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Os limites da matemática

(Expresso: 26-09-1998)

Gregory Chaitin nunca acabou a Universidade. Mas é um matemático


prodigioso. Com apenas 15 anos começou a demonstrar teoremas revolucionários.

GREGORY Chaitin fala depressa.


Muito depressa, mesmo. Conversar com este
matemático é um exercício, uma corrida para
lhe apanhar as palavras. Na sua atitude calma,
no seu gosto pela vida e no seu humor
transparece toda a sua vivência sul-americana -
a nossa conversa começou num restaurante
indiano e continuou em sua casa, acompanhada
de um vinho do Porto velho. Mas, ao ouvi-lo Gregory Chaitin, em sua casa: «O
que eu descobri foi que há
falar de matemática, percebe-se por que razão é verdades matemáticas que são
que este homem está tão à vontade em Nova verdades sem nenhum motivo. ão
podem ser provadas, porque não
Iorque e no centro Watson da IBM, um dos há estrutura por detrás delas»
centros de investigação mais activos de todo o
mundo - a sua cabeça fervilha com ideias e projectos. E é com uma paixão quase
infantil que nos conta a sua história.

«Quando era jovem comecei por me interessar por física e por astronomia»,
diz Chaitin. «A relatividade, a teoria dos quanta, a cosmologia, o Big Bang... tudo
isso me parecia ser o que há de mais fascinante. Era na altura muito novo, deveria
ter os meus 10 ou 11 anos. Mas comecei também a interessar-me por matemática.
Para estudar ciência é preciso começar pela matemática. E, em matemática, o mais
profundo parecia ser essa história misteriosa dos teoremas da incompletude - isto é,
a matemática a estudar as suas próprias limitações...»
EXPRESSO - Foi a partir daí que começou a trabalhar em torno dos limites da
matemática?

GREGORY CHAITI: - É verdade, a minha ideia fundamental surgiu-me quando


tinha 15 anos. Foi num exame... num exame na Universidade de Columbia para
estudantes de liceu excepcionais. No Verão, após acabar o liceu, demonstrei alguns
resultados ligando a incompletude com a aleatoriedade. No Verão seguinte, estava já na
Universidade, o City College, de Nova Iorque, e terminei o meu primeiro artigo
científico.

EXP. - E que idade é que tinha nessa altura?

G.C. - Quando submeti o artigo tinha 18 anos. Quando o trabalho saiu, um ano depois,
já tinha 19.

EXP. - E esses temas eram discutidos no Liceu e na Universidade?

G.C. - Não, de maneira nenhuma! Mas no Liceu, em vez de me divertir e de andar atrás
das raparigas - só mais tarde é que recuperei o tempo perdido -, devorava livros de
matemática e de física e de ciência... Era uma criança excepcional. Estudei álgebra e
análise por mim próprio, estudei a Teoria da Relatividade, estudei Gödel quando tinha
12 ou 13 anos... Andava fascinado com Gödel... Tinha milhões de projectos, andava
com a minha sacola cheia de livros, sempre a ler, empenhado a toda a hora com os meus
projectos de investigação. Sempre fiz investigação, comecei a fazer investigação aos 10
anos. Sou um autodidacta.

EXP. - E como era o ambiente intelectual em que vivia?

G.C. - Nova Iorque era muito estimulante, havia óptimas bibliotecas... E eu assistia a
aulas interessantíssimas, tinha colegas brilhantes... Foi a altura do Sputnik. Toda a gente
estava assustada com o avanço dos soviéticos. Criaram-se classes especiais em ciência,
classes avançadas para os melhores alunos, escolas especiais. E eu tomei parte nisso,
tirava sempre as cadeiras mais avançadas e mais interessantes. Foi magnífico. Acabei
por estar apenas um ano na Universidade. Nunca acabei a Universidade, pois passei os
dez anos seguintes em Buenos Aires, como programador, antes de ter ido para o sector
de investigação da IBM. O diploma que tenho ganhei-o mais tarde, é um doutoramento
honorífico.

EXP. - Voltando ao seu trabalho, como é que o situa na evolução das ideias
matemáticas?

G.C. - Desde Platão e Euclides, passando por Leibniz, Boole, Hilbert, Peano, Russell e
outros, a tendência da matemática tem sido sempre a de se tornar mais formal,
percebendo cada vez melhor todos os pequenos passos de uma demonstração, indo
assim na direcção da lógica. A certa altura, acreditava-se que se podia obter um sistema
completamente formalizado. Em princípio, poder-se-ia, de uma vez por todas, assentar
em todos os axiomas e em todo um conjunto de regras, como que uma gramática - de tal
forma que verificar uma demonstração seria quase
automático.

EXP. - Chegou-se a acreditar que esse objectivo estava


perto?

G.C. - Sim, de facto Hilbert chegou a pensar que o ia


conseguir, que chegaria à axiomatização perfeita. O que
há de interessante em Hilbert é que ele levantou as questões certas. Disse que ia colocar
toda a matemática num conjunto de axiomas, e que esse conjunto deveria ser consistente
e completo. E que deveria, portanto, haver um procedimento mecânico de decisão que
resolvesse qualquer problema matemático. É o célebre «Entscheidungsproblem». Gödel
reagiu a isto, e mais tarde Turing também. Mas fizeram-no respondendo às questões
colocadas por Hilbert. Só que a resposta foi contrária ao que este esperava.

EXP. - E como reagiu Hilbert aos resultados de Gödel?

G.C. - Hilbert estava no fim da sua vida, e a guerra aproximava-se. Gödel tinha na
altura 25 anos. Não creio que alguma vez tivessem falado um com o outro. Um pouco
mais tarde, Turing voltou ao problema num contexto mais geral, num contexto de teoria
da computação.

EXP. - :ão acha que é estranho que estes problemas sejam discutidos em ciências
da computação, que parecem estar muito distantes das matemáticas puras?
G.C. - Ah! Fico muito contente por me colocar essa questão... É que não é nenhum
exagero dizer que o computador foi inventado por Alan Turing, nos anos 30, para
clarificar um problema na filosofia da matemática!

EXP. - Mas a máquina de Turing é um computador abstracto...

G.C. - Sim, é um computador abstracto, mas equivalente a um computador


convencional. Existia apenas no papel e na cabeça de Turing, num artigo que este
escreveu em 1936. Um artigo magnífico, que li e reli muitas vezes. A resposta de
Turing ao «Entscheidungsproblem» foi negativa, mostrou que não havia nenhum
procedimento mecânico para decidir se um programa computacional alguma vez pararia.
O que é o mesmo que dizer se o programa resolveria o problema. Todo o meu trabalho
roda em torno desta questão, mas discutindo a probabilidade de paragem e não o
problema da paragem.

EXP. - Isso quer dizer que a teoria da computação está muito perto das
matemáticas puras e da lógica...

G.C. - Exactamente! A teoria da computação começou como lógica. A lógica estava à


procura de procedimentos automáticos, de encontrar verdades matemáticas com uma
linguagem universal. Ora isso é impossível, como o mostrou Gödel, como o mostrou
Turing e como o mostra, ainda com mais generalidade, o meu trabalho. Mas o que se
descobriu então é que se pode ter uma linguagem universal para a computação... não
para o raciocínio, mas para a computação. O sonho dos lógicos do princípio do século
transformou-se numa realidade diferente, a realidade da computação, que é o maior
sucesso dos dias de hoje.

EXP. - E qual foi a sua abordagem em relação ao problema dos limites da


matemática?

G.C. - O que eu fiz foi medir a informação... a informação contida nos axiomas e a
informação contida nos teoremas. As questões que coloquei foram completamente
diferentes. Porque é que - perguntava eu -, por vezes, não é possível provar certos
enunciados, apesar do esforço de gerações e gerações de matemáticos? Não será, afinal,
porque a própria matemática tem resultados aleatórios, tal como a física? Não será
porque aquilo que Gödel descobriu - que o raciocínio matemático tem limites - é
equivalente a dizer que algumas verdades matemáticas são aleatórias, não têm estrutura?
Não será porque, por vezes, não há nenhum padrão, nenhuma lei para ser descoberta?
Habitualmente, pensa-se que, se algo é verdade, é verdade por uma razão. Como se
chama isso? É o princípio da razão suficiente de Leibniz? Não sei, não sou filósofo... De
qualquer maneira, em matemática, descobrir a razão de alguma coisa chama-se
demonstrá-la. E a tarefa do matemático é descobrir a razão da verdade, encontrar a
demonstração. Ora o que eu descobri foi que há verdades matemáticas - mesmo em
teoria dos números, tendo a ver apenas com a adição e multiplicação de 0, 1, 2, 3, 4, 5...
- que são verdades sem nenhum motivo, são verdades sim, mas por acaso, por acidente,
e por isso escapam ao poder da razão. Não podem ser provadas, pois não há estrutura
por detrás dessas verdades.

EXP. - Mas, então, isso não depende dos axiomas?

G.C. - É claro que depende dos axiomas, e tudo se pode


«demonstrar» se o incluirmos nos axiomas... Mas eu construí
um objecto matemático, um número real, a que chamo
«ão sou um
Ómega... carniceiro, não reduzo
a matemática à física.
A oposição absoluta
EXP. - Trata-se do «célebre» número de Chaitin?
que se tem traçado
entre as duas áreas não
G.C. - Sim, há quem lhe chame assim. Esse número, que tem sentido. A
matemática não é
corresponde à probabilidade de paragem, não pode ser
apenas feita de
calculado. Os seus dígitos são impossíveis de conhecer, no certezas»
essencial. Basicamente, com n dígitos de axiomas consegue-se
obter n dígitos desse número. Trata-se de um número tão complicado que escapa a
qualquer sistema de axiomas. A única maneira de o obter a partir de axiomas é… incluí-
lo nos axiomas.

EXP. - Isso não corresponde à sua definição de aleatoriedade?

G.C. - É verdade, cada um dos dígitos deste número - ou cada bit, como se preferir -
aparece como que por acaso, sem estrutura. O raciocínio é impotente na tentativa de
encontrar um padrão... Trata-se de um objecto matemático perfeitamente definido e
determinado, mas é impossível calculá-lo dígito a dígito, apesar de cada dígito ter um
valor perfeitamente definido.
EXP. - Imagino que deva haver muitos matemáticos que achem estranho o seu
trabalho...

G.C. - Os matemáticos puros consideram por vezes o que eu digo como


incompreensível ou, pelo menos, como de «mau gosto». Ora eu sou um matemático,
adoro a matemática, trabalho na tradição matemática, construo demonstrações. O que
faço é um auto-exame, um estudo da potência do raciocínio matemático, utilizando
métodos matemáticos.

EXP. - Embora pense que a matemática muitas vezes adopta uma atitude quase
empírica...

G.C. - Julgo que a matemática tem de ser feita um pouco como a física - é preciso
avançar novos axiomas. Gödel disse isso várias vezes, tal como o próprio Russell.
Einstein, um físico, e Gödel, um matemático, que eram grandes amigos em Princeton,
acabavam por ter uma visão parecida. Einstein dizia que toda a matemática, começando
pelos próprios números naturais, tem origens empíricas e que nós inventamos os
números tal como inventamos os conceitos da física; o importante é que a construção
teórica funcione. É uma visão muito empírica de um físico. A posição de partida de
Gödel é oposta. Tal como a maioria dos matemáticos, ele não se questiona sobre onde
existem os números, onde existem os conceitos matemáticos. E eu também faço
matemática da mesma maneira. Gödel tem a visão tradicional. Mas o que diz é que, se
os números são tão reais como as mesas e as cadeiras e os electrões e os protões, então
para descobrir as propriedades do mundo matemático podem-se utilizar os mesmos
métodos que os cientistas usam para descobrir as propriedades do mundo físico.
Acabam ambos por afirmar que se pode trabalhar empiricamente em matemática e
avançar novos postulados à medida que isso se torna necessário. Essa é a minha
conclusão, pois o meu trabalho mostra que para ir mais longe é necessário assumir mais.

EXP. - Muitos matemáticos poderão dizer que isso não é importante, pois, de uma
maneira ou de outra, a construção matemática far-se-á sempre da mesma
maneira...

G.C. - Não julgo que isso seja verdade. Há já várias áreas em que se está a construir a
matemática de acordo com esta visão quase empírica. Por exemplo, em teoria da
computação admite-se que há os chamados problemas «duros», problemas de tal
complexidade que os custos dos algoritmos são «não polinomiais», são exponenciais.
Ora ninguém até hoje conseguiu demonstrar que isso é verdade. E é sempre possível,
para cada problema, que apareça mais tarde um algoritmo mais eficiente, de
complexidade não exponencial. Mas os teóricos admitem que haja problemas «duros».
Isso transformou-se num novo postulado por razões empíricas. O mesmo se passa em
criptografia, por exemplo, em que se acrescentou como axioma que a factorização em
números primos é um problema «duro». Também nunca ninguém o demonstrou, mas
toda a gente o aceita.

EXP. - Isso não será, simplesmente, uma hipótese de trabalho?

G.C. - Sim, sem dúvida, mas é uma hipótese de trabalho que se utiliza já há muito
tempo. Na realidade, não é isso um axioma? Mas, chame-se-lhe o que se quiser chamar,
a realidade é que se está a proceder exactamente como os físicos quando investigam o
Universo. Eu sou um matemático e não um físico. Não sou um carniceiro, não quero
reduzir a matemática à física. Mas a oposição absoluta que se tem traçado não tem razão
de ser. Não há uma matemática puramente formal, por um lado, e, por outro, uma física
essencialmente empírica. Trata-se de uma questão de grau. No fundo, o que digo é que
também a matemática não é puramente construída por certezas absolutas. «That's all!»...

Texto de UO CRATO