Anda di halaman 1dari 10

UFPB - Centro de Ciências Jurídicas - Ano 1 - Nº 4 - Agosto/Setembro de 2010 - Venda Proibida

ADÃO, EVA E O PARAÍSO DESIGUAL


A superioridade do homem sobre a mulher não envolve apenas uma construção cultural: religião e filosofia também se
encarregam de fundamentá-la. As premissas de igualdade formal do liberalismo clássico e a normatização constitucional
não foram capazes de gerar uma equiparação substancial entre os sexos. Apresentamos um estudo inicial sobre as
questões de gênero.

CLARISSA CECÍLIA* que seriam estes dotados de liber-


dade, igualdade e fraternidade,
Por mais longe que se remonte na princípios fundamentadores de uma
história, assegura a feminista fran- ordem democrática e igual. A res-
cesa Simone de Beauvoir, as mu- peito disso, a feminista Carole Pate-
lheres sempre estiveram subordina- man afirma que com o advento da
das aos homens. E, neste intento, Teoria Liberal as mulheres teriam
legisladores, sacerdotes, filósofos, deixado de ser submissas aos pais
escritores e sábios teriam se empe- (poder patriarcal absoluto) e passa-
nhado bastante em demonstrar que ram a submeter-se aos irmãos
a condição subordinada da mulher (poder fraterno liberal).
era “desejada no céu e proveitosa à Desta forma, nada (ou pouco)
Terra”. versaram os teóricos do Liberalismo
As religiões criadas pelos homens clássico acerca de uma concepção
refletiriam esse domínio (como as de justiça em que homens e mulhe-
lendas de Eva e de Pandora), a res ocupassem um espaço, de fato,
filosofia e a teologia teriam sido igual e igualmente livre na socieda-
postas a serviço dos desígnios masculinos “E criou Deus o homem à sua imagem: o fez à de. O Patriarcha de Filmer não foi criticado
(como se observa nas citações de Aristóteles: imagem de Deus [...] E da costela que o pela imensa carga sexista e hierárquica de
“o macho comanda a fêmea”, de Sófocles: “o Senhor Deus tomou do homem, formou uma sua teoria, baseada na idéia de um Deus
silêncio dá graça às mulheres” e de São To- mulher, e trouxe-a a Adão [...] E à mulher fundamentador da desigualdade natural
más de Aquino: “a mulher é um animal que disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e entre os sexos, mas tão somente por não
não é nem firme nem estável”) e, desde a a tua conceição; com dor darás à luz filhos; o conceber o homem como “naturalmente
Antiguidade, moralistas e satíricos teriam se teu desejo será para o teu marido, e ele te livre”.
deleitado por pintarem o quadro das fraquezas dominará”. (Gênesis, 1:27; 2:22; 3:16). O próprio Rousseau, na obra Emile, afirma
femininas, como símbolo paradoxal de pureza que as mulheres seriam incapazes de con-
e de pecado. Tida por muitos como o mais alto grau de trolar seus “desejos insaciáveis” e que se
Ao longo do tempo, teorias filosóficas e um machismo inconcebível, ao mesmo tempo elas não possuíssem o importante freio do
doutrinas políticas foram elaboradas justifican- em que foi de grande relevância para a funda- pudor o resultado seria a ruína dos dois se-
do fortemente a superioridade do homem mentação da doutrina absolutista, a Teoria xos, sendo os homens vítimas dos atos femi-
sobre a mulher. A teoria do patriarcado de Patriarcal foi veementemente criticada por ninos egocêntricos. Assim, devido à imensa
Robert Filmer demonstra tal pressuposto com John Locke, que, ao lado de Rousseau, foi um desordem inerente à natureza das mulheres,
bastante clareza, através da idéia de que to- dos precursores do Liberalismo Clássico e estas seriam incapazes de desenvolver a
dos os direitos de governo e toda soberania defendeu a idéia de uma ordem contratual que moralidade necessária à sociedade civil e,
política derivam da concessão divina original justificaria a organização da sociedade. por isso, deveriam submeter-se às decisões
do direto régio a Adão, o primeiro pai. Assim, Tais teóricos, entretanto, ao construírem masculinas.
os pais e os reis seriam um só, e o poder pa- suas críticas ao Estado Absoluto, nada mais Apesar disso, a nova ordem liberal-
terno seria o poder monárquico. Todos os reis fizeram do que justificar a tese de que o ho- democrática foi acolhida por grande parte
governariam em virtude da descendência mem é “naturalmente livre”, não havendo po- dos Estados Ocidentais, guiada por um ideal
direta de Adão, e todos os pais eram reis den- der ilimitado; de que o Estado é o resultado de de igualdade e liberdade dos homens.
tro de suas famílias. um consenso entre estes homens; e, ainda, Posteriormente, e com o subsídio das
lutas e movimentos de emancipação feminis-
tas (que percorreram diversas fases e trans-
Nesta edição formações, devido à sua característica hete-
rogeneidade), tais democracias passaram a
3 | Entrevista | Nair Ávila, mãe do advogado Manoel Mattos, assassinado em janeiro do exprimir o desejo de tratar tanto homens
ano passado, conversa sobre a trajetória do filho na defesa dos direitos humanos quanto mulheres como iguais e, a partir daí,
grande parte das Constituições democráticas
4 | Sociedade, conhecimento e práxis | Projetos de pesquisa em Direito Econômico
passaram a ter prevista expressamente no
6 | Espaço Discente | Lyra Filho: Direito, dominação e dialética social rol de seus princípios a igualdade de homens
7 | Espaço Discente | O direito internacional, as grandes guerras e as Relações Interna- e mulheres perante a lei, tornando evidente a
cionais: mercado e poder na globalização ilegitimidade das discriminações de caráter
sexual, e permitindo que as mulheres tives-
8 | Mestrado | Violência contra a mulher em músicas de forró: o início de um debate
sem igual acesso à educação, aos empre-
9 | Espaço Docente | A Calcinha Preta de Beyoncé e o Capital, por Roberto Efrem Filho gos, aos cargos públicos, etc.
10 | Cinefilia! | “World’s greatest dad”: aceitação social, hipocrisia e o “encontro consigo OK. Homens e mulheres são formalmente
mesmo”, por Carlos Nazareno Continua na página 2 >>
CCJ em Ação · Ano 1 · Nº 4 Página 2
iguais, o art. 5º da Constituição Brasileira particular, público/privado, etc. A feminista sobre as mulheres, formulando regras imparci-
afirma que homens e mulheres são iguais em americana Francis Olsen observa que estes ais e que se aplicam a todos os indivíduos,
direitos e obrigações, o Código Civil de 2002 dualismos encontram-se, por um lado, sexuali- como se essa suposta igualdade forçada, ou
não mais prevê que o homem é o chefe da zados, ou seja, mulheres e homens identifi- “igualdade perante a lei”, fosse promover a
família, nem que a mulher só pode exercer cam-se com lados opostos dos dualismos, e verdadeira igualdade de todas e todos.
profissão com o seu consentimento, hoje as por outro, hierarquizados, sendo um elemento É a partir dessa linha de pensamento que
mulheres votam e se candidatam a cargos considerado superior ao outro. se chega à conclusão de que a própria noção
eletivos. Mas por que os dados do IBGE ainda Olsen observa que o Direito será identifica- de igualdade que temos não é real, uma vez
hoje apontam que mulheres percebem salários do com a parte considerada masculina e supe- que essa luta por parte das mulheres tem
com valores cerca de 40% inferiores aos dos rior desses pares, uma vez que se supõe que resultado apenas numa tentativa de se equipa-
homens? Por que 43% das mulheres brasilei- ele seja racional, objetivo, abstrato e universal. rar aos homens, em espaços criados por ho-
ras afirmam sofrer ou terem sofrido algum tipo Tal pressuposto resultaria do fato de as práti- mens.
de agressão advinda de alguém do sexo mas- cas sociais, políticas e intelectuais que consti- Embora se proclame um grande aparato
culino? Por que dentre os 81 membros do tuem o Direito terem sido, durante muitos constitucional para que sejam garantidas as
Senado brasileiro, apenas 10 são mulheres? E anos, encabeçadas quase que exclusivamente igualdades em todos os aspectos, e mesmo
na câmara dos deputados, por que há apenas por homens, uma vez que as mulheres estive- que a Constituição pressuponha que todo
45 mulheres num universo de 513 pessoas? ram excluídas historicamente da construção governo é “livre e igual”, a desigualdade social
Por que tantos dados apontam para um dese- do saber jurídico. resultante da ordem tradicional do patriarcado
quilíbrio na balança da justiça se, legal e prin- Outro importante fator é que a concepção não foi destruída pelos direitos legais apregoa-
cipiologicamente, todas e todos somos iguais? liberal de igualdade possui uma abrangência dos pelo liberalismo, e as desigualdades conti-
A resposta não é fácil, assim como não é extremamente limitada, uma vez que é procla- nuam a existir.
fácil fazer com que as pessoas (sobretudo os mada como se as mulheres possuíssem real- As verdadeiras causas da desigualdade
juristas!) percebam como a Lei, a norma, a mente condições de competir, sob regras sexual são bastante difíceis de serem percebi-
positivação dos direitos, sozinhos, não permiti- “neutras quanto ao gênero”, pelos papéis que das pelo senso comum, e a modificação dessa
rão jamais que mudanças sociais de caráter foram desde sempre definidos pelos homens. situação exige uma profunda reflexão acerca
estrutural ocorram. Na verdade, esse conceito ignora as desigual- de todas as esferas da sociedade, estrutura-
Uma série de complexos fatores contribui dades de gênero presentes na própria defini- das desde seu início sob a ordem patriarcal.
para que ainda permaneça muito viva em ção dos espaços que as mulheres pretendem Tais estruturas dificilmente se modificarão
nossa cultura (cristã, ocidental) a idéia de que ocupar juntamente com os homens. sem que haja uma completa subversão do
o masculino é superior ao feminino. A igualdade não pode ser alcançada permi- pensamento dominante e sem que as mulhe-
A naturalização das diferenças é um desses tindo, por exemplo, que os homens construam res possam, de fato, começar a também fazer
fatores, combatida com a construção da cate- instituições sociais segundo seus interesses, e parte da construção dos valores e das institui-
goria gênero, em que se busca conceber suas depois ignorem o gênero dos candidatos ao ções, bem distante da idéia do Gênesis, em
diferenças como social, política e culturalmen- definir quem preencherá os cargos nestas que Eva representa a ajudante irresponsável
te construídas, resultantes de um processo instituições. O que ocorre, de fato, é que os de Adão, culpada pelo pecado original, casti-
histórico de formação. cargos podem ter sido definidos desde muito gada eternamente com a dor e o sofrimento de
Aliada a isso, desde o surgimento do pensa- tempo de maneira que façam com que os poder desejar apenas um homem.
mento liberal clássico, a sociedade tem sido homens sejam muito mais adequados a eles,
estruturada em torno da formação de dualis- mesmo numa competição que se afirme * Mestranda em Direitos Humanos (UFPB) e
mos (ou pares opostos) que dividem as coisas “neutra quanto ao gênero”. integrante do grupo de pesquisa Gênero e
em esferas contrastantes, tais como: razão/ O liberalismo jurídico simplesmente ignora a Direito do CCJ
emoção, objetivo/subjetivo, universal/ existência da dominação masculina histórica clarissacecilia@hotmail.com

Editorial
O que esperar do curso de Direito? (palavras estas muitas vezes ineficazes),
com todos os seus códigos e consolida-
Salas cheias, salas vazias. Assuntos ções, não deve ser algo apenas a ser de-
polêmicos, outros enfadonhos. Conversas corado, mas, antes de tudo, algo a ser
em corredores nas quais é possível apren- analisado e questionado. Tudo isso por- Uma iniciativa do grupo OBSERVATÓRIO DO CCJ
der bem mais do que em horas numa sa- que o Direito não é autônomo, hermético
Editores
la. Longas tardes de leitura e também ou perfeito. O Direito é processo histórico,
vésperas de prova sem estudar nada. é ação-reflexão. Alysson Guerra
Andrezza Melo
Uma aula que te marcará para sempre, Pode-se, neste curso, apenas fixar arti- Ariadne Costa
outras que você não irá nem lembrar ou gos, incisos e alíneas. Pode-se, também, Caroline Carvalho
Daniella Memória
sequer assistir. Livros interessantíssimos. aprender a pensar, indagando esses mes- Douglas Pinheiro
Pessoas também. mos artigos, incisos e alíneas para assim Magno Duran
O espaço físico em que nos encontra- aplicá-los ou mudá-los. Pode-se, neste Manuela Braga
Sarah Marques
mos não se chama “universidade” por curso, se preparar para ser um intérprete Yure Tenno
mero acaso. Ele é assim conhecido por- pretensamente neutro da lei. Pode-se,
que “universos” de conhecimento e opor- também, procurar entender as forças soci- Apoio editorial

tunidades nos são abertos e, com o Direi- ais que determinam uma norma e que Carlos Nazareno
to, não é diferente. Pesquisa, movimento serão determinadas por esta. Pode-se, Revisão textual
estudantil, monitorias, estágio, extensão, neste curso, repetir. Pode-se, também, Andrezza Melo
estudos para concurso, grupos políticos: construir.
Diante dessas alternativas e de muitas Projeto gráfico
esses são alguns pedaços da vida acadê-
mica que nos são mostrados e que de- outras, fica uma questão central: a per- Sérgio Sombra
vem, por nós estudantes, ser buscados. gunta a ser feita não deve ser “o que es- Finalização
No entanto, acredito que a pergunta que perar do curso de Direito?”, mas sim “o Douglas Pinheiro
intitula o presente editorial não é em toda que eu irei fazer num curso de Direito?”.
Contato
pertinente. Isso porque o Direito não é
algo pronto e acabado a nos ser entregue jornalccjemacao@gmail.com

enquanto esperamos, passivos, em cartei- Por Daniella Memória Este jornal é uma produção independente. Todo o
ras de uma sala de aula. O ordenamento Em nome do OBSERVATÓRIO DO seu conteúdo é de responsabilidade dos seus idea-
lizadores.
jurídico, com todas as suas belas palavras CCJ
CCJ em Ação · Ano 1 · Nº 4 Página 3

ENTREVISTA - NAIR ÁVILA

“Não quero que outras mães passem pelo que eu


estou passando”
nunciou grupos de extermí- do Estado e da questão da segurança,
nio que atuavam nas re- é possível dizer que a luta pelos direi-
dondezas da divisa entre a tos humanos vale a pena?
Paraíba e Pernambuco. Me
perguntavam se eu não Nair - Vale a pena porque nós não pode-
tinha medo de que aconte- mos enxergar apenas a nossa pessoa:
cesse algo com ele. Res- temos que saber ver a situação do outro.
pondi que o que eu ensinei Eu mesma sofro com essa dor grande
ao meu filho me dá forças como mãe, mas não quero que outras
para que hoje eu esteja na mães passem pelo que eu estou passan-
luta, para que seja feita a do. Quanto aos governantes, as coisas
justiça. Digo isso porque, ainda precisam melhorar muito e só com o
na véspera do dia de sua transcorrer do tempo é que vamos nos
morte, ele se virou para deparar com mudanças. Nós devemos
mim e disse “Mainha, eu continuar a luta pela igualdade, pelas pes-
devo tudo o que sou à se- soas mais carentes (para que elas te-
nhora”. Eu cumpri meu nham, de fato, direitos) e, assim, chegar,
ARIADNE COSTA, CAROLINE CARVALHO,
DOUGLAS PINHEIRO E YURE TENNO papel de mãe e, agora, espero que a polí- trabalhando muito, a um denominador
cia e as demais autoridades cumpram o comum e melhor. ■
Dona Nair Ávila aparenta não esquecer papel delas.
a trágica noite do dia 24 de janeiro de EXTRA
2009. Com óculos escuros, procurando CCJ - Manuel Mattos, como advogado
Dra. ROSEMARY SOUTO MAIOR
esconder as lágrimas, tem estampada, na defensor dos Direitos Huma-
Promotora da Comarca de Itambé (PE)
camisa, a foto do seu filho, o advogado nos, denunciou grupos de extermínio,
Manuel Bezerra de Mattos Neto, assassi- nas fronteiras entre Pernambuco e a
Paraíba. Como sabemos, ele também CCJ - Quais as suas expectativas quan-
nado por denunciar, durante mais de dez to à federalização do caso Manoel Mat-
anos, a atuação de grupos de extermínio foi político, ex-vereador do município
de Itambé e até chegou a ser vice- tos?
na divisa entre os estados da Paraíba e
Pernambuco. presidente do PT de Pernambuco. Gos-
Rosemary - Acredito em uma resposta
Aquela data marcou uma completa revi- taríamos de saber o que o "político
defensor dos Direitos Humanos" Manu- positiva, onde a Justiça Brasileira analisa-
ravolta na vida de Dona Nair: de mera rá com a maior neutralidade possível, mas
“conselheira”, passou à defesa ativa dos el Mattos realizou a favor dos mesmos:
quais projetos conduziu, quais campa- também com o compromisso de dar uma
direitos humanos, sempre tomando o e- resposta efetiva. Nós podemos reescrever
xemplo do filho - que poderia estar vivo, nhas afirmativas pôde mobilizar, quais
foram seus principais focos na cons- essa história, e os estados da Paraíba e
ao seu lado, não fosse a inércia do Estado de Pernambuco sairão ganhando. Isso
brasileiro em conferir proteção policial a trução cidadã dos Direitos Humanos
em PE e, particularmente, em Itambé. fará com que demos um salto de qualida-
Mattos, conforme havia determinado a de, dando assim um exemplo da efetivida-
Organização dos Estados Americanos de do nosso Judiciário. Espero que o ideá-
(OEA), em 2002. Nair - Meu filho, aos dois ou três anos de
rio de Manoel Mattos e de tantos outros
Hoje, Dona Nair tem esperança de que idade, já tinha um amor pela cidade e foi a
primeira criança que nasceu na materni- não morra, caso contrário, a sociedade
o caso passe a ser analisado pela Justiça brasileira irá se deparar com uma enorme
Federal, isso se o Superior Tribunal de dade de Itambé – o primeiro itambeense!
perda.
Justiça decidir, daqui a alguns dias, pela Ele sentia orgulho de ter nascido lá. Para
procedência do Incidente de Deslocamen- que pudesse estudar, fomos morar em
CCJ - Pela experiência que vocês tive-
to de Competência (IDC), fato que será Recife, mas ele nunca perdeu contato
ram não só de voluntariedade e inação,
inédito desde a vigência da Emenda com Itambé: eu era separada do pai dele,
mas, também, de uma involuntariedade
Constitucional nº 45. que continuava morando na cidade. De-
na inação, a senhora acredita que uma
Demonstrando simpatia e serenidade, pois que entrou para a política, Manoel
nova decisão mudará não somente a
Dona Nair teve uma rápida conversa com levou muitas benfeitorias para Itambé: era
questão estrutural, mas também o ideá-
a equipe do CCJ EM AÇÃO. assessor jurídico de um deputado e viaja-
rio voluntário de lutar pelos direitos
va frequentemente para Brasília com o fim
humanos?
CCJ - Qual relação a senhora tinha com de conseguir verbas – organizou a biblio-
a atividade desenvolvida por seu filho teca pública, levou água para uma parte
Rosemary - Com certeza isso fará com
em Direitos Humanos e qual é a relação da cidade que, até então, não tinha, cons-
que as pessoas se sintam mais seguras
que a senhora tem hoje? truiu casas... Ele era uma pessoa que
na hora de acionar a Justiça. Tendo em
queria o melhor para aquela cidade e eu
vista o fato de que não há um aparato de
Nair - Antes eu não tinha relação alguma sofro muito com saudades dele, mas sofre
segurança para elas e também o grande
com os direitos humanos, eu não fazia muito mais o povo de Itambé por não ter
corporativismo ainda vigente no Poder
parte de nada: meu filho fazia e eu incenti- Manoel Mattos.
Judiciário, as pessoas acabam se sentin-
vava. Várias emissoras de televisão me do inseguras quanto à atitude a ser toma-
perguntaram se eu havia dado conselhos CCJ - Diante de tudo o que a senhora
tem vivenciado em relação ao agir dos da. ■
para que ele largasse tudo aquilo, já que
passou a ser ameaçado depois que de- sujeitos políticos, das ações e inércia
CCJ em Ação · Ano 1 · Nº 4 Página 4

SOCIEDADE, CONHECIMENTO E PRÁXIS

Projetos de pesquisa em Direito Econômico: da energia e desenvolvimento sustentável”. Atualmente, o tema do


regulação estatal, combustíveis e meio ambiente Pré-sal e o novo marco regulatório do petróleo são destaques no
projeto de 2010-2011, cujo título é “Direito e desenvolvimento: fede-
ralismo fiscal, contratos e meio ambiente na exploração de petróleo
LIS MAIA*
e gás natural”.
Além da iniciação científica, outras ativida-
A inserção da pesquisa concomitante- des foram desempenhadas, como a primei-
mente à extensão e ao ensino proporciona ra e a segunda edições do Congresso Pa-
um alargamento dos horizontes acadêmi- raibano de Direito Econômico, uma parceri-
cos dos alunos da graduação, especial- a da UFPB e UNIPÊ, realizados respectiva-
mente porque ao teorizar acerca das temá- mente em 24, 25 e 26 de abril de 2008 e
ticas de relevância social, econômica, am- 24, 25 e 26 de setembro de 2009. Vale
biental e jurídica – no caso do curso de conferir o site do segundo Congresso:
Direito – o estudante conhece as falhas da http://www.ccj.ufpb.br/cpdecon/.
base legal para a solução dos problemas Outro evento foi a realização de um curso
sociais e elabora propostas para resolver de extensão em Direito do Petróleo, Gás
tais questões. O conhecimento oriundo das Natural e Biocombustíveis na Perspectiva
atividades desenvolvidas também pode do Desenvolvimento Sustentável, que se
refletir-se em maior interesse em aprofun- iniciou em maio de 2009 e concluiu-se em
dar os estudos em Direito. agosto de 2010. Por possuir abordagem
Desde 2006, desenvolve-se no CCJ um multidisciplinar e ter inscrições abertas
grupo atuante de pesquisa sobre Direito para outras faculdades, o curso contou
Econômico, sob a coordenação e orienta- com cerca de 60 alunos, de graduação e
ção da Professora Doutora Maria Luiza pós, dos cursos de Direito, Economia, En-
Pereira de Alencar Mayer Feitosa, tanto no Mestrado – com o grupo genharia Química e Ambiental, da UFPB, UFCG, UNIPÊ, FESP,
de pesquisa cadastrado no Programa de Pós-Graduação em Ciên- etc.
cias Jurídicas da UFPB (pela área de concentração em Direito Eco- Como resultado desse curso, será realizado em novembro o Con-
nômico) intitulado “O Perfil Regulador do Estado Brasileiro” – quan- gresso Paraibano de Direito da Energia. O tema central é “Recursos
to na Graduação – com quatro projetos de iniciação científica Energéticos & Sustentabilidade: perspectivas e desafios”. As inscri-
(PIBIC-PIVIC) aprovados pelo Programa PIBIC-PIVIC (CNPq- ções começam no fim de agosto.
Universidades), com dez alunos bolsistas, do início até agora.
Dando continuidade ao trabalho desenvolvido na pós, os PIBICs
da graduação também possuem o enfoque em regulação – a exem- *Aluna do 3º ano (tarde)
plo do projeto do biênio 2009-2010, “Petróleo e biodiesel: regulação lismaia_1989@yahoo.com.br

ESPAÇO DATAB (Diretório Acadêmico Tarcísio Burity)


· SEMANA DO FERA 2010.2 crianças e suas respectivas mães. Na primeira, se encontram mulheres
que já foram viciadas em drogas ou álcool, ou mesmo aquelas que não
O Diretório Acadêmico mostravam condições econômicas para sustentar seus filhos. Foi mos-
Tarcisio Burity (DATAB) trado um trabalho muito importante para a vida dessas pessoas, com a
realizou mais um evento realização de oficinas de artesanato e pintura, e também de momentos
de muito sucesso, agora de evangelização diários. Já a outra instituição funciona como um abri-
com a excelente parceria go para muitas pessoas que estão na cidade por alguns dias, que vêm
co m o Departamento de de cidades do interior para fazer exames médicos, por exemplo.
Direito Processual e Já neste período 2010.2, o DATAB pretende estender suas doações
Prática Forense, concre- a um Lar Espírita que abriga idosos, localizado no bairro do Castelo
tizando a maior e melhor Branco, além de uma instituição que abriga crianças carentes, localiza-
Semana do Fera! do no bairro Cristo Redentor.
Assim, de 09 a 13 de Assim, o Diretório Acadêmico espera que todos os estudantes do
agosto, houve diversas CCJ e da UFPB possam abraçar essa causa, doando alimentos, mate-
palestras, nos turnos da riais de higiene pessoal e brinquedos para essas pessoas que tanto
manhã e da noite, onde necessitam de nosso apoio, não somente no trote solidário, como tam-
estiveram presentes representantes da Direção, Coordenação e Depar- bém na Semana do Fera 2010.2, no II Seminário de Direito Público e
tamentos do CCJ, além de diversos professores - palestrando sobre Privado do CCJ, III Olimpíada Jurídica DATAB ou a qualquer tempo,
algumas das carreiras jurídicas e sobre os projetos de extensão ofere- com algum dos membros do DA.
cidos pelo Centro e pela Universidade. Portanto, seja solidário! A Sociedade agradece!
Na sexta-feira à noite, para o encerramento, contamos com apresen-
tações culturais: a cantora lírica Maria Juliana e o violonista Michel · EVENTOS
Costa, além do Trio Pé-de-Serra Nossa Terra, fecharam, de uma forma
brilhante, o evento, que contou com a participação de centenas de
discentes e com os apoios da FUNJOPE (Fundação Cultural de João III Olimpíadas Jurídicas DATAB
Pessoa) e da Livraria Prática Forense. Data: 28 e 29 de agosto
Lembrando que os certificados equivalentes a 12 horas extra- Dia 28 (CCJ): Dominó de Dupla – R$ 4,00 por dupla / Dia 29 (Praia
curriculares serão entregues, para palestrantes, participantes e organi- de Manaíra): Vôlei de Dupla – R$ 5,00 por dupla
zadores, nas dependências do DATAB, o mais rápido possível. Vídeo Game – R$ 3,00 por pessoa
Inscrições Abertas! Faça já a Sua!
· DATAB SOCIAL Encontro Regional dos Estudantes de Direito (ERED) 2010
O DATAB, Diretório Acadêmico Tarcísio Burity, dentro de suas atri- ERED 2010 – “Direito como Meio de Transformação Social” - 04 a 07
buições, busca realizar doações a instituições carentes. Para o período de Setembro – Natal – UFRN
2010.1, alguns membros da associação realizaram uma visita à Casa Todos os dias Palestras e Festas!
da Misericórdia e ao Bom Pastor, estabelecimentos que abrigam muitas Inscrições e informações na sede do DATAB!
CCJ em Ação · Ano 1 · Nº 4 Página 5

ESPAÇO DISCENTE

poucos amigos. É natural a formação de gru-


CALOUROS pos que compartilham dos mesmos ideais ou
culturas. É certo que a confederação dos gru-
TANCREDO FERNANDES* pos é mais vantajosa para a harmonia dentro
da sala de aula, mas nem sempre isso ocorre.
O reconhecimento dos professores e as
O mundo das fórmulas químicas, das equa-
ções matemáticas e dos esquemas biológicos primeiras percepções são com certeza o alvo
martirizava a nossa tão rigorosa rotina quando das primeiras conversas. Críticas sobre o pole-
gar esquerdo do docente, a discordância de
ainda éramos vestibulandos. Talvez a vocação
seus pensamentos, os primeiros assuntos
para a área de humanas e a predileção por
temas relacionados a Geografia e a História abordados são exemplos dessas interações.
Convincentemente o trote é também uma
tranqüilizavam nossas mentes diante da frus-
forma de o fera sociabilizar-se com o ambiente
tração do vestibular e das cobranças de nos-
sos pais. Entender nossos pensamentos e universitário, conhecer e trocar informações
ideais era algo complicado, por isso escolher a com os veteranos e quebrar o rigor e a discipli-
na típicos da primeira semana de aula. Critica-
carreira certa foi um processo, para muitos,
difícil e que precisou de uma rigorosa malha do por muitos, o trote é um ritual de passagem
fina (testes vocacionais, questionários, etc). do mundo escolar para as vivências universitá-
rias, sempre regado a brincadeiras como o
Além disso, a pressão psicológica e até
mela-mela de tinta guache, farinha e ovo.
mesmo o ambiente ao qual éramos submetidos
para realizar as provas de vestibular problema- É comum também a expectativa pelas avali-
A alegria e o entusiasmo da aprovação são
ações. Conhecer o estilo do professor e como
tizavam ainda mais nossa vida. Sem contar a contagiantes. Amigos, parentes, colegas pulam
ele age diante das mais diversas situações é
sacies dos colegas para conferir o temido ga- conosco e comemoram nossa vitória através
barito ou as incessantes dúvidas diante das curiosidade de diversos calouros. Distinguir o
de foguetões, de churrascos... Um verdadeiro
questões mais complicadas. Quem não tem carrasco do ocioso também faz parte das pri-
bacanal nordestino.
meiras experiências.
histórias sobre seu vestibular? Fiscais arrogan- A apreensão pelo resultado torna-se festa, e
tes, eloqüentes, faladores, efusivos ou loucos. Ancorar nossos desejos no porto do Direito
depois da festa surge a responsabilidade. Re-
Concorrentes desesperados, apressados, certamente não foi fácil. Passar em uma uni-
conhecer a importância de um curso universitá-
versidade pública federal num curso que tem
engraçados. Nossas angústias de zerar a reda- rio e entender nossa participação social pós-
tradição e nome na Paraíba, muito menos.
ção ou o medo da complicadíssima prova de conclusão são idéias que permeiam as nossas
física. Todos nós tivemos dificuldades, problemas
mentes.
internos e externos, mas conseguimos superá-
O ser vestibulando é um ser complicado. Quando entramos na Universidade e os
los diante da educação. Temos, então, como
Todavia o adjetivo que povoou a boca dos anjos celestes tocam suas liras e cornetas
nossos professores durante o 3º ano é alterado obrigação, por sermos futuros juristas, mudar a
anunciando nossa chegada (experiência narra-
instantaneamente quando as Coperves da vida cara de nosso país tornando-o mais ético e
da por um professor de Literatura) nos depara-
cidadão.
publicam suas listas de aprovados, e lá encon- mos com um mundo diferente. A assiduidade
tramos um novo caminho, uma nova denomi- dos professores e o rigor das vestimentas não
* Aluno do 2º período 2010.1 (manhã)
nação - somos universitários! são mais realidade nessa nova etapa de vida.
tancredogomes@hotmail.com
No início os desconhecidos tornam-se aos

acadêmica e ao público em geral, por meio forma de demonstrar que somente através
deste fulcral periódico. da sinergia podemos galgar voos cada vez
Autônomo, o Mundialistas.com.br é um maiores, seja no campo do Direito, seja no
projeto idealizado por estudantes universitá- das Relações Internacionais.
rios – todos, à época de sua fundação, gra- Desejamos que os estudantes de Direito
duandos em Relações Internacionais – que da UFPB possam ter mais uma fonte de
se reúnem com o propósito de escrever consulta naquilo que tange aos meandros
sobre os mais diversos assuntos concernen- das relações internacionais (como campo de
tes às relações internacionais (Política, Eco- manifestação dos Estados) e das Relações
MUNDIALISTAS.com.br nomia, Direitos Humanos etc.), visando a Internacionais (enquanto disciplina), e, jun-
Opiniões Inteligentes sobre Relações Interna- expor opiniões acerca do cotidiano da comu- tos e através do diálogo, possamos buscar
cionais (ISSN 2176-5405) nidade internacional. entender os meandros que cercam as ativi-
Sendo o campo do Direito uma das áreas dades estatais (absolutas) num ambiente
Conhecimento 2.0: diálogo e de estudo e análise do internacionalista, anárquico (relativo).
colaboração em rede temos certa experiência (seja em pesquisas,
artigos, eventos e outros) no que concerne Atenciosamente,
Segundo Norberto Bobbio (Dicionário de aos Direitos Internacional, Constitucional,
Política. Brasília: UnB, 2007), o Mundialis- Penal e Humanos. Portanto, vemos a parce-
mo é ria com o Jornal CCJ EM AÇÃO como o Celso Henrique, Graduado em RI (UEPB) e
fulcro de um nascedouro ainda mais fecun- Direito (UFPB)
(%) o movimento que tem como objetivo a do para o seio acadêmico paraibano, nor-
construção da unidade política mundial. destino e brasileiro. Além, é claro, do fato de Dalliana Vilar, ex-graduanda em RI e gra-
Nele confluem aspirações cosmopolitas e podermos estreitar os elos institucionais que duanda em Direito (UFPB)
pacifistas, qualificadas pela indicação dos nos unem como discentes.
instrumentos institucionais necessários Fábio Franco, graduando em RI (UFS)
Ademais, informamos que, através do
para garantir suas realizações. Afirma o nosso sítio, o CCJ EM AÇÃO também se Gills Lopes, graduando em RI (UEPB)
princípio da unidade do gênero humano fará presente, mantendo, assim, uma parce-
acima das divisões nacionais e a necessi- ria harmoniosa e respeitosa no que se refere Joseildo Lima, graduando em RI (UEPB) e
dade de um ordenamento pacífico capaz à exposição frente aos futuros e já profissio- Economia (UFPB)
de garantir a unidade do planeta, e, ao nais das Relações Internacionais do Brasil
mesmo tempo, a autonomia de todos os e do mundo. Philipe Moura, graduando em RI (UnB)
Estados. Parcerias como esta se mostram não Vico de Melo, graduado em RI (UEPB),
apenas como um modus operandi de divul- graduando em História (UFPB) e mestrando
Ante as palavras do filósofo político italia-
gação recíproca, mas, outrossim, como uma em Ciência Política e RI (UFPE)
no, nos apresentamos a toda sociedade
CCJ em Ação · Ano 1 · Nº 4 Página 6

ESPAÇO DISCENTE

LYRA FILHO: DIREITO, DOMINAÇÃO E DIALÉTICA SOCIAL


TALLES LINCOLN SANTOS LOPES*

Em 1982, Roberto Lyra Filho - professor titular


de Filosofia e Sociologia Jurídica da UnB, doutor
em Criminologia e Direito criminal, criador da
Criminologia Dialética e marxista convicto – es-
creveu “O que é Direito” para a coleção Primeiros
Passos da Editora Brasiliense. Apesar de passa-
dos 22 anos da primeira publicação da obra, ela
ainda se configura como requisito bastante ne-
cessário para os juristas que começam sua jorna-
da de descoberta desse fenômeno social abran-
gente, indubitável e, sem dúvida alguma, avassa-
lador, a que convenientemente chamamos de
Direito.
Escrito no período da Guerra Fria - em que a
União Soviética ainda não havia entrado em
colapso e a ascensão da ideia de “socialismo “A dialética social concorre para demonstrar o quão interligado ao pro-
democrático” trazia um novo fôlego de esperança cesso histórico e às mudanças sociais o fenômeno jurídico está”
- o conteúdo de todo o livro traz conceitos prove-
nientes do marxismo. A começar pela primeira
preocupação do autor, que é derrubar as ideolo- tado, como à espreita de comandar-nos, vigian- tório normativo, apenas formal e sem comprome-
gias jurídicas que construíram conceitos de Direi- do-nos, e (por que não dizer?) reprimindo-nos e timento com a Justiça. Não devemos nos enga-
to que limitam esse fato social. Entendida como oprimindo-nos. Na obra, Direito é processo histó- nar, Direito pode até se distanciar completamente
falsa consciência da realidade, causada por um rico-social, é mudança de valores, dos fatos, das da lei, mas da Justiça, jamais, ele sempre está,
distúrbio inconsciente - e externo - da razão, normas (que configuram apenas uma pequena pelo menos nas suas entrelinhas mais ideológi-
devido a uma crença implantada pela classe parte do Jurídico), das crenças filosófico- cas e utópicas, ligado à Justiça.
dominante, a ideologia é entendida como empeci- metafísicas e, sobretudo, da ciência. Mas não Atualmente, a ciência jurídica a qual estuda-
lho para a ciência e também para a boa conceitu- deve se enganar quem pensa que é um conceito mos nas faculdades de Direito é a dogmática
ação do Direito, que, através dela, sempre será simples, que podemos facilmente decorar. Como jurídica. Ela entende o Direito como uma tecnolo-
analisado apenas por um lado e nunca como o próprio autor adverte: “nada é, tudo que é, só é gia, uma espécie de técnica, para a decisão e
fenômeno por inteiro, de uma forma que sempre sendo”. É temporário, mutável, passível de ser resolução de conflitos com o mínimo de perturba-
visa justificar determinado comportamento do seduzido pelos interesses alheios. ção social possível. E não apenas isso: uma
grupo que é dono dos meios de produção. É Para demonstrar essa dialética social, remete- técnica voltada também à dominação, servindo
nessa parte que entram o positivismo e o jusnatu- mo-nos ao século XVIII, quando a burguesia se para o poder da violência simbólica, controle de
ralismo, assim como as divisões que deles ver- uniu ao povo para lutar contra o esmagador po- grupos sobre outros e, apesar de não demonstrar
tem, considerados os dois grandes pólos pelos der da aristocracia. Invocando um Direito suprale- claramente, não ignora as lutas políticas e sociais
quais se entende o Direito. gal, atemporal e, acima de tudo, justo, reivindica- por trás desse fenômeno. É exatamente isso.
Entretanto, inquestionavelmente, a maior con- ram uma mudança sócio-econômica que libertas- Direito é técnica para a decisão e para a domina-
tribuição do marxismo para a construção da obra se os oprimidos da dominação da nobreza. Direi- ção. Servindo para manter o equilíbrio da socie-
é a dialética social. É a partir dela que nasce a to naquele momento era muito mais do que lei, dade, permitindo a coexistência, supostamente
definição de Direito dada pelo autor. A dialética era universal, natural, divino. Após essa conquis- trazendo a harmonia ao decidir os conflitos que
social concorre para demonstrar o quão interliga- ta, a burguesia tinha que manter o poder sob surgem no âmbito social, e também serve para a
do ao processo histórico e às mudanças sociais o controle, assim como a nobreza reacionária e o opressão de um conjunto de pessoas em relação
fenômeno jurídico está. Porque, apesar de uma povo faminto por mudanças mais intensas. Para aos demais, dos que têm o poder sobre aqueles
extensa literatura que tentou nos dizer o oposto, proteger seus interesses, a burguesia ditou o que apenas sonham em alcançá-lo. Direito é
o Direito está no coração da sociedade. Direito Direito frio, insensível e não-interpretável: o Direi- sombras e aurora. Direito é paz e guerra. Direito
existe porque nós, a cada dia, enfrentamos a to positivado era o único Direito concebível. Tri- é céu e inferno. É o primórdio mais hodierno da
convivência social, a coexistência com o outro, o unfa a escola da Exegese e a sua concepção de sociedade.
estranho, o que não nos pertence. O ser humano que Direito é lei, é estatal, é de quem venceu a
vive e somente vive em sociedade, e a cada batalha para chegar ao poder. Mas houve a resis-
suspiro, respiro e palpitação que essa sociedade tência e aqueles que perceberam que o fenôme- * Aluno do 2º período 2010.1 (manhã)
dá, o Direito aparece avassaladoramente incrus- no jurídico não podia ser simplesmente um reper- talleslincolnslopes@yahoo.com.br

¡ CONTRA LEGEM ! DIREITO E POLÍTICA EM DEVANEIOS...


· Quem tem medo da opinião pública? (I) o TSE), também só tem a reclamar dos olhos · Os gays e a juíza profetisa
da publicidade. Flagrado num bar,
Já fora da composição do STF e montando Dias depois de uma conquista histórica na
comemorando com amigos, divulgou, depois,
seu escritório de advocacia, Eros Grau, em “católica” América do Sul, a comunidade gay
nota oficial criticando os “fabricantes de
entrevista ao Estado de São Paulo, afirmou da Argentina teve que tolerar mais um
escândalos”. Foi a mesma imprensa que o
que a transmissão televisiva de sessões da daqueles discursos de quem não aceita o fato
transformou de negro herói a ministro
Suprema Corte não é uma boa ideia e obriga de pessoas do mesmo sexo poderem “juntar
negligente. Os próprios colegas pedem um
o julgador a “reafirmar pontos de vista”. Se- as trouxas” sob a proteção da lei. Dessa vez,
posicionamento definitivo seu sobre o cargo
gundo ele, a opinião pública é lesiva à impar- saiu da boca de uma juíza hermana que
que ocupa no Supremo (e os processos se
cialidade das decisões e somente deve haver “Deus ama a todos, mas não aprova as coisas
acumulam...). Mas ele disse que de lá não sai.
publicidade no resultado e não no processo ruins que as pessoas fazem. E uma relação
em si. Faltou explicar como dar ao Judiciário · Sarkozy e a burca entre homossexuais é uma coisa ruim diante
um “lugar ao sol” das estruturas democráticas dos olhos de Deus”. Disse ela que nunca acei-
escondendo debates decisivos em uma socie- taria a união civil gay e preferiria entregar o
dade “judicializada”. cargo a ver efetivado tal direito. Se for por
falta de adeus...
· Quem tem medo da opinião pública? (II)
E, enquanto isso, a ADPF 132 está em
O ministro Joaquim Barbosa, do STF, alguma gaveta do Supremo. ■
licenciado para tratar problemas na região Porque para salvar sua dignidade é preciso
lombar e do quadril (que o obrigaram a deixar despi-la!(?) Por Douglas Pinheiro
CCJ em Ação · Ano 1 · Nº 4 Página 7

ESPAÇO DISCENTE

O DIREITO INTERNACIONAL, AS GRANDES GUERRAS E


AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS
A guerra levou os representantes das gran- lação de valores essenciais ao ser humano. Com
des potências a deliberarem a respeito de isso, a comunidade internacional desapegou-se
investimentos em universidades para a da vertente idealista. Queriam algo que explicas-
formação de profissionais que estudassem se e descrevesse o mundo da maneira como ele
as relações internacionais com um caráter é, e não como deveria ser. Foi aí que surgiu o
científico, através de análises históricas, de segundo grande laço teórico que consolidou as
maneira a tentar prever o comportamento Relações Internacionais como ciência: o Realis-
dos Estados, tidos como únicos agentes mo.
internacionais, ou seja, os únicos que pode- O Realismo das relações internacionais é de-
riam atuar no cenário internacional, modifi- terminado pelas relações de poder entre os Esta-
cando-o e adaptando-o. Não tardou para dos. Os Realistas desdenham do Direito Interna-
que houvesse o reconhecimento desse cional, consideram que o Direito prevalece so-
ramo da ciência política como ciência propri- mente enquanto não for de encontro com os
amente dita. interesses dos Estados soberanos, já que algu-
Inicialmente unidas à vertente liberal- mas potências dispõem de recursos para impor
idealista, as Relações Internacionais surgi- suas pretensões aos demais. Para eles, o Direito
ram com o intuito de compreender o cenário e a ordem internacional decorrem diretamente da
YULGAN TENNO DE FARIAS LIRA* internacional da época, tendo como seu objeto de correlação de forças entre aqueles que detêm
estudo a política internacional e as relações inter- maior poder.
As relações internacionais têm suas raízes na nacionais. Os teóricos liberais acreditavam que Influenciados pelos acontecimentos após 1945,
evolução do homem e de seu relacionamento os ideais de livre-comércio, da Democracia e do tais como a redemocratização do “mundo”, o
com a sociedade, assim como na formação de Direito Internacional seriam suficientes para ga- primeiro choque do petróleo, o fim da guerra do
seus valores morais, culturais, religiosos, políticos rantir a paz mundial. Junto a esse ideal, Woodrow Vietnã e o início da Guerra Fria, Robert Keohane
e econômicos. Tais interações, sejam elas de Wilson, então presidente dos Estados Unidos, e Josephy Nye expuseram, nos anos 70, a neces-
comércio, religião ou, até mesmo, de guerra, trouxe do “novo mundo” os 14 pontos para a paz, sidade da criação de um novo paradigma para
representaram um avanço na maneira como os uma diretriz que garantiria que os Estados bus- entender e explicar os assuntos internacionais de
homens se relacionavam com o estrangeiro. No cassem a cooperação e evitassem os conflitos uma maneira outra que não fosse apenas no
entanto, essas interações possuíam natureza internacionais e internos, garantindo os valores âmbito da segurança, como faziam os realistas.
meramente circunstancial, não dando margem ao máximos do Estado Liberal na esfera global. O Para eles, as questões econômicas, financeiras e
desenvolvimento das Relações Internacionais de décimo quarto ponto propunha a criação da Liga sociais estavam em evidência e influenciavam
uma forma sistemática. Isso só veio a ocorrer das Nações, espécie de embrião cada vez mais o comportamento
com o crescimento das disputas entre os Esta- da ONU, um organismo que dos Estados. Os autores elabora-
dos, já que estes ganhavam maiores dimensões garantiria a interdependência ram a tese da interdependência
e importância na esfera global e se envolviam em política entre os Estados e a complexa, uma vez que a coope-
sucessivos conflitos visando, teoricamente, à eficiência da ordem internacio- ração passava a ganhar mais
defesa dos interesses nacionais. nal, submetendo seus signatá- importância na esfera global e
As guerras travadas marcaram com sangue a rios às normas jurídicas interna- tendia a sobrepujar as relações de
história da humanidade, o que tornou imprevisível cionais. Sem essa instituição, os poder, argumentando que “a
e inseguro o seu futuro. A harmonia entre os pontos de Wilson não teriam economia internacional havia
Estados era rara: cada vez mais, os recursos de validade: com a Liga, os Leviatãs evoluído até um ponto em que o
poder cresciam e se tornavam eficazes armas de seriam presos em jaulas fortifica- poder passa a ser exercido medi-
destruição – tanques de guerra, aviões equipados das. ante o uso exclusivo de mecanis-
com metralhadoras de última geração, bombas Os 14 pontos para a paz de mos financeiros e comerciais”.
de destruição em massa e armas biológicas. Via- Woodrow Wilson foram dura- Surgia assim a vertente Neo-
se, nitidamente, a necessidade da criação de mente criticados pelos Liberal.
uma ciência que compreendesse o que estava “vitoriosos” da primeira guerra,
“[Na] guerra, não existia Essa maneira de entender o pa-
havendo com o mundo e indicasse soluções sendo julgados impróprios e bem ou mau, vitoriosos ou drão internacional conseguiu
diligentes para fugir da nuvem sombria que se perdendo espaço para o Tratado explicar e autenticar a tese de
instituía nesses momentos. de Versalhes, que conduziu com
perdedores: todos perdiam Norman Angell (1909) sobre a
Hobbes já expusera em sua obra clássica - “mãos de ferro” os “perdedores recursos financeiros e “grande ilusão” de a Guerra Fria
“Leviatã” - a natureza egoísta do homem, a inexo- da guerra”. Nesse contexto, as eclodir no mundo capitalista mo-
rável vontade de luta pelo poder e seu desejo de imposições do Tratado à Alema-
humanos, todos contribuí- derno: era simplesmente muito
dominar os demais, além da “guerra de todos nha fizeram nascer naquele país am para a aniquilação de caro patrocinar um conflito arma-
contra todos” em um estado de natureza, inter- um sentimento de revanchismo e
pretado aqui como o sistema internacional anár- revolta entre a população. A
valores essenciais ao ser do entre potências. Com isso,
ganhava força a ideia de que os
quico no qual os Estados interagem. Caso não indenização absurda, aliada à humano” Estados não poderiam ser vistos
houvesse um estudo sistemático que tentasse ascensão de governos autoritá- como únicos atores internacio-
solucionar o “mal-estar da civilização”, a guerra rios, à peleja por poder e ao fracasso da Liga das nais. Crescia a autoridade que tinham as Organi-
generalizada eclodiria. De fato, foi o que ocorreu. Nações, fez com que o discurso nazista cresces- zações Não-governamentais, principalmente as
A forte interdependência entre alguns países se e seus ideais brotassem como uma semente multinacionais e as instâncias do aparato buro-
europeus fez de um conflito isolado e medíocre no “terreno fértil” do coração germânico, o que crático estatal na esfera global, além de blocos
entre o Império Austro-Húngaro e a Sérvia uma levaria a Alemanha para outro conflito armado, econômicos como a União Européia e o MERCO-
guerra irresponsável que logo envolveu boa parte que fez mais de 78 milhões de mortos: A Segun- SUL. O Neo-Liberalismo, enfim, surge como a
do mundo. Acontece que os países europeus da Grande Guerra (1939 – 1945). grande corrente que põe em evidência o fenôme-
estavam fazendo alianças políticas e militares A humanidade vivenciou novamente um perío- no da globalização como fator fundamental para
desde o final do século XIX. Durante o conflito do de terror, catástrofes, tragédias e calamidades explicar a dinâmica das RI, e que corrobora defi-
mundial, essas alianças permaneceram. A Pri- enormemente piores, uma vez que os recursos nitivamente a afirmação de Angell (em The Great
meira Guerra Mundial (1914 – 1918) levou os de poder eram infinitamente melhorados com Illusion) de que “o Direito Internacional se desen-
analistas a repensarem a condição na qual esta- ajuda da tecnologia - como a bomba atômica e os volve em reação à necessidade de uma estrutura
va inserido o mundo moderno. Foi um conflito aviões-caça. Momento em que os Direitos Huma- capaz de regulamentar níveis altos de interdepen-
inédito na história da humanidade, uma ação nos eram apenas “sombra e pó”. O ideal de fra- dência”, o que expõe a forte influência que tem a
implacável que fez mais de 15 milhões de vítimas ternidade, que os acompanhou desde a Revolu- globalização sobre o Direito Internacional vigente.
fatais. Momento em que toda a ética na guerra ção Francesa, não era mais cabível àquela arena.
havia sido reduzida a coisa alguma. A ordem era Nessa guerra, não existia bem ou mau, vitoriosos * Aluno do 2º período 2010.1 (manhã)
de combater nas cidades, matando inocentes e ou perdedores: todos perdiam recursos financei-
se apoderando de seus recursos. yulganfarias@hotmail.com
ros e humanos, todos contribuíam para a aniqui-
CCJ em Ação · Ano 1 · Nº 4 Página 8

MESTRADO

VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER EM MÚSICAS DE FORRÓ:


O INÍCIO DE UM DEBATE
THIAGO DE MEDEIROS DUTRA*

Apesar do número crescente de políticas


públicas em favor das mulheres, e de casos
de feminicídios que ocupam muito tempo dos
noticiários, a violência doméstica e familiar “Apesar de defendermos um
contra a mulher ainda é algo “escondido” na
sociedade e legitimado por questões de gê-
Estado que respeita o direito à
nero. liberdade de expressão, não é
Algumas características sempre estão pre- possível aceitar a emissão
sentes na violência doméstica, quais sejam,
(a) a desvalorização da mulher, (b) a amea- sem nenhum controle de músi-
ça, (c) a negação da violência, dentre outras. cas que banalizam a mulher e
Nesse contexto, há algo que tem chamado a
atenção: a banalização desse tipo de violên- negam a violência, transfor-
cia em músicas de forró. mando-a em algo normal”
“Essa mulher não vale nem um re-
al” (AVIÕES DO FORRÓ); “Você não vale
nada, / Mas eu gosto de você!” (CALCINHA
PRETA). Essas músicas são cantadas a todo
tempo nas rádios e shows em todo o Brasil.
tamente a violência, há ainda aquelas que
O fato é que ambas mitigam a dignidade da
trazem um teor pornográfico em suas letras, Apesar de defendermos um Estado que
mulher a partir do momento que exprimem
sendo denominadas “pornofônicas”. A porno- respeita o direito à liberdade de expressão,
uma imagem de desvalor da mesma.
grafia foi um assunto bastante tratado por não é possível aceitar a emissão sem ne-
“[...] Agora eu digo / “Tô” decidido! / Se ela
Catharine MacKinnon, mostrando, dentre nhum controle ou até mesmo a simples emis-
não ficar comigo / não fica com mais nin-
outras coisas, um posicionamento não pauta- são de músicas que banalizam a mulher,
guém. / Mas aí o couro come, / a cobra fu-
do na questão dos bons costumes, mas na ameaçam a sua integridade física e psíquica,
ma, / o bicho pega. / Eu “tô” com essa dana-
ameaça à igualdade civil entre os indivíduos, assim como negam a violência, transforman-
da / e sou eu quem manda nessa bode-
haja vista a imagem de subordinação e explo- do-a em algo normal e que não fere a ordem
ga” (AVIÕES DO FORRÓ). Vê-se aqui um
ração das mulheres que é difundida. social. Precisa-se de um Estado Regulador.
exemplo de ameaça, em que a promessa de
(RABENHORST, 2001. p. 116) Saliente-se que a limitação à liberdade de
violência perpassa o sub-texto da letra. Na
expressão que trazemos aqui não é uma
verdade, o sentimento de posse e a própria
A pornografia altera a percepção da sexu- forma de se impedir os discursos, mas de se
banalização da mulher transformam esta em
alidade e perpetua a dominação masculi- ouvir aqueles que não possuem a oportunida-
um tipo de objeto que segue (ou, pelo menos,
na, pelo fato de: 1) desumanizar as mu- de de serem ouvidos, mesmo que, para isso,
que deve seguir) estritamente a vontade do
lheres, tratando-as como objetos, coisas o Estado tenha que “silenciar as vozes de
companheiro. A mulher já perdeu a sua digni-
ou bens; 2) sugerir que as mulheres sin- alguns para ouvir as vozes dos outros”.
dade e agora tem a vontade mitigada.
tam prazer nesse tratamento; 3) incitar a (FISS, 2005. p. 30)
Falemos, então, sobre a negação da vio-
violência contra as mulheres ao apresen- Como fazer isto? Como encontrar o limite
lência. Vejamos: “Ela é safada, / mas gosta
tá-las em posições de submissão, amar- entre um Estado liberal e um regulador? Es-
de apanhar. / [...] / Apanha pra dormir, / apa-
radas, golpeadas, fisicamente feridas ou tas questões precisam ser discutidas e traba-
nha pra acordar. / Apanha todo dia, / toda
penetradas por objetos e animais; 4) re- lhadas na academia. Contudo, antes disso,
hora sem parar. / Eu sei o que fazer pra ela
presentá-las como prostitutas por nature- precisamos entender que a violência que
não brigar. / É tudo diferente, / seu remédio é
za. (RABENHORST, 2001. p. 123) vemos é, em parte, conseqüência da violên-
apanhar.” (SAIA RODADA); “Jogaram uma
cia que ouvimos, ou vice-versa.
bomba, no cabaré... / Voou pra todo canto
A pornografia visual não difere tanto da
pedaço de mulher / Foi tanto caco de puta
sonora, pois ambas degradam a mulher, co- · REFERÊNCIAS
voando pra todo lado / Dava pra apanhar de
mo no exemplo: “Com muito charme / dá uma
pá, de enxada e de colher! / [...] / Aí eu juntei
reboladinha. / Agora faz como se fosse uma RABENHORST, Eduardo Ramalho. Dignida-
tudo / e colei bem direitinho, / fiz uma rapari-
cachorrinha.” (SOLTEIRÕES DO FORRÓ). de Humana e Moralidade Democrática.
ga mista, / agora todo homem quer” (ROGER
Esse tipo de música transforma o gênero Brasília: Brasília Jurídica, 2001.
& ROBSON). Na verdade, não há a negação
feminino em um objeto que sacia o desejo do
da violência como a não existência fática da
homem, e apenas isso. ISRAEL, Jean-Jacques. Os direitos e as liber-
mesma, mas como a não caracterização do
Enfim, conforme a citação acima, do pro- dades de pensamento: a liberdade de opini-
ato como uma ação violenta. O conceito de
fessor Eduardo Rabenhorst, além da violên- ão; a liberdade de ensino; a liberdade de
violência contém um grande valor normativo,
cia doméstica e familiar retratada em algu- comunicação. In: ____ Direito das liberda-
sendo pautado em regras sociais que estipu-
mas canções, ainda existe o problema da des fundamentais. Trad. Carlos Souza. Ba-
lam os limites da razoabilidade de nossas
pornografia, que incita a figura de subordina- rueri: Manole, 2005. p. 483 – 552.
ações. O fato é que essas músicas apregoam
ção feminina e da dominação masculina.
que a mulher “gosta de apanhar”, ou seja, em
Quanto à liberdade de opinião, esta pode FISS, Owen M. A ironia da liberdade de
tese, não seria errado bater, pois a compa-
ser encarada como a possibilidade de pensar expressão. Estado, Regulação e Diversida-
nheira não acharia errado. Na segunda músi-
aquilo que se acredita ser verdadeiro, bem de na Esfera Pública. Rio de Janeiro: Reno-
ca, o cômico se une ao trágico, porém este é
como a de expressar o próprio pensamento var, 2005.
esquecido. Jogar uma bomba no prostíbulo e
(ISRAEL, 2005. p. 485). Nem sempre esse
haver a decomposição de partes do corpo de
direito foi reconhecido, pois exercê-lo é, mui-
prostitutas seria algo válido na música, até
tas vezes, ir de encontro a postulados enrai-
porque, no fim de tudo, formou-se uma prosti-
zados na sociedade, tais como a religião e a
tuta “muito melhor”. * Mestrando em Direitos Humanos (UFPB)
política. Precisa-se de um Estado Liberal.
Porém, além de músicas que incitam dire- thiagomedeirosdutra@hotmail.com
CCJ em Ação · Ano 1 · Nº 4 Página 9

ESPAÇO DOCENTE - Prof. Roberto Efrem Filho*

A CALCINHA PRETA DE BEYONCÉ E O CAPITAL


Se você desconhece, tal qual acontecia parecem “integrados”. Mas essa aparência
comigo até algumas semanas, Beyoncé de “integração” por meio do consumo,
Giselle Knowles, permita-me apresentar- longe de integrar humanamente pessoas,
lhe talvez a mais contundente prática que o modo de produção capitalista
manifestação da capilaridade internacional estruturalmente impede, reforça as funções
da pop culture desta década. Beyoncé, do capital na mediação das relações
como sua marca a apresenta, já deve ter sociais. Engendra-se daí algo que
vendido aproximadamente 30 milhões de podemos chamar de “integração
álbuns, de CD ou DVD, desde o estranhada”. Beyoncé toca em casas de
lançamento de sua carreira solo, em 2003, entretenimento destinadas ao público gay,
isto considerando a abissal e estrutural assim como toca em espaços dedicados ao
queda nas vendas desses produtos em público hetero, mas as diferentes
face das renovadas facilididades de acesso aglutinações permanecem, gays de um
potencializadas pela internet. É Beyoncé lado, heteros de outro, cada grupo
vencedora de nada menos do que 16 mantendo um nicho de mercado bastante
Grammy Awards, sendo que cinco dos lucrativo e evitando o contato com a “outra”
seus singles já alcançaram o primeiro lugar humanidade, por mais que lá e cá pessoas
na Billboard Hot 100, coisa que se você se vistam, dancem, cantem e bebam cada
não sabe do que se trata, não se preocupe, vez mais identicamente.
eu também não sei. Além de cantora e O cenário produzido pela integração
dançarina, Beyoncé é atriz, tendo atuado estranhada se torna mais e mais complexo
em sete produções cinematográficas e sido ao passo em que apuramos o olhar sobre
indicada, inclusive, ao Globo de Ouro, por “Através do consumo, as manobras conduzidas dialeticamente
seu trabalho no longa Dreamgirls. A revista entre capital e cultura. Notamos, por
Forbes elegeu Beyoncé, no ano de 2009, a sujeitos socialmente exemplo, que os jovens gays das periferias
cantora com menos de 30 anos de idade distintos, como o público escutam a um só tempo Beyoncé e Calcinha
mais rica do mundo, por ela arrecadar mais Preta, o que igualmente acontece com os
de 87 milhões de dólares entre os anos de gay de Beyoncé e as filhos, gays ou não, das classes medianas.
2008 e 2009. Notamos, consequentemente, que a citada
Mas não pense você que eu esteja a classes subalternas das capilaridade do capital e de seus objetos de
dissertar a respeito de Beyoncé por qualquer consumo implica e requer uma divisão
um dos motivos acima mencionados. De
periferias nordestinas, cultural do consumo, concernente à má e
fato, duas questões em Beyoncé, ou nos parecem ‘integrados’” velha divisão social do trabalho, mas
processos culturais que a transformam no muitíssimo complexa. Isto por conta das
fetiche que ela representa, têm tomado a investigar. De todo modo, interessa-nos o diversas combinações possíveis entre
minha atenção. A primeira delas se relaciona fato de que produtos desse calibre se objetos de consumo (originais ou adaptados)
à sua popularidade junto ao que podemos adaptam, em diferentes conjunturas, sendo e públicos consumidores, estes também
chamar de “público gay” – sim, porque localmente reapropriados, o que demonstra coisificados. Decerto, nenhum outro
Beyoncé se constitui como uma “diva!”, no a complexa eficiência com que se momento na história conheceu a totalidade
seio da mesma tradição iniciada (?) por movimentam as relações entre cultura e como nós atualmente conhecemos. Os
Madonna. A segunda, por sua vez, vincula- capital. Digo isto tomando algumas rastros do modo de produção vigente se
se ao gosto musical de Dona Maria, precauções para que não caiamos encontram em tudo, todo o tempo, inclusive
trabalhadora brasileira, mãe de seis filhos, equivocadamente num daqueles vícios em nossa incapacidade de percebê-los. Por
moradora do município de Cabedelo, na caquéticos próprios às análises outro lado, nunca fomos tão fragmentados,
Paraíba, e que, às segundas-feiras, dá conta economicistas. Se na conta dos 87 milhões perdidos em umbigos próprios, fronteiras de
da faxina aqui de casa. Dona Maria não de dólares angariados por Beyoncé está sala de estar ao redor de aparelhos LCD,
conhece Beyoncé – ela gosta mesmo é de uma cifra cuja responsabilidade compete a celas abarrotadas de homens negros e
Amado Batista! – mas costuma ouvir e Calcinha Preta, não sou capaz de dizer, pobres, esquerdas irreconhecíveis diante de
cantarolar músicas dessas bandas de forró muito embora saiba que a compra de parte si mesmas.
eletrônico que transbordam das rádios. significativa daqueles milhões de álbuns foi Porém, disso tudo é quase impossível não
Ocorre que, ironicamente, foi através de uma realizada por bolsos de homossexuais. No concluir que – e aqui está mais uma vez a
dessas bandas, intitulada “Calcinha Preta”, entanto, certamente está nos ouvidos de ironia da qual já falei – porque não há
que Dona Maria me apresentou Beyoncé, Dona Maria uma dimensão relevantíssima significativas diferenças entre o “original” e a
ou, em verdade, uma versão mal acabada da legitimação da indústria cultural e de sua “adaptação”, afinal ambos não são lá o que
de um dos seus hits, convertida num dos produção dominante: no fim, poderão alegar existe de mais artisticamente criativo na
maiores sucessos das periferias e dos que até nos rincões da Paraíba os ouvem. A história, podemos contundentemente afirmar
interiores da região Nordeste do nosso país. cultura e o capital vivenciam um ao outro de que entre Calcinha Preta e um Grammy,
Deu-se, contudo, que, porque conheci o uma maneira tal que em certos momentos nada mais há que Beyoncé: o eterno retorno
ritmo do single norte-americano antes analíticos torna-se difícil diagnosticar o que do que nunca se foi, a mais nova velha
através da adaptação de Calcinha Preta e mais se multiplica, se os lucros materiais novidade do pedaço. Propunhamos então o
não da versão original, ao sair de casa e ir a diretos, as cifras, ou os lucros simbólicos da Globo de Ouro a Calcinha Preta, por todos
um bar numa dessas sextas-feiras da vida, e citada legitimação. os seus esforços, ou melhor, a Dona Maria,
ao ouvir a voz da então desconhecida Tamanho alcance nos remete à cruel porque se é de esforços que estamos a falar,
Beyoncé, alertei, fiat lux, aos presentes: olha capilaridade com que o capital e a cultura a ela vence. Ah, se vence!
a música de Dona Maria! ele correspondente se incorporam de forma
Como exatamente o mesmo produto total a este mundo em que vivemos, o que
cultural se faz suficientemente capaz de melhor notamos se em discussão está a
atravessar campos tão diversos, como atividade do consumo. Sim, porque através
boates gays em todo o mundo e a casa de do consumo, sujeitos socialmente distintos, * Roberto Efrem Filho é mestre em Direito
Dona Maria, diz de um desafio sociológico como o público gay de Beyoncé e as classes pela UFPE e professor do Departamento
que estas poucas linhas não possibilitam subalternas das periferias nordestinas, de Ciências Jurídicas da UFPB
CCJ em Ação · Ano 1 · Nº 4 Página 10

CHARGE

World’s Greatest Dad


Robin Williams (03 indica-
ções ao Oscar de melhor
ator [Bom dia, Vietnã! –
1987; Sociedade dos
Poetas Mortos – 1988 e O
Pescador de Ilusões –
1991, vencendo como
coadjuvante no brilhante
Gênio Indomável – 1997)
protagoniza “World’s Gre-
atest Dad” (escrito e dirigi-
do pelo desconhecido Bob
Goldthwait em 2009).
Resolvi ver este filme sem
qualquer expectativa.
Escolha aleatória, sem
indicações. Aparentava ser uma comédia simples,
desprovida de qualquer temática envolvente. Surpre-
endi-me.
CONFERÊNCIA Lance Clayton (Robin Williams) é um tradicional
professor norte-americano, fã do cantor Bruce
Centro de Ciências Jurídicas da UFPB Hornsby (responsável pelo hit oitentista That’s The
Way It Is), namorado de uma colega de profissão, pai
Extensão Santa Rita (Antiga Faculdade de Direito, ao de um estudante problemático e vizinho de uma
lado do Palácio do Governo) senhora que apresenta compulsão por guardar coi-
sas inúteis.
A solidão causava pânico em Lance Clayton e seu
Data – 1º de Setembro de 2010 – às 10h00 grandioso anseio era tornar-se evidente na sociedade
como um grande escritor (a literatura e a poesia
TEMA revelavam-se como suas paixões). Ele desejava
escrever “algo que unisse as pessoas e ajudasse as
afetadas pelas situações humanas”. Contudo, suas
Os Direitos Humanos e os Mundos da Sociedade do obras jamais foram reconhecidas.
Mundo Ao deparar-se com a inusitada morte acidental de
seu filho, viciado em anomalias sexuais, Lance deci-
de encobrir as fatídicas causas do incidente criando
“j a sociedade não tolera verticalidade e nem tampou- uma carta de suicídio, divulgada ao público. Daí em
co hierarquias, não tolera mais idéias normativas e nem diante, o pai e o finado filho, outrora repelidos pela
sociedade, passam a ter uma aceitação fanática,
tampouco limites externos. O limite da sociedade é o sendo o primeiro um símbolo referencial para todos e
limite do mundo e o mundo é o horizonte das possibili- o segundo um mártir salvador, dado o profundo teor
dades, o horizonte entre aquilo que é possível e o que reflexivo contido na “carta de suicídio”.
A euforia da aceitação social, aos poucos, revela a
pode sempre ser atualizado. E o mundo se expande vivência em uma prisão repleta de hipocrisia e falsi-
com a expansão da sociedade, isto é, com a expansão dade advindas de indivíduos vazios. Ao perceber
da comunicação social. E como esta sociedade é a úni- tudo isso, Lance Clayton, em uma cena de arrepiar
(simplesmente ao som do grandioso clássico Under
ca sociedade que existe, podemos chamá-la sociedade Pressure [Queen e David Bowie]), conscientiza-se da
do mundo. «Sociedade do mundo, escreveu Luhmann, realidade que o cerca e liberta-se da prisão. Ele,
é a produção do mundo nas comunicações»”. realmente, nasce de novo.
“Costumava achar que a pior coisa na vida era
terminar sozinho. Não é. A pior coisa na vida é aca-
Com o Prof. RAFAELLE DE GIORGI (Facoltà di bar com pessoas que fazem você se sentir sozinho”,
Giurisprudenza dell’Universitá del Salento, Itália) pensou.
E qual a lição disso tudo?
Nem sempre é fácil enxergar a realidade que nos
cerca, a despeito de flagrantes evidências. O esforço
JÚLIO COPIADORA para se destacar (ou tornar-se “visível”), com anseio
de uma maior aceitação social, certamente não é a
saída mais adequada para viver em harmonia consi-
UFPB - CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS (CCJ) go. Você é este imperfeito ser, habitante de um mun-
8727-9328 / 9915-5257 do repleto de indivíduos ainda mais imperfeitos. Acei-
tar suas imperfeições, buscando o íntimo equilíbrio
pessoal, parece ser o caminho mais hábil a possibili-
XEROX tar a aquiescência daqueles realmente merecedores
TRANSPARÊNCIA de nós mesmos.
O site The Internet Movie Data Base (IMDb) deu
ENCADERNAÇÃO nota 7.1 ao filme (uma excelente avaliação). Humor
PLASTIFICAÇÃO negro, sarcástico e inteligente. Recomendo.
CAPA PLÁSTICA DE LIVROS
CD, DVD E CAPA Carlos Nazareno é estudante de Licenciatura
em Artes Visuais (UFPB)
carlos--nazareno@hotmail.com