília foram inserção garantida na modernidade anunciada e
London. Phaidon Press
Limited, 2004. planejados para o uso extensivo desses finalmente realizada graças à construção de Brasília.
53
O voto foi estendido aos trabalhadores de baixa qualificação. (...) A construção De fato, “o canteiro de Brasília não foi uma exceção,
analfabetas em 1985. Boris, da capital representou, nesse sentido, o ponto mas a concentração num único local altamente
Fausto, História do Brasil ,
Edusp, São Paulo, 1994. culminante da desqualificação do trabalho na simbólico da maneira como se processou a
54
Magalhães Júnior, R. “A construção civil – um processo iniciado décadas modernidade brasileira, suas ambições,
capital da esperança”, Man- antes e aprofundado pelos arquitetos modernos”52. desigualdades e custos humanos e, por extensão
chete,19/09/1959.
Seria interessante acrescentar a esse quadro uma da própria dinâmica de expansão mundial do
55
Tentada, em 200 classes
para 5 mil alunos (5000 : 200 outra dimensão, o problema do analfabetismo. capital”56.
= 25 alunos por classe, grifo Naquela época os analfabetos não votavam53 e,
meu), a alfabetização de adul-
em uma democracia, pelo menos no papel, o voto
tos tem dado resultados pre- A “carreira” na construção civil
cários. Faltam recursos para ocupa um lugar fundamental. De fato, encontramos
a alfabetização em massa. E
os operários preferem traba- insinuações, por exemplo nas matérias da Manchete, Outra grande questão que se fazia presente no
lhar mais para aumentar o da existência de um mercado de títulos de eleitor, sistema de produção do setor edilício – isto é na
salário. Fatigados ouvem sem
atenção. A freqüência é mui- assim como certa insistência nas paginas desta e construção de Brasília - era a carteira de trabalho.
to irregular. (...) A 12 deste das outras revistas sobre o problema do Ela assume um sentido semelhante e aponta para
mês [setembro 1959] será
diplomata a primeira turma analfabetismo do País em geral e sobre a contradições parecidas ‘aquelas que levantamos
de candangos ali alfabetiza- necessidade de um plano de escolarização capilar. com relação ao título de eleitor. Durante a
dos: cerca de 300. Uma
gota d’água no oceano. Con- Com relação aos números – assustadores - lemos construção da cidade sob a “gestão JK”, a carteira
tinuará a haver ali uns 45 mil ainda na Manchete de 1959 que, entre os de trabalho e o “apoio à transferência”57 foram
que não o são. (...) Maga-
lhães Júnior, R. “A capital da trabalhadores dos canteiros de Brasília, “90% são objetos de negociações. O livro de Edson Beú relata
esperança”, Manchete , analfabetos. Possuem, porém grandes qualidades as modalidades e os requisitos necessários para
19/09/1959.
de inteligência. Adaptam-se com rapidez às mais obtenção da carteira assinada. Emerge assim que
56
Arantes, Pedro Fiori.
“Reinventando o canteiro de diversas tarefas. (...) Brasília em proporção à sua era relativamente rápido (15 dias) e certo para os
obra”. In: Andreoli, Elisabetta população e à área habitada tem a maior trabalhadores obterem a carteira assinada.
e Forty, Adrian org. Arquite-
tura moderna brasileira . concentração de analfabetos do mundo” 54. Ou
London. Phaidon Press seja, 90% da população do futuro Distrito Federal O mesmo autor, porém, descreve a existência de
Limited, 2004.
não tinha direito ao voto. As primeiras eleições do uma organização paralela, a dos gatos, empreiteiras
57
Bicalho, Nair Heloisa de
Sousa. Construtores de Distrito federal aconteceram ainda em 1960, logo clandestinas que atuavam livremente na região:
Brasília. Estudo de operários após a inauguração da capital. “Com custos operacionais menores, pois não
e sua participação política.
Petrópolis, Editora Vozes, assinavam carteira de trabalho, os gatos pagavam
1983. As tentativas de escolarização dos trabalhadores mais do que outras firmas. Além de ganhar mais,
58
Beú, Edson. Espesso imigrados ao Planalto Central – adolescentes e os operários podiam fazer horas extras à vontade,
Brasília. Brasília. LGE editora,
2006. adultos – acabaram frustradas ou pelo prazo culminando com as viradas [dois turnos
colocado para inauguração da cidade ou pela ininterruptos]. (...) e as obras tocadas pelos gatos
necessidade dos próprios trabalhadores de juntar seguiam um ritmo mais acelerado do que as
dinheiro para manter suas famílias, carentes e construtoras legalmente constituídas”58. Em
distantes55. Acabaram também, depois da depoimento presente no filme de Joaquim Pedro
inauguração, chocando-se com a eterna falta de de Andrade, “Brasília, contradições de uma cidade
verbas e outras conjunturas, ainda mais nova” (possivelmente de 1969), um dos

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Os Candangos

entrevistados declara que as empreiteiras, quando Barata, Mario “Monumentos de Bruno Giorgi”, in:
Skultura/inverno/1985, São Paulo, Skultura Gale-
um operário estava perto de completar os três meses ria de arte, 1985
necessários para assinar a carteira, despediam-no
Beú, Edson. Espesso Brasília. Brasília. LGE editora, 2006
para voltar a contratá-lo em outra empresa filiada
e assim manter o baixo nível salarial. Não sabemos Boris, Fausto. História do Brasil, Edusp, São Paulo, 1994
com certeza quando essas práticas para fraudar a
Bicalho, Nair Heloisa de Sousa. Construtores de Brasília.
lei trabalhista estabeleceram-se, se durante a Estudo de operários e sua participação política.
Petrópolis, Editora Vozes, 1983
administração JK ou depois, com a grande crise
que se iniciou com o governo Jânio Quadros. Talvez, Catálogo das obras da Bienal das Artes Plásticas de
devessemos lembrar o outro significado da palavra 1957.

“pião” (aparentemente nascido em Brasília em Costa Couto, Ronaldo. Brasília Kubitschek de Oliveira,
oposição ao termo candango) para associá-lo à Rio de Janeiro, Record, 2001.
59
Bicalho, Nair Eloísa de “alta rotatividade dos trabalhadores das obras” 59, Costa, Lucio. Brasília. Relatório do plano piloto. In: Gaeff,
Sousa. Construtores de Edgar org. Lucio Costa: sobre arquitetura. Porto
para assim realçar o aspecto provisório do trabalho
Brasília. Estudo de operários Alegre, Centro dos estudantes universitários de
e sua participação política. da construção da nova capital.. arquitetura, 1962.
Petrópolis, Editora Vozes,
1983.
De Moraes, Vinicius. Sinfonia da Alvorada. Brasília, de-
Enfim, a indagação sobre os nomes e as re/ zembro 1960. www.letras.mus.br.
nomeações, - guerreiros, Candangos, piões, - nos
guiou na reflexão acima das propagandas, das Fabris, Anateresa. Cândido Portinari. São Paulo, Edusp,
1966.
ideologias e das expectativas que acompanharam
a construção de Brasília. Fabris, Anateresa. Portinari pintor social , São Paulo,
Editoria perspectiva/Edusp, 1990.

Vêem à mente então, de forma espontânea, a Ferreira Gullar, “Bruno Giorgi”. in: Itaù Cultural org.
Tridimensionalidade, arte brasileira do século XX.
ambigüidade presente naqueles “pés de raiz”, São Paulo, Cosac&Naify, 1999.
contrários às leis da natureza, aquela fragilidade e
Ferro, Sergio. Sobre “O canteiro e o desenho”. In: Ar-
instabilidade da estatua de Bruno Giorgi ou o quitetura e trabalho livre. São Paulo, Cosac&Naify
cansaço daquela procissão de retirantes – e de seu 2006.
autor – da tela de Candido Portinari de 1958. Na
França Lourenço, Maria Cecília. Operários da
verdade, relatam uma história de precariedade, a Modernidade, São Paulo, Hucitec Edusp, 1995.
da difícil inserção do trabalhador itinerante na
Garcia, Cristiana Mendes. Construindo Brasília: a traje-
sociedade ativa, isto é: no moderno mundo do tória profissional de Nauro Esteves. Dissertação de
trabalho assalariado e garantido. A escultura de mestrado. Brasília. FAU UnB, 2004.

Bruno Giorgi, enquanto que representa, de Gellner, Ernest “O advento do Nacionalismo e sua in-
maneira geral, a história da edificação da capital terpretação: os mitos da nação e da classe”, em:
Gopal Ballakrishnan org., Um mapa da questão
é metáfora que aponta e oculta as tensões e os nacional, Rio de Janeiro, Contraponto, 2000.
ideais, os sonhos realizados e os fracassos, as
Giorgi Bruno. Depoimento. Programa de História Oral.
verdades e as mentiras, as ideologias e as Brasília, Arquivo Público do Distrito Federal, 1989.
esperanças de uma época.
Holston, James. A cidade modernista, uma critica de
Brasília e sua utopia, São Paulo, Companhia das
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