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A CULTURA SURDA

Debora Diniz é doutora em Antropologia e professora da UnB.

"Surdez não é deficiência". Quem afirma isso é Harlan Lane, psicólogo e especialista
na cultura surda. Com ele, estão centenas de surdos que se definem como
estrangeiros em uma cultura oral. Os surdos, dizem os representantes do movimento
surdo, são considerados deficientes simplesmente porque se expressam em outro
idioma, a linguagem dos sinais. Desde a publicação de A Máscara da Benevolência: a
comunidade surda amordaçada, Lane é uma espécie de guru do movimento surdo
internacional. Recentemente, durante o I Congresso Internacional de Surdez, na
Espanha, as idéias de Lane voltaram a provocar controvérsias entre o movimento
surdo.

Lane é herdeiro de uma longa linhagem de teóricos, surdos e ouvintes, que dedicados
à educação dos surdos convenceram-se na supremacia da linguagem dos sinais no
processo pedagógico. O final do século 18 foi um marco para a educação de surdos.
Foi neste período que escolas rivais, os oralistas e os manualistas, firmaram posições
políticas distintas. Do outro lado do movimento de Lane estiveram figuras como
Alexander Graham Bell, um árduo defensor do ensino da linguagem oral para surdos.
Bell, casado com uma mulher surda, não tinha dúvidas do quanto a surdez era uma
deficiência. E foi baseado nesta convicção da surdez como uma desvantagem natural
que Bell combateu ferozmente as escolas de surdos. O surdo deveria ser socializado
em um ambiente ouvinte e proibido de utilizar a linguagem dos sinais, considerada
uma linguagem inferior.

Em resposta a este argumento da surdez como deficiência, Lane desenvolveu o


argumento da surdez como variação cultural. A tese era simples. Um chinês, falante
de mandarim, experimenta um choque cultural e lingüístico ao se ver entre um grupo
de brasileiros, falantes exclusivamente de português. Esse chinês, se não contar com
a benevolência dos brasileiros para a comunicação, se sentirá isolado, comparável ao
que experimenta um surdo numa sociedade oralizada. Um surdo não é um deficiente
nato, mas experimenta a deficiência pela intransigência lingüística de um mundo
oralizado. É o ambiente lingüístico pouco tolerante à diversidade cultural que força o
isolamento e a experiência de desigualdade dos surdos. Um surdo, em um ambiente
bilíngüe ou entre surdos manualistas, expressa suas idéias e sentimentos com vigor.

Mas nem todo surdo se considera um representante do movimento cultural da surdez.


A cultura surda define-se basicamente pela linguagem dos sinais e pelo
reconhecimento de uma história política de resistência à opressão dos surdos, fazendo
com que os defensores do movimento surdo promovam a idéia de que a minoria surda
deve ser entendida como uma minoria étnica em um ambiente ouvinte. A tal ponto
este argumento é forte na comunidade surda que já houve casos de casais surdos
procurarem tecnologias reprodutivas para garantir que seu futuro filho fosse surdo. O
argumento de defesa desta preferência de filhos surdos ao invés de ouvintes é
essencialmente o da identificação cultural: um filho ouvinte em uma família de pais
surdos experimentará o choque lingüístico e cultural entre dois ambientes, o ouvinte e
o surdo.

Entender a surdez como uma variação lingüística e cultural e não como uma
deficiência é uma afirmação que incomoda nossas certezas sobre os padrões de
normal e patológico. Os surdos retiram do indivíduo a razão da opressão pela
deficiência e a devolvem para nossos ordenamentos sociais pouco tolerantes à
diversidade. Nesse sentido é fácil entender porque as idéias de Lane são, ao mesmo
tempo, adoradas e repudiadas. Para alguns, Lane é um charlatão ao defender a
surdez como variação cultural, para outros é a expressão de um processo político
ainda pouco conhecido no País, o de revisão de nossos postulados morais sobre a
deficiência.

Debora Diniz é doutora em Antropologia e professora da UnB.

Debora Diniz é doutora em Antropologia e professora da UnB.