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O EMPIRISMO L OGICO ´

seus antecedentes, suas cr´ıticas

Pierre Jacob

Tradu¸c˜ao Teresa Campello, Rˆomulo Gaudˆencio do Rego e Giovanni S. Queiroz

2

Tradu¸c˜ao de L’Empirisme Logique: ses ant´ecedents, ses critiques, Editi- ons de Minuit (Paris), 1980.

Sum´ario

Agradecimentos

iii

Pref´acio

1

  • 1 A realidade dos objetos l´ogicos e matem´aticos:

o logicismo de Frege, Russell e Moore

19

  • 1.1 O rep´udio do idealismo e a defesa da abstra¸c˜ao

22

  • 1.2 O estatuto das proposi¸c˜oes no atomismo platˆonico

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25

  • 1.3 Denota¸c˜ao segundo Russell em 1903 e referˆencia segundo Frege 28

  • 1.4 Conceitos e coisas em Russell 1903; conceitos e objetos em Frege 35

  • 1.5 A realidade das rela¸c˜oes e a cr´ıtica do monismo e do monadismo 41

  • 1.6 Por que Russell e Moore acreditaram que a l´ogica ´e sint´etica? 45

  • 2 A l´ogica contra a metaf´ısica: o nascimento do positivismo l´ogico

55

  • 2.1 O legado de Russell: a teoria das descri¸c˜oes e a teoria simples

 

dos tipos

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  • 2.2 O impacto do Tractatus

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  • 2.3 A Forma¸c˜ao do Wiener Kreis

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  • 2.4 A sintaxe l´ogica da linguagem segundo Carnap

 

74

  • 2.5 Sintaxe e semˆantica

 

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  • 3 A liberaliza¸c˜ao do empirismo l´ogico

 

89

  • 3.1 A indu¸c˜ao e o reducionismo

 

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  • 3.2 A teoria verificacionista da significa¸c˜ao cognitiva

 

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96

  • 3.3 A cr´ıtica ao operacionalismo

 

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  • 3.4 O empirismo, o convencionalismo e a teoria da relatividade

 

restrita

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  • 3.5 O dilema do te´orico

 

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111

ii

SUM ARIO ´

  • 4 Como fazer a barba de Plat˜ao com a navalha de Occam

119

  • 4.1 O empirismo e o estatuto da ontologia

 

122

  • 4.2 Nominalismo, platonismo e extensionalismo

 

124

  • 4.3 A reabilita¸c˜ao da ontologia e o novo ordenamento da linguagem127

  • 4.4 A opacidade referencial e a analiticidade

 

133

  • 4.5 Quine e a doutrina ling¨u´ıstica das verdades l´ogicas

 

139

  • 5 A naturaliza¸c˜ao do empirismo

 

145

  • 5.1 O holismo e o empirismo

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147

  • 5.2 Revogabilidade e essencialismo

 

152

  • 5.3 Quine ´e convencionalista?

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162

  • 5.4 Os paradoxos da confirma¸c˜ao indutiva de Hempel e Goodman 170

  • 6 A revolta contra o empirismo

 

175

  • 6.1 A id´eia de uma l´ogica da descoberta cient´ıfica

 

177

  • 6.2 Os “paradigmas” n˜ao s˜ao nem verdadeiros nem falsos

 

179

  • 6.3 A racionalidade cient´ıfica segundo Popper

 

182

  • 6.4 A cr´ıtica ao modelo D N de explica¸c˜ao e `a teoria empirista

da redu¸c˜ao

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186

  • 6.5 Os paradigmas s˜ao “incomensur´aveis”?

 

191

  • 6.6 Vocabul´ario descritivo e cren¸cas

 

194

Ep´ılogo

A renova¸c˜ao do realismo

 

199

Tarski e o realismo

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201

A teoria causal da referˆencia

 

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207

Bibliografia Selecionada

 

217

Agradecimentos

Agrade¸co a Hilary Putnam, John Murdoch e I. Bernard

Cohen que me ensinaram muito; discuti freq¨uentemente

e durante muito tempo com Richard Carter e Bruno Ga-

rofalo. Enfim ´eramos seis amigos a escrever uma tese,

na mesma ´epoca, em Cambridge, Mass., trˆes historiado-

res da ciˆencia, dois economistas e eu. Fal´avamos entre

n´os dos nossos trabalhos. Marie, Paule Donsimoni, Ray

Condratas, Robert McCormick, Joseph Maline e Hera-

klis Polemarchakis, lembrar-se-˜ao.

Sou reconhecido `a Funda¸c˜ao Harkness como tamb´em

Fritz Thyssen Stiftung e a D.G.R.S.T de terem me con-

cedido uma bolsa entre setembro de 1973 e junho de 1975

e para o ano de 1979-1980, respectivamente. Esta, em

particular, feita atrav´es da Funda¸c˜ao Casa das Ciˆencias

do Homem.

Enfim agrade¸co a Jacques Mehler pelo seu encoraja-

mento.

iv

O Empirismo L´ogico

Pref´acio

Um francˆes que chega a Londres encontra as coisas

muito mudadas tanto na filosofia como em tudo. Dei-

xou um mundo cheio e o encontra vazio; em Paris se

vˆe o universo composto de mat´eria sutil; em Londres

n˜ao se vˆe nada disto

...

Entre

vossos cartesianos tudo

se faz por uma impuls˜ao que n˜ao se compreende; na

casa de M. Newton por uma atra¸c˜ao que tampouco

se compreende a causa.

Voltaire, Cartas filos´oficas.

Os franceses n˜ao gostam da filosofia anal´ıtica. Para eles, ´e um produto

tipicamente anglo-saxˆonio no qual a l´ogica e a ling¨u´ıstica, o empirismo e o

positivismo disputam espa¸cos. Qual o interesse em perguntar se ´e absurdo

ou se ´e falso dizer que a irm˜a do rapaz, que ´e filho unico, ´ ´e o filho da minha

vizinha, que ´e vi´uva, e cujo marido tem uma farm´acia? A filosofia anal´ıtica

se assemelharia a este enigma est´eril: um viajante chega a uma encruzilhada:

um caminho leva a uma cidade em que os habitantes dizem a verdade e o

outro a uma cidade em que todos mentem. O visitante que deseja chegar

`a primeira n˜ao sabe qual caminho deve seguir. Encontra um homem na

encruzilhada mas ignora se ele diz a verdade ou se mente. Com uma s´o

pergunta pode o nosso viajante saber qual o caminho desejado. Que pergunta

tem que dirigir ao homem? 1 No pa´ıs de Descartes e de Poincar´e, a l´ogica

elementar chateia. Quando se torna t´ecnica ela ´e recha¸cada.

1 H´a duas perguntas poss´ıveis: o viajante pode perguntar a seu interlocutor: “se eu

perguntasse a um morador de sua cidade onde se encontra a vila das pessoas que sempre

dizem a verdade, o que ele me responderia?”. Suponha que o interlocutor morasse na

cidade das pessoas que dizem a verdade; ent˜ao ele indicaria o bom caminho a seguir.

Mas se ele morasse na cidade dos mentirosos ent˜ao ele mentiria duas vezes: ele contaria,

mentindo, a mentira de um habitante de sua vila. Mas duas mentiras, como uma dupla

nega¸c˜ao, o leva a dizer uma senten¸ca verdadeira. A outra pergunta poss´ıvel: “se eu

perguntasse a um morador da outra cidade onde se encontra a cidade dos mentirosos, o

que ele me responderia?”. Se o interlocutor diz a verdade, contaria, sem mentir, uma

mentira. Se o interlocutor mente, ele relataria uma senten¸ca mentindo. Logo ele mentiria.

A ` primeira quest˜ao o interlocutor, qualquer que seja ele, responder´a com uma verdade; `a

segunda quest˜ao ele responder´a com uma mentira.

2

O Empirismo L´ogico

Para a filosofia francesa da ciˆencia, admiradora de Gaston Bachelard,

fora da hist´oria n˜ao h´a epistemologia poss´ıvel; e hist´oria cont´ınua n˜ao ´e

hist´oria autˆentica. A epistemologia p´os-bachelardiana tem pois dois inimigos:

o empirismo e o positivismo. O primeiro escamoteia a “ruptura” entre o senso

comum e as ciˆencias; o segundo apagaria as descontinuidades que ocorrem

na hist´oria das ciˆencias.

Para um historiador-fil´osofo, da ´ındole de Georges Canguilhem 2 “o po-

sitivismo se funda na lei dos trˆes est´agios, que ´e uma lei do progresso; isto

quer dizer, segundo Augusto Comte, uma lei do desenvolvimento cont´ınuo

cujo fim est´a j´a no come¸co”. Que Canguilhem s´o se refira a Comte ´e seu

direito. Que ele entenda a palavra “positivismo” num sentido diferente da-

quele que ´e dado por Carnap, Reichenbach, Ayer, Popper ou Quine, para

quem o positivismo designa ao mesmo tempo tentativas de constru¸c˜ao de

uma linguagem da ciˆencia em termos de dados sensoriais e a esperan¸ca de

eliminar a metaf´ısica gra¸cas `a an´alise l´ogica, ningu´em poder´a lhe contestar.

Mas por que - se o positivismo consiste em acreditar no progresso cont´ınuo

da ciˆencia - acrescentar-lhe duas doutrinas complementares: que as ciˆencias

ter˜ao um fim e que este fim est´a presente desde o come¸co?

Lendo certas palavras de Michel Foucault, poder-se-ia acreditar que o

positivismo - no sentido de Canguilhem - e a fenomenologia transcendental

fomentaram uma esp´ecie de complˆo para retardar o inevit´avel aparecimento

de uma ciˆencia hist´orica, isto ´e, de um pensamento da descontinuidade. Se-

gundo M. Foucault 3 , a continuidade “seria, para a soberania da consciˆencia,

um abrigo privilegiado ( o correlato indispens´avel da fun¸c˜ao fundante

...

),

do sujeito ( ).Fazer

...

da an´alise hist´orica o discurso do cont´ınuo e fazer da

consciˆencia humana o sujeito origin´ario de todo futuro e de toda pr´atica s˜ao as

duas faces de um mesmo sistema de pensamento( Para a hist´oria em sua

...

).

forma cl´assica, a descontinuidade ´e ao mesmo tempo o dado e o impens´avel”.

Quem poderia acreditar que Jean-Paul Sartre ´e apenas um Augusto Comte

reencarnado e fantasiado?

Para a epistemologia p´os-bachelardiana, a modernidade fica suspensa com

o nascimento da ciˆencia hist´orica. Mas qual ´e o verdadeiro jogo na con-

trov´ersia sobre o cont´ınuo e o descont´ınuo? N˜ao seria, como escreve malicio-

samente Michel Serres 4 , “substituir o vocabul´ario moral ( dos progressos

...

)

cont´ınuos da consciˆencia pelo l´exico do combate pol´ıtico certeiro sobre um ad-

vers´ario a destruir num momento dado ou calculado; substituir o vocabul´ario

da reforma pelo da revolu¸c˜ao?”.

2 G. Canguilhem, 1975, p. 186.

3 M. Foucault, 1969, p. 16-22.

Pref´acio

3

A epistemologia do descont´ınuo seria pura e simplesmente uma linha

´

pol´ıtica? E o que sugere Althusser 5 , para quem a filosofia que n˜ao tem

nem objeto nem hist´oria, enuncia “teses”, que n˜ao s˜ao nem verdadeiras nem

falsas, mas justas ou injustas politicamente, assim como as guerras. Em uma

guerra justa todos os meios s˜ao bons - como testemunha a cruzada contra

o empirismo, cujo sentido, em francˆes, sempre lembra o charlatanismo da-

queles que, como escreviam na Enciclop´edia Diderot e d’Alambert 6 “tratam

as doen¸cas com receitas secretas sem nenhum conhecimento de medicina”.

Porque n˜ao qualificar de “empiristas” estes retardados mentais que ainda

acreditam que o conceito de c˜ao uiva ou que a classe de dentes-de-le˜ao ´e um

´

dente-de-le˜ao. E melhor, entretanto, assegurar seus pressupostos e decretar

que “em sentido maior”, “o processo empirista de conhecimento” segundo o

qual conhecer ´e retirar “a casca que recobre a amˆendoa, a pele que recobre a

fruta, o v´eu que recobre a mo¸ca, a verdade, o deus, a est´atua” pode abrigar

tanto um empirista racionalista quanto um empirista sensualista, e que j´a se

encontra presente no pr´oprio pensamento de Hegel 7 .

A pol´ıtica facilita a dramatiza¸c˜ao. Para a epistemologia ap´os Bachelard,

Marx, Nietzsche e Freud causaram um tal “choque”, “infligiram uma fe-

rida igualmente profunda no pensamento ocidental” 8 que nossa ´epoca “pode

aparecer um dia como marcada pela experiˆencia mais dram´atica e mais tra-

balhosa” da “hist´oria da cultura humana!” 9 . Qual foi a subvers˜ao realizada

pelos profetas dos nossos tempos? Fizeram-nos descobrir e apreender o sen-

tido dos gestos, os mais simples da existˆencia: ver, falar, ler - “estes gestos

que colocam os homens em rela¸c˜ao com suas obras, e estas obras voltam em

sua pr´opria dire¸c˜ao como ‘ausˆencia de obras’” 10 . Eles “nos remeteram a uma

nova interpreta¸c˜ao”, a uma nova “hermenˆeutica”; eles reconstru´ıram “sob

nossos olhos” alguma coisa que Marx denominou de “hier´oglifos” 11 .

Para uma epistemologia p´os-bachelardiana, a falta imperdo´avel do empi-

rismo ´e a de acreditar que existem fatos. Como podemos, ap´os Bachelard,

deixar de saber que os fatos s˜ao sempre “constru´ıdos”? N˜ao existem fatos

e sim signos a decifrar. A ciˆencia ´e uma leitura “sintomal” – do texto dos

seus predecessores, Galileu e Marx revelaram o n˜ao-dito que s´o se apresenta

`aqueles que sabem ler nas entrelinhas, isto ´e, nos brancos, na ausˆencia silen-

ciosa, que ´e o que d´a sentido ao texto. Os hermeneutas p´os-bachelardianos

5 L. Althusser, 1969, passim.

6 Artigo “Empirique”.

7 L. Althusser, 1968, p. 38-41.

8 M. Foucault, 1967, p. 185.

9 L. Althusser, 1968, p. 12.

10

Ibidem.

4

O Empirismo L´ogico

falam a linguagem da teologia crist˜a: eles decifram o sentido misterioso,

sempre ausente (como o corpo de Cristo) na presen¸ca plena de um texto que

s´o tem significado (como o peda¸co de p˜ao) quando ´e relacionado, como um

signo, ao sentido ausente.

Apesar das aparˆencias, a epistemologia p´os-bachelardiana e o existenci-

alismo, que n˜ao se amam, tˆem um ponto em comum: o niilismo. O por-si

sartriano, condenado a ser livre, n˜ao tem outra escolha a n˜ao ser escolher sem

raz˜ao. Para a epistemologia p´os-bachelardiana, que ´e uma hermenˆeutica, a

ciˆencia ´e uma leitura, pois o mundo n˜ao se comp˜oe de fatos, mas de signos.

Como o culto de Marx, Nietzsche e Freud excluiu que os hier´oglifos tenham

sido deixados por Deus, eles s´o podem simbolizar o insaci´avel desejo de von-

tade de potˆencia. Uma teoria cient´ıfica ´e uma leitura. Toda leitura ´e uma

interpreta¸c˜ao que serve a um poder (a uma ideologia, a uma classe, ou a um

sexo). Dito de outra maneira, a unica ´ raz˜ao de ser das teorias cient´ıficas ´e a

que lhe ´e conferida pelos interesses de classe ou a vontade de excluir o Outro.

Isto ´e, elas s˜ao irracionais.

Pode-se, pelo prazer de provocar, sustentar que toda teoria cient´ıfica tem

como raz˜ao de ser a vontade de potˆencia. Mas n˜ao se pode esperar con-

vencer racionalmente um interlocutor c´etico - a menos que o epistem´ologo

nietzschiano se apresente como uma refuta¸c˜ao viva de sua pr´opria teoria.

O niilismo epistemol´ogico, como um relativismo integral, ´e incoerente. Ele

pretende que toda verdade seja relativa - a servi¸co de uma ideologia, de uma

classe, ou de sua categoria s´ocio-pol´ıtica favorita. Ent˜ao, se tivesse raz˜ao,

deveria tomar sua verdade por a verdade. Mas, proclamando a relatividade

de toda verdade, ele afirma a relatividade da sua. Sua afirma¸c˜ao ´e, portanto,

antinˆomica: ele se eleva acima de sua verdade no mesmo momento em que

pretende que isso ´e imposs´ıvel.

Este niilismo nada tem a ver com o relativismo cultural no sentido do

etn´ologo ou do historiador. Estes observam culturas distantes da sua, no

tempo e no espa¸co. Sua descri¸c˜ao ´e relativa a sua cultura de referˆencia.

As culturas descritas s˜ao relativas ao ambiente que as envolve, aos fatos

dispon´ıveis, ao conjunto de cren¸cas que elas nutrem. Contrariamente ao

niilista, nem o etn´ologo, nem o historiador excluem a existˆencia de fatos

suscet´ıveis de apoiarem as descri¸c˜oes que eles prop˜oem.

O que se pode concluir de pessoas que n˜ao podem ficar acima de seus

pr´oprios esquemas conceituais? Que todas as ´epocas e todas as culturas

s˜ao, em rela¸c˜ao ao olho do observador, desprovidas de racionalidade? O

observador poder´a concluir ent˜ao, por indu¸c˜ao, que sua descri¸c˜ao ´e irracional?

Contrariamente ao que acreditam os hermeneutas p´os-bachelardianos,

se Deus n˜ao existe, nem tudo ´e permitido. A repugnˆancia que inspira o

darwinismo aos fil´osofos franceses testemunha este falso dilema. Eles ja-

Pref´acio

5

mais poder˜ao admitir que a cultura cient´ıfica ´e tamb´em o resultado de uma

evolu¸c˜ao biol´ogica. Eles continuar˜ao preferindo os determinismos sociol´ogicos

e pol´ıticos aos tateamentos descritos pela teoria darwiniana da evolu¸c˜ao pela

sele¸c˜ao natural. A teoria da relatividade, a mecˆanica quˆantica, a teoria dos

n´umeros s˜ao produtos mais ou menos aleat´orios de uma utiliza¸c˜ao das ca-

pacidades cognitivas da esp´ecie humana, confrontada `as restri¸c˜oes do meio

ambiente. Estes s˜ao os instrumentos de domina¸c˜ao de uma fra¸c˜ao da socie-

dade sobre o resto da popula¸c˜ao, submetida `a vontade de potˆencia. Para a

epistemologia s´ocio-pol´ıtica, o que importa s˜ao as estrat´egias, gra¸cas `as quais

se instauram as diferen¸cas e desigualdades sociais e sexuais. A interpreta¸c˜ao

parisiense da incur´avel “ferida” infligida ao pensamento ocidental por Marx,

Nietzsche e Freud leva a hermenˆeutica (pol´ıtica e sexual) a socorrer um tabu

cat´olico em perigo: o homem n˜ao ´e um animal. A filosofia francesa das

ciˆencias est´a atrasada uma revolu¸c˜ao copernicana.

Para infelicidade dos epistem´ologos franceses p´os-bachelardianos, Darwin

era inglˆes. O darwinismo, que ´e o contr´ario da semi´otica, n˜ao teve a honra

de figurar entre os profetas da epistemologia francesa. Mas se o homem ´e um

animal, a epistemologia precisar´a, um dia ou outro, interrogar-se sobre suas

rela¸c˜oes com a teoria da evolu¸c˜ao pela sele¸c˜ao natural: que vantagem seletiva

a teoria quˆantica das part´ıculas atˆomicas pode trazer `a esp´ecie humana?

Aqueles que n˜ao gostam do darwinismo tˆem, sem d´uvida, suas raz˜oes - mas

n´os temos o direito de lhes pedir uma outra solu¸c˜ao: talvez, apesar de tudo,

Deus tenha criado o mundo em seis dias antes de ter um bom e merecido

repouso ao domingo ...

De que enfermidade congˆenita sofrem os autores anglo-saxˆonios? Quando

Canguilhem sugere que “em mat´eria de hist´oria e epistemologia” o “interlo-

cutor francˆes privilegia os historiadores e os epistem´ologos anglo-saxˆonios a

linha anal´ıtica” 12 - referindo-se mais a Duhem (representante positivista da

hist´oria cont´ınua) que a Koyr´e (partid´ario das rupturas hist´oricas) -, ele pro-

longa inutilmente um estado de guerra fict´ıcio. Os analistas anglo-saxˆonios,

historiadores ou fil´osofos das ciˆencias, n˜ao fazem o percurso da epistemologia

p´os-bachelardiana. Mas talvez esta seja uma t´atica de ades˜ao mais eficaz do

que tocar alarme inventando advers´arios perigosos.

A filosofia das ciˆencias pode, em nossos dias, n˜ao ser estritamente hist´orica

´

nem se reduzir `a pol´ıtica? E isto o que pretendem os l´ogicos anglo-saxˆonios

- que ali´as s˜ao t˜ao anglo-saxˆonios quanto alem˜aes, austr´ıacos e poloneses.

Nenhuma fatalidade subordina os l´ogicos ao positivismo. As escolhas ra-

cionais estariam limitadas `as demonstra¸c˜oes feitas com giz e quadro negro

pelos matem´aticos ou `as discuss˜oes de experiˆencias de laborat´orio entre os

6

O Empirismo L´ogico

f´ısicos e os qu´ımicos de blusa branca? Esta opini˜ao foi defendida pelos po-

sitivistas l´ogicos do C´ırculo de Viena, mais por convic¸c˜ao moral do que por

necessidade l´ogica. Existe ali´as um puritanismo salutar na doutrina positi-

vista que se restringe ao discurso sensato, `a dedu¸c˜ao e `a experiˆencia. Nada

obriga os fil´osofos a se interessarem pela ciˆencia. Mas em epistemologia ´e

melhor se perguntar sobre as raz˜oes do sucesso da f´ısica do que se interrogar

sobre as ciˆencias humanas. Talvez a f´ısica seja menos puritana do que acre-

dita o positivismo, mas sempre haver´a tempo para reabilitar a fantasia da

imagina¸c˜ao.

O manuseio da l´ogica ou da ling¨u´ıstica n˜ao torna seus defensores m´ıopes

ou surdos diante do caos da nossa ´epoca. Mas entre a filosofia anal´ıtica e

a epistemologia p´os-bachelardiana, sempre permanecer´a um abismo se esta

continuar afirmando seus objetivos e seus m´etodos atrav´es da luta titˆanica

dos trˆes grandes “mestres da suspeita” contra os trˆes “H” (Hegel, Husserl e

Heidegger 13 ). A filosofia anal´ıtica se constr´oi como uma avers˜ao em respeito

ao idealismo alem˜ao p´os-kantiano, notadamente o hegelianismo: para a filoso-

fia anal´ıtica, Kant ´e o ultimo ´ dos grandes fil´osofos cl´assicos e a fenomenologia

transcendental lhe ´e estrangeira.

Como pˆode verificar um observador atento 14 h´a no cora¸c˜ao da fenome-

nologia husserliana uma cren¸ca segundo a qual se pode, gra¸cas a um “olho

´

mental” ter a vis˜ao dos universais, l´ogicos ou matem´aticos, por exemplo. E

o que Husserl denominava de “intui¸c˜ao eid´etica”. Quaisquer que tenham

sido os esfor¸cos de Husserl para dissociar, sob o efeito das cr´ıticas de Frege,

o percurso da fenomenologia do psicologismo, a descida obscura e laboriosa

de fenomen´ologo `as camadas sedimentadas do ego transcendental n˜ao traz

nenhuma luz a uma filosofia que se inspira em Frege, Russell e sobretudo em

Wittgenstein. Imaginem o que pode pensar desta orgia egol´ogica o autor das

seguintes senten¸cas 15 : “Por que um c˜ao n˜ao pode simular a dor? Ele ´e muito

honesto? ( )

...

Diz-se que um cachorro pede que seu dono lhe bata; mas n˜ao

que o seu dono o bata amanh˜a. Porquˆe?”

Contra a pesada abordagem dos “gigantes sonolentos do p´os-kantismo”,

os fundadores da filosofia anal´ıtica, tais como os liliputianos, op˜oem “as cor-

reias, as flechas e as cordas cortantes da l´ogica, das senten¸cas curtas e do

inglˆes comum” 16 .

Em 1914, Russell se contentava com o zelo excessivo que confere o sen-

timento de realizar uma revolu¸c˜ao, em comparar o que ele denominava “o

13 Cf. V. Descombes, 1979.

14 E. Tugendhat, 1972, p. 257.

15 L. Wittgenstein, 1953, trad. inglesa G. E. M. Anscombe, 1953 § 250, p. 90 e § 650, p.

116.

16 M. White, 1956, p.vii.

Pref´acio

7

m´etodo anal´ıtico”, ao m´etodo introduzido por Galileu na f´ısica 17 : “a substi-

tui¸c˜ao de resultados limitados, detalhados ou verific´aveis `as grandes genera-

lidades inverific´aveis que s´o tˆem por recomenda¸c˜ao uma certa influˆencia da

imagina¸c˜ao”. A filosofia n˜ao tem um m´etodo como a ciˆencia. Mas a filo-

sofia anal´ıtica tem um estilo de argumenta¸c˜ao: ela procede por exemplos e

contra-exemplos.

Nascida um pouco antes do in´ıcio deste s´eculo, a filosofia anal´ıtica ´e bas-

tante ampla para abrigar Frege, Russell e Moore, Wittgenstein e Carnap,

Austin e Quine, Strawson, Putnam e Dummett, Davidson e Feyerabend,

Katz, Fodor e Kripke. Seu mobili´ario se reparte em dois andares. No

primeiro, os m´oveis do senso comum. Como escreve Quine 18 : “Come¸ca-se

com as coisas comuns” - os objetos macrosc´opicos, de tamanho m´edio, cuja

existˆencia todos aqueles que n˜ao s˜ao fil´osofos acreditam. Contrariamente aos

micr´obios, `as mol´eculas, aos ´atomos, aos el´etrons ou `a floresta de Fontaine-

bleau, a Paris, `a Terra, ao sistema solar e `as gal´axias, elas s˜ao vis´ıveis a olho

nu, ou fotografados com um m´ınimo de precau¸c˜oes. Digamos que, para os

fazer reais, n´os temos a necessidade de uma cadeia m´ınima de inferˆencias. No

segundo andar est˜ao os m´oveis mais ex´oticos, por exemplo as significa¸c˜oes,

as proposi¸c˜oes, os mundos poss´ıveis, que algu´em, como Quine, prefere deixar

no dep´osito de objetos perdidos, para troca ou venda.

Recentemente Dummett e Hacking atribu´ıram a Frege a verdadeira pa-

ternidade da tradi¸c˜ao anal´ıtica, afirmando que, com ele, a an´alise l´ogica das

significa¸c˜oes ocupa a pra¸ca central antes ocupada pela “epistemologia” (no

sentido inglˆes, de teoria do conhecimento); na filosofia, depois de Descartes,

“o que quer dizer

...

?”

substitui “o que sei com certeza?” ou “como posso

saber tanto quanto sei?” 19 . No meu ponto de vista, a teoria do conhecimento

perdeu mais o seu car´ater cartesiano do que desapareceu.

Durante o s´eculo XX, o conhecimento cient´ıfico modificou certezas que

ningu´em poderia imaginar, quais sejam: que somente a teoria euclidiana

´e capaz de descrever o espa¸co f´ısico; que n˜ao importa a qual velocidade,

dois acontecimentos distantes um do outro s˜ao simultˆaneos ou n˜ao; que por

mais que se aprofunde a an´alise da mat´eria, as part´ıculas ter˜ao sempre uma

posi¸c˜ao e velocidade determinadas. Em contrapartida, a cren¸ca cartesiana na

existˆencia de um rol de certezas filos´oficas indubit´aveis a priori foi abando-

nada. Um dos problemas centrais em torno do qual gira a filosofia anal´ıtica

das ciˆencias ´e saber se a l´ogica cl´assica ter´a um dia o destino que conheceu

a geometria euclidiana.

17 B. Russell, 1914a, p. 14.

18 W. V. O. Quine, 1960, p. 1.

19 M. Dummett, 1973; 1978; e I. Hacking, 1975.

8

O Empirismo L´ogico

Russell estava errado em se orgulhar de ter realizado, na filosofia, uma

revolu¸c˜ao “galilaica”. Mas o “m´etodo anal´ıtico” representou um progresso

real: ele permite saber, em filosofia, se n˜ao quem tem raz˜ao, pelo menos quem

est´a enganado. Todo o programa empirista de redu¸c˜ao da linguagem te´orica

das ciˆencias `a linguagem de observa¸c˜ao foi um fracasso. Mas um fracasso

importante. Talvez somente as ciˆencias da natureza possam se gabar de

descobrir a estrutura da realidade. Quando um astrˆonomo prediz a existˆencia

de uma macromol´ecula desconhecida e quando suas previs˜oes s˜ao confirmadas

experimentalmente, ele pode experimentar o sentimento de que suas teorias

descrevem a realidade. At´e o presente, as ciˆencias humanas, mesmo as mais

formalizadas, que constr´oem modelos de comportamento (como a economia

matem´atica), n˜ao suscitam a mesma f´e realista.

Em l´ogica, os resultados mais decisivos, como o teorema de G¨odel sobre

a incompletude da aritm´etica, s˜ao freq¨uentemente negativos: eles provam

que n˜ao poderemos, nunca, provar uma proposi¸c˜ao que todo mundo acredi-

tava que poderia ser demonstrada algum dia. O “m´etodo anal´ıtico” permite,

assim, saber que n˜ao se pode formular os conceitos abstratos da f´ısica na

linguagem dos dados observ´aveis e que ´e improv´avel que se possa, algum

dia, fornecer um crit´erio de “analiticidade” gra¸cas ao qual se poderia deter-

minar se duas express˜oes quaisquer, de uma l´ıngua qualquer, s˜ao sinˆonimas.

Os progressos deste gˆenero parecem com aqueles que foram realizados por

Hume e Kant quando, respectivamente, mostraram que a indu¸c˜ao n˜ao tem

fundamento l´ogico e que a unica ´ “justifica¸c˜ao” poss´ıvel da indu¸c˜ao consiste

em adotar um princ´ıpio a priori, este injustific´avel, como o da causalidade

ou da uniformidade da natureza.

Os fil´osofos anal´ıticos religaram os la¸cos com as ciˆencias que haviam sido

desfeitos pelo idealismo p´os-kantiano. Certos bi´ologos como John Eccles, Pe-

ter Medaver e Jacques Monod renderam homenagem `a famosa teoria de Karl

Popper sobre a “falseabilidade” ou a refutabilidade das teorias cient´ıficas. O

ling¨uista Noam Chomsky reconheceu, implicitamente, sua d´ıvida para com

as teorias de Goodman e Quine.

A hist´oria come¸ca com Frege, portanto, na Alemanha. Sua Begriffssch-

rift data de 1879. Ele criou a l´ogica quantificacional moderna e descobriu

a nota¸c˜ao com quantificadores e vari´aveis com a qual pretendia efetuar a

redu¸c˜ao logicista da aritm´etica `a l´ogica. Em 1892, formulou a distin¸c˜ao en-

tre o sentido e a referˆencia de uma express˜ao ling¨u´ıstica. Dito de outra forma,

Frege funda a diferen¸ca entre a semˆantica intencional e a semˆantica exten-

sional. Morre em 1925, com 77 anos, ignorado pela maioria dos fil´osofos e

matem´aticos.

Husserl admitiu a validade das cr´ıticas que Frege formulou contra seu pri-

meiro livro: A Filosofia da Matem´atica (1891), mas seus trabalhos posteriores

Pref´acio

9

n˜ao demonstram nenhum interesse pelas id´eias de Frege. Frege manteve uma

pequena correspondˆencia com os matem´aticos Dedekind e Zermelo. Hilbert

menciona seus trabalhos. Mas foi com Russell e Carnap que este homem

taciturno e isolado manteve, direta ou indiretamente, seus contatos mais sig-

nificativos.

Russell consolou e consternou Frege, simultaneamente. Gra¸cas ao apˆendi-

ce consagrado `a Leis Fundamentais da Aritm´etica, de Frege, reunido, in

extremis, no volume de seus Principles of Mathematics em 1903, depois

mencionando-o no seu c´elebre artigo “Sobre a Denota¸c˜ao”, em 1905, Rus-

sell divulgou e tornou Frege conhecido do p´ublico inglˆes. Mas a agita¸c˜ao

efetiva e intelectual de Russell, cujas id´eias evolu´ıam com uma rapidez muito

grande, colocou as id´eias de Frege sobre sentido e referˆencia, numa grande

confus˜ao. Al´em disso, no momento em que Frege colocava o ponto final em

Grundgesetze, Russell lhe comunicava, numa carta de 1902 que se tornou

famosa, a descoberta de um paradoxo que desacreditava toda a reconstru¸c˜ao

l´ogica da aritm´etica (cf. cap´ıtulo II, se¸c˜ao I). Sessenta anos depois, Russell

descrevia o comportamento de Frege nos seguintes termos 20 :

Quando penso em seus atos de integridade e grandeza, percebo que n˜ao conheci ningu´em que pudesse rivalizar com a devo¸c˜ao que Frege tinha para com a verdade. A obra de toda a sua vida estava para ser acabada; a maior fonte de seus trabalhos foi ignorada por homens infinitamente menos competentes; seu segundo volume estava pronto para ser editado quando descobriu que sua hip´otese fundamen- tal estava errada; ele reagiu com uma satisfa¸c˜ao intelectual, superando qualquer sentimento de decep¸c˜ao pessoal. Foi quase sobre-humano e um sinal revelador do que os homens s˜ao capazes, a partir do momento em que se debru¸cam sobre o trabalho criador e sobre o conhecimento, em lugar de procurar dominar ou se fazer conhecido.

Wittgenstein, que o visitou em Iena em 1911, deve-lhe o conselho de estu-

dar l´ogica em Cambridge com Russell. E Carnap deve a Frege sua inicia¸c˜ao

em l´ogica entre 1910 e 1914 - nesta ´epoca Frege, apesar dos seus 60 anos, era

ainda mestre assistente na Universidade de Iena.

Aristocrata inglˆes, nascido em 1872, vinte e quatro anos ap´os Frege, Rus-

sell, ao contr´ario, vai al´em de uma atividade profissional. Sua reputa¸c˜ao de

l´ogico, adquirida com os “Principles”, em 1903, foi definitivamente consoli-

dada em 1913 atrav´es da publica¸c˜ao do Principia Mathematica, do qual ´e co-

autor com Whitehead. Ap´os a Primeira Guerra Mundial, Russell n˜ao trar´a

maiores contribui¸c˜oes `a l´ogica e `a matem´atica; interessa-se pelas ciˆencias

20 Carta de Russell a Jean van Heijenoort de 23 de novembro de 1962, in J. van Heije-

10

O Empirismo L´ogico

f´ısicas e pela teoria do conhecimento e se apaixona pela ´etica e pela pol´ıtica.

Sua vida se confunde com o s´eculo. Foi feito prisioneiro por seu pacifismo

antes do fim da Primeira Guerra Mundial; fez enormes esfor¸cos para limitar

o com´ercio de armamento nuclear ap´os a Segunda Guerra; presidiu o tribu-

nal que teve o seu nome e que condenou os Estados Unidos pela invas˜ao no

´

sudeste da Asia.

Durante toda a sua vida, Russell guardou trˆes qualidades: um desprezo

profundo pelo modismo intelectual; um constante interesse pelo mundo cir-

cundante (cient´ıfico, ´etico, pol´ıtico ou de amizade) e um fabuloso ecletismo.

Sobre as Investiga¸c˜oes Filos´oficas de Wittgenstein, que era moda em

Cambridge ap´os a Segunda Guerra Mundial, ele diz, com exagero, n˜ao ter

“encontrado nada interessante”; declara “n˜ao compreender porque uma es-

cola inteira pode encontrar uma grande sabedoria em suas p´aginas” 21 .Quanto

aos fil´osofos da linguagem ordin´aria, que trabalhavam em Oxford, Russell re-

provava seu desinteresse pelas ciˆencias e pela l´ogica 22 .

Seu ecletismo tornar´a sua vida sens´ıvel `as influˆencias das fortes perso-

nalidades que constantemente o cercavam. Dos seus professores e contem-

porˆaneos, em Cambridge, onde estudara, ele receber´a inicialmente a marca

do hegelianismo. Sob a influˆencia de Moore, que foi seu contemporˆaneo,

Russell rejeita o idealismo hegeliano entre 1898 e 1903 e adere a uma filoso-

fia platˆonica da l´ogica e da matem´atica. Sob a influˆencia de Wittgenstein,

que chega em Cambridge em 1912, adotar´a a filosofia da l´ogica expressa no

Tractatus Logico-Philosophicus, publicado em 1921. N˜ao somente Russell

estava pr´oximo de homens que o marcaram (como Moore, Wittgenstein e

o economista Keynes, em Cambridge, depois Tarski, Carnap e Quine, em

Harvard, nos anos de 1939-1940), como tamb´em se preocupou em defender,

obstinadamente, uma filosofia durante os noventa anos em que viveu. Ele

se apaixonava, sobretudo, pela solu¸c˜ao de problemas t´ecnicos (notadamente

l´ogicos) ou por problemas da sociedade na qual vivia.

Moore era contemporˆaneo de Russell. Mais que qualquer outro, contri-

buiu para dotar a tradi¸c˜ao anal´ıtica desta ontologia do senso comum, e cada

um, depois dele, partir´a em dire¸c˜oes diferente. Se Russell ´e o pai do empi-

rismo l´ogico, Moore ´e o avˆo da filosofia da linguagem do senso comum. Como

diz com ingenuidade em sua autobiografia 23 : “Eu n˜ao penso que o mundo ou

as ciˆencias tenham me sugerido algum problema filos´ofico. Mas sim, o que os

outros fil´osofos disseram do mundo ou das ciˆencias”. De acordo com todos

aqueles que o conheceram, Moore trouxe para a filosofia uma extraordin´aria

21 B.Russell, 1959, p. 216.

22 Ibid., p. 225-244.

23 G.E. Moore, in P.A. Schilpp, ed., 1942, p.14.

Pref´acio

11

min´ucia na argumenta¸c˜ao desprovida de toda pretens˜ao enciclop´edica, sem

nenhum desejo de doutrinamento moral e pol´ıtico, e uma desarmante hones-

tidade 24 . Um dia Russell lhe perguntou se dizia sempre a verdade e Moore

mentiu pela primeira vez em sua vida, respondendo “N˜ao”. Quando Russell

lhe apontou que esta afirma¸c˜ao n˜ao parecia vir do fundo do seu cora¸c˜ao,

Moore reconheceu sem vacila¸c˜ao e retomou, amigavelmente, a conversa¸c˜ao 25 .

S˜ao muitos os que consideram Wittgenstein como o maior fil´osofo do

s´eculo. Nascido em Viena em 1889, tem este privil´egio por ter originado

duas escolas que, parcialmente, tra´ıram suas id´eias e se op˜oem radicalmente.

Atrav´es do Tractatus e apesar dele, exerceu uma influˆencia decisiva sobre o

positivismo l´ogico. Por seus cursos em Cambridge, nos anos de 1939-1940,

reunidos ap´os sua morte em diferentes obras p´ostumas, entre elas Inves-

tiga¸c˜oes L´ogicas, fundou, com Moore, a filosofia da linguagem ordin´aria, que

considerava trivial.

Qualquer que seja o julgamento que inspira os diferentes est´agios de seu

pensamento, Wittgenstein n˜ao deixou um trabalho sistem´atico e preferiu se

exprimir sob a forma de aforismos. De cultura austro-alem˜a, ele terminou por

se estabelecer em Cambridge em 1929. Mas seu temperamento tr´agico cavou

entre ele e seus amigos, Russell e Keynes, mais alegres e sarc´asticos, uma

incompreens˜ao que iria aumentando. Na mesma ´epoca que Russell estava

preso por seu pacifismo, Wittgenstein lutava no front na armada austr´ıaca.

Russell, que apesar da obscuridade dos aforismos, foi um adepto do Tractatus,

formulou um julgamento negativo sobre a obra realizada por Wittgenstein

depois de 1930, e este considerou superficial os trabalhos de Russell depois

de 1913 26 . Nada testemunha melhor esta mistura constante de orgulho e de

enorme desespero, que caracteriza Wittgenstein, que o pref´acio e o fim do

Tractatus:

A verdade das id´eias que s˜ao aqui comunicadas me parece ina-

tac´avel e definitiva. Eu acredito, por conseguinte, ter descoberto, sob

todos os pontos essenciais, a solu¸c˜ao final destes problemas. ( E se

...

)

n˜ao me engano, ent˜ao, a segunda coisa que constitui o valor de meu

trabalho ´e que mostra at´e que ponto se pode avan¸car quando estes

problemas s˜ao resolvidos.

Qualquer pessoa que tenha compreendido o verdadeiro sentido do Trac-

tatus dever´a render-se `a evidˆencia: cada um dos aforismos, salvo o ultimo, ´ ´e

“desprovido de significa¸c˜ao”. O ultimo ´ mostra que o leitor deve utilizar cada

24 Cf., por exemplo, M. White, 1973.

25 R.W. Clark, 1976, p.40.

12

O Empirismo L´ogico

um dos “precedentes” como degraus para se elevar acima deles. Ele deve,

por assim dizer, rejeitar a escada ap´os ter subido.

O epis´odio crucial da nossa hist´oria ´e o positivismo ou o empirismo l´ogico.

Entre as duas guerras, em Viena, Berlim, Praga, Vars´ovia, l´ogicos como

G¨odel e Tarski procuravam a cria¸c˜ao de uma linguagem formal capaz de

exprimir a matem´atica; descobrem que certas propriedades de uma lingua-

gem s˜ao indiz´ıveis nesta linguagem. Inquietos com as nuvens pol´ıticas que

amea¸cavam a Europa Central e enjoados pela grandiloq¨uˆencia pontificante

do idealismo alem˜ao, os positivistas l´ogicos tˆem dois objetivos: utilizar a

nova l´ogica para rebater as pretens˜oes metaf´ısicas do idealismo p´os-kantiano

e reconciliar o velho sonho de toda a filosofia das ciˆencias - o empirismo

com a existˆencia de verdades l´ogicas. Eles acreditavam descobrir a chave no

Tractatus.

Na metade da d´ecada de 30, no grande ˆexodo dos intelectuais anti-

nazistas, eles levaram consigo seus programas de pesquisas, e emigraram

para a Inglaterra e sobretudo para os Estados Unidos. Ap´os ter-se instalado

em Chicago, Carnap se dedica `a l´ogica modal, retomando o velho problema

de Leibniz de uma “semˆantica dos mundos poss´ıveis”. Em toda a sua vida

guardou suas convic¸c˜oes socialistas. Mas o mundo real deveria ser suficien-

temente pac´ıfico para deixar passear sua imagina¸c˜ao de mundo poss´ıvel a

mundo poss´ıvel.

Os representantes do empirismo l´ogico, como Carnap, Reichenbach e

Hempel p˜oem fim, ao mesmo tempo, ao ecletismo de Russell e ao tom mor-

daz de Wittgenstein. Eles oferecem um exemplo de probidade excepcional:

ciclicamente, reconhecem seus erros e modificam suas id´eias. Com eles, a

argumenta¸c˜ao se parece, sobretudo, com a argumenta¸c˜ao cient´ıfica. Sua

preocupa¸c˜ao com as obje¸c˜oes e seu desejo de convencer sem seduzir, s˜ao,

provavelmente, unicos ´ na hist´oria da filosofia. Estas duas qualidades, reu-

nidas em Carnap, o distinguem do gosto da aventura intelectual de Russell,

da violˆencia atormentada de Wittgenstein, do desejo de Popper de vencer o

advers´ario e da atra¸c˜ao de Quine pelas antinomias. Quine conta que, estando

num congresso em 1935, teve que suportar uma violenta cr´ıtica do autor de

The Great Chain of Beings; Carnap lhe respondeu, “da maneira que lhe era

muito caracter´ıstica, explicando que se Lovejoy queria dizer A, ent˜ao p, e

se ele queria dizer B, ent˜ao q” 27 . Carnap era um fil´osofo engenheiro que

utilizava a l´ogica como uma tecnologia.

Em seguida, trˆes personalidades imprimem, com a cr´ıtica que formularam

sobre o empirismo l´ogico, as caracter´ısticas de suas personalidades: Popper,

Quine e Goodman. Popper, como Wittgenstein, nasceu em Viena (em 1902)

27 W.V.O. Quine, 1976, p.42.

Pref´acio

13

de uma fam´ılia judia convertida; como Wittgenstein, foi professor de escola

secund´aria e, como ele, estabeleceu-se na Inglaterra, na London School of

Economics. Mas, fora isto, Popper e Wittgenstein nada mais tˆem em comum.

Popper nunca foi membro do C´ırculo de Viena e n˜ao admirava o Tractatus.

Como os positivistas l´ogicos, via no respeito `a experiˆencia aquilo que distin-

gue a ciˆencia da metaf´ısica. Mas, para Popper, as conjecturas cient´ıficas s˜ao

apenas refut´aveis pela experiˆencia; e a irrefutabilidade da metaf´ısica n˜ao a

torna, por isso, absurda. Certo dia Popper proferia uma conferˆencia, na pre-

sen¸ca de Wittgenstein, em Cambridge, em pleno territ´orio wittgensteiniano

e importunou tanto a Wittgenstein que este se retirou batendo a porta 28 .

De todos os fil´osofos anal´ıticos das ciˆencias, a obra de Popper ´e, sem

d´uvida, a mais conhecida dos cientistas. Ele aborda, com bastante clareza.

os fundamentos da f´ısica quˆantica, o c´alculo de probabilidades, a hist´oria das

ciˆencias e, recentemente, a teoria darwiniana da evolu¸c˜ao. Sobretudo, ´e o

unico ´ que se debru¸cou sistematicamente sobre as ciˆencias sociais e a filosofia

pol´ıtica. Sua cr´ıtica das ambi¸c˜oes cient´ıficas do marxismo e da psican´alise

tem o m´erito e os defeitos de sua cr´ıtica `a indu¸c˜ao: nenhuma lei cient´ıfica

se obt´em pela generaliza¸c˜ao indutiva dos dados observados; mas se a huma-

nidade empregasse todo o seu tempo em refutar cada teoria, a ciˆencia n˜ao

existiria e a humanidade n˜ao sobreviveria. O que ele reprova no marxismo

e na psican´alise ´e de se tornarem inacess´ıveis `a refuta¸c˜ao. Tornar-se um

marxista ou um freudiano ´e “converter-se” 29 :

Desde que vocˆes abram os olhos, vocˆes ver˜ao, por toda parte,

exemplos que os confirmam: o mundo tornou-se repleto de verifica¸c˜oes

da teoria. ( )Um

...

marxista n˜ao pode abrir o jornal sem descobrir,

em cada p´agina, uma prova de sua interpreta¸c˜ao da hist´oria. ( ) ...

Quanto aos analistas freudianos, eles sistematicamente afirmam que

suas ‘observa¸c˜oes cl´ınicas’ verificam constantemente suas teorias.

Quine, nascido em 1908 no Meio-Oeste, e Goodman, nascido em 1906

em Massachussetts, s˜ao os dois primeiros fil´osofos americanos de primeira

grandeza, depois de Charles Sanders Peirce e William James. Quine e prin-

cipalmente Goodman, n˜ao gostam de ontologias superpovoadas; eles preferem

as paisagens mais desertas.

Por convic¸c˜ao nominalista, utilizam a navalha de Occam com as t´ecnicas

da l´ogica moderna para melhor fazer a barba de Plat˜ao 30 . Com eles a velha

querela ontol´ogica dos universais recupera o direito de cidadania na filosofia.

28 K.R. Popper, 1976, p. 122-124.

29 K.R. Popper, 1963, p. 35.

14

O Empirismo L´ogico

O comum dos mortais e mesmo os positivistas l´ogicos falam sem desconfian¸ca

de indiv´ıduos virtuais nos mundos poss´ıveis 31 :

Tomem, por exemplo, o homem gordo poss´ıvel neste corredor, e o

homem calvo neste mesmo corredor. Seria o mesmo homem poss´ıvel

ou se trataria de dois homens poss´ıveis? Como decidir? Quantos

homens poss´ıveis h´a neste corredor? H´a mais magros poss´ıveis do

que gordos poss´ıveis? Quantos, entre eles, s˜ao semelhantes? Ser´a

que sua semelhan¸ca o torna um unico ´ homem poss´ıvel? Duas coisas

poss´ıveis n˜ao se assemelham nunca?

´

E a mesma coisa dizer que ´e

imposs´ıvel dizer duas coisas poss´ıveis n˜ao se assemelham nunca? Por

fim, o conceito de identidade ´e simplesmente inaplic´avel aos poss´ıveis

n˜ao atualizados? Mas em que sentido se pode falar em entidades que

se pode dizer, sensatamente, que s˜ao idˆenticas a si mesmas e distintas

umas das outras?

Goodman e principalmente Quine est˜ao para Carnap da mesma maneira

que Wittgenstein est´a para Russell. Eles colocaram em d´uvida as certezas

tranq¨uilas de seus predecessores.

Para Russell, a l´ogica constitu´ıa uma linguagem “ideal” capaz de expri-

mir a aritm´etica. Wittgenstein, que foi seu disc´ıpulo, n˜ao parou de mostrar

a Russell os limites da l´ogica. Para Carnap, a sintaxe e a semˆantica l´ogicas

deveriam por fim `as controv´ersias metaf´ısicas est´ereis. Quine, que foi seu

disc´ıpulo, defendeu que a sintaxe e a semˆantica repousam sobre areias mo-

vedi¸cas.

Logo ap´os a Segunda Guerra Mundial, um vento de revolta soprou na fi-

losofia anglo-saxˆonia, simultaneamente, contra a l´ogica e contra o empirismo.

Em Oxford, os fil´osofos da linguagem ordin´aria op˜oem a riqueza e complexi-

dade das conversa¸c˜oes usuais `a abstra¸c˜ao da l´ogica. Nos Estados Unidos e na

Inglaterra, a hist´oria e a filosofia da ciˆencia se aproximaram; elas que eram,

ao contr´ario da Fran¸ca, separadas. Aos olhos de uma gera¸c˜ao de fil´osofos, a

vida, hist´oria e a sociologia das teorias e dos laborat´orios cient´ıficos parecia

desmentir a imagem, ao mesmo tempo austera e racional, que foi constru´ıda

pelo empirismo l´ogico. A Estrutura das Revolu¸c˜oes Cient´ıficas, publicada

por Kuhn em 1962, tornou-se o s´ımbolo desta nova imagem das ciˆencias.

Kuhn transformou em princ´ıpio das ciˆencias a frase jocosa de Max Planck:

as teorias n˜ao s˜ao abandonadas porque s˜ao desmentidas pela experiˆencia,

mas porque seus partid´arios morrem. Para Feyerabend, que durante longo

tempo foi colega de Kuhn em Berkeley, a unica ´ moral poss´ıvel da hist´oria das

ciˆencias ´e o anarquismo: nenhuma regra predomina, toda revolu¸c˜ao cient´ıfica

desafia qualquer cˆanone metodol´ogico.

Pref´acio

15

De todos os autores anti-empiristas, Kuhn ´e o mais popular, sobretudo

entre os soci´ologos das ciˆencias que aprovam suas descri¸c˜ao das comunida-

des cient´ıficas. Seu conceito de “paradigma” tornou-se o paradigma (ou

mesmo a panac´eia) das discuss˜oes metodol´ogicas na hist´oria e na sociologia

das ciˆencias. Se o sucesso de Kuhn for um teste para sua teoria do desen-

volvimento cient´ıfico, ent˜ao ela est´a plenamente confirmada. Para al´em das

divergˆencias, o que aproxima Kuhn e Feyerabend, ´e a insistˆencia sobre a falta

de convergˆencia do desenvolvimento cient´ıfico. O que os une na oposi¸c˜ao ao

empirismo ´e a descoberta da incomensurabilidade entre paradigmas separa-

dos por uma revolu¸c˜ao cient´ıfica. Segundo eles, a ontologia da f´ısica muda

quando se efetua uma muta¸c˜ao profunda como, por exemplo, a passagem do

geocentrismo ao heliocentrismo, ou quando se opera a transi¸c˜ao dos concei-

tos relativistas de espa¸co e tempo. Ao se acreditar nestes dois autores, os

defensores de dois paradigmas diferentes n˜ao teriam condi¸c˜oes de se comu-

nicar. A escolha de um paradigma poderia ser melhor compreendida como

uma escolha m´ıstica mais do que como uma decis˜ao racional.

Kuhn e Feyerabend despertaram os l´ogicos de seu sono. E estes ul ´ timos

reagiram em dire¸c˜ao ao realismo. O l´ogico realista mais representativo ´e

Putnam. Para ele a convergˆencia da f´ısica, atrav´es da hist´oria, predomina

sobre as divergˆencias, e o realismo explica esta convergˆencia; simplesmente

do ponto de vista da relatividade, a mecˆanica cl´assica era aproximativamente

verdadeira; seus principais conceitos designavam aproximativamente o que os

conceitos relativistas designam de maneira mais eficaz.

Do ponto de vista realista, que come¸ca a se afirmar nos fins dos anos

1960, as teorias cient´ıficas s˜ao tipicamente verdadeiras ou falsas, e seus con-

ceitos s˜ao tipicamente referenciais, mesmo que de modo aproximado. De

um ponto de vista l´ogico e ling¨u´ıstico, Kuhn e Feyerabend s˜ao culpados de

um racioc´ınio completamente falacioso: eles inferem uma mudan¸ca de onto-

logia (respons´avel pela incomensurabilidade entre as teorias separadas por

modifica¸c˜oes de paradigmas) a partir de uma mudan¸ca de cren¸cas ou de te-

orias - como se o mundo devesse mudar `a medida em que se transformam as

descri¸c˜oes que os homens fazem do mundo.

Mas o realismo n˜ao pode se contentar em criticar os erros, nem fazer

propaganda de sua “f´e animal” na existˆencia de uma realidade independente

das teorias que procuram representar. Putnam se encarrega ent˜ao de propor

uma nova teoria da rela¸c˜ao entre a linguagem (notadamente a linguagem

empregada nas ciˆencias) e a realidade.

No entrecruzamento da l´ogica, da l´ogica modal e da filosofia da linguagem,

Putnam e um jovem l´ogico prod´ıgio, filho de um rabino de Omaha, Kripke,

come¸caram a expor, h´a dez anos, uma nova teoria da referˆencia ling¨u´ıstica.

O objetivo desta teoria ´e, entre outros, conciliar a invariˆancia da referˆencia

16

O Empirismo L´ogico

das palavras com o fato de que as palavras mudam de sentido, isto ´e, que as

pessoas associam a cren¸cas diferentes, no curso da hist´oria, o referente das

palavras.

Certos representantes da epistemologia p´os-bachelardiana acolheram com

sarcasmo a tradu¸c˜ao francesa do famoso livro de Kuhn, procurando acentuar

as diferen¸cas que os separava 32 . Porque n˜ao ficaram contentes de encontrar,

finalmente, autores anglo-saxˆonios que adotam uma concep¸c˜ao descont´ınua

da hist´oria das ciˆencias? Eu vejo duas raz˜oes para isto. A primeira ´e que

Kuhn afirma, em alto e bom som, o que a epistemologia p´os-bachelardiana

pensa baixo: as mudan¸cas das teorias cient´ıficas conferem aos conceitos uma

significa¸c˜ao de tal maneira diferente que, antes e depois de uma revolu¸c˜ao ci-

ent´ıfica, o mundo n˜ao ´e mais o mesmo. Este ´e, com efeito, o unic ´ o argumento

a favor da descontinuidade hist´orica. Sem ele, a descontinuidade ´e simples-

mente uma impress˜ao. Ora, sua formula¸c˜ao expl´ıcita torna a conclus˜ao ide-

alista, portanto, dificilmente aceit´avel pela epistemologia p´os-bachelardiana

que se acredita portadora de uma solu¸c˜ao miraculosa do problema antigo da

rela¸c˜ao entre corpo e alma, entre mat´eria e mente. Esta soluc˜¸ao estava en-

carregada de transcender o dilema entre o idealismo e o materialismo vulgar.

O idealismo tinha raz˜ao em reprovar o materialismo quando este considera os

processos cognitivos como reflexo passivo da mat´eria. O materialismo tinha

raz˜ao de reprovar no idealismo a supremacia da consciˆencia. A epistemologia

p´os-bachelardiana acreditou encontrar em Marx uma terceira via. A humani-

dade introduziu, na evolu¸c˜ao, uma situa¸c˜ao inteiramente nova: pela primeira

vez, a natureza se submeteu a um conjunto de pr´aticas sociais que a trans-

formam constantemente. O conhecimento cient´ıfico ´e somente uma pr´atica

de apropria¸c˜ao da realidade. Todos os processos cognitivos s˜ao pr´aticas: a

ciˆencia, a arte, os discursos s˜ao pr´aticas. A realidade ´e o resultado de uma

atividade humana e entre as diferentes atividades humanas se encontra a

pr´atica cient´ıfica.

Se a epistemologia p´os-bachelardiana excomungou Kuhn, foi, simples-

mente, porque ele n˜ao invoca, ritualmente, a palavra m´agica “pr´atica”. Mas

j´a ´e tempo de render-se `a evidˆencia: o recurso `as palavras n˜ao resolve pro-

blemas. A menos que se acredite no behaviorismo. O estudo dos processos

cognitivos n˜ao avan¸ca uma polegada com a pretens˜ao de atribuir `as ciˆencias

e aos “discursos” a mesma qualidade que tem as viaturas e os refrigerantes -

32 Cf. D. Lecourt, 1974, p. 152-162. Em duas p´aginas, Lecourt comete, no m´ınimo

quatro erros: diz que Popper nasceu no fim do s´eculo passado, escreve que a “filosofia

anal´ıtica” originou-se dos “trabalhos do C´ırculo de Viena” (desta forma nem Frege, nem

Russell, nem Moore, nem Wittgenstein, nem a filosofia da linguagem fazem parte); afirma

que Popper “partilhou” do ponto de vista “do C´ırculo de Viena antes de distanciar-se”, e

Pref´acio

17

isto ´e, como produtos de uma pr´atica.

N˜ao se pode, sem d´uvida, fazer ao mesmo tempo epistemologia, pol´ıtica,

hist´oria e sociologia das ciˆencias esperando, desta forma, acertar de uma

vez por todas a rela¸c˜ao entre corpo e mente. O leitor p´os-bachelardiano me

conceder´a que n˜ao ´e por acaso que a ´epoca do materialismo das pr´aticas

te´oricas, cient´ıficas, discursivas e outras coincide com aquela das cr´ıticas

anti-fenomenol´ogicas contra a soberania da subjetividade, da consciˆencia e

da liberdade transcendentais. Os materialistas p´os-bachelardianos gostariam

muito de instaurar sobre a epistemologia e a hist´oria das ciˆencias e dos dis-

cursos, o reino das regras “anˆonimas” que governam “as regularidades dis-

cursivas” e os “modos de produ¸c˜ao cient´ıficos”. Numa linguagem na qual se

misturam o marxismo, o estruturalismo e a semi´otica, o projeto da episte-

mologia p´os-bachelardiana evoca, irresistivelmente, o behaviorismo. Nele se

encontra o mesmo desejo irresist´ıvel de eliminar toda terminologia menta-

lista, a mesma confian¸ca exorbitante nos esquemas deterministas. Em lugar

de pretender explicar os processo cognitivos por uma rela¸c˜ao de condiciona-

mento entre as estimula¸c˜oes sensoriais e uma rea¸c˜ao reflexa, a epistemologia

p´os-bachelardiana evoca os determinismos pol´ıticos, sociais ou simb´olicos. A

hist´oria do empirismo do s´eculo XX conduziu a uma atitude muito mais mo-

desta, por´em mais ´etica. O condicionamento, mesmo que ideol´ogico, s´o pode

exercer, sobre as capacidades cognitivas da esp´ecie humana, uma influˆencia

de fato superficial.

18

O Empirismo L´ogico

Cap´ıtulo 1

A realidade dos objetos l´ogicos e matem´aticos: o logicismo de Frege, Russell e Moore

Certas tradi¸c˜oes intelectuais nascem v´arias vezes. Na hist´oria das ciˆencias, o

fenˆomeno das “descobertas simultˆaneas” ´e bem conhecido: Newton e Leibniz

inventaram, ao mesmo tempo e independentemente um do outro, o c´alculo

infinitesimal; Darwin e Wallace, a teoria da evolu¸c˜ao das esp´ecies pela sele¸c˜ao

natural; recentemente foram contabilizadas, pelo menos, doze formula¸c˜oes

do princ´ıpio de conserva¸c˜ao da energia entre 1830 e 1850 1 .Certas inova¸c˜oes

passam primeiramente desapercebidas, depois s˜ao redescobertas - como as leis

`

de Mendel. As vezes, duas teorias nascem separadamente e s˜ao reunificadas

posteriormente: as leis da mecˆanica celeste e as da mecˆanica terrestre, por

exemplo, foram formuladas, respectivamente, por Kepler e Galileu. Tinham,

como unicos ´ pontos comuns, o fato de serem copernicanas e de utilizar as

se¸c˜oes cˆonicas (ali´as, diferentes) para descreverem, uma o movimento dos

planetas ao redor do Sol, a outra o movimento de proj´eteis na superf´ıcie da

Terra. Somente sessenta anos mais tarde ´e que Newton efetuou a “s´ıntese”

gra¸cas `a teoria da gravita¸c˜ao universal.

A filosofia anal´ıtica nasceu duas vezes: na Alemanha nos anos 1880 e

na Inglaterra nos anos 1900. Trˆes diferen¸cas entre os dois acontecimentos

fizeram do segundo um evento mais espetacular (em todo caso mais bri-

lhante) e menos revolucion´ario que o primeiro. A obra de Frege limita-se

`a l´ogica, ao logicismo e `a an´alise das significa¸c˜oes. Ela ignora, pura e sim-

plesmente, a filosofia geral e, em especial, a teoria do conhecimento. As

1 Cf. por exemplo, T. S. Kuhn, Energy conservation as an example of simultaneous

20

O Empirismo L´ogico

contribui¸c˜oes de Russell e Moore s˜ao, ao contr´ario, completamente imersas

nas controv´ersias gerais. Acreditando-se em Dummett 2 , ´e justamente pelos

limites que se impˆos, que Frege assegurou (mesmo em detrimento de um re-

nome imediato) um lugar t˜ao revolucion´ario quanto o de Descartes na hist´oria

da filosofia. A obra de Frege possui uma perfei¸c˜ao formal que falta `a de Rus-

sell e de Moore. Entre 1897 e 1918-1919, Russell adotou, pelo menos, trˆes

atitudes filos´oficas globais. Ao mesmo tempo, a l´ogica e a an´alise ling¨u´ıstica

n˜ao puderam instaurar uma tradi¸c˜ao (filos´ofica) sem correr o risco de se di-

luir ao abordar temas gerais, notadamente a teoria do conhecimento. Mas,

como tem raz˜ao de destacar Dummett 3 , foi necess´ario esperar o Tractatus de

Wittgenstein para retornar a austeridade e a retid˜ao da proposta de Frege.

Certamente diferen¸cas de personalidade n˜ao s˜ao suficientes para explicar

este contraste. Mas, entre o contexto intelectual das universidades alem˜as e

o das universidades inglesas do fim do s´eculo dezenove, h´a uma diferen¸ca im-

portante: o idealismo alem˜ao. A partir dos anos 1840-1850, dois fenˆomenos

relacionados ocorrem na Alemanha: as renova¸c˜oes do empirismo e do materi-

alismo atacam vivamente a renova¸c˜ao do romantismo, do idealismo hegeliano

e da Nat¨urphilosophie; ´e o in´ıcio da predominˆancia europ´eia da ciˆencia alem˜a

em certos dom´ınios da f´ısica, da qu´ımica e das ciˆencias da vida (principal-

´

mente a fisiologia). E certo que a influˆencia da Nat¨urphilosophie sobre os

s´abios alem˜aes, nos dois decˆenios anteriores, deu-lhes, por sua vez, o sen-

timento de unidade dos fenˆomenos naturais e um ponto de vista mais fi-

los´ofico que aquele da Fran¸ca e da Inglaterra. Mas ela ´e contrabalan¸cada

pela vaga do reducionismo, por exemplo, na not´avel escola berlinense de fi-

siologia. Para estes pensadores cient´ıficos, o idealismo hegeliano perdeu seu

atrativo 4 . Frege n˜ao teve, portanto, em Iena, durante 1880, a necessidade de

entrar em polˆemica com uma corrente cientificamente caduca.

Ora, por uma destas armadilhas da qual a hist´oria intelectual tem o

2 M. Dummett, 1973, p. 664-684.

3 Ibid. e M. Dummett, 1978, p. 88-89.

4 Para uma compreens˜ao geral, cf. J.T.Merz, 1904-1912. Para maiores detalhes sobre as

escolas dos fisiologistas berlinenses, o materialismo, o reducionismo, e as id´eias de homens

como Johannes Muller, Robert Mayer, Rudolf Virchow, Emil Dubois-Reymond, Iberman

von Helmholtz, Carl Vogt, Ludwig Buchner e outros, cf. W. Coleman, Biology in the

Nineteenth Century, New York, John Wiley & Sons Inc., 1971 e principalmente T. S. Kuhn,

op. cit.; E. Mendelsohn “The biological sciences in nineteenth century. Some problems

and sources”, History of Science, 3, 1964, pp.39-59; “Revolution and Reduction: The

sociology of methodological and philosophical concerns in nineteenth century biology”in

Y. Elkano, ed., 1974, p.407-426; O. Temkin “Materialism in French and german phisiology

of the early nineteenth century”, Bull. Hist. Med, 20, 1946; R.S.Turner “The growth of

professorial research in Prussia, 1818 to 1848. Causes and context” in R. McCormmach,

ed., Historical Studies in Physical Sciences, 3, 1971.

A realidade dos objetos l´ogicos e matem´aticos:

o logicismo de Frege, Russell e Moore

21

segredo, na ´epoca em que o idealismo hegeliano reflui na Alemanha, sob

o impulso do materialismo, ele invade as costas britˆanicas conduzido pelo

abandono do empirismo de J. Stuart Mill e do naturalismo darwiniano de

Spencer. Sob a orienta¸c˜ao de Edward Caird e, sobretudo de T. H. Green

floresce em Oxford, nos anos 1880, uma escola neo-hegeliana de inspira¸c˜ao

religiosa. Os principais representantes s˜ao Bernard Bosanquet e sobretudo

Francis Herbert Bradley, o autor da censura mais eloq¨uente da ´epoca contra

o senso comum, publicada em 1893, Appearance and Reality. Em Cambridge,

os professores de Moore e Russell, como George Stout (o diretor da revista

Mind) e John McTaggart Ellis (seis anos mais velho que Russell), fazem eco

a Oxford.

Russell, que rapidamente se tornou, em Cambridge, o protegido de Whi-

tehead, estuda matem´atica e filosofia. Deslumbrado pela dial´etica de McTag-

gart, que coteja constantemente, abra¸ca o hegelianismo. Isto n˜ao o impede

de se dedicar ao estudo dos fundamentos da geometria. Hoje ´e surpreendente

ler no An Essay on the Foundations of Geometry, publicado em 1897, sua

homenagem aos “l´ogicos modernos”, Bradley e Bosanquet, celebrados por te-

rem “demonstrado” que “todo ju´ızo ´e ao mesmo tempo sint´etico e anal´ıtico;

que combina as parte em um todo e analisa um todo em suas partes, (

)

que separar um ju´ızo de seu contexto ´e retirar sua vitalidade,

que den-

tro de seu pr´oprio contexto um ju´ızo n˜ao ´e nem puramente sint´etico, nem

anal´ıtico; pois ele ´e de um lado a determina¸c˜ao mais completa de um certo

todo e, portanto, deste ponto de vista ´e anal´ıtico; e por outro lado implica

a emergˆencia de novas rela¸c˜oes no interior do todo e deste ponto de vista ´e

sint´etico” 5 .

Em 1899, a ala britˆanica da filosofia anal´ıtica toma seu pr´oprio impulso

com um artigo de Moore na revista Mind, naquele momento cheia de prosa

neo-hegeliana; os cursos de Russell sobre Leibniz s˜ao transformados em livro

e publicados em 1900. Em 1903 o aparecimento dos Priciples of Mathema-

tics de Russell “mostra com toda clareza” conforme escreveu John Passmore

“que uma nova for¸ca havia penetrado na filosofia britˆanica.( Nenhum li-

...

)

vro depois de Arist´oteles havia provocado na l´ogica habitualmente ensinada

na universidade um efeito t˜ao profundo” 6 . N˜ao se tem a inten¸c˜ao de dizer

que o pensamento de Russell tenha atingido, neste momento, a clareza de

um cristal. Um cr´ıtico recentemente dividiu a evolu¸c˜ao do pensamento de

Russell depois de seu rep´udio ao neo-hegelianismo, at´e 1921, em trˆes fases 7 .

5 B.Russell, 1897, pp.58-59. Para o desenvolvimento do idealismo hegeliano na Ingla-

terra e uma discuss˜ao das id´eias de Bradley, cf. J. T. Metz, 1904-1912 e J. Passmore, 1957,

p. 218.

6 J. Passmore, 1957, p. 218.

22

O Empirismo L´ogico

Pessoalmente distingo dois eventos importantes: a descoberta da teoria das

descri¸c˜oes, em 1905, que simplifica a ontologia, e o encontro com Wittgens-

tein a partir de 1912, que altera completamente a filosofia da l´ogica e da

matem´atica exposta depois de 1900.

  • 1.1 O rep´udio do idealismo e a defesa da abstra¸c˜ao

Por que a tradi¸c˜ao de Frege, Russell e Moore ´e qualificada de “anal´ıtica”?

Porque Russell e Moore empunharam a an´alise contra duas premissas do

modo de pensar neo-hegeliano, que tinham acabado de absorver: a id´eia de

que a realidade autˆentica ´e sempre formada de “totalidades orgˆanicas” (a me-

nos que ela forme um gigantesco todo) e a id´eia de que “a abstra¸c˜ao ´e uma

falsifica¸c˜ao” ou que a decomposi¸c˜ao de uma totalidade orgˆanica ´e sempre

uma abstra¸c˜ao ileg´ıtima 8 . Como afirmava Russell 9 , “para a compreens˜ao da

an´alise ´e necess´ario estudar a no¸c˜ao do todo e da parte, no¸c˜ao que era envol-

vida pela obscuridade - embora houvesse tamb´em certas raz˜oes l´ogicas mais

ou menos v´alidas - pelos autores que se pode aproximadamente qualificar de

hegelianos”.

Em 1903, Russell e Moore dirigem seus golpes contra estas duas pro-

posi¸c˜oes. Segundo Russell 10 , a menos que elas sirvam para esconder “a

pregui¸ca, fornecendo uma desculpa `aqueles que n˜ao gostam do trabalho da

an´alise”, elas s´o possuem o seguinte sentido: “Ainda que a an´alise nos forne¸ca

a verdade e nada mais que a verdade, ela n˜ao pode jamais fornecˆe-la integral-

mente”. A partir de ent˜ao, Russell e Moore usar˜ao, contra seus advers´arios,

este tipo de argumento: “ou isto que dizem ´e verdadeiro, mas trivial, ou ´e

falso”. Ora, para a an´alise, esta obsess˜ao pela abstra¸c˜ao j´a ´e em si mesma

trivial ou falsa.

Em “A Refutation of Idealism” (1903), Moore aplica o m´etodo “ou bem , ...

ou bem ao que seus contemporˆaneos consideram “uma das principais con-

...

quistas da filosofia moderna” – a saber, as duas proposi¸c˜oes neo-hegelianas

(o que existe s˜ao totalidades orgˆanicas e comete-se uma abstrac˜¸ao ileg´ıtima

ao decompˆo-las). Portanto, de duas uma, diz Moore, ou bem vocˆes dizem

que, em certos casos particulares, ´e uma abstra¸c˜ao ileg´ıtima afirmar de uma

parte aquilo que n˜ao ´e verdadeiro sen˜ao do todo ao qual ela pertence. Isto

´e, algumas vezes verdadeiro, mas trivial. Ou bem vocˆes dizem que toda as-

ser¸c˜ao dirigida ao sujeito de uma parte n˜ao pode ser verdadeira sen˜ao quando

dirigido ao todo. Mas, neste caso, vocˆes acabam com a diferen¸ca entre uma

8 B. Russell, 1900, cap. 9 §58 (trad. franc., p.122).

9 B. Russell, 1903, §133, p. 137.

1.1 O rep´udio do idealismo e a defesa da abstra¸c˜ao

23

parte e o todo que vocˆes haviam pressuposto 11 :

Se, com efeito, pode-se, e mesmo deve-se, substituir a parte pelo

todo em todas as proposi¸c˜oes e em todas as circunstˆancias, ´e que nesse

 

´

caso o todo ´e, simplesmente, idˆentico `a parte

(

...

E assim que nu-

merosos fil´osofos, todos admitindo uma distin¸c˜ao, afirmam tranq¨uila-

mente estar corretos (segundo os passos de Hegel), sob uma forma li-

geiramente mais obscura, para neg´a-la simultaneamente. O princ´ıpio

das unidades orgˆanicas, exatamente como o da an´alise e da s´ıntese,

´e utilizado principalmente para defender a pr´atica que consiste em

manter por sua vez duas proposi¸c˜oes contradit´orias, cada vez que se

ressentem de sua necessidade. Sobre este tema, como para o resto, o

principal servi¸co prestado por Hegel `a filosofia consistiu em dar um

nome e erigir em princ´ıpio, um tipo de sofisma no qual a experiˆencia o

mostra, os fil´osofos, n˜ao mais que o resto da humanidade, apenas po-

dem dispensar. N˜ao ´e portanto surpreendente que ele tenha disc´ıpulos

e admiradores.

Russell aprofundar´a este tipo de argumento na sua cr´ıtica da teoria “mo-

nista” das rela¸c˜oes internas. Em The Monist Theory of Truth (1906), ele se

at´em `a doutrina segundo a qual nenhuma verdade pode ser considerada intei-

ramente verdadeira caso n˜ao seja uma verdade “total”. As verdades parciais,

como “2+2 = 4” n˜ao seriam “verdadeiramente” verdades sen˜ao quando subs-

titu´ıdas no contexto global da verdade total. Sua cr´ıtica ´e tr´ıplice: primeiro,

a verdade afirmando uma verdade total ´e, ela mesma, uma verdade parcial.

Portanto, segundo a teoria monista, ela mesma ´e parcialmente verdadeira.

De maneira mais geral, toda proposi¸c˜ao enunciando que nenhuma verdade

parcial ´e inteiramente verdadeira n˜ao ´e, ela mesma, inteiramente verdadeira.

Pelo menos, para a teoria monista, a totalidade da verdade n˜ao se reduz `a

afirma¸c˜ao c´etica: “nenhuma verdade parcial ´e inteiramente verdadeira” (o

que ´e trivial). Da´ı, se supormos que os seres humanos jamais tˆem acesso `a

totalidade da verdade, ent˜ao o que eles conhecem nunca ´e inteiramente ver-

dadeiro. Dito de outra maneira, a teoria monista n˜ao pode ser verdadeira,

pois, se ela o fosse, os idealistas (que s˜ao homens) n˜ao a poderiam possuir.

Enfim, todo enunciado parcialmente verdadeiro ´e tamb´em parcialmente falso.

Portanto, toda parte mencionada em um enunciado parcialmente verdadeiro

e parcialmente falso n˜ao ´e verdadeiramente parte de um todo. Conclus˜ao:

a doutrina monista da verdade implica que um todo ´e formado de partes e

implica simultaneamente que um todo n˜ao ´e (verdadeiramente) formado de

partes. Em outras palavras, nenhuma proposi¸c˜ao ´e inteiramente verdadeira

e inteiramente falsa 12 .

11 G. E. Moore (1903), in G. E .Moore, 1922, p. 15-16.

24

O Empirismo L´ogico

Quando em 1943 13 ou em 1959, Russell 14 recordou este per´ıodo de “re-

beli˜ao” contra o idealismo neo-hegeliano como um retorno “emancipador”

ao senso comum, sua mem´oria lhe pregou uma pe¸ca fazendo-lhe misturar

quinze anos de evolu¸c˜ao mental. Bradley, dizia ele, afirmava ser pura e sim-

plesmente aparˆencia tudo aquilo em que o senso comum acreditava. Moore

e eu decidimos, ao contr´ario, que era perfeitamente real tudo aquilo que o

senso comum acreditava. Em sua Autobiografia, ele fala desta emancipa¸c˜ao

como uma “sa´ıda da pris˜ao”, gra¸cas `a qual o antigo detento pode perceber

pelos seus pr´oprios olhos o verde da erva, e pode dizer que o Sol e as estre-

las existiriam mesmo se ningu´em estivesse presente para os observar e que

existe um “mundo pluralista de id´eias platˆonicas em que o tempo foi abo-

lido. Subitamente, o mundo que era estreito e l´ogico tornou-se rico, variado

e s´olido”.

Na realidade, os textos de Russell e Moore, entre 1898 e 1905, testemu-

nham a ades˜ao, n˜ao ao mundo do senso comum, mas ao que Peter Hilton

´

denominou, de maneira bem apropriada, de “atomismo platˆonico” 15 E mais

.

f´acil dizer aquilo que o atomismo platˆonico n˜ao ´e que aquilo que ele ´e. N˜ao

´e um empirismo. N˜ao aborda nenhuma quest˜ao epistemol´ogica. Ele ignora

ou deforma as contribui¸c˜oes de Frege `a analise ling¨u´ıstica. Sua ontologia

exuberante n˜ao tem anda a ver com a do senso comum. Sua principal pre-

ocupa¸c˜ao ´e assegurar a objetividade das proposi¸c˜oes l´ogicas e matem´aticas,

sem jamais se importar em saber como os homens chegam a apreendˆe-las,

nem ali´as como ´e o conhecimento do mundo emp´ırico. Trˆes fios condutores,

entretanto, guiam sua elabora¸c˜ao: uma violenta antipatia em rela¸c˜ao `a onto-

logia “monista” do idealismo neo-hegeliano (para o qual tudo est´a no todo e

reciprocamente); a repulsa com rela¸c˜ao ao ponto de vista que afirma as ver-

dades matem´aticas como n˜ao sendo nunca “inteiramente” verdadeiras mas

apenas um simples est´agio na ascens˜ao dial´etica (na dire¸c˜ao de uma compre-

ens˜ao superior?); e enfim, o sentimento, partilhado por Frege e Meinong, de

que a Est´etica Transcendental de Kant amea¸ca a objetividade das verdades

matem´aticas, bem defendida, ao contr´ario, pelo monismo platˆonico.

No ver˜ao de 1900, no Congresso de Paris, Russell conheceu Giuseppe

Peano, o matem´atico italiano que primeiro apresentou uma axiomatiza¸c˜ao

completa da aritm´etica. Parece que ele come¸cou a ler Frege seriamente no

retorno de Paris. A leitura de Alexis Meinong, feita em 1903, conduziu

Russell na dire¸c˜ao do platonismo: entre 1899 e 1907 ele consagrou sete longos

artigos aos trabalhos deste antigo aluno de Franz Brentano em Viena. Ora,

13 Cf. B. Russell, “My mental development” in P. A. Schilpp, ed., 1944, p. 12.

14

Cf.

B. Russell, 1959, p. 54.

15 P. Hilton, 1978.

1.2 O estatuto das proposi¸c˜oes no atomismo platˆonico

25

desde 1903, no seu pref´acio `a primeira edi¸c˜ao do Principles of Mathematics,

Russell n˜ao hesita em atribuir a Moore a paternidade das id´eias filos´oficas sem

as quais “eu me encontraria”, diz ele, “completamente incapaz de construir

a menor filosofia da aritm´etica”, e sem as mesmas “nenhuma filosofia da

matem´atica que seja um pouco aceit´avel” ´e poss´ıvel. Quarenta e mesmo

cinq¨uenta anos depois 16 , ele continua rendendo homenagem a Moore: “ele

abriu o caminho e eu o segui de perto”. Mas Meinong se tornaria, sob

sua pena, a partir de 1905 17 , o s´ımbolo caricatural de uma incontinˆencia

ontol´ogica sem limite: um pensador que perdeu todo senso da realidade e

que crˆe nos c´ırculos quadrados, nas montanhas de ouro e em cavalos alados.

Ora, esta incontinˆencia era justamente a sua. Ele acusa Meinong como forma

de se libertar.

Numa linguagem meio-ontol´ogica, meio-gramatical, Russell atribui a Mo-

ore as trˆes id´eias seguintes 18 : “a natureza n˜ao existencial das proposi¸c˜oes”;

sua “independˆencia diante de toda consciˆencia humano”; “o pluralismo, que

caracteriza tanto o mundo dos existentes como aquele das entidades com-

postas de um n´umero infinito de entidades mutuamente independentes, e

´

contendo rela¸c˜oes que s˜ao ultimas

e n˜ao s˜ao redut´ıveis aos adjetivos de seus

´

termos ou do todo que os ultimos

comp˜oem”. Antes de elucidar o sen-

tido misterioso da primeira id´eia, deduzimos ent˜ao trˆes asser¸c˜oes na qual a

ultima ´ ´e a mais revolucion´aria: a tese anti-kantiana sobre a independˆencia

das proposi¸c˜oes l´ogicas e matem´aticas com rela¸c˜ao `a consciˆencia humana;

uma ontologia pluralista, feita de uma infinidade de ´atomos ´e irreconcili´avel

com o monismo hegeliano; enfim a realidade das rela¸c˜oes irredut´ıveis aos

seres que elas associam. Esta ultima ´ afirma¸c˜ao, que ocupa a parte central

dos Principles, rompe, embora n˜ao pare¸ca, com toda an´alise tradicional das

proposi¸c˜oes, de Arist´oteles a Leibniz e Kant. Quanto `a f´ormula “A natu-

reza n˜ao existencial das proposi¸c˜oes” ela n˜ao ter´a sentido completo se n˜ao

levarmos em conta a distin¸c˜ao entre ser e existir que Russell adota seguindo

Meinong. Finalmente, entre o manifesto lan¸cado por Moore na revista Mind

em 1899 e os Principles, o atomismo platˆonico avan¸cou na dire¸c˜ao de uma

maior clareza.

  • 1.2 O estatuto das proposi¸c˜oes no atomismo platˆonico

Hoje, como h´a oitenta anos, os fil´osofos anal´ıticos continuam a se perguntar:

as proposi¸c˜oes existem? Em caso positivo, que entidades s˜ao elas? Em que

16

Cf.

B. Russell, 1959, p. 54.

17 Cf. B. Russell, 1905 e B. Russell, 1919.

18 B. Russell, 1903, p. xviii.

26

O Empirismo L´ogico

condi¸c˜oes duas proposi¸c˜oes s˜ao idˆenticas? Frege tem uma resposta elegante

e convincente 19 : as proposi¸c˜oes existem. Cada uma delas ´e o conte´udo do

sentido (Sinn) de uma senten¸ca declarativa. Como o sentido de uma pro-

posi¸c˜ao ´e fun¸c˜ao do sentido dos termos que comp˜oem a senten¸ca da qual a

proposi¸c˜ao ´e o sentido, duas proposi¸c˜oes tˆem o mesmo sentido se, e somente

se, os termos que comp˜oem a senten¸ca de uma tˆem o mesmo sentido dos

termos que comp˜oem a outra senten¸ca.

No seu manifesto “The Nature of Judgement20 Moore postula, assim

como Frege, a existˆencia das proposi¸c˜oes. Mas seu pensamento ´e mais con-

fuso, como testemunha notadamente o fato de que ele n˜ao faz ainda nenhuma

diferen¸ca entre uma “proposi¸c˜ao” e um “ju´ızo”. Ele analisa as no¸c˜oes de ver-

dade, de proposi¸c˜ao (ou ju´ızo) e de conceito, com o objetivo geral de propor

uma concep¸c˜ao da qual tenha desaparecido toda referˆencia “mentalista” `a

consciˆencia humana.

No caso da no¸c˜ao de verdade, este princ´ıpio geral toma a forma de uma

inesperada oposi¸c˜ao a uma tese por ele atribu´ıda a Bradley segundo a qual “a

verdade e a falsidade dependem da rela¸c˜ao entre nossas id´eias e a realidade”.

O fato de esta tese ter sido sustentada por Bradley n˜ao a torna totalmente

absurda, nem, sobretudo, facilmente refut´avel. Como ela parece confundir-se

com a doutrina da verdade como correspondˆencia, dizia-se que Moore n˜ao

tinha outra alternativa sen˜ao defender a doutrina da verdade como coerˆencia.

Isto ´e paradoxal, pois Moore tende sempre em dire¸c˜ao ao realismo, no qual

seus defensores s˜ao, habitualmente, apreciadores da teoria da verdade como

correspondˆencia, ao mesmo tempo em que os idealistas gostam excessiva-

mente de sua rival. Mas - e este ´e o segundo sinal da confus˜ao reinante - seu

desejo de abolir toda alus˜ao aos estados mentais fazem-no passar por cima

do seu realismo e o impede de falar de “id´eias”. Para n˜ao escolher entre

dois males, Moore decreta que as no¸c˜oes de verdade e de falsidade n˜ao s˜ao

defin´ıveis. S˜ao no¸c˜oes logicamente primitivas: “N˜ao se pode definir o gˆenero

de rela¸c˜oes que torna uma proposi¸c˜ao verdadeira, ou uma outra falsa; n˜ao se

pode sen˜ao reconhecˆe-la imediatamente” (p. 180). Ali´as, Moore fornece um

argumento para justificar a id´eia de que a verdade ´e um “datum ultimo”, ´ “lo-

´

gicamente anterior a toda proposi¸c˜ao”. E um argumento do tipo do terceiro

homem platˆonico 21 : suponhamos que a verdade de um ju´ızo depende da con-

formidade entre algumas id´eias e a realidade (no espa¸co e no tempo). Para

determinar esta conformidade, teremos necessidade de um segundo ju´ızo.

Para determinar o valor de verdade deste segundo ju´ızo, precisamos de um

19 Cf. G. Frege, “ Uber ¨ Sinn und Bedeutung”, trad. franc. Cl. Imbert, 1971.

20 Cf. G. E. Moore, 1899.

1.2 O estatuto das proposi¸c˜oes no atomismo platˆonico

27

terceiro, e assim sucessivamente, at´e o infinito. Assim, a unica ´ maneira de

interromper esta regress˜ao ao infinito ´e a de conferir `a verdade o estatuto de

um datum primitivo.

As an´alises feitas por Moore das no¸c˜oes de proposi¸c˜ao e de conceito s˜ao

indissoci´aveis. Nem uma, nem outra s˜ao no¸c˜oes mentais. Todas as duas de-

signam realidades de uma certa esp´ecie. Elas n˜ao s˜ao mais seres ling¨u´ısticos.

Desse modo, Moore lan¸ca uma declara¸c˜ao surpreendente que simboliza todo

o atomismo platˆonico: “Parece ent˜ao ser necess´ario considerar que o mundo

´e composto de conceitos” (p. 182).

O que ´e claro ´e sua rejei¸c˜ao, com a mesma firmeza de Frege, da doutrina

empirista de J. S. Mill, segundo a qual os conceitos (que s˜ao entidades men-

tais) s˜ao formados pela abstra¸c˜ao a partir de dados sensoriais. Especialmente

porque “uma coisa n˜ao se torna intelig´ıvel sen˜ao quando ´e analisada em seus

conceitos constituintes” (p. 182). Mas a oposi¸c˜ao a Mill n˜ao ´e suficiente para

explicar esta ontologia platˆonica de um mundo feito de conceitos (que, sem

d´uvida alguma, ´e o oposto do senso comum). No come¸co de seu artigo, Moore

cita uma distin¸c˜ao de Bradley, que ele parece aceitar sem contesta¸c˜ao, entre

as id´eias consideradas como “estados de consciˆencia” ou “estados mentais”

e as id´eias consideradas como “signos da existˆencia de outra coisa distinta

delas”. Os conceitos de Moore s˜ao signos da existˆencia de outras coisas dis-

tinta deles. De um lado, Moore anuncia que a “oposi¸c˜ao entre os conceitos e

os existentes desaparece, pois um existente n˜ao ´e diverso da um conceito ou

um complexo de conceitos tendo com o conceito de existˆencia uma rela¸c˜ao

unica” ´ (p. 182-183). Por outro lado, “´e duvidoso”, afirma ele, “que se possa

dizer que os conceitos dos quais s˜ao formadas as proposi¸c˜oes existam. Seria

necess´ario, para supor que 2 nunca foi, ´e, ou ser´a um existente, estender

nossa no¸c˜ao de existˆencia para al´em de toda inteligibilidade” (p. 180). Por

conta destas afirma¸c˜oes, n˜ao causa espanto que ele tenha tido a preocupa¸c˜ao

de prefaciar suas an´alises com as seguintes palavras: “Sou perfeitamente

consciente que esta teoria dever´a parecer paradoxal e mesmo desprez´ıvel” (p.

181).

“Uma proposi¸c˜ao, afirma ele, n˜ao ´e composta de palavras, nem mesmo de

pensamentos, mas de conceitos” (p. 179). As duas conseq¨uˆencias mais per-

manentes e que tamb´em podem ser consideradas mais surpreendentes destas

an´alises s˜ao, de um lado, a de que toda proposi¸c˜ao (ou ju´ızo) ´e necess´aria:

“Um ju´ızo ´e universalmente uma combina¸c˜ao necess´aria de conceitos, sendo

igualmente necess´ario que seja verdadeiro ou falso” (p. 192) e, de outro lado,

a de que toda proposi¸c˜ao ´e “sint´etica”. Esta ultima ´ conseq¨uˆencia ser´a mais

explicitamente desenvolvida em “Necessity”, lan¸cado em 1900.

Quando digo, por exemplo, “Este papel existe”, se esta proposi¸c˜ao ´e ver-

dadeira, ent˜ao os conceitos componentes deste papel est˜ao unidos ao conceito

28

O Empirismo L´ogico

de existˆencia por uma rela¸c˜ao unica ´ que torna verdadeira a proposi¸c˜ao. Con-

seq¨uentemente, “mesmo as proposi¸c˜oes existenciais mais simples devem ser

consideradas como proposi¸c˜oes necess´arias de uma esp´ecie particular” (p.

191).

Em “Necessity22 , um ano depois, Moore explica porque todas as pro-

posi¸c˜oes (mesmo existenciais) s˜ao, n˜ao somente necess´arias, mas “sint´eticas”.

´

E que toda proposi¸c˜ao cont´em pelo menos dois conceitos (seja aquele de

existˆencia), irredut´ıveis um ao outro, e uma rela¸c˜ao entre eles. Ora, pode-se

sempre afirmar sem contradi¸c˜ao a nega¸c˜ao desta proposi¸c˜ao, pois a rela¸c˜ao

nunca est´a contida em um ou outro conceito. Argumentos exatamente se-

melhantes foram desenvolvidos nas conferˆencias de Russell sobre Leibniz,

transformadas em livro publicado em 1900. Estes argumentos fundamentais

explicam porque Russell manteve, at´e o encontro com Wittgenstein, uma

filosofia da matem´atica t˜ao original como a sua.

Duas distin¸c˜oes escapam a Moore em 1899-1900. Suas ausˆencias explicam

a confus˜ao de seu primeiro manifesto. As duas distin¸c˜oes est˜ao presentes nos

Principles: uma parece ter sido tomada por empr´estimo provisoriamente por

Russell a Meinong, antes de ele encontrar um meio mais elegante de resolver o

´

problema ao qual ela se destinava. E a distin¸c˜ao entre ser e existir. A outra

distin¸c˜ao parece ter sido inventada por Russell, podendo isso ter ocorrido

parcialmente gra¸cas a sua leitura de Frege, ap´os o ver˜ao de 1900, ainda que,

´

se este ´e o caso, ele tenha deformado as categorias empregadas por Frege. E

a distin¸c˜ao entre uma coisa e um conceito, ambos tomados como termos.

  • 1.3 Denota¸c˜ao segundo Russell em 1903 e referˆencia se- gundo Frege

Nos Principles de 1903, Russell ´e fiel ao universo esbo¸cado por Moore. Sim-

plesmente ele se livra de algumas de suas impurezas. Para Russell, como

para Moore, uma proposi¸c˜ao “n˜ao cont´em palavras: ela cont´em entidades

indicadas pelas palavras” (§51, p. 47). Mas, onde Moore fala de “conceitos”

(“para designar os componentes do mundo”), Russell fala de “termos”. A

no¸c˜ao russelliana de termo, em 1903, confunde-se com aquela de ser (Being).

Tudo aquilo que pode receber o estatuto de termo possui a propriedade de

ser, com a diferen¸ca, entretanto, de que um termo ´e um ser dotado de uma

certa individualidade (este n˜ao ´e o ser heideggeriano). Como diz Russell, a

palavra “termo” ´e “o voc´abulo mais lato do vocabul´ario filos´ofico” (§47, p.

´

43). E o sinˆonimo das palavras “unidade”, “indiv´ıduo” e “entidade” (ibi-

22 G. E. Moore, 1900, p. 295.

1.3 Denota¸c˜ao segundo Russell em 1903 e referˆencia segundo Frege

29

dem). “Um homem, um momento, uma classe, uma rela¸c˜ao, uma quimera,

tudo aquilo que pode ser mencionado ´e com certeza um termo” (ibidem).

Ali´as, ele diz que “os homens, os deuses hom´ericos, as rela¸c˜oes, as qui-

meras e os espa¸cos de quatro dimens˜oes s˜ao todos seres” (§427, p. 449). Se,

com efeito, estas entidades n˜ao possu´ıssem a propriedade de ser, n´os n˜ao

poder´ıamos mencionar nas proposi¸c˜oes dotadas de significa¸c˜ao (verdadeira

ou falsa). O ser ´e, portanto, para Russell em 1903, uma garantia de que

as proposi¸c˜oes possuem significado. Isto representa um avan¸co sobre a con-

fus˜ao entre o fato de uma proposi¸c˜ao ser falsa e o fato de ela ser vazia de

significa¸c˜ao. Por outro lado, a existˆencia ´e uma prerrogativa de algumas enti-

dades que possuem ser. Existir ´e manter uma certa rela¸c˜ao com a existˆencia

- “rela¸c˜ao, ali´as, que a existˆencia n˜ao possui” (ibidem). Esta clarifica¸c˜ao com

respeito a Moore ´e inegavelmente o fruto da contribui¸c˜ao de Meinong.

Desde ent˜ao, a misteriosa cr´ıtica da teoria dita “existencial” das pro-

posi¸c˜oes tomou todo o seu sentido: aos nossos olhos, a teoria tomada empres-

tada por Russell a Meinong, que imputa o ser aos termos mencionados pelas

proposi¸c˜oes, com o unico ´ fim de que elas n˜ao sejam desprovidas de sentido,

testemunha a prodigalidade ontol´ogica excessiva. Mas a teoria “existencial”

das proposi¸c˜oes ´e ainda pior, pois atribui n˜ao somente ser, mas tamb´em

existˆencia aos termos mencionados nas proposi¸c˜oes dotadas de sentido. Dito

de outra forma, em rela¸c˜ao `a teoria “existencial”, Russell e Meinong reali-

zam um benef´ıcio ontol´ogico. O debate entre os dois pontos de vista gira

em torno da quest˜ao: como levar em conta a possibilidade de proposi¸c˜oes

existenciais negativas dotadas de sentido? Como uma proposi¸c˜ao do tipo “O

unic´ornio n˜ao existe” ou “As quimeras n˜ao existem” pode ser dotada de sen-

tido? A distin¸c˜ao entre ser e existir permite a Russell n˜ao atribuir existˆencia

a unic´ornios, a quimeras ou a c´ırculos quadrados:

Ou o que n˜ao existe deve ser alguma coisa, ou ent˜ao negar sua

existˆencia n˜ao tem nenhum sentido; n´os temos ent˜ao necessidade do

conceito de ser, como aquilo que pertence mesmo ao que n˜ao existe 23 .

Russell diz explicitamente que a no¸c˜ao de “termo” resulta da “modi-

fica¸c˜ao” da no¸c˜ao de conceito exposta por Moore em “The Nature of Judge-

ment”, “da qual ela difere em aspectos importantes” (§47, p. 44). Por mais

que Russell, como Moore quatro anos antes, considerasse sempre os conceitos

e as proposi¸c˜oes como entidades que n˜ao s˜ao nem mentais nem ling¨u´ısticas,

ele se dedicava, entretanto, `as an´alises ling¨u´ısticas e gramaticais. Mas n˜ao

eram inteiramente consistentes umas com as outras. Inicialmente ele faz uma

distin¸c˜ao entre o que ele chama de “indica¸c˜ao” e de “denota¸c˜ao”. Uma pa-

lavra indica um termo (seja uma coisa, seja um conceito). Por exemplo, em

23 B. Russell, 1903, p. 449-450.

30

O Empirismo L´ogico

“S´ocrates ´e um homem”, o nome pr´oprio “S´ocrates” indica um termo, que ´e

uma coisa (o indiv´ıduo S´ocrates). A rela¸c˜ao de indica¸c˜ao ´e, portanto, uma

rela¸c˜ao ling¨u´ıstica (que Russell tamb´em qualifica de “psicol´ogica”) entre os

seres ling¨u´ısticos e os seres n˜ao ling¨u´ısticos. Esta rela¸c˜ao n˜ao interessa a Rus-

sell nos Principles 24 . Em troca, o que lhe interessa ´e a rela¸c˜ao puramente

l´ogica de denota¸c˜ao entre um conceito e aquilo que n˜ao ´e um conceito, mas ´e

“descrito” pelo conceito. Em uma proposi¸c˜ao, na qual existe uma rela¸c˜ao de

denota¸c˜ao entre um conceito e aquilo que denota o conceito, a proposi¸c˜ao diz

respeito, n˜ao ao conceito, mas `aquilo que ele denota. Em outras palavras, o

conceito ´e um instrumento que permite a proposi¸c˜ao de falar simplesmente de

determinados seres. Sem a denota¸c˜ao, seria bastante mais dif´ıcil mencion´a-

los. Por exemplo, em uma proposi¸c˜ao como “Eu encontrei um homem”, a

proposi¸c˜ao n˜ao ´e sobre o conceito um homem, mas gra¸cas a este conceito, ela

refere-se a “um certo b´ıpede denotado pelo conceito” (§51, p. 47). Quando se

diz “O homem ´e mortal”, a proposi¸c˜ao dificilmente pode ser sobre o conceito

de homem. Pela boa raz˜ao de que ao se supor (o que ´e razo´avel) que ela seja

verdadeira, se ela fosse sobre o conceito de homem, dever-se-ia concluir que o

conceito de homem ´e mortal. Algu´em poderia esperar encontrar um dia uma

not´ıcia necrol´ogica do conceito de homem (§56, p.53-54). Isto ´e um absurdo,

mesmo se o comunicado f´unebre emanasse de Michel Foucault.

Se a rela¸c˜ao crucial ´e a denota¸c˜ao (l´ogica) entre um conceito e um ou

mais termos, evidentemente devemos dispor de crit´erios que nos permitam

distinguir entre as duas categorias de termos, as coisas e os conceitos, ou as

palavras que os indicam. Consideremos por exemplo “S´ocrates ´e um homem”.

A raz˜ao segundo a qual “S´ocrates” indica antes uma coisa que um conceito ´e

uma raz˜ao gramatical: o nome pr´oprio, que indica o termo S´ocrates, n˜ao pode

ocupar normalmente na senten¸ca outro lugar sen˜ao o de sujeito gramatical 25 .

24 Ibidem, cap. 4 e 5.

25 Um exemplo de negligˆencia terminol´ogica de Russell. Ap´os ter feito a distin¸c˜ao en-

tre significa¸c˜ao (meaning) ling¨u´ıstica e psicol´ogica das palavras (que n˜ao o interessa) e

a significa¸c˜ao l´ogica (denotation), que o interessa, Russell n˜ao ´e sempre preciso sobre a

significa¸c˜ao que ele d´a no seu emprego de “significa¸c˜ao” no resto do livro. Um exemplo de

sua inconsistˆencia terminol´ogica: ele come¸ca por definir um “termo” como a no¸c˜ao mais

geral de uma entidade ou de um indiv´ıduo, no¸c˜ao que ele subdivide em coisa e conceito

(cf. § 47-48, p. 43-44). Depois ele o emprega tanto no sentido gramatical de um elemento

ling¨u´ıstico, que pode apenas ocupar o lugar de um sujeito na senten¸ca: “S´ocrates ´e uma

coisa, porque S´ocrates s´o pode aparecer em uma proposi¸c˜ao como um termo: S´ocrates n˜ao

parece capaz deste estranho uso de desdobramento que testemunham humano e humani-

dade” (§ 48, p.45). Esta passagem ´e desconcertante por parte de um l´ogico da envergadura

de Russell, pela quantidade de confus˜oes que ela cont´em: ele confunde uso e men¸c˜ao de

uma palavra; ele confunde senten¸ca e proposi¸c˜ao, ele confunde a no¸c˜ao l´ogica de “termo”

com um emprego ling¨u´ıstico (gramatical) da mesma palavra. O problema n˜ao ´e que Rus-

sell viole a distin¸c˜ao sutil entre uso e men¸c˜ao, mas sim que, depois de ter constru´ıdo a

1.3 Denota¸c˜ao segundo Russell em 1903 e referˆencia segundo Frege

31

Grosso modo, os nomes pr´oprios l´ogicos, que formam uma classe mais ampla

que os nomes pr´oprios das l´ınguas naturais, correspondem a palavras que s´o

podem ocupar o lugar de sujeito gramatical na senten¸ca. A posi¸c˜ao de Frege

era a mesma 26 . As palavras que indicam os conceitos s˜ao, portanto, os ver-

bos e os adjetivos - aqueles que podem tamb´em ocupar o lugar de predicado

gramatical na senten¸ca. Sobre esta quest˜ao h´a um desacordo bastante signi-

ficativo entre Russell e Frege. Em geral, para Russell, uma palavra indicando

um conceito (denotativo) ´e prefixada de um quantificador (“um”, “certos”,

“n˜ao importa qual”, “todos”). Assim, em “Todos os homens”, temos uma

rela¸c˜ao com o conceito de homem.

O que ´e preciso observar imediatamente ´e que, para Russell, em 1903, as

palavras que indicam conceitos, portanto as entidades denotativas, n˜ao tˆem

nenhuma fun¸c˜ao referencial. H´a, entre o emprego moderno da no¸c˜ao de re-

ferˆencia e o uso russeliano, em 1903, da no¸c˜ao de denota¸c˜ao, duas diferen¸cas

fundamentais: inicialmente, a no¸c˜ao moderna de referˆencia ´e uma proprie-

dade pertencente ao seres ling¨u´ısticos (por exemplo, os nomes pr´oprios ou

as express˜oes indexicais como “eu” ou “aqui”). A no¸c˜ao russelliana de de-

nota¸c˜ao, em 1903, ´e uma propriedade pertencente a certas entidades l´ogicas,

“indicadas pelas palavras”. Da´ı, deixando de lado algumas diferen¸cas, as

palavras que hoje em dia s˜ao associadas a uma fun¸c˜ao referencial e as pala-

vras que Russel associa (em 1903) a uma fun¸c˜ao de denota¸c˜ao, pertencem a

duas classes opostas: grosso modo, as primeiras s˜ao as palavras na posi¸c˜ao

de sujeito gramatical. As segundas s˜ao as palavras na posi¸c˜ao de predicado

gramatical. Logo, a concep¸c˜ao moderna ´e aquela encontrada j´a em Frege.

A discuss˜ao feita por Russell da distin¸c˜ao fregeana entre sentido (Sinn)

e referˆencia (Bedeutung) de uma express˜ao ling¨u´ıstica no Apˆendice A dos

Principles ´e extremamente confusa. Frege desejava, antes de tudo, explicar

como uma asser¸c˜ao de identidade pode ser ao mesmo tempo verdadeira e

informativa (ou seja, n˜ao ser uma tautologia). Quando dizemos, com efeito,

“A estrela da noite ´e a estrela da manh˜a”, n˜ao se faz a mesma asser¸c˜ao que

corresponde em dizer “A estrela da manh˜a ´e a estrela da manh˜a”. A primeira

asser¸c˜ao ´e o resultado de uma descoberta astronˆomica, a segunda n˜ao. Em

¨

Uber Sinn und Bedeutung” (1892) (infelizmente traduzido para o francˆes

como “Sentido e denota¸c˜ao”, mais tarde por “Sentido e referˆencia” 27 ), Frege

no¸c˜ao de “termo” como uma no¸c˜ao mais geral do que “coisa” e “conceito” ele termina por

empreg´a-la como sinˆonimo de “coisa”.

26 G. Frege, 1892b, trad. franc., Cl. Imbert, 1971.

27 “Infelizmente”, como espero, minhas observa¸c˜oes o demonstram. Ali´as, a tradu¸c˜ao

canˆonica em inglˆes feita por P. Geach e M. Black, eds. 1970, ´e “On sense and reference”.

Uma observa¸c˜ao ´e que o sentido, para Frege, n˜ao tem nenhuma das conota¸c˜oes psicol´ogicas

atribu´ıdas a “representa¸c˜ao” (tradu¸c˜ao francesa, p. 105-106) ou a “colora¸c˜ao” (ibidem, p.

32

O Empirismo L´ogico

resolve o problema da seguinte forma: em uma asser¸c˜ao de identidade infor-

mativa, as duas express˜oes ling¨u´ısticas, figurando respectivamente `a esquerda

e `a direita do sinal de identidade, tˆem a mesma referˆencia (o corpo celeste

designado por uma ou pela outra express˜ao, ou ainda pelo nome pr´oprio

“Vˆenus”). Mas elas tˆem sentidos distintos, pois o sentido de uma express˜ao,

seja qual for sua complexidade ´e, para Frege, fun¸c˜ao do sentido de seus com-

ponentes, e “da manh˜a” e “da noite” n˜ao tˆem o mesmo sentido. Depois Frege

estende sua distin¸c˜ao `as pr´oprias senten¸cas declarativas: uma asser¸c˜ao tem

um sentido, que ´e a proposi¸c˜ao que lhe corresponde, e uma referˆencia, que ´e

seu valor de verdade (o verdadeiro ou o falso). Todas as senten¸cas verdadeiras

tˆem a mesma referˆencia e todas as senten¸cas falsas tamb´em. N˜ao existe ne-

nhuma d´uvida de que, para Frege, o sentido e a referˆencia s˜ao duas entidades

distintas de uma unica ´ classe de entidades - as entidades ling¨u´ısticas. O sen-

tido e a referˆencia de uma express˜ao ling¨u´ıstica s˜ao fun¸c˜oes, respectivamente,

do sentido e da referˆencia dos componentes ling¨u´ısticos da express˜ao consi-

derada. Enfim, ´e atrav´es do sentido que se chega `a referˆencia; dito de outra

forma, para saber a qual entidade extraling¨u´ıstica a express˜ao ling¨u´ıstica faz

referˆencia, o locutor de uma l´ıngua (seja ela natural ou formal) deve inicial-

mente compreender seu sentido. A unica ´ diferen¸ca entre uma l´ıngua natural

(freq¨uentemente defeituosa do ponto de vista de Frege) e uma l´ıngua formal

“bem constru´ıda” ´e que, no caso da ultima,

´

nenhuma palavra deve deixar

de ter referˆencia. Assim, quando se diz em francˆes “Papai Noel trar´a pre-

sentes para as crian¸cas”, “Papai Noel” ´e, em geral, considerado como sem

referˆencia. Ora, como a referˆencia da senten¸ca completa (seu valor de ver-

dade) depende da referˆencia de seus componentes, tal senten¸ca ´e, aos olhos

de Frege, desprovida de valor de verdade. Um construtor de linguagens ar-

tificiais pode facilmente corrigir estes defeitos das linguagens naturais. Esta

doutrina harmoniosa encontra certas dificuldades, a partir do momento em

que se considera o discurso indireto e os fenˆomenos de encadeamento de sen-

ten¸cas em contextos (inevit´aveis) de atitudes proposicionais 28 . Entretanto,

ela representa hoje, no m´ınimo, uma constru¸c˜ao “cl´assica”.

Em 1903, e de modo muito alusivo em 1905, Russell, que estava ocupado,

entre outras coisas, com o enigma das asser¸c˜oes de identidade informativas,

exercita uma tradu¸c˜ao entre Frege e ele, no qual um mal-entendido parece

lev´a-los ao q¨uiproqu´o 29 . Em seu longo Apˆendice, ele come¸ca por uma du-

131).

28 Cf. p. 40 e L. Linsky, 1967, trad. franc. Ph. Devaux et al., 1974.

29 Sobre esta quest˜ao, h´a uma literatura abundante que exprime, em geral, um senti-

mento de ultraje em rela¸c˜ao `as deforma¸c˜oes que Russell faz com Frege. Cf., por exemplo,

A. Church, 1943; R. J. Butler, 1954; J. R. Searle, 1957-1958; a melhor discuss˜ao, em minha

opini˜ao, ´e a realizada por C. E. Cassin, 1970.

1.3 Denota¸c˜ao segundo Russell em 1903 e referˆencia segundo Frege

33

pla assimila¸c˜ao quase contradit´oria: “a distin¸c˜ao entre a significa¸c˜ao (Sinn)”

que Russell aqui denomina meaning, “e a indica¸c˜ao (Bedeutung) ´e, aproxi-

madamente, mas n˜ao exatamente, equivalente a minha distin¸c˜ao entre um

conceito enquanto tal e aquilo que o conceito denota” (p. 502). Admitamos

que a indica¸c˜ao (no sentido de Russell) assemelha-se a referˆencia (no sen-

tido de Frege): trata-se, nos dois casos, de uma rela¸c˜ao entre uma entidade

ling¨u´ıstica e alguma coisa n˜ao ling¨u´ıstica. Mas, para Russell, a rela¸c˜ao entre

um conceito denotativo e sua denota¸c˜ao n˜ao ´e ling¨u´ıstica, pois o conceito

e o termo denotativo s˜ao ambos componentes de uma certa entidade (n˜ao

ling¨u´ıstica) que ´e a proposi¸c˜ao, por sua vez “indicada” pela senten¸ca. No

final das contas, como mostrou C. E. Cassin, 1970, Russell parece ter to-

mado o Sinn de Frege pela no¸c˜ao de indica¸c˜ao e o Bedeutung de Frege pela

no¸c˜ao de denota¸c˜ao. O que tornou plaus´ıvel esta assimila¸c˜ao ´e que, em 1903,

para Russell, as palavras “O presidente da Rep´ublica Francesa” indicam o

conceito de o presidente da Rep´ublica, que por sua vez denotava a “coisa”

Valery Giscard d’Estaing.

Resta saber porque Russell adotou caminhos mais extravagantes que

aqueles de Frege. A resposta ´e que Russell estava ainda marcado pela pro-

blem´atica neo-hegeliana da qual ela ainda n˜ao havia se desembara¸cado, en-

quanto tal problem´atica era completamente estranha para Frege.

Inicialmente, em sua an´alise da estrutura interna da proposi¸c˜ao (cap.

IV), ele retoma ridiculamente um sotaque quase hegeliano para sustentar

o seguinte fato: “Uma proposi¸c˜ao ´e, de fato, essencialmente uma unidade,

e desde que a an´alise destrua esta unidade, nenhuma enumera¸c˜ao de seus

componentes poder´a restaurar a proposi¸c˜ao” (p. 50). Segundo ele, o verbo ´e

misteriosamente o respons´avel pela unidade da proposi¸c˜ao. N˜ao ´e excitante

vˆe-lo limitar o poder da an´alise, em nome da inef´avel unidade das proposi¸c˜oes

´

que “torna-a distinta de alguns de seus constituintes” (p. 52)? E devido a

sua sa´ıda do c´ırculo neo-hegeliano que nasce um dos conceitos de base da

nova l´ogica, o conceito de fun¸c˜ao proposicional; Russell o engendra a partir

de um conceito inteiramente amb´ıguo: o de “asser¸c˜ao”.

Em um primeiro momento, a asser¸c˜ao ´e diferenciada da proposic˜¸ao: a

proposi¸c˜ao ´e uma entidade inerte (por exemplo, “o fato de que A seja maior

que B”); a asser¸c˜ao faz, por assim dizer, “viver” a proposi¸c˜ao (“A ´e maior

que B”). Com a asser¸c˜ao a proposi¸c˜ao ganha sua unidade. Como se, abaixo

da proposi¸c˜ao, tivesse uma lista de seus elementos; e abaixo, a asser¸c˜ao que

lhe confere a unidade, ao afirmar a verdade (§38, p. 35). Esta capacidade da

asser¸c˜ao de fazer viver a proposi¸c˜ao, ao afirmar a verdade, introduz evidente-

mente uma diferen¸ca de estatuto entre proposi¸c˜oes verdadeiras e proposi¸c˜oes

falsas. Ambas s˜ao entidades, capazes de ser sujeitos l´ogicos: a proposi¸c˜ao

(verdadeira ou falsa) “C´esar est´a morto” pode ser intercalada na proposi¸c˜ao

34

O Empirismo L´ogico

“‘C´esar est´a morto’ ´e uma proposi¸c˜ao”, mas em um sentido n˜ao psicol´ogico,

“uma vez que uma proposi¸c˜ao ´e verdadeira, ela tem uma qualidade suple-

mentar, sobretudo aquilo que ela tem em comum com as proposi¸c˜oes falsas,

e ´e esta qualidade suplementar que ´e aquilo que eu entendo por asser¸c˜ao em

um sentido l´ogico” (§22, p. 49).

Em um segundo momento, Russell vˆe a proposi¸c˜ao em um termo, indi-

cado pelo sujeito gramatical (digamos, “S´ocrates”) e uma asser¸c˜ao feita a

prop´osito do termo (digamos, “´e homem”), ou seja, um predicado. Grama-

ticalmente, o verbo, que confere `a proposi¸c˜ao sua unidade, ´e um aspecto da

asser¸c˜ao. Assim, se eu tomar uma asser¸c˜ao e se retiro o sujeito da proposi¸c˜ao,

obtenho uma matriz que n˜ao ´e verdadeira nem falsa. A partir de “S´ocrates ´e

homem” (que ´e uma proposi¸c˜ao verdadeira ou falsa), obtenho a asser¸c˜ao “´e

homem” (que n˜ao ´e verdadeira nem falsa). Se insiro uma vari´avel no lugar

do sujeito, obtenho uma fun¸c˜ao proposicional “x ´e homem” (nem verdadeira,

nem falsa) tal que, se substituo x por uma constante apropriada, obtenho de

novo uma proposi¸c˜ao (§80-85, p. 82-83). Desse modo, para Frege, a asser¸c˜ao

´e um ato acompanhado pelas entidades ling¨u´ısticas particulares (as senten¸cas

declarativas), ligando-as a sua referˆencia (a verdade ou falsidade); para Rus-

sell, a asser¸c˜ao ´e, por seu turno, um ato l´ogico que faz “viver” as proposi¸c˜oes,

e uma componente da proposi¸c˜ao (que se confunde com o conceito).

Enfim, o peso do idealismo hegeliano se faz sentir na formula¸c˜ao escolhida

por Russell para sugerir a importˆancia filos´ofica de uma teoria satisfazendo a

denota¸c˜ao. Gra¸cas `a rela¸c˜ao puramente l´ogica entre os conceitos e os termos

denotados, a consciˆencia humana ´e capaz de, mediante instrumentos de ca-

pacidade finita, lidar com entidades de complexidade infinita. Por exemplo,

gra¸cas ao conceito de todos os n´umeros, podemos denotar um objeto infini-

´

tamente complexo. E por isso que Russell qualifica a denota¸c˜ao de “a for¸ca

mais secreta de nosso poder de apreender o infinito” (§72, p.73). Tudo se

passa como se Russell tivesse conservado de seu passado filos´ofico a fascina¸c˜ao

pela quest˜ao de saber como a consciˆencia finita pode compreender entidades

infinitamente complexas. Mas ele deseja a todo custo bloquear a prolifera¸c˜ao

de contradi¸c˜oes (dial´eticas) “das quais se nutre a filosofia hegeliana” (§105,

p.105). Como ele nota com satisfa¸c˜ao 30 :

Pode-se de fato dizer que a miss˜ao l´ogica executada pela teoria

da denota¸c˜ao ´e a de permitir `as proposi¸c˜oes de complexidade finita

tratar de classes de termos infinitos: este objetivo ´e realizado gra¸cas

a todos, n˜ao importa qual, e cada, e caso n˜ao fosse, toda proposi¸c˜ao

geral deveria ser infinitamente complexa. Quanto a mim n˜ao vejo um

meio de decidir se as proposi¸c˜oes de complexidade infinita s˜ao ou n˜ao

1.4 Conceitos e coisas em Russell 1903; conceitos e objetos em Frege

35

poss´ıveis; mas o que ´e claro, pelo menos, ´e que todas as proposi¸c˜oes

que nos s˜ao conhecidas (e, ao que parece, todas aquelas que podemos

conhecer) s˜ao de complexidade finita.

Em seu famoso artigo de 1905, “On Denoting”, no qual ele propor´a sua

teoria das descri¸c˜oes, Russell com um s´o golpe atinge dois alvos. Primeira-

mente ele far´a uma economia ontol´ogica n˜ao supondo mais (como havia feito

em 1903, com Meinong) que uma asser¸c˜ao n˜ao ´e plena de significac˜¸ao sen˜ao

com a condi¸c˜ao de que as entidades ling¨u´ısticas que a comp˜oem designem

entidades que possuem, sen˜ao a existˆencia, pelo menos o ser. A partir de

1905, ele encontrou um meio de n˜ao atribuir nem existˆencia, nem ser, aos

unic´ornios, aos centauros e aos c´ırculos quadrados. Em segundo lugar, ele

se livrar´a das entidades intermedi´arias, entre os signos ling¨u´ısticos e sua re-

ferˆencia extraling¨u´ıstica que, em 1903, eram os conceitos e as proposi¸c˜oes.

As entidades denotativas tornaram-se, a partir de 1905, os pr´oprios signos

ling¨u´ısticos. Sendo feita a assimila¸c˜ao (cf. C. E. Cassin, 1970) entre sua

no¸c˜ao de indica¸c˜ao e o Sinn fregeano de um lado e entre sua denota¸c˜ao e

o Bedeutung fregeano de outro, surpreende menos o fato da cr´ıtica que ele

dirige em 1905 a sua doutrina de 1903 lhe pare¸ca tamb´em como colocando

em causa o Sinn fregeano. A partir de 1905 ele n˜ao tem mais necessidade de

postular, entre signos e conceitos, a rela¸c˜ao de indica¸c˜ao que, em 1903, era

preliminar da rela¸c˜ao de denota¸c˜ao entre conceitos e entidades denotadas.

  • 1.4 Conceitos e coisas em Russell 1903; conceitos e ob- jetos em Frege

Existe uma outra diferen¸ca interessante entre a ontologia de Russell de 1903

e a de Frege. Esta diferen¸ca tamb´em atesta a proeminˆencia de conceitos neo-

hegelianos na forma¸c˜ao do pensamento de Russell. Depois de Die Grund-

langen der Arithmetik (1884) 31 , Frege dividiu seu universo em dois: os con-

ceitos e os objetos. Em 1892, em “Conceito e objeto” ele responde `as cr´ıticas

de Benno Kerry.

Na senten¸ca “C´esar foi um general romano”, “C´esar” designa um objeto

e “um general romano” designa um conceito. Segundo Frege, a gram´atica

nos ajuda, em geral, a reconhecer objetos e conceitos. Pois os objetos s˜ao a

referˆencia dos sujeitos gramaticais e os conceitos a referˆencia dos predicados

gramaticais. Mas, `as vezes, ´e necess´ario desconfiar: a gram´atica pode mas-

carar as verdadeiras rela¸c˜oes l´ogicas. Por exemplo, em “Todos os mam´ıferos

tˆem sangue quente”, “todos os mam´ıferos”, contrariamente `as aparˆencias,

31 Todas as referˆencia s˜ao da tradu¸c˜ao francesa de Claude Imbert, 1969.

36

O Empirismo L´ogico

n˜ao designa um objeto, mas um conceito. Frege, que criou a quantifica¸c˜ao

l´ogica, analisa ent˜ao esta senten¸ca da seguinte maneira: “Para todo x, se x

´e um mam´ıfero, ent˜ao x tem sangue quente”, na qual aparece a natureza

predicativa do conceito designado por “todos os mam´ıferos”. Portanto, todo

signo que ocupa o lugar l´ogico do predicado tem um conceito por referˆencia.

Um objeto jamais pode ser a referˆencia da totalidade de um predicado l´ogico.

Ora, contrariamente a Frege, Russell sustenta que um conceito pode ser alter-

nativamente a referˆencia de um predicado e de um sujeito e que a doutrina que

sustenta que “os conceitos n˜ao podem ser sujeitos ´e insustent´avel” (Apˆendice

´

A, §483, p. 510). E necess´ario ver as raz˜oes respectivas que levaram Frege e

Russell a se oporem neste ponto.

Comecemos por Frege, cujos argumentos s˜ao, mais uma vez, exemplares.

Em Os Fundamentos da Aritm´etica, Frege tem como objetivo mostrar que a

aritm´etica se reduz a constru¸c˜oes sobre os n´umeros inteiros, que o conceito

de n´umeros inteiros pode ser reduzido a no¸c˜oes l´ogicas fundamentais e que

os axiomas da aritm´etica s˜ao deriv´aveis de leis l´ogicas fundamentais. No seu

caminho ele se depara com a seguinte quest˜ao: os n´umeros s˜ao propriedade

´

de quˆe? E esta quest˜ao que suscita a cis˜ao de seu universo em objetos e

conceitos. Ele recusa de in´ıcio a resposta de John Stuart Mill, para quem

os n´umeros s˜ao propriedades de objetos f´ısicos. Se o fosse, diz Frege, eu

consideraria um objeto f´ısico, como o poema de Homero, A Il´ıada, e o posso

conceber como um poema, com vinte e quatro livros, ou com um grande

n´umero de versos. Quando penso na folhagem de uma ´arvore, existe uma di-

feren¸ca marcante entre a maneira segundo a qual eu posso associar a cor verde

e um n´umero: posso assinalar o verde a cada folha ou `a folhagem tomada

em sua totalidade. Mas ao supor que a ´arvore tem mil folhas, eu n˜ao posso

associar o n´umero mil nem `a folhagem, nem a cada folha em particular (§22,

p. 148). A quem pertence o n´umero 1000? Sempre contra Mill, Frege mos-

tra que as diferen¸cas entre os n´umeros podem n˜ao corresponder a nenhuma

diferen¸ca f´ısica percept´ıvel: um par de botas e duas botas n˜ao se distinguem

fisicamente (§25, p. 152); e sobretudo, ao n´umero 0 n˜ao corresponde nenhum

objeto f´ısico (§7, p. 132 e §23, p. 150). Consideremos agora o n´umero 1:

se ele ´e propriedade de um objeto, como o adjetivo “s´abio”, dever-se-ia po-

der dizer “um homem”, como se diz “homem s´abio” e “S´olon era um” como

“S´olon era s´abio”. Sobretudo a partir de “S´olon era um” e “Tales era um”

poder-se-ia, por transforma¸c˜oes, obter “S´olon e Tales eram uns”, como se

obt´em “S´olon e Tales eram s´abios” a partir de “S´olon era s´abio” e “Tales era

s´abio” (§29, p. 158-159). Todos estes argumentos sugerem que os n´umeros

n˜ao s˜ao propriedades dos objetos.

Frege rejeita tamb´em que os n´umeros sejam entidades “subjetivas”, como

afirmava notadamente a doutrina kantiana segundo a qual as proposi¸c˜oes

1.4 Conceitos e coisas em Russell 1903; conceitos e objetos em Frege

37

aritm´eticas dependem da intui¸c˜ao pura do tempo. A no¸c˜ao de intui¸c˜ao

num´erica perde toda significa¸c˜ao se a aplicarmos a n´umeros suficientemente

grandes (§5, p. 129-130 e §12, p. 139-140). Frege pode agora responder `a

quest˜ao: de quem os n´umeros s˜ao propriedades? Os n´umeros, que tamb´em

s˜ao objetos, s˜ao propriedades n˜ao de objetos, mas de conceitos. “Isto pode ser

visto mais claramente com o n´umero 0” diz ele (§26, p. 175). Se, com efeito,

eu digo “Vˆenus tem 0 luas” n˜ao ´e necess´ario haver propriamente um objeto

lunar do qual podemos afirmar que o n´umero zero perten¸ca. Ao contr´ario, eu

atribuo uma propriedade ao conceito “lua de Vˆenus”, a saber, a propriedade

“de nada satisfazer” (Ibidem, p. 175-176). Se digo “A carro¸ca do imperador

´e puxada por quatro cavalos” eu atribuo o n´umero quatro ao conceito “cavalo

que puxa a carro¸ca do imperador” (Ibidem). Gra¸cas a esta resposta, Frege

pode dar um estatuto ao 0 e, sobretudo definir a no¸c˜ao de eq¨uinumericidade

gra¸cas `a qual a no¸c˜ao de n´umero inteiro pode ser constru´ıda sobre uma base

puramente l´ogica.

Ap´os esta primeira tese revolucion´aria (que faz dos objetos num´ericos um

atributo de conceitos), Frege modifica, com efeito, a ordem tradicional que

ia do n´umero para a igualdade entre n´umeros. Ele construiu, ao contr´ario, a

no¸c˜ao de n´umero a partir da no¸c˜ao de eq¨uinumericidade (§62-70). “O n´umero

que pertence ao conceito F ´e a extens˜ao do conceito ‘eq¨uinum´erico ao conceito

F’ ” (p. 194). Como ele diz, “se um gar¸com de hotel deseja se assegurar que

sobre a mesa tem o mesmo n´umero de garfos e facas, ele n˜ao tem necessidade

de contar ambos desde que coloque um garfo `a direita de uma faca, de modo

que cada garfo esteja sobre a mesa `a direita de uma faca. As facas e os

garfos est˜ao em correspondˆencia biun´ıvoca porque est˜ao associados entre si

pela mesma rela¸c˜ao de posi¸c˜ao” (§70, p. 195-196). A rela¸c˜ao equinum´erica,

ou de correspondˆencia biun´ıvoca entre conceitos (ou classes), ´e logicamente

anterior `a no¸c˜ao de n´umero. Se, como lembrou Russell, considera-se um

pa´ıs no qual a poligamia e a poliandria est˜ao exclu´ıdas, ent˜ao sem contar os

indiv´ıduos dos dois sexos, pode-se dizer que a classe das esposas e a classe

dos maridos tˆem o mesmo n´umero de membros. A similitude entre as duas

classes ´e definida por sua correspondˆencia biun´ıvoca. Da´ı, o n´umero de uma

classe (ou de um conceito) ´e definido como a classe de todas as classes que

lhe s˜ao semelhantes. Quanto ao n´umero 0, ele ´e a classe de todas as classes

que n˜ao tˆem elementos, ou na linguagem de Frege, a extens˜ao do conceito:

equinum´erico ao conceito “n˜ao idˆentico a si mesmo” (§74, p. 200).

Oito anos ap´os Die Grundlagen, Frege defende sua distin¸c˜ao entre obje-

tos e conceitos com novas armas, forjadas em “Fun¸c˜ao e conceito” (1891) e

“Sentido e referˆencia” (1892). Em resposta a Kerry, ele come¸ca colocando

em evidˆencia a ambig¨uidade l´ogica da c´opula “´e” (numa linguagem natural,

como o francˆes). H´a uma diferen¸ca fundamental entre o uso de “´e” nas duas

38

O Empirismo L´ogico

primeiras senten¸cas e nas seguintes:

  • (i) alguma coisa ´e verde.

(ii) alguma coisa ´e um mam´ıfero.

(iii) alguma coisa ´e Alexandre, o Grande.

(iv)

alguma coisa ´e o n´umero 4.

  • (v) alguma coisa ´e Vˆenus.

Em (i) e (ii) “´e” ´e um sinal de predica¸c˜ao, ligando um signo de objeto

a um signo de conceito. Sua fun¸c˜ao semˆantica ´e fazer que um objeto “caia

sob um conceito”. Mas em (iii)-(v) “´e” ´e um signo de identidade. Contra-

riamente `as aparˆencias puramente gramaticais, que levam a pensar que em

(iii) um signo de objeto est´a no lugar de predicado, a an´alise apropriada de

(iii) ´e a seguinte: “Alguma coisa n˜ao ´e outra sen˜ao Alexandre”. Portanto, o

nome pr´oprio “Alexandre” n˜ao ´e sen˜ao um componente do predicado “n˜ao

´e outra coisa sen˜ao Alexandre” (n˜ao um predicado l´ogico). Em uma sen-

ten¸ca como “A estrela da manh˜a ´e Vˆenus”, temos aparentemente dois nomes

pr´oprios (portanto, signos de objetos) dos quais um est´a em posi¸c˜ao de pre-

dicado. Portanto, segundo a an´alise precedente, o verdadeiro predicado n˜ao

´e “Vˆenus” mas “n˜ao ´e outra coisa sen˜ao Vˆenus”. A diferen¸ca entre “A es-

trela da manh˜a ´e Vˆenus” e “A estrela da manh˜a n˜ao ´e outra coisa sen˜ao

Vˆenus” ´e que, segundo Frege, na primeira senten¸ca estamos diante de uma

equa¸c˜ao revers´ıvel e, na segunda, diante de uma equa¸c˜ao irrevers´ıvel 32 . At´e

nova ordem, Frege presume-se fundamentado para preservar sua distin¸c˜ao

entre signos de objetos (os nomes pr´oprios, nunca em posi¸c˜ao de predicado

e geralmente precedidos de artigo definido) e signos de conceitos.

Portanto, ontologicamente o universo de Frege se divide em duas classes

bem distintas. Como ele afirma em “Fun¸c˜ao e conceito”, de um lado os con-

ceitos s˜ao seres essencialmente incompletos ou n˜ao saturados (unges¨attigt),

que ele concebe no modelo das fun¸c˜oes, isto ´e, munidos de um lugar vazio

(como as fun¸c˜oes proposicionais de Russell). De outro, os objetos s˜ao en-

tidades que se completam por si pr´oprios e que ele concebe no modelo dos

argumentos de uma fun¸c˜ao. No plano ling¨u´ıstico, um conceito ´e a referˆencia

de um predicado (convenientemente analisado) e um objeto jamais ´e a re-

ferˆencia global de um predicado, mas pode ser a referˆencia de um sujeito

gramatical.

Estas duas distin¸c˜oes ontol´ogica e ling¨u´ıstica s˜ao efetivamente produti-

vas. Consideremos os dois enunciados seguintes: “Existe pelo menos uma

raiz quadrada de 4” e “O conceito raiz quadrada de quatro ´e satisfeito”. No

primeiro ´e feita uma asser¸c˜ao referente a um conceito, o conceito raiz qua-

drada de 4 e n˜ao sobre os n´umeros definidos (2 ou -2) que s˜ao objetos, que

1.4 Conceitos e coisas em Russell 1903; conceitos e objetos em Frege

39

“caem sob” o conceito raiz quadrada de 4. Mais precisamente, atribui-se a

existˆencia (que ´e uma propriedade dos conceitos) ao conceito em quest˜ao.

Mas, no segundo enunciado, as palavras “o conceito de raiz quadrada de 4”

designam um objeto. O que esse enunciado diz ´e que um certo conceito de

n´ıvel 1 (o conceito raiz quadrada de 4 ) cai sob um conceito de n´ıvel 2. E

Frege nota a diferen¸ca entre as “marcas de um conceito” e as “propriedades

de um objeto”. No primeiro enunciado, o conceito raiz quadrada de 4 est´a

subordinado ao conceito de existˆencia, ou ainda, o conceito de existˆencia ´e

uma marca do conceito raiz quadrada de 4. Ap´os o teste de Frege, “uma raiz

quadrada de 4” designa um conceito, pois as palavras “raiz quadrada de 4”

est˜ao precedidas, n˜ao de um artigo definido, mas de um artigo indefinido.

No segundo enunciado, ao objeto designado pelas palavras “o conceito raiz

quadrada de 4” ser´a atribu´ıdo o conceito ser satisfeito. A asser¸c˜ao neste caso

´e feita ao sujeito do objeto 33 .

Contudo, n˜ao se pode ser levado, como Russell parece ter sido, por um

ar de paradoxo: se eu digo “O conceito raiz quadrada de 4 ´e satisfeito”, as

palavras “o conceito raiz quadrada de 4” designam um objeto! Ap´os o teste

de Frege, este ´e inegavelmente o caso, pois a express˜ao entre aspas come¸ca

por um artigo definido. Portanto, se digo “o conceito ‘cavalo’ ´e um conceito

que se assimila facilmente”, ent˜ao as palavras “o conceito ‘cavalo’ ” desig-

nam um objeto? Igualmente, se analiso (na “metalinguagem”) a senten¸ca

“Esta rosa ´e vermelha”, e digo “nesta senten¸ca, o predicado gramatical ‘´e

vermelho’ pertence ao sujeito ‘esta rosa’ ”, ent˜ao na ultima ´ senten¸ca as pa-

lavras “o predicado gramatical ‘´e vermelho’ ” designam n˜ao um conceito,

mas um objeto. Estas palavras est˜ao, com efeito, em posi¸c˜ao de sujeito,

n˜ao de predicado e eu empreguei o artigo definido. Mesmo o fato de pre-

fixar as palavras “cavalo” ou “´e vermelho”, respectivamente, pelas palavras

“o conceito” ou “o predicado gramatical” lhes conferem automaticamente

o estatuto de componente do sujeito gramatical, fazendo-as, portanto, de-

signar objetos. Como disse Frege, “o conceito ‘cavalo’ n˜ao ´e um conceito,

mesmo que a cidade de Berlim seja uma cidade e que o vulc˜ao Ves´uvio seja

um vulc˜ao” 34 . Frege denomina este fenˆomeno uma “dificuldade” ou prefe-

rencialmente uma “curiosidade ling¨u´ıstica”. De modo algum ´e um paradoxo

em sua vis˜ao, na medida em que esta “curiosidade” resulta simplesmente

na passagem de um n´ıvel ling¨u´ıstico a outro: ele descobre, sem o formular

explicitamente, a necessidade de distinguir entre uma “linguagem objeto” e

uma “metalinguagem”. Para assinalar esta diferen¸ca ´e necess´ario, observa

ele, utilizar procedimentos ling¨u´ısticos (aspas ou it´alicos), permitindo que se