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UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE

Andréia Cristina Leite Souza

LIBRAS NO CURSO DE PEDAGOGIA:

A CONSTRUÇÃO DE REPRESENTAÇÕES SOBRE ALUNOS COM SURDEZ

SÃO PAULO

2016

Andréia Cristina Leite Souza

LIBRAS NO CURSO DE PEDAGOGIA:

A CONSTRUÇÃO DE REPRESENTAÇÕES SOBRE ALUNOS COM SURDEZ

Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito parcial à obtenção de título de Mestre em Educação, Arte e História da Cultura.

Orientadora: Prof. Dra. Mirian Celeste F. Dias Martins

SÃO PAULO

2016

M669t

Souza, Andréia Cristina Leite.

Libras no curso de pedagogia : a construção de representações sobre alunos com surdez / Andréia Cristina Leite Souza São Paulo , 2016.

126 f. : il. ; 30 cm.

Dissertação (Mestrado em Educação, Arte e História da cultura) - Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2016.

Orientador: Profa. Dra. Mirian Celeste F. Dias Martins Referência bibliográfica: p. 117-121

1. Surdo. 2. Cultura surda. 3. Formação de professores. 4. Libras. I. Título.

CDD 370.71

Dedico este trabalho bem como todas as minhas demais conquistas, aos meus amados pais, ao meu esposo pelo apoio e incentivo, aos meus irmãos e sobrinhos que são meus presentes de Deus.

AGRADECIMENTOS

Quero agradecer em primeiro lugar a Deus, por ser essencial em minha vida, autor de meu destino, meu guia, socorro e fonte de toda a sabedoria, pela força e coragem que me concedeu, permanecendo ao meu lado em todo o percurso dessa caminhada.

À Universidade Presbiteriana Mackenzie e à Universidade Nove de Julho por permitirem a realização desta pesquisa.

A minha orientadora Profa. Dra. Mirian Celeste, pelo muito que me ensinou e pelo suporte no pouco tempo que lhe coube, pelas suas correções e incentivos.

A minha família, irmãos, minha avó e em especial aos meus pais José Nivaldo e Eunice pelo apoio incondicional.

Ao meu esposo Aderley, meu amigo, companheiro pelo carinho, amor e dedicação.

E todos aqueles que de alguma forma estiveram e estão próximos de mim, fazendo esta vida valer cada vez mais a pena.

Aprenda a compreender a linguagem do seu corpo, porque ele é a expressão de sua alma. (Regina Giora)

RESUMO

Os surdos pertencem a uma minoria linguística que utiliza como forma de comunicação a língua de sinais, de modalidade visuo-gestual. Podemos compará- los a estrangeiros, ou seja, uma pessoa que possui uma concepção de mundo diferente da maioria e uma cultura singular. Neste sentido, a formação inicial do professor em cursos de Pedagogia tendo em vista uma ação inclusiva é condição indispensável para uma educação de qualidade voltada aos surdos e impulsiona as perguntas que cercam esta pesquisa, a saber, a disciplina de Libras no curso de Pedagogia que tipo de conceito de surdez está em cena?; quais as representações que alunos da Pedagogia, que irão atuar na educação básica, criam sobre alunos com surdez na classe regular? Para respondê-las, a presente pesquisa traz uma visão contemporânea sobre a linguagem e a cultura surda a partir de teóricos como:

Sacks (2010), Strobel (2009), Skliar (2010), Perlin (2010), Lulkin (2010), Ribas (2011), Gesser (2009), Lacerda & Santos (2013), Laraia (2001), Cassirer (1977), Quadros (1997). A partir da análise dos planos de ensino das disciplinas de Libras e dos questionários respondidos pelos alunos dos cursos de Pedagogia da Universidade Nove de Julho e da Universidade Presbiteriana Mackenzie, ambas na cidade de São Paulo, foi possível perceber a formação do pedagogo no que se refere às contribuições e aos desafios da disciplina de Libras e nos cursos de licenciatura. Dos estudos e das análises emergem novos desafios para os professores universitários que ministram essa disciplina e conceitos fundamentais para a formação de pedagogos, futuros professores e gestores da educação básica.

Palavras-chaves: Surdo; Cultura Surda; Formação de Professores; Libras.

ABSTRACT

Deaf people belong to a linguistic minority, that uses gestural language to communicate. We can compare them to a foreigner, in other words, a person who has a different worldview from most of the people and also has a unique culture. Therefore, the initial formation of the Professor of courses related to Pedagogy, taking into consideration actions for inclusion, is a requisite for a good education focused on the deafs, and this drives questions that surround this research. During the Brazilian Sign Language Course (LIBRAS) in Pedagogy, what kind of concept of deafness is in scene? What are representations that the future pedagogues, who will work in basic education, create about deaf students in the regular class? To answer these questions, this research was initiated through a contemporary view of deaf culture and language, from authors, such as Sacks (2010), Strobel (2009), Skliar (2010), Perlin (2010), Lulkin (2010) Ribas (2011), Gesser (2009), Lacerda & Santos (2013), Laraia (2001), Cassirer (1977), Quadros (1997). From the analysis of teaching plans of the Brazilian Sign Language (LIBRAS) and the questionnaires answered by students of Pedagogy of Universidade Nove de Julho and Universidade Presbiteriana Mackenzie, both in São Paulo, it was possible to observe the formation of pedagogues, when it comes to contributions of the Brazilian Sign Language course. From these studies and analysis, new challenges emerge to professors who teach this course and essencial concepts for the formation of pedagogues, future teachers and managers of basic education.

Keywords: Deaf; deaf culture; formation of pedagogues; Brazilian Signal Language

LISTA DE IMAGENS

FIG. 1. Alfabeto Manual Criado por Ponce de Leon, publicado por Juan Pablo Bonet

(1579-1633) no livro Reduction de las letras y arte para ensenar a hablar los mudos

 

21

FIG. 2. Abade Charles Michel de L’Epée “Pai dos Surdos”

21

FIG. 3. Sueli Ramalho e Rimar Romano fundadores da Companhia de Teatro Arte e

Silêncio

44

FIG. 4. Sinal em Libras de Jô Soares

44

FIG. 5. Sinal em Libras de Elvis Presley

45

FIG. 6. Telephone Device for the Deaf (TDD) Telefone para surdos

47

FIG. 7. Aplicativo Hand Talk

48

FIG. 8. Aplicativo ProDeaf..........................................................................................48

FIG. 9. Aplicativo Dragon Dictation

49

FIG. 10. Foto da comunidade do facebook #aquitemlibras

49

FIG. 11. Logotipo da TV INES

50

FIG. 12. Cartaz da Peça “Tribos”

51

LISTA DE TABELAS

Tabela 1 Caracterização das disciplinas

76

Tabela 2 Ementa

77

Tabela 3 Objetivos

78

82

83

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ...........................................................................................................13 CAPÍTULO 1

CULTURA SURDA.....................................................................................................19

  • 1.1. Contexto Histórico e Conceitual

...........................................................................

19

  • 1.2. Representação Clínica sobre a surdez ...............................................................26

  • 1.3. Ouvintização........................................................................................................29

  • 1.4. Representação Sociológica sobre a surdez.........................................................32

  • 1.5. Cultura Surda.......................................................................................................34

  • 1.6. Cultura Surda na Contemporaneidade

...............................................................

47

CAPÍTULO 2

PROCESSO EDUCATIVO DO SURDO.....................................................................53

  • 2.1. Refletindo conceitos fundantes............................................................................53

  • 2.2. Aprendizagem da Libras......................................................................................59

  • 2.3. Educação Bilíngue

..............................................................................................

62

CAPÍTULO 3 FORMAÇÃO DE PROFESSORES PARA EDUCAÇÃO DE SURDOS......................68

  • 3.1. Libras no ensino superior

....................................................................................

68

  • 3.2. Aprendizagem da Libras por alunos ouvintes da Pedagogia

73

  • 3.3. Pesquisa de Campo: Libras no currículo de cursos de Pedagogia.....................75

  • 3.4. Pesquisa de Campo: Os alunos do curso de Pedagogia

.....................................

84

  • 3.4.1. Alunos Pesquisados da UNINOVE .................................................................86

  • 3.4.2. Alunos Pesquisados da MACKENZIE ............................................................86

CAPÍTULO 4

  • 4. A REPRESENTAÇÃO SOBRE ALUNOS COM SURDEZ ..................................87

    • 4.1. Sobre a Surdez ...................................................................................................87

    • 4.2. Sobre o Surdo .....................................................................................................89

4.4. Sobre

o professor................................................................................................98

4.5. Sobre os

100

4.6. Sobre

a família

105

 

106

CONSIDERAÇÕES FINAIS

113

REFERÊNCIAS

117

APÊNDICES

122

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INTRODUÇÃO

Desde a minha graduação em Pedagogia, e principalmente no decorrer do estágio obrigatório, o universo da educação inclusiva e a forma de atuação do professor sempre chamaram a minha atenção, especialmente em relação às concepções e representações que os estudantes do curso de Pedagogia constroem sobre seus futuros alunos, sobre o ensino, sobre a escola e sobre a própria prática.

Ao final do curso de Pedagogia, comecei a atuar como professora em um centro de educação infantil conveniado com a prefeitura de São Paulo e, após algum tempo, como coordenadora na mesma instituição. Tive a oportunidade de conhecer de perto alguns problemas causados pela má formação inicial do professor, principalmente no que se refere ao processo de inclusão. O corpo docente, de modo geral, tinha muita dificuldade em planejar, desenvolver e mediar o processo de desenvolvimento das crianças, especialmente quando se tratava de um aluno com algum tipo de dificuldade.

Encerrada a formação inicial, fiz parte do Programa de Pós Graduação Lato Sensu da Universidade Nove de Julho (UNINOVE), em Língua Brasileira de Sinais (Libras).

Ao término da pós-graduação, ingressei como docente na UNINOVE e

comecei a fazer parte do grupo de pesquisa “Formação de professores: contextos,

epistemologias, metodologias”. A minha participação no grupo contribuiu para ampliar meu conhecimento sobre a formação inicial do pedagogo para a docência, sujeito que irá atuar na educação básica, bem como seus desafios e potencialidades. A princípio, pude refletir sobre o perfil dos alunos do curso de Pedagogia e a formação inicial em Libras. Há algum distanciamento da teoria quando o professor, ao concluir o curso de Pedagogia, começa a exercer sua função? As teorias direcionadas à inclusão, sugeridas pelas instituições de ensino superior, apresentam conexões com a prática? Desde então, tento entender como funciona o processo de formação dos professores, principalmente a partir da minha própria prática e da formação dos alunos de Pedagogia que tenho acompanhado.

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Tendo em vista o desejo de pesquisar a formação docente, especificamente a educação dos surdos, sujeitos que possuem uma cultura diferente da cultura ouvinte, optei fazer uma busca pelas instituições que ofereciam cursos de pós- graduação em educação ou cultura. Foi quando tive contato com o programa de mestrado em Educação, Arte e História da Cultura na Universidade Presbiteriana Mackenzie, pelo qual tenho um apreço enorme.

Por se tratar de um programa interdisciplinar, tomei a decisão em atrelar a formação de professores e ensino da Libras a futuros docentes que irão atuar na educação básica e investigar que tipo de representações esses docentes constroem sobre alunos com surdez.

Quando pensamos em educação dos surdos, logo relacionamos cultura e sua forma de comunicação que é visual. A comunicação visual é aquela que se dá por meio de códigos e/ou sinais visuais que possibilitam interação e entendimento entre o emissor e receptor. No caso dos surdos, esse tipo de comunicação é feito por meio da Língua de Sinais.

Num contexto geral, podemos definir educaçãocomo um processo para o desenvolvimento físico, intelectual e moral de um ser humano que só poderá acontecer por meio da comunicação. Da mesma forma, propagação cultural pode ser vista como: conhecimento, crenças, arte, leis, costumes, jeito de ser de um povo.

Paulo Freire (2014) concebe a educação como uma prática que deve considerar a cultura, o contexto social e o sujeito que aprende para que a educação não seja uma prática sem sentido.

Se a cultura e educação estão interligadas e jamais podem ser separadas é necessário que o professor considere esse aspecto na formação do sujeito que aprende e que se desenvolve enquanto ser social.

Logo, faz-se necessário, que o docente já em sua formação inicial entenda e compreenda a singularidade do sujeito surdo no que tange às diferenças linguísticas e culturais. Mas como?

É necessário que haja preocupação com a qualidade educativa, no que diz respeito ao ensino e aprendizagem da língua de sinais e cultura surda, pois essa

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poderá ser reproduzida na atuação dos futuros docentes desqualificando o ensino inclusivo para surdos, ao mesmo tempo em que pode desconsiderar sua cultura e contexto social. É nesta direção que esta pesquisa segue buscando conhecer como os cursos de Pedagogia vêm trabalhando a formação do docente para atuar com alunos surdos.

A partir dos pontos mencionados torna-se relevante analisar o processo de formação docente que consiste não só na aceitação, mas na valorização das diferenças para que sejam retomados valores culturais e principalmente o respeito pela forma pela qual o aluno surdo aprende.

A formação inicial do professor com ênfase em educação inclusiva é muito importante na atualidade e requer do pedagogo uma formação mais sólida, em que haja respeito pelas diferenças.

Assim, a presente pesquisa teve como o objetivo investigar a formação do pedagogo no curso de graduação em Pedagogia no que se refere às contribuições da disciplina de Libras Língua Brasileira de Sinais - na compreensão e entendimento acerca da cultura surda e seus reflexos na construção de representações do aluno surdo na educação básica, bem como essas representações poderão influenciar sua prática no ensino básico.

O objeto da pesquisa foi analisar a formação inicial dos alunos do curso de Pedagogia de duas universidades distintas: Universidade Presbiteriana Mackenzie e Universidade Nove de Julho - UNINOVE. A pesquisa investiga quais as representações que alunos da Pedagogia que irão atuar na educação básica, criam sobre alunos com surdez na classe regular.

A pesquisa teve como instrumento para coleta de dados um questionário (em anexo) aplicado em ambas as instituições, além de ementas e planos de ensino da disciplina de Libras das universidades. Após a coleta, os dados foram organizados e tabulados para análise.

Após a análise, cruzamos os dados de modo quantitativo e qualitativo de acordo com Ghedin e Franco (2011, p. 59):

A pesquisa qualitativa emerge, inicialmente, no âmbito de uma visão dicotômica entre quantidade e qualidade, ainda hoje presente na concepção

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de muitos pesquisadores. Já se reconhece atualmente que quantidade e qualidade são propriedades interdependentes de um fenômeno.

Sendo propriedades interdependentes de um fenômeno, para analisar as representações que os alunos do curso de pedagogia constroem acerca da cultura surda contei com o aparato teórico de:

Veloso

&

Maia

(2012) e

Honora & Frizanco

(2009) Goldfeld (2001),

que

contam a história da educação dos surdos. Gesser (2009), que escreve sobre a

cultura surda endereçada a ouvintes.

Sacks (2010), Strobel (2009), Skliar (2010), Perlin (2010), Lulkin (2010), Ribas (2011), que dissertam sobre a cultura surda e discutem a surdez como diferença e não como deficiência.

Goldfeld (2001), que aborda linguagem e cognição da criança surda; Lacerda & Santos (2013), que discutem sobre a prática docente e o aluno surdo; Campos- Garcia (2012), que escreve sobre a contemporaneidade e educação de surdos; Botelho (2005) e Lodi & Lacerda (2009), que abordam a educação e o letramento de surdos; Lima-Salles (2007) e Quadros (1997), que discutem a educação bilíngue para surdos.

Laraia (2001), que escreve sobre o conceito antropológico de cultura; Cassirer (1977), que aborda o conceito da cultura simbólica; Freire (2014), que escreve sobre a educação como prática emancipatória e Ganguilhem (2012), que compara segundo uma visão social o que é normal e patológico. Estes teóricos subsidiaram o processo de investigação.

Embora esta pesquisa não tenha um viés histórico, os dados coletados foram trabalhados em conexão com os teóricos citados acima para entendermos as concepções, que a sociedade tem apresentado acerca do surdo enquanto ser social, e a maneira como tem sido pensada a educação dos surdos.

No primeiro capítulo, A Cultura Surda, são abordadas as representações existentes acerca da surdez; a saber, clínica e sociológica. Também busco analisar os padrões de anormalidade e normalidade como imposição social e a

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representação do surdo dentro desses dois modelos, ao mesmo tempo em que reflito sobre a influência desses dois padrões na formação inicial do professor, aluno de Pedagogia, já que a formação inicial traz oportunidades para rever e aprimorar conhecimentos. Também é abordado o processo de ouvintização tratado por Skliar (2010) e as representações que forçam o surdo a ser modelado como ouvinte desprezando a sua identidade e cultura.

No segundo capítulo, Processo Educativo do Surdo, trato sobre a forma particular pela qual o surdo aprende, sobre diversidade e diferença, aprofundando esses dois conceitos. A educação bilíngue, proposta considerada mais adequada à educação dos surdos já que respeita a cultura, identidade e particularidade do sujeito surdo, também é abordada nesse capítulo.

No terceiro capítulo, Formação de Professores para a Educação de Surdos, o decreto 5.626/2005 que regulamenta a Lei 10.436/2002 Art. 3º que prevê que a disciplina de Libras deve ser obrigatória nos cursos de formação para professores, é analisado. A partir dele, a responsabilidade de inclusão do indivíduo surdo passou a ser das universidades que formam o docente para atuar na educação básica. Este atendimento especializado deve-se à aprendizagem de uma língua que possibilite a comunicação entre aluno e professor. Apresentamos a pesquisa de campo que investiga qual lugar a Libras ocupa no currículo dos cursos de Pedagogia.

No quarto capítulo, A Representação Sobre Alunos com Surdez, trago à luz a análise dos questionários aplicados nos cursos de Pedagogia das universidades Nove de Julho e Mackenzie. A análise foi feita a partir de gráficos lidos como tendência que permitiram comparar as respostas dadas e o embasamento teórico dos alunos pesquisados das duas universidades relacionadas em seis categorias: A Surdez, O Surdo, A Libras, O Professor, Os Recursos, A Família e a Disciplina de Libras.

A pesquisa e o estudo a partir da cultura e educação dos surdos sob a luz da formação e prática dos professores esperam lançar possibilidades de reflexão em torno da formação acadêmica. Como professora universitária, sou também uma professora em formação e esta pesquisa me faz imersa em meu próprio processo formativo, como diz Freire (1997, p.32):

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No meu entender, o que há de pesquisador no professor não é uma qualidade ou uma forma de ser ou atuar que se acrescenta à de ensinar. Faz parte da natureza da prática docente a indagação, a busca, a pesquisa. O de que se precisa é que, em sua formação permanente, o professor se perceba e se assuma, porque professor, como pesquisador.

Portanto, além de convidar outros professores a refletirem sobre a educação dos surdos, ao me assumir enquanto professora pesquisadora, reconheço a necessidade de uma reflexão sobre a educação dos surdos como um processo importantíssimo para a consolidação da inclusão, pois a qualidade depende de profissionais que repensam e compreendam as especificidades desses alunos.

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CAPÍTULO 1

CULTURA SURDA

Este

capítulo

tem

como

finalidade

refletir

acerca das representações

construídas por ouvintes sobre o surdo e também apresentar duas ideologias opostas que norteiam a formação inicial do educador que irá atuar na escola com esses sujeitos. Ao mesmo, há aqui, também, uma reflexão sobre cultura e identidades surdas.

Para

Strobel

(2009,

p.

37),

o

povo

surdo

são sujeitos surdos que

compartilham os costumes, histórias, tradições em comuns e pertencentes às

mesmas peculiaridades culturais, ou seja, que constroem sua concepção de mundo

através do artefato cultural visual”.

O pensamento da autora nos permite imaginar o surdo como um sujeito que possuí uma cultura e uma identidade próprias; e, ainda reconhecer neste sujeito um membro pertencente a uma sociedade cuja maioria é ouvinte. É, portanto, pensar quase algo sobrenatural”. De acordo com Laraia (2001, p.74) “a chegada de um estranho em determinadas comunidades pode ser considerada como a quebra da ordem social ou sobrenatural”.

Diante da ruptura da ordem social, discutir a existência de uma cultura surda é romper com muitos estereótipos que foram construídos, seja por meio da colonização e imposição da cultura dominante ouvinte, seja por meio das representações sociais que foram construídas ao longo dos anos.

1.1 CONTEXTO HISTÓRICO E CONCEITUAL

Embora esta pesquisa não tenha um viés histórico, cabe aqui iniciar com as concepções que a sociedade tem apresentado acerca do surdo enquanto ser social, e a maneira como tem pensado a educação dos surdos. Para Aristóteles, que viveu entre 384 - 322 a.C, o surdo não pensava, visto a

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fala era considerada o resultado do pensamento. Logo, quem não falava não pensava. De acordo com Honora & Frizanco (2009, p. 19), “certa vez, Aristóteles afirmou que considerava o ouvido como o órgão mais importante para a educação, o que contribuiu para que o surdo fosse visto como incapacitado para receber qualquer instrução naquela época”. Ainda segundo as mesmas autoras, na Idade Média, por volta do ano de 476 d.C, a Igreja Católica contribuiu para a discriminação ao afirmar que o homem deveria ser visto como imagem e semelhança de Deus. Por este motivo, os que apresentavam alguma deficiência não eram considerados humanos. Muitas vezes estes sujeitos tornavam-se até motivo de riso, como vemos no livro A história do riso e escárnio, que não é uma narrativa cômica. Nela, o historiador francês George Minois (2003) conta que no período da Renascença, a sociedade isolava pessoas com qualquer tipo de deficiência, ou seja, todas aquelas pessoas que não poderiam ser mostradas socialmente e as colocava em pavilhões dentro de manicômios. Esses pavilhões eram chamados de Pavilhões dos Idiotas e uma vez ao mês era aberta à nobreza uma sessão de visitas: as pessoas eram expostas em uma área externa, na qual o contato com os nobres era proibido. O intuito era provocar o riso dos nobres, ou seja, o papel desses sujeitos era divertir a nobreza pelo simples fato de existirem como diferentes. Com base nisso, nascem vários personagens do circo, isto é, a deficiência torna-se espetáculo. Goldfeld (2001, p. 25) escreve que “a crença de que o surdo era uma pessoa primitiva, fez com que a ideia de que ele não poderia ser educado persistisse até o século XV. Até aquele momento eles viviam totalmente à margem da sociedade e não tinham nenhum direito assegurado”. Nesta época, inclusive, os surdos eram utilizados como cobaias para experiências da medicina. Segundo os autores Goldfeld (2001), Veloso e Maia (2012), Honora e Frizanco (2009), somente na Idade Moderna, especialmente ao partir dos trabalhos do filósofo, médico e pai de um surdo, Gerolamo Cardano (1501-1576), essa visão começou a mudar, pois, de acordo com esses mesmos autores, ele foi o primeiro a afirmar que o surdo deveria ser educado e instruído. Deste modo, começaram a surgir os primeiros trabalhos no sentido de educar a criança surda. No século XVI, na Espanha, o monge beneditino Pedro Ponce de Leon (1520- 1584) ensinou quatro surdos, filhos de nobres, a falar grego, latim e italiano, além de

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ensinar-lhes conceito de física e astronomia. Ponce de Leon desenvolveu uma metodologia nova para a época: o alfabeto manual.

Figura 1 – Alfabeto Manual criado por Ponce de Leon, publicado por Juan Pablo Bonet (1579-1633) no livro Reduction de las letras y arte para ensenar a hablar los mudos, demonstrando pela primeira vez o alfabeto manual.

22 ensinar - lhes conceito de física e astronomia. Ponce de Leon desenvolveu uma metodologia nova

Fonte: http://phylos.net/direito/pd-historia/

Em 1750, na França, surge Abade Charles Michel de L’Epée, um dos nomes mais importantes para a educação dos surdos. L’Epée ficou conhecido como “Pai dos Surdos”, pois foi o primeiro a defender o uso da Língua de Sinais na educação desses indivíduos.

Figura 2 – Abade Charles Michel de L’Epée “Pai dos Surdos”

22 ensinar - lhes conceito de física e astronomia. Ponce de Leon desenvolveu uma metodologia nova

Fonte: https://www.gallaudet.edu/clerc-center/info-to-go/deaf-culture/laurent-clerc.html

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Segundo Goldfeld (2001, p. 26) L’Epée se aproximou dos surdos que perambulavam pelas ruas de Paris, aprendeu com eles os sinais e publicou o “Sinais Metódicos”, uma combinação da língua de sinais com a gramática da língua francesa, que resulta no francês sinalizado. Entre os anos 1759 a 1859, encontra-se o período mais fértil da educação dos surdos, pois por meio da língua de sinais, podiam aprender e dominar diversas áreas do conhecimento. Porém, embora a língua de sinais tenha sido de grande importância na educação dos surdos, em 1860, a oralização começa a ganhar força, devido aos avanços tecnológicos da época. Diversos educadores se dedicaram ao ensino da língua oral aos surdos desvalorizando a aprendizagem da língua de sinais. Segundo Goldfeld (2001, p. 27), muitos profissionais da educação acreditavam que “ a língua de sinais seria prejudicial para a aprendizagem da língua oral”. Como havia um choque muito grande entre língua de sinais e Oralização, em 1880, em Milão, ocorreu um congresso de educação para decidir de que forma seria feita a educação dos surdos. Houve uma votação e o método oral ganhou como melhor técnica de educação. Conforme Honora & Frizanco (2009) e Goldfeld (2001) e Sacks (2010), havia surdos no congresso, mas foram impedidos de votar. Mesmo com a proibição da utilização da língua de sinais, no ano de 1960, o linguista William Stokoe, estudou a ASL (Língua de Sinais Americana), e contribuiu para que as línguas de sinais recebessem status linguístico 1 . Segundo Veloso e Maia (2012), a língua de sinais americana foi trazida aos Estados Unidos por Thomas Hopkins Gallaudet (1787-1851) e o francês, surdo Laurent Clerc (1785-1869), melhor aluno do “Instituto de Surdos de Paris”. Segundo os autores, Gallaudet, ao observar crianças brincando em seu jardim, percebeu que uma menina surda, Alice Gogswell, não participava das brincadeiras era rejeitada pelas outras crianças. Gallaudet comovido com a situação da garota se disponibilizou em viajar para a Europa para buscar métodos de ensino para surdos. Clerc e Gallaudet fundaram juntos uma escola para surdos.

1 Receber Status linguísticos significa ser reconhecida como língua, pois possui aspectos semânticos, sintáticos, fonológicos e morfológicos. Assim, o item lexical da língua oral são palavras nas línguas de sinais, os sinais.

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A partir de Stokoe, surgiram muitas pesquisas acerca da língua de sinais e novos métodos de ensino para surdos como a Comunicação Total que utilizava concomitantemente a língua sinalizada e a língua oral descaracterizando-as devido ao fato de utilizar a sinais lexicais com a estrutura gramatical da língua oral e o Bilinguismo que defendia a ideia de o surdo possuir duas línguas: a língua de sinais como primeira língua, e a segunda a língua escrita do país de origem do surdo, sendo a oralização opcional. A língua de sinais chegou no Brasil em 1855, por meio de um professor surdo francês chamado Hernest Huet. Ele foi trazido pelo imperador Dom Pedro II para trabalhar com a educação de surdos brasileiros. Cabe aqui mencionar que durante a pesquisa, encontramos boatos de que o interesse de Dom Pedro II em educar os surdos brasileiros foi devido ao fato da sua filha Princesa Isabel ter sido casada com um surdo parcialmente, o Conde D’Eu. No ano de 1857, Huet funda o primeiro instituto de educação para surdos no Brasil, o INES 2 (Instituto Nacional de Educação de Surdos). Por meio da difusão da Libras ainda influenciada pela LSF – Língua de Sinais Francesa, a língua de sinais do Brasil passa a ganhar as suas características próprias devido a influência que a cultura tem sobre a língua. De acordo com Goldfeld (2001), Lucinda Ferreira Brito, professora, linguista e estudiosa do bilinguismo foi quem nomeou a língua francesa modificada como LSCB – língua de sinais dos Centros Urbanos. A sigla LSCB foi utilizada até o ano de 1994, quando começou a ser utilizada a sigla Libras, criada pela própria comunidade de surdos brasileiros. Portanto a Libras (Língua Brasileira de Sinais) tem muita influência da língua de sinais Francesa. Podemos perceber que ao longo da história da educação dos surdos, eles enfrentaram muitos preconceitos e barreiras referentes a sua forma de comunicação. Lacerda & Santos (2013, p.14) afirmam que:

O trabalho com os indivíduos surdos tem se mostrado um desafio há muitos séculos. Pode-se imaginar que isso acontece porque o indivíduo surdo não ouve, mas o que se torna realmente um problema para as pessoas que não conhecem a surdez e o indivíduo surdo é o fato de ele não falar. Isso nos remete a questões como linguagem, linguagem oral, língua de sinais e a importância destas para que o desenvolvimento social, cognitivo e psíquico do surdo possa ser

2 Atualmente o INES atende crianças surdas da educação infantil ao ensino médio; além de elaborar fóruns, seminários, congressos, pesquisas e efetuar publicações sobre a educação de surdos. O instituto também desenvolve materiais de apoio que são distribuídos para os sistemas de ensino para auxiliar no trabalho pedagógico com surdos.

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realizado de forma completa e da mesma forma como acontece para os indivíduos ouvintes.

O desafio permanece. Somente em 2002 foi promulgada a Lei da Libras (Lei nº 10.436 de 24 de abril de 2002), que reconheceu a Libras como Língua. Conforme o artigo 1 o desta lei, é reconhecida como meio legal de comunicação e expressão a Língua Brasileira de Sinais - Libras e outros recursos de expressão a ela associados. Além de uma língua com características próprias, o povo surdo tem uma forma própria de entender o mundo. São costumes e hábitos que os diferem dos ouvintes. Sua percepção de mundo é visual, sua língua é visual. Pensar a surdez como diferença e atribuir às manifestações dos sujeitos surdos um valor cultural é muito difícil quando a surdez é tratada apenas em seu aspecto fisiológico. A ideia é que, se o normal é ouvir e falar (língua oral) e se o surdo não ouve e nem fala, deve-se buscar incessantemente uma forma de corrigir isso. Assim, para corrigir a “anormalidade” causada pela surdez é necessário que o surdo passe por um tratamento, ou seja, pela oralização e o treino labial. Esse tratamento se faz com especialistas, fonoaudiólogos e requer anos de exercícios exaustivos. Conforme Sacks (2010, p.38):

Os surdos, sempre em

toda parte, foram

vistos como “deficientes”

ou

“inferiores”? Terão sempre sido alvo, deverão sempre ser alvo de discriminação e isolamento? É possível imaginar uma situação de outro modo? Que bom seria se houvesse um mundo onde ser surdo não importasse e no qual todos os surdos pudessem desfrutar uma total satisfação e integração! Um mundo no qual eles nem mesmo fossem vistos como “deficientes” ou “surdos”.

Há duas visões distintas que surgiram em épocas diferentes e não podem ser deixadas de lado quando discutimos cultura e educação dos surdos: a Clínica/Patológica e a Social/Antropológica. A primeira visão compreende a surdez como uma patologia apenas pelo aspecto fisiológico, ou seja, pela falta de audição e a especificidade da fala. É um modelo clínico e demostra as técnicas e atitudes reparadoras e corretivas da surdez considerando como um defeito, uma doença. Desta forma, o surdo deveria ser curado, normalizado, treinando a fala e lendo os lábios, já que é minoria em uma sociedade majoritária ouvinte. Segundo Skliar (2010, p. 7), “foram mais de cem anos

26

de práticas de tentativa de correção, normalização [

]” dos surdos.

... A segunda compreende a surdez numa perspectiva cultural e a utilização da língua de sinais anula a deficiência da fala. Se a percepção de mundo pelo sujeito surdo é diferente do ouvinte podemos afirmar que os surdos possuem uma cultura própria e que deve ser respeitada. Para Strobel (2009, p. 26), “dentro do povo surdo, os sujeitos surdos não se diferenciam um de outro de acordo com grau de surdez, mas o importante para eles é o pertencimento ao grupo usando a língua de sinais e cultura surda, que ajudam a definir as suas identidades surdas”. Qualquer língua utilizada por um grupo específico está ligada à cultura desse mesmo grupo. No caso dos surdos, privá-los de utilizar a língua de sinais é privá-los de manifestar a sua cultura. Para Sacks (2010, p. 105), “a língua de sinais é para os surdos uma adaptação única a um outro modo sensorial, mas é também, e igualmente, uma corporificação da identidade pessoal e cultural dessas pessoas”. Portanto, impedir que o surdo utilize a língua de sinais como veículo de comunicação, entendimento e compreensão de mundo compromete o seu desenvolvimento cognitivo linguístico, ou seja, o surdo fica impedido de se comunicar e de desenvolver-se enquanto ser social. Gesser (2009, p.76-77), explica que:

Através da língua nos constituímos plenamente seres humanos, comunicamo-nos com nossos semelhantes, construímos nossas identidades e subjetividades, adquirimos e partilhamos informações que possibilitam compreender o mundo que nos cerca [

...

].

Para que o surdo possa compreender o mundo que o cerca, a escola e a família são responsáveis por promover o contato da criança surda com a língua de sinais. Aprofundaremos melhor sobre o papel da família na educação dos surdos, mais adiante. Segundo Lulkin (2010, p. 27), “é um direito dos surdos e não uma concessão de alguns professores ou de algumas escolas” o contato com a língua de sinais e a cultura surda no ambiente educacional. Skliar (2010) considera importante dizer que a natureza dos poderes e saberes do ouvintismo e os mecanismos de colonização do ouvintismo está sobre o planejamento escolar. Trataremos sobre ouvintismo adiante. E estando no planejamento escolar, a compreensão que o docente tem acerca da surdez afeta e compromete profundamente o processo de ensino e

27

aprendizagem do sujeito surdo.

Quando nos referimos a estas compreensões vêm à baila as seguintes questões: será que uma representação estereotipada dá à representação da identidade surda um lugar social? Será que o docente em sua prática não tem a propensão em considerar a sua cultura de ouvinte como a mais correta e mais natural do que o respeito pela cultura surda?

1.2 REPRESENTAÇÃO CLÍNICA SOBRE A SURDEZ

Com base em alguns períodos da História, vimos que a surdez tem sido estudada desde o século XV tornando-se alvo da medicina para realização de pesquisas, sobrepondo-se a outras áreas, como a educação. Segundo Honora&Frizanco (2009) e Lulkin (2010), o médico cirurgião francês Jean Marc Itard (1775-1838) dedicou grande parte do seu tempo a estudar a surdez. Itard constatou que a surdez não era visível, chegou a dissecar cadáveres para estudar e muitas vezes fazia experiências com surdos vivos dando descargas elétricas em seus

ouvidos, bem como utilizava sanguessugas para provocar sangramentos e furar a membrana timpânica. Essas experiências mirabolantes levaram um de seus alunos à morte. Segundo Lulkin (2010, p. 36), antes da primeira metade do século XIX, as investigações sobre o ouvido e a audição não passavam de uma antologia de atos

científicos”.

Com o passar dos anos, essa concepção mudou dando lugar uma nova forma de representar o surdo, considerando a surdez como uma patologia que deveria ser curada, mas sem intervenções tão bruscas como as de Itard e outros médicos da época. A cura da surdez seria o treino para leitura labial e técnicas para oralização.

De acordo com Laraia (2001, p. 68),

a nossa herança cultural, desenvolvida através de inúmeras gerações, sempre nos condicionou a reagir depreciativamente em relação ao comportamento daqueles que agem fora dos padrões aceitos pela maioria da comunidade. Por isto, discriminamos o comportamento desviante.

A afirmação de Laraia (2001) pode ser associada ao Congresso Internacional em Milão no ano de 1880, citado anteriormente. Esse encontro reuniu educadores e

28

pesquisadores que votaram para definir a melhor forma de educação dos surdos. A língua de sinais foi proibida como parte do ensino dando lugar às metodologias e técnicas para a oralização e leitura labial em busca da normalização e medicalização da surdez. Vale lembrar que a proibição, conforme Skliar (2010) e Goldfeld (2001), durou cerca de cem anos. De uma forma bem sucinta Lulkin (2010, p. 37) afirma que “o congresso celebra a vitória do Oralismo sobre a inferioridade da língua gestual”.

O Oralismo é uma abordagem filosófica, que tem como objetivo integrar, introduzir o surdo na comunidade ouvinte. Para os defensores do Oralismo, a única forma de o surdo se adequar para viver em sociedade é por meio da aprendizagem da língua oral e o treino da leitura labial e qualquer forma gestual deve ser deixada de lado para que o surdo concentre-se em desenvolver a fala. Podemos citar Alexander Bell, o inventor do telefone, como um dos defensores do Oralismo.

Segundo Goldfeld (2001), o processo de aquisição da língua oral demora em torno de 8 a 12 anos dependendo das características individuais de cada sujeito e o período em que ocorreu a perda de audição.

Cito abaixo um trecho do documento publicado no final do século XIX, que defende a educação oralizada para surdos por Grémoin (apud Skliar, 2010, p.33):

Todo mundo sabe que os surdos são seres inferiores sob todos os aspectos: só profissionais da filantropia declaram que eles são

homens como os outros. Pois o surdo, semelhante (

)

ao homem

ele não escuta, assa (sic) entre seus semelhantes (

)

sem escutá-

a degenerescência hereditária é o fator dominante. [sic]

Nesta perspectiva, a surdez é vista como uma doença que deve ser curada e o surdo como alguém que não possui certas características que a maior parte da sociedade possui, a audição. É como se ele fosse um sujeito sem palavras e, portanto sem pensamento articulado. O sujeito era significado pela ausência da audição.

29

Para

a

curada

surdez é necessário

que

o

surdo

seja submetido a

tratamentos, terapias e dispositivos que o auxiliem nesse processo, numa perspectiva puramente fisiológica, considerando o sujeito surdo um ser anormal.

Conforme Canguilhem (2012 p. 85), a anomalia é um fator biológico e deve ser tratada como fato que a ciência natural deve explicar, e não apreciar: a palavra anomalia, pouco diferente da palavra irregularidade, jamais deve ser tomada no sentido que se deduziria literalmente de sua composição etimológica”. No sentido educacional, Ramos (1950, p. 18) defende a ideia de que “o conceito de ‘anormal’ foi antes de tudo, o ponto de vista adulto, a consequência de um enorme sadismo inconsciente de pais e educadores”.

Partindo da ideia do ponto de vista adulto, todas as sociedades possuem regras e padrões e segundo Laraia (2001, p. 69) “tal fato representa um tipo de comportamento padronizado por um sistema cultural. Padrão compreendido como, um modelo a ser imitado com certo grau de qualidade.

Díaz

(2012

p.

87)

enfatiza

muito

bem

para que servem esses

comportamentos padronizados; “em toda a sociedade, a produção da palavra está controlada, selecionada e distribuída por certos procedimentos. A função desses procedimentos é evitar perigos, conjurar poderes, manipular o aleatório e esquivar a

materialidade do discurso”.

Se a produção de palavras está controlada socialmente, afinal qual é a forma considerada “normal” de comunicação dentro de uma sociedade em sua maioria ouvinte? É que todos utilizem como forma de comunicação a fala oralizada, o aparelho fonador e escutem utilizando a orelha, o aparelho auditivo, tornando-se inaceitável qualquer outro tipo de comunicação por outras vias. Portanto, dentro desta lógica, todos aqueles que fogem a essas regras serão considerados anormais.

A noção de sujeito surdo é ligada a estereótipos construídos socialmente. Segundo Perlin (2010, p. 55), “nunca a representação estereotipada vai dar à representação da identidade surda um lugar social”, a não ser que este se comporte adequadamente e conforme o modelo cultural ouvinte para fazer parte, integrar-se e compor o universo ouvinte. Esta afirmação se identifica com a perspectiva de Laraia (2001, p.73) para quem "o fato de que o homem vê o mundo através de sua cultura

30

tem como consequência a propensão em considerar o seu modo de vida como o mais correto e o mais natural”.

Sendo assim, historicamente as representações clínicas transformaram o modo de vida dos surdos e também o ambiente de sala de aula em espaços terapêuticos em um local apenas para recuperação do surdo em ouvinte, impedindo os surdos de utilizar como meio de comunicação as línguas gestuais e participar de uma cultura diferenciada da maioria. Conforme Skliar (2010 p. 16), tal transformação deve ser entendida como uma das causas fundamentais na produção do holocausto linguístico, cognitivo e cultural que viveram os surdos”. Chamamos tal processo de ouvintização.

1.3 OUVINTIZAÇÃO

De acordo com Perlin (2010, p. 59), o ouvintismo deriva de uma proximidade particular que se dá entre ouvintes e surdos, na qual o ouvinte sempre está em posição de superioridade. Uma segunda ideia é a de que não se pode entender o ouvintismo sem que este seja entendido como uma configuração do poder ouvinte”. Desta forma, segundo Skliar (2010), o Oralismo é a forma institucionalizada do ouvintismo.

Com base na concepção patológica, como vimos, o surdo é considerado uma pessoa incompleta, que tem necessidade de passar por um processo de reabilitação para pertencer, enquadrar-se e corrigir-se conforme os padrões estabelecidos socialmente. Uma das formas de normalizar o surdo é defendendo o Oralismo.

Para Perlin (2010), existem três tipos de ouvintismo: o tradicional, o natural e o crítico. O primeiro é uma espécie de condicionamento de representação que o ouvinte tem do sujeito surdo de modo a não permitir participar de outros modelos a não ser o ouvinte e que impede a sua aproximação à cultura surda, é uma resistência radical.

O segundo defende uma igualdade natural entre surdos e ouvintes, mas ainda mantém o surdo encapsulado, isto é, reconhece a cultura surda, permite a utilização

31

da língua de sinais, mas ainda obriga o surdo a fazer treinos para a oralização e leitura labial.

O terceiro, o ouvintismo crítico, traz uma visão grave e perigosa, pois aceita a identidade surda e autonomia linguística do surdo, porém considera a língua oral superior à língua gestual, inferiorizando a língua de sinais e também a cultura surda e o sujeito surdo. Assim, mesmo defendendo a cultura surda, esse tipo de ouvintismo utiliza-se desses conhecimentos para exercer poderes sobre o surdo e sua cultura.

Analisando o processo de desenvolvimento de uma criança, seja ela surda ou ouvinte, percebemos o quanto é importante a estimulação precoce para aquisição de conhecimentos e desenvolvimento de certas competências. Pensar que o processo de oralização é demorado significa que a criança surda só desenvolverá certas competências após o término desse processo.

Conforme Lacerda&Santos (2013 p. 39), a oralização, um método difundido por Alexander Bell, veio encapsular os surdos no modelo de ouvintismo, ou seja, de acordo com as regras da “normalidade””. O sujeito passa por um processo de ouvintização.

Tornar o surdo ouvinte é pensá-lo como alguém “vazio”, que precisa de algum tipo de intervenção para ser preenchido. Segundo Laraia (2001, p. 75), “comportamentos etnocêntricos resultam também em apreciações negativas dos padrões culturais de povos diferentes. Práticas de outros sistemas culturais são catalogadas como absurdas, deprimentes e imorais”. Ou seja, os surdos podem ser pensados como pessoas sem cultura, sem língua, sem poder de decidir, incapazes, incomunicáveis a não ser por comunicação oral etc. Podemos comparar esse processo com as missões dos padres Jesuítas ao catequisar os índios aqui no Brasil.

Lacerda & Santos (2014 p.

41) apontam que

“a imposição das regras de

normalização representou uma grande tensão entre os surdos devido à violência

contra a cultura surda, marcada até hoje na história da educação dos surdos”.

32

O surdo muitas vezes é impedido de preservar a sua cultura, de ter a sua identidade, gerando um conflito: ele não pode ser ele mesmo e acaba assumindo

outro papel para a sua vida. Para Skliar (2010 p. 15), “[

...

]

o surdo está obrigado a

narrar-se como se fosse ouvinte. Além disso, é nesse olhar-se, e nesse narrar-se que acontecem as percepções do ser deficiente, do não ser ouvinte; percepções que

legitimam as práticas terapêuticas habituais”.

Essas

práticas

terapêuticas

impedem

que

o

surdo

construa

a

sua

subjetividade como diferente do ouvinte. Lacerda & Santos (2013) dizem que o surdo perde seu poder de alteridade quando ele não pode ser ele mesmo. A

existência do “eu” só acontece por meio do contato com o outro, o “eu” depende do

outro para existir.

Segundo o dicionário Houaiss, a alteridade é a “qualidade do que é outro, diversidade”. Para apoiar essa definição, cito um trecho do artigo Filosofia do Intercultural de Daniel Castillo Durante (2014, p.4), professor titular do departamento de Letras Francesa da Universidade de Ottawa “para compreender o outro, de saída, seria preciso aceitar abrir um espaço de interação sem pré-construídos, ou

seja, um espaço que não seja minado pelo estereótipo”. Portanto é fundamental

enfatizar aqui se o outro não me reconhece, eu não posso ser eu mesmo.

Partindo dessa definição, podemos dizer que alteridade é tomar consciência de que o outro existe e que possui as suas necessidades particulares, que precisa ter seus direitos valorizados e respeitados, principalmente por meio do reconhecimento de suas diferenças.

Sendo assim podemos observar que ao longo da história da educação dos surdos, assim como a prática de ouvintização deixa claro que a utilização da língua oral não supre as necessidades da comunidade surda e que a utilização dos sinais, e o respeito à comunidade surda atendem as necessidades desses sujeitos. Portanto, veremos a seguir que a surdez pode ser pensada em outra perspectiva.

33

1.4 REPRESENTAÇÃO SOCIOLÓGICA SOBRE A SURDEZ

A representação sociológica, também conhecida como sócio antropológica, vai contra a ideia defendida na visão clínica e reconhece a surdez como uma diferença. Segundo Skliar (2010, p. 11), “a surdez constitui uma diferença a ser politicamente reconhecida; a surdez é uma experiência visual; a surdez é uma

identidade múltipla ou multifacetada [

...

]”.

Vimos anteriormente que o conceito de normalidade se dá por uma convenção estabelecida socialmente, ou seja, considera-se “normal” aquele que estiver dentro dos padrões estabelecidos em uma sociedade. Esse padrão de normalidade é estabelecido conforme Leis, mídias, estatísticas, moda, pesquisas. Vejamos um exemplo citado por Laraia (2001, p.101-102):

Tomemos agora um exemplo de nossa sociedade. No início dos anos 70, uma revista fez uma pesquisa sobre o comportamento sexual da mulher brasileira. O resultado indicou que existia uma porcentagem significativa que não agia de acordo com os padrões tradicionais da sociedade. Ou seja, tornavam-se mais freqüentes as relações sexuais prématrimoniais e o número de relações extraconjugais. A publicação desses resultados mesmo deixando de lado a validade da amostra levantada na pesquisa causou uma grande reação por parte de diferentes setores e a revista teve a sua edição apreendida. Menos de dez anos depois, uma outra revista repetiu a pesquisa, com uma amostragem bem maior, e os resultados foram mais significativos do que os da vez anterior. Comprovavam enfaticamente uma mudança no comportamento feminino. Dessa vez, contudo, a reação não ocorreu e a revista circulou livremente. Tal fato significa, sem dúvida, a ocorrência de mudanças nos padrões ideais da sociedade de forma a ajustá-la aos eventos reais. Em outras palavras, a mudança chegou a uma tal dimensão que modificou o próprio padrão ideal.

As mudanças de padrões ideais também acontecem no momento em que entra em vigor a lei que reconhece a Libras como língua genuína e oficial do Brasil, estes já não podem ser reconhecidos como deficientes da fala, eles são sim, parte de uma cultura diferente, assim como há culturas diferentes dentro de uma mesma sociedade. Sistemas culturais estão sempre em mudanças. Conforme Laraia (2001,

p.102)

Entender esta dinâmica é importante para atenuar o choque entre as gerações e evitar comportamentos preconceituosos. Da mesma forma que é fundamental para a humanidade a compreensão das diferenças

34

entre povos de culturas diferentes, é necessário saber entender as diferenças que ocorrem dentro do mesmo sistema.

Ou seja, somos todos diferentes, seja na forma de comunicação, na cultura, na religião, na etnia etc. Podemos pensar que o que há é a diversidade cultural e o surdo, com o surgimento da Lei de Libras, passa a fazer parte dessa diversidade sendo integrante da comunidade, cuja qual tem cultura, identidade e língua próprias.

Pensar, então, a surdez como uma diferença é sustentar a ideia de que a surdez não é uma patologia e que o surdo pertence a um grupo linguístico diferente e a uma cultura diferente, a cultura visual. Assim, em conformidade com Laraia (2001, p. 69), pode-se afirmar que:

podemos entender o fato de que indivíduos de culturas diferentes podem ser facilmente identificados por uma série de características, tais como o modo de agir, vestir, caminhar, comer, sem mencionar a evidência das diferenças lingüísticas, o fato de mais imediata observação empírica.

Os surdos possuem uma forma diferente de ser e estar no mundo, diferente do ouvinte, assim como qualquer outro grupo que tenha diferenças culturais, étnicas, religiosas, sexuais e linguísticas. Conforme Perlin (2010, p. 54), a surdez “é uma marca que identifica nós, os surdos, em crescente posição de termos próprios no interesse de gerar poder ‘para si e para os outros’”. Podemos definir essa marca que gera poder para si e para os outros com o fato de o surdo se reconhecer enquanto surdo, perceber e entender o mundo por meio da visão e ao mesmo tempo perceber-se diferente do ouvinte que possui experiência auditiva. A compreensão de mundo por meio dos símbolos são diferentes é o que torna o surdo diferente do ouvinte.

Nessa perspectiva, o surdo não precisa de reabilitação para curar a surdez, ele pode ser ele mesmo. Sendo assim, Perlin (2010, p. 56) nos leva a pensar que se estivessem ausentes conceitos estereotipados seria possível entender o surdo e sua cultura em uma perspectiva diferente:

Curiosamente no campo do estereótipo a diferença assume um lugar, faz-se de conta que não devem existir diferenças. A figura do surdo pode ser visualizada como estereotipada no momento de um discurso colonizador. Porém, um discurso mais flexível possibilita ver

35

transformações práticas que produziriam se efetivamente estivessem ausentes jogos de estereótipos.

Deste modo, pensar em um discurso mais flexível, segundo Lulkin (2010) é sustentar a ideia de que essas transformações práticas se dariam a partir do momento em que fosse deixado de lado o campo do som e este fosse substituído pelo campo da imagem, a cultura surda seria valorizada e as possibilidades de criação seriam reveladoras.

Para o surdo, o campo da imagem é um canal sensorial predominante, mais do que ser atraído pela imagem, este campo dá a possibilidade de construção de pensamento a esse sujeito permitindo entender, ser e estar no mundo. Eis a experiência visual.

De

acordo

com

Skliar

(2010,

p.28),

“[

...

]

todos

os

mecanismos

de

processamento da informação, e todas as formas de compreender o universo em

seu entorno” ao entorno do surdo “se constroem como experiência visual”. Com

base nisso, podemos dizer que assim como as pessoas verbalizam, por meio da língua oral os seus pensamentos e entendem os pensamentos de outras pessoas e

constroem o seu conhecimento de mundo, os surdos podem produzir esses pensamentos e conhecer o mundo pela visão.

Sendo assim conforme Strobel, que é surda, os povos surdos estão cada vez mais motivados pela valorização de suas “diferenças” e assim respiram com mais orgulho e riqueza suas condições culturais”. (2009, p. 96)

1.5 CULTURA SURDA

Uma provável incapacidade pode ocultar verdadeiras aptidões e engenhosidades quando pensamos no surdo. Ao contrário dessa incapacidade, muitos surdos narram-se como pessoas hábeis, talentosas. Há comunicação de forma natural entre si, melhoram a auto-estima e têm um excelente desempenho nos estudos, na vida social, afetiva etc.

36

Sendo assim, antes de aprofundarmos o que se poderia chamar de cultura surda, há a necessidade de ampliarmos o conceito sobre cultura em uma perspectiva de valorização das diferenças.

Conforme o dicionário Houaiss “cultura” quer dizer: 1. Ação ou efeito de

cultivar a terra, cultivo; 2. Criação de certos animais; 3. Produto de tal cultivo ou criação; 4. Conjunto de padrões de comportamentos, crenças, costumes, atividades etc. de um grupo social; 5. Forma ou etapa evolutiva das tradições e valores de um lugar ou período especifico; civilização; 6. Conhecimento ou instrução.

Para o senso comum, “cultura” quer dizer um vasto saber acadêmico, conhecimentos adquiridos através de muito estudo, algo erudito. Podemos citar como exemplo as seguintes frases: “O povo não tem cultura”, “Nossa como esse menino tem cultura” ou “O fulano não tem cultura”.

De acordo com Laraia (2001, p. 26),

No final do século XVIII e no princípio do seguinte, o termo germânico Kultur era utilizado para simbolizar todos os aspectos espirituais de uma comunidade, enquanto a palavra francesa Civilization referia-se principalmente às realizações materiais de um povo. Ambos os termos foram sintetizados por Edward Tylor (1832-1917) no vocábulo inglês Culture, que "tomado em seu amplo sentido etnográfico é este todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade". Com esta definição Tylor abrangia em uma só palavra todas as possibilidades de realização humana, além de marcar fortemente o caráter de aprendizado da cultura em oposição à ideia de aquisição inata, transmitida por mecanismos biológicos.

A definição usada por Edward Tylor, em oposição à ideia de aquisição inata, nos permite aprofundarmos a ideia de que como outros animais, o homem encontrou meios para a convivência e sobrevivência em comunidade e o fez bem, mas de forma mais complexa, produzindo cultura. Se de um lado manifestou-se o instinto de outro há a aquisição da cultura por meio da transmissão de seus antepassados. Esse fenômeno é citado por Cassirer (1977, p.42-43) quando afirma que,

É o mesmo anel de ferro da necessidade, envolvendo tanto a nossa vida física quanto a cultural. Em seus sentimentos, inclinações, ideias, pensamentos e na produção de obras de arte o homem jamais pode sair deste circuito mágico. Podemos considerá-lo como um animal de

espécie superior, que produz filosofias e poemas [

...

].

37

Sendo o homem um animal superior, é o único capaz de produzir cultura, e essa possibilidade de criação humana, acaba por transformar o seu meio social, quando o sujeito modifica a natureza e cria seus símbolos. Cassirer (1977) comprova essa afirmação quando diz que o homem é um animal simbólico.

Deste modo para Cassirer (1977, p. 43), "cada pensador nos dá uma visão especial da natureza humana", ou seja, o homem atribui significados diferentes aos objetos e somente ele, dentro de sua comunidade, é capaz de entender e compreender o sentido e significado desse objeto.

A partir disso surgem as relações entre os homens, o mundo simbólico, os saberes que são arraigados se tornando o mundo da cultura. Podemos dizer que o simbolismo citado por Cassirer (1977) está em toda parte. Seja para interpretar, representar, compreender ou transmitir a realidade vivida pelo homem.

Segundo Cassirer (1977, p.49), "o homem, por assim dizer, descobriu um novo método de adaptar-se ao meio. Entre o sistema receptor e o sistema de reação que se encontram em todas as espécies animais, encontramos no homem um terceiro elo, que podemos descrever como o sistema simbólico". Por este motivo o homem é considerado um animal simbólico, pois possui um pensamento diferido. O pensamento diferido humano vai além da ação e reação de qualquer animal. Se observarmos os animais, vemos que para cada ação, as reações são executadas de forma imediata. Por exemplo, se chamarmos a atenção de um cachorro com sua coleira, ele já saberá que sairá para passear e sempre dará a mesma resposta. Ao contrário, o ser humano pensa e responde de acordo com sua cultura e seu pensamento individual e isso permite múltiplas ideias e interpretações frente à realidade. Isso faz com que as relações humanas sejam muito mais interessantes, complexas e frutíferas. Desta forma, podemos chegar a conclusão de que o indivíduo, ao nascer e permanecer dentro de um contexto social seja ele qual for, é atravessado pela cultura e marcas culturais que influenciam as relações sociais dentro dela. Seria impossível não ser atravessado pela cultura. Conforme Laraia (2001, p. 16),

Qualquer criança humana normal pode ser educada em qualquer cultura, se for colocada desde o início em situação conveniente de aprendizado. Em outras palavras, se transportar-mos [sic] para o

38

Brasil, logo após o seu nascimento, uma criança sueca e a colocarmos sob os cuidados de uma família sertaneja, ela crescerá como tal e não se diferenciará mentalmente em nada de seu irmãos de criação.

Podemos perceber, portanto que a cultura é um conhecimento adquirido, mas

está sempre em mutação devido aos contextos sociais que a compõem. Laraia (2001) cita que “em 1871, Tylor definiu cultura como sendo todo o comportamento aprendido, tudo aquilo que independe de uma transmissão genética, como diríamos

hoje”. É aprendido no convívio com a sociedade.

Mas afinal o que é a sociedade? Podemos definir sociedade como um agrupamento de pessoas que possuem relações políticas, culturais e econômicas. Dentro de uma sociedade, há pelo menos, uma cultura e uma língua em comum. Os integrantes da sociedade obedecem às leis que são criadas, seguem os costumes e tradições que são comuns a eles estabelecendo relações humanas. Neste sentido, podemos dizer que a cultura molda o ser humano às necessidades da sociedade a qual ele pertence, ora modelando-o, ora remodelando-o.

É importante pensamos que as sociedades são diferentes umas das outras e esses sistemas se diferem de forma natural. Cada sociedade possui a sua maneira única de simbolizar; assim, segundo Laraia (2001, 57), “para perceber o significado de um símbolo é necessário conhecer a cultura que o criou”. Portanto, podemos afirmar que não existe um único tipo de cultura (monocultura) dentro de um mesmo grupo social a cultura pode variar. Os costumes, tradições, crenças, a forma de comunicação, a língua podem variar.

Segundo Cassirer (1977, p. 62), "em suma, podemos dizer que o animal possui uma imaginação e uma inteligência práticas, ao passo que só o homem criou uma forma nova: uma imaginação e uma inteligência simbólicas".

E como forma de manifestação da inteligência simbólica o homem utiliza a linguagem. A linguagem também é uma atividade simbólica, sendo o principal veículo de transmissão de ideias e fatos oriundos de suas comunidades culturais.

De acordo com Cassirer (1977, p.65),

com sua universalidade, sua validade e sua aplicabilidade geral, o princípio do simbolismo é a palavra mágica, o Abre-te Sésamo!, que

39

dá acesso ao mundo especificamente humano, ao mundo da cultura. Uma vez que o homem se acha de pose desta chave mágica tem assegurado o progresso ulterior. Tal progresso, evidentemente, não é detido nem impossibilitado por nenhuma lacuna do material do sensível.

A chave mágica, assim dito por Cassirer é a língua humana, a comunicação humana que permite a troca de informações e compreensão das manifestações simbólicas culturais.

Laraia (2001, p. 53) afirma que a comunicação é um processo cultural e que a linguagem humana é produto da cultura e que “não existiria cultura se o homem não tivesse a possibilidade de desenvolver um sistema articulado de comunicação oral”. Pensar em outra possibilidade de sistema articulado seria cabível aqui também como a língua de sinais. Compreender a língua de sinais como um sistema articulado capaz de fortalecer a comunicação entre um grupo específico se oferece como um espaço de reflexão para compreender a cultura surda.

Segundo Lacerda & Santos (2013), Gesser (2009), Goldfeld (2001) a língua de sinais teve o seu reconhecimento linguístico a partir de estudos realizados pelo linguista americano William Stokoe em 1960. Esses estudos apresentaram evidências de que a comunicação sinalizada tinha o estatuto de língua semelhante aos das línguas orais.

Como vimos, os conhecimentos adquiridos, a participação em uma cultura se dá dentro de uma sociedade conforme o sistema de codificação produzido por uma linguagem e por meio dela é que isso pode ser transferido a outra pessoa e isso automaticamente reflete na formação da identidade cultural do sujeito. Para perceber o significado de um símbolo é necessário conhecer a cultura que o criou”, diz Laraia (2001, p. 53). Desta forma fica evidente que a língua e sua aquisição guardam e transmitem conhecimentos historicamente acumulados pelo homem.

Se os surdos possuem uma língua visuo-gestual diferente da língua oral, então entendem e percebem o mundo diferente dos ouvintes que utilizam a língua oral e tem, portanto, uma cultura singular: a cultura surda. Neste sentido, para Strobel (2009, p. 27):

Cultura surda é o jeito de o surdo entender o mundo e de modifica-lo a fim de se torna-lo acessível e habitável ajustando-o as suas percepções visuais, que contribuem para a definição das identidades

40

surdas e das “almas” das comunidades surdas. Isso significa que abrange a língua, as ideias, as crenças, os costumes e os hábitos do povo surdo.

Nessa perspectiva, o desenvolvimento da língua está ligado à identidade cultural de cada indivíduo. E as identidades culturais surdas são formadas de acordo com as representações construídas acerca da cultura surda e o nível de aceitação ou recusa dessa cultura. Sobre o processo de transmissão cultural e as identidades surdas, Strobel (2009, p. 29) alerta:

[

...

]

muitas vezes o processo de transmissão cultural de surdos ocorre

com muitos sujeitos surdos somente na idade mais avançada, já adultos, porque a maioria deles tem família ouvinte, ou porque, pela imposição ouvintista, nem frequentam as escolas de surdos e ficam sem contato por muito tempo com a comunidade surda.

A cultura não é inata e sim adquirida no contato em sociedade e consequentemente a falta de contato por muito tempo com a comunidade surda, ou nenhum contato distancia o surdo da aquisição da cultura visual. Os surdos brasileiros e suas comunidades deixaram muitas tradições, como:

a comunicação por meio da língua de sinais e suas histórias de lutas, conquistas e repressão e daí surgiram então certas organizações, associações, clube dos surdos tendo um papel muito importante na transmissão, politica, esportiva, religiosa e cultural entre os surdos. O papel dessas organizações é fundamental para a preservação da Libras. Vale mencionar que existem muitas associações surdas espalhadas pelo mundo, podemos citar aqui a Confederação Brasileira de Desportos de Surdos, conhecida como CBDS, fundada em 1984, que tem como intuito o desenvolvimento esportivo dos surdos brasileiros. A FENEIS, Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos, fundada em 1987, que tem como atua como uma associação que visa a integração do surdo na sociedade. A ASSP, Associação de Surdos de São Paulo, fundada em 1954, é uma associação católica que tem como objetivo lutar por políticas públicas que favoreçam aos surdos entre outras. Muitas vezes crianças surdas filhas de famílias ouvintes são impedidas de participar ativamente da cultura surda devido à prática do ouvintismo:

41

É evidente que as identidades surdas assumem formas multifacetadas em vista das fragmentações a que estão sujeitas face a presença do poder ouvintista que lhes impõe regras, inclusive, encontrando no estereótipo surdo uma resposta para a negação da representação da identidade surda ao sujeito surdo. (Perlin 2010, p.54)

O desenvolvimento da linguagem está ligado ao desenvolvimento da personalidade do sujeito, constituindo assim a sua identidade cultural. É pela linguagem e aquisição de língua que o individuo expressa/modela seus pensamentos, suas vontades ela é um veiculo ao qual ele influencia, é influenciado e permite a propagação cultural. Assim, cada sujeito que pertence a uma sociedade precisa também ser identificado como único, com suas particularidades, preferências, singularidades, necessidades e valores.

Vejamos o caso de um ouvinte. Segundo Ribas (2011, p. 60),

A criança que ouve estabelece sua capacidade de conversação através do diálogo com os outros que também ouvem. É por esse canal que ela reconhece a si própria e organiza seu mundo, pois no seu meio ambiente todos incluindo obviamente ela própria ouvem, entendem e respondem dentro do mesmo código linguístico, cujo transmissor mais importante é o som.

Deste

modo,

se

é

pelo

canal do

som

que a criança ouvinte constrói sua

identidade, é por meio do canal visual que a criança surda constrói a sua. De acordo

com Ribas (2011, p.60),

Mas o som não está presente na vida da criança surda. Por isso, no mundo inteiro, a língua materna dos surdos pode não ser a mesma dos que ouvem. A primeira língua que aprendem não é necessariamente o português, o inglês ou o francês transmitidos pelo som. É a língua de sinais transmitidas pelos gestos simbólicos.

Ao pensar em cultura surda, Skliar (2010, p. 28) descreve a surdez como uma experiência visual e aponta que “isso significa que todos os mecanismos de processamento da informação, e todas as formas de compreender o universo em seu entorno se constroem como experiência visual”. Da mesma forma, Perlin (2010, p. 56) afirma que:

A cultura surda como diferença se constitui numa atividade criadora símbolos e práticas jamais conseguidos, jamais aproximados da

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cultura ouvinte. Ela é disciplinada por uma forma de ação e atuação visual. Já afirmei que ser surdo é pertencer a um mundo de experiência visual e não auditiva.

Antes de aprofundar melhor a essa experiência visual cabe aqui falarmos sobre as identidades surdas. As identidades surdas são influenciadas pela coletividade e pela imposição ouvinte no sentido de corrigir o corpo danificadoimpedindo assim o surdo de construir a sua própria identidade cultural. Esse impedimento forma uma grande diversidade de identidades culturais assumidas pelos surdos. Perlin (2010) cita cinco tipos:

identidades surdas: presentes nos grupos de surdos que fazem uso das

experiências visuais, é usuário da língua de sinais e defende identidade e cultura próprias que emergem das comunidades surdas. Perlin (2010) valoriza a construção de uma “identidade política surda”, os surdos adultos, no encontro das comunidades surdas são levados a interagir intensamente com os demais integrantes surdos, desta forma ele vai construir sua identidade

surda fortemente centrada no ‘ser’ surdo.

identidades surdas híbridas: vividas por surdos que nasceram ouvintes e ao longo da vida tornaram-se surdos. Como surda híbrida, Perlin (2010, p. 64) cita a sua experiência:

Isso não é tão fácil de ser entendido, surge a implicação entre ser surdo, depender de sinais, e o pensar em português, coisa bem diferente que sempre estarão em choque. Assim, você sente que perdeu aquela parte de todos os ouvintes e você tem pelo meio a parte surda. Você não é um, você é duas metades.

identidades surdas de transição: surdos que foram mantidos sob a ideologia dominante ouvinte, passaram pelo processo de ouvintização e ao entrar em contato com a comunidade surda passaram pelo processo de desouvintização. A transição é o momento da passagem do mundo de sons

ao mundo das imagens. Para Perlin (2010, p. 64) “embora passando pela

´desouvintização´ os surdos ficam com sequelas da representação que são evidenciadas em sua identidade em reconstrução nas diferentes etapas da

vida”.

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identidades surdas incompletas: são surdos que vivem uma sob a ideologia ouvintista e sob a hegemonia dos ouvintes, pois estes exercem grandes

poderes sobre os surdos o que é difícil de ser quebrado. Segundo Perlin (2010, p. 65), “além dessa identidade que nega a representação surda, suponho uma outra identidade: quando o surdo nega a identidade surda. Igualmente a enquadro nessa categoria por existir uma representação da

identidade ouvinte como superior”. identidades surdas flutuantes: são surdos que vivem se manifestam sob a

hegemonia ouvinte, alguns conscientes e outros não conscientes de viverem assim. Perlin (2010, p. 66) “existem surdos que querem ser ouvintizados a todo custo. Desprezam a cultura surda, não tem compromisso com a comunidade surda. Outros são forçados a viverem a situação como que

conformados a ela”.

A partir dos estudos de Perlin, percebemos que uma socialização inadequada poderá trazer sérias consequência à formação da identidade surda. Laraia (2001, p. 87) aponta que uma socialização inadequada leva um individuo a não conhecer as regras de seu grupo:

Embora nenhum indivíduo, repetimos, conheça totalmente o seu sistema cultural, é necessário ter um conhecimento mínimo para operar dentro do mesmo. Além disto, este conhecimento mínimo deve ser partilhado por todos os componentes da sociedade de forma a permitir a convivência dos mesmos.

Cada cultura possui uma lógica em seu sistema e não cabe a um sistema discriminar o outro, jugando-se melhor ou pior pela sua cultura. Conforme Laraia (2001, p. 88), “todo sistema cultural tem a sua própria lógica e não passa de um ato primário de etnocentrismo tentar transferir a lógica de um sistema para outro”. Ainda que, comportamentos etnocêntricos geram atitudes e percepções negativas dos padrões culturais diferenciados sendo consideradas absurdas e imorais as práticas de outros grupos, de outros sistemas. No caso dos surdos, é muito importante que conheçam a cultura visual para que possam compartilhar seus costumes, História, tradições. Segundo Laraia (2001), é importante que exista o mínimo de envolvimento do indivíduo nos assuntos de sua cultura para que haja participação e articulação com os demais membros da sociedade em que ele participa.

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Para os surdos, a ausência do som e da audição faz com que percebam o

mundo por meio dos olhos e de tudo o que é visual que acontece perto deles. É a substituição da audição pela visão. Sengundo Strobel (2009, p. 40), “essas percepções visuais abrangem, através de expressões faciais e corporais, as atitudes

dos seres vivos e de objetos em diversas circunstâncias [

...

]”.

Afinal quais seriam as produções culturais desenvolvidas pelos surdos? Segundo Strobel (2009), esses artefatos culturais são: experiência visual, linguística, familiar, literatura surda, vida social e esportiva, artes visuais, política e materiais. A língua de sinais é um artefato linguístico importantíssimo para os surdos,

pois permite a comunicação visual. Conforme Strobel (2009, p. 47),

A língua de sinais é uma das principais marcas da identidade de um povo surdo, pois é uma das peculiaridades da cultura surda, é uma forma de comunicação que capta as experiências visuais dos sujeitos surdos, e que vai levar o surdo a transmitir e proporcionar-lhes a aquisição de conhecimento universal.

O artefato cultural familiar corresponde às diferenças culturais que existem entre surdos vindos de famílias ouvintes e surdos vindos de famílias surdas. E ainda diz que os maiores problemas encontrados são a falta de diálogo e desconhecimento nesses casos da existência de uma cultura surda. Já nas famílias surdas, Strobel (2009, p. 57) cita que os membros surdos tem comportamentos próprios deles. Por exemplo, é habitual assistirem à televisão no volume mudo para não incomodar os vizinhos”. Embora emudeçam a televisão, eles fazem barulho bem alto sem perceberem. Outro aspecto que vale ressaltar é que nas casas de famílias surdas, seus membros usam a língua de sinais como língua prioritária. A literatura surda, também manifestação cultural, traz presente em seu contexto questões ligadas às identidades e à cultura surda que se multiplicam em diferentes gêneros: poesia, história de surdos, piadas, literatura infantil, clássicos, fábulas, contos, romances, lendas entre outras. Há dramaturgos surdos como Rimar Romano e Sueli Ramalho, irmãos surdos filhos de pais surdos, que fundaram a companhia de teatro Arte e Silêncio. Strobel (2009, p. 62) enfatiza que,

A literatura surda refere-se às várias experiências pessoais do povo que, muitas vezes, expõem as dificuldades e/ou vitórias das

45

opressões ouvintes, de como se saem em diversas situações inesperadas, testemunhando as ações de grandes líderes e militantes surdos, e sobre a valorização de suas identidades surdas.

Figura 3 Sueli Ramalho e Rimar Romano fundadores da Companhia de Teatro Arte e Silêncio.

45 opressões ouvintes, de como se saem em diversas situações inesperadas, testemunhando as ações de grandes

(Fonte: http://www.maissentidos.org.br/espetaculo/7/Orelha)

A vida social e esportivas dos sujeitos surdos também faz parte das

manifestações culturais. Strobel (2009, p. 67) diz que essas manifestações “são

acontecimentos culturais, tais como casamentos entre surdos, festas, lazeres e

atividades nas associações dos surdos, eventos esportivos e outros”.

Os eventos esportivos procuram adaptar as sinalizações sonoras, realizadas para ouvintes em gestuais. Uma marca muito grande também para os surdos é a tradição de dar um sinal

aos membros das comunidades surdas, uma espécie de batismo. No lugar do nome da pessoa, ela é conhecida pelo sinal. O sinal pode ser uma das características físicas da pessoa, primeira letra de seu nome ou sua profissão. Vejamos alguns exemplos:

Figura 4 Sinal em Libras de Jô soares

46

46 (Fonte: Livro Ilustrado de Língua Brasileira de Sinais: desvendando a comunicação usada pelas pessoas com

(Fonte: Livro Ilustrado de Língua Brasileira de Sinais: desvendando a comunicação usada pelas pessoas com surdez. 2010)

Figura 5 Sinal em Libras de Elvis Presley

46 (Fonte: Livro Ilustrado de Língua Brasileira de Sinais: desvendando a comunicação usada pelas pessoas com

(Fonte: Livro Ilustrado de Língua Brasileira de Sinais: desvendando a comunicação usada pelas pessoas com surdez. 2010)

As artes visuais surdas manifestam emoções, histórias, subjetividades e a cultura das comunidades surdas causando sensações diferentes em seus espectadores. De acordo com Strobel (2009, p. 74), há muitos surdos artistas que fazem desenhos, pinturas, esculturas e outras manifestações artísticas com a extensão, beleza, equilíbrio, harmonia e também revoltas com muitas discriminações

sofridas pelo povo surdo”.

Lembraremos aqui de Ludwig Van Beethoven, apaixonado por música desde a sua infância, apresentou-se em um concerto pela primeira vez aos sete anos de idade. Aos 31 anos de idade o músico começou a ficar surdo. Não se sabe ao certo o que o levou a ficar surdo, alguns dizem que foi devido a sífilis, outros que o compositor tinha mania de enfiar a cabeça num balde de agua fria para aliviar o cansaço. Mesmo surdo Beethoven continuou compondo e tocando piano perfeitamente. Ele cerrou as pernas do piano para sentir as vibrações no chão de madeira e então compôs a sua nona sinfonia completamente surdo. A política, como manifestação cultural, se dá por meio das associações de surdos que foram criadas com o intuito de assistencialismo, mas que atualmente têm outros objetivos. Os surdos fazem parte dessas associações, discutem e lutam pelos

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diretos do povo surdo: direito à educação, saúde e bem-estar do surdo. Conforme Strobel (2009, p. 79),

Atualmente, um dos maiores objetivos das associações dos surdos é a política. Nessas organizações juntam-se sujeitos surdos em reuniões e assembléias para compartilhar dos interesses comuns, lutando pelos seus direitos judiciais e de cidadania, em uma determinada localidade, geralmente em uma sede própria, alugada, ou cedida pelo Governo.

Para compartilhar interesses comuns e lutar pelos seus direitos, no ano de 2014, o surdo Paulo Vieira, foi candidato a Deputado Estadual de São Paulo, pelo Partido Humanista da Solidariedade. A principal proposta 3 do deputado era a criação de uma central de tradutores e intérpretes de Libras que auxiliasse os surdos em espaços públicos como: hospitais, delegacias, bancos e outros dando acessibilidade em relação à comunicação em língua de sinais. Também pretendia criar mais associações de surdos com o objetivo de capacitar instrutores surdos para espalharem e multiplicarem o ensino da Libras, bem como o trabalho dos tradutores e interpretes. O candidato não foi eleito, pois obteve apenas 6.842 votos. O desenvolvimento de materiais que favoreçam a acessibilidade ao surdo também corresponde a uma forma de manifestação cultural. De acordo com Strobel (2009, p. 84)

Destacam-se, entre eles, o Telephone Device for the Deaf (TDD) um pouco maior que o telefone convencional, na parte de cima tem um encaixe de fone e embaixo dele um visor onde aparece escrito digitado e mais abaixo tem as teclas para digitar -, instrumentos luminosos como a campainha em casas e em escolas de surdos, despertadores com vibradores, legendas closed-caption, babás, sinalizadores, etc.

Os TDD’s, atualmente, estão por toda parte: metrôs, shoppings, hospitais, nas paradas em rodovias e estradas.

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Figura 6 - Telephone Device for the Deaf (TDD) Telefone para surdos

48 Figura 6 - Telephone Device for the Deaf (TDD) – Telefone para surdos (Fonte: http://www.notisurdo.com.br/tecnohist.html)

(Fonte: http://www.notisurdo.com.br/tecnohist.html)

Portanto, entender a cultura surda e essa forma de estar no mundo é muito difícil pelas pessoas ouvintes. Conforme Laraia (2001, p. 75), “o costume de discriminar os que são diferentes, porque pertencem a outro grupo, pode ser encontrado mesmo dentro de uma sociedade. Justamente por basear-se em uma cultura universal, mas sabemos que há diferentes grupos sociais até dentro de uma mesma sociedade.

1.6 CULTURA SURDA NA CONTEMPORANEIDADE

A participação do surdo na sociedade e na construção de sua própria história, enquanto povo surdo foi primordial para que a sua cultura pudesse ser valorizada. Deste modo, todo o dia 26 de setembro, data de fundação o INES Instituto Nacional de Educação de Surdos, os surdos saem às ruas usando a fita azul expressando o orgulho que tem em serem surdos. A fita Azul é utilizada pela comunidade surda como representação da opressão enfrentada ao longo da História. Ela representa o orgulho em ser surdo e serve também para homenagear os surdos que foram mortos no período nazista.

Assim, foram abertas novas possibilidades na contemporaneidade, como o aparecimento dos telefones celulares, a criação de aparatos tecnológicos para comunicação, adaptação de ambientes, eventos que integram esse público, entre outros. Apontaremos nestes itens a criação desses artefatos visto que a História e trajetória das comunidades surdas são preciosas de onde advém ricas experiências que foram pesquisadas e trazidas ao nosso conhecimento.

A primeira inovação foram os celulares que possibilitavam enviar mensagens de texto. Os surdos acabaram por deixar de lado os telefones TDD’s e passaram a

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utilizar o instrumento como principal canal de comunicação. E para revolucionar ainda mais os celulares, surgiram os sistemas Android e IOS. Eles permitem a instalação de aplicativos que auxiliaram fortemente a vida do surdo.

Falaremos em primeiro lugar dos aplicativos ProDeaf e Hand Talk que são softwares capazes de traduzir texto e português oral para a Libras. O objetivo dos dois aplicativos é de permitir a comunicação entre surdos e ouvintes promovendo acessibilidade, interação e inclusão social.

É interessante mencionarmos que o ProDeaf foi criado pelos alunos do curso de Ciências da Computação da Universidade Federal de Pernambuco. Os estudantes precisavam desenvolver um projeto dentro do curso e criaram o aplicativo que é usado por surdos, ouvintes, empresas e escolas de todo o Brasil.

Figura 7 Aplicativo Hand Talk

49 utilizar o instrumento como principal canal de comunicação. E para revolucionar ainda mais os celulares,

(fonte: http://techapple.com.br/2013/08/hand-talko-aplicativo-que-traduz-portugues-para-lingua-de- sinais-libras/)

Figura 8 Aplicativo ProDeaf

49 utilizar o instrumento como principal canal de comunicação. E para revolucionar ainda mais os celulares,

(Fonte: http://exame.abril.com.br/blogs/aplicativos/iphone/tradutor-de-libras-prodeaf-ganha- versao-para-ios/)

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Outro aplicativo também muito usado por surdos é o Dragon Dictation. Trata- se de um aplicativo que transforma a fala de uma pessoa em texto e em seguida permite aos seus usuários encaminhar o texto por e-mail, redes sociais ou por mensagem. O programa foi criado com o intuito de ajudar a todos aqueles que não queriam perder tempo digitando textos. Os surdos aderiram o Dragon Dictation, mas com outra intenção, a de estabelecer comunicação de forma rápida com ouvintes que não conhecem a língua de sinais. Ao invés de ser utilizado um bloco de anotações e caneta para uma conversa escrita, o aplicativo facilitou esse processo.

Figura 9 Aplicativo Dragon Dictation

50 Outro aplicativo também muito usado por surdos é o Dragon Dictation. Trata- se de um

(Fonte: http://otswithapps.com/2011/10/10/dragon-dictation-app/)

Outro fato importante é a comunidade do Facebook #aquitemlibras. É um projeto que visa à inclusão social de surdos em restaurantes, lanchonetes, baladas e etc, incentivando ouvintes em Língua Brasileira de Sinais para atendimento aos surdos.

Figura 10 Foto da comunidade do facebook #aquitemlibras

50 Outro aplicativo também muito usado por surdos é o Dragon Dictation. Trata- se de um

(Fonte: https://www.facebook.com/aquitemlibras/?fref=ts)

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Citamos também a TV INES, criada por meio da associações INES Instituto Nacional de Educação de Surdos e Educativa Roquette-Pinto (ACERP) que dá acesso aos surdos e ouvintes a uma programação totalmente inclusiva em Língua de Sinais. A TV também é disponibilizada pela internet de forma acessível a todos. A TV INES prioriza em sua programação a língua de sinais disponibilizando legendas para os ouvintes que não conhecem a Libras e querem acompanhar tornando a programação bilíngue, ou seja, acessível em duas línguas. A TV, embora tenha uma programação bem ampla e eclética, trabalha mais com aspectos educacionais e artísticos como: esporte, músicas traduzidas em Libras, informações, cultura surda, entretenimento, documentários, tecnologia em Libras, aulas de Libras e etc.

Figura 11 Logotipo da TV INES

51 Citamos também a TV INES, criada por meio da associações INES – Instituto Nacional de

(Fonte: http://acerp.org.br/projetos/tv-ines/)

O Espaço Libras 4 , também deve ser lembrado, disponibilizado na plataforma do PPGL Programa de Pós-graduação em linguística da Universidade de Brasília, visa a informar surdos e ouvintes sobre as leis atuais e vigente do país, disponibilizando artigos sobre diversos temas relacionados à surdez e à Libras, informa também sobre eventos que possam acontecer sobre inclusão e acessibilidade.

O tema surdez também está presente na peça de teatro “Tribos”. Escrita por Nina Raine e dirigida por Ulysses Cruz, tem como atores principais Antônio Fagundes e Bruno Fagundes. A peça foi encenada no período de 11 de setembro à 13 de dezembro de 2015 no teatro TUCA na PUC-SP, no bairro de Perdizes e conta a história de um rapaz, Billy, que nasceu surdo em uma família de ouvintes. A família superprotege Billy até que ele se apaixona por uma jovem surda que utiliza a língua de sinais e essa situação começa a mudar, então o rapaz sai em busca da construção de sua identidade. A encenação mostra a realidade de tantos surdos

4 Disponível no site: http://www.ppgl.unb.br/noticias/espaco-libras?start=4

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espalhados pelo mundo. Após a apresentação os atores provocam uma conversa com o público sobre a Libras, a cultura surda e a acessibilidade. Há uma crítica a fazer, talvez a peça ficasse ainda mais rica com a participação de artistas surdos.

Figura 12 – Cartaz da Peça “Tribos”

52 espalhados pelo mundo. Após a apresentação os atores provocam uma conversa com o público sobre

(Fonte: https://blogreveja.wordpress.com/tag/teatro-tuca/)

Trazemos ao conhecimento os trabalhos desenvolvidos em Museus que dão acessibilidade cultural aos surdos como:

MAM Museu de Arte Moderna, localizado na cidade de São Paulo, no bairro do Ibirapuera que dispõe de videoguia, um tablete que contém vídeos de um guia trazendo informações da exposição. Além disso há seis anos, Leonardo Castilho, surdo, é arte educador no MAM e faz visitas guiadas para surdos. A Pinacoteca de São Paulo possui uma educadora surda que, quando agendada, faz visitas guiadas a algumas obras escolhidas, As visitas demoram cerca de uma hora e meia. Além da educadora surda, o Museu também possui videoguia. Museu Afro-Brasil ainda não possui a tecnologia do vídeoguia, mas tem um educador surdo, Edson que faz o acompanhamento dos visitantes surdos provocando-os a uma reflexão sobre as exposições.

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O Guia de Acessibilidade Cultural, um projeto desenvolvido pelo instituto Mara Gabrilli, é uma associação sem fins lucrativos, que criou um guia facilitador que amplia a inclusão de pessoas com deficiências nos espaços culturais. O guia disponibiliza informações sobre os espaços culturais que dispõe de recursos de acessibilidade na cidade de São Paulo para as pessoas com deficiência. O acesso ao guia pode ser pela internet, ou impresso acompanhado de um audiolivro para deficientes visuais.

Ainda temos muito a contribuir com a acessibilidade e respeito à comunidade surda dando a possibilidade dos surdos utilizarem a língua de sinais e vivenciarem e explorarem a sua cultura visual. Entretanto, é possível perceber que a cultura surda tem ganho espaços e ações que poderão despertar tantas outras possibilidades.

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CAPÍTULO 2

PROCESSO EDUCATIVO DO SURDO

Como funciona o processo educativo do surdo? Como o surdo aprende a Libras? Como desenvolve os sinais? Existem níveis para esta aprendizagem, assim como aquisição na língua oral? A alfabetização em língua portuguesa é feita da mesma forma que um aluno ouvinte? O que é educação bilíngue para os surdos? Estas perguntas tecem os conceitos de educação, diversidade e diferença. A compreensão equivocada desses conceitos pode influenciar a forma como esse sujeito aprende.

2.1 REFLETINDO CONCEITOS FUNDANTES

A palavra educação” na língua portuguesa tem dois significados principais: o primeiro está relacionado a boas maneiras e o segundo, ao grau de instrução de uma pessoa. Para entendermos o conceito de educação, faz-se necessário partimos do sentido etimológico da palavra educação que vem do latim e significa educare, que significa literalmente “conduzir para fora” ou “direcionar para fora”. Conecta-se com o sentido de instruir pessoas para a vida, para viver em sociedade, para construir a humanidade, com múltiplas e diversas formas de construção.

Como vimos em

Cassirer

(1977)

o homem

é

um animal simbólico.

A

educação como uma atividade cultural permite a propagação de valores, crenças, costumes de uma comunidade, ou seja, é ela, também uma atividade simbólica.

De acordo com Severino (2012, p. 59),

para que as relações sociais deixem de ser um conjunto de relações gregárias, é necessário que sejam amalgamadas por significações simbólicas. Dessa maneira, os homens desenvolvem práticas cujas ferramentas são fundamentalmente símbolos. Suas ações utilizam o equipamento de cultura simbólica. Dentre essas ações se destacam a

educação”.

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Com base nisso, podemos dizer que a educação envolve o ato de aprender e ensinar. É uma atividade desenvolvida em qualquer sociedade que é responsável pela internalização e reprodução de cultura simbólica.

Para esses dois autores citados, o conjunto simbólico e a prática simbolizadora são dois traços mais fundamentais e característicos na vida humana e estão ligados diretamente às práticas produtivas sociais. Todo o progresso da vida humana se baseia nessas condições.

Quando pensamos em construção social, não podemos fugir da ideia de que o processo educacional também perpassa a subjetividade humana. Segundo Severino (2012), é por meio da subjetividade humana que os homens são produtores e fruidores de bens simbólicos. E ainda acrescento, além de produtores e fruidores, aprendizes.

De que forma se processam as aprendizagens? Segundo Antoni Zabala (1998), nós, seres humanos, temos “esquemas de aprendizagens”, e estes esquemas são definidos de acordo com a um momento específico de nossas vidas, idades etc. Quando estamos diante de um novo objeto de conhecimento e temos a possibilidade de explora-lo, compara-lo e entendê-lo, a aprendizagem acontece. Portanto, a aprendizagem só acontece quando há a possibilidade de atualizar esses esquemas.

Segundo Zabala (1998, p.34)

[

]

as aprendizagens dependem das características singulares de

... cada um dos aprendizes; correspondem, em grande parte, às experiências que cada um viveu desde o nascimento; a forma como se

pretende e o ritmo da aprendizagem variam segundo as capacidades, motivações e interesses de cada um dos meninos e meninas; enfim, a maneira e a forma como se produzem aprendizagens são o resultado

de processos que sempre são singulares e pessoais [

...

].

Assim, os processos são sempre singulares e pessoais, há diferentes formas de educar sujeitos diferentes.

E o acesso à educação de qualidade pelos surdos, conforme prevê o Artigo 2º da LDB Lei de Diretrizes e Bases da Educação a educação, é dever da família e do Estado, e tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.

56

É dever da Família e do Estado garantir o pleno desenvolvimento do educando surdo. Para isso, citamos as Diretrizes Curriculares da Educação Especial (2001) que incubem a escola da responsabilidade de adotar formas diferenciadas de ensino e acesso ao currículo escolar, pelos surdos, por meio da língua brasileira de sinais.

A fim de entendermos melhor essas afirmações e a educação dos surdos, antes discutiremos o conceito de diversidade e diferença.

Segundo o dicionário Houaiss (2004), diversidade é a “qualidade do que é diferente, variado” e diferença é “falta de semelhança, desigualdade, alteração”.

Nessa perspectiva, os termos diversidade e diferença são tratados como sinônimos. Sendo assim, quando pensamos em diversidade, faz-se importante considerar o contexto de sociedade contemporânea, que sofre mudanças de visões, percepções e entendimento acerca da própria sociedade.

Considerando esta perspectiva, podemos pensar a diversidade como multiplicidade e pluralidade cultural. Esses conceitos são dinâmicos, pois mudam a partir do contexto e dos interesses sociais, políticos e históricos, como aponta Darcy Ribeiro (2006) em seu livro O povo brasileiro, que conta a história das misturas étnicas, e da simbiose de costumes, valores e crenças que deu origem à nação.

É preciso que se tenha em mente que essas misturas culturais não são estáticas. Para entendermos melhor essa dinâmica, na atualidade, nos apoiaremos na ideia de Edgar Morin (2003), que descreve conceito de multiplicidade e pluralidade cultural como “mundialização”. Para o teórico, “mundialização” é sinônimo de globalização, ou seja, um processo e/ou um fato que se transforma em mundial, que engloba o mundo.

O autor aponta que o desenvolvimento econômico e a modernização dos meios de comunicação transformaram o mundo e a visão de mundo. Essa transformação é chamada por ele de era planetária.

A era planetáriae a sua “mundialização” trouxeram ao ser humano uma nova forma de viver e relacionar-se, pois a cultura moderna ocidental trouxe suas influências a outras regiões do planeta.

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Sendo assim, segundo Morin (2003, p. 87),

No interior desse desdobramento situam-se o nascimento e expansão da mundialização do humanismo. Essa mundialização dos direitos do homem, da liberdade, da igualdade, da fraternidade, da equidade e do valor universal da democracia favorecem o desenvolvimento de uma consciência cada vez mais aguda, que permite considerar que a diversidade cultural não é uma realidade oposta à unidade da humanidade, mas a fonte de sua riqueza e sustentabilidade.

E não sendo uma realidade oposta à unidade da humanidade é que foi superado o fechamento local de suas culturas, etnias e de suas nações dando lugar às misturas culturais, a diversidade de culturas.

A definição de diversidade pode ser dada como um conjunto de valores e diferenças compartilhados pelos seres humanos, ou seja, diferentes formas de valorização e percepção das grandes diferenças: politicas, sociais, culturais, sexuais e étnicas.

Por outro lado devemos pensar também que ao afirmar as diferenças entre grupos sem defender a ideia de uma igualdade ao mesmo tempo corre-se o risco de por em cena a ideia de desigualdade e exclusão tais como culturais, religiosas, sociais, de gênero, sexuais, étnicas promovendo assim uma visão deturpada do que venha a ser diversidade. Cito como exemplo os ataques terroristas do dia 13 de novembro em Paris e Saint-Denis na França.

Segundo Skliar (2010, p.13), há um falso consenso no termo diversidade, pois traz uma ideia de que a normalidade hospeda os diversos, porém mascara normas

etnocêntricas e serve para conter a diferença”. Pensar o surdo neste contexto, é

pensar em alguém tolerado e estereotipado que é significado numa perspectiva negativa, ou seja, como desviante dos padrões de normalidade instituídos socialmente mascarando a diversidade no sentido de tolerância.

Pensar em diversidade e diferença nos remete à ideia de pensar em que espaço deve ser feita a educação dos surdos? Na escola especial ou na escola regular? Skliar (2010, p. 13) questiona a educação dos surdos e afirma que “também é necessário romper com a tradição segundo a qual, uma vez reconhecido o fracasso da escola especial, aparece de implacável uma única opção: a escola

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inclusiva.

Isto

é,

o imperativo

da integração escolar dos surdos nas escolas

regulares”.

Se pensarmos em um breve panorama das leis vigentes no Brasil, vemos que de acordo com o primeiro Código Civil Brasileiro de 1916, Lei 3.071, § 5º. eram “incapazes de exercer seus atos civis: I - Os menores de 16 anos; II - os loucos de todos os gêneros; III os surdos-mudos, que não puderem exprimir sua vontade e IV – os ausentes, declarados tais por ato do juiz.”

Esses trechos, extraídos da primeira Constituição, revelam os mitos na época de sua elaboração. Com o passar dos anos essa ideia fora ficando ultrapassada. No ano de 1988, aconteceu uma revisão da Constituição, dando o direito das pessoas com deficiência de ter um atendimento especializado e preferencialmentena rede regular de ensino. Segundo Honora & Frizanco (2009), é preciso atenção:

preferencialmentenão garante o acesso.

Podemos dizer que a educação inclusiva se instaurou com uma resolução criada no ano de 1994, pelas Nações Unidas em uma assembleia em Salamanca (Espanha). O documento, que tratava dos princípios, políticas e práticas na área das necessidades educativas especiais, foi nomeado de Declaração de Salamanca.

A assembleia, que criou a resolução, reuniu 88 governos, 25 organizações internacionais, reafirmou o compromisso com a Educação para todos e ao mesmo tempo discutiu sobre a urgência de ser ofertada educação para crianças, jovens e adultos, com necessidades educacionais especiais dentro do sistema regular de ensino, dando origem à educação inclusiva.

A partir de então, esse sistema deve promover uma equalização de oportunidades para pessoas com deficiência assegurando que sejam parte do sistema educacional, ou seja, tenham acesso à educação. Vejamos em Salamanca (1994, p. 3),

O princípio que orienta esta Estrutura é o de que escolas deveriam acomodar todas as crianças independentemente de suas condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais, linguísticas ou outras. Aquelas deveriam incluir crianças deficientes e superdotadas, crianças de rua e que trabalham crianças de origem remota ou de população nômade, crianças pertencentes a minorias linguísticas, étnicas ou culturais, e crianças de outros grupos desvantajosos ou

59

marginalizados. Tais condições geram uma variedade de diferentes desafios aos sistemas escolares. No contexto desta Estrutura, o termo "necessidades educacionais especiais" refere-se a todas aquelas crianças ou jovens cujas necessidades educacionais especiais se originam em função de deficiências ou dificuldades de aprendizagem. Muitas crianças experimentam dificuldades de aprendizagem e portanto possuem necessidades educacionais especiais em algum ponto durante a sua escolarização. Escolas devem buscar formas de educar tais crianças bem-sucedidamente, incluindo aquelas que possuam desvantagens severas.

Nesse sentido, Lulkin (2010, p. 42) nos dá outra possibilidade de pensar a educação dos surdos e,

Estar atento as novas atitudes dentro do espaço escolar solicita dos educadores uma visão crítica, social, cultural e um questionamento amplo sobre as práticas e as narrativas que lhes constituem, assim como a manutenção dessas narrativas através de suas ações. As lutas por identidade no espaço escolar implicam uma atenção especial para o conceito da diferença em aprofundamento nas discussões referente à diversidade cultural (como o polêmico tema do multiculturalismo), uma posição critica frente aos poderes da linguagem social e dos discursos hegemônicos.

Portanto, o surdo deve ser visto como diferente e igual, ao passo que deve ser considerado na escola a sua cultura a sua língua, pois a escola é (ou deve ser) um espaço de aprendizagem e vivências significativas 5 , onde o aluno seja capaz de criar, sendo protagonista de sua aprendizagem.

Para que a aprendizagem do aluno surdo se torne significativa é necessário que a língua de sinais seja um instrumento mediador e basilar nesse processo, caso contrário, não há possibilidade nenhuma de aprendizagem e muito menos significativa. O primeiro passo para a inclusão do surdo no ensino regular é a aprendizagem da Língua de Sinais pelos alunos do curso de pedagogia e das demais licenciaturas, mas isto bastaria?

De

que forma

se

o aprendizado da Língua de Sinais pelos surdos?

Vejamos a seguir.

5 De acordo com Zabala (1998) aprendizagem significativa é quando “estão se estabelecendo

relações não-arbitrárias entre o que já fazia parte da estrutura cognitiva do aluno e o que lhe foi

ensinado”. Ou seja, quando o aluno consegue dar sentido aquilo que lhe é ensinado.

60

2.2 APRENDIZAGEM A LIBRAS

Antes de nos aprofundarmos sobre a forma como o surdo aprende cabe aqui mencionar a importância da Libras para o surdo. Como vimos, a linguagem é fundamental para o desenvolvimento humano e de sua cultura. A falta do desenvolvimento de uma língua pode causar grandes consequências para o sujeito no âmbito emocional, social e intelectual. A comunicação promove a interação entre as pessoas e permite compartilhar ideias, cultura, emoções, conhecimentos, influenciar ou deixar-se ser influenciado por ela entre muitos outros aspectos. Segundo Campos-Garcia (2012, p.21):

É relevante compreendermos que, na medida em que os sujeitos biológicos externam suas necessidades biomentais, eles socializam seus pensamentos, tornando-se sócios-sujeitos. Esses bio-sócio- sujeitos, ao socializarem seus pensamentos, recebem respostas do meio, que se constitui por outros bio-sócio-sujeitos. Nessa troca de pensamento, há modificações consideráveis nas estruturas do pensamento humano, desencadeando longas cadeias de novos pensamentos.

Essas longas cadeias de novos pensamentos permitem ao sujeito constituir- se enquanto ser social, devido ao fato de nos permitir apropriação da cultura local, podemos construir nosso entendimento de mundo ao mesmo tempo em que estabelecer relações sociais.

Essas relações sociais só podem ser construídas por meio de compreensões e associações de uma língua que seja comum aos sujeitos. Segundo Cassirer (1977, p. 64),

A fim de poder chegar a esta compreensão, a criança precisou fazer um novo descobrimento, muito mais importante. Precisou compreender que tudo tem um nome - que a função simbólica não se restringe a casos particulares, mas é o princípio da aplicabilidade universal, que abarca todo o campo do pensamento humano.

Abarcando o campo do pensamento humano, Campos-Garcia (2012) aborda a linguagem como consequência da necessidade que o homem tinha de aprimorar seu pensamento, externa-lo e concluí-lo e ao mesmo tempo estabelecer laços entre seus semelhantes marcando sua existência na história.

Logo, quando pensamos nas primeiras formas de comunicação desenvolvidas de forma natural pelo homem, estas estavam pautadas por gestos, mímicas e sons

61

indicativos; existia uma forma embrionária de comunicação entre os homens primatas. Essa forma de comunicação foi sendo aprimorada ao longo dos anos resultando na diferente comunicação que temos hoje. Desta forma, conforme Campos-Garcia (2012, p.22-23):

a modalidade com a qual o homem percebeu o mundo é fundamental para o desenvolvimento natural da modalidade de sua linguagem e o desdobramento de sua língua materna. Isso nos deixa claro que a natureza humana é que define o surgimento da modalidade linguística

que se desenvolverá no individuo e não na sociedade[

...

].

Por este motivo, a natureza humana permitiu ao surdo o desenvolvimento de uma língua de modalidade visuo-gestual, a língua de sinais. A língua de sinais que é um meio de preservar e valorizar a cultura e a identidade surda, que por muito tempo foi reprimida sendo inferiorizada pela ideologia ouvintista, como vimos no primeiro capítulo. Para Moura (2013, p. 15),

A língua de sinais tem uma particularidade: ela é totalmente visual, passa sentidos e significados por uma forma que é absolutamente acessível ao surdo. E é assim configurada por ter sido criada pela comunidade surda, que, no desejo humano de se tornar ser da linguagem, arquitetou a sua forma especial de comunicação que independe a audição.

E é nesse desejo humano de se tornar ser da linguagem que a Libras, Língua Brasileira de Sinais dos surdos brasileiros, permite que a surdez seja vista como uma experiência visual tornando-a conhecida. Segundo Moura (2013, p. 15), “a Libras desempenha todas as funções de uma língua e, como tal, poderia ser usada para cumprir o papel que a linguagem oral tem na criança ouvinte”.

De acordo com Lacerda e Santos (2013, p. 48), “a língua de sinais permite ao ser surdo expressar seus sentimentos e visões sobre o mundo, sobre significados,

de forma mais completa e acessível [ ]” ...

Por isso, é muito importante que a Libras seja um canal de comunicação presente no universo das crianças surdas igualmente a língua oral o é no da criança ouvinte. Dessa forma, a criança surda teria a possibilidade de dominá-la desde cedo se tornando ser da linguagem. Este é um desejo, conforme nos apresenta Moura (2013, p. 17):

Este é o grande desafio que tem sido enfrentado pelos educadores:

como propiciar a aquisição de LIBRAS da melhor forma possível, uma

62

vez que crianças surdas são, na maioria das vezes filhas de pais ouvintes que nunca ouviram falar de língua de sinais, LIBRAS, etc. Ao acreditarmos que a linguagem só pode ser adquirida em um contexto social e verificamos, como vimos anteriormente, que a criança surda não tem acesso a língua de sinais de forma natural no espaço em que vive, temos de tentar responder: como a criança poderá adquirir a língua e desenvolver sua linguagem de maneira a poder se relacionar com o seu ambiente e usar a linguagem para se organizar no mundo? Consideremos que esse é o grande desafio a ser enfrentado pelo sistema educacional de um país que pretende propiciar ás crianças surdas as mesmas oportunidades educacionais de seus colegas ouvintes.

Deste modo, propiciar às crianças surdas as mesmas oportunidades educacionais de seus colegas ouvintes é pensar em uma pedagogia da diferença, ou seja, uma pedagogia que reconheça o surdo como possuidor de uma cultura e língua diferentes e essas particularidades serem realmente respeitadas.

Sabemos que é inquestionável a relevância da

língua

de

sinais para

o

desenvolvimento linguístico dos surdos, mas infelizmente em muitas situações o acesso a ela tem sido negado, ao privá-los da aprendizagem da Libras precocemente. Essas resistências podem ocorrer na família e em algumas instituições de ensino, que forçam o surdo a utilizar uma língua oral como canal de comunicação. Conforme Campos-Garcia (2012, p. 23):

Quando a sociedade conceitua e atua sobre o individuo forçando-lhe o desenvolvimento linguístico que não é de sua natureza esse mecanicamente reproduz o que lhe mecanizaram. Por este motivo podemos observar que os surdos aprendem a oralizar não de forma natural, mas somente por interferência de profissionais, sendo que os sinais, sim, são para o surdo naturalmente a expressão de seu pensamento.

Por ser os sinais a expressão de seu pensamento, é apenas por meios deles, não são apenas gestos, ou teatralização, que podem usar todas as características de uma língua genuína. É capaz de expressar conceitos complexos e abstratos como qualquer outra língua, além de representar a cultura e identidade surda. É assim que o surdo pode construir o seu conhecimento.

Embora as propostas educacionais para surdos no Brasil sejam diversas, muitos pesquisadores dos Estudos Surdos, como Quadros (1997), Lacerda e Santos (2013), Strobel (2009), Botelho (2005) consideram a proposta educacional bilíngue a mais adequada para a formação integral e autonomia de alunos surdos.

63

2.3 EDUCAÇÃO BILÍNGUE

Antes de aprofundarmos o tema educação bilíngue, faz-se necessário conhecermos o conceito de bilinguismo. O bilinguismo pode ser entendido como a capacidade que um sujeito tem de se comunicar fluentemente em duas línguas, ou pode ser entendido como a coexistência de dois dialetos dentro de uma mesma sociedade. O bilinguismo pode ocorrer em diferentes condições: quando uma criança possui contato com duas línguas desde o nascimento, por ter pais de nacionalidades diferentes ou por frequentar escola onde há contato com duas línguas, como os indígenas brasileiros que falam diversas línguas como tupi, macro-jê, arauk e muitas outras. Para o surdo, ser bilíngue compreende expressar-se bem na língua de sinais e na língua escrita do país onde reside. No caso dos surdos brasileiros, o bilinguismo compreende comunicar-se em Libras, sua primeira língua e em Língua Portuguesa, sua segunda língua. Sendo que essas duas línguas não devem ser usadas simultaneamente como forma de preservar as suas estruturas gramaticais. De acordo com a Lei 10.436/2002 Artigo 4º paragrafo único: “a Língua Brasileira de Sinais - Libras não poderá substituir a modalidade escrita da língua

portuguesa”. Por este motivo consideramos a Língua de Sinais como língua um e o

português na modalidade escrita como língua dois. Segundo Ribas (2011, p. 59),

a língua de sinais é um sistema de representação constituído por palavras e regras combinadas em frases que os indivíduos de uma comunidade linguística usam como principal meio de comunicação e expressão. Antropólogos e linguistas identificam a língua materna como a língua cujos falantes a praticam pelo fato de a sociedade em que se nasce a praticar. Nesta medida ela, é em geral, a língua que se apresenta como primeira para seus falantes.

Além dessa concepção de bilinguismo dos surdos, há um aspecto muito importante a ser considerado, e que a proposta bilíngue traz à luz, a de que os surdos formam uma comunidade, com cultura e língua próprias. O mesmo autor, em seu livro Preconceito contra as pessoas com deficiência:

as relações que travamos com o mundo, conta que recebeu um e-mail de uma surda chamada Camila e que dizia: “Eu não sou uma pessoa com deficiência auditiva total. Eu sou surda e faço parte de uma comunidade linguística alternativa”. (apud RIBAS 2011, p.58). A afirmação da Camila, “Eu sou surda”, nos leva a entender que ela

64

estabelece a sua identidade enquanto surda e ao mesmo tempo afirma que faz parte de uma comunidade linguística alternativa nos levando a compreender que, o que a identifica enquanto surda é a sua forma de comunicação por meio da língua de sinais e o pertencimento a comunidade linguística usuária dessa língua. Quando pensamos em educação bilíngue, temos de levar em conta que essas duas concepções de bilinguismo: a fluência em duas línguas e a relevância cultural. Segundo Quadros (1997, p. 27),

O bilinguismo é a proposta de ensino usada por escolas que propõe a tornar acessível à criança duas línguas no contexto escolar. Os estudos têm apontado para essa proposta como sendo a mais adequada para o ensino de crianças surdas, tendo em vista que considera a língua de sinais como língua natural e parte desse pressuposto para o ensino da língua escrita.

Com base nisso, além de tornar acessível à criança duas línguas, também é tornar acessível dois tipos de cultura: a cultura surda e a cultura ouvinte. Não vamos aprofundar esse aspecto aqui, mas vale lembrar que mesmo tornando acessível as duas culturas somos surdos e ouvintes, também permeados por múltiplas culturas outras.

Não podemos dicotomizar a língua usada por um grupo social de sua cultura. Por este motivo, a língua de sinais possui traços marcantes da cultura surda, visto que é por meio dela que o surdo recebe e propaga a sua cultura. Por este motivo, o aprendizado da língua de sinais pela criança surda deve acontecer de forma espontânea, ou seja, por meio do diálogo com adultos e crianças fluentes em língua de sinais. Segundo Lacerda & Santos (2013, p. 17),

É importante que a LIBRAS esteja presente em seu universo da mesma forma que a língua oral está no universo das crianças ouvintes para que ela possa ser adquirida de forma completa, para que a criança surda possa dominá-la e se constituir como ser da linguagem. Dessa forma, a LIBRAS, como uma primeira língua completamente adquirida, lhe forneceria a base para poder aprender a sua segunda língua: a língua portuguesa, seja na modalidade oral, seja na modalidade escrita. Esse é o princípio que rege uma aquisição bilíngue para surdos que possa ser realizada com êxito.

Sabendo da importância da Libras no universo da criança surda, faz-se necessário discutir o papel que a família desempenha nesse processo.

65

Quando uma família ouvinte recebe um filho surdo, os pais demoram meses

ou até anos para perceber ou desconfiar de alguma coisa. Situação que torna-se difícil o diagnóstico, já que a surdez não é diagnosticada nos primeiros meses de um bebê, sem processos médicos. Neste intervalo, a família tenta estabelecer comunicação com a criança por meio dos sons, como se ela fosse ouvinte. Estudos como os de Goodfeld (2001), Strobel (2009), Lacerda & Santos (2013) discutem e questionam que após o diagnóstico comprovando a surdez, alguns pais ouvintes passam por um período de luto: o bebê que idealizaram

“faleceu” e não sabem como lidar com o que está em seus braços justamente pela

falta de informação.

Sabemos que a primeira forma de comunicação de um bebê, seja ele surdo ou ouvinte, é o choro. Por meio do choro o bebê consegue se comunicar com o adulto indicando se sente dor, fome, etc. O choro é a primeira forma de demonstração da linguagem humana.

Aos poucos, a criança vai amadurecendo essa falainicial, pois recebe estímulos auditivos de todos os lados, seja na interação com os pais ou outros membros da família. Por meio de uma língua externa, que tem uma estrutura e possibilita a comunicação, a criança ouvinte consegue identificar a voz do pai e da mãe até aprender e reproduzir a língua usada pela família.

No caso de uma criança surda, filha de pais ouvintes, geralmente, esta estimulação auditiva não acontece ou demora muito para acontecer. Com a comunicação dificultada, as crianças tendem a ter o seu desenvolvimento cognitivo linguístico comprometido e provavelmente terão dificuldade de socialização e entendimento de mundo. Conforme Lacerda & Santos (2013, p. 19), “para que um desenvolvimento de linguagem se dê de forma plena é necessário que a criança seja exposta à língua sendo usada em diferentes contextos e não apenas quando os colegas e os professores se dirigem a ela”. Por este motivo, é importante a educação

compartilhada entre família e escola. A criança surda deve ter a possibilidade de entrar em contato com a língua de sinais e vê-la em diferentes contextos e utilizada

por diferentes pessoas, até mesmo porque cada “falante” da língua tem sua forma

de comunicação, melhor dizendo, seu estilo próprio de utilizar a língua.

66

Caso contrário, segundo Quadros (1997, p. 28),

Considerando o aspecto psicossocial, a criança surda irá integrar-se satisfatoriamente à comunidade ouvinte somente se tiver uma identificação bastante sólida com o seu grupo; caso contrário, ela terá dificuldades tanto numa comunidade como na outra, apresentando limitações sociais e linguísticas algumas vezes irreversíveis.

Essas limitações sociais e linguísticas acontecem devido ao fato de a criança necessitar identificar-se com uma língua materna para constituir-se enquanto ser social. Por este motivo, podemos dizer que há vantagens na proposta bilíngue de educação dos surdos. A primeira é a de não privilegiar apenas uma língua, a segunda é a capacidade de expressão e compreensão a partir da língua de sinais como primeira língua (L1), a terceira é o surdo ser perpassado por duas culturas diferentes, a quarta é que essa proposta proporciona maior autonomia para o sujeito surdo e a quinta possibilita adquirir uma comunicação efetiva. E para que essas vantagens possam acontecer, é necessário que o processo de aquisição da língua seja dado em situações espontâneas no contato social e não por processos artificiais, como funciona a aquisição da língua oral pelo surdo. Segundo Quadros (1997, p. 27)

Se a língua de sinais é uma língua natural adquirida de forma espontânea pela pessoa surda em contato com pessoas que usam essa língua e se a língua oral é adquirida de forma sistematizada, então as pessoas surdas têm o direito de ser ensinadas na língua de sinais. A proposta bilíngue busca captar esse direito.

Para que

esse direito seja respeitado e a proposta bilíngue aconteça, é

necessário levar em conta a realidade psicossocial, cultural e linguística da criança. A escola deve se preparar e a família deve ser informada e ao mesmo tempo ser parte desse processo. Segundo Quadros (1997, p. 29)

Os profissionais que assumem a função de passarem as informações necessárias aos pais devem estar preparados para explicar que existe uma comunicação visual (a língua de sinais) que é adequada à criança surda, que essa língua permite à criança ter um desenvolvimento da linguagem análogo ao de crianças que ouvem, que essa criança pode ver, sentir, tocar e descobrir o mundo a sua volta sem problemas, que existe comunidade de surdos; enfim devem estar preparados para explicar aos pais que eles não estão diante da tragédia, mas diante de uma outra forma de comunicar que envolve uma cultura, e uma língua visual-espacial. Deve-se garantir à família a oportunidade de aprender sobre a comunidade surda e a língua de sinais.

67

Em relação ao ensino da língua portuguesa, a educação bilíngue de surdos entende que essa língua deve ser adquirida com técnicas de ensino de segunda língua. Quadros (1997), Lacerda & Santos (2013) e Silva (2001), acreditam que essas técnicas devam surgir por meio da interação e em momentos espontâneos em que se utilize a Libras. Não vamos entrar na questão, mas Quadros (1997) cita duas formas de bilinguismo: na primeira, a criança surda aprende a língua dois concomitantemente a língua um e na segunda, a criança surda tem aquisição da primeira língua para depois ter aquisição da segunda língua. Para entendermos melhor a relação que o surdo tem com língua portuguesa, veremos uma redação escrita por uma criança surda de nove anos, que tem surdez bilateral e profunda 6 . A professora de Língua Portuguesa do 4º ano do Ensino Fundamental pediu que os alunos fizessem uma redação narrando algum acontecimento inusitado do cotidiano deles. Vejamos:

O computador quebrou

Aquele uma homem ir casa meu, pois tinha problema defeito computador. Então ele tentou mexer, porém ele tinha mexer programa não rodar. Continuar consertar no computador, começou chave fenda, parafuso pular rosto. Ele foi solto das mãos, caiu no chão, machucou ferido a cabeça, sangue. Água machucado curativo melhor bom.

Ao observar a redação, podemos notar dois fatores preponderantes que caracterizam a forma como a menina surda escreve. O primeiro é que a relação que o surdo estabelece com a língua escrita não representa apenas a aprendizagem de mais uma modalidade de aquisição de língua, como o português falado e escrito, mas a alfabetização em outra língua que possui diferenças fonéticas, morfológicas e sintáticas. Sendo assim, os possíveis “erros” sintáticos do texto acima são próximos às construções sintáticas da língua de sinais.

6 A perda auditiva profunda refere-se à incapacidade que o sujeito tem de ouvir mesmo ruídos fortes, deixando a comunicação comprometida.

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Ao expor o segundo, busco contribuições em Silva 7 (2001) que afirma ter escutado muitos discursos entre os pais e nas próprias instituições escolares, em que teve contato, de que a aprendizagem da língua escrita pelo surdo é um problema secundário, dando mais importância à aprendizagem da fala do que aos problemas e dificuldades de escrita apresentado pelos surdos, ou seja, espera-se que o sujeito aprenda primeiro a falar, para depois escrever. Sendo assim, muitos surdos acabam não desenvolvendo a fala como era esperado e aprendem a ler pequenos textos e frases simples. A mesma autora aponta que as escolas em resposta a tais dificuldades e com a intensão de sana-las, trabalham a língua escrita por meio de exercícios e treinos baseados em repetições. Fazendo-nos entender que a maior dificuldade a ser superada na educação dos surdos é a concepção que os professores têm sobre a construção da linguagem e as atividades de leitura e escrita que são oferecidas aos alunos surdos.

7 A autora estuda sobre a construção da linguagem e os sentidos na escrita do aluno surdo.

69

CAPÍTULO 3

FORMAÇÃO DE PROFESSORES PARA EDUCAÇÃO DE SURDOS

Discutir propostas e ferramentas capazes de auxiliar na educação dos surdos e no modo como eles aprendem é de extrema importância. Para isso, é necessário pessoas fluentes em Língua de Sinais e que entendam as particularidades do surdo.

Assim, apontaremos neste capítulo, a partir do decreto federal 5.626/2005, que a responsabilidade de integração do surdo na sociedade ficou a cargo das universidades, pois essas instituições formam docentes para trabalhar com os surdos na educação básica.

Analisamos os planos de ensino das universidades Nove de Julho e Presbiteriana Mackenzie com o intuito de entender quais assuntos, conteúdos e referências bibliográficas norteiam a formação do aluno de Pedagogia e como se dá a aprendizagem da Língua de Sinais e cultura surda. Também foi nosso intuito entender quais as representações que esses sujeitos constroem acerca do sujeito surdo e de que forma tais representações podem influenciar a maneira como o surdo aluno da educação básica aprende.

3.1 LIBRAS NO ENSINO SUPERIOR

Já discutimos anteriormente que a Língua de Sinais é muito importante para o desenvolvimento e processo de escolarização da pessoa surda. Todavia, até o ano de 2001 nenhuma medida tinha sido tomada quanto à difusão e ao uso da língua de sinais. A situação começou a se transformar com a publicação das Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica (Brasil, 2001, p. 45) documento no qual é discutido o uso da Libras no espaço educacional:

Em face das condições especificas associadas a surdez, é importante

que os sistemas de ensino se organizem de forma que haja escolas em condições de oferecer aos alunos surdos o ensino da língua

brasileira de sinais e em língua portuguesa [

],

facultando-se a esses

... alunos e as suas famílias a opção pela abordagem pedagógica que julgarem adequada.

70

As diretrizes reverberaram de forma significativa a formação do professor, em especial, nos cursos de licenciatura, forçando-os a incorporar em suas práticas a aprendizagem e o ensino da Libras. Posteriormente o decreto 5.626/2005 que regulamenta a Lei de Libras 10.436/2002, prevê que:

Art. 3 o A Libras deve ser inserida como disciplina curricular obrigatória nos cursos de formação de professores para o exercício do magistério, em nível médio e superior, e nos cursos de Fonoaudiologia, de instituições de ensino, públicas e privadas, do sistema federal de ensino e dos sistemas de ensino dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios.

Deste modo, a disciplina de Libras passou a ser disciplina obrigatória nos cursos de formação para professores. Esse decreto não surgiu ao acaso, foi resultado de movimentos e lutas dos surdos para garantir à comunidade surda novas possibilidades de acesso ao espaço escolar. Assim, com essa nova política, a Língua Brasileira de Sinais acabou ganhando espaço na sociedade.

O Decreto 5.626/2005, segundo Lacerda & Santos (2013, p. 239),

[

...

]

propôs inúmeras alterações e propostas educacionais, defendendo

a LIBRAS como língua de instrução, a necessidade de uma educação inclusiva bilíngue e garantindo a presença de profissionais especializados para o atendimento a essa clientela professores

bilíngues, intérpretes e instrutores de LIBRAS. Somente após a publicação desse decreto algumas alterações passaram a ser realizadas em nível nacional.

Ao mencionarmos a necessidade de professores bilíngues, intérpretes e instrutores de Libras, vem à baila as seguintes questões: qual a diferença entre o tradutor e intérprete, instrutor e professor de Libras? Por que a escola não contrata um tradutor e intérprete de Libras e resolve o problema do professor em relação à educação dos surdos? O instrutor não é o mesmo que o professor de Libras?

Para que um sujeito seja um intérprete de Língua Brasileira de Sinais ILS é necessário que este seja fluente em duas línguas, Libras e Língua Portuguesa, passe por um exame de proficiência oferecido pelo MEC que se chama Prolibras e conheça a cultura surda.

O Prolibras foi elaborado pelo Ministério da Educação MEC, a partir do

Decreto

no

5.626, de

22

de dezembro

de 2005.

Os

candidatos do exame são

71

pessoas surdas ou ouvintes que já terminaram o ensino médio. Caso o participante seja aprovado, o certificado recebido atesta a proficiência, ou seja, a competência no ensino da Libras ou na tradução e interpretação da língua de sinais.

O Prolibras possui duas etapas: a primeira, uma prova objetiva e eliminatória igual a todos os participantes; e a segunda, uma prova prática e eliminatória, específica para cada modalidade, seja para o ensino da língua de sinais ou tradução e interpretação.

O ILS tem uma técnica específica para traduções de uma língua à outra e deve fazer isso de forma neutra, sem retirar ou acrescentar informações durante o processo de tradução, deve ter discrição profissional.

Na escola,

a

atuação do

ILS não

prevê que

ele

opine no processo de

aprendizagem do surdo, visto que seu papel apenas é traduzir.

Já o professor de Libras deve ser licenciado em educação, conhecer a Libras e a cultura surda, mas diferente do ILS, pode e deve interferir no processo de aprendizagem do surdo para que o aluno tenha garantido o seu direito de receber uma educação de qualidade.

O instrutor é um profissional surdo, nativo da língua brasileira de sinais, que precisa ter domínio da Libras e da língua portuguesa, ser formado em cursos de capacitação e tem como função primordial o ensinar a Língua Brasileira de Sinais e a cultura surda. Lacerda & Lodi (2009) ilustram bem o papel do instrutor de Libras quando relata uma pesquisa sobre o desenvolvimento da linguagem de crianças surdas.

Em todos os encontros eram realizadas, pela instrutora surda, atividades de contar histórias, considerando que essas práticas propiciam a imersão das crianças em atividades discursivo- enunciativas por meio das quais as situações vivenciadas nos livros podem ser postas em diálogo com a vivência de cada uma. Além disso, estas atividades possibilitam o contato das crianças com práticas de letramento que interferirão, de maneira significativa, em seu processo posterior de aprendizagem da linguagem escrita da língua portuguesa. (p.43)

72

Portanto, cabe a nós fazermos uma ressalva que cada profissional mencionado tem a sua real importância para a escolarização dos surdos, já que estamos passando por uma reformulação do ensino e aprendizagem em relação aos surdos, visto que ao inserir a Libras como disciplina curricular obrigatória nos cursos de formação para professores é dar a possibilidade aos surdos de gozarem dos seus direitos civis, políticos e sociais. Assim, parte da responsabilidade de integração do surdo na sociedade ficou a cargo das universidades que formam docentes para atuarem com esses alunos na educação básica.

Assim, segundo o decreto (Brasil, 2005, Art.22), as licenciaturas devem abarcar docentes das diferentes áreas do conhecimento, conscientes da singularidade linguística dos alunos surdos, bem como com a presença de tradutores e intérpretes de Libras Língua Portuguesa. Já a Educação Infantil e o Ensino Fundamental I, devem contar com professores bilíngues, ou seja, além do conhecimento acerca da singularidade linguística do surdo, que utilizem a Libras e a língua portuguesa como canais de comunicação.

Investigamos, especificamente sobre a disciplina de Libras na grade curricular dos cursos de Pedagogia. Segundo Lacerda & Santos (2013, p. 240),

A inclusão da disciplina de LIBRAS em tais cursos demonstra uma preocupação com a formação inicial de crianças surdas, que a partir desse momento têm direito à educação bilíngue, e, para tal, o domínio da língua por parte do professor torna-se indispensável. Assim propõem-se uma formação de professores mais atenta às singularidades e necessidades do aluno surdo e, dessa forma, comprova-se a importância da língua de sinais para a educação de indivíduos surdos

Ao incluir a disciplina na formação dos alunos de Pedagogia, mais atenta às singularidades e necessidades do aluno surdo, que adiante serão professores, pedagogos, diretores, coordenadores o contato e a experiência com a Língua Brasileira de Sinais é uma nova forma de garantir a participação dos surdos em todos os âmbitos sociais ao mesmo tempo em que a Universidade é um espaço onde é permitida a construção de novos saberes e conhecimentos permitindo que pré-conceitos, tabus, mitos, paradigmas já cristalizados e o senso comum sejam descontruídos e modificados.

73

Embora a disciplina de Libras seja tão importante, infelizmente, muitas universidades a oferecem com uma carga horária pequena fazendo com que a experiência e a aprendizagem da Libras pelos futuros pedagogos seja cada vez mais pobre.

Segundo Bondía (2002, p.23),

a experiência é cada vez mais rara, por falta de tempo. Tudo o que se passa, passa demasiadamente depressa, cada vez mais depressa. E com isso se reduz o estímulo fugaz e instantâneo, imediatamente substituído por outro estímulo ou por outra excitação igualmente fugaz e efêmera. O acontecimento nos é dado na forma de choque, do estímulo, da sensação pura, na forma da vivência instantânea, pontual e fragmentada. A velocidade com que nos são dados os acontecimentos e a obsessão pela novidade, pelo novo, que caracteriza o mundo moderno, impedem a conexão significativa entre acontecimentos. Impedem também a memória, já que cada acontecimento é imediatamente substituído por outro que igualmente nos excita por um momento, mas sem deixar qualquer vestígio.

[

...

]

A falta de tempo é um dos grandes desafios da sociedade contemporânea devido à rotatividade de acontecimentos. Essa rotatividade acontece em um ritmo bastante acelerado, sendo necessário que o homem se enquadre e se adapte a tudo o que acontece. Muitas vezes pelo pouco tempo, e muitos objetivos estipulados pelo homem que acabam por não serem cumpridos, dão a impressão de que o tempo é pouco.

Se pensarmos no fluxo acelerado de informações que o homem absorve ao longo do dia, principalmente através dos meios de comunicação que circulam pelo mundo e que são acessíveis a todos, entendemos a necessidade que o homem possui de estar “antenado” a tudo o que acontece no momento exato da ocorrência.

Essa

nova

forma

de

vida

impede

o

sujeito

de

passar pela gama de

experiências que o conhecimento traz; isso é informação. A informação é superficial, já a experiência que permite o conhecimento dá a possibilidade de introjeção.

Se a experiência nos dá a possibilidade de uma conexão significativa é necessário que a disciplina de Libras permita ao futuro professor iniciar e desenvolver as práticas que favoreçam a educação bilíngue, como visto no capítulo anterior.

74

O atendimento bilíngue diferenciado deve-se à aprendizagem, por parte do aluno de pedagogia, de uma língua que possibilite a comunicação entre aluno e professor, a Libras e também o contato e o entendimento da cultura surda. De acordo com Lacerda & Santos (2013, p. 240):

a formação de professores que irão atuar na educação básica deve contemplar aspectos relacionados a língua de sinais e à surdez, possibilitando assim a comunicação mínima com alunos surdos, bem como considerar a singularidade linguística e perceptual desses alunos.

Possibilitar a comunicação mínima com alunos surdos é pensar em um currículo que leve em conta a formação do aluno de Pedagogia com base em experiência em que utilizem a Língua de Sinais, bem como também possibilite o contato com a cultura surda. Deste modo, pensando na especificidade de aprendizagem do aluno surdo, a disciplina de Libras irá preencher as necessidades existentes e de fato proporcionar uma educação bilíngue de qualidade.

Para aprofundar a questão da formação no curso de Pedagogia adentremos na pesquisa de campo que teve como objetivo investigar a formação do pedagogo no curso de graduação em Pedagogia, no sentido de perceber que tipo de contribuições a disciplina de Libras propõe na compreensão e entendimento acerca da cultura surda e seus reflexos na construção de representações do aluno surdo na educação básica.

3.2 APRENDIZAGEM DA LIBRAS POR ALUNOS OUVINTES DA PEDAGOGIA

A princípio, cabe frisar que a aprendizagem da Libras por pessoas ouvintes não é um processo fácil, justamente pela língua de sinais ser uma língua

consideravelmente “nova”, devido ao fato de ser reconhecida como língua apenas no ano de 2002. Lacerda & Santos (2013, p. 241) afirmam isso “Boa parte dos

alunos, no início do aprendizado da Libras, refere grande dificuldade de compreensão quanto aos movimentos, à memorização dos sinais e a ausência de

material disponível”.

Antes do reconhecimento da Língua de Sinais enquanto língua, a mesma era entendida como mímica, gestos que somente eram entendidos por pessoas

75

surdas. Lacerda & Santos (2013, p. 241) dizem que, pelo fato da Libras ser uma língua visual e gestual,

Pode gerar a falsa ideia de facilidade de aprendizado, sendo comparada a mímica, ou ainda ser alvo de preconceitos, pelo desconhecimento a seu respeito. O não conhecimento acerca dessa língua também pode levar à crença de que seria possível adquirir fluência em um curto espaço de tempo.

Assim como em qualquer língua, também demoramos a atingir fluência em qualquer outra língua, como: italiano, inglês, espanhol, francês, alemão etc. Para ganharmos fluência em Libras é preciso vontade, treino, dedicação, estudo e contato com os surdos fluentes nessa língua.

Podemos comparar esse contato com surdos fluentes em Libras com o intercâmbio feito por estudantes que pretendem ganhar fluência em determinada língua e viajam para um país usuário da língua pretendida. Participar da comunidade surda e ter contato com surdos usuários da Língua de Sinais permite um contato mais aprofundado com a língua visuo-gestual além do entendimento da cultura desse grupo.

O objetivo da disciplina de Libras nos cursos de Pedagogia é que o aluno entre em contato com a língua Libras e também com a cultura surda. Desta forma, de acordo com Lacerda e Santos (2013), o objetivo principal da disciplina, inclusive da lei, é que o professor tenha uma atuação significativa no processo de ensino e aprendizagem do surdo devendo propiciar ao aluno conhecimento da Libras, refletir sobre abordagens pedagógicas para trabalho com surdos, conscientização da diferença linguística e cultural desses sujeitos.

Portanto, a forma como o professor percebe o outro, surdo, pode incidir de forma positiva ou negativa no processo de escolarização desses sujeitos. Por este motivo, relataremos a seguir sobre as representações que os alunos de pedagogia que irão atuar com alunos surdos têm sobre os alunos com surdez.

Como vimos, o decreto 5.626 de 2005 que regulamenta a lei 10.436 de 2002 obriga as universidade a incluir a disciplina de Libras como disciplina obrigatória no currículo dos cursos de formação para professores e no curso de fonoaudiologia.

76

A introdução à língua de sinais nas licenciaturas deveria dissociar a surdez da visão patológica, o que com certeza refletirá de modo significativo no processo de escolarização da pessoa surda.

No curso de Pedagogia, o ensino da Libras tem como objetivo formar e preparar o profissional da educação para, futuramente, quando atuar em uma sala de aula que tenha um aluno surdo, poder utilizar a comunicação em sinais e entenda sobre a cultura surda, a singularidade desse alunos e suas necessidades específicas promovendo entendimento entre ambos.

3.3 PESQUISA PEDAGOGIA

DE

CAMPO:

LIBRAS NO CURRÍCULO DE CURSOS DE

O objetivo dessa pesquisa foi de investigar a formação do pedagogo no curso de graduação em Pedagogia no que se refere às contribuições da disciplina de Libras na compreensão e entendimento acerca da cultura surda e seus reflexos na construção de representações do aluno surdo e como essas representações poderão influenciar sua prática no ensino básico.

A essência desta pesquisa é entender se há obstáculos institucionais que impedem que o futuro educador pense a educação dos surdos não restringindo-se apenas ao treino da fala oralizada e a uma visão engessada, clínica e reducionista do sujeito surdo e sua capacidade de aprendizagem. O surdo deve ser visto como um sujeito capaz, pertencente a uma minoria linguística, que possui uma cultura e uma identidade próprias e que tem a necessidade de um professor bem formado e que respeite a sua diferença linguística e cultural.

Assumir e valorizar a surdez como diferença ainda é muito difícil para muitos professores ouvintes que estão acostumados a associar a surdez com uma patologia ao invés de uma expressão identitária incorporada de aspectos culturais únicos. A deficiência normalmente é atrelada à perda ao déficit, à incompletude, a aspectos puramente fisiológicos.

Este estudo se faz relevante, pois, por meio das investigações, poderemos compreender de que forma o professor está sendo formado para a inclusão de

77

alunos surdos e qual a importância dessa formação para a percepção ampliada da própria concepção de educação na sociedade contemporânea, ao mesmo tempo que permite as instituições de ensino superior criar ações para que a formação do futuro docente seja conduzida de maneira a promover o acesso a educação pelos surdos. Iniciamos com uma análise dos planos de ensino referentes à disciplina de Libras, das universidades: Presbiteriana Mackenzie e Nove de Julho UNINOVE

A Universidade Nove de Julho, mais conhecida como UNINOVE, foi fundada em 1972, é uma instituição particular de ensino superior que possuí campus espalhados em São Paulo localizados na Barra Funda, Vila Maria, Santo Amaro, Vergueiro, Vila Prudente e no interior nas cidades de Bauru, Botucatu, São Roque, São Manuel. A instituição, atualmente, possui mais de 150 mil alunos. A pesquisa foi feita no campi da Vergueiro que também atende alunos no curso de Pedagogia.

A Universidade Presbiteriana Mackenzie, mas conhecida como Mackenzie, foi fundada em 1952, é uma instituição particular de ensino superior que possui campus no Bairro de Higienópolis, Alphaville e Campinas. A instituição, atualmente, possui mais de 40 mil alunos. A pesquisa foi feita no campi de Higienópolis que atende alunos no curso de Pedagogia.

A tabela abaixo pontua reflexões sobre a forma como é oferecida a disciplina nas duas universidades.

Tabela 1 Caracterização das disciplinas

 

Análise dos Planos de Ensino da disciplina de Libras

Universidade

 

UNINOVE

MACKENZIE

Nome dado à

Fundamentos e

Fundamentos e

Libras aplicada à educação

disciplina

Práticas em Libras I

Práticas em

Libras II

Posição na grade do curso

2º Semestre

3º Semestre

6º Semestre

Carga horária

80h

80h

60h

semestral

Fonte: Elaborado pela autora

Podemos observar que as disciplinas são presenciais e possuem nomes, posições na grade curricular e carga horária diferenciados. A UNINOVE possui dois semestres de Libras com carga horário de 160h, bem superior à carga horária

78

oferecida pelo Mackenzie, que possui apenas um semestre de Libras com carga horário de 60h.

Não aprofundaremos essa questão nesta pesquisa, mas cabe enfatizar aqui que a UNINOVE está em momento de transição referente à oferta da disciplina de Fundamentos e Práticas em Libras I e II que no próximo semestre será oferecida à distância em apenas um semestre com carga horária reduzida.

A disciplina de Libras é obrigatória, segundo o decreto 5.626/2005 nos cursos de formação para professores, entretanto Segundo Lacerda & Santos (2013) não é explícito neste documento a forma como essa disciplina deve ser oferecida, ou seja, a carga horária, os conteúdos que deveriam ser abordados etc. Por este motivo, as disciplinas podem ser oferecidas em carga horárias diferenciadas.

Neste momento, já que a ementa é uma descrição discursiva que resume o conteúdo conceitual, procedimental e atitudinais de uma disciplina analisaremos a ementa das disciplinas.

Tabela 2 Ementas

 

Análise dos Planos de Ensino da disciplina de Libras

Universidade

 

UNINOVE

MACKENZIE

Ementa

A organização e o fortalecimento de

Capacitação do futuro professor da

subsídios

teóricos

e

práticos

aos

Educação Básica, por meio do idioma

formadores

e

multiplicadores

da

Libras (Língua Brasileira de Sinais),

Libras, propiciando instrumentos para

para a comunicação básica com alunos surdos ou com deficiência auditiva.

que possam

de forma

segura

trabalhar com abordagens pedagógicas sobre a surdez.

Estudo de alguns aspectos inerentes à Surdez e fomento de reflexões, numa perspectiva de educação inclusiva, sobre a condição bilíngue e sobre as exigências e desafios educacionais atuais desta área em específico.

Fonte: Elaborado pela autora

A UNINOVE possui uma ementa única para as duas disciplinas, Fundamentos e Práticas em Libras I e II, e prevê que os pedagogos em formação tenham subsídios teóricos e práticos para que possam trabalhar com abordagens pedagógicas sobre a surdez. Já o Mackenzie prevê que o futuro professor da educação básica utilize a língua de sinais como meio de comunicação básica para o

79

trabalho com surdos e deficientes auditivos numa perspectiva bilíngue para a educação inclusiva visando o modelo contemporâneo de educação dos surdos.

Segundo Lacerda & Santos (2013, p.243), as aulas de Libras devem “trazer os alunos para o universo da Libras, envolvendo-os em tudo que dela faz parte:

aspectos visuais, manuais, gramaticais, culturais e tudo que diz respeito a essa

língua”.

Pensando nos aspectos culturais, nenhuma das ementas cita a cultura surda, mas somente a aprendizagem da língua de sinais e aspectos relacionados à surdez como deficiência sensorial e abordagens pedagógicas para a educação bilíngue inclusiva.

Analisaremos a seguir os objetivos gerais e específicos, ou seja, quais os conhecimentos que se pretende alcançar com essa disciplina.

Tabela 3 - Objetivos

 

Análise dos Planos de Ensino da disciplina de Libras

 

Universidade

 

UNINOVE

MACKENZIE

Objetivos

Gerais:

Gerais:

O aluno(a) deverá ser

Conceitos:

Propiciar o conhecimento dos principais aspectos relacionados à surdez, tais

Específicos

Reconhecer a diversidade entre as pessoas e conceber a necessidade de profissionais

capaz de:

como bases históricas, legais, comunicativas e a importância da Libras.

que tratem questões referentes à Língua Brasileira de Sinais. Capacitar a habilidade de reflexão sobre a questão das múltiplas linguagens, assim como a gramática da Língua de Sinais.

- Classificar a Libras como uma língua completa, com alto grau de complexidade como qualquer outra língua oral;

1.

Colaborar para que

Específicos

  • - Reconhecer a Libras e a

os discentes compreenda o sujeito surdo, sua cultura e a

  • 1. Preparar os alunos com

Língua Portuguesa como

duas línguas independentes

Libras no sentido de criar ações que promovam a

conhecimentos teóricos e práticos sobre a Educação de

e de modalidades diferentes, a primeira visuo-

inclusão desses sujeitos nos

Surdos e a Libras .

espacial e a segunda oral-

diferentes contextos

  • 2. Capacitar os alunos

auditiva;

educacionais;

para o ensino da Libras como

2.

Oferecer subsídios

segunda língua formando

  • - Conhecer as abordagens

teóricos, práticos, metodológicos e propor

profissionais bilíngues no âmbito educacional.

de ensino de língua presentes na história da

novas propostas

  • 3. Apresentar aos alunos

educação de Surdos e

pedagógicas;

a comunidade surda por meio

refletir sobre as

3.

Desenvolver o

das atividades extra classe.

reivindicações por um

pensamento critico acerca

  • 4. Conhecer e refletir

ensino bilíngue, bem como

dos processos de inclusão

sobre as adaptações

sobre as conquistas da

80

 

do surdo a luz de uma pedagogia transformadora;

curriculares, tecnologias assistivas e a historia da educação de surdos.

Comunidade Surda; - Conhecer a legislação vigente sobre surdez;

Formular ações didáticas acerca do trabalho docente e

Aprofundar sobre a filosofia

Procedimentos e

sua aplicabilidade orientados

educacional do Bilinguismo

Habilidades:

pelas diretrizes que regem a educação inclusiva;

  • - Analisar como o Surdo

pode inserir-se na Cultura Ouvinte e participar da sociedade majoritária com independência, autonomia, podendo tornar-se protagonista de sua história;

  • - Relacionar os conceitos

de Identidade e Cultura Surda e seu papel na construção da subjetividade da pessoa Surda; - Analisar como o professor pode interagir com alunos Surdos em salas inclusivas ou bilíngues;

  • - Utilizar a Libras em

situações práticas e conversacionais respeitando alguns de seus elementos intrínsecos; - Compreender ideias transmitidas em Libras e traduzi-las para a Língua Portuguesa escrita;

  • - Utilizar elementos

inerentes a Libras como alfabeto datilológico, expressão facial, orientação espacial, direcionalidade, sinais, organizando as informações e ideias de maneira visual;

Atitudes e Valores:

  • - Valorizar o papel da Libras para a constituição da pessoa Surda, principalmente em relação a organização de pensamento, cultura, identidade como determinante para sua inclusão social e pedagógica;

81

     
  • - Interessar-se pelas

políticas públicas atuais, num contexto de educação inclusiva e refletir sobre:

como a pessoa Surda pode se enquadrar nestas propostas pertencendo a uma minoria linguística, com identidade e culturas próprias;

  • - Respeitar a Identidade e

Cultura Surda a partir da compreensão desses conceitos;

Fonte: Elaborado pela autora

Sustentamos a mesma ideia de Lacerda & Santos (2013), que enfatizam que os professores devem refletir sobre abordagens pedagógicas relacionadas à surdez para uma atuação significativa no processo de aprendizagem do surdo.

Sendo assim, os objetivos das disciplinas de Fundamentos e Práticas em Libras I e II oferecidas pela UNINOVE têm objetivos diferentes. Os objetivos gerais da primeira contribuem para o desenvolvimento de conhecimento dos principais aspectos relacionados à surdez como a História da educação dos surdos, as leis, a gramática da Libras e a importância dessa língua para os surdos. A segunda, além de reforçar os principais aspectos da primeira, contribui para que o futuro pedagogo reconheça a diversidade entre as pessoas concebendo a necessidade e a importância de o professor aprender a Libras, além de aprimorar a habilidade de reflexão sobre a questão das múltiplas linguagens.

A disciplina de Libras I tem como objetivos específicos a formação do futuro professor para compreender o surdo, sua cultura e sua língua com o intuito de criar possibilidades que promovam a inclusão desses sujeitos na educação básica propondo novas ações pedagógicas, desenvolvendo o senso crítico acerca dos processos de inclusão orientados pelas diretrizes que regem a educação inclusiva.

A disciplina de Libras II, além de aprofundar as questões desenvolvidas em Libras I, visa a capacitar o aluno de Pedagogia para o ensino da Libras como professor bilíngue, apresentando a discente à comunidade surda por meio de atividades extra classe, refletir sobre adaptações curriculares que contemple a

82

aprendizagem do aluno surdo na educação básica e sobre as tecnologias assistivas aprofundando a filosofia educacional do bilinguismo.

Podemos observar que o Mackenzie divide os objetivos em conceitos, procedimentos e habilidades e atitudes e valores, o que parece se articular com os ensinamentos de Coll (1986), que define os conteúdos curriculares em conceituais, procedimentais ou atitudinais. Podemos definir tais conteúdos como os conceitos aprendidos, habilidade que se deve saber e atitudes aprendidas.

Em relação aos conceitos, preveem que o aluno de Pedagogia deverá ser capaz de classificar a Libras como língua completa, como qualquer outra língua, independente da língua portuguesa e com modalidade diferente: a Libras na modalidade visuo-espacial e a língua portuguesa na modalidade oral-auditiva. Conhecer as abordagens de ensino de língua presentes na história da educação dos surdos e sobre as conquistas da comunidade surda com base na legislação vigente.

Os procedimentos e habilidades” têm como objetivo fazer com que o aluno tenha capacidade de analisar de que forma o surdo pode inserir-se na cultura ouvinte com autonomia, relacionar conceitos de Identidade e Cultura Surda e como esses dois conceitos podem influenciar a construção da subjetividade da pessoa surda, além de refletir sobre como o professor pode interagir em salas de educação inclusiva e bilíngues utilizando elementos inerentes a Libras tais como o alfabeto datilológico, expressão facial, orientação espacial, direcionalidade, sinais, organizando-os de maneira visual para a comunicação.

Com relação a atitudes e valores, pretendem valorizar o papel da Libras na constituição da pessoa surda, principalmente em relação à forma como o surdo constrói seu pensamento, cultura, identidade voltado à inclusão social e pedagógica. Desenvolver o respeito pela identidade e cultura surda e refletir sobre como o surdo pode enquadrar-se nas políticas públicas atuais pertencendo a uma minoria linguística com identidade e cultura próprias.

Podemos observar que os objetivos apresentados nos dois planos de ensino das duas universidades possuem elementos que se cruzam e conduzem para o mesmo objetivo tanto geral como específico, principalmente em relação ao ensino

83

da Língua Brasileira de Sinais e os aspectos relacionados à cultura e à identidade surda.

Para que esses objetivos apresentados sejam alcançados, exige-se também por parte do aluno comprometimento e disposição para aprender. Desta forma, segundo Lacerda & Santos (2013, p. 242),

Acreditamos que o mais importante para tal aprendizado, entretanto, seja a disponibilidade do aluno, assim como a dedicação e aceitação da diferença; afinal, estamos falando de uma língua com pouquíssimo status e de domínio restrito a uma parcela ínfima da sociedade.

Essa língua de domínio restrito a uma parcela ínfima da sociedade, além de aprender aspectos gramaticais, exige dos professores reflexão sobre a língua, seus usuários, sua cultura.

Analisaremos agora a metodologia da disciplina, os caminhos que deverão ser seguidos para se alcançar os objetivos almejados.

Tabela 4 - Metodologia

 

Análise dos Planos de Ensino da disciplina de Libras

 

Universidade

UNINOVE

 

MACKENZIE

 

Metodologia

As aulas são divididas em partes

As

aulas

se

dividirão

entre

práticas

e

práticas e teóricas

teóricas,

porém

com

ênfase

na

parte

prática.

 

Aulas expositivas dialogadas; Aulas práticas, com ênfase em conversação, de forma contextualizada; Trabalhos em grupos socializados para a sala em Libras; Estudo dirigido; Análises de vídeos em Libras com ênfase compreensão;

Fonte: Elaborado pela autora

Na UNINOVE, assim também como no Mackenzie, as metodologias são iguais, isto é, dividem-se em práticas e teóricas; no Mackenzie, porém, há uma ênfase na parte prática, as aulas são definidas como: expositivas, dialogadas; com ênfase em conversação de forma contextualizada, trabalhos em grupo, estudos dirigidos, análise de vídeos com ênfase em compreensão da língua.

84

Segundo Lacerda & Santos (2013, p. 243), a prática é importante, pois: “o

aluno se apropria da língua exposta pelo professor e, a partir de seu uso, e no decorrer da disciplina, percebe que aprendeu boa parte dos fundamentos de forma

natural, lúdica, em meio ao diálogo proposto pelo professor”.

A aprendizagem da Libras

pode

se

dar

de

forma

lúdica

por

meio de

conversação e atividades que se utilizam o movimento das mãos e expressão fácil e

do corpo ao mesmo tempo que a introdução de materiais concretos, imagens e teatralização para que sejam criados espaços que contextualizem a língua de sinais.

Conforme Campos-Garcia (p. 58):

É obvio que todo planejamento educacional terá como item também seus métodos, nesse ponto não queremos parecer contraditórios, em concordar que será importante e indispensável propô-los, porém, antes do método escolhido ser aplicado, deverá existir a reflexão substanciosa do que de fato é recomendável e significativo para o surdo.

Para isso, analisaremos agora a bibliografia básica das disciplinas, com o critério de observar quais teorias subsidiarão a formação do aluno de Pedagogia:

Tabela 5 Bibliografia Básica

 

Análise dos Planos de Ensino da disciplina de Libras

Universidade

UNINOVE

MACKENZIE

Bibliografia

HONORA, Marcia et al. Livro Ilustrado de

GESSER, A. Libras: Que língua é essa?

Parábola Editorial, 2009.

Básica

Língua Brasileira de Sinais: Desvendando a

Crenças e preconceitos em torno da Língua

comunicação usada pelas pessoas com surdez. São Paulo, Ciranda Cultural, 2009

de Sinais e da realidade surda. São Paulo:

LACERDA, Cristina B.F., SANTOS, Lara F. Tenho um aluno surdo, e agora? Introdução à LIBRAS e educação de surdos. São Carlos, EdufScar, 2013.

HONORA, Márcia; FRIZANCO, Mary Lopes Esteves. Livro ilustrado de língua brasileira de sinais: desvendando a comunicação usada pelas pessoas com surdez. São Paulo: Ciranda Cultural, 2010.

SACKS, O. Vendo vozes : uma viagem ao mundo dos surdos. Tradução Laura Teixeira Motta. São Paulo : Companhia das Letras, 2010.

Fonte: Elaborado pela autora

A UNINOVE e o Mackenzie apresentam um livro de bibliografia básica em comum: O Livro Ilustrado de Língua Brasileira de Sinais, das autoras Márcia Honora

85

e Mary Lopes Esteves Frizanco (2009) que apresenta conteúdos práticos, ou seja, permite para que o aluno de pedagogia consulte para execução dos sinais em Libras, subsidiando as aulas práticas.

A UNINOVE apresenta dois livros como bibliografia básica, Tenho um aluno surdo, e agora?, que subsidia as abordagens teóricas e outro, Livro ilustrado de língua brasileira de sinais, que permite a utilização nas aulas práticas.

O Mackenzie apresenta três livros como bibliografia básica, Vendo vozes e Libras? Que língua e essa? que subsidiam as abordagens teóricas e outro, Livro ilustrado de língua brasileira de sinais, que permite a utilização nas aulas práticas.

A escolha da bibliografia pelas universidades também influencia de forma direta a formação do professor para a atuação com o aluno surdo na educação básica.

Portanto, ao analisar a tabela, podemos perceber que o intuito das abordagens é fazer com que os graduandos em Pedagogia não entendam o surdo somente pelo enfoque ouvintista, mas pela perspectiva sociológica, conhecimento cultural, linguístico e pedagógico para a atuação com alunos surdos.

3.4 PESQUISA DE CAMPO: OS ALUNOS DO CURSO DE PEDAGOGIA

Vimos anteriormente que é por meio do convívio social que a criança constrói sua visão de mundo, ou seja, por meio da relação com o outro que adquirimos cultura, aprendemos e entendemos o que acontece ao nosso redor. A relação professor-aluno, como qualquer relação existente entre as pessoas não é unidirecional e, além disso, é dinâmica, pois o ser humano não é estático, sofre mudanças em seu comportamento de acordo com o momento histórico que está.

86

Esse processo dinâmico possibilita que cada sujeito dessa relação construa sua própria representação do outro, ou seja, simbolize o outro conforme o seu entendimento. A palavra representar, vem do latim repraesentare, que segundo o dicionário etimológico, quer dizer “colocar à frente”, no sentido de colocar à baila a ideia que concebemos de algo ou de alguém. Seguindo essa lógica, o professor pode representar o outro-aluno sob a sua ótica e ao mesmo tempo pode tomar atitudes em relação ao aluno que variam, correndo o risco de encaixá-los em padrões/modelos representados por sua própria visão de mundo. Portanto, para compreender o outro, se faz necessário que haja aceitação do outro, ou seja, é necessário que haja um espaço no qual certos paradigmas sejam quebrados e que os sujeitos sejam entendidos e representados sem certos estereótipos, pois a forma como o professor significa seus alunos poderá influenciar significativamente em seus processos de desenvolvimento. Quando pensamos no aluno surdo que possui uma cultura, uma língua e uma forma de entender o mundo diferenciada dependendo de sua formação inicial já que a Libras é uma disciplina curricular obrigatória nos cursos de formação para professores, o docente poderá significa-lo de uma forma mais diferente ainda, dependendo da visão que ele possa construir, ou é influenciado por meio da disciplina a construir. Por este motivo, partimos da ideia de que, os professores começam a construir as representações de seus alunos desde a sua formação inicial. E para investigar tais representações construídas pelos futuros docentes sobre os seus alunos surdos, foi decidido pesquisar e comparar as percepções dos alunos de duas universidades que tivessem em sua grade curricular a disciplina de Libras. Foram escolhidas as Universidades Nove de Julho e a Presbiteriana Mackenzie. Sendo assim, para a realização dessa pesquisa, foi conveniente a elaboração de questionário (em anexo) com base na escala Likert, que é uma forma de obter respostas em pesquisa de opinião. Ao se responder um tipo de questionário como esse, os participantes dão o seu nível de concordância com uma afirmação. O questionário elaborado contém a caracterização dos participantes da pesquisa; vinte e duas afirmações sobre a disciplina de Libras, o Surdo, sujeito estudado no curso de pedagogia e a cultura surda, apresentando uma escala que

87

vai de 1 (um) a 6 (seis), sendo: 1. Discordo totalmente, 2. Discordo parcialmente, 3. Nem discordo, nem concordo, 4. Concordo parcialmente, 5. Concordo plenamente e 6. Tenho dúvida em responder. Além das 22 questões, o questionário trazia três questões para serem respondidas sob a percepção do aluno, uma sobre os conhecimentos adquiridos e mudados durante a disciplina, outra sobre o que o aluno considera mais importante na disciplina de Libras e outra que pede a sugestão do participante para melhorar as aulas de Libras.

3.4.1 ALUNOS PESQUISADOS DA UNINOVE

Foram aplicados 32 questionários. Os participantes em sua maioria são mulheres, idades entre 20 e 35 anos. Cursam o terceiro semestre de Pedagogia, estão fazendo a primeira graduação e pretendem atuar em sua maioria como:

professores de Educação Infantil, Fundamental I ou ocupar o cargo de gestor.

3.4.2 ALUNOS PESQUISADOS DA MACKENZIE

Foram aplicados 18 questionários. As participantes são todas mulheres, idades entre 20 e 35 anos, cursam o sexto semestre de Pedagogia, todas as demais estão no primeiro curso universitário apenas três alunas estão fazendo a segunda graduação. A grande maioria pretende atuar no Ensino Infantil e Fundamental I, duas pretendem assumir a gestão e duas um trabalho fora da escola e apenas uma deseja trabalhar com educação especial. Nesta turma há, uma aluna surda e sua interprete está presente. Infelizmente não foi possível entrevista-la, embora tenha conversado com ela pessoalmente. Vejamos no capítulo quatro a análise das respostas aos questionários e suas relações com os planos de ensino e as teorias apresentadas.

88

CAPÍTULO 4

A REPRESENTAÇÃO SOBRE ALUNOS COM SURDEZ

A fim de obter uma melhor compreensão da forma como os alunos do curso de Pedagogia constroem as representações sobre os alunos com surdez, neste capítulo faremos uma análise desconstruindo a organização linear do questionário em perguntas isoladas, comparando as afirmações em concordância e discordância das Universidades Nove de Julho e Mackenzie. Antes, é preciso salientar que os gráficos da pesquisa, embora sejam dados quantitativos, foram lidos e analisados como tendências e não devem ser tomados como valores por si mesmos. Salientamos também que as construções dos gráficos exigiram análise profunda devido à complexidade dos questionários, pois as respostas “esperadas” tanto poderiam ser marcadas como “discordo totalmente" ou "concordo plenamente". Assim, os gráficos foram criados condensando as cinco alternativas em: respostas esperadas (de acordo com a fundamentação bibliográfica empregada), diversificadas (a partir de outras fundamentações e do senso comum) e neutras (os que não responderam e repostas que apontam dúvidas). Para uma melhor análise, dividimos as questões do questionário em seis categorias: A surdez, O surdo, A Libras, O professor, Os recursos, A família e A disciplina de Libras.

4.1 SOBRE A SURDEZ A análise abarca as afirmações:

1 - “A surdez é um déficit de audição”

3 - “A surdez é uma diferença a ser politicamente reconhecida”. Vejamos o gráfico a seguir:

89

89 Segundo o dicionário Houaiss, “ déficit ” quer dizer o que falta de um total
89 Segundo o dicionário Houaiss, “ déficit ” quer dizer o que falta de um total

Segundo o dicionário Houaiss, déficitquer dizer o que falta de um total previsto ou deficiência que se pode medir. Segundo Gesser (2009), os surdos e ouvintes que valorizam a língua de sinais e respeitam a cultura surda têm uma visão positiva em relação à surdez, por este motivo não a concebem como déficit. Essa visão positiva se dá por conceber a surdez como uma condição de vida e não como um problema, visto que o problema é construção dos ouvintes que possuem uma visão clínica em relação à surdez e neste caso, considerando a visão positiva, entendida como um déficit. Considerando a visão positiva, a surdez não pode ser considerada como um déficitde audição e é uma diferença a ser politicamente reconhecida. Ao observarmos o gráfico, vimos que a grande maioria deu as respostas esperadas, discordando da primeira afirmação e concordando com a segunda afirmação. Em relação à primeira afirmação, é visível que há um número significativo de pesquisados que apontam a surdez como um déficit, concordando totalmente ou parcialmente com a afirmação. E na terceira, uma pequena parcela que acredita que a surdez não deve ser politicamente reconhecida.

90

Essas escolhas nos remetem à ideia de que mesmo que as universidades insiram bibliografias e conteúdos curriculares, como o livro Libras? Que língua é essa? da autora Audrei Gesser (2009), que trabalha o conceito de surdez como diferença a ser politicamente reconhecida e não como déficit, torna-se necessário que as universidades busquem meios para reforçar que a surdez não é um empecilho e sim uma condição de vida que deve ser respeitada e valorizada.

4.2 SOBRE O SURDO

Nesta análise utilizaremos as afirmações que cercam a percepção sobre o

surdo:

2 - “Ser surdo é estar num contexto silencioso”

8 - “O surdo possui uma cultura e uma identidade próprias e que

devem ser respeitadas na escola” 13 - “O surdo precisa fazer tratamentos com a fonoaudióloga para ser

inserido na sociedade” 18 - “Os surdos apresentam dificuldades na língua escrita porque não

ouvem a língua oral” 19 - “O surdo tem comprometimento intelectual devido à falta de

comunicação” 22 - “Os surdos são deficientes auditivos e não possuem cultura”.

Vejamos, representadas por um gráfico, a opinião dos alunos:

90 Essas escolhas nos remetem à ideia de que mesmo que as universidades insiram bibliografias e

Ser surdo não é estar num contexto silencioso. Para entendermos melhor esse aspecto, buscaremos o significado de som que segundo o dicionário Houaiss,

91

quer dizer vibração que se propaga pelo ar e pode ser percebida pelo aparelho auditivo ou sensação auditiva provocada por essa vibração. Se analisarmos som, ruído e barulho em uma perspectiva fisiológica, os surdos concebem a música, distinguem gêneros musicais e ritmos por meio das vibrações do ambiente e do corpo. Mas de acordo com Gesser (2009), na cultura surda, o barulho e o silêncio adquirem novas versões que se dão pelo aparato visual, ou seja, uma espécie de ruído e silêncio visual, captados e percebido pelos olhos ao invés dos ouvidos. Por exemplo, quando em um dado lugar existe um grande número de surdos que conversam em sinais ao mesmo tempo, o movimento das mãos e as expressões corporais e faciais geram um barulho captado pela visão, podemos denominar de barulho visual. Outro aspecto importante é que há uma crença de que a língua só existe se tiver como base o aparato vocal e o som como instrumentos para a comunicação.

Para mostrar o contrário, Ribas (2011, p. 61) nos diz que “se nos dispusermos a conhecer melhor a língua de sinais, veremos o quanto ela é rica, viva, dinâmica e cultural e por isso mesmo não se trata de uma ‘língua silenciosa’, como dizem alguns”.

Por não se tratar de uma língua silenciosa, não podemos dizer que os surdos vivem no silêncio, pois a concepção de silêncio e barulho em uma perspectiva cultural é diferente das construídas pelos ouvintes. Ao analisarmos o gráfico, vemos que a maioria dos estudantes de Pedagogia, discorda da ideia de que ser surdo é estar em um contexto silencioso e estão em acordo com o que foi esperado nesta pesquisa. Não podemos deixar de mencionar que uma parte considerável dos alunos pesquisados respondeu a pesquisa em uma perspectiva contrária revelando que ainda não migraram do senso comum para um conhecimento científico e aprofundado que deveriam ter tido com a disciplina.

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92 Com base no gráfico a maioria dos alunos concordam com a afirmação 8, dando a

Com base no gráfico a maioria dos alunos concordam com a afirmação 8, dando a resposta esperada de que os surdos possuem uma cultura e uma identidade próprias e que devem ser respeitadas na escola. As instituições de ensino são marcadas por normatizar, moldar e valorizar a homogeneidade de culturas, ritmos, processos e linguagens. E por caminhar desta forma, acabam valorizando apenas um tipo de cultura. Pensando no surdo, como minoria linguística, a cultura valorizada é a ouvinte. É muito natural que as escola, como ambientes que permeiam as múltiplas culturas, sofram frequentes desafios a serem enfrentados devido à falta de preparo dos profissionais da educação em respeitar e entender as diferentes cultura existentes em um mesmo contexto. Por este motivo, como é representado pela minoria de pesquisados, identidade e cultura surda acabam por não serem respeitadas. Essa minoria vai contra ao que é abordado nos planos de ensino das duas universidades, que é o respeito à identidade e a cultura surda a partir da compreensão desses conceitos.

92 Com base no gráfico a maioria dos alunos concordam com a afirmação 8, dando a

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A afirmação 22 diz que “Os surdos são deficientes auditivos e não possuem cultura”. A maioria dos alunos pesquisados discorda totalmente dessa afirmação,

dando à pesquisa a resposta esperada e apenas 3% deram respostas contrárias. Esses dados mostram que os estudantes de Pedagogia acreditam que os surdos possuem uma forma diferente de ser e estar no mundo. Isso possibilita uma forma diferente de ver e entender o surdo como sujeito que compõe a sociedade brasileira, mas com traços e características diferentes, sendo atingido os objetivos que estão descritos nos dois planos de ensino que os conteúdos atitudinais servirão para que o futuro docente aprenda a respeitar e identidade e cultura surda e valorizar a cultura

visual.

É interessante notar que as respostas das afirmações 8 e 22 evidenciam que a questão da cultura surda foi compreendida pela grande maioria ou a totalidade de alunos.

93 A afirmação 22 diz que “Os surdos são deficientes auditivos e não possuem cultura”. A

A grande maioria dos pesquisados discorda totalmente da afirmação, da afirmação 13, de que o surdo precisa fazer tratamentos com a fonoaudióloga para ser inserido na sociedade ouvinte, dando a resposta esperada pela pesquisa. Para entendermos melhor essa questão, deixaremos claro que os tratamentos mencionados na afirmação 13, dizem respeito às terapias da fala às quais são expostos os surdos, ou seja, os treinos da fala e leitura labial. Segundos Sacks (2010, p.35), “o oralismo e a suspensão da língua de sinais acarretaram uma deterioração marcante no aproveitamento educacional das crianças surdas e na instrução dos surdos em geral”. Sendo assim, a deterioração marcante dita por Sacks se dá por escolas e professores priorizarem a aprendizagem da fala, pelos sons fonéticos que os surdos não podem ouvir, deixando à deriva a construção de

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saberes, a cultura, habilidades complexas entre outras coisas que eles poderiam aprender em língua de sinais. A Lei 10.436/2002 reconhece a Libras como língua e não exige que o surdo seja oralizado ou faça tratamentos com fonoaudiólogas para ser inseridos na sociedade, mas pede que eles aprendam a modalidade escrita da língua portuguesa. Por este motivo, não há necessidade de tratamentos, pelo contrário há necessidade de uma estimulação precoce em Língua Brasileira de Sinais. Em relação aos 6% que deram respostas diversificadas, pode-se verificar que ainda possuem uma visão ouvintista referente ao surdo, depositando na fala oralizada a única forma de estar inserido na sociedade, embora tenha sido trabalhado na disciplina de Libras formas de inserção social que possibilite independência e autonomia ao surdo.

94 saberes, a cultura, habilidades complexas entre outras coisas que eles poderiam aprender em língua de

Em relação à afirmação 18, “Os surdos apresentam dificuldades na língua escrita porque não ouvem a língua oral”, grande parte dos alunos pesquisados, das duas universidades, deu respostas diversificadas à pesquisa e uma outra parcela significativa deu as respostas esperadas. Sabemos que a escrita, os grafemas possuem relação como os fonemas, ou seja, para que se aprenda a escrever a língua portuguesa faz-se a associação da palavra escrita com o som atribuído a esse signo escrito, atribuo um valor sonoro. Para o surdo essa relação de grafemas com fonemas é sem sentido, visto que ele não utiliza a língua oral para se comunicar. Para entendermos esse aspecto Sacks (2010), nos conta que devido a uma mutação, um gene recessivo devido a endogamia, nasciam na ilha de Martha’s Vineyard em Massachusetts muitas pessoas surdas, a cada quatro pessoas, uma era surda. Devido a essa situação, toda a ilha aprendeu a língua de sinais,

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possibilitando a livre comunicação entre surdos e ouvintes. Os surdos não eram considerados deficientes, eles amavam, casavam, ganhavam a vida, trabalhavam, pensavam, escreviam como todo mundo. A história mencionada pelo autor permite-nos refletir sobre outra possibilidade de aprendizagem da língua escrita pelo surdo, já que Gesser (2009) comenta que a escrita é uma habilidade cognitiva que demanda esforços de todos e que é desenvolvida quando se recebe instruções para isso. Há, portanto, possibilidade de, ao invés de ser atribuído um valor sonoro a escrita, ser atribuído um valor imagético. O fonema daria lugar à imagem. Podemos dizer que o surdo não tem dificuldade de escrever porque não ouve a língua oral, mas devido à falta de instrução para desenvolver essa habilidade cognitiva. Infelizmente, embora os planos de ensino das duas instituições mencionem como proposta de trabalho a abordagem filosófica do bilinguismo, apenas uma pequena porcentagem dos alunos responderam a pesquisa de forma adequada.

95 possibilitando a livre comunicação entre surdos e ouvintes. Os surdos não eram considerados deficientes, eles

Ao observarmos o gráfico da afirmação 19, “O surdo tem comprometimento intelectual devido à falta de comunicação”, vemos que a maior parte dos alunos respondeu conforme o esperado pela pesquisa e uma pequena porcentagem teve opinião contra. É importante mencionar que a afirmação aborda a relação que a falta de acesso à língua tem com o desenvolvimento intelectual. Para isso, é preciso frisar que os surdos não possuem comprometimento intelectual, a não ser que tenham de fato alguma deficiência nesse sentido. É a falta de acesso a uma língua é que compromete o desenvolvimento cognitivo linguístico do sujeito e não o intelectual. Gesser (2009, p. 76) diz que a ausência de uma língua

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tem consequências gravíssimas: torna o individuo solitário, além de comprometer o desenvolvimento de suas capacidades mentais. Através da língua nos construímos plenamente como seres humanos, comunicamo-nos com nossos semelhantes, construímos nossas identidades e subjetividades, adquirimos e partilhamos informações que nos possibilita conhecer o mundo que nos cerca.

Essas consequências acabam sendo ligadas à visão clínica por pensar que o surdo tem comprometimento intelectual; mas, pelo contrário, os surdos podem desenvolver desde que sejam estimulados, assim como qualquer outra pessoa. Ao estabelecer a relação dos resultados da pesquisa com o plano de ensino das duas instituições podemos observar que, mesmo que tenham entre os conteúdos conceituais abordagens referentes ao ensino da Libras e da Língua Portuguesa, lhes falta trabalhar diretamente o sentido da construção da escrita do aluno surdo, já que a Pedagogia forma alfabetizadores.

4.3 SOBRE A LIBRAS

Utilizaremos para análise, as afirmações:

4 - “A Libras é uma língua como qualquer outra língua, pois possui gramática e estruturas próprias” 5 - “A Libras é uma língua não tão completa como a língua oral, pois não expressa conceitos abstratos” 14 - “O reconhecimento da Língua de Sinais anula a deficiência do surdo” 20 - “A língua de sinais é uma das manifestações da cultura surda”.

Tais afirmações tentam colher dados dos participantes da pesquisa sobre as suas impressões a respeito da Língua Brasileira de Sinais enquanto manifestação da cultura surda. Vejamos, o gráfico:

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97 Vemos que a afirmação 4 possui relação com a afirmação 5, pois as duas dizem
97 Vemos que a afirmação 4 possui relação com a afirmação 5, pois as duas dizem

Vemos que a afirmação 4 possui relação com a afirmação 5, pois as duas dizem respeito à Libras ser ou não uma língua completa. Aponto nesta análise que a Libras é uma língua completa assim como qualquer outra língua, conforme mencionado no capítulo 2, por este motivo, os alunos deram a resposta esperada pela pesquisa. Vemos no gráfico que a grande maioria dos pesquisados concorda com a afirmação 4, dando a resposta esperada pela pesquisa de que a Libras é uma língua como qualquer outra língua, que possui gramática e estruturas próprias e isso significa que é uma língua autônoma à língua portuguesa, ou seja, independente. E o oposto acontece com a afirmação 5, dando a reposta esperada pela pesquisa em que a maioria dos alunos discordam que a Libras não seja tão completa, quanto a língua oral e que por meio dela não se consegue expressar conceitos abstratos. Observa-se também que uma pequena parcela, porém significativa, concorda com a afirmação 5 dando a ideia de que embora tenham refletido, conforme o plano de ensino, sobre a língua de sinais que é completa e que expressa conceitos abstratos ainda inferiorizam a língua quando a relacionam com a língua oral. Segundo Gesser (2009), Sacks (2010), Lacerda e Santos (2013), Karin (2009) e Ribas (2011), a língua de sinais é uma língua fundamental do cérebro, completa

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como qualquer língua e que permite que sejam expressos conceitos abstratos por meio dela. Talvez os conceitos de “linguagem” e “língua” que envolvem uma compreensão mais ampla ainda sejam insuficientes trabalhados.

98 como qualquer língua e que permite que sejam expressos conceitos abstratos por meio dela. Talvez

Neste gráfico, observamos que as respostas que se sobressaem não são as esperadas pela pesquisa de que o reconhecimento da Língua de Sinais anula a deficiência do surdo. Nessa afirmação, tentamos colher dados em relação às impressões que os estudantes de Pedagogia possuem sobre à deficiência linguística do surdo, mas conforme aponta o gráfico, os alunos tiveram opiniões contrárias ao esperado, apenas uma pequena parcela concorda com tal afirmação. Conforme as informações apontadas no plano de ensino, os alunos tiveram conhecimento das leis vigentes referentes ao reconhecimento da Libras como língua e ao mesmo tempo estudaram sobre a cultura surda. Esses dados nos levam a pensar que os alunos ainda consideram o surdo como um deficiente; o reconhecimento da Libras como língua anula a deficiência linguística do surdo, pois permite que esses sujeitos utilizem a Libras como língua de instrução, ou seja, eles falam e se comunicam por meio da língua de sinais.

98 como qualquer língua e que permite que sejam expressos conceitos abstratos por meio dela. Talvez

99

A afirmação 20, nos permitiu coletar dados sobre a língua de sinais como artefato linguístico cultural que emerge das comunidades surdas. A grande maioria dos pesquisados concorda plenamente com essa afirmação, atendendo de forma favorável as expectativas dessa pesquisa, e nos faz entender que reconhece a língua de sinais como manifestação da cultura surda. Devo mencionar também a mínima parcela de pesquisados, igual nas duas universidades, que teve respostas contrárias ao esperado. Esse grupo não ainda não compreendeu que a língua é uma manifestação cultural e que possui traços culturais próprios de seu grupo de usuários conforme os conteúdos apontados nos planos de ensino sobre as abordagens filosóficas que surgiram ao longo da história da educação dos surdos.

4.4 SOBRE O PROFESSOR Utilizaremos neste tópico as afirmações:

6 - “A função do professor é de ajudar o surdo a falar e a fazer leitura labial”

7 - “Enquanto professores devemos respeitar o surdo que opta por não utilizar

a língua de sinais como forma de comunicação” 9 - “O professor deve garantir o acesso e o uso da língua de sinais no ambiente escolar”.

Vejamos:

99 A afirmação 20, nos permitiu coletar dados sobre a língua de sinais como artefato linguístico

100

Podemos observar que na afirmação 6 a maioria dos pesquisados discorda da afirmação de que o professor deve ensinar o alunos surdo a falar e fazer leitura labial, dando a resposta esperada pela pesquisa, visto que a função do professor é de mediar o processo de ensino e aprendizagem do surdo na construção de conhecimentos, a função de treinar a fala e a leitura labial, caso seja vontade do surdo aprender, é do fonoaudiólogo. Falemos também da pequena parcela dos pesquisados que concordaram com essa tal afirmação. Essa visão se dá justamente em decorrência do congresso em Milão no ano de 1880 que determina como função das escolas a oralização dos surdos e mais uma vez pautados no plano de ensino, os alunos que estão a favor da afirmação, embora tenham estudado o papel do professor na formação do aluno surdo em salas inclusivas e bilíngues, parecem desconhecer a real função do professor que irá trabalhar com o aluno surdo.

100 Podemos observar que na afirmação 6 a maioria dos pesquisados discorda da afirmação de que

A afirmação 7 enfatiza que “Enquanto professores devemos respeitar o surdo que opta por não utilizar a língua de sinais como forma de comunicação”. Ao observarmos o gráfico, vemos que, a maior parte dos alunos concorda com a afirmação na UNINOVE, dando a resposta esperada pela pesquisa e outra parcela significativa discorda. Por meio das respostas dadas, fica evidente que, de fato, é necessário que o docente respeite o surdo em sua decisão. Utilizar ou não a Libras como língua de instrução é escolha do surdo, assim como o processo de oralização. Acreditamos que a divisão de opiniões entre concordar e discordar se dá devido aos estudos sobre a importância que a Libras tem para o desenvolvimento do surdo, apontados nos planos de ensino.

101

101 O professor deve garantir ao aluno surdo o acesso à língua de sinais na escola.

O professor deve garantir ao aluno surdo o acesso à língua de sinais na escola. Ao observarmos o gráfico vemos que a maior parte dos alunos concorda com tal afirmação, acertando em sua escolha. O surdo tem direito, conforme a lei 10.436, de ser instruído por meio da língua de sinais, visto que é por meio da língua de sinais que o surdo aprende. Em relação à parcela mínima que discorda, mesmo sendo apontado no plano de ensino que são explorados nos conteúdos procedimentais o trabalho a respeita da importância da Libras na construção da subjetividade, identidade do surdo, podemos entender que ainda possuem resquícios da visão clínica de que o surdo é quem precisa aprender a língua majoritária.

4.5 SOBRE OS RECURSOS

Utilizaremos para análise neste item, as afirmações:

10 - “A leitura labial deve ser um recurso utilizado em situações comunicativas” 11 - “A fala oralizada, deve ser um recurso sempre utilizado pelo surdo em situações comunicacional”

12 - “Há desvantagens na surdez quando se fala de aquisição de língua e linguagem”

15 - “O implante coclear que é uma cirurgia para implantar um ouvido artificial, é a melhor opção para o surdo que tem perda auditiva profunda, ou seja, zero

de audição”

102

16 - “Os surdos devem ser educados com recursos visuais”

17 - “Os surdos devem ser educados com recursos auditivos”.

Vejamos os dados:

102  16 - “Os surdo s devem ser educados com recursos visuais”  17 -

A maioria dos pesquisados discorda, dado a resposta esperada pela pesquisa, enquanto uma outra parcela significativa concorda com a afirmação 10

que diz que “a leitura labial deve ser um recurso utilizado em situações

comunicativas” pelos surdos.

Para que a comunicação entre duas pessoas aconteça é necessário que haja um emissor que profere a mensagem e um receptor que recebe a mensagem sem nenhum tipo de interferência entre os dois. Nesse sentido, a leitura labial é um recurso falho a ser utilizado, pois não garante a qualidade da comunicação, segundo Goldfeld (2001), em uma conversa o leitor labial, por mais que seja experiente, consegue entender apenas 50% da mensagem, pois a leitura é intuitiva. Outro problema que deve ser levado em conta é que alguns ouvintes ao se comunicar com os surdos esquecem que devem ficar de frente e acabam virando de lado ou fica de costas atrapalhando a captação da mensagem, o uso de microfones a frente da boca e bigodes também causa comprometimento na comunicação.

103

103 Ao invés da fala oralizada, a Libras deve ser um recurso sempre utilizado pelo surdo

Ao invés da fala oralizada, a Libras deve ser um recurso sempre utilizado pelo surdo em situações comunicacionais. Segundo a afirmação 11 de que “a fala oralizada, deve ser um recurso sempre utilizado pelo surdo em situações comunicacional”. A fala oralizada, conforme foi abordado no trabalho, foi utilizada para normalização do surdo a fim de integrá-lo na comunidade ouvinte. A maioria dos pesquisados discorda dessa afirmação, conforme esperado pela pesquisa e outra parcela significativa discorda. Esse resultado pode ser consequência dos estudos realizados, discriminados nos planos de ensino, sobre a filosofia educacional do Oralismo que utiliza técnicas de imposições para que os surdos aprendam a língua oral.

103 Ao invés da fala oralizada, a Libras deve ser um recurso sempre utilizado pelo surdo

Em relação a afirmação 12, pode-se considerar que não há nenhuma desvantagem na surdez quando se fala de aquisição de língua e linguagem se a criança surda for exposta a língua de sinais precocemente, caso contrário, a criança terá uma barreira linguística a ser superada.

104

Segundo Lacerda & Santos (2013), é pela linguagem que o sujeito poderá criar a sua identidade e compreender o mundo a sua volta e estabelecer relações comunicativas com outras pessoas. Desta forma, a maioria dos pesquisados discorda dessa afirmação, dando a resposta esperada por esta pesquisa e outra quantidade significativa discorda. Conforme a análise realizada nos planos de ensino, que discriminam como conteúdos conceituais Libras enquanto língua que permite o desenvolvimento do surdo assim como a língua oral contribui para o desenvolvimento do ouvinte, podemos dizer que parte dos alunos ainda possui uma visão clínica referente a esta afirmação, pois entendem a surdez como um empecilho para a aquisição de linguagem. A parte discordante percebe a surdez numa perspectiva cultural, já que a língua de sinais, sendo língua, dá as mesmas possibilidades de desenvolvimento de linguagem ao surdo que a língua oral dá aos ouvintes.

104 Segundo Lacerda & Santos (2013), é pela linguagem que o sujeito poderá criar a sua

O implante coclear, que é uma cirurgia para implantar um ouvido artificial, segundo a afirmação 15 não é a melhor opção para o surdo que tem perda auditiva profunda, pois é uma cirurgia invasiva que pode tirar a identidade do surdo. Ele poderia não se reconhecer enquanto surdo e nem enquanto ouvinte, sem contar que não são os surdos que optam pelo implante, mas as famílias na tentativa de corrigir um “defeito” que o surdo possui. A grande maioria dos pesquisados discorda totalmente, visto que o implante é uma forma de normalização do surdo e o coloca em uma condição híbrida. Outra parte significativa concorda com a afirmação, pois percebe a surdez sob a perspectiva clínica, ou seja, entende o implante coclear como uma formação de correção da surdez, possibilitando ao surdo se encaixar dentro dos padrões de

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normalidade, mesmo sendo abordado nos planos de ensino a língua de sinais como primordial para o desenvolvimento do sujeito surdo.

105 normalidade, mesmo sendo abordado nos planos de ensino a língua de sinais como primordial para
105 normalidade, mesmo sendo abordado nos planos de ensino a língua de sinais como primordial para

As afirmações 16 e 17 se contradizem. A afirmação 16 diz que “os surdos devem ser educados com recursos visuais”, já a 17 enfatiza que “os surdos devem ser educados com recursos auditivos”. A resposta adequada é que os surdos, como possuem uma cultura visual, sejam educados com recursos visuais e não auditivos. Ao analisarmos o gráfico, podemos notar que a maioria dos pesquisados concorda com a afirmação 16 e discorda da afirmação 17, dando a resposta correta ao que se esperava pela pesquisa, ou seja, os pesquisados que possuem uma visão cultural da surdez entendem que o surdo tem necessidade de utilizar os recursos visuais como estímulo para a aprendizagem e discordam dos estímulos auditivos que são inacessíveis aos surdos.

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4.6 SOBRE A FAMÍLIA

Neste tópico utilizaremos para análise a afirmação:

21 - diz respeito a “a família que nega a participação da criança surda na comunidade surda prejudicará o desenvolvimento da identidade desse

sujeito”.

Façamos a comparação dos gráficos abaixo:

106 4.6 SOBRE A FAMÍLIA Neste tópico utilizaremos para análise a afirmação:  21 - diz

Podemos observar que a maioria dos pesquisados de ambas as instituições concorda com a afirmação de que o afastamento da criança surda da comunidade surda poderá comprometer o desenvolvimento da identidade desses sujeitos, pois sabemos que o contato com o outro e a comunicação é que permite a construção da identidade. Além de contribuir na construção da identidade, a língua possibilita novas aprendizagens, e desta forma, como diz Cassirer (1977) o homem se transformar em um ser verbal, pela aquisição da língua, permitindo que o mesmo tenha suas experiências simbólicas, ou seja, cultural. Um número significativo de pesquisados da Universidade Mackenzie nem concorda e nem discorda da afirmação 22 e não há nenhuma resposta diversificada, esse resultado pode ser pelo fato de existir entre os pesquisados uma aluna surda. E em relação às respostas neutras, podemos levantar a hipótese de que, essa quantidade significativa, desconhece a importância que é para o surdo o contato com a comunidade surda para apreensão e entendimento da cultura visual.

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Segundo Lacerda & Santos (2013), a comunidade surda é onde os sujeitos aprendem a serem surdos, usam a língua, partilham ideias, acontecimentos, lutam por seus direitos etc.

4.7 SOBRE A DISCIPLINA DE LIBRAS

Faremos neste tópico a análise das questões dissertativas que procuravam investigar as visões dos alunos sobre a disciplina de Libras. Sobre a questão 23: Você descobriu algo que superou o senso comum em relação aos surdos na disciplina de Libras? O quê? Porquê?

O gráfico de colunas abaixo apresenta as respostas dadas pelos pesquisados a partir de categorias que foram levantadas.

Pergunda 23

70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0% Uninove Mackenzie
70%
60%
50%
40%
30%
20%
10%
0%
Uninove
Mackenzie

Para esta análise dividimos as respostas dos alunos em quatro categorias:

Alteridade, Libras, Comunicação e Geral. Vimos que o que superou a visão de senso comum de ambas as universidades foi a alteridade. A alteridade envolve a quebra de preconceitos em relação ao outro, como: entender o surdo enquanto uma pessoa comum, capaz, independente e respeita-lo em sua cultura e identidade que são próprias. Destaco

duas respostas; identificando com “M” (Universidade Presbiteriana Mackenzie) e “U” (Universidade Nove de Julho): Entendi que o surdo não tem problema cognitivo,

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que é capaz de fazer e aprender tudo” (M) e “Para aqueles que não são surdos, foi possível conhecer melhor o surdo”. (U) A Libras, que ficou em segundo lugar na pesquisa, abarca a importância de se utilizar o canal visuo-gestual como via de comunicação e o respeito pela língua de sinais e o seu reconhecimento enquanto língua. Aponto uma resposta o que achei interessante foi conhecer a língua de sinais, e compreender que é um idioma como qualquer outro”.(M) A comunicação, que ocupa o terceiro lugar, além de envolver a língua de sinais também se refere a entender a forma de comunicação diferenciada do surdo e ao mesmo tempo a possibilidade de comunicação entre surdos e ouvintes. Que eles tem a Libras como primeira língua”. (M) O aspecto geral mencionado está ligado a uma resposta abrangente como, por exemplo, informações que não imaginavam em aprender, sem especificações. Ao observarmos o gráfico, podemos perceber que, tiveram respostas bastante parecidas das quais a que mais se destacou, foi a questão da alteridade, já que um dos objetivos principais destacados nos planos de ensino de ambas as universidades é que os estudantes de Pedagogia reconheçam o surdo como uma pessoa capaz e que possui uma cultura diferenciada. Sendo assim, os resultados apontam que os objetivos das disciplinas têm sido alcançados.

Sobre a questão 24: O que você considera mais importante na disciplina de Libras em seu curso?Vejamos:

109

Pergunta 24

70% 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0% Uninove Mackenzie
70%
60%
50%
40%
30%
20%
10%
0%
Uninove
Mackenzie

Para análise desse gráfico, dividimos as respostas da pesquisa em quatro categorias: inclusão, formação geral, língua e ensino. A inclusão envolve, o trabalho como o surdo em sala de aula na Educação Básica, o saber lidar com as diferenças, a comunicação e interação social, o conhecimento da cultura surda, romper as barreiras da ignorância e preconceito e o respeito pelo surdo. Ressalto a resposta de um pesquisado “Acredito que tudo o que aprendemos vai nos ajudar muito na sala de aula, na inclusão do surdo, mas ainda assim precisamos nos dedicar mais para atender as necessidades e dificuldades do surdo”. (U) A formação geral abarca os conhecimentos de forma abrangente destaco aqui a fala de um pesquisado “Os conhecimentos de forma geral”. (M) A língua compreende a aprendizagem dos sinais, o contato com a língua e o rompimento de barreiras pela comunicação entre surdos e ouvintes. Enfatizo a resposta de um pesquisado: “Acredito que a aprendizagem da Libras possibilita a comunicação entre as pessoas. E para os professores é importante a comunicação para efetivar a aprendizagem do aluno”. (U) O ensino inclui o trabalho docente em sala de aula com surdos em relação a adaptações de atividades em língua de sinais, a utilização da Libras, a dedicação para o ensino dos surdos. Destaco a resposta de um pesquisado: O direito ao ensino de qualidade sem transpor a culpa a barreira linguística”. (U) Acredita-se que a “culpa” mencionada no comentário refere-se à possibilidade de proporcionar aos

110

alunos surdos qualidade na educação sem colocar a culpa na ausência uma língua incomum para a comunicação. A resposta que mais se sobressaiu foi a inclusão, atingindo o objetivo dos planos de ensino onde diz que a disciplina pretende capacitar profissionais que contribuam com a inclusão. Não podemos deixar de mencionar que uma categoria complementa a outra. Para promover a inclusão, aspecto mais pontuado nas respostas, é necessária a aprendizagem da língua, o segundo aspecto mais pontuado, assim como as reflexões acerca do ensino terceiro aspecto que deve ser considerado.

Sobre a questão 25: O que você recomendaria ao seu professor de Libras para propiciar uma melhor formação ao pedagogo?

Vejamos o gráfico:

Pergunta 25

45% 40% 35% 30% 25% 20% 15% 10% 5% Uninove 0% Mackenzie
45%
40%
35%
30%
25%
20%
15%
10%
5%
Uninove
0%
Mackenzie

Para a análise desse gráfico dividimos as respostas dos alunos em seis categorias: tempo, contato com o surdo, aprendizagem da Libras, aulas práticas, palestras e sem recomendações. O tempo envolve as respostas ligadas a solicitação de mais tempo para a ministração de aulas de Libras. Observando o gráfico podemos ver que a resposta que mais se destacou em ambas as universidades foi mais tempo de aula. “Eu

111

recomendo um tempo maior de aula, pois os professores se empenham, só que o tempo é reduzido para que nós alunos possamos aprender, pois a Libras é uma língua”.(U) Deste modo, fica evidente que um ou dois semestres para o ensino da Libras é pouco. Não se aprende uma língua, aspectos culturais de um povo em apenas seis meses ou um ano, como é oferecido. Por este motivo, é necessário um aprofundamento para a aprendizagem de um novo idioma. Por outro lado, não é na graduação que esse sujeito se forma especialista em Libras. As universidades deveriam pensar em um curso de extensão e/ou especialização para que o futuro professor aprenda de fato a língua. O contato com o surdo abarca o envolvimento com os falantes da Libras, a cultura surda, eventos direcionados a educação dos surdos e vivências com surdos. A segunda resposta mais colocada foi a necessidade do contato com o surdo. É evidente que para ser fluente em língua de sinais e entender bem a cultura surda é necessário o contato com o nativo dessa língua. Saliento a resposta de um pesquisado: “propiciar ao alunos de Pedagogia o contato com surdos em um ambiente em que tenha só surdos para sentirmos a mesma sensação que eles sentem, quando estão sozinhos entre nós, para que possamos assim enxergar a importância da Libras e da inclusão dela na sociedade e nas escolas”.(M) O contato com o surdo possibilita a imersão na língua de sinais e ao mesmo tempo apropriação e entendimento da cultura surda. Em relação às aulas práticas, cabe aqui destacar a resposta de um pesquisado: “recomendaria mais aulas práticas, com apresentação de atividades para crianças surdas”.(U) As aulas práticas possibilitam que o aluno atrele teoria e prática tornando-se uma ferramenta metodológica facilitadora para uma aprendizagem significativa. A aprendizagem da Libras compreende o estimulo à aprendizagem da língua Libras e a elaboração de vídeo-aulas explicativas direcionadas a formação dos professores. As aulas práticas abrangem a questão da aprendizagem dos sinais, da gramática da Libras e a simulação de aulas pelos alunos do curso. O item palestra, mencionado apenas pelos pesquisados da UNINOVE, está relacionado a promoção de palestras com temas que provoquem reflexões acerca

da Libras, cultura surda e educação de surdos conforme aponta um pesquisado “”.

112

Sem recomendações, foram respostas dadas pelos alunos que não quiseram sugerir ou indicar algum aspecto à disciplina de Libras. Talvez a grande quantidade de alunos que se manifestaram nesse sentido, pode ser devido ao fato da disciplina e o conteúdo abordado nela ser viçoso. Nos planos de ensino das duas universidades é destacada como metodologia que as aulas de Libras sejam divididas entre teorias e práticas, mas apenas a universidade Presbiteriana Mackenzie destaca a ênfase na prática. De maneira geral, percebemos que não houve respostas em relação às três perguntas dissertativas de um número pequeno de alunos em relação às questões

de aprendizagem na disciplina de Libras. Entretanto, 10% de alunos de ambas as universidades não fizeram qualquer recomendação para uma melhor formação na disciplina de Libras indicando certa satisfação com ela. Ao analisarmos os dados das afirmações fechadas divididas em seis blocos:

surdez, surdo, Libras, professor, recursos e família e das perguntas abertas podemos concluir que muito já foi superado em relação à visão clínica e em relação a atitudes que poderiam conduzir ao ouvintismo na sociedade, mas há muito ainda a ser superado. Imagino um personagem ficcional e alinhavo outras possíveis respostas às questões abertas e as respondo:

- Você descobriu algo que superou o senso comum em relação aos surdos na

disciplina de Libras? O que? Porque? Sim, eu superei a barreira de comunicação que havia entre mim e o surdo. Consigo me comunicar de forma fluente e espontânea usando a Libras como ponte para a comunicação. As pessoas até acham estranho uma pessoa ouvinte conseguir se comunicar com surdos usando a língua de sinais. A maior parte das pessoas consideram acham que a Libras só pode ser utilizada por surdos. - O que você considera mais importante na disciplina de Libras em seu curso? Considero mais importante o entendimento acerca do surdo, sua cultura e identidade. Não basta aprender uma língua, sem entrar em contato com a cultura de onde emerge essa língua. Assim, o conhecimento acerca do surdo, da cultura e da língua é muito importante para o professor, pois por meio deles o docente poderá preparar, desenvolver e realizar a sua aula a fim de favorecer a aprendizagem e a interação do surdo.

113

- O que você recomendaria ao seu professor de Libras para propiciar uma melhor formação ao pedagogo? Recomendaria o contato com o surdo no ambiente educacional. Estágio, eventos com surdos, visitas às associações de surdos, contação de histórias em Libras, visitas orientadas nos museus com mediadores surdos. Pela interação e contato com a cultura surda é que eu conheço o outro e respeito a sua forma de viver. Se os conteúdos e reflexões teóricas são importantes na disciplina de Libras para os pedagogos, se as respostas nos deram uma visão geral das representações que estes futuros professores têm da surdez, podemos inferir apenas uma aproximação tênue com a principal questão: uma atitude humanista de acolhimento e crença na potência de todo o ser humano, seja qual for a singularidade que o distingue. Assim, todas essas análises nos levam às considerações finais.

114

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Discutir as representações que alunos do curso de Pedagogia constroem acerca de alunos com surdez e que podem influenciar de forma positiva ou negativa na escolarização desses sujeitos no ensino básico foi o intuito maior da presente pesquisa. Investigar a concepção que o estudante de Pedagogia tem acerca dos conceitos de diferença, deficiência, surdez e cultura surda verificando se há uma transformação da concepção inicial após as aulas de Libras oferecidas pelas Universidades Nove de Julho e Presbiteriana Mackenzie ofereceu a oportunidade de perceber estes estudantes e a disciplina que ministro de um modo mais abrangente e crítico.

Este estudo compreende o surdo sob o olhar sociológico, em que o surdo é visto sob uma ótica cultural. Enquanto pesquisadora, ouvinte e professora no curso de Pedagogia, para a realização dessa pesquisa, foi necessário me colocar no lugar do surdo e dos meus alunos. Desta forma, pude compreender e aprofundar conhecimentos acerca da cultura surda e do modo que ela é vista também na vida contemporânea. O envolvimento, dedicação e estudos para a pesquisa foram fatores determinantes para que os resultados fossem alcançados. De forma conjunta, tinha também o desejo de lutar junto à comunidade surda para que seus direitos fossem garantidos e que a proposta educacional bilíngue se efetivasse, dando ao surdo a possibilidade de uma educação de qualidade com bons professores.

A formação inicial do professor para o ensino inclusivo é uma condição indispensável para uma educação de qualidade voltada aos surdos. Por este motivo, essa pesquisa tentou responder às questões: ao cursar a disciplina de Libras no curso de Pedagogia que tipo de conceito de surdez está em cena? Quais as representações que alunos da Pedagogia, que irão atuar na educação básica, criam sobre alunos com surdez na classe regular?

Por meio da coleta e análise dos dados e com embasamento teórico, foi verificada a formação do pedagogo no que se refere às contribuições da disciplina de Libras e os desafios que essa disciplina pôde oferecer aos alunos pesquisados.

115

Embora o Brasil tenha uma vasta legislação vigente em relação à educação dos surdos, o processo de inclusão que deveria ser sinônimo de acolher e respeitar nem sempre é aceito por todos os envolvidos, causando a exclusão do surdo. Assim, é necessário um novo olhar sobre a formação inicial do professor no curso de Pedagogia para a inclusão do surdo.

Para que isso aconteça, se faz necessário que a identidade, cultura e diferença sejam levadas em conta, deste modo, incluir não será sinônimo apenas de colocar, mas de respeito e envolvimento. Salamanca (1994) determina que surdos devem estudar junto aos ouvintes, logo os professores devem ser capacitados para tal.

Os resultados deste trabalho mostram que com os conteúdos abordados na disciplina de Libras de ambas as universidades possibilitaram aos alunos conhecer um pouco sobre o surdo, a surdez, os recursos, a cultura surda e a sua função enquanto futuro professor da educação básica, já que é sabido que uma das funções do professor é o de ser facilitador no processo de inclusão.

É importante lembrar que o currículo do curso de Pedagogia deve incluir também aspectos culturais, o multiculturalismo e a alteridade possibilitando reflexões, críticas e intervenções no ensino de surdos. Assim, esta pesquisa pode ampliar a percepção da disciplina pelos professores que nela atuam com atenção a alguns aspectos que são menos enfatizados. No momento em que há mudanças com a nova proposta de oferta da disciplina à distância na UNINOVE, fato que se apresentou durante o desenvolvimento deste projeto, a pesquisa pode ampliar o pensar sobre como mediar o processo de aprendizagem utilizando os recursos tecnológicos como ferramenta norteadora para uma formação peculiar. Será um grande desafio, pois acreditamos na interação entre alunos e professores, entretanto a pesquisa nos moverá em busca dos aspectos aqui apontados como fundamentais.

Concluimos afirmando há necessidade de uma análise mais intensa a respeito da formação do professor para a educação de surdos nos cursos de Pedagogia visando uma formação sólida além de fortalecer a estreita relação entre teoria e prática. O pedagogo em formação deve considerar a cultura surda, sua diferença e o contexto social do aluno surdo para que o processo de inclusão seja

116

bem conduzido. Esta atitude, entretanto, refletirá as representações que este futuro profissional vai construindo ao longo de sua formação.

Ao investigar a formação do pedagogo no curso de graduação em Pedagogia, percebemos que a formação que possibilita uma nova postura do professor referente

à singularidade do surdo ainda há de ser alcançada, pois alguns pesquisados ainda precisam migrar do conhecimento de senso comum para um conhecimento científico e humanista cabendo às instituições de ensino superior analisar os pontos que precisam ser reforçados. Por exemplo, em relação à categoria analisada “surdo”, as afirmações fechadas como: “Os surdos apresentam dificuldades na língua escrita

porque não ouvem a língua oral” a maior parte dos alunos deu respostas diversificadas e superficiais. Mesmo sendo trabalhados tais aspectos, conforme estão apontados nos planos de ensino das duas instituições, é preciso aprofundar a compreensão para que a formação inicial do professor corrobore para fazer a inclusão acontecer de forma significativa, dando a oportunidade aos surdos de serem considerados como sujeitos autênticos, autônomos e protagonistas de sua própria história, que na verdade são.

Além da contribuição que esta pesquisa pode oferecer aos professores que atuam com a disciplina de Libras nos cursos de Pedagogia, este trabalho foi importante para o meu conhecimento e aprofundamento sobre este tema e minha atuação como professora e pesquisadora. Aprofundar a teoria e refletir sobre ela, lidar com questionários, categorias e gráficos e escrever foram desafios constantes que marcam a minha atuação futura, olhando também para a contemporaneidade no processo movente de uma comunidade surda que também vai encontrando outros meios de interação e de escuta.

A formação de professores conscientes em relação à cultura, à identidade e às particularidades de alunos com surdez pode contribuir com as políticas e práticas de inclusão em nossa sociedade e possibilitará reflexão acerca do currículo que forma o professor para a inclusão, assim como as políticas referentes ao currículo universitário.

Os desafios a serem superados ainda são muitos, há, portanto, necessidade de trabalhos acadêmicos que levem a ampliação de conhecimentos acerca das

117

visões distintas que permeiam ainda na contemporaneidade a educação dos surdos:

a sociológica e a clínica. É preciso romper com o olhar clínico, ampliando a visão sociológica para que os surdos sejam respeitados e incluídos de fato.

Ao finalizar, percebo que escolhi a Pedagogia para a pesquisa por acreditar no potencial desses profissionais, pois é na infância que se inicia a construção da identidade de um sujeito e é lá onde contribuímos para a construção de uma sociedade melhor e inclusiva. E me pergunto: será que as respostas dadas por alunos de outras licenciaturas seriam outras? Talvez essa seja a porta para que surjam mais pesquisas como esta, já que Libras faz parte do currículo de todas as licenciaturas, o que demonstra que a preocupação que fez nascer esta pesquisa se estende à formação de qualquer professor. Assim, também enfatizo a importância dos teóricos usados neste trabalho, pois com o estudo de seus pontos de vista pude ampliar meu olhar e acreditar que na aprendizagem da Libras há muita esperança por um mundo mais humano e inclusivo.

118

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123

APÊNDICE 1 QUESTIONÁRIO

Instrumento de coleta de dados sobre LIBRAS no curso de Pedagogia Pesquisadora: Andréia Cristina Leite Souza

Instrumento de coleta de dados sobre LIBRAS no curso de Pedagogia Pesquisadora: Andréia Cristina Leite Souza

Pesquisa de Mestrado em Educação, Arte e História da Cultura EAHC Universidade Presbiteriana Mackenzie

- Caracterização do universo da amostra marque o item correspondente ao que mais se aproxima de seu perfil seus dados

1

SEXO: (

) Fem.

(

) Mas.

IDADE: (

) menos de 20 anos

(

) entre 20 e 35 anos

 

(

) entre 36 e 50 anos

(

) acima de 51

 

SEMESTRE:

 

Período: (

 

) manhã

(

) noite

 

FORMAÇÃO:

 

(

) Primeira graduação

 

(

) Segunda graduação indique o curso da primeira graduação:

________________

PRETENDE COMO ATUAÇÃO: (

 

) prof. Ed. Infantil

 

(

) prof. Ens. Fundamental

1

 

(

) prof. Ens. Fundamental 2

(

) espaços fora da escola

) gestor ________________

(

(

) prof. Ens. Especial

(

) outros:

2

Pesquisa de Percepção

 

Abaixo apresento dezenove afirmações sobre a disciplina de LIBRAS no curso de pedagogia e a formação do Pedagogo. Peço que leiam cuidadosamente e em cada uma assinale com um X em cima do número, que melhor se aproxima da sua percepção sobre o assunto.

  • 1 = discordo totalmente

  • 2 = discordo parcialmente

  • 3 = nem concordo nem discordo

  • 4 = concordo parcialmente

  • 5 = concordo plenamente

  • 6 = tenho dúvida em responder

124

   

Discord

 

Nem

Concord

Concord

Tenho

o

totalme

Discordo

parcialm

ente

concordo,

nem

o

parcialm

o

plename

dúvida

em

ITEM

AFIRMAÇÃO

nte

discordo

ente

nte

responder

1

A surdez é um déficit de audição

1

2

3

4

5

6

2

Ser surdo é estar num contexto silencioso.

1

2

3

4

5

6

3

A surdez é uma diferença a ser politicamente reconhecida.

1

2

3

4

5

6

4

A LIBRAS é uma língua como qualquer outra língua, pois possui gramática e estrutura próprias.

1

2

3

4

5

6

5

A LIBRAS é uma língua não tão completa como a língua oral, pois não expressa conceitos abstratos.

1

2

3

4

5

6

6

É função do professor é de ajudar o surdo a falar e fazer leitura labial

1

2

3

4

5

6

7

Enquanto professores devemos respeitar o surdo que opta por não utilizar a língua de sinais como forma de comunicação.

1

2

3

4

5

6

8

O surdo possui uma cultura e uma identidade próprias e que devem ser respeitas na escola.

1

2

3

4

5

6

9

O professor deve garantir o acesso e o uso da língua de sinais no ambiente escolar.

1

2

3

4

5

6

10